segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

08/01/2016
SER CRISTÃO É SER A MÃO DE DEUS PARA AJUDAR O PRÓXIMO

Sexta-Feira Após a Epifania

Primeira Leitura: 1Jo 5,5-13

Caríssimos, 5 quem é o vencedor do mundo, senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus? 6 Este é o que veio pela água e pelo sangue: Jesus Cristo. (Não veio somente com a água, mas com a água e o sangue.) E o Espírito é que dá testemunho, porque o Espírito é a Verdade. 7 Assim, são três que dão testemunho: 8 o Espírito, a água e o sangue; e os três são unânimes. 9 Se aceitamos o testemunho dos homens, o testemunho de Deus é maior. Este é o testemunho de Deus, pois ele deu testemunho a respeito de seu Filho. Aquele que crê no Filho de Deus tem este testemunho dentro de si. 10 Aquele que não crê em Deus faz dele um mentiroso, porque não crê no testemunho que Deus deu a respeito de seu Filho. 11 E o testemunho é este: Deus nos deu a vida eterna, e esta vida está em seu Filho. 12 Quem tem o Filho, tem a vida; quem não tem o Filho não tem a vida. 13 Eu vos escrevo estas coisas a vós que acreditastes no nome do Filho de Deus, para que saibais que possuís a vida eterna.

Evangelho: Lc 5,12-16

12 Aconteceu que Jesus estava numa cidade, e havia aí um homem leproso. Vendo Jesus, o homem caiu a seus pés, e pediu: “Senhor, se queres, tu tens o poder de me purificar”. 13 Jesus estendeu a mão, tocou nele, e disse: “Eu quero, fica purificado”. E imediatamente, a lepra o deixou. 14 E Jesus recomendou-lhe: “Não digas nada a ninguém. Vai mostrar-te ao sacerdote e oferece pela purificação o prescrito por Moisés como prova de tua cura”. 15 Não obstante, sua fama ia crescendo, e numerosas multidões acorriam para ouvi-lo e serem curadas de suas enfermidades. 16 Ele, porém, se retirava para lugares solitários e se entregava à oração.
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Na época de Jesus todas as doenças eram consideradas como um castigo de Deus, ou como conseqüência de uma enfermidade moral. Mas a lepra era o próprio símbolo do pecado e era considerada como castigo divino por excelência (cf. Dt 28,27-35). Acreditava-se, além disso, que a lepra era um instrumento eficaz usado por Deus para castigar os invejosos, os arrogantes, os ladrões, os assassinos, os responsáveis por falsos juramentos e por incestos. Os leprosos deviam entrar nas cidades, rasgar suas roupas. E para todos os que se aproximavam deles, os leprosos deviam gritar: “Impuro! Impuro!”. E a lepra era considerada como a própria morte, pois dificilmente podia ser curada. A cura da lepra era, por isso, considerada um milagre, como se fosse uma ressurreição de um morto. Isto quer dizer que somente Deus podia curá-lo dessa lepra.

No tempo de Jesus, sob o nome de lepra incluíam diversas enfermidades da pele de caráter mais ou menos grave, entre as quais se incluía aquela que atualmente recebe o nome de lepra. O homem que a padecia se convertei em impuro, excluindo-o da comunidade cultual e social do povo de Israel.

No Antigo Testamento os leprosos eram considerados como impuros (cf. Lv 13,3), por isso eram excluídos de quaisquer direitos sociais e eram marginalizados do convívio da comunidade até a sua cura (eles deviam ficar fora dos povoados), pois a lepra era considerada como uma impureza contagiosa (cf. Lv 13,45-46). Qualquer judeu piedoso evitava o contato com um leproso para não se tornar impuro. O leproso sofria, então, não somente fisicamente, mas também psicológico e social e religiosamente. O leproso estava condenado à morte. O leproso é o protótipo da marginalização religiosa e social imposta pela Lei(Lv.13,45-46). E para a lepra não tinha nenhum remédio. Restava esperar um milagre para sobreviver. 

No meio da falta de solução e de saída, Jesus apareceu na vida do leproso para superar seu problema. Aproximou-se de Jesus um leproso e lhe suplicou: “Senhor, se queres, tu tens o poder de me purificar”. A oração desse leproso é breve e confiante. O leproso se aproxima de Jesus porque acredita no poder de Jesus para curá-lo. Ele deposita totalmente sua confiança em Jesus. E por isso ele toma coragem de se aproximar de Jesus apesar da proibição ritual.

Lucas vê no enfermo/leproso um modelo de crente: “Senhor, se queres, tu tens o poder de me purificar”. O leproso reconhece o poder de Jesus para libertá-lo. “Purificar-me” alude à lepra que torna o leproso impuro e faz o leproso ser excluído da convivência. Além disso, o leproso chama Jesus de “Senhor” que é um título após a Páscoa.

São João, através do texto da primeira leitura (1Jo 5,5-13) lança a seguinte pergunta-resposta: “Caríssimos, quem é o vencedor do mundo, senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus?”. No vocabulário de são João nós sabemos que o termo “mundo”, neste contexto, significa “o homem fechado em si mesmo e tentado de construir-se e salvar-se por suas próprias forças”, mas acaba se destruindo e para ele a vida acaba com a morte, pois ele acredita apenas na vida aqui no mundo. O verdadeiro cristão vence essa tentação, pois ele não vive encerrado em si mesmo e sim aberto a Deus; vence a ridícula e vã tentativa de “divinizar-se” por si mesmo e deixa o êxito de toda sua vida nas mãos de Deus, a exemplo do leproso que se deixa tocar por Jesus para ser libertado daquilo que o impede de relacionar-se com Deus e com os demais homens. A verdadeira fé nos faz vencedores.

Nós estamos, certamente, entre os que crêem em Jesus como o Enviado e o Filho de Deus. Por isso, celebramos o Natal do Senhor com alegria e fé cristã. Cristo venceu o mundo (cf. Jo 16,33). Somos seguidores do Senhor, mas será que participamos já da mesma vitória de Cristo? Será que vencemos o mal que há em nós e no mundo? Quem crê em Cristo verdadeiramente, deve sentir já dentro de si a vida que Cristo lhe comunica. A fé é o fundamento da esperança. E a esperança é o horizonte da fé. Esperamos e por isso, cremos. E cremos e por isso, esperamos.

Como resposta ao pedido do leproso, Jesus estendeu a mão e tocou nele e disse: “Eu quero. Fica purificado”. “E imediatamente, a lepra o deixou”, assim Lucas registrou. O relato de Lucas sublinha o poder salvador da Palavra de Jesus. A palavra de Deus se torna fato, se for escutada, obedecida e praticada. A força salvadora de Deus está na ação de Jesus e na obediência à Palavra salvadora de Deus. De fato, o leproso ficou curado. Podemos imaginar alegria deste homem que era solitário, abandonado, excluído e maldito pela sociedade, e agora feliz, pois volta a olhar para o futuro com muita esperança e otimismo. Quem devolveu essa esperança para ele é Jesus que veio para salvar a humanidade.

A mão estendida, o contato é um sinal de amizade. Jesus, ao estender sua mão, se apresenta como amigo do sofredor, do abandonado e se aproxima dele para dizer que o sofredor não está sozinho. Jesus se apresenta como o Deus-Conosco. Jesus não tem medo de ficar “impuro” conforme determinam as regras rituais ao tocar no leproso. Com o gesto de tocar Jesus compartilha os dramas da humanidade. Por este humilde gesto Jesus reintegra o leproso curado na sociedade dos que o excluíam.

Esta mão estendida é também um gesto de vitoria. Esta mão estendida é o gesto de amor. É uma mão pronta para ajudar como ajudou Pedro que estava para afogar. É uma mão que está pronta para ajudar quem se encontra em dificuldades. Não é por acaso que de vez em quando cantamos a música do compositor Nelson Monteiro de Mota: “Se as águas do mar da vida quiserem te afogar. Segura na mão de Deus e vai. Se as tristezas desta vida quiserem te sufocar. Segura na mão de Deus e vai. Segura na mão de Deus, pois ela te sustentará. Não temas, segue adiante e não olhes para trás. Segura na mão de Deus e vai. Se a jornada é pesada e te cansas da caminhada. Segura na mão de Deus e vai. Orando, jejuando, confiando e confessando. O Espírito do Senhor sempre te revestirá. Jesus Cristo prometeu que jamais te deixará. Segura na mão de Deus e vai”.

Todos nós somos débeis de alguma forma e necessitamos da ajuda permanente de Jesus. Nossa oração, confiada e simples, como a do leproso, se encontra sempre com o olhar de Jesus, com sua vontade de nos salvar. Jesus nos toca com sua mão diariamente. Mas muitas vezes estamos bem anestesiados pelas preocupações e agitações que acabamos não sentindo a mão de Jesus tocando nossa mão. Jesus nos alimenta com o Pão e o Vinho da Eucaristia, tocando nossa vida. Ele nos perdoa através da mão de seus ministros estendida sobre nossa cabeça, tocando e ungindo nossa testa e nossa mão com o óleo santo de batismo, de crisma, dos enfermos.

Olhando para Jesus que estendeu a mão para curar o leproso, como seguidores de Cristo nós devemos ser uma mão pronta para ajudar e não um dedo pronto para acusar e para apontar os erros dos outros. Jesus não tem mais suas mãos na terra para ajudar os homens, pois os próprios cristãos são suas próprias mãos. Seja você uma mão de Jesus para ajudar os outros! Ser solidário e estender a mão para quem sofre é já um meio para curá-lo. É dar-lhe esperança, como sempre fazia Jesus.

Senhor, se queres, tu tens o poder de me purificar”. “’Eu quero. Fica purificado’. E imediatamente, a lepra o deixou”. Estas frases põem em destaque o poder da Palavra de Jesus que é muito sublinhado em Lucas e, ao mesmo tempo, o poder da fé para compartilhá-lo. A liturgia proclama este relato logo depois da festa da Epifania como uma das manifestações de Jesus (epifania) que põe em destaque o poder de Sua Palavra e de Sua vontade. O toque da mão de Jesus no leproso manifesta seu amor profundo pela humanidade (cf. Jo 3,16; 13,1). Ao fundamentar sua vida no amor aos homens e na obediência ao seu Pai, Jesus realizou sua missão de humanizar a convivência sem exclusão, pois todos são filhos e filhas de Deus. As curas operadas por Jesus manifestam um momento de reparação da criação inteira mediante Sua vida e Sua pessoa. O que se destaca neste relato é a cura da humanidade da exclusão e marginalização. Cremos não somente em Deus, mas no Deus Uno e Trino. A verdade está na comunhão, na inclusão, na solidariedade, na compaixão. Ser cristão é ser comunhão.


P. Vitus Gustama,svd

sábado, 2 de janeiro de 2016

07/01/2016
AMOR E FÉ VENCEM O MUNDO
DEUS NOS AMA NO NOSSO HOJE

Quinta-Feira Após a Epifania

Primeira Leitura: 1Jo 4,19–5,4

Caríssimos, 19 quanto a nós, amamos a Deus porque ele nos amou primeiro. 20 Se alguém disser: “Amo a Deus”, entretanto odeia o seu irmão, é um mentiroso; pois quem não ama o seu irmão, a quem vê, não poderá amar a Deus, a quem não vê. 21 E este é o mandamento que dele recebemos: aquele que ama a Deus, ame também o seu irmão. 5,1 Todo o que crê que Jesus é o Cristo nasceu de Deus, e quem ama aquele que gerou alguém amará também aquele que dele nasceu. 2 Podemos saber que amamos os filhos de Deus, quando amamos a Deus e guardamos os seus mandamentos. 3 Pois isto é amar a Deus: observar os seus mandamentos. E os seus mandamentos não são pesados, 4 pois todo o que nasceu de Deus vence o mundo. E esta é a vitória que venceu o mundo: a nossa fé.

Evangelho: Lc 4,14-22

Naquele tempo, 14Jesus voltou para a Galileia, com a força do Espírito, e sua fama espalhou-se por toda a redondeza. 15Ele ensinava nas suas sinagogas e todos o elogiavam. 16E veio à cidade de Nazaré onde se tinha criado. Conforme seu costume, entrou na sinagoga no sábado e levantou-se para fazer a leitura.
17Deram-lhe o livro do profeta Isaías. Abrindo o livro, Jesus achou a passagem em que está escrito: 18“O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa Nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos 19e para proclamar um ano da graça do Senhor”.
20Depois fechou o livro, entregou-o ao ajudante e sentou-se. Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele. 21Então começou a dizer-lhes: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”.
22aTodos davam testemunho a seu respeito, admirados com as palavras cheias de encanto que saíam da sua boca.
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1. Uma Epifania Messiânica

O texto do evangelho de hoje nos apresenta outra epifania de Jesus, sua manifestação em Nazaré, como Messias esperado, para o povo de sua infância e de sua juventude. Jesus se revela muito diferente, longe daquilo que seus vizinhos imaginavam. Trata-se de uma cena programática (discurso programático) e cheia de significado, de sua manifestação messiânica aos de seu povo.

Jesus como bom judeu vai à sinagoga cada Sábado. Desta vez ele é encarregado a ler um texto do Livro do profeta Isaias, e que em seguida faz seu comentário (homilia).

A passagem de Isaias é central: o futuro Messias, cheio do Espírito de Deus, é enviado a cumprir sua missão para os pobres, a dar liberdade/libertação aos oprimidos e a anunciar o ano da graça do Senhor. Mas o que o evangelista Lucas quer sublinhar é o inicio da homilia de Jesus: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”. Jesus se apresenta, portanto, aos de seu povo, como o Messias esperado. E num princípio consegue a admiração e o aplauso de seus ouvintes.

A missão de Jesus, como o Messias esperado, é dar liberdade aos cativos, dar vista aos cegos, libertar os oprimidos e inaugurar um “Ano de Perdão de Dívidas” (por isso se chama um “Ano de Graça” que se proclama em nome de Deus): “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa Nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ano da graça do Senhor”.

Para chegar a fazer isso na sociedade pressupõe a mudança de suas estruturas: da apatia para a solidariedade, da opressão para a liberdade, da vingança para o perdão e a reconciliação, do privilégio de poucos para a igualdade, da exploração para a justiça, da exclusão para a inclusão, da ganância para a partilha, e instruir os outros para enxergarem melhor a vida e a realidade a fim de ter consciência da missão de cada um neste mundo.

Para ter essa mudança há uma condição indispensável: Conversão de pessoas e de estruturas. Por isso, podemos entender a exigência de João Batista e de Jesus para a necessidade de conversão: “Convertei-vos porque o Reino de Deus está próximo! Convertei-vos e credes no Evangelho!

2. Deus Nos Ama e Amamos a Deus No Próximo

Deus envia o Messias porque nos ama. Jesus, Deus-Conosco, exige de nós a conversão porque nos ama. Deus se fez homem porque nos ama. Deus se encarnou em Jesus para que não fiquemos desanimados, pois Jesus tem a mesma substancia de um ser humano como nós.

O amor com que Deus nos ama é o primeiro: “Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de reparação pelos nossos pecados” (1Jo 4,10). Trata-se do amor radical e fundante. É ativo, difusivo e criativo. Constitui o melhor rosto de Deus. Deus se revela e se realiza em nós como o Deus de amor (1Jo 4,8.16). Constitui uma história de amor para nós e conosco.

A iniciativa desse amor suscita e espera resposta de cada um de nós. Essa resposta é dada em dupla direção: horizontal e vertical. Acolher e entender o presente de amor de Deus inclui o amor fraterno. Somente com o amor fraterno se corresponde à iniciativa amorosa de Deus. Não se pode amar verdadeiramente a Deus que é amor sem amar aos filhos de Deus. A vertical assinala a autenticidade da horizontal: “Podemos saber que amamos os filhos de Deus, quando amamos a Deus e guardamos os seus mandamentos. Pois isto é amar a Deus: observar os seus mandamentos” (1Jo 5,2-3). Através do amor fraterno vivenciado nós tocamos o centro da vida humana, da vida cristã e o próprio Deus. Simples e unificante! Dessa maneira é que embelezamos nossa mente e nosso espírito de discípulos de Jesus Cristo.

Por isso, o texto da Primeira Carta de são João que lemos hoje nos apresenta uma nova e maior “verdade fundamental”, e contundente. São João nos apresenta a contradição entre um amor a Deus (invisível) junto a um desamor ao próximo (visível): “Se alguém disser: ‘Amo a Deus’, entretanto odeia o seu irmão, é um mentiroso; pois quem não ama o seu irmão, a quem vê, não poderá amar a Deus, a quem não vê. E este é o mandamento que dele recebemos: aquele que ama a Deus, ame também o seu irmão”.

Há gente que pensa que Deus é um ente separado do mundo, dos seres humanos; um Deus que está lá nas nuvens e que poderia ser pensado ou amado com independência de qualquer referencia aos seres humanos. Os deuses gregos eram assim, por exemplo; eram deuses que viviam no Olimpo, em outro mundo. Por isso, é possível amar este tipo de Deus sem amar o próximo.

Mas o Deus do qual João fala é o Deus cristão. O Deus cristão é o Deus encarnado que se identifica com todos os homens, especialmente com os mais humildes e pequeninos (cf. Mt 25,31ss). Logo, não é possível amar a Deus e não amar ao próximo: “Este é o mandamento que dele recebemos: aquele que ama a Deus ame também o seu irmão”.

Por isso, o amor cristão não é uma vaga simpatia pela humanidade nem uma declaração romântica muito menos um programa político. No plano puramente humano, amamos o amável, segundo os sentidos ou segundo os interesses. O amor cristão é fundamentalmente amor aos irmãos. Amamos a obra de Deus em qualquer pessoa, pois qualquer homem foi criado por Deus por amor (Jo 1,1-4). O amor cristão é uma realidade sem fronteiras. O amor cristão tem sempre uma causa: Deus. Amamos a todos, mas não quer dizer que aprovemos todos. Amamos os outros porque Deus os ama. Amar os outros significa amar a Deus.

O amor cristão é a manifestação da fé em Deus. A fé baseada no amor é que vence o mundo, pois o mundo, neste contexto só tem rivalidade, inimizade, ódio e assim por diante.E esta é a vitória que venceu o mundo: a nossa fé”. A atitude de fé e de amor contrapõe o cristão ao “mundo”. O cristão é o homem aberto à iniciativa de Deus. O “mundo” é o homem que se centra sobre si mesmo (1Jo 3,2).

3. O Hoje de Deus e Meu Hoje

Na sua homilia, que tem toda sua programação messiânica de seu ministério, Jesus usa a expressão: “Hoje se cumpriu...”. A mesma expressão será usada nos momentos importantes do ministério de Jesus: no nascimento de Jesus (Lc 2,11), na conversão de Zaqueu (Lc 19,5.9), na resposta de Jesus ao pedido do criminoso convertido (Lc 23,43). Com essa expressão Jesus quer enfatizar que o Reino de Deus não é questão futura e sim já é de hoje. Ele já está presente nos corações abertos a ele.

Jesus faz sua reflexão/homilia usando a expressão “hoje se cumpriu...” ao comentar a leitura que acabou de ler. Isto quer nos dizer que a Liturgia da Palavra não é uma simples lição moral de catecismo, nem a afirmação da esperança escatológica fomentada pelos profetas, e sim proclama o cumprimento do desígnio do Pai no Hoje da vida e da assembléia reunida. Já não se contempla um passado cumprido ainda que seja de uma época de ouro ou de caída, já não se sonha mais num futuro extraordinário; vive-se o tempo presente como momento privilegiado, pois o tempo da graça (Kairós) se confunde com o tempo cronológico (Kronos) porque Deus, através de sua encarnação, decidiu entrar no nosso tempo por amor a nós para transformá-lo em tempo da graça. Este é o próprio princípio da homilia, cuja tarefa essencial é a de aplicar a Palavra Eterna e intemporal para o dia de hoje dos homens.

Hoje se cumpriu...”! Em cada momento contém a eternidade, o Hoje de Deus. Hoje devemos decidir nossa salvação. Hoje devemos fazer aquilo que deve ser feito. Hoje mesmo devemos visitar quem deve ser visitado. Hoje mesmo devemos perdoar e dar o perdão a quem deve ser perdoado. Hoje mesmo devemos mudar o mutável, corrigir o corrigível, carregar o carregável, abandonar o abandonável. Hoje mesmo devemos nos converter. Amanha talvez seja tarde demais! O Hoje de Deus nos faz vivermos acordados. O desafio é estar permanentemente acordados, atentos. A todo o momento surgem fatos e ocasiões, ideias e caminhos novos, novas descobertas que podem ser uma oportunidade valiosa para quem está em prontidão para o Hoje de Deus. É estar de mãos livres e vazias para receber algo valioso de Deus; estar de olhos abertos e de coração aberto para receber o Senhor que vem nos visitar; estar de pés calçados para tomar o caminho. A vida é feita de momentos e os momentos oferecem oportunidades dadas por Deus. Quem fica adormecido perde muitas oportunidades de Deus. Quem vive sentado ou deitado pode perder esses momentos.

Hoje se cumpriu...”! O que você faz com o seu Hoje? De que maneira você acolhe o Hoje de Deus neste momento? O que Deus fala neste momento para o seu Hoje?E esta é a vitória que venceu o mundo: a nossa fé”. Você está consciente de que com sua fé inabalável em qualquer situação faz você sair sempre vitorioso? Temos que manter Deus maior do que qualquer dificuldade ou problema. Isto se chama a fé.


P. Vitus Gustama,svd
06/01/2016

AMOR E SE COMPENETRAM  E SE FORTALECEM EM QUALQUER SITUAÇÃO

Quarta-Feira Após A Epifania


Primeira Leitura: 1Jo 4,11-18

11 Caríssimos: se Deus nos amou assim, nós também devemos amar-nos uns aos outros. 12 Ninguém jamais viu a Deus. Se nos amamos uns aos outros, Deus permanece conosco e seu amor é plenamente realizado em nós. 13 A prova de que permanecemos com ele, e ele conosco, é que ele nos deu o seu Espírito. 14 E nós vimos e damos testemunho, que o Pai enviou seu Filho como Salvador do mundo. 15 Todo aquele que proclama que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece com ele, e ele com Deus. 16 E nós conhecemos o amor que Deus tem para conosco, e acreditamos nele. Deus é amor: quem permanece no amor, permanece com Deus, e Deus permanece com ele. 17 Nisto se realiza plenamente o seu amor para conosco: em nós termos plena confiança no dia do julgamento, porque, tal como Jesus, nós somos neste mundo. 18 No amor não há temor. Ao contrário, o perfeito amor lança fora o temor, pois o temor implica castigo, e aquele que teme não chegou à perfeição do amor.

Evangelho: Mc 6,45-52

Depois de saciar os cinco mil homens, 45 Jesus obrigou os discípulos a entrarem na barca e irem na frente para Betsaida, na outra margem, enquanto ele despedia a multidão. 46 Logo depois de se despedir deles, subiu ao monte para rezar. 47 Ao anoitecer, a barca estava no meio do mar e Jesus sozinho em terra. 48 Ele viu os discípulos cansados de remar, porque o vento era contrário. Então, pelas três da madrugada, Jesus foi até eles andando sobre as águas, e queria passar na frente deles. 49 Quando os discípulos o viram andando sobre o mar, pensaram que era um fantasma e começaram a gritar. 50 Com efeito, todos o tinham visto e ficaram assustados. Mas Jesus logo falou: “Coragem, sou eu! Não tenhais medo!” 51  Então subiu com eles na barca, e o vento cessou. Mas os discípulos ficaram ainda mais espantados, 52 porque não tinham compreendido nada a respeito dos pães. O coração deles estava endurecido.
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A cena relatada no evangelho de hoje nos apresenta de maneira simbólica a situação em que se encontra a comunidade cristã primitiva depois da ressurreição de Jesus. A comunidade se encontra no meio de dificuldades (tempestade) e sente a ausência de Jesus Cristo. As ondas e o mar representam no AT as forças do mal que Deus vence com seu poder (Sl 77; Jó 9,8;38,16). Mas agora é Jesus quem vence a esta força maligna, pois Jesus é o Deus-Conosco, o Emanuel. Sua manifestação aos discípulos neste episódio tem todas as marcas dos relatos de aparições: a cena tem lugar de noite, o mesmo que a ressurreição do Senhor; Jesus vem ao encontro dos seus (cf. Jo 20,19); os discípulos crêem ver um fantasma (cf. Lc 24,37s); finalmente, Jesus se apresenta afirmando sua identidade: “Coragem, sou Eu! Não tenhais medo!”.

Coragem, sou Eu! Não tenhais medo!”.  E são João, na Primeira Leitura, nos diz: No amor não há temor. Ao contrário, o perfeito amor lança fora o temor, pois o temor implica castigo, e aquele que teme não chegou à perfeição do amor”.

No amor não há temor”. Amor e temor são duas atitudes fundamentais de nossa psicologia. O homem é radicalmente temeroso, falta-lhe segurança no mundo que se levanta contra ele. Alguns homens se comportam como adversários e por isso, roubam a alegria dos outros. Alguns homens se tornam ameaças para os outros, pois estes não querem saber dos direitos dos outros: roubam, seqüestram, maltratam e matam. No nível espiritual, sobretudo, diante do mundo das divindades e do misterioso sagrado, o homem também tem seu temor. O homem pagão trata de libertar-se desse temor inventando ritos; o homem ateu se assegura a base de seus próprios meios transformando seu eu e sua técnica em meios de autodivinizaçao; o homem judeu opta por outro caminho muito distinto eliminando o temor às forças superiores anônimas para descobrir em cada acontecimento, bom ou mau, a presença do amor e da misericórdia de Javé (Deus). A partir desse momento, o temor ao Sagrado deixa de ser um temor cego para ser uma exigência de conhecimento de Deus e de correspondência ao Seu amor.

Jesus levou mais longe ainda a descoberta dos judeus. Jesus descobre que o homem, que é Ele próprio, é co-participante ativo de Deus na realização de Seu desígnio salvífico, pois ele acredita no Deus de amor que salva a humanidade por amor (Jo 3,16). Conseqüentemente, o cristão se assemelha ao “ateu” na confiança que põe nos meios humanos para responder aos desafios da fome, da guerra, da injustiça social e internacional. Mas ao fazer assim, o cristão dá testemunho da verdade do homem realizado em Jesus Cristo que ama os seus até o fim (cf. Jo 13,1).

Com isso, são João nos mostra que amor e fé (idéias prediletas de são João), são duas virtudes que se compenetram e se apoderam juntas na pessoa do cristão. Toda decisão de fé implica o amor, pois o Deus em quem o cristão acredita é amor (1Jo 4,8.16). “Coragem, sou Eu! Não tenhais medo!”.No amor não há temor”.  O cristão é sempre lembrado para tomar qualquer decisão sobre o amor. Toda decisão tomada sobre o amor leva o homem a estar próximo de Deus e dos homens. O amor dá segurança, faz crescer na direção de Deus e do próximo. O amor torna o homem muito humano a ponto de ser muito divino. “Se nos amamos uns aos outros, Deus permanece conosco e seu amor é plenamente realizado em nós” (1Jo 4,12b).

Marcos também nos relata que Jesus “subiu ao monte para rezar”. Em geral, oração solitária de Jesus precede ou segue a algum acontecimento muito importante. Aqui, sua oração precede a sua manifestação como Filho de Deus.
           
Ao olhar para o modo de viver de Jesus, percebemos a dupla dimensão de seu ministério: a oração e a ação, a solidão e a solidariedade, a intimidade mais profunda com o Pai e o engajamento mais radical no serviço dos necessitados. Em Jesus as duas dimensões são vividas não só como complementares, mas como necessariamente referidas uma à outra. A vida se põe na oração e a oração se traduz na vida. A vida antes de ser vivida, é rezada. A oração, além do amor, mantém o homem unido a Deus. A oração é a expressão viva da fé. Quando rezarmos, manifestaremos que nossa fé está viva. A fé nos leva a orarmos e orarmos porque somos movidos pela fé.
          
Enquanto Jesus está se retirando para orar, os discípulos se encontram no meio da noite lutando contra a tempestade. Evidentemente eles estão atormentados. O barco agitado pelas ondas representa a Igreja sacudida pelas forças opostas e que por isso, a Igreja se sente impotente, frágil e abandonada e que luta para encontrar um rumo certo.
          
Muitas vezes, no meio das dificuldades, pensamos que somos nós os que temos que fazer triunfar a Igreja com a nossa luta. Esquecemo-nos de que o único que pode salvar a Igreja é Jesus Cristo. E por isso, precisamos manter nossa união com Cristo na fé, na oração e no amor ao próximo. Não podemos nos esquecer que somos apenas missionários do Senhor e não salvadores. O único Salvador é Jesus Cristo. Em tudo que fizermos na Igreja do Senhor temos que saber contar com Jesus. A Igreja é de Cristo (cf. Mt 16,18). O rebanho é do Senhor (cf. Jo 21,15-17). Somos encarregados de cuidar de nossos irmãos, ovelhas do Senhor. Fazemos parte do mesmo rebanho. Somos ovelhas entre as outras ovelhas. Ninguém pode se achar superior às demais ovelhas. O verdadeiro Pastor do rebanho é Jesus Cristo (cf. Jo 10,11-18). Quem não sabe contar com Jesus, em vão vai trabalhar na Igreja do Senhor. Quem salva a Igreja é o próprio Senhor com a colaboração de cada membro dessa Igreja. Que sejamos membros comprometidos e ovelhas comportadas. Cada compromisso supõe sempre o sacrifício. E o sacrifício é fazer algo sagrado, isto é, toda vez que fizermos qualquer coisa para os irmãos devemos fazê-lo para consagrá-los (torná-los sagrados).
          
Quando Jesus vem ao encontro dos discípulos, o medo se torna maior, pois acham que é um fantasma, pois eles não reconhecem Jesus. E quando eles não reconhecem Jesus, acabam tendo medo dos fantasmas que eles mesmos criam. Nessa altura Jesus se dá conhecer: “Coragem! Sou Eu”. Esta frase é suficiente para acalmar os discípulos.
          
Deixemos que esta frase “Coragem! Sou Eu! Não tenhais medo!” penetre em nós, nos momentos mais difíceis de nossa vida. Quando ouvirmos a voz do Senhor, a paz estará presente no nosso coração, ainda que estejamos rodeados pelas provações ou dificuldades.
          
A mensagem do texto é nitidamente eclesiológica. A cena simboliza a relação de Cristo com todos nós como a Igreja. A barca no meio da tempestade e no meio da noite representa a Igreja. E Jesus se revela como “Eu sou”, o Deus-Conosco (Mt 1,23;28,20). Jesus está sempre unido à sua Igreja. Quando estamos longe dele ou nos afastamos dele, como os discípulos, nós sentimos o medo e o pavor. Mas estes desaparecem no fim da noite, quando Jesus vai ao nosso encontro. Aparentemente, Jesus está ausente quando nos encontramos no meio da tempestade desta vida ou em perigo de morte. Mas, na realidade, Jesus está sempre unido a cada um de nós, como sua Igreja, orando por nós, pois ele é o nosso Emanuel (Mt 1,23;18,20;28,20). E na hora certa ele vai manifestar o seu poder, libertando-nos do medo e infundindo-nos ânimo: “Coragem! Sou Eu! Não tenhais medo!”, assim ele nos diz, como disse aos discípulos.
          
Por isso, temos que perseverar na fé, mesmo quando agitados e açoitados pelas ondas e pelos ventos de provações e de perseguições, quaisquer que sejam as dificuldades e os obstáculos no caminho que temos que percorrer para ir ao encontro com Jesus e para obedecer à missão recebida dele. Amar a Cristo e aos irmãos é o segredo para edificar e firmar a Igreja do Senhor que somos nós todos. “Se nos amamos uns aos outros, Deus permanece conosco e seu amor é plenamente realizado em nós”. Por amor, Deus nos chama à vida. Por amor Deus nos enviou Seu Filho, o que para Ele é mais caro, e morreu na cruz em nosso favor. Por amor Deus anda em nossa busca pelos caminhos do mundo. E só por amor é que podemos alcançar a eternidade.


P. Vitus Gustama,svd