terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

06/02/2016



DESCANSAR FAZ PARTE DA VIDA PASTORAL  


Sábado Da IV Semana Do Tempo Comum


Primeira Leitura: 1Rs 3,4-13


Naqueles dias, 4 o rei Salomão foi a Gabaon para oferecer um sacrifício, porque esse era o lugar alto mais importante. Salomão ofereceu mil holocaustos naquele altar. 5 Em Gabaon, o Senhor apareceu a Salomão, em sonho, durante a noite, e lhe disse: “Pede o que desejas e eu te darei”. 6 Salomão respondeu: “Tu mostraste grande benevolência para com teu servo Davi, meu pai, porque ele andou na tua presença com sinceridade, justiça e retidão de coração para contigo. Tu lhe conservaste esta grande benevolência, e lhe deste um filho que hoje ocupa o seu trono. 7 Portanto, Senhor meu Deus, tu fizeste reinar o teu servo em lugar de Davi, meu pai. Mas eu não passo de um adolescente, que não sabe ainda como governar. 8 Além disso, teu servo está no meio do teu povo eleito, povo tão numeroso que não se pode contar ou calcular. 9 Dá, pois, a teu servo, um coração compreensivo, capaz de governar o teu povo e de discernir entre o bem e o mal. Do contrário, quem poderá governar este teu povo tão numeroso?” 10 Esta oração de Salomão agradou ao Senhor. 11 E Deus disse a Salomão: “Já que pediste estes dons e não pediste para ti longos anos de vida, nem riquezas, nem a morte de teus inimigos, mas sim sabedoria para praticar a justiça, 12 vou satisfazer o teu pedido; dou-te um coração sábio e inteligente, como nunca houve outro igual antes de ti. 13 Mas dou-te também o que não pediste, tanta riqueza e tanta glória como jamais haverá entre os reis, durante toda a tua vida.


Evangelho: Mc 6,30-34


Naquele tempo, 30os apóstolos reuniram-se com Jesus e contaram tudo o que haviam feito e ensinado. 31Ele lhes disse: “Vinde sozinhos para um lugar deserto e descansai um pouco”. Havia, de fato, tanta gente chegando e saindo que não tinham tempo nem para comer. 32Então foram sozinhos, de barco, para um lugar deserto e afastado. 33Muitos os viram partir e reconheceram que eram eles. Saindo de todas as cidades, correram a pé, e chegaram lá antes deles. 34Ao desembarcar, Jesus viu uma numerosa multidão e teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor. Começou, pois, a ensinar-lhes muitas coisas.
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1. Oração e Revisão Da Vida Apostólica


Anteriormente Jesus chamou os Doze para depois enviá-los à missão (Mc 6,7-13). Depois de sua primeira “missão”, os discípulos voltaram a se reunir com Jesus: “Naquele tempo, os apóstolos reuniram-se com Jesus e contaram tudo o que havia feito e ensinado”.


Estas palavras são de um conteúdo profundo que serve de exemplo para todos os que trabalham na Igreja do Senhor. Todos devem voltar sempre Jesus para estar unidos com Ele a fim de contar a Jesus todos os acontecimentos em que tomaram parte. No silêncio da oração todos devem pedir a Jesus conselho, orientação, força, ânimo e todos os tipos de ajuda na missão. A oração é o segredo do sucesso na missão, pois exercemos a missão com o Senhor e no Espirito dele. Sem oração, o mais excelente sermão, o trabalho mais diligente, o ensinamento mais claro e profundo de conteúdo tornar-se-ão em vão. Pode acontecer que tudo é bonito e perfeito demais para ser verdade. Nem sempre os que têm os mais eminentes dons são os mais sucedidos na obra de Deus. Feliz é a Igreja, a comunidade que conta com seus agentes de pastoral que não somente sabem pregar e dar palestra, mas principalmente que se dedicam à oração. Será que cada agente reza pelos seus irmãos da comunidade e pelo seu trabalho na comunidade?


Muitos cristãos compreendem hoje que sua fé se torna robusta quando decidem reunir-se, no espírito do Senhor, com outros irmãos para partilhar e dialogar sobre sua fé. Partilhar a experiência da fé enriquece os outros e fortalece e suscita a fé nos outros. Partilhar a fé não deixa de ser também uma das formas de evangelização. Este é um dos sentidos da assembleia eucarística dominical: depois de sua missão durante a semana, os cristãos se reúnem junto a Jesus na companhia de outros irmãos da fé.


Os apóstolos contaram tudo (a Jesus) o que haviam feito e ensinado”. Trata-se de uma revisão da vida apostólica. Esta revisão de nossa vida com Jesus é uma das formas mais úteis de nossa oração. Cada noite nós deveríamos criar ocasião para “relatar” a Jesus “o que temos feito”. Se fizermos isso diariamente, a nossa participação na celebração eucarística dominical ficará mais rica e profunda.  


A avaliação é muito importante para nós, tanto  espiritualmente como profissionalmente. Através de uma avaliação saberemos o que já alcançamos (sucessos), o que deve ser melhorado (pontos negativos) e o que devemos renovar (novos métodos). Para nossas certezas devemos colocar uma margem de dúvida. Temos que suspeitar de nossa santidade, de nossa caridade e de nossa dedicação para descobrir o que há por trás de tudo isso. E temos que manter nossas perguntas sobre nossas respostas. A avaliação nos torna mais dinâmicos e mais vivos sabendo da direção para onde vamos andar.


2. Descansar com Jesus É Uma solicitude pastoral


Depois de ouvir seu relato Jesus convidou os Apóstolos: “Vinde sozinhos para um lugar deserto e descansai um pouco”.  Trata-se de uma necessidade de silêncio, de recolhimento, de solidão. É essencial para os homens de todas as épocas, especialmente é indispensável para o homem moderno na agitação de vida de hoje.


A resposta de Jesus se concreta em levá-los com Ele para um lugar onde ninguém possa perturbá-los para descansar com Ele e n’Ele. Esse convite nos recorda aquilo que o próprio Jesus disse no evangelho de Mateus sobre a importância do descanso com o Senhor e no Senhor: “Vinde a Mim todos os que estais cansados sob o peso do vosso fardo e Eu vos darei descanso” (Mt 11,28). Jesus conjuga muito bem o trabalho e a oração. Dedica-se prioritariamente à evangelização, mas sabe buscar momentos de silêncio e oração para si e para os seus, mesmo que dure apenas pouco tempo como aconteceu no relato do evangelho de hoje.


Convidar os discípulos para descansar na solidão também é um gesto muito humano de Jesus. Jesus sabe o que é a fatiga e busca, muitas vezes, a solidão (no monte, no campo ou de noite). O ativismo nos esgota e empobrece. Não é bom o “stress”, ainda que seja espiritual. Quando não há o equilíbrio interior, todos cairão no nervosismo e diminuirá a eficácia humana e evangelizadora. Necessitamos da paz e da serenidade. Todos os que trabalham, também pelo Reino, necessitam de uma certa serenidade e um certo equilíbrio mental e psíquico. As pessoas que trabalham pelo Reino têm que ser pessoas de paz e de serenidade.


O trabalho de um verdadeiro pastor ou de qualquer líder cristão não é fácil, pois ele tem que manter a unidade e a segurança do seu rebanho. Por isso, quem é enviado como pastor, e, quem é encarregado de ser líder dos outros numa comunidade necessita de descanso. Mas o descanso dos pastores e dos líderes cristãos é feito com e no grande Pastor. Eles fazem seu descanso no Pastor dos pastores. O descanso dos pastores consiste em saber “estar” com Jesus: escutá-Lo, viver com Ele, aprofundar em sua comunhão de vida como pastor. É aprender do grande Pastor sobre como deve conduzir e rebanhar as ovelhas do qual ele próprio faz parte. As ovelhas são do Senhor (Jo 21,17) e não dos líderes.


Esse convite para descansar com e no Senhor é a primeira solicitude de Jesus como Pastor para aqueles que são encarregados de alguma tarefa na comunidade de irmãos. Esse convite tem como característica a comunhão de ministério com Jesus. Essa comunhão ajudará os pastores e os demais líderes da comunidade a terem a mesma solicitude de Jesus para com todos e para com a multidão que, em cada momento da história vive “como ovelhas sem pastor”, pois o pastor é Jesus e somente Ele. Entender isso significa entender a grande missão dos que são enviados, em Seu nome, com o objetivo de conduzir a humanidade para o grande Pastor, Jesus Cristo.


3. Somos Chamados a Ser Seguidores Compassivos como Jesus


Depois de um rápido descanso dos Doze com Jesus o evangelista Marcos nos relatou com as seguintes palavras: Ao desembarcar, Jesus viu uma numerosa multidão e teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor. Começou, pois, a ensinar-lhes muitas coisas.


Esta frase reproduz a situação refletida em 1Rs 22,17: “Vejo todo o Israel espalhado pelas montanhas como um rebanho sem pastor” (cf. Nm 27,17). Trata-se de uma imagem clássica na literatura bíblica no contexto de acusação aos pastores que não cumprem sua missão de rebanhar (unir e reunir) suas ovelhas. E Jesus se apresenta como o verdadeiro Pastor, pois ele dá sua vida pelo rebanho (Jo 10,14-15).


Cristo é o Bom Pastor (Jo 10,11-15). Ele dá Sua vida em todo momento, também quando não lhe resta tempo nem para comer. Ali está Ele, buscando um tempo para descansar em companhia de seus discípulos, mas para os necessitados de Deus, Ele oferece Seu amor. é como o pai de uma família que, depois de uma jornada cansativa, volta para casa com o único desejo de descansar. Mas ao ver que seus filhos lhe pedem algo que lhe é impossível humanamente, tira suas últimas forças para brincar e fazer felizes seus filhos, dando-lhes o melhor de si, ainda que o corpo exija um descanso.


Os cristãos dentro da comunidade, de um modo ou de outro, participam do serviço pastoral para com os demais, imitando e representando Jesus Cristo, Pastor de todos. Onde estiver e para onde for, o cristão faz tudo em nome de Cristo. Ele representa Cristo em qualquer lugar. Ele é cristão para todos os momentos e lugares.


Jesus teve compaixão da multidão que vivia sem nenhuma orientação e começou a ensinar-lhes muitas coisas. Jesus teve tempo para a multidão necessitada. Ter tempo para os demais, especialmente para os necessitados é o ponto alto de uma vocação pastoral na Igreja de Jesus. Isso supõe a renúncia aos próprios planos, interesses e horários em função do bem de todos. O cristão existe para servir os demais.


O mundo de hoje continua a estar desorientado como “ovelhas sem pastor”, pois, no meio do avanço tecnológico, muitas pessoas morrem de fome. No meio da democracia ainda se encontram os ditadores que adormentam e sacrificam os pequenos e inocentes da sociedade. No meio de tanta facilidade tecnológica encontram-se os imprudentes que fazem tantas famílias chorarem pela perda de seus entes-queridos precocemente. No meio da luta pela solidariedade global encontram-se os gananciosos capazes de pisar sobre os outros em nome do prazer. O perigo e o prazer crescem no mesmo ramo. O fato de que em nossa civilização tão avançada há tantos homens morrem de fome ou são vítimas de uma guerra ou de um poder desenfreado, ou de uma imprudência, demonstra que os chefes que dirigem atualmente o mundo não olham para o povo e sim para os próprios interesses ou para os interesses partidários. É preciso ter progresso na verdade, na justiça na caridade.


Cristo quer que todos os cristãos ajudem esta humanidade a encontrar os caminhos da verdade e da felicidade, da paz e do verdadeiro progresso. Ser seguidor de Cristo significa aprender a olhar para os outros com um coração cheio de carinho, ser responsável pelos outros irmãos e falar-lhes do sentido da vida. A maneira com que tratamos um ser humano é a forma com que tratamos a nosso Senhor. Isso não exige explicação e sim contemplação (cf. Mt 25,40.45). O dia mais desperdiçado de todos é aquele no qual não conseguimos fazer alguém sorrir ou deixamos de fazer o outro sorrir. Um sorriso não custa tanto quanto a eletricidade, no entanto, ilumina muito mais do que ela.


Vinde sozinhos para um lugar deserto e descansai um pouco”. Um dia um índio pegou carona de um jovem. O jovem correu cada vez mais numa velocidade máxima até 160 km/hora. O índio pediu para parar. Entrou no mato e ficou em silêncio durante 4 minutos. Quando o jovem lhe perguntou: "Por que você pediu para parar e ficou em silêncio?". "Porque meu espírito ficou para trás quando você correu demais", respondeu o índio.


Descansar com o Senhor é o momento para resgatar o perdido na minha vida. É voltar à transparência, à sacralidade. A sacralidade da vida é minha reverência, a que devo respeitar. A sacralidade está em mim e no outro, no próximo. A reverência à sacralidade da vida suscita em mim a admiração, o respeito, o cuidado. É preciso resgatar a minha sacralidade, é preciso proteger o Sagrado em mim. Descansar com o Senhor é o momento oportuno para fazer pausa. Quem tem tempo para pausa dificilmente fica estressado.

P. Vitus Gustama,svd
05/02/2016
SER CRISTÃO É SER DEFENSOR E TESTEMUNHA DA VERDADE


Sexta-Feira da IV Semana do Tempo Comum


Primeira Leitura: Eclo 47,2-13


2 Como a gordura, que se separa do sacrifício pacífico, assim também sobressai Davi, entre os israelitas. 3 Brincou com leões como se fossem cabritos e com ursos, como se fossem cordeiros. 4 Não foi ele que, ainda jovem, matou o gigante e retirou do seu povo a desonra? 5 Ao levantar a mão com a pedra na funda, ele abateu o orgulho de Golias. 6 Pois invocou o Senhor, o Altíssimo, e este deu força a seu braço direito e ele acabou com um poderoso guerreiro e reergueu o poder do seu povo. 7 Assim foi que o glorificaram por dez mil e o louvaram pelas bênçãos do Senhor, oferecendo-lhe uma coroa de glória. 8 Pois esmagou os inimigos por toda a parte, e aniquilou os filisteus, seus adversários, abatendo até hoje o seu poder. 9 Em todas as suas obras dava graças ao Santo Altíssimo, com palavras de louvor: 10 de todo o coração louvava o Senhor, mostrando que amava a Deus, seu criador. 11 Diante do altar colocou cantores, que deviam acompanhar suavemente as melodias. 12 Deu grande esplendor às festas e ordenou com perfeição as solenidades até o fim do ano: fez com que louvassem o santo Nome do Senhor, enchendo o santuário de harmonia desde a aurora. 13 O Senhor lhe perdoou os seus pecados, e exaltou para sempre o seu poder; concedeu-lhe a aliança real e um trono glorioso em Israel.


Evangelho: Mc 6,14-29


Naquele tempo, 14o rei Herodes ouviu falar de Jesus, cujo nome se tinha tornado muito conhecido. Alguns diziam: “João Batista ressuscitou dos mortos. Por isso os poderes agem nesse homem”. 15Outros diziam: “É Elias”. Outros ainda diziam: “É um profeta como um dos profetas”. 16Ouvindo isto, Herodes disse: “Ele é João Batista. Eu mandei cortar a cabeça dele, mas ele ressuscitou!” 17Herodes tinha mandado prender João, e colocá-lo acorrentado na prisão. Fez isso por causa de Herodíades, mulher do seu irmão Filipe, com quem se tinha casado. 18João dizia a Herodes: “Não te é permitido ficar com a mulher do teu irmão”. 19Por isso Herodíades o odiava e queria matá-lo, mas não podia. 20Com efeito, Herodes tinha medo de João, pois sabia que ele era justo e santo, e por isso o protegia. Gostava de ouvi-lo, embora ficasse embaraçado quando o escutava. 21Finalmente, chegou o dia oportuno. Era o aniversário de Herodes, e ele fez um grande banquete para os grandes da corte, os oficiais e os cidadãos importantes da Galileia. 22A filha de Herodíades entrou e dançou, agradando a Herodes e seus convidados. Então o rei disse à moça: “Pede-me o que quiseres e eu te darei”. 23E lhe jurou dizendo: “Eu te darei qualquer coisa que me pedires, ainda que seja a metade do meu reino”. 24Ela saiu e perguntou à mãe: “Que vou pedir?” A mãe respondeu: “A cabeça de João Batista”. 25E, voltando depressa para junto do rei, pediu: “Quero que me dês agora, num prato, a cabeça de João Batista”. 26O rei ficou muito triste, mas não pôde recusar. Ele tinha feito o juramento diante dos convidados. 27Imediatamente, o rei mandou que um soldado fosse buscar a cabeça de João. O soldado saiu, degolou-o na prisão, 28trouxe a cabeça num prato e a deu à moça. Ela a entregou à sua mãe. 29Ao saberem disso, os discípulos de João foram lá, levaram o cadáver e o sepultaram.
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Estamos numa seção nova do relato de Marcos. Trata-se da seção Jesus e seus discípulos (Mc 6,6b-8,30). Enviados por Jesus (Mc 6,7-13), os discípulos vão Lhe dizer que o povo se converteu e realizaram muitos milagres em Seu nome. Na sua volta da missão, os discípulos são convidados por Jesus para ir com Ele a um lugar solitário, a sós. Nunca chegará a realizar perfeitamente esse convite, mas este convite marca o tom da seção: tem que seguir estando com Jesus (cf. Mc 3,13), aprendendo, refletindo sobre seu ser com Jesus, e, sobretudo, penetrando no mistério de Jesus para educar-se na fé n’Ele. Não se pode ser discípulos, continuadores de Sua obra sem entregar-se totalmente a Ele, sem crer n’Ele, pois sem a fé não se consegue dizer quem é Jesus.


A partir da experiência dos discípulos nós também necessitamos refletir sobre nosso estar com Jesus e deixar-nos guiar e ajudar por Ele para alcançar uma fé enraizada em convicções mais profundas.


1. Jesus Incomoda Os Injustos, e Serena Os Justos


Enquanto os Doze Apóstolos estão em missão (Mc 6,7-13), o evangelista Marcos volta a falar de seu tema principal: Quem é Jesus? Agora Jesus é muito conhecido pela multidão e por isso, sua fama se espalha rapidamente ao redor.


A fama de Jesus chegou também aos ouvidos de Herodes. O texto diz que Herodes ouviu falar de Jesus. E diante dos testemunhos e opiniões do povo simples sobre Jesus, Herodes disse: “Ele é João Batista. Eu mandei cortar a cabeça dele, mas ele ressuscitou!”.


Herodes temia a João Batista e sentiu-se perturbado depois da morte desse profeta. Herodes sabia que João Batista “era homem justo”. Herodes ouvia as palavras de João Batista e “ficava perplexo”. Um pregador da verdade perturbava e aterrorizava um rei prepotente, porém podre por dentro. Poder e podre estão ligados. As duas palavras (poder e podre) tem as mesmas letras, só mudam de lugar. O poder leva qualquer pessoa para a podridão. A própria palavra “podre” além de ter o sentido de deteriorado também significa aquilo que se perverteu (algo depravado).  Mas, havia uma coisa que Herodes simplesmente não queria fazer: não queria parar com o seu adultério. Foi dessa maneira que arruinou o seu coração e sua vida.  O adultério deteriorou a vida de Herodes.


Herodes tem consciência, como todas as pessoas. Dentro dela há pensamentos, verdade que acusam qualquer pessoa. São pensamentos persistentes que podem até mesmo fazer com que monarcas, como Herodes, se sintam intranquilos e temerosos. As sementes do bem, da verdade, da justiça, da honestidade, do amor lançadas nos corações, mais cedo ou mais tarde, desabrocharão e produzirão frutos quando o semeador, como no caso de João Batista, já faleceu ou partiu para outro lugar.


Os justos incomodam os injustos; a presença dos honestos se torna uma presença perturbadora para os corruptos e desonestos. O justo é a consciência dos corruptos. O simples incomoda a consciência dos grandes. O simples é a voz de Deus para a humanidade que chama a se vestir de simplicidade, pois para o simples tudo é divino e para Deus tudo é simples. A simplicidade é a virtude dos sábios e a sabedoria dos santos. A presença dos simples, dos honestos e dos justos é, na verdade, uma maneira que Deus escolhe para corrigir seus filhos arrogantes, prepotentes, desonestos, corruptos e injustos. Infelizmente, nem sempre vingou. Mas a porta da misericórdia divina continua aberta para todos. Quando o homem chegar à profundidade da misericórdia de Deus, saberá largar tudo que não constrói o próprio homem, pois essa terra é a terra dos peregrinos, terra dos viajantes rumo à casa do Pai do céu (cf. Jo 14,1-60). 


Herodes não está orgulhoso de sua conduta, pois ele mandou matar João Batista injustamente. Esta conduta o faz inquieto. A presença de Jesus desperta sua consciência adormecida de sua culpa. Mas ele não quer aceitar Jesus, o Príncipe da Paz, e por isso, continua inquieto. Agora é que ele escuta sua consciência. E como sua consciência o incomoda!


Será que eu ouço meu coração? Será que a presença de Jesus incomoda meu coração adormecido? Será que aceito a presença de Jesus para serenar meu coração inquieto? O que me incomoda ao lembrar-me dele? Como posso sair dele? “Meu coração continua inquieto enquanto não repousar em Ti, Senhor”, dizia Santo Agostinho.


2. João Batista: Firme Na Defesa da Verdade e Valente Na Denúncia Do Mal


Herodes apreciava João Batista apesar da denúncia, pois o Batista era um homem honrado, ético, íntegro, santo e de caráter. Mas a debilidade desse rei volúvel e as intrigas da mulher e de sua filha acabaram com a vida do último profeta do AT, o Precursor do Messias: João Batista.


Herodes é um rei orgulhoso no sentido de prepotente e arrogante. Ele se orgulha de seu poder e pode usá-lo para qualquer fim. Um orgulhoso, como Herodes, possui todos os vícios: egoísta, injusto, imoral. Como egoísta ele coloca sua pessoa no centro de tudo. Ele é a própria lei. Como injusto, ele não respeita os direitos dos outros. E como imoral, ele não respeita moral alguma. Ele quer entender somente seu Ego e “conversa” com seu orgulho. Mas ele impõe moral para os demais e para ele próprio está livre de qualquer princípio moral, pois ele se acha o próprio princípio.


Herodes é um misto de fraqueza e arrogância, de vilania e prepotência, de covardia e insolência. Ele é um velhaco. Um velhaco é covarde quando deveria ser corajoso, e torna-se impiedoso e cruel quando deveria ser clemente. Todo orgulhoso é fraco. Herodes, um rei débil, se converte em instrumento de vingança de uma mulher. Ele foi usado por uma mulher cheia de vingança e ódio no seu coração em nome da falsidade e de interesse pessoal. João Batista foi uma vítima de um poder. Herodes abusa da riqueza e do poder. Entregue totalmente aos prazeres, torna-se presunçoso e arrogante. O dominador se deixa enganar por uma bailarina e por sua vingativa mãe.  Age de maneira covarde e cruelmente, transformando-se em assassino de um inocente.


O homem da verdade pode ser eliminado, mas a própria verdade não cabe em qualquer túmulo, pois ela habita na consciência do homem e ressuscita toda vez que for enterrada.


A figura de João Batista é admirável por seu exemplo de interesse na defesa da verdade e sua valentia na denúncia do mal. Ele se torna conhecido pela sua firme defesa da verdade. Por causa da verdade vivida pelo João Batista, nem o rei feroz escapa de ser denunciado. Sua figura frágil não se intimida diante da fúria do rei Herodes e de sua concubina, Herodíades. Ele não teme pagar preço da verdade e de sua liberdade. Ele deve fidelidade a Deus, Suprema Verdade (Jo 14,6; cf. Jo 8,31-32).


3. Ser Cristão Coerente A Exemplo De João Batista


De João Batista aprendemos, sobretudo, seu firme caráter e a coerência de sua vida com o que prega e fala. Ele sempre vive na verdade e pela verdade. Prepara os caminhos do Messias, pregando a conversão com seus passos concretos (cf. Lc 3,10-14) . Mostra claramente o Messias quando apareceu. Não quer usurpar nenhum papel que não lhe corresponde: “Que Jesus cresça e eu diminua”, humildemente confessa (Jo 3,30). Aprendemos também de João Batista que o serviço do Reino da verdade e do amor comporta também o testemunho da verdade e do amor capaz de ter risco de “perder” nossa vida. O testemunho de João Batista, o profeta da verdade, inspira a quem se torna o homem da verdade.


Haverá ocasiões em que também teremos que denunciar o mal onde existe. Faremos tudo isto com palavras valentes, mas, sobretudo, com uma vida coerente que por si mesma será um sinal profético no meio de um mundo que persegue os valores verdadeiramente humanos e cristãos.


João Batista foi um grande defensor da verdade. A verdade é, às vezes, doce, às vezes, amarga. Porém, quando é amarga, possui propriedades que curam” (Sto. Agostinho. Epist.110). “Quem recusa a verdade é como um cego banhado pelo sol sem beneficiar-se de sua luz. Quem aceita a verdade e depois não a segue padece uma cegueira convencional” (idem. De doc. christ I, 9,9). Estejamos atentos de que como Deus não faz ouvir Sua voz para desmentir ninguém, encontramos muitos porta-vozes que se contradizem. Mas o próprio coração é o Supremo Tribunal para cada um de nós.


Muitas vezes acontece que os defeitos dos outros são os nossos, enxergados nos outros. Será que não existe um pequeno Herodes em nós? Ou, pelo menos, será que ele está adormecido e que pode acordar e se levantar em qualquer hora com sua fúria incontrolável? Estejamos vigilantes! Pare e pense! Reflita e não reaja! Fazer sem pensar pode sacrificar muitos inocentes.


“O homem, no que tem de animal, é violento, mas no que tem de espiritual, é não-violento. No momento em que ele se torna consciente do espírito interior, não pode permanecer violento. Jesus viveria e morreria em vão se não conseguisse nos ensinar a ordenarmos toda a nossa vida pela lei eterna do amor” (Mahatma Gandhi).


Deixemo-nos advertir. Não retenhamos conosco qualquer pecado, por leve que ele seja, pois ele é capaz de nos deteriorar por dentro. Não nos apeguemos a qualquer vício para não perdermos o foco para nossa vida que é a nossa salvação. Examinemos o nosso homem interior frequentemente para saber se ali qualquer pecado mora que assassina nossa alma lentamente.

P. Vitus Gustama,svd

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

04/02/2016


SER CRISTÃO É SER MISSIONÁRIO EM SINTONIA COM OS DEMAIS CRISTÃOS


Quinta-Feira da IV Semana do Tempo Comum


Primeira Leitura: 1Rs 2,1-4.10-12


1 Aproximando-se o fim da sua vida, Davi deu estas instruções a seu filho Salomão: 2 “Vou seguir o caminho de todos os mortais. Sê corajoso e porta-te como um homem. 3 Observa os preceitos do Senhor, teu Deus, andando em seus caminhos, observando seus estatutos, seus mandamentos, seus preceitos e seus ensinamentos, como estão escritos na lei de Moisés. E assim serás bem-sucedido em tudo o que fizeres e em todos os teus projetos. 4 Então o Senhor cumprirá a promessa que me fez, dizendo: ‘Se teus filhos conservarem uma boa conduta, caminhando com lealdade diante de mim, com todo o seu coração e com toda a sua alma, jamais te faltará um sucessor no trono de Israel”’. 10 E Davi adormeceu com seus pais e foi sepultado na cidade de Davi. 11 O tempo que Davi reinou em Israel foi de quarenta anos: sete anos em Hebron e trinta e três em Jerusalém. 12 Salomão sucedeu no trono a seu pai Davi e seu reino ficou solidamente estabelecido.


Evangelho: Mc 6,7-13


Naquele tempo, 7Jesus chamou os doze e começou a enviá-los dois a dois, dando-lhes poder sobre os espíritos impuros. 8Recomendou-lhes que não levassem nada para o caminho, a não ser um cajado; nem pão, nem sacola, nem dinheiro na cintura. 9Mandou que andassem de sandálias e que não levassem duas túnicas. 10E Jesus disse ainda: “Quando entrardes numa casa, ficai ali até vossa partida. 11Se em algum lugar não vos receberem, nem quiserem vos escutar, quando sairdes, sacudi a poeira dos pés, como testemunho contra eles!” 12Então os doze partiram e pregaram que todos se convertessem. 13Expulsavam muitos demônios e curavam numerosos doentes, ungindo-os com óleo.
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Estamos na terceira seção (Mc 6,6b-8,26) da primeira parte do Evangelho de Marcos que se concentra em Jesus, o Messias (Mc 1,14-8,30). Na primeira seção fala-se das manifestações  de Jesus com palavras e curas (Mc 1,14-3,6). E na segunda seção (Mc 3,7-6,6ª) fala-se da manifestação de Jesus aos seus sobre o mistério do Reino. Nesta terceira seção (Mc 6,6b-8,26) fala-se da manifestação de Jesus e a incompreensão dos discípulos.


O evangelho nos fala do envio dos discípulos para a missão. Logo na escolha dos Doze o evangelista Marcos escreveu: “Jesus designou Doze, para que ficassem com ele e para enviá-los a pregar, com autoridade para expulsar os demônios” (Mc 3,14). Eles já têm acompanhado Jesus durante um período relativamente longo (ficar com Ele). Eles têm escutado os ensinamentos de Jesus, inclusive em parábolas e suas explicações complementares. Têm presenciado seus milagres. Agora eles devem empreender a segunda fase do programa, pregando a conversão e dando a conhecer a oferta divina de salvação.


 “Jesus chamou os doze e começou a enviá-los...”


Esta é a primeira vez que os Doze vão se encontrar sós, sem Jesus, longe dele. É o tempo da Igreja. É o tempo da prática. É o tempo de levar adiante os ensinamentos de Jesus que consiste na eliminação daquilo que impede a integridade da pessoa humana (poder de expulsar os espíritos impuros, curar doentes), em não se preocupar com tanta coisa inútil para o desenvolvimento do ser humano, espiritual e humanamente (não levar nada para o caminho...), em formar uma comunidade de irmãos (ficar numa casa que supõe a familiaridade), em reconhecer o amor infinito de Deus pronto para perdoar para que todos vivam como filhos e filhas de Deus, irmãos uns dos outros (pregar a conversão).


Durante os cinco primeiros capítulos de seu relato, o evangelista Marcos nos apresentou Jesus com seus discípulos, com muita insistência, diante da multidão e dos adversários. No momento de sua vocação (Mc 3,13-14), o evangelista Marcos havia dito: “Jesus constituiu Doze para que ficassem com ele, para enviá-los a pregar...”.  É igual ao movimento do coração: diástole, sístole... O sangue vem ao coração e do coração é enviado ao organismo. Dessa maneira é que o organismo pode se manter. É o mesmo movimento do apostolado: viver com Cristo para depois ir ao mundo para levar o Cristo; intimidade com Deus e a presença no mundo com o espírito de Deus. Quem não vive, primeiro, com Cristo, não pode ser um bom missionário, não pode ser um cristão crível no mundo. Somente quem fala com Cristo permanentemente tem autoridade para falar de Cristo para os outros. Um cristão tem que animar tudo com espírito de Cristo.


O texto do evangelho de hoje procura mostrar como deve agir o seguidor de Jesus e o que vai acontecer com ele se sair pelo mundo para pregar o Evangelho. Tudo isto se resume numa só ideia: o seguidor deve agir como o Mestre Jesus agiu. O que aconteceu com o Mestre vai acontecer também com o discípulo, pois o discípulo não é maior do que o próprio Mestre (Mt 10,24).


O cristão deve viver, fazer e dizer tudo como o enviado do Senhor. Como enviado do Senhor o cristão deve fazer tudo no amor e por amor. A caridade é a alma da missão. Trata-se do amor que se dirige unicamente para o outro, incondicional. É o amor sem interesse e sem esperar ser recompensado. É uma doação pura de si mesmo. Jesus falou por amor, serviu por amor, ensinou por amor, ajudou por amor, viveu por amor, morreu e ressuscitou por amor.


        


No Evangelho de hoje Jesus anuncia alguns pontos fundamentais para o discípulo/seguidor realizar a missão:


Trabalhar Em Equipe        


Em primeiro lugar, o texto diz que Jesus envia os discípulos dois a dois. “Dois a dois” indica que a missão é um serviço comunitário e os cristãos devem ajudar-se mutuamente em suas atividades; não é um trabalho de promoção pessoal; é um trabalho de conjunto ou coletivo. “Ir dois a dois” implica também a afirmação da igualdade e exclui a subordinação de um ao outro (cf. Dt 19,15). O testemunho dos dois fica muito mais forte do que o de um só. Dois homens trabalhando juntos farão mais do que dois homens que trabalham separadamente, pois ajudarão mutuamente nas decisões a serem tomadas e cometerão menor número de erros. Também poderão ajudar-se mutuamente nas dificuldades e consequentemente, fracassarão menos. Poderão consolar  um ao outro em tempos difíceis. Quem vive o Evangelho do Senhor deve estar em sintonia com os irmãos de sua comunidade.  


Jesus começou a enviá-los dois a dois...” Independentemente das razoes bíblicas esta expressão é muito moderna e avançada. Na Igreja de Jesus não se trabalha só e sim em equipe. É a vontade explícita de Cristo. A atitude de quem trabalha na Igreja, na comunidade eclesial deve ser interrogada a partir daqui. O individualismo tem formas muito sutis: não gostamos que os nossos irmãos controlem nossos próprios comportamentos apostólicos e outros comportamentos; cada um quer ser uma estrela solitária a ponto de apagar o brilho do outro; nada se discuta, cada um vai fazer as coisas do jeito que quer. O pior é que o Cristo fica de lado ou de costas para a pessoa em questão estar em destaque. O cristão deve ter uma consciência plena de que onde ele estiver e para onde ele for, ele é enviado de Cristo. Consequentemente, sua fala, sua escolha, sua maneira de viver deve refletir os ensinamentos de Jesus. O mundo deve perceber que na maneira de viver de um cristão se reflete o próprio Cristo.


O Papa Francisco, na sua Exortaçao Apostolica, Evangelii Gaudiu escreveu: “Cada cristão e cada comunidade há-de discernir qual é o caminho que o Senhor lhe pede, mas todos somos convidados a aceitar esta chamada: sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho” (no. 20)...  A intimidade da Igreja com Jesus é uma intimidade itinerante, e a comunhão reveste essencialmente a forma de comunhão missionária. Fiel ao modelo do Mestre, é vital que hoje a Igreja saia para anunciar o Evangelho a todos, em todos os lugares, em todas as ocasiões, sem demora, sem repugnâncias e sem medo” (idem no.23).


O Cristão É Enviado Para Eliminar o Mal  E Criar Comunidade de Irmãos


Em segundo lugar, Jesus deu aos doze o poder messiânico de Cristo contra as forças do mal, ou seja, a autoridade para libertar as pessoas de tudo aquilo que aliena, oprime, exclui e despersonaliza as pessoas. O evangelista Marcos resume o poder dos enviados em três palavras: o carisma da “palavra” que proclama a necessidade de mudança de vida (conversão); o carisma de expulsar demônios, isto é, o poder contra o mal; e o carisma de “curar os enfermos”, isto é, melhorar a vida humana na sua qualidade.


Eles são enviados com autoridade sobre os espíritos imundos, para dominá-los e não para dominar os outros irmãos.  O cristão tem o poder de tirar esse mal, pois o Senhor Jesus deu esse poder. A primeira tarefa de cada cristão consiste em tirar o mal que está no meio das comunidades, no meio da própria família, de dentro do próprio coração. Porque somente quem é livre pode libertar os outros. O enviado de Jesus, cada cristão deve instaurar um mundo mais justo e fraterno, mais humano e familiar. Em outras palavras, a presença e a atuação do cristão devem melhorar a vida humana, deve fazer outros crescerem na direção do bem, devem ser capazes de criar comunidade de irmãos.


O Cristão Deve Ser Uma Pessoa Despojada


Em terceiro lugar, Jesus exige dos doze um modo de vida baseada num desprendimento absoluto dos bens materiais (vv.8-9). Jesus pede que os discípulos vivam um estilo de austeridade e a pobreza evangélica de modo que não se ponham ênfase nos meios humanos: econômicos ou técnicos e sim na força de Deus que ele lhes transmite. Deus não se serve de anjos nem de revelações diretas. É a Igreja, ou seja, são os cristãos que continuam e visibilizam a obra salvadora de Cristo. E o modo de vida do cristão deve ser reflexo o de Cristo. A linguagem que o mundo de hoje facilmente entende: austeridade e o desinteresse na hora de fazer o bem: o cristão deve fazer o bem pelo bem e não por algum interesse por trás. O cristão não poder fazer o bem em função dos bens materiais como vantagens para si próprio. É claro que necessitamos dos meios que fazem parte da evangelização, porém jamais podemos nos deixar de nos apoiar na graça de Deus e na nossa fé sem buscar seguranças e prestígios humanos.


Trata-se de uma pobreza voluntária, porque somente assim eles poderiam ser considerados como fidedignos. Jesus enfatiza mais o ser dos discípulos do que o seu ter. Jesus não despreza os bens deste mundo, não apresenta a miséria como um ideal de vida, mas alerta para o perigo de nos deixarmos condicionar pela posse de bens materiais. A porta da morte é tão estreita que somente passa aquilo que é a bagagem de amor na condivisão dos bens materiais com os irmãos e irmãs que não têm nada para sua vida.


O desapego a tudo não implica somente a renúncia a uma carga pesada de bens materiais, mas também o abandono de preconceitos, de tradições, de ideias retrógradas, às quais muitas vezes estamos amarrados de uma forma emocional e irracional: “Espero que todas as comunidades se esforcem por atuar os meios necessários para avançar no caminho duma conversão pastoral e missionária, que não pode deixar as coisas como estão. Neste momento, não nos serve uma ‘simples administração’. Constituamo-nos em ‘estado permanente de missão’, em todas as regiões da terra”, alertou-nos o Papa Francisco na sua Exortação Apostólica, Evangelii Gaudium (no. 25). Referimo-nos ao pesado ônus representado por certos usos, por certos costumes, por certas tradições religiosas embutidas em determinado ambiente histórico e cultural, que muitos, confundem ou equiparam com os valores do Evangelho. Não podemos acumular “bastões”, “dinheiro”, “sandálias” e “túnicas”. “Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal proporcionado mais à evangelização do mundo atual que à auto-preservação. A reforma das estruturas, que a conversão pastoral exige, só se pode entender neste sentido: fazer com que todas elas se tornem mais missionárias, que a pastoral ordinária em todas as suas instâncias seja mais comunicativa e aberta, que coloque os agentes pastorais em atitude constante de ‘saída’ e, assim, favoreça a resposta positiva de todos aqueles a quem Jesus oferece a sua amizade. Como dizia João Paulo II aos Bispos da Oceânia, ‘toda a renovação na Igreja há-de ter como alvo a missão, para não cair vítima duma espécie de introversão eclesial’”, escreveu o Papa Francisco na mesma exortação (no. 27).


O Cristão É Enviado Para Propor Aos Outros Uma Mudança de Mentalidade


Em quarto lugar, Jesus envia os doze para pregar a mudança de vida (conversão) para si e para os outros (v.12). Para Jesus, a conversão é condição sine qua non para construir uma sociedade nova ou Reino de Deus (Mc 1,15). A conversão sempre envolve movimento de uma dimensão para outra. E isso envolve a pessoa toda, não apenas seu senso moral, sua capacidade intelectual ou sua vida espiritual. Corpo, mente e alma juntos são afetados pelo ato da conversão, e as consequências são sentidas em todos os aspectos da vida da pessoa, inclusive nos campos social e político.


Na Bíblia, a noção básica da conversão é a mudança. Envolve voltar-se do pecado, da morte e das trevas para a graça, a nova vida e luz. A ação dual de voltar-se sempre leva a pessoa a um novo nível da existência humana. É uma mudança total do próprio modo de pensar e de agir, uma renovação total e integral do eu. É um abandono total em Deus.


Ser Cristão É Ser Missionário Da Paz


Em quinto lugar, a outra instrução de Jesus prevê uma atitude de bom senso e formação de comunidade: “Quando vocês entrarem numa casa, fiquem aí até partirem” (v.10).


É interessante observar que não se fala para os discípulos irem às sinagogas, instituição judaica, o que seria contrário à finalidade do envio. Menciona-se somente “o lugar” e “a casa/ família” que podem encontra-se em qualquer país. Hão de aceitar a hospitalidade que a eles é oferecida, sem mudar de casa, para não desprezar a boa vontade do povo nem afrontar a hospitalidade oferecida. Os discípulos devem aceitar o que a eles são oferecidos sem mostrar reações ao uso do lugar.


“Quando vocês entrarem numa casa, fiquem aí até partirem” (v.10). Isto não indica a plena estabilidade para os discípulos, mas um local onde, com a sua partida, a comunidade possa continuar a se reunir e dar prosseguimento à Boa Nova do reino. Os cristãos devem ensinar os outros a assumirem o compromisso, a andarem com as próprias pernas.


Para os Doze, o novo Israel, esta instrução implica uma mudança radical de mentalidade: entrar em casa de pagãos, desprezados pelos judeus, e depender deles para a sobrevivência. Jesus pretende que os discípulos esqueçam sua identidade judaica para colocar-se no plano da humanidade. É preciso viver a humanidade para se tornar humano para os outros.


À luz do Evangelho de hoje procuremos nos perguntar: será que somos meros espectadores e admiradores de Jesus ou somos seus seguidores? O que pode estar tornando menos convidativo e pouco crível a nossa mensagem? Qual é o testemunho que devemos dar para que os outros acreditem na nossa mensagem? É impossível ser um verdadeiro cristão sem estar com Cristo antes.


P. Vitus Gustama,svd

03/02/2016



DEUS ESTÁ CONOSCO  E ESTÁ NO MEIO DE NÓS DIARIAMENTE


Quarta-Feira Da IV Semana Do Tempo Comum


Primeira Leitura: 2Sm 24,2.9-17


Naqueles dias, 2disse o rei Davi a Joab e aos chefes de seu exército que estavam com ele: “Percorrei todas as tribos de Israel, desde Dã até Bersabeia, e fazei o recenseamento do povo, de maneira que eu saiba o seu número”. 9Joab apresentou ao rei o resultado do recenseamento do povo: havia em Israel oitocentos mil homens de guerra, que manejavam a espada; e, em Judá, quinhentos mil homens. 10Mas, depois que o povo foi recenseado, Davi sentiu remorsos e disse ao Senhor: “Cometi um grande pecado, ao fazer o que fiz. Mas perdoa a iniquidade do teu servo, porque procedi como um grande insensato”. 11Pela manhã, quando Davi se levantou, a palavra do Senhor tinha sido dirigida ao profeta Gad, vidente de Davi, nestes termos: 12“Vai dizer a Davi: Assim fala o Senhor: dou-te a escolher três coisas: escolhe aquela que queres que eu te envie”. 13Gad foi ter com Davi e referiu-lhe estas palavras, dizendo: “Que preferes: três anos de fome na tua terra, três meses de derrotas diante dos inimigos que te perseguem, ou três dias de peste no país? Reflete, pois e vê o que devo responder a quem me enviou”. 14Davi respondeu a Gad: “Estou em grande angústia. É melhor cair nas mãos do Senhor, cuja misericórdia é grande, do que cair nas mãos dos homens!” 15E Davi escolheu a peste. Era o tempo da colheita do trigo. O Senhor mandou, então, a peste a Israel, desde aquela manhã até o dia fixado, de modo que morreram setenta mil homens da população, desde Dã até Bersabeia. 16Quando o anjo estendeu a mão para exterminar Jerusalém, o Senhor arrependeu-se desse mal e disse ao anjo que exterminava o povo: “Basta! Retira agora a tua mão!” O anjo estava junto à eira de Areuna, o jebuseu. 17Quando Davi viu o anjo que afligia o povo, disse ao Senhor: “Fui eu que pequei, eu é que tenho a culpa. Mas estes, que são como ovelhas, que fizeram? Peço-te que a tua mão se volte contra mim e contra a minha família!”


Evangelho: Mc 6,1-6


Jesus voltou com os seus discípulos para a cidade de Nazaré, onde ele tinha morado. No sábado começou a ensinar na sinagoga. Muitos que o estavam escutando ficaram admirados e perguntaram: - De onde é que este homem consegue tudo isso? De onde vem a sabedoria dele? Como é que faz esses milagres? Por acaso ele não é o carpinteiro, filho de Maria? Não é irmão de Tiago, José, Judas e Simão? As suas irmãs não moram aqui? Por isso ficaram desiludidos com ele. Mas Jesus disse: - Um profeta é respeitado em toda parte, menos na sua terra, entre os seus parentes e na sua própria casa. Ele não pôde fazer milagres em Nazaré, a não ser curar alguns doentes, pondo as mãos sobre eles. E ficou admirado com a falta de fé que havia ali.


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 Jesus É Rejeitado Pelos Seus Conterrâneos


Até agora o número de pessoas que recorreram a Jesus ficou cada vez maior. Essas pessoas vêm de toda parte da Palestina, inclusive do território pagão (Mc 3,7-8). As pessoas se reúnem em torno de Jesus a ponto de Jesus e seus discípulos não terem tempo nem para comer (Mc 3,20). Eram tão numerosas essas pessoas que faz Jesus subir a uma barca para ensinar (Mc 4,1). Que pensam de Jesus todas essas pessoas? Quem é Jesus para elas? Será que elas creem nele? O que elas creem nele? O Evangelho não nos dá nenhuma resposta explícita para essas perguntas. Percebemos apenas o entusiasmo e a admiração do povo sobre o ensinamento de Jesus (Mc 1,27).


Agora Jesus está de volta para sua terra, Nazaré, depois que instituiu os Doze (Mc 3,13-19). Ele volta para suas raízes antes de continuar sua missão itinerante. Mais ou menos durante trinta anos Jesus viveu em Nazaré, convivendo com as pessoas comuns de Nazaré, vivendo com elas e Ele era tão comum como seus conterrâneos. Mais ou menos trinta anos mantendo-se tão semelhante àquele povo que não se notava diferença alguma entre Ele e Tiago, José, Judas ou Simão. Mais ou menos durante trinta anos morando num lugar desconhecido e desprezado. Até um dos futuros discípulos de Jesus, Natanael, lançará esta pergunta: “De Nazaré pode sair algo de bom?” (Jo 1,46).


Agora é a hora de se manifestar e de receber o juízo de seu povo sobre ele. O que pensa o povo de Nazaré sobre Jesus? Quem é Jesus para seus conterrâneos? Será que Deus tem um aspecto tão humano em Jesus, o nazareno? Será que é possível Deus estar tão próximo dos homens comuns como os de Nazaré? Será que Deus não pode estar tão perto dos homens no seu dia a dia como em Nazaré? Ou onde está Deus? Onde Deus habita? Para o povo, onde Deus mora? Onde fica Sua morada? “Mestre, onde moras?”, perguntaram dois dos discípulos de João Batista a Jesus (Jo 1,38).


Para os nazarenos é inconcebível que alguém que viveu por tantos anos com eles mereça ser seguido como um mestre. Eles usam várias expressões para desprezar Jesus. Eles chamam Jesus “filho de Maria”. É um modo de falar que deixa transparecer um nascimento ilegítimo. Em consequência, Maria teve que sofrer por tais comentários. Maria aprende a carregar o opróbrio (extrema humilhação) como Jesus aprendeu a carregar a cruz. O evangelista Mateus retocou o texto de Marcos para dele retirar o caráter ofensivo: “Não é este o filho do carpinteiro? Não é Maria sua mãe?” (Mt 13,55).


Deus Se Encontra No Aspecto Cotidiano Da Vida Diária


É preciso abrir os olhos e a mente, e deixar o coração aberto para poder experimentar Deus e sentir Sua presença no cotidiano, no aspecto cotidiano da vida. É preciso o homem deixar o coração puro e purificado para sentir Deus no cotidiano. Deus está aqui e agora. Sinta e experimente Sua presença! Aprenda a saborear o momento, mesmo que ele não dure para sempre. Temos que manter nossa interioridade, pois se não teremos nada para oferecer aos outros. Cuidar de nosso interioridade nos leva a buscar as fontes que satisfazem nossa sede de nossas andanças de cada dia.


Quando a alma se acha “só e retirada”, fica mais apta para aproximar-se do seu Criador, do Senhor, para alcança-Lo e tocá-Lo. Quanto mais se alcança e se toca, tanto mais se dispõe para receber graças e dons. Há momentos de nossas vidas que podem ser eternos mesmo que não sejam permanentes, por causa da presença da própria Eternidade que é Deus. Deus está presente permanentemente como o silêncio está sempre presente, mas somos nós que preenchemos o silêncio com barulho. Assim que o barulho cessar, o silêncio voltará a reinar novamente o ambiente. Deus sempre nos surpreende, porque na sua atuação ele não tem esquemas prévios, métodos preestabelecidos, lógica precisa ou raciocínio bem lógico. Pode desistir de uma lógica, mas não desista da vida cuja origem está em Deus! Deus está sempre acima de nosso raciocínio, “Pois meus pensamentos não são os vossos, e vosso modo de agir não é meu” diz o Senhor (Is 55,8). Por isso, onde menos O esperamos, onde O menos imaginamos, Ele aparece, comunicando-se conosco e convivendo conosco (Jo 1,14). “No meio de vós está quem vós não conheceis”, alerta-nos o evangelista João (Jo 1,26). Deus habita e está no homem e não nas paredes de um templo ou de uma igreja (cf. Mt 25,40.45). Os animais não questionam o sentido da vida, mas as pessoas sim, porque em cada um de nós há uma dimensão divina e somos imagem de Deus (Gn 1,26) que nos faz perguntar por que estamos vivos e para que estamos vivos? Nós somos homens com dimensão transcendente e por isso somos capazes de ir e de ver além da aparência. Deus quer encontrar seu povo onde este vive e atua.


A encarnação de Deus em um carpinteiro de Nazaré nos descobre que Deus não é um exibicionista que se oferece em espetáculo. Deus não é o Ser todo-poderoso que se impõe, mas propõe e convida. Podemos descobrir Deus nas experiências mais normais de nossa vida cotidiana: em nossas tristezas inexplicáveis, na felicidade insaciável, na solidão em busca da comunhão, em nosso amor frágil, mas apaixonante, na saudade de uma presença de quem se foi, mas que está presente fortemente na sua ausência, e nos sonhos de uma vida de paz e serenidade, na reconciliação por amor, nas perguntas mais profundas sobre a vida e seu sentido, em nosso pecado mais discreto, nas nossas decisões mais responsáveis, na nossa busca sincera do bem e da verdade, no nosso “bom dia, boa tarde, boa noite” endereçado para as pessoas para o seu bem, no nosso “obrigado” pelo bem que o outro fez por nós, no nosso agradecimento pelo novo dia que nos é dado por puro amor de Deus. Por isso, a raiz da incredulidade é precisamente esta incapacidade de acolher a manifestação de Deus no cotidiano. “Quem era Deus fez-se homem. Assumindo o que não era, mas sem perder o que era... Deixa, pois, que Ele te ajude a levantar-te pelo que tem de homem, que Ele te guie pelo que tem de Deus-homem e que Ele te conduza ao que tem de Deus” (Santo Agostinho: In Joan. 23,6). “Veio passar fome e dar fartura, ter sede e dar de beber, vestir-se de morte e revestir-se de imortalidade. Veio pobre para nos fazer ricos” (Santo Agostinho: In ps. 49,19).


O que necessitamos são de uns olhos mais limpos, simples e menos preocupados em possuir coisas e em ter poder. As coisas são meios e elas jamais são fim de nossa vida. As coisas continuam alheias a nós, pois não são nossos semelhantes (cf. Gn 2,20-23). Um ônibus é um meio que me leva até o centro da cidade, mas o ônibus não é o centro da cidade. O que necessitamos é uma atenção mais profunda e desperta para o mistério da vida que não consiste somente em ter “espírito observador” e sim em saber contemplar e acolher com simpatia as inumeráveis mensagens e chamadas que a mesma vida irradia permanentemente. Deus não está longe dos que O buscam. Deus está no centro de nossa vida. Deus nos visita (Lc 1,68; 7,16) como visitou seu povo em Nazaré que jamais ele abandonou. É preciso abrir a porta de nosso lar e de nosso coração para a visita do Senhor como a própria sinagoga em Nazaré aberta para o Senhor entrar nela e falar das coisas essenciais da vida para seu povo reunido nela.


Em Nazaré o povo ficou admirado pelo ensinamento de Jesus, mas ficou desiludido por causa de sua origem: “De onde é que este homem consegue tudo isso? De onde vem a sabedoria dele? Como é que faz esses milagres? Por acaso ele não é o carpinteiro, filho de Maria? Não é irmão de Tiago, José, Judas e Simão? As suas irmãs não moram aqui?
Por isso ficaram desiludidos com ele”
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Quando seus conterrâneos falam dele, não pronunciam seu nome. Eles o designam somente com pronomes depreciativos para sua pessoa e sua atividade (ele, este etc.). Os nazarenos, apesar de conhecer as Escrituras, não conseguiram recordar aquilo que Moises havia dito: “O Senhor, teu Deus, te suscitará dentre os teus irmãos um profeta como eu: a ele que deveis ouvir” (Dt 18,15). Os nazarenos não conseguiram captar a novidade de Deus em Jesus; não reconheceram nele o enviado de Deus. Somente são os discípulos que fazem a seguinte pergunta: “Quem é este?” (Mc 4,41), mas a multidão nunca e os nazarenos nem sequer  sonhavam uma pergunta semelhante, pois eles “sabiam” quem era Jesus: um artesão, o filho de Maria; conheciam seus parentes. Mas não quiseram ir além disso; eles ficaram presos em juízos puramente humanos; eles encontraram em Jesus um obstáculo para a fé. Não mudam de ângulo para ver outra parte da mesma realidade para encontrar a novidade. Tudo que se vê de um ângulo é apenas visto de um ângulo.


E Jesus “ficou admirado com a falta de fé que havia ali”.  O amor oferecido é recusado. Mas o amor não pode resignar-se diante da recusa. O amor continua a existir mesmo tendo a recusa, pois é eterno. “Deus é amor”, afirmou São João (1Jo 4,8.16). Diante dessa recusa, Jesus precisa ir a outras aldeias onde o amor é bem acolhido e vivido. Onde há o amor, todos são vistos como irmãos. Na falta de amor, todos viram rivais a ponto de se tornarem inimigos.


O evangelista Marcos acrescenta um provérbio citado por Jesus para explicar a incompreensão e a falta de fé de seus conterrâneos: “Um profeta é respeitado em toda parte, menos na sua terra, entre os seus parentes e na sua própria casa”. A fé não se adquire por ativismo ou por herança. A fé precede aos milagres, nunca ao contrário. Por isso, é inútil montar uma apologética para “provar” a divindade de Jesus partindo da existência de uns fatos superiores às forças da natureza. Quem vive sua vida profundamente e com muita consciência, quem leva seu ser a sério, não tem como não ter fé em Deus que está muito além da inteligência humana.


Exerçamos cuidadosa vigilância sobre nosso coração para que a incredulidade não faça sua moradia em nós. A raiz da incredulidade nunca é destruída totalmente. No nosso coração há possibilidade de ter um quarto onde mora um ateu. Basta que deixemos de vigiar e de orar, logo surgirá a incredulidade. Oração e vigilância são importantes para manter nosso coração humilde. O coração humilde, semelhante ao de uma criança, é o coração que crê.


Reconhecer em Jesus o Messias, o Ungido de Deus, não é fácil. Somente quem crê, O reconhece, aceita suas palavras e admira suas obras. Muitos olham sem ver e ouvem sem escutar. Cristo continua desconcertando: sua palavra escandaliza, sua mensagem gera oposição e sua vida e obras criam conflitos. Outros O conhecem, O aceitam e sua vida adquire um novo sentido. A fé madura caminha à descoberta e não evita as perguntas e a obscuridade. Hoje o Senhor nos pede mais fé n’Ele para realizar coisas que superam nossas possibilidades humanas.


Para Refletir:


“Ele não é o carpinteiro, filho de Maria?”


“Se o orgulho nos faz sair, a humildade nos faz entrar… Como o médico, depois de estabelecer um diagnóstico, trata o mal em causa, tu, cura a raiz do mal, cura o orgulho; então, já não haverá mal algum em ti. Para curar eu orgulho, o Filho de Deus se abaixou, se fez humilde. Por que tu te orgulhas? Para ti, Deus se fez humilde. Talvez tu tenhas vergonha de imitar a humildade do homem; imita pelo menos a humildade de Deus. O Filho de Deus se humilhou fazendo-se homem. Tu, homem, conhece que és homem. Toda sua humildade consiste em conhecer quem és.


Escuta a Deus que te ensina a humildade: ‘Eu desci do céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou’ (Jo 6,38). Ele, humilde, veio para ensinar a humildade, como Mestre de humildade. Aquele que vem a Mim se faz um comigo; se faz humilde. Quem se aderir a mim será humilde. Não fará sua vontade e sim a vontade de Deus. E não será tirado fora (Jo 6,37), como quando era orgulhoso”. (Santo Agostinho [354-430] bispo de Hipona)


P. Vitus Gustama,svd