sábado, 27 de fevereiro de 2016

29/02/2016


FÉ NO DEUS QUE SE ENCONTRA NO NOSSO COTIDIANO


Segunda-Feira da III Semana da Quaresma


Primeira Leitura: 2Rs 5,1-15


Naqueles dias, 1Naamã, general do exército do rei da Síria, era um homem muito estimado e considerado pelo seu senhor, pois foi por meio dele que o Senhor concedeu a vitória aos arameus. Mas esse homem, valente guerreiro, era leproso. 2Ora, um bando de arameus que tinha saído da Síria, tinha levado cativa uma moça do país de Israel. Ela ficou a serviço da mulher de Naamã. 3Disse ela à sua senhora: “Ah, se meu senhor se apresentasse ao profeta que reside em Samaria, sem dúvida, ele o livraria da lepra de que padece!” 4Naamã foi então informar o seu senhor: “Uma moça do país de Israel disse isto e isto”. 5Disse-lhe o rei Aram: “Vai, que eu enviarei uma carta ao rei de Israel”. Naamã partiu, levando consigo dez talentos de prata, seis mil siclos de ouro e dez mudas de roupa. 6E entregou ao rei de Israel a carta, que dizia: “Quando receberes esta carta, saberás que eu te enviei Naamã, meu servo, para que o cures de sua lepra”. 7O rei de Israel, tendo lido a carta, rasgou suas vestes e disse: “Sou Deus, porventura, que possa dar a morte e a vida, para que este me mande um homem para curá-lo de lepra? Vê-se bem que ele busca pretexto contra mim”. 8Quando Eliseu, o homem de Deus, soube que o rei de Israel havia rasgado as vestes, mandou dizer-lhe: “Por que rasgaste tuas vestes? Que ele venha a mim, para que saibas que há um profeta em Israel”. 9Então Naamã chegou com seus cavalos e carros, e parou à porta da casa de Eliseu. 10Eliseu mandou um mensageiro para lhe dizer: “Vai, lava-te sete vezes no Jordão, e tua carne será curada e ficarás limpo”. 11Naamã, irritado, foi-se embora, dizendo: “Eu pensava que ele sairia para me receber e que, de pé, invocaria o nome do Senhor, seu Deus, e que tocaria com sua mão o lugar da lepra e me curaria. 12Será que os rios de Damasco, o Abana e o Fartar, não são melhores do que todas as águas de Israel, para eu me banhar nelas e ficar limpo?” Deu meia-volta e partiu indignado. 13Mas seus servos aproximaram-se dele e disseram-lhe: “Senhor, se o profeta te mandasse fazer uma coisa difícil, não a terias feito? Quanto mais agora que ele te disse: ‘Lava-te e ficarás limpo”’. 14Então ele desceu e mergulhou sete vezes no Jordão, conforme o homem de Deus tinha mandado, e sua carne tornou-se semelhante à de uma criancinha, e ele ficou purificado. 15aEm seguida, voltou com toda a sua comitiva para junto do homem de Deus. Ao chegar, apresentou-se diante dele e disse: “Agora estou convencido de que não há outro Deus em toda terra, senão o que há em Israel!”


Evangelho: Lc 4,24-30


Jesus, vindo a Nazaré, disse ao povo na sinagoga: 24Em verdade eu vos digo que nenhum profeta é bem recebido em sua pátria. 25De fato, eu vos digo: no tempo do profeta Elias, quando não choveu durante três anos e seis meses e houve grande fome em toda a região, havia muitas viúvas em Israel. 26No entanto, a nenhuma delas foi enviado Elias, senão a uma viúva em Sarepta, na Sidônia. 27E no tempo do profeta Eliseu, havia muitos leprosos em Israel. Contudo, nenhum deles foi curado, mas sim Naamã, o sírio”. 28Quando ouviram estas palavras de Jesus, todos na sinagoga ficaram furiosos. 29Levantaram-se e o expulsaram da cidade. Levaram-no até o alto do monte sobre o qual a cidade estava construída, com a intenção de lançá-lo no precipício. 30Jesus, porém, passando pelo meio deles, continuou o seu caminho.
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Deus Se Encontra No Nosso Cotidiano Com o Aspecto Humano


Estamos nos começos da atividade pública de Jesus na versão de Lucas. O autor nos apresenta Jesus como o Messias no qual se cumprem todas as promessas do Antigo Testamento (Lc 4,21).


O texto do evangelho de hoje nos narra que Jesus se encontra novamente em sua terra, Nazaré, e se apresenta aos seus conterrâneos numa Sinagoga no dia de Sábado. Ele veio a Nazaré para dizer-lhes que com sua vinda ao mundo se inaugurou a salvação que o profeta Isaias profetizava (Is 61,1-2). Mas com isso, o evangelista Lucas adverte que as palavras de Jesus, mesmo que sejam palavras cheias da graça de Deus que causam até a admiração dos próprios nazarenos (Lc 4,22), encontram dificuldade para entrar no coração de seus conterrâneos. A razão dessa recusa é o conhecimento que os nazarenos têm sobre Jesus e sua família em Nazaré. E por isso, é difícil para os nazarenos acreditarem naquilo que Jesus prega na sinagoga: “Não é este o filho de José?” (Lc 4,22). Os nazarenos não podiam compreender que um carpinteiro fosse um enviado de Deus, muito menos o Messias. Os nazarenos pensam que o verdadeiramente grande e divino deve estar bastante distante da vida cotidiana dos homens.


A vida cotidiana não se deixa inquietar pelo extraordinário, inclusive a busca do extraordinário, a caça dos milagres ameaça aquilo que tem o aspecto cotidiano onde Deus se revela e deixa Seu recado para cada pessoa humana. Muitos correm atrás dos famosos e sabem de tudo sobre sua vida até nos seus detalhes. Muitos vão ao encontro dos ídolos e os defendem, até são capazes de morrer por eles. Muitas vezes queremos ver nos famosos ou ídolos aquilo que nós mesmos não conseguimos alcançar ou realizar. Muitos querem se identificar com eles e não querem tirar deles algo positivo para a própria vida. Os que correm atrás dos famosos e dos ídolos acabam não vivendo a própria vida. Se eu não viver minha vida quem é que vai vivê-la? Se eu não melhorar a minha vida, quem é que vai melhorá-la? Se eu não viver o meu hoje na sua profundidade, quando é que vou começar a viver? Os outros podem me ajudar naquilo que são capazes de fazer, mas nunca na minha vida em sua totalidade. O mundo é uma projeção de nossa psique individual coletada numa tela global. O mundo é ferido ou curado em função de cada ato e pensamento que tivermos. Se eu me recusar a encarar os problemas mais profundos que me impedem de fazer as coisas, o mundo também ficará impedido de evoluir. Se eu avançar na melhoria do meu empenho para o bem de todos, será minha ajuda para mudar ou melhorar o mundo.


Devemos estar conscientes de que o essencial para nossa vida, infelizmente, está no aspecto cotidiano da vida que os olhos têm dificuldade para enxergar. A razão desconhece aquilo que o coração sente. Esta é uma das mensagens que Deus quer nos transmitir através de Sua encarnação. Quem diria que o Salvador do mundo pudesse nascer de uma mulher comum e de um lugar desconhecido como Nazaré? Como é bom termos os olhos de Deus para perceber e captar Sua presença na cotidianidade da vida. Como é bom termos o coração de Isabel para sentir a presença do Senhor que está em Maria (Lc 1,41-45). Como é bom termos os olhos de Simeão e da profetiza Ana que enxergam facilmente a presença d’Aquele que traz a salvação para o mundo numa criança recém-nascida (Lc 2,29-32). Como é bom termos a simplicidade dos pastores de Belém que vão com pressa ao encontro do Salvador recém-nascido depois que ouviram a mensagem do Anjo do Senhor (Lc 2,8-18). Como é bom termos a intuição do discípulo amado que logo percebe a presença do Senhor ressuscitado (Jo 21,7). Quem enxerga a presença de Deus na vida cotidiana é uma pessoa feliz e nunca será mais a mesma pessoa. Santo Agostinho dizia: “Cristo se fez temporal para que tu sejas eterno. Tu te fizeste temporal pelo pecado. Ele se fez temporal para perdoar-te o pecado” (In epist. Joan. 2,10). “A Palavra que era Deus antes do tempo, fez-se carne ao chegar o tempo” (Serm. 187,1,1). “Dignou-se partilhar nossa mortalidade para que nós pudéssemos participar de sua divindade” (In ps. 118,19,6).


Em Nazaré os conterrâneos de Jesus exigem que Jesus faça também milagres no meio deles. Mas nenhum milagre acontece. Exigir de Deus um milagre significa querer impor a Deus nossa vontade e nos esquecermos de que o milagre é um dom livre da parte de Deus. A que exige milagres não é a verdadeira . A exige total superação do plano meramente humano (cf. Lc 8,21). Se faltar isso, torna-se difícil a prática da obediência cristã. Se vivermos realmente de acordo com a Palavra de Deus nós vamos encontrar muitas surpresas boas para nossa vida, pois “a é a antecipação daquilo que se espera” (Hb 11,1).


A expressão de Jesus “Nenhum profeta é bem recebido em sua pátrianos lembra quanto somos rebeldes em aceitar que alguém de nosso meio, cujas “virtudes e milagres” cremos conhecer, se torne juiz de nossa ação, mesmo que seja em nome de Deus. É preciso ter sinceridade em distinguir entre quem fala e o que se fala. Se naquilo que se fala contém a verdade, precisamos reconhecer esta verdade independentemente de quem fala. “Observai e fazei tudo o que eles dizem, mas não façais como eles, pois dizem e não fazem”, recorda-nos Jesus (Mt 23,3).


A Verdadeira Fé Nos Purifica e Ilumina Nossos Passos


Se os nazarenos, que fazem parte do Povo eleito, recusam a presença de um profeta na pessoa de Jesus, a primeira leitura nos apresenta um homem pagão, Naamã, que acredita na Palavra de Deus através da boca do profeta Eliseu.


Naamã era chefe do exército do Rei de Síria, guerreiro forte e valente, de um país pagão em constante guerra com Israel. Mas agora está sofrendo de lepra. E sabemos muito bem que quando uma pessoa sofre, não se pergunta por sua religião ou crença. Geralmente, a dor, o sofrimento une as pessoas e desparecem as diferenças religiosas, culturais, política ou ideológicas. O sofrimento clama uma ajuda de quem for. Neste momento pode se saber até que ponto alguém tem compaixão e solidariedade. A dor , o sofrimento nos humaniza e nos torna irmãos para os que sofrem, potencia nossa compaixão, isto é, a capacidade de sentir-se com o outro. Aquele que não sente a dor alheia desumaniza-se, torna-se seco, sem vida. Aquele que não tem sensibilidade humana (a não ser por causa da doença) é uma pessoa mais violenta. A violência parte de quem não tem sensibilidade humana, de quem é incapaz de se colocar no lugar do outro.


Uma jovem judia levada como escrava que não guarda rancor ou mágoa oferece ajuda: “Ah, meu senhor, se se apresentasse ao profeta que reside em Samaria, sem dúvida ele o livraria da lepra de que padece”. Essa jovem representa uma pessoa que ama sem fronteiras e sem exceção. Apesar de ela sofrer a escravidão, seu amor pelo seu patrão Naamã que padece de lepra não diminui. Este verdadeiro amor faz com que ela ofereça ajuda. O amor torna qualquer um mais humano e por isso, mais divino, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16).


A lei do amor abrange e orienta todo comportamento humano. Jesus fez do amor o sinal característico de seus discípulos (cf. Jo 13,35: 15,12). Juntar as mãos para rezar é bom; abri-las para ajudar os outros é melhor. Por isso, todas as manhãs de nossa vida nós devemos nos perguntar: o que posso fazer de bom hoje para os outros?


Naamã é um homem cheio de esperança e aceitou o conselho e foi procurar o profeta Eliseu. A necessidade nos obriga a mudar de vida na sua maneira de vive-la. Geralmente, mudamos, principalmente por duas razoes: ou sofremos demais na vida ou aprendemos muito na vida. Quando sofremos muito na vida acabamos consertando nossa maneira de ver a vida, as pessoas e todos os acontecimentos na vida. Mudamos também porque aprendemos muito. O fruto de nossa aprendizagem é a mudança de mentalidade que leva à mudança de vida (maneira de viver).


Ao obedecer às palavras do profeta para se purificar no rio Jordão Naamã voltou curado. Não é o gesto de ir algumas vezes ao rio Jordão é que conta, e sim a atitude interior de Naamã que se chama fé e a entrega total à vontade de Deus.A fé, que recebemos de Deus como dom sobrenatural, aparece-nos como luz para a estrada orientando os nossos passos no tempo. Por um lado, provém do passado: é a luz duma memória basilar — a da vida de Jesus –, onde o seu amor se manifestou plenamente fiável, capaz de vencer a morte. Mas, por outro lado e ao mesmo tempo, dado que Cristo ressuscitou e nos atrai de além da morte, a fé é luz que vem do futuro, que descerra diante de nós horizontes grandes e nos leva a ultrapassar o nosso ´eu´ isolado abrindo-o à amplitude da comunhão. Deste modo, compreendemos que a fé não mora na escuridão, mas é uma luz para as nossas trevas... Na fé, dom de Deus e virtude sobrenatural por Ele infundida, reconhecemos que um grande Amor nos foi oferecido, que uma Palavra estupenda nos foi dirigida: acolhendo esta Palavra que é Jesus Cristo — Palavra encarnada –, o Espírito Santo transforma-nos, ilumina o caminho do futuro e faz crescer em nós as asas da esperança para o percorrermos com alegria. Fé, esperança e caridade constituem, numa interligação admirável, o dinamismo da vida cristã rumo à plena comunhão com Deus.” (Papa Francisco: carta encíclica Lumen Fidei n.4.7). Com efeito, uma pessoa cuja vida não é sustentada e iluminada pela esperança é uma pessoa desamparada e sem ponto de apoio.


A fé liberta e salva. A fé faz alguém caminhar na direção de Deus e na direção do bem que deve ser feito em favor dos demais homens. Tenhamos fé firme em Deus e saibamos esperar que, nas circunstancias difíceis, Deus nos mostre o que devemos dizer e fazer. “Tenhamos a absoluta confiança de que, sendo fieis, a vontade de Deus se fará, não somente apesar dos obstáculos, mas graças a esses mesmos obstáculos” (Charles de Foucauld). E “deixemos Deus conduzir a nossa pequena embarcação; se ela Lhe for útil, Ele a preservará do naufrágio” (São Vicente de Paula).


Além disso, para quem tem fé precisa ter muita humildade para voltar-se a Deus a fim de receber d’Ele a cura dos males a exemplo do General Naamã. A humildade nos aproxima mais das pessoas e de Deus. A humildade nos faz mais irmãos e mais humanos. Mantenhamos humildes, como General Naamã, pois uma salvação pode ser recebida através de instrumentos simples e insignificantes como a escrava judia que ajudou seu patrão, General Naamã para sair de seu problema. “Observa a arvore. A fim de crescer para cima, primeiro cresce para baixo. Primeiro, finca sua raiz na humildade da terra para depois lançar suas grimpas ao alto do céu” (Santo Agostinho: Serm. 117,17).


A fé, enquanto ligada à conversão, é o contrário da idolatria: é separação dos ídolos para voltar ao Deus vivo, através de um encontro pessoal. Acreditar significa confiar-se a um amor misericordioso que sempre acolhe e perdoa, que sustenta e guia a existência, que se mostra poderoso na sua capacidade de endireitar os desvios da nossa história. A fé consiste na disponibilidade a deixar-se incessantemente transformar pela chamada de Deus. Paradoxalmente, neste voltar-se continuamente para o Senhor, o homem encontra uma estrada segura que o liberta do movimento dispersivo a que o sujeitam os ídolos”, escreveu o Papa Francisco (Lumen Fidei, Carta Enciclica n.13).

P. Vitus Gustama,svd

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Domingo,28/02/2016



CONVERSÃO: VOLTAR A PRODUZIR BONS FRUTOS PARA A HUMANIDADE


III DOMINGO DA QUARESMA DO ANO “C”

I Leitura: Êx 3,1-8a.13-15

Naqueles dias, 1Moisés apascentava o rebanho de Jetro, seu sogro, sacerdote de Madiã. Levou, um dia, o rebanho deserto adentro e chegou ao monte de Deus, o Horeb. 2Apareceu-lhe o anjo do Senhor numa chama de fogo, do meio de uma sarça. Moisés notou que a sarça estava em chamas, mas não se consumia, e disse consigo: 3“Vou aproximar-me desta visão extraordinária, para ver por que a sarça não se consome”. 4O Senhor viu que Moisés se aproximava para observar e chamou-o do meio da sarça, dizendo: “Moisés! Moisés!” Ele respondeu: “Aqui estou”. 5E Deus disse: “Não te aproximes! Tira as sandálias dos pés, porque o lugar onde estás é uma terra santa”. 6E acrescentou: “Eu sou o Deus de teus pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó”. Moisés cobriu o rosto, pois temia olhar para Deus. 7E o Senhor lhe disse: “Eu vi a aflição do meu povo que está no Egito e ouvi o seu clamor por causa da dureza de seus opressores. Sim, conheço os seus sofrimentos. 8aDesci para libertá-los das mãos dos egípcios, e fazê-los sair daquele país para uma terra boa e espaçosa, uma terra onde corre leite e mel”. 13Moisés disse a Deus: “Sim, eu irei aos filhos de Israel e lhes direi: ‘O Deus de vossos pais enviou-me a vós’. Mas, se eles perguntarem: ‘Qual é o seu nome?’, o que lhes devo responder?” 14Deus disse a Moisés: “Eu Sou aquele que sou”. E acrescentou: “Assim responderás aos filhos de Israel: ‘Eu Sou’ enviou-me a vós’”.15E Deus disse ainda a Moisés: “Assim dirás aos filhos de Israel: ‘O Senhor, o Deus de vossos Pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó enviou-me a vós’. Este é o meu nome para sempre, e assim serei lembrado de geração em geração”.

II Leitura: 1Cor 10,1-6.10-12

1Irmãos, não quero que ignoreis o seguinte: Os nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem e todos passaram pelo mar; 2todos foram batizados em Moisés, sob a nuvem e pelo mar; 3e todos comeram do mesmo alimento espiritual, 4e todos beberam da mesma bebida espiritual; de fato, bebiam de um rochedo espiritual que os acompanhava — e esse rochedo era Cristo —.  5No entanto, a maior parte deles desagradou a Deus, pois morreram e ficaram no deserto.  6Esses fatos aconteceram para serem exemplos para nós, a fim de que não desejemos coisas más, como fizeram aqueles no deserto. 10Não murmureis, como alguns deles murmuraram, e, por isso, foram mortos pelo anjo exterminador. 12Portanto, quem julga estar de pé tome cuidado para não cair.

Evangelho: Lc 13,1-9

1Naquele tempo, vieram algumas pessoas trazendo notícias a Jesus a respeito dos galileus que Pilatos tinha matado, misturando seu sangue com o dos sacrifícios que ofereciam. 2Jesus lhes respondeu: “Vós pensais que esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus, por terem sofrido tal coisa? 3Eu vos digo que não. Mas se vós não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo. 4E aqueles dezoito que morreram, quando a torre de Siloé caiu sobre eles? Pensais que eram mais culpados do que todos os outros moradores de Jerusalém? 5Eu vos digo que não. Mas, se não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo”. 6E Jesus contou esta parábola: “Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha. Foi até ela procurar figos e não encontrou. 7Então disse ao vinhateiro: ‘Já faz três anos que venho procurando figos nesta figueira e nada encontro. Corta-a! Por que está ela inutilizando a terra?’ 8Ele, porém, respondeu: ‘Senhor, deixa a figueira ainda este ano. Vou cavar em volta dela e colocar adubo. 9Pode ser que venha a dar fruto. Se não der, então tu a cortarás’”.
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Os Terceiro, Quarto e Quinto Domingo formam a segunda parte da Quaresma. Em cada ano litúrgico, esta segunda parte tem um tom próprio marcado pelos evangelhos que são lidos nestes domingos. Para o Ano litúrgico “C” a ênfase é a conversão e a misericórdia de Deus. Dentro deste tema, o evangelho deste Terceiro Domingo apresenta, com muita exigência, a necessidade da conversão. Nos próximos domingos, o filho pródigo e a mulher pecadora, os textos nos apresentarão, a partir das perspectivas distintas, a misericórdia de Deus e também a misericórdia que devemos viver na convivência com os irmãos.

Entre Culpa e Sofrimento: Teologia De Retribuição

Os dois acidentes relatados no evangelho lido neste dia são exclusivos do evangelho de Lucas. O episódio do massacre relatado neste evangelho comandado por Pilatos é ignorado pelas fontes profanas durante a administração de Pilatos (de 26-36 d. C). José Flávio, o grande historiador judeu, relata somente um massacre comandado por Pilatos em 35 d. C. por ocasião de uma romaria de samaritanos ao monte Garizim, por suspeita de um complô contra o domínio romano; gesto que para Pilatos valeu a destituição do cargo e o exílio para as Gálias. Enquanto os sacrifícios devem ser feitos somente em Jerusalém. Também o segundo episódio não é confirmado pelos documentos profanos.

Os que relatam os dois acontecimentos acima mencionados a Jesus querem provocar o juízo e uma tomada de posição de Jesus. Jesus dá uma resposta que aparentemente ignora estes problemas. Jesus contesta o sistema farisaico e o conseqüente preconceito religioso popular que estabeleceu uma perfeita equação entre o pecado e o castigo, e que no caso presente chegava a esta conclusão: nós somos justos porque não merecemos esse fim horrível.

 “Vós pensais que esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus, por terem sofrido tal coisa? Eu vos digo que não. Mas se vós não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo”. Esta é a resposta de Jesus para os que relataram os dois acontecimentos.  Com essa afirmação Jesus vai contra uma idéia muito presente no seu tempo, segundo a qual doença, infortúnio, pobreza são conseqüências das faltas cometidas por quem sofre essas situações. Em outras palavras, ele é contra o dogma de retribuição dos fariseus que diz que o destino de um homem está intimamente relacionado com a sua culpa diante de Deus. O homem não pode encaixar a ação de Deus nos esquemas preestabelecidos para seu próprio privilégio e prestígio e se transformar em contador de Deus.

Existem, hoje, vários níveis de interligação de sofrimento com culpa. Muita gente hoje em dia ainda se parece com os fariseus que mantém o sistema ou o dogma de retribuição. Alguém como que temendo por causa de culpa impessoal, coletiva e inconsciente, refugia-se sob a suposta proteção de um rito. Diante da ameaça de um raio, por exemplo, benze-se com o sinal da cruz. Para essas pessoas será útil saber que nenhum rito nos protege perante Deus se o coração continua habitado pelo pecado. Evidentemente, quem vive em disposição constante perante Deus, pode em momento de perigo significar por um sinal da cruz o seu constante abandono na misericórdia de Deus. Sem esta atitude, o rito é vazio e desonra a Deus.

Jesus quer nos libertar dessa concepção que por um lado, impede-nos de enfrentar as verdadeiras causas dos males que ocorrem conosco ou na sociedade, remetendo-os a demônio para desviar alguém da própria responsabilidade ou a uma espécie de fatalidade que nos leva a nos afundarmos na passividade. Por outro lado, Jesus quer nos apresentar a imagem do Deus de amor e de vida e não de um Deus de castigo.  Pecar é não dar fruto, não produz nada pelo bem da humanidade ou dos outros. Esta é a mensagem da parábola da figueira estéril. Esse Deus que Jesus nos apresenta espera com paciência, até o último minuto de nossa vida, os bons frutos que produzimos.

Ser Cristão É Ser Convertido Permanentemente

 Se não vos converterdes, perecereis todos do mesmo modo”.

A conversão é polivalente. Conversão é procurar o bem em vez do mal (Is 1,17; Am 5,14s); inclinar o seu coração para Javé (Josué 24,23); a circuncisão do coração (Dt 10,16; Jr 4,4); buscar Javé (Am 5,4; Os 10,12); firmar em Deus o coração (1Sm 7,3) e assim por diante. O hebraico usa a palavra “sub” que pode significar tanto “averter-se” do mal, como “converter-se” para Deus. É mudança moral para melhor. É afastar-se do que é mau e voltar-se para Deus. Nisto se define o essencial da conversão que implica numa mudança de conduta, uma nova orientação de todo o comportamento.

No AT a conversão é vista como uma mudança moral pela qual o homem renuncia à sua conduta anterior a fim de voltar-se para Deus em função de cumprimento de Sua vontade.

No NT tanto João Batista como Jesus começam suas pregações  com a chamada à conversão motivada pela proximidade do Reino de Deus (Mt 3,2; 4,17). No NT a palavra grega “metanoia” não tem aqui o sentido de arrepender-se ou de fazer penitencia e sim de uma reviravolta interna que tem suas consequências para todos os campos da ação humana.

Em sentido geral, então, a conversão indica mudança de vida; deixar o comportamento habitual de antes para empreender outro novo; prescindir da busca egoísta de si mesmo para colocar-se a serviço do Senhor. Conversão é toda decisão ou inovação que de alguma forma nos aproxima da vida divina, nos torna mais conformes a ela e nos tornamos mais irmãos com os demais.

Biblicamente, a noção básica da conversão é a mudança. Envolve voltar-se do pecado, da morte e das trevas para a graça, a nova vida e luz. A ação dual de voltar-se sempre leva a pessoa a um novo nível de existência humana. É uma mudança total do próprio modo de pensar e de agir, uma renovação total e integral do eu. É um abandono total em Deus. Somente abandonando-se a Deus a ponto de se deixar transformar inteiramente por Ele e permanecer amistosamente abraçado com Ele, é possível esperar ser salvo.

O móvel da conversão não é tanto a ameaça de castigo ou de perder a salvação, quanto a fascinação de penetrar na vida do amor trinitário divino. A conversão conduz as pessoas juntas à maturidade espiritual, que se reflete em sua aversão ao mal e sua atração pelo bem. Um aspecto da conversão específico do NT é estar intimamente ligado à pessoa de Jesus Cristo, em quem o Reino se realiza. A conversão é realidade cristológica. É a união com o corpo de Cristo e íntimo conhecimento pessoal de Jesus Cristo como Senhor ressuscitado e Salvador. Esta conversão total não pode ser obra do homem; é tarefa que supõe dom e graça com a resposta positiva da parte do homem. Só pode realizar-se como participação do mistério pascal de Cristo. A conversão somente se realiza na fé; propõe-se como resposta ao chamado de Deus, como correspondência à graça redentora.

Embora a conversão seja experiência individual, o entendimento bíblico é que é sempre relacional. Esta relação é bidirecional, sendo vertical e horizontal. A conversão nos leva a um novo relacionamento com Deus e com outros seres humanos. No AT, o relacionamento da aliança com Deus é essencial e, no NT, o relacionamento com Jesus Cristo é primordial. Mas ambos levam a novos inter-relacionamentos humanos com responsabilidades e privilégios na comunidade. Por isso, o chamado bíblico à conversão é apropriadamente dirigido a comunidades e não simplesmente a indivíduos.

A conversão também envolve mudanças internas (de atitude) e externas (comportamentais) na vida. A autêntica conversão cristã nunca está separada de ações concretas que espelham a realidade interior mudada. Assim, a conversão sempre leva a algum aspecto de responsabilidade e justiça sociais.

Além disso, o efeito proeminente da conversão é o impulso de dar testemunho aos outros e, conseqüentemente, evangelizar. Como a conversão é, tantas vezes, uma profunda mudança existencial na vida, é natural que as pessoas tenham o impulso de difundir a “Boa Nova”. De certa forma, podemos dizer que a evangelização é definitivamente o resultado da conversão, mas precisa ser vista na perspectiva apropriada da mensagem total da constante conversão para todos. A conversão não é uma “carreira” acabada e sim inacabada. Trata-se de um trabalho silencioso de cada dia. Ninguém é convertido definitivamente enquanto estiver ainda na história.

A conversão é crescimento contínuo; não é um acontecimento instantâneo, pontual e de uma vez por todas; não é uma carreira acabada, mas que constitui um crescimento sem interrupção e ascendente. Por mais decidida que seja a entrega de um cristão ao Reino, ela tenderá sempre a ser precária. De um coração convertido aos valores do Reino e do Evangelho se seguirão naturalmente os frutos visíveis de uma conversão que atinge a realidade da vida.

Converter-se Para produzir Frutos Bons Para a Humanidade

Jesus também conta a parábola da figueira infértil. No século V antes de Cristo tinha uma estória de Aquicar que contém uma advertência: “Meu filho, você é como a árvore que não deu fruto nenhum, ainda que estivesse às margens das águas, e o seu dono se viu obrigado a abatê-la. E ele lhe disse: Transplante-me e, se eu mesmo assim não der nenhum fruto, então corte-me. Mas o seu senhor lhe disse: Quando você estava às margens das águas, não deu nenhum fruto, como você  quer dar fruto, se estiver em outro lugar?” (Joaquim Jeremias).

Jesus usa desta narrativa popular (que tem várias versões), porém ele dá outra conclusão: que o pedido é atendido. Com isso, Jesus quer falar da misericórdia de Deus que sempre perdoa e dá nova oportunidade. A misericórdia de Deus sempre suspende qualquer castigo como consequência lógica de determinada opção feita por homem desde que o homem se converta. “Precisamos sempre contemplar o mistério da misericórdia. É fonte de alegria, serenidade e paz. É condição da nossa salvação. Misericórdia: é a palavra que revela o mistério da Santíssima Trindade. Misericórdia: é o ato último e supremo pelo qual Deus vem ao nosso encontro. Misericórdia: é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida. Misericórdia: é o caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado”, escreveu o Papa Francisco na sua Bula Misericordiae Vultus (n.2).       

Para os ouvintes de Jesus era familiar a imagem da figueira infértil, para indicar o comportamento infiel do povo de Deus (cf. Jr 8,13; Mq 7,1). Mas esta imagem é atual ainda. A parábola da figueira estéril revela-nos um Deus paciente e bondoso conosco. Mas ele é paciente para esperar que produzamos bons frutos para o Seu Reino. Mas devemos estar conscientes de que o tempo da graça que Deus nos concede é irrevogavelmente o último. Um dia a porta estará fechada quando não prestarmos atenção para o bem que devemos praticar ou produzir. É a lição de outra parábola sobre o rico e Lázaro (cf. Lc 16,19-31-veja a reflexão da Quinta-feira da II Semana da Quaresma).

Resta-nos perguntarmos: Que tipos de frutos estamos/estou produzindo? Esta figueira que Jesus fala é cada um de nós, nossa família, a Igreja e a sociedade. Que frutos de fraternidade nós produzimos? A figueira estéril que Jesus fala não está longe de nós. Quem sabe se não está dentro de nós, na nossa família, na nossa comunidade? Será que sou eu esta figueira estéril ou infértil?

P. Vitus Gustama,svd

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

27/02/2016




MISERICÓRDIA É O NOME DE NOSSO DEUS


Sábado da II Semana da Quaresma


Primeira Leitura: Mq 7,14-15.18-20


14 Apascenta o teu povo com o cajado da autoridade, o rebanho de tua propriedade, os habitantes dispersos pela mata e pelos campos cultivados; que eles desfrutem a terra de Basã e de Galaad, como nos velhos tempos.15 E, como foi nos dias em que nos fizeste sair do Egito, faze-nos ver novos prodígios. 18 Qual Deus existe, como tu, que apagas a iniquidade e esqueces o pecado daqueles que são resto de tua propriedade? Ele não guarda rancor para sempre, o que ama é a misericórdia. 19 Voltará a compadecer-se de nós, esquecerá nossas iniquidades e lançará ao fundo do mar todos os nossos pecados. 20 Tu manterás fidelidade a Jacó e terás compaixão de Abraão, como juraste a nossos pais, desde tempos remotos.


Evangelho: Lc 15,1-3.11-32


Naquele tempo, 1os publicanos e pecadores aproximavam-se de Jesus para o escutar. 2Os fariseus, porém, e os mestres da Lei criticavam Jesus: “Este homem acolhe os pecadores e faz refeição com eles”. 3Então Jesus contou-lhes esta parábola: 11Um homem tinha dois filhos. 12O filho mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me cabe’. E o pai dividiu os bens entre eles. 13Poucos dias depois, o filho mais novo juntou o que era seu e partiu para um lugar distante. E ali esbanjou tudo numa vida desenfreada. 14Quando tinha gasto tudo o que possuía, houve uma grande fome naquela região, e ele começou a passar necessidade. 15Então foi pedir trabalho a um homem do lugar, que o mandou para seu campo cuidar dos porcos. 16O rapaz queira matar a fome com a comida que os porcos comiam, mas nem isto lhe davam. 17Então caiu em si e disse: ‘Quantos empregados do meu pai têm pão com fartura, e eu aqui, morrendo de fome’. 18Vou-me embora, vou voltar para meu pai e dizer-lhe: ‘Pai, pequei contra Deus e contra ti; 19 não mereço ser chamado teu filho. Trata-me como a um dos teus empregados’. 20Então ele partiu e voltou para seu pai. Quando ainda estava longe, seu pai o avistou e sentiu compaixão. Correu-lhe ao encontro, abraçou-o e cobriu-o de beijos. 21O filho, então, lhe disse: ‘Pai, pequei contra Deus e contra ti. não mereço ser chamado teu filho’. 22Mas o pai disse aos empregados: ‘Trazei depressa a melhor túnica para vestir meu filho. E colocai um anel no seu dedo e sandálias nos pés. 23Trazei um novilho gordo e matai-o. Vamos fazer um banquete. 24Porque este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado’. E começaram a festa.25O filho mais velho estava no campo. Ao voltar, perto de casa, ouviu música e barulho de dança. 26Então chamou um dos criados e perguntou o que estava acontecendo. 27O criado respondeu: ‘É teu irmão que voltou. Teu pai matou o novilho gordo, porque o recuperou com saúde’. 28Mas ele ficou com raiva e não queria entrar. O pai, saindo, insistia com ele. 29Ele, porém, respondeu ao pai: ‘Eu trabalho para ti há tantos anos, jamais desobedeci a qualquer ordem tua. E tu nunca me deste um cabrito para eu festejar com meus amigos. 30Quando chegou esse teu filho, que esbanjou teus bens com prostitutas, matas para ele o novilho cevado’. 31Então o pai lhe disse: ‘Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. 32Mas era preciso festejar e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido, e foi encontrado”’.
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O texto do Evangelho de hoje será lido e refletido no IV Domingo da Quaresma do Ano C.
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O evangelho de hoje fala da misericórdia de Deus. Misericórdia é um dos temas preferidos do evangelista Lucas. No AT lemos: “Sejam santos porque Deus é santo” (cf. Lv 20,7). O evangelista Mateus diz: “Sejam perfeitos como o Pai celeste é perfeito” (Mt 5,48). E o evangelista Lucas diz: “Sejam misericordiosos como o Pai de vocês é misericordioso” (Lc 6,36). Conforme o evangelista Lucas para ser santo, para ser perfeito só há um caminho: ser misericordioso. Na Bula Misericordiae Vultus, bula de proclamação do jubileu extraordinário da misericórdia, Papa Francisco nos recorda: “Na Sagrada Escritura, como se vê, a misericórdia é a palavra-chave para indicar o agir de Deus para conosco. Ele não Se limita a afirmar o seu amor, mas torna-o visível e palpável. Aliás, o amor nunca poderia ser uma palavra abstrata. Por sua própria natureza, é vida concreta: intenções, atitudes, comportamentos que se verificam na atividade de todos os dias. A misericórdia de Deus é a sua responsabilidade por nós. Ele sente-Se responsável, isto é, deseja o nosso bem e quer ver-nos felizes, cheios de alegria e serenos. E, em sintonia com isto, se deve orientar o amor misericordioso dos cristãos. Tal como ama o Pai, assim também amam os filhos. Tal como Ele é misericordioso, assim somos chamados também nós a ser misericordiosos uns para com os outros” (n.9d). Trata-se de um amor misericordioso que ama até quem não merece ser amado. Mas pelo fato de que todos são filhos e filhas do Pai do céu, Deus jamais ficaria desistente em amar e perdoar cada filho e filha, e por isso, “Esse amor misericordioso é capaz de curvar-se ante o filho pródigo, ante a miséria humana e, sobretudo, ante a miséria moral, ante o pecado. A misericórdia se manifesta em seu aspecto verdadeiro e próprio quando valoriza, promove e explicita o bem em todas as formas de mal existente no mundo e no homem” (João PauloII: Dives in misericordia, no.6). Sobre a importância da misericórdia, São Tiago nos alerta: “O julgamento será sem misericórdia para aquele que não pratica a misericórdia. A misericórdia, porém, desdenha o julgamento” (Tg 2,13).


O Deus que Lucas nos apresenta através do evangelho de hoje é um Deus de bondade e de misericórdia, que detesta o pecado, mas ama o pecador. Ele não pactua com o pecado, mas está ao lado do pecador e manifesta uma misericórdia infinita para com o pecador arrependido. O amor de Deus pelo homem é um amor essencialmente misericordioso, o amor “uterino”, o amor entranhável, pois é dado a alguém que se tornou indigno, pela soberba, pela desobediência, pela ingratidão, pelos pecados, pela maldade, pela rebelião. E Deus ama o homem a ponto de fazer-se homem em Jesus Cristo: ele veio para o nosso meio, viveu como nós e ofereceu sua vida por nós. Ele nasceu nosso nascimento, viveu nossa vida, experimentou nosso medo, morreu nossa morte e ressuscitou nossa ressurreição.


Lucas dedica todo o capítulo 15 de seu evangelho às parábolas da misericórdia. Neste capitulo Jesus nos revela que Deus é o Pai misericordioso.  O insondável amor de Deus se reflete na conduta do pai da parábola. Deus não deixa de buscar e de acolher o que é seu.A parábola contém um ensinamento profundo para cada um de nós. Jesus declara que a misericórdia não é apenas o agir do Pai, mas torna-se o critério para individuar quem são os seus verdadeiros filhos. Em suma, somos chamados a viver de misericórdia, porque, primeiro, foi usada misericórdia para conosco. O perdão das ofensas torna-se a expressão mais evidente do amor misericordioso e, para nós cristãos, é um imperativo de que não podemos prescindir. Tantas vezes, como parece difícil perdoar! E, no entanto, o perdão é o instrumento colocado nas nossas frágeis mãos para alcançar a serenidade do coração. Deixar de lado o ressentimento, a raiva, a violência e a vingança são condições necessárias para se viver feliz. Acolhamos, pois, a exortação do Apóstolo: « Que o sol não se ponha sobre o vosso ressentimento » (Ef 4, 26). E sobretudo escutemos a palavra de Jesus que colocou a misericórdia como um ideal de vida e como critério de credibilidade para a nossa fé: « Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia » (Mt 5, 7) é a bem-aventurança a que devemos inspirar-nos, com particular empenho, neste Ano Santo, escreveu o Papa Francisco (Bula Misericordiae Vultus n.9c).


A parábola do Pai misericordioso nos revela duas coisas: a miséria e a misericórdia; revela-nos o que há no coração do homem e o que há no coração de Deus; revela-nos a imensa escuridão no homem e a infinita luminosidade em Deus.


O filho mais novo e mais velho da parábola, ambos não reconhecem de verdade o próprio Pai cheio de amor. Os dois não têm consciência de suas distorções. Ambos são como dois cegos que vão tropeçar: um cai na desordem; o outro, no excesso de ordem.  Um está seguro de saber o que quer: partir sem rumo. O outro tem certeza de estar no caminho certo: o dever. O mais velho fica em casa sem reconhecer o amor do Pai. O mais novo abandona a casa em busca de uma felicidade deixando a mesma em casa. Por trás desses dois filhos está Jesus Cristo, fiel à vontade de Deus em salvar a humanidade. Ele ama a humanidade até o fim (cf. Jo 13,1).


Deixar a casa é muito mais do que um acontecimento limitado a tempo e lugar. Deixar a casa significa negar a realidade espiritual de que eu pertenço a Deus com todo o meu ser, que Deus me ampara num eterno abraço, que sou realmente moldado nas palmas das mãos de Deus e refugiado nas suas sombras. Deixar a casa significa ignorar a verdade de que Deus me moldou. Deixar a casa é viver como se eu não tivesse um lar e precisasse procurar muito à distância até encontrá-lo. Eu preciso estar consciente de que faço parte da família de Deus e eu devo viver como membro da família de Deus.


A casa é o centro do meu ser, onde posso ouvir a voz de Deus que me diz: “Você é meu filho (a) muito amado (a), sobre você ponho todo o meu carinho” (cf. Mc 1,11). Eu tenho que ouvir esta voz diariamente, pois é a voz do amor que é eterno, perdura para sempre e se transforma em afeto quando é ouvida. Quando eu ouço essa voz amorosa de Deus, sei que estou em casa com Deus e por isso, nada tenho a temer, pois Deus é por mim (cf. Rm 8,31-39).


O filho mais novo voltou para casa porque reconheceu o tamanho do amor do pai diante do tamanho da própria miséria. É ele próprio quem descobre o seu caos, a sua desordem. Através de um doloroso caminho, ele sai da ilusão sobre si mesmo e descobre sua verdade. No silêncio, ele escuta a voz do Pai e descobre o tesouro: o amor sem limite do Pai por ele, a fonte de sua existência. Pela primeira vez, ele toma conhecimento de um amor seguro, estável e sólido. Nesse momento iluminado, ele reconhece que pecou. Ele se arrependeu e por isso decidiu voltar para a casa: “Quantos empregados do meu pai têm pão com fartura, e eu aqui, morrendo de fome. Vou-me embora, vou voltar para meu pai e dizer-lhe: ‘Pai, pequei contra Deus e contra ti; não mereço ser chamado teu filho. Trata-me como a um dos teus empregados’”.


Na graça de Deus, cada um é capaz de se colocar a caminho de volta. Na graça de Deus, cada um é capaz de reencontrar o movimento da vida. Na graça de Deus ninguém fica trancado no passado. Em qualquer estado em que se encontre, há sempre a possibilidade de dar um passo em direção à vida. A graça de Deus nos devolve a alegria de viver dignamente. “Pela graça de Deus, sou o que sou, e a graça que ele me deu não tem sido inútil”, escreveu São Paulo (1Cor 15,10).


Muitas vezes procuramos a felicidade fora de casa, nas nossas aventuras. Por isso, em vez de encontrarmos a felicidade, ganhamos a solidão, a desordem total ou caos total. Ninguém está tão do que aquele que vive sem Deus (Santo Agostinho). No momento em que o filho mais novo recebeu o perdão, ele começou a conhecer, de modo muito íntimo, o seu pai. A experiência de perdão de Deus cria, com efeito, um vínculo todo particular entre Deus e aquele que recebe o perdão. Tão grande é a força do amor curativo de Deus, que o mal se transfigura em bem.


Se Deus é misericordioso, cada um deve ser misericordioso para com os outros. O amor vivido é o único modo de convencer os outros que somos cristãos. Sempre que celebramos a festa da eucaristia, celebramos também o encontro do amor misericordioso de Deus com todos nós, seus filhos e filhas arrependidos de tudo que cometemos na vida. Façamos que cada eucaristia seja uma festa de nossa reconciliação com Deus.


O filho mais velho está cheio de si mesmo e se engana. Por estar cheio de si não tem lugar no seu coração nem para seu pai nem para seu irmão. Ele se crê justo, e conseqüentemente, possui um coração de justiceiro, um coração duro e insensível. Ele simboliza nossa cegueira diante de nossa mais profunda distorção, nossa resistência para viver na luz, na graça de Deus. que mora o perigo. Muitas vezes a tentação é denunciar o pecado alheio para fazer brilhar a sua própria virtude. Muitas vezestanto ressentimento entre os que se consideram justos e corretos; há tanto julgamento, condenação e preconceito entre os que se consideram santos e praticantes de religião!


A parábola do filho pródigo ou do Pai misericordioso é o grande canto ao imenso amor divino que se mostra indulgente com o pecador, lição oportuníssima da quaresma. Por isso, Santo Agostinho dizia: “Imite aquele filho mais novo, porque talvez você seja como ele, que depois de mal gastar e perder todos os seus bens vivendo prodigamente, sentiu necessidade, apascentou porcos e, esgotado pela fome, suspirou e se lembrou de seu pai. E o que diz dele o Evangelho?: ‘Ele caiu em si’ (voltou a si mesmo). Quem se tinha perdido para si mesmo, voltou a si mesmo: ‘Vou-me embora, vou voltar para meu pai...’”.  “Para chegar à ressurreição da graça do Senhor temos de passar primeiro pela crucifixão de nossos pecados na penitência. O pecado é o motivo de tua tristeza. Deixa que a santidade seja motivo de tua alegria”, acrescentou Santo Agostinho.


Na sua reflexão sobre a parábola do filho pródigo Madre Teresa de Calcutá nos disse que o filho pródigo nos ensina que não devemos:


·        Pensar egoisticamente em nós mesmos.
·        Alimentar a fome de prazeres desenfreados.
·        Abusar do dom da liberdade
·        Tomar e consumir sem cautela bens efêmeros.
·        Presumir da própria figura como se fosse imperecível.
·        Confundir sonhos agradáveis com realidades.


O Deus que Jesus quer nos transmitir nessa parábola é um Deus misericordioso, generoso em perdoar, paciente em esperar a volta de qualquer filho, próximo com um amor infinito para quem volta e para quem está com Ele.


Não podemos professar seriamente a nossa fé no Deus do amor e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, sem praticarmos, ao mesmo tempo, a sua misericórdia. Amor é misericordioso. Esta é uma afirmação central e o cume da fé e de toda a doutrina cristã acerca de virtudes. É através da misericórdia ativa e efetiva que provamos que estamos no bom caminho e que adoramos e honramos verdadeiramente a Deus misericordioso. Toda a experiência profunda de Deus, toda a consolação espiritual autêntica nos leva à prática eficaz da misericórdia. As nossas pequenas mortificações e exercícios ascéticos só têm valor na medida em que servirem de treino para o exercício da misericórdia e para a conseqüente prática da auto-renúncia.


Para nós fica a pergunta: Será que tenho consciência deste Deus que é um Pai com um amor infinito? Será que eu percebo esse Deus como o filho mais velho O percebia: sem esperança nem alegria? Ou eu O percebo como o filho mais novo O percebia: quer uma liberdade sem ordem? Será que eu sou intransigente e intolerante como o filho mais velho? A rigidez e a arrogância não deixaram o filho mais velho alegrar-se pela volta de seu irmão perdido. Será que eu tenho a mesma rigidez e a mesma arrogância que me tiram a alegria de viver e de conviver na fraternidade com os demais irmãos? quem pensa no outro se engrandece. Na experiência do filho mais novo percebemos que o pecado sempre se apresenta, primeiro, como agradável, atraente e sedutor. O Maligno é suficientemente hábil para dissimular seu jogo. Estejamos atentos e vigilantes!


O Papa Francisco deu o seguinte recado para todos os confessores: “Não me cansarei jamais de insistir com os confessores para que sejam um verdadeiro sinal da misericórdia do Pai. Ser confessor não se improvisa. Tornamo-nos tal quando começamos, nós mesmos, por nos fazer penitentes em busca do perdão. Nunca esqueçamos que ser confessor significa participar da mesma missão de Jesus e ser sinal concreto da continuidade de um amor divino que perdoa e salva. Cada um de nós recebeu o dom do Espírito Santo para o perdão dos pecados; disto somos responsáveis. Nenhum de nós é senhor do sacramento, mas apenas servo fiel do perdão de Deus. Cada confessor deverá acolher os fiéis como o pai na parábola do filho pródigo: um pai que corre ao encontro do filho, apesar de lhe ter dissipado os bens. Os confessores são chamados a estreitar a si aquele filho arrependido que volta a casa e a exprimir a alegria por o ter reencontrado. Não nos cansemos de ir também ao encontro do outro filho, que ficou fora incapaz de se alegrar, para lhe explicar que o seu juízo severo é injusto e sem sentido diante da misericórdia do Pai que não tem limites. Não hão-de fazer perguntas impertinentes, mas como o pai da parábola interromperão o discurso preparado pelo filho pródigo, porque saberão individuar, no coração de cada penitente, a invocação de ajuda e o pedido de perdão. Em suma, os confessores são chamados a ser sempre e por todo o lado, em cada situação e apesar de tudo, o sinal do primado da misericórdia.


P. Vitus Gustama,svd


  •  “O pecado é o motivo de tua tristeza. Deixa que a santidade seja motivo de tua alegria”. (Santo Agostinho: In ps. 42,3)

  • Para chegar à ressurreição da graça do Senhor temos de passar primeiro pela crucifixão de nossos pecados na penitência”. (Idem: De Trin. 4,3,6)