terça-feira, 1 de março de 2016

05/03/2016




ORAÇÃO NOS TORNA HUMANOS, HUMILDES E DIVINOS


Sábado da III Semana da Quaresma


Primeira Leitura: Os 6,1-6


1 'Vinde, voltemos para o Senhor, ele nos feriu e há de tratar-nos, ele nos machucou e há de curar-nos. 2 Em dois dias, nos dará vida, e, ao terceiro dia, há de restaurar-nos, e viveremos em sua presença. 3 É preciso saber segui-lo para reconhecer o Senhor. Certa como a aurora é a sua vinda, ele virá até nós como as primeiras chuvas, como as chuvas tardias que regam o solo'. 4 Como vou tratar-te, Efraim? Como vou tratar-te, Judá? osso amor é como nuvem pela manhã, como orvalho que cedo se desfaz. 5 Eu os desbastei por meio dos profetas, arrasei-os com as palavras de minha boca, mas, como luz, expandem-se meus juízos; 6 quero amor, e não sacrifícios, conhecimento de Deus, mais do que holocaustos'.


 Evangelho: Lc 18, 9-14


Naquele tempo, 9Jesus contou esta parábola para alguns que confiavam na sua própria justiça e desprezavam os outros: 10Dois homens subiram ao Templo para rezar: um era fariseu, o outro cobrador de impostos. 11O fariseu, de , rezava assim em seu íntimo: ‘Ó Deus, eu te agradeço porque eu não sou como os outros homens, ladrões, desonestos, adúlteros, nem como este cobrador de impostos. 12Eu jejuo duas vezes por semana, e eu dou o dízimo de toda a minha renda’. 13O cobrador de impostos, porém, ficou à distância, e nem se atrevia a levantar os olhos para o céu; mas batia no peito, dizendo: ‘Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador!’ 14Eu vos digo: este último voltou para casa justificado, o outro não. Pois quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado” (Lc 18,9-14).
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Convite Para Fazer Celebrações Com Fé e Amor, Fruto De Uma Verdadeira Conversão


Vinde, voltemos para o Senhor, ele nos feriu e há de tratar-nos, ele nos machucou e há de curar-nos. Em dois dias, nos dará vida, e, ao terceiro dia, há de restaurar-nos, e viveremos em sua presença”.


Através da Primeira Leitura o profeta Oseias descreve uma celebração de expiação e de penitência (vv. 1-3.5) organizada pelo povo. Por isso, o povo espera de Deus o perdão que é uma espécie de ressurreição.


Segundo o profeta Oseias, Deus “puniu” o povo porque este finge arrepender-se. O povo somente se preocupa com vás cerimônias sacrificais, enquanto que Deus deseja o amor e o conhecimento (v.6). Trata-se de uma atividade/culto com a ausência de Deus. O povo faz os ritos sem fé e sem amor: “Quero amor, e não sacrifícios, conhecimento de Deus, mais do que holocaustos”. Com efeito, o conhecimento intelectual não serve para nada sem a descoberta do amor de Deus.  Nada há tão perigoso como um culto vazio de fé que não responde à vida, isto é, que não tem consequências práticas na vida. Deus abomina este tipo de culto e todas as nossas práticas quando faltam o amor ao próximo e a justiça social. A busca de Deus e seu amor que o homem faz, deve se estender no amor ao próximo. O homem sozinho com seus recursos apenas (sacrifício sem fé), se desvanece e se empobrece, pois a ação de Deus é que torna fecunda a atividade humana. O culto que não é acompanhado por um arrependimento é apenas formalista e por isso é vazio de Deus.


Por causa disso, o profeta usa aqui o verbo “voltar”:Voltemos para o Senhor”. “Voltar” significa inverter a rota para retornar o caminho abandonado (caminho de Deus) que é o caminho que conduz para uma relação verdadeira com Deus baseado no amor e no conhecimento de Deus. Pecar é desandar. É preciso voltar para o caminho certo para chegar ao destino certo.


A advertência do profeta Oseias serve como alerta para nós hoje. Quantas liturgias celebradas em que nada acontece, de onde a pessoa sai da celebração sem ter encontrado a Deus, sem tê-Lo conhecido um pouco mais. Sabemos muito bem que ninguém está tão só do que aquele que vive sem Deus. Não é por acaso que santo João Paulo segundo dizia: “Antes de discutirmos sobre a existência de Deus, precisamos discutir antes sobre a solidão de quem não tem Deus no coração”.


Oração Nos Torna Mais Humanos, Humildes e Divinos


Um dos temas principais do evangelho lido neste dia é o da oração. Como se sabe que oração é um dos temas preferidos do evangelista Lucas. Lucas é o evangelista da oração. Ele é o único evangelista que inicia (Lc 1,8-10) e termina (Lc 24,53) seu evangelho com o tema da oração. É ele quem mais nos apresenta Jesus orando, principalmente nos momentos decisivos de sua vida: no Batismo (Lc 3,21), na escolha dos discípulos (Lc 6,12), na profissão de fé de Pedro (Lc 9,8), na transfiguração (Lc 9,28s), no Getsêmani (Lc 22,39-46) e na cruz (Lc 23,34.46). Jesus também ensina os discípulos a orar (Lc 11,1ss). No evangelho de Lucas podemos encontrar as orações mais conhecidas e citadas pela Igreja: o Magnificat (Lc 1,46-56); o Benedictus (Lc 1,67-79); o Glória (Lc 2,14); o Nunc Dimittis (Lc 2,29-32). Além disso, Lucas ainda conta três parábolas sobre a oração (Lc 11,5-13;18,1-8;18,9-13). E na sua segunda obra (nos Atos) Lucas nos fala novamente deste tema. Ele nos apresenta a Comunidade Primitiva como uma comunidade orante (At 1,14;2,42). A oração está presente nos momentos mais importantes da Igreja Primitiva (At 1,24;8,15;11,4;12,5;13,2;14,23).


O texto do evangelho de hoje fala da oração de um publicano humilde e de um fariseu arrogante. Sobre a oração o Novo Catecismo da Igreja Católica diz: “A oração é um dom da graça, mas pressupõe sempre uma resposta decidida da nossa parte, porque o que reza combate contra si mesmo, contra o ambiente e, sobretudo, contra o Tentador, que faz tudo para retirá-lo da oração. O combate da oração é inseparável do progresso da vida espiritual. Reza-se como se vive, porque se vive como se reza” (Compêndio do Novo Catecismo, 572; Novo Catecismo, no. 2725).


Não nos esqueçamos: o Tentador quer nos tirar da oração, pois rezar é conversar com Deus. E o Tentador não quer que conversemos com Deus. Quem não reza (conversar com Deus), pode acabar conversando com o adversário (satanás) ou com o diabo (aquele que cria a desunião e divisão). Além disso, quem não conversa com Deus, gosta de falar de si próprio (egolatria). Quem conversa com Deus permanentemente, torna-se mais humano ou se humaniza. Quem se humaniza, torna-se irmão do outro. A oração nos serena, pois confiamos totalmente n’Aquele que torna tudo existir e possibilita o que é impossível (cf. Lc 1,37). Quanto mais crescermos na espiritualidade, mais rezaremos, pois “O combate da oração é inseparável do progresso da vida espiritual”. A verdadeira oração nos torna mais humildes ou mais nós mesmos. A oração potencia nossa humanidade.


Estamos na parte do evangelho de Lucas na qual se fala do caminho de Jesus para Jerusalém onde será morto e ressuscitado (Lc 9,58-19,28). Jesus está na etapa final de seu caminho (Lc 17,11-19,28). Durante esse caminho Jesus dá muitas lições importantes para seus discípulos.


Na passagem do evangelho deste dia Jesus continua a enfatizar sobre a importância da oração perseverante e humilde (Lc 18,1-14) que se iniciou na passagem anterior deste texto. Para falar da oração humilde Jesus conta uma parábola na qual ele coloca em confronto dois tipos de atitude diante de Deus representados por um fariseu e um publicano, como protagonistas da parábola: o fariseu que se elogia desprezando o outro e o publicano que simplesmente pede a misericórdia de Deus sem desprezar ninguém, porque ele tem consciência de seus pecados.


Na “oração” do fariseu, Deus ficou esquecido e somente o EU predomina: Eu não sou como os demais, eu jejuo, eu pago o dízimo. A arrogante consciência de ter feito alguma coisa, o faz acreditar que Deus se tornou seu Devedor, mas é inútil. Ele abusava da oração para demonstrar sua própria grandeza a fim de se colocar em destaque diante dos demais. É um verdadeiro exibicionista. O exibicionismo é a linguagem que demonstra a ausência de um valor. Quando um valor cresce na experiência espiritual de uma pessoa, ela ama discrição, que é a linguagem do tesouro escondido, e se comunica pelo caminho da simplicidade e da discrição. Toda a arrogância é contra ao amor fraterno que é essencial para uma convivência mais humana.


É curioso comprovar que os santos, os que estão de verdade mais perto de Deus, se consideram sempre uns grandes pecadores, pois eles compreendem verdadeiramente o que o pecado significa. Somente à luz de Deus é possível reconhecer a própria miséria. O aproximar-se de Deus consiste em perder ou em abandonar nosso egoísmo e auto-suficiência para encontrar a felicidade de Deus.


Na parábola o publicano se sente pequeno, não se atreve a levantar os olhos ao céu, e por isso, sai do templo engrandecido. Reconhece-se pobre e por isso, sai enriquecido. Reconhece-se pecador e por isso, sai justificado. Com razão o Livro de Eclesiástico afirma: “Quem serve a Deus como Ele o quer, será bem acolhido e suas súplicas subirão até as nuvens. A prece do humilde atravessa as nuvens” (Eclo 35,20-21).        


Somos fariseus quando vamos à igreja não para escutar Deus e suas exigências, mas para convidá-Lo a nos admirar pelo bom que somos. Somos fariseus quando esquecemos a grandeza de Deus e nosso nada, e cremos que as virtudes próprias exigem o desprezo dos demais. Somos fariseus quando nos separamos dos demais e nos cremos mais justos, menos egoístas e mais puros/limpos que os outros. Somos fariseus quando entendemos que nossas relações com Deus têm de ser quantitativas e medimos somente nossa religiosidade pelas missas das quais participamos e não pelo amor que vivenciamos com os demais. A vaidade nos faz perder tempo em coisas fúteis e sem valor.


O evangelho deste dia nos chama a nos vestirmos da humildade. E para que nos mantenhamos humildes jamais podemos nos esquecer que quem presencia nossa vida e nossas obras é o próprio Senhor a Quem temos que procurar agradar em cada momento. Se não estivermos vigilantes nisso, a soberba vai nos dominar. E a soberba tem manifestações em todos os aspectos de nossa vida: faz-nos susceptíveis, injustos em nossos juízes e em nossas palavras e ações, faz-nos crer melhores do que os demais e negar as boas qualidades dos outros e a soberba nos convence ter virtudes que não possuímos.


O Senhor se comove e esbanja suas graças diante de um coração humilde. A soberba é o maior obstáculo que o homem põe diante da graça de Deus. A soberba é o vício capital mais perigoso: se insinua e tende até infiltrar-se até nas boas obras. Por causa da soberba as boas obras perdem até seu mérito sobrenatural, pois as boas obras praticadas são uma participação na bondade de Deus.


Nossa oração deve ser como a do publicano: humilde, atenta, confiada, procurando que não seja monólogo em que damos voltas a nos mesmos, às virtudes que cremos possuir. A humildade é o fundamento de toda nossa relação com Deus e com os demais. Por isso, a humildade atrai a bênção de Deus e a simpatia dos homens.


Sabendo que todos nós somos pecadores não podemos desprezar aqueles que vivem dominados pela maldade, pelo vício e assim por diante. Deus ama os pecadores e odeia o pecado. Por isso, o Senhor tomou nossa natureza humana para nos salvar e nos levar junto de Si como Seus amados. Por isso, fica a pergunta: temos rezado por as pessoas que vivem dominadas por algum vício e alguma maldade? Sejamos compassivos nas nossas orações por essas pessoas, pois quem é compassivo e justo brilhará com a mesma Luz de Deus para os demais. Sejamos um sinal de Cristo, Luz do mundo, dando-lhes nosso afeto, carinho e a caridade cristã. Rezemos/oremos uns pelos outros, principalmente nesta Quaresma, para que o amor de Deus e sua salvação cheguem a todos. Há pensamentos que são orações. Há momentos nos quais, seja qual for a posição do corpo, a alma está de joelhos” (Victor Hugo)


Sempre que nós rezamos de verdade, a nossa oração é eficaz não porque modificamos Deus, mas porque nos modificamos, assim saímos diferentes do que entramos do templo.


Reflita o que São Paulo escreveu: “Verdade é que a minha consciência de nada me acusa, mas nem por isto estou justificado; meu juiz é o Senhor” (1Cor 4,4). “As melhores e as mais lindas coisas do mundo não se pode ver nem tocar. Elas devem ser sentidas com o coração” (Charles Chaplin).


Ó Deus, alegrando-nos cada ano com a celebração da Quaresma, possamos participar com fervor dos sacramentos pascais e colher com alegria todos os seus frutos... Dai-nos celebrar dignamente vossos sacramentos e recebê-los sempre com fé (Oração da Coleta do dia e Pós Comunhão).

P. Vitus Gustama,svd


 

04/03/2016


AMAR DE CORAÇÃO COMO DEUS NOS AMA


Sexta-Feira da III Semana da Quaresma


Primeira Leitura: Os 14,2-10


Assim fala o Senhor Deus, 2 Volta, Israel, para o Senhor, teu Deus, porque estavas caído em teu pecado. 3Vós todos, encontrai palavras e voltai para o Senhor; dizei-lhe: 'Livra-nos de todo o mal e aceita este bem que oferecemos; o fruto de nossos lábios. 4 A Assíria não nos salvará; não queremos montar nossos cavalos, não chamaremos mais 'Deuses nossos' a produtos de nossas mãos; em ti encontrará o órfão misericórdia.' 5 'Hei de curar sua perversidade e me será fácil amá-los, deles afastou-se a minha cólera. Serei como orvalho para Israel; ele florescerá como o lírio e lançará raízes como plantas do Líbano. 7 Seus ramos hão de estender-se; será seu esplendor como o da oliveira, e seu perfume como o do Líbano. 8 Voltarão a sentar-se à minha sombra e a cultivar o trigo, e florescerão como a videira, cuja fama se iguala à do vinho do Líbano. 9Que tem ainda Efraim a ver com ídolos? Sou eu que o atendo e que olho por ele. Sou como o cipreste sempre verde: de mim procede o teu fruto. 10Compreenda estas palavras o homem sábio, reflita sobre elas o bom entendedor! São retos os caminhos do Senhor e, por eles, andarão os justos, enquanto os maus ali tropeçam e caem.


Evangelho: Mc 12, 28-34


Naquele tempo, 28bum escriba aproximou-se de Jesus e perguntou: “Qual é o primeiro de todos os mandamentos?” 29Jesus respondeu: “O primeiro é este: Ouve, ó Israel! O Senhor nosso Deus é o único Senhor. 30Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e com toda a tua força! 31O segundo mandamento é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo! Não existe outro mandamento maior do que estes”.32O mestre da Lei disse a Jesus: “Muito bem, Mestre! Na verdade, é como disseste: Ele é o único Deus e não existe outro além dele. 33Amá-lo de todo o coração, de toda a mente, e com toda a força, e amar o próximo como a si mesmo é melhor do que todos os holocaustos e sacrifícios”. 34Jesus viu que ele tinha respondido com inteligência, e disse: “Tu não estás longe do Reino de Deus”. E ninguém mais tinha coragem de fazer perguntas a Jesus.
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“Amai, pois o amor desata a língua do gago, ilumina o obtuso, torna o avaro generoso e inspira a todos a civilidade, a elegância, a atividade, o refinamento”
(ditado árabe antigo).
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1.         Deus É Fiel Ao Povo Por Amor Incondicional


Volta, Israel, para o Senhor, teu Deus, porque estavas caído em teu pecado”, assim escreveu o profeta Oseias no último capítulo de seu livro. Oseias termina seu livro com o canto que chama para a conversão ao Deus de amor.


Há dois temas principais que se encontram no livro do profeta Oseias: o apelo à conversão e a fidelidade de Deus por amor ao seu povo, como um marido traído pela mulher, porém este continua a ir atrás dela.


Hei de curar sua perversidade e me será fácil amá-los, deles afastou-se a minha cólera”, assim disse o Senhor Deus para o povo. O profeta Oseias quer relembrar a todos que nem tudo na vida está perdido, por perverso que seja o ato humano. Deus cheio de misericórdia concede tempo a todos para a conversão e para a volta a Deus: “Volta, Israel, para o Senhor, teu Deus, porque estavas caído em teu pecado”.


Oseias quer suscitar a esperança no coração de cada pessoa, por perdida que ela pareça ser, pois quando tudo parece estar perdido surge uma força regeneradora que vem de Deus que ama a todos com o amor misericordioso. Só há uma condição: voltar para Deus. Tudo que é quebrado no homem, será restaurado totalmente em Deus misericordioso.


Oseias quer proclamar a todos que Deus é misericordioso e fiel por amor. Para Oseias o Deus que ele quer nos apresentar é o “esposo” desejado de viver uma lua-de-mel eternamente com sua esposa que somos nós. Esse casamento deve ter como base o amor e a ternura, o direito e a justiça que se manifestam na fidelidade inquebrantável.  O Deus que nos ama com o amor e a ternura quer que sejamos também encarnação deste amor e desta ternura na convivência com os demais. Deus está no ato de amar.


2.         O Amor Nos Torna Humanos e Divinos


Amando a Deus nos tornamos divinos; amando ao mundo nos tornamos mundanos. O amor ao mundo corrompe a alma; o amor ao Criador do mundo a purifica”
(Santo Agostinho: Serm. 121,1; 142,3,3).


O texto do evangelho deste dia fala, precisamente, do mandamento de amor. Sem dúvida nenhuma, todos, sem exceção, dão ao mandamento de amor uma prioridade quase exclusiva, pois o amor é uma chave geral para entender tudo na vida, até para entender a vida eterna, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16) e é a força extraordinária para fazer até o impossível. “Se um dia tiver que escolher entre o mundo e o amor lembre-se: se você escolher o mundo ficará sem o amor, mas se escolher o amor com ele você conquistará o mundo”, dizia Albert Einstein.


Em várias ocasiões Jesus recordou que o preceito sabático era secundário em relação ao mandamento de amor (Mc 3,4; Lc 13,16). O amor relativiza a lei e a eleva sobre si mesma. Sobre o amor seremos julgados por Deus (cf. Mt 25,40.45). Quem não encontra o caminho do amor, quem não se deixa conduzir pelo mandamento de amor, perde o sentido da vida. Com efeito, a busca desenfreada do dinheiro, do poder, e da conquista sexual deixa a pessoa, no íntimo, frustrada e com uma sensação de vazio. Paradoxalmente, a vida vazia é uma vida mais pesada para ser vivida. O amor torna tudo leve e suportável. Nossa vida se torna qualitativa na medida em que crescermos na vivência do amor. Ter amor e viver o amor é uma questão de qualidade de vida. Nossa vida se torna qualitativa na medida em que crescermos na vivência do amor. Os psicólogos orientam, os médicos tratam, os remédios aliviam sintomas desagradáveis, mas somente o amor cura o núcleo do ser. O amor é uma poderosa energia sustentadora da vida que flui por nós quando nós fluímos por ela.


O escriba do Evangelho de Marcos se apresenta a Jesus com uma pergunta autêntica e não para pôr Jesus à prova: “Qual é o primeiro de todos os mandamentos?”.  Por isso, no fim do texto Jesus elogiou o escriba: “Tu não estás longe do Reino de Deus”.


Nas escolas rabínicas se distinguia entre mandamentos “graves” ou de peso e mandamentos “leves”. Tinham 248 preceitos positivos (de acordo com o número de órgãos do corpo) e 365 proibições legais (de acordo com o número dos dias do ano). Os rabinos investigaram qual de todos esses mandamentos era realmente importante, qual era o primeiro e principal que serve como resumo de todos os mandamentos.


Jesus responde citando ao pé de letra a passagem do Dt 6,4-5 (amar a Deus), mas acrescenta imediatamente o mandamento do amor ao próximo que se encontra em outro contexto em Lv 19,18. Para Jesus os dois mandamentos são como um só: “Não há mandamento maior que estes”. Não se pode amar a Deus sem amar ao próximo (cf. 1Jo 4,20). Neste mandamento de amor se funda a única piedade verdadeira. O verdadeiro culto não pode se separar da atenção aos mais necessitados. Nesta mesma linha São Tiago afirma rotundamente: “A religião pura e sem mácula diante de Deus, nosso Pai, consiste nisso: visitar os órfãos e as viúvas em suas tribulações e guardar-se livre da corrupção do mundo (Tg 1,27). 


Amar! Este é o mandamento do Senhor. A acumulação dos termos: “coração, alma, mente, forçaquer significar uma plenitude de amor que compreende todas as nossas faculdades de amar. É preciso que o amor arda em nossos pés à cabeça, em nosso espírito ao corpo, em nossa manhã até a noite, em nossa infância à velhice, em nosso mundo à eternidade. O amor não é horizontal nem vertical. Só conhece a dimensão da profundidade e da totalidade.


Amor é a essência para qualquer relacionamento com suas três direções: a Deus, ao próximo e a mim mesmo. Amor é relação, comunicação, encontro. Para eu poder valorizar o outro eu preciso saber me valorizar. Para eu poder amar o outro, eu preciso saber me amar. Para eu poder compreender o outro, eu preciso me compreender. Para eu poder fazer o encontro com o outro, eu preciso fazer o encontro comigo mesmo, reconhecendo tantos minhas capacidades e virtudes como também meus defeitos e limitações. “O Evangelho nos impõe dois preceitos: amar a Deus e amar ao próximo. Nesses dois preceitos temos três objetos de nosso amor: Deus, nós e o próximo. O amor a Deus não nos proíbe de amar a nós mesmos. Porém, também devemos nos preocupar de que nosso próximo ame a Deus, pois Deus nos manda amar ao próximo como a nós mesmos” (Santo Agostinho: De civ. Dei 19,14).


Não basta amar a Deus, alguém tem que amar também o próximo. Não basta amar o outro, mas tem que saber se amar: “Amar a Deus com toda força e o próximo como a ti mesmo”. Não faça do outro como objeto de sua carência de amor. Isto não é amor. É exploração. Para amar tem que ser livre. O amor verdadeiro se direciona unicamente ao outro, sem esperar recompensa. O amor liberta, dá segurança e possibilita o crescimento. Quando uma pessoa começar a sufocar a outra pessoa é porque está faltando amor. Amar a Deus somente é possível amando o próximo. O amor que se pratica com Deus deve ser igual ao amor que se pratica com o próximo. Como isso, Jesus destaca a importância de um ser humano e não as leis que matam as pessoas para render um culto errado para um deus falso.


Por isso é que Jesus não fala de qualquer amor. Ele fala do amor ágape. Ágape é uma palavra grega que significa o amor que se dirige unicamente para o outro, incondicional, e que não espera nada em troca. É uma doação pura de si mesmo. Por isso, Jesus chegou a fazer uma afirmação muito extrema: “Amai vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem” (Mt 5,43-44). A única coisa que se espera dos inimigos é o bem deles. Este é o amor-ágape. É o amor que salva e liberta. Com efeito, a atitude de é procurar descobrir o projeto de amor de Deus e corresponder a ele. Amar a Deus significa escutá-Lo, adorá-Lo, encontrar-nos com ele na oração e na vida e amar o que ele ama. Amar o próximo não apenas significa deixar de fazer o mal, e sim estar pronto para ajudá-lo, acolhê-lo e perdoá-lo. Amor é o único meio que em si tem capacidade de convencer o outro, até os ateus de que somos cristãos.


Portanto, hoje Jesus nos oferece a chave fundamental para cumprir a vontade de Deus: o amor íntegro a Deus como único Senhor e o amor ativo e efetivo e desinteressado para próximo. São Paulo nos relembra através da Carta aos romanos: “Não fiqueis devendo nada a ninguém… a não ser o amor que deveis uns aos outros, pois quem ama o próximo cumpre plenamente a Lei. De fato, os mandamentos: ‘Não cometerás adultério’, ‘Não matarás’, ‘Não roubarás’, ‘Não cobiçarás’, e qualquer outro mandamento, se resumem neste: ‘Amarás o próximo como a ti mesmo’. O amor não faz nenhum mal contra o próximo. Portanto, o amor é o cumprimento perfeito da Lei (Rm 13,8-10).


É tão importante o mandamento de amor a ponto de Marcos colocar a palavraouvir”: “Ouve, ó Israel!”. “Ouve, ó Israel” são as mesmas palavras que todo judeu fiel pronunciava cada manhã como oração matinal. É preciso que prestemos nossa atenção para esse mandamento para que possamos ser elevados até Deus.Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e com toda a tua força! E amarás o teu próximo como a ti mesmo! Não existe outro mandamento maior do que estes”. Toda a lei se resume no amor. “O amor é a única dívida que mesmo depois de paga nos mantém como devedores”, dizia Santo Agostinho (Epist. 192,2).


Neste sentido a conversão significa voltar a amar a Deus e ao próximo e à própria vida de todo o coração. O caminho do Senhor é o caminho de amor. “São retos os caminhos do Senhor e por eles andarão os justos, enquanto os maus ali tropeçam e caem” (Os 14,10b). Trilhar por este caminho significa estar com Deus de amor. “Quanto mais amas, mais alto tu sobes” (Santo Agostinho).


O amor é essencial do Evangelho e da vida evangélica, da vida cristã. É a Boa Nova que minha vida toda deve estar proclamando. Eu devo me perguntar diariamente: Será que eu amo efetivamente? A quem eu amo. A quem eu deixo de amar? Como se traduz este amor na minha atitude diária? Quem é meu próximo? Como eu me amo a mim mesmo? Amar a Deus somente é possível amando ao próximo (cf. Jo 15,12).


O amor nada dá senão de si próprio e nada recebe senão de si próprio. O amor não possui, nem se deixa possuir, pois o amor basta-se a si mesmo. Quando um de vós ama, que não diga: ‘Deus está no meu coração’, mas que diga antes: ‘Eu estou no coração de Deus’” (Khalil Gibran: O Profeta).

P. Vitus Gustama,svd