quarta-feira, 30 de março de 2016

01/04/2016




CONTAR COM JESUS NO NOSSO TRABALHO PARA TORNÁ-LO FRUTÍFERO


Sexta-Feira da I Semana da Páscoa


Primeira Leitura: At 4,1-12


Naqueles dias, depois que o paralítico fora curado, 1 Pedro e João ainda estavam falando ao povo, quando chegaram os sacerdotes, o chefe da guarda do Templo e os saduceus. 2 Estavam irritados porque os apóstolos ensinavam o povo e anunciavam a ressurreição dos mortos na pessoa de Jesus. 3 Eles prenderam Pedro e João e os colocaram na prisão até o dia seguinte, porque já estava anoitecendo. 4 Todavia, muitos daqueles que tinham ouvido a pregação acreditaram. E o número dos homens chegou a uns cinco mil. 5 No dia seguinte, reuniram-se em Jerusalém os chefes, os anciãos e os mestres da Lei. 6 Estavam presentes o sumo Sacerdote Anás, e também Caifás, João, Alexandre, e todos os que pertenciam às famílias dos sumos sacerdotes. 7 Fizeram Pedro e João comparecer diante deles e os interrogavam: “Com que poder ou em nome de quem vós fizestes isso?” 8 Então, Pedro, cheio do Espírito Santo, disse-lhes: “Chefes do povo e anciãos: 9 hoje estamos sendo interrogados por termos feito o bem a um enfermo e pelo modo como foi curado. 10 Ficai, pois, sabendo todos vós e todo o povo de Israel: é pelo nome de Jesus Cristo, de Nazaré, aquele que vós crucificastes e que Deus ressuscitou dos mortos — que este homem está curado, diante de vós. 11 Jesus é a pedra, que vós, os construtores, desprezastes, e que se tornou a pedra angular. 12 Em nenhum outro há salvação, pois não existe debaixo do céu outro nome dado aos homens pelo qual possamos ser salvos”.


Evangelho: Jo 21,1-14


Naquele tempo, 1Jesus apareceu de novo aos discípulos, à beira do mar de Tiberíades. A aparição foi assim: 2Estavam juntos Simão Pedro, Tomé, chamado Dídimo, Natanael de Caná da Galiléia, os filhos de Zebedeu e outros dois discípulos de Jesus. 3Simão Pedro disse a eles: “Eu vou pescar”. Eles disseram: “Também vamos contigo”. Saíram e entraram na barca, mas não pescaram nada naquela noite. 4Já tinha amanhecido, e Jesus estava de pé na margem. Mas os discípulos não sabiam que era Jesus. 5Então Jesus disse: “Moços, tendes alguma coisa para comer?” Responderam: “Não”.  6Jesus disse-lhes: “Lançai a rede à direita da barca, e achareis”. Lançaram pois a rede e não conseguiam puxá-la para fora, por causa da quantidade de peixes. 7Então, o discípulo a quem Jesus amava disse a Pedro: “É o Senhor!” Simão Pedro, ouvindo dizer que era o Senhor, vestiu uma roupa, pois estava nu, e atirou-se ao mar. 8Os outros discípulos vieram com a barca, arrastando a rede com os peixes. Na verdade, não estavam longe da terra, mas somente a cerca de cem metros. 9Logo que pisaram a terra, viram brasas acesas, com peixe em cima, e pão. 10Jesus disse-lhes: “Trazei alguns dos peixes que apanhastes”. 11Então Simão Pedro subiu ao barco e arrastou a rede para a terra. Estava cheia de cento e cinqüenta e três grandes peixes; e, apesar de tantos peixes, a rede não se rompeu. 12Jesus disse-lhes: “Vinde comer”. Nenhum dos discípulos se atrevia a perguntar quem era ele, pois sabiam que era o Senhor. 13Jesus aproximou-se, tomou o pão e distribuiu-o por eles. E fez a mesma coisa com o peixe. 14Esta foi a terceira vez que Jesus, ressuscitado dos mortos, apareceu aos discípulos.
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Ser Testemunha De Cristo Ressuscitado e Confiar No Poder de Deus


Chefes do povo e anciãos: hoje estamos sendo interrogados por termos feito o bem a um enfermo e pelo modo como foi curado. Ficai, pois, sabendo todos vós e todo o povo de Israel: é pelo nome de Jesus Cristo, de Nazaré, aquele que vós crucificastes e que Deus ressuscitou dos mortos — que este homem está curado, diante de vós. Jesus é a pedra, que vós, os construtores, desprezastes, e que se tornou a pedra angular. Em nenhum outro há salvação, pois não existe debaixo do céu outro nome dado aos homens pelo qual possamos ser salvos”, disse Pedro firmemente diante das maiores autoridades de Jerusalém.


Trata-se de uma cena memorável.  O mistério da Igreja entra em ação. Pedro, cheio do Espirito Santo, toma a palavra e dá seu testemunho sem medo diante da alta autoridade que está na sua frente. O testemunho de Pedro e João nos leva de volta para o prenúncio das perseguições anunciado por Jesus para os apóstolos, quando Jesus estava com eles: “Será para vós ocasião de dar-lhes testemunho. Fazei propósito de não vos preocupardes com a vossa defesa, pois eu vos darei boca e sabedoria a que não poderão resistir nem contradizer todos os vossos adversários” (Lc 21,13s; cf. Mt 10,19s). Jesus tinha anunciado aos apóstolos que eles seriam perseguidos, porém o Espírito Santo ajudaria os apóstolos no seu testemunho  (Cf. Lc 2,1-12; 21,12-19). O Espirito Santo é a proteção de Deus para os apóstolos no meio das perseguições.


Os dois apóstolos, Pedro e João, são presos e acusados pelo bem que fizeram (cura do paralítico), a exemplo de Jesus (cf. At 10,38-43). Mas a pergunta em nome de quem se realizou a cura do paralítico, propicia a Pedro a ocasião de dar testemunho. Os apóstolos são chamados a prestar contas de um benefício  feito a um paralítico que, no momento, está curado. Em tom solene, Pedro principia seu testemunho a mensagem salvífica de Jesus, o Nazareno, a quem exclusivamente atribui a cura do paralítico. Diante da evidência (a cura do paralitico), as autoridades não podem fazer nada.


Lucas, o autor do livro dos Atos dos Apóstolos quer nos mostrar o contraste entre a alta autoridade com seu poderoso poder (o sumo sacerdote, os sacerdotes, os anciãos e os escribas), por um lado e os apóstolos na sua fraqueza como seres humanos, por outro lado. Porém, os apóstolos contam com o Espirito Santo de Deus. O poder de Deus lhes permite fazer o milagre. Este poder do alto faz com que os apóstolos consigam vencer. A lição de Lucas é bem clara para todos os seus leitores: na sua fraqueza os apóstolos saíram vencedores, pois confiam no Espirito Santo, na autoridade do alto. Com efeito, não há poder humano que possa vencer diante do poder do alto, o poder de Deus.


Mas o Pedro do Evangelho deste dia vacilou na missão porque não se vestia do poder de serviço de Jesus que salva. Quando percebe a presença de Aquele que lavou os pés dos apóstolos na Última Ceia é que Pedro voltou a se vestir com o espirito de serviço de Jesus na missão.


Somos Chamados a Servir Para Salvar


Os especialistas (biblistas) concordam que Jo 21 foi acrescentado posteriormente por causa da dificuldade da ordem literária e exegética. Mas, qual é a intenção do redator ao acrescentar este capítulo ao evangelho de João? Dizem que o interesse do redator é falar de dois personagens importantes: Pedro e o discípulo amado. A aparição de Jesus ressuscitado serve apenas como pretexto para falar dos dois discípulos não na sua dimensão individual e sim na sua dimensão representativa. Pedro representa a autoridade; o discípulo amado de Jesus, a base comunitária (cf. Jo 20,1-8). A base sólida para qualquer comunidade é o amor (além da fé e a esperança como enfatiza São Paul em 1Cor 13,13). Estas observações partem do conjunto dos textos em que aparecem ambos os personagens. A base comunitária é aquele que ama e por isso descobre antes Jesus, e a autoridade é que deve estar à escuta da comunidade que tem a experiência do encontro com Jesus.
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Depois que Jesus morreu, os discípulos voltaram à sua vida anterior como simples pescadores. Pedro foi pescar acompanhado por outros discípulos. Mas foi um fracasso total naquela noite. Nada apanharam. Peixe não pescado para um pescador significa uma ameaça para a sobrevivência, porque a vida deles depende dos peixes.


Creio que qualquer um passou por esse tipo de experiência triste, uma experiência de decepção no trabalho (frustração), no casamento, na educação dos filhos ou na vida em geral. Felizmente o Senhor conhece nossas decepções, por mais que tentemos escondê-las, e Ele quer se aproximar de nós, embora não reconheçamos sua presença porque não contamos ainda com ele nos nossos planos, conversas e atividades.


A pesca aqui é figura da missão. No NT a rede simboliza a ação de Deus. Uma rede com peixes pode ser também símbolo da Igreja. A noite, no contexto de atividade, significa a ausência de Jesus que é a Luz do mundo (Jo 8,12). A missão, a iniciativa de Pedro, não produz fruto, pois não conta com Jesus ou não trabalhou no espírito de Jesus.


Já tinha amanhecido e Jesus estava de pé na margem”, comenta o evangelista João. A luz da manhã coincide com a presença de Jesus, na praia, limite entre a terra e o mar, que representa “o mundo” onde se exerce a missão. Jesus fica na terra firme; sua ação se exerce por meio dos discípulos. Concentrados em seu próprio esforço inútil, não reconheceram Jesus.


A nova forma da presença de Jesus não vai por caminhos de brilho e de poder, nem sequer pelos caminhos de situações extraordinárias. No trabalho duro e infrutuoso de cada dia; na tarefa obscura e monótona (pescar de noite) também é possível encontrar o Senhor. Jesus se interessa pelos problemas de cada dia. A iniciativa de aproximar-se dos apóstolos parte de Jesus mostrando seu interesse pela vida cotidiana com seus problemas (pesca infrutuosa).


Os apóstolos viram Jesus que “estava de na margem” do lago. Ver o Corpo de Cristo ressuscitado não é para os apóstolos uma simples visão passiva de um objeto e sim é uma misteriosa chamada para uma missão: fazer Jesus efetivamente presente em todos os momentos e em todos os homens do mundo atual e futuro. Jesus está na margem do lago e nos chama. Jesus não deveria ter necessidade de nos chamar. Deveríamos nos dirigir até Jesus. Mas Jesus tem piedade de nossa debilidade e nos chama para ouvir suas orientações e para contarmos sempre com Ele em todas as nossas atividades para que elas produzam bons frutos.


Jesus se aproxima dos discípulos com um termo de afeto: “Moços, tendes alguma coisa para comer?”. Conscientes de seu fracasso, eles contestam secamente: “Não!”. Mas depois que ouviu a Palavra do Senhor: “Lançai a rede à direita da barca, e achareis”, e seguiu a indicação de Jesus, a pesca se tornou imediata e abundante.


O Senhor se aproxima de nós quando planejamos nossa ação pastoral para nos convidar a escutarmos sua Palavra e a trabalharmos, não à margem dele e sim conforme Sua vontade. Somente assim poderá acontecer uma “pesca” abundante e totalmente firmes em nossa fé em Jesus Cristo, pois não trabalharemos para nosso brilho e sim para o brilho do Reino de Deus aqui na terra.


Diante do surpreendente resultado da pesca, o discípulo predileto logo reconhece Jesus: “É o Senhor!”. Pedro (cf. Jo 13,23; 18,15; 20,2), que não está ainda disposto a dar a vida com Jesus, não O reconhece. Para indicar a mudança de atitude de Pedro é utilizada aqui uma linguagem simbólica: a oposição entre desnudez-vestido e a ação de atirar-se para a água: “Pedro vestiu a roupa, pois estava nu, e atirou-se ao mar”. Para o primeiro simbolismo, a chave está na frase de Jesus no lava-pés: “Jesus levantou-se da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura. Derramou água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos, enxugando-os com a toalha com que estava cingido” (Jo 13,4-5). Essa toalha para Jesus significava seu serviço até a morte por amor (cf. Jo 13,1). Pedro estava nu. Isto significa que não tinha adotado a atitude de Jesus, não servia por amor e por isso, a missão não produz fruto. Com a frase “atirou-se ao mar”, Pedro agora mostra sua disposição a dar a vida como Jesus. Agora é que Pedro começou a entender o significado do lava-pés que ele não o entendia (cf. Jo 13,6-10). Jesus tinha dito a Pedro no lava-pés: “Agora não entendes o que estou fazendo; mais tarde compreenderás” (Jo 13,7). É agora que Pedro entendeu o significado do gesto de Jesus. Pedro é o único que se atirou ao mar, por ser o único que negou Jesus. Nessa narração Jesus, não responde ao gesto de Pedro, mas se dirige ao grupo.


Aqui aprendemos que Jesus chamou os apóstolos e conhece seus defeitos. Mas Jesus confiou neles e os formou com paciência e contou com o tempo para fazê-los idôneos para a missão que eles deviam desempenhar. Através do batismo também recebemos do Senhor a tarefa de levar adiante a missão de apresentar os outros para o Senhor apesar de sermos pessoas cheias de fraquezas e defeitos. Servir com amor e por amor cura nossas fraquezas e torna-nos mais amorosos para os outros. E o amor torna os outros bons. O Senhor continua contando com nossa colaboração. Cabe a nós ser bons canais pelos quais chega a graça de Deus para os outros e ser facilitadores da ação do Espírito Santo no nosso próximo. 


O grupo dos discípulos viu o fogo e a comida que Jesus preparou. Isto significa que Jesus é o pão da vida (Jo 6,51) para nossa vida. Sem ele nada poderemos fazer (Jo 15,5).


Na praia Jesus pede o fruto do trabalho: “Moços, tendes alguma coisa para comer?”. Há dois alimentos: aquilo que Jesus lhes oferece que é sua própria pessoa, sua vida: “Tomai todos e comei! Isto é o Meu Corpo!”, e aquilo que os discípulos oferecem a Jesus: o amor exercido na missão os leva ao dom de si que alimenta a comunidade. Cada um oferece sua qualidade em função da consolidação da comunidade e em função do bem de todos. Em cada Eucaristia devem estar presentes o dom de Jesus aos seus e o dom de uns aos outros. E “Todos nós recebemos da Sua plenitude graça sobre graça”, diz o prólogo de João (Jo 1,16). 


Será que estamos com a veste de Jesus na nossa vida diária como cristãos? Ou precisamos “nos atirar ao mar da vida de Jesus, como Pedro, para que nossa vida se torne um bem para os outros? Será que contamos com Jesus nas nossas atividades pastorais e missionárias? Quem não contar com Deus é porque não sabe contar. Contar com Jesus nas nossas atividades e servir com amor e por amor torna nosso trabalho frutífero.

P. Vitus Gustama,svd

terça-feira, 29 de março de 2016

31/03/2016




O SENHOR ABRE NOSSA INTELIGÊNCIA  ONDE SEU NOME É ASSUNTO DA CONVERSA


Quinta-Feira da I Semana da Páscoa


Primeira Leitura: At 3,11-26


Naqueles dias, 11 como o paralítico não deixava mais Pedro e João, todo o povo, assombrado, foi correndo para junto deles, no chamado “Pórtico de Salomão”.  12 Ao ver isso, Pedro dirigiu-se ao povo: “Israelitas, por que vos espantais com o que aconteceu? Por que ficais olhando para nós, como se tivéssemos feito este homem andar com nosso próprio poder ou piedade? 13 O Deus de Abraão, de Isaac, de Jacó, o Deus de nossos antepassados glorificou o seu servo Jesus. Vós o entregastes e o rejeitastes diante de Pilatos, que estava decidido a soltá-lo.  14 Vós rejeitastes o Santo e o Justo, e pedistes a libertação para um assassino. 15 Vós matastes o autor da vida, mas Deus o ressuscitou dos mortos, e disso nós somos testemunhas. 16 Graças à fé no nome de Jesus, este Nome acaba de fortalecer este homem que vedes e reconheceis. A fé que vem por meio de Jesus lhe deu perfeita saúde na presença de todos vós. 17 E agora, meus irmãos, eu sei que vós agistes por ignorância, assim como vossos chefes. 18 Deus, porém, cumpriu desse modo o que havia anunciado pela boca de todos os profetas: que o seu Cristo haveria de sofrer. 19 Arrependei-vos, portanto, e convertei-vos, para que vossos pecados sejam perdoados. 20 Assim podereis alcançar o tempo do repouso que vem do Senhor. E ele enviará Jesus, o Cristo, que vos foi destinado. 21 No entanto, é necessário que o céu o receba, até que se cumpra o tempo da restauração de todas as coisas, conforme disse Deus, nos tempos passados, pela boca de seus santos profetas. 22 Com efeito, Moisés afirmou: ‘O Senhor Deus fará surgir, entre vossos irmãos, um profeta como eu. Escutai tudo o que ele vos disser. 23 Quem não der ouvidos a esse profeta, será eliminado do meio do povo’. 24 E todos os profetas que falaram, desde Samuel e seus sucessores, também eles anunciaram estes dias. 25 Vós sois filhos dos profetas e da aliança, que Deus fez com vossos pais, quando disse a Abraão: ‘Através da tua descendência serão abençoadas todas as famílias da terra’. 26 Após ter ressuscitado o seu servo, Deus o enviou em primeiro lugar a vós, para vos abençoar, na medida em que cada um se converta de suas maldades”.


Evangelho: Lc 24,35-48


Naquele tempo, 35os discípulos contaram o que tinha acontecido no caminho, e como tinham reconhecido Jesus ao partir o pão. 36Ainda estavam falando, quando o próprio Jesus apareceu no meio deles e lhes disse: “A paz esteja convosco!” 37Eles ficaram assustados e cheios de medo, pensando que estavam vendo um fantasma. 38Mas Jesus disse: “Por que estais preocupados, e por que tendes dúvidas no coração? 39Vede minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo! Tocai em mim e vede! Um fantasma não tem carne, nem ossos, como estais vendo que eu tenho”. 40E dizendo isso, Jesus mostrou-lhes as mãos e os pés. 41Mas eles ainda não podiam acreditar, porque estavam muito alegres e surpresos. Então Jesus disse: “Tendes aqui alguma coisa para comer?” 42Deram-lhe um pedaço de peixe assado. 43Ele o tomou e comeu diante deles. 44Depois disse-lhes: “São estas as coisas que vos falei quando ainda estava convosco: era preciso que se cumprisse tudo o que está escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos”. 45Então Jesus abriu a inteligência dos discípulos para entenderem as Escrituras, 46e lhes disse: “Assim está escrito: o Cristo sofrerá e ressuscitará dos mortos ao terceiro dia 47e no seu nome serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. 48Vós sereis testemunhas de tudo isso”.
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O Senhor Quer Salvar As Pessoas Ao Nosso Redor Através de Nós


Israelitas, por que vos espantais com o que aconteceu? Por que ficais olhando para nós, como se tivéssemos feito este homem andar com nosso próprio poder ou piedade?... Graças à fé no nome de Jesus, este Nome acaba de fortalecer este homem que vedes e reconheceis”, disse Pedro no seu discurso para os judeus.


No seu discurso, Pedro sempre aparece falando em nome do grupo dos apóstolos. No texto de hoje, Pedro se sabe e se reconhece pecador. Não faz muito tempo que ele negou Jesus como seu Mestre (cf. Lc 22,34.54-62). O acontecimento é recente. Pedro reconhece ser um pecador, nem mais piedoso, nem mais santo que qualquer outro. Por isso, com toda sua humildade Pedro reconhece que o poder para curar o paralitico não é seu, mas procede de Cristo. Ele exerce sua missão com muita humildade e se mantém humilde.


Pedro nos ensina a termos consciência de nossos limites e das responsabilidades que nos vem de Deus. É deixar passar através de nossa vida os benefícios que Deus quer fazer, por meio de nós, para tantos irmãos que sofrem. Isto é ministério. E os ministérios são muito e variados na Igreja do Senhor.


O homem que não andava jamais em toda sua vida e que agora passa a andar subitamente pelo poder de Jesus é símbolo da humanidade salva pela ressurreição do Senhor. A ressurreição é uma potência de vida, de alegria e de exaltação. É preciso que acreditemos na força da ressurreição do Senhor, pois ela venceremos tudo na vida. A verdadeira paralisia é a incapacidade de reagir apesar da força que temos dentro de nós.


Jesus Nos Traz Shalom Como Presente De Sua Ressurreição


A cena do texto do evangelho lido neste dia é a continuação da cena do evangelho do dia anterior. O relato começa com o testemunho dos discípulos de Emaús, isto é, aqueles que em sua trajetória viveram a experiência pessoal do encontro com o Senhor ressuscitado no caminho e na fração do pão. É a experiência que enche seus corações e os impulsiona a anunciarem ou contarem a grande noticia de que Jesus vive e vive realmente.      


Durante a partilha dessa experiência, Jesus aparece no meio deles e os saúda com o Shalom (paz): “A paz esteja convosco!”. Shalom é um termo que expressa a harmonia entre o homem e Deus, entre as pessoas, entre as pessoas com a natureza e a harmonia dentro da própria pessoa. Por isso, Shalom é o paraíso aqui na terra.


Em que consiste a paz ou melhor dizer o shalom que Jesus nos oferece? A paz que o Senhor ressuscitado nos oferece não consiste na tranqüilidade que se sente quando um está plácido e comodamente está sentado ou vive sem que ninguém ou nada o incomode. A paz de Cristo ressuscitado que nos oferece consiste em saber que somos amados, protegidos e compreendidos por Deus. Trata-se de uma relação harmoniosa com Deus, com o próximo, consigo próprio, e com a natureza. Quando cada elemento ocupa seu próprio lugar e desempenha seu próprio papel responsavelmente, haverá a paz. Os discípulos recebem o shalom do ressuscitado. Mas receber a paz de Deus não é suficiente. É preciso viver o shalom, isto é, viver em harmonia com todos. A harmonia sempre cria uma beleza. As cores que se colocam harmoniosamente nos apresentam uma beleza admirável. Dizia Santo Agostinho: “Não basta ser pacifico. É necessário ser promotor da paz. Não basta estar disposto a perdoar ou ignorar os inimigos, é preciso amá-los e ter compaixão... Deves amar a paz sem odiar os que fazem a guerra” (Serm. 357,1).


A paz esteja convosco!”. “Uma saudação que ressoava no Natal: ‘Paz na terra’ [Lc 2,14]. Uma saudação bíblica já anunciada como promessa efetiva do reino messiânico. Mas agora é comunicada como uma realidade que toma corpo neste primeiro núcleo da Igreja nascente: a paz de Cristo vitorioso sobre a morte e das causas próximas e remotas dos efeitos terríveis e desconhecidos da morte.... A paz do coração é a felicidade autêntica. Ajuda a ser forte na adversidade, mantém a nobreza e a liberdade da pessoa, inclusive nas situações mais graves; é a tábua de salvação, a esperança nos momentos em que o desespero parece nos vencer... É o primeiro dom do Ressuscitado, o sacramento de perdão que ressuscita” (Paulo VI) .


Na Eucaristia o Senhor se faz presente entre nós para nos manifestar todo o amor que ele nos tem. A partir desse amor é que Ele nos concede seu perdão e sua paz. Ao participar da Eucaristia, nós devemos nos sentir amados por ele. Por isso, a participação na Eucaristia nos compromete a darmos testemunho da vida nova que Deus infundiu em nós. Devemos, portanto, ser construtores da paz. Trata-se de uma paz que brota do amor sincero que nos faça próximos do nosso próximo em suas angustias e esperanças, como Jesus que aparece, repentinamente, no meio dos discípulos.


Depois da ressurreição Jesus apareceu no meio dos discípulos que estavam com o medo. Mas sem duvida nenhuma, o assunto entre eles era sobre Jesus. E Jesus tinha prometido aos discípulos: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou Eu no meio deles” (Mt 18,20). Cada conversa sobre Jesus e assuntos ligados a ele, Jesus está presente para dar o shalom, a paz e para acalmar qualquer situação por fervente que ela pareça ser. Ele está presente para dar ajuda em cada conversa sobre ele e sobre os seus ensinamentos. Jesus aparece no momento em que a experiência individual começa a ser coletiva, comunitária em Jesus, sem destruir a experiência pessoal/individual. O Ressuscitado é a força que interpela à comunidade e é experiência de unidade. Por isso, desta vez, Jesus é reconhecido na comunidade reunida em Seu nome.


A dúvida e o medo dos discípulos são evidentes, como em todas as aparições do Ressuscitado. E Jesus tem que acalmá-los: “Por que estais preocupados e por que tendes dúvidas no coração?”. Para acabar com a dúvida dos discípulos Jesus come com eles. Mas a comunidade deve ter algo para oferecer a Jesus, é algo que os alimenta diariamente: o peixe: “Tendes aqui alguma coisa para comer?”, pergunta-lhe Jesus. “Deram-lhe um pedaço de peixe assado”, comenta o evangelista Lucas. Será que temos algo a oferecer a Jesus ou somente pedimos algo de Jesus? O que devemos oferecer a Jesus é aquilo que nos sustenta e dignifica diariamente. A partir daquilo que oferecemos a Jesus é que podemos alimentar a multidão faminta de tudo.


O fruto da presença de Jesus no meio dos discípulos que conversam sobre ele é a abertura do entendimento, o horizonte ampliado sobre a vida: “Jesus abriu a inteligência dos discípulos para entenderem as Escrituras”, assim comenta o evangelista Lucas. A inteligência  nos capacita a resolvermos os problemas, pois a       inteligência é o conjunto de funções psíquicas e psicofisiológicas que contribuem para o conhecimento, para a compreensão da natureza das coisas e do significado dos fatos. Estar aberto a Deus e conversar com Deus permanentemente nos leva a compreendermos tudo na nossa vida, pois o próprio Deus abrirá nossa inteligência.


Nós podemos também reconhecer Jesus na fração do pão eucarístico, na Palavra bíblica proclamada, meditada e partilhada, e na comunidade reunida em Seu nome partilhando o que se tem para quem é carente em tudo. Nós necessitamos, como a primeira comunidade, de uma catequese especial para que seja aberto nosso entendimento a fim de entendermos a vida e as coisas que acontecem nela, pois nada escapa do olhar de Deus quando deixamos que ele tenha espaço nas nossas conversas e quando seu lugar está bem no meio de nós. Em cada Eucaristia ele aparece no meio de nós e é o principal alimento no qual se encontra a força necessária para nossa vida. Ao se alimentar da Eucaristia, cada um deve se converter em força para os outros, especialmente para aqueles que não têm mais ânimo para lutar, pois estão céticos em tudo e sobre tudo na vida. Estas pessoas precisam escutar novamente a promessa infalível de Jesus: “No mundo vocês terão tribulações, mas tenha coragem: eu venci o mundo” (Jo 16,33b). Cada cristão deve se converter nesta frase: “Não tenha medo! Jesus venceu o mundo”. O cristão é aquele que acalma e serena os outros, pois ele sabe que está sempre com o Jesus ressuscitado.


Com os olhos da fé na Fração do Pão e na força de sua Palavra é que saiamos da celebração para dar testemunho de Cristo na vida. Aos Apóstolos, a ultima palavra que lhes dirige é esta: “Vós sereis testemunhas de tudo isso”. Desde princípio, ser apóstolo é ser testemunha da ressurreição de Jesus Cristo (At 1,22). Ser cristão é ser testemunha de que viver a vida com Deus e com todas as suas conseqüências é uma vida vitoriosa, uma vida que não termina na morte, e sim na ressurreição com Jesus. Deus pode tardar, mas nunca falha. Atrás da cruz de Jesus está a vida sem fim. Precisamos ter um olhar penetrante além dos sentidos para entender o recado de Deus.


NÃO VÁS EMBORA, SENHOR
Rabindranath Tagore


“Se a porta de meu coração estiver fechada, ó Senhor, arromba-a e entra em minha alma. Não vás embora, ó Senhor!


Se algum dia nas cordas do alaúde, não ressoar teu doce nome, por piedade, espera um pouco, não vás embora, ó Senhor!


Se alguma vez tua voz não romper meu sono profundo, acorda-me com rumor do trovão, não vás embora, ó Senhor!


Se algum dia, em teu trono, eu preferir sentar outro, ó Rei de todos os meus dias, não vás embora, ó Senhor!”


“Faz tua esta minha casa e acende nela a tua lâmpada. Enche-a com a tua luz: ganharão valor também os sofrimentos.


Sejam dissipadas as trevas dos ângulos mais secretos, e, estabelecida a tua luz bendita, que eu ame as pessoas que devo amar. Faze tua esta minha casa e acende nela a tua lâmpada.


Tua lâmpada transformante tem uma chama imóvel, em instantes transforma em ouro todas as minhas manchas negras. Faze tua esta minha casa e acende nela tua lâmpada.


Eu acendo luzes, mas bruxuleiam e só produzem fumaça. Manda os raios da tua luz sobre os umbrais da minha casa. Faze tua esta minha casa e acende nela tua lâmpada”.


Fonte: Noibedo, Oferta, pp 26 e 30. Ed. Paulinas, 1996.


P. Vitus Gustama,svd

30/03/2016




O SENHOR NÃO NOS ABANDONA EM MOMENTO NENHUM


Quarta-Feira da I Semana da Páscoa


Primeira Leitura: At 3,1-10


Naqueles dias, 1 Pedro e João subiram ao Templo para a oração das três horas da tarde. 2 Então trouxeram um homem, coxo de nascença, que costumavam colocar todos os dias na porta do Templo, chamada Formosa, a fim de que pedisse esmolas aos que entravam. 3 Quando viu Pedro e João entrando no Templo, o homem pediu uma esmola. 4 Os dois olharam bem para ele e Pedro disse: “Olha para nós!” 5O homem fitou neles o olhar, esperando receber alguma coisa. 6Pedro então lhe disse: “Não tenho ouro nem prata, mas o que tenho eu te dou: em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, levanta-te e anda!” 7 E pegando-lhe a mão direita, Pedro o levantou. Na mesma hora, os pés e os tornozelos do homem ficaram firmes. 8 Então ele deu um pulo, ficou de pé e começou a andar. E entrou no Templo junto com Pedro e João, andando, pulando e louvando a Deus. 9 O povo todo viu o homem andando e louvando a Deus. 10 E reconheceram que era ele o mesmo que pedia esmolas, sentado na porta Formosa do Templo. E ficaram admirados e espantados com o que havia acontecido com ele.


Evangelho: Lc 24,13-35


13Naquele mesmo dia, o primeiro da semana, dois dos discípulos de Jesus iam para um povoado chamado Emaús, distante onze quilômetros de Jerusalém. 14Conversavam sobre todas as coisas que tinham acontecido.15Enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e começou a caminhar com eles. 16Os discípulos, porém, estavam como cegos, e não o reconheceram. 17Então Jesus perguntou: “Que ides conversando pelo caminho?” Eles pararam, com o rosto triste, 18e um deles chamado Cléofas, lhe disse: “Tu és o único peregrino em Jerusalém que não sabe o que lá aconteceu nestes últimos dias?19Ele perguntou: “Que foi?” Os discípulos responderam: “O que aconteceu com Jesus, o Nazareno, que foi um profeta poderoso em obras e palavras, diante de Deus e diante de todo o povo. 20Nossos sumos sacerdotes e nossos chefes o entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram. 21Nós esperávamos que ele fosse libertar Israel, mas, apesar de tudo isso, já faz três dias que todas essas coisas aconteceram! 22É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos deram um susto. Elas foram de madrugada ao túmulo 23e não encontraram o corpo dele. Então voltaram, dizendo que tinham visto anjos e que estes afirmaram que Jesus está vivo. 24Alguns dos nossos foram ao túmulo e encontraram as coisas como as mulheres tinham dito. A ele, porém, ninguém o viu”. 25Então Jesus lhes disse: “Como sois sem inteligência e lentos para crer em tudo o que os profetas falaram! 26Será que o Cristo não devia sofrer tudo isso para entrar na sua glória?” 27E, começando por Moisés e passando pelos Profetas, explicava aos discípulos todas as passagens da Escritura que falavam a respeito dele. 28Quando chegaram perto do povoado para onde iam, Jesus fez de conta que ia mais adiante. 29Eles, porém, insistiram com Jesus, dizendo: “Fica conosco, pois já é tarde e a noite vem chegando!” Jesus entrou para ficar com eles. 30Quando se sentou à mesa com eles, tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e lhes distribuía.31Nisso os olhos dos discípulos se abriram e eles reconheceram Jesus. Jesus, porém, desapareceu da frente deles. 32Então um disse ao outro: “Não estava ardendo o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho, e nos explicava as Escrituras?” 33Naquela mesma hora, eles se levantaram e voltaram para Jerusalém onde encontraram os Onze reunidos com os outros. 34E estes confirmaram: “Realmente, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão!”  35Então os dois contaram o que tinha acontecido no caminho, e como tinham reconhecido Jesus ao partir o pão.
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Jesus Atua Nos Apóstolos


Olha para nós! Não tenho ouro nem prata, mas o que tenho eu te dou: em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, levanta-te e anda!”, disse Pedro ao paralítico.


A Primeira Leitura  faz parte dum bloco dos Atos dos Apóstolos onde se narram atividades ou acontecimentos em pares (At 3-5): duas atividades milagrosas (At 3,1-11 e At 5,15-16), duas pregações no templo (At 3,12-26 e At 5,17-21) e duas prisões (At 4,1-4 e At 5,21-26) etc.


Através deste relato (cura do paralítico) entendemos que a comunidade cristã primitiva percebe o poder taumatúrgico dos Apóstolos como um sinal de continuidade entre o tempo de Jesus e o da Igreja. É uma garantia de que Jesus-Messias está sempre entre a comunidade, além mesmo da morte.


A leitura quer nos transmitir também que os Apóstolos são realmente depositários do poder messiânico de Jesus. A ação taumatúrgica de Jesus não termina com sua morte. Pedro responde à esperança dos cristãos  operando a cura do paralítico em nome do “Messias” Jesus de Nazaré. Sua ordem é idêntica à de Jesus: “Levanta-te e anda” (At 3,6; Lc 5,23). O milagre acontece no mesmo lugar onde Jesus opera uma cura parecida (cf. Mt 21,14). Pedro toma o doente pela mão, como Jesus (At 3,7; cf. Lc 8,54).


Esta leitura quer nos dizer também que uma das preocupações de Jesus durante sua vida terrestre e que agora torna-se a preocupação dos Apóstolos é a preocupação sobre os exclusos ou excluídos, os últimos no templo. Os exclusos ou excluídos chamam atenção dos apóstolos e se esforçam para libertá-los em nome Jesus. Este milagre constitui  um testemunho precioso da fé cristã primitiva.


Nossa fé é a fé apostólica, isto é, a fé que recebemos dos apóstolos. Isto significa que a preocupação dos apóstolos sobre os excluídos deve ser também nossa preocupação. Quando fizermos tudo no espirito de Jesus, excluindo o interesse pessoal (autopromoção, por exemplo), haverá sempre solução para todas as paralisias da humanidade ao nosso redor. Além disso, temos que estar unidos para realizar este trabalho como eram os apóstolos ou cristãos primitivos: “A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma” (At 4,32). Tudo isso faremos quando acreditarmos que Jesus continua agindo através de nós como agia através dos apóstolos. Jesus está vivo gloriosamente e vive no meio de nós. Tenhamos fé nisso. No início muitos discípulos não tinham esta fé, mas somente depois que Jesus apareceu na vida deles como relata o evangelho deste dia.


Jesus Está Conosco Diariamente


Nós esperávamos…!”, disseram os dois discípulos de Emaús diante da morte de Jesus.  Estas palavras estão cheias de uma esperança perdida ou de decepção. É fácil entendermos a decepção desses homens. Em toda vida humana alguma vez ou várias vezes aconteceu e acontecerá uma grande esperança perdida, uma morte cruel, um fracasso humilhante, uma preocupação, uma questão não solucionada ou não solucionável, um pecado que faz sofrer, uma imprudência que causa uma fatalidade, uma doença incurável, uma traição atrás da outra no casamento, e assim por diante.


Os dois discípulos de Emaús se sentem muito frustrados diante da situação. Frustração é um sentimento de fracasso e decepção que aparece diante de um desejo não realizado ou diante de uma necessidade não satisfeita. Quanto maior for o desejo que quisermos realizar, se ele não for realizado, maior será o grau de frustração que teremos. Quando uma pessoa não conseguir realizar seu desejo aparecerão duas emoções opostas nela: a raiva e tristeza. Uma pessoa frustrada, muitas vezes, se torna violenta, brava, estúpida, grosseira, intolerante, impaciente e assim por diante. Por trás de uma pessoa brava e grosseira, muita das vezes há uma pessoa frustrada.


Os dois discípulos de Jesus se afastaram de Jerusalém indo para Emaús depois da morte do Mestre. A viagem ida para Emaús é triste, em silencio, com sentimentos de derrota e desilusão: “Nós esperávamos...!”


Nisto “O próprio Jesus se aproximou e começou a caminhar com eles”, comentou o evangelista Lucas. Por seu caminho Jesus vem encontrá-los. E se interessa por suas preocupações. Jesus jamais nos abandona nas nossas tristezas e sofrimentos. Mas o nome dele deve ser sempre nosso assunto de conversa e de oração para que ele inspire nossas conversas e orações, para que ele possa nos acompanhar. Jesus conhece nossos sofrimentos e nossas decepções. Por isso precisamos nos deixar olhar e interrogar por Jesus: “O que vocês vivem conversando no seu caminho da vida?”. Qual conteúdo de nossa conversa? O que conversamos mais na vida e para que conversamos sobre isso? Precisamos contar tudo para Jesus como expressão de nossa nele embora ele saiba de tudo sobre nossa vida.


Os dois não reconheceram o Caminhante que se junta a eles: “seus olhos estavam cegos, não podiam reconhecê-lo”. Quando estivermos dominados pelas grandes preocupações, acabamos não vendo nada a não ser aquilo que nos preocupa. Perdemos o chão sobre o qual devemos pisar. Perdemos nosso sono. Até não sentimos a presença de pessoas ao nosso lado.


Seus olhos estavam cegos, não podiam reconhecê-lo”. Sempre é difícil reconhecer o Ressuscitado, como no caso de Maria Madalena, sobretudo, quando os olhos estão tristes e fechados. A dos dois se desmoronou. Não crêem na ressurreição apesar da informação de algumas mulheres que o túmulo estava vazio. Há um ponto comum nos relatos das aparições do Ressuscitado: os discípulos estão pouco dispostos a crer; duvidam, não esperam a ressurreição, estão desconcertados.


Somente no pão partilhado é que os dois reconheceram que aquele homem que andava com eles era Jesus ressuscitado. O momento do pão partilhado é o momento de fraternidade, de familiaridade, de conversa de igual para igual, de alegria, de risos à vontade, de reconhecer a presença do outro e de ouvi-lo atentamente. São momento tão humanos e por isso, tão divinos. Os dois discípulos reconhecem a presença do Divino no partir do pão. Consequentemente, a viagem de volta para Jerusalém se torna exatamente contrária: os dois discípulos correm pressurosos, cheios de alegria, os olhos enxergam melhor e a inteligência fica aberta para entender as Sagradas Escrituras e ansioso para contar a experiência para os amigos de sua comunidade em Jerusalém. A experiência profunda com o Divino cria comunidade e faz o afastado voltar para a comunidade. A experiência profundo com Deus torna alguém evangelizador.


O ressuscitado está presente nos três grandes momentos em que os discípulos de Emaús o encontraram: na Fração do Pão, na Proclamação de Sua Palavra e na Comunidade. São precisamente os três momentos primordiais de nossa celebração: a Comunidade reunida, a Palavra proclamada e escutada e a Eucaristia recebida como alimento. Os três “sacramentos” do Senhor ressuscitado.


Em outras palavras, o relato do evangelho de Lucas foi elaborado totalmente para nos ensinar como podemos reconhecer Jesus, como podemos avançar lentamente da dúvida, do desespero para a fé.


O primeiro método, para reconhecer Jesus é preciso tomar contato, profundamente, cordialmente, com as Escrituras, com a Palavra de Deus. “Jesus, começando por Moisés e passando pelos profetas, explicava aos discípulos todas as passagens da Escritura que falavam a respeito dele”. O AT esclarece o NT. O projeto de Deus prossegue sem ruptura. O que se realiza em Jesus Cristo é o que Deus previa desde a eternidade. Por isso, precisamos ler e reler a Palavra de Deus com a oração e com o coração, sem os quais jamais conseguiríamos a inspiração divina para entender o que está escrito nas Escrituras.


A segunda experiência para reconhecer Jesus é a Eucaristia, a fração do pão. “Quando se sentou à mesa com eles, tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e lhes distribuía. Nisso os olhos dos discípulos se abriram e eles reconheceram Jesus”. A Eucaristia é o sacramento, o sinal eficaz da presença de Cristo ressuscitado. É o grande mistério da fé, embora aparentemente seja um sinal muito pobre, um sinal muito modesto materialmente: pão e vinho. Pobre, materialmente, mas são essenciais para a vida humana. Através destes dois elementos (pão e vinho), estamos diante do Sagrado que quer nos tocar para nos alimentar e salvar. É o sacramento da fraternidade onde todos se alimentam do mesmo Pão eucarístico e do mesmo Cálice. É o momento de humanização, pois todos são comensais. É a vida de Jesus sacrificada para a nossa salvação. É o nosso verdadeiro alimento na caminhada rumo ao céu, à comunhão plena no banquete eterno com Deus. A eucaristia é o céu aqui na terra. Ir à missa é ir ao céu. A Eucaristia é o banquete celeste antecipado já aqui na terra. Não vamos à missa para cumprir preceitos e sim vamos ao céu ao participarmos da Eucaristia que é o banquete celeste.


Na celebração eucarística há duas Mesas inseparáveis: a Mesa da Palavra (Liturgia da Palavra) e a Mesa da Eucaristia (Liturgia da Eucaristia). “No princípio era Palavra e a Palavra se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,1.14). As duas são da mesma importância. Na Mesa da Palavra Deus tem sua Palavra para nos alimentar. Deus sempre tem uma palavra para cada participante da celebração eucarística. E na Mesa da Eucaristia, o Senhor nos alimenta com seu Corpo e seu Sangue. Já que as duas Mesas são da mesma importância, então devemos dar-lhes a atenção de maneira igual e com a mesma reverência. Essas duas mesas se encontram no texto do evangelho de hoje. Jesus nutre, primeiro, os dois discípulos com Sua Palavra (Sagrada Escritura) para depois alimentá-los com o Pão da vida, Pão partilhado na mesa comum.


Depois desses dois sinais isto é, a Palavra e a Fração do Pão, no mesmo instante, os dois discípulos voltaram para Jerusalém para contar essa experiência para os demais discípulos. Isto nos mostra que Jesus se encontra na comunidade reunida em Seu nome e que fala de Seu nome (cf. Mt 18,20).


Além disso, a volta dos dois discípulos com tanta pressa para comunidade também tem outro nome: missão. Cada encontro pessoal com o Senhor Jesus move a pessoa a ir ao encontro dos outros para contar esse encontro, para partilhar a riqueza desse encontro. Ninguém pode somente ficar quieto em seu lugar contemplando Cristo ressuscitado. Há que pôr-se em caminho e marchar até os outros irmãos para que juntos formemos uma comunidade de irmãos baseada no amor e no respeito mútuo e anunciemos a esperança de que a vida humana tem futuro em Deus ao vivermos no presente como irmãos e irmãs, alimentados pelo Pão da Palavra e pelo Pão Eucarístico.


A experiência dos dois discípulos de Emaús nos mostra que a Páscoa não é uma recordação. É salvação, é vida hoje e aqui para você, para mim, para todos nós. Temos, sim, nossas decepções em relação à comunidade. Mas se escutarmos atentamente e profundamente a Palavra de Deus e nos alimentarmos de Seu Corpo e Sangue, não tem como não formar uma comunidade de irmãos. Os dois discípulos de Emaús há muita coisa a nos ensinar sobre como devemos ser a Igreja. Para construir ou reconstruir uma comunidade de discipulado necessitamos fazer uma experiência profunda com o Ressuscitado. Para nos tornarmos evangelizadores do Ressuscitado, necessitamos conversar com Ele longamente.


P. Vitus Gustama,svd