sábado, 2 de abril de 2016

07/04/2016



QUEM VIVE OS ENSINAMENTOS DE CRISTO PERTENCE AO CÉU


Quinta-Feira da II Semana da Páscoa


Primeira Leitura: At 5,27-33


Naqueles dias, 27 eles levaram os apóstolos e os apresentaram ao Sinédrio. O sumo sacerdote começou a interrogá-los, 28 dizendo: “Nós tínhamos proibido expressamente que vós ensinásseis em nome de Jesus. Apesar disso, enchestes a cidade de Jerusalém com a vossa doutrina. E ainda nos quereis tornar responsáveis pela morte desse homem!” 29 Então Pedro e os outros apóstolos responderam: “É preciso obedecer a Deus, antes que aos homens. 30 O Deus de nossos pais ressuscitou Jesus, a quem vós matastes, pregando-o numa cruz. 31 Deus, por seu poder, o exaltou, tornando-o Guia Supremo e Salvador, para dar ao povo de Israel a conversão e o perdão dos seus pecados. 32 E disso somos testemunhas, nós e o Espírito Santo, que Deus concedeu àqueles que a Ele obedecem”. 33 Quando ouviram isto, ficaram furiosos e queriam matá-los.


Texto de Leitura: Jo 3, 31-36


31“Aquele que vem do alto está acima de todos. O que é da terra, pertence à terra e fala das coisas da terra. Aquele que vem do céu está acima de todos. 32Dá testemunho daquilo que viu e ouviu, mas ninguém aceita o seu testemunho. 33Quem aceita o seu testemunho atesta que Deus é verdadeiro. 34De fato, aquele que Deus enviou fala as palavras de Deus, porque Deus lhe dá o espírito sem medida. 35O Pai ama o Filho e entregou tudo em sua mão. 36Aquele que acredita no Filho possui a vida eterna. Aquele, porém, que rejeita o Filho não verá a vida, pois a ira de Deus permanece sobre ele”.
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Estamos na conclusão de Jo 3 que contém a conversa entre Jesus e Nicodemos. Nesta conclusão o evangelista João nos descreve a superioridade de Jesus em relação aos demais seres humanos e a todos os enviados anteriores a Ele. Para descrever isto, Jesus usa os termos relacionados ao espaço: “do alto”, “da terra”. Jesus vem do “alto” (cf. Jo 1,1-18). Um profeta pode ser maior de quaisquer outros profetas, mas ele vem da “terra”, e por isso, não pode ser superior a Jesus.


Jesus Está Acima De Tudo e De Todos


“Aquele que vem do alto está acima de todos”.


Este texto quer nos mostrar que Jesus tem um poder acima de todos e uma posição de domínio. Jesus está acima de todos porque ele veio “do alto”, “do céu”, isto é, de Deus. Jesus tem o singular poder salvífico e portador da salvação: “Em nenhum outro há salvação, pois não existe debaixo do céu outro nome dado aos homens pelo qual possamos ser salvos” (At 4,12). O pleno poder de Jesus está relacionado com sua origem celestial. Podemos entender a razão pela qual mais tarde Simão Pedro vai dizer a Jesus: “Senhor, a quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna e nós cremos e reconhecemos que tu és o Santo de Deus” (Jo 6,68-69). Não é por acaso que diante das autoridades judaicas Pedro disse com firmeza, que lemos na Primeira Leitura: “É preciso obedecer a Deus, antes que aos homens. O Deus de nossos pais ressuscitou Jesus, a quem vós matastes, pregando-o numa cruz. Deus, por seu poder, o exaltou, tornando-o Guia Supremo e Salvador, para dar ao povo de Israel a conversão e o perdão dos seus pecados. E disso somos testemunhas, nós e o Espírito Santo, que Deus concedeu àqueles que a Ele obedecem” (At 5,29-32).


Jesus obteve essa posição como Senhor sobre tudo e sobre todos com sua ressurreição ou glorificação. Jesus é superior a todos os demais seres humanos, porque ele experimentou a intimidade profunda do Pai e é a própria Palavra do Pai (Jo 1,1-5). Jesus é apresentado como Revelador do Pai, por excelência: sua vinda do céu (v.31), a fonte de seu testemunho: Jesus não fala por si mesmo, mas Ele fala as palavras de Deus (o que ele viu e ouviu do céu: v. 32), e o fato de Deus ter entregue tudo em suas mãos (v.35). Por isso, Jesus é distinto e superior a todos os anteriores enviados de Deus.


O Poder De Jesus Está No Amor


A superioridade da pessoa e da vida de Jesus consiste no amor. O centro da relação entre Deus e o Filho de Deus (Jesus) é o amor que supera qualquer coisa. Daí podemos entender que o poder de Jesus é o poder de salvação. Quem salva porque ama. Toda a vida de Jesus teve como pano de fundo o amor, razão pela qual foi enviado (Jo 3,16) e o qual ele colocou como o Mandamento Novo (Jo 13,34; 15,12). O amor é o eixo condutor da vida. Este amor foi tão tenso na vida e missão de Jesus que o Pai não hesitou em colocar nas mãos do Filho, inclusive o poder de julgar a vida de quem se negar a crer nele. A superioridade divina consiste no amor. Deus é onipotente, mas no amor, pois ele ama até aquele que não é digno de ser amado pelo modo de viver. Se Jesus ocupa essa posição superior a todos os demais seres humanos não devemos ter medo dos demais. Precisamos, sim, acreditar cegamente nele para que possamos também triunfar.


Hoje o evangelho nos convida a deixarmos de ser “mundanos”, a deixarmos de ser homens que somente falam de coisas mundanas, para passarmos a falar como “aquele que vem de cima” que é Jesus. Falaremos como ”aquele vem de cima”, quando vivermos conforme os valores cristãos reconhecidos como valores universais, tais como amor, compaixão, bondade, solidariedade, igualdade, honestidade, justiça e assim por diante. Estar na superioridade é aquele que mantém sua vida de acordo com os valores.


É preciso olharmos para cima, para o céu para poder ordenar nossa vida aqui em baixo, no mundo. É necessário que em todo momento e circunstância nos esforcemos a ter o pensamento de Deus, que tenhamos ambição de ter os mesmos sentimentos de Cristo. Se atuarmos como “aquele que vem de cima” descobriremos facilmente o sentido da vida, das coisas e das pessoas ao nosso redor até o sentido de nosso sofrimento e dor. Se tivermos os sentimentos como os “daquele que vem do alto”, amaremos todos os seres humanos sem exceção e nos preocuparemos em cuidar da nossa própria vida e da vida dos demais, inclusive da vida da natureza criada por Deus. São Paulo nos aconselha: “Se ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas lá de cima, e não às de terra” (Cl 3,1-2).

A Que Pertencemos?


“O que é da terra pertence à terra e fala das coisas da terra”. Ser da terra é ser limitado por um horizonte terreno incapaz de ver além da aparência. No olhar do terreno tem coisas. É não ter o conhecimento imediato de Deus. Quem ama ao mundo fala somente coisas mundanas. Quem ama a Deus fala as coisas do alto. Os que amam ao mundo vivem de acordo com o espírito mundano. São Paulo descreveu da seguinte maneira:


·        “Ora, as obras da carne são manifestas: formicação, impureza, libertinagem, idolatria, feitiçaria, ódio, rixas (disputa/briga), ciúmes, ira, discussões, discórdia, divisões, invejas, bebedeiras, orgias, e coisas semelhantes a estas, a respeito das quais eu vos previno como vos preveni: os que tais coisas praticam não herdarão o reino de Deus(Gl 5,19-21).


·        Como não fizeram caso do verdadeiro conhecimento de Deus, Deus os entregou a sentimentos depravados. Por isso, procederam indignamente. Estão cheios de todo tipo de injustiça, perversidade, avareza e malícia, e também de inveja, homicídio, discórdia, velhacaria, depravação e calúnia. Difamam uns aos outros, odeiam a Deus, são atrevidos, soberbos, presunçosos, inventores de maldades, desobedientes aos pais. Eles não têm consciência, nem lealdade, nem coração, nem pena dos outros(Rm 1,28-31).


Para superar o homem de carne, São Paulo nos recomendou: “Se, portanto, ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas de cima, e não às da terra. Porque estais mortos e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, vossa vida, aparecer, então também vós aparecereis com ele na glória. Mortificai, pois, os vossos membros no que têm de terreno: a devassidão, a impureza, as paixões, os maus desejos, a cobiça, que é uma idolatria. Dessas coisas provém a ira de Deus sobre os descrentes” (Colossenses  3,1-6).


Uma pessoa do alto ou do céu é uma pessoa de valor. Sua vida é governada pelos valores cristãos como o amor, o perdão, a bondade, a solidariedade, a compaixão, e assim por diante. Todos estes valores e outros demais têm uma marca divina. São esses valores que levam o homem para a comunhão com Deus e com os irmãos. Chamamos alguém de responsável quando vive de acordo com os valores reconhecidos universalmente. O irresponsável é aquele que não vive os valores.


Cada cristão deve saber identificar as duas classes de consciências pelas quais o ser humano pode optar: o terreno (inferno, egoísta, prepotência etc.) ou o celestial (amor, partilha, fraternidade, igualdade, etc.). Estes dois pólos de consciência expressam realmente os elementos com os quais cada um se identifica: um, busca seus próprios interesses (ser interesseiro); o outro, busca a criação de uma sociedade igualitária, mais fraterna, mais justa, mais honesta e assim por diante.


O celestial e o terreno influenciam nossa maneira de viver de cada dia. Mas no fim, o celestial triunfará e o terreno fracassará apesar da aparência vitoriosa. Fica apenas na aparência. Quem fica na aparência, vive apenas na superficialidade. Santo Agostino dizia: “Amando a Deus nos tornamos divinos; amando o mundo nos tornamos mundanos (Serm. 121,1)... O amor ao mundo corrompe a alma; o amor ao Criador do mundo a purifica (Serm. 142,3,3).Queres saber que tipo de pessoa és? Põe à prova teu amor. Se amas as coisas terrenas, és terra. Se amas a Deus, não tenhas medo de dizer: és Deus” (Santo Agostinho: In epist. Joan. 2,214).


A verdade está em Deus e por isso, a verdade é eterna e imutável; os meios não são imutáveis nem eternos. A busca da verdade será sempre um exercício de modéstia, pois trata-se de indagar e não de possuir a verdade. O nosso conhecimento nunca é absoluto nem total, mas sempre parcial, pois vemos as coisas apenas do nosso ângulo, mas ainda tem outros ângulos. A verdade é uma só e universal e nunca parcial. Ou é a verdade ou não é verdade.


Deveríamos nos perguntar hoje: em quem cremos; em quem confiamos, quais são as fontes onde buscamos a verdade? Lamentavelmente temos experiência do que é a mentira. Muitas vezes fabricamos fatos inexistentes só para nos aparentar bons. Mentira é aquela distorção do real que gera desconfiança, medo, distancia e confusão. Diante da mentira se situa a Verdade, mencionada na página do evangelho de hoje. A verdade é o próprio Deus (Jo 14,6) e por isso, gera a vida. A verdade é o conhecimento do sentido da vida. A mentira gera a morte. “O que é da terra pertence à terra e fala das coisas da terra”. Mas “Aquele que vem do alto está acima de todos”. Quem é da terra (mundano) pensa a partir do pó, do caduco, do efêmero, a partir dos próprios interesses. Quem é do alto, do céu pensa e fala como filho (filha) de Deus com pensamentos de Deus. A que você pertence: às coisas do alto ou à terra? Mas lembremo-nos aquilo que dizia Santo Agostinho que serve de alerta para nós: “Quando lhe convém, o homem esquece que é cristão” (In ps. 21, 2,5).


P. Vitus Gustama,svd

06/04/2016




DEUS É AMOR E SOMOS MUITO AMADOS POR ELE


Quarta-Feira da II Semana da Páscoa


Primeira Leitura: At 5,17-26


Naqueles dias, 17 levantaram-se o sumo sacerdote e todos os do seu partido — isto é, o partido dos saduceus — cheios de raiva e 18 mandaram prender os apóstolos e lançá-los na cadeia pública. 19 Porém, durante a noite, o anjo do Senhor abriu as portas da prisão e os fez sair, dizendo: 20 “Ide falar ao povo, no Templo, sobre tudo o que se refere a este modo de viver”. 21 Eles obedeceram e, ao amanhecer, entraram no Templo e começaram a ensinar. O sumo sacerdote chegou com seus partidários e convocou o Sinédrio e o Conselho formado pelas pessoas importantes do povo de Israel. Então mandaram buscar os apóstolos na prisão. 22 Mas, ao chegarem à prisão, os servos não os encontraram e voltaram dizendo: 23 ”Encontramos a prisão fechada, com toda segurança, e os guardas estavam a postos na frente da porta. Mas, quando abrimos a porta, não encontramos ninguém lá dentro”. 24 Ao ouvirem essa notícia, o chefe da guarda do Templo e os sumos sacerdotes não sabiam o que pensar e perguntavam-se o que poderia ter acontecido. 25 Chegou alguém que lhes disse: “Os homens que vós pusestes na prisão estão no Templo ensinando o povo!” 26 Então o chefe da guarda do Templo saiu com os guardas e trouxe os apóstolos, mas sem violência, porque eles tinham medo que o povo os atacasse com pedras.


Evangelho: Jo 3,16-21


16Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna. 17De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele. 18Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho unigênito. 19Ora, o julgamento é este: a luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz, porque suas ações eram más. 20Quem pratica o mal odeia a luz e não se aproxima da luz, para que suas ações não sejam denunciadas. 21Mas quem age conforme a verdade aproxima-se da luz, para que se manifeste que suas ações são realizadas em Deus.
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A Força Do Ressuscitado Derruba Qualquer Tipo De Obstáculo


“... mandaram prender os apóstolos e lançá-los na cadeia pública. Porém, durante a noite, o anjo do Senhor abriu as portas da prisão e os fez sair, dizendo: ‘Ide falar ao povo, no Templo, sobre tudo o que se refere a este modo de viver´” (At 5,18-20).


Pela segunda vez os apóstolos foram presos na cadeia pública pelo testemunho de vida e de pregação que fizeram (cf. At 4,1ss).


O motivo da prisão, segundo  o texto, é a inveja (At 5,18). A inveja é uma profunda raiva produzida pela conquista dos outros. A inveja é um desejo de destruição, de vingança, de ódio. A inveja tentará destruir o rival por meio da perseguição aberta ou da desqualificação, da calúnia. “ O silêncio do invejoso está cheio de ruídos” (Khalil Gibran). A inveja sempre nos tira do foco e conduz a nossa energia para o lado errado.


Os apóstolos são motivos de inveja, porque eles formam um novo centro de irradiação que foge do controle da nobreza (classe sacerdotal, escribas etc.). Com isso, como consequência, é tirado o privilégio dos sacerdotes de sua casta.


As autoridades não querem se converter diante dos fatos, mas também não podem impedir a marcha do evangelho vivido pelos apóstolos. O progresso ininterrupto do Evangelho é o sinal de que Deus está com os apóstolos. Os judeus e suas autoridades tiveram que inclinar-se e reconhecer que Deus estava com os apóstolos. O anjo do Senhor, que libertou os apóstolos da prisão mesmo com a porta fechada, é o instrumento das intervenções divinas. Tudo isso mostra a proximidade de Deus quem luta no lugar de Deus.


“Ide falar ao povo, no Templo, sobre tudo o que se refere a este modo de viver”, disse o anjo do Senhor para os apóstolos. E os apóstolos obedecem e ensinam no templo. Por que no templo? O templo é o lugar da reunião do povo com o seu Deus, e é, por isso, o lugar da revelação divina. Na ideia de Lucas, o templo está totalmente desligado dos sacrifícios e por isso, dos sacerdotes. A pregação dos apóstolos no templo tem um tom de convocar todos, especialmente as autoridades, para uma séria conversão.


Quando todos estiverem no caminho certo, na luta pela dignidade humana, na proteção do inocente e da vida, na vivência da verdade e da justiça, na prática do amor fraterno e da honestidade, da igualdade e da inclusão, Deus sempre intervirá, de vários modos, quando houver obstáculo nesta luta. Contemos sempre com Deus e estejamos sempre com Deus! Este Deus quer que todos se amem. A intervenção divina é sempre tem por objetivo, salvar a todos. Por isso, ele enviou seu Filho unigênito para ensinar a humanidade a trilhar o caminho do amor fraterno, como enfatiza o evangelho deste dia.


Deus É Amor E Somos Muito Amados Por Ele Em Jesus Cristo


Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16).


O evangelista João nos apresenta a amplitude universal do projeto de Deus. Ele revela Deus na origem do movimento da salvação em virtude de seu amor incomparável. No coração da missão de Jesus se encontra Deus que ama a humanidade sem medidas. O evangelista João nos apresenta Deus como realidade fundadora e absoluta. O amor precede a tudo. O Deus que ama tem exclusivamente como desígnio a salvação e a vida dos homens. Deus ama, porque Ele é amor. Ele salva os homens porque Ele os ama.


O amor de Deus é uma força insuperável. A fé no Deus de amor é capaz de ultrapassar todos os obstáculos e barreiras de qualquer natureza, como aconteceu com os apóstolos presos, mas saíram da prisão com a força do Ressuscitado, a encarnação do amor infinito de Deus. Toda a vida de Jesus é um dom do Pai. A finalidade deste dom é a vida eterna dos homens e a salvação do mundo. A vida ou a morte depende da fé no Deus de amor encarnado em Jesus Cristo.


 Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). São palavras profundas nas quais o nosso coração deve abismar-se. Deus se dá a Si mesmo. Com Ele nos é dado tudo, pois Ele se dá a Si mesmo. Deus se converte em dom para nós todos. É um dom de tal categoria que o próprio dom nos concede a graça de recebê-lo. Somente na medida em que reconhecermos isso, nós possuiremos aquilo que nos é dado.


Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). Estamos no coração do Evangelho de João. Descobrimos que Deus é amor (1Jo 4,8.16) e somos muito amados por Deus apesar de nossa situação. Deus não espera que sejamos bons para Ele nos amar, mas Ele nos ama para que sejamos bons, pois o amor e a bondade são inseparáveis.


Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna”. Esta frase é uma síntese bíblica que condensa todo o quarto Evangelho (Evangelho de João). O quarto Evangelho foi escrito para que acreditemos em Jesus, oferta de amor e salvação de Deus para a humanidade, e para que, crendo nele, tenhamos a vida em seu nome (cf. Jo 20,31). Ele veio para que todos nós tenhamos vida e a tenhamos abundantemente (Jo 10,10). E esta oferta tem um motivo e uma finalidade e um meio. O motivo da oferta é o amor apaixonado de Deus pela humanidade: “Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho único”. E a finalidade desta oferta é a salvação da humanidade: “... para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna”. E o meio para que o amor de Deus chegue até a humanidade é a encarnação de Deus em Jesus Cristo. Jesus é a manifestação tangível do amor do Pai (1Jo 4,9). O objeto da em Jo é acreditar em um Deus que nos ama e que este Deus acampou no meio de nós (Jo 1,14). Toda a Bíblia é a história de amor de Deus por nós todos. “Se queres falar sobre o amor, não precisas dar-te ao trabalho de buscar citações. Onde quer que abras a Bíblia, ali se fala do amor” (Santo Agostinho: Serm. Mai 14,1).


Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16).


No vocabulário do cristianismo primitivo essa maneira de falar está sempre em relação à cruz. É uma reflexão sobre a morte na Cruz de Jesus por amor à humanidade. Nesta entrega do Filho único há uma recordação do sacrifício que outro pai fez também de seu filho único: Abraão (cf. Gn 22,2). Aquele sacrifício não chegou a realizar-se. O cordeiro que substitui Isaac e se sacrifica sem resistência é este Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (cf. Jo 1,29). O Pai não envia o Filho para a morte e sim para o cumprimento fiel de sua missão de revelar o amor de Deus, Sua misericórdia sobre todos os homens, e a morte de Jesus na cruz é a conseqüência desse amor levado até o fim (cf. Jo 13,1).


Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16).


A partir desta frase sabemos quem é Deus? Muitas definições foram feitas sobre Deus tanto a partir da filosofia como da teologia em geral e outras disciplinas científicas e exatas, mas nenhuma definição mais certa e curta do que a de São João: “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). Esta frase é carregada de mistério e de promessa, toda nossa história. É a frase nuclear e radiante. Esta frase, ao meditá-la e vivê-la no dia-a-dia, tem a capacidade de manter a esperança no mundo e tem uma força tremenda para o homem continuar sua luta pela dignidade, pois o amor é a ultima palavra da vida. “O Amor é a nossa origem. O Amor é o chamado constante na vida. O Amor é a plenitude da vida. No entardecer da nossa vida seremos julgados no amor” (Santo Agostinho).


A resposta para o porquê da criação, da encarnação e da redenção é o amor de Deus por todos nós. Toda a atividade de Deus é uma atividade amorosa. Se cria, Ele cria por amor; se governa as coisas, o faz no amor; quando julga, julga com amor. Tudo quanto faz é expressão de sua natureza, e sua natureza é amar. Amar é dar-se a si mesmo. O plano de salvação não tem outro fundamento que o incompreensível amor de Deus por nós todos e por cada um de nós em particular. Por amor anda Deus em nossa busca pelos caminhos do mundo. É um Deus que não tem medo de sacrificar até o próprio Filho para resgatar todos nós, pecadores e perdidos, por amor. O homem nenhum na face da terra sacrificaria seu próprio filho para resgatar os outros. Somente o Deus apaixonado por nós todos.


Deixar de olhar para Deus que se encarna em Jesus será para nós uma perdição eterna e será para nós uma infelicidade sem fim. Levado por seu amor, Deus salta o abismo que nos separava dele e se aproxima de nós para nos dar o que mais quer: seu “único Filho”. Mais ainda, entregou seu único Filho à morte para que todos nós tenhamos vida. E esta vida dada para nós gratuitamente se renova em cada Eucaristia para que sejamos um dom para os outros; para que façamos o bem também para os outros. Jamais um cristão pode fazer o mal ou ser cúmplice do mal.


O melhor comentário para este texto de Jo 3,16 é a primeira carta de São João 4,18-21: “No amor não há temor. Antes, o perfeito amor lança fora o temor, porque o temor envolve castigo, e quem teme não é perfeito no amor. Mas amamos, porque Deus nos amou primeiro. Se alguém disser: Amo a Deus, mas odeia seu irmão, é mentiroso. Porque aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a quem não vê. Temos de Deus este mandamento: o que amar a Deus, ame também a seu irmão”.  Será que amamos realmente a Deus no próximo? (cf. Jo 15,12).


A Paixão e morte de Jesus Cristo é a manifestação suprema do amor de Deus pelos homens. Deus é amor, amor que se difunde e se prodiga; e tudo se resume nesta grande verdade que tudo explica e o ilumina. É necessário ver a história de Jesus sob esta luz. “Ele me amou e sacrificado por mim”, escreveu São Paulo (Gl 2,20). Cada um precisa repetir esta frase a si mesmo. O amor de Deus por nós culmina no sacrifício do Calvário. A entrega de Cristo constitui uma chamada estimulante e apressada para corresponder a esse amor: amor com amor se paga. O homem foi criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,27), e Deus é amor (1Jo 4,8.16). Por isso, o coração do homem está feito para amar e quanto mais se ama, mais se identifica com Deus e somente quando ama, o homem pode ser feliz.


Num mundo acostumado ao comércio, ao preço das coisas, é difícil entender a gratuidade, é difícil entender a ação de Deus que quer dialogar, amar com liberdade a todos, oferecendo a oportunidade de salvação, graça e vida. Nós, na nossa vida cotidiana, damos uma parte de nossa vida, enquanto Deus dá tudo para a humanidade. Por isso, quando ele pedir do homem, Deus não pede muito do homem, mas pede tudo do homem.


Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele”.  Segundo o Evangelho de João, o cristão não tem que ter medo do juízo último, pois o juízo não é algo externo e sim dentro do próprio homem. O cristão sabe que o juízo está nele e depende de sua própria escolha. A partir de Deus tudo é governado por amor. E a partir do homem?  será que nossa vida é governada por amor e com amor? “Quanto mais cresce teu amor, maior é tua perfeição. A perfeição da alma é o amor (Santo Agostinho: In epist. Joan. 9,2).


 
P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 1 de abril de 2016

05/04/2016




VIVER O EVANGELHO DE JESUS CRISTO PARA TER UM SÓ CORAÇÃO E UMA SÓ ALMA


Terça-Feira da II Semana da Páscoa


Primeira Leitura: At 4,32-37


32 A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava como próprias as coisas que possuía, mas tudo entre eles era posto em comum.  33 Com grandes sinais de poder, os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus. E os fiéis eram estimados por todos. 34 Entre eles ninguém passava necessidade, pois aqueles que possuíam terras ou casas, vendiam-nas, levavam o dinheiro, 35 e o colocavam aos pés dos apóstolos. Depois, era distribuído conforme a necessidade de cada um. 36 José, chamado pelos apóstolos de Barnabé, que significa filho da consolação, levita e natural de Chipre, 37 possuía um campo. Vendeu e foi depositar o dinheiro aos pés dos apóstolos.


Evangelho: Jo 3,7b-15


Naquele tempo, disse Jesus a Nicodemos: 7b“Vós deveis nascer do alto. 8O vento sopra onde quer e tu podes ouvir o seu ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim acontece a todo aquele que nasceu do Espírito”. 9Nicodemos perguntou: “Como é que isso pode acontecer?” 10Respondeu-lhe Jesus: “Tu és mestre em Israel, mas não sabes estas coisas? 11Em verdade, em verdade, te digo, nós falamos daquilo que sabemos e damos testemunho daquilo que temos visto, mas vós não aceitais o nosso testemunho. 12Se não acreditais, quando vos falo das coisas da terra, como acreditareis se vos falar das coisas do céu? 13E ninguém subiu ao céu, a não ser aquele que desceu do céu, o Filho do Homem. 14Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado, 15para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna”.
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Onde Há Partilha, Não Há Carência


A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava como próprias as coisas que possuía, mas tudo entre eles era posto em comum”, assim lemos na Primeira Leitura.


A expressão “um só coração e uma só alma” é uma expressão bíblica. Coração e alma designam juntos a personalidade no seu centro, isto é, forma uma só pessoa que age, pensa, respira, reza como uma pessoa só. Israel é o povo que ama a Deus com todo o coração e toda a alma (Dt 6,5; 10,12; 11,13.18; 13,4; cf. Mc 12,29-30).


Este texto é uma informação e um resumo da vida cristã nas comunidades apostólicas (cf. também At 2,42-47). No centro da comunidade há pregação e testemunho de vida dos apóstolos que reúnem e mantêm os cristãos na concórdia (um só coração, sem divisão) de uma mesma fé. Eles simplesmente compartilham o que têm sem se preocupar demasiadamente pelo dia de amanhã. “Entre amigos tudo é comum”, dizia o filósofo Aristóteles. Da mesma linha o filósofo Pitágoras dizia: “Entre amigos tudo é comum e a amizade exige igualdade”. Por essa despreocupação e a espontaneidade é que os primeiros cristãos são distintos de outras comunidades.  


Tudo isso acontece porque a Palavra de Deus, o Evangelho de Jesus Cristo é o verdadeiro princípio e o fundamento da Igreja. A obediência ao Evangelho une pela raiz todos os cristãos e faz com que todos tenham as mesmas convicções e os mesmos sentimentos em Cristo.  O viver em Cristo Ressuscitado tem repercussão nas relações econômicas entre os cristãos.  Ninguém passa por alguma carência, pois todos se preocupam com todos. A partilha é o modo de conviver de todos eles. E desta comunhão profunda brotam frutos que todos reconhecem: “E os fiéis eram estimados por todos” (At 4,33b).


Percebemos no mundo moderno, até na vida dos próprios cristãos, que o processo moderno de urbanização introduziu um valor diametralmente oposto à mentalidade dos primeiros cristãos, da comunidade apostólica, enquanto nossa Igreja continua a ser chamada Igreja apostólica. Neste processo vê-se a mentalidade do anonimato em virtude da qual cada um protege sua vida privada tão absolutamente como quer; cada um presta numerosos serviços como cidadão, porém de ordem funcional e segmentária, e perde cada vez mais o espaço de intercambio “EU-TU”. Cada um seleciona seus amigos e os demais que saibam também criar seu grupo. Cada um vive a seguinte filosofia de vida: cada um se vire, pois não tenho nada a ver com sua vida ou com seu grupo! Com efeito, a comunidade apostólica parece se torna cada vez mais utópica.


O amor mútuo ordenado como o mandamento novo do Senhor (Jo 15,12) deve ser revivido na vida de cada cristão no seu dia-a-dia, para que o utópico fique mais próximo da vida dos cristãos. Quem sabe todos vão repetir aquilo que acontecia na vida das primeiras comunidades cristãs: “E os cristãos são estimados por todos” (cf. At 4,33b). A Eucaristia da qual os cristãos participam é uma missão para fazer viver em cada participante uma experiência de ternura mútua na diversidade de relações humanas do homem moderno. É ser sal da terra e luz do mundo (cf. Mt 5,13-14). Quando descobrirmos que somos da mesma substância, ninguém vai tratar mal ninguém. Ao contrário, a multidão dos cristãos será um só coração e uma só alma. Para isso, é preciso nascer novamente do alto como enfatiza o Evangelho deste dia.


Deixar-se Soprar Pelo Espírito de Deus


“Vós deveis nascer do alto. O vento sopra onde quer e tu podes ouvir o seu ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim acontece a todo aquele que nasceu do Espírito”, disse Jesus a Nicodemos.


Jo 3 é um capítulo importante para o evangelho de João porque neste capitulo se narra o primeiro discurso do ministério público de Jesus através do diálogo com Nicodemos, que é um dos membros do Sinédrio (trata-se de um homem público importante).


O texto do evangelho deste dia fala do diálogo entre Jesus e Nicodemos. Porém, percebemos através da narração do texto que é muito mais o monólogo de Jesus do que o diálogo com Nicodemos.


Neste monólogo-diálogo Jesus se apresenta como o único capaz de revelar as coisas do Céu: “Se não acreditais, quando vos falo das coisas da terra, como acreditareis se vos falar das coisas do céu? E ninguém subiu ao céu, a não ser aquele que desceu do céu, o Filho do Homem. Jesus veio do Céu, como o Pão da vida (cf. Jo 6,51) e por isso, pode falar seguramente sobre as coisas do céu, pois Ele próprio é o Verbo encarnado (cf. Jo 1,1-3.14). Conseqüentemente é preciso que o homem olhe para Jesus e viva de acordo com Suas palavras que são as Palavras de vida eterna (cf. Jo 6,68) a fim de que o homem tenha vida em seu nome, ou para que o homem seja salvo (cf. Jo 20,30-31). Necessitamos manter nossa conversa íntima com Jesus através da oração e da meditação da Palavra de Deus para que Ele nos revele o essencial para nossa vida neste terra e para nossa salvação. Os mais belos pensamentos são fruto do silêncio e da inspiração divina. Quando o vento soprar não há arvore que não se movimente. Quando o Espírito de Deus nos dominar e nos inspirar, nãopensamento que não seja útil para o bem comum ou para o bem da humanidade.


Através de sua afirmação neste monólogo-diálogo Jesus anuncia antecipadamente que ele será crucificado (será levantado na Cruz) para que todos aqueles que acreditarem em Jesus sejam salvos: “Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado, para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna”.


A Linguagem Do Amor Nos Leva Ao Horizonte Infinito


As primeiras frases do texto do evangelho de hoje repetem a afirmação de Jesus no texto do evangelho do dia anterior: “Vós deveis nascer do alto. O vento sopra onde quer e tu podes ouvir o seu ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim acontece a todo aquele que nasceu do Espírito”, disse Jesus a Nicodemos.


Esta afirmação torna Nicodemos confuso, pois ele não entende essa nova linguagem: Como é que isso pode acontecer?”. De fato, Nicodemos não possui a linguagem do coração, a linguagem de um amor de horizontes infinitos. O coração sente quilo que os olhos são incapazes de ver. O intelecto desconhece aquilo que o coração conhece.


Jesus compreende a confusão de Nicodemos, e por isso, Ele recorre a uma comparação: vento. Mas o vento é também misterioso. Mesmo sendo misterioso, os efeitos de sua passagem são sentidos por todos. Em hebraico o termovento” (ruah) serve para designar tanto o vento como o espírito. Os efeitos do vento são sentidos, mas o próprio vento não pode ser visto. A força de Deus é sentida por quem acredita em Deus, mas essa força não pode ser vista. A força de Deus tornou muitos cristãos mártires, transforma muitos homens em profetas, leva muitos a se tornarem santos que despertam o mundo da sua sonolência em maldade, atrai muitos para viverem uma vida de doação em função do bem dos outros ou de todos.


Na sua resposta Jesus disse a Nicodemos: “Tu és mestre em Israel, mas não sabes estas coisas?”.  Toda a ciência de Israel é incapaz de saber o que Jesus revela. Conhecer o Espírito de Deus é impossível ao homem, inclusive ao mais inteligente dos homens, pois pela origem da palavra, o verboconhecerquer dizer “com-nascer, nascer com, fazer-se um com outro. Somente conhecemos o outro, entregando-nos a ele e aceitando que ele se entregue a nós. Trata-se de uma relação existencial. Nicodemos representa todos os mestres da terra, dos que têm bastante inteligência. A própria vida vivida profundamente diariamente nossabedoria para saborearmos a vida. Ter conhecimento ou ter inteligência é uma coisa. Ser testemunha é outra coisa. Falar do amor é uma coisa; falar amorosamente é outra coisa. Na vida cotidiana, as pessoas necessitam muito mais das testemunhas do que dos mestres; necessitam do testemunho de vida do que qualquer bela teoria ou belo discurso. A inteligência é faculdade de conhecer ou ação de compreender. Mas para ser completa devemos deixar o Espirito de Deus nos inspirar. Não tem como não acredita na existência de um vento, pois seus efeitos são sentido mesmo que sua existência não é apalpável.


Nicodemos, “mestre de Israel” é convidado a fazer-se pequeno: “nascer de novo”, isto é, tornar-se uma criancinha, um bebê para começar a aprender tudo de novo. Uma criança cresce aprendendo tudo de seus pais. Nicodemos é convidado a largar suas próprias luzes, seus orgulhos ou suas arrogâncias para que o Espírito de Deus possa começar a operar em sua vida. Nãoem mim também algo de orgulho de Nicodemos?


Com Jesus E Nele A Vida Continua A Existir: É Preciso Crer Nele


Além disso, outro tema central do diálogo de Jesus com Nicodemos no evangelho de hoje é sobre a (“crer”). “A nasce no encontro com o Deus vivo, que nos chama e revela o seu amor: um amor que nos precede e sobre o qual podemos apoiar-nos para construir solidamente a vida. Transformados por este amor, recebemos olhos novos e experimentamos que há nele uma grande promessa de plenitude e nos é aberta a visão do futuro. A , que recebemos de Deus como dom sobrenatural, aparece-nos como luz para a estrada orientando os nossos passos no tempo... A está ligada à escuta. Abraão não Deus, mas ouve a sua voz. Deste modo, a assume um caráter pessoal: o Senhor não é o Deus de um lugar, nem mesmo o Deus vinculado a um tempo sagrado específico, mas o Deus de uma pessoa, concretamente o Deus de Abraão, Isaac e Jacob, capaz de entrar em contato com o homem e estabelecer com ele uma aliança. A é a resposta a uma Palavra que interpela pessoalmente, a um Tu que nos chama por nome (Papa Francisco: Carta Encíclica Lumen Fidei).


Em todo o seu evangelho João não usa o substantivo “fé” (ele usará uma vez apenas na primeira carta em 1Jo 5,4). Em vez disso, ele usa o verbo “crer” pelo menos 98 vezes no seu evangelho. Todo verbo sempre se refere ao dinamismo, à ação. E o verbo “crer” aparece com freqüência, no evangelho de João, precisamente nos lugares privilegiados onde há os seguintes elementos: a manifestação de Jesus e a resposta de fé ou de incredulidade dos ouvintes diante desta manifestação. A importância da fé no quarto Evangelho aparece pelo fato de que ela é o escopo da “obra de Deus”. Para João, a fé já é também a vida eterna. Fé é conhecer o Filho que o Pai enviou, e este conhecer é “vida eterna” (Jo 17,3). E no evangelho de João aquilo que significa crer pode ser dado em várias expressões: “receber Jesus”, “vir a Jesus”, “procurá-lo”, “ouvi-lo”, “guardar a palavra”, “permanecer nele”. Todas essas expressões significam “crer”. E o objeto único da fé em João é Jesus.


Para o evangelho de João crer em Jesus Cristo significa não parar de existir; é viver para sempre: “Quem crê em mim, ainda que morra, viverá” (Jo 11,25). Ao acreditar em Jesus, o homem terá a vida eterna em Seu nome (cf. Jo 20,30-31). A morte é incapaz de acabar com a vida de quem acredita em Jesus. Em Jesus e com Ele a vida continua.


Como podemos traduzir na vida cotidiana a fé em Jesus? A leitura dos Atos dos Apóstolos nos mostra algumas pistas. A fé se expressa na escuta atenta à Palavra de Deus. O povo eleito foi formado não por um decreto e sim pela escuta da Palavra de Deus. Todos que escutam a Palavra de Deus formam uma comunidade de fé. A fé que nasce da escuta atenta à Palavra de Deus se transforma também em missão, pois é preciso que a Palavra de Deus seja proclamada para que todos possam ser salvos. A maioria das tragédias na Bíblia surgiu por causa da falta da escuta atenta à Palavra de Deus. Podemos imaginar a vida de um filho ou filha que não quer escutar nada dos bons conselhos dos seus pais.


Além da escuta atenta à Palavra de Deus, a verdadeira fé deve se traduzir ou se concretizar no amor mútuo e pela defesa da vida no seu início, na sua duração e no seu término na história, pois acreditamos no Deus da vida que ressuscitou Jesus da morte. Amor é o maior sinal de nossa pertença a Jesus Cristo (cf. Jo 13,35).


A fé em Jesus se traduz também na comunhão de vida em torno da Eucaristia. A Eucaristia é o verdadeiro alimento para a Igreja peregrina que nós somos todos. A Eucaristia é a fonte e o ponto mais alto da vida comunitária e cultual. A Eucaristia é “sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade, banquete pascal em que se recebe Cristo, a alma se enche de graça e nos é concedido o penhor da glória futura” (Sacrosanctum Concilium, 47).


A fé em Jesus nos urge a sermos missionários. Ser missionário é um dos traços mais importantes do ser cristão. Mas para ser missionário de Jesus tem que ser primeiro seu discípulo (cf. Mc 3,13-14). Ser discípulo de Jesus supõe abandonar o modo de viver vivido até então para adotar o estilo de vida de Jesus. Tudo isso implica a conversão. Mas ser discípulo de Jesus é apenas um ponto de partida. Como discípulo, o cristão é enviado para fazer os outros discípulos de Jesus (cf. Mt 28,19). Em outras palavras, o cristão é discípulo para ser missionário. Para ser missionário alguém precisa ser discípulo de Jesus. E a conseqüência de ser discípulo de Jesus é ser Seu missionário. O cristão é discípulo-missionário.


P. Vitus Gustama,svd