domingo, 24 de abril de 2016

29/04/2016




AMAR COMO ESTILO DE VIDA CRISTÃ A EXEMPLO DE CRISTO


Sexta-Feira da V Semana da Páscoa


Primeira Leitura: At 15,22-31


Naqueles dias, 22 pareceu bem aos apóstolos e aos anciãos, de acordo com toda a Comunidade de Jerusalém, escolher alguns da Comunidade para mandá-los a Antioquia, com Paulo e Barnabé. Escolheram Judas, chamado Bársabas, e Silas, que eram muito respeitados pelos irmãos. 23 Através deles enviaram a seguinte carta: “Nós, os apóstolos e os anciãos, vossos irmãos, saudamos os irmãos vindos do paganismo e que estão em Antioquia e nas regiões da Síria e da Cilícia. 24 Ficamos sabendo que alguns dos nossos causaram perturbações com palavras que transtornaram vosso espírito. Eles não foram enviados por nós. 25 Então decidimos, de comum acordo, escolher alguns representantes e mandá-los até vós, junto com nossos queridos irmãos Barnabé e Paulo, 26 homens que arriscaram suas vidas pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo. 27 Por isso, estamos enviando Judas e Silas, que pessoalmente vos transmitirão a mesma mensagem. 28 Porque decidimos, o Espírito Santo e nós, não vos impor nenhum fardo, além destas coisas indispensáveis: 29 abster-se de carnes sacrificadas aos ídolos, do sangue, das carnes de animais sufocados e das uniões ilegítimas. Vós fareis bem se evitardes essas coisas. Saudações!” 30 Depois da despedida, Judas e Silas foram para Antioquia, reuniram a assembleia e entregaram a carta. 31 A sua leitura causou alegria, por causa do estímulo que trazia.


Evangelho: Jo 15,12-17


Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 12“Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei. 13Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida pelos amigos.14Vós sois meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando. 15Já não vos chamo servos, pois o servo não sabe o que faz o seu Senhor. Eu chamo-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai. 16Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi e vos designei para irdes e para que produzais fruto e o vosso fruto permaneça. O que, então, pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo concederá. 17Isto é o que vos ordeno: amai-vos uns aos outros”.
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Continuamos ainda a acompanhar o discurso da despedida de Jesus dos seus discípulos no evangelho de João (Jo 13-17). No evangelho de hoje Jesus fala do amor como o maior mandamento para seus seguidores e Jesus se apresenta como amigo dos discípulos e de todos os seus seguidores. O mandamento de amor é tão importante a ponto de ser apresentado duas vezes no evangelho de João: Jo 13,34-35 e Jo 15,12-14. “Meu amor é meu peso”, dizia Santo Agostimho (Conf. 13,9). “Quanto mais cresce teu amor, maior é tua perfeição. A perfeição da alma é o amor”, acrescentou Santo Agostinho (In epist. Joan. 9,2).


O pensamento de Jesus, na Última Ceia, progride como em círculos. Ela já havia insistido em que seus discípulos deviam “permanecer” nele, e que, concretamente, “permanecer em seu amor, guardando seus mandamentos”.


Agora Jesus acrescenta outras matizes mais entranháveis: Já não vos chamo servos, e sim amigos” e “Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi”. Sobretudo, Jesus assinala uma direção mais comprometida deste seguimento: “Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei”. Antes Jesus havia tirado a conclusão mais lógica: Se Ele ama os discípulos, estes devem permanecer em seu amor, devem corresponder-lhe amando-lhe. Agora os discípulos devem amar-se mutuamente à medida de Jesus: “Amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei”. Por isso, não é um amor qualquer que Jesus encomenda. Jesus se põe a si mesmo como modelo. Jesus se entregou pelos demais ao longo de sua vida: “Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida pelos amigos”. Este é o estilo de Jesus


Amar Como o Estilo De Vida Cristã


“Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei”. Este é o mandamento do Senhor! Não se trata de uma lei (nomos), e sim de um estilo de vida (entolé). Aqui a palavra “mandamento” tem a ver com o estilo de vida. Para o evangelista João “amar” é um estilo de vida. Trata-se de uma coisa que faz parte da vida cotidiana de cada seguidor de Cristo.


Mas que tipo de amor que Jesus recomenda? Que tipo de amor que ele fala como o estilo de vida? Em que sentido o amor como o estilo de vida?


Jesus se põe a si mesmo como modelo: Amai-vos uns aos outros como eu vos amei (Jo 15,12). De que maneira Jesus nos amou? O amor de Jesus é gratuito, generoso, universal, incondicional e sem limites: “Jesus amou os seus, e os amou até o fim” (Jo 13,1). Jesus amou ao longo dos dias e dos anos; amou até a morte e além da morte. Sem limites: até dar tudo, gastar tudo, despojar-se de tudo. O amor de Deus não se deixa condicionar (cf. Jo 3,16), e nem sequer impor limites pelos maus comportamentos do homem: “Deus faz nascer o seu sol igualmente sobre maus e bons e cair a chuva sobre justos e injustos”, diz Jesus no Sermão da Montanha (Mt 5,45).   Ele se entregou pelos demais ao longo de sua vida até o extremo: a morte na cruz: Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida pelos amigos (Jo 15,13). É o amor concreto. É amar não com palavras apenas, e sim com obras, com a compreensão, com a ajuda oportuna, com a palavra amável, com a tolerância, com a doação gratuita de si mesmo, com o perdão (cf. Lc 23,34). O amor autêntico exige sempre o sacrifício e o total esquecimento de si. É amar por amor. São Bernardo afirma: O amor basta por si só e por causa de si. Seu prêmio e seu mérito se identificam com ele mesmo. O amor não requer outro motivo fora de si mesmo. Amo porque amo; amo para amar”. Se assim é, podemos dizer que você vive não quando respira, mas quando ama. Do ponto de vista cristão a capacidade de viver o amor fraterno é o critério da maturidade cristã.


Para nós, cristãos, a atitude de amor aos demais deve ser uma conseqüência prática de nossa comunhão profunda com Cristo. O cristão é reconhecido, fundamentalmente, pelo amor que vive: “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros”, disse-nos Jesus (Jo 13,35).


Somos Amigos De Jesus


Eu vos chamo amigos”, diz o Senhor.
  • A amizade é uma predisposição recíproca que torna dois seres igualmente ciosos da felicidade um do outro (Platão).
  • Sem amigo, nada é agradável [Sine amico nihil amicum] (Santo Agostinho).
  •  A amizade é o conforto indescritível de nos sentirmos seguros com uma pessoa, sem ser preciso pesar o que se pensa, nem medir o que se diz (George Eliot).
  • A verdadeira amizade é aquela que nos permite falar ao amigo de todos os seus defeitos e de todas as nossas qualidades (Millôr Fernandes).
  • O amigo é o melhor terapeuta nas experiências de abandono e humilhação (Anselm Grün).
  • Refugiado em peito amigo, sumindo vai pesar antigo (Johann Wolfgang Goethe).
  • Não me alegro tanto pela andorinha que me traz a mensagem da primavera e que à renovação eterna canta hinos, mas alegro-me bem mais pela mensagem do amigo que me traz o que preciso para a vida (Friedrich Rückert, poeta).
  • Com um amigo ao lado, nenhum caminho é longo demais (ditado japonês).
     
    Para ser amigo do outro é preciso ser amigo de si mesmo, no sentido de que é preciso colocar em ordem o próprio coração e direcioná-lo para o bem. Um coração bom está sempre do lado do bem. Um coração bom nos leva a praticarmos a bondade. Dizia Cícero que a amizade é “doadora da alegria de viver tanto para os nossos amigos como para nós mesmos”. Por isso, ter ou não ter amigo depende de ser ou não ser amigo de si mesmo. Quem é muito humano para si próprio, será muito humano para o outro. É o ponto de partida para uma amizade.
     
    Quando alguém reclama que não tem amigo ou amiga, é preciso se perguntar: “Será que eu sou amigo de mim mesmo? Será que sei me tratar? Será que eu me respeito e me amo?”. Somente poderemos ser felizes quando aprendermos a fazer o outro feliz. Somente podemos ser próximos dos outros, se aprendermos a ser próximos dos outros.
     
    Eu vos chamo amigos”, diz o Senhor. Jesus chamou seus discípulos de amigos porque partilhou tudo com eles o que ouviu de seu Pai: experiências, conhecimentos, salvação, amor etc.. Jesus abriu aos discípulos Seu coração. Isto significa que o discípulo, o cristão não é um simples subalterno. O cristão é um amigo pessoal de Jesus Cristo. O amigo não é um simples conhecido ou um sócio, e sim alguém com quem se compartilha a intimidade, o mais profundo de nosso ser: “Eu vos chamo amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai” (Jo 15,15b). O amigo sempre está disposto a fazer o que o amigo lhe pedir: “Vós sois meus amigos se fizerdes o que eu vos mando” (Jo 15,14). O amigo demonstra a verdade de seu amor estando disposto a entregar a própria vida se for necessário: “Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida pelos amigos” (Jo 15,13). O verdadeiro amigo inclui a doação da vida pelo amigo. Para Jesus a noção de amizade é muito profunda. “Amigo é alguém que te conhece a fundo e, apesar disso, te ama” (Hublard). “A amizade é como todos os títulos honoríficos: quanto mais velha, mais preciosa”, dizia
    Goethe. “A amizade duplica as alegrias e divide as tristezas” (
    Francis Bacon).
     
    “Eu vos chamo amigos”, disse-nos Jesus. É uma mensagem consoladora. É uma mensagem que dá força e ânimo. De fato, eu não estou sozinho (a). Eu estou bem acompanhado (a). Eu estou acompanhado (a) pelo Salvador do mundo: Jesus Cristo. Se o cristão viver verdadeiramente esta fé, ele jamais se sentirá só independentemente da situação em que se encontra. O cristão não é solitário, e sim solidário. “O mundo é tão vazio quando pensamos apenas nas montanhas, rios e cidades; mas saber que cá e lá existe alguém que comunga conosco, com o qual também nós convivemos tacitamente, isto faz deste globo terrestre para nós um jardim habitado” (Johann Wolfgang von Goethe).
     
    Vós sois meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando, disse Jesus.  Será que você pode ser considerado como amigo de Jesus? Para ser amigo do outro é preciso ser amigo de si mesmo. Você é amigo de si mesmo?
     
    Lembremo-nos do recado do Pequeno Príncipe: “Você precisa me cativar. As pessoas já não têm tempo de aprender coisa alguma. Compram tudo nas casas comerciais. Mas, como não existem lojas de amizade, as pessoas não têm mais amigos. Se quiser um amigo, cative-me” (Saint-Exupéry: O Pequeno Príncipe).
     
    Como filhos e filhas de Deus em Jesus Cristo e como amigos e amigos do Senhor Jesus somos chamados e enviados a ser encarnados do amor de Deus. Consequentemente, se falarmos, precisamos falar amorosamente. Se corrigirmos os outros, devemos corrigir com amor. Se fizermos qualquer coisa na Igreja e fora dela como no trabalho, devemos fazer tudo com amor e por amor. Tudo que for feito com amor se torna uma obra prima, pois Deus é amor. “Nada é pequeno quando o amor é grande”. 
P. Vitus Gustama,svd
28/04/2016



PERMANECER NO AMOR DE CRISTO QUE É UM AMOR CIRCULANTE


Quinta-Feira da V Semana da Páscoa


Primeira Leitura: At 15,7-21


Naqueles dias, 7 depois de longa discussão, Pedro levantou-se e falou aos apóstolos e anciãos: “Irmãos, vós sabeis que, desde os primeiros dias, Deus me escolheu, do vosso meio, para que os pagãos ouvissem de minha boca a palavra do Evangelho e acreditassem. 8 Ora, Deus, que conhece os corações, testemunhou a favor deles, dando-lhes o Espírito Santo como o deu a nós. 9 E não fez nenhuma distinção entre nós e eles, purificando o coração deles mediante a fé. 10 Então, por que vós agora pondes Deus à prova, querendo impor aos discípulos um jugo que nem nossos pais nem nós mesmos tivemos força para suportar? 11 Ao contrário, é pela graça do Senhor Jesus que acreditamos ser salvos, exatamente como eles”. 12 Houve então um grande silêncio em toda a assembleia. Depois disso, ouviram Barnabé e Paulo contar todos os sinais e prodígios que Deus havia realizado, por meio deles, entre os pagãos. 13 Quando Barnabé e Paulo terminaram de falar, Tiago tomou a palavra e disse: “Irmãos, ouvi-me: 14 Simão acaba de nos lembrar como, desde o começo, Deus se dignou tomar homens das nações pagãs para formar um povo dedicado ao seu Nome. 15 Isso concorda com as palavras dos profetas, pois está escrito: 16 “Depois disso, eu voltarei e reconstruirei a tenda de Davi que havia caído; reconstruirei as ruínas que ficaram e a reerguerei, 17 a fim de que o resto dos homens procure o Senhor com todas as nações que foram consagradas ao meu Nome. É o que diz o Senhor, que fez estas coisas, 18 conhecidas há muito tempo’. 19 Por isso, sou do parecer que devemos parar de importunar os pagãos que se convertem a Deus. 20 Vamos somente prescrever que eles evitem o que está contaminado pelos ídolos, as uniões ilegítimas, comer carne de animal sufocado e o uso do sangue. 21 Com efeito, desde os tempos antigos, em cada cidade, Moisés tem os seus pregadores, que leem todos os sábados nas sinagogas”.


Evangelho: Jo 15,9-11


Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 9 “Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei. Permanecei no meu amor. 10Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como eu guardei os mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor. 11Eu vos disse isto, para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena”.
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O texto do evangelho se encontra no discurso da despedida de Jesus dos seus discípulos no evangelho de João (Jo 13-17). Jesus sabe de sua morte iminente e por isso, deu as ultimas recomendações para os seus discípulos.


Deus Nos Ama Em Jesus Cristo Incondicionalmente


Hoje Jesus nos disse: “Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei”. Isto quer dizer que o amor cristão nasce e começa em Deus. Originalmente é coisa de Deus e não nossa. A iniciativa é de Deus: “Amamos porque Deus nos amou primeiro” (1Jo 4,19). Deus é amor (1Jo 4,8.16), origem e motor do amor. O Filho, Jesus, se origina do Pai num processo de amor que é o Espírito. Este amor em Deus é comunidade, Trindade. E este amor vai se manifestando na criação, na encarnação, na filiação, na amizade, na alegria definitiva do encontro derradeiro. Deus é sempre a origem e o término. “Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei”. Que profundidade encontrada nesta afirmação. Eu sou amado de Deus e por Deus. Jesus me ama como o Pai ama Jesus. Eu sou privilegiado/privilegiada. Eu preciso viver esta verdade na minha vida cotidiana, em todas as circunstâncias. Deus me ama e eu creio no Seu amor. Com o amor divino por mim eu posso encarar tudo na minha vida como o amado/amada de Deus. Quanta serenidade terei eu se eu viver profundamente esta verdade! Não há nada que possa me separar do amor de Deus (cf. Rm 8,35-39).


E o sinal mais evidente, a encarnação desse amor divino é Jesus: “Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha vida eterna” (Jo 3,16). Jesus é a medida do amor de Deus e o exemplo a seguir. Todas as palavras de Jesus, todas as obras de Jesus são manifestação do seu amor por nós todos. Jesus é o amor de Deus feito rosto humano.


E este amor que nasce no Pai e passa por Jesus termina necessariamente nos irmãos. O amor cristão tem dois pólos: Deus e os irmãos (o homem). Quem não ama o irmão, não conhece Deus, não conhece Jesus, não entendeu o que é a fé cristã. Sem amor a Deus e ao irmão, não há fé cristã.


Amor cristão é, então, um amor circulante: o amor que vem do Pai para o Filho, Jesus e de Jesus  para nós e de nós para os irmãos.


Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei”. É maravilhoso o que Jesus nos diz hoje. Há alguém que me ama com o amor divino: Jesus Cristo. O amor com que Jesus me ama é o mesmo amor com que Ele é amado pelo Pai. Diante de Deus sou amado e sou amado eternamente, porque Aquele que me ama é eterno: “Eu te amei com amor eterno, por isso, conservei para ti o amor”, diz Deus através do profeta Jeremias (Jr 31,3).


Por amor Deus nos chama à vida. Por amor Deus nos enviou Seu Filho, o que para Ele é mais caro, e morreu na cruz em nosso favor. Por amor Deus anda em nossa busca pelos caminhos do mundo. Por amor Deus nos mantém no ser oferecendo-nos Sua amizade que é nossa fonte de vida e de todo bem apesar de nossos contínuos afastamentos e traições.


Posso estar rodeado pelas dificuldades ou problemas, mas eu sei que há alguém que me ama. A certeza desse amor eterno por mim me dá força para lutar e para melhorar minha vida. A certeza desse amor eterno me dá serenidade em tudo. De fato, eu não estou sozinho na minha luta de cada dia, pois há alguém que me ama: “Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei”. Na minha oração só posso dizer a Jesus: “Obrigado, Senhor Jesus, porque me ama eternamente. Dê-me força para permanecer no Seu amor”.


Permanecer No Amor De Deus Em Jesus Cristo


Permanecei no meu amor. Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como eu guardei os mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor”.


O que significa “permanecer em Cristo?”


O verbo “permanecer” é muito usado pelo evangelista João. Este verbo, em primeiro lugar, tem sentido de crer em Jesus. “Permaneça em mim” significa “Creia em mim”. O evangelista João usa também outras expressões com o mesmo sentido: “receber Jesus”, “vir a Jesus”, procurar Jesus”, “ouvi-Lo”, “guardar a palavra”, “permanecer nele”. Estas expressões nos revelam como a fé é realmente um ato complexo.


A palavra “permanecer” é uma forma de acreditar em Jesus, de deixar-se penetrar pelo amor de Jesus, de deixar-se envolver pela ternura. É uma entrega total em Jesus para que Ele possa operar totalmente em nós a fim de que possamos ser reflexos do mesmo amor para o mundo ao nosso redor.


A fórmula “permanecer em” é cheia de sentido religioso, e caracteriza as relações existentes entre o Pai e o Filho e entre Cristo e os discípulos. O discípulo, o cristão é aquele que “permanece nele” (em Cristo) para que a vida do cristão se torne fecunda e frutífera (cf. Jo 15,1-8).


Permanecei no meu amor”, assim Jesus disse aos discípulos. Esta expressão equivale a dizer: acolher, imitar e prolongar a comunhão que une o Pai e o Filho e que historicamente se manifesta no amor incondicional de Cristo para seus discípulos (cf. Jo 13,1). Para enfatizar mais ainda sobre a importância desta permanência, o evangelista João usa outras expressões: “Se observais os meus mandamentos” (Jo 15,10) e “Se as minhas palavras permanecem em vós” (Jo 15,7).


“Se guardardes os meus mandamentos, vós permanecereis no meu amor, assim como eu guardei os mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor”. Este “Se” é inquietante para nós, porque é a responsabilidade de nossa liberdade. Eu sei que Deus me ama, mas será que eu permaneço no amor de Deus? Eu sei que sou filho (a) de Deus, mas será que eu vivo como tal? Será que eu me comporto como filho ou filha de Deus. Será que as minhas escolhas e opções nesta vida estão de acordo com o querer do Pai do céu. Será que eu guardo os mandamento do Pai diariamente?  Eu sei que faço parte da família de Deus, mas será que estou dela? São Paulo nos esclarece sobre este tema ao nos dizer: “Não devais nada a ninguém, a não ser o amor mutuo, pois quem ama o outro cumpriu a Lei... A caridade não pratica o mal contra o próximo. Portanto, a caridade é a plenitude da Lei” (Rm 13,8.10). Tudo isto significa que o amor divino com que eu sou amado deve também transparecer e circular na minha relação com os outros. Nisto mostrarei que eu permaneço no amor divino.


O amor fraterno quando for vivido na sua profundidade leva a pessoa à alegria: “Eu vos disse isso para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena” (Jo 15,11). A verdadeira alegria brota do amor e da fidelidade com que se guardam na vida concreta as leis do amor. Sentiremos essa alegria na medida em que permanecermos no amor a Jesus, guardando os mandamentos de amor, seguindo o estilo de sua vida.


 Se vivermos tristes, será que isso acontece por causa da falta de nossa permanência no amor divino? Será que abandonamos o amor na nossa vida, por isso é que ficamos tristes o tempo todo? Será que nosso amor está nem morno nem quente, como diz o livro de Apocalipse (Ap 3,16)?


Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei. Permanecei no meu amor”, recomenda Jesus. Quem não possui o amor não é de Deus mesmo que se considere cristão, mesmo que frequente todas as atividades religiosas. Ao contrário, quem ama tem em si algo divino e torna-se partícipe da essência de Deus e tem Deus dentro de si e está em Deus, mesmo que se considere ateu, mesmo que não frequente nada de religioso (1Jo 4,8.12.16). A comunhão com Deus exige que o amor transpareça nos gestos de todos os dias e nas relações que estabelecemos uns com os outros.


P. Vitus Gustama,svd

sábado, 23 de abril de 2016

27/04/2016




PERMANECER EM CRISTO PARA TER UMA VIDA FRUTÍFERA


Quarta-Feira da V Semana da Páscoa


Primeira Leitura: At 15,1-6


1 Naqueles dias, chegaram alguns da Judeia e ensinavam aos irmãos de Antioquia, dizendo: “Vós não podereis salvar-vos, se não fordes circuncidados, como ordena a Lei de Moisés”. 2 Isto provocou muita confusão, e houve uma grande discussão de Paulo e Barnabé com eles. Finalmente, decidiram que Paulo, Barnabé e alguns outros fossem a Jerusalém, para tratar dessa questão com os apóstolos e os anciãos. 3 Depois de terem sido acompanhados pela Comunidade, Paulo e Barnabé atravessaram a Fenícia e a Samaria. Contaram sobre a conversão dos pagãos, causando grande alegria entre todos os irmãos. 4 Chegando a Jerusalém, foram recebidos pelos apóstolos e os anciãos, e narraram as maravilhas que Deus tinha realizado por meio deles. 5 Alguns dos que tinham pertencido ao partido dos fariseus e que haviam abraçado a fé levantaram-se e disseram que era preciso circuncidar os pagãos e obrigá-los a observar a Lei de Moisés. 6 Então, os apóstolos e os anciãos reuniram-se para tratar desse assunto.


Evangelho: Jo 15,1-8


Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 1“Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. 2Todo ramo que em mim não dá fruto ele o corta; e todo ramo que dá fruto, ele o limpa, para que dê mais fruto ainda. 3Vós já estais limpos por causa da palavra que eu vos falei. 4Permanecei em mim e eu permanecerei em vós. Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós não podereis dar fruto, se não permanecerdes em mim. 5Eu sou a videira e vós os ramos. Aquele que permanece em mim e eu nele, esse produz muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. 6Quem não permanecer em mim, será lançado fora como um ramo e secará. Tais ramos são recolhidos, lançados no fogo e queimados. 7Se permanecerdes em mim e minhas palavras permanecerem em vós, pedi o que quiserdes e vos será dado. 8Nisto meu Pai é glorificado: que deis muito fruto e vos torneis meus discípulos.
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O Evangelho deste dia nos situa numa ceia de despedida de Jesus de seus discípulos (Jo 13-17). Por isso, os gestos e as palavras de Jesus, neste contexto, representam as suas últimas indicações e recomendações, os seus últimos “testamentos”. Os discípulos recebem essas orientações para poderem continuar no mundo a missão de Jesus. Nasce, assim, a comunidade da Nova Aliança, alicerçada no serviço (cf. Jo 13,1-17) e no amor (cf. Jo 13,33-35), que pratica as obras de Jesus, animada pelo Espírito Santo (cf. Jo 14,15-26).


No evangelho de hoje Jesus se revela como “a verdadeira videira” ou “a verdadeira vinha” através da expressão “Eu sou”.


A vinha designa tradicionalmente a Terra Prometida (cf. Nm 13,23). Mas sobretudo a vinha designava o Povo eleito que produzia mais frequentemente agraço que o vinho (agraço: suco ácido que se extrai da uva colhida verde).


“Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor”, Jesus diz sobre si mesmo. Jesus se serve desta alegoria para sublinhar a comunicação da vida divina para os homens que creem nele (veja a comparação no Eclesiástico 24,17-20). Temos assim uma imagem da vinha de vida paralela à imagem do pão da vida (Jo 6).


A fidelidade que Deus esperava do Povo eleito (que só produzia agraço) se encontra em Jesus, a verdadeira vinha. Nasce, então, a nova aliança, pois Jesus se mostra fiel até à cruz resultado de sua obediência à vontade do Pai.


A vinha da nova aliança produz um fruto abundante chamado o amor (cf. Jo 13,1). Por sua vez, os cristãos devem ser podados permanentemente do egoísmo para que sua vida somente produza o amor fraterno (Jo 13,34-35; 15,12).


Conectar Minha Vida Na Vida de Jesus Para Produzir Bons Frutos


Eu sou a videira e vós, os ramos”, diz Jesus. É uma comparação simples, mas profunda que nos oferece muitas sugestões para a vida cristã. O ramo não vive sem o tronco. O ramo, para viver, precisa receber a seiva do tronco permanentemente, sem a qual morrerá.


Nesta metáfora encontramos uma maravilhosa certeza de nossa vida: que estamos enraizados em Alguém que nos dá vida, estabilidade e força para lutar e ter sucesso na luta: Jesus Cristo. Jesus vem para nos dar vida em abundância (Jo 10,10).


Além disso, esta imagem serve para sublinhar a comunicação e circulação de vida divina que existe entre Jesus e aqueles que nele crêem. A vida de Deus passa a circular na vida daqueles que aceitam Jesus e vivem de acordo com seus ensinamentos. Trata-se de uma relação que nos liga, na sua dimensão mais profunda, a Jesus. Jesus vive e é para todos os crentes o único autor da vida e o princípio de sua organização. Jesus é a seiva, a raiz e o fundamento da vida do crente. Eu preciso viver conectado com Cristo para viver profundamente e abundantemente.


Eu sou a videira e vós, os ramos”. Entre Jesus e o cristão há uma comunhão de vida. Se assim é, os cristãos se alimentam e crescem com a mesma vida de Jesus Cristo, como os ramos que se alimentam da seiva que vem do tronco. Quem se alimenta dos ensinamentos de Jesus acaba sendo vida para os demais. Quem se alimenta dos ensinamentos de Cristo vive e pensa sempre no bem e na salvação de todos como a seiva passa para todos os ramos a fim de alimentá-los.


Estar Unido a Cristo é a Condição Para Ter Uma Vida Frutífera


Aquele que permanece em mim e eu nele, esse produz muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,5; cf. Gl 2,20; 5,24;6,14;Fl 1,21;3,8.12;Ef 4,24;Cl 2,6;3,1).


Se nossa vida e seus frutos dependem de Jesus Cristo, isso significa que permanecer unido a Jesus Cristo é uma condição sine qua non (incondicionalmente). Permanecer em Cristo é a condição e a capacidade de produzir muitos frutos para Deus e para os outros. Jesus é “a verdadeira videira”, de onde brotam os frutos da justiça, do amor, de verdade e da paz; é n’Ele e nas suas propostas que os homens podem encontrar a vida verdadeira. A vida enraizada em Cristo faz com que produzamos algo de bom e de útil para a humanidade. Jesus quer que produzamos o que tem a ver com vida para os demais. Para isso só há uma condição: estar sempre ligado a Cristo.


O Cristão Pertence ao Senhor


Eu sou a videira e vós, os ramos”, diz-nos o Senhor. Tenho que estar consciente de que eu pertenço ao Senhor. Eu sou do Senhor. Eu vivo por causa do Senhor. Eu devo falar e agir em nome do Senhor. Eu devo fazer aquilo que tem a ver com a vontade do Senhor que se resume no amor fraterno. O cristão não é nem deve ser um ser isolado e não pode ficar isolado dos outros. O cristão pertence ao Senhor e está com o Senhor. O cristão não é solitário e sim solidário. Cada cristão é membro de um corpo – o Corpo místico de Cristo. A sua vocação é seguir Cristo, integrado numa família de irmãos que partilha a mesma fé, percorrendo em conjunto o caminho do amor. A vivência da fé é sempre uma experiência comunitária. É no diálogo e na partilha com os irmãos que a nossa fé nasce, cresce e amadurece, e é na comunidade, unida por laços de amor e de fraternidade, que a nossa vocação se realiza plenamente.


O que pode interromper a nossa união com Cristo e tornar-nos ramos secos e estéreis é quando conduzirmos a nossa vida por caminhos de egoísmo, de isolamento, de ódio, de injustiça, de divisão; quando nos fecharmos em esquemas de auto-suficiência, de comodismo e de instalação. Ninguém cresce sem o outro.


É Necessária Uma Poda Permanente Para Poder Produzir Bons Frutos


“Todo ramo que dá fruto, ele o limpa, para que dê mais fruto ainda”.


Qualquer vinhateiro não tem medo de cortar alguns ramos ou folhas para que toda a seiva se concentre nuns determinados ramos para que produzam frutos abundantes e de qualidade.


Os ramos não têm vida própria e não podem produzir frutos por si próprios; necessitam da seiva do tronco. Para que não nos tornemos “ramos” secos, temos que ter coragem de cortar o que não presta em nossa vida. não tenha medo de eliminar uma dor pequena em função de retirada da dor maior. Não deixemos nenhuma coisa negativa crescer em nós, pois um dia tudo isso achamos que seja normal. Deixemos somente o bem crescer em nós para que sejamos o bem para os outros. Não podemos viver no comodismo em nome do prazer que nos esmaga e oprime. Vivamos na sinceridade, na retidão, na bondade, na verdade, no amor, na caridade e assim por diante. Somos não pelos bens que possuímos, nem pelo cargo que ocupamos nem pelo poder que temos e sim pelos valores que vivemos. Para isso, precisamos podar o que não é o bem nem faz bem para nossa vida e a vida das pessoas ao nosso redor. A poda é uma atividade positiva: elimina fatores de morte, fazendo que o cristão seja cada vez mais autêntico, mais livre, tenha capacidade maior de entrega e aumente sua eficácia. É um corte purificador, produtivo e libertador.


Algumas perguntas para a revisão de nossa vida: Que parte do meu modo de viver que está seca? Que parte da minha maneira de viver e de pensar que precisa ser podada? Como cristão, de que minha vida cristã se alimenta?


A expressão “Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que em mim não dá fruto ele o corta; e todo ramo que dá fruto, ele o limpa, para que dê mais fruto ainda” é para ser refletida diariamente. No evangelho de João “dar fruto” significa não somente produzir boas obras e sim levar ao cabo a missão de Jesus Cristo, isto é, chegar à colheita do Reino de Deus para que se manifeste o que foi semeado na morte de Cristo: a salvação do mundo que é a glória e a alegria do Pai. Os que recebem Cristo e sua Palavra, os que permanecem em Cristo e cumpre o que Ele diz, os que morrem com Cristo para que os outros vivam soa os que dão muito fruto.


P. Vitus Gustama,svd



26/04/2016
CRISTO QUER NOS DAR A PAZ


Terça-Feira da V Semana da Páscoa


Primeira Leitura: At 14,19-28


Naqueles dias, 19 de Antioquia e Icônio chegaram judeus que convenceram as multidões. Então apedrejaram Paulo e arrastaram-no para fora da cidade, pensando que ele estivesse morto. 20 Mas, enquanto os discípulos o rodeavam, Paulo levantou-se e entrou na cidade. No dia seguinte, partiu para Derbe com Barnabé. 21 Depois de terem pregado o Evangelho naquela cidade e feito muitos discípulos, voltaram para Listra, Icônio e Antioquia. 22 Encorajando os discípulos, eles os exortavam a permanecer firmes na fé, dizendo-lhes: “É preciso que passemos por muitos sofrimentos para entrar no Reino de Deus”. 23 Os apóstolos designaram presbíteros para cada Comunidade. Com orações e jejuns, eles os confiavam ao Senhor, em quem haviam acreditado. 24 Em seguida, atravessando a Pisídia, chegaram à Panfília. 25 Anunciaram a palavra em Perge, e depois desceram para Atália. 26 Dali embarcaram para Antioquia, de onde tinham saído, entregues à graça de Deus, para o trabalho que haviam realizado. 27 Chegando ali, reuniram a Comunidade. Contaram-lhe tudo o que Deus fizera por meio deles e como havia aberto a porta da fé para os pagãos. 28 E passaram então algum tempo com os discípulos.


Evangelho: Jo 14,27-31ª


Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 27“Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; mas não a dou como o mundo. Não se perturbe nem se intimide o vosso coração. 28 Ouvistes que eu vos disse: ‘Vou, mas voltarei a vós’. Se me amásseis, ficaríeis alegres porque vou para o Pai, pois o Pai é maior do que eu. 29Disse-vos isto, agora, antes que aconteça, para que, quando acontecer, vós acrediteis. 30Já não falarei muito convosco, pois o chefe deste mundo vem. Ele não tem poder sobre mim, 31amas, para que o mundo reconheça que eu amo o Pai, eu procedo conforme o Pai me ordenou”.
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Continuamos a acompanhar o “discurso” de despedida de Jesus de seus discípulos (Jo 13-17). Ao se despedir de seus discípulos, Jesus lhes dá a sua paz: “Eu vos deixo a paz, eu vos dou a minha paz; não vo-la dou como o faz o mundo. Que o vosso coração não se perturbe nem se intimide” (v.27).


A paz de Jesus é uma paz diferente. A saudação da paz encontramos também nos evangelhos sinóticos (Mt, Mc e Lc). A paz pronunciado por Jesus nos sinóticos tem sentido de salvação (cura e perdão de pecados). Esta paz pronunciado por Jesus nos sinóticos vai até a raiz do problema a fim de salvar a pessoa em questão. Quando Jesus disse à mulher que sofre de a hemorragia: “Vai em paz”, ele quer declarar a cura da mulher (Lc 8,48). Com a mesma palavra, Jesus perdoa os pecados da mulher pecadora: “Tua fé te salvou. Vai em paz” (Lc 7,50). A paz de Jesus nasce da vitória sobre os pecados e suas consequências.


O evangelista João também fala da paz, porém no contexto da Paixão e da ressurreição. Jesus fala da paz duas vezes no discurso de despedida (Jo 14,27 e Jo 16,33) e duas vezes também na sua aparição aos discípulos  depois da ressurreição (Jo 20,19-21.26). Porém, não se trata de uma simples saudação da paz e sim trata-se de um verdadeiro dom da paz: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou”. Jesus não deseja a paz para os discípulos. Ele dá-lhes a paz como dom. Com dom, a paz vem do alto. Consequentemente, no evangelho de João a paz não é o fruto da decisão do homem. A paz é um dom do céu.


Em João a paz de Jesus é diferente da paz do mundo:  Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; mas não a dou como o mundo”. A paz de Jesus não consiste na ausência  da cruz, mas na certeza da vitória de Jesus: “Eu venci o mundo” (Jo 16,33). Estando com Jesus o cristão vencerá também o mundo. A certeza da vitória final, apesar dos sofrimentos, dá força para o cristão lutar até o fim, como aquele que tem coragem de atravessar a noite, pois acredita que o sol vai aparecer para iluminar seu caminho.


Eu vos deixo a paz, eu vos dou a minha paz; não vo-la dou como o faz o mundo. Que o vosso coração não se perturbe nem se intimide”.


Paz (shalom, em hebraico, ou eirene, em grego) é uma fórmula ancestral e tradicional de saudação e de despedida entre os orientais até o dia de hoje. Os judeus na atualidade se saúdam com “shalom” (paz), ou se perguntam: “mi shelomkha?” (Como está?) que literalmente pode ser traduzido “como está tua paz?”. Ao se despedir se desejam shalom u-berakhah (paz e bênção).


Paz (shalom) que é a saudação habitual entre os judeus tem uma grande densidade de significado, pois este termo não significa apenas a ausência de conflitos ou a tranqüilidade da alma, mas também a saúde, a prosperidade, a felicidade em plenitude. A palavra “Shalom” talvez possa ser traduzida com uma expressão que todos nós desejamos aos outros: “Tudo de bom”. “All the best” para os da língua inglesa. Desejar a paz significa desejar tudo de bom para o próximo. Desejar “shalom” é desejar a alguém uma harmonia com tudo, com todos e com o Todo por excelência que é o próprio Deus. 


Ao se despedir dos discípulos, Jesus não lhes deseja a paz, mas ele lhes a paz: “Eu vos deixo a paz”, e insiste: “Eu vos dou a minha paz”.


Que tipo de paz que Jesus quer oferecer aos discípulos e a todos nós? Não se trata de um simples augúrio de paz, mas de um verdadeiro dom. A paz é um dom, vem do alto: não surge da decisão do homem. Por isso, não pode reduzir-se ao nível de sentimento. Trata-se de uma palavra que salva, que vai à raiz, lá onde está a origem da verdadeira paz (a origem do mal). A paz de Jesus tem como efeito banir/expulsar do coração dos discípulos todo e qualquer resquício/resíduo de perturbação ou de temor que leva ao imobilismo. Possuindo o dom da paz de Jesus, todos os seguidores de Cristo devem manter-se imperturbáveis, sem se deixar intimidar diante das dificuldades. Assim pensada, a paz de Jesus consiste numa força divina que não deixa os discípulos rompam a comunhão com Jesus. É Jesus mesmo, presente na vida dos discípulos, sustentando-lhe a caminhada, sempre disposto a seguir adiante com alegria, rumo à casa do Pai, apesar das adversidades que deverão enfrentar. Dizendo “vai em paz”, Jesus cura a hemorroíssa (Lc 8,48) e perdoa os pecados à pecadora (Lc 7,50). A paz de Jesus nasce da vitória sobre o pecado e suas conseqüências. A paz de Jesus funda-se no amor fraterno e na justiça. A paz de Jesus, por isso, rejeita toda espécie de idolatria que coloca criatura no lugar de Deus e submete o ser humano a um regime de opressão. João enfatiza que Jesus é o mediador da paz; é neste sentido que Jesus a qualifica de “minha”. Os verbos estão no presente, sublinhando, assim, a realidade atual e a duração indefinida do dom. O Filho dispõe a paz que, segundo a Bíblia, só Deus pode conceder. A paz caracteriza os tempos messiânicos (Sl 72,7). O Messias tem por nome “o Príncipe da Paz” (Is 9,5s). A aliança escatológica é uma “aliança de paz” (Is 66,12). Todo o NT se mostra herdeiro dessa tradição para acentuar a reconciliação com Deus (At 10,36; Rm 5,1;Ef 2,14-17;Cl 1,20 etc.).


Mas não dou a paz como o mundo a dá”, disse Jesus. Em que consiste a paz do mundo?


A paz que o mundo oferece prescinde de Deus e se funda num projeto contrário ao dele. Aí, se encontram a injustiça, a concentração de bens à custa da exploração alheia, o desrespeito pelo ser humano. É o império do egoísmo que idolatra pessoas e coisas, e transforma os indivíduos em seus escravos. Por isso, é uma paz que conduz à morte eterna. Segundo o mundo, para ter paz todos tem que se preparar para a guerra. “Si vis pacem, para bellum!” (expressão latina). “Se desejas a paz, prepara-te para a guerra”. “Devemos amar a paz sem odiar os que fazem a guerra”, dizia Santo Agostinho (Serm. 357,1).


Quando o homem esquece o seu destino eterno, e o horizonte de sua vida se limita à existência terrena, contenta-se com uma paz fictícia, com uma tranqüilidade exterior. Jesus qualifica este tipo de paz como a paz que o mundo dá. Recuperar a paz perdida é uma das melhores manifestações de nossa caridade para com os que estão à nossa volta. Onde houver amor também haverá a paz. Com efeito, a verdadeira paz é o fruto do amor a Deus e ao próximo.


Deus em quem acreditamos é um Deus da paz; não quer a desordem, a rebelião ou tumulto. Deus está pela ordem como estada normal das coisas, e esta ordem equivale à paz. É o mesmo Deus que na cena da criação põe ordem no caos inicial (Gn 1,1ss), dando a entender que “criar” é em primeiro término ordenar o caos inicial, separando o céu da terra etc. para evitar a confusão. A paz, entendido neste sentido, se apresenta como estado normal das coisas onde cada uma ocupa seu devido lugar. Quando cada elemento ocupar seu próprio lugar haverá a ordem e conseqüentemente haverá a paz. “A paz é a tranqüilidade da ordem”, dizia Santo Agostinho.


Eu vos deixo a paz, eu vos dou a minha paz; não vo-la dou como o faz o mundo”.


Muitas vez, para não dizer sempre, quando chegamos a um lugar afastado, tranquilo, longe de qualquer barulho a não ser os cantos dos pássaros logo dizemos: “Que paz!”. Mas dizemos anteriormente que a paz de Jesus não consiste na ausência  da cruz, mas na certeza da vitória de Jesus. Isto significa que nós, como cristãos, temos que buscar a paz no meio do barulho e da agitação de cada dia, no meio das preocupações laborais, no meio da família diariamente. A paz e os valores estão de mãos dadas. A paz não é fruto do consenso. A paz é o fruto do Espirito Santo que não nos afastarmos dos problemas, mas nos leva a termos convicção de que somos acompanhados por Cristo na nossa luta de cada dia. Isso nos dá uma serenidade.


Como cristãos temos tarefa de levar a paz para o mundo urgentemente. Transmitir a paz não é dar gritos nem apenas dar abraços durante a celebração, e sim colocar Cristo no centro de nossa vida, pois Jesus é o Príncipe da paz.Depois do Pai-Nosso se dá a paz. Que grande sacramento se esconde nesse rito. Deixa que teu beijo seja a expressão de teu amor. Não sejas Judas, que beijou Cristo com os lábios, mas já o havia traído em seu coração” (Santo Agostinho: Serm. Dennis 6,3).


Para refletir:
  • “A fraternidade é uma dimensão essencial do homem, sendo ele um ser relacional. A consciência viva desta dimensão relacional leva-nos a ver e tratar cada pessoa como uma verdadeira irmã e um verdadeiro irmão; sem tal consciência, torna-se impossível a construção duma sociedade justa, duma paz firme e duradoura. E convém desde já lembrar que a fraternidade se começa a aprender habitualmente no seio da família, graças, sobretudo, às funções responsáveis e complementares de todos os seus membros, mormente do pai e da mãe. A família é a fonte de toda a fraternidade, sendo por isso mesmo também o fundamento e o caminho primário para a paz, já que, por vocação, deveria contagiar o mundo com o seu amor” (Papa Francisco: Mensagem Para a Celebração Do XLVII Dia Mundial Da Paz De 2014).
     
    P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 22 de abril de 2016

25/04/2016




SÃO MARCOS EVANGELISTA


25 de Abril


Primeira Leitura: 1Pd 5,5b-14


Caríssimos, 5brevesti-vos todos de humildade no relacionamento mútuo, porque Deus resiste aos soberbos, mas dá a sua graça aos humildes. 6Rebaixai-vos, pois, humildemente, sob a poderosa mão de Deus, para que, na hora oportuna, ele vos exalte. 7Lançai sobre ele toda a vossa preocupação, pois ele é quem cuida de vós. 8Sede sóbrios e vigilantes. O vosso adversário, o diabo, rodeia como um leão a rugir, procurando a quem devorar. 9Resisti-lhe, firmes na fé, certos de que iguais sofrimentos atingem também os vossos irmãos pelo mundo afora. 10Depois de terdes sofrido um pouco, o Deus de toda a graça, que vos chamou para a sua glória eterna, em Cristo, vos restabelecerá e vos tornará firmes, fortes e seguros. 11A ele pertence o poder, pelos séculos dos séculos. Amém. 12Por meio de Silvano, que considero um irmão fiel junto de vós, envio-vos esta breve carta, para vos exortar e para atestar que esta é a verdadeira graça de Deus, na qual estais firmes. 13A igreja que está em Babilônia, eleita como vós, vos saúda, como também, Marcos, o meu filho. 14Saudai-vos uns aos outros com o abraço do amor fraterno. A paz esteja com todos vós que estais em Cristo.


Evangelho: Mc 16,15-20


Naquele tempo, Jesus se manifestou aos onze discípulos, 15 e disse-lhes: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura! 16 Quem crer e for batizado será salvo. Quem não crer será condenado. 17 Os sinais que acompanharão aqueles que crerem serão estes: expulsarão demônios em meu nome, falarão novas línguas; 18 se pegarem em serpentes ou beberem algum veneno mortal não lhes fará mal algum; quando impuserem as mãos sobre os doentes, eles ficarão curados”. 19 Depois de falar com os discípulos, o Senhor Jesus foi levado ao céu, e sentou-se à direita de Deus. 20 Os discípulos então saíram e pregaram por toda parte. O Senhor os ajudava e confirmava sua palavra por meio dos sinais que a acompanhavam.
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Celebramos no dia 25 de Abril a festa do evangelista Marcos que escreveu um evangelho mais curto do que os demais evangelhos. Ele é conhecido como João Marcos: o primeiro nome (João) é hebraico e o segundo (Marcos) é romano. Ele era primo de Barnabé (Cl 4,10), de família levita (At 4,36). Acompanhou o Apóstolo Paulo e Barnabé (At 12,25; 13,5) e depois separou-se deles (At 13,13) e  isso parece ter irritado Paulo, então Marcos e Barnabé foram para Chipre (At 15,36-39). Mas na prisão de Paulo está com ele novamente (Cl 4,10), que o cita entre os “seus colaboradores” (Fm 14) e o Apóstolo pede sua ajuda antes de morrer (2Tm 4,11). Foi também companheiro de Pedro, que o chamava de “meu filho” (1Pd 5,13). Alguns afirmam que o Evangelho de Marcos é o resumo da Catequese de Pedro.


O evangelho de Marcos é o mais curto dos quatro evangelhos. Ele possui somente 16 capítulos (1,1-16,8). Mc 16,9-20 é um apêndice acrescentado posteriormente e há indícios de que esse apêndice surgiu a partir do ano 150.


Através de seu evangelho Marcos quer responder à pergunta: Quem é Jesus?  Logo no inicio de seu evangelho Marcos respondeu: Evangelho de Jesus, Messias e Filho de Deus. A partir destes dois títulos é que o evangelho de marcos é dividido em duas grandes partes. Primeira parte: Mc 1,1-8,30. Nessa primeira parte fala-se do messianismo de Jesus e do Reino de Deus. Segunda parte: Mc 8,31-16,8 fala da filiação divina de Jesus e da paixão e morte de Jesus.


Marcos nos apresenta que Jesus é o Messias, o Ungido, e por isso, sua palavra está cheia de autoridade. “Ele ensina como quem tem autoridade e não como os escribas”, dizia o povo (Mc 1,22). As palavras de Jesus estão cheias de autoridade porque elas fazem crescer as pessoas e despertam consciência crítica sobre a realidade. Se alguém quer saber quanta autoridade tem, não se pergunte a quantos ele submete e sim a quantos ele ajuda a crescer. O servilismo de seus súditos mostra o autoritarismo de seu líder. Um líder que ama, é respeitado. Mas um líder temido não é respeitado. A força de quem tem autoridade não está em seu poder e sim em seu amor. Uma pessoa que apela ao poder para afirmar ou firmar sua autoridade, ela desautoriza a si mesma como pessoa, muitas mais ainda como líder e mostra que ela não tem mais autoridade. Um leão não tem autoridade na selva, embora tenha força para se impor. (O evangelho de Marcos tem como símbolo LEÃO, pois Marcos apresenta a figura de João Batista como a VOZ que clama no deserto semelhante ao rugir de leão).


Jesus é também apresentado por Marcos como o Filho de Deus, título que Marcos colocou logo no inicio de seu evangelho (Mc 1,1) e no fim ao colocá-lo na boca de um centurião romano vendo Jesus crucificado na cruz. “Este homem era realmente o Filho de Deus” (Mc 15,39), confessou o centurião. Trata-se da confissão de um pagão que reconhece a divindade de Jesus Cristo. Um coração puro, como o do centurião, nos ajuda a termos um olhar puro para perceber algo divino na nossa vida e nos outros. Nãopoema mais belo do que viver com um coração imaculado e um olhar puro.


Mas para Marcos o Filho de Deus não era uma figura triunfal, pois dentro da dura realidade da vida da sua época Jesus fez opções radicais que o envolviam em perseguições e conflitos com as autoridades que o levaram à morte na cruz. Mas somente por essas opções radicais é que Jesus entrou na glória de Deus. Por isso, a cruz de Jesus sempre derrama uma luz sobre o mistério do sofrimento. Um cristão que é fiel ao Senhor e aos Seus ensinamentos sofrerá conflitos e perseguições. Em cada provação e perseguição, pequena ou grande, o cristão fiel contempla o que Cristo sofreu nas mesmas circunstâncias.  Dessa maneira, o sofrimento do cristão se confunde com o de Cristo e ele n’Ele. Dentro deste contexto, o sofrimento se torna um instrumento de redenção e de santificação. Neste sentido, os momentos de perseguição e de provas são os momentos do trabalho fecundo. Sofrer por uma causa digna é uma vitória em Deus.


Esses dois títulos: Jesus é o Messias, o Ungido e Jesus é o Filho (amado) de Deus formam o evangelho de Marcos. É claro que ainda tem outros títulos dados a Jesus pelo evangelista Marcos como o Filho de Davi, o Filho do Homem, Mestre, Santo de Deus, Senhor do Sábado e assim por diante.


Conforme o Evangelho de hoje, a primeira tarefa de cada cristão é a de pregar/propagar a Palavra de Deus, principalmente para aqueles que ainda não a escutaram/ viveram. Cada cristão é, então, o mensageiro de Cristo neste mundo. E cada cristão tem que usar todos os meios ao seu alcance para propagar a Palavra de Deus: homilia, catequese, meios de comunicação, literatura, arte, festas e convivência. Mas é o anúncio respeitoso, sem impor, mas convidando; sem ameaçar mas ofertando a salvação que liberta.


A segunda tarefa é a de curar (v.18). O cristão não pode limitar sua preocupação só na salvação da alma, mas do homem todo: corpo e alma. São Tiago diz: “Meus irmãos, de que serve para alguém alegar que tem fé, se não tem obras?... Suponhamos que um irmão ou irmã andam seminus, sem o sustento diário, e um de vós lhes diz: ide em paz, aquecidos e saciados; mas não lhes dá as necessidades corporais, de que serve? Igualmente a fé que não vem acompanhada de obras:  está totalmente morta” (Tg 2,14-17). Não adianta consolar um faminto com conversa vazia, é preciso dar-lhe uma ajuda concreta: não sendo assim, como pode falar da fé ou da Palavra de Deus.


O evangelista Marcos fez chegar até nós Jesus Cristo, o Filho de Deus. Chegou nossa vez para que façamos chegar Jesus aos outros, seja pelo testemunho de uma vida de filhos de Deus, seja pelo anúncio, seja pelos bons conselhos aos demais. Em outras palavras, sejamos evangelhos vivos para os outros. “Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura!”.  Mas para que possamos ser missionários (enviados) temos que estar em companhia de Jesus, primeiramente (cf. Mc 3,14). Não podemos ser missionários sem ser primeiro discípulos do Senhor. Se não, vamos pregar a nós mesmo e não o próprio Jesus. “Quando caminhamos sem a Cruz, edificamos sem a Cruz ou confessamos um Cristo sem Cruz, não somos discípulos do Senhor: somos mundanos, somos bispos, padres, cardeais, papas, mas não discípulos do Senhor... Quando não confessa Jesus Cristo, confessa o mundanismo do diabo, o mundanismo do demônio (Papa Francisco). São Marcos interceda por nós para que sejamos evangelizadores diariamente!


P. Vitus Gustama,svd