quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Domingo,11/11/2018 
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AS VIÚVAS QUE NOS ENSINAM A TER FÉ E A PRATICAR A GENEROSIDADE: QUEM CONFIAM EM DEUS É GENEROSO
XXXII DOMINGO COMUM “B”


ILeitura:1Rs 17,10-16
Naqueles dias, 10 Elias pôs-se a caminho e foi para Sarepta. Ao chegar à porta da cidade, viu uma viúva apanhando lenha. Ele chamou-a e disse: “Por favor, traze-me um pouco de água numa vasilha para eu beber”. 11 Quando ela ia buscar água, Elias gritou-lhe: “Por favor, traze-me também um pedaço de pão em tua mão”. 12 Ela respondeu: “Pela vida do Senhor, teu Deus, não tenho pão. Só tenho um punhado de farinha numa vasilha e um pouco de azeite na jarra. Eu estava apanhando dois pedaços de lenha, a fim de preparar esse resto para mim e meu filho, para comermos e depois esperar a morte”. 13 Elias replicou-lhe: “Não te preocupes! Vai e faze como disseste. Mas, primeiro, prepara-me com isso um pãozinho e traze-o. Depois farás o mesmo para ti e teu filho. 14 Porque assim fala o Senhor, Deus de Israel: ‘A vasilha de farinha não acabará e a jarra de azeite não diminuirá, até o dia em que o Senhor enviar a chuva sobre a face da terra’”. 15 A mulher foi e fez como Elias lhe tinha dito. E comeram, ele e ela e sua casa, durante muito tempo. 16 A farinha da vasilha não acabou nem diminuiu o óleo da jarra, conforme o que o Senhor tinha dito por intermédio de Elias.


II Leitura: Hb 9,24-28
24 Cristo não entrou num santuário feito por mão humana, imagem do verdadeiro, mas no próprio céu, a fim de comparecer, agora, na presença de Deus, em nosso favor. 25 E não foi para se oferecer a si muitas vezes, como o sumo sacerdote que, cada ano, entra no Santuário com sangue alheio. 26 Porque, se assim fosse, deveria ter sofrido muitas vezes, desde a fundação do mundo. Mas foi agora, na plenitude dos tempos, que, uma vez por todas, ele se manifestou para destruir o pecado pelo sacrifício de si mesmo. 27 O destino de todo homem é morrer uma só vez e, depois, vem o julgamento. 28 Do mesmo modo, também Cristo, oferecido uma vez por todas, para tirar os pecados da multidão, aparecerá uma segunda vez, fora do pecado, para salvar aqueles que o esperam.


Evangelho: Mc 12,38-44
Naquele tempo, 38 Jesus dizia, no seu ensinamento a uma grande multidão: “Tomai cuidado com os doutores da Lei! Eles gostam de andar com roupas vistosas, de ser cumprimentados nas praças públicas; 39 gostam das primeiras cadeiras nas sinagogas e dos melhores lugares nos banquetes. 40 Eles devoram as casas das viúvas, fingindo fazer longas orações. Por isso eles receberão a pior condenação”. 41 Jesus estava sentado no Templo, diante do cofre das esmolas, e observava como a multidão depositava suas moedas no cofre. Muitos ricos depositavam grandes quantias. 42 Então chegou uma pobre viúva que deu duas pequenas moedas, que não valiam quase nada. 43 Jesus chamou os discípulos e disse: “Em verdade vos digo, esta pobre viúva deu mais do que todos os outros que ofereceram esmolas. 44 Todos deram do que tinham de sobra, enquanto ela, na sua pobreza, ofereceu tudo aquilo que possuía para viver”.
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Duas mulheres ocupam as leituras deste Domingo e dão cor para as leituras. Além de ser pobres, as duas são viúvas.


Uma delas é uma viúva que vive num povoado situado ao Sul de Sidon, Sarepta, e que, presumindo que chegou ao fim de sua existência, se prepara para terminar escualidas provisões e morrer depois, junto a seu filho: “Pela vida do Senhor, teu Deus, não tenho pão. Só tenho um punhado de farinha numa vasilha e um pouco de azeite na jarra. Eu estava apanhando dois pedaços de lenha, a fim de preparar esse resto para mim e meu filho, para comermos e depois esperar a morte”. Comer para depois morrer!


Em qualquer momento e cultura ser viúva é símbolo de solidão e vazio. É assim a viúva de Sarpeta. Pois bem, a ela foi o profeta Elias e com ela acontece milagre, um milagre arrancado pela fé cega e a generosidade sem limites daquela mulher. O profeta Elias lhe pede de comer e a viúva entregou o que tinha sem reservar nada, confiada na promessa daquele homem que ela não conhecia, mas que falava em nome de Deus. E o Deus de Israel estava com ela, que velava totalmente para que a "A vasilha de farinha não acabe jamais e a jarra de azeite não diminuia”. Toda a força de Deus parece colocada a serviço de uma mulher pobre, fraca, abandonada e ignorada.


A outra mulher que protagoniza hoje as leituras é também pobre e insignificante que o Evangelho nos relata. Não sabemos nem sequer seu nome. Também era viúva. Também tinha por conseguinte, uma situação difícil. Diante dela estão os ricos tirando abundantemente de sua riqueza para colocar na bandeja do Templo, mas ficam despercebidos diante do olhar de Cristo. Mas, de repente, entre as esplêndidas ofertas, duas moedas saíram da mão da viúva como oferta, e tudo o que ela tinha. O olhar de Cristo se concentra nessa viúva e a elgiou: Em verdade vos digo, esta pobre viúva deu mais do que todos os outros que ofereceram esmolas. Todos deram do que tinham de sobra, enquanto ela, na sua pobreza, ofereceu tudo aquilo que possuía para viver”.


São duas mulheres que chegaram como uma flecha até o coração de Deus. Duas mulheres que merecem, na Sagrada Escritura, as honras de uma primeira página. Duas mulheres pouco decorativas, possivelmente enrugadas, envelhecidas, encurvadas por tantos e tantos problemas. Duas mulheres que atravessaram o tempo para chegar até nós e nos golpear com seu exemplo esplêndido. Não importa que não saibamos seu nome nem a cor de seus olhos. O verdadeiro interessante é que duas mulheres foram, por um momento, protagonistas de uma história vivida com Deus e cumpriram perfeitamente seu papel nessa história.


São duas histórias preciosas e estimulantes, com uma clara lição: para conseguir que o coração de Deus se sinta “tocado”, não é necessariamente ser importante, nem saber muito, nem ser “letrado”, nem impactar com o brilho de roupas de marca. Para chegar ao coração de Deus é preciso dar quanto se tem, crer em suas promessas sem reservar-se nada, pôr a vida “na bandeja” e esperar confiadamente no milagre que Ele fará que não se acabe nunca a esperança, a ilusão, a inquietude, essa especial farinha e esse azeite sobrenatural que se necessita para caminhar pela vida cristã, ainda que, às vezes, nos sintamos nesse caminho tão angustiados, como a viúva de Sarepta. Deus sabe o que fazer para seus fieis.


Seguramente, as duas viúvas não poderiam nos dar uma definição correta de fé, de consagração nem de abnegação. Mas elas entendem vitalmente que não só de pão vive o homem, e deram tudo seu pão ou tudo o que tinham. Não foi um gesto suicida de desespero e sim uma confiança total em Deus.


O que move um homem, como as viúvas, para dar sua vida (tudo que elas tinham) para Deus? Somente parece existir uma resposta: sentir-se profundamente querido por Deus. As viúvas não podiam dar graças a Deus pelos bens materiais de que desfrutavam, mas, apesar disso, algo em seu interior lhes fazia sentir-se queridas e devedoras de Deus. Elas pertencem ao grupo de pessoas anônimas que guardam nelas a essência da humanidade e a irradiam, ainda que muitos as julguem como pessoas inúteis e descartáveis. Nelas se encarna Deus da bondade e da generosidade.


Estas duas mulheres são modelo de crentes. São pessoas abertas a Deus e confiam n´Ele. Pouca coisa elas têm, mas não se aferram zelosamente ao pouco que têm. Não dão os restos ou as sobras e sim tudo que necessitam para viver. Deus não quer que lhe demos o que nos sobra, e ainda de maneira exibicionista como se quiséssemos demonstrar nossa “generosidade” para obter mérito. O primeiro mandamento, que vale para todos: “Amarás teu Deus com todo teu coração...” (Evangelho do Domingo anterior). Da mesma maneira, o segundo é “amarás a teu próximo como a ti mesmo” (e não dar-lhes o que te sobra).


A oferta da viúva do Evangelho é o cumprimento do primeiro mandamento. A viúva deixa para Deus a preocupação da vida. Ela faz uma escolha clara entre Deus e os bens materiais. Esta opção é possível porque confiar em Deus e amar aos irmaos é mais importante do que todas as questões de dinheiro. É o critério fundamental para a vida dos discípulos de Jesus. É chegar a viver livre no Reino de Deus. A viúva não pede nem espera nenhum milagre, nem se contenta com recitar o primeiro mandamento (Shemá), e sim que o vive e pratica. Ela não está perto do Reino (Mc 12,34), e sim está dento dele. O importante não é dar muito ou pouco e sim dar-se a si mesmo. Jesus dá tudo e se dá a si mesmo; se entregou a si mesmo pelos homens.


A exemplo das duas viúvas pobres, devemos manter a confiança em Deus como motor de nossa vida, de nossas relações, de nossa caridade e solidariedade, independentemente de nossa situação. Ao mesmo tempo, devemos manter a confiança na Sagrada Escritura: devemos lê-la, escutá-la e meditá-la.


Estas duas mulheres são duas “pobres” no sentido bíblico dos “anawim” (pobres de Javé), os que Jesus proclama bem-aventurados, os que põem sua esperança em Deus totalmente.


Alguém talvez diga que são duas mulheres “alienadas”. E que o Templo (Deus, religião) e os “profetas” devoram os bens dos pobres, no lugar de ajudá-los a tomar consciência de sua situação injusta de dependência e opressão, e a lutar por sua libertação. Cuidado! “O Senhor é fiel para sempre, faz justiça aos que são oprimidos; Ele dá alimento aos famintos, é o Senhor quem liberta os cativos. O Senhor abre os olhos aos cegos, o Senhor faz erguer-se o caído; o Senhor ama aquele que é justo. É o Senhor quem protege o estrangeiro. Quem ampara a viúva e o órfão” (Salmo Responsorial, Sl 145). E Jesus, que elogia o gesto daquela pobre viúva, critica aos que “devoram as casas das viúvas” e recorda que Elias “foi enviado” a socorrer aquela viúva “quando houve uma grande fome em todo país” (Lc 4,25-26). Naturalmente, a generosidade da viúva do Evangelho não autoriza qualquer uso que façam de suas “duas moedas” e de tantas outras doações, os responsáveis do Templo.


A Missa é a mesa dos pobres, dos que confiam plenamente no Senhor, em seu dom, em seu alimento, em sua Palavra. É a mesa dos pecadores, conscientes de sê-lo e, por isso mesmo, abertos à conversçao. É a mesa dos que se oferecem a Deus junto com a oferenda de Jesus Cristo.


Aprofundemos mais um pouco nossa reflexão sobre o Evangelho de hoje, especialmente sobre a generosidade da pobre viúva contra a cobiça dos escribas que se encontra na segunda parte do Evangelho de hoje.


Nesta segunda parte do texto, Marcos apresenta a cena da viúva que deposita o seu humilde óbolo no cofre do templo. E Jesus se encontra no templo, mais exatamente numa sala ou corredor do pátio reservado às mulheres, onde estão colocadas as 13 trombetas ou caixas em forma de funil para receber as ofertas, subdividas segundo as intenções dos oferecedores. A pobre viúva depositou, como oferta livre para o culto, duas moedinhas dentre as menores em circulação. As duas moedas juntas perfaziam um quadrante, isto é um quarto de asse romano. Um asse, por sua vez, era décima-sexta parte de um denário, e um denário era a diária de um trabalhador no campo (cf. Mt 20,2). Poucas coisas se podiam comprar com um quadrante. O valor desta oferta, observa Jesus, deriva do fato de que por meio dela aquela mulher expressou o dom total de si mesma; realizou, sempre conforme a interpretação hebraica, o mandamento do amor a Deus com tudo aquilo que possuía para viver.


Marcos quer sublinhar, assim, a simpatia de Jesus pelos pobres, isto é, a gente humilde e simples, completamente aberta e disponível a Deus. O lugar do encontro com Deus é justamente através do coração pobre, totalmente aberto e disponível para Deus e não através do poder cultual ou institucional. Por isso, Jesus proclama solenemente o gesto da viúva, contrastando-o com a solenidade ostensiva dos ricos: “Em verdade eu vos digo que esta viúva que é pobre lançou mais do que todos os que ofereceram moedas ao Tesouro. Pois todos os outros deram do que lhes sobrava. Ela, porém, na sua penúria, ofereceu tudo o que tinha, tudo que possuía para viver”(vv.43-44).


Deste texto podemos tirar uma lição de que como é diferente o que é importante para Deus daquilo que é importante para os homens. Como são diferentes as medidas. Nós costumamos impressionar-nos com o que é grande, chamativo. Deus comove-se com os pequenos detalhes de amor. É claro que também se comove com os gestos que costumamos considerar de grande importância, mas somente quando realizados com o mesmo espírito de retidão, de humildade e de amor.


Na nossa experiência cotidiana, “poucas vezes se apresentam grandes ocasiões de servir a Deus, mas as pequenas continuamente. Pois deves compreender que quem for fiel no pouco será constituído no muito. Faze, pois, todas as tuas coisas para a honra de Deus, e as farás todas bem. Quer comas, quer bebas, quer durmas, quer te divirtas, quer junto ao fogão, se souberes aproveitar essas tarefas, progredirás muito aos olhos de Deus realizando tudo isso porque assim quer Deus que o faças” (São Francisco de Sales, Introdução à Vida devota III).


Não basta que aquilo que se realiza seja bom; deve, além disso, ser uma obra bem terminada. S. Tomás de Aquino ensina que para que haja virtude é preciso reparar em duas coisas: naquilo que se faz e no modo de fazê-lo. O modo de fazê-lo é com o amor. O amor é que torna importante as pequenas coisas. Quando tudo se faz com o amor, ele se torna uma obra-prima. E nada é pequeno quando o amor é grande. Ou nas palavras do Papa Paulo VI: “ Nada é pequeno na Santa Liturgia, quando se pensa na grandeza d´Aquele a quem se dirige”.


A viúva do Evangelho é o reflexo da generosidade de Deus que criou tudo por amor e dá tudo por amor; até o próprio filho amado Ele não poupou a fim de nos resgatar (cf. Jo 3,16). Ser de Deus é servir e dar, não aquilo que um tem e sim a si mesmo. Jesus não é o turista rico que veio visitar a terra subdesenvolvida da humanidade. Ele é o servidor de todos. Seu modo de ser Deus é a pobreza: dar tudo a fim de salvar todos.


Com sua oferta, a viúva se dá a si mesma. Ela faz de Deus o valor supremo acima de sua própria pessoa e faz depender sua vida de Deus, pois não tem mais meios de subsistência. Só uma pessoa de uma fé muito profunda, como essa viúva, será capaz de fazer essa “loucura”. Através de sua oferta a viúva traduz em pratica aquilo que Jesus disse anteriormente: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com toda a tua força!” (Mc 12,30). Uma entrega total, ainda que de aparência modesta, tem muito mais valor do que uma entrega parcial ainda que de uma aparência volumosa. O que vale é a totalidade do dom. A viúva é exemplo de um amor total a Deus, manifestado no total desprendimento dos bens materiais; é a antítese dos dirigentes do evangelho de hoje, infiéis a Deus por seu amor aos bens materiais.


Quando o coração humano se deixar arrebatar por Deus e o experimentar fortemente, então a esperança de poder possuir Deus se converte na força que move a vida. Basta ver como a esperança de Deus fez santos crianças, jovens e adultos, mulheres e homens que foram capazes de dar a vida pelo bem da humanidade como tradução da fé em Deus-generoso. Mas também é verdade que a falta de ilusão (ilusão é falta de correspondência entre a sensação e o objeto percebido) por Deus conduz muitos outros cristãos à mediocridade, à tibieza, à avareza e assim por diante. Por mais que tentemos para possuir nesta terra, nada conseguiremos. Nada podemos possuir. Temos apenas o usufruto das coisas deste mundo. Largaremos um dia assim que terminarmos nossa caminhada histórica.


Olhando para sua maneira de ser, o que é que essa viúva quer corrigir e purificar em você hoje? O que falta em você para ter a maneira de viver dessa viúva? Será que a fé na providência divina? Será que o desprendimento? Será que a generosidade? Será que a esperança?
P. Vitus Gustama,SVD

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

10/11/2018
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USAR OS BENS COM GRATIDÃO SEM SER POSSUIDOS POR ELES
Sábado Da XXXI Semana Comum


Primeira Leitura: Filipenses 4,10-19
Irmãos, 10 grande foi minha alegria no Senhor, porque afinal vi florescer seu afeto por mim. Na verdade estava sempre vivo mas faltava-lhe oportunidade de manifestar-se. 11 Não é por necessidade minha que vos digo, pois aprendi muito bem a contentar-me em qualquer situação. 12 Sei viver na miséria e sei viver na abundância. Eu aprendi o segredo de viver em toda e qualquer situação, estando saciado ou passando fome, tendo de sobra ou sofrendo necessidade. 13 Tudo posso naquele que me dá força. 14 No entanto fizestes bem em compartilhar as minhas dificuldades. 15 Filipenses, bem sabeis que, no início da pregação do evangelho, quando parti da Macedônia, nenhuma Igreja, a não ser a vossa, se juntou a mim numa relação de crédito. 16 Já em Tessalônica, mais de uma vez, me enviastes aquilo de que eu precisava. 17 Não que eu procure presentes, porém, o que eu busco é o fruto que cresça no vosso crédito. 18 Agora, tenho tudo em abundância. Tenho até de sobra, desde que recebi de Epafrodito o vosso donativo, qual perfume suave, sacrifício aceito e agradável a Deus. 19 O meu Deus proverá esplendidamente com sua riqueza a todas as vossas necessidades, em Cristo Jesus.


Evangelho: Lc 16,9-15
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 9 “Usai o dinheiro injusto para fazer amigos, pois, quando acabar, eles vos receberão nas moradas eternas. 10 Quem é fiel nas pequenas coisas também é fiel nas grandes, e quem é injusto nas pequenas também é injusto nas grandes. 11 Por isso, se vós não sois fiéis no uso do dinheiro injusto, quem vos confiará o verdadeiro bem? 12 E se não sois fiéis no que é dos outros, quem vos dará aquilo que é vosso? 13 Ninguém pode servir a dois senhores: porque ou odiará um e amará o outro, ou se apegará a um e desprezará o outro. Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro”. 14 Os fariseus, que eram amigos do dinheiro, ouviam tudo isso e riam de Jesus. 15 Então Jesus lhes disse: “Vós gostais de parecer justos diante dos homens, mas Deus conhece vossos corações. Com efeito, o que é importante para os homens, é detestável para Deus”.
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Saber Ajudar e Agredecer Torna a Vida e a Convivência Agradáveis


Tenho até de sobra, desde que recebi de Epafrodito o vosso donativo, qual perfume suave, sacrifício aceito e agradável a Deus. O meu Deus proverá esplendidamente com sua riqueza a todas as vossas necessidades, em Cristo Jesus”, escreveu são Paulo aos Filipenses que lemos na Primeira Leitura de hoje.


Hoje lemos o final da Carta aos Filipenses. São Paulo dedica esta última página de sua Carta aos Filipenses para agradecer-lhes a ajuda material enviada por meio de Epafrodito para a prisão onde são Paulo está detido. Com esta ajuda são Paulo fica muito contente porque os Filipenses se lembram dele. Aparentemente, a iniciativa da ajuda partiu dos próprios Filipenses e não de pedido do Apóstolo Paulo. Por tal espontaneidade são Paulo agradece aos Filipenses: “Tenho até de sobra, desde que recebi de Epafrodito o vosso donativo, qual perfume suave, sacrifício aceito e agradável a Deus”.


Um coração agradecido nos dá condições de olhar a vida com mais alegria e confiança. Saber agradecer é saber ver que há espaço para esperança e bondade no mundo. Para os que sabem para que serve a sua vida, sabem também agradecer e não perdem o ânimo; enquanto os outros se arrasam pela vida de mau humor. Não existe um só dia em que Deus não nos conceda alguma graça particular e extraordinária. Pare e verifique! Agradecer é uma atitude própria de quem tem dignidade. Quem não sabe agradecer está mal preparado para conviver.


Porém, são Paulo aproveita também o momento de agradecimento para mostrar aos Filipenses sua atitude diante dos bens materiais. São Paulo quer também deixar bem claro que ele não busca de qualquer forma dinheiro (ser ganancioso). Neste sentido ele não tem necessidade dos Filipenses, pois aprendeu a se virar, quer precise ou não: “Não é por necessidade minha que vos digo, pois aprendi muito bem a contentar-me em qualquer situação. Sei viver na miséria e sei viver na abundância. Eu aprendi o segredo de viver em toda e qualquer situação, estando saciado ou passando fome, tendo de sobra ou sofrendo necessidade. Tudo posso naquele que me dá força”. Só ele sabe a que preço custou-lhe manter, de fato, fidelidade a esse princípio. Até agora, saiu de todas as dificuldades. É precisamente isso, sem que seja necessário procurar profundidades teológicas, o que indica ao explicar: "Tudo posso naquele que me dá força". Ele tem certeza de que neste momento ele também teria se organizado.


É precisoesforçar-se para aprender a fim de poder se virar em qualquer situação. É preciso aprender a trabalhar. Através do trabalho o homem se distingue de outras criaturas. Com o trabalho o homem ganha seu pão de cada dia para sustentar a vida que é sagrado. Por isso, o trabalho é também sagrado. Também através do trabalho o homem mostra seu caráter social, pois entra em contato com os outros. O trabalho também é o lugar de encontro social. Através do trabalho o homem se transcende, pois o homem se esforça todos os dias para se superar. São Paulo sabe muito bem disso.


Esta Carta de são Paulo nos serve para valorizar os favores que os outros nos fazem para que aprendamos a judar os outros na sua necessidade. Uma das coisas que mais agradecemos é que os outros nos visitem e nos ajudem quando estamos enfermos ou em alguma situação como a de são Paulo na prisão. Uma presença no fortalece no momento de enfermidade ou de uma “perdd” de um ente-querido.


Para são Paulo, esta caridade é verdadeira liturgia, culto que agrada a Deus mais que os cantos e as festas: o que fizeram os Filipenses para são Paulo é “perfume suave, sacrifício aceito e agradável a Deus”.


Ao mesmo tempo, o texto da Primeira Leitura de hoje é também uma lição para que tenhamos uma atitude de uma certe indiferença diante dos bens materiais. Os bens materiais são necessários, mas nunca serão nossos amigos, pois eles continuam alheios a nós. Podemos possuir as coisas, mas elas não podem nos possuir para que não percamos nossa liberdade interior. Não sou mais do que o gerente de tudo que me foi confiado por Deus e tudo continua pertencendo a Deus. Não tenho direito de menosprezar os dons de Deus. Um dia terei que prestar contas das riquezas que não foram desenvolvidas ou não foram multiplicadas para o bem dos necessitados.


Usar Os Bens Materiais Sem Ser Usados e Dominados Por Eles


Continuamos a escutar as ultimas lições do Senhor no seu caminho para Jerusalém (Lc 9,51-19,28). E estamos na segunda parte de Lc 16 onde podemos encontrar o convite de Jesus a usarmos o dinheiro ou os bens materiais corretamente. É o tema central de todo capítulo 16 deste Evangelho.


O dinheiro é uma faca de dois gumes, conforme se usa para o bem ou para o mal, isto é, para Deus e para os outros, ou apenas para si próprio, excluindo os outros. Para viver como filhos da luz (cf. Lc 16,1-8), como filhos de Deus, temos de ser irmãos dos outros, algo impossível para o que idolatra o dinheiro. Uma vez um economista escreveu: “Capitalismo é um sistema que funciona, porque se baseia no egoísmo humano”. E sabemos que o egoísmo é o contrário do plano de Deus, pois a alma do projeto de Jesus Cristo é a partilha. Com efeito, o Reino de Deus se alicerça no amor que produz a justiça e transborda em fraternidade e partilha para que todos tenham liberdade e vida (cf. Jo 10,10). O reino do dinheiro, ao usá-lo erradamente, repousa no egoísmo que produz a injustiça e transborda em não-fraternidade e não-partilha, que dá origem ao poder que oprime e que dá origem à riqueza que explora. O dinheiro dá muito “poder” para quem o tem. E normalmente o dinheiro é usado para oprimir os mais fracos e pode ser usado para qualquer tipo de crime.


A advertência de Jesus sobre o perigo do dinheiro não é exclusivamente para os ricos. É para todos, pois todos têm o impulso natural que leva cada um a desejar alguma coisa ou dinheiro. O dinheiro é um deus que tem altar em quase todos os corações, tanto num adulto realista como num jovem idealista, tanto no rico como no pobre, tanto no leigo como no religioso/sacerdote. Até as crianças são educadas para ganhar dinheiro ao escolher bem uma profissão futura. Além disso, muitas vezes as brigas numa comunidade, seja familiar, seja civil, seja eclesial, surgem ou partem desse deus que se chama dinheiro. Por isso, Martinho Lutero observou astutamente: “Três conversões são necessárias: a conversão do coração, a da mente e a da bolsa”.


A segunda parte deste texto começa dizendo: “E eu vos digo: Usai o dinheiro injusto para fazer amigos, pois, quando acabar, eles vos receberão nas moradas eternas” (v.9). Usar “o dinheiro da iniqüidade” para fazer amigos é metáfora de “dar esmolas”, isto é, dar aos necessitados. “vocês serão recebidos nas moradas eternas” é a promessa de Deus. A palavradexontai” (grego) é empregada aqui na forma passiva e refere-se ao ato de Deus (veja também Lc 6,32-36; 14,7-14). Por isso, podemos ler da seguinte maneira: “Usai o dinheiro injusto para fazer amigos (=esmola) para serdes recebidos por Deus nas moradas eternas” (cf. Mt 25,34-40). “Os famintos, os maltrapilhos, os mendigos, os peregrinos, os prisioneiros, os doentes... são teus “batedores” no Reino dos céus”, dizia Santo Agostinho (Serm. 11,6).


 Esta segunda parte termina com esta frase: “Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (v.13b; cf. também Mt 6,24). Aqui não há meio-termo: ou servir ao Senhor Deus ou servir ao senhor dinheiro. Um é incompatível com o outro, porque cada um tem as suas próprias regras. E não se diga que o Evangelho é ingênuo, porque ele não está criticando uma cédula de dinheiro, mas o capital, o acúmulo de dinheiro. “Servir a Deus” é uma dependência que nos faz livres para servir aos mais necessitados, enquanto que “servir ao dinheiro” é uma escravidão que esmaga à pessoa e perverte nossas relações com Deus e com os demais, como descreve a parábola do rico e Lázaro (Lc 16,19-31). O dinheiro pode se transformar num ídolo e por seu caráter totalizante impede o serviço autêntico a Deus e ao próximo.


Reflitamos:


Em primeiro lugar, Se você deprecia o dinheiro dos outros, pergunte-se se não o adoraria caso ele fosse seu. Não admiro o seu desprendimento pelo dinheiro que lhe falta por você não saber ganhá-lo com seu esforço; mas sim o admira se você é generoso com o dinheiro que ganha com seu trabalho. E se você tem dinheiro acumulado, pergunte-se como o ganhou e como o usa. Se você continua acumulando mais dinheiro do que precisa para viver, sabe para que você o faz? Os bens um dia nos escapam. Por isso, podemos ter os bens materiais, mas eles não podem nos possuir.


Em segundo lugar, “O grande risco do mundo atual, com sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada. Quando a vida interior se fecha nos próprios interesses, deixa de haver espaço para os outros, já não entram os pobres, já não se ouve a voz de Deus, já não se goza da doce alegria do seu amor, nem fervilha o entusiasmo de fazer o bem. Este é um risco, certo e permanente, que correm também os crentes. Muitos caem nele, transformando-se em pessoas ressentidas, queixosas, sem vida. Esta não é a escolha duma vida digna e plena, este não é o desígnio que Deus tem para nós, esta não é a vida no Espírito que jorra do coração de Cristo ressuscitado”. (Papa Francisco: Evangelii Gaudium n.2). “Posso dizer que as alegrias mais belas e espontâneas, que vi ao longo da minha vida, são as alegrias de pessoas muito pobres que têm pouco a que se agarrar. Recordo também a alegria genuína daqueles que, mesmo no meio de grandes compromissos profissionais, souberam conservar um coração crente, generoso e simples. De várias maneiras, estas alegrias bebem na fonte do amor maior, que é o de Deus, a nós manifestado em Jesus Cristo. Não me cansarei de repetir estas palavras de Bento XVI que nos levam ao centro do Evangelho: ‘Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo’” (Idem n.7).


“Possuamos as coisas terrenas sem deixar-nos possuir por elas. Que não nos deslumbre sua multiplicação nem nos afunde sua carência. Façamos que com elas nos sirvam sem fazer-nos seus servidores” (Santo Agostinho: Epist. 15,2).
 
P. Vitus Gustama,svd

terça-feira, 6 de novembro de 2018

09/11/2018
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SOMOS TEMPLO DE DEUS
FESTA DA DEDICAÇÃO DA BASÍLICA DO LATRÃO
09 de Novembro


Primeira Leitura: 1Cor 3,9c-11.16-17 (ou Ez 47,1-2.8-9.12)
Irmãos, 9c vós sois construção de Deus. 10 Segundo a graça que Deus me deu, eu coloquei — como experiente mestre de obra — o alicerce, sobre o qual outros se põem a construir. Mas cada qual veja bem como está construindo. 11 De fato, ninguém pode colocar outro alicerce diferente do que está aí, já colocado: Jesus Cristo. 16 Acaso não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus mora em vós? 17 Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá, pois o santuário de Deus é santo e vós sois esse santuário.


Evangelho: Jo 2,13-25
13 Estava próxima a Páscoa dos judeus e Jesus subiu a Jerusalém. 14 No Templo, encontrou os vendedores de bois, ovelhas e pombas e os cambistas que estavam aí sentados. 15 Fez então um chicote de cordas e expulsou todos do Templo, junto com as ovelhas e os bois; espalhou as moedas e derrubou as mesas dos cambistas. 16 E disse aos que vendiam pombas: “Tirai isto daqui! Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio!” 17 Seus discípulos lembraram-se, mais tarde, que a Escritura diz: “O zelo por tua casa me consumirá”. 18 Então os judeus perguntaram a Jesus: “Que sinal nos mostras para agir assim?” 19 Ele respondeu: “Destruí este Templo, e em três dias o levantarei”. 20 Os Judeus disseram: “Quarenta e seis anos foram precisos para a construção deste santuário e tu o levantarás em três dias?” 21 Mas Jesus estava falando do Templo do seu corpo. 22 Quando Jesus ressuscitou, os discípulos lembraram-se do que ele tinha dito e acreditaram na Escritura e na palavra dele.
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Novembro é um mês projetado para a eternidade, porque a liturgia agrupa uma serie de festas que tem um profundo sentido escatológico.


A Igreja celebra a solenidade de Todos os santos no dia primeiro do mês para nos relembrar que somos chamados diariamente à santidade.


Logo no dia 2 de Novembro a Igreja comemora o Dia de finados e quer nos recordar o sentido pascal da morte que é trânsito dos que descansam em Cristo e esperam o “lugar” da luz e da paz.


Também no mês de Novembro a Igreja celebra as dedicações das basílicas do Salvador/Latrão (9 de novembro) e as de São Pedro e são Paulo (18 de Novembro). Tudo isso nos faz pensarmos através da igreja material, tabernáculo de Deus entre os homens, na Igreja do céu “adornada como uma noiva que sai para receber a esposo”. Esta recordação quer avivar em nós a vinda do Senhor no fim dos tempos.


Uma Pequena História Da Festa


A Basílica do Latrão é um dos primeiros templos que os cristãos puderam erguer depois da época das perseguições. Foi consagrada pelo Papa Silvestre no dia 09/11/324. A festa, que a princípio era celebrada apenas em Roma, passou a ser festa universal no rito romano, em honra dessa igreja chamada “Mãe e Cabeça de todas as igrejas de Roma e de todo o mundo” (Urbis et Orbis) como sinal de amor e de unidade para com a Cátedra de São Pedro. A história desta Basilica evoca a chegada à fé de milhares de pessoas que ali receberam o Batismo.


Latrão era um palácio, propriedade romana da família dos Laterani. Nos inícios do século IV pertencia a Fausta, esposa do imperador Constantino, que fez a doação desse patrimônio à Igreja. Constantino mandou construir no lugar do palácio (por volta de 324) uma suntuosa basílica em honra a Cristo Redentor que se tornou a catedral de Roma e a primeira basílica patriarcal. No início do século X, sob a gestão do papa Sérgio III (904-911), ela foi consagrada adicionalmente a São João Batista e a São João Evangelista, e desde então é conhecida pelo nome de basílica “São João de Latrão”. Segundo a inscrição, o Papa Clemente XII (1730-1740), conhecido como um papa promotor das artes e das ciências, mandou afixar que essa basílica é a “mãe e cabeça de todas as igrejas da Urbe e do Orbe” (“Mater et Magistra omnium Ecclesiarum”, e “cardo totius urbis et orbis”).


Nessa basílica foram realizados os cinco concílios ecumênicos: Concílio de Latrão I, o nono concílio (1123); Concílio de Latrão II, o décimo concílio (1139); Concílio de Latrão III, o décimo primeiro concílio (1179); Concílio de Latrão IV, o décimo segundo concílio (1215); e o Concílio de Latrão V, o décimo oitavo concílio (1512-1517).


A basílica lateranense ocupa lugar único e preponderante entre as basílicas romanas. Nessa basílica os papam haviam residido durante quase mil anos (do tempo de Constantino até o exílio de Avinhão). Depois da morte do papa Bento XI (1303-1304), o conclave se realizou em Perúgia. O Colégio Cardinalício dividira-se em duas facções: a francesa e a italiana. O conclave teve 11 meses de duração. Finalmente foi eleito o candidato dos franceses, Clemente V (1305-1314). Com essa eleição iniciava-se o exílio dos papas em Avinhão, a partir de 1309, que duraria 70 anos. A partir de 1309 o papa passou a residir em Avinhão, França. Somente a partir do Papa Gregório XI (1370-1378: papa francês) começou o retorno para Roma. Gregório XI deixou Avinhão, acompanhado de 13 cardeais, em 13 de setembro de 1376, ingressando solenemente em Roma. A partir de Clemente V começou a dominação francesa. Foram eleitos os papas franceses sucessivamente: João XXII (1316-1334), sucessor de Clemente V; Bento XII (1334-1342); Clemente VI (1342-1352); Inocêncio VI (1352-1362); Urbano V (1362-1370). Este papa decidiu o regresso a Roma, porque também Santa Brígida da Suécia, inclusive Santa Catarina de Siena, solicitara que o fizesse. Mas por causa da pressão dos cardeais franceses esse regresso não teve sucesso, embora esse papa chegasse a entrar em Roma, mas voltou novamente para Avinhão; Gregório XI (1370-1378). Com Gregório XI morreu o último papa francês a ocupar a cátedra de Pedro.


A festa da consagração da Basílica do Latrão que celebramos hoje deve nos levar a revivermos e a pensarmos na unidade de toda a Igreja como Cristo sempre quer: “Que eles sejam um”, assim ele rezou antes de sua morte (cf. Jo 17). A palavra “igreja” em si significa “assembléia”, “comunidade”, “Convocação”. Se a comunidade não existe, os corações se fecham e morrem. Mas a unidade não significa a uniformidade, pois negaria o dom de cada um e empobreceria a convivência. Por isso, Santo Agostinho dizia: No essencial unidade, na dúvida liberdade, mas em tudo a caridade”. Certamente a autenticidade da comunhão e da comunidade se manifesta no esforço constante de amar seus irmãos e irmãs, com enorme fidelidade, sem julgar nem condenar.


O Sentido Do Templo


Evidentemente, o templo é um lugar de encontro do homem com Deus. o templo é tão antigo como o homem. em todas as civilizações, em todas as culturas das quais temos notícia, aparece, com toda certeza, o templo. O homem é um ser sociável e sensível: necessita coletiva e materialmente ter um lugar para se aproximar de Deus, um lugar no qual seu Deus receba culto e onde pode pacifica e serenamente falar com Ele.


Os judeus amavam seu templo com verdadeira devoção. Estavam orgulhosos de seu esplendor e de sua grandeza (Cf. Mc 13,1-2; Mt 24,1-2; Lc 21,5-6). Era morada tangível e visível de Deus, o lugar onde se guardava a Arca da Aliança, o lugar em que se sente protegido; sinal concreta da presença divina.


A grandeza espiritual de Jesus Cristo, seu amor ao Pai, seu conhecimento de Deus era incompatível totalmente com aquela alteração substancial do templo. Nesse templo, esplêndido e precioso, não poderia encontrar-se o Deus que ele conhecia, amava e servia. Era necessário purificar o templo de seu uso comercial.


São importantes os templos, porém o que verdadeiramente tem importância são as pessoas que recorrem a eles para conversar com Deus. O cristianismo não é uma religião de “coisas sagradas” e sim de “pessoas santas”: “O Templo de Deus é santo; esse templo sois vós” (1Cor 3,16-17). Deus não se manifesta em uns objetos animados (uma pedra, um animal, uma planta, uma imagem, uma construção etc.). Deus se manifesta no homem Jesus de Nazaré e nos crentes que constituímos a Igreja: edifício construído por Deus sobre a pedra angular que é Jesus Cristo. Não se pode pôr outra pedra angular. Jesus Cristo não é um dado aqrquivado, que pertence à história. Ele continua sendo a pedra angular e cada um de nós é a pedra viva deste edifício.


Nesta mesma linha de pensamento, vale a pena recordar que os primeiros cristãos não tinham “templos” e sim que se reuniam em casas particulares (Cf. At 1,13; 18,7-11; 19,9-10; 20,7-12). Eram eles quem constituíam a “Igreja”.


O texto do evangelho de hoje é lido em função da festa mencionada.  Esse texto se encontra na primeira parte do quarto Evangelho que costuma ser chamada de “Livro dos Sinais” (Jo 2,1-12,50). Chama-se assim porque referem-se aos sete sinais realizados por Jesus (Jo 2,1-11;4,46b-54;5,1-9;6,1-15;6,16-21;9,1-41;11,1-44). Estes sinais são reunidos por evangelista do quarto Evangelho na seção que vai de Jo 2 até Jo 12.


No quarto Evangelho, como já sabemos, não se fala de milagre (dynamis), fala-se de sinal (semeion). No quarto evangelho usa-se o termo “sinal”. Chama-se de “sinal” porque o espectador/ leitor é obrigado a mergulhar no mistério do sinal para captar seu significado. Os sinais são ações simbólicas que impulsionam o espectador/ leitor a buscar, muito além do episódio concreto, uma realidade mais profunda até a qual aponta o relato narrado. O sinal leva por si ao conhecimento de realidade superior.


O relato da “purificação do Templo” (X. Léon-Dufour não aceita o uso desta expressão no quarto Evangelho, pois segundo ele, a expressão “purificação do Templo” se usa nos sinóticos e não no quarto Evangelho) ou “substituição do Templo” (Johan Konings usa o termo “suplantar” em vez de “substituir”) se encontra também nos evangelhos sinóticos (cf. Mc 11,15-19; Mt 21,10-17; Lc 19,45-48). Mas o quarto evangelho tem suas próprias acentuações. Os sinóticos colocam este episódio na última semana da atividade de Jesus. O quarto Evangelho o coloca logo no início da vida pública de Jesus. Para o quarto evangelho este episódio é um gesto programático (compare Lc 4,16-30) que, como tal, deve figurar ao princípio da atividade de Jesus.


O episódio é introduzido mediante a afirmação sobre a proximidade da festa judaica da páscoa. Esta forma de mencionar a festa principal dos judeus indica distância e separação entre o objetivo da festa e a prática atual dos judeus, na época. A páscoa era uma festa de libertação. Ela evocava o passo da escravidão à libertação (cf. Ex 12,17;13,10). Em tempos de opressão, o pensamento da libertação se acentuava mais. Ao desviar-se do próprio objetivo da festa (não é mais uma festa de libertação), surgia inevitavelmente a idéia de uma nova libertação. E este era o caso em tempos de Jesus. Além disto, o templo, que é o símbolo e a síntese do sistema religioso, a partir de agora será “substituído” ou suplantado pela presença de Jesus. Não é por acaso que este episódio se coloca logo depois do primeiro sinal (Jo 2,1-11) que simboliza as núpcias de Deus com sua comunidade no tempo final. E desde início de sua atividade Jesus é o “lugar santíssimo” de Deus.


O Que Tem Por Trás Do Gesto De Jesus?


Em primeiro lugar, a Páscoa que era uma festa familiar e festa de libertação se transforma numa festa da maior exploração. Os peregrinos que vêm de longe não podem trazer consigo os animais para ser sacrificados. Eles compram os animais no próprio Templo. E os donos dos animais são os latifundiários pertencentes à elite religiosa. A Páscoa para eles é o momento de lucro, pois eles aumentam o preço dos animais exageradamente. E os peregrinos não têm outra opção a não ser comprar esses animais apesar do preço alto. A Páscoa não é mais um momento de celebrar e de reviver a libertação, mas se torna uma festa de exploração. As elites religiosas exploram o povo por meio do culto. O “deus” do Templo, para estas elites religiosas, é o dinheiro. A religião se transforma num instrumento que acoberta a injustiça e exploração. Por isso já não é mais “a casa de meu Pai”, e sim um mercado. Como se vive a religião hoje em dia?


Em segundo lugar, quem pode comprar os animais maiores (como boi, ovelhas) são os ricos. Surge aqui outra mentalidade. O sacrifício se torna como que uma moeda pela qual compra-se de Deus a salvação. A salvação não mais depende de dois lados simultaneamente (de Deus que oferece e do homem que corresponde), mas somente do homem que a compra. Isto quer dizer que quem não for capaz de comprar a salvação, ficará fora dela. E os pobres e miseráveis?


O que nos chama atenção, no quarto Evangelho, é o fato de Jesus se dirigir somente aos vendedores de pombas. Para eles é que Jesus diz: “Tirai tudo isto daqui; não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio” (v.16). Porque a pomba era o animal sacrificado nos holocaustos (cf. Lv 1,14-17) e nos sacrifícios (Lv 12,8;15,14.29) oferecidos especialmente pelos pobres, por meio dos sacerdotes, para reconciliar-se com Deus e para purificar-se (Lv 5,7;14,22.30-31; cf. Lc 2,44). Os vendedores de pombas são os que, por dinheiro, oferecem aos pobres a reconciliação com Deus, e representam os sacerdotes do Templo que fazem comércio com a graça de Deus. Em outras palavras, a hierarquia sacerdotal explora especificamente os pobres, oferecendo-lhes por dinheiro para ganhar favores ou benefícios de Deus. Eles apresentam Deus como um comerciante, pois convertem a casa de Deus num mercado.


Jesus expulsa os vendedores do Templo. Ele quer limpar o templo de todo tipo de exploração e de injustiça. A limpeza do templo é um gesto de profundo simbolismo. O homem deve limpar sempre a morada de Deus que é ele mesmo de todo tipo de “sujeira” através de uma conversão contínua todos os dias de sua vida. O culto verdadeiro consiste na mais profunda união do homem ao divino, na mais pura e incondicional entrega à vontade de Deus. O culto do cristão é um culto de Espírito (Jo 4,23). O templo não santifica o nosso culto, e sim nosso amor fraterno santifica nosso culto e a comunidade. Deus habita no próprio ser humano, e não em edifícios (2Cor 6,16). Cada cristão é ele próprio templo de Deus enquanto membro do Corpo de Cristo (1Cor 3,16; 6,19). E as pedras vivas deste edifício espiritual são os que pertencem ao novo povo de Deus. Devemos amar os nossos semelhantes porque são nossos irmãos; e devemos reverenciá-los, pois são filhos de Deus e devemos respeitá-los, pois são templo de Deus. Assim quem desrespeita o ser humano está desrespeitando o próprio Deus e toda a pessoa humana, chamada a ser templo de Deus (1Cor 3,16-17; 6,19).
   
O evangelho deste dia, por isso, nos traz de volta a consciência de sermos templo de Deus e de respeitar novamente, como Deus sempre quer, aos outros como habitação de Deus. Além disto, este evangelho nos leva ao arrependimento de tudo que cometemos em relação à dignidade humana desrespeitada, que se expressou através de violência moral- verbal e física, difamação etc. E este arrependimento deve se tornar em conversão sem fim, pois o homem velho dentro de nós sempre tenta nos levar ao passado pecador.
 
P. Vitus Gustama,svd
08/11/1018
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DEUS NOS AMA COM AMOR MISERICORDIOSO
Quinta-Feira da XXXI Semana Comum


Primeira Leitura: Filipenses 3,3-8ª
Irmãos, 3 os verdadeiros circuncidados somos nós, que prestamos culto pelo Espírito de Deus, pomos a nossa glória em Cristo Jesus e não pomos confiança na carne. 4 Aliás, também eu poderia pôr minha confiança na carne. Pois, se algum outro pensa que pode confiar na carne, eu mais ainda. 5 Fui circuncidado no oitavo dia, sou da raça de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu filho de hebreus. Em relação à Lei, fariseu, 6 pelo zelo, perseguidor da Igreja de Deus; quanto à justiça que vem da Lei, sempre irrepreensível. 7 Mas essas coisas, que eram vantagens para mim, considerei-as como perda, por causa de Cristo. Na verdade, considero tudo como perda diante da vantagem suprema que consiste em conhecer a Cristo Jesus, meu Senhor.


Evangelho: Lc 15, 1-10
Naquele tempo, 1 os publicanos e pecadores aproximaram-se de Jesus para o escutar. 2 Os fariseus, porém, e os mestres da Lei criticavam Jesus. “Este homem acolhe os pecadores e faz refeição com eles”. 3 Então Jesus contou-lhes esta parábola: 4 “Se um de vós tem cem ovelhas e perde uma, não deixa as noventa e nove no deserto, e vai atrás daquela que se perdeu, até encontrá-la? 5 Quando a encontra, coloca-a nos ombros com alegria, 6 e, chegando a casa, reúne os amigos e vizinhos, e diz: ‘Alegrai-vos comigo! Encontrei a minha ovelha que estava perdida!’ 7 Eu vos digo: Assim haverá no céu mais alegria por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não precisam de conversão. 8 E se uma mulher tem dez moedas de prata e perde uma, não acende uma lâmpada, varre a casa e a procura cuidadosamente, até encontrá-la? 9 Quando a encontra, reúne as amigas e vizinhas, e diz: ‘Alegrai-vos comigo! Encontrei a moeda que tinha perdido!’ 10 Por isso, eu vos digo, haverá alegria entre os anjos de Deus por um só pecador que se converte”.
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Conhecer Jesus, O Salvador Do Mundo, É Maior Do Que Qualquer Riqueza Do Mundo


“Na verdade, considero tudo como perda diante da vantagem suprema que consiste em conhecer a Cristo Jesus, meu Senhor”.


Continuamos nossa reflexão sobre a Carta de são Paulo aos cristãos de Filipo.


Através do texto de hoje, ficamos sabendo que na comunidade de Filipo também há problemas com os judaizantes que, provenientes do povo de Israel, se aferravam à necessidade de seguir a lei de Moisés, especialmente em relação à circuncisão, além do Evangelho de Jesus. São Paulo se põe a si mesmo como exemplo de uma pessoa que antes também pensava igual, mas mudou depois que conheceu Jesus: “Em relação à Lei, fariseu, pelo zelo, perseguidor da Igreja de Deus; quanto à justiça que vem da Lei, sempre irrepreensível. Mas essas coisas, que eram vantagens para mim, considerei-as como perda, por causa de Cristo. Na verdade, considero tudo como perda diante da vantagem suprema que consiste em conhecer a Cristo Jesus, meu Senhor” (Fl 3,5-8).


A conversão de são Paulo foi o passo de uma religião baseada em meios humanos a uma religião baseada no encontro pessoal com Jesus Cristo (Cf. At 9,1-9). Antes, como todos os fariseus, são Paulo tratava de viver “irrepreensível”, e por isso, se apoiava em títulos, em “pertença” a grupos. Todas as “vantagens humanas” pareceram depois “irrisórias” para são Paulo depois que conheceu Jesus Cristo. Conhecer Jesus Cristo de verdade sempre supõe abandono e renúncia, pois Jesus Cristo é o maior tesouro do céu e da terra. A incapacidade de renúncia mostra a pouca fé que se tem em Jesus Cristo.


Os judaizantes davam grande valor à sua circuncisão, sinal de sua pertença ao povo eleito de Deus. Para são Paulo o apego à circuncisão como a qualquer outra realidade religiosa, a não ser a adesão a Cristo e seus ensinamentos já é em si uma exclusão de Cristo, única fonte de confiança. A verdadeira circuncisão coniste em realizar o verdadeiro serviço a Deus no serviço aos irmão, especialmente aos mais necessitados. A verdadeira religião é a religião vivida e agida pelo Espírito (Rm 2m27s; 4,11s; Cl 2,11; Gl 6,12s). Somente Deus pode ser ponto de apoio. Aquilo que é humano e influenciado pela circunstância em determinado tempo e lugar pode ser avaliado e reavaliado seu verdadeiro valor. “Muitos homens tornam absoluto o relativo porque lhes foi mostrado um absoluto relativizado, em um Deus banalizado” (René Juan Trossero, escritor e psicólogo argentino).


 Para são Paulo, o que está em jogo é o próprio significado do cristianismo. Para ser cristãos não precisa alguém ser judeu. Basta seguir e viver de acordo com os ensinamentos de Cristo. Ser cristão é adotar um modo de viver que são Paulo procura explicar. O que vale é viver sempre na espera e na dependência de Deus. É não ficar preso no passado e sim viver orientado para o futuro que Deus prepara. É romper com o passdo para ter um olhar mais nítido a fim de captar e esperar os sinais de Deus, e pronto para começar tudo de novo cada dia. É viver disponível  e aguardar tudo de Deus, pois nada de Deus que nos prejuidique mesmo que seja doloroso.


Os que olham para nosso estilo de vida como cristãos, terão que notar que nós cristãos fizemos opção pelos valores de Cristo acima de valores humanos, como a circuncisão que são Paulo fala no texto de hoje.


Por meio do Apóstolo Paulo somos lembrados a não iventar um Evangelho diferente ao que recebemos de Deus, Jesus Cristo é o Evangelho vivente do Pai. O que de Jesus Cristo falaram alguns de seus apóstolos e discípulos não pode ser mudado por outro evangelho. O Senhor nos quer portadores da verdade, testemunhas do Evangelho vivente, que é Cristo, enviado pelo Pai como nosso Salvador (Jo 3,16).


Será que conhecemos, de verdade, Jesus Cristo? Quais são provas ou sinais de que conhecemos Jesus Cristo verdadeiramente? Quais são renúncias que fizemos depois que conhecemos Jesus Cristo?


Deus Me Ama Apesar Das Minhas Fraquezas e Do Meu Afastamento D´Ele


Estamos acompanhando Jesus no seu caminho para Jerusalém escutando suas últimas e importantes lições para todos nós, seus seguidores (Lc 9,51-19,28).


O capítulo 15 de são Lucas, onde se encontra o texto de hoje, é chamado “o coração do evangelho”. Ele nos transmite umas parábolas muito característica, as da misericórdia: hoje lemos a da ovelha agarrada e a da moeda perdida. A do filho pródigo, a mais famosa, lemos na Quaresma. Deus é rico em misericórdia. Seu coração está cheio de compreensão e clemência. Apesar de nos afastarmos d´Ele, Deus nos busca até nos encontrar e se alegra mais que o pastor pela ovelha e a mulher pela moeda.


Este Evangelho nos faz sentirmos o gozo, mas, sobretudo, a esperança. Quem não se sentiu alguma vez como a ovelha perdida? Não somente pelo pecado, mas também há tantos conflitos e problemas na vida! Todos nós conhecemos dias mais amargos de nossa vida. Mas nossa vida tem sentido porque Deus cuida de nós, nos ama e se alegra com nossas alegrias e soluciona conosco nossas dificuldades. Deus está sempre ao nosso lado e não ao lado de nosso pecado. Ele odeia o pecado, mas ama o pecador.


Na passagem do evangelho de hoje Jesus nos revela o amor sem limite de Deus para todos nós, o amor misericordioso. Deus nos ama apesar de nossos pecados. Esse amor misericordioso deve nos fazer voltarmos para Deus. Quando tivermos consciência dessa verdade, viveremos na alegria permanente, e no constante ação de graças, pois saberemos que há Alguém que nos envolve e nos ama de todos os lados: nosso Pai do céu.


Com a passagem do evangelho de hoje, começam aqui as três parábolas chamadas de as parábolas da misericórdia: a parábola da ovelha perdida (Lc 15, 3-7); a da moeda de prata perdida (Lc 15,8-10); e a parábola do pai misericordioso, ou conhecida como a parábola do filho pródigo (Lc 15,11-32). Ao contar estas parábolas Lucas procede do menos precioso (ovelha e moeda de prata) ao mais precioso (ser humano). Nestas três parábolas Jesus nos mostra, como uma característica do coração de seu Pai, a predileção com que seu amor se inclina até os mais necessitados, contrastando com a mesquinhez humana que busca sempre os triunfadores.


O que é admirável na parábola da ovelha reencontrada é a medida drástica que o pastor toma para buscar uma ovelha perdida. Ele deixa noventa e nove ovelhas para que a perdida possa ser trazida de volta ao aprisco. A ovelha não se desgarrou (cf. Mt 18,12), mas “se perdeu”, e o pastor toma a iniciativa de encontrá-la. Essa é a condição do pecador antes da conversão, e a resposta de Deus é buscar o perdido. Um cardeal escreveu que Deus não sabe matemática, pois deixa 99 ovelhas para buscar uma ovelha perdida. Isto nos mostra que cada um tem seu próprio valor diante de Deus. Outro aspecto que Lucas sublinha também é o tom de alegria que acompanha essa bem-sucedida conversão. Para Lucas, o resultado da verdadeira conversão é a experiência de estar perdido, depois encontrado, que leva à alegria sem limites.


A segunda parábola é a da moeda reencontrada, desta vez usando uma mulher como personagem central. É uma parábola paralela do mesmo motivo. A mulher pobre faz tudo para encontrar a moeda perdida. ”Acende uma lâmpada, varre a casa e procura cuidadosamente até encontrá-la” (Lc 15,8). Os verbos mostram o esforço incansável para recuperar a moeda perdida. Com essa solicitude, com essa impaciência amorosa, com esse carinho Deus se comporta como pai paciente e misericordioso que busca todos os meios para encontrar e salvar os perdidos.


O tema de perdido e reencontrado culmina na parábola do Pai misericordioso ou na do filho reencontrado (filho pródigo). Na parábola do Pai misericordioso, não se trata mais de um animal, ainda que de estimação, como uma ovelha, nem de um objeto, mesmo precioso como uma moeda de prata, mas de um ser humano amado por Deus, por ser Seu filho ainda que seja um filho transviado. Cada um de nós é precioso nos olhos de Deus e ninguém escapa do olhar misericordioso de Deus. “Veja, Eu tatuei você na palma da Minha mão: suas muralhas estão sempre diante de mim “(Is 49,16). Basta que um de nós esteja perdido para que seja objeto da preocupação de Deus.


 Por isso, Lucas 15 é o coração do Evangelho de Lucas. É quase um “evangelho“ dentro do Evangelho. Neste capitulo Jesus fala de sua doutrina sobre a Divina Misericórdia e a alegria de Deus por ter reencontrado o que estava perdido. Estes dois temas, misericórdia e alegria, são características da obra de Lucas. Por isso, sem dúvida nenhuma “a face mais bonita do Amor de Deus é a Misericórdia” (João Paulo II).


Para falar desse tema Jesus começou com esta frase, na parábola sobre a ovelha perdida: “Quem de vós que, tendo cem ovelhas e perdendo uma delas, não deixa as noventa e nove no deserto e vai em busca da que se perdeu, até encontrá-la?” (Lc 15,4).


A aritmética ou a matemática de Deus é diferente de nossa. Por isso, a matemática de Deus não é nossa. O número e a quantidade nos impressionam sempre. Para nós “um” não é igual a “noventa e nove”, pois o nosso critério é a quantidade. Para Deus “um” é igual a “noventa e nove”, pois o critério de Deus é baseado sobre o valor de cada um. Cada homem tem um valor inestimável para Deus. É o mistério do respeito que Deus tem para cada um de nós. Cada um de nós é amado por Deus com um amor “pessoal”, “individualizado”. Deus ama cada um na sua individualidade. Sou amado por Deus independentemente da minha situação atual ou do meu passado. Ele me ama por aquilo que sou. E esse amor me potencia para melhorar minha vida e minha convivência.


“O pastor vai em busca da ovelha que se perdeu, até encontrá-la?”. É precisamente aquela que se escapou, se perdeu. É para aquela ovelha perdida que o pensamento do pastor é dirigido. É assim nosso Deus! Um Deus que continua pensando nos que O abandonaram, um Deus que ama os que não O amam, um Deus que anda em busca de seus filhos perdidos e desaparecidos de Sua presença. É a ovelha que causa preocupação para Deus. Esta ovelha talvez seja eu, talvez seja você, porque podemos estar ausentes na presença de Deus, podemos comer diante de Deus e não com Deus (cf. Lc 13, 26-27).


E depois de encontrá-la, o pastor a põe nos ombros, cheio de júbilo” (Lc 15,5).   É um homem, um pastor feliz, sorridente, exultante e muito contente. É assim que Deus é apresentado para nós. Deus é um Ser que se alegra, e de Sua alegria faz partícipes os demais. A alegria de Deus é encontrar novamente os filhos que estavam perdidos. Um só que se converteu passa a ter uma importância desmesurada diante dos olhos de Deus. Onde há experiência da graça de Deus (grego: “cháris”) sempre há alegria (grego: “chára”). Somente quando experimentamos que Deus é alegre e que nos contagia sua alegria é que poderemos renunciar a tudo sem sentir que nossa vida fique vazia. Nada é possível sem um coração alegre. A alegria é fonte de heroísmo. O esforço sem alegria gera ressentimento, pois não tolera os erros, como se comportam os fariseus criticados por Jesus.


Este evangelho nos faz sentirmos gozo, sobretudo esperança. Quem de nós que, alguma vez, não se sentiu como a ovelha perdida? Não só pelo pecado. Há tantos conflitos e problemas na vida. Todos nós conhecemos dias amargos na vida. Mas nossa vida tem sentido porque Deus cuida de nós, nos ama, se alegra com nossas alegrias e nos consola nas nossas tristezas. Além disso, precisamos estar conscientes de que onde estivermos, para onde formos, em que situação nos encontrarmos, Deus continua nos amando do mesmo jeito, pois para Ele  cada um tem nome (cf. Is 43,1) e nosso nome está tatuado na palma das mãos de Deus (cf. Is 4916). Quando tivermos essa consciência, aconteça o que acontecer, Deus é nosso Pai que nos ama eternamente (cf. Jr 31,3). Como é bom saber que nós somos amados de Deus e por Deus. Essa consciência nos leva a vivermos nossa vida com força total e com carinho. Sabemos que Deus nos ama e cremos no seu amor.
P. Vitus Gustama,svd