sábado, 23 de fevereiro de 2019

26/02/2019

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COM DEUS, ATRÁS DAS PROVAÇÕES E CRUZ, HÁ VITÓRIA E RESSURREIÇÃO
Terça-Feira da VII Semana Comum


 
Primeira Leitura: Eclo 2,1-13
1 Filho, se decidires servir ao Senhor, permanece na justiça e no temor e prepara a tua alma para a provação. 2 Mantém o teu coração firme e sê constante, inclina teu ouvido e acolhe as palavras de inteligência, e não te assustes no momento da contrariedade. 3Suporta as demoras de Deus, agarra-te a ele e não o deixes, para que sejas sábio em teus caminhos. 4 Tudo o que te acontecer, aceita-o, e sê constante na dor; e nas contrariedades de tua pobre condição, sê paciente. 5 Pois é no fogo que o ouro e a prata são provados e, no cadinho da humilhação, os homens agradáveis a Deus. 6 Crê em Deus, e ele cuidará de ti; endireita os teus caminhos e espera nele. Conserva o seu temor, e nele envelhecerás. 7 Vós que temeis o Senhor, contai com a sua misericórdia e não vos desvieis, para não cair. 8 Vós, que temeis o Senhor, confiai nele, e a recompensa não vos faltará. 9 Vós, que temeis o Senhor, esperai coisas boas: alegria duradoura e misericórdia. 10 Vós, que temeis o Senhor, amai-o, e vossos corações ficarão iluminados. 11 Considerai, filhos, as gerações passadas e vede: Quem confiou no Senhor e ficou desiludido? 12 Quem permaneceu nos seus mandamentos e foi abandonado? Quem o invocou e foi por ele desprezado? 13Pois o Senhor é compassivo e misericordioso, perdoa os pecados no tempo da tribulação, e protege a todos os que o procuram com sinceridade.


Evangelho: Mc 9,30-37
Naquele tempo, 30 Jesus e seus discípulos atravessavam a Galileia. Ele não queria que ninguém soubesse disso, 31pois estava ensinando a seus discípulos. E dizia-lhes: “O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens, e eles o matarão, mas, três dias após sua morte, ele ressuscitará”. 32 Os discípulos, porém, não compreendiam estas palavras e tinham medo de perguntar. 33 Eles chegaram a Cafarnaum. Estando em casa, Jesus perguntou-lhes: “Que discutíeis pelo caminho?” 34 Eles, porém, ficaram calados, pois pelo caminho tinham discutido quem era o maior.35 Jesus sentou-se, chamou os doze e lhes disse: “Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos!” 36 Em seguida, pegou uma criança, colocou-a no meio deles, e abraçando-a disse: 37“Quem acolher em meu nome uma dessas crianças, é a mim que estará acolhendo. E quem me acolher, está acolhendo, não a mim, mas àquele que me enviou”.
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Temor a Deus Até Nos Sofrimentos e Provações


Filho, se decidires servir ao Senhor, permanece na justiça e no temor e prepara a tua alma para a provação. Mantém o teu coração firme e sê constante, inclina teu ouvido e acolhe as palavras de inteligência, e não te assustes no momento da contrariedade. Suporta as demoras de Deus, agarra-te a ele e não o deixes, para que sejas sábio em teus caminhos”. São algumas frases tiradas do Eclesiástico que lemos na Primeira Leitura de hoje.


Filho, se decidires servir ao Senhor, permanece na justiça e no temor”, escreveu Bem Sirac.


O temor de Deus não é um sentimento que atordoa e domina, que provoca rigidez mental ou pequenez de espírito, anulando a vontade. Temer a Deus no sofrimento e na provação não é ver na desgraça um efeito de sua onipotência, como se Deus quisesse o mal e o fizesse com a intenção de nos purificar ou punir. O temor de Deus é sempre uma atitude pela qual sentimos uma presença amorosa de Deus como a presença de uma mãe para o filho que se encontra doente.


O temor de Deus nasce de um olhar claro, fruto de um descoberto de que somente o Senhor é digno do serviço do homem, e que Sua lei é a única que merece ser obedecida. Ele é o único Senhor verdadeiro. Somente d´Ele e mais de ningém, se pode dizer que “é clemente e misericordioso, perdoa o pecado e salva do perigo”.


Filho, se decidires servir ao Senhor, prepara a tua alma para a provação”, acrescentou Bem Sirac.


Quem decide começar a viver no serviço do Senhor não embarca em um caminho fácil. Será imprescindível vigiar e guiar o coração, valentia e serenidade de espirito para perseverar neste caminho. Porque inexoravelmente virá a hora da provação, “da desgraça”.


A desgraça, que pode vir de qualquer parte e em qualquer hora, sacudirá os cimentos da vontade de servir ao Senhor. Servir ao Senhor significa manter-se firme diante de qualquer provação e em meio dela recusar toda confiança nos homens, inclusive em si mesmo e abandonar-se nos braços do Senhor. Portanto, segundo Ben Sirac, não confiar em nada do que se vê e sim somente no Senhor invisível.


Na realidade, o assedio do mundo visível à vontade do homem que decide servir ao Senhor será constante e tenaz, imprevisível e insuspeitado. As provações serão como de fogo, e a humilhação para o homem que confia no Senhor, como o fogo prova o ouro.


Tudo isso quer nos dizer que a sabedoria mesmo que seja dom de Deus e participação em sua sabedoria eterna e insondável, é também aprendizagem e tarefa por nossa parte, e requer valentia, fidelidade, perseverança, aplicação. Se vierem provações, também exige saber suportá-las e tirar proveito delas. E quando estas provações chegam a nós, há que pôr a confiança em Deus e não deixar-se levar pelo pessimismo nem pela negligência. O autor recorre à história que está cheia de pessoas que nos dão exemplo de constância e fidelidade a Deus, porque nas dificuldades confiaram no Senhor: “Quem confiou no Senhor e ficou desiludido? Quem permaneceu nos seus mandamentos e foi abandonado? Quem o invocou e foi por ele desprezado?”.


As provações nos fazem pensar e nos convidam a relativizar tantas coisas e a dar importância às que valem a pena. Se ficarmos desanimados é porque não confiamos suficientemente em Deus. Com a força de Deus, não há dificuldade insuperável. Com sua luz vamos adquirindo a verdadeira sabedoria quen traz também a felicidade.


Atrás Da Cruz e Sofrimento Há Ressurreição e Vitória


Pela segunda vez Jesus revela aos seus discípulos sua próxima Paixão (Mc 8,31-33; 10,31-34). Ao mesmo tempo ele abandona deliberadamente a pregação à multidão (Mc 9,30) incapaz de compreendê-Lo para se dedicar exclusivamente à formação definitiva dos discípulos: “Ele não queria que ninguém soubesse disso, pois estava ensinando a seus discípulos”.


Ensinar é uma das preocupações de Jesus nos evangelhos, especialmente no evangelho de Marcos (Mc 1,22; 4,2; 6,2; 9,31 etc..). Jesus Cristo é a Palavra divina (Jo 1,1). Jesus é a Palavra inesgotável de Deus para se comunicar com os seres humanos. Como a Palavra divina, as palavras de Jesus são sempre promessa e expressão de vida. Através de seu ato e atividade de ensinar Jesus quer que os seus ouvintes cresçam na liberdade e dignidade tendo consciência critica sobre a realidade ao seu redor (cf. Mc 1,22).


Cada cristão é chamado a ser educador-profeta. Os profetas falam em nome de Deus, são Seus porta-vozes que sacudam as consciências, levantem as vidas de mediocridade, de desesperança, do tédio e de insensibilidade. Todo profeta é educador e todo educador cristão é chamado a ser um profeta. A educação é, portanto, uma vocação de serviço. Cada cristão, cada educador cristão é chamado a transformar cada lugar, cada escola em lugares de vida nos quais se aprende a viver e conviver, a desfrutar a vida e a dignidade, a defender a vida, a combater tudo o que ameace a vida.


Em seguida, Marcos nos relatou sobre o anúncio da Paixão, morte e ressurreição de Jesus. Ao anunciar pela segunda vez aos seus discípulos sua paixão e morte Jesus quer educá-los sobre o que significa seguir a Jesus Cristo. Mas os seus não estão dispostos a atender o que seu Mestre quer dizer ou ensinando. O que lhes preocupa é “quem será o mais importante”. Cada educador, cada mestre precisa ter paciência em ensinar ou educar. É um trabalho de serviço. Um servo está sempre disposto e disponível para atender a seu senhor.


Para acabar com a ambição dos discípulos de quererem ocupar primeiros lugares Jesus dá algumas lições (ensinar) sobre o estilo de vida para quem quiser ser seu discípulo. Jesus marca as linhas fundamentais da espiritualidade que se deve respirar qualquer comunidade cristã. A idéia-mestra é esta: “Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos!”. Isto é, ser o servidor de todos.


Para acentuar a lição dada aos discípulos Jesus põe uma criança (um menino) no meio deles:Em seguida, pegou uma criança, colocou-a no meio deles, e abraçando-a disse: ‘Quem acolher em meu nome uma dessas crianças, é a mim que estará acolhendo. E quem me acolher, está acolhendo, não a mim, mas àquele que me enviou’”. Jesus utiliza uma estratégia pedagógica: coloca um menino no meio e o abraça. Um menino! Uma criança! Quantas coisas diz a imagem deste menino abraçado por Jesus! É um abraço com que Deus abriga, anima e fortalece o novo começo (menino/ criança). É o abraço que envolve toda a confiança, toda a ternura, toda a proximidade do Senhor para quem quiser ser verdadeiro discípulo, e não prematuro mestre.


A figura bíblica do “menino” ou “criança” é símbolo de marginalização e indefesa. No tempo de Jesus, um menino era símbolo de ignorância, imaturidade e insignificância. Um menino era equiparava com os escravos. No entanto, por seu grau de dependência o menino se converte em preocupação permanente para seus progenitores sem os quais o menino não sobreviveria ou não receberia uma boa educação. Assim, o menor se converte no mais importante porque requer a atenção e o cuidado dos maiores. É uma lição viva de pequenez e de humildade. Ser simples é ser modesto, singelo, puro, desprovido de elementos acessórios, isento de significações secundárias, sem luxo nem ostentação. Ser humilde consiste em manifestar a virtude de conhecer suas próprias limitações. É reconhecer ser pó, mas é pó vivente, pois Deus soprou seu espírito nele que o capacita a viver na espera divina.


Por isso, a grandeza do homem está na humildade. “Quanto mais humildes, maiores” dizia Santo Agostinho. Mas “simular humildade é a maior das soberbas”, acrescentou Santo Agostinho. A paz florescerá em qualquer comunidade cristã se seus membros fazem seu o espírito evangélico de humildade e de simplicidade. O próprio Jesus serve de exemplo, pois sua vida está na sua atitude de entrega para a salvação de todos.


Depois que colocou a criança ou o menino no meio dos discípulos, Jesus pronunciou a seguinte frase: ““Quem acolher em meu nome uma dessas crianças, é a mim que estará acolhendo. E quem me acolher, está acolhendo, não a mim, mas àquele que me enviou”. Esta sentença nos recorda a parábola do juízo final (Mt 25,31-46) e o final do discurso missionário (Mt 10,42). Assim a criança aqui assume um sentido novo. Não é mais a criança em sentido próprio e sim o símbolo do necessitado. É o sedento, o faminto, desnudo, o prisioneiro, o marginalizado.


Também podemos ter dificuldades em querer entender a lição que Jesus deu aos discípulos. Tendemos a ocupar os primeiros lugares, a buscar nossos interesses, a desprezar as pessoas que contam pouco na sociedade e das pessoas que não podemos esperar grandes coisas.


Se quisermos colaborar com Jesus Cristo e fazer algo válido na vida, temos que contar em nosso programa de vida com a renúncia e a entrega, com a humildade e a simplicidade. O desejo de poder e a busca dos próprios interesses fazem impossíveis a renúncia, a entrega e impossibilita o cristão a servir aos demais. Um cristão que não serve não serve como cristão. Uma Igreja que não serve, não serve para nada. Servir pela salvação dos demais é o centro do cristianismo. Para sermos felizes temos que fazer os outros felizes. A competitividade faz desaparecer a solidariedade, a compaixão, a igualdade e a colaboração. A competitividade sempre torce para que a vida do outro não dê certo para que ele possa estar em destaque solitariamente para ser adorado pelos demais.


Servir é adorar a Deus em ação. Servir é a oração e a adoração colocadas na prática do amor fraterno. Servir é fazer algo de bom sem esperar nada de troca ou de reconhecimento. Renunciar a ser o servidor, a ser o pequeno significa renunciar Jesus, porque somente quem acolhe sua vocação de serviço como se acolhe um pequeno (criança), acolherá Jesus e o próprio Deus que o enviou. O poder e o serviço se excluem. A ambição de poder é o câncer do serviço. O poder pode servir para muitas coisas, mas não serve para tornar bons os homens. Geralmente os maus líderes produzem os maus funcionários. Um coração corrompido é ninho de discórdia. Uma mente obcecada nunca ilumina bem os caminhos.
P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

25/02/2019
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VIVER NA SABEDORIA DE DEUS E NA FÉ SUSTENTADA PELA ORAÇÃO A FIM DE SUPERAR DIFICULDADES
Segunda-Feira da VII Semana Comum


Primeira Leitura: Eclo 1,1-10
1 Toda a sabedoria vem do Senhor Deus. Ela esteve e está sempre com Ele. 2 Quem pode contar a areia do mar, as gotas de chuva, os dias do tempo? 3 Quem poderá medir a altura do céu, a extensão da terra, a profundeza do abismo? 4 Antes de todas as coisas foi criada a sabedoria, a inteligência prudente vem da eternidade. 5 Fonte da sabedoria é a palavra de Deus no mais alto dos céus e seus caminhos são os mandamentos eternos. 6 A quem foi revelada a raiz da sabedoria? Quem conheceu as capacidades do seu engenho? 7 A ciência da sabedoria, a quem foi revelada? E quem compreendeu sua grande experiência? 8 Só um é o altíssimo, criador onipotente, rei poderoso e a quem muito se deve temer, assentado em seu trono e dominando tudo, Deus. 9 Ele é quem a criou no espírito santo: Ele a viu, a enumerou e mediu; 10 ele a derramou sobre todas as suas obras e em cada ser humano, segundo a sua bondade. Ele a concede àqueles que o temem.


Evangelho: Mc 9,14-29
Naquele tempo, 14descendo Jesus do monte com Pedro, Tiago e João e chegando perto dos outros discípulos, viram que estavam rodeados por uma grande multidão. Alguns mestres da Lei estavam discutindo com eles. 15Logo que a multidão viu Jesus, ficou surpresa e correu para saudá-lo. 16Jesus perguntou aos discípulos: “Que discutis com eles?” 17Alguém da multidão respondeu: “Mestre, eu trouxe a ti meu filho que tem um espírito mudo. 18Cada vez que o espírito o ataca, joga-o no chão e ele começa a espumar, range os dentes e fica completamente rijo. Eu pedi aos teus discípulos para expulsarem o espírito, mas eles não conseguiram”. 19Jesus disse: Ó geração incrédula! Até quando estarei convosco? Até quando terei de suportar-vos? Trazei aqui o menino”. 20E levaram-lhe o menino. Quando o espírito viu Jesus, sacudiu violentamente o menino, que caiu no chão e começou a rolar e a espumar pela boca. 21Jesus perguntou ao pai: “Desde quando ele está assim?” O pai respondeu: “Desde criança. 22E muitas vezes, o espírito já o lançou no fogo e na água para matá-lo. Se podes fazer alguma coisa, tem piedade de nós e ajuda-nos”.  23Jesus disse: “Se podes!... Tudo é possível para quem tem fé”. 24O pai do menino disse em alta voz: “Eu tenho fé, mas ajuda a minha falta de fé”. 25Jesus viu que a multidão acorria para junto dele. Então ordenou ao espírito impuro: “Espírito mudo e surdo, eu te ordeno que saias do menino e nunca mais entres nele”. 26O espírito sacudiu o menino com violência, deu um grito e saiu. O menino ficou como morto, e por isso todos diziam: “Ele morreu!” 27Mas Jesus pegou a mão do menino, levantou-o e o menino ficou de pé. 28Depois que Jesus entrou em casa, os discípulos lhe perguntaram a sós: “Por que nós não conseguimos expulsar o espírito?”  29Jesus respondeu: “Essa espécie de demônios não pode ser expulsa de nenhum modo, a não ser pela oração”.
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Toda Sabedoria Tem Sua Origem Em Deus


Toda a sabedoria vem do Senhor Deus. Ela esteve e está sempre com Ele. Antes de todas as coisas foi criada a sabedoria, a inteligência prudente vem da eternidade”.


Durante alguns dias vamos refletir sobre outro livro do Antigo Testamento: Eclesiastico. “Eclesiástico” é uma tradução greco-latina: Livro da Assembleia (Ekklesia), em razão do uso frequente pelas comunidades cristãs dos primeiros séculos da Igreja.


O Eclesiástico foi escrito, em hebraico, entre os anos 190 e 171 a.C. O neto do autor, membro da Diáspora egípcia traduziu o livro para o grego por volta do ano 110 a.C.


O Eclesiástico é uma série de frases e pensamentos, ditos e refrões breves que nos ajudam a olharmos sabiamente as coisas, as pessoas e os acontecimentos da vida. A sabedoria da qual fala o livro é uma mistura de dom de Deus, de fé, de sentido comum e visão religiosa da história. O autor do livro nos irá transmitindo com amabilidade e bom sentido prático as riquezas de seu pensamento e sua experiência humana e religiosa. Chama-se “Eclesiástico” pelo grande uso que se fez do livro na Igreja primitiva.


O texto que lemos hoje na Primeira Leitura é a introdução que o autor colocou no início de sua obra. O autor tem uma alma sensível e percebe uma misteriosa transcendência a que chama de Sabedoria de Deus, sabedoria criadora que encerra em si o segredo de todas as coisas.


Hoje lemos os primeiros versículos que são como um hino à sabedoria. Como uma frase inicial que é o resumo de tudo: a sabedoria vem do Senhor e está com Ele eternamente. É sabedoria transcendente, misteriosa e insondável. Portanto está intimamente unida à religiosidade e à fé em Deus.


Toda a sabedoria vem do Senhor Deus. Ela esteve e está sempre com Ele. Antes de todas as coisas foi criada a sabedoria, a inteligência prudente vem da eternidade”.


É a primeira frase do livro de Sabedoria e a chave de todo o restante do livro. Sabedoria, inteligência, fineza, ciência são dons de Deus, fonte e origem de toda a sabedoria. Não se trata do fruto dos conhecimentos acumulados pela experiência humana, mas de uma qualidade divina. Deus criou a sabedoria antes de todas as coisas e concede-a como dom a quem ama ou teme a Deus. Deus inspira quem O procura e contempla.


Ben Sirac possui um sólido humanismo que chama “sabedoria”, que é ao mesmo tempo, inseparável de sua fé. Segundo ele, o êxito do homem, a arte de viver bem procede de uma correspondencia com o pensamento divino. Para chegar a esta noção da sabedoria divina, o autor (Ben Sirac) partiu da sabedoria humana, do bom senso e de uma técnica bem empregada.


O início do Eclesiastico nos recorda o do Evangelho de são João. Ben Sirac fala da sabedoria de Deus, no princípio de tudo. São João fala de que no princípio era o Verbo, a Palavra, que de outra maneira também se pode chamar Sabedoria. A Sabedoria vivente de Deus se chama Jesus Cristo e de sua plenitude recebemos graça sobre graça (cf. Jo 1,1-18).


No mundo de hoje pergunta-se: Onde encontrar a verdadeira sabedoria?


Nós o sabemos: na Palavra de Deus, que é o próprio Cristo, a quem escutamos diariamente como interpelação de Deus sempre nova, sobretudo na celebração eucarística. “Antes de todas as coisas foi criada a sabedoria, a inteligência prudente vem da eternidade. Fonte da sabedoria é a palavra de Deus no mais alto dos céus e seus caminhos são os mandamentos eternos”. Feliz seja quem tem o segredo desta sabedoria em sua vida. Feliz seja quem escuta esta Palavra, a assimila, a recorda, a põe em prática, construindo sobre ela o edifício de sua vida. Feliz seja quem se deixa ensinar por Cristo Jesus, Mestre de sabedoria.


O homem fica maravilhado e surpreendido diante do universo que não pod medir: a altura do céu, a extensão do universo e a profundidade insondável do abismo.


E o homem, ao descobrir sua própria pequenez e limitação, vislumbra que a areia e as gotas de água e os dias estão contados e medidos pelo próprio Deus: “Ele é quem a criou no espírito santo: Ele a viu, a enumerou e mediu”. Não há nada, por menor que seja, que escape do controle de Deus. E o homem que não fez o universo nem pode abraçá-lo, vê a sabedoria que vem do Senhor, como uma criatura sua. "O Senhor a criou, conheceu e mediu, derramou sobre todas as suas obras" (vv 9-10). O Eclesiastico proclama que existe apenas uma pessoa sábia: o Senhor. Para ter um pouco da sabedoria divina é necessário contemplar Deus para se tornar, depois, o reflexo de Sua sabedoria: “Ele concede a sabedoria àqueles que o temem” (Eclo 1,10). Portanto, para o autor do Eclesiástico, quando alguém chega a ter sabedoria, a contemplar o mundo e a vida sustentados por ela, não é pela sagacidade de sua mente, mas trata-se de um dom que vem do Senhor. Quando tivermos consciência da origem de toda sabedoria que é em Deus, jamais ficaremos soberbos com nossa sabedoria.


A Fé Inabalável Em Deus Sustentada Pela Oração Permanente Supera Qualquer Dificuldade


O relato do evangelho de hoje não é o dos mais fáceis. Mas mesmo assim captamos sua mensagem. Trata-se do relato sobre a lição da fé. A fé é muito importante para o seguidor para que ele possa estar em sintonia com Jesus e ser beneficiado de sua ação curadora e salvadora. A fé é onipotente porque nos une ao Onipotente.


O núcleo do relato do evangelho de hoje está nas seguintes frases: Primeiro: “Eles não conseguiram expulsar o espírito”. Esta frase é dita pelo pai do jovem epiléptico a Jesus. Segundo: “Por que não conseguimos expulsar o espírito?”. É a pergunta dos discípulos a Jesus. “Tudo é possível para quem tem fé”, é a resposta de Jesus que serve como frase central do relato. Tudo o mais serve para descrever a necessidade da fé. A escolha da fé é muito importante para estar em sintonia com Jesus e ser beneficiado de sua ação curadora e salvadora. Quem recorre a Jesus movido pela fé é sempre atendido.


Depois da transfiguração, momento glorioso embora momentâneo, Jesus desceu com seus prediletos discípulos para a planície. Ele está pronto para encarar a Cruz que ele vai carregar com honra e dignidade, pois trata-se de uma Cruz fruto de sua obediência à vontade do Pai. É preciso encararmos as crises de nossa vida com honra e dignidade apesar de nossas fraquezas.


Ao descer do monte da Transfiguração, Jesus cura um jovem epiléptico. Os discípulos não conseguiram curar o mesmo jovem de sua doença. Ao se questionar sobre o porquê dos discípulos não terem conseguido curar o jovem Jesus responde: “Ó geração incrédula! Até quando estarei convosco? Até quando terei de suportar-vos? Trazei aqui o menino”. Com suas palavras, Jesus sublinha, sobretudo, a necessidade da fé e da oração simultaneamente para poder vencer o mal. Por isso, no fim do relato Jesus acrescentou: “Essa espécie de demônios não pode ser expulsa de nenhum modo, a não ser pela oração”.  O exercício da missão recebida de Jesus requer muita fé. É preciso ter fé inabalável no poder de Jesus. Caso contrário, todos desistirão, pois não faltam cruzes nesse caminho. Quando a fé é pouca, a missão fica comprometida.


Ao curar o jovem, Jesus aparece novamente como o mais forte do que o mal, pois ele tem a força de Deus. Jesus está em Deus e Deus está nele. E Jesus sempre quer que seus discípulos reforcem sua fé. Neste sentido, a confissão do Pai: “Creio, Senhor! Mas aumenta minha fé!” serve de lição para os discípulos sobre a necessidade de fortificar a própria fé nos momentos difíceis de sua vida como aconteceu com o pai do jovem.


Nossa luta contra o mal, o mal que há dentro de nós, o mal que há dentro da comunidade e o mal dos demais, somente pode ser eficaz se cada um se apóia na força de Deus: “Confia teus negócios ao Senhor e teus planos terão bom êxito” (Provérbios 16,3). Somente pode suceder da fé e da oração, em união com Cristo é que se pode libertar o mundo de todo mal. Não se trata de fazer gestos mágicos ou de pronunciar palavras que tem eficácia por si só. Quem salva e quem liberta é Deus e nós, somente se permanecermos unidos em Deus pela oração. Esta é uma das lições que Jesus nos dá hoje.


O que acontece é que muitas vezes nossa fé é débil, como a fé do pai do menino epiléptico e a fé dos discípulos. Por isso, encontraram dificuldade em libertar os outros de seus males porque confiaram apenas em suas próprias forças. Muitas vezes nos fracassamos, como os discípulos de Jesus, porque confiamos somente nas nossas próprias forças e nos esquecemos de nos apoiar em Deus. O salmista nos convida a voltarmos a nos apoiar em Deus: “Em Vós, Senhor, eu me apoiei desde que nasci, desde o seio materno sois meu Protetor; em Vós eu sempre esperei” (Sl 71,6).


Jesus nos indica dois caminhos para que sejamos fortes diante de qualquer mal: a e a oração inseparáveis. A é onipotente porque nos une ao Onipotente. A nosum poder incrível, mesmo nas circunstâncias mais difíceis, como podemos verificar na vida de tantos homens e mulheres ao longo da história da Igreja. A fé nos permite rezar de modo eficaz. Segundo Jesus, a verdadeira fé faz desaparecer qualquer impossibilidade, faz qualquer um caminhar na vida com serenidade e paz, com alegria profunda como uma criança nas mãos de sua mãe. A verdadeira fé liberta qualquer um do desapego de todas as coisas. Além disso, é importante para nossa vida comunitária ter em conta que a fé em Deus nos abre muitas possibilidades e qualidades que estão escondidas e adormecidas. Ao assumir pessoalmente a fé, começaremos a ser conscientes de nossas grandes reservas humanas, as quais devem ser postas para o serviço aos demais.


A oração, por sua vez, consiste em pensar em Deus amando-o, eleva-nos para o mesmo Deus, a partir de qualquer circunstância. Um aspecto da Natureza ou na sua íntegra pode nos levar a apreciarmos a sabedoria do Criador em criar tudo mesmo que não saibamos do para quê de tudo isso. Mas um sofrimento provocado por grave doença, qualquer crise que nos perturba física e psiquicamente, a traição de um amigo, um insucesso profissional também podem nos levar à Força Superior que é o próprio Deus. A oração nos humaniza e nos faz aceitarmos Deus como Deus. A oração nos coloca no nosso devido lugar como pó, mas um pó vivente, pois nele foi soprado o hálito de Deus que faz esse pó santo (cf. Gn 2,7; Jo 20,22; 1Cor 3,16-17). Nestas circunstâncias pode ser mais difícil elevar-nos para Deus, dar-nos conta do amor com que continua a nos envolver. Mas é possível, se tivermos a atitude do pai de que nos fala o evangelho. Em qualquer circunstância, cada um há que dirigir-se ao encontro do Senhor e falar-Lhe com humildade e confiança de nossa situação e falar-Lhe de nossa impotência diante de certas dificuldades encontradas na vida. É a oração que nos permite abrir o cofre dos favores divinos, pois nos põe em contato com o Deus vivo a quem, segundo o ensinamento de Jesus, dizemos: «Faça-se a tua vontade». Este abando a Deus é importante para nós, pois Ele sabe de tudo mais nos convém ou não nos convém. Rezar é, sobretudo, encontrar o acesso a Deus; é ligar a terra ao céu; é unir a força humana e a força divina que resulta no milagre da vida. Somente na oração é que podemos ter força maior para superar as dificuldades de nossa vida.
P. Vitus Gustama,svd

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Domingo,24/02/2019
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POR QUE AMAR INIMIGOS? QUEM SÃO OS INIMIGOS?
VII DOMINGO DO TEMPO COMUM “C”


Primeira Leitura: 1Sm 26,2.7-9.12-13.22-23
Naqueles dias, 2 Saul pôs-se em marcha e desceu ao deserto de Zif. Vinha acompanhado de três mil homens, escolhidos de Israel, para procurar Davi no deserto de Zif. 7 Davi e Abisai dirigiram-se de noite até ao acampamento, e encontraram Saul deitado e dormindo no meio das barricadas, com a sua lança à cabeceira, fincada no chão. Abner e seus soldados dormiam ao redor dele. 8 Abisai disse a Davi: “Deus entregou hoje em tuas mãos o teu inimigo. Vou cravá-lo em terra com uma lançada, e não será preciso repetir o golpe”. 9 Mas Davi respondeu: “Não o mates! Pois quem poderia estender a mão contra o ungido do Senhor, e ficar impune?” 12 Então Davi apanhou a lança e a bilha de água, que estavam junto da cabeceira de Saul, e foram-se embora. Ninguém os viu, ninguém se deu conta de nada, ninguém despertou, pois todos dormiam um profundo sono que o Senhor lhes tinha enviado. 13 Davi atravessou para o outro lado, parou no alto do monte, ao longe, deixando um grande espaço entre eles. 22 E Davi disse: “Aqui está a lança do rei. Venha cá um dos teus servos buscá-la! 23 O Senhor retribuirá a cada um conforme a sua justiça e a sua fidelidade. Pois ele te havia entregue hoje em meu poder, mas eu não quis estender a minha mão contra o ungido do Senhor.


Segunda Leitura: 1Cor 15,45-49
Irmãos: 45 O primeiro homem, Adão, “foi um ser vivo”. O segundo Adão é um espírito vivificante. 46 Veio primeiro não o homem espiritual, mas o homem natural; depois é que veio o homem espiritual. 47 O primeiro homem, tirado da terra, é terrestre; o segundo homem vem do céu. 48 Como foi o homem terrestre, assim também são as pessoas terrestres; e como é o homem celeste, assim também vão ser as pessoas celestes. 49 E como já refletimos a imagem do homem terrestre, assim também refletiremos a imagem do homem celeste.


Evangelho: Lc 6,27-38
Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 27 “A vós, que me escutais, eu digo: Amai os vossos inimigos e fazei o bem aos que vos odeiam, 28 bendizei os que vos amaldiçoam, e rezai por aqueles que vos caluniam. 29 Se alguém te der uma bofetada numa face, oferece também a outra. Se alguém te tomar o manto, deixa-o levar também a túnica. 30 Dá a quem te pedir e, se alguém tirar o que é teu, não peças que o devolva. 31 O que vós desejais que os outros vos façam, fazei-o também vós a eles. 32 Se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Até os pecadores amam aqueles que os amam. 33 E se fazeis o bem somente aos que vos fazem o bem, que recompensa tereis? Até os pecadores fazem assim. 34 E se emprestais somente àqueles de quem esperais receber, que recompensa tereis? Até os pecadores emprestam aos pecadores, para receber de volta a mesma quantia. 35 Ao contrário, amai os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai sem esperar coisa alguma em troca. Então, a vossa recompensa será grande, e sereis filhos do Altíssimo, porque Deus é bondoso também para com os ingratos e os maus. 36 Sede misericordiosos, como também o vosso Pai é misericordioso. 37 Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados. 38 Dai e vos será dado. Uma boa medida, calcada, sacudida, transbordante será colocada no vosso colo; porque, com a mesma medida com que medirdes os outros, vós também sereis medidos”.
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Lemos hoje no Evangelho o segundo fragmento do “Sermão da Planície” do evangelista Lucas, sobre o amor aos inimigos, preparado na Primeira Leitura pelo exemplo do perdão de Davi a Saul. Davi é realmente um “homem espiritual” conforme a Segunda leitura tirada da Primeira Carta de são Paulo aos Corintios, um fragmento do capitulo 15 que fala do mistério de Jesus Cristo. O “homem espiritual” é aquele que se deixa dominar e guiar totalmente pelo Espirito de Deus. Davi tinha todas as possibilidades para matar Saul, Pois Saul estava querendo matá-lo, mas por ser um homem espiritual, homem guiado pelo Espirito de Deus, Davi não quis matar Saul, mesmo que seu ajudante (Abisai) sugerisse a fazer isso. Mas em vez de aceitar a sugestão, Davi disse a Abisai: “Não o mates! Pois quem poderia estender a mão contra o ungido do Senhor, e ficar impune?”.


Em sintonia com a Primeira Leitura dentro do tema do Evangelho, o Salmo Responsorial (Sl 102) canta a misericórdia de Deus, razão última da mensagem evangélica: “O Senhor é indulgente, é favorável, é paciente, é bondoso e compassivo. Não nos trata como exigem nossas faltas, nem nos pune em proporção às nossas culpas”. Se Deus não nos trata “como exigem nossas faltas, nem nos pune em proporção às nossas culpas”, Jesus Cristo tem razão ao nos dizer no Evangelho de hoje: “Sede misericordiosos, como também o vosso Pai é misericordioso”.


O fragmento evangélico de hoje é uma das páginas mais representativas da realidade da ética evangélica: “Amai a vossos inimigos.... Fazei o bem aos que vos odeiam…”. Qual é a razão de uma ética tão radical? No fundo temos de reconhecer que não há argumentos, não há razões.  Somente a revelação de um mistério: “Sereis filhos do Altíssimo, porque Deus é bondoso também para com os ingratos e os maus”.


No domingo passado, por ocasião das bem-aventuranças, destacamos a verdade básica revelada por Jesus Cristo: Deus ama livremente; não há razão lógica. O único "porquê" é a necessidade, a pobreza, o choro da humanidade. Somente neste Reino Espiritual a palavra ética radical de Jesus pode ser entendida. Amor serviçal, amor sincero a todos não tem argumento possível; é um grande amor gratuito. Este amor somente pode ser entendido na contemplação surpreendida e agradecida do amor de Deus, incondicional, universal, gratuito por nós todos e por cada um de nós individualmente.


Ao longo da história provavelmente a reação espontânea e não formulada dos ouvintes cristãos, diante do texto do evangelho de hoje, tem muito das seguintes explicações: são belas utopias, simples retóricas de beleza poética irreal. Atrás destas explicações, muitas das vezes, escondemos nossa radical incapacidade para o bem. Para nossas os ensinamentos éticos radicais de Jesus são para uns poucos privilegiados do Espirito.


Muitas das expressões evangélicas são exemplos concretos, imagens vivas; faríamos bem em formular a "categoria" que eles expressam e escondem. Na relação do homem com o outro deve evitar toda a vingança, mesmo quando se camufla atrás da desculpa da justiça; devemos evitar qualquer uso do outro que, mais cedo ou mais tarde, reverte em seu próprio benefício; as relações com os outros não devem depender de seus méritos diante de mim, nem de suas falhas, mas devo me concentrar em suas necessidades, seja ela qual for.


Tanto na Primeira Leitura como no Evangelho deste Domingo, as imagens são fortes, algumas inclusive surpreendentes; querem expressar uma maneira de relacionar-se com os demais que se pode resumir em duas atitudes: a radicalidade e a gratuidade do amor; o exemplo mais vivo é a proclamação do amor aos inimigos. Há que utilizar as imagens na medida em que nos ajudam a sublinhar a força e a radicalidade da mensagem evangélica. Porém, há que ir com cuidado, porque podemo pôr uns exemplos tão utópicos que acabem dando a impressão de palavras vazias com o simples interesse da surpresa retórica.


Repetimos: o centro do cristianismo é a confissão do amor gratuito e misericordioso de Deus, que conduz à ética humana mais radical e gratuita. A luz sobre Deus chega a iluminar as profundezas da vida e do comportamento humanos. No entanto, hoje há que pôe em destaque um último aspecto: esta ética tão radical não é um excesso sublime de perfeição; é propriamente a ética humana mais profundamente. As relações entre os homens que não estejam regidas por estas atitudes acabam na briga e na guerra e na desumanidade. Hoje há que sublinhar que na convivência entre os homens e entre os povos há que chegar a uma ética que busque o bem do outro sem utilizá-lo, que atenda suas necessidades sem intenção de explorá-lo, que realmente busque a justiça sem intenção de vingança, que dialogue coms pretendidos inimigos buscando realmente o bem social comum. Tudo isso tem como objetivo fazer possível e humana a convivência segundo o Espirito do Senhor misericordioso.


No evangelho de hoje Jesus nos diz: “Amai os vossos inimigos, fazei o bem àqueles que vos odeiam, abençoai aqueles que vos maldizem e rezai por aqueles que vos ofendem”.  Durante muitos séculos, o povo judeu foi perseguido por forças estrangeiras: pelos babilônios, pelos persas, e mais tarde pelos gregos e então pelos romanos. O povo judeu, naturalmente, odiava essa dominação estrangeira, pois os estrangeiros invasores de sua pátria esmagaram sua dignidade e liberdade. Por isso, quando lemos as palavras de Jesus dentro deste contexto, o pedido para amar os inimigos pode parecer idealista e até mesmo sentimental.


“Amai os inimigos” diz Jesus. A imperativa de amar os inimigos nos leva a perguntarmos a Jesus: Como podemos amar os inimigos? Como podemos estar abertos a alguém que quer controlar a nossa vida e a nossa liberdade? Como podemos estar abertos a alguém que achamos estar querendo nos ferir, física ou psicologicamente? Como posso amar aquele que matou o meu irmão, irmã, pai ou mãe? Será que não podemos nos proteger daquele que quer nos impedir, de alguma maneira, de florescer e irradiar ou de celebrar vida? Será que este tipo de pessoa não nos devorará, se parecermos fracos e vulneráveis diante dele?  Afinal, quem é inimigo?


“Inimigo” é uma palavra muito forte. Geralmente refere-se àqueles que estão em estado de guerra. Pode também ser usado para descrever grupos ou indivíduos que oprimem outros, que algemam sua liberdade e impedem seu crescimento, que impõem regras e silêncio. Como “inimigo” é uma palavra muito forte, é fácil para nós negar que temos inimigos. Mas quando Jesus fala de inimigos, ele se refere a algo que pode ser muito mais simples e estar muito mais perto de nós. Inimigo é alguém que se coloca no caminho da nossa liberdade, dignidade e aptidão para crescer e para amar; é alguém a quem evitamos e com quem nos recusamos comunicar. Por isso, através das palavras acima ditas, Jesus estava fazendo uma promessa de transformação e libertação interior.


Temos que tomar muito cuidado para não deixar que as sementes da nossa antipatia se transformem em mágoa; a mágoa se torna raiva e a raiva virar ódio. E ódio é como uma gangrena: devora a pessoa. Todas as nossas recusas em nos comunicarmos com os outros e nos abrirmos a eles nos encerram numa prisão.  O processo se inicia quando tomamos consciência dos nossos muros internos que foram construídos sobre o ódio e sobre a raiva inconsciente. Para que possamos nos tornar realmente livres, temos que trabalhar todos esses relacionamentos que nos causam sofrimento e desconforto.


O AT nos fala dos inimigos de Israel como inimigos de Deus. Sem dúvida, às vezes, se pede ao israelita que não se alegre com a caída de seu inimigo (Pr 24,17) ou se pede que dê de comer ao inimigo faminto (Pr 25,21). Normalmente o amor e o perdão do inimigo aparecem limitados aos adversários israelitas (1Sam 24,26), aos que são do mesmo povo e têm a mesma religião. O ódio ao inimigo parece, pois, para o AT algo natural (Sl 35).


O Deus de Jesus Cristo é outro. Através do Evangelho deste domingo somos chamados por Jesus a viver a sua ordem suprema: Amar os inimigos. Amar nossos inimigos significa enxergá-los como indivíduos que estão presos num ciclo de medo e de opressão, mas que apesar de tudo, são indivíduos. Amar nossos inimigos é esperar e ansiar que, em vez de viverem uma forma de autodestruição, encerrados em seu próprio orgulho e poder, eles possam ser libertados. Amar nossos inimigos é um apelo à mudança, a não mais sermos controlados por nossas mágoas e ódios ou medos, mas em vez disso iniciarmos um relacionamento verdadeiro com aqueles dos quais não gostamos e rezarmos por eles.


Este apelo de Jesus para amarmos os inimigos não é apenas um apelo ou uma ordem, mas também uma promessa, verdadeira tanto para os cristãos quanto para os não-cristãos: o que não podemos fazer nós mesmos, podemos fazer com o poder do Espírito Santo que transforma nosso coração de pedra baseado no ódio, no medo, na raiva, em um coração de carne, aberto e vulnerável aos outros. Através do dom do Espírito Santo recebemos um novo poder que nos permite permanecer firmes no amor. Para capacitarmos e libertarmos os outros, precisamos a nova força do amor e da comunhão que vem de Deus.


Com esta ordem de amar os inimigos, somos convidados a ultrapassar as relações baseadas na troca, onde tudo é previsível e medido, portanto, sem qualquer mérito. Trata-se de adotar o comportamento misericordioso de Deus(vv.35-36) para recriar uma humanidade nova. O amor que Cristo preceitua deve ser “católico”, universal, amplamente compreensivo; deve ter dimensões de todos os homens. A nossa fé cristã impede-nos, na busca do amor, de esquecer o homem. O amor é inconcebível sem o homem, como o homem é inconcebível sem o amor. Um homem que não ama não é um homem. Podemos dizer que não é um cristão.  Fazendo o bem a seus inimigos, o cristão imita a bondade de Deus de Quem tem recebido o perdão de seus pecados. Seu amor aos inimigos é a resposta agradecida a Deus da misericórdia.


“Se amamos sem produzir amor, se pela nossa vida não nos convertemos de pessoas que amam em pessoas amadas, então, o nosso amor é impotente”. Estas palavras não são de um santo, são de Karl Marx. Se amamos sem provocar amor, o nosso amor é impotente. Onde o amor é impotente, onde não produz amor, aí não está Deus. Quem não ama não conhece a Deus (1Jo 4,8). Por isso, quem não ama é um ateu, o único verdadeiro ateu. “Onde existe o amor, está o cristianismo, embora se trate de ateísmo. Onde não existe amor, não existe cristianismo, embora exista o Crucifixo ou a Eucaristia.  Onde está o amor está Deus, embora os profissionais da virtude possam chamar-nos de pecadores” (Juan Arias).


Por este amor que sempre é entendido no NT não como um sentimento, sim como uma ação e uma tarefa, deve alcançar inclusive àqueles que aparentemente não o merecem: os inimigos, os que te odeiam, os que te golpeiam e os que te roubam. Unicamente o amor desmonta as estratégias da rejeição, porque o amor é a energia da inclusão ilimitada. Não há força que subjugue a ternura de um olhar e o afeto de um abraço. Testemunha-o São Paulo diz em seu famoso hino ao amor: “O amor tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo tolera; o amor nunca acabará” (1Cor 13,7-8).


O amor humano tem sua fonte e modelo no amor de Deus. É um amor que, concretamente, diante da miséria e das deficiências humanas, se traduz em misericórdia, que significa acolhimento, benignidade, dar crédito e confiança: é esta a característica bíblica do amor de Deus, um amor que recomeça sempre de novo, que propõe novamente a sua fidelidade tenaz, que acolhe e protege os fracos (cf. Ex 33,19;34,6). A perfeição não é senão uma maneira de amar segundo o estilo e com a força do Pai, o estilo e a força que Jesus revela e comunica aos discípulos.


Por fim, três pequenas sentenças definem as relações novas na comunidade dos cristãos: não julgar quer dizer não condenar, não condenar quer dizer dar crédito ao irmão que erra, apostar no seu futuro e nas suas possibilidades de mudança ou renovação. Se a medida do perdão é a misericórdia de Deus, o futuro e o crédito que se devem dar ao irmão são sem limites. A imagem da “medida” sublinha a correspondência entre a nossa generosidade e a de Deus. Não em uma perspectiva de cálculo comercial, mas na perspectiva do dom que não tem proporções. Então a medida do amor para com o irmão estabelece também a da fidelidade de cada qual para com Deus.


Amai os vossos inimigos, fazei o bem àqueles que vos odeiam, abençoai aqueles que vos maldizem e rezai por aqueles que vos ofendem.  Sede misericordiosos, como também o vosso Pai é misericordioso. Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados. Dai e vos será dado. Uma boa medida, calcada, sacudida, transbordante será colocada no vosso colo; porque, com a mesma medida com que medirdes os outros, vós também sereis medidos”.


“Peçamos ao Senhor que nos faça compreender a lei do amor. Que bom é termos esta lei! Como nos faz bem, apesar de tudo amar-nos uns aos outros! Sim, apesar de tudo! A cada um de nós é dirigida a exortação de Paulo: ‘Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem’ (Rm 12, 21). E ainda: ‘Não nos cansemos de fazer o bem’ (Gal 6, 9). Todos nós provamos simpatias e antipatias, e talvez neste momento estejamos chateados com alguém. Pelo menos digamos ao Senhor: ‘Senhor, estou chateado com este, com aquela. Peço-Vos por ele e por ela’. Rezar pela pessoa com quem estamos irritados é um belo passo rumo ao amor, e é um ato de evangelização. Façamo-lo hoje mesmo. Não deixemos que nos roubem o ideal do amor fraterno!” (Papa Francisco: Exortação Apostólica Evangelii Gaudium n.101).
P. Vitus Gustama,SVD

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

23/02/2019
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ESCUTAR JESUS, PALAVRA DO PAI, É VIVER UMA VIDA GLORIFICADA
Sábado Da VI Semana Comum

Primeira Leitura: Hb 11,1-7
Irmãos, 1 a fé é um modo de já possuir o que ainda se espera, a convicção acerca de realidades que não se veem. 2 Foi a fé que valeu aos antepassados um bom testemunho. 3 Foi pela fé que compreendemos que o universo foi organizado por uma palavra de Deus. Assim, as coisas visíveis provêm daquilo que não se vê. 4 Foi pela fé que Abel ofereceu a Deus um sacrifício melhor que o de Caim; e por causa dela, ele foi declarado justo, pois Deus aprovou a sua oferta. Graças a ela, mesmo depois de morto, Abel ainda fala! 5 Foi pela fé que Henoc foi arrebatado, para não ver a morte; e não mais foi encontrado, porque Deus o arrebatou. Antes de ser arrebatado, porém, recebeu o testemunho de que foi agradável a Deus. 6 Ora, sem a fé é impossível ser-lhe agradável, pois aquele que se aproxima de Deus deve crer que ele existe e que recompensa os que o procuram. 7 Foi pela fé que Noé, avisado divinamente daquilo que ainda não se via, levou a sério o oráculo e construiu uma arca para salvar a sua família. Pela fé, ele se separou do mundo, tornando-se herdeiro da justiça que se obtém pela fé.


Evangelho: Mc 9,2-13
Naquele tempo, 2Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, e os levou sozinhos a um lugar à parte sobre uma alta montanha. E transfigurou-se diante deles. 3Suas roupas ficaram brilhantes e tão brancas como nenhuma lavadeira sobre a terra poderia alvejar. 4Apareceram-lhe Elias e Moisés, e estavam conversando com Jesus. 5Então Pedro tomou a palavra e disse a Jesus: “Mestre, é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”.  6Pedro não sabia o que dizer, pois estavam todos com muito medo. 7Então desceu uma nuvem e os encobriu com sua sombra. E da nuvem saiu uma voz: “Este é o meu Filho amado. Escutai-O!”  8E, de repente, olhando em volta, não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus com eles. 9Ao descerem da montanha, Jesus ordenou que não contassem a ninguém o que tinham visto, até que o Filho do Homem tivesse ressuscitado dos mortos. 10Eles observaram esta ordem, mas comentavam entre si o que queria dizer “ressuscitar dos mortos. 11Os três discípulos perguntaram a Jesus: “Por que os mestres da Lei dizem que antes deve vir Elias?”  12Jesus respondeu: “De fato, antes vem Elias, para pôr tudo em ordem. Mas, como dizem as Escrituras, que o Filho do Homem deve sofrer muito e ser rejeitado? 13Eu, porém, vos digo: Elias já veio, e fizeram com ele tudo o que quiseram, exatamente como as Escrituras falaram a respeito dele”.
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A Exemplo Dos Antepassados Mantenhamos a Fé Em Deus Que Tem a Última Palavra Sobre a Humanidade


Irmãos, a fé é um modo de já possuir o que ainda se espera, a convicção acerca de realidades que não se veem. Foi a fé que valeu aos antepassados um bom testemunho. Foi pela fé que compreendemos que o universo foi organizado por uma palavra de Deus”.


Terminamos nossa leitura dos primeiros onze capítulos do livro de Gênesis com uma página da Carta aos Hebreus, que resume os exemplos mais edificantes deste capítulos, como estímulo para nossa perseverança na fé.


O texto da Primeira Leitura é um elogio para nossos antepassados remotos, que começa com uma definição do que é ter fé: “A fé é um modo de já possuir o que ainda se espera, a convicção acerca de realidades que não se veem”. Nisto tiveram muito mérito os crentes do Antigo Testamento. Aqui são mencionados Abel, Henoc e Noé. Os três aceitaram em sua vida o plano de Deus. Como todos os demais que viveram no AT, não chegaram a ver nem a experimentar a vinda do Salvador prometido por Deus. Mas a partir desse claro-escuro, eles sabiam como crer em Deus e se entregaram totalmente nas mãos de Deus.


Esta revisão das páginas do livro de Gênesis, para o autor da Carta aos Hebreus, serve como um encorajamento para os cristãos de seu tempo para que não deixem de crer em Deus apesar das diciculdades, como perseguições, pois vivem em meio de um mundo hostil. Para muitos cristãos, o Evangelho era uma utopia menos irrealizável. Por isso, começaram a desfalecer diante das perseguições, alguns abandonavam inclusive a Igreja (cf. Hb 10,25). Por isso, o autor lher exorta para a esperança e à fidelidade. Para conseguir o efeito desejado, o autor recorre aos exemplos bíblicos sobretudo ao exemplo de Abraão. O autor não pretende dar uma definição da fé, e sim destacar aqueles traços fundamentais que obteve o fé nos grandes crentes e que convenia recordar aos que vacilavam: a firmrza na esperança que antecipa os bens futuros, e o convencimento do que ainda está por ver e por vir. A fé, como resposta à Palavra de Deus que tem o caráter de promessa, é inseparável da esperança.


Para o autor da Carta aos Hebreus fé é absolutamente uma certeza de que o que se acredita é certo e o que se espera, virá. É a esperança que olha para frente com muita convicção. A esperança cristã é acreditar no futuro apesar do presente. “A fé é uma faculdade de visão, ou melhor, uma espécie de sentido interior que nos faz ver, com evidência inabalável, coisas que para os que não possuem a fé simplesmente não existem e nem podem existir” (Frederico Dattler, SVD: A Carta Aos Hebreus, Ed. Paulinas, 1980 p.143).


A exortação do autor também serve para nós hoje, para que não exageremos nossas dificuldades, procurando desculpas para nossa pouca fé e pouca fidelidade. A leitura de hoje quer que sejamos encorajados por aqueles que souberam ser fiéis a Deus mesmo em dias difíceis.


A Bíblia, embora também contenha histórias de pecado, fraquezas e falhas, é sempre instrutiva ou educativa. Trata-se de aprendermos do pecado dos outros e, acima de tudo, de admirarmos e imitarmos a fé de tantas pessoas que desfilam em suas páginas, como aconteceu nos capítulos de Gênesis, que meditamos nessas duas semanas.


Temos também outra série de antepassados que nos animam ainda mais de perto em nossa caminhada de fé: a Virgem Maria e os santos cristãos dos últimos dois mil anos. Aos quais temos de acrescentar familiares e conhecidos que também certamente nos deram um exemplo de fidelidade a Deus a partir de sua vida concreta.


Esta orientação pode nos fazer rever nossa concepção de fé, perguntar a nós mesmos se não temos idéia da fé que é muito focada no intelectual e menos no vital. Portanto, seria uma fé muito pobre?!


Com Jesus, Apesar Das Dificuldades, Tudo Termina Na Vitória


 A transfiguração é uma antecipação da ressurreição do Senhor Jesus que intenta levantar o ânimo dos discípulos, ratificando que o destino final não é a morte e sim a ressurreição. Por isso, em cada anúncio de sua Paixão (três anúncios), Jesus acrescenta esta frase: “... depois de três dias (o Filho do Homem) deve ressuscitar” (Mc 8,31; 9,31; 10,34).


Por isso, um dos temas fundamentais que toma novo rumo no relato da transfiguração é o tema da morte e ressurreição. A morte deixa de ser o fim irremediável para o homem e a sombra do horror, para começar a ser entendida como o transladar-se para onde Deus está, isto é, na plenitude. Por isso, desde então, a morte está intimamente ligada ao triunfo, e não pode ser entendida sem a luz da ressurreição. A morte não terá a última palavra sobre a vida do homem. A partir da experiência da transfiguração tudo pode ser graça apesar de ter uma aparência da cruz, pois Deus envolve tudo na sua misericórdia. O mistério da glória ilumina o sentido ultimo da Cruz de Jesus. Mas o mistério da Cruz ilumina o caminha da glória.


Podemos dizer que a transfiguração é o grito de Deus para não ficarmos desanimados nme nos desistir na nossa luta pelo bem durante a nossa vida, pois a lógica de Deus não nos conduz ao fracasso, mas à ressurreição, à vida definitiva, à felicidade sem fim. Cada um de nós precisa parar da agitação cotidiana para escutar esse grito de Deus.


Pedro se extasia diante da luz da transfiguração. Ele sente como se estivesse no céu. Por isso, Pedro quer permanecer ali sem jamais voltar à realidade cotidiana. Para isso, ele propõe a Jesus construir três tendas. Mas o evangelista Marcos comenta: “Pedro não sabia o que dizer”.


Podemos viver a experiência de transfiguração se nós negarmos a busca de interesses próprios e optarmos por assumir uma fé mais humanizada que produz uma nova forma de viver a realidade e renova nossa convivência de fraternidade.


A fé é o caminho da renúncia e da morte de nós mesmos para que Deus possa se manifestar através de nós. Somente com a morte de nós mesmos é que Deus pode anunciar e prometer uma vida nova para nós. Subir até Deus é morrer de nossos projetos pessoais, de tantos planos, esquemas e cálculos puramente humanos e pessoais para dar o lugar aos projetos de Deus. Certamente, nesta morte, Deus manifesta sua glória salvadora e sua eterna misericórdia.


Contemplar a cena da transfiguração é seguir o Transfigurado, Jesus Cristo. Cristo chama sem cessar novos discípulos, homens e mulheres, para comunicar-lhes o amor divino, o ágape, sua maneira de amar, e para convidá-los a servir ao próximo, no humilde dom de si mesmos, longe de todo cálculo de interesse.


Este é o meu Filho amado. Escutai-O!”. É a mesma voz do Batismo de Jesus no Jordão (Mc 1,11). Porém, há uma diferença. No Batismo a voz foi dirigida somente a Jesus. Agora é dirigida aos discípulos com o seguinte detalhe: “Escutai-O!”. A Palavra do Pai (voz) vem autenticar os ensinamentos de Jesus. Conseqüentemente, é preciso prestar atenção para tudo o que Jesus diz e ensina e vivê-lo logo em seguida para que a vida seja transfigurada desde já.


Por isso, contemplar a cena da transfiguração é seguir o Transfigurado, Jesus Cristo e viver seus ensinamentos, pois todos eles são reconhecidos por Deus Pai. E Cristo chama sem cessar novos discípulos, homens e mulheres, para comunicar-lhes o amor divino, o ágape, sua maneira de amar, e para convidá-los a servir ao próximo, no humilde dom de si mesmos, longe de todo cálculo de interesse. A vida dada é a vida recebida. Uma vida vivida para o bem dos outros é uma vida vivida para Deus e por isso, é reconhecida por Deus.


Portanto, com Jesus, a Palavra do Pai (Jo 1,1-3.14), a vida glorificada se inicia mesmo que estejamos ainda neste mundo. O cristão é aquele que vive na antecipação. A vida glorificada para a qual ele dirige seu olhar renova sua maneira de viver e de conviver de cada dia neste mundo. Tudo que ele faz e diz é sempre em função da vida glorificada.


Somos convidados a manter em dia nossas orações como expressão viva de nossa fé. A oração transforma. Ela muda nosso rosto, nosso aspecto, nosso ser. Quem diz que orar e não acontecer transformações, mudanças em sua vida, está se mentindo a si mesmo. A experiência de oração nos faz realmente sentir a senção de estar no Tabor e de querer ficar lá. No entanto, a oração nos capacita para a vida e por isso, devemos descer do Tabor para viver. É orando que poderemos seguir adiante no mundo e ao mesmo tempo deixar que Deus atue em nós. Além disso, aprender a rezar é aprender a viver como filhos(as) de Deus na verdade plena da própria criatura. A oração diz à criatura humana a verdade mais complexa e mais simples que existe: não é ela o Absoluto, mas o Criador que é Nosso Pai.
P. Vitus Gustama,svd

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

22/02/2019
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CÁTEDRA DE SÃO PEDRO
FESTA
22 fevereiro
Primeira Leitura: 1Pd 5,1-4
Caríssimos, 1 exorto aos presbíteros que estão entre vós, eu, presbítero como eles, testemunha dos sofrimentos de Cristo e participante da glória que será revelada: 2 Sede pastores do rebanho de Deus, confiado a vós; cuidai dele, não por coação, mas de coração generoso; não por torpe ganância, mas livremente; 3 não como dominadores daqueles que vos foram confiados, mas antes, como modelos do rebanho. 4 Assim, quando aparecer o pastor supremo, recebereis a coroa permanente da glória.


Evangelho: Mt 16,13-19
Naquele tempo, 13Jesus foi à região de Cesareia de Filipe e ali perguntou aos seus discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” 14Eles responderam: “Alguns dizem que é João Batista; outros que é Elias; outros ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas”. 15Então Jesus lhes perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?” 16Simão Pedro respondeu: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. 17Respondendo, Jesus lhe disse: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. 18Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la. 19Eu te darei as chaves do Reino dos céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus”.
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Um antiquíssimo martirologia situa o nascimento da Cátedra de Pedro extamente no dia 22 de Fevereiro. Esta festa litúrgica foi assinalada pela Igreja como uma maravilhosa oportunidade para fazer uma memória viva e atualizadora do primeiro entre os Apóstolos: Simão Pedro. Trata-se de uma tradição muito antiga, testemunhada em Roma desde o século IV.


A celebração de hoje com o símbolo da Cátedra dá um grande destaque para a missão do Mestre e Pastor que Cristo conferiu a Simão Pedro. Sobre Pedro, como sobre uma pedra Cristo fundou sua Igreja.


Literalmente, a "CÁTEDRA" é a sede fixa do Bispo, posta na igreja matriz de uma Diocese, que por isso a igreja-sede do bispo é chamada "catedral", e constitui o símbolo da autoridade do Bispo e, em particular, do seu "magistério", ou seja, do ensinamento evangélico que ele, enquanto sucessor dos Apóstolos, é chamado a conservar e a transmitir à Comunidade cristã. Quando o Bispo toma posse da Igreja particular que lhe foi confiada, ele, com a mitra e o báculo, senta-se na cátedra. Como mestre e pastor daquela sede ele orientará o caminho dos fiéis da sua diocese, na fé, na esperança e na caridade exercendo sua missão de santificar, ensinar, e governar.


Pedro foi escolhido pelo próprio Senhor como o primeiro entre as partes ou Primus Inter Pares (Mt 16,13-19). Pedro começou o seu ministério em Jerusalém, depois da Ascensão do Senhor e do Pentecostes. A primeira "sede" da Igreja foi o Cenáculo, onde Pedro rezou juntamente com os outros discípulos para que fosse reservado um lugar especial a Simão Pedro. Em seguida, a sé de Pedro foi em Antioquia, cidade situada à margem do rio Oronte, na Síria, hoje na Turquia, naquela época terceira metrópole do império romano, depois de Roma e de Alexandria do Egito. Daquela cidade, evangelizada por Barnabé e Paulo, onde "os discípulos receberam, pela primeira vez, o nome de "cristãos"" (At 11, 26), onde, portanto, nasceu para nós o nome de cristãos, Pedro foi o primeiro Bispo. Dali, a Providência conduziu Pedro até Roma. Portanto, temos o caminho de Jerusalém, Igreja nascente, em Antioquia, primeiro centro da Igreja acolhida pelos pagãos e ainda unida com a Igreja proveniente dos Judeus. Depois Pedro dirigiu-se para Roma, centro do Império, símbolo do "Orbis" a "Urbs" que expressa o "Orbis" a terra onde ele terminou com o martírio a sua corrida ao serviço do Evangelho. Por isso a sede de Roma, que tinha recebido a maior honra, acolheu também o ônus confiado por Cristo a Pedro, de se colocar ao serviço de todas as Igrejas particulares, para a edificação e a unidade de todo o Povo de Deus.


A sede de Roma, depois destas migrações de São Pedro, torna-se assim reconhecida como a do sucessor de Pedro, e a "cátedra" do seu Bispo representou a “cátedra” do Apóstolo encarregado por Cristo, de apascentar todo o seu rebanho. Portanto, A cátedra do Bispo de Roma representa não apenas o seu serviço à comunidade romana, mas a sua missão de guia de todo o Povo de Deus.


Celebrar a "Cátedra" de Pedro, como fazemos hoje, significa, portanto, atribuir-lhe um forte significado espiritual e reconhecer-lhe um sinal privilegiado do amor de Deus, Pastor bom e eterno, que quer reunir toda a sua Igreja e orientá-la no caminho da salvação.


O texto do evangelho lido na festa da Cátedra de São Pedro fala da profissão da fé de Pedro. Para Pedro Jesus é “o Messias, o Filho do Deus vivo”.


As palavras de Pedro são uma perfeita profissão da fé cristã. Jesus não é somente “o Messias de Deus”, isto é, “o Ungido por Deus”. Jesus é também “o Filho de Deus vivo”. Aqui, neste texto, “Filho” não é somente aquele que nasceu de Deus e sim aquele que atua como o próprio Deus. “O Filho de Deus” equivale à fórmula “Deus entre nós”, o Emanuel (Mt 1,23;18,10;28,20). “Vivo”, na expressão “o Filho de Deu vivo” (cf. Is 37,4.17; Os 2,1; Dn 6,21) opõe o Deus verdadeiro aos ídolos mortos; significa esse Deus possui a vida e a comunica para o homem. Trata-se de um Deus vivo e vivificante, Deus ativo e salvador (Dt 5,26; Sl 83[84],3; Jr 5,2). Também o Filho é, portanto, Doador de vida (Jo 10,10) e vencedor da morte (Jo 11,25-26).


Crer no Deus vivo e vivificante, Doador da vida, revelado por Jesus, implica proteger ou defender a vida em todas as suas instâncias: desde sua concepção, sua duração até seu término neste mundo. Somente quem crê no Deus vivo e vivificante pode acreditar na vida eterna, pois a vida não acaba com a morte, pois Deus é a vida (Jo 11,25; 14,6).


“E vós, quem dizeis que Sou?”. Esta pergunta deve ser entendida no sentido semita. Trata-se, neste sentido, de uma pergunta sobre a existência de Jesus e sua missão histórica. A resposta a esta pergunta inclui necessariamente uma opção de adesão a Jesus.


Como resposta à confissão de Pedro, Jesus constitui Pedro o alicerce sobre o qual edifica a Sua Igreja. Jesus também garante que a Sua Igreja jamais será destruída pelos poderes da morte. Temos que manter nossa fé neste Deus vivo e vivificante mesmo que nós, como a Igreja do senhor, nos encontremos nas situações difíceis, do ponto de vista humano, pois para Deus nada é impossível (Lc 1,37; cf. Rm 8,31-39).


Três marcas que fazem de Pedro que se encontra com Cristo, o Pedro da fé: espontaneidade, franqueza e confiança. Três atitudes que tem que acompanhar também nosso processo para aprofundar nosso descobrimento-encontro com o Filho de Deus vivo. Três qualidades que ajudam cada um a crescer como Igreja cimentada na rocha do Apostolo Pedro.


A confissão de Pedro, espontânea, franca e confiada constrói Igreja. Com esta mesma confissão podemos fazer a Igreja crescer. Todos nós somos do mesmo rebanho. Nossa tarefa permanente é fazer o rebanho sempre unido. Para isso, precisamos estar unidos a Cristo, pois sem ele nada podemos fazer (Jo 15,5). Quando nosso coração não está unido a Cristo, criaremos divisão e desunião entre nós.


É evidente que Pedro pecou. Foi fraco naqueles momentos que lemos nos evangelhos (Cf. Mt 14,31; 16,23; Jo 18,10-11; Mt 26,69-75 etc.) e possivelmente há muitos outros que as Escrituras não nos revelaram. No entanto, apesar de seus pecados, ele retornou ao Senhor e hoje podemos celebrar a sua Cátedra: sua autoridade, concedida por Jesus Cristo e estabelecida em Roma como Pastor universal da Igreja. Recordamos com alegria que seu arrependimento, ele chorou amargamente, São Marcos relatou depois que negou Jesus Cristo, foi uma manifestação de seu amor por Jesus, mais forte do que qualquer dos seus pecados. Apesar de nossas fraquezas podemos, sim, amar Jesus Cristo e Sua Igreja. Somos fracos, somos pecadores, sim, mas a Igreja do Senhor a qual pertencemos é forte, pois “o poder do inferno nunca poderá vencê-la”.


Reflitamos as palavras do Papa Francisco em relação ao Evangelho lido neste dia!


“Portanto, façamos nossas as palavras de Pedro: “Tu és Cristo, o Filho de Deus vivo!” (Mt 16,16). O nosso pensamento e o nosso olhar permaneçam fixos em Jesus Cristo, princípio e fim de qualquer obra da Igreja. Ele é o fundamento, e ninguém pode pôr outro diferente (cf. 1Cor 3,11). Ele é a «pedra» sobre a qual devemos edificar. Recorda-o santo Agostinho com palavras expressivas, quando escreve que a Igreja, não obstante agitada e abalada pelas vicissitudes da história, “não desaba, porque está fundamentada sobre a pedra, da qual deriva o nome Pedro. Não é a pedra que haure o seu nome de Pedro, mas é Pedro que o recebe da pedra; assim como não é o nome Cristo que deriva de cristão, mas o nome cristão que provém de Cristo. [...] A pedra é Cristo, sobre cujo fundamento também Pedro foi edificado” (In Joh. 124, 5: PL 35, 1972).

Desta profissão de fé deriva para cada um de nós a tarefa correspondente ao chamamento de Deus. Em primeiro lugar, aos Pastores é pedido que tenham como modelo o próprio Deus que cuida do seu rebanho. O profeta Ezequiel descreveu o modo como Deus age: Ele vai à procura da ovelha tresmalhada, reconduz ao aprisco a perdida, cura aquela que se feriu e restabelece a que está doente (cf. 34,16). Um comportamento que é sinal do amor sem fim. É uma dedicação fiel, constante e incondicional, para que a sua misericórdia possa chegar a todos aqueles que são os mais frágeis. E, todavia, não devemos esquecer que a profecia de Ezequiel nasce da constatação das faltas dos pastores de Israel. Portanto far-nos-á bem, também a nós, chamados a ser Pastores na Igreja, deixar que a Face do Deus Bom Pastor nos ilumine, nos purifique, nos transforme e nos restitua plenamente renovados à nossa missão. Que também nos nossos ambientes de trabalho possamos sentir, cultivar e praticar um forte sentido pastoral, antes de tudo em relação às pessoas que encontramos todos os dias. Que ninguém se sinta ignorado nem maltratado, mas cada um possa experimentar, antes de tudo aqui, a atenção carinhosa do Bom Pastor.

Somos chamados a ser os colaboradores de Deus numa empresa tão fundamental e única como a de testemunhar com a nossa existência a força da graça que transforma e o poder do Espírito que renova. Deixemos que o Senhor nos liberte de toda a tentação que afasta do essencial da nossa missão, e voltemos a descobrir a beleza de professar a fé no Senhor Jesus. A fidelidade ao ministério conjuga-se oportunamente com a misericórdia, que desejamos experimentar. Além disso, na Sagrada Escritura fidelidade e misericórdia constituem um binómio inseparável. Onde se encontra uma, lá está também a outra, e é precisamente na sua reciprocidade e complementaridade que podemos ver a presença do próprio Bom Pastor. A fidelidade que se exige de nós consiste em agir segundo o Coração de Cristo. Como ouvimos das palavras do apóstolo Pedro, devemos apascentar a grei com um “espírito generoso”, tornando-nos um “modelo” para todos. Deste modo, “quando aparecer o supremo Pastor” poderemos receber a “a coroa de glória imarcescível” (1Pd 5,14)”. (Basílica Vaticana, Segunda-feira, 22 de Fevereiro de 2016).
P. Vitus Gustama,svd