quarta-feira, 25 de maio de 2016

28/05/2016




AGIR E FALAR COM AUTORIDADE CRISTÃ


Sábado da VIII Semana Comum


Primeira Leitura: Judas 17.20b-25


17 Vós, porém, amados, lembrai-vos das palavras preditas pelos apóstolos de nosso Senhor Jesus Cristo. 20b Edificai-vos sobre o fundamento da vossa santíssima fé e rezai, no Santo Espírito, 21 de modo que vos mantenhais no amor de Deus, esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, para a vida eterna. 22 E a uns, que estão com dúvidas, deveis tratar com piedade. 23 A outros, deveis salvá-los arrancando-os do fogo. De outros ainda deveis ter piedade, mas com temor, aborrecendo a própria veste manchada pela carne. 24 Àquele que é capaz de guardar-vos da queda e de apresentar-vos perante a sua glória irrepreensíveis e jubilosos, 25ª o único Deus, nosso Salvador, por Jesus Cristo, nosso Senhor: glória, majestade, poder e domínio, desde antes de todos os séculos, e agora, e por todos os séculos. Amém.


Evangelho: Mc 11,27-33


27Naquele tempo, Jesus e os discípulos foram de novo a Jerusalém. Enquanto Jesus estava andando no Templo, os sumos sacerdotes, os mestres da Lei e os anciãos aproximaram-se dele e perguntaram: 28“Com que autoridade fazes essas coisas? Quem te deu autoridade para fazer isso?” 29Jesus respondeu: “Vou fazer-vos uma só pergunta. Se me responderdes, eu vos direi com que autoridade faço isso. 30O batismo de João vinha do céu ou dos homens? Respondei-me”. 31Eles discutiam entre si: “Se respondermos que vinha do céu, ele vai dizer: ‘Por que não acreditastes em João?’ 32Devemos então dizer que vinha dos homens?” Mas eles tinham medo da multidão, porque todos, de fato, tinham João na qualidade de profeta. 33Então eles responderam a Jesus: “Não sabemos”. E Jesus disse: “Pois eu também, não vos digo com que autoridade faço essas coisas”.
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Chamados a Edificar a Vida Na Fé, Na Esperança e Na Caridade


Edificai-vos sobre o fundamento da vossa santíssima e rezai, no Santo Espírito, de modo que vos mantenhais no amor de Deus, esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, para a vida eterna”, assim exorta São Judas, autor de um dos escritos mais curtos do NT.


Judas é o irmão de São Tiago. Foi bispo de Jerusalém depois de seu irmão maior. Esta breve Epístola é bastante violenta contra os hereges, os “falsos doutores”. Lemos no Código de Direito Canônico no Cân. 751: “Diz-se heresia a negação pertinaz, depois de recebido o batismo, de alguma verdade que se deve crer com fé divina e católica, ou ainda a dúvida pertinaz acerca da mesma; apostasia, o repúdio total da fé cristã; cisma, a recusa da sujeição ao Sumo Pontífice ou da comunhão com os membros da Igreja que lhe estão sujeitos”.


São Judas chama todos, em primeiro lugar, a viver na verdade. A referência da verdade, segundo São Judas, é o próprio Evangelho. A verdade não se inventa, mas se recebe.


Além de viver na verdade, todos são chamados a edificar. A figura “edificar” é muito usada na literatura cristã antiga. São Judas pede aos destinatários que se edifiquem a si mesmo como comunidade cujo fundamento é a fé. A fé é unir-se a Deus, criando uma comunidade com Deus cuja consequência é a edificação da comunidade humana. Trata-se de uma ação permanente.


No texto lido na Primeira Leitura, São Judas menciona as virtudes teologais: Fé, Esperança e Caridade. Essas virtudes nos fazem viver em comunhão com Deus e com os irmãos.


A fé é a livre resposta do homem a Deus que se revela a ele. O ato da fé é um ato livre. Pela fé Deus se revela aos homens através do plano natural, mediante o universo, com sua grandeza e beleza (cf. Rm 1,19s; Sb 13,1-9). A natureza é uma das portas para conhecer Deus. Pela fé Deus também se revela através do plano sobrenatural, isto é, em vista da participação do homem na vida divina em que o homem atinge sua plenitude na visão de Deus face-a-face (cf. 1Jo 3,1-3; 1Cor 13,12).


A fé está intimamente ligada à esperança, como lemos em Hb 11,1: “A fé é a garantia dos bens que se esperam”. Deus é o objeto da esperança, pois Ele é o Bem Supremo que nos faz vivermos na felicidade eterna. Deus é também o motivo de nossa esperança, pois o homem não pode confiar em suas próprias forças por causa de suas limitações. A esperança sempre fica na nossa frente chamando-nos a caminhar na direção de Deus que nos salva.


São Judas também pede que os destinatários permaneçam no amor. Nos escritos do NT a palavra que designa o amor é exclusivamente ágape (cf. 1Jo 4,7-10.16-18; 1Cor 13; 2Cor 5,14; 13,13). Deus simplesmente nos ama porque Ele quer nosso bem e quer nos salvar. Se ele ama é amar para salvar. Deus não espera que sejamos bons para Ele nos amar. Ele nos ama para que sejamos bons. Trata-se do amor gratuito. Por amor Deus nos chama à vida, por amor Deus nos enviou seu Filho e por amor Deus continua nos oferecendo sua amizade que é para nós fonte de vida e de todo bem apesar de nossas contínuas traições. Ágape é o amor para uma direção, isto é, querer o bem do outro sem esperar nada em recompensa. É amar por amor. O amor é essencial para todas as virtudes e dá sentido para todas as virtudes. Sem ele, tudo se torna sem sentido.


Agir e Falar Com Autoridade


Estamos na seção onde se fala de Jesus e do poder constituído (Mc 11,27-12,37). Em Mc 11,18 o evangelista Marcos nos informou que “Os chefes dos sacerdotes e os escribas procuravam como matariam Jesus”. Nesta seção os vemos em ação. O que vem em seguida é a continuação do choque frontal entre eles e Jesus e será cumprido o que Jesus disse no primeiro anúncio da paixão: “O Filho do homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos chefes dos sacerdotes e pelos escribas” (Mc 8,31). Agora eles estão intentando surpreender Jesus em algum erro para acabar com ele. Podem ser lidas cinco controvérsias  como o ponto de ataque contra Jesus em Mc 2,1-3,6.


Os que formam o poder constituído são em primeiro lugar, os sumos sacerdotes, os mais afetados (medo de perder seus bens através da arrecadação no Templo) pelo que Jesus fez no templo (cf. Mc 11,15-18) e os que podem, facilmente, acusar Jesus de ter atuado contra o lugar santo (Templo). Entre os sacerdotes predominam os saduceus, grupo político-religioso de tendência conservadora.  Em segundo lugar, os escribas ou doutores da lei, pessoas especializadas nos problemas jurídicos e religiosos e, portanto, únicos e verdadeiros interpretes e defensores da Lei. Para eles, o homem é feito para a lei, enquanto que para Jesus, a lei é feita para o homem (Mc 2,27). Sua oposição já começou no início do evangelho de Marcos (Cf. Mc 2,6.16; 3,22; 7,1). Em terceiro lugar, os anciãos, os membros laicos do Sinédrio, a suprema corte judia legislativa e judicial de Jerusalém, os representantes civis e religiosos do povo. Entre os escribas e os anciãos predominam os fariseus, verdadeiros representantes da piedade popular. Finalmente, o partido de Herodes, o braço civil do poder romano em Palestina.


O evangelho lido neste dia nos relata que Jesus e seus discípulos se encontram em Jerusalém. Por isso, a cena do evangelho de hoje tem como local Jerusalém. O texto está carregado de tensão. É o confronto direito entre Jesus e os dirigentes do povo. A fama de Jesus pela sua preocupação em lutar pela igualdade, pela convivência na fraternidade universal, pela verdadeira vivência da religião, pelo bem de todos, provoca o desconforto para os dirigentes que querem manter seus privilégios e seu domínio. Os dirigentes queriam desmoralizar Jesus e suas atividades em favor do povo através das seguintes perguntas: “Com que autoridade tu fazes essas coisas? Quem te deu autoridade para fazer isso?”. Essa pergunta só pode sair da boca de quem adora o poder e a desigualdade. Ama menos quem se preocupa demasiadamente com a regra e o poder na convivência em vez de se preocupar com o bem que deve ser feito. Para fazer o bem em favor do povo necessitado não precisa de nenhum poder; basta ter amor no coração e sentir na pele o sofrimento dos outros para se compadecer e oferecer a ajuda naquilo que se pode para aliviar uma parte do sofrimento. Precisamente só aquele que é capaz de ser solidário com os necessitados é que tem mais autoridade. Esse tipo de pessoa quando fala desperta qualquer coração, pois fala a partir da vida vivida na solidariedade e na compaixão, como por exemplo, Madre Teresa de Calcutá.


“Quem te deu autoridade para fazer isso?”. O que os dirigentes querem dizer é o poder. “Quem te deu esse poder?”. A autoridade não é dada para ninguém, pois ela vem de dentro da pessoa. A autoridade é a capacidade de fazer o outro crescer. A palavra “autoridade” provem do latim “augere” que significa “crescer”. Toda palavra, toda atividade, toda ajuda, todo conselho que faz o outro crescer é uma autoridade. A autoridade é respeitada e é amada. O poder é temido, mas não é amado. Para ser chefe você precisa de um cargo. Mas para ser líder você não precisa de cargo. Ninguém precisa mais de autoridade formal para liderar. Todos nós temos um poder natural de liderar que nada tem a ver com cargos, idade ou com o lugar em que moramos. Liderar tem muito mais a ver com a maneira brilhante como cada um de nós trabalha e a destreza de nosso comportamento. Cada um de nós tem o reservatório interno de potencial para liderança. E cada um de nós tem o poder de se mostrar líder no que faz. Somente precisamos nos conscientizar de tudo isso e assumi-lo. Um líder que ama é um líder que é respeitado por todos. Um líder que adora o poder é temido, mas não é amado e por isso, não é respeitado. Etimologicamente a palavra “respeitar” (em latim) significa tomar em consideração. “Respeito” é sentimento que leva alguém a tratar outrem ou alguma coisa com grande atenção, profunda deferência; consideração, reverência.


Em vez de desqualificarem Jesus, os dirigentes são desqualificados a partir da pergunta de Jesus: “O batismo de João vinha do céu ou dos homens?”. Eles mesmos sabem do peso da pergunta: “Se respondermos que vinha do céu, ele vai dizer: ‘Por que não acreditastes em João?’ Devemos então dizer que vinha dos homens?”  O evangelista Marcos comenta: “Mas eles tinham medo da multidão, porque todos, de fato, tinham João na qualidade de profeta”.  Diante da pergunta pesada, pois toca e desmascara profundamente sua maneira de viver, eles fingem não saber respondê-la: “Não sabemos”. Temos lido em jornais, revistas, entrevistas e temos ouvido nas rádios e televisão este tipo de resposta que saiu da boca daqueles que têm poder: “Eu não sabia!”, “Não sabíamos”, mesmo que as provas sejam contundentes e evidentes. Fingir não saber sobre aquilo que é óbvio e praticado é uma forma discreta de confessar aquilo que sabe. Ninguém se engana. Ninguém tem poder de eliminar a verdade do coração. “Deus faz o diário de nossa vida: a mão divina escreve o que fizemos e o que omitimos, história que um dia será apresentada a todo o universo. Procuremos, pois, fazê-la bela!” (Bossuet; cf. Mt 25,31-46). E “o homem que nunca se entregou a uma causa superior não atingiu o cimo da vida” (Richard Nixon).


P. Vitus Gustama,svd

27/05/2016


FÉ EM DEUS NOS FAZ CONVIVERMOS NO AMOR FRATERNO


Sexta-Feira Da VIII Semana Do Tempo Comum


Primeira Leitura: 1Pd 4,7-13


Caríssimos, 7 o fim de todas as coisas está próximo. Vivei com inteligência e vigiai, dedicados à oração. 8 Sobretudo, cultivai o amor mútuo, com todo o ardor, porque o amor cobre uma multidão de pecados. 9 Sede hospitaleiros uns com os outros, sem reclamações. 10 Como bons administradores da multiforme graça de Deus, cada um ponha à disposição dos outros o dom que recebeu. 11 Se alguém tem o dom de falar, proceda como com palavras de Deus. Se alguém tem o dom do serviço, exerça-o como capacidade proporcionada por Deus, a fim de que, em todas as coisas, Deus seja glorificado, em virtude de Jesus Cristo, a quem pertencem a glória e o poder, pelos séculos dos séculos. Amém. 12 Caríssimos, não estranheis o fogo da provação que se alastra entre vós, como se algo de estranho vos estivesse acontecendo. 13 Alegrai-vos por participar dos sofrimentos de Cristo, para que possais também exultar de alegria na revelação da sua glória.


Evangelho: Mc 11,11-26


Tendo sido aclamado pela multidão, 11Jesus entrou, no Templo, em Jerusalém, e observou tudo. Mas, como já era tarde, saiu para Betânia com os doze. 12No dia seguinte, quando saíam de Betânia, Jesus teve fome. 13De longe, ele viu uma figueira coberta de folhas e foi até lá ver se encontrava algum fruto. Quando chegou perto, encontrou somente folhas, pois não era tempo de figos. 14Então Jesus disse à figueira: “Que ninguém mais coma de teus frutos”. E os discípulos escutaram o que ele disse. 15Chegaram a Jerusalém. Jesus entrou no Templo e começou a expulsar os que vendiam e os que compravam no Templo. Derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos vendedores de pombas. 16Ele não deixava ninguém carregar nada através do Templo. 17E ensinava o povo, dizendo: “Não está escrito: ‘Minha casa será chamada casa de oração para todos os povos’? No entanto, vós fizestes dela uma toca de ladrões”. 18Os sumos sacerdotes e os mestres da Lei ouviram isso e começaram a procurar uma maneira de o matar. Mas tinham medo de Jesus, porque a multidão estava maravilhada com o ensinamento dele. 19Ao entardecer, Jesus e os discípulos saíram da cidade. 20Na manhã seguinte, quando passavam, Jesus e os discípulos viram que a figueira tinha secado até a raiz. 21Pedro lembrou-se e disse a Jesus: “Olha, Mestre: a figueira que amaldiçoaste secou”. 22Jesus lhes disse: “Tende fé em Deus. 23Em verdade vos digo, se alguém disser a esta montanha: ‘Levanta-te e atira-te no mar’, e não duvidar no seu coração, mas acreditar que isso vai acontecer, assim acontecerá. 24Por isso vos digo, tudo o que pedirdes na oração, acreditai que já o recebestes, e assim será. 25Quando estiverdes rezando, perdoai tudo o que tiverdes contra alguém, 26para que vosso Pai que está nos céus também perdoe os vossos pecados”.
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Sob a Perspectivo Do Fim o Cristão É Chamado a Viver No Amor Fraterno Servindo o Próximo Conforme os Dons Recebidos


Caríssimos, o fim de todas as coisas está próximo. Vivei com inteligência e vigiai, dedicados à oração”, escreveu Pedro que lemos na Primeira Leitura de hoje (1Pd 4,7).


Para olhar o mundo, a nós mesmos e todos os acontecimentos na plenitude da verdade não há ponto de observação melhor que o da morte. A partir dali tudo é visto em sua justa perspectiva. Visto a partir desse ponto, tudo ganha seu justo valor. Olhar a vida a partir da morte nos ajuda extraordinariamente a vivermos bem. A morte é o fim de todos os privilégios e diferenças que existem entre os homens. A morte nos ensina a estarmos vigilantes e preparados. Não é a morte que é absurda, mas a vida sem a morte.


O que dá à morte o terrível poder de angustiar o homem e de enchê-lo de medo é o pecado. Muitas vezes acontece que para viver um pouquinho mais, alguém joga fora o que poderia dar-lhe a felicidade eterna: jogam-se fora a fé, a graça, as orações, a caridade etc.


Sob a perspectiva da iminência da morte, o cristão é chamado a organizar sua vida, pois no fim dos tempos a vida inteira do cristão será julgada por Deus. Em consequência disso, a primeira atitude do cristão é prudência e sobriedade, isto é, o cristão deve manter a cabeça fria e a atitude equilibrada, pois este tipo de atitude afasta qualquer ansiedade e pânico. Pela atitude da sobriedade, o cristão não se deixa arrastar pela tentação do espírito mundano.


Prudência, sobriedade, equilíbrio são alcançados pela dedicação à oração. A verdadeira oração torna o cristão prudente, sóbrio e equilibrado. Isso significa que na vida do cristão a oração deve ocupar um lugar importante permanentemente e em qualquer situação e espaço. A oração orienta a vida do cristão para a comunhão com Deus. A partir da comunhão com Deus, através da oração, o cristão saberá enxergar o que é essencial e fundamental para sua vida diária.


Porém, a oração não pode alienar o cristão de seus compromissos como cristão e de suas tarefas diárias neste mundo. O cristão é chamado a conviver com os demais homens e a ser luz do mundo e o sal da terra (cf. Mt 5,13-14). Por isso, o texto da Primeira Leitura chama o cristão à responsabilidade sob a perspectiva escatológica: “Cultivai o amor mútuo, com todo o ardor, porque o amor cobre uma multidão de pecados”. O amor fraterno é a exigência fundamental para o cristão. Cuidar do amor fraterno significa estar em comunhão com Deus, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). e este amor fraterno deve ser permanente. O amor verdadeiro é sempre perseverante. Além do mais, segundo Pedro, o amor autentico é capaz de encobrir uma multidão de pecados (cf. Tg 5,20). O amor é indulgente. O amor opera o perdão dos pecados de modo que, para Deus os pecados não contam mais por causa desse amor.


Uma forma especial para expressar o amor autêntico é a prática da hospitalidade: “Sede hospitaleiros uns com os outros, sem reclamações”. A palavra “hospitalidade” vem do latim “hospitalitas, atis”. É uma virtude que se pratica para peregrinos, necessitados, e desamparados ou desprotegidos prestando-lhes a devida assistência em suas necessidades. A hospitalidade é a obra de misericórdia. É ato de hospedar; acolhida de hóspedes; é boa acolhida. É recepção ou tratamento afável, cortês; amabilidade, gentileza. Hospitaleiro é aquele que oferece hospedagem por bondade ou caridade. Os cristãos primitivos praticavam a hospitalidade. Sem essa virtude, o cristianismo provavelmente teria dificuldades para se expandir no mundo romano. Até a Carta aos hebreus admoesta ou alerta os cristãos: “Não esqueçais a hospitalidade, pois, graças a ela, alguns, sem saber, acolheram anjos” (Hb 13,2).


Além da hospitalidade, o cristão é chamado a viver na permanente disponibilidade para ajudar a partir de seus dons: “Como bons administradores da multiforme graça de Deus, cada um ponha à disposição dos outros o dom que recebeu. Se alguém tem o dom de falar, proceda como com palavras de Deus. Se alguém tem o dom do serviço, exerça-o como capacidade proporcionada por Deus, a fim de que, em todas as coisas, Deus seja glorificado, em virtude de Jesus Cristo, a quem pertencem a glória e o poder, pelos séculos dos séculos”. O cristão não é o dono de seus dons. O dono de todos os dons é o próprio Deus. Por isso, cada um deve se colocar a serviço dos outros a partir dos dons que se tem. Já que Deus é o dono de todos os dons, o cristão não pode usar seus dons em proveito próprio e para sua própria honra.


Quem Permanece Em Deus Produz Bons Frutos Para a Convivência


O texto do evangelho deste dia nos conta que Jesus já se encontra em Jerusalém. Marcos nos relata hoje a ação simbólica de Jesus em torno da figueira estéril e a expulsão dos vendedores de animais do Templo. E no fim Jesus pede que colaboremos com Deus através da vivência da fé.


De longe Jesus viu uma figueira cheia de folhas. Mas quando se aproximou da figueira, não encontrou nenhum fruto (figo). Jesus se queixa da esterilidade da figueira. Jesus pronuncia, então, algumas palavras duras contra a figueira: “Que ninguém mais coma de teus frutos”.  E no dia seguinte a figueira fica seca. Este gesto de Jesus aponta para outro tipo de esterilidade. Ele aponta para seus contemporâneos, especialmente para os dirigentes do povo, pois eles são iguais a uma árvore estéril que não dá frutos que Deus quer. Eles se exibem como árvore cheia de folhas, mas sua vida não produz nada que possa dar vida (fruto) para os demais. Eles se procuram com o exterior (folhas) e abandonam seu interior (frutos).


Marcos também coloca outra cena: a expulsão dos vendedores de animais do Templo. Trata-se também de um gesto simbólico. Com esse gesto Jesus denuncia os dirigentes na hipocrisia do culto feito de coisas externas, mas sem obras coerentes na vida. O culto tem ser traduzido na vivencia de valores do Reino como a fraternidade, a igualdade, o amor, o mútuo respeito, solidariedade e assim por diante.  Jesus critica e denuncia o uso de culto para explorar os demais em nome do próprio interesse. Deus não é um comerciante, mas é o Pai de todos. Um irmão não pode explorar outro irmão, muito menos em nome da religião, usando, assim, o nome de Deus em vão. Segundo Jesus, o Templo é “casa de oração para todos os povos; é lugar de oração autêntica e não é um lugar para explorar os demais. 


Logo em seguida Jesus fala da fé. "Fé é o pássaro que sente a luz e canta quando a madrugada é ainda escura." (Rabindranath Tagore). Fé é esperar de Deus aquilo que ele quer nos dar, pois Deus nos dá aquilo que nos salva mesmo que peçamos a Ele qualquer coisa erradamente. Mas ao pedir queremos manter nossa conversa com o Pai e através de oração queremos manter nossa ligação profunda com Deus. É preciso conversar com nosso Pai celeste mesmo que não tenhamos nada para pedir a Ele, pois Deus é o nosso Pai, e não dá para imaginar que morando na mesma casa o filho não conversa com o pai. Qualquer pai ou mãe sempre dá ao filho aquilo que é digno para sua vida. Por isso, Deus é a medida de cada dom, e nossa salvação é o objetivo de cada dom. A fé é a atitude daquele que “não duvida no seu coração, mas acredita que isso vai acontecer” (Mc 11,23), pois Deus quer nos salvar. Quem tem fé,  precisa orar e quem ora precisa acreditar. A fé nos faz disponíveis para que a graça de Deus possa operar na nossa vida a fim de que sejamos reflexos de Deus para os demais.


Mas o evangelho de hoje não termina apenas com o convite de Jesus para nossa oração seja cheia de fé e sim termina com o convite à caridade fraterna, sobretudo, o perdoa das ofensas: “Quando estiverdes rezando, perdoai tudo o que tiverdes contra alguém, para que vosso Pai que está nos céus também perdoe os vossos pecados”.  Uma das petições no Pai Nosso que rezamos diariamente é o pedido do perdão ao Pai porque nós perdoamos aos outros que nos ofenderam.


A partir do texto do evangelho de hoje é preciso que nos perguntemos:


1). Será que nossa vida igual à figueira no evangelho de hoje: cheia de filhas (exterioridade), mas não produzimos algo de bom para a convivência? Será que por fora ou para fora aparentemente estamos bem (cheios de “folhas”), mas por dentro somente há podridão (esterilidade total)?


2). Muitos dirigentes exploram o templo para se enriquecer materialmente. O que nos motiva a procurarmos a Igreja? Esperamos algo da Igreja ou a Igreja espera algo de nós? O que contribuímos para a Igreja de Cristo a qual pertencemos?


3). Será que na nossa oração diária, a pedido de Jesus Cristo, oferecemos o perdão aos que nos ofenderam e pedimos o perdão aos que ofendemos? “Quando estiverdes rezando, perdoai tudo o que tiverdes contra alguém, para que vosso Pai que está nos céus também perdoe os vossos pecados”. 


P. Vitus Gustama,svd

sábado, 21 de maio de 2016


CORPUS CHRISTI- 26/05/2016

CORPUS CHRISTI

 


Primeira Leitura: Gn 14,18-20


18 Naqueles dias, Melquisedec, rei de Salém, trouxe pão e vinho e, como sacerdote do Deus Altíssimo, 19abençoou Abrão, dizendo: “Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, criador do céu e da terra! 20Bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou teus inimigos em tuas mãos!” E Abrão entregou-lhe o dízimo de tudo.


Segunda Leitura: 1Cor 11,23-26


Irmãos: 23 O que eu recebi do Senhor foi isso que eu vos transmiti: Na noite em que foi entregue, o Senhor Jesus tomou o pão 24 e, depois de dar graças, partiu-o e disse: “Isto é o meu corpo que é dado por vós. Fazei isto em minha memória”. 25 Do mesmo modo, depois da ceia, tomou também o cálice e disse: “Este cálice é a nova aliança, em meu sangue. Todas as vezes que dele beberdes, fazei isto em minha memória”. 26 Todas as vezes, de fato, que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, estareis proclamando a morte do Senhor, até que ele venha.


Evangelho: Lc 9, 11b-17


Naquele tempo, 11b Jesus acolheu as multidões, falava-lhes sobre o Reino de Deus e curava todos os que precisavam. 12 A tarde vinha chegando. Os doze apóstolos aproximaram-se de Jesus e disseram: “Despede a multidão, para que possa ir aos povoados e campos vizinhos procurar hospedagem e comida, pois estamos num lugar deserto”. 13 Mas Jesus disse: “Dai-lhes vós mesmos de comer”. Eles responderam: “Só temos cinco pães e dois peixes. A não ser que fôssemos comprar comida para toda essa gente”. 14 Estavam ali mais ou menos cinco mil homens. Mas Jesus disse aos discípulos: “Mandai o povo sentar-se em grupos de cinquenta”. 15 Os discípulos assim fizeram, e todos se sentaram. 16Então Jesus tomou os cinco pães e os dois peixes, elevou os olhos para o céu, abençoou-os, partiu-os e os deu aos discípulos para distribuí-los à multidão. 17 Todos comeram e ficaram satisfeitos. E ainda foram recolhidos doze cestos dos pedaços que sobraram.

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Ao celebrar o Corpus Christi na Quinta-feira, recordamos a Quinta-feira Santa, dia da Instituição da Eucaristia. Ambos os dias tem um objetivo similar, mas não são um simples duplicado. O Corpus Christi nos proporciona uma segunda oportunidade para ponderar o mistério da Eucaristia e considerar seus vários aspectos. O Corpus Christi nos convida a manifestarmos nossa e devoção a este sacramento que é o sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade (e fraternidade), banquete pascal no qual o Corpo de Cristo é o nosso verdadeiro alimento, pois ele é o Pão da Vida eterna que nos plenifica com a graça de Deus.


O que distingue a festa de hoje é a procissão. É o mais exterior nesta festa e é também mais distintivo. Mas quando o exterior nasce de dentro é também a manifestação de seu núcleo interior. Por isso, podemos meditar o mistério desta festa a partir da procissão. Procissão na sua etimologia latina significa “ir adiante”, “adiantar-se”.


É importante enfatizar a íntima conexão que existe entre a missa e a procissão. A procissão é o prolongamento da missa e por isso não deve ser considerada separada. A procissão é uma ação de graças mais ampla. Toda devoção eucarística deve partir da missa e conduzir novamente a ela.


A Hóstia consagrada levada em procissão é o Pão vivo e Doador da vida: “Eu sou o Pão da Vida”, disse Jesus. Com razão recebe culto público e sua finalidade principal é ser recebida como alimento espiritual para nos unir com Cristo e nos associar a seu sacrifício, isto é, ao receber o Pão da Vida devemos ser vida para os outros. Somos alimentados com o Pão da Vida para que sejamos vida para os outros.


A procissão do Corpus Christi teve sua origem no último terço do século XIII. A partir do século XV se tornou geral.


A procissão brotou do costume mais geral das procissões do campo. Nessas procissões o homem recorre a terra onde se desenvolve sua existência, santificando-a e introduz o “santoem seu mundo (desde as relíquias da Igreja até o “santíssimo”).


O homem na procissão delimita o espaço onde se realiza sua existência; e o espaço aberto se converte em igreja, o sol em luz do altar, o ar fresco forma um coro com os cantos dos pássaros e os homens se convertem em caminhantes alegres. Assim a procissão representa visivelmente o movimento dos homens até seu fim através dos lugares de sua existência. E a presença do Santo sustenta este movimento.


Com isso chegamos ao sentido da festa de Corpus Christi, ao sentido da Eucaristia. Certamente, este sacramento alcança seu sentido pleno quando é recebido. Quando o conservamos em nossos altares e o levamos através da terra onde se desenvolve nossa vida, é para mostrar que este sacramento continua sendo o alimento que somente nos apropriamos totalmente quando o degustamos: “Tomai todos e comei. Isto é o meu Corpo que é vos entregue!”.


Que sentido tem a procissão de Corpus Christi? Ela nos faz descobrir que somos peregrinos sobre a terra; não temos aqui pátria permanente. Andamos pelo espaço e o tempo, estamos sempre em caminho e buscamos nossa pátria própria e eterna. Santo Agostinho dizia: “Gostes ou não, não és mais que um peregrino neste mundo. Podes, pois, adoçar teu caminho; porém, por mais que queiras, não poderás converter-te em residente” (In ps. 120,14). Nessa peregrinação somos aqueles que devem deixar-se transformar porque ser homem significa deixar-se transformar. A perfeição se alcança transformando-se e formando-se permanentemente.


Nossa temporalidade e os distintos lugares onde se desenvolve nossa existência se manifestam através de uma procissão, de uma marcha. Mas esta marcha não é a marcha de uma manada. Uma procissão é um movimento dos que se sentem verdadeiramente unidos; é uma peregrinação durante a qual os peregrinos se dão as mãos para que o outro continue em nessa peregrinação. É ser irmão e irmã da jornada. É um movimento que leva consigo o Santo, o Eterno, que tem consigo a tranqüilidade do movimento e a unidade dos que se movem. Através da Procissão de Corpus Christi queremos manifestar publicamente que o Senhor da história e deste êxodo santo do desterro para a pátria eterna, vai conosco; é uma marcha eterna, uma procissão que tem verdadeiramente uma meta diante de si e consigo. Nesta marcha levamos o Corpo santo que foi entregue por nós para a remissão de nossos pecados. A cruz do calvário vem conosco. Temos sempre conosco o Crucificado ressuscitado na marcha através de nosso tempo. Por meio desta procissão, que tem consigo o Crucificado, confessamos que somos pecadores, mas andando com o Doador da vida, viveremos na graça santificante. Por isso, a procissão nos fala da presença permanente da reconciliação nos caminhos de nossa vida. A procissão nos diz que Deus vai conosco; Ele, a reconciliação, Ele, o amor e a misericórdia. Ele que nos acompanha, Ele que nos persegue ainda que caminhemos por caminhos tortuosos e percamos a direção. Ele, que busca no deserto a ovelha perdida e corre ao encontro do filho pródigo. Ele vai conosco na peregrinação de nossa vida, Ele que recorreu por si mesmo todas as ruas e estradas desde o nascimento até a morte. Ele, com misericórdia de seu coração, com a experiência de uma vida completa de homem, paciente e misericordioso. Ele, a salvação e a reconciliação de nossos pecados, levamos o sacramento através das ruas ou campos ou desertos de nossa vida e confessamos e cremos: estamos bem acompanhados na nossa peregrinação, pois o Senhor caminha conosco. Estamos bem acompanhados por Aquele que com sua companhia pode fazer todos os caminhos retos. Através da Procissão queremos confessar que nós, peregrinos nesta terra levamos nas mãos Aquele que é o Começo e o Fim, o Alfa e o Ômega de nossa vida. Através da Procissão queremos professar que a divindade e a humanidade estão unidas indissoluvelmente. Levamos conosco o Corpo glorioso em que o mundo começou a ser glorificado. O Eterno, o Definitivo, o próprio Deus está conosco. Neste momento misterioso tempo e eternidade, terra e céu, Deus e homem começa a penetrar-se. Se você tiver consciência de tudo isso, sua vida vai começar a mudar e a se transformar e você ganhará cada vez mais força mais do que suficiente para começar sua vida com Deus.


Levamos o Corpo do Senhor em procissão e com isso expressamos que todos somos um, que todos vamos pelo mesmo caminho, o único caminho de Deus e de sua eternidade. As mesmas forças da vida eterna operam em todos nós, o único amor divino é nossa participação, participação que nos vincula mais profunda e interiormente.


Se o Senhor anda conosco, simbolizado pela procissão, então, não podemos ter mais medo de nada para avançar no bem; não podemos perder mais tempo para começar de novo, para formar-se. Se a vida é uma peregrinação com o Senhor não é permitido ficar parado e paralisado. Caminhar com o Senhor tudo será aberto apesar dos aparentes muros de desafio.


Nós nos reunimos frequentemente para celebrar a Eucaristia em nome de Jesus, em Sua memória. Nós o fazemos sempre por seu encargo para recordar o que Jesus fez e disse a fim de que possamos também fazer a mesma coisa. Jesus entregou sua vida por amor para que todos fossem salvos. Em cada Eucaristia celebramos o amor de Deus, que nos amou até a morte. Por isso, precisamos fazer do amor de Deus um modelo para nosso amor ao próximo.


Ao celebrar a Eucaristia não podemos perder a memória de Jesus, sua lição e seu exemplo de vida para não ficarmos presos apenas nos ritos.  Temos que recuperar a memória de Jesus para que nossa missa deixe de ser um rito vazio, mas volte a ser um sacramento de salvação. Temos que recuperar a memória de Jesus para recordar tudo o que ele fez e disse, para não mutilar o evangelho nem desfigurar imagem cristã, nem converter a missa em uma bagatela, como convertemos a caridade em esmola. Temos que recuperar a memória de Jesus para compreender que a Quinta-Feira Santa e a Sexta-Feira Santa são inseparáveis, como são unidas a missa e a missão, o amor de Deus e o amor ao próximo.


Por isso, devemos compreender que a missa não se termina com a missa, e sim com a missão. Isto quer dizer que não vamos à missa para ir à missa. Mas que a missa, é de uma parte, a expressão de nossa fé, de nossa esperança e de nossa caridade. Mas de outra parte, a missa é sempre um imperativo, uma exigência para fazer operativa nossa fé, nossa esperança e nossa caridade. Por isso, quando finaliza o rito, começa a realidade na vida; quando termina a reunião eclesial, deve começar nosso compromisso cristão; quando termina a missa, deve começar a missão. Se não a missa careceria de sentido. “Fazei isto em minha memória!”, Jesus nos relembra.


Jesus derramou até a última gota de seu sangue na cruz por amor a nós todos. Pela comunhão do pão e do vinho, do Corpo e do Sangue do Senhor, nós nos incorporamos a Cristo e a sua Igreja e nos convertemos em filhos de Deus. A Eucaristia é como uma transformação, porque é uma transfusão do sangue, da vida, do espírito de Cristo em nós. Entramos assim em sua missão e em sua causa.


Os primeiros cristãos tomavam muito a sério o que celebravam na Eucaristia, por isso, viviam como irmãos e não havia entre eles pobres, nem marginalizados porque tudo o punham em comum. A celebração da Ceia do Senhor era para eles um memorial indelével do amor de Deus e um estímulo irresistível da solidariedade com os irmãos.  Por isso, celebrar e participar da Eucaristia, da missa é para aumentar nosso amor, nossa solidariedade, nossa unidade e nossos esforços pela justiça. Trabalhar pela justiça é o modo de amar aos irmãos, porque a justiça é o passo prévio para o amor, ou o primeiro passo do amor.


“Enquanto estavam comendo, Jesus tomou o pão, pronunciou a bênção, partiu-o e lhes deu, dizendo: “Tomai, isto é o meu corpo” (Mc 15,22). 


Jesus Cristo sabe o que é o pão para o homem. É fundamental.  Ao mesmo tempo, ele adverte que “não somente do pão o homem vive”. Mas muitos se empenham em viver somente do pão. Nesta busca exclusiva do pão, o homem se fecha em seu próprio egoísmo e começou a desconhecer os demais homens, que aparecem em seu horizonte apenas como competidores. Consequentemente, instalam-se no mundo a fome e a morte. Milhares são vítimas desse fenômeno chamado de egoísmo.


Ao comungar o Corpo e o Sangue do Senhor crescem, em cada comungante, a união com Deus, a harmonia interior, e a comunhão com o próximo. E cada comungante se trona sinal e fator da união e da unidade, da comunhão e da fraternidade. O estilo de vida dos cristãos, discípulos missionários de Jesus deve ser o estilo eucarístico: viver na comunhão e viver fazendo o bem como Jesus fez (At 10,38). Comungar o Corpo do Senhor significa viver aquilo que ele viveu, fazer aquilo que ele fez. Ele viveu tudo por amor e fez tudo por amor. O amor transforma tudo em obra prima. Sem o amor tudo se transforma em exibicionismo e tudo se torna uma manifestação da vaidade. O vaidoso normalmente exagera tudo, até os problemas.

Se há divisão ou desunião é porque existe o causador de tudo isto: o pecado. O pecado rompe qualquer relacionamento saudável com Deus, com o próximo e com a natureza. “A divisão fere a própria integridade humana, desfigura a unidade dos seres humanos como Deus quis ao criá-los”, diz o texto base do Congresso. É preciso que façamos sempre o exame de consciência antes que o pecado tome conta de nossa vida, de nossa comunidade e de nossa Igreja. É preciso que seja lembrado o desejo de Jesus para todos: “Para que todos sejam um, assim como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, para que também eles estejam em nós e o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17,21).



Hoje é o Dia do Pão por excelência em que poderíamos muito bem nos perguntar seriamente qual é o pão que perseguimos e que efeito produz em nós disso tudo, e o que significa para nós comungar o Corpo do Senhor, o Pão da Vida?


Hoje é um dia especialmente apto para revisarmos nossas comunhões, para ver até que ponto essas comunhões são um rito, carente de virtualidade, que nos deixa estáticos e sem nenhuma classe de compromisso pessoal com Deus e com os irmãos.


MISSA

René Juan Trossero


A Missa é uma REUNIÃO fraternal.

Pena que nos juntemos tantas vezes

Sem nos encontrar realmente.


A Missa é um MEMORIAL.

Pena que, com tanta facilidade,

Esqueçamos o que nele lembramos.


A Missa é uma FESTA.

Pena que nós vivamos tão pouco festivamente.


A Missa é uma OFERTA.

Pena que nós vamos mais

Para buscar algo do que para nos entregar


A Missa é um SACRIFÍCIO.

Pena que nos ajoelhemos diante do Pão consagrado

E não façamos a mesma coisa diante do irmão que o come.


A Missa é uma COMIDA.

Pena que nem sempre sintamos “fome de justiça”!


A Missa é uma PÁSCOA.

Pena que nos custe tanto nos convertermos e “passarmos” do ódio e da indiferença para o amor fraterno.


Se alguma vez forem nos cobrar satisfações,

Não será tanto por termos faltado à missa,

Mas por termos estado tantas vezes na missa,

Sem que nada tivesse mudado em nossa vida.

P. Vitus Gustama,svd
25/05/2016




VIVER COMO RESGATADOS DE DEUS SERVINDO O IRMÃO NO AMOR FRATERNO


Quarta-Feira da VIII Semana Comum


Primeira Leitura: 1Pd 1,18-25


Caríssimos, 18 sabeis que fostes resgatados da vida fútil herdada de vossos pais, não por meio de coisas perecíveis, como prata ou o ouro, 19 mas pelo precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem mancha nem defeito. 20 Antes da criação do mundo, ele foi destinado para isso, e neste final dos tempos, ele apareceu, por amor de vós. 21 Por ele é que alcançastes a fé em Deus. Deus o ressuscitou dos mortos e lhe deu a glória, e assim, a vossa fé e esperança estão em Deus. 22 Pela obediência à verdade, purificastes as vossas almas, para praticar um amor fraterno sem fingimento. Amai-vos, pois, uns aos outros, de coração e com ardor. 23 Nascestes de novo, não de uma semente corruptível, mas incorruptível, mediante a palavra de Deus, viva e permanente. 24 Com efeito, “toda a carne é como erva, e toda a sua glória como a flor da erva; secou-se a erva, cai a sua flor. 25 Mas a palavra do Senhor permanece para sempre”. Ora, esta palavra é a que vos foi anunciada no Evangelho.


Evangelho: Mc 10, 32-45


Naquele tempo, 32 os discípulos estavam a caminho, subindo para Jerusalém. Jesus ia na frente. Os discípulos estavam espantados, e aqueles que iam atrás estavam com medo. Jesus chamou de novo os Doze à parte e começou a dizer-lhes o que estava para acontecer com ele: 33 “Eis que estamos subindo para Jerusalém, e o Filho do Homem vai ser entregue aos sumos sacerdotes e aos doutores da Lei. Eles o condenarão à morte e o entregarão aos pagãos. 34 Vão zombar dele, cuspir nele, vão torturá-lo e matá-lo. E depois de três dias ele ressuscitará”. 35 Tiago e João, filhos de Zebedeu, foram a Jesus e lhe disseram: “Mestre, queremos que faças por nós o que vamos pedir”. 36 Ele perguntou: “Que quereis que eu vos faça?” 37 Eles responderam: “Deixa-nos sentar um à tua direita e outro à tua esquerda quando estiveres na tua glória!” 38 Jesus então lhes disse: “Vós não sabeis o que pedis. Por acaso podeis beber o cálice que eu vou beber? Podeis ser batizados com o batismo com que vou ser batizado?” 39 Eles responderam: “Podemos”. E ele lhes disse: “Vós bebereis o cálice que eu devo beber, e sereis batizados com batismo com que eu devo ser batizado. 40 Mas não depende de mim conceder o lugar à minha direita ou à minha esquerda. É para aqueles a quem foi reservado”.  41 Quando os outros dez discípulos ouviram isso, indignaram-se com Tiago e João. 42 Jesus os chamou e disse: “Vós sabeis que os chefes das nações as oprimem e os grandes as tiranizam. 43 Mas entre vós, não deve ser assim: quem quiser ser grande, seja vosso servo; 44 e quem quiser ser o primeiro, seja o escravo de todos. 45 Porque o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate para muitos”.
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Somos Preciosos Porque Resgatados Pelo Precioso Sangue De Cristo


Sabeis que fostes resgatados da vida fútil herdada de vossos pais, não por meio de coisas perecíveis, como prata ou o ouro, mas pelo precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem mancha nem defeito” (1Pd 1,18-19).


São Pedro na Sua Primeira Carta, de onde tiramos a Primeira Leitura de hoje, quer nos relembrar a seriedade de Deus em tratar a vida humana. Deus não mede o esforço para resgatar o homem mesmo que este se encontre numa situação sem saída. Deus sempre tem saída para tudo, desde que obedeçamos aos seus mandamentos, a exemplo de Cristo. Nenhum homem seria capaz de sacrificar, de propósito, o próprio filho para salvar outras pessoas. Mas Deus é diferente: Ele é capaz de tudo por amor ao homem (cf. Jo 3,16). Ele oferece seu próprio Filho em resgate do homem de um estado de escravidão caracterizado nesta Carta como “a vã conduta de vossos antepassados” ou “a vida fútil herdada de vossos pais”.


Por causa deste resgate, o cristão não pertence mais ao mundo pecaminoso, pois o mundo de Deus se torna sua verdadeira pátria. Aqui na Terra o cristão é um forasteiro. A palavra “forasteiro” em grego é “paroikia” que indica os estrangeiros residentes sem direito de cidadania (cf. Sb 19,10; Sl 118 [119],19).


Consequentemente, devemos tratar e respeitar com seriedade nossa vida e a vida dos outros, porque ela é preciosa demais para ficarmos desesperados diante de algumas dificuldade. O sangue de Cristo é o preço de nossa vida. Trata-se de um preço incalculável. Respeitar a vida e tratar com carinho nossa vida e a vida alheia é uma expressão de nosso temor reverencial ao Deus da vida em quem acreditamos e com quem estaremos em comunhão eternamente. Trata-se de um temor reverencial diante da grandeza de Deus. Nossa vida é avaliada por Deus de acordo com seu justo valor. Essa convicção deve orientar nossa vida diária e nosso comportamento perante a vida. Temos uma grande responsabilidade sobre nossa vida e a vida dos outros. Somos encarregados a cuidar da vida em todos os seus instantes, pois sabemos de seu valor: ela é sagrada e por isso, é preciosa.


Por Pertencer Ao Mundo De Deus Somos Chamados A Viver O Amor Fraterno


“Pela obediência à verdade, purificastes as vossas almas, para praticar um amor fraterno sem fingimento. Amai-vos, pois, uns aos outros, de coração e com ardor”. (1Pd 1,22).


No NT a palavra “purificação” deve ser entendida como uma purificação moral e religiosa. Por isso, trata-se de uma acontecimento dentro do ser humano. A purificação neste sentido sempre implica a introdução do ser humano num ambiente divino. Se Deus é santo (1Pd 1,16), então para se aproximar dele o homem deve se purificar. Mas trata-se de uma purificação total. Por isso, se usa o termo “alma”: “Purificastes as vossas almas”. É um termo usado em acepção semítica para indicar o homem todo.


Para que a purificação possa acontecer Deus e o homem devem estar em sintonia. Por um lado, a purificação é considerada um ato do homem, isto é, ele tem que sair do estado impuro para o mundo divino. Mas o primeiro e o principal autor da purificação é o próprio Deus. Sem a misericórdia divina o esforço do homem ficará em vão.


A purificação é uma consequência da obediência à verdade. A “verdade” aqui, como nos escritos joaninos, significa a realidade divina manifestada neste mundo. A verdade é a vontade salvífica de Deus que se revelou em Jesus Cristo e opera na mensagem evangélica.


Essa obediência à verdade deve ser concretizada na vida cotidiana num amor fraterno sem fingimento. É um amor pelos irmãos na fé. O amor fraterno faz parte da fé no Deus de amor (cf. 1Jo 4,8.16). Se pela resgate através do precioso sangue de Cristo o homem se torna membro do mundo divino, logo seus atos cotidianos devem refletir o mundo divino: todos são filhos e filhas preciosos do mesmo Pai do céu. O amor fraterno deve ser meta da vida diariamente de cada cristão e animar sua vida de cristão. Esse amor deve ser sincero, isto é, de coração, sem fingimento. Deus não faz fingimento. Quem está no mundo de Deus não pode nem deve viver o amor fraterno no fingimento.


A vivência no amor fraterno é o fruto da observância da Palavra de Deus. Por pertencer ao mundo de Deus, o cristão vive de acordo com a Palavra de Deus. E a Palavra de Deus é viva e vivificadora. Quem vive de acordo com a Palavra de Deus participa na força vital de Deus. Isto significa que a Palavra de Deus não apenas anuncia a vida, mas também opera a vida.


Jesus Que Está Na Frente de Nossa Caminhada Nos Chama Continuamente a Segui-Lo (Mc 10,32-34)


O texto do evangelho de hoje nos diz que Jesus e os seus discípulos “estavam a caminho”. E a meta desta caminhada é explicitamente mencionada: Jerusalém (11,11). Sem dúvida, Jesus já visitou Jerusalém várias vezes, mas somente desta vez ele a visitou como Messias. E Jesus é descrito como uma pessoa que está marchando determinadamente para seu destino: “Estavam a caminho para subir a Jerusalém” (v.32). Com a descrição de “estar a caminho”, Marcos quer nos dizer que seguir a Jesus significa colocar-se em marcha e andar atrás de Jesus, pois quem anda na frente de Jesus, se perde ou fica desorientado. Trata-se de um caminhar no qual há avanços e retrocessos, clarezas e obscuridades.


O texto também nos relata que Jesus vai à frente dos discípulos (v.32b). O verbo usado aqui por Marcos é  “ir à frente”. Este “ir à frente” servirá para expressar a promessa da ressurreição: Jesus Ressuscitado irá novamente à frente dos discípulos, como guia e pastor, na Galiléia (14,28; 16,7). A imagem de Jesus que “vai à frente” é a imagem do Servo que se entrega. É o cumprimento daquilo que lemos no quarto canto do Servo de Deus: “Se ele oferece a sua vida como sacrifício pelo pecado, certamente verá uma descendência, prolongará os seus dias” (Is 53,10). Trata-se de um anúncio de morte, mas cheio de esperança, pois fala-se da ressurreição. 


Podemos ver também neste “ir à frente” de Jesus uma mensagem de esperança e de certeza para quem acredita em Jesus. Para tudo de bom que fazemos e queremos fazer Jesus abre o caminho apesar das “subidas” que nos fazem perdermos fôlego. Mas tendo consciência de que Jesus está andando na nossa frente, ganharemos novas forças ou renovaremos nossas forças para continuar a acompanhar Jesus no seu caminho de salvação. O Jesus na frente nos chama continuamente para caminhar sem desistência e sem desânimo apesar de nossos medos e fraquezas: “Os discípulos estavam espantados, e aqueles que iam atrás estavam com medo” (Mc 10,32b).


2. Ambição Pelo Poder Obscurece o Seguimento e Mata o Espírito de serviço (Mc 10,35-45)


Apesar de Jesus estar na nossa frente não faltam tentações de desviarmos do Seu caminho. Uma dessas tentações é a ambição pelo poder mundano. Uma pessoa com a ambição viciada pelo poder é capaz de recorrer à violência para alcançar seu objetivo. Este tipo de pessoa não se preocupa em ser justo. Ele não suporta competidores nem rivais e tenta eliminá-los de qualquer maneira. Poder é uma palavra mágica que encanta, arruína e corrompe a tantos mortais. Os que são viciados pelo poder manipulam e oprimem, especialmente, os débeis: “Vós sabeis que os chefes das nações as oprimem e os grandes as tiranizam”. Quanta atualidade nesta imagem! Quanta tristeza se muitos deles presumem de ser cristãos.


Depois que os discípulos ouviram o terceiro anúncio da Paixão, novamente, como depois do segundo, surge uma discussão entre os discípulos sobre o primeiro posto, sobre a preeminência na comunidade. Para os discípulos esta discussão lhes importava. Eles estão como que cegos para enxergar o caminho trilhado por Jesus e que eles devem trilhar também como discípulos do Senhor: “Mestre, deixa-nos sentar um à tua direita e outro à tua esquerda quando estiveres na tua glória!”.


Seguir a Jesus, fazer-se servo como Jesus se torna difícil quando entra na vida de qualquer cristão a sede pelo primeiro posto, pelo poder como poder, não como serviço entendido como doação de si mesmo aos demais até o sacrifício total da própria vida a exemplo de Jesus.


 “Na sua glória”, glória (doxa) como em 8,38 e 13,26. Os dois irmãos são motivados mais pela ambição egoísta do que pela idéia clara sobre o que eles querem: “Vós não sabeis o que estais pedindo” (38b). Eles não sabem “o que estão pedindo” (v.38), mas “sabem” de que modo a classe dirigente age (v.42). Os dois pensam no prêmio e não no caminho. Além disso, seu pedido egoísta por uma alta posição mostra que eles continuam concentrados mais em sua grandeza pessoal do que no serviço humilde para qual Jesus chamou os Doze (9,33-50).


É uma ocasião apropriada para Jesus transmitir lição sobre discipulado (42-45): “Entre vocês não deverá ser assim...”. Em seguida ele propõe um outro tipo de autoridade, que é o antipoder, mediante imagens e modelos sociais inequívocos para seu tempo e o ambiente antigo: o servo (diakonos: pessoa que serve à mesa) e o escravo (doulos: pessoa na situação mais baixa do que um servidor). Quem “serve à mesa” e, mais ainda, quem é “escravo de todos” tem como preocupação principal o atender às necessidades dos outros. 


Quando a Igreja é fiel a este modelo, a sua vida comunitária reflete a própria vida de Jesus (cf. Fl 2,5-11). Assim, a Igreja se torna uma presença profética no mundo, e tem força para denunciar estruturas injustas e o uso do poder para dominar e tiranizar, da mesma forma que Jesus o fazia naquela sociedade na qual vivia. Por isso, como é triste quando cristãos se esquecerem desta exigência de Jesus na vida familiar ou na comunidade; ou silenciam diante de injustiças na sociedade e compactuam com um poder dominador. A grandeza dos cristãos-discípulos está na capacidade de servir e na dedicação ao serviço. O essencial para qualquer autoridade ou responsável na comunidade cristã é que ele seja mais servo do que chefe: um servidor de Deus e das pessoas para que todos cresçam no amor e na verdade.


Em nosso íntimo, infelizmente, existe um pequeno tirano que quer o poder e prestígio e que se agarra a isso; quer dominar, ser superior, controlar. Teme qualquer crítica, qualquer controle: é o único a ter razão, mandando tudo e em tudo, conservando ciosamente seu poder de quere dominar. “Quem quiser ser grande, seja vosso servo; e quem quiser ser o primeiro, seja o escravo de todos” é o recado permanente de Jesus para todos nós.


“O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate para muitos”, concluiu Jesus no evangelho de hoje. São palavras bem pensadas que manifestam com que consciência Jesus vai ao encontro de seu destino. Este estilo de vida é que dá a Jesus o sentido de sua morte. O texto diz: “Como resgate para muitos”. Jesus se vê como o “Justo Sofredor” cuja morte-martírio se converte em sacrifício de salvação para todos. Jesus me resgatou sacrificando-se. Jesus me salvou oferecendo sua vida como resgate. De que maneira eu posso “resgatar” meu próximo? Sou capaz de me sacrificar para que o próximo possa viver?
 
P. Vitus Gustama,svd