sábado, 4 de junho de 2016

06/06/2016





SER FELIZ NO CRITÉRIO DE JESUS


Segunda-Feira da X Semana Comum


Primeira Leitura: 1Rs 17,1-6


Naqueles dias, 1 o profeta Elias, tesbita de Tesbi de Galaad, disse a Acab: “Pela vida do Senhor, o Deus de Israel, a quem sirvo, não haverá nestes anos nem orvalho nem chuva, senão quando eu disser!”  2 E a palavra do Senhor foi dirigida a Elias nestes termos: 3 “Parte daqui e toma a direção do oriente. Vai esconder-te junto à torrente de Carit, que está defronte ao Jordão. 4 Lá beberás da torrente. E eu ordenei aos corvos que te deem alimento”. 5 Elias partiu e fez como o Senhor lhe tinha ordenado, e foi morar junto à torrente de Carit, que está defronte do Jordão. 6 Os corvos traziam-lhe pão e carne, tanto de manhã como de tarde, e ele bebia da torrente.


Evangelho: Mt 5,1-12


Naquele tempo: 1 Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-se. Os discípulos aproximaram-se, 2 e Jesus começou a ensiná-los: 3 “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus. 4 Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados. 5 Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra. 6 Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão sa­ciados. 7 Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. 8 Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. 9 Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. 10 Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. 11 Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e, mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim. 12 Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus. Do mesmo modo perseguiram os profetas que vieram antes de vós.
__________________


Entre Providência e Avareza Humana


Durante alguns dias leremos as leituras do Antigo Testamento na segunda parte do Livro dos Reis. Este período da história do povo de Deus dura três séculos: do ano 935 a.C, ano do cisma entre o Reino Norte e Sul, até o ano 586, ano da destruição de Jerusalém pelo rei Nabuconosor.  Neste período há a decadência humana e religiosa do povo de Deus: a idolatria, as divisões, as injustiças sociais arruínam lentamente as relações humanas no seio do povo de Israel e se torna presa fácil dos grandes impérios vizinhos.


Durante este período surgem os profetas que intervém como defensores da fé no Deus único (monoteísmo) e da justiça social: Elias, Eliseu, Isaias, Amós.


A primeira Leitura de hoje nos relatou: “Naqueles dias, o profeta Elias disse a Acab: “Pela vida do Senhor, o Deus de Israel, a quem sirvo, não haverá nestes anos nem orvalho nem chuva, senão quando eu disser!”.


O rei Acaba é um dos reis que se aproveitam do poder para se enriquecer, explorando o povo simples. Enquanto seus súditos vivem na miséria, sob o jugo de impostos demasiado onerosos, Acab vive na mordomia. Além do mais, Acaba construiu um templo  para Baal e obriga seus súditos a fazer culto idolátrico.


O profeta Elias se apresenta diante do rei Acab proclamando a soberania do Deus de Israel (Javé) sobre a natureza. Somente o Deus da Israel é o Deus verdadeiro, o único que pode dar a chuva e tirá-la. Por isso, Elias, o profeta de Deus pode anunciar um período de seca de dois anos. As palavras de Elias seguramente provocam a fúria do rei Acab. E Elias, pela ordem do Senhor, se esconde e o próprio Deus vai garantir sua subsistência: “Parte daqui e toma a direção do oriente. Vai esconder-te junto à torrente de Carit, que está defronte ao Jordão. Lá beberás da torrente. E eu ordenei aos corvos que te deem alimento”.


Duas lições que podemos tirar da Primeira leitura. Primeira lição, a providência divina existe e está aberta para quem acredita firmemente em Deus a exemplo do profeta Elias. Deus salva. E salvar é criar e recriar continuamente. Somos fruto do amor de Deus. O Criador poderia contentar-se com dar existência às coisas, abandonando-as a sua sorte. Mas Deus que gera vida por amor continuará amando o que ele gerou, pois ali persiste de alguma maneira sua própria vida. Na criação por amor, a vida é chamada a ser tão duradoura como o amor que a gerou, pois o amor não abandona aquele que ele gerou; seria como abandonar-se a si mesmo. Tudo isto simplesmente chama-se de A PROVIDENCIA DIVINA.


A segunda lição é o perigo da avareza encarnada na vida do rei Acab e sua esposa. Sabemos muito bem que por natureza o ser humano procura apropriar-se das coisas no intuito de usá-las para vida durante sua passagem neste mundo. É uma aspiração legítima. Mas se a cobiça dos bens materiais for exagerada, se for excessivo o apego a eles, os bens materiais deixarão seu caráter de meio. Consequentemente, o ser humano deste tipo não estará mais exercendo um direito e sim será vítima de um vício hediondo chamado a AVAREZA. A avareza é um desvio do significado de infinito para o finito, é uma transposição do absoluto para o relativo. Não podemos nos esquecer que todos os bens materiais que adquirimos aqui neste mundo, vão ficar aqui neste mundo. E tudo que tem o caráter divino: amor, bondade, solidariedade, hospitalidade, compaixão etc. (cf. Mt 25,31-45), será levado para a eternidade, pois será reconhecido pelo próprio Deus. Podemos entender aquilo que Jean de La Fontaine dizia: "A avareza perde tudo ao pretender ganhar tudo."  Ou nas palavras de Plutarco: "A avareza é um tirano bem cruel; manda ajuntar e proíbe o uso daquilo que se junta; visita o desejo e interdiz o gozo". O avarento vive como pobre e morre como rico.


Somos Chamados a Ser Felizes


O texto lido no evangelho de hoje é o início do Sermão da Montanha (Mt 5-7). O texto do evangelho deste dia é conhecido com as Bem-aventuradas. Através destas bem-aventuranças logo percebemos que o projeto de Jesus para os homens é a felicidade. Jesus quer que todos sejam felizes. As bem-aventuranças são descrições das qualidades que devem ser encontradas na vida dos que se submetem à soberania de Deus. Elas são também uma declaração das bênçãos ou uma proclamação da felicidade (não só promessas da felicidade) que já experimentam em parte e que irão gozar mais plenamente na vida futura todos os que revelem tais virtudes. As bem-aventuranças refletem a própria experiência, perpassada pelo sofrimento e pela perspectiva da cruz. Jesus é, por isso, garantia e modelo da existência feliz.


Quais são pessoas declaradas felizes por Jesus e por quê?


Jesus declara felizes àqueles que mantêm viva a confiança em Deus apesar de serem indefesos, oprimidos, marginalizados e perseguidos por causa do bem praticado e do amor vivido até o fim.


Os felizes são os que têm coração pobre, um coração centrado em Deus e que se traduz no amor ao próximo e que rejeitam toda espécie de idolatria. Os pobres em espírito são aqueles se submetem interiormente, sem resistência à vontade de Deus. O espírito de humilde submissão à vontade de Deus, nasce da fé inabalável na soberania e na misericórdia de Deus e que se traduz em atitudes e condutas de bondade e de mansidão, de misericórdia e de compaixão, de tolerância e de compreensão na convivência com os outros. Esta atitude de humildade diante de Deus, nascida da fé, se traduz em atitudes e condutas de desapego aos bens materiais, de bondade, de partilha que é a alma do projeto/plano de Deus, e de solidariedade. É ser pobre no espírito, e não é pobre de espírito.


Os felizes são os mansos que por não responderem à violência com violência, mas que estão prontos a perdoar. Jesus declara felizes não os que são mansos por temperamento, mas os que, apesar de não disporem de meios para fazer valer seus direitos, não são violentos nem agressivos, mas pacientes e indulgentes. Eles acreditam que a vida baseada no princípio “olho por olho” só resulta na cegueira, e na cegueira nada se vê. Só escuridão.  O manso aceita o tempo de Deus e a maneira de Deus. Por isso, o manso não é um fraco, mas um crente que tem força da alma. A mansidão é o sinal visível da benevolência e do respeito. Em Cristo encontramos o modelo perfeito da mansidão: “... aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração...” (cf. Mt 11,29).


Os felizes são os indefesos que não têm como defender seus direitos por falta de recursos, mas que esperam somente a intervenção divina. Os felizes são os que não pactuam com a maldade, com a divisão, com a malícia, nem se deixam levar pela lógica da dominação e do autoritarismo. Jesus declara felizes os que estão aflitos(v.5) por experimentarem a ausência da justiça de Deus mas continuam esperando em Deus pois só Ele pode converter a tristeza em alegria e o pranto em canto.


Os felizes são os que têm um coração cheio de misericórdia para com os semelhantes. Um misericordioso é aquele que é capaz de amar até a pessoa que não merece ser amada do ponto de vista humano. Mas por acreditar na misericórdia de Deus, ele sempre quer o bem da mesma. Os misericordiosos são aqueles que, efetivamente, abrem seu coração para os outros e executam gestos concretos para aliviar sua aflição. Os felizes não são os que, por índole natural, têm um coração sensível e sentimentos de compaixão, mas os que fazem gestos concretos de misericórdia, ajudando e servindo os necessitados.


Os felizes são os promotores da paz que procuram criar laços de amizade e banir toda espécie de ódio, ajudar a superar as divisões para que mundo seja cada vez mais fraterno, e mais humano. Santo Agostinho dizia: “ Não basta ser pacífico. É necessário ser promotor da paz. Quem são os pacíficos? Não os pacifistas, mas os promotores da paz. Não basta estar disposto a perdoar ou ignorar os inimigos, é preciso amá-los e ter compaixão por eles. Não odeias aos cegos, mesmo que ames a luz. Da mesma forma, deves amar a paz sem odiar os que fazem guerra”. Aos construtores da paz é feita a promessa solene de que no juízo final lhes será dado o maior de todos os títulos: “Serão chamados filhos de Deus”.


Os felizes são os perseguidos por causa da justiça, por causa do bem que fazem, por viverem retamente. Quem sempre faz o bem, muitas vezes acaba sendo perseguido e crucificado como Jesus. Mas ele é feliz, pois até o fim ele é capaz de dizer sim para o bem e dizer não para o mal. Quem pára de crescer neste espírito das bem-aventuranças, começa a morrer. Quem, ao anunciar o Evangelho, for aplaudido por todos e, sobretudo, pelos donos de poder, pode estar certo de que ele ainda não é o profeta verdadeiro, pois ele deixou de ser o sal da terra para converter-se em adoçante. No caso de perseguição(como também na primeira bem-aventurança), a promessa é formulada no presente: “Deles é o Reino dos céus”. O reino lhes pertence desde agora


Portanto, as bem-aventuranças são uma proclamação de amizade de Deus para as pessoas que participaram do espírito dessas bem-aventuranças e são um programa da vida de cada cristão (vocação á felicidade é para todos), e também são uma celebração da felicidade como dom ou graça presente, como uma realidade já presente e não apenas como algo depois da morte ou uma recompensa futura pela carência na terra. Se entendêssemos as bem-aventuranças somente como uma compensação para depois da morte, elas seriam “ópio do povo”. Em outras palavras, somos felizes já na medida em que pertencemos a Deus no presente que se traduz na vivência da fraternidade universal. Então, também o futuro de Deus nos pertence. A partir daí, o céu é a experiência de compartilhar a alegria, a paz e o amor de Deus na plena capacidade humana e vivida entre os homens.


Será que posso me declarar que sou um dos bem-aventurados na declaração de Jesus?


P. Vitus Gustama,svd

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Domingo,05/06/2016




JESUS É O SENHOR DA VIDA E DA MORTE


X DOMINGO DO TEMPO COMUM “C”


Primeira Leitura: 1Rs 17,17-24


Naqueles dias, 17sucedeu que o filho da dona da casa caiu doente, e o seu mal era tão grave que ele já não respirava. 18Então a mulher disse a Elias: “O que há entre mim e ti, homem de Deus? Porventura vieste à minha casa para me lembrares os meus pecados e matares o meu filho?”.19Elias respondeu-lhe: “Dá-me o teu filho!” Tomando o menino do seu regaço, levou-o ao aposento de cima onde ele dormia, e o pôs em cima do seu leito. 20Depois, clamou ao Senhor, dizendo: “Senhor, meu Deus, até a viúva, em cuja casa habito como hóspede, queres afligir, matando-lhe seu filho?”. 21Depois, por três vezes, ele estendeu-se sobre o menino e suplicou ao Senhor: “Senhor, meu Deus, faze, te rogo, que a alma deste menino volte às suas entranhas”. 22O Senhor ouviu a voz de Elias: a alma do menino voltou a ele e ele recuperou a vida. 23Elias tomou o menino, desceu com ele do aposento superior para o interior da casa, e entregou-o à sua mãe, dizendo: “Eis aqui o teu filho vivo”. 24A mulher exclamou: “Agora vejo que és um homem de Deus, e que a palavra do Senhor é verdadeira em tua boca”.


Segunda Leitura: Gl 1,11-19


11Asseguro-vos, irmãos, que o evangelho pregado por mim não é conforme a critérios humanos. 12Com efeito, não o recebi nem aprendi de homem algum, mas por revelação de Jesus Cristo. 13Certamente ouvistes falar como foi outrora a minha conduta no judaísmo, com que excessos perseguia e devastava a Igreja de Deus 14e como progredia no judaísmo, mais do que muitos judeus de minha idade, mostrando-me extremamente zeloso das tradições paternas. 15Quando, porém, aquele que me separou desde o ventre materno e me chamou por sua graça 16se dignou revelar-me o seu Filho, para que eu o pregasse entre os pagãos, não consultei carne nem sangue 17nem subi, logo, a Jerusalém para estar com os que eram apóstolos antes de mim. Pelo contrário, parti para a Arábia e, depois, voltei ainda a Damasco. 18Três anos mais tarde, fui a Jerusalém para conhecer Cefas e fiquei com ele quinze dias. 19E não estive com nenhum outro apóstolo, a não ser Tiago, o irmão do Senhor.


Evangelho: Lc 7,11-17


Naquele tempo, 11 Jesus dirigiu-se a uma cidade chamada Naim. Com ele iam seus discípulos e uma grande multidão. 12 Quando chegou à porta da cidade, eis que levavam um defunto, filho único; e sua mãe era viúva. Grande multidão da cidade a acompanhava. 13 Ao vê-la, o Senhor sentiu compaixão para com ela e lhe disse: “Não chores!” 14 Aproximou-se, tocou o caixão, e os que o carregavam pararam. Então, Jesus disse: “Jovem, eu te ordeno, levanta-te!” 15 O que estava morto sentou-se e começou a falar. E Jesus o entregou à sua mãe. 16 Todos ficaram com muito medo e glorificavam a Deus, dizendo: “Um grande profeta apareceu entre nós e Deus veio visitar o seu povo”. 17 E a notícia do fato espalhou-se pela Judeia inteira, e por toda a redondeza. (Lc 7,11-17)
____________________


Estamos na seção central da segunda parte do evangelho de Lucas (Lc 6,11-8,56) onde se encontram os ensinamentos e milagres de Jesus. Através desta seção o mistério de Jesus e a dinâmica do Reino que ele prega vão se revelando passo a passo aos seguidores. Nesta seção podemos encontrar materiais bastante diversos: a escolha do grupo dos Doze (Lc 6,12-16), o Sermão da Planície (Lc 6,17-49), duas séries de milagres (Lc 7,1-17; 8,22-56), e uma pequena coleção de parábolas (Lc 8,4-18). E tudo isto faz parte ainda da atividade de Jesus na Galileia (Lc 4,19-9,50).


O relato da “ressurreição” do filho da viúva de Naim se encontra apenas no evangelho de Lucas. E Lucas se inspirou nas narrativas de milagres dos profetas Elias e Eliseu (1Rs 17,17-24; 2Rs 4,17-22.32-37). Ao introduzir este relato Lucas quer justificar aquilo que Jesus dirá mais adiante, no v.22, como resposta para a pergunta de João Batista: “Os cegos veem..., os surdos ouvem..., os mostos ressuscitam” (Lc 7,22). Até este relato Lucas não tinha relatado ainda nenhuma “ressurreição”. Por isso, ele precisa narrar um milagre deste tipo para justificar a realidade do v.22.


Neste relato encontramos dois protagonistas: a mãe viúva e seu único filho morto. Na época de Jesus as mulheres eram muito discriminadas. Sendo viúva, pior ainda. As viúvas viviam em situação de extremo desamparo. Elas eram devoradas pelos escribas (Lc 21,4), e empobrecidas (Lc 21,2). A vida de uma viúva “sempre” foi muito sofrida e humilhante (Dt 24,17; Is 1,17; 10,2; Jr 7,6 etc.), mesmo que a lei protegesse as viúvas (Ex 22,22-23). Mas Lucas demonstra atenção especial às viúvas (11 menções: 2,37; 4,25. 26; 7,12; 18,3. 5; 20,28.30.47;21,2.3), apresentando-as como figuras exemplares do louvor inspirado (Lc 1,38), da reivindicação da justiça (Lc 18,3) e dos fracos vergonhosamente explorados (Lc 20,47;21,2). Não é por acaso que nas primeiras comunidades cristãs era dedicada uma atenção especial às viúvas (At 6,1ss). Pelo mesmo motivo São Tiago afirma que “a religião pura e sem mancha aos olhos de Deus Pai é esta: olhar pelos órfãos e viúvas necessitadas” (Tg 1,27). E nas nossas comunidades temos alguma atenção para essa classe de fiéis? Será que temos pastoral das viúvas ou pela menos alguma atenção pastoral para as viúvas.


Lucas nos relatou que a viúva de Naim perdeu seu filho único. Ao relatar desta maneira, Lucas quer enfatizar a intensidade dramática da situação da viúva (viúva e sem filho), de um lado, e mostrar o poder de Deus que torna possível o que é impossível para o ser humano (cf. Lc 1,37; 18,27), do outro lado. Perder filho único, como aconteceu com a viúva de Naim, significava perder todas as condições para continuar vivendo. O filho era o que lhe restava, pois a vida da viúva dependia diretamente da vida do filho, que era o herdeiro legítimo de tudo que o pai morto deixou. Mas Jesus, Deus-Conosco, devolveu a alegria de viver da viúva ao restituir a vida de seu único filho.


Vendo aquela mãe viúva chorando pela morte de seu filho único, Jesus compreende a sua situação desesperadora e se comove. A primeira reação de Jesus é dirigir àquela mãe uma palavra de consolo: “Não chores!”. Em seguida, sem se preocupar com uma possível contaminação ritual prevista pela lei para os casos de contato com mortos (cf. Nm 19,16), Jesus se aproxima e toca no morto e disse ao jovem morto solenemente: “Jovem, eu te ordeno, levanta-te!”. Aqui Lucas apresenta Jesus como Senhor que, com autoridade, tem poder sobre a vida e a morte. O resultado das palavras cheias de autoridade de Jesus é descrita no v.15: “O que estava morto sentou-se e começou a falar”. E Jesus entrega o filho à mãe.


O jovem, mesmo voltou a viver, morrerá de novo. Aqui o evangelista Lucas quer nos dizer que o símbolo da humanidade nova é Jesus Cristo com sua comitiva. O cortejo com Jesus é diferente. O Mestre Jesus vai à frente deste cortejo. E a multidão e os discípulos que acompanham Jesus são testemunhas de uma vida sem igual e de uma inefável esperança que Jesus comunica a todos. Jesus é a vida de nossas vidas. Jesus é aquele que ressuscita algo precioso dentro de nós que estava morto. Com efeito, a maior morte é aquilo que morre dentro de nós e que é precisos.


Jesus não somente curou o empregado do centurião (Lc 7,1-10), não somente chamou de volta para a vida o filho da viúva (Lc 7,11-17), ele não só perdoa à pecadora (Lc 7,36-50), mas Jesus “se move de compaixão” (Lc 7,3), entrou no desespero da pecadora para devolver-lhe a esperança e sofre a dor da viúva e devolve-lhe o que é para ela precioso: o filho único. Tudo isso é a manifestação da misericórdia de Deus encarnada em Jesus Cristo. Jesus é a obra definitivo de Deus neste mundo. Jesus é o Deus-conosco (cf. Mt 1,23; 18,20; 28,20). A verdadeira importância de Jesus Cristo entre nós será revelada quando Jesus, o Autor da vida, entrar pessoalmente na morte daquele jovem e de todos os jovens que vivem como mortos. Na morte de Jesus toda a história humana terá um novo início, um novo princípio. Em Jesus temos vida em abundância (cf. Jo 10,10). Em sua carne, em sua agonia, Jesus assumiu a morte de todos nós.


Agora é a minha vez para dar aos irmãos minha vida, minha confiança e minha fé, pois muitos precisam andar com mais firmeza, com a cabeça erguida em sinal de sua imortal esperança. Temos que viver como ressuscitados.


Vamos aprofundar um pouco mais este texto refletindo sobre alguns pontos como mensagens para nossa vida.


1. Confio No Senhor Por Causa Da Firmeza De Sua Palavra


 Ao ver a viúva (enlutada pela morte do filho único), o Senhor sentiu compaixão para com ela e lhe disse: ‘Não chores! ’” (Lc 7,13).


Tragédia, problemas e dificuldades não têm hora para chegar à nossa vida. E quando chegam não pedem licença, mas adentram nosso espaço e interrompem nossos sonhos, nossa tranquilidade, nossas alegrias, nossos ideais até nosso futuro. E o mais interessante é que vivemos informados diariamente sobre tantas tragédias, tantos assassínios que ocorrem pelo mundo e achamos que somos ou sejamos invulneráveis a tudo isto. Mas quando somos atingidos pela tragédia, pelos problemas e dificuldades ou pelas provações, nos vem à mente esta pergunta: “Onde está você, Deus? O Senhor não está vendo o que está acontecendo na nossa vida?”. E quantas vezes nos sentimos solitários, como quem querendo uma explicação diante de nossos problemas, mesmo que seja apenas uma pequena luz, mesmo sendo do tamanho de uma força de um fósforo.


Diante da interrogação sobre a existência de Deus por causa de nossos problemas, precisamos estar conscientes de que Deus é bondoso de mais para ter ímpetos de crueldade, sábio demais para errar, verdadeiro demais para enganar, amoroso demais para se vingar e profundo demais para se explicar. Diante dos problemas, dificuldades, angústias e provações, saibamos que não há Deus maior como o nosso Deus revelado por Jesus Cristo, que é amor (1Jo 4,8.16), e soberano, e Criador de todas as coisas e que com toda certeza tem o melhor para nós, mesmo que sua resposta seja um sonoro NÃO para nossa vida ou nosso modo de viver (cf. 2Cor 11,23-31;12,7-10), ou mesmo que tenhamos que esperar um pouco mais a sua resposta, pois Deus pode tardar, mas jamais falha. Por causa deste Deus que jamais falha é que nos tornamos fiéis, perseverantes e pacientes em tudo. “Senhor, eu espero em ti o dia todo por causa da tua bondade”, recorda-nos o salmista (Sl 25[24],5b). Confiamos no Senhor por causa da firmeza de Sua Palavra, da peculiaridade de Sua Verdade e da permanência de sua eternidade.


2. O Senhor Nos Chama à Vida e à Compaixão Permanentemente


Aproximou-se, tocou o caixão..., Jesus disse: ‘Jovem, eu te ordeno, levanta-te!’. O que estava morto sentou-se e começou a falar” (vv.14-15a).


No relato do evangelho deste dia Jesus se aproxima da realidade da morte do filho da viúva pessoalmente. Ninguém estava pedindo a Jesus que interviesse. A iniciativa dele é gratuita em todos os sentidos. Ele é itinerante conosco. Ele vai ao encontro do povo onde este está, embora este nem sempre perceba a presença do Senhor. Ele tem um olhar penetrante, capaz de perceber a realidade para poder oferecer uma solução adequada. Ele olha com benevolência e ternura. Ele deixa que a realidade dolorida entre dentro dele, que o contagie: “O Senhor sentiu a compaixão para com a viúva e lhe disse: ‘Não chore! ’”. A compaixão é uma reação característica de Deus. Na sua tradução correta do grego que remete a um modo hebraico de falar, a palavra “compaixão” significa “atingido no íntimo” ou “nas entranhas”. Ao ver a viúva enlutada, Jesus realmente “foi tomado nas entranhas” por amor.  “Compaixão” é a reação espontânea do amor de Deus por nós, seres humanos.


A compaixão coloca em crise o discurso. “Não chores!”, diz Jesus à viúva. Palavras consolam, mas desde que estejam dentro do processo da compaixão-misericórdia. Palavras descompromissadas não causam efeito benévolo algum. Exigem ser respaldadas pelo testemunho e pela prática da solidariedade. Não devemos dizer uma palavra a mais além daquilo que fazemos. Por isso, baseado na sua compaixão, o Senhor chama o jovem morto de volta para a vida para a alegria da viúva enlutada: “Jovem, eu te ordeno, levanta-te!”. Por esta ordem o jovem voltou a viver: “Sentou-se e começou a falar”. A palavra é autoridade para levantar “defuntos” quando é carregada por alguém que vive realmente uma espiritualidade da compaixão-misericórdia. Ressuscitar mortos é reunir pessoas que se amam. O filho vivo para a viúva significava não apenas um pedaço de sua vida, mas também um amparo legal, o sustento e o consolo de sua viuvez.


Tudo isto quer nos dizer que Deus se encontra onde há o sentido da compaixão, pois a compaixão é uma reação característica de Deus. Deus se encontra onde há o sentido do amor vivificante, pois “Amor” é o nome próprio de Deus (1Jo 4,8.16). Significa ainda que, seguindo Jesus, só podemos também suscitar vida, ter piedade dos que sofrem, oferecer a nossa ajuda, ter uma atitude de oblação. Das duas, uma: ou fazemos da nossa vida um cortejo de morte, dos sem esperança, que acompanham o cadáver, em atitude de choro, de luto, de desespero: ou fazemos do nosso peregrinar um caminho de esperança, de ressurreição, de transformação do choro e da morte em sentido de vida. Podemos escolher. Mas se somos seguidores de Cristo e nos deixarmos visitar pelo Senhor, autor da vida, o nosso peregrinar deve ser um caminho de esperança e não um cortejo de morte. Deus, em quem acreditamos, não é uma ameaça ou um concorrente, mas uma potência de amor que nos constrói e nos chama à vida. Por isso, Jesus sempre se coloca a favor da vida.


Consequentemente, ser cristão é ser lutador e defensor da vida no seu início, na sua duração e no seu fim. O homem possui a vida de Deus e por isso ele é sagrado. A vida é sagrada e divina demais para ser sacrificada. A vida, por ser divina, merece ser reverenciada, amada e respeitada em todos os momentos. Graças à nossa mãe que nos ama e ama a nossa vida e por isso, não nos abortou. A viúva é símbolo da humanidade, para quem Jesus trouxe consolo e sustento: a vida que jamais morre, pois Deus é a vida e a ressurreição (cf. Jo 11,25-26a).


Além disso, olhando para a viúva de Naim, reconhecemos que quantas vezes tentamos buscar um modo de sair de situações embaraçosas, caóticas e delicadas, mas somos obrigados a aceitar nossas limitações. Quantas vezes nos vemos em meio a conflitos pessoais, familiares ou profissionais, indecisos entre fazer ou não fazer, hesitantes entre ir ou ficar por causa de nossas fraquezas. A história da viúva de Naim quer nos ensinar que diante de qualquer situação, por pior que seja, sempre haveremos de encontrar o Senhor a nos amparar, pois Ele mesmo é o Deus-Conosco (cf. Mt 28,20).


3. Somos chamados a viver nossa missão profética


Ao ver o jovem voltar a viver, “Todos ficaram com muito medo e glorificavam a Deus, dizendo: ‘Um grande profeta apareceu entre nós e Deus veio visitar o seu povo” (Lc 7,16).


A reação dos que testemunham a restituição da vida do jovem, filho da viúva de Naim é a de temor. Hoje diríamos de estupor, e reverência religiosa. Vários exemplos deste tipo de reação podem-se encontrar no evangelho de Lucas (veja 1,65;5,9;5,26;8,25;8,37). Diante da extraordinária manifestação do poder salvador de Deus faltam as palavras. Não lhes resta nada mais do que louvar a Deus: “Todos ficaram com muito medo e glorificavam a Deus, dizendo: ‘Um grande profeta apareceu entre nós e Deus veio visitar o seu povo”. Veem nele um grande profeta a serviço do povo de Deus e reconhecem que na ajuda misericordiosa de Jesus, Deus se encontrou com o seu povo: “Deus veio visitar o Seu povo” (cf. Lc 1,68). O Antigo Testamento (AT) fala dessas “visitas” como se fossem intervenções de Deus para abençoar o seu povo (Gn 21,1;Ex 3,16;Jr 29,10) ou para castigá-lo (Ex 32,34;Is 10,12; Ez 23,21). Em Lucas, através do relato, a visita do Senhor é obra de sua graça. Precisamos ficar atentos porque o Senhor nos visita constantemente e de várias maneiras para nos consolar, nos confirmar, nos corrigir ou nos alertar. Na compaixão traduzida na solidariedade que praticamos, sem dúvida Deus está conosco e através desta bondade vivida por nós para o bem de todos, Deus nos faz instrumentos de Sua amorosa visita.


A expressão “um grande profeta” que poderia aludir ao profeta escatológico esperado por Israel (Dt 18,15-18), se refere seguramente a um profeta como Elias. No entanto, para Lucas, a autoridade de Jesus não é somente a de um grande profeta (4,24;7,39;13,33.34), mas daquele que se apresenta como o Messias de Israel, o Filho de Deus, o Senhor da vida e da morte (5,8.12;6,5.46;17,6;18,41 etc.) que sabe, no entanto, compadecer-se da necessidade humana (7,13).


Participamos da função profética de Jesus através do Batismo. Como ser profeta hoje?


É descobrir e propor o projeto de Deus para a humanidade. Profeta é alguém com uma fé profunda, com uma consciência muito forte da presença de Deus na própria vida. E a vida de união e de comunhão com Deus vai impregnando a vida do profeta, de modo que vai aprendendo a interpretar todos os acontecimentos políticos, sociais e religiosos à luz de Deus e do Seu projeto. Ser profeta é estar marcado pelas experiências de solidão, angústia, sofrimento, crise, rejeição, incompreensão, mas mesmo assim continua sendo fiel à missão de Deus. No fundo, trata-se de arriscar a vida, na certeza da presença de Deus. Ser profeta é estar instalado para levar adiante a missão recebida. Ser profeta é assumir um modo novo e inédito de viver e anunciar o essencial. O essencial é a fé, a esperança e a plenitude do amor, das quais os profetas foram testemunhas vulneráveis, mas obstinados. Ser profeta é escutar, aprender, receber, acolher o Deus do povo e o povo de Deus. Ser profeta é ser coerente entre a palavra anunciada e as opções pessoais. Quantos pretensos profetas gritam diante dos microfones, ditam sentenças nos jornais, revistas, televisão e rádio, no entanto não dão testemunho com a sua vida e por isso, as coisas não mudam. E assim por diante. A partir de tudo isso e de tudo mais, sejamos honestos ao responder a esta pergunta: “Vivemos realmente a nossa função profética? Será que os outros poderão nos dizer: ‘Um grande profeta apareceu entre nós e Deus veio visitar o seu povo? ’”.


P. Vitus Gustama,svd

04/06/2016 Imaculado Coração de Maria




IMACULADO CORAÇÃO DE MARIA




Primeira Leitura: Is 61,9-11


9 A descendência do meu povo será conhecida entre as nações, e seus filhos se fixarão no meio dos povos; quem os vir há de reconhecê-los como descendentes abençoados por Deus. 10 Exulto de alegria no Senhor e minha alma regozija-se em meu Deus; ele me vestiu com as vestes da salvação, envolveu-me com o manto da justiça e adornou-me como um noivo com sua coroa, ou uma noiva com suas joias. 11 Assim como a terra faz brotar a planta e o jardim faz germinar a semente, assim o Senhor Deus fará germinar a justiça e a sua glória diante de todas as nações.


Evangelho: Lc 2,41-51


41 Os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém, para a festa da Páscoa. 42 Quando ele completou doze anos, subiram para a festa, como de costume. 43 Passados os dias da Páscoa, começaram a viagem de volta, mas o menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que seus pais o notassem. 44 Pensando que ele estivesse na caravana, caminharam um dia inteiro. Depois começaram a pro­curá-lo entre os parentes e conhecidos. 45 Não o tendo encontrado, voltaram para Jerusalém à sua procura. 46 Três dias depois, o encontraram no Templo. Estava sentado no meio dos mestres, escutando e fazendo perguntas. 47 Todos os que ouviam o menino estavam maravilhados com sua inteligência e suas respostas. 48 Ao vê-lo, seus pais ficaram muito admirados e sua mãe lhe disse: “Meu filho, por que agiste assim conosco? Olha que teu pai e eu estávamos, angustiados, à tua procura”. 49 Jesus respondeu: “Por que me procuráveis? Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai?” 50 Eles, porém, não compreenderam as palavras que lhes dissera. 51 Jesus desceu então com seus pais para Nazaré, e era-lhes obediente. Sua mãe, porém, conservava no coração todas estas coisas.
_____________________


Neste dia celebramos a memória obrigatória do Imaculado Coração de Maria. A devoção ao coração de Maria foi propagada por São João Eudes no século XVII (remonta a 1643), devoto aos Corações de Jesus e Maria. Em 1942, Pio XII consagrou toda a humanidade ao coração de Maria, e fixou a celebração de sua festa no dia 22 de Agosto, oitava da Assunção, no intuito de pedir a paz. Esta festa é colocada no dia imediato à solenidade do Sagrado Coração de Jesus para voltar à origem histórica desta devoção. No século XVII, São João Eudes, em seus escritos, não separava os dois corações nos projetos litúrgicos.


O evangelho lido neste dia nos relatou que “Três dias depois, encontraram Jesus no Templo. Estava sentado no meio dos mestres, escutando e fazendo perguntas”. Muitos biblistas consideram os “três dias” como alusão aos três dias entre a Cruz e a Ressurreição. Três dias são dias de sofrimento pela ausência de Jesus; são três dias de escuridão. E o peso destes três dias se revela nas palavras da Mãe de Jesus: “Meu filho, por que agiste assim conosco? Olha que teu pai e eu estávamos, angustiados, à tua procura” (Lc 2,48).


Este relato nos mostra a importância da presença de Jesus e de sua palavra na nossa vida, sem os quais nossa vida se torna escura, sem sabermos para qual direção devemos caminhar. Não é por acaso que, na sua busca do terreno que não o satisfez, Santo Agostinho dizia na sua oração: “Fizeste-nos para Ti, Senhor, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em ti” (Confissões 1,1). Unir-se com Deus, estar em comunhão com Deus é a condição para ter paz do coração. Estar em comunhão com Jesus e Sua Palavra significa também estar envolvido no mistério de Sua Paixão e Ressurreição.


Por isso, podemos entender o significado da resposta de Jesus à Sua Mãe: “Por que me procuráveis? Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai?”. Aqui Jesus usa a palavra “devo” para dizer que Jesus pertence a Deus que é o seu próprio Pai e ele deve estar com o Pai. Consequentemente, Jesus não está desobedecendo a Mari e José, mas na realidade mostra sua obediência filial ao Deus Pai. Implicitamente, Jesus quer que Maria e José se mantenham no Deus Pai, obedientes à Sua vontade. Essa obediência é que vai levar Jesus para a Cruz e a Ressurreição.


Mas Lucas nos relatou que “Eles, porém, não compreenderam as palavras que lhes dissera. Jesus desceu então com seus pais para Nazaré, e era-lhes obediente. Sua mãe, porém, conservava no coração todas estas coisas”. As palavras de Jesus sempre são maiores do que nossa razão, nossa inteligência. Jamais podemos entender perfeitamente o sentido profundo da Palavra de Deus. A palavra de Jesus é grande demais para Maria. É tão grande a ponto de Maria só guardá-la no seu coração: “Sua mãe, porém, conservava no coração todas estas coisas”. Cedo ou tarde a Palavra de Deus vai nos iluminar para captar o sentido de cada coisa, de cada acontecimento na nossa vida.


O coração de Maria esteve sempre cheio de Deus a ponto de o anjo do Senhor chamá-la de “cheia de graça” (cf. Lc 1,28). O seu coração imaculado é chamado santuário do Espírito Santo (LG 53), como rezamos na coleta, em virtude da sua maternidade divina e da inabitação contínua e plena do Espírito divino na sua alma. O Verbo que Maria deu à luz segundo a carne foi antes concebido segundo a fé no seu coração (Santo Agostinho). Foi em vista do seu Coração Imaculado, cheio de fé e de amor humilde, juntamente à benevolência totalmente gratuita e de uma complacência absolutamente pura de Deus que Maria mereceu trazer o Filho de Deus no seu seio virginal.


O coração de Maria conservava as palavras de Jesus Cristo. Por isso, podemos dizer que seu peito foi um sacrário: “Sua mãe, porém, conservava no coração todas estas coisas”. O Coração de Maria é a projeção do Evangelho para nosso século. Maria viveu o Evangelho em seu mais puro e elevado espírito na interioridade de seu coração. Ela é a verdadeira discípula de Jesus que vive por causa da Palavra de Deus: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a Tua Palavra” (Lc 1,38).


O cristão de nossos dias, que pretende adaptar sua vida às exigências do Evangelho, tem que penetrar com o máximo respeito no sagrado Coração de Maria e ver e aprender como ela viveu as exigências da Palavra de Deus. Maria sabe guardar a Palavra de Deus no seu coração para do seu coração sair frutos que Deus quer para o bem de toda a humanidade. Ao aderir à Palavra de Deus e ao guardar a Palavra de Deus no seu coração, Maria cresce progressivamente com a Palavra, mesmo que ela não compreenda seu significado no momento como aconteceu com a resposta de Jesus no Templo aos doze anos de idade, como relatou o evangelho lido neste dia. De Maria aprendemos que o coração é feito para guardar os tesouros da vida divina, para guardar a Palavra de Deus. Não guardemos no nosso coração aquilo que nos prejudica e destrói a vida alheia. Guardemos a Palavra redentora de Deus no nosso coração, para ela possa purificar nosso coração progressivamente a fim de um dia poder se tornar um coração imaculado semelhante ao Coração imaculado de Maria.


Do coração de Maria brotam torrentes de graças de perdão, de misericórdia, de ajuda nas situações difíceis. Por isso, queremos pedir-lhe hoje que nos dê um coração puro, humano, compreensivo com os defeitos dos que convivem conosco.


Quando se fala do coração imaculado fala-se do coração capaz de amar sem limites. Amor é capacidade de sair de si mesmo, de transferir-se para outro ser, de participar de outro ser e de entregar-se por um outro ser. Aquele que ama está totalmente no outro, conservando sua identidade. O amor não pode realizar-se na esfera de um sujeito isolado. O verdadeiro amor é sempre como uma experiência de derrota que se transforma em vitória; uma experiência de entrega que se transforma em enriquecimento; uma experiência de sair de si que se transforma no mais profundo encontro consigo mesmo; uma experiência de morte que se transforma em vida. O ponto final do amor é a vitória sobre a morte. O ponto final do egoísmo é a morte, e a ausência do amor é a ausência de Deus. “É preciso amar os homens não pela simpatia que nos inspiram nem pelas qualidades que apreciamos, mas porque Deus os ama” (Martin Luther King).


Terminamos a nossa oração pedindo ao Senhor: “Ó Deus, que preparastes no Imaculado Coração de Maria uma digna morada para o vosso Filho e um santuário para o Espírito Santo, concedei-nos um coração limpo e dócil, para que, sempre submissos aos vossos preceitos, Vos amemos sobre todas as coisas e ajudemos os nossos irmãos em todas as suas necessidades”. Assim seja.


P. Vitus Gustama,svd

03/6/2016: Sagrado Coração de Jesus


SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS E NOSSA DEVOÇÃO


Primeira Leitura: Ez 34,11-16


11Assim diz o Senhor Deus: “Vede! Eu mesmo vou procurar minhas ovelhas e tomar conta delas. 12Como o pastor toma conta do rebanho, de dia, quando se encontra no meio das ovelhas dispersas, assim vou cuidar de minhas ovelhas e vou resgatá-las de todos os lugares em que forem dispersadas num dia de nuvens e escuridão. 13Vou retirar minhas ovelhas do meio dos povos e recolhê-las do meio dos países para conduzi-las à sua terra. Vou apascentar as ovelhas sobre os montes de Israel, nos vales dos riachos e em todas as regiões habitáveis do país. 14Vou apascentá-las em boas pastagens e nos altos montes de Israel estará o seu abrigo. Ali repousarão em prados verdejantes e pastarão em férteis pastagens sobre os montes de Israel. 15Eu mesmo vou apascentar as minhas ovelhas e fazê-las repousar – oráculo do Senhor Deus. 16Vou procurar a ovelha perdida, reconduzir a extraviada, enfaixar a da perna quebrada, fortalecer a doente, e vigiar a ovelha gorda e forte. Vou apascentá-las conforme o direito”.


Segunda Leitura: Rm 5,5b-11

Irmãos, 5bO amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito que nos foi dado. 6Com efeito, quando éramos ainda fracos, Cristo morreu pelos ímpios, no tempo marcado. 7Dificilmente alguém morrerá por um justo; por uma pessoa muito boa, talvez alguém se anime a morrer. 8Pois bem, a prova de que Deus nos ama é que Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores. 9Muito mais agora, que já estamos justificados pelo sangue de Cristo, seremos salvos da ira por ele. 10Quando éramos inimigos de Deus, fomos reconciliados com ele pela morte do seu Filho; quanto mais agora, estando já reconciliados, seremos salvos por sua vida! 11Ainda mais: Nós nos gloriamos em Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo. É por ele que, já desde o tempo presente, recebemos a reconciliação.


Evangelho: Lc 15,3-7



Naquele tempo, 3Jesus contou-lhes esta parábola: 4"Se um de vós tem cem ovelhas e perde uma, não deixa as noventa e nove no deserto, e vai atrás daquela que se perdeu, até encontrá-la? 5Quando a encontra, coloca-a nos ombros com alegria, e, chegando a casa, reúne os amigos e vizinhos, e diz: 'Alegrai-vos comigo! Encontrei a minha ovelha que estava perdida!' 7Eu vos digo: Assim haverá no céu mais alegria por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não precisam de conversão".
-------------------


Devoção, em seu sentido primário, significa dar-se a si mesmo a alguém ou a algo. No contexto da verdadeira religião, devoção significa uma atitude da vontade, serena e constante, fruto de uma decisão refletida pela qual a pessoa se entrega em todo momento ao serviço de Deus. É uma oferenda de si mesmo a Deus, dedicando-se, permanentemente, a todas aquelas atividades referentes à honra de Deus. Qualquer devoto cumpre seus deveres referentes à sua devoção conscientemente e constantemente apesar das dificuldades encontradas. A palavra latina “devotio” (devoção) indica força, vontade decidida de fazer a vontade de Deus independentemente da situação encontrada. Por isso, devoção está longe de ficar no nível de sentimento.


O que queremos dizer ao falar do coração de Jesus ou de um coração humano?


O coração representa o ser humano em sua totalidade; é o centro original da pessoa humana, o que lhe dá unidade. O coração é o centro de nosso ser, a fonte de nossa personalidade, o motivo principal de nossas atitudes e escolhas livres, o lugar da misteriosa ação de Deus. Apesar de poderem existir o bem e o mal nas suas profundezas, o coração continua sendo símbolo de amor. Por isso, a essência mais profunda da realidade pessoal é o amor. O homem foi criado para amar e ser amado. Fora disto ele perderia a razão de ser e de viver. “Ama e faze o que tu quiseres” (Santo gostinho).


A devoção ao Coração de Jesus está totalmente de acordo com a essência do cristianismo que é religião de amor (cf. Jo 13,34-35), pois o cristianismo tem como objetivo o aumento de nosso amor a Deus e ao próximo (cf. Fl 1,9). O símbolo deste amor é o coração de Jesus que ama a todos sem medida. Jesus Cristo é a encarnação do amor de Deus por nós desde a eternidade: “Eu te amei com amor eterno, por isso conservei para ti o amor” (Jr 31,3). Em cada página dos evangelhos fala-se do amor de Jesus por nós. “Tudo o que Deus queria nos dizer de si mesmo e de seu amor, ele o depositou no coração de Jesus e o expressou através deste Coração. Através do Coração de Jesus lemos o eterno plano divino da salvação do mundo. E trata-se de um projeto de amor” (João Paulo II).


A devoção ao Sagrado coração de Jesus quer nos chamar de volta à primordial razão de nosso ser: amar. “Quanto mais amas, mais alto tu sobes” (Santo Agostinho). Uma pessoa com coração é uma pessoa profunda, próxima, compreensiva, capaz de ir ao fundo das coisas e dos acontecimentos. Uma pessoa com coração não é dominada pelo sentimentalismo e sim é uma pessoa que alcançou uma unidade e uma coerência, um equilíbrio e uma maturidade. Ela nunca é fria, mas cordial, nunca é cega diante da realidade, mas realista, nunca é vingativa, mas pronta para perdoar e para reconciliar-se. Um coração cristão, a exemplo do de Jesus, é um coração de dimensão universal, um coração que supera o egoísmo, um coração magnânimo capaz de abraçar a todos. A espiritualidade do coração é uma verdadeira espiritualidade, pois inclui a oração, a conversão, a escuta do Espírito, o cuidado para o próximo, a compaixão, a solidariedade e a partilha. Não é por acaso que para o homem de antiguidade ter coração equivalia a ser uma personalidade íntegra.


A devoção ao Sagrado Coração é devoção a Cristo mesmo. O próprio Cristo é o objeto de nossa adoração e para ele é que dirigimos nossa oração.


Jesus teve um amor perfeito, seu coração é para nós o perfeito emblema de amor. Seu coração foi saturado de amor perfeito ao Pai e aos homens. Seu amor é totalmente humano porque nele nos encontramos com o mistério de um amor humano-divino. O amor de Deus se encarnou no amor humano de Jesus. Por isso, Jesus nos convida: “Aprendei de mim porque sou humilde e manso de coração”. Humilde indica uma docilidade interior que se expressa na docilidade com os demais. Manso indica uma atitude valente, mas não violenta, misericordiosa, tolerante, pronto para perdão, mas também exigente.


O amor de Deus não é compatível com a indiferença diante do sofrimento alheio e diante da injustiça social. Mas nossas atividades, inclusive as práticas políticas e sociais devem ser animadas pelo amor cristão.


A contemplação do mistério de amor de Deus por nós deve nos conduzir a uma resposta múltipla. Deve suscitar em nós sentimentos de fé, amor e adoração. No contexto religioso devoção indica serviço dedicado e vontade decidida de fazer a vontade de Deus. Sugere culto não somente do tipo litúrgico, mas de nossa vida inteira. Esta devoção se realiza aceitando o convite de Jesus a tomar nossa cruz e segui-lo.


A comunhão sacramental não é somente participar no Corpo e no Sangue de Cristo; implica a participação na vida dos seus membros com um compromisso de amor e de serviço.


Viver no amor é escolher Deus, permanecer em Deus, viver em comunhão com Deus. Quando mantemos essa relação com Deus, o Espírito reside em nós e opera, por nosso intermédio, obras grandiosas em favor do homem – obras que dão testemunho do amor de Deus.


Tornar o amor de Deus uma realidade viva no mundo significa lutar objetivamente contra tudo o que gera ódio, injustiça, opressão, mentira, sofrimento e assim por diante. Será que eu pactuo (com o meu silêncio, indiferença, cumplicidade) com os sistemas que geram injustiça, ou será que eu me esforço ativamente por destruir tudo o que é uma negação do amor de Deus? Um coração grande na vida é aquele que escolhe aquilo que eleva, e liberta-se daquilo que rebaixa a humanidade.


A devoção ao Sagrado coração de Jesus nos faz um questionamento: que resposta dar ao Cristo que nos amou até morrer crucificado?


Santo Agostinho dizia: “O que amamos em Cristo? Seus membros crucificados, seu lado traspassado ou sua caridade? Quando ouvimos que sofreu por nós, o que amamos nele? É seu amor que amamos. Ele nos amou para que lhe retribuíssemos amor por amor, e para que possamos lhe retribuir amor por amor, visitou-nos pelo seu Espírito” (Sermão sobre Sl 127,8).


Não podemos fazer a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, se ainda guardamos o ódio no nosso coração, se não somos capazes de perdoar, se não nos preocupamos com a salvação de todos. Uma pessoa que tem a devoção ao Sagrado Coração de Jesus tem uma missão de levar a todos o amor de Cristo. Mas precisamos saber que ser uma pessoa amorosa é bastante diferente de ser o chamado “prestativo”. Os prestativos usam tão-somente as outras pessoas como oportunidade de praticar atos virtuosos, dos quais mantém registro cuidadoso. As pessoas que amam aprendem a mudar o foco de atenção e da preocupação de si para outras pessoas; elas se preocupam intensamente com as outras pessoas. Nosso cuidado e preocupação pelos outros devem ser autênticos, do contrário nosso amor nada significa. Não se aprende a viver sem antes aprender a amar. O amor humano quando é verdadeiro nos ajuda a saborear o amor divino. E o amor divino em nós nos faz mais compassivos, mais generosos, mais éticos e mais reconciliados; damos aquilo que recebemos, ensinamos aquilo que aprendemos. Ninguém pode viver este amor se não se forma na escola do Coração de Jesus. Somente se olharmos e contemplarmos o Coração de Cristo é que conseguiremos que o nosso coração se liberte do ódio e da indiferença. Somente assim saberemos reagir de modo cristão diante da ofensa e dos sofrimentos alheios e diante da dor humana.


Pedimos ao Sagrado Coração de Jesus ao qual temos a devoção que nos conceda um coração bom capaz de compadecer-se para remediar os tormentos que acompanham e angustiam tantas pessoas neste mundo. O verdadeiro bálsamo é o amor, a caridade. Todos os demais consolos servem apenas para distrair um momento, e deixar mais tarde a amargura e o desespero.


Será que as nossas comunidades, as nossas pastorais, os nossos grupos são espaços de acolhimento e de hospitalidade, oásis do amor de Deus, não só para os amigos e colegas, mas também para os pobres, os marginalizados, os sofredores que buscam em nós um sinal de amor, de ternura e de esperança?




P. Vitus Gustama,svd