domingo, 26 de junho de 2016

27/06/2016




SEGUIR A JESUS PARA ALCANÇAR A SALVAÇÃO




Segunda-Feira da XIII Semana Comum




Primeira Leitura: Am 2,6-10.13-16




6 Isto diz o Senhor: “Pelos três crimes de Israel, pelos seus quatro crimes, não retirarei a palavra: porque eles vendem o justo por dinheiro e o indigente pelo preço de um par de chinelos; 7 pisam, na poeira do chão, a cabeça dos pobres, e impedem o progresso dos humildes; filho e pai vão à mesma mulher, profanando meu santo nome; 8 deitando-se junto a qualquer altar, usando roupas que foram entregues em penhor, bebem vinho à custa de pessoas multadas, na casa de Deus. 9 Entretanto, eu tinha aniquilado, diante deles, os amorreus, homens espadaúdos como cedros e robustos como carvalhos, destruindo-lhes os frutos na ramada e arrancando-lhes as raízes. 10 Fui eu que vos fiz sair da terra do Egito e vos guiei pelo deserto, durante quarenta anos, para ocupardes a terra dos amorreus. 13 Pois bem, eu vos calcarei aos pés, como calca o chão a carroça carregada de feixes; 14 o mais ágil não conseguirá fugir, o mais forte não achará força, o valente não salvará a vida; 15 o arqueiro não resistirá de pé, o corredor veloz não terá pernas para escapar, nem se salvará o cavaleiro; 16 o mais corajoso dentre os corajosos fugirá nu, naquele dia”, diz o Senhor.



Evangelho: Mt 8,18-22




Naquele tempo, 18 vendo uma multidão ao seu redor, Jesus mandou passar para a outra margem do lago. 19 Então um mestre da Lei aproximou-se e disse: “Mestre, eu te seguirei aonde quer que tu vás”. 20 Jesus lhe respondeu: “As raposas têm suas tocas e as aves dos céus têm seus ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça”. 21 Um outro dos discípulos disse a Jesus: “Senhor, permite-me que primeiro eu vá sepultar meu pai”. 22 Mas Jesus lhe respondeu: “Segue-me, e deixa que os mortos sepultem os seus mortos”.
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Deus Se Esconde Atrás Dos Débeis, Dos Indigentes, Dos Inocentes, Dos Justos




Pelos três crimes de Israel, pelos seus quatro crimes, não retirarei a palavra: porque eles vendem o justo por dinheiro e o indigente pelo preço de um par de chinelos; pisam, na poeira do chão, a cabeça dos pobres, e impedem o progresso dos humildes; filho e pai vão à mesma mulher, profanando meu santo nome; deitando-se junto a qualquer altar, usando roupas que foram entregues em penhor, bebem vinho à custa de pessoas multadas, na casa de Deus”.



Os três séculos de monarquia de Israel que vão do século IX até o século VI a.C foram os tempos muito agitados: guerras internacionais, luta social, injustiça social, conflitos políticos, distúrbios religiosos e assim por diante. Neste contexto uns “homens de Deus”, os profetas, intervém: Amós, Oseas, Isaías, Miqueias, Jeremias, Naum, Habacuc, Ezequiel... Nas próximas semanas ouviremos a voz destes profetas através das primeiras leituras. Todos eles vão combater sem armas, a não ser somente através da oração e da palavra. São as verdadeiras e maiores testemunhas de Deus de toda a história, pois eles defendem o projeto de Deus que é a Aliança, defendem os humildes e oprimidos, defendem a justiça, sem medo. Os profetas têm a audácia não somente de falar de Deus, mas também de pensar que falam “em Seu nome”: Deus fala por sua boca. João Batista dizia: “Sou a voz que grita...”



Esta semana ouviremos o áspero e valente profeta Amós que profetizou, principalmente, no Reino de Samaria sob o reinado de Jerobão II (786-746 a.C), o 13º rei de Israel, sucedendo a seu pai, o rei Joás.
 


Amós que significa “Deus sustenta”, viveu por volta do ano 750 a.C. Era um campesino, cultivador de uma plantação de sicômoros, que vivia em Teqoa, uma pequena aldeia cerca de 30 Km da capital Jerusalém. Emigrou para o reino de Norte ou seja, para a Samaria e ali alcançou a chamada de Deus e se converteu em profeta, porta voz de Deus no tempo do rei Jerobão II.



Amós observa como os comerciantes falsificam os pesos no mercado, como vendem às pessoas, por bom dinheiro, produtos sem valor.  Ele observa como os comerciantes ricos ou latifundiários se aproveitam desavergonhadamente de sua posição de monopólio e como a pessoa humilde cai cada vez mais na dependência e na pobreza. O que o profeta Amós proclama é uma única acusação: não se pode ir bem quando se viola a ordem de Deus. E protesta e acusa em nome de Deus com incrível energia e veemência. Será que nossa situação atual é diferente da situação na época do profeta Amós?



No texto da Primeira Leitura de hoje o profeta Amós disse: “... pelos seus quatro crimes, não retirarei a palavra”. Quais são as quatro crimes que suscitam a cólera do profeta Amós e dos quais também suscitam a cólera de Deus?


Primeiro, porque vendem o justo por dinheiro e o indigente por um par de sandálias. Segundo, porque pisam, na poeira do chão, a cabeça dos pobres, e impedem o progresso dos humildes e pervertem o caminho dos mansos. Terceiro, porque pai e filho abusam da mesma mulher (serva), assim profanando o santo nome de Deus. Quarto, porque deitando-se junto a qualquer altar, usando roupas que foram entregues em penhor, bebem vinho à custa de pessoas multadas, na casa de Deus.

Trata-se de a injustiça social, de juízos corrompidos, de sexualidade aberrante, de afã de prazer, de sociedade de consumismo indiferente.

O profeta Amós denuncia, então, a opressão do débil: na vida social e nos tribunais (o justo é vendido por dinheiro, o inocente injustamente condenado pelo interesse de um par de sandálias); na vida familiar (pai e filho abusam sexualmente a mesma serva); no culto, a mais repugnante das injustiças sociais (bebem o vinho dos multados na casa de Deus). Cada um destes crimes manifesta o mesmo desprezo do homem, comportamento que Deus condena nos povos pagãos vizinhos.


Com isso, o profeta Amós quer nos transmitir a verdade de que o Deus de Israel é um Deus exigente na ordem ética. Deus “se esconde” atrás de cada homem despojado de seus direitos. Consequentemente, tratar mal aos débeis, aos inocentes, aos justos significa tratar mal ao próprio Deus (cf. Mt 25,40.45). Aqui é que o desprezo do homem adquire sua autêntica dimensão, e aqui também reside o perigo da exclusão do homem da salvação.


É Preciso Seguir a Jesus Para Alcançar a Salvação

“É graça divina começar bem. Graça maior, persistir na caminhada certa, manter o ritmo... Mas a graça das graças é não desistir. Podendo ou não podendo, Caindo, embora aos pedaços,Chegar até o fim...” (Dom Hélder Câmara).

O evangelho de Mateus foi escrito em torno dos anos 80 para os fieis de sua comunidade. Os fieis de sua comunidade já tinham feito sua escolha cristã. Mas em determinado tempo vacilavam por causa das dificuldades, e abatidos por causa de duras perseguições. Por isso, veio a exortação para que os fiéis retomassem consciência mais viva de sua identidade cristã, chamados a transformar a história humana em história de salvação.

Nesta perspectiva Mt coloca dois personagens para transmitir essa exortação. O primeiro é um especialista da Lei que escolheu ser cristão. Trata-se de um letrado que reconhece em Jesus um mestre superior a si mesmo e decide seguir a Jesus, o grande mestre. Mas ele ainda não é comprometido com o cristianismo e por isso, ele é alertado antecipadamente para não tomar uma decisão superficial e ilusória. “As raposas têm suas tocas e as aves têm seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeção”. Para o letrado o caminho de Jesus tem seu termo. Mas Jesus alerta ao letrado que toda a vida de Jesus, até o momento de Sua morte, será uma entrega total, sem instalação nem descanso.

Para ser um verdadeiro cristão, um verdadeiro seguidor de Cristo, é preciso ter espírito de despojamento e de pobreza, pois aquele que está cheio de coisas do mundo não sobra nenhum espaço para Deus nem para o próximo. O cristão existe para fazer o bem permanentemente. Fazer o bem não tem descanso nem tem término. Ninguém ama suficientemente nem definitivamente. O amor sempre deixa quem ama em dívida. O amor não descansa nem cansa.

As raposas têm suas tocas e as aves dos céus têm seus ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (Mt 8,20).

O instinto de segurança e a necessidade de estabilidade estão inscritos profundamente na natureza humana: o homem busca o calor de um refúgio, uma fogueira, uma casa para morar, uns objetos que lhe pertencem. Os animais têm este mesmo instinto de propriedade.

Jesus desde que saiu de sua casa familiar de Nazaré, deixando sua mãe sozinha, não tem seu próprio lugar, vive como nômade, como viajante: “Não tenho onde reclinar minha cabeça”. Renunciou o calor de um lugar, renunciou a toda propriedade.

Seguir a Jesus é fazer forçosamente certa escolha; é renunciar a uma série de coisas; é viver na segurança com Deus que criou tudo. Jesus quer que estejamos sempre caminhando em busca da perfeição. Jesus quer que estejamos abertos ao novo, à novidade, ao impulso do seu Espírito. Jesus não quer que estejamos parados, pois o Espírito de Deus sopra para onde quer. Jesus não quer que fiquemos apegados às coisas mortas, pois elas servem apenas de meio e não de fim.

Por esta razão Jesus adota para si o título de “Filho do Homem”. O duplo título “Filho do Homem” indica unicidade e excelência: é “Homem acabado”, o modelo de homem, por possuir em plenitude o Espírito de Deus. Para chegar a ser um homem acabado, pleno do Espírito de Deus, o cristão precisa participar da missão de Jesus, precisa levar adiante a Palavra de Deus.

A mensagem cristã é exigente. Não se trata de aderir a uma doutrina, mas a uma pessoa; não se trata de adotar um modo de pensar, mas de orientar-se para um modo de viver: o modo de viver de Jesus Cristo. Um cristão que se contenta de não fazer mal a ninguém não é suficiente. É preciso fazer o bem em função do bem e não em função do mal. É colocar o interesse do Reino de Deus acima de todas as preocupações pessoais assim como dos afetos mais caros, com plena dedicação. É viver aberto diante de Deus permanentemente.

O segundo personagem já é discípulo, mas ainda não compreendeu todas as exigências de sua escolha. Por isso, o texto diz que ele pede um período de interrupção antes de seguir o Mestre. Ele quer ser um cristão periódico. Cristão de estação. É um cristão que procura Deus quando estiver livre de tudo, quando tiver tempo livre. É um cristão que procura Deus de vez em quando. Mas para este tipo de cristão Jesus faz prevalecer a exigência de uma escolha coerente, total e radical para si que é escolha para toda a vida.

Este segundo personagem pede a Jesus permissão para enterrar o pai, mas recebe de Jesus esta resposta: “Segue-me! Deixa que os mortos sepultem os seus mortos”. A menção do pai nos leva ao episódio relacionado com a chamada de Eliseu no Antigo Testamento. Eliseu pediu licença a Elias para ir despedir-se de seu pai (cf. 1Rs 19,20). No Antigo Testamento a tradição (o pai) estava viva, mas para Jesus está morta.

Segue-me! Deixa que os mortos sepultem os seus mortos”. Não se trata da falta com os deveres de piedade para o pai defunto. O “pai” aqui representa uma tradição que não mais salva. Abandonar o “pai” significa ficar independente da tradição transmitida que não tem mais valor para ser mantida. O pedido para “enterrar o pai” indica a veneração, o respeito e a estima pelo passado que não mais salva homem algum. Por isso, os mortos aqui são os que professam essas tradições mortais. São figuras de um mundo de morte, sem salvação. A tradição morta ou a cultura de morte gera morte e mortos.

O discípulo, o cristão, ao contrário, é chamado a ser defensor e protetor da vida em qualquer instância e circunstância, pois a vida é o dom de Deus, e o próprio Jesus se identifica com a Vida: “Eu sou a Vida e a Ressurreição” (Jo 11,25; cf. 14,6).

Segue-me! Deixa que os mostos sepultem seus mortos”. Jesus não quer que descuidemos dos nossos falecidos. Isto seria falta de caridade e da humanidade. O que Jesus quer é que abandonemos todos os hábitos que não nos fazem crescer como pessoas e filhos de Deus e irmãos dos outros. Precisamos deixar o modo de viver e de pensar que nos fazem como mortos: sem vida, sem horizonte, sem criatividade e assim por diante. A tradição morta gera a morte e mortos. Ao contrário, precisamos seguir Aquele que nos faz viver, Aquele que nos diz: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6). Precisamos crer n’Aquele que nos garante a vida: “Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crer em mim, ainda que esteja morto, viverá” (Jo 11,25).     

Precisamos olhar com carinho e seriedade para o nosso modo de viver para descobrirmos nele os hábitos que não nos fazem crescer ou não nos fazem viver com dignidade e avançar na caminhada da perfeição cristã. Sabemos que nosso grande problema não é implementar as coisas novas na nossa cabeça e sim tirar as coisas velhas e mortas de nossa cabeça. Ao mesmo tempo precisamos olhar para o modo de viver de Jesus para que sejamos homens acabados como foi ele. “Se queres seguir a Deus, deixa-O ir adiante. Não queiras que Ele te siga” (Santo Agostinho. In ps. 124,9).

Para estar aberto diante de Deus é preciso abandonar hábitos negativos, isto é, todos os hábitos ou costumes que não nos levam à vida plena. Nos ensinamentos de Jesus encontramos o caminho para a verdadeira vida. Vale a pena encarar todas as dificuldades, pois a vitória está reservada para quem é perseverante neste caminho (cf. Mt 10,22; Jo 16,33).

P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Domingo,26/06/2016






SEGUIR JESUS ATÉ A PÁSCOA INCONDICIONALMENTE


XIII DOMINGO DO TEMPO COMUM


Primeira Leitura: 1Rs 19,16b.19-21


Naqueles dias, disse o Senhor a Elias: 16b vai e unge a Eliseu, filho de Safat, de Abel-Meula, como profeta em teu lugar. 19 Elias partiu dali e encontrou Eliseu, filho de Safat, lavrando a terra com doze juntas de bois; e ele mesmo conduzia a última. Elias, ao passar perto de Eliseu, lançou sobre ele o seu manto. 20 Então Eliseu deixou os bois e correu atrás de Elias, dizendo: “Deixa-me primeiro ir beijar meu pai e minha mãe, depois te seguirei”. Elias respondeu: “Vai e volta! Pois o que te fiz eu?” 21 Ele retirou-se, tomou a junta de bois e os imolou. Com a madeira do arado e da canga assou a carne e deu de comer à sua gente. Depois levantou-se, seguiu Elias e pôs-se ao seu serviço.


Segunda Leitura: Gl 5,1.13-18


Irmãos: 1 É para a liberdade que Cristo nos libertou. Ficai pois firmes e não vos deixeis amarrar de novo ao jugo da escravidão. 13 Sim, irmãos, fostes chamados para a liberdade. Porém, não façais dessa liberdade um pretexto para servirdes à carne. Pelo contrário, fazei-vos escravos uns dos outros, pela caridade. 14 Com efeito, toda a Lei se resume neste único mandamento: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. 15 Mas, se vos mordeis e vos devorais uns aos outros, cuidado para não serdes consumidos uns pelos outros. 16 Eu vos ordeno: Procedei segundo o Espírito. Assim, não satisfareis aos desejos da carne. 17 Pois a carne tem desejos contra o espírito, e o espírito tem desejos contra a carne. Há uma oposição entre carne e espírito, de modo que nem sempre fazeis o que gostaríeis de fazer. 18 Se, porém, sois conduzidos pelo Espírito, então não estais sob o jugo da Lei.


Evangelho: Lc 9,51-62


51 Estava chegando o tempo de Jesus ser levado para o céu. Então ele tomou a firme decisão de partir para Jerusalém 52 e enviou mensageiros à sua frente. Estes puseram-se a caminho e entraram num povoado de samaritanos, para preparar hospedagem para Jesus. 53 Mas os samaritanos não o receberam, pois Jesus dava a impressão de que ia a Jerusalém. 54 Vendo isso, os discípulos Tiago e João disseram: “Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para destruí-los?” 55 Jesus, porém, voltou-se e repreendeu-os. 56 E partiram para outro povoado. 57 Enquanto estavam caminhando, alguém na estrada disse a Jesus: “Eu te seguirei para onde quer que fores”.  58 Jesus lhe respondeu: “As raposas têm tocas e os pássaros têm ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça”. 59 Jesus disse a outro: “Segue-me”.  Este respondeu: “Deixa-me primeiro ir enterrar meu pai”. 60 Jesus respondeu: “Deixa que os mortos enterrem os seus mortos; mas tu, vai anunciar o Reino de Deus”. 61 Um outro ainda lhe disse: “Eu te seguirei, Senhor, mas deixa-me primeiro despedir-me dos meus familiares”. 62 Jesus, porém, respondeu-lhe: “Quem põe a mão no arado e olha para trás não está apto para o Reino de Deus”.
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A partir do texto lido neste dia, Jesus começa sua viagem para Jerusalém (Lc 9,51-19,28). Depois de ter descrito quem é Jesus e qual é sua obra, na segunda parte do seu evangelho, Lucas apresenta Jesus no longo caminhar que terminará em Jerusalém onde ele será crucificada e morto e culminará em sua chegada ao céu.


Ao falar da viagem de Jesus para Jerusalém, Lucas não se preocupa com a precisão geográfica. Ele se preocupa muito mais com a meta desta viagem que é Jerusalém e o significado desta viagem do que a precisão geográfica. Trata-se de um caminho geográfico-teológico. Para Lucas, a Páscoa de Jesus não foi questão de uns dias finais. Para Lucas, a Páscoa de Jesus começa a realizar-se neste caminhar para a meta. Por isso, é um caminho pascal. Do ponto de vista eclesial, este caminhar é um relato eminentemente catequético e parenético em que oferece várias perspectivas da moral cristã como condição para caminhar com Jesus, compartilhando seu caminho pascal. Para o evangelista Lucas a moral cristã tem caráter cristológico, pois é compartilhar o caminho de Jesus para a sua ascensão, e pascal, pois é começar a morrer para ressuscitar com Jesus.  Por isso, antes de chegar à meta final, Jesus anda de cidade a cidade sem repetir o caminho, ensinando. Trata-se de uma seção que fala da Lição do Caminho.


Tudo isso quer nos dizer que toda esta seção está dominada pela perspectiva da páscoa, compreendida sob a luz do Messias sofredor e pela interesse de Jesus em preparar seus discípulos para a missão. Precisamente por isso, estão muito presentes as exigências do seguimento na vida cotidiana. Assim, este caminho até Jerusalém, que na época do evangelista servia como iniciação para o caminho cristão (At 9,2;18,25s;19,9.23;22,4;24,14-22), é também uma instrução catecumenal dirigida aos crentes de todos os tempos. A utilização da comparação do caminho permite descobrir a existência do crente e a vida da comunidade como uma experiência dinâmica e progressiva. Para conhecer Jesus é preciso caminhar atrás de Jesus e com Jesus. Os cristãos são chamados a fazer sempre um passo adiante com Cristo. Eles devem estar sempre a caminho, como o próprio Jesus. Somente caminhando é que podemos descobrir e encontrar novidades e surpresas da vida. Caminhar é também o momento de aprendizagem.


Por isso, esta seção da viagem a Jerusalém representa o núcleo central do evangelho de Lucas. O itinerário de Jesus até Jerusalém, cidade santa, recapitula o caminho de Israel no Antigo Testamento. Além disto, para Lucas Jerusalém representa a última etapa da missão de Jesus onde os acontecimentos pascais serão levados a cabo que desembocarão na salvação. E a missão da Igreja, certamente, partirá de onde a missão de Jesus termina: Jerusalém (At 1,8).


Vamos aprofundar alguns pontos do texto do evangelho de hoje para nossa reflexão!


Jesus Leva a Cabo Sua Missão Como Salvador


Lemos no v. 51 como introdução: “Quando se completaram os dias de sua assunção, ele tomou resolutamente o caminho de Jerusalém...”(v.51).


Aparecem aqui alguns temas joaninos: o cumprimento dos tempos (cf. Jo 13,1), o “arrebatamento”/ascensão do mundo (João usa o termo “glorificação”: Jo 7,39; 12,16.22; 13,31,32; cf. Jo 12,32), e a vontade deliberada de Jesus de ir até o fim de seu destino: Jerusalém (Lc usa o termo “resolutamente”; cf. Jo 18,4;19,11).


Neste versículo encontra-se a chave do conjunto da passagem onde se sublinha claramente o mistério pascal de Jesus: morte e ressurreição do Senhor. Estamos, por isso, perto do cumprimento do plano de Deus que inaugura uma nova etapa da história de salvação. Trata-se da partida (ascensão, arrebatamento) de Jesus ao Pai. Através do termo “partida” ou “ascensão/arrebatamento” entende-se que se fala seguramente da morte e ressurreição de Jesus, o conjunto do mistério pascal. “Arrebatamento” é um termo que a tradição bíblica do AT emprega em relação ao arrebatamento de Elias ao céu (cf. 2Rs 2,11). Lucas relaciona, então, a morte de Jesus com a tradição do arrebatamento de Elias.


O caminho que Jesus trilha e que toma com uma vontade resoluta é o caminho da salvação. Ele fala da paixão e morte, mas termina com a afirmação sobre a ressurreição, como lemos no evangelho do domingo anterior nos anúncios da paixão. Ele mostra a vitória final apesar das dificuldades que devem-se superar. A vitória esperada cria força para atingi-la. Como se ele quisesse nos dizer: “Não tenham medo das dificuldades, vocês vão sair delas, pois estou com vocês e estou com o troféu na mão para lhes entregar lá no final da caminhanda. Sejam perseverantes! Não desistam no meio do caminho. Vocês têm força suficiente para chegar à meta. Como eu, que tomei resolutamente o caminho de Jerusalém, me arrebatei, assim acontecerá também com vocês”. Ele mostra a vitória final, logo no início, para que possamos encarar os problemas e os sofrimentos encontrados no caminho rumo à vitória.


2. Exortação de Jesus sobre o perigo da violência e o convite a sermos irmãos (vv.52-56)


O caminho natural  e mais curto dos peregrinos galileus para irem a Jerusalém era através da região dos samaritanos. Neste texto os samaritanos recusam a hospedagem para Jesus nessa região porque está a caminho do detestado Templo de Jerusalém (v.53). Esta é a segunda vez que Jesus é mal recebido neste evangelho. A primeira foi em sua terra natal (Lc 4,16-30). Em Jo 4,9 a samaritana nega até a água para Jesus beber. Mas precisamos saber muito além disto, lá no fundo histórico dos dois povos, as razões desta recusa. Quem eram os samaritanos?


Samaria era habitada por uma população que em sua origem não era judaica em sentido estrito. Desde a época da invasão dos assírios em 722 a.C (cf. 2Rs 17,24) foram instalados nessa região migrantes não- judeus, de modo que as raças haviam-se misturado. Por essa mistura, os judeus consideravam os samaritanos como um povo impuro. Embora assumissem a religião javista, viviam separados dos judeus e cultuavam a Deus no Monte Garizim. Os samaritanos consideravam-se verdadeiros israelitas, pois eram fiéis à Lei e tinham seu próprio templo no monte Garizim. A samaritana fala até de “nosso pai Jacó” (Jo 4,12).


O ódio entre os judeus e os samaritanos ficou cada vez mais crescente porque no ano 128 a.C o judeu João Hircano (134-104 a .C), que apoderou-se de Siquém, capital de Samaria, destruiu o templo samaritano do monte Garizim. Herodes, o Grande, o restaurou no ano 30 a.C e casou-se com uma samaritana. No ano 6 d.C, sob o procurador Copônio (6-9 d. C), os samaritanos, que quiseram vingar-se contra os judeus, profanaram gravemente o Templo de Jerusalém jogando nele, de noite, ossos humanos, exatamente num dia de Páscoa. Como se sabe para os judeus, o simples pisar sobre um túmulo tornava a pessoa impura, como tocar num morto. Dá para imaginar a fúria dos judeus contra os samaritanos por esse acontecimento. Com isto o ódio entre as duas nações se tornou cada vez maior e profundo. Por esta e tantas razões os judeus não consideravam nenhum samaritano como próximo. Para os judeus, eles eram piores que pagãos, de acordo com o ditado judaico: “Aquele que come pão de um samaritano, come carne de porco” (compare Jo 8,48: Jesus é chamado de samaritano). Além disto, era uma grande ofensa chamar outro judeu de “samaritano”.


Mas é interessante observar que Jesus propõe os samaritanos como “modelos” para os judeus: como protótipo de amor ao próximo e, em síntese, do amor a Deus. É um amor que ultrapassa ou sobrepõe ao ódio nacionalista de raízes tão antigas (cf. Lc 10,25-37 sobre o Bom Samaritano que será lido no 15º Domingo do Tempo Comum “C”).


Mas será que “os samaritanos” e “os judeus” já morreram? Quem são os samaritanos hoje? Será que temos entre nós o ódio racial e nacional? Será que entre nós há guerra fria entre os grupos, até dentro da própria Igreja/comunidade? Será que estamos ressuscitando o ódio que foi enterrado por Cristo pela sua morte e ressurreição? O ódio é a vingança do covarde” (George Bernard Shaw). Quanto menor é o coração, mais ódio carrega” (Victor Hugo)


Ao saber que os samaritanos não aceitam a presença de Jesus no meio deles para uma hospedagem, os dois discípulos (Tiago e João), notadamente judeus e ambiciosos (cf. Mc 10,35-45), perguntam a Jesus para pedir uma vingança: “Senhor, queres que ordenemos  desça fogo do céu para consumi-los?” (v.54). A reação dos discípulos nos coloca novamente na tradição de Elias (cf. 2Rs 1,10-14). O relato reflete a viva hostilidade existente entre os judeus e os samaritanos. A reação dos dois discípulos foi espontânea e irrefletida, mesmo assim não há desculpas. Para eles castigar ou destruir os inimigos é a boa solução. Os discípulos pensam num messianismo espetacular e poderoso que não retrocede diante da morte de alguns. Eles não têm compreendido que a atitude de Jesus é sempre de misericórdia e não destruição (cf. Lc 6,36).


Jesus não quer entrar na onda da violência. Em vez disto, Jesus quer afastar os seus de todo espírito de vingança. Jesus repreendeu-os severamente por ser uma atitude contrária a todos os ensinamentos que ele mesmo lhes havia transmitido (Lc 6,27-36). Responder com violência a uma atitude errada era desfazer toda a proposta nova da missão, que era anunciar um tempo favorável e de graça da parte de Deus (Lc 4,9). Certamente Samaria será também objeto da missão dos discípulos (At 1,8). “Para mim, a não-violência é um credo. Devo guiar-me por ela, esteja eu sozinho ou em companhia de outros. Uma vez que a propaganda em prol da não-violência é a missão de minha vida, devo entregar-me a ela seja qual for a atmosfera” (Mahatma Gandhi).


Responder aos outros segundo a provocação é sempre uma tentação. Pagar aos outros de acordo com os erros cometidos é sempre uma tentação. É a situação dos discípulos de Jesus, que pela atitude ou modo de viver, negam aos ensinamentos recebidos de Jesus. O radicalismo na nossas atitudes é apenas protesto de intransigência de nossa pouca bondade. Somos chamados a viver o espírito do evangelho. O evangelho não tem fronteiras, nem línguas, nem etnias, nem cultura, nem cor etc. Só entende e vive o evangelho quem se dispõe a valorizar o outro, aquele que é diferente de mim, pois é uma grande riqueza, aquele que não me ama. Não somos chamados a fazer a guerra santa fora de nós, mas dentro de nós mesmos. A guerra santa deve ser interior no sentido de combater o mal que faz ninho no nosso coração. Somente assim, veremos os outros e a vida com os olhos de Deus que penetra até o fundo do coração. O único fogo que devemos pedir a Deus é o fogo do Espírito Santo para purificar o nosso coração de todo mal e maldade, de toda vingança e ódio. Este fogo é que Jesus prometeu e trouxe para todos nós. É o fogo que não queima, mas arde, ilumina e purifica. Este fogo deve cair sobre nós para operar a nossa conversão. A vingança coloca a pessoa no mesmo nível de quem cometeu a maldade. ”A não violência não é uma veste com a qual nos revestimos ou da qual nos despimos a gosto. Tem sua sede no coração e deve fazer parte inseparável de nosso ser. Jesus viveria e morria em vão se não conseguisse ensinar-nos a ordenar toda a nossa vida pela eterna lei do amor”(Gandhi, ibid.).


3. Radicalidade da vocação cristã: As condições para seguir a Jesus (vv.57-62)


Jesus que há começado o caminho que o leva até a morte (Lc 9,51) expressa em três diálogos sobre o risco e a urgência do seguimento. Nestes três diálogos Jesus exige daqueles que querem seguir uma renúncia radical. Devemos entender os três dentro do contexto do texto em que Jesus toma resolutamente o caminho de Jerusalém sem volta ou regresso.


a). Seguir-te-ei para onde fores: “Eu te seguirei para onde quer que fores”.


Nesta primeira cena, a iniciativa de seguir a Jesus incondicionalmente vem do homem. Neste primeiro diálogo, diante do pedido de segui-Lo, Jesus diz: “As raposas têm tocas e as aves do céu ninhos” (v.58).


As tocas e os ninhos são referências a esconderijos ou lugares de proteção. Podem-se considerar como propriedade. Isto quer dizer que até os animais possuem propriedades. A este homem que pediu para segui-Lo Jesus enfatiza que a caminhada não tem retorno ao lar se quiser segui-Lo. Se quiser segui-Lo, esteja preparado para partilhar da mesma sorte. Ficar sem toca e sem ninho significava sem propriedade nenhuma, nem mesmo sobre uma pedra para repousar a cabeça e dormir. Não é porque lhe falte uma casa, pois ele a tem em Nazaré ou a dos outros amigos e discípulos. A sua verdadeira pobreza é a insegurança, a situação precária em que se encontra, sem proteção nenhuma, pois ele é rejeitado pela maioria: pelos conterrâneos, pelos samaritanos, pelos judeus em geral e é procurado pelo Herodes como perigoso. O discípulo que quer segui-Lo deve estar preparado para partilhar do mesmo destino. O seguidor de Jesus não deve contar com uma vida de luxo. É interessante observar que Lucas não nos apresenta nunca a Jesus numa casa sua ou de seus discípulos como lemos em Marcos(Mc 1,29;2,1).


Quem sabe esta parte do texto serve de ponto de partida para nossa reflexão sobre a vida que levamos e vivemos. Que tipo de vida que vivemos como verdadeiros seguidores de Cristo: uma vida baseada sobre o evangelho ou sobre os nossos interesses pessoais? O que realmente estamos procurando ou vivendo nesta ou naquela congregação, nesta ou naquela igreja ou paróquia? O que pretendemos de verdade?


b). “Deixa-me primeiro enterrar meu pai” (v.59)


Nesta segunda cena é Jesus quem toma a iniciativa de chamar um homem para segui-Lo (v.59). Este homem se dispõe, mas tem problema no “ninho”, pois o pai faleceu e ele precisa voltar para casa para enterrá-lo que é o dever de todo judeu (2Rs 9,10;Jr 16,4): “Deixa-me primeiro enterrar meu pai” (v.59). No caso do enterro de um parente, os judeus devotos eram dispensados até das observâncias religiosas mais rígidas.


Diante destes deveres sagrados a afirmação de Jesus choca a nossa sensibilidade humana: “Deixa que os mortos sepultem os seus mortos; tu, vai anunciar o reino de Deus” (v.59). Mas na verdade a sentença de Jesus abre uma perspectiva nova onde se traz uma maneira nova de julgar a vida e a morte. “Os mortos” aqui são os que não aceitam o Reino de Deus e os que são insensíveis à chamada de Jesus (cf. Lc 4, 28-30), pois de fato, o pai (morto) se encontra em sua casa, enquanto o filho está com Jesus ouvindo sua chamada. Mas o filho ainda tem tentação de voltar para trás (para seu “ninho”) diante da chamada de Jesus que ele precisa superar.


Por isso, com esta afirmação paradoxal Jesus não pretende pôr em discussão os deveres sagrados da piedade familiar (cf. Lc 18,20), pois de fato os discípulos sepultarão o cadáver do Jesus crucificado (Lc 23,53-56; cf. 1Cor 9,5). Jesus quer nos chamar a sairmos de uma situação de morte, de nossos túmulos fechados e escuros para com ele podermos encontrar a verdadeira vida que é ele mesmo (Jo 11,25; cf. Jo 14,6) a qual ele nos traz (Jo 10,10).




c). “Permite-me primeiro despedir-me dos que estão em casa” (v.61)


Implicitamente nesta terceira cena, igual à primeira, é Jesus quem chamou o homem. Diante da chamada vem a sua resposta: “Eu Te seguirei, mas permite-me primeiro despedir-me dos que estão em minha casa” (v.61; compare 1Rs 19,19-21). Encontra-se aqui um sentimento de apego familiar que não raro tira o discípulo de seu lugar de missão. Se alguém quer realmente ser discípulo de Jesus, não pode abandonar Jesus simplesmente em função de saudosismos familiares. Este perigo é enfatizado de modo mais claro na parábola do banquete (Lc 14,15-24). Talvez sejam aqueles que ficaram muito encantados no início da vocação, mas os apegos continuam grandes motivo pelo qual eles tem saudade do passado. 


 Diante deste pedido Jesus afirma: “Quem olha para trás, enquanto põe a mão no arado, não serve para o Reino de Deus” (v.62). Quem é incapaz de abandonar, também  é incapaz de fazer uma opção radical pelo Reino. Além disto, o anúncio do Reino não admite demoras ou protelações, recordações nostálgicas ou adiamentos de qualquer espécie.


Os três candidatos anônimos são exemplo do apego. Mas o resoluto (v.51) não permite o apego. Quando não se vive o desapego, é muito grande a tentação de olhar para trás e deixar-se conduzir pelo “mas”, pelo “se”, pelo “talvez”, pelo “porém”, que são barreiras na estrada rumo à libertação total, rumo à verdadeira vida. O “olhar para trás” põe em risco a eficiência do trabalho e pode causar o desânimo. Para nós cristãos o desânimo é sinônimo de traição.


Ao contar logo do começo da viagem estas exigências radicais do seguimento, Lucas quer advertir aos discípulos sobre a seriedade do caminho que vão empreender com Jesus.


É necessário compreender que o Evangelho de Jesus é exigente, mas não desumano, pois se situa na linha da liberdade e do amor. O seguimento de Cristo ainda que tenha a ruptura com o velho modo de viver é uma vocação à liberdade. A liberdade cristã consiste na vida assinalada pelo Espirito divino, pelo amor e pelo serviço fraterno irreconciliáveis com o egoísmo, com a libertinagem e com a vida sem Deus: “É para a liberdade que Cristo nos libertou”. Esta liberdade que Cristo nos conseguiu é um risco e um desafio como a própria vida. A liberdade em Cristo é para amar mais e melhor. “Ama e faz o que queres!”, dizia Santo Agostinho. Mas, primeiro ama a Deus e ao irmão. É a condição básica para ser livre.


P. Vitus Gustama,svd

quinta-feira, 23 de junho de 2016

25/06/2016




UM “PAGÃO” QUE ENSINA O CRENTE A CRER NA EFICÁCIA DA PALAVRA DE DEUS


Sábado da XII Semana Comum


Primeira Leitura: Lamentações 2,2.10-14.18-19


2 O Senhor destruiu sem piedade todos os campos de Jacó; em sua ira deitou abaixo as fortificações da cidade de Judá; lançou por terra, aviltou a realeza e seus príncipes. 10 Sentados no chão, em silêncio, os anciãos da cidade de Sião espalharam cinza na cabeça, vestiram-se de saco; as jovens de Jerusalém inclinaram a cabeça para o chão. 11 Meus olhos estão machucados de lágrimas, fervem minhas entranhas; derrama-se por terra o meu fel diante da arruinada cidade de meu povo, vendo desfalecerem tantas crianças pelas ruas da cidade. 12 Elas pedem às mães: “O trigo e o vinho, onde estão?” E vão caindo como derrubadas pela morte nas ruas da cidade, até expirarem no colo das mães. 13 Com quem te posso comparar, ou a quem te posso assemelhar, ó cidade de Jerusalém? A quem te igualarei, para te consolar, ó cidade de Sião? Grande como o mar é tua aflição; quem poderá curar-te? 14 Teus profetas te fizeram ver imagens falsas e insensatas, não puseram a descoberto a tua malícia, para tentar mudar a tua sorte; ao contrário, deram-te oráculos mentirosos e atraentes. 18 Grite o teu coração ao Senhor, em favor dos muros da cidade de Sião; deixa correr uma torrente de lágrimas, de dia e de noite. Não te concedas repouso, não cessem de chorar as pupilas de teus olhos. 19 Levanta-te, chora na calada da noite, no início das vigílias, derrama o teu coração, como água, diante do Senhor; ergue as mãos para ele, pela vida de teus pequeninos, que desfalecem de fome em todas as encruzilhadas.


Evangelho: Mt 8,5-17


Naquele tempo, 5 quando Jesus entrou em Cafarnaum, um oficial romano aproximou-se dele, suplicando: 6 “Senhor, o meu empregado está de cama, lá em casa, sofrendo terrivelmente com uma paralisia”. 7 Jesus respondeu: “Vou curá-lo”. 8 O oficial disse: “Senhor, eu não sou digno de que entres em minha casa. Dize uma só palavra e o meu empregado ficará curado. 9 Pois eu também sou subordinado e tenho soldados sob minhas ordens. E digo a um: ‘Vai!’, e ele vai; e a outro: ‘Vem!’, e ele vem; e digo a meu escravo: ‘Faze isto!’, e ele faz”. 10 Quando ouviu isso, Jesus ficou admirado, e disse aos que o seguiam: “Em verdade, vos digo: nunca encontrei em Israel alguém que tivesse tanta fé. 11 Eu vos digo: muitos virão do Oriente e do Ocidente, se sentarão à mesa no Reino dos Céus, junto com Abraão, Isaac e Jacó, 12 enquanto os herdeiros do Reino serão jogados para fora, nas trevas, onde haverá choro e ranger de dentes”. 13 Então, Jesus disse ao oficial: “Vai! E seja feito como tu creste”. E, naquela mesma hora, o empregado ficou curado. 14 Entrando Jesus na casa de Pedro, viu a sogra dele deitada e com febre. 15 Tocou-lhe a mão, e a febre a deixou. Ela se levantou, e pôs-se a servi-lo. 16 Quando caiu a tarde, levaram a Jesus muitas pessoas possuídas pelo demônio. Ele expulsou os espíritos, com sua palavra, e curou todos os doentes, 17 para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta Isaías: “Ele tomou as nossas dores e carregou as nossas enfermidades”.
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Em Deus Encontramos a Proteção e a Salvação


Lemos em 2Rs 24,8-17 (Primeira Leitura da Quinta-Feira passada) a conquista de Jerusalém pelo rei babilônico, o Templo de Jerusalém destruído e os elites deportados para Babilônia. Em épocas anteriores, Deus interviera para livrar o Povo eleito do ataque dos sírios (Is 7,1-9) e mais recente, das tropas de Senaquerib (2Rs 19).


Desta vez (que lemos também na Primeira leitura), na leitura dos deuteronomistas, Deus se colocou contra o povo que foi infiel a Ele. Segundo a tradição deuteronomista o estado atual do povo responde a uma lógica: o mau comportamento termina com o mau resultado. Logo, o sofrimento é merecido. Segundo este paradigma, os inimigos não são culpáveis e sim são instrumentos de Deus e fizeram o que a lógica ordenava. Neste sentido, Deus é inteiramente justo com seu povo. Podemos dizer que, a partir da lógica deuteronomista, o âmbito da dor não faz parte da realidade, ou melhor dizer, não fica totalmente integrada, tão somente é uma nota adicional ao drama que se vive ou à infidelidade que se pratica contra Deus.


Os profetas, entre eles o profeta Jeremias (Jr 25,9;26,9;28,14), tinham anunciado o desastre causado pelo pecado e pela persistência do povo no pecado (Jr 22,3). A destruição de Jerusalém, que é a sede das promessas de Deus, de sua presença e de sua justiça, significa, para o povo eleito, uma ruptura de toda a fé acumulada durante séculos.


Dentro deste contexto, podemos entender o conteúdo do Salmo Responsorial de hoje (Sl 73/74): “Senhor, por que razão nos rejeitastes para sempre e vos irais contra as ovelhas do rebanho que guiais? Recordai-vos deste povo que outrora adquiristes, desta tribo que remistes para ser a vossa herança, e do monte de Sião que escolhestes por morada! Dirigi-vos até lá para ver quanta ruína: no santuário o inimigo destruiu todas as coisas; puseram fogo mesmo em vosso santuário! Rebaixaram, profanaram o lugar onde habitais! Recordai vossa Aliança!”.


A Primeira Leitura de hoje é tirada do Livro das Lamentações. O Livro das Lamentações é breve: somente tem cinco capítulos. Trata-se de uma coleção de cinco poemas anônimos em torno ao tema comum da queda de Jerusalém.


O texto que lemos na Primeira Leitura de hoje é um canto patético de dor: a cidade destruída, os anciãos silenciosos, as lágrimas nos olhos de todos, as crianças mortas e as crianças desfalecidas de fome, e assim por diante. Mas o autor do Livro convida o povo a dirigir-se a Deus com sua oração e suas mãos erguidas para o céu, que se resume no Salmo Responsorial de hoje: “Recordai-vos deste povo que outrora adquiristes, desta tribo que remistes para ser a vossa herança, e do monte de Sião que escolhestes por morada! Recordai vossa Aliança!”.


Como os judeus, temos que erguer nossas mãos até Deus e lamentar-nos de situações dramáticas de nossa época. Hoje em dia, há muita abundância em certos países, mas ao mesmo tempo há muitíssimas crianças que gritaram pedindo pão e moradia, especialmente as crianças refugiadas vítimas de guerras civis e suas mães não sabem o que fazer. Sem a ajuda de Deus e o socorro da humanidade, todas as crianças serão condenadas a partir deste mundo antes do tempo. Quando refletirmos e interpretarmos nossa história pessoal de dor ou as desgraças da comunidade cristã (muitos cristãos foram assassinados pelos fanáticos de outras crenças) ou da sociedade humana a partir da fé, todos nos tornaremos mais humildes e recorreremos a Deus como maior confiança, pois somente Deus tem as chaves da história e continua querendo nossa salvação. Muitos dos Salmos que lemos ou rezamos nos servem para expressar também nossos sentimentos e nos ajudam a lermos a história com sentido religioso e por isso, nunca perderemos nossa esperança em Deus que nos ama. O milagre dos milagres é o olhar amoroso de Deus para mim, para você, para nós todos e para a humanidade em geral. Confiamos neste olhar amoroso de Deus e estar dentro deste olhar amoroso.


Um “Pagão” Que Tem Fé Em Deus


Senhor, eu não sou digno de que entres em minha casa. Dize uma só palavra e o meu empregado ficará curado”.


Segundo Mateus, o primeiro milagre operado por Jesus, que é a cura do leproso, foi para um membro do povo de Deus. O segundo milagre foi em favor de um pagão. Tudo é um programa. O movimento missionário da Igreja já está presente nesse segundo milagre. A salvação de Deus não está reservada para uns poucos. Deus ama a todos os homens; seu amor rompe as barreiras que levantamos entre nós. Jesus fez seu segundo milagre em favor de um oficial romano, em favor de um pagão. E os romanos eram mal vistos pelo Povo eleito.


Senhor, meu empregado está de cama, paralitico”. O oficial romano não pertence a uma Igreja ou a uma religião, ou ao Povo eleito, porém se comporta como um verdadeiro homem de Deus. Ele se comporta muito humano com os outros, especialmente com aquele que no olhar da sociedade não tem importância para se tratar daquela maneira. Por isso, esse oficial romano é um verdadeiro e autêntico homem de Deus. O homem de Deus trata o outro de maneira humana, pois o outro é o filho de Deus, templo do Espírito Santo (cf. 1Cor 3,16-17). Por essa razão, podemos encontrar os cristãos em qualquer religião, crença ou grupo, pois “Vós os reconhecereis pelos seus frutos” (Mt 7,16.20). Com efeito, o paganismo não depende da pertença ou não a uma religião. O paganismo depende do modo de viver e de se comportar com os demais homens. Por isso, um cristão pode ser um pagão por causa do seu modo de viver não cristão. E aquele que se diz pagão pode ser um verdadeiro cristão se ele comportar-se como o oficial romano que se preocupa com o bem do outro e acredita no poder de Deus. Em outras palavras, existem os cristãos pagãos como existem também os pagãos cristãos a partir do modo de viver e de conviver.


Ao atender esse oficial “pagão” Jesus quer nos mostrar que ele não aceita nossas divisões, nem nossos racismos nem nossas discriminações. O coração de cada seguidor de Jesus deve ser universal e missionário, como o próprio coração de seu Mestre, Jesus Cristo. E cada cristão deve reconhecer e aceitar com facilidade qualquer pessoa do bem, independentemente de sua crença.


Senhor, meu empregado está de cama, paralitico”. A oração desse homem serve de exemplo para nós. Ele expõe simplesmente a situação; descreve a doença. E o mais notável é que ele pede em favor do outro, de seu empregado. É uma oração de intercessão. Será que eu rezo somente por mim mesmo e somente pela minha família? Será que tem lugar na minha vida uma oração de intercessão? Será que eu rezo pelos outros, especialmente pelos necessitados e por aqueles dos quais não gosta de mim ou por aqueles das quais eu não gosto? (cf. Mt 5,43-47).


O Senhor sente em todo caso o grito de sofrimento, apesar de o doente não estar presente. O Senhor não é insensível. Sua reação é imediata: "Vou curá-lo".


Mas é impressionante a profunda humildade desse oficial ao dizer a Jesus: “Senhor, eu não sou digno de que entres em minha casa. Dize uma só palavra e o meu empregado ficará curado”. Este pagão é muito consciente de que a lei judaica o recusa por ser pagão. Ele não quer pôr Jesus em uma situação de “impureza legal”. Por isso, ele quer evitar que Jesus entre em sua casa. “Dize uma só palavra e o meu empregado ficará curado“, diz o oficial a Jesus. Este homem valoriza a Palavra de Jesus, porque a Palavra de Deus está cheia de autoridade e de poder. O que interessa ao evangelista Mateus é algo muito distinto: a força da Palavra de Jesus que atua ou opera em quem crê.


O oficial romano estava muito seguro do poder de Jesus, e por isso, ele disse: “Senhor, eu não sou digno de que entres em minha casa. Dize uma só palavra e o meu empregado ficará curado”. Ele olha para Jesus como quem tem autoridade em Sua palavra, pois entende que a enfermidade e o mal têm que obedecer a Ele assim como os soldados obedecem ao seu general: “Pois eu também sou subordinado e tenho soldados sob minhas ordens. E digo a um: ‘Vai!’, e ele vai; e a outro: ‘Vem!’, e ele vem; e digo a meu escravo: ‘Faze isto!’, e ele faz”. Para ele, Jesus Cristo é um grande “general” de todas as forças do universo. É uma maravilhosa comparação. O mais maravilhoso ainda é o tamanho da fé desse oficial romano.


Pela fé na Sua Palavra Jesus elogia esse homem: “Em verdade, vos digo: em ninguém em Israel encontrei tanta fé”. É a fé de quem se considera pagão. Mas se comporta como um verdadeiro cristão.


Jesus põe em contraste a incredulidade dos seus contemporâneos judeus com a fé do pagão: “Em verdade, vos digo: em ninguém de Israel encontrei tanta fé”. O tamanho da fé do “pagão” não se encontra no meio do Povo eleito. A fé que se encontra no “pagão” não se encontra naqueles que se dizem fieis ou crentes.  O “pagão” ensina o crente a acreditar na Palavra de Deus, pois ela é eficaz. É uma grande ironia! A fé que Jesus exige é um impulso de confiança e de abandono pelo qual o homem renuncia a apoiar-se em seus pensamentos e em suas forças para abandonar-se à Palavra e ao poder de Aquele em quem acredita.


Antes de receber o Corpo do Senhor na comunhão, repetimos a frase desse oficial romano: “Senhor, eu não sou digno de que entres em minha morada. Dize uma só palavra, serei salvo”. A Eucaristia quer curar nossas debilidades. O próprio Senhor Jesus se faz nosso alimento e nos comunica sua vida: “O Pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo. Quem come minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna” (Jo 6,51.54). A vida de Cristo que recebemos na comunhão deve transformar nossa vida em vida para os demais homens. O oficial romano nos ensina a nos preocuparmos com o bem do outro e a crermos no poder eficaz da Palavra de Deus.

P.Vitus Gustama, SVD

quarta-feira, 22 de junho de 2016

24/06/2016




NASCIMENTO DE SÃO JOÃO BATISTA 


João significa o Senhor manifestou sua benevolência; Zacarias= Deus se recordou; Isabel (elíseba, Hbr) = Deus é plenitude, perfeição.




Primeira Leitura: Is 49,1-6


1 Nações marinhas, ouvi-me, povos distantes, prestai atenção: o Senhor chamou-me antes de eu nascer, desde o ventre de minha mãe ele tinha na mente o meu nome; 2 fez de minha palavra uma espada afiada, protegeu-me à sombra de sua mão e fez de mim flecha aguçada, escondida em sua aljava, 3 e disse-me: “Tu és o meu Servo, Israel, em quem serei glorificado”. 4 E eu disse: “Trabalhei em vão, gastei minhas forças sem fruto, inutilmente; entretanto o Senhor me fará justiça e o meu Deus me dará recompensa”. 5 E agora diz-me o Senhor – ele que me preparou desde o nascimento para ser seu Servo – que eu recupere Jacó para ele e faça Israel unir-se a ele; aos olhos do Senhor esta é a minha glória. 6 Disse ele: “Não basta seres meu Servo para restaurar as tribos de Jacó e reconduzir os remanescentes de Israel: eu te farei luz das nações, para que minha salvação chegue até aos confins da terra”.


Segunda Leitura: At 13,22-26


Naqueles dias, Paulo disse: 22 “Deus fez surgir Davi como rei e assim testemunhou a seu respeito: ‘Encontrei Davi, filho de Jessé, homem segundo o meu coração, que vai fazer em tudo a minha vontade’. 23 Conforme prometera, da descendência de Davi Deus fez surgir para Israel um Salvador, que é Jesus.  24 Antes que ele chegasse, João pregou um batismo de conversão para todo o povo de Israel. 25 Estando para terminar sua missão, João declarou: ‘Eu não sou aquele que pensais que eu seja! Mas vede: depois de mim vem aquele, do qual nem mereço desamarrar as sandálias’. 26 Irmãos, descendentes de Abraão, e todos vós que temeis a Deus, a nós foi enviada esta mensagem de salvação”.


Evangelho: Lc 1,57-66.80


57 Completou-se o tempo da gravidez de Isabel, e ela deu à luz um filho. 58 Os vizinhos e parentes ouviram dizer como o Senhor tinha sido misericordioso para com Isabel, e alegraram-se com ela. 59 No oitavo dia, foram circuncidar o menino, e queriam dar-lhe o nome de seu pai, Zacarias. 60 A mãe, porém disse: “Não! Ele vai chamar-se João”. 61 Os outros disseram: “Não existe nenhum parente teu com esse nome!” 62 Então fizeram sinais ao pai, perguntando como ele queria que o menino se chamasse. 63 Zacarias pediu uma tabuinha, e escreveu: “João é o seu nome”. E todos ficaram admirados. 64 No mesmo instante, a boca de Zacarias se abriu, sua língua se soltou, e ele começou a louvar a Deus. 65 Todos os vizinhos ficaram com medo, e a notícia espalhou-se por toda a região montanhosa da Judeia. 66 E todos os que ouviam a notícia ficavam pensando: “O que virá a ser este menino?” De fato, a mão do Senhor estava com ele. 80 E o menino crescia e se fortalecia em espírito. Ele vivia nos lugares desertos, até o dia em que se apresentou publicamente a Israel.
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A Igreja celebra normalmente a festa dos santos no dia de seu nascimento para a vida eterna, que é o dia de sua morte. No caso de São João Batista se faz uma exceção e se celebra o dia de seu nascimento terreno, porque ele é o Precursor que prepara a próxima chegada do Messias, Jesus Cristo. Com também celebramos o Natal do Senhor (dia de seu nascimento).


O nascimento de João Batista é visto como um ato de “misericórdia” do Senhor na vida de Isabel. O que se enfatiza na misericórdia são a generosidade e a fidelidade de Deus aos justos. “Justo” é aquele que acolhe o amor de Deus com gratidão. E este amor leva a pessoa a viver de acordo com a justiça divina e não faz nenhuma injustiça contra os outros, seja na palavra, seja no ato. Através do nascimento de João Batista de um casal idoso e estéril, mas justo, Deus quer mostrar como é grande o seu poder pelos justos e como é gratuito o seu amor que torna fecunda uma mulher estéril como Isabel.


O ventre estéril de Isabel representa a condição da humanidade: sem vida, sem esperança, e sem futuro. É uma situação insustentável, triste e sem saída. Mas para os justos Deus sempre intervém do alto para dar-lhes vida, movido unicamente por seu amor. Neste ponto explode a alegria que envolve a todos e que provoca o homem a fazer louvores. A presença de Deus na vida de qualquer pessoa sempre traz a alegria. As pessoas que acreditam em Deus são pessoas alegres, porque Deus é amor.


Por outro lado, o texto quer nos apresentar o lado escuro da fé. Zacarias serve a Deus no Templo. Mesmo assim tem dúvidas diante do anúncio de Deus sobre a gravidez de Isabel, sua esposa apesar de sua idade avançada. Vem a pergunta que serve de reflexão para cada um de nós diante da incredulidade de Zacarias: “Que sentido tinha, então, o rito que com tanta solenidade ele celebrava no Templo? Que sentido tem das missas das quais participamos quase todos os dias se continuamos a duvidar da misericórdia e do poder de Deus na nossa vida?”


Através do nascimento milagroso de João Batista Deus quer dizer a cada um de nós: “Confie em mim!”. Deus nos pede que em cada dúvida, perplexidade e escuridão de nossa vida que saibamos nos entregar nas mãos misericordiosas de Deus e que sejamos fiéis aos seus mandamentos não por medo, mas por amor. Diante do amor de Deus devemos responder com o mesmo amor.  Através do anjo Deus diz a Zacarias: “Não tenhais medo, Zacarias!”. As mensagens e a Palavra de Deus são motivo de paz e de serenidade para quem as escuta com coração e as vive no cotidiano. É verdade que em determinados casos e momentos pode custar aceitar a vontade de Deus, porém, no final da história sempre nos deixa a paz. Por isso, quando há medo e desconfiança temos que recorrer à voz e à Palavra de Deus que nos acalma. Para Deus não há nada, absolutamente nada impossível (cf. Lc 1,37).


Outras Mensagens Da Festa Do Nascimento De João Batista


a). Zacarias tinha ficado mudo, logo depois da anunciação do anjo, porque não tinha acreditado (Lc 1,20); agora sua obediência em querer que a criança se chamasse João, como o anjo recomendara, mostra que, de fato, ele tinha acreditado; em conseqüência, sua mudez é revelada. Em outras palavras, quando Zacarias, finalmente, consente ou concorda com a instrução de Deus, seu castigo/punição é tirado e ele fica livre para falar. Suas primeiras palavras são em louvor a Deus. A soltura de Zacarias de mudez é expressa em louvor. Quando não acreditarmos na força de Deus, somos impedidos de falar dele e de louvar seu nome (ficamos mudos). A partir do momento em que acreditarmos, experimentarmos e vivermos a força de Deus, ninguém e nada nos impedirão de louvarmos Deus, fonte de nossa força.


b). O nascimento de João Batista é visto como um ato de “misericórdia” do Senhor na vida de Isabel. Na bíblia “misericórdia” não indica a compaixão para com uma pessoa indigna e desprezível (de fato, Zacarias e Isabel eram as pessoas justas e retas), mas se refere à generosidade e fidelidade de Deus. Deus quer mostrar como é grande o seu poder e gratuito o seu amor. O seio estéril de Isabel representa a condição humana sem vida, sem esperança e sem futuro, insustentável, triste e sem vida. E Deus intervém para dar-lhe vida, movido pela misericórdia. Tudo que se fala aqui é uma mensagem de esperança. Com Deus nem tudo é perdido e nada é pequeno; com Deus tudo se torna possível. Será que somos pessoas de esperança? Aquele que tem fé, também tem esperança; aquele que tem esperança tem perseverança e aquele que tem perseverança tem paciência por que ele sabe em quem acredita (cf. 2Tm 1,12).


c). Sobre a circuncisão.


No oitavo dia João foi apresentado ao templo para o rito da circuncisão. A circuncisão é o sinal da pertença ao povo da aliança. O circuncidado passa a fazer parte de Israel e se torna herdeiro das promessas feitas por Deus a Abraão e à sua descendência.  Este rito era determinado, para todos os judeus, no oitavo dia (Gn 17,12;Lv 12,3). Mas São Paulo afirma que a circuncisão não tem valor diante da promessa de salvação, pois o que é marca da carne fica na carne (cf. Rm 2,25-29; veja também At 15). Ela só tem sentido quando marca o coração, quando transforma a vida. Num caminho de evolução teológica, os cristãos substituíram este rito pelo batismo. Com o batismo, o batizado recebe a qualidade de discípulo de Jesus Cristo. O batismo torna a pessoa membro da comunidade cristã, independentemente de sua etnia, cor ou posição social. Para ser cristão não precisa ser judeu (circuncisão).


d). Sobre o nome “João”


Como era costume, os vizinhos e parentes dão por ato que o menino se chamaria como o pai (Tb 1,9). Mas João não poderia se chamar “Zacarias”. Com isso, João não dá simplesmente continuidade à estirpe (tronco de família), mas assinala o início da nova época. Terminou o tempo em que se recordam as promessas (“Zacarias” significa “Deus se recorda” ou “Deus recorda” as suas promessas). Terminou o tempo em que se recordam as promessas, chegou o tempo de ver em ação a bondade de Deus (João significa “o Senhor fez graça, manifestou sua bondade, a sua benevolência). A questão decisiva é, a partir dessa mudança de nome em não seguir o nome do pai: Qual é a vontade de Deus? Deus nem sempre escolhe o caminho da tradição, o velho costume, a trilha usada. Isabel escolhe o nome de João, pois conhecia, por espírito profético (Jo 1,41), a vontade de Deus. Os parentes julgavam tudo pelos usos e costumes. Isabel percebe o sopro de algo novo. Ela julga de maneira nova. E isto causa estranheza para os que estão totalmente enraizados nas coisas velhas. O Espírito interrompe por caminhos novos pois ele é aquele que renova a face da terra(cf. Ap 21,5), que nem sempre fáceis de compreensão. O Espírito nem sempre sopra segundo os planos dos homens, mas também até contra eles. A vontade e a Palavra de Deus colocam os homens escolhidos perante a necessidade de terem de abandonar a senda rotineira ou o curso normal de uma tradição (cf. Lc 5,39).  Essa atitude radical que destrói as linhas tradicionais de autoridade e continuidade, por certo está bem de acordo com a ação e mensagem de João. Mais tarde ele verá seus correligionários judeus como “raça de víboras”(Lc 3,7;Mt 3,7) que totalmente confiam em sua descendência de Abraão para protegê-los do próximo julgamento, quando na verdade nem a descendência de Abraão, nem a usual rotina do culto, mas apenas o arrependimento individual e boas ações podem salvar alguém da destruição(Lc 3,7-9 par.; Mc 1,4-5;12).


e). João não é o Messias, pois a interdição de beber vinho é antimessiânico. Os tempos messiânicos seriam caracterizados pela festa, pela alegria e pela ausência de jejuns. Assim João Batista expressa uma realidade mais vinculada ao AT, uma vez que insiste na penitência e nos jejuns, sendo um período de preparação. Quando Jesus inaugura o reinado messiânico, aproveita uma festa (Jo 2,1-12) e manifesta-se livre em relação à tradição, sendo acusado de comilão e beberão (Lc 15,33ss;7,34). Por isso, a missão do arauto é desaparecer, ficar em segundo plano quando chega aquele que foi anunciado. Por isso também, um erro grave de qualquer precursor ou evangelizador ou pregador seria deixar que o confundissem com aquele que esperam, ainda que fosse por alguns minutos ou por pouco tempo.


f). O nascimento dos santos/consagrados constitui alegria para muitos, porque o santo é um dom de Deus à humanidade, é um bem para todos. Todo ato de misericórdia traz a alegria não só a quem o recebe, mas também aos que sabem reconhecê-lo e estão prontos a exaltá-lo. A misericórdia e a alegria são alguns dos temas preferidos e fortes de Lucas. A mensagem da salvação percorre espaços sempre mais vastos. Não basta, por isso, participar nos acontecimentos salvíficos e ouvir falar deles. Os acontecimentos devem ser acolhidos no coração e quem os acolhe deve sintonizar-se interiormente com eles e espalha para os outros.


P. Vitus Gustama,svd
23/06/2016



ENTRE FALAR E FAZER NA VIDA DO CRISTÃO


Quinta-Feira da XII Semana Comum


Primeira Leitura: 2Rs 24,8-17


8 Joaquim tinha dezoito anos quando começou a reinar e reinou três meses em Jerusalém. Sua mãe chamava-se Noestã, filha de Elnatã, de Jerusalém. 9 E ele fez o mal diante do Senhor, segundo tudo o que seu pai tinha feito. 10 Naquele tempo, os oficiais de Nabucodonosor, rei da Babilônia, marcharam contra Jerusalém e a cidade foi sitiada. 11 Nabucodonosor, rei da Babilônia, veio em pessoa atacar a cidade, enquanto seus soldados a sitiavam. 12 Então Joaquim, rei de Judá, apresentou-se ao rei da Babilônia, com sua mãe, seus servos, seus príncipes e seus eunucos. E o rei da Babilônia os fez prisioneiros. Isto aconteceu no oitavo ano de seu reinado. 13 Nabucodonosor levou todos os tesouros do templo do Senhor e do palácio real, e quebrou todos os objetos de ouro que Salomão, rei de Israel, havia fabricado para o templo do Senhor, conforme o Senhor havia anunciado. 14 Levou para o cativeiro Jerusalém inteira, todos os príncipes e todos os valentes do exército, num total de dez mil exilados, e todos os ferreiros e serralheiros; só deixou a população mais pobre do país. 15 Deportou Joaquim para a Babilônia, e do mesmo modo exilou de Jerusalém para a Babilônia a rainha-mãe, as mulheres do rei, seus eunucos e todos os nobres do país. 16 Todos os homens fortes, num total de sete mil, os ferreiros e os serralheiros em número de mil, todos os homens capazes de empunhar armas, foram conduzidos para o exílio pelo rei da Babilônia. 17 E, em lugar de Joaquim, ele nomeou seu tio paterno, Matanias, mudando-lhe o nome para Sedecias.


Evangelho: Mt 7,21-29


Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 21 “Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos Céus, mas o que põe em prática a vontade de meu Pai que está nos céus. 22 Naquele dia, muitos vão me dizer: ‘Senhor, Senhor, não foi em teu nome que profetizamos? Não foi em teu nome que expulsamos demônios? E não foi em teu nome que fizemos muitos milagres? 23 Então eu lhes direi publicamente: Jamais vos conheci. Afastai-vos de mim, vós que praticais o mal. 24 Portanto, quem ouve estas minhas palavras e as põe em prática, é como um homem prudente, que construiu sua casa sobre a rocha. 25 Caiu a chuva, vieram as enchentes, os ventos deram contra a casa, mas a casa não caiu, porque estava construída sobre a rocha. 26 Por outro lado, quem ouve estas minhas palavras e não as põe em prática, é como um homem sem juízo, que construiu sua casa sobre a areia. 27 Caiu a chuva, vieram as enchentes, os ventos sopraram e deram contra a casa, e a casa caiu, e sua ruína foi completa!” 28 Quando Jesus acabou de dizer estas palavras, as multidões ficaram admiradas com seu en­sina­mento. 29 De fato, ele as ensinava como quem tem autoridade e não como os mestres da lei.
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Tudo Se Supera Quando a Força Humana Se Junta à Força Divina


Joaquim tinha dezoito anos quando começou a reinar, e reinou três meses em Jerusalém... E ele fez o mal diante do Senhor, segundo tudo o que seu pai tinha feito”.


O texto da Primeira Leitura é uma das páginas mais trágicas da história para Jerusalém e o povo judeu, pois houve a invasão do rei da Babilônia e a deportação dos elites de Jerusalém para a Babilônia que ocorreu em 597 a.C. Na época quem reinava em Jerusalém foi Joaquim (Jeconias) cujo reinado durou apenas três meses. Na verdade, o profeta Isaias já tinha profetizado essa tragédia (2Rs 20,17-18- interpretação dos redatores deuteronomistas).


O Salmo Responsorial descreve muito bem essa tragédia ao dizer: “Invadiram vossa herança os infiéis, profanaram, ó Senhor, o vosso templo, Jerusalém foi reduzida a ruínas! Lançaram aos abutres como pasto os cadáveres dos vossos servidores; e às feras da floresta entregaram os corpos dos fiéis, vossos eleitos. Derramaram o seu sangue como água em torno das muralhas de Sião, e não houve quem lhes desse sepultura! Nós nos tornamos o opróbrio dos vizinhos, um objeto de desprezo e zombaria para os povos e àqueles que nos cercam”.


O próprio texto explica a razão da invasão babilônica e consequentemente, da brevidade do reinado de Joaquim: “Ele fez o mal diante do Senhor, segundo tudo o que seu pai tinha feito”. O mal praticado tanto pelo próprio Joaquim como pelo seu pai: injustiças sociais, relaxamento/decadência moral, culto aos deuses, política unicamente humana sem referência à fé (confiar apenas nas forças humanas).


Por isso, podemos entender o motivo de pedido de perdão a Deus no Salmo Responsorial: “Não lembreis as nossas culpas do passado, mas venha logo sobre nós vossa bondade, pois estamos humilhados em extremo. Ajudai-nos, nosso Deus e Salvador! Por vosso nome e vossa glória, libertai-nos! Por vosso nome, perdoai nossos pecados!”


Quando sucederam catástrofes, tanto pessoais como comunitárias, é o momento oportuno para tirarmos lições e refletirmos sobre as causas que originaram essas catástrofes e sobre a parte de culpa que nós temos. Muitas vezes acontece que a ruina de uma pessoa se deve aos erros ou falhas não refletidos e corrigidos, que, ao princípio eram insignificantes, porém foram-se crescendo a ponto de se perder o controle sobre eles e acabam arruinando a vida de quem os cometeu. A ruina da sociedade ou de uma comunidade também tem suas causas: econômicas, políticas, pessoais e muitas vezes por causa da perda de valores que são necessários para qualquer convivência humana.


Em segundo lugar, precisamos saber contar sempre com Deus em todas as situações de nossa vida. Precisamos duvidar de nossas forças e colocar uma margem de dúvida para nossas certezas. Trata-se da saber viver na sabedoria que nos torna humildes e que nos leva a reconhecermos o protagonismo de Deus na nossa vida. O profeta Isaias nos relembra com as seguintes palavras: “Cansam-se as crianças e param, os jovens tropeçam e caem, mas os que esperam no Senhor renovam suas forças, criam asas como as águias, correm sem se cansar, caminham sem parar” (Is 40,30-31). Deus tem poder de tirar bem, inclusive, de nossa misérias: purifica-nos, nos recapacita, nos ajuda a aprendermos as lições da vida para não voltar a cair nas mesmas falhas e infidelidades. 


Valor Do Dizer e Do Fazer Na Vida Cristã


Estamos ainda no Sermão da Montanha (Mt 5-7).  O texto do evangelho de hoje é a última parte da conclusão do Sermão da Montanha (Mt 7). Como podemos saber se alguém é um verdadeiro cristão ou somente tem nome de cristão, mas que não tem nada a ver com a maneira de viver?  De que vale ter o nome cristão se tua vida não é cristã? Há muitos que se denominam médicos e não sabem curar. Muitos que se dizem vigilantes noturnos não fazem mais que dormir a noite inteira. Assim também muitos se chamam cristãos, mas não o são em seus atos. Em sua vida, moral, fé, esperança e caridade são muito diferentes do que declara seu nome”, dizia Santo Agostinho (In epist. Joan. 4,4). O que conta para Deus é o bem que praticamos. Esta questão é que o texto do Evangelho deste dia quer nos transmitir.


Fazer e Dizer Devem Estar Em Sintonia Perfeita


“Nem todo aquele que diz ‘Senhor, Senhor’”. Mais uma vez aparece no evangelho a dialética entre o dizer e o fazer. Há quem fale continuamente de Deus (“Senhor, Senhor”) e logo se esquece de fazer sua vontade. Há quem se faça a ilusão de trabalhar pelo Senhor (“profetizamos em teu nome, expulsamos os demônios, fizemos milagres”), mas logo, no dia das contas, no dia da verdade, acontece que o Senhor não o conhecerá: “Jamais vos conheci. Afastai-vos de mim”.


Por isso, existe o perigo de uma oração (“Senhor, Senhor”) que não é traduzida em vida e em compromisso. Por essa razão um sábio chegou a dizer: “Não há nada que seja mais perigoso do que a oração”, porque obriga ou leva quem reza a assumir os compromissos de Deus com seriedade e perseverança na convivência com os demais homens. Existe o perigo de uma escuta da Palavra que não se converte em nada prático e operante. Jesus fala bem claro neste evangelho: os que falam bem, os que “rezam bem”, os que “oram”, mas não “fazem” não entrarão no Reino. Em outras palavras, a oração precisa ser transformada em compromisso. Rezemos diante de Deus como uma criança, mas logo voltemos à nossa vida com nossa responsabilidade de adultos. O final de toda oração adulta é um só: “Amém”, isto é, aceito a realidade e minha responsabilidade diante dela.


Por que às vezes ou muitas vezes, a oração se encerra em si, a escuta da Palavra de Deus não se traduz em vida e o encontro com os irmãos não se abre ao mundo? A resposta implicitamente se encontra na própria Palavra de Deus: “Ninguém pode servir a dois senhores” (Mt 6,24). Por servir a dois senhores, a pessoa, depois de “servir” a Deus com oração, com a escuta da Palavra e com a reunião eclesial logo serve ao mundo e a si própria com as opções concretas e cotidianas da vida longes dos valores cristãos.


Precisamos estar conscientes de que não existe verdadeira fé sem empenho moral. A oração e a ação, a escuta e a prática, são igualmente importantes. Há três coisas indispensáveis para a vida de um cristão: escuta atenta da Palavra de Deus com oração, prática da vontade de Deus e perseverança até o fim apesar das tempestades da vida.


Jesus não quer que os cristãos cultivem somente a relação com ele, e sim que sejam seguidores que, unidos a ele, trabalhem para mudar a situação da humanidade. É viver de acordo com a justiça e a caridade. Onde há justiça não há pobreza nem exclusão social.


Construir a Vida Sobre a Rocha da Palavra de Deus


Jesus nos convida hoje a sermos seguidores “rocha” e não seguidores “areia”. Seguidor “areia” é aquele que vive de uma fé de simples aparência, sem fundamento. Um dia acredita em Deus, em outra ocasião perde a fé. Crê quando as coisas vão ao seu gosto e se desanima quando tudo não corresponde àquilo que imaginava. Os seguidores “rocha” são os que fundamentam sua vida na rocha que é Cristo e sua Palavra. Os seguidores “rocha” se mantêm firmes em qualquer situação, porque seguram na mão de Deus e sabem em quem acreditam (cf. 2Tm 1,12c).  Para sermos verdadeiros seguidores “rocha” devemos fazer próprias as palavras do Salmo 78: “Senhor, não lembreis as nossas culpas do passado, mas venha logo sobre nós vossa bondade.... Por vosso nome e vossa glória, libertai-nos! Por vosso nome, perdoai nossos pecados!”. Não corrigir nossas faltas é o mesmo que cometer novos erros. Muito sabe quem conhece a própria ignorância e procura a viver mais com sabedoria e prudência.


O evangelho deste dia quer nos dizer que não importa “dizer Senhor, Senhor, nem falar em seu nome, nem sequer fazer milagres”. O que importa é a prática. O fazer. As obras. Não o dizer, nem o pensar, nem o rezar, nem o pregar, nem fazer milagres. A prática é a rocha, por isso, é firme até diante de Deus. Jesus nos convida a construir nossa vida sobre a prática. As obras boas praticadas são verdadeiros sinais da abertura diante da graça de Deus.


Para Refletir:
  • O Nome de cristão traz em si a conotação de justiça, bondade, integridade, paciência, castidade, prudência, amabilidade, inocência, e piedade. Como podes explicar a apropriação de tal nome se tua conduta mostra tão poucas dessas muitas virtudes? Não nos deixemos enganar pelo fato de nos chamarem de cristãos. Antes, admitimos ser merecedores de reprovação se usamos um nome ao qual não temos direito... Não existe uma só profissão que não carregue consigo a função correspondente. Como, pois, te atreves a chamar-te cristão, se não te comportas como tal? (Santo Agostinho: De vit. Christ. 6). 
P. Vitus Gustama,SVD