sábado, 2 de julho de 2016

04/07/2016




JESUS, O DEUS QUE SALVA, É FIEL E MISERICORDIOSO


Segunda-Feira da XIV Semana Comum


Primeira Leitura: Os 2,16.17b-18.21-22


Assim fala o Senhor: 16 Eis que eu a vou seduzir, levando-a à solidão, onde lhe falarei ao coração; 17b e ela aí responderá ao compromisso, como nos dias de sua juventude, nos dias da sua vinda da terra do Egito. 18 Acontecerá nesse dia, diz o Senhor, que ela me chamará ‘Meu marido’, e não mais chamará ‘Meu Baal’. 21 Eu te desposarei para sempre; eu te desposarei conforme as sanções da justiça e conforme as práticas da misericórdia. 22 Eu te desposarei para manter fidelidade e tu conhecerás o Senhor.


Evangelho: Mt 9, 18-26


18 Enquanto Jesus estava falando, um chefe aproximou-se, inclinou-se profundamente diante dele, e disse: “Minha filha acaba de morrer. Mas vem, impõe tua mão sobre ela e ela viverá”. 19 Jesus levantou-se e o seguiu, junto com os seus discípulos. 20 Nisto, uma mulher que sofria de hemorragia há doze anos veio por trás dele e tocou a barra do seu manto. 21 Ela pensava consigo: “Se eu conseguir ao menos tocar no manto dele, ficarei curada”. 22 Jesus voltou-se e, ao vê-la, disse: “Coragem, filha! A tua fé te salvou”. E a mulher ficou curada a partir daquele instante. 23 Chegando à casa do chefe, Jesus viu os tocadores de flauta e a multidão alvoroçada, 24 e disse: “Retirai-vos, porque a menina não morreu, mas está dormindo”. E começaram a caçoar dele. 25 Quando a multidão foi afastada, Jesus entrou, tomou a menina pela mão, e ela se levantou. 26 Essa notícia espalhou-se por toda aquela região.
------------------


Deus É Fiel e Misericordiosa


A partir de hoje até a próxima sexta-feira refletimos sobre o profeta Oseias nas Primeiras Leituras.


Chama a atenção o fato de que, no início do livro do profeta Oseias, Javé mande que o profeta Oseias se case com uma “prostituta”. A partir dos estudos existentes, o mais verossímil é pensar que Oseias se casou com uma jovem normal que, posteriormente, lhe foi infiel, indo embora com outro.


A experiência da infidelidade da esposa serve para Oseias como base para denunciar as relações do povo com Javé (Yhwh). Isso nos leva para uma importante constatação de que as experiências vividas por um crente em determinado nível de sua personalidade afetam a pessoa em sua globalidade e por conseguinte em sua experiência de fé, como Oseias que experimenta a infidelidade em nível psicológico-existencial. Este salto dado permite Oseias ter um olhar de fé em termos de infidelidade na relação entre o povo com Javé. Oseias nos ensina que é necessário descobrirmos a ação de Deus em nossa vida cotidiana e fazermos dela o caminho “normal” de nosso crescimento total para que tenhamos uma sabedoria de viver nosso cotidiano. Oseias descreverá este Deus com imagens belíssimas e claríssimas no seu livro.


Oseias que significa “Deus/Javé salva”, começa sua atividade profética nos últimos anos do rei Jerobão II (782-753), no reino do Norte, pouco depois que o profeta Amós, seu contemporâneo, foi expulso do reino do Norte (veja as reflexões da semana anterior sobre Amós).


Quando chegam à Palestina (vindo do Egito), os israelitas se tornam um povo de pastores seminômades. A imagem divina que possuíam era a de um Deus de pastores que protegia suas migrações, guiava-os pelo caminho e salvava-os no combate contra tribos e povos vizinhos (cf. Sl 23). Mas quando se estabeleceram em Canaã, mudaram parcialmente de profissão, tornando-se agricultores. Muitos dos israelitas não podiam conceber que um Deus de pastores pudesse ajudá-los a cultivar a terra, enviar-lhes a chuva, garantir-lhes estações propícias e uma boa colheita. O deus especialista da agricultura era o cananeu Báal. Os israelitas aceitaram esse culto, embora implicasse práticas muito degradantes, como a “prostituição sagrada”.


Mas Javé (Yhwh) é um Deus pessoal e intransigente, que não permite competição de nenhum tipo: “Acontecerá nesse dia, diz o Senhor, que ela me chamará ‘Meu marido’, e não mais chamará ‘Meu Baal’”.


Em “aquele dia”, é tão impreciso como seguro. A expressão “eu te desposarei” é três vezes repetida no texto lido hoje para fazer notar a importância da intenção divina em salvar os homens, apesar de sua infidelidade, e a solenidade do ato baseado na misericórdia. De modo que “não mais chamará ‘Meu Baal’ e sim ‘Meu marido’”.


Aqui quem paga o preço da infidelidade do povo é o próprio Javé. Oseias coloca cinco presentes de Javé que são essenciais para a felicidade e a santidade do povo: “Direito e justiça” divinas para com o povo que é “esposa infiel”; retidão”: Javé buscará sempre o reto como norma de suas ações; “amor constante”, não somente afetividade ou sentimento e sim afetividade que implica solidariedade, lealdade e assistência; “misericórdia” porque Javé sabe das debilidades humanas e por isso, saberá compreender e perdoar a fragilidade inata do povo; e finalmente, “fidelidade”: Javé será um Deus-Esposo em quem sempre pode fiar e confiar. Trata-se de uma mensagem cheia de esperança para quem não vê sua situação sem saída. Deus é fiel porque Ele é fiel para si próprio. É como a água que continua sendo água mesmo que o homem a maltrate. Oseias descreverá este Deus com imagens belíssimas e claríssimas no seu livro.


Jesus É o Deus-Conosco Que Salva


1. Um Chefe Que Suplica a Jesus Pela Filha Morta: Jesus É a Ressurreição e a Vida


Os dois episódios no evangelho de hoje (uma menina morta que voltou a viver e uma mulher curada de sua hemorragia) se encontram também em Marcos (Mc 5,21-43) e em Lucas (Lc 8,40-56).


Em Mateus, no primeiro episódio, aquele que se aproxima de Jesus que suplica pela filha morta não tem nome. Simplesmente ele é “um chefe”. Não se diz que é um chefe da sinagoga como em Marcos e Lucas nos quais se fala de Jairo. Este chefe que manifesta sua fé em Jesus nos leva ao episódio do centurião que pediu a cura para seu empregado (Mt 8,5-13). Mas o caso do chefe é grave, pois trata-se da filha morta.


Neste primeiro episódio do evangelho deste dia Jesus se encontra, então, diante da morte de uma menina e o pai desta pede a Jesus para impor sua mão sobre ela a fim de ela voltar a viver: “Minha filha acaba de morrer. Mas vem, impõe tua mão sobre ela e ela viverá”. Trata-se de um pobre chefe esmagado pela dor: a morte de sua filha. Há situações diante das quais a força humana (chefe) fica impotente, como diante da morte. Nessas situações só a fé é que pode nos ajudar, como fez o pai da menina falecida. É algo surpreendente a confiança posta por esse homem em Jesus. É uma verdadeira fé no impossível: fé no poder de Jesus de fazer sua filha voltar a viver. Lá onde a força humana terminar, a fé a continuará. Jesus não se resiste a este tipo de oração. “Jesus se levantou e o seguiu junto com seus discípulos”, assim relatou Mateus.


Quando chegou à casa da menina morta, Jesus disse à multidão: “Retirai-vos porque a menina não morreu e sim está dormindo”.  Jesus quer dizer que para ele e para o poder de Deus a morte não significa mais que um sono ligeiro. Morrer é descansar em paz nos braços do Pai celeste. Da mesma maneira Jesus também falou de Lázaro morto: “Nosso amigo Lázaro está dormindo e vou despertá-lo” (Jo 11,11). A morte para Deus não é um poder insuperável. As coisas têm um aspecto muito distinto diante do olhar de Deus e diante da experiência do homem. Mas se aprendermos a olhar tudo a partir de Deus, então a morte perderá seu caráter arrepiante. Para Jesus, a morte não tem o caráter temível e definitivo. Para ele, a morte é uma espécie de “sono” do qual Deus tem o poder de despertar. Se para Jesus a morte não tem nenhum caráter temível, pois é apenas uma passagem para uma vida eterna, deve ser também para quem quiser segui-lo. O cristão é chamado a proteger a vida no seu inicio, na sua duração e no seu término na história, pois Deus é a Vida por excelência e por isso, chama todos à vida, especialmente para aqueles que vivem no desespero e na falta de esperança. A menina morta voltou a viver por causa do poder de Jesus.


Quem é este “chefe”? Ele não tem nome nem determinada função (se é chefe de sinagoga ou se é chefe dos judeus ou se é chefe do sinédrio). Ele é simplesmente um chefe.  Pode ser qualquer um de nós, pois, de alguma forma, cada um é chefe: seja dentro da família, seja fora dela (na sociedade). Uma pessoa pode ser muito importante (“chefe”) entre os homens ou muito poderosa do ponto de vista humano, mas ela precisa também de salvação. O poder mundano não salva, pois diante da morte tudo que é humano cai no chão. O brilho falso tem seu fim. Somente Deus salva e nos garante a vida eterna. Do ponto de vista humano, paradoxalmente, o aparente superpotente ou super-poderoso é, na verdade, impotente. Mas “quando me sinto fraco, então é que sou forte”, escreveu São Paulo à comunidade de Corinto (2Cor 12,10).


Um ser humano precisa de outro ser humano para possibilitar seu crescimento como ser humano. Podemos possuir tudo que o mundo tem a oferecer em termos de status, realizações e bens, no entanto, sem nos sentirmos integrados, tudo isso parece vazio e inútil. A integração (viver em comunidade como irmãos/família) sugere calor, compreensão e abraço. Quando ficamos isolados, estamos propensos a ser prejudicados. Sentir-se integrada mantém a pessoa em equilíbrio. Sempre que há distância, há também anseio.


E o ser humano, enquanto criatura, precisa do Salvador que dá sentido para tudo na sua vida. Por isso, Santo Agostinho dizia: “Ninguém está tão só do que aquele que vive sem Deus. E, o homem, para onde se dirija, sem se apoiar em Deus só encontrará a dor”. Nas suas Confissões, Santo Agostinho rezou: “Fizeste-nos para Ti, Senhor, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em Ti. Dá-me, Senhor, saber e compreender qual seja o primeiro: invocar-Te ou louvar-Te; conhecer-Te ou invocar-Te. Mas quem Te invocará sem Te conhecer? (...) Que eu Te busque, Senhor, invocando-Te; e que eu Te invoque, crendo em Ti: Tu nos foste anunciado” (Conf. 1,1).


2. Mulher Curada da hemorragia


Dentro do primeiro episódio Mateus insere outro episodia: uma mulher que sofria de hemorragia há doze anos. Em primeiro lugar, essa mulher não tem nome, nem se menciona sua família nem sua tradição. Menciona-se, além disso, seus doze anos de sofrimento! O número “doze” aplicado aos anos de sua enfermidade é clara alusão a Israel. A mulher enferma representa, então, o povo que para que seja salvo (cura) é preciso renunciar à Lei para entrar contato direto com Jesus. Jesus seria “impuro”, isto é, não tem acesso a Deus (salvação) por seu contato com os “pecadores” (Mt 9,10-13). Mas Jesus é Emanuel, Deus-Conosco (Mt 1,23; 18,20; 28,20) que vem para salvar. Para encontrar a salvação nele é preciso se aderir a ele e fazer contato com ele.


Segundo o texto do evangelho de hoje essa mulher não pede nada e não diz nada a Jesus. Mas ela mostra sua fé total em Jesus. A fé dessa mulher é comparável à do chefe do primeiro episódio; sua certeza de cura é total. Ela somente pensa e silenciosamente se aproxima de Jesus para tocar a barra do seu manto: “Se eu conseguir ao menos tocar no manto dele, ficarei curada”, pensou essa mulher. Jesus tinha curado o leproso com seu contato (Mt 8,15).


A mulher que sofre de hemorragia se aproxima e toca a orla do manto de Jesus. Este gesto era proibido na cultura judaica. Uma mulher não podia olhar para um homem em público, muito menos tocá-lo. A situação fica pior ainda porque a mulher está com a hemorragia que pode causar a impureza legal para a pessoa tocada. Por ser mulher e pela sua enfermidade essa mulher estava duplamente excluída. Mas ela não quer saber das proibições. Ela quer encontrar-se com Jesus e tocar seu manto. Ela não quer ser escrava das regras e dos costumes desumanos. Pois de fato, as regras culturais e de culto a afasta da convivência e da salvação.


Quantas pessoas são escravas das regras. A graça produz as regras, mas as regras não produzem a salvação, pois elas são apenas meios e não o fim. Os costumes que não salvam, não podem ser mantidos.


Jesus reconhece nessa mulher a fé que transforma sua situação triste em alegria por encontrar o Salvador, Jesus: “Coragem, filha! A tua fé te salvou”. O termo “filha” coloca essa mulher em relação com “a filha” do chefe. Ambas são figuras de Israel. A partir de então, a mulher voltou a viver sua vida saudavelmente.


Os dois (chefe cuja filha estava morta e a mulher que sofria de hemorragia há doze anos) se aproximam de Jesus com muita fé e obtêm o que pedem. Eles confiam, se apóiam e se abandonam totalmente em Jesus.  E receberam uma resposta adequada da parte de Jesus: a volta da filha para a vida e a cura da mulher sofrida de hemorragia de longos anos. Por causa da fé eu preparo o espaço necessário para que Deus possa atuar. A fé é sempre e continua sendo a condição e o fundamento da ação salvadora de Deus no homem. A novidade do Reino trazido por Jesus não é somente a cura, mas principalmente a ressurreição ou a salvação.


A dor daquele pai e o sofrimento daquela mulher podem ser um bom símbolo de todos os nossos males, pessoais e comunitários.  Também agora, como em sua vida terrena, Jesus nos quer atender e nos encher de sua força e de sua esperança. É preciso manter nosso contato diário com Jesus para que sejamos vivos e salvos. Na Eucaristia ele mesmo se dá como alimento, para que, quando nos aproximamos dele e o recebemos com fé, possa curar também nossos males. Mas a cura-salvação não é um toque mágico e sim um encontro de pessoas com Jesus. É o encontro com Jesus na fé que cura e salva, e somente depois do encontro é que Jesus diz as seguintes palavras: “A tua fé te salvou!”.


Para Refletir:
  1. A fé nasce no encontro com o Deus vivo, que nos chama e revela o seu amor: um amor que nos precede e sobre o qual podemos apoiar-nos para construir solidamente a vida. Transformados por este amor, recebemos olhos novos e experimentamos que há nele uma grande promessa de plenitude e nos é aberta a visão do futuro. A fé, que recebemos de Deus como dom sobrenatural, aparece-nos como luz para a estrada orientando os nossos passos no tempo (Papa Francisco: Lumen Fidei, Carta Encíclica).
     
  2. O contrário da fé é a idolatria. O ídolo é um pretexto para se colocar a si mesmo no centro da realidade, na adoração da obra das próprias mãos. A idolatria é sempre politeísmo, movimento sem meta de um senhor para outro. A idolatria não oferece um caminho, mas uma multiplicidade de veredas que não conduzem a uma meta certa, antes se configuram como um labirinto. A fé, enquanto ligada à conversão, é o contrário da idolatria: é separação dos ídolos para voltar ao Deus vivo, através de um encontro pessoal (idem).
     
  3. Acreditar significa confiar-se a um amor misericordioso que sempre acolhe e perdoa, que sustenta e guia a existência, que se mostra poderoso na sua capacidade de endireitar os desvios da nossa história. A fé consiste na disponibilidade a deixar-se incessantemente transformar pela chamada de Deus. Paradoxalmente, neste voltar-se continuamente para o Senhor, o homem encontra uma estrada segura que o liberta do movimento dispersivo a que o sujeitam os ídolos.
     
    P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 1 de julho de 2016



Domingo,03/07/2016


VIVER PERMANENTEMENTE COMO ENVIADOS DO SENHOR


XIV DOMINGO DO TEMPO COMUM “C”

(Para Os Lugares Que Celebraram a Solenidade de São Pedro e São Paulo no dia 29 de Junho de 2016)


I Leitura: Isaías 66, 10-14c


10 Alegrai-vos com Jerusalém, exultai com ela, todos vós que a amais. Com ela enchei-vos de júbilo, todos vós que participastes no seu luto. 11 Assim podereis beber e saciar-vos com o leite das suas consolações, podereis deliciar-vos no seio da sua magnificência. 12 Porque assim fala o Senhor: «Farei correr para Jerusalém a paz como um rio e a riqueza das nações como torrente transbordante. Os seus meninos de peito serão levados ao colo e acariciados sobre os joelhos. 13 Como a mãe que anima o seu filho, também Eu vos confortarei: em Jerusalém sereis consolados. Quando o virdes, alegrar-se-á o vosso coração e, como a verdura, retomarão vigor os vossos membros. 14c A mão do Senhor manifestar-se-á aos seus servos.


II Leitura: Gálatas 6, 14-18


Irmãos: 14 Longe de mim gloriar-me, a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo. 15 Pois nem a circuncisão nem a incircuncisão valem alguma coisa: o que tem valor é a nova criatura. 16 Paz e misericórdia para quantos seguirem esta norma, bem como para o Israel de Deus. 17 Doravante ninguém me importune, porque eu trago no meu corpo os estigmas de Jesus. 18 Irmãos, a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja com o vosso espírito. Amen.


Evangelho : Lc 10,1-12.17-20


1 Naquele tempo, designou o Senhor setenta e dois discípulos e enviou-os dois a dois à sua frente, a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir. 2E dizia-lhes: «A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi ao dono da seara que mande trabalhadores para a sua seara. 3 Ide: Eu vos envio como cordeiros para o meio de lobos. 4 Não leveis bolsa nem alforge nem sandálias, nem vos demoreis a saudar alguém pelo caminho. 5Quando entrardes nalguma casa, dizei primeiro: ‘Paz a esta casa’. 6 E se lá houver gente de paz, a vossa paz repousará sobre eles; senão, ficará convosco. 7 Ficai nessa casa, comei e bebei do que tiverem, que o trabalhador merece o seu salário. Não andeis de casa em casa.8 Quando entrardes nalguma cidade e vos receberem, comei do que vos servirem, 9curai os enfermos que nela houver e dizei-lhes: ‘Está perto de vós o reino de Deus’. 10 Mas quando entrardes nalguma cidade e não vos receberem, saí à praça pública e dizei: 11 ‘Até o pó da vossa cidade que se pegou aos nossos pés sacudimos para vós. No entanto, ficai sabendo: Está perto o reino de Deus’. 12 Eu vos digo: Haverá mais tolerância, naquele dia, para Sodoma do que para essa cidade». 17 Os setenta e dois discípulos voltaram cheios de alegria, dizendo: «Senhor, até os demónios nos obedeciam em teu nome». 18 Jesus respondeu-lhes: «Eu via Satanás cair do céu como um relâmpago. 19 Dei-vos o poder de pisar serpentes e escorpiões e dominar toda a força do inimigo; nada poderá causar-vos dano. 20 Contudo, não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem; alegrai-vos antes porque os vossos nomes estão escritos nos Céus».
----------------------------

Estar Permanentemente a Caminho


O texto pertence à segunda fase ou a segunda parte do ministério de Jesus (Lc 9,51-18,34). A primeira parte (Lc 3,1-9,50) fala da atividade de Jesus na Galiléia. Pela grande maioria dos estudiosos, esta segunda parte (Lc 9,51-18,34) é tratada como a Grande Viagem/Caminhada de Jesus rumo a Jerusalém. Seis vezes, Lucas diz que Jesus está a caminho.


A meta da caminhada de Jesus é Jerusalém, tanto no sentido geográfico como no sentido do ponto de chegada de toda uma história de promessas e expectativas, pois Jesus é o Messias, o Ungido esperado, Cumpridor das promessas. A meta final de Jesus não é o fracasso e a morte e sim a libertação total e a vida nova, a ressurreição.


Jerusalém é o ponto da chegada da missão, mas até lá há um vasto caminho a percorrer. A missão na Samaria ocupa um tempo maior do que a missão na Galileia ou em Jerusalém. Tem-se a impressão de que Jesus tem mais carinho para com os samaritanos e pagãos do que para com os galileus ou judeus (embora Jesus seja recusado pelos samaritanos. cf. Lc 9,51-56). Esse carinho se manifesta outra vez, de modo muito singular, quando Jesus conta a parábola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37). Por isso, há uma sugestão que queira dividir o Evangelho de Lucas em três grandes partes: Ministério na Galileia (4,1-9,50); Ministério na Samaria (9,51-18,34); e Transição por Jericó e Ministério em Jerusalém (19,28-24,12).


O tema sobre o “caminho” no seguimento a Jesus qualifica a existência e a vida da comunidade cristã como experiência aberta, dinâmica, progressiva e renovada. O tema sobre o “caminho” leva qualquer cristão a concluir que viver a vida cristã é viver na permanente caminhada, viver no constante crescimento e na renovação contínua no Espírito do Senhor.  Se o cristão ou qualquer comunidade não se superar permanentemente, ele ou ela se tornará irrelevante para seu mundo atual em que vive. Se não estiver melhorando, certamente estará piorando. As pessoas com resultados extraordinários mudam primeiro a própria vida. Caminhar com o Senhor é aprender a pensar com capacidade para evitar pensamentos de pobreza e miséria. A pobreza é um estado mental vazio e decadente, sem sonhos nem metas. Quando o cristão ou qualquer líder de um grupo, de um movimento, de uma pastoral, de uma comunidade fecha os círculos e não deixa entrar mais ninguém, nem novas reflexões nem novos horizontes para ampliar a visão, nunca vai conseguir liberar seu potencial, pois estará infringindo a “lei da multiplicação” e da qualidade. No mundo tudo está mudando vertiginosamente, a um ritmo muito acelerado. Os conceitos e conhecimentos adquiridos servem para dar informação, mas precisam ser atualizados regularmente. Vivemos no mundo que está sempre sujeito para as modificações. Inevitavelmente a mudança muitas vezes significa quebra de estruturas para o começo de um sucesso. Temos que aprender a abrir mão de tudo aquilo que não serve. O bem-sucedido sempre muda, porque procura se aprimorar. O cristão deve estar aberto para os novos caminhos do Senhor, para as novas reflexões, pois o Espírito sopra para onde quer e por isso, ninguém é capaz de dominar o Espírito do Senhor. Ninguém pode embrulhar o Espírito Santo e levar para onde quer. Cada um é que precisa viver no impulso do Espírito do Senhor. Temos certeza de que com Jesus ressuscitado, a caminhada cristã na história está sob o signo da esperança, sem crises de resignação ou sem fanatismo. O fanatismo é sinal de fechamento para qualquer renovação e horizonte novo.


Todos Os Cristãos São Enviados do Senhor


No capítulo anterior, lemos que a missão antes foi confiada aos doze (Lc 9,1-6). A obra de Jesus não está encerrada. Realiza-se e expande-se através dos setenta (e dois) discípulos. Há provas tiradas dos certos manuscritos de que se deve ler “setenta” em vez de “setenta e dois discípulos”. Mas outros não o confirmam. Há ainda uma incerteza em determinar o número certo. Ambos os números são simbólicos. Há efetivamente uma alusão a dois textos do AT: Gn 10 e Nm 11,16-30(cf. também Ex 24,1.9-14). Gn 10  divide o mundo em setenta povos diferentes. Mas a antiga tradução grega do Gênesis cita setenta e duas nações. Setenta e dois é seis vezes o número de tribos em Israel. Nm 11,16-30 relata que Moisés escolheu setenta anciãos a quem Deus concedeu espírito. Também os membros do supremo congresso da nação judaica, no tempo de Jesus, o sinédrio, contava setenta membros. Mas o pretenso envio a todos os povos da terra contrasta com a expressa proibição, mencionada em Mt 10,5, de irem “pelo caminho dos gentios”, proibição que Lucas omite em consideração a seus leitores gentios.


Com o número setenta (e dois) Lucas quer nos dizer que a missão não é apenas exercida por um pequeno grupo de pessoas, mas todos os que  seguem a Jesus têm a mesma missão de continuar a obra de Jesus. Todos os cristãos tem a mesma missão. Missão significa que alguém é enviado. Jesus envia todos os cristão ao mundo para serem testemunhas de tudo o que Jesus fez e disse, especialmente de sua morte e ressurreição.


Infelizmente, porém, fizemos e fazemos da Igreja, muitas vezes, não uma estrutura aberta a serviço de um mundo melhor, e sim uma arca da salvação. Pensamos em nós mesmos como o povo escolhido, separado do resto, salvo do mundo malvado, esquecendo-se que somos sal da terra e luz do mundo. Se o cristianismo é simplesmente um caminho de vida para nós, ficamos felizes por viver e deixar de viver: tolerantes e conciliadores. Se, porém, pensarmos em nós como sal ou fermento, então buscaremos não apenas estar presentes, mas também estar presentes para transformar e iluminar.


Os Cristãos São Enviados Para Trabalhar Juntos


Os discípulos são enviados para preparar a chegada de Jesus. Eles desempenham um papel de precursores. Eles são enviados. Quem envia tem mais autoridade sobre quem é enviado. O que cabe aos discípulos é anunciar(compare Jo 1,30). O único Mestre, o embaixador do Pai é Jesus Cristo. Por isso, não deve ter confusão entre o papel do discípulo e o do Mestre (Lc 6,40). Por isso, os discípulos devem estar conscientes sempre que eles não podem anunciar-se a si próprios, pois eles são mensageiros que colaboram com o Mestre.


Segundo Nm 35,30;Dt 17,6;19,15 o testemunho próprio ou só de uma pessoa não tem validade. Para que um testemunho tenha valor jurídico tem que ter no mínimo duas pessoas. Na tradição rabínica duas pessoas eram o mínimo, mas também o suficiente para formar comunidade.


A tarefa dos discípulos não é pregar sua própria mensagem e sim preparar o caminho de Jesus e dar testemunho dele. Esta é a missão permanente da Igreja. A missão dos discípulos tem como primeiro princípio ser testemunho de amor, perdão, justiça e verdade, dentro da comunidade. Dois a dois farão a primeira experiência de testemunho e suporte mútuo entre eles e depois para os outros. Há vários exemplos que encontramos no NT: Pedro e João (Mc 6,7;At 8,14); Barnabé e Paulo (At 13,2;15,2);Judas e Silas (15,32); Barnabé e Marcos (At 15,39); Paulo e Silas (At 15,40). Ser testemunha, o primeiro testemunho do irmão é o desafio permanente do discipulado. Para conseguir resultados é necessária uma equipe e organização.


Os Cristãos São enviados Para Trabalhar Na Mansidão e na retidão


O lobo do qual fala o Evangelho de hoje é o símbolo da violência e da arrogância, da vontade de dominar e de corromper os outros. O cordeiro simboliza a mansidão, a fraqueza, a fragilidade. O cordeiro só consegue se salvar da agressão do lobo se o pastor intervém na sua defesa. Os discípulos não podem contar com a força, o poder e a violência. Devem estar sempre desarmados. Para isso, é necessário que os discípulos estejam vigilantes para que eles não sejam conduzidos a cumprir as ações dos lobos como o abuso de poder, as agressões, as violências etc..  Além disso, eles devem estar conscientes de que a calúnia, a perseguições e até a morte são o resultado de quem trabalha na messe do Senhor porque diante dos poderosos deste mundo que se preocupam com o próprio poder, os discípulos precisam falar da justiça, da vida, do bem e do plano de Deus a respeito do universo e do destino do homem. Aparentemente o uso da força dá resultados, mas sempre se trata de resultados efêmeros. Jesus salvou o mundo, comportando-se como cordeiro, não como lobo.


Os Cristãos São Enviados Na pobreza Por Um Bem Superior


No Evangelho de hoje Jesus pede aos discípulos para levar somente o necessário ou aprender a viver na pobreza. Quando se fala da pobreza sublinha-se principalmente a pobreza do ser. Esta pobreza nos faz vinculados essencial e existencialmente a um outro ser, no caso, a Deus. Esta pobreza é a raiz e causa de toda e qualquer outra pobreza, especialmente a pobreza voluntária. Aceitar a pobreza voluntária significa viver sem segurança. Aceitar a pobreza é um verdadeiro desprendimento, uma espécie de morte. A pobreza voluntária deve sempre nascer de uma idéia, deve ter uma motivação, a realização de uma finalidade: a procura de um bem superior ao bem que se deixa. A pobreza voluntária faz alguém abrir-se a Deus para viver mais intensamente a vida de comunhão com ele e receber mais luz e força no caminho a percorrer. Mas não podemos confundir a pobreza imposta(empobrecimento), a miséria desumana e desumanizante que o pobre deve assumir e aceitar, forçosamente, com a pobreza voluntária, aceita e assumida conscientemente. A primeira é causada pela maldade, a injustiça e a corrupção; portanto, fruto do pecado. A segunda é fruto do amor, da liberdade, do reconhecimento da paternidade divina e da fraternidade universal. E é esta a pobreza que Deus quer de todos, ricos e pobres: a condivisão, a comunhão com nossos irmãos, daquilo que recebemos. Este tipo de pobreza é redentora porque é um compromisso de fé, uma abertura ao serviço do Reino de Deus e amor ao próximo. Quem não tiver a coragem de colocar toda a própria confiança na proteção que lhe é dada pelo Senhor, nunca será uma testemunha confiável do Reino que se aproxima.


Os Cristãos São Enviados Para Anunciar a Paz


A paz é o primeiro imperativo: “Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: Paz a esta casa” (v.5). O anúncio da paz é um mandato de Jesus para o discípulo. A paz é a plataforma do Reino. Jesus insiste, mesmo depois da Ressurreição, para que os discípulos tenham a paz (cf. Jo 20,19-21). Anunciar a paz a uma casa, a um coração configurava o gênero profético de mensagem: “Como são belos, sobre os montes, os pés do mensageiro que anuncia a paz...” (cf. Is 52,7). Uma vez que a paz foi anunciada, o resultado depende de quem a recebe ou a rejeita (v.6).Todo o discípulo, antes de ir para a missão, precisa encontrar a paz para si próprio. Ele deve estar em paz para ser portador da paz. Viver em paz com os outros evita e cura a agressividade entre os irmãos.


Os Cristãos São Enviados Para Propor e Não Para Impor a Mensagem


O Evangelho pode ser aceito, mas também rejeitado. Se alguém/uma cidade recusar, Jesus ensina para que o discípulo sacuda o pó dos seus pés(vv.10-12). Sacudir o pó que se gruda nos calçados ou nos próprios pés significa um sinal de separação, de distanciamento e de ruptura de contato. Por isso, carregar o pó de um lugar para outro seria carregar o contato, as relações e as conseqüências entre um espaço e outro.


A ordem de Jesus de sacudir o pó dos pés pode ser interpretada de duas maneiras: primeiro, como um sinal de protesto e de ruptura pela não acolhida, uma maldição e devolução da responsabilidade pela atitude desrespeitosa com o discípulo. Quem não aceita Cristo arruína sua própria vida, torna-se responsável pela própria infelicidade e pelos próprios males. Segundo, pode ser um simples sinal de separação. Diante de uma atitude má de alguém deve-se ter a capacidade de sepultar fatos negativos para que não influenciem em outros depois. Bater o pó, neste sentido, é a maturidade de compreender e superar fatos desagradáveis e continuar a agir, em outros lugares, não condicionados pelos primeiros.


Será que temos consciência de que como cristãos somos todos enviados do Senhor? Será que vivemos como enviados do Senhor? Será que temos consciência de que viver como enviados significa viver permanentemente a caminho?


P. Vitus Gustama,svd

Domingo, 03/07/2016


SOLENIDADE DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO


I Leitura: At 12,1-11


Naqueles dias, 1o rei Herodes prendeu alguns membros da Igreja, para torturá-los. 2Mandou matar à espada Tiago, irmão de João. 3E, vendo que isso agradava aos judeus, mandou também prender a Pedro. Eram os dias dos Pães ázimos. 4“Depois de prender Pedro, Herodes colocou-o na prisão, guardado por quatro grupos de soldados, com quatro soldados cada um. Herodes tinha a intenção de apresentá-lo ao povo, depois da festa da Páscoa. 5Enquanto Pedro era mantido na prisão, a Igreja rezava continuamente a Deus por ele. 6Herodes estava para apresentá-lo. Naquela mesma noite, Pedro dormia entre dois soldados, preso com duas correntes; e os guardas vigiavam a porta da prisão. 7Eis que apareceu o anjo do Senhor e uma luz iluminou a cela. O anjo tocou o ombro de Pedro, acordou-o e disse: “Levanta-te depressa!” As correntes caíram-lhe das mãos. 8O anjo continuou: “Coloca o cinto e calça tuas sandálias!” Pedro obedeceu e o anjo lhe disse: “Põe tua capa e vem comigo!” 9Pedro acompanhou-o, e não sabia que era realidade o que estava acontecendo por meio do anjo, pois pensava que aquilo era uma visão. 10Depois de passarem pela primeira e segunda guarda, chegaram ao portão de ferro que dava para a cidade. O portão abriu-se sozinho. Eles saíram, caminharam por uma rua e logo depois o anjo o deixou. 11Então Pedro caiu em si e disse: “Agora sei, de fato, que o Senhor enviou o seu anjo para me libertar do poder de Herodes e de tudo o que o povo judeu esperava!”


II Leitura: 2Tm 4,6-8.17-18


Caríssimo, 6quanto a mim, eu já estou para ser derramado em sacrifício; aproxima-se o momento de minha partida. 7Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé. 8Agora está reservada para mim a coroa da justiça, que o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que esperam com amor a sua manifestação gloriosa. 17Mas o Senhor esteve a meu lado e me deu forças, ele fez com que a mensagem fosse anunciada por mim integralmente, e ouvida por todas as nações; e eu fui libertado da boca do leão. 18O Senhor me libertará de todo mal e me salvará para o seu Reino celeste. A ele a glória, pelos séculos dos séculos! Amém.


Evangelho: Mt 16,13-19


Naquele tempo, 13Jesus foi à região de Cesareia de Filipe e ali perguntou aos seus discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” 14Eles responderam: “Alguns dizem que é João Batista; outros que é Elias; outros ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas”. 15Então Jesus lhes perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?” 16Simão Pedro respondeu: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. 17Respondendo, Jesus lhe disse: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. 18Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la. 19Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus”.


Jesus É o Messias, Filho de Deus Vivo          


O texto do Evangelho na solenidade de São Pedro e são Paulo relata a confissão de Pedro que é conhecida como a profissão de fé petrina.


Jesus procede em dois tempos, fazendo sucessivamente a pergunta: quem é Jesus na opinião dos homens (povo) e na opinião dos próprios discípulos de Jesus. , portanto, duas maneiras de compreender Jesus, uma que fica do lado de fora e a outra que atinge a realidade profunda.


“Quem dizem os homens ser o Filho do Homem (Filho do Homem = Eu)?”. Para o povo (os homens), Jesus não tem personalidade própria. O povo simplesmente assimila Jesus a personagens conhecidos do AT como Elias que era muito venerado pelo povo e foi arrebatado até Deus de maneira milagrosa (2Rs 2,11) e cujo retorno estava  esperado como precursor do Messias (Ml 3,23-24; Eclo 48,10);  como João Batista (Herodes Antipas considerou Jesus como João Batista ressuscitado dentre os mortos. cf. Mt 14,2); e como Jeremias que era associado a uma renovação do culto no Templo. Jesus, então, é visto em continuidade com o passado. O povo não consegue descobrir a novidade trazida por Jesus. Por isso também o povo não é capaz de saber a originalidade de Jesus. A resposta do povo fica na superfície e na margem da realidade verdadeira e profunda.


Jesus continua a perguntar para os mais íntimos, os seus discípulos: “E vós, quem dizeis que Eu sou?”. Esta pergunta tem um sentido entre dois seres que se amam e que descobrem o que são no olhar e no coração do outro. Tem um sentido para aquele que assume uma responsabilidade para com os outros e que tem necessidade de que ela seja reconhecida. Nesta pergunta coincidem completamente o ser e a função. Ser o Messias significa existir exclusivamente para todos os homens e ser Jesus significa ser aquele que salva todos os homens (Mt 1,21). Por isso, é preciso que a resposta seja real, que exprima uma experiência autêntica. Uma resposta puramente escolar ou a repetição duma fórmula cuidadosamente registrada, criaria um equívoco total. Por isso, a pergunta de Jesus obriga o homem a colocar-se de todo perante esse personagem misterioso, a encontrar a resposta exclusivamente na contemplação da sua pessoa e a empenhar todo o seu ser na resposta.


Em nome dos discípulos, Pedro responde: “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo”. A resposta de Pedro atinge a verdadeira personalidade de Jesus, a sua relação com Deus, diferente de tudo quanto conheceram os profetas e o povo, e a sua missão no mundo, a qual interessa diretamente a todos os filhos de Israel e, através deles, à humanidade inteira. A resposta de Pedro à pergunta de Jesus é a mais comprometida. É uma profissão de fé messiânica que adquire dimensão teológica. Estes dois títulos “Messias” (a profissão de fé pré-pascal) e “Filho de Deus vivo” (a profissão de fé pós-pascal) resumem a fé da Igreja de Mateus.


O Messias” (“Mashiah”, hebraico = “Ungido”) é uma expressão mais importante das esperanças de salvação no AT e no judaísmo subsequente. No contexto da teologia bíblica, a questão do Messias tem especial relevância, porque este título, em sua tradução grega “christos”, além de ser título (Jesus, o Cristo), tornou-se praticamente o nome de Jesus (Jesus Cristo). No NT este termo “Christos” é atribuído 530 vezes a Jesus de Nazaré.


Quando Pedro reconhece em Jesus o Messias, não renuncia à sua esperança de judeu, mas dá a essa esperança o rosto que tem diante de si. É aquele que o seu povo espera, aquele que vai mudar o destino das nações, que Pedro descobre sob os traços de Jesus.


Se Jesus é o Messias, então, é preciso procurá-lo e é mister segui-lo. Mas, certamente, acontece o contrário. Mt sublinha também o fato de Israel desprezar o Messias que lhe foi enviado, principalmente foi desprezado pelas autoridades (Mt 2,1-12;9,33s;12,23s;21,45s;26,4s etc...).


Pedro também professa que Jesus é o “Filho de Deus vivo”. “Filho de Deus” é o título mais importante de Jesus, mas, sobretudo, é o mistério íntimo de sua pessoa. Este segundo título, nesta profissão petrina, indica que Jesus tem relação especial com Deus, como seu Filho. “Filho de Deus” é título tradicional para líderes judaicos com aprovação divina. A autoridade e o poder de Jesus vêm de Deus que o legitima em seu batismo (Mt 3,17) e na sua transfiguração (Mt 17,5) e no reconhecimento da parte dos próprios discípulos como tal  quando Jesus anda sobre as águas (Mt 14,33). Até na cruz, Jesus é tentado três vezes na sua qualidade de Filho de Deus (Mt 27,39-43). Estas três tentações no final afirmam uma clara relação com três tentações do início do relato (Mt 4,1-11). Ali, também, Jesus recém-proclamado Filho de Deus no batismo, é tentado por Satanás para que use desta filiação numa demonstração de poder em benefício próprio. Mas Jesus não é o Filho de Deus pela demonstração de seu poder, e sim na aceitação da condição humana e na plena fidelidade à vontade de Deus, seu Pai, na aceitação da cruz como consequência de sua fidelidade ao projeto do Pai onde se manifesta a sua filiação divina.


Neste segundo título, Mt acrescenta também o adjetivo “vivo”: “Filho de Deus vivo”. Jesus como o “Filho de Deus vivo” equivale à fórmula “Deus Conosco/Emanuel” (Mt 1,23;18,20;28,20). Se Deus sempre está conosco porque Ele é vivo. “Vivo” (cf. 2Rs 19,4.16;Is 37,4.17;Os 2,1;Dn 6,21) opõe o Deus verdadeiro aos ídolos mortos; significa o que possui a vida e a comunica para quem acredita nele (cf. Jo 10,10). O Deus de Jesus é vivo e vivificante. Jesus é o Filho de Deus vivo, portanto também é doador de vida e vencedor da morte (cf. Jo 11,25).


Consequentemente, quem crê em Jesus deve proteger a vida em todos os instantes de sua existência, tanto a própria vida como a vida dos demais homens. O Livro de Gênesis apresenta o homem como obra de Deus (Gn 2,7). O sopro divino coloca o homem no âmbito humano e o distingue dos animais. A vida de Deus é que sustenta a vida do homem. Nenhum outro vivente possui o hálito divino. A vida do homem é divina. O homem pertence a Deus porque é obra de Suas mãos. É o próprio do homem não pertencer a si mesmo. Ele é propriedade de Deus. Por ser divina, a vida do homem jamais pode ser sacrificada, mal tratada, agredida, vendida ou comprada. Jesus em quem acreditamos é “o Filho de Deus vivo”.


Pedro É Rocha de Deus Sobre a Qual Se Edifica a Igreja de Cristo


“Eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta rocha edificarei a minha Igreja...”.


Jesus chama Simão de “Petros” (Pedro). “Petros” é tradução grega do aramaico “Kepha”  que significa “rocha”, e não pedra, pois pedra pode ser arrancada ou ser jogada. A “rocha”, ao contrário, é símbolo da firmeza incomovível/intransponível. Rocha é um termo que AT, especialmente nos Salmos (por ex. Sl 18,3;31,4;71,3), se emprega ao próprio Deus. Deus é a rocha de Israel, a guarita segura, o fundamento perene, o penhor da fidelidade e perseverança. A segurança duradoura de um fundamento feito de rocha será doravante representado por um homem chamado Simão. Ao ser chamado de “Petros”, Simão não está recebendo um nome novo. Mas que o “ser rocha” será sua função e sua missão. Ser “rocha” descreve plasticamente a tarefa que Jesus lhe confia: ser rocha firme para que a Igreja não sucumba diante das dificuldades ou problemas (cf. Mt 7,24-27).


Edificarei a minha Igreja”. A Palavra “Igreja” vem do grego “ekklesía” ( de “ek-kaléin” = chamar de fora) e significava no princípio “convocação”. No texto grego do AT (também chamado “Setenta”) “ekklesia” é um termo frequentemente usado para designar a assembleia do povo eleito na presença de Deus (qahal, em hebraico, indica a comunidade de Deus reunida em assembleia para o culto), sobretudo quando se tratava da congregação no Sinai, onde Israel recebera a Lei e fora constituído por Deus como seu povo santo.


Nos Evangelhos, o vocabulário “ekklesía” ocorre apenas duas vezes, ambas em Mt (Mt 16,18;18,17). Mas nas Cartas paulinas se encontra 65 vezes, em At 23 vezes e em Ap 20 vezes. Quando a oposição entre judeus e os cristãos se tornou viva e os discípulos de Cristo foram excluídos das sinagogas, eles constituíram comunidades cristãs independentes com a designação genérica “ekklesía”. A palavra grega, de fato, nunca foi traduzida, apenas adaptada.


Com um adjetivo possessivo “minha” em “minha Igreja” Mt sublinha assim o novo povo de Deus criado por Cristo, a comunidade messiânica dos últimos tempos. Portanto, não a antiga comunidade de Javé, mas a nova comunidade do Messias. Esta se diferenciará pela profissão de fé em Jesus , o Messias (Cristo) e estar unida em virtude dessa profissão.


A esta fundação Jesus promete duração perene: “...e o poder do inferno nunca poderá vencê-la” (v.18b). É a consequência da solidez do edifício que se edifica sobre a rocha.  Além da Igreja ir ser poupada da morte e ter uma duração perpétua, também e sobretudo que, nela, haverá refúgio diante das forças adversas da perdição. Esta explicação se baseia sobre a parábola de duas casas, uma construída sobre a rocha e a outra sobre a areia, na conclusão do Sermão da Montanha (Mt 7,24-27). Jesus constrói o novo povo de Deus, pondo Simão como fundamento. Pedro torna-se rocha enquanto professa a sua fé em Jesus Messias e Filho de Deus e os crentes do novo povo não cairão na perdição. E a fé entra, então, como fator qualitativo do fundamento.


Poder De Desligar e De Ligar


O texto deste domingo termina com a entrega da chave do Reino a Pedro: “Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra, será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra, será desligado nos céus” (v.19).


A simbologia da chave refere-se ao fato de que ela tanto abre como fecha. Na Bíblia, a chave significa a plenitude de poder dada ao seu dono (cf. Is 22,22;Ap 1,18;3,7). O Reino de Deus, aqui, parece se comparar a uma cidade, guarnecida por portas, ou a uma casa na qual se entra pela porta. Para abrir e fechar precisa-se de chave. E Pedro recebe as chaves de Jesus Cristo para ligar e desligar.


Os termos “ligar” e “desligar”  são a linguagem técnica usada pelos rabinos que têm duplo significado: o poder de declarar que uma doutrina está certa ou errada (no nível doutrinal), e o poder de excluir alguém da comunidade de Israel temporária ou definitivamente ou de recebê-lo nela (no plano disciplinar). Isso quer dizer que Jesus confere a Pedro o poder que abrange o nível disciplinar de admitir  na comunidade ou excluir da sua comunhão, e o nível doutrinal de declarar autoritativamente, proibição ou permissão de uma doutrina cujo fundamento são exigências divinas expressas nas Sagradas Escrituras.


A decisão do Apóstolo tem valor que se indica através do uso dos termos “terra” e “céu” (o ambiente humano e divino). Mt usa duas vezes esse par de palavras de autoridade: aqui e em Mt 18,18. Em Mt 16,19, essa autoridade é concedida a Pedro e, em Mt 18,18 (cf. Jo 20,23), é concedida à comunidade. Isto quer dizer que Pedro é o primeiro, mas sempre entre os outros (primus inter pares).


A Igreja na qual o evangelista Mateus vivia, tinha a convicção de ser Igreja “de Pedro”. Mateus se esforça em demonstrar que esta Igreja concreta tem sua origem numa ordem expressa do Senhor. Ao dar “chave” a Pedro, Jesus faz no fundo uma afirmação inaudita: alguém nesta terra tem, de fato, uma influência sobre o acesso das pessoas ao Reino de Deus. A Igreja toda ficará irrevogavelmente ligada ao múnus de Pedro, pois a ordem de Jesus é dada para Simão Pedro. Não somente pela sua confissão de fé, mas por sua função de Kefa/Rocha, isto é, pedra fundamental. Pedro tem a missão divina de representar, no seu múnus singular, o grupo todo dos apóstolos na sua comum tarefa dada por Jesus.


O individualismo espiritualista hoje em dia, onde cada um quer regular por si mesmo a relação com Deus, onde cada um quer fundar sua própria Igreja sem ordem de Cristo, terá grande dificuldade de entender o enunciado do Evangelho e a ordem de Jesus a Simão Pedro. Por isso, a pergunta fundamental que cada seguidor de Jesus deve fazer é esta: Será que estamos sobre o fundamento? Será que Pedro é rocha também para nós? Hoje, o Papa é esse Pedro.


“E vós, quem dizeis que Eu sou?”. Sem esta pergunta dirigida realmente a cada um de nós, a leitura do evangelho de hoje poderá ser em vão. Não há Igreja a não ser onde houver definição a respeito da pessoa de Jesus. Esta definição é essencialmente uma opção. Dizer com Pedro que Jesus é o Messias significa não ter mais a quem ir, senão a Jesus Cristo. É confessar sem a ajuda dos outros, pois é uma opção. Significa que não há nenhuma salvação a não ser me Jesus. Significa que não podemos voltar para trás, pois aquele que nos traz a salvação está nos chamando para segui-Lo. Significa que tudo em mim, o mais íntimo e o mais secreto, e o mais visível é julgado somente por Jesus que me conhece até lá no fundo do meu coração. Significa que a opção por Jesus deve relativizar toda nossa existência e deve pôr em questão tudo o que por nós construímos.


São Pedro e são Paulo são fundamento de nossa Igreja. são os dois homens com um passado não precisamente brilhante.


Pedro é um predileto de Jesus desde o primeiro momento. Vive com o Senhor os acontecimentos mais importantes de sua vida. Fogoso e temperamental, fala que é capaz de seguir a Jesus até a morte. Basta uma insinuação de uma mulher durante a Paixão do Senhor para negar-se discípulo do Senhor. no entanto, foi escolhido para ser o primeiro entre as partes da Igreja.


Paulo também é um homem com tristes passados. Fiel à lei é muito dogmático, duro e intransigente. Perseguia os cristãos pensando em fazer algum favor para Deus. Mas no encontro com Jesus, Filho do Deus vivo, uma luz nova penetrou seu interior e rompeu completamente com aquele estilo que tão contrário com o estilo do Senhor. A partir de então, para Paulo será o amor de Cristo que cimentará sua vida para sempre: “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria. E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria... Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor” (1Cor 13,1-3.13).


Pedro e Paulo são as “pedras” fundamentais de nossa Igreja. Umas pedras que têm suas gretas e suas rachadas, pois a única Pedra fundamental é o Cristo e somente n´Ele não há fissura nem rachadura. Somente Cristo não tem mácula e apresenta o verdadeiro e autentico rosto de Deus sem nenhuma deficiência.


As duas figuras, Pedro e Paulo, nos trazem uma mensagem de esperança. Na vida podemos ter muitos defeitos e fraquezas a ponto de não conseguirmos sair deles, mas ninguém pode escapar do amor de Deus desde que acolhamos este amor com muita humildade. Pedro e Paulo são testemunhas de tudo isto. Como se os dois quisessem nos dizer: “Não desista! Tudo tem seu tempo e sua solução, pois Deus te ama”.  É provável que, em momentos difíceis de nossa vida, cheguemos a ouvir como Pedro: “Homem de pouca fé, por que duvidaste?” (Mt 14,31). E veremos Jesus ao nosso lado, estendendo-nos a mão para nos ajudar. Temos de saber perguntar a Jesus na intimidade da oração, como São Paulo: “Que devo fazer, Senhor? Que queres que eu deixe por Ti? Em que desejas que eu melhore? Neste momento da minha vida, que posso fazer por Ti?


Pedimos hoje a São Pedro e ao Apóstolo dos pagãos, Paulo, um coração como o deles, para sabermos passar por cima das pequenas humilhações ou dos aparentes fracassos que acompanham necessariamente a ação apostólica, ou a nossa vida em geral. E dizemos a Jesus que estamos dispostos a conviver com todos, a oferecer a todos a possibilidade de conhecê-lo e amá-lo, sem nos importarmos com os sacrifícios nem pretendermos êxitos imediatos. Assim seja!


P. Vitus Gustama,svd