terça-feira, 26 de julho de 2016

28/07/2016




ESFORÇAR-SE PARA SELECIONADO POR DEUS NO FIM DA HISTÓRIA


Quinta-Feira da XVII Semana Comum


Primeira Leitura: Jr 18,1-6
1 Palavra dirigida a Jeremias, da parte do Senhor: 2 “Levanta-te e vai à casa do oleiro, e ali te farei ouvir minhas palavras”. 3 Fui à casa do oleiro, e eis que ele estava trabalhando ao torno; 4 quando o vaso que moldava com barro se avariava em suas mãos, ei-lo de novo a fazer com esse material um outro vaso, conforme melhor lhe parecesse aos olhos. 5 Fez-se em mim a palavra do Senhor: 6 “Acaso não posso fazer convosco como este oleiro, casa de Israel? diz o Senhor. Como é o barro na mão do oleiro, assim sois vós em minha mão, casa de Israel”.


Evangelho: Mt 13, 47-53
Naquele tempo, disse Jesus à multidão: 47 “O Reino dos Céus é ainda como uma rede lançada ao mar e que apanha peixes de todo tipo. 48 Quando está cheia, os pescadores puxam a rede para a praia, sentam-se e recolhem os peixes bons em cestos e jogam fora os que não prestam. 49 Assim acontecerá no fim dos tempos: os anjos virão para separar os homens maus dos que são justos, 50 e lançarão os maus na fornalha de fogo. E aí, haverá choro e ranger de dentes. 51 Compreendestes tudo isso?” Eles responderam: “Sim”. 52 Então Jesus acrescentou: “Assim, pois, todo mestre da Lei, que se torna discípulo do Reino dos Céus, é como um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas”. 53 Quando Jesus terminou de contar essas parábolas, partiu dali.
_________________


É Preciso Voltarmos Para Quem Nos Criou e Para Quem Nos Inspirou


Acaso não posso fazer convosco como este oleiro, casa de Israel? Como é o barro na mão do oleiro, assim sois vós em minha mão, casa de Israel”, assim disse o Senhor para  o profeta Jeremias que lemos na Primeira Leitura.


A narração é breve que conta o episódio da vida de Jeremias  a partir dos acontecimentos triviais  da vida cotidiana (Jr 18,1-12). Deus pede que Jeremias preste atenção para o trabalho de um oleiro. Enquanto Jeremias observa como o oleiro trabalha com o barro na mão: moldar e dar forma até onde o barro permite, assim também faz Deus com Judá (Casa de Israel). O Deus de Israel reconhece a liberdade do povo para escolher o bem ou o mal. O Criador (“Oleiro divino”) está limitado pelas propriedades de sua matéria prima chamada o ser humano.


A liberdade é algo dado por Deus ao ser humano para seu bem ou para seu mal. Mas no universo criado por Ele há as próprias leis embutidas nele que o ser humano deve observar. O homem é parte da criação, foi tirado da terra (Gn 2,7) e por isso está vinculado a todo o criado; é um ser transitório. O homem é todo terra e, por isso, é mortal. No AT, morrer é voltar à terra de onde ele veio.


Pela sua incoerência, pelo abuso da liberdade, o ser humano peca. O pecado do ser humano consiste na impossibilidade de amar a Deus de todo o coração, com toda a alma e com todas as forças e assim amar aos demais. Por isso, o ser humano se encontra em oposição consigo mesmo, com Deus, com os outros e com o mundo. Em tudo ele necessita de Deus.


Para se tornar o pó vivente novamente, o ser humano deve estar vinculado permanentemente ao seu Criador em quem Deus soprou seu hálito (Gn 2,7) ou renovar este vínculo permanentemente. O ser humano é um ser inspirado por Deus porque traz em si a inspiração criadora. Mesmo praticando o mal, para o ser humano é dada oportunidade para estar vinculado outra vez com Aquele que o criou, para ser novamente o sopro divino. O homem-barro, o homem-carne precisa do poder de Deus para transcender sua condição de simples ser carnal, ser barro. O Deus vivo é como a estrutura que mantém a vida do homem. “Acaso não posso fazer convosco como este oleiro, casa de Israel? Como é o barro na mão do oleiro, assim sois vós em minha mão, casa de Israel”. É preciso que nós, barro, voltemos para a mão do Oleiro divino.


Esforçar-se Para Ser Contado Entre Os Escolhidos


No fim dos tempos os anjos virão para separar os homens maus dos que são justos, e lançarão os maus na fornalha de fogo”.


Estamos ainda no discurso de Jesus sobre o Reino de Deus em parábolas (Mt 13). Desta vez Jesus conta uma parábola sobre a rede na pescaria em que no fim haverá a seleção entre os peixes bons e os peixes que não prestam: “Quando está cheia, os pescadores puxam a rede para a praia, sentam-se e recolhem os peixes bons em cestos e jogam fora os que não prestam”.


Na vida cotidiana sempre selecionamos e escolhemos o que é bom ou o que é melhor.  Selecionamos boas amizades. Selecionamos algo de bom ou de melhor para comprar, para comer, para morar, selecionamos roupa melhor, e assim por diante. Vivemos selecionando o que é bom ou o que é melhor. O bom ou o melhor é sempre o objeto do apetite ou do desejo do homem, qualquer que seja esse objeto. O ruim é, ao contrário, o objeto de ódio ou de aversão do homem. Mas nem tudo o que desejamos é bom, mas tudo o que é bom sempre desejamos. A bondade atrai, pois ela agrada e edifica. A bondade é a própria perfeição possuída por um ser. Por possuir a bondade, um ser que a tem é capaz de dar a outro a perfeição que lhe falta.


Quando Jesus compara o Reino de Deus a uma rede que é lançada sobre todos, mas que só os peixes bons são selecionados, ele está dizendo que se trata de uma coisa seletiva, em que a bondade é que tem valor e permanece para sempre. A bondade é sinal de amabilidade. Quem ama porque é bom. Quem é bom, ama.  A bondade é algo que em si tem algo divino, pois Deus é a Bondade por excelência. Por isso, a bondade tem uma marca de eternidade.


Os maus, ao contrário, vão fazer parte de outro reino, onde as pessoas somente vão odiar-se, segundo Jesus. A expressão: “Chorar e ranger os dentes” mostra bem como é a pessoa que odeia: vive como que rangendo os dentes. Eternamente infeliz. A frustração definitiva do homem (pranto e ranger de dentes) é perder a vida para sempre. A grande frustração do homem é sua incapacidade de viver na bondade, no bem, na compaixão, na simplicidade, na solidariedade. A bondade atrai. A simplicidade atrai. A arrogância, a prepotência, o orgulho, o complexo de superioridade afasta as pessoas e mata a caridade e a igualdade, elimina a comunhão fraterna e afasta os demais. Qualquer arrogante, prepotente, orgulhoso, ambicioso vive na tremenda solidão. Viver é conviver. Através da convivência saudável é que podemos crescer como seres humanos. Até a própria vulnerabilidade da convivência nos ajuda a crescermos como pessoas saudáveis.


A parábola da rede lida neste dia se refere ao julgamento final. A imagem da pesca ilustra a dinâmica do Reino de Deus feita de perdas e ganhos. Uma vez a rede lançada ao mar, a pescaria já não depende da vontade do pescador. Cada lançada de rede é uma surpresa. A seleção será feita somente no final da pescaria, quando os peixes bons são colocados em cestas, enquanto os maus são jogados fora.


A parábola propõe a todos nós a sorte final, para orientar-nos na decisão presente. Quando soubermos para onde vamos, saberemos também escolher por onde devemos caminhar (saber escolher o caminho). Os únicos que chegam à vida em plenitude, pela misericórdia de Deus, são os que produzem fruto bom nesta vida; são os que em si tem a marca de eternidade como a bondade, o amor, a compaixão, a solidariedade e assim por diante. Tudo que tem algo divino em mim e na minha vivência será reconhecido por Deus (cf. Mt 25,31-46). A sabedoria cristã consiste no discernimento dos verdadeiros valores do Evangelho como amor, partilha, solidariedade, compaixão, perdão, honestidade, justiça, paz etc., e em sua aplicação para as circunstâncias atuais. Há que estabelecer uma escala de valores para que cada cristão possa orientar sua maneira de viver no presente. Os outros valores devem estar subordinados em função dos valores superiores do Reino de Deus.


Mas ao mesmo tempo, esta parábola quer nos recordar que somente Deus tem a competência na seleção entre os bons e os maus no fim de cada história. Cristão nenhum tem condições para classificar quem vai para o céu e quem não vai para lá, pois sua própria salvação ainda não está garantida, pois ele continua sendo pessoa capaz de pecar em qualquer momento. É preciso olharmos para cada ser humano como filho(a) de Deus e nosso irmão. Como dizia Santo Agostinho: “Amando ao próximo tu limpas os olhos para ver a Deus” (In Joan. 17,8). Quanto mais santo for o homem, mais se reconhecerá como pecador. A conversão não é uma carreira acabada. A conversão é diária, pois somos capazes de optar por outros valores em nome de algum interesse não-cristão. Deixemos Deus determinar a qualidade de cada um e não nos arroguemos pelas qualidades que temos, pois tudo de bom em nós tem sua origem no Supremo Bem que é Deus. Tudo de bom em nós deve ser partilhado para com os outros. Fazemos tudo de bom, porque Deus da bondade faz isso. “Faze o que deves fazer. E faze-o bem. Esta é a única norma para alcançar a perfeição”, dizia Santo Agostinho (In ps. 34,2,16). Somos prolongamento da generosidade do Deus-Criador que criou tudo para o bem da humanidade gratuitamente. Temos apenas o direito de usufruto. Esse direito cessará neste mundo cessará quando terminar nossa caminhada na história.


Deus tem paciência para esperar os frutos bons de cada um de nós. a história é o tempo para crescermos no bem e na bondade e para nos amadurecermos como filhos e filhas de Deus.  Primordialmente, somos bons porque tudo o que Deus criou era bom (cf. Gn 1,1ss). Deus aguarda a colheita, não diminuída por prematuras intervenções de escolha. Só então, no fim, haverá a colheita, com base na realidade de ser grão ou joio/cizânia, peixe bom ou mau, de ser caridoso ou egoísta. É uma advertência eficaz, embora tácita: Deus é paciente com todos e deixa aos pecadores, cada um de nós, tempo para amadurecer sua conversão; Deus sabe esperar a livre decisão do homem, cabe a cada um escolher ser bom grão e bom peixe e não peixe imprestável.


Portanto, é prudente premunir-se, pensar enquanto é tempo, decidir-se a fazer o bem, ser útil aos outros, ser peixe bom, ser selecionado por Deus no fim de nossa história, pois “No fim dos tempos os anjos virão para separar os homens maus dos que são justos, e lançarão os maus na fornalha de fogo”.

P. Vitus Gustama, SVD

segunda-feira, 25 de julho de 2016



27/07/2016

DEUS E SUA PALAVRA SÃO NOSSOS TESOUROS QUE DEVEMOS BUSCAR PERMANENTEMENTE


Quarta-Feira da XVII Semana Comum


Primeira Leitura: Jr 15,10.16-21


10 Ai de mim, minha mãe, que me geraste um homem de controvérsia, um homem em discórdia com toda a gente! Não emprestei com usura nem ninguém me emprestou, e contudo todos me amaldiçoam. 16 Quando encontrei tuas palavras, alimentei-me, elas se tornaram para mim uma delícia e a alegria do coração, o modo como invocar teu nome sobre mim, Senhor Deus dos exércitos. 17 Não costumo frequentar a roda dos folgazões e gabo-me disso; fiquei a sós, sob o influxo de tua presença e cheio de indignação. 18 Por que se tornou eterna minha dor, por que não sara minha chaga maligna? Para mim te tornaste como miragem de um regato, como visão d’águas ilusórias. 19 Ainda assim, isto diz-me o Senhor: “Se te converteres, converterei teu coração, para te sustentares em minha presença; se souberes separar o precioso do vil, falarás por minha boca; os outros voltarão para ti, e tu não voltarás para eles. 20 Em favor deste povo, farei de ti uma muralha de bronze fortificada; combaterão contra ti, mas não prevalecerão, porque eu estou contigo para te salvar e te defender diz o Senhor. 21 Eu te libertarei das mãos dos perversos e te salvarei dos prepotentes”.


Evangelho: Mt 13,44-46


Naquele tempo, disse Jesus à multidão: 44 “O Reino do Céus é como um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra e o mantém escondido. Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo. 45 O Reino dos Céus também é como um comprador que procura pérolas preciosas. 46 Quando encontra uma pérola de grande valor, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquela pérola”.
_____________


É Preciso Se Apoiar Em Deus Em Todos Os Momentos Para Poder Seguir Adiante Na Vida


Se te converteres, converterei teu coração, para te sustentares em minha presença; se souberes separar o precioso do vil, falarás por minha boca; os outros voltarão para ti, e tu não voltarás para eles. Em favor deste povo, farei de ti uma muralha de bronze fortificada; combaterão contra ti, mas não prevalecerão, porque eu estou contigo para te salvar e te defender”, é a resposta de Deus para Jeremias que se lamenta pela vida difícil como profeta que lemos na Primeira Leitura.


O texto lido na Primeira Leitura é conhecido como a Segunda Confissão do profeta Jeremias (a Primeiro Confissão está em Jr 11,18-12,6).


O profeta é aquele que põe sua vida ao serviço da Palavra de Deus para que o povo se converta. Esta fidelidade obriga o profeta a renunciar a muitas facilidades e compromissos: “Não costumo frequentar a roda dos folgazões e gabo-me disso; fiquei a sós, sob o influxo de tua presença e cheio de indignação”.


Apesar dessa entrega generosa de sua vida, o profeta Jeremias se pergunta sobre o porquê de Deus não recompensar melhor aquele que se entregou totalmente sua vida a Ele e que se alimenta somente da Palavra de Deus?: “Quando encontrei tuas palavras, alimentei-me, elas se tornaram para mim uma delícia e a alegria do coração, o modo como invocar teu nome sobre mim, Senhor Deus dos exércitos” (Jr 15,16). A dúvida invade a alma do profeta e se pergunta: “Por que se tornou eterna minha dor, por que não sara minha chaga maligna? Para mim te tornaste como miragem de um regato, como visão d’águas ilusórias” (Jr 15,18). Por se comprometer-se ao serviço de Deus se atraem os inimigos para Jeremias que é manso por excelência e recebe a ameaça continuamente.


Para o lamento e a dúvida do profeta Jeremias, Deus dá como resposta a conversão de Jeremias. Somente a conversão a Deus e a confiança cega em Seu mistério é que podem pôr fim ao estado da incerteza do profeta: “Se te converteres, converterei teu coração, para te sustentares em minha presença; se souberes separar o precioso do vil, falarás por minha boca; os outros voltarão para ti, e tu não voltarás para eles. Em favor deste povo, farei de ti uma muralha de bronze fortificada; combaterão contra ti, mas não prevalecerão, porque eu estou contigo para te salvar e te defender. Eu te libertarei das mãos dos perversos e te salvarei dos prepotentes” (Jr 15,19-21).


Na nossa vida como fieis percebemos que em certos momentos e circunstâncias fé e dúvida convivem, como aconteceu com o profeta Jeremias. O que não podem conviver é fé e incredulidade. Dúvida é o estado de equilíbrio entre a afirmação e a negação. A dúvida científica ou filosófica é a forma da honestidade intelectual que consiste em não fazer uma afirmação enquanto não existem provas, dados ou fundamentos. Portanto, a dúvida não está contra à fé. A incredulidade é a ausência da fé.


No caminho da fé, a dúvida é a “noite escura” para os místicos. Esta noite escura pode causar dor. Mas ela é o ponto de partida do encontro mais perfeito com Deus em que se encontra a resposta satisfatória: “Se te converteres, converterei teu coração, para te sustentares em minha presença. Eu te libertarei das mãos dos perversos e te salvarei dos prepotentes”. A dúvida é o ponto de partida para uma busca contínua até que encontre alguma resposta em Deus. É preciso que estejamos conscientes de que o Deus em quem acreditamos é um Deus solidário, fiel companheiro e apaixonado pela humanidade mesmo que os pensamentos e os caminhos de Deus não coincidam com os nossos. A fé neste Deus nos torna perseverantes em tudo, pois a perseverança é acreditar numa transformação possível apesar das aparências contrárias e da revolta inicial. A fé nos leva a nos libertar, a nos assumir, a nos manter de pé com determinação.


Portanto, que a oração do profeta Jeremias seja também nossa oração: “Senhor, quando encontrei tuas palavras, alimentei-me, elas se tornaram para mim uma delícia e a alegria do coração, o modo como invocar teu nome sobre mim, Senhor Deus dos exércitos”.


Deus e Sua Palavra São Nossos Tesouros Incalculáveis


O Reino de Deus é como um tesouro escondido, como uma pérola de incalculável valor”, assim Jesus diz no discurso sobre o Reino de Deus em parábolas no texto do evangelho deste dia. 


 As inúmeras guerras, que aconteceram em Palestina, levavam muitas pessoas a enterrar seus tesouros valiosos por motivo de segurança contra os ladrões. E o homem assalariado que trabalha no campo alheio, ao encontrar o tesouro, o enterrou novamente e guardou o segredo. E vende tudo para comprar o campo por esse tesouro valioso. A mesma reação aconteceu com o comprador da pérola: vende tudo para possuí-la. Mas acentua-se a alegria dos dois em fazer isso.


Lemos no dicionário que tesouro é o conjunto de riquezas de qualquer tipo (p.ex., dinheiro, joias, pedras e metais preciosos, bens valiosos) guardadas ou escondidas. E pérola é a concreção densa e de coloração levemente prateada, que se forma nas conchas de diversos moluscos, a partir da deposição de material nacarado sobre uma partícula qualquer, como um grão de areia ou um parasita. As pérolas cultivadas são produzidas por ostras. Pérola é um material valioso. Também nós chamamos uma pessoa de sólidas qualidades morais e éticas de pérola ou de tesouro. “Você é minha pérola. Você é meu tesouro”, assim ouvimos alguém falar para o outro.


“Venderam tudo que possuíam para comprar o campo onde o tesouro está escondido e para comprar a pérola preciosa”, assim relatou Mateus no evangelho de hoje.


Aqueles homens venderam tudo tão espontaneamente só para ficar com o tesouro ou a pérola preciosa sem sentir nenhum sacrifício, mas com uma decisão alegre por causa de uma coisa valiosa. Tudo o que é bom, belo, digno, ético, puro sempre nos atrai e para nossos passos para contemplá-lo. Uma pessoa com sólidas qualidades éticas e morais atrai a simpatia de qualquer pessoa e atrai a bênção de Deus, pois Deus é o supremo Bem. Ninguém resiste diante da bondade, diante de uma boa educação, diante de uma gentileza e assim por diante. Tudo o que é ruim nos afasta e afasta até a bênção do Senhor toda vez que essa bênção se aproximar da pessoa.


É assim também a fé. A fé é um enamoramento de Deus, é uma sedução: “Você me seduziu, Senhor; e eu me deixei seduzir” (Jr 20,7). Tudo o que é divino e que nos salva sempre nos atrai e nos convida a nos aproximarmos dele. O Reino arrebata quem o encontrou, gera a grande alegria e orienta toda a vida da pessoa até a comunhão plena com Deus. A partir deste tesouro que é O Reino de Deus, todo o resto se ordena e adquire o seu valor próprio. O Reino de Deus começa, então, a orientar a vida de quem o descobriu. A verdadeira fé orienta nossa maneira de viver.


Venderam tudo que possuíam….”


Tanto o tesouro escondido como a pérola preciosa expressam o que o Reino de Deus deve ser para o discípulo/cristão: algo absoluto. A exigência é radical, tudo o mais deve ser colocado em relação com o Reino. Em outras palavras, pode-se dizer que a experiência do amor de Deus relativizam todo valor até então conhecido. A partir de então, o valor do Reino serve de ponto de referência e de avaliação para resto. Uma vez que tiver sido descoberto o Reino de Deus em todo o seu valor, o resto se torna relativo no seu valor.


Nesta parábola, nem o homem que encontrou o tesouro nem aquele que descobriu a pérola sentem falta do que antes possuíam e que venderam. A riqueza do que acharam é de tal ordem que compensa tudo o que tinham. A mesma coisa acontece com os que descobrem ou encontram o seu caminho pessoal para Deus: abandonam tudo e encontram tudo, porque Deus é tudo. Quem, pela mensagem de Cristo, encontra Deus renuncia jubilosamente a tudo. Tal verdade somente pode ser experimentada pela própria vida. Por isso, eles podem renovar tudo, acabar com a rotina de sua vida e começam a olhar mais longe e mais alto. E quem encontra Cristo expande a alegria  e o otimismo para todos.


A vida cristã se apresenta muitas vezes como um constante exercício de renúncia: renunciar aos bens materiais para não ser possuídos por eles a fim de manter-se livre como seguidor de Cristo; renunciar aos prazeres desenfreados da vida, pois quem vive somente em função do prazer é porque não tem prazer de viver, e quem só sabe se satisfazer é incapaz de satisfazer os outros; renunciar às comodidades, pois a vida continua nos empurrando por dentro; renunciar à ambição. Renunciar, renunciar, renunciar...


Não se deve confundir com o que se chama um caminho de perfeição, um método para chegar a ser santo. O projeto de Jesus não é um projeto dirigido unicamente ao individuo e sim orientado para a transformação da maneira de viver de toda a humanidade.


Por isso, quando Jesus apresenta as bem-aventuranças que constituem o núcleo de seu programa não diz àqueles que o escutam que serão mais santos se fizerem tudo que ele fala, e sim que serão felizes. É a felicidade dos homens, de todos os homens e de cada um deles em particular o que preocupa Jesus, porque essa é a principal preocupação do Pai. O projeto de Jesus é a felicidade. A santidade é o projeto pessoal. Por isso, o ideal cristão é a felicidade. Consequentemente, a felicidade é a razão pela qual um cristão atua: um cristão se comporta como cristão porque tal comportamento é causa de alegria para ele e para seus próximos. Em outras palavras, uma ação é boa se produz felicidade em quem a realiza e contribui à felicidade dos demais.


P. Vitus Gustama, SVD

sábado, 23 de julho de 2016

26/07/2016

SÃO JOAQUIM E SANTA ANA
Pais de Nossa Senhora


SER JUSTO PERSEVERANTE


Primeira Leitura: Eclo 44,1.10-15


1 Vamos fazer o elogio dos homens famosos, nossos antepassados através das gerações. 10 Estes são homens de misericórdia; seus gestos de bondade não serão esquecidos. 11 Eles permanecem com seus descendentes; seus próprios netos são sua melhor herança. 12 A descendência deles mantém-se fiel às alianças, 13 e, graças a eles, também os seus filhos. Sua descendência permanece para sempre, e sua glória jamais se apagará. 14 Seus corpos serão sepultados na paz e seu nome dura através das gerações. 15 Os povos proclamarão a sua sabedoria, e a assembleia vai celebrar o seu louvor.


Evangelho: Mt 13,16-17


Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 16 “Felizes sois vós, porque vossos olhos veem e vossos ouvidos ouvem. 17 Em verdade vos digo, muitos profetas e justos desejavam ver o que vedes, e não viram, desejavam ouvir o que ouvis, e não ouviram”.
_______________


É inútil procurar na Bíblia os pais de Nossa Senhora. Os quatro evangelhos canônicos guardam absoluto silêncio sobre os pais de Maria. Nem sequer seus nomes foram transmitidos. Mt e Lc escreveram sobre a genealogia de Jesus, Maria é citada, mas seus pais não são citados.


Para saber sobre os pais de Maria temos que recorrer aos evangelhos apócrifos, ingênuos relatos pela imaginação fervorosa dos primeiros cristãos para completar com isso os silêncios dos evangelhos canônicos. Dificilmente saber até que ponto esses relatos são verdadeiros. Por isso são chamados de apócrifos, isto é, não é de uso publico.


Mas em cada história ou historinha sempre tem alguma lição. Segundo o evangelho apócrifo de São Tiago, os dois, Joaquim e Ana, eram da mesma tribo: Tribo de Judá. Quando tinha 20 anos, Joaquim casou-se com Ana. Durante os 20 anos de matrimônio os dois não geraram nenhum descendente. Não ter descendência, na época, era sinal da maldição de Deus e por isso, era uma vergonha pública. Por outro lado, os dois eram pessoas honradas, temerosas de Deus, generosas em suas ofertas para o Templo.


Joaquim e Ana eram justos e limpos de toda mancha de pecado. Levavam uma vida pidedosa diante de Deus e diante dos homens. Tinham uma conduta inocente, isto é, livre de qualquer maldade. Imunes de calúnia e cheios de piedade. Zelosos em oração, em jejum e abstinência, cheios de caridade. Formavam uma família assídua ao Templo. No entanto, não tinham filho até então que tanto desejavam. Mesmo assim continuavam apostar na misericórdia de Deus.


Um dia, quando Joaquim estava para fazer sua oferta no Templo, um escriba chamado Ruben parou os passos de Joaquim e lhe disse: “Não és digno de apresentar tuas oferendas enquanto não tiver tua descendência”. Aflito e humilhado, Joaquim se retirou ao deserto para orar a fim de que Deus pudesse dar de presente um descendente. Ana, a esposa, também começou a se vestir de saco e cilício para pedir a mesma graça. Ana rezou assim: “Ó Deus de nossos pais! Escutai-me e bendizei-me à maneira que bendissestes o seio de Sara, dando-lhe como filho Isaac”.


A humilde suplica de Ana obteve uma resposta de Deus. Um anjo do Senhor anunciou-lhe que eles teriam descendente. Ao mesmo tempo Joaquim, encontrado no deserto, recebeu a mesma mensagem e imediatamente voltou para sua casa com grande alegria para estar com sua esposa, Ana.


Felizes sois vós, porque vossos olhos veem e vossos ouvidos ouvem. Em verdade vos digo, muitos profetas e justos desejavam ver o que vedes, e não viram, desejavam ouvir o que ouvis, e não ouviram”, assim lemos no Evangelho.


O cumprimento das promessas da salvação é a visão. A visão de Deus é o desejo dos profetas e dos justos no AT. Mas não tiveram privilégios de ver Deus. Mesmo assim, eles creram e apostaram sua vida pela Palavra da Aliança. O hoje dos discípulos tem a unicidade da bem-aventurança privilegiada de ver e escutar a própria Vida por excelência, a Salvação em ato, a Palavra encanada: Jesus, Deus-conosco, o Emanuel.


De certa forma, podemos dizer que Joaquim e Ana têm privilégio de ver o fruto da salvação: o nascimento da filha deles, Maria, que se esperava por tanto tempo. A graça de Deus pode tardar, mas nunca falha, porque Deus é cheio de misericórdia.


Não importa se você está num lugar bem deserto ou simplesmente em sua casa, se você fizer uma humilde súplica ao Senhor por uma causa nobre, cedo ou tarde, o Senhor vai atender. Tenha paciência porque “o relógio” de Deus é diferente de nosso relógio. Simplesmente vamos nos abandonar nas mãos de Deus mesmo que tenhamos que enfrentar todo tipo de humilhação e dificuldade. Se lutarmos por uma causa nobre, cedo ou tarde o tempo vai nos revelar quem está com razão. No casal Joaquim e Santana, encontramos um grande paradoxo: um casa justo, mas estéril. A esterilidade, de acordo com o costume na época, é uma negação para a condição de ser justo. “Se os dois fossem justos, teriam que ter filhos. Não tendo filhos é porque não são justos”. Essa era a lógica da época. Mas, no fim da história, Deus sempre tem a ultima palavra. Mesmo que tenha sido tarde, o justo casal, Joaquim e Ana, foi premiado por Deus uma filha chamada Maria, Mãe de nosso Salvador, Jesus Cristo.


Segundo o evangelho apócrifo, depois que entregou Maria para Deus no Templo, Ana se afastou silenciosamente e sumiu para sempre. Sua missão terminou. Com esta marca heróica de desprendimento os apócrifos encerraram o capitulo dedicado aos pais da Virgem Maria.


Ana é uma mulher paciente e humilde. Durante 20 anos ela sofreu sem queixa a tremenda humilhação da esterilidade. Mas suas orações são tão suaves e humildes que fazem o Senhor inclinar para ouvi-las. Sua longa provação não endureceu seu coração, pois ela acredita fielmente no poder de Deus.


Ana é uma mulher generosa, pois ela pede para ter descendente e o gozo de dar com alegria sua filha para o Senhor. E sua filha Maria será capaz de entregar-se à vontade de Deus totalmente: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a Tua Palavra” (Lc 1,38). Ana é uma mulher abnegada, disposta a desprender-se de sua filha para dá-la aos outros.


Pedimos aos pais de Nossa Senhora que todos nós tenhamos o espírito de perseverança no bem que devemos fazer, na oração que devemos fazer, na pratica de caridade, em ser justo em tudo apesar dos obstáculos encontrados no caminho. Mas a graça de Deus nos potencia para ultrapassar os obstáculos a exemplo do justo casal, Joaquim e Ana.


P. Vitus Gustama,svd
25/07/2016: TIAGO MAIOR, APÓSTOLO

SER TESTEMUNHA DO CRISTO RESSUSCITADO  A PARTIR DAS LIMITAÇÕES


SÃO TIAGO MAIOR
25 de julho

Primeira Leitura: 2Cor 4,7-15


Irmãos, 7 trazemos esse tesouro em vasos de barro, para que todos reconheçam que este poder extraordinário vem de Deus e não de nós. 8 Somos afligidos de todos os lados, mas não vencidos pela angústia; postos entre os maiores apuros, mas sem perder a esperança; 9 perseguidos, mas não desamparados; derrubados, mas não aniquilados; 10 por toda a parte e sempre levamos em nós mesmos os sofrimentos mortais de Jesus, para que também a vida de Jesus seja manifestada em nossos corpos. 11 De fato, nós, os vivos, somos continuamente entregues à morte, por causa de Jesus, para que também a vida de Jesus seja manifestada em nossa natureza mortal. 12 Assim, a morte age em nós, enquanto a vida age em vós. 13 Mas, sustentados pelo mesmo espírito de fé, conforme o que está escrito: “Eu creio e, por isso, falei”, nós também cremos e, por isso, falamos, 14certos de que aquele que ressuscitou o Senhor Jesus nos ressuscitará também com Jesus e nos colocará ao seu lado, juntamente convosco. 15 E tudo isso é por causa de vós, para que a abundância da graça em um número maior de pessoas faça crescer a ação de graças para a glória de Deus.


Evangelho: Mt 20,20-28


20 Naquele tempo, a mãe dos filhos de Zebedeu aproximou-se de Jesus com seus filhos e ajoelhou-se com a intenção de fazer um pedido. 21 Jesus perguntou: “O que tu queres?” Ela respondeu: “Manda que estes meus dois filhos se sentem, no teu Reino, um à tua direita e outro à tua esquerda”. 22 Jesus, então, respondeu-lhes: “Não sabeis o que estais pedindo. Por acaso podeis beber o cálice que eu vou beber?” Eles responderam: “Podemos”. 23 Então Jesus lhes disse: “De fato, vós bebereis do meu cálice, mas não depende de mim conceder o lugar à minha direita ou à minha esquerda. Meu Pai é quem dará esses lugares àqueles para os quais ele os preparou”. 24 Quando os outros dez discípulos ouviram isso, ficaram irritados contra os dois irmãos. 25 Jesus, porém, chamou-os e disse: “Vós sabeis que os chefes das nações têm poder sobre elas e os grandes as oprimem. 26 Entre vós não deverá ser assim. Quem quiser tornar-se grande, torne-se vosso servidor; 27 quem quiser ser o primeiro, seja vosso servo. 28 Pois, o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate em favor de muitos”.
________________


Sobre Apóstolo São Tiago Maior


O apóstolo Tiago Maior é irmão de João. Ele ocupa o segundo lugar logo depois de Pedro (Mc 3, 17), ou o terceiro lugar depois de Pedro e André no Evangelho de Mateus (Mt 10, 2; Lc 6,14) e de Lucas (6, 14), ou depois de Pedro e de João (At 1,13). Ele faz parte do grupo dos três discípulos privilegiados (Pedro, Tiago e João) que foram admitidos por Jesus em momentos importantes da sua vida, especialmente na Transfiguração de Jesus (Mc 9,2-13; Mt 17,1-13; Lc 9,28-36) e no horto do Getsêmani (Mc 14,32-41; Mt 26,36-46; Lc 22,39-46).


Uma tradição sucessiva, que remonta pelo menos a Isidoro de Sevilha, relata que São Tiago Maior permaneceu algum tempo na Espanha para evangelizar aquela importante região que fazia parte do Império Romano. Mas outra tradição disse que o seu corpo teria sido transportado para a cidade de Santiago de Compostela na Espanha onde até hoje essa cidade continua sendo um lugar de veneração e objeto de peregrinações.


Graças ao Apóstolo São Tiago, como a outros Apóstolos a Boa Noticia de salvação chega até nós hoje. Por nossa vez não podemos deixar a Palavra de Deus morrer em nossas mãos. Precisamos ser apóstolos na atualidade.


Mensagem da Festa do Apostolo São Tiago Maior


Sempre que celebramos a festa de um apóstolo, fazemos memória do fato fundacional da Igreja. Nossa Igreja é chamada a Igreja apostólica e nossa fé é a fé apostólica, fé que foi nos transmitida pelos apóstolos, testemunhas oculares da vida de Jesus. Falar da fé apostólica significa que nossa fé, nossa esperança, nossa vida de comunidade tem como base a experiência dos apóstolos que estiveram perto de Jesus e o acompanharam até a morte e testemunharam sua ressurreição. Falar da “fé apostólica” significa sentir-se parte de uma longa cadeia de homens e mulheres que em muitos lugares e de muitas maneiras foram atraídos por esse Jesus que os apóstolos conheceram e viveram a mesma experiência que eles viveram e transmitiram aos demais. Falar da fé apostólica significa que tudo que cremos e vivemos não é algo que foi inventado. A fé que os apóstolos viveram e que é transmitida para nós hoje.


O Novo Catecismo da Igreja Católica no artigo 857 afirma: “A Igreja é apostólica, porque está fundada sobre os Apóstolos. E isso em três sentidos:


  1. -foi e continua a ser construída sobre o «alicerce dos Apóstolos» (Ef 2, 20), testemunhas escolhidas e enviadas em missão pelo próprio Cristo;
  2. -guarda e transmite, com a ajuda do Espírito Santo que nela habita, a doutrina, o bom depósito, as sãs palavras recebidas dos Apóstolos;
  3. -continua a ser ensinada, santificada e dirigida pelos Apóstolos até ao regresso de Cristo, graças àqueles que lhes sucedem no ofício pastoral: o colégio dos bispos, assistido pelos presbíteros, em união com o sucessor de Pedro, pastor supremo da Igreja: ‘Pastor eterno, não abandonais o vosso rebanho, mas sempre o guardais e protegeis por meio dos santos Apóstolos, para que seja conduzido através dos tempos, pelos mesmos chefes que pusestes à sua frente como representantes do vosso Filho, Jesus Cristo’”.
    E no artigo 869 do mesmo Catecismo lê-se:  “A Igreja é apostólica: está edificada sobre alicerces duradouros, que são os Doze apóstolos do Cordeiro; é indestrutível; é infalivelmente mantida na verdade: Cristo é quem a governa por meio de Pedro e dos outros apóstolos, presentes nos seus sucessores, o Papa e o colégio dos bispos”.
    E os apóstolos são as testemunhas da ressurreição de Jesus Cristo; são testemunhas de que para aquele que aceita Jesus Cristo não conhece a morte, pois ressuscitará como Jesus Cristo ressuscitou. Os apóstolos são proclamadores do triunfo de Jesus sobre a morte, portanto, são os primeiros anunciadores da salvação para todos os homens. E os apóstolos faziam tal proclamação com valentia, sem medo porque era fruto da convicção profunda que produz a verdadeira fé.  Como diz São Paulo: “Sustentados pelo mesmo espírito de fé, conforme o que está escrito: ‘Eu creio e, por isso, falei’, nós também cremos e, por isso, falamos, certos de que aquele que ressuscitou o Senhor Jesus nos ressuscitará também com Jesus e nos colocará ao seu lado” (2Cor 4,13-14). Quando você tem realmente convicção de uma coisa, você jamais se entregará. Você vai lutar até o fim. Assim foi a vida dos apóstolos. A valentia e a ousadia dos apóstolos não se detinham nem sequer diante das ameaças dos poderosos porque estavam com uma grande convicção da ressurreição do Senhor. São Tiago foi o primeiro de todos a pagar com sua própria vida a intrepidez de seu testemunho. São Tiago aceitou beber o cálice do Senhor. Consequentemente, teve que aprender a servir, a viver desprendido de si mesmo até dar a vida por sua fé e sua dedicação pelo bem comum.
    Nós somos encarregados de continuar no mundo esse mesmo testemunho dos apóstolos. Somos chamados e enviados a ser testemunhas da ressurreição, da vida sem fim. Se nós acreditamos realmente na ressurreição, devemos respeitar a vida, a nossa própria e a dignidade da vida dos outros no seu início, na sua duração e no seu fim na história. Quem desrespeita a própria vida e a vida dos outros, nega a ressurreição. Se realmente acreditamos na ressurreição temos que ter certeza de que a vida não termina aqui, pois a vida é de Deus (cf. Jo 11,25; 14,6). Se acreditamos realmente na ressurreição devemos ter certeza de que os que nos precederam estão em comunhão conosco e intercedem por nós como nossos irmãos. Se realmente acreditamos na ressurreição não devemos prolongar nossa tristeza pelo falecimento de nosso irmão/ nossa irmã, nosso pai/nossa mãe, marido/esposa, filho/filha, pois eles apenas voltaram para a casa do Pai (cf. Jo 14,1-6). Se acreditamos realmente na ressurreição, devemos ter certeza de que o amor dos que nos precederam para a eternidade não morre, pois o amor é o nome próprio de Deus: “Deus é amor”, disse são João (1Jo 4,8.16). São Paulo escreveu: “Se o Espírito d'Aquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos habita em vós, Ele, que ressuscitou Cristo Jesus de entre os mortos, também dará vida aos vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que habita em vós” (Rm 8, 11). E o Novo Catecismo da Igreja Católica afirma: “Crer na ressurreição dos mortos foi, desde o princípio, um elemento essencial da fé cristã. A ressurreição dos mortos é a fé dos cristãos: é por crer nela que somos cristãos” (Artigo 991):
    Portanto, devemos revisar com seriedade a nossa fé na ressurreição e a qualidade de nossa maneira de testemunhar essa fé: se nosso testemunho realmente provém de uma convicção interior ou não. A prova disto é a nossa perseverança em tudo a exemplo dos apóstolos.
    Por isso, ser cristão, como lição tirada do evangelho deste dia, não pode ser um pretexto para situar-se bem no mundo, para ficar nos primeiros postos ou posições, como pediram os dois irmãos, Tiago e João. Se viver desta maneira, a religião é capaz de cair no perigo de fanatismo e na violência. Ser cristão é seguir Jesus Cristo. Seguir Cristo significa acompanhá-lo em cada momento. É adotar a vida dele na nossa vida e sua missão na nossa missão.
    O maior perigo para qualquer cristão, especialmente para aqueles que trabalham na Igreja do Senhor é o mesmo: converter a autoridade em poder e domínio e não em serviço. Quem busca o poder, e uma vez no poder será difícil perceber e achar que está errado. Toda autoridade que se exerce como poder e não como serviço tiraniza e oprime. Quem exerce a autoridade puramente como serviço ao irmão e à comunidade tem um mérito extraordinário. O poder já é perigoso, muito mais ainda super-poderoso.
    Celebrar a Eucaristia é comer o pão e beber o cálice. Com esse gesto de comunhão significamos nossa comunhão com Jesus e com os irmãos. Comungamos, então, com a causa de Jesus. Assim damos sentido à nossa fé e nos envolvemos na missão da Igreja, fundada sobre os apóstolos.
    Na Igreja de Cristo todos nós somos chamados a servir no espírito de Jesus. Servir é adorar a Deus em ação. Servir é fazer algo de bom sem esperar nada de troca ou de reconhecimento. Uma Igreja que não serve, não serve para nada. Servir pela salvação dos demais é o centro do cristianismo. O poder e o serviço se excluem. A ambição de poder é o câncer do serviço. O poder pode servir para muitas coisas, mas não serve para tornar bons os homens. Geralmente os maus líderes produzem os maus funcionários. A competitividade na Igreja do Senhor faz desaparecer a solidariedade, a compaixão, a igualdade e a colaboração. A competitividade sempre torce para que a vida do outro não dê certo para que ele possa estar em destaque solitariamente para ser adorado pelos demais. O cristão existe para os outros e é batizado para os outros.
    Não é a missão de Cristo na terra situar seus seguidores nos melhores postos e conceder honras, e sim salvar os homens com um amor que jamais morre.Toda autoridade na Igreja é fazer os outros crescerem no bem e para salvar as pessoas.
    Pequena Mensagem Dos Textos
    O pedido da mãe em favor de seus filhos Tiago e João é o fruto de um pensamento no reino temporal em que há honras, dignidades, privilégios, primeiros lugares em tudo e assim por diante. Mas não é a missão de Jesus Cristo situar seus amigos nos melhores postos e conceder honras e honrarias e sim salvar os homens com um amor que não se detém diante da morte e morte de cruz. Aquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos, também ressuscitará e premiará em seu dia os que agora seguem os passos de Jesus.
    Poderíamos resumir o Evangelho de hoje com o seguinte pensamento: o modelo do Reino, e, portanto, dos que o pregam, não será o do poder politico e sim do serviço tal como Jesus o entende e o realiza em sua vida. O modelo que Jesus propõe é o do “servidor” (diakonos), e “escravo” dos demais. A novidade deste modelo é o serviço aos demais: para os judeus era uma honra chamar-se servidores de Deus, mas não dos homens.
    E este serviço que Jesus propõe tem um modelo muito claro: Ele próprio. Com suas últimas palavras Jesus corrige uma concepção errônea que poderia ter sobre sua pessoa e ao mesmo tempo se apresenta como modelo do serviço que lava até os pés dos apóstolos (cf. Jo 13,1-20; Mc 10,45). Com uma frase negativa: “Eu não fim para...” e logo com outra frase positiva: “e sim para dar sua vida...”, Jesus indica que Ele será o verdadeiro Srrvo de Javé e que Sua morte terá sentido de ser para todos os homens uma libertação (resgate) para levar uma vida nova.
    O caminho da conversão dos Doze, em particular de Tiago e João, é uma chamada para todos nós. Também nós podemos mudar. Podemos, sim, fazer o melhor na Igreja em que não há governantes nem súditos, poderosos e escravos, uns lá em cima e outros lá em baixo.
    Para que isto possa acontecer, temos que voltar ao Evangelho de Jesus Cristo. Cada cristão deve marchar pelo caminho do Mestre, que não veio para ser servido e sim para servir e dar sua vida pela salvação dos homens. Esta plena solidariedade com os homens e a entrega da vida por eles é o programa permanente de todos os cristãos. Dar a vida significa projetar a existência inteira como doação.
    Mas não é fácil viver essa missão, pois “trazemos esse tesouro em vasos de barro...”.
    O “tesouro” que a passagem alude é o conhecimento, a experiência de Jesus ressuscitado. Este é o incomparável dom que levamos em “vasos de barro”, expressão que pode fazer referência à debilidade da pessoa do próprio Paulo (cf. 2Cor 12,7-10; Gl 4,14) ou talvez, ao próprio corpo do homem saído de barro segundo a tradição de Gn 2,7. A pregação da fé se faz a partir da própria limitação do homem. Essa limitação faz o cristão recorrer sempre ao Senhor para pedir ajuda.
    Paulo sabe muito bem que sem a graça de Deus ele cairia ao fracasso total. A debilidade do que crê não é sintoma de fracasso e sim lugar da manifestação de Deus. Na debilidade de Jesus como ser humano se manifesta a glória do Pai. A Igreja, cada cristão anuncia o Evangelho não a partir do poder e sim da distância do poder, pois o Evangelho só pode ser anunciado com credibilidade a partir da Cruz onde aparece a verdade crua.
P.Vitus Gustama, SVD

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Domingo, 24/07/2016



A BONDADE DO DEUS PAI ME FAZ PERSEVERAR NA ORAÇÃO 


XVII Domingo Comum “C”


I Leitura: Gn 18,20-32


Naqueles dias, 20 o Senhor disse a Abraão: “O clamor contra Sodoma e Gomorra cresceu, e agravou-se muito o seu pecado. 21 Vou descer para verificar se as suas obras correspondem ou não ao clamor que chegou até mim”. 22 Partindo dali, os homens dirigiram-se a Sodoma, enquanto Abraão ficou na presença do Senhor. 23 Então, aproximando-se, disse Abraão: “Vais realmente exterminar o justo com o ímpio? 24 Se houvesse cinquenta justos na cidade, acaso irias exterminá-los? Não pouparias o lugar por causa dos cinquenta justos que ali vivem? 25 Longe de ti agir assim, fazendo morrer o justo com o ímpio, como se o justo fosse igual ao ímpio. Longe de ti! O juiz de toda a terra não faria justiça?” 26 O Senhor respondeu: “Se eu encontrasse em Sodoma cinquenta justos, pouparia por causa deles a cidade inteira”. 27 Abraão prosseguiu dizendo: “Estou sendo atrevido em falar ao meu Senhor, eu, que sou pó e cinza. 28 Se dos cinquenta justos faltassem cinco, destruirias por causa dos cinco a cidade inteira?” O Senhor respondeu: “Não destruiria, se achasse ali quarenta e cinco justos”. 29 Insistiu ainda Abraão e disse: “E se houvesse quarenta?” Ele respondeu: “Por causa dos quarenta, não o faria”. 30 Abraão tornou a insistir: “Não se irrite o meu Senhor, se ainda falo. E se houvesse apenas trinta justos?” Ele respondeu: “Também não o faria, se encontrasse trinta”. 31 Tornou Abraão a insistir: “Já que me atrevi a falar a meu Senhor, e se houver vinte justos?” Ele respondeu: “Não a iria destruir por causa dos vinte”. 32 Abraão disse: “Que o meu Senhor não se irrite, se eu falar só mais uma vez: e se houvesse apenas dez?” Ele respondeu: “Por causa dos dez, não a destruiria”.


II Leitura: Cl 2,12-14


Irmãos: 12 Com Cristo fostes sepultados no batismo; com ele também fostes ressuscitados por meio da fé no poder de Deus, que ressuscitou a Cristo dentre os mortos. 13 Ora, vós estáveis mortos por causa dos vossos pecados, e vossos corpos não tinham recebido a circuncisão, até que Deus vos trouxe para a vida, junto com Cristo, e a todos nós perdoou os pecados. 14 Existia contra nós uma conta a ser paga, mas ele a cancelou, apesar das obrigações legais, e a eliminou, pregando-a na cruz.


Evangelho: Lc 11,1-13


1 Jesus estava rezando num certo lugar. Quando terminou, um dos seus discípulos pediu-lhe: “Senhor, ensina-nos a rezar, como também João ensinou a seus discípulos”. 2 Jesus respondeu: “Quando rezardes, dizei: ‘Pai, santificado seja o teu nome. Venha o teu Reino. 3 Dá-nos a cada dia o pão de que precisamos, 4 e perdoa-nos os nossos pecados, pois nós também perdoamos a todos os nossos devedores; e não nos deixes cair em tentação’” 5 E Jesus acrescentou: “Se um de vós tiver um amigo e for procurá-lo à meia-noite e lhe disser: ‘Amigo, empresta-me três pães, 6 porque um amigo meu chegou de viagem e nada tenho para lhe oferecer’, 7 e se o outro responder lá de dentro: ‘Não me incomodes! Já tranquei a porta, e meus filhos e eu já estamos deitados; não me posso levantar para te dar os pães’; 8 eu vos declaro: mesmo que o outro não se levante para dá-los porque é seu amigo, vai levantar-se ao menos por causa da impertinência dele e lhe dará quanto for necessário. 9 Portanto, eu vos digo: pedi e recebereis; procurai e encontrareis; batei e vos será aberto. 10 Pois quem pede, recebe; quem procura, encontra; e, para quem bate, se abrirá. 11 Será que algum de vós, que é pai, se o filho lhe pedir um peixe, lhe dará uma cobra? 12 Ou ainda, se pedir um ovo, lhe dará um escorpião? 13 Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo aos que o pedirem!”
___________________


Como se sabe, Lucas é conhecido como uma pessoa orante e a  sua comunidade é uma comunidade orante, porque ele dá uma atenção particular à oração. No seu evangelho ele faz notar nove vezes que Jesus reza; só duas ocasiões de oração são comuns com os outros evangelhos sinóticos. Lc 11,1-13 é realmente um pequeno catecismo sobre a oração. A oração envolve o evangelho inteiro desde o primeiro capítulo que abre com uma solene liturgia no templo de Jerusalém (Lc 1,5-25) até a reunião dos discípulos, depois da ascensão, novamente no templo para louvar a Deus (Lc 24,53).


A oração não é uma atividade que se justapõe extrinsecamente ao homem, mas ela jorra do ser, nasce do próprio mistério do homem, destila e flui da realidade de todos os homens. Poderíamos dizer que a oração é, de certo modo, o próprio ser do homem que se torna transparente à luz de Deus, que se reconhece por aquilo que é e, ao reconhecer-se, reconhece a grandeza de Deus, a Sua santidade, o Seu amor, o Seu desígnio de misericórdia. Ela é uma percepção da realidade que logo se desabrocha em louvor, em adoração, em agradecimento e em pedido de piedade Àquele que é a origem do ser. Por isso, quem sabe viver bem/conscientemente, sabe também rezar bem/conscientemente. E quem sabe rezar bem/conscientemente, também sabe viver bem/conscientemente. Aquele que vive profundamente seu ser ou sua vida, não tem como não rezar. O ser humano é apenas uma criatura, mas uma criatura que tem consciência de seu ser e de seu existir e do fim do seu existir na história.


A oração exige uma relação em que você permite ao Outro entrar no centro de sua pessoa, permite-lhe falar ali, permite-lhe tocar o núcleo sensitivo de seu ser e permite-lhe ver tudo o que você preferiria deixar oculto na escuridão. Ao orar você se abre para a influência do Poder que se revelou como Amor. O Poder que lhe dá liberdade e independência. Uma vez tocado por esse Poder, você não é mais arrastado para lá e para cá pelas inúmeras opiniões, ideias e sentimentos que passam por você. Você encontrou um centro para sua vida, e este centro lhe dá uma distância criativa de modo que tudo o que você vê, ouve e sente pode ser testado de acordo com a fonte.


Por isso, ao rezar, de você se pede que abra seus punhos firmemente cerrados e dê sua última moeda para Aquele que pode preencher todo o espaço de sua vida. O homem que ora é um homem com as mãos abertas perante Deus para o mundo. Ele sabe que Deus se mostrará na natureza circundante, nas pessoas que ele encontra, nas situações por onde passa. Uma pessoa torna-se uma pessoa quando é capaz de se abrir para todas as dádivas que estão preparadas para ela. Um homem que ora pode voltar a respirar livremente e tem a liberdade de mover-se para onde quiser sem que medos o persigam. O homem que vive do sopro de Deus pode reconhecer com alegria que o mesmo sopro mergulha no pulmão de seu semelhante e que ambos bebem da mesma fonte. Nessa percepção mútua, o medo do outro desaparece, as armas caem, um sorriso vem aos lábios e uma mão se estende para o outro. Aquele que percebe o sopro de Deus no outro pode deixar o outro entrar de verdade em sua vida.


Quando a vida do homem está se tornando cada vez mais uma oração, ele percebe que está sempre ocupado convertendo-se e adquirindo uma compreensão maior de seu semelhante. Também ele percebe que a oração é o pulso do mundo em que ele vive. O homem que ora inspira o mundo, olha para ele com compaixão e, nesse olhar, penetra a fonte de todo ser.


O texto do Evangelho deste domingo fala da oração do Pai-Nosso na versão de Lucas.


Desde a antigüidade são conhecidas três formas do Pai-Nosso: (1) o mais curto é a versão lucana (Lc 11,1-4) com cinco pedidos; (2) Mt 6,9-13 é o mais longo com sete pedidos, o que se pode suspeitar ser uma redação mais recente. No entanto, segundo J. Jeremias, o uso da palavra “dívida” por Mateus revela uma presença de um aramaismo, dado que no grego comum não se usava a palavra “dívida” (ofeilemata) para indicar pecado, mas “falta, pecado”(amartia) como está no texto de Lucas e Marcos; e (3) Didaqué 8,2 (Catecismo dos primeiros cristãos/Instrução dos Doze Apóstolos) que é o mais longo ainda, com sete pedidos e a doxologia.


Rezar o Pai-Nosso é seguir Jesus Cristo, aprendendo dele a maneira de viver, de escolher e também o modo de enfrentar a morte; quais são as razões profundas, as raízes da própria existência. Antes de introduzir a oração do Pai-Nosso, Lucas apresenta o modelo: Jesus que ora (v.1). Os discípulos sabem como e quando rezar, não na base de um manual de orações ou de um calendário sagrado, mas seguindo o estilo de seu Mestre, sua atitude de fidelidade e liberdade, em comunhão total com o Pai: uma comunhão e confiança que não podem ser perturbados, nem sequer pela provação suprema que é o absurdo de uma morte violenta e vergonhosa.


Neste texto, os apóstolos pedem a Jesus: “Senhor, ensina-nos a rezar, como também João ensinou os discípulos dele” (v.1). Devemos observar logo de início que o pedido dos apóstolos não foi feito quando eles se encontraram pela primeira vez com Jesus, mas muito mais tarde, depois de eles terem visto Jesus se retirar para lugares desertos a fim de rezar. E só entendemos o peso deste pedido se consideramos que os discípulos não tinham nenhum motivo de querer aprender “mais uma” oração. O bom judeu sabe de cor a maioria das 150 preces oficiais, os Salmos. Por isso, aqui, não se trata de querer saber uma oração “nova”. Os apóstolos estavam fascinados com Jesus porque para rezar ele se retira a lugares ermos (Mt 14,13). Jesus não grita, não tira os sapatos, não atira ao chão. Na montanha, no silêncio da noite, ele se mergulha na presença de Deus. Deus está na total intimidade de sua vida (cf. Mc 1,35s;Lc 6,12;9,18.28;Jo 11,41ss). Voltando da oração, Jesus orante tem sobre os discípulos uma irresistível atração divina. Nenhum homem sabia se aproximar de Deus com tanta reverência, e ao mesmo tempo com tão incomparável confiança. Entre Jesus e Deus havia a total intimidade.


A resposta de Jesus para o pedido é a oração do Pai-Nosso. É uma oração tão simples e fácil, que aprendemos quando pequenos, e, no entanto, oração riquíssima. Nela descobrimos a palavra “Pai”, Deus-Pai como novo horizonte de vida.


A palavra “Pai” (Abba, Papaizinho) encontra-se, nos evangelhos: 118 vezes em Jo, 5 vezes em Mc, 17 vezes em Lc e 44 vezes em Mt. E em outra parte do NT: 42 vezes em Paulo, 2 vezes em Hb, 24 vezes nas Cartas católicas e 5 vezes no Ap. Dizer “Pai” significa que não precisamos fazer um esforço de imaginação para conhecer a Deus, para imaginá-lo. Dizer “Pai” nos torna disponíveis, enche-nos de confiança, facilita a nossa entrega, pois estamos certos de sermos ouvidos, e isto nos permite superar as barreiras do medo e da incerteza. Dizer “Pai” significa que eu devo me comportar como filho diante dele e como irmão diante dos outros, pois eu sou irmão de muitos outros irmãos. Dizer “Pai” faz nascer a certeza de que somos amados, isto é, nos leva a um ato de inteiro abandono em Deus.


Pai, santificado seja o teu nome”.  “Santificar” e “nome” (v.2). Santificar, biblicamente, é sinônimo de louvar, bendizer e glorificar; é tornar-se santo. Santo tem como sinônimo justo, perfeito, bom e puro. O “nome” é propriedade; o nome é a extensão da personalidade; ele é o próprio ser. O nome é indicativo direto da pessoa, por isso, a interdição de invocar seu nome (Ex 20,7) é porque o nome indica o próprio portador. Santificar o nome de Deus é comprometer-se com a sua justiça, com a justiça ao órfão, à viúva, com o trabalhador do campo, com o operário da cidade.


Com o “venha o teu reino”, exprimimos o desejo, o anseio pela manifestação daquela realidade que se condensa na palavra “reino”, e que pode ser expressa de mil outros modos: justiça, fraternidade, triunfo da vida, derrota da morte, situação em que não mais haverá lágrimas ou luto, capacidade de nos conhecermos e de nos amarmos a fundo, plenitude do Corpo de Cristo realizado na Igreja, unidade verdadeira entre as pessoas e entre todos os povos. Por isso, o “reino do Pai” é bem diferente dos “reinos deste mundo” com suas lutas pelo poder, seus altos cargos, sua imponência, sua falta de paz e suas ameaças de guerra. A guerra supõe que tenha algo a defender. Mas nem sempre este “algo” é justo e humano.


O pão necessário, dá-nos a cada dia”. “Pão” em hebraico “lehem” (que compõe a palavra Betlehem = a casa do pão) é o conjunto dos bens que servem para sustentar a vida. Por mais altos que forem os voos do espírito, por mais profundos os mergulhos da mística, por mais metafísicos os pensamentos abstratos, o ser humano sempre depende de um pouco de pão, de um copo de água, enfim de uma pequena porção de matéria. O homem se apresenta diante de Deus como uma criatura que necessita ser sustentada na sua vida material. O pão é sagrado porque sustenta a vida que é sagrada. Por causa disso, o pão é uma preocupação constante de cada pessoa, de cada família. Nenhuma oração, nenhum ato espiritual dispensa o pão. Deus quer que ganhemos o pão com o trabalho que implica tempo, suor e lágrimas. E o pão que comemos diariamente esconde toda rede de relações anônimas que sempre devem ser recordadas. Antes de chegar à nossa mesa, passou pelo trabalho de muitos braços. Em cada pão que se come, por isso, há sentido de fraternidade e de partilha; embora haja também relações de exploração e lágrimas escondidas em cada pão que se come. Mas o pão que nós comemos, fruto da exploração/roubo do irmão, não é pão abençoado por Deus. É pão que apenas nutre, mas não alimenta a vida humana que é somente humana enquanto vive na reta ordem da justiça e da fraternidade.


Perdoa-nos os nossos pecados, pois nós também perdoamos a todos os nossos devedores”. O homem não somente vive, mas convive. Ele se relaciona. Aqui é que surgem conflitos, brigas, guerras etc. Para que a convivência possa permanecer, o perdão mútuo é indispensável. Toda convivência humana é baseada no perdão. O perdão é invocado a Deus (v.4), o único que pode quebrar o círculo do pecado que gera pecado, solidão e morte. O próprio Deus sempre está pronto para nos perdoar, pois Ele quer saber de nossa volta a Ele e não do quanto tempo de nosso afastamento. Podemos fazer contra ele as piores ingratidões, mas basta que nos voltemos para ele, para que nos perdoe. Precisamos sempre do perdão de Deus, perdão que nunca nos falta, perdão pelas nossas seguidas quedas, e pela nossa incapacidade de realizar o Reino. Mas precisamos também do perdão recíproco. Perdoar não é exigir que o outro se humilhe. Perdoar não exigir que o outro primeiro se converta, que o outro venha expiar sua culpa para depois perdoá-lo. O perdão vem primeiro. Perdoar é doar até o fim. É doar-se sem jamais colocar limites. Perdoar é mostrar que seu amor é maior do que a ofensa do outro. Se a ofensa derrubar, se desanimar seu amor, é porque seu amor é pequeno e bem frágil ainda.


Não nos deixes cair em tentação”. O último pedido expressa a consciência da precariedade na existência humana exposta ao risco de aderir ao mal na sua extrema gravidade. O homem é um ser tentável. Mas precisamos estar conscientes de que a tentação é sinal de predileção, pois somente quem anda com o Senhor é tentado. Somente quem pratica a justiça e o bem em geral é tentado. Mas mesmo assim, precisamos do apoio de Deus para não cairmos em tentação no momento do perigo, e para que o Reino não se obscureça em torno de nós. Na tradição bíblica do NT, estar livre da tentação é estar protegido contra a apostasia ou contra a negação da fé. Na verdade, é uma súplica positiva. A tentação pode ser um desejo de construir um Reino próprio e colocar-se no lugar de Deus.


Depois que ensinou os discípulos sobre a oração do Pai-Nosso, Jesus contou uma parábola referente a essa oração.


Deve-se compreender a parábola a partir da vida de uma aldeia palestinense e da lei da hospitalidade, que era sagrada para o judeu. Um homem recebe visita durante a noite e, não tendo nada para oferecer ao seu visitante, recorre ao vizinho para que este lhe empreste três pães. Ainda que o vizinho já esteja dormindo, e inicialmente, recuse o pedido por causa dos incômodos que o levantar-se, abrir a porta etc., ele acabará ouvindo o pedido do amigo.


O ensinamento teológico do evangelista é claro: Deus pode tardar, mas ele ouvirá os nossos pedidos. O segredo é a insistência. Se na primeira vez o pedido não é alcançado, pede-se uma segunda vez. Não devemos brincar de orar, mas sim, devemos mostrar persistência se não recebemos a resposta imediatamente. Não é que Deus não deseje atender e por isso precisa ser pressionado para dar uma resposta. Mas se não quisermos aquilo que estamos pedindo, suficientemente para sermos persistentes, então, não fazemos muita questão dele. Não é uma oração tépida assim que é respondida.    


A interrogação permanece: faz sentido a prece de súplica (pedir, procurar, bater), se Deus já sabe das nossas necessidades?


A prece de súplica fundamenta sua eficácia em duas razões básicas: a bondade paterna de Deus e a fé do ser humano. Fidelidade e confiança encontram-se como reciprocidade no diálogo: a do Pai e a do filho. Confiar é o olhar da fé que sabe ver Deus. Se não há fé, a confiança não surge, e corre-se o risco da volta à ausência de sentido da vida, sobretudo quando se toca com a mão o extremo do próprio limite. A confiança cresce encorajada pela descoberta da bondade de Deus. A bondade de Deus é a raiz da confiança, porque ele é fiel às suas promessas.  O homem fiel é aquele que crê no Deus que promete; o Deus fiel é aquele que concede o que prometeu ao homem” (Papa Francisco: Lumen Fidei, Carta Encíclica).


Assim, a súplica paciente não tem como meta lembrar a Deus a sua fidelidade, mas fazer crescer dentro de nós o hábito da necessidade dele, da dependência dele, relembrando que tudo está sob o sinal da graça. Crescendo dos imperativos (peçam, procurem, batam), aparentemente diz respeito a coisas concretas, mas, na verdade, concita o discípulo a converter o coração ao amor solícito do Pai. A experiência do amor paterno é a verdadeira parábola para compreender a generosidade de Deus, o seu amor que não se desmente. A oração é, certamente, a total abertura ao amor fiel de Deus para que cada um viva o amor fiel na convivência com os demais.


Mas devemos estar conscientes de que Deus não exclui a responsabilidade da pessoa que reza nas tarefas que a história estabelece. Somente assim tudo o que é rezado torna-se verdadeiro, e remete ao compromisso sério da vida. Apenas assim, a prece foge do risco da alienação porque tudo se recompõe dentro da misteriosa e realizadora vontade de Deus.


Jesus conclui seu ensinamento sobre a oração dizendo: “O Pai do céu dará o Espírito Santo” (v.13). Eis a grande resposta à prece de súplica: a dádiva do Espírito. A promessa de Deus ultrapassa toda espera, transcende a imaginação humana. O segredo da eficácia não se fundamenta somente na confiança, mas, também, na disponibilidade de acolher os grandes bens de Deus. E Lucas enfatiza que o Pai dará o Espírito. Jesus parece dizer que, antes de perguntar como se aprende a rezar (cf. Lc 11,1), é necessário pedir a presença do Orante: a presença do Espírito Santo que "intercede" em nós e para conosco(Lc 11,13;Rm 8,26). A prece cristã em Lc 11 chega ao seu ápice e qualifica-se como diálogo dos filhos no seio da comunhão da Trindade. A prece daquele que crê é a experiência da paternidade de Deus, é a participação no caminho do seu Reino na história, revelada na sua plenitude mediante a encarnação do Filho, e é a consciência nova da filiação, no Filho, por obra do Espírito.


Não estou só neste mundo, porque o Espírito Santo implora em mim e por mim, aquilo que eu não sei pedir, e o meu Salvador está junto de mim, une-me a Si e me faz participante de seus sentimentos filiais. Ele vem em auxílio da nossa fraqueza (cf. Rm 8,26-27). Ali onde existe a presença do Espírito é possível reconhecer o Pai, a sua vontade, a procura do seu Reino, o compromisso pelo pão cotidiano, o testemunho da misericórdia, a libertação do mal. Quando o Espírito está ausente da vida, o discípulo torna-se um estranho, desanima, não sabe mais o que pedir e como rezar.


P. Vitus Gustama,svd