quarta-feira, 3 de agosto de 2016

06/08/2016




TRANSFIGURAÇÃO NA NOSSA VIDA


06 de Agosto


Primeira Leitura: Dn 7,9-10.13-14


9 Eu continuava olhando até que foram colocados uns tronos, e um Ancião de muitos dias aí tomou lugar. Sua veste era branca como neve e os cabelos da cabeça, como lã pura; seu trono eram chamas de fogo, e as rodas do trono, como fogo em brasa. 10 Derramava-se aí um rio de fogo que nascia diante dele; serviam-no milhares de milhares, e milhões de milhões assistiam-no ao trono; foi instalado o tribunal e os livros foram abertos. 13 Continuei insistindo na visão noturna, e eis que, entre as nuvens do céu, vinha um como filho do homem, aproximando-se do Ancião de muitos dias, e foi conduzido à sua presença. 14 Foram-lhe dados poder, glória e realeza, e todos os povos, nações e línguas o serviam: seu poder é um poder eterno que não lhe será tirado, e seu reino, um reino que não se dissolverá.


Evangelho: Lc 9, 28b-36


Naquele tempo, 28b Jesus levou consigo Pedro, João e Tiago, e subiu à montanha para rezar. 29 Enquanto rezava, seu rosto mudou de aparência e sua roupa ficou muito branca e brilhante. 30 Eis que dois homens estavam conversando com Jesus: eram Moi­sés e Elias. 31 Eles apareceram revestidos de glória e conversavam sobre a morte, que Jesus iria sofrer em Jerusalém. 32 Pedro e os companheiros estavam com muito sono. Ao despertarem, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com ele. 33 E quando estes homens se iam afastando, Pedro disse a Jesus: “Mestre, é bom estarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”. Pedro não sabia o que estava dizendo. 34 Ele estava ainda falando, quando apareceu uma nuvem que os cobriu com sua sombra. Os discípulos ficaram com medo ao entrarem dentro da nuvem. 35 Da nuvem, porém, saiu uma voz que dizia: “Este é o meu Filho, o Escolhido. Escutai o que ele diz!” 36 Enquanto a voz ressoava, Jesus encontrou-se sozinho. Os discípulos ficaram calados e naqueles dias não contaram a ninguém nada do que tinham visto.
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Neste dia 6 de Agosto a Igreja celebra a Festa da Transfiguração do Senhor.


Os evangelhos que relatam o episódio da Transfiguração do Senhor querem nos dizer que Jesus que caminha até a Cruz, é realmente o Senhor. Precisamente, neste Jesus que caminha até a Cruz encontramos o cumprimento de todas as esperanças. A transfiguração se transforma na revelação não somente do que será Jesus depois da Cruz, mas ao longo de sua viagem para Jerusalém. A transfiguração de Jesus revela a verdadeira natureza de Jesus como Senhor (título pós-pascal). A transfiguração quer revelar aos discípulos que atrás da Cruz há a glória. E para os discípulos, representados por Pedro, João e Tiago, é concedida a graça de contemplar a glória de Jesus, por um instante. A transfiguração é a Páscoa antecipada por um instante.


Reflitamos alguns pontos do texto do evangelho sobre a transfiguração na versão do evangelho de Lucas!


1. Quem Anda Com o Senhor Se transfigura e Experimenta a Glorificação


A transfiguração é uma mensagem da esperança com intenção de animar qualquer um de nós em qualquer situação onde nos encontramos.


Jesus percebe o desânimo dos seus discípulos por causa das dificuldades. Com Jesus eles são criticados, muitos os recusaram. Além disso, ainda ouviram de Jesus três vezes o anúncio da morte iminente de Jesus com muito sofrimento. Com certeza, surge uma pergunta no seu coração: Será que vale a pena seguir esse Jesus que se diz o Messias esperado?


Para resolver o problema do desânimo dos discípulos Jesus leva os três representantes para o topo de uma montanha: Pedro, Tiago e João. No topo da montanha é que Jesus se transfigura diante deles. Com essa transfiguração Jesus quer dizer aos três: quando caminha comigo, mesmo que enfrente muitas dificuldades, muitas críticas, bastante recusas, experimentará a vida glorificada, terá uma vida transfigurada. Jesus quer lhes dizer: “Comigo não tenham medo de nada e de ninguém, pois a minha Palavra será a última palavra!”. Quando as forças humanas se esgotarem, a fé em Jesus vai surgi-las novamente.


2. Deus Quer Ficar Em Nossa Casa e Habitar Em Nosso Coração


É bom estarmos aqui, Senhor. Vamos fazer três tendas: uma para Ti, outra para Moises e outra para Elias”, disse Pedro a Jesus. O projeto da tenda de Pedro responde ao desejo inconsciente de ter Deus a distância, de marcar limite da presença de Deus em lugares e tempos bem definidos. Mas Deus não aceita nosso jogo. Com sua encarnação Deus escolheu outro jogo, que é muito mais sério: o jogo de nossa realidade de todos os dias.


Jesus não aceita pousada para ele. A hospitalidade que Ele pretende é a doméstica. Por isso, ele, com seus discípulos, desceu da montanha.


É curioso como o homem se preocupa sempre em construir algum lugar para Deus para deixar Deus instalado, para imobilizar Deus num lugar. Ao contrário, Deus desceu para a terra precisamente para habitar na casa do homem. Deus não habita nas paredes de uma igreja. Ele quer instalar-se em nossa casa, em sua casa, em minha casa. Deus quer instalar-se em nossa vida, em cada família, no centro de nossos trabalhos cotidianos. Que adiante visitarmos Deus nas igrejas que construímos, se Ele não tem nenhum cantinho na sua casa, na sua família, no nosso trabalho, nas nossas conversas? As igrejas que construímos deve ser manifestação de nossa vida de fraternidade, mostrando que somos todos irmãos e irmãs de Jesus, filhos e filhas do mesmo Pai celeste. O coração do homem é o lugar preferido de Deus. Um coração que ama é a melhor morada de Deus: “Se alguém me ama guardará a minha palavra e meu Pai o amará, e nós viremos a ele e nele faremos nossa morada” (Jo 14,23). Se cada um tiver lugar para Deus na sua família, essa família vai experimentar também a transfiguração, a glorificação.


3. É Preciso Escutarmos a Jesus Permanentemente Para Orientar Nossa Vida e Para Termos a Paz


Este é o meu Filho, o amado, escutai-O


Na verdade, cada um de nós é vítima da agressão externa de hordas de palavras, de sons muito altos, de clamores que ensurdecem o nosso coração, o nosso dia e até mesmo, às vezes, a nossa própria noite. A pessoa que expulsa de seus pensamentos o Deus vivo, Aquele que é o único capaz de encher todos os espaços, o Único capaz de satisfazer seus anseios se torna uma pessoa vazia. Para preencher esse vazio, ele quer só barulho, pois aquilo que não temos dentro de nós somos obrigados a buscá-lo fora de nós.


A voz do Pai do céu fala para nós hoje sobre Jesus: “Este é o meu Filho, o Escolhido. Escutai o que ele diz!”.  Por que precisamos escutar a Jesus permanentemente? Porque ele tem uma palavra para mim, para minha família, para meu casamento, para meu trabalho, para meus problemas, para minha angústia, para minha confusão até para a minha doença e dor. Eu posso escutar esta palavra no silêncio e na paz. Eu preciso me alimentar desta escuta para que eu cresça na fé e me realize como pessoa muita humana.


Para termos a capacidade e uma atitude de escuta, temos que saber primeiro criar o silêncio. O silêncio possibilita a presença da eternidade. Todas as obras primas da história foram frutos do silêncio. Quem fala muito é porque não tem tempo para pensar. E a Palavra de Deus nos diz que quem fala muito a possibilidade de pecar é muito grande, pois no falar muito está o pecado. O silêncio nos ajuda a calarmos em nós a fantasia para viver a vida na sua profundidade, na sua originalidade que é dom de Deus.


Portanto, vale a pena cada um se perguntar: De que modo você escuta Jesus Cristo diariamente? Quais são seus momentos de silêncio e de escuta da Palavra de Deus no seu dia a dia? Você é uma pessoa que sabe escutar os outros? Escutar o outro também faz parte da espiritualidade cristã.


P. Vitus Gustama,svd

05/08/2016


SER CRISTÃO CONVICTO E CONSCIENTE


Sexta-Feira da XVIII Semana Comum


Primeira Leitura: Na 2,1.3;3,1-3.6-7


2,1 “Eis sobre os montes os passos de um mensageiro, que anuncia a paz. Ó Judá, celebra tuas festas, cumpre tuas promessas: nunca mais Belial pisará teu solo; ele foi aniquilado. 3 O Senhor há de restaurar a grandeza de Jacó, assim como a grandeza de Israel, pois os ladrões os saquearam e devastaram suas videiras. 3,1 Ai de ti, cidade sanguinária, cheia de imposturas, cheia de espoliação e de incessante rapinagem. 2 Estalo de chicotes, fragor de rodas, cavalos relinchando, ringir de carros impetuosos, cavaleiros à carga, 3 espadas brilhando e lanças reluzentes, trucidados sem conta, mortos aos montes; cadáveres sem fim, tropeça-se sobre os corpos. 6 Farei cair sobre ti tuas abominações, e te lançarei em rosto merecidos insultos; de ti farei um exemplo. 7 Assim, todos os que te virem, fugirão para longe, dizendo: ‘Nínive está em ruínas! Quem terá compaixão dela? Onde achar quem a console?’”


Evangelho: Mt 16,24-28


Naquele tempo, 24 Jesus disse aos discípulos: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e me siga. 25 Pois quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la. 26 De fato, de que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro mas perder a sua vida? Que poderá alguém dar em troca de sua vida? 27 Porque o Filho do Homem virá na glória do seu Pai, com os seus anjos, e então retribuirá a cada um de acordo com a sua conduta. 28 Em verdade vos digo: Alguns daqueles que estão aqui não morrerão antes de verem o Filho do Homem vindo com seu Reino”.
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Deus Tem a Última Palavra Sobre o Homem Mesmo Que Este Pareça Ser Poderoso


Ó Judá, celebra tuas festas, cumpre tuas promessas: nunca mais Belial pisará teu solo; ele foi aniquilado. O Senhor há de restaurar a grandeza de Jacó, assim como a grandeza de Israel, pois os ladrões os saquearam e devastaram suas videiras”. São Palavras do profeta Naum que lemos na Primeira Leitura.


“Naum” em hebraico significa “Consolador”. O livro do profeta Naum é muito curto: tem apenas três capítulos. Ele exercia sua função como profeta em torno dos anos 663 a 612 a.C. Naum era contemporâneo do profeta Jeremias.


A ideia fundamental da pregação do profeta Naum é a justiça divina que se exerce sobre todos os opressores. O profeta centra sua atenção no castigo de Nínive, capital da nação opressora, por excelência, Assíria. Durante um século e meio, o exército assírio foi o pesadelo para as pequenas nações da costa siro-fenício-palestina. Nínive não é apenas a capital de um país poderoso, mas também o símbolo do orgulho e da violência, dos “poderosos” de toda ordem.


Mas agora Assíria chegou seu momento final. A descrição do profeta Naum sobre o fim da Assíria opressora é viva e vigorosa, sem perder a beleza literária: “Ai de ti, cidade sanguinária, cheia de imposturas, cheia de espoliação e de incessante rapinagem... Farei cair sobre ti tuas abominações, e te lançarei em rosto merecidos insultos; de ti farei um exemplo”.


Uma vez cumprida a justiça divina sobre a opressora, a injusta Assíria, o profeta Naum entoa um cântico de exultação a Judá, convidando a gozar-se das boas novas que traz o mensageiro da paz: “Eis sobre os montes os passos de um mensageiro, que anuncia a paz. Ó Judá, celebra tuas festas, cumpre tuas promessas: nunca mais Belial pisará teu solo; ele foi aniquilado”.


Nínive é um tipo de cidade que quer dominar o mundo. Mas não pode durar diante de Deus por causa de sua maldade. Nínive hoje toma outros nomes: são todas as potências que no seio dos sistemas econômicos atuais se aproveitam do dinheiro e da mentira para praticar a corrupção, para roubar dinheiro público, para oprimir os débeis, para se aproveitar dos indefesos e inocentes e assim por diante. O profeta Naum quer nos relembrar que o julgamento divino vai pesar sobre os injustos, opressores, violentos, pois maltratar um ser humano significa maltratar o próprio Criador. Nisto entendemos que os direitos humanos são também os direitos divinos (cf. Mt 25,40.45).


Fraudes, violências, injustiça, barbárie, brutalidade não são privilégios daquele tempo. Tudo isso continua a acontecer em qualquer lugar e tempo, inclusive no nosso tempo. Mas o profeta Naum deixa bem claro que os grandes poderes do mundo não são eternos. Qualquer poder neste mundo tem seu tempo limitado. Assíria dominava, amontoava, oprimia, humilhava, principalmente, os pequenos, mas um dia caiu em pedaços e despareceu da história, assim como outros impérios que um por um foi caindo e desaparecendo, mas a história continua.


Feliz seja quem tem Deus na sua vida, pois Deus vai ter a última palavra sobre a humanidade. Todos podem não acreditar em Deus para continuar a praticar o mal e a maldade, mas o julgamento final é inevitável para todos. “O julgamento será sem misericórdia para quem não pratica a misericórdia. A misericórdia  desdenha o julgamento” (Tg 2,13).


Consequências Do Seguimento


Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e me siga. Pois quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la”.


As exigências do seguimento de Jesus das quais fala o evangelho deste dia são repetidas seis vezes com variantes maiores e menores nos quatro evangelhos (Mt 16,24ss; Mc 8,34ss; Lc 9,23s; Jo 12,24ss; Lc 14,27; Mt 10,38s). Essa repetição nos indica a importância dada pela Igreja dos apóstolos a essas exigências.


Os discípulos já fizeram uma opção inicial por Jesus. Agora, diante das implicações do seguimento se encontram diante de uma situação da escolha definitiva. Para ser discípulo de Jesus não é suficiente a chamada; é necessária uma resposta clara depois de ter consciência das condições que a chamada impõe. 


Ao apresentar para os discípulos as condições do seguimento, Jesus não impõe, mas propõe: “Se alguém quer...”. São João Crisóstomo comentou: “Ele disse: Eu não forço nem obrigo ninguém a me seguir, deixo a cada um dono de sua própria escolha; por isso, digo: Se alguém quer...”. O seguimento não é uma imposição. Todos têm a liberdade de aceitar ou de recusar. Mas quem quer seguir verdadeiramente a Jesus, tem que assumir as exigências propostas por ele. Tudo tem que ser tomado na base da liberdade, da obediência da fé e por amor.


A primeira condição é a renúncia a si mesmo: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo...” (v.24).


Pela renúncia e pela cruz, Jesus não propõe uma destruição e sim um desenvolvimento, uma expansão total e eterna. Por isso, renunciar a si mesmo ou negar-se a si mesmo significa que a pessoa deixa de encontrar em si mesma “seu centro” (egoísmo), mas aberta diante de Deus e do próximo. A renúncia não tem seu fim em si mesma. A renúncia é a condição de uma vida em plenitude. A própria vida se converte em uma vida de entrega com a possibilidade de sofrimento (cruz) sem nenhum tipo de gratificação humana, pois a vida se entrega unicamente Àquele que é capaz de dar sentido. Somente a pessoa que não se fecha ou não se encerra em si mesma pode verdadeiramente realizar em plenitude sua própria vida em Deus.


Por isso, renunciar a si mesmo não significa uma resignação cansada diante da vida nem uma “entrega dos pontos” nem por falta de opções. Antes de tudo significa a libertação da própria liberdade do egoísmo a que estava atada e que agora se entrega inteiramente a Deus. O seguidor é chamado a colocar o próprio eu no centro do interesse do Reino de Deus. O centro de sua vida está doravante na vontade de Deus, manifestada para ele na pessoa e na missão de Jesus Cristo. E esta entrega tem de ser livre para poder ser feita na alegria, no entusiasmo e na generosidade. O seguidor é chamado à renúncia, a arriscar a própria vida, porque só assim poderá, como Cristo, chegar à glória que é a meta de todo caminho da cruz. Mas toda renúncia deve ter como base o amor. O sacrifício, a renúncia de si mesmo que não seja animado pelo amor, que não seja uma manifestação de amor, que não seja uma expressão de doação de si mesmo, que não leve à comunhão com os outros é apenas uma tortura auto-infligida. A renúncia que Jesus pede não é uma ação negativa. Ele pede amor, doação de si mesmo. Tudo tem que ser feito por amor. Sem o amor, viveremos uma vida dupla. E este tipo de vida, não traz a alegria verdadeira nem para si nem para os outros. Renunciar a si mesmo é que faz qualquer um discípulo ou seguidor de Jesus.


A segunda condição é o “carregar a sua cruz”: “Se alguém quer me seguir, tome a sua cruz e me siga” (v.24b). Ser cristão não significa curtir a dor. “Carregar a cruz” é uma expressão que os primeiros cristãos utilizaram muito para expressar sua união com Jesus na sua morte e ressurreição. É uma expressão relacionada ao mistério pascal de Jesus Cristo. A cruz de Jesus é o maior sinal de seu amor por nós.


Viver  fielmente os ensinamento de Jesus pode ter conseqüências de sofrimento. Quem vive de acordo com a justiça e a honestidade, será perseguido por quem vive na corrupção, na desonestidade e na injustiça. Ser verdadeiro seguidor de Jesus jamais será isento de sofrimento ou cruz. Não dá para parar de sofrer. A Igreja de Jesus é a Igreja dos mártires. A cruz é a consequência de colocar o bem acima de qualquer interesse pessoal. É uma morte do eu para que o outro possa viver. Jesus pede ao seguidor o esvaziamento total de si mesmo, até a morte física, se for preciso. Quem não tiver esta disponibilidade, ainda não é verdadeiramente seguidor de Cristo. Todo aquele que quer seguir a Jesus incondicionalmente deve estar pronto para percorrer todos os passos da Paixão, pois o “mundo” tenta crucificar e eliminar os seguidores de Cristo por todos os meios, como aconteceu com Jesus.


Depois dessas condições, Jesus mostra os motivos em forma de ditos paradoxais.


Em primeiro lugar Jesus afirma que quem busca egoisticamente, a todo custo, usando quaisquer meios, aproveitar, gozar e conservar a própria vida acaba desperdiçando-a e perdendo-a: “Pois quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la”.  (Mt 16,25; cf. Mt 10,39; Mc 8,35; Lc 9,25;17,33; Jo 12,25).


Nossa vida não é feita para ser guardada e sim para ser entregue e doada. Amar não é “sentir emoção”, não é desejar possuir o outro. Amar é esquecer-se de si mesmo para dar-se ao outro. Isso supõe muita renúncia. Toda vez que alguém tomar para si o outro, ele deixa de amá-lo. Não podemos dizer que amamos o outro quando queremos dizer somente para desfrutar do outro. Isso seria apenas amar a nós mesmos. Amaremos de verdade quando formos capazes de nos renunciar, de nos esquecer, de morrer a nós mesmo em beneficio daqueles aos quais amamos. Quem amou muito e até o fim foi Jesus (cf. Jo 13,1; 15,13). E somos chamados de seguidores de Jesus. Somos cristãos, isto é, somos de Cristo.


Querer guardar para si a própria vida é o caminho mais seguro para perdê-la. Pelo contrário, quem vive em função do serviço desinteressado aos outros na bondade e no amor, ele acaba encontrando a vida na sua plenitude, acaba ganhando a vida eterna. A vida só se encontra, doando-a. O próprio Jesus é o exemplo desta doação. Ele se doou até o fim a Deus e aos homens. O homem muitas vezes somente dá um pouco de sua vida. O verdadeiro cristão se doa tudo por amor.


No v. 26 Jesus repete o paradoxo anterior: “De fato, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua vida? O que poderá alguém dar em troca de sua vida?” Possuir os bens deste mundo não seria um mal em si mesmo, mas torna-se o maior dos males quando, por causa de tais posses, o cristão é impedido de seguir a Cristo ou de viver os valores do Reino de Deus. Jesus, certamente, rejeitou o “mundo inteiro” que o Tentador lhe oferecera, pois o preço da oferta era a idolatria (Mt 4,8s). “Desapeguemos o coração de todas as criaturas. Quem está agarrado a alguma coisa da terra, ainda que mínima, nunca poderá voar e unir-se todo a Deus” (S. Afonso de Ligório). Ainda que alguém ganhasse o mundo inteiro (riqueza, glória, poder), a vida é efêmera. Na ótica da fé, todas as riquezas do mundo são insignificantes quando o que está em jogo é a vida em plenitude (eterna) que Jesus oferece aos que o seguem.


Jesus nos ensina o caminho do amor. Não há amor verdadeiro sem renúncia. Para amar tem que aprender a sacrificar-se. Quem busca a si mesmo e seus próprios interesses, nunca experimentará o verdadeiro amor que faz feliz a alma. Somente poderemos ser cristãos se nos amarmos uns aos outros (cf. Jo 15,12). Amar de verdade supõe o sofrimento, supõe cruz. uma boa maneira de fazê-lo é servir aos outros ao meu redor com pequenos detalhes e não queixando-me diante dos inconvenientes típicos de cada jornada.


O fundamento último da nossa opção pelo seguimento incondicional de Cristo é a certeza, dada pela fé, de que o Filho do Homem virá um dia na sua glória (v.27). Ele terá a última palavra sobre o homem. Essa palavra será uma palavra da graça divina para quem segue a Jesus incondicionalmente por amor. O juízo final torna-se, então, a medida para avaliar a existência histórica e ao mesmo tempo a bússola que orienta a vida do cristão nas escolhas justas e sensatas na vida diária neste mundo.

P. Vitus Gustama,svd

terça-feira, 2 de agosto de 2016

04/08/2016


FÉ EM JESUS CRISTO FORMA E FORTALECE A IGREJA


Quinta-Feira da XVIII Semana Comum


Primeira Leitura: Jr 31,31-34


31 “Eis que virão dias, diz o Senhor, em que concluirei com a casa de Israel e a casa de Judá uma nova aliança; 32 não como a aliança que fiz com seus pais, quando os tomei pela mão para retirá-los da terra do Egito, e que eles violaram, mas eu fiz valer a força sobre eles, diz o Senhor. 33 Esta será a aliança que concluirei com a casa de Israel, depois desses dias, diz o Senhor: imprimirei minha lei em suas entranhas, e hei de inscrevê-la em seu coração; serei seu Deus e eles serão meu povo. 34 Não será mais necessário ensinar seu próximo ou seu irmão, dizendo: ‘Conhece o Senhor!’; todos me reconhecerão, do menor ao maior deles, diz o Senhor, pois perdoarei sua maldade, e não mais lembrarei o seu pecado”.


Evangelho: Mt 16,13-23


Naquele tempo, 13Jesus foi à região de Cesareia de Filipe e ali perguntou a seus discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” 14Eles responderam: “Alguns dizem que é João Batista; outros que é Elias; outros ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas”. 15Então Jesus lhes perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?” 16Simão Pedro respondeu: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. 17Respondendo, Jesus lhe disse: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. 18Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la. 19Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus”. 20Jesus, então, ordenou aos discípulos que não dissessem a ninguém que ele era o Messias. 21Jesus começou a mostrar aos seus discípulos que devia ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos mestres da Lei, e que devia ser morto e ressuscitar no terceiro dia. 22Então Pedro tomou Jesus à parte e começou a repreendê-lo, dizendo: “Deus não permita tal coisa, Senhor! Que isto nunca te aconteça!” 23Jesus, porém, voltou-se para Pedro, e disse: “Vai para longe, Satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens!”
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Nova Aliança de Deus Conosco Está No Amor Misericordioso e Não Na Vingança


Imprimirei minha lei em suas entranhas, e hei de inscrevê-la em seu coração; serei seu Deus e eles serão meu povo”, assim disse o Senhor para o povo eleito através da boca do profeta Jeremias que lemos na Primeira Leitura.


O texto da Primeira Leitura faz parte do conjunto chamado “Livro da Consolação” do profeta Jeremias (Jr 30-33). A maior parte do conteúdo deste conjunto se refere à promessa de salvação que Deus dirige ao povo eleito. O Profeta Jeremias serve como boca de Deus para transmitir uma mensagem de esperança para o povo que consiste no amor misericordioso de Deus.


O texto que lemos neste dia é mais importante deste conjunto porque o Senhor afirma solenemente e firmemente o valor eterno da Nova Aliança que delineia um novo futuro do povo eleito depois do desterro na Babilônia.


Há duas partes deste oráculo: os vv. 31-33ª falam da Nova Aliança que não será como a do Sinai (logo depois da saída do povo eleito da escravidão do Egito. Cf. Dt 26,17-19). E vv. 33b-34: Jeremias explica em que consiste esta Nova Aliança.


Jeremias começa o oráculo com uma fórmula típica “virão dias”, que evoca a espera de algo radicalmente novo: a mudança da Aliança Sinaítica por outra nova. Mas não se trata da promulgação da nova lei e sim que a Nova Aliança não será quebrantável, pois “Imprimirei minha lei em suas entranhas, e hei de inscrevê-la em seu coração; serei seu Deus e eles serão meu povo”. Na verdade, o Senhor sempre quis estabelecer relações de amizade duradouras com seu povo, mas este sempre traiu Deus em função do capricho de seu próprio coração: “Eles violaram, mas eu fiz valer a força sobre eles”. A verdadeira raiz da amizade, da fidelidade nasce do interior do homem, e não radica em promessas feitas com boca para fora (cf. Jr 2,21; 17,1).


A Nova Aliança consiste em que ela jamais será quebrada porque Deus não a inscreve sobre umas tábuas de pedra (Ex 31,18; 34,28ss) e sim no coração do homem, nas suas entranhas (Jr 31,33b-34). A Aliança não consiste no cumprimento de uma série de leis e sim numa relação sincera entre as partes que nasce do interior do homem, pois o interior humano é a verdadeira sede de toda decisão humana (cf. Dt 30,11-14). Por isso, a novidade desta Nova Aliança consiste na interiorização do compromisso, na vivência profunda de uma religião por todos e por cada um dos membros da comunidade. A lei é mesma: os mandatos divinos (Jr 5,4; 8,7), as palavras do Senhor (Jr 6,19) que Jesus resumirá no amor a Deus e ao próximo (Lv 19,18; Dt 6,5; Mt 22,37.39; Rm 13,8-10).


O pecado humano é sempre o grande obstáculo que impede a união com o Senhor, mas o perdão vai ser fundamento e base do novo pacto (cf. Jr 2,22; Ez 18,31; 36,26). Isto não quer dizer que o povo de agora em diante seja imune de queda, de erro, de fraqueza e assim por diante, mas o pacto da vingança será substituída pelo pacto da misericórdia divina. Consequentemente, Deus não se cansará em perdoar qualquer homem que se converter ou que se arrepender de tudo que cometeu.


Na Última Ceia Jesus repetirá de outra forma as palavras de Jeremias para fazer a Nova Aliança com todos os cristãos na instituição da Eucaristia: “Este cálice é a Nova Aliança em meu sangue, que é derramado por vós” (Lc 22, 20; 1Cor. 11, 25a) e “todas as vezes que dele beberdes, fazei-o em memória de mim” (1Cor11,25b).


O único que nos assegura este oráculo é que o pacto antigo no qual triunfava a vingança foi quebrada para ceder o lugar para um novo em que sempre triunfarão o amor e a misericórdia divina. E este novo pacto nunca poderá ser apagado pela infidelidade humana porque o Senhor sempre permanece fiel e pronto para nos perdoar em todos os momentos de nossa vida. A única coisa que é exigida do homem é a conversão. Como consequência para todos é que a falha do outro contra nós jamais pode apagar nosso amor e nossa misericórdia para com outro, pois Deus não tirará nunca sua misericórdia diante de nossos pecados desde que nos convertamos. Sejamos o rosto misericordioso de Deus para o outro, para que todos acreditem que “Deus é amor” (1Jo 4,8.16).


Com Jesus, Pedra Angular De Nossa Vida, Seremos Inquebrantável Diante De Qualquer Tempestade Da Vida


O texto do evangelho de hoje fala da confissão ou da profissão da fé de Pedro, em nome dos apóstolos, em Cristo, Filho do Deus vivo. Por isso, o que se enfatiza no texto é, em primeiro lugar, a identidade de Jesus.


Na verdade Jesus foi invocado como: “Mestre” (Mt 8,19), Filho de Davi (Mt 9,27; 15,22), Senhor (Mt 8,2.6.8.21 etc.). Foi aclamado como Filho de Deus (Mt 14,33). Porém o povo não chegou à confissão de fé coletiva. Somente agora, neste texto, se traduz num ato de fé coletivo que Jesus é o Cristo, Filho do Deus vivo, como resposta de Pedro à pergunta de Jesus sobre quem Ele é.


A confissão de Pedro de que Jesus é o Cristo, Filho de Deus vivo se baseia na fé. E a fé não nasce da debilidade humana. Este é o sentido da expressão “não foi carne ou sangue”: “Bem-aventurado és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi carne ou sangue que te revelaram isso, e sim o meu Pai que está nos céus” (Mt 16,17). A fé é um dom do Pai celeste. Como dom a fé supõe a abertura da parte do homem que quer receber o dom da fé. Somente quem é aberto ao impulso do Espírito divino será inspirado por Deus para falar precisamente. O homem inteiro de carne e de osso é incapaz de aceder ao que é do domínio misterioso de Deus. Deus precisa inspirar à pessoa para poder entender o mistério de Deus.  Se mantivermos nossa vida aberta para a inspiração divina, teremos respostas precisas para as questões de nossa vida.


Além disso, o evangelista Mateus enfatiza a ligação inseparável entre Jesus e a Igreja. Estão tão unidos que não se pode falar de Jesus, como Cabeça sem falar da Igreja como Corpo e vice-versa. Quem professa sua fé em Jesus é Igreja. O povo de Deus que se chama “Igreja” se define unicamente pela fé em Jesus Cristo.


E sobre a Sua Igreja Jesus diz a Pedro: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”. “Qahal” é um termo aramaico que significa “Assemble” ou “convocação” (quem convoca é o próprio Deus). Este termo é traduzido para o grego por “Ekklesia”, logo se conservou tal qual em latim “Ecclesia” do qual procede nosso termo “Igreja”.


Tu és Pedro...”. “Kefa” é um termo aramaico que significa “rocha”. Foi traduzido para o grego por “Petros”, logo em latim por “Petrus” e em português por “Pedro”. Esse nome “Rocha” não era usado por ninguém naquela época, nem no mundo judaico nem no mundo greco-romano. Foi uma idéia de Jesus. Para um semita o “nome” tem uma extraordinária importância. É como um símbolo ou uma definição da pessoa. Isto quer dizer que em cada nome já tem uma missão a ser encarregada ou cumprida. O termo “rocha” nos diz a solidez ou firmeza.


Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”. O que Jesus quer edificar é uma “comunidade”, “Sua” comunidade, homens e mulheres que têm algo “em comum” e que “se reúnem” para festejar o que têm em comum e para vivê-lo. O Concílio Vaticano II definiu a Igreja como “o Povo de Deus” (cf. Lumen Gentium do Concílio Vaticano II). Pedro recebeu um papel de responsabilidade nesse Povo (cf. Jo 21,15-19).


Pedro é apresentado como pedra rochosa posta como fundamento e Jesus é o Construtor. Pedro se converte em pedra, fundamento do edifício construído por Jesus porque a Igreja não é obra do homem e sim de Deus (Mt 21,42). E a Igreja não sucede por sua debilidade humana que é evidentemente não oferece garantias (Mt 14,31) e sim pela confissão de fé em Jesus Cristo.


A Pedro é confiada a missão que serve como a solidez, a segurança da Igreja. De que maneira? Segundo evangelista Lucas (Lc 22,32) a missão de Pedro (e seus sucessores) consiste em “confirmar na fé os próprios irmãos”. Segunda o evangelista Mateus consiste em “atar - desatar”, isto é “proibir-permitir”. E Pedro não estabelecerá a Igreja de acordo com a tradição dos homens e sim de acordo com o que Jesus ensinou, isto é, com a força dessa fé na qual ele deve confirmar seus irmãos. Tendo a fé a Igreja vai para frente.


Mas surge a pergunta: Que garantia temos nós de que Pedro (e seus sucessores) não atuará segundo sua debilidade? O evangelista Lucas oferece a garantia da oração de Jesus: “Eu, porém, orei por ti, a fim de que tua fé não desfaleça” (Lc 22,32ª). Segundo o evangelista Mateus o selo do céu porá sobre as decisões de Pedro: “Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus”. A segurança está principalmente na própria Palavra do Senhor: “O poder do inferno nunca poderá vencê-la”. O poder da morte fica sem força diante do Jesus ressuscitado (Rm 6,9). Jesus está sempre em ação como Construtor da Igreja que, de forma visível, se une a Pedro (e seus sucessores) a quem é confiada a chave do Reino, isto é, um poder de decisão na missão. E Jesus é a origem da missão de Pedro que é a missão da Igreja. A cabeça da Igreja é Jesus e não Pedro (Ef 1,22). Pedro e os Apóstolos são “fundamentos” da Igreja (Ef 2,20), mas Pedro não se qualifica como “pedra angular”. Jesus é a própria “pedra angular” (Ef 2,20; Mc 12,10; Mt 21,42; Lc 20,17; At 4,11; 1Pd 2,4-7).


Quando Jesus disse aos discípulos que devia ir a Jerusalém e sofrer muito e que devia ser morto e ressuscitar no terceiro dia, “então Pedro tomou Jesus à parte e começou a repreendê-lo, dizendo: “Deus não permita tal coisa, Senhor! Que isto nunca te aconteça!” Mas com palavras duríssima Jesus disse a Pedro: “Vai para longe, Satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens!”


Não podemos escolher as mensagens ou os ensinamentos de Jesus de acordo com o nosso gosto. Temos que aceitar “toda” a revelação, todos os ensinamentos, ideias e pensamentos de Jesus Cristo e não somente as idéias que nos agradam. Se acreditamos na ressurreição, a vida gloriosa, temos aceitar as cruzes para chegar a ela.


Além disso, experimentar em nossa própria carne a dúvida e o desânimo nos pode ajudar a ser mais compreensivos com os demais homens e mulheres: com um jovem que perdeu sua fé, com um grupo que tem seus altos e baixos, com uma comunidade cheio de defeitos. Tudo isso nos recorda que não são nossas forças as quais vão salvar o mundo e sim a graça, sempre ativa de Deus. Nós somos o que somos por causa da graça de Deus (cf. 1Cor 15,10)


Para Aprofundar Mais a Reflexão:


1. Quem é Jesus Para Mim?


E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16,15). Esta pergunta nos ensina que nossa descoberta de Jesus Cristo deve ser uma descoberta pessoal. Quando Pilatos perguntou a Jesus se ele era o rei dos judeus, Jesus lhe respondeu em forma de uma pergunta: “Tu falas assim por ti mesmo ou outros te disseram isso de mim?” (Jo 18,34).


Para conhecer a identidade de Jesus é preciso ter a experiência pessoal com ele. Podemos saber e crer em muitos fatos da vida de Jesus, mas não significa que tenhamos a experiência com Ele. O cristianismo jamais consiste em saber sobre Jesus, mas sempre consiste em conhecer Jesus. Pela origem da palavra, o verbo “conhecer” quer dizer “com-nascer”, nascer com, fazer-se um com outro. Somente conhecemos o outro, entregando-nos a ele e aceitando que ele se entregue a nós. A experiência não é uma recordação. A experiência é um ato ou algo que nos acontece e transforma nossa atitude e nosso modo de viver e de perceber a vida e as pessoas.


A experiência que o cristão deve ter em relação com Jesus é a experiência de Jesus ressuscitado, isto é, do Cristo vivo aqui e agora, ontem, hoje e sempre (cf. Hb 13,8) e que continua nos acompanhando diariamente (cf. Mt 28,20). Não se trata de uma experiência histórica, mas uma experiência trans-histórica, pessoal e intransferível. Se um cristão chegar até este nível de experiência, ele vai dizer com os samaritanos na experiência do encontro de Jesus com a samaritana que lhes relatou sua experiência pessoal com Jesus: “Já não é por causa do que tu falaste que cremos. Nós próprios O ouvimos, e sabemos que esse é verdadeiramente o Salvador do mundo” (Jo 4,42).


Sem essa experiência pessoal com Jesus, o cristianismo se reduzirá a uma religião de um livro cheio de recordações da vida de uma pessoa no passado. O cristianismo não é uma religião do livro, mas uma religião da Palavra viva que é ouvida, experimentada e percebida em sua força transformadora por quem tem “ouvidos para escutar” e o coração aberto para sentir que nos permite abrirmos à transcendência. Esta experiência nos leva a vivermos um conjunto de experiências tais como o amor a Deus e ao próximo, a solidariedade e a compaixão, o perdão e a reconciliação, a verdade e a veracidade, a fidelidade, a abertura ao novo, a liberdade e assim por diante. Neste sentido o cristão é aquele que está sempre ligado consigo mesmo, com seu próximo, com o mundo e com o Divino.


2. A Fé Potencia Nossa Humanidade (debilidade)     


Pedro deu sua resposta no meio de sua debilidade. Jesus chegou a chamá-lo de Satanás, isto é, o adversário do projeto de Deus. Fogoso e temperamental, Pedro não tem inconveniente em assegurar a Jesus que é capaz de morrer com Ele, mas basta a insinuação de uma mulher, nos momentos de perigo, para que negasse rotundamente conhecer ao Mestre (cf. Mt 26,71-75).


Depois dessa experiência dolorosa, a única coisa que Jesus pede de Pedro para ser sua fiel imagem na terra é que ele ame a Jesus (cf. Jo 21,9-15). E o desejo de Jesus é que a Igreja deve ser governada no amor, por amor e para o amor: no amor à Pessoa de Jesus e como consequência lógica, no amor a todos os homens. Através do caminho paradoxal da negação e da queda, Pedro purifica e fortalece sua fé para constituir-se em rocha firme para seus irmãos.


A partir da experiência de Pedro temos que aprender que a fé é um risco que apesar de nossas debilidades e negações, devemos ser sinais de fé no mundo de hoje, anunciando que Jesus de Nazaré é o Salvador dos homens e por isso, é a nossa esperança e a nossa certeza. A Igreja é uma casa construída sobre a rocha ainda que se apoie na fragilidade dos homens. Somente Cristo não tem mancha nem mácula. Dentro da Igreja haverá sempre pecadores. Por isso, a Igreja tem necessidade de “atar e desatar” através da reconciliação e do perdão mútuo. O pecado continua, e por isso, deve continuar também o perdão. Jesus promete que Sua Igreja sobreviverá, não obstante as forças da destruição e da morte. Vivemos apoiados sobre esta promessa. A promessa do Senhor e sua fidelidade nos tornam lutadores incansáveis do bem. A graça de Deus nos potencia e nos faz como somos: Eu sou o que sou pela graça de Deus (1Cor 15,10). A graça de Deus nos faz viver na alegria, pois sabemos que Deus nos ama apesar de nossas debilidades. “Nossas culpas são grãos de areia ao lado da grande montanha que é a misericórdia de Deus” (São João Maria Vianney).

P. Vitus Gustama,svd
03/08/2016




COM FÉ TUDO SE ALCANÇA, POIS DEUS NOS AMA ETERNAMENTE


Quarta-Feira da XVIII Semana Comum


Primeira Leitura: Jr 31,1-7


1 “Naquele tempo, diz o Senhor, serei Deus para todas as tribos de Israel, e elas serão meu povo”. 2 Isto diz o Senhor: “Encontrou perdão no deserto o povo que escapara à espada; Israel encaminha-se para o seu descanso”. 3 O Senhor apareceu-me de longe: “Amei-te com amor eterno e te atraí com a misericórdia. 4 De novo te edificarei, serás reedificada, ó jovem nação de Israel; de novo teus tambores ornarão as praças e sairás entre grupos de dançantes. 5 Hás de plantar vinhas nos montes de Samaria; os cultivadores hão de plantar e também colher. 6 Virá o dia em que gritarão os guardas no monte Efraim: ‘Levantai-vos, vamos a Sião, vamos ao Senhor, nosso Deus’. 7 Isto diz o Senhor: Exultai de alegria por Jacó, aclamai a primeira das nações; tocai, cantai e dizei: ‘Salva, Senhor, teu povo, o resto de Israel’”.


Evangelho: Mt 15,21-28


Naquele tempo, 21 Jesus retirou-se para a região de Tiro e Sidônia. 22 Eis que uma mulher cananeia, vindo daquela região, pôs-se a gritar: “Senhor, filho de Davi, tem piedade de mim: minha filha está cruelmente atormentada por um demônio!” 23 Mas, Jesus não lhe respondeu palavra alguma. Então seus discípulos aproximaram-se e lhe pediram: “Manda embora essa mulher, pois ela vem gritando atrás de nós”. 24 Jesus respondeu: “Eu fui enviado somente às ovelhas perdidas da casa de Israel”. 25 Mas, a mulher, aproximando-se, prostrou-se diante de Jesus, e começou a implorar: “Senhor, socorre-me!” 26 Jesus lhe disse: “Não fica bem tirar o pão dos filhos para jogá-los aos cachorrinhos”. 27 A mulher insistiu: “É verdade, Senhor; mas os cachorrinhos também comem as migalhas que caem da mesa de seus donos!” 28 Diante disso, Jesus lhe disse: “Mulher, grande é a tua fé! Seja feito como tu queres!” E desde aquele momento sua filha ficou curada.
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Deus Nos Ama Com Amor Eterno


Amei-te com amor eterno e te atraí com a misericórdia”, são palavras cheias de ânimo que o Senhor transmite ao povo através do profeta Jeremias. Jeremias quer que o povo não perca a esperança. O golpe do desterro vai ser duro, mas os caminhos de Deus continuam sendo caminhos de salvação e de reconstrução.


Amei-te com amor eterno e te atraí com a misericórdia”, diz o Senhor ao povo eleito. Trata-se de uma linguagem entranhável. Deus é o Deus da Aliança que ama e que ajuda. Deus jamais se esquece dos seus. Deus nos amou antes de nascermos. Ele nos chamou à vida não para nos condenar e sim para nos dar a salvação eterna.


Quando ficamos longe do Senhor é porque pecamos. Não haverá a paz entre nós e Deus, se houver a paz entre nós e o pecado. Mas apesar de nossos pecados Deus quer que voltemos a Ele, como o filho pródigo, que reconhecendo seu pecado, decidiu voltar para seu pai com muita esperança de ser um dos empregados dele. Essa volta já demonstra que o filho decidiu parar de fazer o que destrói sua vida. Deus, apesar das ruinas que causamos sobre nossa vida e a vida dos demais, quer nos restaurar, pois o amor de Deus por nós é o amor eterno.


Amei-te com amor eterno e te atraí com a misericórdia”. “Deus nos ama” é a certeza de nossa vida e a fonte de nossa alegria de recomeçar nossa vida apesar de sua história escura. Precisamos nos deixar amar por Deus. Deixar-se amar por Deus é uma maneira de amar a Deus. Quando nos deixarmos amar por Deus seremos capazes de amar o próximo e deixaremos de cometer o pecado.


É Preciso Ter Fé No Deus Que Ama a Todos


“’Mulher, grande é a tua fé! Seja feito como tu queres!’. E desde aquele momento sua filha ficou curada”.


1. A Salvação Trazida Por Jesus é Universal


O que tem por trás do relato sobre a cura da filha de uma mulher cananéia é a chegada do Evangelho aos pagãos. Neste relato usam-se os termos “cananéia”, apelativo dado à mulher cuja filha estava doente e “cachorro”. No Antigo Testamento o apelativo “cananéia”  designa os pagãos. Do mesmo modo o termo “cachorro” (animal impuro), que é para os judeus tem um sentido pejorativo, designa os pagãos (impuros).


O relato nos mostra que, sendo judeu, Jesus abre o diálogo para os pagãos, pois Ele foi enviado para salvar toda a humanidade. Por sua vez, os pagãos, representados pela mulher cananéia, reconhecem a messianidade de Jesus ao chamá-Lo de “Senhor e Filho de Davi” (Mt 15,22.25) e O adoram como Deus: “A mulher, aproximando-se, prostrou-se diante de Jesus, e começou a implorar: “Senhor, socorre-me!”(Mt 15,25).  “Prostrar-se é uma expressão de adoração.


Para enfatizar mais ainda o papel de Jesus como o Salvador da humanidade o texto usa também o termo “pão” que no relato tem um sentido simbólico: “Não fica bem tirar o pão dos filhos para jogá-los aos cachorrinhos”. A mulher insistiu: “É verdade, Senhor; mas os cachorrinhos também comem as migalhas que caem da mesa de seus donos!”.  “Comer as migalhas que caem da mesa dos filhos” significa receber de Jesus o dom da cura para a filha da cananéia. O pão alimenta e sustenta a vida. Jesus é Aquele que sustenta a vida da humanidade, pois Ele é a própria vida e o Pão da vida (Jo 11,25; 14,6; cf. Jo 6,35.41.48.51.55).


2. Uma Pagã Que Nos Ensina a Termos Fé Em Jesus


O grandioso do relato do evangelho deste dia é a forma como uma mulher pagã é colocada como modelo de fé em seu sentido mais genuíno e original. Ela se abandona nos braços d’Aquele que vem da parte de Deus (Jesus Cristo) e se declara fraca e limitada humanamente diante do problema que afeta a vida de sua filha e consequentemente afeta também sua vida como mãe. Em uma família ninguém sofre sozinho. A mãe reconhece a superioridade e poder de Jesus, mostrando ao mesmo tempo a gravidade do problema que afeta sua própria filha. O problema de sua filha é insustentável. Na sua declaração essa mulher quer dizer a Jesus: “Sem Sua ajuda, Jesus, sem Seu poder, é impossível sair do meu problema!”.


Essa mulher era uma Cananéia, uma pagã, uma estrangeira. Jesus põe a prova sua fé usando uma frase que se utilizava para desprezar os estrangeiros ou os pagãos: “cachorro”. Mas ela, confiada na justiça e na misericórdia de Deus, responde sabiamente a Jesus: “Mas os cachorrinhos também comem as migalhas que caem da mesa dos seus donos”. Pela sua fé verdadeira e profunda e pela perseverança na sua oração essa mulher é premiada por Jesus: a cura de sua filha.


O evangelho nos mostra a fé de uma mulher que não pertencia ao povo eleito, não pertencia à uma Igreja ou a uma religião, mas tinha confiança e fé no poder de Jesus. Ela pode não pertencer a uma religião ou a uma Igreja, mas ela pertence a Deus pela fé que tem no poder do Deus-Encarnado, Jesus Cristo. Será que os que estão dentro da Igreja têm mais fé do que os que estão fora da Igreja? Será que os que estão dentro da Igreja são mais cristãos do que os que estão fora da Igreja? Será que os que estão dentro da Igreja são mais humanos, gentis e educados do que os que estão fora da Igreja? Será que os que estão dentro da Igreja são mais perseverantes na fé do que os que estão fora da Igreja? Será que, por causa da fé e do amor, os que são considerados fora da Igreja na verdade estão dentro da Igreja e os que são considerados dentro da Igreja na verdade estão fora da Igreja? Será.....? “Todos somos mais ateus do que acreditamos e mais crentes do que pensamos. Acho que os ateus não se opõem a Deus, mas às criaturas de Deus que os fiéis lhe mostram (René Juan Trossero).


Ser pagão não depende da pertença ou não a uma religião ou a uma Igreja. Ser pagão se define a partir do modo de viver. Por isso, há cristãos-pagãos como também há pagãos- cristãos. Há cristãos que perdem com facilidade sua fé e vivem sem esperança. São “cristãos” pagãos. Há muitos que são considerados pagãos pelos outros, como a mulher Cananéia, mas acreditam no poder de Deus incondicionalmente. São “pagãos” cristãos.


A mulher Cananéia não perde sua fé, não protesta, não se revolta ainda que encare a humilhação: ser chamada de cachorro. Ela conseguiu o que pedia, pois ela se abandonava totalmente nos braços de Deus e encarava todos os tipos de obstáculos e dificuldades. Santo Agostinho dizia que muitos não conseguem o que pedem porque são maus de coração e por isso, eles têm que ser, primeiramente, bons. Ou muitos não conseguem o que pedem porque pedem malmente, sem insistência no lugar de fazê-lo com paciência, com humildade, com fé e por amor. Há que esforçar-se por pedir o que bom para todos. A mulher Cananéia é boa mãe, pede algo bom e pede bem. Através do evangelho de hoje o Senhor quer nos mover a termos fé e perseverança e a vivermos na esperança porque Deus nos ama. Deus se vence com fé e não com orgulho. De Deus se obtém tudo com confiança. Em Deus sempre encontra uma acolhida quando cada um se aproxima com humildade e não com autossuficiência.


Essa mulher é um modelo acabado de fé e oração unidas. Ela chama Jesus de “Senhor”, um título dado a Jesus pós-pascal. Sua fé é orientada para a libertação do próximo, nesse caso de sua filha. E sua oração cumpre aquilo que Jesus pede: a fé, confiança, perseverança e sem desfalecimento.


Ela nos ensina que a fé e a oração devem andar juntas. Quem tem fé em Deus precisa rezar. E quem reza, precisa ter fé. A fé é a atitude básica de qualquer crente, de qualquer cristão, pois ela é a resposta nossa diante da oferta do amor de Deus para nós. A oração evidencia, por sua vez, a presença e a vitalidade de nossa fé em Deus.


3. Para Refletir Mais:
  • “Posso afirmar que posso viver sem água nem ar, mas não posso viver sem Deus. Podes arrancar-me os olhos que isso não me mata. Podes arrancar-me o nariz que isso não me mata. Mas basta que destruas minha fé, e estarei morto” (Mahatma Gandhi).
     
  • “Esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé” (1Jo 5,4)
     
  • Todos somos mais ateus do que acreditamos e mais crentes do que pensamos. Acho que os ateus não se opõem a Deus, mas às criaturas de Deus que os fiéis lhe mostram” (René Juan Trossero).
     
    P. Vitus Gustama,svd

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

02/08/2016




DEUS ESTÁ CONOSCO EM TODOS OS MOMENTOS


Terça-Feira Da XVIII Semana Comum


Primeira Leitura: Jr 30,1-2.12-15.18-22


1 Palavra que foi dirigida a Jeremias, da parte do Senhor: 2 “Isto diz o Senhor, Deus de Israel: Escreve para ti, num livro, todas as palavras que te falei. 12 Isto diz o Senhor: Incurável é tua ferida, maligna tua chaga; 13 não há quem conheça teu diagnóstico; uma úlcera tem remédio, mas em ti não se produz cicatrização. 14 Todos os teus amigos te esqueceram, não te procuram mais; eu te causei uma ferida, como se fosses inimigo, como um castigo cruel: por causa do grande número de maldades que te fez endurecer no pecado. 15 Por que gritas em teu sofrimento? É insanável a tua dor. Eu te tratei com rudeza por causa das tuas inúmeras maldades e por causa do teu endurecimento no pecado. 18 Isto diz o Senhor: Eis que eu mudarei a sorte das tendas de Jacó e terei compaixão de suas moradias, a cidade ressurgirá das suas ruínas e a fortaleza terá lugar para suas fundações; 19 de lá sairão cânticos de louvor e sons festivos. Hei de multiplicá-los, eles não diminuirão, hei de glorificá-los, eles não serão humilhados. 20 Teus filhos serão felizes como outrora, e sua Comunidade, estável na minha presença; e agirei contra todos os que os molestarem. 21 Para chefe será escolhido um dos seus, e o soberano sairá do seu meio; eu o incitarei, e ele se aproximará de mim. Quem dará a vida em penhor da sua aproximação de mim? – diz o Senhor. 22 Sereis meu povo e eu serei vosso Deus.


Evangelho: Mt 14,22-36


Depois que a multidão comera até saciar-se, 22 Jesus mandou que os discípulos entrassem na barco e seguissem, à sua frente, para o outro lado do mar, enquanto ele despediria as multidões. 23 Depois de despedi-las, Jesus subiu ao monte, para orar a sós. A noite chegou, e Jesus continuava ali, sozinho. 24 A barca, porém, já longe da terra, era agitada pelas ondas, pois o vento era contrário. 25 Pelas três horas da manhã, Jesus veio até os discípulos, andando sobre o mar. 26 Quando os discípulos o avistaram, andando sobre o mar, ficaram apavorados, e disseram: 'É um fantasma'. E gritaram de medo. 27 Jesus, porém, logo lhes disse: 'Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!' 28 Então Pedro lhe disse: 'Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água.' 29 E Jesus respondeu: 'Vem!' Pedro desceu da barca e começou a andar sobre a água, em direção a Jesus. 30 Mas, quando sentiu o vento, ficou com medo e começando a afundar, gritou: 'Senhor, salva-me!' 31 Jesus logo estendeu a mão, segurou Pedro, e lhe disse: 'Homem fraco na fé, por que duvidaste?' 32 Assim que subiram no barco, o vento se acalmou. 33 Os que estavam no barco, prostraram-se diante dele, dizendo: 'Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!' 34 Após a travessia desembarcaram em Genesaré. 35 Os habitantes daquele lugar, reconheceram Jesus e espalharam a notícia por toda a região. Então levaram a ele todos os doentes; 36 e pediam que pudessem, ao menos, tocar a barra de sua veste. E todos os que a tocaram, ficaram curados.
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Em Deus Se Encontra Nossa Esperança e Salvação


Eis que eu mudarei a sorte das tendas de Jacó e terei compaixão de suas moradias, a cidade ressurgirá das suas ruínas e a fortaleza terá lugar para suas fundações...Sereis meu povo e eu serei vosso Deus”, assim lemos na Primeira Leitura.


Os capítulos 30 a 33 do Livro de Jeremias, onde se encontra a Primeira Leitura de hoje, constituem o chamado “Livro da Consolação”.


Quando o povo e seus responsáveis se relaxam na indiferença ou na ilusão, Jeremias anuncia duramente a desgraça que se aproxima: “Incurável é tua ferida, maligna tua chaga; não há quem conheça teu diagnóstico; uma úlcera tem remédio, mas em ti não se produz cicatrização. Todos os teus amigos te esqueceram, não te procuram mais; eu te causei uma ferida, como se fosses inimigo, como um castigo cruel: por causa do grande número de maldades que te fez endurecer no pecado”.


Na verdade, o anúncio do castigo tem como objetivo chamar o povo todo à conversão. O AT não faz nunca distinção entre o que sucede (isto é, o que provem das leis naturais, da biologia, da história, da psicologia humana) e o que procede da “Causa Prima”, isto é, o que Deus permite ou quer. Assim o AT costuma atribuir diretamente a Deus tudo o que sucede, inclusivo o mal: “Eu te causei uma ferida, como se fosses inimigo, como um castigo cruel: por causa do grande número de maldades que te fez endurecer no pecado”.


Jesus retificará claramente este juízo demasiado simplista através do episódio do cego de nascença em que Jesus dirá: “Nem ele nem seus pais pecaram, mas é para que nele sejam manifestadas as obras de Deus” (Jo 9,3).


Quando a destruição de Jerusalém é mais iminente e se realiza em 586 a.C, Jeremias anuncia a restauração da parte de Deus e se propõe a consolar os desesperados: “Eis que eu mudarei a sorte das tendas de Jacó e terei compaixão de suas moradias, a cidade ressurgirá das suas ruínas e a fortaleza terá lugar para suas fundações”. Deus ama verdadeiramente os homens e que verdadeiramente a felicidade dos homens. Deus é um “esposo” verdadeiro. Não abandona os que Ele ama. Apesar do mal que acontece, Deus continua amando os homens.


O cristão, em sua vocação profética recebida no Batismo, é chamado a saber encontrar os sinais da esperança escondidos na situação da sociedade e a confirmar aos demais nesta esperança de que Deus jamais abandona seus filhos e filhas. Tudo isso nos faz voltarmos a viver como filhos e filhas de Deus e irmãos e irmãs entre nós.


Deus Está Conosco Em Todos Os Momentos De Nossa Vida


1. É Preciso Manter Nossas Conversas Diárias Com Deus, Nosso Pai


Depois que saciou a multidão com a Palavra de Deus e com o alimento, Jesus se afastou da multidão para rezar ou para estar em comunhão plena com Deus: “Jesus subiu ao monte para orar a sós”, assim o evangelista Mateus registrou.


A montanha, por ser um ponto elevado sobre a parte plana da terra, sempre foi considerada em todas as antigas religiões como um símbolo da “subida” do homem até Deus e como o sinal da manifestação ou epifania de Deus. Deus se manifesta no alto e o homem deve subir até Deus, abandonando uma vida medíocre, pois Deus está acima de nossos esquemas de viver e de pensar. Ou na linguagem do Livro dos Reis (1Rs 19,9-13) Deus não se encontra no terremoto, isto é, não tem como ouvir Deus numa vida agitada e barulhenta; também não se encontra no fogo. O fogo queima e transforma tudo em cinzas. Isto quer dizer que não tem como ouvir Deus para uma mente agitada ou comportamento esquentado. Deus se encontra na suavidade de uma brisa, isto é, quando tudo é sereno, a voz de Deus pode ser ouvida com clareza. Somente no silêncio e ao criar o silêncio a eternidade se faz presente para potenciar nossa humanidade. Um cristão sem oração perseverante é como alguém que anda com uma perna apenas: em pouco tempo fica cansado e cai.


2. Deus Está Conosco Diariamente: Tenha Consciência Disso!


“Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!”


Através desta frase Jesus se dá a conhecer ou Jesus se revela aos discípulos quem Ele é. A palavra “Coragem!” dissipa o medo provocado pela aparição de Jesus no meio do lago. Em seguida Jesus lhes disse: “Sou Eu!”. “Sou eu” é uma fórmula de identificação com que Deus se revelava no Antigo Testamento (cf. Ex 3,14; Is 43,1.3.10-11). “Sou Eu” corresponde à exortação “Não tenha medo”. Ao dizer “Sou Eu”, Jesus se revelou como Deus-Conosco (cf. Mt 1,23; 18,20; 28,20), um Deus que nos acompanha com sua providencia em todos os momentos de nossa vida. Através de seu evangelho, Mateus quer nos transmitir a certeza de que Deus jamais nos abandona: “Eis que Estou convosco todos os dias até o fim do mundo” (Mt 28,20).


“Não tenhais medo”, diz-nos o Senhor todos os dias. Quando ouvirmos a voz do Senhor, a paz estará presente no nosso coração, ainda que estejamos rodeados pelas provações ou dificuldades, pois trata-se da Palavra de Quem nos criou e de Quem pode nos salvar. Precisamos nos deixar pelo poder da Palavra de Deus e não pelo aparente poder da situação em que nos encontramos. Em outras palavras, é preciso que Deus continue sendo o Senhor de nossa vida em todos os seus momentos. Para isso precisamos nos manter conectados com o Senhor para que Sua força continue sendo nossa força.


3. É Preciso Manter o Olhar Fixado No Senhor


“’’Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água.’  E Jesus respondeu: ‘Vem!’ Pedro desceu da barca e começou a andar sobre a água, em direção a Jesus. Mas, quando sentiu o vento, ficou com medo e começando a afundar, gritou: ‘Senhor, salva-me!’”.


Pedro desafia Jesus. Ele chama Jesus de “Senhor” e pede para que vá até Jesus. Através desse pedido Pedro quer participar da condição divina de Jesus. Jesus não duvida e convida Pedro para ir ao seu encontro. Mas infelizmente Pedro esperava a condição divina sem obstáculos, de maneira milagrosa. Pedro precisa estar consciente de que o homem se faz filho de Deus em meio da oposição e perseguição do mundo (cf. Mt 5,10-11). O pedido de Pedro (cf. Sl 17(18),5-18; 143(144),5-7) vale uma reprovação, pois mostra sua falta de fé: “Homem fraco na fé, por que duvidaste?”.


Pedro sente medo porque não entendeu o modo como se faz a missão: com a entrega total. Os discípulos ou Pedro apelam a Jesus nos momentos de dificuldade pedindo que Jesus intervenha. Eles têm conceito da salvação expressado nos salmos (cf. Sl 17[18],5-18; 143[144],5-7): uma intervenção milagrosa de Deus a partir do céu para que resolva a situação desesperadora do homem. o conceito de Jesus é diferente: estando com Ele, o homem se basta a si mesmo (cf. Mt 19,26: para Deus tudo é possível) e está salvo: “Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!”


Enquanto Jesus sobe à barca cessa o vento, isto é, a oposição e a resistência dos discípulos. O vento era a busca do triunfo humano. “Os que estão na barca”, que representam a comunidade cristã (barca=Comunidade/Igreja), reconhecem que Jesus é “Filho de Deus”. Jesus é “Filho de Deus”, mas eles têm acreditar no Filho de Deus para que possam chegar a sê-lo.


É preciso manter nosso olhar para Deus e não para as nossas dificuldades ou para as “ondas fortes” de nossa vida. Pedro olhava mais para as ondas e quase se afundou. A partir do momento em que ele voltou a olhar para Jesus a fim de pedir a ajuda e Jesus estendeu a mão para tirá-lo de sua situação, Pedro começou a andar com o Senhor sobre as ondas. Muitos de nossos medos são causados pela nossa maneira de olhar para nossa vida e seus problemas. Se nossa vida pertence a Deus e foi Ele quem nos deus, temos que confiar nossa vida no Senhor.


P. Vitus Gustama,svd