segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Domingo, 30/10/2016


O OLHAR DE DEUS É SEMPRE DIRIGIDO A NÓS


XXXI DOMINGO DO TEMPO COMUM


Evangelho: Lc 19,1-10


Naquele tempo: 1 Jesus tinha entrado em Jericó e estava atravessando a cidade. 2 Havia ali um homem chamado Zaqueu, que era chefe dos cobradores de impostos e muito rico. 3 Zaqueu procurava ver quem era Jesus, mas não conseguia, por causa da multidão, pois era muito baixo. 4 Então ele correu à frente e subiu numa figueira para ver Jesus, que devia passar por ali. 5 Quando Jesus chegou ao lugar, olhou para cima e disse: 'Zaqueu, desce depressa! Hoje eu devo ficar na tua casa.' 6 Ele desceu depressa, e recebeu Jesus com alegria. 7 Ao ver isso, todos começaram a murmurar, dizendo: 'Ele foi hospedar-se na casa de um pecador!' 8 Zaqueu ficou de pé, e disse ao Senhor: 'Senhor, eu dou a metade dos meus bens aos pobres, e se defraudei alguém, vou devolver quatro vezes mais.' 9 Jesus lhe disse: 'Hoje a salvação entrou nesta casa, porque também este homem é um filho de Abraão. 10 Com efeito, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido.'
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Jesus continua dando suas últimas lições para seus discípulos no caminho para Jerusalém que é a sua última viagem neste mundo. o texto do evangelho deste domingo faz parte das “Lições do Caminho” (Lc 9,51-19,28).


Novamente encontramos no texto do evangelho de hoje o tema mais querido por Lucas: a conversão e suas exigências. A conversão de Zaqueu em Jericó é o último episódio da viagem de Jesus a Jerusalém. Por esta razão precisamos ler esta passagem com a alusão a alguns textos lucanos, como Lc 3,10-14 sobre a pregação sobre a ética de João Batista; Lc 18,9-14 sobre o fariseu e o publicano que vão ao templo para rezar e Lc 18,18-23 sobre o jovem rico que não aceitou o convite de Jesus para segui-Lo. Particularmente, Zaqueu é outro lado da história do jovem rico. Se o jovem rico recusou o convite de Jesus por ter muitos bens, Zaqueu abandona tudo para segui-Lo. Zaqueu representa os excluídos de Palestina para quem Jesus veio para salvá-los (cf. Lc 15,1-7 ou Lc 15,1ss).


1. Zaqueu, um cobrador de impostos. Quem são os cobradores de impostos?


A história de Zaqueu se encontra apenas no Evangelho de Lucas. “Zaqueu” deriva do hebraico e aramaico Zakkay, forma abreviada de Zekaryá: Zacarias, que significa “Deus lembrou-se de novo”. Era cobrador de impostos. De estatura pequena. Por isso, alguém brinca que Zaqueu tem pernas curtas mas suas mãos são “grandes”, por isso é chamado não de Zaqueu, e sim de Saqueador.


Zaqueu morava em Jerico. Jericó é a parada obrigatória para os peregrinos que chegam do norte (a Jerico moderna encontra-se a cerca de 35 km de Jerusalém). Jericó estava situada numa importante rota comercial e devia ser um centro importante para a tarefa de um chefe de arrecadadores de impostos. Nessa cidade se encontram também os funcionários da alfândega e do fisco na qual Zaqueu é o cobrador- chefe de impostos.


Os cobradores de impostos na época não eram funcionários do Estado, mas empresários que adquiriam do Estado o direito de arrecadar impostos. Para isso, pagavam determinado valor para o Estado e depois podiam cobrar como quisessem nessas alfândegas. Evidentemente cobravam bem caro o que não deviam. Eles cobravam pedágios por calçadas, passagens, pontes e vaus em portos, nas fronteiras provinciais, pela entrada e saída de produtos nas cidades e pelo comércio, especialmente de roupas, pérolas e escravos. Por isso, os chefes do sistema eram pessoas muito ricas. E alguns deles eram membros do Sinédrio.


Por cobrarem o que não deviam, aos olhos de todo sacerdote e fariseu e escribas como também de toda a população eles eram considerados pecadores públicos e impuros (inclusive eram impuros suas casas, suas roupas e seus objetos porque se relacionavam com as pessoas impuras, os romanos que estabeleciam os tipos de alfândegas), visto que para os judeus o único imposto legítimo era o que se pagava ao Templo. Eles eram considerados também como traidores da nação já que eles cobravam impostos para os romanos, poder estrangeiro(colonialista) e se beneficiavam disso. Por isso, eram excluídos das promessas de Abraão. Os cobradores de impostos não podiam ser juízes, nem testemunhas num processo. Portanto, eles não eram apenas pecadores na concepção da época, mas também eram pessoas marginalizadas. Dentro desta descrição encontra-se Zaqueu.


2. Zaqueu quer ver Jesus, mas de fato Jesus quer vê-lo (a iniciativa é de Jesus)


Zaqueu passa lá, naquele local, para ver Jesus porque as pessoas falam muito dele. E Jesus certamente passa no mesmo local para ver Zaqueu (Zaqueu significa Deus lembrou-se de novo). Na verdade, a iniciativa é sempre do Senhor. Zaqueu está ansioso para ver Jesus, mas por sua baixa estatura e a multidão que o impede, ele não consegue ver Jesus. Pode-se dizer que exatamente por ser baixinho, e sentir-se pequeno, ele tentava recompensa seus sentimentos de inferioridade ganhando o máximo possível de dinheiro. A riqueza devia ajudar o próprio Zaqueu a se sentir valorizado. Ele só rebaixando os outros (subir numa árvore) que ele podia acreditar na sua própria grandeza. Ele tinha que se colocar acima dos outros, porque ao lado dos outros ele se sentia pequeno demais. Mas o seu próprio esforço não conseguia tirá-lo do círculo vicioso da solidão e da rejeição. Ele estava precisando do encontro particular com Jesus para voltar a viver dignamente como um ser humano. Quantas pessoas gostariam de conhecer Jesus, mas encontram vários obstáculos, como mentalidade materialista, especialmente das “multidões cristãos” que não vivem de acordo com os valores cristãos.


Zaqueu não desiste e não se entrega. Ele é apenas de baixa estatura, mas não é curto de ideias e intuições. Até uma coisa pouco ridícula, como árvore, ele usa só para ver Jesus. Ele sobe numa árvore(figueira). Zaqueu olhou Jesus e Jesus viu Zaqueu. Ninguém escapa do olhar de Deus, muito menos para aqueles que têm a ansiedade de conhecê-Lo. Uma pessoa perseverante e paciente sempre encontra qualquer solução para qualquer problema pois Deus sempre está “de olho” nela e ela está sempre “de olho” em Deus.


3. Dois olhares que resultam em salvação


O olhar de Jesus e o de Zaqueu se encontram. Jesus viu Zaqueu e Zaqueu o viu. Dizemos que Deus está “nas alturas e o ser humano está na terra. Mas aqui encontramos o contrário que chama nossa atenção. Deus que está “nas alturas” e que se encontra na terra, olha de baixo para cima (para Zaqueu de baixa estatura). Enquanto isto, o homem que é humilde (humus, terra, chão, pó, que deveria estar na terra) olha de cima para baixo, pois sempre quer estar nas alturas. Deus está na terra. O homem está nas alturas, querendo ser deus e nunca o conseguirá. Precisamos sempre aprender a descer de nossos tronos, de “nossas árvores” para sermos seres humanos novamente e sermos irmãos e próximos uns dos outros.


“Zaqueu, desça depressa, porque hoje tenho que hospedar-me em tua casa”, diz Jesus. Três vezes no evangelho de Lc fala-se dessa situação de pressa. Maria foi visitar sua parenta Isabel apressadamente (Lc 1,39). Os pastores foram depressa a Belém para ver o recém-nascido (Lc 2,16). “Depressa” indica a prontidão diante de alguma coisa de grande importância ou de grande valor ou interesse.


Jesus se autoconvida para ir comer com Zaqueu. Essa iniciativa de Jesus ir comer na casa do cobrador de impostos, Zaqueu, é um gesto profético. Comer juntos na mesa era uma expressão de união íntima. Por esta razão é que alguns começaram a murmurar sobre a atitude de Jesus: “Ele foi se hospedar na casa de um pecador!”(v.7). Ao ir à casa de Zaqueu, Jesus testemunha publicamente a misericórdia de Deus que se oferece aos pecadores. Não somente o homem justo é que vai ao encontro de Deus, mas também Deus vai ao encontro do homem pecador, banido, atormentado, excluído, carente, para salvá-lo. A misericórdia de Deus não conhece impedimentos em relação ao homem. Deus sempre vem a nós e bate continuamente à nossa porta. Zaqueu não esperava tudo isso, mas também não quer perder sua oportunidade. Não é fácil descer de uma árvore como quando subir; imagine descer depressa, pois de cima (da árvore) vemos uma distância dobrada que causa medo de cair. Mas não dá para ficar eternamente em cima, temos que aprender a descer com muita coragem como a coragem de querermos subir. Numa linguagem figurativa ou simbólica, podemos dizer que quantas pessoas na vida gostam somente de subir e de ficar “nas alturas”, mas quando chega o momento de ter que descer, são dominados totalmente pelo medo. “O que vou fazer da minha vida!?” Não podemos esquecer que tudo que sobe, desce. Ao subir, temos que pensar também no descer que muitas vezes é um descer depressa para o próprio bem e o bem comum. Zaqueu desce depressa para acolher aquilo que é o maior do que o ato de subir sempre: a salvação.


Zaqueu desce da árvore depressa e fica humilde, humilis, familiar com a terra e recebeu Jesus com alegria(v.6). A alegria é uma necessidade vital É uma vontade existencial para que possamos enfrentar as adversidades da vida de forma serena e confiante. Lc sempre acentua a alegria da salvação (Lc 1,44;2,3;24,52). A história da salvação é uma história de alegria, apesar da cruz. A graça de Deus é fonte de alegria que nos dá força mais que suficiente para enfrentar tudo na vida.


Certamente, lá embaixo, no chão quando Zaqueu desce, acontece o milagre de transformação: “Senhor, eu dou a metade dos meus bens aos pobres, e se eu defraudei alguém, vou devolver quatro vezes mais”. A misericórdia de Jesus desperta a justiça de Zaqueu. 50% dos seus bens não lhe pertence mais. Cumpriu-se em Zaqueu o que João Batista pediu aos ouvintes como uma prova de conversão: “Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem. E quem tiver comida, faça a mesma coisa” (Lc 3,11). Restam apenas 50% dos seus bens. Destes, Zaqueu ainda decide: “...e se eu defraudei alguém, vou devolver quatro vezes mais”. A lei judaica previa a restituição do quádruplo apenas num caso (Ex 21,37). Zaqueu torna essa exceção norma para ressarcir os que roubou. A conversão de Zaqueu é tão profunda que lhe chegou até o bolso, que é o segundo coração do homem, pois o dinheiro é o deus cujo altar é o coração do homem. Com isso, Zaqueu ficou livre de toda a riqueza que o prendia para torna-se rico do Reino de Deus. Este é o “hoje” de Zaqueu.


 “Hoje a salvação entrou nesta casa, porque também este homem é um filho de Abraão”. No Evangelho de Lc encontramos várias vezes o termo “hoje”. No nascimento de Jesus os anjos anunciam aos pastores: “Hoje nasceu para vós o Salvador...” (Lc 2,11). Ao bom ladrão Jesus promete: “Hoje estarás comigo no paraíso...” (Lc 23,43). No Pai Nosso Jesus nos ensina: “O pão nosso de cada dia dai-nos hoje” (Lc 11,13). No texto sobre o qual estamos meditando, aparecem duas vezes o termo “hoje”. Cada dia é um hoje em que Deus opera suas maravilhas. Por isso, não se refere somente àquele dia em que Zaqueu encontrou-se com Jesus. Nesse encontro aconteceu o hoje de Zaqueu. Ele voltou a ser um filho de Abraão, herdeiro das promessas de salvação.


4. Zaqueu nos indica algumas etapas da conversão e suas exigências


Neste relato encontramos um dos temas muito queridos por Lucas: o da conversão e suas exigências. O encontro de Zaqueu com Jesus mostra como a conversão acontece em etapas:


1). O primeiro passo consiste no desejo de ver Jesus. O verbo “VER” é muito importante neste relato. O episódio que precede a nossa narrativa é o cura de um mendigo cego(=não pode ver) às portas da cidade(Lc 18,35-43). É claro que a graça de Deus faz surgir esse desejo de ver Jesus.


2). O segundo passo exige a superação de todos os obstáculos. Para Zaqueu o maior obstáculo é sua baixa estatura. Não se trata de uma informação sem importância sobre o aspecto físico de Zaqueu. A intenção do evangelista é a de nos mostrar que, aos olhos de todos, Zaqueu é muito pequeno, insignificante, quase imperceptível. É um pequeno ponto perdido numa sociedade que se considera sem mancha e sem falha. Zaqueu não é um simples publicano, mas é “Chefe dos publicanos”, um gerente de ladrões, por isso é um grande pecador. Ele resolve este obstáculo ao subir numa árvore. Este homem tem tudo na vida, mesmo assim ainda está insatisfeito. É tão profunda, irreprimível, avassaladora a necessidade de ver Jesus que para satisfazê-la, está até disposto a expor-se ao ridículo diante de uma multidão que com certeza não tem simpatia por ele. Um dito popular diz: “Para quem faz o melhor ou querer melhorar a vida tanto material como espiritual não existe o ridículo nem medo e vergonha”. Assim deve ser a nossa busca de Deus: nem falsa vergonha nem medo ao ridículo devem impedir que ponhamos os meios para encontrar o Senhor. Zaqueu procura ver aquele que tem condições de compreender o seu drama interior, mas alguém quer impedi-lo. São os “grandes”, as pessoas “de elevada estatura” que cercam Jesus e não toleram que  “os pequenos”, “os impuros” entrem em contato com Ele. Também na narrativa anterior a multidão agiu da mesma maneira: os que seguiam Jesus, repreendiam o cego rudemente para que se calasse. Em Zaqueu eles só conseguem ver o publicano, o pecador, o aproveitador, nada mais. Não reconhecem nele nada de bom, nada de positivo. É como se estivessem usando óculos escuros: estão enxergando tudo escuro. Zaqueu conseguiu superar o obstáculo.


3). O terceiro passo comporta deixar-se amar por Jesus sem restrições nem desconfiança, abrindo-lhe as portas do coração.  De seu posto de observador(árvore), não é Zaqueu quem vê Jesus. É Jesus quem o vê e o chama pelo nome e se autoconvida para hospedar-se na casa dele. Para Zaqueu tudo isto é uma grande surpresa. Deus é surpresa para quem tem o profundo desejo de encontrá-Lo. Como resposta Zaqueu desceu depressa da árvore para receber Jesus em sua casa, com alegria.


Mas não faltam as murmurações porque Jesus entra na casa de um pecador. A vista destes “grandes”, destes “puros” está tão defeituosa que eles encontram o mal até onde com certeza não existe: em Jesus. Mas os olhos de Jesus são límpidos e puros por isso Jesus vê Zaqueu e reconhece nele o filho de Abraão. Assim também, se o “olho” de nosso coração estiver com defeito, nós encontraremos nos outros só as coisas defeituosas. Precisamos ter os olhos do Senhor Jesus para reconhecer no outro filho de Deus, meu irmão. Com que olhos observamos os que estão ao nosso lado, com os olhos de Jesus ou com os olhos da multidão que só enxerga o mal em Zaqueu? Por que o nosso olhar não é guiado pelo amor, como o de Jesus? Para quem tem o olhar de Jesus não existem “casos impossíveis”, não há “pessoas irrecuperáveis”, porque o que é impossível para os homens, é possível para Deus (Lc 18,27).


Como seria bom se nós cristãos parássemos de uma vez por todas com os olhares severos e ferozes dos censores, dos juízes, dos acusadores que não permitem às pessoas encontrar o único olhar que salva, o meigo olhar de Cristo.


4). O quarto passo é uma mudança radical de vida. Radical significa deixar de lado os esquemas e mentalidades antigos, para adequar-se às exigências do Reino de Deus. Isto não se faz com palavras ou com boas intenções, mas com gestos concretos. Zaqueu dispõe-se a dar metade de seus bens aos pobres e a compensar/indenizar, quatro vezes mais, aquilo que tem roubado desta forma ele prova que, realmente, a salvação tem entrado em sua casa. Esta repartição generosa vai muito mais longe do que a lei judaica exigia (Ex 22,3.6; Lv 5,21-24; Nm 5,6-7) e na verdade, corresponde ao que pedia a Lei romana em casos de roubo. Então, aqui Zaqueu nos mostra de que maneira a conversão influi em nossa relação com os bens materiais.


O encontro verdadeiro com Cristo faz abrir o coração e as mãos. O gesto de Zaqueu nasce de conversão interior, de mudança de vida, provocada pelo encontro com Jesus. Encontrando o Amor, descobrindo que é amado, torna-se alguém capaz de encontrar os outros. Capaz de olhá-los com os olhos diferentes.

P. Vitus Gustama,svd
Domingo, 23/10/2016




HUMILDADE NA ORAÇÃO


XXX DOMINGO DO TEMPO COMUM


Evangelho: Lc 18, 9-14


Naquele tempo: 9 Jesus contou esta parábola para alguns que confiavam na sua própria justiça e desprezavam os outros: 10 'Dois homens subiram ao Templo para rezar: um era fariseu, o outro cobrador de impostos. 11 O fariseu, de pé, rezava assim em seu íntimo: 'Ó Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros homens, ladrões, desonestos, adúlteros, nem como este cobrador de impostos. 12 Eu jejuo duas vezes por semana, e dou o dízimo de toda a minha renda'. 13 O cobrador de impostos, porém, ficou à distância, e nem se atrevia a levantar os olhos para o céu; mas batia no peito, dizendo: `Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador!' 14 Eu vos digo: este último voltou para casa justificado, o outro não. Pois quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado.'
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O texto do evangelho deste domingo também faz parte do conjunto chamado “Lições do Caminho” (Lc 9,51-19,28) que Jesus dá durante sua última viagem para Jerusalém, pois em Jerusalém ele será crucificado, morto e ressuscitado.


No Domingo anterior o Evangelho falou da oração perseverante e a fé no Deus que sempre atende às nossas orações. Continuando o tema da oração vê-se agora como se deve orar. A parábola do fariseu e do cobrador de impostos(publicano) no evangelho deste domingo é exclusivamente lucana. Ela não é uma história verdadeira, mas uma história que diz alguma coisa de verdadeiro, como toda parábola.


O texto podemos dividir em três partes: v.9 serve como uma introdução; vv.10-14a falam da parábola do fariseu e publicano e v.14b serve como uma sentença generalizante.


O v.9 une por meio da introdução do v.9a a parábola do fariseu e do cobrador de impostos com a anterior e no v. 9b apresenta os destinatários da parábola e sua finalidade. Esta pequena introdução é destinada a “alguns que, convencidos de serem justos, desprezavam os outros”. Com a palavra “alguns” sublinha-se a mensagem para qualquer um, seja fariseu, publicano ou outra pessoa, pois sentir-se superior aos outros não é exclusivo para os fariseus. Um orgulhoso não se preocupa em conhecer a verdade, mas apenas em ocupar uma posição em que ele possa ser o centro e a norma; livre de qualquer subordinação, ele pretende que tudo esteja sujeito a si próprio. O orgulhoso possui todos os vícios: ser egoísta, injusto, ingrato, imoral, fanfarrão (está sempre falando de si, atribuindo a si mesmo elogios por façanhas jamais realizadas).


Depois deste versículo introdutório vem a parábola (vv.10-14b). Na parábola nós temos a encenação de duas personagens profundamente opostas nas pessoas do fariseus e do publicano, para representar os dois papeis. O fariseu representa o” justo” reconhecido como tal no judaísmo e o publicano que é enriquecido ilegalmente como cobrador de impostos, por isso é considerado um pecador público.


O fariseu de nossa parábola observou escrupulosamente todos os mandamentos até os mais detalhes e as proibições da lei. A lei prescrevia um único jejum público por ano, no dia da expiação (Lv 16,29-39). Porém, o nosso fariseu jejuava duas vezes por semana, nas segundas e nas quintas-feiras, para compensar os pecados dos outros e atrair sobre seu povo as bênçãos de Deus. Por isso, era uma obra de merecimento adicional. Além disso, a lei prescrevia o dízimo do trigo, do vinho novo, do azeite, dos primogênitos do gado e do rebanho a fim de poder ajudar o serviço do Templo e as obras de caridade (Dt 14,22-29). Mas o nosso fariseu paga o dízimo de todos os seus rendimentos e de todos os alimentos que compra e até mesmo as ervas do jardim (Lc 11,42). Ele ora como todos os devotos judeus: de pé, com os braços levantados e a cabeça erguida. Ele agradece a Deus. Esta é a forma clássica da oração bíblica e judaica: o louvor e o agradecimento a Deus (cf. Lc 10,21). Este homem piedoso, com efeito, se preocupa com o futuro do seu povo. É exatamente o contrário duma pessoa interessada ou egoísta. Ele se sacrifica pelo bem comum. Até aqui ninguém conseguiria descobrir nele alguma transgressão.


Qual, então, a falha do fariseu?


Primeiro, ele se autojustifica. Na sua oração, Deus quase ficou esquecido, ou se quisermos falar radicalmente diremos que Deus ficou esquecido e somente o EU predomina: Eu não sou como os demais, eu jejuo, eu pago o dízimo. Os demais homens são o fundo escuro do magnífico autorretrato e autoelogio. Ele vai ao Templo, carregando consigo as suas boas obras, na certeza de que estas lhe possam merecer a justificação. A arrogante consciência de ter feito alguma coisa, o faz acreditar que Deus se tornou seu devedor, aliás inútil. Esse homem não está mais disponível à dádiva gratuita da salvação. Ele se aproveita de Deus para ilustrar a si mesmo devidamente. Para ele, o que importa não é Deus, mas sua própria perfeição. Em outras palavras, ele rezava a si mesmo. Ele não saia de si mesmo nem olhava para Deus, mas exclusivamente para a sua própria pessoa. Ele ficava dentro de si mesmo, rezava a si mesmo e adorava a si mesmo. Ele abusava da oração para demonstrar sua própria grandeza a fim de se colocar sob a devida luz diante de Deus e dos homens. Certo, ele cumpre a lei, mas de maneira formal e material sem abandonar-se a Deus, não espera nada de Deus, esquecendo que só Deus é justo, e só Ele é que justifica. O fariseu se torna uma pessoa exibicionista. A preocupação deste tipo de pessoa é ser notado e elogiado. Tudo o que ele faz é na perspectiva de algum louvor ou elogio. O exibicionismo é a linguagem que demonstra a ausência de um valor. Quando um valor cresce na experiência espiritual de uma pessoa, ela ama discrição, que é a linguagem do tesouro escondido, e se comunica pelo caminho da simplicidade, amiga do pudor.


Segundo, ele não age por amor, pois menospreza o pecador. Ele dá graças a Deus não porque Deus é a fonte de toda justiça, mas porque não é “como o resto dos homens: ladrões, injustos, adúlteros e nem como este publicano”. Ele se preocupa com o futuro da nação mas não ama o seu povo. Fica sozinho com a contagem de seus méritos. Até mesmo a palavra “obrigado” /” agradecer” perde o seu significado, porque é dita apenas em função de si mesmo. Essa palavra mais sagrada e mais expressiva da gratuidade do amor é profanada pela arrogância do “eu”. Até mesmo o nome de Deus é o pressuposto de um interlocutor de um diálogo que não houve. Na realidade, o fariseu está concentrado apenas em si mesmo. A sua prece é um falso diálogo, que tudo contamina e profana: Deus, o agradecimento, a si mesmo, aos outros. Deus é apenas uma oportunidade para ele falar de si mesmo, e a egolatria, arrogante e presunçosa, transforma-se em desprezo pelos outros.


O resultado dessa prece são as trevas de uma vida que permanece a mesma: com o silêncio de Deus, a distância hostil dos outros e o retorno mortificante ao próprio pecado.


Um perigo que corremos na nossa vida espiritual e comunitária é o de nos imaginarmos perfeitos, santos, inteligentes e piedosos. Consequentemente, corremos o perigo de nos colocarmos acima dos outros na própria oração e na vida cotidiana com os demais. Nós sentimo-nos superiores aos demais. O ato de julgar encontra-se, por vezes, naqueles mesmos (todos nós) que guardam o domingo. O ir à igreja pode ser motivo para se sentir à vontade para olhar de modo severo a quem não vai. Isto é o sinal de que não houve a prece(oração). Assim a finalidade de ir à igreja não é mais o serviço ou a missão, mas é o destacar-se. O resultado não é o compromisso, mas o julgamento, que aumenta ainda mais a distância.


Somos fariseus cada vez que apelamos à nossa boa consciência, ao cumprimento cultual, à cultura ou status religioso e social, para nos julgarem melhores e desprezarem os “novos publicanos”: marginalizados, alcoólicos, toxicodependentes, divorciados, mães solteiras, prostitutas, vigaristas, oportunistas etc.... Com isto corremos o perigo de estarmos excluídos da misericórdia divina, que somente alcançaremos confessando-nos pecadores e miseráveis diante da tamanha santidade de Deus. O farisaísmo nos impede de ver o que somos e falseia a nossa relação com Deus e com os irmãos, nossos próximos. Precisamos, por isso, pedir a Deus que nos ilumine para que possamos nos ver tal como somos e nos reconhecer pecadores. Com este reconhecimento correremos sempre ao encontro do Senhor para que ele nos perdoe e nos fortaleça dia após dia até o nosso encontro definitivo com ele na vida eterna.


E o publicano? Por que Jesus o justifica na sua oração? Qual é a sua virtude se ele é um publicano?


A lei dizia que, para salvar-se, o publicano deveria restituir tudo o que roubou e mais 20(25) % dos juros e ainda deveria abandonar imediatamente a sua profissão como cobrador de impostos. Condições tão difíceis de ser cumpridas que os rabinos concordavam em afirmar que para os publicanos a salvação era praticamente impossível. É claro que o publicano não é um santo; pelo contrário, ele é chamado, literalmente “o pecador”, não “um pecador”. É um ladrão diplomado, um explorador nojento. Ele sabe disto e nem procura a mínima desculpa. Ele reconhece diante de Deus quem ele é realmente. Ele nem tem a coragem de levantar os olhos para o céu e de erguer as mãos, como era praxe, para rezar. Ele olha para o chão e bate no peito como aquele que está numa situação de desespero, suplica com a fórmula do pecador que não sabe fazer o elenco de seus pecador, dizendo:” Meu Deus, tem piedade de mim, pecador!” (cf. Sl 51,3). É a oração do pobre que confia totalmente em Deus. Sua “segurança” é a misericórdia de Deus. Ao lado da sarça ardente da santidade de Deus, sente-se vivamente o limite de ser criação e o peso do próprio pecado. Quem confessa sua pobreza e sua incapacidade ou sua pecaminosidade, confiando ilimitadamente na ação salvífica de Deus por meio de Jesus Cristo, obtém a vida nova em Deus. Nele Deus se glorifica.


O mistério do amor, quando presente na prece, preocupa o coração da pessoa antes de inundá-lo de alegria (cf. Lc 1,29; 5,8;18,3; Mt 8,8). O temor da santidade de Deus revela a transparência e a verdade de uma consciência frágil ou de ser pecador. A ausência de temor a Deus (como aconteceu com o fariseu) dá margem à indiferença diante dele, ao risco de desprezá-lo, à perda do bom senso. A proximidade da santidade de Deus faz perceber entre sua luz e a sombra do pecado entre os meandros do coração. Este é o indício do verdadeiro encontro com Deus numa verdadeira oração. A única riqueza do cobrador de impostos é uma consciência verdadeira, que se torna espaço vital para acolher a dádiva de Deus com sua misericórdia e sua justiça. O cobrador de impostos descobre imediatamente a presença libertadora do amor e se abre à confiança e ao poder renovador da prece.


A lição final da parábola (v.14 a), introduzida com força e autoridade (Eu vos digo...): “Eu vos digo: este último voltou para casa justificado, o outro não”. O segredo da justificativa interior é a humildade. A humildade gera a verdade. O orgulho, no entanto, é a raiz de toda falsidade. Quando a pessoa não aceita a si própria e a seus limites, termina por aceitar qualquer compromisso para alcançar as próprias intenções: o seu coração torna-se uma central desordenada de pensamentos e de palavras distorcidas e enganadoras. A humildade do cobrador de impostos torna possível um grande desejo de autenticidade, que faz surgir uma visão verdadeira de si e o torna disponível ao perdão de Deus, ao dom de sua graça. A humildade abre o coração à luz que vem de Deus e é fonte de paz. A humildade é a pureza na oração: Deus é Deus e o ser humano é apenas um pobre mendicante de misericórdia. A humildade na oração e na vida é o terreno livre para acolher a semente da justiça. O terreno fértil da santidade.


A sentença final (v.14b) é uma adição que já encontramos em Lc 14,11(cf. Mt 23,12). Ali tem um nítido sentido escatológico: na hora do Julgamento final “todo aquele que se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado”. Aqui temos o mesmo sentido, dado ao discurso sobre o Dia do Filho do Homem (Lc 17,22-37). O julgamento e a ação de Deus se qualificam por um reviravolta total da situação do homem que está diante dele (cf. Lc 1,51-53).


A nossa vida de cada dia, com certeza, facilmente nos desgasta, se não pomos amor em todos os nossos atos, mesmo nos mais simples e humildes. O egoísmo nos fecha os olhos e só os abrimos para ver o que nos interessa. A vaidade nos faz perder tempo em coisas fúteis e sem valor. O exagerado cuidado das coisas terrenas pode levar-nos a esquecer os valores espirituais. O farisaísmo, infelizmente, continua vivo. Ele é uma atitude religiosa que nos impede ver-nos como somos e que deturpa nossa relação com Deus e com os irmãos. Uma falsa humildade é a forma mais refinada de orgulho.


O publicano não deve ser considerado como um modelo de vida virtuosa. Ele é somente a imagem da única atitude certa que o homem deve assumir diante de Deus. É o pobre que sabe poder oferecer a Deus só o seu coração. O homem, na verdade, não possui nada que o torne digno da complacência divina. O universo todo é de Deus. Ele que o criou. Tudo é presente de Deus. E sabemos que cada vez que viemos para a igreja para falar com Deus, na verdade, viemos para escutá-Lo porque só Ele tem palavra da vida eterna. E cada vez que viemos para oferecer algo a Deus, na verdade, viemos para receber a Sua bênção para que possamos sair daqui firmes e esperançosos.


Sempre que nós rezamos de verdade, a nossa oração é eficaz não porque modificamos Deus, mas porque nos modificamos, assim saímos diferentes do que entramos. O mais difícil da oração não é tanto saber se Deus nos escuta, mas conseguir que nós O escutemos. Não peçamos a Deus que governe a nossa vida e o mundo através de milagres; peçamos-Lhe o milagre de amar e nós veremos que nosso amor transforma as pessoas e o mundo. Por isso, se a nossa oração nos afasta dos homens, isto significa que não nos encontramos ainda com Deus dos homens mas com a nossa fantasia. Rezemos diante de Deus como uma criança, mas logo voltemos à nossa vida com nossa responsabilidade de adultos.


Por tudo isto, pedimos a Deus que tenhamos um coração de uma criança diante Dele para sermos capazes de nos abandonarmos totalmente nas mãos de Deus porque o resto Ele é que vai tomar conta; um coração de irmão diante do nosso próximo, porque cada um é irmão de muitos pelo simples fato de chamar Deus de “Pai Nosso” e um coração de juiz para nós mesmos para sabermos distinguir o que é certo e o que é errado, o que pode ser mudado e o que não pode e sabedoria para distinguir os dois.


P. Vitus Gustama,svd

Domingo, 16/10/2016




PERSEVERANÇA NA ORAÇÃO PORQUE DEUS É MISERICORDIOSO


XXIX DOMINGO DO TEMPO COMUM


Evangelho: Lc 18,1-8


Naquele tempo: 1 Jesus contou aos discípulos uma parábola, para mostrar-lhes a necessidade de rezar sempre, e nunca desistir, dizendo: 2 'Numa cidade havia um juiz que não temia a Deus, e não respeitava homem algum. 3 Na mesma cidade havia uma viúva, que vinha à procura do juiz, pedindo: `Faze-me justiça contra o meu adversário!' 4 Durante muito tempo, o juiz se recusou. Por fim, ele pensou: 'Eu não temo a Deus, e não respeito homem algum. 5 Mas esta viúva já me está aborrecendo. Vou fazer-lhe justiça, para que ela não venha a agredir-me!'' 6 E o Senhor acrescentou: 'Escutai o que diz este juiz injusto. 7 E Deus, não fará justiça aos seus escolhidos, que dia e noite gritam por ele? Será que vai fazê-los esperar? 8 Eu vos digo que Deus lhes fará justiça bem depressa. Mas o Filho do homem, quando vier, será que ainda vai encontrar fé sobre a terra?'
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Estamos acompanhando Jesus que caminha da Galileia para Jerusalém, lugar de sua crucificação, morte e ressurreição. Jesus continua dando suas últimas lições para seus discípulos que vão assumir a missão neste mundo. Por isso, o conjunto de Lc 9,51-19,28 é chamado “Lições do Caminho”. O texto do evangelho deste domingo se encontra neste conjunto. E a lição que Jesus quer dar para seus seguidores é a importância da oração perseverante, pois Deus é misericordioso (cf. Lc 6,36). Para isso Jesus conta uma parábola sobre a insistência e a perseverança de uma viúva em pedir ao juiz para resolver o problema dela.


O que tem por trás da parábola


Devemos lembrar que Lucas vivia numa época da existência cristã que não era a de Jesus, numa época em que as provações (Lc 17,22;21,12), o medo (Lc 21,26), as preocupações, as riquezas, os prazeres da vida (Lc 8,14;17,26ss) afogavam a lucidez (Lc 12,35-40) e matavam a esperança (Lc 12,45). No atual contexto de Lucas, então, a parábola está relacionada com a situação dos discípulos que vivem numa condição de perseguição e outras situações, enquanto se faz esperar a intervenção libertadora de Deus. Eles se sentem como se fossem filhos abandonados por Deus Pai. Surge, então, a pergunta: “Por que o Senhor demora em nos socorrer? Por que fica calado diante dos nossos gritos? Por que Deus não intervém para salvar a Sua Igreja?” É a pergunta que também atormentava os justos oprimidos na história do povo de Deus (cf. Sl 44,23-25;89,47; Hab 1,2-4). Na Igreja de Lucas, esta interrogação sobre o silêncio e a demora de Deus se torna pergunta acerca da vinda do Filho do Homem. Perante esta espera, capaz de se tornar uma decepção, Lucas lembra a promessa de Deus: com certeza Deus intervirá para libertar os que o invocam (v.7). Lucas encontra, então, nesta parábola de Jesus uma boa resposta a essa situação de incerteza e de aparente silêncio de Deus. A demora não é devida ao descuido, como no caso do juiz iníquo, mas à paciência de Deus, que com a espera quer deixar espaço para a conversão e salvação (cf. 2Pd 3,9; Ap 6,9-11). Exatamente por causa disso vem uma pergunta, como conclusão desta parábola que se torna um motivo para refletir e exame de consciência: “Mas o Filho do Homem, quando vier, será que ainda vai encontrar fé sobre a terra?” (V. 8b).


Comentário sobre o texto e sua mensagem para nós


1. A vida na prece e a prece na vida


O texto começa com um versículo introdutório que serve para explicar o sentido da parábola seguida. Quase sempre a interpretação vem depois da parábola, mas neste caso Lucas quer informar antes seus leitores, porque a parábola não é inteiramente transparente: “Jesus contou aos discípulos uma parábola para mostrar-lhes a necessidade de rezar sempre, e nunca desistir...” (v.1). O advérbio “sempre” confere à oração um duplo significado. O rezar “sempre” é o programa de quem crê, chamado a aceitar, a cada dia, o desafio da história: convoca ao compromisso de colocar a “prece na vida” e “vida na prece”. Oração e vida fundem-se em uma recíproca imanência. Em simbiose. Uma é a vida da outra. O diálogo com Deus não é relegável aos raros momentos fortes do caminho espiritual, porém cresce junto com a fé e é como o respirar do dia-a-dia. A prece transforma em unidade os fragmentos da existência quotidiana diante de Deus. Se a prece tem lugar na existência quotidiana do cristão, a própria vida está na prece. Por isso, a prece não é apenas um barco salva-vidas para quem estiver afundando. Para o cristão, falar com Deus significa usar a linguagem da vida e da história (sempre rezamos a partir de nossa realidade ou situação), pessoal e comunitária. Como disse Ludwig Wittgenstein: “Orar é pensar o sentido da vida. E pensar é agradecer (Denken ist danken).


2. A necessidade de sermos perseverantes na vida e na prece


Este versículo introdutório é seguido pela parábola sobre o juiz desonesto e a viúva insistente. Ao lermos esta parábola (vv.2-5) nos faz lembrar de um caso parecido ao do amigo a quem se desperta à meia-noite para pedir um favor/pão (Lc 11,5-8). Nos dois casos se trata de um personagem a quem se dirige com uma súplica insistente, e que resiste, mas por fim cede ao pedido. Só que aqui o caso é levado ao extremo: não se trata de amigos, mas de pessoas distanciadas socialmente, nada ligadas entre si. Trata-se de uma viúva e de um juiz. E por acaso é um juiz desonesto.


Uma viúva não valia nada em Israel socialmente. Era criatura mais desprotegida. Ela não dispunha de nenhum meio de se fazer ouvir por um juiz desonesto. Não dispunha de poder nem de mecanismos de pressão. A diferença entre um juiz e uma viúva era espantosa. Ele pertencia ao reduzido número de gente importante; ela era socialmente um zero. A exploração das viúvas, apesar de ser condenável, era frequente (Is 1,16s; Sl 94,3-7; Mc 12,40). Na Bíblia, a viúva é uma figura típica dos mais necessitados, dos indefesos e dos maltratados (Ex 22,21-24; Is 1,17.23; Jr 7,6). A Escritura sempre defende o direito da viúva porque sendo mulher e sozinha com os filhos para criar, ela se encontra duplamente oprimida e marginalizada. Ela é objeto de uma proteção especial pela Lei (Ex 22,20-23; Dt 14,28s;24,17-22) e de Deus (Dt 10,17s) que escuta a sua lamentação (Eclo 35,14s), a defende e a vinga (Sl 94,6-10).


O juiz (carente do sentido de honra), segundo o texto, não respeita ninguém. É um descarado; pouco lhe importa o que pensem os demais, não leva ninguém em consideração. A ação da viúva é um esperar contra toda esperança. O próprio juiz reconhece que é um homem sem fé e sem lei, mesmo assim decide solucionar o caso da viúva. Não o faz por ser honrado, mas por comodismo, para que a viúva deixe de chatear e não o leve a explodir.


Nesta altura segue a aplicação da parábola. Deus com certeza assumirá a causa de seus eleitos, fará a justiça plena aos que lhe suplicam dia e noite (v.7), mas não por comodismo como o juiz desonesto e sim pela fidelidade dele para com seus eleitos. Esta certeza baseia-se no modo de agir de Deus que defende sempre os fracos e os oprimidos (cf. Sr /Eclo 35,12-18; Dt 10,17s). Por parte de Deus, há a garantia e a promessa de uma intervenção libertadora e salvífica, apesar do silêncio evidente e demora. Mas, por parte do homem, será que é realizada a condição para acolher o Filho do Homem como salvador? Esta condição é a fé que, nas dificuldades e perseguições, transforma-se em fidelidade e coragem no testemunhar diante dos homens (cf. Lc 9,26;12,9). A fé que permanece nas provações testifica a qualidade da oração. Para manter esta fidelidade e coragem vivas, deve haver uma oração constante e insistente; uma oração que não conhece desânimos e depressões (v.1). Neste sentido a viúva se torna um modelo de perseverança. Esperar com firmeza e fidelidade a libertação definitiva é condição para uma oração corajosa. A fé na disponibilidade de Deus para fazer com que triunfe a justiça faz alguém não desistir na oração.


Com a história da viúva, que tão insistente, venceu, pelo cansaço, o juiz desinteressado que não estava nem um pouco inclinado a atendê-la, Jesus quer nos recomendar a perseverança na oração. São três as razões porque devemos ser perseverantes nas nossas orações: A bondade e a misericórdia de Deus; O amor de Deus por cada um de nós, como se cada um fosse único para Deus; e o interesse que nos mostramos perseverantes na oração. Por isso, o modo como a pessoa reza depende da imagem de Deus que traz no seu coração. Quanto mais correta for esta imagem, mais disposição terá para a oração e mais confiante e perseverante esta será.


Lucas, através desta parábola, exorta todos os cristãos para serem incansáveis na oração perseverante para manterem-se na fidelidade para com Deus (Lc 22,46). Assim serão como Jesus que teve uma vida marcante de oração: começou sua atividade pública orando (Lc 3,21), os momentos- chaves de sua vida estiveram iluminados pela oração (Lc 6,12;9,28; 22,39-46), e morreu orando (Lc 23,46). Esta vida de oração não é resignação fatalista, nem quietismo nem o aguardar passivo, mas é a busca ativa da vontade de Deus. A perseverança na oração é o princípio fundamental de toda a doutrina evangélica sobre a oração. A pessoa de fé é sempre perseverante, porque ela sabe a quem recorrer e em quem acredita, sem se importar com as circunstâncias. Aquele que crê, tem absoluta certeza de ser atendido, mesmo devendo esperar. A oração perseverante é expressão e o alimento da fé em Deus. Fé e oração, portanto, estão sempre intimamente unidas. Para orar é preciso crer e para crer é necessário orar. E aquele que crê não quer obrigar Deus a fazer a própria vontade, utilizá-lo para realizar seus desejos, mas para obter a graça de conformar sua vontade à de Deus.


Além disso, esse episódio quer nos ensinar que, para atingir objetivos superiores às nossas forças, precisamos orar sem cessar. Pois há objetivos que não podem ser alcançados sem a oração. Por exemplo: onde conseguir a força para perdoar quem nos prejudicou, a não ser na oração? Ou, onde conseguir a força para não fraquejar diante dos maus desejos da ambição, da inveja, da cobiça, do ódio, do rancor, a não ser na oração? Se por um instante sequer deixarmos cair os braços, isto é, se pararmos de rezar imediatamente as forças do mal prevalecerão, seremos derrotados e os desastres que sofremos serão assustadores. Como Moisés (na primeira leitura: Ex 17,8-13) devemos, portanto, manter os braços sempre erguidos, até a noite, isto é, até o fim da nossa vida, sem nos deixarmos vencer pelo cansaço.


Quando uma comunidade ou uma família vive verdadeiramente em oração, com certeza segue o caminho de Jesus, e ouve a sua voz e não a voz do mundo e a vida estará sempre iluminada, pois Deus é a Luz (Jo 8,12).


3. “E Deus não faria justiça aos seus eleitos que clamam a ele dia e noite?”


Esta frase é conclusão da parábola. Embora já tenha explicado e meditado bastante coisa a respeito, precisamos aprofundar um pouco mais.


“Clamar dia e noite” sublinha a oração sem cessar. Precisamos rezar sempre, sem desfalecer, não é tanto para obter aquilo que já recebemos, mas para manter a chama de nossa fé, como o óleo que alimenta a lâmpada. A oração é um exercício de fé. Se há quem consagre a sua vida à oração, é para manter viva e ativa essa fé que Jesus deseja encontrar no coração de todos (v.8). A oração deve ser como uma respiração permanente. Ninguém sobreviveria sem respirar e sem o ar do qual ele respira. Assim também um cristão: não viveria como bom cristão sem uma oração sem cessar.


Para nós, a oração está ligada ao tempo e portanto, à perseverança. Infelizmente quando não vemos os resultados, facilmente somos tentados a baixar os braços. Somente a fé pode impedir-nos de fazê-lo. Por isso, a pergunta que atormenta Cristo precisamente esta: “Mas o Filho do Homem, quando vier, será que ainda vai encontrar fé sobre a terra?” (v.8). A fé que permanece nas provações testifica a qualidade da oração. A fé é a única combate da vida: continuar a acreditar que o Pai nos escuta e nos atende, mesmo quando não vemos nenhum resultado. É preciso pedir tudo a Deus, e deixar-lhe o cuidado de fazer a escolha. O fato de permanecer, de perseverar, sem desfalecer, é o sinal de que Deus quer nos atender, pois Deus não faz desejar nem esperar nada que não queira. É preciso insistir também sobre esse tudo, sabendo que Deus quer nos dar muito mais do que aquilo que ousamos pedir, ou mesmo esperar.


Evidentemente aqueles que clamam a Deus dia e noite são imediatamente atendidos: “Antes de invocarem, Eu já lhes terei respondido; enquanto ainda estiverem falando, eu já os terei atendido”, afirma Deus através do profeta Isaías (Is 65,24). Acontece que o tempo não se mede nos mesmos termos para Deus e para nós, pois para o Senhor “um dia é como mil anos e mil anos como um dia” (2Pd 3,8). Nós clamamos Dia e Noite, na duração do tempo, e Deus responde no mesmo instante, que para ele é equivalente à eternidade. É aí que reside a prova e o combate da oração. No fundo, quanto mais avançamos na vida de oração, mais penetramos no mistério da eternidade de Deus e no mistério do seu silêncio e nós mesmos somos reduzidos ao silêncio, e não sabemos mais o que devemos dizer ou pedir.


Apesar de tudo que foi dito, Jesus continua a fazer esta pergunta para cada um de nós, para cada família hoje: “Mas o Filho do Homem, quando vier, será que ainda vai encontrar fé sobre a terra? “(Lc 18,8). Que Jesus encontre em cada coração, em cada família a fé semelhante à da viúva, quando Ele vier em sua glória.


Nossa oração é certamente petição, mas não tem nada a ver com um regateio mercantil. Há que recorrer a Deus como pobre na necessidade. A oração é antes de tudo uma confissão da própria indigência: Senhor, eu não consegui alcançar tal objetivo, Senhor, eu ando buscando..., Senhor, eu não compreendo tudo..., Senhor, eu necessito de Ti.


“A oração é um dom da graça, mas pressupõe sempre uma resposta decidida da nossa parte, porque o que reza combate contra si mesmo, contra o ambiente e, sobretudo, contra o Tentador, que faz tudo para retirá-lo da oração. O combate da oração é inseparável do progresso da vida espiritual. Reza-se como se vive, porque se vive como se reza” (Compêndio do Novo Catecismo, 572; Novo Catecismo, no.  2725).

P. Vitus Gustama,svd
Domingo, 09/10/2016




NA ALEGRIA E NA TRISTEZA DEVEMOS ACREDITAR NO SENHOR


XXVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM


Evangelho: Lc 17,11-19


11 Aconteceu que, caminhando para Jerusalém, Jesus passava entre a Samaria e a Galileia. 12 Quando estava para entrar num povoado, dez leprosos vieram ao seu encontro. Pararam à distância, 13 e gritaram: 'Jesus, Mestre, tem compaixão de nós!' 14 Ao vê-los, Jesus disse: 'Ide apresentar-vos aos sacerdotes.' Enquanto caminhavam, aconteceu que ficaram curados. 15 Um deles, ao perceber que estava curado, voltou glorificando a Deus em alta voz; 16 atirou-se aos pés de Jesus, com o rosto por terra, e lhe agradeceu. E este era um samaritano. 17 Então Jesus lhe perguntou: 'Não foram dez os curados? E os outros nove, onde estão? 18 Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, a não ser este estrangeiro?' 19 E disse-lhe: 'Levanta-te e vai! Tua fé te salvou.'
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Continuamos a acompanhar Jesus no seu caminho para Jerusalém que é muito mais um Caminho espiritual do que um caminho físico. Por isso é que o evangelista Lucas coloca nesta parte as últimas e importantes lições de Jesus para todos nós, seus seguidores. Tratam-se das “Lições do Caminho” (Lc 9,51-19,28).


O texto deste domingo se abre com o episódio do samaritano agradecido (Lc 17,11-19) que revela a simpatia de Lucas por esses excluídos, objeto de uma missão importante na Igreja dos Atos (cf. At 8). Importa lembrar que Lucas tem particular interesse pelos samaritanos apesar de eles recusarem, uma vez, a presença de Jesus com seus discípulos em Samaria (cf. Lc 9,52-56).


Quem são os samaritanos?


Samaria era uma província situada entre a Galileia ao norte e a Judéia ao sul. Era habitada por uma população que, em sua origem, não era judaica em sentido estrito. Desde a invasão dos assírios (722 a. C) aí foram instalados migrantes não- judeus, de modo que as raças haviam-se misturadas. Por isso, para os judeus, os samaritanos eram um povo impuro, já que seu sangue estava contaminado pelo dos outros povos estrangeiros. Para eles, os samaritanos não são seu próximo; eles são piores que pagãos, de acordo com o ditado judaico: “Aquele que come pão de um samaritano come carne de porco” (porco era animal impuro. Compare Jo 4,9). E era um grande palavrão/uma grave ofensa um judeu chamar outro judeu de “samaritano” (cf. Jo 8,48). Os judeus proíbem o casamento com samaritanos. No ano 6 depois de Cristo os samaritanos profanaram gravemente o Templo de Jerusalém jogando nele, de noite, ossos humanos (para um judeu, o simples pisar num túmulo faz alguém impuro, como se tocasse um morto), exatamente num dia de Páscoa, em resposta à destruição do Templo Garizim, templo dos samaritanos (Jo 4,20) pelo judeu João Hircano e que depois foi restaurado por Herodes o Grande no ano 30 antes de Cristo. A partir daí cresceu o ódio mútuo entre os dois grupos.


Apesar de tudo isso, Jesus propõe como “modelos” os samaritanos para os judeus. Porque eles são “protótipo” de amor ao próximo e, em síntese, do amor a Deus. É um amor que se sobrepõe ao ódio nacionalista de raízes tão antigas (Lc 10,25-37, o bom samaritano). Eles são “exemplo” de gratidão diante dos judeus, cumpridores fiéis da Lei religiosa, porém ingratos, como relata o texto deste domingo. Até Jesus não se defende do insulto de “samaritano” (Jo 8,48), pois os heterodoxos samaritanos aceitaram sua mensagem (Jo 4,40-42), ao passo que os ortodoxos dirigentes judeus tentaram matá-lo (Jo 7,19.20.25;8,37.40).


O texto relata a cura de dez leprosos cuja atenção se dirige ao samaritano agradecido. Todas as doenças eram consideradas um castigo de Deus (cf. Jo 9,1-2), mas a lepra era o próprio símbolo do pecado. Para a Lei, a lepra era uma impureza contagiosa, por isso o leproso era excluído da comunidade até a sua cura e purificação ritual, que exige um sacrifício pelo pecado (Lv 13-14). Um leproso era equiparado a um morto. Por isso, a cura da lepra era considerada um milagre, comparável à ressurreição de um morto: só o Senhor poderia realizá-la; mas antes era preciso expiar todos os pecados que a tinha causado. Os leprosos, portanto, sentiam-se rejeitados por todos: pelos homens e por Deus (Deus que os dirigentes anunciavam). Eles não podiam aproximar-se das pessoas nem dos lugares públicos porque eles podiam torná-los impuros. Por isso, curar um leproso era mais que libertá-lo de uma doença. Era devolver a ele o direito de conviver e o acesso ao Reino de Deus.


Sendo estes os costumes e esta a mentalidade, entende-se o motivo pelo qual os dez leprosos, no Evangelho de hoje, tenham parado à distância e de longe tenham gritado: “Jesus Mestre, tem compaixão de nós!” Observe-se bem: Não lhe pedem a cura, mas só que tenha compaixão diante da situação desesperadora em que se encontram. Eles não precisam expressar o desejo profundo para serem curados que está dentro de cada um deles. Toda a sua confiança está fundada na misericórdia de Jesus.


Jesus não foi até eles nem os tocou como em Lc 5,12-14. Nem sequer disse: “Estais curado!” Jesus sabe daquilo que os leprosos precisam: a cura. Mas Jesus coloca a fé e a confiança dos dez leprosos à prova (compare 2Rs 5,10). Por isso, Jesus simplesmente os mandou ir mostrar-se aos sacerdotes: “Ide e apresentai-vos aos sacerdotes” (v.14). Este era o procedimento normal quando um leproso era curado. Porque a lei estabelece que, quem ficar curado desta doença, se apresente ao sacerdote para o sacerdote reintegrá-lo à comunidade dos fiéis. O sacerdote funcionava como um tipo de inspetor de saúde para certificar que a cura realmente ocorrera (Lv 14,2ss).


Na obediência à ordem de Jesus os dez leprosos encontram a cura (compare 2Rs 5,14). A cura não acontece imediatamente mas ao longo do caminho, quando estão andando pela estrada. E percebendo que estava curado, um deles volta atrás e prostra-se aos pés de Jesus e lhe agradece. Ele reconhece na ordem de Jesus uma ação salvífica de Deus e por isso glorifica a Deus(v.15). Ele se sente perdoado, já que a doença era considerada como um castigo de Deus. E o evangelista Lucas acentua expressamente: “...era um samaritano” (v.16b). Ele representa aquele povo samaritano que é desprezado pelos judeus pelos motivos que já se mencionaram anteriormente. Justamente este povo desprezado possui abertura e sensibilidade suficientes para reconhecer e agradecer ao benfeitor. A fé do samaritano se manifestou no reconhecimento do benefício e no louvor a Deus autor desse benefício.


Jesus aceita e proclama esta fé do samaritano: “Levanta-te e segue o teu caminho; a tua fé te salvou” (v.19). Por isso, o elemento central neste relato não é tanto a cura em si, mas a volta e o agradecimento do samaritano. O homem de fé sempre está consciente de que tudo que tem ou faz de bem lhe vem de Deus. Por isso, a parábola do Bom Samaritano (Lc 10,30-37) e do samaritano agradecido é sem nenhuma dúvida, uma advertência de Jesus contra a autossuficiência religiosa de quem quer que seja (neste caso dos judeus)


Este é o fato. Vamos prestar a nossa atenção para alguns pormenores significativos deste episódio para tirar outras mensagens para nós hoje.


1).        Observemos, antes de tudo, que não se trata de um só leproso mas de dez. Lucas registra este detalhe não só por uma obrigação de historiador, mas por uma consideração teológica. Este número(10) na Bíblia tem um significado simbólico: indica a totalidade. Os dez leprosos, portanto, representam todo um povo: Israel ou a humanidade inteira. E a lepra é o símbolo da condição de pecado, da miséria humana, da situação de distanciamento de Deus e dos irmãos. Ninguém está tão só do que aquele que vive sem Deus. “O homem para onde se dirija, sem se apoiar em Deus, só encontrará sofrimento e dor”, disse Santo Agostinho. Lucas quer nos ensinar que todos nós precisamos encontrar Jesus Cristo. Ninguém é justo, ninguém está sem lepra: todos estão à procura da salvação do Senhor. O profeta Isaías nos dá este conselho: “Procurai a Deus enquanto pode ser encontrado, invocai-o enquanto está perto. Volte para ele...porque Ele é rico em perdão” (Is 55,6-7).


2).        O segundo pormenor: esta doença une judeus e samaritanos, isto é, une pessoas que, quando gozam de boa saúde, se consideram inimigas tradicionais irreconciliáveis. A desgraça e a dor as tornam amigas e solidárias.


Algo semelhante acontece conosco. Quando nos sentimos justos, perfeitos, ricos, inteligentes ou famosos, começamos a levantar barreiras: colocamos os bons do nosso lado e os” impuros” do outro lado; exigimos que os pecadores mantenham distância, não queremos ficar contaminados. Ao contrário, quando consideramos com sinceridade a nossa condição de leprosos, de pecadores diante de Deus, então não nos sentimos mais superiores a ninguém, não condenamos, não julgamos, não excluímos. O amor não exclui ninguém. Se levantarmos barreiras contra os outros, é porque nosso amor é ainda pequeno e bem frágil, pois nada é sem valor e ninguém é pequeno quando o amor é grande.


3).        O terceiro pormenor: os leprosos não buscam a salvação individualmente. Eles vão à procura de Jesus em conjunto. A oração deles é comunitária: “Jesus Mestre, tem compaixão de nós!” É uma oração partilhada que tem uma força maior. Ë uma oração que tem o fundamento bíblico; é ensinada pelo próprio Senhor Jesus: “Em verdade, eu vos digo, se dois de vós estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa que queiram pedir, isso lhes será concedido por meu Pai que está no céu. Pois onde dois ou três estiverem reunidos em Meu nome, ali estou Eu no meio deles” (Mt 18,19s). É um modo novo de rezar que devemos praticar nos grupos, nas famílias ou em qualquer lugar e ocasião.


Por isso, perguntamos: É assim que nós rezamos? Nos sentimos solidários com todos os homens ou pensamos ainda na “salvação da nossa alma?” Entendemos que, nem mesmo no paraíso, poderemos ser felizes enquanto até o último dos homens não tenha sido libertado da “lepra”.


4).        Os dez leprosos foram curados ao longo do caminho.  Jesus não curou os dez leprosos com este tipo de frase: “Sejam curados!” mas os mandou apresentar-se ao sacerdote como se estivessem já curados. Jesus, na verdade, estava submetendo a teste a fé destes homens, ao pedir que agissem como se estivessem sido curados. Os dez leprosos não reclamaram dizendo que não estavam curados ainda. Mas eles acreditaram no poder da Palavra do Senhor que contém já uma promessa de cura e por isso lhe obedeceram. E enquanto obedeciam, assim aconteceu: “Enquanto caminhavam, aconteceu que ficaram curados” (v.14b). No Novo Testamento, a vida cristã é comparada frequentemente a um itinerário e sabemos que se trata de uma viagem longa e espinhosa. A cura espiritual não acontece de repente, exige muito tempo. Não se pode ter a pretensão de alguém, que durante muitos anos viveu na condição de ‘leproso’, mude de repente, quase milagrosamente, os seus maus hábitos. Permaneçamos ao seu lado, caminhemos com ele e verificaremos um dia com alegria, depois de termos percorrido juntos um longo caminho, fomos curados pela Palavra de Jesus a qual devemos obedecer. A obediência à palavra de Deus é que cura os leprosos.


5).        Um só que voltou para agradecer e por acaso um samaritano. A cura imediatamente despertou a gratidão num dos dez que era um samaritano. Ele não esperou para se certificar em condições de voltar à comunidade; pelo contrário, voltou a Jesus quando se viu curado. Quando chegou a Jesus, agiu em humildade, prostrando-se em homenagem enquanto agradecia o Mestre, pois ele via a mão de Deus na cura. E ele quis proclamar diante de todos a sua gratidão e a sua descoberta. Os outros não eram maus, só demoraram para entender a novidade. Prosseguiram pelos caminhos tradicionais; pensaram que deveriam chegar até Deus através das práticas religiosas antigas, através dos sacerdotes do templo. Enquanto os judeus que ambicionavam os gestos salvíficos como um direito exclusivo, ficaram alheios ao dom salvífico de Deus, o estrangeiro, o excluído e menosprezado como um pagão agradeceu e fazia agora parte dos pequeninos para quem o Reino de Deus é destinado.


Este duplo comportamento é símbolo daquilo que aconteceu ao povo de Israel: os pagãos, as pessoas afastadas da religião, foram as primeiras a reconhecer em Jesus o mediador da salvação de Deus. Também é símbolo do que acontece ainda hoje: são muitas as pessoas que continuam chegando até Deus através de caminhos propostos por outras religiões ou por outros caminhos. Por muitíssimos motivos nem todos conseguem logo descobrir que a salvação vem só através de Jesus e da sua palavra, pois Ele é “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6).


O samaritano voltou para agradecer ao Senhor pela cura. Com frequência, temos memória para as nossas necessidades do que para os nossos bens ou benefícios. Vivemos pendentes daquilo que nos falta, e reparamos pouco naquilo que temos, e talvez seja por isso que ficamos aquém no nosso agradecimento ou ficamos reclamando continuamente. Pensamos que temos pleno direito ao que possuímos e nos esquecemos do que diz Santo Agostinho ao comentar esta passagem do Evangelho: “Nada é nosso, a não ser o pecado que possuímos. Pois que tens tu que não tenhas recebido (de Deus)?” Toda a nossa vida deve ser uma contínua ação de graças. Não percamos a alegria quando percebemos que nos falta alguma coisa, porque mesmo isso que nos falta é, possivelmente, uma preparação para recebermos um dom mais alto. São Bernardo ensina: “A quem humildemente se reconhece obrigado e agradecido pelos benefícios, com razão lhe são prometidos muito mais. Pois quem se mostra fiel no pouco, com justo direito será constituído sobre o muito, assim como, pelo contrário, se torna indigno de novos favores quem é ingrato em relação aos que antes recebeu”.


Neste domingo a comunidade eucarística é convidada a fazer a experiência da gratidão. A eucaristia é o ápice da vida cristã, mas ao mesmo tempo é fonte. Ela é ponto de chegada da vida toda. Nela todas as “ações” do dia-a-dia tornam-se “ações de graças”. E igualmente, ela é ponto de partida, nascente transbordante em nós por nossos irmãos. A ação de graças contém e expressa um misto de sentimentos de louvor, agradecimento e reconhecimento diante de Deus por causa dos seus benefícios. Saber agradecer já é ver o mundo de outro jeito, saber ver que há espaço para esperança e bondade no mundo. Um coração agradecido nos dá condições de olhar a vida com mais alegria e confiança. Saber agradecer é saber ver que há espaço para esperança e bondade no mundo. Para os que sabem para que serve a sua vida, sabem também agradecer e não perdem o ânimo, enquanto os outros se arrasam pela vida de mau humor. Não existe um só dia em que Deus não nos conceda alguma graça particular e extraordinária. Pare e verifique! Agradecer é uma atitude própria de quem tem dignidade. Quem não sabe agradecer está mal preparado para conviver.


P. Vitus Gustama,SVD
Domingo, 02/10/2016




A FÉ PROFUNDA NOS TORNA SERVIDORES DO SENHOR E DOS DEMAIS


XXVII DOMINGO DO TEMPO COMUM


Evangelho: Lc 17,5-10


Naquele tempo: 5 Os apóstolos disseram ao Senhor: 'Aumenta a nossa fé!' 6 O Senhor respondeu: 'Se vós tivésseis fé, mesmo pequena como um grão de mostarda, poderíeis dizer a esta amoreira: `Arranca-te daqui e planta-te no mar', e ela vos obedeceria. 7 Se algum de vós tem um empregado que trabalha a terra ou cuida dos animais, por acaso vai dizer-lhe, quando ele volta do campo: 'Vem depressa para a mesa?' 8 Pelo contrário, não vai dizer ao empregado: 'Prepara-me o jantar, cinge-te e serve-me, enquanto eu como e bebo; depois disso tu poderás comer e beber?' 9 Será que vai agradecer ao empregado, porque fez o que lhe havia mandado? 10 Assim também vós: quando tiverdes feito tudo o que vos mandaram, dizei: 'Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer'.'
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Continuamos a acompanhar Jesus que saiu da Galileia para caminhar rumo a Jerusalém na sua última caminhada, pois ele será crucificado, morto, mas ressuscitado. Em função disso, Ele dá suas últimas lições para seus discípulos neste caminho. Por isso, esse conjunto é chamado “Lições do Caminho” (Lc 9,51-19,28).


O texto lido neste dia faz parte da seção Lc 17,1-10. Nesta seção, Lucas reúne várias palavras de Jesus, dirigidas a seus discípulos, que têm uma forte vinculação com a vida comunitária. Em primeiro lugar (vv.1-2) pede-se de nós que não sejamos ocasião de tropeço por nossos atos negativos para os pequeninos. Estes são os pobres, os humildes, os que não têm recursos materiais ou espirituais para opor-se aos que provocam o tropeço. Precisamente estes são os eleitos de Deus. São para eles que o Reino de Deus se prepara (Lc 6,20s). E a vontade de Deus é que nenhum deles se perca (Mt 18,14). Depois fala-se da correção fraterna (vv.3-4) para que o irmão, que peca, tome consciência de sua falta e se arrependa (Lv 19,17) e solicita-se de nós o perdão como atitude permanente, imitando o comportamento de Deus (Lc 15,11-32). Desta maneira vivemos o mandamento do amor que perdoa inclusive aos inimigos, seguindo a misericórdia do Pai (Lc 6,36). A comunidade cristão aparece, assim, como uma comunidade de pecadores que experimenta a proximidade e acolhida de Deus no perdão fraterno.


O texto do evangelho deste domingo é a sequência das sentenças de Jesus acima mencionadas. O texto pode ser dividido em duas partes: vv.5-6 falam do pedido dos discípulos que Jesus aumente a fé deles; vv.7-10 falam de serviço despretensioso/ser servo inútil.


Pedido de aumento de fé (vv.5-6)


O Evangelho começa com um pedido dos apóstolos ao Senhor que lhes aumente a fé. Os apóstolos percebem que estão vacilando, sentem-se tentados a rever as próprias escolhas, a voltar atrás, como tinham feito muitos discípulos (cf. Jo 6,60). Eles reconhecem que somente a força da fé os permitirá aceitar, com todas as suas consequências, as exigências do perdão. Eis então que surge espontaneamente nos seus lábios o pedido de socorro: “Aumenta a nossa fé!” Os apóstolos têm certeza que só com a confiança ilimitada em Jesus é que eles podem realizar coisas impossíveis aos olhos humanos. Por isso, eles querem ter o poder de Jesus Cristo.


Os discípulos querem ter mais fé. A resposta de Jesus tira deles o conceito de maior ou menor em termos de fé para o de uma fé genuína. Ao pedir que se aumente a fé, não se busca seu acréscimo quantitativo e sim uma mudança radical para fazê-la mais genuína.  Basta ter uma mínima fé, mas autêntica (como o grão de mostarda, Lc 13,19) para realizar grandes coisas. Se houver fé real, então, os efeitos se segurarão. Não é tanto uma grande fé em Deus que é exigida, quanto a fé num Deus grande. A imagem da amoreira arrancada e transplantada no mar expressa plasticamente a força da confiança plena em Deus. Isto quer dizer que a fé genuína pode realizar aquilo que a experiência, a razão e a probabilidade negariam, se for exercida dentro da vontade de Deus.


Se a fé pode fazer as coisas impossíveis, isto quer nos dizer que a fé é uma participação na vida de Deus e uma experiência da vida divina em nós, que permite vermo-nos a nós próprios e à realidade que nos rodeia como se o fizéssemos com os olhos de Deus. Semelhante participação na vida divina, por meio da fé, transforma-nos em homens novos, permite-nos entender a realidade de uma maneira renovada, proporcionando-nos uma nova visão, tanto de Deus como da realidade terrena que nos cerca e a nossa própria vida e a vida dos outros. É a fé que nos torna capazes de ultrapassarmos as aparências, de distinguirmos a causa prima das causas segundas e de vermos que aquilo que se passa ao nosso redor não é fruto do poder dos homens. A fé nos permite descobrirmos os sinais de Deus na criação, oferece-nos a possibilidade de acolhermos os acontecimentos como expressão da vontade de Deus e de os vermos como uma passagem de Deus na nossa vida. A fé muda a nossa mentalidade, impele-nos a pormos sempre Deus em primeiro lugar, leva-nos a orientar para Ele toda a nossa vida e a interpretar o mundo e nossa vida à luz divina. A fé nos dá a força cheia de confiança de uma filiação divina. Quando a força humana terminar, a fé vai a continuar, pois a fé transforma os nossos limites em forças, pois a fé é a participação na vida divina.


A partir daí todos os nossos juízos, apreciações, desejos e expectativas serão iluminados por essa luz, e desse modo se concretiza aquela comunhão de fé que só há de alcançar a sua plenitude no amor. “A fé não respeita a ordem natural, não se funda na experiência dos sentidos, não se estriba na força da razão humana, senão na virtude e autoridade divina, certíssima de que a suma e eterna verdade, que é Deus, nunca pode enganar-se nem enganar” (S. Pedro Canísio). Baseando-se na fidelidade de Deus para conosco, temos coragem de nos entregar cegamente nas mãos de Deus. Deus é fiel consigo mesmo e é fiel para comigo, por isso, creio nele.


Se a nossa fé for forte, o mundo criado à nossa volta se tornará como que a expressão de uma voz que nos fala. Se a nossa fé for fraca, essa voz produzirá em nós a dispersão, afasta-nos de Deus e nos leva a nos centramos em nós próprios.


A fé nos torna capazes de ultrapassar as aparências e nos permite descobrir os sinais de Deus na nossa vida. Consequentemente faz nascer em nós a paz interior, essa paz que provém da firme certeza de que Aquele que é Poder e Amor infinitos tudo há de conduzir ao fim na sua infinita sabedoria e no seu infinito amor. Esta fé nos dá a convicção de que estamos constantemente envolvidos pelo amor de Deus.


À luz da fé também podemos descobrir a nossa fraqueza e assim esperar tudo de Deus. O poder de Deus será capaz de agir em nós, quando na fé, reconhecermos a nossa fraqueza, tornando-nos, assim, pobres em espírito. O homem pobre no espírito é aquele que vive despojado de toda a segurança, que sabe que as suas forças não lhe bastam.


Segundo S. Tomás de Aquino (cf. Exposição Sobre o Credo), a fé produz quatro bens. O primeiro bem é a união da alma com Deus. Como se fosse uma espécie de matrimônio entre a alma e Deus, como diz o profeta Oséias: “Desposar-te-ei na fé” (Os 2,20). O segundo bem: a fé faz iniciar em nós a vida eterna. E a vida eterna consiste em conhecer Deus (Jo 17,3). O terceiro bem: a fé orienta a vida presente para que o homem possa viver bem segundo os princípios do bem viver. A fé ensina todos os princípios do bem viver.” O justo vive da(pela) fé” (Hb 2,4). O quarto bem: pela fé vencem-se as tentações. Pela fé é que conhecemos um só Deus e que somente a ele devemos obedecer. “Por essas razões fica provado que é muito útil ter fé”, concluiu S. Tomás de Aquino.


Em todos os domingos e em outras ocasiões sempre professamos: “Creio em Deus...”. “A fé não é uma simples formulação doutrinal, dogmática. Não se restringe nem se entende prioritariamente como adesão às verdades reveladas. Ela é a práxis do cristão no conjunto de toda a sua vida. Envolve espiritualidade, liturgia, prática pastoral, luta pela justiça, compromissos sociais, vida moral” (João Batista Libânio em Eu Creio, Nós Cremos). Será que vivemos realmente o que professamos? Será que creio de verdade que Deus é o Pai todo poderoso e Criador do céu e da terra? Você já parou para pensar nisto?


Serviço despretensioso/ser servo inútil (vv.7-10)


A segunda parte do texto começa com a parábola do agricultor que explora sem remorso seu servo. Pode-se entender esta parábola a partir do seu contexto.  No costume da antiguidade não existia contrato de trabalho que determinasse os limites de horário de trabalho ou reconhecesse horas-extra de trabalho. O servo era propriedade do seu senhor, sem direitos à recompensa e ao reconhecimento. Se lêssemos literalmente esta parábola, ela traria um choque para nós ou se justificaria todo tipo de escravidão existente ainda na sociedade. Mas as parábolas de Jesus se servem das experiências reais para falar de outra coisa. É claro que Jesus não aprova a conduta daquele senhor que é abusiva e arbitrária, mas serve-se de uma realidade do seu tempo para ilustrar qual deve ser a atitude da criatura (ser humano) em relação ao Criador (Deus). Tudo de bom procede do Senhor. E temos que ler esta parábola na sequência do texto.


Logo depois de dizer que a fé nos faz realizar grandes obras, Jesus indica que, nem por isso, temos que ficar nos exibindo, vaidosos com o que pudermos realizar. Se fazemos algo, em primeiro lugar, é porque a graça de Deus nos acompanha. Servo inútil, no Evangelho de hoje, é aquele que une com simplicidade fé e serviço sem esperar outra recompensa que não seja a alegria de estar trabalhando por uma boa causa. Com isso, quer-se afirmar firmemente que a fé é antes de tudo um dom. Nossa capacidade de viver a fé, de cumprir o “que lhe havia mandado” (v.10) é também graça. Por isso, Santo Ambrósio comenta: “Não te julgues mais por seres chamado filho de Deus, deves, sim, reconhecer a graça, mas não deves esquecer a tua natureza, nem te envaideças por teres servido fielmente, já que esse era o teu dever. O sol cumpre a sua tarefa, a lua obedece, os anjos também servem”. Se Deus não nos ajudar, seremos incapazes de levar a cabo o que Ele nos encomendou. A graça divina é a única coisa que pode potenciar os nossos talentos humanos para trabalharmos por Cristo. Sem a graça santificante, para nada serviríamos. Santo Agostinho compara a necessidade do auxílio divino à da luz para podermos ver. É o olho que vê, mas não poderia fazê-lo se não houvesse luz. Deus faz o máximo. Nós fazemos apenas o mínimo.


Lucas também quer sublinhar o tema da gratuidade da fé. Quer-se afirmar firmemente que a fé é antes de tudo um dom. Nossa capacidade de viver a fé, de cumprir o “que lhe havia mandado é também graça. Deus nos dá o tempo suficiente para viver nossa fé. Por isso, a afirmação de “inutilidade”, de que somos pobres servidores, é perfeitamente coerente com uma fé profundamente comprometida. A vida de fé é sempre um dom que acolhemos na medida em que amamos Deus e os demais.


Em consequência, paradoxalmente, os servos verdadeiramente úteis são os que se reconhecem “inúteis”. Somente os que vivem e reconhecem esse dom podem ser portadores da gratuidade do amor de Deus aos demais.


A alegria de um cristão consiste em entregar-se sem reservas, à missão recebida, sem nada exigir. Basta-lhe a consciência do dever cumprido. A partir desta humildade na fé, tudo quanto façamos, por mais duro e esgotante que seja, resta-nos somente dizer: “Fiz tudo o que devia fazer”. Tudo mais está entregue à benevolência de Deus.


Todos na comunidade, na verdade, somos pobres e simples servos de Deus. São Paulo diz: “Evangelizar não é glória para mim, senão necessidade. Ai de mim se não evangelizar. Eu que, sendo totalmente livre, fiz-me escravo de todos para ganhar a todos...” (1Cor 9,16.19).  Este texto é convite para vestirmos a humildade pois na verdade, pois fazemos muito pouco para Deus no próximo em comparação às bênçãos de Deus que recebemos diariamente.


Com esta parábola, Jesus também quer dizer aos discípulos que o serviço prestado deve ser desinteressado e gratuito. Assim está sendo desmantelada toda pretensão humana que tenta de alguma maneira servir-se de Deus ou condicioná-lo através de uma relação religiosa de tipo contratual ou contabilizável, segundo o modelo farisaico. E esta crítica à religiosidade mercantil e pretensiosa é tanto mais urgente quanto mais na comunidade a função ou o serviço goza de certo prestígio ou de responsabilidade. Não é por acaso que a parábola do servo sem pretensões é dirigida aos discípulos. Todos na comunidade são pobres e simples servos (cf. 1 Cor 9,16.19-23).


Outro cerne dessa parte diz respeito à atitude da pessoa. A atitude arrogante vê Deus muito feliz pelo fato da pessoa realizar o bom serviço. No entanto, a atitude adequada é a de agradecimento por termos privilégio e a oportunidade de servir a Deus. Seja qual for a recompensa que obtivermos por servir a Deus, na verdade, não a merecemos, mas a ganhamos porque Deus é gracioso. Nenhum cristão pode gabar-se diante de Deus (Rm 3,27). Os servos fiéis entendem isso, pelo que prosseguem em seu trabalho para Deus, motivados pelo amor a Deus e não por um senso de importância própria ou cobiça pela recompensa. Deus nos criou e tudo de bom vem dele.  Não podemos, por isso, nos vangloriar de nenhum bem que tenhamos recebido de Deus (cf. Ef 2,8). Todos os nossos méritos provém de Deus. Evita-se assim qualquer autojustificação farisaica. O que temos que fazer diante de tudo isto é agradecer a Deus. Temos que procurar sempre as razões para agradecer a Deus e não os motivos para reclamar que Deus nos esqueceu.


Para chegar até este ponto, para a fé ser viva e atuante, precisamos alimentá-la de diversas formas, todos os dias, sobretudo com a oração, com a reflexão, com a leitura da Palavra de Deus, com a participação na vida da Igreja e com o serviço ao próximo. Sem alimentarmos a nossa fé com tudo isso, ficaremos frágeis e nos tornamos inconstantes.

P. Vitus Gustama,SVD