sábado, 3 de dezembro de 2016

DOMINGO,04/12/2016

O NOSSO SALVADOR VEM NOS DAR A ESPERANÇA

                                       Is 2,1-5; Sl 121; Rm 13,11-14; Mt 24,37-44

Os capítulos 24-25 de Mateus, onde se encontra o nosso texto deste dia, constituem o quinto e o último discurso de Jesus no evangelho de Mateus (o 1º Mt 5,1-7,29: o Sermão da Montanha onde Jesus proclama o Reino dos Céus e suas exigências; o 2º Mt 9,35-10,42: o discurso missionário onde se fala da extensão do Reino dos Céus; o 3º Mt 13,3b-52: o discurso sobre a natureza do Reino dos Céus em parábolas; o 4º Mt 18,3-34: o discurso eclesiológico onde se fala de como viver como uma comunidade que aceita o Reino dos Céus). Para compor este último discurso, Mateus elaborou notavelmente o chamado “discurso escatológico” de Marcos (Mc 13) e o ampliou com uma série de três parábolas e uma impressionante descrição do juízo final (Mt 25,31-46) cuja principal intenção é orientar os cristãos sobre como preparar a segunda vinda do Senhor conhecida como Parusia. 

O vocábulo grego parousia (de páreimi: estar presente, estar , chegar) é originalmente referido tanto para a descida ou manifestação de pessoas divinas na terra (por ocasião de uma festa religiosa ou por uma intervenção milagrosa), quanto para as visitas que reis e príncipes fazem às cidades submetidas ao seu império. O sentido principal do termo na cultura grega é de visita, chegada, advento de um soberano ou de uma divindade que se usa tanto no conceito político quanto religioso. O que sempre se destaca para a parousia é o seu caráter triunfal e glorioso. No NT, o conceito é utilizado para descrever a futura vinda de Cristo, Senhor de tudo e de todos (Pantocrátor) no final dos tempos. Por isso, geralmente a expressão parusia está ligada à idéia de fim do mundo e ao juízo final(cf. 1Ts 4,13-18) como se no evangelho deste domingo. Jesus virá com o poder e a glória para derrotar as potestades do inimigo e glorificar os que agora pertencem a Cristo.


Neste discurso, não se trata, como em Mc, dos sinais que precederam à destruição do templo (70 d. C), mas da vinda do Filho do Homem e das atitudes com que os discípulos devem preparar para essa vinda. A intenção de Mateus é responder à situação que vivia sua comunidade. Por um lado, perceberam que a segunda vinda de Jesus estava se atrasando e diante deles aparecia a história como espaço para o compromisso. Por outro lado, o evangelista contempla com preocupação os sinais de abandono, de negligência,  de rotina e de esfriamento que começaram a aparecer na comunidade. Nessa situação Mt descobriu que aquelas palavras de Jesus contém uma exortação dirigida aos cristãos que se fundamenta numa profunda convicção: a vinda do Filho do Homem é um fato certo, no entanto, não se sucederá em seguida. Por isso, é necessário preparar esse grande acontecimento vivendo segundo os ensinamentos de Jesus.

O estilo e as imagens desses capítulos podem provocar temor. Trata-se, porém, de uma forma de falar que era relativamente freqüente entre alguns grupos judios e cristãos da época de Jesus. Esta linguagem se conhece com o nome de apocalíptico, porque seu objetivo é manifestar uma revelação escondida(apocalypsis) com a seguinte idéia básica: o mundo não é eterno, terá fim juntamente com a humanidade à qual Deus oferece a sua salvação em Jesus Cristo cuja finalidade catequética é salientar a urgência da vigilância ativa. Este estilo de discurso quer recordar ao homem a sua condição finita não para levá-lo ao desespero e ao desânimo, mas para convidá-lo a uma conversão pessoal e comunitária. Em muitas ocasiões esta revelação está dirigida a grupos e comunidades que vivem uma situação de perseguição, com o objetivo de animá-los em suas tribulações. Por isso, não tem que ver neste texto uma ameaça, mas sim uma mensagem de esperança.

Aprofundemos nossa meditação sobre alguns pontos do texto! Mt 24,37-44

1. A vinda certa de Deus, porém imprevisível é a grande mensagem do Natal para o qual nos preparamos

Este Primeiro Domingo do Advento quer nos recordar o horizonte último da história, que se identifica com a vinda do Filho do Homem, Jesus Cristo. O texto reflete sobre uma concepção da história queresposta a uma pergunta existencial. A pergunta existencial indaga pelo sentido da história humana: “Para onde caminha o ser humano?”. O texto responde a esta pergunta afirmando que a história humana termina em uma peripécia (para um previsto), cujo protagonista é Deus. O texto quer nos dizer que tudo termina em Jesus Cristo, Deus-Conosco. Por esta razão, a história para o cristão continua sendo, desde o princípio ao fim, uma história de salvação. A vida do mundo, como nossa própria existência se verão expandidas por este encontro definitivo para o qual caminhamos. O ser humano vive sob o pólo de atração de Deus, que em um momento humanamente imprevisível, porém, certo, fará uma mudança repentina da atual situação ou da condição humana. Por isso, o texto quer inculcar a consciência desta peripécia universal, convidando todos a evitarem a atitude inconsciente de que nada muda nem pode mudar.

A vinda deste Deus em Jesus Cristo é imprevisível para nossa história, porém certa. Ele não cessa de estar presente no mundo de um modo muitas vezes impalpável e discreto, porém, seguro, como nos diz o Evangelho deste dia.  Cremos que Jesus se faz presente no mundo com uma presença real, ainda que seja discreta e misteriosa. Ele vem como ladrão, mas não para roubar e sim para nos resgatar. Pode-se dizer que trata-se de “ladrão” de corações. No fim dos tempos esta presença aparecerá no grande dia e não teremos que crer nele, pois O veremos. Neste dia estaremos inundados pela felicidade completa. Deus é aquele que logo nos mostra o final da história a partir daquilo que vivemos.

2. Advento é uma grande celebração da esperança crista        

Por tudo que foi dito acima, o Advento é a celebração da esperança cristã. Esperar é situar-se em estado de receptividade que é acompanhada pela esperança. A vinda salvadora de Deus, embora imprevisível, é a grande mensagem do Natal ao que nos preparamos. Deus, em Jesus Cristo, é a raiz da verdadeira esperança humana. A esperança cristã é segura, pois Deus sempre faz possível nossa vida de amor e de paz. Não sabemos o que passará amanhã ou com que mundo as próximas gerações se encontrarão, ou como encararemos problemas terríveis e insolúveis, mas nós cremos que Deus continua sendo fiel e hoje, amanhã e para sempre move ao amor e à paz. É a força do Advento cristão em nosso mundo. A Palavra de Deus não é uma ameaça e sim um anúncio alegre e uma promessa. Deus vem não para nos ameaçar, mas para nos dar promessa. Cada visita de Deus é uma libertação. E a esperança cristã deve ser resposta à promessa e à visita de Deus.

Por isso, essa segunda vinda do Senhor não é para criar o medo em cada um de nós porque sabemos que Deus nos ama e cremos firmemente no Seu amor. E o encontro de duas pessoas que se amam traz a alegria, a felicidade e a paz. E quando duas pessoas se amam profundamente o tempo aparentemente fica parado. Quando perdemos a noção de tempo, por causa deste amor, isto pode se chamar de eternidade ou Paraíso. O encontro com o Senhor é sempre o encontro de amor que nos deixa a paz, a felicidade e a libertação.

Mas quando convertermos o processo religioso da espera em algo comercial que logo pode converter-se em qualquer coisa, passamos, em verdade, a nada esperar, pois transformamos a esperança cristã em uma palavra vazia que, precisamente por isso, segue a lei do vazio de deixar-se preencher por outras esperanças caducas.

O Advento celebra o “Deus da esperança” (Rm 15,13) e vive a alegre esperança. O homem de esperança sempre acredita que tudo pode. Nesse “poder” há força. A esperança sempre repousa num poder que possibilita a transformação da existência. O canto que caracteriza o Advento é o do Salmo 25(24),1-3: “A ti, Senhor, eu me elevo, ó meu deus. Eu confio em Ti....pois os que esperam em Ti não ficam envergonhados” (Antífona da Entrada). Somente uma atitude de nos pode descobrir o sentido da história, e somente uma atitude de vigilância nos pode ajudar a viver, conseqüentemente, em um clima de espera e esperança. A esperança é vigilante e austera.

3. A vinda salvadora de Deus que é imprevisível nos leva a estarmos preparados e vigilantes

         “Ficai atentos! Porque não sabeis em que dia o Senhor virá” (Mt 24,42)


A imprevisão intencionada da vinda de Deus provoca a vigilância de nossa parte. Por esta razão toda a dinâmica do texto está em caminhada para o fator de surpresa. Daí o convite a estarmos vigilantes e estar preparados, duas expressões equivalentes, pertencentes ao campo da atenção e cujo oposto é a despreocupação. Entre ambos convites em imperativo: “ficai atentos” (M 24,42) há uma constatação em indicativo: “compreendei bem isso...” (Mt 24,43). Sublinha-se, então, a importância do que está em jogo: a nossa salvação e, por isso, constitui uma chamada à seriedade de vivermos sempre reconciliados com Deus e com o próximo. O cristão é um homem atento, desperto e lutador.

Vigiar significa escutar Deus e os demais sem viver com demasiadas seguranças humanas; olhar para os que sofrem sem passar adiante; trabalhar para levar o diálogo e a paz. O cristão, filho da luz (1Ts 5,4-8) não pode se alienar. Sua , sua esperança e sua caridade têm de ser vivas e dar seus frutos: bondade, justiça e verdade: “... sois luz no Senhor: andai como filhos da luz, pois o fruto da luz consiste em toda bondade e justiça e verdade” (Ef 5,8-9). As obras das trevas têm de ser denunciadas: “Procurai discernir o que é agradável ao Senhor e não sejais participantes das obras infrutuosas das trevas, antes denuncia-as...” (Ef 5,10-11; leia o resto do texto). Sua arma será sempre a Palavra de Deus: “Tomai o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus” (Ef 6,17).  A verdade e a justiça necessitam ser defendidas em cada instante; o amor e a solidariedade não podem descansar. Estar vigilante equivale a não pôr limite ao amor; a não deixar que nos distraiamos de nosso objetivo como cristãos; a estar sempre atentos para descobrir e lutar contra o que impede a fraternidade e apoiar com todas as nossas forças o que a favorece. Quem vive gloriosamente a vida, a possui e é possuído pro ela. Estar vigilante significa mover-se, manter-se ocupados em realizar o bem comum. A vigilância é o caminho de doação e não o da conservação:Aquele que acha a sua vida, vai perdê-la, mas quem perde a sua vida por causa de mim, vai achá-la”, diz o Senhor (Mt 10,39). Vigiar é preparar a casa e os caminhos para o homem novo; é descobrir a tarefa a realizar; é descobrir onde o Senhor está nascendo; é caminhar para Belém, onde uma família busca lugar para descansar, onde um imigrante pede trabalho, onde um esquecido necessita de uma presença, onde um pobre quer comer, onde todos os homens urgem amor. Vigiar é escutar a Palavra, ler em profundidade os acontecimentos, penetrar no mistério da pessoa e da história, captar a noção do Espírito de Deus. vigiar é crer, é comprometer-se. A Palavra de Deus sempre nos sacode, pois em todos os acontecimentosanúncios de salvação que temos que descobrir. A vigilância consiste em discernir os sinais dos tempos para reconhecer a presença de Deus e do seu reino nos acontecimentos. Cada cristão precisa estar vigilante não para esconder-se, mas para sair ao encontro do seu Salvador, Jesus Cristo.   

Vigiar é uma postura ativa, alerta para continuar com as tarefas cotidianas dentro da vontade de Deus, pois o julgamento de Deus acontece no cotidiano sem sinais espetaculares. A este julgamento ninguém pode escapar. A vigilância nos leva a reconhecermos a nossa condição de mortal. A consciência de mortalidade nos impede que supervalorizemos os bens terrenos, julgando encontrar neles segurança e salvação. A supervalorização dos bens terrenos é uma atitude indigna de um cristão. A vigilância exige desapego, partilha, relativização dos bens terrenos, de modo que o nosso coração fique totalmente disponível para Deus. A vigilância é a disponibilidade para a vinda do Senhor diariamente nos acontecimentos cotidianos dos homens. A vigilância nos leva a colocarmos em segundo lugar o quando, o como e o onde do dia do Senhor. O que importa é estarmos preparados. A chamada de Cristo ao seu seguimento requer uma disponibilidade total, vivendo desinstalados e desprendidos de tudo que se possui e usa. Vigiamos porque a não é um estado ou situação dada de uma vez por todas, mas uma vida e um processo de permanente evolução para responder, em cada instante, à Palavra de Deus que nos anuncia sua vinda. A Palavra de Deus nos recomenda que vivamos alertados para poder responder adequadamente aos sinais dos tempos através dos quais Deus nos fala. A Palavra de Deus permanecerá como luz segura para instruir os caminhos dos homens. Será como fogueira para aquecer os corações dos homens. Será um livro para saciar as mentes dos homens.

É preciso esperar a chegada do Senhor com humildade. Ser humilde significa aceitar a parte terrena que todos temos; significa descer, buscar e encontrar tudo o que somos, aceitando-nos tal e como somos. Quando o coração se faz humilde, ele é capaz de amar em abundância. Ser humilde é deixar a luz de Deus entrar no nosso coração para fazer desaparecer os maus sentimentos que produzem nossas misérias. Nunca serei compassivo, se eu não admitir minha dureza interior. Nunca chegarei a ser criativo, se eu não for capaz de reconhecer toda a minha mesquinhez que se esconde no meu coração. “Humildade é a honesta confissão do ser pecador. É melhor um pecador humilde que um beato orgulhoso” (Sto. Agostinho).

        “Eu amo a Jesus que nos diz: Céu e terra passarão.
         Quando céu e terra passarem, minha palavra ficará.
         Qual foi, Jesus, Tua palavra?
         Amor? Perdão? Caridade?
        Todas Tuas palavras foram uma palavra: Vigiai”. (Machado de Assis)

O cristão ideal não vive mergulhado nos prazeres que alienam, nem se deixa sufocar pelo trabalho excessivo, nem adormece numa passividade que lhe rouba as oportunidades. O cristão ideal está, em cada minuto que passa, atento e vigilante, acolhendo o Senhor que vem de várias maneiras em sua vida, respondendo aos desafios, cumprindo sua missão, empenhando-se na construção de um mundo mais fraterno.
 

4. A pessoa do meu lado, como eu, permanece misteriosa antes do julgamento final


 Dois homens estarão trabalhando no campo: um será levado e o outro será deixado. Duas mulheres estarão moendo no moinho: uma será levada e a outra será deixada. Assim acontecerá na vinda do Filho do Homem” (Mt 24,40-41.39b).

Relata-se aqui, neste texto, que um será tomado, o outro será deixado. Há dois verbos usados aqui: “tomar” e “deixar”. Os dois verbos são os verbos que se referem ao julgamento final. O verbotomar” (cf. Mt 2,13.14.20.21) indica salvação do perigo. Em Mt 20,17; 26,37 o sujeito do verbotomar” é o próprio Jesus e os discípulos são seu objeto. O verbodeixar” indica julgamento ou a exclusão da salvação (cf. Mt 23,38; 24,2). O texto quer nos dizer que o julgamento divino nos detém no ponto em que nos encontramos no relacionamento com Deus e com os homens: ódio e amor, bondade e malícia, egoísmo e generosidade ficam imobilizados no instante em que cessa a nossa vida. O encontro derradeiro com Deus será de alegria (será tomado) ou de infinito desespero (será deixado) conforme o sentido que cada um tiver dado à própria existência.

Quem será tomado? É o justo que vive e pratica o amor fraterno (cf. Mt 25,34-40). Quem será deixado? É o injusto que não tem a vivência do amor fraterno (cf. Mt 25,41-46).


Dois homens estarão trabalhando no campo: um será levado e o outro será deixado. Duas mulheres estarão moendo no moinho: uma será levada e a outra será deixada” (vv.40-41). Esta imagem nos apresenta como uma grande interrogação para a consciência cristã. Primeiramente, porque o texto da Bíblia mostra que o juízo de Deus tem em si uma real dimensão de surpresa. Existe em mim o que será tomado e eternamente conservado por Deus? Ou toda a minha vida será deixada e dolorosamente destruída? O homem ou a mulher ao meu lado, a mulher ou o homem que passa à minha frente, quem são eles? Quem poderá afirmar com segurança que será levado/eleito ou deixado/abandonado? A palavra de Jesus é tão grave, tão franca, que nos coloca perante a real possibilidade duma perdição eterna. Ninguém sabe quem é no pensamento de Deus, o seu próximo, que está ao seu lado. A vigilância é, por isso, tão importante que é dela que depende de a sorte, de perdição ou de salvação que vai tocar a cada indivíduo.

 

P. Vitus Gustama,svd




sábado, 26 de novembro de 2016





ESTAR VIGILANTE E PREPARADO PARA A VINDA DO SENHOR

 

I DOMINGO DO ADVENTO DO “ANO A”

 

Texto de Leitura: Mt 24,37-44

 

Naquele tempo, Jesus disse aos seus discípulos: 37 “A vinda do Filho do Homem será como no tempo de Noé. 38 Pois nos dias, antes do dilúvio, todos comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca. 39 E eles nada perceberam, até que veio o dilúvio e arrastou a todos. Assim acontecerá também na vinda do Filho do Homem. 40 Dois homens estarão trabalhando no campo: um será levado e o outro será deixado. 41 Duas mulheres estarão moendo no moinho: uma será levada e a outra será deixada. 42 Portanto, ficai atentos, porque não sabeis em que dia virá o Senhor. 43 Compreendei bem isto: se o dono da casa soubesse a que horas viria o ladrão, certamente vigiaria e não deixaria que a sua casa fosse arrombada. 44 Por isso, também vós ficai preparados! Porque, na hora em que menos pensais, o Filho do Homem virá”.

____________

 

Com este primeiro domingo do Advento começamos o Ano Novo na liturgia: Ano A durante o qual refletimos sobre as mensagens do Evangelho de Mateus. Cada Ano Novo litúrgico começa no primeiro domingo do Advento e termina na festa de Cristo, Rei do Universo (XXXIV Domingo do Tempo Comum).

 

Antes de refletirmos sobre o texto do evangelho deste primeiro domingo, vamos olhar um pouco para o Tempo do Advento e seu sentido.

 

SENTIDO DO ADVENTO

 

O termo “Adventus” é tirado do vocabulário pagão que significa “chegada, vinda; aniversário de uma chegada, de uma vinda. O tempo do Advento possui dupla característica:

 

  • Um tempo de preparação para as solenidades do Natal, em que se comemora a primeira vinda do Filho de Deus entre os homens: Deus se doa totalmente. É uma festa de doação total. Natal não é presente que você compra, não é luzes luminosas, não é árvore, mas doar-se uns aos outros. Plante árvore no seu coração onde você possa pendurar, em vez de cartões, os nomes das pessoas próximas e distantes, os que você ama bastante e os que você ainda não ama bastante, os que não o amam etc..
     
  • Um tempo em que, por meio desta lembrança, voltam-se os nossos corações para a expectativa da segunda vinda de Cristo(parusia) no fim dos tempos. Por este duplo motivo, o tempo do Advento se apresenta como um tempo de piedosa e alegre expectativa.
              
    Em relação a esta dupla característica todos nós somos chamados a viver algumas atitudes essenciais:
     

  • A atitude da espera vigilante: Por que espera ? Porque o Deus da revelação é o Deus da promessa que em Cristo manifestou toda a sua fidelidade. Ele prometeu e cumpriu porque Ele é fiel a si mesmo. O próprio nome dele é fidelidade. Esta atitude deve ser acompanhada pela vigilância. Vigiar é ser capaz de detectar tudo quanto possa desviar nossa atenção de nosso fim, de nossa meta, acabando por nos afastar dos caminhos de Deus; colocar-se em contínua ligação com Deus de Quem recebemos luz, força, consolo e firmeza.
     
  • A esperança: O Advento celebra o Deus da esperança e vive a alegre esperança(Rm 5,13; 8,24s). A esperança é a característica dos que crêem em Deus independentemente das circunstâncias. A esperança é aquela atitude que olha, primordialmente, o ser das coisas e o agir humano, o bom; descobrir no negativo o que há de positivo; transforma cada sofrimento em crescimento. Como diz um dito popular: Não se queixe de que as rosas têm espinhos, porque há consolo em pensar que até entre os espinhos há rosas. Esta possibilidade nos permite que nos tornemos esperançosos. O motivo profundo de nossa esperança é este: Deus vem nos salvar(Sl 84).
     
  • Conversão: O Deus que entra na nossa história põe em causa cada um de nós. Questiona a nossa vida: atos e atitudes, critérios e visão sobre todas as coisas. Ele nos chama ao bem, a Ele e aos próximos. Que esta conversão seja sincera: passa do coração às obras e isto acontece durante a vida inteira de um cristão; é uma tarefa silenciosa de cada dia.
     
    LITURGIA DO ADVENTO
              
    O conteúdo das leituras bíblicas, sobretudo do Evangelho, focaliza para cada domingo do Advento um tema específico:
     

  • 1º Domingo: A vigilância na espera do Senhor. O primeiro domingo anuncia o retorno do Senhor (O dia está próximo: Ano A; quando vier, tudo será restaurado, o universo e cada um de nós: Ano B; É preciso vigiar e estar pronto para comparecer de pé diante do Filho do Homem, a justiça será instaurada no fim dos tempos: Ano C).
     
  • 2º Domingo: convite para a conversão. Se o Reino de Deus está próximo, é necessário preparar os caminhos: conversão. É o tema específico do II Domingo do Advento. O Espírito está sobre o Senhor e nele as promessas são confirmadas (Ano A). Preparar os caminhos significa preparar um mundo novo, uma terra nova(Ano B). Devemos saber ver a salvação de Deus, cobrir-nos com o manto da justiça e revestir-nos do esplendor da Glória do Senhor (Ano C).
     
  • 3º Domingo: o testemunho dado a Jesus pelo Precursor (João Batista). O III domingo apresenta os tempos messiânicos. Deus vem salvar-nos, a sua vinda está próxima, as curas são o sinal da sua presença (Ano A). No meio de nós está alguém que não conhecemos. Exultamos pela presença de quem está marcado pelo Espírito (Ano B). Um mais poderoso que João Batista deve chegar. Já está aqui. É este o tempo de fraternidade e da justiça (Ano C).
     
  • 4º Domingo: o anúncio do nascimento de Jesus. No quarto domingo todos os textos são de caráter mariano: destacam-se a relação e a cooperação de Maria no mistério da redenção. José foi pre-advertido. Uma virgem conceberá o Filho de Deus, Jesus Cristo, da descendência de Davi (Ano A). A notícia é comunicada a Maria (Ano B). Ele vem para cumprir a vontade de Deus (Ano C).
     
    PARA REFLETIR
              
    “Uma menina estava fazendo suas orações algumas noites antes do Natal. Repentinamente ela parou e perguntou à sua mãe sobre um problema que a fez preocupada: ‘O que estamos dando de presente a Deus neste Natal? O que é que Deus quer, realmente, neste Natal?’ Sorrimos, mas esta é a grande questão. Será que Deus está na lista do seu Natal?” (Frank Mihalic,SVD: 1000 Stories You Can Use vol.1)
              
    O Advento coincide com o lançamento comercial da “operação natal”. Os comerciantes se preocupam mais em vender mais e os consumidores se preocupam com um melhor presente para alguém. Justamente, por isso, deve comprometer-se a transmitir os valores e as atitudes que estejam de acordo com a visão escatológica transcendental desta vida. O Advento, com sua mensagem de espera e de esperança diante da vinda do Senhor, deve formar comunidades cristãs e crentes que se proponham como sinais alternativos para uma sociedade em que as áreas do desespero parecem mais vastas do que as da fome. A dimensão escatológica desta vida não deve diminuir, mas aumentar cada vez mais o compromisso e a responsabilidade da parte que se declaram cristãos através do serviço aos homens prestado aqui na terra.
     
    REFLETIR SOBRE O EVANGELHO DESTE DOMINGO: Mt 24,37-44
     
    Os capítulos 24-25 de Mateus (Mt 23 faz uma retrospectiva e a ruptura com o judaísmo), onde se encontra o nosso texto deste domingo, constituem o quinto e último grande discurso de Jesus no evangelho de Mateus (o 1º Mt 5,1-7,29: o Sermão da Montanha onde Jesus proclama o Reino dos Céus e suas exigências; o 2º Mt 9,35-10,42: o discurso missionário; o 3º Mt 13,3b-52: o discurso sobre a natureza do Reino dos Céus em parábolas; o 4º Mt 18,3-34: o discurso eclesiológico onde se fala de como viver como uma comunidade que aceita o Reino dos Céus). Para compor este último discurso, Mateus elaborou notavelmente o chamado “discurso escatológico” de Marcos (Mc 13) e o ampliou com uma série de três parábolas e uma impressionante descrição do juízo final cuja principal intenção é orientar os cristãos sobre como devem preparar a Segunda Vinda do Senhor (Parusia).
              
    Neste discurso, fala-se da vinda do Filho do Homem e das atitudes com que os discípulos devem preparar para essa vinda. A intenção de Mateus é responder à situação que vivia sua comunidade. Por um lado, os membros da comunidade de Mateus perceberam que a segunda vinda do Senhor estava se atrasando. Mas diante deles aparecia a história como espaço para o compromisso. Por outro lado, o evangelista contempla com preocupação os sinais de abandono, de negligência, de rotina e de esfriamento que começaram a aparecer na comunidade. Nessa situação Mt descobriu que aquelas palavras de Jesus contém uma exortação dirigida aos cristãos que se fundamenta numa profunda convicção: a vinda do Filho do Homem é um fato certo, no entanto, não se sucederá em seguida. Por isso, é necessário preparar esse grande acontecimento vivendo segundo os ensinamentos de Jesus.
              
    O estilo e as imagens desses capítulos podem provocar temor. Trata-se, porém, de uma forma de falar que era relativamente freqüente entre alguns grupos judeus e cristãos da época de Jesus. Esta linguagem se conhece com o nome de apocalíptico, porque seu objetivo é manifestar uma revelação escondida (apocalypsis). Em muitas ocasiões esta revelação está dirigida a grupos e comunidades que vivem uma situação de perseguição, com o objetivo de animá-los em suas tribulações. Por isso, não tem que ver neste texto uma ameaça, mas sim uma mensagem de esperança.
              
    Depois de descrever os sinais que precederam a vinda do Filho do Homem (Mt 24,4-35), Jesus responde a outra pergunta acerca do momento de sua vinda (24,3). A resposta é bem clara: ninguém sabe, somente o Pai. Ante esse desconhecimento do dia e da hora, a única atitude possível é a espera vigilante (v.42) e estar preparado (v.44).
              
    A espera do Advento é pura esperança. Espera-se Aquele que já está presente. Procura-se Aquele que deseja ser encontrado. A atitude da espera caracteriza o cristão porque o Deus da revelação é o Deus da promessa que em Cristo manifestou toda a sua fidelidade. Tudo o que Deus prometeu através da boca dos profetas se cumpriu em Jesus Cristo feito homem. Neste sentido o outro nome de Deus é FIDELIDADE. E todo o caminho de fidelidade é sempre o caminho de felicidade.
              
    Mas esta atitude de espera tem sua característica vigilante (vv.42-44). Vigiar é ser capaz de detectar tudo quanto possa desviar nossa atenção do fim almejado, acabando por nos afastar dos caminhos de Deus.  Inclusive ser vigilante no falar e nos comentários: o que deve-se falar, o que não deve; no agir; no pensar , no julgar e assim por diante. A vigilância tem a ver com a construção do Reino de Deus na terra. Tem a ver com os pecados que devem ser superados e as virtudes que devem ser vividas. Tem a ver com a prevalência dos critérios divinos cada vez que eu confrontá-los com os meus.  A vigilância nos leva à idéia de estar acordado, atento e pronto para agir, seja para construir uma obra de bem, seja para combater uma obra má. Sabemos que os atrativos e prazeres passageiros do mundo, o acúmulo exagerado dos bens materiais e a liberação dos instintos egoístas são todos elementos que corrompem o coração humano, impedindo-o de se preparar para o encontro com o Senhor. O homem que fica preocupado demais com viver e gozar o presente, acaba esquecendo, muitas vezes, a dimensão futura da vida. Este é, certamente, o problema da geração do dilúvio (vv.37-39): ela é tão imersa na vida do prazer desenfreado a ponto de ficar cega diante do desastre iminente do dilúvio. A maior crise é não reconhecer crise.
              
    Ao mesmo tempo somos chamados a lembrar Noé nesse dilúvio. Lembrar Noé é alimentar a esperança de que a salvação é possível. Noé constrói um barco quando não há ainda sinal de chuva, confiando na voz de Deus na sua consciência. Ele não constrói o barco só para si, mas para os outros também. Ainda hoje, seguir a voz de Deus é alimentar a esperança da salvação no meio de qualquer tipo de ameaça. Mas como Noé, deve-se produzir um espaço de salvação onde outros podem e possam se abrigar. Onde há amor, todo mundo tem lugar. Ninguém será agressivo, quando cada um tiver espaço.
              
    A vinda de Cristo é certa mas o momento exato dessa vinda é incerto. Mas devemos estar conscientes de que a vinda de Jesus é luz que afugenta as trevas de nossos corações, é purificação de nossos pecados. Por isso mesmo é motivo de alegria e nos alcança bens para a vida presente e a futura. Para isso, é necessário cada cristão ter a atitude de abertura e de vigilância. Por isso, quem cochila, quem para de se colocar em contínua ligação com Deus de quem recebemos luz e força, acaba caindo na armadilha para pegar os incautos. Só os vigilantes conseguem afastar-se das investidas do maligno.
              
    Além disso, o que nos chama a atenção é a afirmação de Jesus neste discurso: ”Dois homens estarão trabalhando no campo: um será levado e o outro será deixado. Duas mulheres estarão moendo no moinho: uma será levada e a outra será deixada” (vv.40-41). Esta imagem nos apresenta como uma grande interrogação para a consciência cristã. Primeiramente, porque o texto da Bíblia mostra que o juízo de Deus tem em si uma real dimensão de surpresa. Existe em mim o que será tomado e eternamente conservado por Deus? Ou toda a minha vida será deixada e dolorosamente destruída? O homem ou a mulher ao meu lado, a mulher ou o homem que passa à minha frente, quem são eles? Quem poderá afirmar com segurança que será levado/eleito ou deixado/abandonado? A palavra de Jesus é tão grave, tão franca, que nos coloca perante a real possibilidade duma perdição eterna. Ninguém sabe quem é no pensamento de Deus, o seu próximo, que está ao seu lado. A vigilância é, por isso, tão importante que é dela que depende de a sorte, de perdição ou de salvação que vai tocar a cada indivíduo.
              
    O sinônimo da vigilância é a atenção. Atenção é um comportamento vigilante do eu sobre os outros porque os outros têm os mesmos sentimentos como eu; atenção é uma transparência de olhar, uma prontidão em notar sinais de sofrimento em volta de si, um doar-se; é a capacidade,antecipadamente, o que os outros podem sentir. Desatenção é, ao contrário, fazer observação pungente, sem pensar que alguém ao redor poderá se ferir; desatenção é não se dar conta do que acontece com os outros. São tantas as desatenções que ferem e destroem as mais belas amizades, que criam incompreensões nas famílias, noivos e esposos. Ao contrário, quantos gestos de atenção reconciliam e reparam, entrelaçam relações de paz. Atenção é um estremecer assustado do coração toda vez que se viola a delicadeza, o respeito, o cuidado devido às  pessoas. Atenção é evitar fumar quando isto causa fastio aos outros. É saber tomar a devida distância de si e dos acontecimentos para entender o que acontece. Atenção é, portanto, amor verdadeiro, delicado, desinteressado, previdente. A atenção é uma qualidade humana necessária e preliminar no caminho espiritual. A atenção é uma graça que se pede e procura com meios adequados: estes não são somente a tensão do espírito, mas também a oração insistente, a prudência de vida etc.
              
    O Advento, por conseguinte, celebra o “Deus da esperança”(Rm 15,13) e vive a alegre esperança. O homem de esperança sempre acredita que tudo pode. Nesse “poder” há força. A esperança sempre repousa num poder que possibilita a transformação da existência. O canto que caracteriza o Advento é o do Salmo 25: “A ti, Senhor, eu me elevo. Eu confio em Ti....pois os que esperam em Ti não ficam envergonhados”.
              
    O conteúdo de toda esperança é sempre a busca de libertação. Não se quer mudar pelo prazer de mudar. O que o homem espera é “mudar de vida”, ou antes, transformar as condições inumanas da existência humana. Não se pode dizer que há esperança, quando não se aspira a transformar uma situação de servidão mais ou menos intolerável. Libertar-se para viver vida verdadeiramente humana. Esperar é voltar-se para o futuro, é recusar-se a ser bloqueado pelo imediato, resignando-se ao presente, às insuficiências do agora.
              
    Jesus revela que o verdadeiro poder é uma presença, a presença de um amor, cuja força, o Espírito Santo, é capaz de atender as aspirações da esperança, transformando a humanidade inteira e libertando-a plenamente. E Jesus Cristo é o poder de nossos poderes, a iniciativa de nossas iniciativas. Por isso, “tudo posso em Jesus Cristo que me fortalece” (Fl 4,13).
              
    Mas o Deus que entra na história põe em causa o homem, questiona-o. Por isso, a vinda de Deus em Cristo requer contínua conversão: a novidade do Evangelho é luz que exige despertar pronto e decidido do sono, como diz São Paulo na segunda leitura deste domingo. O tempo do Advento é o convite a deixar as trevas e ser iluminados pela luz de Jesus Cristo. As palavras de São Paulo, na verdade, são um convite para a esperança, para não deixar-se levar pelo desânimo, como acontece conosco freqüentemente. Se abrirmos melhor nossos olhos, descobriremos também os sinais luminosos de um mundo novo, de uma vida nova que já começou em Jesus Cristo.
              
    O que Jesus quer dizer no Evangelho é que ele vem continuamente para salvar-nos e trazer-nos felicidade, mas temos que estar acordados e atentos para perceber cada vinda sua. Não importa tanto se o dia de amanhã será o último; importa que seja um dia repleto de eternidade. Todos os dias “tocamos o final dos tempos” (1Cor 10,11). Os acontecimentos da vida são tanto de Deus quanto nossos. Nossa vida, a cada instante, é julgada pela presença crescente de Deus em nós.
     
P. Vitus Gustama,svd