terça-feira, 3 de janeiro de 2017

 09/01/2017
 

BATISMO DO SENHOR E O NOSSO BATISMO

      

Primeira Leitura: Is 42,1-4.6-7
 
Assim fala o Senhor: 1“Eis o meu servo eu o recebo; eis o meu eleito nele se compraz minh’alma; pus meu espírito sobre ele, ele promoverá o julgamento das nações. 2Ele não clama nem levanta a voz, nem se faz ouvir pelas ruas. 3Não quebra uma cana rachada nem apaga um pavio que ainda fumega; mas promoverá o julgamento para obter a verdade. 4Não esmorecerá nem se deixará abater, enquanto não estabelecer a justiça na terra; os países distantes esperam seus ensinamentos. 6Eu, o Senhor, te chamei para a justiça e te tomei pela mão; eu te formei e te constituí como o centro de aliança do povo, luz das nações, 7para abrires os olhos dos cegos, tirar os cativos da prisão, livrar do cárcere os que vivem nas trevas”.
 
Segunda Leitura : At 10,34-38
Naqueles dias, 34Pedro tomou a palavra e disse: “De fato, estou compreendendo que Deus não faz distinção entre as pessoas. 35Pelo contrário, ele aceita quem o teme e pratica a justiça, qualquer que seja a nação a que pertença. 36Deus enviou sua palavra aos israelitas e lhes anunciou a Boa-Nova da paz, por meio de Jesus Cristo, que é o Senhor de todos. 37Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do batismo pregado por João: 38como Jesus de Nazaré foi ungido por Deus com o Espírito Santo e com poder. Ele andou por toda a parte, fazendo o bem e curando a todos os que estavam dominados pelo demônio; porque Deus estava com ele.
 
Evangelho: Mt 3,13-17
Naquele tempo, 13Jesus veio da Galileia para o rio Jordão, a fim de se encontrar com João e ser batizado por ele. 14Mas João protestou, dizendo: “Eu preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?” 15Jesus, porém, respondeu-lhe: “Por enquanto deixa como está, porque nós devemos cumprir toda a justiça!” E João concordou. 16Depois de ser batizado, Jesus saiu logo da água. Então o céu se abriu e Jesus viu o Espírito de Deus, descendo como pomba e vindo pousar sobre ele. 17E do céu veio uma voz que dizia: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus o meu agrado”.
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1. Batismo De Jesus É A Manifestação De Deus Que Identifica A Pessoa E A Missão De Jesus

O Batismo de Jesus é um momento de tomada de consciência do homem Jesus da missão que o Pai lhe confia. E através desta cena o evangelho quer nos dizer hoje que Jesus é o homem cheio do Espírito Santo e por isso, ele está em plena condição de manifestar e de comunicar o Deus Pai que é Amor, pois Jesus é chamado de “meu Filho muito amado em quem coloco meu amor”. Quando descrevem o Batismo de Jesus, os evangelistas querem deixar bem claro desde o início do seu evangelho que Jesus, o protagonista das páginas que vão seguir, é um homem cheio do Espírito de Deus que lhe faz invocar a Deus como Pai e lhe urge ao serviço dos irmãos necessitados. Aquele menino divino cujo nascimento celebramos durante os dias de Natal-Epifania é um homem que vem revelar e realizar a vontade de Deus que nos ama. Por isso, é ungido com o Espírito de Deus. Durante todos os domingos do ano (pode também diariamente) escutaremos sua Palavra para seguir seu caminho. Ele é o homem cheio do Espírito Santo que nos revela o amor de Deus para a humanidade. Tomada de consciência na qual indubitavelmente influencia a pregação de João Batista e a espera messiânica dos “pobres de Israel”. Esta manifestação acontecerá progressivamente através da Transfiguração, da Paixão com a afirmação diante do Sinédrio.

Também nosso batismo-confirmação tem um aspecto de tomada de consciência do amor gratuito de Deus, da doação do Espírito divino que nos impulsiona a realizar uma missão também messiânica de viver e de comunicar o amor a Deus, continuando o caminho de Jesus. No Antigo Testamento o ungido é o leito de Deus, o enviado, o designado para levar a término uma missão salvadora. Abrir-se ao Espírito de Deus é acolher humildemente a presença criadora e renovadora de Deus em nós. É deixar-se purificar e modelar pelo Espírito que animou toda a atuação de Jesus. É viver da a experiência de um Amor que nos envolve e nos faz invocar a Deus como Pai e nos faz próximos (irmãos) dos demais homens e nos faz viver no amor, na alegria, na paz, na tolerância, no agrado, na generosidade, na lealdade, na simplicidade e no domínio de si mesmo (cf. 1Cor 12,6-11). Pelo Batismo e pela confirmação (que formam a unidade sacramental da vida cristã juntamente com a eucaristia) nos convertem emapóstolos”, enviados. Recebemos de Cristo e com Ele a missão de sair de nós mesmos fazendo o bem por todas as partes. O Batismo, com efeito, não é apenas um sinal de nossa pertença à família de Deus, mas também é a missão de tornar realidade ou de torna carne, através de nós, o amor de Deus para os demais. Por isso, o cristão não se define apenas pelo que se diz, mas principalmente pelo que se faz. Em outras palavras pode-se dizer que o Batismo é o caminho que começa pela iniciativa de Deus através da Sua encarnação em Jesus Cristo, Deus-feito-amor, mas a atuação do homem deve ser resposta coerente com este amor de Deus, amando os demais. Viver o batismo é o desafio de cada dia. O Batismo é o fundamento da chamada à santidade, o fundamento do dever e direito a viver o cultoem espírito e em verdade”.

2. Ser Batizado Em Cristo É Ser Parecido Com Cristo

No Batismo de Jesus a voz de Deus se faz ouvir: “Tu és meu Filho muito amado!” ouTu és meu Filho muito amado!”. O batismo de Jesus prefigura o nosso batismo, no sentido de que, assim como naquele momento o Pai certifica a filiação divina de Jesus ungindo-o com o Espírito antes de iniciar sua missão, também nós, no Batismo, somos consagrados filhos de Deus em Jesus Cristo pelo Espírito Santo. Nós, batizados, devemos manifestar em qualquer circunstância que somos filhos de Deus, ungidos com o Espírito novo, que vence toda covardia e egoísmo. Através do Batismo participamos da filiação divina através de Jesus Cristo em quem acreditamos. Somos filhos no Filho. Nós somos da mesma família de Cristo. Por isso, hoje, como no dia de nosso Batismo, também se faz ouvir a mesma voz de Deus: “Tu és meu filho muito amado!”. Ninguém pode esquecer-se de que é filho amado ou filha amada do Pai independentemente da situação em que se encontra. Saber-se amado do Pai é a maior força contra qualquer dificuldade na vida: solidão, abandono, problemas de vários tipos e assim por diante. Uma das enfermidades descobertas pela psicologia e pela psiquiatria atuais é a crise de identidade pessoal. Esta crise surge da falta de aceitação de si mesmo e das próprias limitações que levam o indivíduo à frustração. O indivíduo é incapaz de encontrar seu lugar na sociedade pela crise da identidade pessoal. Tudo isto cria um desequilíbrio nas relações com os outros, crise na convivência familiar, comunitária e social, comportamento alienado que se expressa na agressividade, violência e evasão por meio da droga, sexo e do álcool e no caso extremo, pode causar o suicídio.

A falta da identidade pessoal também chega ao nível religioso. Muitos batizados não assumem seu compromisso batismal, como se fossem “desempregados” da e da vivência cristã. Eles se tornam cristãos demissionários. Ser batizado vira uma moda. E moda dura para determinada estação da vida.  E o mundo continua esperando algo de bom de um batizado. Enquanto cada indivíduo não souber quem ele é, dificilmente saberá seu lugar adequado na sociedade.

Durante a nossa curta vida, certamente, a questão que guia muitos dos nossos comportamentos é a seguinte: “Quem somos nós ?” Raramente nos fazemos esta pergunta de maneira formal; contudo, a vivemos muito concretamente nas decisões do nosso dia-a-dia.  As três respostas que nós geralmente vivemos, e que não damos necessariamente, são: ” Nós somos o que fazemos; nós somos o que os outros dizem de nós; e nós somos o que temos”.

É importante compreender a fragilidade da vida que depende do sucesso(o que fazemos), da popularidade(o que os outros dizem de nós) e do poder(o que temos). Essa fragilidade provém do fato de esses serem fatores externos sobre os quais temos apenas controle limitado. A perda do nosso emprego, da fama ou dos bens, tem freqüentemente como causa eventos totalmente fora do nosso controle. Mas, quando dependemos deles, é como se nós tivéssemos vendido ao mundo, porque então SOMOS o que o mundo nos dá. E a morte acaba por nos tirar tudo. E a sentença final então será: “Quando se morre, acabou!”, porque quando morremos, mais nada podemos fazer, as pessoas não tornam a falar de nós e nunca mais temos nada. Quando somos o que o mundo faz de nós, não podemos SER depois de termos deixado o mundo.

Jesus veio anunciar-nos que uma identidade baseada no sucesso, na popularidade e no poder é uma falsa identidade, uma ilusão!

A vida espiritual exige que proclamemos constantemente a nossa verdadeira identidade cristã. E a nossa verdadeira identidade é que nós somos filhos de Deus, filhas e filhos amados do nosso Pai celeste pela participação na vida do Filho de Deus por excelência, Jesus Cristo, através do batismo. A vida de Jesus revela-nos esta verdade misteriosa na hora de seu batismo, no Jordão, através duma voz vindo do céu: Tu és o meu filho amado, em ti encontro o meu agrado”.(Mc 1,11). E para o mundo esta voz declara nossa identidade como filhos e filhas amados do Pai: “Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência”. Precisamos morrer com Cristo para nossa condição de pecadores para assumir com Ele a nova vida de filhos e filhas amados de Deus. O batismo se torna, assim, não como um peso, mas como uma predileção de Deus, uma vocação para a que precisamos vivê-la proclamá-la para o mundo.

Jesus revelou-nos que nós, seres humanos pecadores e fracos, somos convidados à mesma comunhão, à filiação divina que ele viveu, que somos os filhos e filhas prediletos de Deus, precisamente como ele é, o seu Filho amado; que somos enviados a este mundo a proclamar a amabilidade de toda a gente, como ele o foi e que finalmente poderemos escapar aos poderes destrutivos da morte, como ele conseguiu.

Toda vez que proclamamos a nós mesmos a certeza da nossa amabilidade, a nossa vida alarga-se e aprofunda-se. E a nossa amabilidade é eterna. Deus diz- nos: ”Eu te amo com o amor eterno”(Jr 31,3).   E este amor existia antes de os nossos pais e as nossas mães nos amarem e continuará a existir muito depois de os nossos amigos se terem interessado por nós. É um amor divino, um amor que dura sempre, um amor eterno.

Precisamente porque a nossa verdadeira identidade está enraizada neste amor incondicional, ilimitado e eterno é que podemos escapar ao perigo de nos tornarmos vítimas de cronômetro. O cronômetro conta o tempo que temos neste mundo.

Precisamos estar conscientes de que através do Batismo cada um, consciente ou inconscientemente, torna-se parecido com Cristo. Jesus se deixou batizar para se identificar com cada um de nós. Ele se deixou batizar também para tornar aquelas águas santas e purificadas pelas quais, um dia, fomos batizados e pelas quais os próximos que optarem por Cristo serão batizados. O sacramento do Batismo influi todo o mistério da vida: o passado do pecado, o presente do homem novo e a esperança do mundo definitivo. O Batismo é regeneração da vida nova, nascimento do alto, participação da ressurreição, revestimento de Cristo, sinal da filiação divina, unção do Espírito. Contemplando e definido desta maneira teologicamente compreendem-se a importância e o valor do Sacramento do Batismo.

Se batizar significa tornar-se parecido com Cristo, hoje é o tempo oportuno para rever nossa maneira de viver se é realmente parecida com a de Jesus. O Batismo é sinal de uma contínua conversão a uma vida de serviço e amor, de justiça e liberdade; é uma luta contínua contra as seduções do poder, do ter do dominar, da imortalidade e dos vícios. Por isso, mais do que nunca, hoje é o dia de renovação no qual somos chamados novamente a nos tornarmos parecidos com Cristo nas palavras, nas obras, na vida e no caminhar. O verdadeiro encontro com Jesus resulta no encontro do outro como irmão.      

3. Jesus Quer Permanentemente Questionar Nossas Idéias, Nossos Comportamentos E Nossa Maneira De Julgar As Pessoas E As Coisas

“Sou eu quem precisa ser batizado por ti, e tu vens a mim?”(Mt 3,14).Deixa estar por enquanto, pois assim nos convém cumprir toda a justiça”(Mt 3,15).

No diálogo entre João Batista e Jesus(Mt 3,14-15)percebe-se a coerência das palavras de João Batista no contexto da passagem anterior em que Jesus é maior que João Batista porque Jesus batiza com o Espírito Santo e com fogo, enquanto o batismo de João é apenas com água para o arrependimento(Mt 3,11): “Sou eu quem precisa ser batizado por ti, e tu vens a mim?”(Mt 3,14). João Batista reconhece sua própria pequenez diante de Jesus e ao mesmo tempo seu reconhecimento da dignidade daquele homem que lhe pede o batismo; o homem que batizará a comunidade messiânica no Espírito Santo e no fogo(Mt 3,11). Por isso, pensa João, ele não precisa de um batismo de água e tenta dissuadi-lo do batismo.

Diante da recusa de João, Jesus dá uma resposta de maneira imperativa:Deixa estar por enquanto, pois assim nos convém cumprir toda a justiça” (Mt 3,15). Esta resposta é a primeira palavra de Jesus no Evangelho de Mateus. Jesus demonstra nesta resposta sua autoridade. Sua palavra inicial é um imperativodeixa estar por enquanto”. Cada imperativo requer uma obediência imediata. As palavras enigmáticas de Jesus expressam a adesão de Jesus ao projeto salvífico do Pai que o conduz até Getsêmani e logo até a cruz numa entrega constante da própria vida. O verbo que se usa é “cumprir(cf. Mt 1,22;2,15.17.23;4,14;5,17;8,17;12,17;13,35;21,4;26,54.56;27,9) para indicar que o ministério de Jesus é conseqüente ou coerente ou está de acordo com a vontade de Deus.

Usa-se também aqui pela primeira vez o termojustiçaque não deve entender-se no sentido que temos hoje i.é, dar a cada um o que é seu. O termojustiçapertence ao vocabulário de Mateus (3,15;5,6.10.20;6,1.33;21,32) cujo significado é a submissão fiel à vontade de Deus ou o cumprimento da vontade de Deus.  A “justiça” de Deus não é outra coisa senão a vontade salvífica de Deus realizada. Deus é justo porque ele age fielmente aos compromissos da aliança de salvar o povo. O homem é justo quando ele é fiel à lei divina. A vontade de Deus neste momento é que Jesus, embora não tendo absolutamente nenhum pecado, seja batizado por João Batista com o batismo de penitência, junto com os outros penitentes, pois Jesus é o Messias na forma do Servo de Deus que carrega os pecados das multidões: “Ele assumiu nossas fraquezas e carregou nossas enfermidades” (Mt 8,17;Is 53,4). A vontade de Deus agora é que Jesus se faça solidário, através do seu batismo, com os pecadores. Ele carrega nossos pecados até a conseqüência última do pecado que é a morte, e a morte na cruz por causa de sua obediência ao Pai. Esta obediência de Jesus ao Pai põe de manifesto sua condição de filho porque naquela cultura a obediência era o que definia a relação entre um filho e seu pai (cf. Cl 3,2; Ef 6,1).  Por este caminho é que a humanidade é libertada do pecado e transformada em humanidade nova. Deus quer que sejamos pessoas justas.

A recusa de João Batista de batizar Jesus e a afirmação de Jesus para que João Batista o batize nos convidam a fazer uma parada para uma contemplação. Vamos, como João, deixar Jesus que questione nossas idéias, nossos comportamentos, nossa maneira de julgar as pessoas e os acontecimentos, nosso jogo de interesse, e assim por diante. É urgente deixarmos a Palavra de Deus nos questionar para voltarmos a ser verdadeiros cristãos, sinal de seu amor e de sua advertência neste mundo, isto é, alertar as pessoas o que é certo e o que é errado, o que é justo e o que é injusto a partir dos critérios de Cristo. Não tenhamos medo da verdade, pois a verdade nos libertará (cf. Jo 8,32). Quantas vezes recusamos alguma correção fraterna e ao recusarmos, nos defendemos atacando. Se alguém questionar nossas idéias ou nossos comportamentos é porque ele tem amor por nós.  E se uma correção fraterna for verdade, por qual motivo a recusamos?

P. Vitus Gustama,svd

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

 Domingo, 08/01/2017-EPIFANIA
os tres reis magos e os presentes  
EPIFANIA DO SENHOR

Primeira Leitura Is 60,1-6

1 Levanta-te, acende as luzes, Jerusalém, porque chegou a tua luz, apareceu sobre ti a glória do Senhor. 2 Eis que está a terra envolvida em trevas, e nuvens escuras cobrem os povos; mas sobre ti apareceu o Senhor, e sua glória já se manifesta sobre ti. 3 Os povos caminham à tua luz e os reis ao clarão de tua aurora. 4 Levanta os olhos ao redor e vê: todos se reuniram e vieram a ti; teus filhos vêm chegando de longe com tuas filhas, carregadas nos braços. 5 Ao vê-los, ficarás radiante, com o coração vibrando e batendo forte, pois com eles virão as riquezas de além-mar e mostrarão o poderio de suas nações; 6 será uma inundação de camelos e dromedários de Madiã e Efa a te cobrir; virão todos os de Sabá, trazendo ouro e incenso e proclamando a glória do Senhor.

Segunda Leitura: Ef 3,2-3a. 5-6

Irmãos: 2 Se ao menos soubésseis da graça que Deus me concedeu para realizar o seu plano a vosso respeito, e como, por revelação, tive conhecimento do mistério. 5 Este mistério Deus não o fez conhecer aos homens das gerações passadas, mas acaba de o revelar agora, pelo Espírito, aos seus santos apóstolos e profetas: 6 os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo, por meio do Evangelho.

Evangelho: Mt 2,1-12

1 Tendo nascido Jesus na cidade de Belém, na Judeia, no tempo do rei Herodes, eis que alguns magos do Oriente chegaram a Jerusalém, 2 perguntando: “Onde está o rei dos judeus, que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo”. 3 Ao saber disso, o rei Herodes ficou perturbado assim como toda a cidade de Jerusalém. 4 Reunindo todos os sumos sacerdotes e os mestres da Lei, perguntava-lhes onde o Messias deveria nascer. 5 Eles responderam: “Em Belém, na Judeia, pois assim foi escrito pelo profeta: 6 E tu, Belém, terra de Judá, de modo algum és a menor entre as principais cidades de Judá, porque de ti sairá um chefe que vai ser o pastor de Israel, o meu povo”. 7 Então Herodes chamou em segredo os magos e procurou saber deles cuidadosamente quando a estrela tinha aparecido. 8 Depois os enviou a Belém, dizendo: “Ide e procurai obter informações exatas sobre o menino. E, quando o encontrardes, avisai-me, para que também eu vá adorá-lo”. 9 Depois que ouviram o rei, eles partiram. E a estrela, que tinham visto no Oriente, ia adiante deles, até parar sobre o lugar onde estava o menino. 10 Ao verem de novo a estrela, os magos sentiram uma alegria muito grande. 11 Quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Ajoelharam-se diante dele, e o adoraram. Depois abriram seus cofres e lhe ofereceram presentes: ouro, incenso e mirra. 12 Avisados em sonho para não voltarem a Herodes, retornaram para a sua terra, seguindo outro caminho.
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Celebramos neste Domingo a festa da Epifania do Senhor. Epifania significa manifestação de uma divindade ou de alguma intervenção prodigiosa de uma divindade. Esta festa chama-se Epifania no seu contexto de Natal porque Deus vem nos revelar quem nos criou e por quê. Nela compreendemos o amor de Deus por nós todos, seres humanos. O nascimento de Jesus manifesta ou epifaniza ao mundo a misericórdia, o amor que Deus é e com que nos ama. O amor de Deus não tem limites e alcança a todos, independentemente da gravidade do pecado cometido. E os Magos representam os povos de todas as línguas e nações que se põem a caminho, chamados por Deus, para adorar Jesus, Deus feito homem cujo nome é Amor e para voltar à própria realidade levando a luz de Cristo para os demais.

Como já se sabe de que Mateus coloca essa passagem no seu evangelho para expor a tese da universalidade da salvação. Jesus, embora judeu e descendente de Davi, é um Messias com força para afugentar do mundo inteiro as trevas do pecado, por mais afastado que o homem se encontre e seja em que deserto for. Para tal deve cumprir um único requisito: deixar-se guiar pela luz da fé e sair, com coragem, do próprio ninho que não salva.

A epifania é a solenidade da manifestação do Messias, o Deus feito criança, aos povos pagãos representados pelos personagens vindos do Oriente, alguns magos. É muito importante não desligar a Epifania do Natal. No fundo, o mistério é o mesmo, varia a perspectiva da amplitude e universalidade da manifestação. Epifania é manifestação do Deus-Conosco aos povos pagãos. Jesus Cristo é o Salvador de todos e para todos os homens.

A antífona da entrada para a missa deste dia (Ml 3,1; 1Cr 19,12) canta poeticamente a grandeza e a solenidade do mistério: “Eis que veio o Senhor dos senhores, em suas mãos, o poder e a realeza”. Esse Senhor é a criança pobre que nasceu em Belém. Porém, Jesus nascido em Belém é a Luz de todos os povos, como enfatiza o prefácio da missa desta solenidade: “Revelastes hoje o mistério de vosso Filho como luz para iluminar todos os povos no caminho da salvação” (veja a Primeira Leitura). Jesus Cristo é a Luz que vence as trevas e que indica o caminho para chegar à salvação.

Além disso, a Epifania quer aprofundar e estender o mistério celebrado no Natal. Este mistério se explica no prefácio da missa: “Quando Cristo se manifestou em nossa carne mortal, vós nos recriastes na luz eterna de sua divindade”. Aqui radica a profundidade do mistério: Jesus Cristo é o Deus que assume toda a realidade do homem, exceto o pecado. Deste modo Ele nos enriquece com a glória de sua realidade divina.

O texto do Evangelho de hoje fala também sobre alguns magos. O termo “mago” não tem no evangelho o significado que lhe damos hoje. Segundo Heródoto, os “magos” eram uma casta de sacerdotes que tinham especial poder para interpretar os sonhos. Nos séculos posteriores o termo “mago” adquiriu uma ampla gama de significados: sacerdotes que fazem augúrios e praticam as mais diversas formas de magia, sacerdotes e /ou sábios que possuem saberes secretos e cultivam diversas ciências, peritos em práticas mágicas, astrônomos, leitores do futuro, propagandistas religiosos, ou simplesmente charlatães.

Os magos do evangelho representavam melhor a sabedoria pagã e da sensibilidade religiosa, e buscavam a salvação através de revelação de Deus na natureza (cf. Nm 22-24 como a referência vetero-testamentária sobre o relato da estrela de Mateus e os pagãos e do Oriente). O texto evangélico também não diz que eram reis nem que eram três. O primeiro testemunho sobre o número de três é o de Orígenes, no século III, provavelmente por causa dos três presentes. Os Padres da Igreja e Lutero consideram os presentes como símbolos da pessoa e do mistério de Jesus: ouro, a realeza; incenso, a divindade; e mirra, a morte e sepultura de Jesus. Mateus salienta assim que Jesus é reconhecido e adorado por estrangeiros idólatras, uma figura dos pagãos que procuram a Deus. Os nomes: Melchior, Gaspar e Baltazar, apareceram no século VIII/IX.

A partir de alguns magos do Oriente que vão ao encontro do Rei dos reis, Senhor dos senhores, a Epifania pode ser interpretada como a festa de todos os que buscam, de todos os inquietos, de todos os que não se resignam à trivialidade da rotina diária e querem interpretar a realidade  a partir dos princípios superiores das estrelas que nos vem do Céu. É a festa de todos os que buscam honradamente, dos que são capazes de sair de sua casa e de sua terra, de seu ninho confortável ou de seu círculo habitual, para caminhar e buscar a Verdade. A Epifania é a “contra festa” de todos os que se sentem seguros, dos que se crêem possuidores da verdade, os que se crêem representantes “oficiais” da verdade e se confundem a si mesmos com a verdade.

Para os cristãos a Verdade absoluta não é nunca uma teoria ou uma frase redonda, e sim um fato, uma vida, mais exatamente, uma pessoa: Jesus de Nazaré, o Filho de Deus (cf. Jo 14,6). Por isso, é possível amar a verdade, confiar nela, viver e morrer por ela. Os que crêem em Jesus não somente escutam o que Jesus diz, e sim o que Ele é. Nós podemos buscar e devemos buscar a verdade, podemos reconhecê-la. Sejamos sinceros, é a única maneira de estar no caminho para a Verdade. Os incrédulos e os mentirosos andam nas trevas.

Os magos não encontram a riqueza e a glória do rei recém-nascido, mas um bebê numa casa pobre, filho de pais pobres, pobremente vestido. Também não viram sua mãe coroada de pedras preciosas ou reclinada num leito de ouro. Mas “sua fé(dos magos) foi mais penetrante que o olhar, porque viram coisas humildes e entenderam coisas elevadas”, comenta S. João Crisóstomo. A glória de Deus não está nos astros do céu, mas na fragilidade dessa criancinha.

Os magos encontraram Jesus e lhe ofereceram presentes: ouro, incenso, mirra. Tradicionalmente esses presentes simbolizam a identidade de Jesus: recebe ouro como rei, incenso como Deus e mirra como homem mortal (mirra era utilizada no embalsamamento de cadáveres).

Sabemos que a entrega de nós mesmos na adoração é o dom mais perfeito e mais agradável ao Deus que nos amou até o extremo de querer viver nossa vida mortal, e morrer nossa morte, para fazer-nos participantes de sua vida eterna. Mas o gesto de oferta pode nos recordar também que aqueles que encontram Deus com sinceridade demonstram a profundidade desse encontro concretamente através daquilo que se tornam capazes de partilhar. Quem é de Deus, ajuda os outros, desenvolvendo a sensibilidade solidária.

Na viagem de volta já não necessitavam mais de estrela porque eles levavam a estrela dentro de seu coração. Era tal a luz e a alegria que receberam, que eles mesmos se converteram em estrelas. Voltaram com o rosto resplandecente, como Moisés depois que falou com Deus, como Jesus que foi transfigurado no monte Tabor. Por isso, os Magos se tornaram missionários de alegria e de amor. Desde então, as estrelas já não se encontraram no céu e sim entre nós, entre todos aqueles que de uma ou de outra maneira se encontraram profundamente com Deus. Quem contempla Deus profundamente se torna reflexo de Deus para os demais.

Cada um tem sua luz própria. Por isso, não precisa nem deve apagar a luz dos outros. Juntar duas ou mais estrelas só resulta na claridade maior. Por isso, tem toda a razão aquilo que o ditado popular diz: “Para que a sua estrela brilhe, não é preciso apagar a minha”. Cada um tem sua luz dentro de si e é preciso que brilhe para iluminar a vida dos outros. Isto se chama amor na unidade, amor fraterno. Se realmente somos crentes, não podemos continuar dissimulando nossa fé.

 São João Crisóstomo nos desperta e alerta: ”Se os magos percorreram um caminho tão longo para vê-lo recém-nascido, que desculpa terás tu se nem sequer fores ao bairro ao lado para visitá-lo enfermo e encarcerado?”  

P. Vitus Gustama,SVD
07/01/2017
 
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SER VINHO NOVO PARA A CONVIVÊNCIA

07 de Janeiro

Primeira Leitura: 1Jo 5,14-21

Caríssimos, 14esta é a confiança que temos em Deus: se lhe pedimos alguma coisa de acordo com a sua vontade, ele nos ouve. 15E se sabemos que ele nos ouve em tudo o que lhe pedimos, sabemos que possuímos o que havíamos pedido. 16Se alguém vê seu irmão cometer um pecado que não conduz à morte, que ele reze, e Deus lhe dará a vida; isto, se, de fato, o pecado cometido não conduz à morte. Existe um pecado que conduz à morte, mas não é a respeito deste que eu digo que se deve rezar. 17Toda iniquidade é pecado, mas existe pecado que não conduz à morte. 18Sabemos que todo aquele que nasceu de Deus não peca. Aquele que é gerado por Deus o guarda, e o Maligno não o pode atingir. 19Nós sabemos que somos de Deus, ao passo que o mundo inteiro está sob o poder do Maligno. 20Nós sabemos que veio o Filho de Deus e nos deu inteligência para conhecermos aquele que é o Verdadeiro. E nós estamos com o verdadeiro, no seu Filho Jesus Cristo. Este é o Deus verdadeiro e a Vida eterna. 21Filhinhos, guardai-vos dos ídolos.

Evangelho: Jo 2,1-11

Naquele tempo, 1houve um casamento em Caná da Galileia. A mãe de Jesus estava presente. 2Também Jesus e seus discípulos tinham sido convidados para o casamento. 3Como o vinho veio a faltar, a mãe de Jesus lhe disse: “Eles não têm mais vinho”. 4Jesus respondeu-lhe: “Mulher, por que dizes isto a mim? Minha hora ainda não chegou”. 5Sua mãe disse aos que estavam servindo: “Fazei o que ele vos disser”. 6Estavam seis talhas de pedra colocadas aí para a purificação que os judeus costumam fazer. Em cada uma delas cabiam mais ou menos cem litros. 7Jesus disse aos que estavam servindo: “Enchei as talhas de água”. Encheram-nas até a boca. 8Jesus disse: “Agora tirai e levai ao mestre-sala”. E eles levaram. 9O mestre-sala experimentou a água, que se tinha transformado em vinho. Ele não sabia de onde vinha, mas os que estavam servindo sabiam, pois eram eles que tinham tirado a água. 10O mestre-sala chamou então o noivo e lhe disse: “Todo mundo serve primeiro o vinho melhor e, quando os convidados já estão embriagados, serve o vinho menos bom. Mas tu guardaste o vinho bom até agora!” 11Este foi o início dos sinais de Jesus. Ele o realizou em Caná da Galileia e manifestou a sua glória, e seus discípulos creram nele.
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A Graça De Deus e O Pecado

Se alguém vê seu irmão cometer um pecado que não conduz à morte, que ele reze, e Deus lhe dará a vida; isto, se, de fato, o pecado cometido não conduz à morte. Existe um pecado que conduz à morte, mas não é a respeito deste que eu digo que se deve rezar. Toda iniqüidade é pecado, mas existe pecado que não conduz à morte”, assim lemos na Primeira Leitura.

Todos nós sabemos que o mal não tem rosto porque ele pode tomar o ser de qualquer um de nós. Ninguém está isento da possibilidade do mal ou da possibilidade de pecar. O pecado é um dos acontecimentos diários que todos temos em comum, algo com que todos nós podemos nos identificar. É uma batalha para vencer ou perder. O mal é tudo que serve à morte; tudo que sufoca a vida, estreita-a, e corta-a em pedaços. Todo pecado é uma idolatria. Adora-se às coisas de Deus no lugar do Deus das coisas. Por isso, a realidade do mal exige vigilância.

O pecado nos violenta na própria raiz de nosso ser feito por e para Deus em Jesus Cristo. Essa rebeldia contra Deus é o fruto do mau uso da liberdade. O mau uso da liberdade faz o homem cair numa gigantesca ilusão. E com o mau uso da liberdade o pecado adquire história. Torna-se pecado do mundo no qual nascemos.

Mas precisamos estar conscientes de que na origem está a graça. Antes do pecado original estava a graça de Deus. No início, Deus criou tudo de bom. Por isso, sempre temos esperança para voltar à nossa origem que á a graça de Deus. Por seu amor por nós Deus não se cansa de nos aceitar e de nos perdoar. São João nos relembra que “Sabemos que todo aquele que nasceu de Deus não peca. Aquele que é gerado por Deus o guarda, e o Maligno não o pode atingir”.

Jesus Transforma Nossa Situação De “água” Em Vinho De Alegria

A transformação da água em vinho que o Evangelho deste dia nos relatou é o primeiro sinal operado por Jesus no evangelho de João. O evangelista João jamais emprega a palavra “milagre” (dýnamis, grego, como ato de poder e de força) que aparece com muita freqüência nos sinóticos. Em vez disso, ele usa o termo “sinal” (seméion, grego). Este termo pertence ao vocabulário técnico do quarto evangelho, onde aparece 17 vezes, sobretudo na primeira metade. Em João, “sinal” é ação/obra realizada por Jesus que, sendo visível, leva por si ao conhecimento de realidade superior. O “sinal” remete a outra coisa. Os “sinais joaninos”, porém, não somente apontam para uma realidade que está além da coisa ou acontecimento visível, mas contém já em si mesmos a realidade significada. Eles são, de certo modo, uma manifestação da “glória” de Jesus. Enquanto o milagre, pelo poder surpreendente que ele força a constatar, tem por função orientar em direção à pessoa e à dignidade do seu autor. O “sinal” visa a outra realidade além de si mesmo. Este termo joanino inclui sempre dois aspectos: demonstrativo, o sinal suscita a fé dos discípulos em Jesus; expressivo, ele manifesta a glória daquele que o opera. Encontram-se no Evangelho de João sete sinais de Jesus (2,1-11: bodas de Caná; 4,46-54: a cura do filho do funcionário real; 5,1-9: a cura do paralítico; 6,1-15: a partilha dos pães; 6,16-21: Jesus caminha sobre as águas; 9,1-41: a cura do cego de nascença; 11,1-44: a reanimação de Lázaro). Por isso, a primeira parte do Evangelho de João (1,19-12,50) chama-se o livro dos sinais. Enquanto a segunda parte (13,1-20,29) chama-se o Grande Sinal que fala da paixão, morte e ressurreição de Jesus.

O objetivo principal de todos os sinais relatados no Quarto Evangelho é a fé, como João deixa claro no final: os sinais feitos por Jesus foram escritos “para que acrediteis que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida eterna em seu nome” (Jo 20,31). Isto quer nos dizer que diante dos sinais operados por Jesus é necessário tomar uma decisão (Jo 7,31;9,16;11,47). Sem tomar uma decisão positiva (crer em Jesus), os sinais se tornarão juízo de acusação contra os que se mostram incrédulos (cf. Jo 12,37ss).            

O episódio de Caná, isto é, o primeiro sinal de Jesus, acontece num casamento/bodas. Na linguagem bíblica/teológico-simbólica, o casamento/bodas é símbolo da aliança com Deus, sublinhando a relação de amor e fidelidade entre Deus e o povo (Is 49,14-26;54,48;62,4-5;Jr 2;Ez 16). A eleição do povo e a aliança foram expressão do amor de Deus por ele (Dt 4,37;7,7s;10,15).  Os profetas usaram muitas vezes a imagem de casamento para falar do amor mútuo entre Deus e Israel (Is 62,4-5;Os 2,18-22). Portanto, o casamento em Caná é simbólico. O verdadeiro esposo da humanidade é Jesus (3,29), pois foi assim que João Batista o anunciou (cf. 1,15.27.30). E toda a Igreja é uma esposa. 

A mãe de Jesus estava nas bodas de Cana. No evangelho de João a mãe de Jesus (Maria) aparece somente duas vezes, mas nos momentos mais importantes. Maria, em primeiro lugar, atua na realização do primeiro sinal de Jesus, no momento em que Jesus inaugura sua missão pública (Jo 2,1-11). Em segundo lugar, Maria permanece ao pé da cruz, no momento da morte de Jesus, no final de sua missão nesse mundo (cf. Jo 19,25-27). O evangelista João quer nos dizer que Maria tem um lugar especial no seu evangelho, pois ela se faz presente nos momentos mais importantes da vida e da missão de Jesus. Tudo que se prefigura no primeiro sinal se cumpre na cena da mãe de Jesus ao lado da cruz.

Nas núpcias de Caná “estava ali a mãe de Jesus”. Para o evangelista João, a figura da mãe de Jesus também é central, pois a partir dela é que a atenção se projetará sobre Jesus. A manifestação da glória de Cristo passa através da mãe.

Na festa de casamento em Caná, ou seja, na antiga aliança faltou vinho. O vinho, na Bíblia, simboliza/representa o amor (cf. Ct 1,2;7,10;8,2). A antiga aliança, portanto, não tem mais sentido, pois o amor foi substituído pela Lei. Os seis enormes potes de pedra que serviam para os ritos de purificação dos judeus (v.6), representam a falta de amor na relação com Deus e com o próximo. Além disso, estão vazios, ou seja, não têm mais nada a dar.

A mãe de Jesus reconhece isso, pois em vez de se dirigir ao organizador da festa, vai diretamente a Jesus e lhe diz: “Eles não têm mais vinho” (v.3). A expressão é semelhante à usada pelos apóstolos antes do milagre da multiplicação dos pães: “Eles não têm mais nada para comer” (cf. Mc 8,2;Mt 15,32). Maria vê o conjunto, ou seja ela tem a visão do conjunto e compreende aquilo que é essencial. Este é o espírito contemplativo de Maria, o seu dom de síntese, a capacidade de dar atenção às coisas particulares. Maria consegue ver o ponto central com a inteligência do coração e não através do raciocínio ou da análise imediata de todos os elementos. Quando o coração superar as razões, a caridade começará a agir, pois a caridade sempre parte do coração. Quando negarmos o que o coração pedir, começaremos a criar muitas desculpas, mas depois cairemos num remorso, pois razão nenhuma pode negar o que o coração pede. “Eis o meu segredo, disse a raposa ao Pequeno Príncipe. É muito simples: Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos” (Antoine De Saint-Exupéry, em: O Pequeno Príncipe). Maria percebe o gemido mudo da humanidade e simplesmente o exprime: “Eles não têm mais vinho”. Maria se identifica com as pessoas numa situação sufocante, e por isso pede com naturalidade uma solução para o seu Filho, Jesus Cristo, o Salvador da humanidade.

A partir de Maria precisamos descobrir o que falta na nossa vida, na nossa vida religiosa, na nossa convivência, na nossa comunidade, no casamento, na família com o intuito de sofrer e amar juntos e não para acusar ou recriminar ninguém. O que falta em mim? Talvez sejam pequenas ou grandes coisas que me faltam; talvez faltem perdão e renúncia ou tensões a cobrir ou pequenas palavras a frear. Ou de modo geral, talvez falte muita coisa para que eu possa ser “o bom vinho” para mim, para os outros, e para Deus.

A resposta de Jesus é aparentemente negativa; e aparentemente, formal e mesmo dura: “Que temos nós com isso, mulher? A minha hora ainda não chegou” (v.4). A expressão é um semitismo freqüente no Antigo Testamento e que aparece também algumas vezes no Novo Testamento (cf. Mt 8,29;Mc 1,24;5,7;Lc 4,34;8,28). A expressão em si não supõe  rejeição frontal, nem sequer distanciamento ou falta de afeto. A resposta de Jesus serve como um convite feito diretamente ao leitor para compreender o que vai acontecer num horizonte mais amplo.

O termo “mulher” usado por Jesus para sua mãe não é uma expressão de desrespeito ou de distância na relação mãe- filho, mas para acentuar o respeito e a reverência. Como entre nós a palavra “senhora” é usada para dirigir-se à própria mãe. Jesus usará o apelativo “mulher” com freqüência ao dirigir-se às mulheres em contextos de elogio (cf. Mt 15,28;Lc 13,12; Jo 4,21;8,10;20,13.15).

Quando Jesus diz que a hora dele ainda não chegou, não está olhando para o relógio. A “hora” (este termo ocorre 26 vezes em Jo) no Evangelho de João tem um sentido simbólico. Quer dizer o momento em que Jesus vai mostrar quem ele é e comunicar o amor do Pai. Isso só vai acontecer de maneira completa na sua paixão, morte e ressurreição. Ainda não chegou “a minha hora” quer dizer ainda não chegou o momento da realização do grande sinal através do qual Jesus revelará sua glória isto é a paixão, morte e ressurreição de Jesus onde ele entregará sua vida à morte para a vida do mundo e por isso, será glorificado pelo Pai. Toda a missão de Jesus está orientada e realizada em função dessa “hora”. Sua hora não pode ser marcada pelos homens, nem por sua mãe.

Maria não discute com Jesus. Ela volta-se para os serventes: “Fazei tudo o que ele vos disser”. Maria percebe a gravidade da situação, mas não se apavora. Estas palavras mostram que Maria não considerou a resposta de Jesus como uma recusa definitiva. Ela não tem dúvida alguma de que Jesus vai fazer algo ou vai dar um jeito. Só não sabe como. Assim, entregou-se com inteira submissão e confiança total ao mistério da “hora”. Ela tem certeza de que seu filho atenderá porque é o Filho de Deus. Maria é persistente. (cf. 15,21-28;Mc 7,24-30).

O que o quarto evangelho quer sublinhar não é, porém, o poder de intercessão de Maria. Mesmo as palavras finais de Maria: “Fazei tudo o que ele vos disser”, sublinham a soberania de Jesus e não a impetração de Maria. A mãe deixa tudo nas mãos do Filho, ainda que não o chame de Filho: “Fazei tudo o que ele vos disser”. Não se pode, contudo, negar que foi o pedido de Maria o que iniciou o processo que desembocou na decisão de Jesus de realizar o primeiro sinal.

Segundo João, Maria não só realiza a vontade de Deus na sua vida, mas também orienta os outros a fazerem o que Deus lhe pede. A perfeita discípula e seguidora de Jesus se torna mestra e guia dos cristãos. Sua frase continua atual. Ela continua nos dizendo hoje: “Vale a pena buscar a vontade de Jesus, ouvir suas palavras e tomar atitudes concretas”. Maria estimula os seguidores de Jesus a realizarem a vontade de Jesus. Ela ajuda os seguidores a terem fé em Jesus e ficarem junto dele. Sobre tantos cristãos consagrados no sacramento do matrimônio, sobre tantos religiosos que já perderam o ardor da primeira vocação, sobre tantos sacerdotes que já esqueceram o santo estremecer do dia do chamado por Cristo, Maria tem que interceder: “Eles não têm mais vinho” para que jamais chegue a terminar o vinho do divino encanto. Além disso, Maria nos ensina a orar pelos nossos irmãos, assim como ela fez primeiro. Maria é uma mulher que, num rápido golpe de vista, vê o que falta e se preocupa com dar-lhe remédio. Ela simplesmente verifica o que falta, e pede com naturalidade a Jesus: “Eles não têm mais vinho”.

Maria também nos convida a viver uma virtude que se chama “atenção”. A atenção é um comportamento vigilante do eu sobre os outros; é uma transparência de olhar, uma prontidão em notar sinais de sofrimento em volta de si, um doar-se. Ela é amor verdadeiro, delicado, desinteressado e previdente. Ela é uma qualidade humana necessária e preliminar no caminho espiritual.

Jesus faz o primeiro sinal de forma discreta. Tudo na simplicidade. Ele manda encher os potes de água. O primeiro sinal de Jesus pretende começar a revelar quem é Jesus para nós. A partir do sinal, entendemos que o próprio Jesus é o vinho novo da nossa vida. Ele é capaz de transformar as situações em que tudo parece “água”, sem sabor nem cor, no líquido da festa e da alegria. A partir de Jesus começou o tempo da graça. Quem está com Jesus tem vida sobrando. A abundância de vinho (em torno de 600 litros) revela o amor extraordinário de Deus presente na vida e na ação de Jesus.

O resultado da ação de Jesus conforme o texto: “Jesus manifestou sua glória e seus discípulos creram nele” (v.11). A glória para Jesus não é o poder e a fama, mas a capacidade de realizar o bem e fazer Deus conhecido e amado. Essa glória consiste na revelação de Deus através dos “sinais” que ele opera. A glória de Deus agora se torna visível para sempre em Jesus.

 “E os discípulos creram nele”. Aqui chega ao seu clímax o chamamento dos discípulos. O crer em Jesus do v.11 é a culminação do seguimento iniciado em 1,37. Quem crê, vê além do sinal. O sinal não força ninguém a acreditar, só abre a porta do coração para a fé. Para João, crer em Jesus como o Cristo é crer no amor superabundante de Deus que enche de alegria o coração dos homens e lhes dá a plenitude da vida. Crer em Jesus é crer que ele realiza a união de Deus com seu povo através de sua vida, morte e ressurreição. Crer em Jesus é crer que Deus se revela e atua amorosamente em favor dos homens através da humanidade de Jesus. Na fé dos primeiros discípulos de Jesus, começa a fé da Igreja. Essa mesma fé é solicitada de todos ao situar-nos diante de Jesus, o portador da salvação definitiva oferecida por Deus ao mundo.

Revivendo hoje o momento em que o Filho de Deus transforma a água em vinho para os convivas de Caná, deveríamos ter a capacidade de perceber que uma das mais exaltantes mensagens do cristianismo é a mensagem de alegria. Deus quer que haja o vinho nupcial da alegria, a alegria de permanecer unidos. Temos que proclamar as razões da alegria, não da tristeza; temos que apontar os motivos do otimismo, não do pessimismo; temos que promover a vida, não a morte. A alegria deveria ser característica de quem vive na fé e caminha para o Reino de Deus. É claro que a fé não nos põe a salvo do sofrimento e dos vários motivos de tristeza. Contudo, é preciso que deixemos transparecer a certeza de que toda nossa dor se transformará em alegria, pois Deus nos ama. É o testemunho que o mundo espera de nós.   
                       
P. Vitus Gustama,svd
06/01/2017

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JESUS É A NOSSA FORÇA E NOS REVELA NOSSA AMABILIDADE


06 de Janeiro


Primeira Leitura: 1Jo 5,5-13


Caríssimos, 5quem é o vencedor do mundo, senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus? 6Este é o que veio pela água e pelo sangue: Jesus Cristo. (Não veio somente com a água, mas com a água e o sangue). E o Espírito é que dá testemunho, porque o Espírito é a Verdade. 7Assim, são três que dão testemunho: 8o Espírito, a água e o sangue; e os três são unânimes. 9Se aceitamos o testemunho dos homens, o testemunho de Deus é maior. Este é o testemunho de Deus, pois ele deu testemunho a respeito de seu Filho. Aquele que crê no Filho de Deus tem este testemunho dentro de si. 10Aquele que não crê em Deus faz dele um mentiroso, porque não crê no testemunho que Deus deu a respeito de seu Filho. 11E o testemunho é este: Deus nos deu a vida eterna, e esta vida está em seu Filho. 12Quem tem o Filho, tem a vida; quem não tem o Filho não tem a vida. 13Eu vos escrevo estas coisas a vós que acreditastes no nome do Filho de Deus, para que saibais que possuís a vida eterna.


Evangelho: Mc 1,7-11


Naquele tempo, 7João pregava, dizendo: “Depois de mim virá alguém mais forte do que eu. Eu nem sou digno de me abaixar para desamarrar suas sandálias. 8Eu vos batizei com água, mas ele vos batizará com o Espírito Santo”. 9Naqueles dias, Jesus veio de Nazaré da Galileia, e foi batizado por João no rio Jordão. 10E logo, ao sair da água, viu o céu se abrindo, e o Espírito, como pomba, descer sobre ele. 11E do céu veio uma voz: “Tu és o meu Filho amado, em ti ponho meu bem-querer”.
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Fé Como Vitória Do Amor Sobre o Mundo Do Maligno


Quem é o vencedor do mundo, senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus? Este é o que veio pela água e pelo sangue: Jesus Cristo”, assim lemos na Primeira Leitura.


Para São João, na sua Primeira Carta, o objeto da nossa fé é o amor: “Nós conhecemos e cremos no amor que Deus tem para conosco. Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele” (c1Jo 4,16). O amor de Deus por nós é um projeto de salvação e não de condenação, pois o amor não condena. Trata-se de um projeto de vida eterna, de vida que dura para sempre. Por isso, amar a alguém verdadeiramente equivale a lhe dizer: “Tu nunca morrerás”. Amar é a questão de qualidade de vida, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16).


O amor como objeto da fé tem um tríplice conteúdo: Amor que Deus é (1Jo 4,8.16) que se revelou na morte de Jesus na Cruz como prova de que Jesus nos amou até o fim (cf. Jo 13,1); o amor que Deus como dom do espirito (=vida) que colocou em nós que nos capacita para amar; e o amor que em nós continua atuando no amor fraterno (cf. Jo 15,12). Como o próprio são Joao escreveu: “Nós amamos porque Deus nos amou primeiro” (1Jo 4,19). Na medida em que amamos, o amor de Deus atua em nós. Estaremos em comunhão plena com Deus a partir do momento em que amarmos mutuamente no amor fraterno.


Portanto, a fé em Jesus como o Filho enviado pelo Pai ao mundo (cf. Jo 3,16) é a vitória sobre o “mundo”, porque esta vitória é a fé no amor. Se o reino do maligno constitui as trevas do desamor, então a fé no amor é a vitória sobre o mundo do desamor e do ódio. Quando conseguirmos colocar o amor e o perdão no lugar da vingança e do ódio, estaremos vencendo e dominando o mundo de maligno; não deixaremos que mundo do maligno avance na nossa vida.


Somos Filhos Muito Amados de Deus


O texto do evangelho lido neste dia fala da missão de João Batista e do Batismo de Jesus.  


No horizonte teológico da comunidade de Mc, a missão principal de João Batista é preparar a vinda daquele que é “mais forte” do que ele. A imagem do “mais forte” evoca as antigas esperanças messiânicas do herói divino que de maneira eficaz e corajosa intervém na história para libertar os oprimidos (cf. Is 9,5;49,24s). Na tradição cristã primitiva, Jesus será apresentado como o “mais forte”, que vence o adversário e liberta os oprimidos (cf. Mc 3,27;Lc 11,22;At 10,38). Esse “mais forte” é quem vai realizar todas as promessas do AT.


Perante esse “mais forte”, João Batista reconhece a sua indignidade total. Até para desamarrar as correias das sandálias, que era uma tarefa exclusivamente dos escravos e que era tido como gesto de extrema humilhação, sente-se indigno.  Só tem que desaparecer para dar lugar a quem “mais forte” que ele: “É necessário que ele cresça e eu diminua” (Jo 3,30).


Sentir-se indigno, pequeno e humilde é a atitude normal de quem se encontra perante uma divindade. Consciente ou inconscientemente, em cada comunhão, perante Jesus Cristo presente na hóstia consagrada, também nos sentimos indignos de recebê-lo ao rezarmos: “Senhor eu não sou digno de que entreis em minha morada. Mas dizei uma só palavra, serei salvo!” Mas Jesus quer entrar na nossa vida para que voltemos a ser dignos de ser filhos de Deus (salvos). Mas depois disto temos uma missão de preparar os outros para a vinda de Jesus na vida deles, como João Batista preparava o povo para a chegada do Messias prometido.


O segundo momento é o da chegada. Jesus está no meio de nós. O tempo de espera terminou. O anseio se consumou. O céu, fechado até agora, se abre para dar passo ao Espírito. E Deus, calado muito tempo, entra em diálogo com Jesus. Por isso, é o momento de contemplação, de assombro, de alegria contida. Céu e Terra deixam de estar incomunicados pela incompreensão, pela maldade e a hostilidade. Chegou um novo modo e distinto de gerar história. Com sua chegada, Jesus nos introduz em uma atmosfera limpa, pura, maculada e respirável. Com Jesus sempre ganhamos novo fôlego. Esta é sua força.


Neste segundo momento relata-se o batismo de Jesus. Com o batismo de Jesus, Deus mergulha totalmente na vida do ser humano para que o ser humano possa mergulhar na vida de Deus. Jesus se manifesta um de nós, igual a todos, menos no pecado, mas assumindo os pecados dos seres humanos (cf. Mt 8,17). Deus torna-se um de nós em Cristo para que nós nos tornemos divinos. Ele morreu não para pagar os próprios pecados, mas os nossos: “Nossos pecados ele os carregou em seu corpo no madeiro, a fim de que, mortos para o pecado, vivamos para a justiça” (1Pd 2,24). Ao receber esse batismo, Jesus assume a ansiedade dos homens de receber a salvação e ao mesmo tempo assume o desejo do seu Pai de conduzir os homens à comunhão de irmãos.


A abertura dos céus, na hora do batismo de Jesus, que se rasgam significa a abertura de novas relações entre Deus e os homens, um início de um novo diálogo de Deus com os homens, um novo tempo de graça, de novos dons dados por Deus aos homens. Jesus é o lugar do novo, definitivo e pleno encontro de Deus com os homens, dos homens com Deus e, conseqüentemente, dos homens entre si. Neste sentido Jesus se torna para seus seguidores, ao mesmo tempo o ponto de encontro e o ponto de partida no sentido de viver aquilo que Jesus ensinou e viveu.


O batismo de Jesus é o momento de teofania (manifestação divina). A “voz vinda do céu” revela quem é Jesus, sua verdadeira identidade: “Tu és o meu Filho, o amado. Em ti me comprazo” (v.11; cf. Is 42,1). Esta voz é uma indicação a Jesus como ele é amado pelo Pai. Depois de um longo tempo de silêncio de Deus, de vazio do Espírito, os céus se rasgam e Deus atua novamente na história e fala com os homens de maneira definitiva a partir de Jesus. Doravante em Jesus, como o Filho de Deus, vai agir o poder salvífico de Deus.


Durante a nossa curta vida, a questão que guia muitos dos nossos comportamentos é a seguinte: “Quem somos nós?” Raramente nos fazemos esta pergunta de maneira formal; contudo, a vivemos muito concretamente nas decisões do nosso dia-a-dia.


As três respostas que nós geralmente vivemos, e que não damos necessariamente, são: ”Nós somos o que fazemos (sucesso); nós somos o que os outros dizem de nós (popularidade); e nós somos o que temos (poder)”. Uma das tragédias da nossa vida é, certamente, continuarmos a esquecer-nos de quem somos e a perder muito tempo e energias a demonstrar o que não precisa ser demonstrado. É importante compreender a fragilidade da vida que depende do sucesso, da popularidade e do poder. Essa fragilidade provém do fato de esses serem fatores externos sobre os quais temos apenas controle limitado.


Jesus veio nos anunciar que uma identidade baseada no sucesso, na popularidade e no poder é uma falsa identidade, uma ilusão! A nossa verdadeira identidade é que nós somos filhos de Deus, filhas e filhos amados do nosso Pai celeste. Toda vez que proclamamos a nós mesmos a certeza da nossa amabilidade, a nossa vida alarga-se e aprofunda-se. Jesus nos revelou que nós, seres humanos pecadores e fracos, somos convidados à mesma comunhão, à filiação divina que ele viveu, que somos os filhos e filhas prediletos de Deus, precisamente como ele é o seu Filho amado, que somos enviados a este mundo a proclamar a amabilidade de toda a gente, como ele o foi e que finalmente poderemos escapar aos poderes destrutivos da morte, como ele conseguiu.

P. Vitus Gustama,svd

domingo, 1 de janeiro de 2017

05/01/2017
 

FAZER EXPERIÊNCIA PESSOAL COM JESUS PARA VIVER NO VERDADEIRO AMOR FRATERNO

05 de Janeiro

Primeira Leitura: 1Jo 3,11-21

11Caríssimos: Esta é a mensagem que ouvistes desde o início: que nos amemos uns aos outros, 12não como Caim, que, sendo do Maligno, matou o seu irmão. E por que o matou? Porque as suas obras eram más, ao passo que as do seu irmão eram justas. 13Não vos admireis, irmãos, se o mundo vos odeia. 14Nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos. Quem não ama permanece na morte. 15Todo aquele que odeia o seu irmão é um homicida. E vós sabeis que nenhum homicida conserva a vida eterna dentro de si. 16Nisto conhecemos o amor: Jesus deu a sua vida por nós. Portanto, também nós devemos dar a vida pelos irmãos. 17Se alguém possui riquezas neste mundo e vê o seu irmão passar necessidade, mas, diante dele fecha o seu coração, como pode o amor de Deus permanecer nele? 18Filhinhos, não amemos só com palavras e de boca, mas com ações e de verdade! 19Aí está o critério para saber que somos da verdade e para sossegar diante dele o nosso coração, 20pois se o nosso coração nos acusa, Deus é maior que o nosso coração e conhece todas as coisas. 21Caríssimos, se o nosso coração não nos acusa, temos confiança diante de Deus.

Evangelho: Jo 1,43-51

Naquele tempo, 43Jesus decidiu partir para a Galileia. Encontrou Filipe e disse: “Segue-me”. 44Filipe era de Betsaida, cidade de André e de Pedro. 45Filipe encontrou-se com Natanael e lhe disse: “Encontramos aquele de quem Moisés escreveu na Lei, e também os profetas: Jesus de Nazaré, o filho de José”. 46Natanael disse: “De Nazaré pode sair coisa boa?” Filipe respondeu: “Vem ver!” 47Jesus viu Natanael que vinha para ele e comentou: “Aí vem um israelita de verdade, um homem sem falsidade”. 48Natanael perguntou: “De onde me conheces?” Jesus respondeu: “Antes que Filipe te chamasse, enquanto estavas debaixo da figueira, eu te vi”. 49Natanael respondeu: “Rabi, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel”. 50Jesus disse: “Tu crês porque te disse: Eu te vi debaixo da figueira? Coisas maiores que esta verás!” 51E Jesus continuou: “Em verdade, em verdade, eu vos digo: Vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem”. (Jo 1,43-51)

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A Primeira Leitura está dentro do tema da Primeira Leitura do dia anterior onde se sublinha a condição de ser filho/filha de Deus. Segundo São João, o mundo ou a humanidade se divide entre filhos de Deus e filhos do diabo ou do pecado. Os filhos de Deus vivem ou devem viver no amor mútuo (amor fraterno). Os filhos do diabo ou do pecado vivem no ódio.

Para São João, a caridade é o critério dos cristãos; é o mandamento que conhecem desde o começo de sua conversão: “Caríssimos: Esta é a mensagem que ouvistes desde o início: que nos amemos uns aos outros”. É o amor que nos levanta de nossa condição de uma simples criatura para sermos filhos e filhas amados de Deus que é o Próprio Amor (1Jo 4,8.16). É o amor que nos capacita para vencermos os nossos limites. É o amor que nos capaz de vivermos no mundo apesar de seus contratempos. É o amor que nos leva à comunhão plena com Deus e com os irmãos: “Nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos. Quem não ama permanece na morte”. O amor não se encontra no diabo, pois ele causa a desunião entre as pessoas. Em quanto que o amor tem capacidade de criar a comunhão entre as pessoas.

Em contraposição à caridade é o ódio: “Filhinhos, não amemos só com palavras e de boca, mas com ações e de verdade!”. Esta oposição assinala o ritmo da vida do mundo desde as origens do homem: Abel era o justo e Caim era o ímpio que odiava o próprio irmão, Abel e o matou: “Que nos amemos uns aos outros, não como Caim, que, sendo do Maligno, matou o seu irmão. E por que o matou? Porque as suas obras eram más, ao passo que as do seu irmão eram justas”. Jesus Cristo era justo e foi odiado pelo mundo até a morte. Não há nenhuma diferença na vida dos cristãos! Na medida em que somos sinais do amor, o mundo vai nos odiar: “Não vos admireis, irmãos, se o mundo vos odeia”. O ódio pode terminar na morte do cristão ou de quem quer que seja do bem.

Portanto, para conhecer seu estado espiritual e para saber se possui a vida, o cristão deve perguntar-se se no seu coração e em tudo que fizer há amor. Não há vida plena em Deus sem amor, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8). O amor não é uma teoria e sim um exemplo de vida vivida na fraternidade.

O sacrifício da Cruz foi a vitoria do amor sobre o ódio. A partilha do Pão e da Palavra na Eucaristia estabelece a cada participante na obediência ao amor incondicional que constitui o mistério da Cruz. A Cruz de Jesus é uma recordação muito forte do amor de Deus por nós. Cada Eucaristia permite ao cristão sair vitorioso do ódio pelo laço de amor com Cristo e irmãos.

E a passagem do evangelho lido neste dia descreve a vocação de Felipe e Natanael, modelo de discipulado e de seguimento (veja também a analogia dessa vocação nos evangelhos sinóticos: Mc 2,14; Mt 8,22; 9,9; 19,21; Lc 9,59). É uma vocação para levar adiante o mandamento de amor para que o mundo possa viver na fraternidade universal, pois todos são filhos e filhas do mesmo Deus.

No desenvolvimento da narração acontece um intercâmbio de olhares e de encontros. Jesus chama Filipe para segui-Lo. “Segue-me”. Logo depois, Filipe convida Natanael a encontrar-se com Jesus. “Encontramos aquele de quem Moisés escreveu na Lei, e também os profetas: Jesus de Nazaré, o filho de José”. Ao ouvir a palavra “Nazaré” da boca de Filipe, Natanael pergunta: “De Nazaré pode sair coisa boa?”. Filipe não quer nem pretende resolver a dúvida inicial de Natanael, mas prefere convidá-lo para uma experiência pessoal com o próprio Jesus: “Vem e vê!”. Filipe viveu a experiência pessoal com Jesus anteriormente e mudou totalmente sua vida. Para esta mesma experiência é que Filipe convida Natanael a fazer.

Filipe convida Natanael a não ficar parado nem paralisado onde se encontra: “Vem e vê!”.  É preciso sair do próprio ângulo de sempre para ver a vida de outros ângulos e para perceber como é rica a vida que temos e como é vasta sua dimensão! “Vir” é uma ação, é uma caminhada, é um sair do próprio esconderijo e do próprio comodismo. É preciso desamarrar os pés de tantos apegos para começar a fazer um êxodo rumo à “terra prometida” por Deus. Quem caminha, vê muita coisa e vê muito mais longe. “Vem e vê” é o convite para caminhar e contemplar tudo no caminho. Diante da vitória eu preciso continuar minha luta, pois para mim é dirigido o convite: “Vem e vê!”. Diante da queda, eu preciso me levantar, pois diante de mim há um convite: “Vem e vê!”. Diante do fracasso, eu preciso reaprender, pois na minha frente está escrito: “Vem e vê!”. Diante do presente, eu preciso vibrar, pois trata-se de uma dádiva e continua soando o convite para mim: “Vem e vê!”. “Vem e vê!” é um convite para a novidade capaz de renovar toda nossa vida como aconteceu com Filipe. Quem fica no quarto, somente vê as quatro paredes. “Vem e vê!” é o convite dirigido a cada um de nós se quiser crescer na vida e ampliar sua visão sobre a vida e seus acontecimentos. O isolamento é a autodestruição. “Eu prefiro na chuva caminhar, que em dias tristes em casa me esconder” (Martin Luther King). O céu (Deus) é uma comunhão plena. Ao superar o isolamento vou tendo, aos poucos, o rosto mais parecido com Deus, pois Deus é comunhão plena. “Vem e vê” é o convite de fé, pois trata-se de uma chamada para o encontro pessoal com Jesus. Somente a fé ajuda a superar os motivos de escândalo (“De Nazaré pode sair coisa boa?”) e de auto-suficiência humana.

“Vem e vê” é o convite de Filipe a Natanael. Trata-se realmente de um chamamento à conversão. Jo 1 é dominado pela idéia de “ver” (cf. Jo 1,39). A palavra “ver” não designa, para o evangelista João, tão somente um olhar simplesmente material sobre a humanidade de Jesus Cristo e sim uma contemplação de Sua glória e de Sua divindade. É como João Batista que viu o Espírito Santo descer sobre Jesus Cristo (Jo 1,33-34).

Logo no início da experiência pessoal com Jesus, Natanael ouviu as seguintes palavras da boca de Jesus: “Aí vem um israelita de verdade, um homem sem falsidade. (...) Antes que Filipe te chamasse, enquanto estavas debaixo da figueira, eu te vi”.  Jesus chama, precisamente, Natanael para realizar essa “conversão” da vista (“ver”). Jesus convida Natanael a passar de um olhar sobre a humanidade de Jesus para a contemplação de Sua glória. A “conversão” de Natanael se realiza gradualmente. Na primeira etapa viu Jesus como filho de José (Jo 1,45). Na segundo etapa, este “ver” leva Natanael para a messianidade de Jesus: “Rabi, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel” (Jo 1,49). E na terceira etapa, Natanael reconhecerá, de uma vez, a divindade de Jesus: “Vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem” e sua humilhação (Filho do Homem: Jo 1,51. cf. Jo 3,14; 8,28; 12,22-34; 13,31). Em outras palavras, a conversão de Natanael é progressiva: da humanidade de Cristo para sua messianidade; da messianidade para o mistério pascal da humilhação e da exaltação.

Jesus suscita em Natanael a vontade de acolher o mistério do Filho do Homem: “Rabi, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel”.  Jesus revela ao futuro discípulo seu conhecimento pessoal porque em Natanael não há falsidade (fraude): Natanael é o verdadeiro israelita piedoso e reto, apaixonado pela Escritura e que sabe confessar sua própria pobreza diante de Deus. Natanael questiona, mas tem humildade de aceitar a novidade.

O homem, tocado no íntimo de seu ser pelo louvor do Mestre e pelo profundo conhecimento que o Senhor tem do homem (representado por Natanael), se rende à evidencia e reconhece em Jesus o Messias e confessa: “Rabi, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel”.  Natanael, como os outros discípulos que o precederam no encontro pessoal com Jesus Cristo, se encontra no nível da fé autentica e aberto para as revelações posteriores que Jesus fará imediatamente: “Tu crês porque te disse: Eu te vi debaixo da figueira? Coisas maiores que esta verás! Em verdade, em verdade, eu vos digo: Vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem”. A fé sempre nos leva a “vermos” coisas maiores do que as que vemos sem fé. “A fé é um grau de conhecimento. O conhecimento é o auge da fé” (Santo Agostinho: Epist. 136,4).

Jesus convida o homem a buscá-Lo porque somente Ele se deixa encontrar pelos que o buscam com aconteceu com Natanael. Uma serie de experiências dos discípulos (cf. Jo 1,35-51) permite o homem penetrar no mistério de Jesus. Quem fizer o encontro profundo com Jesus pessoalmente, sairá mais alegre, entusiasmado e será testemunha de Jesus para os demais. E no testemunho de fé dos discípulos o céu também participa: “Vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem”.

P. Vitus Gustama,svd