segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

31/01/2026- Sábado Da III Semana Do TComum

É PRECISO MANTER A FÉ NO SENHOR EM TODOS OS MOMENTOS POIS ELE É NOSSO SALVADOR

Sábado Da III Semana Comum 

Primeira Leitura: 2Sm 12,1-7a.10-17

Naqueles dias, 1 o Senhor mandou o profeta Natã a Davi. Ele foi ter com o rei e lhe disse: “Numa cidade havia dois homens, um rico e outro pobre. 2 O rico possuía ovelhas e bois em grande número. 3 O pobre só possuía uma ovelha pequenina, que tinha comprado e criado. Ela crescera em sua casa junto com seus filhos, comendo do seu pão, bebendo do mesmo copo, dormindo no seu regaço. Era para ele como uma filha. 4 Veio um hóspede à casa do homem rico, e este não quis tomar uma das suas ovelhas ou um dos seus bois para preparar um banquete e dar de comer ao hóspede que chegara. Mas foi, apoderou-se da ovelhinha do pobre e preparou-a para o visitante”. 5 Davi ficou indignado contra esse homem e disse a Natã: “Pela vida do Senhor, o homem que fez isso merece a morte! 6 Pagará quatro vezes o valor da ovelha, por ter feito o que fez e não ter tido compaixão”. 7 aNatã disse a Davi: “Esse homem és tu! Assim diz o Senhor, o Deus de Israel: 10 Por isso, a espada jamais se afastará de tua casa, porque me desprezaste e tomaste a mulher do hitita Urias para fazer dela a tua esposa. 11 Assim diz o Senhor: Da tua própria casa farei surgir o mal contra ti e tomarei as tuas mulheres, sob os teus olhos, e as darei a um outro, e ele se aproximará das tuas mulheres à luz deste sol. 12 Tu fizeste tudo às escondidas. Eu, porém, farei o que digo diante de todo o Israel e à luz do sol”. 13 Davi disse a Natã: “Pequei contra o Senhor”. Natã respondeu-lhe: “De sua parte, o Senhor perdoou o teu pecado, de modo que não morrerás! 14 Entretanto, por teres ultrajado o Senhor com teu procedimento o filho que te nasceu morrerá”. 15 E Natã voltou para a sua casa. O Senhor feriu o filho que a mulher de Urias tinha dado a Davi e ele adoeceu gravemente. 16 Davi implorou a Deus pelo menino e fez um grande jejum. E, voltando para casa, passou a noite deitado no chão. 17 Os anciãos do palácio insistiam com ele para que se levantasse do chão; mas ele não o quis fazer nem tomar com eles alimento algum.

Mc 4,35-41

35Naquele dia, ao cair da tarde, Jesus disse a seus discípulos: “Vamos para a outra margem!” 36Eles despediram a multidão e levaram Jesus consigo, assim como estava na barca. Havia ainda outras barcas com ele. 37Começou a soprar uma ventania muito forte e as ondas se lançavam dentro da barca, de modo que a barca já começava a se encher. 38Jesus estava na parte de trás, dormindo sobre um travesseiro. Os discípulos o acordaram e disseram: “Mestre, estamos perecendo e tu não te importas?”  39Ele se levantou e ordenou ao vento e ao mar: “Silêncio! Cala-te!” O vento cessou e houve uma grande calmaria. 40Então Jesus perguntou aos discípulos: “Por que sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?”  41Eles sentiram um grande medo e diziam uns aos outros: “Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?”

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Esse Homem És Tu

2Sm 11 em que se narra o caso extraconjugal entre Davi e Betsabéia (esposa de Urias) termina com a seguinte afirmação: “O procedimento de Davi desagradara o Senhor” (2Sm 11,27c).

A fraqueza de Davi consiste numa curiosidade sensual, uma fraqueza humana que não é alheia a nenhum homem. Mas de modo relativamente rápido, o mal evolui aqui num homicídio completo: ao fim da narrativa, Urias (marido de Betsabéia) é eliminado. Assim é que o mal vai crescendo na nossa vida. Começa com uma trivialidade: é humano. Mas humano é também crescimento. É precisamente por causa disso que o mal se torna real. Sentir tentação é normal. Mas consentir qualquer tentação já é o início de uma queda. No caso de Davi termina com a morte antecipada de Urias para Davi ficar com sua esposa, Betsabéia.

Davi procura agora repudiar a sua culpa. Tem apenas uma intenção: a de salvar as aparências. Não pensa em reconhecer a sua culpa. Torna-se cada vez mais fanático e raivoso, impaciente e intolerante. Vai-se formando uma obcecação respectivamente a todo o resto. Todo o poder do trono é usado para este único fim: salvar a sua honra mesmo que a culpa seja muito óbvia e evidente. Sem nenhum motivo, Davi dá a ordem de que Urias pode voltar para tirar férias e manda para a casa para estar com a mulher. Mas Urias não se deixa enganar. O mal fatal começa quando alguém procura reprimir a sua culpa, como aconteceu com Davi. Duas vítimas: Betsabéia grávida e Urias morto no combate por vontade de Davi.

O profeta Natã abre o diálogo com Davi através de uma parábola (veja também 1Rs 20,35-43). A parábola deu resultado. A Palavra de Deus é dirigida a Davi por meio do profeta Natã: “Tu és esse homem rico!(2Sm 12,7). Davi necessita de outra pessoa para chegar a conhecer a sua culpa. Depois da parábola e de sua interpretação (2Sm 12,1-12), Davi se se arrependeu e disse a Natã: “Pequei contra o Senhor”. Pecar é afastar-se de tudo e de todos. é ir longe demais.  Reconhecer a culpa com o propósito de melhorar a vida para o bem é o momento de crescimento espiritual. Mas estejamos conscientes de que esse propósito será acompanhado com uma chuva de novas tentações. Sejamos firmes no nosso propósito, pois Deus sempre nos dá o melhor no fim. A lógica de Deus é esta: o vinho melhor é servido no último (Leia Jo 2,1-11).

Enquanto continuarmos a reprimir a nossa culpa, mostramos que não nos sentimos aceitos totalmente. Somente quando aceitamos realmente o sermos aceitos por Deus e cremos que sua aceitação é total e sem limites, somos capazes de reconhecer a nossa culpa. Já o próprio fato de reprimirmos a nossa culpa é uma sinal claro de que não cremos plenamente no amor de Deus, o que é o aspecto mais grave em nossa repressão. Encontramos às vezes pessoas incapazes de reconhecer as suas faltas e de arrepender-se de certas coisas. Tais pessoas merecem a nossa compaixão, por causa de sua insegurança interior como aconteceu entre Davi e o profeta Natã. A resposta certa não se encontra na repressão e sim no perdão. Somente o homem que encontrou a coragem de reconhecer a sua culpa e confiar na misericórdia de Deus é realmente capaz de se aceitar a si mesmo e de encontrar a paz que o mundo não pode dar nem tirar.

Também nós somos débeis e fracos. Não matamos nem cometemos adultério (talvez). Somos convidados a reagir como Davi. Toda vez que celebramos a Eucaristia começamos com um ato penitencial que quer ser como um exercício simples de humildade diante da santidade infinita de Deus, enquanto que nós somos tão imperfeitos e débeis. No Pai-Nosso voltamos a pedir a Deus que perdoe nossas ofensas e que não nos deixe cair nas nossas tentações. E sobretudo, no Sacramento da Reconciliação expressamos nossa conversão a Deus, lhe pedimos perdão e nos deixamos comunicar com confiança o triunfo de Cristo na Cruz sobre o pecado.

Tu és esse homem!”. Sou eu? Qual é meu pecado? Qual é minha culpa? Qual é minha forma de opressão sobre os demais? No trabalho eu abuso dos meus funcionários e das minha funcionárias? Eu uso os outros para minha próprio vantagem? De que maneira eu exerço meu poder, cargo, coordenação: para o bem comum ou para minha própria vantagem? Eu abuso do meu poder para oprimir os mais fracos?

Evangelho e Sua Mensagem

Depois da série de parábolas, Marcos aborda uma série de milagres. Os quatro milagres citados aqui não foram feitos na presença da multidão e sim diante dos discípulos para sua educação.

A imagem de Jesus que contemplamos na leitura dos quatro milagres é esta: Jesus tem um poder supremo sobre as forças da natureza (Mc 4,35-41) e derrota uma legião de demônios (Mc 5,1-20); cura e salva uma mulher, e vence a morte (Mc 5,21-43): o poder de Jesus sobre a natureza, sobre os demônios, sobre as doenças e sobre a morte. Os dois últimos milagres se entrecruzam no relato. Ao relatar esses milagres Marcos quer nos transmitir uma certeza: Só Jesus pode salvar. Entram aqui os temas da fé e da salvação. Por isso, Marcos não se limita a contar os milagres. Marcos se sente um evangelista que anuncia, à luz da Páscoa, o que o Senhor fez e O anuncia para suscitar a fé em Jesus Cristo. Ainda hoje esses relatos são anúncios de salvação, pois ao lê-los e ao meditá-los, impõem-nos um exame de nossa fé. Temos fé em Jesus ou nós acreditamos mais na força do mal?

O objetivo ou intento principal do milagre é o de suscitar nos discípulos a interrogação sobre a realidade da pessoa de Jesus (Mc escreveu seu evangelho para revelar quem é Jesus?). E Mc quer colocar os leitores no mesmo nível de interrogação: Quem é este homem Jesus?

1. É Preciso Sair Ao Encontro Dos Outros

Depois que terminou o discurso das parábolas, Jesus ordena aos discípulos para cruzarem o mar da Galiléia com ele: “Vamos para outro lado do mar”. Os discípulos lhe obedecem. Jesus convida os discípulos a ir a “outro lado do mar”. “Do outro lado” estão os pagãos, ou o território não- judeu. Jesus convida os discípulos para esse território para que lá possam semear também entre os pagãos a Boa Notícia do Reino. Atravessar, ou “ir para outro lado”, então, significa sair de si mesmo, é pensar nos outros e não ficar apenas no nosso lado. Precisamos ir a “outro lado”. "Levar os homens à verdade é o maior benefício que se pode prestar aos outros. O grande mistério da santidade é amar muito" dizia Santo Tomás de Aquino. Quem sabe no “outro lado” em vez de evangelizarmos os outros, seremos evangelizados. A travessia é muitas vezes sinônimo de abertura ao novo e diferente. Para atravessar é preciso encarar os desafios, superar os obstáculos e perseverar no alcance dos objetivos. Quem sempre fica no mesmo lugar ou na mesma posição geralmente se acha superior. Mas quando sairmos de nossa zona de conforto experimentaremos nossa fraqueza e limitações. Nisto saberemos que necessitamos dos outros, especialmente de Deus: “Salva-nos, Senhor!”. Ou “Mestre, estamos perecendo e tu não te importas?”. Se você estiver dentro de um avião e acontecer uma forte turbulência, nisto você vai reconhecer que você não é tão poderoso como sempre se achou.

2. Só Jesus Pode Salvar

Na travessia Jesus parece ausente, pois dorme e parece estar completamente alheio à tragédia do mar (v.38a). O sono tranqüilo de Jesus simboliza uma confiança total em Deus.

A descrição detalhada de Marcos sobre o que estava acontecendo permite dar-se conta de que não há esperança alguma: “Começou a soprar uma ventania muito forte e as ondas se lançavam dentro da barca, de modo que a barca já começava a se encher”. A barca está se afundando. Somente então é que os discípulos olham para Jesus que dorme e com tom de reprová-lo, o despertam com as seguintes palavras: “Mestre, estamos perecendo e tu não te importas?”. Não conheciam Jesus. Não conseguiram imaginar e acreditar que, com Jesus, jamais podiam afundar-se. E Jesus se levantou e com seu poder Jesus acalmou o vento: “Silêncio! Cala-te!”.

Por que Marcos descreve o relato do mar como se fosse um exorcismo? Na Bíblia, o mar e a escuridão são símbolos do caos inicial, dominado e vencido pela força criadora de Deus (cf. Gn 1). O mar é a sede de todas as forças hostis a Deus, mas são vencidas para sempre por Deus (cf. Ap 21,1). A vitória sobre as forças maléficas não está no homem e sim em Deus, o Único que “transformou a tempestade em leve brisa e as ondas emudeceram(Sl 107,29). Marcos quer nos revelar a certeza de que o único Salvador, o único que pode salvar o homem de todas as forças maléficas é Jesus Cristo.

A natureza volta à calma; os discípulos não. Ficam ainda mais assustados e diziam: “Quem é este, a quem até o vento e o mar lhe obedecem?”.  E “eles sentiram um grande medo”, isto é, ficaram sob o efeito do sentimento de grande perturbação e medo: estáticos e reverenciais que sentem diante do divino.

3. É Preciso Ter Fé Em Jesus Em Todos Os Momentos

Depois que acalmou o vento, Jesus faz uma censura aos discípulos sob a forma de dupla pergunta retórica, assim correspondendo e contestando a censura deles que foi também em forma de pergunta retórica: “Por que tendes medo? Ainda não tendes fé?”. O “ainda não” da pergunta de Jesus faz referência tanto para trás (passado) como para frente (futuro). Para trás (passado), refere-se à experiência prévia que os discípulos tiveram da poderosa palavra de Jesus demonstrada em ensinamentos e em milagres, uma experiência que deveria ter despertado a fé deles em Jesus, mas não aconteceu. Mas o “ainda não” também antecipa com expectativa algum momento futuro, quando os discípulos terão a fé. Com esta pergunta, Jesus exorta aos discípulos que confiem nele em todo momento e circunstância. Somente com a fé é possível manter-se firme diante da aparente ausência de Jesus. A falta de fé impede reconhecer a presença atuante de Deus no cotidiano.    

Depois destas palavras os discípulos ficam “muito cheios de medo”. É um medo diferente do anterior. Antes eles temiam que as forças ameaçadoras, as forças da morte não pudessem ser vencidas, por isso ficavam paralisadas e impotentes diante delas. Agora o medo os atinge ao perceberem tais forças vencidas. Esse medo é o temor reverencial diante do mistério da força e do poder de Deus em Jesus Cristo. Esse temor de Deus indica a aceitação da impossibilidade humana de vencer forças poderosas de morte e ao mesmo tempo o reconhecimento de que só Deus pode superá-las É preciso adorar a este Deus.  

“Ainda não tendes fé?”, Jesus perguntou retoricamente aos discípulos. Segundo a Carta aos Hebreus: ”A fé é a certeza daquilo que ainda se espera, a demonstração de realidades que não se vêem” (Hb11,1). Trata-se de uma fórmula admirável! A fé é um paradoxo. Ela nos faz “possuir” já o que não temos e nos faz “conhecer” o que está fora da capacidade de nossos sentidos. A fé é Deus no homem que nos leva ao entusiasmo (entusiasmo= Deus está dentro: em + theos); é um inicio do céu; é a alegria eterna, presente já no seio da monotonia cotidiana. A fé é um dinamismo vital extraordinária; uma aventura em companhia do Invisível; é a familiaridade com um imenso entorno de realidades invisíveis; é um novo modo de conhecimento, uns “olhos novos” para ver tudo com profundidade. A fé é confiar na palavra de alguém; é pôr-se em caminho; é atravessar a noite até a luz; é viver e esperar uma cidade perfeita onde tudo será edificado sobre o amor. A fé é crer na fecundidade de minha vida com a ajuda divina, apesar das aparências contrárias; é trabalhar segundo meus meios e confiar nas promessas de Deus que é muito fiel a Si próprio. “Ainda não tendes fé?” é a pergunta dirigida a cada um de nós que nos chama a verificarmos até que ponto temos realmente fé. "Quanto mais um ser se afasta de Deus, tanto mais ele se aproxima do nada. Quanto mais se aproxima de Deus, tanto mais se distancia do nada" dizia Santo Tomás de Aquino.       

No Evangelho de hoje Jesus nos convida a um ato de fé nele. Talvez seja necessário que estejamos numa barquinha agitada pelo vento para que percebamos a presença de Deus. Há cristãos que só pensam em Deus quando ficam doentes, quando atingidos por alguma desdita (falta de sorte). Só então rezam com toda a devoção e pedem a Deus para que ele venha socorrê-los. Quando tudo corre bem o ser humano corre o risco de se tornar auto-suficiente. É a pedagogia da provação.

P. Vitus Gustama,svd

30/01/2026- Sexta-feira Da III Semana Do TComum

SABER SE APOIAR EM DEUS

Sexta-feira Da III Semana Comum

Primeira Leitura: 2Sm 11,1-4a.5-10a.13-17

1 No ano seguinte, na época em que os reis costumavam partir para a guerra, Davi enviou Joab com os seus oficiais e todo o Israel e eles devastaram o país dos amonitas e sitiaram Rabá. Mas Davi ficou em Jerusalém. 2 Ora, um dia, ao entardecer, levantando-se Davi de sua cama, pôs-se a passear pelo terraço de sua casa e avistou dali uma mulher que se banhava. Era uma mulher muito bonita. 3 Davi procurou saber quem era essa mulher e disseram-lhe que era Betsabéia, filha de Eliam, mulher do hitita Urias. 4ª Então Davi enviou mensageiros para que a trouxessem. Ela veio e ele deitou-se com ela. 5 Em seguida, Betsabéia voltou para casa. Como ela concebesse, mandou dizer a Davi: “Estou grávida”. 6 Davi mandou esta ordem a Joab: “Manda-me Urias, o hitita”. E ele mandou Urias a Davi. 7 Quando Urias chegou, Davi pediu-lhe notícias de Joab, do exército e da guerra. 8 E depois disse-lhe: “Desce à tua casa e lava os pés”. Urias saiu do palácio do rei e, em seguida, este enviou-lhe um presente real. 9 Mas Urias dormiu à porta do palácio com os outros servos do seu amo, e não foi para casa. 10ª E contaram a Davi, dizendo-lhe: “Urias não foi para sua casa”. 13 Davi convidou-o para comer e beber à sua mesa e o embriagou. Mas, ao entardecer, ele retirou-se e foi-se deitar no seu leito, em companhia dos servos do seu senhor, e não desceu para sua casa. 14 Na manhã seguinte, Davi escreveu uma carta a Joab e mandou-a pelas mãos de Urias. 15 Dizia nela: “Colocai Urias na frente, onde o combate for mais violento, e abandonai-o para que seja ferido e morra”. 16 Joab, que sitiava a cidade, colocou Urias no lugar onde ele sabia estarem os guerreiros mais valentes. 17 Os que defendiam a cidade, saíram para atacar Joab, e morreram alguns do exército, da guarda de Davi. E morreu também Urias, o hitita.

Evangelho: Mc 4, 26-34     

Naquele tempo, 26Jesus disse à multidão: “O Reino de Deus é como quando alguém espalha a semente na terra. 27Ele vai dormir e acorda, noite e dia, e a semente vai germinando e crescendo, mas ele não sabe como isso acontece. 28A terra, por si mesma, produz o fruto: primeiro aparecem as folhas, depois vem a espiga e, por fim, os grãos que enchem a espiga. 29Quando as espigas estão maduras, o homem mete logo a foice, porque o tempo da colheita chegou”. 30E Jesus continuou: “Com que mais poderemos comparar o Reino de Deus? Que parábola usaremos para representá-lo? 31O Reino de Deus é como um grão de mostarda que, ao ser semeado na terra, é a menor de todas as sementes da terra. 32Quando é semeado, cresce e se torna maior do que todas as hortaliças, e estende ramos tão grandes, que os pássaros do céu podem abrigar-se à sua sombra”. 33Jesus anunciava a Palavra usando muitas parábolas como estas, conforme eles podiam compreender. 34E só lhes falava por meio de parábolas, mas, quando estava sozinho com os discípulos, explicava tudo.

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Pecador e Misericórdia De Deus Em Jesus, Deus-conosco

Na Primeira Leitura do dia anterior (ontem) lemos uma das mais belas manifestações da religiosidade de Davi e o momento mais sublime de sua vida, quando Deus lhe afirma a aliança messiânica. Na Primeira Leitura de hoje assistimos ao momento mais vergonhoso de sua vida, e na Primeira Leitura de amanhã o mesmo profeta Natã, que havia comunicado os favores divinos, transmitirá a Davi a repreensão por seu pecado.

Nada está mais longe das crônicas oficiais de outros reinos antigos e modernos, triunfalistas e lisonjeiros ou aduladores, que essa história de Davi, que com todo realismo e luxo de detalhes destaca o odioso e a malícia do adultério e do homicídio a que a paixão empurrou Davi. O adultério pode levar alguém a praticar o homicídio. As notícias diárias que lemos confirmam isso.

Davi vê uma mulher (Betsabéia) que estava tomando banho. “Era uma mulher muito bonita”, acrescenta o texto. Davi a deseja e a seduz. Porém, é a mulher casada com Urias, o soldado de Davi. É, pois, um adultério: para a falta do próprio domínio em sua sexualidade acrescenta-se uma injustiça para essa mulher e seu legítimo marido, Urias. E no fim, termina com o assassinato de Urias em nome do prazer sexual. Poder, dinheiro e sexo, sem discernimento e sem ética, andam de mãos dadas. Poder e dinheiro podem fazer uma vida sem ética.

Davi não só peca contra os mandamentos do decálogo que proíbe o adultério e a cobiça pela mulher do próximo, mas também que abusa, em benefício pessoal (próprio), da autoridade que Deus lhe deu para procurar o bem de Seu povo. O poder, o dinheiro e o sexo sempre andam juntos e podem causar danos para quem os tem e para os que são abusados, se não se viver na permanente vigilância. Os mais fracos sempre são vítimas disso tudo, como aconteceu com Betsabéia e Urias.

Além disso, o marido prejudicado (Urias) é um soldado valente e fiel que naquele momento estava lutando com o exército de Israel. Urias é muito fiel ao mandamento de Deus. Por isso, quando Davi, para esconder ou cobrir seu pecado, chama Urias de volta para Jerusalém e faz-lhe embriagado para depois Urias poder relacionar-se intimamente com sua esposa Betsabeia, mas este recusa a fazer isso, pois está ainda em guerra. Se todo o exército está em guerra, nenhum soldado deve ir para sua casa para dormir com sua mulher. Não conseguindo aplicar esta tática, Davi é tão sedento de sangue e tão traidor que mande seu general que coloque Urias na linha da frente da guerra e o abandone sozinho no combate para que os inimigos acabem com a vida de Urias. Assim aconteceu! Desta maneira Davi acabu com a vida de Urias para cobrir sua própria vergonha, a fim de manter sua fama, e ficar com Betsabéia. O abuso do poder sempre acaba com os inocentes e os justos. E nunca perde sua atualidade!

Betsabéia, a mulher de Urias, será a mãe de Salomão. O evangelista Mateus a citará em sua genealogia (Mt 1,6), entre os antepassados de Jesus. Através dela, Jesus é inserido na dinastia de Davi. "Hosana ao filho de Davi" as multidões gritarão ... e através dela ele se insere em uma fila de pecadores, a quem ele vem salvar.

O pecado é um ataque à lei de Deus. É uma infidelidade àquele Deus que tanto favoreceu a Davi e a quem ele fez promessas tão bonitas! Mas a face ignóbil do pecado aparece muito especialmente quando, como neste caso, todo o cálculo de um homem inteligente foi colocado em proveito pessoal esmagando outros, especialmente, os mais fracos!

Temos acompanhado a fé de Davi através dos relatos e a qualidade de sua oração. Porém, isso não impede que Davi seja um pobre homem e um grande pecador, em suas horas ruins. A Bíblia nos relata a história de um povo pecador, de pecadores, salvos por Deus da misericórdia. E o texto da Primeira Leitura é uma das páginas mais belas. Ouvimos e vemos nela “a Boa Nova” do Evangelho anunciado aos pobres por Jesus Cristo, a misericórdia encarnada do Pai. É já a página da samaritana pecadora (Jo 4,1-42), da pecadora na casa de Simão, o fariseu (Lc 7,36-50), da mulher adúltera perdoada (Jo 8,1-11).O Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido” (Lc 19,10).

Somos Chamados a Ser Semeadores do Bem

As duas parábolas no texto do Evangelho de hoje tem em comum o “símbolo” da germinação, da potência da “vida nascente”. Jesus vê assim sua obra.           

“O Reino de Deus é como um homem que lança a semente à terra”. Lançar semente à terra é um gesto absolutamente natural, apaixonante e misterioso. É um gesto de esperança e de aventura. A semente crescerá? Haverá boa colheita, ou não haverá nada? O semeador é aquele crê na vida, que tem confiança no porvir. O semeador é aquele que semeia a mãos cheias para que a vida se multiplique. O semeador é aquele que investe no porvir. Jesus está consciente de estar fazendo isto: semear.  Ele empreende uma obra que tem porvir. Mas esta imagem é válida para qualquer vida humana: para os empresários, para os professores, para os pais e mães de uma família e assim por diante. Há que semear, há que investir sobre o porvir.                 

O homem dorme, levanta-se, de noite e de dia, e a semente brota e cresce, sem ele o perceber.    Pois a terra por si mesma produz, primeiro a planta, depois a espiga e, por último, o grão abundante na espiga”. Marcos é o único que nos relata esta maravilhosa, curta e otimista parábola do “grão-que-cresce-só”. Tudo reside na vitalidade da semente: aparentemente frágil, mas nela tem uma potência ou uma vitalidade. Basta a semente estar na terra, começa, então, em segredo e em silêncio uma serie de maravilhas, pouco importa se o semeador se preocupa ou não com a semente.                 

Da mesma maneira, disse Jesus, o Reino de Deus é como uma semente viva. Semeada numa alma, semeada no mundo, cresce lentamente, imperceptível, mas com um crescimento contínuo. Sem intervenção destruidora da parte do homem, a vida progride sem que ninguém possa segurar seu avanço ou seu crescimento. Como o agricultor que fixa o olhar na coleta com paciência é assim também quem prega a Palavra de Deus ou trabalho pelo Reino. Basta ter paciência como um agricultor! Porém é necessário saber olhar para a frente para ter a tal paciência. Jesus Cristo visa o futuro de Deus e por isso, vive cheio de paciência, de confiança e de serenidade. Para nós cristãos, a paciência nasce da confiança no poder intrínseco da Palavra de Deus, que é verdade. É a Palavra de Deus e não a palavra humana!                 

O Reino de Deus, a Palavra de Deus, tem dentro de si uma força misteriosa que apesar dos obstáculos encontrados no seu caminho vai germinar e dar fruto. Com esta parábola Jesus quer sublinhar a força intrínseca da graça e da intervenção de Deus. O protagonista da parábola não é o lavrador nem o terreno bom ou mau e sim a semente. O Reino de Deus já está no meio de nós. Este Reino cresce em segredo em nosso mundo, alimentado pelo próprio Deus que o põe no coração dos crentes como uma semente que, pouco a pouco, dá abundantes colheitas de solidariedade e de serviço entre as pessoas de boa vontade. Essas duas parábolas podem alimentar e fortalecer nossa esperança. Pouco importam os aparentes fracassos e as grandes dificuldades. É o próprio Deus Pai que faz crescer e germinar seu Reino, muitas vezes, através dos caminhos misteriosos e desconhecidos por nós, pobres pecadores.                 

Outra comparação é a semente da mostarda, menor de todas as sementes, mas que chega a ser um arbusto notável. Novamente, a desproporção entre os meios humanos e a força de Deus. esta parábola está ligada inseparavelmente da parábola anterior (semeador). O que se ressalta é a grandeza da árvore que cresceu contraposta à pequenez da semente. Essas semente, para a comunidade é o próprio Jesus, que já foi colocado sob a terra e já germinou na ressurreição. O seu Reino cresce inevitavelmente. O ensinamento é bem claro: aquilo que não tem nenhu crédito, que não se completa nunca no modo humano, aquilo que é desprezado, aquilo que é insignificante diante do olhar humano tem uma altíssima cotação diante de Deus.

Para as duas parábolas une uma mesma realidade: a força de Deus está além tanto das habilidades do evangelizador como da debilidade dos evangelizados. É o próprio Deus que se faz presente, superando a ação humana e a insignificância da semente.                 

O evangelho de hoje nos ajuda a entendermos como conduz Deus nossa história. Se esquecermos Seu protagonismo e a força intrínseca que tem Seu Evangelho, Seus sacramentos e Sua graça poderão acontecer duas coisas: se tudo for bem, pensamos que mérito seja nosso. Se tudo for mal, nos afundamos. Não teríamos que nos orgulhar nunca, como se o mundo se salvasse por nossas técnicas e esforços. Não podemos esquecer aquilo que São Paulo nos aconselhou: Eu plantei, Apolo regou, mas Deus é quem fez crescer. Assim, nem o que planta é alguma coisa nem o que rega, mas só Deus, que faz crescer. O que planta ou o que rega são iguais; cada um receberá a sua recompensa, segundo o seu trabalho.  Nós somos operários com Deus. Vós, o campo de Deus, o edifício de Deus. Segundo a graça que Deus me deu, como sábio arquiteto lancei o fundamento, mas outro edifica sobre ele. Quanto ao fundamento, ninguém pode pôr outro diverso daquele que já foi posto: Jesus Cristo” (1Cor 3,6-11).                  

Jesus quer nos dar lição de que os meios podem ser muito pequenos, mas podem produzir frutos inesperados, não proporcionados nem a nossa organização nem a nossos métodos e instrumentos. A força da Palavra de Deus vem do próprio Deus e não de nossas técnicas. Quando em nossa vida há uma força interior, a eficácia do trabalho cresce notavelmente. Mas quando essa força interior é o amor que Deus nos tem, ou seu Espírito ou a Graça salvadora de Cristo ressuscitado, então, o Reino de Deus germinará e crescerá poderosamente. Deus nos surpreende tirando força do débil, confundindo os sábios e entendidos, fazendo da fragilidade seu próprio testemunho. Cada evangelizador, cada agente de qualquer pastoral ou movimento ou de qualquer ministério na Igreja do Senhor deve estar consciente de que ele é apenas um colaborador de Deus e não é o dono que pode manipular a salvação. 

O que se pede de nós não é o êxito e sim a fidelidade. E o que devemos fazer é colaborar com nossa liberdade. Mas o protagonista é Deus. Não é que sejamos convidados a não fazer nada e sim a trabalhar com o olhar posto em Deus, sem impaciência, sem exigir frutos a curto prazo, sem absolutizar nossos méritos e sem demasiado medo ao fracasso. Há que ter paciência como a tem o lavrador esperando a colheita. 

Basta ter um pouco de amor no coração, a paciência será nossa parceira inseparável para esperar os frutos abundantes que virão da própria mão de nosso Pai celeste. Por isso, Deus quer que entremos na aliança de amor com Ele. Ao entrar em comunhão de vida com ele, Deus quer nos fazer sinais de seu amor para com os outros. Mas Deus jamais deixa de nos amar, pois Ele é amor (1Jo 4,8.16). Deus nos ama e cremos no seu amor. Se quisermos que a Palavra de Deus chegue aos demais não somente como informação e sim como testemunho de vida, nós devemos ter a abertura suficiente ao dom de amor de Deus.

P. Vitus Gustama,svd

29/01/2026- Quinta-feira Da III Semana Do TComum

SER REFLEXO  DA LUZ DE CRISTO PARA OS OUTROS

Quinta-Feira Da III Semana Comum

 

Primeira Leitura: 2Sm 7,18-19.24-29

Depois que Natan falara a Davi, o rei entrou no tabernáculo 18 foi assentar-se diante do Senhor, e disse: “Quem sou eu, Senhor Deus, que é a minha família, para que me tenhas conduzido até aqui? 19 Mas, como isto te parecia pouco, Senhor Deus, ainda fizeste promessas à casa do teu servo para um futuro distante. Porque esta é a lei do homem, Senhor Deus! 24 Estabeleceste o teu povo, Israel, para que ele seja para sempre o teu povo; e tu, Senhor, te tornaste o seu Deus. 25 Agora, Senhor Deus, cumpre para sempre a promessa que fizeste a teu servo e à sua casa, e faze como disseste! 26 Então o teu nome será exaltado para sempre, e dirão: “O Senhor Todo-poderoso é o Deus de Israel”. E a casa do teu servo Davi permanecerá estável na tua presença. 27 Pois tu, Senhor Todo-poderoso, Deus de Israel, fizeste estas revelação ao teu servo: ‘Eu te construirei uma casa’. Por isso o teu servo se animou a dirigir-te esta oração. 28 Agora, Senhor Deus, tu és Deus e tuas palavras são verdadeiras. Pois que fizeste esta bela promessa a teu servo, 29 abençoa, então, a casa do teu servo, para que ela permaneça para sempre na tua presença. Porque és tu, Senhor Deus, que falaste, e é graças à tua bênção que a casa do teu servo será abençoada para sempre”.

Evangelho: Mc 4,21-25

Naquele tempo, Jesus disse à multidão: 21 “Quem é que traz uma lâmpada para colocá-la debaixo de um caixote, ou debaixo da cama? Ao contrário, não a põe num candeeiro? 22 Assim, tudo o que está escondido deverá tornar-se manifesto, e tudo o que está em segredo deverá ser descoberto. 23 Se alguém tem ouvidos para ouvir, ouça”. 24 Jesus dizia ainda: “Prestai atenção no que ouvis: com a mesma medida com que medirdes, também vós sereis medidos; e vos será dado ainda mais. 25 Ao que tem alguma coisa, será dado ainda mais. Do que não tem, será tirado até mesmo o que ele tem”.

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É Preciso Estar Sempre Diante De Deus Para Saber O que Devemos Fazer e Como Devemos Fazê-lo

Se na Primeira Leitura do dia anterior lemos as palavras do profeta Natan anunciando a fidelidade de Deus para com Davi e sua descendência, na Primeira Leitura de hoje, escutamos uma bela oração de Davi, cheia de humildade e confiança.

Davi é um homem de fé. Ele se mantém “diante de Deus”: “Depois que Natan falara a Davi, o rei entrou no tabernáculo foi assentar-se diante do Senhor.

Davi “assentou-se diante do Senhor”. O “sentar-se” é uma atitude de um discípulo diante de seu mestre para escutá-lo. “Sentar-se” aos pés de um mestre expressa a condição de discípulo. O “sentar-se” nos coloca freio para nossas pressas e para nossa agitação frenética que, muitas vezes, são estéreis. O “sentar-se” tem função para ouvir a Deus e a nós mesmos a fim de saber profundamente daquilo que estamos fazendo e do rumo aonde vamos chegar. O “sentar-se”, a exemplo de Davi, é para agradecer a Deus pelas suas providências como expressão de Sua fidelidade e de Seu amor por nós. O “sentar-se” é dar tempo para Deus falar de nós e proporcionar o tempo para nós mesmos a fim de saber quem somos, na verdade, e o que estamos fazendo e para que fazemos isso. Por isso, “sentar-se” não é uma passividade, mas faz parte da espiritualidade cristã. Quem não aprender a sentar-se, também não saberá o que fará e por que fará.

Quem sou eu, Senhor Deus, que é a minha família, para que me tenhas conduzido até aqui?. Com esta frase Davi mostra sua humildade. Ele recorda aqui a pobreza de sua origem de um pequeno pastor de rebanho. E agradece a Deus pela promessa de fidelidade para com Davi e sua descendência: “Como isto te parecia pouco, Senhor Deus, ainda fizeste promessas à casa do teu servo para um futuro distante”.

Agora, Senhor Deus, cumpre para sempre a promessa que fizeste a teu servo e à sua casa, e faze como disseste! Então o teu nome será exaltado para sempre...  . é graças à tua bênção que a casa do teu servo será abençoada para sempre”.

Davi poderia equivocar-se gravemente, se imaginasse que sua dinastia conservaria, humanamente, sempre o poder, e que as heranças e as transmissões de poder seriam levados a cabo sem problemas. Porque, de fato, a promessa de Deus não será cumprida materialmente: três filhos de Davi (Ammón, Absalon e Adonias) morrerão pela espada, desgarrando-se uns aos outros. E a partir da segunda geração, com os filhos de Salomão, a dinastia davídica se dividirá em dois reinos rivais antes de desaparecerem.

Através das promessas humanas era, pois, preciso entender uma promessa divina: o verdadeiro descendente de Davi não é Salomão e sim JESUS! Mas depois de quantos fracassos humanos, e de uma realeza sem glória humana!

Quando não aprendermos a “sentar-nos” diante de Deus como hábito diário, seremos invadidos pela rivalidade, a desunião, a guerra pelo poder e ambição, a violência. Onde Deus não é permitido entrar, entra ai a agressão, a injustiça, a corrupção, a desigualdade, em fim, o desamor total.

Somos Chamdos a Ser Luz Para a Humanidade

1. Uma Palavra de Esperanç

As palavras que se cruzam no texto do evangelho de hoje são muito significativas. Os termos usados: lâmpada, caixote (vasilha), cama e candeeiro explicam o caminho que a lâmpada acesa evita para alcançar seu objetivo: estar no candeeiro, iluminar, fazer visível o que está escondido.

Da reflexão sobre a lâmpada brota naturalmente a reflexão sobre o versículo 22: “Assim, tudo o que está escondido deverá tornar-se manifesto, e tudo o que está em segredo deverá ser descoberto”. Aqui Jesus fala para seus discípulos e lhes explica que todo o escondido, se manifestará ou se revelará inclusive para os que estão fora do círculo dos seguidores de Jesus. A revelação da força salvadora de Deus em Jesus, que até então permanece escondida para quem não se converte, um dia será descoberta ou posta em claro. Em outras palavras, um dia Deus, com um ato de Sua força fará visível e será revelada aos que estão de fora Sua força que salva.

Assim, tudo o que está escondido deverá tornar-se manifesto, e tudo o que está em segredo deverá ser descoberto”. Estas palavras, lidas no contexto da vida terrena de Jesus, recusadas pelo seu povo, ressoam como um ato de esperança. E para nós hoje os três primeiros versículos do texto do evangelho de hoje (vv.21-23) ressoam como o convite de Jesus: “Se alguém tem ouvidos para ouvir, ouça”. Isto quer nos dizer que somos convidados a viver a mesma esperança de Jesus. “A esperança é o sonho do homem acordado”, dizia o filósofo Aristóteles.  A esperança seria a maior das forças humanas, se não existisse o desespero” (Victor Hugo).

Além disso, o que se enfatiza atrvés deste versículo do texto do evangelho de hoje é a verdade de que não somente devemos adquirir o conhecimento, como também temos a obrigação de transmiti-lo a outros. Uma vela não é acesa para ser, em seguida, ocultada debaixo de alguma coisa e sim para ser posta  em um castiçal e iluminar o ambiente. A luz religiosa, a luz cristã não é conferida a um homem visando somente o seu próprio benefício, mas também o benefício alheio. Devemos ser anunciadores daquilo que é de Deus, pois tudo o que é de Deus salva. Devemos apresentar  aos outros o precioso tesouro que temos achado na Palavra de Deus, persuadindo-os a procura-lo também por si mesmos.

2. Ser Luz Que Se Consome Para Iluminar a Vida Dos Demais

Quem é que traz uma lâmpada para colocá-la de baixo de um caixote ou em baixo da cama? Ao contrário, não a coloca num candeeiro?”.

Jesus é um observador do real. Nada escapa do seu olhar e de sua observação. É um homem atento em todo momento e em qualquer lugar. Sem dúvida, ele via a sua Mãe, Maria, na casa acendendo a lâmpada ao anoitecer para colocá-la, não de baixo da cama onde resultaria inútil e sim no centro da sala, sobre um candeeiro a fim de iluminar o mais possível a casa.

Através deste simples gesto familiar, já belo humanamente, Jesus viu um “símbolo”. Cada realidade material evoca para Ele o invisível. Jesus se experimentou como uma lâmpada que se consumiu entregando-se no serviço de uma causa para os demais a fim de salvá-los das trevas da morte. Como uma vela, sua vida terrena foi acabando iluminando a humanidade para que essa pudesse encontrar o caminho da verdadeira vida (cf. Jo 8,12).

A Palavra de Deus não foi feita para ser guardada para si. Ninguém recebe a Palavra de Deus verdadeiramente se não comunicá-la para os demais. Toda vida cristã que se fecha em si mesma no lugar de irradiá-la não é querida por Jesus. Crer em Jesus Cristo significa aceitar em nós Sua luz e por nossa vez temos que ser reflexos da verdadeira Luz comunicando essa mesma luz aos outros com nossas palavras e nossas obras.

Na celebração do Batismo, e logo em sua anual renovação na Vigília Pascal, a vela de cada um, acendida do Círio Pascal é um formoso símbolo da Luz que é Cristo, que se comunica a nós e que se espera que logo se difunda através de nós aos demais. Não podemos escondê-la. Segundo Santo Tomás de Aquino, o ser humano está ordenado à felicidade sobrenatural pelos princípios do entendimento e pela tendência natural de sua vontade ao bem. Ao não obedecer à sua tendência natural para o bem o homem ficará longe da felicidade e ainda fará os outros infelizes, pois o ser humano não somente vive, mas convive.

Em segundo lugar, com a comparação de “candeeiro” o Senhor quer nos dizer que Ele é a Luz deste mundo (Jo 8,12) que guiará nossos passos por esta vida e que não ficará oculta sua luz.

No entanto esta parábola também tem uma aplicação muito concreta para nossa vida. Porque o Senhor também nos diz: “Vós sois a luz do mundo” (Mt 5,14). Desta forma o Senhor que fazer-nos participantes ou particípes de sua Luz para iluminarmos outros homens com a luz do Evangelho.

Crer em Jesus Cristo é, portanto, aceitar em nos sua Luz e, ao mesmo tempo, comunicar com nossas palavras e nossas obras essa mesma Luz para toda a humanidade que ainda anda nas trevas. Por isso, caberá nos perguntarmos se somos luz do Senhor que ilumina os demais com nosso testemunho, se sabemos escutar os demais, se sabemos perdoar os outros quando somos ofendidos, se sabemos prestar ajuda para aqueles que estão em necessidade e assim por diante. Ou, ao contrário, se somos maus condutores da Luz de Cristo.

3. Medida De Deus Sobre Nós

Prestai atenção no que ouvis: com a mesma medida com que medirdes, também vós sereis medidos; e vos será dado ainda mais. Ao que tem alguma coisa, será dado ainda mais. Do que não tem, será tirado até mesmo o que ele tem”.

Qual é a medida do amor que Deus usou para nós? Para saber disso, precisamos contemplar Cristo morto e ressuscitado por nós. Em Jesus conhecemos o amor que Deus tem por nós. São João expressa esse amor com a seguinte frase: “Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha vida eterna” (Jo 3,16).

É importante compreender que Cristo, ao pagar por pura misericórdia o que não devia na justiça, fez da misericórdia Sua lei fundamental e a condição indispensável para poder aproveitar o dom gratuito que a redenção significa, essa redenção sem a qual todos estaríamos irremissivelmente perdidos para sempre.

Sendo portadores de Cristo, pois somos chamados de cristãos, devemos ser um sinal claro de seu amor para todos os homens. Para isso, Jesus nos alimenta constantemente, na Eucaristia, com Seu Corpo entregue por nós e com Seu Sangue derramado para o perdão de nossos pecados. Ao celebrar a Eucaristia, fazemos nosso o compromisso de deixar que o Senhor nos converta num sinal claro, nítido, brilhante de Seu amor no mundo.

Quem participa da Eucaristia não pode passar a vida como destruidor do próximo. Não pode viver uma fé intimista, de santidade personalista. Deus nos encheu de sua própria vida (Gn 2,7) fazendo-nos filhos seus para que convivamos como irmãos e irmãs, filhos e filhas do mesmo Pai celeste. Por isso, os que fazem parte da Igreja de Cristo devem ser os primeiros em ser luz para os demais, em lutar pela paz; os primeiros em trabalhar por uma autêntica justiça social. Se somente professamos nossa fé nos templos e depois vivemos como ateus, então não temos direito de voltar a Deus para escutá-Lo somente pelo costume. Os cristãos fazem parte e devem fazer parte dos responsáveis por um mundo que seja cada vez mais justo e fraterno.

Por isso, resta para nós estas perguntas: Será que iluminamos e comunicamos fé e esperança aos que estão ao nosso redor? Será que somos sinais e sacramentos do Reino em nossa família, em nossa comunidade e em nossa sociedade?  Será nossa vida, nossas escolhas de cada dia assinalam para o Reino de Deus? Nenhum cristão se anula no testemunho de uma vida digna de um filho de Deus nesta terra. O testemunho é a entrega da própria vida para que outro viva; consumir-se ajudando outros para que tenham vida, não escondendo-se e sim entregando sua vida por uma causa digna. Se não há entrega não se pode pedir a outro que se entregue, porque o Reino de Deus se faz com a entrega de uns aos outros. Quem não se entrega, se empobrece e se anula por si só.

P. Vitus Gustama, SVD

28/01/2026- Quarta-feira Da III Semana Do TComum

SER SEMEADOR  E MULTIPLICADOR DO BEM

Quarta-Feira Da III Semana Comum

Primeira Leitura: 2Sm 7,4-17

Naqueles dias, 4 a palavra do Senhor foi dirigida a Natã nestes termos: 5 “Vai dizer a meu servo Davi: ‘Assim fala o Senhor: Porventura és tu que me construirás uma casa para eu habitar? 6 Pois eu nunca morei numa casa, desde que tirei do Egito os filhos de Israel, até o dia de hoje, mas tenho vagueado em tendas e abrigos. 7 Por todos os lugares onde andei com os filhos de Israel, disse, porventura, a algum dos chefes de Israel, que encarreguei de apascentar o meu povo: Por que não me edificastes uma casa de cedro?” 8 Dirás pois, agora, a meu servo Davi: Assim fala o Senhor todo-poderoso: Fui eu que te tirei do pastoreio, do meio das ovelhas, para que fostes o chefe do meu povo, Israel. 9 Estive contigo em toda parte por onde andaste, e exterminei diante de ti todos os teus inimigos, fazendo o teu nome tão célebre quanto o dos homens mais famosos da terra. 10 Vou preparar um lugar para meu povo, Israel: e o implantarei, de modo que possa morar lá sem jamais ser inquietado. Os homens violentos não tornarão a oprimi-lo como outrora, 11 no tempo em que eu estabelecia juízes sobre o meu povo, Israel. Concedo-te uma vida tranquila, livrando-te de todos os teus inimigos. E o Senhor te anuncia que te fará uma casa. 12 Quando chegar o fim dos teus dias e repousares com teus pais, então, suscitarei, depois de ti, um filho teu, e confirmarei para sempre a sua realeza. 13 Será ele que construirá uma casa para meu nome, e eu firmarei para sempre o seu trono real. 14 Eu serei para ele um pai e ele será para mim um filho. Se ele proceder mal, eu o castigarei com vara de homens e com golpes dos filhos dos homens. 15 Mas não retirarei dele a minha graça, como a retirei de Saul, a quem expulsei da minha presença. Tua casa e teu reino serão estáveis para sempre diante de mim, e teu trono será firme para sempre”. Natã comunicou a Davi todas essas palavras e toda essa revelação.

Evangelho: Mc 4,1-20

Naquele tempo, 1 Jesus começou a ensinar de novo às margens do mar da Galileia. Uma multidão muito grande se reuniu em volta dele, de modo que Jesus entrou numa barca e se sentou, enquanto a multidão permanecia junto às margens, na praia. 2 Jesus ensinava-lhes muitas coisas em parábolas. E, em seu ensinamento, dizia-lhes: 3 “Escutai! O semeador saiu a semear. 4 Enquanto semeava, uma parte da semente caiu à beira do caminho; vieram os pássaros e a comeram. 5 Outra parte caiu em terreno pedregoso, onde não havia muita terra; brotou logo, porque a terra não era profunda, 6 mas, quando saiu o sol, ela foi queimada; e, como não tinha raiz, secou. 7 Outra parte caiu no meio dos espinhos; os espinhos cresceram, a sufocaram, e ela não deu fruto. 8 Outra parte caiu em terra boa e deu fruto, que foi crescendo e aumentando, chegando a render trinta, sessenta e até cem por um”. 9 E Jesus dizia: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça”. 10 Quando ficou sozinho, os que estavam com ele, junto com os Doze, perguntaram sobre as parábolas. 11 Jesus lhes disse: “A vós, foi dado o mistério do Reino de Deus; para os que estão fora, tudo acontece em parábolas, 12 para que olhem mas não enxerguem, escutem mas não compreendam, para que não se convertam e não sejam perdoados”. 13 E lhes disse: “Vós não compreendeis esta parábola? Então, como compreendereis todas as outras parábolas? 14 O semeador semeia a Palavra. 15 Os que estão à beira do caminho são aqueles nos quais a Palavra foi semeada; logo que a escutam, chega Satanás e tira a Palavra que neles foi semeada. 16 Do mesmo modo, os que receberam a semente em terreno pedregoso, são aqueles que ouvem a Palavra e logo a recebem com alegria, 17 mas não têm raiz em si mesmos, são inconstantes; quando chega uma tribulação ou perseguição, por causa da Palavra, logo desistem. 18 Outros recebem a semente entre os espinhos: são aqueles que ouvem a Palavra; 19 mas quando surgem as preocupações do mundo, a ilusão da riqueza e todos os outros desejos, sufocam a Palavra, e ela não produz fruto. 20 Por fim, aqueles que recebem a semente em terreno bom são os que ouvem a Palavra, a recebem e dão fruto; um dá trinta, outro sessenta e outro cem por um”.

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Dinastia Davídica e a Depositária Da Fé

O Senhor te anuncia que te fará uma casa... Quando chegar o fim dos teus dias e repousares com teus pais, então, suscitarei, depois de ti, um filho teu, e confirmarei para sempre a sua realeza. Será ele que construirá uma casa para meu nome, e eu firmarei para sempre o seu trono real”. É a profecia de Natã.

Conquistada a cidade forte de Jerusalém, e introduzida a Arca da Aliança na cidade conquistada, Davi quer completar sua obra construindo um “templo”, uma “Casa para Deus”. Mas Deus recusa! E envia um profeta (Natã) com esta mensagem ao rei Davi. Esta recusa da parte de Deus nos surpreende. Deus escolheu Davi como rei, mas não permite que Davi construa um templo para Deus. Quem construirá o templo será seu filho, Salomão. Mas o profeta Natã aproveita a mensagem de Deus para cantar um cântico magnifico sobre quais são os planos de Deus para Davi e sobre o futuro do povo de Israel. É um cântico  em que se valoriza, não o que Davi fez para Deus e sim o que Deus fez para Davi. A “casa-edifício” que o rei Davi queria erguer é substituída pela “Casa-dinastia” que Deus tem programado, a “casa de Davi”. O Salmo Responsorial (Sl 88) recolhe ou recorda estas promessas de Deus: “Eu firmei uma aliança com meu servo, meu eleito, e eu fiz um juramento a Davi, meu servidor: Para sempre, no teu trono, firmarei tua linhagem, de geração em geração garantirei o teu reinado!”.

Nós nos encontramos em um dos textos mais importantes da Antiga Aliança, pois Deus promete a Davi que um descendente seu ocupará seu trono eternamente. Davi queria construir uma casa para Deus; porém Deus lhe diz que é muito melhor o próprio Deus construir uma casa, uma dinastia para Davi. E Deus cumrprirá sua promessa em Jesus, Filho de Deus, e Filho de Davi. E nós somos feitos da linhagem de Deus. Davi contempla como Deus é fiel a suas promessas. Nós, sabendo que o Senhor jamais nos bandonará, pois Ele sempre manifesta seu amor fiel de Pai. Temos que viver profundamente nossa filiação divina através de Jesus Cristo.

A profecia de Natã (2Sm 7,1-17) é a continuação lógica de 2Sm 6 (Primeira Leitura do dia anterior). Estado já em Jerusalém, a Arca do Senhor pedia um templo no qual permanecesse. Templo e descendência são os dois eixos da profecia de Natã. Há aqui um jogo de palavra (substantivo): “casa” que pode significar “casa de Deus” (templo) e “casa real” (família ou dinastia). A profecia de Natã é considerada como a carta magna da monarquia e dinastia davídica:Tua casa (dinastia) e teu reino estão estabelecidos para sempre diante de mim” (2Sm 7,16).

De fato, a eleição de Jerusalém como cidade santa por ter depositado a Arca da Aliança nessa cidade e a eleição da dinastia davídica como depositária das promessas divinas vinham a ser como que os dois artigos de fé, os dois princípios fundamentais, que inauguraram uma nova etapa na história bíblica. Nos evangelhos várias vezes lemos em que Jesus é chamado e aclamado “Filho de Davi”. O binômio “Davi-Jerusalém” correspondia à aliança sinaítica no binômio “Moisés-Sinai”. Não se pode falar de Moisés sem falar de Sinai onde foi recebido (de Deus) o decálogo. Não se pode falar de Davi sem falar de Jerusalém onde foi depositada a Arca da Aliança onde é guardado o decálogo.

Para nós, os cristãos, ler esta profecia de Natã nos recorda a linha messiânica que logo será manifestada em plenitude: o filho e sucessor de Davi será Salomão, porém na “casa de Davi” brotará mais tarde o autentico Salvador do povo, o Messias, Jesus. Por isso, Jesus será chamado “filho de Davi”. Se Salomão construirá o Templo material, logo o próprio Jesus Cristo se manifestará a nós como o verdadeiro Templo do encontro com Deus (cf. Jo 2,13-22). E todos os cristãos são pedras vivas deste Novo Templo (cf. 1Pd 2,4-8).

Somos Peregrinos Neste Mundo

Conquistada a cidade forte de Jerusalém e introduzida a Arca na cidade, Davi quer completar sua obra construindo um “templo”, uma “Casa para Deus”. Mas Deus recusa: “Porventura és tu que me construirás uma casa para eu habitar? Pois eu nunca morei numa casa, desde que tirei do Egito os filhos de Israel, até o dia de hoje, mas tenho vagueado em tendas e abrigos. Por todos os lugares onde andei com os filhos de Israel, disse, porventura, a algum dos chefes de Israel, que encarreguei de apascentar o meu povo: Por que não me edificastes uma casa de cedro?”, assim lemos na Primeira Leitura.

Isso nos surpreende, pois Deus recusa. E Deus dá suas razões. Há que escutar atentamente os motivos que expõe Deus para recusar ter um santuário estável e grandioso. Isso se conecta com a enigmática provocação de Jesus: "Destrua este Templo ... e em três dias eu o levantarei ..." (João 2, 19-21).

A primeira razão da recusa: “Não sou um Deus para gente ‘instalada’ e sim um Deus para ‘nomadas’, para gente em marcha, eu os acompanho em seu caminhar e habito na tenda como eles...”.

A “tenda” é símbolo da casa frágil, do refúgio fortuito, não definitivo. Nossa verdadeira pátria não é a terra. Nossa verdadeira casa está “lá em cima” (Cf. Jo 14,1-3). E Deus não tem nenhum interesse em que nos instalemos aqui em baixo. Somos peregrinos neste mundo. Estamos caminhando no tempo e espaço rumo à Casa Comum, o céu. Em Cristo, o próprio Deus se fez peregrino para vir ao encontro do homem nos seus caminhos a fim de mostrar o caminho para a eternidade, e Ele próprio é o Caminho (Jo 14,6). E o fato de ele não ter “uma pedra onde repousa a cabeça” (Lc 9,58) e sua vida apostólica itinerante revelam a sua identidade de peregrino por excelência.

O segundo motivo é a total independência de Deus. Não é Davi quem se elegeu rei a si mesmo, inclusive, sua descendência será um perpétuo presente de Deus. De si mesmo Davi não era mais que um pobre Pastorinho que Deus foi buscá-lo de tráz do rebanho para dar-lhe o poder. O profeta Natã joga com as palavras: “Não serás tu quem construirá uma casa-templo para Deus. É Ele quem te construirá uma ‘casa-dinastia’”.

Terceiro motivo: o futuro de uma dinastia, o futuro do homem não descansam primordialmente sobre princípios materiais, simbolizados pela solidez e pela beleza de um edifício cultual como o Templo, e sim sobre uma Aliança pessoal concertada entre Deus e os homens: a fidelidade mútua de Deus e do rei, de um pai com seu filho é mais decisivo que todos os sacrifícios do Templo.

Um dia, Jesus Cristo, filho de Davi, levará a uma perfeição insuspeitada as relações de amor filial entre o Messias e seu Pai. Jesus é o verdadeiro Filho cujo alimento é fazer a vontade do Pai (Cf. Jo 4,34), porque o Filho “só faz o que vê o Pai fazer. E tudo o que o Pai faz, faz igualmente o Filho” (Jo 5,19). Então, o Templo não será já necessário: o véu do Templo se rasgará (Cf. Mc 15,38; Mt 27,51; Lc 23,45). Jesus é o verdadeiro Templo de Deus, e os cristãos são pedras vivas deste Templo, segundo a Primeira Carta de são Pedro. Jesus é a Cabeça e os cristãos são o Corpo místico do Senhor, segundo são Paulo. São Paulo vai mais longe ainda: os cristãos são o Templo do Espirito Santo (cf. 1Cor 3,16-17; 6,19).

Como Cristãos Somos Chamados e Enviados Para Semear o Bem

Até agora percebemos que Jesus é um Mestre diferente. Suas palavras, seus gestos e sua maneira de tratar os outros qualificam Jesus como um Mestre diferente. Ele não marginaliza ninguém. Ele chama os excluídos para uma convivência fraterna, os perdidos, os pecadores públicos para o bem sem envergonhá-los. Ao contrário Ele os ensina a não fazerem juízo sobre si próprio e sobre os demais. Jesus atua com naturalidade, mas também com autoridade que incomoda os dirigentes (cf. Mc 2,1-3,6). Jesus usa sua autoridade para o serviço do homem: dos marginalizados (leprosos), dos enfermos, dos endemoniados, curando-os e libertando-os do mal. Sua autoridade se direciona, especialmente, para os últimos. Para os pecadores Ele oferece o perdão. Jesus também sabe lidar com a crítica, com a calúnia (Mc 3,20-23) e com o perigo de morte (Mc 3,6) sem deixar de ser coerente com as próprias escolhas: sempre busca o bem, inclusive o dos adversários, pois o que conta na vida é fazer a vontade de Deus que nos converte em família de Jesus (Mc 3,31-35). Jesus é, verdadeiramente, Mestre de vida, Mestre com força profética da advertência para que os ouvintes jamais compactuem com a maldade.

A partir desse Mestre diferente começamos a aprender a viver e a conviver de uma forma nova, a ver a realidade e as pessoas de maneira respeitosa e fraterna. Ser discípulo desse Mestre diferente significa aprender uma forma nova de viver e de conviver como irmãos: que o outro merece respeito e tratamento fraterno. Para isso, a lei do amor deve circular dentro das pessoas e entre as pessoas, pois “a caridade é a plenitude da Lei” (Rm 13,10) e que a maior de todas as virtudes é a caridade (1Cor 13,13b). Para ser efetivo na vida e na convivência é preciso ser afetivo.

Agora Jesus é nos apresentado como Aquele que ensina servindo-se de parábolas (Mc 4,1-34). A palavra “ensinar/ ensinamento” se repete três vezes: “Começou a ensinar”, “ensinava em parábolas”, “em seu ensinamento lhes dizia”. Sabemos que quando na Sagrada Escritura se repete uma palavra três vezes é porque quer dizer algo importante. Ensinamento significa que Jesus trabalha como mestre que se propõe comunicar algo, que quer levar seus ouvintes ao caminho de conhecimento e que com o conhecimento eles podem ser criativos e capacitados a fazer algo edificante.

Ao ensinar Ele tomou a atitude de um mestre: sentou-se. Sua cátedra não é a da sinagoga e sim uma barca. Os destinatários de seus ensinamentos através das parábolas são a multidão: “Anunciava-lhes a Palavra por meio de muitas parábolas como essas, conforme podiam entender; e nada lhes falava a não ser em parábolas” (Mc 4,33-34).

O ensinamento da parábola do semeador não se refere, antes de tudo, aos ouvintes da palavra, e sim aos semeadores, ou seja, aos evangelizadores, o primeiro dos quais é Cristo, e depois dele são todos os demais evangelizadores, os quais não podem pretender ser mais do que o próprio Mestre Jesus Cristo.

Chama atenção sobre o trabalho do semeador: é um trabalho abundante, sem medida, sem distinção. E cada semeador sempre semeia as sementes de qualidade. Ninguém semeia qualquer semente.  O semeador semeia para todos os tipos de terreno. O fracasso não é o mais do semeador, mas da capacidade receptiva e acolhedora do terreno para deixar a semente crescer e dar fruto. A partir do semeador, no Reino de Deus não existe trabalho inútil, nada se desperdiça. 

Ainda que aos olhos dos homens a grande parte do trabalho do evangelizador pareça inútil e vão (apenas 30% do resultado), ainda que os fracassos pareçam ser somados aos fracassos (semente que virou plantinha mas depois secou/morreu), Jesus se transborda de alegria e de certeza, pois a hora de Deus vai chegar e com ela terá uma coleta abundante, superior a toda súplica e imaginação (resultado de 100%). O que mais importante é que cada um produza frutos: 30%, 60% ou 100%. Que cada um se esforce para produzir algo de bom sem se preocupar com um grande resultado. De todas as formas, êxito ou fracasso, desperdício ou não desperdício, o trabalho da semeadura não tem que ser calculado, acautelado, precavido. Ninguém deve nem pode antecipar o juízo de Deus nem sequer o semeador tem direito a fazer isso. Sobretudo não há que escolher o terreno ou lançar as sementes em uns terrenos e em outros não. O semeador lança a semente para todos os terrenos sem distinção. O cristão é aquele que faz o bem e semear a bondade sem olhar para a pessoa para quem o bem é feito ou beneficiado.  Não economizemos tempo e força para fazer o bem, pois o bem e a bondade são únicos investimentos que nunca falham, pois tudo isso se encontra em Deus que é o “único Bom” (Mc 10,18).

Por outro lado, na aplicação dessa parábola, Mc insiste em acrescentar a necessidade da disposição dos ouvintes. Mc coloca algumas disposições interiores e pessoais para que a Palavra ouvida seja entendida, cresça e dê frutos. As principais disposições são: abertura e sensibilidade aos valores do Reino (como um terreno aberto), resistência diante do espírito mundano, e liberdade interior ou um coração limpo de tudo que é mau ou ruim. Em outras palavras, para que a Palavra dê fruto é necessário ter um coração bom, leal e perseverante. A Bíblia sempre recorda para a necessidade da perseverança quando fala da fé. A fé continuamente entra em provação. Mas para que dê frutos dela é necessário resistir com valentia e ter coragem e paciência. Não é possível ser cristão sem a perseverança.

Concretamente, o que esta parábola nos quer ensinar? Precisamos pensar no valor da semente ou do grão de trigo. A semente ou o grão de trigo serve para nos alimentar para que possamos viver e sobreviver enquanto estivermos nesta terra. A semente ou o grão de trigo representa tudo o que é bom e útil para a edificação de um ser humano. Precisamos ser semeadores de tudo o que é bom, útil e verdadeiro para uma boa convivência fraterna. Precisamos alimentar os outros com o que é bom e verdadeiro. Para isso, precisamos nos alimentar, primeiro, com tudo o que é bom e verdadeiro, pois ninguém dá aquilo que não tem. Não é cristão aquele que semeia o que é mau ou ruim. O evangelho usa um termo para este tipo de pessoa como inimigo de Deus que semeia o joio no meio de trigo (Mt 13,25). Este tipo de pessoa trabalha à noite para significar as trevas que dominam sua vida. O trabalho do cristão é semear as sementes da bondade, do amor, da solidariedade para o próximo, para qualquer pessoa sem nenhuma qualificação, pois “Deus não faz distinção de pessoas” (At 10,34). A bondade é o único investimento que nunca falha, pois Deus é o Bem maior. Como diz um ditado popular: “Deus pode tardar, mas nunca falha”. O cristão não tem que se preocupar com a colheita ou resultado, mas que semeie! A semente da bondade e da capacidade de fazer o que possa edificar os outros não pode deixar morrer na mão. O cristão tem que plantá-la para os outros e nos outros. Lembre-se o cemitério é o lugar de decomposição. O que é bom, útil e verdadeiro, temos que fazer antes disso. O resto é apenas uma pura vaidade que vale a pena largar. Sejamos bons e perseverantes semeadores do bem!

Você é um cristão que produz 30%, 60% ou 100% na vida da Igreja do Senhor? O que impede a Palavra de Deus de produzir todo seu fruto em nós: as preocupações, a superficialidade, as tentações do ambiente? Às vezes a culpa pode ser de fora: pedras e espinhos da vida que sufocam a bondade. Mas a culpa pode ser nós mesmos, pois viramos um terreno estéril e não abrimos todo nosso coração para a Palavra de Deus que nos dirige. Pensemos nisso!

P. Vitus Gustama,SVD

31/01/2026- Sábado Da III Semana Do TComum

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