PENTECOSTES
I Leitura: At 2,1-11
1Quando chegou o dia de Pentecostes, os
discípulos estavam todos reunidos no mesmo lugar. 2De repente, veio do céu um
barulho como se fosse uma forte ventania, que encheu a casa onde eles se
encontravam. 3Então apareceram línguas como de fogo que se repartiram e
pousaram sobre cada um deles. 4Todos ficaram cheios do Espírito Santo e
começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito os inspirava. 5Moravam
em Jerusalém judeus devotos, de todas as nações do mundo. 6Quando ouviram o
barulho, juntou-se a multidão, e todos ficaram confusos, pois cada um ouvia os
discípulos falar em sua própria língua. 7Cheios de espanto e admiração, diziam:
“Esses homens que estão falando não são todos galileus? 8Como é que nós os
escutamos na nossa própria língua? 9Nós, que somos partos, medos e elamitas,
habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, 10da
Frígia e da Panfília, do Egito e da parte da Líbia próxima de Cirene, também
romanos que aqui residem; 11judeus e prosélitos, cretenses e árabes, todos nós
os escutamos anunciarem as maravilhas de Deus em nossa própria língua!”
II Leitura: 1Cor 12,3b-7.12-13
Irmãos: 3bNinguém pode dizer: Jesus é o
Senhor, a não ser no Espírito Santo. 4Há diversidade de dons, mas um mesmo é o
Espírito. 5Há diversidade de ministérios, mas um mesmo é o Senhor. 6Há
diferentes atividades, mas um mesmo Deus que realiza todas as coisas em todos.
7A cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum. 12Como o
corpo é um, embora tenha muitos membros, e como todos os membros do corpo,
embora sejam muitos, formam um só corpo, assim também acontece com Cristo. 13De
fato, todos nós, judeus ou gregos, escravos ou livres, fomos batizados num
único Espírito, para formarmos um único corpo, e todos nós bebemos de um único
Espírito.
Evangelho: Jo 20.19-23
19Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando
fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se
encontravam, Jesus entrou e, pondo-se no meio deles, disse: “A paz esteja
convosco”. 20Depois dessas palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os
discípulos se alegraram por verem o Senhor. 21Novamente, Jesus disse: “A paz esteja
convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. 22E, depois de ter dito
isso, soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo. 23A quem perdoardes
os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem não os perdoardes, eles lhes
serão retidos”.
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Hoje celebramos o
Pentecostes: a festa do Espírito Santo. Ele fundamenta a missão de Jesus e
fundamenta a missão da Igreja. Só no livro de Atos dos Apóstolos, de onde
tiramos o relato de Pentecostes, o Espírito Santo é mencionado 45 vezes. Em
consequência disto, com razão, a dupla obra de Lucas (o Evangelho de Lucas e
Atos dos Apóstolos) é designada como “o Evangelho do Espírito Santo”. O
Espírito Santo é a plenitude de tudo quanto Deus tem que nos dar. Na liturgia
há uma exuberância de imagens e comparações para exprimir o que o Espírito
Santo é e faz. Ele
santifica, fortifica e consola. Ele aquece quando estamos frios; ele nos ajuda e nos
cura. Ele torna flexível o que é rígido, purifica, ilumina na escuridão. Ele é
como uma língua, como descreve os Atos e como uma pomba na descrição dos
Evangelhos. Ele é sopro, o dedo de Deus com que foi criado o universo. Renova
continuamente a face da terra.
Como nós sabemos que o
Espírito Santo é a terceira Pessoa da Santíssima Trindade. É simples esta
frase, mas rico é o seu conteúdo. Ela
significa que Deus é uma “família”. Deus não é um Deus solitário. Deus é
uma comunidade; uma convivência. Há em Deus uma comunicação perfeita. Há em
Deus uma convivência que é completa e desconhece qualquer sombra. É conhecimento do outro numa unidade
indivisa. O Espírito Santo é o vínculo de união perfeita entre Pai e Filho. O
Espírito Santo é aquele que supera a relação Eu-Tu e introduz o Nós. Por isso,
ele é por excelência a união entre Pessoas divinas.
No evangelho de São
João (cf. Jo 14,26; 15,26-27; 16,13-15; 14,16-18) o Espírito Santo é
chamado de Paráclito, termo de origem grega do mundo jurídico que é traduzido
por advogado, auxiliar, defensor. Em que sentido? Em situação de sofrimento e
dor, o Espírito santo desempenha seu papel como consolador. Nas decisões
importantes em que ele é invocado o Espírito Santo se faz conselheiro. Ele nos
interpela, acusa e questiona na nossa mediocridade, apatia e no nosso desânimo
(cf. Jo 16,8). Como o verdadeiro advogado o Espírito Santo nos conduz para a
plena verdade (Jo 16,13-15) que é o próprio Jesus Cristo, o Caminho, a Verdade
e a Vida (Jo 14,6). O Espírito Santo nos conduz a Jesus pela dupla via: pela
via do conhecimento e do amor e nos leva ao seguimento de Jesus até o fim, ao
anúncio do Reino, à opção pelos pobres. Aqui consiste a trilogia fundamental:
conhecer intimamente, amar profundamente e seguir a Jesus fielmente. Quem nos
possibilita tudo isso é o Espírito Santo.
O mesmo evangelho de
João nos afirma que pelo batismo recebemos o Espírito Santo que nos habita o
coração (cf. Jo 3,5-8.34). E o Espírito Santo prometido por Jesus tem uma
função de ensinar, recordar, comunicar e conduzir à verdade de Jesus diante do
risco de a Igreja perder o rumo em relação à memória e a compreensão de Jesus
(cf. Jo 15,26; 16,14s).
Na história, o Espírito
Santo se mostra como uma força vulcânica que ninguém pode segurar, como um
vendaval (vento tempestuoso) que toma as pessoas abertas ao seu impulso e as
leva a fazer obras grandiosas.
Ele é a
força do novo e da renovação de todas as coisas:
cria ordem na criação, faz surgir o novo Adão no seio de Maria, impulsiona
Jesus para a evangelização, ressuscita o crucificado dos mortos, antecipa a
humanidade nova na Igreja e nos traz, no final, o novo céu e a nova terra. Que
seria da sociedade e das Igrejas se não surgissem os inovadores, as pessoas
criativas, que têm idéias novas, que descobrem novos caminhos para a educação,
a política, a religião etc.? O Espírito Santo certamente está ligado ao novo e
ao alternativo.
Ele é o
atualizador da memória de Jesus. Ele atualiza a
mensagem de Jesus. Ele nunca deixa que as palavras de Jesus permaneçam mortas,
mas que sempre sejam relidas, ganhem novas significações e implementem novas
práticas. Ele continua a obra de Jesus nas comunidades.
Ele é o
princípio libertador das opressões de nossa situação de pecado, chamada pela
Bíblia de carne. Carne expressa o projeto da pessoa
voltada sobre si mesma, esquecida dos outros e de Deus. Ele sempre é gerador de
liberdade (1Cor 3,17), de entrega aos demais e de amor.
Pentecostes:
Plenitude Da Páscoa
Celebramos hoje a festa
de Pentecostes. Pentecostes é a culminação do mistério pascal. Em Pentecostes
celebramos a Páscoa em sua plenitude. De fato, desde o primeiro dia dos
cinquenta dias do tempo pascal, estamos celebrando o mistério pascal como
vitória de Cristo. Neste dia celebramos o Espirito como dom pascal de Cristo
glorificado, o mistério da Igreja como obra do Espirito e a missão
evangelizadora que o Espirito impulsiona.
A palavra “Pentecostes”
vem do grego “pentekostê” significa
exatamente “quinquagésimo” dia (cf. Tb 2,1; 2Mc 12,32). Originalmente “Pentecostes” era uma festa agrícola
na qual se agradecia a Deus a colheita da cevada e do trigo, por volta de
maio-junho, isto é, ocorre no “quinquagésimo” dia depois da Páscoa.
Pentecostes ou “festa
das semanas” era a festa israelita celebrada sete semanas depois da Páscoa,
quando terminava a colheita (Ex 34,22; Nm 28,26). No século I d.C., de festa
agrícola tornou-se a festa histórica em que se lembrava o dom da Lei no Sinai e a
constituição do povo, libertado da escravidão do Egito, como povo de Deus. Por isso, o
barulho, o vento e a violência mencionados em At 2,2 (Primeira Leitura: At
2,1-11), são típicos da aliança do Sinai (Ex 19,6). O vento vem do céu como
o que sopra sobre a montanha (Ex 19,3; Dt 4,36). As línguas de fogo
também se explicam no contexto do Sinai (At 2,3). Estas línguas foram do fogo como se relata em
Ex 19,18; 24,17, bem como em Dt 4,15; 5,5, que na teofania do Sinai, mostram
Javé (Deus) falando na flama (chama).
Assim, para os
primeiros cristãos, Pentecostes aparece como a inauguração da Nova Aliança e a
Promulgação de uma lei que não é mais gravada sobre a pedra e sim no Espírito e
na liberdade (At 2,4; cf. Ez 11,19; 36,26). O essencial é este: Deus não dá apenas
uma lei, mas seu próprio Espírito através de vários carismas ou dons.
A menção da “multidão”,
“plêthos” (At 2,6) é uma alusão à
promessa feita a Abraão de um dia ser pai de uma “multidão” (plêthos) de nações (Gn
17,4-5; Dt 26,5).
Aqui as nações estão presentes de modo simbólico, pois a multidão é composta
apenas de judeus que deixaram provisória ou definitivamente sua Diáspora para
vir a Jerusalém em peregrinação ou para ai se estabelecer (At 2,9-10). A lista
das nações é bastante heteróclita (distinta), a menção dos crentes e dos árabes
(At 2,11). Simbolicamente trata-se da universalidade. Isto significa que a
Igreja nasceu universal (a Igreja é católica, universal), e a aliança que o
Espírito concluiu com a Igreja interessa ou serve para toda a humanidade pela
sua salvação. E por ser universal, a Igreja será sempre missionária até o fim
dos tempos a serviço de todas as línguas e de todas as culturas e de todos os
povos. O cristão é batizado para ser missionário.
Além de tudo isso, ao
afirmar que O Espírito Santo tinha descido sobre os discípulos justamente no
dia de Pentecostes, Lucas nos quis ensinar só uma coisa: que o Espírito Santo
tinha substituído a Lei antiga e ele se torna a nova Lei para os cristãos. Qual
é a Lei do Espírito Santo? É o coração novo, é a vida de Deus que, quando
penetra no ser humano o transforma e produz naturalmente as obras de Deus.
Quando o homem é permeado pelo Espírito Santo, nele acontece algo inaudito: ama
com o mesmo amor de Deus. João chega a dizer que o homem animado pelo Espírito
Santo é simplesmente incapaz de pecar: “Todo
aquele que nasceu de Deus não comete pecado, porque sua semente permanece nele;
ele não pode pecar porque nasceu de Deus” (1Jo 3,9).
A narrativa da vinda do
Espírito Santo nos Atos dos Apóstolos (At 2,1-11) é muito simples. Os
discípulos de Jesus estão reunidos numa sala. Do céu vem um barulho, como de
forte vendaval, e enche a casa. Aparecem línguas de fogo, que pousam sobre cada
um. Esses elementos: barulho, vento e fogo, são típicos das manifestações de
Deus. Significam que Deus está agindo.
O Espirito
Santo Como Dom
O fato de tudo isso vir
“do céu” indica o dom de Deus, isto é, o Espírito Santo não é uma invenção dos
cristãos, mas um dom que lhes foi dado, conforme a promessa de Jesus (Jo
14,15-17). O
ES não é um produto da sugestão humana. Ele é uma força irresistível que foge
ao controle e às manipulações humanas. Ele sopra para onde quer (cf. Jo 3,8)
O que significa que o ES é
um Dom?
Primeiro, a descrição do ES
como Dom enfatiza o fato de que estamos no Reino da Graça. Isto significa que
Deus derrama seu Espírito e seus dons sobre o seu povo, não como promoção por
suas realizações, e sim na liberdade de sua misericórdia e graça. Deus não
exige um pagamento velado em troca de seus dons. Seus dons levam a consequências
que mudam a vida, sem quaisquer precondições, exceto a vontade para que
recebamos o dom. O Dom do Espírito Santo, então, nos faz lembrar que não
estamos vivendo num mundo calculista de benefícios conferidos em proporção às
condições atendidas, mas no reino de um Pai gracioso, que derrama generosamente
seu Espírito, em graça livre e incondicional para todos nós.
Segundo, a descrição do
Espírito Santo como um Dom enfatiza o fato de que estamos no Reino dos
relacionamentos dinâmicos, do movimento que vem de um doador para um receptor,
de abertura de uma pessoa para outra. A palavra Espírito Santo é uma palavra
que tem significado apenas num relacionamento. Ele é o que é e faz tudo o que
faz apenas dentro de uma rede de relacionamentos divinos e divino- humanos.
Terceiro, quando descrevemos o ES
como um Dom, estamos deixando claro que nos encontramos no campo pessoal. Um
dom só é um dom, no sentido apropriado da expressão, quando incorpora a
intenção de um doador no sentido de dá-lo, e é recebido como dom apenas quando
o receptor reconhece essa intenção. Uma vaca não dá o leite; o leite é tirado
dela. O ES transmite e expressa o amor a todos nós e nós o recebemos, por isso
é que ele é um dom. Quando Deus em Cristo nos doa o Espírito, ele nos doa nada
menos que a si mesmo. Por isso, o Dom é um sujeito, vivo, atuante, que ama,
soberano e livre.
O Espirito
Santo Possibilita Comunicação
Conforme o texto, o ES
se manifesta simbolicamente como “línguas de fogo”. A língua é instrumento de
comunicação, de fala, e dá origem à linguagem, que é o meio dos seres humanos
se comunicarem. Mas São Tiago (Tg 3,1-10) alerta que a língua pode desviar o
homem do caminho de Deus e pode transtornar sua vida e desvia a linguagem do
seu uso correto. Segundo São Tiago, a
língua, por menor que seja, é uma força devastadora capaz de pôr a vida a
perder. O poder da língua pode sujar o corpo inteiro, tanto para quem fala como
também o corpo no sentido de uma comunidade inteira. Temos impressão de que
muita gente ainda não consegue domesticar a língua por isso causa a inquietação
e o sofrimento em muitas pessoas.
O fato de o ES se
manifestar simbolicamente como “línguas de fogo” nos leva diretamente ao seu
significado que o dom do ES não é para a edificação pessoal, mas para a
comunicação, e concretamente, para a comunicação da “boa notícia” do Evangelho,
que transforma as relações e faz surgir a fraternidade e a partilha que podem
proporcionar liberdade e vida para todos.
Efeitos Do
Espirito Santo
O efeito do dom do ES
ou a ação interior e transformadora do ES torna-se externamente uma nova
capacidade de comunicação: conforme o texto (At 1,4) “começaram a falar outras
línguas”. Mas não se trata do fenômeno como falar em línguas que ninguém
compreende. Falar em línguas incompreensíveis não comunica nada a ninguém. A
linguagem foi feita para produzir comunicação entre as pessoas. Trata-se aqui
claramente, do horizonte universal e ecumênico do novo povo mobilizado pela
força unificante do ES. Poder-se-ia ver neste elenco de povos, reunidos para escutar
a voz do ES na própria língua nativa, uma referência à dispersão dos povos e à
confusão das línguas depois de Babel (Gn 11,1-9). A humanidade, dispersa e
dividida depois da tentativa de construir um imperialismo religioso- político,
é reunida pela força do ES que unifica os diferentes grupos humanos,
respeitando e promovendo as características culturais, das quais a língua é
expressão. Nem a força ou a repressão, nem a planificação econômica ou política
podem assegurar a unidade dos povos ou dos grupos, mas sim o poder interior do
ES, que promove com a liberdade e o amor novas relações e cria espaços
alternativos de comunicação.
O ES produz unidade ao
mesmo tempo que promove diferentes maneiras de servir, (1Cor 12,3-7.12-13). Ele
é a força criadora de diferenças e de comunhão entre as diferenças. É ele que
suscita entre as pessoas os mais diversos dons e nas comunidades os mais
diferentes serviços e ministérios, como se ensina nas cartas aos Romanos (Rm
12) e aos Coríntios(12). Mas esta diversidade não decai em desigualdades e
discriminações porque bebemos da mesma fonte que é o Espírito Santo (1Cor
12,13). Os dons não são dados para a autopromoção, mas para o bem da comunidade
(1Cor 12,7). O Espírito Santo interfere para melhorar e não para atrapalhar a
comunicação da Igreja de Jesus Cristo. A comunidade fundada em Pentecostes (no
Espírito Santo) é um lugar de diálogo, de encontro, de comunicação, de unidade
(não necessariamente uniformidade), de acolhimento. O erro não está em sermos
diferentes. O erro está em sermos divididos. A comunidade nascida em
Pentecostes não é o lugar da lei que mata mas é o lugar do Espírito Santo, isto
é, o lugar da abertura e da vida, do reconhecimento e do despertar, o lugar de
uma libertação fundada no amor. O amor é o caminho para Deus, o único carisma
realmente imprescindível na vida cristã, o carisma que jamais cessará.
O ES habita os corações
das pessoas (1Cor 3,16), dando-lhes entusiasmo, coragem e determinação. Ele
consola os aflitos e mantém viva a esperança. Ele nos consola, exorta e ensina
como as mães fazem junto a seus filhinhos (Jo 14,26;16,13).
O Espirito
Santo E Seus Frutos Na Vida Cristã
Outros frutos do
Espírito Santo são o amor, a bondade, moderação e autocontrole, cortesia,
mansidão e longanimidade, jovialidade e paz (veja Gl 5,22-24).
Segundo Gálatas, o amor
que é o fruto do ES se expressa através de cordialidade, simpatia, coração bom.
Trata-se de uma atitude típica da interioridade; é a disposição interior para o
pensar bem, para o falar bem, para o agir bem. O amor traduzido com
cordialidade, simpatia (simpatia vem do grego sumpáscho que significa
igualar-se ao outro, ter uma atitude de profunda sintonia com o outro), coração
aberto é a capacidade imediata de entender os sofrimentos e as alegrias de quem
está perto de nós; é um coração espaçoso, raiz de toda a moral do NT. O amor é
a virtude pela qual resplandecem até mesmo as coisas mais pequenas, e os gestos
mais simples se tornam belos e construtivos. Tudo que se faz com amor, por
pequeno que seja, se torna uma obra prima. E nada vale aquilo que se faz sem
amor, por maior que ele seja.
Quando o
amor inunda uma casa, uma comunidade, uma assosciação etc. todos entendem a
língua de todos. “Que cada
um interrogue o seu coração: se ama ao irmão, o Espírito Santo permanece nele.
Que veja e se examine aos olhos de Deus, que veja se ama a paz e a unidade, se
ama a Igreja difundida por toda a terra. ... Pergunta ao teu coração se nele há
um lugar para o amor fraterno, e fica tranquilo. Não pode haver amor sem o
Espírito de Deus, visto que Paulo exclama: O amor de Deus foi derramado em
nossos corações com o Espírito Santo que nos foi dado” (Santo Agostinho:
Lecionário
Patrístico Dominical).
A bondade é fruto do ES. A bondade é um reflexo da
atitude divina. Ela é a prerrogativa daquele que se compraz em fazer por
primeiro o bem, em suscitar sempre e somente o bem ao seu redor. Ela é uma
qualidade criativa(tudo que Deus criou era bom. cf. Gn 1). Nossa bondade é nada
mais que uma participação, no ES, da característica divina, e por isso, é bela,
criativa, fascinante, capaz de suscitar uma sociedade nova. Nenhum coração
resiste diante da bondade. Se a bondade é fruto do ES, então, ela é um dom a
ser invocado, a ser implorado, dispondo-nos a acolhê-lo com humildade e
reconhecimento.
Outro fruto do ES é a moderação.
A palavra que se usa em grego é epieíkeia (ocorre 7 vezes no NT) que significa
respeito, afabilidade, acessibilidade, moderação, flexibilidade e equilíbrio ao
aplicar as leis, as regras; é capacidade de saber prever também as oportunas
exceções às regras. Trata-se de uma atitude fundamental na vida social. O
contrário da moderação é a arrogância, a petulância, a rudez, a presunção, a
falta de educação etc.
O domínio de si ou autocontrole, que é outro fruto do ES, está muito
ligado à moderação. É uma atitude que exige de si o respeito pelo outro,
mantendo sob controle os próprios sentimentos ou instintos de poder e de
prevaricação, de ser oportunista diante da fragilidade do outro. O autocontrole
evita todo senso de superioridade e toda violência física, verbal e moral nos
relacionamentos; evita a exploração da dignidade alheia; evita a busca da
própria vantagem, do próprio prazer em prejuízo da dignidade ou do interesse de
alguém. É uma virtude social fundamental.
A cortesia é outro fruto do ES. Ela é a atitude de Deus
em relação ao homem, o modo com o qual o Senhor se comporta conosco, segundo o
que Jesus diz: “Ele é benévolo (chrestós) para os ingratos e para os
maus” (cf. Lc 6,35). A cortesia é a arte de acolher, de ir ao encontro do outro
fazendo-o sentir que é bem-vindo, esperado, amado. Quando uma pessoa se sente
acolhida, estimada e compreendida, ela se solta, fala, dá corda ao discurso.
Outro fruto do ES é a mansidão.
Ela é uma atitude que facilmente pode ser mal interpretada, pois é confundida
com a fraqueza ou com a ingenuidade. Mas, na verdade, ela é a atitude típica de
Jesus que se autodefine manso (cf. Mt 11,29). E ela é uma das bem-aventuranças
por ele proclamada (cf. Mt 5,5). Mansidão é a atitude que acalma a ira ou
cólera. A mansidão é a atitude de quem elimina ou modera a própria cólera e a
dos outros; é responder à ira com a ponderação.
A longanimidade é outro fruto do ES. É uma virtude que
está ligada estreitamente à cortesia e à mansidão. Ela permite sustentar no
tempo a esperança (Cf. Lc 13,6-9; 2Cor 2,1-4). Ela é a capacidade de
saber investir, sem pretender a obtenção de resultados imediatos ( o contrário
da precipitação). Ela é a atitude que permite superar frustrações, que permite
superar a irritação e o desencorajamento diante da aparente esterilidade da
ação apostólica, educativa, formativa. Ela nos permite semear, eventualmente
com sofrimento, olhando para a colheita que nos será dada pelas mãos de Deus.
Ela nos convida a ter coragem e a resistir, na certeza de que da resistência
virá a alegria.
Outro fruto do ES é a alegria/jovialidade
(cf. Fl 4,4-7). O termo grego “chará” que se traduz por “alegria”,
ocorre 59 vezes no NT, sem contar os sinônimos e os verbos a ele ligados. É
muito mais fácil experimentar a alegria do que defini-la. Ela é a atitude que
torna tudo mais fácil. “Deus ama a quem doa com alegria” (2Cor 9,7), pois quem
doa com alegria, doa bem. Ela é a capacidade que torna outros felizes e
contentes. Ela é um sinal claríssimo da presença do ES. Se quisermos entender
onde o ES está agindo, precisamos verificar a presença ou a ausência da
alegria. Onde há a alegria, está aí o ES. O objetivo da obra de Jesus é o
tornar-nos plenos de alegria: “Eu vos disse isso para que a minha alegria
esteja em vós e a vossa alegria seja plena” (cf. Jo 16,22-24). Por isso, ela é
a característica típica do Reino de Deus.
O oposto da alegria é a
tristeza, aquele sentimento pelo qual tudo parece mais pesado. E uma variante
da tristeza é a depressão ou mau humor, a melancolia, o descontentamento. Como
resistir à atitude da tristeza? Como superar a depressão? É invocar o ES, pois
a alegria é o dom do ES. É preciso invocar o ES, na certeza de que a alegria
existe, de que ela está no fundo de nós mesmos, porque ela é a presença de
Jesus ressuscitado ainda que esteja escondida. A alegria vem e virá, e tal
certeza, cultivada no coração, ajuda a superar depressões, maus humores,
escuridão etc....
Outro fruto conjuntural
e central do ES é a paz (shalom), que representa também uma espécie
de síntese de todo bem na Bíblia. Biblicamente a paz é entendida como todo e
qualquer bem, humano e divino. Por isso, São Paulo até diz: “E a paz de Deus,
que ultrapassa toda a compreensão, guardará vossos corações e vossos
pensamentos em Jesus Cristo (Fl 4,7). A paz podemos definir como a atitude que
nos defende da ânsia, que reina sobre a ânsia, que a domina. Ela é, obviamente,
dom de Deus, do Espírito; é a riqueza que o Espírito derrama sobre os que a
acolhem. A paz é a sensação de sentir-se em casa, de ter familiaridade com o
ambiente em que vivemos. E sentir-se em casa com Deus, em Deus; o repouso em
Deus é a paz que bloqueia a inquietude do coração. Como dizia Sto. Agostinho:
“Nosso coração está inquieto enquanto não repousa em ti”. A paz é sentir-se em
casa com os outros, quando os relacionamentos são construtivos. A paz leva a
pessoa a superar os medos e as desconfianças recíprocas.
O Espirito Santo
Transforma Cada Cristão Em Missionário
Para os discípulos,
Jesus ressuscitado diz: “Como o Pai me enviou, também eu vos envio”
(v.21). Jesus é o Enviado por excelência (Jo
3,31-34;5,30;7,17s.28; 8,16.28s.42; 12,44s;16,28). A
missão provém de Deus, que quer dar a vida ao mundo. O envio dos discípulos
implica tudo o que visava o ministério confiado a Jesus: glorificar o Pai,
fazendo conhecer seu nome e manifestando seu amor (cf. 17,6.26). Do mesmo modo como o
Pai esteve presente com Jesus na sua missão, assim os discípulos não estarão
nunca sozinhos no cumprimento de sua missão (cf. Mt 28,20).
Aqui a ressurreição
está vinculada à missão. Os discípulos são chamados e enviados para ser
testemunhas do anúncio da morte que foi vencida. A Igreja surge ao redor dessa
fé na ressurreição. Os discípulos são enviados para proclamar a verdade de que
não é qualquer vida pode ressuscitar gloriosamente como a de Jesus, e sim
somente uma vida que tem como características: vida de doação, de serviço, de
perdão, de fidelidade plena a Deus, como foi a vida de Jesus. Somente assim, o
cristão possuirá a vida eterna ressuscitada. Ser enviado significa ser pessoa
que lança as sementes da ressurreição feito de justiça, de amor, de
reconciliação e de abertura incondicional a Deus. Se um cristão, o enviado,
fizer assim, a vida nova e a ressurreição estão germinando. E ele tem que
cuidar bem deste germe para que ele possa chegar à sua plenitude.
“Dito isso, soprou sobre eles e
disse: ‘Recebei o Espírito Santo’” (Jo 20,22). O gesto de Jesus
reproduz o gesto primordial da criação dos seres humanos por Deus (Gn 2,7). O
Criador “insuflou no homem um sopro que faz viver” (Sb 15,11; Ez 37,9). “Soprar” quer dizer dar vida a quem não
tem. Isso significa que o ser humano só existe porque é sustentado pelo sopro
de Deus. Trata-se agora da nova criação: Jesus glorificado comunica o Espírito
que faz renascer o homem novo (cf. Jo 3,3-8), capacitando-o para partilhar a
comunhão divina. O Filho que “tem a vida em si mesmo” dispõe dela a favor dos
seus (cf. 5,26.21); e seu sopro é o da vida eterna.
O Espirito
Santo e Pluralidade de Carismas
“Há diversidade de dons, mas um mesmo é o Espírito. Há diversidade de ministérios,
mas um mesmo é o Senhor. Há diferentes atividades, mas um mesmo Deus que
realiza todas as coisas em todos. A cada um é dada a manifestação do Espírito
em vista do bem comum”. Assim escreveu São Paulo aos coríntios que lemos hoje na
Segunda Leitura.
Esta leitura recorda a
pluralidade da ação do Espirito Santo. A pluralidade dos carismas e a unidade
da Igreja procedem do mesmo Espirito. A pluralidade de carismas é expressão da
riqueza e vitalidade da Igreja. Mas há que recordar que ministérios e carismas,
em sua diversidade, estão destinados para o bem comum (utilidade comum).
Ninguém tem todos os carismas.
Há uma pluralidade de
dons para o serviço do único Corpo que é a Igreja. A cada um é dado uma
manifestação do Espirito Santo porque o Espirito Santo não é monopólio de
ninguém. Assim o Espirito Santo não significa uniformidade sem variedade, não
dispersão e sim unidade, não pobreza e sim riqueza. Pentecostes significa
reconhecer esta realidade na Igreja, descobrir o próprio carisma e respeitar o
carisma dos demais irmãos na Igreja. Os dons ou os carismas são auto-revelação
do Espirito Santo. Nos carismas se faz visível o invisível Espirito de Deus. O
dom ou o carisma é dado a cada um, mas o que se quer sublinhar não é o
individualismo e sim a relação de serviço aos demais. Os carismas são para a
edificação da Igreja e não para a promoção pessoal. “O carisma é um dom gratuito, sobrenatural. O carisma é dado às pessoas
para a edificação do Corpo místico de Cristo, isto é, a Igreja e as
comunidades. O carisma está mais ligado à edificação, à atividade da caridade e
do serviço à comunidade. Por isso, os carismas estão sempre ligados diretamente
aos verbos de ações” (Ildo Perondi, professor da teologia da PUC, Rio de
Janeiro).
Por isso, São Paulo
define o critério para distinguir os verdadeiros carisma dos falsos. Primeiro,
o carisma autentico deve contribuir sempre para reforçar a profissão de fé no
Senhor Jesus Cristo: “Ninguém pode dizer: Jesus é o Senhor, a não
ser no Espírito Santo” (1Cor 12,3).
Segundo critério de
juízo se verifica na colaboração dos carismas mais diversos para o único
desígnio de Deus (1Cor 12,4-6). O politeísmo pagão ostentava carismas muito
variados concedidos por deuses diferentes. Na Igreja, pelo contrário, tudo se
unifica na vida trinitária para as funções comunitárias ou para o bem
comunitário. Não pode haver oposições entre os carismas, pois a fonte dos
carismas é um único Deus. Quando existe alguma oposição entre os carismas é
porque não provêm de Deus, isto é, não provêm do Deus trinitário.
Terceiro critério para
discernir os carismas: sua maior ou menor capacidade de servir ao bem comum: “A
cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum” (1Cor
12,7) e a unidade do Corpo (1Cor 12,12-13). Os carismas são distribuídos por
Deus em vista do bem comum. Os carismas devem servir para o crescimento e a
vitalidade do Corpo que é a Igreja.
Portanto, quero
concluir esta reflexão com as palavras de
Inácio de Laodicéia: “Sem o Espírito Santo, Deus se
torna longínquo; Cristo fica no passado; o Evangelho vira letra morta; a
Igreja, uma simples organização; a autoridade, uma opressão; a missão, uma
propaganda; o culto, uma evocação; o comportamento cristão, uma moral de
escravos. Mas, com o Espírito Santo, Cristo está presente; o Evangelho é poder
de vida; a Igreja torna-se comunhão trinitária; a autoridade, um serviço
libertador; a missão, um Pentecostes; a liturgia, um memorial e uma antecipação
da glória; e o comportamento torna-se divino”.
E São Basílio afirma: “o Espirito Santo é Fonte de
santificação, Luz de nossa inteligência, Ele é quem dá, de Si mesmo, uma
espécie de claridade a nossa razão natural para que conheça a verdade.
Inacessível por natureza, se faz acessível por sua bondade” (Sobre o
Espirito Santo 9,22-23).
“Vinde, Espírito Santo,
enchei os corações dos Vossos fiéis e acendei neles o fogo do Vosso amor e
envia o Teu Espírito, e tudo será criado, e renovareis a face da terra”. Assim
seja!
P. Vitus
Gustama,svd