sábado, 26 de setembro de 2026

Segunda-feira Da XXVI Semana Comum, Ano Par, 28/09/2026

VIVER COMO JUSTO E TER AUTORIDADE E SER PARCEIRO DO BEM


Segunda-Feira da XXVI Semana Comum

Primeira Leitura: Jó 1,6-22 (Ano Par)

6 Um dia, foram os filhos de Deus apresentar-se ao Senhor; entre eles também Satanás. 7 O Senhor, então, disse a Satanás: “Donde vens?” “Venho de dar umas voltas pela terra”, respondeu ele. 8 O Senhor disse-lhe: “Reparaste o meu servo Jó? Na terra não há outro igual: é um homem íntegro e correto, teme a Deus e afasta-se do mal”. 9 Satanás respondeu ao Senhor: “Mas será por nada que Jó teme a Deus? 10 Porventura não levantaste um muro de proteção ao redor dele, de sua casa e de todos os seus bens? Tu abençoaste tudo o que ele fez, e seus rebanhos cobrem toda a região. 11 Mas, estende a mão e toca em todos os seus bens; e eu garanto que ele te lançará maldições no rosto!” 12 Então o Senhor disse a Satanás: “Pois bem, de tudo o que ele possui, podes dispor, mas não estendas a mão contra ele”. E Satanás saiu da presença do Senhor. 13 Ora, num dia em que os filhos e filhas de Jó comiam e bebiam vinho na casa do irmão mais velho, 14 um mensageiro veio dizer a Jó: “Estavam os bois lavrando e as mulas pastando a seu lado, 15 quando, de repente, apareceram os sabeus e roubaram tudo, passando os criados ao fio de espada. Só eu consegui escapar para trazer-te a notícia”. 16 Estava ainda falando, quando chegou outro e disse: “Caiu do céu o fogo de Deus e matou ovelhas e pastores, reduzindo-os a cinza. Só eu consegui escapar para trazer-te a notícia”. 17 Este ainda falava, quando chegou outro e disse: “Os caldeus, divididos em três bandos, lançaram-se sobre os camelos e levaram-nos consigo, depois de passarem os criados ao fio da espada. Só eu consegui escapar para trazer-te a notícia”. 18 Este ainda falava, quando chegou outro e disse: “Teus filhos e tuas filhas estavam comendo e bebendo vinho na casa do irmão mais velho, 19 quando um furacão se levantou das bandas do deserto e se lançou contra os quatro cantos da casa, que desabou sobre os jovens e os matou. Só eu consegui escapar para trazer-te a notícia”. 20 Então, Jó levantou-se, rasgou o manto, rapou a cabeça, caiu por terra e, prostrado, disse: 21 “Nu eu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei para lá. O Senhor deu, o Senhor tirou: como foi do agrado do Senhor, assim foi feito. Bendito seja o nome do Senhor!” 22 Apesar de tudo isso, Jó não cometeu pecado nem se revoltou contra Deus.

Evangelho: Lc 9,46-50

Naquele tempo, 46 houve entre os discípulos uma discussão, para saber qual deles seria o maior. 47 Jesus sabia o que estavam pensando, pegou então uma criança, colocou-a junto de si 48 e disse-lhes: “Quem receber esta criança em meu nome, estará recebendo a mim. E quem me receber, estará recebendo aquele que me enviou. Pois aquele que entre todos vós for o menor, esse é o maior”. 49 João disse a Jesus: “Mestre, vimos um homem que expulsa demônios em teu nome. Mas nós lho proibimos, porque não anda conosco”. 50 Jesus disse-lhe: “Não o proibais, pois quem não está contra vós, está a vosso favor”.

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Viver Como Justo Apesar Dos Sofrimentos, Pois Deus É Justo

"Nu eu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei para lá. O Senhor deu, o Senhor tirou: como foi do agrado do Senhor, assim foi feito. Bendito seja o nome do Senhor!”.

Durante vários dias vamos acompanhar, nos dias da semana, a leitura de outro livro sapiencial: o Livro de Jó. Este livro não pode ser lido superficialmente nem fragmentariamente. Este livro é para ser lido com uma profunda reflexão. Cada leitor é chamado a se colocar no lugar de Jó, o proganista do livro, para compreender sua situação, suas reações psicológicas e sua fé. Trata-se de um livro que questiona uma fé baseada apenas nos conhecimentos ou teorias, não alinhada com a experiência da vida cotidiana com sua complexidade, com Deus que se manifesta nos acontecimentos e na História e portanto, é um Deus que nos acompanha diariamente (Cf. Mt 28,20).

O Livro de Jó, um livro sapiencial do século V antes de Cristo, é um dos mais impressionantes do Antigo Testamento. Os críticos creem que o livro foi escrito nos tempos posteriores ao exílio, e reflete as inquietudes das escolas de “sábios” que se preocupavam com os problemas pessoais do individo como tal, revisando as teses conformistas tradicionais.

Não conhecemos o nome do autor deste maravilhoso livro sapiencial, mas sem dúvida nenhuma, é um judeu que conhece as leis mosaicas.

A figura central do livro é Jó, um homem justo e paciente. Neste livro, o relato é organizado a modo de parábola sapiencial, como desenvolvimento de uma interrogação que preocupa a humanidade em todos os tempos: o problema do mal: Por que Deus permite que os inocentes, os justos passem por tantas desgraças? Por que Deus está ausente na dor?

O livro é composto de um prólogo e epílogo muito poético, enquanto o corpo central, quarenta capítulos, é um entrelaçamento de solilóquios e orações de Jó, de conversas com seus amigos e a resposta de Javé (Deus).

Os amigos defendem a sabedoria tradicional: Estabelece-se uma relação quase matemática entre pecado humano e o castigo de Deus (retribuição automática). O autor do livro de Jó não crê nessa explicação e continua buscando outra resposta sobre a existência do mal: deve ter outra razão misteriosa, a não ser que Deus seja caprichoso e cruel. Segundo a teologia oficial da época, que desconhecia a vida além-túmulo, Deus aplicava prêmios e castigos só nesta vida. Riqueza, saúde, vida longa, prole numerosa, êxito e assim por diante eram índice de santidade, ao passo que a pobreza, enfermidade, vida curta, esterilidade etc., são castigo de Deus pelo pecado. Esta sabedoria irá perdurar por muito tempo em Israel, e também na Igreja.

Um  percurso sobre a dor, ao longo do Novo Testamento, seria extenso e deslocado. Existem textos nos quais perdura a ideia da retribuição automática: “Rabi, quem pecou para que ele nascesse cego, ele ou seus pais?”, perguntam os apóstolos, e Jesus responde: “Nem ele nem seus pais” (Jo 9: cego de nascença).

Os amantes de Deus tentaram superar essa teologia egoísta da retribuição. É o caso do autor de Jó que escreveu seu livro revolucionário contra a teologia oficial de então, duas ou três gerações depois da volta do desterro. Nesse caso, então, o autor do livro de Jó não crê na explicação da teologia de retribuição e continua buscando outra resposta sobre a existência do mal: deve ter outra razão misteriosa, a não ser que Deus seja caprichoso e cruel. Ainda que o personagem seja ficção literária sapiencial, sua mensagem é absolutamente atual.

Nem sequer as palavras finais que o autor coloca nos lábios de Deus fornecem uma solução completamente convincente. Lembre-se de que estamos no AT: todavia, ainda não se tem uma ideia clara da outra vida, nem se acendeu a luz da Páscoa de Jesus, o verdadeiro Inocente que experimenta uma injustiça maior do que a de Jó, a morte.

Este livro poético-didático e maravilhoso gira em torno da tragédia de um justo em Israel que foi submetido a provações terríveis por Deus para avaliar sua virtude. De fato, o problema teórico que surge nesta obra é o sofrimento do justo nesta vida, uma questão que tinha sido levantada nas várias literaturas da antiguidade. Hagiógrafo, em vez de colocar o problema em abstrato, ele prefere apresentar a história de um justo irrepreensível, que, apesar de sua verdadeira virtude, sofre as mais terríveis penalidades: perda de riquezas materiais, da família e da própria saúde. No entanto, ele aceita a prova resignada, porque tudo vem de Deus: o bem e o mal.

A tese tradicional na sociedade israelita era que Deus recompensa a virtude nesta vida e castiga o vício. Aos cumpridores da lei divina são reservados todos os tipos de bens temporais: longevidade de vida, prosperidade material, numerosa posteridade ou descendência, enquanto que  aos pecadores lhes  espera a morte em plena juventude, a perda de seus bens e a esterilidade. Por outro lado,  se estabelece uma relação causal entre o pecado e o sofrimento, de modo que aquele que sofria contrariedades de ordem física ou moral tinha por causa o pecado indefectível. A história do justo Jó será a prova irrefutável de que essa tese, geralmente aceita pela sabedoria tradicional, não tem validade em todos os casos e, portanto, não se deve atribuir necessariamente a infelicidade e a enfermidade ao pecado como causa.

O livro começa, como lemos na Primeira Leitura de hoje, com um prólogo que é um conto dramatizado. No céu, na presença de Deus, tem lugar como um conselho pastoral, em que Satanás, “o adversário”, põe em dúvida a solidez de Jó, e desafia Deus para testar Jó, para ver se ele é tão fiel quanto parece.

Todos os tipos de calamidades recaem sobre o pobre homem, Jó. E, no momento, sua reação é consistente com sua reputação como paciente. Suas palavras têm sido um slogan para tantas pessoas ao longo dos séculos: "Nu eu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei para lá. O Senhor deu, o Senhor tirou: como foi do agrado do Senhor, assim foi feito. Bendito seja o nome do Senhor!”.

O Salmo Responsorial de hoje (Sl 16) reflete a fidelidade de Jó: “Ó Senhor, ouvi a minha justa causa, escutai-me e atendei o meu clamor! Inclinai o vosso ouvido à minha prece, pois não existe falsidade nos meus lábios!”.

Não é fácil ver as coisas a partir desta perspectiva. No momento, Jó na se rebela contra Deus. Porém, mais adiante ele terá crises profundas.

A desgraça e a dor são uma realidade com que tropeçamos frequentemente. Os ensinamentos do Livro de Jó são sempre atuais. Jó era uma homem temeroso de Deus que recebia inumeráveis bênçãos. Satanás insinua que a virtude de Jó é interesseiro e que desapareceria com a destruição de suas riquezas. Jó foi despojado de todos os bens e de sua saúde. Sua conformidade com a vontade de Deus e sua fé se manteve firme apesar das zombarias que ferem que saíram da boca de sua mulher: “Se recebemos de Deus os bens, não deveríamos receber também os males?” (Jó 2,10).

Hoje pode ser uma boa oportunidade para que examinemos nossa postura diante do Senhor, quando, em nós ou naqueles que amamos, acontecem a desgraça e a dor. Deus é nosso Pai e por isso, sabe muito bem o que fazer com nossa situação. Basta manter nossa fé nele que nem sempre é fácil neste tipo de situação. A pergunta fica para nós: será que nos comportamos como filhos agradecidos na abundancia e na escassez, na saúde e na enfermidade?

Muitas vezes, fora da fé, o sofrimento do inocente e do justo casa desconcerto. Enquanto que a vida dos outros que viveram longe de Deus, está sorrindo a eles. A Paixão de Cristo é a única que pode iluminar este mistério do sofrimento humano, de modo particular do inocente. Na Cruz de Cristo não somente se cumpriu a redenção mediante o sofrimento e sim que o próprio sofrimento humano ficou redimido. Os padecimentos de Jesus forma o preço de nossa salvação. desde então, nossa dor pode se unir à dor de Jesus e participar na redenção da humanidade inteira. Nunca a dor passa ao nosso lado deixando-nos como antes. Ao contrário, ela purifica nossa vida e aumenta o grau de união com a vontade divina em Jesus Cristo e nos ajuda a desapegarnos de de nossos bens materiais. Temos que aprende a olhar para Cristo em meio de nossas provações e tribulações.  Nos fixemos, pelo menos, na Cruz de Jesus e daremos passo ao amor. E entenderemos que carregar a Cruz tem sentido quando a levarmos junto ao Mestre Jesus. Ao pés do Crucificado compreenderemos que não é possível amar sem sacrifício.

É Preciso Ter a Autoridade e Não o Poder

O Evangelho deste dia nos narra a parte final da atividade de Jesus na Galileia. A partir de Lc 9,51-19,28 Jesus sairá da Galileia rumo a Jerusalém onde será crucificado, morto e glorificado.

Na primeira parte do evangelho lido neste dia o evangelista Lucas nos relatou que entre os discípulos houve uma discussão sobre quem era maior ou quem tinha mais poder. Em outras palavras, eles tinham ambição de ter o poder na mão. Isso significa que até então eles ainda não captaram o essencial da mensagem de Jesus que é preciso pensar no outro e fazer tudo pela sua salvação.

Quem tem o poder geralmente impõe aos outros suas decisões, muitas vezes através dos meios injustos como opressão, repreensão, tortura, ameaça, execução etc.. O poder não respeita a liberdade humana, por isso ele não faz que os homens se tornem bons.  O poder obriga e impõe o silêncio. Quem tem poder geralmente não se preocupa com a ética e com a humanidade. Aquele que tem poder sempre tem tendência de manipular as pessoas e dirigi-las para seus próprios objetivos e sua necessidade de poder. O ambicioso pelo poder, quando dominado pelo vício, não suporta competidores, nem admite rivais e por isso, ele procura todos os meios para humilhá-los e eliminá-los. Ele considera “justo” e “honesto” o uso da violência para atingir seus objetivos. Ele não tem consciência de que o poder é passageiro. Quem desejar ser o primeiro a todo custo não pensa na justiça e na honestidade nem na necessidade dos outros. O respeito aos outros está ausente na vida de um ambicioso.

O contrário do poder é a autoridade. A autoridade está ligada ao crescimento. A palavra “autoridade” vem do latim “augere”, que quer dizer “crescer”. Exercer a autoridade significa sentir-se realmente responsável pelos outros e por seu crescimento sabendo que eles são pessoas que tem um coração, nas quais existe o Espírito de Deus (cf. 1Cor 3,16-17) e que são chamadas a crescer na liberdade da verdade e do amor. Na linguagem bíblica, a autoridade é uma rocha que dá apoio. É o pastor que conduz o gado para o bom pasto (cf. Sl 23 sobre o bom pastor; cf. Jo 10). Os membros da comunidade são essencialmente o rebanho de Jesus: “Apascenta as minhas ovelhas” (cf. Jo 21,15-17). Os membros de uma comunidade logo sentem quando os responsáveis (autoridade) os amam e querem ajudá-los a crescer e não quando estão presentes apenas para administrar, impor sua lei e sua própria visão. A autoridade é o autêntico serviço para a comunidade. A crise de liderança geralmente surge da crise da autoridade.

O grande não é reinar e sim servir no espírito de Jesus. Para Jesus servir é coisa grande e faz quem serve grande diante de Deus, pois servir o mais desprezado dos homens é servir a Deus (cf. Mt 25,40.45). É imitar Jesus.

Os discípulos de Jesus, mesmo estando com Ele, nunca abandonaram suas pretensões de poder. E nós, será que também nós não abandonamos nossas pretensões de poder ao estar na Igreja? Ou usamos a Igreja para facilitar o alcance de nosso poder?

Hoje necessitamos criar uma catequese que realmente cultive o conhecimento de Jesus e a prática de suas atitudes, pois o que Jesus queria era criar um grupo de pessoas que, ao atender a chamada de Deus, proporcionam novas alternativas de vida.

É Preciso Ser Parceiro do Bem

A segunda parte do Evangelho de hoje nos relata que o discípulo João se queixa por ter visto alguém “expulsando demônios” em nome de Jesus, mas esse alguém não pertence ao grupo dos discípulos. A reação de João é imediata: proibir que se faça o bem, pois não é membro da comunidade dos seguidores de Cristo. Com essa proibição os discípulos mostram seu comportamento incompatível com o Reino de Deus: arrogância, sectarismo, intransigência, intolerância, ciúmes, mesquinhez, pretensão de monopolizar Jesus e a sua proposta.        

Diante desse comportamento dos discípulos Jesus disse-lhes: “Não o proibais, pois quem não está contra vós está a vosso favor”. Com esta exortação Jesus quer que os discípulos superem o sectarismo na prática do bem.  A comunidade cristã deve ser colaboradora na prática do bem e acolher todas as pessoas que praticam o bem independentemente de pertencer ou não à Igreja. Cada cristão deve ser parceiro do bem e por isso, deve reconhecer o bem praticado por qualquer pessoa. Se realmente alguém pratica o bem é porque tem algo de Deus dentro dele, pois Deus é o Bem supremo. E tudo que Ele criou era bom (cf. Gn 1,1ss). 

O Espírito de Deus é livre e atua onde quer e como quer. Ele não está limitado por fronteiras, nem por regras, nem por interesses pessoais, nem por privilégios de grupo. Nenhuma Igreja ou religião ou grupo tem o monopólio do Espírito Santo, nenhuma instituição consegue controlá-lo nem prendê-lo. O Espírito não é privilégio dos membros da hierarquia; mas está bem vivo e bem presente em todos aqueles que abrem o coração aos dons de Deus e que aceitam comprometer-se com Jesus e o seu projeto de vida.

Somos convidados a abandonar atitudes como o fanatismo, a intolerância, a intransigência, preconceitos, etc. , pois elas fazem fechar os olhos e o coração diante da manifestação do amor de Deus em tantas pessoas de boa vontade mesmo que se digam não acreditar em Deus, mas Deus acredita nelas por causa do bem que elas praticam. Não temos que sentir-nos ciumentos se Deus quer agir no mundo através de pessoas que não pertencem à nossa Igreja. É preciso ser parceiro deste tipo de pessoa.

Os cristãos são chamados a constituir uma comunidade sem arrogância, sem ciúmes, sem presunção de posse exclusiva do bem e da verdade, pois estes sentimentos e atitudes são incompatíveis com a opção pelo Reino: “Deus resiste aos soberbos, mas dá a sua graça aos humildes” (1Pd 5,5b;Pr 3,34).

P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

XXVI Domingo Do Tempo Comum, Ano "A", 27/09/2026

ENTRE O DIZER E O FAZER NA VIDA DO CRISTÃO

XXVI DOMINGO DO TEMPO COMUM  ANO “A”

I Leitura: Ez 18,25-28

Assim diz o Senhor: 25 “Vós andais dizendo: ‘A conduta do Senhor não é correta’. Ouvi, vós da casa de Israel: É a minha conduta que não é correta, ou antes é a vossa conduta que não é correta? 26 Quando um justo se desvia da justiça, pratica o mal e morre, é por causa do mal praticado que ele morre. 27 Quando um ímpio se arrepende da maldade que praticou e observa o direito e a justiça, conserva a própria vida. 28 Arrependendo-se de todos os seus pecados, com certeza viverá, não morrerá”.

II Leitura: Fl 2,1-11

Irmãos: 1 Se existe consolação na vida em Cristo, se existe alento no mútuo amor, se existe comunhão no Espírito, se existe ternura e compaixão, 2 tornai então completa a minha alegria: aspirai à mesma coisa, unidos no mesmo amor; vivei em harmonia, procurando a unidade. 3 Nada façais por competição ou vanglória, mas, com humildade, cada um julgue que o outro é mais importante, 4 e não cuide somente do que é seu, mas também do que é do outro. 5 Tende entre vós o mesmo sentimento que existe em Cristo Jesus. 6 Jesus Cristo, existindo em condição divina, não fez do ser igual a Deus uma usurpação, 7 mas esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-se igual aos homens. Encontrado com aspecto humano, 8 humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até à morte, e morte de cruz. 9 Por isso, Deus o exaltou acima de tudo e lhe deu o Nome que está acima de todo nome. 10 Assim, ao nome de Jesus, todo joelho se dobre no céu, na terra e abaixo da terra, 11 e toda língua proclame: “Jesus Cristo é o Senhor!”

Evangelho: Mt 21,28-32

Naquele tempo, Jesus disse aos sacerdotes e anciãos do povo: 28 “Que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Dirigindo-se ao primeiro, ele disse: ‘Filho, vai trabalhar hoje na vinha!’ 29 O filho respondeu: ‘Não quero’. Mas depois mudou de opinião e foi. 30 O pai dirigiu-se ao outro filho e disse a mesma coisa. Este respondeu: ‘Sim, senhor, eu vou’. Mas não foi. 31 Qual dos dois fez a vontade do pai?” Os sumos sacerdotes e os anciãos do povo responderam: “O primeiro”. Então Jesus lhes disse: “Em verdade vos digo que os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus. 32 Porque João veio até vós, num caminho de justiça, e vós não acreditastes nele. Ao contrário, os cobradores de impostos e as prostitutas creram nele. Vós, porém, mesmo vendo isso, não vos arrependestes para crer nele”

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Depois de instruir a seus discípulos sobre seu destino e sobre as exigências do seguimento (Mt 16,21-20,34), Jesus entra em Jerusalém, centro do poder político, econômico, religioso, judiciário e ideológico do povo de Deus, representado pelo Sinédrio, o Supremo Tribunal dos judeus, responsável pela morte de Jesus. Jesus se confronta com essas lideranças e, uma após outra, vai desmascarando-as, mostrando o descompromisso delas com o Reino. De acusado (Mt 21,23) Jesus passa ao ataque através de parábolas contadas para essas lideranças (Mt 21,28-22,14). A comoção inicial da cidade (Mt 21,10; veja Mt 2,3) vai se convertendo, ao longo dos próximos capítulos deste evangelho (leia Mt 21,1-23,39), numa recusa frontal de Jesus e seus discípulos.         

Nestes capítulos (Mt 21,1-23,39) percebe-se a tensão que aconteceu nos últimos dias da vida de Jesus: Jesus manifesta-se como Messias através de três gestos simbólicos (Mt 21,1-22); os fariseus questionam sua autoridade (21,23-27); Jesus lhes responde por meio de três parábolas (21,28-22,14); os adversários buscam um motivo para acusá-lo através da apresentação de três questões discutidas: sobre imposto, ressurreição e maior mandamento (22,15-40); e Jesus propõe-lhes a questão decisiva: sobre Messias, filho de Davi (22,41-46); e diante da incapacidade dos adversários de reconhecê-lo como Messias, Jesus pronuncia o veredicto de Deus sobre os líderes de Israel e sobre Jerusalém (23,1-39). Mas o que aparece nestes capítulos com mais claridade é o enfrentamento posterior entre a comunidade de Mt e o judaísmo quando a ruptura entre ambos já havia tido lugar; aparece também que a Igreja cristã é a herdeira das promessas feitas a Israel (Mt 21,43).           

A parábola dos dois filhos que lemos no texto do evangelho deste domingo tem uma função similar à parábola do filho pródigo de Lc (Lc 15,11-32) embora cada evangelista a desenvolva diversamente. A mesma parábola também é o eco do Sermão da Montanha que enfatiza o fazer do que o dizer (Mt 7,21-23; cf. Mt 12,50;23,3-4).          

Mt começa a parábola com a pergunta: “Que vós parece?” (v.28a). Esta pergunta é típica de Mt (cf. Mt 17,25;18,12;22,17;26,66). A pergunta não é mais dirigida aos discípulos, mas aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo, os mesmos interlocutores da unidade anterior (cf. Mt 21,23-27). A pergunta obriga os ouvintes a comprometer-se e a tomar posição. A resposta à pergunta torna-se um julgamento para os ouvintes. E no fim da parábola, mais uma vez, os mesmos interlocutores são obrigados a escolher “qual dos dois fez a vontade do pai?” (v.31). A resposta dada a estas perguntas pelos ouvintes será sua salvação ou seu juízo. 

Nossa Fala Não Pode Ultrapassar Nossa Ação 

Antes de tirar a mensagem da parábola, primeiramente, temos que fazer uma leitura da parábola dentro do contexto da comunidade de Mateus, que é uma comunidade mista (judeus e pagãos convertidos), para a qual ele escreveu seu evangelho. Na parábola o pai pede a um filho (primeiro filhos) para que va à vinha, mas este filho não aceita o pedido. Porém, arrependido ele vai. Este filho representa, na verdade, os povos pagãos que viviam sob a influência dos mitos, das crenças livres, da lei do mais forte e portanto, estavam longe do Reino de Deus. Quando ouviram dos discípulos de Jesus o Evangelho, os pagãos (os gregos) acreditavam com maior facilidade e rapidez do que os próprios judeus. 

Para o segundo filho, o pai faz o mesmo pedido. Ele aceita o pedido, mas não vai para a vinha. Este segundo filho representa o povo judaico. Por causa da influência dos patriarcas e dos profetas o povo judaico (na época) comprometeu-se em praticar a justiça e em ensinar o mundo para viver o bem, porém sempre foi um filho rebelde, que usou a violência e a barganha em busca da própria vantagem  e com isso acaba não praticar a justiça em nome dos interesses egoístas. Eles são religiosos, mas vivem como pagãos. Enquanto os publicanos e as prostitutas, que são considerados impuros e, por isso, estariam excluídos da salvação, acreditam no Evangelho e se convertem. Pela sua fé e conversão os publicanos e as prostitutas entrarão primeiro no Reino do que os escribas, fariseus, anciãos e sumos sacerdotes (Mt 21,31-32). É uma grande ironia: os pecadores acreditam e se convertem, mas os “religiosos”, os supostos “puros” não aceitam as palavras de repreensão e advertência e não querem se converte, pois se acham puros e sem pecado. O santo, o puro sempre se acha pecador; o verdadeiro pecador sempre se acha santo. Os que ficam distante da luz acham que seu corpo está limpo; os que ficam perto da luz, com facilidade percebem a sujeiro nas suas roupas e no seu corpo. É um paradoxo de uma vida religiosa.          

A parábola coloca os dois filhos em contraste. Contrasta a maneira como se dirigem ao pai: o primeiro (filho mais velho) de forma mal educada e grosseira e rebelde para os padrões comportamentais daquele tempo: “Não quero ir”, disse ele. O segundo filho, de forma delicada e polida, não sabe dizer “não”, mas desmente tudo na prática: “Eu irei, senhor”. Mas não foi. Contrasta a atitude que tomaram: um foi e o outro não foi. E, de modo especial, contrasta a contradição entre a palavra e a ação dos dois. O primeiro filho peca por falta de educação. Ele não admite conversa ou diálogo. Mas ele vai trabalhar. O segundo, apesar de sua boa educação, apesar de seu “sim” verbal, não vai trabalhar. O pai se agrada com o “não” arrependido do filho mais velho, e não com o “sim” gentil mas mentiroso do filho mais jovem.          

Os ouvintes de Jesus não tiveram dificuldade de dar uma resposta exata à pergunta de Jesus: “Qual dos dois fez a vontade do pai?”. Sem hesitar os ouvintes responderam: o primeiro filho, isto é, aquele que falou que não iria, mas de fato foi e fez o que o pai pedia. Mas ao dar sua resposta, os próprios ouvintes (judeus) foram colocados contra a parede e se auto condenaram.          

A mensagem, portanto, é muito clara. Entre palavra e ação, a primazia é dada à ação. Entre intenção e ação, a primazia é dada à ação. O homem se salva não pelas palavras, intenções, palavras estéreis e descompromissadas, e sim por fatos concretos e precisos.         

O critério do agir é tão fundamental que a primeira denúncia que se fez dos escribas e fariseus é que o agir deles era fictício: eles agiam apenas de modo aparente, faziam de conta que agiram, mas na realidade não agiram. Desse modo eles pecaram contra os seus próprios princípios.          

Quando nós não somos fiéis à nossa palavra deixa de respeitarmos a nós mesmos e consequentemente aos outros, e a verdade não está em nós, não somos fiéis a nós mesmos, e também aos outros. Deste jeito estamos mentindo para nós mesmos e para os outros. A mentira é a defesa fácil dos fracos, que não são capazes de assumir a responsabilidade de seus atos. Triste é que o mentiroso não somente se condena a si próprio a vergonhosas contradições, mas também priva os demais do direito que têm à verdade, semeando desconfiança entre as pessoas.         

O fazer ou o agir é tão importante que Jesus Cristo pede aos discípulos o seguimento. Seguir a Jesus é agir com ele e como ele, acompanhá-lo no seu agir, é imitá-lo. Jesus chama os discípulos convidando-os a segui-Lo (Mt 4,19-22; 8,22; 9,9; 16,24; 19,21.27).         

Então, o que importa não é aquele que se comporta bem que se salva, mas sim quem cumpre a vontade de Deus. O que conta diante de Deus não são as aparências, nem as boas intenções ou palavras, mas a PRÁTICA. Deus olha para o que de fato fazemos, não importa o que pensamos ou dizemos. Em Deus e diante de Deus o homem vale pelo que faz e não pelo que fala. Neste sentido, o que importa não é a conversão externa, mas sim a atitude interior. E aquele que honra a Deus, não é aquele que observa uns ritos exteriores, mas sim aquele que põe em prática a vontade de Deus. Por isso, devemos ficar sempre atentos para que a nossa prática religiosa ou nossos ritos exteriores, não seja mais importante do que nosso Deus e nosso próximo.         

Por isso, o maior escândalo de nossos tempos é a separação da religião da vida. Reza-se, mas não se vive o que se reza. Canta-se mas não se vive o que se canta. Recebe-se a Eucaristia, mas não se vive a comunhão fraterna. Dobra-se os joelhos diante do sacrário, mas despreza-se o irmão, o corpo vivo e imagem de Cristo. Numa ocasião o Papa Paulo VI disse: “O grande pecado da moderna cristandade é o vazio entre a fé e as obras. É o pecado de ser ilógico, inconsciente e infiel”.           

O Evangelho de Mateus enfatiza muito a questão do AGIR. O critério definitivo para Jesus é o agir. A regra decisiva do discernimento é a distinção entre o falar e o agir. Por isso, os verdadeiros discípulos são os que agem, que praticam a vontade de Deus. Ao contrário, os falsos discípulos são aqueles que falam palavras bonitas, mas não fazem nada. Por isso, Jesus diz, no sermão do monte: “Nem todo aquele que me diz ‘Senhor, Senhor’ entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que pratica a vontade do meu Pai” (Mt 7,21). Da mesma maneira, o verdadeiro profeta se reconhece pelos frutos (Mt 7,16-20). 

É Preciso Ter Uma Posição Certa 

Pela sua atitude os dois filhos merecem uma repreensão. Um em atitude de revolta, ofende o pai com resposta grosseira: “Não vou!”. No entanto, ele tem uma vantagem sobre o outro filho que é hipócrita. Ele erra, mas não mente. Quando este filho descobriu a verdade maior, isto é, os motivos do pai, ele é capaz de mudar. Ele foi trabalhar.  Quem se opõe, de verdade, pelo menos, tem uma opção ou deve ter uma opçãp, pois ninguém se opõe por opor-se. Se não tiver uma opção, ao menos, terá que ter uma posição clara. Ninguém se opõe para manter o comodismo ou algumas vantagens pessoais. Quem tem uma posição clara é capaz de defender o seu ponto de vista. Mas quem procura a verdade, é capaz de largar o ponto de vista a partir de um momento em que a verdade está em destaque. Porque cada ponto de vista é apenas visto de um ponto. É preciso ter um pouco de uma visão multidimensional de uma realidade para errar menos. É preciso mudar para crescer e avançar. “O triste não é mudar de ideia. O triste é não ter ideia para mudar” (Francis Bacon, filósofo britânico). 

A hipocrisia e a mentira são piores que a insurreição (contra a ordem preestabelecida com o objetivo de derrubá-la). O homem moderno, dentro e fora da Igreja, tem uma grande sensibilidade para tudo que é autêntico em teoria e em prática, e uma irrefutável aversão contra tudo o que é falsidade, hipocrisia e afetação de virtude.

A pergunta de Jesus “O que vos parece?” é dirigida a cada um de nós. Você se parece com qual dos dois filhos? O que Jesus não aceita é a atitude hipócrita e santarrão dos que se creem melhores do que os demais sem necessidade de mudança alguma. Prefere o longo caminho, cheio de liberdade e de fracassos, de buscas de novos horizontes a causa de seu inconformismo com a vida que os rodeia à comodidade dos que dizem “sim” a tudo, mas não se comprometem com nada.          

A parábola dos dois filhos é um convite para fazermos o sério exame de consciência sobre o nosso agir diário. As nossas palavras nunca podem ultrapassar o nosso agir para não sermos chamados de cristãos falsos ou hipócritas: religiosos, mas não cristãos. Os cristãos falsos podem possibilitar ou facilitar o surgimento do ateísmo nas pessoas inocentes. Muitos, que se dizem ateus, acreditam em Deus e não nas suas caricaturas. Se não nos convertermos continuamente, o mundo vai repetir as palavras de Mahatma Gandhi: “Eu aceito o vosso Cristo, mas não aceito o vosso cristianismo”. Precisamos abandonar a religião das aparências para assumir a religião da responsabilidade. Precisamente, através da parábola no evangelho de hoje, Jesus ataca diretamente a religião com práticas puramente exteriores, formais, tradicionais sem senso crítico, que não afetam o interior da pessoa e sua responsabilidade e seu compromisso social. Jesus adverte, muitas vezes, os escribas, sacerdotes e dirigentes religiosos de um dos perigos que ameaçam os “profissionais” da religião: falam muito de Deus e acreditam pouco n´Ele e acham que sabem tudo d´Ele, pregam em Seu nome a lei para os outros, a ordem e a moral, mas não vivem conforme acreditam (cf. Mt 23,2-7). Há pessoas muito “religiosas” que desprezam os outros, acusam, ameaçam e até condenam em nome de Deus. 

Jesus termina a parábola com as seguintes palavras terríveis: “Em verdade vos digo que os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus.”. Os que aparentemente têm pouco a ver com Deus estão frequentemente mais próximos de Deus do que os teólogos e sacerdotes e os que se acham “religiosos”, pois entendem a Palavra de Deus t tocam seu coração para voltar ao caminho de Deus que é o caminho da salvação. 

A verdadeira religião está enraizada na consciência de cada um, que não só sabe distinguir entre o bem e o mal, mas luta para que o bem supere o mal, para que a verdade prevaleça sobre a mentira e todo tipo de fake-news e para que o amor (a Deus e ao próximo) ocupe o lugar do ódio e do egoísmo e de todos os interesses egoístas.                                          

P. Vitus Gustama,SVD

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Sábado Da XXV Semana Comum, Ano Par, 26/09/2026

VIVER COM SENTIDO É VIVER FAZENDO O BEM E SACRIFICANDO-SE PARA O BEM DE TODOS A EXEMPLO DE CRISTO JESUS

Sábado da XXV Semana Comum

Primeira Leitura: Ecl 11,9-12,8 (Ano Par)

Alegra-te, jovem, na tua adolescência, e que o teu coração repouse no bem nos dias da tua juventude; segue as aspirações do teu coração e os desejos dos teus olhos; fica sabendo, porém, que de tudo isso Deus te pedirá contas. 10 Tira a tristeza do teu coração, e afasta a malícia do teu corpo, pois a adolescência e a juventude são vaidade. 12,1 Lembra-te do teu Criador nos dias da juventude, antes que venham os dias da desgraça e cheguem os anos dos quais dirás: "Não sinto prazer neles"; 2 - antes que se obscureçam o sol, a luz, a lua e as estrelas, e voltem as nuvens depois da chuva; 3 quando os guardas da casa começarem a tremer, e se curvarem os homens robustos; quando as poucas mulheres cessarem de moer, e ficarem turvas as vistas das que olham pelas janelas 4 e se fecharem as portas que dão para a rua; quando enfraquecer o ruído do moinho, e os homens se levantarem ao canto dos pássaros, e silenciarem as vozes das canções, 5 e houver medo das alturas e sobressaltos no caminho, enquanto a amendoeira floresce, o gafanhoto se arrasta e a alcaparra perde o seu gosto, porque o homem se encaminha para a morada eterna, e os que choram já rondam pelas ruas; 6 - antes que se rompa o cordão de prata e se despedace a taça de ouro, a jarra se parta na fonte, a roldana se arrebente no poço, 7 - antes que volte o pó à terra, de onde veio, e o sopro de vida volte a Deus que o concedeu. 8 Vaidade das vaidades, diz o Eclesiastes, tudo é vaidade.

Evangelho: Lc 9, 43b-45

Naquele tempo, 43bTodos estavam admirados com todas as coisas que Jesus fazia. Então Jesus disse a seus discípulos: 44“Prestai bem atenção às palavras que vou dizer: O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens”. 45Mas os discípulos não compreendiam o que Jesus dizia. O sentido lhes ficava escondido, de modo que não podiam entender; e eles tinham medo de fazer perguntas sobre o assunto.

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O final do livro Eclesiastes coincide com a reflexão sobre o final da vida humana: da juventude passa para a velhice e da velhice termina com a morte.

Ecl 11,9-10 fala da alegria do tempo da juventude. O autor se dirige aos jovens, de forma imperativa e insistentemente para que os jovem saiba desfrutar os aspectos positivos da vida e fugir de seu lado triste e doloroso. O convite do autor aos jovens para desfrutarem a vida positivamente inclui também uma dupla limitação: o caráter passageiro dos jovens e o juizo de Deus.

Ecl 12,1-8 fala dos dias maus ou dos dias de escuridão da velhice. Tratam-se dos dias de enfraquecimento e de deterioração progressivos, de medo, abandono e de prelúdio de morte; anos em que a vida entra no período de falência definitiva. É o curso normal da vida humana.

A Juventude Vivida No Espírito De Deus

“Segue as aspirações do teu coração e os desejos dos teus olhos; fica sabendo, porém, que de tudo isso Deus te pedirá contas. Lembra-te do teu Criador nos dias da juventude...”

Um livro tão humano como Eclesiastes termina com uma bela evocação da “juventude”, o tempo de vitalidade que deve ser vivido com alegria e com muitas realizações, sabendo, por outro lado, que é passageiro – e vaidade, diz o autor, como todo o resto. Contrastando com essa visão, o autor também descreve a “velhice” em termos repletos de poesia.

“Segue as aspirações do teu coração e os desejos dos teus olhos; fica sabendo, porém, que de tudo isso Deus te pedirá contas.”

Esta exortação aos “jovens” parece muito optimista: há que aproveitar os bons anos da juventude para acumular experiência e conhecimento, porque a velhice nos persegue. Se tomássemos isso como um convite ao prazer desenfreado, não teríamos compreendido nada do pensamento profundo do autor.

O autor incentiva clara e simplesmente os jovens a desenvolverem a sua vitalidade. A juventude é um dom de Deus que deve ser vivido com expansão e alegria, mas deve-se levar em conta que haverá o encontro derradeiro com Deus diante de quem cada um deverá prestar contas de sua vida neste mundo. Por isso, o autor do Eclesiastes coloca em primeiro lugar as aspirações do coração antes dos desejos dos olhos. Os desejos dos ohos devem estar dentro das apirações do coração: “Segue as aspirações do teu coração e os desejos dos teus olhos; fica sabendo, porém, que de tudo isso Deus te pedirá contas.”

Quando se fala do “coração”, deve ser entendido no sentido de toda a interioridade da pessoa, o centro da vida, das decisões e do encontro pessoal com Deus. Se o coração for bom, os gestos de relacionamento humano obedecem aos imperativos de humanizar, de fraternizar e de santificar a convivência. A pureza do agir depende da pureza do coração. Mas se o coração for mau, a vida é envenenada pela insatisfação, pela inveja, pelo ciúme, pela disputa negativa, pela discriminação, pelo sensualismo, pelas más intenções e assim por adiante. O coração é o lugar onde o homem se revela e onde Deus se revela.

Os jovens podem agora começar a ser sábios se souberem aproveitar a vida e vivê-la ao máximo, mas com responsabilidade. Eles prestarão contas de suas vidas diante de si mesmos, e diante de sua família, e diante da comunidade, e diante de seu próprio futuro e, em última análise, diante de Deus. Alegria, sim, mas fazer o bem, que é a melhor forma de construir um futuro válido.

A Velhice Revela a Fragilidade Humana

O autor reconhece que a velhice é inevitável. A velhice é comparada a uma casa que ainda está habitada, mas que se deteriora lentamente. O vigor dos homens está diminuindo e a beleza das mulheres murcha, as portas da casa permanecem fechadas, porque não há guardiões suficientemente fortes.

“... quando os guardas da casa começarem a tremer, e se curvarem os homens robustos; quando as poucas mulheres cessarem de moer, e ficarem turvas as vistas das que olham pelas janelas e se fecharem as portas que dão para a rua; quando enfraquecer o ruído do moinho, e os homens se levantarem ao canto dos pássaros, e silenciarem as vozes das canções e houver medo das alturas e sobressaltos no caminho, enquanto a amendoeira floresce”.

Os rabinos fazem uma leitura alegórica este texto sobre uma parte do corpo humano. Os guardas que tremem são os braços, e os homens robustos que se curvam são as pernas; as mulheres que param de moer são os dentes, e as janelas que dão para a rua e que precisam ser fechadas são os olhos. O ruído do moinho é a voz humana, e as flores da amendoeira são os cabelos brancos.

Mas não vale a pena desesperar-se, nem ter ilusões exageradas. Como disse ontem o sábio (autor do Eclesiastes), tudo tem seu tempo. Mas os sintomas da velhice não têm necessariamente de ser dramáticos. Antes que “o espírito volte ao Deus que o deu”, tanto os jovens como os idosos devem saber como oferecer a Deus o melhor das suas vidas: seja energia e força, ou fraqueza e quietude.

O Salmo Responsorial, o Sl 89 (90) prolonga a meditação do Eclesiastes sobre a fragilidade humana.

Sacrificar-Se Para O Bem De Todos Como Jesus Que Passou A Vida Fazendo O Bem

“Todos estavam admirados com todas as coisas que Jesus fazia”.

Nós nos encontramos no quadro de instruções finais de Jesus na Galiléia. Jesus mostra claramente aqui o sentido da própria missão e a missão daqueles que querem segui-Lo. Segundo o plano do seu evangelho, o evangelista Lucas termina assim as atividades de Jesus na Galiléia (Lc 4,14-9,50). Daqui em diante Jesus vai começar seu caminho ou seu êxodo para Jerusalém onde ele será crucificado, morto e glorificado.

“O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens”. O título “Filho do Homem” se encontra seu sentido em Dn 7,13-14 e “vai ser entregue” em Is 53,2-12. O sofrimento de Jesus é causado pelos homens do templo e do poder.

Para o evangelista Lucas, este é o segundo anúncio da Paixão de Jesus e o situa no momento em que “Todos estavam admirados com todas as coisas que Jesus fazia”. Esta admiração surge no momento em que Jesus curou um menino da epilepsia (Lc 9,37-43) e fez outros sinais. E Lucas registrou que esse menino era filho único. Esse filho único se refere a Jesus, Filho único do Pai (cf. Mt 21,33-46). Através desse menino Jesus está falando de Si próprio. A cura do menino antecede o segundo anúncio da Paixão do Filho único do Pai.

Neste anúncio Jesus quer revelar que sua vida é um sacrifício para o bem de todos. Jesus pensa somente na salvação dos hpmens sem fugir das conseqüências trágicas. Ele se sacrifica como uma vela que se consome aos poucos iluminando seu redor.

Lucas nos relatou que os discípulos não entenderam o sentido desse anúncio. Em outras ocasiões os evangelistas descrevem os motivos dessa incompreensão: os seguidores de Jesus tinham em sua cabeça um messianismo político, com vantagens materiais para eles mesmos, e discutiam sobre quem ia ocupar os postos de honra e quem ficaria do lado direito ou do lado esquerdo de Jesus. A cruz não entrava em seus planos. Eles queriam seguir a Jesus pelas próprias vantagens e não pela vida dedicada em prol da salvação de todos.

Os discípulos não entendem que este é o maior ato de amor e o maior sentido da vida. O resultado dessa incompreensão será contado no seguinte episódio em que haverá a disputa sobre a primazia no grupo (Lc 9,46-48).

“Todos estavam admirados com todas as coisas que Jesus fazia”. Jesus desperta realmente admiração por seus gestos milagreiros e pela profundidade de suas palavras. Deste tipo de Jesus gostamos também e não somente os primeiros discípulos de Jesus. Mas não entendemos, como os primeiros discípulos, o Jesus Servidor, o Jesus que lava os pés dos discípulos, o Jesus que se entregou à morte para salvar a humanidade, o Jesus que se aproxima do pecador para dialogar, o Jesus que faz refeição com os pobres e pecadores. Queremos apenas o consolo e o prêmio e não o sacrifício e a renúncia. Preferiríamos que Jesus não nos dissesse: “Quem quer me seguir renuncie a si mesmo, tome sua cruz de cada dia e me siga”.

Mas ser seguidor de Jesus pede radicalidade e não podemos crer num Jesus que O fazemos a nossa medida. Ser colaborador de Jesus na salvação do mundo exige seguir Seu mesmo caminho que passa através da cruz e da entrega ou doação da própria vida pela salvação de todos. É sofrer com Jesus para salvar o mundo.

Vale a pena cada um fazer um exame sério de consciência sobre o texto do evangelho de hoje a partir da vocação e da função que cada um tem na Igreja ou em uma comunidade. Como sacerdote ou religioso/ religiosa, qual meu motivo para ser sacerdote ou para ser religioso/religiosa? Será que eu procuro a vocação religiosa e sacerdotal em função da segurança institucional e não como paixão pela vida de Cristo dedicada pela salvação de todos? Será que o pensamento de querer ser sacerdote ou religioso (a) carreirista tem como motor da minha ambição? Como leigo ou leiga, qual meu motivo verdadeiro para trabalhar na minha comunidade? Há alguma vantagem pessoal escondida atrás dessa atividade, ou por que eu quero ser outro Cristo na minha comunidade? Mas será que eu levo a sério o motivo de ser outro Cristo com todas as suas conseqüências na minha comunidade?

É preciso que não tenhamos medo de nos gastar pelas causas e pelos grandes ideais de Jesus, pois por este caminho é que haverá a vida glorificada, a vida ressuscitada. Como cristãos, não podemos viver e conviver inutilmente nem podemos, conseqüentemente, morrer inutilmente. A vida dedicada pelo bem de todos jamais morre. É estar com Cristo. E estar com Cristo significa não parar de existir. Este é o ideal do ser do cristão.

Creio que uma vida só pode chegar à sua plenitude, se a enchermos de uma série de certezas ou convicções profundas. No fundo tudo se reduz a uma questão de amor: amar e ser amado. Do contrário, somente há sempre o mesmo resultado: destruição, sofrimento, opressão, injustiça, deslealdade, traição, exploração e assim por diante. Uma vida significativa é feita de uma série de pequenos atos diários de decência e bondade, que quando somados no final, resultam, paradoxalmente, em algo grandioso. Pela prática de atos justos, aprendemos a ser justos; pela prática de atos de autocontrole, aprendemos a ter autocontrole; e pela prática de atos de coragem, chegaremos a ser corajosos. A nossa vida relativamente curta, neste mundo, é apenas faísca na tela da eternidade. Jesus viveu mais ou menos apenas 33 anos de vida. No entanto ele conseguiu influenciar o mundo inteiro. A vida passa, pois há um tempo para cada coisa. Você já imaginou que quanta coisa boa que você poderia fazer agora mesmo em favor da humanidade? Isto é seu tempo de milagres. E você pode, independentemente de sua idade, etnia, profissão e religião.

Não se arrependa por você ter dado o melhor de si, mesmo que você sofra algum desentendimento ou alguma ofensa por ter feito uma coisa boa na sua vida. Agindo assim, sua vida se transformará. Se você não se impuser à vida, ela se imporá a você. Lembre-se de que os dias transformam-se em semanas, as semanas em meses e os meses em anos. Quando menos se espera, tudo chega ao fim, e você se vê sem nada além de um coração ressentido por uma vida vivida pela metade. Comece a ser a pessoa que você realmente é, fazendo o possível para enriquecer o mundo à sua volta. A bondade é simplesmente o aluguel que devemos pagar pelo espaço que ocupamos neste planeta.

P. Vitus Gustama,svd

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Sexta-feira Da XXV Semana Comum, Ano Par, 25/09/2026

JESUS NOS INTERROGA SOBRE QUEM ELE É PARA NÓS

Sexta-Feira da XXV Semana

Primeira Leitura: Eclesiastes 3,1-11 (Ano Par)

1 Tudo tem seu tempo. Há um momento oportuno para tudo o que acontece debaixo do céu. 2 Tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de colher a planta. 3 Tempo de matar e tempo de salvar; tempo de destruir e tempo de construir. 4 Tempo de chorar e tempo de rir; tempo de lamentar e tempo de dançar. 5 Tempo de atirar pedras e tempo de as amontoar; tempo de abraçar e tempo de separar. 6 Tempo de buscar e tempo de perder; tempo de guardar e tempo de esbanjar. 7 Tempo de rasgar e tempo de costurar; tempo de calar e tempo de falar. 8 Tempo de amar e tempo de odiar; tempo de guerra e tempo de paz. 9 Que proveito tira o trabalhador de seu esforço? 10 Observei a tarefa que Deus impôs aos homens, para que nela se ocupassem. 11 As coisas que ele fez são todas boas no tempo oportuno. Além disso, ele dispôs que fossem permanentes; no entanto o homem jamais chega a conhecer o princípio e o fim da ação que Deus realiza.

Evangelho: Lc 9,18-22

Aconteceu que Jesus 18 estava rezando num lugar retirado, e os discípulos estavam com ele. Então Jesus perguntou-lhes: “Quem diz o povo que eu sou?” 19 Eles responderam: “Uns dizem que és João Batista; outros, que és Elias; mas outros acham que és algum dos antigos profetas que ressuscitou”. 20 Mas Jesus perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Pedro respondeu: “O Cristo de Deus”. 21 Mas Jesus proibiu-lhes severamente que contassem isso a alguém. 22 E acrescentou: “O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da Lei, deve ser morto e ressuscitar no terceiro dia”.

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Quem Não Valoriza o Tempo Que Sempre Passa Sem Volta, Enterra Muitas oportunidades

“Tudo tem seu tempo. Há um momento oportuno para tudo o que acontece debaixo do céu”.

O autor do Eclesiastes reconhece que o sábio caminha na luz e o néscio na escuridão, no entanto ambos caminham para a morte, e isso iguala a todos, conforme foi dito na leitura do dia anterior. O Coélet se interessa pela sabedoria humana e por isso, investiga (Ecl 1,13s; 12,9ss). A parte importante da tarefa do sábio é prevenir a decepção paralisante. Contar com a morte é medida elementar da arte de viver bem (Ecl 7,1-2.4.12). O sábio é contar com o que se tem (neste caso uns quantos dias “de baixo do sol” cf. Ecl 9,9-10) e aprender a viver com isso.

Mas o Coélet sabe que existe algo como uma norma que exerce misteriosamente seu domínio sobre todos os acontecimentos: o tempo, como lemos na Primeira Leitura de hoje (Cf. Ecl 3,1-8.17). O Coélet afirma que cada coisa tem seu seu tempo e critério (Ecl 8,6). Consequentemente, o homem é chamado a aproveitar cada tempo que sempre foge do controle humano. O tempo passa e a idade sobe sem volta. Quem valoriza o tempo, ganha muitas oportunidades para ser produtivo. Quem não valorizar o tempo, vai enterrar muitas oportunidades.

O poema que lemos na Primeira Leitura leva em conta o tempo humano e que todos os momentos da existência  são compreendidos entre o nascimento e a morte (Ecl 3,2). Neste poema encontramos catorze conjuntos binários antitéticos  de uma serie de ações sem nenhuma ordem lógica, tomados da vida cotidiana.  São situações complementares, no entanto cada um tem seu próprio tempo. Cada conjunto binário  forma uma expressão bipolar, isto é, são citados os extremos opostos de uma realidade: “Tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de colher a planta. Tempo de matar e tempo de salvar; tempo de destruir e tempo de construir. Tempo de chorar e tempo de rir; tempo de lamentar e tempo de dançar. Tempo de atirar pedras e tempo de as amontoar; tempo de abraçar e tempo de separar. Tempo de buscar e tempo de perder; tempo de guardar e tempo de esbanjar. Tempo de rasgar e tempo de costurar; tempo de calar e tempo de falar. Tempo de amar e tempo de odiar; tempo de guerra e tempo de paz” (Ecl 3,2-8).

Nesta enumeração, são Jerônimo viu uma descrição da vaidade das coisas humanas: tudo é temporal e transitório. A intenção do autor do livro é, sem dúvida, demonstrar que os acontecimentos da vida humana dependem da Providencia divina e não da vontade humana. Por isso, é sempre prudente submeter-se docilmente aos desígnios de Deus que governa o universo na sua permanente providência.

O nascer e o morrer são acontecimentos mais importantes de nossa vida sobre os quais Deus vela misteriosamente. Um e outro tem seu momento assinalado por Deus. O homem nenhum é capaz de adiantar ou atrasar o momento, pois o tempo tem seu próprio curso.

Num povo agrícola como o hebreu, plantar e arrancar o que foi plantado é uma das ocupações mais frequentes. Deus, ao dispor as diversas estações, estabeleceu as condições atmosféricas que determinam o tempo no qual o homem deve levar a cabo as diferentes trabalhos do campo. Ações desagrdaveis, como ferir e, em consequência, curar; as mesmas obras em caminhadas a destruir e edificar estão dentro dos planos de Deus que em seus insondáveis desígnios permitiu as circunstancias que determinaram tais fatos. Em cada fato ou acontecimento sempre tem algum recado ou apelo de Deus. Basta o homem parar para decifrar o sentido de cada fato ou acontecimento através da meditação ou introspecção. Porque para Deus não existe a causalidade ou o ocaso. Tudo tem seu sentido.

A sabedoria de um cristão é feita, sobretudo, da Palavra de Cristo no Evangelho. Mas também pode tirar sensatez e sentido comum nas páginas do Antigo Testamento que não nos apresentam altas teologias e sim a sensibilidade de um crente que olha para Deus e, ao mesmo tempo, tem pés bem postos no chão.

Não devemos nos levar tão a sério. Ficaríamos mais felizes se olhássemos com humor o que fazemos, sem subir à altura quando estiver bem ou afundandar quando falharmos. Que não é um convite para o fatalismo ou não para o trabalho, mas para trabalhar com mais serenidade dentro e fora, sem nada que nos assuste. Se soubéssemos discernir, por exemplo, quando é hora de nascer e morrer, chorar ou rir, destruir ou construir, plantar e colher, as coisas seriam muito melhores nas opções pessoais e comunitárias. Tudo tem seu tempo. É importante saber distinguir o tempo para cada coisa. O homem tem que ter certeza de que uma ação sucederá sua ação oposta, mas ele não é dono do instante para alterar cada situação, pois cada coisa ou acontecimento tem seu tempo. O escritor libanês, Khalil Gibran escreveu: “Quando estiverdes alegres, olha no fundo de vosso coração, e achareis que o que vos deu tristeza é aquilo mesmo que vos está dando alegria. E quando estiverdes tristes, olhai novamente no vosso coração e vereis que, na verdade, estais chorando por aquilo mesmo que construiu vosso deleite” (veja o livro: O Profeta).

As coisas têm seu tempo. Uma vez transcorrido este tempo elas desparecem e deixam lugar necessariamente a outras. Algumas, por sua própria natureza, são chamadas de acordo com um ritmo e periodicidade inevitáveis.

O homem se separa em todo momento e dolorasamente do presente, mas esta necessidade não é puramente negativa. Revela, ao contrário, que a oneração do homem no tempo mortifica nele uma exigência espiritual de seu “ego” mais profundo.

Certamente, o homem está sujeito à mobilidade universal e cada uma de suas ações é arrastada pelo fluxo da história, mas o fato de sentir essa extrema mobilidade como uma dor prova que ele é feito para uma possessão eterna e imutável de si mesmo e das coisas. O tempo tem, pois, um sentido, um significado que não lhe chega do exterior e sim de si mesmo. Mas, do ponto de vista cristão, sua condição provisional através da consciência da morte leva o homem a participar do mistério pascal de Cristo.

Portanto, o tempo tem um sentido, mas não em si mesmo e sim em Deus, na eternidade de Deus. No entanto, não se trata de buscar o sentido do tempo somente no mais além e no depois desta vida, como se fosse necessário refugiar-se no céu e fugir do temporal para descobrir o sentido do eterno. A eternidade já começou; é concomitante com o tempo. HOJE se desenvolve a eternidade, está imerso nela. Cada minuto tem uma densidade eterna em Deus

Estar com Deus em cada instante significa submeter-se à Provdencia divina que dá sentido para cada coisa ou acontecimento de nossa vida. E não nos esqueçamos que há Alguém que caminha conosco e que com sua ajuda, impulsiona nossa vida e, que, mesmo sendo Verdadeiro Deus, é homem verdadeiro igual a nós: Cristo Jesus. Com Ele que é o próprio Caminho (Jo 14,6) chegaremos à Casa Paterna que é nossa Casa comum: o Céu. Ao mesmo tempo, nós que cremos em Cristo, devemos pôr nossa vida nas mãos do Senhor para que fortalecidos por Sua Graça e à luz do Espirito Santo, que habita em nós (1Cor 3,16-17), possamos colaborar para levar adiante sua obra salvadora. Não fujamos de nossa resonsabilidade como cristãos, não queiramos viver covardemente escondidos do mundo e de nossa missão. É preciso conhecer quem é Jesus para nós como exige o Evangelho deste dia.

Quem É Jesus Para Mim e Quem Sou Eu Para Jesus, e O Que Devo Fazer Como Cristão?

O evangelista Lucas volta ao tema do evangelho do dia anterior sobre a identidade de Jesus (cf. Lc 9,7-9). No texto do evangelho do dia anterior o interessado por saber quem era Jesus foi Herodes Antipas, filho do rei Herodes, o Grande. No texto do evangelho de hoje é o próprio Jesus quem dirige a pergunta a seus discípulos. Quem é Jesus para as pessoas em geral e quem é Jesus para os próprios discípulos?

A resposta do povo é múltipla: Elias, João Batista, um profeta que ressuscitou. Segundo os discípulos Jesus é o Messias. “Messias” é palavra hebraica que é em grego “Christos” que significa “Ungido”. Jesus é o Ungido de Deus, ou seja, Aquele sobre quem Deus derramou seu Espírito, ungindo-o com Sua força para que leve a cabo uma missão. Jesus está totalmente aberto à vontade de Deus a ponto de o Espírito divino repousar sobre Ele (cf. Lc 3,21-22; Mt 3,16-17) e se deixa guiar completamente pelo mesmo Espírito (cf. Mc 1,12).

Mas que tipo de Messias Jesus é? Estamos aqui no centro da fé: crer em um Messias que será crucificado. A cruz de Jesus não é um incidente e sim uma conseqüência. A presença de Deus se manifesta no caminho da cruz, isto é, na entrega de si mesmo, na recusa de toda imposição, no amor que aceita ser contradito e aparentemente derrotado: “É necessário o Filho do Homem sofrer muito e ser rejeitado pelos anciãos, sumos sacerdotes e escribas, ser morto e, no terceiro dia, ressuscitar”.

Mas a cruz de Jesus é saborosa, pois trata-se de uma vida vivida até o fim por amor aos homens como manifestação do amor a Deus (cf. Jo 3,16). Por isso, na sua cruz vemos com clareza o amor de Deus por cada um de nós. Deus encarnado é capaz de tudo, até o impossível, pois cada um tem um valor incalculável diante de Deus. Por você e por mim Deus se encarnou em Jesus e por amor a nós todos Jesus aceitou ser crucificado (cf. Mt 8,17; Jo 3,16). O caminho do amor é o caminho que nos leva à salvação. Fora do amor não há a salvação independentemente de nossas práticas religiosas. Por este caminho (amor) não há outro caminho para chegar até Deus que é Amor por excelência (1Jo 4,8.16).

O amor transforma tudo. Com amor levamos a carga sem carga, pois o amor torna tudo leve. O amor faz doce e saboroso o que é amargo. O amor nobre de Jesus nos impulsiona a desejar sempre o mais perfeito e a fazer o bem para todos. O amor não é detido por qualquer coisa deste mundo. O amor quer ser livre. Não há nada que seja mais doce, mais forte, mais alto, mais alegre, mais humano e mais divino do que o amor, pois o amor nasce de Deus, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). O amor sempre vela, e dormindo não se dorme; fatigado, não se cansa; angustiado, não se angustia; espantado, não se espanta; é forte na sua fraqueza.

A pergunta de Jesus é repetida para nós em todos os momentos: “Quem é Jesus para nós?”. Não se trata de uma pergunta supérflua. É claro que “sabemos” já quem é Jesus. Não somente cremos em Jesus como o Filho de Deus e Salvador da humanidade, mas queremos segui-Lo com fidelidade na vida de cada dia. Mas temos que refrescar ou renovar com freqüência esta convicção, pensando se realmente nossa vida está orientada para Ele, se nossas opções de cada dia estão de acordo com seus critérios e seus ensinamentos. Quem é Jesus para mim agora, nesta etapa concreta da vida que estou vivendo? Não podemos responder a esta pergunta com palavras magistrais nascidas do estudo. Nossa resposta deve ser muito simples, nascida da vida de cada dia com o próprio Senhor. Jesus não pede uma opinião e sim uma opção, não pede uma teoria, e sim uma confissão, não pede um discurso e sim uma tomada de posição. Porque a fé é relação, reconhecimento, confissão, opção radical e posição na vida.

O segundo ponto que Lucas quer nos transmitir através do texto do evangelho de hoje é a importância da oração. Lucas nos mostra Cristo em oração toda vez que ele toma uma decisão importante ou quando se compromete em uma etapa de sua missão (Lc 3,21; 6,12; 9,29; 11,1; 22,31-39). Lucas é o único evangelista que menciona a oração de Cristo antes de obter a profissão de fé nos seus e de anunciar-lhes sua Paixão. Assim cabe pensar, como em cada uma das demais circunstâncias mencionadas por Lucas, que Jesus reza pelo cumprimento de sua missão cujos contornos ele não vê mais que na obscuridade. Através da oração vemos a realidade da humanidade de Jesus. “Para ser um bom orador é necessário ser um bom orante”, dizia Santo Agostinho (De doc. christ. 4,15,32).

Se a oração de Jesus demonstra a realidade de sua humanidade, não deixa de ser um sinal de sua divindade. Que Jesus pode reunir em sua oração a profundidade de sua pessoa, onde se estabelece sua vocação como o Ungido de Deus, é o indício de que dispõe do Espírito do Pai. Com feito, a oração não é um discurso que se dirige a Deus como um objeto e sim ter Deus por sujeito que conhece a profundidade de nosso ser. Não podemos alcançar esta profundidade sem a ajuda do Santo Espírito (cf. Rm 8,26-27). Do ponto de vista humano podemos dizer que somente aquele que reza profundamente é que reconhece os próprios limites e fraquezas, pois diante de Deus tudo fica iluminado. Rezar é deixar Deus iluminar nossa vida e nossas decisões de cada dia. Com efeito, sem oração a vida se torna escura. Quem não reza, obscurece a própria vida. A história de nossa oração é a história de nossa vida, pois na oração contamos para Deus tudo o que acontece na nossa vida embora Ele saiba de tudo. Erraremos o caminho se pararmos de orar, pois Deus é a Luz de nossa vida (Jo 8,12).

“Mas para vós, quem sou Eu?”. A pergunta sobre Jesus é a pergunta sobre nós mesmos. É uma pergunta fundamental, porque implica a nossa própria identidade cristã. Jesus agora não pede uma opinião, mas uma opção; não uma teoria, mas uma confissão; não uma conclusão de um discurso, mas uma tomada de posição, porque a questão: “O que significa seguir a Jesus” não pode ser separada da questão sobre a identidade de Jesus: “Quem é Jesus (para mim)?” A resposta do povo já não serve. A pergunta exige uma resposta sem meias-palavras. A pergunta exige uma tomada de posição. Estar com Jesus em pessoa não era suficiente. Ter o conhecimento da multidão não era suficiente. É necessário que seja Deus quem nos revele a cada um o conhecimento da verdadeira identidade de Jesus.

Jesus continua dirigindo esta pergunta à Igreja e aos cristãos de todos os tempos. Todos são chamados a não contentar-se com uma opinião, uma teoria, um curso, uma pesquisa ou uma doutrina a respeito de Jesus, por nova e moderna que ela seja. Podemos até perguntar se temos realmente consciência da importância e da seriedade de nossa fé no Deus que Jesus Cristo nos revelou.

P. Vitus Gustama,svd

Segunda-feira Da XXVI Semana Comum, Ano Par, 28/09/2026

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