segunda-feira, 25 de maio de 2026

Terça-feira Da VIII Semana Comum, 26/05/2026, Ano Par

SEGUIR A JESUS PARA FORMAR UMA COMUNIDADE DE IRMÃOS ONDE HÁ UM PAI COMUM E TUDO É PARTILHADO

Terça-Feira Da VIII Semana Comum

Primeira Leitura: 1Pd 1,10-16

Caríssimos, 10 esta salvação tem sido objeto das investigações e meditações dos profetas. Eles profetizaram a respeito da graça que vos estava destinada. 11 Procuraram saber a que época e a que circunstâncias se referia o Espírito de Cristo, que estava neles, ao anunciar com antecedência os sofrimentos de Cristo e a glória consequente. 12 Foi-lhes revelado que, não para si mesmos, mas para vós, estavam ministrando estas coisas, que agora são anunciadas a vós por aqueles que vos pregam o evangelho em virtude do Espírito Santo, enviado do céu; revelações essas, que até os anjos desejam contemplar! 13 Por isso, aprontai a vossa mente; sede sóbrios e ponde toda a vossa esperança na graça que vos será oferecida na revelação de Jesus Cristo. 14 Como filhos obedientes, não modeleis a vossa vida de acordo com as paixões de antigamente, do tempo da vossa ignorância. 15 Antes, como é santo aquele que vos chamou, tornai-vos santos, também vós, em todo o vosso proceder. 16 Pois está na Escritura: “Sede santos, porque eu sou santo”.

Evangelho: Mc 10,28-31

Naquele tempo, 28começou Pedro a dizer a Jesus: “Eis que nós deixamos tudo e te seguimos”. 29Respondeu Jesus: “Em verdade vos digo, quem tiver deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos, campos, por causa de mim e do Evangelho, 30receberá cem vezes mais agora, durante esta vida — casa, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições — e, no mundo futuro, a vida eterna. 31Muitos que agora são os primeiros serão os últimos. E muitos que agora são os últimos serão os primeiros”.

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Viver Em Cristo é Viver o Presente Lucidamente Com o Olhar Para o Futuro Salvífico

Começamos a acompanhar a leitura contínua da Primeira Carta de São Pedro. Esta Carta foi escrita até o ano 64, depois das Carta de São Paulo (que foram escritas entre o ano 50 e 64), mas estas cartas foram escritas antes dos evangelhos que foram escritos entre o ano 64 e 90.

Os estudiosos não estão seguros de que Pedro seja o autor da Carta de são Pedro. Uma das razões disso é a qualidade literária da Carta tanto pelo grego utilizado, como pelo estilo e utilização da tradução grega do Antigo Testamento, não corresponde a um pescador da Galileia pouco instruído. O autor se deve a um autor desconhecido que quer amparar-se sob o nome de Pedro, certamente prestigioso nas primeiras gerações do cristianismo.

Se no texto anterior (1Pd 1,3-9) o autor da Carta de são Pedro falava da herança e da esperança que Deus nos concede em Sua misericórdia, hoje continua com o tema, mas ele situa este tema em três etapas:

·      No passado, os profetas do Antigo Testamento, inspirados já pelo Espirito de Jesus, escrutavam o futuro e “Eles profetizaram a respeito da graça que vos estava destinada”, porque “Foi-lhes revelado que, não para si mesmos, mas para vós”.

·      Agora, no presente, os pregadores cristãos, também inspirados pelo Espirito, nos anunciam a Boa Notícia: que em Jesus Cristo, em sua morte e ressurreição, cumpre-se tudo o que foi anunciado antes.

·      Todavia, fica outra perspectiva, a perspectiva do futuro: aprontai a vossa mente; sede sóbrios e ponde toda a vossa esperança na graça que vos será oferecida na revelação de Jesus Cristo”.

O autor da Carta de são Pedro, em função de tudo isso, quer que os cristãos se controlem, que vivam na obediência, que não se deixem modelar pelos desejos de antes e sim que vivam na santidade, imitando a santidade do mesmo Deus: Sede santos, porque eu sou santo”.

Em outras palavras, o autor da Carta nos dá duas advertências no texto lido hoje. A Primeira advertência é sobre uma vida sóbria: “Aprontai a vossa mente (cingi os rins de vossa mente); sede sóbrios e ponde toda a vossa esperança na graça que vos será oferecida na revelação de Jesus Cristo”. Precisamente por causa da redenção que nos coube, urge tornar-se sóbrios. Trata-se aqui de um combater, labutar e peregrinar espiritual. Na volta do Senhor estejam todos vigilantes e preparados. A vigilância se expressa na sobriedade, na oração perseverante e no serviço ao irmão.

A segunda advertência é a chamada à santidade: “Como filhos obedientes, não modeleis a vossa vida de acordo com as paixões de antigamente, do tempo da vossa ignorância. Antes, como é santo aquele que vos chamou, tornai-vos santos, também vós, em todo o vosso proceder. Pois está na Escritura: ‘Sede santos, porque eu sou santo’”. A autor enfatiza a conversão de nossos pecados. É o retorno para o nosso empenho moral. Todo pecado é a desobediência à vontade de Deus. Para o cristão o obedecer começa no dia de seu Batismo. Dai por diante, cabe-lhe seguir o chamado de Deus e as Sua sendas. A Carta de são Pedro considera a antiga vida pagã dos cristãos como tempo da ignorância. Conhecimento de Deus, frequentemente, na Sagrada Escritura, é sinônimo de culto de Deus que se concretiza na santificação da vida.

Nos cristãos vivemos entre a memória e a profecia, entre o ontem e o amanhã. E sobretudo na vivência do presente, do hoje, atentos aos valores fundamentais de nossa salvação, a salvação que nos oferece Deus por Cristo, a comunhão em sua vida. Se olharmos de onde viemos e para onde vamos, viveremos mais lucidamente nosso presente. Não somente porque nossa existência está transida de esperança, mas também porque assumimos com decisão o compromisso de viver vigilantes com disponibilidade absoluta guiados por Cristo.

Cada Eucaristia nos faz exercitar esta atitude de memória do passado, da profecia aberta ao futuro e da celebração vivencial do presente: “Todas as vezes que comeis desse pão e bebeis desse cálice, anunciais a morte do Senhor até que ele venha” (1Cor 11,26). Por isso, a Eucaristia, como a luz da Palavra e a força da comunhão, vai-nos ajudando a ordenarmos nossos pensamentos, a irmos crescendo na unidade interior de toda a pessoa, em marcha do ontem para o amanhã, vivendo o hoje com serenidade e empenho. A Eucaristia é nosso melhor “viático”, nosso alimento para o caminho até chegar ao banquete eterno.

Viver Como Cristãos É Viver Como Uma Família Em Que Tudo É Partilhado

O texto do evangelho de hoje, como também o do dia anterior, se encontra na parte central do evangelho de Marcos (Mc 8,22-10,52). Este conjunto começa com a cura do cego (8,22-26) e termina com a mesma (10,46-52). Com isso Marcos quer nos mostrar que os discípulos continuam com sua incompreensão diante da missão de Jesus.

No início e no fim desta seção, Marcos coloca o tema de fé como dom de Deus. A fé faz ver quem é Jesus e faz entender o sentido da vida e de nossa presença neste mundo. Desde o começo da atividade pública de Jesus, Marcos mostrou-nos a cegueira dos discípulos. Mas Jesus fará tudo para, pouco a pouco, tirar a cegueira dos discípulos. A visão clara que se tem de Jesus não vem de uma só vez. Mas, aos poucos, com a ajuda de Jesus, vamos vendo com mais clareza e com maior nitidez quem é Jesus e o que significa seguir a este Jesus neste mundo. A fé também faz ver o caminho que Jesus trilhou e que devemos trilhar. Assim a seção começa e termina com a cura de um cego (8,22-26; 10,46-52). E essas duas curas têm uma função simbólica: para mostrar a cegueira dos discípulos. Elas também lembram o leitor de que é Jesus quem faz possível a fé daqueles que acreditam nele e O seguem no caminho.

No evangelho do dia anterior (Mc 10,17-27) o jovem rico recusou o convite de Jesus para que ele vendesse tudo que tinha para depois dar tudo aos pobres a fim de segur a Jesus. Em vez de seguir a Jesus, Àquele que tem “as palavras da vida eterna” (Jo 6,68b), o jovem rico foi embora triste porque tinha muitos bens, e não quis partilhá-los nem com os necessitados (pobres). Depois que ele foi embora, Jesus pronunciou esta frase para os discípulos: Meus filhos, como é difícil entrar no Reino de Deus! É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus!”.

Os discípulos ficaram espantados diante da afirmação de Jesus. Para os discípulos seguir a Jesus significa enriquecer-se de bens materiais. Por isso ficaram assustados com as palavras de Jesus: “Então, quem pode ser salvo?” (Mc 10,26). Ao que Jesus respondeu: Aos homens é impossível, mas não a Deus, pois para Deus tudo é possível” (Mc 10,27). Para Jesus o caminho da vida consiste em enriquecer-se diante de Deus, e não enriquecer-se de bens passageiros que um dia vamos deixar. Só quem sabe perder a vida neste mundo por causa do evangelho (valores) vai recuperá-la na vida eterna. Salvar-se não está nas mãos do homem, mas é um dom gratuito de Deus e não pode merecer-se. Somente quando for acolhido o evangelho e viver-se na graça é que conduz a pessoa à vida eterna. Trata-se de uma vida sustentada pela força de Deus.

Ao ouvir a afirmação de Jesus, Pedro também perguntou a Jesus: Eis que nós deixamos tudo e te seguimos. E o evangelista Mateus explicita ou acrescenta a seguinte frase: “O que é que vamos receber?” (Mt 19,27). Pedro já abandonou tudo, desapegou-se de tudo para se aderir a Jesus e quer saber de Jesus qual será a recompensa do seguimento.

O que é que tem no fundo ou por trás da frase de Pedro? Está seu conceito político e interesseiro do Messianismo. Os discípulos buscam postos de honra, recompensas humanas, soluções econômicas e políticas. Eles querem transformar Jesus em empresário para resolver sua carência econômica.

É preciso saber que Jesus e seus discípulos estão a caminho (caminho) para Jerusalém. Os discípulos esperam que Jesus vá a Jerusalém para se sentar no trono de Davi e que, quando isso acontecer e o Reino de Deus for instaurado, recebam a recompensa que lhes é devida. Por isso, perante as afirmações de Jesus Meus filhos, como é difícil entrar no Reino de Deus! É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus!”, a sua exclamação “Eis que nós deixamos tudo e te seguimos, situa-se entre a preocupação e a expectativa (será que teremos recompensa humana ao seguir a Jesus?).

Jesus, com sua paciência, continua educando os discípulos e lhes garante: Em verdade vos digo, quem tiver deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos, campos, por causa de mim e do Evangelho, receberá cem vezes mais agora, durante esta vida — casa, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições — e, no mundo futuro, a vida eterna”. O que mais resalta aqui é que por uma realidade deixada o discípulo receberá todas e cem vezes mais, número que enfatiza a riqueza daquilo que se recebe na nova casa, que o mesmo é dizer na comunidade cristã, numa multiplicidade e riqueza de relações. No entanto, embora se deixe o pai (v. 29), deste não se recebe nenhum cêntuplo (cem vezes mais), recordando que, nesta nova realidade familiar, um só é o Pai de todos: o único Deus (cf. Mc 10,18).

Mas Jesus deixa bem claro para todos os seguidores que toda essa rriqueza, como recompensa, será recebida com perseguições (v. 30) que fazem parte integrante da fidelidade a Ele e ao Evangelho. Jesus não quer que permaneça qualquer sombra de dúvida de que a fidelidade à vontade de Deus, que caracteriza os membros desta família (Mc 3,35), é portadora de sofrimento e perseguição.

Aqui se confrontam a vontade dos discípulos com o projeto de Deus. Nisto, o acolhimento do Evangelho implica a conversão permanente, que é uma atitude permanente do coração e da nova vida em Jesus Cristo.

A afirmação de Jesus vale para qualquer pessoa que se adere a Jesus e que se dedica à propagação do evangelho de Jesus. Jesus assegura que no Reino ou na nova sociedade, na nova família não haverá miséria, pois vivem na partilha, na solidariedade, na compaixão, na fraternidade. Nessa nova família não haverá domínio, nem desigualdade nem superioridade nem poder. Por isso, na segunda afirmação de Jesus a palavra “pai” não se menciona que é símbolo do poder ou de autoridade. Em Mateus podemos entender o sentido dessa afirmação quando Jesus disse: Quanto a vós, não permitais que vos chamem ‘Rabi’, pois um só é o vosso Mestre e todos vós sois irmãos. A ninguém na terra chameis ‘Pai’, pois um só é o vosso Pai, o celeste(Mt 23,8-9). Chamar Deus de Pai leva a pessoa a viver a fraternidade na convivência com os demais, pois todos são filhos e filhas de Deus (cf. 1Jo 3,1-2).

Necessitamos dos bens materiais como meio na nossa vida, pois uma pessoa pode rezar ou meditar durante horas, mas no fim ela precisará dum pedaço de pão e dum copo de água. Mas reparamos que os bens materiais sempre são alheios a nós. Eles nunca serão nossos amigos. A vida feliz está na partilha, na solidariedade, na fraternidade, na compaixão, no amor mútuo, na caridade e assim por diante. A partilha é a alma do projeto de Jesus Cristo. Ele nos chama para segui-lo nessa direção. No evangelho de Marcos Jesus e seu Espírito vão ajudando os discípulos para que cheguem à maturidade de sua fé. Somente depois da ressurreição (Páscoa) eles vão se entregar também gratuito e generosamente ao serviço de Jesus Cristo e da comunidade até sua morte, pois eles captaram o sentido da mensagem de Jesus.

A resposta de Jesus diante da pergunta de Pedro é esperançosa e misteriosa, ao mesmo tempo: “Em verdade vos digo, quem tiver deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos, campos, por causa de mim e do Evangelho, receberá cem vezes mais agora, durante esta vida e, no mundo futuro, a vida eterna”. Não se trata de quantidades aritméticas (cem vezes). A resposta se refere à nova família que se cria em torno de Jesus: deixamos um irmão e encontramos cem irmãos (irmãs). O laço desta nova família está na prática da vontade de Deus que consiste na prática do bem e na vivência do amor fraterno: “Quem fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe” (Mc 3,35).

Quantos irmãos e irmãs leigos, quantos pastores, quantos médicos e enfermeiros sem fronteiras e as demais pessoas de boa vontade que entregam sua melhor força e tempo para trabalhar pelo bem dos irmãos da comunidade e fora da comunidade e para ajudar os sofredores em todos os sentidos! Quantos sacerdotes, quantos religiosos e religiosas, quantas pessoas consagradas que não formaram a própria família, mas não por isso que deixaram de amar. Ao contrário, eles estão plenamente disponíveis para todos, movidos de um amor universal. Todos esses irmãos e irmãs são reflexos da generosidade de Jesus Cristo neste mundo. Jesus está presente nesses irmãos e irmãs, se quisermos perguntar onde está Jesus Cristo (cf. Mt 25,31-46). Jesus promete já desde agora uma grande satisfação e promete a vida eterna: “receberá cem vezes mais agora, durante esta vida e, no mundo futuro, a vida eterna”. Mas o verdadeiro amor supõe sacrifício, cruz e perseguição, porém, vale a pena! A Páscoa salvadora passa pelo caminho da Cruz da Sexta-Feira Santa. A vida do cristão não termina na Sexta-Feira Santa. Ela termina na ressurreição. A força da ressurreição dá força e anima o cristão para encarar a cruz da Sexta-Feira Santa. Jesus nos mostrou isso.

P. Vitus Gustama,svd

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Bem-Aventurada Virgem Maria, Mãe Da Igreja, segunda-feira após Pentecostes, 25/05/2026

MEMÓRIA DA BEM-AVENTURADA VIRGEM MARIA, MÃE DA IGREJA


Segunda-feira Após Pentecostes

Primeira Leitura: Gn 3,9-15.20

9 O Senhor Deus chamou Adão, dizendo: “Onde estás?” 10 E ele respondeu: “Ouvi tua voz no jardim, e fiquei com medo porque estava nu; e me escondi”. 11 Disse-lhe o Senhor Deus: “E quem te disse que estavas nu? Então comeste da árvore, de cujo fruto te proibi comer?” 12 Adão disse: “A mulher que tu me deste por companheira, foi ela que me deu do fruto da árvore, e eu comi”. 13 Disse o Senhor Deus à mulher: “Por que fizeste isso?” E a mulher respondeu: “A serpente enganou-me e eu comi”. 14 Então o Senhor Deus disse à serpente: “Porque fizeste isso, serás maldita entre todos os animais selvagens! Rastejarás sobre o ventre e comerás pó todos os dias da tua vida! 15 Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar”. 20 E Adão chamou à sua mulher “Eva”, porque ela é a mãe de todos os viventes.

Evangelho: Jo 19,25-34

Naquele tempo, 25 perto da cruz de Jesus, estavam de pé a sua mãe, a irmã da sua mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena. 26 Jesus, ao ver sua mãe e, ao lado dela, o discípulo que ele amava, disse à mãe: “Mulher, este é o teu filho”. 27 Depois disse ao discípulo: “Esta é a tua mãe”. Daquela hora em diante, o discípulo a acolheu consigo. 28 Depois disso, Jesus, sabendo que tudo estava consumado, e para que a Escritura se cumprisse até o fim, disse: “Tenho sede”. 29 Havia ali uma jarra cheia de vinagre. Amarraram numa vara uma esponja embebida de vinagre e levaram-na à boca de Jesus. 30 Ele tomou o vinagre e disse: “Tudo está consumado”. E, inclinando a cabeça, entregou o espírito. 31 Era o dia da preparação para a Páscoa. Os judeus queriam evitar que os corpos ficassem na cruz durante o sábado, porque aquele sábado era dia de festa solene. Então pediram a Pilatos que mandasse quebrar as pernas aos crucificados e os tirasse da cruz. 32 Os soldados foram e quebraram as pernas de um e depois do outro que foram crucificados com Jesus. 33 Ao se aproximarem de Jesus, e vendo que já estava morto, não lhe quebraram as pernas; 34 mas um soldado abriu-lhe o lado com uma lança, e logo saiu sangue e água.

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Razão Da Memória

A memória da Virgem Maria, Mãe da Igreja, foi incluída no Calendário romano pelo Papa Francisco através do Decreto: Ecclesia Mater, publicado pela Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, no dia 11 de Fevereiro de 2018.

Para toda a Igreja de Rito Romano, O Papa Francisco estabelece que a memória de Maria, Mãe da Igreja torne-se obrigatória nas segundas-feiras depois do Pentecostes. Para o Papa Francisco, a Virgem Maria é Mãe de Cristo e com Cristo é Mãe da Igreja: “De certa forma, este fato, já estava presente no modo próprio do sentir eclesial a partir das palavras premonitórias de Santo Agostinho e de São Leão Magno. De fato, o primeiro diz que Maria é a mãe dos membros de Cristo porque cooperou, com a sua caridade, ao renascimento dos fiéis na Igreja. O segundo, diz que o nascimento da Cabeça é, também, o nascimento do Corpo, o que indica que Maria é, ao mesmo tempo, mãe de Cristo, Filho de Deus, e mãe dos membros do seu corpo místico, isto é, da Igreja. Estas considerações derivam da maternidade divina de Maria e da sua íntima união à obra do Redentor, que culminou na hora da cruz”, diz o Decreto.

A Mãe, que estava junto à cruz (cf. Jo 19, 25), aceitou o testamento do amor do seu Filho e acolheu todos os homens, personificado no discípulo amado, como filhos a regenerar à vida divina, tornando-se a amorosa Mãe da Igreja, que Cristo gerou na cruz, dando o Espírito. Por sua vez, no discípulo amado, Cristo elegeu todos os discípulos como herdeiros do seu amor para com a Mãe, confiando-a a eles para que estes a acolhessem com amor filial, continuou o Decreto.

Para o Papa Francisco, através desta Memória a vida cristã pode crescer se for enraizada no mistério da Cruz, na Eucaristia e no SIM incondicional da Virgem Maria: “Esta celebração ajudará a lembrar que a vida cristã, para crescer, deve ser ancorada no mistério da Cruz, na oblação de Cristo no convite eucarístico e na Virgem oferente, Mãe do Redentor e dos redimidos”, finalizou o Decreto.

Quando fala sobre Maria, a Mãe da evangelização, na sua exortação apostólica Evangelii Gaiudium, o Papa Francisco escreveu: “Como Mãe de todos, (Maria) é sinal de esperança para os povos que sofrem as dores do parto até que germine a justiça. Ela é a missionária que Se aproxima de nós, para nos acompanhar ao longo da vida, abrindo os corações à fé com o seu afeto materno. Como uma verdadeira mãe, caminha connosco, luta connosco e aproxima-nos incessantemente do amor de Deus. Através dos diferentes títulos marianos, geralmente ligados aos santuários, compartilha as vicissitudes de cada povo que recebeu o Evangelho e entra a formar parte da sua identidade histórica. Muitos pais cristãos pedem o Batismo para seus filhos num santuário mariano, manifestando assim a fé na ação materna de Maria que gera novos filhos para Deus. É lá, nos santuários, que se pode observar como Maria reúne ao seu redor os filhos que, com grandes sacrifícios, vêm peregrinos para A ver e deixar-se olhar por Ela. Lá encontram a força de Deus para suportar os sofrimentos e as fadigas da vida. Como a São João Diego, Maria oferece-lhes a carícia da sua consolação materna e diz-lhes: ‘Não se perturbe o teu coração. (...) Não estou aqui eu, que sou tua Mãe?’” (n.286).

No seu livro A Alegria De Ser Discípulo (Ed. Best Seller, Rio de Janeiro,2017 p.138), o Papa Francisco escreveu: “Nossa peregrinação de fé está inseparavelmente ligada a Maria desde que Jesus, ao morrer na cruz, deu-a a nós como nossa Mãe, dizendo: ‘Eis aí tua mãe!’ (Jo 19,27). Essas palavras servem como um testamento, legando uma mãe ao mundo. A partir desse momento, a Mãe de Deus também se tornou nossa Mãe! Quando a fé dos discipulos foi muito testada por dificuldades e incertezas, Jesus os confiou a Maria, que foi a primeira a acreditar e cuja fé nunca falhou. A “mulher” se tornou nossa mãe quando ela perdeu seu divino Filho. Seu coração sofrido se ampliou para dar espaço a todos os homens e mulheres – todos, sejam bons ou maus -, e ela os ama como amava Jesus. A mulher que nas bodas de Caná, na Galileia, deu sua cooperação chei de fé para que as maravilhas de Deus pudessem ser exibidas ao mundo, manteve no Calvário, viva, a chama da fé na ressurreição de seu Filho, e ela comunica isso a cada pessoa, com carinho materno. Maria se torna, dessa forma, uma fonte de esperança e de alegria verdadeira”.

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As leituras são escolhidas em função desta Memória: Gn 3,9-15.20 (Primeira Leitura) e Jo 19,25-34 (Evangelho).

O Gn 3 se refere à situação criada pelo pecado original. Deus intervém como um Juiz no quadro de um processo. Deus interroga os culpáveis, estabelece as responsabilidades e fixa as sanções.

Onde Tu Estás

Onde estás?”. Esta é a primeira pergunta primordial de Deus aos homens (a segunda pergunta: “Onde está teu irmão” ?). Por que Deus pergunta ao homem “Onde estás”, pois Deus é onisciente (além de ser onipresente e onipotente? Deus não fez essa pergunta para conhecer algo que não o soubesse, e sim para induzir Adão a tomar consciência da situação em que se encontrava. Ao perguntar “Onde estás”, na realidade o Senhor queria dizer-lhe: “Em que estado te encontras em tua relação comigo, com tua companheira, com o mundo onde vives”?. Esta pergunta vale para qualquer um de nós na atual situação em que vivemos.

Adão e Eva, os primeiros pais, pensaram que comendo o fruto daquela árvore proibida seriam como deuses, isto é, creram e escolheram e desejaram ser eles mesmos os donos de tudo, o critério último de tudo.

Quando o Gênesis nos narra que Deus proibiu comer da árvore da ciência do bem e do mal, nos quer dizer que Deus não queria que os homens se considerassem os proprietários particulares do bem e do mal; não queria que este ou aquele homem chegasse a dizer: “Isso é bom, e isso é mau, porque eu o digo, porque eu quero, porque isso vai ser bom para mim e os demais que me compreendam e me aguentem!”. O plano de Deus, o projeto de Deus, era outro, e não abandonava pelos caminhos da autossuficiência e da insolidariedade e sim pelos caminhos do amor, da partilha, da paz e da harmonia.

E os homens, desde o princípio, romperam este projeto de Deus, e assim estraga ou deforma toda a história humana, pois sem amor, sem paz e sem ordem não haverá a harmonia. “A paz é a tranquilidade da ordem”, dizia Santo Agostinho. E esta ruptura, esta marca que desde o princípio os homens puseram na história, chegou até nós. É isso que chamamos “pecado original” e origina outros pecados. Somos também marcados, de muitas formas, por essa ruptura, esse mal, esse pecado: queremos ser dono de nossa vida, esquecendo-nos que a vida é um dom maior recebido de Deus. O ser humano é um ser vincular. O vínculo é a medula de sua existência. Para tornar-nos aptos, competentes, necessitamos, imprescindivelmente, de colaboração e de ajuda dos outros. O vínculo nos leva a termos o sentimento de pertença. Através da vivência desse sentimento de pertença aprendemos a receber algo de bom dos outros e a dar aos outros o que temos de bom.

Porém, não se trata agora de ficarmos assim, lamentando por estar marcados desse modo, pois precisamente nossa fé nos diz que Deus não quis para sempre esta marca, esta ruptura. Deus não permitiu que os homens fossem condenados para sempre a não poder nos levantar do mal que desde o princípio nos ata. E por isso, ao final da mesma leitura que nos fala da condenação dos primeiros pais, escutamos o anúncio que Deus diz: da estirpe da mulher, ia surgir alguém capaz de destruir o mal e a morte, e de refazer a vida dos homens. Alguém, um homem como nós, Jesus Cristo. Com Cristo será criado novamente o caminho do amor, da paz e da unidade entre os homens. Ele, Jesus Cristo, um homem como nós, um homem que é o Filho de Deus, reconstrói esse caminho: amando totalmente até o fim (Jo 13,1) a ponto de dar a vida pela nossa salvação.

Fomos salvos por Jesus Cristo, que é o Filho de Maria. Por Jesus Cristo, que se fez presente neste mundo graças ao amor, à fidelidade, à generosidade daquela Virgem de Nazaré que se chamava MARIA, e que hoje recordamos nesta Memória, como Mãe da Igreja, de todos, e portanto, Mãe de cada um de nós em particular. Sua atitude de disponibilidade, de colaboração na obra redentora, de confiança incondicional em Deus e de esperança ativa torna Maria um modelo que merece ser seguido pelos cristãos, por todos nós.

Eis Tua Mãe, Eis Teu Filho

Junto à cruz de Jesus estavam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena. Quando Jesus viu sua mãe e perto dela o discípulo que amava, disse à sua mãe: Mulher, eis aí teu filho. Depois disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. E dessa hora em diante o discípulo a levou para a sua casa”.

A Mãe de Jesus aparece, no evangelho de João, somente em Caná (Jo 2,1-12) e aqui, no texto do evangelho de hoje: abre e fecha “a hora” da glória do Filho. Em três versículo, é mencionada seis vezes como “mãe”, cinco diretamente e uma indiretamente, com o pronome “a”.  O Evangelista a chama duas vezes de “mãe” e outras duas de “sua mãe” (de Jesus), enquanto Jesus a chama “tua mãe” quando a apresenta ao discípulo amado que “a acolhe”. O evangelista quer assim sugerir que “sua” Mãe se torna “tua” Mãe para ti leitor do evangelho de João.

Junto à cruz de Jesus estavam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena...”. “Estar junto a cruz de Jesus” é uma expressão única em todo o Novo Testamento. É a posição de quem contempla o Filho do Homem elevado; a posição do discípulo que, na cruz, vê o mistério de Deus e do homem.

Desde o início, o Evangelho de João noz conduzia a estar junto à cruz de Jesus (Jo 3,14). Aqui, no texto do evangelho de hoje, vemos que “Deus amou o mundo que deu o seu Filho unigênito” (Jo 3,16); e aqui conhecemos o “Eu sou” (Jo 8,28) e, vencido o chefe deste mundo, somos atraídos para Ele (Jo 12,31s).

Mulher, eis o teu filho/ Eis tua mãe”. São as últimas palavras que Jesus dirige à mãe e ao discípulo amado, no evangelho de João. Maria e o discípulo se amam reciprocamente  com o mesmo amor com o qual Jesus os amou, o mesmo que Pai e Filho têm entre eles e para com todos: é a realização do Mandamento do amor. A entrega recíproca de Mãe e filho contém todo o mistério do céu e da terra, de Deus e do homem, do homem em Deus e de Deus no homem.

A nível simbólico específico, Maria de Nazaré, chamada mulher, é a noiva, o Israel que aguarda o esposo (noivo). Agora que ela veio, torna-se mãe e gera o homem novo, o povo messiânico, a Igreja. É a Igreja que deve viver e ser governada no amor e por amor. O discípulo é confiado à mulher como filho e a mulher é confiada ao discípulo como mãe.

No Evangelho de João, Maria aparece somente duas vezes. Primeiro, Maria atua na realização do primeiro sinal de Jesus (transformou a água em vinho), em Caná, ao inaugurar a missão pública de Jesus (Jo 2,1-11). Segundo, Maria permanece ao pé da cruz, no momento da morte de Jesus, no final de sua missão nesse mundo (Jo 19,25-27). Ao colocar Maria no início e no final da missão de Jesus, João está dizendo que ela tem um lugar especial na vida de Jesus, pois se faz presente nos momentos mais importantes da vida de Jesus. Aqui Maria se apresenta como uma verdadeira discípula de Jesus: fiel até o fim, não se entrega às dificuldades e aos sofrimentos, não se desanima diante dos desafios. Ela é uma mulher muito valente porque ela tem muito fé e amor no coração. Quando se tem fé e amor no coração tudo se encara com serenidade, pois “Se Deus é por nós, quem será contra nós? Aquele que não poupou seu próprio Filho, mas que por todos nós O entregou, como não nos dará também com Ele todas as coisas?... Quem nos separará do amor de Cristo?(Rm 8,31-32.35).

Depois de interiorizar a Palavra de Deus, vamos fazer as seguintes perguntas:

·      Quais são mulheres que estavam ao da cruz de Jesus? Por que essas mulheres não tinham medo de ninguém nem de nada em acompanhar Jesus até ser crucificado, enquanto a maioria dos discípulos abandonou Jesus? Que tipo de mulher essas?

·      O que sentiu Maria no seu coração ao ver seu Filho sofrer terrivelmente e ser crucificado como inocente?

·      Quais palavras que Jesus dirigiu à Sua Mãe, Maria, da cruz? O que essas palavras significam para nós hoje e para nossas famílias?

·      O único discípulo que acompanhava Jesus era o discípulo que Jesus amava chamado, conforme a tradição, João. Por que esse discípulo se mostrou fiel a Jesus até o fim apesar das dificuldades e dos sofrimentos?

·      Quais palavras que, da cruz, Jesus dirigiu ao discípulo amado? O que essas palavras significam para nós hoje, e para nossas famílias?

·      O que aprendemos dessas mulheres e do discípulo amado?

Quando na fé se dá espaço ao absoluto primado de Deus, a consequência lógica de ser habitado, de ser amado por Deus é sair de si, viver o êxodo sem regresso, que é o amor. O acolhimento da gratuidade do amor eterno torna-se a doação gratuita de tudo que se recebeu. Quem crê e vive da fé, tem capacidade de olhar para fora, aprecia o dom e o comunica. Certamente, respeitamos o dom de Deus quando nos tornamos arca irradiante e quando o restituímos a Deus, que nos estende a mão nos nossos irmãos. Nisto tudo, Maria é nosso grande espelho.

Virgem e Mãe Maria,

Vós que, movida pelo Espírito,

Acolhestes o Verbo da vida

Na profundidade da vossa fé humilde,

Totalmente entregue ao Eterno,

Ajudai-nos a dizer o nosso ‘sim’

Perante a urgência, mais imperiosa do que nunca,

De fazer ressoar a Boa Nova de Jesus

(Papa Francisco: Evangelii Gaudium).

P. Vitus Gustama,SVD

Pentecostes, Domingo, 24/05/2026

PENTECOSTES

I Leitura: At 2,1-11

1Quando chegou o dia de Pentecostes, os discípulos estavam todos reunidos no mesmo lugar. 2De repente, veio do céu um barulho como se fosse uma forte ventania, que encheu a casa onde eles se encontravam. 3Então apareceram línguas como de fogo que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. 4Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito os inspirava. 5Moravam em Jerusalém judeus devotos, de todas as nações do mundo. 6Quando ouviram o barulho, juntou-se a multidão, e todos ficaram confusos, pois cada um ouvia os discípulos falar em sua própria língua. 7Cheios de espanto e admiração, diziam: “Esses homens que estão falando não são todos galileus? 8Como é que nós os escutamos na nossa própria língua? 9Nós, que somos partos, medos e elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, 10da Frígia e da Panfília, do Egito e da parte da Líbia próxima de Cirene, também romanos que aqui residem; 11judeus e prosélitos, cretenses e árabes, todos nós os escutamos anunciarem as maravilhas de Deus em nossa própria língua!”

II Leitura: 1Cor 12,3b-7.12-13

Irmãos: 3bNinguém pode dizer: Jesus é o Senhor, a não ser no Espírito Santo. 4Há diversidade de dons, mas um mesmo é o Espírito. 5Há diversidade de ministérios, mas um mesmo é o Senhor. 6Há diferentes atividades, mas um mesmo Deus que realiza todas as coisas em todos. 7A cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum. 12Como o corpo é um, embora tenha muitos membros, e como todos os membros do corpo, embora sejam muitos, formam um só corpo, assim também acontece com Cristo. 13De fato, todos nós, judeus ou gregos, escravos ou livres, fomos batizados num único Espírito, para formarmos um único corpo, e todos nós bebemos de um único Espírito.

Evangelho: Jo 20.19-23

19Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e, pondo-se no meio deles, disse: “A paz esteja convosco”. 20Depois dessas palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor. 21Novamente, Jesus disse: “A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. 22E, depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo. 23A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem não os perdoardes, eles lhes serão retidos”.

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Hoje celebramos o Pentecostes: a festa do Espírito Santo. Ele fundamenta a missão de Jesus e fundamenta a missão da Igreja. Só no livro de Atos dos Apóstolos, de onde tiramos o relato de Pentecostes, o Espírito Santo é mencionado 45 vezes. Em consequência disto, com razão, a dupla obra de Lucas (o Evangelho de Lucas e Atos dos Apóstolos) é designada como “o Evangelho do Espírito Santo”. O Espírito Santo é a plenitude de tudo quanto Deus tem que nos dar. Na liturgia há uma exuberância de imagens e comparações para exprimir o que o Espírito Santo é e faz. Ele santifica, fortifica e consola. Ele aquece quando estamos frios; ele nos ajuda e nos cura. Ele torna flexível o que é rígido, purifica, ilumina na escuridão. Ele é como uma língua, como descreve os Atos e como uma pomba na descrição dos Evangelhos. Ele é sopro, o dedo de Deus com que foi criado o universo. Renova continuamente a face da terra.      

Como nós sabemos que o Espírito Santo é a terceira Pessoa da Santíssima Trindade. É simples esta frase, mas rico é o seu conteúdo. Ela significa que Deus é uma “família”. Deus não é um Deus solitário. Deus é uma comunidade; uma convivência. Há em Deus uma comunicação perfeita. Há em Deus uma convivência que é completa e desconhece qualquer sombra.  É conhecimento do outro numa unidade indivisa. O Espírito Santo é o vínculo de união perfeita entre Pai e Filho. O Espírito Santo é aquele que supera a relação Eu-Tu e introduz o Nós. Por isso, ele é por excelência a união entre Pessoas divinas.

No evangelho de São João (cf. Jo 14,26; 15,26-27; 16,13-15; 14,16-18) o Espírito Santo é chamado de Paráclito, termo de origem grega do mundo jurídico que é traduzido por advogado, auxiliar, defensor. Em que sentido? Em situação de sofrimento e dor, o Espírito santo desempenha seu papel como consolador. Nas decisões importantes em que ele é invocado o Espírito Santo se faz conselheiro. Ele nos interpela, acusa e questiona na nossa mediocridade, apatia e no nosso desânimo (cf. Jo 16,8). Como o verdadeiro advogado o Espírito Santo nos conduz para a plena verdade (Jo 16,13-15) que é o próprio Jesus Cristo, o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14,6). O Espírito Santo nos conduz a Jesus pela dupla via: pela via do conhecimento e do amor e nos leva ao seguimento de Jesus até o fim, ao anúncio do Reino, à opção pelos pobres. Aqui consiste a trilogia fundamental: conhecer intimamente, amar profundamente e seguir a Jesus fielmente. Quem nos possibilita tudo isso é o Espírito Santo.

O mesmo evangelho de João nos afirma que pelo batismo recebemos o Espírito Santo que nos habita o coração (cf. Jo 3,5-8.34). E o Espírito Santo prometido por Jesus tem uma função de ensinar, recordar, comunicar e conduzir à verdade de Jesus diante do risco de a Igreja perder o rumo em relação à memória e a compreensão de Jesus (cf. Jo 15,26; 16,14s).      

Na história, o Espírito Santo se mostra como uma força vulcânica que ninguém pode segurar, como um vendaval (vento tempestuoso) que toma as pessoas abertas ao seu impulso e as leva a fazer obras grandiosas.

Ele é a força do novo e da renovação de todas as coisas: cria ordem na criação, faz surgir o novo Adão no seio de Maria, impulsiona Jesus para a evangelização, ressuscita o crucificado dos mortos, antecipa a humanidade nova na Igreja e nos traz, no final, o novo céu e a nova terra. Que seria da sociedade e das Igrejas se não surgissem os inovadores, as pessoas criativas, que têm idéias novas, que descobrem novos caminhos para a educação, a política, a religião etc.? O Espírito Santo certamente está ligado ao novo e ao alternativo.       

Ele é o atualizador da memória de Jesus. Ele atualiza a mensagem de Jesus. Ele nunca deixa que as palavras de Jesus permaneçam mortas, mas que sempre sejam relidas, ganhem novas significações e implementem novas práticas. Ele continua a obra de Jesus nas comunidades.       

Ele é o princípio libertador das opressões de nossa situação de pecado, chamada pela Bíblia de carne. Carne expressa o projeto da pessoa voltada sobre si mesma, esquecida dos outros e de Deus. Ele sempre é gerador de liberdade (1Cor 3,17), de entrega aos demais e de amor.

Pentecostes: Plenitude Da Páscoa        

Celebramos hoje a festa de Pentecostes. Pentecostes é a culminação do mistério pascal. Em Pentecostes celebramos a Páscoa em sua plenitude. De fato, desde o primeiro dia dos cinquenta dias do tempo pascal, estamos celebrando o mistério pascal como vitória de Cristo. Neste dia celebramos o Espirito como dom pascal de Cristo glorificado, o mistério da Igreja como obra do Espirito e a missão evangelizadora que o Espirito impulsiona. 

A palavra “Pentecostes” vem do grego “pentekostê” significa exatamente “quinquagésimo” dia (cf. Tb 2,1; 2Mc 12,32). Originalmente “Pentecostes” era uma festa agrícola na qual se agradecia a Deus a colheita da cevada e do trigo, por volta de maio-junho, isto é, ocorre no “quinquagésimo” dia depois da Páscoa. 

Pentecostes ou “festa das semanas” era a festa israelita celebrada sete semanas depois da Páscoa, quando terminava a colheita (Ex 34,22; Nm 28,26). No século I d.C., de festa agrícola tornou-se a festa histórica em que se lembrava o dom da Lei no Sinai e a constituição do povo, libertado da escravidão do Egito, como povo de Deus. Por isso, o barulho, o vento e a violência mencionados em At 2,2 (Primeira Leitura: At 2,1-11), são típicos da aliança do Sinai (Ex 19,6). O vento vem do céu como o que sopra sobre a montanha (Ex 19,3; Dt 4,36). As línguas de fogo também se explicam no contexto do Sinai (At 2,3).  Estas línguas foram do fogo como se relata em Ex 19,18; 24,17, bem como em Dt 4,15; 5,5, que na teofania do Sinai, mostram Javé (Deus) falando na flama (chama). 

Assim, para os primeiros cristãos, Pentecostes aparece como a inauguração da Nova Aliança e a Promulgação de uma lei que não é mais gravada sobre a pedra e sim no Espírito e na liberdade (At 2,4; cf. Ez 11,19; 36,26). O essencial é este: Deus não dá apenas uma lei, mas seu próprio Espírito através de vários carismas ou dons.

A menção da “multidão”, “plêthos” (At 2,6) é uma alusão à promessa feita a Abraão de um dia ser pai de uma “multidão” (plêthos) de nações (Gn 17,4-5; Dt 26,5). Aqui as nações estão presentes de modo simbólico, pois a multidão é composta apenas de judeus que deixaram provisória ou definitivamente sua Diáspora para vir a Jerusalém em peregrinação ou para ai se estabelecer (At 2,9-10). A lista das nações é bastante heteróclita (distinta), a menção dos crentes e dos árabes (At 2,11). Simbolicamente trata-se da universalidade. Isto significa que a Igreja nasceu universal (a Igreja é católica, universal), e a aliança que o Espírito concluiu com a Igreja interessa ou serve para toda a humanidade pela sua salvação. E por ser universal, a Igreja será sempre missionária até o fim dos tempos a serviço de todas as línguas e de todas as culturas e de todos os povos. O cristão é batizado para ser missionário. 

Além de tudo isso, ao afirmar que O Espírito Santo tinha descido sobre os discípulos justamente no dia de Pentecostes, Lucas nos quis ensinar só uma coisa: que o Espírito Santo tinha substituído a Lei antiga e ele se torna a nova Lei para os cristãos. Qual é a Lei do Espírito Santo? É o coração novo, é a vida de Deus que, quando penetra no ser humano o transforma e produz naturalmente as obras de Deus. Quando o homem é permeado pelo Espírito Santo, nele acontece algo inaudito: ama com o mesmo amor de Deus. João chega a dizer que o homem animado pelo Espírito Santo é simplesmente incapaz de pecar: “Todo aquele que nasceu de Deus não comete pecado, porque sua semente permanece nele; ele não pode pecar porque nasceu de Deus” (1Jo 3,9).          

A narrativa da vinda do Espírito Santo nos Atos dos Apóstolos (At 2,1-11) é muito simples. Os discípulos de Jesus estão reunidos numa sala. Do céu vem um barulho, como de forte vendaval, e enche a casa. Aparecem línguas de fogo, que pousam sobre cada um. Esses elementos: barulho, vento e fogo, são típicos das manifestações de Deus. Significam que Deus está agindo. 

O Espirito Santo Como Dom          

O fato de tudo isso vir “do céu” indica o dom de Deus, isto é, o Espírito Santo não é uma invenção dos cristãos, mas um dom que lhes foi dado, conforme a promessa de Jesus (Jo 14,15-17). O ES não é um produto da sugestão humana. Ele é uma força irresistível que foge ao controle e às manipulações humanas. Ele sopra para onde quer (cf. Jo 3,8)          

O que significa que o ES é um Dom?          

Primeiro, a descrição do ES como Dom enfatiza o fato de que estamos no Reino da Graça. Isto significa que Deus derrama seu Espírito e seus dons sobre o seu povo, não como promoção por suas realizações, e sim na liberdade de sua misericórdia e graça. Deus não exige um pagamento velado em troca de seus dons. Seus dons levam a consequências que mudam a vida, sem quaisquer precondições, exceto a vontade para que recebamos o dom. O Dom do Espírito Santo, então, nos faz lembrar que não estamos vivendo num mundo calculista de benefícios conferidos em proporção às condições atendidas, mas no reino de um Pai gracioso, que derrama generosamente seu Espírito, em graça livre e incondicional para todos nós.          

Segundo, a descrição do Espírito Santo como um Dom enfatiza o fato de que estamos no Reino dos relacionamentos dinâmicos, do movimento que vem de um doador para um receptor, de abertura de uma pessoa para outra. A palavra Espírito Santo é uma palavra que tem significado apenas num relacionamento. Ele é o que é e faz tudo o que faz apenas dentro de uma rede de relacionamentos divinos e divino- humanos.          

Terceiro, quando descrevemos o ES como um Dom, estamos deixando claro que nos encontramos no campo pessoal. Um dom só é um dom, no sentido apropriado da expressão, quando incorpora a intenção de um doador no sentido de dá-lo, e é recebido como dom apenas quando o receptor reconhece essa intenção. Uma vaca não dá o leite; o leite é tirado dela. O ES transmite e expressa o amor a todos nós e nós o recebemos, por isso é que ele é um dom. Quando Deus em Cristo nos doa o Espírito, ele nos doa nada menos que a si mesmo. Por isso, o Dom é um sujeito, vivo, atuante, que ama, soberano e livre. 

O Espirito Santo Possibilita Comunicação          

Conforme o texto, o ES se manifesta simbolicamente como “línguas de fogo”. A língua é instrumento de comunicação, de fala, e dá origem à linguagem, que é o meio dos seres humanos se comunicarem. Mas São Tiago (Tg 3,1-10) alerta que a língua pode desviar o homem do caminho de Deus e pode transtornar sua vida e desvia a linguagem do seu uso correto.  Segundo São Tiago, a língua, por menor que seja, é uma força devastadora capaz de pôr a vida a perder. O poder da língua pode sujar o corpo inteiro, tanto para quem fala como também o corpo no sentido de uma comunidade inteira. Temos impressão de que muita gente ainda não consegue domesticar a língua por isso causa a inquietação e o sofrimento em muitas pessoas.          

O fato de o ES se manifestar simbolicamente como “línguas de fogo” nos leva diretamente ao seu significado que o dom do ES não é para a edificação pessoal, mas para a comunicação, e concretamente, para a comunicação da “boa notícia” do Evangelho, que transforma as relações e faz surgir a fraternidade e a partilha que podem proporcionar liberdade e vida para todos.

Efeitos Do Espirito Santo          

O efeito do dom do ES ou a ação interior e transformadora do ES torna-se externamente uma nova capacidade de comunicação: conforme o texto (At 1,4) “começaram a falar outras línguas”. Mas não se trata do fenômeno como falar em línguas que ninguém compreende. Falar em línguas incompreensíveis não comunica nada a ninguém. A linguagem foi feita para produzir comunicação entre as pessoas. Trata-se aqui claramente, do horizonte universal e ecumênico do novo povo mobilizado pela força unificante do ES. Poder-se-ia ver neste elenco de povos, reunidos para escutar a voz do ES na própria língua nativa, uma referência à dispersão dos povos e à confusão das línguas depois de Babel (Gn 11,1-9). A humanidade, dispersa e dividida depois da tentativa de construir um imperialismo religioso- político, é reunida pela força do ES que unifica os diferentes grupos humanos, respeitando e promovendo as características culturais, das quais a língua é expressão. Nem a força ou a repressão, nem a planificação econômica ou política podem assegurar a unidade dos povos ou dos grupos, mas sim o poder interior do ES, que promove com a liberdade e o amor novas relações e cria espaços alternativos de comunicação.          

O ES produz unidade ao mesmo tempo que promove diferentes maneiras de servir, (1Cor 12,3-7.12-13). Ele é a força criadora de diferenças e de comunhão entre as diferenças. É ele que suscita entre as pessoas os mais diversos dons e nas comunidades os mais diferentes serviços e ministérios, como se ensina nas cartas aos Romanos (Rm 12) e aos Coríntios(12). Mas esta diversidade não decai em desigualdades e discriminações porque bebemos da mesma fonte que é o Espírito Santo (1Cor 12,13). Os dons não são dados para a autopromoção, mas para o bem da comunidade (1Cor 12,7). O Espírito Santo interfere para melhorar e não para atrapalhar a comunicação da Igreja de Jesus Cristo. A comunidade fundada em Pentecostes (no Espírito Santo) é um lugar de diálogo, de encontro, de comunicação, de unidade (não necessariamente uniformidade), de acolhimento. O erro não está em sermos diferentes. O erro está em sermos divididos. A comunidade nascida em Pentecostes não é o lugar da lei que mata mas é o lugar do Espírito Santo, isto é, o lugar da abertura e da vida, do reconhecimento e do despertar, o lugar de uma libertação fundada no amor. O amor é o caminho para Deus, o único carisma realmente imprescindível na vida cristã, o carisma que jamais cessará.          

O ES habita os corações das pessoas (1Cor 3,16), dando-lhes entusiasmo, coragem e determinação. Ele consola os aflitos e mantém viva a esperança. Ele nos consola, exorta e ensina como as mães fazem junto a seus filhinhos (Jo 14,26;16,13). 

O Espirito Santo E Seus Frutos Na Vida Cristã

Outros frutos do Espírito Santo são o amor, a bondade, moderação e autocontrole, cortesia, mansidão e longanimidade, jovialidade e paz (veja Gl 5,22-24).          

Segundo Gálatas, o amor que é o fruto do ES se expressa através de cordialidade, simpatia, coração bom. Trata-se de uma atitude típica da interioridade; é a disposição interior para o pensar bem, para o falar bem, para o agir bem. O amor traduzido com cordialidade, simpatia (simpatia vem do grego sumpáscho que significa igualar-se ao outro, ter uma atitude de profunda sintonia com o outro), coração aberto é a capacidade imediata de entender os sofrimentos e as alegrias de quem está perto de nós; é um coração espaçoso, raiz de toda a moral do NT. O amor é a virtude pela qual resplandecem até mesmo as coisas mais pequenas, e os gestos mais simples se tornam belos e construtivos. Tudo que se faz com amor, por pequeno que seja, se torna uma obra prima. E nada vale aquilo que se faz sem amor, por maior que ele seja. Quando o amor inunda uma casa, uma comunidade, uma assosciação etc. todos entendem a língua de todos. “Que cada um interrogue o seu coração: se ama ao irmão, o Espírito Santo permanece nele. Que veja e se examine aos olhos de Deus, que veja se ama a paz e a unidade, se ama a Igreja difundida por toda a terra. ... Pergunta ao teu coração se nele há um lugar para o amor fraterno, e fica tranquilo. Não pode haver amor sem o Espírito de Deus, visto que Paulo exclama: O amor de Deus foi derramado em nossos corações com o Espírito Santo que nos foi dado” (Santo Agostinho: Lecionário Patrístico Dominical).          

A bondade é fruto do ES. A bondade é um reflexo da atitude divina. Ela é a prerrogativa daquele que se compraz em fazer por primeiro o bem, em suscitar sempre e somente o bem ao seu redor. Ela é uma qualidade criativa(tudo que Deus criou era bom. cf. Gn 1). Nossa bondade é nada mais que uma participação, no ES, da característica divina, e por isso, é bela, criativa, fascinante, capaz de suscitar uma sociedade nova. Nenhum coração resiste diante da bondade. Se a bondade é fruto do ES, então, ela é um dom a ser invocado, a ser implorado, dispondo-nos a acolhê-lo com humildade e reconhecimento.          

Outro fruto do ES é a moderação. A palavra que se usa em grego é epieíkeia (ocorre 7 vezes no NT) que significa respeito, afabilidade, acessibilidade, moderação, flexibilidade e equilíbrio ao aplicar as leis, as regras; é capacidade de saber prever também as oportunas exceções às regras. Trata-se de uma atitude fundamental na vida social. O contrário da moderação é a arrogância, a petulância, a rudez, a presunção, a falta de educação etc.          

O domínio de si ou autocontrole, que é outro fruto do ES, está muito ligado à moderação. É uma atitude que exige de si o respeito pelo outro, mantendo sob controle os próprios sentimentos ou instintos de poder e de prevaricação, de ser oportunista diante da fragilidade do outro. O autocontrole evita todo senso de superioridade e toda violência física, verbal e moral nos relacionamentos; evita a exploração da dignidade alheia; evita a busca da própria vantagem, do próprio prazer em prejuízo da dignidade ou do interesse de alguém. É uma virtude social fundamental.          

A cortesia é outro fruto do ES. Ela é a atitude de Deus em relação ao homem, o modo com o qual o Senhor se comporta conosco, segundo o que Jesus diz: “Ele é benévolo (chrestós) para os ingratos e para os maus” (cf. Lc 6,35). A cortesia é a arte de acolher, de ir ao encontro do outro fazendo-o sentir que é bem-vindo, esperado, amado. Quando uma pessoa se sente acolhida, estimada e compreendida, ela se solta, fala, dá corda ao discurso.          

Outro fruto do ES é a mansidão. Ela é uma atitude que facilmente pode ser mal interpretada, pois é confundida com a fraqueza ou com a ingenuidade. Mas, na verdade, ela é a atitude típica de Jesus que se autodefine manso (cf. Mt 11,29). E ela é uma das bem-aventuranças por ele proclamada (cf. Mt 5,5). Mansidão é a atitude que acalma a ira ou cólera. A mansidão é a atitude de quem elimina ou modera a própria cólera e a dos outros; é responder à ira com a ponderação.          

A longanimidade é outro fruto do ES. É uma virtude que está ligada estreitamente à cortesia e à mansidão. Ela permite sustentar no tempo a esperança (Cf. Lc 13,6-9; 2Cor 2,1-4). Ela é a capacidade de saber investir, sem pretender a obtenção de resultados imediatos ( o contrário da precipitação). Ela é a atitude que permite superar frustrações, que permite superar a irritação e o desencorajamento diante da aparente esterilidade da ação apostólica, educativa, formativa. Ela nos permite semear, eventualmente com sofrimento, olhando para a colheita que nos será dada pelas mãos de Deus. Ela nos convida a ter coragem e a resistir, na certeza de que da resistência virá a alegria.          

Outro fruto do ES é a alegria/jovialidade (cf. Fl 4,4-7). O termo grego “chará” que se traduz por “alegria”, ocorre 59 vezes no NT, sem contar os sinônimos e os verbos a ele ligados. É muito mais fácil experimentar a alegria do que defini-la. Ela é a atitude que torna tudo mais fácil. “Deus ama a quem doa com alegria” (2Cor 9,7), pois quem doa com alegria, doa bem. Ela é a capacidade que torna outros felizes e contentes. Ela é um sinal claríssimo da presença do ES. Se quisermos entender onde o ES está agindo, precisamos verificar a presença ou a ausência da alegria. Onde há a alegria, está aí o ES. O objetivo da obra de Jesus é o tornar-nos plenos de alegria: “Eu vos disse isso para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena” (cf. Jo 16,22-24). Por isso, ela é a característica típica do Reino de Deus.          

O oposto da alegria é a tristeza, aquele sentimento pelo qual tudo parece mais pesado. E uma variante da tristeza é a depressão ou mau humor, a melancolia, o descontentamento. Como resistir à atitude da tristeza? Como superar a depressão? É invocar o ES, pois a alegria é o dom do ES. É preciso invocar o ES, na certeza de que a alegria existe, de que ela está no fundo de nós mesmos, porque ela é a presença de Jesus ressuscitado ainda que esteja escondida. A alegria vem e virá, e tal certeza, cultivada no coração, ajuda a superar depressões, maus humores, escuridão etc....          

Outro fruto conjuntural e central do ES é a paz (shalom), que representa também uma espécie de síntese de todo bem na Bíblia. Biblicamente a paz é entendida como todo e qualquer bem, humano e divino. Por isso, São Paulo até diz: “E a paz de Deus, que ultrapassa toda a compreensão, guardará vossos corações e vossos pensamentos em Jesus Cristo (Fl 4,7). A paz podemos definir como a atitude que nos defende da ânsia, que reina sobre a ânsia, que a domina. Ela é, obviamente, dom de Deus, do Espírito; é a riqueza que o Espírito derrama sobre os que a acolhem. A paz é a sensação de sentir-se em casa, de ter familiaridade com o ambiente em que vivemos. E sentir-se em casa com Deus, em Deus; o repouso em Deus é a paz que bloqueia a inquietude do coração. Como dizia Sto. Agostinho: “Nosso coração está inquieto enquanto não repousa em ti”. A paz é sentir-se em casa com os outros, quando os relacionamentos são construtivos. A paz leva a pessoa a superar os medos e as desconfianças recíprocas. 

O Espirito Santo Transforma Cada Cristão Em Missionário

Para os discípulos, Jesus ressuscitado diz: “Como o Pai me enviou, também eu vos envio” (v.21). Jesus é o Enviado por excelência (Jo 3,31-34;5,30;7,17s.28; 8,16.28s.42; 12,44s;16,28).        A missão provém de Deus, que quer dar a vida ao mundo. O envio dos discípulos implica tudo o que visava o ministério confiado a Jesus: glorificar o Pai, fazendo conhecer seu nome e manifestando seu amor (cf. 17,6.26). Do mesmo modo como o Pai esteve presente com Jesus na sua missão, assim os discípulos não estarão nunca sozinhos no cumprimento de sua missão (cf. Mt 28,20).            

Aqui a ressurreição está vinculada à missão. Os discípulos são chamados e enviados para ser testemunhas do anúncio da morte que foi vencida. A Igreja surge ao redor dessa fé na ressurreição. Os discípulos são enviados para proclamar a verdade de que não é qualquer vida pode ressuscitar gloriosamente como a de Jesus, e sim somente uma vida que tem como características: vida de doação, de serviço, de perdão, de fidelidade plena a Deus, como foi a vida de Jesus. Somente assim, o cristão possuirá a vida eterna ressuscitada. Ser enviado significa ser pessoa que lança as sementes da ressurreição feito de justiça, de amor, de reconciliação e de abertura incondicional a Deus. Se um cristão, o enviado, fizer assim, a vida nova e a ressurreição estão germinando. E ele tem que cuidar bem deste germe para que ele possa chegar à sua plenitude.          

Dito isso, soprou sobre eles e disse: ‘Recebei o Espírito Santo’” (Jo 20,22). O gesto de Jesus reproduz o gesto primordial da criação dos seres humanos por Deus (Gn 2,7). O Criador “insuflou no homem um sopro que faz viver” (Sb 15,11; Ez 37,9). “Soprar” quer dizer dar vida a quem não tem. Isso significa que o ser humano só existe porque é sustentado pelo sopro de Deus. Trata-se agora da nova criação: Jesus glorificado comunica o Espírito que faz renascer o homem novo (cf. Jo 3,3-8), capacitando-o para partilhar a comunhão divina. O Filho que “tem a vida em si mesmo” dispõe dela a favor dos seus (cf. 5,26.21); e seu sopro é o da vida eterna.  

O Espirito Santo e Pluralidade de Carismas 

Há diversidade de dons, mas um mesmo é o Espírito. Há diversidade de ministérios, mas um mesmo é o Senhor. Há diferentes atividades, mas um mesmo Deus que realiza todas as coisas em todos. A cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum”. Assim escreveu São Paulo aos coríntios que lemos hoje na Segunda Leitura.

Esta leitura recorda a pluralidade da ação do Espirito Santo. A pluralidade dos carismas e a unidade da Igreja procedem do mesmo Espirito. A pluralidade de carismas é expressão da riqueza e vitalidade da Igreja. Mas há que recordar que ministérios e carismas, em sua diversidade, estão destinados para o bem comum (utilidade comum). Ninguém tem todos os carismas. 

Há uma pluralidade de dons para o serviço do único Corpo que é a Igreja. A cada um é dado uma manifestação do Espirito Santo porque o Espirito Santo não é monopólio de ninguém. Assim o Espirito Santo não significa uniformidade sem variedade, não dispersão e sim unidade, não pobreza e sim riqueza. Pentecostes significa reconhecer esta realidade na Igreja, descobrir o próprio carisma e respeitar o carisma dos demais irmãos na Igreja. Os dons ou os carismas são auto-revelação do Espirito Santo. Nos carismas se faz visível o invisível Espirito de Deus. O dom ou o carisma é dado a cada um, mas o que se quer sublinhar não é o individualismo e sim a relação de serviço aos demais. Os carismas são para a edificação da Igreja e não para a promoção pessoal. O carisma é um dom gratuito, sobrenatural. O carisma é dado às pessoas para a edificação do Corpo místico de Cristo, isto é, a Igreja e as comunidades. O carisma está mais ligado à edificação, à atividade da caridade e do serviço à comunidade. Por isso, os carismas estão sempre ligados diretamente aos verbos de ações” (Ildo Perondi, professor da teologia da PUC, Rio de Janeiro). 

Por isso, São Paulo define o critério para distinguir os verdadeiros carisma dos falsos. Primeiro, o carisma autentico deve contribuir sempre para reforçar a profissão de fé no Senhor Jesus Cristo: “Ninguém pode dizer: Jesus é o Senhor, a não ser no Espírito Santo” (1Cor 12,3). 

Segundo critério de juízo se verifica na colaboração dos carismas mais diversos para o único desígnio de Deus (1Cor 12,4-6). O politeísmo pagão ostentava carismas muito variados concedidos por deuses diferentes. Na Igreja, pelo contrário, tudo se unifica na vida trinitária para as funções comunitárias ou para o bem comunitário. Não pode haver oposições entre os carismas, pois a fonte dos carismas é um único Deus. Quando existe alguma oposição entre os carismas é porque não provêm de Deus, isto é, não provêm do Deus trinitário. 

Terceiro critério para discernir os carismas: sua maior ou menor capacidade de servir ao bem comum: “A cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum” (1Cor 12,7) e a unidade do Corpo (1Cor 12,12-13). Os carismas são distribuídos por Deus em vista do bem comum. Os carismas devem servir para o crescimento e a vitalidade do Corpo que é a Igreja.

Portanto, quero concluir esta reflexão com as palavras de Inácio de Laodicéia: “Sem o Espírito Santo, Deus se torna longínquo; Cristo fica no passado; o Evangelho vira letra morta; a Igreja, uma simples organização; a autoridade, uma opressão; a missão, uma propaganda; o culto, uma evocação; o comportamento cristão, uma moral de escravos. Mas, com o Espírito Santo, Cristo está presente; o Evangelho é poder de vida; a Igreja torna-se comunhão trinitária; a autoridade, um serviço libertador; a missão, um Pentecostes; a liturgia, um memorial e uma antecipação da glória; e o comportamento torna-se divino”.

E São Basílio afirma: “o Espirito Santo é Fonte de santificação, Luz de nossa inteligência, Ele é quem dá, de Si mesmo, uma espécie de claridade a nossa razão natural para que conheça a verdade. Inacessível por natureza, se faz acessível por sua bondade” (Sobre o Espirito Santo 9,22-23).          

“Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos Vossos fiéis e acendei neles o fogo do Vosso amor e envia o Teu Espírito, e tudo será criado, e renovareis a face da terra”. Assim seja!

P. Vitus Gustama,svd

Terça-feira Da VIII Semana Comum, 26/05/2026, Ano Par

SEGUIR A JESUS PARA FORMAR UMA COMUNIDADE DE IRMÃOS ONDE HÁ UM PAI COMUM E TUDO É PARTILHADO Terça-Feira Da VIII Semana Comum Primeira L...