sábado, 31 de outubro de 2026

 

DIA DE FINADOS

O Dia de Finados leva as pessoas às suas raízes familiares. Este dia é o dia da saudade e o dia da esperança. Talvez você derrame suas lágrimas sobre seus entes queridos e enfeite, por um dia, o túmulo de seu pai ou mãe ou de seu filho ou filha ou de seu esposo ou esposa. Neste dia você leva flores aos túmulos. Levar flores aos túmulos dos parentes parece uma obrigação de gratidão e de reconhecimento. No fundo, na realidade, está-se realizando um rito muito significativo. As flores simbolizam o jardim, o paraíso, a felicidade eterna, que todos desejam aos seus entes queridos. Neste dia também o ser humano é convidado a fazer a ação de graças pelo que Deus realizou, por sua graça naqueles que nos precederam na fé: em nossos avós, em nossos pais, irmãos, parentes e amigos, que já passaram deste mundo ao Pai. Daí brota o desejo de imitá-los, de segui-los no mesmo caminho da fé.          

Recordamos hoje de modo especial os nossos falecidos. Uma lembrança de carinho e de piedade. Cada um de nós, sobretudo depois de certa idade, tem no coração um lugar muito especial para lembrança daqueles que conviveram conosco e partiram antes de nós. A Igreja apoia essa lembrança e abre espaço grande na liturgia para que ao mesmo tempo em que rezamos por aqueles que nos precederam, nos lembremos da ressurreição deles e nossa ou seja do destino eterno que tem a criatura humana.          

A Igreja nunca pôs em dúvida a sobrevivência dos mortos ou na imortalidade da alma. Sempre rezamos no Credo: “Creio na comunhão dos santos”. Isto quer dizer que nós, que peregrinamos na terra, estamos em comum união, em comunhão, com os que terminaram esta vida. Como diz o LG: “A união dos que estão na terra com os irmãos que descansam na paz de Cristo, de maneira nenhuma se interrompe, pelo contrário, conforme a fé perene da Igreja, vê-se fortalecida pela comunicação dos bens espirituais”(no.49). A Igreja sabe e sempre ensinou que a criatura humana não é criada/feita para a morte, mas para a vida. E Jesus foi claro quando disse: “Quem crer em mim, ainda que esteja morto, viverá”(Jo 11,25).            

Por isso, no dia de hoje a liturgia faz memória de todos os defuntos não para aterrorizar-nos, mas para levar-nos à sabedoria do coração, para nos fazer descobrir o verdadeiro sentido desta vida e para lembrar-nos a alegre verdade sobre a qual está fundamentada nossa fé: a ressurreição. Dizia muito bem Tertuliano, um dos padres da Igreja dos primeiros séculos: “A esperança cristã é a ressurreição dos mortos; tudo o que somos nós o somos enquanto acreditamos na ressurreição”.         

Este dia, porém, não só para os que nos precederam, mas também para nós que ainda estamos peregrinando nesta terra. A morte aumenta a nossa consciência da provisoriedade de nossa existência humana. Estamos de passagem nesta terra. Pensar na morte não é uma perda de tempo; é sim uma luz que nos ajuda a fazer escolhas justas e sensatas durante a vida. Uma coisa é falar do ter que morrer e outra é falar da graça e da virtude de saber dar à morte o seu melhor sentido. A morte deve ser um adeus sereno, uma última resposta não só à nossa condição de mortais, como também à nossa vocação à vida eterna, à vida sem fim.          

Diante dessa experiência, muitas vezes trágica e imprevista, a Igreja anuncia o Mistério Pascal que inclui a escuridão da Sexta-feira Santa e a luz da Ressurreição de Cristo. A ressurreição de Cristo coloca o ser humano na dimensão de salvação, anunciando que a vida é mais forte do que a morte, mas que a nova vida nasce da morte, assim como cada primavera nasce do inverno e cada dia é precedido pela noite. A partir da ressurreição de Cristo em quem acreditamos, não vivemos mais para morrer, mas morremos para viver; a vida não pertence mais à morte mas a morte pertence à vida.        

Diante da morte o cristão é chamado a interpretar a vida, aceitando suas dores e alegrias, os apegos e as separações, as tristezas e as esperanças. O risco é de contentar-se em existir, em vez de celebrar a vida. Fomos criados para além dos horizontes materiais, pois somos o templo do Espírito de Deus(1Cor 3,16-17). Somos convidados diariamente a experimentar o que significa ser livre. A fé nos convida a valorizar o tempo, a fazer o bem para deixarmos marcas positivas no próximo, amar o que se é como dom daquele que nos criou e redimiu: Jesus Cristo, doador da vida: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância”(Jo 10,10).        

A teologia da esperança nos relembra que a existência do homem tende para uma vida livre para sempre da caducidade do tempo e da morte. A esperança nos leva à verdade que nós existimos no mundo e acima do mundo, no tempo e acima do tempo, na história e para além da história. O nosso Credo termina com uma afirmação de esperança: “Creio na ressurreição da carne e na vida eterna”. E o prefácio da missa destaca a crença cristã: “Senhor, para os que crêem em vós, a vida não é tirada, mas transformada...”        

O destino do homem é a união plena com Deus. E na espera desse destino, o homem vive sobre a Terra com fé. A fé  é ter confiança em Deus apesar das próprias dúvidas, ter a coragem de agir apesar dos próprios medos, esperar no amanhã apesar do sofrimento de hoje. São Paulo adverte: “Não fiquem tristes como os outros que não têm esperança”(1Ts 4,13). Tudo isso partiu da ressurreição de Cristo.        

A ressurreição de Cristo é o início de uma nova humanidade que olha as coisas e a vida com o conhecimento e os olhos de Deus. A partir dos olhos de Deus nada fica sem sentido.          

Neste Dia de Finados, cada ser humano é convidado a considerar sua peregrinação terrena não como um fim em si, mas como caminho que guia à vida sem fim: a vida com Deus. Ele também é convidado a viver sua existência cotidiana como um mistério a ser descoberto e não apenas como um problema para resolver. Quanto mais se mergulha no mistério da vida, mais se descobre o mistério do homem e o mistério de Deus.         

Somos criaturas privilegiadas, pois temos dom de saber que um dia vamos morrer. Porém ninguém tem ficha para morrer. Em qualquer hora ou dia podemos partir deste mundo independentemente da idade que cada um tem. Mas infelizmente, trata-se de um saber (da morte) não sabido. Pensamos que a morte seja do vizinho. Quem nasceu não precisa defender a existência dos pais e não é necessário provar que um dia vai morrer. Todos os que nasceram, seja qual for sua idade, já estão adultos ou prontos para morrer. Um dia deixaremos de existir e de viver neste mundo fisicamente.

Mas seja qual for este “um dia”, devemos estar conscientes de que deixar de viver não é somente falecer o corpo. Deixar de viver é deixar que a esperança em nós morra; é permitir que o desânimo nos leve para o desespero. Deixar de viver é permitir que tapemos os olhos para enxergar o horizonte maior de nossa vida. Deixar de viver é permitir que mantenhamos um coração duro para não nos sensibilizar com a dor alheia. Deixar de viver quando permitimos que pisemos sobre nossa dignidade e sobre a dignidade alheia. Deixar de viver é permitir que minha capacidade afetiva de fazer o bem para aliviar um pouco a dor do outro morra em mim. Deixar de viver é permitir a perda das oportunidades para viver com decência, com honestidade, com justiça, com amor fraterno. Deixar de viver é permitir que morram lentamente em mim os valores que edificam minha vida e minha convivência com os demais homens.

Não nos esqueçamos que vida não é somente duração. Viver não é somente durar. Não confundamos duração da vida com vivência. Não basta existir. Pois uma pedra também existe e tem duração, mas não vive. É preciso viver bem enquanto durar. Para não ser igual a uma pedra, a vida não pode ser apenas uma duração; é preciso viver e conviver na fraternidade. Eu sou o outro do outro. O tratamento que faço para com o outro é o possível tratamento que vou receber um dia. Viver é aprender a respeitar o processo cheio de suor e lágrimas rumo à vida plena em que para ser divino é preciso ser muito humano; para subir à divindade é preciso mergulhar até a profundeza da humanidade.

Por isso, para nós que ainda não partimos, vamos nos esforçar para ter um encontro feliz com o nosso Criador. Seguindo os passos de Jesus, cumprindo com fidelidade a nossa missão nesta Terra, unindo-nos aos que desejam uma sociedade com mais vida, mais fraternidade, mais amor e  mais justiça. Sejamos bênção para os outros: seja o marido bênção para a esposa e vice-versa; os pais para os filhos e vice-versa; o patrão para o funcionário e vice-versa, e assim por diante. Com tudo isso, estamos, na verdade, nos preparando para o encontro definitivo com Deus de Amor.          

Por isso, olhando para todos os túmulos, que possamos dizer: “Tudo isto vai ser vencido. Um dia, os túmulos se abrirão à voz de Deus. Mais do que para os cemitérios, caminhemos para Deus”. Que assim seja!!!!!!!!!!!!!

Para Refletir

 

Prefiro que partilhes comigo uns poucos minutos,

Agora que estou vivo,

E não uma noite inteira quando eu morrer.

 

Prefiro que apertes suavemente a minha mão,

Agora que estou vivo,

E não apóies o teu corpo sobre mim quando eu morrer.

 

Prefiro que faças uma só chamada,

Agora que estou vivo,

E não faças uma inesperada viagem, quando eu morrer.

 

Prefiro que me ofereças uma só flor,

Agora que estou vivo,

E não me envies um formoso ramo e uma coroa de flores

Quando eu morrer.

 

Prefiro que elevemos juntos ao céu um oração,

Agora que estou vivo,

E não uma oração poética quando eu morrer.

 

Prefiro que me digas umas palavras de alento,

Agora que estou vivo,

E não um dilacerante poema quando eu morrer.

 

Prefiro que um só acorde de guitarra,

Agora que estou vivo,

E não uma comovedora serenata quando eu morrer.

 

Prefiro que me dediques uma leve prece,

Agora que estou vivo,

E não um político epitáfio sobre minha tumba quando eu morrer.

 

Prefiro desfrutar de todos os mínimos detalhes do tempo de nossa convivência,

Agora que estou vivo,

E não de grandes manifestações quando eu morrer.

 

Prefiro escutar-te e ver-te um pouco nervos@

Dizendo o que sentes por mim,

Agora que estou vivo,

E não um grande lamento porque não o disseste no tempo certo, e agora estou mort@....

 

Aproveitemos a convivência fraterna e amorosa com os nossos seres queridos

Agora que estão entre nós...

Valorize as pessoas que estão à tua volta.

Ama-as, respeita-as e lembra-te delas,

Enquanto estão vivas.

Deus te abençoe!        

                         

Pe. Vitus Gustama, SVD

Solenidade De Todos Os Santos, Domingo, 01/11/2026

SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS

Primeira Leitura: Ap 7,2-4.9-14

Eu, João, 2 vi um outro anjo, que subia do lado onde nasce o sol. Ele trazia a marca do Deus vivo e gritava, em alta voz, aos quatro anjos que tinham recebido o poder de danificar a terra e o mar, dizendo-lhes: 3 “Não façais mal à terra, nem ao mar, nem às árvores, até que tenhamos marcado na fronte os servos do nosso Deus”. 4 Ouvi então o número dos que tinham sido marcados: eram cento e quarenta e quatro mil, de todas as tribos dos filhos de Israel. 9 Depois disso, vi uma multidão imensa de gente de todas as nações, tribos, povos e línguas, e que ninguém podia contar. Estavam de pé diante do trono e do Cordeiro; trajavam vestes brancas e traziam palmas na mão. 10 Todos proclamavam com voz forte: “A salvação pertence ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro”. 11 Todos os anjos estavam de pé, em volta do trono e dos Anciãos, e dos quatro Seres vivos, e prostravam-se, com o rosto por terra, diante do trono. E adoravam a Deus, dizendo: 12 “Amém. O louvor, a glória e a sabedoria, a ação de graças, a honra, o poder e a força pertencem ao nosso Deus para sempre. Amém”. 13 E um dos Anciãos falou comigo e perguntou: “Quem são esses vestidos com roupas brancas? De onde vieram?” 14 Eu respondi: “Tu é que sabes, meu senhor”. E então ele me disse: “Esses são os que vieram da grande tribulação. Lavaram e alvejaram as suas roupas no sangue do Cordeiro”.

Segunda Leitura: 1Jo 3,1-3

Caríssimos: 1 Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: de sermos chamados filhos de Deus! E nós o somos! Se o mundo não nos conhece, é porque não conheceu o Pai. 2 Caríssimos, desde já somos filhos de Deus, mas nem sequer se manifestou o que seremos! Sabemos que, quando Jesus se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é. 3 Todo o que espera nele purifica-se a si mesmo, como também ele é puro.

Evangelho: Mt 5,1-12

Naquele tempo, 1 vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-se. Os discípulos aproximaram-se, 2 e Jesus começou a ensiná-los: 3 “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus. 4 Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados. 5 Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra. 6 Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. 7 Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. 8 Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. 9 Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. 10 Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. 11 Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e, mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim. 12ª Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus”.

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No dia 1º de novembro, desde o final do século IX, a Igreja Celebra a Solenidade de Todos os Santos. Em uma única festa, são recordados, todos juntos, os santos canonizados, todos os justos de qualquer idioma, de qualquer etnia e nação, cujos nomes estão inscritos no livro da vida (cf. Ap 20,12). O significado desta solenidade está bem expresso no embolismo do prefácio: “Vós nos concedeis hoje festejar vossa cidade, a Jerusalém do alto, nossa mãe, onde a assembleia de nossos irmãos e irmãs canta eternamente o vosso louvor. Para esta cidade, peregrinos e guiados pela fé, nos apressamos jubilosos, compartilhando a alegria dos membros mais ilustres da Igreja, que nos concedeis como exemplo e auxílio para nossa fragilidade”.

Em relação à santidade, o Papa Francisco escreveu: “Para ser santo, não é necessário ser bispo, sacerdote, religiosa ou religioso. Muitas vezes somos tentados a pensar que a santidade esteja reservada apenas àqueles que têm possibilidade de se afastar das ocupações comuns, para dedicar muito tempo à oração. Não é assim. Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra. És uma consagrada ou um consagrado? Sê santo, vivendo com alegria a tua doação. Estás casado? Sê santo, amando e cuidando do teu marido ou da tua esposa, como Cristo fez com a Igreja. És um trabalhador? Sê santo, cumprindo com honestidade e competência o teu trabalho ao serviço dos irmãos. És progenitor, avó ou avô? Sê santo, ensinando com paciência as crianças a seguirem Jesus. Estás investido em autoridade? Sê santo, lutando pelo bem comum e renunciando aos teus interesses pessoais” (Exortação Apostólica, Gaudete et Exsultate n.14).

O culto aos santos é a conseqüência de nosso Credo, conhecido como Símbolo Apostólico, onde professamos: “Creio...na comunhão dos santos...”. Esta pequena frase nos indica e afirma que a nossa relação com os santos é contínua porque acreditamos na não–interrupção da comunhão eclesiástica pela morte, e, ao mesmo tempo, acreditamos no fortalecimento da mútua comunicação dos bens espirituais (LG no 49; compare com Rm 8,38-39). A comunhão dos santos é testemunhada em várias passagens bíblicas (Hb 12,1; Lc 15,7; 2Cor 6,14; 1Jo 1,3; Ef 1,10-23). E nossa Tradição aprofunda essa doutrina, pois afirma que existe uma comunhão entre os fieis antepassados e todos nós pela fé em Jesus Cristo. Se os que já partiram deste mundo tinham fé em Jesus Cristo durante sua passagem neste mundo e nós que ainda estamos peregrinando neste mundo temos também a mesma fé em Jesus Cristo, logo estamos em comunhão pela mesma fé em Jesus Cristo. Nada nos separa do amor de Jesus Cristo (cf. Rm 8,35-39). Certamente, uma das mais belas expressões das Sagradas Escrituras é a de que Deus é amor. E, amorosamente, Deus vem ao encontro da humanidade através de Jesus Cristo (cf. Jo 1,14; 3,16). Trata-se de o amor que provoca vida e construção de comunidade. No amor de Deus todas as pessoas são incluídas. O amor não exclui ninguém. Ama-se para incluir aqueles e aquelas que estavam excluídos.

Todos os santos é uma festa familiar: a festa daqueles que caminharam com Jesus e agora gozam a alegria eterna com Ele. Nosso destino é Deus, a felicidade eterna que nos falta. É uma festa de vitória dos que nos precederam e levaram uma vida sem mancha, superando todo tipo de ganância, de prepotência, de egoísmo e assim por diante.

A Igreja dos peregrinos (todos nós mortais) sempre teve e continua tendo perfeito conhecimento dessa comunhão reinante em todo Corpo Místico de Jesus Cristo que é a Igreja (LG 50). Todos os santos em comunhão têm sua santidade como um reflexo da santidade do Senhor. A Igreja venera os santos como exemplos. O Culto aos santos une-nos a Igreja celestial, pois acreditamos na vida sem fim, a vida eterna. A celebração dos santos abrange não somente os santos canonizados, mas também nossos antepassados, que viveram na busca da santidade e são contados entre os bem-aventurados. Na mensagem do Apocalipse (Ap 7,2-4.9-14), a comunhão dos santos é assinalada por uma multidão dos eleitos de Deus, gente de todas as etnias, tribos, povo e línguas. São os redimidos pelo Sangue do Cordeiro.       

Os santos que estão em comunhão e são recordados nesta solenidade procuravam viver as bem-aventuranças (Mt 5,1-12) na misericórdia, na mansidão, na justiça e no serviço ao Reino na caridade fraterna. Os santos no Céu não se tornam uns egoístas que gozam a merecida felicidade, mas pessoas maduras no amor. Para estar com Deus de amor tem que ter muito amor no coração e na vida com os outros. Como irmãos que nos precederam, eles ainda se lembram de nós, pobres mortais, como Cristo sempre se lembra de nós. Os santos no Céu e os cristãos na terra são uma família única. Assim como uma família, um irmão ajuda o outro irmão. Por isso é que pedimos a ajuda dos santos pelos seus méritos.       

Entendemos aqui por “santos” todos os que já estão no céu e veem o próprio Deus face a face. São aqueles que estão na paz e na felicidade suprema (GS 93); aqueles que estão na comunhão perpétua da incorruptível vida divina (GS 18). Esta vida perfeita chama-se “o Céu”. O Céu é, certamente, o fim último e a realização das aspirações mais profundas do homem, o estado supremo e definitivo de felicidade. O Céu é desejo de todos nós que estamos peregrinando nesta terra. Participar da vida divina, a vida em sua plenitude, a vida cheia de amor é o que queremos todos os dias, tanto para nós e nossos familiares como para aqueles que nos precederam. O Céu conforme as palavras de São Paulo, citando Is 64,4, podemos dizer de outra maneira: “O que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram, e o coração do homem não percebeu, isso Deus preparou para aqueles que O amam” (1Cor 2,9).          

É evidente que os santos, cuja festa celebramos neste dia, não são somente aqueles que estão na lista oficial da Igreja (beatificados ou canonizados). De quantos santos nós não conhecemos nem a história nem o nome. O livro de Apocalipse (Ap 7,2-14) fala de um desfile de 144 mil servos de Deus no céu. 144 é um número simbólico (12 x 12) significa a unidade e totalidade do povo eleito. Entende-se, por isso, uma grande multidão de pessoas de todos os povos e religiões, culturas, de antes e depois de Cristo. Por isso, nunca podemos esquecer que há exemplos de santidade e heroísmo cristãos em outras Igrejas, religiões, povos e culturas. Reconhecer essa presença é uma ajuda para superar os nossos seculares preconceitos e para acolher com alegria esses parceiros na construção do Reino de Deus ou do mundo mais fraterno.

Além disto, na solenidade de todos os santos não somente recordamos os santos que nos precederam e nos ensinaram o caminho que os conduziu à felicidade plena (o céu), mas quer que descubramos também os santos que nos acompanham agora e aqui em nosso caminho terreno. Por isso, o Papa Francisco escreveu na sua Exortação Apostólica: Gaudete et Exsultate: “Gosto de ver a santidade no povo paciente de Deus: nos pais que criam os seus filhos com tanto amor, nos homens e mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa, nos doentes, nas consagradas idosas que continuam a sorrir. Nesta constância de continuar a caminhar dia após dia, vejo a santidade da Igreja militante. Esta é muitas vezes a santidade ‘ao pé da porta’, daqueles que vivem perto de nós e são um reflexo da presença de Deus, ou – por outras palavras – da ‘classe média da santidade’” (n.7).

Como filhos de Deus, estamos conscientes de que Deus é o Único Santo e fonte de toda santidade. Por isso, consequentemente, Ele é o Único que faz santos os participantes em sua vida por fruírem de sua santidade, por cumprirem seus desígnios, por entrarem na esfera vital de seu reinado. Quando o homem já participa em plenitude da vida de Deus no Reino dos céus, então é santo por sua comunhão de vida com Deus, o Único Santo (cf. 1Jo 3,2).          

Sabemos também que somente Deus pode receber o verdadeiro culto de adoração.  Dá-se, porém, o culto de veneração aos servidores de Deus que já estão unidos a Ele plenamente na glória e pela comunhão que mantém conosco, nos atraem para Deus e nos ajudam a percorrer o caminho que trilharam e que nos conduzem à meta na qual nos precederam. Eles são provas evidentes do amor de Deus e neles Deus nos fala. Se veneramos os santos é porque descobrimos neles mais vivamente a presença e o rosto de Deus, neles se manifesta a imagem de Deus, o Único Santo.          

Por isso, o culto aos santos não rebaixa nem diminui a adoração a Deus, pelo contrário, enriquece-a intensamente porque nos aproxima mais da única santidade de Deus que devemos imitar pessoalmente como o fizeram homens como nós enquanto percorriam o mesmo caminho que estamos percorrendo.          

Do ponto de vista cristológico sabemos que Cristo é o Santo de Deus (Mc 1,24). Ele é a imagem do Deus invisível (Cl 1,15). A santidade do homem consiste em sua perfeita união com Jesus (LG 50). Os santos são santos porque imitaram e viveram os ensinamentos de Jesus, Senhor de todos os santos. Eles produziram em si mesmos, de forma significativa, o mistério pascal de Jesus. Por isso, a união com os santos e seu culto unem-nos a Jesus, de quem dimana toda a graça santificadora; eles são seus amigos e co-herdeiros. Enfatiza-se muito, por isso, esse valor cristológico do culto aos santos na celebração eucarística.          

Quando nós veneramos os santos, portanto, não somos idólatras. Se nós admirarmos e louvarmos um quadro de valor, por acaso o pintor deste quadro se sentirá ofendido? Ao contrário, ele não ficará feliz? Os santos são as obras artísticas de Deus, Aquele que esculpiu e pintou o seu semblante na alma deles. Se admirarmos ou louvarmos os filhos, por acaso o pai se ofenderá? O pai não ficará feliz pela admiração dada aos seus filhos por outras pessoas? Os santos são os filhos prediletos do Senhor, aqueles que mais se lhe assemelham.          

Mas devemos reconhecer que há pessoas que amam o santo ou a santa, mas não a sua santidade. São muitos cristãos que recorrem aos santos somente para os interesses materiais ou só para alcançar determinada graça e não para pedir a graça de seguir o exemplo desses santos. Podemos encontrar muitíssimas pessoas em volta do altar de santos, mas poucas que seguem os exemplos que os santos nos deixaram. Não podemos abusar dos santos só para atender nossos desejos materiais, esquecendo que precisamos seguir seus exemplos de santidade.  Devemos saber que não há devoção mais eficaz do que a imitação das virtudes dos santos. Para que, seguindo o exemplo dos santos que viveram segundo os ensinamentos de Cristo durante sua vida terrena, possamos também alcançar a santidade para a qual todos nós somos chamados.           

A vocação à santidade é universal. Todos são chamados à santidade, segundo diz S. Paulo: “Pois esta é a vontade de Deus, a vossa santificação” (cf. 1Ts 4,3; Ef 1,4). E o fundamento de nossa santidade ou da nossa perfeição é Jesus Cristo, cumpridor fiel da vontade de Deus. Como dizia Santa Teresa do Menino Jesus: “...Quem aspira à santidade deve fugir à tentação de querer santificar-se ao seu modo, conforme a própria vontade, seu ponto de vista, seus planos humanos, mas entregar-se inteiramente à vontade de Deus. Deus traça o caminho e o homem deve segui-lo” (Santa Teresa de Jesus, Fd.5-10). E na mesma perspectiva São João da Cruz ensinou: “A santidade, ou seja, a união autêntica com Deus consiste na total transformação de nossa vontade na vontade de Deus, de tal modo que, em nós, nada contrarie a vontade do Altíssimo, mas nossos atos dependem totalmente do beneplácito divino” (Subida I-II,2).          

Portanto, o culto verdadeiro de veneração que prestamos aos santos não deve terminar neles. Ao contrário, deve acabar em Cristo como fonte da missão, grandeza, dignidade e privilégios destes santos. Os santos nos ajuda a termos fé firme em Jesus Cristo, mesmo que nos encontremos numa situação sufocante.          

Os santos são um grande exemplo de santidade e de cumprimento da vontade de Deus para nós. Não pensemos que não podemos resistir às tentações. Também os santos tiveram carne e sangue como nós; experimentaram as tentações como as nossas tentações, contudo eles venceram. Basta ler a história da vida dos santos, como Santo Agostinho, São Francisco de Assis, São João da Cruz, Santa Teresa de Ávila e muitos outros santos, saberemos as lutas sem tréguas deles contra as paixões desordenadas, contra as tentações e outros problemas, no entanto venceram. Apesar de tantas dificuldades, os santos viveram os ensinamentos de Cristo até o fim de sua vida. Se eles venceram, será que nós não podemos vencer também? 

Segundo o Evangelho deste dia, Jesus veio ao mundo para fazer todos felizes e indicar qual é o caminho para alcançar a felicidade. Jesus faz sua proposta sobre como podemos ser felizes ou bem-aventurados. Jesus nos oferece um modelo de vida, uns valores que, segundo Ele, são os que nos podem fazer felizes de verdade. A proposta de Jesus são as bem-aventuranças que lemos neste dia no evangelho. 

As bem-aventuranças são uns pensamentos, umas sentenças que à primeira vista podem desconcertar o sentido comum. Jesus nos diz que serão bem-aventurados os pobres no espírito, os sofridos, os que choram, os que têm fome e sede da justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os que trabalham pela paz, os perseguidos por causa da justiça. 

Somente serão autenticamente felizes os que põem toda sua confiança em Deus e tudo o mais fica no segundo lugar; somente os que sabem viver umas atitudes de desprendimento, de humildade, de desejo de justiça, de preocupação e de interesse pelos problemas dos demais. É uma felicidade que aponta para o fundo do coração, para o mais transcendente de si mesmo, para a salvação. Jesus declara felizes àqueles que mantêm viva a confiança em Deus apesar de serem indefesos, oprimidos, marginalizados e perseguidos por causa do bem praticado e do amor vivido até o fim.                                                             

Os felizes são os que têm um coração centrado em Deus e que se traduz no amor ao próximo e que rejeitam toda espécie de idolatria. Os pobres em espírito são aqueles se submetem interiormente, sem resistência à vontade de Deus. O espírito de humilde submissão à vontade de Deus, nasce da fé inabalável na soberania e na misericórdia de Deus e que se traduz em atitudes e condutas de bondade e de mansidão, de misericórdia e de compaixão, de tolerância e de compreensão na convivência com os outros. Os santos não se fecham no próprio egoísmo, mas sabem ser solidários com todos, especialmente com os mais necessidade partilhando que se tem e o que se é.          

Os felizes são os mansos que, por não responderem à violência com violência, estão prontos a perdoar. Jesus declara felizes não os que são mansos por temperamento, mas os que, apesar de não disporem de meios para fazer valer seus direitos, não são violentos nem agressivos, mas pacientes e indulgentes. Eles acreditam que a vida baseada no princípio “olho por olho” só resulta na cegueira, e na cegueira nada se vê, só escuridão.           

Os felizes são os indefesos que não têm como defender seus direitos por falta de recursos, mas que esperam somente a intervenção divina. Os felizes são os que não pactuam com a maldade, com a divisão, com a malícia, nem se deixam levar pela lógica da dominação e do autoritarismo.         

Os felizes são os que têm um coração cheio de misericórdia para com os semelhantes. Um misericordioso é aquele que é capaz de amar até a pessoa que não merece ser amada do ponto de vista humano. Mas por acreditar na misericórdia de Deus, ele sempre quer o bem da mesma.          

Os felizes são os promotores da paz que procuram criar laços de amizade e banir toda espécie de ódio, ajudar a superar as divisões para que mundo seja cada vez mais fraterno, e mais humano. Santo Agostinho dizia: “Não basta ser pacífico. É necessário ser promotor da paz. Quem são os pacíficos? Não os pacifistas, mas os promotores da paz. Não basta estar disposto a perdoar ou ignorar os inimigos, é preciso amá-los e ter compaixão por eles. Não odeias aos cegos, mesmo que ames a luz. Da mesma forma, deves amar a paz sem odiar os que fazem guerra”.          

Os felizes são os perseguidos por causa da justiça, por causa do bem que fazem, por viverem retamente. Quem sempre faz o bem, muitas vezes acaba sendo perseguido e crucificado como Jesus. Mas ele é feliz, pois até o fim ele é capaz de dizer sim para o bem e dizer não para o mal. Quem pára de crescer neste espírito das bem-aventuranças, começa a morrer de verdade.          

Portanto, as bem-aventuranças são uma proclamação de amizade de Deus para as pessoas que participaram do espírito dessas bem-aventuranças e também são um programa da vida de cada cristão (vocação à felicidade é para todos), e são uma celebração da felicidade como dom ou graça presente, como uma realidade já presente e não apenas como algo depois da morte ou uma recompensa futura pela carência na terra. Se entendêssemos as bem-aventuranças somente como uma compensação para depois da morte, elas seriam “ópio do povo”. Em outras palavras, somos felizes já na medida em que pertencemos a Deus no presente que se traduz na vivência da fraternidade universal. Então, também o futuro de Deus nos pertence. A partir daí, o céu é a experiência de compartilhar a alegria, a paz e o amor de Deus na plena capacidade humana.          

As pessoas felizes, das quais Jesus fala neste discurso, então, são felizes agora por causa do futuro que se abre para elas. Elas são felizes porque têm uma esperança magnífica apesar das tribulações e sofrimentos por uma causa digna para um ser humano. É uma felicidade voltada para o futuro e que se antecipa na esperança do que está por vir. Mas esta esperança não pode ser separada de uma realidade vivida no momento presente. As bem-aventuranças se dirigem a algumas categorias de pessoas caracterizadas por suas situações interiores, como são ditas nesse sermão de Jesus. É a elas que é oferecida a esperança. O futuro feliz torna-se realidade presente na pessoa de Jesus e tem nele a sua garantia.          

Depois de ler as bem-aventuranças e de refleti-las, você pode-se perguntar: “Você é feliz no critério de Jesus? Ou você não está feliz? Por que esta infelicidade?” Para que tenhamos o espírito das bem-aventuranças, para que possamos realmente ser felizes, temos que deixar Deus dominar nossa vida, temos que deixar Deus conduzir nossa vida e nossas decisões. Santo Agostinho dizia: “Deus, de quem separar-se é morrer, a quem retornar é ressuscitar, com quem habitar é viver. Deus, de quem fugir é cair, a quem voltar é levantar-se, em quem apoiar-se é estar seguro”.  

Todos os batizados são chamados à santidade. “Pois esta é a vontade de Deus, a vossa santificação” (cf. 1Ts 4,3; Ef 1,4). O Papa Francisco escreveu: “Deixa que a graça do teu Batismo frutifique num caminho de santidade. Deixa que tudo esteja aberto a Deus e, para isso, opta por Ele, escolhe Deus sem cessar. Não desanimes, porque tens a força do Espírito Santo para tornar possível a santidade e, no fundo, esta é o fruto do Espírito Santo na tua vida (cf. Gal 5, 22-23). Quando sentires a tentação de te enredares na tua fragilidade, levanta os olhos para o Crucificado e diz-Lhe: «Senhor, sou um miserável! Mas Vós podeis realizar o milagre de me tornar um pouco melhor». Na Igreja, santa e formada por pecadores, encontrarás tudo o que precisas para crescer rumo à santidade. ‘Como uma noiva que se adorna com as suas joias’ (Is 61, 10), o Senhor cumulou-a de dons com a Palavra, os Sacramentos, os santuários, a vida das comunidades, o testemunho dos santos e uma beleza multiforme que deriva do amor do Senhor” (Gaudete et Exsultate n.15). 

Fortalecidos com os ensinamentos das Sagradas Escrituras, vamos caminhar firmemente em direção ao nosso Redentor, Jesus Cristo, em direção à Assembleia de todos os santos. Vamos para o Paraíso onde encontramos nosso Deus e nossos irmãos que nos precederam. Os santos eram seres humanos como nós. Muitos deles foram grandes pecadores. Mas pelo arrependimento, alcançaram o Reino dos Céus, onde todos vivem juntos, onde se encontram com o Senhor e sua Mãe Imaculada. Pedimos a ajuda dos santos que viveram os ensinamentos de Cristo até o fim, para que possamos também viver segundo os ensinamentos de Cristo até o fim de nossa vida terrestre para que um dia mereçamos ser chamados de santos.

P. Vitus Gustama,SVD

  DIA DE FINADOS O Dia de Finados leva as pessoas às suas raízes familiares . Este dia é o dia da saudade e o dia da esperança . ...