segunda-feira, 22 de junho de 2026

Quinta-feira Da XII Semana Comum, Ano Par, 25/06/2026

ENTRE FALAR E FAZER NA VIDA DO CRISTÃO:

NOSSA PALAVRA JAMAIS ULTRAPASSE NOSSO TESTEMUNHO

Quinta-Feira da XII Semana Comum

Primeira Leitura: 2Rs 24,8-17

8 Joaquim tinha dezoito anos quando começou a reinar e reinou três meses em Jerusalém. Sua mãe chamava-se Noestã, filha de Elnatã, de Jerusalém. 9 E ele fez o mal diante do Senhor, segundo tudo o que seu pai tinha feito. 10 Naquele tempo, os oficiais de Nabucodonosor, rei da Babilônia, marcharam contra Jerusalém e a cidade foi sitiada. 11 Nabucodonosor, rei da Babilônia, veio em pessoa atacar a cidade, enquanto seus soldados a sitiavam. 12 Então Joaquim, rei de Judá, apresentou-se ao rei da Babilônia, com sua mãe, seus servos, seus príncipes e seus eunucos. E o rei da Babilônia os fez prisioneiros. Isto aconteceu no oitavo ano de seu reinado. 13 Nabucodonosor levou todos os tesouros do templo do Senhor e do palácio real, e quebrou todos os objetos de ouro que Salomão, rei de Israel, havia fabricado para o templo do Senhor, conforme o Senhor havia anunciado. 14 Levou para o cativeiro Jerusalém inteira, todos os príncipes e todos os valentes do exército, num total de dez mil exilados, e todos os ferreiros e serralheiros; só deixou a população mais pobre do país. 15 Deportou Joaquim para a Babilônia, e do mesmo modo exilou de Jerusalém para a Babilônia a rainha-mãe, as mulheres do rei, seus eunucos e todos os nobres do país. 16 Todos os homens fortes, num total de sete mil, os ferreiros e os serralheiros em número de mil, todos os homens capazes de empunhar armas, foram conduzidos para o exílio pelo rei da Babilônia. 17 E, em lugar de Joaquim, ele nomeou seu tio paterno, Matanias, mudando-lhe o nome para Sedecias.

Evangelho: Mt 7,21-29

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 21 “Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos Céus, mas o que põe em prática a vontade de meu Pai que está nos céus. 22 Naquele dia, muitos vão me dizer: ‘Senhor, Senhor, não foi em teu nome que profetizamos? Não foi em teu nome que expulsamos demônios? E não foi em teu nome que fizemos muitos milagres? 23 Então eu lhes direi publicamente: Jamais vos conheci. Afastai-vos de mim, vós que praticais o mal. 24 Portanto, quem ouve estas minhas palavras e as põe em prática, é como um homem prudente, que construiu sua casa sobre a rocha. 25 Caiu a chuva, vieram as enchentes, os ventos deram contra a casa, mas a casa não caiu, porque estava construída sobre a rocha. 26 Por outro lado, quem ouve estas minhas palavras e não as põe em prática, é como um homem sem juízo, que construiu sua casa sobre a areia. 27 Caiu a chuva, vieram as enchentes, os ventos sopraram e deram contra a casa, e a casa caiu, e sua ruína foi completa!” 28 Quando Jesus acabou de dizer estas palavras, as multidões ficaram admiradas com seu en­sina­mento. 29 De fato, ele as ensinava como quem tem autoridade e não como os mestres da lei.

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Tudo Se Supera Quando a Força Humana Se Junta à Força Divina

Joaquim tinha dezoito anos quando começou a reinar, e reinou três meses em Jerusalém... E ele fez o mal diante do Senhor, segundo tudo o que seu pai tinha feito”.

O texto da Primeira Leitura é uma das páginas mais trágicas da história para Jerusalém e o povo judeu, pois houve a invasão do rei da Babilônia, Nabucodonosor, e a deportação dos elites de Jerusalém para a Babilônia que ocorreu em 597 a.C (cf. Sl 136/137). Na época quem reinava em Jerusalém foi Joaquim (Jeconias) cujo reinado durou apenas três meses.

Nabucodonosor em Hebraico e Aramaico significa “Ó Nabu (divindade babilônica) protege minha fronteira (ou, meu filho)”. Seu nome é encontrado na Bíblia nos livros de 2Reis, 2Crônicos, Esdras, Jeremias, Ezequiel e Daniel.  Nabucodonosor foi o rei da Babilônia de 604 a 562 a.C. A queda  de Nínive, em 612 a.C, marcou o fim do poderoso império assírio, dando lugar à Babilônia como força dominante do Oriente Próximo. Em 598 a.C atacou Jerusalém e a ocupou. Levou cativo o jovem rei Joaquim, colocando o tio deste, Sedecias, no trono. Nabucodonosor foi o mais poderoso e enérgico soberano do novo império babilônio. Sua capital, Babilônia, transformou-se no maior centro de comércio, rquitetura, arte e astronomia de seu tempo. Os jardisn plantados nos terraços elevados, no topo do plácio de Nabucodonosor, os “jardins suspensos da Babilônia, foram incluídos pelos gregos entre as ste maravilhas do mundo (2Rs 24,25; 1Cr 6,15; 2Cr 36; Esd 1,7; 2,1; 5,12.14 etc.,). Depois de sua morte, o poder do império Babilônico declinou, até que finalmente foi derrotado pela aliança medo-persa em 539 a.C.

O que chama nossa atenção deste rei Nabucodonosor, segundo o livro de Daniel, é que depois do episódio da fornalha ardente, o rei expressou louvores ao Senhor e decretou que ninguém devia falar contra o Deus dos judeus (Dn 3,29). E em Dn 4,34, Nabucodonosor reconheceu que o Senhor era o Rei sobre o céu e a terra e o glorificou. Ele se converteu? A Bíblia não falou expressamente.

Na verdade, o profeta Isaias já tinha profetizado essa tragédia experimentada pelo povo judeu por causa do rei Nabucodonosor (2Rs 20,17-18: interpretação dos redatores deuteronomistas).

O Salmo Responsorial descreve muito bem essa tragédia ao dizer: Invadiram vossa herança os infiéis, profanaram, ó Senhor, o vosso templo, Jerusalém foi reduzida a ruínas! Lançaram aos abutres como pasto os cadáveres dos vossos servidores; e às feras da floresta entregaram os corpos dos fiéis, vossos eleitos. Derramaram o seu sangue como água em torno das muralhas de Sião, e não houve quem lhes desse sepultura! Nós nos tornamos o opróbrio dos vizinhos, um objeto de desprezo e zombaria para os povos e àqueles que nos cercam”.

O próprio texto explica a razão da invasão babilônica e consequentemente, da brevidade do reinado de Joaquim: “Ele fez o mal diante do Senhor, segundo tudo o que seu pai tinha feito”. O mal praticado tanto pelo próprio Joaquim como pelo seu pai eram injustiças sociais, relaxamento/decadência moral, culto aos deuses, política unicamente humana sem referência à fé (confiar apenas nas forças humanas).

Por isso, podemos entender o motivo do pedido de perdão a Deus no Salmo Responsorial: “Não lembreis as nossas culpas do passado, mas venha logo sobre nós vossa bondade, pois estamos humilhados em extremo. Ajudai-nos, nosso Deus e Salvador! Por vosso nome e vossa glória, libertai-nos! Por vosso nome, perdoai nossos pecados!”

Quando sucederam catástrofes, pandemias e outras tragédias humanas, tanto pessoais como comunitárias, é o momento oportuno para tirarmos lições e refletirmos sobre as causas que originaram essas catástrofes e sobre a parte de culpa que nós temos. De alguma forma, cada um de nós contribuiu alguma parte, mesmo que seja pequena, para acontecer este tipode tragédia. Muitas vezes acontece que a ruina de uma pessoa se deve aos erros ou falhas não refletidos e corrigidos, que, ao princípio eram insignificantes, porém foram-se crescendo a ponto de se perder o controle sobre eles e acabam arruinando a vida de quem os cometeu. Porém, ningué sofre sozinho, pois cada pessoa faz parte de um conjunto de pessoas, seja conjunto familiar, eclesial, nacional ou global. A ruina da sociedade ou de uma comunidade também tem suas causas: econômicas, políticas, pessoais e muitas vezes por causa da perda de valores que são necessários para qualquer convivência humana.

Em segundo lugar, precisamos saber contar sempre com Deus em todas as situações de nossa vida. Precisamos duvidar de nossas forças e colocar uma margem de dúvida para nossas certezas. Trata-se da saber viver na sabedoria que nos torna humildes e que nos leva a reconhecermos o protagonismo de Deus na nossa vida. O profeta Isaias nos relembra com as seguintes palavras: Cansam-se as crianças e param, os jovens tropeçam e caem, mas os que esperam no Senhor renovam suas forças, criam asas como as águias, correm sem se cansar, caminham sem parar (Is 40,30-31). Deus tem poder de tirar bem, inclusive, de nossa misérias: purifica-nos, nos recapacita, nos ajuda a aprendermos as lições da vida para não voltar a cair nas mesmas falhas e infidelidades. 

Em terceiro lugar, quando Deus sempre faz seu apelo para que o homem se converta da maldade praticada. A maldade sempre causa um mal tremendo tanto para quem a praticada como para as pessoas ao seu redor. Se o homem não se converter o grau de seu sofrimento vai aumentando de acordo com o grau do mal praticado. Se o homem não se converter ou não se mudar pelo bem e pelo amor, um dia ele será obrigado a se mudar pela dor. Os apelos e as orientações nunca faltam. O que falta é o amor. A lei de Deus está escrita no coração de cada um dos homens.

Valor Do Dizer e Do Fazer (Testemunho) Na Vida Cristã

Estamos ainda no Sermão da Montanha (Mt 5-7).  O texto do evangelho de hoje é a última parte da conclusão do Sermão da Montanha (Mt 7). Como podemos saber se alguém é um verdadeiro cristão ou somente tem nome de cristão, mas que não tem nada a ver com a maneira de viver?  De que vale ter o nome cristão se tua vida não é cristã? Há muitos que se denominam médicos e não sabem curar. Muitos que se dizem vigilantes noturnos não fazem mais que dormir a noite inteira. Assim também muitos se chamam cristãos, mas não o são em seus atos. Em sua vida, moral, fé, esperança e caridade são muito diferentes do que declara seu nome, dizia Santo Agostinho (In epist. Joan. 4,4). O que conta para Deus é o bem que praticamos e não somente o mal que afastamos. Esta questão é que o texto do Evangelho deste dia quer nos transmitir.

Fazer e Dizer Devem Estar Em Sintonia Perfeita

Nem todo aquele que diz ‘Senhor, Senhor’”. É uma antítese entre a aclamação verbosa a Jesus, invocado como Senhor, e o fazer a vontade do Pai celeste. O dito paralelo se encontra no evangelho de Lucas: “Por que me chamais: ‘Senhor! Senhor!’, mas não fazeis o que digo?(Lc 6,46).

Senhor, Senhor é aclamação litúrgica de uma comunidade cristã reunida em oração. Para Mateus, uma liturgia dissociada da ortopráxis cristã não conduz ao Reino. Ao colocar essa sentença Mateus quer prevenir a comunidade a não fazer disto um motivo de segurança, um título de garantia.

Nem todo aquele que diz ‘Senhor, Senhor’”. Mais uma vez aparece no evangelho a dialética entre o dizer e o fazer. Há quem fale continuamente de Deus (“Senhor, Senhor”) e logo se esquece de fazer sua vontade. Há quem se faça a ilusão de trabalhar pelo Senhor (“profetizamos em teu nome, expulsamos os demônios, fizemos milagres”), mas logo, no dia das contas, no dia da verdade, acontece que o Senhor não o conhecerá: “Jamais vos conheci. Afastai-vos de mim”. Alguém pode celebrar liturgia, fazer profecias, exorcismos e milagres, mas se ele feizer tudo isto por amor a si mesmo, sem o amor do Pai e dos irmãos, tudo carecerá de sentido. Quem semeia o amor será reconhecido por Deus.

Por isso, existe o perigo de uma oração (“Senhor, Senhor”) que não é traduzida em vida e em compromisso. Por essa razão um sábio chegou a dizer: “Não há nada que seja mais perigoso do que a oração”, porque obriga ou leva quem reza a assumir os compromissos de Deus com seriedade e perseverança na convivência com os demais homens. Existe o perigo de uma escuta da Palavra que não se converte em nada prático e operante. Jesus fala bem claro neste evangelho: os que falam bem, os que “rezam bem”, os que “oram”, mas não “fazem” não entrarão no Reino. Em outras palavras, a oração precisa ser transformada em compromisso. Rezemos diante de Deus como uma criança, mas logo voltemos à nossa vida com nossa responsabilidade de adultos. O final de toda oração adulta é um só: “Amém”, isto é, aceito a realidade e minha responsabilidade diante dela.

Por que às vezes ou muitas vezes, a oração se encerra em si, a escuta da Palavra de Deus não se traduz em vida e o encontro com os irmãos não se abre ao mundo? A resposta implicitamente se encontra na própria Palavra de Deus: “Ninguém pode servir a dois senhores” (Mt 6,24). Por servir a dois senhores, a pessoa, depois de “servir” a Deus com oração, com a escuta da Palavra e com a reunião eclesial logo serve ao mundo e a si própria com as opções concretas e cotidianas da vida longes dos valores cristãos.

Precisamos estar conscientes de que não existe verdadeira fé sem empenho moral. A oração e a ação, a escuta e a prática, são igualmente importantes. Há três coisas indispensáveis para a vida de um cristão: escuta atenta da Palavra de Deus com oração, prática da vontade de Deus e perseverança até o fim apesar das tempestades da vida.

Jesus não quer que os cristãos cultivem somente a relação com ele, e sim que sejam seguidores que, unidos a ele, trabalhem para mudar a situação da humanidade. É viver de acordo com a justiça e a caridade. Onde há justiça não há pobreza nem exclusão social.

Construir a Vida Sobre a Rocha da Palavra de Deus

Jesus nos convida hoje a sermos seguidores “rocha” e não seguidores “areia”. Seguidor “areia” é aquele que vive de uma fé de simples aparência, sem fundamento. Um dia acredita em Deus, em outra ocasião perde a fé. Crê quando as coisas vão ao seu gosto e se desanima quando tudo não corresponde àquilo que imaginava. Os seguidores “rocha” são os que fundamentam sua vida na rocha que é Cristo e sua Palavra. Os seguidores “rocha” se mantêm firmes em qualquer situação, porque seguram na mão de Deus e sabem em quem acreditam (cf. 2Tm 1,12c).  Para sermos verdadeiros seguidores “rocha” devemos fazer próprias as palavras do Salmo 78: “Senhor, não lembreis as nossas culpas do passado, mas venha logo sobre nós vossa bondade.... Por vosso nome e vossa glória, libertai-nos! Por vosso nome, perdoai nossos pecados!”. Não corrigir nossas faltas é o mesmo que cometer novos erros. Muito sabe quem conhece a própria ignorância e procura a viver mais com sabedoria e prudência.

O evangelho deste dia quer nos dizer que não importa “dizer Senhor, Senhor, nem falar em seu nome, nem sequer fazer milagres”. O que importa é a prática. O fazer. As obras. Não o dizer, nem o pensar, nem o rezar, nem o pregar, nem fazer milagres. A prática é a rocha, por isso, é firme até diante de Deus. Jesus nos convida a construir nossa vida sobre a prática. As obras boas praticadas são verdadeiros sinais da abertura diante da graça de Deus.

Para Refletir:

   O Nome de cristão traz em si a conotação de justiça, bondade, integridade, paciência, castidade, prudência, amabilidade, inocência, e piedade. Como podes explicar a apropriação de tal nome se tua conduta mostra tão poucas dessas muitas virtudes? Não nos deixemos enganar pelo fato de nos chamarem de cristãos. Antes, admitimos ser merecedores de reprovação se usamos um nome ao qual não temos direito... Não existe uma só profissão que não carregue consigo a função correspondente. Como, pois, te atreves a chamar-te cristão, se não te comportas como tal? (Santo Agostinho: De vit. Christ. 6).

P. Vitus Gustama,SVD

domingo, 21 de junho de 2026

Natividade De São João Batista- Solene, 24/06/2026

SOLENIDADE DA NATIVIDADE DE SÃO JOÃO BATISTA

Primeira Leitura: Is 49, 1-6

1Nações marinhas, ouvi-me, povos distantes, prestai atenção: o Senhor chamou-me antes de eu nascer, desde o ventre de minha mãe ele tinha na mente o meu nome; 2fez de minha palavra uma espada afiada, protegeu-me à sombra de sua mão e fez de mim uma flecha aguçada, escondida em sua aljava, 3e disse-me: “Tu és o meu Servo, Israel, em quem serei glorificado”. 4E eu disse: “Trabalhei em vão, gastei minhas forças sem fruto, inutilmente; entretanto o Senhor me fará justiça e o meu Deus me dará recompensa”. 5E agora diz-me o Senhor – ele que me preparou desde o nascimento para ser seu Servo – que eu recupere Jacó para ele e faça Israel unir-se a ele; aos olhos do Senhor esta é a minha glória. 6Disse ele: “Não basta seres meu Servo para restaurar as tribos de Jacó e reconduzir os remanescentes de Israel: eu te farei luz das nações, para que minha salvação chegue até aos confins da terra”.

Segunda Leitura: At, 13,22-26

Naqueles dias, Paulo disse: 22“Deus fez surgir Davi como rei e assim testemunhou a seu respeito: ‘Encontrei Davi, filho de Jessé, homem segundo o meu coração, que vai fazer em tudo a minha vontade’. 23Conforme prometera, da descendência de Davi Deus fez surgir para Israel um Salvador, que é Jesus. 24Antes que ele chegasse, João pregou um batismo de conversão para todo o povo de Israel. 25Estando para terminar sua missão, João declarou: ‘Eu não sou aquele que pensais que eu seja! Mas vede: depois de mim vem aquele, do qual nem mereço desamarrar as sandálias’. 26Irmãos, descendentes de Abraão, e todos vós que temeis a Deus, a nós foi enviada esta mensagem de salvação”.            

Evangelho: Lc 1,57-66.80

57 Completou-se o tempo da gravidez de Isabel, e ela deu à luz um filho. 58 Os vizinhos e parentes ouviram dizer como o Senhor tinha sido misericordioso para com Isabel, e alegraram-se com ela. 59 No oitavo dia, foram circuncidar o menino, e queriam dar-lhe o nome de seu pai, Zacarias. 60 A mãe, porém disse: “Não! Ele vai chamar-se João”. 61 Os outros disseram: “Não existe nenhum parente teu com esse nome!” 62 Então fizeram sinais ao pai, perguntando como ele queria que o menino se chamasse. 63 Zacarias pediu uma tabuinha, e escreveu: “João é o seu nome”. E todos ficaram admirados. 64 No mesmo instante, a boca de Za­carias se abriu, sua língua se soltou, e ele começou a louvar a Deus. 65 Todos os vizinhos ficaram com medo, e a notícia espalhou-se por toda a região montanhosa da Ju­deia. 66 E todos os que ouviam a notícia ficavam pensando: “O que virá a ser este menino?” De fato, a mão do Senhor estava com ele. 80 E o menino crescia e se fortalecia em espírito. Ele vivia nos lugares desertos, até o dia em que se apresentou publicamente a Israel.

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João Batista, o Precursor Do Senhor

No dia 24 de Junho celebramos a Solenidade do Nascimento de João Batista. João Batista tem um lugar especial dentro da liturgia da Igreja. Seu nascimento tem o grau de solenidade, que é mais alto liturgicamente (na liturgia tem memória facultativa, memória obrigatória, festa e solenidade). Por isso, quando a solenidade de seu nascimento cair no domingo usa-se a liturgia de sua solenidade em vez da liturgia daquele domingo. A Igreja celebra o dia de seu nascimento, coisa que não se faz com os santos. O dia de um santo/santa é celebrado no dia de sua morte considerado como o dia de nascimento para a glória ou para a vida de Deus. No caso de João Batista são celebrados o nascimento (24 de Junho) e seu martírio, sua decapitação (29 de Agosto).

João Batista foi um personagem conhecido em seu tempo. O historiador Flavio Josefo não se esqueceu de citar João Batista na sua obra: “João cognominado Batista era um homem de grande piedade que exortava os judeus a abraçar a virtude, a praticar a justiça e a receber o batismo, depois de se terem tornado agradáveis a Deus, não se contentando em não cometer pecados, mas unindo a pureza do corpo à alma(cf. Flávio Josefo: História dos Hebreus, livro XVIII, Cap.7 n.781).

A festa do Nascimento de são João Batista historicamente é muito popular. O foklore com suas fogueiras, danças, comidas etc. é bem conhecido. A Igreja colocou esta celebração a seis meses exatos antes do nascimento de Jesus (Natal), aplicando o ciclo litúrgico a frase “já está no sexto mês aquela que é tida por esteril” (Lc 1,36).

Para a fé cristã, João Batista é, nada mais e nada menos, o Precursor do Senhor. Seu nome o indica: “Deus se compadeceu” (João) ou “o Senhor manifestou sua benevolência”, enquanto que Jesus significa “Deus salva”. Comentou Santo Agostinho: “João é a voz; mas desde o princípio o Senhor era a Palavra. João era a voz por algum tempo; Palavra desde o princípio, Cristo é Palavra (Verbo) por toda a eternidade” (cf. Santo Agustinho, Obras Completas, Tomo VII, Sermões). Para a fé cristã, isto supõe o fim do Antigo Testamento e o prelúdio do Novo Testamento.

Fixemos hoje na figura austera e heróica de João Batista: as características mais importantes de sua vida que podem nos ajudar em nosso próprio caminho de cristãos.

Primeiro, assumindo as esperanças do povo, João Batista resume todo o Antigo Testamento.

Joao batista sabe recorrer e pôr em destaque toda a esperança e anseio de salvação que estava no coração de seu povo. Sua palavra cegava ao interior das pessoas, suscitando provocação, inquietude, e fazendo que os olhos do povo se abriram para o futuro. Sua palavra sacudia as falsas seguranças do povo contra a fé autêntica. Sua palavra foi “espada cortante” e “flecha polida”. Foi como a palavra de Moisés, como a palavra dos profetas: “Convrtei-vos!”.

Em segundo lugar, João Batista prepara o povo para a vinda de Jesus, o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”.

Sua missão foi a de fazer tomar consciência do pecado, preparando, desse modo, os corações dos homens para receber o anúncio do perdão. Ele põe em destaque a escravidão que mantinha o povo prisioneiro e os abria para acolher a Boa Notícia da libertação e da salvação. Provocando questões, ele preparava o povo para escutar um dia a resposta.

A missão de João Batista é a de Precursor, isto é, a missão de levar os homens até Jesus. Consequentemente, a missão do arauto é desaparecer, ficar em segundo plano quando chega aquele que foi anunciado. Um erro grave de qualquer precursor ou evangelizador ou pregador seria deixar que o confundissem com aquele que esperam, ainda que fosse por alguns minutos ou por pouco tempo. A missão de João Batista é a de facilitar e fazer possível o encontro do povo com Jesus, Salvador do mundo. Com simplicidade ele reconhecia a superioridade de Jesus ao dizer: “Aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu. De fato, eu não sou digno nem ao menos de tirar-lhe as sandálias” (Mt 3,11). Ou quando, ao final de sua missão, desaparece sem fazer ruído e o faz com gozo, porque “É necessário que Ele cresça e eu dimunuia” (Jo 3,30).

Em terceiro lugar, João Batista é fiel e valente até o fim.

João Batista leva a término sua missão com fidelidade. Escolhido “ nas entranhas maternas” e apesar das dificuldades e as próprias dúvidas, ele segue adiante. Toda sua vida tem a grandeza da missão bem cumprida, realizada sem ostentação. Ele deixa sua vida nessa missão. Seu anúncio do Reino que se aproxima choca com a resistência daqueles que construíram seu próprio reino neste mundo, mesmo sabendo que eles morrerão como qualquer criatura humana. João Batista é encarcerado e com seu próprio sangue selará  seu testemunho. E o faz com valentia.

João Batista é profeta e possui consciência de que foi chamado por Deus para ser Precursor do Messias, Jesus Cristo. Ele conhece e reconhece seu papel como Precursos na história da salvação. Por isso, ele afirma categoricamente: “É preciso que Ele (Messias) cresça e eu diminua” (Jo 3,30). Está longe dele a arrogância, pois a arrogância é um veneno que destrói a pessoa a partir de dentro. Humildemente, João Batista sabe-se servo. Diante de Jesus, o Messias esperado e que chegou, João Batista apresenta o padrão por excelência de humildade: “Eu não sou digno de desamarrar suas sandálias” (Jo 1,27). O arrogante é rebaixado e o humilde é exaltado. A lógica de Deus funciona desde o reverso.

E nós? Celebrando a solenidade do nascimento de João Batista e olhando-nos em sua figura podemos lançar hoje umas perguntas sérias. Porque cada um de nós recebeu uma missão que não pode ser deixada em vão. O dom da fé que recebemos é ao mesmo tempo uma responsabilidade. Ser batizado não é somente para ser cristão sem fazer nada, e sim cada um é batizado para ser “sal da terra” (Mt 5,12) e “ luz do mundo” (Mt 5,14). Em qualquer lugar onde estivermos e para onde formos temos que ser reflexos de Cristo, “Luz do mundo(Jo 8,12).

Portanto, até que ponto, a exemplo de João Batista, sabemos nos aproximar das angústias e aspirações daqueles que estão ao nosso lodo ou dos que trabalham conosco? Muitas das vezes ficamos muito alienados dos que vivem e trabalham conosco. Muitas vezes nossa palavra é fria e impessoal, incapaz de fazer nenhum eco naqueles que a ouvem. Quanto mais barreiras criamos entre nós e os outros, mais difícil seremos contagiados por algo de bom e menos ainda pela autentica fé. Estamos conscientes de que nossa missão, como a de João Batista, é a de facilitar os demais para o encontro com Jesus? Somos capazes, em certos momentos de mantes, de manter uma atitude valente, constante e decidida a exemplo de João Batista? De que maneira levamos a término a missão a nós confiada?

Deus É Misericordioso: O Impossível Se Torna Possível

Completou-se o tempo da gravidez de Isabel, e ela deu à luz um filho”, assim lemos no Evangelho de hoje. Dar à luz um filho para uma mulher é um fato absolutamente normal, embora resulte na alegria para toda a família. Mas o nascimento de João Batista apresenta um aspecto diferente. Os pais eram idosos: a mulher, estéril; portanto, dentro dos limites humanos, uma concepção e um nascimento eram impossíveis. Mas diante de Deus não existem impossíveis e por isso os anciãos receberam o dom de um filho.

Por isso, o nascimento de João Batista é visto como um ato de “misericórdia” do Senhor na vida de Isabel. Na bíblia “misericórdia” não indica apenas a compaixão para com uma pessoa indigna e desprezível (de fato, Zacarias e Isabel eram justos e retos), mas também se refere à generosidade e fidelidade de Deus. Deus quer mostrar como é grande o seu poder, e gratuito o seu amor. O seio estéril de Isabel representa a condição humana sem vida, sem esperança e sem futuro, insustentável, triste e sem vida. E Deus intervém para dar-lhe vida, movido pela misericórdia.

Portanto, no nascimento de João Batista intervém dois fatores: por um lado, a realidade biológica dos pais que se amam (eram idosos e Isabel era estéril). E ao mesmo tempo, influi de uma maneira decisiva o poder de Deus que guia a história dos homens.

Tudo que se fala aqui é uma mensagem de esperança. Com Deus nada é perdido e nada é pequeno; com Deus tudo se torna possível. Será que somos pessoas de esperança? Aquele que tem fé, também tem esperança; aquele que tem esperança tem perseverança e aquele que tem perseverança tem paciência por que ele sabe em quem acredita (cf. 2Tm 1,12) e espera com fé sempre no Senhor.

Por outro lado, o texto quer nos apresentar o lado escuro da fé. Zacarias serve a Deus no Templo. Mesmo assim tem dúvidas diante do anúncio de Deus sobre a gravidez de Isabel, sua esposa apesar de sua idade avançada. Vem a pergunta que serve de reflexão para cada um de nós diante da incredulidade de Zacarias: “Que sentido tinha, então, o rito que com tanta solenidade ele celebrava no Templo? Que sentido tem das missas das quais participamos quase todos os dias se continuamos a duvidar da misericórdia e do poder de Deus na nossa vida?”.

Quando não acreditarmos na força de Deus, somos impedidos de falar dele e de louvar seu nome (ficamos mudos). A partir do momento em que acreditarmos, experimentarmos e vivermos a força de Deus, ninguém e nada nos impedirão de louvarmos Deus, fonte de nossa força. E faremos outros alegres pela nossa presença e pelo modo humano com que falamos com os demais.

Através do nascimento milagroso de João Batista Deus quer dizer a cada um de nós: “Confie em mim!”. Deus nos pede que em cada dúvida, perplexidade e escuridão de nossa vida que saibamos nos entregar nas mãos misericordiosas de Deus e que sejamos fiéis aos seus mandamentos não por medo, mas por amor. Diante do amor de Deus devemos responder com o mesmo amor.  Através do anjo Deus diz a Zacarias: “Não tenhais medo, Zacarias!”. As mensagens e a Palavra de Deus são motivo de paz e de serenidade para quem as escuta com coração aberto e as vive no cotidiano. É verdade que em determinados casos e momentos pode custar aceitar a vontade de Deus, porém, no final da história sempre nos deixa a paz. Por isso, quando há medo e desconfiança temos que recorrer à voz e à Palavra de Deus que nos acalma. Para Deus não há nada, absolutamente nada impossível (cf. Lc 1,37).

Por fim, sobre o nome “João”. Como era costume, os vizinhos e parentes dão por ato que o menino se chamaria como o pai (Tb 1,9). Mas João não poderia se chamar “Zacarias”. Com isso, João não dá simplesmente continuidade à estirpe (tronco de família), mas assinala o início da nova época. Terminou o tempo em que se recordam as promessas (“Zacarias” significa “Deus se recorda” ou “Deus recorda” as suas promessas). Terminou o tempo em que se recordam as promessas, chegou o tempo de ver em ação a bondade de Deus. A questão decisiva é, a partir dessa mudança de nome em não seguir o nome do pai: Qual é a vontade de Deus? Deus nem sempre escolhe o caminho da tradição, o velho costume, a trilha usada. Isabel escolhe o nome de João, pois conhecia, por espírito profético (Jo 1,41), a vontade de Deus. Os parentes julgavam tudo pelos usos e costumes. Isabel percebe o sopro de algo novo. Ela julga de maneira nova. E isto causa estranheza para os que estão totalmente enraizados nas coisas velhas. O Espírito interrompe por caminhos novos pois ele é aquele que renova a face da terra(cf. Ap 21,5), que nem sempre fáceis de compreensão. O Espírito nem sempre sopra segundo os planos dos homens, mas também até contra eles. A vontade e a Palavra de Deus colocam os homens escolhidos perante a necessidade de terem de abandonar a senda rotineira ou o curso normal de uma tradição(cf. Lc 5,39).  Essa atitude radical que destrói as linhas tradicionais de autoridade e continuidade, por certo está bem de acordo com a ação e mensagem de João. Mais tarde ele verá seus correligionários judeus como “raça de víboras” (Lc 3,7;Mt 3,7) que totalmente confiam em sua descendência de Abraão para protegê-los do próximo julgamento, quando na verdade nem a descendência de Abraão, nem a usual rotina do culto, mas apenas o arrependimento individual e boas ações podem salvar alguém da destruição (Lc 3,7-9 par.; Mc 1,4-5;12).

O nascimento dos santos/consagrados constitui alegria para muitos, porque o santo é um dom de Deus à humanidade, é um bem para todos. Todo ato de misericórdia traz a alegria não só a quem o recebe, mas também aos que sabem reconhecê-lo e estão prontos a exaltá-lo. A misericórdia e a alegria são alguns dos temas preferidos e fortes de Lucas. A mensagem da salvação percorre espaços sempre mais vastos. Não basta, por isso, participar nos acontecimentos salvíficos e ouvir falar deles. Os acontecimentos devem ser acolhidos no coração e quem os acolhe deve sintonizar-se interiormente com eles e espalha para os outros.

João significa o Senhor manifestou sua benevolência; Zacarias= Deus se recordou; Isabel (elíseba, Hbr)= Deus é plenitude, perfeição.

P. Vitus Gustama,SVD

Terça-feira Da XII Semana Comum, Ano Par, 23/06/2026

É PRECISO MANTER A  FÉ EM DEUS E VALORIZAR O VALIOSO

Terça-Feira da XII Semana Comum

Primeira Leitura: 2Rs 19,9b-11.14-21.31-35a.36

Naqueles dias, 9b Senaquerib, rei da Assíria, enviou de novo mensageiros a Ezequias para dizer-lhe: 10 Não te seduza o teu Deus, em quem confias, pensando: Jerusalém não será entregue nas mãos do rei dos assírios. 11 Porque tu mesmo tens ouvido o que os reis da Assíria fizeram a todas as nações e como as devastaram. Só tu te vais salvar?” 14 Ezequias tomou a carta da mão dos mensageiros e leu-a. Depois subiu ao templo do Senhor, estendeu a carta diante do Senhor 15 e, na presença do Senhor, fez a seguinte oração: “Senhor, Deus de Israel, que estás sentado sobre os querubins! Tu és o único Deus de todos os reinos da terra. Tu fizeste o céu e a terra. 16 Inclina o teu ouvido, Senhor, e ouve. Abre, Senhor, os teus olhos e vê. Ouve todas as palavras de Senaquerib, que mandou emissários para insultar o Deus vivo. 17 É verdade, Senhor, que os reis da Assíria devastaram as nações e seus territórios; 18 lançaram os seus deuses ao fogo, porque não eram deuses, mas obras das mãos dos homens, de madeira e pedra; por isso os puderam destruir. 19 Mas agora, Senhor, nosso Deus, livra-nos de suas mãos, para que todos os reinos da terra saibam que só tu, Senhor, és Deus”. 20 Então Isaías, filho de Amós, mandou dizer a Ezequias: “Assim fala o Senhor, Deus de Israel: Ouvi a prece que me dirigiste a respeito de Senaquerib, rei da Assíria. 21 Eis o que o Senhor disse dele: A virgem filha de Sion despreza-te e zomba de ti. A filha de Jerusalém meneia a cabeça nas tuas costas. 31 Pois um resto sairá de Jerusalém, e sobreviventes, do monte Sião. Eis o que fará o zelo do Senhor todo-poderoso. 32 Por isso, assim diz o Senhor acerca do rei da Assíria: Ele não entrará nesta cidade, nem lançará nenhuma flecha contra ela, nem a assaltará com escudo, nem a cercará com trincheira alguma. 33 Pelo caminho, por onde veio, há de voltar, e não entrará nesta cidade, diz o Senhor. 34 Protegerei esta cidade e a salvarei em atenção a mim mesmo e a meu servo Davi”. 35ª Naquela mesma noite, saiu o Anjo do Senhor e exterminou no acampamento assírio cento e oitenta e cinco mil homens. 36 Senaquerib, rei da Assíria, levantou acampamento e partiu. Voltou para Nínive e aí permaneceu.

Evangelho: Mt 7,6.12-14

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 6 "Não lanceis aos cães as coisas santas, não atireis aos porcos as vossas pérolas, para que não as calquem com os seus pés, e, voltando-se contra vós, vos despedacem. 12 Tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles. Esta é a lei e os profetas. 13 Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduzem à perdição e numerosos são os que por aí entram. 14 Estreita, porém, é a porta e apertado o caminho da vida e raros são os que o encontram”.

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É Preciso Abandonar a Arrogância e Começar a Confiar Em Deus Em Todos Os momentos Da Vida

Lemos na Primeira Leitura uma carta de provocação ou ultimato de Senaquerib, rei assírio, dirigida ao rei de Judá, Ezequias: “Não te seduza o teu Deus, em quem confias, pensando: Jerusalém não será entregue nas mãos do rei dos assírios. Porque tu mesmo tens ouvido o que os reis da Assíria fizeram a todas as nações e como as devastaram. Só tu te vais salvar?”.

A Primeira Leitura faz parte da história do reino de Judá até a queda de Jerusalém (2Rs 18,1-25,30).

Senaquerib, que governou Assíria entre os anos 704-681 a.C, é o sucessor de seu pai, rei Sargão II. Segundo os anuais assírios (narração de sucessos organizada ano por ano), o rei Senaquerib empreendeu uma expedição contra Judá em 701 a.C. Seu exército chegou ao território filisteu pela costa fenícia, derrotou o Egito, e de volta, atacou Judá, enquanto outro exército se dirigiu a Jerusalém (cf. Is 10,28-32). Segundo esses anuais Senaquerib ampliou seu domínio sobre 46 cidades e deportou grande número de pessoas e cercou Ezequias em Jerusalém.

Ezequias, o 13º Rei de Judá, governou entre os anos 726-697 a.C. Ele sucedeu seu pai, o rei Acaz (2Res 18,2). Ezequias Reinou conjuntamente com seu pai de 729 a 715 a.C e, com a idade de 25 anos, tornou-se rei absoluto. A sua história podemos ler em 2Rs 18-20; Is 36-39 e 2Cr 29-32. Segundo os dados que nos apresenta a Bíblia, Ezequias levou a cabo uma reforma religiosa. Ele voltou a centralizar o culto em Jerusalém e eliminou os demais cultos. Apesar disso, ele não foi brilhante em sua carreira política.

A carta do rei Senaquerib dirigida ao rei de Judá, Ezequias, demonstra a arrogância do rei Senaquerib. Senaquerib é uma encarnação da arrogância. Sabemos que um arrogante sempre se acha como o centro e a norma de tudo e de todos. Livre de qualquer subordinação, ele pretende que tudo esteja sujeito a si próprio. Um arrogante é egoísta, pois ele coloca sua pessoa no centro de tudo. Ele é injusto, pois ele não respeita os direitos dos outros. Ele reconhece apenas um direito: o seu. Ele é ingrato. A gratidão sempre envolve o reconhecimento de que uma mão nos ajudou a ser o que somos. Para um arrogante, ele é fruto de si próprio. Ele não permite compartilhar. O mérito é somente dele, embora alguém o tenha ajudado. Ele é imoral, pois ele é incapaz de admitir vínculos morais para os seus comportamentos, pois acha-se superior a todas as pessoas e a todas as leis. Seus atos não precisam respeitar moral alguma, mas ele impõe aos outros normas e comportamentos morais. Ele também fanfarrão, pois está sempre falando de si, atribuindo para si mesmo elogios, forças, conquistas e assim por diante. Ele prepotente, arrogante, insolente e violento.

A reação de Ezequias diante da Carta de Senaquerib é recorrer a Deus na oração. Trata-se de um gesto emocionante. É um gesto que se repete em todas as épocas. Nós recorremos a Deus para expor-lhe nossas angustias, nossas preocupações, nossos medos e assim por diante. Senhor, Deus de Israel, que estás sentado sobre os querubins! Tu és o único Deus de todos os reinos da terra. Tu fizeste o céu e a terra. Inclina o teu ouvido, Senhor, e ouve. Abre, Senhor, os teus olhos e vê. Ouve todas as palavras de Senaquerib, que mandou emissários para insultar o Deus vivo. É verdade, Senhor, que os reis da Assíria devastaram as nações e seus territórios; 18 lançaram os seus deuses ao fogo, porque não eram deuses, mas obras das mãos dos homens, de madeira e pedra; por isso os puderam destruir. Mas agora, Senhor, nosso Deus, livra-nos de suas mãos, para que todos os reinos da terra saibam que só tu, Senhor, és Deus”, assim rezou o rei Ezequias.

Nesta oração encontramos uma exposição das “verdades” do credo deuteronomista que confessa sua fé no Deus único (no monoteísmo que o profeta Isaias vai pregar e defender), e ao mesmo tempo a resposta do rei Ezequias diante dos mensageiros do rei Senaquerib. A oração apresenta a seguinte estrutura: invocação a Deus como Criador e Senhor do universo, descrição do poder assírio e as ofensas cometidas contra Deus, reconhecimento de que os outros deuses não valem nada e a petição a Deus para que intervenha e manifeste seu poder sobre os povos.

A resposta positiva de Deus vem ao povo por meio do profeta Isaías:  Assim diz o Senhor acerca do rei da Assíria: Ele não entrará nesta cidade, nem lançará nenhuma flecha contra ela, nem a assaltará com escudo, nem a cercará com trincheira alguma. Pelo caminho, por onde veio, há de voltar, e não entrará nesta cidade”. Durante um século, Judá se livrará do pior. Efetivamente, a história nos ensina que a cidade de Jerusalém foi salva pela chegada de um exército egípcio e também por uma epidemia de peste que exterminou o exército de Senaquerib e o obrigou a ir embora da cidade.

Fica para nós uma lição de que quando um povo ou uma pessoa puser toda sua confiança em Deus, sucederão coisas surpreendentes vindas de Deus, cedo ou tarde. Ainda que não haja uma relação direta entre o pecado e as desgraças ou entre a virtude e os prêmios imediatos, mas nós seremos melhores suficientes, se formos fieis a nossos melhores princípios e valores. Consequentemente, a sociedade, a Igreja, a comunidade e a família vão ser melhores. Quando colocarmos nossos interesses dentro dos interesses maiores, saberemos experimentar o que significa a verdadeira renúncia. Renunciar não é um ato negativo e sim uma opção por aquilo que é superior na escala de valores. Renunciar é, por isso, um momento de crescimento e de amadurecimento.

Além disso, continuamos sabendo pela experiência e pela história geral que as bravatas ou fanfarronice dos poderosos como a carta de Senaquerib não são a última palavra. Pela história lemos ou vemos que as ideologias e os impérios foram-se derrubando que pareciam invencíveis. Muitas ideologias se tornaram apenas uma história, pois não tem poder de ficar para sempre. É uma lição no nível político e social e também no nível familiar e pessoal.  É oportuno aprendermos também dos erros dos outros para o nosso crescimento. É bem verdade que os defeitos dos outros, muitas vezes, são os nossos defeitos enxergados nos outros. Nunca devemos adotar a atitude de arrogância, pois a arrogância é o início de uma destruição da própria vida e da vida alheia. Revestir-se da humildade é antídoto contra a arrogância. A humildade é o terreno fértil onde a graça de Deus cresce em nós. O humilde reverencia ao Sagrado. Quanto mais ricos e poderosos formos, mais deveremos ser modestos, por respeito aos pobres e aos excluídos e lembrando que todos seremos iguais perante a morte, julgados segundo o amor. A humildade é próprio dos santos, e também a passagem obrigatória para ter a experiência mística. A humildade é ser verdadeiro diante de Deus a fim de acolher o dom de seu amor.

Evangelho: Saber Valorizar o Valioso

Estamos no fim do Sermão da Montanha (Mt 5-7). A passagem do evangelho que serve para nossa meditação de hoje é outra parte da conclusão do Sermão da Montanha (Mt 7). No texto de hoje Jesus nos dá três lições importantes para nossa vida: viver na prudência; em cada ato praticado, o outro deve ser levado em consideração (regra de outro); e o esforço na luta pela salvação (porta estreita).

No texto de hoje Jesus começa sua lição com as seguintes palavras: “Não deis aos cães as coisas santas, nem atireis vossas pérolas aos porcos; para que eles não as pisem e, voltando-se contra vós, vos estraçalhem” (Mt 7,6). Esta sentença enigmática, própria de Mateus, não tem nenhuma relação, ao parecer, com o que precede nem com o que segue (alguns especialistas colocariam o v.6 dentro do conjunto de Mt 7,1-4). Mas o que mais importante para nós é a lição escondida nessa sentença.

Cães e porcos eram animais impuros para os judeus. A quem, então, Jesus se refere quando fala de cães e de porcos? Muitos interpretam que cães e porcos representam os pagãos. Na verdade, os cães e os porcos não designam aqui categorias particulares de homens: pagãos, fariseus, certas pessoas desviadas, hereges e assim por diante. Cães e porcos ilustram bem, aqui, duas recusas características do Evangelho: primeiro, a inconsciência dos que em nenhum momento pressentem (não percebem) o valor do Evangelho, e segundo, a violência perigosa dos que, decepcionados por não encontrar nele (no Evangelho) um alimento de seu gosto, se voltam contra os que propõem a vida de acordo com o Evangelho. Ainda que os discípulos não excluam ninguém de seu amor (Mt 5,38.43-48), mas eles têm que tomar cuidado com aqueles que buscam somente seu próprio interesse e cometem a injustiça contra o próximo. O conselho de Jesus no v.6 se encontra paralelamente no Livro dos Provérbios (Antigo Testamento): Quem censura um mofador, atrai sobre si a zombaria; o que repreende o ímpio, arrisca-se a uma afronta. Não repreendas o mofador, pois ele te odiará. Repreende o sábio e ele te amará” (Pr 9,7-8).

A expressão “as coisas santas” designa com freqüência no Antigo Testamento as viandas (alimento) oferecidas em sacrifício e que somente os fieis podiam consumir “... para a expiação quando de sua tomada de posse e sua consagração. Estrangeiro algum comerá deles, porque são coisas santas(Ex 29,33-34; cf. Lv 2,3;22,10.16; Nm 18,8.19).

O paralelismocoisas santas - pérolas demonstra que a primeira dessas expressões deve ser entendida como uma imagem que designa o que é infinitamente precioso e pertence exclusivamente a Deus. “As pérolas” são imagem daquilo que tem um grande valor ou precioso (cf. Mt 13,46).

Não deis aos cães as coisas santas, nem atireis vossas pérolas aos porcos; para que eles não as pisem e, voltando-se contra vós, vos estraçalhem!”. Através deste conselho Jesus nos ensina a vivermos na prudência.    “A prudência é o olho de todas as virtudes”, dizia Pitágoras. Ser prudente é a primeira lição do evangelho de hoje.

A palavra “prudência” provém do latim “prudens-entis” que, na acepção própria, significa precavido, competente. Prudência é virtude que faz prever, e procura evitar as inconveniências e os perigos; cautela, precaução. A prudência é a capacidade de ver, de compenetrar-se e de ajustar-se à realidade. A prudência oferece a possibilidade de discernir o correto do incorreto, o bom do mau, o verdadeiro do falso, o sensato do insensato a fim de guiar o bom rumo de nossas ações. O prudente jamais se precipita no falar nem no agir sem conhecimento da causa ou da realidade. Tendo conhecimento da causa ou da realidade ele fala com cautela. A prudência é a faculdade que nos permite vermos e aprendermos a realidade tal como é. A prudência é o modo de viver dos sábios, pois o homem sábio é sempre guiado pela prudência. Por isso, o sábio dificilmente machuca os outros.

A segunda lição que Jesus nos dá hoje é esta: “Tudo quanto quereis que os outros vos façam, fazei também a eles. Nisto consiste a Lei e os Profetas” (Mt 7,12). Trata-se de uma regra de conduta e é considerada como a regra de ouro. A regra de ouro já era conhecida na antiguidade. Em Heródoto lemos: “Não quero fazer aquilo que censuro no próximo(Heródoto, 3,142,3). Na sabedoria de Confúcio (551 antes de Cristo) lemos: “Não faça aos outros o que você não gostaria que fizessem a você”. Encontramos também esta regra nos ditos do famoso rabi Hillel: “Não faças a ninguém aquilo que te é desagradável; isso é toda a Torá, ao passo que o mais é explicação; vai e aprende!”.

Esta regra de ouro nos ensina que em tudo que falarmos (comentarmos) ou fizermos a vida e a dignidade do outro devem ser levadas em consideração. Às vezes acontece que machucamos muito os outros porque ainda temos muitas feridas dentro de nós que ainda não são curadas. E muitas vezes avaliamos o outro a partir de nossas feridas e não a partir da própria realidade das coisas. Por trás de uma pessoa brava e grosseira, há uma pessoa frustrada.

O verdadeiro cristão faz muito mais além da regra de ouro. Ele é chamado e é enviado a fazer o bem ao próximo independentemente da retribuição ou do reconhecimento. Ele sempre age com um amor gratuito e de qualidade sem medir esforços, porque ele tem consciência clara de que ele é amado por Deus deste modo. Ele é sempre solicito e serviçal. Trata-se de a opção ou do estilo de vida com Deus traduzido na convivência fraterna com os demais. Todo trato cordial e fraterno jamais se baseia na lei de retribuição muito menos acontece por mera formalidade. O cristão existe para fazer o bem, e se não o fizer deixará de existir em Jesus Cristo que “passou a vida fazendo o bem” (At 10,38).

A terceira lição dada por Jesus no evangelho deste dia é esta: “Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso é o caminho que leva à perdição, e muitos são os que entram por ele! Como é estreita a porta e apertado o caminho que leva à vida! E são poucos os que o encontram”! (Mt 7,13-14). Estas palavras de Jesus recordam aquilo que Moisés falou, no Livro de Deuteronômio, para o povo eleito quando acabou de expor a Lei: “Olha que hoje ponho diante de ti a vida com o bem, e a morte com o mal. Mando-te hoje que ames o Senhor, teu Deus, que andes em seus caminhos, observes seus mandamentos, suas leis e seus preceitos, para que vivas e te multipliques, e que o Senhor, teu Deus, te abençoe na terra em que vais entrar para possuí-la.  Se, porém, o teu coração se afastar, se não obedeceres e se te deixares seduzir para te prostrares diante de outros deuses e adorá-los, eu te declaro neste dia: perecereis seguramente e não prolongareis os vossos dias na terra em que ides entrar para possuí-la, ao passar o Jordão.  Tomo hoje por testemunhas o céu e a terra contra vós: ponho diante de ti a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolhe, pois, a vida, para que vivas com a I tua posteridade, amando o Senhor, teu Deus, obedecendo à sua voz e permanecendo unido a ele. Porque é esta a tua vida e a longevidade dos teus dias na terra que o Senhor jurou dar a Abraão, Isaac e Jacó, teus pais” (Dt 30,15-20). 

Moisés falou de vida e de morte; Jesus, que já olha mais para além da vida neste mundo, fala de “vida e perdição”. Moisés mandou para “escolher o caminho”; Jesus manda “entrar pela porta estreita”, tomar o caminho que leva à vida. Moisés fala desta vida; Jesus fala da vida eterna da qual alcançarão os que seguem a senda estreita.

“Como é estreita a porta e apertado o caminho que leva à vida!”.  O verbo grego para “apertado” usado em particípio se usa também para indicar aflição, tribulação e perseguição. São os obstáculos  que tem que ser superados quando se recorre “a senda estreita”.

Não percamos a ideia de “caminho”. A vida do cristão se concebe como um “caminho” (cf. At 9,2;13,10;18,25 etc.). Não se improvisa, recorre-se pouco a pouco com uma tensão contínua até o Pai. O amor nos faz encontrarmos Deus face a face um dia. Não precisaremos mais da fé e da esperança no momento em que estivermos face a face com Deus na eternidade. Como disse um pregador: “A fé e a esperança nos levam até a porta do céu. Mas o que nos faz entrar nele é o amor, pois ‘Deus é amor’ (1Jo 4,8.16)”. 

“Como é estreita a porta e apertado o caminho que leva à vida!”.  No Evangelho de João Jesus se apresenta como porta: “Eu sou a porta; quem entrar por mim será salvo” (Jo 10,9). O cristão se esforça por ser fiel a Deus e aos princípios evangélicos como solidariedade, fraternidade, igualdade, justiça, amor, bondade, solidariedade em vez de egoísmo, agressividade, violência. A santidade é a forma normal de viver os ensinamentos de Cristo no cotidiano. Mas para tudo isto se exige muito esforço. “Deus não condena quem não pode fazer o que quer, mas quem não quer fazer o que pode”, dizia Santo Agostinho (Serm. 54,2).

P. Vitus Gustama,svd

sábado, 20 de junho de 2026

Segunda-feira Da XII Semana Comum, Ano Par, 22/06/2026

FÉ NO DEUS ÚNICO NOS LEVA VIVERMOS NA FRATERNIDADE BASEADA NO AMOR MÚTUO

Segunda-Feira Da XII Semana Comum

Primeira Leitura: 2Rs 17,5-8.13-15a.18

Naqueles dias, 5 Salmanasar, rei da Assíria, invadiu todo o país. E, chegando a Samaria, sitiou-a durante três anos. 6 No nono ano de Oséias, o rei da Assíria tomou Samaria e deportou os habitantes de Israel para a Assíria, estabelecendo-os em Hala e nas margens do Habor, rio de Gozã, e nas cidades da Média. 7 Isto aconteceu porque os filhos de Israel pecaram contra o Senhor, seu Deus, que os tinha tirado do Egito, libertando-os da opressão do Faraó, rei do Egito, porque tinham adorado outros deuses. 8 Eles seguiram os costumes dos povos que o Senhor havia expulsado de diante deles, e as leis introduzidas pelos reis de Israel. 13 O Senhor tinha advertido seriamente Israel e Judá por meio de todos os profetas e videntes, dizendo: “Voltai dos vossos maus caminhos e observai meus mandamentos e preceitos, conforme todas as leis que prescrevi a vossos pais e que vos comuniquei por intermédio de meus servos, os profetas”.14 Eles, porém, não prestaram ouvidos, mostrando-se tão obstinados quanto seus pais, que não tinham acreditado no Senhor, seu Deus. 15ª Desprezaram as suas leis e a aliança que tinham feito com seus pais, e os testemunhos com que os havia garantido. 18 O Senhor indignou-se profundamente contra os filhos de Israel e rejeitou-os para longe da sua face, restando apenas a tribo de Judá.

Evangelho: Mt 7,1-5

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 1 “Não julgueis para não serdes julgados. 2 Pois com o julgamento com que julgais, sereis julgados, e com a medida com que medirdes, sereis medidos. 3 Por que reparas o cisco que está no olho do teu irmão, quando não percebes a trave que está no teu? 4 Ou como poderás dizer ao teu irmão: ‘Deixa-me tirar o cisco do teu olho’, quando tu mesmo tens uma trave no teu? 5 Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então verás bem para tirar o cisco do olho do teu irmão”.

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É Preciso Viver De Acordo Com Os Mandamento Do Senhor Para Não Cair Na Desgraça

A Primeira Leitura nos fala da história do reino de Israel que chega ao fim sem retorno com a destruição de Samaria e a deportação de seus habitantes. Em 722 a.C a ocupação de Samaria pelo rei de Assíria, Salmanasar V (Sargão II segundo documentos assírios) ou Salmaneser (“Salmeneser”, Ass. “sulman” = divindade é líder). Em 701 a.C foi a primeira ocupação de Jerusalém por Senaquerib, rei de Assíria. Em 597 a.C foi a primeira deportação massiva de judeus para Babilônia. Em 586 a.C foi a ocupação de Jerusalém por Nabucodonosor, rei de Babilônia; destruição total e sistemática da cidade e do Templo e a deportação da população para Babilônia.

O texto da Primeira Leitura é uma reflexão para fornecer uma explicação teológica  sobre as últimas causas que provocaram a queda de Samaria. Esta reflexão do redator serve também para Judá (reino do Sul), pois o que diz sobre Israel (reino do Norte) vale também para Judá (2Rs 17,18-20). De fato, pouco mais de um século depois ocorrerá a mesma sorte para o reino do Sul, Judá. O objetivo do redator deuteronomista é uma advertência  para o futuro dos desterrados a fim de não repetir os mesmos pecados, especialmente o pecado da idolatria. Se não se converter do mesmo pecado, o resultado será a destruição inevitavelmente.

Naqueles dias, Salmanasar, rei da Assíria, invadiu todo o país” (território de Samaria), assim lemos na Primeira Leitura. Podemos imaginar o terror dessa invasão: violar, degolar, queimar, roubar, deportar e assim por diante. Não há invasão pacífica. As vítimas são os pequenos e simples. Além disso, um grande número de seus habitantes são deportados por Sargão II nos anos 720 a.C para diferentes lugares do império.

O redator do Livro dos Reis (os redatores deuteronomistas) reflete largamente sobre esses fatos pela importância que tem na história da Aliança de Deus com Seu povo. O redator se interroga sobre as causas do desastre. Para o autor a causa dessa desgraça é esta: “Isto aconteceu porque os filhos de Israel pecaram contra o Senhor, seu Deus, que os tinha tirado do Egito, libertando-os da opressão do Faraó, rei do Egito, porque tinham adorado outros deuses. Eles seguiram os costumes dos povos que o Senhor havia expulsado de diante deles, e as leis introduzidas pelos reis de Israel”.

Os redatores deuteronomista oferecem uma reflexão para todos os desterrados que contém uma explicação e uma advertência para o futuro. Rei assírio foi usado por Deus para mostrar a Israel (reno do Norte) sua desobediência.

O pecado principal do povo eleito é a IDOLATRIA. Este pecado é relembrado várias vezes ao longo do livro. Em sentido próprio e clássico, idolatria é a adoração ou o culto que se tributa a entidades, objetos, imagens ou elementos naturais que se consideram dotados de poder divino ou também a divindades falsas, “vãs aparências” (a palavra “ídolo” provem do grego “eidolon”, significa imagem). No progresso dos estudos bíblicos o termo “idolatria” implica na Bíblia, inclusive, em sentido espiritual: fanatismo, absolutização ou “sacralização” das coisas secundárias que deveriam estar a serviço do homem se convertem em absoluto e tende a dominar a existência e as aspirações humanas. Assim se pode falar de idolatria da busca excessiva de dinheiro, de poder, de sexo e assim por diante.

Segundo a mensagem bíblica, o reconhecimento de Deus é fundamentalmente a negação dos ídolos. Neste sentido, para a Bíblia, o oposto à fé em Deus não é o ateísmo e sim a idolatria. Por isso, a luta contra a idolatria é o tema principal que recorre o Antigo Testamento e sempre se subjaz no Novo Testamento. A história da salvação não é outra coisa que desapegar-se dos ídolos: desde Abraão à Igreja de nossos dias. É tarefa do crente “não correr atrás do vazio” (Jr 2,5) e “guardar-se dos ídolos” (1Jo 5,21) que afastam o crente da fé e do amor. Somente assim o crente poderá servir ao único Deus vivente. O cristão deve se manter num processo de contínua purificação da idolatria: os ídolos do mundo são também nossos ídolos. O ensinamento da Palavra de Deus é que não há ateus e Povo Deus, e sim idólatras e crentes com tentações de idolatria. A Igreja não será contaminada tanto pelo ateísmo por fatal que possa ser, às vezes, como pelos deuses falsos. A mensagem bíblica sobre a idolatria é essencialmente uma mensagem de libertação e de esperança em momentos de crises e de opressão do povo de Israel e das primeiras comunidades cristãs.

Além disso, do texto da Primeira Leitura aprendemos que jamais adoramos às coisas criadas no lugar do Deus-criador. Não podemos correr atrás das coisas criadas por Deus e abandonamos o Deus das coisas. Uma pessoa idólatra é uma pessoa vazia por dentro e uma pessoa que não sabe seu próprio lugar neste universo. Ela preenche este vazio com coisas mortais/matérias em vez de deixar Deus conduzir sua vida. Como aconteceu com Israel, se não nos arrependermos de nossos pecados, estamos, na verdade, antecipando nossa total destruição. Podemos, sim, nos reeducar em tudo, pois Deus ainda nos dá oportunidade para isso.

Não Somos Autorizados a Julgar, Mas Ordenados a Amar

O texto do evangelho de hoje pertence ao Sermão da Montanha (Mt 5-7). O Sermão está já na sua conclusão. Nesta conclusão Jesus nos alerta para não julgarmos os outros. Não somos autorizados para julgar e sim somos ordenados para amar (cf. Jo 15,12). Não temos condições para julgar. Somente Deus tem a competência para nos julgar.

“Não julgueis para não serdes julgados. Pois com o julgamento com que julgais, sereis julgados, e com a medida com que medirdes, sereis medidos”. A forma passiva da expressão, aqui, é conhecida como “passiva divina” em que o sujeito desta forma passiva é o próprio Deus. Por isso, a frase completa seria: “Não julgueis para não serdes julgados por Deus”. O julgamento divino, isto é, o ato de separar o trigo do joio, é determinante para a salvação do homem. Na verdade, o próprio homem que se julga pelas próprias opções.

“Não julgueis!” é a ordem que Jesus nos dá para viver no relacionamento com o próximo. Não devo julgar porque o meu julgamento condiciona negativamente o outro. O meu juízo causa pre-juizo ao outro. Além disto, o meu juízo sobre o outro se volta contra mim:Não julgueis para não serdes julgados por Deus”.

O verbo julgar (em grego, krinein) se utiliza aqui em sentido jurídico e equivale a emitir um juízo condenatório sobre uma pessoa, baseando-se nos defeitos que tem. Quem emite este tipo de juízo rompe a relação com a pessoa ajuizada.

Deus não quer isto. Por isso, Jesus coloca um critério que deve ser usado na comunidade cristã (cf. Mt 18,15-18). Quando um cristão perceber algum defeito no outro, ele precisa fixar olhar para os próprios defeitos porque talvez sejam maiores do que os defeitos do outro: “Por que reparas o cisco que está no olho do teu irmão, quando não percebes a trave que está no teu? Ou como poderás dizer ao teu irmão: ‘Deixa-me tirar o cisco do teu olho’, quando tu mesmo tens uma trave no teu?”.  

A análise crítica da própria realidade ajuda o cristão a compreender as fraquezas dos outros em vez de emitir um juízo.  Com a consciência da própria fragilidade, o cristão será movido a compreender e curar a fragilidade do outro. Se não fizer isto é porque este tipo de cristão é hipócrita, isto é, aquele que se acha santo ou perfeito, mas pela emissão do julgamento sobre os outros já revela que é um grande pecador: “Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então verás bem para tirar o cisco do olho do teu irmão”.A ignorância mais refinada é a ignorância da própria ignorância”, dizia Santo Agostinho (Confissões, 5,7).  Quanto mais curioso torna-se o homem por conhecer a vida alheia, tanto mais relaxado se torna para consertar a sua própria”, acrescentou Santo Agostinho (Confissões, 10,3).

De qualquer modo, a rigidez e a hipocrisia em julgar são defeitos que podem ser evitadas se um cristão souber fazer a crítica sobre si mesmo. Olhar para a própria consciência e para o próprio modo de viver é algo indispensável para um cristão conviver fraternalmente com os demais. Olhar para a própria casa é a primeira coisa que deve ser feita. Quem fica olhando para a vida alheia é porque não está cuidando da própria vida. A consciência dos próprios limites e debilidades é a medida para uma crítica evangélica. Um verdadeiro cristão jamais adota uma atitude de orgulho, de menosprezo e de superioridade diante dos demais que o leva a uma postura farisaica de condenação e de recriminação dos defeitos dos outros. Precisamos estar conscientes de que o juízo pertence a Deus e não a nós, pobres pecadores.

Resumindo! Há três razões pelas quais não devemos julgar os outros.

·      Primeiramente, o julgamento pertence a Deus e não a nós, pobres pecadores, porque só Deus conhece profundamente o coração de cada ser humano. Constituir-se em juiz dos outros é uma ousadia irresponsável. É uma ousadia de se colocar no lugar de Deus, de se considerar como Deus, de roubar o lugar. Ao julgar, você esta querendo dizer: “Eu sou Deus e você é pecador”.

·       Em segundo lugar, a medida que usarmos para com os outros será usada por Deus contra nós no julgamento final, pois a vida tem seu fim.

·      Em terceiro lugar, todos nós somos imperfeitos. Não somos seres humanos; estamos seres humanos. Julgar provém da nossa própria cegueira que nos impede de ver os nossos próprios defeitos. Ao julgarmos os outros estamos querendo dizer que somos melhores do que os outros. Mas na verdade, ao fazer isto, estamos revelando aos outros que somos piores do que imaginamos. O Senhor nos ordena para nos amarmos mutuamente (cf. Jo 15,12), e não nos autoriza para julgar os demais homens.

Deus não quer qualquer rompimento. Por isso, Jesus mostra o caminho que temos que seguir: o caminho do amor e da compreensão. Somente o amor compreensivo cura as feridas da alma. Mas não significa que sejamos omissos diante dos defeitos dos outros. Somos chamados a dirigir palavras amigas ao outro e convidá-lo a mudar ou a se corrigir pelo seu próprio bem. Com a consciência de nossa fragilidade teremos condições para curar ou remediar a fragilidade de nosso próximo. Precisamos aprender a transformar nossas críticas em sugestões para que a convivência fraterna se torne uma ajuda para o mútuo crescimento. 

“Não julgueis para não serdes julgados (por Deus)” deve servir de alerta e de freio para que nossa palavra não ultrapasse nossas obras, pois “com a medida com que tiverdes medido, também vós sereis medidos”, diz o Senhor para cada um de nós hoje.

P. Vitus Gustama,svd

Quinta-feira Da XII Semana Comum, Ano Par, 25/06/2026

ENTRE FALAR E FAZER NA VIDA DO CRISTÃO: NOSSA PALAVRA JAMAIS ULTRAPASSE NOSSO TESTEMUNHO Quinta-Feira da XII Semana Comum Primeira Le...