quinta-feira, 20 de agosto de 2026

XXI Domingo Do Tempo Comum, Ano "A", 23/08/2026

QUEM É JESUS PARA MIM?

XXI DOMINGO DO TEMPO COMUM “A”

Primeira Leitura: Is 22,19-23

Assim diz o Senhor a Sobna, o administrador do palácio: 19“Eu vou te destituir do posto que ocupas e demitir-te do teu cargo. 20Acontecerá que nesse dia chamarei meu servo Eliacim, filho de Helcias, 21e o vestirei com a tua túnica e colocarei nele a tua faixa, porei em suas mãos a tua autoridade; ele será um pai para os habitantes de Jerusalém e para a casa de Judá. 22Eu o farei levar aos ombros a chave da casa de Davi; ele abrirá, e ninguém poderá fechar; ele fechará, e ninguém poderá abrir. 23Hei de fixá-lo como estaca em lugar seguro e aí ele terá o trono de glória na casa de seu pai”.

Segunda Leitura: Rm 11,33-36

33Ó profundidade da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus! Como são inescrutáveis os seus juízos e impenetráveis os seus caminhos! 34De fato, quem conheceu o pensamento do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro? 35Ou quem se antecipou em dar-lhe alguma coisa, de maneira a ter direito a uma retribuição? 36Na verdade, tudo é dele, por ele e para ele. A ele a glória para sempre. Amém!

Evangelho: Mt 16,13-20        

Naquele tempo, 13 Jesus foi à região de Cesareia de Filipe e aí perguntou a seus discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” 14 Eles responderam: “Alguns dizem que é João Batista; outros, que é Elias; outros ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas”. 15 Então Jesus lhes perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?” 16 Simão Pedro respondeu: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. 17 Respondendo, Jesus lhe disse: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. 18 Por isso, eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la. 19 Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus”. 20 Jesus, então, ordenou aos discípulos que não dissessem a ninguém que ele era o Messias.

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Interrogar-se, Interrogar e Deixar-se Interrogar

Nos momentos críticos ou decisivos de nossa caminhada, normalmente fazemos algumas perguntas decisivas ou importantes, como exemplo: por que tanto sofrimento? Por que os outros não compreendem minha situação? Por que eles me abandonam? Por que tanta insensibilidade em muitas pessoas?  Por que tanto vício que faz o viciado sofrer e os outros que o amam? Por que algumas pessoas vivem colocando as cruzes no caminho dos outros? Ou talvez mais existencial: Para que viver? Por que estou vivo? Qual é o sentido da minha vida? O que é a vida? O que o homem está procurando? Qual é o desejo mais profundo de um homem? Para onde o homem vai? Ainda podemos acrescentar mais uma lista grande de perguntas, se quisermos. Estas são apenas algumas de tantas.

Mesmo que não obtenhamos respostas claras ou precisas para muitas de nossas perguntas sobre nossa vida, é vital continuarmos a recordar quais são as nossas perguntas para manter qual rumo devemos seguir. Perder perguntas é certamente perder-se no caminho e até perder o caminho. O homem é um ser que interroga a vida. O homem deve se interrogar, interrogar e deixar-se interrogar, pois nisto consiste o sentido de sua vida. Ele não deixa que a vida o viva, mas faz-se senhor de sua existência, perguntando. Muita coisa foi descoberta por uma simples pergunta: Por que? Para que? ... etc..

Estamos conscientes de que é mais fácil fazer perguntas do que respondê-las. Mas mesmo que seja difícil uma pergunta, isto não significa que ela não tenha uma resposta certa. A nossa caminhada aqui nesta terra não passa de busca sem fim. Busca mais busca, pergunta mais pergunta, que só podemos encontrar respostas no encontro íntimo com Deus. Quanto mais se mergulha no mistério da vida, mais se descobre o mistério do homem e o de Deus. A vida, conseqüentemente, não é apenas um problema para ser resolvido, e sim um mistério para ser descoberto todos os dias. O que Deus quer de mim em cada momento e situação de minha vida? Quem procurar este mistério, a vida se torna sempre uma caixa de surpresas. Muitas vezes não estamos preparados para as surpresas desta vida ou das interrogações que a vida nos traz. Por isso, sai sempre da boca este tipo de pergunta: “Por que isso meu Deus?” Em cada pergunta que fazemos esconde sempre uma busca de resposta. Às vezes a resposta vem cedo, mas muitas vezes só vem pouco tarde. A grandeza de um ser humano se mede através de sua resposta sincera para suas perguntas e interrogações. A grandeza do homem começa na maneira como ele encara a si mesmo e a vida. A grandeza do homem mede-se pelas interrogações que ele se faz a si mesmo e sobre a vida que ele vive e pela honestidade com que vive procurando ser coerente com as respostas que vai encontrando ao longo de sua caminhada terrena.

Jesus Interroga        

A cena do Evangelho de hoje recolhe um momento decisivo da vida de Jesus. O lugar da cena acontece num lugar chamado Cesareia de Felipe (em torno de 32 km ao norte do lago de Genazaré. Nesse locar se encontra a fonte para abastecer o rio Jordão e o lago de Genazaré.  Nesse lugar, Jesus est´com os seus, a sós, para uma síntese da missão até aqui. Nesse lugar é que Jesus pergunta aos discípulos: Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?”  E vós, quem dizeis que eu sou?”. A pergunta tem uma dupla função: reafirmar Jesus em sua missão e confirmar os discípulos no seguimento.

Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” é a primeira pergunta feita para os discípulos. Alguns dizem que é João Batista; outros, que é Elias; outros ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas”, é a resposta dos discípulos. Todas as quatro respostas localizam Jesus na tradição profética.  Todos pensam que Jesus poderia ser um enviado de Deus. Ninguém crê que Jesus é uma personalidade excepecional desvinculada da história do povo de Israel. É interessante observar e saber que Mateus colocou Jeremias na resposta do povo, porque é o profeta que, em sua própria experiência de rejeição e sofrimento, anuncia a rejeição e o sofrimento do Messia (Jesus Cristo). 

E vós, quem dizeis que eu sou?”. Na resposta para a segunda pergunta a figura de Pedro está em destaque. É Pedro que responde como porta-voz dos discípulos à pergunta que Jesus lhes faz sobre sua identidade. Porém, no texto do evangelho de hoje, Pedro não é simplesmente porta-voz dos discípulos porque será felicitado pessoalmente por Cristo em Mateus  (Mt 16,17). Pedro sempre aparece como porta-voz dos Doze nos quarto evangelhos e é mencionado em primeiro lugar em todas as listas dos Doze. 

E por revelação do Pai, Pedro confessa sua fé em Jesus como Messias, Filho de Deus vivo: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”.  Para a resposta de Pedro em Marcos (Tu és o Cristo), Mateus acrescenta “o Filho de Deus vivo”.

Há dois títulos atribuídos a Jesus na resposta de Pedro: “Messias” / “Cristo” e “Filho do Deus vivo”. Estes títulos resumem a fé da comunidade de Mateus em Jesus, e a catequese sobre Jesus para os membros da comunidade.

“Messias” ou “Cristo”, “o Ungidoé Aquele que era esperado por Israel para libertar o povo a fim de dar-lhe a salvação definitiva. Esse “Cristo” é enviado por Deus, pois Deus ama a Seu povo e conhece seu sofrimento. 

Mas o que faz diferença para a comunidade de Mateus o segundo título: “Filho de Deus”. Este título é aplicado, no Antigo Testamento:

·      Aos anjos (cf. Dt 32,8; Sl 29,1; 89,7; Jô 1,6).

·      Ao Povo eleito (cf. Ex 4,22; Os 11,1; Jr 3,19).

·        Aos vários membros do Povo de Deus (cf. Dt 14,1-2; Is 1,2; 30,1.9; Jr 3,14).

·      Ao rei (cf. 2Sm 7,14).

·      Ao Messias/rei da linhagem de Davi (cf. Sl 2,7; 89,27).

Ser “filho de Deussignifica ter uma relação particular, íntima, e profunda com Deus. Ao chamar alguém de “filho de Deus” é porque recebe de Deus uma missão especifica a ser exercitada para o bem do povo de Deus.

Atribuir a Jesus o título deFilho do Deus vivosignifica que Jesus é aquele que está em plena comunhão com Deus (Deus vivo). A palavra “vivo” já mostra uma profunda intimidade entre Jesus e Deus, Seu Pai. Nessa profunda relação a missão encarregada por Jesus para salvar o mundo é a própria vontade de Deus (cf. Jo 3,16). Por causa da união profunda de vida com o Deus Pai, Jesus conhece os projetos do Pai e os realiza até o fim. Deus e Jesus é um só (cf. Jo 17,20-21). Por sua vez, Jesus revela aos discípulos esse “conhecimento”: “Eu vos chamei amigos, pois vos dei a conhecer tudo quanto ouvi do meu Pai”, disse Jesus aos discípulos (Jo 15,15b).

Na verdade, esses dois títulos (Messias e Filho de Deus) resume a fé da Igreja de Mateus não basta que Jesus é o Messias, o esperado de Israel. É preciso acrescentar que Jesus é o Filho de Deus. Mateus apresenta na primeira parte do seu Evangelho que Jesus é o Filho de Deus (Mt 1,1-4,16, e como seus discípulos O reconheceram (Mt 14,33), e os pagãos (Mt 27,54).

Ser o Deus vivo e vivificante, possuir a vida e comunicá-la, é a característica do Deus verdadeiro, à diferença dos deuses, dos ídolos que não têm vida própria e por conseguinte, não podem comunicá-la. Pelo contrário, exigem sacrifícios humanos e acabam escravizando e devorando todos os que se tornam seus adoradores. Jesus é o “Filho do Deus vivo”, e Ele é a própria vida em quem encontramos a força para nossa vida e a fonte de nossa vida e salvação (cf. Jo 11,25; 14,6).

Para conhecer a vontade de Deus sobre nós e nossa vida, para entender o significado de tudo que passa na nossa vida e ao redor de nossa vida, temos que criar uma intimidade profunda com Deus. Essa intimidade faz com que Pedro consiga dar resposta precisa sobre quem é Jesus: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu”.

Pedro É a Rocha Sobre a Qual Cristo Edifica Sua Igreja        

Em resposta, Jesus declara Pedro bem-aventurado e a seguir faz a promessa solene de edificar a sua Igreja sobre Pedro que é declarado rocha- alicerce da Igreja de Jesus: “Eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja”. “A minha Igreja”. “Igreja”, “Qahal” é um termo aramaico que significa “Assembleia” ou “convocação(quem convoca é o próprio Deus). Este termo é traduzido para o grego por “Ekklesia”, logo se conservou tal qual em latim “Ecclesia” do qual procede nosso termo “Igreja”.

O que Jesus quer edificar é uma “comunidade”, “Sua” comunidade, homens e mulheres que têm algo “em comum” e que “se reúnem” para festejar o que têm em comum e para vivê-lo. O Concílio Vaticano II definiu a Igreja como “o Povo de Deus(cf. Lumen Gentium do Concílio Vaticano II). Pedro recebeu um papel de responsabilidade nesse Povo (cf. Jo 21,15-19).

Eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la”, disse Jesus a Simão Pedro. A Igreja é uma casa construída sobre a rocha, ainda que se apoie na fragilidade dos homens. Portanto é uma estabilidade atormentada e inquieta, como um barco agitado pelas ondas e ventos, porém jamais ficará afundada, pois Jesus é a pedra angular e a cabeça da Igreja. “Sobre esta fortaleza construirei um templo eterno, e surgirá sobre a firmeza desta fé a sublimidade de minha Igreja a ser inserida no céu. As portas do inferno não prevalecerão contra esta confissão, as cadeias da morte não a prenderão, pois esta palavra é uma palavra de vida. E, assim como eleva até os céus os que a professam, mergulham nos infernos os que a negam(São Leão Magno: Sermão Sobre a Sua Ordenação 4,2-3: PL 54, 149-151).

Apesar de toda a debilidade da carne e o sangue de Pedro, a Igreja de Jesus nunca será destruída pelos poderes e potestades deste mundo nem pelas portas do inferno, pois o próprio Jesus é agente principal, e os homens são “pedras vivas” da Igreja do Senhor. Essa promessa nos torna resistentes, perseverantes, fieis até o fim apesar de todo tipo de dificuldade e obstáculo, pois sabemos que com Jesus seremos vencedores. Precisamos viver antecipadamente, na fé, essa vitória, pois “a fé é a antecipação do que se espera e a certeza daquilo que não se vê(Hb 11,1).

Eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la”. O destino da Igreja é como o destino de Cristo: um caminho em contradição. Não se trata somente de inimigos externos. Dentro da Igreja haverá sempre pecadores. Por isso, a Igreja tem necessidade de “atar” e “desatar”. Continua o pecado; por isso, deve continuar o perdão.

A função de Pedro se define com três metáforas: a pedra (rocha), as chaves e atar e desatar.

Pedro é a rocha/pedra que mantém firme a Igreja (cf. Mt 7,24-27). Em outras palavras, Pedro é o fator da unidade da comunidade.

A segunda metáfora é mais clara: dar as chaves significa confiar uma autoridade verdadeira e plena.

A terceira metáfora é atar e desatar. Atar e desatar tem o sentido de permitir e proibir, de separar e perdoar.

Os evangelistas sublinham intencionalmente o contraste entre a autoridade confiada a Pedro e a reprovação que Jesus faz sobre ele; o contraste entre a debilidade de Pedro e seu caráter de ponto de referência; entre graça e debilidade.  Com este contraste os evangelistas querem acentuar que por graça divina, em virtude da eleição divina e não por dons naturais, Pedro é a rocha sobre a qual Cristo edifica Sua Igreja.

Em outras palavras, o texto atribui a Pedro títulos e prerrogativas que ao longo da Bíblia se atribuem ao Messias. Como quer nos dizer que Pedro é imagem do Outro que é Cristo que é o verdadeiro Senhor da Igreja. Mas, precisamente porque é imagem de Cristo, a autoridade de Pedro é plena e indiscutível.

O mistério de Pedro permanece sempre na Igreja na pessoa daqueles que lhe sucedem. Pedro é o fator da unidade de toda a Igreja. A missão de Pedro e dos seus sucessores é precisamente a de servir esta unidade da única Igreja de Deus, formada por judeus e pagãos de todos os povos.

A Igreja tem um privilégio especial que nenhuma outra religião possui, a saber: que tendo sido fundada desde  a primeira vinda de Cristo, ela não desaparecerá até que Ele volte novamente. A batalha entre a Igreja e o mundo é esta: parece que todos os dias o mundo ganha terreno em relação à Igreja. No entanto, é a Igreja que realmente vence o mundo: “o poder do inferno nunca poderá vencê-la”. Aquilo que triunfa agora no mundo não vai durar muito. Por isso, qualquer que seja a perplexidade que o mundo nos inspire, vamos encará-la com um espírito puro e sincero.        

Até neste ponto, devemos fazer uma dupla petição ao Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus vivo, porque entramos aqui nos dois mistérios: o mistério de Cristo e o mistério da Igreja. 

Em primeiro lugar, devemos pedir a graça do “conhecimento interno” da pessoa de Jesus Cristo e da sua missão. Quem é este Jesus? O que é que ele faz neste mundo? Em segundo lugar, devemos pedir a graça, inseparável da primeira, do conhecimento do mistério da Igreja de Jesus, da Igreja que, na sua fraqueza e impotência, na sua debilidade, ela é o sacramento, a manifestação da força de Deus na história neste mundo. Cada um de nós é a Igreja de Jesus. E apesar de nossa debilidade, cada um é uma manifestação de Deus para o mundo, é um sacramento de Deus. Este é um mistério que devemos tentar descobrir todos os dias. Para falar autenticamente de Jesus, temos que falar, primeiramente, com Jesus na nossa intimidade com Ele. Nenhum cristão é autorizado para falar de Jesus sem falar, primeiro, com Ele.

Quem é Jesus Para Mim?         

Por isso, o texto do Evangelho enfatiza também o “VÓS” da pergunta: “E vós, quem dizeis que Eu sou?”.  Esta pergunta serve para descobrirmos quem é Jesus para nós e descobriremos também quem somos nós e nossa missão neste mundo. A certeza de nossa fé cristã e a nossa atuação neste mundo (missão) dependem da resposta a essa questão. A vida e a missão de Jesus deifinem nossa vida e nossa missão como cristãos. A pergunta “Quem é Jesus para mim” tem importância decisiva, pois a resposta para a pergunta condiciona nossa maneira de entender e de viver a fé. uma imagem empobrecida ou falsa ou parcial sobre Jesus nos conduzirá a uma vivência empobrecida, falsa e parcial da fé. Cada cristão crê naquilo que crê.

Por isso, Jesus não pede uma opinião e sim uma opção, não pede uma teoria, e sim uma confissão, não pede um discurso e sim uma tomada de posição. Porque a fé é relação, reconhecimento, confissão, opção radical e posição. A resposta de Pedro não foi uma definição racional e sim uma profissão de fé, foi a resposta de um homem que tinha a experiência de vida com Cristo: “Tu és o Cristo, Filho de Deus vivo”.  Pedro reconhece que Jesus Cristo é o cumprimento de todas as esperanças dos homens.

Reconhecer e confessar que Jesus é o Senhor não é qualquer coisa, e sim é uma das decisões fundamentais que o homem pode tomar em sua vida. E tal confissão deve transformar radicalmente a vida inteira de quem a faz. Não se pode dizer que Jesus é o Senhor para viver, depois, sob qualquer outro senhorio: senhorio do dinheiro, do prazer, do poder, da estética etc....          

Sabemos que normalmente nossa resposta é condicionada, mas deve ser também condicionante. Nossa resposta é condicionada porque depende de nossa cultura, nossa experiência, nossa estrutura psicológica com suas preocupações vitais e seus centros de interesse. Mas não por isso, ela deixa de ser condicionante. Nossa resposta deve ser condicionante porque Jesus não nos pede uma definição meramente objetiva e teórica de sua pessoa; não está nos submetendo a “exames” sobre nossos conhecimentos intelectuais. A pergunta de Jesus, que por certo, deve ser feita a um cristão, tem um caráter tão pessoal que ninguém pode responder por nós nem “soprar” a resposta, ou fazer uma “cola” de resposta, e que além do mais nos compromete muito seriamente. Nenhum de nós é grande vivendo a idéia dos outros. Nós somos grandes vivendo a nossa idéia sendo ajudados pelos outros.          

Se confessamos a Cristo como Filho de Deus, sua palavra e seu estilo de vida nos julgam, pois ele é o nosso Mestre e modelo a ser seguido em sua doutrina, critérios e conduta. Se O reconhecemos como nosso salvador e libertador do homem, nossa fé não pode contentar-se em receber passivamente a salvação de Deus em nossa vida individual, mas devemos responder pessoalmente a esse amor que nos precedeu e devemos colaborar missionariamente para que esse amor de Deus se torne realidade presente no mundo e alcance todos os homens, nossos irmãos. Em outras palavras, cada resposta é uma missão e uma responsabilidade.          

Por isso, conhecer Jesus Cristo não é um passatempo ou um luxo e sim uma necessidade vital, porque é só através desse conhecimento que podemos alcançar também a compreensão de nós mesmos, do significado e da importância da nossa vida. Somente com o Senhor Jesus e Nele nós podemos esperar a realização de nós mesmos. O conhecimento do Senhor Jesus, com as nossas orações, é que alimenta a chama da nossa esperança.          

E por isso é que o homem distingue-se dos animais e dos robôs porque não se contenta em registrar experiências sensíveis, dados e informações; ele levanta as questões, propõe problemas e formula perguntas e procura explicações sob a luz de Deus.          

Por isso, também, uma das tragédias da nossa vida é continuarmos a esquecer-nos de quem somos e quem é Jesus Cristo e a perder tempo e energias a demonstrar o que não precisa ser demonstrado.          

Precisamos, portanto, de muita oração e meditação para depois partir para a ação. Porque a oração é o exercício para escutar a voz de amor de Deus. Sem oração, tornamo-nos surdos à voz do amor e ficamos confundidos com as muitas vozes competitivas que exigem a nossa atenção. Sem ação, ou sem traduzir em ação, em vida, qualquer oração perde sua eficácia.          

Portanto, a pergunta de Jesus: “E vós, quem dizeis que eu sou?” deve ser refletida por cada um de nós diariamente para direcionar nossa vida para o Senhor e para dar o sentido para nossas lutas de cada dia. Repito: Para falar de Jesus autenticamente, temos que falar, primeiramente, com Jesus.          

Ao terminar esta reflexão eu gostaria de colocar aqui o pensamento de René Juan Trossero, psicólogo e escritor argentino, em relação à pergunta sobre quem é Jesus cuja resposta deve ser individual, pois não vale colar a resposta feita por alguém: 

Deus fez o homem para que andasse em pé, mas não o condena por começar engatinhando.

Se você está lendo só para pensar o que eu penso, ganhará muito pouco. Se lê para despertar o seu pensamento, mesmo que não pensemos a mesma coisa, estaremos crescendo juntos.         

Não faça de seu cérebro um arquivo para pensamentos alheios, mas o laboratório de suas próprias convicções.          

É preferível o erro de quem pensa por sua conta do que o acerto de quem repete o pensamento alheio.         

Você não aprende a lição dos grandes pensadores quando memoriza e repete o que eles pensaram, mas quando tem a coragem de criar os seus próprios pensamentos”.          

Então, “Quem dizeis que Sou?” pergunta Jesus a cada um de nós? Pedro já deu sua resposta. E a sua resposta?

P. Vitus Gustama,svd

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Nossa Senhora Rainha, 22/08/2026

BEM-AVENTURADA VIRGEM MARIA RAINHA

Memória: 22 de Agosto

Primeira Leitura: Is 9,1-6

1 O povo, que andava na escuridão, viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu. 2 Fizeste crescer a alegria, e aumentaste a felicidade; todos se regozijam em tua presença como alegres ceifeiros na colheita, ou como exaltados guerreiros ao dividirem os despojos. 3 Pois o jugo que oprimia o povo, — a carga sobre os ombros, o orgulho dos fiscais — tu os abateste como na jornada de Madiã. 4 Botas de tropa de assalto, trajes manchados de sangue, tudo será queimado e devorado pelas chamas. 5 Porque nasceu para nós um menino, foi-nos dado um filho; ele traz aos ombros a marca da realeza; o nome que lhe foi dado é: Conselheiro admirável, Deus forte, Pai dos tempos futuros, Príncipe da Paz. 6 Grande será o seu reino e a paz não há de ter fim sobre o trono de Davi e sobre o seu reinado, que ele irá consolidar e confirmar em justiça e santidade, a partir de agora e para todo o sempre. O amor zeloso do Senhor dos exércitos há de realizar estas coisas.

Evangelho: Lc 1,26-38

Naquele tempo: 26 O anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, 27 a uma virgem, prometida em casamento a um homem chamado José. Ele era descendente de Davi e o nome da virgem era Maria 28 O anjo entrou onde ela estava e disse: 'Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!' 29 Maria ficou perturbada com estas palavras e começou a pensar qual seria o significado da saudação. 30 O anjo, então, disse-lhe: 'Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. 31 Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. 32 Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi. 33 Ele reinará para sempre sobre os descendentes de Jacó, e o seu reino não terá fim'. 34 Maria perguntou ao anjo: 'Como acontecerá isso, se eu não conheço homem algum?' 35 O anjo respondeu: 'O Espírito virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra.  Por isso, o menino que vai nascer será chamado Santo, Filho de Deus. 36 Também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na velhice. Este já é o sexto mês daquela que era considerada estéril, 37 porque para Deus nada é impossível'. 38 Maria, então, disse: 'Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!' E o anjo retirou-se.

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Nossa Senhora Rainha

Celebramos hoje (22 de Agosto) a memória de Nossa Senhora Rainha. O título “Rainha”, dado a Maria, já começou na Idade Média (Século IV) que podemos encontrar em vários hinos que ainda são usados até hoje como: Salve Rainha (Salve Regina), Rainha do Céu (Regina Coeli Laetare), Ave Rainha dos céus (Ave Regina Coelorum).A Maria chama São Gregório Nazianzeno ‘Mãe do Rei de todo o universo’, ‘Mãe virgem, [que] deu à luz o Rei do todo o mundo’" (Ad Coeli Reginam n.11).

O título de Maria como Mãe Rainha não concorre com o título do Cristo Rei, porque não se situa no mesmo plano do ponto de vista bíblico, isto é, o titulo “Rainha” não pode ser entendido no plano de domínio, pois somente Cristo é o Rei do universo (cf. Mt 28,18). Maria recebe o titulo de “Rainha” por causa do atributo de sua maternidade divina. Maria é Rainha porque ela é mãe do Rei dos reis (cf. Is 9,1-6) e não por causa do domínio como Cristo, Rei do Universo. É uma transposição da dignidade materna para o plano de serviço, pois Maria é a discípula de Jesus, aquela que aceita plenamente a vontade de Deus para ser mãe do Salvador (cf. Lc 1,38).

O titulo “Rainha” dado a Maria se tornou oficial a partir do pedido de um movimento internacional chamado “Pela Realeza de Maria” que surgiu em Roma em 1933. Na verdade esse pedido já tinha feito antes em vários congressos marianos: Lião (1900), Friburgo (1902) e Einsiedeln (1906). Esse pedido ficou mais forte ainda quando para Cristo foi dado oficialmente o titulo de Rei em 1925. O movimento internacional “Pela realeza de Maria” recolheu petições do mundo inteiro para que fosse dado o titulo de “Rainha” para a Mãe do Senhor, Maria.

O Papa Pio XII, em 1954, no centenário da definição do dogma da Imaculada Conceição, proclamou o titulo “Rainha” para Maria, Mãe do Senhor na encíclica Ad Coeli Reginam (Para a Rainha do Céu).  Em 1955 o Papa Pio XII introduziu, então, oficialmente a festa da Rainha na liturgia da Igreja.

·       “Assim, baseando-se nas palavras do arcanjo Gabriel, que predisse o reino eterno do Filho de Maria, e nas de Isabel, que se inclinou diante dela e a saudou como "Mãe do meu Senhor",(9) compreende-se que já os antigos escritores eclesiásticos chamassem a Maria "mãe do Rei" e "Mãe do Senhor", dando claramente a entender que da realeza do Filho derivara para a Mãe certa elevação e preeminência”, escreveu o Papa Pio XII ( Ad Coeli Reginam n.9).

·      A Maria chama s. Gregório Nazianzeno ‘Mãe do Rei de todo o universo’, ‘Mãe virgem, [que] deu à luz o Rei do todo o mundo’" (idem  n.11).

·      “Santo Afonso de Ligório, tendo presente todos os testemunhos dos séculos precedentes, pôde escrever com a maior devoção: ‘Porque a virgem Maria foi elevada até ser Mãe do Rei dos reis, com justa razão a distingue a Igreja com o título de Rainha’" (idem n.24).

·      “Com vivo e diligente cuidado todos se esforcem por copiar nos sentimentos e nos atos, segundo a própria condição, as altas virtudes da Rainha do céu e nossa Mãe amantíssima. Donde resultará que os féis, venerando e imitando tão grande Rainha e Mãe, virão se sentir verdadeiros irmãos entre si, desprezarão a inveja e a cobiça das riquezas, e hão de promover a caridade social, respeitar os direitos dos fracos e fomentar a paz. Nem presuma alguém ser filho de Maria, digno de se acolher à sua poderosíssima proteção, se à exemplo dela não é justo, manso e casto, e não mostra verdadeira fraternidade, evitando ferir e prejudicar, e procurando socorrer e dar ânimo” (idem n. 47).      

Os títulos da realeza de Maria são a sua união com Cristo como Mãe e a associação com o seu Filho Rei na redenção do mundo. Pelo primeiro título, Maria é Rainha-Mãe de um Rei que é Deus, o que enaltece Maria sobre todas as criaturas humanas; e pelo segundo título, Maria Rainha é dispensadora dos tesouros e bens do Reino de Deus, em virtude da sua participação na redenção.  

Na instituição desta festa, o Papa Pio XII convidava os fiéis a aproximarem-se deste “trono de graça e de misericórdia da Nossa Rainha e Mãe para pedir-lhe socorro na adversidade, luz nas trevas e alívio nas dores e penas” (cf. Hb 4,16).

Através do evangelho lido neste dia sabemos que Deus se faz presente em meio de Seu povo por meio de uma mulher humilde e simples de um povo chamado Nazaré. A partir da visita do Anjo do Senhor Maria se torna a portadora da graça e da bênção de Deus.

Maria No Texto Do Evangelho Desta Festa

No evangelho de Luas, através da saudação do Anjo do Senhor, Maria é chamada de “cheia de graça”, expressão que primordialmente na linguagem bíblica do Antigo Testamento designa aos que são objeto de uma especial benevolência da parte de Deus, o que leva como conseqüência a abundância de bênçãos sobre sua pessoa. A partir dessa saudação sabemos que não há titulo maior para Maria que ser chamada de “cheia de graça”: a amada de Deus, amada pela graça, sem mérito.

A palavra que o evangelista Lucas usa em Lc 1,28 é quase intraduzível: Maria é KEKARITOMÉNE. A tradução habitualmente usada é CHEIA DE GRAÇA. Porém esta tradução não exprime a densidade original, pois este diz que Maria está totalmente debaixo da influência e da iniciativa de Deus e aí permanece, que Ela está repleta de uma benevolência totalmente gratuita, de uma complacência absolutamente pura. Em Maria resplandece a iniciativa basolutamente LIVRE, GRATUITA E PODEROSA de Deus.

O termograça significa benefício absolutamente gratuito, livre e sem motivo. Também tem outro significado: um efeito do favor divino que torna alguém belo, amável e encantador. A graça da criatura depende da graça de Deus, e não vice-versa. A palavra “graça” designa o amor e o carinho com que Deus ama a seu povo pobre e simples; designa a fidelidade com que Deus sustenta Seu povo e com que Ele o acompanha. Deus ama porque quer amar e fazer o bem para o povo (não é uma retribuição ou recompensa por algum mérito do homem). Deus faz isso para que o povo simples e humilde descubra seu valor de pessoa. Além disso, Deus ama para que o povo comece a amar com um amor verdadeiro e comece a libertar-se de tudo que possa impedir a manifestação deste amor.        

Maria vive simplesmente a sua fé e da sua fé e ora naturalmente, sem saber que Deus pôs nela os olhos complacentes para fazê-la Mãe do Rei dos reis, Jesus Cristo. Ela está tão cheia de graça até o anjo não a chama pelo nome, mas chama-a simplesmente “cheia de graça”: “Alegra-te, ó cheia de graça” (Lc 1,28). Na graça reside a completa explicação de Maria, a sua grandeza e a sua beleza. Maria pode fazer suas, em toda a verdade, as palavras do Apóstolo Paulo: “Pela graça de Deus, sou o que sou” (1Cr 15,10). Maria, por isso, é cheia do favor divino.

Além disso, Maria é a primeira cristã por causa do seu sim a Deus para que através dela possa nascer para a humanidade Jesus Cristo, nosso Salvador. Não era nenhuma princesa nem nenhuma patroa na sociedade do seu tempo. Era uma mulher simples do povo, uma moça pobre. Mas Deus se compadece dos humildes e dos simples. Para Deus tudo é simples, e para o simples tudo é divino. A simplicidade atrai a bênção de Deus e a simpatia humana. O simples, o humilde é o terreno fértil onde a graça de Deus encontra seu lugar e através do qual Deus fala para o mundo.

De certa forma, podemos dizer que com o sim de Maria à vontade de Deus a Igreja começou. A Virgem Maria, no momento de sua eleição radical e no momento de seu sim a Deus foi início e imagem da Igreja. Quando ela aceitou o anúncio do anjo, da parte de Deus, pode-se dizer que começou a Igreja: a humanidade, nela representada, começou a dizer sim à salvação que Deus lhe ofereceu. Nela e através dela a humanidade foi abençoada. Podemos olhar, por isso, para Maria como modelo de fé e motivo de esperança e de alegria.

O que significa para a Igreja, e para cada um de nós, o fato de a história de Maria começar com a palavragraça’?, “graça plena”. Significa que, para nós também, no começo de tudo, está a graça, a livre e gratuita eleição de Deus, o seu inexplicável favor e amor, o seu vir ao nosso encontro em Cristo, a sua humildade de se tornar homem, e está o seu doar-se a nós por puro amor. Significa que a graça é “primeiro princípio do cristianismo”. Tudo o que somos e temos é graça; é gratuito. O planeta terra que nos sustenta é graça de Deus. O ar que respiramos em todos os momentos é graça. Estamos no mundo da graça diariamente. Temos que ser a bênção para os outros, começando dentro de nossa própria família, comunidade, paróquia e a sociedade em geral. A exemplo de Maria, não podemos reter as bênçãos de Deus. temos que ser dispensadores das bênçãos de Deus para os outros aonde passarmos e onde estivermos.

Maria é, também, modelo de nossa vocação cristã. Como ela aceitou a Palavra de Deus, deixou-se fecundar pela Palavra de Deus e acolheu em si o Espírito de Deus e gerou Cristo de sua carne, assim também cada um de nós, seguidores de Cristo há de realizar sua vocação aceitando docilmente a Palavra de Deus, deixando-se fecundar pela Palavra de Deus e acolhendo em sua vida o Espírito de Deus e continuando no tempo a encarnação de Cristo. Cada um tem a missão de levar Jesus e dá-lo ao mundo, pois o mundo espera pela salvação apesar de sua resistência.

Portanto, aprendemos de Maria a viver ao ritmo de Deus, deixando que Deus disponha livremente de nossa vida, segundo seu projeto de amor: “Faça-se!”. Aprendemos também de Maria a manter uma atitude que nem sempre é fácil: colocar Deus e os outros como centro. Maria é de Deus e do povo. Na terra e no céu Maria vive na comunidade e para a comunidade. Ela desempenha seu papel para o bem de todos, porque Cristo reina em cada um dos homens (cf. Mt 25,40.45). Aprendemos também a seguir o exemplo de Maria Imaculada, pois ela está cheia de graça para descobrirmos o mal que corrói o nosso coração e a convivência fraterna.

Todo aquele que honra a Senhora dos anjos e dos homens – e ninguém se julgue isento deste tributo de reconhecimento e amor – invoque esta rainha, medianeira da paz; respeite e defenda a paz, que não é maldade impune nem liberdade desenfreada, mas concórdia bem ordenada sob o signo e comando da divina vontade: tendem a protegê-la e aumentá-la as maternas exortações e ordens de Maria”, escreveu o Papa Pio XII (Ad Coeli Reginam n. 49).

Em algumas regiões da terra, não falta quem seja injustamente perseguido por causa do nome cristão e se veja privado dos direitos divinos e humanos da liberdade. Para afastar tais males, nada conseguiram até hoje justificados pedidos e reiterados protestos. A esses filhos inocentes e atormentados volva os seus olhos de misericórdia, cuja luz dissipa nuvens e serena tempestades, a poderosa Senhora dos acontecimentos e dos tempos, que sabe vencer a maldade com o seu pé virginal. Conceda-lhes poderem em breve gozar a devida liberdade e cumprir publicamente os deveres religiosos. E, servindo a causa do Evangelho – com o seu esforço concorde e egrégias virtudes, de que no meio de tantas dificuldades dão exemplo – concorram para o fortalecimento e progresso das sociedades terrestres”, disse o Papa Pio XII (Ad Coeli Reginam n. 48).

Por isso, a Igreja confessa e saúda Nossa Senhora e Rainha dos Anjos e dos homens:  Rainha de todo o criado na ordem da natureza e da graça; Rainha dos reis e dos vassalos; Rainha do céus e da terra; Rainha da Igreja triunfante e militante; Rainha da fé e das missões; Rainha da misericórdia.

Maria é chamada de Rainha por ser Mãe de Deus feito homem, o Messias, o Rei do Universo (Cl 1,16). Santa Isabel, movida pelo Espirito Santo, faz reverência a Maria, não considerando-se digna da visita daquela que é “Mãe do meu Senhor” (Lc 1,43). Pela realeza de seu Filho, Maria possui uma grandeza e excelência singular entre as criaturas, pela qual Santa Isabel exclamou: “Bendita és entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre” (Lc 1,42). “Maria é Rainha não somente porque é Mãe de Deus, mas também porque (...) cooperou na obra da redenção do gênero humano” (Papa João Paulo II: Audência de 23 de Julho de 1997).

P. Vitus Gustama, svd


terça-feira, 18 de agosto de 2026

Sexta-feira Da XX Semana Comum, Ano Par, 21/08/2026

O AMOR TRANSFORMA TUDO EM OBRA PRIMA, POIS DEUS É AMOR

Sexta-Feira Da XX Semana Comum

Primeira Leitura: Ez 37,1-14

Naqueles dias, 1 a mão do Senhor estava sobre mim e por seu espírito ele me levou para fora e me deixou no meio de uma planície cheia de ossos 2 e me fez andar no meio deles em todas as direções. Havia muitíssimos ossos na planície e estavam ressequidos. 3 Ele me perguntou: “Filho do homem, será que estes ossos podem voltar à vida?” E eu respondi: “Senhor Deus, só tu o sabes”. 4 E ele me disse: “Profetiza sobre estes ossos e dize: Ossos ressequidos, escutai a palavra do Senhor! 5 Assim diz o Senhor Deus a estes ossos: Eu mesmo vou fazer entrar um espírito em vós e voltareis à vida. 6 Porei nervos em vós, farei crescer carne e estenderei a pele por cima. Porei em vós um espírito, para que possais voltar à vida. Assim sabereis que eu sou o Senhor”. 7 Profetizei como me foi ordenado. Enquanto eu profetizava, ouviu-se primeiro um rumor, e logo um estrondo, quando os ossos se aproximaram uns dos outros. 8 Olhei e vi nervos e carne crescendo sobre os ossos e, por cima, a pele que se estendia. Mas não tinham nenhum sopro de vida. 9 Ele me disse: “Profetiza para o espírito, profetiza, filho do homem! Dirás ao espírito: Assim diz o Senhor Deus: Vem dos quatro ventos, ó espírito, vem soprar sobre estes mortos, para que eles possam voltar à vida”. 10 Profetizei como me foi ordenado, e o espírito entrou neles. Eles voltaram à vida e puseram-se de pé: era uma imensa multidão! 11 Então ele me disse: “Filho do homem, estes ossos são toda a casa de Israel. É isto que eles dizem: ‘Nossos ossos estão secos, nossa esperança acabou, estamos perdidos!’ 12 Por isso, profetiza e dize-lhes: Assim fala o Senhor Deus: Ó meu povo, vou abrir as vossas sepulturas e conduzir-vos para a terra de Israel; 13 e quando eu abrir as vossas sepulturas e vos fizer sair delas, sabereis que eu sou o Senhor. 14 Porei em vós o meu espírito, para que vivais e vos colocarei em vossa terra. Então sabereis que eu, o Senhor, digo e faço – oráculo do Senhor”.

Evangelho: Mt 22, 34-40

Naquele tempo, 34 os fariseus ouviram dizer que Jesus tinha feito calar os saduceus. Então eles se reuniram em grupo, 35e um deles perguntou a Jesus, para experimentá-lo: 36 ”Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?” 37 Jesus respondeu: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento!’ 38 Esse é o maior e o primeiro mandamento. 39 O segundo é semelhante a esse: ‘Amarás ao teu próximo como a ti mesmo’. 40 Toda a Lei e os profetas dependem desses dois mandamentos”.

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Deus Tem o Poder De Colocar Vida Onde Há Morte

Filho do homem, será que estes ossos podem voltar à vida?” “Senhor Deus, só tu o sabes”. “Profetiza sobre estes ossos e dize: Ossos ressequidos, escutai a Palavra do Senhor!”.

O texto da Primeira Leitura se encontra no conjunto de Ez 33-37. Neste conjunto se encontram oráculos de Deus cheios de esperança e de consoloção. Não esqueçamos o contexto do desterro (na Babilônia) destes textos.

O vale cheio de ossos completamente secos, que a Primeira Leitura nos apresenta, é símbolo do povo de Israel no desterro, com o Templo de Jerusalém também destruído depois da segunda deportação. Mas o profeta Ezequiel recebe a ordem de Deus para pronunciar sobre os ossos a Palavra de Deus. O resultado disso é que os ossos se recobrem de tendões e de carne e, logo, recebem o espirito e voltam à vida. Lembremo-nos que ontem Deus prometia: “Infundirei um espirito novo”. E agora se realiza a promessa sobre Israel, mesmo parecendo totalmente morto. E a Palavra de Deus é eficaz, como no princípio do Gênesis: Deus disse e se fez.

Profetiza sobre estes ossos e dize: Ossos ressequidos, escutai a Palavra do Senhor!”. Esta frase expressa claramente que o povo israelita não se encontra atualmente em situação de escutar as promessas de libertação da parte de Deus (Cf. Ez 36). Consequentemente, o povo israelita vive como se fosse ossos secos, sem vida. No entanto, apesar de considerar-se morto e por isso, sem futuro aparente, o Deus da Vida devolve a esperança para o povo que Ele ama eternamente: “Vou infundir-vos espírito para que vivais(Ez 37,5).

Escutar atentamente a Palavra de Deus e acreditar nela e por isso, deve vive-la, faz com que o homem volte a viver com uma visão maior sobre a vida cheia de esperança. E a esperança em Deus e nas suas promessas faz o homem caminhar para o futuro que Deus lhe prepara.

O texto quer nos transmitir a certeza de que o Deus em quem acreditamos é o Deus da vida, também agora. Por isso, pode nos parecer que este mundo não tenha futuro pela situação atual em que o homem vive ou a comunidade esclesial pode parecer estéril, mas o Deus da Vida nunca desiste de seu amor por nós nem de seu projeto de vida. O próprio Jesus, o Deus conosco, nos diz: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância(Jo 10,10)

Há momentos em que pode nos dominar a desesperança ou desespero, momentos de “ossos secos”, sem vida e por isso, sem esperança e nos vem à mente, como o profeta Ezequiel, uma pergunta cheia de ceticismo: “Poderão reviver estes ossos?”. Mas logo poderemos experimentar que a Palavra de Deus é eficaz e que seu Espírito sopra sobre aquilo ou aquele que parecia morto: “Eles voltaram à vida e puseram-se de pé: era uma imensa multidão!”. Não é estranho que o texto da Primeira Leitura é lido na Vigília de Pentecostes.

Não são poucos que vivem como “ossos secos” neste mundo, nas famílias, nas nossas comunidades, nas nossas cidades e assim por diante. É preciso ter coragem de transmitir e retransmitir a Palavra de Deus, Palavra de vida para todos eles. Mas nós mesmos temos que ter ouvidos atentos para ouvir Deus que fala em silêncio, pois a Palavra de Deus continua sendo eficaz para qualquer situação da vida humana. Somente aquele que sabe calar e escutar tem condição de pronunciar palavras plenas de sentido e de autoridade. Toda palavra deve ser precedida, acompanhada e seguida da escuta e do silêncio. O silêncio é o ambiente normal no que se vive e se desenvolve a comunhão com o Deus da vida.

O Amor Humaniza e Diviniza

Quando um de vós ama, não diga: ‘Deus está no meu coração’, mas que diga antes: ‘Eu estou no coração de Deus’(Khalil Gibran. O Profeta).

Mestre, qual é o maior mandamento?”. É uma pergunta tipicamente farisaica. A fidelidade à Lei era o grande problema debatido em seus grupos. Tinham muitas obrigações, numerosas práticas a observar e quantidades de interditos (365 leis negativas e 248 positivas). Mas sabiam que era preciso fazer distinções e não colocar tudo no mesmo plano: há mandamentos mais graves e outros menos graves. Por isso, a pergunta é dirigida a Jesus sobre o maior mandamento.

Até aqui cada um de nós precisa se perguntar: “Será que eu também procuro o que é essencial na minha vida que é capaz de dar sentido para todos os meus atos diariamente? O que dá sentido para minha vida? O que é que é essencial para minha vida e minha salvação? Vivo de acordo com aquilo que é essencial na minha vida?”.

Amarás…!”, respondeu Jesus. Tudo se resume nesta palavra: amor! É tão breve a palavra que temos o risco de passá-la por alto. Devo orar a partir desta palavra. Devo olhar para a minha vida e para a minha convivência a partir desta palavra. Devo liderar, orientar e governar a partir desta palavra. Devo corrigir os outros a partir desta palavra. Devo olhar para tudo que faço a partir desta palavra, “pois não importa se você faz muito ou pouco, mas que você coloque o amor naquilo que você faz. Não importa se você dá muito ou pouco, mas que você coloque o amor naquilo que você dá” (Madre Teresa de Calcutá). O amor transforma tudo em obra prima, pois “nada é pequeno quando o amor é grande(Santa Teresinha do Menino Jesus). “O amor nada dá de si próprio e nada recebe senão de si próprio. O amor não possui, nem se deixa possuir, pois o amor basta-se a si mesmo” (Khalil Gibran). Devo pensar na minha salvação a partir desta palavra, pois “Deus é Amor” (1Jo 4,8.16). Deus está no ato de amar. “Quanto mais amas, mais alto tu sobes(Santo Agostinho. In ps. 83,10).

“Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento!”. Através destas palavras Jesus cita a oração cotidiana dos judeus (Dt 6,4-7). Em outras palavras, Deus deve ser amado de maneira total de nosso ser, segundo Jesus, e não somente com uma parte de nossa vida ou de nosso tempo.

Até aqui cada um de nós precisa se perguntar: “Será que eu amo a Deus de todo o meu ser?” Ou eu O amo apenas na hora apertada da minha vida?

E amarás o teu próximo como a ti mesmo”. São Paulo expressa esse mandamento de outra maneira: “Não devais nada a ninguém, a não ser o amor mútuo, pois quem ama o outro cumpriu a Lei(Rm 13,8). Quem é o próximo? Para Jesus “próximo” é qualquer pessoa que é objeto do amor de Deus. Isto quer dizer todos. “Amando o próximo tu limpas os olhos para ver Deus(Santo Agostinho. In Joan. 17,8).

O amor é que dá sentido para o resto de nossa vida. Com efeito, sem ele nada tem sentido. O homem morre não quando deixa de viver, mas quando deixa de amar. E Jesus nos alerta que no fim de nossa vida seremos examinados precisamente a partir do amor vivido ou praticado (cf. Mt 25,31-46). “No entardecer de nossa vida seremos julgados sobre o amor”, dizia São João da Cruz.

Nós vivemos hoje em sociedades que tem muitas leis e normas, inclusive nossas Igrejas têm extensas legislações. No entanto, todas elas não resolvem positivamente a vida do ser humano. A lei (as leis), ainda que oriente alguns comportamentos ou alguns ritos litúrgicos, não pode ser o guia na vida das pessoas. O único guia é o Espírito de amor que nos permite vivermos em paz com Deus e em justiça com nossos irmãos. A maior injustiça que podemos cometer é a falta de amor, pois as outras injustiças são conseqüência da falta de amor.

Ama e faze o que quiseres” foi o lema de Santo Agostinho. No amor a Deus e aos outros se resumem  toda a lei. Quem for capaz de cumprir este preceito pode fazer o que quiser que tudo será uma vantagem. Pelo caminho de amor não existe outro caminho para chegar até Deus.

Cristo é o modelo do verdadeiro amor. Ele amou seu Pai e seus irmãos até entregar-se por eles na cruz. Este último gesto de amor foi a síntese ou resumo de toda a sua vida. Por amor Deus nos chama à vida, por amor Deus nos enviou seu Filho e por amor Deus continua nos oferecendo sua amizade que é para nós fonte de vida e de todo bem apesar de nossas contínuas traições.  Convêm que estejamos conscientes de que Deus não tem nenhuma obrigação e nós não podemos lhe exigir nada. Deus simplesmente nos ama porque Ele quer nosso bem e quer nos salvar. Se ele ama é amar para salvar.

O amor de Deus por nós é um projeto de salvação e não de condenação, pois o amor não condena. Trata-se de um projeto de vida eterna, de vida que dura para sempre. Com efeito, a fé é a manifestação do desejo desta vida eterna, a manifestação do desejo da plenitude para o homem. A condição é esta: amar como Jesus nos amou.

Todas as celebrações e todas as atividades na Igreja de Cristo têm só uma função: para que todos cresçam cada vez mais no amor fraterno. Sem o amor fraterno tudo careceria de sentido. O amor faz qualquer um feliz e leva alguém à alegria completa. O cristão não é aquele que é mais sábio, mais “piedoso”, mais mortificado ou mais influente e sim aquele que ama mais. O amor é nossa marca viva.

Pe. Vitus Gustama,SVD

XXI Domingo Do Tempo Comum, Ano "A", 23/08/2026

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