VIVER NA COMPAIXÃO E NA
PARTILHA COMO JESUS
XVIII DOMINGO DO
TEMPO COMUM “A”
Primeira
Leitura: Is 55,1-3
Assim diz o Senhor: 1“Ó vós todos que estais com sede, vinde às águas; vós que
não tendes dinheiro, apressai-vos, vinde e comei, vinde comprar sem dinheiro,
tomar vinho e leite, sem nenhuma paga. 2Por que gastar dinheiro com
outra coisa que não o pão, desperdiçar o salário senão com satisfação completa?
Ouvi-me com atenção, e alimentai-vos bem, para deleite e revigoramento do vosso
corpo. 3Inclinai vosso ouvido e vinde a mim, ouvi e tereis vida; farei convosco
um pacto eterno, manterei fielmente as graças concedidas a Davi”.
Segunda
Leitura: Rm 8,35.37-39
Irmãos: 35Quem nos separará do amor de Cristo? Tribulação? Angústia?
Perseguição? Fome? Nudez? Perigo? Espada? 37Em tudo isso, somos mais que
vencedores, graças àquele que nos amou! 38Tenho a certeza de que nem a morte, nem a vida, nem os
anjos, nem os poderes celestiais, nem o presente, nem o futuro, nem as forças
cósmicas, 39 nem a
altura, nem a profundeza, nem outra criatura qualquer será capaz de nos separar
do amor de Deus por nós, manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor.
Evangelho:
Mt 14,13-21
Naquele tempo, 13 quando soube da morte de João
Batista, Jesus partiu e foi de barco para um lugar deserto e afastado. Mas,
quando as multidões souberam disso, saíram das cidades e o seguiram a pé. 14 Ao sair do barco, Jesus viu uma
grande multidão. Encheu-se de compaixão por eles e curou os que estavam doentes.
15 Ao entardecer, os discípulos aproximaram-se de Jesus e disseram: “Este lugar
é deserto e a hora já está adiantada. Despede as multidões, para que possam ir
aos povoados comprar comida!” 16 Jesus, porém, lhes disse: “Eles não precisam ir embora.
Dai-lhes vós mesmos de comer!” 17 Os discípulos responderam: “Só temos
aqui cinco pães e dois peixes”. 18 Jesus disse: “Trazei-os aqui”. 19 Jesus
mandou que as multidões se sentassem na grama. Então pegou os cinco pães e os
dois peixes, ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção. Em seguida,
partiu os pães e os deu aos discípulos. Os discípulos os distribuíram às
multidões. 20 Todos comeram e ficaram satisfeitos, e, dos pedaços que sobraram,
recolheram ainda doze cestos cheios. 21 E os que haviam comido eram mais ou
menos cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças.
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Um Olhar Geral Sobre As Leituras Deste
Domingo
Nós nos encontramos diante uma das verdades mais consoladoras da Sagrada
Escritura: o amor
misericordioso de Deus revelado na vida de Jesus.
A Primeira Leitura, extraída do profeta Isaías, fala-nos do grande banquete da era
messiânica para o qual todos somos chamados. Basta ter “fome” ou “sede” para
ser um candidato apto a aproximar-se do amor de Deus. É a pobreza humana que
comove o coração de Deus. "Se alguém tem sede, venha; se alguém
tem fome, venha, mesmo que não tenha dinheiro." A fome e a sede expressam com
propriedade essa necessidade vital e profunda que a humanidade sente de Deus e
do seu amor.
No Evangelho, aparece também um grupo de homens sem pão, sem sustento, povo faminto. A fome e a sede
expressam adequadamente essa necessidade vital e profunda que o homem
experimenta de Deus e de seu amor. O homem é um
eterno viajante e peregrino que conhece a sede e a fome da estrada. É um ser
que busca, anseia, ansioso por encontrar sua paz e descanso. No entanto, ele nem sempre consegue encontrar o
que sacia a sede de sua alma. A contemplação do mundo nos diz que sua situação
é dramática. Ele se abandona ao mal e se torna extremamente cruel para si
mesmo.
Porém, assim como no
deserto o Senhor multiplicou os meios de subsistência para o povo faminto,
Jesus hoje alimentará uma multidão que nada tem para satisfazer as suas necessidades
básicas, seu sentido da vida, pois Ele é “o Pão da Vida” (Jo 6,35) e “o Caminho, a
Verdade e a Vida” (Jo 14,6).
O alimento material
nos leva a considerar um alimento espiritual que responde à necessidade mais
essencial do homem: seu desejo de provar ou experimentar a Deus, sua ânsia de
sentir-se eternamente amado por Deus. Paulo, na Segunda
Leitura, experimentou esse amor e o proclama com franqueza e
simplicidade: "Quem me separará
do amor de Cristo?". (Rm 8,35.37-39) Não há poder que possa nos separar do amor de
Cristo. Em Cristo, a face amorosa do Pai é revelada.
Podemos dizer que o banquete na Bíblia é uma imagem do amor de Deus. Quando falamos do banquete
escatológico, falamos do amor de Deus que será manifestado no final dos tempos.
É “lugar” e ocasião de felicidade e regozijo. As viandas (alimento e bebida) são símbolos dessa
felicidade que superou as tristezas da vida: água que refresca e sacia a sede;
o vinho que alegra o coração do homem; leite e mel que expressam a abundância,
suavidade e beleza da terra prometida. O homem tem uma sede profunda,
como ficou evidente no diálogo entre Jesus e a mulher samaritana. "Quem beber desta água terá sede novamente. Mas quem beber da água que
eu lhe der nunca mais terá sede. Ele se tornará uma fonte que saltará para a
vida eterna" (cf. Jo 4).
Portanto, cabe a nós
escutarmos a voz de Deus. Escutar é uma atitude bíblica. Não é simplesmente
ouvir como transeunte distraído e desmemoriado.
Escutar é acolher, é ponderar na alma, como Maria. Escutar é prestar
ouvido, prestar a aqiescência (consentimento) da inteligência e vontade.
Escutar é prostrar-se diante de um Deus que fala e se revela. Escutar é
tirar-se as sandálias para entrar no lugar santo. Escutar é recolher a alma e o
espirito, e dizer com humildade: “Eis-me aqui, Senhor”. Diante de Deus que se
revela o homem deve prestar a humilde submissão. Com efeito, o drama do homem
consiste em “não escutar” a voz de Deus, não querer confiar na veracidade e no
amor de Quem se revela.
Compaixão
Concretizada Na Partilha
Deus, nosso Pai, nos chama mais uma vez a compartilhar o pão da
fraternidade ao redor da mesa que Ele mesmo prepara para nós. O pão da
Eucaristia, pão da fraternidade que comungamos deve ser prolongado na partilha
do pão que temos com aqueles que não o tem, e por isso, se encontram famintos. O
pão da fraternidade nos compromete a trabalhar no mundo para que não falte pão,
ou para que pão não esteja somente nas mãos da minoria; para que tudo o que
causa dor, sofrimento, tristeza, solidão e morte desapareça; este pão que o
Senhor multiplica para que chegue a todos e para que, com ele, chegue também o
amor, a certeza de que Deus é nosso Pai e consequentemente, a decisão de viver
como irmãos e irmãs. Nada
pode nos separar do amor de Deus, porque Ele está ao nosso lado; nada pode nos
fazer temer, porque Ele está conosco; nada pode nos destruir, porque Ele nos
chama à vida.
O texto do evangelho deste domingo é a parábola da compaixão em ação. “Ao sair do
barco, Jesus viu uma grande multidão. Encheu-se de compaixão
por eles e curou os que estavam doentes” (Mt 14,14). Nós nos encontramos
diante de uma das verdades mais consoladoras da Sagrada Escritura: o amor misericordioso e compassivo
de Deus que se revela no rosto e no agir de Jesus Cristo. Jesus começa "tendo compaixão" pela multidão e termina "compartilhando" o pão multiplicado
na partilha, que é o final normal de qualquer verdadeira compaixão. Em Jesus se cumpriu a profecia do profetas Isaías:
“Ó vós todos que estais com sede, vinde às águas; vós que
não tendes dinheiro, apressai-vos, vinde e comei, vinde comprar sem dinheiro,
tomar vinho e leite, sem nenhuma paga.” (Is 55,1). Aqui, o profeta Isaías nos convida para
o banquete divino, um chamado para participarmos das bênçãos da nova aliança de
Deus com o seu povo.
Comida e
bebida são símbolos da
salvação esperada. Comida e
bebida em abundância significam uma vida de fartura, livre de carências ou
dificuldades. É claro que Israel também esperava uma prosperidade
material sem precedentes quando chegasse o tempo da salvação prometida. Mas eles estavam convencidos de que
alcançariam a salvação se sentissem, acima de tudo, fome e sede de justiça e
comunhão com Deus. O Antigo Testamento sabia que o homem não vive só de
pão, mas de toda palavra que procede da boca de Deus (Dt
8:3; cf. Mt 4:4).
A fome e a
sede materiais, por outro lado, são uma imagem real da fome e da sede de Deus. Portanto, o profeta
Isaías nos exorta a ESCUTAR (um
tema tipicamente deuteronomista) a Palavra de Deus, que pode preencher
completamente nossas vidas porque é vivificante. Para Isaías, a Nova Aliança
consiste em ouvir atentamente, mais uma vez, a Palavra do Senhor e obedecer a
ela. “Ouvi-me com atenção, e alimentai-vos bem, para deleite e revigoramento do vosso
corpo. Inclinai
vosso ouvido e vinde a mim, ouvi e
tereis vida; farei convosco um pacto eterno, manterei fielmente as graças
concedidas a Davi.” (Is 55,2-3)
A compaixão de Jesus é uma atitude total e libertadora. A compaixão em
Jesus, envolve uma ação dupla: curar os enfermos e alimentar os famintos.
Nisto a compaixão não é simplesmente um amolecimento do coração; é um
compromisso de transformar a realidade de necessidade dos nossos irmãos e
irmãs. Não são as palavras, mas as ações que revelam o que o amor realmente é. Compaixão
é, por isso, muito mais do que um sentimento. Ter compaixão é sair de si mesmo, levando consigo o que
se tem, por menor que seja (cinco pães e dois peixes), para compartilhar com aqueles
que não o têm e que, por essa mesma razão, sofrem. O pouco pode ser
cinco pães e dois peixes; essa era toda a provisão de alimentos do grupo
formado por Jesus e seus discípulos. Mas quando a compaixão é sincera e plena, a abundância do pouco pode
ser milagrosa. Mas quando vive somente para o pão, o homem morre de pão.
Um Olhar Especifico Sobre o Evangelho Deste
Domingo
A alimentação da multidão
(multiplicação de pães) é o único milagre narrado em todos os quatro evangelhos (Mc 6,32-44; Lc 9,10-17; Jo 6,1-15), e o único narrado duas vezes (em duas
versões variantes) em Mc (Mc 8,1-10) e em Mt (Mt 15,29-39). Obviamente o
relato da multiplicação tem sua alusão a Ex 16, história do maná no deserto (aqui se diz no lugar deserto) e a 2Rs 4,42-44 (Eliseu alimentou 100 pessoas com 20 pães e ainda sobraram) para
dizer que a atividade de Jesus é uma atividade de êxodo, isto é, libertar o
povo de todo tipo de escravidão, inclusive da escravidão da fome ensinando os
cristãos a partilharem o que se tem com os que nada têm. Por isso, no
evangelho de hoje se lê a seguinte frase: “Jesus mandou que as
multidões se sentassem na grama”. “Sentar-se”
ou “Recostar-se” durante a refeição
era próprio dos homens livres e era a posição adotada para a refeição pascal,
em recordação da libertação do Egito sob o comando de Moisés (Cf. Ex 12).
Vamos Estender Nossa Meditação
Sobre Algumas De Tantas Mensagens Do Texto Do Evangelho Proclamado Neste Domingo.
1. Retirar-Se Para O Deserto É Para
Aprender A Despojar-Se
“Quando soube da morte de João
Batista, Jesus partiu e foi de barco para um lugar deserto” (Mt 14,13).
No seu relato Mt diz que Jesus se retirou para o deserto depois que soube
da morte de São João Batista. Joao Batita era um grande líder popular em quem a
população depositava sua confiança. Com sua morte, o povo, em geral, fica
desnorteado. Jesus ficou sabendo da morte de João Batista por ordem do rei
Herodes Antipas (Mt 14,1-11). Ao saber da morte de João Batista, Jesus se
retirou para o deserto para entrar na intimidade com Deus a fim de refletir
sobre o acontecimento dentro do plano de Deus. Na oração ele se fortificou.
Tanto que quando saiu do barco ele viu a multidão miserável e começou a curar
todo mundo, até saciou a fome da multidão. Esta multidão encontrou em Jesus um
grande líder.
O deserto é o tempo e o espaço do encontro com Deus onde cada cristão
aprende a despojar-se das suas seguranças humanas, das suas certezas, da sua
autossuficiência, para viver na liberdade. O deserto como lugar de carência de
tudo; é o lugar e o tempo onde as pessoas aprendem a partilhar, e por isso é o
lugar onde se vive a igualdade, pois cada membro do Povo conta com a
solidariedade do resto da comunidade. Por isso, o deserto é o lugar onde não há
egoísmo, injustiça, prepotência. Não é por acaso que Jesus leva seus discípulos
para o deserto e é seguido pela multidão. No deserto é que Jesus vai ensinar a
viver a vida de partilha, pois onde há partilha as coisas sobram
suficientemente. Na ausência da partilha, porque muitos agarram as coisas só
para si, a grande maioria fica sem nada nem para sua necessidade básica. A
partilha é uma maneira de se libertar da escravidão do egoísmo que mata, pois o
egoísmo deixa o homem no isolamento e na solidão. A partilha é um caminho que
nos leva de volta para o amor motivo pelo qual fomos criados. Ao ensiná-los a
partilhar Jesus quer lhes dizer que tudo é um dom de Deus para os homens. E os
dons de Deus são para ser partilhados, colocados ao serviço dos irmãos. É deste
processo libertador – que conduz do egoísmo ao amor – que vai nascer a
comunidade do Reino.
Somos convidados a retirar-nos diariamente. O principal objetivo de
retirar-se é fazer com que, quando avançarmos, avancemos na direção que Deus
quer. Retirar-se é essencial para tomarmos as decisões e fazermos as escolhas
certas: as que realmente queremos e as que estimulam a vida. Retirar-se pode
nos trazer tanto uma resposta quanto uma solução ou podem surgir novas
perguntas. Mesmo que não obtenhamos respostas claras para muitas das grandes
perguntas da vida, é vital continuar a recordar quais são as nossas perguntas.
Perder as perguntas é certamente perder-se no caminho.
2. Viver E Conviver Como Compassivos
“Ao sair do barco, Jesus viu uma grande multidão. Encheu-se de compaixão
por eles...” (Mt 14,14).
A multidão faminta do sentido da vida foi atrás de Jesus. Isto significa
que essa multidão encontrou em Jesus aquilo que ela estava procurando. Em
outras palavras, Jesus tinha algo a oferecer para saciar a fome da multidão.
Será que a Igreja tem algo a oferecer que faça a multidão procurá-la? Ou
será que ela vive preocupada apenas com os preceitos que a multidão deve
cumpri-las? Os cristãos de hoje têm algo a oferecer ao mundo que talvez esteja
vivendo o cansaço existencial?
Diante da multidão faminta do sentido da vida Jesus se mostrou
compassivo. Compaixão é muito mais do que um sentimento. Compadecer-se
significa sair de si mesmo levando consigo o que tem, por pouco que seja, para
compartilhá-lo com o que não o tem e por isso mesmo sofre. A compaixão é uma
atitude primordial de Deus. Por isso, quando se fala da compaixão, não se trata
de um vago sentimento de comoção. O verbo usado por Mateus neste Evangelho é
muito forte e quer dizer sentir-se perturbado nas entranhas. A compaixão, por
isso, nos pede que vamos até onde existem feridas, que entremos em lugares onde
existe o sofrimento, que compartilhemos os desânimos, os temores, as angústias
dos nossos semelhantes. No Evangelho este verbo é usado exclusivamente em
relação a Jesus ou a Deus. Por isso, quem tem compaixão, ele tem algo de Deus
dentro de si.
Esta profunda compaixão diante das necessidades dos nossos semelhantes é
a primeira condição para nos sentirmos motivados para a ação. Quem permanece
impassível, quem não alimenta os sentimentos de Cristo, muito dificilmente será
induzido a fazer qualquer coisa pelos semelhantes. Por isso, quando der alguma
ajuda, ele dá somente para obedecer a alguma imposição externa, a uma convenção
social, e não por uma premente necessidade interior.
3. Temos Responsabilidade Diante Da Fome Da
Maioria
“Despede as multidões para que possam ir aos povoados comprar comida”,
diz os discípulos a Jesus (Mt 14,15b). Mas recebem a resposta de Jesus: “Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer”
(Mt 14,16).
Os discípulos têm pena da multidão que está com fome, por um lado. Mas
por outro lado, eles reconhecem a incapacidade de saciá-la com cinco pães
apenas. Como resolver o problema? Eles aproximam-se de Jesus não para lhe
perguntar que planos Jesus tem, mas para oferecer-lhe uma “solução”: “Este
lugar é deserto e a hora já está adiantada. Despede as multidões, para que
possam ir aos povoados comprar comida” (v.15). A solução oferecida pelos
discípulos, então, é despedir para comprar. Em outras palavras, cada um tem que
prover para si mesmo, por meio de dinheiro. Mas vem a pergunta: “Será que toda
esta multidão tem dinheiro?”
Comprar e vender (pães) supõem orientar as relações sociais pelas leis da
economia, onde impera a concentração de bens e a exploração; supõem submeter-se
às leis econômicas que mantém essa multidão na miséria. Sabemos que onde há
concentração de bens e alimentos, lá há sempre fome. Neste contexto, quem tem
dinheiro, tem direito de comer; quem não o tem, torna-se vítima da fome. O que
tem por trás disso é o egoísmo. E as pessoas contaminadas pelo egoísmo acabam
virando as costas para o semelhante em dificuldade.
A atitude que Jesus tem com a multidão faminta do pão e da palavra
contrasta com a sugestão dos discípulos. A “comprar” Jesus opõe “dar” e
”repartir”: “Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer” (v.16).
Jesus ensina-lhes, dessa forma, que eles têm uma responsabilidade diante desse
desafio que o mundo dos pobres diariamente grita. Todos os cristãos jamais
poderão dizer que não têm nada a ver com a fome, com a miséria, com as
necessidades dos mais desfavorecidos. Qualquer irmão necessitado, seja de pão,
de alegria, de apoio, ou de esperança, é da responsabilidade de todos os que se
declaram cristãos ou pessoas de boa vontade.
4. A Partilha É O Caminho De Multiplicação
De Dons Recebidos
“Só temos aqui cinco pães e dois peixes” (Mt
14,17)
Que adianta ter cinco pães e dois peixes para alimentar a fome da
multidão?! É muito pouco! Mas Jesus pede que lhe entreguem o pouco que se tem:
“Trazei-os aqui!” (Mt 14,18). Precisamos colocar nas mãos de Deus nossos pobres
recursos humanos. A lição é bem clara: diante do apelo dos necessitados, os
cristãos precisam aprender a partilhar. Para Jesus, o eterno problema da vida
não é a falta do pão, e sim as causas que geram a falta do mesmo na mesa da
grande maioria. O que se revela mais não é a ausência do pão, e sim a presença
do egoísmo, do individualismo, da ganância e da total ausência do amor
fraterno. Não agarre aquilo que não vale a pena ser agarrado, pois ao
agarrá-lo, perde seu valor. É o agarrar em vão, pois um dia cada um será
obrigado a largar tudo. Ao partilhá-lo, ao contrário, ganha seu valor.
“Cinco pães e dois peixes” significam totalidade (“sete” é a soma dos
5+2). É na partilha da totalidade do que se tem que se responde à carência dos
irmãos. Quem partilha, vence a escravidão do egoísmo. Ao partilhar, em vez de
perder, o cristão ganha muito mais. É o paradoxo do Reino de Deus: aquilo que
se dá para o bem do próximo é aquilo que se ganha. O amor dado é o amor
recebido. O perdão dado é o perdão recebido. A vida oferecida para salvar o
outro é a vida recebida, a vida ressuscitada. Compartilhar ou partilhar é
multiplicar. Se quisermos ser verdadeiros cristãos capazes de convencer o
mundo, devemos aprender a viver este paradoxo. É preciso que cada cristão
quebre a lógica egoísta do lucro e substituí-la pela lógica do dom, da
partilha, do amor. Sem a partilha, não haverá um mundo mais justo e mais
fraterno.
Quem possui algo para comer, deixa-se tocar por quem não o tem e abre
mão, generosamente, do que lhe pertence para saciar a fome do semelhante. Esta
atitude funda-se na pura gratuidade e exclui qualquer desejo de recompensa.
Nessa direção é que os cristãos, todos nós, devemos caminhar. Tudo parte do
amor ao semelhante cuja penúria ou miséria torna-se um apelo para a
solidariedade e a partilha.
Se a partilha e a compaixão são a atitude primordial de Deus, portanto
repartir o pão significa prolongar a generosidade de Deus- criador: Ele criou
tudo por amor e gratuitamente sem nenhum mérito de um ser humano. Por isso,
quando se libera a criação ou um ser humano do egoísmo, sobra para cobrir a
necessidade de todos. Libertar-se um ser humano do egoísmo significa estar
vazio de toda criatura. E “estar vazio de toda criatura é estar cheio de Deus.
Ao contrário, estar cheio de toda criatura significa estar vazio de Deus”
(Mestre Eckhart).
5. Um Banquete Da Libertação E Da Dignidade
Humana Prefigura O Banquete Eterno: O Gesto Aponta Para A Eucaristia
“Então, Jesus pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu
os olhos para o céu e pronunciou a bênção. Em seguida partiu os pães e os deu
aos discípulos” (Mt 14,19). São as palavras que apontam para a Eucaristia (Mt
26,26-29).
Jesus pede que as multidões se sentem na grama (Mt 14,19). No primeiro
êxodo Deus alimentou Israel no deserto (Ex 16); no êxodo definitivo Jesus vai
alimentar a multidão no lugar deserto. Comer sentado ou “recostar-se” para
comer era próprio dos homens livres e era a posição adotada para a refeição
pascal (“grama verde” só existe durante a primavera, supõe que seja o tempo de
Páscoa. Cf. Jo 6,4), em recordação da libertação do Egito. O gesto de sentar
indica a tomada de consciência da própria dignidade e liberdade. E Jesus quer
que a multidão esteja consciente disso. Jesus veio certamente para devolver ao
homem a dignidade perdida para fazê-lo livre de todo tipo de prisão.
O que centraliza o acontecimento é o modo como Jesus procede. Ele toma os
pães e peixes, ergue os olhos ao céu, pronuncia a bênção, parte os pães e os dá
aos discípulos para distribuí-los à multidão (v.19).
Os gestos de Jesus prefiguram a futura ceia que Jesus instituirá na
Última Ceia (cf. Mt 26,26-29). A nota cronológica “já é tarde” (v.13) retoma
literalmente, o começo do relato da Última Ceia (Mt 26,20). A cena prepara a
eucaristia, que será a expressão do dom total de Jesus e dos seus. Ao erguer os
olhos ao céu Jesus expressa sua confiança que tem no Pai celeste. Jesus vincula
o alimento com Deus. Pronunciar uma bênção significa louvar a Deus e dar-lhe
graças por esse alimento, reconhecendo que é dom dele aos homens. Isto quer
dizer que tudo que o homem tem, o tem por causa da generosidade de Deus. Por
isso, a generosidade de Deus deve alcançar todos, sem ser bloqueada pelo
egoísmo ou pela ganância.
Depois da bênção, Jesus encarrega os discípulos de servir os pães e
peixes para a multidão. Jesus não lhes confere um poder, mas lhes confia um
serviço. Na comunidade, todos os seguidores de Cristo devem ser servidores e
não chefes ou mandantes poderosos. O Espírito que Jesus nos infunde que o
seguem leva a dar-se aos outros para comunicar vida (alimento). O serviço
prestado transmite a generosidade e o amor de Deus criador e doador de vida.
Não somos donos dos dons, mas simplesmente distribuidores ou partilhadores dos
mesmos. Aquele que recebeu esse dom não é o seu dono; mas é apenas um
administrador a quem Deus confiou determinado dom, para que o pusesse ao
serviço dos irmãos com a mesma gratuidade com que o recebeu. Na verdade,
sentar-se à mesa com Jesus e receber o pão que Ele oferece (Eucaristia), é
assumir uma vida de partilha, de amor, e de serviço. Celebrar a Eucaristia
obriga-nos a lutar contra as desigualdades, o egoísmo, os sistemas de
exploração, a ganância e assim por diante.
“Nenhum dos outros
sacramentos instituídos por Cristo
supera a este em
virtude e excelência.
Os outros conferem a graça, mas este contém o próprio Autor da graça,
é origem e fim
dos outros; como
esplendoroso sol
do meio-dia em
torno do qual
giram e são iluminados os outros satélites”. (Papa Paulo VI)
P.
Vitus Gustama,svd