quinta-feira, 23 de julho de 2026

São Tiago Maior, Apóstolo- Festa, 25/07/2026

SÃO TIAGO MAIOR

VIVER UMA VIDA APOSTÓLICO NO SERVIÇO AOS IRMÃOS COMO ESTILO DE VIDA

25 de julho 

Primeira Leitura: 2Cor 4,7-15

Irmãos, 7 trazemos esse tesouro em vasos de barro, para que todos reconheçam que este poder extraordinário vem de Deus e não de nós. 8 Somos afligidos de todos os lados, mas não vencidos pela angústia; postos entre os maiores apuros, mas sem perder a esperança; 9 perseguidos, mas não desamparados; derrubados, mas não aniquilados; 10 por toda a parte e sempre levamos em nós mesmos os sofrimentos mortais de Jesus, para que também a vida de Jesus seja manifestada em nossos corpos. 11 De fato, nós, os vivos, somos continuamente entregues à morte, por causa de Jesus, para que também a vida de Jesus seja manifestada em nossa natureza mortal. 12 Assim, a morte age em nós, enquanto a vida age em vós. 13 Mas, sustentados pelo mesmo espírito de fé, conforme o que está escrito: “Eu creio e, por isso, falei”, nós também cremos e, por isso, falamos, 14certos de que aquele que ressuscitou o Senhor Jesus nos ressuscitará também com Jesus e nos colocará ao seu lado, juntamente convosco. 15 E tudo isso é por causa de vós, para que a abundância da graça em um número maior de pessoas faça crescer a ação de graças para a glória de Deus.

Evangelho: Mt 20,20-28

20 Naquele tempo, a mãe dos filhos de Zebedeu aproximou-se de Jesus com seus filhos e ajoelhou-se com a intenção de fazer um pedido. 21 Jesus perguntou: “O que tu queres?” Ela respondeu: “Manda que estes meus dois filhos se sentem, no teu Reino, um à tua direita e outro à tua esquerda”. 22 Jesus, então, respondeu-lhes: “Não sabeis o que estais pedindo. Por acaso podeis beber o cálice que eu vou beber?” Eles responderam: “Podemos”. 23 Então Jesus lhes disse: “De fato, vós bebereis do meu cálice, mas não depende de mim conceder o lugar à minha direita ou à minha esquerda. Meu Pai é quem dará esses lugares àqueles para os quais ele os preparou”. 24 Quando os outros dez discípulos ouviram isso, ficaram irritados contra os dois irmãos. 25 Jesus, porém, chamou-os e disse: “Vós sabeis que os chefes das nações têm poder sobre elas e os grandes as oprimem. 26 Entre vós não deverá ser assim. Quem quiser tornar-se grande, torne-se vosso servidor; 27 quem quiser ser o primeiro, seja vosso servo. 28 Pois, o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate em favor de muitos”.

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Sobre Apóstolo São Tiago Maior

O apóstolo Tiago Maior é irmão de João. Ele ocupa o segundo lugar, na lista dos apóstolos, logo depois de Pedro (Mc 3, 17), ou o terceiro lugar depois de Pedro e André no Evangelho de Mateus (Mt 10, 2; Lc 6,14) e de Lucas (6, 14), ou depois de Pedro e de João (At 1,13). Ele faz parte do grupo dos três discípulos privilegiados (Pedro, Tiago e João) que foram admitidos por Jesus em momentos importantes da sua vida, especialmente na Transfiguração de Jesus (Mc 9,2-13; Mt 17,1-13; Lc 9,28-36) e no horto do Getsêmani (Mc 14,32-41; Mt 26,36-46; Lc 22,39-46).

Quando Jesus chamou Tiago (bem como Pedro e João) para segui-Lo e ser seu discípulo, ele estava envolvido com a pesca (Mc 1,20). Posteriormente, depois de passar a noite em oração, Jesus o chamou para fazer parte do grupo dos Doze (Lc 6,12-14). E na lista dos Apóstolos em Marcos Tiago e seu irmão João foram chamados Boanerges, que significa “filhos do trovão(Mc 3,17). Aparentemente o apelido (Boanerges), descrevia a personalidade tempestiva que os irmãos  demonstraram quando foram chamados por Jesus. O desejo de “mandar descer fogo do céu”, para consumir uma aldeia de samaritanos (Lc 9,54) é um bom exemplo de como Tiago e João, seu irmão, eram impetuosos e iracundos, quando seguiam suas inclinações naturais. Mesmo assim eles foram fieis ao Senhor até a morte.

Uma tradição sucessiva, que remonta pelo menos a Isidoro de Sevilha, relata que São Tiago Maior permaneceu algum tempo na Espanha para evangelizar aquela importante região que fazia parte do Império Romano. Mas outra tradição disse que o seu corpo teria sido transportado para a cidade de Santiago de Compostela na Espanha onde até hoje essa cidade continua sendo um lugar de veneração e objeto de peregrinações.

Graças ao Apóstolo São Tiago, como a outros Apóstolos, a Boa Noticia de salvação chega até nós hoje. Por nossa vez não podemos deixar a Palavra de Deus morrer em nossas mãos. Precisamos ser apóstolos na atualidade.

Mensagem da Festa do Apostolo São Tiago Maior

Sempre que celebramos a festa de um apóstolo, fazemos memória do fato fundacional da Igreja. Nossa Igreja é chamada a Igreja apostólica e nossa fé é a fé apostólica, fé que foi nos transmitida pelos apóstolos, testemunhas oculares da vida de Jesus. Falar da fé apostólica significa que nossa fé, nossa esperança, nossa vida de comunidade tem como base a experiência dos apóstolos que estiveram perto de Jesus e o acompanharam até a morte e testemunharam sua ressurreição. Falar da “fé apostólica” significa sentir-se parte de uma longa cadeia de homens e mulheres que em muitos lugares e de muitas maneiras foram atraídos por esse Jesus que os apóstolos conheceram e viveram a mesma experiência que eles viveram e transmitiram aos demais. Falar da fé apostólica significa que tudo que cremos e vivemos não é algo que foi inventado. É a fé que os apóstolos viveram e que é transmitida para nós hoje.

O Novo Catecismo da Igreja Católica no artigo 857 afirma: “A Igreja é apostólica, porque está fundada sobre os Apóstolos. E isso em três sentidos:

1.    -foi e continua a ser construída sobre o «alicerce dos Apóstolos» (Ef 2, 20), testemunhas escolhidas e enviadas em missão pelo próprio Cristo;

2.    -guarda e transmite, com a ajuda do Espírito Santo que nela habita, a doutrina, o bom depósito, as sãs palavras recebidas dos Apóstolos;

3.    -continua a ser ensinada, santificada e dirigida pelos Apóstolos até ao regresso de Cristo, graças àqueles que lhes sucedem no ofício pastoral: o colégio dos bispos, assistido pelos presbíteros, em união com o sucessor de Pedro, pastor supremo da Igreja: ‘Pastor eterno, não abandonais o vosso rebanho, mas sempre o guardais e protegeis por meio dos santos Apóstolos, para que seja conduzido através dos tempos, pelos mesmos chefes que pusestes à sua frente como representantes do vosso Filho, Jesus Cristo’”.

E no artigo 869 do mesmo Catecismo lê-se: “A Igreja é apostólica: está edificada sobre alicerces duradouros, que são os Doze apóstolos do Cordeiro; é indestrutível; é infalivelmente mantida na verdade: Cristo é quem a governa por meio de Pedro e dos outros apóstolos, presentes nos seus sucessores, o Papa e o colégio dos bispos”.

E os apóstolos são as testemunhas da ressurreição de Jesus Cristo; são testemunhas de que para aquele que aceita Jesus Cristo não conhece a morte, pois ressuscitará como Jesus Cristo ressuscitou. Os apóstolos são proclamadores do triunfo de Jesus sobre a morte, portanto, são os primeiros anunciadores da salvação para todos os homens. E os apóstolos faziam tal proclamação com valentia, sem medo porque era fruto da convicção profunda que produz a verdadeira fé.  Como diz São Paulo: “Sustentados pelo mesmo espírito de fé, conforme o que está escrito: ‘Eu creio e, por isso, falei’, nós também cremos e, por isso, falamos, certos de que aquele que ressuscitou o Senhor Jesus nos ressuscitará também com Jesus e nos colocará ao seu lado” (2Cor 4,13-14). Quando você tem realmente convicção de uma coisa, você jamais se entregará. Você vai lutar até o fim. Assim foi a vida dos apóstolos. A valentia e a ousadia dos apóstolos não se detinham nem sequer diante das ameaças dos poderosos porque estavam com uma grande convicção da ressurreição do Senhor. São Tiago foi o primeiro de todos a pagar com sua própria vida a intrepidez de seu testemunho. São Tiago aceitou beber o cálice do Senhor. Consequentemente, teve que aprender a servir, a viver desprendido de si mesmo até dar a vida por sua fé e sua dedicação pelo bem comum.

Nós somos encarregados de continuar no mundo esse mesmo testemunho dos apóstolos. Somos chamados e enviados a ser testemunhas da ressurreição, da vida sem fim. Se nós acreditamos realmente na ressurreição, devemos respeitar a vida, a nossa própria e a dignidade da vida dos outros no seu início, na sua duração e no seu fim na história. Quem desrespeita a própria vida e a vida dos outros, nega a ressurreição. Se realmente acreditamos na ressurreição temos que ter certeza de que a vida não termina aqui, pois a vida é de Deus (cf. Jo 11,25; 14,6). Se acreditamos realmente na ressurreição devemos ter certeza de que os que nos precederam estão em comunhão conosco e intercedem por nós como nossos irmãos. Se realmente acreditamos na ressurreição não devemos prolongar nossa tristeza pelo falecimento de nosso irmão/ nossa irmã, nosso pai/nossa mãe, marido/esposa, filho/filha, pois eles apenas voltaram para a casa do Pai (cf. Jo 14,1-6). Se acreditamos realmente na ressurreição, devemos ter certeza de que o amor dos que nos precederam para a eternidade não morre, pois o amor é o nome próprio de Deus: “Deus é amor”, disse são João (1Jo 4,8.16). São Paulo escreveu: “Se o Espírito d'Aquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos habita em vós, Ele, que ressuscitou Cristo Jesus de entre os mortos, também dará vida aos vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que habita em vós” (Rm 8, 11). E o Novo Catecismo da Igreja Católica afirma: “Crer na ressurreição dos mortos foi, desde o princípio, um elemento essencial da fé cristã. A ressurreição dos mortos é a fé dos cristãos: é por crer nela que somos cristãos” (Artigo 991):

Portanto, devemos revisar com seriedade a nossa fé na ressurreição e a qualidade de nossa maneira de testemunhar essa fé: se nosso testemunho realmente provém de uma convicção interior ou não. A prova disto é a nossa perseverança em tudo a exemplo dos apóstolos.

Por isso, ser cristão, como lição tirada do evangelho deste dia, não pode ser um pretexto para situar-se bem no mundo, para ficar nos primeiros postos ou posições, como pediram os dois irmãos, Tiago e João. Se viver desta maneira, a religião é capaz de cair no perigo de fanatismo e na violência. Ser cristão é seguir Jesus Cristo. Seguir Cristo significa acompanhá-lo em cada momento. É adotar a vida dele na nossa vida e sua missão na nossa missão.

O maior perigo para qualquer cristão, especialmente para aqueles que trabalham na Igreja do Senhor é o mesmo: converter a autoridade em poder e domínio e não em serviço. Quem busca o poder, e uma vez no poder será difícil perceber e achar que está errado. Toda autoridade que se exerce como poder e não como serviço tiraniza e oprime. Quem exerce a autoridade puramente como serviço ao irmão e à comunidade tem um mérito extraordinário. O poder já é perigoso, muito mais ainda super-poderoso.

Na Igreja de Cristo todos nós somos chamados a servir no espírito de Jesus. Servir é adorar a Deus em ação. Servir é fazer algo de bom sem esperar nada de troca ou de reconhecimento. Uma Igreja que não serve, não serve para nada. Servir pela salvação dos demais é o centro do cristianismo. O poder e o serviço se excluem. A ambição de poder é o câncer do serviço. O poder pode servir para muitas coisas, mas não serve para tornar bons os homens. Geralmente os maus líderes produzem os maus funcionários. A competitividade na Igreja do Senhor faz desaparecer a solidariedade, a compaixão, a igualdade e a colaboração. A competitividade sempre torce para que a vida do outro não dê certo para que ele possa estar em destaque solitariamente para ser adorado pelos demais. O cristão existe para os outros e é batizado para os outros.

Não é a missão de Cristo na terra situar seus seguidores nos melhores postos e conceder honras, e sim salvar os homens com um amor que jamais morre.Toda autoridade na Igreja é fazer os outros crescerem no bem e para salvar as pessoas.

Pequena Mensagem Dos Textos

O pedido da mãe em favor de seus filhos Tiago e João é o fruto de um pensamento no reino temporal em que há honras, dignidades, privilégios, primeiros lugares em tudo e assim por diante. Mas não é a missão de Jesus Cristo situar seus amigos nos melhores postos, e conceder honras e honrarias, e sim salvar os homenes com um amor que não se detém diante da morte e morte de cruz. Aquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos, também ressuscitará e premiará em seu dia os que agora seguem os passos de Jesus.

Por acaso podeis beber o cálice que eu vou beber?”. A expressão “beber o cálice” simboliza no Antigo Testamento o sofrimento e o castigo (cf. Is 51,17; Jr 25,15; Sl 75,8). No Getsêmani Jesus usa a mesma expressão para referir-se à sua Paixão. Os discípulos são convidados a associarem-se à Paixão de Jesus como o único meio para serem fieis à sua condição de discípulos.

É admirável a ambição de alguém que deseja redimir sua humilde condição de nascimento, valorizando todas as suas capacidades de inteligência e de luta. É um desejo inato, primordial. É muito normal ter o desejo de ser, de valorizar a própria existência, de subir mais alto na vida. E isso acontece em todos os campos. Não há ninguém que, para viver, não sinta necessidade de ser o primeiro em alguma coisa.

Porém, o perigo está na ambição desenfreada onde tudo vale. Para um ambicioso as honras valem tudo: ele se sente totalmente envolto pela espiral da glória. Quando dominado pelo vício, ele não suporta competidores, nem admite rivais. Quem é ambicioso, é dificilmente se preocupará com ser justo. Perante a necessidade de alcançar o que deseja, ele só enxerga uma alternativa: humilhar os outros e eliminá-los. Os outros já não são pessoas que merecem respeito, mas são degraus que só servem para ser galgados no intuito de ele atingir o vértice do poder. O ambicioso, quando estiver no vértice do poder, transmitirá aos súditos os seus sentimentos, arruinando a nação/grupo/comunidade etc. com assim chamada de política do prestígio, dos que só visam a conseguir a sua própria grandeza. Ele só obedece ao seu instinto de mandar e receber honrarias.

Em sua Meditação sobre o poder e a graça, José I. Gonzalez Faus (o mesmo autor de A autoridade da verdade) afirmou:  O poder serve para muitas coisas. Mas não serve para que os homens se tornem bons; não serve para libertar ou curar a liberdade humana, só serve para suprimi-la. A graça, ao contrário, faz bons homens e liberta a liberdade humana. O poder obriga, a graça ajuda. O poder cria quartéis ou campos de concentração; o carisma edifica a comunidade. O poder impõe o silêncio, o carisma fala em silêncio...O poder se atribui carismas, o carisma não se atribui poderes. O poder suplanta o Espírito, o carisma faz transparecer o Espírito. E por isso, o poder acaba por levantar a cruz, e o carisma acaba por morrer pregado na cruz”.

Poderíamos resumir o Evangelho de hoje com o seguinte pensamento: o modelo do Reino, e, portanto, dos que o pregam, não será o do poder politico e sim do serviço tal como Jesus o entende e o realiza em sua vida. O modelo que Jesus propõe é o do “servidor” (diakonos), e “escravo” dos demais. A novidade deste modelo é o serviço aos demais: para os judeus era uma honra chamar-se servidores de Deus, mas não dos homens. O serviço de Jesus é redentor, pois Ele serve para salvar os homens. Jesus dá sua vida para resgatar os homens.  Aquele que se preocupa com a própria fama na Igreja em vez de procurar meios adequados para melhorar a vida do próximo e salvar o próximo não está seguindo a Jesus Cristo.

E este serviço que Jesus propõe tem um modelo muito claro: Ele próprio. Com suas últimas palavras Jesus corrige um concepção errônea que poderia ter sobre sua pessoa e ao mesmo tempo se apresenta como modelo do serviço que lava até os pés dos apóstolos (cf. Jo 13,1-20; Mc 10,45). Com uma frase negativa: “Eu não vim para...” e logo com outra frase positiva: “e sim para dar sua vida...”, Jesus indica que Ele será o verdadeiro Servo de Javé e que Sua morte terá sentido de ser para todos os homens uma libertação (resgate) para levar uma vida nova. A resposta de Jesus é remetida ao anúncio de sua paixão pronunciada anteriormente, e lhes mostra que o importante dno Reino não é ter um lugar de honra, e sim segui-Lo em seu caminho de entrega e de serviço. Para Jesus o serviço não é somente um conjunto de pequenas boas obras de ajuda aos demais. Para ele o que conta é a atitude de serviço como atitude de vida: “Eu vim para servir”. Ou seja, desejar sempre uma vida gozosa e plena para todos e orientar toda a atividade para consegui-la: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Servir torna-se, então, um estilo de vida, e não é apenas uma atividade em determinado momento da vida diante dos demais.

O serviço pode produzir até a morte de quem serve, mas será a vida para os demais. Jesus foi morto por ter servido a todos até o fim por amor (Cf. Jo 13,1). A vida inteira de Jesus foi um serviço, uma entrega pessoal de amor. Nos misteriosos caminhos de Deus, o sofrimento de um justo por causa do serviço vivido até a morte se torna uma dinâmica geradora de vida nova para todos. Jesus Cristo demonstrou, com a sua Paixão, Morte e Ressurreição, a verdade desta afirmação. Por essa absoluta fidelidade ao amor, por essa entrega plena, os homens são arrebatados até a esfera divina.

O caminho da conversão dos Doze, em particular de Tiago e João, é uma chamada para todos nós. Também nós podemos mudar. Podemos, sim, fazer o melhor na Igreja em que não há governantes nem súditos, poderosos e escravos, uns lá em cima e outros lá em baixo.

Para que isto possa acontecer, temos que voltar ao Evangelho de Jesus Cristo. Cada cristão deve marchar pelo caminho do Mestre, que não veio para ser servido e sim para servir e dar sua vida pela salvação dos homens. Esta plena solidariedade com os homens e a entrega da vida por eles é o programa permanente de todos os cristãos. Dar a vida significa projetar a existência inteira como doação.

Mas não é fácil viver essa missão, pois “trazemos esse tesouro em vasos de barro...”. O “tesouro” que a passagem alude é o conhecimento, a experiência de Jesus ressuscitado. Este é o incomparável dom que levamos em “vasos de barro”, expressão que pode fazer referência à debilidade da pessoa do próprio Paulo (cf. 2Cor 12,7-10; Gl 4,14) ou talvez, ao próprio corpo do homem saído de barro segundo a tradição de Gn 2,7. A pregação da fé se faz a partir da própria limitação do homem. Essa limitação faz o cristão recorrer sempre ao Senhor para pedir ajuda.

Paulo sabe muito bem que sem a graça de Deus ele cairia ao fracasso total. A debilidade do que crê não é sintoma de fracasso e sim lugar da manifestação de Deus. Na debilidade de Jesus como ser humano se manifesta a glória do Pai. A Igreja, cada cristão anuncia o Evangelho não a partir do poder e sim da distância do poder, pois o Evangelho só pode ser anunciado com credibilidade a partir da Cruz onde aparece a verdade crua.

São Tiago aceitou beber o cálice do Senhor. Com efeito, São Tiago teve que aprender a servir, a viver desprendido de si mesmo, como Cristo, até dar a vida por sua fé. Que a recordação do sangue derramado de São Tiago seja para nós uma força para continuarmos a testemunhar uma vida dedicada ao bem.

Além disso, ser cristão não pode ser um pretexto para situar-se bem no mundo, para alcançar primeiros postos pela ambição de poder a fim de ter privilégios desmedidos. Quando a religião se degrada, a fé facilmente se torna uma pseudo-crença e cai no perigo de fanatismo.

Celebrar a Eucaristia é comer o pão e beber o cálice. Com esse gesto de comunhão significamos nossa comunhão com Jesus e com os irmãos. Comungamos, então, com a causa de Jesus. Assim damos sentido à nossa fé e nos envolvemos na missão da Igreja, fundada sobre os apóstolos.

P.Vitus Gustama, SVD

Sexta-feira Da XVI Semana Comum, Ano Par, 24/07/2026

SOMOS CHAMADOS A SEMEAR A BONDADE PERMANENTEMENTE

Sexta-Feira Da XVI Semana Comum

Primeira Leitura: Jr 3,14-17

14 ”Convertei-vos, filhos, que vos tendes afastado de mim, diz o Senhor, pois eu sou vosso Senhor; vou tomar-vos, um de uma cidade e dois de uma família, e vos reconduzirei a Sião; 15 eu vos darei pastores segundo o meu coração, que vos apascentarão com clarividência e sabedoria. 16 Quando vos tiverdes multiplicado e crescerdes na terra, naqueles dias, diz o Senhor, não se falará mais da ‘arca da aliança do Senhor’; ela não virá à memória de ninguém, não se lembrarão dela, não a procurarão nem fabricarão outra. 17 Naquele tempo, chamarão Jerusalém Trono do Senhor, em torno dela se reunirão, em nome do Senhor, todos os povos; eles não se deixarão mais levar pelas inclinações de um coração mau”.

Evangelho: Mt 13,18-23

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 18 “Ouvi a parábola do semeador: 19 Todo aquele que ouve a palavra do Reino e não a compreende, vem o Maligno e rouba o que foi semeado em seu coração. Este é o que foi semeado à beira do caminho. 20 A semente que caiu em terreno pedregoso é aquele que ouve a palavra e logo a recebe com alegria; 21 mas ele não tem raiz em si mesmo, é de momento: quando chega o sofrimento ou a perseguição, por causa da palavra, ele desiste logo. 22 A semente que caiu no meio dos espinhos é aquele que ouve a palavra, mas as preocupações do mundo e a ilusão da riqueza sufocam a palavra, e ele não dá fruto. 23 A semente que caiu em boa terra é aquele que ouve a palavra e a compreende. Esse produz fruto. Um dá cem outro sessenta e outro trinta”.

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Deus Nos Ama e Quer Nossa Volta Aos Seus Braços Apesar De Nosso Afastamento Dele

Convertei-vos, filhos, que vos tendes afastado de mim, pois eu sou vosso Senhor; vou tomar-vos, um de uma cidade e dois de uma família, e vos reconduzirei a Sião; eu vos darei pastores segundo o meu coração, que vos apascentarão com clarividência e sabedoria”. É a fala do Senhor para quem se afasta d´Ele, quem lemos na Primeira Leitura.

Percebe-se, neste texto, o contexto histórico do Exílio, da dispersão. O profeta Jeremias anuncia o retorno dos deportados. Anuncia-se o reencontro com todos na cidade santa Jerusalém.

O tema do “reencontro” faz parte do desejo profundo da humanidade. O ser humano é um ser vincular. O vínculo é a medula de sua existência. Para tornar-nos aptos, competentes, necessitamos, imprescindívelmente, de colaboração e de ajuda dos outros. O vínculo nos leva a termos o sentimento de pertença. Através da vivência desse sentimento de pertença aprendemos a receber algo de bom dos outros e a dar aos outros o que temos de bom. O perigo, hoje em dia, é esquecer-se desta consciência de pertença e acreditar que somente sou eu o centro de tudo e que os outros devem viver para mim e girar em torno de mim. Conseqüentemente, nós nos convencemos de que sejamos melhores que os outros. É preciso fazer desaparecer essa forma de egoísmo destruidor para que renasça o amor fraterno que nos ensina a receber e a dar. Todos na comunidade são chamados a partilhar seus dons e receber os dos outros e a descobrir a altura e a profundidade da sabedoria, da beleza e do amor de nosso Deus que criou tudo por amor. Quando não se procura a glória de Deus e sim a própria glória, a rivalidade e a competição se instalam, suscitando a inveja na comunidade. E a inveja, por sua vez, gera o ódio e a guerra, e consequentemente acontecerá a dispersão e divisão. Quando não há mais união, nada pode ser alcançado.

Mas o profeta Jeremias não só anuncia o reencontro na cidade santa, Jerusalém, mas também a vinda do Messias. Por isso, ele usa a expressão “naqueles dias” ou “naquele tempo”: “Quando vos tiverdes multiplicado e crescerdes na terra, naqueles dias, diz o Senhor, não se falará mais da ‘arca da aliança do Senhor’; ela não virá à memória de ninguém, não se lembrarão dela, não a procurarão nem fabricarão outra”.

A Arca da Aliança era o objeto de culto mais sagrado: um cofre de madeiras preciosas no qual estavam guardadas as “Tábuas da Lei” de Moisés, o símbolo mais explícito da Presença de Deus no Templo. Em 587 a.C junto com o Templo a Arca foi queimada pelos invasores caldeus.

Segundo Jeremias, de agora em diante, a Presença de Deus estará no coração da comunidade: Naquele tempo, chamarão Jerusalém Trono do Senhor, em torno dela se reunirão, em nome do Senhor, todos os povos”.  Deus não está em nenhum objeto e sim se encontra onde se vivem relações interpessoais na união fraterna baseada no amor.

Nós cristãos lemos esta profecia do profeta Jeremias sabendo que, em Jesus, Deus fez sua morada entre nós (Cf. Jo 1,14). Jesus é o Novo Templo (cf. Jo 2,19-22).  Por causa do seu Sopro (Gn 2,7; Jo 20,22), nos tornamos também Templo do Espírito Santo (1Cor 3,16-17; 6,19). O Senhor ressuscitado jamais nos abandona. Antes de entrar na glória eterna, o Senhor nos assegura: “Eu estarei convosco até o fim do mundo(Mt 28,29). Não vemos o Senhor com os olhos nus, mas o Senhor ressuscitado está conosco ao longo do nosso caminho neste mundo. Se acontecer que nós desandamos o caminho que nos afasta do Senhor, ouçamos antetamente a Palavra de Deus: “Convertei-vos, filhos, que vos tendes afastado de mim, pois eu sou vosso Senhor”. Seja qual for nossa situação, sempre é possível o regresso, o retorno a Deus, nosso Pai. Perdão serve para reunificar todos homens entre si e todos os homens com Deus.

O texto da Primeira Leitura nos assegura que, com Deus, temos solução, que com Deus este mundo tem solução, que com Deus a juventude de hoje tem solução, que com Deus nossa comunidade tem solução. Por parte de Deus, a porta está aberta, como os braços do pai para o filho pródigo. Os planos de Deus são de alegria e de vida: Então a virgem dançará alegremente, também o jovem e o velho exultarão; mudarei em alegria o seu luto, serei consolo e conforto após a guerra”, lemos no Salmo Responsorial tirado do próprio livro do profeta Jeremias (Jr 31).

Somos Bons Sementes De Deus Neste Mundo (Veja a reflexão do XV Domingo do Tempo Comum: Mt 13,1-23)

Jesus nos dá hoje um exemplo da interpretação espiritual necessária para entender o significado da parábola do semeador. Jesus compara os homens com quatro tipos/classes de terreno: a mesma semente, a mesma Palavra de Deus, mas dá resultados mais ou menos profundos conforme a resposta de cada pessoa à Palavra de Deus ou à semente semeada por Deus.

A parábola do semeador é um convite à esperança e perseverança. Na nossa vida como cristãos, há diversas contrariedades e oposições que o evangelho identifica como terreno pedregoso: que existem pessoas duras como pedra, que não deixam ninguém crescer para dar frutos bons; que existe lugar cheio de espinhos que sufocam e matam o crescimento dos outros, ou que existem pessoas que vivem como pássaros: tudo para si (egoísmo: os pássaros, como outros animais, brigam por causa da comida). Mas apesar de todos os obstáculos e dificuldades, mesmo com variedade de resultado, sempre existem pessoas boas cheias de força de Deus e continuam mostrando sua fecundidade para o bem de todos, como grãos de trigo que se tornam pão para todos.

É importante semearmos a bondade: pouco, muito ou tudo. É preciso semearmos nossas energias ou forças positivas para enfrentar as batalhas da vida. É preciso semearmos coragem para despertar ou erguer a coragem nos outros. É preciso semearmos nosso entusiasmo, nossa fé, nosso amor para encorajar aqueles que acham tudo perdido. É preciso semearmos as coisas boas mesmo que sejam mínimas, mas com muito amor. É preciso semearmos algo de qualidade no coração dos outros para que a bondade se multiplique e a convivência fraterna se tornará possível. Não basta existir, temos que viver para semear o que é bom nos outros, como Jesus Cristo que passou a vida fazendo o bem (At 10,38). É preciso sermos terrenos fecundos para que cresça em nós as graças de Deus na nossa vida para o bem de todos, especialmente para as pessoas ao nosso redor. É preciso adubarmos o coração dos outros para que cresça neles a bondade.

O evangelho é uma palavra viva, porque o Autor do evangelho, Aquele que nos fala através das palavras proclamadas está vivo Hoje: Jesus Ressuscitado. Ele se dirige a nós pessoal e comunitariamente com suas palavras. Por isso, o evangelho não é uma coleção de ideias ou uma coleção de pensamentos bons apenas. O evangelho é o encontro com Alguém. Se nós acreditamos que Jesus ressuscitou e por isso, está vivo, o evangelho é sempre atual, pois trata-se das Palavras de Quem está conosco Hoje. Por isso, é preciso dar ouvido e abrir o coração para Aquele que está falando sobre nós aqui e agora, Hoje. Seria falta de respeito, falta de educação, falta de sensibilidade humana não prestar atenção para aquele que está falando, muito mais ainda para Aquele que é o nosso Salvador. Por isso, cada um há que perguntar ao Senhor na sua meditação e oração: O que eu descobri de ti, Senhor, através da passagem do evangelho proclamada para mim hoje?

Alguns começaram a meditar a Palavra de Deus com entusiasmo e alegria, pois no início encontraram nela consolação. Porém, é necessário perseverar. Não basta seguir o Senhor, quando isto parece agradável e fácil. É preciso também seguir o Senhor nas provações com perseverança, pois “aquele que perseverar até o fim, esse será salvo”, assim o Senhor prometeu (Mt 10,22). Um conhecimento profundo de Deus somente se adquire com uma longa e incansável frequência com o evangelho, lido, meditado e voltar a meditá-lo. O Senhor não se contenta com nossos fervores passageiros. Ele espera nossas fidelidades perseverantes.

A parábola do semeador nos convida a semearmos sempre sem nos preocuparmos com colheita. Jesus semeava sua Palavra de esperança em qualquer parte; semeava Sua Palavra de força para as pessoas com dificuldades em seguir adiante. Jesus semeava gestos de bondade e misericórdia até nos ambientes mais suspeitos: entre as pessoas que moralmente estão em decadência.

O semeador do bem é aquele crê na vida, que tem confiança no porvir. O semeador do bem é aquele que investe no porvir. Não desista de ser bom apesar de qualquer coisa. O bom tem futuro com Deus desde agora.

Através da parábola do Semeador Jesus quer nos dizer que é necessário perseverar, pois há tempo para semear, cuidar e colher. Todo este período se chama paciência. Não basta seguir o Senhor, quando isto parece agradável e fácil. É preciso também seguir o Senhor nas provações com perseverança (Mt 10,22). Um conhecimento profundo de Deus somente se adquire com uma longa e incansável frequência com o evangelho, lido, meditado e voltar a meditá-lo. O Senhor não se contenta com nossos fervores passageiros. Ele espera nossa fidelidade perseverante. O Senhor não necessita de admiradores, mas de seguidores perseverantes; o Senhor necessita muito mais das testemunhas do que dos mestres.

E no seguimento do Senhor, há que saber escolher. Ninguém pode servir a dois senhores. Com efeito, ou odiará um e amará o outro, ou se apegará ao primeiro e desprezará o segundo. Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro, alerta-nos o Senhor (Mt 6,24). O descobrimento de Deus é uma maravilhosa aventura que implica muita renúncia e nossa entrega e nosso compromisso total: as preocupações mundanas, o prazer desenfreado, o afã de riqueza podem sufocar a Palavra de Deus. A riqueza promete muito, mas também decepciona muito.

Não há diploma sem estudo. Não há vitória sem luta. Não há colheita sem semear a semente e trabalhar pelo seu crescimento. Jesus fala de outra maneira: “A semente que caiu em terra boa é aquele que ouve a Palavra e a compreende. Esse produz fruto” (Mt 13,23). Um grão de trigo que colocamos num terreno fértil é capaz de produzir centenas de grãos. Então, depende de nós. Depende de mim. Depende de você. Tudo que Deus criou era bom (cf. Gn 1,1ss). Você foi criado por Deus. Logo você é bom. Consequentemente, você é capaz de fazer algo de bom para os outros. Seja você um terreno fértil transformando suas fraquezas em adubo para seu próprio crescimento e para o bem de todos. Se não conseguir produzir um por cem, você pode produzir um por sessenta ou um por trinta. Repito: a única coisa que nos faz crescer e nos faz bem e faz bem para os outros é fazer o bem. Não pode deixar para amanhã o bem que você deve fazer hoje mesmo, pois Deus quer você hoje e não amanhã e por isso, Ele fala para você diariamente.

O importante é semear: Pouco, muito, tudo... Semeie seu sorriso, para que resplandeça ao redor de você. Semeie suas energias, para enfrentar as batalhas da vida. Semeie sua coragem, para reerguer a coragem do outro. Semeie seu entusiasmo, sua fé, seu amor para encorajar quem acha tudo perdido. Semeie as coisas mínimas, aquilo que não conta mas com amor. Semeie e tenha confiança: Cada grão eriquecerá um cantinho da terra” (desconhecido).

P. Vitus Gustama,SVD

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Quinta-feira Da XVI Semana Comum, Ano Par, 23/07/2026

DEUS NOS FALA ATARVÉS DE NOSSA VIDA E DE SUAS OBRAS

Quinta-Feira Da XVI Semana Comum

Primeira Leitura: Jr 2,1-3.7-8.12.13

1 A palavra do Senhor foi-me dirigida, dizendo: 2 “Vai e grita aos ouvidos de Jerusalém. Isto diz o Senhor: Lembro-me de ti, da afeição da jovem, do amor da noiva, de quando me seguias no deserto, numa terra inculta. 3 Israel, consagrado ao Senhor, era como as primícias de sua colheita; todos os que dele comiam, pecavam; males caíam sobre eles”, diz o Senhor. 7 “Eu vos introduzi numa terra de pomares, para que gozásseis de seus melhores produtos, mas, apenas chegados, contaminastes o país e tornastes abominável minha herança. 8 Os sacerdotes nem perguntaram onde está o Senhor. Os versados na Lei não me reconheceram, e os chefes do povo voltaram-me as costas, os profetas profetizaram em nome de Baal e correram atrás de coisas que para nada servem. 12 Ó céus, espantai-vos diante disso, enchei-vos de grande horror”, diz o Senhor. 13 “Dois pecados cometeu meu povo: abandonou-me a mim, fonte de água viva, e preferiu cavar cisternas, cisternas defeituosas que não podem reter água”.

Evangelho: Mt 13, 10-17

Naquele tempo, 10 os discípulos aproximaram-se e disseram a Jesus: “Por que tu falas ao povo em parábolas?” 11 Jesus respondeu: “Porque a vós foi dado o conhecimento dos mistérios do Reino dos Céus, mas a eles não é dado. 12 Pois à pessoa que tem, será dado ainda mais, e terá em abundância; à pessoa que não tem, será tirado até o pouco que tem. 13 É por isso que eu lhes falo em parábolas: porque olhando, eles não veem, e ouvindo, eles não escutam, nem compreendem. 14 Deste modo se cumpre neles a profecia de Isaías: ‘Havereis de ouvir, sem nada entender. Havereis de olhar, sem nada ver. 15 Porque o coração deste povo se tornou insensível. Eles ouviram com má vontade e fecharam seus olhos, para não ver com os olhos nem ouvir com os ouvidos, nem compreender com o coração, de modo que se convertam e eu os cure’. 16 Felizes sois vós, porque vossos olhos veem e vossos ouvidos ouvem. 17 Em verdade vos digo, muitos profetas e justos desejaram ver o que vedes, e não viram, desejaram ouvir o que ouvis, e não ouviram”.

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Ser Responsável Pelos Outros Na Comunidade

Os sacerdotes nem perguntaram onde está o Senhor. Os versados na Lei não me reconheceram, e os chefes do povo voltaram-me às costas, os profetas profetizaram em nome de Baal e correram atrás de coisas que para nada servem”, é o oráculo do Senhor através do profeta Jeremias que lemos na Primeira leitura.

Com o texto da Primeira leitura começam os primeiros oráculos de Jeremias que é correspondente à primeira atividade do profeta entre os anos 627 e 622 a.C, quando teve lugar a reforma deuteronômica  do rei Josias.

Segundo Jr 1,2 Jeremias (nascido entre 650 e 645 a.C), ainda adolescente, recebeu sua vocação no décimo terceiro ano do reinado de Josias (640-609 a.C) em 627 a.C aproximadamente. Mas a consagração de Jeremias aconteceu desde a sua concepção: “... antes de teu nascimento, Eu já te havia consagrado, e te havia designado profeta das nações(Jr 1,5). Na concepção dos hebreus, Deus vai realizando no seio materno como que uma tarefa de coser, de textura. Deus vai configurando, “tecendo” a criança no útero. Não somente profeta para o povo de Israel e sim profeta das nações, profeta universal, profeta para todos.

O profeta Jeremias é um homem que experimenta a paixão e a posse do afeto inquebrantável de Deus. É um profeta de coração aberto, que deixa transparecer sua grandeza e sua fragilidade e sua tragédia. Ele, filho de um sacerdote, era de origem rural do povo de “Anatot, no território de Benjamin” (Jr 1,1) cerca de seis quilômetros  a nordeste de Jerusalém. Aparecem no livro de Jeremias três grandes reis: Josias, Joaquim e Sedecias. No reinado dos três reis é que Jeremias desempenhou seu ministério profético.

Jeremias começou a pregar como profeta em Anatot e posteriormente em Jerusalém em torno do ano 622 a.C no ano (ano de euforia) em que Josias dá início a uma reforma religiosa que prescrevia a centralização do culto em Jerusalém.

Nos inícios de seu ministério profético, Jeremias prega contra a idolatria instalada em Judá, especialmente sob o reinado de Ezequias. A boa parte da mensagem do profeta Jeremias consiste em denunciar os pecados do povo que são desobediência, infidelidade e rebeldia contra Deus. Para isso Jeremias tem que enfrentar os profetas da corte que sistematicamente dão razão ao poder, em vez de defender o povo. Jeremias depara com um culto hipócrita, a prática das injustiças sociais e a idolatria. Suas denúncias são dirigidas ao povo, porém algumas, especificamente, são dirigidas ao rei, aos falsos profetas e aos sacerdotes. Para Jeremias, o castigo, como consequências desses pecados será a invasão do “inimigo do norte”.

O conteúdo da pregação de Jeremias era extraordinariamente agressivo e injurioso para seus contemporâneos . Descreve-se em seis verbos: quatro de destruição, dois de construção: “arrancar e derrubar”, “arruinar e demolir”; e logo a seguir, a proposta de esperança: “construir e plantar” (Jr 1,10). Para Jeremias, era muito difícil transmitir tal mensagem. Jeremias sente sua fraqueza, sua fragilidade e sua pequenez: “Sou uma criança, um adolescente”. Mas Deus dá-lhe uma garantia: “Não tenhas medo de ninguém: Eu estou contigo para te libertar(Jr 1,8).

Porém, como foi dito, a denúncia e o castigo não são a única nem a última palavra na pregação do profeta Jeremias. O objetivo principal de suas denúncias é provocar a conversão ou a volta para o Senhor. Em vista disto, Jeremias anuncia a conversão e a salvação para os que vivem deportados. Para os que residem em Jerusalém, a salvação significa submeter-se ao jugo babilônico. A mensagem final será como a semente num campo, germe de esperança (Jr 31,27-34).

Na sua teologia, Jeremias se descreve como um homem predestinado desde o seio materno (Jr 1,5). Ele é um homem chamado a ser profeta tanto para o povo como para as nações (Jr 1,5). Toda a sua vida é assinalada pelo colorido da influência de Deus (por exemplo, em Jr 16 fala-se do celibato). Jeremias não é somente um pregador, mas também um intercessor (Jr 18,20; 42,2). Ele sofre com o povo (Jr 8,18-21), mas sofre também por causa do povo, pois alguns do povo fazem Jeremias sofrer de modo particular. Nas suas palavras, Jeremias quer recordar ao povo que Yahweh é o Deus da Aliança que tirou o povo do Egito (Jr 2,6) e concedeu-lhe a terra. Para jeremias, o verdadeiro conhecimento de Deus não está no culto e sim na justiça (Jr 22,16). Jeremias convida à conversão de coração, pois o pecado está enraizado no coração (Jr 3,12). A consequência da conversão é que Deus realizará a restauração, isto é, criará algo novo (Jr 31,22). O próprio Deus juntará o que resta e o conduzirá à terra prometida (Jr 23,3) e firmará uma ova aliança que produzirá uma transformação interior (Jr 31,31s). Jerusalém será reconstruída a partir de um rebento da dinastia davídica (Jr 23,5; 33,15). Dentro de tudo isto é que podemos entender as mensagens do profeta Jeremias.

O que está em jogo no texto da Primeira leitura  de hoje é sobre o que Deus fez pelo Seu povo e a atitude do povo diante das obras de Deus em favor do povo.

O profeta Jeremias faz uma recordação sobre o amor de Deus pelo povo: libertou o povo da escravidão do Egito e conduziu o povo com carinho para a terra prometida.

Como respondeu o povo eleito? Na travessia do deserto, depois da saída do Egito, o povo amava a Deus com o amor de noiva e seguia Deus: “Lembro-me de ti, da afeição da jovem, do amor da noiva, de quando me seguias no deserto, numa terra inculta”. O deserto é o lugar da provação e da tentação. Mas para os profetas Oseias (Os 2,16) e Jeremias, o deserto é o lugar da lua-de-mel do Senhor com seu povo, sem deuses rivais.

Porém, logo depois que o povo eleito entrou em Canaã se sucederam as infidelidades: profanaram a Aliança com todo tipo de idolatria. As classes dirigentes: os sacerdotes, os doutores da lei, os pastores e os profetas foram os primeiros em desviar-se de seu dever de dirigentes do povo ao dar mau exemplo para todos: Os sacerdotes nem perguntaram onde está o Senhor. Os versados na Lei não me reconheceram, e os chefes do povo voltaram-me às costas, os profetas profetizaram em nome de Baal e correram atrás de coisas que para nada servem”. O povo eleito abandonou o Deus libertador e Promotor da fraternidade humana para seguir deuses vãos porque nada valem cujas exigências são alienantes e afastam todos da tarefa humana.

O ataque de Deus é dirigido ao povo e sobretudo, aos dirigentes que são responsáveis pela infidelidade da comunidade. O dever dos dirigentes consistia em detectar as exigências concretas de Deus em cada tempo, porém nem sequer exortaram o povo a mudar de conduta e trabalhar de acordo com o espirito da Aliança. O agradecimento pelas obras de Deus (pela libertação do Egito e condução para a terra prometida) deveria comprometer a trabalhar pela libertação plena de todos. Mas a classe dirigente abandona o povo de Deus para pensar nos próprios interesses e vantagens.

As palavras ditas por Deus através da boca do profeta Jeremias foram ditas mais ou menos seiscentos anos antes de Cristo, porém são palavras ditas pelo Deus vivente hoje e aqui para nós. Estas palavras nos interpelam seriamente. Temos mantido nosso primeiro amor a Deus e nossa memória agradecida pelos benefícios contínuos de Deus em nosso favor? Será que temos sido fieis aos nossos compromissos batismais?

Se você é religioso ou ministro ou é encarregado de alguma responsabilidade na comunidade, será que você tem dado o bom exemplo para sua comunidade, ou escandaliza a mesma com seus maus exemplos, como aconteceu na época do profeta Jeremias? Como é que o seu modo de liderar: com arrogância, com humildade, com sabedoria, com equilíbrio, com responsabilidade? Não nos esqueçamos de que nossa espiritualidade é cristã. Espiritualidade cristã significa viver a vida e trabalhar de acordo com o Espírito de Jesus. É adotar na nossa vida sua maneira de viver, tornar nossas suas atitudes e levar adiante sua obra apesar das cruzes de cada dia.

Uma pessoa só pode ser chamada de responsável quando sua vida e sua atuação na Igreja são orientadas pelos valores cristãos. Quanto mais convertido for alguém, mais responsável se tornará. A conversão e a responsabilidade são duas coisas inseparáveis. O irresponsável na sua missão deixa de ser cristão apesar de ser chamado de coordenador, de ministro, de presidente e assim por diante. Todo ato autenticamente responsável está em comunhão com os valores. Quem vive de acordo com a responsabilidade jamais se torna escândalo para os demais.

O essencial para qualquer responsável na comunidade é que ele seja mais servidor do que chefe, mais líder do que comandante. Quem tem tendência de dominar e mandar é porque precisa aparecer ou porque deseja privilégios ou prestígios. Este tipo de líder será sempre um mau responsável porque não procura, antes de tudo, ser servidor.

Deus Nos Fala Através de Nossa Vida e De Seus acontecimentos

Estamos ainda no terceiro discurso de Jesus sobre o Reino de Deus em parábolas (Mt 13). Para a multidão entender a realidade do Reino de Deus Jesus usa parábolas da vida cotidiana como comparação.

No texto do evangelho de hoje os discípulos lançaram a seguinte pergunta para Jesus: “Por que tu falas em parábolas ao povo?”. As parábolas de Jesus têm claridade e pedagogia para fazer entender sua intenção para todos, menos aos que não querem entendê-las.

Na sua resposta Jesus enfatiza que Deus é “mistério”. A palavra “mistério” é usada no AT, a partir de Daniel, para denotar uma realidade dos tempos finais que Deus somente pode revelar (Dn 2,27-30.47), a realidade de um Reino eterno (Dn 2,44). Por Deus ser mistério trata-se, por isso, de uma realidade difícil de entender e de conhecer. Na sabedoria judaica (Sb 6,17-22) e fontes especialmente apocalípticas, o conceito sobre o mistério denota a revelação dos modos e propósitos de Deus, particularmente o fim do pecado e de governantes pecadores e estabelecimento do reinado de Deus sobre todas as coisas devolvendo a criação para a sua ordem original (Dn 2,27-28). Estes mistérios não podem ser conhecidos fora da ação reveladora de Deus. Os mistérios (de Deus) são escondidos da maioria (cf. Mt 11,25). Os segredos revelados a alguns reforçam a existência e identidade distintiva do grupo.

Jesus conhece o mistério de Deus. Ele sabe que as coisas do Espírito necessitam de uma certa sensibilidade para poder captar seu sentido. Deus não está no nível das coisas. Deus não é da ordem das coisas. O mistério de Deus, em toda sua riqueza, não é uma verdade que se impõe para a inteligência humana. É um mistério que somente se dá aos que estão dispostos a escutar. Por isso, o ouvinte tem que se esforçar para escutar. Escutar é ouvir com atenção. É participar da mensagem ouvida para entender seu recado. É estar no outro para entender e compreender aquilo que ele quer transmitir.

Olhando, eles não veem e, ouvindo eles não escutam nem compreendem”. É a segunda razão dada por Jesus. As multidões não entendem as parábolas porque elas não entendem Jesus. Há duas maneiras de “ver” e de “ouvir”. Há um modo estritamente material: eu ouço palavras ditas por alguém, ruído de vozes etc. E outro modo é o modo espiritual; é “ver” e “ouvir” com o coração.  Ver e ouvir” é discernir o império de Deus no mistério de Jesus. “Não ouvir” é não acreditar nem seguir a Jesus (Mt 7,26; 10,14). Conhecer os mistérios do Reino dos céus” é o conhecimento da vontade do Pai, a participação no seu amor mútuo com o Filho (Mt 11,25-30). Mistério é o desígnio de Deus na história.

O mistério de Deus somente é entendido com o coração. Deus cabe no  nosso coração e não na nossa cabeça. É preciso compreender tudo com o coração. Quando calarmos a inteligência, o coração começará a compreender. O coração entende e compreende aquilo que a razão desconhece.

Pois à pessoa que tem, será dado ainda mais, e terá em abundância; à pessoa que não tem, será tirado até o pouco que tem.”, acrescentou Jesus. Os discípulos têm fé em Jesus e por isso,, eles estão dispostos a acolher o que Jesus revela. Deus é dom sem fim. A única medida ao Seu dom desmedido é abertura de nossos desejos ao dom dado. Quanto mais for aberto o homem diante de Deus, mais dons ele receberá. Ao contrário “à pessoa que não tem, será tirado até o pouco que tem.”. Quem não tem desejo para os dons de Deus, não recebe dom. quem se fecha na autossuficiência, esteriliza-se sempre mais. O que impede de receber dom de Deus é o coração afogado nos próprios interesses, que tornam os ouvidos lentos para escutar e os olhos fechados à luz que ilumina e aquece. O Senhor quer nos curar e espera nossa abertura diante de dom de Deus.

Toda nossa vida é uma parábola na qual Deus está escondido e pela qual Deus nos fala. Um pode ficar no exterior das coisas e dos acontecimentos, ou pode “ouvir” e “ver” Deus no fundo e na profundidade dos acontecimentos da vida. Uma pessoa com coração sempre vê além das coisas, pois o coração entende e sente aquilo que a inteligência desconhece. Com efeito, uma pessoa que “vê” e “ouve” com coração os acontecimentos de cada dia, capta as mensagens de Deus e vive com mais sabedoria e prudência. Mas aquele que vive sem coração, vê apenas as coisas negativas e reclama da vida apesar de ela ser um dom de Deus. Aquele que vê e ouve com coração vê longe e vê além das aparências. Aquele que vê e ouve com coração compreende os outros e entende o significado do silêncio do outro.

Uma pessoa com coração é uma pessoa profunda, próxima, compreensiva, capaz de ir ao fundo das coisas e dos acontecimentos. Uma pessoa com coração não é dominada pelo sentimentalismo e sim é uma pessoa que alcançou uma unidade e uma coerência, um equilíbrio e uma maturidade. Ela nunca é fria, mas cordial, nunca é cega diante da realidade, mas realista, nunca é vingativa, mas pronta para perdoar e para reconciliar-se.  A espiritualidade do coração é uma verdadeira espiritualidade, pois inclui a oração, a conversão, a escuta do Espírito, o cuidado para o próximo, a compaixão, a solidariedade e a partilha. o amor transforma tudo que é pesado em leveza e a oração se torna prazerosa.

Felizes sois vós, porque vossos olhos veem e vossos ouvidos ouvem. Em verdade vos digo, muitos profetas e justos desejaram ver o que vedes, e não viram, desejaram ouvir o que ouvis, e não ouviram”, disse Jesus aos seus seguidores. Os olhos dos simples são os que descobrem os mistérios do Reino e o sentido da vida, em geral e de cada acontecimento em particular. Jamais acontecerá isso para os olhos dos arrogantes ou complicados. Recebemos de Deus o dom da fé com o qual somos capacitados a descobrir o sentido das coisas, pois a “fé é a antecipação daquilo que se espera e a certeza daquilo que não se vê” (Hb 11,1).

A revisão de vida consiste, por isso, em “olhar de novo” com os olhos da fé, os acontecimentos, que na primeira vez eram vistos com um olhar simplesmente humano, para entender os “recados” de Deus para cada um de nós em particular e para a humanidade toda, em geral. Esta revisão é necessária, pois também pode acontecer conosco aquilo que Jesus disse: “... olhando, eles não veem, e ouvindo, eles não escutam, nem compreendem”. Muita das vezes, não queremos ouvir ou entender algo porque , no fundo, não nos interessa em aceitar o conteúdo daquilo que ouvimos ou que vemos. Não há pior surdo do que aquele que não quer ouvir e não há pior cego do que aquele que não quer ver. Porventura, fazemos caso, cada dia, da Palavra de Deus que ouvimos/escutamos? Será que nos deixamos interpelar por ela quando ela se torna exigente para nossa maneira de viver? Nós, que temos ouvido a Palavra de Deus, devemos dar mais frutos do que os outros que nunca ouviram diretamente a Palavra de Deus. Se levássemos a sério a Palavra de Deus que temos escutado, nossa vida seria bastante distinta e faríamos diferença na família, na comunidade, no trabalho e na sociedade em geral.

Felizes sois vós, porque vossos olhos veem e vossos ouvidos ouvem. Dai-nos, Senhor, uns olhos novos e uns ouvidos finos, para podermos ver e entender seus mistérios na nossa vida.

P. Vitus Gustama,svd

São Tiago Maior, Apóstolo- Festa, 25/07/2026

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