terça-feira, 2 de junho de 2026

Corpus Christi, Solenidade, 04/06/2026

SOLENIDADE DO SANTÍSSIMO CORPO E SANGUE DE CRISTO ANO “A”

Primeira Leitura: Dt 8,2-3.14-16

Moisés falou ao povo, dizendo: 2 Lembra-te de todo o caminho por onde o Senhor teu Deus te conduziu, esses quarenta anos, no deserto, para te humilhar e te pôr à prova, para saber o que tinhas no teu coração, e para ver se observarias ou não seus mandamentos. 3 Ele te humilhou, fazendo-te passar fome e alimentando-te com o maná que nem tu nem teus pais conhecíeis, para te mostrar que nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca do Senhor. 14b Não te esqueças do Senhor teu Deus que te fez sair do Egito, da casa da escravidão, 15 e que foi teu guia no vasto e terrível deserto, onde havia serpentes abrasadoras, escorpiões, e uma terra árida e sem água nenhuma. Foi ele que fez jorrar água para ti da pedra duríssima, 16ª e te alimentou no deserto com maná, que teus pais não conheciam.

Segunda Leitura: 1Cor 10,16-17

Irmãos: 16 O cálice da bênção, o cálice que abençoamos, não é comunhão com o sangue de Cristo? E o pão que partimos, não é comunhão com o corpo de Cristo? 17Porque há um só pão, nós todos somos um só corpo, pois todos participamos desse único pão.

Evangelho: Jo 6,51-58

Naquele tempo, disse Jesus às multidões dos judeus: 51 “Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que eu darei é a minha carne dada para a vida do mundo”. 52 Os judeus discutiam entre si, dizendo: “Como é que ele pode dar a sua carne a comer?” 53 Então Jesus disse: “Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. 54 Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. 55 Porque a minha carne é verdadeira comida, e o meu sangue, verdadeira bebida. 56 Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. 57 Como o Pai, que vive, me enviou, e eu vivo por causa do Pai, assim aquele que me recebe como alimento viverá por causa de mim. 58 Este é o pão que desceu do céu. Não é como aquele que os vossos pais comeram. Eles morreram. Aquele que come este pão viverá para sempre”.

-------------------

Corpus Christi

Esta solenidade é produto da devoção eucarística medieval ocidental que surgiu para afirmar a PRESENÇA REAL do Senhor na Eucaristia contra os erros do teólogo francês Berengário de Tours (998-1088) que aplica o uso da razão e lógica no campo da fé. A partir do raciocínio lógico Berengário nega a possibilidade do milagre da transubstanciação do pão e do vinho para o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo, pois o pão continua sendo o pão.

Esta devoção surgiu a partir do ano 1110 na França e sobretudo em Liège (Bélgica), e está relacionada também às revelações da beata Juliana de Rétine, religiosa agostiniano (1193-1258) em Liège no ano de 1209. O bispo de Liège marcou a festa em honra do “Corpus Domini” para a Quinta-feira da oitava da Solenidade da Santíssima Trindade e celebrou-se pela primeira vez em 1246. O Papa Urbano IV, em conexão com o milagre de Orvieto em torno da Eucaristia, instituiu essa festa para toda a Igreja em 11 de agosto de 1264.  Aconteceu que um sacerdote, assaltado por dúvidas sobre a presença real de Cristo na Eucaristia, enquanto celebrava a missa viu que da Hóstia consagrada manava sangue até tingir de vermelho o corporal que até hoje é conservado na cidade de Orvieto construída para esse fim. São Boaventura e Santo Tomas de Aquino (+ ambos em 1274) foram os delegados pontifícios para comprovar a veracidade do milagre. Mas com Clemente V (1314) é que esta festa se difundiu com mais rapidez.

O missal romano de 1570 denomina esta festa “do Santíssimo Corpo de Cristo” (“Sanctissimi Corporis Christi”). O missal de 1970 denomina-a “Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo” (“Corporis et Sanguinis Christi). Ou seja, a reforma do Vaticano II menciona não apenas o Corpo (“Corpus Domini”), mas também o Sangue de Cristo, e com uma maior riqueza de textos bíblicos para exprimir uma visão do mistério eucarístico que leve em conta todos os seus aspectos. Completa-se assim a realidade integral do sacramento da eucaristia.

A liturgia da Palavra do Ano litúrgico A (ano em que estamos) com o texto do livro de Deuteronômio (Dt 8,2-3.14-16) recorda os grandes prodígios do Êxodo: a água e o maná. A queda do maná do céu é considerada como prefiguração da Eucaristia. A experiência do deserto levou o povo de Deus a compreender “que o homem não vive só de pão, mas de tudo o que sai da boca do Senhor”. O verdadeiro pão, do qual o homem tem necessidade absoluta, é a Palavra de Deus; Cristo é essa Palavras e esse Pão vivo. Quem come deste Pão vive eternamente, diferentemente dos hebreus no deserto, que comeram o maná e morreram (Evangelho, Jo 6,51-59). E em sua Carta ao Coríntios (1Cor 10,16-17), são Paulo lembra que a participação no cálice é comunhão com o Sangue de Cristo e participação no pão repartido é comunhão com o Corpo de Cristo. Havendo um só Pão, nós, embora sendo muitos, somos um só corpo.

Ao celebrar na Quinta-feira, recordamos a Quinta-feira Santa, dia da instituição da Eucaristia. Ambos os dias têm um objeto similar, mas não são um simples duplicado. A festa do Corpus Christi nos proporciona uma segunda oportunidade para ponderar o mistério da Eucaristia e considerar seus vários aspectos. Esta solenidade nos convida a manifestar nossa fé e devoção a este Sacramento que é o Sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade, banquete pascal no qual Cristo é comungado, e a alma se enche da graça.

O que, sobretudo, distingue a festa de hoje de todas as outras festas cristãs é a procissão. É o mais exterior nesta festa. Mas quando o exterior nasce de dentro é também a manifestação de seu núcleo interior. A Procissão do Corpus Christi nos faz descobrir que somos peregrinos sobre a Terra; não temos aqui a pátria permanente, caminhamos pelo espaço e o tempo rumo à Pátria celeste. Somos pessoas que devem deixar-se transformar, porque ser homem significa deixar-se transformar. Nossa temporalidade e os distintos lugares onde se desenvolve nossa existência se manifestam através de uma procissão.

A solenidade de Corpus Christi é a festa que exalta a presença real de Jesus Cristo no Sacramento da Eucaristia. Precisamente por ser “festa do Sacramento” exaltamos o Corpo e o Sangue, pão e vinho eucarísticos, de Jesus, sinal significativo e eficaz de sua presença entre nós. Mas neste caso o sinal aponta para a comida fraterna na qual o próprio Cristo se dá como alimento. E a comida fraterna e festiva não pode ser entendida sem comunhão, sem convivência com o Senhor Jesus e com os demais comensais (irmãos, próximos). É certo que a Eucaristia constrói a Igreja, mas a constrói como comunidade que compartilha. A Eucaristia significa a Aliança que nos vincula aos demais. Não sou eu o único aliado de Deus, individualmente. Todos somos solidários. Somos todo um povo de Deus.

O mistério da Eucaristia tem muitas evocações: é memorial da Paixão, é Banquete de unidade, é antecipação da vida divina que compartilharemos com Cristo no Céu. Por isso, é necessário descobrirmos uma vez mais o que cremos e celebramos: o Corpo que se entrega, o Sangue que se derrama. A entrega é essência profunda e última do Corpus Chirsti que devemos renovar constantemente. O cristão deve ser pão que se multiplica, pão de vida, pão de união, pão que sacia a fome. A exemplo de Cristo que derramou seu sangue, o cristão deve converter-se também em vinho bom, de melhor colheita que vai passando de mão em mão e de cálice em cálice para que todos bebam a salvação e não a morte.

Além disso, a Eucaristia, dom de Deus, nos ensina a valorizar que o homem não somente vive do pão humano e sim de tudo quanto sai da boca de Deus. E nos assegura o socorro especial do Senhor na travessia do deserto da vida até chegar ao banquete eterno. Comer a carne do Senhor e beber seu sangue é habitar n´Ele e Ele em nós.

A Eucaristia tem duas dimensões: sua celebração (a missa) e sua prolongação, com a reserva do Pão eucarístico no sacrário para os enfermos e para o caso de viático, e a conseguinte adoração que lhe dedica a comunidade cristã. A finalidade principal da Eucaristia é sua celebração e a comunhão com o Corpo e o Sangue de Cristo, que quis ser nosso alimento para o caminho da vida a fim de que sejamos vida também para os outros.

Mensagem do Evangelho

O evangelho desta santa missa (Jo 6,51-59) pertence ao conhecido discurso sobre o Pão da vida (Jo 6). Jesus diz que ele mesmo é o Pão descido do céu para ser comido. Mas comungar o Corpo de Cristo significa aceitar identificar-se com ele; oferecer-lhe a nossa pessoa, para que ele possa continuar a viver, a doar-se e a ressuscitar em cada um de nós. Somente quando nos mantemos nesta disposição de nos transformar na pessoa de Jesus, podemos afirmar que toda a nossa vida está iluminada pela Eucaristia.

Na Eucaristia, Deus se encontra com nossa vida mortal, tão desejosa da eterna imortalidade. Na Eucaristia Deus pronuncia sobre nós Sua Palavra de Vida, reveste-nos da ressurreição de Cristo e deixa a nós estes angustiados pela morte, comer da sua imortalidade num convívio sagrado partindo e repartindo o que se tem e o que se é, como Cristo, Pão da Vida é partido e repartido nos nossos altares. Na Eucaristia, neste Corpo ferido e neste Sangue derramado, temos perenemente presente sua última palavra: O SIM de Jesus ao Pai, por nós e o SIM de Deus a nós, por causa de Jesus.

Consequentemente, comer a carne e beber o sangue de Jesus significa incorporar-se, fusionar. É entrar em comunhão de amor e de destino de Jesus. Tomar o Corpo e o sangue, além disso, é reconhecer a vida do Espírito na carne e no sangue da humanidade, pois a Igreja é o Corpo místico de Jesus (cf. 1Cor 3,16-17). É a humanidade que sofre, que busca, que dá a luz ao mundo com dor; a humanidade que se alegra, que canta e dança. É a humanidade de ricos e de pobres, humanidade de pecadores e de santos. É a humanidade dos rápidos e dos atrasados em descobrir a graça de Deus. É a humanidade da humanidade.       

A eucaristia proporciona uma comunhão real de vida e de destino com a pessoa de Jesus. Seu Corpo nos faz participarmos na ressurreição, nos faz vivermos por Cristo que é vida para sempre, nos faz convivermos como irmãos, nos leva a vivermos na igualdade e na fraternidade, na partilha e na generosidade. 

A celebração eucarística, o mistério mais sagrado que a Igreja guarda como seu tesouro será cada vez menos compreendida, se esta celebração não for feita por uma comunidade viva que se preocupa com a bondade e o bem de todos e para todos. É na convivência fraterna, na experiência da generosidade de quem estima e me quer bem, que o mistério da Eucaristia tem sua plena realização. A missa se torna um espetáculo e um mito se a comunidade cristã não experimenta a beleza humana da bondade divinamente inspirada. Pouco adianta pregarmos o divino, se negarmos o humano.          

O Corpo e o Sangue de Cristo, isto é, a pessoa de Cristo, recebidos com fé são fonte de vida eterna, já desde agora, para o que comunga eucaristicamente. Não acontece a magia e o automatismo sacramentais. Sem fé não há sacramento, vida e comunhão com Jesus. Se Cristo se autodefine como a Vida, então, a Eucaristia comunica ao cristão a vida que Cristo recebe do Pai. Assim o comungante começa a participar da vida trinitária e da aliança de Deus com o homem por meio do sangue de Cristo. Cristo é a vida imortal prometida ao homem desde o princípio e à qual agora pode ter acesso efetivo mediante a comunhão do Corpo do Senhor com fé, isto é com a disposição de se deixar transformar na pessoa de Jesus.          

Portanto, a eucaristia é o centro de toda vida e liturgia de um cristão que quer viver o mistério de Cristo em profundidade.          

Mas “Corpo de Cristo” (Corpus Christi) é também a Igreja, quer dizer, todos os que acreditam em Jesus Cristo. O sacramento do Corpo do Senhor, a Eucaristia, relaciona-se, diretamente com a comunidade que o celebra. Daí que a Eucaristia, para ser autêntico do mistério profundo de amor que é a paixão, morte e ressurreição de Jesus, exija a união, o amor fraterno e completa unidade de grupo que celebra com fé a Eucaristia. É impossível celebrá-la sem comunidade de amor. Temos que nos converter, decisivamente, à dimensão comunitária da eucaristia e de toda a vida cristã, optando pelo amor e fraternidade na saudação cordial, no sorriso afável, no gesto acolhedor e compreensivo.  A nossa eucaristia deve ser uma reunião familiar.          

O dia de Corpus Christi oferece-nos a oportunidade de revisar nossa fé, celebração e comunhão eucarísticas. Queremos um teste para saber se elas estão qualificadas, como diz São Paulo, de dignas ou indignas, autênticas ou falsas. Há uma prova de autenticidade que não falha: é o amor no compartilhar com os homens nossos irmãos. Temos que nos purificar de tudo quanto nos separa deste amor para que nossa eucaristia seja agradável a Deus.          

A breve fórmula da comunhão: “O Corpo de Cristo: Amém”, é uma síntese admirável da fé eucarística, é todo um programa de vida, um amém muito sério, um gesto de compromisso maduro, um sinal total à união e ao amor fraterno do qual o Sacramento da Eucaristia é, e deve ser antes de tudo, um sinal eficaz e visível. 

A eucaristia é uma ceia fraterna na qual todos são tratados como irmãos e irmãs. A ceia fraterna não pode ser entendida sem comunhão fraterna, sem convivência com o Senhor e com os demais comensais ou com as demais pessoas. É certo que a Eucaristia constrói ou edifica a Igreja, mas a constrói ou edifica como comunidade que compartilha. Compartilhar é mais do que repartir o que temos, é mudar nossa forma de pensar e de viver para fazer possível uma convivência fraterna e solidária. Como dizia João Paulo II: “Nossa união com Cristo na Eucaristia deve manifestar-se, no dia de hoje, em nossa existência: em nossas atividades, em nossa conduta, em nosso estilo de vida e na relação com os demais”. Não é possível celebrar ou participar da Eucaristia sem a vivencia do amor fraterno, da caridade mútua e da solidariedade. Um escritor francês disse: “Não se pode crer impunemente”, isto é, não se pode crer sem que tenha consequências em nossa vida. Não se pode comungar o Corpo de Cristo sem que tenha consequências em nossa vida. Compartir o pão com os irmãos, especialmente com os necessitados é comungar com Cristo. Não tomaremos a sério a comunhão se não tomarmos a sério a vida, a justiça, a fraternidade e a honestidade.

Comer o Corpo e beber o Sangue do Senhor significa comer e beber o amor à vida e tudo o que se refere à vida: liberdade, justiça, participação, fraternidade, igualdade. Uma Eucaristia que fica reduzida a um mero ato litúrgico é uma traição à última Ceia de Jesus da qual nasceu a Igreja. Trata-se de uma Igreja de irmãos, de apóstolos (enviados), de testemunhas, de mártires. Comer e beber a carne e o sangue de Jesus significa alimentar-se e alimentar uma humanidade necessitada de Jesus, Pão da Vida, necessitada do amor fraterno. É uma humanidade que para poder ser chamada de cristã precisa fazer desaparecer a injustiça, o ódio, a vingança, a discriminação, o racismo e assim por diante. Comungar com Cristo é comungar com sua causa. Todos somos chamados a seguir a Jesus Cristo, a ter fé nele, a caminhar pelo seu caminho. Todos nós sabemos que em Cristo temos o Caminho, a Verdade e a Vida. Na última Ceia Jesus nos recomendou: “Fazei isto em minha memória”. Toda Eucaristia é memorial que faz presente a entrega à morte do Mestre. Na Eucaristia, é o amor no Filho que se entregou para que possamos ter a vida eterna. Quem descobre o amor de um Deus que amou tanto os homens (cf. Jo 3,16), experimenta a chamada para difundir entre os homens este mesmo amor. Não se pode comungar com o gesto supremo de amor e ao mesmo tempo continua odiando, desprezando os outros.

Senhor, pelo Santíssimo Mistério do Vosso Corpo e do Vosso Sangue com que, todos os dias, na Vossa Igreja, nos alimentamos, nos dessedentamos, nos purificamos e nos santificamos, que nos torna, enfim, participantes de uma mesma divindade, Vos suplico ainda que me concedais as Vossas santas virtudes que me encham e me permitam aproximar-me do Vosso altar com segura consciência, de sorte que estes celestes sacramentos para mim sejam salvação e vida.

Pão dulcíssimo, sarai-me o paladar, para que eu sinta a suavidade do Vosso amor. Curai em mim toda languidez, para que, fora de Vós, não sinta doçura alguma. Pão puríssimo, que tendes todas as delícias e todo bom sabor, que incessantemente nos restaurais e nunca nos faltais, minha alma Vos receba, e minhas entranhas se encham da doce suavidade de tão saboroso alimento.     

Pão santo, Pão vivo, Pão cheio de pureza, que descestes do céu e dais a vida ao mundo, vinde ao meu coração; purificai-me de toda mancha, quer da carne, quer do espírito. Penetrai na minha alma, curai-me, purificai-me interior e exteriormente. Sede a minha salvaguarda, sede a contínua salvação da minha alma e do meu corpo! Afastai de mim os inimigos que me maquinam ciladas; afastem-se eles da vossa Majestade infinita, do Vosso infinito poder. Fortalecido por Vós, por fora e por dentro, Oxalá eu chegue, pelo caminho direto, ao Vosso Reino, onde nos veremos, não já em mistério como agora, mas face a face, porque todo o poder sobre as almas será dado ao Pai e a Deus, e Vós sereis, o Jesus, o Deus de todos. Então me saciareis de Vós de um modo maravilhoso; já não terei fome, já não terei sede. Vós que, com o mesmo Deus Pai e com o Espírito Santo, viveis e reinais por todos os séculos. Amém!  (Santo Ambrósio).

P. Vitus Gustama,svd

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Quarta-feira Da IX Semana Comum, Ano Par, 03/06/2026

SOMOS CHAMADOS A CRER NO DEUS DA VIDA E NO DEUS DOS VIVOS E TESTEMUNHÁ-LO SEM MEDO

Quarta-Feira da IX Semana Comum

Primeira Leitura: 2Tm 1,1-3.6-12

1 Paulo, Apóstolo de Jesus Cristo pelo desígnio de Deus referente à promessa de vida que temos em Cristo Jesus, 2 a Timóteo, meu querido filho: Graça, misericórdia e paz da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus, nosso Senhor! 3 Dou graças a Deus – a quem sirvo com a consciência pura, como aprendi dos meus antepassados –, quando me lembro de ti, dia e noite, nas minhas orações. 6 Por este motivo, exorto-te a reavivar a chama do dom de Deus que recebeste pela imposição das minhas mãos. 7 Pois Deus não nos deu um espírito de timidez mas de fortaleza, de amor e sobriedade. 8 Não te envergonhes do testemunho de Nosso Senhor nem de mim, seu prisioneiro, mas sofre comigo pelo Evangelho, fortificado pelo poder de Deus. 9 Deus nos salvou e nos chamou com uma vocação santa, não devido às nossas obras, mas em virtude do seu desígnio e da sua graça, que nos foi dada em Cristo Jesus desde toda a eternidade. 10 Esta graça foi revelada agora, pela manifestação de nosso Salvador, Jesus Cristo. Ele não só destruiu a morte, como também fez brilhar a vida e a imortalidade por meio do Evangelho, 11 do qual fui constituído anunciador, apóstolo e mestre. 12 Esta é a causa pela qual estou sofrendo, mas não me envergonho, porque sei em quem coloquei a minha fé. E tenho a certeza de que ele é capaz de guardar aquilo que me foi confiado até o grande dia.

Evangelho: Mc 12,18-27

Naquele tempo, 18vieram ter com Jesus alguns saduceus, os quais afirmam que não existe ressurreição e lhe propuseram este caso: 19“Mestre, Moisés deu-nos esta prescrição: Se morrer o irmão de alguém, e deixar a esposa sem filhos, o irmão desse homem deve casar-se com a viúva, a fim de garantir a descendência de seu irmão”. 20Ora, havia sete irmãos: o mais velho casou-se, e morreu sem deixar descendência. 21O segundo casou-se com a viúva, e morreu sem deixar descendência. E a mesma coisa aconteceu com o terceiro. 22E nenhum dos sete deixou descendência. Por último, morreu também a mulher. 23Na ressurreição, quando eles ressuscitarem, de quem será ela mulher? Porque os sete se casaram com ela!” 24Jesus respondeu: “Acaso, vós não estais enganados, por não conhecerdes as Escrituras, nem o poder de Deus? 25Com efeito, quando os mortos ressuscitarem, os homens e as mulheres não se casarão, pois serão como os anjos do céu. 26Quanto ao fato da ressurreição dos mortos, não lestes, no livro de Moisés, na passagem da sarça ardente, como Deus lhe falou: ‘Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó’? 27Ora, ele não é Deus de mortos, mas de vivos! Vós estais muito enganados”.

______________________

Ser Fiel No Ministério e Ser Guardião Da Sã Doutrina

Lemos durante dois dias (hoje e amanhã) uma nova carta do Novo Testamento: a Segunda Carta de são Paulo a Timóteo.

O autor da Segunda Carta ao Timóteo é são Paulo (mas o autor da Primeira Carta ao Timóteo não foi são Paulo). São Paulo a escreveu em Roma (2Tm 1,15-17) no seu derradeiro cativeiro antes de sua morte (2Tm 1,12) entre anos 65-67. Trata-se de umas cartas de final da vida de são Paulo, ansioso por segurar a solidez de suas comunidades ameaçadas pelos desvios doutrinais e as intrigas entre grupos.

Nesta carta encontram-se conselhos pastorais de são Paulo para Timóteo, seu grande colaborador e sucessor na missão apostólica. São Paulo exorta, insistentemente, a Timóteo a perseverar no ministério e a conservar a sã doutrina sem medo de testemunhar tudo isso. Trata-se como o testamento espiritual de são Paulo que ele escreveu da prisão (em Roma) para seu discípulos Timóteo. São Paulo aparece cansado, mas não derrotado, esperando sua pena de morte.

Lemos hoje, na Primeira Leitura, o início da Segunda Carta ao Timóteo: “Paulo, Apóstolo de Jesus Cristo pelo desígnio de Deus referente à promessa de vida que temos em Cristo Jesus”.

Fim e meta da missão apostólica é anunciar a vida prometida por Deus. Trata-se da vida eterna que está fundada na comunidade de fé e de vida com Jesus Cristo, vida que perdura muito além da morte, a vida que vence a morte em Jesus Cristo pela sua ressurreição. A certeza da vida eterna outorgada e garantida em Jesus Cristo é um fundamento seguro da vida de todo cristão, em contraposição com as pessoas que “não têm esperança” (1Ts 4,13).

Lemos hoje também a saudação de são Paulo, que tantas vezes repetimos no início de cada celebração eucarística: Graça, misericórdia e paz da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus, nosso Senhor!”

Na saudação grega se deseja “alegria”, e na judaica “paz” (Shalom). São Paulo deseja ao destinatário: graça, misericórdia e paz. São Paulo eleva a saudação habitual, corrente então, ao plano cristão e assim deseja o que a ele parece como mais importante: Em primeiro lugar, a “graça”, isto é, a inteira e inesgotável bondade e benignidade de Deus que o homem pode receber, mas não conquistar por suas próprias forças. Em segundo lugar a “misericórdia” que é tão necessária ao homem pecador. Toda vez que o homem se converter de seu pecado, Deus se mostra misericordioso. Não há pecado que não tenha misericórdia de Deus quando o homem decide converter-se. Em terceiro lugar, a “paz” que poderíamos traduzir melhor por “salvação”, pois trata-se de uma harmonia total com Deus, com o próximo, consigo mesmo e com a natureza. Podemos dizer que a paz é tudo de bom.

Esta saudação não é um mero desejo sem conteúdo e sim que é eficaz, de modo que com ela se comunica a Timóteo toda a plenitude da graça da misericórdia e da salvação. E isto é uma garantia de Deus que é nosso Pai e de Jesus Cristo que é nosso Senhor

Com este dom de graça que foi conferido por Deus, Timóteo recebeu em sua qualidade de ministro de Deus a comunidade, o espirito de foraleza, de amor e de domínio próprio, as forças de graça do sobrenatural. É uma força divina para um trabalho orientado conscientemente a um fim e para um serviço disposto ao sacrifício, amor forte e sacrificado ao serviço dos irmãos, domínio decidido de si mesmo e serena reflexão em todas as suas tarefas. A bondade e a benignidade de Deus são armas para seu ministério com todos os dons que Timóteo necessita para o desempenho de sua difícil missão.

Fortalecido com essa força divina, Timóteo encontra a coragem de não se envergonhar do testemunho de nosso Senhor, e de não ter a menor vergonha de confessá-lo: “Deus não nos deu um espírito de timidez mas de fortaleza, de amor e sobriedade. Não te envergonhes do testemunho de Nosso Senhor nem de mim, seu prisioneiro, mas sofre comigo pelo Evangelho, fortificado pelo poder de Deus”.

Tudo que se fala de Timóteo é um vigoroso programa para todos nós que, de alguma maneira, somos apóstolos, testemunhas de Cristo no mundo onde vivemos e trabalhamos. Somos evangelizadores em meio da sociedade em que vivemos. O modelo desta atitude pode ser o próprio são Paulo, o velho lutador e apóstolo, que ao longo de toda a sua vida se entregou plenamente ao seu ministério.

Somos convidados por Paulo a agradecer a Deus por nossa fé, a crescer nela, a perseverar no nosso testemunho no meio do mundo, a não ser covardes no viver de nossa fé cristã, a gastar todas as nossas energias trabalhando pelo evangelho. É um testamento de Paulo e um programa estimulante para nós.

Quem sofrer por causa do Evangelho, estará manifestando que, na verdade, vai pelos caminho de Deus e que é fiel à missão que lhe é confiada. Quem molda sua vida aos critérios deste mundo e ganha complacência dos poderosos e malvados, é mercenário do Evangelho, mas não apóstolo nem mensageiro e muito menos mestre. É preciso sabermos em quem depositamos nossa fé. O próprio São Paulo sabe: “Sei em quem coloquei a minha fé. E tenho a certeza de que ele é capaz de guardar aquilo que me foi confiado até o grande dia”.

A esperança na ressurreição é a força capaz de ordenar as realidades humanas numa escala de valores

A discussão entre Jesus e autoridades passa agora do campo político-religioso para o campo puramente dogmático. Entram em cena os saduceus que Marcos cita somente na passagem do evangelho. O assunto é sobre a ressurreição.

Os saduceus são um grupo formado por pessoas ricas e por isso, são uma “classe separada”: são fazendeiros e dominam os comércios da cidade. Eles pertencem às famílias sacerdotais dirigentes. Constituído maioritaiamente por sacerdotes, o grupo dos saduceus controlava o templo de Jerusalém e ocupava posições influentes na sociedade. Eles têm uma grande influência na política e na administração da justiça na Palestina. Para defender as suas ideias e o seu status, aliaram-se aos asmoneus e apoiam Alexandre Magno (que perseguiu os fariseus). Eles são conservadores em termos da religião. Eles aceitam apenas a Tora (Pentateuco ou cinco primeiros Livros da Bíblia: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio). Eles não acreditam na vida depois da morte (ressurreição), pois não está escrita (explicitamente) no Pentateuco. Por isso, eles aplicam o ditado “Carpe diem” (aproveite o dia ou ser hedonista) ou salve-se quem puder. O divórcio entre eles é comum. Os saduceus adoram um Deus que justifica a sua vida materialista, um Deus que não exige a transformação de todo o sistema que os privilegia como a aristocracia em Israel.  No fim, este Deus é uma distorção, um “Deus dos mortos”. Por não acreditar na vida após a morte, eles perguntam a Jesus a partir de um caso especial como conta o evangelho deste dia.

Jesus se baseia nas Escrituras (Mc 12,24) ainda que, depois, se limite a citar uma passagem do Pentateuco para se adaptar a seus interlocutores. A resposta de Jesus está contida nas duas frases praticamente idênticas: ”Vós estais enganados (Mc 12,24) e “Vós estais muito enganados” (Mc 12,27). Por dois motivos: “Não conheceis as Escrituras nem o poder de Deus” (Mc 12,24). A passagem que Jesus cita é Ex 3,1-12 onde se narra como Deus apareceu a Moisés na sarça. Nessa cena Deus se define como o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacó, isto é, o Deus que atua na história e que quer continuar sendo, com o homem, protagonista da história. O Deus de Abraão é o Deus dos vivos, o Deus fonte de vida. A fé na ressurreição é indubitavelmente é uma consequência da fé em Deus, que o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó.

O homem que atua com Deus não pode ter como meta o fracasso da morte. A comunidade ou cada pessoa que tem a experiência com Jesus ressuscitado é um povo que vai além da história e é destinado para uma vida sem fim com Deus.

Além disso, Jesus olha para toda a revelação divina, inclusive a que teve lugar depois de Moisés na qual o conceito de ressurreição é evidente. Por exemplo, no Livro de Sabedoria onde se diz: “Deus criou o homem para a imortalidade” (cf. Sb 1,12-3,9; etc.). Para Jesus a vida dos ressuscitados é eterna, é imortal, como a dos anjos e por isso, não necessita perpetuar-se por geração.

Uma das coisas que sempre preocupam o homem é o seu destino final. O que passa depois da morte? Nós nos encontramos hoje diante da Palavra de Deus que toca um dos pontos mais difíceis de entender em nossa vida: a realidade da morte e a proposta cristã da Ressurreição. Ainda não entendemos as propostas cristãs da Ressurreição porque constantemente vivemos aferrados a uma falsa corporalidade pelo medo que nos inculcaram diante da realidade da morte. Cada dia os homens e as mulheres de nosso tempo vivem em um pânico constante diante da morte. Pânico que nos faz viver a vida de forma escrupulosa e de falsos moralismos.

Para o cristão, a resposta de Jesus ilumina este mistério e o faz viver em paz, pois agora sabe que não existe a morte e sim simplesmente uma transformação para quem vive no Senhor e com o Senhor e que se traduz na convivência fraterna com os demais.

A esperança na ressurreição é a força capaz de ordenar as realidades humanas numa escala de valores posta na vida eterna. Por isso, Jesus ensina que a vida eterna será dada na gratuidade e a universalidade na relação entre os homens, não haverá domínio de uns sobre outros, a existência será uma grande festa de vida eterna e plena. A ressurreição não pode ser entendida na perspectiva dos valores temporais. Isso é o que no texto significam os anjos.

Por outro lado, devemos entender no texto que Deus é um Deus dos vivos e não dos mortos. Devemos aprofundar sobre o mistério de um Deus que dá a vida, que transforma nosso ser, que nos ressuscita. Desta forma, o evangelista Marcos antecipa o conteúdo da ressurreição de Jesus como vida depois da morte e nos convida a descobrirmos o verdadeiro poder de Deus que transforma as forças da morte em forças de vida. O Deus que Jesus dá a conhecer é um Deus doador de vida e que deseja que as pessoas voltem a nascer de dentro com novos valores de vida e de justiça.

Diante da morte temos que ter uma atitude de acolhida e uma grande capacidade de tratá-la como fez São Francisco de Assis que chamava a morte de “a irmã Morte”, e diante da Ressurreição nós temos que entender o conteúdo de justiça que ela esconde.

A morte é um mistério, também para nós. Mas fica iluminada pela afirmação de Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto viverá” (Jo 11,25). Não sabemos como, mas estamos destinados a viver, a viver com Deus, participando da vida pascal de Cristo, nosso irmão. A ressurreição é a morte de nossa morte para vivermos eternamente com Deus. Santo Agostinho nos dá o seguinte conselho: “Confia em Deus; Ele sempre dá o que promete. Sabe o que promete, porque é a verdade. Pode prometer porque é onipotente. Dispõe de tudo porque é a própria vida. Oferece todas as garantias porque é eterno” (In ps. 35,13). “Deus, de quem separar-se é morrer, a quem retornar é ressuscitar, com quem habitar é viver. Deus de quem fugir é cair, a quem voltar é levantar-se, em quem apoiar-se é estar seguro. Deus, a quem esquecer é morrer, a quem buscar é viver, a quem ver é possuir” (Solil. 1,1,3). “A perda (de nossos entes queridos) que sofremos oprime-nos o coração, mas a esperança nos consola; nossa fraqueza natural nos acabrunha, mas a fé nos ergue outra vez; nossa condição mortal nos faz derramarmos copiosas lagrimas, mas as promessas de Deus as enxugam, acrescentou Santo Agostinho.

P. Vitus Gustama,svd

sábado, 30 de maio de 2026

Terça-feira Da IX Semana Comum, Ano Par, 02/06/2026

O HOMEM, CRIATURA DE DEUS, É A IMAGEM DO DEUS ABSOLUTO

Terça-Feira do IX Semana Comum

Primeira Leitura: 2Pd 3,12-15a.17-18

Caríssimos, 12 esperais com anseio a vinda do Dia de Deus, quando os céus em chama se vão derreter, e os elementos, consumidos pelo fogo, se fundirão? 13 O que nós esperamos, de acordo com a sua promessa, são novos céus e uma nova terra, onde habitará a justiça. 14 Caríssimos, vivendo nesta esperança, esforçai-vos para que ele vos encontre sem mancha e em paz. 15ª Considerai também como salvação a longanimidade de nosso Senhor. 17 Vós, portanto, bem-amados, sabendo disto com antecedência, precavei-vos, para não suceder que, levados pelo engano desses ímpios, percais a própria firmeza. 18 Antes procurai crescer na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A ele seja dada a glória, desde agora, até o dia da eternidade.

Evangelho: Mc 12,13-17

Naquele tempo, 13as autoridades mandaram alguns fariseus e alguns partidários de Herodes, para apanharem Jesus em alguma palavra. 14Quando chegaram, disseram a Jesus: “Mestre, sabemos que tu és verdadeiro, e não dás preferência a ninguém. Com efeito, tu não olhas para as aparências do homem, mas ensinas, com verdade, o caminho de Deus. Dize-nos: É lícito ou não pagar o imposto a César? Devemos pagar ou não?” 15Jesus percebeu a hipocrisia deles, e respondeu: “Por que me tentais? Trazei-me uma moeda para que eu a veja”. 16Eles levaram a moeda, e Jesus perguntou: “De quem é a figura e inscrição que estão nessa moeda?” Eles responderam: “De César”. 17Então Jesus disse: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. E eles ficaram admirados com Jesus.

______________

Viver o Presente Com Alegria Na Espera Da Vinda Gloriosa Do Senhor

Através do texto da Primeira Leitura o autor da Carta de Pedro nos convida a olharmos para o futuro vivendo bem o nosso hoje. “Caríssimos, esperais com anseio a vinda do Dia de Deus, quando os céus em chama se vão derreter, e os elementos, consumidos pelo fogo, se fundirão? O que nós esperamos, de acordo com a sua promessa, são novos céus e uma nova terra, onde habitará a justiça”. O cristão vive em uma tensão para o futuro na espera da vinda do Senhor. A vinda do Senhor, seja próxima ou distante, deve iluminar e dar sabedoria para nossa vida diária.

A linguagem do texto é apocalíptica: “Os céus em chama se vão derreter, e os elementos, consumidos pelo fogo, se fundirão”. Quando se passa do “dia dos homens” para o “Dia de Deus” é como se com fogo se destruísse uma cidade para construir outra nova. Não se passa deste mundo para o mundo de Deus em uma continuidade total. Segundo o autor da Carta não há que imaginar a eternidade como uma continuidade indefinida do tempo. Há uma ruptura.

Mas não podemos viver no pessimismo e sim otimismo, pois são apenas imagens que não devem ser tiradas em sentido material. Pelo contrário, deixemo-nos capturar pela extraordinária esperança que estas palavras sugerem: isto será para permitir o advento radical do mundo de Deus, o mundo da justiça, da beleza, do amor, da santidade. a vinda do mundo de Deus é a destruição total de toda injustiça, de toda feiura, de todo egoísmo, de todo mal!

Com efeito, os cristãos deveriam ser encontrados por Deus entre os primeiros em fazer crescer na terra essa justiça que será triunfante no mundo novo prometido por Deus: “O que nós esperamos, de acordo com a sua promessa, são novos céus e uma nova terra, onde habitará a justiça”. Para que tudo isso aconteça conforme a promessa devemos nos esforçar para viver sem mancha, para viver em paz, para viver em justiça sem nos deixar cair na mentira do mundo. Em resumo: “Procurai crescer na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo”. Se confiarmos plenamente nossa vida no Senhor, viveremos com alegria apesar das dificuldades que tem caráter passageiro.

Por isso, “Esforçai-vos para que Ele vos encontre sem mancha e em paz. Precavei-vos, para não suceder que, levados pelo engano desses ímpios, percais a própria firmeza. Procurai crescer na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo”, são conselhos e advertências do autor da Segunda Carta de São Pedro que lemos na Primeira Leitura de hoje.

Esta advertência é a consequência da vinda de Deus. Em outras palavras, o que devemos fazer como preparação para a vinda de Deus, embora o momento seja desconhecido, mas a própria vinda de Deus é certa? Quem espera a vinda de Deus deve viver uma vida sem mácula e irrepreensível, em paz. “Paz” neste contexto não se trata da tranquilidade do espirito e sim da salvação escatológica que agora já cabe ao batizado como fruto  da reconciliação com Deus por Jesus Cristo.

A Eucaristia que celebramos é alimento, luz e força para o caminho enquanto esperamos a gloriosa vinda de nosso Salvador, Jesus Cristo. Com o olhar posto na Páscoa de Jesus, vivamos com firmeza o nosso hoje apesar de seus desafios e dificuldades. Deus terá a última palavra sobre cada ser humano.

Nós Pertencemos Ao Senhor. Somos De Deus

Estamos no segundo episódio de choque entre as autoridades e Jesus (veja o primeiro em Mc 11,27-33). Estes dois choques têm a mesma ideia de fundo: indagar sobre a consciência que Jesus tem de si mesmo e de sua missão. Na resposta precedente, dada em forma de parábola (Mc 12,1-12), aparece sua consciência messiânica e, portanto, sua missão de libertador do povo. Mas como, de quem e de que Jesus liberta o povo?

No episódio do evangelho lido neste dia entram em ação alguns fariseus e herodianos (do partido de Herodes) enviados pelo Sinédrio que não pode pegar Jesus por causa do povo (medo do povo. O povo apesar de não ter cargo e de ser pobre causa medo nas autoridades por se tratar de uma maioria na sociedade.  A esse povo que os candidatos para o poder público “mendigar” voto de confiança). Esses dois grupos (fariseus e herodianos) já decidiram há muito tempo em eliminar Jesus (Mc 3,6). Agora querem apanhá-Lo “em alguma palavra”. A armadilha é essencialmente política, mas se disfarça, hipocritamente, de religiosidade e de adulação. Eles chamam Jesus de “Mestre”, algo insólito entre os fariseus e O definem como “verdadeiro” e que Jesus ensina o caminho de Deus.

Os fariseus e os herodianos apresentam a Jesus um problema ou um dilema aparentemente insolúvel: “Mestre, sabemos que tu és verdadeiro, e não dás preferência a ninguém. Com efeito, tu não olhas para as aparências do homem, mas ensinas, com verdade, o caminho de Deus. Dize-nos: É lícito ou não pagar o imposto a César? Devemos pagar ou não?”.

É lícito ou não pagar o imposto a César? Devemos pagar ou não?”. Todos odiavam os impostos pagos ao imperador pagão. Na época do nascimento de Jesus, uma rebelião contra o imposto foi chefiada por um galileu e foi esmagada cruelmente pelos romanos (cf. At 5,37).

Os fariseus e os herodianos lançam a pergunta a Jesus como uma cilada. Para eles, Jesus ficaria sem saída. Ou ele responde a favor do pagamento dos impostos e, com isso, ofende os sentimentos nacionalistas dos judeus. Ou Jesus se pronuncia contra o pagamento, abrindo-se, assim, para a acusação de rebelião contra Roma.

Jesus lhes pede a moeda para a imagem incisa na moeda. Na moeda estava incisa a imagem de Tibério com a coroa de laurel para indicar sua dignidade divina, e a inscrição: Tibério César, filho do divino Augusto. Olhando para a moeda, Jesus lhes pergunta: “De quem é a figura e inscrição que estão nessa moeda?” Os fariseus e os herodianos são obrigados a responder: “De César”. Eles mesmos estavam usando uma moeda romana, cunhada e posta em circulação pelo governo romano. Por meio de sua própria confissão, eles mostraram que estavam, de algum modo, debaixo do poder dos romanos; ou, então, aquele dinheiro romano não seria válido entre eles. Na realidade, eles usam a mesma moeda para vender e para comprar. Os fariseus e os herodianos tinham a moeda e a levavam ao Templo. Isto significa que eles profanaram o Templo com uma imagem de um pagão.

Mas o que interessa ao evangelista Marcos é outra coisa: o ensinamento de Jesus é o único que tem valor para a comunidade cristã. Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. Logicamente, o ensinamento está na segunda parte: “Devolva a César o que é de César”. Podem ser propriedade uma moeda e um território, mas cada homem é propriedade de Deus, feito a imagem de Deus.

Jesus relativiza o insolúvel problema introduzindo Deus no horizonte do problema: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus. Quando o ser humano conta com Deus, tudo tem sua solução. O surpreendente de Jesus é que quando introduz Deus Ele não faz discursos sobre Deus. Jesus simplesmente vive de Deus, fala com Ele, O presente e O sente. Para Jesus Deus é Alguém, e não algo. É Alguém com quem conta em quaisquer momentos. É Alguém com quem Jesus convive. “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30).

Devolva a Cesar o que é do César”, diz Jesus. Mas somente devolver o que é do César e não tudo o que o poder pretende com todo seu aparato coercitivo. Por isso, Jesus acrescenta: “Devolva a Deus o que é de Deus”. Isto significa que nem tudo é do César, ou seja, que o poder do Estado não é absoluto. Na linguagem política os limites do poder político radicam na soberania popular, no reconhecimento e na declaração dos direitos humanos. Na linguagem espiritual ou religiosa o que se enfatiza é que os poderes do Estado ou qualquer poder estão limitados pela soberania de Deus, pois Deus criou o homem a sua imagem e semelhança. Assim expressa o profeta Isaias do seguinte modo: “Eu sou Deus. Não há outro Deus fora de mim” (cf. Is 45,20-25). A existência de Deus, o Absoluto, é a negação de qualquer outro que se apresente como absoluto. Só há um Deus, o resto não é Deus.

Na verdade, aqui não há uma verdadeira oposição, baseada no Evangelho, entre o que é do César e o que é Deus. Dar ou devolver a Deus o que é lhe devido implica que seja dado a César o que somente lhe pertence. O Reino de Deus não se situa fora dos reinos terrestres que são assumidos por Deus em Jesus Cristo. Por isso, não se pode ser cristão autentico à margem das realidades. O cristão é chamado e enviado para ser o sal e a luz do mundo (cf. Mt 5,13-16) para que ninguém explore ninguém, pois todos são filhos do mesmo Pai. O cristão na vida política deve ser justo. A obediência cívica não pode estar em contradição com deveres com Deus. Jesus respeita a autonomia do poder político, mas ao mesmo tempo afirma implicitamente que as estruturas políticas, representadas neste caso pelo imperador romano, não podem nunca ser divinizadas. Somente Deus é Deus.

Às vezes podemos cair na tentação de pensar que o evangelho e a vida cristã se reduzem à mera vida espiritual. O evangelho de hoje nos mostra que não é assim. A vida do evangelho toca todas as áreas da vida, e entre elas a vida econômica e a da justiça. “Devolva a César o que é do César e a Deus o que é de Deus” é o princípio da justiça equitativa, que, todavia, está longe da justiça cristã. Pagar o que se deve são deveres elementares de justiça. A injustiça não cabe na vida do cristão. Devolvamos a cada um o que lhe é próprio e nossa vida se encherá de paz e de alegria. Podemos até ganhar na justiça humana. Mas precisamos estar conscientes de que ainda resta a justiça divina, como diz São Paulo: “Todos nós teremos de comparecer manifestamente perante o tribunal de Cristo, a fim de que cada um receba a retribuição do que tiver feito durante sua vida no corpo, seja para o bem, seja para o mal” (2Cor 5,10).

“Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. Com sua resposta, Jesus não põe Deus e o César no mesmo plano e muito menos considera como independentes ambas realidades. É idolatria colocar em pé de igualdade Deus e César, o Criador e as criaturas (César). O âmbito da criatura é limitado, pois a criatura está cheia de limitações. O Criador tem tudo sob seu domínio. Por isso, Jesus jamais se submetia aos tiranos deste mundo que são simplesmente criaturas limitadas cuja existência neste mundo tem seu fim. De certa forma, podemos dizer que somos “moedas” de Deus, pois somos imagem e semelhança de Deus.

P. Vitus Gustama,svd

Segunda-feira Da IX Semana Comum, 01/06/2026

EU PRECISO VIVER NO AMOR, POIS DEUS ME AMA ATÉ AS ÚLTIMAS CONSEQUÊNCIAS

Segunda-Feira da IX Semana Comum

Primeira Leitura: 2Pd 1,2-7

Caríssimos, 2 graça e paz vos sejam concedidas abundantemente, porque conheceis Deus e Jesus, nosso Senhor. 3 O seu divino poder nos deu tudo o que contribui para a vida e para a piedade, mediante o conhecimento daquele que, pela sua própria glória e virtude, nos chamou. 4 Por meio de tudo isso nos foram dadas as preciosas promessas, as maiores que há, a fim de que vos tornásseis participantes da natureza divina, depois de libertos da corrupção, da concupiscência no mundo. 5 Por isso mesmo, dedicai todo o esforço em juntar à vossa fé a virtude, à virtude o conhecimento, 6ª o conhecimento o autodomínio, ao autodomínio a perseverança, à perseverança a piedade, 7 à piedade o amor fraterno e ao amor fraterno, a caridade.

Evangelho: Mc 12,1-12

Naquele tempo, 1Jesus começou a falar aos sumos sacerdotes, mestres da Lei e anciãos, usando parábolas: “Um homem plantou uma vinha, cercou-a, fez um lagar e construiu uma torre de guarda. Depois arrendou a vinha a alguns agricultores, e viajou para longe. 2Na época da colheita, ele mandou um empregado aos agricultores para receber a sua parte dos frutos da vinha. 3Mas os agricultores pegaram o empregado, bateram nele, e o mandaram de volta sem nada. 4Então o dono mandou de novo mais um empregado. Os agricultores bateram na cabeça dele e o insultaram. 5Então o dono mandou ainda mais outro, e eles o mataram. Trataram da mesma maneira muitos outros, batendo em uns e matando outros.6Restava-lhe ainda alguém: seu filho querido. Por último, ele mandou o filho até os agricultores, pensando: ‘Eles respeitarão meu filho’. 7Mas aqueles agricultores disseram uns aos outros: ‘Esse é o herdeiro. Vamos matá-lo, e a herança será nossa’. 8Então agarraram o filho, o mataram, e o jogaram fora da vinha. 9Que fará o dono da vinha? Ele virá, destruirá os agricultores, e entregará a vinha a outros.10Por acaso, não lestes na Escritura: ‘A pedra que os construtores deixaram de lado tornou-se a pedra mais importante; 11isso foi feito pelo Senhor e é admirável aos nossos olhos’?” 12Então os chefes dos judeus procuraram prender Jesus, pois compreenderam que havia contado a parábola para eles. Porém, ficaram com medo da multidão e, por isso, deixaram Jesus e foram-se embora.

______________________

Somos Chamados a Viver Na Graça e Na Paz de Deus

Voltamos a ler a Carta de são Pedro. Desta vez a Segunda Carta. Há uma unanimidade entre os estudiosos de que esta Segunda Carta não é atribuída a Pedro, Apóstolo. Há uma enorme diferença de estilo e de vocabulário com a Primeira Carta. Além disso, nesta Segunda Carta há o acentuado helenismo religioso e moral que a Carta respira. Por causa disso e de outros tantos argumentos conclui-se que o autor da carta devia ser um judeu-cristão com sólida formação helenística e bom conhecedor da vida e catequese de Pedro.

A Segunda Carta de são Pedro começa com a típica saudação de uma carta, que inclui remetente, destinatários e a fórmula de saudação: “Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo, aos que receberam, pela justiça de nosso Deus e Salvador Jesus Cristo uma fé de valor igual à nossa, Graça e paz vos sejam concedidas abundantemente, porque conheceis Deus e Jesus, nosso Senhor”.

Uma das saudações no início da celebração eucarística é esta: “A graça e a paz de Deus, nosso Pai, e de Jesus Cristo, nosso Senhor, estejam convosco”. A cada participante da celebração são desejadas a graça e a paz.

Graça e paz resumem os bens da salvação que são dadas ao cristão e que são lembradas nas nossas celebrações. O termo “graça” significa benefício absolutamente gratuito, livre e sem motivo (cf. Ex 33,19; 34,6; 33,12). Para cada cristão é desejada a graça, isto é, a benevolência de Deus. Na graça se encontra nossa identidade mais profunda, pois somos salvos pela benevolência de Deus. São Paulo escreveu: “Pela graça de Deus, sou o que sou” (1Cor 15,10). E esta benevolência nos torna novamente agradáveis a Deus: “O seu divino poder nos deu tudo o que contribui para a vida e para a piedade, mediante o conhecimento daquele que, pela sua própria glória e virtude, nos chamou (2Pd 1,3).  O Deus da Bíblia não só nos concede graça, mas Deus é graça (cf. Ex 33,19; 3,14). Deus existe para si e também existe para nós. Deus é graça.

São Pedro também deseja a paz. A palavra “paz” é uma tradução da palavra “Shalom” que é uma harmonia total com Deus, com o próximo, consigo próprio e com a natureza. É tudo de bom de nossa vida. A paz, “Shalom” é concedida para nós por Cristo em nova glória. Esta paz cria a ordem para nossa interioridade e a comunhão entre os homens. Onde há paz, há ordem. A ordem existe quando cada elemento ocupa seu lugar e desempenha seu próprio papel em prol do funcionamento da totalidade. A paz é a restauração daquela ordem que o homem perdeu pelo pecado. Viver em pecado é viver sem paz.

Esses dons, graça e paz, devem ser aumentados pelo conhecimento e a experiência que fazemos com Jesus Cristo. O convívio permanente com Jesus Cristo no amor aumenta graça e paz na nossa vida: “Graça e paz vos sejam concedidas abundantemente (se multiplicam), porque conheceis Deus e Jesus, nosso Senhor”. Alcançamos graça e paz pelo conhecimento daquele que nos chamou: Jesus Cristo.

O convívio permanente com Jesus Cristo nos coloca longe da corrupção do mundo: “Por meio de tudo isso nos foram dadas as preciosas promessas, as maiores que há, a fim de que vos tornásseis participantes da natureza divina, depois de libertos da corrupção, da concupiscência no mundo” (2Pd 1,4). Participar da natureza divina é participar da própria vida de Deus. À participação da natureza divina se opõe a corrupção, como à vida eterna se opõe a morte eterna, isto é, exclusão da salvação. Cai na corrupção quem cede à concupiscência: “Quem pretende ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus” (Tg 4,4). Quem procurar seguir sempre seus desejos, quem desejar bastar-se a si mesmo e ser independente de Deus, cairá na perdição e fica distante de Deus.

São Pedro, na Primeira Leitura de hoje, pede a todos o empenho para poder permanecer na graça e na paz: Dedicai todo o esforço em juntar à vossa fé a virtude, à virtude o conhecimento, o conhecimento o autodomínio, ao autodomínio a perseverança, à perseverança a piedade, à piedade o amor fraterno e ao amor fraterno, a caridade” (2Pd 1,6-7).

A fé plena é entrega de si mesmo à Palavra e à vontade de Deus. A fé é a raiz da vida cristã. Da fé brota a virtude. Virtude é uma disposição adquirida de fazer o bem. A virtude em si é o próprio bem. Virtude é o esforço para se portar bem. Tem virtude aquele que cumpre a vontade de Deus.

É preciso acrescentar o conhecimento à virtude. Conhecer não é apenas aprender intelectualmente, mas aprofundar-se no amor. O agir correto, o esforço de fazer o bem aumenta nosso conhecimento. Sob a luz divina enxergamos de modo diferente as coisas e os acontecimentos ao nosso redor e o seu sentido.

O conhecimento se alcança através da perseverança, isto é, a capacidade de resistir em função da meta a ser alcançada. Quem aprende a dominar-se, também tem capacidade de lutar até o fim. Os bens elevados somente podem ser alcançados pelo esforço e pela luta sustentados com ânimo forte.

Mas somente conseguirá honrar verdadeiramente Deus aquele que tem piedade, aquele que se mantém filho de Deus, aquele que se conserva firme no combate contra o prazer desordenado e contra as potências que se opõem a Deus.

Mas não basta ter piedade. É preciso acrescentar a caridade fraterna na piedade. A verdadeira caridade se comprova na caridade operosa, como o amor recíproco na comunidade, a solicitude para com os outros, na bondade silenciosa. Se amarmos os outros no espirito de Cristo, chegaremos à plenitude do amor semelhante ao amor que Deus possui. A caridade é o “vínculo da perfeição” (Cl 3,14), pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16).

Para ser recordado, isto é, para colocar outra vez no coração o conselho do autor da Segunda Carta de Pedro: “Dedicai todo o esforço em juntar à vossa fé a virtude, à virtude o conhecimento, o conhecimento o autodomínio, ao autodomínio a perseverança, à perseverança a piedade, à piedade o amor fraterno e ao amor fraterno, a caridade”. A fé é a raiz da vida cristã de onde brota a virtude. A fé é assentimento à verdade e a entrega a Deus que se revela. O que necessitamos estar consciente de que na fé a virtude, na virtude o conhecimento, no conhecimento a temperança, na temperança a paciência, na paciência a piedade, na piedade a fraternidade, na fraternidade a caridade.

Deus Nos Ama Incondicionalmente

O profeta Jeremias, Ezequiel, Isaias (especialmente Is 5,1-7) e os Salmos chamam Israel “a vinha do Senhor”. O Dono da vinha é Javé. Os vinhateiros representam os líderes religiosos, cuja responsabilidade era a de cultivar a fé do povo. Apesar de Israel ser infiel, Deus nunca deixou de ser fiel à Aliança. Os servos enviados eram todos os mensageiros que Deus tinha enviado a Israel para que todo o povo se convertesse. A rejeição e a matança recorda a maneira com que Israel tratava os mensageiros de Deus (cf. 2Cr 24,20-22; 36,15-16). Como o último recurso de amor, Deus enviou aquele que lhe restou: “O Filho amado”. Foi justamente este o título dado a Jesus pela Voz celestial, já duas vezes no evangelho (cf. Mc 1,11: no Batismo de Jesus; Mc 9,7: na Transfiguração). O Jesus de são Marcos mostra a sua consciência de ser O Filho Amado que o Pai enviou a Israel. E a Igreja/comunidade de Marcos, lendo a frase, reconhece em Jesus o Filho de Deus (Mc 1,1) a quem ela adora.

Notemos na parábola contada por Jesus a bondade especial de Deus para com a comunidade e a nação judaica. Deus plantou-os em uma excelência terra, tendo expulsado dali sete outras nações. Deus deixou de lado nações maiores e mais poderosas, a fim de mostrar favor para Israel.

A parábola que Jesus conta é introduzida perfeitamente nessa linha profética e serve para contestar às duas perguntas que as autoridades judeus fizeram a Jesus: “Com que autoridade fazes tudo isso? Quem te deu essa autoridade?”. Jesus contesta relatando com imagens toda a história de Seu povo e oferece também aos seus discípulos e, portanto, para todos os cristãos, a possibilidade de saber quem somos nós para Ele. Através desta parábola Jesus respondeu à primeira pergunta: “Com a autoridade do Servo de Deus, com a autoridade do Filho de Deus”. E para a segunda pergunta, Jesus respondeu através desta parábola: “Quem deu essa autoridade é o Dono da vinha, o Deus de Israel, que é meu Pai”.

O texto do evangelho deste dia nos diz: “Agora restava ainda alguém: o filho amado. Por último, então, enviou o filho aos agricultores, pensando: ‘A meu filho respeitarão’. Mas aqueles agricultores disseram uns aos outros: ‘Este é o herdeiro. Vamos matá-lo, e a herança será nossa’. Agarraram o filho, mataram e o lançaram fora da vinha” (Mc 12,6-8). 

Restava ainda alguém: o filho amado”. É uma expressão que nos desconcerta toda vez que a lemos e sobre a qual refletimos e meditamos. Parece que Deus fica à margem da pobreza. Resta apenas o próprio Filho. Mais nada! Por causa dos homens e por causa do Seu amor sem limites pelos homens Deus usa todos os recursos e todas as possibilidades. Os recursos se esgotaram. Agora resta apenas seu Filho. Deus é verdadeiramente o pobre por excelência, porque nos deu tudo. Até seu próprio Filho, o ultimo que restou. Significa que Deus nos toma a sério e deixa o campo livre para que atuemos com plena responsabilidade. Mas Deus é impotente diante da liberdade do homem. O homem é responsável pela sua própria escolha. No momento em que o homem não respeitar as regras e as placas da vida que apontam para sua plena realização e para a eternidade, ele perderá sua liberdade e cairá em uma série de prisões e escravidões.

Não há pai que entregue seu filho amado para os criminosos a fim de resgatar algo ou alguém. Deus é diferente, o Diferente por excelência. Ele entrega seu Filho amado como resgate a fim de o homem ficar livre do cativeiro da perdição e da maldição (cf. Mt 20,28; Mc 10,45; Gl 3,13; 1Tm 2,6). É muito difícil entender e compreender a atuação de Deus. Até o salmista faz esta pergunta retórica: “Quando olho para o teu céu, obra de tuas mãos, vejo a lua e as estrelas que criaste: Quem é o homem, para dele te lembrares, quem é o ser humano, para o visitares? Ó SENHOR, Senhor nosso, como é glorioso o teu nome em toda a terra!” (Sl 8, 4-5.10). Somente quando calarmos nossa mente, o nosso coração vai começar a compreender tudo que Deus faz por nós e vai haver uma adequada correspondência de nossa parte.

Jesus é verdadeiramente o último, o “eskatos”, da perspectiva de Deus.  Não é o último em relação ao tempo, não o último de uma série de intentos. O último quer dizer o definitivo, tudo. Depois do qual não fica mais nada. Agora Deus é verdadeiramente o pobre por excelência. Pobre porque deu tudo. Em sua incurável paixão pelos homens não ficou com nada, nem com o seu próprio Filho.

A conduta dos lavradores se julga durante a ausência do patrão. O patrão confia tudo nos lavradores e por isso, não precisa estar presente. O Deus da confiança é também o Deus da ausência. Mas há que compreender exatamente esta ausência. Não se trata nem de abandono, nem de evasão nem de deserção. É um sinal de amor. É um Deus que pretende atuar exclusivamente através do amor, pois este caminho é que leva o homem à sua plenitude, à eternidade. Cristo morreu perdoando o homem.

’ Este é o herdeiro. Vamos matá-lo, e a herança será nossa’. Agarraram o filho, mataram e o lançaram fora da vinha”. Deus não manda Seu Filho para a morte: Ele o ama incondicionalmente. Por outro lado, a morte é um mal, e o Deus da vida não pode querê-la. Por isso, quem mata ou assassina comete pecado; vai contra a vontade de Deus. O castigo não cai sobre a vinha e sim sobre os guardiões. A vinha do Senhor seguirá, mas será um novo Israel, um novo Povo de Deus, o verdadeiro templo de Deus (cf. 1Cor 3,16-17) que tem como centro Jesus Cristo. Jesus morto e recusado pelos sumos sacerdotes, os escribas, e os anciãos, e ressuscitado pelo Pai, se converte em fundamento de um novo povo que é, ao mesmo tempo, continuação do antigo: a vinha passa a outros. Antigo e novo coexistem. As primeiras comunidades cristãs estavam compostas principalmente por judeus, isto é, pelo resto fiel de Israel que acolheu Jesus como Messias e Filho de Deus e por muitos que provinham do mundo pagãos e formavam com, como o resto de Israel, o novo e definitivo povo de Deus. O novo é realmente, com Jesus, a casa do Pai para todos os povos. É uma das mensagens do evangelho deste dia.

Cada um precisa entrar no silêncio sagrado para meditar sobre o amor incondicional de Deus por cada um e a resposta de cada um diante desse amor. Será que sou ingrato diante do amor de Deus? Será que sou irresponsável na minha atuação como pessoa amada de Deus? Será que eu vivo de acordo com o amor com que Deus me ama? Será que sou capaz de dar tudo por amor?  De que maneira eu devo reagir diante dos mensageiros de Deus?

P. Vitus Gustama,svd

Corpus Christi, Solenidade, 04/06/2026

SOLENIDADE DO SANTÍSSIMO CORPO E SANGUE DE CRISTO ANO “A” Primeira Leitura: Dt 8,2-3.14-16 Moisés falou ao povo, dizendo: 2 Lembra-te de...