segunda-feira, 15 de junho de 2026

Quarta-feira Da XI Semana Comum, Ano Par, 17/06/2026

VIVER NA INTERIORIDADE E NA AUTENTICIDADE CONFORME O ESPÍRITO DO SENHOR

Quarta-Feira da XI Semana Comum

Primeira Leitura: 2Rs 2,1.6-14

1 Quando o Senhor quis arrebatar Elias ao céu, num redemoinho, Elias e Eliseu partiram de Guilgal. 6 Tendo chegado a Jericó, Elias disse a Eliseu: “Permanece aqui, porque o Senhor me mandou até o Jordão”. E ele respondeu: “Pela vida do Senhor e pela tua, eu não te deixarei”. E partiram os dois juntos. 7 Então, cinquenta dos filhos dos profetas os seguiram, e ficaram parados, à parte, a certa distância, enquanto eles dois chegaram à beira do Jordão. 8 Elias tomou então o seu manto, enrolou-o e bateu com ele nas águas, que se dividiram para os dois lados, de modo que ambos passaram a pé enxuto. 9 Depois que passaram, Elias disse a Eliseu: “Pede o que queres que eu te faça antes de ser arrebatado da tua presença”. Eliseu disse: “Que me seja dada uma dupla porção do teu espírito”. 10 Elias respondeu: “Tu pedes uma coisa muito difícil. Se me vires quando me arrebatarem da tua presença, isso te será concedido; caso contrário, isso não te será dado”. 11 E aconteceu que, enquanto andavam e conversavam, um carro de fogo e cavalos de fogo os separaram um do outro, e Elias subiu ao céu num redemoinho. 12 Eliseu o via e gritava: “Meu pai, meu pai, carro de Israel e seu condutor!” Depois, não o viu mais. E, tomando as vestes dele, rasgou-as em duas. 13 Em seguida, apanhou o manto que Elias tinha deixado cair e, voltando sobre seus passos, estacou à margem do Jordão. 14 Tomou então o manto de Elias e bateu com ele nas águas dizendo: “Onde está agora o Deus de Elias?” E bateu nas águas, que se dividiram, para os dois lados, e Eliseu atravessou o rio.

Evangelho: Mt 6,1-6.16-18

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 1“Ficai atentos para não praticar a vossa justiça na frente dos homens, só para serdes vistos por eles. Caso contrário, não recebereis a recompensa do vosso Pai que está nos céus. 2Por isso, quando deres esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem elogiados pelos homens. Em verdade vos digo: eles já receberam a sua recompensa. 3Ao contrário, quando deres esmola, que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua mão direita, 4de modo que, a tua esmola fique oculta. E o teu Pai, que vê o que está oculto, te dará recompensa. 5Quando orardes, não sejais como os hipócritas, que gostam de rezar em pé, nas sinagogas e nas esquinas das praças, para serem vistos pelos homens. Em verdade, vos digo: eles já receberam a sua recompensa. 6Ao contrário, quando tu orares, entra no teu quarto, fecha a porta, e reza ao teu Pai que está oculto. E o teu Pai, que vê o que está escondido, te dará a recompensa. 16Quando jejuardes, não fi­queis com o rosto triste como os hipócritas. Eles desfiguram o rosto, para que os homens vejam que estão jejuando. Em verdade, vos digo: Eles já receberam a sua recompensa. 17Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto, 18para que os homens não vejam que estás jejuando, mas somente teu Pai, que está oculto. E o teu Pai, que vê o que está escondido, te dará a recompensa”.

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Quem Vive De Acordo Com o Espírito Divino Permanece Vivo Em Deus

A primeira Leitura fala da última passagem do profeta Elias neste mundo na presença de seu discípulo Eliseu. Fala-se  do arrebatamento de Elias ao céu. A finalidade do texto é introduzir o ciclo do profeta Eliseu, sucessor legítimo do profeta Elias no ministério profético. Portanto, a autoridade do profeta Eliseu serve como herdeiro privilegiado do espírito profético do seu grande mestre, o profeta Elias.

A passagem de Elias deste mundo é misteriosa: “Aconteceu que, enquanto andavam e conversavam, um carro de fogo e cavalos de fogo os separaram um do outro, e Elias subiu ao céu num redemoinho”. Um profeta de alma de fogo, como Elias, não podia desaparecer sem ser no “fogo”, símbolo de Deus. Isto significa que Elias está em Deus. Elias permanece vivo.

Na transfiguração, Pedro, Tiago e João viram Jesus conversando com Moisés e Elias (Mc 9,2-13; Mt 17,1-13; Lc 9,28-36). Através dessas páginas evangélicas está a afirmação de nossa fé no mais além, na supervivência. “Creio na comunhão dos santos... Creio na ressurreição da carne... Creio na vida eterna”, assim professamos no nosso Credo. A morte não é o ponto final para nossa vida. Na morte estamos indo para a casa do Pai (Cf. Jo 14,1-3). Pensemos nos inumeráveis “viventes” que estão em Deus, inclusive nossos familiares, amigos e tantos outros (Cf. Ap 7,4.9-14).

No tempo de Jesus, a crença popular esperava o retorno de Elias que devia preceder o Messias. Assim o povo perguntava a João Batista: “Quem és? És tu Elias?(Jo 1,21). Além disso,  na anunciação do nascimento de João Batista o anjo disse a Zacarias: “Ele (João Batistas) estará com o espírito e poder de Elias(Lc 1,17). E um dia, Jesus dirá quando fala de João Batistas: “Se quiserdes dar crédito, ele é o Elias que deve vir(Mt 11,14).

A divisão das águas do Jordão onde passam o profeta Elias e seu discípulo Eliseu é um eco do episódio do mar Vermelho (cf. Ex 14,21). Assim o autor do segundo Livro dos reis quer colocar mais uma vez em paralelo as figuras de Moisés e de Elias.

Na sua última passagem deste mundo, o profeta Elias proíbe Eliseu de segui-lo, repetidamente. Mas Eliseu lhe respondeu: “Pela vida do Senhor e pela tua, eu não te deixarei”. A repetição da proibição quer enfatizar as provas que o discípulo deve superar para ser testemunha privilegiada do mestre. A contemplação da partida do profeta Elias serve para Eliseu como sinal e garantia da sucessão.

Além disso, na despedida, Eliseu pede a Elias: “Que me seja dada uma dupla porção do teu espírito”. Eliseu quer que tenha o espírito de Elias. Elias é o homem sempre à escuta de Deus e cumpre a ordem de Deus, e é enviado (por Deus) para estar sempre próximo dos homens, apesar dos medos e das perseguições, a fim de restabelecer a Aliança entre Deus e os homens.

Aconteceu que, enquanto andavam e conversavam, um carro de fogo e cavalos de fogo os separaram um do outro, e Elias subiu ao céu num redemoinho”. Diante de um texto como este, não cabe perguntar se as coias assim aconteceram. É preciso perguntar o que significam.  Só a fidelidade consomem os fieis. Somente Deus é a meta dos que buscam o Deus único.

Se Elias não morreu, se ele vive no céu em Deus é verdade também que continuará vivendo aqui na terra em seus sucessores, seus discípulos, nos que prosseguem sua missão. O manto de Elias é herança, símbolo de seu espirito. O “manto de Elias”, símbolo de seu papel de profeta, passa aos ombros de Eliseu. Eliseu recolheu o manto de Elias e com ele volta a dividir as águas de Jordão. Ao Eliseu receber o manto de Elias, o texto quer nos dizer que Eliseu é o legítimo sucessor de Elias, como profeta.

Com uma série de gestos simbólicos -o rio Jordão com sua memória de Josué e do povo entrando na terra prometida, o manto sobre a água, o "ver ou não ver" do profeta em sua despedida, o carro de fogo-, Eliseu é consagrado como profeta de Deus, entre os discípulos que Elias formou como o grupo dos fiéis à aliança de Deus, que não adoravam Baal.

Quem é Elias e Eliseu hoje entre nós? Quem pode ser Elias e Eliseu hoje entre nós? No Batismo quando o sacerdote/diácono unge nossa fronte (unção pós-batismal) diz a seguinte frase: “... Que Deus consagre....com o óleo santo para que, inseridas em Cristo, sacerdote, profeta e rei, continuem no seu povo até a vida eterna”. No batismo recebemos, então, a missão profética: missão de anunciar a Boa Nova e denunciar tudo que se opõe à Boa Nova.

Homens de Deus, como Elias, são homens espirituais, isto é, homens que vivem de acordo com o espírito do Senhor, transfigurados por dentro; são homens que dentro deles tem manancial; homens que mana “a água viva”. Os que vivem de acordo com o Espírito do Senhor não morrem, mas fazem uma passagem deste mundo, por força de Deus, para o mundo de Deus. Os que estão transfigurados por dentro pelo Espírito de Deus, permanecem vivos em Deus como o profeta Elias. Os que vivem de acordo com o Espírito de Deus são levados por Deus para estar junto a Ele eternamente. Os que vivem de acordo com o Espírito de Deus se perpetuam na terra através de suas palavras, ações e obras e se tornam nossos irmãos que rezam por nós diante de Deus, pois somos um só diante de Deus. homens como Elias não morrem nunca. Toda a sua trajetória foi a dos que vivem morrendo  de amor pelo Senhor e pelo  próximo.

Somos Chamados a Viver Na Interioridade e Na Autenticidade

Ficai atentos para não praticar a vossa justiça na frente dos homens só para serdes vistos por eles. Caso contrário, não recebereis a recompensa do vosso Pai que está nos céus” (Mt 6,1). O texto do evangelho de hoje pertence ao Sermão da Montanha (Mt 5-7). Através de sua Palavra de hoje o Senhor nos convida a vivermos na interioridade e na autenticidade, pois esse modo de viver nos traz a paz e a felicidade. Quando nossa interioridade ficar vazia, procuraremos algo fora de nós para nos apoiar. Somente usa a bengala quem tem pernas fracas para caminhar. Quem vive na interioridade a partir da interioridade, isto é, viver de acordo com os valores, não precisa provar que é importante. uma pessoa é valorizada pelos valores vividos e não pelos bens que se tem.

Através do Sermão da Montanha, Jesus quer que nossa vida seja na interioridade e na autenticidade; que não busquemos elogios nem a aprovação nem a recompensa; que busquemos apenas o bem e vivamos de acordo com ele. Simplesmente trabalhemos pelo bem. Em nome do bem, não temamos a reprovação nem o esquecimento nem a ingratidão. Basta viver com Deus, para Deus e na Sua presença. O que conta na nossa vida não é a opinião que os demais podem/possam ter de nós, e sim o que pensa Deus de nós, pois somente Deus tem capacidade de nos ver por dentro. É um deixar-se julgar por Deus, deixar-se interrogar por Ele, deixar-se impugnar por Ele. Por isso, é uma exigência muito mais forte do que a exigência dos homens e de todos os tipos de comentários.

Agradar a Deus exige um desprendimento de si infinitamente maior do que agradar os homens. Mas esta exigência é apaziguadora porque procede do interior, não busca vaidade nem vantagens humanas, nem exibicionismo nem apresentação teatral ao ajudar os demais ou ao fazer o bem. É preciso viver na autenticidade. É preciso saber distinguir o que apresentamos e o que representamos; o que é apresentação e o que é representação. Não basta apresentação, é preciso saber o que você está representando em tudo que você diz, comenta e faz.

Jesus nos alerta para vivermos na interioridade porque os mais belos gestos da verdadeira religião como a esmola, jejum e oração, podem, por desgraça, ser desviados de seu sentido: busca apenas de si mesmo, dos próprios interesses. A hipocrisia religiosa é pior de todas porque ela pode afastar as pessoas de Deus, especialmente os mais simples. Que nossa caridade seja invisível para os olhos dos homens, mas visível para os olhos de Deus. As obras de piedade não devem ser praticadas para ganhar prestígio diante dos homens e com isto, adquire uma posição de poder ou privilégio. Quem faz assim se priva da comunicação divina, cessa a relação de filho-Pai com Deus.

Quando se trabalha somente por Deus ou para Deus no bem praticado pelo bem do homem não há perigo de cair na demagogia, na adulação e no compromisso interesseiro. Na presença de Deus não há lugar para oportunismos nem para os oportunistas. A vida cristã há de ser vivida na simplicidade. Não podemos confundir o testemunho com teatralidade.

Três Práticas de Piedade: a Esmola, a Oração e o Jejum

Dar a esmola é uma prática comum no AT (cf. Dt 15,7-10; PR 11,17; Tb 4,7-11; Dn 11,17). Em Dn 4,24 versão LXX  a esmola se expressa com o termo “justiça”. Segundo o dito dos antigos, a esmola une a quem a dá com o pobre, seu irmão, filho de Deus, e com Deus. Daí a sentença de Jesus: “... não toques a trombeta diante de ti”. Ou seja, não busques tua glória, humilhando o pobre, pois perderias toda recompensa diante de Deus. Viva a misericórdia no Senhor, realiza teu dever para com o próximo necessitado. No NT, a comunidade cristã sente e vive em profundidade este compromisso.

É um convite para a prática de misericórdia para os pobres. A esmola une quem a dá com quem a recebe e com Deus, segundo os antigos. Por isso é que Jesus disse: “Quando deres esmola, não toques a trombeta diante de ti..”, isto é, não buscar a própria glória, humilhando o pobre, pois perderia a recompensa de Deus e diante de Deus. É preciso ajudar o pobre pelo seu bem e não pelo bem de quem presta a ajuda. É o bem pelo bem. Mais nada! O fim da própria atuação ao dar esmola é unir-se a Deus, o Pai que vê tudo em segredo.

No NT, a comunidade cristã vive profundamente esse compromisso (cf. Lc 4,18-21; At 2,42-46; 4,32.37; 2Cor 8,9.13). Quem dá esmola quer restabelecer a relação com o pobre. A situação de pobreza é contrária à vontade de Deus (cf. Mt 5,1-12) e, por isso, quem dá esmola cumpre a vontade de Deus. No entanto, o gesto de dar esmola deve ser fruto de cálculos egoístas e sim de uma verdadeira comunhão de bens: “Que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua mão direita”. Ao mesmo tempo a esmola não pode favorecer à preguiça pela facilidade em ganhar bens (dinheiro e outros bens materiais) por parte de quem a recebe. Não podemos trabalhar somente pelo pobre; temos que trabalhar com o pobre. Se você fizer um benefício ou um bem, nunca se lembre dele; se você receber um, nunca se esqueça dele.

A segunda prática de piedade é a oração. Não tem como não rezar se o homem leva a sério seu ser; se o homem vive sua vida na profundidade. A oração aproxima a terra ao céu. A oração derruba o muro que separa a humanidade de Deus. Oração leva quem reza para a esfera divina e introduz o homem no terreno sagrado. Mas Jesus nos alerta que o momento de oração não é um momento de ostentação. Quem reza, busca Deus e não a própria glória ou para ser visto pelos demais. Por isso, Jesus insiste na prática da interioridade. Jesus nos ensina que precisamos buscar momentos de encontro pessoal com o Pai e manter as conversas com Ele.

Além disso, Jesus acrescenta que o importante na oração não é a materialidade das palavras e sim como se vivem essas palavras no coração e como se pode expressar através delas a própria relação com o Pai e sentir-se em sintonia com Ele. Se o momento de oração é o momento de conversar com o Pai, logo o momento de oração é o momento de Deus se revelar. Para Deus se revelar é preciso criar o silêncio. O silêncio possibilita a presença da Eternidade no nosso presente.

A terceira prática da piedade é o jejum. Na tradição do Povo de Deus tanto o jejum como a esmola e a oração são fundamentos da relação: Deus-homem (eu)-irmãos. No AT se pratica também o jejum comunitário, por exemplo, no dia da Expiação (cf. Lv 16,29; 23,27). Jesus não elimina a prática de piedade; Ele quer que a cumpramos com sinceridade, sem nenhum tipo de hipocrisia. Todo sinal externo de jejum pessoal deve desaparecer para converter-se em um ato dirigido exclusivamente para Deus. A prática do jejum tem como objetivo buscar um contato mais íntimo com Deus, com Seu perdão, com Sua benevolência e com Sua graça. O jejum bíblico é um ato essencialmente de buscar o contato íntimo com Deus para que vivamos como irmãos. O profeta Isaias critica duramente quem pratica o jejum, mas oprime o irmão (cf. is 58,3-9). Os elementos essenciais de um jejum agradável a Deus: o jejum unido à oração e encontra sua expressão mais autentica no serviço aos pobres. Trata-se de um jejum com uma dimensão social.

Ficai atentos para não praticar a vossa justiça na frente dos homens só para serdes vistos por eles. Caso contrário, não recebereis a recompensa do vosso Pai que está nos céus (Mt 6,1) é o recado de Jesus para nós todos. Vivamos na interioridade e na autenticidade para que sejamos felizes e firmes nesta vida.

P. Vitus Gustama, SVD

Terça-feira Da XI Semana Comum, Ano Par, 16/06/2026

INIMIGO: POR QUE DEVO AMÁ-LO E REZAR POR ELE?

Terça-Feira da XI Semana Comum

Primeira Leitura: 1Rs 21,17-29

Após a morte de Nabot, 17 a palavra do Senhor foi dirigida a Elias, o tesbita, nestes termos: 18 “Levanta-te e desce ao encontro de Acab, rei de Israel, que reina em Samaria. Ele está na vinha de Nabot, aonde desceu para dela tomar posse. 19 Isto lhe dirás: ‘Assim fala o Senhor: Tu mataste e ainda por cima roubas!’ E acrescentarás: ‘Assim fala o Senhor: No mesmo lugar em que os cães lamberam o sangue de Nabot, lamberão também o teu’”. 20 Acab disse a Elias: “Afinal encontraste-me, ó meu inimigo?” Elias respondeu: “Sim, eu te encontrei. Porque te vendeste para fazer o que desagrada ao Senhor, 21 farei cair sobre ti a desgraça: varrerei a tua descendência, exterminando todos os homens da casa de Acab, escravos ou livres em Israel. 22 Farei com a tua família como fiz com as famílias de Jeroboão, filho de Nabat, e de Baasa, filho de Aías, porque provocaste a minha ira e fizeste Israel pecar. 23 Também a respeito de Jezabel o Senhor pronunciou uma sentença: ‘Os cães devorarão Jezabel no campo de Jezrael. 24 Os da família de Acab, que morrerem na cidade, serão devorados pelos cães, e os que morrerem no campo, serão comidos pelas aves do céu’”. 25 Não houve ninguém que se tenha vendido como Acab, para fazer o que desagrada ao Senhor, porque a isto o incitava sua mulher Jezabel. 26 Portou-se de modo abominável, seguindo os ídolos dos amorreus que o Senhor tinha expulsado diante dos filhos de Israel. 27 Quando Acab ouviu estas palavras, rasgou as vestes, pôs um cilício sobre a pele e jejuou. Dormia envolto num pano de penitência e andava abatido. 28 Então a palavra do Senhor foi dirigida a Elias, o tesbita, nestes termos: 29 “Viste como Acab se humilhou diante de mim? Já que ele assim procedeu, não o castigarei durante a sua vida, mas nos dias de seu filho enviarei a desgraça sobre a sua família”.

Evangelho: Mt 5,43-48

43“Vós ou­vistes o que foi dito: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo!’ 44Eu, porém, vos digo: ‘Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem!’ 45Assim, vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus, porque ele faz nascer o sol sobre maus e bons, e faz cair a chuva sobre os justos e injustos.46Porque, se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Os cobradores de impostos não fazem a mesma coisa? 47E se saudais somente os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Os pagãos não fazem a mesma coisa? 48Portanto, sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito”.

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Ser Homem de Deus e Irmão Dos Homens

Levanta-te e desce ao encontro de Acab, rei de Israel, que reina em Samaria. Ele está na vinha de Nabot, aonde desceu para dela tomar posse. Isto lhe dirás: ‘Assim fala o Senhor: Tu mataste e ainda por cima roubas!”. Esta é a ordem de Deus para o profeta Elias.

Perseguido por Jezabel, Elias teve que fugir, mas agora volta à cidade, por ordem de Deus, e está pronto para continuar atuando como profeta, após sua crise de desânimo (cf. 1Rs 19,1-18).

Desta vez ele corajosamente confronta Acab pelo grave erro que cometeu: ele assassinou Nabot e roubou sua terra e fez "Israel pecado" com a idolatria.

O profeta Elias anuncia um duro castigo de Deus, embora mais tarde, diante do arrependimento demonstrado pelo rei fraco e inconstante Acab, lhe diga que isso acontecerá mais tarde, no tempo de seu filho. Fato paralelo ao de Davi, que também se arrependeu de seu pecado e obteve a extensão do castigo (cf. 1Sm 12,13-15).

O Salmo  Responsorial («miserere») é o eco desta humilde atitude de Acab, como também o foi de Davi: “Misericórdia, ó meu Deus, misericórdia! Eu reconheço toda a minha iniquidade. Na imensidão de vosso amor, purificai-me!”.

Levanta-te e desce ao encontro de Acab, rei de Israel, que reina em Samaria. Ele está na vinha de Nabot, aonde desceu para dela tomar posse. Isto lhe dirás: ‘Assim fala o Senhor: Tu mataste e ainda por cima roubas!’ E acrescentarás: ‘Assim fala o Senhor: No mesmo lugar em que os cães lamberam o sangue de Nabot, lamberão também o teu’”, ordenou Deus ao profeta Elias que lemos na Primeira Leitura que é a continuação do texto do dia anterior.

É a mesma Palavra de Deus que pede a Elias que se retire ao deserto na solidão e que vá ao encontro dos homens saindo da fuga. Oração e ação! O profeta Elias obedece sem condição à Palavra de Deus. Elias é um profeta incondicionalmente entregue a Deus e totalmente entregue aos homens pela sua salvação. Elias é um homem capaz de viver em relação com o invisível, na oração, e capaz de arriscar-se em serviço da justiça para defender os justos e inocentes. Sua missão provem de uma fonte profunda: contemplação. O Deus contemplado é que empurra Elias para a ação.

Assim fala o Senhor: Tu mataste e ainda por cima roubas! No mesmo lugar em que os cães lamberam o sangue de Nabot, lamberão também o teu”. É terrível transmitir essa mensagem! Mas Deus pede que o profeta Elias diga estas palavras para o rei Acab. Deus quer dizer a qualquer homem, por poderoso que ele pareça ser, que a prepotência, a injustiça e o assassinato nunca podem ter a última palavra, pois Deus que tirou os hebreus da escravidão do Egito é também o Defensor dos fracos, inocentes e justos. Por isso, Deus envia o profeta Elias para denunciar os pecados do rei Acab que são assassinato de Nabot e o roubo, pois tomou posse da terra que era de Nabot.

A intervenção do profeta Elias nos leva para a intervenção de Natã que denuncia o rei Davi que cometeu dois pecados graves: a luxuria com a mulher de Urias e assassinato de Urias para Davi poder ficar com a mulher de Urias (cf. 2Sm 2). O profeta Elias não denuncia apenas, mas anuncia o castigo que o rei Acab sofrerá: “No mesmo lugar em que os cães lamberam o sangue de Nabot, lamberão também o teu”. Mas sabemos que Deus não ameaça por ameaçar, pois Deus não quer a morte do pecador e sim que se converta e viva (Cf. Ez 18,23). Tanto que Deus suspende o castigo sobre o rei Acab quando este se arrependeu: “Viste como Acab se humilhou diante de mim? Já que ele assim procedeu, não o castigarei durante a sua vida, mas nos dias de seu filho enviarei a desgraça sobre a sua família”. Nisto percebemos que não há pecado, por grave que seja, não possa ser perdoado por Deus, desde que o pecador se arrependa e se converta. O campo da misericórdia divina é muito mais vasto do que o campo da miséria criado por homem.

Nabot é a imagem de pessoa honrada, exposta à arbitrariedade dos poderosos. Não há que vender-se aos poderosos representados pelo rei Acab e sua esposa Jezabel. Deus cuida das viúvas e dos pobres de qualquer lugar e cultura.

Em todos os tempos há profetas valentes, verdadeiros profetas que falam em nome de Deus sobre determinadas situações. O profeta é humano, ferido pela realidade, mas somente Deus o põe em pé.Estes profetas defendem os direitos dos débeis e dos pobres porque o que falat ao pobre falta para Deus. Tudo que se faz para um pobre, um débil faz-se para o próprio Deus (Cf. Mt 25,40.45).

A justiça social também entra, e de forma muito importante, no campo de atividade dos cristãos. Basta ler as encíclicas sociais dos papas recentes. O Catecismo da Igreja Católica (n.1397) apresenta um aspecto importante da nossa missa (Eucaristia): "A Eucaristia compromete com ospobres", e cita uma dura homilia de São João Crisóstomo, na qual se queixa de alguns cristãos que mostram um culto muito cuidadoso ao Cristo eucarístico, porém não reconhecem o Cristo que está nos irmãos mais pobres: “Degustaste o Sangue do Senhor e não reconheces sequer o teu irmão. Desonras esta própria mesa, não julgando digno de compartilhar do teu alimento aquele que foi julgado digno de participar desta mesa. Deus te libertou de todos os teus pecados e te convidou para esta mesa. E tu, nem mesmo assim, te tornaste mais misericordioso”.

Há muitos como Nabot no mundo de hoje: pobres e débeis maltratados pela vida e afastados pelos demais homens. Terá que ter também muito como Elias que denunciam a injustiça e trabalham concretamente pela justiça social. Trata-se de uma luta contra o pecado social e estrutural e outros tipos de pecado.

Também na vida cotidiana há muitos Acabs e Jezabels que roubam e matam ou roubam de mão armada. Muitos como Acab se arrependem. Mas também muitos demoram para sentir na própria pele a dor dos outros e por isso, continuam roubando e matando. Onde está errado?

O pecado é um mal intolerável porque destrói em nós a vida, pois nos faz cortar nosso relacionamento com Deus da vida e nos aliena da Casa Paterna; nos faz perder nossa relação fraterna com o próximo e vê-lo como inimigo a quem tratamos de eliminar em função de nossos interesses egoístas. Mas apesar de nossas grandes misérias e pecados, voltemos para Deus com um coração contrito e humilhado, pois Deus é misericórdia. “Na Sagrada Escritura, como se vê, a misericórdia é a palavra-chave para indicar o agir de Deus para conosco. Ele não Se limita a afirmar o seu amor, mas torna-o visível e palpável. Aliás, o amor nunca poderia ser uma palavra abstrata. Por sua própria natureza, é vida concreta: intenções, atitudes, comportamentos que se verificam na atividade de todos os dias. A misericórdia de Deus é a sua responsabilidade por nós. Ele sente-Se responsável, isto é, deseja o nosso bem e quer ver-nos felizes, cheios de alegria e serenos. E, em sintonia com isto, se deve orientar o amor misericordioso dos cristãos. Tal como ama o Pai, assim também amam os filhos. Tal como Ele é misericordioso, assim somos chamados também nós a ser misericordiosos uns para com os outros” (Papa Francisco: Misericordiae Vultus n.9d).

Somos Chamados a Viver Como Cristãos Misericordiosos

Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem!’ Assim, vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus, porque ele faz nascer o sol sobre maus e bons, e faz cair a chuva sobre os justos e injustos”. É uma aplicação do mandamento do amor ao próximo: “Amarás ao teu próximo”. É lógico que Jesus não se oponha ao que disse. O próximo é todo se humano. Por isso, não tem sentido dizer: “Odiarás ao teu inimigo”.

O texto do Evangelho de hoje se encontra no Sermão da Montanha (Mt 5-7). O texto do evangelho de hoje faz parte das seis antíteses nesse Sermão. Encontra-se no texto de hoje a última antítese. Nesta ultima antítese Jesus nos diz: “Ouvistes o que foi dito: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo’”. Através desta antítese o cristão é chamado a não apenas superar a justiça dos fariseus (Mt 5,20), mas também a dos publicanos (pecadores), inclusive a dos pagãos. O cristão é chamado a viver sua filiação divina na convivência com os demais seres humanos. Viver na filiação divina é viver na sintonia com o coração do Pai que “faz nascer o sol sobre maus e bons, e faz cair a chuva sobre os justos e injustos”.

Por isso, diante da lei antiga Jesus faz seu comentário e sua reflexão que servem de instrução para os cristãos: Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem, para serdes filhos do vosso Pai que está nos Céus».          

Inimigo é uma palavra muito forte. Geralmente se refere àqueles que estão em estado de guerra. Pode também ser usada para descrever grupos ou indivíduos que oprimem outros, que algemam sua liberdade e impedem seu crescimento. Inimigo também é alguém que se coloca no caminho da nossa liberdade e dignidade. É alguém a quem evitamos e com quem nos recusamos comunicar. Nem sempre temos coragem de dizer que temos inimigos, pois esta palavra é muito forte. 

Porém, consciente ou conscientemente a atitude de uma pessoa de não querer se comunicar com seu rival/inimigo vai virar a antipatia e a antipatia pode se transformar em mágoa; a mágoa se torna raiva e a raiva vai virar ódio. O ódio é como uma gangrena: devora a pessoa. Também o ódio é igual alguém a tomar o veneno e espera que o outro morra. Mas na verdade, quem toma o veneno é que vai morrer. Todas as nossas recusas em nos comunicarmos com os outros e nos abrirmos a eles encerram-nos na prisão. Em vez de nos ajudar a crescermos no amor, no perdão e na abertura, esse processo pode nos fechar em formas sutis de depressão e inércia. Nesse caso somos prisioneiros de nós mesmos ou do nosso grupo.

Creio que ainda temos plena consciência que as forças da vida e os desejos de comunhão são maiores do que a força da morte e do ódio. Por isso, no fundo, em todos os momentos nós somos chamados à liberdade e à abertura. Viver é uma permanente busca da liberdade para a salvação.                 

Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem”, diz-nos Jesus. Aqui amar o inimigo consiste em se tornar seu intercessor: “Orai por aquele que vos persegue”. O verdadeiro amor recusa qualquer tipo de vingança contra o inimigo. Ao contrário, deve-se oferecer-lhe alternativa para conviver. A motivação para fazer tudo isso é o modo de agir do Pai que “faz nascer o sol sobre maus e bons, e faz cair a chuva sobre os justos e injustos”. Nisto consiste nosso ser como cristãos: ser imitadores do Pai do céu. Tal Pai, tal filho! 

Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem”. Trata-se de um apelo à mudança, a não mais sermos controlados por nossas mágoas e nossos medos, mas em pensarmos sobre a paz na direção à maturidade cristã.  Essas palavras parecem impossíveis de serem vividas quando o relacionamento foi profundamente atingido, ou mesmo rompido; quando o inimigo é aquele ou aquela que está na origem das graves feridas ou dos profundos sofrimentos, que talvez tenham destruída toda a nossa vida; quando nos encontramos diante do imperdoável.                 

Quando Jesus nos diz: “Amai vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem”, ele não vive no sonho. Em nenhum caso, amar o inimigo e orar por ele poderia significar que lhe damos licença de nos destruir. O amor é nunca destrutivo.                 

Amar o inimigo não pertence ao âmbito do sentimento, do sensível, mas ao domínio da vontade profunda, da opção, da vontade de estar em concordância com as leis do Reino. A palavra de Cristo é uma ordem de vida, não se refere ao sentimento.                 

Por isso, o mandamento do amor ao inimigo é a maior exigência da mensagem de Jesus. Segundo Jesus, o amor há de chegar a todos porque todo homem há de ter a experiência do amor de Deus. Neste ponto o homem há de ser colaborador de Deus. A medida da ação do homem é Deus: “Sejam perfeitos como o Pai do céu é perfeito”. Deus está no ato de amar. É o que diz o evangelho falando de “imitação de Deus” no mesmo ato de amar acima das comunidades naturais e sagradas nas quais vivemos. É o mesmo ato de amar que constitui caminho para Deus e não a qualidade sagrada do objeto amado.                 

Amar os inimigos e rezar por eles quando nos tratam mal superam todo preceito. É uma exigência que se apóia no exemplo do próprio Deus, que vê todos, bons e maus, como os Seus filhos. Amar os inimigos é gratuidade do amor que é vivido na presença de Deus e palavras que encontram a sua garantia na própria prática de Jesus. Na cruz Jesus rezou pelos inimigos: “Pai perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34). Tão integral foi sua identificação com os pecadores e criminosos, que ele teve que suplicar ao Pai que perdoasse aos responsáveis por sua crucificação. O perdão é a maior necessidade de toda a humanidade, pois somente através do perdão de nossos pecados e através do perdão que oferecemos aos outros é que alcançaremos paz de espírito, sem o qual a vida se tornará um tormento, uma infindável procura de uma satisfação que jamais chega. O perdão é o testamento escrito por Jesus na cruz.          

Jesus não dá apenas leis novas para os cristãos e para as pessoas de boa vontade. Ele dá aquilo que não cabe dentro de nenhuma lei: uma atitude totalmente nova que não se explica humanamente.  “Amigo” e “inimigo” não serão nem salvos por minha simpatia, nem malditos por meu ódio. Pelo contrário, o que será julgado, salvo ou maldito, será meu ódio e meu amor. No relacionamento com o próximo, na minha facilidade de classificar amigos e inimigos, o julgado sou eu. O decisivo, portanto, não é o meu sentimento, mas a fé de que eles também estão colocados diante da face de Deus. A partir do meu comportamento diante deles e contra eles, eu serei julgado por Deus. 

Infelizmente, em nossa pequena história de cada dia, há espaço para distinguir as pessoas por simpatia ou interesse, brigas e indiferenças prolongadas, ou ressentimento para com aqueles que nos parecem não estar nos olhando bem. Temos um campo de exame e propósito ao ler essas recomendações de Jesus. 

"Ama os teus inimigos, porque eles falam-te dos teus defeitos. Causar um dano coloca você abaixo do inimigo, vingar-se faz com que você se iguale a ele, perdoá-lo coloca você acima dele" (Benjamin Franklin).

P. Vitus Gustama, SVD

domingo, 14 de junho de 2026

Segunda-feira Da XI Semana Comum, Ano Par, 15/06/2026

VIVER COMO CRISTÃOS É VIVER COMO JUSTOS E RECONCILIADOCONTRA TODO O MAL

Segunda-Feira da XI Semana Comum

Primeira Leitura: 1Rs 21,1-16

Naquele tempo, 1 Nabot de Jezrael possuía uma vinha em Jezrael, ao lado do palácio de Acab, rei de Samaria. 2 Acab falou a Nabot: “Cede-me a tua vinha, para que eu a transforme numa horta, pois está perto da minha casa. Em troca eu te darei uma vinha melhor, ou, se preferires, pagarei em dinheiro o seu valor”.  3 Mas Nabot respondeu a Acab: “O Senhor me livre de te ceder a herança de meus pais”. 4 Acab voltou para casa aborrecido e irritado por causa desta resposta que lhe deu Nabot de Jezrael: “Não te cederei a herança de meus pais”. Deitou-se na cama, com o rosto voltado para a parede, e não quis comer nada.  5 Sua mulher Jezabel aproximou-se dele e disse-lhe: “Por que estás triste e não queres comer?” 6 Ele respondeu: “Porque eu conversei com Nabot de Jezrael e lhe fiz a proposta de me ceder a sua vinha pelo seu preço em dinheiro, ou, se preferisse, eu lhe daria em troca outra vinha. Mas ele respondeu que não me cede a vinha”.  7 Então sua mulher Jezabel disse-lhe: “Bela figura de rei de Israel estás fazendo! Levanta-te, toma alimento e fica de bom humor, pois eu te darei a vinha de Nabot de Jezrael”. 8 Ela escreveu então cartas em nome de Acab, selou-as com o selo real, e enviou-as aos anciãos e nobres da cidade de Nabot. 9 Nas cartas estava escrito o seguinte: “Proclamai um jejum e fazei Nabot sentar-se entre os primeiros do povo, 10 e subornai dois homens perversos contra ele, que deem este testemunho: ‘Tu amaldiçoaste a Deus e ao rei!’ Levai-o depois para fora e apedrejai-o até que morra”. 11 Os homens da cidade, anciãos e nobres concidadãos de Nabot, fizeram conforme a ordem recebida de Jezabel, como estava escrito nas cartas que lhes tinha enviado. 12 Proclamaram um jejum e fizeram Nabot sentar-se entre os primeiros do povo. 13 Chegaram os dois homens perversos, sentaram-se diante dele e testemunharam contra Nabot diante de toda a assembleia, dizendo: “Nabot amaldiçoou a Deus e ao rei”. Em virtude disto, levaram-no para fora da cidade e mataram-no a pedradas. 14 Depois mandaram a notícia a Jezabel: “Nabot foi apedrejado e morto”. 15 Ao saber que Nabot tinha sido apedrejado e estava morto, Jezabel disse a Acab: “Levanta-te e toma posse da vinha que Nabot de Jezrael não te quis ceder por seu preço em dinheiro; pois Nabot já não vive; está morto”. 16 Quando Acab soube que Nabot estava morto, levantou-se para descer até a vinha de Nabot de Jezrael e dela tomar posse.

Evangelho: Mt 5,38-42

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 38 “Ouvistes o que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente!’ 39 Eu, porém, vos digo: Não enfrenteis quem é malvado! Pelo contrário, se alguém te dá um tapa na face direita, oferece-lhe também a esquerda! 40 Se alguém quiser abrir um processo para tomar a tua túnica, dá-lhe também o manto! 41 Se alguém te forçar a andar um quilômetro, caminha dois com ele! 42 Dá a quem te pedir e não vires as costas a quem te pede emprestado”.

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No Abuso Do Poder, o Inocente, o Simples É Sempre Vítima

Lemos na Primeira leitura o abuso do poder do rei Acab através de sua esposa, Jezabel. Sabe-se que quanto maior for o poder, maior será o abuso. Na realidade, o poder em si não corrompe; são as pessoas que corrompem o poder. Tomemos cuidado com o poder, pois ele atrai o pior e corrompe o melhor. Onde o amor fraterno e o serviço imperam, não há desejo de poder. Mas onde o poder predomina, sempre haverá a falta de amor e de serviço pelo bem comum. Um é sombra do outro.

O episódio de um poderoso (Acab) que se apropria injustamente do que pertence a um pobre (Nabot) é uma cena que pode contar-se do século IX a.C ou de hoje mesmo.

É um fato cheio de cinismo, sobretudo por parte de Jezabel, a rainha adoradora de Baal, que entende a religião e o poder somente a seu favor, sem ter em conta a justiça social. O bom homem Nabot faz bem em recusar-se a vender sua vinha, mesmo que o rei a tenha pedido em termos justos. Trata-se da herança que recebeu dos pais e que não pode ser alienada assim. E o rei fica triste por causa desta recusa: “Deitou-se na cama, com o rosto voltado para a parede, e não quis comer nada”.

Por que Nabot não quer entregar seu terreno ao rei Acab? Porque, como foi dito, o terreno é sagrado no conceito do povo eleito. Cada família recebeu sua parte da terra prometida, dada pelo Senhor, e esta terra tem que permanecer unida à família como um depósito sagrado e inalienável (cf. Lv 25,23).

Segundo o conceito do rei Acab, em nome da ganância, a venda e a troca da herança familiar faz parte de um negócio completamente legal: “Cede-me a tua vinha, para que eu a transforme numa horta, pois está perto da minha casa. Em troca eu te darei uma vinha melhor, ou, se preferires, pagarei em dinheiro o seu valor” (1Rs 21,2). Porém o rei deve respeitar a razão e o direito de Nabot: “Não te cederei a herança de meus pais”, disse Nabot ao rei Acab (1Rs 21,4). Para Nabot a vinha representa o lugar de sua fidelidade aos antepassados e ao próprio Javé de quem recebeu a terra.

Mas quem abusa do poder sempre acha alguma “saída”, mesmo que seja contra a ética ou mesmo que alguém deva ser vítima disso. Neste caso, a mulher de Acab, Jezabel resolveu arrumar um problema para Nabot para poder possuir o terreno de Nabot: “Ela escreveu então cartas em nome de Acab, selou-as com o selo real, e enviou-as aos anciãos e nobres da cidade de Nabot. Nas cartas estava escrito o seguinte: ´Proclamai um jejum e fazei Nabot sentar-se entre os primeiros do povo, e subornai dois homens perversos contra ele, que deem este testemunho: ‘Tu amaldiçoaste a Deus e ao rei!’ Levai-o depois para fora e apedrejai-o até que morra´”. 

Para Jezabel, a rainha devota de Baal, é inconcebível  que a autoridade permita a um súdito não obedecer ao rei Acab, seu marido. Os que se acham poderosos sempre procuram algum meio, nem que seja através da violência para calar seus súditos, os pobres, os inocentes. Deste modo, Jezabel tem a porta bem aberta para continuar pervertendo o povo de Israel e os anciãos do povo caíram na armadilha da rainha Jezabel. E o rei Acab, sem personalidade e sem ética aceitou o plano da mulher, Jezabel. Nabot, o inocente, se torna uma vítima fatal: foi apedrejado até a morte. A briga dos poderosos sempre termina com o sacrifício da vida dos inocentes.

Para um poderoso, como o rei Acab e a rainha Jezabel, tudo é permitido e não existe lei ou direito que o limite. Para ele, não agir assim significa não reinar. Quantos inocentes foram e continuam sendo vítimas dos poderosos. O resultado desse plano: “Nabot foi apedrejado e morto”. E o rei Acab toma posse do terreno que não era dele, mas era do morto Nabot: “Quando Acab soube que Nabot estava morto, levantou-se para descer até a vinha de Nabot de Jezrael e dela tomar posse”. Tudo é crime, pois acaba com a morte do inocente, Nabot.

Para um ambicioso como o rei Acab e sua esposa, Jezabel, o recurso à violência parece-lhe justo e honesto. O ambicioso só obedece ao seu instinto de mandar e receber honrarias. E esse instinto é violento.  Quem desejar ser a todo custo o primeiro, dificilmente se preocupará com ser justo. Nas mãos de um ambicioso, o poder só representa um constante perigo. Para ele, o poder é um convite aos seus maus instintos para que explorem a força que ele tem a seu dispor. Quando no vértice do poder, o ambicioso transmitirá aos súditos os seus sentimentos, arruinando as pessoas contrárias ao seu desejo, arruinando a nação com assim chamada  a política do prestígio, dos que só visam a conseguir a sua própria grandeza. Prestígio! Palavra mágica que encanta e corrompe a tantos mortais.

Um ambicioso anda com o político corrupto.  Um corrupto consegue arrancar dinheiro de ruas, de rodovias, de ferrovias, de portos, de aeroportos, de hospitais, de escolas, cursos profissionalizantes e assim por diante para si próprio e suas comparsas. A desonestidade consegue inventar todo o tipo de fraudes. Na avareza está oculta uma ofensa social. E nosso coração chora ao nos sentirmos traídos por pessoas às quais delegamos o poder para ser nossos representantes políticos em função do bem comum.

Mas o Senhor não renunciava a ser o attentico Rei de Israel, defensor dos desamparados, dos excluídos, dos inocentes, dos justos. A voz do profeta se levanta como um eco da bondade de Deus que recusa totalmente a perversão do poder. A força da palavra profética na pessoa de Elias é muito mais forte do que o poder da rainha Jezabel, pois a culpa pesa muito mais do que qualquer poder neste mundo. é um aviso à autoridade injusta e atodos os seus cúmplices.

A maldade dos cínicos e o abuso de poder continuam a existir no nosso mundo.

Muitas pessoas poderosas tiram vantagem de sua situação para sua própria vantagem. O que hoje chamamos de "tráfico de influências" ou os vários tipos de corrupção do poder, é a mesma coisa que Acab e Jezabel fizeram com o pobre Nabot. O fraco sempre sai perdendo, mesmo que esteja com a verdade. Isso pode acontecer em níveis políticos, na relação entre poderosos e fracos, ou na economia mundial, entre ricos e pobres. Também na Igreja. João Paulo II, no Limiar Do Terceiro Milênio, convidou a comunidade cristã a examinar quantas vezes recorreu à violência, acreditando que, ao fazê-lo, estava fazendo o bem para a verdade ou para a religião, com o que chama de «métodos de intolerância e até da violência a serviço da verdade» (Tertio Millennio Adveniente, 35).

Mas também pode acontecer em nosso pequeno mundo doméstico. Cada um de nós pode ser um tirano e abusar de seu poder em relação a outros mais fracos. Será que recorremos a truques e até injustiças para conseguir o que queremos, quando não conseguimos de outra maneira?

Não nos contentemos em julgar Jezabel e Acabe. Pode ser que nós também às vezes “esmaguemos os fracos” quando eles nos atrapalham em nossos propósitos e em nossos interesses.

A Misericórdia Divina Pede Para Vivermos Reconciliados

Não enfrenteis quem é malvado!”

O texto do evangelho lido neste dia se encontra no Sermão da Montanha (Mt 5-7). Este texto é conhecido como a quinta antítese nesse Sermão que nos fala sobre como devemos nos relacionar com quem nos ofendeu. Deus jamais legitima o mal ou a vingança contra quem nos pratica o mal.

Para entender o significado desta antítese precisamos conectá-la com as bem-aventuranças na abertura do Sermão da Montanha. Em algumas das bem-aventuranças Jesus declara: “Bem-aventurados os mansos... Bem-aventurados os misericordiosos... Bem-aventurados os que promovem a paz...”. É isto que Jesus nos ensina agora e nos ensinará também com seu exemplo (cf. Mt 11,28-30; 12,18-21). Na Paixão, Jesus pedirá o perdão ao Pai para os malvados (cf. Lc 23,34). São Pedro na sua primeira Carta escreveu: “Quando injuriado, não revidava; ao sofrer, não ameaçava, antes, punha a sua causa  nas mãos daquele que julga com justiça” (1Pd 2,23).

Nesta quinta antítese, Jesus faz seu comentário sobre a lei de talião do Antigo Testamento. No Livro do Êxodo lemos: “Vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, queimadura por queimadura, ferida por ferida, golpe por golpe(Ex 21,23-25; cf. Lv 20,17-22). Aqui se acentua a vingança proporcional ou a vingança na mesma medida.                

A lei de talião era conhecida em todo o Oriente Antigo. Ela é encontrada no Código Hammurábi, nas leis assírias, na Torah bem como também entre os gregos e os romanos.

No famoso Código de Hammurabi (século XVIII a.C) encontramos os seguintes artigos referentes à Lei de talião:

·      O artigo 196: “Se alguém arrancar um olho de outro, também seu olho será arrancado”.

·      O artigo 197: “Se alguém quebrar um membro de outro, também um de seus membros será quebrado”.

·      O artigo 200: “Se alguém quebrar um dente de outro, um de seus dentes será quebrado”.

A finalidade primordial dessa lei era colocar um limite a uma vontade desenfreada de vingança em uma sociedade em que a vingança era quase que institucionalizada (cf. Gn 4,23-24). Portanto, a intenção dessa lei era proteger os direitos das pessoas contra os excessos de violência.

Na quinta antítese do Sermão da Montanha Jesus faz uma reflexão sobre a lei de talião e oferece uma solução: “Pelo contrário, se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a esquerda. Se alguém quiser levar-te ao tribunal, para ficar com a tua túnica, deixa-lhe também o manto. Se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante um quilômetro, caminha dois com ele. Dá a quem te pedir e não vires as costas a quem te pede emprestado” (Mt 5,38-42).

No tempo de Jesus, a lei de Talião já estava bastante superada. Platão já tinha ensinado no mundo grego: “Não se deve responder à injustiça com injustiça, nem fazer dano a nenhum homem, independentemente do dano que nos fez”. No mundo judaico, a comunidade de Qumran tinha a seguinte regra: “Não retribuirei o mal com o mal a ninguém, mas farei o bem a todos, pois o julgamento pertence a Deus”.

Jesus se explica ainda melhor e nos descreve o comportamento adequado diante da injustiça: uma resistência passiva nos três primeiros casos (Mt 5,39b-41), uma reação ativa e benéfica em todo caso (Mt 5,42). Tudo é guiado por um princípio: “Não enfrenteis quem é malvado!”. Jesus nos está ensinando uma forma de mudar a comunidade dos homens e, sobretudo, como se deve comportar a comunidade dos discípulos no mundo para que sempre triunfe a vida.

Um primeiro passo (Mt 5,39b) é não reagir à violência com violência, não entrar em sua engrenagem infernal. Este é o sentido da expressão hiperbólica: “Se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a esquerda”. Leia Jo 18,22-23 onde se encontra algum exemplo de Jesus.

O segundo exemplo (Mt 5,40) é o caso de um tão malvado que quer arruinar você completamente, inclusive diante de um processo de justiça: “Tirar a túnica”. Jesus diz que devemos dar-lhe também o manto. Para Mateus, o manto é mais querido pelo pobre, pois serve também para se proteger do frio da noite. Quem não o tem, porque foi tirado, pode somente confiar em Deus que escuta o grito do pobre (cf. Dt 24,13). Quando o mal se manifesta, o que pode fazer aquele que deseja ser justo? (Salmo 11,3). Confie em Deus e procure espalhar um pouco de bondade, de gentileza, evitando sempre a violência.

Às vezes, a injustiça ou o mal pode, inclusive, institucionalizar-se (Mt 5,41). É o terceiro passo. Na atualidade, com impostos exorbitantes que obrigam as pessoas a realizar trabalhos árduos, transportar mercadorias ou outras atividades..."Se alguém te forçar a andar um quilômetro, caminha dois com ele!”. Na prática, Jesus ensina a afrontar as situações tristes com uma certa serenidade e generosidade. É manter uma atitude aberta em situação de doação e de serviço aos irmãos a exemplo do próprio Jesus (cf. At 20,38)                 

Com esta antítese Jesus coloca como alternativa à violência, não a lei de talião, mas a não-violência. Na verdade, Jesus já colocou nas Bem-aventuranças a atitude certa contra a violência: “Bem-aventurados os mansos, bem-aventurados os misericordiosos, bem-aventurados os que promovem a paz”. Jesus nos ensina também com seu exemplo (cf. Mt 11,28-30; 12,18-21). E São Pedro na sua Carta escreveu que Cristo “Quando injuriado, não revidava; ao sofrer não ameaçava, antes, punha a sua causa nas mãos daquele que julga com justiça” (1Pd 2,23).

A reação paradoxal que Jesus sugere aos cristãos, diante da violência, tem uma finalidade concreta: mostrar as possibilidades extremas de aplicação do seu mandamento de amor. Quem é movido por um amor incondicional ao próximo será capaz de fazer gestos radicais para coibir a violência, sem responder com a mesma moeda. Tudo supõe que se tenha um coração limpo (cf. Mt 5,8). A lei de talião é excluída pela limpeza de coração e pela compaixão. O cristão é chamado a não entrar na engrenagem infernal de um violento e não reagir com a violência à violência.       

Segundo Jesus não basta “aguentar” os maus; devemos fazer, por eles, algo de positivo. Jesus não quer bobos, mas fortes, capazes de fazer algo para que o mundo mude ou melhore. Não é suficiente sofrer, enquanto tivermos ainda uma possibilidade de fazer positivamente o bem.

Não é possível viver odiando em inimizade profunda e irreversível. O dano interior provocado por uma relação esfarrapada corrói nossas melhores energias e o Templo de Deus em nós se deteriora (cf. 1Cor 3,16-17) e os sentimentos de vingança o deformam lentamente. O perdão é o testamento escrito por Jesus na cruz. Da cruz Jesus pede perdão por todos aqueles que o crucificaram: “Pai, perdoa-lhe porque sabem o que fazem” (Lc 23,34). 

Vamos olhar para nossa realidade, tanto dentro da Igreja como fora dela, na sociedade, e vamos nos perguntar: a Lei de Talião ainda continua sendo praticada? Será que abandonamos a cultura que o Papa Francisco denomina a Cultura do encontro em que um se torna próximo do outro e por isso, um tem que cuidar do outro? A cultura do encontro freia até elimina a cultura de violência em que tudo se resolve com a briga e a vingança? Não temos tentação em fazer vingança contra o outro que não está de acordo com nosso pensamento e nossa maneira de viver? Viver uma vida de uma maneira só é uma grande pobreza e mata toda a criatividade. 

Deveríamos realizar um progressivo desarme intelectual, moral e religioso. É não justificar o injustificável. É crer na força do amor. É tirar da Eucaristia a certeza de curar nossas feridas profundas. Toda vez que fazemos memória da morte e ressurreição de Cristo, o mesmo Senhor nos introduz, pelo Espírito, na plenitude de sua existência pascal. 

Quando o amor for “excesso” o mal é obrigado a não se produzir e sua existência se extingue. Não é uma petição aos heróis e sim para todos os cristãos para que imitem o exemplo do seu Senhor Jesus Cristo. Para isso, temos que pedir permanentemente ao Senhor sua graça e força que vem de Seu Espírito para acontecer uma transformação profunda no nosso modo de viver com os demais homens. Mas “Empregar o nome de não-violência quando existe uma espada em vosso coração é, não somente hipocrisia e desonesto, mas, ainda, covardia. Se permanecermos não-violentos, o ódio ficará sem efeito. O primeiro princípio da ação não-violenta é o da não-cooperação com tudo que é humilhante” (Mahatma Gandhi). 

Reflitamos as seguintes palavras do escritor e psicólogo argentino, René Juan Trossero: 

“Não me importam as suas teorias sobre a violência;

O que me interessa saber é como você vive

No meio da violência que nos cerca por todas as partes.

 

Se você nunca foi vítima da violência,

Fale sobre ela com prudência

Por respeito aos que a sofrem na pele.

 

Provocar a violência em nome de Deus

E do Evangelho é um sacrilégio.

Pregar a resignação para os que sofrem a violência,

Invocando Deus e o Evangelho, é uma trapaça.

 

Não acabará a violência quando houver menos armas,

E sim quando houver mais amor.

 

Destruir a violência com a violência

É como apagar um incêndio com gasolina.

A única maneira de lutar contra a violência

É não provocá-la”.  

São Pedro descreve Jesus da seguinte maneira: “Quando injuriado, não revidava; ao sofrer, não ameaçava, antes, punha a sua causa nas mãos daquele que julga com justiça” (1Pd 2,23). Diante deste Jesus precisamos olhar para nossa maneira de viver e de conviver, pois adotamos a maneira de viver de Jesus como nossa e assumimos seus ensinamentos para nossa vida cotidiano, pois somos cristãos? Será que podemos nos dizer como somos cristãos, ou estamos cristãos ainda?

P.Vitus Gustama,svd

quinta-feira, 11 de junho de 2026

XI Domingo Do Tempo Comum, Ano "A", 14/06/2026

SOMOS CHAMADOS A SER MISSIONÁRIOS COMPASSIVOS

XI DOMINGO DO TEMPO COMUM “A”

Primeira Leitura: Êx 19,2-6a

Naqueles dias, os israelitas, 2 partindo de Rafidim, chegaram ao deserto do Sinai, onde acamparam. Israel armou aí suas tendas, defronte da montanha. 3 Moisés, então, subiu ao encontro de Deus. O Senhor chamou-o do alto da montanha, e disse: “Assim deverás falar à casa de Jacó e anunciar aos filhos de Israel: 4 Vistes o que fiz aos egípcios, e como vos levei sobre asas de águia e vos trouxe a mim. 5 Portanto, se ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, sereis para mim a porção escolhida dentre todos os povos, porque minha é toda a terra. 6ª E vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa”.

Segunda Leitura: Rm 5,6-11

Irmãos: 6 Quando éramos ainda fracos, Cristo morreu pelos ímpios, no tempo marcado. 7 Dificilmente alguém morrerá por um justo; por uma pessoa muito boa, talvez alguém se anime a morrer. 8 Pois bem, a prova de que Deus nos ama é que Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores. 9 Muito mais agora, que já estamos justificados pelo sangue de Cristo, seremos salvos da ira por ele. 10 Quando éramos inimigos de Deus, fomos reconciliados com ele pela morte do seu Filho; quanto mais agora, estando já reconciliados, seremos salvos por sua vida! 11 Ainda mais: Nós nos gloriamos em Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo. É por ele que, já desde o tempo presente, recebemos a reconciliação.

Evangelho: Mt 9,35-10,8

Naquele tempo, 36 vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor. Então disse a seus discípulos: 37” A Messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. 38 Pedi pois ao dono da messe que envie trabalhadores para a sua colheita!” 10,1 Jesus chamou os doze discípulos e deu-lhes poder para expulsarem os espíritos maus e para curarem todo tipo de doença e enfermidade. 2 Estes são os nomes dos doze apóstolos: primeiro, Simão chamado Pedro, e André, seu irmão; Tiago, filho de Zebedeu, e seu Irmão João; 3 Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o cobrador de impostos; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu; 4 Simão, o Zelota, e Judas Iscariotes, que foi o traidor de Jesus. 5 Jesus enviou estes Doze, com as seguintes recomendações: “Não deveis ir aonde moram os pagãos, nem entrar nas cidades dos samaritanos! 6 Ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel! 7 Em vosso caminho, anunciai: ‘O Reino dos Céus está próximo’. 8 Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. De graça recebestes, de graça deveis dar!”

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Neste Domingo o Evangelho fala da vocação e da missão dos Doze. Jesus olha para a multidão de uma maneira muito especial, cuidando  da realidade deles. Ele se compadece dessa multidão “porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor”. E Ele dá resposta à situação com a oração comum, com a eleição dos Doze e sua missão ao povo.  Tudo é gratuitamente!

O evangelho nos mostra a compaixão que o Senhor tem por cada um de nós. Jesus não está interessado em pessoas em massa, mas em cada homem em particular. Ele se interessa por você. Ele conhece seu rosto, seu nome, sua história. Ele quer estabelecer um relacionamento com você. Você existe para Ele com seus problemas, suas dificuldades, suas exigências, suas esperanças. O único requisito para trabalhar em sua colheita/messe é abnegação, gratuidade; fugir dos êxitos, aplausos, honras, e privilégios. Escutemos as leituras que nos convidam a semearmos com paciência em tantos sulcos abertos que esperam a compaixão de cada um de nós e a compaixão de Cristo.

Do Evangelho aprendemos que devemos olhar para as pessoas como Jesus olha para a multidão, cuidando de sua situação e compadecendo-se, ou seja, entrando em sua pele para sentir o que elas sentem. É a campaixão! É sentir juntos para juntor procurarmos solução. Temos, ao mesmo tempo, uma missão de ajudar o outro a ter o olhar de Jesus sobre a realidade das pessoas, do povo. Jesus olha para as pessoas com amor. O que tem em cada coração fica transparente no seu olhar. De que maneira você olha para as pessoas e logo se saberá o que tem no seu coração. O olhar de Jesus é compacissvo, pois no seu coração somente tem amor.

O Livro do Êxodo, na Primeira Leitura (Êx 19,2-6ª) nos prepara para escutar o Evangelho com a recordação da Aliança que o Senhor estabelece com o povo eleito: o Senhor escolhe o povo como proprietário seu e atua em seu favor: “Sereis para mim a porção escolhida dentre todos os povos, porque minha é toda a terra. E vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa”. E o reconhecemos com o Salmo Responsorial (Sl 99): “Nós somos o povo e o rebanho do Senhor”. É sempre bom manter nossa consciência de que pertencemos ao Senhor. Somos o povo de Deus.

Através da Primeira Leitura, vemos como a mão de Deus está sempre por trás de nossos acontecimentos decisivos. É por isso que temos que reconhecer que tudo o que somos e temos devemos a Ele. Quantas dificuldades superamos em nossas vidas! Parece-nos quase impossível chegar até aqui; é toda a graça de Deus. O olhar misericordioso de Deus sempre nos acompanha como enfatiza o Evangelho. É preciso dirigirmos nosso olhar para Deus para agradecer e para pedir mais inspirações para nossas dificuldades de cada dia.

E finalmente, a Segunda Leitura (Rm 5,6-11), tirada da Carta de são Paulo aos Romanos, recorda o núcleo de nossa fé: fomos reconciliados com Deus pela morte de Jesus Cristo, e também seremos salvos graças à sua vida. A cruz de Jesus é o preço de nossa vida diante de Deus. Somos tão valiosos no olhar amoroso e misericordioso de Deus.

A segunda leitura, então, nos convida a tomarmos consciência de que Cristo morreu por nós sendo pecadores. Ai está a grandeza de seu amor: ele não morreu por nossos pecados, mas apesar deles. Seu sacrifício foi uma oferta generosa e gratuita. Seu amor se elevou acima de nossas rejeições.

Estendamos um pouco mais nossa meditação sobre o Evangelho proclamado neste domingo!

A seção de Mt 9,35-11,1, onde se encontra o nosso texto deste domingo (como também de alguns próximos domingos), é chamada o Discurso de Jesus sobre a missão da Igreja. Notemos que a missão em Mt não se limita apenas aos doze, mas para todos aqueles que queriam seguir a Jesus. Por isso, no discurso sobre a missão na versão de Mt não se fala nem da partida dos doze (Mc 6,12-13; Lc 9,6) nem de seu regresso (Mc 6,30; Lc 9,10). Podemos dizer que este discurso serve como um tipo de “manual” para os seguidores de Jesus na tarefa de exercer a missão como cristãos, seguidores de Jesus Cristo.

O evangelista Mateus reúne no Sermão da Missão tudo o que os outros sinóticos dizem a respeito da identidade dos discípulos e da sua vocação. Vocação e missão andam inseparáveis: a minha “Vocação” de filho (de Deus) se realiza na “Missão com os irmãos.         

Neste discurso encontram-se uma introdução (9,35-38); o tema da missão (10,1-16); as perseguições na missão (10,17-25); a coragem requerida dos missionários frente as perseguições (10,26-33); as exigências radicais que se pedem dos missionários (10,34-39); e termina com uma conclusão(11,1).

Missão Baseada Sobre Compaixão e Oração   

Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor. Então disse a seus discípulos” é a introdução do discurso sobre a missão.    

No Antigo e no Novo Testamento encontra-se a descrição de Deus e de Jesus Cristo como sensíveis às dores, crises e sofrimentos do povo. Deus não fica alheio dos sofrimentos do povo (cf. Ex 3,7-14). A alta sensibilidade leva Deus a ver, a ouvir, a conhecer e a descer para libertar o povo. E Jesus, por sua vez, ao olhar para a multidão desamparada, enche-se de compaixão o interior de Jesus moveu-se em direção a cada uma das pessoas que estavam na multidão. Exatamente, na miséria se vive a misericórdia, o grande dom de Deus que é o próprio Deus.      

Nesta introdução fala-se, por um lado da reprovação dos líderes do povo: “As multidões estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor”. 

A tarefa do pastor é levar o rebanho para o bom pasto para dele se alimentar, e dele cuidar. O profeta Ezequiel acusava, em nome de Deus, os pastores oficiais de Israel, os príncipes e magistrados que não apascentavam o rebanho, mas a si mesmos (Ez 34,2). Por causa disso, no futuro, o próprio Deus vai exercer o ministério pastoral (Ez 34,11ss). O próprio Deus veio em Jesus como o Bom Pastor que veio para o rebanho ter vida em abundância (Jo 10,10). E para os que são encarregados de ser pastores ou líderes do rebanho, Jesus deixou a seguinte ordem: “Apascenta as minhas ovelhas!” (Jo 21,15-17). “Apascentar” significa guiar, conduzir, alimentar, reger, governar, conduzir ao pasto, vigiar no pasto, pastorear. É cuidar do rebanho do Senhor (minhas ovelhas). 

Por outro lado, na introdução do discurso sobre a missão, fala-se também da compaixão de Jesus pela multidão cansada e abatida como rebanho sem pastor: Jesus ”ao ver a multidão teve compaixão dela, porque estava cansada e abatida como ovelhas sem pastor”(v.36).

Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor”. O verbo “Compadecer-se” se usava no judaísmo somente ao falar de Deus; e no NT, somente de Jesus. Compaixão é o amor entranhado de Deus pelos homens, manifestado em Jesus. A compaixão é a característica divina. A compaixão não conhece marginalização alguma, pois o reinado de Deus não exclui ninguém da salvação. Compaixão é sentir com outrem, achegar-se ao seu lugar, assumir-lhe a experiência e a dor. A compaixão atinge o próprio centro da pessoa, nas próprias vísceras. Assim se comporta Deus, segundo AT (cf. Is 63,15; Jr 31,20). A compaixão é comover-se até as entranhas, solidarizar-se profundamente, sentir a partir de outrem, é sofrer- com. A compaixão requer que eu esteja com as pessoas que sofrem, e disposto a partilhar meu tempo e meu coração com eles. Quando eu compartilhar meu coração com uma pessoa que sofre, uma parte dela não será tocada pelo sofrimento. O meu coração partilhado alivia a dor do outro. Assim é que vivia Jesus e é assim também que os seus seguidores devem viver. 

Na Bíblia, a compaixão (hebraico, rahamim) significa um amor uterino (rehém quer dizer útero). É a qualidade materna do amor de Deus. O nosso mal move as vísceras do Senhor (splánchna, grego) a ponto de com-sofrer e de sofrer-com o nosso próprio mal. O amor de Deus pelo povo é como uma mãe que olha e ama seu bebê que está no seu útero. Desta maneira é que Jesus olha e sente pela multidão. A vinda de Jesus ao mundo decorre da compaixão de Deus pela humanidade. Sua missão consiste em manifestar esta misericórdia, por meio dos gestos concretos. A compaixão é a marca da vida de Jesus. Por onde passa, o olhar de Jesus recai sobre os doentes e sofredores, as vítimas da marginalização e dos preconceitos e assim por diante. 

A compaixão é o motivo pelo qual Jesus pensa na necessidade da missão feita por seus discípulos. Os discípulos são enviados como missionários da compaixão. A alma da missão é o amor compassivo. O próprio Jesus deseja que seus discípulos desempenhem o papel como pastores verdadeiros e compassivos do seu povo no seu lugar e conforme a sua maneira de apascentar o povo (missão movida pela compaixão). A raiz da missão é, certamente, a compaixão que significa sofrer junto, sentir em si mesmo as dores e os problemas do povo, significa compartilhar e tornar próprios os sofrimentos e os anseios dos outros, significa solidarizar-se. Consequentemente, esforçar-se em encontrar algumas soluções concretas.

Jesus olha a multidão com compaixão. O olhar de Jesus nos convida a ter um olhar contemplativo e compassivo. Olhar contemplativo e compassivo sobre as pessoas e a realidade é uma certa ternura que faz ver além das aparências e evitar a indiferença. É colocar-se no lugar de quem sofre. Esse olhar move alguém a fazer algo, e não apenas olhar. Foi por causa do povo abandonado que os discípulos foram chamados e enviados. Nenhum deles foi chamado por outro motivo. Era uma resposta às necessidades dos filhos e filhas de Deus e não em função da necessidade dos enviados.          

Jesus afirma que a missão dos discípulos de levar a Boa Notícia aos outros e de apascentar fiéis na sua comunidade, também faz parte do acontecimento escatológico. Por essa razão Mt coloca a parte apocalíptica do discurso de Mc no seu discurso. Jesus sabe do tamanho da dificuldade dessa missão: por um lado, há poucos trabalhadores (v.37. Este versículo reflete a situação da comunidade de Mateus em que poucas pessoas têm interesse em ingressar no trabalho da missão. Mt admite que poucas pessoas se dedicaram à obra iniciada por Jesus. “Poucas” foram enviadas e continuava grande a necessidade de ajuda além das fronteiras da comunidade mateana. E nossa comunidade, também tem o mesmo problema?), e por outro lado, Jesus não oferece uma solução mágica ou através de milagre. Já que a missão faz parte do acontecimento escatológico, a solução desse problema, então, está nas mãos do Pai, dono da messe. O que os discípulos podem fazer é pedir ao Pai na oração para que mande mais trabalhadores para missão (v.38). 

A Vida De Jesus É Nossa Vida e Sua Missão É Nossa Missão 

A Messe (a colheita) é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi pois ao dono da messe que envie trabalhadores para a sua colheita!”, disse o Senhor para seus discípulos. 

O juízo final é visto como a colheita ou a messe (Mt 3,12; 13,30.39). quem salva a colheita (a messe) é o próprio agricultor. O julgamento de Deus é nossa salvação, mas também a d´Ele, pois Ele não pode aceitar que os seus filhos estejam perdidos ou sem salvação. O pecado é lugar de perder-se, a perdição da salvação. Missão é semear e colher. Quem semeia se encontra como quem acolhe (Jo 4,35-38), quem semeia misericórdia, obtém misericórdia (Mt 5,7). 

Nesta visão, a oração em si se torna missionária e escatológica. A oração deve fazer parte da missão, e não apenas se preocupar em procurar técnicas ou métodos para atrair mais pessoas para uma missão ou para a Igreja/comunidade. Aquele que é encarregado para liderar o rebanho tem que fazer seu trabalho dentro do espirito de oração, isto é, incluir Deus indispensavelmente no seu trabalho de pastor ou de líder. Um líder, um coordenador, um pastor que não reza não é digno de depositar confiança nele, pois ele vai fazer tudo em nome do próprio interesse e não em nome da salvação do rebanho do qual ele próprio faz parte. 

Através desta última exortação, Mt convida a sua comunidade e a nossa a contemplar a missão a partir da perspectiva e dos critérios de Deus, e a orar antes de empreender a tarefa de anunciar o evangelho. Isto quer nos dizer que a missão não depende da iniciativa autônoma dos homens, mas origina-se da vontade soberana de Deus. O que os homens podem fazer é rezar sempre para o Dono da messe mandar mais missionários. 

Jesus Nos Chama Pelo Nome Para Sermos Seus Apóstolos          

Até este momento, Mt somente há nomeado cinco discípulos de Jesus: Pedro e seu irmão André (Mt 4,18), Tiago e seu irmão João (Mt 4,21), e Mateus (Mt 9,9). Agora o grupo se completa até chegar ao número simbólico de doze. Estes doze discípulos representam doze tribos de Israel, e serão as colunas do novo povo de Deus, simbolizando a unidade e a totalidade do povo eleito. Pedro encabeça a lista e Judas Iscariotes a encerra. Ambos terão um protagonismo especial no relato da paixão (Mt 26-27). E Pedro aparecerá mais com um papel especial em outros lugares do evangelho (Mt 14,28-31;16,16-19;17,24-27).           

A lista dos escolhidos indica o caráter pessoal da vocação e da missão dos discípulos. Dificilmente encontramos os critérios adotados por Jesus na escolha dos Doze. Mas sabemos através da personalidade ou profissão dos Doze de que eles não eram pessoas de caráter excelente e firmes na fé, nem dotados de alto conhecimento teológico, tampouco provindos da classe alta da sociedade. Ao contrário, eles eram incultos, pescadores. Judas traiu e Pedro negou Jesus. Basta verificar a história da salvação. Ao longo dela, Deus serviu-se de meios precários para realizar seu plano. O próprio Deus continua sendo o próprio protagonista da missão. Somos apenas enviados. A missão é de Deus. Apesar da fragilidade dos escolhidos, eles foram instrumentos válidos nas mãos de Deus, pois era ele, como continua sendo quem realizava e continua realizando a salvação.          

Por isso, ao ver a lista dos escolhidos, não podemos mais ter nem criar desculpas diante da chamada de Deus. Como dizia São João Crisóstomo: “Não há nada mais frio que um cristão despreocupado da salvação alheia. Não podes aduzir como pretexto a tua pobreza econômica. Acusar-te-á a velhinha que deu as suas moedas no Templo. O próprio Pedro dirá mais tarde: ‘Não tenho ouro nem prata’ (At 3,6). E Paulo era tão pobre que muitas vezes passava fome e não tinha o necessário para viver. Não podes pretextar a tua origem humilde: eles também eram pessoas humildes, de condição modesta. Nem a ignorância te servirá de desculpa: todos eles eram homens sem letras. Sejas escravos ou fugitivo, podes cumprir o que depende de ti. ...Não invoques a doença como pretexto, pois Timóteo estava submetido a frequentes indisposições...Cada um pode ser útil ao seu próximo, se quiser fazer o que está ao seu alcance” (Homilia 20 sobre os Atos dos Apóstolos). 

E em relação ao grande tamanho da missão enquanto há poucos trabalhadores, São Gregório Magno comenta: “A messe é muita, mas os operários poucos...Ao escutarmos isto, não podemos deixar de sentir uma grande tristeza, porque é preciso reconhecer que há pessoas que desejam escutar coisas boas; falta, no entanto, quem se dedique a anunciá-la”.          

A lista dos doze está aí. Verifique, se nesta lista você encontrou seu nome. Se não, então, você precisa acrescentar seu nome para aumentá-la. Você está disposto a colocar seu nome nesta lista?

Todos Nós Somos Enviados Para Libertar Os Irmãos De Qualquer Tipo de Escravidão          

Os doze discípulos são chamados agora de os Doze Apóstolos ou enviados. Somente neste capítulo, Jesus usa o termo “Apóstolo”. Isso quer nos dizer que a missão é própria de todo discípulo de Jesus e que todos os seguidores de Cristo são chamados à missão. 

A missão que devemos levar adiante é esta: Não deveis ir aonde moram os pagãos, nem entrar nas cidades dos samaritanos! Ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel! Em vosso caminho, anunciai: ‘O Reino dos Céus está próximo’. Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. De graça recebestes, de graça deveis dar!” 

Ao chamar os Doze, Jesus lhes dá poder sobre os espíritos maus e sobre todo tipo de doença e enfermidade (10,1). A autoridade/poder que Jesus dá aos Doze não é qualquer autoridade e sim uma autoridade totalmente para o ministério apostólico: libertar e curar. É uma autoridade completamente missionária. Aqui, neste capítulo, não se fala do poder de presidir/dirigir ou governar.  Jesus capacita os discípulos para vencer a resistência à mensagem oposta pelas ideologias que dominam os homens, e a tudo que vai contra o projeto de Deus (cf. Mt 8,14-15). Os discípulos são chamados a lutar contra tudo aquilo que destrói a vida do homem, quer a física, quer a espiritual; contra aqueles sistemas sociais que reduzem o ser humano a instrumento de produção, sem receber a parte que lhe é devida, que negam a liberdade de falar a verdade.

Na hora de enfrentar qualquer dificuldade, o discípulo deve estar consciente de que ele já recebeu de Jesus a capacidade para superá-la (cf. Mt 28,18-19). Não cabe ao discípulo desistir diante de qualquer espécie de problema (cf. Mt 10,22). A maior derrota é desistir antes de lutar, enquanto em si tem capacidade suficiente para vencer.

A tarefa dada se concretiza em algumas instruções básicas para a missão. A primeira instrução de Jesus é “Não tomeis o caminho dos gentios, nem entreis em cidade de samaritanos” (v.5). Podemos ter duas interpretações deste versículo. Primeiro, ele reflete uma tensão viva na comunidade de Mt onde certos grupos de origem judaica não compreendiam nem aceitavam a missão aos pagãos. Segundo, na cultura de Jesus, a palavra “estrada/caminho” significa caminho ou modo de viver. Jesus pode ter querido dizer que não sigam o modo de viver dos pagãos que são idólatras.          

A segunda instrução, “Ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel” (v.6).  Em Mt encontramos duas etapas da missão. Na primeira etapa (Mt 10), a missão de Jesus e de seus discípulos é limitada para as “ovelhas perdidas de Israel”. Aqui não se fala da seleção entre os melhores, mas trata-se de gente necessitada. Para as pessoas necessitadas de Israel foram enviados os Doze. Na segunda etapa (Mt 28,19), o mandato missionário será para espalhar a Boa Nova a todos os povos. Mais tarde, então, a missão se abrirá a todos.          

Estas duas etapas da missão nos trazem uma lição muito importante para nossa comunidade: somos chamados a cuidar tanto dos de dentro da comunidade (missão ad intra), como dos de fora (missão ad extra). Na linguagem popular podemos dizer que vamos arrumar primeiro nossa casa. Vamos cuidar de nossa casa para depois cuidar das casas fora de nossa casa. Quem somente olha para a casa dos outros é porque não cuida da própria casa. A Igreja ou comunidade sem caridade interna, não tem força para dar testemunho. O testemunho interno de comunhão é o primeiro passo para um anúncio mais eloquente para fora dela.

Mas o cuidado com os de dentro não pode ser uma desculpa para ignorar os de fora. Ou, o cuidado com os de fora não justifica a falta de tempo ou atenção para com os de dentro. Temos, muitas vezes, mais facilidade de sorrir para os de fora do que para os de dentro.          

Terceira instrução: Os Doze são enviados para anunciar a proximidade do Reino de Deus. E mensagem do Reino de Deus é a de libertação: curar os enfermos, ressuscitar os mortos, sarar os leprosos, expulsar os demônios (vv. 7-8). Em outras palavras, anunciar o Reino de Deus significa instaurar a vida ali onde há carência dela ou está sendo ameaçada; onde há marginalização e onde há a dominação do espírito da injustiça e da desunião. O sinal da chegada do Reino é a libertação do povo de todo tipo de escravidão e dominação.          

Quarta instrução: Segundo Jesus, essa missão deve ser feita na gratuidade: “De graça recebestes, de graça daí” (v.8b). Se fosse com fins lucrativos, com certeza, muitos empresários teria interesse em exercê-la. Mas pelo fato de ter que fazê-la gratuitamente, poucas pessoas se interessam nesse trabalho. Para os que têm disposição para exercer a tarefa de evangelização, devem realizá-la na pobreza, sem intenção de lucro nem para proveito próprio. Trata-se de dar grátis o que foi recebido gratuitamente de Deus. Essa não é só uma proibição de fazer da evangelização uma fonte de lucro. É principalmente um alerta para que ninguém se engrandeça, se julgue superior, se envaideça quando se realiza algo de bom. Quando não envolve dinheiro, normalmente, as cobranças são outras: reconhecimento, prestígio, cargos, privilégios, e muitas vezes, competições entre grupos. Tudo isso não combina com o espírito de serviço que Jesus exige. Se alguém estiver consciente de que tudo nesta vida é graça de Deus, sem dúvida, é movido para fazer algo pelo bem dos outros, seguindo seguinte conselho de um sábio: “Se você fizer um benefício, nunca se lembre dele; se receber um, nunca se esqueça dele”. 

A Igreja, isto é, cada batizado, existe no mundo como um sinal eficaz da graça de Deus. Isto significa que a Igreja, cada batizado é projetado para os homens como uma presença salvadora na comunhão plena com o próprio Salvador do mundo, Jesus Cristo. A Igreja não está adotada de umas prerrogativas que a fazem firme e sim que tem umas promessas de assistência divina até o fim dos tempos de que a salvação possa chegar a todos os homens da história: “Eis que estou convosco todos os dias até o fim dos tempos” (Mt 28,20). 

Ser seguidor de Cristo nos constitui em missionários. De que maneira? Simplesmente fazer caso da chamada de Deus, sentir-se responsáveis do desígnio de Deus, ser misericordioso e diligente, lutar contra o mal, animar os demais, viver desprendido, viver na gratuidade.

Portanto, o evangelho de hoje que fala da missão não pode deixar ao lado sem ressonância para cada cristão batizado. Cada um deve autocriticar sobre o sentido missionário de sua existência cristã e buscar meios adequados que ajudem o sentido apostólico em seus diversos graus de compromisso. Assim seja!

P. Vitus Gustama,SVD

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