terça-feira, 22 de setembro de 2026

Quinta-feira Da XXV Semana Comum, Ano Par, 24/09/2026

O HOMEM QUE INTERROGA SOBRE JESUS INTERROGA A PRÓPRIA VIDA

Quinta-Feira da XXV Semana Comum

Primeira Leitura: Eclesiastes 1,2-11 (Ano Par)

2 “Vaidade das vaidades, diz o Eclesiastes, vaidade das vaidades! Tudo é vaidade”. 3 Que proveito tira o homem de todo o trabalho com o qual se afadiga debaixo do sol? 4 Uma geração passa, outra lhe sucede, enquanto a terra permanece sempre a mesma. 5 O sol se levanta, o sol se deita, apressando-se para voltar a seu lugar, donde novamente torna a levantar-se. 6 Dirigindo-se para o sul e voltando para o norte, ora para cá, ora para lá, vai soprando o vento, para retomar novamente o seu curso. 7 Todos os rios correm para o mar, e contudo o mar não transborda; voltam ao lugar de onde saíram para tornarem a correr. 8 Tudo é penoso, difícil para o homem explicar. A vista não se cansa de ver, nem o ouvido se farta de ouvir. 9 O que foi será; o que aconteceu, acontecerá: 10 não há nada de novo debaixo do sol. Uma coisa da qual se diz: “Eis aqui algo de novo”, também esta já existiu nos séculos que nos precederam. 11 Não há memória do que aconteceu no passado, nem também haverá lembrança do que acontecer, entre aqueles que viverão depois.

Evangelho: Lc 9, 7-9

Naquele tempo, 7 o tetrarca Herodes ouviu falar de tudo o que estava acontecendo, e ficou perplexo, porque alguns diziam que João Batista tinha ressuscitado dos mortos. 8 Outros diziam que Elias tinha aparecido; outros ainda, que um dos antigos profetas tinha ressuscitado. 9 Então Hero­des disse: “Eu mandei degolar João. Quem é esse homem, sobre quem ouço falar essas coisas?” E procurava ver Jesus.

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Viver Com Sentido e Fazer As Coisas a Partir Do Seu Sentido

Vaidade das vaidades! Tudo é vaidade. Que proveito tira o homem de todo o trabalho com o qual se afadiga debaixo do sol? Uma geração passa, outra lhe sucede, enquanto a terra permanece sempre a mesma”.

Nestes dias vamos ler e meditar (nas Primeiras Leituras semanais) sobre alguns textos do outro livro dos Livros sapienciais: Eclesiastes ou Coélet (Qohelet). A partir dos indícios linguísticos e sociocultural, a maioria dos especialistas concluiu que o livro foi composto em torno do século III antes de Cristo, na época do processo de helinazação da Palestina.

O nome Eclesiastes é a forma latinizada do grego Ekklesiastés, que traduz o título hebraico Coélet (Qohelet), nome atribuído ao suposto autor do livro (Ecl 1,1.12; 2,27; 12,8.9.10). Em hebraico a palavra “Coélet” (pregador) é do verbo qhl que significa reunir em assembleia, convocar. O substantivo é qahal (assembleia). Mas não se diz quem convoca ou dirige uma assembleia, também nem se fala sobre tipo de assembleia (religiosa, política, profissional, e assim por diante). Mas conforme o próprio livro, pode-se dizer que trata-se de uma escola sapiencial (Cf. Ecl 12,9). Coélet, o autor do livro, era judeu, conhecedor das tradições culturais e religiosas de seu povo e sensível às correntes internacionais.

Vaidade das vaidades! Tudo é vaidade. Que proveito tira o homem de todo o trabalho com o qual se afadiga debaixo do sol? Uma geração passa, outra lhe sucede, enquanto a terra permanece sempre a mesma, assim começa o livro.

Vaidade das vaidades! Tudo é vaidade”. A palavra vaidade vem do latim vanitas, vanitatis, que significa “vazio”, “oco” ou “vacuidade. “Vanitas” deriva de “vanus” que significa “ocioso”, “vazio” ou “sem valor”. É algo ilusório e sem substância real. É futilidade.

Coélet pretende fazer, em primeiro lugar, um exame empírico-discursivo da existência: a criação, as atividades e a história do homem, e o ser humano em si. A primeira coisa que observa, e que lhe causa o impacto é o vaivém da criação e de todo o humano. Nada é permanente: nem no mundo da natureza, nem no mundo dos assuntos humanos. Tudo é passageiro, provisional, porque em qualquer momento a morte pode intervir para demonstrar a frágil armação que é a vida e os projetos de um ser humano. Para o Coélet a morte é o critério de valorização em todos os planos: diante da morte relativizam-se valores materiais e espirituais, pessoais e sociais. A morte nivela o esforço e o ócio, o riso e o pranto, a justiça e a injustiça, a sabedoria e a necessidade, o bem e o mal (Ecl 9,2-3). Diante da morte todo mundo se nivela. Alguns autores pensam que é o tema central do livro seria a inevitabilidade da morte. Segundo os outros, o escândalo maior é que todos têm que morrer, tanto o justo como o malvado. Os que se acham poderosos, os corruptos, os ladrões, os maus, os malvados, os mentirosos, etc. também se envelhecem e morrem como qualquer outra pessoa.

Não podendo encontrar nenhum significado duradouro, verdadeiramente sólido na vida, especialmente devido à morte que vicia tudo e todos, e põe fim a toda empresa ou obra humana (ou pelo menos põe em risco), Coélet conclui  que tudo é vaidade. Este termo “vaidade”, pela frequência de seu uso é uma das chaves da leitura do livro Eclesiastes. Além disso, o lema “vaidade das vaidades; tudo é vaidade” utiliza a forma superlativa do vocábulo, faz uma afirmação universal, e enquadra o livro como síntese de sua mensagem (Ecl 1,2; 12,8).

A morte deixa descoberto o lado caduco das coisas, sua incongruência e sua vaidade. Não se questiona a possibilidade do êxito ou do prazer na vida (enriqueceu-se, alcançou fama, se tornou sábio etc.) e sim o sentido de todo este afã diante da morte, pelo qual alguém perde tudo que acumulou na vida materialmente (Cf. Ecl 1,12.18-21).

A razão de viver ou o sentido da vida é uma das questões mais profundas e reiterativas que os seres humanos fizeram ao longo dos séculos. Correlatos desta questão é o esforço, vão muitas vezes, de conhecer os eventos futuros da história, e até mesmo o que acontecerá além da existência terrena. A questão da razão de ser não é uma preocupação filosófica, mas corresponde ao desejo de viver com dignidade em face de desafios conflitantes, sejam eles econômicos, culturais, sociais ou políticos até religiosos.

Nossa verdadeira vida não está sedenta de fama, conforto, propriedade ou poder. Porque podemos alcançar todos os itens de nossa lista de desejos, e ainda assim nos sentimos vazios. Podemos ter atingido o ápice de nossa profissão ou carreira, e mesmo assim sentimos que nos falta alguma coisa. O dinheiro e o poder ou a fama não satisfazem aquela fome sem nome que temos na alma. Nossa alma tem fome do significado da vida, ou de aprendermos a viver de tal forma que nossa existência tenha importância ou valor, capaz de modificar o mundo ao menos um pouquinho pela nossa passagem por ele. O que nos frustra e rouba a alegria de nossa vida é esta ausência de significado.

Para nós cristãos, “Temos tudo em Cristo. Que toda alma chegue a ele, seja a que está doente dos pecados do corpo, seja a que foi virada pelos pregos de algum desejo deste século, seja ainda a imperfeita, contanto que progrida numa meditação perseverante, seja a perfeita em múltiplas virtudes: estas todas dizem respeito ao poder do Senhor, e Cristo é tudo para nós. Se queres curar tua ferida, ele é médico; se queimas de febre, ele é a fonte; se és acusado de iniquidade, ele é a justiça; se necessitas de socorro, ele é a fortaleza; se temes a morte, ele é a vida; se desejas o céu, ele é o caminho para lá; se foges das trevas, ele é a luz; se procuras sustento, ele é o alimento. ‘Provai e vede como ele é bom. Feliz o homem que tem nele o seu refúgio!’[Sl 34,9]”(Santo Ambrósio de Milão, + 397).

“Uma geração passa, outra lhe sucede, enquanto a terra permanece sempre a mesma, disse Coélet. O único que não passa é Deus que para nós Ele é Emanuel, Deus-Conosco. Por isso, o Salmo Responsorial de hoje (Sl 89/90) nos diz: Vós fazeis voltar ao pó todo mortal, quando dizeis: ‘Voltai ao pó, filhos de Adão!’ Pois mil anos para vós são como ontem, qual vigília de uma noite que passou. Eles passam como o sono da manhã, são iguais à erva verde pelos campos: De manhã ela floresce vicejante, mas à tarde é cortada e logo seca. Ensinai-nos a contar os nossos dias, e dai ao nosso coração sabedoria!”.

Precisamos viver na novidade do amor incondicional de Deus que nos faz avançar para a realização do homem perfeito, o homem que habitam no seu coração a sabedoria e o amor.

A Palavra De Nos Interpela Permanentemente

O modo de viver de Jesus, os valores que ele vive e prega, a igual maneira de ele tratar as pessoas, sua preocupação com a vida do povo em geral e de cada pessoa em particular, sua independência perante a lei religiosa, sua compaixão pelo povo abandonado pelas autoridades chamam muito atenção de todos, especialmente das autoridades. Por se preocupar com a vida do povo, a presença de Jesus se torna uma censura viva para as autoridades que só pensam em sua própria vida e em seu próprio poder. Herodes Antipas, tetrarca da Galiléia, uma das autoridades, ficou perturbado com  a fama de Jesus.

O texto do evangelho de hoje se abre com a palavra “ouvir” e termina com a palavra “ver”. “O tetrarca Herodes ouviu falar de tudo o que estava acontecendo. .... E procurava ver Jesus”. “Ouvir e ver” são os dois termos que contêm toda a experiência de fé que o evangelista Lucas propõe para nós. Por meio da escuta chega-se a conhecer quem é Jesus para associar-se a Ele e vê-lo na sua viagem a Jerusalém onde Ele será cruicicado e morto, e ressuscitado em direção ao Pai. Em Herodes há um escutar que não entende e um olhar que não vê (Lc 8,10).

Curiosamente, a pergunta de Herodes sobre Jesus surge entre o relato da missão dos Doze e o da multiplicação dos pães. Herodes se pergunta: Eu degolei João. Quem é, pois, este, de quem ouço tais coisas? E procurava ocasião de vê-lo”.

A pergunta de Herodes tem outra profundidade, efetivamente, coincide com a pergunta de todos os que se sentem interpelados pela pessoa e pelo modo de viver de Jesus e pelo testemunho dos discípulos. Herodes Antipas estava cheio de curiosidades porque no meio do povo se falava muito de Jesus, se contava mil coisas sobre Ele, dos seus lábios saiam palavras com poder e autoridade, se contavam fatos extraordinários como os milagres realizados por Ele. Herodes que estava no poder queria ver esse individuo tão “exótico” numa Galiléia tão provinciana. Seu pai, Herodes, o Grande, tinha a curiosidade de conhecer Jesus - menino, rei recém-nascido, mas com o intuito de eliminá-lo (cf. Mt 2,1-23). Uma das maneiras de falar de Deus e com Deus é a “voz de nossa consciência”. Herodes não tinha sua consciência tranqüila: uma voz do fundo de si mesmo lhe recordava seu pecado, sua maldade. Por isso, fica inquieto.

A sabedoria popular diz que há curiosidades maldosas, tais como as de Herodes,... quando permitem abusar de um poder ou de um interesse que elas atribuíram injustamente; quando alimentam o escândalo que elas mesmas exploram ou inventaram. Herodes queria ver Jesus para colocá-lo em sua Corte.

Mas se há curiosidades maldosas, precisamos estar conscientes de que a curiosidade também é o primeiro passo para o encontro e para a fé. O assombro, a surpresa, a provocação são o pórtico que nos introduz no descobrimento dos labirintos da casa e que nos inicia no mistério de uma morada.

A curiosidade é boa, pois ela desperta à vida. Uma criança vive na permanente curiosidade, e pergunta constantemente, pois ela quer saber mais e mais. Para ela o mundo está cheio de surpresas. O sentido da vida consiste em interrogar, em ser interrogado e em se interrogar. Curiosidade é sinônimo de descobrimento; é tensão até um objeto entrevisto ou desejado.

Ao lado da curiosidade há dúvida. A dúvida é o estado de equilíbrio entre afirmação e negação. Quem tem dúvida fica impedido de afirmar ou de negar por falta de dados nas mãos. A dúvida nos empurra para procurar fundamentos para podermos afirmar ou negar ou para podermos ter certeza daquilo que nos faz duvidosos. A incredulidade é, ao contrário, uma ausência da crença. 

Herodes sentiu a curiosidade de querer ver Jesus. Mas com qual finalidade de ele querer ver Jesus? Para armar alguma cilada? Para ouvir da própria boca de Jesus de tudo que o povo fala e comenta? Para pedir de Jesus algum milagre ou alguma ajuda para o povo? Para desacreditá-Lo diante do povo? O texto não fala e por isso, não sabemos. Ele só terá oportunidade de ver Jesus na sua Paixão. Mas Jesus se manterá calado diante de Herodes, pois Herodes agirá de má-fé. Diante do silêncio de Jesus Herodes morrerá, um dia, sem saber quem é Jesus.

Será que nós, chamados de cristãos, ainda sentimos curiosidade por Jesus? Será que já descobrimos esse Jesus na sua profundidade? Será que conhecemos realmente esse Jesus? Será que somente confessamos em Jesus nas definições sem alma e reconhecê-lo nos dogmas frios e secos? Será que paramos de ter curiosidade sobre a pessoa e o modo de viver de Jesus a fim de purificar nossa vida já que somos chamados de cristãos? Podemos ter certeza de que a Palavra de Deus, os ensinamentos de Jesus nos interpelam todas vez que os lermos e meditarmos ou ouvirmos pregação ou retiro a respeito de Jesus.

Dentro deste contexto, podemos dizer que a fé é curiosidade permanente, isto é, assombro que compromete a arriscar-se na aventura, num encontro entrevisto e, em conseqüência, desejado. A fé é curiosidade, de forma que a dúvida lhe é indispensável. Por isso, somente na coragem de fazer uma aventura cheia de riscos é que chegaremos à resposta desejada para afirmar ou negar nossa dúvida. A incerteza e a incompreensão pertencem ao terreno de nossa fé como o oco que espera ser preenchido, como a espera que aguarda o encontro, como a fome que se alimenta com o que pode satisfazê-la.

A pergunta continua fica no ar para cada cristão: “Será que você ainda tem curiosidade de Jesus? Que curiosidade você tem de Jesus?”. Tenho medo de que quando a curiosidade sobre Jesus morrer, morrerá também nossa fé. O evangelho que não mais nos incomoda deixa de ser evangelho. A Palavra de Deus que não nos interroga deixa de ser a Palavra de Deus.

Quem é esse home, sobre quem ouço falar essas coisas?” E procurava ver Jesus. Somente são os que se aproximarem de Jesus com simplicidade e com um coração puro conseguirão entender gradualmente a identidade de Jesus que tem uma missão salvadora. São muitos as pessoas: jovens e adultos que também em nossa geração desejam ver Jesus. Fisicamente Jesus não está neste mundo. Somos nós o prolongamento de Cristo, pois livremente escolhemos ser cristãos. Temos, então, a missão de dar testemunho, com nossa vida e palavra de que Jesus é a resposta plena de Deus para todas as nossas buscas. Se no mundo não se vê mais Jesus Cristo é porque não se vê mais na vida de cada cristão. Talvez as seguintes palavras de São Paulo possam nos despertar para que voltemos a viver os ensinamentos de Cristo na nossa vida e nos nossos negócios: “Vós sois uma carta de Cristo... escrita não com tinta, mas com o Espírito de Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, em vossos corações(2Cor 3,3). “Somos para Deus o perfume de Cristo entre os que se salvam e entre os que se perdem” (2Cor 2,15).

P. Vitus Gustama,svd

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Quarta-feira Da XXV Semana Comum, Ano Par, 23/09/2026

SER BATIZADO É SER ENVIADO DO SENHOR PARA LIBERTAR OS OUTROS

Quarta-Feira da XXV Semana

Primeira Leitura: Provérbios 30,5-9 (Ano Par)

5 A Palavra de Deus é comprovada. Ele é um escudo para os que nele se abrigam. 6 Não acrescentes nada às suas palavras, para que ele não te repreenda e passes por mentiroso! 7 Duas coisas eu te pedi; não mais recuses, antes de eu morrer: 8 afasta de mim a falsidade e a mentira, não me dês pobreza nem riqueza, mas concede-me o pão que me é necessário. 9 Não aconteça que, saciado, eu te renegue e diga: “quem é o Senhor?” Ou que, empobrecido, eu me ponha a roubar e profane o nome de meu Deus.

Evangelho: Lc 9,1-6

Naquele tempo, 1 Jesus convocou os Doze, deu-lhes poder e autoridade sobre todos os demônios e para curar doenças, 2 e enviou-os a proclamar o Reino de Deus e a curar os enfermos. 3 E disse-lhes: “Não leveis nada para o caminho: nem cajado nem sacola nem pão nem dinheiro nem mesmo duas túnicas. 4 Em qualquer casa onde entrardes, ficai aí; e daí é que partireis de novo. 5 Todos aqueles que não vos acolherem, ao sairdes daquela cidade, sacudi a poeira dos vossos pés, como protesto contra eles”. 6 Os discípulos partiram e percorriam os povoados, anunciando a Boa Nova e fazendo curas em todos os lugares.

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A Palavra De Deus É Nosso Tesouro e Nosso Escudo.

“A Palavra de Deus é comprovada. Ele é um escudo para os que nele se abrigam. Não acrescentes nada às suas palavras, para que ele não te repreenda e passes por mentiroso!”.

Terminamos hoje a leitura do livro dos Provérbios. Os últimos pensamentos deste livro que lemos hoje se baseiam  também no valor da Palavra de Deus, que é nosso melhor tesouro e escudo: “A Palavra de Deus é comprovada. Ele é um escudo para os que nele se abrigam. Não acrescentes nada às suas palavras, para que ele não te repreenda e passes por mentiroso!”. A Palavra escutada e colocada na prática vai nos conduzindo na vida e vai conformando nossa vontade à vontade de Deus. Como tesouro e escudo, a Palavra de Deus não nos deixa enganar por outras palavras que manipulam e desorientam nossa vida.

A Palavra de Deus continuará a ser eficaz, curadora, e libertadora, se nós soubermos ouvi-la atentamente e vivê-la na nossa vida cotidiana. Se ela curou tantas pessoas, converteu tantos pecadores, libertou tantas pessoas de seus problemas, guiou a vida de tantos homens, transformou muitos em santos e mártires, esta mesma Palavra continua tendo o mesmo poder e a mesma eficácia. A palavra humana pode errar e enganar, porque o homem é fraco. Mas a Palavra de Deus não erra nem engana. A Palavra de Deus é firme para sustentar a vida de quem nela se agarra e por ela se orienta.

Ler a Bíblia é aprender a conhecer o coração de Deus mediante Suas palavras” (Gregório Magno). E coração de Deus é um coração cheio de amor misericordioso. Certamente, da primeira até a última página da Bíblia conta-se a história do amor de Deus pela humanidade. “Toda a Bíblia nada mais do que narrar o amor de Deus” (Santo Agostinho). O amor de Deus é a ultima resposta para todos os “porquês” da Bíblia: por que a criação, por que a encarnação, por que a redenção. Tudo o que Deus faz e fala na Bíblia é amor. Deus move o mundo enquanto é amado, isto é, enquanto é objeto de amor e causa final de todas as criaturas. Deus nos ama e acreditamos no Seu amor.

Mas será que acreditamos nela? Será que temos tempo para ler, meditar, e vivê-la? Será que deixamos que essa mesma Palavra opere na nossa vida?

Não acrescentes nada às suas palavras, para que ele não te repreenda e passes por mentiroso!”, acrescentou o sábio.

Não se deve falsificar a Palavra de Deus. Há muitos modos de falsificar a Palavra de Deus: escolher somente o que me agrada do Evangelho, acrescentar interpretações tão pessoais que acabam sendo uma simples justificativa para o injustificável. Quem tira o texto da Bíblia fora do contexto é o pretexto. Há que aceitar a Palavra de Deus como ela é e lê-la na sua totalidade.

Viver Segundo a Palavra De Deus É Viver O Necessário

“Não me dês pobreza nem riqueza, mas concede-me o pão que me é necessário. Não aconteça que, saciado, eu te renegue e diga: ‘quem é o Senhor?’ Ou que, empobrecido, eu me ponha a roubar e profane o nome de meu Deus”, acrescentou o sábio dos Provérbios.

Não me dês pobreza nem riqueza, mas concede-me o pão que me é necessário!”. A motivação é boa: quando se tem os bens materiais demasiadamente, Deus, o Criador dos bens materiais, será capaz de ser esquecido. Quando se vive na miséria, terá a tentação de maldizer Deus e começará a roubar ou furtar: “Não aconteça que, saciado, eu te renegue e diga: ‘quem é o Senhor?’ Ou que, empobrecido, eu me ponha a roubar e profane o nome de meu Deus.

A avareza ou a ganância é uma transposição do absoluto para o que é relativo. Para o avarento a riqueza não é um meio para se viver e sim a própria razão de ser da vida. Na avareza está oculta uma ofensa social, seja os bens lícitos, muito pior ainda se forem ilícitos na sua aquisição. Não é fácil conciliar a riqueza excessiva de alguns com os direitos que os outros têm ao necessário.

Não centremos nossa vida nos bens passageiros, nem os façamos nosso Deus. Usemos as coisas para amar as pessoas na partilha do que temos e somos, e não amemos as coisas usando as pessoas para adquirir os bens materiais que são passageiros. Somente assim não tiraremos do centro de nosso coração Deus, Criador de todas as coisas, nem os necessitados que precisam de nossa ajuda. Relativizar os bens materiais é a chave para adquirir o bem maior de Deus. É preciso acreditarmos no Deus das coisas e não somente nas coisas de Deus, esquecendo-nos do próprio Criador. Não coloquemos o ouro e a prata acima de Quem os criou (Deus). Tudo que se adquire aqui neste mundo materialmente, será deixado no lugar onde foi tirado: no mundo.

O que se enfatiza no Evangelho deste dia é a pobreza evangélica para todos os cristãos, no sentido de confiar totalmente em Deus. e todos são batizados para ser apóstolos do Senhor. Os cristãos-missionários, discípulos-missionários devem ser livres interiormente. Não devem buscar a si mesmo e sim dar exemplo de desapego e confiar na força intrínseca da Palavra de Deus que vivem e proclamam. Somos todos condutores da força salvadora da Palavra de Deus. Ser batizado é ser eleito do Senhor. E ser eleito do Senhor é ser missionário do Senhor.

Ser Cristão é Ser Missionário Do Senhor (discípulo-missionário)

O texto do evangelho deste dia fala da missão dos Doze Apóstolos de Jesus e, portanto, a missão de toda a Igreja, de todos os cristãos. Para esta missão Jesus não apenas chama os Doze, mas ele os convoca: “Jesus convocou os Doze...”. No seu sentido lexical “convocar” significa chamar para determinada reunião ou ato coletivo, ou mandar comparecer. Para um ato coletivo, ninguém pode ficar fora. Na coletividade está a força somada para alcançar com facilidade determinado objetivo ou meta comum.

Depois de uma longa temporada de formação e de instrução, Jesus convoca seus discípulos e os envia. A missão consiste na tarefa de libertar as pessoas de suas prisões para serem livres a fim de que possam desfrutar, novamente, sua dignidade de filhos e filhas de Deus.  Jesus “deu-lhes poder e autoridade sobre todos os demônios e para curar doenças...”. “Demônio” é algo que representa coisa maléfica. Doença representa tudo que leva alguém não desfrutar bem a vida. os Doze são enviados para superar tudo isso com o poder e a autoridade de Jesus. Eles continuarão a ter esse poder e essa autoridade na medida em que eles exercerem essa missão libertadora. Aqui o poder e a autoridade são sinônimos de serviço para libertar as pessoas e para dominar as forças maléficas e destruidoras da dignidade humana. Somente a partir dessa missão colocada em prática é que os Doze poderão despertar nas pessoas a consciência do próprio valor e honra, da autoridade e da nobreza. “O mérito do trabalho não está em sua dificuldade, mas no grau de caridade, de amor, de união com o Cristo, contido na alma daquele que age” (Simone Patris).

A missão confiada aos Doze também consiste em proclamar ou anunciar a Boa Nova: Jesus “enviou-os a proclamar o Reino de Deus e a curar os enfermos”.

A primeira tarefa na frase é o anúncio: “... enviou-os a proclamar o Reino de Deus”. A palavra grega para o anúncio é Kerygma: anúncio, mensagem ou proclamação feita com voz alta. O objetivo do anúncio é suscitar a fé em Jesus para aderir-se a Ele pessoalmente, pois Jesus Cristo é o Enviado do Pai pelo Espírito Santo e que por amor, se entrega para a salvação dos homens. Através do anúncio as pessoas são convidadas a fazer uma experiência de encontro com Cristo que dá novo significado à vida. “Cabe à Igreja o dever e també o direito sagrado de evangelizar todos os homens(Catecismo Da Igreja Católica, 848)

Anunciar não se restringe somente em proclamar e sim em curar os fracos, fortalecer os caídos e socorrer os necessitados. Trata-se de uma ação concreta sobre pessoas concretas que se encontram em determinada necessidade vital. Vale para nós a frase de são Francisco de Assis: “Pregue o Evangelho em todo o tempo. Se necessário, use palavras”. É um discurso acompanhado com ações concretas.

A missão pode se resumir em dois pontos precisos: um é uma palavra, uma proclamação, um anúncio; outro é um ato propriamente dito, uma cura/libertação. Além do anúncio, os evangelizadores devem ajudar as pessoas a saírem de sua prisões e de todo tipo de escravidão. O missionário não pode ficar contente apenas com “palavras”, mas são necessários “atos” concretos que mostram aos homens que estes contribuem para libertá-los do poder do mal: expulsar os demônios, curar os doentes. Mas o missionário não pode ficar contente com somente “atos”, é preciso que suas palavras explicitem o que faz: dizer que o Reino de Deus está atuando entre o povo. Toda a vida do cristão deve ser evangelizadora. Por isso, é bom cada cristão responder as seguintes perguntas: Estou consciente de que sou discípulo-missionário? Tenho lutado contra o mal que existe dentro de mim e ao meu redor? Tenho anunciado Jesus Cristo Salvador com minhas obras e com minhas palavras? “O trabalho deve ser concebido e vivido como vocação e missão, como tributo à civilização” (João XXIII).

Reflitamos sobre as palavras do Papa Francisco: Não podemos ficar encerrados na paróquia, nas nossas comunidades, quando há tanta gente esperando o Evangelho! Não se trata simplesmente de abrir a porta para acolher, mas de sair pela porta fora para procurar e encontrar. Decididamente pensemos a pastoral a partir da periferia, daqueles que estão mais afastados, daqueles que habitualmente não freqüentam a paróquia. Também eles são convidados para a Mesa do Senhor” (Homilia Na Missa Com Os Bispos – Catedral Metropolitana, Rio de Janeiro- Brasil, Sábado, 27 de julho de 2013).

Para exercer esta missão cada enviado, cada cristão deve ser revestido de a “pobreza evangélica”: “Não leveis nada para o caminho: nem cajado nem sacola nem pão nem dinheiro nem mesmo duas túnicas”.

As supostas seguranças para o dia-a-dia pesam para quem deve estar em movimento (missão). O apego aos bens materiais tira a fé na providencia divina que criou tudo para todos generosamente. Se o Deus em quem acredito tem poder de criar tudo, porque não posso acreditar na Sua providência? Vivem na fé e com fé não é tão fácil como falar da fé. A fé autentica exige para cada cristão a estar livre interiormente, sem demasiada bagagem. O cristão não busca a si mesmo e sim deve dar exemplo de desapego e deve confiar na força intrínseca da Palavra de Deus. O cristão deve estar despojado, ter um coração livre e desarmado. Somente aquele que se esvazia de si tem espaço para a graça de Deus. E quando uma pessoa estiver cheia da graça de Deus, como a mãe de Jesus, ele será uma bênção para os demais.

Não leveis nada para o caminho: nem cajado nem sacola nem pão nem dinheiro nem mesmo duas túnicas. Em qualquer casa onde entrardes, ficai aí; e daí é que partireis de novo”. A Igreja primitiva cuidava muito de manter esse ideal de pobreza real. A pobreza era para ela um sinal do Reino (Lc 6,20;14,25-33; 16,19-31; 18,18-30).

Toda vez que nos encontrarmos com essa exigência evangélica devemos nos interrogar, pois somos muito propensos a esquecê-la e a nos instalar no conforto e no bem-estar com o risco tremendo de nos contentar com esses bens materiais e nos falte a disponibilidade. Vale a pena fazer uma reflexão sobre as seguintes palavras do Papa Francisco na sua entrevista com Gerson Camarotti da Globo News durante a Jornada Mundial da Juventude de 2013 no Rio de Janeiro, Brasil: “Penso que temos que dar testemunho de uma certa simplicidade, eu diria, inclusive, de pobreza. Nosso povo exige a pobreza de nossos sacerdotes. ... O povo sente seu coração magoado quando nós, as pessoas consagradas, estamos apegadas ao dinheiro. Isso é ruim. E realmente não é um bom exemplo que um sacerdote tenha um carro último tipo, de marca” (Papa Francisco, Mensagens e Homilias- JMJ Rio 2013 , pp. 130-131. Ed. Conferência Nacional dos Bispos do Brasil).

A Igreja que somos nós todos, devemos servir de ponte entre Deus e a humanidade, deve servir de testemunha da simplicidade e do amor de Deus aos homens. A fé, que é a resposta humana ao convite de Deus deve ser refletida na terra em que vivemos e em que trabalhamos. Toda a atividade da Igreja ou de cada cristão deve ser dirigida para este fim: ser espelho do amor de Deus.

A imagem da Igreja, que somos nós todos, deve ser a imagem de uma realidade acolhedora e não excludente, deve ser a imagem de um “recinto” em que todos cabem porque todos são recebidos com amor. Neste sentido, toda a vida do cristão há de ser evangelizadora. Onde há amor, há espaço. Onde não há amor, há apenas um sufoco e agressividade e mútuo ataque.

Na Eucaristia celebramos o amor daquele que, conhecendo nossa fragilidade, faz suas nossas dores, carregou sobre si nossas misérias e nos curou com suas chagas (cf. Mt 8,17; Is 53,4). Ele se apresentou não como um Deus terrível que dá medo e sim com simplicidade de quem nos ama entranhavelmente e se aproxima de nós para se manifestar a nós como a Boa Notícia que o Pai misericordioso pronuncia a nosso favor.

Que Deus nos conceda a graça de viver confiados no amor de Deus, mas ao mesmo tempo, de viver fieis a todo aquilo que nos foi encomendado, especialmente proclamar seu Evangelho não somente com palavras, principalmente com obras, de tal forma que sejamos construtores de seu Reino neste mundo.

P. Vitus Gustama,svd

domingo, 20 de setembro de 2026

Terça-feira Da XXV Semana Comum, Ano Par, 22/09/2026

SER MEMBRO DA FAMÍLIA DE JESUS E VIVER DE ACORDO COM A PALAVRA DE DEUS É VIVER NA SABEDORIA

Terça-Feira da XXV Semana Comum

Primeira Leitura: Provérbios 21,1-6.10-13

1 O coração do rei nas mãos do Senhor é como água corrente; ele o dirige para onde quer. 2 O homem pensa que o seu caminho é sempre reto, mas é o Senhor quem sonda os corações. 3 Praticar a justiça e o direito é mais agradável ao Senhor do que os sacrifícios. 4 Olhar arrogante e coração orgulhoso, a lâmpada dos malvados não é senão o pecado. 5 Os projetos do homem aplicado produzem abundância, mas todos os apressados só alcançam indigência. 6 Tesouros adquiridos com língua mentirosa são ilusão passageira dos que procuram a morte. 10 A alma do malvado deseja o mal, ele olha sem piedade para o seu próximo. 11 Quando se castiga o zombador, aprende o imbecil, e quando o sábio é instruído, ele adquire mais saber. 12 O justo observa a casa do ímpio e leva os ímpios à desgraça. 13 Quem tapa os ouvidos ao clamor do pobre, também há de clamar, mas não será ouvido.

Evangelho: Lc 8,19-21

Naquele tempo, mãe e os irmãos de Jesus aproximaram-se, mas não podiam chegar perto dele, por causa da multidão. 20 Então anunciaram a Jesus: “Tua mãe e teus irmãos estão aí fora e querem te ver”. 21 Jesus respondeu: “Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus, e a põem em prática”.

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É Necessário Viver e Conviver Com Sabedoria e Discernimento

Continuamos a acompanhar as reflexões do sábio do livro dos Provérbios, cheias de sentido comum e de sensibilidade religiosa. São páginas para ler sem pressa, projetando suas gotas de sabedoria sobre nosso comportamento, e que servem como um exame de consciência para todos nós. Mesmo sendo ideias dispersas sem relação aparente entre elas, porém elas são critérios de sabedoria para a vida cotidiana para qualquer ser humano.

Por exemplo, “O coração do rei nas mãos do Senhor é como água corrente; ele o dirige para onde quer”. Mas muitas vezes, os grandes “dirigentes” ou “governantes”, ou “chefes” vivem como se não tivesse Alguém superior (Deus, o Criador) e por este comportamento acabam fazendo tudo ao seu gosto e prazer, esquecendo-se que um dia todos terminarão sua passagem neste mundo e cada um tem que prestar contas diante de Deus por tudo que fez na vida (Cf. 2Cor 5,10; Hb 9,27).

O sábio dos Provérbios nos relembra também que, O homem pensa que o seu caminho é sempre reto, mas é o Senhor quem sonda os corações”.

Frequentemente, caímos na tentação das aparências, mas é Deus quem conhece o coração humano e sabe se é sólido ou não. Já deveríamos ter a experiência de que “Tesouros adquiridos com língua mentirosa são ilusão passageira dos que procuram a morte”. E que "tesouros ganhos pela boca enganosa são a fumaça que se dissipa". Nosso conhecimento é sempre limitado e superficial. Somente Deus tem um conhecimento exato das coisas dos homens, pois “é o Senhor quem sonda os corações”.

Além disso, mais uma vez aparece uma afirmação, tantas vezes ouvida nos lábios dos profetas e do próprio Jesus, que "Praticar a justiça e o direito é mais agradável ao Senhor do que os sacrifícios”. No evangelho Jesus afirma que “amar a Deus de todo o coração, de toda a inteligência e com toda a força, e amar o próximo como a si mesmo vale mais do que todos os holocaustos e todos os sacrifícios” (Mc 12,33). As exigências de justiça e de direito são exigências divinas. Praticar a justiça e direito vale mais do que “prática religiosa”, se as práticas religiosas nao correspendem com a boa conduta diariamente.

Com efeito, o justo, biblicamente, significa aquele que é fiel aos mandamentos de Deus; aquele que tem nos anúncios dos profetas e espera com paciência seu cumprimento, pois Deus é fiel às suas promessas. É justo o homem que olha para Deus e ordena a sua vida segundo os ditames da vontade divina. É justo o homem que cumpre a Lei divina de todo coração e com sincera alegria e leveza. O justo é o homem sábio e bondoso. O justo é, portanto, uma figura ideal do homem agradável a Deus e aos homens de boa vontade.

Também somos lembrados de que um dia nos acontecerá o que vemos acontecer aos outros na sua necessidade, no entanto, não os ajudamos. Sabemos muito bem que nossa vida é uma roda que gira sem parar. Um dia estamos muito bem, outro dia nos encontramos sem força pelo peso dos problemas ou de alguma doença e dor. Nisso, a convivência fraterna nos ajuda muito nesses momentos difíceis. Por isso, o sábio nos alerta: “Quem tapa os ouvidos ao clamor do pobre, também há de clamar, mas não será ouvido”.

Com o Salmo Responsorial de hoje (Sl 118/119), rezemos a Deus que nos ensine Sua Sabedoria: “Guiai-me, Senhor, no caminho de vossos preceitos! Fazei-me conhecer vossos caminhos, e então meditarei vossos prodígios! Escolhi seguir a trilha da verdade, diante de mim eu coloquei vossos preceitos. Dai-me o saber, e cumprirei a vossa lei, e de todo o coração a guardarei. Guiai meus passos no caminho que traçastes, pois só nele encontrarei felicidade. Cumprirei constantemente a vossa lei, para sempre, eternamente a cumprirei!”. A vontade de Deus deve ser a lei suprema para cada homem, pois Deus está em todas as coisas e Seu domínio é supremo. A capacidade de “ver” Deus em todas as coisas e Sua vontade em todos os eventos é o caminho para a sabedoria, a felicidade e a paz.

Ser Praticante Da Palavra De Deus Nos Torna Membros Da Família do Senhor

 Tua mãe e teus irmãos estão aí fora e querem te ver”.

Os parentes, mãe e irmãos, querem “ver” Jesus. É muito difícil saber o significado preciso desta palavra: VER. No texto correspondente de Marcos, a intenção da família é bem precisa: buscar Jesus para levá-Lo para a casa porque pensam que ele está fora de si (Mc 3,20-21). Lucas como um evangelista fino e humano que respeita a família de Jesus suprimiu esse motivo (sobre a intenção da família em querer ver Jesus). Mesmo assim tem-se impressão de que os parentes querem monopolizar Jesus, utilizando os privilégios que lhes oferece seu parentesco. Neste contexto compreende-se a resposta da parte de Jesus: “Minha mãe e meus irmãos são aqueles, que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática”. Diante do velho parentesco de sangue, Jesus funda as bases da nova família de Seu Reino, no qual fazem parte aqueles que recebem e cumprem Sua Palavra com dois traços. Primeiro, é preciso “escutar a Palavra”, isto é, estar aberto diante da graça recebendo o dom de amor que Deus ofereceu em e através de Jesus. Segundo, há que cumprir a Palavra. Somente aquele que traduz a Palavra de Deus em sua vida faz parte da família de Jesus. Neste sentido, ser cristão significa viver no mistério do amor que Deus nos comunica como nova possibilidade de existência e de convivência fraterna. E este amor se torna um principio de nossa existência: Devemos ser pontes do amor de Deus para que ele chegue aos outros. Em Jesus e por Jesus, encarnação do amor de Deus, os homens, que escutam Sua Palavra e a vivem conforme essa Palavra, constituem uma mesma família com Jesus.

“... mas não podiam chegar perto dele, por causa da multidão. “ Para aproximar-se de Jesus não basta ser dos seus. Relata-se no texto que entre Jesus e os seus (“Tua mãe e teus irmãos), está no meio “a multidão”. A multidão está com Jesus para ouvi-Lo e segui-Lo. Os parentes de Jesus (e o próprio Isarel) para aproximar-se de Jesus devem entrar nessa multidão de discípulos. Assim contrapõe-se uma parentela segundo o Espírito a uma segundo a carne.

Por isso, em seguida Jesus afirma: Minha mãe e meus irmãos são aqueles, que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática”.

A comunidade com Jesus está no ouvir e no tornar realidade a Palavra de Deus. Maria é a mãe de Jesus por causa do seu “sim” total e absoluto, dado um dia à Palavra de Deus. “Faça-se em mim segundo a Tua Palavra(Lc 1,37), disse Maria, a mãe de Jesus na anunciação. Maria guarda cada Palavra e a medita em seu coração (Lc 2,19). Ela leva a Palavra a Isabel, e seu anúncio é tão rico que transborda em um cântico chamado “Magnificat” (Lc 1,46-55) e em alegria para quem ainda em crescimento (Lc 1,44). Maria é o coração bom que retém para irradiar a Palavra de Deus e produz fruto com constância. Maria foi um “sim” à Luz e deu a luz a Luz do mundo (Jo 8,12). Por isso, o texto do evangelho deste dia é um grande elogio de Jesus a Maria, sua mãe que entregou totalmente sua vida e sua vontade a Deus para o bem de todos. Maria escuta a Palavra de Deus, medita-a e vive de acordo com esta Palavra. Pela escuta e vivência da Palavra Maria se torna de Deus e do Povo de Deus.       

Para escutar bem precisamos criar o silêncio dentro de nós e ao nosso redor. O silêncio cria ressonância à Palavra. Para escutar bem é necessário que estejamos vazios de nós mesmos: “Estar vazio de toda criatura é estar cheio de Deus. E estar cheio de toda criatura é estar vazio de Deus” (Meister Eckhart). O silêncio é um vazio em que a plenitude se torna presente. O silêncio nos ajuda a calarmos em nós a fantasia, o nosso rancor, o nosso ódio, o nosso medo, a nossa angústia, a nossa indiferença, o nosso mau humor, a nossa inveja, o nosso orgulho, ou o nosso ser em geral, e a limparmos da alma tudo quanto nos possa perturbar para ouvir a verdade de Quem é maior que nós: Deus.        

Cada um de nós é vítima da agressão externa de hordas de palavras, de sons, de clamores, que ensurdecem o nosso dia e até mesmo, às vezes, a nossa própria noite. Somos agredidos e envolvidos pelo multilóquio mundano que, com mil futilidades, nos distrai e nos dispersa. Só depois do amor ao silêncio é que despertará a nossa capacidade de escuta.    

Quando compreendemos a Palavra de Deus como um chamado urgente para ser escutada é que conseguimos perceber melhor o que está em jogo na nossa vida. É a Palavra de Deus que nos mostra o que fazer e como fazer.

Uma comunidade somente pode ser chamada de a Igreja de Cristo, se cada um de seus membros souber viver de acordo com a Palavra de Deus. O que nos une é a vivência da Palavra de Deus e a mútua oração. O povo eleito foi formado não por decreto, mas pela escuta e pela obediência à Palavra de Deus. A Igreja de Cristo é edificada pela Palavra de Deus. A Igreja dá a igual reverência à Mesa da Palavra e à Mesa da Eucaristia. Esta é a alma da Igreja e a Igreja é seu fruto. Da Palavra de Deus brota sempre Igreja viva. Somos cristãos não por decreto, mas pela convicção e pela opção. Ser cristão significa viver no mistério de amor que Deus nos comunicou através de Jesus, Deus encarnado, a Palavra Encarnada como nova possibilidade de existência. A partir desse amor de Deus que nos é oferecido nós devemos ser ponte de amor para os outros. Os irmãos e as irmãs se reconhecem mutuamente pela mesma prática do amor fraterno, pela disposição a viver reconciliados e a trabalhar juntos pela causa de Jesus.

Além desse amor mútuo, outra característica da comunidade de Jesus é o serviço mútuo. Quando um começar a servir o outro na comunidade, todo tipo de rivalidade desaparece. Mas quando cada um começar a se considerar como o mais importante do que os outros, a disputa e a briga vão começar a acontecer na própria comunidade e a comunidade perderá sua força para dar testemunho. Se cada membro deixar de cuidar do outro membro da comunidade, a comunidade vai formar uma comunidade de traidores, como Judas que traiu o próprio Mestre. E as palavras de Mahatma Gandhi vão ter que soar novamente nos nossos ouvidos: “Aceito vosso Cristo, mas não aceito vosso cristianismo”.

Se o Senhor nos diz hoje: Minha mãe e meus irmãos são aqueles, que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática”, cada um de nós precisa se perguntar: “Será que sou mãe, irmã ou irmão de Jesus? Será que posso me dizer que sou um dos membros da comunidade de Jesus?”. Que Deus nos conceda, por intercessão de Maria, nossa Mãe a graça de viver de acordo com a Palavra de Deus para que possamos, pela misericórdia divina, alcançar os bens eternos.

A comunhão com Jesus somente se alcança na aceitação de Seu projeto, de Sua vida e de Suas palavras na própria vida e somente dele se pode construir um autentico vínculo familiar que faça indissolúvel nossa união com Ele.

P. Vitus Gustama,svd

São Mateus, Apóstolo e Evangelista, 21/09/2026

SEGUIR A JESUS PARA SER SEU DISCÍPULO-MISSIONÁRIO

FESTA DE SÃO MATEUS, APÓSTOLO E EVANGELISTA

Leitura - Ef 4,1-7.11-13

Irmãos: 1 Eu, prisioneiro no Senhor, vos exorto a caminhardes de acordo com a vocação que recebestes: 2 Com toda a humildade e mansidão, suportai-vos uns aos outros com paciência, no amor. 3 Aplicai-vos a guardar a unidade do espírito pelo vínculo da paz. 4 Há um só Corpo e um só Espírito, como também é uma só a esperança à qual fostes chamados. 5Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, 6um só Deus e Pai de todos, que reina sobre todos, age por meio de todos e permanece em todos. 7Cada um de nós recebeu a graça na medida em que Cristo lha deu. 11E foi ele quem instituiu alguns como apóstolos, outros como profetas, outros ainda como evangelistas, outros, enfim, como pastores e mestres. 12Assim, ele capacitou os santos para o ministério, para edificar o corpo de Cristo, 13até que cheguemos todos juntos à unidade da fé e do conheci mento do Filho de Deus, ao estado do homem perfeito e à estatura de Cristo em sua plenitude.

Evangelho: Mt 9,9-13

Naquele tempo: 9 Partindo dali, Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado na coletoria de impostos, e disse-lhe: 'Segue-me!' Ele se levantou e seguiu a Jesus. 10 Enquanto Jesus estava à mesa, em casa de Mateus, vieram muitos cobradores de impostos e pecadores e sentaram-se à mesa com Jesus e seus discípulos. 11 Alguns fariseus viram isso e perguntaram aos discípulos: 'Por que vosso mestre come com os cobradores de impostos e pecadores?' 12 Jesus ouviu a pergunta e respondeu: 'Aqueles que têm saúde nóo precisam de médico, mas sim os doentes. 13 Aprendei, pois, o que significa: `Quero misericórdia e não sacrifício'. De fato, eu não vim para chamar os justos, mas os pecadores'.

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No dia 21 de setembro celebramos a festa de São Mateus, Apóstolo e Evangelista. O seu nome hebraico significa "dom de Deus. A tradição da Igreja antiga concorda na atribuição a Mateus da autoria do primeiro Evangelho. Isto acontece já a partir de Papias (+140 d.C), Bispo de Hierápoles na Frígia por volta do ano 130. Ele escreveu: "Mateus reuniu as palavras (do Senhor) em língua hebraica, e cada um as interpretou como podia" (em Eusébio de Cesareia, Hist. eccl. III, 39, 16). Como Apóstolo Mateus está sempre presente nos elencos dos Doze escolhidos por Jesus para serem apóstolos (cf. Mt 10, 3; Mc 3, 18; Lc 6, 15; At 1, 13).

Mateus desempenhava a profissão de publicano (cobrador de impostos) e por isso era considerado pecador público (publicano), excluído da convivência. Mas tudo mudou quando Jesus o chamou: "Segue-me!". Não há nada que seja mais salvador para um pecador do que ouvir a chamada de Deus para viver novamente o caminho da felicidade e de salvação. Mateus experimentou isso. E Mateus respondeu prontamente ao chamado: ele se levantou e seguiu a Jesus. De cobrador de impostos tornou-se imediatamente discípulo de Cristo. De "último" passou a ser "primeiro", graças à lógica de Deus que amou a todos de igual maneira! A base da chamada de Deus é amor, e o amor desconhece a discriminação. Nisto percebemos que os planos humanos são totalmente diferentes do plano de Deus: "Os meus projetos não são os vossos projetos e os vossos caminhos não são os meus caminhos", diz o Senhor (Is 55, 8). Se dependesse dos planos humanos (especialmente dos fariseus e escribas) Mateus, como um publicano, jamais poderia ser discípulo do Senhor. O encontro de Jesus com Mateus, o publicano, foi um escândalo para os escribas e fariseus que andavam espiando os passos de Jesus para colocá-Lo contra o povo. Mas o Senhor chama a quem Ele quiser para estar com Ele a fim de ser seu discípulo/Apóstolo. E Mateus, que sem dúvida nenhuma, havia visto e ouvido Jesus pregando em várias ocasiões, se decidiu a abandonar seu posto de trabalho de publicano para seguir, definitivamente, a Jesus até a morte. Desde então, a casa de Mateus em Cafarnaum foi escolhida por Jesus para descansar de suas excursões apostólicas na Galileia.

Mateus é um cristão de origem judaica. Seu conhecimento do Antigo Testamento (AT), suas citações literais do AT (ao todo 44), suas alusões ao AT (cerca de 130), seus hebraísmos ou aramaísmos (cerca de 329) mostram claramente que se trata de um judeu convertido ao cristianismo. Mateus escreveu seu evangelho em língua grega entre anos 80-85 depois de Cristo, provavelmente em Antioquia da Síria, uma das mais importantes cidades do Império romano (500.000 habitantes), cidade conhecida por suas escolas, a cidade que, após a destruição de Jerusalém, se tornou a mãe das igrejas e centro de expansão do Cristianismo. Foi ali que, pela primeira vez, os discípulos de Jesus foram designados como “cristãos” (cf. At 11,26). E foi de Antioquia que Paulo e seus companheiros empreenderam as três viagens missionárias (cf. At 13,1-3). Destinatários do seu evangelho são cristãos convertidos do judaísmo e cristãos convertidos do gentilismo (paganismo). Isso indica que a comunidade destinatária é mista. O evangelho de Mateus possui 28 capítulos com um total de 1.068 versículos e 18.278 palavras.

O Evangelho de Mateus ocupa o primeiro lugar na sequência atual dos livros do Novo Testamento, porque o evangelho de Mateus foi o Evangelho mais lido, mais comentado, mais rezado e mais divulgado nos dois primeiros séculos do Cristianismo. Mateus é o evangelho preferido da Igreja dos primórdios. “De todos os escritos do Novo Testamento, o Evangelho de Mateus foi o que exerceu a influência mais generalizada e profunda na literatura cristã que vai até as últimas décadas do século II” (E. Masseax). Prova disto é o uso de Mateus feito pela Didaquê, o primeiro catecismo cristão escrito entre os anos 90-100 depois de Cristo: o Pai-Nosso que ali encontramos se baseia sobre Mt 6,9-13 (e não sobre Lc 11,2-4); os seis primeiros capítulos de Didaquê são profundamente influenciados pelo Sermão da Montanha (Mt 5,1-7,29). Prova desta mesma influência são os numerosos comentários que surgiram sobre Mateus nos primeiros séculos: Hipólito de Roma (+235 d.C); Orígenes (+254 d.C); Santo Ambrósio (+397 d.C), São Jerônimo (+420 d.C); Santo Agostinho (+ 430 d.C) e assim por diante. Somente a partir do século III, o Evangelho de Lucas começou a ser aceito por todas as comunidades. Dai porque as festas da Ascensão e Pentecostes (que constam apenas em Lucas) apareceram pelo ano 350 d.C.

Mateus é representado por um anjo ou homem alado porque inicia o seu evangelho com a genealogia de Jesus Cristo, mostrando a sua origem e descendência humanas, marcados pelo seu nascimento (Cf. Mt 1). É a dimensão da obra-prima de Deus que criou o homem à sua imagem e semelhança. São Mateus é simbolizado pelo anjo com rosto de homem, porque seu Evangelho se preocupa em comprovar a natureza humana de Cristo.

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O texto do evangelho lido na festa de São Mateus nos relatou que depois da cura do paralítico Jesus se encontrou com Mateus, cobrador de impostos e o chamou para segui-lo: “Segue-me!”. Trata-se de um homem que o povo detesta, pois é um colaborador do governo romano na cobrança de impostos. Os publicanos se enriquecem, especialmente, a custo dos pobres. Por isso, é uma profissão odiada.

Qualquer pessoa pode perguntar-se: “Como pode Deus estar presente em certos ambientes, como o de Mateus, especialmente tão repugnantes, maus ou perversos, em certas situações injustas como a vida vivida pelo publicano Mateus?”. Deus se encontra ali para curar, para salvar: “Quero misericórdia e não sacrifício”. Todo o Evangelho, quando se trata de Deus, nos urge que saibamos ultrapassar a noção de justiça e descobrir a Misericórdia infinita de Deus pelos pecadores. Deus não se cansa de perdoar e de se encontrar com os pecadores, os perdidos da vida para salvá-los, pois Jesus, o Deus-Conosco, veio para chamar e salvar os pecadores.

Como Jesus transformou os pescadores de peixes em pescadores de homens, assim também transformou um cobrador de impostos, um pecador público num “escriba do Reino de Deus”, num discípulos e mais ainda, num apóstolo.  Quem entra na esfera de Jesus deixa de ser como antes. Por isso, é preciso definir a que seguimos e a quem seguimos na vida para antecipar qual resultado final deste seguimento?

Jesus chama Mateus para segui-lo: “Segue-me” (Mt 9,9). E ele o segue (Mt 9,9). Ele diz a mesma coisa para Simão e André (Mt 4,19) e para Tiago e João (Mt 4,21). O termo “seguir” (akoloutheo, em grego) aparece 90 vezes no NT, das quais 11 vezes se encontram fora dos Evangelhos (em Atos, 4 vezes; em Ap, 6 vezes; e o resto em 1Cor 10,4). Nos evangelhos este termo se refere ao seguimento de Jesus (no total 73 vezes).         

O verbo “seguir”, em sentido próprio, significa “ir atrás de alguém”; e no sentido figurado significa “ser discípulo”, “ir em seguimento de alguém”. Seguir significa andar, avançar, ver mais, aprender mais. Quem andar, quem caminhar vai encontrar muita coisa no caminho. Quem fica parado e paralisado vê menos.          

Seguir a Jesus significa romper todo o passado, abandonar tudo (cf. Mt 4,18-22;9,9s;19,21; Lc 9,61; Mc 10,28), submetendo-se com fé e obediência à salvação oferecida em Cristo. Seguir também tem sentido de imitação. Neste sentido seguir significa unir-se com Jesus numa comunhão de vida e de destino; é modelar-se segundo o exemplo de Jesus (cf. Jo 13,15.34;15,12;1Ts 1,6;1Cor 11,1;Ef 5,2;1Jo 2,6 etc.). Assim, seguir a Jesus não é apenas aderir a um ensinamento moral e espiritual, mas compartilhar sua sorte. Por isso, Jesus exige o desapego total: renunciar às riquezas e à segurança, deixar os familiares (Mt 8,19-22;10,37;19,16-22), sem esperar o retorno (troca ou retribuição). Ao exigir de seus discípulos um tal sacrifício, Jesus se revela como Deus, única garantia, e revela integralmente até que ponto vão as exigências de Deus. Pode ser que seja até o sacrifício da cruz e até se sentir abandonado pelos outros, como Jesus sentiu (Mt 26,56).        

A partir deste sentido, somos convidados a refletir sobre o nosso seguimento de Cristo. Até que ponto nós estamos dentro deste padrão? Em outras palavras, o que significa para nós hoje seguir a Jesus? Para responder esta pergunta, devemos responder outra pergunta: quem é Jesus a quem seguimos?          

Seguir a Jesus é viver a sua vida. E a vida de Jesus foi marcada particularmente por amor ao Pai e aos homens, especialmente aos mais necessitados. Seu relacionamento profundo com o Pai se traduz na prática da solidariedade com os marginalizados e pecadores. Seguir a Jesus é viver segundo o seu projeto. Ele quer que as relações humanas e sociais se baseiem sobre a justiça, o amor, a fraternidade e o perdão. Tudo isso se tornará realidade, se o homem se descobrir como filho de um Pai amoroso. Seguir a Jesus é estar pronto para viver o Seu destino. Viver segundo o projeto de Jesus leva o seguidor a viver o martírio. O martírio é o preço a pagar pela fidelidade à causa jamais traída. Quem se propõe a seguir a Jesus deve estar pronto também para viver a bem-aventurança das perseguições (Mt 5,10s). 

Ao ouvir a chamada do Senhor Mateus prontamente aceitou o convite. Não só a prontidão para seguir a Jesus, mas a prontidão para limpar seu coração de toda a maldade praticada, pois ele era um cobrador de impostos e por isso, era um ladrão diplomado, pecador público, ladrão do bem comum. Ele deixa seu coração livre e limpo para que o Senhor possa usá-lo para o bem do seu Reino. O fruto maior de sua conversão para nós hoje é o evangelho que ele escreveu sobre a vida de Jesus: O evangelho de Mateus. Através do seu evangelho conhecemos o Jesus em quem acreditamos, como Emanuel, Deus Conosco (Mt 1,23; 18,20; 28,20). 

Hoje é o dia mais adequado para recordar nosso particular “segue-me”. É o dia em que celebramos uma festa por nosso nome, pois Deus nos chama pelo nome. Diante de Deus cada um tem nome e Deus chama cada um pelo nome (cf. Is 43,1; Jo 10,3). É o dia adequado para recordar a maneira que Deus chamou cada um de nós. O seguimento é a expressão prática da fé/adesão. Mas temos que estar conscientes de que esse chamamento é permanente. Quem não tem tempo para ouvir Deus permanentemente, vai ouvir somente desgraças dos outros e do mundo. Quem não presta para Deus, não presta para os outros. Mas quem presta para os outros é porque no seu coração mora Deus, mesmo que ele não tenha nenhuma religião. Temos que confessar que o que determina a nossa salvação não é aquilo que rezamos, pois pode acontecer que façamos apenas monólogos nas nossas orações. A oração feita é um compromisso assumido para viver de acordo com o Espírito de Deus. Ninguém crê impunemente. O que determina nossa salvação é o nosso comportamento diário, nossa maneira de viver e de conviver de acordo com o bem praticado (cf. Mt 25,31-46).

P. Vitus Gustama,svd

Quinta-feira Da XXV Semana Comum, Ano Par, 24/09/2026

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