sábado, 27 de junho de 2026

Segunda-feira Da XIII Semana Comum, Ano Par, 29/06/2026

SEGUIR A JESUS PARA ALCANÇAR A SALVAÇÃO E SALVAR O PRÓXIMO

Segunda-Feira da XIII Semana Comum

Primeira Leitura: Am 2,6-10.13-16

6 Isto diz o Senhor: “Pelos três crimes de Israel, pelos seus quatro crimes, não retirarei a palavra: porque eles vendem o justo por dinheiro e o indigente pelo preço de um par de chinelos; 7 pisam, na poeira do chão, a cabeça dos pobres, e impedem o progresso dos humildes; filho e pai vão à mesma mulher, profanando meu santo nome; 8 deitando-se junto a qualquer altar, usando roupas que foram entregues em penhor, bebem vinho à custa de pessoas multadas, na casa de Deus. 9 Entretanto, eu tinha aniquilado, diante deles, os amorreus, homens espadaúdos como cedros e robustos como carvalhos, destruindo-lhes os frutos na ramada e arrancando-lhes as raízes. 10 Fui eu que vos fiz sair da terra do Egito e vos guiei pelo deserto, durante quarenta anos, para ocupardes a terra dos amorreus. 13 Pois bem, eu vos calcarei aos pés, como calca o chão a carroça carregada de feixes; 14 o mais ágil não conseguirá fugir, o mais forte não achará força, o valente não salvará a vida; 15 o arqueiro não resistirá de pé, o corredor veloz não terá pernas para escapar, nem se salvará o cavaleiro; 16 o mais corajoso dentre os corajosos fugirá nu, naquele dia”, diz o Senhor.

Evangelho: Mt 8,18-22

Naquele tempo, 18 vendo uma multidão ao seu redor, Jesus mandou passar para a outra margem do lago. 19 Então um mestre da Lei aproximou-se e disse: “Mestre, eu te seguirei aonde quer que tu vás”. 20 Jesus lhe respondeu: “As raposas têm suas tocas e as aves dos céus têm seus ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça”. 21 Um outro dos discípulos disse a Jesus: “Senhor, permite-me que primeiro eu vá sepultar meu pai”. 22 Mas Jesus lhe respondeu: “Segue-me, e deixa que os mortos sepultem os seus mortos”.

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Deus Se Esconde Atrás Dos Débeis, Dos Indigentes, Dos Inocentes, Dos Justos

Pelos três crimes de Israel, pelos seus quatro crimes, não retirarei a palavra: porque eles vendem o justo por dinheiro e o indigente pelo preço de um par de chinelos; pisam, na poeira do chão, a cabeça dos pobres, e impedem o progresso dos humildes; filho e pai vão à mesma mulher, profanando meu santo nome; deitando-se junto a qualquer altar, usando roupas que foram entregues em penhor, bebem vinho à custa de pessoas multadas, na casa de Deus”.

Os três séculos de monarquia de Israel que vão do século IX até o século VI a.C foram os tempos muito agitados: guerras internacionais, luta social, injustiça social, conflitos políticos, distúrbios religiosos e assim por diante. Neste contexto uns “homens de Deus”, os profetas, intervém: Amós, Oseas, Isaías, Miqueias, Jeremias, Naum, Habacuc, Ezequiel...

Nas próximas semanas ouviremos a voz destes profetas através das primeiras leituras. Todos eles vão combater sem armas, a não ser somente através da oração e da palavra. São as verdadeiras e maiores testemunhas de Deus de toda a história, pois eles defendem o projeto de Deus que é a Aliança, defendem os humildes e oprimidos, defendem a justiça, sem medo. Os profetas têm a audácia não somente de falar de Deus, mas também de pensar que falam “em Seu nome”: Deus fala por sua boca. João Batista dizia: “Sou a voz que grita...”

Esta semana ouviremos o áspero e valente profeta Amós que profetizou, principalmente, no Reino de Samaria sob o reinado de Jerobão II (786-746 a.C), o 13º rei de Israel, sucedendo a seu pai, o rei Joás.

Amós significa “Deus sustenta”, que viveu por volta do ano 750 a.C. Era um campesino, cultivador de uma plantação de sicômoros, que vivia em Teqoa, uma pequena aldeia cerca de 20 ou 30 Km da capital Jerusalém. Amós não tinha relação alguma com os grupos proféticos profissionais, pois sua profissão era pastor e produtor de figos (Am 7,14). Emigrou para o reino de Norte ou seja, para a Samaria e ali alcançou a chamada de Deus e se converteu em profeta, porta voz de Deus no tempo do rei Jerobão II. Amós experimenta a vocação profética com força irresistível (Am 3,8) a partir da situação pessoal e social.

Amós observa como os comerciantes falsificam os pesos no mercado, como vendem às pessoas, por bom dinheiro, produtos sem valor.  Ele observa como os comerciantes ricos ou latifundiários se aproveitam desavergonhadamente de sua posição de monopólio e as pessoas humildes caem cada vez mais na dependência e na pobreza. Amós tem grande ousadia de anunciar o castigo e de denunciar as causa. O que o profeta Amós proclama é uma única acusação: não se pode ir bem quando se viola a ordem de Deus. Amós protesta e acusa em nome de Deus com incrível energia e veemência. Amós estava convencido de que o mal de Israel não tinha solução a não ser que fosse castigado por Deus. Para Amós o castigo deve ser inapelável por causa dos pecados sociais: luxuria, injustiça, opressão aos fracos, e também por causa dos pecados religiosos: culto hipócrita e a falsa segurança religiosa, isto é, viver uma vida dupla: dentro do templo é uma vida, e fora do templo é outra vida sem conexão nenhuma. Todos esses pecados dificultam a busca do Senhor e a convivencia fraterna (Am 5,4-6). Como resultados desses pecados,  quarenta anos depois, o reino de Israel cai nas mãos da Assíria e boas parte de seus habitantes é exilada.

Será que nossa situação atual é diferente da situação na época do profeta Amós?

No texto da Primeira Leitura de hoje o profeta Amós disse: “... pelos seus quatro crimes, não retirarei a palavra”. Quais são as quatro crimes que suscitam a cólera do profeta Amós e dos quais também suscitam a cólera de Deus?

1.    Primeiro, porque vendem o justo por dinheiro e o indigente por um par de sandálias.

2.    Segundo, porque pisam, na poeira do chão, a cabeça dos pobres, e impedem o progresso dos humildes e pervertem o caminho dos mansos.

3.    Terceiro, porque pai e filho abusam da mesma mulher (serva), assim profanando o santo nome de Deus.

4.    Quarto, porque deitando-se junto a qualquer altar, usando roupas que foram entregues em penhor, bebem vinho à custa de pessoas multadas, na casa de Deus.

Trata-se de a injustiça social, de juízos corrompidos, de sexualidade aberrante, de afã de prazer, de sociedade de consumismo indiferente.

O profeta Amós denuncia, então, a opressão do débil: na vida social e nos tribunais (o justo é vendido por dinheiro, o inocente injustamente condenado pelo interesse de um par de sandálias); na vida familiar (pai e filho abusam sexualmente a mesma serva); no culto, a mais repugnante das injustiças sociais (bebem o vinho dos multados na casa de Deus). Cada um destes crimes manifesta o mesmo desprezo do homem, comportamento que Deus condena nos povos pagãos vizinhos.

Com isso, o profeta Amós quer nos transmitir a verdade de que o Deus de Israel é um Deus exigente na ordem ética. Deus “se esconde” atrás de cada homem despojado de seus direitos. Consequentemente, tratar mal aos débeis, aos inocentes, aos justos significa tratar mal ao próprio Deus (cf. Mt 25,40.45). Aqui é que o desprezo do homem adquire sua autêntica dimensão, e aqui também reside o perigo da exclusão do homem da salvação.

É Preciso Seguir a Jesus Para Alcançar a Salvação

“É graça divina começar bem. Graça maior, persistir na caminhada certa, manter o ritmo... Mas a graça das graças é não desistir. Podendo ou não podendo, Caindo, embora aos pedaços, Chegar até o fim...” (Dom Hélder Câmara)

O evangelho de Mateus foi escrito em torno dos anos 80 para os fieis de sua comunidade. Os fieis de sua comunidade já tinham feito sua escolha cristã. Mas em determinado tempo vacilavam por causa das dificuldades, e abatidos por causa de duras perseguições. Por isso, veio a exortação para que os fiéis retomassem consciência mais viva de sua identidade cristã, chamados a transformar a história humana em história de salvação.

Nesta perspectiva Mt coloca dois personagens para transmitir essa exortação. O primeiro é um especialista da Lei que escolheu ser cristão. Trata-se de um letrado que reconhece em Jesus um mestre superior a si mesmo e decide seguir a Jesus, o grande mestre. Mas ele ainda não é comprometido com o cristianismo e por isso, ele é alertado antecipadamente para não tomar uma decisão superficial e ilusória. “As raposas têm suas tocas e as aves têm seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeção”. No comentário de Santo Agostinho as raposas são animais enganadores e por isso, as raposas representam os enganadores. E as aves resprentam os orgulhosos ou soberbos porque voam muito alto. (cf. Sto. Agostinho In Serm. 100,1). E para São gregório Magno as raposas designam-se os enganos e as fraudes e as aves representam os demônios soberbos (São Gregório Magno In Moralia, 19,1).

Para o letrado o caminho de Jesus tem seu termo. Mas Jesus alerta ao letrado que toda a vida de Jesus, até o momento de Sua morte, será uma entrega total, sem instalação nem descanso, sem engano nem soberbo.

Para ser um verdadeiro cristão, um verdadeiro seguidor de Cristo, é preciso ter espírito de despojamento e de pobreza, pois aquele que está cheio de coisas do mundo não sobra nenhum espaço para Deus nem para o próximo. O cristão existe para fazer o bem permanentemente. Fazer o bem não tem descanso nem tem término. Ninguém ama suficientemente nem definitivamente. O amor sempre deixa quem ama em dívida. O amor não descansa nem cansa.

As raposas têm suas tocas e as aves dos céus têm seus ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (Mt 8,20). O instinto de segurança e a necessidade de estabilidade estão inscritos profundamente na natureza humana: o homem busca o calor de um refúgio, uma fogueira, uma casa para morar, uns objetos que lhe pertencem. Os animais têm este mesmo instinto de propriedade.                 

Jesus desde que saiu de sua casa familiar de Nazaré, deixando sua mãe sozinha, não tem seu próprio lugar, vive como nômade, como viajante: “Não tenho onde reclinar minha cabeça”. Renunciou o calor de um lugar, renunciou a toda propriedade.                 

Seguir a Jesus é fazer forçosamente certa escolha; é renunciar a uma série de coisas; é viver na segurança com Deus que criou tudo. Jesus quer que estejamos sempre caminhando em busca da perfeição. Jesus quer que estejamos abertos ao novo, à novidade, ao impulso do seu Espírito. Jesus não quer que estejamos parados, pois o Espírito de Deus sopra para onde quer. Jesus não quer que fiquemos apegados às coisas mortas, pois elas servem apenas de meio e não de fim.                 

Por esta razão Jesus adota para si o título de “Filho do Homem”. O duplo título “Filho do Homem” indica unicidade e excelência: é “Homem acabado”, o modelo de homem, por possuir em plenitude o Espírito de Deus. Para chegar a ser um homem acabado, pleno do Espírito de Deus, o cristão precisa participar da missão de Jesus, precisa levar adiante a Palavra de Deus.

A mensagem cristã é exigente. Não se trata de aderir a uma doutrina, mas a uma pessoa; não se trata de adotar um modo de pensar, mas de orientar-se para um modo de viver: o modo de viver de Jesus Cristo. Um cristão que se contenta de não fazer mal a ninguém não é suficiente. É preciso fazer o bem em função do bem e não em função do mal. É colocar o interesse do Reino de Deus acima de todas as preocupações pessoais assim como dos afetos mais caros, com plena dedicação. É viver aberto diante de Deus permanentemente. 

O segundo personagem já é discípulo, mas ainda não compreendeu todas as exigências de sua escolha. Por isso, o texto diz que ele pede um período de interrupção antes de seguir o Mestre. Ele quer ser um cristão periódico. Cristão de estação. É um cristão que procura Deus quando estiver livre de tudo, quando tiver tempo livre. É um cristão que procura Deus de vez em quando. Mas para este tipo de cristão Jesus faz prevalecer a exigência de uma escolha coerente, total e radical para si que é escolha para toda a vida. 

Este segundo personagem pede a Jesus permissão para enterrar o pai, mas recebe de Jesus esta resposta: “Segue-me! Deixa que os mortos sepultem os seus mortos”. A menção do pai nos leva ao episódio relacionado com a chamada de Eliseu no Antigo Testamento. Eliseu pediu licença a Elias para ir despedir-se de seu pai (cf. 1Rs 19,20). No Antigo Testamento a tradição (o pai) estava viva, mas para Jesus está morta. 

Segue-me! Deixa que os mortos sepultem os seus mortos. Não se trata da falta com os deveres de piedade para o pai defunto. O “pai” aqui representa uma tradição que não mais salva. Abandonar o “pai” significa ficar independente da tradição transmitida que não tem mais valor para ser mantida. O pedido para “enterrar o pai” indica a veneração, o respeito e a estima pelo passado que não mais salva homem algum. Por isso, os mortos aqui são os que professam essas tradições mortais. São figuras de um mundo de morte, sem salvação. A tradição morta ou a cultura de morte gera morte e mortos. 

O discípulo, o cristão, ao contrário, é chamado a ser defensor e protetor da vida em qualquer instância e circunstância, pois a vida é o dom de Deus, e o próprio Jesus se identifica com a Vida: “Eu sou a Vida e a Ressurreição” (Jo 11,25; cf. 14,6).

Segue-me! Deixa que os mostos sepultem seus mortos”. Jesus não quer que descuidemos dos nossos falecidos. Isto seria falta de caridade e da humanidade. O que Jesus quer é que abandonemos todos os hábitos que não nos fazem crescer como pessoas e filhos de Deus e irmãos dos outros. Precisamos deixar o modo de viver e de pensar que nos fazem como mortos: sem vida, sem horizonte, sem criatividade e assim por diante. A tradição morta gera a morte e mortos. Ao contrário, precisamos seguir Aquele que nos faz viver, Aquele que nos diz: Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6). Precisamos crer n’Aquele que nos garante a vida: “Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crer em mim, ainda que esteja morto, viverá” (Jo 11,25).     

Precisamos olhar com carinho e seriedade para os nosso modo de viver para descobrirmos nele os hábitos que não nos fazem crescer ou não nos fazem viver com dignidade e avançar na caminhada da perfeição cristã. Sabemos que nosso grande problema não é implementar as coisas novas na nossa cabeça e sim tirar as coisas velhas e mortas de nossa cabeça. Ao mesmo tempo precisamos olhar para o modo de viver de Jesus para que sejamos homens acabados como foi ele. “Se queres seguir a Deus, deixa-O ir adiante. Não queiras que Ele te siga(Santo Agostinho. In ps. 124,9).

Para estar aberto diante de Deus é preciso abandonar hábitos negativos, isto é, todos os hábitos ou costumes que não nos levam à vida plena. Nos ensinamentos de Jesus encontramos o caminho para a verdadeira vida. Vale a pena encarar todas as dificuldades, pois a vitória está reservada para quem é perseverante neste caminho (cf. Mt 10,22; Jo 16,33).

P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 26 de junho de 2026

XIII Domingo Do Tempo Comum, Ano "A", 28/06/2026

AS EXIGÊNCIAS  E AS RECOMPENSAS DO SEGUIMENTO

XIII Domingo Comum “A”

I Leitura: 2Re 4,8-11.14-16ª

Certo dia, o profeta Eliseu passou por Sunam. Vivia lá uma distinta senhora, que o convidou com insistência a comer em sua casa. A partir de então, sempre que por ali passava, era em sua casa que ia tomar a refeição. A senhora disse ao marido: “Estou convencida de que este homem, que passa frequentemente pela nossa casa, é um santo homem de Deus. Mandemos-lhe fazer no terraço um pequeno quarto com paredes de tijolo, com uma cama, uma mesa, uma cadeira e uma lâmpada. Quando ele vier a nossa casa, poderá lá ficar”. Um dia, chegou Eliseu e recolheu-se ao quarto para descansar. Depois perguntou ao seu servo Giezi: “Que podemos fazer por esta senhora?” Giezi respondeu: “Na verdade, ela não tem filhos e o seu marido é de idade avançada”. “Chama-a” – disse Eliseu. O servo foi chamá-la e ela apareceu à porta. Disse-lhe o profeta: “No próximo ano, por esta época, terás um filho nos braços”.

II Leitura: Rom 6,3-4. 8-11

Irmãos: Todos nós que fomos baptizados em Jesus Cristo fomos baptizados na sua morte. Fomos sepultados com Ele na sua morte, para que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos, para glória do Pai, também nós vivamos uma vida nova. Se morremos com Cristo, acreditamos que também com Ele viveremos, sabendo que, uma vez ressuscitado dos mortos, Cristo já não pode morrer; a morte já não tem domínio sobre Ele. Porque na morte que sofreu, Cristo morreu para o pecado de uma vez para sempre; mas a sua vida, é uma vida para Deus. Assim, vós também, considerai-vos mortos para o pecado e vivos para Deus, em Cristo Jesus.

Evangelho:  Mt 10,37-42

Naquele tempo, disse Jesus aos seus apóstolos: “Quem ama o pai ou a mãe mais do que a Mim, não é digno de Mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a Mim, não é digno de Mim. Quem não toma a sua cruz para Me seguir, não é digno de Mim. Quem encontrar a sua vida há-de perdê-la; e quem perder a sua vida por minha causa, há-de encontrá-la. Quem vos recebe, a Mim recebe; e quem Me recebe, recebe Aquele que Me enviou. Quem recebe um profeta por ele ser profeta, receberá a recompensa de profeta; e quem recebe um justo por ele ser justo, receberá a recompensa de justo. E se alguém der de beber, nem que seja um copo de água fresca, a um destes pequeninos, por ele ser meu discípulo, em verdade vos digo: não perderá a sua recompensa”.

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A HOSPITALIDADE constitui o tema principal da Primeira Leitura (2Re 4,8-11.14-16ª) deste XIII Domingo Comum, e o Evangelho fala também deste tema nos seus últimos versículos: “Quem recebe um profeta por ele ser profeta, receberá a recompensa de profeta; e quem recebe um justo por ele ser justo, receberá a recompensa de justo. E se alguém der de beber, nem que seja um copo de água fresca, a um destes pequeninos, por ele ser meu discípulo, em verdade vos digo: não perderá a sua recompensa”.

Lemos na Primeira Leitura que o servo do profeta Eliseu, chamado Giezi adverte ao profeta que a mulher com seu marido que os acolhe em casa não tem nenhum filho e  que seu marido é um ancião (idoso). Para uma mulher judaica não existia pena maior que a de não dar a seu marido um descendente varão. O primogênito era o futuro da família, e as famílias de Israel viviam para o futuro, no qual iam cumprir-se as promessas feitas a Abraão.

O profeta Eliseu (discípulo do profeta Elias) anuncia profeticamente à mulher hospitaleira que no ano seguinte terá o filho desejado: “No próximo ano, por esta época, terás um filho nos braços”. O mesmo que Sara, a mãe de Isaac (Gn 18,3), esta mulher recebe o anúncio com ceticismo. Mas a Palavra de Deus através do seu profeta será cumprida. Em ambos os casos, o nascimento do filho prometido será uma recompensa de Deus à hospitalidade para seus enviados. Séculos depois, Jesus estabelecerá esta lei recompensa divina: “Quem recebe um profeta por ele ser profeta, receberá a recompensa de profeta”.

A palavra “HOSPITALIDADE” vem do latim “hospitalitas, atis”. É uma virtude que se pratica para peregrinos, necessitados, e desamparados ou desprotegidos prestando-lhes a devida assistência em suas necessidades. A hospitalidade é a obra de misericórdia. É ato de hospedar; acolhida de hóspedes; é boa acolhida. É recepção ou tratamento afável, cortês; amabilidade, gentileza. Hospitaleiro é aquele que oferece hospedagem por bondade ou caridade.

Para os homens da antiguidade a hospitalidade era sagrada. Gregos, judeus e romanos praticavam, da mesma maneira, a hospitalidade, pois acreditavam que, no visitante, o próprio Deus batia à sua porta para entrar. E acreditavam que Deus presentearia o anfitrião com dádivas divinas. Nisto entendemos a mensagem da Primeira Leitura de hoje.

Os cristãos primitivos praticavam a hospitalidade. Sem essa virtude, o cristianismo provavelmente teria dificuldades para se expandir no mundo romano. Até a Carta aos Hebreus admoesta ou alerta os cristãos: “Não esqueçais a hospitalidade, pois, graças a ela, alguns, sem saber, acolheram anjos” (Hb 13,2). O que tem por traz desse alerta é a experiência de Abraão que hospedou três pessoas em sua casa sem saber que eram os três anjos para anunciar que Sara, apesar de sua velhice, geraria um filho chamado Isaac (Gn 18,3; 19,1-2: Lot convida os dois anjos para sua casa). Por isso, antigamente tratava o estrangeiro como sagrado.

Não será inútil escutar o convite que estes textos dirigem aos cristãos de hoje. No mundo desumanizado e muito urbanizado em que vivemos, sem contar outras discriminações e exclusões, o testemunho da hospitalidade adquire uma dimensão profética. Com a hospitalidade nasce uma rede de amor entre as pessoas, derruba preconceitos e produz a alegria mútua e a convivência fraterna. A hospitalidade possibilita o encontro e o diálogo e transforma o estrangeiro em amigo e irmão.

Dentro deste tema podemos também entender o recado de São Paulo na Segunda Leitura  (Rom 6,3-4. 8-11). São Paulo nos diz que o Batismo recebido por nós faz que vivamos uma vida nova: “Fomos sepultados com Ele na sua morte, para que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos, para glória do Pai, também nós vivamos uma vida nova”.

A ideia essencial da Primeira Leitura é a “morte com Cristo”. Para a Bíblia, Deus é a vida e seu plano é um plano de vida. A morte física é um acidente que a mentalidade judaica atribui ao pecado (Gn 3; Ez 18). Herdeiro desse conceito judaico, São Paulo liga a morte natural e a morte espiritual do pecado.

Podemos entender esse elo com precisão: não se trata de dizer que a morte física foi um castigo externo estabelecido por Deus pelo pecado do homem. Pelo contrário, é uma questão de entender que, ao encerrar-se no pecado, ou seja, contando apenas consigo para realizar o futuro, o homem se trancou fatalmente na morte, uma vez que apenas uma iniciativa de Deus e, conseqüentemente, uma conversão a Deus pelo homem pode tirá-lo disso. Nesse sentido, São Paulo tem razão ao relacionar o pecado à morte.

Agora, Cristo é o primeiro a penetrar na morte não com o pecado, ou seja, a vontade de viver por si mesmo, mas, pelo contrário, com absoluta fidelidade e total adesão ao Pai, confiando que o Pai salvaria o Filho. Assim, a morte de Cristo suprime o elo que existia até então entre a morte e o pecado; assim, sua morte é verdadeiramente libertadora do pecado, pois ele descobre um homem capaz de ser libertado da morte e ressuscitar simplesmente porque se coloca totalmente nas mãos de seu Pai. Assim, a morte não é um acidente no plano divino da difusão da vida, e sim precisamente aquilo pelo qual Deus dá sua vida ao homem.

Cada Domingo, na celebração da Eucaristia, renovamos o que começamos no Batismo. Cada batizado é enviado a ser irmão da humanidade. Ainda assim, a experiência comum nos mostra que nossa vida, por muito que tenhamos recebido os sacramentos, tem poucas novidades, poucas mudanças, poucas renovações e inovações no Senhor, está instalada em umas formas habituais de atuar, de pensar que nada demonstram a mudança na vida prática e na convivência fraterna.

O evangelho de hoje é a parte final do discurso de Jesus sobre a missão. Mt colocou aqui diversos elementos que ele tomou de diferentes contextos. Dividimos o texto em duas partes. A primeira parte (vv.37-39) apresenta as exigências que Jesus propõe para quem quer segui-lo. Na segunda parte (vv.40-42) Jesus promete recompensar todos aqueles que acolherem os seus enviados.

I. AS EXIGÊNCIAS DE JESUS (vv.37-49)        

Jesus é terrivelmente exigente. Ele exige renúncia de uma radicalidade inaudita e conclui cada exigência com o mesmo refrão: “não é digno de mim!” Ele pede uma adesão total e indivisível à sua pessoa.

1. A Primeira Exigência: Jesus Deve Ser Preferido Aos Vínculos Humanos Mais Sagrados          

Aquele que ama pai e mãe mais do que a mim, não é digno de mim. Aquele que ama o filho ou filha mais do que a mim, não é digno de mim” (v.37).           

Jesus usa aqui a palavra mais sagrada: “amar”. Certamente a primeira das renúncias se refere ao que há de mais caro a Deus e aos homens: o amor. O mundo inteiro é fruto do amor de Deus. O amor é o porquê da encarnação de Jesus Cristo. A redenção encontra sua resposta no amor de Deus pela humanidade. Todo o NT se fundamenta no amor. E todos nós reconhecemos que nascemos de um momento fecundo do amor. Nenhum preceito que fira o amor tem legitimidade para Jesus e para os cristãos. No entanto, o primeiro e maior amor se deve a Deus (Mt 22,38), porque de Deus provêm todas as expressões do amor e a Deus retornam todos os nossos gestos de amor. Portanto, Jesus não manda não amar pai e mãe e filhos, mas deve amá-los dentro do grande amor que devemos a Deus e devemos renunciá-los sempre que forem empecilho. Trata-se, então, de estruturar a vida inteira a partir desse amor maior que dá sentido a todos os outros. A partir desse amor maior todos os outros amores se enriquecem. Se amarmos os pais e irmãos com o coração cheio do amor de Deus, esse amor se torna digno de confiança. Por isso, embora Jesus insista nas obrigações de seus seguidores aos pais (Mt 15,3ss) e à família (cf. Mt 5,27ss;19,1ss), contudo esse relacionamento não pode, de modo algum, impedir ou prejudicar a obediência do homem diante das exigências de Deus, o Bem Absoluto, o Maior Amor (cf. Mt 8,21s). Todos devem ser dispostos a qualquer sacrifício quando está em jogo a causa de Deus e a própria salvação. Precisamos estar conscientes de que há amores familiares que matam, principalmente do ponto de vista espiritual. Portanto, vivemos em contínua renúncia e permanente abertura às manifestações do amor de Deus.          

Mas cada um de nós, a partir desta exigência, precisa se perguntar: Que lugar ocupa Jesus na sua vida? Ele ocupa o primeiro lugar ou em segundo lugar na sua vida? 

2. A Segunda Exigência É Carregar A Cruz E Renunciar À Própria Vida          

“Quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim”.

“Tomar sua cruz” é uma expressão metafórica para a prontidão para a morte, para o movimento de partida de si mesmo em direção a Deus. Cada partida em direção a Deus sempre representa uma morte de si mesmo. A vida que se entrega a Deus tem algo desse morrer em si e será uma nota característica de nossas mais sinceras intenções em seguir a Jesus. Não se ama a cruz em si mesmo, mas ao seguir a Jesus incondicionalmente encontra-se a cruz.          

Cada história tem sua própria cruz e cada cruz tem sua própria história. Todos nós, de alguma forma, carregamos alguma cruz na nossa vida. Mas existe cruz com Cristo, como também existe cruz sem Cristo. Para alguns, a cruz pode ser vivida como tribulação, para os outros ela pode ser vivida como libertação. A cruz sem Cristo é a cruz-condenação. É a cruz de quem deseja ser um deus. É a cruz que não tem finalidade em si mesmo. É a cruz sem fé, sem amor, sem sentido da vida, sem renúncia por amor. É a cruz de quem deseja viver numa liberdade sem responsabilidade. Jesus Cristo, que foi crucificado, transformou a cruz de castigo em bênção. Por isso, se procuramos Cristo sem sua cruz acabamos encontrando a cruz sem Cristo. Mas se procuramos Cristo com sua cruz acabamos encontrando a salvação. Que tipo de cruz que você carrega: com Cristo ou sem Cristo?          

E Jesus acrescenta: “Quem procura conservar a sua vida, vai perde-la. E quem perde a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la” (v.39). Buscar a vida era o ideal dos sábios do Antigo Testamento. Mas Jesus convida a mudar esta sabedoria por outra mais profunda que consiste em imitar sua entrega a fim de alcançar a vida em plenitude: a vida sem fim com Deus. A vida vem de Deus e somente ele é capaz de dar a vida. Se a vida é totalmente de Deus e para Deus, então, todas as vezes que o homem se fecha em si mesmo, ele se desliga da sua fonte, da sua razão de ser e da sua única meta possível. Só salva sua vida quem não confia na sua mortalidade, mas se inclui na imortalidade de Deus; mas isto significa morrer para viver eternamente. Certamente, aqui é que está a grandeza maior do homem. A proposta de Jesus é levar a vida a sério, enfrentar com dignidade os desafios, mas sempre se abrir à fonte da vida: Deus. É preciso sair de si mesmo, ultrapassar-se a si mesmo em direção à vida por excelência: Deus. Se renunciarmos aos nossos interesses pessoais, acolheremos os interesses de Deus. Se renunciarmos às falsas propostas da vida, acolheremos a cruz redentora de cada dia, que nos traz consigo o Cristo Salvador. 

II. A PROMESSA DE JESUS A QUEM ACOLHE SEUS ENVIADOS/MISSIONÁRIOS (vv.40-42)        

 Quem recebe um profeta, por ser profeta, receberá a recompensa de profeta. E quem recebe um justo, por ser justo, receberá a recompensa de justo... até um copo de água fresca dada a um dos pequeninos não perderá a sua recompensa” (vv.41-42). 

Encontramos aqui, pelo menos, três grupos na comunidade de Mateus. Os profetas exerciam um ministério itinerante que consistia, sobretudo, na pregação; eram homens suscitados por Deus. Os justos eram homens de virtude comprovada na comunidade, quer pela sua vida exemplar, quer pela fé praticada na caridade. Eram homens fiéis aos mandamentos de Deus. Os pequeninos eram os simples discípulos de Jesus, não ocupavam nenhuma posição destacada na comunidade.          

Qual será a recompensa prometida por Jesus? O texto não especifica a recompensa. Mas se olharmos para o cap. 25 de Mateus, saberemos que uma obra boa feita para os mais insignificantes, mesmo sem consideração de quem ele é ou sem saber se está servindo a Cristo nele, a recompensa será grande: a alegria eterna (Mt 25,31-46). Na atitude adotada diante de um pobre, mostramos a verdadeira generosidade de nosso coração. Partilhar o que temos para os mais pobres é uma forma de prolongar a generosidade do Deus-Criador que criou tudo gratuitamente para os homens. Nós que acreditamos no Deus-Criador devemos manter viva esta generosidade através da partilha daquilo que temos e somos.          

Que as pessoas percebam a marca do amor de Deus nos nossos gestos, palavras e obras para que possam acreditar que Deus existe e que esse Deus é Amor. Assim seja.

P. Vitus Gustama,SVD

São Pedro e São Paulo, Solenidade, Domingo, 28/06/2026

SOLENIDADE DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO

Primeira Leitura: At 12,1-11

Naqueles dias, 1 o rei Herodes prendeu alguns membros da Igreja, para torturá-los. 2 Mandou matar à espada Tiago, irmão de João. 3 E, vendo que isso agradava aos judeus, mandou também prender a Pedro. Eram os dias dos Pães ázimos. 4 Depois de prender Pedro, Herodes colocou-o na prisão, guardado por quatro grupos de soldados, com quatro soldados cada um. Herodes tinha intenção de apresentá-lo ao povo, depois da festa da Páscoa. 5 Enquanto Pedro era mantido na prisão, a Igreja rezava continuamente a Deus por ele. 6 Herodes estava para apresentá-lo. Naquela mesma noite, Pedro dormia entre dois soldados, preso com duas correntes; e os guardas vigiavam a porta da prisão. 7 Eis que apareceu o anjo do Senhor e uma luz iluminou a cela. O anjo tocou o ombro de Pedro, acordou-o e disse: “Levanta-te depressa!” As correntes caíram-lhe das mãos. 8 O anjo continuou: “Coloca o cinto e calça tuas sandálias!” Pedro obedeceu e o anjo lhe disse: “Põe tua capa e vem comigo!” 9 Pedro acompanhou-o, e não sabia que era realidade o que estava acontecendo por meio do anjo, pois pensava que aquilo era uma visão. 10 Depois de passarem pela primeira e segunda guarda, chegaram ao portão de ferro que dava para a cidade. O portão abriu-se sozinho. Eles saíram, caminharam por uma rua e logo depois o anjo o deixou. 11 Então Pedro caiu em si e disse: “Agora sei, de fato, que o Senhor enviou o seu anjo para me libertar do poder de Herodes e de tudo o que o povo judeu esperava!”.

Segunda Leitura: 2Tm 4,6-8.17-18

Caríssimo: 6 Quanto a mim, eu já estou para ser derramado em sacrifício; aproxima-se o momento de minha partida. 7 Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé. 8Agora está reservada para mim a coroa da justiça, que o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que esperam com amor a sua manifestação gloriosa. 17 Mas o Senhor esteve a meu lado e me deu forças, ele fez com que a mensagem fosse anunciada por mim integralmente, e ouvida por todas as nações; e eu fui libertado da boca do leão. 18 O Senhor me libertará de todo mal e me salvará para o seu Reino celeste. A ele a glória, pelos séculos dos séculos! Amém.

Evangelho: Mt 16,13-19

Naquele tempo, 13 Jesus foi à região de Cesareia de Filipe e ali perguntou aos seus discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” 14 Eles responderam: “Alguns dizem que é João Batista; outros que é Elias; outros ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas”. 15 Então Jesus lhes perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?” 16 Simão Pedro respondeu: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. 17 Respondendo, Jesus lhe disse: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. 18 Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la. 19 Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que desligares na terra será desligado nos céus”.

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Celebramos neste domingo a festa de duas colunas principais da Igreja: São Pedro e São Paulo. Os dois são figuras singulares na história da Igreja e modelos de vida para todos os cristãos. Porém nunca podemos pensar que os dois sejam “super-heróis”, pois eram seres humanos frágeis e limitados como todos os seres humanos. No entanto, eles se entregaram inteiramente nas mãos de Deus e se deixaram modelar pelo Senhor Jesus. Como vasos de barro os dois carregavam o maior tesouro de todos os tesouros: Jesus, o Salvador da humanidade.

Por isso, Pedro e Paulo vivem na dependência absoluta de Jesus. Não realizam a missão por conta de suas próprias forças, sabedoria e competência. Os dois dependem exclusivamente da graça de Deus: “É pela graça de Deus que sou o que sou(1Cor 15,10).

Os dois servem o mesmo Cristo embora de maneira diferente. Não há uma maneira só para servir Cristo e sua Igreja. Cada um dos dois tem suas qualidades. Mas como seres humanos eles também têm suas debilidades ou fraquezas. No entanto essas debilidades jamais deixam os dois de servir o Senhor e Sua Igreja.

O modo de viver e de exercer a missão de Pedro e Paulo nos leva a pensarmos que a primeira missão de todo seguidor de Cristo é consagrar-se totalmente a Jesus: “Eu vivo, mas não eu: é Cristo que vive em mim(Gl 2,20). Pedro e Paulo não se economizam em sua missão e em sua entrega a Jesus: “Senhor, Tu sabes tudo; Tu sabes que Te amo(Jo 21,17). Dessa maneira Pedro e Paulo caminham como pessoas habilitadas por Deus.

1. Quando Sou Fraco, Então É Que Sou Forte         

Estas palavras foram ditas pelo próprio Paulo na sua Segunda Carta aos Corinthians (2Cor 12,10). O “Quando sou fraco, então é que sou forte” reflete a vida destes dois grandes santos: Pedro e Paulo.        

Pedro foi chamado de homem de pouca fé (Mt 14,31), de Satanás (Mt 16,23). Ele falhou em vigiar e orar junto com Jesus apesar do aviso de Jesus (cf. Mt 26,37-44;Mc 14,33-41). No momento da prisão de Jesus, numa atitude impetuosa, cortou a orelha de Malco, empregado do sumo sacerdote (Jo 18,10). No pátio de Caifás, a determinação de Pedro (cf. Mt 26,33-35) entrou em colapso, não diante de um tribunal, mas diante da pergunta de uma jovem empregada. Ele negou ser discípulo de Jesus (Mt 26,58.69-75).

Mas apesar de tudo, ele reconhece que somente Jesus tem palavras de vida eterna (Jo 6,69). Ele sempre encabeça a lista dos discípulos (cf. Mt 10,2;Mc 3,16;Lc 6,14). Faz parte do círculo mais íntimo dos discípulos (Mc 5,37;9,2;13,3;Lc 8,51), e é o primeiro entre os discípulos (Mt 16,23;Jo 21,19). Ele admite sua ignorância (Mt 15,15;Lc 12,41; cf. também Jo 13,6-10 sobre o lava-pés) e a própria pecaminosidade (Lc 5,8). Ele questiona sobre o perdão e é advertido sobre as consequências do não- perdão (Mt 18,21-35).          

Uma piedosa tradição conta que, durante a perseguição cruel de Nero, Pedro saía de Roma, abandonando a própria comunidade cristã em busca de um lugar mais seguro. Junto às portas da cidade, cruzou-se com Jesus que carregava a Cruz. Quando Pedro lhe perguntou: “Aonde vais, Senhor (Quo vadis, Domine)?” ouviu a resposta do Mestre: “Vou a Roma para deixar-me crucificar novamente”. Pedro entendeu a lição e voltou para a cidade onde o esperava a sua cruz. Um historiador antigo refere que Pedro pediu para ser crucificado de cabeça para baixo, por sentir-se indigno de morrer como o seu Mestre, de cabeça para o alto. Apesar das suas fraquezas, Pedro foi fiel a Cristo, até dar a vida por Ele.          

Ficamos perguntando, por que Pedro, homem que demonstra um pouco de volubilidade e que tem tantos defeitos, foi eleito por Jesus para ser rocha sobre a qual edifica sua Igreja e para apascentar as ovelhas de Jesus? (cf. Jo 21,5-17). Até o próprio Pedro questiona Jesus sobre essa eleição (cf. Jo 21,21). Será que, ao reconhecer os próprios defeitos e fraquezas, Pedro terá condições de compreender os defeitos e fraquezas dos outros sem condená-los, mas ajudá-los a saírem destes? Pois aquele que já passou por uma experiência de miséria, normalmente, sabe repartir o que tem para quem não tem nada para viver. Nunca podemos compreender completamente os mistérios de Deus. Oscar Wilde dizia: “Todo santo tem um passado e todo pecador tem um futuro”. Talvez o profeta Isaías tenha razão quando coloca estas palavras na boca de Deus: “Pois meus pensamentos não são os vossos, e o vosso modo de agir não é meu... meus pensamentos ultrapassam os vossos(Is 55,8.9b). Por isso, junto com o salmista podemos rezar: “Ensina-me, Senhor, vosso caminho...!” (Sl 26,11), pois “os caminhos de Deus são perfeitos(2Sm 22,31).          

Paulo também passou por uma experiência dolorosa antes de conhecer Jesus Cristo. A queda de Paulo na estrada de Damasco foi a linha divisória para sua vida entre antes e depois (At 9,1ss). Essa queda é a chave geral para entender Paulo e toda a sua luta incansável.          

Paulo sempre foi um homem profundamente religioso, judeu praticante, irrepreensível na mais estrita observância da Lei (Fl 3,6;At 22,3) cheio de zelo pelas tradições paternas (Gl 1,14). Para defender essas tradições, chegou a perseguir os cristãos e isso com o apoio do Sinédrio.          

Mas na estrada de Damasco Paulo, em vez de perseguir, ele foi perseguido por Cristo. A entrada de Jesus na vida de Paulo não foi pacífica, mas sim de uma maneira violenta.          

Deus não pediu licença a Paulo. Ele entrou e o derrubou (At 9,4;22,7;26,14). Caído no chão, Paulo se entregou. Lucas não diz que Paulo caiu do cavalo, mas “cai por terra”, porque essa é a fraseologia usada em alguns textos bíblicos para descrever a reação humana diante da manifestação divina. Paulo é interpelado duas vezes pelo seu nome hebraico, transcrito em grego: “Saoúl, Saoúl” (v.4). A repetição do nome corresponde ao esquema de diálogos de revelação aos patriarcas bíblicos: Abraão, Jacó, Moisés (Gn 22,1;46,2;Ex 3,4). A novidade na experiência de Paulo é a pergunta: “Por que você me persegue?” (v.4). Ela revela uma situação singular. Aquele que fala com Paulo, no contexto de uma luz divina, se identifica com aqueles que Paulo está perseguindo (v.5 cf). A identificação de Jesus com os seus discípulos perseguidos coloca Paulo diante de uma escolha sem alternativas (cf. Mt 25,40.45). Ele precisa mudar radicalmente os seus projetos.          

Uma luz o envolveu (v.3) e era tão forte que Paulo ficou cego. Ele começou a enxergar até que Ananias interveio para dar-lhe o sentido da sua aceitação na Igreja e da certeza de caminhar na via que leva a Deus. Paulo ressuscitou no exato momento em que foi acolhido na comunidade como irmão(v.18).          

Paulo ganhou novos olhos. Ele via as mesmas coisas de sempre: a vida, as pessoas, a Bíblia, o povo, a sinagoga, o trabalho e tudo que pertencia ao seu mundo. Mas a nova experiência do amor de Deus em Jesus(Rm 8,39) mudou os olhos, e o ajudou a descobrir novos valores que antes não via. A visão de Deus é luz, mas para a carnalidade do homem é motivo de espanto e faz com que o homem perceba toda a escuridão em que se encontra. Em contato com Deus que é luz, o homem se reconhece que é trevas.                 

O nascimento de Paulo, segundo 1Cor 15,8, para Cristo não foi normal. Deus o fez nascer de maneira forçada. Paulo foi arrancado de dentro de seu mundo, como se arranca uma criança do seio da mãe por meio de uma operação.          

A partir da experiência de Damasco, Paulo não consegue confiar naquilo que ele faz por Deus, mas só naquilo que Deus fez por ele. Já não coloca sua segurança na observância da Lei, mas sim no amor de Deus por ele(Gl 2,20s;Rm 3,21-26). Essa experiência chama-se Gratuidade. Essa foi a marca de experiência de Paulo na estrada de Damasco que renova por dentro todo o seu relacionamento com Deus. Essa experiência da gratuidade do amor de Deus vai dar rumo à vida de Paulo e vai sustentá-lo nas coisas que virão. Essa experiência é a nova fonte da sua espiritualidade que faz brotar nele uma “poderosa energia”(Cl 1,29), energia muito mais forte e muito mais exigente do que a sua vontade anterior de praticar a Lei e de conquistar a justificação. Essa experiência levou Paulo a desocupar o barraco da sua vida para deixar Jesus entrar nela.  Ele cresce tanto no amor de Cristo, a ponto de dizer: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim”(Gl 2,20). Essa “desapropriação” de si mesmo, porém, não lhe tira a liberdade. Pelo contrário, ele diz: “É para a liberdade que Cristo nos libertou”(Gl 5,1;2,4). A experiência da gratuidade do amor de Deus faz Paulo suportar lutas e perseguições, viagens e canseira, o peso do dia-a-dia(2Cor 11,23-27); sofrer com aqueles que sofrem(2Cor 11,29). Essa experiência mudou os olhos de Paulo e o ajudou a descobrir novos valores que antes não via.          

Pálido, doente e acabado, Paulo foi levado a um vale solitário chamado Aquae Salviae em Roma. Seu corpo foi açoitado pela última vez. Inclinou a cabeça à espera da espada que o conduziria ao martírio. O lugar onde ele foi martirizado, hoje chama-se Tre Fontane como recordação de Cabeça de Paulo que por três vezes bateu no chão antes de parar no instante dramático da morte. Realizou, assim, o único desejo de sua vida: estar com seu Senhor e Mestre Jesus Cristo: “Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20).          

O Deus do Evangelho e da misericórdia é Aquele que no instante em que me faz compreender que errei completamente com relação a Ele, porque me coloquei em seu lugar, demonstra-me a sua misericórdia ao perdoar-me e me dá confiança ao chamar-me ao seu serviço, confiando-me a sua própria Palavra.          

Este instante resume para Paulo tudo o que ele sabia de Deus de maneira errada. O escuro se torna claro, o violento se torna misericordioso.          

O evento de Damasco é algo tão rico que devemos aproximar-nos com muita humildade e reverência, convencidos de que compreendemos pouco, que sabemos pouco com relação a isto, mas que poderemos conhecer muito mais pela graça de Deus. Então, compreenderemos melhor a nós mesmos, o caminho da nossa vida e as nossas conversões.          

A experiência de Paulo nos faz perguntar: “Quando foi que me converti? Existe em minha vida um “quando” da conversão ao qual posso referir-me como momento histórico? Mesmo que não tenha havido um “quando” temporal, certamente aconteceram momentos de mudança, de transformação, de crise que nos levaram a uma nova compreensão do mistério de Deus.          

Se nunca realizamos a fundo esta mudança de mentalidade que é essencial para a vida cristã, ainda não chegamos a compreender o que é a novidade do caminho cristão. Se não compreendo bem as coisas ditas sobre Paulo, provavelmente é difícil que compreenda o que aconteceu em mim.           

2. Pedro E Paulo Revelam Face Institucional E Carismática Da Igreja

Pedro e Paulo são chamados as duas colunas da Igreja. Os dois revelam, de maneira expressiva, as duas faces da Igreja: a institucional e a carismática. Por um lado, a Igreja é um dom que recebemos de Cristo e da Tradição. Aqui não se inventa nem se acrescenta; acolhe-se com gratidão. Entretanto ela pode conter perigos; favorece a acomodação, facilmente se incorre no legalismo, no moralismo e na rigidez dogmática que impede ou suspeita de toda novidade. Pedro corporifica a face institucional da Igreja. Mas estes limites são superados ou equilibrados por outra face: a face carismática. Porque, a Igreja é resposta humana, criatividade face aos desafios de cada geração, adaptação aos valores das culturas, inovação nos modos de pensar a fé, de rezar a Deus e de viver o Evangelho. Mas esta face tem também seus limites: a invenção não pode adulterar a substância da fé apostólica; cumpre guardar uma fidelidade essencial ao espírito de Jesus e dos Apóstolos. Paulo corporifica a face carismática da Igreja. A Igreja que hoje possuímos é fruto desta síntese feliz. A festa de Pedro e Paulo nos quer recordar os bons frutos que nos vêm desta tensão conservando a unidade dentro da pluralidade. 

3. Pedro e Paulo Nos Trazem a Mensagem da Esperança 

Eis por que sinto alegria nas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições, no profundo desgosto sofrido por amor de Cristo. Porque quando me sinto fraco, então é que sou forte”, contou-nos São Paulo sua experiência (2Cor 12,10). 

As duas figuras, Pedro e Paulo, nos trazem uma mensagem de esperança. Na vida podemos ter muitos defeitos e fraquezas até chegamos a ponto de não conseguirmos sair deles, mas ninguém pode escapar do amor de Deus desde que acolhamos este amor com muita humildade. Pedro e Paulo são testemunhas de tudo isto. Como se os dois quisessem nos dizer: “Não desista! Tudo tem seu tempo e sua solução, pois Deus te ama”.           

Deus conta com o tempo para formar cada um de nós, seus instrumentos, como conta também com a nossa boa vontade. Se tivermos a boa vontade de Pedro e de Paulo, se formos dóceis à graça de Deus, iremos convertendo-nos em instrumentos idôneos para servir o Mestre e para levar a cabo a missão que nos confiou. Até os acontecimentos que parecem mais adversos, os nossos próprios erros e vacilações, se recomeçarmos uma vez e outra, se abrirmos o coração ao Senhor e às pessoas capacitadas na direção espiritual, haverão de ajudar-nos a estar mais perto do Senhor que não se cansa de suavizar os nossos modos rudes e toscos. É provável que, em momentos difíceis de nossa vida, cheguemos a ouvir como Pedro: “Homem de pouca fé, por que duvidaste?” (Mt 14,31). E veremos Jesus ao nosso lado, estendendo-nos a mão para nos ajudar.

4. Quem é Jesus Para Mim?

“E vós, quem dizeis que eu sou?”. É a pergunta que cada um deve responder como seguidor de Cristo. Pedro e Paulo já responderam a mesma pergunta com sua vida e seu testemunho. 

“E vós, quem dizeis que eu sou?”. Podemos saber e crer em muitos fatos da vida de Jesus, mas não significa que tenhamos a experiência com Ele. O cristianismo jamais consiste em saber sobre Jesus, mas sempre consiste em conhecer Jesus. Pela origem da palavra, o verbo “conhecer” quer dizer “com-nascer”, nascer com, fazer-se um com outro. Somente conhecemos o outro, entregando-nos a ele e aceitando que ele se entregue a nós. A experiência não é uma recordação. A experiência é um ato ou algo que nos acontece e transforma nossa atitude e nosso modo de viver e de perceber a vida e as pessoas.                

A experiência que o cristão deve ter em relação a Jesus é a experiência de Jesus ressuscitado, isto é, do Cristo vivo aqui e agora, ontem, hoje e sempre (cf. Hb 13,8) e que continua nos acompanhando diariamente (cf. Mt 28,20). Não se trata de uma experiência histórica, mas uma experiência trans-histórica, pessoal e intransferível.        

Sem essa experiência pessoal com Jesus, o cristianismo se reduzirá a uma religião de um livro cheio de recordações da vida de uma pessoa no passado. O cristianismo não é uma religião do livro, mas uma religião da Palavra viva que é ouvida, experimentada e percebida em sua força transformadora por quem tem “ouvidos para escutar” e o coração aberto para sentir que nos permite abrirmos à transcendência. Esta experiência nos leva a vivermos um conjunto de experiências tais como o amor a Deus e ao próximo, a solidariedade e a compaixão, o perdão e a reconciliação, a verdade e a veracidade, a fidelidade, a abertura ao novo, a liberdade e assim por diante. Neste sentido o cristão é aquele que está sempre ligado consigo mesmo, com seu próximo, com o mundo e com o Divino.       

Todos nós recebemos, de diversas maneiras, uma chamada concreta para servir o Senhor. E ao longo da vida chegam-nos novos convites para segui-lo, e temos de ser generosos com Ele em cada novo encontro. Temos de saber perguntar a Jesus na intimidade da oração, como São Paulo: “Que devo fazer, Senhor? Que queres que eu deixe por Ti? Em que desejas que eu melhore? Neste momento da minha vida, que posso fazer por Ti?         

Pedimos hoje a São Pedro e ao Apóstolo dos pagãos, Paulo, um coração como o deles, para sabermos passar por cima das pequenas humilhações ou dos aparentes fracassos que acompanham necessariamente a ação apostólica, ou a nossa vida em geral. E dizemos a Jesus que estamos dispostos a conviver com todos, a oferecer a todos a possibilidade de conhecê-lo e amá-lo, sem nos importarmos com os sacrifícios nem pretendermos êxitos imediatos. Assim seja!

P. Vitus Gustama,svd

Segunda-feira Da XIII Semana Comum, Ano Par, 29/06/2026

SEGUIR A JESUS PARA ALCANÇAR A SALVAÇÃO E SALVAR O PRÓXIMO Segunda-Feira da XIII Semana Comum Primeira Leitura: Am 2,6-10.13-16 6 Isto...