quinta-feira, 14 de maio de 2026

Sábado Da VI Semana Da Páscoa,16/04/2026

A ORAÇÃO NOS APROXIMA DE DEUS E NOS TORNA ALEGRES E SERENOS

Sábado da VI Semana da Páscoa

Primeira Leitura: At 18,23-28

(22 Paulo viajou até Cesaréia, subiu a Jerusalém e saudou a comunidade e logo em seguida desceu a Antioquia). 23 Paulo permaneceu algum tempo em Antioquia. Em seguida, partiu de novo, percorrendo sucessivamente as regiões da Galácia e da Frígia, fortalecendo todos os discípulos. 24 Chegou a Éfeso um judeu chamado Apolo, natural de Alexandria. Era um homem eloquente (poderoso), versado nas Escrituras. 25 Fora instruído no caminho do Senhor e, com muito entusiasmo, falava e ensinava com exatidão a respeito de Jesus, embora só conhecesse o batismo de João. 26 Então, ele começou a falar com muita convicção na sinagoga. Ao escutá-lo, Priscila e Áquila tomaram-no consigo e, com mais exatidão, expuseram-lhe o caminho de Deus. 27 Como ele estava querendo passar para a Acaia, os irmãos apoiaram-no e escreveram aos discípulos para que o acolhessem bem. Pela graça de Deus, a presença de Apolo aí foi muito útil aos fiéis. 28 Com efeito, ele refutava vigorosamente os judeus em público, demonstrando pelas Escrituras que Jesus é o Messias.

Evangelho: Jo 16, 23-28

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 23b “Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes ao Pai alguma coisa em meu nome, ele vo-la dará. 24 Até agora nada pedistes em meu nome; pedi, e recebereis; para que a vossa alegria seja completa. 25 Disse-vos estas coisas em linguagem figurativa. Vem a hora em que não vos falarei mais em figuras, mas claramente vos falarei do Pai. 26Naquele dia pedireis em meu nome, e não vos digo que vou pedir ao Pai por vós, 27pois o próprio Pai vos ama, porque vós me amastes e acreditastes que eu vim da parte de Deus. 28Eu saí do Pai e vim ao mundo; e novamente parto do mundo e vou para o Pai”.

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É Preciso Cada Cristão Empenhar-se Para o Bem Da Igreja/Comunidade

Começa outra viagem apostólica de Paulo, a terceira, sempre de Antioquia, seu lugar de referência, e passa pelas comunidades “encorajando os discípulos”. O centro desta viagem estará localizado em Éfeso. Sobre Paulo o versículo anterior (v.22) do texto de hoje nos diz: “Paulo viajou até Cesaréia, subiu a Jerusalém e saudou a comunidade e logo em seguida desceu a Antioquia” (At 18,22). Esta informação é importante. Nessa época, a comunhão e a unidade da Igreja não se fazem, sobretudo, por regras legais, mas sim por uma intensa “comunicação de experiências e orações”. Cada "Igreja" está em comunicação com as outras. Em todos elas se proclama a mesma Palavra e a mesma Fé.

Mas a leitura de hoje é como um parêntese na história de Paulo, porque se refere a Apolo. Apolo era um judeu que se formou em Alexandria de Egito e era experto na Escritura (AT). Como homem “instruído”, recebeu formação de “nível universitário” em retórica na valorizada educação grega. Lucas diz que Apolo era “poderoso” no uso das Escrituras. “Poderoso” era um termo retórico para lógica e persuasão.   Ele pregou Jesus como Messias, embora ainda fosse discípulo de João Batista.

Em relação a Apolo Lucas disse que ele era “um homem eloquente” ou “poderoso”. Apolo aprendeu a arte da habilidade nos debates em sua educação secular e usava isso de maneira excelente para ensinar que Jesus era o Messias Prometido. Ele era um judeu-cristão, apologista e debatedor. Ele combinava seu conhecimento vasto sobre o AT com sua educação secular na arte da retórica.

Em Éfeso, o leigo Apolo teve a sorte de conhecer algumas pessoas, colaboradoras de Paulo, que o acolheram e o ajudaram a se formar melhor. E assim encontraram um bom catequista e pregador de Cristo, a quem a comunidade de Antioquia concedeu um voto de confiança, confiando-lhe uma missão que não era fácil na Grécia.

Inicialmente, Apolo pregava na sinagoga de Éfeso, onde foi ouvido por Áquila e Priscila, um casal muito amigo de São Paulo, dois grandes ministros da Igreja primitiva em Corinto. Áquila e Priscila convidaram Apolo para visitá-los em Corinto. Apolo fortaleceu grandemente a comunidade cristã de Corinto.

Mais uma vez somos convidados a ter o coração aberto, a saber reconhecer o bem onde ele está. Ninguém tem o monopólio da verdade. O critério não tem que ser idade ou sexo ou etnia ou se você pertence ou não ao clero. É verdade que Cristo confiou a responsabilidade final e o ensino decisivo aos apóstolos e seus sucessores. Mas a história da primeira comunidade nos ensina que este ministério deve ser feito também com a mente aberta, sabendo reconhecer os sinais da voz do Espírito também nos leigos e em toda a comunidade.

Os leigos, afortunadamente cada vez mais têm um papel importante na tarefa da evangelização encomendada para toda a Igreja.É um dos slogans mais comprometedores do Vaticano II, baseado na “nova” eclesiologia da Lumen Gentium.

Apolo permaneceu algum tempo em Corinto e engajou-se numa obra promissora. Os que converteram por meio do seu ministério, quando começaram a surgir divisões após o retorno dele a Éfeso, viam a si mesmos como pertencentes a Apolo, em termos seculares. Logicamente, os outros se consideravam seguidores de São Paulo. Este problema podemos ler em 1Cor 1-4. Ciúmes e rivalidades entre professores eram exatamente o que mestres e discípulos seculares faziam, com o espirito competitivo, na luta pela reputação de suas escolas e por maior influência nas assembleias políticas (1Cor 3,1.3; Cf. 1Cor,1,11).

Em 1Cor 4,6, São Paulo condena a divisão ou a competição entre ele e Apolo e chama tal atitude de “imatura” e “mundana”. São Paulo revela as funções distintas de cada um, destacando que um plantava e outro regava, cooperando conjuntamente para o crescimento da Igreja/Comunidade, pois apenas Deus pode fazer crescer (1Cor 3,5-6). Tanto São Paulo como Apolo eram de tal estrutura espiritual, que nenhum dos dois reagiu ao jogo de poder dos coríntios, mas continuaram empenhados em prol do bem da Igreja/Comunidade.

O ciúme é tóxico. O ciúme acontece quando sentimos medo de perder algo. Pode-se ter ciúme de uma pessoa amada, do trabalho. Um bebê/criança pode ter ciúme da mãe ou do pai quando estes falam com outras crianças. Pode-se ter ciúme dos amigos. O circuito do ciúme funciona da seguinte maneira: em primeiro lugar, sentir a ameaça. A pessoa ciumenta sente que há um terceiro que pode ser real ou imaginário que vem rouba seu amor, seu trabalho, seu amigo(a). Em segundo lugar, o ciumento gosta de controlar seu parceiro, vigiar, revisar, seguir para descobrir a prova. Em terceiro lugar, o ciumento gosta de proibir seu parceiro, em termos de se vestir, de amizades, e assim por diante. Em quarto lugar, o ciumento é capaz de pedir perdão ao seu parceiro até que apareça um terceiro para voltar tudo outra vez.

A partir da vida de Apolo e São Paulo, será que somos capazes de usar bem nossa capacidade acadêmica para evangelizar os outros ou somente para o uso próprio? Será que se repete nas nossas comunidades, como em Corinto, em que há seguidores de uns sacerdotes e há também seguidores de outros padres? Será que no próprio sacerdote há ciúmes de outro sacerdote? É preciso que cada um se empenhe para o bem da Igreja a exemplo de Apolo e São Paulo.

Rezar Em Nome Do Senhor

Continuamos a acompanhar o discurso de despedida de Jesus de seus discípulos segundo o quarto Evangelho/Evangelho de João (Jo 13-17).

No Evangelho de hoje, Jesus continua a aprofundar tanto a sua relação com o Pai como as consequências que esta união tem para os seus seguidores: desta vez a respeito da oração.

Agora que Jesus "volta ao Pai", para Aquele que o enviou ao mundo, promete aos seus discípulos que a oração que eles dirigirem ao Pai em nome de Jesus será eficaz. O Pai e Cristo estão intimamente unidos. Os seguidores de Jesus, estando unidos a ele, estão também unidos ao Pai. O próprio Pai nos ama, porque aceitamos a Cristo. E por isso a nossa oração não pode ser ignorada. Mas precisamos entender que uma oração não “atendida” por Deus é uma forma de nós atender corretamente. Deus sempre nos dá o que é certo para nossa salvação.

A eficácia da nossa oração por Cristo explica-se pelo fato de nós, que cremos n'Ele, permanecermos "incardinados" no seu caminho de regresso ao Pai: a nossa união com Jesus, o Mediador, é, em última análise, união com o Pai. Dentro dessa misteriosa união é que faz sentido a nossa oração de cristãos e de filhos.

O texto do evangelho de hoje começa com a seguinte expressão: “Em verdade, em verdade vos digo...”. Toda vez que Jesus quer falar algo importante, ele usa essa fórmula solene. Hoje ele fala sobre a importância de fazer a oração com fé, isto é, fazê-la em nome de Jesus: “Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes ao Pai alguma coisa em meu nome, ele vo-la dará. Até agora nada pedistes em meu nome; pedi, e recebereis; para que a vossa alegria seja completa”.

“Se pedirdes ao Pai alguma coisa em meu nome, ele vo-la dará. Até agora nada pedistes em meu nome; pedi, e recebereis; para que a vossa alegria seja completa”. Jesus quer que os discípulos façam seus pedidos em seu nome. A expressão “pedir em meu nome” significa pedir na fé em Jesus; significa suplicar ao Pai enquanto discípulo de Jesus mediante a fé que o reconheceu como Filho do Pai. Aqui a oração se torna uma participação no diálogo divino onde a conversa é desprovida de qualquer pretensão, pois a oração é o momento de participação no diálogo divino isto é, no diálogo entre o Filho e o Pai. Para o evangelista João aqui está o sentido da verdadeira oração. Na participação desse diálogo a vontade suprema de Deus ocupa o lugar importante na oração. Daqui a pouco Jesus nos dará o seu Espírito: unidos a Ele, em seu nome, obtemos tudo.

Além disso, na participação do diálogo divino percebemos algo importante que Jesus quer nos transmitir: que a oração é a fonte de gozo, de expansão, e de equilíbrio: “pedi, e recebereis; para que a vossa alegria seja completa”. Orar/rezar é estar na contemplação, no repouso em Deus. Estar na oração é estar no mundo de Deus, tão próximo de nós na oração. Estar no mundo de Deus é estar na alegria plena e na serenidade. A verdadeira oração sempre nos causa alegria e nos dá a serenidade sabendo que Deus nos ama no Filho (Jo 3,16), que ama cada um até o fim (Jo 13,1) Cada um precisa fazer isso permanentemente. É impossível experimentar o mundo divino na oração no lugar dos outros; cada um há que experimentar esse mundo por si mesmo.

“Pedi, e recebereis; para que a vossa alegria seja completa”. A oração é fonte de gozo, fonte de expansão, fonte de equilíbrio. Rezar é repousar em Deus. Na oração nós nos aproximamos do mundo divino para iluminar nosso mundo de cada dia. É preciso rezarmos permanentemente para que nossa alegria seja completa e permanente. Até agora Jesus nos indica o caminho para chegar à nossa alegria plena: através do amor fraterno (cf. Jo 15,9-11) e através da oração (Jo 16,24). Orar e amar permanentemente nos mantém na alegria plena.

Na oração não há distância entre nós e Deus. A distância é abolida. Na oração, entre o mundo invisível e o mundo visível não há muros de separação. A oração faz com que a terra se aproxima do céu, a humanidade se une à divindade. Na oração há uma comunicação direta entre quem reza e Deus. Da terra sobem sem cessar orações de amor e de fé. E do céu descem sem cessar graças e palavras divinas de amor. Na oração nossa fé no amor de Deus por nós aumenta, pois mesmo que façamos nossos pedidos a Deus erradamente, Deus sempre dá algo corretamente pela nossa salvação. Deus atende aquilo que nos salva. Porém, temos que estar conscientes de que sempre que nós rezamos de verdade, a nossa oração é eficaz, não porque modificamos Deus, mas porque nos modificamos. O mais difícil da oração não é tanto saber se Deus nos escuta, mas conseguirmos que nós O escutemos.

Orar ou rezar é como entrar na esfera de Deus. De um Deus que quer nossa salvação, pois já nos ama antes de nos dirigirmos a Ele, como quando tomamos o sol que já estava brilhando. Ao entrarmos em sintonia com Deus, por meio de Cristo e seu Espírito, nossa oração coincide com a vontade salvadora de Deus e nesse momento nossa oração já é eficaz.

“Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes ao Pai alguma coisa em meu nome, ele vo-la dará”. Na oração entramos nas profundezas de Deus e nos deixamos envolver pelo mistério da Santíssima Trindade. Na fé cristã a oração é sempre trinitária, pois se dirige ao Pai no Espírito através do Filho. É do Pai que vem o dom pelo Filho no Espírito Santo. A oração é o momento e o acontecimento trinitário. Nossa orações e celebrações sempre começam com o sinal da cruz de carater trinitário e termina com o mesmo: Fazendo o sinal da Cruz, rezamos: em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.

Jesus veio do mundo divino/celeste onde reina o amor que nos envolve inteiramente: “Eu saí do Pai e vim ao mundo; e novamente parto do mundo e vou para o Pai”.  É o mundo em que as relações entre as Pessoas (Santíssima Trindade) são totalmente satisfatórias, profundas e perfeitas. É o mundo onde o amor é rei e faz todos felizes. Jesus veio para nos revelar quem é nosso Deus? Deus é Pai, Deus é amor, Deus nos ama.

Portanto, para que nossa alegria seja completa e nossa felicidade seja plena temos que aprender a amar e a orar permanentemente. Amamos os outros para que nos tornemos divinos. O divino nos dá a alegria, pois o divino nos salva. E “só se ama verdadeiramente o próximo quando se ama a Deus no próximo, seja porque Deus já vive nele, seja para que Deus viva nele. Isto é amor” (Santo Agostinho: Serm. 336,1,1). Oramos para que estejamos na esfera divina e consequentemente, nossa alegria será completa. Quer ser alegre? Ame e reze permanentemente!

Senhor, preciso de ti para não me apoiar nas muletas que limitam a liberdade, nem em algo que hoje me estimula e amanhã me prostra até o pó e lama. Abre-me o coração ao teu projeto e dá-me força para encaixá-lo em minha vida. Que assim seja!

P. Vitus Gustama,svd

terça-feira, 12 de maio de 2026

Sexta-feira Da VI Semana Da Páscoa, 15/05/2026

A TRISTEZA SE TRANSFORMA EM ALEGRIA NA COMPONHIA DO SENHOR



Sexta-Feira da VI Semana da Páscoa

Primeira Leitura: At 18,9-18

Estando Paulo em Corinto, 9 uma noite, o Senhor disse-lhe em visão: “Não tenhas medo; continua a falar e não te cales, 10 porque eu estou contigo. Ninguém te porá a mão para fazer mal. Nesta cidade há um povo numeroso que me pertence”. 11 Assim Paulo ficou um ano e meio entre eles, ensinando-lhes a Palavra de Deus. 12 Na época em que Galião era procônsul na Acaia, os judeus insurgiram-se em massa contra Paulo e levaram-no diante do tribunal, 13 dizendo: “Este homem induz o povo a adorar a Deus de modo contrário à Lei”. 14 Paulo ia tomar a palavra, quando Galião falou aos judeus, dizendo: “Judeus, se fosse por causa de um delito ou de uma ação criminosa, seria justo que eu atendesse a vossa queixa. 15 Mas, como é questão de palavras, de nomes e da vossa Lei, tratai disso vós mesmos. Eu não quero ser juiz nessas coisas”. 16 E Galião mandou-os sair do tribunal. 17 Então todos agarraram Sóstenes, o chefe da sinagoga, e espancaram-no diante do tribunal. E Galião nem se incomodou com isso. 18 Paulo permaneceu ainda vários dias em Corinto. Despedindo-se dos irmãos, embarcou para a Síria, em companhia de Priscila e Áquila. Em Cencréia, Paulo rapou a cabeça (cortou os cabelos), pois tinha feito uma promessa.

Evangelho: Jo 16,20-23

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 20Em verdade, em verdade vos digo: Vós chorareis e vos lamentareis, mas o mundo se alegrará; vós ficareis tristes, mas a vossa tristeza se transformará em alegria. 21A mulher, quando deve dar à luz, fica angustiada porque chegou a sua hora; mas, depois que a criança nasceu, ela já não se lembra dos sofrimentos, por causa da alegria de um homem ter vindo ao mundo. 22Também vós agora sentis tristeza, mas eu hei de ver-vos novamente e o vosso coração se alegrará, e ninguém vos poderá tirar a vossa alegria. 23aNaquele dia, não me perguntareis mais nada”.

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O Senhor Jamais Abandona Seus Mensageiros

A meta da ação missionária de Paulo são sempre os centros mais importantes de uma cidade. Agora será Corinto, "a cidade dos mares", uma ponte entre o Oriente e o Ocidente, capital da província romana da Acaia e um florescente centro comercial. Em um ano e meio, seguramente, Paulo fundou a Igreja, que seria a destinatária de duas de suas principais cartas. A história destaca o dramático rompimento com a sinagoga (At 18,5-7), as angústias do início e o extraordinário sucesso da missão (At 18,8-11) e a perseguição dos judeus, que conduzirão Paulo diante do procônsul Gálio (At 18,12-17). Este episódio permite datar os acontecimentos, quase com certeza, no ano 52 depois de Cristo. Na parte final da história (At 18,18-28) a ação muda de cenário. Paulo volta a Antioquia na Síria, onde conclui a segunda viagem (At 18,18-22) e inicia a terceira, que faria de Éfeso a base de suas operações missionárias (At 18,23-28).

Depois de Filipos e Atenas, São Paulo foi para a terceira cidade da Europa que recebeu o Evangelho: Corinto. Corinto era uma cidade mais importante da Grécia e sede do governador romano, o prôconsul e centro comercial de primeira ordem. Por isso, era um lugar muito estratégico para a evangelização. Corinto foi reconstruída por César em 44 a.C depois de sua destruição por obra de Lúcio Múmio em 146 a.C (Lucius Mummius Achaicus foi eleito cônsul em 146 a.C).

Conforme o texto da Primeira Leitura de hoje, em Corinto é que, numa visão noturna, o Senhor falou para São Paulo: “Não tenhas medo; continua a falar e não te cales, porque eu estou contigo”. “Eu estou contigo” é uma expressão vinda de Deus quando envia uma pessoa para uma missão.

Em cada Carta de são Paulo, para não dizer em cada capítulo de suas cartas é muito dificilmente não encontrar o nome de Jesus ou algo referente a Jesus. Não era simplesmente uma maneira de falar. A citação do nome de Jesus ou algo referente a Jesus quer nos mostrar que São Paulo e Jesus viviam juntos. Esta união era tão profunda que São Paulo chegou a escrever: “Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim. A minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim(Gl 2,20). Jesus e São Paulo continuamente se comunicavam um ao outro. Como São Paulo, os primeiros cristãos estavam convencidos da presença de Cristo e esta convicção constituía sua força. Nas dificuldades cotidianas eles se agarravam nesta certeza. Esta certeza deve servir também a todos nós cristãos, pois o próprio Senhor nos promete uma presença permanente na nossa vida de cada dia (Mt 28,20).

Com a visão noturna de São Paulo, que lemos na Primeira Leitura, Lucas, o autor dos Atos, quer revelar a seus leitores a promessa ou projeto do Senhor: “Não tenhas medo; continua a falar e não te cales, porque eu estou contigo”.

As palavras que o Senhor disse a São Paulo, numa visão noturna, são palavras que mais vezes se escutam tanto no AT como no NT, dirigidas às pessoas das quais Deus escolheu para ser testemunhas no mundo: “Não temas!”. Ouviram o próprio Moisés (Dt 31,6), Josué (Js 1,9), Jeremias (Jr 1,8), Isaías (Is 41,10; 43,5) e a Virgem Maria (Lc 1,30), e agora São Paulo.

Sentir medo não é errado porque somos criaturas expostas a perigos e ameaças. Os nossos medos são um sinal de alarme que podem nos ajudar a evitarmos o perigo e nos criam prudência. O que se evita é o medo exagerado. Sabemos pela experiência que o resultado do medo (exagerado) é a imobilidade. Quando estamos envolvidos pelo medo (exagerado), não conseguimos avançar. O medo nos deixa de termos novos pensamentos, de vivermos novas experiências e de conhecermos novas personalidades, pois ficamos trancados no nosso isolamento.

Por que “Não tenha medo!”? Sabemos pela experiência que o resultado do medo é a imobilidade. Quando estamos envolvidos pelo medo, não conseguimos avançar. O medo nos deixa de termos novos pensamentos, de vivermos novas experiências e de conhecermos novas personalidades. Por causa do medo, tudo o que a vida está pronta a nos oferecer passa sem ser percebido. De fato, a vida é uma série de oportunidades para o crescimento emocional, espiritual e intelectual, e nenhuma oportunidade para ação está além de nossa capacidade.

Paulo como os antigos profetas escolhidos por Deus para efetuar uma missão no certo momento em que se encontravam os profetas, pode encarar as resistências e perseguições com coragem e liberdade porque o “Senhor está com ele”. Isto quer nos dizer que quando fizermos a vontade de Deus, quando vivermos de acordo com os ensinamentos de Jesus Cristo, podemos ter certeza de que não vamos lutar sozinhos e sim com Jesus Cristo. E Se Deus é por nós, quem será contra nós? .... Nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem as potestades, nem as alturas, nem os abismos, nem outra qualquer criatura nos poderá apartar do amor que Deus nos testemunha em Cristo Jesus, nosso Senhor”, escreveu São Paulo aos romanos (Rm 8,31.38-39).

Não tenhas medo; continua a falar e não te cales, porque eu estou contigo”. Temos direito de desconfiar na Palavra de Deus? Temos direito de ficar desanimados porque nos aparece que nossa sociedade está desordenada, sem justiça social e cheia de corrupção? Temos direito de ter medo diante das dificuldades onde nos encontramos no momento, enquanto Deus continua conosco?

Quem Acredita Em Deus Seu Sofrimento Será Transformado Em Alegria

Continuamos acompanhando o longo discurso de despedida de Jesus de seus discípulos no evangelho de João (Jo 13-17). Como qualquer despedida, o tom é sempre melancólico. Mas em cada despedida há sempre as últimas recomendações ou lições dadas ou deixadas por aquele que vai partir para que os que ficam não vivam desamparados ou desorientados.

“Em verdade, em verdade vos digo: Vós chorareis e vos lamentareis, mas o mundo se alegrará; vós ficareis tristes, mas a vossa tristeza se transformará em alegria. ... vós agora sentis tristeza, mas eu hei de ver-vos novamente e o vosso coração se alegrará, e ninguém vos poderá tirar a vossa alegria. Naquele dia, não me perguntareis mais nada”, disse Jesus aos discípulos no evangelho de hoje. A promessa que Jesus faz para seus discípulos de voltar a vê-los em breve se refere às aparições do Ressuscitado, a sua presença entre os seus por meio do Espírito, a experiência pessoal do encontro com ele na vida de cada um (experiência de Emaús): “... eu hei de ver-vos novamente e o vosso coração se alegrará,

“Em verdade, em verdade vos digo: Vós chorareis e vos lamentareis, mas o mundo se alegrará; vós ficareis tristes, mas a vossa tristeza se transformará em alegria.”. Nos versículos 20 a 22 aparecem várias vezes a palavra “tristeza” e “alegria”. Mas a alegria é muito maior do que a tristeza, pois a alegria que vem da Cruz é invencível, pois trata-se de amor e de vida que vence o ódio e a própria morte. O discípulo diante da cruz está triste, como uma mulher à qual chegou a hora do parto. Mas diante da Cristo ressuscitado a tristeza é superada. Para são Paulo, a alegria é sinal de que habita em nós o Espírito Santo, pois a alegria é um dos frutos do Espírito Santo (cf. Gl 5,22-23)

O sofrimento e a dor, a alegria e a tristeza, o sucesso e o fracasso, o nascimento e a morte, o sorriso e o choro moram no mesmo homem. O famoso escritor libanês, Khalil Gibran, escreveu no seu livro O Profeta:Quando estiverdes alegres, olhai no fundo de vosso coração, e achareis que o que vos deu tristeza é aquilo mesmo que vos está dando alegria. E quando estiverdes tristes, olhai novamente no vosso coração e vereis que, na verdade, estais chorando por aquilo mesmo que constituiu vosso deleite... A alegria e a tristeza vêm sempre juntas; e quando uma está sentada à vossa mesa, lembrai-vos de que a outra dorme em vossa cama”.

Dentro dos sofrimentos e das alegrias ou com eles, nós crescemos ou avançamos na vida. Até se soubermos aproveitá-los o nosso crescimento fica acelerado e nossa maturidade nos aproxima bem cedo. Eles fazem parte de ingredientes para saborear a vida na sua plenitude, como cada rosa que tem seus espinhos, mas os espinhos não tiram a beleza de uma rosa. Todo sofrimento por amor nos faz crescer na nossa maturidade. O filósofo romano, Epicteto escreveu: “Cada dificuldade na vida nos oferece uma oportunidade para nos voltarmos para dentro de nós mesmos e recorrermos aos nossos recursos interiores escondidos ou mesmo desconhecidos. As provações que suportamos podem e devem revelar-nos quais são as nossas forças... Você possui forças que provavelmente desconhece(Arte de Viver, p.37, Sextante: Rio de Janeiro,2000). E a Palavra de Deus veio certamente para despertar essa força misteriosa que temos dentro de nós para superar as nossas “paralisias”.

Jesus anuncia para os discípulos sua morte iminente como uma partida para o Pai (Jo 16,5). Consequentemente, os discípulos ficarão tristes por causa da ausência física de Jesus. Mas Jesus afirma que a tristeza dos discípulos é apenas uma passagem. Ele evoca a imagem de uma mulher parturiente: “A mulher, quando deve dar à luz, fica angustiada porque chegou a sua hora; mas, depois que a criança nasceu, ela já não se lembra dos sofrimentos, por causa da alegria de um homem ter vindo ao mundo”. Na Bíblia as dores do parto caracterizam um “castigo” terrível (Gn 3,16; Jr 4,31; 6,24; 13,21). No entanto, são as únicas dores que têm um sentido porque trazem uma nova vida ao mundo. Para os discípulos os sofrimentos são de caráter passageiro, pois sofrem em nome de Jesus que é a vida de suas vidas (Jo 14,6; 11,25), como uma mãe parturiente que sofre em nome de uma vida que está para vir ao mundo. Trata-se, paradoxalmente, de um sofrimento que tem sabor de alegria ou uma dor fecunda.

Para quem está com o Senhor os sofrimentos desta vida não são sofrimentos de agonia e sim são sofrimentos de parto que conduzem à vida, são sofrimentos fecundos que fertilizam nossa vida de salvação. Com o Senhor e no Senhor todo sofrimento é fecundo. Com o Senhor cada sofrimento faz nascer uma nova visão cada vez maior sobre a vida que vivemos. Se o coração se alegra, se alegra todo o homem desde sua raiz mais profunda.

E Jesus promete aos discípulos: “Ninguém vos poderá tirar a vossa alegria”. Trata-se da alegria que nunca se acaba, pois é a alegria eterna vinda do Senhor. É a promessa daquele que venceu a morte. As tristezas de cada dia podem acontecer, as tribulações podem nos cercar, mas nada nem ninguém possa nos tirar do caminho da Vida e do amor de Cristo por nós. Deus é por nós (cf. Rm 8,35-39). Nossa alegria nasce da serena certeza de que somos queridos do Senhor infinitamente, amados em todas as nossas limitações e fraquezas. É a alegria de saber que nossa vida tem sentido e tem futuro. Por isso, a falta de alegria profunda, no fundo, é sinal da falta de fé, sinal da falta de profundidade na vida de fé. Um cristão triste é, verdadeiramente, um triste cristão.

De início, o sofrimento nos parece sempre grande demais. Porém, o sentido de qualquer sofrimento é levar-nos ao nosso limite para nos fazer descobrir novas forças.   Aprendamos da mulher-mãe da qual fala o evangelho de hoje. Nela concorrem sucessivamente tristeza-dor e triunfante alegria, porque o dom da maternidade é muito grande. Assim também nós, filhos e filhas de Deus, discípulos e discípulas de Cristo, caminharemos da provação-sofrimento-tristeza para a alegria-consolo, fecundidade do gozo no Espírito de Deus. A força de Deus é tal que é capaz de nos encher de serenidade e confiança, enquanto a provação, ao contrário, tenta nos impor um sentimento de fracasso e o desejo de perecer.

Tenhamos confiança; o Senhor sempre está conosco. O Senhor quer que através de cada um de nós surja uma nova humanidade onde haja menos dor, menos pobreza, menos tristeza, menos angústia, menos exploração dos menos favorecidos, menos injustiças sociais, menos vícios que minem a saúde das pessoas e a paz familiar. O Senhor continua nos enviando para que possamos gerar uma autêntica alegria cristã. Mas temos que estar conscientes de que para gerar um homem novo e renovado nos custará grandes sofrimentos, perseguições e incompreensões. Na vida o que é valioso custa muito. Não há nada que seja valioso que seja dado de graça. Ninguém cresce sem aprender a morrer de muitas coisas na vida. Mas o Senhor quer que sejamos fortes, valentes, seguros e que confiemos n’Ele e caminhemos atrás de suas pegadas. E quem crê em Jesus Cristo deve ser o primeiro em trabalhar pelo bem de todos.

Ninguém vos poderá tirar a vossa alegria” é a Palavra do Senhor hoje para todos nós. Para isso, temos que viver de acordo com os ensinamentos de Cristo que se resumem no amor fraterno, pois quem ama o próximo, não vai fazer mal contra ele. A vivência do amor fraterno nos traz uma alegria plena, pois trata-se de estar com o Deus de amor (cf. Jo 15,9-11). Além disso, o segredo desta alegria plena está na seguinte oração: “Inspirai, ó Deus, as nossas ações e ajudai-nos a realizá-las, para que em Vós comece e termine aquilo que fizermos(Coleta/oração do dia da Quinta-Feira após as Cinzas).

Vamos tentar descobrir a seguinte verdade: O modo como você começa seu dia determina o modo como você passará o restante dele. Os seus primeiros trinta minutos depois de acordar são os minutos mais importantes e valiosos do dia porque têm uma enorme influência na qualidade de cada minuto que segue. Tenha apenas pensamentos puros e conceba apenas coisas boas para que seu dia tenha uma continuidade maravilhosa. Seja simples porque a simplicidade é a virtude dos sábios, e a sabedoria dos santos. Não pense no mal para que o mal não pense em você. Mas pense no bem para que o bem pense em você. “Contemple o bem, e persiga-o, como se não pudesse alcançá-lo; contemple o mal e evite-o, como evitaria colocar a mão em água fervente” (Confúcio: Aforismos de Confúcio).

Então, comece bem seu dia e você nunca mais será o mesmo. Além disso, pela comunhão, Cristo morto e ressuscitado se faz nossa força para passar triunfalmente pelo sofrimento que encontramos na vida como ele próprio venceu a morte.

P.Vitus Gustama, SVD

São Matias, Apóstolo, Festa 14/05/2026

SÃO MATIAS, APÓSTOLO

14 de Maio

Primeira Leitura: At 1,15-17.20-26

15Naqueles dias, Pedro levantou-se no meio dos irmãos e disse: 16“Irmãos, era preciso que se cumprisse o que o Espírito Santo, por meio de Davi, anunciou na Escritura sobre Judas, que se tornou o guia daqueles que prenderam Jesus. 17Judas era um dos nossos e participava do mesmo ministério. 20De fato, no livro dos Salmos está escrito: ‘Fique deserta a sua morada, nem haja quem nela habite!’ E ainda: ‘Que outro ocupe o seu lugar!’ 21Há homens que nos acompanharam durante todo o tempo em que o Senhor Jesus vivia no meio de nós, 22a começar pelo batismo de João até o dia em que foi elevado ao céu. Agora, é preciso que um deles se junte a nós para ser testemunha da sua ressurreição.” 23Então eles apresentaram dois homens: José, chamado Barsabás, que tinha o apelido de Justo, e Matias. 24Em seguida, fizeram esta oração: “Senhor, tu conheces os corações de todos. Mostra-nos qual destes dois escolhestes 25para ocupar, neste ministério e apostolado, o lugar que Judas abandonou para seguir o seu destino!”.  26Então tiraram a sorte entre os dois. A sorte caiu em Matias, o qual foi juntado ao número dos onze apóstolos.

Evangelho: Jo 15,9-17

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 9 Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei. Permanecei no meu amor. 10 Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como eu guardei os mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor. 11 E eu vos disse isto, para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena. 12 Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei. 13 Ninguém tem amor maior do que aquele quesua vida pelos amigos. 14 Vós sois meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando. 15 não vos chamo servos, pois o servo não sabe o que faz o seu senhor. Eu vos chamo amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai. 16 Não fostes vós que me es­colhestes, mas fui eu que vos escolhi e vos designei para irdes e para que produzais fruto e o vosso fruto permaneça. O que então pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo concederá. 17 Isto é o que vos ordeno: amai-vos uns aos outros.

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Neste dia celebramos a festa de São Matias, Apostolo. Matias (hebraico: Mattityah) significa presente ou dom (mattit) de Javé (Iah). Do apóstolo Matias sabemos somente seu Nome e sua eleição (Cf. At 1,15-26). Ele é o apóstolo número 13. É um apóstolo “póstumo”, pois ele foi eleito por outros 11 Apóstolos depois da Morte e da Ascensão do de Jesus para preencher o lugar de Judas Iscariotes que se enforcou.

A escolha de Matia tem como objetivo completar o número dos Doze, pois o número Doze é simbólico os Doze representam o Novo de Israel., em paralelismo com os doze patriarcas. Jesus constituiu esses Doze para enfatizar que a sua comunidade possui, continua e renova a realidade do antigo Israel e as suas promessas de salvação que vão realizar de modo especial. Por isso, o importante é que o núcleo da Primeira Comunidade está completo. Os bispos atuais na Igreja católica são sucessores dos Apóstolos.

Os discípulos de Jesus, imediatamente depois da Ascensão, voltaram do monte das Oliveiras para Jerusalém (cf. At 1,12). Jesus havia escolhido Doze homens para que fossem seus Apóstolos especiais (cf. Mc 3,14), mas naquele momento não eram Doze e sim onze. Judas Iscariotes tinha passado para o grupo dos inimigos de Jesus. E os Apóstolos tinham que ser Doze quando Jesus voltasse. Ele lhes havia dito que, na sua volta gloriosa, os Doze se sentariam sobre doze tronos para reger as doze tribos de Israel (cf. Lc 22,28-30). Mas naquele momento faltava um homem para um trono. O primeiro problema com que se enfrentou a Igreja foi buscar um substituto de Judas Iscariotes, o traidor.

Pedro, que sempre foi o porta-voz do pensamento dos demais apóstolos, se levantou em meio da comunidade e disse: “Irmãos, era necessário que se cumprisse o que o Espírito Santo anunciou na Escritura pela boca de David a respeito de Judas, que foi o guia dos que prenderam Jesus” (At 1,16).

Pedro, ao falar de Judas Iscariotes com tanta delicadeza, parece ter presente a advertência de Jesus: “Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso. Não julgais, e não sereis julgados; não condeneis, e não sereis condenados” (Lc 6,36-37). Pedro não chamou Judas de ladrão nem de traidor, pois Jesus havia ensinado a caridade fraterna que se estende a todos como a misericórdia divina (cf. Mt 5,44-45).

E Pedro acrescentou: “Está realmente escrito no Livro dos Salmos: ‘Fique deserta a sua habitação e não haja quem nela resida’. E ainda: ‘Receba outro o seu encargo’”. Estas palavras de Pedro são tiradas de dois salmos: Sl 69 e Sl 109. Esses dois Salmos pertencem à serie das maldiçoes dirigidas contra os inimigos do rei Davi, quando não existia ainda a caridade cristã. Interpretando esses versículos como profecias, a primeira se cumpriu com a morte de Judas Iscariotes. É necessário que a segunda se cumpra também. Por isso, foi feita a eleição do substituto de Judas Iscariotes.

Postas condições, se encontraram dois homens que pareciam com iguais méritos para aspirar ao apostolo. Um era José, de apelido Barsabás, chamado Justo, e Matias. Como o chamamento ao apostolado não é coisa de homens e sim de Deus, Deus terá que escolher entre aqueles dois discípulos que pareciam iguais em méritos. Por isso, aquela comunidade cristã rezou confiadamente: “Senhor, tu conheces os corações de todos. Mostra-nos qual destes dois escolhestes para ocupar, neste ministério e apostolado, o lugar que Judas abandonou para seguir o seu destino!”. Nesta primeira súplica da Igreja há uma nova mostra da delicadeza e da caridade que vemos em Pedro. A expressãoseguir seu destino” é uma expressão ou eufemismo aramaico para dizer simplesmente que um homem morreu.

Para conhecer a vontade divina, sem exigir de Deus uma aparição nem uma revelação, decidiram tirar sorte. É algo que hoje em dia nos pode estranhar, mas que era costume naquela época. Apelava-se para a sorte para decidir entre duas soluções aparentemente equivalentes, mas é feita antes a oração. Por isso, recorriam à vontade e à providencia divina ao tirar sorte. Não se tratava de causalidade física ou humana e sim da causalidade divina. Cada semana, no Templo de Jerusalém, os sacerdotes tiravam sorte para fazer os ofícios no Templo (cf. Lc 1,8-9). Ao pedir a intervenção divina na eleição, coloca Matias na categoria dos Onze Apóstolos: “A sorte caiu em Matias, o qual foi juntado ao número dos onze apóstolos”.

É digno de observar e de levar em conta a eleição do novo apóstolo num clima de oração. Os Onze apóstolo entram em oração para saber a vontade de Deus. Com isso os apóstolos querem nos dizer claramente que a eleição realizada não é obra dos apóstolos e sim totalmente a vontade e a intervenção de Deus. Esta lição é um ótimo ensinamento para nós: temos que deixar abertas nossas decisões à vontade de Deus e inspirar nossas opções nas opções de Deus.

Assim termina, no Livro dos Atos, a história de São Matias. Nada mais se sabe dele em particular. Com esta simplicidade aparece e desaparece no documentário histórico este Apostolo póstumo. E daquele colégio apostólico que atuou desde Pentecostes, Matias foi o único não escolhido diretamente por Jesus, pois foi o apostolo póstumo de Jesus, incorporado ao colégio apostólico para ocupar o lugar deixado por Judas Iscariotes. Assim com a eleição de Matias completou-se novamente o número Doze. Uma antiga tradição conta que Matias morreu crucificado.

Matias foi escolhido através da chamada divina para ocupar o lugar de Judas Iscariotes, como para compensar a traição de Judas. Como sabemos que Judas traiu Jesus, seu Mestre. O Verbo "trair" deriva de uma palavra grega que significa "entregar". Por vezes o seu sujeito é inclusivamente Deus em pessoa: foi ele que por amor "entregou" Jesus por todos nós (cf. Rm 8, 32). No seu misterioso projeto salvífico, Deus assume o gesto imperdoável de Judas como ocasião da doação total do Filho para a redenção do mundo. Matias precisamente ocupa o lugar de Judas Iscariotes. Deus precisa de cada um de nós para completar sua obra de redenção.

Tenhamos consciência de que na Igreja não faltam cristãos indignos e traidores. Mas compete a cada um de nós equilibrar o mal que eles praticam com o nosso testemunho transparente a Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador.

São Matias, Apostolo, é pouco conhecido, mas é santo. Ele é como tantos homens e mulheres simples, de caridade enorme, de compaixão sem medida pelo próximo, mas silenciosos na sua missão e no bem e na bondade que praticam e cuja vida é desconhecida pela maioria, mas são santos como São Matias: as santas mães, as santas costureiras pelos pobres, santas pessoas que dedicam seu tempo para ajudar os necessitados na caridade fraterna, os que se dedicam seu tempo para visitar os doentes e os idosos nos asilos. É como uma formiga num formigueiro, mas ajuda na sua construção. O brilho dos santos silenciosos se marca nas pessoas que eles ajudam, pois eles sempre fazem tudo por amor de Deus e com muito amor a Deus e ao próximo. Sãosantos Matias” de hoje e de sempre.  Que, pela intercessão de São Matias, sejamos instrumentos da caridade para tantos irmãos que necessitam, de alguma forma, de nossa ajuda. São Matias, o apóstolo do Senhor, rogai por nós.

O apóstolo é alguém que se sente chamado a amar, a amar até o extremo, a amar além de toda possibilidade humana, a amar a todos, sempre, a amar até a entrega total de si mesmo, a exemplo do prório Jesus. Por isso, o apóstolo, antes de tudo, deve “permanecer no amor”: no amor de Jesus a eles (apóstolos) e no amor do Pai a Jesus: “Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei. Permanecei no meu amor”. Permanecer no amor significa viver em comunhão perfeita que é, ao mesmo tempo, horizontal e vertical, isto é, com os irmãos na fé e com Deus, término último de nosso amor.

“Deus nos ama” é a mensagem muito forte do Evangelho de hoje. O amor de Deus por nós chegou até o extremo de entregar seu próprio Filho para o perdão de nossos pecados e para que n´Ele recebamos a própria vida de Deus. Jesus Cristo, sua vida, seu ministério, suas palavras, suas obras, sua própria pessoa, é a linguagem pela qual Deus nos diz quanto nos ama. Mas de nada servirá esta oferta de amor que Deus faz, se nos fecharmos e não nos deixarmos amar. Nossa felicidade não consiste apenas em ser amados, nem tampouco em amar aos demais como Cristo nos amou. Para que a felicidade seja nossa e chegue à sua plenitude em nós, devemos nos deixar amar, devemos aceitar conscientemente esse amor, devemos caminhar alegres por este amor, seguros e dispostos a tudo num compromisso de totalidade com Aquele que nos ama. Esse amor nos leva a darmos frutos, frutos de amor que permaneçam como um sinal de que glorificamos nosso Deus e Pai.

O amor, que Deus nos tem, nos reúne, como filhos e filhas seus, para participarmos da Mesa em que seu Filho não somente se faz presente entre nós mediante o Memorial de seu Mistério Pascal (Paixão-Morte-Ressurreição) e sim que se converte em alimento de Vida eterna para nós todos. Jesus, tendo nos amado, nos amou até ao extremo. Que abramos nosso ser completamente a esse amor para que o amor de Deus, que nos manifestou em seu Filho Jesus Cristo, seja nosso. O amor é que nos leva para a vida eterna. O amor nos eleva até Deus de amor. O amor nos torna irmãos para os outros.

Entrar em comunhão de vida com Cristo, portanto, nos leva a aceitarmos ser perdoados e renovados em Cristo Jesus. Na Eucaristia não somente celebramos o amor de Deus por nós e sim que o tornemos nosso, de tal forma que, renovados em Cristo Jesus, não caminharemos sob o impulso de nossos caprichos nem de nossas paixões desordenadas e sim sob o impulso do Espirito de Deus e a Vida nova que de Deus recebemos em Jesus Cristo, Pão da Vida eterna para nós.

Todos os cristãos são chamados a exercer uma vida apostólica. Fazemos parte da Igreja católica-apostólica-romana. O verdadeiro cristão, seguidor de Cristo, se sente chamado a viver este amor “até o fim”, isto é, até a entrega de si mesmo. Não há a verdadeira amizade sem a entrega de si mesmo: “Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida pelos amigos. Vós sois meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando”. Nisto se diferencia o amigo do servo!

P. Vitus Gustama,svd

Sábado Da VI Semana Da Páscoa,16/04/2026

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