segunda-feira, 9 de março de 2026

11/03/2026- Quarta-feira Da III Semana Da Quaresma

É PRECISO SEGUIR OS MANDAMENTOS DO SENHOR PARA NÃO SER ESCRAVOS DOS NOSSOS ERROS OU PECADOS

Quarta-Feira da III Semana da Quaresma

I Leitura: Dt 4,1.5-9

Moisés falou ao povo, dizendo: 1 'Agora, Israel, ouve as leis e os decretos que eu vos ensino a cumprir, para que, fazendo-o, vivais e entreis na posse da terra prometida que o Senhor Deus de vossos pais vos vai dar. 5 Eis que vos ensinei leis e decretos conforme o Senhor meu Deus me ordenou, para que os pratiqueis na terra em que ides entrar e da qual tomareis posse. 6 Vós os guardareis, pois, e os poreis em prática, porque neles está vossa sabedoria e inteligência perante os povos, para que, ouvindo todas estas leis, digam: 'Na verdade, é sábia e inteligente esta grande nação! 7 Pois, qual é a grande nação cujos deuses lhe são tão próximos como o Senhor nosso Deus, sempre que o invocamos? 8 E que nação haverá tão grande que tenha leis e decretos tão justos, como esta lei que hoje vos ponho diante dos olhos? 9 Mas toma cuidado! Procura com grande zelo não te esqueceres de tudo o que viste com os próprios olhos, e nada deixes escapar do teu coração por todos os dias de tua vida; antes, ensina-o a teus filhos e netos.

Evangelho: Mt 5,17-19

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 17 “Não penseis que vim abolir a Lei e os Profetas”. Não vim para abolir, mas para dar-lhes pleno cumprimento. 18 Em verdade, eu vos digo: antes que o céu e a terra deixem de existir, nem uma só letra ou vírgula serão tiradas da lei, sem que tudo se cumpra. 19 Portanto, quem desobedecer a um só desses mandamentos, por menor que seja, e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será considerado o menor no Reino dos Céus. Porém, quem os praticar e ensinar será considerado grande no Reino dos Céus”.

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Para alcançar a meta temos que respeitar o processa, seguir fielmente as normas, viver disciplinados e superar os obstáculos e desafios, pois a meta nos chama para alcançar. Na vida normal, ninguém ganha sem trabalhar. Ninguém tem diploma sem estudar, ninguém chega à perfeição sem lutar contra suas fraquezas e limitações. Uma árvore para dar frutos no tempo certo, ela tem que deixar muitas folhas velhas cairem no chão para dar lugar às novas folhas. A maturidade se alcança através de vários processos difíceis. Viver sem meta é viver sem rumo. Para quem sabe para onde vai, somente um ônibus serve na rodoviária para ele. Mas para quem não sabe para onde vai, qualquer ônibus na rodoviária serve para ele, porém nunca chegará ao endereço certo.

A meta da Quaresma é a celebração da vida ressuscitada, a Páscoa, a passagem da morte para a vida. Será minha Quaresma tem sentido para poder celebrar solenemente minha Páscoa deste ano? Em que melhorei durante a Quaresma para celebrar minha Páscoa dignamente?

Moisés exorta o seu povo, às vésperas de entrar na terra prometida, a viver segundo a vontade de Deus, a cumprir a sua parte na aliança que firmaram com Deus: devem viver segundo os seus mandamentos. A Aliança se concretiza em normas de vida.

Às vezes Jesus no Evangelho critica as interpretações exageradas que os mestres de seu tempo fazem da disciplina. Mas hoje ele a defende, dizendo que os mandamentos de Deus devem ser cumpridos em Jesus Cristo. Ele não veio para abolir a lei. Em todo caso, dar-lhe plenitude, aperfeiçoá-lo.

A Quaresma é o tempo de uma volta decidida a Deus, isto é, aos seus ensinamentos, aos seus caminhos, aqueles que Ele nos mostra todos os dias com a sua palavra, sem selecionar apenas o que gostamos. A Quaresma é um tempo de obras, de mudança de vida: É o tempo de abertura para Deus (oração), de abertura para o próximo (caridade/esmola) e o tempo para a abertura para mim mesmo (jejum). É tempo de agir: colocar a oração na vida e a vida na oração. Ninguém reza sem ser punido pela própria oração. Quem quiser pedir a paz para o Senhor significa que ele se compromete em ser construtor da paz, e assim por diante.

Na Quaresma propusemos orientar nossa conduta diária de acordo com a Palavra de Deus. Que se note algo de mudança em nossas vidas para uma vida melhor e mais fraterna porque nos preparamos para a Páscoa, que é vida nova com Cristo e como Cristo.

É Preciso Viver De acordo Com As Leis De Deus Para Se Chegar à Pátria Celeste, Nossa Casa Comum

Agora, Israel, ouve as leis e os decretos que eu vos ensino a cumprir, para que, fazendo-o, vivais e entreis na posse da terra prometida que o Senhor Deus de vossos pais vos vai dar. Eis que vos ensinei leis e decretos conforme o Senhor meu Deus me ordenou, para que os pratiqueis na terra em que ides entrar e da qual tomareis posse”, disse Moisés ao povo de Israel.

Moisés, tendo saído da escravidão do Egito, está às portas da Terra prometida. Moisés é peregrino pelo deserto, conversador com Deus no Sinai, receptor dos mandamentos ou das Tábuas da Lei. É grande mensageiro de Deus. Segundo o relato, hoje se encontra próximo do Jordão numa montanha que lhe permite contemplar as portas da Terra prometida. E o Senhor o trouxe até aqui, mas não lhe concede entrar na possessão da Terra Prometida. São mistérios da eleição divina.

Por isso, o texto do Livro de Deuteronômio que lemos hoje tem algo de “Testamento espiritual de Moisés”, e com isso, se encerra (chega a sua plenitude) o Pentateuco ou Livro da Lei. Quando o Pentateuco se encerra, o que vem posteriormente será explicação histórica dos ensinamentos já dados e recebidos.

Depois de enumerar os principais fatos do deserto a partir do Sinai nos quais se mostrou a especialíssima providência de Deus para o povo hebreu (cf. Dt 3), Moisés exorta ao povo sobre o cumprimento da lei divina, recordando a situação privilegiada dos hebreus a ser eleitos por Deus entre todos os povos sobre a face da terra, podendo somente ele se aproximar da divindade num grau de intimidade desconhecida por outros povos. Os mandamentos da lei são a encarnação da sabedoria e prudência com que deve proceder o povo de Deus.

Moisés convida o povo a fazer uma reflexão a partir das experiências para descobrir nelas a providência divina, e a não se esquecer nunca da mão de Deus que ajudou o povo na travessia do deserto rumo à Terra Prometida. Em cada experiência Deus sempre deixa seu recado ou apresenta seu apelo. Basta parar para meditar ou refletir sobre cada experiência de cada dia a fim de tirar lição ou recado de Deus, pois não há experiência que não tenha apelo de Deus. Somente quando criamos o silêncio é que Deus começa a falar para nós. Não há nada que possa ser escutado ou percebido com nitidez numa agitação sem fim. Quem corre demais não dá para ouvir bem o grito de outras pessoas.

Por isso, não é em tom de legislador e sim de pregador, ao estilo dos profetas e livros sapienciais, Moisés se apresenta exortando o povo a guardar os preceitos divinos. Há três coisas destacadas nesta exortação parenética (de cunho moral-ético):

1.    A presença de Deus em meio de Israel e Sua prontidão para escutar Israel (Dt 4,1-4).

2.    Israel recebeu de Deus uma lei santa. Nenhum outro povo a tem (Dt 4,5-14). Com efeito, apesar de ser povo pequeno e insignificante em comparação aos outros povos ao redor que são de cultura superior, Israel tem uma lei com um conteúdo religioso inatingível pelos povos mais cultos da antiguidade. Sua lei, aperfeiçoada pela revelação evangélica (“Não vim para abolir”) veio a ser a norma religiosa do mundo civilizado. Por isso, os judeus da diáspora se gloriavam de ter uma dogmática e moral religiosa superior à dos próprios gregos (helenistas).

3.    Recorda-se a teofania de Sinai em que o povo ouviu a voz de Deus, mas não O vira, figuras das quais os hebreus estavam acostumados a ver nos templos egípcios para representar os deuses com figuras zoomórficas. Javé (Deus) é imaterial, e portanto, não deve representá-Lo sob nenhuma figura sensível (Dt 4,15-20).

O cumprimento dos mandamentos de Deus é o que fará possível que o povo eleito entre na Terra prometida, porque é sinal de que o povo permanece fiel à Aliança. O mesmo Deuteronômio já aponta o perigo de que o povo pode se esquecer dos fatos salvíficos de Deus e cair no legalismo.

Em pleno tempo da Quaresma e sob a luz da mensagem da Palavra de Deus é bom fazermos uma pergunta: Estamos vivendo o sentido da Quaresma escutando a Palavra de Deus e vivendo conforme ela? O progresso sempre exige a disciplina. Um povo, pela experiência, que se esqueceu dos mandamentos de Deus o conduziu sempre à escravidão. Por não querer viver segundo Deus, terminaram sendo escravos de seus próprios erros e traições. Somos eleitos de Deus, filhos e filhas de Deus. Por isso, jamais podemos ser escravos de nossos erros e pecados. A consciência plena de ser eleito de Deus, de ser filho/filha de Deus nos capacita a nos levantar de nossas quedas de cada dia. É preciso manter nossa filiação divina para não sermos escravos de coisas mundanas que nos trazem apenas sofrimento, inclusive para as pessoas que nos amam.

A Lei Suprema de Jesus É o Amor Fraterno

O texto do evangelho deste dia faz parte do Sermão da Montanha (Mt 5-7). Os três versículos lidos neste dia servem como introdução para as grandes antíteses entre a justiça legal e a nova justiça trazida por Jesus (Mt 5,21-48).

Não penseis que vim abolir a lei e os profetas, mas vim para dar-lhes pleno cumprimento”. Para o evangelista Mateus o tema do cumprimento é essencial (Mt 24,24-35; 26,56). Para Mateus tudo que está escrito na Lei e nos profetas (todo o AT) tem um valor profético e deve “cumprir-se” historicamente até o mínimo pormenor em Jesus Cristo (cf. Mt 1,22; 2,15-17; 4,14; 8,17; 13,35 etc.). Todas as profecias e todos os anúncios do Antigo Testamento levam para seu cumprimento em Jesus Cristo, Palavra do Pai que se fez carne (cf. Jo 1,14). O AT tem sentido a partir de Jesus Cristo em quem tudo se cumpriu. E Jesus Cristo é a encarnação do amor misericordioso de Deus por nós todos.  E “nada é pequeno quando o amor é grande”, dizia Santa Teresinha do Menino Jesus. Os detalhes do amor, por pequenos que eles sejam, não podem ser eliminados. Jesus veio não só levar a Lei e os profetas à sua perfeição, mas também assegurar a realização dessa lei entendida como profecia da proximidade de Deus. Se no AT (Lei e Profeta) Deus apenas fala através dos profetas, no NT essa palavra se torna carne em Jesus e habita no meio de nós (Jo 1,14).

Jesus não apenas cumpre o que está escrito na AT, mas Ele o aperfeiçoa. Ele não apenas mantém a Lei, mas dá um sentido mais amplo; Ele vai ao espírito da lei. Por isso, nas antíteses encontramos a seguinte expressão: “Ouvis o que foi dito aos antigos... Eu, porém, vos digo...” (Mt 5,21ss). A lei é válida para todas as pessoas e serve para ajudar as pessoas a chegarem à salvação. Mas quando for manipulada e escravizar as pessoas, então a lei poderá ser desobedecida. Nenhuma lei pode proibir alguém de fazer o bem pelo próximo no dia santo (Sábado). Por isso, várias vezes, Jesus cura os doentes até no dia de Sábado que é proibido para os fariseus e os escribas. Jesus convida os escribas e fariseus a refletirem sobre a seguinte pergunta: “Pergunto-vos se no Sábado é permitido fazer o bem ou o mal; salvar a vida, ou deixá-la perecer?” (Lc 6,9).

“Não penseis que vim abolir a lei e os profetas, mas vim para dar-lhes pleno cumprimento”. A justiça dos fariseus se limita à observância da lei. Os fariseus chegam a divinizar a lei. Eles colocam a lei acima da necessidade e a salvação do homem. Eles até censuram Jesus por curar os doentes no dia de Sábado. Fanáticos obsessivos do cumprimento da lei eles colocam a vontade de Deus em elementos secundários, que não buscavam de modo algum o estabelecimento de uma sociedade mais fraterna, igualitária e justa. Pensam que ao cumprir todas as leis e normas possam agradar a Deus. Mas, na verdade, o que agrada a Deus é o amor fraterno.

Por isso, o que Jesus faz é mostrar um Deus que desaprova a injustiça e a desigualdade, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). Deus se dirige aos homens como uma pessoa amada, chamando cada homem por seu nome (Is 43,1) e o nome de cada um é gravado na palma da mão de Deus (Is 49,16). E o amor transforma tudo em obra prima, até as coisas pequenas e seus detalhes. O amor de cada dia é feito de detalhes e não tanto de coisas solenes e heroicas. Por esta razão, encontra-se a seguinte fórmula no AT como uma fórmula ritual: “Escutai, ó Israel!”. É escutar Deus para viver na plenitude. Por isso, escutar Deus é coisa mais prudente e mais inteligente para o ser humano. Ao escutar Deus, sua Palavra será para nós nossa sabedoria e um alimento para nosso espírito. Sua maneira de ver impregnará nosso modo de ver a vida e as pessoas. Quando pararmos de escutar a Palavra de Deus, seremos escravos de nossos erros, um atrás do outro erro.

Não penseis que vim abolir a lei e os profetas, mas vim para dar-lhes pleno cumprimento. A lei é boa, pois ela ordena aquilo que faz crescer a vida e proibe o que a diminui. Os profetas sempre recordam a lei do Senhor e denuncia as transgreções e ao mesmo tempo promete um coração novo e um Espírito novo que nos faz finalmente andar no caminho de Deus. A lei é necessária em toda a sociedade civil ou Estado de direito para tornar possível a convivência. A existência da lei é uma afirmação da coexistência dos bons e dos maus. Para proteger os bons e para os maus não avançarem, a lei é necessária, da bondade e da maldade, do bem e do mal. Caso contrário, a lei do mais forte é que reinaria na convivência, e os mais fracos ficariam sem vez nem voz. Mas quando o amor se tornar o mandamento para todos, todos viverão como irmãos, pois o amor é o cumprimento pleno de todas as leis (cf. Rm 13,10).

A comunidade cristã católica tem uma lei de governo: o Direito Canônico. Mas a Igreja e o cristão sabem que sua lei primeira e básica é o evangelho de Jesus que consiste no amor fraterno. A Igreja não anuncia a lei e sim o Evangelho. E a essência do Evangelho é o amor. O amor, de fato, não faz mal a ninguém: o amor é o pleno cumprimento da lei (Rm 13,10).

A lei para os cristãos tem uma função pedagoga: educar o cristão progressivamente no amor fraterno: “A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, a não ser o amor recíproco, porque aquele que ama o seu próximo cumpriu toda a lei (Rm 13,8).  Quanto mais cresce teu amor, maior é tua perfeição. A perfeição da alma é o amor”, dizia Santo Agostinho (In epist. Joan. 9,2). Quando o cristão ou qualquer ser humano de boa vontade chegar à sua maturidade e perfeição no amor fraterno, ele não se sente coagido pela lei; quando o amor reinar o coração e a vida do cristão a lei para ele é dispensável, pois “a caridade é o pleno cumprimento da lei” (Rm 13,10).  Dizia Santo Agostinho: “Ama e faze o que quiseres(In epist. Joan.7,8) eQuanto mais amas, mais alto sobes(In ps. 83,10). Amor é o meio mais rápido pelo qual o homem chega até Deus. São João da Cruz no final da Subida escreveu: “Por aqui nãocaminho; que para o justo nãolei”. Mas quando o amor se quebra, a lei se impõe. Jesus é o primeiro que vive o amor.

Amor sem limite a Deus e ao irmão é a plenitude da lei de Cristo (cf. Rm 13,10). Todas as celebrações e todas as atividades na Igreja de Cristo têm uma função: para que todos cresçam cada vez mais no amor fraterno. Sem o amor fraterno tudo careceria de sentido. O amor faz qualquer um feliz e leva alguém à alegria completa. É a promessa do Senhor: “Disse-vos essas coisas (mandamento do amor) para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa” (Jo 15,11). Nãofelicidade onde nãoamor” (Santo Agostinho).

Sair Do Coração Frio e Pequeno Para o Magnânimo

Quem desobedecer a um só desses mandamentos, por menor que seja, e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será considerado o menor no Reino dos Céus. Porém, quem os praticar e ensinar será considerado grande no Reino dos Céus”.

Hoje Jesus, diante do povo que O escuta, pede para ir mais além. A vida é mais que o mínimo. O mínimo não enche o coração. No mínimo sou um autômato que repete gestos sem alma.  O cumprir apenas e ficar somente no cumprir, tira minha criatividade e liberdade. Se eu ficar parado apenas no cumprir, eu coloco freio no meio crescimento. Jesus me convida a ser magnânimo, de coração grande e espaçoso para todos. No coração espaçoso se joga minha vida e salvação. Jesus não quer que eu faça apenas o correto, o adequado, o justo. Não quer que eu cumpra simplesmente o meu dever. Ele quer que eu ande e viva segundo os mandamentos do Senhor que se resumem no amor incondicional para o próximo, inclusive para o inimigo. Minha inquietude permanece se eu ficar fazendo apenas o que os outros me pedem, e depois me afasta assim que cumprir o que me pedirem. A chave da vida, como sempre, está na forma de olhar para a vida e descobrir nela minha missão. No fim vou descobrir que a medida da verdadeira vida é o amor sem medida. Jesus me diz que tenho que sentir e pensar como faz Deus. E que vale pouco cumprir a norma e ser correto diante da lei, se tenho o coração frio para com o próximo. Seguir os mandamentos do Senhor significa, portanto, que eu quero sentir como o Senhor, quero pensar como Ele, quero caminhar como Ele, quero amar como Ele ama. Deixando-me o coração, sem preocupar-me somente de pecar ou não pecar, de respeitar os limites, de proteger minha fama. O Senhor quer que eu não guarde nada para mim e sim quer que eu ame mais e mais. Nisto consiste meu verdadeiro ser de cristão. Jesus apela para a generosidade da minha vida. Viver com uma alma generosa é a única maneira de viver de verdade. É o único que me faz livre. Assim viveu Jesus. O Senhor pede que me deixo modelar por Ele para ter sua delicadeza de sentimentos e para minha vida exterior e minha vida interior sejam uma só.

A Eucaristia da qual participamos é um compromisso para sermos pessoas que, renovadas e revestidas de Cristo, nos faz caminharmos pela vida como aquelas pessoas que proclamam a verdade, o bem, o amor como uma entrega a favor dos demais, deixando de lado ou abandonando totalmente aqueles caminhos que nos fazem nos destruirmos uns aos outros ou pisotear os direitos das classes mais desprotegidas. O Senhor pede que sejamos fieis à Sua lei, a Lei do amor que não somente nos faz colocar Deus sobre todas as coisas, mas ao mesmo tempo nos levar a querermos bem para os outros. Os cristãos devem se converter em sinal de amor para os outros (cf. Jo 13,35). Se fomos feitos à imagem e à semelhança de Deus, então nosso modo de viver não deve apagar essa imagem. Se essa imagem for apagada em nós, ninguém vai dizer que somos de Cristo. São Paulo nos relembra através destas frases: Somos para Deus o perfume de Cristo entre os que se salvam e entre os que se perdem” (2Cor 2,15). E acrescentou: “Vós sois uma carta de Cristo... escrita não com tinta, mas com o Espírito de Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, em vossos corações” (2Cor 3,3).

Pedimos a Deus a graça para que os outros possam ler algo de Cristo em nossa vida. Para isso, é necessário que o amor fraterno circule dentro de nós e entre nós, poistodos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (Jo 13,35).

É preciso lermos e meditarmos a Palavra de Deus, porque o próprio Senhor nos afirma: “Antes que o céu e a terra deixem de existir, nem uma só letra ou vírgula serão tiradas da lei, sem que tudo se cumpra”. Essa Palavra pode acontecer seu cumprimento na vida de cada um de nós. Basta colocá-la em prática, pois Da mesma forma como a chuva e a neve, que caem do céu e para lá não voltam sem antes molhar a terra, tornando-a fecunda e fazendo-a germinar, a fim de produzir semente para o semeador e alimento para quem precisa comer, assim acontece com a Minha Palavra que sai de Minha boca: ela não volta para mim sem efeito, sem ter realizado o que Eu quero e sem ter cumprido com sucesso a missão para a qual Eu a mandei (Is 55,10-11).

P. Vitus Gustama,svd

10/03/2026- Terça-feira Da III Semana Da Quaresma

PEDIR PERDÃO A DEUS E DAR PERDÃO AOS OUTROS FAZEM PARTE DO AMOR  E DA MORAL CRISTÃOS

Terça-Feira da III Semana da Quaresma

 

I Leitura: Dn 3,25.34-43

Naqueles dias: 25 Azarias, parou e, de pé, começou a rezar; abrindo a boca no meio do fogo, disse: 34 'Oh! não nos desampares nunca, nós te pedimos, por teu nome, não desfaças tua aliança 35 nem retires de nós tua benevolência, por Abraão, teu amigo, por Isaac, teu servo, e por Israel, teu Santo, 36 aos quais prometeste multiplicar a descendência como estrelas do céu e como areia que está na beira do mar; 37 Senhor, estamos hoje reduzidos ao menor de todos os povos, somos hoje o mais humilde em toda a terra, por causa de nossos pecados; 38 neste tempo estamos sem chefes, sem profetas, sem guia, não há holocausto nem sacrifício, não há oblação nem incenso, não há um lugar para oferecermos em tua presença as primícias, e encontrarmos benevolência; 39 mas, de alma contrita e em espírito de humildade, sejamos acolhidos, e como nos holocaustos de carneiros e touros 40 e como nos sacrifícios de milhares de cordeiros gordos, assim se efetue hoje nosso sacrifício em tua presença, e tu faças que nós te sigamos até ao fim; não se sentirá frustrado quem põe em ti sua confiança. 41 De agora em diante, queremos, de todo o coração, seguir-te, temer-te, buscar tua face; 42 não nos deixes confundidos, mas trata-nos segundo a tua clemência e segundo a tua imensa misericórdia; 43 liberta-nos com o poder de tuas maravilhas e torna teu nome glorificado, Senhor'.

 Evangelho: Mt 18,20-35

Naquele tempo, 21Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou: “Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?” 22Jesus respondeu: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete. 23Porque o Reino dos Céus é como um rei que resolveu acertar as contas com seus empregados. 24Quando começou o acerto, trouxeram-lhe um que lhe devia uma enorme fortuna. 25Como o empregado não tivesse com que pagar, o patrão mandou que fosse vendido como escravo, junto com a mulher e seus filhos e tudo o que possuía, para que pagasse a dívida. 26O empregado, porém, caiu aos pés do patrão, e prostrado, suplicava: ‘Dá-me um prazo! e eu te pagarei tudo’. 27Diante disso, o patrão teve compaixão, soltou o empregado e perdoou-lhe a dívida. 28Ao sair dali, aquele empregado encontrou um de seus companheiros que lhe devia apenas cem moedas. Ele o agarrou e começou a sufocá-lo, dizendo: ‘Paga o que me deves’. 29O companheiro, caindo aos seus pés, suplicava: ‘Dá-me um prazo! e eu te pagarei’. 30Mas o empregado não quis saber disso. Saiu e mandou jogá-lo na prisão, até que ele pagasse o que devia. 31Vendo o que havia acontecido, os outros empregados ficaram muito tristes, procuraram o patrão e lhe contaram tudo. 32Então o patrão mandou chamá-lo e lhe disse: ‘Empregado perverso, eu te perdoei toda a tua dívida, porque tu me suplicaste. 33Não devias tu também, ter compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?’ 34O patrão indignou-se e mandou entregar aquele empregado aos torturadores, até que pagasse toda a sua dívida. 35É assim que meu Pai que está nos céus fará convosco, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão”.

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Arrepender-Se De Verdade Dos Pecados Deve Ser Seguido Pelos Sinceros Propósitos De Uma Vida Nova Em Deus

Senhor, estamos hoje reduzidos ao menor de todos os povos, somos hoje o mais humilde em toda a terra, por causa de nossos pecados; neste tempo estamos sem chefes, sem profetas, sem guia... trata-nos segundo a tua clemência e segundo a tua imensa misericórdia; liberta-nos com o poder de tuas maravilhas e torna teu nome glorificado, Senhor”.

O contexto desta oração, que lemos na Primeira Leitura, é a perseguição do rei Antíoco em torno do anos 165 antes de Cristo. Geralmente, no tempo da perseguição não tem mais nem líder nem profeta. A perseguição torna o povo desunido. O desmembramento do povo em tempos de perseguição provoca esta profunda "confissão de pecados", impregnada de uma fé que se baseia unicamente em Deus. A crise da vida religiosa (nem governantes, nem profetas, nem sacrifícios) motiva as pessoas a se perguntarem como ainda podem se fazer ouvir por Deus, ou seja como se faz para que nossa vida e preces possam ser ouvidas por Deus? O autor desta súplica está convencido de que somente a penitência interior e a conversão do coração tornarão o povo novamente agradável aos olhos de Deus e por isso, suas orações podem ser ouvidas por Deus. O pecado impede que nossa súplica chegue até Deus. Penitência é a atitude interior de arrependimento.

A oração que lemos na Primeira Leitura é o extrato de uma confissão dos pecados do povo, provavelmente composto na mesma data do Livro de Daniel (perseguição de Antíoco, 165 a.C.), mas inserido posteriormente na coleção sem o pseudônimo de Azarias. Aquele que ora suplica a Deus que Deus cumpra sua promessa de tornar Israel um povo numeroso (vv. 36-37). Para que esta oração seja eficaz, é necessário que seja feita pelo menos em meio aos sacrifícios litúrgicos ou por meio de um profeta. Mas não há mais profeta, líder ou sacrifício nestes tempos de perseguição (v. 38). Isso significa que qualquer oração é vã? Pelo contrário, o autor da oração descobre o alcance sacrificial da penitência e da contrição. A oração do perseguido vale todos os sacrifícios de ovelhas e cordeiros (v. 39).

A doutrina do sacrifício espiritual alcança, portanto, à perseguição. Para a história da espiritualidade dos judeus o texto de Dn 3,39-40  se torna importante, pois fala do “sacrifício de nós mesmos” em substituição aos sacrifícios do templo”. O Servo paciente já é uma vítima sacrifício; os mártires de Antíoco também o são. Cristo transforma definitivamente a perseguição que sofre em sacrifício.

O texto da Primeira Leitura, tirado do Livro de Daniel, contém, então, uma confissão dos pecados do povo, composta na mesma época que o livro de Daniel foi composto (perseguição de Antíoco, 165 a.C). Esta passagem não se encontra no texto hebraico. Encontra-se nas seções gregas chamadas deuterocanônicas. Apesar de não ser original, a oração é belíssima e tem sua atualidade para qualquer lugar e época.

Lemos uma oração penitencial muito bonita que o livro de Daniel põe nos lábios de Azarias, um dos três jovens condenados na Babilônia ao forno de fogo por não quererem adorar aos deuses falsos e por serem fieis a sua fé. Azaria reconhece o pecado do povo e expressa diante de Deus o arrependimento e o propósito de mudança. Sobretudo, expressa sua confiança na bondade de Deus. Por isso, não duvida em buscar a intercessão: aos patriarcas Abraão, Isaac e Jacó.

A oração de Azarias gira em torno da tragédia do povo israelita “castigado” por Deus com o exílio na Babilônia. É uma confissão do povo por seus pecados posta nos lábios de Azarias pelo redator do Livro de Daniel.

As formulas de confissão dos pecados são estereotipadas e correntes na literatura dos Salmos: Israel foi castigado por seus pecados justamente, e parece como se Deus retirasse as promessas de Sua aliança. Consequentemente, Israel vive como um rebanho disperso, sem chefe nem profeta que lhe comunique as revelações de Deus. Para o perseguido somente Deus, por sua misericórdia, pode salvar seu povo. Ele suplica a Deus que se cumpra Sua promessa de fazer de Israel um povo numeroso (cf. Gn 15,5; 17,5-8). O arrependimento é seguido pelos sinceros propósitos de uma vida nova.

Em substituição dos sacrifícios de animais, que não podem ser feitos porque não tem mais templo, o protagonista se oferece humildemente a Deus. E sua oferenda, no lugar dos sacrifícios de animais, é um coração contrito e humilde. A oração do perseguido vale todos os sacrifício de bodes e de cordeiros.  

A doutrina do sacrifício espiritual (que os profetas pregam tanto) se estende, portanto, à perseguição. Deus educou progressivamente o seu povo a passar dos sacrifícios sangrentos do começo para o sacrifício de oblação espiritual inaugurado por Jesus Cristo, que lemos, especialmente, na Carta aos Hebreus (cf. Hb 2,17-18; 10,5-7; Rm 5,19; Mt 27,38-60; Lc 18,9-14). Por sua vez, o sacrifício do cristão se inscreve na linha do sacrifício de Cristo: uma vida de obediência à vontade de Deus e de amor fraterno a fim de que a ação litúrgica tenha valor, como escreveu São Paulo aos romanos: “Eu vos exorto, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, a que ofereçais vossos corpos como sacrifício vivo, santo, agradável a Deus: este é o vosso culto espiritual. E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando a vossa mente, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito(Rm 12,1-2; Cf. Hb 9,14). A oferta da própria vida do cristãos como algo sacrado não é mais fazer o animal como vítima e sim a vida sagrada do próprio cristão. (“sacrum”= “sagrado”, “facere”= fazer. Sacrifício= fazer algo sagrado). O que Deus quer é a vida limpa e purificada de cada cristão.

Pelo fato de pertencer à família de Deus, o cristão não pode ajustar-se aos moldes deste mundo. Diante da propaganda e da publicidade para a qual a massa é modelada, o cristão pode tirar de sua fé a resistência necessária. Diante das correntes majoritárias da opinião que não garante a salvação, o cristão encontra em sua fé a força suficiente para se manter em Deus que salva. Diante da tentação do poder e do dinheiro, o cristão encontra na sua fé as forças para testemunhar os valores cristãos. Ser cristão no mundo, desenvolver-se no mundo, aprender a viver com os demais é, portanto, para o cristão, um culto e um culto a Deus. Cristo nos salvou por meio de uma ação humana situada no coração do mundo e da história (cf. Hb 7,13). A integração de um cristão na organização da sociedade temporal e na resistência diante da injustiça e da desonestidade, para o cristão constitui um autêntico culto. “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito”.

Para Amar De Verdade É Necessário Aprender a Perdoar

Não te digo até sete vezes (deves perdoar), mas até setenta vezes sete”, disse o Senhor a Pedro.

Se a Primeira Leitura de hoje nos convida a pedirmos perdão a Deus, no Evangelho Jesus nos apresenta um passo a mais: que saibamos perdoar os outros toda vez que eles pecarem contra nós. Pedir o perdão a Deus e dar o perdão aos outros devem andar juntos, como rezamos no Pai-Nosso: “Perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”.

O texto do evangelho lido neste dia faz parte do quarto grande discurso de Jesus no evangelho de Mateus (Mt 18). Este discurso é conhecido como “Discurso comunitário”, isto é, como devemos conviver como uma comunidade. Para Mateus o pecado sempre existe, a fraqueza humana nunca conhece seu fim. Por isso, na comunidade deve haver espaço para o mútuo perdão. Perdão mútuo é um dos temas neste quarto discurso. Sem o perdão mútuo, a comunidade deixaria de existir. Os que são capazes de perdoar mostram que são totalmente dominados pela misericórdia de Deus apesar das ofensas recebidas. Se aplicar a lei de talião “dente por dente” e “olho por olho”, o que vai resultar? Todos ficarão sem dentadura e cegos. Para que todos possam continuar a enxergar a ação misericordiosa de Deus deve haver o perdão mútuo.

A palavra grega para perdão é APHESIS que significa liberar, sair da prisão, libertar da escravidão; remissão da dívida, da culpa e do castigo. É usada quando a prisão é aberta e o prisioneiro pode sair livre. O perdão é o processo de remoção das barreiras (abrir a porta da prisão); é o processo pelo qual começamos a aceitar e a amar aqueles que nos feriram, não para esquecer o que eles fizeram e sim para lembrar de outra maneira a partir do amor. O esquecido é supressão. O perdão é superação; é culminação do conflito. O perdão nos liberta (âphesis, grego: sair da prisão); nos faz sairmos de nossas jaulas para aprender a ser humanos e divinos e não animais selvagens em que um devora o outro. O ato de nos libertar do passado, na verdade, exige muito pouco: basta a auto-aceitação. Hoje preciso domar minhas lembranças ou recordações para que elas se tornem minhas companheiras que me dão lição para viver e conviver bem no aqui e agora.

Até sete vezes devo perdoar meu irmão?” é a pergunta de Pedro a Jesus que lemos no evangelho de hoje. Em todas as culturas antigas, inclusive a Bíblia, o sete já era o numero da perfeição e da totalidade, da plenitude acabada e perfeita (Santo Agostinho), da universalidade (Santo Tomás), o numero que une o par e o impar, o fechado e o aberto, o visível e o invisível. Pedro propõe um número elevado de oportunidades de perdão, considerando que isso é uma atitude nobre. Sete vezes não são poucas! Mas de qualquer maneira, ele se preocupa com os limites da atitude fraterna.

Jesus lhe corrige sua perspectiva legalista. No lugar de umsete” é melhor setenta vezes sete. No AT o número 77 representava a vingança dos filhos de Caim (Gn 4, 24). Jesus muda os termos e converte o número de vingança em símbolo da reconciliação. Logo Jesus propõe uma parábola que mostra a deficiente atitude dos que estão pendentes de contabilizar a misericórdia, o perdão e a fraternidade.

Jesus fala para Pedro que no exercício da caridade fraterna, especialmente neste caso sobre o perdão mútuo, não existe limites. O perdão deve estender-se até onde chegou a dor ou o desejo de vingança. Em outras palavras, o perdão deve ser proporcional à dor que sentimos causada por nosso semelhante/próximo ou ao desejo de vingança que temos contra quem nos fez mal. Quem perdoa e é perdoado hoje, sempre tem possibilidade de voltar a pecar amanhã, porque nossa fidelidade a Deus pode não ser definitiva. No entanto, sempre que nos convertermos e voltarmos arrependidos, nós encontraremos um Pai bondoso e misericordioso para nos acolher e perdoar. A simples consciência da imensidade do perdão recebido de Deus deveria ser suficiente para motivar cada um de nós a perdoar. Ao contrário, a insensibilidade em relação ao dom recebido de Deus torna impossível a concessão de perdão ao próximo.

Como é difícil amar os que destruíram ou acabaram com nossa vida ou nossa família, e ainda rezar por eles e perdoá-los!? No nosso inconsciente, como seres humanos, sempre resta algum sentimento vingativo. Trata-se de um sentimento com o intuito de acabar com a vida dos que nos fizeram algum mal, mas, infelizmente, resulta em acabar com a nossa própria vida por causa do mesmo sentimento: “O ódio que se opõe ao ódio consegue apenas aumentar a superfície e também a profundeza do ódio(Mahatma Gandhi). Repito: O ódio é igual a beber o veneno e espera-se que o outro morra.

Perdoar não é somente dever moral, e sim o eco da consciência de ter sido perdoado por Deus. Assim chega a ser uma espécie de virtude teologal que prolonga o perdão dado por Deus a mim (cf. Cl 3,13; Mt 6,14-15; 2Cor 5,18-20).

O perdão refaz as pontes, encurta as distâncias e desarma os espíritos. Quando a pessoa não perdoar, ela se torna refém do próprio ódio ou rancor, e consequentemente perde a liberdade e perturba a convivência. O perdão é que possibilita a própria existência e a continuação da comunidade ou de uma convivência. Sem perdão não existe vida fraterna, vida conjugal, vida familiar, vida religiosa ou vida comunitária e social.

Hoje o mundo enfrenta um ambiente de intolerância, violência e desrespeito aos direitos humanos. Esta cadeia se faz interminável porque os agredidos buscam vingança por sua própria mão e fazem crescer a espiral de violência. É igual aos filhos de Caim: se um fosse agredido, a vingança seria sete vezes. Somos seguidores de Cristo e por isso, nossa atitude não é a dos filhos de Caim que assassinou o próprio irmão, Abel. Nossa atitude é a de Jesus Cristo que morreu perdoando: “Pai perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”, rezou Jesus da cruz pelos seus inimigos (Lc 23,34). Para perdoar o cristão tem que ser forte espiritualmente. Não perdoar é a manifestação de nossa fraqueza espiritual. Não podemos transformar nossa fraqueza espiritual em uma morte lenta de nossa vida como filhos e filhas de Deus.

Não saber perdoar para qualquer seguidor de Cristo é um comportamento cínico e é o fruto de uma atitude interior na qual o egoísmo, o próprio interesse ocupa de tal forma o posto reservado ao amor puro, ao gozo pela felicidade dos demais, à alegria de sentir-se instrumento de paz e concórdia que não deixam a luz do Espírito divino e a luz da sensatez humana penetrar no nosso coração e inundar nossa vida de cristãos.

O perdão é uma categoria fundamental e radical no Evangelho e é proposto por Jesus, para a comunidade, como um elemento constitutivo da qualidade das relações. Perdoando o passado doloroso se constrói um futuro cheio de esperança. Trata-se de uma atitude positiva e otimista. O mal não tem a ultima palavra porque o homem e a mulher podem mudar.

A tradição bíblica apresenta um Deus que ama um povo apaixonadamente. Ele ama o povo não por sua grandeza cultural nem por mérito, e sim porque Deus o ama loucamente. Não existe outra razão. “O amor apaixonado de Deus pelo seu povo — pelo homem — é ao mesmo tempo um amor que perdoa. E é tão grande, que chega a virar Deus contra Si próprio, o seu amor contra a sua justiça. Nisto, o cristão vê já esboçar-se veladamente o mistério da Cruz: Deus ama tanto o homem que, tendo-Se feito Ele próprio homem, segue-o até à morte e, deste modo, reconcilia justiça e amor”, escreveu o Papa Bento XVI (Carta Encíclica: Deus Caritas Est, no.10).

Deus que ama e perdoa se encarna em Jesus. Da cruz Jesus faz um testamento sobre o perdão ao perdoar aqueles que o crucificaram: “Pai perdoa-lhes porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34). Nós somos convidados a atuar nesta direção de gratuidade. Se nossa relação com o próximo é vivida sob o sinal da maldade, não há razão para que nossa própria relação com Deus se viva de outra maneira. Para amar verdadeiramente, temos que aprender a perdoar a exemplo de Jesus Cristo.

O versículo final da parábola (Mt 18,35) considera o amor fraterno como uma condição para obter o perdão de Deus. O amor dispõe ao homem para o perdão. O perdão fraterno significa submeter-se completamente à ação misericordiosa de Deus. Neste sentido, perdoar o próximo é sinal da plenitude da eficácia do perdão de Deus recebido. O perdão dado é o perdão recebido.

O perdão é um ato de doação, tanto para aquele que o recebe como para aquele que o brinda. Ambos se enriquecem com o benefício da paz; ambos se libertam do cárcere que os aprisiona. Por isso, o perdão é seguir avançando; é amparo e encontro. O perdão revela a graça. O ato de perdoar é um ato da misericórdia de Deus que apaga os pecados (Am 7; Ex 32,12.14; Jr 26,19; Ez 36,29.33). No NT, reconciliação e perdão somente se entendem a partir da cruz, do amor entregue e do sangue derramado pelo perdão dos pecados (Mc 10,45; Hb 9,22; Rm 8,32; Mt 26,28...).

Deixemos hoje as seguintes interrogações que podem complementar a interrogação de Pedro: Quantas vezes eu tenho que perdoar? O que tenho que perdoar? Quantas vezes os outros devem me perdoar? O que devem me perdoar?

A vida nos oferece diversas ocasiões para exercermos o mistério do perdão entre nós: na família, no trabalho, nas relações pessoais e assim por diante. Cada sinal de perdão comunica também a graça de Deus que atravessa todas as nossas ações. A reconciliação nos devolve a verdadeira liberdade e a responsabilidade que nos permite acolhermos e praticarmos novamente o bem, suscitá-lo ou restaurá-lo dentro de nós e ao nosso redor. Ao cultivarmos a dimensão do perdão e da reconciliação entre nós temos a esperança de construir um mundo novo sem violência. “O fraco jamais perdoa, o perdão é característica do forte” (Mahatma Gandhi). Quaresma é o tempo para se reconciliar e para o mútuo perdão para podermos experimentar, por antecipação, a vitória da ressurreição sobre a morte e sobre o que é mortal em nós.

Você quer ser feliz por um instante? Vingue-se. Você quer ser feliz para sempre? Perdoe(Tertuliano). Para pensar: “As três coisas mais difíceis do mundo são: guardar um segredo, perdoar uma ofensa e aproveitar o tempo.” (Benjamin Franklin).

P. Vitus Gustama,svd

11/03/2026- Quarta-feira Da III Semana Da Quaresma

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