segunda-feira, 20 de julho de 2026

Santa Maria Madalena, festa, 22/07/2026

MARIA MADALENA:

SEU AMOR E SEU PRANTO POR JESUS

22 de Julho

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Primeira Leitura: Ct 3,1-4a

Eis o que diz a noiva: 1 Em meu leito, durante a noite, busquei o amor de minha vida: procurei-o, e não o encontrei. 2 Vou levantar-me e percorrer a cidade, procurando pelas ruas e praças, o amor de minha vida: procurei-o, e não o encontrei. 3 Encontraram-me os guardas que faziam a ronda pela cidade. “Vistes porventura o amor de minha vida?” 4ª E logo que passei por eles, encontrei o amor de minha vida.

Evangelho: Jo 20,1-2.11-18

1 No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo. 2 Então ela saiu correndo e foi encontrar Simão Pedro e o outro discípulo, aquele que Jesus amava, e lhes disse: “Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram”. 11 Maria estava do lado de fora do túmulo, chorando. Enquanto chorava, inclinou-se e olhou para dentro do túmulo. 12 Viu, então, dois anjos vestidos de branco, sentados onde tinha sido posto o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés. 13 Os anjos perguntaram: “Mulher, por que choras?” Ela respondeu: “Levaram o meu Senhor e não sei onde o colocaram”. 14 Tendo dito isto, Maria voltou-se para trás e viu Jesus, de pé. Mas não sabia que era Jesus. 15 Jesus perguntou-lhe: Mulher, por que choras? A quem procuras?” Pensando que era o jardineiro, Maria disse: “Senhor, se foste tu que o levaste dize-me onde o colocaste, e eu o irei buscar”. 16 Então Jesus disse: “Maria!” Ela voltou-se e exclamou, em hebraico: “Rabunni” (que quer dizer: Mestre). 17 Jesus disse: “Não me segures. Ainda não subi para junto do Pai. Mas vai dizer aos meus irmãos: subo para junto do meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus”. 18 Então Maria Madalena foi anunciar aos discípulos: “Eu vi o Senhor”, e contou o que Jesus lhe tinha dito.

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O que procurais? (Jo 1,38); A quem procuras? (Jo 20,15).

Maria Madalena: Do Seu Primeiro Encontro com Jesus. Este é um dos personagens bíblicos escritos pelo famoso escritor libanês, Khalil Gibran, no seu livro: Jesus, o Filho do Homem. No encontro com Maria Madalena, Khalil Gibran colocou na boca de Jesus as seguintes palavras dirigidas a Maria Madalena: “Tu tens muitos amantes; entretanto só eu te amo. Os outros homens amam a si mesmos quando te procuram. Eu ti amo por ti mesma. Os outros homens veem em ti uma beleza que desaparecerá mais cedo do que seus próprios anos. Mas eu vejo em ti uma beleza que não esmaecerá e, no outono dos teus dias, esta beleza não terá receio de olhar-se no espelho, e não será ofendida. Somente eu amo o que não se vê em ti”.

Khalil Gibran colocou na boca de Maria Madalena as seguintes palavras como sua reação diante da pessoa e das palavras de Jesus: Então, levantou-se e olhou-me como as estações devem olhar para os campos, e sorriu. E disse novamente: ‘Todos os homens te amam por si mesmos. Eu te amo por ti mesma’. E afastou-se, caminhando. Eu não sabia, mas naquele dia o poente de Seus olhos matou o dragão que havia em mim, e tornei-me uma mulher, tornei-me Miriam”.

Celebramos no dia 22 de julho a festa de Maria Madalena. “Maria” significa “preferida por Deus”. Seu sobrenome “Madalena” é o nome da cidade onde ela nasceu, situada na orla do mar da Galileia.

Dela sabemos muito pouco, mas os traços, que nos oferece o evangelho, nos permitem adentrarmos no mistério de “um amor muito mais forte do que a morte”, como nos relatou o episódio do evangelho lido neste dia. A frase “Encontrei o amor de minha vida” que nos diz o Livro do Cântico dos Cânticos parece-nos apropriada para resumir a trajetória pessoal de Maria Madalena. Quem experimenta o amor de Cristo vê as coisas de outra maneira, vê a morte da vida velha ou vê a morte da vida passada para experimentar a vida nova. Por causa dessa nova visão a pessoa acaba mudando de vida (maneira de viver). Maria Madalena viveu essa experiência em seu encontro pessoal com Jesus. Tão profundo e tão decisivo foi o primeiro encontro com Jesus que tornou a vida de Maria Madalena uma busca incessante do Bem Maior que é Jesus Cristo como relatou o evangelho deste dia. Somente busca o Bem Maior aquele que foi encontrado pelo Bem Maior. Parece-nos que o Salmo Responsorial foi feito para esse fim: “A minha alma tem sede de vos, Senhor, minha carne também vos deseja como terra sedenta e sem água!... Vosso amor vale mais do que a vida, e por isso, meus lábios vos louvam (Sl 62/63,1-2).

Que o amor que transformou Maria Madalena em uma buscadora do Senhor fica patente na pergunta que o Ressuscitado lhe dirigiu: “Mulher a quem procuras?”. Chamam nossa atenção duas coisas. A primeira é que esta pergunta-chave é precedida por outra pergunta: “Mulher, por que choras?”. Como se a intensidade da busca/procura fosse proporcional à magnitude da perda. Somente choramos por aquilo que nos afeta profundamente, seja por causa da tristeza profunda, seja por causa da alegria profunda, seja por causa da partida de uma pessoa tão amada. O pranto de Maria Madalena é um certificado de um amor direto ao coração. Choramos por causa de alegria profunda como choramos por causa de uma tristeza profunda. O choro é a única linguagem capaz de expressar tudo que sentimos profundamente em lagrimas que nenhuma outra língua capaz de expressar.

O pranto de Maria Madalena, como o de Pedro durante a Paixão é fruto de uma descoberta da verdade. Por isso, trata-se de um pranto salutar, de um pranto que exprime o que não pode ser expresso por nenhuma palavra humana. O pranto de Maria Madalena nasce do sentimento de pertença. Ela chora por estar em relação com Jesus que em determinado momento desaparece. Ela tem sentimento de pertencer a Cristo, a relação com define sua vida. Ela é como é agora por causa de Cristo que devolveu sua dignidade.

A segunda coisa que chama atenção é a mudança de termos. Para o pranto se busca uma causa: “Por que choras?”. Ou “Por qual razão tu choras”. O que se busca na pergunta é a causa do pranto. Mas para a busca se faz referência a uma pessoa: “A quem procuras?”. Maria Madalena não busca um ideal, não uma causa pela qual lutar, não busca um sentido, pois tudo isto vem por acréscimo. Maria Madalena busca Aquele que, olhando-a de outra maneira, restituiu-a em sua dignidade de mulher. Ela busca Aquele a Quem seguia pelos caminhos da Galileia em companhia de outros homens e mulheres. Ela busca Aquele que foi cravado em uma madeira e abandonado quase por todos, exceto ela e a própria mãe de Jesus e algumas outras pessoas (cf. Jo 19,25). Ela busca Aquele que lhe garante um futuro seguro. Ela busca Aquele que tem a última palavra para sua vida e sua morte. Ela busca Aquele que é capaz de lhe dar a serenidade apesar de estar no meio das tempestades desta vida.

“Jesus lhe disse: ‘Maria’”. Jesus escolhe a maneira mais pessoal e a mais imediata: chama-a pelo nome “Maria”. Aqui, neste texto, Jesus manifesta sua ternura por Maria Madalena através de duas frases: primeira, através da pergunta: “Mulher, por que choras?”, e a segunda: Jesus chama Maria pelo nome: “Maria”. Ternura é amor respeitoso, delicado, concreto, atento, alegre. Ternura é amor sensível, eficaz, vitorioso, desarmado e desarmante, e aberto à reciprocidade. Chamar alguém pelo nome revela uma intimidade, amizade e familiaridade. Quando consideramos o outro como amigo, nós o chamamos pelo nome e não pelo título).

Para cada um de nós Deus tem nome, por anônima que seja uma pessoa na sociedade. E Deus nos chama pelo nome: “Eu te chamo pelo nome, és meu”, disse Deus para cada um de nós (Is 43,1). “Eis que estás gravada na palma de minhas mãos, tenho sempre sob os olhos tuas muralhas”, acrescentou Deus (Is 49,16). Quando estivermos dominados pelas preocupações, pelo medo, pela tristeza, pelo desespero, pela confusão; quando trilharmos pelo caminho errado, quando compactuarmos com o mal ou com a maldade; quando ficamos irritados, nervosos com a vontade de destruir tudo, Deus nos chama pelo nome: Maria, Valéria, Mônica, Bernardo, Lucas, João, José...! Deus quer nos dizer: “Ei.. Estou aqui! Não estás Me vendo? Dirige teus olhos para Mim, e não para o túmulo de tua vida!”.

Merecem nossa atenção e nossa meditação para duas perguntas essenciais encontradas no evangelho de João para nossa vida e nossa peregrinação neste mundo: “O que realmente você está procurando neste mundo?”. Esta pergunta é feita por Jesus logo no início do evangelho de João: “Que estais procurando?”. É a pergunta dirigida aos primeiros discípulos no evangelho de João (Jo 1,37). 

Parece-me que dedicamos bastante tempo de nossa vida em função da procura do “o quê” de nossa vida. Uma vez Oscar Wilde escreveu: “Neste mundo só há duas tragédias: uma é não se conseguir o que se quer, a outra é conseguir”. Mas no fim confessamos que o dinheiro e o poder não satisfazem aquela fome sem nome que temos na alma. Carl Gustav Jung escreveu no seu livro: O Homem Moderno à Procura de Uma alma, escreveu: “O problema de cerca de um terço de meus pacientes não é diagnosticado clinicamente como neurose, mas resulta da falta de sentido de suas vidas vazias. Isto pode ser definido como a neurose geral de nossa época”. O que nos frustra e tira nossa alegria de viver é a ausência do significado de nossa vida. Nossa alma não está sedenta de poder, de fama, de popularidade, de conforto, de propriedades e assim por diante. Nossa alma tem fome do significado da vida, ou de aprendermos a viver de tal modo que nossa existência ou nossa passagem neste mundo tenha importância ou significado capaz de modificar ou de melhorar o mundo, pelo menos, ao nosso redor.

Através dessa primeira pergunta o evangelista João nos dirige para a pergunta essencial que ele coloca no fim do seu evangelho. A pergunta é esta: “A quem procuras?”. De fato, as coisas, as riquezas, os bens materiais mesmo que os possuamos, eles continuam sendo alheios a nós. Eles jamais serão nossos próximos. No fim confessamos que estamos procurando Alguém capaz de nos salvar de uma vida vazia. A resposta que o evangelista nos dá é Jesus: “Jesus fez ainda, diante de seus discípulos, muitos outros sinais, que não se acham escritos neste livro. Esses, porém, foram escritos para crerdes que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo 20,30-31; cf. Jo 10,10; 14,6).

O que estais procurando?” e “A quem estais procurando?”. Como é que você pode colocar em equilíbrio estas duas perguntas na sua vida cotidiana para que sua vida realmente tenha sentido? Você enfatiza mais na pergunta “O que estais procurando?” ou “A quem estais procurando?”. Pela experiência sabemos que na idade avançada o que o homem ou mulher precisa mais é a presença de alguém ao seu lado e não mais da riqueza material. Para uma pessoa avançada em idade a riqueza não diz mais nada para ela. Nesta altura ela precisa muito da companhia: “A quem estais procurando?”. A solidão dói e a companhia consola, cura e fortalece.

Deixe De Me Segurar

“Não me segures. Ainda não subi para junto do Pai. Mas vai dizer aos meus irmãos: subo para junto do meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus”.

Esta é a última frase do Senhor ressuscitado dirigida a Maria Madalena: “Não me segures!”. Outras traduções: “Solte-me!”. Ou  Deixa de tocar-me”. E na mesma linha há explicação de Jesus: “Ainda não subi para junto do Pai”. Através destas duas frases quer-se afirmar que a partir de agora as relações com Jesus Ressuscitado não poderão continuar sendo como eram antes. Exclui-se o contato físico, espacial, temporal, e inicia-se um novo tipo de relações com o Senhor que serão distintas e de maior intimidade, expressas no Evangelho de João através da fórmula da imanência mútua: Eu em vocês e vocês em Mim.

E Jesus ressuscitado acrescenta: “Ainda não subi para junto do Pai”. Para são João evangelista, a Cruz já é a Glória: é hora de Jesus de transferir-se deste mundo ao Pai (Jo 13,1). Como podemos entender, então, que mesmo Ressuscitado e ainda não está com o Pai? Na verdade, o Filho já subiu ao Pai. Com a sua morte, foi preparar-nos um “lugar” e prometeu que viria para nos levar Consigo, para que também nós estejamos onde Ele está (Jo 14,2s). Agora que é Ressuscitado, cumpre a promessa: volta para nós com a força do seu Espírito, para que também nós possamos ir lá onde Ele está desde sempre (Jo 1,1-3). Portanto, a “saída” ao Pai da qual fala aqui não é tanto a sua e sim a dos seus irmãos, aos quais mostrou o caminho (Jo 14,4). É impossível reter Jesus para conduzi-lo para nosso caminho. Houve esta tentativa da parte de Pedro e ele foi chamado de satanás por Jesus (cf. Mt 16,22-23). Devemos seguir a Jesus para chegar à Casa do Pai celestial.

Maria Madalena recebeu o encargo de Jesus Ressuscitado para anunciar aos discípulos que “subo para junto do meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus”. É uma afirmação muito profunda e interessante. É o Filho que introduz os discípulos numa relação nova com o Pai (Jo 1,12). É claro que a paternidade de Deus não é um fato natural e sim um privilégio concedido aos discípulos (Jo 16,27; 14,21.23).

Deus é o Pai nosso e nós todos somos filhos e filhas de Deus e portanto todos nós somos irmãos e irmãs.

Para Refletir:

“Onde é que Te encontrei para poder conhecer-Te (Senhor)? Não estavas na minha memória antes de eu Te conhecer. Onde, então, Te encontrei, para conhecer-Te, senão em Ti mesmo, acima de mim?

Eis que habitavas dentro de mim e eu Te procurava do lado de fora! Tu me chamaste, e Teu grito rompeu a minha surdez. Fulguraste e brilhaste e Tua luz afugentou a minha cegueira. Espargiste tua fragrância e, respirando-a, suspirei por Ti. Eu Te saboreei, e agora tenho fome e sede de Ti. Tu me tocaste, e agora estou ardendo no desejo de Tua paz.

Fizeste-nos para Ti, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em Ti. Dá-me, Senhor, saber e compreender qual seja o primeiro: invocar-Te ou louvar-Te... Quem O procura O encontra, e, tendo-O encontrado, O louvará”.  (Santo Agostinho. Confissões, X,26-27; I,1). 

P. Vitus Gustama,svd

Terça-feira Da XVI Semana Comum, Ano Par, 21/07/2026

PARA TRANSFORMAR A FAMILIA HUMANA EM FAMÍLIA DE DEUS É NECESSÁRIO CONVERTER-SE E VIVER SEGUNDO A PALAVRA DE DEUS

Terça-feira da XVI Semana Comum

Primeira Leitura: Mq 7,14-15.18-20

14 Apascenta o teu povo com o cajado da autoridade, o rebanho de tua propriedade, os habitantes dispersos pela mata e pelos campos cultivados; que eles desfrutem a terra de Basã e Galaad, como nos velhos tempos. 15 E, como foi nos dias em que nos fizeste sair do Egito, faze-nos ver novos prodígios. 18 Qual Deus existe, como tu, que apagas a iniquidade e esqueces o pecado daqueles que são resto de tua propriedade? Ele não guarda rancor para sempre, o que ama é a misericórdia. 19 Voltará a compadecer-se de nós, esquecerá nossas iniquidades e lançará ao fundo do mar todos os nossos pecados. 20 Tu manterás fidelidade a Jacó e terás compaixão de Abraão, como juraste a nossos pais, desde tempos remotos.

 Evangelho: Mt 12, 46-50

Naquele tempo, 46 enquanto Jesus estava falando às multidões, sua mãe e seus irmãos ficaram do lado de fora, procurando falar com ele. 47 Alguém disse a Jesus: “Olha! Tua mãe e teus irmãos estão aí fora, e querem falar contigo”. 48 Jesus pergun­tou àquele que tinha falado: “Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos?” 49 E, estendendo a mão para os discípulos, Jesus disse: “Eis minha mãe e meus irmãos. 50 Pois todo aquele que faz a vontade do meu Pai, que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”.

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Deus é Misericordioso Em Quem Devemos Confiar e a Quem Devemos Voltar

Deus não guarda rancor para sempre, o que ama é a misericórdia. Voltará a compadecer-se de nós, esquecerá nossas iniquidades e lançará ao fundo do mar todos os nossos pecados”, assim disse o profeta Miqueias para o povo, que lemos na Primeira Leitura.

Com o texto de hoje terminamos a leitura do profeta Miqueias. O profeta Miqueias fala para alentar o povo eleito e para estimulá-lo a manter firme sua fé em Yahweh (Deus), pois tendo fé em Deus os tempos primitivos cheios de prodígios voltarão, sem medo aos ataques do inimigo nas fronteiras do Carmelo, de Basã e Galaad. Tendo a fé neste Deus, o povo verá novamente os prodígios de Deus como os que se narraram na época do êxodo (Cf. Êx 14-15).

O profeta Miqueias acredita que a potência das nações inimigas não pode destruir a obra de Yahweh, que é seu povo, o povo eleito por Deus entre as nações. O fundamento desta esperança está na fé na misericórdia de Deus, por puro dom, capaz de apagar a iniquidade do povo eleito e de perdoar o pecado.

Por isso, podemos entender que o texto nos apresenta uma oração humilde cheia de confiança em Deus da misericórdia. Na vivência religiosa da história do povo de Israel há uma forte dose de medo a Deus. Em meio deste sentimento de medo, também palpita uma experiência religiosa de confiança na misericórdia divina.

No texto de hoje, o profeta Miqueias, na sua oração, suplica a Deus que não abandone seu povo, mas que realize nele as promessas, de maneira que Israel, agora triste e abatido, possa refazer sua vida. Trata-se de uma oração humilde, cheia de confiança em Deus que o profeta Miqueias nos oferece hoje.

“Apascenta o teu povo com o cajado da autoridade, o rebanho de tua propriedade, os habitantes dispersos pela mata e pelos campos cultivados; que eles desfrutem a terra de Basã e Galaad, como nos velhos tempos”. O contexto deste texto é a saída do povo eleito do Egito. O povo eleito se sente como um rebanho no meio de uma floresta onde não se encontra nenhuma pastagem. Trata-se de um rebanho perdido sem guia. Nisto surge um pedido para que Deus continue sendo o Pastor para que o povo encontre uma “pastagem” abundante (Cf. Sl 23: o Senhor é o meu Pastor). Diante deste pedido muito humilde do povo, Deus se mostra benevolente, e renova outra vez os pródigios do êxodo.

Como é bom reconhecermos com humildade de que, às vezes, nossa vida fica sem rumo a exemplo do povo eleito. Quantas vezes nos sentimos perdidos diante de determinadas situações. Mas para Deus nada é perdido. Basta nos dirigirmos a Ele é que vamos encontrar o caminho de volta para a nova pastagem abundante de nossa vida. Se formos capazes de invocar a Deus como o nosso Guia diário, nunca faltaremos a orientação para nossa vida.

No mesmo tom o salmista do Salmo Responsorial de hoje (Sl 84/85) pede a Deus: “Renovai-nos, nosso Deus e Salvador, esquecei a vossa mágoa contra nós! Ficareis eternamente irritado? Guardareis a vossa ira pelos séculos? Não vireis restituir a nossa vida, para que em vós se rejubile o vosso povo? Mostrai-nos, ó Senhor, vossa bondade, concedei-nos também vossa salvação!”.

Nesta oração, também, o profeta fala para alentar o povo e estimulá-lo a manter fé em Deus, e o povo verá prodígios de Javé como os que narram da época do êxodo (Mq 7,14-15). O fundamento da esperança está na fé na misericórdia de Javé que apaga a iniquidade e perdoa o pecado.

O profeta traça as características de Javé em que o povo deve confiar. Javé é como o pastor que irá reconhecendo as ovelhas de Israel que andam perdidas. Javé repetirá os prodígios que fez quando libertou o povo da escravidão do Egito. Javé não castigará o povo, mas perdoa, pois ele é a misericórdia. Javé “lançará ao fundo do mar todos os nossos pecados”. Do abismo de nossa miséria, sob o peso de nosso hábitos difíceis de vencer, como é bom saber que, quando nos arrependermos, Deus lança todos os nossos pecados ao fundo do mar e os desaparecerão para sempre. É um esquecimento total da parte de Deus. É uma verdadeira anistia que o profeta Miqueias nos anuncia hoje: “Ele não guarda rancor para sempre, o que ama é a misericórdia. Voltará a compadecer-se de nós, esquecerá nossas iniquidades e lançará ao fundo do mar todos os nossos pecados”. Efetivamente, nossa segurança é esta constante ação de Deus ao longo da história chamada misericórdia.

Através do texto de hoje o profeta Miqueias nos recorda da misericórdia de Deus para que o medo nunca obscureça a certeza de que a misericórdia do Senhor prevalece como resposta esperançada e libertadora do pecador. Sempre há conversão do pecador, há perdão de Deus, porque Deus é compassivo e misericordioso. Deus não quer a morte do pecador e sim que se converta e viva. Quando o homem arrependido retornar a Deus, ele encontrará sempre os braços do Pai, que sente ternura pelos seus filhos, como o filho pródigo que voltou para a casa paterna e foi recebido com os braços abertos do pai (cf. Lc 15,11-32). A misericórdia é a palavra-chave para indicar o agir de Deus para conosco... A misericórdia de Deus é a sua responsabilidade por nós. Ele sente-Se responsável, isto é, deseja o nosso bem e quer ver-nos felizes, cheios de alegria e serenos. E, em sintonia com isto, se deve orientar o amor misericordioso dos cristãos. Tal como ama o Pai, assim também amam os filhos. Tal como Ele é misericordioso, assim somos chamados também nós a ser misericordiosos uns para com os outros”, escreveu o Papa Francisco na Bula Misericordiae Vultus (n.9d).

É Preciso Transformar a Família Humana Em Família Divina Para Que Seja Salva

Todo aquele que faz a vontade do meu Pai, que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”, disse Jesus.

A maior parte das religiões do mundo se apoia na família, comunidade natural. Jesus edifica sua comunidade não sobre as relações familiares, e sim sobre uma comunidade de tipo seletivo em virtude da fé para elevar a família humana para a família de Deus. Elevar a família humana para a família de Deus significa salvá-la. Para divinizar a família humana é preciso que Deus seja o centro de cada família e é preciso que cada membro viva de acordo com a Palavra de Deus. Por isso, podemos viver no céu já aqui na terra, quando nossa vida é fundada sobre a Palavra de Deus. É o céu aqui na terra.

A evolução do mundo técnico tende a tirar o homem de suas comunidades naturais para submergi-lo em comunidades mais “artificiais” ou “mais seletivas”. Por isso, a família vive, muitas vezes, de maneira dramática o conflito das gerações que caracteriza a nossa época. Os pais rezam melhor em companhia de seus amigos do que em família, com seus filhos e familiares. Mas se todos se preocuparem com a vontade de Deus ao praticar o bem, ao viver o amor fraterno, o único que nos edifica, humaniza e diviniza, acabarão salvar a comunidade natural que é a família humana. Por isso, Jesus afirma hoje: “Todo aquele que faz a vontade do meu Pai, que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mt 12,50).

O verbo “fazer” é característico da narração do evangelista Mateus. Os fariseus dizem e não fazem (Mt 23,3.15). Unir-se a Cristo não significa outra coisa que fazer a vontade de seu Pai. No evangelho de São João Jesus fala de outra maneira sobre a mesma coisa: “Vós sois meus amigos se praticais o que vos mando” (Jo 15,14). Trata-se de uma família ou uma comunidade de Deus, e por isso, de uma comunidade de salvação.

No cristianismo, o mais importante são os fatos, os fatos de vida, as demonstrações práticas de que cremos em um Deus Pai e Amor. No cristianismo, o mais importante são os testemunhos vivos de que confiamos tanto em Deus. O mais importante no cristianismo é a fraternidade vivida dia a dia, junto a cada homem e sua necessidade concreta, sua dor pessoal, sua necessidade básica e específica. Por isso, Orígenes dizia: “Tu que segues a Cristo e o imitas, tu que vives na Palavra de Deus.... Não é um lugar onde há que buscar o santuário e sim nos atos, na vida, nos costumes... Se são de acordo com a vontade de Deus, pouco importa que estes em casa, ou na rua, pouco importa, inclusive, que te encontres no teatro; se serves ao Verbo de Deus, estás no Santuário, sem dúvida alguma!”.

Jesus, por sua encarnação, entrou no mundo e formou parte de nossa humanidade, de uma verdadeira humanidade, com os laços de sangue e de cultura. Ele se tornou humano para nos divinizar. Ele nasceu numa família para santificar a família. Ele viveu em um país determinado, Palestina; tinha uma mãe, Maria. Essas realidades humanas têm grande importância, constituem realmente o lugar de nossa vida.

Quem é minha mãe? Quem são meus irmãos?”, pergunta Jesus. A pergunta não significa um desprezo de Jesus à sua mãe, Maria. Maria sempre cumpriu a vontade de Deus: “Eu sou a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra(Lc 1,38). Ela foi chamada pelo anjo Gabriel de “cheia de graça” e que ela “está com o Senhor(Lc 1,28). Além disso, ninguém amou Sua mãe melhor que o próprio Jesus. E nenhuma mãe amou melhor seu Filho, Jesus Cristo, Deus-Conosco do que a própria Maria, a mãe de Jesus. Ela acompanhava seu filho Jesus até ao pé da cruz, enquanto muitos discípulos o abandonaram (Jo 19,25-27).

É claro que a resposta de Jesus para a própria pergunta mostra que Jesus relativiza os vínculos familiares em função da vontade de Deus. Com esta pergunta Jesus quer nos revelar algo muito importante: o discípulo, cada cristão, cada cristã que vive os ensinamentos de Jesus é um parente de Jesus. Jesus oferece aos homens a qualitativa intimidade de sua família. A família humana de Jesus viveu conforme a vontade de Deus: José que criou Jesus era chamado de “o justo”, aquele que vive segundo os mandamentos de Deus (cf. Mt 1,19). Maria, a Mãe de Jesus foi chamada pelo anjo de “cheia de graça” (cf. Lc 1,28).

Por isso, a família humana de Jesus serve de exemplo para todas as famílias humanas. Que é possível formar uma família de Deus nesta terra quando Jesus se torna o centro de todos. Quando Jesus fica no meio, tudo se ordena e tudo se une e todos formarão um círculo de irmãos ao redor de Jesus Cristo. Quando Cristo se torna o centro, todos ficarão olhando para Ele para saber o que se deve fazer e como se deve fazer. Se alguém ocupar o centro, que é o lugar de Cristo, todos terão um olhar sem direção ou cada um vai criando sua própria direção. “Onde te envaideceste, ali mesmo caíste” (Santo Agostinho. Serm. 131,5). Jesus Cristo deve ser o fator central para que todos tenham a mesma direção: formar uma família divina logo nesta terra onde o amor fraterno é a única identidade para todos: “Nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros” (Jo 13,35). “Quando se enfraquece o amor, também se enfraquece o fervor”, dizia Santo Agostinho (In ps. 85,24). A única maneira de salvar a família humana ou qualquer comunidade é transformá-la em família de Deus, família que vive de acordo com os mandamentos de Deus.

Entre Deus e os homens já não há somente relações frias de obediência e de submissão como entre o patrão e o empregado. Com Jesus entramos na família divina, como seus irmãos e irmãs, como sua mãe. Se em todos os meus atos e atitudes de cada dia, se em todos os minutos de minha vida procurar me manter unido a Deus, serei irmão de Jesus, farei parte da família de Deus desde aqui na terra junto aos outros irmãos e irmãs no mundo inteiro que fazem a mesma coisa.

Todo aquele que faz a vontade do meu Pai, que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”. O texto nos convida a pensarmos sobre a maneira como podemos pertencer ao grupo de Jesus e ser parte de sua verdadeira família a qual nos unimos se assumirmos seu projeto, isto é, se nos comprometermos na construção do Reino de Deus com uma atitude profética, que não cale diante da dor e do sofrimento e que grite firmemente contra a fome, a miséria, a opressão, a hipocrias e a injustiça, contra o egoísmo e a morte dos inocentes fruto da exploração dos que se acham poderosos, contra a falta de compromisso com os empobrecidos e contra a insensibilidade diante da realidade cruel que vivemos. Ser parte da família de Jesus é, definitivamente, compartilhar sua vida e seu projeto. O Reino de Deus cria uma nova família que ultrapassa todos os laços terrenos sem diminuir o valor da família. A vivência da vontade de Deus eleva a família humana para o nível divino. Por isso, a frase de Jesus acima citada deve servir de orientação para nossa vida diária. Será que faço parte da família de Jesus?

P. Vitus Gustama,svd

sábado, 18 de julho de 2026

Segunda-feira Da XVI Semana Comum, Ano Par, 20/07/2026

CRER NUM DEUS MISERICORDIOSO E APRENDER A ENXERGAR DEUS ATRAVÉS DO SINAIS COTIDIANOS

Segunda-Feira Da XVI Semana Comum

Primeira Leitura: Mq 6,1-4.6-8

1 Ouvi o que diz o Senhor: “Levanta-te, convoca um julgamento perante os montes e faze com que as colinas ouçam tua voz”. 2 Ouvi, montes, as razões do Senhor em juízo, escutai-o, fundamentos da terra; a pendência do Senhor é com seu povo, ele disputa em juízo contra Israel. 3 “Povo meu, que é que te fiz? Em que te fui penoso? Responde-me. 4 Eu te retirei da terra do Egito e te libertei da casa da servidão, e pus à tua frente Moisés, Aarão e Maria”. 6 “Que oferta farei ao Senhor, digna dele, ao ajoelhar-me diante do Deus altíssimo? Acaso oferecerei holocaustos e novilhos de um ano? 7 Acaso agradam ao Senhor carneiros aos milhares e torrentes de óleo? Porventura ofertaria eu o meu primogênito, por um crime meu, o fruto do meu sangue pelos pecados da minha vida?” 8 Foi-te revelado, ó homem, o que é o bem, e o que o Senhor exige de ti: principalmente praticar a justiça e amar a misericórdia, e caminhar solícito com teu Deus.

Evangelho: Mt 12,38-42

Naquele tempo, 38 alguns mestres da Lei e fariseus disseram a Jesus: “Mestre, queremos ver um sinal realizado por ti”. 39 Jesus respondeu-lhes: “Uma geração má e adúltera busca um sinal, mas nenhum sinal lhe será dado, a não ser o sinal do profeta Jonas. 40 Com efeito, assim como Jonas esteve três dias e três noites no ventre da baleia, assim também o Filho do Homem estará três dias e três noites no seio da terra. 41 No dia do juízo, os habitantes de Nínive se levantarão contra essa geração e a condenarão, porque se converteram diante da pregação de Jonas. E aqui está quem é maior do que Jonas. 42 No dia do juízo, a rainha do Sul se levantará contra essa geração, e a condenará, porque veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão. E aqui está quem é maior do que Sa­lomão”.

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Chamados a Criar Silêncio Para Ouvir Deus Que Nos Chama à Conversão

Ouvi o que diz o Senhor: ‘Levanta-te, convoca um julgamento perante os montes e faze com que as colinas ouçam tua voz’”, lemos na Primeira Leitura tirada do profeta Miqueias. 

Como já se sabe que “Miqueias”, em hebraico, significa “Quem é como Javé (Yahweh)?”.  Um nome semelhante é “Michael” (Miguel): “Quem é como Elohim?”. Para o profeta Miqueias o Deus de Israel é incomparável, pois Ele perdoa a iniquidade e se esquece da transgressão (Cf. Mq 7,18). Em outras palavras, Deus é misericordioso que está do lado do pecador e não do pecado. Essa ideia proporciona a base para o pensamento e a proclamação do profeta em todo seu livro.

Miqueias viveu em tempos do rei Acaz (736-716 a.C) e Ezequias (716-687 a.C), e, portanto, foi contemporâneo do profeta Isaías, chamado por Deus para fazer ouvir Sua Palavra nos difíceis tempos anteriores à ruina de Judá. Do profeta Miqueias conhecemos, sobretudo, seu oráculo sobre Belém que lemos no Advento, porque anuncia que deste pequeno povo sairá aquele que governará e apascentará Israel (Mq 5,1; Mt 2,6).

Miqueias se enfrenta com os poderosos de sua época e denuncia com valentia seus despropósitos, pois os poderosos abusam do poder, tramam iniquidades, são cobiçados pelos bens alheios, roubam enquanto puderem, oprimem os demais, são idiólatras de si mesmos (egolatria). E,  consequentemente, o profeta Miqueias anuncia-lhes o castigo de Deus.

Miqueias coloca a cena desta denúncia em forma de uma estrutura judicial: O juiz (Deus), o acusador (Deus), e o acusado (o povo). Deus acusa o povo que não correspondeu aos benefícios recebidos de Deus na história de sua salvação até então. Estes benefícios, entre os quais, são a libertação do Egito, a bênção em vez de maldição por parte de Balaão, o mago, a derrota do rei Moab, passagem pelo rio Jordão e posse da terra prometida. A fidelidade de Deus, cerne de toda a história da salvação, exige a fidelidade do povo. Deus quer que o povo guarda bem tudo isso no seu coração (re-cor-dar). A partir da recordaçao  o povo vai compreender a ação de Deus na história do povo eleito. Tudo isso deveria levar o povo a praticar a justiça e a misericórdia para mostrar que o povo está andando com Senhor.                                                            

Miqueias não pode ficar em silêncio diante da infidelidade e das injustiças que são cometidos pelos poderosos (econômicos e políticos) contra Seu povo. O texto de hoje constitui uma chamada à conversão, a fazer o que é reto diante dos olhos do Senhor. Em sua reflexão, Miqueias quer mostrar ao povo a incoerência de seu comportamento diante de Deus. Com este fim, Miqueias se apresenta em primeiro lugar como o porta-voz de Deus diante do país. Deus tem um pleito, uma causa pública com seu povo. O povo, com seu comportamento injusto, mostra não reconhecer a retidão da atuação de Deus em sua história passada quando resgatou o povo da escravidão do Egito. Por isso, Deus lança as seguintes perguntas retóricas: Povo meu, que é que te fiz? Em que te fui penoso? Responda-me!”. O povo não pode ou não consegue responder. Miqueias convoca o povo para que faça sua reflexão: olhar suas próprias injustiças em contraste com a retidão e fidelidade de Deus. A ignorância ou o esquecimento da história, que recorda a atuação de Deus, não justifica o comportamento injusto do povo. A injustiça não é questão de esquecimento. O homem leva consigo o juízo de suas obras, enquanto sabe, e lhe é ensinado quais são obras boas e obras más. Para Miqueias, o culto se torna vazio de sentido, quando se pratica a injustiça social.

Por isso, o que Deus exige, através da boca do Profeta Miqueias, é defender e respeitar o direito e amar a fidelidade ou lealdade que se resumem na fiel e humilde obediência ao Senhor.

Uma experiência profunda com Deus nos leva a não separarmos o ato litúrgico da justiça social para com os pobres e débeis. Por isso, podemos entender a seguinte convocação do profeta Miqueias: “Ouvi o que diz o Senhor: ‘Levanta-te, convoca um julgamento perante os montes e faze com que as colinas ouçam tua voz... Ouvi, montes, as razões do Senhor em juízo, escutai-o, fundamentos da terra’”, assim disse o profeta Miqueias na Primeira Leitura.

Na Bíblia, os montes são um dos lugares escolhidos para os encontros com Deus: Monte de Sinai, Monte de Tabor, Monte Sião, Monte do Carmelo, Monte das bem-aventuranças e assim por diante. Todas as montanhas de Palestina desempenharam um papel do simbolismo do encontro com Deus. Na montanha se encontra o ar mais puro, mais vivificante, o silêncio fecundo, de grandes espaços; a impressão de imutabilidade, de fortaleza, de um vigor superior à fragilidade humana. Montanha é o lugar de topo, próximo do céu, lugar para o qual há que subir para ter uma visão ampla sobre a realidade. Montanha é o lugar onde há silêncio para possibilitar  o diálogo com Deus para que se alcance o vigor superior às fragilidades humanas e as visõe s de mediocridade. Ver tudo a partir de Deus ganha uma visão ampla sobre a vida e seus acontecimentos. Para esta situação é que o povo é convocado. No texto de hoje, Deus toma as montanhas como testemunha para o juízo que quer fazer contra Seu povo: “Ouvi, montes, as razões do Senhor em juízo, escutai-o, fundamentos da terra”.

Os perigos do poder e do dinheiro continuam sendo atuais. Em nosso mundo e nosso tempo continuamos presenciando a exploração e o abandono dos débeis, dos pobres, dos últimos, e presenciamos as injustiças flagrantes, as corrupções desenfreadas cometidas frequentemente, o abuso do poder para o próprio interesse da parte dos poderosos e dos políticos sem escrúpulo. Todo corrupto é preguiçoso, pois ele não quer trabalhar muito para ganhar muito. Ele trabalha o mínimo possível para ganhar o máximo por meios desonestos.

Precisamos estar conscientes de que a vida leva em si mesma os próprios princípios da retidão, pois a vida é um dom de Deus, veio do Deus Justo e fiel. A vida vinda de Deus é pura e imaculada. Por isso, a injustiça não é questão de esquecimento, pois o homem leva consigo o juízo de suas obras e sabe quais são as obras boas que devem ser feitas e as obras más que devem ser evitadas: “Foi-te revelado, ó homem, o que é o bem, e o que o Senhor exige de ti: principalmente praticar a justiça e amar a misericórdia, e caminhar solícito com teu Deus”. A lei de Deus não está escrita em um papel e sim no coração do homem. Nenhum homem é capaz de se mentir a si mesmo. O próprio homem é a testemunha da própria vida. Se a vida que vem de Deus é pura e imaculada, logo a vida deve voltar para Deus do jeito que veio: pura e imaculada. Fora disso significa a exclusão da salvação eterna.

Tudo Na Vida Fala De Deus. É Preciso Criar o Silêncio Para Captar Seu Significado

“Mestre, queremos um sinal realizado por Ti”. Este é o pedido dos escribas e fariseus para Jesus. É uma pergunta com intenção de investigar Jesus e até de refutar Jesus.

Percebendo a malícia dos escribas e fariseus, Jesus logo os chama de “geração má e adúltera”. “Geração má” é a geração que pratica a maldade, que não aceita a compaixão e a justiça. É “Geração adúltera”, porque, para manter os privilégios, essa geração adulterava a lei (Is 10,1-2) e oprimia o povo (Mt 23,1ss). O adultério, na crítica de Jesus, é toda a alteração dos princípios fundamentais da justiça para obter ganhos. É sacrificar a justiça em nome do dinheiro.

“... nenhum sinal lhe será dado, a não ser o sinal do profeta Jonas”. O sinal de Jonas serve de paradigma para os os escribas e fariseus (investigadores). No livro de Jonas conta-se que Jonas prefere morrer a aceitar a proposta de Deus de ir até Nínive para converter os ninivitas. Para Jonas, os ninivitas merecem a morte, a vingança e o ódio, porque eles dominaram o Reino de Samaria em 722 a.C. Por isso, aqui, Jonas serve de o arquétipo do judeu duro, como os escribas e fariseus em geral, vingativo e sem espaço para o perdão. Jonas chegou a fazer tentativa de suicidar ao jogar-se ao mar do que ir a Nínive para converter aquela cidade. Mas Deus quer salvar todos os homens e quer a conversão de todos antes que o julgamento final aconteça.

Em profeta Jonas encontram-se duas coisas opostas. Encontra-se a resistência do homem diante de Deus. Mas encontra-se também a misericórdia infinita de Deus por todos. Em Deus não encontra a inimizade, pois "Deus é amor" (1Jo 4,8.16). No fim da caminhada Jonas reconhece a misericórdia de Deus. Jonas, contra a sua vontade, foi profeta da misericórdia. Jesus é maior do que Jonas, pois Jesus é a própria misericórdia de Deus que se doa para salvar todos os homens.

Sempre estamos tentados em fazer para Deus esta pergunta: “Senhor, queremos um sinal realizado por Ti”. Além disso, queremos ainda mais fazer uma ladainhas de perguntas para Deus. Por que Deus não escreveu seu Nome no céu para o ser humano ler e acreditar nele sem dificuldade? Por que Ele não nos dá uma prova expressa de Sua existência de maneira que nossa dúvida se torne impossível? Assim os ateus, os pagãos e os adeptos de qualquer religião ficariam tranquilos? Por que Deus não faz, então, este sinal? Simplesmente porque Deus não é o que pensamos.

A imagem de Deus que temos nem sempre é o próprio Deus. Até acontece muitas vezes que ficamos mais com uma suposta imagem de Deus do que com o próprio Deus. Agarramos, muitas vezes, uma suposta imagem de Deus do que o próprio Deus.  Deus é um Deus de amor (1Jo 4,8.16), e estamos sempre tentados a atribui-lhe outro papel. Deus não quer ser servidor dos caprichos dos homens. Deus é diferente e é o Diferente por excelência.

O sinal de Deus, por excelência, é a morte de Jesus na cruz por amor aos homens (Jo 3,16; 13,1) e a sua ressurreição, pois Deus é a Vida (Jo 14,6). É o mistério pascal de Jesus Cristo.

Pedimos “sinais” a Deus.  E ele nos dá muitos sinais na nossa vida; mas não sabemos vê-los nem sabemos interpretá-los ou não temos tempo para interpretar os sinais de Deus na nossa vida. Não há nenhum dia em que Deus não dê sinal para cada um de nós. O mundo e a história estão cheios de sinais de Deus. Um dos objetivos da “revisão de vida” é o de aprender uns dos outros a ver e a ler os sinais de Deus nos acontecimentos e na própria vida de cada um de nós. Deus trabalha no mundo. Nele é que o mistério pascal continua se realizando. Deus nos dá sinais, mas são sinais discretos e não espetaculares. É preciso ter muita serenidade para captar e entender os sinais de Deus na nossa vida e os sinais que estão ao nosso redor.

Deus está tão próximo de Deus. “Estava no mundo e o mundo não O conheceu”, escreveu são João (Jo 1,10). Deus continua atuando nos olhos dos que choram pela dignidade pisada pelos demais homens, nos que sofrem por serem justos, honestos, e verdadeiros; nos que trabalham pela paz apesar da resistência diante da reconciliação; em quantos trabalham pela erradicação da fome e da pobreza apesar da exploração e da corrupção de alguns grupos insensíveis às questões sociais; em todo o homem e a mulher que procuram Deus com coração sincero apesar das dores encontradas na vida. A sua vontade de rezar e de meditar a Palavra de Deus é sinal de que o Espírito de Deus continua atuando em você. O Espírito de Deus continua atuando em você quando reza por si e pelos outros; Ele está em quantos estão sempre prontos para ajudar quem está em necessidade. Numa palavra, em tudo o que é bondade e amor, paz e bem porque tudo isto é reflexo e semente do sinal básico do sacramento perene do próprio Deus. Em tudo que aconteceu e acontece e acontecerá na nossa vida Deus quer nos dizer alguma coisa a respeito de nossa salvação, mas que nem sempre sabemos criar o silêncio para ouvir a mensagem de Deus. O silêncio é o vazio fecundo que possibilita a presença do Eterno, ou da Plenitude na nossa vida.

Jesus não quer que nossa fé se baseie unicamente nas coisas maravilhosas (milagres etc.), e sim na Sua Palavra: “Se vocês não vissem sinais, não acreditariam(Jo 4,48). Temos sorte do dom da fé. Para crer em Jesus Cristo não necessitamos de milagres novos. Basta ter a fé, seremos felizes (Jo 20,29; cf. Hb 11,1). Sua ressurreição é suficiente para qualquer cristão. A ressurreição de Jesus é o maior de todos os milagres que nos leva a termos a esperança de que temos um futuro com Deus. A fé não é ciosa de provas exatas, nem se apóia em novas aparições nem em milagres espetaculares ou em revelações pessoais. Jesus já nos felicitou: “Felizes os que crêem sem terem visto” (Jo 20,29). Deus está muito mais no nosso coração do que na nossa cabeça. O coração sente aquilo que os olhos não vêem. Deus cabe no nosso coração e não na nossa cabeça.

O Concilio Vaticano II, através de um dos seus famosos documentos, chamado Gaudium et Spes, afirma: é dever da Igreja investigar a todo o momento os sinais dos tempos, e interpretá-los à luz do Evangelho; para que assim possa responder, de modo adaptado em cada geração, às eternas perguntas dos homens acerca do sentido da vida presente e da vida futura, e da relação entre ambas. É, por isso, necessário conhecer e compreender o mundo em que vivemos, as suas esperanças e aspirações, e o seu caráter tantas vezes dramático” (GS, no.4).

P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 17 de julho de 2026

XVI Domingo Do Tempo Comum, Ano "A", 19/07/2026

CONFIEMOS EM DEUS, POIS ELE TEM A ÚLTIMA PALAVRA PARA NOSSA VIDA: PALAVRA QUE SALVA

XVI Domingo Comum Ano “A”

Primeira Leitura: Sb 12,13.16-19

13 Não há, além de ti, outro Deus que cuide de todas as coisas e a quem devas mostrar que teu julgamento não foi injusto. 16 A tua força é princípio da tua justiça, e o teu domínio sobre todos te faz para com todos indulgente. 17 Mostras a tua força a quem não crê na perfeição do teu poder; e nos que te conhecem, castigas o seu atrevimento. 18 No entanto, dominando tua própria força, julgas com clemência e nos governas com grande consideração; pois, quando quiseres, está ao teu alcance fazer uso do teu poder. 19 Assim procedendo, ensinaste ao teu povo que o justo deve ser humano; e a teus filhos deste a confortadora esperança de que concedes o perdão aos pecadores.

Segunda Leitura: Rm 8,26-27

Irmãos: 26 O Espírito vem em socorro da nossa fraqueza. Pois nós não sabemos o que pedir nem como pedir; é o próprio Espírito que intercede em nosso favor, com gemidos inefáveis. 27 E aquele que penetra o íntimo dos corações sabe qual é a intenção do Espírito. Pois é sempre segundo Deus que o Espírito intercede em favor dos santos

Evangelho: Mt 13,24-43

Naquele tempo, 24Jesus contou outra parábola à multidão: “O Reino dos Céus é como um homem que semeou boa semente no seu campo. 25Enquanto todos dormiam, veio seu inimigo, semeou joio no meio do trigo, e foi embora. 26Quando o trigo cresceu e as espigas começaram a se formar, apareceu também o joio. 27Os empregados foram procurar o dono e lhe disseram: ‘Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde veio então o joio?’ 28O dono respondeu: ‘Foi algum inimigo que fez isso’. Os empregados lhe perguntaram: ‘Queres que vamos arrancar o joio?’ 29O dono respondeu: ‘Não! Pode acontecer que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo. 30 Deixai crescer um e outro até a colheita! E, no tempo da colheita, direi aos que cortam o trigo: arrancai primeiro o joio e amarrai-o em feixes para ser queimado! Recolhei, porém, o trigo no meu celeiro!’” 31Jesus contou-lhes outra parábola: “O Reino dos Céus é como uma semente de mostarda que um homem pega e semeia no seu campo. 32Embora ela seja a menor de todas as sementes, quando cresce, fica maior do que as outras plantas. E torna-se uma árvore, de modo que os pássaros vêm e fazem ninhos em seus ramos”. 33Jesus contou-lhes ainda uma outra parábola: “O Reino dos Céus é como o fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado”. 34Tudo isso Jesus falava em parábolas às multidões. Nada lhes falava sem usar parábolas, 35para se cumprir o que foi dito pelo profeta: “Abrirei a boca para falar em parábolas; vou proclamar coisas escondidas desde a criação do mundo”. 36Então Jesus deixou as multidões e foi para casa. Seus discípulos aproximaram-se dele e disseram: “Explica-nos a parábola do joio!” 37Jesus respondeu: “Aquele que semeia a boa semente é o Filho do Homem. 38O campo é o mundo. A boa semente são os que pertencem ao Reino. O joio são os que pertencem ao Maligno. 39O inimigo que semeou o joio é o diabo. A colheita é o fim dos tempos. Os ceifeiros são os anjos. 40Como o joio é recolhido e queimado ao fogo, assim também acontecerá no fim dos tempos: 41o Filho do Homem enviará seus anjos, e eles retirarão do seu Reino todos os que fazem outros pecar e os que praticam o mal; 42e depois os lançarão na fornalha de fogo. Aí haverá choro e ranger de dentes. 43Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai. Quem tem ouvidos, ouça”.

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Um Olhar Geral Sobre As Leituras Deste Domingo

A onipotência e a paciência de Deus é o tema que aparece com claridade na liturgia deste domingo.

O Evangelho deste Domingo nos oferece novamente a imagem de um semeador para nos falar do Reino de Deus (o evangelista Mateus usa a expressão “o reino dos céus” para não pronunciar o nome de Deus em função do respeito que os judeus tem para com Deus). O semeador lança boa semente no campo. Mas, à noite, o inimigo semeia joio, uma planta nociva e venenosa. Os trabalhadores, indignados pela astúcia do inimigo, querem arrancar o mais rapidamente o joio que ameaça o crescimento do trigo. Porém o dono do campo impede que façam isso, pois existe o risco de que, junto ao joio, se arranque também o trigo. É a morte certa para os dois sem nenhuma oportunidade para o trigo produzir grãos. Os servos são proibidos pelo agricultor de arrancar o joio. Aqui se revela o centro da parábola. Ou seja, a paciência. No final o próprio agricultor fará esse ato (separação). Trata-se de um convite a viver a paciência diante da presença da maldade no campo do Reino de Deus.

Este semeador generoso com a boa  semente e paciente diante da adversidade não desejada, é o Filho do Homem (Jesus Cristo) que semeia a boa semente, que são os cidadãos do Reino de Deus. Jesus não exclui os pecadores (os maus), mas os procura; corre atrá deles e, solícito, os acolhe. Jesus segue o pecador e com amor Ele persegue os desanimados e lhes dá tempo para uma conversão sincera. Basta os pecadores acolherem o convite do Senhor é que o joio (o mau) transformará em trigo (o bom). Deus quer salvar todos. Quem deseja a salvação  deve ter um coração disposto para a conversão. O poder de Deus é infinito e também sua paciência. Não permite que ceifadores arranquem o joio. Ao contrário, ele os convida a ter paciência até o tempo da colheita. O trigo deverá crescer junto ao joio e todos deverão seguir o exemplo da paciência do semeador. Precisamente porque Ele é todo-poderoso e tem em sua mão os destinos do mundo é que ele tem paciência e misericórdia com todos.

O texto do Livro de Sabedoria, que lemos na Primeira Leitura (Sb 12,13.16-19), chega à mesma conclusão depois de perguntar-se sobre a razão pela qual Deus se mostra tão misericordioso em relação ao Egito (Sb 11,15-20) e Canaã (Sb 12,1-11): Não há, além de ti, outro Deus que cuide de todas as coisas... A tua força é princípio da tua justiça, e o teu domínio sobre todos te faz para com todos indulgente”.

E no texto da Segunda Leitura, tirado da Carta aos Romanos (Rm 8,26-27), são Paulo nos mostra como o Espirito Santo vem em ajuda de nossa debilidade e nos ensina a rezar(orar) como devemos. Através da ação deo Espirito Santo, quando estiver aberto a Ele, o cristão chega a compreender o atuar misericordioso de Deus. Somente o Espirito Santo que sonda os corações sabe suscitar o sentimento e a oração apropriada diante da Santidade de Deus.

Tudo isto a parábola quer nos mostrar algo evidente no mundo que vivemos. Junto ao bem e aos cidadãos do Reino, a boa semente, existe o mal e existem também os operadores da iniquidade, que existem pessoas que se deixam arrastar pelo mal, pela corrupção, pela roubalheira, pela injustiça, e assim por diante.

Diante desta situação, surge, espontaneamente, em nossos corações, como nos empregados da parábola, o desejo de pôr rápida solução para as pessoas em questão, eliminando-as de nossa convivência. Os empregados da parábola não aprecem dispostos a tolerar uma situação que exigirá deles paciência, discernimento, prudência e moderação. A parábola quer nos mostrar que a onipotência de Deus se manifesta em sua misericórdia. O juízo sobre o coração humano, por seu caráter absoluto e definitivo, corresponde somente a Deus que sonda ou perscruta o coração humano. E o juízo de Deus se reserva para o final dos tempos. Por isso, podemos entender que, na sua primeira Carta aos Coríntios, são Paulo nos adverte: “Não julgueis antes do tempo; esperai que venha o Senhor. Ele porá às claras o que se acha escondido nas trevas. Ele manifestará as intenções dos corações. Então cada um receberá de Deus o louvor que merece” (1Cor 4,5).

Mas quem é fraco e débil, reage com violência e prepotência diante de qualquer perigo ou ameaça que lhe afeta. Paradoxalmente, a violência e a prepotência revelam muito mais nossa fraqueza do que nossa força. São Paulo tinha razão ao escrever: “Quando me sinto fraco, então é que sou forte” (2Cor 12,10b). O reconhecimento da fraqueza revela a existência da força em nós; o reconhecimento de nossos pecados mostra que existe a santidade crescente em nós.

O tempo de Deus é, para nós, o tempo de crescimento e de esperança com muita paciência diante do sofrimento. O semeador e os trabalhadores devem armar-se de paciência e acompanhar de perto o crescimento de suas plantas, sabendo em todo caso, que a colheita está assegurada pela onipotência de Deus. A paciência dos trabalhadores nasce da paciência de Deus e de sua misericórdia que não fica desesperado jamais e sempre propõe e repropõe as vias da salvação. O Livro de Sabedoria o expressa de maneira clara e sintética sobre a atitude de Deus: Assim procedendo, ensinaste ao teu povo que o justo deve ser humano; e a teus filhos deste a confortadora esperança de que concedes o perdão aos pecadores” (Sb 11,9).

Nisto compreendemos o sentido da parábola do grão de mostarda e a do fermento. Estas parábola são uma chamada entusiasta à fé e à esperança. O Reino de Deus tem origens minúsculas. Jesus semeou a Palavra durante, mais ou menos, três anos para um grupo de pessoas simples humildes em um lugar escuro do império. No entanto, daquelas origens humildes veio à luz uma realidade esplêndida. Esta lei evangélica continua tendo vigência para nosso tempo e para qualquer tempo e lugar. Tudo aquilo que é feito por Deus nasce no pequeno, no simples para que se manifeste que é Deus, não o homem, quem dá fecundidade e bom êxito para a tarefa de evangelização. O joio (fracasso) não poderá jamais o fruto total da colheita. Há que seguir semeando! Há que olhar para o futuro com muita esperança e fé em Deus, sem reter-se no passado. Há que vencer o mal com o bem. Quanto maiores forem as sombras que cobrem o mundo, tanto maior deve ser a presença dos cristãos, cidadãos do Reino. Trata-se da presença da boa semente capaz de embelezar a humanidade. Não percamos tempo nas murmurações, lamentações, críticas. Nossa vida aqui neste mundo é o  tempo dado por Deus para semear o que bom. Não nos preocupemos com pessoas vão usufruir da bondade semeada e sim semear e semear. Quantas mangueiras cujas mangas comemos, quantos coqueiros cujos cocôs saboreamos e tantas outras plantas que foram plantadas por nossos pias ou nossos antepassados que não estão mais aqui neste mundo, no entanto usufruímos sua bondade. Semeemos!

Um Olhar Especial Sobre O Evangelho Deste Domingo

O Reino de Deus É Um Acontecimento Cotidiano

Estamos ainda no terceiro discurso de Jesus sobre o Reino dos Céus em parábola (Mt 13). O Reino dos Céus é como...”, assim Jesus disse.

O Reino de Deus se parece como uma rede que se joga no mar e apanha todo tipo de peixes. Quando está cheia se arrasta para a margem. O Reino de Deus se parece como um tesouro escondido num campo que, ao encontrá-lo, o homem vende tudo o que tem para comprar o campo onde se encontra o tesouro. O Reino de Deus se parece como uma semente de mostarda que o homem semeou no campo que vira uma planta maior onde os pássaros podem fazer seus ninhos. O Reino de Deus se parece como o fermento que uma mulher mistura com a massa e esta cresce. Tudo isso quer nos dizer uma coisa: O Reino de Deus se parece sempre a um sucesso. Confiar em Deus sempre termina na salvação que é o sucesso maior para um ser humano.

O Reino de Deus não é um lugar, nem uma coisa, nem uma organização imponente. Por isso, o Reino de Deus não está circunscrito geograficamente, nem institucionalmente, nem sequer pode dizer-se com precisão. O Reino de Deus é um acontecimento, é algo que sucede em qualquer parte dentro deste mundo. Para entrar nele não é necessário mudar de profissão, nem sair de um lugar para outro lugar ou de uma Igreja para outra Igreja, nem abandonar o mundo. O mais importante e essencial é mudar de vida, pois o Reino de Deus é uma vida nova, uma vida com Deus, uma vida de amor fraterno, uma vida de justiça, uma vida de igualdade, uma vida de sucesso, uma vida de salvação. O princípio desta vida está em Deus. Deus tem a iniciativa, pois Ele quer nos salvar por amor. Cristo é o princípio e a origem deste acontecimento que chamamos Reino de Deus. A partir de Cristo, algo passa no mundo, ainda que ninguém o note, pois o Reino de Deus acontece no silêncio. No silêncio Deus tem oportunidade para nos falar e para falar sobre nós. No silêncio da Cruz, no silêncio da semente que se morre, no silêncio do fermento que fermenta a massa. Do silêncio sai o resultado surpreendente para a humanidade. O silêncio é o início de uma obra prima.

Semente/grão, massa, fermento e pão, rede e peixe, tesouro incalculável encontrado. Tudo isto tem a ver com a vida do homem, com sua subsistência. Toda vez que Deus fala, toda vez que a Palavra de Deus é proclamada é porque tudo tem a ver com a salvação do homem, tem a ver com sua felicidade, sua paz, sua esperança e o sentido de sua vida neste mundo.

Onde há um homem que viva para os demais, onde há um homem que defenda a justiça, onde há uma mulher que se sacrifique para que um ser possa viver, onde há um enfermo que sofra com esperança e fé, onde há médico e enfermeiro que se dedique heroicamente para recuperar a saúde do paciente, onde há um jovem que busque a verdade, que busque um caminho correto, um ancião que olhe com serenidade o futuro, um governante ou político que reconheça seus erros para dar o melhor para a sociedade, e assim por diante, ali não passam somente coisas da vida; ali acontece o Reino de Deus.

O evangelho deste domingo apresenta três parábolas do Reino: a do trigo e joio com a explicação da parábola (vv.24-30.36-43); e a dupla parábola do grão de mostarda e do fermento (vv.31-35).

O Joio No Meio Do Trigo: a Paciência de Deus É a Salvação Do Homem         

A parábola do joio é exclusiva de Mateus (encontra-se também no Evangelho apócrifo de são Tomé). O termo grego para o joio, de origem semita, é “zizánion”. O joio é uma planta da família das gramíneas (lolium temulentum) que cresce no meio do trigo que dificilmente se distingue do bom trigo durante o seu crescimento; só se vê a diferença nas espigas. As espigas do trigo alimentam o homem (animal), enquanto o joio produz uma espiga de grãos escuros de efeito altamente tóxico. Mas, na verdade, não há necessidade saber da espécie de erva parasita que Jesus fala nessa parábola; basta saber que se trata de uma planta nociva.         

Esta parábola conta uma cena da vida cotidiana: o dono do campo que semeia a boa semente, o inimigo que prejudica o campo de trigo ao semear o joio, as relações entre o patrão e os empregados. Tudo parece normal, exceto a surpreendente reação do dono do campo: deixar que ambos (joio e trigo) cresçam juntos. A atitude do dono, evidentemente, chama a atenção dos ouvintes, porque a atitude normal é arrancar logo o joio para que o trigo possa crescer saudavelmente a fim de produzir boas espigas (bons grãos). O dono sabe que o joio pode impedir ou dificultar o crescimento do trigo, mas os dois parecem muito ao princípio e é possível que ao arrancar o joio, arranquem também o trigo. O dono quer que se espere o tempo da colheita para separar o trigo do joio.           

Evidentemente a parábola do joio orienta-se para o fim dos tempos, pois ela trata do juízo final, que introduz o Reino de Deus. Nesta parábola rejeita-se expressamente a ideia duma separação antes do tempo, e exorta-se à paciência até chegar o tempo da colheita. Os homens não estão absolutamente em condição de fazer esta separação (v.29), pois ao fazer separação que é a competência de Deus, os homens cairiam em erros de julgamento, e os dois (joio e trigo) acabam morrendo juntos, pois quem julga o outro, cai também no julgamento (Mt 7,1).          

Infelizmente a tendência espontânea dos homens é a de repartir a humanidade em duas categorias: os bons e os maus. E os maus sempre são os outros e os bons sempre somos nós. Por isso, somos intolerantes para as faltas alheias, mas muito amigos de nos autojustificarmos, e muito ligeiros a desculpar-nos. Que as bênçãos de Deus caiam sobre nós e nossa família, e as maldições sobre os maus, sobre os inimigos, sobre os criminosos e corruptos, ladrões e bandidos. Com isso, somos maus do mesmo jeito. Com esta atitude os homens, no fundo até inconsciente, tem uma tendência espontaneamente sectária e intolerante. O outro o amedronta enquanto não se tornou seu “semelhante”. O mal e o bem não estão só fora de nós, mas dentro do nosso coração. Ao esquecermos isto, nos constituímos juízes dos outros. Ninguém pode ter a presunção de ser trigo limpo, porque ninguém é tão bom que não tenha algum joio. Somente Deus é bom plenamente (Mc 10,18).          

Através desta parábola Jesus quer revelar também a paciência de um Deus que adia o julgamento (vv.28-30) a fim de deixar ao pecador o tempo para se converter. A porta da misericórdia está aberta até os últimos minutos da vida do homem. Apesar de ter na sua mão todo o poder, Deus se mostra tolerante e paciente para com a sua criatura, o homem, que é débil e pecador. Ele não exclui ninguém do Reino: todos são convocados até o último minuto, todos podem entrar nele até no último minuto de sua vida (cf. Lc 23,40-43). A cólera não é a última palavra da manifestação divina. O perdão sempre prevalece sobre quem se converte. A paciência divina está aberta para todos aqueles se convertem.           

Por sua atitude durante toda a sua vida, Jesus encarna a paciência de Deus em relação aos pecadores. Não existe pecado que não possa ser perdoado por Deus, se o pecador se converter; nenhum pecado arranca o homem do poder misericordioso de Deus. O perdão de Deus deixa as sombras para trás na vida do homem. Perdão é o momento de entrar na luz divina diante da qual tudo se torna claro.

A paciência de Jesus causa escândalo porque testemunha um amor a Deus e à humanidade baseado na total abnegação ou no desprendimento. Aceitar os laços de amor que Jesus oferece à humanidade implica, por sua vez, aceitar essa exigência de pobreza radical. Mas as pessoas temem renunciar a tudo porque sentem que perderão tudo. Jesus nos convida a perder tudo para ganhar tudo quando nos revela, por meio de sua vida e morte, o mistério da paciência divina.          

Ou seja, o segredo desta paciência de Jesus é o amor. Jesus ama o Pai com o mesmo amor com que é amado, pois é o Filho. Jesus ama os homens com o mesmo amor com que o Pai os ama. Talvez a expressão joanina seja melhor para descrever o amor de Jesus: “...amou-os até o fim” (Jo 13,1). Jesus ama os homens até em seu pecado. Foi o pecado dos homens que conduziu Jesus à cruz. No momento supremo em que o desígnio divino parece comprometido pela atitude dos homens, o amor se faz totalmente misericordioso: “Pai, perdoa-lhes; porque não sabem o que fazem(Lc 23,34). Jesus, realmente, amou os homens até o fim. Segundo o evangelista Lucas, a última palavra de Jesus para o homem é o perdão. A última palavra de Jesus para o Deus Pai é a entrega total de sua vida: “Pai, em tuas mãos entrego meu espirito”.          

Por ser membro do Corpo de Cristo, todos nós temos a missão de encarnar a paciência de Jesus. É na paciência que se conquista a vida (Lc 21,19). A paciência não é passividade. A paciência é resistir com firmeza. A paciência é o período entre o semear e o colher. A paciência é uma virtude dos fortes e prudentes.          

Nossa tarefa neste mundo não é a de repartir os homens entre os bons e os maus, embora ninguém escape da tentação de intolerância e da impaciência, mas a de revelar o amor misericordioso de Deus. Ninguém por si tem o direito de se constituir critério para o seu irmão. Não o irmão justo é o nosso critério, mas o Deus santo e misericordioso. Aqui na terra, o trigo está sempre misturado com o joio, e a linha de demarcação entre um e outro passa em todo homem. O cristão e a cristã são chamados a exercer sua função como pedra insubstituível na construção do Corpo de Cristo e a cooperar de modo original na realização da história da salvação. Quando o cristão não se tornar mais o sinal do amor de Deus, a missão automaticamente degrada-se em propaganda ou em tentativa de autopromoção. Para isso, temos que nos renovar sem cessar por dentro através do alimento da Palavra de Deus e da Palavra que se faz carne na Eucaristia.          

Além disso, essa parábola serve de exortação para todos os cristão. Deus deixa conviver os bons com os maus, sem pressa de fazer juízo. E nessas circunstâncias não sabemos se fazemos parte do grupo dos bons ou do dos maus; se somos do trigo ou do joio. Mas como Deus tem paciência, sempre é tempo de tentarmos produzir alguma coisa positiva, e rendermos para a vida presente e para a vida eterna. Além disso, a conversão é um trabalho silencioso de cada dia. Deus está sempre esperando nossa volta, como o pai que espera a volta do filho pródigo. 

Para Refletir:

·      ’Porém, enquanto os homens dormiam, veio seu inimigo, e semeou joio no meio do trigo, e foi-se’. Com estas palavras nos faz ver que o erro vem depois da verdade, como atesta o decorrer dos fatos. Assim, depois dos profetas vieram os falsos profetas, depois dos apóstolos os falsos apóstolos, e depois de Cristo, o Anticristo.” (São João Crisóstomo In Homiliae in Matthaeum, hom. 46,1).

·      “Quando algum cristão no seio da Igreja for pego num pecado digno de anátema, seja anatematizado onde não houve perigo de cisma, e faça-se com amor, não a fim de eliminá-lo, mas de corrigi-lo. Mas se ele não reconhecer nem se corrigir através da penitência, ele mesmo irá para fora e será separado da comunhão da Igreja por sua própria vontade. Por isso o Senhor, como dissesse: Deixai crescer uma e outra coisa até à ceifa, acrescentou a razão nas palavras seguintes: para que talvez  não suceda que, arrancando o joio, arranqueis juntamente com ele o trigo.” (Santo Agostinho In Contra epistolam Parmeniani, 3,2);

A Dupla Parábola Do Grão De Mostarda E Do Fermento: Com Deus Tudo Terminará Com Sucesso         

As duas parábolas (grão de mostarda e fermento) são muito parecidas em seu conteúdo e sua forma. A mostarda é uma planta que atinge facilmente uma altura de mais de dois metros e é cultivada por causa de seus grãos. As sementes são muito pequenas: não mais de um milímetro de comprimento. O fermento é bem conhecido no mundo culinário para fermentar a massa a fim de que ela cresça mais depressa.  Um pouco de fermento pode fazer crescer uma grande quantidade de massa.      

O aspecto mais chamativo nestas duas parábolas é o contraste que existe entre a situação inicial e o resultado final. Um grão de mostarda, sendo a mais pequena das sementes, pode fazer surgir uma “árvore” grande, e o mesmo acontece com o fermento que tem capacidade para fazer fermentar uma grande quantidade de massa.          

Através destas parábolas, Jesus fala da presença do Reino que está começando a chegar: embora sua presença seja germinal e sua aparência seja insignificante, mas leva dentro de si uma força transformadora e seu crescimento será irreversível. Ambas as parábolas acentuam a desproporção entre os princípios insignificantes do Reino e o seu esplendoroso final. Ainda assim, cada uma das parábolas tem seu matiz próprio: a do grão de mostarda fala do crescimento do Reino em extensão, e a do fermento em intensidade. Jesus quer nos dizer que o Reino de Deus é uma realidade oculta e quase imperceptível no seu desenvolvimento, tão lento que os nossos olhos não podem vê-lo no instante em que se está produzindo. Só com comprovações distanciadas no tempo podemos verificar o seu crescimento, como se passa com as crianças e as plantas.          

Com estas parábolas o Senhor quer, então, difundir esperança e ânimo a seus discípulos e todos os seus seguidores. Os seguidores não devem admitir nunca o desalento nem o pessimismo derrotista. O Reino de Deus chega indefectivelmente, graças a Cristo ressuscitado e ao seu Espírito. Esta é o fundamento de nossa esperança. É importante que ninguém segure eternamente a semente na mão, deve plantá-la para torná-la uma árvore; como também o fermento, deve misturá-lo com a massa, para torná-lo junto com a massa em pão saboroso.          

Por outro lado, Jesus justifica seu modo de evangelizar que não correspondia às expectativas de triunfalismo e espetaculariedade com que os judeus imaginavam a irrupção do Reino de Deus na era messiânica. O crescimento do Reino de Deus segue um processo desconcertante para a nossa impaciência e intolerância. Ele não permite o derrotismo pessimista nem o desespero, porque o êxito final é de Deus, que tem nas suas mãos as chaves da história humana. Não cabe ao cristão ficar decepcionado porque o resultado não aparece logo. Não é o jardineiro que faz crescer a árvore e as flores: ele rega, aduba e protege, mas a força vem de dentro, da própria semente. O jardineiro não pode parar de plantar, regar, adubar e proteger. Todos nós somos jardineiros da semente do Reino de Deus.

P. Vitus Gustama,SVD

Santa Maria Madalena, festa, 22/07/2026

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