CORRER AO ENCONTRO DO SENHOR RESSUSCITADO PARA SER
SALVO
DOMINGO DA PÁSCOA
Primeira Leitura: At 10,34a.37-43
Naqueles dias, 34aPedro tomou a palavra
e disse: 37“Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, a começar pela
Galileia, depois do batismo pregado por João: 38como Jesus de Nazaré foi ungido
por Deus com o Espírito Santo e com poder. Ele andou por toda a parte, fazendo
o bem e curando a todos os que estavam dominados pelo demônio; porque Deus
estava com ele. 39E nós somos testemunhas de tudo o que Jesus fez na terra dos
judeus e em Jerusalém. Eles o mataram, pregando-o numa cruz. 40Mas Deus o
ressuscitou no terceiro dia, concedendo-lhe manifestar-se 41não a todo o povo,
mas às testemunhas que Deus havia escolhido: a nós, que comemos e bebemos com
Jesus, depois que ressuscitou dos mortos. 42E Jesus nos mandou pregar ao povo e
testemunhar que Deus o constituiu Juiz dos vivos e dos mortos. 43Todos os
profetas dão testemunho dele: ‘Todo aquele que crê em Jesus recebe, em seu
nome, o perdão dos pecados’”.
Segunda Leitura: Cl 3,1-4
Irmãos: 1Se ressuscitastes com Cristo,
esforçai-vos por alcançar as coisas do alto, 2onde está Cristo, sentado à
direita de Deus; aspirai às coisas celestes e não às coisas terrestres. 3Pois
vós morrestes, e a vossa vida está escondida, com Cristo, em Deus. 4Quando
Cristo, vossa vida, aparecer em seu triunfo, então vós aparecereis também com
ele, revestidos de glória.
Evangelho: Jo 20,1-10
1
No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi
ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a
pedra tinha sido tirada do túmulo. 2
Então ela saiu correndo e foi encontrar Simão Pedro e o outro
discípulo, aquele que Jesus amava, e lhes disse: “Tiraram o Senhor do túmulo, e
não sabemos onde o colocaram”. 3
Saíram, então, Pedro e o outro discípulo e foram ao túmulo. 4 Os dois corriam
juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa que Pedro e chegou primeiro
ao túmulo. 5 Olhando
para dentro, viu as faixas de linho no chão, mas não entrou. 6 Chegou também Simão
Pedro, que vinha correndo atrás, e entrou no túmulo. Viu as faixas de linho
deitadas no chão 7 e
o pano que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não posto com as faixas, mas
enrolado num lugar à parte. 8
Então entrou também o outro discípulo, que tinha chegado
primeiro ao túmulo. Ele viu, e acreditou. 9 De fato, eles ainda não tinham
compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos.
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A festa da Páscoa, a festa da Ressurreição do Senhor
Jesus, representa o centro da fé cristã. A ressurreição de Jesus não somente é motivo
de esperança para os cristãos, mas também representa que hoje deve ser vivido
com a intensidade de uma força que venceu a morte.
Mas não basta saber que
Jesus Cristo ressuscitou. É preciso crer. Para crer, é preciso experimentá-lo
vivo e vivificante hoje. Jesus ressuscitado é o nosso hoje: o passado fugiu, escapou-se;
o futuro desconhecido não tem segredos para Ele. A ressurreição de Jesus
representa nossa própria ressurreição. Graças a Jesus, podemos viver seguros de
que também seremos ressuscitados.
E a ressurreição traz
um novo estilo de vida que se define como a busca das coisas do alto (Cl
3,1-4). O novo
estilo de vida inclui o respeito pela vida: no seu início (concepção), na sua duração
(vida) e no seu fim neste mundo.
Se a morte é a certeza, a imortalidade, por causa de Jesus
ressuscitado, é a esperança. A esperança nos chama a caminhar. Somente quem caminha é
que tem a esperança. Somente quem luta é que tem a esperança. De onde vem esta
esperança? Ela vem das próprias palavras de Jesus Cristo: “Eu sou a
ressurreição e a vida. Quem crer em mim, ainda que esteja morto, viverá” (Jo
11,25), e
nossa esperança vem da sua própria ressurreição: “Se Cristo não ressuscitasse seria
vã a nossa pregação e seria vã a vossa fé” (1Cor
15,14). Por
isso, crer em Jesus Cristo, o Ressuscitado, significa jamais parar de existir.
A teologia da esperança
nos leva à verdade de que nós existimos no mundo, mas acima do mundo, no tempo,
mas acima do tempo. O nosso Credo termina com uma afirmação de esperança: “Creio na ressurreição da carne e na vida
eterna”.
Morrer,
para nós cristãos, não significa “acabou tudo”, e sim voltar para a Casa
Paterna no céu, nossa Casa Comum. “Na
Casa do meu Pai tem muitas moradas”, disse o Senhor, e por isso, ele nos
pede para não ficarmos perturbados (Jo 14,1-3). Fomos criados para
além dos horizontes
materiais, pois somos o templo do Espírito de Deus
(1Cor
3,16-17).
Se nós acreditamos que Jesus é a Ressurreição e a Vida,
então a Vida está em nós e já podemos olhar para a morte com olhos e coração
distintos. A morte
vencida por Cristo é incorporada à Vida. Se nós acreditamos que Jesus é a Ressurreição e a Vida,
então somos de Deus. Se nós somos de Deus, então não nos pertencemos. Esta
dependência não anula nossa liberdade, mas que se alimenta dela. Quanto mais
pertencemos a Deus, mais nos assemelharemos a Ele, mais respiraremos o ar de
família que é liberdade e amor. Depender de Deus é unirmo-nos a uma força que
rompe toda escravidão e todo apego. É apegarmo-nos à liberdade. Se nós
acreditamos que Jesus é a Ressurreição e a Vida, então somos para Deus. Deus é
nosso princípio, nossa Alfa original, mas é também nossa meta, nossa Ômega
final. Há
já um germe divino em nós, mas este germe tem que ir crescendo até seu
desenvolvimento pleno quando nos submergimos e nos perdemos no oceano do amor,
quando se rompem os limites da própria individualidade. Somos chamados a
crescer em Deus, até nos perdermos em seus braços, meta definitiva de nossa
existência. Se nós somos
de Deus, se vivemos para Deus, então, temos que orientar até Ele nossa
atividade inteira e nossa vontade, tudo o que fazemos e o que somos. Somos para
Deus, trabalhamos para Deus, descansamos para Deus, sentimos e pensamos para
Deus, sofremos e gozamos para Deus. Se nós acreditamos que Jesus é a
Ressurreição e a Vida, então, somos em Deus. “Nele vivemos e nos movemos e
somos”, diz São Paulo (At 17,28). Não estamos apenas na presença de
Deus, e sim nós estamos submersos na sua essência. Somos de, para, em
Deus-Amor, cujas relações conosco somente podem ser de amor. Pertencemos
amorosamente a Deus, nos espera amorosamente Deus, vivemos e somos amorosamente
em Deus.
Além disso, a fé na
ressurreição nos convida a valorizarmos o tempo e a boa convivência fraterna, a
praticar o bem e a bondade para deixarmos marcas positivas no próximo assim que
partirmos deste mundo, pois o Senhor em quem acreditamos passou a vida fazendo
o bem (Cf. At 10,38). Estas marcas serão
sinais de reconhecimento da parte de Deus (cf. Mt
25,34-40).
Aprendamos a valorizar
o que temos, para não ser tarde demais em valorizar o que você teve. Às vezes
você nunca vai saber do valor do momento até que se torne uma memória. A
saudade é a presença forte na ausência. Como um dia bem aproveitado traz um
sono feliz, assim também a vida bem vivida e convivida traz a morte feliz. Se
você quiser ter algo que nunca teve, faça algo que nunca fez. Você nunca vai
ser corajoso, se nunca sofreu alguma ferida; você nunca vai aprender, se nunca
errou na vida; e você nunca vai ser uma pessoa sucedida, se nunca falhou na
vida. A grande tragédia não é a morte e sim algo valioso que está morrendo
dentro de você enquanto você está vivo. É uma de tantas mensagens da Páscoa.
Jo 20,1-29
O Capítulo 20 de João
tem quatro episódios que algum teólogo intitula: “Em busca dos sinais do
Ressuscitado”. O primeiro episódio (vv.1-10) tem como personagens Maria Madalena e depois,
Pedro e João. O segundo episódio (vv.11-18) faz-nos contemplar Maria Madalena que
gradualmente reconhece Jesus. Neste episódio Maria Madalena é apresentada como
o personagem mais interessa do na busca
dos sinais e, através dos sinais, da própria presença do Senhor. O terceiro
episódio (vv.19-23) é o episódio da
manifestação de Jesus aos apóstolos: Jesus entre os seus. E por fim, Jesus e
Tomé
(vv.24-29). Tomé
nos apresenta a tendência do homem a fechar-se ao mistério. Em outras palavras,
ele representa aqueles que têm dificuldade de ver os sinais da presença do
Senhor no mundo (os céticos). Para o Domingo de Páscoa o texto fala do primeiro
episódio cujos personagens são Maria Madalena, Pedro e João.
Através do evangelho de
hoje, o evangelista quer nos apresentar as duas primeiras formas de expressar a
fé na ressurreição: as aparições
e o túmulo vazio. Jo 20,1-18,
onde se encontra o texto de hoje, sintetizou os relatos destas duas formas.
Para o discípulo amado, discípulo ideal que Jesus amava, as duas formas são
provas suficientes para indicar e afirmar a certeza da ressurreição do Senhor.
Por isso, o texto de hoje diz a respeito do discípulo amado: “Ele
viu, e acreditou” (Jo 20,8b).
Além de ser o
fundamento da esperança, a ressurreição do Senhor é também a verdade do homem
que acredita em Deus. A partir da
ressurreição do Senhor, a teologia da esperança nos leva à verdade que nós
existimos no mundo, mas acima do mundo; no tempo, mas acima do tempo. Somos
seres humanos, mas ao mesmo tempo cidadãos do céu. Fomos criados para além dos
horizontes materiais, pois somos o templo do Espírito de Deus (1Cor 3,16-17), somos sopros ou
hálitos de Deus (Gn
2,7). Por
isso, o nosso Credo termina com uma afirmação de esperança na ressurreição: “Creio
na ressurreição da carne e creio na vida eterna”. E o prefácio da missa
pelos falecidos destaca a crença cristã na ressurreição: “Senhor, para os que creem em vós,
a vida não é tirada, mas transformada...”.
A fé na ressurreição
significa que existe um caminho que tem valor por si mesmo: o caminho do
amor. A ressurreição autentifica o
caminho de Jesus que é o caminho do amor e no amor e por amor. Por isso, a fé
na ressurreição nos convida a valorizarmos o tempo e a boa convivência
fraterna, a praticar o bem e a bondade, o amor e a caridade. No amor e no
serviço descobre-se a esperança dos homens. Deus está no ato de amar, de perdoar
e de praticar a bondade. Para encontrar o Bem Maior, pratique o bem. Para
encontrar o Deus de amor, viva o amor fraterno. Para entrar na comunhão do Deus
Uno e Trino, devemos aprender a viver unidos na terra como uma família de
irmãos. Com efeito, o mal, por potente que pareça ser, não tem futuro algum;
ele acaba destruindo-se a si mesmo. Era essa a profunda convicção de Jesus. O
poder de Deus é o poder de amor, como aparece constantemente ao longo da vida
de Jesus. E esse poder do amor o que Lhe permite exclamar: “Pai,
perdoa-lhes porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34).
Vamos Meditar Sobre Alguns Detalhes Do Texto Do Evangelho De Hoje!
1. O Primeiro Dia É O “Dia Do Senhor”
O texto começa com
estas palavras: “No primeiro dia da
semana quando estava escuro, Maria
Madalena foi ao túmulo...” (v.1). O
primeiro dia é o dia da ressurreição do Senhor. Na tradição cristã este dia é
chamado “Domingo” palavra que vem do latim “dies dominicus” ou “Dies Domini”,
“dia do Senhor”. “Senhor” é um título pós-pascal.
No contexto pascal, a
expressão “primeiro
dia” sugere que começou um tempo novo nascido da morte e
ressurreição de Jesus para o mundo (2Cor 5,17). O dia que para os judeus era o
primeiro depois do Sábado tornou-se para os cristãos “o primeiro dia da semana”. Ele passou a ser chamado “dia do Senhor” (dies dominicus), domingo, porque nesse
dia o Senhor ressuscitou. Por essa razão os cristãos se reúnem nesse dia para
“partir o pão” (Eucaristia), o memorial da morte e ressurreição do Senhor (cf. 1Cor 16,2; At
20,7;Ap 1,10). Jesus é a luz do novo dia que não termina
jamais. Jesus é o Senhor que ilumina o mistério da vida. Cristo detém a chave
do segredo da vida e deixa sua luz brilhar nas trevas. Nele o mistério da vida
é tornado luminoso. O que é a vida, seu significado, sua finalidade, como
apreciá-la e torná-la autêntica, dar-lhe um sentido, é tudo isto que Jesus pode
nos ensinar, pois ele veio para nos fazer viver plenamente (Jo 10,10). Por isso, com muita
certeza, São Paulo diz: “Se confessas,
com tua boca que Jesus é o Senhor e crês em teu coração que Deus o ressuscitou
dos mortos, tu serás salvo” (Rm 10,9).
Portanto, não podemos
considerar o Dia do Senhor (Domingo)
como um peso. Ao contrário, ele é como uma explosão de vida que merece ser
celebrada, pois, de fato, o nosso futuro está garantido pela ressurreição do
Senhor.
É claro que temos problemas! Mas ao mesmo tempo temos a certeza de nossa vida
que terminará com a vitória. Quem nos garante isto é Jesus ressuscitado: “No mundo haveis de ter aflições. Coragem! Eu
venci o mundo” (Jo 16,33), e “...aquele
que perseverar até o fim será salvo” (Mt 10,22). E o próprio Jesus foi perseverante até o fim.
E o prêmio desta perseverança é a ressurreição, a vida que não acabará jamais.
2. Maria Madalena É Chamada Pelo Nome Pelo Ressuscitado.
Um
dos personagens principais do episódio do texto do evangelho de hoje é Maria Madalena.
Ela é a discípula que ainda num processo de crescimento rumo à plenitude da fé
em Jesus Ressuscitado. Ela ainda não compreendeu que a morte não interrompe a
vida. Enquanto dirige o olhar para o lugar da morte, Maria Madalena não poderá
encontrar Jesus, Aquele que é a Vida (Jo 14,6). Anda condicionada pela ideia
judaica da morte como fim de tudo, Maria Madalena não reconhece Jesus, embora O
vendo. Ela continua chorando Jesus morto e crê que o cadáver de Jesus tenha
sido levado embora. Maria Madalena não procura o Vivo, mas o morto.
Jesus
chama Maria Madalena, então, pelo nome: “Maria!”. Aqui Jesus se apresenta como
o Pastor que conhece suas ovelhas, as chama pelo nome e elas “O seguem porque
conhecem a sua voz” (Jo 10,4). Aquilo
que Maria Madalena não havia conseguido descobrir com seus olhos, agora
finalmente O percebe em toda a sua realidade, sentindo na voz de Jesus “ a voz
do meu amado que bate à porta” (Ct 5,2): o Mestre está vivo e a chama pelo
nome.
Maria
se afasta totalmente do túmulo e diz a Jesus Ressuscitado: “Rabuni!”
(Jo 20,16). Com essa expressão (“Rabuni”) de grande respeito, nunca usada para
referir-se a homens, e sim somente para dirigir-se a Deus, Maria Madalena
reconhece em Jesus o Deus de Israel, Aquela que dissera ao seu povo: “Chamei-te pelo nome; tu me pertences”
(Is 43,1).
3. Com Jesus Ressuscitado Somos Chamados A Sair Das Trevas
Maria
Madalena foi ao túmulo quando ainda estava escuro
(em grego skotia: a treva). A escuridão, aqui, é um símbolo do estado
interior de Maria, das trevas que a habitam e a envolvem. Com a morte de Jesus,
que era a luz de sua vida, ela perdeu o sentido e a alegria de viver. Tudo se
torna escuro para ela. Apesar da escuridão do seu interior, em Maria Madalena
ainda sobrevive o amor que ela tem por Jesus. Ninguém jamais pode tirar esse
amor do seu coração, pois ele é mais forte que a morte. Esse amor a leva ao
encontro do Senhor. E quem fez nascer esse amor no coração de Maria Madalena, o
amor absolutamente novo, puro e belo, depois que ela foi pisada e desprezada
por tantos homens, certamente foi Jesus. Foi Jesus quem devolveu a dignidade a
Maria Madalena depois que a libertou “de sete demônios” (Mc 16,9; Lc 8,2). O
encontro com Jesus tinha sido para ela o novo começo de sua vida, a nova luz
que ilumina tudo na sua vida, a nova fonte de sua verdadeira felicidade.
Maria Madalena foi ao túmulo quando ainda estava escuro. No Evangelho de João, onde claro e escuro têm
seus papéis, a escuridão dura até que alguém acredite em Jesus ressuscitado,
Luz do mundo (Jo
8,12).
Este termo, “escuridão/treva”, aparece em Jo oito vezes. “As trevas” em Jo não
significam mera ausência de luz. Este termo apresenta dois aspectos: Primeiro, as trevas são consideradas
como entidade ativa e perversa que pretende extinguir a luz da vida (Jo 1,5) e
assim impedir a visão do projeto de Deus sobre o homem. Portanto, define-se
como ideologia contrária ao desígnio criador. As trevas produzem no homem a
cegueira (ocultamento do desígnio de Deus), impedindo-lhe de se realizar. Segundo, as trevas são consideradas como
âmbito de obscuridade ou cegueira criada por sua ação, onde o homem se encontra
privado da experiência da vida e não conhece o desígnio de Deus sobre ele. As
trevas sugerem que os personagens ainda não têm a luz plena. Maria vai ao
túmulo, possuída pela falsa concepção da morte, e não se dá conta de que o dia
começou. Maria crê que a morte triunfou. Não é por acaso que o termo “túmulo” é
mencionado nove vezes nesta perícope, mostrando que a ideia de Jesus morto
domina na comunidade.
O único meio que se
encontrou para não sermos atingidos por esta escuridão total de nosso coração
ou de nosso ser é aceitar Jesus, Luz do mundo (Jo 8,12), para que, por nossa vez, nos tornemos
uma verdadeira luz para o mundo (Mt 5,14-16). Quem acredita em Jesus, Luz do mundo,
não teme a escuridão, pois ele será sempre iluminado: “Ainda que eu caminhe por um vale tenebroso (escuro), nenhum mal
temerei, pois estais junto comigo” (Sl 23(22),4).
4. Quem Ama Corre Mais E Chega Primeiro
Quando chegou ao
túmulo, a reação de Maria é de alarme quando viu que a pedra tinha sido
“retirada”. E ela ficou mais espantada ainda ao encontrar o túmulo vazio. A
tristeza de Maria ficou maior porque além da morte do seu Mestre, o corpo do
mesmo desapareceu. O sepulcro vazio, por isso, não foi para Maria Madalena
motivo de fé e de esperança, mas de um sofrimento maior. Maria Madalena ficou
totalmente desolada e perdida. Mas se ela soubesse ver com os olhos da fé os
sinais que viu com seus olhos carnais no túmulo, saberia ou pelo menos
deduziria que Jesus não tinha sido feito prisioneiro da morte como todos os que
morreram antes dele. A pedra retirada é um sinal de que não existe mais um
abismo intransponível entre Jesus e o mundo dos vivos, entre Jesus e seus
seguidores. Existe ainda alguma pedra na sua vida que o faz continuar vendo
tudo escuro? O poder da ressurreição retira “qualquer pedra” na nossa vida. Mas
será que você acredita no poder da ressurreição?
A reação imediata de
Maria Madalena, sem mesmo entrar no túmulo, é correr para comunicar aos
discípulos sobre o fato: Pedro e o discípulo amado. A comunidade sente-se
perdida sem Jesus. Há atitude de busca mas buscam um Senhor morto. Jesus
representava a força da comunidade; crendo que passou a ser debilidade e
impotência, a comunidade se vê por sua vez sem forças e sem amparo.
Os dois discípulos têm
a mesma reação diante da notícia que lhes dá Maria: dirigem-se ao túmulo. Os
dois correm juntos, mostrando sua adesão a Jesus e o seu interesse pelo
ocorrido. Durante a corrida, porém, o discípulo amado correu mais rápido e
chegou primeiro do que Pedro no túmulo.
Corre mais depressa o
que tem a experiência do amor de Jesus e sempre chega primeiro. O amor é sem
asas, mas pode voar, sem pernas, mas pode andar e correr, sem olhos, mas pode
ver tudo. O amor é a força sem limite, por isso nunca cansa. Uma pessoa
apaixonada está cheia de forças. Onde há amor, há força para tudo.
Amar é sair de si para
encontrar o outro. É dialogar. É estender a mão. É abraçar para fazer as pazes.
É doar a vida, o coração e a felicidade aos outros. Páscoa é alegria. Somente
encontra a alegria aquele que sabe amar os outros. Nossos lares são como
túmulos cerrados a cimento, quando não se amam; quando não há respeito, ajuda
mútua e fé. Túmulos cerrados são as igrejas quando não se vive o que se reza e
se canta.
Páscoa é a saída
rápida. É êxodo, partida. Para onde? É sair para encontrar os outros. Se
permanecermos fechados, trancados dentro de nós mesmos, vamos morrer. Páscoa é
reencontro com a vida. Somente sabe viver, encontrando a vida, aquele que ama.
Jesus morreu e ressuscitou porque nos ama verdadeiramente.
5. Quem Ama Acredita Que No Impossível Há O Possível
Apesar de chegar
primeiro, o discípulo amado não entrou no túmulo, mas esperou a chegada de
Pedro. No texto de Jo, a precedência de Pedro é mantida (cf. Jo 21). Pedro é o primeiro a
entrar no túmulo (v.6) e a observar os panos (vv.6-7). Ele viu os panos e
ficou calado. Jo não diz nada da reação de Pedro. O discípulo amado também
entrou. “Ele viu e acreditou” (v.8). Quem tem amor no coração sempre vê no impossível o
possível, no incrível o crível. À luz de seu laço profundo com Jesus, o
discípulo amado reconhece o mistério da presença por meio da ausência. Mesmo
antes do contato com o Ressuscitado, ele foi capaz de superar o abismo: na
ausência do corpo, o que ele viu dos panos funerários teve para ele valor de
sinal. Além disso, o amor que penetrava o discípulo amado deixou entrar nele a
luz com que ele pode ver tudo naturalmente e claramente. Para ele, o túmulo não
está nem vazio, nem cheio. Ele se transformou em linguagem. Atento, ele capta
no vazio do túmulo que Cristo vencera o que pertencia ao tempo; em outras
palavras, Jesus venceu a morte, ele ressuscitou. Este discípulo também vai
reconhecer a presença do Senhor Ressuscitado na sua aparição aos discípulos (cf. Jo 21,7)
6. A Ressurreição É Uma Novidade Para O Mundo E Renova Tudo No Homem
Com
o fato da ressurreição de Cristo entrou uma novidade total na história humana,
pois nunca aconteceu isso antes nem depois dele, em nosso mundo fechado pelo
círculo da morte. Jesus rompeu esse círculo e deu esperança a todos nós. Ao
vencer a morte, Jesus revoluciona todos os anseios e sonhos do mundo. Por isso,
a Páscoa é a festa de alegria porque a nossa vida está assegurada; esta vida
que aqui vivemos não nos será tirada com a morte; a morte será apenas um
fenômeno biológico, mas que não poderá destruir o nosso verdadeiro ser. A
partir da ressurreição do Senhor, não vivemos mais para morrer, mas morremos
para viver; a vida não pertence mais à morte mas sim a morte pertence à vida. A
morte não é total: atinge apenas o corpo do homem. O mundo precisa saber que
não somos condenados a um fim sem sentido. Não há Boa Notícia mais radicalmente
importante do que a certeza da vitória da vida. Por isso, Jesus nos diz: “Tenha
coragem! Eu venci o mundo” Temos a garantia de que Deus não vai deixar
que se perca nada do que é bom: nossos esforços, nossos sacrifícios, nossas
lutas, nossas boas ações, nossos afetos, as pessoas que amamos, tudo isso fica
guardando e seguro nas mãos de Deus da ressurreição. Se a morte não tem a
última palavra, toda a nossa vida pode estar, sem medo, a serviço daquilo que
traz mais vida para todos. Seja qual for o resultado, nada estará perdido. Por
isso, compreendemos por que São Paulo escarnece da morte e triunfante lhe
pergunta: “ Ó morte, onde está a tua vitória ? Ó morte, onde está o espantalho
com que amedrontavas os homens?” (1Cor 15,55). O
homem que crê em Jesus Cristo é destinado à ressurreição para participar, com a
totalidade de sua realidade complexa, na vida eterna de Deus.
7. Jesus Está Conosco
Permanentemente
“Jesus
ressuscitou”
significa também que Cristo vive e vive conosco (Mt 28,20). Esta é a grande verdade
da nossa fé. Cristo vive quer dizer que ele não é uma figura que passou, que
existiu num tempo, deixando-nos uma lembrança. Cristo vive quer dizer: ele está
conosco. Ele não nos abandona. Isto significa que o cristão, cada um de nós,
nunca é um homem solitário mas solidário porque ele vive com Deus e Deus com
ele. Por isso, o centro da fé cristã não consiste na celebração da memória de
um herói morto, mas da presença de um Vivo e Vivente no qual se decifrou para
todos nós o sentido último da vida.
Se
Cristo está vivo, então todas as coisas da vida devem refletir isto; todas as
coisas devem se voltar para Jesus Cristo. Quando Jesus Cristo é o centro, as
pessoas tornam-se melhores; as pessoas tornam-se mais humanas, buscam o
crescimento e têm vontade de conseguir todas as coisas no crescimento e na
maturidade de Cristo.
O texto diz que Maria
Madalena não consegue ver o significado daquilo que está acontecendo, por isso
corre e vai avisar Pedro e o discípulo amado. Pedro e o discípulo amado também
correm. Mas o discípulo amado corre mais rápido e chega primeiro. Pedro entra no túmulo e Jo não relata a
reação de Pedro. O discípulo amado entra e conclui imediatamente que não
roubaram o Senhor: “E viu e acreditou” (Jo 20,8).
Na Igreja que vai em
busca dos sinais da presença do Senhor há diversos temperamentos, diversas mentalidades:
há o afeto de Maria, a intuição de João e a lentidão de Pedro. Portanto,
existem na Igreja diversos dons espirituais dos quais se originam diversas
disposições: alguns mais velozes, outros mais lentos; mas todos se ajudam
mutuamente, respeitando-se reciprocamente, para juntos procurarem os sinais da
presença de Deus e comunicá-los entre si, apesar da diversidade de reações
diante do mistério. É uma colaboração na diversidade: cada qual comunica ao
outro o pouco que viu e encontrou, e juntos reconstroem a orientação da
existência cristã, ali onde os sinais da presença do Senhor, diante das
dificuldades ou das situações perturbadoras, parecem ter desaparecido. Se na
Igreja primitiva Madalena não tivesse agido dessa forma, comunicando o que
sabia, e se as pessoas não se tivessem ajudado umas às outras, o túmulo teria
ficado ali e ninguém teria ido até lá; teria sido inútil a ressurreição de
Jesus. Somente a busca comum e a ajuda uns dos outros levam finalmente a
encontrar-se juntos, reunidos no conhecimento dos sinais do Senhor.
Celebrar
a Páscoa é afirmar: “Não
sou mais aquele homem do túmulo, intransigente, morto, insuportável, nervoso.
Agora uma nova luz entrou em mim e renasci, por isso. Quero remover aquela
pedra que me está impedindo de ser comunicativo, caridoso; a pedra que me
impede de pedir e de dar o perdão”. FELIZ PÁSCOA!
P. Vitus Gustama,svd