sábado, 18 de abril de 2026

Quinta-feira Da IV Semana Da Páscoa, 30/04/2026

AMOR E SERVIÇO SÃO INSEPARAVEIS NO TRABALHO DE EVANGELIZAÇÃO  

Quinta-Feira Da IV Semana Da Páscoa

Primeira Leitura: At 13,13-25

13 Paulo e seus companheiros embarcaram em Pafos e chegaram a Perge da Panfília. João deixou-os e voltou para Jerusalém. 14 Eles, porém, partindo de Perge, chegaram a Antioquia da Pisídia. E, entrando na sinagoga em dia de sábado, sentaram-se. 15 Depois da leitura da Lei e dos Profetas, os chefes da sinagoga mandaram dizer-lhes: “Irmãos, se vós tendes alguma palavra para encorajar o povo, podeis falar”. 16 Paulo levantou-se, fez um sinal com a mão e disse: “Israelitas e vós que temeis a Deus, escutai! 17 O Deus deste povo de Israel escolheu os nossos antepassados e fez deles um grande povo quando moravam como estrangeiros no Egito; e de lá os tirou com braço poderoso. 18 E, durante mais ou menos quarenta anos, cercou-os de cuidados no deserto. 19 Destruiu sete nações na terra de Canaã e passou para eles a posse do seu território, 20 por quatrocentos e cinquenta anos aproximadamente. Depois disso, concedeu-lhes juízes, até o profeta Samuel. 21 Em seguida, eles pediram um rei e Deus concedeu-lhes Saul, filho de Cis, da tribo de Benjamim, que reinou durante quarenta anos. 22 Em seguida, Deus fez surgir Davi como rei e assim testemunhou a seu respeito: ‘Encontrei Davi, filho de Jessé, homem segundo o meu coração, que vai fazer em tudo a minha vontade’. 23 Conforme prometera, da descendência de Davi Deus fez surgir para Israel um Salvador, que é Jesus. 24 Antes que ele chegasse, João pregou um batismo de conversão para todo o povo de Israel. 25 Estando para terminar sua missão, João declarou: ‘Eu não sou aquele que pensais que eu seja! Mas vede: depois de mim vem aquele do qual nem mereço desamarrar as sandálias’”.

Evangelho: Jo 13, 16-20

Depois de lavar os pés dos discípulos, Jesus lhes disse: 16Em verdade, em verdade vos digo: o servo não está acima do seu senhor e o mensageiro não é maior que aquele que o enviou. 17 Se sabeis isto, e o puserdes em prática, sereis felizes. 18 Eu não falo de vós todos. Eu conheço aqueles que escolhi, mas é preciso que se realize o que está na Escritura: ‘Aquele que come o meu pão levantou contra mim o calcanhar’. 19 Desde agora vos digo isto, antes de acontecer, a fim de que, quando acontecer, creiais que eu sou. 20 Em verdade, em verdade vos digo, quem recebe aquele que eu enviar, me recebe a mim; e quem me recebe, recebe aquele que me enviou”.

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É Preciso Escutar a Palavra De Deus Para Que Vivamos Bem Orientados

Prosseguindo a sua viagem de Chipre chegam à costa meridional da península, Paulo e Bernabé tomam o caminho para as regiões do interior. Os dois chegam à Antioquia da Pisídia e nesta cidade os dois pregam o Evangelho (At 13,13-52). Essa seção para Lucas (autor dos Atos) tem uma grande importância no desenvolvimento dos Atos dos Apóstolos: a abertura total da pregação para o mundo pagão.

Numa sinagoga em que os dois participaram do culto em um Sábado, so chefes da sinagoga lançaram a seguinte pergunta: “Irmãos, se vós tendes alguma palavra para encorajar o povo, podeis falar´. Paulo levantou-se, fez um sinal com a mão e disse: ´Israelitas e vós que temeis a Deus, escutai!”. Assim Lucas relatou sobre o culto num sábado numa Sinagoga em Antioquia de Pisidia. Em Antioquia de Pisidia, no planalto da Turquia atual, existem ruinas dessa Sinagoga do tempo de São Paulo. Cada Sábado se reunia ali a comunidade judaica onde se cantavam os Salmos e se lia a Lei. Durante o culto/celebração qualquer dos participantes podia fazer comentário sobre as leituras. Trata-se de um tipo de homilia.  Jesus fez durante toda sua vida; cada Sábado entrava em Sinagoga e chegou a fazer seu comentário (cf. Lc 4,16-30; cf. Mc 6,1-6; Mt 13,53-58). É o que Paulo se dispõe a fazer. Paulo não perde tempo para evangelizar. No seu comentário (pregação), Paulo não anula o AT e sim que ele culmina com a nova Aliança em Jesus Cristo. Na sua pregação, Paulo faz uma rápida síntese da história da salvação, começando com Antigo Testamento, para mostrar que tudo culimna ou se cumpre em Jesus Cristo. Na sua pregação, Paulo enfatiza que Jesus Cristo é a Palavra da salvação que é mais importante nesse anúncio ou pregação. Jesus Cristo Ressuscitado, que é a Palavra da salvação, era o centro do anúncio primitivo e o é também desta pregação de Paulo. Toda a aproximação de Deus dos homens se realiza plenamente ao ressuscitar Jesus. Trata-se da “salvação que não podeis dar com a Lei de Moisés” (At 13,38). Com a ressurreição de Jesus qualquer um que crer em Jesus, terá um futuro com Deus que já começa no presente. A partir da ressurreição do Senhor, a teologia da esperança nos leva à verdade que nós existimos no mundo, mas acima do mundo; no tempo, mas acima do tempo. Somos seres humanos, mas ao mesmo tempo cidadãos do céu. Fomos criados para além dos horizontes materiais, pois somos o templo do Espírito de Deus (1Cor 3,16-17), somos sopros ou hálitos de Deus (Gn 2,7). Por isso, o nosso Credo termina com uma afirmação de esperança na ressurreição: “Creio na ressurreição da carne e creio na vida eterna”. E o prefácio da missa pelos falecidos destaca a crença cristã na ressurreição: “Senhor, para os que creem em vós, a vida não é tirada, mas transformada...”.

Como na tradição de todos os grandes profetas passados, Paulo sabe que Deus está presente em toda a história de Israel desde a escravidão no Egito até a conquista da Terra prometida. Deus se interessa pelo homem, por cada pessoa humana. Mas não pára por ai. O interesse de Deus para salvar a humanidade por amor é tão grande a ponto de se encarnar numa história (Jo 1,14) e numa geografia (Palestina), numa cultura (judaica) e numa tradição (povo eleito). Jesus é o rosto do Deus misericordioso. A gloria de Deus é o homem totalmente aberto ao amor redentor de Deus, pois somente através do amor é que o homem se realizará plenamente. O amor humaniza e eleva o homem até Deus.

Quando pregava, Paulo sempre anunciava Jesus Cristo como a resposta plena de Deus para as esperanças humanas (Palavra da Salvação). Diante dos judeus de diáspora, Paulo lhes falava partindo do AT até o NT. Diante dos ouvintes pagãos, como quando chegou em Atenas, Paulo citava para eles seus autores prediletos e sabia apelar para sua busca espiritual do sentido da vida.

A exemplo de Paulo jamais podemos ser pregadores da desgraça para os outros, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). Ao contrário, precisamos ser portadores da esperança para os outros para que eles possam encontrar o sentido de sua vida na sua passagem neste mundo. Não percamos nenhuma oportunidade para evangelizar, isto é, para levar a Boa Nova da salvação. Não tenhamos medo de apresentar Jesus, o Salvador, como resposta para todos os anseios da humanidade. Não tenhamos medo de sair de nosso canto ao encontro dos outros levando o que é bom para os outros a fim de podermos viver e conviver na fraternidade, a exemplo de Paulo. É preciso pregarmos que Jesus é a Palavra decisiva, é Aquele em Quem vale a pena crer e a Quem vale a pena a seguir. Sejam nossas palavras em cada momento motivo para cultivar a virtude das pessoas, para suscitar a vontade de viver na verdade, no amor, na compaixão, na fidelidade e na solidariedade.

Jesus Cristo é o grande Enviado do Pai.  Jesus Cristo recorreu a distância imensa entre o céu de Deus e a terra dos homens, e logo, entre a terra de nossos desejos do céu, e o céu das delícias que aguardamos em seu Nome e por sua Graça.

Jesus, o Enviado, nos envia. O Enviado nos recorda em que condições nos envia: “Um servo não pode ser maior que seu senhor, nem um enviado pode ser superior a quem o envia”. Trata-se de uma sublime dignidade e profunda humildade como enviados do Senhor. Tal é a essência de nossa chamada.

Servir Por Amor

O texto do evangelho deste dia é a continuação do relato do lava-pés (Jo 13,1-20). Jesus faz aquilo que os escravos fazem para seu senhor: lavar os pés. Para João o lava-pés representa aquilo que constitui o sentido da vida inteira de Jesus. Trata-se de um ato de amor que vai até o extremo, um amor infinito (cf. Jo 13,1), o único lavatório capaz de preparar o homem para a comunhão plena com Deus. É um ato do Bom Pastor que dá sua vida para suas ovelhas.

Através do gesto do Lava-pés Jesus nos ensina a convertermos o amor fraterno em serviço pela salvação daqueles que o Senhor ama. O amor fraterno, com efeito, não é somente uma lei ou mandamento e sim uma maneira de atuar de cada cristão pela qual todos serão reconhecidos como seguidores de Cristo (cf. Jo 13,35). É o amor que faz o homem livre. O amor é que faz o homem salvo. É o amor que faz alguém crescer saudavelmente. O amor é que dá segurança e não as armas. O amor é que faz o homem irmão do outro. O amor é que faz uma comunidade de irmãos. É o amor que nos leva ao céu. O amor fraterno é uma maneira de atuar dos cristãos e dos que têm boa vontade (cf. Mt 25,37-40). O amor e o serviço estão sempre unidos. Quem ama, serve e quem serve é porque ama. Cristão que não serve por amor não serve como cristão.

Na Igreja de Jesus todos nós precisamos ser servidores pelo bem comum e pela salvação de todos. Na comunidade cristã precisamos nos colocar não a partir de superioridade, do poder e sim a partir da DISPONIBILIDADE, do SERVIÇO, e da AJUDA aos outros. Na Igreja de Jesus precisamos de cristãos que “se imponham” pela qualidade de sua vida ética e de seu serviço fraterno.

E durante o lava-pés, Jesus é chamado de Mestre e de Senhor: “Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, pois eu sou” (Jo 13,13). Sendo o Mestre e o Senhor, Jesus se faz servidor de todos. E no texto do evangelho de hoje Jesus diz aos discípulos: “O servo não está acima do seu senhor e o mensageiro não é maior que aquele que o enviou” (Jo 13,16). “Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz” (v.15), Jesus disse anteriormente. Continuar as ações de Cristo não é repetir ritos, mas atitudes: amor e serviço. O amor sincero e o serviço alegre, ao estilo de Jesus, há de ser o modo de presença de cada cristão neste mundo. Amar e servir verdadeiramente nos fazem felizes (Jo 13,17). Em outras palavras, o amor que se manifestou em Jesus, deve manifestar-se também nos cristãos através do amor mútuo. Jesus Cristo deve ficar bem transparente no modo de viver de cada cristão através do amor que se concretiza também no serviço ao irmão, especialmente ao necessitado.

O Lava-pés quer destacar a centralidade da pessoa. Em nossa sociedade parece que fazer é o termômetro do valor de uma pessoa. Por isso, dentro desta dinâmica é fácil que as pessoas sejam tratadas como instrumentos e facilmente nos utilizamos uns aos outros. Hoje o evangelho nos urge a transformarmos esta dinâmica em uma dinâmica de serviço: o outro nunca é um puro instrumento. Trata-se de viver uma espiritualidade de comunhão onde o outro se torna dom para mim; trata-se de “ser pelos demais”. Segundo Jesus a verdadeira felicidade se encontra no serviço aos demais e em não pensar que um seja maior que os demais. Quem se imagina superior aos demais está usurpando o lugar de Deus. Só ele é o Senhor, todos nós somos irmãos (cf. Mt 23,8). Por isso, qualquer tentativa de classificar as pessoas em mais ou em menos importantes será sem cabimento e não pode ser chamado de cristão.

Fé em Jesus é o seguimento. E seguir o exemplo de Jesus não é repetir ritos, e sim atitudes: amor que se traduz no serviço, entrega e renúncia. O amor sincero e o serviço alegre, ao estilo de Jesus, têm de ser o modo de presença de qualquer cristão no nosso mundo e na nossa sociedade.

Jesus viveu o amor aos homens e o serviço alegre até a morte na cruz. Ele morreu amando e perdoando os que praticaram a maldade contra ele (cf. Lc 23,34). O cristão é aquele que faz aquilo que Jesus fez. De que modo minha vida como cristão é um “serviço até a morte”? Não até a morte física e sim um serviço até a morte do meu tempo, do meu dinheiro, da minha comodidade, do meu egoísmo, da minha razão humana, dos meus sentimentos? De que modo sou servidor? De quem sou “servidor até a morte”? Até onde chega meu serviço?

Aquele que come o meu pão levantou contra mim o calcanhar”, alerta Jesus aos discípulos. Ele fala de Judas. Judas, o traidor, representa os que não abrem mão de seus privilégios e não querem partilhar os bens nem pôr a própria vida a serviço dos outros. O traidor pode estar dentro de qualquer um de nós e dentro de qualquer comunidade. Precisamos estar atentos para não sermos vendedores de Jesus Cristo.

P. Vitus Gustama,SVD

Quarta-feira Da IV Semana Da Páscoa, 29/04/2026

A PALAVRA DE DEUS ILUMINA NOSSA VIDA E NOS TORNA MISSIONÁRIOS DO SENHOR

Quarta-Feira da IV Semana da Páscoa

Primeira Leitura: At 12,24-13,5a

Naqueles dias, 24 a Palavra do Senhor crescia e se espalhava cada vez mais. 25 Barnabé e Saulo, tendo concluído seu ministério, voltaram de Jerusalém, trazendo consigo João, chamado Marcos. 13,1 Na Igreja de Antioquia, havia profetas e doutores. Eram eles: Barnabé, Simeão, chamado o Negro, Lúcio de Cirene, Manaém, que fora criado junto com Herodes, e Saulo.  2 Um dia, enquanto celebravam a liturgia, em honra do Senhor, e jejuavam, o Espírito Santo disse: “Separai para mim Barnabé e Saulo, a fim de fazerem o trabalho para o qual eu os chamei”. 3 Então eles jejuaram e rezaram, impuseram as mãos sobre Barnabé e Saulo, e deixaram-nos partir. 4 Enviados pelo Espírito Santo, Barnabé e Saulo desceram a Selêucia e daí navegaram para Chipre. Quando chegaram a Salamina, começaram a anunciar a Palavra de Deus nas sinagogas dos judeus. Eles tinham João como ajudante.

Evangelho: Jo 12,44-50

Naquele tempo, 44Jesus exclamou em alta voz: “Quem crê em mim não é em mim que crê, mas naquele que me enviou. 45Quem me vê, vê aquele que me enviou. 46Eu vim ao mundo como luz, para que todo aquele que crê em mim não permaneça nas trevas. 47Se alguém ouvir as minhas palavras e não as observar, eu não o julgo, porque eu não vim para julgar o mundo, mas para salvá-lo. 48Quem me rejeita e não aceita as minhas palavras já tem o seu juiz: a palavra que eu falei o julgará no último dia. 49Porque eu não falei por mim mesmo, mas o Pai, que me enviou, ele é quem me ordenou o que eu devia dizer e falar. 50Eu sei que o seu mandamento é vida eterna. Portanto, o que eu digo, eu o digo conforme o Pai me falou”.

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Os Dons São Dados a Cada Um Para Edificar a Comunidade

Na Igreja de Antioquia, havia profetas e doutores. Eram eles: Barnabé, Simeão, chamado o Negro, Lúcio de Cirene, Manaém, que fora criado junto com Herodes, e Saulo”. Através da Primeira Leitura ficamos sabendo de que a Igreja fundada em Antioquia tinha profetas e doutores. Desde o princípio as comunidades cristãos estavam bem estruturada, tanto do ponto de vista de dons como do ponto de vista missionário. Há “cargos” e responsabilidades diferentes, determinados, sem dúvida, pelas competências humanas diferentes e por vocações do Espírito Santo diversificadas. A comunidade de Antioquia é muito missionária e aberta, cheia de vida: “A Palavra do Senhor crescia e se espalhava cada vez mais”. Ela é presidida por cinco pessoas “carismáticas”, isto é, aqueles que têm carisma, ou dons especiais que são chamadas de “profetas-doutores”. Estes mesmos títulos ou dons são conferidos para as mesmas pessoas. Todos os dons ou carismas são usados ou vividos para a edificação da comunidade e não para a autopromoção.

Os profetas são cristãos que exortam e fortalecem, anunciam o que é de Deus e denunciam tudo que está contra Deus e contra a dignidade do ser humano, pois Deus está sempre do lado do homem, de qualquer homem. Os profetas têm a capacidade de discernir a vontade de Deus nos acontecimentos concretos da vida humana e da história e logo anunciam a vontade de Deus para o povo.

Os doutores também são cristãos que ensinam (adotados de capacidade para ensinar). Os doutores cristãos têm uma capacidade especial para discernir a vontade de Deus nas Sagradas Escrituras, comentando o AT e o NT para as pessoas.

Através de seus dons os cinco profetas-doutores edificam a comunidade de Antioquia. Evidentemente, tudo indica que os Cinco profetas-doutores são pessoas cultas e bem formadas e conduzidas pelo Espirito Santo. Não é por acaso que elas foram escolhidas.

É preciso aprendermos a trabalhar a partir da área de competência de cada um ou a partir dos dons ou talentos para edificar a comunidade. Os dons são dados por Deus para o bem comum e não para a autopromoção. Quanto menos se sabe (sem área de competência), mais palpite se dá, e menos certeza, pois falta a fundamento ou a fundamentação. Quando não levarmos a sério o trabalho na Igreja, de acordo com a competência ou de acordo com os talentos, a Igreja terá nada a oferecer para a humanidade.

As Orações Devem Ter Como Consequência o Apostolado

Um dia, enquanto celebravam a liturgia, em honra do Senhor, e jejuavam, o Espírito Santo disse: ´Separai para mim Barnabé e Saulo, a fim de fazerem o trabalho para o qual eu os chamei´”. Aqui a oração não é somente um momento de pedido (graça/bênção ou perdão), nem apenas um momento de ação de graças (agradecer pelas graças recebidas), mas também é um momento em que Deus quer se revelar. O ato de jejuar é um ato de dar espaço para Deus falar ou se revelar. De fato quando a comunidade estava em oração o Espirito Santo disse: “Separai para mim Barnabé e Saulo, a fim de fazerem o trabalho para o qual eu os chamei”.

A revelação durante a oração (liturgia) para separar Barnabé e Saulo nos mostra que rezar não é suficiente. Cada oração feita deve ser transformada em missão. A oração sem um apostolado nos mostra que queremos apenas nos aproveitar de Deus. Queremos que Deus nos sirva, mas nós mesmos não queremos servir a Deus através de nossa participação na missão da comunidade a partir de nossos dons. Se nossas orações, se nossos jejuns não tem como fruto um apostolado, significa que na nossa oração e jejum não buscamos o Senhor e sim nós próprios. Assim caímos num romanticismo espiritual e recusamos viver totalmente comprometidos com Cristo e Seu Evangelho. Deus reservou todos nós cristãos para Ele e comunicou-nos seu Espirito Santo e nos envia para que anunciemos Sua Palavra ao mundo.

Quando uma comunidade cristã estiver unida e se deixar animar pelo Espirito de Deus, imitando o exemplo da comunidade de Antioquia, ela se tornará mais fecunda em seu apostolado missionário. A fecunda missionária é o sinal de que a comunidade é guiada pelo Espirito Santo, como era a comunidade de Antioquia.

Jesus e o Pai que O Enviou São Um Só

“Quem crê em mim não é em mim que crê, mas naquele que me enviou. Quem me vê, vê aquele que me enviou... Porque eu não falei por mim mesmo, mas o Pai, que me enviou, ele é quem me ordenou o que eu devia dizer e falar. Eu sei que o seu mandamento é vida eterna. Portanto, o que eu digo, eu o digo conforme o Pai me falou”. Jesus disse isto em voz alta. 

Com esta afirmação Jesus enfatiza a profundidade de relação entre Ele e o Pai. A união tão íntimo com o Pai faz com que Jesus não pode fazer outra coisa a não ser a vontade de Deus. Anteriormente Jesus disse: “Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e consumar a sua obra” (Jo 4,34). Por causa dessa relação de Jesus com o Pai tão intima, unida e profunda é que ter a fé em Jesus, o Filho de Deus, significa ter a fé em Deus Pai. Trata-se de uma só fé e de uma só realidade. Consequentemente, rejeitar Jesus significa rejeitar o próprio Deus. Acolher a Palavra de Jesus que é o Verbo de Deus encarnado (Jo 1,1-3.14) significa acolher a Palavra do Pai. E a acolhida da Palavra de Jesus faz o homem que crê em Jesus passar da morte para a vida, das trevas para a luz, pois a Palavra que Ele nos anuncia não vem d’Ele, mas do Pai, e por isso, leva o homem para Deus, isto é, para a vida eterna, para a salvação. Crer no Filho significa ouvir suas Palavras (Jo 12,47), que são Espírito e vida (Jo 6,63.68)     

A Presença de Jesus No Mundo Como Luz

Eu vim ao mundo como luz, para que todo aquele que crê em mim não permaneça nas trevas”. 

A Palavra é luz (Jo 1,4-5). Ela faz existir e ver aquilo que existe. Jesus é a Luz do mundo (Jo 8,12; 9,5; 12,35): n´Ele viemos à luz como filhos. O Crer está conectado  à luz: revela a realidade. Quem cre em Jesus, Luz do mundo, mudou de morada: deslocou-se das trevas para a luz, passou da morte para a vida (Jo 5,24). Crer no Filho é ver a luz da nossa verdade e de Deus: conhecer a Ele como Pai e nós como seus filhos.           

Na escuridão ninguém consegue ver nada. Não há cores. Não há como medir a distância. A escuridão limita qualquer movimentação. Todos ficam apalpando. Imagine uma mente escura! Nada se vê. É uma desorientação total. Com a mente escura não se sabe para onde vai, por que vive, que senti do tem a vida. é uma vida sem cor nem sabor. A luz torna tudo claro, faz-nos perceber variedade de cores. A luz nos mostra tudo. Mesmo que a luz crie sombra, mas até a sombra também é iluminada.

A presença de Jesus no mundo tem um objetivo bem claro e preciso: ser Luz para a humanidade encontrada nas trevas do pecado (cf. Jo 8,12). Trata-se de uma presença que salva apesar de o homem ter que encarar a própria verdade do pecado que o faz mergulhar na escuridão, pois Jesus vem como luz que ilumina tudo e por isso, nada se esconde. Mas ao aceitar Jesus como a própria Luz do mundo o homem passa a ser um reflexo para iluminar as pessoas ao seu redor e seu próprio caminho será iluminado.

Jesus é a Luz que Deus colocou na história da humanidade em geral, e na história de cada um de nós em particular. A Luz do Ressuscitado permite cada um de nós detectar os empecilhos que o egoísmo coloca em seu caminho para desviá-lo do amor e da justiça. A luz de Cristo em cada um de nós denuncia as artimanhas do mal que destrói a vida dos outros. Viver na Luz de Cristo faz cada um de nós viver na transparência e não na aparência, pois a luz de Cristo penetra no nosso ser e tudo se torna transparente e capaz de iluminar as pessoas ao redor. A Luz de Cristo ilumina nossa mente mesmo que nos encontremos no meio das dificuldades, pois tudo será iluminado. A Luz de Cristo em nós faz com que captemos com facilidade as necessidades dos outros. A mente escura só faz confusão. A mente iluminada traz a serenidade e causa uma reflexão mais profunda. A mente iluminada pela Palavra de Deus aponta e indica o caminho de solução para qualquer dificuldade. Uma pessoa iluminada pela Palavra de Deus ilumina qualquer um com sua palavra.

Optar pela Luz é optar pela vida e pela salvação. Optar pela Luz é optar pela verdade, pois não há nada que seja escondido perante a luz. Optar pela Luz é optar pela transparência e não pelo jogo de esconde-esconde com o intuito de esconder a verdade. Optar pela Luz é optar pela originalidade e não pela falsidade ou artificialidade. Optar pela Luz é optar pelo caminho certo e não inventar caminho com os fins egoístas.  Optar pela Luz é saber discernir os caminhos. Optar pela Luz é saber discernir o que é certo e o que não o é. Optar pela Luz de Cristo é optar pela vida iluminada a fim de iluminar os demais homens. Escutar Jesus é deixar-se guiar pela Luz de Cristo. Se o objetivo da presença de Jesus no mundo é ser Luz para a humanidade, consequentemente cada cristão, seu seguidor, ao contemplar a Luz do mundo (Jo 8,12), deve viver como luz para os outros: iluminar e indicar o caminho da verdade. É contemplar a verdadeira Luz do mundo para ser reflexo da mesma Luz para o mundo em que vivemos.

Uma Presença Que Separa

Quem me rejeita e não aceita as minhas palavras já tem o seu juiz: a palavra que falei o julgará no último dia”.

Apesar de Jesus vir ao mundo não para condenar, e sim como uma Luz para a humanidade, mas o evangelho de hoje nos enfatiza que a sua palavra e a sua missão realizam automaticamente um juízo e tornam-se critério último de verdade e de ação. Diante da presença de Jesus como a Luz do mundo e como a Palavra do Pai o homem tem que se posicionar: ou aceitar ou recusar. Trata-se do momento de julgar, isto é, do momento de separação. Deus não separa o homem d’Ele. Mas por causa de sua liberdade o homem é capaz de se separar de Deus. Onde Deus for excluído, entra a agressão, a violência, o assassinato, a exploração, a opressão e assim por diante.

Por isso, o juízo do homem consiste num auto-juízo. O homem, com sua conduta, pronuncia sentença contra si mesmo no momento presente em que ele opta por Jesus e sua palavra ou recusa Jesus e não viver de acordo com Sua Palavra. A decisão se dá aqui e agora entre fé e incredulidade. O que ocorrerá no “último dia” não será mais que a manifestação pública da decisão tomada aqui. Resta a misericórdia divina cuja competência é exclusivamente de Deus para além da morte. Homem nenhum pode penetrar no mistério da misericórdia de Deus, pois “os meus caminhos estão acima dos vossos caminhos e os meus pensamentos acima dos vossos pensamentos”, diz Deus (Is 55,9).

A minha atitude diante de Jesus, e de Sua palavra, realiza o juízo em relação a mim mesmo, agora e no futuro. Na pessoa de Jesus está presente a realidade definitiva. E eu devo confrontar-me, aqui e agora, com essa realidade, porque é o definitivo que avalia o transitório. É hoje que eu decido o meu destino eterno. É hoje que a minha vida está suspensa entre a vida e a morte, entre a luz e as trevas, entre o tudo e o nada, porque é hoje que me confronto com Jesus e com a sua palavra, e é hoje que tenho de optar. O espaço dado a mim é entre o nascimento e a morte. Além disso, não é minha competência. O momento presente é sumamente importante, porque é o hoje de Deus, que podemos acolher ou rejeitar. Desse acolhimento ou rejeição derivam consequências eternas. Jesus não está nos ameaçando; ele nos estimula para aproveitarmos cada momento para fazer o que é digno para o bem do homem e sua salvação.

P. Vitus Gustama,svd

Terça-feira Da IV Semana Da Páscoa, 28/04/2026

CONHECER E ESCUTAR O BOM PASTOR

Terça-Feira da IV Semana da Páscoa

Primeira Leitura: At 11,19-26

Naqueles dias, 19 aqueles que se haviam espalhado por causa da perseguição que se seguiu à morte de Estêvão chegaram à Fenícia, à ilha de Chipre e à cidade de Antioquia, embora não pregassem a Palavra a ninguém que não fosse judeu. 20 Contudo, alguns deles, habitantes de Chipre e da cidade de Cirene, chegaram a Antioquia e começaram a pregar também aos gregos, anunciando-lhes a Boa Nova do Senhor Jesus. 21 E a mão do Senhor estava com eles. Muitas pessoas acreditaram no Evangelho e se converteram ao Senhor. 22 A notícia chegou aos ouvidos da Igreja que estava em Jerusalém. Então enviaram Barnabé até Antioquia. 23 Quando Barnabé chegou e viu a graça que Deus havia concedido, ficou muito alegre e exortou a todos para que permanecessem fiéis ao Senhor, com firmeza de coração. 24 É que ele era um homem bom, cheio do Espírito Santo e de fé. E uma grande multidão aderiu ao Senhor. 25 Então Barnabé partiu para Tarso, à procura de Saulo. 26 Tendo encontrado Saulo, levou-o a Antioquia. Passaram um ano inteiro trabalhando juntos naquela Igreja, e instruíram uma numerosa multidão. Em Antioquia os discípulos foram, pela primeira vez, chamados com o nome de cristãos.

Evangelho: Jo 10,22-30

22 Celebrava-se, em Jerusalém, a festa da Dedicação do Templo. Era inverno. 23 Jesus passeava pelo Templo, no pórtico de Salomão. 24 Os judeus rodeavam-no e disseram: 'Até quando nos deixarás em dúvida? Se tu és o Messias, dize-nos abertamente.' 25 Jesus respondeu: 'Já vo-lo disse, mas vós não acreditais. As obras que eu faço em nome do meu Pai dão testemunho de mim; 26 vós, porém, não acreditais, porque não sois das minhas ovelhas. 27 As minhas ovelhas escutam a minha voz, eu as conheço e elas me seguem. 28 Eu dou-lhes a vida eterna e elas jamais se perderão. E ninguém vai arrancá-las de minha mão. 29 Meu Pai, que me deu estas ovelhas, é maior que todos, e ninguém pode arrebatá-las da mão do Pai. 30 Eu e o Pai somos um.'

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Martírio De Estêvão Resulta Na Expansão Da Igreja E Na Fundação De Novas Comunidades Cristãs

Aqueles que se haviam espalhado por causa da perseguição que se seguiu à morte de Estêvão chegaram à Fenícia, à ilha de Chipre e à cidade de Antioquia.... Em Antioquia os discípulos foram, pela primeira vez, chamados com o nome de cristãos”. É a citação de uma parte do texto da Primeira Leitura.

Na Primeira Leitura fala-se da fundação da Igreja de Antioquia da Síria, uma das maiores cidades do império nessa época. A fundação da Igreja de Antioquia, capital de Síria é uma etapa principal na expansão da Igreja. Esta expansão se deve à dispersão dos cristãos (judeu-cristãos e pagãos convertidos) depois da morte de Estêvão de maneira trágica (foi apedrejado até a morte). Perseguidos em Jerusalém, expulsos de sua terra natal, esses cristãos perseguidos fundam comunidades novas lá onde se encontram dispersos. Os perseguidores não conseguem bloquear a expansão da Igreja. O sangue do mártir Estevão se torna semente para a expansão e o crescimento da Igreja. O sangue dos mártires é a semente para a vida cristã.

Antioquia se transforma no ponto mais importante da vivência e da difusão do cristianismo. O sinal disso é a denominação de “cristãos” que nasceu nessa cidade (Antioquia). Isto demonstra o reconhecimento da presença e de sua influência nessa cidade. Com o nascimento da nova Igreja (nova Comunidade cristã), o centro de gravidade se desloca de Jerusalém para Antioquia, pois a partir de Antioquia é que partirão as missões dirigidas à evangelização do mundo grego-pagão.

Através do relato da expansão da Igreja, o autor dos Atos (Lucas) quer nos dizer que a fundação da Igreja de Antioquia está dentro do plano de Deus. De fato, a potência do Senhor é que faz a missão prosperar: “A mão do Senhor estava com eles. Muitas pessoas acreditaram no Evangelho e se converteram ao Senhor”. Os missionários para Antioquia estão abertos à ação divina e a ação divina se opera através deles. O resultado desta ação conjunta (divina-humana) é o número notável dos convertidos.

Quando não contarmos com o Senhor no nosso trabalho missionário e apenas contarmos com nossa capacidade técnica e organizacional nada prosperará. Se der certo, tudo será atribuído ao autor do trabalho que resulta no orgulho. Mas se não der certo, serão procurados os culpados, menos a fraqueza e a incapacidade do chefe do trabalho missionário.

Barnabé, Homem Conduzido Pelo Espirito de Deus

A notícia chegou aos ouvidos da Igreja que estava em Jerusalém. Então enviaram Barnabé até Antioquia. Ele era um homem bom, cheio do Espírito Santo e de fé”. É interessante observar este detalhe. Os cristãos não se contentam com a fundação de novas Igrejas locais. Eles cuidam de incorporá-las à unidade da Igreja única: “Creio na Igreja, Una, Santa, Católica e Apostólica”. São criados laços entre uma e outra comunidade. Por esta razão Barnabé, membro da comunidade de Jerusalém é enviado para a comunidade de Antioquia. Através do ato de enviar Barnabé para Antioquia Lucas quer nos mostrar que nenhuma comunidade pode se tornar um gueto, um círculo cerrado, um clube só reservado somente a alguns membros. Na linguagem de hoje fala-se da paróquia como uma rede de comunidades. Quando se fala de “rede” é porque há interligação ou interconexão. Nenhuma comunidade pode se considerar como uma paróquia dentro da paróquia. O espírito comunitário e paroquial tem que ser mantido por todos os membros de uma paróquia.  

Barnabé foi escolhido como enviado de Jerusalém para Antioquia. O próprio texto nos dá razão desta escolha: “Ele era um homem bom, cheio do Espírito Santo e de fé”.

Barnabé é o apelido que os apóstolos deram a um levita natural de Chipre. Seu nome judeu é José. Mas Lucas interpretou seu nome apostólico como “filho da consolação” para sugerir algo do seu caráter (At 4,36). Segundo Livro dos Atos dos Apóstolos, Barnabé era uma pessoa boa, generosa (At 4,32-37) e calorosa, que ofertou abundantemente seu tempo, seus bens e seus talentos para a causa de Cristo, tanto em casa como nos lugares distantes. Era um homem de oração, que buscava a direção do Espirito Santo para tomar decisões. Ele encorajava seus companheiros de trabalho no ministério cristão e era um amigo sempre disposto a dar uma segunda chance a quem precisasse (At 15,36-39). Barnabé é mencionado 29 vezes em Atos e cinco vezes nas Cartas de Paulo. Ele é um grande exemplo para qualquer cristão.

Escutar A Voz Do Verdadeiro Pastor            

O texto do evangelho deste dia tem uma conexão com o discurso anterior sobre o Pastor (Jo 10,1-21). O texto diz: “As minhas ovelhas escutam a minha voz...” (v.27). Também os a dversários são chamados a escutar a voz do Bom Pastor, Jesus. Jesus, como o Bom Pastor, está falando para eles, pois Jesus quer salvá-los também, pois quem cre no Filho enviado pelo Pai, tem a vida eterna (Jo 3,16). 

As minhas ovelhas escutam a minha voz...”. Sempre ouvimos, mas será que escutamos? Escutar é uma coisa mais séria, requer uma certa dose de interesse, de preocupação, de atenção. Há que parar-se para detectar o que ouvimos, para clarificá-lo, para assimilá-lo e para respondê-lo. Escutar é um exercício humano para certa categoria.  Na vida em geral, muitas vezes acontece que ouvimos, mas não escutamos. Tantas tragédias poderiam ser evitadas se soubéssemos escutar e viver os bons conselhos e orientações. Tantas fatalidades na vida de tantos cristãos poderiam ser afastadas, se vivessem de acordo com os ensinamentos de Cristo. 

A escuta é uma palavra-chave que caracteriza toda a tradição do povo hebraico. Escutar é um dos mandamentos na Bíblia: “Escutai, ó Israel” (cf. Dt 6,4; Mc 12,29). Ouvir profundamente significa escutar as palavras, os pensamentos, a tonalidade dos sentimentos, o significado pessoal até mesmo o significado que subjaz às intenções conscientes, até os gritos enterrados muito baixo da superfície do interlocutor. Escutar é uma coisa mais séria, requer uma certa dose de interesse, de preocupação, de atenção. Há que parar-se para detectar o que ouvimos, para clarificá-lo, para assimilá-lo e para respondê-lo. Escutar é um exercício humano para certa categoria. Muitas vezes acontece que ouvimos mas não escutamos. O povo eleito é formado pela escuta da Palavra de Deus. E a maior das tragédias na Bíblia é causada pela falta da escuta da Palavra de Deus. Quando nos abrirmos para o discurso divino, aprenderemos que nós somos escuta, dom e que nos realizamos na gratuidade. 

“Minhas ovelhas escutam a minha voz”. Esta é nossa tarefa essencial e permanente. Devemos fechar nossos ouvidos a outras vozes, a outras mensagens para tê-los abertos à Palavra do Senhor, pois só Ele tem palavras de vida eterna (cf. Jo 6,68), somente Ele é a verdade (Jo 14,6), somente Ele é a Luz (Jo 8,12). 

A “voz” de Jesus Cristo ressoa toda vez que alguém viver e anunciar a nova humanidade onde todos se sentem irmãos; toda vez que alguém pregar e dar testemunho da justiça, da liberdade, da verdade, do amor, da paz, da fraternidade universal; toda vez que alguém nos fizer descobrir o verdadeiro sentido da vida. Seguidor de Cristo é aquele que reconhece sua voz nos profetas de hoje. 

Nós vivemos no meio do mundo de muitas vozes. Ouvimos muitos apelos e vozes e nunca faltam mensagens enganosas. Para não cair na armadilha é necessário ter o discernimento e apurar os ouvidos para escutar melhor a voz do verdadeiro Pastor que é Jesus Cristo. Somente Cristo é o pastor que não nos decepciona. É ele quem dá sentido à nossa vida. É preciso ler, escutar meditar a Palavra de Deus frequentemente para poder identificar a voz do Pastor no meio da multidão de vozes que também querem chamar a nossa atenção. 

A Certeza De Sermos Conhecidos E Amados Por Deus        

“Eu conheço as minhas ovelhas” (v.27). “Conhecer” biblicamente não se refere a um mero conhecimento intelectual. Conhecer na bíblia ultrapassa o saber intelectual e abstrato. O verbo “conhecer” no vocabulário bíblico e na língua hebraica implica o amar, o desejar o bem da pessoa, o sentir afeto por ela. Isto quer dizer que somente se pode chegar a conhecer uma pessoa no âmbito da relação intima e pessoal. O verbo “conhecer” exprime muito mais a relação de amor. Quando Jesus diz que conhece as suas ovelhas, isto quer dizer que tem para com todos nós uma relação de amor profundo. O mesmo amor que o une ao Pai, Jesus exprime também para com as suas ovelhas, todos nós: um amor fiel, eterno, indestrutível. Deus me ama com os meus ideais e minhas decepções, com os meus sacrifícios e alegrias, com os meus sucessos e fracassos.       

“Eu conheço as minhas ovelhas”. Esta frase é uma mensagem de ternura. Ternura é amor respeitoso, delicado, concreto, atento e alegre; é amor sensível, aberto à reciprocidade, não ávido nem ganancioso nem pretensioso nem possessivo, mas forte na sua fraqueza, eficaz e vitorioso, desarmado e desarmante. Eu não sou anônimo para Deus. Ele conhece minhas vitórias e derrotas, minhas decepções e minhas alegrias, minhas preocupações e minhas felicidades. Apesar das minhas fraquezas ele me ama. O amor do Senhor me capacita para me levantar novamente e continuar minhas lutas pela vida vivida da sua dignidade. 

Na nossa vida facilmente desvalorizamos a dimensão afetiva. Dedicamos muito mais atenção à dimensão do fazer, do produzir, do ter, esquecendo-nos das outras dimensões ligadas às afetivas. Isto pode acontecer dentro de família, pois cada um acaba correndo atrás de seus compromissos, de sua carreira, descuidando de cultivar os relacionamentos afetivos entre as pessoas. 

Seguir Jesus, Nosso Bom Pastor 

E elas me seguem”, diz Jesus. A fé consiste em seguir Jesus por amor, vivendo como Ele viveu (cf.1Jo 2,6). Nosso cristianismo não pode consistir somente em cumprimento de umas normas ou de uns ritos. Não há fé cristã sem uma relação interior, pessoal e livre com Jesus. O nosso caminhar atrás das pegadas do Bom Pastor é paz, sossego, segurança, gozo inefável e glorioso. A fé é o seguimento: “Eles me seguem”. É preciso deixar Jesus na frente para que não fiquemos perdidos neste mundo, pois o nosso destino é a Casa do Pai onde se encontra Jesus. No seguimento nunca é tarde para retificar, corrigir e melhorar nossa vida cristã.          

Jesus continua a ser o Bom Pastor no mundo inteiro, para todos os seres humanos. Mas todos nós, cristãos, por nosso testemunho, participamos do pastoreio universal de Jesus Cristo. Ao mesmo tempo em que somos conduzidos, ouvindo a sua voz, sendo ovelhas, devemos exercer também a missão de pastores, conduzindo os outros até as fontes da vida: Cristo.         

“Não basta apenas falar de Jesus, é preciso obras, é necessária a vivência dos valores evangélicos, o amor precisa ser concretizado. Mas acima de tudo, é necessária a consciência de que somos participantes da divina missão de salvação dos homens e que quem realiza esta obra não somos nós, mas sim o próprio Deus, é ele quem pastoreia através de nós. Somos na verdade canais de graça para que os homens ouçam a voz de Jesus, sintam-se integrantes do seu rebanho e o sigam rumo à vida eterna” (Comentário do site da CNBB).

P. Vitus Gustama,svd

Segunda-feira Da IV Semana Da Páscoa, 27/04/2026

EU NÃO SOU SOLITÁRIO, POIS EU SOU CONHECIDO PELO BOM PASTOR

Segunda-Feira Da IV Semana Da Páscoa

Primeira Leitura: At 11,1-18

Naqueles dias, 1 os apóstolos e os irmãos, que viviam na Judeia, souberam que também os pagãos haviam acolhido a Palavra de Deus. 2 Quando Pedro subiu a Jerusalém, os fiéis de origem judaica começaram a discutir com ele, dizendo: 3 “Tu entraste na casa de pagãos e comeste com eles!” 4 Então, Pedro começou a contar-lhes, ponto por ponto, o que havia acontecido: 5 “Eu estava na cidade de Jope e, ao fazer oração, entrei em êxtase e tive a seguinte visão: Vi uma coisa parecida com uma grande toalha que, sustentada pelas quatro pontas, descia do céu e chegava até junto de mim. 6 Olhei atentamente e vi dentro dela quadrúpedes da terra, animais selvagens, répteis e aves do céu. 7Depois ouvi uma voz que me dizia: Levanta-te, Pedro, mata e come’. 8 Eu respondi: ‘De modo nenhum, Senhor! Porque jamais entrou coisa profana e impura na minha boca’. 9 A voz me disse pela segunda vez: ‘Não chames impuro o que Deus purificou’.  10 Isso se repetiu por três vezes. Depois a coisa foi novamente levantada para o céu. 11 Nesse momento, três homens se apresentaram na casa em que nos encontrávamos. Tinham sido enviados de Cesaréia à minha procura. 12 O Espírito me disse que eu fosse com eles sem hesitar. Os seis irmãos que estão aqui me acompanharam e nós entramos na casa daquele homem. 13 Então ele nos contou que tinha visto um anjo apresentar-se em sua casa e dizer: ‘Manda alguém a Jope para chamar Simão, conhecido como Pedro. 14 Ele te falará de acontecimentos que trazem a salvação para ti e para toda a tua família’. 15 Logo que comecei a falar, o Espírito Santo desceu sobre eles, da mesma forma que desceu sobre nós no princípio. 16 Então eu me lembrei do que o Senhor havia dito: ‘João batizou com água, mas vós sereis batizados no Espírito Santo’. 17 Deus concedeu a eles o mesmo dom que deu a nós que acreditamos no Senhor Jesus Cristo. Quem seria eu para me opor à ação de Deus?” 18 Ao ouvirem isso, os fiéis de origem judaica se acalmaram e glorificaram a Deus, dizendo: “Também aos pagãos Deus concedeu a conversão que leva para a vida!”

Evangelho: Jo 10,11-18

Naquele tempo, disse Jesus: 11 “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas. 12 O mercenário, que não é pastor e não é dono das ovelhas, vê o lobo chegar, abandona as ovelhas e foge, e o lobo as ataca e dispersa. 13 Pois ele é apenas um mercenário e não se importa com as ovelhas. 14 Eu sou o bom pastor. Conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem, 15 assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai. Eu dou minha vida pelas ovelhas. 16 Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil: também a elas devo conduzir; escutarão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor. 17 É por isso que o Pai me ama, porque dou a minha vida, para depois recebê-la novamente. 18 Ninguém tira a minha vida, eu a dou por mim mesmo; tenho poder de entregá-la e tenho poder de recebê-la novamente; esta é a ordem que recebi de meu Pai”.

A Salvação De Deus É Para Todos Os Convertidos

Lucas, o autor dos Atos dos Apóstolos, dá muita importância ao episódio do pagão convertido, Cornélio, em seu livro. Para este assunto Lucas dedica os capítulos 10 e 11 dos Atos. Hoje lemos, como Primeira Leitura da missa, At 11,1-18, em que Pedro é obrigado a explicar todo o episódio, pois a comunidade de Jerusalém questiona sobre o comportamento de Pedro em deixar os pagãos se tornarem cristãos.

Nestes textos (At 10 e 11) se fala de um assunto muito importante para Lucas: admitir ou não admitir os pagãos à fé cristã, e com que condição? A conversão de Cornélio (era pagão) e sua família à fé cristã é o protótipo para outros casos, como foi o episódio do eunuco Etíope convertido com o diácono Filipe. 

A exegese descobre neste relato duas tradições distintas referindo-se a dois problemas diferentes. Uma tradição admite a entrada dos pagãos na Igreja (At 10,1-18; 18,26; 11,1.11-18). Outra tradição, que se preocupa mais com a pureza ritual, trata das relações entre cristãos circuncidados (judeu-cristãos) e cristãos incurcindados (At 10,10-16; 11,2-10). Trata-se de uma tradição mais fechada e intransigente com as novidades. Essa tradição defende os costumes judeus. Posteriormente, os adeptos dessa tradição darão o que falar, pois deles saem os grupos judaizantes que criarão dificuldades sérias em algumas das comunidades evangelizadas por Paulo. As perspectivas das duas tradições permanecem bastante autônomas.

Vemos o processo de mudança que se dá em Pedro. Por sua formação judaica, Pedro não podia admitir tão facilmente a abertura universal da Igreja ao mundo pagão simbolizada na visão da toalha e os alimentos que não se podiam comer: “De modo nenhum, Senhor! Porque jamais entrou coisa profana e impura na minha boca!”, reagiu Pedro. Recordamos a recusa de Pedro quando Jesus estava para lavar seus pés (Jo 13,6-11). Agora chegou a mudança. O argumento que convence Pedro, logo a comunidade também, é que Deus tomou a iniciativa: “Não chames impuro o que Deus purificou” (referente às comidas). “João batizou com água, mas vós sereis batizados no Espírito Santo. Deus concedeu a eles o mesmo dom que deu a nós que acreditamos no Senhor Jesus Cristo. Quem seria eu para me opor à ação de Deus?”, argumentou Pedro diante da comunidade judeu-cristã em Jerusalém (desta vez referido à admissão dos pagãos). O Espirito Santo vai guiando Pedro para a universalidade da fé cristã. Já que os Apóstolos não se decidiam, foi o próprio Espirito Santo que batizou a família de Cornélio, com o “novo Pentecostes” que agora sucede na casa de um pagão.

Outra dado admirável merece ser notado é que Pedro, autoridade máxima, aceita a interpelação crítica de alguns membros da comunidade de Jerusalém. Pedro não se precipita em tomar decisão. Ele dá explicações oportunas para a comunidade. E a comunidade as aceita, reconhecendo que “Também aos pagãos Deus concedeu a conversão que leva para a vida!”.

A lição da abertura da comunidade apostólica, superando as dificuldades que surgiam por sua formação anterior, é sempre atual para a Igreja. Isto supõe que a Igreja em geral e cada membro da Igreja em particular sejam dóceis aos sinais com que o Espirito Santo nos quer conduzir para as fronteiras sempre além do habitual. A razão é simples, mas profunda: Deus quer salvar todos os seres humanos. Da parte de Deus há abertura permanente. A porta da salvação é aberta para quem decidir entrar. Ser pagão não é questão pertencer ou não pertencer a uma crença. Ser pagão é questão de modo de viver fraternalmente. Quando vir no rosto do outro meu próprio rosto e no seu coração, o meu próprio coração, logo pertenço a Deus mesmo que eu não faça parte de uma crença ou religião (leia Mt 25,31-46).

Aprendemos também de Pedro e da comunidade de Jerusalém que o diálogo sincero resolve um momento de tensão causada pelos conflitos, que poderia se tornar muito grave. A palavra “conflito” provem do latim “conflictu” significa, “choque; embate; luta”. O conflito é uma situação que envolve um problema, uma dificuldade e pode resultar posteriormente em confrontos, geralmente entre duas partes ou mais, cujos interesses, valores e pensamentos observam posições absolutamente diferentes e opostas. Mas através de um diálogo sincero haverá o encontro em vez de confronto. Em cada diálogo há encontro. Mas em cada confronto há guerra. Numa guerra ninguém sai vitorioso, pois de dois lados há vítimas que não são poucos. Em tudo é preciso ficarmos dóceis ao Espirito Santo para que tudo seja resolvido na paz do Senhor.

Fica para nós pergunta: será que somos dóceis aos sinais com que o Espirito Santo nos quer conduzir para além do habitual de acordo com o plano missionário e universal de Deus? Será que somos vítimas de ataduras de nossa formação anterior, como Pedro no seu caminho inicial para a abertura da Igreja para o mundo pagão? Será que praticamos discriminações que são contrárias ao amor universal de Deus e à vontade ecumênica de Seu Espirito? Como resolvemos os conflitos e as tensões inevitáveis que surgem numa comunidade ou simplesmente na comunidade da qual fazemos parte? Sabemos dialogar ou só queremos impor? Estamos no mundo atual em que tudo se acelera. A mudança do tempo nos leva ao tempo de mudança: nossos conceitos, nossa mentalidade, nossos hábitos e assim por diante. É preciso pedirmos a inspiração do Espirito de Deus para que tenhamos o discernimento diante dos acontecimentos.

Somos Ovelhas Do Bom Pastor Que Nos Dá Sua Vida por nós

Depois de ter dito ser a “Porta” da salvação (cf. Jo 10,1-10), Jesus se identifica como “o Bom Pastor”. “Bom” significa verdadeiro, autêntico. Em termos da bondade, Jesus é o Pastor-modelo, pois cuida bem das ovelhas. Ele é o Pastor enquanto Cordeiro imolado (sacrificar-se para salvar os homens) e vitorioso, que guia o rebanho para as fontes da água da vida (Ap 7,17). Como Pastor, Jesus expõe sua vida em favor das ovelhas. Jesus dispões e depõe a sua vida para as ovelhas. É a beleza da bondade e do amor que se mostra em ação.

Eu sou o Bom Pastor. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas”. Esta afirmação de Jesus é dirigida a cada um de nós. Bom- bondade é a própria perfeição possuída por um ser. A bondade é sempre ativa, isto é, a capacidade que possui um ser de dar ao outro a perfeição que lhe falta. Jesus é bom porque ele dá o que é mais caro para si: sua própria vida para que os outros possam viver. Por isso, ser bom é muito mais do que ser educado, muito mais do que ser atencioso, muito mais do que ser gentil, muito mais do que ser pacífico, muito mais do que ser simples e humilde. Eu sou bom na medida em que dou o que é melhor de mim, o que é caro para mim para que o outro possa viver. Quem é bom de verdade nunca perguntará quem será beneficiado do meu ato bom. O bom simplesmente brilha como sol com seus raios para todos. Crer em Jesus, o Bom Pastor, aceitar Jesus como o Bom Pastor é um grande compromisso de ser bom na vida, de ser amoroso para com os outros, de ser vida para os demais. A bondade é o investimento que nunca falha, pois Deus é o bem absoluto.

Jesus me resgatou sacrificando a própria vida na cruz. E Ele me alimenta renovando seu sacrifício na eucaristia: “Eu sou o pão vivo descido do céu... Quem come minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna. Pois a minha carne é verdadeiramente comida e o meu sangue é verdadeiramente bebida” (Jo 6,51.54-55).

Esta afirmação nos devolve a serenidade perdida, pois, de fato, somos ovelhas do Senhor. A verdadeira serenidade nos envolverá, se aceitarmos humildemente nossa pequenez e nos deixarmos guiar por Deus. Nossa serenidade somente é possível, se começarmos a pensar e a viver a partir de Deus. A partir de Deus saberemos julgar que neste mundo tudo é importante, mas nada é demasiado importante. O único importante é esse Deus em cujas mãos estamos e cuja vida sustenta a nossa vida. O importante é esse Pastor que nos guia ao Pai. A partir desse Pastor que nos guia, tudo será compreendido de uma maneira nova. Tudo tem saída. Não somos abandonados. Com ele sempre podemos ter esperança e renovar a esperança.

Conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem”, diz Jesus, o Bom Pastor (v.14). Aqui “conhecer” não se trata de uma atitude ou atividade intelectual, mas trata-se de uma comunidade de vida baseada no amor; trata-se de uma relação existencial. Pela origem da palavra, o verbo “conhecer” quer dizer “com-nascer, nascer com, fazer-se um com outro. Somente conhecemos o outro, entregando-nos a ele e aceitando que ele se entregue a nós. Trata-se de uma relação existencial. O verbo “conhecer” envolve o ver, o ouvir, o perceber, o experimentar. 

Jesus Cristo conhece pessoalmente cada um de nós. Ele não conhece como massa de pessoas. Ele conhece cada um em sua integridade. Jesus me conhece na minha integridade, no meu ser, na minha especificidade, na minha estrutura, na minha angústia, no meu medo, nos meus sonhos. O próprio Senhor Deus é a razão de ser mais profunda de minha existência. Se Deus me ama devo também me aceitar a mim mesmo. O Senhor me conhece verdadeiramente, tal como realmente sou, sem aplicar rótulos e categorias. Por isso, ele é a única garantia de que eu posso ser eu mesmo. Essa consciência da origem divina torna-me justamente mais precioso e mais seguro. Certamente nessa dependência reside uma profunda paz que o mundo nunca será capaz de me dar.                

Será que sou uma boa ovelha? Será que sou bom líder/bom pastor? Será que eu conheço Jesus como meu Bom Pastor? “O Senhor explica, para que o imitemos, em que consiste a bondade do pastor dizendo: O bom pastor expõe a sua vida pelas suas ovelhas. Fez o que aconselhou, mostrou o que ordenou: deu a sua vida por suas ovelhas, para fazer do seu Corpo e do seu Sangue um sacramento para nós e para saciar com o alimento da sua carne as ovelhas que redimiu” (São Gregória: Super Ezechielem, hom.14).

P. Vitus Gustama,svd

IV Domingo Da Páscoa, 26/04/2026

JESUS É A PORTA DAS OVELHAS APELA QUAL DEVEMOS ENTRAR E A QUEM DEVEMOS NOS CONVERTER

IV DOMINGO DA PÁSCOA “A”

I Leitura: At 2,14a.36-41

No dia de Pentecostes, 14ª Pedro, de pé, no meio dos Onze apóstolos, levantou a voz e falou à multidão: 36 “Que todo o povo de Israel reconheça com plena certeza: Deus constituiu Senhor e Cristo a este Jesus que vós crucificastes”. 37Quando ouviram isso, eles ficaram com o coração aflito, e perguntaram a Pedro e aos outros apóstolos: “Irmãos, o que devemos fazer?” 38Pedro respondeu: “Convertei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para o perdão dos vossos pecados. E vós recebereis o dom do Espírito Santo. 39Pois a promessa é para vós e vossos filhos, e para todos aqueles que estão longe, todos aqueles que o Senhor nosso Deus chamar para si”. 40Com muitas outras palavras, Pedro lhes dava testemunho, e os exortava, dizendo: “Salvai-vos dessa gente corrompida!” 41Os que aceitaram as palavras de Pedro receberam o batismo. Naquele dia, mais ou menos três mil pessoas se uniram a eles.

II Leitura: 1Pd 2,20b-25

Caríssimos: 20b Se suportais com paciência aquilo que sofreis por terdes feito o bem, isto vos torna agradáveis diante de Deus. 21 De fato, para isto fostes chamados. Também Cristo sofreu por vós deixando-vos um exemplo, a fim de que sigais os seus passos. 22 Ele não cometeu pecado algum, mentira nenhuma foi encontrada em sua boca. 23 Quando injuriado, não retribuía as injúrias; atormentado, não ameaçava; antes, colocava a sua causa nas mãos daquele que julga com justiça. 24 Sobre a cruz, carregou nossos pecados em seu próprio corpo, a fim de que, mortos para os pecados, vivamos para a justiça. Por suas feridas fostes curados. 25 Andáveis como ovelhas desgarradas, mas agora voltastes ao pastor e guarda de vossas vidas.

Evangelho: Jo 10,1-10

Naquele tempo, disse Jesus: 1“Em verdade, em verdade vos digo, quem não entra no redil das ovelhas pela porta, mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante. 2Quem entra pela porta é o pastor das ovelhas. 3A esse o porteiro abre, e as ovelhas escutam a sua voz; ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora. 4E, depois de fazer sair todas as que são suas, caminha à sua frente, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz. 5Mas não seguem um estranho, antes fogem dele, porque não conhecem a voz dos estranhos”. 6Jesus contou-lhes esta parábola, mas eles não entenderam o que ele queria dizer. 7Então Jesus continuou: “Em verdade, em verdade vos digo, eu sou a porta das ovelhas. 8Todos aqueles que vieram antes de mim são ladrões e assaltantes, mas as ovelhas não os escutaram. 9Eu sou a porta. Quem entrar por mim, será salvo; entrará e sairá e encontrará pastagem. 10O ladrão só vem para roubar, matar e destruir. Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância”.

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O quarto domingo da Páscoa é chamado de o Domingo do Bom Pastor porque em cada um dos três anos do ciclo litúrgico, é lida uma passagem de Jo 10 onde se fala de Jesus como o Bom Pastor, cujo tema principal são as afirmações de Jesus: “Eu sou”, “Eu sou a porta” e “Eu sou o bom pastor”. Neste ciclo “A” da liturgia, Jesus se declara a Porta das ovelhas.

Neste Quarto Domingo da Páscoa, a Igreja nos apresenta a figura inefável de Cristo, Bom Pastor, que nos leva ao Pai, que dá sua vida por nós, que nos alimenta com Sua Palavra, Seu Corpo e Seu Sangue, que nos defende do lobo voraz do demônio e de suas sequelas. O próprio Cristo, como Bom Pastor, é o único que tem o poder de nos reunir no redil do Pai. Ele é sempre a única Porta da Salvação.

A Bíblia descreve o pastor como o homem armado com uma coragem extraordinária. O homem com uma ousadia que não foge dos maus momentos físicos ou morais. É como personificação de uma vontade determinada, astuta e prudente. É por isso que o simbolismo do pastor foi aplicado às personalidades mais destacadas: o rei, o profeta, o Messias, o próprio Deus. Em nossa linguagem mais atual traduziríamos esse símbolo falando do condutor dos homens, do guia, do líder, mesmo com todas as limitações que esses termos têm em relação ao Evangelho. Mas o ser líder tem um perigo: o perigo de apoiar a liderança na manipulação do outro, na imposição de critérios próprios; na anulação da personalidade do outro, em converter o outro em um robô, em uma máquina em nosso serviço mais ou menos interessado.

No texto deste domingo não se menciona Jesus como o Bom Pastor diretamente, somente a partir do v.11. No evangelho deste domingo acentua-se outro aspecto desse bom pastor. E o discurso de Jesus sobre a porta das ovelhas e o Bom Pastor se apresenta como continuação lógica da perícope imediatamente anterior, sobre o cego de nascença (Jo 9).         

Como o pano de fundo de Jo 10 é necessário ler dois textos do AT: Ez 34,1ss e Jr 23,1ss. Nestes textos fala-se da denúncia profética contra os maus pastores. Os maus pastores são denunciados por estarem mais preocupados em se alimentar do que em fornecer alimento para as ovelhas confiadas ao seu cuidado (cf. Jo 21,15-17: Apascenta as minhas ovelhas); em cuidar da própria vida do que a vida do rebanho. Em vez de tomar conta das ovelhas, eles se omitiram, e sacrificavam as mais gordas para se deliciar da sua carne e se vestir com sua lã. Os maus pastores estão preocupados com o seu conforto, com o seu bem estar, em salvar a situação pessoal e familiar, e deixam o restante se perder.

E os pastores de hoje (sacerdotes/padres, religiosos, pastores, líderes das comunidades), são melhores dos antigos ou se tornaram ovelhas perdidas, em vez de serem pastores/líderes de confiança?          

O uso metafórico do substantivo “pastor” (poimén em grego) aparece 14 vezes no NT (Mt 9,36;25,32;26,31; Mc 6,34;14,27; Jo 10,2.11.12.14.16; Ef 4,11; Hb 13,20; 1Pd 2,25). Lucas nunca usa o termo “pastor” em sentido figurado, mas só em sentido próprio (cf. Lc 2,8.15.20). Também na parábola da ovelha perdida (Lc 15,4-6) ele não chama o protagonista de “poimén”, “pastor”, como o faz Mt, mas simplesmente de “ánthropos”, “homem”.          

No evangelho de João, a palavra “pastor” faz parte do vocabulário da auto-revelação do Messias; ela é precedida da afirmação “egó eimí”, “Eu sou” (Em Jo, sete vezes, Jesus toma a palavra para autoproclamar: 6,35: Eu sou o pão da vida; 8,12: Eu sou a luz do mundo; 10,7: Eu sou a porta; 10,11: Eu sou o bom pastor; 11,25: Eu sou a ressurreição e a vida; 14,6: Eu sou o caminho, a verdade e a vida; 15,1: Eu sou a videira verdadeira).          

O pastor de Jo 10 assume o comportamento do guia: conduzir para fora, levar para fora, caminhar adiante (v.4) e os aspectos de providência e salvação: quem entra pela porta, que é Jesus (v.9) será salvo, pois ele veio para que as suas ovelhas “tenham a vida em abundância” (v.10).           

O discurso sobre a porta das ovelhas e o bom pastor contém uma Cristologia rica, porque nesta perícope Jesus revela alguns aspectos de sua função e de sua personalidade; trata-se de um discurso revelador, semelhantes aos outros, como foram ditos acima nas sete autoproclamações de Jesus.          

Jesus começa seu discurso usando uma linguagem bastante enigmática (10,1s), a qual no contexto imediatamente anterior tem significado bem preciso. Os fariseus e os judeus (os guias do povo) processaram o cego curado e o condenaram (foi expulso da comunidade) por causa de sua fé no Messias. Eles pretendiam ver sem a luz de Cristo e se consideravam os verdadeiros mestres de Israel (Jo 9,24.34.40s). Jesus declara que os fariseus e todos os que querem exercer funções pastorais no povo de Deus, sem passar pela porta do redil das ovelhas, porta que Jesus é, não podem ser pastores autênticos, e sim ladrões e assaltantes. Os que querem apascentar, governar ou ensinar seus irmãos não podem ignorar o Filho de Deus, que é a porta de entrada no recinto das ovelhas, isto é, o mediador entre o Senhor e o seu povo (cf. 1Tm 2,5; Hb 8,6;9,15;12,24). Se ignorarem Cristo, eles não poderão ser verdadeiros pastores da humanidade; eles não terão condições para conduzir os homens às pastagens da vida e da liberdade; apenas provocarão danos, farão grande mal e se comportarão como ladrões e assaltantes. 

Jesus É a Porta De Salvação Para Nós          

O discurso de Jesus sobre a porta das ovelhas e o Bom Pastor se apresenta como continuação lógica da perícope imediatamente anterior, sobre o cego de nascença (Jo 9). Os fariseus e os judeus (os guias do povo) processaram o cego curado e o condenaram (foi expulso da comunidade) por causa de sua fé no Messias (Jesus). Eles pretendiam ver sem a luz de Cristo e se consideravam os verdadeiros mestres de Israel (Jo 9,24.34.40s). Jesus declara que os fariseus e todos os que querem exercer funções pastorais no povo de Deus, sem passar pela porta do redil das ovelhas, porta que Jesus é, não podem ser pastores autênticos, mas ladrões e assaltantes. 

Na continuação do discurso, Jesus se identifica explicitamente com a porta das ovelhas: “Em verdade, em verdade eu vos digo, eu sou a porta das ovelhas” (v.7). A PORTA sugere a ideia da passagem, do limiar entre o conhecido e o desconhecido, o aquém e o além, a luz e as trevas, a privação e o tesouro. Ela se abre para um mistério; ao mesmo tempo leva psicologicamente para a ação: uma porta sempre convida a ultrapassá-la para sair através dela ou para se proteger. Neste sentido, a porta significa como barreira/segurança e proteção (observe bem as portas das casas do mundo moderno: fortes com um intuito de dificultar a entrada de ladrões/assaltantes). Era na porta da cidade que recebiam os que chegavam e se despediam os que partiam. Por isso, a porta era o símbolo de acolhimento ou carinho.          

Quando Jesus declara que é a porta das ovelhas, evidentemente esta expressão tem significado funcional enquanto indica a missão salvífica de Cristo, a mediação universal para a vida e para a revelação divina. Jesus se proclamaa Porta através da qual se entra na Vida. É o Pastor que conduz à liberdade. Jesus veio para conduzir os irmãos para fora das trevas e da morte. Jesus, ao proclamar-se a porta das ovelhas, apresenta-se como o lugar no qual encontra a vida e a salvação. Em Jo 10,9 Jesus esclarece que para sermos salvos e termos a vida em abundância devemos passar pela porta, que é a sua pessoa divina; o escopo da sua vinda ao mundo é o dom da vida e salvação plena(v.10). “Eu sou a porta”, Jesus está nos dizendo que somente por ele entramos na cidade de Deus, e somente nele encontramos o abrigo, a segurança e a proteção (cf. Mt 11,28). Ele nos acolhe cada vez que recorrermos a ele: “...quem vem a mim eu não o rejeitarei” (Jo 6,37). Cristo é, antes de tudo, a porta de Deus, porque facilita o acesso ao Pai. Em Cristo, Deus se torna acessível e próximo. Cristo é uma porta preciosa, que começa a se abrir com seu nascimento e sucessivas epifanias, deixando-nos ver esplendores da divindade. 

A Bíblia fala muitas vezes da porta da cidade, que, quando fortificada, garante a segurança dos cidadãos. Atravessar as portas do templo significa aproximar-se de Deus; ser salvo é entrar pela porta do céu, que se abre para quem chama pela fé. Jesus é a porta de acesso ao Pai, a porta que conduz aos pastos onde se oferecem gratuitamente os bens divinos. Os discípulos de Jesus devem ser sempre uma "porta" aberta para os outros, e não um muro de rebote ou um muro de colisão. E para que o cristão apareça diante do mundo como uma "porta" de entrada; Como oferta de salvação, cada crente tem a responsabilidade de se esvaziar para não ser um obstáculo.          

Essa doutrina cristológica contém mensagem de importância excepcional para nossa vida de fé e nossa missão de guia ou pastores. Jesus Cristo é o mediador perfeito em sentido descendente e ascendente; na direção vertical e horizontal. O Pai comunica a revelação de sua vida de amor ao homem por meio de seu Filho (cf. Jo 1,17s); a salvação é dada ao homem somente por meio do Filho unigênito (Jo 3,14ss); a vida divina foi trazida ao mundo por meio de Jesus (Jo 14,6). E o homem pode subir até Deus unicamente por meio do seu Filho, que é a vida (Jo 14,2-6); a vida de comunhão com o Pai só é possível através de Jesus Cristo. Enfim, o homem pode exercer função pastoril e salvífica somente se comungar com eles por meio de Cristo, a única porta do redil de Deus (Jo 10,7ss).          

A mensagem desta doutrina é dirigida tanto para todos os cristãos em geral como, particularmente, para os que exercem uma função de guia no seio da comunidade. Para ser instrumento de vida e salvação para os irmãos e irmãs, é necessário estar em contato íntimo e vital com aquele que é a salvação personificada: o Senhor Jesus. Para a função pastoral ser exercida com fruto, torna-se indispensável uma comunhão profunda com Cristo, o pastor supremo do rebanho de Deus; exige-se amor forte e concreto à sua pessoa.

Alguns comentários de alguns Padres da Igreja (veja: Santo Tomás de Aquino: Catena Aurea, Exposição Contínua Sobre Os Evangelhos, Vol.4: Evangelho de São João. Ed Ecclesiae, Campinas-SP 2021,pp.323-328) 

1. São João Crisóstomo

·  Chama “porta” às Escrituras, porque elas transmitem o conhecimento de Deus. São elas que guardam as ovelhas e não deixam que se aproximem os lobos, impedindo a entrada dos hereges. Assim quem não se vale das Escrituras, mas sobe por outra parte, isto é, adota uma via distinta e ilegítima, este é o ladrão. Diz “sobe”, e não “entra”, à maneira do ladrão que tenta escalar o muro e faz todas as coisas cercado por perigos. ... Não devemos estranhar  que o Senhor também se chame a si mesmo “porta”, pois também se apresenta como pastor e rebanho. Chama-se a si mesmo “porta”, por ser quem nos conduz ao Pai, e “pastor”, por ser quem nos guia.

2.   Santo Agostinho

·  Entra pela porta quem entra por Cristo: quem imita a sua paixão e conhece a sua humildade. Tendo Deus se feito homem por nós, venha o homem a saber que não é Deus. quem, com efeito, quer parecer Deus, sendo homem, não imita aquele que, sendo Deus, se fez homem.

3.   Teofilacto

·  O Senhor traz as ovelhas para o pasto pela porta. Por isso segue: Entrará e sairá, e encontrará pastagens. O que são estas pastagens, senão as delícias futuras e repouso no qual o Senhor nos introduz? Ou “entrar” refere-se ao que vigia o homem interior, enquanto “sair” se refere ao que mortifica, em Cristo, o homem exterior, isto é, os nossos membros que estão sobre a Terra. Este, com efeito, encontrará pastagens na vida que há de vir.

·  Em sentido mistíco, o ladrão é o Diabo que, com a tentação, vem roubar por meio dos maus pensamentos, mata pelo consentimento e destrói pelas obras.

O Amor Do Senhor Por Nós É Um Amor De Ternura         

Um outro aspecto do discurso sobre o Bom Pastor é o de ternura ou afetividade: “...as ovelhas escutam a sua voz porque conhecem a sua voz; ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora”. Na nossa vida facilmente desvalorizamos a dimensão afetiva. Dedicamos muito mais atenção à dimensão do fazer, do produzir, do ter, esquecendo-nos das outras dimensões ligadas às afetivas. Isto pode acontecer dentro de família, pois cada um acaba correndo atrás de seus compromissos, descuidando de cultivar os relacionamentos afetivos entre as pessoas. Podemos imaginar as consequências depois.          

Aparece no Evangelho de hoje a figura de Jesus Cristo, numa atitude de ternura com as ovelhas. Ternura é amor respeitoso, delicado, concreto, atento e alegre. Ela é amor sensível, aberto à reciprocidade, não ávido, ganancioso, pretensioso, possessivo, mas forte na sua fraqueza, eficaz e vitorioso, desarmado e desarmante.           

Jesus, como o bom Pastor, conhece as ovelhas e as chama pelo nome. Tudo isto é a expressão da ternura. Porque o verbo “conhecer” no vocabulário bíblico não se refere a um mero conhecimento intelectual. Ele exprime muito mais a relação de amor. Portanto, quando Jesus fala que conhece as suas ovelhas, quer dizer que tem para com elas uma relação de amor profundo. O mesmo amor que o une ao Pai, Jesus exprime também para com todos nós, suas ovelhas: um amor fiel, eterno, indestrutível. Em Jesus, cada um de nós torna-se participante da filiação divina e é amado pelo Pai como ele ama seu único Filho. Já agora, nesta vida, nos sentimos assim amados. Na “outra vida” atingiremos a plenitude desse amor. O salmista do Sl 23 (Salmo Responsorial) tem a firmeza de dizer: “O Senhor é o meu Pastor, nada me faltará. Mesmo que eu passe pelo vale tenebroso, nenhum mal eu temerei, pois o Bom Pastor está sempre comigo”. O filósofo Emmanuel Kant dizia que o Sl 23 lhe deu mais consolo do que todos os livros que havia lido. Muitos gostam do Salmo do Bom Pastor do Sl 23, enquanto outros gostam do Bom Pastor do Sl 23.          

Muita gente se esquece da ternura de Deus, Deus que ama com um amor paterno e materno: sofre por nossa causa, nos toma pela mão e nos conduz a “verdes pastagens”. Deus é incapaz de esquecer seu filho, que é cada um de nós: “Pode a mãe se esquecer do seu nené, pode ela deixar de ter amor pelo filho de suas entranhas? Ainda que ela se esqueça, eu não me esquecerei de você(Is 49,15) pois “Eu tatuei seu nome na palma da minha mão(Is 49,16). Ele quer nos dar a vida e vida em abundância (Jo 10,10). Até um pecador Deus ama. Se Deus ama um pecador porque Deus quer mostrar que o pecador ainda não ama Deus suficientemente. Ele nos ama porque somos bons, e sim Ele nos ama para que nos tornemos bons uns para com os outros.          

Todos nós fomos feitos à imagem de Deus de ternura e não de Deus de castigo. Por isso, todos nós somos chamados a nos vestir de ternura na convivência com os outros: ser amorosos na conversa e nos comentários, no acolhimento e no atendimento, na escuta e no dar conselho. O amor verdadeiro é sempre como uma experiência de derrota que se transforma em vitória; uma entrega que se transforma em enriquecimento; uma experiência de sair de si que se transforma no mais profundo encontro consigo mesmo; uma experiência de morte que se transforma em vida.          

Será que você ainda pode afirmar que foi feito à imagem do Deus de ternura? Quais são as manifestações concretas que você é a imagem do Deus de ternura? Jesus diz que as ovelhas escutam a sua voz e ele as chama pelo nome. Temos escutado a voz do Senhor ou preferimos escutar outras vozes deste mundo. Temos escutado a chamada do Senhor cada vez que optamos por um caminho errado, em vez de entrar pela porta que é Jesus?

Jesus É Cristo e Senhor a Quem Devemos Nos Converter 

Que todo o povo de Israel reconheça com plena certeza: Deus constituiu Senhor e Cristo a este Jesus que vós crucificastes”. Estas são palavras de conteúdo anúncio de Pedro no dia de Pentecostes, que lemos na Primeira Leitura de hoje. 

O primeiro anúncio da Boa Nova no discurso de São Pedro é que Deus ressuscitou Jesus e O constituiu Senhor e Messias, isto é, Guia, Pastor, Libertador e Pedra fundamental. A iniciativa não é nossa e sim de Deus. Ninguém é cristão por nascimento. O primeiro é sempre uma Palavra que se proclama, o anúncio de uma realidade. A iniciativa é sempre de Deus, e crer é sempre uma graça, um dom sobre a qual ninguém pode atribuir-se nenhum direito. 

E o anúncio da Boa Nova deve traspassar o coração: “Quando ouviram isso, eles ficaram com o coração aflito” (At 2,37), e que causa nossa resposta. Mas não é uma resposta superficial, tipo resposta por emoção, e rotineira e sim uma resposta real e profunda (causar o coração aflito). Que, como aqueles que escutavam Pedro, o Evangelho nos traspassa o coração a ponto de fazermos a seguinte pergunta incondicional: “Irmãos, o que devemos fazer?”. A resposta clara e precisa é CONVERSÃO: “Convertei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para o perdão dos vossos pecados. E vós recebereis o dom do Espírito Santo (At 2,38). Conversão dentro deste contexto é aceitar Jesus como Guia, Pastor, Libertador e Pedra fundamental de nossa vida. 

Aqui não se trata de uma conversão de uma vez para sempre. Ninguém é convertido definitivamente, pois ele é capaz de pecar qualquer hora. Mas aqui se trata de uma conversão contínua e progressiva, porque a conversão significa seguir cada vez melhor o caminho que Jesus Cristo nos assinala. 

Pedro disse: “Convertei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para o perdão dos vossos pecados. E vós recebereis o dom do Espírito Santo”. Esta frase sintetiza o que o Batismo quer expressar.

Primeiramente, batizar em nome de Jesus, isto é, submergir-se naquilo que é para nós Jesus Cristo: abrir-se ao seu anúncio de vida e comprometer-se a segui-Lo. Em segundo lugar, batizar significa estar disposto a lutar como Jesus contra todo mal (perdão dos pecados, isto é, libertado da escravidão do pecado). Em terceiro lugar, batizar é para enxertar ou inserir-se no fluxo da vida, na fonte de vida que é o Espirito de Deus (receber o Espirito Santo). Tudo isso é o significa do Batismo que recebemos. Por isso, não se trata de algo rotineiro que deve ser cumprido assim uma criança nasceu. Batismo é o início de um caminho, e o caminho é contínua se quisermos continuar a seguir a Jesus Cristo. A pergunta que devemos fazer sempre é se realmente vivemos como batizados. 

Jesus Cristo, nosso Bom Pastor continua nos chamando a segui-Lo. Ele chama cada um de nós por seu nome. Será uma graça e uma paz muito profunda quando estivermos conscientes de que para o Senhor eu tenho nome e Ele me chama pelo meu nome. Chamar alguém pelo nome expressa uma grande intimidade. Para Jesus não existe a massa de pessoas, pois cada ser humano tem um rosto próprio e um nome para o Senhor. A sociedade, ao contrário, tende a converter-se e a nos converter em uma massa de pessoas cada vez mais anônimas, deixando-nos profundamente insatisfeitos: não somos amados por nós mesmos. Para a sociedade cada um de nós é um simples cifra em classe, no trabalho, na seguridade social e assim por diante. “Eis que te gravei nas palmas da minha mão”, disse o Senhor a cada um de nós através do profeta Isaías (Is 49,16). 

Seguir a Jesus Cristo, nosso Pastor é um compromisso e por isso, pedimos que Ele continue a nos comunicando Seu Espirito para que possamos avançar pelo caminho da vida que é o próprio Jesus que é “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6). Conhecer e chamar pelo nome significa que o Senhor convida cada um de nós a desenvolver as próprias capacidade e a pô-las livremente ao serviço dos demais. “Se suportais com paciência aquilo que sofreis por terdes feito o bem, isto vos torna agradáveis diante de Deus. De fato, para isto fostes chamados”, assim São Pedro nos relembra (1Pd 2,20b-21).

P. Vitus Gustama,SVD

Quinta-feira Da IV Semana Da Páscoa, 30/04/2026

AMOR E SERVIÇO SÃO INSEPARAVEIS NO TRABALHO DE EVANGELIZAÇÃO   Quinta-Feira Da IV Semana Da Páscoa Primeira Leitura: At 13,13-25 13 Pa...