sábado, 31 de outubro de 2026

Solenidade De Todos Os Santos, Domingo, 01/11/2026

SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS

Primeira Leitura: Ap 7,2-4.9-14

Eu, João, 2 vi um outro anjo, que subia do lado onde nasce o sol. Ele trazia a marca do Deus vivo e gritava, em alta voz, aos quatro anjos que tinham recebido o poder de danificar a terra e o mar, dizendo-lhes: 3 “Não façais mal à terra, nem ao mar, nem às árvores, até que tenhamos marcado na fronte os servos do nosso Deus”. 4 Ouvi então o número dos que tinham sido marcados: eram cento e quarenta e quatro mil, de todas as tribos dos filhos de Israel. 9 Depois disso, vi uma multidão imensa de gente de todas as nações, tribos, povos e línguas, e que ninguém podia contar. Estavam de pé diante do trono e do Cordeiro; trajavam vestes brancas e traziam palmas na mão. 10 Todos proclamavam com voz forte: “A salvação pertence ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro”. 11 Todos os anjos estavam de pé, em volta do trono e dos Anciãos, e dos quatro Seres vivos, e prostravam-se, com o rosto por terra, diante do trono. E adoravam a Deus, dizendo: 12 “Amém. O louvor, a glória e a sabedoria, a ação de graças, a honra, o poder e a força pertencem ao nosso Deus para sempre. Amém”. 13 E um dos Anciãos falou comigo e perguntou: “Quem são esses vestidos com roupas brancas? De onde vieram?” 14 Eu respondi: “Tu é que sabes, meu senhor”. E então ele me disse: “Esses são os que vieram da grande tribulação. Lavaram e alvejaram as suas roupas no sangue do Cordeiro”.

Segunda Leitura: 1Jo 3,1-3

Caríssimos: 1 Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: de sermos chamados filhos de Deus! E nós o somos! Se o mundo não nos conhece, é porque não conheceu o Pai. 2 Caríssimos, desde já somos filhos de Deus, mas nem sequer se manifestou o que seremos! Sabemos que, quando Jesus se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é. 3 Todo o que espera nele purifica-se a si mesmo, como também ele é puro.

Evangelho: Mt 5,1-12

Naquele tempo, 1 vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-se. Os discípulos aproximaram-se, 2 e Jesus começou a ensiná-los: 3 “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus. 4 Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados. 5 Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra. 6 Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. 7 Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. 8 Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. 9 Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. 10 Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. 11 Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e, mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim. 12ª Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus”.

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No dia 1º de novembro, desde o final do século IX, a Igreja Celebra a Solenidade de Todos os Santos. Em uma única festa, são recordados, todos juntos, os santos canonizados, todos os justos de qualquer idioma, de qualquer etnia e nação, cujos nomes estão inscritos no livro da vida (cf. Ap 20,12). O significado desta solenidade está bem expresso no embolismo do prefácio: “Vós nos concedeis hoje festejar vossa cidade, a Jerusalém do alto, nossa mãe, onde a assembleia de nossos irmãos e irmãs canta eternamente o vosso louvor. Para esta cidade, peregrinos e guiados pela fé, nos apressamos jubilosos, compartilhando a alegria dos membros mais ilustres da Igreja, que nos concedeis como exemplo e auxílio para nossa fragilidade”.

Em relação à santidade, o Papa Francisco escreveu: “Para ser santo, não é necessário ser bispo, sacerdote, religiosa ou religioso. Muitas vezes somos tentados a pensar que a santidade esteja reservada apenas àqueles que têm possibilidade de se afastar das ocupações comuns, para dedicar muito tempo à oração. Não é assim. Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra. És uma consagrada ou um consagrado? Sê santo, vivendo com alegria a tua doação. Estás casado? Sê santo, amando e cuidando do teu marido ou da tua esposa, como Cristo fez com a Igreja. És um trabalhador? Sê santo, cumprindo com honestidade e competência o teu trabalho ao serviço dos irmãos. És progenitor, avó ou avô? Sê santo, ensinando com paciência as crianças a seguirem Jesus. Estás investido em autoridade? Sê santo, lutando pelo bem comum e renunciando aos teus interesses pessoais” (Exortação Apostólica, Gaudete et Exsultate n.14).

O culto aos santos é a conseqüência de nosso Credo, conhecido como Símbolo Apostólico, onde professamos: “Creio...na comunhão dos santos...”. Esta pequena frase nos indica e afirma que a nossa relação com os santos é contínua porque acreditamos na não–interrupção da comunhão eclesiástica pela morte, e, ao mesmo tempo, acreditamos no fortalecimento da mútua comunicação dos bens espirituais (LG no 49; compare com Rm 8,38-39). A comunhão dos santos é testemunhada em várias passagens bíblicas (Hb 12,1; Lc 15,7; 2Cor 6,14; 1Jo 1,3; Ef 1,10-23). E nossa Tradição aprofunda essa doutrina, pois afirma que existe uma comunhão entre os fieis antepassados e todos nós pela fé em Jesus Cristo. Se os que já partiram deste mundo tinham fé em Jesus Cristo durante sua passagem neste mundo e nós que ainda estamos peregrinando neste mundo temos também a mesma fé em Jesus Cristo, logo estamos em comunhão pela mesma fé em Jesus Cristo. Nada nos separa do amor de Jesus Cristo (cf. Rm 8,35-39). Certamente, uma das mais belas expressões das Sagradas Escrituras é a de que Deus é amor. E, amorosamente, Deus vem ao encontro da humanidade através de Jesus Cristo (cf. Jo 1,14; 3,16). Trata-se de o amor que provoca vida e construção de comunidade. No amor de Deus todas as pessoas são incluídas. O amor não exclui ninguém. Ama-se para incluir aqueles e aquelas que estavam excluídos.

Todos os santos é uma festa familiar: a festa daqueles que caminharam com Jesus e agora gozam a alegria eterna com Ele. Nosso destino é Deus, a felicidade eterna que nos falta. É uma festa de vitória dos que nos precederam e levaram uma vida sem mancha, superando todo tipo de ganância, de prepotência, de egoísmo e assim por diante.

A Igreja dos peregrinos (todos nós mortais) sempre teve e continua tendo perfeito conhecimento dessa comunhão reinante em todo Corpo Místico de Jesus Cristo que é a Igreja (LG 50). Todos os santos em comunhão têm sua santidade como um reflexo da santidade do Senhor. A Igreja venera os santos como exemplos. O Culto aos santos une-nos a Igreja celestial, pois acreditamos na vida sem fim, a vida eterna. A celebração dos santos abrange não somente os santos canonizados, mas também nossos antepassados, que viveram na busca da santidade e são contados entre os bem-aventurados. Na mensagem do Apocalipse (Ap 7,2-4.9-14), a comunhão dos santos é assinalada por uma multidão dos eleitos de Deus, gente de todas as etnias, tribos, povo e línguas. São os redimidos pelo Sangue do Cordeiro.       

Os santos que estão em comunhão e são recordados nesta solenidade procuravam viver as bem-aventuranças (Mt 5,1-12) na misericórdia, na mansidão, na justiça e no serviço ao Reino na caridade fraterna. Os santos no Céu não se tornam uns egoístas que gozam a merecida felicidade, mas pessoas maduras no amor. Para estar com Deus de amor tem que ter muito amor no coração e na vida com os outros. Como irmãos que nos precederam, eles ainda se lembram de nós, pobres mortais, como Cristo sempre se lembra de nós. Os santos no Céu e os cristãos na terra são uma família única. Assim como uma família, um irmão ajuda o outro irmão. Por isso é que pedimos a ajuda dos santos pelos seus méritos.       

Entendemos aqui por “santos” todos os que já estão no céu e veem o próprio Deus face a face. São aqueles que estão na paz e na felicidade suprema (GS 93); aqueles que estão na comunhão perpétua da incorruptível vida divina (GS 18). Esta vida perfeita chama-se “o Céu”. O Céu é, certamente, o fim último e a realização das aspirações mais profundas do homem, o estado supremo e definitivo de felicidade. O Céu é desejo de todos nós que estamos peregrinando nesta terra. Participar da vida divina, a vida em sua plenitude, a vida cheia de amor é o que queremos todos os dias, tanto para nós e nossos familiares como para aqueles que nos precederam. O Céu conforme as palavras de São Paulo, citando Is 64,4, podemos dizer de outra maneira: “O que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram, e o coração do homem não percebeu, isso Deus preparou para aqueles que O amam” (1Cor 2,9).          

É evidente que os santos, cuja festa celebramos neste dia, não são somente aqueles que estão na lista oficial da Igreja (beatificados ou canonizados). De quantos santos nós não conhecemos nem a história nem o nome. O livro de Apocalipse (Ap 7,2-14) fala de um desfile de 144 mil servos de Deus no céu. 144 é um número simbólico (12 x 12) significa a unidade e totalidade do povo eleito. Entende-se, por isso, uma grande multidão de pessoas de todos os povos e religiões, culturas, de antes e depois de Cristo. Por isso, nunca podemos esquecer que há exemplos de santidade e heroísmo cristãos em outras Igrejas, religiões, povos e culturas. Reconhecer essa presença é uma ajuda para superar os nossos seculares preconceitos e para acolher com alegria esses parceiros na construção do Reino de Deus ou do mundo mais fraterno.

Além disto, na solenidade de todos os santos não somente recordamos os santos que nos precederam e nos ensinaram o caminho que os conduziu à felicidade plena (o céu), mas quer que descubramos também os santos que nos acompanham agora e aqui em nosso caminho terreno. Por isso, o Papa Francisco escreveu na sua Exortação Apostólica: Gaudete et Exsultate: “Gosto de ver a santidade no povo paciente de Deus: nos pais que criam os seus filhos com tanto amor, nos homens e mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa, nos doentes, nas consagradas idosas que continuam a sorrir. Nesta constância de continuar a caminhar dia após dia, vejo a santidade da Igreja militante. Esta é muitas vezes a santidade ‘ao pé da porta’, daqueles que vivem perto de nós e são um reflexo da presença de Deus, ou – por outras palavras – da ‘classe média da santidade’” (n.7).

Como filhos de Deus, estamos conscientes de que Deus é o Único Santo e fonte de toda santidade. Por isso, consequentemente, Ele é o Único que faz santos os participantes em sua vida por fruírem de sua santidade, por cumprirem seus desígnios, por entrarem na esfera vital de seu reinado. Quando o homem já participa em plenitude da vida de Deus no Reino dos céus, então é santo por sua comunhão de vida com Deus, o Único Santo (cf. 1Jo 3,2).          

Sabemos também que somente Deus pode receber o verdadeiro culto de adoração.  Dá-se, porém, o culto de veneração aos servidores de Deus que já estão unidos a Ele plenamente na glória e pela comunhão que mantém conosco, nos atraem para Deus e nos ajudam a percorrer o caminho que trilharam e que nos conduzem à meta na qual nos precederam. Eles são provas evidentes do amor de Deus e neles Deus nos fala. Se veneramos os santos é porque descobrimos neles mais vivamente a presença e o rosto de Deus, neles se manifesta a imagem de Deus, o Único Santo.          

Por isso, o culto aos santos não rebaixa nem diminui a adoração a Deus, pelo contrário, enriquece-a intensamente porque nos aproxima mais da única santidade de Deus que devemos imitar pessoalmente como o fizeram homens como nós enquanto percorriam o mesmo caminho que estamos percorrendo.          

Do ponto de vista cristológico sabemos que Cristo é o Santo de Deus (Mc 1,24). Ele é a imagem do Deus invisível (Cl 1,15). A santidade do homem consiste em sua perfeita união com Jesus (LG 50). Os santos são santos porque imitaram e viveram os ensinamentos de Jesus, Senhor de todos os santos. Eles produziram em si mesmos, de forma significativa, o mistério pascal de Jesus. Por isso, a união com os santos e seu culto unem-nos a Jesus, de quem dimana toda a graça santificadora; eles são seus amigos e co-herdeiros. Enfatiza-se muito, por isso, esse valor cristológico do culto aos santos na celebração eucarística.          

Quando nós veneramos os santos, portanto, não somos idólatras. Se nós admirarmos e louvarmos um quadro de valor, por acaso o pintor deste quadro se sentirá ofendido? Ao contrário, ele não ficará feliz? Os santos são as obras artísticas de Deus, Aquele que esculpiu e pintou o seu semblante na alma deles. Se admirarmos ou louvarmos os filhos, por acaso o pai se ofenderá? O pai não ficará feliz pela admiração dada aos seus filhos por outras pessoas? Os santos são os filhos prediletos do Senhor, aqueles que mais se lhe assemelham.          

Mas devemos reconhecer que há pessoas que amam o santo ou a santa, mas não a sua santidade. São muitos cristãos que recorrem aos santos somente para os interesses materiais ou só para alcançar determinada graça e não para pedir a graça de seguir o exemplo desses santos. Podemos encontrar muitíssimas pessoas em volta do altar de santos, mas poucas que seguem os exemplos que os santos nos deixaram. Não podemos abusar dos santos só para atender nossos desejos materiais, esquecendo que precisamos seguir seus exemplos de santidade.  Devemos saber que não há devoção mais eficaz do que a imitação das virtudes dos santos. Para que, seguindo o exemplo dos santos que viveram segundo os ensinamentos de Cristo durante sua vida terrena, possamos também alcançar a santidade para a qual todos nós somos chamados.           

A vocação à santidade é universal. Todos são chamados à santidade, segundo diz S. Paulo: “Pois esta é a vontade de Deus, a vossa santificação” (cf. 1Ts 4,3; Ef 1,4). E o fundamento de nossa santidade ou da nossa perfeição é Jesus Cristo, cumpridor fiel da vontade de Deus. Como dizia Santa Teresa do Menino Jesus: “...Quem aspira à santidade deve fugir à tentação de querer santificar-se ao seu modo, conforme a própria vontade, seu ponto de vista, seus planos humanos, mas entregar-se inteiramente à vontade de Deus. Deus traça o caminho e o homem deve segui-lo” (Santa Teresa de Jesus, Fd.5-10). E na mesma perspectiva São João da Cruz ensinou: “A santidade, ou seja, a união autêntica com Deus consiste na total transformação de nossa vontade na vontade de Deus, de tal modo que, em nós, nada contrarie a vontade do Altíssimo, mas nossos atos dependem totalmente do beneplácito divino” (Subida I-II,2).          

Portanto, o culto verdadeiro de veneração que prestamos aos santos não deve terminar neles. Ao contrário, deve acabar em Cristo como fonte da missão, grandeza, dignidade e privilégios destes santos. Os santos nos ajuda a termos fé firme em Jesus Cristo, mesmo que nos encontremos numa situação sufocante.          

Os santos são um grande exemplo de santidade e de cumprimento da vontade de Deus para nós. Não pensemos que não podemos resistir às tentações. Também os santos tiveram carne e sangue como nós; experimentaram as tentações como as nossas tentações, contudo eles venceram. Basta ler a história da vida dos santos, como Santo Agostinho, São Francisco de Assis, São João da Cruz, Santa Teresa de Ávila e muitos outros santos, saberemos as lutas sem tréguas deles contra as paixões desordenadas, contra as tentações e outros problemas, no entanto venceram. Apesar de tantas dificuldades, os santos viveram os ensinamentos de Cristo até o fim de sua vida. Se eles venceram, será que nós não podemos vencer também? 

Segundo o Evangelho deste dia, Jesus veio ao mundo para fazer todos felizes e indicar qual é o caminho para alcançar a felicidade. Jesus faz sua proposta sobre como podemos ser felizes ou bem-aventurados. Jesus nos oferece um modelo de vida, uns valores que, segundo Ele, são os que nos podem fazer felizes de verdade. A proposta de Jesus são as bem-aventuranças que lemos neste dia no evangelho. 

As bem-aventuranças são uns pensamentos, umas sentenças que à primeira vista podem desconcertar o sentido comum. Jesus nos diz que serão bem-aventurados os pobres no espírito, os sofridos, os que choram, os que têm fome e sede da justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os que trabalham pela paz, os perseguidos por causa da justiça. 

Somente serão autenticamente felizes os que põem toda sua confiança em Deus e tudo o mais fica no segundo lugar; somente os que sabem viver umas atitudes de desprendimento, de humildade, de desejo de justiça, de preocupação e de interesse pelos problemas dos demais. É uma felicidade que aponta para o fundo do coração, para o mais transcendente de si mesmo, para a salvação. Jesus declara felizes àqueles que mantêm viva a confiança em Deus apesar de serem indefesos, oprimidos, marginalizados e perseguidos por causa do bem praticado e do amor vivido até o fim.                                                             

Os felizes são os que têm um coração centrado em Deus e que se traduz no amor ao próximo e que rejeitam toda espécie de idolatria. Os pobres em espírito são aqueles se submetem interiormente, sem resistência à vontade de Deus. O espírito de humilde submissão à vontade de Deus, nasce da fé inabalável na soberania e na misericórdia de Deus e que se traduz em atitudes e condutas de bondade e de mansidão, de misericórdia e de compaixão, de tolerância e de compreensão na convivência com os outros. Os santos não se fecham no próprio egoísmo, mas sabem ser solidários com todos, especialmente com os mais necessidade partilhando que se tem e o que se é.          

Os felizes são os mansos que, por não responderem à violência com violência, estão prontos a perdoar. Jesus declara felizes não os que são mansos por temperamento, mas os que, apesar de não disporem de meios para fazer valer seus direitos, não são violentos nem agressivos, mas pacientes e indulgentes. Eles acreditam que a vida baseada no princípio “olho por olho” só resulta na cegueira, e na cegueira nada se vê, só escuridão.           

Os felizes são os indefesos que não têm como defender seus direitos por falta de recursos, mas que esperam somente a intervenção divina. Os felizes são os que não pactuam com a maldade, com a divisão, com a malícia, nem se deixam levar pela lógica da dominação e do autoritarismo.         

Os felizes são os que têm um coração cheio de misericórdia para com os semelhantes. Um misericordioso é aquele que é capaz de amar até a pessoa que não merece ser amada do ponto de vista humano. Mas por acreditar na misericórdia de Deus, ele sempre quer o bem da mesma.          

Os felizes são os promotores da paz que procuram criar laços de amizade e banir toda espécie de ódio, ajudar a superar as divisões para que mundo seja cada vez mais fraterno, e mais humano. Santo Agostinho dizia: “Não basta ser pacífico. É necessário ser promotor da paz. Quem são os pacíficos? Não os pacifistas, mas os promotores da paz. Não basta estar disposto a perdoar ou ignorar os inimigos, é preciso amá-los e ter compaixão por eles. Não odeias aos cegos, mesmo que ames a luz. Da mesma forma, deves amar a paz sem odiar os que fazem guerra”.          

Os felizes são os perseguidos por causa da justiça, por causa do bem que fazem, por viverem retamente. Quem sempre faz o bem, muitas vezes acaba sendo perseguido e crucificado como Jesus. Mas ele é feliz, pois até o fim ele é capaz de dizer sim para o bem e dizer não para o mal. Quem pára de crescer neste espírito das bem-aventuranças, começa a morrer de verdade.          

Portanto, as bem-aventuranças são uma proclamação de amizade de Deus para as pessoas que participaram do espírito dessas bem-aventuranças e também são um programa da vida de cada cristão (vocação à felicidade é para todos), e são uma celebração da felicidade como dom ou graça presente, como uma realidade já presente e não apenas como algo depois da morte ou uma recompensa futura pela carência na terra. Se entendêssemos as bem-aventuranças somente como uma compensação para depois da morte, elas seriam “ópio do povo”. Em outras palavras, somos felizes já na medida em que pertencemos a Deus no presente que se traduz na vivência da fraternidade universal. Então, também o futuro de Deus nos pertence. A partir daí, o céu é a experiência de compartilhar a alegria, a paz e o amor de Deus na plena capacidade humana.          

As pessoas felizes, das quais Jesus fala neste discurso, então, são felizes agora por causa do futuro que se abre para elas. Elas são felizes porque têm uma esperança magnífica apesar das tribulações e sofrimentos por uma causa digna para um ser humano. É uma felicidade voltada para o futuro e que se antecipa na esperança do que está por vir. Mas esta esperança não pode ser separada de uma realidade vivida no momento presente. As bem-aventuranças se dirigem a algumas categorias de pessoas caracterizadas por suas situações interiores, como são ditas nesse sermão de Jesus. É a elas que é oferecida a esperança. O futuro feliz torna-se realidade presente na pessoa de Jesus e tem nele a sua garantia.          

Depois de ler as bem-aventuranças e de refleti-las, você pode-se perguntar: “Você é feliz no critério de Jesus? Ou você não está feliz? Por que esta infelicidade?” Para que tenhamos o espírito das bem-aventuranças, para que possamos realmente ser felizes, temos que deixar Deus dominar nossa vida, temos que deixar Deus conduzir nossa vida e nossas decisões. Santo Agostinho dizia: “Deus, de quem separar-se é morrer, a quem retornar é ressuscitar, com quem habitar é viver. Deus, de quem fugir é cair, a quem voltar é levantar-se, em quem apoiar-se é estar seguro”.  

Todos os batizados são chamados à santidade. “Pois esta é a vontade de Deus, a vossa santificação” (cf. 1Ts 4,3; Ef 1,4). O Papa Francisco escreveu: “Deixa que a graça do teu Batismo frutifique num caminho de santidade. Deixa que tudo esteja aberto a Deus e, para isso, opta por Ele, escolhe Deus sem cessar. Não desanimes, porque tens a força do Espírito Santo para tornar possível a santidade e, no fundo, esta é o fruto do Espírito Santo na tua vida (cf. Gal 5, 22-23). Quando sentires a tentação de te enredares na tua fragilidade, levanta os olhos para o Crucificado e diz-Lhe: «Senhor, sou um miserável! Mas Vós podeis realizar o milagre de me tornar um pouco melhor». Na Igreja, santa e formada por pecadores, encontrarás tudo o que precisas para crescer rumo à santidade. ‘Como uma noiva que se adorna com as suas joias’ (Is 61, 10), o Senhor cumulou-a de dons com a Palavra, os Sacramentos, os santuários, a vida das comunidades, o testemunho dos santos e uma beleza multiforme que deriva do amor do Senhor” (Gaudete et Exsultate n.15). 

Fortalecidos com os ensinamentos das Sagradas Escrituras, vamos caminhar firmemente em direção ao nosso Redentor, Jesus Cristo, em direção à Assembleia de todos os santos. Vamos para o Paraíso onde encontramos nosso Deus e nossos irmãos que nos precederam. Os santos eram seres humanos como nós. Muitos deles foram grandes pecadores. Mas pelo arrependimento, alcançaram o Reino dos Céus, onde todos vivem juntos, onde se encontram com o Senhor e sua Mãe Imaculada. Pedimos a ajuda dos santos que viveram os ensinamentos de Cristo até o fim, para que possamos também viver segundo os ensinamentos de Cristo até o fim de nossa vida terrestre para que um dia mereçamos ser chamados de santos.

P. Vitus Gustama,SVD

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Sábado Da XXX Semana Comum, Ano Par, 31/10/2026

VIVER COM CRISTO PARA VIVER NA HUMILDADE

Sábado Da XXX Semana Comum

 

Primeira Leitura: Filipenses 1,18b-26

Irmãos, 18b de qualquer maneira, com segundas intenções ou com sinceridade, Cristo é anunciado. E eu me alegro com isso, e sempre me alegrarei. 19 Pois eu sei que isso resultará na minha salvação graças à vossa oração e à assistência do Espírito de Jesus Cristo. 20 Segundo a minha viva expectativa e a minha esperança, não terei de corar de vergonha. Se a minha firmeza continuar total, como sempre, então Cristo vai ser glorificado no meu corpo, seja pela minha vida, seja pela minha morte. 21 Pois para mim, o viver é Cristo e o morrer é lucro. 22 Entretanto, se o viver na carne significa que meu trabalho será frutuoso, neste caso, não sei o que escolher. 23 Sinto-me atraído para os dois lados: tenho desejo de partir, para estar com Cristo – o que para mim seria de longe o melhor – 24 mas para vós é mais necessário que eu continue minha vida neste mundo. 25 Por isso, sei com certeza que vou ficar e continuar com vós todos, para que possais progredir e alegrar-vos na fé. 26 Assim, com a minha volta para junto de vós, vai aumentar ainda a razão de vos gloriardes em Cristo Jesus.

Evangelho: Lc 14,1.7-11

1 Aconteceu que, num dia de sábado, Jesus foi comer na casa de um dos chefes dos fariseus. E eles o observavam. 7 Jesus notou como os convidados escolhiam os primeiros lugares. Então contou-lhes uma parábola: 8 “Quando fores convidado para uma festa de casamento, não ocupes o primeiro lugar. Pode ser que tenha sido convidado alguém mais importante do que tu, 9 e o dono da casa, que convidou os dois, venha te dizer: ‘Dá o lugar a ele’. Então ficarás envergonhado e irás ocupar o último lugar. 10 Mas, quando fores convidado, vai sentar-te no último lugar. Assim, quando chegar quem te convidou, te dirá: ‘Amigo, vem mais para cima’. E isto vai ser uma honra para ti diante de todos os convidados. 11 Porque quem se eleva será humilhado e quem se humilha será elevado”.

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Viver Para Cristo e Morrer n´Ele

Durante alguns dias vamos acompanhar a leitura de outra carta de são Paulo: a Carta aos Filipenses. Esta carta é a epístola mais pessoal redigida por são Paulo. Seu tema básico é o anúncio do Evangelho no sofrimento e nas dificuldades. É uma carta breve, afetuosa, cheia de cordialidade e de carinho. Essa cordialidade mostra uma relação bastante fraterna entre o Apóstolo Paulo e a comunidade Filipense.

Filipos, importante cidade da Macedônia e colônia romana, foi evangelizada por são Paulo durante sua segunda viagem, no ano 50 depois de Cristo. Nesta cidade domina o sincretismo religioso: divindades pagãs, e cultos mistéricos tem um grande destaque. Filipos foi a primeira cidade europeia que acolheu o Evangelho. São Paulo visita a comunidade de Filipos duas vezes durante sua terceira viagem: no outono do ano 56-57 d.C (At 20,1-2) e na Páscoa de 57-58 d.C (At 20,3-6). Com a conversão de Lídia, negociante de púrpura, começa a fundação da comunidade (At 16,12-40).

São Paulo escreveu esta Carta quando estava no cativeiro (a palavra “prisão” é mencionada várias vezes na Carta), aguardando julgamento (Fl 1,7.13.14.17). Segundo a maioria dos autores modernos, a Carta aos Filipenses foi escrita no ano 56-57 d.C.

Mesmo estando preso e com as dificuldades tanto da prisão como de outras naturezas (perigo de judaizantes), são Paulo não focaliza sobre si mesmo e sim sobre o anúnio do Evangelho para todos. Toda a comunidade está unida a Paulo no amor, no sofrimento e no anúncio do Evangelho (Fl 1,5.7.14.15). São Paulo consegue superar a tristeza da situação em que ele se encontra, destacando a importância de que a Palavra de Deus não deva ficar presa e sim seja difundida de qualquer maneira (Fl 1,18). Nessa situação de sofrimento, são Paulo encontra um alívio na experiência da alegria de Jesus: “Pois para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro” (Fl 1,20).

A comunidade de Filipo é organizada segundo o modelo de outras Igrejas fundadas por são Paulo. São Paulo destaca a presença de dois ministérios: os epíscopos e os diáconos (Fl 1,1). O epíscopo é aquele que olha por cima, o supervisor, o inspetor, aquele que é encarregado de dirigir a comunidade (At 20,28; Tt 1,7; 1Tm 3,1). O segundo é a Diaconia (diácono) que indica uma tarefa de assistência e de serviço (1Tm 3,8.12), sem se identificar com o ministério diaconal dos nossos dias.

Além dos dois ministérios, nesta Carta se apresenta também a escatologia individual, que se realiza logo após a morte (Fl 1,21-23), e a escatologia final (Fl 3,20-21). O próprio Paulo afirma: “O meu desejo é partir e estar com Cristo” (Fl 1,23). O “estar com Cristo” se realiza já no momento da morte.

No texto da Primeira Leitura de hoje mostra a disponibilidade total de são Paulo para sua missão: ele quer colaborar com todas as forças na evangelização deste mundo, apesar de estar preso. Ele não quer saber de seu destino pessoal: “De qualquer maneira, com segundas intenções ou com sinceridade, Cristo é anunciado. E eu me alegro com isso, e sempre me alegrarei”.

Por um lado, são Paulo desejaria “partir, para estar com Cristo – o que significa que meu trabalho será frutuoso para mim seria de longe o melhor”. Porém, se continuar vivendo, “significa que meu trabalho será frutuoso”.

É admirável a convicção de são Paulo, digno de ser seguido por todos seu exemplo: toda sua vida está orientada a fazer Jesus Cristo ser conhecido por todos sem se importar o sofrimento que ele está tendo: “De qualquer maneira Cristo é anunciado. E eu me alegro com isso, e sempre me alegrarei”. Sua alegria de anunciar Cristo é maior do que seu sofrimento e a tristeza.

Para qualquer cristão, a vida é Cristo. é Cristo que habita em nós. é Cristo esposo da Igreja. É Cristo, Cabeça de seu Corpo, que somos nós. com Ele tudo, pois sem Ele nada podemos fazer (Jo 15,5). Permaneçamos unidos a Cristo para que, por meio de sua Igreja, chegue a todos a mensagem de salvação.

“Para mim, o viver é Cristo e o morrer é lucro”. Esta frase interpela a todos os cristãos. Será que estamos dispostos e disponíveis a viver ou a morrer pelo bem dos demais? Será que olhamos para nossa morte como um estar com Cristo que é considerado como “lucro”? Mas o que lucramos como cristãos para poder estar com Cristo? e se desejamos continuar vivendo é precisamente para continuar fazendo o bem e cooperando na salvação da humanidade, pelo menos ao nosso redor? Será que cada um de nós cristãos é capaz de dizer “Para mim, o viver é Cristo”?

A Humildade Nos Torna Fecundos Na Vida

Jesus continua ainda com suas últimas lições/instruções dadas aos seus discípulos no seu Caminho para Jerusalém (Lc 9,51-19,28). A intenção de Jesus ao dar tais lições é preparar os discípulos para a futura missão na ausência física de Jesus nesta terra. E estas lições servem também como instrução catequética-catecumenal para todos os cristãos de todos os tempos e épocas. Por ser tratarem de lições importantes Lucas não tem pressa de relatar a chegada de Jesus em Jerusalém.               

A lição que Lc nos apresenta através da passagem do evangelho deste dia é sobre a humildade.        

Para falar destes temas Lc parte de uma refeição preparada por um fariseu para Jesus como seu convidado especial. Lc nos relata que Jesus é convidado por três vezes para uma refeição na casa dos fariseus (cf. Lc 7,36-50; 11,37-53; 14,7-14).      

No mundo semita o banquete ou a refeição é o espaço do encontro fraterno, onde os comensais partilham do mesmo pão (ser companheiro). E o pão/alimento é fruto dos processos do trabalho humano e é distribuído a cada membro da família para sua subsistência. A refeição é o espaço onde se manifestam e estabelecem laços de comunhão, de proximidade, de familiaridade e de fraternidade. Em qualquer povo, o primeiro gesto de hospitalidade e de fraternidade é o convite para a mesma mesa, a partilha daquele alimento que transforma estranhos em amigos. Sob o aspecto físico, a refeição é indispensável para a sobrevivência; no aspecto social, ela sela uma boa relação, uma aliança. Todas as alianças no mundo semita sempre se finalizam com uma refeição. 

“Quando fores convidado para uma festa de casamento, não ocupes o primeiro lugar. Pode ser que tenha sido convidado alguém mais importante do que tu, e o dono da casa, que convidou os dois, venha te dizer: ‘Dá o lugar a ele’. Então ficarás envergonhado e irás ocupar o último lugar”. Em outras palavras, seja humilde!                         

O vocábulo “humildade” deriva do latim humilis, que por sua vez, deriva de húmus: chão, terra. E o húmus é, também, a parte nutritiva da terra. É o lugar em que, recebendo os cuidados adequados, calor e umidade, germina a semente saudavelmente.        

A humildade consiste em saber ocupar o próprio lugar de criatura; em reconhecer que o que somos e temos é um dom de Deus por causa de seu amor. Humilde é saber ser o que cada um é e saber lutar por ser o que Deus espera que sejamos. Humilde é aquele que se encontra bem consubstanciado com a terra. É aquele que está com os pés bem firmes no chão, é aquele que pisa firme, com segurança, e confiança. Ele não se despreza. Ser humilde significa assumir com simplicidade o nosso lugar, colocar/pôr os próprios dons ao serviço de todos com simplicidade e com amor sem nunca humilhar os outros com a própria superioridade. Por isso, a humildade é refúgio e alimento do ser. É na humildade que germinam nossos autênticos valores. A humildade é uma forma de ser por dentro. Por isso, Santo Agostinho nos alerta: “Simular humildade é a maior das soberbas”.        

A humildade é a virtude que atrai a simpatia dos homens e as bênçãos de Deus: “Filho, na medida em que fores grande, deverás praticar a humildade, e assim, encontrarás graça diante do Senhor... pois é aos humildes que Ele revela seus mistérios e... é glorificado pelos humildes” (Eclo 3,20s). O caminho à verdadeira exaltação é a humildade: “Quem se eleva será humilhado e quem se humilha será elevado” (Mt 14,11). 

A pessoa humilde é que estabelece relações que trazem a felicidade, que acabam com o egoísmo, com a competição, com a ostentação, e fazem reinar no mundo as atitudes de intercâmbio generoso dos dons de Deus.

P. Vitus Gustama,svd

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Sexta-feira Da XXX Semana Comum, 30/10/2026

DEUS QUER VIDA PARA TODOS E POR ISSO, CURA QUALQUER PESSOA EM QUALQUER DIA

Sexta-Feira da XXXI Semana Comum

Primeira Leitura: Fl 1,1-11

Paulo e Timóteo, servos de Cristo Jesus, a todos os santos em Cristo Jesus que estão em Filipos, com os seus bispos e diáconos: 2 graça e paz a vós da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo. 3 Dou graças ao meu Deus, todas as vezes que me lembro de vós. 4 Sempre em todas as minhas orações rezo por vós, com alegria, 5 por causa da vossa comunhão conosco na divulgação do evangelho, desde o primeiro dia até agora. 6 Tenho a certeza de que aquele que começou em vós uma boa obra, há de levá-la à perfeição até ao dia de Cristo Jesus. 7 É justo que eu pense assim a respeito de vós todos, pois a todos trago no coração, porque, tanto na minha prisão como na defesa e confirmação do Evangelho, participais na graça que me foi dada. 8 Deus é testemunha de que tenho saudade de todos vós, com a ternura de Cristo Jesus. 9 E isto eu peço a Deus: que o vosso amor cresça sempre mais, em todo o conhecimento e experiência, 10 para discernirdes o que é o melhor. E assim ficareis puros e sem defeito para o dia de Cristo, 11 cheios do fruto da justiça que nos vem por Jesus Cristo, para a glória e o louvor de Deus.

Evangelho: Lc 14,1-6

1 Aconteceu que, num dia de sábado, Jesus foi comer na casa de um dos chefes dos fariseus. E eles o observavam. 2 Diante de Jesus, havia um hidrópico. 3 Tomando a palavra, Jesus falou aos mestres da Lei e aos fariseus: “A Lei permite curar em dia de sábado, ou não?” 4 Mas eles ficaram em silêncio. Então Jesus tomou o homem pela mão, curou-o e despediu-o. 5 Depois lhes disse: “Se algum de vós tem um filho ou um boi que caiu num poço, não o tira logo, mesmo em dia de sábado?” 6 E eles não foram capazes de responder a isso.

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A Unidade Se Alcança Através Do Caminho Da Humildade e Do Auto-Despojamento

Hoje iniciamos a leitura contínua da Epístola aos Filipenses. É a mais pessoal das cartas de São Paulo, e com o tom muito afetuoso e confidencial. A Carta aos filipenses é uma Carta cheia de carinho por parte de são Paulo, que correponde assim ao afeto que lhe tinha aquela comunidade. A Carta aos Filipenses é o testamento de são Paulo estando ele na prisão domiciliar. A comunidade cristã de Filipos é a primícia  da missão de são Paulo no continente europeu. É a comunidade que são Paulo mais aprecia.

O nome “Filipos” se deve ao rei Filipo II da Macedônia, pai de Alexandre Magno, que no ano 358 a.C., transformou algumas aldeias em uma cidade fortificada a qual deu o seu nome.

Quando Paul, Silas, Timóteo chegam a Filipos, entre os anos 49-51 depois de Cristo (alguns especialistas dizem em torno do ano 49, outros dizem que entre os anos 50-51, na segunda viagem missionária de Paulo), Filipos estava povoada. Havia também nessa cidade um pequeno grupo de judeus, mas não havia nenhuma sinagoga, pois segundo At 16,13, esses judeus tinham que reunir-se “à beira do rio” para orar. Atos dos Aóstolos destaca como protagonista Lidia (At 16,14-15). Segundo At 16,16-40 e 1Ts 2,2 Paulo e seus companheiros se deiveram  por pouco tempo em Filipos. De fato, quando Paulo e seus companheiros  partem dessa cidade, eles já deixam em andamento uma comunidade cristã que cresceu e progrediu admiravelmente e manteve sempre com Paulo alguns laços singulares de carinho e de apoio, mesmo Paulo estando na prisão, inclusive no aspecto material. (cf. 1Cor 4,12; 9,15; 2Cor 11,7-11; 1Ts 2,9).

Segundo os especialistas a Carta aos Filipenses contém três Cartas: a Carta de A e B teriam sido escritas estando na prisão em Éfeso entre os anos 55-56. E Carta C teria sido escrita no ano 57, encontrando-se Paulo em Corinto.

Os Filipenses estão sofrendo uma hostilidade considerável de seus concidadãos (Fl 1,28-30). Paulo vê a capacidade dos Filipenses de resistir seriamente enfraquecida por divisões internas, causadas pelo egoismo e pelo orgulho ou prepotência. Com grande amor, Paulo os incita a trabalharem juntos e a encontrarem  uma unidade mais profunda por meio de altruísmo. Ao mesmo tempo, Paulo desenvolve uma mística do sofrimento, a partir da própria experiência do Evangelho para alertá-los: assim como compartilham de seu sofrimento (na prisão), deveriam compartilhar também da alegria que emana da união profunda com Cristo que esse sofrimento traz.

A Carta gira em torno da ideia  da Koinonia, “participação comum”, “comunhão”: a Koinonia no sofrimento intensifica a união entre o apóstolo e a comunidade; ao mesmo tempo, a Koinonia básica em Cristo deveria modelar e determinar seus relamentos mútuos.

Hoje, através da Primeira Leitura, são Paulo pede aos Filipenses encarecidamente que lhe deem esta grande alegria: “Se existe consolação na vida em Cristo, se existe alento no mútuo amor, se existe comunhão no Espírito, se existe ternura e compaixão, tornai então completa a minha alegria: aspirai à mesma coisa, unidos no mesmo amor; vivei em harmonia, procurando a unidade”.

A comunidade de Filipo, como todas as demais comunidades, deve ter motivos de tensão e divisões. Por isso, são Paula dá esta recomendação. “Aspirai à mesma coisa, unidos no mesmo amor; vivei em harmonia, procurando a unidade”. Os perigos que ameaçam a mensagem da cruz de Cristo podem proceder não somente da parte de fora (judaizantes), mas da parte de dentro também. Dentro da própria comunidade pode haver desunião e divisão porque alguns querem exaltar-se ou ocupar primeiros lugares que é uma manifestação da falta da humildade e do “esvaziamento” que é o caminho de Jesus. A humildade é a virtude bíblica da “kénosis”, isto é, do auto-despojamento, do desapego. Jesus é a personaficação perfeita da “kénosis”, pelo seu auto-despojamento, pela sua forma de ser Servo por amor aos homens. A “kénosis” cristã é o conhecimento existencial da gratuidade. A “kénosis” é todo um empenhamento para dar lugar à riqueza do poder da graça de Deus.

Para pedir a unidade na comunidade de Filipo, são Paulo apela para a experiência dos próprios filipenses. Eles conhecem os bens espirituais que no texto de hoje são mencionados: a experiência do consolo ou do alívio, da ajuda que procede do ágape (amor mútuo na fraternidade), solidariedade comunitária; a experiência da comunhão no Espírito; a experiência do afeto e do amor mútuo entre são Paulo e os Filipenses; experiência do consolo em Cristo que é o resumo de tudo isso.

Os motivos para esta unidade, então, não são somente humanos, isto é a convivência civilizada e sim se apoiam sobretudo na fé: comunhão no Espirito. O Espirito une; o Diabo desune. O Espirito vivifica; o egoísmo sufoca e mata o amor fraterno. O motivo profundo da unidade é a nossa fé no Deus Uno e Trino. Toda divisão é o contra-testemunho de nossa fé na Santíssima Trindade. Toda união e fraternidade é a manifestação de nossa fé na Santíssima Trindade. Somos lembrados permanentemente da importância da união através do sinal da cruz que fazemos no início e no fim de nossas orações individuais e de nossas celebrações.

Os conselhos de são Paulo para os Filipenses valem para nós todos: “Nada façais por competição ou vanglória, mas, com humildade, cada um julgue que o outro é mais importante, e não cuide somente do que é seu, mas também do que é do outro”. A comunidade vai melhorar, se cada membro cuktivar essas atitudes. Todos devem cantar de verdade o Salmo Responsorial de hoje (Sl 130): “Senhor, meu coração não é orgulhoso, nem se eleva arrogante o meu olhar; não ando à procura de grandezas, nem tenho pretensões ambiciosas! ”.

Nossos divisões acontecem porque cada um se crê superior aos demais e se preocupa do seu, sem prestar atenção para os necessidades dos outros. Com isso, reina cada vez mais o egoísmo que mata a convivência fraterna. Alegraremos o coração de Deus e nós mesmos seremos mais felizes, se hoje fizermos o possível para reprimir nossas vaidades exageradas e nossas pretensões.

É Preciso Fazer o Bem Em Qualquer Lugar e Momento

Continuamos escutando as últimas e importantes lições de Jesus na sua última viagem para Jerusalém (Lc 9,58-19,28), pois lá ele será crucificado, morto e glorificado.

Na passagem do evangelho de hoje, Jesus quer nos relembrar que o ser humano é mais sagrado e importante do que qualquer lei por sagrada que ela pareça ser, pois em cada ser humano há o hálito divino (Gn 2,7) que o torna o templo do Espírito Santo (1Cor 3,16-17; 6,19).

“Aconteceu que, num dia de sábado, Jesus foi comer na casa de um dos chefes dos fariseus...”, assim o evangelista Lucas nos relatou. Era sábado (shabbat). O Sábado era o dia em que o povo eleito comemorava os grandes benefícios de Deus: a criação (Ex 20,8-11) e a libertação da escravidão do Egito (Dt 5,12-15). Era o dia o qual o Senhor abençoava acima de outros dias da semana (Jubileus 2,31s). Era o dia de reconhecimento de que Deus santificava o povo (cf. Ex 31,13; cf. Hb 4,9). No Sábado os judeus costumavam comer festivamente. Para Jesus, comer significa viver; comer no sábado significa participar da vida de Deus e Deus quer a vida em abundância para todos (Jo 10,10). Logo, é permitido salvar alguém no sábado de sua doença.

E nesse dia (Sábado) os judeus costumavam convidar as pessoas para a refeição festiva, mas não era qualquer convidado. O convidado de honra para a refeição festiva, além de escribas e fariseus, segundo o evangelho de hoje, era Jesus, pois ele era tratado como mestre. Jesus tinha fama na região toda (Lc 7,17). O povo considerava Jesus como o grande profeta (Lc 7,16; 24,19). Durante este tipo de refeição, costumavam aparecer algumas pessoas sem ser convidadas para ver o convidado de honra (cf. Lc 7,37). Podemos entender porque um hidrópico se encontrou nessa refeição.

“Diante de Jesus, havia um hidrópico”, prossegue Lucas. Para os fariseus e escribas qualquer doença era fruto do pecado cometido e consequentemente, era castigado por Deus. E a causa da hidropisia, segundo eles, era a luxúria. Em vez de se concentrar na refeição, os fariseus e escribas ficam olhando para Jesus e o hidrópico para observar o que Jesus vai fazer com o hidrópico, pois curar um doente faz parte dos 39 trabalhos proibidos no Sábado.

Qual é a posição de Jesus diante de um necessitado como esse hidrópico? Ele quer ajudar e curar o hidrópico mesmo sendo proibido, pois no Sábado. Mas antes de curá-lo Jesus lança uma pergunta bem fundamental com o intuito de que os fariseus e escribas possam refletir sobre a pergunta: “A Lei permite curar em dia de sábado, ou não?... Se algum de vós tem um filho ou um boi que caiu num poço, não o tira logo, mesmo em dia de sábado?”. Trata-se de uma nova maneira de conceber o “descanso” do Sábado, ou do domingo, no nosso caso, como cristãos. Com essa afirmação Jesus quer dizer aos fariseus e escribas e a todos nós que o Sábado ou o Domingo (para nós) é o dia da benevolência divina, o dia da redenção, da libertação, da misericórdia de Deus para os pobres, os excluídos, os perdidos, os pecadores, da ressurreição (para nós cristãos) e assim por diante. É o dia, por excelência, para fazer o bem, curar, salvar, ajudar, se solidarizar. É um dia de abertura aos demais: vida de família e de comunidade. É um dia de “saber descansar juntos”, cultivando valores humanos importantes. É um dia de caridade para partilhar o que somos e temos. Ao contrário, os fariseus e os escribas se preocupam com o descanso no Sábado e esquecem a vontade salvífica e amorosa de Deus pelo homem.

O homem hidrópico foi libertado por Jesus de sua hidropisia. A cura é sinal bastante evidente de que Deus está com Jesus e que Jesus age em virtude e no poder de Deus (At 10,38). Se curar um doente fosse proibido por Deus no Sábado, o homem não ficaria libertado de sua hidropisia.

Deus “pensa” na salvação do homem eternamente. Cada um de nós, seres humanos, está no pensamento de Deus, desde o princípio, pois o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus (Gn1,26; 3,22b).  Para Deus ninguém é anônimo, pois Ele chama cada um de nós pelo nome (cf. Is 43,1). O nome de cada um de nós está tatuado nas palmas das mãos de Deus (cf. Is 49,16). E o nome significa pessoa. Em cada nome está a missão de cada um. Em função da importância do homem, Deus até enviou seu Filho unigênito para salvar a humanidade (cf. Jo 3,16). E por causa do amor sem limite de Deus pelo ser humano, o salmista chegou a fazer uma pergunta retórica em forma de oração: “Ó Senhor, nosso Deus, como é glorioso vosso nome em toda a terra! Vossa majestade se estende, triunfante, por cima de todos os céus... Quando contemplo o firmamento, obra de vossos dedos, a lua e as estrelas que lá fixastes: Que é o homem, digo-me então, para pensardes nele? Que são os filhos de Adão, para que vos ocupeis com eles?” (Sl 8,2.4-5).

Jesus põe o ser humano acima de qualquer lei por sagrada que ela pareça ser. Que lugar ocupa o ser humano nas nossas atividades pastorais, nos movimentos, na política, na economia e assim por diante? De que maneira tratamos o ser humano que para Deus ele está acima de tudo? As regras são importantes desde que ajudem o ser humano a se desenvolver para viver na sua dignidade. Será que somos escravos das regras e das normas litúrgicas esquecendo o ser humano? Será que ao colocar as normas acima do ser humano, sem querer, manifestamos nosso pouco amor pelas pessoas? Será que sabemos acolher as pessoas ou nos preocupamos com nossas “atividades pastorais?”.

Na sua Carta Apostólica, Dies Domini, o Papa João Paulo II escreveu: “O domingo, de fato, recorda, no ritmo semanal do tempo, o dia da ressurreição de Cristo. É a Páscoa da semana, na qual se celebra a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte, o cumprimento n'Ele da primeira criação e o início da « nova criação » (cf. 2 Cor 5,17). É o dia da evocação adorante e grata do primeiro dia do mundo e, ao mesmo tempo, da prefiguração, vivida na esperança, do « último dia », quando Cristo vier na glória (cf. Act 1,11; 1 Tes 4,13-17) e renovar todas as coisas (cf. Ap 21,5).[Dies Domini,no.1]... “Há-de-se implorar a graça da descoberta sempre mais profunda deste dia, não só para viver em plenitude as exigências próprias da fé, mas também para dar resposta concreta aos anseios íntimos e verdadeiros existentes em todo ser humano. O tempo dado a Cristo, nunca é tempo perdido, mas tempo conquistado para a profunda humanização das nossas relações e da nossa vida” (no.7)... “Recebendo o Pão da vida, os discípulos de Cristo preparam-se para enfrentar, com a força do Ressuscitado e do seu Espírito, as obrigações que os esperam na sua vida ordinária. Com efeito, para o fiel que compreendeu o sentido daquilo que realizou, a Celebração Eucarística não pode exaurir-se no interior do templo. Como as primeiras testemunhas da ressurreição, também os cristãos, convocados cada domingo para viver e confessar a presença do Ressuscitado, são chamados, na sua vida quotidiana, a tornarem-se evangelizadores e testemunhas. A oração depois-da-comunhão e o rito de conclusão — a bênção e a despedida — hão-de ser, sob este aspecto, melhor entendidos e valorizados, para que todos os participantes na Eucaristia sintam mais profundamente a responsabilidade que daí lhes advém. Terminada a assembleia, o discípulo de Cristo volta ao seu ambiente quotidiano, com o compromisso de fazer, de toda a sua vida, um dom, um sacrifício espiritual agradável a Deus (cf. Rom 12,1). Ele sente-se devedor para com os irmãos daquilo que recebeu na celebração, tal como sucedeu com os discípulos de Emaús que, depois de terem reconhecido Cristo ressuscitado na « fracção do pão » (cf. Lc 24,30-32), sentiram a exigência de ir imediatamente partilhar com seus irmãos a alegria de terem encontrado o Senhor (cf. Lc 24,33-35)” (n. 45).

A partir de tudo que foi dito vem a pergunta: De que maneira nós vivemos o nosso Domingo, que é o Dia do Senhor e também é o dia da Igreja? Nós simplesmente cumprimos preceito ao ir à igreja aos domingos ou será que temos consciência de que vamos escutar as lições do Senhor através de Sua Palavra proclamada e medita durante a celebração dominical para colocarmos em prática a Palavra escutada?

Para Rezar e Refletir:

“Quando contemplo o firmamento, obra de vossos dedos, a lua e as estrelas que lá fixastes: Que é o homem, digo-me então, para pensardes nele? Que são os filhos de Adão, para que vos ocupeis com eles? Ó Senhor, nosso Deus, como é glorioso vosso nome em toda a terra!” (Sl 8).

“Que é o homem, de quem cuidas? Um ponto de poeira num cosmos de luz. Mas, no ponto que sou eu, há outra criação ainda mais maravilhosa do que o firmamento e as estrelas. O prodígio do meu corpo, o segredo das minhas células, o relâmpago que há nos meus nervos, o palácio do meu coração... E a animação da minha alma, a centelha do meu entendimento, o frêmito do meu sentimento, o pilar da minha fé. O milagre que está dentro de mim, bem como a Sua assinatura a ele aposta. Sorrio em reconhecimento quando vejo que fizeste de mim o rei da tua criação, inferior tão-somente, a Ti mesmo. Conheço a minha pequenez e a minha grandeza, a minha dignidade e a minha insignificância... Grande é o Teu nome, ó Senhor, por toda a terra... Quando encontro uma dificuldade na vida e penso em Ti, não é para pedir-Te que a remova, mas para que me dês forças para enfrentá-la; não é para impor-Te a minha solução, mas para que eu tome a Tua como minha. Eis por que És a minha fortaleza: porque És o meu ser” (Carlos G. Vallés: Busco Tua Face, Senhor. Ed. Loyola). 

P. Vitus Gustama,svd

Solenidade De Todos Os Santos, Domingo, 01/11/2026

SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS Primeira Leitura: Ap 7,2-4.9-14 Eu, João, 2 vi um outro anjo, que subia do lado onde nasce o sol. Ele tra...