domingo, 26 de julho de 2026

Santos Marta, Maria e Lázaro-Memória, 29/07/2026

SANTOS MARTA, MARIAE LÁZARO

JESUS É A RESSURREIÇÃO E A VIDA

    

29 de Julho

Primeira Leitura: 1Jo 4,7-16

7Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece Deus. 8Quem não ama, não chegou a conhecer Deus, pois Deus é amor. 9Foi assim que o amor de Deus se manifestou entre nós: Deus enviou o seu Filho único ao mundo, para que tenhamos vida por meio dele. 10Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de reparação pelos nossos pecados. 11Caríssimos, se Deus nos amou assim, nós também devemos amar-nos uns aos outros. 12Ninguém jamais viu a Deus. Se nos amamos uns aos outros, Deus permanece conosco e seu amor é plenamente realizado entre nós. 13A prova de que permanecemos com ele, e ele conosco, é que ele nos deu o seu Espírito. 14E nós vimos, e damos testemunho, que o Pai enviou o seu Filho como Salvador do mundo. 15Todo aquele que proclama que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece com ele, e ele com Deus. 16E nós conhecemos o amor que Deus tem para conosco, e acreditamos nele. Deus é amor: quem permanece no amor, permanece com Deus, e Deus permanece com ele.

Evangelho: Jo 11,19-27

Naquele tempo, 19 muitos judeus tinham vindo à casa de Marta e Maria para as consolar por causa do irmão. 20 Quando Marta soube que Jesus tinha chegado, foi ao encontro dele. Maria ficou sentada em casa. 21 Então Marta disse a Jesus: “Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido. 22 Mas mesmo assim, eu sei que o que pedires a Deus, ele te concederá”. 23 Respondeu-lhe Jesus: “Teu irmão ressuscitará”. 24 Disse Marta: “Eu sei que ele ressuscitará na ressurreição, no último dia”. 25 Então Jesus disse: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. 26 E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais. Crês isto?” 27 Respondeu ela: “Sim, Senhor, eu creio firmemente que tu és o Messias, o Filho de Deus, que devia vir ao mundo”.

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Celebramos hoje a festa de Santos Marta, Maria e Lázaro. Eles são mencionados nos evangelhos de Lucas e de João.

Marta era irmã de Maria e de Lázaro, de Betânia. Ela era uma discípula e seguidora de Jesus Cristo, muito estimada por Ele (Jo 11,5). Marta vivia com seus dois irmãos, Maria e Lázaro, na pequena vila chamada Betânia (Jo 11,1), localizada nas encostas ao leste do monte das Oliveiras. Jesus os visitava frequentemente, quando estava em Jerusalém (Lc 10,38). Jesus estava com eles na semana antes de ser preso e crucificado (Mt 21,17).

Marta é conhecida como aquela que estava sempre envolvida e sobrecarregada com os afazeres diários (Lc 10,39-42). Nesse episódia Marta é uma anfitriã. Na Antiguidade, hospedar alguém, especialmente, estrangeiro era um ato sagrado. Acreditava-se que no hóspede algum anjo se escondia. Receber um hóspede ou um estrangeiro era receber um anjo (cf. Hb 13,2). Nisto Marta é louvável. Porém nesse episódio de Lc 10,39-42 Marta não é altruísta e desinteressada, pois ela espera ser reconhecida por Jesus como boa anfitriã. Marta quer servir Jesus sem perguntar o que Jesus deseja. Maria, sua irmã, ouve o Convidade (Jesus). Marta chama até a atenção de Jesus, pois Maria,  sua irmã, deixa ela fazer tudo sozinha. Maria é louvável, pois ela está aos pés de Jesus para ouvir sua Palavra; o próprio Jesus é a Palavra divina (cf. Jo 1,1-3).

Quando seu irmão, Lázaro, ficou gravemente enfermo, enviaram uma mensagem a Jesus para que viesse à casa deles com urgência (Jo 11,3). Marta foi honesta com Jesus ao dizer-lhe que se tivesse vindo imediatamente, seu irmão estaria vivo. Mas exercitou uma fé extraordinária ao identificar Jesus como o Filho de Deus e crer que Ele tinha grande poder (Jo 11,21-27). Jesus honrou sua fé e ressuscitou Lázaro, a fim de manifestar desta maneira a glória de Deus (Jo 11,38-44).

O evangelho nos relatou alguns encontros de Marta com Jesus. O primeiro encontro aconteceu quando Jesus estava indo para Jerusalém e hospedou na casa de Marta (Lc 10,38-42). Nesse encontro Jesus disse a Marta que estava muito ocupada com a preparação de refeição em vez de escutar as palavras de Jesus: “Marta, Marta, tu te inquietas e te agitas por muitas coisas; no entanto, pouca coisa é necessária, até mesmo uma só. Maria, com efeito, escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada(Lc 10,41-42). Nesse primeiro encontro, Maria, a irmã de Marta, escutava Aquele que era a própria Palavra de Deus (cf. Jo 1,1-3).

A comunidade cristã é fundamentalmente uma comunidade que escuta. Deixaria de ser uma comunidade cristã, se parasse de escutar a Palavra de Deus. Escutar é a primeira forma de fé e de oração, antes que dizer palavras ou entoar cantos. Escuta é a atitude mais cristã.

Silêncio e escuta são duas coisas inseparáveis. Uma não pode existir sem outra. Para escutar bem é preciso ter ou criar o silêncio. Para captar o sentido daquilo que está sendo escutado é indispensável o silêncio. O silêncio fomenta a sinceridade. Tenho que encontrar dentro de mim a verdade sobre a minha vida. O silêncio chega quando as minhas energias começam a descansar. A vida nunca é o que se consegue, pois não se pode ignorar que tudo quanto se alcança, se perde. A vida é o que se é. E só o que se é, permanece.

Outro encontro de Marta com Jesus aconteceu por ocasião da morte de Lázaro, seu irmão, como lemos no evangelho neste dia (Jo 11,19-27). A reflexão sobre esse encontro vamos ver mais adiante.

O último encontro de Marta com Jesus que o evangelho nos relatou aconteceu “Seis dias antes da Páscoa quando Jesus foi para Betânia” (cf. Jo 12,1-8). Nesse encontro Maria, a irmã de Marta, demonstrou seu amor por Jesus de modo peculiar. Enquanto Marta servia a refeição, Maria “ungiu os pés de Jesus e os enxugou com seus cabelos; e a casa inteira ficou cheia do perfume do balsamo” (Jo 12,3). Maria era uma pessoa que amava Jesus acima de tudo e de todos. Ela escolheu um perfume mais caro que tinha. O verdadeiro amor não tem preço. O verdadeiro amor dá tudo que se tem (cf. Jo 13,1). O gesto Maria antecipa a morte de Jesus cujo corpo será ungido (cf. Mc 16,1).

Depois desse três encontros Marta desapareceu dos relatos dos evangelhos. Nenhum documento antigo nos informa sobre seu comportamento durante os dias da Paixão de Jesus e do tempo que seguiu a ressurreição do Senhor até Sua ascensão ao céu.

Lázaro do Evangelho de hoje era o irmão de Marta e Maria (Jo 11,1-12,19), os quais viviam em Betânia. Jesus muitas vezes se hospedou na casa deles (Lc 10,38-41). E tinha uma profunda afeição pelos três irmãos (Jo 11,3.5.33.35). Lázaro, um dia, ficou gravemente enfermo, e suas irmãs enviaram uma mensagem a Jesus a fim de que Ele viesse curá-lo. Ao receber a notícia, Jesus falou que aquela enfermidade não resultaria na morte de Lázaro, e sim resulta na revelação da glória de Deus. “Eu sou a ressurreição e a vida” (Jo 11,25). Com uma palavra de comando, dirigida para dentro do túmulo onde Lazáro foi enterrado (faz quatro dias no túmulo), Lázaro retornou à vida e saiu do túmulo. No ressurgimento de Lázaro, Jesus demonstrou seu poder divino de dar a vida e prefigurou sua autoridade sobre a promessa geral da ressurreição: “Quem creem mim ainda que esteja morto viverá”.

Maria, de Betância, era outra irmã de Marta e de Lázaro (Jo 11,1). Como foi dito, os três irmãos estavam entre os amigos mais próximos de Jesus. Maria é descrita na Bíblia como uma mulher muito dedicada ao ministério de Jesus. Ela era uma discípulo com uma profunda fé no Senhor. Ela é vista como uma ouvinte atenta dos ensinamentos de Jesus Cristo.

A Bíblia descreve três eventos nos quais Maria esteve envolvida. O primeiro, encontra-se em Lc 10,38-42. Maria e Marta receberam Jesus em sua casa e a Bíblia diz que Maria “estava sentada aos pés de Jesus e ouvia a sua palavra” (Lc 10,39). “Sentar-se aos pés” aqui significa ser discípulo de um mestre. Logo, Maria era uma das discípulos de Jesus. O segundo evento é narrado em João 11,1-47. Neste texto se relata a enfermidade e a morte de Lázaro, mas que com o poder de Jesus Lázaro voltou a viver apesar de ter estado quatro dias no túmulo. Para Jesus, que é a Vida e Ressurreição, não há nenhuma impossibilidade. O terceiro evento que envolveu Maria de Betânia foi um jantar oferecido em homenagem a Jesus Cristo, ocasião em que Marta o servia. “Seis dias antes da Páscoa, foi Jesus a Betânia, onde vivia Lázaro, que ele ressuscitara. Deram ali uma ceia em sua honra. Marta servia e Lázaro era um dos convivas. Tomando Maria uma libra de bálsamo de nardo puro, de grande preço, ungiu os pés de Jesus e enxugou-os com seus cabelos. A casa encheu-se do perfume do bálsamo(Jo 12,1-3). Esta unção é o gesto de bondade de Maria para Jesus e o identificou como um sinal da morte iminente de Jesus na cruz, quando seu corpo será ungido com perfumes e colocado no túmulo.

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O episódio da ressurreição de Lázaro, narrado no texto do Evangelho de hoje, começa mostrando a sintonia que reina entre Jesus e a comunidade dos que nele acreditam, representada por Lázaro, Marta e Maria. De fato, esses três representam a comunidade do Discípulo Amado que crescem na fé em Jesus, e as comunidades que aderem a Jesus em todos os tempos.

Marta representa o tipo de discípulo de Jesus que precisa superar o preconceito da morte enquanto desfecho fatal. Ela crê na ressurreição do último dia, como a maioria dos judeus. Mas Jesus é a Ressurreição e a Vida aqui e agora. Esse é o desafio feito às duas irmãs e a todos nós: Jesus não é a Vida somente depois da morte, mas ele é a Vida em abundância para esta vida e para além dela.      

Superado o preconceito diante da morte, Marta se torna missionária porque ela vai chamar sua irmã Maria, que está sentada em casa, recebendo os pêsames da sociedade que nada faz diante das pessoas senão tentar consolar com palavras. “Maria ficou sentada em casa” esta expressão quer dizer que para Maria a morte de seu irmão significa o termino de sua vida. A ideia da morte como fim paralisa a comunidade e a faz permanecer no ambiente da dor, cercada pelos que não tem fé em Jesus. Maria tem de sair dessa casa para se encontrar com Jesus, a Ressurreição e a Vida. Também Maria, abandonando a “casa do desespero”, torna-se missionária porque ela conduz os judeus a Jesus que após o sinal (ressurreição) passam a acreditar em Jesus (v.31).       

Jesus não veio para dar pêsames, e sim para comunicar vida. Após ter agradecido ao Pai, fonte da vida que comunica vida por meio da ação libertadora do Filho, Jesus chama Lázaro à vida. Jesus não veio para prolongar a vida física que o homem possui. Ele veio para comunicar a vida que ele mesmo possui e da qual dispõe: “Assim como o Pai tem a vida em si mesmo, também concedeu ao Filho ter a vida em si mesmo(Jo 5,26). Esta vida é seu próprio Espírito, a presença Sua e do Pai naquele que o aceita e vive sua mensagem, e esta vida despoja à morte de seu caráter de extinção. Na frase de Jesus “Eu sou a ressurreição e a vida” o primeiro termo depende do segundo: ele é a ressurreição por ser a vida: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6). A vida que ele comunica, ao encontra-se com a morte, a supera; isto se chama ressurreição.

A ressurreição de Jesus e a nossa ressurreição pela fé em Jesus ressuscitado é a chave de nossa vida cristã. Crer na ressurreição não é somente crer em uma doutrina. Temos que crer na ressurreição com a vida; não somente com a cabeça. Temos que fazer nossa a ressurreição fazendo nosso o juízo de Deus contra o mal. Temos que crer na ressurreição com nossa atitude e nossas obras. Se nós acreditamos realmente na ressurreição, devemos respeitar a vida, a nossa própria e a dignidade da vida dos outros no seu início, na sua duração e no seu fim na história. Quem desrespeita a própria vida e a vida dos outros, nega a ressurreição. Se realmente acreditamos na ressurreição temos que ter certeza de que a vida não termina aqui, pois a vida é de Deus (cf. Jo 11,25; 14,6). Se acreditamos realmente na ressurreição devemos ter certeza de que os que nos precederam estão em comunhão conosco e intercedem por nós como nossos irmãos. Se realmente acreditamos na ressurreição não devemos prolongar nossa tristeza pelo falecimento de nosso irmão/ nossa irmã, nosso pai/nossa mãe, marido/esposa, filho/filha, pois eles apenas voltaram para a casa do Pai (cf. Jo 14,1-6). Se acreditamos realmente na ressurreição, devemos ter certeza de que o amor dos que nos precederam para a eternidade não morre, pois o amor é o nome próprio de Deus: “Deus é amor”, disse são João (1Jo 4,8.16). Em outras palavras, temos que fazer de nossa vida uma ressurreição permanente. 

Além disso, crer na ressurreição de Cristo é muito mais que afirmar que Jesus foi tirado por Deus do túmulo; é reconhecer que o projeto de Deus se realiza em cada homem para a vida e não para a morte. Crer na ressurreição é crer no Deus da vida. E não somente isso; é crer em nós mesmos como a verdadeira possibilidade que temos de ser algo de Deus. A ressurreição de Jesus é a primícia de que na morte se nasce já para sempre.

Lázaro voltou à vida por ação de Jesus. Mas sua ação libertadora quer comprometer todos os que o seguem. A ação libertadora de Jesus implica nossa prática de libertação: desamarrar todas as pessoas de todos os laços que as prendem a uma situação de morte. Somos chamados a respeitar e a proteger a vida desde seu início, na sua duração e no seu término, pois a vida é sagrada. Por ser sagrada, a vida não pode ser sacrificada em nome de ninguém. Assim agindo, estaremos continuando o que Jesus fez, a fim de que todos tenham vida em abundância (cf. Jo 10,10).

Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá”.  A partir da ressurreição do Senhor não vivemos mais para morrer e sim morremos para viver. A vida não pertence mais à morte e sim a morte pertence à vida.

Para que nossa vida se torne uma ressurreição permanente temos que ter algo divino dentro de nós: amor, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). Amar a alguém, do ponto de vista cristão, é equivale a lhe dizer: Tu nunca morrerás. Tu viverás para sempre. Tu estarás em comunhão conosco mesmo de pois de terminar a passagem nesta terra. Com efeito, o homem morre não quando deixa de viver e sim quando deixa de amar. “Ama e faze o que quiseres!”, dizia Santo Agostinho (In epist. Joan. 7,8).  O amor é a vida do espírito. O ódio, portanto, é sua morte”, acrescentou Santo Agostinho (In ps. 54,7). A amabilidade e a bondade estão sempre unidas. “Bons amores fazem boas condutas(Santo Agostinho: Serm. 311,11,11).

Quais são as amarras que nos prendem a uma situação de morte? E como nos livrar dessas amarras? Quantas vezes nos comportamos como Maria que consideramos a morte como o fim de tudo (acabou tudo) e esta crença, consequentemente, paralisa nossa vida. Precisamos ouvir e viver sempre aquilo que Jesus nos diz: “Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em mim ainda que esteja morto viverá”. É preciso que voltemos a ser verdadeiros cristãos vivendo na profundidade o que Jesus nos ensinou. Por este caminho superaremos muitas coisas na vida. Com Jesus ressuscitado, a vida não acaba, mas continua. Para chegar a esta verdade nós precisamos recuperar nossa fé em Jesus que é a ressurreição e a vida. É preciso que tenhamos consciência de que a fé na ressurreição é a razão de todas as celebrações e de todos os sacramentos e de todas as atividades evangelizadoras na Igreja. No Credo professamos: “Creio na comunhão dos santos; na remissão dos pecados; na ressurreição da carne e na vida eterna”.

P. Vitus Gustama,svd

sábado, 25 de julho de 2026

Terça-feira Da XVII Semana Comum, Ano Par, 28/07/2026

SER SEMEADOR DO BEM É UMA MANEIRA EFICAZ PARA MOSTRAR NOSSA FIDELIDADE AO SENHOR

Terça-feira da XVII Semana Comum

Primeira Leitura: Jr 14,17-22

17 “Derramem lágrimas meus olhos, noite e dia, sem parar, porque um grande desastre feriu a cidade, a jovem filha de meu povo, um golpe terrível e violento. 18 Se eu sair ao campo, vejo cadáveres abatidos à espada; se entrar na cidade, deparo com gente consumida de fome; até os profetas e sacerdotes andam à toa pelo país”. 19 Acaso terás rejeitado Judá inteiramente, ou te desgostaste deveras de Sião? Por que, então, nos feriste tanto, que não há meio de nos curarmos? Esperávamos a paz, e não veio a felicidade; contávamos com o tempo de cura, e não nos restou senão consternação. 20 Reconhecemos, Senhor, a nossa impiedade, os pecados de nossos pais, porque todos pecamos contra ti. 21 Mas, por teu nome, não nos faças sofrer a vergonha suprema de levar a desonra ao trono de tua glória; lembra-te, não quebres a tua aliança conosco. 22 Acaso existem entre os ídolos dos povos os que podem fazer chover? Acaso podem os céus mandar-nos as águas? Não és tu o Senhor, nosso Deus, que estamos esperando? Tu realizas todas essas coisas.

Evangelho: Mt 13,36-43

Naquele tempo, 36 Jesus deixou as multidões e foi para casa. Seus discípulos aproximaram-se dele e disseram: “Explica-nos a parábola do joio!” 37 Jesus respondeu: “Aquele que semeia a boa semente é o Filho do Homem. 38 O campo é o mundo. A boa semente são os que pertencem ao Reino. O joio são os que pertencem ao Maligno. 39 O inimigo que semeou o joio é o diabo. A colheita é o fim dos tempos. Os ceifadores são os anjos. 40 Como o joio é recolhido e queimado ao fogo, assim também acontecerá no fim dos tempos: 41 O Filho do Homem enviará os seus anjos e eles retirarão do seu Reino todos os que fazem outros pecar e os que praticam o mal; 42 e depois os lançarão na fornalha de fogo. Ali haverá choro e ranger de dentes. 43 Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai. Quem tem ouvidos, ouça”.

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Qualquer Pecado É Capaz De Destruir Nossa Vida

Derramem lágrimas meus olhos, noite e dia, sem parar, porque um grande desastre feriu a cidade, a jovem filha de meu povo, um golpe terrível e violento. Se eu sair ao campo, vejo cadáveres abatidos à espada; se entrar na cidade, deparo com gente consumida de fome; até os profetas e sacerdotes andam à toa pelo país... Reconhecemos, Senhor, a nossa impiedade, os pecados de nossos pais, porque todos pecamos contra ti”.

O texto da Primeira Leitura é tirado do capítulo XIV do livro do profeta Jeremias. Todo este capítulo XIV é uma espécie de liturgia suplicatória  composta por Jeremias para umas orações solenes feitas em Jerusalém por ocasião de uma “grande seca” que aconteceu durante o reinado de Joaquim.  Os grandes da cidade enviaram os servos à procura de água. Encaminham-se estes às cisternas; água, porém, não encontram, e voltam com os recipientes vazios, envergonhados, confundidos, cobertas as cabeças. Fende-se o solo todo, porque a chuva não rega a terra. Decepcionam-se os lavradores e cobrem suas cabeças" (Jr 14,3-4).

Como já foi dito nos dias anteriores (teologia do livro de Jeremias), Jeremias não é apenas um profeta que sofre por causa do povo, mas também é um profeta que sofre com seu povo. Nisto ele desempenha seu papel de intercessor do povo para pedir o auxílio de Deus e o perdão por todos os pecados do povo.

O texto da Primeira Leitura é uma nova lamentação do profeta Jeremias em forma de oração sobre a ruína de Judá como povo, em consequência de seus pecados. O pecado é um dos acontecimentos diários que todos temos em comum, algo com que todos nós podemos nos identificar. É uma batalha para vencer ou perder. O pecado nos prostitui, nos impede de crescer e amadurecer, nos envergonha e humilha. Inveja, agressão, violência, perversões, injustiça, ódio, suborno etc. são todas facetas de uma mesma e única realidade que corrói o coração do homem, anula seus projetos e destrói sua bela história.

A mortalidade em Judá é tão grande que tanto no campo quanto na cidade não há nada além da morte pela espada e o sofrimento pela fome. A expressão “virgem filha do meu povo” é sinônimo do "povo" de Judá, personificada em uma donzela, o objeto do amor de Deus. Os sacerdotes e os profetas, que anteriormente, acreditavam que não haveria guerra ou necessidades, são obrigados a vagar por um país que eles não conhecem em busca de alimento para cobrir suas necessidades mais básicas.

A catástrofe é tão grande que não há esperança: em vez de paz e alívio, a perturbação e a angústia ficam cada vez maiores. Certamente, tudo isso aconteceu pelos pecados de Judá e o povo o reconhece: “Reconhecemos, Senhor, a nossa impiedade, os pecados de nossos pais, porque todos pecamos contra ti”.

Depois de refletir o estado de ruína trágica de seu povo, o profeta Jeremias faz um apelo angustiado ao Senhor a fim de evitar tal miséria. O profeta relembra as relações íntimas que outrora existiram entre Deus e seu povo em virtude da Aliança. Deus havia prometido estar sempre com seu povo, mas agora quase não há esperança de salvação. Talvez Deus tenha mudado seus sentimentos em relação ao seu povo. “Acaso terás rejeitado Judá inteiramente, ou te desgostaste deveras de Sião?”, pergunta Jeremias a Deus.

Por fim, o profeta retorna ao assunto da seca. Para Jeremias, Deus é onipotente e só Ele pode enviar a chuva. Os ídolos não podem fazer com que os céus enviem a chuva neste momento. Tudo depende do Senhor, e os céus por si só não podem enviar a chuva esperada. E novamente ele lança um apelo às relações especiais que Deus tem com seu povo: “Não és tu o Senhor, nosso Deus, que estamos esperando?”, pergunta o profeta Jeremias.

Jeremias chora e intercede pelo povo. Um bom profeta se solidariza com seu povo nos seus fracassos e ele se alegra com o seu bem. Jeremias lamenta, fala de feridas e de dor em sua alma: tudo por causa do pecado do povo e os seus sofrimentos como consequência. E ele se dirige a Deus em uma sincera oração, intercedendo por todos:Reconhecemos, Senhor, a nossa impiedade, os pecados de nossos pais, porque todos pecamos contra ti. Mas, por teu nome, não nos faças sofrer a vergonha suprema de levar a desonra ao trono de tua glória; lembra-te, não quebres a tua aliança conosco”. Os olhos do profeta Jeremias se derretem em lágrimas, noite e dia. A sensibilidade de Jeremias é a expressão da sensibilidade de Deus, pois é Deus quem lhe envia para dizer isto.

As secas e outras desgraças que nos afligem de tempos em tempos, como alguma pandemia de um vírus ou outro tipo de doença, não são necessariamente o castigo imediato de um pecado.

Mas nós também devemos tornar nossa a atitude penitente de Jeremias e reconhecer diante de Deus que nosso egoísmo, nosso desvio da Nova Aliança e nossos pecados nos trazem muitos males, não só para nós particularmente, mas também para os outros, dos quais devemos nos arrepender. O mal não tem rosto porque ele pode tomar o ser de qualquer um de nós. Ninguém está isento da possibilidade do mal. O mal é tudo que serve à morte; tudo que sufoca a vida, estreita-a, e corta-a em pedaços. Por isso, a realidade do mal exige vigilância permanente.  As principais ameaças à nossa sobrevivência já não vêm da natureza externa e sim de nossa natureza humana interna. São nossas hostilidades, nosso descaso, o egoísmo, a arrogância, a prepotência e a ignorância deliberada que põem o mundo ao nosso redor em perigo. Se não conseguirmos domar e transmutar o potencial da alma humana para o mal, nós estaremos perdidos e faremos perdida até nossa própria família.

São Paulo nos escreveu: “Ora, as obras da carne são manifestas: formicação, impureza, libertinagem, idolatria, feitiçaria, ódio, rixas, ciúmes, ira, discussões, discórdia, divisões, invejas, bebedeiras, orgias, e coisas semelhantes a estas, a respeito das quais eu vos previno como já vos preveni: os que tais coisas praticam não herdarão o reino de Deus (Gl 5,19-21).

Na liturgia eucarística, começamos a celebração com um ato penitencial, reconhecendo-nos como pecadores. O Ato Penitencial é uma boa disposição para nos deixarmos encher, depois, com a Palavra e a Eucaristia.

Com o Salmos Responsório de hoje (Sl 78) peçamos a Deus: Não lembreis as nossas culpas do passado, mas venha logo sobre nós vossa bondade, pois estamos humilhados em extremo. Ajudai-nos, nosso Deus e Salvador! Por vosso nome e vossa glória, libertai-nos! Por vosso nome, perdoai nossos pecados! Até vós chegue o gemido dos cativos: libertai com vosso braço poderoso os que foram condenados a morrer! Quanto a nós, vosso rebanho e vosso povo, celebraremos vosso nome para sempre, de geração em geração vos louvaremos”.

 Ser Cristão É Ser Semeador Da Bondade

Continuamos a acompanhar o discurso de Jesus sobre o Reino de Deus em parábola.

No texto do evangelho de hoje Jesus explicou para os discípulos sobre o sentido da parábola sobre o joio e o trigo. "Aquele que semeia a boa semente é o Filho do homem", disse-lhes Jesus.

Jesus é um semeador. Mas não é qualquer semeador. Ele é um Semeador de boas sementes. Ele faz algo de bom... apenas o bom, nada de ruim. E eu? Será que sou um semeador de coisas boas ou eu semeio as sementes de joio? Vamos colher aquilo que semeamos.

Lançar sementes, semear sementes é sempre fácil. Mas precisamos saber daquilo que estamos semeando. O joio não vai produzir o trigo. O trigo não vai produzir o joio. Que tipo de semente que estou semeando, então? Semear joio é apenas uma forma de matar outras plantas boas para minha sobrevivência. Não posso semear aquilo que me prejudica e consequentemente prejudicará os outros ao meu redor.

A boa semente são os filhos do Reino”, disse Jesus. A fórmula é surpreendente. O que Jesus semeia neste momento no mundo somos "nós", filhos do Reino! Ele nos manda para o mundo para sermos sementes da bondade. É a tarefa principal como cristãos. Sou uma semente de Deus. Eu devo ser para os outros aquilo que sou para Deus. Se eu sou uma semente de Deus, eu devo ser, então, fonte de alegria de Deus no mundo, fonte da bondade de Deus no mundo para os demais. Deus fala e age através de mim no mundo. Para Deus eu existo para ser Sua semente neste mundo. Uma só semente. É pouco? Sim! Mas uma semente boa no terreno fértil pode produzir centenas de grãos bons. Eu devo me tornar multiplicador da bondade.

O inimigo que semeou o joio é o diabo”.O Senhor entende por joio são todos os filhos do maligno, isto é, os imitadores da falsidade do Diabo. Donde segue que o joio são os filhos da maldade, pelos quais se entendem todos os ímpios e malgnos(Santo Agostinho In Contra Faustum, 18,7).

O joio é o diabo”.  Diaboé aquele que desune. É aquele que está contra a igualdade. Todos os escândalos provem do joio(São Jerônimo). É aquele que está contra a comunhão e a comunidade. É o contrário do símbolo, duas coisas que se encaixam bem, bem se unem formando uma só força para construir e não para destruir. O diabo semeia à noite, na escuridão.  Na escuridão tem somente uma cor: preta. É uma grande pobreza ter só uma cor. O bom semeador semeia durante o dia, na claridade. Na claridade podemos perceber a variedade de cores. É uma grande riqueza. É uma harmonia. A palavra “harmonia” supõe a existência de várias coisas formando uma união que produz uma beleza. Serei diabo na medida em que eu semear a discórdia, a desunião, e a divisão.

"Então os justos vão brilhar como o sol no reino do seu Pai”. O “sol” é uma belíssima imagem. O sol ilumina, aquece, ajuda no crescimento das plantas, orienta os caminhantes, faz os olhos saudáveis funcionarem, pois sem a luz por saudáveis que eles sejam, os olhos não enxergam. Somente numa boca saudável é que a comida gostosa fica saborosa. A bondade nos conduz à eternidade, para estar com o Supremo Bom que é Deus. Aquilo que tem algo divino em nós é que nos levará para o próprio Deus. Aquilo que não tem algo divino em nós pode nos levar para outra direção, menos para Deus.

A Palavra de Deus hoje nos chama a revisarmos nossa maneira de viver: Será que estou consciente de que sou semente de Deus neste mundo? Será que sou um semeador da bondade ou da maldade? Meus atos são diabólicos, atos que desunem ou são simbólicos, atos que criam união? Aquilo que tem algo divino em mim é que me levará para estar com o próprio Deus. Aquilo que não tem algo divino em mim pode me levar para outra direção, menos para Deus.  O que tem dentro de mim? 

P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Segunda-feira Da XVII Semana Comum, Ano Par, 27/07/2026

CRER  E SER FIEL NA FORÇA DA PALAVRA DE DEUS

Segunda-Feira Da XVII Semana Comum

Primeira Leitura: Jr 13,1-11

1 Isto disse-me o Senhor: “Vai comprar um cinto de linho e põe-no em torno da cintura, mas não o deixes molhar na água”. 2 Comprei o cinto, conforme a ordem do Senhor, e coloquei-o à cintura. 3 E a palavra do Senhor dirigiu-me a mim pela segunda vez, dizendo: 4 ”Toma o cinto que compraste e tens à cintura, levanta-te e vai ao Eufrates, esconde-o lá na fenda de uma pedra”. 5 Fui e o escondi perto do Eufrates, conforme mandara o Senhor. 6 Ora, ao cabo de muitos dias, disse-me o Senhor: “Levanta-te, vai ao Eufrates, e retira de lá o cinto que te mandei esconder”. 7 Fui ao Eufrates, cavei e retirei o cinto do lugar onde o tinha escondido; mas eis que o cinto tinha apodrecido tanto que não servia mais para nada. 8 E a palavra do Senhor dirigiu-me a mim, dizendo: 9 ”Isto diz o Senhor: Assim farei apodrecer a grande soberba de Judá e de Jerusalém; 10 este povo perverso, que se recusa a ouvir minhas palavras, convive com a maldade no coração, e vai atrás de deuses estrangeiros, prestando-lhes culto e prostrando-se diante deles será como este cinto que não serve mais para nada. 11 Pois assim como o cinto se une à cintura do homem, assim quis eu que toda a casa de Israel e toda a casa de Judá se unissem a mim, diz o Senhor, para ser meu povo, honra do meu nome, louvor e glória. Mas não ouviram”.

Evangelho: Mt 13,31-35

Naquele tempo, 31Jesus contou-lhes outra parábola: “O Reino dos Céus é como uma semente de mostarda que um homem pega e semeia no seu campo. 32 Embora ela seja a menor de todas as sementes, quando cresce, fica maior do que as outras plantas. E torna-se uma árvore, de modo que as aves do céu vêm e se abrigam nos seus ramos”. 33 Jesus contou-lhes ainda uma outra parábola: “O Reino dos Céus é como fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado”. 34Tudo isso Jesus falava em parábolas às multidões. Nada lhes falava sem usar parábolas, 35 para se cumprir o que foi dito pelo profeta: ‘Abrirei a boca para falar em parábolas; vou proclamar coisas escondidas desde a criação do mundo’.

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Vestir-se Da Justiça, Da Fidelidade É Vestir-se Da Força Protetora De Deus

“Vai comprar um cinto de linho e põe-no em torno da cintura, mas não o deixes molhar na água”.

As ações simbólicas servem aos profetas para expressar sua mensagem com uma pedagogia popular. No texto de hoje, o profeta Jeremias usa como símbolo o “Cinto de linho”.

Devido à sua forma circular e a sua função de atar, “Cintoé símbolo de força, poder, consagração, fidelidade (ligação a uma pessoa, grupo ou tarefa), proteção e castidade. Privar alguém do seu cinto significava tirar-lhe suas vinculações e sua força, e eventualmente a sua dignidade. Na Bíblia o cinto é mencionado como símbolo de prontidão: a Páscoa deve ser comida com rins cingidos, pés calçados e com o bordão à mão (Ex 12,11). Além disso, na linguagem bíblica o cinto significa: justiça, força, fidelidade, verdade (Is 11,5; Ef 6,14; Sl 18,23: Deus me cinge com força). O cinto tem função protetora e separadora no campo da vida sexual. Assim o cinto se tornou na compreensão cristã símbolo da proteção, da continência, da castidade, trazido sobretudo pelos eremitas. Não é por acaso que cinto, de que narra a Bíblia é inserido na “roupa” de folhas de figo que Adão e Eva vestiram depois da queda no pecado: “... entrelaçaram folhas de figueira e se cingiram” (Gn 3,7). Em Jo 21,18  encontra-se a frase de Jesus para Simão Pedro “quando fores velho o outro te cingirá” que significa a partir daquele momento Pedro deve obedecer à sua vocação. Assim, o cinto significa ao mesmo tempo humildade e força.

“Vai comprar um cinto de linho e põe-no em torno da cintura, mas não o deixes molhar na água”.

Um cinto de linho pode ser um adorno muito bonito, apertado ao vestido. Mas se deixar o cinto molhar e não se cuidar dele, ele se decompõe e não será mais útil. Isto é o que acontece com Jeremias: escondido no rio Eufrates, depois de um tempo, ele está totalmente podre e nem pode ser apresentado.

A intenção é simbólica. O cinturão é o povo de Israel, que uma vez foi tão bonito que o próprio Deus o "vestiu" com o ornamento e ficou feliz com isso. A imagem é eloquente. Deus fez de Israel algo entranhavelmente seu, e este povo vive da própria intimidade que Deus lhe propõe. Enquanto Israel rompe seus compromissos com seu Senhor, perde automaticamente sua razão de ser, como o cinto exposto à humidade e apodrece. A idolatria praticada pelo povo eleito estragou tudo. Em sua terra é tentado por outros deuses. Mas muito mais nos países pagãos do Norte: o Eufrates na Babilônia, que seria o lugar do exílio e da contaminação. Por isso, o ato simbólico de deixar o cinto numa fenda significa que Israel recebe o castigo de Deus pela sua infidelidade ao adorar os deuses pagãos ou ou praticar a idolatria.

Como ação simbólico, não é preciso pensar que Jeremias viajou para lá (Babilônia)  que é mais de mil quilômetros. Esta viagem é um gesto que simboliza as "viagens" que os infiéis fazem fora da Casa Paterna. E, então, Israel não é mais bom para nada: “Assim como o cinto se une à cintura do homem, assim quis eu que toda a casa de Israel e toda a casa de Judá se unissem a mim, diz o Senhor, para ser meu povo, honra do meu nome, louvor e glória. Mas não ouviram(Jr 13,11).

Nós cristãos devemos ser o adorno da Igreja, como um cinto que adorna o vestido, com a nossa fidelidade, a continência, a consagração de nossa vida a Deus, e a prontidão para levar adiante a missão que nos é confiada pelo Senhor, e o próprio Senhor ficará orgulhoso de nós, por isso. Mas também corremos o risco de sermos mimados pela "umidade", pelas tendências anti-cristãs do mundo em que vivemos.

Por isso, temos que ouvir e rezar profundamente o texto do Deuteronômio que serve como o Salmo Responsorial de hoje (Dt 32,18-19.20.21): Da Rocha que te deu à luz te esqueceste, do Deus que te gerou não te lembraste. Com deuses falsos provocaram minha ira, com ídolos vazios me irritaram”. O amor está ligado à ira mencionada no Salmo Responsorial. Quantas vezes os profetas compararam o amor e o desamor entre Deus e seu povo com a fidelidade ou a infidelidade (traições) na vida conjugal.

Para Jesus, somos o sal da terra e a luz do mundo (Mt 5,13-14). Mas Ele nos alerta que se uma luz se esconde, já não tem nenhuma utilidade. Assim como o sal: “Se o sal perde o sabor, para nada mais serve senão para ser lançado fora”. Trata-se de ser cristão sem fazer nada, sem colaborar com seus dons para o bem da comunidade ou da Igreja do Senhor.

Quem É Fiel a Deus Não Será Decepcionado

As duas parábolas (grão de mostarda e fermento) são muito parecidas em seus efeitos finais: aquilo que é, aparentemente, pequeno e frágil, produz um efeito maior em comparação ao seu tamanho original. As sementes da mostrada são muito pequenas: não mais de um milímetro de comprimento (tamanho). Mas ao plantar tornam-se uma planta com uma altura mais de dois metros a ponto de os pássaros fazerem ninho nos seus galhos.  O fermento é bem conhecido no mundo culinário para fermentar a massa.  Um pouco de fermento pode fazer crescer a massa num tamanho e quantidade maior.          

O aspecto mais chamativo nestas duas parábolas é o contraste que existe entre a situação inicial e o resultado final. Um grão de mostarda, sendo a menor das sementes, pode fazer surgir uma planta grande. E o mesmo acontece com o fermento que tem capacidade para fazer fermentar uma massa em tamanho maior.

O que tem por trás das parábolas da pequena semente de mostarda que vira uma planta grande, e da pequena quantidade de fermento que faz a massa crescer de tamanho?

Jesus proclama o Reino de Deus e houve muitas objeções. O mundo ou a realidade estava do mesmo jeito: os romanos continuavam a saquer o povo de Israel, os colaboradores do poder romano ficavam cada vez mais ricos, e os pobres ficavam cada vez mais desprotegidos. Até questionava-se sobre a presença do pequeno grupo que seguia a Jesus: será que o começo do novo Israel?

Jesus respondeu a tais objeções com parábolas, especificamente com as parábolas do “grão de mostarda”, do “fermento”, da semente que cresce secretamente (Mc 4,26-29) e da “colheita abundante” (Mc 4,3-9). Todas estas parábolas são bem relacionadas.

Com a parábola da semente de mostarda e fermento Jesus não compara o Reino de Deus pontualmente com a pequena semente de mostarda ou de fermento. O que Jesus acentua é o processo inteiro em que uma semente tão pequena é capaz de virar um grande arbusto (árvore). Aqui Jesus fala sobre a dinâmica do reino de Deus. O Reino de Deus agora ainda é pequeno, discreto, fácil de ficar despercebido e aparentemente é ineficaz. Deus não faz barulho, pois Ele age em silêncio e discretamente. É preciso ter muito discernimento para enxergar Deus que está agindo. O Reino de Deus acontece no meio do mundo comum, cotidiano, familiar aos seus ouvintes. O Reino de Deus não está longe; não espera em “um dia qualquer”. Quem vê pela fé, o que está acontecendo por meio de Jesus e ao redor de Jesus, já vê o Reino de Deus: “Felizes os olhos que veem o que vós vedes...” (Lc 10,23).

Através das parábolas do grão da mostarda e do fermento o Senhor quer nos ensinar a olharmos, em silêncio, para as mãos eternas de Deus em plena obra da redenção do mundo. Cristo, o Verbo divino do Pai, veio e se fez semente fértil no campo do mundo: “Tal como a chuva e a neve caem do céu e para lá não volvem sem ter regado a terra, sem a ter fecundado, e feito germinar as plantas, sem dar o grão a semear e o pão a comer, assim acontece à palavra que minha boca profere: não volta sem ter produzido seu efeito, sem ter executado minha vontade e cumprido sua missão”. (Is 55,10-11). A Terra recebeu Seu Corpo sacrificado e a semente de Seu Sangue rendeu um por mil. A Sua Palavra caiu nos corações de pessoas de boa vontade, sensíveis ao impulso do Espírito divino, e deu infinitos bons frutos até neste momento. “Os grãos” que a Semente divina produziu somos nós todos. Fazemos parte deste grande milagre. E através de nós, mesmo que em pequeno número, Deus é capaz de fazer efeitos maiores no mundo. Mas que sejamos perseverantes. A fé autêntica resiste diante de qualquer obstáculo e dificuldade, pois sabe-se da vitória final logo no início. A fé é a antecipação daquilo que se espera e a certeza daquilo que não se vê (cf. Hb 11,1) .                     

Com estas parábolas o Senhor quer, então, difundir esperança e ânimo aos seus discípulos e a todos os seus seguidores. Os seguidores não devem admitir nunca o desalento nem o pessimismo derrotista. A graça de Deus continua sendo a graça de Deus. Este é o fundamento de nossa esperança. Não olhemos apenas para nossas técnicas. Temos que acreditar na própria força da Palavra de Deus que devemos semear por onde passarmos, e tenhamos certeza de que, no fim, haverá o resultado maior do que imaginamos, a exemplo do grão de mostrada e o fermento, pois a própria Palavra de Deus tem força intrínseca. É inesgotável a fecundidade da Palavra de Deus, como a força germinadora da natureza em um contínuo rejuvenescer-se. Em cada semente, mesmo do tamanho do grão de mostarda, tem uma tal plenitude de vida que move o semeador a colocá-la na terra. 

À imagem do campo semeado, acrescentam-se hoje as parábolas da semente de mostarda e do fermento. O Senhor, mais uma vez, permite-nos vislumbrar as células ocultas do crescimento do Reino de Deus. No silêncio, vemos as mãos eternas de Deus atuando na redenção do mundo. A semente foi semeada. Cristo, o Verbo divino do Pai, veio e tornou-se semente fértil no campo desolado do mundo. A terra recebeu o seu corpo sacrificado, e a semente do seu sangue rendeu mil vezes mais. A sua palavra caiu no solo esponjoso dos corações e produziu incontáveis ​​frutos maduros: muitos santos, muitos mártires na história até hoje. E, consciente ou inconscientemente nós nos rncontramos em meio a este milagre de crescimento. Um dia alguém semeou as sementes de Deus em nosso coração.

Por isso, não desistamos em semear o que é bom e digno, pois a bondade é o único investimento que nunca falha. Independentemente do reconhecimento humano ou não, a bondade continua sendo a bondade, o bem continua sendo o bem, a graça de Deus continua sendo a graça de Deus. Nossa única tarefa na nossa passagem neste mundo é continuar a semear a bondade por todos os meios possíveis e em qualquer lugar e tempo. O Senhor não permite o derrotismo pessimista nem o desespero, porque o êxito final é de Deus, que tem nas suas mãos as chaves da história humana. Não cabe ao cristão ficar decepcionado porque o resultado não aparece logo. Semear e semear a bondade é o único negócio do cristão, e deixar para Deus o resultado final. Alguém pode não reconhecer a bondade praticada, mas ela está escrita em Deus. 

O texto do evangelho de hoje termina com a seguinte frase: “Nada lhes falava sem usar parábolas, para se cumprir o que foi dito pelo profeta: ‘Abrirei a boca para falar em parábolas; vou proclamar coisas escondidas desde a criação do mundo’”. 

Esta frase se remonta à pergunta dos discípulos: “Por que lhes fala em parábola?” (Mt 13,10). Jesus fala do Reino de Deus em parábola para a multidão. Trata-se  de realidades invisíveis, como toda a atuação de Deus na história. É preciso usar comparações (em parábolas) para explicar e revelar melhor a realidade do Reino. Em todo caso fica claro que o falar de Jesus em parábola também é revelação. Isto quer nos dizer que Jesus tem uma atitude de revelação e de cumprimento. Não há nada de estranho em que este versículo 35 se encontra somente em Mateus. Trata-se de seu tema especifico: apresentar Jesus como Aquele que veio para cumprir e levar a seu cumprimento a Lei e os Profetas (Mt 5,17), para revelar a todos os mistérios do Reino e, depois para explicar em sua catequese seu sentido para aqueles que acolhem a mensagem. O evangelista Mateus cita o Salmo 78,2 que ele atribui a profeta (cf. Mt 1,22; 2,15), não porque este Salmo se atribui a um profeta (pois não se encontra em nenhum profeta) e sim porque todas as Escrituras do Antigo Testamento (AT) têm para Mateus o valor profético cujo cumprimento acontece na vida e missão de Jesus (cf. Mt 5,17). 

Afinal, o que devemos fazer a partir das duas parábolas lidas neste dia? É sermos terra aberta para a semente da Palavra de Deus, para sua majestosa e sempre operante força, e tirar do caminho o que possa obstaculizar esta força e sarar a terra, que somos todos, para que através de nós cresça o bem no mundo. É ser massa macia para que o fermento da Palavra possa operar dentro de nosso coração para que sejamos pães para alimentar os demais. É tudo que devemos fazer.

P. Vitus Gustama,svd

quinta-feira, 23 de julho de 2026

XVII Domingo Do Tempo Comum, Ano "A", 26/07/2026

VIVER EM BUSCA DA PÉROLA PRECIOSA PARA NOSSA SALVAÇÃO É VIVER COM SABEDORIA

XVII Domingo Comum Ano “A

I Leitura: 1Rs 3,5.7-12

Naqueles dias, 5 em Gabaon, o Senhor apareceu a Salomão, em sonho, e lhe disse: “Pede o que desejas, e eu te darei”. 7 E Salomão disse: “Senhor meu Deus, tu fizeste reinar o teu servo em lugar de Davi, meu pai. Mas eu não passo de um adolescente, que não sabe ainda como governar. 8 Além disso, teu servo está no meio do teu povo eleito, povo tão numeroso que não se pode contar ou calcular. 9 Dá, pois, ao teu servo, um coração compreensivo, capaz de governar o teu povo e de discernir entre o bem e o mal. Do contrário, quem poderá governar este teu povo tão numeroso?” 10 Esta oração de Salomão agradou ao Senhor. 11 E Deus disse a Salomão: “Já que pediste esses dons e não pediste para ti longos anos de vida, nem riquezas, nem a morte de teus inimigos, mas sim sabedoria para praticar a justiça, 12 vou satisfazer o teu pedido; dou-te um coração sábio e inteligente, como nunca houve outro igual antes de ti nem haverá depois de ti”.

II Leitura: Rm 8,28-30

Irmãos: 28 Sabemos que tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados para a salvação, de acordo com o projeto de Deus. 29 Pois aqueles que Deus contemplou com seu amor desde sempre, a esses ele predestinou a serem conformes a imagem de seu Filho, para que este seja o primogênito numa multidão de irmãos. 30 E aqueles que Deus predestinou, também os chamou. E aos que chamou, também os tornou justos; e aos que tornou justos, também os glorificou.

Evangelho: Mt 13,44-52

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 44 “O Reino dos Céus é como um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra e o mantém escondido. Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo. 45 O Reino dos Céus é também como um comprador que procura pérolas preciosas. 46 Quando encontra uma pérola de grande valor, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquela pérola. 47 O Reino dos Céus é ainda como uma rede lançada ao mar e que apanha peixes de todo tipo. 48 Quando está cheia, os pescadores puxam a rede para a praia, sentam-se e recolhem os peixes bons em cestos e jogam fora os que não prestam. 49 Assim acontecerá no fim dos tempos: os anjos virão para separar os homens maus dos que são justos, 50 e lançarão os maus na fornalha de fogo. E aí haverá choro e ranger de dentes. 51 Compreendestes tudo isso?” Eles responderam: “Sim”. 52 Então Jesus acrescentou: “Assim, pois, todo o mestre da Lei, que se torna discípulo do Reino dos Céus, é como um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas”.

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O fio condutor que a liturgia deste domingo nos propõe para nossa meditação é a sabedoria do coração. A palavra “sabedoria” provém do latim “sapere” (sapientia) que quer dizer ter inteligência, ser compreendido. Mas propriamente significa ter gosto, exercer o sentido do gosto, ter este ou aquele sabor, capacidade desenvolvida de saborear. Etimologicamente, da palavra “sapere” derivam duas palavras: “saber” e “sabor”, duas palavras que indicam o mesmo: um saber que sabe saboreando a vida. É um saber que saboreia o fruto da vida, não um saber teórico sobre a vida. É o testemunho do experimentado, a experiência da vida mesma, de seu sabor de viver. A sabedoria é reunir o gosto pela vida. A sabedoria é refinar o gosto pela vida. Com a sabedoria a existência se torna mais saborosa, pois a sabedoria se alimenta pelos valores. Com a sabedoria o homem é capaz de dar respostas adequadas e magníficas para cada momento. Sabedoria é, segundo a palavra latina “sapientia”, conhecimento das coisas, natural ou adquirido. Aquilo que está conforme as regras da razão e da moral. Na teologia, a sabedoria se apoia no discernimento da ordem sobrenatural, uma vez que somente Deus é absolutamente sábio.

O mundo nos apresenta muitos valores que deslumbram: dinheiro, fama, poder e assim por diante. Muitos valores também que vão mudando conforme modas. Mas a vida necessita de uma razão que coordene todas as nossas atividades, que as impulsione e as ilumine. A vida necessita de um tesouro, mas muitas vezes este tesouro está escondido. Não podemos ficar sem razão de viver. Não podemos viver sem sentido.

Viver a Vida Na sabedoria

Dá ao teu servo, um coração compreensivo, capaz de governar o teu povo e de discernir entre o bem e o mal. Do contrário, quem poderá governar este teu povo tão numeroso? ”. Este é o pedido de Salomão a Deus que lemos na Primeira Leitura. Dou-te um coração sábio e inteligente, como nunca houve outro igual antes de ti nem haverá depois de ti”. É a resposta de Deus ao pedido de Salomão.

Salomão, consciente da magnitude de sua tarefa como rei e de suas próprias limitações, pede a Deus um coração sábio para governar: “Dá ao teu servo, um coração compreensivo, capaz de governar o teu povo e de discernir entre o bem e o mal. Do contrário, quem poderá governar este teu povo tão numeroso? ”

A partir da Bíblia a sabedoria é a arte do viver bem. O verdadeiro sábio distingue o verdadeiro do falso, o justo do injusto, o bem do mal. O sábio bíblico coloca como fundamento todas as grandes virtudes: prudência, moderação, trabalho, não violência, humildade, sinceridade, justiça, solidariedade, compaixão, amor. A sabedoria bíblica é uma palavra reveladora: a autêntica sabedoria vem do alto, não está atada ao interesse ou ao cálculo humano. Ela é a verdade total que deve ser desejada e buscada pelo homem. A sabedoria é assim uma força geradora: ela dá origem ao homem, a sua história e a todo o ritmo da criação. A sabedoria é o conhecimento dos caminhos de Deus, de seu objetivo; indica ao cristão a direção em que ele deve caminhar, as normas às quais deve adaptar seu viver.

Sábio não é quem pensou a vida e sim quem deixa que a vida lhe diga, o que ele mesmo aprendeu vivendo a vida, quem deixa que a vida lhe entregue seu sabor e lhe revele seu sentido. Em geral, o homem sábio não diz sua sabedoria e sim a mostra. Sábio irradia sentido da vida e da convivência. O sábio é uma testemunha e não professor. O sábio testemunha uma experiência, ensina o que vive, não o que sabe. Em outras palavras, ele sabe viver testemunhando a vida.

Os sábios eram autênticos santos que, iluminados por uma luz transcendente, descobriram o caminho ou senda da vida, e, portanto, podiam ensiná-la aos demais homens tanto com seu exemplo como com sua palavra. Sábio era o homem prudente, equilibrado, reto, equânime e justo. É um exemplo para as gerações futuras.

Governar com sabedoria é um serviço e não um poder. Como serviço ao povo é absolutamente indispensável escutar a este povo, ter os olhos e ouvidos atentos à complexa realidade do povo. Governar com sabedoria é sintonizar com os autênticos interesses que o povo manifesta, e tratar de dar ao povo uma verdadeira resposta para suas necessidades reais e básicas. Governar com sabedoria é aprender a detectar a verdade onde possa ser detectada. A verdade não dói, mas liberta. O que dói é a mentira e falsidade. Governar com sabedoria é ser servidor da verdade e não ser cacique. Somente assim o poder humano se diviniza, pois, salva o povo. Do contrário, é pura farsa e mera busca de interesses mesquinhos. Quando o interesse mesquinho prevalece, o mais inocente e humilde se torna vítima sem defesa. 

Salomão somente pede a Deus a capacidade de escutar o povo para poder governar com justiça, deixando de lado o poder e as riquezas. É assim que os nossos governantes vivem? É assim que os líderes religiosos, os bispos, os sacerdotes, os coordenadores das comunidades governam?

Viver Com Sabedoria É Viver Em Função De Alcançar a Glória Eterna

Aqueles que Deus contemplou com seu amor desde sempre, a esses ele predestinou a serem conformes a imagem de seu Filho, para que este seja o primogênito numa multidão de irmãos”, escreveu São Paulo aos Romanos que lemos na Primeira Leitura.

Estas palavras brotam da fé. A vida pode dar muitas voltas, mas estamos seguros de que nada poderá nos afastar de Cristo que tanto nos ama. É preciso suportar um pouco as dores da vida, pois Deus nos ama incondicionalmente (Jo 3,16; 13,1).  Precisamente em Cristo, Deus mostrou e demonstrou seu amor. Com efeito, a fé sempre é fonte de alegria íntima, de estabilidade interior, de segurança profunda. Numa sociedade onde há tantas pessoas instáveis que sofrem todo tipo de pressão e de depressão, sabemos que nossa fonte de estabilidade está na Palavra do Senhor cheia de amor por nós. É claro que estas certezas brotam da fé. Quem tem fé, tem certeza de que no fundo do poço sempre há esperança, pois Deus nos ama infinitamente.

O amor de Deus por nós não tem outra finalidade que esta: fazer-nos conformes à imagem do Filho, Jesus Cristo. Todo o plano de Deus desde o princípio dos tempos se concentra nesta finalidade. Deus criou o universo, Deus se encarnou tem um único porquê: o amor pela humanidade (cf. Jo 3,16).

Aqueles que Deus predestinou, também os chamou. E aos que chamou, também os tornou justos; e aos que tornou justos, também os glorificou”, acrescentou São Paulo. Para São Paulo o supremo objetivo da vida nova em Cristo Ressuscitado é a glorificação com Cisto.

Portanto, temos que ter a humildade de abandonar aquilo que não nos glorificar em Jesus Cristo, antes que nossa vida caia em pedaços.

O Sábio Vive Em Busca Do Essencial, Do Tesouro para Sua Vida e Salvação

O Reino dos Céus é como um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra e o mantém escondido. Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo”.

As inúmeras guerras, que aconteceram em Palestina, levavam muitas pessoas a enterrar seus tesouros valiosos por motivo de segurança contra os ladrões. Pode acontecer que o proprietário do tesouro morra sem revelar a ninguém o lugar onde foi escondido o tesouro.    

Os personagens das duas primeiras parábolas (tesouro escondido e pérola preciosa) são respectivamente um “homem” (v.44) e um “comerciante” (vv.45-46). Ambos descobrem um bem extraordinário: um tesouro em um campo, no primeiro caso, e uma pérola, no segundo. O primeiro descobriu, por acaso, o tesouro ao trabalhar em um campo. Para dizer que o descobrimento do Reino de Deus não é devido ao esforço unicamente humano, mas à revelação ou ao descobrimento de Jesus, entendido como projeto que leva à plenitude a própria existência. Jesus sai ao nosso encontro. O segundo, procura intencionalmente a pérola preciosa e a encontrou. Para dizer que é preciso a participação do próprio homem na descoberta do valor do Reino de Deus. Por esta pérola, são Paulo disse: “Na verdade julgo como perda todas as coisas, em comparação com este bem supremo: o conhecimento de Jesus Cristo, meu Senhor. Por Ele tudo desprezei e tenho em conta de esterco, a fim de ganhar Cristo e estar com Ele” (Fl 3,8-9ª). O homem deve sair ao encontro de Jesus para ter a experiência com Deus a fim de chegar à própria plenitude como ser humano. “A Alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria. ” (Papa Francisco: Exortação Apostólica: Evangelii Gaudium, n.1)

Na experiência dos dois personagens o descobrimento de um valor precioso muda a vida de ambos, e os leva para a mesma decisão: “vender tudo o que tinham” e “comprar” o objeto que “encontraram”. E o dito objeto relativiza o resto. Para o homem da primeira parábola o tesouro representa uma fonte de alegria por ter encontrado um valor incomparável. Para o comerciante a pérola significa o abandono de sua profissão porque, com a aquisição da pérola preciosa que ele procurava, deve interromper a cadeia de sua atividade.

Assim também é em relação à vida do homem diante do Reino de Deus. Somente o Reino de Deus, o Reino de amor, o Reino da Paz, o Reino da alegria, o Reino da preciosidade,  descoberto como o supremo valor da existência, coloca o homem na possibilidade de descobrir o sentido dos restantes bens que se possui. A vida em Deus ou ser filhos e filhas de Deus é um valor incalculável, um dom do céu, e quem desfruta dele, por meio da fé, é um autêntico afortunado. A possessão, desta forma, se apresenta como algo relativo. A experiência do amor de Deus relativiza o resto sem desprezar seu valor no seu próprio lugar. A partir deste tesouro que é o Reino de Deus, todo o resto se ordena e adquire o seu valor próprio. Como aquele que encontrou a pérola preciosa foi capaz de colocar todas as demais coisas em uma escala justa de valores, de relativizá-las em relação com a pérola preciosa. E ele o fez com extrema simplicidade porque, ao ter como pedra de comparação, a pedra preciosa, sabe compreender melhor o valor de todas as demais pedras.  Quem encontrar o valor supremo de sua vida, a experiência de fazer parte da família de Deus em Jesus Cristo não desprezará outros valores, mas colocá-los-á em seu devido lugar. O bem relativo pode ser, mais ou menos, importante para a satisfação das necessidades humanas, porém, deve ser sempre confrontado com o bem supremo que é a experiência do amor de Deus, a experiência de serem filhos e filhas de Deus. Desta forma, as parábolas do tesouro escondido e a pérola preciosa conectam com a primeira bem-aventurança: “Bem-aventurados os pobres em espírito porque deles é o Reino dos céus” (Mt 5,3). A experiência do amor de Deus por nós é um dom incalculável

Quem Vive Na Sabedoria Sabe Onde Se Encontra Seu Tesouro

Onde está teu tesouro, ai estará também teu coração” (Mt 6,21).

Do ponto de vista de um homem que busca o sentido de sua vida, o tesouro de sua existência ou de sua vida é como uma utopia: não sabe onde está, nem sequer sabe se está em algum lugar ou em nenhum lugar. A busca é um esforço para encontrar algo que não se tem. Quem busca reconhece uma carência de algo. É uma atitude humilde por si mesma.

Nesta busca o homem somente conhece a inquietude de seu coração, porque “onde está teu tesouro, ai estará também teu coração(Mt 6,21). Um homem que ainda não encontrou seu tesouro fica inquieto e busca incessantemente um sentido para sua vida. O coração errático do homem, sua vontade, pode, nestas circunstancias, fixar-se em qualquer coisa e agarrar-se a ela como se tivesse encontrado seu tesouro. Mesmo assim, ele continua inquieto, pois o tesouro do homem não é qualquer coisa. O homem pode ter tudo, mas se carecer o essencial, ele continuará inquieto.

A busca do Reino de Deus é compreender uma certa carência essencial em nossa vida, carência que nos impulsiona a sair de nós mesmos e não repousará até que encontremos essa realidade que faz completo nosso ser. Por isso, não é a riqueza, nem o êxito, nem o poder, nem a fama, mas o próprio Deus é o tesouro supremo do homem que o faz completo. Escondido no nosso mundo, coberto pela carne crucificada de Jesus de Nazaré, perdido entre os pobres, identificado com eles, está o tesouro do homem. Jesus é o “lugar de Deus”, e o irmão, o próximo é o “lugar” de encontro com Jesus. O próximo se transforma, então, em ocasião de salvação. Não é nada que o homem pode alcançar por si mesmo e somente para si mesmo, pois ele foi feito por Deus e para Deus na convivência fraterna com os outros. Por isso, Santo Agostinho rezava: “... Senhor, inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em Ti (Confissões I,1). O homem só se encontrará, somente chegará à sua plena realização na medida em que ele buscar e viver e conviver de acordo com o Amor que é Deus (cf. 1Jo 4,8.16).

O homem que encontrou o sentido de sua vida em Deus é um homem alegre e dinâmico, como os dois homens na parábola que encontraram seu tesouro. Por este tesouro, ele é capaz de se desprender de tudo, de se despojar de tudo, de compreender a fraqueza do outro, de perdoar, de reconciliar-se com todos, de ser justo e honesto nos seus negócios, de ser correto e coerente no seu modo de ser, pois sua vida é direcionada por este supremo valor. A busca do Reino de Deus modifica nosso esquema de vida e não pode ser levado adiante sem uma absoluta sinceridade de coração. A busca do Reino de Deus é compreender uma certa carência essencial em nossa vida.

Nesta parábola, nem o homem que encontrou o tesouro nem aquele que descobriu a pérola sentem falta do que antes possuíam e que venderam. A riqueza do que acharam é de tal ordem que compensa tudo o que tinham. A mesma coisa acontece com os que descobrem ou encontram o seu caminho pessoal para Deus: abandonam tudo e encontram tudo, porque Deus é tudo. Quem, pela mensagem de Cristo, encontra Deus, renuncia jubilosamente a tudo. Tal verdade somente pode ser experimentada pela própria vida. Por isso, eles podem renovar tudo, acabar com a rotina de sua vida e começam a olhar mais longe e mais alto. E quem encontra Cristo expande a alegria e o otimismo para todos.

A vocação de seguir Jesus, Deus-conosco que é o nosso supremo tesouro sempre exige renúncia e uma mudança na conduta com alegria. Implica a entrega a Deus daquilo que se tinha reservado para si, e se abandonam os apegos, as fraquezas que se supunham intocáveis e que, no entanto, é preciso destruir para adquirir o tesouro sem preço. Se Jesus nos chama, também ele nos dá as graças necessárias para segui-lo durante a nossa vida.

A eucaristia é também um tesouro escondido. Tanto que passa despercebida, inclusive para nós que frequentamos a missa com assiduidade. Escondida em coisas triviais como pão e vinho está nada menos que todo insondável amor de Deus a todos nós. Só teremos a experiência do amor de Deus, se nós começarmos por demonstrar amor a nossos irmãos, especialmente aos mais débeis. Se descobrirmos a eucaristia como tesouro, se a apreciarmos, estaremos plenos de alegria e a nossa eucaristia resultará verdadeiramente em festa, em ação de graças.

E nós, já descobrimos esse tesouro? Desde que descobrimos Cristo, o que mudou na nossa vida, no nosso modo de pensar e de falar, e no nosso relacionamento com os outros e com as coisas? Que renúncias que temos que fazer ainda? “Onde está o teu tesouro, aí está também o teu coração” (Mt 6,21). Será que por algum bem material, ou alguma posição social abandonamos Cristo, o nosso tesouro incalculável? Muitos são os esforços que fazemos para encontrar o que nos falta: trabalho, dinheiro, prazer, cultura e assim por diante. Hoje podemos nos perguntar se existe o mesmo esforço para encontrar a Verdade no sentido de uma verdadeira visão da vida. Sem dúvida nenhuma, esta é uma das crises mais profundas de nossa cultura: tem-se de tudo, mas carece-se do essencial: uma visão geral do homem no cosmos que lhe permite situar-se como homem.

A Sabedoria Nos Faz Pensarmos No Fim De Nossa Vida Onde Haverá o Julgamento Final Parábola da Pesca: Mt 13,47-50 

Esta parábola praticamente no seu conteúdo repete a parábola do joio no meio do trigo (Mt 13,24-30). As duas últimas parábolas orientam-se para o fim dos tempos, pois as duas tratam do julgamento final.

A imagem da pesca ilustra a dinâmica do Reino de Deus feita de perdas e ganhos. Uma vez a rede lançada ao mar, a pescaria já não depende da vontade do pescador. Cada lançada de rede é uma surpresa. A seleção será feita somente no final da pescaria, quando os peixes bons são colocados em cestas, enquanto os não comestíveis são jogados fora. Na lista dos animais impuros que os israelitas não tinham direito de comer (Lv 11) está dito que se pode comer tudo o que se move na água e que tenha escamas e barbatanas; os outros animais aquáticos são impuros e, portanto, proibidos (Lv 11,9-12). Uma parte dos peixes jogados fora deve ter classificado como animais aquáticos proibidos (impuros).

A pesca representa a oferta do Reino que se faz a todos. São muitos os que entram nele, mas a chave está no como se vive a vida. No Reino de Deus, como no mundo e na Igreja, é inevitável a presença simultânea de bons e maus, do trigo e do joio. Todos podem ser batizados e nominalmente se chamam cristãos e a todos se oferece o Reino de Deus através do Evangelho e do seguimento de Cristo. É inevitável também a variedade de respostas de uma para outra pessoa. A seleção acontecerá no fim.     

Jesus diz que “assim acontecerá no fim dos tempos: os anjos virão para separar os homens maus dos que são bons. E lançarão os maus na fornalha de fogo. Aí eles vão chorar e ranger os dentes(vv.49-50). A expressão “choro e ranger de dentes” se repete várias vezes em Mt (8,12;13,42.50; 22,13;24,51;25,30) e uma vez apenas em Lucas (Lc 13,28). Esta expressão sublinha a frustração definitiva do homem pela perda da vida eternamente. A parábola propõe, então, aos seguidores de Jesus a sorte final, para orientá-los na decisão presente. O paraíso é a certeza para quem responde a chamada de Deus para sua plena realização gradativamente. Com efeito, a não-salvação é apenas uma possibilidade para quem opta por ele. O problema não está em Deus, mas está no homem que não sabe lidar com a própria liberdade. 

Mas Deus tem paciência para salvar. Ele não quer precipitar o julgamento. Ele aguarda a colheita, não diminuída por prematuras intervenções de escolha. Só então, no fim, haverá a colheita, com base na realidade de ser peixe bom ou mau, de ser trigo ou joio. É uma advertência eficaz, embora tácita: Deus é paciente com todos e deixa a todos tempo para amadurecer sua conversão; Deus sabe esperar a livre decisão do homem. Cabe a cada um escolher ser peixe bom ou peixe não comestível, ser trigo ou joio. No fim, a bondade, o amor, a justiça, a compaixão é que têm valor diante de Deus. Um homem que é livre para amar e para dar a vida é o homem que é livre para ganhá-la. Para ele tudo tem sentido porque sabe onde está seu coração.

Para Refletir:

·      “Ou, o homem que busca boas perolas encontra só uma que é preciosa. Isto é, ao buscar homens bons, com quem possa viver utilmente, encontra um só que é sem pecado, Jesus Cristo. Ou, ao buscar os preceitos de vida que o permitam viver bem entre os homens, encontra o amor ao próximo, no qual, segundo palavras do Apóstolo, estão contidas todas as coisas. Ou, ao buscar os bons pensamentos, encontra aquele Verbo que os abarca a todos: No princípio existia o Verbo (Jo 1,1) – palavra que brilha com a candura da verdade, que é sólida com firmeza da eternidade e  por toda a parte é semelhante a si mesma pela pureza da verdade; e que, quando penetramos sua couraça, percebemos que é Deus” (Santo Agostinho: Questiones evangeliorum, 1,12).

·      “Este tesouro escondido no campo são os dois Testamentos que há na Igreja, dos quais, quando alguém chega a compreender uma parte, sente que ainda há grandes coisas ocultas neles; vai, vende tudo o que tem e o compra, ou seja, compra com o desprezo das coisas temporais o ócio, para que seja rico com o conhecimento de Deus” (Santo Agostinho: Questiones evangeliorum, 1,13).

  • "Ensinamos uma sabedoria divina, misteriosa. O mistério não admite demonstração, mas anuncia o que é. E não seria um mistério exclusivamente divino se lhe acrescentasse algo por tua conta. Ademais, chama-se mistério porque cremos o que não vemos: uma coisa é o que vemos e outra o que cremos. Esta é, de fato, a natureza de nossos mistérios" (São João Crisóstomo: Sermão Sobre a Primeira Carta Aos Coríntios 7,1-2 - PG 61, 55-56).

P. Vitus Gustama,svd

Santos Marta, Maria e Lázaro-Memória, 29/07/2026

SANTOS MARTA, MARIAE LÁZARO JESUS É A RESSURREIÇÃO E A VIDA      29 de Julho Primeira Leitura: 1Jo 4,7-16 7Caríssimos, amemo-nos uns...