sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Segunda-feira Da XXII Semana Comum, Ano Par, 31/08/2026

LIBERTADOS POR JESUS PARA PARA LIBERTAR OS OUTROS A FIM DE CONSTRUIRMOS UMA FRATERNIDADE

Segunda-Feira da XXII Semana Comum

Primeira Leitura: 1Cor 2,1-5 (Ano Par)

1 Irmãos, quando fui à vossa cidade anunciar-vos o mistério de Deus, não recorri a uma linguagem elevada ou ao prestígio da sabedoria humana. 2 Pois, entre vós, não julguei saber coisa alguma, a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado.3 Aliás, eu estive junto de vós, com fraqueza e receio, e muito tremor. 4 Também a minha palavra e a minha pregação não tinham nada dos discursos persuasivos da sabedoria, mas eram uma demonstração do poder do Espírito, 5 para que a vossa fé se baseasse no poder de Deus e não na sabedoria dos homens.

Evangelho: Lc 4,16-30

Naquele tempo, 16 veio Jesus à cidade de Nazaré, onde se tinha criado. Conforme seu costume, entrou na sinagoga no sábado, e levantou-se para fazer a leitura. 17 Deram-lhe o livro do profeta Isaías. Abrindo o livro, Jesus achou a passagem em que está escrito: 18 “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa Nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos 19 e para proclamar um ano da graça do Senhor”. 20 Depois fechou o livro, entregou-o ao ajudante e sentou-se. Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele. 21 Então começou a dizer-lhes: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”. 22 Todos davam testemunho a seu respeito, admirados com as palavras cheias de encanto que saíam da sua boca. E diziam: “Não é este o filho de José?” 23 Jesus, porém, disse: “Sem dúvida, vós me repetireis o provérbio: Médico, cura-te a ti mesmo. Faze também aqui, em tua terra, tudo o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum”. 24 E acrescentou: “Em verdade eu vos digo que nenhum profeta é bem recebido em sua pátria. 25 De fato, eu vos digo: no tempo do profeta Elias, quando não choveu durante três anos e seis meses e houve grande fome em toda a região, havia muitas viúvas em Israel. 26 No entanto, a nenhuma delas foi enviado Elias, senão a uma viúva que vivia em Sarepta, na Sidônia. 27 E no tempo do profeta Eliseu, havia muitos leprosos em Israel. Contudo, nenhum deles foi curado, mas sim Naamã, o Sírio”. 28 Quando ouviram estas palavras de Jesus, todos na sinagoga ficaram furiosos. 29 Levantaram-se e o expulsaram da cidade. Levaram-no até o alto do monte sobre o qual a cidade estava construída, com a intenção de lançá-lo no precipício. 30 Jesus, porém, passando pelo meio deles, continuou o seu caminho.

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Entre a Sabedoria Da Cruz de Cristo e a Sabedoria Humana

Depois de ter provado a superioridade do Evangelho sobre os sistemas de sabedoria humana (1Cor 1,18-25), são Paulo explica por que não pregou uma doutrina de sabedoria humana a não ser Cristo Crucificado que é a força e a sabedoria de Deus: “Entre vós, não julguei saber coisa alguma, a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado... A minha palavra e a minha pregação não tinham nada dos discursos persuasivos da sabedoria, mas eram uma demonstração do poder do Espírito, para que a vossa fé se baseasse no poder de Deus e não na sabedoria dos homens”, escreveu São Paulo aos Coríntios que lemos na Primeira Leitura.

São Pauolo é o homem que confia na força da mensagem, pois é a mensagem do próprio Senhor Crucificado que ele tem que transmitir aos outros. No fundo, a fé é a partilha e a transmissão de uma vivência pessoal e comunitária com o Senhor. São Paulo não põe seu ponto de apoio na sabedoria humana e sim no conhecimento de Cristo Crucificado. Pela origem da palavra, o verbo “conhecer” quer dizer “com-nascer, nascer com, fazer-se um com outro. Somente conhecemos o outro, entregando-nos a ele e aceitando que ele se entregue a nós. Trata-se de uma relação existencial. O conhecimento de Cristo Crucificado é o que possuíram os santos ao longo da história da Igreja. Inclusive, os mais sábios humanamente se submeteram seu saber a Cristo, e se deram conta de que a sabedoria humana não tinha nenhum valor em comparação com o conhecimento de Deus, pois “para os que são chamados, tanto judeus como gregos, esse Cristo é poder de Deus e sabedoria de Deus. Pois o que é dito insensatez de Deus é mais sábio do que os homens, e o que é dito fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1Cor 1,24-25).

A eloquência e a sabedoria humanas não levam são Paulo à verdade desnuda da Cruz de Cristo. Ele não quer apresentar-se aos Coríntios falando com palavras altíssonas  e fazendo alarde de eloquência. Ele lhes pregou simplesmente Jesus Cristo Crucificado sem triunfalismos. São Paulo se apresentou diante dos Corintos como um pobre homem, débil e temeroso. Mas sua debilidade presta o único e o melhor serviço ao assunto de Jesus, evitando o equívoco e mostrando que não era a palavra avassaladora de um homem culto e sim a força de Deus que operava na pregação cristã.

São Paulo não prega uma doutrina da sabedoria e sim apresenta um testemunho: “Irmãos, quando fui à vossa cidade anunciar-vos o mistério de Deus, não recorri a uma linguagem elevada ou ao prestígio da sabedoria humana” (1Cor 2,1). O testemunho vale em razão da qualidade do acontecimento que apresenta e não em razão da retorica com que arroupa. As palavras da testemunha são os fatos vividos que falam por si mesmas. No entanto, são Paulo realizou uma seleção nos sucessos de que dá testemunho: institiu mais em torno da Cruz do que em torno da soberania de Cristo (1Cor 2,2); em torno da humildade de Jesus do que em torno de sua sabedoria.

São Paulo recusa decididamente os discursos de uma sabedoria humana, que seria persuasivos por si mesmos (1Cor 2,4) e que fariam da fé uma adesão de ordem puramente humana (1Cor 2,5). Sua pregação é muito mais uma demonstração do poder do Espirito que vem de Deus e requer, consequentemente, uma adesão de outro ordem: a do Espirito: “A minha palavra e a minha pregação não tinham nada dos discursos persuasivos da sabedoria, mas eram uma demonstração do poder do Espírito, para que a vossa fé se baseasse no poder de Deus e não na sabedoria dos homens” (1Cor 2,4-5).

São Paulo quer nos mostrar que a autenticidade do trato com o Senhor é o pedestal da verdadeira pregação. É real que nossa força, a única força nossa como cristãos é a fé vivida e vivida profundamente pessoal e comunitariamente. A fé dá liberdade, segurança e independência para testemunhar diante das situações mais adversas, sem perder a esperança nem ser vítima da decepção e do desespero, a exemplo de são Paulo, pois a Palavra de Deus não conhece fracasso.

O mundo de hoje não parece tampouco ter ouvidos prestos a escutar a mensagem de Cristo Crucificado. A comunidade cristã, desde mais de dois mil anos, se apresenta diante do mundo “débil e temeroso”, como são Paulo na Gréica, porque sabe que a mensagem que prega é difícil (Cristo crucificado). Mas por outro lado, a própria palavra que ele anuncia tem uma força intrínseca capaz de fazer frutificar nos ambientes menos predispostos. Para Deus, a força verdadeira está no simples e no débil. Na Cruz de Cristo, símbolo de fracasso e da fragilidade para o mundo, está a sabedoria e a chave para a salvação.

Nos momentos atuais de exaltação do homem e de sua tecnologia relativamente avançada é bom, de vez em quando, refletir sobre a debilidade humana e mostrar os verdadeiros valores para que ninguém se perca no meio do avanço tecnológico.

Deus Vem Para Nos Libertar a Fim De Estar Com Ele Eternamente

O texto do evangelho de hoje nos fala do início da pregação pública de Jesus segundo Lucas. Trata-se de um discurso programático, isto é, tudo o que está neste discurso será realizado por Jesus ao longo do evangelho de Lucas. A pregação inaugural (discurso programático em Nazaré) tem como lugar numa sinagoga em Nazaré, por ocasião de um culto sinagogal no Sábado. E a leitura que Jesus fez e sobre o qual comentou é o texto do Trito-Isaias (cf. Is 61,1-2) que fala da missão do Messias. E a missão do Messias, do Ungido de Deus, é proclamar a Boa Notícia que consiste na libertação dos prisioneiros do sofrimento, na libertação da opressão, da injustiça, e proclamar a Boa Notícia, preferencialmente, para os pobres, os escravos, os marginalizados: os leprosos, os doentes, os publicanos, as mulheres.

E Jesus se apresenta como o Ungido, o Messias (cf. Lc 3,21-22). Em outras palavras, o que o livro de Isaias anunciava se cumpriu em Jesus: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”. Jesus veio ao encontro do homem para devolver sua dignidade como pessoa humana e filho (filha) de Deus.

Trata-se de uma cena bem significativa, programática que se pode dizer que dá sentido a todo ministério messiânico de Jesus: sua primeira pregação na sinagoga de seu povo de Nazaré. Trata-se de uma cena densa, muito bem narrada por Lucas com uma série de detalhes significativos: o costume de ir à sinagoga todos os sábados; o convite para que leia a Palavra de Deus; o comentário de Jesus sobre a leitura do Livro de Isaias cujo conteúdo é o programa do ministério de Jesus: “Hoje se cumpriu a Escritura...”; as primeiras reações e aprovação por parte dos seus conterrâneos que ficam bloqueados em seu caminho de fé, pois conhecem demais Jesus: “Não é este o filho de José?”; a queixa de Jesus sobre essa falta de fé; a reação de ira.

O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa Nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ano da graça do Senhor”. Jesus veio para libertar, para unir e reunir, para salvar. “Deus é amor misericordioso e o seu projeto de amor, que se estende e realiza na história, é primeiramente o seu descer e vir estar entre nós para nos libertar da escravidão, dos medos, do pecado e do poder da morte. Com um olhar misericordioso e o coração cheio de amor, Ele dirigiu-se às suas criaturas, preocupando-se com a sua condição humana e, portanto, com a sua pobreza. Precisamente para partilhar os limites e as fraquezas da nossa natureza humana, Ele mesmo se fez pobre, nasceu segundo a carne como nós e reconhecemo-lo na pequenez de uma criança recostada numa manjedoura e na extrema humilhação da cruz, onde partilhou a nossa radical pobreza, que é a morte(Papa Leão XIV: Dilexi Te, Exortação Apostólica n.16).

A idéia de libertação, de liberdade, está subjacente em todo o Evangelho de Lucas (e outros evangelhos). Toda vez que Deus visita e se aproxima do homem, Ele o faz para libertá-lo: “Bendito seja o Senhor Deus de Israel, porque visitou e redimiu o seu povo...” (Lc 1,68). E toda vez que o homem se aproxima de Deus, ele ganha a libertação e a liberdade. A aproximação de Deus em Jesus Cristo tem como objetivo libertar o homem: libertar para ser livre.

Jesus vem ao encontro do homem para que este se torne mais humano e mais irmão dos outros, e para fazer que o homem seja capaz de se levantar contra si próprio, isto é, contra àquilo que não é humano dentro de si, penetrando até o intimo de seu ser para destruir o que é caduco e podre dentro de si próprio a fim de fazer florescer o que tem de esplêndido e admirável dentro de si. Jesus vem ao encontro do homem para que este seja capaz de jogar para longe as cadeias de seu egoísmo que prejudica a convivência fraterna. Jesus vem ao encontro do homem para que este seja capaz de sentir-se, com todas as suas conseqüências, filho de Deus e irmão dos demais homens. Jesus vem para libertar o homem em sua totalidade a fim de fazê-lo apto para construir o hoje e o aqui do Reino de Deus que Ele anuncia e quer construir como tarefa prioritária de sua vida e missão. Jesus vem para libertar o homem daquilo que se chama “pecado” e que consiste em subverter a escala de valores e no lugar de buscar o Reino de Deus e sua justiça (cf. Mt 6,33), buscar a própria e direta satisfação acima de qualquer valor. Jesus vem para que, ao libertar o homem, desaparecem da terra o ódio, a guerra, a violência, a extorsão, a exploração, a injustiça, a miséria, a opressão, a intolerância, e assim por diante. Jesus vem para construir o homem novo capaz de colaborar na realização da nova terra e do novo céu (cf. Ap 21,1-8).

Jesus veio como o verdadeiro Libertador dos homens. Convém pensar serenamente na passagem do Evangelho deste dia e saborear a cena num momento no qual vivemos na atualidade com proliferação dos que se dizem “libertadores” ou “os liberais” e que pregam tantas “liberdades” ou “libertinagem”. Estamos rodeados dos libertadores oficiais que nos querem liberar para gozar do sexo, da vida, de cada momento que se escapa de nossas mãos como rapidez. No entanto, nunca o homem está tão prisioneiro de si próprio, prisioneiro, precisamente, daquilo por onde dizem que vem a libertação ou uma simples liberação de tudo. Trata-se de uma liberação ou libertinagem que arranca um sorriso limpo e estimulante de tantos lábios, a violência mortal ao impor os próprios modos de conceber a vida a ponta de uma pistola ou de um revolver, a fome que é possível morrer em nossas civilizadas e estupendas cidades, uma solidão que enche de vazio nossas populosas cidades, a injustiça que se traduz em pobreza institucionalizada. Esses são os frutos da liberação ou da libertinagem que nos anunciam os messias de turno. Diante deles se levanta Jesus, com a Escritura na mão, anunciando que real e verdadeiramente libertação consiste em romper as cadeias pessoais para conseguir ser o que se deve ser: filhos de Deus e irmãos dos demais homens. Para um cristão o que deve ser é ser um sincero e verdadeiro filho de Deus, com toda a amplitude e a exigência que essa realidade traz consigo. É preciso escutar a Palavra anunciada por Jesus, a Palavra do Pai.

Na sinagoga Jesus leu uma passagem da Escritura e fez o comentário sobre ela. Os nazarenos ficaram admirados com a explicação de Jesus, mas, ao mesmo tempo, se escandalizaram porque para eles Jesus é o filho de um simples carpinteiro. Jesus que anuncia é tão “humano” e por isso, ele é uma presença de Deus. O anúncio tão humano de Jesus não se trata de filantropia ou de ação social, mas trata-se, precisamente do projeto de Deus e da ação do Espírito Santo: “O Espírito do Senhor está sobre mim para...”. A presença de Jesus é uma chuva de benefícios para todos: para os pobres, para os cativos, para os cegos, para os oprimidos...   

Quando escutamos a Palavra de Deus, temos que recebê-la não como um discurso humano e sim como uma Palavra que tem um poder transformador em nós, pois tudo o que diz está profundamente cheio de sentido e de amor. Deus não fala para nossos ouvidos e sim para nosso coração. Um coração renovado é uma vida renovada. A Palavra de Deus é uma fonte inextinguível de vida. A Palavra de Deus sai do próprio coração de Deus para atingir nosso coração. Desse Coração, do seio da Trindade veio Jesus, a Palavra do Pai, é dirigida para os homens (cf. Jo 1,1-4.14).

Por isso, cada dia, quando lemos ou escutamos o Evangelho, nós temos que dizer, como Maria: “Faça-se em mim segundo a Tua Palavra” (Lc 1,38). Ao que Deus nos responderá: Hoje se cumpriu a Escritura que acabastes de ouvir”. Os nazarenos não compreenderam as palavras de Jesus, pois olhavam somente com os olhos humanos: “Não é este o filho de José?” (Lc 4,22). Viam a humanidade de Jesus, mas se escondia a Sua divindade aos olhos dos nazarenos. Toda vez que escutamos a Palavra de Deus, além de seu estilo literário, da beleza das expressões ou da singularidade da situação, temos que saber e estar conscientes de que é Deus Quem nos fala.

O Senhor “me enviou para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos”. A vida de Jesus é nossa vida. A missão de Jesus é nossa missão. Temos missão de libertar as pessoas de suas “ataduras” de vida; de fazer as pessoas enxergarem sua vida e a realidade ao redor para tomar posição como cristão, de viver na alegria do Senhor apesar dos contra-tempos. Mas para podermos libertar os outros temos que ser, primeiro, livres, pois somente quem é livre pode libertar.

P. Vitus Gustama,svd

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

XXII Domingo Do Tempo Comum, Ano "A", 30/08/2026

SEGUIR INCONDICIONALEMENTE A JESUS QUE NOS CHAMA

XXII DOMINGO DO TEMPO COMUM “A”

Primeira Leitura: Jr 20,7-9

7 Seduziste-me, Senhor, e deixei-me seduzir; foste mais forte, tiveste mais poder. Tornei-me alvo de irrisão o dia inteiro, todos zombam de mim. 8Todas as vezes que falo, levanto a voz, clamando contra a maldade e invocando calamidades; a palavra do Senhor tornou-se para mim fonte de vergonha e de chacota o dia inteiro. 9Disse comigo: “Não quero mais lembrar-me disso nem falar mais em nome dele”. Senti, então, dentro de mim um fogo ardente a penetrar-me o corpo todo; desfaleci, sem forças para suportar.

II Leitura: Rm 12, 1-2

1 Meus irmãos, eu vos peço pela misericórdia de Deus que ofereçais os vossos corpos como uma oferta viva, santa e agradável a Deus. Que este seja o vosso culto espiritual. 2 Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do espírito, para chegardes a conhecer qual seja a vontade de Deus, a saber, o que é bom, agradável e perfeito.                                         

Evangelho: Mt 16,21-27

Naquele tempo, 21 Jesus começou a mostrar a seus discípulos que devia ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos mestres da Lei, e que devia ser morto e ressuscitar no terceiro dia. 22 Então Pedro tomou Jesus à parte e começou a repreendê-lo, dizendo: “Deus não permita tal coisa, Senhor! Que isso nunca te aconteça!” 23 Jesus, porém, voltou-se para Pedro e disse: “Vai para longe, Satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens!” 24 Então Jesus disse aos discípulos: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga. 25 Pois, quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la. 26 De fato, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua vida? O que poderá alguém dar em troca de sua vida? 27 Porque o Filho do Homem virá na glória do seu Pai, com os seus anjos, e então retribuirá a cada um de acordo com a sua conduta”.

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O texto do evangelho deste domingo é a continuação do Evangelho do domingo anterior. No domingo anterior Pedro professou sua fé em Jesus dizendo: “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo(Mt 16,16). Mas não basta proferir a fórmula certa sobre a identidade de Jesus. Importa compreendê-la dentro do espírito do próprio Jesus. Pedro, sob o influxo da revelação do Pai acertou a identidade de Jesus, mas a compreendeu a seu modo e nisso foi corrigido com palavras duríssimas por Jesus logo que Jesus falou do anúncio de sua paixão (Mt 16,22-23). Jesus convida os discípulos a entenderem o seu caminho. Por isso, Jesus convida os seus discípulos a segui-Lo pelo mesmo caminho, apresenta-lhes as condições para segui-Lo (Mt 16,24), os motivos das condições em forma de ditos paradoxais (Mt 16,25-26) e termina com o anúncio da vinda escatológica do Filho do Homem para julgar os homens, onde os discípulos são convidados a entrar da glória futura (Mt 16,27). Assim lemos no Evangelho deste domingo.

1. Anúncio Da Paixão, Reação De Pedro E Repreensão De Jesus (vv.21-23)         

Nos evangelhos sinóticos encontram-se cinco vezes o anúncio da paixão de Jesus: três em forma bastante desenvolvida (Mc 8,31-33 e par.; Mc 9,30-32 e par.; Mc 10,32-34 e par.) e dois outros são mais breves: um coloca no fim do relato da transfiguração (Mc 9,9; Mt 17,9), e outro encontra-se no episódio de Getsêmani (Mc 14,41; Mt 26,45).          

O Evangelho de hoje começa com estas palavras: “Desde então, Jesus começou a mostrar a seus discípulos...(v.21). Aparentemente esta frase não tem nenhuma importância para nós, por isso não nos chama a atenção. O evangelista Mateus repete novamente o que disse em Mt 4,17 (para o início da missão na Galiléia). Ele quer enfatizar o novo começo na vida e no destino de Jesus a partir de Cesaréia de Filipe onde Pedro professou sua fé em Jesus (Mt 16,13-30) e com este novo começo Jesus pretende abrir os olhos dos discípulos para a nova caminhada. Por isso, ele usa o verbo “mostrarpara indicar a intenção de revelar um desígnio escondido do plano de Deus (cf. Ap 1,1). Trata-se do acontecimento da revelação última e definitiva.          

Optar por um novo começo significa deixar espaço ocupado até então, um espaço, por ser conhecido, dá segurança e partir rumo ao desconhecido, ao inseguro com muita fé porque Deus nos chama, como Ele chamou Abraão a sair da própria segurança, da própria pátria rumo a terra estrangeira/desconhecida apostando totalmente em Deus (cf. Gn 12,1ss). Não é fácil ouvir o chamado de Deus. Nossa insegurança, nossa hesitação e nossa grande afirmação fazem com que percamos a confiança em nossa voz íntima e fujamos de nós mesmos. Mas sabemos que Deus nos fala através da nossa voz íntima e que somente encontraremos alegria e paz se a seguirmos. Na verdade, o nosso espírito está disposto a obedecer, mas a nossa carne é fraca (cf. Mt 26,41).          

Concretamente, para Jesus o novo começo, a nova virada significa ir a Jerusalém ao encontro dos seus adversários, enumerados em três poderes que formavam o Sinédrio no tempo de Jesus: os anciãos, que são grandes latifundiários, representam o poder econômico; os sumos sacerdotes, que são de aristocracia sacerdotal, representam o poder religioso e os escribas que representam o poder intelectual (v.21). O poder econômico, o poder religioso e o poder intelectual opõem-se a Jesus, e estão decididos a eliminá-lo. E Jesus, ao enfrentar a rejeição, a condenação, o sofrimento e a morte, permanece fiel ao projeto salvífico de Deus. Uma vez disse “sim” a Deus, não mudou jamais para um “não”.          

A virada ou o novo começo na vida de Jesus “desde então” exige também uma virada, um novo começo, uma nova conversão dos seus seguidores, todos nós. A verdadeira conversão é um trabalho silencioso de cada dia. Nunca somos convertidos definitivamente. Cada novo dia somos chamados a nos converter para que a vida prossiga na sua dignidade de acordo com a vontade salvadora de Deus.          

Mas Pedro, que acabou de professar sua fé em Jesus como “Messias, o Filho de Deus vivo” (Mt 16,16), ainda segue o esquema de pensar deste mundo que dá mais valor ao poder, ao dinheiro, à honra e pompa que à simplicidade, à verdade e à humildade. Ele quer este tipo de Deus. Por isso, da boca de Pedro saíram estas palavras: “Deus não permita tal coisa, Senhor. Que isso nunca te aconteça!” (v.22). A veemente recusa de Pedro nos revela duas coisas: Por um lado, revela o amor de Pedro ao Mestre. Ele não quer ver seu Mestre sofrer. Mas nem sempre nossa boa intenção está de acordo com a objetividade. Até, às vezes, a boa intenção pode atrapalhar. Por outro lado, revela ao mesmo tempo que Pedro não havia compreendido ainda em profundidade a pessoa e a missão de Jesus, que ainda não havia chegado ao fundo do mistério de Cristo que o amor que se dá ao Pai e aos homens deve ser até o extremo, até as últimas conseqüências, até a morte na cruz. A sua fé na messianidade de Jesus é ainda uma fé tradicional, que associa o Messias ao poder e à glória e em nenhum momento ao sofrimento e à morte. As esperanças messiânicas tradicionalmente eram de caráter de glória e de poder. Esperava-se um Messias totalmente político e triunfalista, instaurador da nação. A fé dos discípulos tem de ser purificada e aprofundada até se tornar uma fé que reconheça em Jesus o Messias na forma do Servo sofredor.          

Até aqui podemos tirar a seguinte lição: Se formos sinceros, deveremos reconhecer que, no fundo, pensamos e reagimos da mesma maneira que Pedro, de maneira tipicamente conformista: conforme os valores e critérios do mundo e não segundo as palavras e as práticas de Jesus. Muitas vezes estamos anestesiados com os hábitos. Por isso, não admitimos a entrada de uma novidade na nossa área de hábitos, embora esta pode nos fazer crescer na maturidade. É bom ter sucesso, como desejou Pedro e como todos desejam. Mas nada pode desviar um cristão da fidelidade ao Evangelho, mesmo que para isso alguns interesses ou prestígio tenham que ser contrariados. O maior prestígio de um cristão é trilhar fielmente o caminho traçado por Jesus Cristo. No entanto, como Pedro, podemos professar nossa fé em Cristo Jesus, mas muitas vezes imediatamente depois disso negá-la com o nosso comportamento, opondo-nos com todas as forças e todos os meios, inclusive os da invocação do nome de Deus em vão. Para São Paulo, estas reações são as reações do homem carnal, do homem velho (cf. Rm 7,14ss;8,5ss). Isto quer nos dizer que a nossa fé está sempre submetida às mais diversas tentações.          

Diante da veemente recusa de Pedro, Jesus o corrigiu com palavras duríssimas: “Sai da minha frente! Para trás Satanás!” (v.23). A resposta de Jesus é uma resposta indignada porque o que está em jogo é algo de uma importância e de uma gravidade suprema para ele. Quanto maior for perigo, maior também se tornará a bronca/repreensão. Aqui Jesus usa as mesmas palavras que usou para responder à terceira tentação de Satanás no início do seu ministério (Mt 4,10). Agora no fim do seu ministério vem Pedro desempenhando o papel próprio de Satanás ao tentar desviar Jesus de sua missão. Nisso Pedro é a encarnação do Adversário(Satanás). Opor-se à vontade de Deus e, em última análise, ser agente de satanás, é fazer o jogo de Satanás. Por isso, Jesus dá a Pedro a mesma resposta que dera ao Tentador no deserto.         

Jesus indica a Pedro que ele é apenas um seguidor. Por isso, seu lugar não é na frente, mas detrás de Jesus, no seguimento de Jesus. A palavra “seguir” já indica o lugar atrás de quem é guia ou mestre. A pretensão de Pedro de se colocar na frente é desmarcada por Jesus. E esta pretensão é considerada como um jogo do adversário(satanás). Com isso, Pedro se torna pedra de tropeço no caminho de Jesus. Por isso, essas palavras servem como convite para Pedro para que ele volte a ocupar o lugar do discípulo, a trilhar os passos marcados por Jesus. Porque ficar na frente de Jesus significa obstaculizar o caminho de Jesus. Por trás das palavras de Jesus está o texto de Is 55,8: “Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, e vossos caminhos não são os meus caminhos”.         

Vamos nos perguntar e vamos verificar nossa consciência: quantas vezes desempenhamos o papel de Satanás na nossa vida como por exemplo: levar alguém a fazer algo que não é certo do ponto de vista cristão ou a levantar o falso testemunho etc. Em segundo lugar, para estarmos bem com Deus e com os outros, devemos saber o nosso lugar. Qual é o meu lugar? Se eu não ocupar o meu lugar e não reconhecer o lugar do outro, acabarei criando a desordem na convivência.           

Pedro e cada um de nós temos de nos converter sempre de novo, dar uma virada, um novo começo para que o caminho de nossa vida seja o de Deus e não o nosso, assim encontraremos a nossa felicidade e paz. Temos que mudar sempre do nosso modo de pensar(metanoia) para que os nossos pensamentos não sejam os nossos mas os de Deus, assim enxergaremos bem o nosso caminho e resolveremos melhor os nossos problemas. Enfim, no silêncio de nossas orações e reflexões, temos que buscar sempre de novo qual é a vontade de Deus em nossas vidas e praticá-la. Se nos chamamos de cristãos, devemos então, imitar a vida de Jesus. A vida de Jesus foi nutrida da vontade de Deus. Ele disse: “Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e cumprir a sua obra” (Jo 4,32).          

Se perseverarmos no amor de Jesus, no seu seguimento, nas suas exigências, passo a passo e dia a dia, acabaremos compreendendo o mistério de sua pessoa e de sua missão e optando pela comunhão de destino com ele e acabaremos também descobrindo e compreendendo a nossa verdadeira identidade. E quem opta por seguir a Jesus encontra um centro para sua vida fora de si mesmo.  Não gira mais em torno do próprio “Eu”, dos gostos individuais e dos próprios interesses e das vantagens pessoais. Mas o centro de sua vida está doravante na vontade de Deus manifestada para ele na pessoa e na missão de Jesus Cristo. Assim é que podemos entender as exigências de Jesus de negar a si mesmo, de tomar a cruz e de segui-Lo. Quando Deus se torna centro, o cristão se torna bom e correto consigo mesmo e com os outros. Será que Jesus é o centro de nossa vida ou ainda giramos em torno de nós mesmos? 

2. As Condições Do Seguimento De Jesus         

As exigências do seguimento de Jesus são repetidas seis vezes com variantes maiores e menores nos quatro evangelhos (Mt 16,24ss; Mc 8,34ss; Lc 9,23s;Jo 12,24ss;Lc 14,27;Mt 10,38s). Essa repetição nos indica a importância dada pela Igreja dos apóstolos a essas exigências.          

Ao apresentar aos discípulos as condições do seguimento, Jesus não impõe, mas propõe: “Se alguém quer...” O seguimento não é uma imposição. Todos têm a liberdade de aceitar ou de recusar. Mas quem quer seguir verdadeiramente a Jesus, tem que assumir as exigências postas por ele. Tudo tem que ser tomado na base da liberdade, da obediência da fé e por amor.          

A primeira condição é a renúncia: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo...” (v.24a). Renunciar a si mesmo não significa uma resignação cansada diante da vida nem uma “entrega dos pontos” nem por falta de opções. Antes de tudo significa a libertação da própria liberdade dos egoísmos a que estava atada e que agora se entrega inteiramente a Deus. O seguidor, geralmente, coloca o próprio eu no centro do próprio interesse. O centro de sua vida está, doravante, na vontade de Deus, manifestada para ele na pessoa e na missão de Jesus Cristo. E esta entrega tem de ser livre para poder ser feita na alegria, no entusiasmo e na generosidade. O seguidor é chamado à renúncia, a arriscar a própria vida, porque só assim poderá, como Cristo, chegar à glória que é a meta de todo caminho da cruz. Mas toda renúncia deve ter como base o amor. O sacrifício, a renúncia de si mesmo que não seja animado pelo amor, que não seja uma manifestação de amor, uma expressão de doação de si mesmo, que não leve à comunhão com os outros é apenas uma tortura auto-infligida. A renúncia que Jesus pede não é uma ação negativa. Ele pede amor, doação de si mesmo. Tudo tem que ser feito por amor. Sem o amor, viveremos uma vida dupla. E este tipo de vida, não traz a alegria verdadeira nem para si nem para os outros. A falta de renúncia atrasa e infantiliza a vida. Na linguagem psicológica, renunciar é cortar o cordão umbilical das dependências do passado para assumir o presente com suas possibilidades para nos fazer crescer. É relativizar todo processo anterior para assumir outro processo que torna a pessoa mais madura e mais sucedida. É crescer sempre.   A palavra “crescer" como a palavra “mudança” tem uma conotação bastante positiva, associada aos conceitos de novidade, melhoramento, renovação, aperfeiçoamento.   Quando você deixa de crescer, estará envelhecido. Enquanto estiver aberto ao crescimento, você é jovem. O seu medo de crescer é o seu medo de tomar conta de si mesmo ou da sua responsabilidade como adulto”. (René Juan Trossero, psicólogo e escritor argentino)    

A segunda condição é o “carregar a sua cruz” (v.24b). “Carregar a cruzé uma expressão que os primeiros cristãos utilizaram muito para expressar sua união com Jesus na sua morte e ressurreição. É uma expressão relacionada ao mistério pascal de Jesus Cristo. Jesus pede ao seguidor o esvaziamento total de si mesmo, até a morte física, se for preciso. Quem não tiver esta disponibilidade, ainda não é verdadeiramente seguidor de Cristo. Todo aquele que quer seguir a Jesus incondicionalmente deve estar pronto para percorrer todos os passos da Paixão, pois o “mundo” tenta crucificar e eliminar os seguidores de Cristo por todos os meios, como aconteceu com Jesus. Jesus chama seus discípulos para segui-Lo fielmente e colocar-se a serviço de um mundo mais humano e fraterno chamado de Reino de Deus. A cruz é apenas o sofrimento que vem como consequência desse seguimento.          

Depois dessas condições, Jesus mostra os motivos em forma de ditos paradoxais. Em primeiro lugar Jesus afirma que quem busca egoisticamente, a todo custo, usando quaisquer meios, aproveitar, gozar e conservar a própria vida, acaba desperdiçando-a e perdendo-a (v.25). Querer guardar para si a própria vida é o caminho mais seguro para perdê-la. Pelo contrário, quem vive em função do serviço desinteressado aos outros na bondade e no amor, ele acaba encontrando a vida na sua plenitude, acaba ganhando a vida eterna. A vida só se encontra, doando-a. O próprio Jesus é o exemplo desta doação. Ele se doou até o fim a Deus e aos homens. O homem muitas vezes somente dá um pouco de sua vida. O verdadeiro cristão se doa tudo por amor.          

No v. 26 Jesus repete o paradoxo anterior: “De fato, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua vida? O que poderá alguém dar em troca de sua vida?Possuir os bens deste mundo não seria um mal em si mesmo, mas torna-se o maior dos males quando, por causa de tais posses, o cristão é impedido de seguir a Cristo e viver os ensinamento de Cristo. Jesus, certamente, rejeitou o “mundo inteiro” que o Tentador lhe oferecera, pois o preço da oferta era a idolatria (Mt 4,8s). Desapeguemos o coração de todas as criaturas. Quem está agarrado a alguma coisa da terra, ainda que mínima, nunca poderá voar e unir-se todo a Deus(S. Afonso de Ligório). Ainda que alguém ganhasse o mundo inteiro (riqueza, glória, poder), a vida é efêmera. Na ótica da fé, todas as riquezas do mundo são insignificantes quando o que está em jogo é a vida em plenitude(eterna) que Jesus oferece aos que o seguem.          

O fundamento último da nossa opção pelo seguimento incondicional de Cristo é a certeza, dada pela fé, de que o Filho do Homem virá um dia na sua glória (v.27). Ele terá a última palavra sobre o homem. Essa palavra será uma palavra de graça para quem segue a Jesus incondicionalmente. O juízo final torna-se, então, a medida para avaliar a existência histórica e ao mesmo tempo a bússola que orienta a vida do cristão nas escolhas justas e sensatas nesta vida. Faça o certo conforme ensinou Jesus, e tudo dará certo, apesar de tudo!

Para Refletir Mais 

1.  Quem quiser ser meu discípulo que empreenda com valentia à mesma carreira de sofrimentos que eu trilhei, percorra praticamente o mesmo caminho e ame-o. Esse encontrará descanso em minha companhia e desfrutará de minha intimidade. (São Cirilo de Alexandria: Sobre a Adoração Em Espírito e Verdade L. 5, PG 68,391-395).

2. Disse, pois, Jesus a Pedro: “Vá para trás de mim”, como se, por sua ignorância, tivesse deixando de seguir a Cristo, e chama-o de Satanás por causa desta mesma ignorância, como quem tem algo contrário a Deus. ... Ele chama de escândalo para Si todo discípulo que peca, como também dizia Paulo (2Cor 11,29): Quem sofre escândalo, que eu não me consuma de dor? (Orígenes: Homilia 1 In Matthaeum, 16)

P. Vitus Gustama,SVD

Martírio De São João Batista, 29/08/2026

JOÃO BATIST É DECAPITADO COMO MÁRTIR

Primeira Leitura: Jr 1,17-19

Naqueles dias, a Palavra do Senhor foi-me dirigida: 17“Vamos, põe a roupa e o cinto, levanta-te e comunica-lhes tudo que eu te mandar dizer. Não tenhas medo, senão, eu te farei tremer na presença deles. 18Com efeito, eu te transformarei hoje numa cidade fortificada, numa coluna de ferro, num muro de bronze contra todo o mundo, frente aos reis de Judá e seus príncipes, aos sacerdotes e ao povo da terra; 19eles farão guerra contra ti, mas não prevalecerão, porque eu estou contigo para defender-te”, diz o Senhor.

Evangelho: Mc 6,17-29

Naquele tempo, 17 Herodes tinha mandado prender João, e colocá-lo acorrentado na prisão. Fez isso por causa de Hero­díades, mulher de seu irmão Filipe, com quem se tinha casado. 18 João dizia a Herodes: “Não te é permitido ficar com a mulher do teu irmão”. 19 Por isso Herodíades o odiava e queria matá-lo, mas não podia. 20 Com efeito, Herodes tinha medo de João, pois sabia que ele era justo e santo, e por isso o protegia. Gostava de ouvi-lo, embora ficasse embaraçado quando o escutava. 21 Finalmente, chegou o dia oportuno. Era o aniversário de Herodes, e ele fez um grande banquete para os grandes da corte, os oficiais e os cidadãos importantes da Galileia. 22 A filha de Herodíades entrou e dançou, agradando a Herodes e seus convidados. Então o rei disse à moça: “Pede-me o que quiseres e eu to darei”. 23 E lhe jurou dizendo: “Eu te darei qualquer coisa que me pedires, ainda que seja a metade do meu reino”. 24 Ela saiu e perguntou à mãe: “O que vou pedir?” A mãe respondeu: “A cabeça de João Batista”. 25 E, voltando depressa para junto do rei, pediu: “Quero que me dês agora, num prato, a cabeça de João Batista”. 26 O rei ficou muito triste, mas não pôde recusar. Ele tinha feito o juramento diante dos convidados. 27 Imediatamente, o rei mandou que um soldado fosse buscar a cabeça de João. O soldado saiu, degolou-o na prisão, 28 trouxe a cabeça num prato e a deu à moça. Ela a entregou à sua mãe. 29 Ao saberem disso, os discípulos de João foram lá, levaram o cadáver e o sepultaram.

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São João Batista é o único santo de quem a Igreja comemora o seu nascimento e a sua morte, pois ele é o Precursor do Senhor (O dia de outros santos/santas, em geral, é comemorado no dia de sua morte, considerado como Dies Natalis para o Céu). No dia 24 de Junho, a Igreja celebra o nascimento de João Batista, e no dia 29 de agosto comera o dia de sua morte como mártir, decapitado por ordem de Herodes.

Como observação inicial vamos lançar a seguinte pergunta: Por que é introduzido o episodio sobre a morte de João Batista num evangelho cujo tema fundamental é dizer quem é Jesus? A resposta é simples: é para continuar explicando quem é Jesus, na realidade, que é o objetivo principal do evangelho de Marcos. Na verdade o próprio evangelista Marco já deu sua resposta sobre quem é Jesus, logo no início do seu evangelho: Jesus é Cristo e Filho de Deus (Mc 1,1). Aqui o evangelista Marcos toma posição a respeito das opiniões do povo e diz que Jesus não é Elias, enquanto que João Batista o é como profeta. Já havia insinuado ao descrever João Batista com a vestimenta do profeta Elias (Mc 1,4). Agora, o faz apresentando João Batista que se enfrenta a um rei e sua cônjuge, Herodíades, que intenta eliminar o incômodo profeta, João Batista. Não aconteceu também com o temível profeta Elias contra o rei Acab e Jezabel, sua esposa? (cf. 1Rs 18-19). O profeta Elias enfrentava o rei Acab e sua esposa, Jesabel. Aqui João Batista enfrenta o rei Herodes Antipas e sua esposa, Herodíades.

No texto do evangelho lido na festa do martírio de João Batista se encontram três personagens principais: Herodes Antipas, Herodíades (e sua filha) e João Batista.

Herodes Antipas era o filho de Herodes chamado o Grande, aquele perseguidor de Jesus-menino que havia mandado degolar os inocentes (Mt 2,13-23). Herodes Antipas reinava, como tetrarca, na Galiléia e em Perea, desde a morte de seu pai, de 4 a.C até 39 de.C. politicamente, ele foi um tetrarca, e não um rei. O tetrarca era um governante com poderes mais ou menos monárquicos, mas que governava sem autonomia completa, pois ele estava sob o controle de Roma (império romano). Mais tarde, Antipas construiu, para ser a nova capital, a cidade de Tiberíades, junto ao mar da Galileia, que também ficou conhecido como lago de Tiberíades, dando-lhe esse nome em homenagem ao imperador Tiberíades, que havia sucedido o imperador Augusto.

Em uma visita a Roma, Antipas ficou apaixonado pela esposa do seu meio irmão Herodes Filipe, Herodíades, e em pouco tempo casou-se com ela (Mc 6,17). Ela inisitiu para que Antipas se divorciasse de sua primeira esposa, Fasaleia (que era filha de Petra). Quando Fasaleia soube desta armação, decidiu, por conta própria, abandonar Antipas e voltar para a casa de seu pai. Tudo isso revoltou os judeus, e especialmente revoltou João Batista, que teve a coragem de acusar Antipas de estar em adultério com sua cunhada (Mc 14; Mc 6; Lv 20,21). Por isso, Herodíades odiava João Batista e acabou convencendo Antipas a prendê-lo.

Antipas é descrito como um homem rico e poderoso. Abusa da riqueza e do poder e é arrogante. Ele se entregou totalmente aos prazeres. Enganado por uma bailarina e por sua vingativa mãe, Herodíades, ele se converteu em um assassino de um inocente, João Batista. Desde que a moça dançarina entra na sala, tudo é um crescendo de horror e de pecado, até que o ódio da pecadora, Herodíades, se desafoga vendo numa bandeja a cabeça de João Batista, um homem justo e santo (Mc 6,20). Herodes priva João Batista de sua liberdade, impedindo sua atividade ao coloca-lo na prisão. O povo vê em João Batista um enviado divino, mas Herodes não quer saber disso. Mesmo que Herodes dê a ordem de encarcerar João Batista, outra pessoa o instiga a fazê-lo, mulher de seu irmão, Filipe, a quem Herodes tomou por esposa.

Herodíades é descrita como assassina sem compaixão. Injustamente se tornou esposa de Herodes Antipas. Herodíades era a mulher de Filipe, irmão de Herodes. Herodes tomou Herodíades por esposa que era proibido pela Lei (Ex 20,17; Lv 18,16;20,21). João Batista não era parcial com os poderosos e denunciou essa injustiça. A mais sensível a essa denúncia é Herodíades, a adúltera. Para Herodíades a denúncia de João Batista feriu seu orgulho e sua soberba. Ela não quer saber da verdade na denúncia de João Batista. Por isso, ela se propõe a acabar com a vida de João Batista. O ódio e a vingança levam essa mulher a procurar todos os meios, utilizando até a própria filha, para eliminar João Batista do seu mundo. Herodíades quer tirar a vida de João, mas há um obstáculo a seu intento: o temor que Herodes sente por João, por ele considerado um homem justo, de conduta agradável a Deus e santo ou consagrado por Deus, profeta.

Perguntamos para nós mesmos: Por que você vira meu inimigo só porque eu falo a verdade sobre você? Por que vergonha? Por que essa reação violenta? A verdade continua sendo verdade mesmo que as pessoas tentem manipulá-la.       

O dia oportuno é a ocasião propícia para que Herodíades cumpra seu desígnio de matar João Batista. Celebra-se a vida de Herodes, o poder absoluto e com ele a celebram os representantes de todos os possuidores do poder.        

Aparece outra personagem, a filha de Herodíades, sem nome, que se define por sua mãe. Sem nome significa não tem personalidade própria. Por isso, ela representa o povo sem vontade própria (o povo submisso) e a mãe representa a classe dirigente ou classe dominante. A moça não tem vontade própria; mostrando sua total dependência, vai perguntar à mãe o que quer que a filha faça. Herodes faz promessa à filha de Herodíades: “Pede-me o que quiseres e eu to darei. Eu te darei qualquer coisa que me pedires, ainda que seja a metade do meu reino”. Mas quem decide é a mãe, que busca só seu próprio interesse: eliminar João (quer a cabeça de João Batista). A maldade só pode produzir a maldade. Mas a maldade não é capaz de enterrar a verdade, pois a verdade tem o seu próprio caminho. O sangue de um mártir é a semente para a Igreja.        

Marcos sublinha a imaturidade da jovem: entra logo, a toda pressa, sem criticar nem julgar a decisão da mãe nem considerar se era ou não favorável para ela: ela é a escrava de sua mãe, é uma pessoa sem personalidade e sem valores vividos e por isso, sem posição certa na vida. Os valores vividos orientam nossa maneira de viver e nossas escolhas na vida. Sem os quais a vida se torna sem rumo e sem objetivos claros.        

No poder civil há um resto da humanidade: Herodes estimava João Batista e sabe que o que pedem não é só uma injustiça, mas também um desprezo a Deus. Mas um rei sem valores vividos não quer ficar em má situação, pois ele acha que perderia seu prestígio. Herodes Antipas, o covarde, mandou tirar, então, a cabeça de João Batista em nome da vaidade. Um vaidoso é uma pessoa frívola, presunçosa e incoerente. Sem juízo e sem bom senso, ele vive só para aparecer e ser admirado. Na prática, o prazer de um vaidoso não consiste em possuir méritos, mas em saber que os outros o elogiam.

Além de ser vaidoso, Herodes é uma pessoa extremamente orgulhosa. O orgulhoso não se preocupa em conhecer a verdade, mas apenas em ocupar uma posição em que ele possa ser o centro e a norma. Ele pretende que tudo esteja sujeito a si próprio. Ele é prepotente, arrogante, insolente e violento. Seus atos não precisam respeitar moral alguma, mas impõe aos outros normas morais. 

Os psicólogos dizem que soberbo, vaidoso, arrogante, presunçoso, endeusado, imodesto, pedante, petulante, narcisista, autossuficiente, envaidecido, presumido são todos sinônimos de uma mesma palavra: orgulhoso. Só de pensar que alguém reúne todos esses qualificativos, essa pessoa já tem ‘má reputação’. Numa pessoa que tem uma personalidade narcisista e desvio de caráter não entra mudança nenhuma. A palavra “autossuficiente” já diz tudo. 

Da atitude de Herodes Antipas percebemos que no poder civil, muitas vezes, para não dizer sempre, os interesses do poder estão acima do humano. O evangelho nos relata que da parte dos convidados, não há nenhuma reação: tudo é permitido ao rei, “dono” da vida de seus súditos. Herodes mandou tirar a cabeça de João Batista. E a jovem dá a cabeça de João Batista à mãe, e ela mesma fica sem nada.        

De Herodes podemos tirar muitas outras lições. Em primeiro lugar, nunca façamos promessas quando formos dominados por uma grande emoção. Sejamos cautelosos, prudentes, sóbrios em tudo. “Quem não se controla no lícito está em perigo de sucumbir diante do ilícito. Por isso, o sóbrio se abstém da saciedade para não cair na embriaguez”, dizia Santo Agostinho (De ut. Jej. 5,6).  Herodes Antipas tem medo, e ao mesmo tempo ama João Batista: odeia a mensagem de João Batista, mas incapaz de se livrar da admiração por ele. Mas em nome da vaidade e do poder, Herodes não quer saber da verdade. Herodes não entende que aquele que conhece a verdade e vive de acordo com a verdade é um homem mais livre do mundo (cf. Jo 8,32). Herodes é também um homem que age por impulsos. Dele aprendemos que saibamos pensar antes de falar e de agir. Muitos acham que falar o que pensar seja uma virtude. Mas na verdade a verdadeira virtude é pensar bastante antes de falar. Se o mundo vive reagindo, o cristão deve viver refletindo. 

O caso de Herodes e Herodíades é um caso típico de como um pecado leva a cometer outro pecado. Herodes e Herodíades começaram sendo adúlteros e terminaram sendo assassinos. O pecado de adultério levou os dois ao crime, ao assassinato de um santo, de um inocente, de um João Batista. Herodes e Herodíades calaram a santa boca que recordava o dever; calaram a boca do pregador da virtude. Mas a boca que recorda o dever pode ser tirada, mas não o próprio dever tatuado em cada coração. A boca que prega a virtude pode ser calada, mas não a virtude que habita em cada coração que sempre grita diante da desonestidade. 

Com o seu exemplo cheio de fortaleza, João Batista nos ensina a cumprir, apesar de todos os obstáculos, a missão de viver de acordo com a justiça, a verdade, a retidão. É viver a função profética de anunciar o bem e de denunciar o mal e a maldade na convivência. Cada um recebeu de Deus essa missão profética através do sacramento do Batismo. João Batista foi um verdadeiro mártir, pois foi morto por cumprir seu dever de viver de acordo com a retidão e a verdade. 

Façamos uma pausa e consideremos quantas vezes na história, antes ou depois de João Batista, aconteceu o mesmo fato: que quem denuncia a mentira e defende a verdade, que quem condena o pecado e proclama a virtude, que quem fustiga a injustiça e prega a dignidade humana é a vítima ou o objeto de zombaria e é condenado diante do tribunal do ímpio, mas é glorificado e coroado diante do tribunal de Cristo (cf. Mt 7,21-23; 25,31-46). 

Uma das lições muito importantes desse episódio: Nunca prometa nada, quando você estiver alegre e feliz, pois a promessa pode ser fatal. A promessa de Herodes custa a cabeça de João Batista (cf. Mc 6,21-29).

Para Refletir:

·      O orgulho é o complemento da ignorância (Bernard de Fontenelle).

·      Se o homem orgulhoso soubesse como parece ridículo perante quem o conhece, por orgulho seria humilde (Mariano Aguiló).

·      A ciência é orgulhosa pelo muito que aprendeu; a sabedoria é humilde pelo que sabe (William Cowper).

  • O conhecimento aumenta nosso poder na mesma proporção em que diminui nosso orgulho (Paul Bernard, Tristão).

P. Vitus Gustama,svd

Segunda-feira Da XXII Semana Comum, Ano Par, 31/08/2026

LIBERTADOS POR JESUS PARA PARA LIBERTAR OS OUTROS A FIM DE CONSTRUIRMOS UMA FRATERNIDADE Segunda-Feira da XXII Semana Comum Primeira Lei...