sexta-feira, 2 de outubro de 2026

XXVII Domingo Do Tempo Comum, Ano "A", 04/10/2026

CRER EM UM DEUS QUE NOS AMA ATÉ O FIM

XXVII DOMINGO DO TEMPO COMUMM “A”

I Leitura: Is 5,1-7

1 Vou cantar para o meu amado o cântico da vinha de um amigo meu: Um amigo meu possuía uma vinha em fértil encosta. 2 Cercou-a, limpou-a de pedras, plantou videiras escolhidas, edificou uma torre no meio e construiu um lagar; esperava que ela produzisse uvas boas, mas produziu uvas selvagens. 3 Agora, habitantes de Jerusalém e cidadãos de Judá, julgai a minha situação e a de minha vinha. 4 O que poderia eu ter feito a mais por minha vinha e não fiz? Eu contava com uvas de verdade, mas por que produziu ela uvas selvagens? 5 Pois agora vou mostrar-vos o que farei com minha vinha: vou desmanchar a cerca, e ela será devastada; vou derrubar o muro, e ela será pisoteada. 6 Vou deixá-la inculta e selvagem: ela não será podada nem lavrada, espinhos e sarças tomarão conta dela; não deixarei as nuvens derramar a chuva sobre ela. 7 Pois bem, a vinha do Senhor dos exércitos é a casa de Israel, e o povo de Judá, sua dileta plantação; eu esperava deles frutos de justiça — e eis a injustiça; esperava obras de bondade — e eis a iniquidade.

II Leitura: Fl 4,6-9

Irmãos: 6 Não vos inquieteis com coisa alguma, mas apresentai as vossas necessidades a Deus, em orações e súplicas, acompanhadas de ação de graças. 7 E a paz de Deus, que ultrapassa todo o entendimento, guardará os vossos corações e pensamentos em Cristo Jesus. 8 Quanto ao mais, irmãos, ocupai-vos com tudo o que é verdadeiro, respeitável, justo, puro, amável, honroso, tudo o que é virtude ou de qualquer modo mereça louvor. 9 Praticai o que aprendestes e recebestes de mim, ou que de mim vistes e ouvistes. Assim, o Deus da paz estará convosco.

Evangelho: Mt 21,33-43

Naquele tempo, Jesus disse aos sumos sacerdotes e aos anciãos do povo: 33 “Escutai esta outra parábola: Certo proprietário plantou uma vinha, pôs uma cerca em volta, fez nela um lagar para esmagar as uvas, e construiu uma torre de guarda. Depois, arrendou-a a vinhateiros, e viajou para o estrangeiro. 34 Quando chegou o tempo da colheita, o proprietário mandou seus empregados aos vinhateiros para receber seus frutos. 35 Os vinhateiros, porém, agarraram os empregados, espancaram a um, mataram a outro, e ao terceiro apedrejaram. 36 O proprietário mandou de novo outros empregados, em maior número do que os primeiros. Mas eles os trataram da mesma forma. 37 Finalmente, o proprietário enviou-lhes o seu filho, pensando: ‘Ao meu filho eles vão respeitar’. 38 Os vinhateiros, porém, ao verem o filho, disseram entre si: ‘Este é o herdeiro. Vinde, vamos matá-lo e tomar posse da sua herança!’ 39 Então agarraram o filho, jogaram-no para fora da vinha e o mataram. 40 Pois bem, quando o dono da vinha voltar, o que fará com esses vinhateiros?” 41 Os sumos sacerdotes e os anciãos do povo responderam: “Com certeza mandará matar de modo violento esses perversos e arrendará a vinha a outros vinhateiros, que lhe entregarão os frutos no tempo certo”. 42 Então Jesus lhes disse: “Vós nunca lestes nas Escrituras: ‘A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; isto foi feito pelo Senhor e é maravilhoso aos nossos olhos?’ 43 Por isso, eu vos digo: o Reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que produzirá frutos”.          

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A parábola dos vinhateiros homicidas, no texto do evangelho de hoje, constitui um compêndio ou síntese de toda a história da salvação desde a Aliança do Sinai até a fundação da Igreja por Jesus como novo Povo de Deus (cf. Mt 16,18-19), passando pelos profetas e pela pessoa de Cristo que anunciou o Reino de Deus e que foi constituído pedra angular de todo plano salvador de Deus (cf. Mt 21,42 mediante seu mistério pascal: paixão, morte e ressurreição).

Os profetas comparavam Israel a uma vinha que pertencia a Deus (cf. Is 5,1-7). Na parábola, o dono da vinha é Deus. Os vinhateiros representam os maus líderes religiosos (os fariseus, sacerdotes e os escribas etc. na época), cuja responsabilidade era a de cultivar a fé do povo. Os servos enviados eram todos os mensageiros (profetas) que Deus tinha enviado a Israel para que se convertesse. O filho do dono representou Jesus Cristo. A rejeição e a matança recorda a maneira com que Israel (os responsáveis) tratava estes mensageiros de Deus (cf. 2Cr 24,20-22;36,15-16).

Matando Jesus, os líderes selam seu próprio fim, pois Deus tirou a vinha (o Reino) de Israel e a entrega a um povo (ethnos) que produza frutos, isto é, um povo que crê em Jesus vivendo como irmãos.

Através da parábola dos vinhateiros Jesus quer preanunciar seu fim trágico, prefigurando no filho assassinado seu próprio destino. Ao mesmo tempo, Jesus quer manifestar a clara consciência de ser o Enviado de Deus e indicar a terrível responsabilidade dos dirigentes judeus prontos a justiça-Lo. A parábola desvela discretamente o mistério da sua pessoa e da sua missão. Jesus, Enviado por Deus como última e definitiva possibilidade de salvação para Israel, é rejeitado e levado à morte por um povo incrédulo. A missão de Jesus é o gesto salvíficos extremo e decidido do Pai. Tê-lo rejeitado e posto à morte é o gravíssimo pecado dos chefes de Israel. Nesta mesma perspectiva, a descrição da vinha feita sob o esquema do canto de Isaías 5,1ss quer anunciar o terrível juízo de Deus contra o povo infiel comparado a uma vinha estéril.

Apesar desta tragédia a comunidade cristã primitiva sublinhou o triunfo do Messias crucificado citando o Salmo 118(119). Deus glorificou admiravelmente, na ressurreição, aquele Jesus que os judeus tinham rejeitado e posto à morte. O puro e simples preanúncio do trágico fim do Messias deu lugar à celebração da glória do Ressuscitado. Por isso, a Igreja encontrou na parábola um motivo para confessar a sua fé no Senhor, que triunfando sobre a morte ofereceu-lhe uma esperança certa. A Igreja aparece como o Novo Povo de Deus, chamado a uma fidelidade concreto dando frutos bom exigidos por Deus que Israel negou. Neste sentido, o exemplo de Israel infiel é colocado diante dos olhos como advertência. A graça salvífica que se revelou na comunidade é exigente: ser o Novo Povo de Deus levado ao compromisso com uma nova vida fecunda de frutos de fidelidade. Por isso, vale a pena sofrer pelo bem de todos, pois terminará com uma vida de triunfo na glória de Deus. Uma vida de sofrimento pelo bem de todos sempre termina na vida ressuscitada. Não adianta desviar ou enterrar a verdade, pois a verdade tem seu próprio caminho e seu curso e percurso.                               

Mais uma vez, é preciso enfatizar que: A Igreja cristã primitiva, como a Igreja cristã em todos os tempos e lugares, encontrou, como encontra, nesta parábola um motivo para confessar a sua fé no Senhor Jesus que triunfou sobre a morte e por isso, ele oferece à Igreja uma esperança certa que é ele mesmo. A nossa vida, a partir de Jesus ressuscitado, tem futuro. O mundo, por isso, deve saber que não estamos condenados a um fim sem sentido ou a uma vida sem futuro. O nosso futuro, como o nosso presente é o próprio Deus que ressuscita os que praticaram o bem em favor de todos.

Além de tudo que foi dito acima, a parábola lida neste dia tem muita coisa para nos dizer mais?

Em primeiro lugar, Ela quer nos falar, primeiramente, da confiança que Deus tem em cada um de nós. O Deus revelado por Jesus, nesta parábola é Aquele que confia totalmente no homem. Este Deus não fica policiando se o homem faz ou não faz sua missão, porque ele acredita na capacidade que o homem tem. Por isso, o texto diz: “O proprietário arrendou uma vinha a vinhateiros e viajou para o estrangeiro” (Mt 21,33). Deus acredita na capacidade que cada homem tem para produzir algo de bom durante a passagem nesta vida para o bem de todos. Para isso é que Ele criou cada homem e o colocou aqui neste mundo. Cada tarefa ou missão que o homem recebe é a tarefa ou missão dada por Deus. É bom cada um descobrir a própria missão dada por Deus. Merece cada um fazer esta pergunta: “Qual é a missão que recebi de Deus durante a minha vida neste mundo?”. “Será que acredito no Deus que acredita em mim?”. “Deus não condena quem não pode fazer o que quer, mas quem não quer fazer o que pode”, dizia Santo Agostinho (Serm.54,2).

Deus não só acredita em cada um de nós para cumprir a missão, mas também dá todos os meios para facilitar o cumprimento da missão dada. Por isso o texto diz: “O proprietário pôs uma cerca em volta da vinha, fez nela um lagar para esmagar as uvas e construiu uma torre de guarda. Depois, arrendou a vinha a vinhateiros” (Mt 21,33).

Em segundo lugar,   A parábola fala também da paciência de Deus. Deus não se cansa em enviar seus mensageiros e suas mensagens todos os dias. Basta enxergar a verdade que eles falam ou anunciam. Ele não vem logo para se vingar contra o homem mau ou contra quem que errou. Ele dá avisos um após outro e todos os dias. Esse Deus confia totalmente no homem e por isso, ele acredita na recuperação do homem. Esta é uma das razoes pela qual Deus tem paciência para com o homem. Ser cristão é ser recomeço permanente, pois Deus sempre dá oportunidade para cada um recomeçar sua caminhada e sua missão.

Merece também cada um responder a seguintes perguntas: “Deus não se cansa em enviar seus mensageiros e suas mensagens todos os dias para o homem. Qual é a mensagem de Deus para mim hoje? Você encontrou algum mensageiro de Deus hoje seja dentro de sua casa seja fora dela? Se esse Deus tem muita paciência para com você, acreditando na sua recuperação, seu novo começo, por qual razão você não acredita em si mesmo para você começar tudo de novo? E por qual razão você fica pessimista na recuperação dos outros? Você tem um pouco da paciência de Deus?  “Paciência e perseverança tem o efeito mágico de fazer as dificuldades desaparecerem e os obstáculos sumirem” (John Quincy Adams). “Aquele que tiver paciência terá o que deseja” (Benjamim Franklin). “A paciência é a fortaleza do débil e a impaciência, a debilidade do forte “ (Immanuel Kant).  “Não há lugar para a sabedoria onde não há paciência” (Santo Agostinho). “Um momento de paciência pode evitar um grande desastre; um momento de impaciência pode arruinar toda uma vida” (Provérbio Chinês).

Em terceiro lugar, A parábola também fala do juízo final de Deus. A vida tem seu fim. Se ela tem o fim, então todos os nossos atos diários pesam para este fim. Durante o curso desta vida Deus se mostra paciente para com qualquer um de nós. Ele acredita no homem, mas respeita sua liberdade.  A liberdade é como uma faca que pode ajudar você na suas tarefas, mas também pode cortar seus dedos, se não usá-la corretamente. “Uma liberdade sem controle, mais que liberais, faz libertinos”, dizia Santo Agostinho (Epist.157,16). Deus nos julgará quando ele tirar de nós a tarefa ou a missão que não quisemos cumprir. “O Reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que produzirá muitos frutos”, assim Jesus concluiu a parábola. Merece cada um perguntar: “Quais são atos que pesam muito para a minha vida e para o fim da minha vida neste mundo?”        

Para tirar ou ter outras mensagens, podemos ler esta parábola de duas maneiras: a primeira, a partir de Deus e a segunda, a partir do homem. 

1. Quem É Deus Nesta Parábola? (A parábola a partir de Deus)             

O dono da vinha é figura de Deus. O fato de Deus ter mandado continuamente os profetas de ontem e de hoje para despertar o homem, só há uma explicação: a misericórdia. A misericórdia não é simplesmente amor: é um amor que não conhece limites, barreiras, obstáculos, fronteiras: é um amor que sabe amar também quem se tornou indigno do amor. Enquanto amor diz somente doação, misericórdia diz superdoação. O misericordioso  não doa algo somente ao pobre, mas também a quem é indigno de ser presenteado. A misericórdia é um especial poder do amor, que prevalece sobre o ódio, a infidelidade, a deslealdade, a ingratidão. “A misericórdia”, como diz João Paulo II, “tem a forma interior do amor, que no Novo Testamento é chamado ágape. Esse amor é capaz de curvar-se ante o filho pródigo, ante a miséria humana e, sobretudo, ante a miséria moral, ante o pecado. A misericórdia se manifesta em seu aspecto verdadeiro e próprio quando valoriza, promove e explicita o bem em todas as formas de mal existente no mundo e no homem” (Dives in misericordia, no.6).          

O amor de Deus pelo homem é um amor essencialmente misericordioso, pois é dado a alguém que se tornou indigno, pela soberba, pela desobediência, pela ingratidão, pelos pecados, pela maldade, pela rebelião. Por amor ao homem Deus está contra a si próprio, pois Ele poderia usar de justiça contra o homem pecador. E Deus ama o homem até o ponto de fazer-se homem em Jesus Cristo: ele veio para o nosso meio, viveu como nós e ofereceu sua vida por nós. Assim ele revela esse traço de Deus misericordioso.          

A missão de Jesus Cristo é, de certa forma, o ato através do qual Deus vem definitivamente ao nosso encontro amando-nos, perdoando-nos, afirmando-nos, libertando-nos das nossas misérias e dos nossos pecados, e dando-nos possibilidades novas, para que nossa amizade com ele não seja mais interrompida. Deus ama o homem ao ponto de fazer com seu Filho se torne homem. Nesse gesto extremo do seu amor evidenciam-se duas verdades: a grande consideração de Deus pelo homem, Deus sempre está do lado do homem e contra o mal; e o amor infinito que ele derrama sobre o homem. Este amor misericordioso de Deus sempre persegue o homem na sua aventura espiritual, nas suas fugas de Deus, nas suas rebeldias, na sua perversa ingratidão e na sua profunda miséria. Até o salmista fica maravilhado ao dizer: “...quem é o homem para te lembrares dele? Quem é o homem para com ele te preocupares ?”( cf. Sl 8)          

O Deus revelado por Jesus Cristo nesta parábola não responde com violência à violência. Ele sempre espera algo do homem, não considera o homem definitivamente endurecido. Ele tem paciência para com o homem.          

A paciência é justamente a prática da compaixão e da misericórdia, porque pela paciência, podemos viver na plenitude do tempo e convidar os outros a compartilhá-la conosco. A paciência abre nosso coração para os pequeninos e nos torna conscientes de que os seus primeiros anos de vida são tão importantes aos olhos misericordiosos de Deus como os últimos anos de vida dos adultos. Ela nos faz perceber que não é a extensão da vida da pessoa o que importa, mas a sua plenitude. A paciência nos torna amáveis, solícitos, dóceis e afáveis, como  Deus misericordioso e paciente e sempre agradecidos pela abundância dos dons de Deus.          

Deus nos amou primeiro. E somente por isso é que podemos amá-lo em retorno. E o amor espera o amor em retorno. O sentido de ser  amado é amar como resposta. Somos eleitos não por nossos méritos e sim porque Deus nos ama. E o amor de Deus deve ser respondido. Se não seremos comparados a uma vinha que não produz frutos que só pode se jogar ao fogo para queimar. 

2. Quem É O Homem Nesta Parábola ? (A Parábola A Partir Do Homem)          

A parábola nos revela que no homem existe um instinto de perversidade, de violência e da hostilidade. Seria ingênuo e perigoso negá-lo. Os vinhateiros que agarraram, espancaram, apedrejaram e mataram os empregados são revelação da hostilidade que, muitas vezes, faz ninho dentro do nosso coração.          

Deus misericordioso e compassivo e paciente revelado nesta parábola nos convida a vestir uma atitude da não-violência e da não-vingança. O homem no que tem de espiritual é não-violento, pois a não-violência é uma qualidade de coração. No momento em que ele se torna consciente do espírito interior, não pode permanecer nele a violência. O ódio que se opõe ao ódio consegue apenas aumentar a profundeza do ódio e da violência. O homem só pode fazer cessar a violência no momento em que ele voltar a ser filho(a) de Deus de misericórdia, pois o fato decisivo é sempre a graça de Deus. No domínio da não-violência e da não-vingança, pela graça de Deus, todo pensamento verdadeiro é levado em conta e toda voz verdadeira tem seu valor pleno. E o primeiro princípio da ação não-violenta é o da não-cooperação com tudo que é humilhante.          

A meta da vida humana é a união plena com o seu Criador. Este é o máximo que o homem pode ou possa alcançar. Mas para alcançar este máximo, o homem deve ter ou fazer o mínimo e este mínimo está ao seu alcance. O mínimo que o homem possa e pode fazer é o que São Paulo diz na segunda Leitura: ser verdadeiro, ser honesto, ser justo, ser puro, ser amável, ser de boa fama, ser virtuoso, ser grato que é capaz de louvar (cf. Fl 4,8). Sem este mínimo, como se alcança o máximo? Deus pede aquilo que o homem pode fazer. Se o homem não quer fazer aquilo que ele pode fazer, o máximo (a união plena com o Criador) fica cada vez mais distante. E no fim desta parábola Jesus, citando o Salmo 118,22-23, diz: “A pedra que os construtores rejeitaram, torna-se a pedra angular”.          

Muitas vezes, como os dirigentes de Israel, pretendemos construir nosso edifício de vida prescindindo da pedra angular que é Jesus Cristo. Ao prescindirmos da pedra angular nossa vida não vai chegar a um final feliz e gloriosa. Porque O Senhor Jesus Cristo é a nossa pedra angular que sustenta e suporta toda a nossa vida até o final feliz na comunhão eterna com Deus de misericórdia.         

Os dirigentes compreenderam o sentido da parábola e a denúncia que Jesus fez deles, mas isso longe de fazê-los refletir e parar para mergulhar na verdade da denúncia, mas pelo contrário, a denúncia os incita a usar violência. A verdade nunca é o critério de sua ação, mas eles fizeram tudo em função da sua própria segurança.         

Não estamos livres deste modo de agir. Muitas vezes, em função de nossa própria segurança, deixando de lado a verdade, pisamos sobre os outros até os eliminamos de nosso relacionamento ou até de nossa vida. E o pior é matar alguém em nome da religião ou falar mal de alguém ou atacar o outro em nome da Sagrada Escritura ou em nome de qualquer outro pressuposto direito. Se Deus se revela como “Eu Sou Aquele que é”(Ex 3,14), ou o Deus da vida, como é que ele poderia concordar com a violência? Um Deus que concordasse com a violência, mesmo tendo um fundamento sobre alguma Escritura que se denominasse “sagrada” para seus adeptos, esse não deveria ser Deus.          

O dono da vinha que é figura de Deus espera de cada um de nós frutos e ele espera frutos bons de nossa vida até o último segundo de nossa vida. Não importa se muitos ou poucos, mas que a nossa vida produza fruto. Por isso, a fé, a oração e o culto que temos e fazemos devem transformar-se em frutos para não frustrar o Senhor quando vier ao nosso encontro. Ser cristão praticante não deve ser motivo de orgulho que pode se transformar em arrogância e superioridade, mas de fértil responsabilidade cristã. Para isso, nós, como ramos, devemos permanecer em Jesus que é a videira para que possamos produzir frutos permanentemente em qualquer estação desta vida.          

Pergunte-se se cada um tem produzido frutos bons pela glória de Deus e pelo bem de nosso próximo. E ofereça estes frutos ao Senhor em cada celebração da qual participa. Só assim é que a nossa eucaristia tem sentido pois celebramos a vida.

P. Vitus Gustama,svd

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Sábado Da XXVI Semana Comum, Ano Par, 03/10/2026

TER NOME ESCRITO NO CÉU É A MAIOR RECOMPENSA PARA QUEM É FIEL A DEUS ATÉ O FIM  

Sábado Da XXVI Semana Comum

Primeira Leitura: Jó 42,1-3.5-6.12-16 (Ano Par)

1 Jó respondeu ao Senhor, dizendo: 2 “Reconheço que podes tudo e que para ti nenhum pensamento é oculto. — 3 Quem é esse que ofusca a Providência, sem nada entender? — Falei, pois, de coisas que não entendia, de maravilhas que ultrapassam a minha compreensão. 5 Conhecia o Senhor apenas por ouvir falar, mas, agora, eu o vejo com meus olhos. 6 Por isso me retrato e faço penitência no pó e na cinza”. 12 O Senhor abençoou a Jó no fim de sua vida mais do que no princípio; ele possuía agora catorze mil ovelhas, seis mil camelos, mil juntas de bois e mil jumentas. 13 Teve outros sete filhos e três filhas: 14 a primeira chamava-se “Rola”, a segunda “Cássia”, e a terceira “Azeviche”. 15 Não havia em toda a terra mulheres mais belas que as filhas de Jó. Seu pai lhes destinou uma parte da herança, entre os seus irmãos. 16 Depois desses acontecimentos, Jó viveu cento e quarenta anos, e viu seus filhos e os filhos de seus filhos até a quarta geração. E Jó morreu velho e repleto de anos.

Evangelho: Lc 10,17-24

Naquele tempo, 17 os setenta e dois voltaram muito contentes, dizendo: “Senhor, até os demônios nos obedeceram por causa do teu nome”. 18 Jesus respondeu: “Eu vi Satanás cair do céu, como um relâmpago. 19 Eu vos dei o poder de pisar em cima de cobras e escorpiões e sobre toda a força do inimigo. E nada vos poderá fazer mal. 20 Contudo, não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem. Antes, ficai alegres porque vossos nomes estão escritos no céu”. 21 Naquele momento, Jesus exultou no Espírito Santo e disse: “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste essas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado. 22 Tudo me foi entregue pelo meu Pai. Ninguém conhece quem é o Filho, a não ser o Pai; e ninguém conhece quem é o Pai, a não ser o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar”. 23 Jesus voltou-se para os discípulos e disse-lhes em particular: “Felizes os olhos que veem o que vós vedes! 24 Pois eu vos digo que muitos profetas e reis quiseram ver o que estais vendo, e não puderam ver; quiseram ouvir o que estais ouvindo, e não puderam ouvir”.

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Quem Está Com Deus Apesar Dos Sofrimentos Terá Uma Vida Feliz

“O Senhor abençoou a Jó no fim de sua vida mais do que no princípio. Jó viveu cento e quarenta anos, e viu seus filhos e os filhos de seus filhos até a quarta geração. E Jó morreu velho e repleto de anos”.

Hoje terminamos a leitura do Livro de Jó, um dos livros sapienciais com o texto que lemos na Primeira Leitura. No desenrolar do Livro de Jó, o autor apresenta uma fé madura e forte, apesar dos pesares, no protagonista Jó. Jó confia em Deus até o fim. Nessa fé madura e forte Jó reconhece a grandeza de Deus e se mostra disposto a aceitar os desígnios de Deus.

As tragédias que atingiram Jó justo e inocente não tinham explicação fácil e muito menos a partir das teorias tradicionais. Diante dos fracassos dos sábios e teóricos, incapazes de consolar e esclarecer a Jó em sua dor, como saída, o autor coloca Deus em seu devido lugar como Criador, e Jó no seu lugar como criatura. O autor consegue colocar Jó cara a cara com seu Deus. Essa experiência religiosa profunda com Deus supera toda a tradição teológica das escolas e dos discursos dos sábios: “Conhecia o Senhor apenas por ouvir falar, mas, agora, eu o vejo com meus olhos” (Jó 42,5). Da teoria para a prática, da notícia para a experiência: nem tanto falar de Deus como falar com Deus e trata-Lo diretamente, senti-Lo, experimentá-Lo. Falar de Deus é muito diferente do falar com Deus. Somente quem fala com Deus na oração e na contemplação, tem autoridade para falar de Deus. “Quantas vezes falando com Deus, desabafo e choro. E alívio pro meu coração eu a Ele imploro. E então sinto a Sua presença, Seu amor, Sua luz tão intensa. Que ilumina o meu rosto e me alegra em minha oração. Quanta paz, quanta luz! Deus nos ouve, nos mostra o caminho que a Ele conduz. Deus é Pai, Deus é luz. Deus nos fala que a Ele se chega seguindo Jesus” (Música de Roberto Carlos).

É evidente que o autor do livro de Jó não possui a ciência divina, mas sua teologia supera a teologia dos amigos de Jó. Quando Deus se digna responder, não o faz diretamente, e sim com uma interrogação (umas perguntas retóricas). E Deus abençoa Jó com bens inclusive superiores aos que tinha ao princípio. Por certo, as três filhas têm direitos iguais que os sete filhos, coisa não muito frequente em seu tempo.

O autor do livro de Jó quer mostrar que Jó é justo e Deus o recompensa e que Jó tem um conceito melhor de Deus do que seus amigos. O Deus de Jó é misterioso e desconcertante. A conclusão do livro de Jó é a seguinte: também o homem justo pode sofrer nesta vida, e talvez mais do que os outros. porém, nem o sofrimento é um castigo de Deus, nem Deus tem prazer de ver o homem sofrer. Agora sabemos que a recompensa para uma vida honesta é o próprio Deus, mais do que os bens materiais que pertencem ao próprio Deus.

O problema do mal não recebeu no livro de Jó uma resposta filosoficamente  convincente, mas ajudou os leitores a crescer. A vida nos educa e as experiências nos tornam maduros. E uma das coisas que mais influenciam em nosso fortalecimento de caráter e em aquilatar nossa fidelidade são as provas, os momentos de dor. Não sabemos o que é ter fé até que algo nos põe a prova. Quando experimentamos a dor em nossa própria carne, confessamos como Jó: “Conhecia o Senhor apenas por ouvir falar, mas, agora, eu o vejo com meus olhos”. Será verdade que somente vemos Deus no momento da dor?

Por fim, o epílogo do livro de Jó quer nos dizer que Jó tinha razão: era um homem íntegro e fiel a Deus. E que os sofrimentos não eram castigo pelo pecado. A doutrina e a postura dos amigos de Jó, intolerantes e sem caridade, não agradam a Deus. Mas mesmo assim Deus da bondade e da misericórdia perdoa-lhes através da intercessão de Jó que agora passa a ser o justo e não o condenado, segundo pensamentos dos seus amigos. No fim, Jó recupera suas riquezas em dobro e vive longa, como sinal de ser verdadeiro “servo” e amigo de Deus.

Somos Enviados Pelo Senhor Jesus Para Libertar Os Outros Do Mal

“Senhor, até os demônios nos obedeceram por causa do teu nome”.

O texto do evangelho de hoje se encontra no contexto da volta dos setenta (e dois) discípulos da missão que o Senhor lhes tinha confiado anteriormente (Lc 10,1-12).

Os discípulos voltaram da missão alegres, entusiasmados, empolgados por ter sido capazes de libertar os homens do mal, moral e físico pelo uso que fizeram do poder messiânico (o nome) de Jesus: “Senhor, até os demônios nos obedeceram por causa do teu nome”, relataram os discípulos a Jesus. Os discípulos se alegram, em primeiro lugar, pela vitória sobre satanás, força do mal. Para Jesus o motivo da alegria não somente pela vitória sobre satanás, mas também pela volta do homem libertado para a condição originária do paraíso. Mas, acima de tudo, o verdadeiro motivo da alegria não é somente vitória sobre o mal e retorno para paraíso e sim a “inscrição do nome no livro da vida que contém o registro do povo de Deus (Lc 10,20; cf. Ex 32,32ss; Sl 69,29; Is 4,3; Fl 4,3; Hb 13,23; Ap 3,58; 13,5; 13,8; 17,8; 20,12; 21,27). O nosso nome, por causa da vivência dos ensinamentos de Jeus e que usamos o poder dele para o bem das pessoas, não está somente no livro da vida, está antes de tudo no céu (= Deus): “Antes, ficai alegres porque vossos nomes estão escritos no céu”. (Lc 10,20b)

“Senhor, até os demônios nos obedeceram por causa do teu nome”. Todas as forças do mal considerados como inimigos de Deus e dos seres humanos tinham sido desarticulados pelos discípulos através do uso do poder recebido de Jesus. Isto significa que o poder sobre o mal que os discípulos têm é o fruto de sua comunhão plena com Jesus. O poder recebido de Deus é usado para o bem das pessoas. Estar em plena comunhão com Jesus significa estar em pleno poder de Jesus, poder que liberta e não poder que escraviza. Somente a fé em Jesus, isto é, estar nele e com ele, é que se pode derrotar qualquer poder que escraviza.

Os símbolos de demônios, serpentes e escropiões  que nos apresenta o relato do Evangelho, nos indicam como o mal está enraizado no coração do ser humano. Os discípulos tem poder sobre esse mal, mas eles têm que ter uma conexão profunda com Deus, pela fé n´Ele, pois o poder de expulsar tais coisas tem em Deus. O relato de hoje deixa bem claro que o discípulo não tem razão para vangloriar-se pelas obras realizadas, pois todo o sucesso é obra de Deus através de cada discípulo.

E Jesus lhes explica que uma vitória semelhante é o sinal da derrota das forças do mal que dominavam os homens até então: “Eu vi satanás cair do céu como um relâmpago” (Lc 10,18). Trata-se de uma queda brusca e rápida (relâmpago) e de uma grande altura (do céu). Altura de onde inicia a queda de uma coisa ou de uma pessoa determina o impacto sobre o que caiu ao chegar à terra.

Por que caiu do céu (satanás caiu do céu)? O tema da queda de satanás do céu pertence ao mito apocalíptico judaico, em que se alude à presença de satanás sobre o céu. Certamente, segundo esse mito, seu lugar e sua função se diferenciam do lugar e da função de Deus, porém pensa-se que satanás põe o trono nas esferas superiores e domina desde ali toda a marcha dos homens sobre o mundo. Mas a chegada de Jesus abole o estado de escravidão que permite o homem ter acesso à liberdade. A presença de Jesus é a derrota do poder do mal. Basta estar com Jesus e estar nele, o triunfo do poder do mal (satanás) termina seu reinado.

Mas para não cair na ilusão do poder e na idéia de domínio, para não ficar apenas na empolgação, Jesus alerta aos discípulos que o mais importante é ter os nomes escritos no céu. Ter nome escrito no céu é mais importante do que qualquer poder ou domínio na terra. Esta afirmação nos leva ao Livro do Êxodo onde encontramos uma explicação: somente são aqueles que participam do Reino de Deus e vivem conforme as suas exigências têm nome escrito no céu (cf. Ex 32,32). Não há nada que seja melhor para um ser humano do que ter seu nome escrito no céu, no livro da vida: “O vencedor será assim revestido de vestes brancas. Jamais apagarei o seu nome do livro da vida, e o proclamarei diante do meu Pai e dos seus anjos”, diz-nos o Livro de Apocalipse de São João (Ap 3,5). Esta é a grande mensagem do evangelho de hoje. Em outras palavras, os discípulos devem ficar alegres por pertencer a Deus ou participar da grande família do Reino (nome escrito no céu), por estar a serviço de Deus (libertar os homens da escravidão do mal), por gozar da proteção divina (nenhum mal consegue vencê-los), e por ter neles o germe da vida eterna que acaba com as forças da morte.

À luz desta experiência se situa a função dos discípulos missionários. Sua vitória sobre satanás se traduz no fato de que são capazes de vencer (superar) o mal do mundo (Lc 10,19) desde que mantinham sua pertença ao Reino e usem o poder conferido para libertar os outros e não para escravizá-los. Por isso, são declarados felizes: “Felizes os olhos que vêem o que vós vedes. Pois eu vos digo que muitos profetas e reis quiseram ver o que estais vendo e não puderam ver; quiseram ouvir o que estais ouvindo e não puderam ouvir” (Lc 10,23-24). Os discípulos são felizes porque estão experimentando aquela plenitude messiânica que os antigos profetas e os reis de Israel sonhavam experimentar. No entanto, mais uma vez, sua autêntica grandeza está no fato de seu encontro pessoal com Deus: seus nomes pertencem ao Reino dos céus (Lc 10,20).

Quem mantiver sua pertença à Família de Deus não estará fadado a ser escravo do poder do mal, mas será revestido do poder de Deus para superar todo mal no mundo e libertar os outros escravizados pelo mal. E quem mantiver unido a Deus, mesmo que seja frágil, ele será um instrumento eficaz nas mãos de Deus para pôr fim ao reino do mal e fazer triunfar o amor fraterna, a solidariedade fraterna, a bondade, compaixão e assim por diante. O espaço totalmente ocupado pelo bem, o mal não tem vez. Quem se mantiver assim até o fim, seu nome estará escrito no céu.

Que seu nome e meu nome estejam escritos no livro da vida, no céu. Para isso, é preciso que aprendamos a ser pequenos e simples diante de Deus. Os pequenos e os simples se mantém abertos ao mistério de Deus e compreendem a verdade de Jesus Cristo: “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste essas coisas aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos” (Lc 10,21ª). A missão se estrutura como expansão do amor em que se unem Deus e o Cristo (Filho). Nesse amor, revelado aos pequenos e escondido para todos os grandes deste mundo, se fundamenta a derrota das forças destruidoras da história. “Com o amor não somente avanço, mas vôo. Um só ato de amor nos fará conhecer melhor Jesus. O amor nos aproximará dele durante toda a eternidade. Eu não conheço outro meio para chegar à perfeição a não ser o amor”, dizia Santa Tereza do Menino Jesus e da Sagrada Face, cuja festa é celebrada no dia 01 de outubro.

P. Vitus Gustama,svd

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Santos Anjos Da Guarda, Memória, 02/10/2026

SANTOS ANJOS DA GUARDA

SER IRMÃO E FAZER-SE PEQUENO 



Primeira Leitura: Êx 23,20-23

Assim diz o Senhor: 20“Vou enviar um anjo que vá à tua frente, que te guarde pelo caminho e te conduza ao lugar que te preparei. 21Respeita-o e ouve a sua voz. Não lhe sejas rebelde, porque não suportará as vossas transgressões, e nele está o meu nome. 22Se ouvires a sua voz e fizeres tudo o que eu disser, serei inimigo dos teus inimigos, e adversário dos teus adversários. 23O meu anjo irá à tua frente e te conduzirá à terra dos amorreus, dos hititas, dos ferezeus, dos cananeus, dos heveus e dos jebuseus, e eu os exterminarei”.

Evangelho: Mt 18,1-5.10

Naquela hora, 1os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram: “Quem é o maior no Reino dos céus?” 2Jesus chamou uma criança, colocou-a no meio deles 3e disse: “Em verdade vos digo, se não vos converterdes, e não vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos céus. 4Quem se faz pequeno como esta criança, esse é o maior no Reino dos céus. 5E quem recebe em meu nome uma criança como esta, é a mim que recebe. 10Não desprezeis nenhum desses pequeninos, pois eu vos digo que os seus anjos nos céus veem sem cessar a face do meu Pai que está nos céus”.

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No dia 02 de Outubro a Igreja celebra a festa do Santo Anjos da Guarda. A missa de 2 de outubro se apoia sobretudo nos textos bíblicos: Mt 18,1-5.10 (Evangelho); Ex 23,20-23 (Primeira Leitura).

A existência dos anjos faz parte de nossa fé: “A existência dos seres espirituais, não-corporais, que a Sagrada Escritura chama habitualmente de anjos, é uma verdade de fé. O testemunho da Escritura a respeito é tão claro quanto a unanimidade da Tradição” (Catecismo Da Igreja Católica, 328).

O mesmo Catecismo Da Igreja Católica afirma: “Desde o início até a morte, a vida humana é cercada pela proteção dos anjos e por sua intercessão. Cada fiel é ladeado por um anjo como protetor e pastor para conduzí-lo à vida. Ainda aqui na terra, a vida crista participa, na fé, da sociedade bem-aventurada dos anjos e dos homens, unidos em Deus” (artigo 336).

Por que se fala, especificamente de uns anjos que nos acompanham pessoalmente, que nos protegem na caminhada cotidiana?

Poderíamos responder, em primeiro lugar, que trata-se de símbolos para falar do amor providente de Deus que cuida de sua criatura para que esta chegue à sua plena realização (comunhão plea com Deus) quando houver colaboração da própria criatura ou das circunstâncias nas quais se encontra. Era normal expressar, através de recursos literários provenientes de um contexto, as realidades misteriosas usando uma linguagem figurativa.

Em segundo lugar, os anjos são um reflexo misterioso do rosto de Deus e de sua bondade em nossa realidade. De fato, quando alguém nos trata bem, nos ajuda sem reservas etc. logo lhe dizemos: “Você é um anjo!”. Isto significa que a bondade de Deus se reflete naqueles que fazem o bem, chamados de mensageiros de Deus ou anjos de Deus no nosso dia a dia.

Em terceiro lugar, Os anjos da guarda nos revelam a presença transcendente de Deus em cada pessoa, especialmente nos mais pobres. O maior no Reino de Deus é a criança e quem se faz pequeno como criança, porque representa em forma paradigmática o despojamento de todo poder. O despojamento da soberba e da prepotência do poder é a condição para entrar no Reino de Deus. Alguém entra nele, quando descobre o poder de Deus: o poder de seu amor, o poder de sua Palavra e o poder de seu Espírito. Reino de Deus é Poder de amor de Deus. Esta presença de Deus nos mais pobres, que são os maiores no Reino, é o que dá aos pobres essa transcendência.

Cada pessoa, cada família, cada comunidade, cada povo, tem seu próprio anjo da guarda. O Livro de Êxodo ( cf. Ex 23, 20-23) nos mostra o Povo de Deus conduzido diretamente pelo anjo de Deus. O povo deve comportar-se bem na sua presença, escutar sua voz e não ficar rebelde. No anjo está o Nome de Deus. O Nome é o que Deus é. O anjo é essa presença de Deus no Povo de Deus.

Também cada um de nós deve descobrir nosso próprio anjo da guarda, sentir sua presença e escutar sua voz. Devemos viver conforme a esta presença transcendente em nós e refleti-la continuamente em nosso rosto. Para isso, é preciso ler, meditar e colocar em prática a Palavra de Deus. Estar em sintonia com a Palavra de Deus nos faz sensíveis para a presença de Deus na nossa vida cotidiana e nos torna conscientes de nossa tarefa como mensageiros de Deus na convivência com os demais.

Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador, se a ti me confiou a piedade divina, sempre me rege, me guarda, me governa me ilumina. Amém

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O texto do evangelho lido neste dia é escolhido em função da festa dos santos anjos da guarda. É tirado de Mt 18.

O capítulo 18 do evangelho de Mateus é o quarto dos cinco grandes discursos de Jesus neste evangelho. E este quarto discurso é conhecido como “discurso eclesiológico” (discurso sobre a Igreja) ou “discurso comunitário” onde se acentua a vida na fraternidade, isto é, cada membro da comunidade é considerado como irmão. Este capítulo (Mt 18,1-35) foi escrito para responder aos problemas internos das comunidades cristãs: Quem é o primeiro na comunidade? O que fazer se acontecem escândalos? E se um cristão se perde ou se afasta da comunidade, o que fazer? Como corrigir um irmão que erra? Quando é que uma oração pode ser chamada de comunitária e partilhada? E quantas vezes se deve perdoar?

Na comunidade de Mt (como também em qualquer comunidade cristã) cresce a ambição e se cultivam sonhos de grandeza dos membros que se acham mais importantes do resto. Há pouca consideração para com os pequenos, até são desconsiderados ou desprezados. Estes pequenos correm risco de se tornarem incrédulos e de afastar-se da atividade comunitária. Na comunidade de Mt suscitam também pecadores notórios, inclusive as ofensas e os ressentimentos que abalam a convivência fraterna.

Nesse capítulo, são dadas diversas orientações e algumas normas que têm por objetivo desenvolver o amor e favorecer a harmonia entre os membros da comunidade. Para isso, Mt coloca em ordem o material transmitido pela tradição para regular as relações internas da comunidade. Contra os sonhos de grandeza e de orgulho, Mt coloca a atitude de humildade que agrada a Deus e aos outros (18,1-4). Para os pequenos, os fracos na fé, é necessário ter uma acolhida cheia de caridade e de desvelo (18,6-7). O desprezo é inadmissível para uma boa convivência. Para enfatizar mais este tema, Mt fala dos anjos que sempre estão do lado dos pequenos (18,10). Se um dos membros da comunidade afastar-se ou desviar-se do caminho reto, em vez de condená-lo, a comunidade toda deve esforçar-se para que esse irmão volte para a comunidade, pois Deus não quer que nenhum deles se perca (18,12-14). E para o irmão pecador, a comunidade inteira deve usar todos os meios para recuperá-lo (18,15-20). E para as ofensas, deve haver perdão, pois uma comunidade só pode sobreviver se existe o perdão mútuo (18,21-35).

Ser Irmão e Fazer-se Pequeno

“Quem é o maior no Reino dos céus?”. “Quem é o maior diante de Deus?”. “Quem vale mais diante de Deus?”. Assim inicia o quarto discurso de Jesus sobre a vida comunitária baseada na fraternidade. A pergunta é feita pelos discípulos para Jesus. Maior aqui significa proeminente, superior aos outros por força de uma qualidade ou de um poder.

Atrás desta pergunta se esconde a ambição ou a mania de grandeza dos discípulos. É a ambição de grandeza que pode ser encontrada em qualquer comunidade cristã. É admirável a ambição de alguém que deseja redimir sua humilde condição, valorizando todas as suas capacidades de inteligência e de luta, pois um dos sentidos lexicais da palavra ambição é anseio veemente de alcançar determinado objetivo, de obter sucesso; aspiração, pretensão. A ambição só se transformará em vício quando a afirmação de si mesmo for exagerada e os meios adotados para atingir a glória forem desonestos. Uma pessoa de alma nobre não sai à procura das honras, e sim do bem. Ao contrário, o ambicioso se sente totalmente envolto pela espiral da glória que o transforma em vítima da própria tirania. O ambicioso, quando dominado pelo vício, não suporta competidores, nem admite rivais. Quem desejar ser a todo o custo o primeiro, dificilmente se preocupar com ser justo. “A soberba gera a divisão. A caridade, a comunhão” (Santo Agostinho. Serm. 46,18).

Como resposta para a pergunta dos seus discípulos Jesus faz um gesto muito simbólico: Ele chamou uma criança e a colocou no meio dos discípulos. Ao ser colocada no meio de todos, a criança chamada se torna um centro de atenção de todos. Imaginamos que todos os olhares são dirigidos a essa criança e os ouvidos prontos para ouvir a palavra sábia do Mestre Jesus. “Em verdade vos digo, se não vos con­ver­terdes, e não vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus. Quem se faz pequeno como esta criança, este é o maior no Reino dos Céus. E quem recebe em meu nome uma criança como esta é a mim que recebe”, disse Jesus aos discípulos (Mt 18,3-5). Ser criança: frescor, beleza, inocência, não se basta a si mesma!

Esta é a primeira regra da vida comunitária: cuidar dos pequenos e tratá-los como irmãos. E fazer-se pequeno. Fazer-se pequeno, como exigência para viver a vida comunitária, significa renunciar a toda ambição pessoal e a todo desejo de colocar-se acima dos demais para estar em destaque e para oprimir os demais. Fazer-se pequeno é uma forma de “renegar-se a si mesmo” para colocar a vontade de Deus acima de tudo. A grandeza do Reino consiste no serviço humilde e gratuito ao próximo, na solidariedade para com os necessitados, na partilha do que se tem para com os carentes do básico para viver dignamente como ser humano e no esforço para construir uma convivência mais fraterna. Trata-se de viver a espiritualidade familiar onde cada membro se preocupa com o outro membro e sua salvação. Vivendo desta maneira estaremos testemunhando para o mundo que estamos no Reino de Deus já neste mundo.

P. Vitus Gustama,svd

Quinta-feira Da XXVI Semana Comum, Ano Par, 01/10/2026

SOMOS TODOS MISSIONÁRIOS DO SENHOR E CONFIEMOS NELE INCONDICIONALMENTE APESAR DOS OBSTÁCULOS

Quinta-feira da XXVI Semana Comum

Primeira Leitura: Jó 19,21-27 (Ano Par)

Disse Jó: 21 “Piedade, piedade de mim, meus amigos, pois a mão de Deus me feriu! 22 Por que me perseguis como Deus, e não vos cansais de me torturar? 23 Gostaria que minhas palavras fossem escritas e gravadas numa inscrição 24 com ponteiro de ferro e com chumbo, cravadas na rocha para sempre! 25 Eu sei que o meu redentor está vivo e que, por último, se levantará sobre o pó; 26 e depois que tiverem destruído esta minha pele, na minha carne, verei a Deus. 27 Eu mesmo o verei, meus olhos o contemplarão, e não os olhos de outros. Dentro de mim consomem-se os meus rins”.

Evangelho: Lc 10,1-12

Naquele tempo, 1 o Senhor escolheu outros setenta e dois discípulos e os enviou dois a dois, na sua frente, a toda cidade e lugar aonde ele próprio devia ir. 2 E dizia-lhes: “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos”. Por isso, pedi ao dono da messe que mande trabalhadores para a colheita. 3 Eis que vos envio como cordeiros para o meio de lobos. 4 Não leveis bolsa nem sacola nem sandálias, e não cumprimenteis ninguém pelo caminho! 5 Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: ‘A paz esteja nesta casa!’ 6 Se ali morar um amigo da paz, a vossa paz repousará sobre ele; se não, ela voltará para vós. 7 Permanecei naquela mesma casa, comei e bebei do que tiverem, porque o trabalhador merece o seu salário. Não passeis de casa em casa. 8 Quando entrardes numa cidade e fordes bem recebidos, comei do que vos servirem, 9 curai os doentes que nela houver e dizei ao povo: ‘O Reino de Deus está próximo de vós’. 10 Mas, quando entrardes nu­ma cidade e não fordes bem recebidos, saindo pelas ruas, dizei: 11 ‘Até a poeira de vossa cidade que se apegou aos nossos pés, sacudimos contra vós. No entanto, sabei que o Reino de Deus está próximo!’ 12 Eu vos digo que, naquele dia, Sodoma será tratada com menos rigor do que essa cidade”.

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Deus Está Acima De Nossos Argumentos

“Piedade, piedade de mim, meus amigos, pois a mão de Deus me feriu! Por que me perseguis como Deus, e não vos cansais de me torturar? Eu sei que o meu Redentor está vivo e que, por último, se levantará sobre o pó; e depois que tiverem destruído esta minha pele, na minha carne, verei a Deus. Eu mesmo o verei, meus olhos o contemplarão, e não os olhos de outros”, disse Jó aos seus amigos que querem convencê-lo de que os males que lhe afligem se devem a seus pecados.

Como se sabe que o livro de Jó é um livro que questiona uma fé apoiada apenas nos conhecimento ou teorias, não alinhada com a experiência da vida, com o Deus que se manifesta nos acontecimentos e na História. Deus é incompreensível na sua profundidade. Não é por acaso que são João da Cruz dizia: “Para possuir o Todo é necessário abandonar tudo” (cf. Noite Escura de são João da Cruz).

Vimos ontem que a resposta de Jó à pergunta: “Por que existe o mal, o sofrimento e a morte?”, era : “o mal é incompreensível, mas sou demasiado débil para compreender, e quero confiar em Deus que fez coisas tão boas e tão esplêndidas”. O tema da situação e das atitudes do homem diante da dor  e do “justo que sofre” era conhecido em outras literaturas orientais.

No texto de hoje, o pensamento de Jó progrediu a ponto de crer que nada é impossível para Deus, inclusive, a morte não pode ser um obstáculo para Deus. Todavia, se todas as aparências terrenas me dizem o contrário, eu continuo crendo em Deus. A fé é uma aposta, um salto no desconhecido de maneira total, mas confiando também totalmente n´Aquele em Quem confio.

No fundo, Jó tem fé em Deus. Ainda que no Antigo Testamento não tenha ideia clara da outra vida, Jó confia em Deus, e, de alguma maneira, parece intuir já o que nos revelará mais plenamente o Novo Testamento: “Eu sei que o meu Redentor está vivo e que, por último, se levantará sobre o pó; e depois que tiverem destruído esta minha pele, na minha carne, verei a Deus. Eu mesmo o verei, meus olhos o contemplarão, e não os olhos de outros”. Este “redentor” é a figura do “Goel” em Lv 25,25 que é o parente mais próximo que sai em defesa de uma viúva ou de um órfão que foi tratado injustamente.

No Lecionário das exéquias cristãs aparece a leitura de hoje. Nós, sim, podemos dizer com razão: “Eu sei que o meu Redentor está vivo”. Se o Redentor está vivo, então Ele vive comigo ou dentro de mim. Ou melhor, eu vivo dentro do meu Redentor com um galho no tronco. Eu sofro, mas estou com Ele e Ele está comigo. Para nós, nossa vida e nossa morte têm seu sentido mais profundo em nossa solidariedade com Cristo Jesus, em nossa comunhão de destino com o Senhor Jesus. Pelo nosso Batismo já fomos incorporados na sua Páscoa: na sua morte e ressurreição. Não só a dor, mas também a vida. Não somente a vida, mas também o mistério da dor. Tudo isso ilumina a vivência dos momentos difíceis e nos ajuda a poder comunicar aos outros nossa fé e esperança.

Há dois raios de luz que saltam da Palavra de Deus hoje. O primeiro, vem do livro de Jó. É um grito de esperança em meio à prova: “Depois que tiverem destruído esta minha pele, na minha carne, verei a Deus. Eu mesmo o verei, meus olhos o contemplarão, e não os olhos de outros”. Como é possível manter este grito quando se bebe do cálice do sofrimento? As palavras de Jó são como uma antecipação das palavras finais de Jesus: “Pai, nas Tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46).

O segundo raio de luz é uma mensagem de Jesus dirigido aos discípulos de todos os tempos: “Põe-os em caminho!”. São convidados a ir caminhando. Às vezes sonhamos em ter tudo claro para tomar um decisão. Mas esperar para ver com claridade nos paralisa. A luz se faz caminhando. Porque toda vez que nos pomos em caminho, o Senhor, como nos recorda o relato de Emaús (Lc 24,13-35), se põe a caminhar conosco. E Ele é o próprio Caminho, a Verdade das verdades e a Vida de todas as vida (Jo 14,6). Ponhamos em caminho sabendo que o Senhor vai conosco, sempre disposto a levar a cabo, por meio de nós, Sua obra de amor e de salvação entre nós, para que nos vejamos livres de tudo aquilo que nos oprime e destrói. Acudamos ao Senhor, pois Ele quem nos assinala o caminho por onde temos que ir até nos encontrarmos com Ele, não somente em Seu templo, mas também na vida diária e na Via eterna.

O Salmo Responsorial de hoje (Sl 26/27), mais uma vez, quer nos infundir sentimentos de fé e de confiança em Deus. Não entendemos o mistério do mal ou o mistério da morte, mas sim sabemos confiar em Deus, que é sempre Pai: “Sei que a bondade do Senhor eu hei de ver na terra dos viventes. Espera no Senhor e tem coragem, espera no Senhor!”.

É Preciso Colaborar Na Missão Deixada Por Jesus a Partir De Nossas Carismas

Continuamos a acompanhar a última viagem de Jesus para Jerusalém (Lc 9,51-19,28), pois  Ele será crucificado e morto, porém será ressuscitado. Durante essa viagem Jesus vai dando suas últimas lições para seus discípulos.

O evangelista Lucas, como Mateus, fala duas vezes sobre a missão. Logo, trata-se de um tema importante para a Igreja, pois a “Igreja é, por natureza, missionário” (Ad Gentes, 2). A Igreja se sente apostólica (missionária), porque é chamada a continuar a missão de Jesus que começou com os Doze e os setenta (e dois) como uma única missão. A missão da Igreja nada tem a ver com o proselitismo, pois a missão nasce do amor do Pai para com todos os filhos e termina no amor dos filhos pelo Pai e entre eles. A missionariedade da Igreja não é fanatismo ou proselitismo, mas conhecimento do amor do Pai por “todos” e “individualmente” pelos seus filhos. A imagem da colheita recorda a vinda decisiva do Senhor (Gl 4,13; Ap 14,15-16) para o julgamento de salvação. Na verdade, todo homem é para sempre colheita, trigo maduro para se tornar corpo do Senhor. A missão tem uma dimensão essencial na Igreja: realiza-se a natureza de filho na medida em que se vai em direção a todos os irmão com o mesmo amor do Pai.

No capítulo anterior do evangelho lido neste dia, lemos que a missão antes foi confiada aos Doze (Lc 9,1-6). Mas a obra de Jesus não está encerrada e não se restringe para um grupo pequeno. Realiza-se e expande-se através dos setenta (e dois). Setenta são, em Israel, os anciãos (Ex 24,1; Nm 11,16-24; compare Ex 24 e Nm 11: 72 anciãos), os membros do sínedro, os tradutores da Bíblia (Septuaginta), e os povos da terra (Gn 10).

Para dessas questões, se são setenta ou setenta e dois, o significado é claro: a Palavra dada a Israel deve atingir todos os filhos de Deus, todos os povos.  Com o número setenta (e dois), portanto, Lucas quer nos dizer que a missão não é apenas exercida por um pequeno grupo de pessoas, mas todos os que seguem a Jesus, todos os batizados têm a mesma missão de continuar a obra de Jesus. Todos os cristãos têm a mesma missão. Missão significa que alguém é enviado. Jesus envia todos os cristãos ao mundo para serem testemunhas de tudo o que Jesus fez e disse, especialmente de sua morte e ressurreição por amor à humanidade. Por isso, a missão dos discípulos tem como primeiro princípio ser testemunho do amor, do perdão, da justiça e da verdade, dentro e fora da comunidade.

São enviados como cordeiros entre os lobos. O lobo é o símbolo da violência e da arrogância, da vontade de dominar e de corromper os outros. O cordeiro simboliza a mansidão, a fraqueza, a fragilidade. O cordeiro somente consegue se salvar da agressão do lobo se o pastor intervém na sua defesa. Os discípulos não podem contar com a força, o poder e a violência (lobo). Devem estar sempre desarmados (cordeiro). Para isso, é necessário que os discípulos estejam vigilantes para que eles não sejam conduzidos a cumprir as ações dos lobos como o abuso de poder, as agressões, as violências etc..  Jesus salvou o mundo, comportando-se como cordeiro, e não como lobo.

Ao enviar 70 (e dois) discípulos para a missão Jesus dá as seguintes recomendações:

Primeiro, são enviados dois em dois. Deus quer que mudem as relações entre os seres humanos; que todos se vejam como iguais e se tratem como irmãos, pois todos são filhos e filhas do mesmo Pai do céu. Por isso, eles têm que viver como uma família, sem competições e sem ambições. O Reino não é tarefa para gente solitária. Por isso, Jesus envia os 70 (e dois) de dois em dois para que se ajudem, se confrontem e se complementem. Quando se compartilhar o que se tem, haverá sobra. Esta é a experiência do grupo de Jesus e daqueles que querem ser discípulos de Jesus.

Segundo, o Reino de Deus que eles anunciarão vai vencer o mal e a morte, porque o Reino de Deus vai ter a última palavra e não o mal. Por isso, o mal não tem futuro. Deus quer que todos tenham vida (Jo 10,10). Por isso, todos têm que optar pela vida e não pela morte eterna, e pelo bem e não pelo mal.

Terceiro, todos devem pôr toda sua confiança no Pai celeste, mas nos meios humanos. Isso é condição fundamental para quem quer colaborar com o Reino de Deus. É a pobreza no espírito. Desapegados de todas as coisas e de suas posses, pela pobreza sagrada enriqueciam-se com os tesouros eternos. Segundo a pregação apostólica, alegravam-se por nada ter do mundo e tudo possuir com Cristo.Essa pobreza no espírito lhes dará liberdade e será um testemunho maior do que mil palavras de que o Reino não se impõe pela força e sim que se oferece como amor e por isso, livre de todo poder. E devem aprender a reconstruir as relações de confiança formando uma comunidade de irmãos como o próprio Deus quer. Devemos abandonar nossos egoísmos, deixar a auto-suficiência e nos entregar nas mãos de Deus para que o Reino de Deus aconteça aqui e agora.

A coisa mais difícil que Jesus exigiu e exige de nós, seus seguidores é o desapego. Não basta correr atrás de Jesus, porque ele é bom e faz milagres. Não basta aplaudir Jesus nas muitas coisas que ensina e com as quais estamos de acordo. É preciso aceitá-lo por inteiro. É preciso termos o desapego de tudo e de todos para que possamos segui-Lo com um coração inteiro. O desapego é o sinal da minha liberdade interior em que não há nada que possa me prender. E o preço desta liberdade é a morte de Jesus na cruz. O desapego é o sinal da minha maturidade espiritual em que Deus está sempre em primeiro lugar. O desapego é o sinal do meu domínio sobre mim mesmo e sobre todas as coisas.

O fundamental que os discípulos devem ter em conta é que eles estão trabalhando na construção do Reino de Deus e não por seu próprio reino. A grantia maior de seu trabalho missionário é o Senhor que os enviou. Se cada um se preocupar em construir o próprio reino, haverá guerra permanente e disputa permanente, pois cada um quer defender o próprio reino e não o Reino de Deus. Quem tem consciência de que trabalha pelo Reino de Deus, também acredita na providência divina. Quem acredita somente na própria força e técnica, um dia vai se cansar quando as próprias forças se esgotarem. As ovelhas são do Senhor, temos tarefa de apascentá-los. A vinha é do Senhor, somos apenas colaboradores para essa vinha.

O envio dos 70 (e dois) tem, então, como horizonte fundamental o Reino de Deus. Este constitui o conteúdo de toda pregação cristã e o horizonte que jamais devemos perder de vista quando referimos à ação da Igreja no mundo. A Igreja existe em função do Reino. A Igreja existe a serviço do Reino de Deus. A Igreja não é o Reino de Deus.

A missão serve tanto para formar missionários como para despertar os que são visitados para serem também missionários. Todos são enviados para fazer missão e para tornar o outro missionário.

É bom cada um perguntar-se: “O que é que tenho contribuído na missão do Reino de Deus? O que é que tenho feito até agora na evangelização? Qual é o lugar da Palavra de Deus na minha vida? Será que faço parte daqueles que criticam muito, mas nada colaboram?”.

Quando  levantamos os olhos e vemos um mundo consumido pelo egoísmo, pela corrupção, pela injustiça social, pela exploração dos inocentes, um mundo que se destrói  a si mesmo com guerras e vícios, enfim, quando vemos que a mensagem do Evangelho de Jesus Cristo não penetra nossos corações e as estruturas do mundo, podemos compreender que efetivamente a messe é grande e os trabalhadores são poucos. Não é que o Senhor não tenha atendido a oração da Igreja e sim porque poucos que responderam o convite do Senhor. Não pensemos somente nas vocações religiosos (sacerdotes e religiosas), pensemos em que cada um de nós, pelo Batismo, somos convertidos em discípulos do Senhor, em homens e mulheres comprometidos a testemunhar nossa fé. Se cada um dos batizadaos tomasse a sério seu papel na Igreja, as mãos se multiplicariam e o trabalho seria muito mais fácil. Jesus chama cada um de nós, seja casado, seja solteiro ou religioso consagrado, a participar ativamente na evangelização a partir dos dons que cada um recebeu do Senhor. tomemos com zelo esta chamado e a partir de nossa vocação particular, façamos nossa contribuição na evangelização para que Cristo seja verdadeiramente o Senhor de todos os corações. Você pode fazer algo. Decida-se! Não demore, pois o tempo passa sem parar.

P. Vitus Gustama,SVD

XXVII Domingo Do Tempo Comum, Ano "A", 04/10/2026

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