sexta-feira, 25 de setembro de 2026

XXVI Domingo Do Tempo Comum, Ano "A", 27/09/2026

ENTRE O DIZER E O FAZER NA VIDA DO CRISTÃO

XXVI DOMINGO DO TEMPO COMUM  ANO “A”

I Leitura: Ez 18,25-28

Assim diz o Senhor: 25 “Vós andais dizendo: ‘A conduta do Senhor não é correta’. Ouvi, vós da casa de Israel: É a minha conduta que não é correta, ou antes é a vossa conduta que não é correta? 26 Quando um justo se desvia da justiça, pratica o mal e morre, é por causa do mal praticado que ele morre. 27 Quando um ímpio se arrepende da maldade que praticou e observa o direito e a justiça, conserva a própria vida. 28 Arrependendo-se de todos os seus pecados, com certeza viverá, não morrerá”.

II Leitura: Fl 2,1-11

Irmãos: 1 Se existe consolação na vida em Cristo, se existe alento no mútuo amor, se existe comunhão no Espírito, se existe ternura e compaixão, 2 tornai então completa a minha alegria: aspirai à mesma coisa, unidos no mesmo amor; vivei em harmonia, procurando a unidade. 3 Nada façais por competição ou vanglória, mas, com humildade, cada um julgue que o outro é mais importante, 4 e não cuide somente do que é seu, mas também do que é do outro. 5 Tende entre vós o mesmo sentimento que existe em Cristo Jesus. 6 Jesus Cristo, existindo em condição divina, não fez do ser igual a Deus uma usurpação, 7 mas esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-se igual aos homens. Encontrado com aspecto humano, 8 humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até à morte, e morte de cruz. 9 Por isso, Deus o exaltou acima de tudo e lhe deu o Nome que está acima de todo nome. 10 Assim, ao nome de Jesus, todo joelho se dobre no céu, na terra e abaixo da terra, 11 e toda língua proclame: “Jesus Cristo é o Senhor!”

Evangelho: Mt 21,28-32

Naquele tempo, Jesus disse aos sacerdotes e anciãos do povo: 28 “Que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Dirigindo-se ao primeiro, ele disse: ‘Filho, vai trabalhar hoje na vinha!’ 29 O filho respondeu: ‘Não quero’. Mas depois mudou de opinião e foi. 30 O pai dirigiu-se ao outro filho e disse a mesma coisa. Este respondeu: ‘Sim, senhor, eu vou’. Mas não foi. 31 Qual dos dois fez a vontade do pai?” Os sumos sacerdotes e os anciãos do povo responderam: “O primeiro”. Então Jesus lhes disse: “Em verdade vos digo que os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus. 32 Porque João veio até vós, num caminho de justiça, e vós não acreditastes nele. Ao contrário, os cobradores de impostos e as prostitutas creram nele. Vós, porém, mesmo vendo isso, não vos arrependestes para crer nele”

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Depois de instruir a seus discípulos sobre seu destino e sobre as exigências do seguimento (Mt 16,21-20,34), Jesus entra em Jerusalém, centro do poder político, econômico, religioso, judiciário e ideológico do povo de Deus, representado pelo Sinédrio, o Supremo Tribunal dos judeus, responsável pela morte de Jesus. Jesus se confronta com essas lideranças e, uma após outra, vai desmascarando-as, mostrando o descompromisso delas com o Reino. De acusado (Mt 21,23) Jesus passa ao ataque através de parábolas contadas para essas lideranças (Mt 21,28-22,14). A comoção inicial da cidade (Mt 21,10; veja Mt 2,3) vai se convertendo, ao longo dos próximos capítulos deste evangelho (leia Mt 21,1-23,39), numa recusa frontal de Jesus e seus discípulos.         

Nestes capítulos (Mt 21,1-23,39) percebe-se a tensão que aconteceu nos últimos dias da vida de Jesus: Jesus manifesta-se como Messias através de três gestos simbólicos (Mt 21,1-22); os fariseus questionam sua autoridade (21,23-27); Jesus lhes responde por meio de três parábolas (21,28-22,14); os adversários buscam um motivo para acusá-lo através da apresentação de três questões discutidas: sobre imposto, ressurreição e maior mandamento (22,15-40); e Jesus propõe-lhes a questão decisiva: sobre Messias, filho de Davi (22,41-46); e diante da incapacidade dos adversários de reconhecê-lo como Messias, Jesus pronuncia o veredicto de Deus sobre os líderes de Israel e sobre Jerusalém (23,1-39). Mas o que aparece nestes capítulos com mais claridade é o enfrentamento posterior entre a comunidade de Mt e o judaísmo quando a ruptura entre ambos já havia tido lugar; aparece também que a Igreja cristã é a herdeira das promessas feitas a Israel (Mt 21,43).           

A parábola dos dois filhos que lemos no texto do evangelho deste domingo tem uma função similar à parábola do filho pródigo de Lc (Lc 15,11-32) embora cada evangelista a desenvolva diversamente. A mesma parábola também é o eco do Sermão da Montanha que enfatiza o fazer do que o dizer (Mt 7,21-23; cf. Mt 12,50;23,3-4).          

Mt começa a parábola com a pergunta: “Que vós parece?” (v.28a). Esta pergunta é típica de Mt (cf. Mt 17,25;18,12;22,17;26,66). A pergunta não é mais dirigida aos discípulos, mas aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo, os mesmos interlocutores da unidade anterior (cf. Mt 21,23-27). A pergunta obriga os ouvintes a comprometer-se e a tomar posição. A resposta à pergunta torna-se um julgamento para os ouvintes. E no fim da parábola, mais uma vez, os mesmos interlocutores são obrigados a escolher “qual dos dois fez a vontade do pai?” (v.31). A resposta dada a estas perguntas pelos ouvintes será sua salvação ou seu juízo. 

Nossa Fala Não Pode Ultrapassar Nossa Ação 

Antes de tirar a mensagem da parábola, primeiramente, temos que fazer uma leitura da parábola dentro do contexto da comunidade de Mateus, que é uma comunidade mista (judeus e pagãos convertidos), para a qual ele escreveu seu evangelho. Na parábola o pai pede a um filho (primeiro filhos) para que va à vinha, mas este filho não aceita o pedido. Porém, arrependido ele vai. Este filho representa, na verdade, os povos pagãos que viviam sob a influência dos mitos, das crenças livres, da lei do mais forte e portanto, estavam longe do Reino de Deus. Quando ouviram dos discípulos de Jesus o Evangelho, os pagãos (os gregos) acreditavam com maior facilidade e rapidez do que os próprios judeus. 

Para o segundo filho, o pai faz o mesmo pedido. Ele aceita o pedido, mas não vai para a vinha. Este segundo filho representa o povo judaico. Por causa da influência dos patriarcas e dos profetas o povo judaico (na época) comprometeu-se em praticar a justiça e em ensinar o mundo para viver o bem, porém sempre foi um filho rebelde, que usou a violência e a barganha em busca da própria vantagem  e com isso acaba não praticar a justiça em nome dos interesses egoístas. Eles são religiosos, mas vivem como pagãos. Enquanto os publicanos e as prostitutas, que são considerados impuros e, por isso, estariam excluídos da salvação, acreditam no Evangelho e se convertem. Pela sua fé e conversão os publicanos e as prostitutas entrarão primeiro no Reino do que os escribas, fariseus, anciãos e sumos sacerdotes (Mt 21,31-32). É uma grande ironia: os pecadores acreditam e se convertem, mas os “religiosos”, os supostos “puros” não aceitam as palavras de repreensão e advertência e não querem se converte, pois se acham puros e sem pecado. O santo, o puro sempre se acha pecador; o verdadeiro pecador sempre se acha santo. Os que ficam distante da luz acham que seu corpo está limpo; os que ficam perto da luz, com facilidade percebem a sujeiro nas suas roupas e no seu corpo. É um paradoxo de uma vida religiosa.          

A parábola coloca os dois filhos em contraste. Contrasta a maneira como se dirigem ao pai: o primeiro (filho mais velho) de forma mal educada e grosseira e rebelde para os padrões comportamentais daquele tempo: “Não quero ir”, disse ele. O segundo filho, de forma delicada e polida, não sabe dizer “não”, mas desmente tudo na prática: “Eu irei, senhor”. Mas não foi. Contrasta a atitude que tomaram: um foi e o outro não foi. E, de modo especial, contrasta a contradição entre a palavra e a ação dos dois. O primeiro filho peca por falta de educação. Ele não admite conversa ou diálogo. Mas ele vai trabalhar. O segundo, apesar de sua boa educação, apesar de seu “sim” verbal, não vai trabalhar. O pai se agrada com o “não” arrependido do filho mais velho, e não com o “sim” gentil mas mentiroso do filho mais jovem.          

Os ouvintes de Jesus não tiveram dificuldade de dar uma resposta exata à pergunta de Jesus: “Qual dos dois fez a vontade do pai?”. Sem hesitar os ouvintes responderam: o primeiro filho, isto é, aquele que falou que não iria, mas de fato foi e fez o que o pai pedia. Mas ao dar sua resposta, os próprios ouvintes (judeus) foram colocados contra a parede e se auto condenaram.          

A mensagem, portanto, é muito clara. Entre palavra e ação, a primazia é dada à ação. Entre intenção e ação, a primazia é dada à ação. O homem se salva não pelas palavras, intenções, palavras estéreis e descompromissadas, e sim por fatos concretos e precisos.         

O critério do agir é tão fundamental que a primeira denúncia que se fez dos escribas e fariseus é que o agir deles era fictício: eles agiam apenas de modo aparente, faziam de conta que agiram, mas na realidade não agiram. Desse modo eles pecaram contra os seus próprios princípios.          

Quando nós não somos fiéis à nossa palavra deixa de respeitarmos a nós mesmos e consequentemente aos outros, e a verdade não está em nós, não somos fiéis a nós mesmos, e também aos outros. Deste jeito estamos mentindo para nós mesmos e para os outros. A mentira é a defesa fácil dos fracos, que não são capazes de assumir a responsabilidade de seus atos. Triste é que o mentiroso não somente se condena a si próprio a vergonhosas contradições, mas também priva os demais do direito que têm à verdade, semeando desconfiança entre as pessoas.         

O fazer ou o agir é tão importante que Jesus Cristo pede aos discípulos o seguimento. Seguir a Jesus é agir com ele e como ele, acompanhá-lo no seu agir, é imitá-lo. Jesus chama os discípulos convidando-os a segui-Lo (Mt 4,19-22; 8,22; 9,9; 16,24; 19,21.27).         

Então, o que importa não é aquele que se comporta bem que se salva, mas sim quem cumpre a vontade de Deus. O que conta diante de Deus não são as aparências, nem as boas intenções ou palavras, mas a PRÁTICA. Deus olha para o que de fato fazemos, não importa o que pensamos ou dizemos. Em Deus e diante de Deus o homem vale pelo que faz e não pelo que fala. Neste sentido, o que importa não é a conversão externa, mas sim a atitude interior. E aquele que honra a Deus, não é aquele que observa uns ritos exteriores, mas sim aquele que põe em prática a vontade de Deus. Por isso, devemos ficar sempre atentos para que a nossa prática religiosa ou nossos ritos exteriores, não seja mais importante do que nosso Deus e nosso próximo.         

Por isso, o maior escândalo de nossos tempos é a separação da religião da vida. Reza-se, mas não se vive o que se reza. Canta-se mas não se vive o que se canta. Recebe-se a Eucaristia, mas não se vive a comunhão fraterna. Dobra-se os joelhos diante do sacrário, mas despreza-se o irmão, o corpo vivo e imagem de Cristo. Numa ocasião o Papa Paulo VI disse: “O grande pecado da moderna cristandade é o vazio entre a fé e as obras. É o pecado de ser ilógico, inconsciente e infiel”.           

O Evangelho de Mateus enfatiza muito a questão do AGIR. O critério definitivo para Jesus é o agir. A regra decisiva do discernimento é a distinção entre o falar e o agir. Por isso, os verdadeiros discípulos são os que agem, que praticam a vontade de Deus. Ao contrário, os falsos discípulos são aqueles que falam palavras bonitas, mas não fazem nada. Por isso, Jesus diz, no sermão do monte: “Nem todo aquele que me diz ‘Senhor, Senhor’ entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que pratica a vontade do meu Pai” (Mt 7,21). Da mesma maneira, o verdadeiro profeta se reconhece pelos frutos (Mt 7,16-20). 

É Preciso Ter Uma Posição Certa 

Pela sua atitude os dois filhos merecem uma repreensão. Um em atitude de revolta, ofende o pai com resposta grosseira: “Não vou!”. No entanto, ele tem uma vantagem sobre o outro filho que é hipócrita. Ele erra, mas não mente. Quando este filho descobriu a verdade maior, isto é, os motivos do pai, ele é capaz de mudar. Ele foi trabalhar.  Quem se opõe, de verdade, pelo menos, tem uma opção ou deve ter uma opçãp, pois ninguém se opõe por opor-se. Se não tiver uma opção, ao menos, terá que ter uma posição clara. Ninguém se opõe para manter o comodismo ou algumas vantagens pessoais. Quem tem uma posição clara é capaz de defender o seu ponto de vista. Mas quem procura a verdade, é capaz de largar o ponto de vista a partir de um momento em que a verdade está em destaque. Porque cada ponto de vista é apenas visto de um ponto. É preciso ter um pouco de uma visão multidimensional de uma realidade para errar menos. É preciso mudar para crescer e avançar. “O triste não é mudar de ideia. O triste é não ter ideia para mudar” (Francis Bacon, filósofo britânico). 

A hipocrisia e a mentira são piores que a insurreição (contra a ordem preestabelecida com o objetivo de derrubá-la). O homem moderno, dentro e fora da Igreja, tem uma grande sensibilidade para tudo que é autêntico em teoria e em prática, e uma irrefutável aversão contra tudo o que é falsidade, hipocrisia e afetação de virtude.

A pergunta de Jesus “O que vos parece?” é dirigida a cada um de nós. Você se parece com qual dos dois filhos? O que Jesus não aceita é a atitude hipócrita e santarrão dos que se creem melhores do que os demais sem necessidade de mudança alguma. Prefere o longo caminho, cheio de liberdade e de fracassos, de buscas de novos horizontes a causa de seu inconformismo com a vida que os rodeia à comodidade dos que dizem “sim” a tudo, mas não se comprometem com nada.          

A parábola dos dois filhos é um convite para fazermos o sério exame de consciência sobre o nosso agir diário. As nossas palavras nunca podem ultrapassar o nosso agir para não sermos chamados de cristãos falsos ou hipócritas: religiosos, mas não cristãos. Os cristãos falsos podem possibilitar ou facilitar o surgimento do ateísmo nas pessoas inocentes. Muitos, que se dizem ateus, acreditam em Deus e não nas suas caricaturas. Se não nos convertermos continuamente, o mundo vai repetir as palavras de Mahatma Gandhi: “Eu aceito o vosso Cristo, mas não aceito o vosso cristianismo”. Precisamos abandonar a religião das aparências para assumir a religião da responsabilidade. Precisamente, através da parábola no evangelho de hoje, Jesus ataca diretamente a religião com práticas puramente exteriores, formais, tradicionais sem senso crítico, que não afetam o interior da pessoa e sua responsabilidade e seu compromisso social. Jesus adverte, muitas vezes, os escribas, sacerdotes e dirigentes religiosos de um dos perigos que ameaçam os “profissionais” da religião: falam muito de Deus e acreditam pouco n´Ele e acham que sabem tudo d´Ele, pregam em Seu nome a lei para os outros, a ordem e a moral, mas não vivem conforme acreditam (cf. Mt 23,2-7). Há pessoas muito “religiosas” que desprezam os outros, acusam, ameaçam e até condenam em nome de Deus. 

Jesus termina a parábola com as seguintes palavras terríveis: “Em verdade vos digo que os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus.”. Os que aparentemente têm pouco a ver com Deus estão frequentemente mais próximos de Deus do que os teólogos e sacerdotes e os que se acham “religiosos”, pois entendem a Palavra de Deus t tocam seu coração para voltar ao caminho de Deus que é o caminho da salvação. 

A verdadeira religião está enraizada na consciência de cada um, que não só sabe distinguir entre o bem e o mal, mas luta para que o bem supere o mal, para que a verdade prevaleça sobre a mentira e todo tipo de fake-news e para que o amor (a Deus e ao próximo) ocupe o lugar do ódio e do egoísmo e de todos os interesses egoístas.                                          

P. Vitus Gustama,SVD

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Sábado Da XXV Semana Comum, Ano Par, 26/09/2026

VIVER COM SENTIDO É VIVER FAZENDO O BEM E SACRIFICANDO-SE PARA O BEM DE TODOS A EXEMPLO DE CRISTO JESUS

Sábado da XXV Semana Comum

Primeira Leitura: Ecl 11,9-12,8 (Ano Par)

Alegra-te, jovem, na tua adolescência, e que o teu coração repouse no bem nos dias da tua juventude; segue as aspirações do teu coração e os desejos dos teus olhos; fica sabendo, porém, que de tudo isso Deus te pedirá contas. 10 Tira a tristeza do teu coração, e afasta a malícia do teu corpo, pois a adolescência e a juventude são vaidade. 12,1 Lembra-te do teu Criador nos dias da juventude, antes que venham os dias da desgraça e cheguem os anos dos quais dirás: "Não sinto prazer neles"; 2 - antes que se obscureçam o sol, a luz, a lua e as estrelas, e voltem as nuvens depois da chuva; 3 quando os guardas da casa começarem a tremer, e se curvarem os homens robustos; quando as poucas mulheres cessarem de moer, e ficarem turvas as vistas das que olham pelas janelas 4 e se fecharem as portas que dão para a rua; quando enfraquecer o ruído do moinho, e os homens se levantarem ao canto dos pássaros, e silenciarem as vozes das canções, 5 e houver medo das alturas e sobressaltos no caminho, enquanto a amendoeira floresce, o gafanhoto se arrasta e a alcaparra perde o seu gosto, porque o homem se encaminha para a morada eterna, e os que choram já rondam pelas ruas; 6 - antes que se rompa o cordão de prata e se despedace a taça de ouro, a jarra se parta na fonte, a roldana se arrebente no poço, 7 - antes que volte o pó à terra, de onde veio, e o sopro de vida volte a Deus que o concedeu. 8 Vaidade das vaidades, diz o Eclesiastes, tudo é vaidade.

Evangelho: Lc 9, 43b-45

Naquele tempo, 43bTodos estavam admirados com todas as coisas que Jesus fazia. Então Jesus disse a seus discípulos: 44“Prestai bem atenção às palavras que vou dizer: O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens”. 45Mas os discípulos não compreendiam o que Jesus dizia. O sentido lhes ficava escondido, de modo que não podiam entender; e eles tinham medo de fazer perguntas sobre o assunto.

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O final do livro Eclesiastes coincide com a reflexão sobre o final da vida humana: da juventude passa para a velhice e da velhice termina com a morte.

Ecl 11,9-10 fala da alegria do tempo da juventude. O autor se dirige aos jovens, de forma imperativa e insistentemente para que os jovem saiba desfrutar os aspectos positivos da vida e fugir de seu lado triste e doloroso. O convite do autor aos jovens para desfrutarem a vida positivamente inclui também uma dupla limitação: o caráter passageiro dos jovens e o juizo de Deus.

Ecl 12,1-8 fala dos dias maus ou dos dias de escuridão da velhice. Tratam-se dos dias de enfraquecimento e de deterioração progressivos, de medo, abandono e de prelúdio de morte; anos em que a vida entra no período de falência definitiva. É o curso normal da vida humana.

A Juventude Vivida No Espírito De Deus

“Segue as aspirações do teu coração e os desejos dos teus olhos; fica sabendo, porém, que de tudo isso Deus te pedirá contas. Lembra-te do teu Criador nos dias da juventude...”

Um livro tão humano como Eclesiastes termina com uma bela evocação da “juventude”, o tempo de vitalidade que deve ser vivido com alegria e com muitas realizações, sabendo, por outro lado, que é passageiro – e vaidade, diz o autor, como todo o resto. Contrastando com essa visão, o autor também descreve a “velhice” em termos repletos de poesia.

“Segue as aspirações do teu coração e os desejos dos teus olhos; fica sabendo, porém, que de tudo isso Deus te pedirá contas.”

Esta exortação aos “jovens” parece muito optimista: há que aproveitar os bons anos da juventude para acumular experiência e conhecimento, porque a velhice nos persegue. Se tomássemos isso como um convite ao prazer desenfreado, não teríamos compreendido nada do pensamento profundo do autor.

O autor incentiva clara e simplesmente os jovens a desenvolverem a sua vitalidade. A juventude é um dom de Deus que deve ser vivido com expansão e alegria, mas deve-se levar em conta que haverá o encontro derradeiro com Deus diante de quem cada um deverá prestar contas de sua vida neste mundo. Por isso, o autor do Eclesiastes coloca em primeiro lugar as aspirações do coração antes dos desejos dos olhos. Os desejos dos ohos devem estar dentro das apirações do coração: “Segue as aspirações do teu coração e os desejos dos teus olhos; fica sabendo, porém, que de tudo isso Deus te pedirá contas.”

Quando se fala do “coração”, deve ser entendido no sentido de toda a interioridade da pessoa, o centro da vida, das decisões e do encontro pessoal com Deus. Se o coração for bom, os gestos de relacionamento humano obedecem aos imperativos de humanizar, de fraternizar e de santificar a convivência. A pureza do agir depende da pureza do coração. Mas se o coração for mau, a vida é envenenada pela insatisfação, pela inveja, pelo ciúme, pela disputa negativa, pela discriminação, pelo sensualismo, pelas más intenções e assim por adiante. O coração é o lugar onde o homem se revela e onde Deus se revela.

Os jovens podem agora começar a ser sábios se souberem aproveitar a vida e vivê-la ao máximo, mas com responsabilidade. Eles prestarão contas de suas vidas diante de si mesmos, e diante de sua família, e diante da comunidade, e diante de seu próprio futuro e, em última análise, diante de Deus. Alegria, sim, mas fazer o bem, que é a melhor forma de construir um futuro válido.

A Velhice Revela a Fragilidade Humana

O autor reconhece que a velhice é inevitável. A velhice é comparada a uma casa que ainda está habitada, mas que se deteriora lentamente. O vigor dos homens está diminuindo e a beleza das mulheres murcha, as portas da casa permanecem fechadas, porque não há guardiões suficientemente fortes.

“... quando os guardas da casa começarem a tremer, e se curvarem os homens robustos; quando as poucas mulheres cessarem de moer, e ficarem turvas as vistas das que olham pelas janelas e se fecharem as portas que dão para a rua; quando enfraquecer o ruído do moinho, e os homens se levantarem ao canto dos pássaros, e silenciarem as vozes das canções e houver medo das alturas e sobressaltos no caminho, enquanto a amendoeira floresce”.

Os rabinos fazem uma leitura alegórica este texto sobre uma parte do corpo humano. Os guardas que tremem são os braços, e os homens robustos que se curvam são as pernas; as mulheres que param de moer são os dentes, e as janelas que dão para a rua e que precisam ser fechadas são os olhos. O ruído do moinho é a voz humana, e as flores da amendoeira são os cabelos brancos.

Mas não vale a pena desesperar-se, nem ter ilusões exageradas. Como disse ontem o sábio (autor do Eclesiastes), tudo tem seu tempo. Mas os sintomas da velhice não têm necessariamente de ser dramáticos. Antes que “o espírito volte ao Deus que o deu”, tanto os jovens como os idosos devem saber como oferecer a Deus o melhor das suas vidas: seja energia e força, ou fraqueza e quietude.

O Salmo Responsorial, o Sl 89 (90) prolonga a meditação do Eclesiastes sobre a fragilidade humana.

Sacrificar-Se Para O Bem De Todos Como Jesus Que Passou A Vida Fazendo O Bem

“Todos estavam admirados com todas as coisas que Jesus fazia”.

Nós nos encontramos no quadro de instruções finais de Jesus na Galiléia. Jesus mostra claramente aqui o sentido da própria missão e a missão daqueles que querem segui-Lo. Segundo o plano do seu evangelho, o evangelista Lucas termina assim as atividades de Jesus na Galiléia (Lc 4,14-9,50). Daqui em diante Jesus vai começar seu caminho ou seu êxodo para Jerusalém onde ele será crucificado, morto e glorificado.

“O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens”. O título “Filho do Homem” se encontra seu sentido em Dn 7,13-14 e “vai ser entregue” em Is 53,2-12. O sofrimento de Jesus é causado pelos homens do templo e do poder.

Para o evangelista Lucas, este é o segundo anúncio da Paixão de Jesus e o situa no momento em que “Todos estavam admirados com todas as coisas que Jesus fazia”. Esta admiração surge no momento em que Jesus curou um menino da epilepsia (Lc 9,37-43) e fez outros sinais. E Lucas registrou que esse menino era filho único. Esse filho único se refere a Jesus, Filho único do Pai (cf. Mt 21,33-46). Através desse menino Jesus está falando de Si próprio. A cura do menino antecede o segundo anúncio da Paixão do Filho único do Pai.

Neste anúncio Jesus quer revelar que sua vida é um sacrifício para o bem de todos. Jesus pensa somente na salvação dos hpmens sem fugir das conseqüências trágicas. Ele se sacrifica como uma vela que se consome aos poucos iluminando seu redor.

Lucas nos relatou que os discípulos não entenderam o sentido desse anúncio. Em outras ocasiões os evangelistas descrevem os motivos dessa incompreensão: os seguidores de Jesus tinham em sua cabeça um messianismo político, com vantagens materiais para eles mesmos, e discutiam sobre quem ia ocupar os postos de honra e quem ficaria do lado direito ou do lado esquerdo de Jesus. A cruz não entrava em seus planos. Eles queriam seguir a Jesus pelas próprias vantagens e não pela vida dedicada em prol da salvação de todos.

Os discípulos não entendem que este é o maior ato de amor e o maior sentido da vida. O resultado dessa incompreensão será contado no seguinte episódio em que haverá a disputa sobre a primazia no grupo (Lc 9,46-48).

“Todos estavam admirados com todas as coisas que Jesus fazia”. Jesus desperta realmente admiração por seus gestos milagreiros e pela profundidade de suas palavras. Deste tipo de Jesus gostamos também e não somente os primeiros discípulos de Jesus. Mas não entendemos, como os primeiros discípulos, o Jesus Servidor, o Jesus que lava os pés dos discípulos, o Jesus que se entregou à morte para salvar a humanidade, o Jesus que se aproxima do pecador para dialogar, o Jesus que faz refeição com os pobres e pecadores. Queremos apenas o consolo e o prêmio e não o sacrifício e a renúncia. Preferiríamos que Jesus não nos dissesse: “Quem quer me seguir renuncie a si mesmo, tome sua cruz de cada dia e me siga”.

Mas ser seguidor de Jesus pede radicalidade e não podemos crer num Jesus que O fazemos a nossa medida. Ser colaborador de Jesus na salvação do mundo exige seguir Seu mesmo caminho que passa através da cruz e da entrega ou doação da própria vida pela salvação de todos. É sofrer com Jesus para salvar o mundo.

Vale a pena cada um fazer um exame sério de consciência sobre o texto do evangelho de hoje a partir da vocação e da função que cada um tem na Igreja ou em uma comunidade. Como sacerdote ou religioso/ religiosa, qual meu motivo para ser sacerdote ou para ser religioso/religiosa? Será que eu procuro a vocação religiosa e sacerdotal em função da segurança institucional e não como paixão pela vida de Cristo dedicada pela salvação de todos? Será que o pensamento de querer ser sacerdote ou religioso (a) carreirista tem como motor da minha ambição? Como leigo ou leiga, qual meu motivo verdadeiro para trabalhar na minha comunidade? Há alguma vantagem pessoal escondida atrás dessa atividade, ou por que eu quero ser outro Cristo na minha comunidade? Mas será que eu levo a sério o motivo de ser outro Cristo com todas as suas conseqüências na minha comunidade?

É preciso que não tenhamos medo de nos gastar pelas causas e pelos grandes ideais de Jesus, pois por este caminho é que haverá a vida glorificada, a vida ressuscitada. Como cristãos, não podemos viver e conviver inutilmente nem podemos, conseqüentemente, morrer inutilmente. A vida dedicada pelo bem de todos jamais morre. É estar com Cristo. E estar com Cristo significa não parar de existir. Este é o ideal do ser do cristão.

Creio que uma vida só pode chegar à sua plenitude, se a enchermos de uma série de certezas ou convicções profundas. No fundo tudo se reduz a uma questão de amor: amar e ser amado. Do contrário, somente há sempre o mesmo resultado: destruição, sofrimento, opressão, injustiça, deslealdade, traição, exploração e assim por diante. Uma vida significativa é feita de uma série de pequenos atos diários de decência e bondade, que quando somados no final, resultam, paradoxalmente, em algo grandioso. Pela prática de atos justos, aprendemos a ser justos; pela prática de atos de autocontrole, aprendemos a ter autocontrole; e pela prática de atos de coragem, chegaremos a ser corajosos. A nossa vida relativamente curta, neste mundo, é apenas faísca na tela da eternidade. Jesus viveu mais ou menos apenas 33 anos de vida. No entanto ele conseguiu influenciar o mundo inteiro. A vida passa, pois há um tempo para cada coisa. Você já imaginou que quanta coisa boa que você poderia fazer agora mesmo em favor da humanidade? Isto é seu tempo de milagres. E você pode, independentemente de sua idade, etnia, profissão e religião.

Não se arrependa por você ter dado o melhor de si, mesmo que você sofra algum desentendimento ou alguma ofensa por ter feito uma coisa boa na sua vida. Agindo assim, sua vida se transformará. Se você não se impuser à vida, ela se imporá a você. Lembre-se de que os dias transformam-se em semanas, as semanas em meses e os meses em anos. Quando menos se espera, tudo chega ao fim, e você se vê sem nada além de um coração ressentido por uma vida vivida pela metade. Comece a ser a pessoa que você realmente é, fazendo o possível para enriquecer o mundo à sua volta. A bondade é simplesmente o aluguel que devemos pagar pelo espaço que ocupamos neste planeta.

P. Vitus Gustama,svd

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Sexta-feira Da XXV Semana Comum, Ano Par, 25/09/2026

JESUS NOS INTERROGA SOBRE QUEM ELE É PARA NÓS

Sexta-Feira da XXV Semana

Primeira Leitura: Eclesiastes 3,1-11 (Ano Par)

1 Tudo tem seu tempo. Há um momento oportuno para tudo o que acontece debaixo do céu. 2 Tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de colher a planta. 3 Tempo de matar e tempo de salvar; tempo de destruir e tempo de construir. 4 Tempo de chorar e tempo de rir; tempo de lamentar e tempo de dançar. 5 Tempo de atirar pedras e tempo de as amontoar; tempo de abraçar e tempo de separar. 6 Tempo de buscar e tempo de perder; tempo de guardar e tempo de esbanjar. 7 Tempo de rasgar e tempo de costurar; tempo de calar e tempo de falar. 8 Tempo de amar e tempo de odiar; tempo de guerra e tempo de paz. 9 Que proveito tira o trabalhador de seu esforço? 10 Observei a tarefa que Deus impôs aos homens, para que nela se ocupassem. 11 As coisas que ele fez são todas boas no tempo oportuno. Além disso, ele dispôs que fossem permanentes; no entanto o homem jamais chega a conhecer o princípio e o fim da ação que Deus realiza.

Evangelho: Lc 9,18-22

Aconteceu que Jesus 18 estava rezando num lugar retirado, e os discípulos estavam com ele. Então Jesus perguntou-lhes: “Quem diz o povo que eu sou?” 19 Eles responderam: “Uns dizem que és João Batista; outros, que és Elias; mas outros acham que és algum dos antigos profetas que ressuscitou”. 20 Mas Jesus perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Pedro respondeu: “O Cristo de Deus”. 21 Mas Jesus proibiu-lhes severamente que contassem isso a alguém. 22 E acrescentou: “O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da Lei, deve ser morto e ressuscitar no terceiro dia”.

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Quem Não Valoriza o Tempo Que Sempre Passa Sem Volta, Enterra Muitas oportunidades

“Tudo tem seu tempo. Há um momento oportuno para tudo o que acontece debaixo do céu”.

O autor do Eclesiastes reconhece que o sábio caminha na luz e o néscio na escuridão, no entanto ambos caminham para a morte, e isso iguala a todos, conforme foi dito na leitura do dia anterior. O Coélet se interessa pela sabedoria humana e por isso, investiga (Ecl 1,13s; 12,9ss). A parte importante da tarefa do sábio é prevenir a decepção paralisante. Contar com a morte é medida elementar da arte de viver bem (Ecl 7,1-2.4.12). O sábio é contar com o que se tem (neste caso uns quantos dias “de baixo do sol” cf. Ecl 9,9-10) e aprender a viver com isso.

Mas o Coélet sabe que existe algo como uma norma que exerce misteriosamente seu domínio sobre todos os acontecimentos: o tempo, como lemos na Primeira Leitura de hoje (Cf. Ecl 3,1-8.17). O Coélet afirma que cada coisa tem seu seu tempo e critério (Ecl 8,6). Consequentemente, o homem é chamado a aproveitar cada tempo que sempre foge do controle humano. O tempo passa e a idade sobe sem volta. Quem valoriza o tempo, ganha muitas oportunidades para ser produtivo. Quem não valorizar o tempo, vai enterrar muitas oportunidades.

O poema que lemos na Primeira Leitura leva em conta o tempo humano e que todos os momentos da existência  são compreendidos entre o nascimento e a morte (Ecl 3,2). Neste poema encontramos catorze conjuntos binários antitéticos  de uma serie de ações sem nenhuma ordem lógica, tomados da vida cotidiana.  São situações complementares, no entanto cada um tem seu próprio tempo. Cada conjunto binário  forma uma expressão bipolar, isto é, são citados os extremos opostos de uma realidade: “Tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de colher a planta. Tempo de matar e tempo de salvar; tempo de destruir e tempo de construir. Tempo de chorar e tempo de rir; tempo de lamentar e tempo de dançar. Tempo de atirar pedras e tempo de as amontoar; tempo de abraçar e tempo de separar. Tempo de buscar e tempo de perder; tempo de guardar e tempo de esbanjar. Tempo de rasgar e tempo de costurar; tempo de calar e tempo de falar. Tempo de amar e tempo de odiar; tempo de guerra e tempo de paz” (Ecl 3,2-8).

Nesta enumeração, são Jerônimo viu uma descrição da vaidade das coisas humanas: tudo é temporal e transitório. A intenção do autor do livro é, sem dúvida, demonstrar que os acontecimentos da vida humana dependem da Providencia divina e não da vontade humana. Por isso, é sempre prudente submeter-se docilmente aos desígnios de Deus que governa o universo na sua permanente providência.

O nascer e o morrer são acontecimentos mais importantes de nossa vida sobre os quais Deus vela misteriosamente. Um e outro tem seu momento assinalado por Deus. O homem nenhum é capaz de adiantar ou atrasar o momento, pois o tempo tem seu próprio curso.

Num povo agrícola como o hebreu, plantar e arrancar o que foi plantado é uma das ocupações mais frequentes. Deus, ao dispor as diversas estações, estabeleceu as condições atmosféricas que determinam o tempo no qual o homem deve levar a cabo as diferentes trabalhos do campo. Ações desagrdaveis, como ferir e, em consequência, curar; as mesmas obras em caminhadas a destruir e edificar estão dentro dos planos de Deus que em seus insondáveis desígnios permitiu as circunstancias que determinaram tais fatos. Em cada fato ou acontecimento sempre tem algum recado ou apelo de Deus. Basta o homem parar para decifrar o sentido de cada fato ou acontecimento através da meditação ou introspecção. Porque para Deus não existe a causalidade ou o ocaso. Tudo tem seu sentido.

A sabedoria de um cristão é feita, sobretudo, da Palavra de Cristo no Evangelho. Mas também pode tirar sensatez e sentido comum nas páginas do Antigo Testamento que não nos apresentam altas teologias e sim a sensibilidade de um crente que olha para Deus e, ao mesmo tempo, tem pés bem postos no chão.

Não devemos nos levar tão a sério. Ficaríamos mais felizes se olhássemos com humor o que fazemos, sem subir à altura quando estiver bem ou afundandar quando falharmos. Que não é um convite para o fatalismo ou não para o trabalho, mas para trabalhar com mais serenidade dentro e fora, sem nada que nos assuste. Se soubéssemos discernir, por exemplo, quando é hora de nascer e morrer, chorar ou rir, destruir ou construir, plantar e colher, as coisas seriam muito melhores nas opções pessoais e comunitárias. Tudo tem seu tempo. É importante saber distinguir o tempo para cada coisa. O homem tem que ter certeza de que uma ação sucederá sua ação oposta, mas ele não é dono do instante para alterar cada situação, pois cada coisa ou acontecimento tem seu tempo. O escritor libanês, Khalil Gibran escreveu: “Quando estiverdes alegres, olha no fundo de vosso coração, e achareis que o que vos deu tristeza é aquilo mesmo que vos está dando alegria. E quando estiverdes tristes, olhai novamente no vosso coração e vereis que, na verdade, estais chorando por aquilo mesmo que construiu vosso deleite” (veja o livro: O Profeta).

As coisas têm seu tempo. Uma vez transcorrido este tempo elas desparecem e deixam lugar necessariamente a outras. Algumas, por sua própria natureza, são chamadas de acordo com um ritmo e periodicidade inevitáveis.

O homem se separa em todo momento e dolorasamente do presente, mas esta necessidade não é puramente negativa. Revela, ao contrário, que a oneração do homem no tempo mortifica nele uma exigência espiritual de seu “ego” mais profundo.

Certamente, o homem está sujeito à mobilidade universal e cada uma de suas ações é arrastada pelo fluxo da história, mas o fato de sentir essa extrema mobilidade como uma dor prova que ele é feito para uma possessão eterna e imutável de si mesmo e das coisas. O tempo tem, pois, um sentido, um significado que não lhe chega do exterior e sim de si mesmo. Mas, do ponto de vista cristão, sua condição provisional através da consciência da morte leva o homem a participar do mistério pascal de Cristo.

Portanto, o tempo tem um sentido, mas não em si mesmo e sim em Deus, na eternidade de Deus. No entanto, não se trata de buscar o sentido do tempo somente no mais além e no depois desta vida, como se fosse necessário refugiar-se no céu e fugir do temporal para descobrir o sentido do eterno. A eternidade já começou; é concomitante com o tempo. HOJE se desenvolve a eternidade, está imerso nela. Cada minuto tem uma densidade eterna em Deus

Estar com Deus em cada instante significa submeter-se à Provdencia divina que dá sentido para cada coisa ou acontecimento de nossa vida. E não nos esqueçamos que há Alguém que caminha conosco e que com sua ajuda, impulsiona nossa vida e, que, mesmo sendo Verdadeiro Deus, é homem verdadeiro igual a nós: Cristo Jesus. Com Ele que é o próprio Caminho (Jo 14,6) chegaremos à Casa Paterna que é nossa Casa comum: o Céu. Ao mesmo tempo, nós que cremos em Cristo, devemos pôr nossa vida nas mãos do Senhor para que fortalecidos por Sua Graça e à luz do Espirito Santo, que habita em nós (1Cor 3,16-17), possamos colaborar para levar adiante sua obra salvadora. Não fujamos de nossa resonsabilidade como cristãos, não queiramos viver covardemente escondidos do mundo e de nossa missão. É preciso conhecer quem é Jesus para nós como exige o Evangelho deste dia.

Quem É Jesus Para Mim e Quem Sou Eu Para Jesus, e O Que Devo Fazer Como Cristão?

O evangelista Lucas volta ao tema do evangelho do dia anterior sobre a identidade de Jesus (cf. Lc 9,7-9). No texto do evangelho do dia anterior o interessado por saber quem era Jesus foi Herodes Antipas, filho do rei Herodes, o Grande. No texto do evangelho de hoje é o próprio Jesus quem dirige a pergunta a seus discípulos. Quem é Jesus para as pessoas em geral e quem é Jesus para os próprios discípulos?

A resposta do povo é múltipla: Elias, João Batista, um profeta que ressuscitou. Segundo os discípulos Jesus é o Messias. “Messias” é palavra hebraica que é em grego “Christos” que significa “Ungido”. Jesus é o Ungido de Deus, ou seja, Aquele sobre quem Deus derramou seu Espírito, ungindo-o com Sua força para que leve a cabo uma missão. Jesus está totalmente aberto à vontade de Deus a ponto de o Espírito divino repousar sobre Ele (cf. Lc 3,21-22; Mt 3,16-17) e se deixa guiar completamente pelo mesmo Espírito (cf. Mc 1,12).

Mas que tipo de Messias Jesus é? Estamos aqui no centro da fé: crer em um Messias que será crucificado. A cruz de Jesus não é um incidente e sim uma conseqüência. A presença de Deus se manifesta no caminho da cruz, isto é, na entrega de si mesmo, na recusa de toda imposição, no amor que aceita ser contradito e aparentemente derrotado: “É necessário o Filho do Homem sofrer muito e ser rejeitado pelos anciãos, sumos sacerdotes e escribas, ser morto e, no terceiro dia, ressuscitar”.

Mas a cruz de Jesus é saborosa, pois trata-se de uma vida vivida até o fim por amor aos homens como manifestação do amor a Deus (cf. Jo 3,16). Por isso, na sua cruz vemos com clareza o amor de Deus por cada um de nós. Deus encarnado é capaz de tudo, até o impossível, pois cada um tem um valor incalculável diante de Deus. Por você e por mim Deus se encarnou em Jesus e por amor a nós todos Jesus aceitou ser crucificado (cf. Mt 8,17; Jo 3,16). O caminho do amor é o caminho que nos leva à salvação. Fora do amor não há a salvação independentemente de nossas práticas religiosas. Por este caminho (amor) não há outro caminho para chegar até Deus que é Amor por excelência (1Jo 4,8.16).

O amor transforma tudo. Com amor levamos a carga sem carga, pois o amor torna tudo leve. O amor faz doce e saboroso o que é amargo. O amor nobre de Jesus nos impulsiona a desejar sempre o mais perfeito e a fazer o bem para todos. O amor não é detido por qualquer coisa deste mundo. O amor quer ser livre. Não há nada que seja mais doce, mais forte, mais alto, mais alegre, mais humano e mais divino do que o amor, pois o amor nasce de Deus, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). O amor sempre vela, e dormindo não se dorme; fatigado, não se cansa; angustiado, não se angustia; espantado, não se espanta; é forte na sua fraqueza.

A pergunta de Jesus é repetida para nós em todos os momentos: “Quem é Jesus para nós?”. Não se trata de uma pergunta supérflua. É claro que “sabemos” já quem é Jesus. Não somente cremos em Jesus como o Filho de Deus e Salvador da humanidade, mas queremos segui-Lo com fidelidade na vida de cada dia. Mas temos que refrescar ou renovar com freqüência esta convicção, pensando se realmente nossa vida está orientada para Ele, se nossas opções de cada dia estão de acordo com seus critérios e seus ensinamentos. Quem é Jesus para mim agora, nesta etapa concreta da vida que estou vivendo? Não podemos responder a esta pergunta com palavras magistrais nascidas do estudo. Nossa resposta deve ser muito simples, nascida da vida de cada dia com o próprio Senhor. Jesus não pede uma opinião e sim uma opção, não pede uma teoria, e sim uma confissão, não pede um discurso e sim uma tomada de posição. Porque a fé é relação, reconhecimento, confissão, opção radical e posição na vida.

O segundo ponto que Lucas quer nos transmitir através do texto do evangelho de hoje é a importância da oração. Lucas nos mostra Cristo em oração toda vez que ele toma uma decisão importante ou quando se compromete em uma etapa de sua missão (Lc 3,21; 6,12; 9,29; 11,1; 22,31-39). Lucas é o único evangelista que menciona a oração de Cristo antes de obter a profissão de fé nos seus e de anunciar-lhes sua Paixão. Assim cabe pensar, como em cada uma das demais circunstâncias mencionadas por Lucas, que Jesus reza pelo cumprimento de sua missão cujos contornos ele não vê mais que na obscuridade. Através da oração vemos a realidade da humanidade de Jesus. “Para ser um bom orador é necessário ser um bom orante”, dizia Santo Agostinho (De doc. christ. 4,15,32).

Se a oração de Jesus demonstra a realidade de sua humanidade, não deixa de ser um sinal de sua divindade. Que Jesus pode reunir em sua oração a profundidade de sua pessoa, onde se estabelece sua vocação como o Ungido de Deus, é o indício de que dispõe do Espírito do Pai. Com feito, a oração não é um discurso que se dirige a Deus como um objeto e sim ter Deus por sujeito que conhece a profundidade de nosso ser. Não podemos alcançar esta profundidade sem a ajuda do Santo Espírito (cf. Rm 8,26-27). Do ponto de vista humano podemos dizer que somente aquele que reza profundamente é que reconhece os próprios limites e fraquezas, pois diante de Deus tudo fica iluminado. Rezar é deixar Deus iluminar nossa vida e nossas decisões de cada dia. Com efeito, sem oração a vida se torna escura. Quem não reza, obscurece a própria vida. A história de nossa oração é a história de nossa vida, pois na oração contamos para Deus tudo o que acontece na nossa vida embora Ele saiba de tudo. Erraremos o caminho se pararmos de orar, pois Deus é a Luz de nossa vida (Jo 8,12).

“Mas para vós, quem sou Eu?”. A pergunta sobre Jesus é a pergunta sobre nós mesmos. É uma pergunta fundamental, porque implica a nossa própria identidade cristã. Jesus agora não pede uma opinião, mas uma opção; não uma teoria, mas uma confissão; não uma conclusão de um discurso, mas uma tomada de posição, porque a questão: “O que significa seguir a Jesus” não pode ser separada da questão sobre a identidade de Jesus: “Quem é Jesus (para mim)?” A resposta do povo já não serve. A pergunta exige uma resposta sem meias-palavras. A pergunta exige uma tomada de posição. Estar com Jesus em pessoa não era suficiente. Ter o conhecimento da multidão não era suficiente. É necessário que seja Deus quem nos revele a cada um o conhecimento da verdadeira identidade de Jesus.

Jesus continua dirigindo esta pergunta à Igreja e aos cristãos de todos os tempos. Todos são chamados a não contentar-se com uma opinião, uma teoria, um curso, uma pesquisa ou uma doutrina a respeito de Jesus, por nova e moderna que ela seja. Podemos até perguntar se temos realmente consciência da importância e da seriedade de nossa fé no Deus que Jesus Cristo nos revelou.

P. Vitus Gustama,svd

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Quinta-feira Da XXV Semana Comum, Ano Par, 24/09/2026

O HOMEM QUE INTERROGA SOBRE JESUS INTERROGA A PRÓPRIA VIDA

Quinta-Feira da XXV Semana Comum

Primeira Leitura: Eclesiastes 1,2-11 (Ano Par)

2 “Vaidade das vaidades, diz o Eclesiastes, vaidade das vaidades! Tudo é vaidade”. 3 Que proveito tira o homem de todo o trabalho com o qual se afadiga debaixo do sol? 4 Uma geração passa, outra lhe sucede, enquanto a terra permanece sempre a mesma. 5 O sol se levanta, o sol se deita, apressando-se para voltar a seu lugar, donde novamente torna a levantar-se. 6 Dirigindo-se para o sul e voltando para o norte, ora para cá, ora para lá, vai soprando o vento, para retomar novamente o seu curso. 7 Todos os rios correm para o mar, e contudo o mar não transborda; voltam ao lugar de onde saíram para tornarem a correr. 8 Tudo é penoso, difícil para o homem explicar. A vista não se cansa de ver, nem o ouvido se farta de ouvir. 9 O que foi será; o que aconteceu, acontecerá: 10 não há nada de novo debaixo do sol. Uma coisa da qual se diz: “Eis aqui algo de novo”, também esta já existiu nos séculos que nos precederam. 11 Não há memória do que aconteceu no passado, nem também haverá lembrança do que acontecer, entre aqueles que viverão depois.

Evangelho: Lc 9, 7-9

Naquele tempo, 7 o tetrarca Herodes ouviu falar de tudo o que estava acontecendo, e ficou perplexo, porque alguns diziam que João Batista tinha ressuscitado dos mortos. 8 Outros diziam que Elias tinha aparecido; outros ainda, que um dos antigos profetas tinha ressuscitado. 9 Então Hero­des disse: “Eu mandei degolar João. Quem é esse homem, sobre quem ouço falar essas coisas?” E procurava ver Jesus.

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Viver Com Sentido e Fazer As Coisas a Partir Do Seu Sentido

“Vaidade das vaidades! Tudo é vaidade. Que proveito tira o homem de todo o trabalho com o qual se afadiga debaixo do sol? Uma geração passa, outra lhe sucede, enquanto a terra permanece sempre a mesma”.

Nestes dias vamos ler e meditar (nas Primeiras Leituras semanais) sobre alguns textos do outro livro dos Livros sapienciais: Eclesiastes ou Coélet (Qohelet). A partir dos indícios linguísticos e sociocultural, a maioria dos especialistas concluiu que o livro foi composto em torno do século III antes de Cristo, na época do processo de helinazação da Palestina.

O nome Eclesiastes é a forma latinizada do grego Ekklesiastés, que traduz o título hebraico Coélet (Qohelet), nome atribuído ao suposto autor do livro (Ecl 1,1.12; 2,27; 12,8.9.10). Em hebraico a palavra “Coélet” (pregador) é do verbo qhl que significa reunir em assembleia, convocar. O substantivo é qahal (assembleia). Mas não se diz quem convoca ou dirige uma assembleia, também nem se fala sobre tipo de assembleia (religiosa, política, profissional, e assim por diante). Mas conforme o próprio livro, pode-se dizer que trata-se de uma escola sapiencial (Cf. Ecl 12,9). Coélet, o autor do livro, era judeu, conhecedor das tradições culturais e religiosas de seu povo e sensível às correntes internacionais.

“Vaidade das vaidades! Tudo é vaidade. Que proveito tira o homem de todo o trabalho com o qual se afadiga debaixo do sol? Uma geração passa, outra lhe sucede, enquanto a terra permanece sempre a mesma”, assim começa o livro.

“Vaidade das vaidades! Tudo é vaidade”. A palavra vaidade vem do latim vanitas, vanitatis, que significa “vazio”, “oco” ou “vacuidade. “Vanitas” deriva de “vanus” que significa “ocioso”, “vazio” ou “sem valor”. É algo ilusório e sem substância real. É futilidade.

Coélet pretende fazer, em primeiro lugar, um exame empírico-discursivo da existência: a criação, as atividades e a história do homem, e o ser humano em si. A primeira coisa que observa, e que lhe causa o impacto é o vaivém da criação e de todo o humano. Nada é permanente: nem no mundo da natureza, nem no mundo dos assuntos humanos. Tudo é passageiro, provisional, porque em qualquer momento a morte pode intervir para demonstrar a frágil armação que é a vida e os projetos de um ser humano. Para o Coélet a morte é o critério de valorização em todos os planos: diante da morte relativizam-se valores materiais e espirituais, pessoais e sociais. A morte nivela o esforço e o ócio, o riso e o pranto, a justiça e a injustiça, a sabedoria e a necessidade, o bem e o mal (Ecl 9,2-3). Diante da morte todo mundo se nivela. Alguns autores pensam que é o tema central do livro seria a inevitabilidade da morte. Segundo os outros, o escândalo maior é que todos têm que morrer, tanto o justo como o malvado. Os que se acham poderosos, os corruptos, os ladrões, os maus, os malvados, os mentirosos, etc. também se envelhecem e morrem como qualquer outra pessoa.

Não podendo encontrar nenhum significado duradouro, verdadeiramente sólido na vida, especialmente devido à morte que vicia tudo e todos, e põe fim a toda empresa ou obra humana (ou pelo menos põe em risco), Coélet conclui  que tudo é vaidade. Este termo “vaidade”, pela frequência de seu uso é uma das chaves da leitura do livro Eclesiastes. Além disso, o lema “vaidade das vaidades; tudo é vaidade” utiliza a forma superlativa do vocábulo, faz uma afirmação universal, e enquadra o livro como síntese de sua mensagem (Ecl 1,2; 12,8).

A morte deixa descoberto o lado caduco das coisas, sua incongruência e sua vaidade. Não se questiona a possibilidade do êxito ou do prazer na vida (enriqueceu-se, alcançou fama, se tornou sábio etc.) e sim o sentido de todo este afã diante da morte, pelo qual alguém perde tudo que acumulou na vida materialmente (Cf. Ecl 1,12.18-21).

A razão de viver ou o sentido da vida é uma das questões mais profundas e reiterativas que os seres humanos fizeram ao longo dos séculos. Correlatos desta questão é o esforço, vão muitas vezes, de conhecer os eventos futuros da história, e até mesmo o que acontecerá além da existência terrena. A questão da razão de ser não é uma preocupação filosófica, mas corresponde ao desejo de viver com dignidade em face de desafios conflitantes, sejam eles econômicos, culturais, sociais ou políticos até religiosos.

Nossa verdadeira vida não está sedenta de fama, conforto, propriedade ou poder. Porque podemos alcançar todos os itens de nossa lista de desejos, e ainda assim nos sentimos vazios. Podemos ter atingido o ápice de nossa profissão ou carreira, e mesmo assim sentimos que nos falta alguma coisa. O dinheiro e o poder ou a fama não satisfazem aquela fome sem nome que temos na alma. Nossa alma tem fome do significado da vida, ou de aprendermos a viver de tal forma que nossa existência tenha importância ou valor, capaz de modificar o mundo ao menos um pouquinho pela nossa passagem por ele. O que nos frustra e rouba a alegria de nossa vida é esta ausência de significado.

Para nós cristãos, “Temos tudo em Cristo. Que toda alma chegue a ele, seja a que está doente dos pecados do corpo, seja a que foi virada pelos pregos de algum desejo deste século, seja ainda a imperfeita, contanto que progrida numa meditação perseverante, seja a perfeita em múltiplas virtudes: estas todas dizem respeito ao poder do Senhor, e Cristo é tudo para nós. Se queres curar tua ferida, ele é médico; se queimas de febre, ele é a fonte; se és acusado de iniquidade, ele é a justiça; se necessitas de socorro, ele é a fortaleza; se temes a morte, ele é a vida; se desejas o céu, ele é o caminho para lá; se foges das trevas, ele é a luz; se procuras sustento, ele é o alimento. ‘Provai e vede como ele é bom. Feliz o homem que tem nele o seu refúgio!’[Sl 34,9]”(Santo Ambrósio de Milão, + 397).

“Uma geração passa, outra lhe sucede, enquanto a terra permanece sempre a mesma”, disse Coélet. O único que não passa é Deus que para nós Ele é Emanuel, Deus-Conosco. Por isso, o Salmo Responsorial de hoje (Sl 89/90) nos diz: “Vós fazeis voltar ao pó todo mortal, quando dizeis: ‘Voltai ao pó, filhos de Adão!’ Pois mil anos para vós são como ontem, qual vigília de uma noite que passou. Eles passam como o sono da manhã, são iguais à erva verde pelos campos: De manhã ela floresce vicejante, mas à tarde é cortada e logo seca. Ensinai-nos a contar os nossos dias, e dai ao nosso coração sabedoria!”.

Precisamos viver na novidade do amor incondicional de Deus que nos faz avançar para a realização do homem perfeito, o homem que habitam no seu coração a sabedoria e o amor.

A Palavra De Nos Interpela Permanentemente

O modo de viver de Jesus, os valores que ele vive e prega, a igual maneira de ele tratar as pessoas, sua preocupação com a vida do povo em geral e de cada pessoa em particular, sua independência perante a lei religiosa, sua compaixão pelo povo abandonado pelas autoridades chamam muito atenção de todos, especialmente das autoridades. Por se preocupar com a vida do povo, a presença de Jesus se torna uma censura viva para as autoridades que só pensam em sua própria vida e em seu próprio poder. Herodes Antipas, tetrarca da Galiléia, uma das autoridades, ficou perturbado com  a fama de Jesus.

O texto do evangelho de hoje se abre com a palavra “ouvir” e termina com a palavra “ver”. “O tetrarca Herodes ouviu falar de tudo o que estava acontecendo. .... E procurava ver Jesus”. “Ouvir e ver” são os dois termos que contêm toda a experiência de fé que o evangelista Lucas propõe para nós. Por meio da escuta chega-se a conhecer quem é Jesus para associar-se a Ele e vê-lo na sua viagem a Jerusalém onde Ele será cruicicado e morto, e ressuscitado em direção ao Pai. Em Herodes há um escutar que não entende e um olhar que não vê (Lc 8,10).

Curiosamente, a pergunta de Herodes sobre Jesus surge entre o relato da missão dos Doze e o da multiplicação dos pães. Herodes se pergunta: “Eu degolei João. Quem é, pois, este, de quem ouço tais coisas? E procurava ocasião de vê-lo”.

A pergunta de Herodes tem outra profundidade, efetivamente, coincide com a pergunta de todos os que se sentem interpelados pela pessoa e pelo modo de viver de Jesus e pelo testemunho dos discípulos. Herodes Antipas estava cheio de curiosidades porque no meio do povo se falava muito de Jesus, se contava mil coisas sobre Ele, dos seus lábios saiam palavras com poder e autoridade, se contavam fatos extraordinários como os milagres realizados por Ele. Herodes que estava no poder queria ver esse individuo tão “exótico” numa Galiléia tão provinciana. Seu pai, Herodes, o Grande, tinha a curiosidade de conhecer Jesus - menino, rei recém-nascido, mas com o intuito de eliminá-lo (cf. Mt 2,1-23). Uma das maneiras de falar de Deus e com Deus é a “voz de nossa consciência”. Herodes não tinha sua consciência tranqüila: uma voz do fundo de si mesmo lhe recordava seu pecado, sua maldade. Por isso, fica inquieto.

A sabedoria popular diz que há curiosidades maldosas, tais como as de Herodes,... quando permitem abusar de um poder ou de um interesse que elas atribuíram injustamente; quando alimentam o escândalo que elas mesmas exploram ou inventaram. Herodes queria ver Jesus para colocá-lo em sua Corte.

Mas se há curiosidades maldosas, precisamos estar conscientes de que a curiosidade também é o primeiro passo para o encontro e para a fé. O assombro, a surpresa, a provocação são o pórtico que nos introduz no descobrimento dos labirintos da casa e que nos inicia no mistério de uma morada.

A curiosidade é boa, pois ela desperta à vida. Uma criança vive na permanente curiosidade, e pergunta constantemente, pois ela quer saber mais e mais. Para ela o mundo está cheio de surpresas. O sentido da vida consiste em interrogar, em ser interrogado e em se interrogar. Curiosidade é sinônimo de descobrimento; é tensão até um objeto entrevisto ou desejado.

Ao lado da curiosidade há dúvida. A dúvida é o estado de equilíbrio entre afirmação e negação. Quem tem dúvida fica impedido de afirmar ou de negar por falta de dados nas mãos. A dúvida nos empurra para procurar fundamentos para podermos afirmar ou negar ou para podermos ter certeza daquilo que nos faz duvidosos. A incredulidade é, ao contrário, uma ausência da crença. 

Herodes sentiu a curiosidade de querer ver Jesus. Mas com qual finalidade de ele querer ver Jesus? Para armar alguma cilada? Para ouvir da própria boca de Jesus de tudo que o povo fala e comenta? Para pedir de Jesus algum milagre ou alguma ajuda para o povo? Para desacreditá-Lo diante do povo? O texto não fala e por isso, não sabemos. Ele só terá oportunidade de ver Jesus na sua Paixão. Mas Jesus se manterá calado diante de Herodes, pois Herodes agirá de má-fé. Diante do silêncio de Jesus Herodes morrerá, um dia, sem saber quem é Jesus.

Será que nós, chamados de cristãos, ainda sentimos curiosidade por Jesus? Será que já descobrimos esse Jesus na sua profundidade? Será que conhecemos realmente esse Jesus? Será que somente confessamos em Jesus nas definições sem alma e reconhecê-lo nos dogmas frios e secos? Será que paramos de ter curiosidade sobre a pessoa e o modo de viver de Jesus a fim de purificar nossa vida já que somos chamados de cristãos? Podemos ter certeza de que a Palavra de Deus, os ensinamentos de Jesus nos interpelam todas vez que os lermos e meditarmos ou ouvirmos pregação ou retiro a respeito de Jesus.

Dentro deste contexto, podemos dizer que a fé é curiosidade permanente, isto é, assombro que compromete a arriscar-se na aventura, num encontro entrevisto e, em conseqüência, desejado. A fé é curiosidade, de forma que a dúvida lhe é indispensável. Por isso, somente na coragem de fazer uma aventura cheia de riscos é que chegaremos à resposta desejada para afirmar ou negar nossa dúvida. A incerteza e a incompreensão pertencem ao terreno de nossa fé como o oco que espera ser preenchido, como a espera que aguarda o encontro, como a fome que se alimenta com o que pode satisfazê-la.

A pergunta continua fica no ar para cada cristão: “Será que você ainda tem curiosidade de Jesus? Que curiosidade você tem de Jesus?”. Tenho medo de que quando a curiosidade sobre Jesus morrer, morrerá também nossa fé. O evangelho que não mais nos incomoda deixa de ser evangelho. A Palavra de Deus que não nos interroga deixa de ser a Palavra de Deus.

“Quem é esse home, sobre quem ouço falar essas coisas?” E procurava ver Jesus. Somente são os que se aproximarem de Jesus com simplicidade e com um coração puro conseguirão entender gradualmente a identidade de Jesus que tem uma missão salvadora. São muitos as pessoas: jovens e adultos que também em nossa geração desejam ver Jesus. Fisicamente Jesus não está neste mundo. Somos nós o prolongamento de Cristo, pois livremente escolhemos ser cristãos. Temos, então, a missão de dar testemunho, com nossa vida e palavra de que Jesus é a resposta plena de Deus para todas as nossas buscas. Se no mundo não se vê mais Jesus Cristo é porque não se vê mais na vida de cada cristão. Talvez as seguintes palavras de São Paulo possam nos despertar para que voltemos a viver os ensinamentos de Cristo na nossa vida e nos nossos negócios: “Vós sois uma carta de Cristo... escrita não com tinta, mas com o Espírito de Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, em vossos corações” (2Cor 3,3). “Somos para Deus o perfume de Cristo entre os que se salvam e entre os que se perdem” (2Cor 2,15).

P. Vitus Gustama,svd

XXVI Domingo Do Tempo Comum, Ano "A", 27/09/2026

ENTRE O DIZER E O FAZER NA VIDA DO CRISTÃO XXVI DOMINGO DO TEMPO COMUM   ANO “A” I Leitura: Ez 18,25-28 Assim diz o Senhor: 25 “Vós an...