quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Sábado Da XXIII Semana Comum, Ano Par, 12/09/2026

O CORAÇÃO BOM GERA OS BONS FRUTOS PARA OS OUTROS

SÁBADO DA XXIII SEMANA COMUM

I Primeira Leitura: 1Cor 10,14-22 (Ano Par)

14 Meus caríssimos, fugi da idolatria. 15 Eu vos falo como a pessoas esclarecidas. Então, ponderai bem o que eu digo: 16 O cálice da bênção, o cálice que abençoamos, não é comunhão com o sangue de Cristo? E o pão que partimos, não é comunhão com o corpo de Cristo? 17 Porque há um só pão, nós todos somos um só corpo, pois todos participamos desse único pão. 18 Considerai os filhos de Israel: Os que comem as vítimas sacrificais não estão em comunhão com o altar? 19 Então, que dizer? Que a carne de um sacrifício idolátrico tem algum valor? Ou que o ídolo vale alguma coisa? 20 Nada disso. O que eu digo é que os idólatras oferecem seus sacrifícios aos demônios e não a Deus. Ora, eu não quero que entreis em comunhão com os demônios. 21 Vós não podeis beber do cálice do Senhor e do cálice dos demônios; vós não podeis participar da mesa do Senhor e da mesa dos demônios. 22 Ou, quem sabe, queremos excitar o zelo santo do Senhor? Somos porventura mais fortes do que ele?

Evangelho: Lc 6,43-49

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 43 “Não existe árvore boa que dê frutos ruins, nem árvore ruim que dê frutos bons. 44 Toda árvore é reconhecida pelos seus frutos. Não se colhem figos de espinheiros, nem uvas de plantas espinhosas. 45 O homem bom tira coisas boas do bom tesouro do seu coração. Mas o homem mau tira coisas más do seu mau tesouro, pois sua boca fala do que o coração está cheio. 46 Por que me chamais: ‘Senhor! Senhor!’, mas não fazeis o que eu digo? 47 Vou mostrar-vos com quem se parece todo aquele que vem a mim, ouve as minhas palavras e as põe em prática. 48 É semelhante a um homem que construiu uma casa: cavou fundo e colocou o alicerce sobre a rocha. Veio a enchente, a torrente deu contra a casa, mas não conseguiu derrubá-la, porque estava bem construída. 49 Aquele, porém, que ouve e não põe em prática, é semelhante a um homem que construiu uma casa no chão, sem alicerce. A torrente deu contra a casa, e ela imediatamente desabou; e foi grande a ruína dessa casa”.

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Viver Na Comunhão Plena Com o Senhor e Com Os Irmãos

Continuamos a acompanhar a leitura da Primeira Carta de são Paulo aos Coríntios.

O texto que lemos na Primeira Leitura nos fornecem preciosas informações, pela primeira vez no Novo Testamento, sobre o mistério central da Igreja: a celebração da Eucaristia e a doutrina sobre a Eucaristia.

Para falar deste tema, são Paulo retorna o tema base da sessão: pode ou não pode comer carne sacrificada aos ídolos?

Na sua resposta curta são Paulo escreveu: “Meus caríssimos, fujam da idolatria!”. A razão é bem simples, dentro do tema da Eucaristia. A idolatria é uma verdadeira aberração na ordem religiosa e moral, pois nela se inverte completamente a ordem de valores: o Absoluto, Deus, se relativiza, e o relativo se absolutiza. Uma criatura é adorada e o Criador é esquecido. O que é inferior aos homens se considera como Deus ou como algo divino. Em outras palavras, a idolatria é traição a Deus.

A partir disso, são Paulo faz uma comparação entre os rituais de sacrifícios dos pagãos (adoradores dos ídolos) e o ritual cristão da Eucaristia. No ritual pagão se ofereciam carnes em sacrifício aos ídolos. Mas os ídolos jamais comeriam as carnes de sacrifício. Quem as come são os participantes deste ritual. Comer as carnes de sacrifício representa a comunhão dos participantes como seus ídolos.

O cristão tem a Eucaristia como verdadeiro sacrifício, pois Jesus se sacrifica para salvar a humanidade, em vez de sacrificar a humanidade em prol de sua própria vantagem. Jesus se sacrifica e não sacrifica nenhum homem, pois o sacrifício de Jesus é para salvar os homens. Participar da Eucaristia, comer do Pão eucarístico significa entrar plena comunhão com o Deus da vida. Na comunhão, a vida de Cristo passa a ser nossa vida; a missão de Cristo passa a ser nossa missão; o modo de tratar ao ser humano de Cristo passa a ser o nosso maneira de tratar os outros. Ao comungar o Pão eucarístico Jesus passa a ser a vida de nossa vida. Como diz o próprio são Paulo: “Já não sou eu quem vive. É Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). Viver para que o outro possa viver é fazer algo sagrado; é sacrifício; é Cristo que está dentro de mim. Ou melhor dizer, eu estou dentro de Cristo. Se Cristo está dentro de mim; ou se eu estou dentro Cristo, não posso, então, aderir à idolatria, pois isso seria uma traição ao Deus da vida. A idolatria e a Eucaristia não podem jamais coexistir. Não podemos buscar outros deuses com os quais entrar em comunhão, quando estamos em plena comunhão com Cristo, Pão da Vida: “Ora, eu não quero que entreis em comunhão com os demônios. Vós não podeis beber do cálice do Senhor e do cálice dos demônios; vós não podeis participar da mesa do Senhor e da mesa dos demônios”, escreveu são Paulo no texto de hoje.

A união plena com Cristo nos faz entrarmos em união plena com os irmãos da comunidade. precisamente porque comemos do mesmo Pão, que é Cristo, vamos sendo um só corpo e um só pão, os da comunidade.

Tudo que foi dito nos compromete, comungar com Cristo significa que temos que evitar todo tipo de idolatria, adorando aos deuses falsos que nos oferece em abundância nosso mundo. a vida deve ser coerente com a Eucaristia. Não podemos acender uma vela para Deus e outra para o diabo.

Ao mesmo tempo, a Eucaristia nos deve fazer crescer na fraternidade. Já que comemos do mesmo Pão, e escutamos a mesma Palavra salvadora de Deus, logo devemos viver unidos, crescendo em unidade fraterna.

Um Coração Amoroso e Bondoso Produz Os Atos Bondosos

O texto do evangelho deste dia pertence ao Sermão da Planície de Lucas que temos acompanhado até agora.

 Não existe árvore boa que dê frutos ruins, nem árvore ruim que dê frutos bons. Toda árvore é reconhecida pelos seus frutos”, assim Jesus disse no texto do evangelho de hoje. Aquilo que eu faço deriva daquilo que sou. A qualidade de uma árvore determina a qualidade do fruto. Existe árvore que mata e existe a árvore que faz viver ou remediar determinadas doenças. Dizia Santo Agostinho: “Como pode dar frutos sadios uma árvore com a raiz doente? Muda teu coração e verás mudar tuas ações. Arranca a concupiscência e planta a caridade. Da mesma forma que a concupiscência é a raiz de todo mal, a caridade é a raiz de todo bem” (Serm. 72, 4,4)

A palavra chave que dá unidade para o evangelho deste dia é “fruto”. Os frutos denunciam a árvore se é sã ou doente, se é boa ou má. Do mesmo modo o fruto do coração, o que dele trasborda na boca. A palavra denuncia nosso coração. A palavra revela a bondade ou a maldade do coração. O que é bom, da bondade que junta no seu coração tira o bem; e o que é mau, da maldade tira o mal, porque a boca fala daquilo que trasborda do coração: “O homem bom tira coisas boas do bom tesouro do seu coração. Mas o homem mau tira coisas más do seu mau tesouro, pois sua boca fala do que o coração está cheio”, diz-nos o Senhor (Lc 6,45). A vida moral e ética se verifica em seus frutos.

A boca fala do que o coração está cheio”. Quando as palavras são amargas, porque há uma amargura dentro de coração. Quando as palavras são amáveis, é porque o coração está cheio de bondade e isso é que aparece para fora. Tudo que falamos revela quem somos nós. Aquilo que fazemos e falamos manifesta que classe de pessoas nós somos.

O critério fundamental de onde se deve discernir a vida de um cristão será seus frutos, “porque cada árvore é conhecida por seus frutos”. Duas comparações servem a Jesus para explicar a importância das ações humanas. Por um lado, a qualidade do fruto nos diz da qualidade da árvore. Por outro lado, o tipo de fruto nos diz de onde procede. O mesmo acontece com nossa vida. Se nossa vida estiver unida a Jesus e ao seu evangelho, ela dará frutos bons para a convivência.

O que mais importante é que diante de Deus a bondade é que se conta. Por isso, jamais tenhamos medo de ser verdadeiros, de ser pessoas do bem, de ser bondosos. O mal aparentemente é onipotente e onipresente, mas ele não tem futuro, pois se conta diante de Deus. Somente o bem e a bondade têm futuro. Por isso, a bondade e o bem são investimentos que nunca falham. A bondade é a própria perfeição possuída por um ser. A bondade significa também a capacidade que possui um ser de dar ao outro a perfeição que lhe falta. Sejamos bons e bondosos para que tenhamos desde já o nosso futuro com Deus.

O cristão é aquele que vive na terra antecipando o céu. E o céu é o próprio Deus. E Deus é o supremo Bem. Aquele que pratica o bem é porque ele é de Deus. Mas aquele que semeia a maldade, não é de Deus, mesmo que freqüente qualquer tipo de culto religioso.

Em cada Palavra de Deus proclamada e meditada queremos enraizar nossa vida em Deus, de tal forma que Sua vida divina corra por todo nosso ser, e Seu amor circula entre nós criando assim uma verdadeira comunhão de vida com o Senhor para que possamos produzir frutos abundantes de bondade.

Pôr em prática as palavras de Jesus é o fundamento mais sólido da vida de qualquer cristão e de qualquer pessoa de boa vontade, e, portanto, é o melhor critério para distinguir o verdadeiro do falso discípulo. Este é o significado da construção de uma casa sobre a rocha. Somos convidados a escutar a Palavra de Deus, mas sobretudo, a fazer desta Palavra ações concretas de vida. A fé firme que nunca vacila é a fé que se apóia sobre as Palavras de Jesus, como sobre uma rocha, que resiste às tormentas da dúvida porque, como diz São Paulo: “Eu sei em quem coloquei minha fé” (2Tm 1,12).

Hoje, Jesus nos convoca a sermos uma casa construída sobre a rocha da solidariedade, árvore de excelentes frutos, coração que transborda misericórdia. Do contrário, andaremos como um cego sem descobrir a verdadeira direção do Reino da Vida.

“O homem bom tira coisas boas do bom tesouro do seu coração. Mas o homem mau tira coisas más do seu mau tesouro, pois sua boca fala do que o coração está cheio”, diz-nos o Senhor (Lc 6,45).

É um ensinamento sobre a maneira de atuar e as atitude de fundo que se podem ler a partir de duas posições:

Em primeiro lugar, são os fatos, o modo de falar e de atuar, os frutos, o que mostra quem é e como é cada pessoa. É o que resume a famosa frase emblemática de Mt 7,2 que Lucas na recolhe: “Pelos frutos os conhecereis”.

Em segundo lugar, o importante é saber o que levamos dentro de nós, que critérios e que atitudes de fundo que nos movem a atuar. Se o que levamos dentro de nós é “tesouro de bondade”, o que aflorará serão frutos de bondade. Se o que levamos dentro de nós é “tesouro de maldade”, os frutos serão de maldade. “No interior do homem há uma disputa contínua(Santo Agostinho. Serm. 11,12).

Hoje Jesus nos convida a cultivarmos a dimensão interior de nossa pessoa; é aquela que constitui a parte mais profunda e autêntica de nosso ser. Uma dimensão interior que Jesus vê é positivo: tesouro da bondade. Este tesouro de bondade que cada um guarda em seu coração há de cultivar para que dê seu fruto. Trata-se de buscar, definitivamente, renovação do coração. Por isso, é tão importante trabalhar a vida interior de cada pessoa, sua capacidade de reflexão, de escuta, de meditação, de silêncio, pois “A boca fala do que o coração está cheio”.

P. Vitus Gustama,svd

Sexta-feira Da XXIII Semana Comum, Ano Par, 11/09/2026

SER LÍDER AUTOCRÍTICO

Sexta-Feira da XXIII Semana Comum

Primeira Leitura: 1Cor 9,16-19.22b-27 (Ano Par)

Irmãos, 16 pregar o evangelho não é para mim motivo de glória. É antes uma necessidade para mim, uma imposição. Ai de mim se eu não pregar o evangelho! 17 Se eu exercesse minha função de pregador por iniciativa própria, eu teria direito a salário. Mas, como a iniciativa não é minha, trata-se de um encargo que me foi confiado. 18 Em que consiste então o meu salário? Em pregar o evangelho, oferecendo-o de graça, sem usar os direitos que o evangelho me dá. 19 Assim, livre em relação a todos, eu me tornei escravo de todos, a fim de ganhar o maior número possível. 22b Com todos, eu me fiz tudo, para certamente salvar alguns. 23 Por causa do evangelho eu faço tudo, para ter parte nele. 24 Acaso não sabeis que os que correm no estádio correm todos juntos, mas um só ganha o prêmio? Correi de tal maneira que conquisteis o prêmio. 25 Todo atleta se sujeita a uma disciplina rigorosa em relação a tudo, e eles procedem assim, para receberem uma coroa corruptível. Quanto a nós, a coroa que buscamos é incorruptível! 26 Por isso, eu corro, mas não à toa. Eu luto, mas não como quem dá murros no ar. 27 Trato duramente o meu corpo e o subjugo, para não acontecer que, depois de ter proclamado a boa-nova aos outros, eu mesmo seja reprovado.

Evangelho: Lc 6,39-42

Naquele tempo, 39 Jesus contou uma parábola aos discípulos: “Pode um cego guiar outro cego? Não cairão os dois num buraco? 40 Um discípulo não é maior do que o mestre; todo discípulo bem formado será como o mestre. 41 Por que vês tu o cisco no olho do teu irmão, e não percebes a trave que há no teu próprio olho? 42 Como podes dizer a teu irmão: Irmão, deixa-me tirar o cisco do teu olho, quando tu não vês a trave no teu próprio olho? Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho, e então poderás enxergar bem para tirar o cisco do olho do teu irmão”.

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Levar a Boa Nova Para Os Outros É a Missão De Todos Os Batizados

Pregar o evangelho não é para mim motivo de glória. É antes uma necessidade para mim, uma imposição. Ai de mim se eu não pregar o evangelho!”.

No capítulo 9 da 1Cor, são Paulo expõe sua ação apostólica pessoal como modelo para os Coríntios. Modelo em termos de renúncia aos próprios direitos a fim de ajudar os outros. São Paulo nunca quis tirar vantagem de sua condição de apóstolo e de fundador da comunidade de Corinto. Ele não explora a comunidade. Ele simplesmente cumpre a missão que lhe confiada pelo Senhor. E para ele o cumprimento dessa missão é sua glória. Para essa missão ele se dedica totalmente, sem reservas a ponto de dizerAi de mim se eu não pregar o evangelho!”.

Nesta parte central do capítulo ele oferece as motivações profundas da sua atividade apostólica. Ele se dedica a isso não por pura escolha pessoal, nem principalmente por uma necessidade objetiva de quem evangeliza, mas por um impulso interior, dado pelo Senhor e recebido pelo Apóstolo Paulo. São Paulo vive tão profundamente o mistério de Cristo que não consegue silenciá-lo. É algo que vem de dentro para fora e não o contrário. Paulo afirma que se dedica ao Evangelho não tanto por uma escolha deliberada, mas porque esta lhe foi imposta. São Paulo tem dentro de si um impulso tão grande para falar de Cristo que não consegue ficar calado. É algo que vem de dentro para fora e não o contrário. Simplesmente são Paulo não guarda o tesouro para si, e sim anunciá-lo para o povo. Não é guardar o tesouro só para si, e sim dá-lo a conhecer aos outros, tornando-os participantes da mesma obra. Dedicar-se à pregação da Boa Nova é imitar o próprio Senhor que vivia levando a Boa Notícia para o povo. É um serviço contínuo daquilo que Jesus fez na sua vida.

Todo cristão batizado é enviado para evangelizar, isto é, levar a Boa Nova: algo bom, algo edificante, algo fraterno, algo salvífico para todos. Os modos de evangelizar são diversos de acordo com o estado de vida de cada um: como solteiro(a), como casado, como celibatário(a), como religioso(a), e por diversos meios: rádios, TV, jornal/revista, redes sociais (internet, whatsapp, Tiktok, Instagram, blog, youtube etc.). Temos que encaminhar para os outros a Boa Notícia e não FakeNews ou algo semelhante. Se antigamente Jesus deu a ordem aos discípulos para irem pelo mundo a fim de evangelizar (cf. Mc 16,15), hoje em dia, podemos também usar as redes sociais que vão por nós pelo mundo inteiro para que a Boa Nova chegue até as pessoas.

Ser Líder

O texto do evangelho de hoje faz parte do Sermão da Planície de São Lucas. Neste Sermão encontramos varias sentenças de Jesus sobre como devemos conviver com os demais, como devemos tratar os outros? E de que maneira podemos olhar para os defeitos dos outros e os nossos próprios defeitos. O que é indispensável para sermos bons guias?

Pode um cego guiar outro cego? Não cairão os dois num buraco?”, disse Jesus no Evangelho de hoje. Liderar é envolver-se seriamente na vida dos outros. Por isso, para saber como você está se saindo como líder, a resposta está nas pessoas sob a sua liderança. Você deixa as coisas melhores do que as encontrou? As pessoas se aperfeiçoam por causa do convívio com você? Você deixa as pessoas e organizações em melhores condições do que as encontrou? A liderança é a marca que deixamos nas organizações e nas pessoas. Liderança é uma autoridade, pois o líder faz as pessoas crescerem por causa de sua influencia. Por isso, alguém pode ser um chefe, mas nem sempre é um líder. Para ser chefe, alguém precisa ter um cargo. Para ser líder uma pessoa não precisa ter um cargo. Não é preciso ser chefe para liderar.

Liderar não tem nada a ver com o que ganha ou com o lugar onde se senta (cargo), mas tem a ver com a maneira brilhante como alguém trabalha. Todos precisam liderar onde estão estabelecidos e brilhar no lugar em que se encontram.

Se um homem tem o dom de varrer ruas, deve varrê-las como Michelangelo pintava, como Beethoven compunha ou como Shakespeare escrevia. Deve varrê-las tão bem que todas as hostes dos céus e da terra pararão para dizer: ‘Aqui viveu um grande varredor de ruas, que fez um bom trabalho’(Martin Luther King Jr.).

Pode um cego guiar outro cego? Não cairão os dois num buraco?”, perguntou Jesus retoricamente. Jesus pede uma autocrítica para qualquer liderança. Na ausência da autocrítica qualquer líder é incapaz de reconhecer suas fraquezas e limitações e ainda se arrogam o direito de ser juízes para os demais.

Um bom líder tem um agudo senso de autocrítica. Ele reconhece seus pontos positivos e seus pontos negativos. Ele aceita qualquer correção quando houver fundamentos. Ele transforma as críticas em sugestões, pois no seu coração há misericórdia e mansidão. Quanto mais o líder for transparente tanto mais estará capacitado para ajudar o próximo. Um líder que ama, é respeitado. Um líber temido não é respeitado, e ele cria muitos hipócritas e bajuladores ao seu redor. O medo que os outros têm de um líder não mede a autoridade dele e sim seu poder autoritário. Quando um líder apela para a força e o poder é porque não tem mais autoridade nele.

Somente um ser humano livre e consciente é capaz de guiar os demais. Enquanto a pessoa for dominada pelas ambições, pelo egoísmo, pela arrogância, ou pela violência será incapaz de ver melhor e incapaz de guiar os outros. Jesus, precisamente, formou seus discípulos em uma atitude crítica, serena e responsável que lhes permitem ver e amar os outros e a realidade com benevolência. Quem quer conduzir seu próximo pelo caminho do amor, da fidelidade, da retidão, antes deve deixar-se conduzir por Cristo pelo mesmo caminho.

Ser Autocrítico

“Como podes dizer a teu irmão: Irmão, deixa-me tirar o cisco do teu olho, quando tu não vês a trave no teu próprio olho? Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho, e então poderás enxergar bem para tirar o cisco do olho do teu irmão”, continuou Jesus no Seu Sermão da Planície. A misericórdia impede qualquer presunção de criticar os outros. A crítica deve ser feita em direção a si mesmo a fim de conhecer o próprio mal.

Jesus quer nos dizer de outra maneira: Abram os olhos sobre vocês mesmos! Critiquem-se! Sejam vocês mesmos objeto de sua própria crítica! Vocês que percebem facilmente os defeitos dos outros que não pensam como vocês, procurem também ter em conta seus próprios defeitos. Que não condenem uns aos outros, que tratem os outros com mais indulgência. Que vocês sejam compassivos e misericordiosos como Deus Pai que é compassivo e misericordioso.

As palavras de Jesus são um chamado para que descubramos nosso próprio pecado, a “trave” que há em nossos olhos. As palavras de Jesus nos chamam para a coerência e a autoridade moral que devemos ter na correção fraterna. Se assim fizermos, nossa correção fraterna será respeitada.

A revisão de vida é um exercício espiritual eminentemente evangélico: trata-se de reconsiderar-se a si mesmo, de revisar a própria vida e o próprio caminho e os próprios compromissos. Não temos que nos fixar tanto nos defeitos dos demais e sim nos nossos próprios defeitos. Se não, seriamos hipócritas. Muitas de nossas misérias  provém da falta de autocrítica, de não corrigir nossos erros. Não corrigir os erros é uma forma de cometer outros erros. Nunca vamos atingir nossos objetivos ou realizar nossos sonhos se formos incapazes de fazer uma autocrítica.

O evangelho de hoje nos convida a olharmos para o mundo e para os outros com o mesmo olhar de Jesus: um olhar de benevolência. Os olhos são como um espelho no qual se reflete o mundo e os outros. Há pessoas para as quais toda a realidade é triste e está sujeita para lamentações. Como se tudo fosse mal. O mundo toma cor de nosso olhar.

Jesus nos convida a olharmos tudo com seu olhar: um olhar benévolo. Jesus quer nos dizer: “Sejam pessoas consagradas à misericórdia! Sejam benévolos com vocês mesmos e com os outros. Aprendam a olhar com menos severidade. Se tiver algum sentimento de antipatia, que sua antipatia se transforme em humor. Sejam benévolos com o mundo, pois foi Deus quem criou o mundo. E Deus foi o primeiro que se admirou da obra saída de Suas mãos nos primeiros dias do universo: ‘Deus viu que tudo era bom!’ (Gn 1,10b.12b.18b.21b.25b.31). Vivam bem a vida, pois Eu sou a vida (Jo 14,6)”.

Ser benévolo não significa ser indiferente nem ser ingênuo. A palavra “benévolo” deriva de duas palavras: bem e querer. Ser benévolo significa querer sempre o bem para tudo e para todos. Ser benévolo também significa ser responsável, ser bom, ser vigilante, denunciar as ilusões, os valores falsos, e as palavras enganosas. A benevolência é uma responsabilidade e a assunção de um dever. E a razão de nossa benevolência é o próprio Deus da misericórdia que tem paciência para conosco que mesmo que cometamos erros na vida Ele perdoa tudo e sua graça jamais falha.

Enquanto não adquirirmos um olhar misericordioso e benévolo, nós não estaremos em condições de guiar os outros e nada mudará na nossa vida. O que se tem por guia deve “ver” bem, assim também aquele que quer passar de discípulo para mestre.

Na verdade, o que Jesus nos oferece é um processo educativo ético. Segundo Jesus, o mais urgente é tomar consciência da própria hipocrisia e trabalhar sobre ela. Jesus nos apresenta cinco etapas desta pedagogia ética, que para Lucas é uma pedagogia eclesial:

1.      Renunciar a ser juiz dos demais. 2.      Abertura para as palavras de Jesus que me interpelam com amor e esperança. 3.      Reconhecimento dos meus próprios defeitos ou pecados. 4.      Compromisso de ser um ser humano novo e renovado no espírito de Jesus. 5.      Somente assim terei condições de ser guia ou mestre para os outros.

Na vida o viver para os demais, respeitando e aprovando a verdade, não é somente um dever, mas é uma grande felicidade. Somente ao fazer os outros felizes, seremos felizes também.

Através do evangelho de hoje Jesus nos convida a fazermos revisão de nossa conduta, pois muitas vezes vemos e não queremos saber o que vemos, entendemos e não queremos saber o que entendemos, está diante de nós a verdade e retiramos o olhar para não sentir feridos. A verdade liberta, a falsidade dói. O cristão sempre deve estar em estado de aprendizagem.

O Senhor nos reúne em torno da mesa eucarística para nos libertar de nossas diversas escravidões. Ele quer nos enviar como testemunhas suas, mas quer que façamos a experiência de seu amor misericordioso. Ele entregou sua vida para o perdão de nossos pecados. Ele nos fez partícipes de sua vida e derramou em nossos corações o dom de seu Espírito Santo. Por isso, a participação na Eucaristia não é para nós somente um ato de culto para Deus, mas também é a aceitação de nos fazer um com Cristo, de nos identificar com Ele e de anunciá-Lo tanto com as palavras como com a própria vida.

Se queres conservar tua inocência, não consintas nas más ações dos outros, nem julgues precipitadamente suas intenções” (Santo Agostinho. Epist. Ad cath. 2,4) 

P. Vitus Gustama,svd

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Quinta-feira Da XXIII Semana Comum, Ano Par, 09/09/2026

VIVER NA MISERICÓRDIA DIVINA É VIVER NO AMOR SEM FRONTEIRAS

Quinta-Feira da XXIII Semana Comum

Primeira Leitura:1Cor 8,1b-7.11-13 (Ano Par)

Irmãos, 1b o conhecimento incha, a caridade é que constrói. 2 Se alguém acha que conhece bem alguma coisa, ainda não sabe como deveria saber. 3 Mas se alguém ama a Deus, ele é conhecido por Deus! 4 Quanto ao comer as carnes de animais sacrificados aos ídolos, nós sabemos que um ídolo não é nada no mundo, e que Deus é um só. 5 É verdade que alguns são chamados deuses, no céu ou na terra, e muita gente pensa que existem muitos deuses e muitos senhores. 6 Para nós, porém, existe um só Deus, o Pai, de quem vêm todos os seres e para quem nós existimos. E, ainda, para nós, existe um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual tudo existe, e nós também existimos por ele. 7 Mas nem todos têm esse conhecimento. De fato, alguns habituados, até o presente, ao culto dos ídolos, comem da carne dos sacrifícios, como se ela fosse mesmo oferecida aos ídolos. E assim, a sua consciência, que é fraca, fica manchada. 11 E então, por causa do teu conhecimento, perece o fraco, o irmão pelo qual Cristo morreu. 12 Pecando, assim, contra os irmãos e ferindo a consciência deles, que é fraca, é contra Cristo que pecais. 13 Por isso, se um alimento é ocasião de queda para meu irmão, nunca mais comerei carne, para não escandalizar meu irmão.

Evangelho: Lc 6,27-38

Naquele tempo, falou Jesus aos seus discípulos: 27 “A vós que me escutais, eu digo: Amai os vossos inimigos e fazei o bem aos que vos odeiam, 28 bendizei os que vos amaldiçoam, e rezai por aqueles que vos caluniam. 29 Se alguém te der uma bofetada numa face, oferece também a outra. Se alguém te tomar o manto, deixa-o levar também a túnica. 30 Dá a quem te pedir e, se alguém tirar o que é teu, não peças que o devolva. 31 O que vós desejais que os outros vos façam, fazei-o também vós a eles. 32 Se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Até os pecadores amam aqueles que os amam. 33 E se fazeis o bem somente aos que vos fazem o bem, que recompensa tereis? Até os pecadores fazem assim. 34 E se emprestais somente àqueles de quem esperais receber, que recompensa tereis? Até os pecadores emprestam aos pecadores, para receber de volta a mesma quantia. 35 Ao contrário, amai os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai sem esperar coisa alguma em troca. Então, a vossa recompensa será grande, e sereis filhos do Altíssimo, porque Deus é bondoso também para com os ingratos e os maus. 36 Sede misericordiosos, como também o vosso Pai é misericordioso. 37 Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai, e sereis perdoados. 38 Dai e vos será dado. Uma boa medida, calcada, sacudida, transbordante será posta no vosso colo; porque com a mesma medida com que medirdes os outros, vós também sereis medidos”.

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A Caridade Fraterna Está Acima De Nosso Conhecimento

Irmãos, quanto ao comer as carnes de animais sacrificados aos ídolos, nós sabemos que um ídolo não é nada no mundo, e que Deus é um só. ... Se um alimento é ocasião de queda para meu irmão, nunca mais comerei carne, para não escandalizar meu irmão.”, escreveu são Paulo aos Coríntios.

No dia anterior, são Paulo nos falou sobre o casamento e o celibato. Agora surge outra questão: é permitido ou não comer carne que foi oferecida para os ídolos nos templos pagãos? Na época de são Paulo, a maior parte das carnes vendidas ao povo provinha dos templos, onde tinham sido oferecidas e consagradas para as divindades. Além disso, havia no pátio dos templos banquetes sagrados dos quais todas as pessoas podiam participar como sinal de comunhão com a divindade. Aqueles cristãos de Corinto, antes de converter-se, estavam acostumados a participar nos banquetes deste tipo em honra a tal deus ou a tal deusa, comendo carne gratuitamente e celebrando festa com a comunidade dos adoradores dos deuses.

A razão parece válida: como já sabem (a sabedoria dos gregos outra vez) que tais deuses não existem, porque somente existe um Deus, o Pai de Jesus. Por isso, poderiam comer tranquilamente essa carne, comparando-a, por exemplo, nos vendedores da carne ou quando participam de um banquete para o qual foram convidados.

Esta razão já sabem os mais “fortes”, isto é, os que são libertados de escrúpulos. Mas há outros irmãos que são mais “débeis”. São Paulo quer que estes irmãos de consciência mais delicada sejam respeitados, porque poderiam se escandalizar. Por isso, são Paulo lhes diz: “Irmãos, o conhecimento incha, a caridade é que constrói. Se alguém acha que conhece bem alguma coisa, ainda não sabe como deveria saber. Mas se alguém ama a Deus, ele é conhecido por Deus!”. A “sabedoria” dos fortes “perece o fraco, o irmão pelo qual Cristo morreu”.

O conhecimento (humano) incha e constrói altares para si mesmo, se crê imortal. Mas tem pés de barro, como os homens. Ao contrário, o conhecimento enriquecido com o amor faz coisas belas na vida e na sociedade, e faz mais feliz o homem do que um mero saber. O conhecimento cristão autêntico deve estar enraizado no amor (Fl 1,9-10)

A ciência humana "deificada", "autossuficiente" não molda o coração humano para que ele viva a experiência de ser feliz fazendo os outros felizes. Por outro lado, a ciência que nos torna servos dos outros e admiradores do poder criativo de Deus, nos faz felizes em nossa pequenez, porque descobrimos o Infinito no qual podemos permanecer deliciosamente.

Aprendamos, junto ao saber humano, a sabedoria divina do amor que conhece e respeita os demais e os anima, que compreende os demais e os perdoa, que sabe da dignidade dos demais e lhes faz felizes como realmente são: pessoas, filhos(as) de Deus. O critério da caridade fraterna com os irmãos é mais importante do que o critério de conhecimento.

Em rigor, se poderia comer carne imolada aos deuses num contexto não sagrado. Mas se há alguém a quem isso vai escandalizar, então devemos renunciar ao nosso direito: “Por isso, se um alimento é ocasião de queda para meu irmão, nunca mais comerei carne, para não escandalizar meu irmão”, escreveu são Paulo (1Cor 8,13).

Entre nós não seria exatamente o caso de idolatria. Mas há muitos outros em que meus “direitos” podem chocar com a consciência delicada de um irmão: maneiras de falar e de atuar que em si não sejam reprováveis, mas que podem ocasionar que os outros se debilitem em suas convicções.  Então vale o argumento de são Paulo: “Por causa do teu conhecimento, perece o fraco, o irmão pelo qual Cristo morreu.  Pecando, assim, contra os irmãos e ferindo a consciência deles, que é fraca, é contra Cristo que pecais(1Cor 8,11-12).

Um pode ser “progressista” em suas ideias e em seus costumes. Porém, a delicadeza para com a consciência dos demais é uma finura ou delicadeza espiritual que se pode exigir de nós como uma das maneiras concretas da caridade fraterna. O respeito ao irmão está acima de nosso “conhecimento” e de nosso “direito”. Estamos, na verdade, no binômio da Carta: a “gnosis” (o conhecimento) e a “ágape” (a caridade). A posição de são Paulo é clara: “O conhecimento incha, a caridade é que constrói (1Cor 8,1b).

Não podemos fazer de nossa fé algo meramente racional, pois isto pode nos levar a criarmos uma religião meramente personalista, atuando conforme nossas crenças e convicções pessoais sem nos importar se com isso pisoteamos os demais ou escandalizamos os outros. A fé se vive na comunidade. Por isso, não podemos perder de vista que no fundo deve estar o amor a Deus e o amor ao próximo.

Somos Chamados a Ser Sinal Do Amor Misericordioso de Deus Neste Mundo

Estamos acompanhando o Sermão da Planície do Evangelho de Lucas (Lc 6,20-49). Na passagem do evangelho de hoje o evangelista Lucas resumiu vários conselhos dados por Jesus, e que Mateus agrupou no Sermão da Montanha (Mt 5-7). Esses conselhos são umas atitudes evangélicas essenciais para qualquer cristão ou qualquer pessoa de boa vontade.

Sede misericordiosos, como também o vosso Pai é misericordioso. Amai os vossos inimigos e fazei o bem aos que vos odeiam, bendizei os que vos amaldiçoam, e rezai por aqueles que vos caluniam”.

O evangelho não inventou novos valores. O próprio perdão, expressão máxima do amor, faz parte de toda vida numa sociedade que queira ser duradoura. Mas o exemplo de Cristo é um estímulo poderoso que pode nos dar fortaleza de chegar ao extremo no amor que perdoa. Sem amor os mais formosos valores podem degenerar em orgulho, em autossuficiência, em farisaísmo, em exibicionismo, em intolerância, em fanatismo, em legalismo e assim por diante (cf. 1Cor 13,1-13). O amor nos impede de cairmos em moralismo e rigorismo sem flexibilidade.

Sede misericordiosos, como também o vosso Pai é misericordioso. No Antigo Testamento ouvimos ou lemos esta frase: “Sejam santos, pois Deus é santo(Lv 19,2). O evangelho de Mateus que cita bastante o Antigo Testamento (44 vezes) e faz muitas alusões ao Antigo Testamento (130 vezes) escreveu no Sermão da Montanha esta frase: “Sede perfeitos como o Pai do céu é perfeito(Mt 5,48).

Para o evangelista Lucas a santidade e a perfeição consistem na prática da misericórdia. Por isso, ele registrou no seu evangelho a seguinte frase no Sermão da Planície: “Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36).

O que significa a palavra “Misericórdia”. É a tradução da palavra hebraica RAHAMÎNS, que deriva da palavra REHEM. Rehem quer dizer o útero materno. O útero materno recebe, mantém e dá a vida, oferecendo ao feto, a cada segundo tudo de que ele necessita para viver. O amar do Pai, a Palavra de Deus e Jesus Cristo são como o útero materno que alimenta, cuida, mantém e dá vida. A vida, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo alimenta o mundo, sustenta o mundo; o mundo quer dizer todos os seres humanos.

Em latim, a palavramisericórdia” é formada por três palavras: MISERI- COR- DARE.Miseri” significa miserável. “Cor, cordis” significa coração. E “Dare” significa dar. Literalmente MISERICÓRDIA significa dar o coração ao miserável, da parte de Deus. E da parte do homem deve manifestar-se o CREDO. A palavraCREDO” provém de duas palavras latinas: COR, CORDIS= Coração, e “DARE” = dar.

Além da misericórdia, “Amai os vossos inimigos e fazei o bem aos que vos odeiam, bendizei os que vos amaldiçoam, e rezai por aqueles que vos caluniam”, disse Jesus.

Inimigo” é uma palavra muito forte. Geralmente se refere àqueles que estão em estado de guerra. Pode também ser usada para descrever grupos ou indivíduos que oprimem outros, que algemam sua liberdade e impedem seu crescimento. Inimigo também é alguém que se coloca no caminho da nossa liberdade e dignidade. É alguém a quem evitamos e com quem nos recusamos comunicar. São os que nos odeiam, nos amaldiçoam, nos injuriam, os que nos roubam a alegria de viver, os que nos comentam com maldade e assim por diante. Todas essas pessoas não são idéias nem fantasmas irreais, e sim são pessoas de carne e osso. Nem sempre temos coragem de dizer que temos inimigos, pois esta palavra é muito forte.

Porém, consciente ou conscientemente a atitude de alguém de não querer se comunicar com seu rival/inimigo vai virar a antipatia e a antipatia pode se transformar em mágoa; a mágoa se torna raiva e a raiva vai virar ódio. O ódio é como uma gangrena: devora a pessoa. O ódio é igual alguém a tomar o veneno e espera que o outro morra. Todas as nossas recusas em nos comunicarmos com os outros e nos abrirmos a eles encerram-nos na prisão. Em vez de nos ajudar a crescermos no amor, no perdão e na abertura, esse processo pode nos fechar em formas sutis de depressão e inércia. Nesse caso somos prisioneiros de nós mesmos ou do nosso grupo.

Amai... Fazei o bem... Desejai-lhes o bem... Rogai por eles... Daí... etc.”. Tudo isso não são idéias nem sentimentos e sim atos reais e atitudes concretas. Nisso percebemos que não é fácil viver o evangelho. É preciso fazer e ter a experiência pessoal com Cristo para podermos viver tudo isso. Jamais você desista de ser boa pessoa. Ser boa pessoa significa estar com Deus. Jamais desista semear o bem e a bondade onde estiver e por onde passar.

O ensinamento essencial de Jesus é que nosso amor há de ser universal libertando-nos das comunidades naturais: a família, a nação, a etnia nas quais se exerce ou se vive o amor quase espontaneamente. É preciso nós irmos além das fronteiras, pois o amor sempre vai além das fronteiras: “Se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Até os pecadores amam aqueles que os amam. E se fazeis o bem somente aos que vos fazem o bem, que recompensa tereis? Até os pecadores fazem assim”, disse Jesus. A solidariedade, o amor, a compaixão, não é um bem em si, há que praticá-los também para os pecadores, os malvados, os egoístas, pois o amor é o valor que convence até os ateus, os desesperados e desesperançosos. O amor sem fronteiras é muito mais exigente do que todas as leis psicológicas e sociais. O amor deve alcançar as dimensões de toda a humanidade: inimigos, adversários, maldosos, maliciosos e assim por diante. É um amor desinteressado e gratuito: “Amai os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai sem esperar coisa alguma em troca”. É amar como Deus ama, imitando o amor infinito de Deus, pois “Deus é bondoso também para com os ingratos e os maus”, e ser um sinal de amor do Pai que ama todos os homens que “faz nascer seu sol igualmente sobre maus e bons e cair a chuva sobre justos e injustos” (Mt 5,45).

Portanto, o texto do evangelho de hoje é uma chamada a construirmos uma nova relação com Deus a partir de um novo comportamento com os demais. O primeiro mandamento que Jesus deu aos seus seguidores é superar o ódio, a vingança e o rancor: “Amai os vossos inimigos e fazei o bem aos que vos odeiam, bendizei os que vos amaldiçoam, e rezai por aqueles que vos caluniam”. Nenhum cálculo humano deve orientar a pratica do amor autêntico e eficaz. Os seguidores de Jesus, ao amar os inimigos, imitam a bondade de Deus de Quem recebe o perdão de seus pecados e este amor é a resposta agradecida ao Deus da misericórdia. O amor dos seguidores de Jesus deve ser uma ação e uma tarefa, o amor deve ser eficaz e alcançar, inclusivo, aqueles que não o merecem: os inimigos. As palavras de Jesus supõem uma nova atitude, supõe a conversão e a aceitação plena do conteúdo dos ensinamentos de Jesus, supõem construir um novo modelo de sociedade porque não pode haver uma comunidade autêntica sem a justiça e o perdão necessário para restabelecer a comunidade. No entanto, o perdão nunca pode servir de pretexto para ocultar a ausência de justiça. Nosso amor não pode encobrir injustiças e desigualdades. Amar, verdadeiramente, é andar na verdade.

É bom nos relembrarmos novamente que o estilo de atuação que Jesus pede a todos os cristãos é:

  • Amem seus inimigos.
  • Façam o bem aos que os odiaram.
  • Abençoem aqueles que os amaldiçoaram.
  • Rezem pelos que os injuriaram.

O que nos custa é cumpri-los, adequar nosso estilo de vida a estes ensinamentos de Jesus. Somos chamados a ter bom coração com todos: não julgar, não condenar, não injuriar, não agredir, mas rezar, perdoar e ser compassivo. A misericórdia é um especial poder do amor, que prevalece sobre o ódio, a infidelidade, a deslealdade, a ingratidão. Como diz João Paulo II: “Esse amor misericordioso é capaz de curvar-se ante o filho pródigo, ante a miséria humana e, sobretudo, ante a miséria moral, ante o pecado. A misericórdia se manifesta em seu aspecto verdadeiro e próprio quando valoriza, promove e explicita o bem em todas as formas de mal existente no mundo e no homem” (Dives in misericórdia, no.6).

P. Vitus Gustama,svd

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Quarta-feira Da XXIII Semana Comum, Ano Par, 09/09/2026

A VIDA ENRAIZADA EM CRISTO NO LEVA A VIVERMOS  DE ACORDO COM OS VALORES CRISTÃOS

Quarta-Feira da XXIII Semana Comum

Primeira Leitura: 1Cor 7,25-31

Irmãos, 25 a respeito das pessoas solteiras, não tenho nenhum mandamento do Senhor. Mas, como alguém que, por misericórdia de Deus, merece confiança, dou uma opinião: 26 Penso que, em razão das angústias presentes, é vantajoso não se casar, é bom cada qual estar assim. 27 Estás ligado a uma mulher? Não procures desligar-te. Não estás ligado a nenhuma mulher? Não procures ligar-te. 28 Se, porém, casares, não pecas. E, se a virgem se casar, não peca. Mas as pessoas casadas terão as tribulações da vida matrimonial; e eu gostaria de poupar-vos disso. 29 Eu digo, irmãos: o tempo está abreviado. Então, que, doravante, os que têm mulher vivam como se não tivessem mulher; 30 e os que choram, como se não chorassem, e os que estão alegres, como se não estivessem alegres, e os que fazem compras, como se não possuíssem coisa alguma; 31 e os que usam do mundo, como se dele não estivessem gozando. Pois a figura deste mundo passa.

Evangelho: Lc 6,20-26

Naquele tempo, 20 Jesus, levantando os olhos para os seus discípulos, disse: “Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus! 21 Bem-aventurados vós que agora tendes fome, porque sereis saciados! Bem-aventurados vós que agora chorais, porque havereis de rir! 22 Bem-aventurados sereis, quando os homens vos odiarem, vos expulsarem, vos insultarem e amaldiçoarem o vosso nome, por causa do Filho do Homem! 23 Alegrai-vos, nesse dia, e exultai, pois será grande a vossa recompensa no céu; porque era assim que os antepassados deles tratavam os profetas. 24 Mas, ai de vós, ricos, porque já tendes vossa consolação! 25 Ai de vós que agora tendes fartura, porque passareis fome! Ai de vós que agora rides, porque tereis luto e lágrimas! 26 Ai de vós quando todos vos elogiam! Era assim que os antepassados deles tratavam os falsos profetas.

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Seguir a Cristo e Ajudar a Igreja a Partir Do Estado De Vida e Do Carisma De Cada Um

Através do texto da Primeira Leitura de hoje, são Paulo nos apresenta outra tensão que existia na comunidade de Corinto. Trata-se de diversas concepções da vida sexual, e concretamente, da vida do matrimônio e do celibato. Provavelmente as posturas iam de extremo a outro extremo: dos que defendiam por uma liberdade total, seguindo os costumes pagãos, até os que desprezavam a vida sexual e o matrimônio e pregavam a abstinência total.

Nos versículos anteriores (1Cor 7,12-16) são Paulo falou muito sobre o casamento e sobre a indissolubilidade matrimonial. Agora fala sobre o celibato. É também opção pessoal. No entanto, são Paulo privilegia o celibato como estado de maior liberdade em relação aos homens e a Deus. Por isso, ele recomenda. Porém é a opinião de são Paulo e não é a lei de Deus: “Irmãos, a respeito das pessoas solteiras, não tenho nenhum mandamento do Senhor. Mas, como alguém que, por misericórdia de Deus, merece confiança, dou uma opinião...(1Cor 6,25). São Paulo, com muito cuidado, diz sua opinião. Os três estados são bons: o dos solteiros/celibatários, o dos casados e o dos viúvos.

O que são Paulo prefere fazer é “relativizar” o tema e pedir a todos que, cada um em seu estado, se dedica a fazer o bem, a trabalhar pelo Reino, sobretudo, tendo em conta como era a opinião da época, que era iminente a volta do Senhor: “Eu digo, irmãos: o tempo está abreviado. ... Pois a figura deste mundo passa(1Cor 7,29.31). Como no seu tempo era muito viva e inquietante a espera da parusia do Senhor, são Paulo aproveita a ocasião e diz que o celibato é o melhor estado de vida porque, com o fim do mundo, que julgava iminente, uma pessoa casada, com família, sofreria muito mais. Mas isto é a opinião de são Paulo e não a lei de Deus. Então é importante recordar que o contexto histórico está marcado pela intensa expectativa da Parusia (segunda vinda) do Senhor, atitude que são Paulo critica a ponto de ele dizer aos Tessalonisenses: “Quem não quiser trabalhar, não tem o direito de comer(2Ts 3,10), pois ficam esperando a parusia na passividade.

São Paulo já sabe que a maioria se casa (Seu alto conceito sobre o matrimonio, são Paulo o expressa, sobretudo, em Ef 5), e que alguns já estão viúvos, enquanto que outros, como ele mesmo, optaram pelo celibato, para dedicar todas as forças à evangelização.

Soa Paulo diz aos Coríntios (e a todos nós) que continuem no estado em que se encontram quando se converteram: não abandonem o matrimônio ou o celibato, e que cada um cumpra a vontade de Deus e trabalhe em favor do Reino porque o tempo urge e há que aproveitá-lo.

Celibato e casamento são duas opções de igual valor, ainda que sejam vocações distintas. Afinal, o celibatário vem de uma família ou fruto de um casamento. Uma não é mais importante do que outra. Ao contrário, elas se completam. Cada um, em seu estado, se compromete a viver o Evangelho de Cristo, tendo em conta os valores superiores que dão sentido a tudo que cada um faz: os casados com sua vida de amor e de educação de seus filhos; os que optaram pelo celibato, a partir do próprio carisma e da missão recebida na Igreja. Todos têm que ser fieis a Cristo e ser sinais criveis de Cristo no mundo. As duas  são a vocação humana para ser feliz.

Ser Feliz Em Cristo

Ao descer da Montanha onde Jesus escolheu os Doze Apóstolos (Lc 6, 12-19) começa em Lucas o que os autores chamam o “Sermão da Planície(Lc 6,20-49). Jesus proclama sua mensagem no monte (Sermão da Montanha- Mateus) ou na planície (Sermão da Planície- Lucas). A revelação de Deus ultrapassa os habituais lugares sagrados e interpela o homem em qualquer espaço.

Neste sermão da Planície há três seções apresentadas. Primeiro, o anúncio de salvação aos “pobres” e os ais para os “ricos(Lc 6,20-26). Somente quem escutou e acolheu a Boa Nova anunciada por Jesus, tem condições para seguir a Jesus e para entrar no Reino de Deus. Quem fica agarrado às coisas sem espírito de partilha impede de seguir a Jesus. Segundo, o amor para os inimigos (Lc 6, 27-38). O amor aos inimigos faz parte do mandamento do amor: “Amai o teu próximo como a ti mesmo”. O inimigo faz parte de nosso próximo. O amor cristão não conhece fronteiras, pois ele é universal. Deus ama a todos (cf. Mt 5,44-45). Amar como Deus-Pai supõe amar até os inimigos, oferecendo o perdão. Para amar de verdade o cristão tem que aprender a perdoar.  Deus não se cansa de perdoar, pois não se cansa de amar. Somente quem fizer a experiência do amor do Pai celeste, tem força para amar aos inimigos, isto é, sempre querer o bem para todos independentemente daquilo que eles cometeram. Não se trata de acariciar quem pratica o mal, mas mostrar para ele que conviver como irmãos é mais edificante, pois um cuida do outro e um proteja o outro, um ajuda o outro. Terceiro, apresentam-se cinco parábolas para falar do verdadeiro discípulo de Jesus (Lc 6,39-49). Os cristãos devem estar cheios de amor e existir para os outros para ser de Deus, e estar conscientes de sua responsabilidade, não sendo guia cego e ser permanentes discípulos, isto é, não parar de aprender, e os demais ensinamentos nesta parte que indicam como deve ser discípulos de Jesus.

O texto do evangelho de hoje, que inicia o Sermão da Planície, nos apresenta as bem-aventuranças como síntese da mensagem cristã, como projeto de felicidade. A felicidade para todos é o projeto de Jesus. A santidade é o projeto individual-pessoal.

Exegeticamente, o gênero de bem-aventurança não é novo no Novo Testamento, nem tampouco é exclusivo dos evangelhos. O Antigo Testamento nos apresenta numerosos exemplos de bem-aventuranças. Só no livro de Salmos encontramos mais de vinte vezes (cf. Sl 40,2; 127,1 etc.). O Apocalipse de São João rima seu texto com sete bem-aventuranças (Ap 1,3; 14,13; 16,15;19,9; 20,6; 22,7; 2214).

Jesus se dirige à multidão de discípulos que O seguem e confiam nele com felicitações. São homens, mulheres e crianças pobres vindos de todas as partes. Perderam tudo e somente lhes fica sua esperança em Deus. A eles Jesus disse: felizes vocês que não viram sua pobreza como um obstáculo para desfrutar da felicidade que o Reino traz. Essas palavras são uma contradição flagrante contra a mentalidade vigente. Para a ideologia imposta pelos poderosos do mundo, unicamente são felizes os que possuem terras, dinheiro e coisas (bens materiais). Jesus afirma que as coisas, as terras e a riqueza não podem fazer feliz o homem, pois a felicidade não está nas coisas e sim está dentro do próprio homem, está na fraternidade, na partilha, na vivência do amor misericordioso, na justiça e na caridade e assim por diante. Os bens materiais continuam sendo alheios para o homem e serão deixados assim que o homem deixar de viver aqui na terra. O homem precisa de Deus e de outro homem  para ser ele mesmo. O homem só alcançará sua felicidade na medida em que ele conseguir fazer o outro feliz.

Encontramos paralelamente as bem-aventuranças em Mateus e Lucas, mas cada evangelista tem suas particularidades. Em Mateus há oito bem-aventuranças (Mt 5,1-12), enquanto que em Lucas, quatro e mais quatro maldições. Mateus insiste na pobreza “espiritual” (os pobres no espírito), isto é, a atitude interior. Lucas, ao contrário, se dirige aos pobres reais, à classe social daqueles que são mais pobres materialmente/fisicamente do que os demais. E esta insistência particular de Lucas é ainda reforçada por: o anúncio de uma mudança total das situações e a oposição entre “bem-aventuranças” e “maldiçoes” (“os ais”).

A interpretação das bem-aventuranças “segundo Mateus” convida todos os homens, ricos e pobres para o desprendimento espiritual e para a conversão do coração.

A interpretação das bem-aventuranças “segundo Lucas” convida todos os homens, ricos e pobres, a transformarem as estruturas da sociedade para que haja menos pessoas desfavorecidas e que não haja os empobrecidos. As bem-aventuranças somente podem ser compreendidos a partir da consciência de que Deus é amor (cf. 1Jo 4,8.16) por todos os seus filhos. Por isso, é necessário compreender que o amor de Deus se mede não pelo mérito do homem e sim pelo demérito; não pela qualidade, mas pela necessidade.  Os pobres são aqueles que, por definição, estão em necessidade. Por isso Deus intervém. A justiça de Deus é tirar de quem tem, até tem em supérfluo, e dar a quem nada tem, como concretização da fraternidade. Se todos são filhos e filhas de Deus da misericórdia (Lc 6,36), logo, todos são irmãos. Se todos são irmãos em Cristo, então todos devem cuidar-se mutuamente. Deus, como Pai de todos, não estará contente, se um dos seus filhos não estiver feliz. E ninguém pode estar em plena tranqüilidade diante de Deus, se um irmão estiver passando fome ou por alguma necessidade básica para sua vida. Ser filho de Deus é ser irmão do outro.

Na versão de Lucas das aventuranças, Jesus chama “felizes” ou “bem-aventurados” para quatro classes de pessoas: os pobres, os que passam fome, os que choram e os que são perseguidos por causa da fé. Jesus felicita aos pobres que O acompanham porque eles não colocam sua esperança no poder, no prestígio ou no dinheiro, mas em Deus que salva e na partilha do que se tem e do que se é.

Além dos pobres, são considerados também bem-aventurados os que passam fome. A fome real do pobre é não tem o que comer. É a fome de Lázaro que quer matar a fome com o que caia da mesa do rico (Lc 16,21); a fome dos pobres no deserto que Jesus saciou (Lc 9,17). O pobre é aquele que que não tem o que comer e não pode saciar-se materialmente. A fome é sua situação constante. O pobre pode morrer de outra forma, mas de fome não pode, pois o cristão existe para partilhar o que tem para quem nada tem.

São felicitados também por Jesus os que estão chorando. O choro aqui é a manifestação de dor do pobre faminto, que, atingido por todas as outras aflições, grita sem remédio e chora. O pramnto aqui mostra a impotência diante do mal. Também Jesus chorará, porém não por si mesmo e sim por Jerusalém (Lc 19,41).

E ele dirige seu “ai” para outras quatro classes de pessoas: os ricos, os que estão saciados, os que riem e os que são adulados pelo mundo.

Os ais dirigidos aos ricos não é um grito de vingança. A conversão é possível para os ricos. Todos devem saber que os bens são um presente de Deus. antes de nosso nascimento já tinha tudo na terra. Possuir os bens em vez de partilhá-los é o fechamento à misericórdia para os irmãos em necessidade e o excluir-se da misericórdia do Pai (cf. Tg 2,13). Possuir os bens materiais sem partilhá-los aos necessitados é negar os bens como dom de Deus; é excluir a fonte de todos os bens (Deus). Consequentemente,  os bens possuídos encerram o homem na idolatria. Quando Deus for esquecido como dom de todos os bens, haverá mais corrupção, desonestidade, injustiça, roubalheira etc. e consequentemente haverá número cada vez mais crescente de pobres e empobrecidos.

Trata-se, portanto, de quatro antíteses. São como as antíteses que Lucas põe nos lábios de Maria de Nazaré em seu Magnificat: Deus derruba de trono os poderosos e exalta os humildes; saciou de bens os indigentes e despediu os ricos de mãos vazias (cf. Lc 1,52-53). É o desenvolvimento daquilo que Jesus havia anunciado em seu discurso programático em Nazaré: Ele foi enviado para os pobres, os cativos, os cegos e os oprimidos (cf. Lc 4,14-22).

O projeto de Jesus para todos nós é a felicidade. Ele veio para trazer vida em abundância (Jo 10,10). Felizes os pobres; felizes os que agora passam fome; felizes os que choram; felizes os que são odiados por causa do Filho do Homem. Trata-se de situações reais, de circunstâncias concretas e históricas. O advérbio “agora” reforça mais ainda essa impressão.

Jesus me convida, em primeiro lugar, a olhar para minhas próprias misérias, minhas pobrezas reais, minhas fomes reais, meus prantos reais, os desprezos reais que sofro. Em que sou um miserável? Em que sou um pobre? De que eu tenho fome? Quais são desprezos que eu sofri ou tenho sofrido?

Em segundo lugar, Jesus me convida a olhar ao meu redor para esses mesmos setores de miséria, dos pobres, dos sofredores, dos famintos, dos desprezados. Sou convidado por Jesus a partilhar minha felicidade com os outros, para dividir com o necessitado daquilo que eu tenho, para levar consolação para os que vivem nos prantos, para levar o amor para aqueles que sofrem de desprezo. Se eu fizer tudo isto e mais do que isto, estarei mostrando para os outros que estou no Reino de Deus embora eu ainda esteja neste mundo. Desta maneira, para mim Jesus vai dizer: “O reino de Deus é vosso”, pois ao matar a fome do outro com o que eu tenho, eu sou saciado por Deus (cf. Mt 25,31-46). Ao ajudar os outros na sua carência do essencial, não somente aliviamos sua dor. É muito mais do que isso! Queremos mostrar que estamos no Reino de Deus onde não há fome, não há desprezo, não há pranto, pois todos se preocupam com todos; porque cada um se torna irmão para o outro; porque cada um se torna ocasião de salvação para o outro.

Hoje Jesus convida todos nós, pobres e ricos, a vivermos a verdadeira pobreza evangélica. A verdadeira pobreza evangélica é a pobreza do homem que desapega seu espírito de todas as coisas que tem, remete a Deus toda preocupação pelas coisas temporais e vive neste mundo como peregrino no caminho até a possessão eterna de Deus partilhando o que se tem para com o irmão necessitado. A pobreza assim entendida mantém a alma aberta a Deus, em atitude de total “expectativa”, pois tudo espera de Deus, e mantém o coração aberto para o próximo que necessita de nossa ajuda; cria um clima espiritual propício à docilidade interior, à oração e à união com Deus, porque ensina o homem a viver em contínua dependência do Criador. O apego às coisas passageiras fecha o coração do homem diante de Deus e diante de seu próximo. Um coração cheio de coisas terrenas fica cego diante da transcendência e diante da miséria alheia. A pobreza evangélica, por sua vez, gera a justiça e a misericórdia, ensina a partilhar o que se tem e o que se é com quem não tem para viver uma vida digna, a alimentar a esperança, a educar para a paz, para o diálogo, para o serviço do próximo, a aumentar o amor e produz serenidade e alegria espiritual. Esta é a mensagem revolucionária que nosso Senhor nos trouxe. Se tudo for realizado, bem-aventurados seremos todos!

O Evangelho é anúncio e denúncia ao mesmo tempo, bênção e maldição, Boa Notícia e Má Notícia. O Evangelho não é imparcial. Em que lado você está?

P. Vitus Gustama,svd

Sábado Da XXIII Semana Comum, Ano Par, 12/09/2026

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