quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Segunda-feira Da XXX Semana Comum, Ano Par, 26/10/2026

DEUS É NOSSO PAI MISERICORDIOSO QUE NOS AMA E SALVA PARA QUE TAMBÉM AMEMOS OS OUTROS

Segunda-Feira Da XXX Semana Comum

Primeira Leitura: Efésios 4,32-5,8 (Ano Par)

Irmãos, 4,32 sede bons uns para com os outros, sede compassivos; perdoai-vos mutuamente, como Deus vos perdoou por meio de Cristo. 5,1 Sede imitadores de Deus, como filhos que ele ama. 2 Vivei no amor, como Cristo nos amou e se entregou a si mesmo a Deus por nós, em oblação e sacrifício de suave odor. 3 A devassidão, ou qualquer espécie de impureza ou cobiça sequer sejam mencionadas entre vós, como convém a santos. 4 Nada de palavras grosseiras, insensatas ou obscenas, que são inconvenientes; dedicai-vos antes à ação de graças. 5 Pois, sabei-o bem, o devasso, o impuro, o avarento – que é um idólatra – são excluídos da herança no reino de Cristo e de Deus. 6 Que ninguém vos engane com palavras vazias. Tudo isso atrai a cólera de Deus sobre os que lhe desobedecem. 7 Não sejais seus cúmplices. 8 Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Vivei como filhos da luz.

Evangelho: Lc 13,10-17

Naquele tempo, 10 Jesus estava ensinando numa sinagoga, em dia de sábado. 11 Havia aí uma mulher que, fazia dezoito anos, estava com um espírito que a tornava doente. Era encurvada e incapaz de se endireitar. 12 Vendo-a, Jesus chamou-a e lhe disse: “Mulher, estás livre da tua doença”. 13 Jesus pôs as mãos sobre ela, e imediatamente a mulher se endireitou e começou a louvar a Deus. 14 O chefe da sinagoga ficou furioso, porque Jesus tinha feito uma cura em dia de sábado. E, tomando a palavra, começou a dizer à multidão: “Existem seis dias para trabalhar. Vinde, então, nesses dias para serdes curados, não em dia de sábado”. 15 O Senhor lhe respondeu: “Hipócritas! Cada um de vós não solta do curral o boi ou o jumento, para dar-lhe de beber, mesmo que seja dia de sábado? 16 Esta filha de Abraão, que Satanás amarrou durante dezoito anos, não deveria ser libertada dessa prisão, em dia de sábado?” 17 Esta resposta envergonhou todos os inimigos de Jesus. E a multidão inteira se alegrava com as maravilhas que ele fazia.

----------------------

Viver Na Fraternidade Com Amor, Pois Deus Nos Amou e Nos Perdoou

“Sede bons uns para com os outros, sede compassivos; perdoai-vos mutuamente, como Deus vos perdoou por meio de Cristo. Sede imitadores de Deus, como filhos que ele ama. Vivei no amor, como Cristo nos amou e se entregou a si mesmo a Deus por nós, em oblação e sacrifício de suave odor”.

Estamos ainda na parte exortativa da Carta aos Efésios, que começamos na Sexta-feira passada. Dentro deste tema, hoje o autor da Carta enfatiza dois aspectos básicos: a caridade fraterna e a chamada a evitar a imoralidade reinante na sociedade da época.

O modelo ou o fundamento do amor fraterno é Deus Pai e Jesus Cristo: “Perdoai-vos mutuamente, como Deus vos perdoou por meio de Cristo. Sede imitadores de Deus, como filhos que ele ama. Vivei no amor, como Cristo nos amou e se entregou a si mesmo a Deus por nós”.

A chamada para cada cristão é muito clara: Imitar Deus. O modo de argumentar é muito simples e eloquente: Deus te amou; ama tu também. Deus te perdoou; perdoa tu também. Deus te iluminou; sê luz tu também para os demais. No fundo, trata-se de não deter o rio da bondade: a bondade chegou até você, então, não detenha em você a mesma bondade, pois os outros precisam de sua bondade como você precisa da bondade dos outros; você tem que irradiar a mesma bondade para o próximo.

“Sede bons uns para com os outros, sede compassivos; perdoai-vos mutuamente, como Deus vos perdoou por meio de Cristo”. O autor da Carta enfatiza novamente sobre a importância da caridade que suporta tudo. Em outra Carta (aos Coríntians) que conhecemos como o Hino à Caridade (1Cor 13,4-7), são Paulo menciona as quinze características da caridade e não menos de oito exprimem explicitamente o que a caridade não faz (“não é invejosa”...etc.) e outras seis dizem respeito à caridade que suporta.

Não há tempo determinado para fazer a caridade. Todo momento ou toda circunstância é apropriado para fazer a caridade.  Pensemos: quantas oportunidades temos diariamente para fazer caridade, para fazer um favor, mas preferimos nossa comodidade? Quantas vezes nos refugiamos atrás de regulamentos para não ajudar a quem verdadeiramente está necessitado. Nenhuma lei pode condicionar a ajuda ao próximo, como Jesus que curou pessoas doentes aos Sábados. Deixemos que a caridade se converta mais que um lugar ou templo ou em um regulamento, em um estilo de vida.

A expressão máxima do amor é o perdão: “... perdoai-vos mutuamente, como Deus vos perdoou por meio de Cristo”. Da Cruz Jesus perdoou seus inimigos que o crucificaram: “Pai, perdoa-lhes, porque eles não sabem o que estão fazendo” (Lc 23,34).  O perdão é o último testemento de Jesus da Cruz antes de sua morte. Com o nosso perdão podemos imitar Aquele que primeiro nos perdoou: Deus. E devemos fazê-lo como filhos amados a exemplo de Cristo que chamou Deus de Pai. O modelo deste amor é, por isso, o Crucificado, o que diz claramente que caridade, aqui, significa sacrifício, servidão, doação de si até a morte. Não é por acaso, na última Ceia Jesus colocou como modelo e medida do amor é a seguinte afirmação: “Amai-vos uns aos outros como eu vos tenho amado” (Jo 15,12).

Estamos conscientes de que como é difícil para o homem, em geral, e para um cristão, em particular, saber perdoar, calar (sem vingar-se) e esquecer. A vingança não constrói e sim só destrói. Por isso, o autor da Carta aos Efésios nos motiva a perdoar, pois Deus sempre pronto para nos perdoar, se nos convertermos, independentemente da gravidade do pecado: “... perdoai-vos mutuamente, como Deus vos perdoou por meio de Cristo. Sede imitadores de Deus, como filhos que ele ama. Vivei no amor, como Cristo nos amou e se entregou a si mesmo a Deus por nós, em oblação e sacrifício de suave odor”.

Outro aspecto que o autor da Carta aos Efésios enfatiza é que os cristãos devem evitar em sua vida: “A devassidão, ou qualquer espécie de impureza ou cobiça”, “Nada de palavras grosseiras, insensatas ou obscenas”. Todas estas coisas “são os que atraem a cólera de Deus”. Com efeito, “o devasso, o impuro, o avarento – que é um idólatra – são excluídos da herança no reino de Cristo e de Deus”. Para o autor da Carta os cristãos têm que evitar toda indecência e imoralidade nas conversas e na vida. Trata-se da nova vida em pureza e luz (Ef 5,3-20).

Ainda que a maioria seja egoísta, um cristão não o deve ser. Se a maioria caiu na deterioração da ética, um cristão deve lutar contra corrente e saber defender a pureza de coração em meio da permissividade reinante. Apesar de ser geral neste mundo, um cristão evita a carreira para enriquecer-se ilicitamente a qualquer custo. Tudo isso é viver como filhos e filhas da luz. Que saibamos viver na luz e não nas trevas, e não sejamos servos da lei e sim da verdade e da caridade. Se somos filhos de Deus, que resplandeça em nós a verdade de Cristo inflamada em amor. Como motivo encontra-se um simples “como convém a santos” (Ef 5,3). Isto quer dizer que cada cristão deve estar consciente, de modo profundo e vital, de que, quem é batizado em Cristo e selado pelo Espírito Santo como sua propriedade, pertence tão estreitamente a Deus e à sua esfera de santidade, e fora disso será um sacrilégio.

O Salmo Responsorial de hoje (Sl 1) nos põe no caminho da verdadeira sabedoria: “Feliz é todo aquele que não anda conforme os conselhos dos perversos; que não entra no caminho dos malvados. Ele é semelhante a uma árvore que à beira da torrente está plantada; ela sempre dá seus frutos a seu tempo, e jamais suas folhas vão murchar”.

O exemplo maior de uma vida dedicada ao bem e à bondade é a própria vida de Jesus Cristo. Em seu caminho para Jerusalém, Jesus realiza outro gesto de “cura em um Sábado” uma mulher encurvada. Jesus se dedica a curar, a salvar, a transmitir vida para qualquer pessoa e em qualquer lugar e momento. Ele passou a vida “fazendo o bem” (At 10,38). Logo, deve ser assim também a vida dos que são chamados de cristãos. Cristo nos ensina que a caridade com as pessoas necessitadas é superior a muitas outras coisas, pois “a caridade é o pleno cumprimento da lei” (Rm 13,10).

Deus é o Nosso Pai Que Quer Nosso Bem e Nossa Salvação

Continuamos a acompanhar Jesus na sua última viagem para Jerusalém onde ele será crucificado, morto e glorificado (Lc 9,51-19,28). Durante esta viagem Ele vai dando suas últimas lições. Tratam-se das Lições do Caminho.

As comunidades de Lucas são comunidades de pobres com alguns ricos. Há um contraste que aparece, sobretudo, no evangelho de Lucas: de um lado, os pobres, famintos, perseguidos, aflitos (Lc 6,20-23) e, do outro, os ricos (Lc 12,16-21) que se banqueteiam sem se preocupar com a miséria dos outros (Lc 16,19-31); Comunidades com pessoas cansadas, medrosas, desanimadas e perdidas por causa da situação na qual viviam (Lc 24,13-24).

No texto do evangelho de hoje Lucas nos relata uma mulher sofrida durante dezoito anos e que Jesus a curou no Sábado. No seu evangelho Lucas relatou três vezes a cura ocorrida no Sábado: a cura do homem com a mão paralisada (Lc 6,6-11); a cura de uma mulher encurvada (13,10-17); e a cura de um hidrópico (14,1-6).

No evangelho lido neste dia, estamos diante de uma mulher encurvada durante dezoito anos. É todo um símbolo. É uma mulher que não pode endireitar-se nem levantar sua cabeça para o céu. Uma pessoa encurvada só pode olhar para o chão e sem condições para olhar para o céu. É uma mulher com uma perspectiva limitada e sem horizontes pelo peso carregado nas costas. É uma mulher que carrega um peso insuportável para sua vida que a incapacita de olhar além do chão. É uma mulher cansada e oprimida, esmagada e deprimida. É uma mulher que recebia, em seus ombros, fardos incontáveis. É um símbolo de todas as mulheres na história. É um símbolo de todos os que suportam ou carregam pesos intoleráveis.

Em qualquer lugar do planeta terra podemos encontrar homens e mulheres curvados pelo peso da fome e da pobreza, pela miséria e exploração, pelo abandono e exclusão de uma convivência mais humana e familiar, pela falsidade e mentira, pela perseguição e a tortura. Homens e mulheres curvados pelo peso dos filhos cheios de problemas e pelas preocupações familiares diante de tantas dificuldades que a vida impõe. Homens e mulheres curvados pelo peso de trabalho de escravidão e de exploração. Homens e mulheres encurvados pelo esforço e pela luta para não faltar pão para os filhos na mesa da família. Homens e mulheres encurvados pela incompreensão e solidão. Homens e mulheres encurvados pelo vício desenfreado e pelos apegos que cria uma vida vazia. Homens e mulheres encurvados pelos fracassos e pelas tristezas. Homens e mulheres curvados pela falta de saúde. Homens e mulheres encurvados pela violência sem piedade que causa tantas lágrimas e tristezas.

Diante de tudo isso, Jesus não fica insensível. Ele não espera o pedido da mulher para ser curada, como aconteceu com outros milagres. Ele nem quer saber se é num sábado ou qualquer dia sagrado na concepção dos homens. Jesus não quer saber das veneráveis prescrições religiosas por sagradas que pareçam ser. Nenhuma lei sagrada, nenhum dia santo de guarda, na concepção do homem, é capaz de impedir Jesus de fazer o bem e de salvar pessoas em necessidade. Jesus toma a iniciativa, mesmo que seja no dia de Sábado: “Vendo a mulher, Jesus chamou-a e lhe disse: ‘Mulher, estás livre da tua doença’. Jesus pôs as mãos sobre ela, e imediatamente a mulher se endireitou e começou a louvar a Deus”. A partir de agora em diante ela pode olhar para o céu, aquilo que ela não conseguia fazer, para louvar a Deus.

O chefe da sinagoga se preocupa com o que pode e o que não pode fazer no Sábado colocando de lado a necessidade humana. Ele olha muito mais para as regras e proibições do que para um ser humano em perigo. Por isso, Jesus o chama de “hipócrita”: “Hipócritas! Cada um de vós não solta do curral o boi ou o jumento, para dar-lhe de beber, mesmo que seja dia de sábado? Esta filha de Abraão, que Satanás amarrou durante dezoito anos, não deveria ser libertada dessa prisão, em dia de sábado?”. Ama menos quem se preocupa somente com as regras e proibições. O Deus de Jesus não é o Deus de regras e sim o Deus de amor (Jo 3,16; 1Jo 4,8.16). O que agrada a Deus não é o cumprimento das regras por sagradas que elas pareçam ser, e sim a vivência do amor fraterno. É a preocupação pela dignidade humana. Deus fica contente com a libertação de seus filhos. Para Jesus a Lei dever ser humana e torna o ser humano em irmão do outro.

Deus não quer que sejamos encurvados. Deus não quer que sejamos oprimidos e escravizados, nem deprimidos e prostrados no chão de uma vida sem sentido. Ele nos quer livres. Ele quer que estejamos em pé e de pé diante dessa vida para ver que a vida é maior do que chão para onde dirigíamos nosso olhar. Estar em pé ou estar de pé significa liberdade, confiança, transcendência. Deus não nos criou para ficarmos encurvados, e sim para que vivamos com dignidade, para que sejamos livres (cf. Mt 11,28). Para estar de pé durante esta vida temos que aprender a ficar de joelhos diante de Deus. Encurvar-se diante de Deus nos faz erguermo-nos diante desta vida para louvar a Deus que nos ama com seu amor misericordioso incondicionalmente e para exercer nossa missão como filhos e filhas de Deus.

Um dos imperativos que mais se repetem na história da salvação é “Levanta-te!”. Podemos ter fracassos na vida, podemos cair no chão, mas é preciso que nos levantemos, pois a misericórdia divina está nos esperando.

P. Vitus Gustama,svd

XXX Domingo Do Tempo Comum, Ano "A", 25/10/2026

AMOR: O MAIOR MANDAMENTO

XXX DOMINGO DO TEMPO COMUM “A”

Primeira Leitura: Êx 22,20-26

Assim diz o Senhor: 20 Não oprimas nem maltrates o estrangeiro, pois vós fostes estrangeiros na terra do Egito. 21 Não façais mal algum à viúva nem ao órfão. 22 Se os maltratardes, gritarão por mim, e eu ouvirei o seu clamor. 23 Minha cólera, então, se inflamará e eu vos matarei à espada; vossas mulheres ficarão viúvas e órfãos os vossos filhos. 24 Se emprestares dinheiro a alguém do meu povo, a um pobre que vive ao teu lado, não sejas um usurário, dele cobrando juros. 25 Se tomares como penhor o manto do teu próximo, deverás devolvê-lo antes do pôr do sol. 26 Pois é a única veste que tem para o seu corpo, e coberta que ele tem para dormir. Se clamar por mim, eu o ouvirei, porque sou misericordioso.

Segunda Leitura: 1Ts 1,5c-10

Irmãos: 5c Sabeis de que maneira procedemos entre vós, para o vosso bem. 6 E vós vos tornastes imitadores nossos e do Senhor, acolhendo a Palavra com a alegria do Espírito Santo, apesar de tantas tribulações. 7 Assim vos tornastes modelo para todos os fiéis da Macedônia e da Acaia. 8 Com efeito, a partir de vós, a Palavra do Senhor não se divulgou apenas na Macedônia e na Acaia, mas a vossa fé em Deus propagou-se por toda parte. Assim, nós já nem precisamos falar, 9 pois as pessoas mesmas contam como vós nos acolhestes e como vos convertestes, abandonando os falsos deuses, para servir ao Deus vivo e verdadeiro, 10 esperando dos céus o seu Filho, a quem ele ressuscitou dentre os mortos: Jesus, que nos livra do castigo que está por vir.

Evangelho: Mt 22,34-40

Naquele tempo, 34 os fariseus ouviram dizer que Jesus tinha feito calar os saduceus. Então eles se reuniram em grupo, 35 e um deles perguntou a Jesus, para experimentá-lo: 36 “Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?” 37 Jesus respondeu: “‘Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento!’ 38 Esse é o maior e o primeiro mandamento. 39 O segundo é semelhante a esse: ‘Amarás ao teu próximo como a ti mesmo’. 40 Toda a Lei e os profetas dependem desses dois mandamentos”.

--------------------------------

O evangelho deste domingo fala do maior mandamento para todos os cristãos: o amor. Este texto podemos encontrar nos evangelhos sinóticos, mas com o contexto diferente (Mc 12,28-34; Lc 10,25-28). Em Mc, este texto é uma conversa amistosa de caráter escolástico entre um mestre da Lei e Jesus. Por isso, sem nenhuma polêmica. O mestre da Lei até recebe o elogio de Jesus, pois ele concorda que o maior mandamento é o amor: “Não estás longe do Reino de Deus” (Mc 12,34). Em Lc (Lc 10,25-28), o mesmo texto serve de introdução à parábola do bom samaritano (Lc 10,30-37). Em Lc, não é Jesus quem enuncia o maior mandamento, mas um doutor da lei. Jesus concorda e manda que o doutor da lei faça a mesma coisa (amar) para poder viver: “Fazei isto e viverás!” (Lc 10,28). Enquanto que em Mt, este mandamento se encontra dentro de uma polêmica violenta entre Jesus e os líderes do povo em Jerusalém (veja Mt 22,15-21). Neste contexto Jesus proclama o mandamento do amor aos que O odeiam, pois eles estão procurando uma maneira para condená-lo à morte (Mt 22,15.34-35; 5,43-44). Se “Deus é amor” (1Jo 4,8.16), então o ódio está contra Deus. Somos semelhantes a Deus no amor.        

Antecipamos logo a situação da Igreja de Mateus que tem por trás deste texto. Havia confronto da comunidade de Mateus com um judaísmo dominado por mestres da lei e os fariseus. Para eles todos os mandamentos tinham a mesma importância. A atenção destes dirigia-se não para os conteúdos da lei, e sim sua característica formal de imposição. A lei por lei era o princípio. Enquanto que para a comunidade de Mateus o duplo mandamento do amor a Deus e ao próximo era cláusula fundamental da aliança entre Deus e seu novo povo. A característica fundamental do novo povo de Deus, isto é, da comunidade cristã mateana é o amor a Deus e ao próximo. Os mandamentos de amor servem de centro da lei, dando à Bíblia e aos ensinamentos de Jesus uma ordem e um impulso que distinguem a comunidade mateana de outros movimentos e comunidades judaicas. A ênfase nos mandamentos de amor, misericórdia e justiça serve para dar à comunidade mateana sua orientação interna e também para identificá-la em contraste com outros grupos.           

Como já sabemos nos textos anteriores, Jesus desfez a armadilha dos fariseus em relação ao imposto (Mt 22,15-22) e respondeu à pergunta dos saduceus sobre a ressurreição dos mortos (Mt 22,23-33). Depois desta derrota, os fariseus voltam a reunir-se para colocar novamente Jesus numa armadilha (cf. Mt 22,15). Este confronto culminará na paixão de Jesus (Mt 26,4.27,1). Agora interrogam Jesus sobre o maior mandamento: “Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?”(v.36).          

Os rabinos do tempo de Jesus, estudando a Bíblia, tinham chegado a compor uma lista dos mandamentos nela contidos. Ensinavam que o conjunto dos preceitos era de 613. Desses, 365 (como os dias do ano) eram proibições e 248 (como membros do corpo) eram ações a serem cumpridas.           

Os guias religiosos de Israel ensinavam que todos esses mandamentos tinham a mesma importância e eram igualmente obrigatórios; discutia-se, porém, qual fosse o primeiro e o maior de todos. A opinião mais comum era que o preceito do Sábado valia mais do que todos os outros juntos. Contou-se que de tanto mandamento até um pagão se apresentou a um famoso rabino chamado Hillel (que viveu poucos anos antes de Cristo) e lhe disse, ironicamente: “Se conseguires ensinar-me toda a lei enquanto permaneço ereto num pé só, converter-me-ei”.         

Por isso, um dos fariseus perguntou a Jesus, para experimentá-lo: “Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?”  E na sua resposta, unindo dois textos do AT (Dt 6,5 e Lv 19,18), Jesus disse que o amor era o maior de todos cuja direção são três: amar Deus, a si mesmo e ao próximo (Mt 22,37.39). Notemos bem: os fariseus perguntavam sobre leis, isto é, deveres, obrigações. Jesus chama para um confronto não com numerosas prescrições, normas, proibições e preceitos, mesmo de origem divina, mas com uma exigência global do amor. Na sua  resposta Jesus, por isso, fala de amor. Como todos nós sabemos, amor nunca é sentido como obrigação, mas como impulso que vem de dentro da pessoa, e a sua expressão exterior jamais é vista como dever ou obrigação, e sim como satisfação e prazer.         

Perguntamos: Por que amor é o maior ou primeiro de todos os mandamentos? São João responde: por que “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). Esta frase perpassa, carregada de mistério e de promessa toda nossa história. Por pouca sensibilidade que se tenha, se compreende que nela se toca o coração mesmo do cristianismo. Onde existe o amor, está o cristianismo, embora se trate de ateísmo; onde não existe amor, não existe cristianismo, embora exista o sacrifício ou a eucaristia. Por isso, Santo Agostinho dizia: “Se, por conseguinte, não há tempo para perscrutar todas as páginas sagradas, para deslindar todos os véus da linguagem, para penetrar todos os segredos das Escrituras, então, abraça a caridade, da qual tudo depende”.  “Deus é amor” é a frase nuclear e irradiante. Ela sozinha já seria capaz de manter a esperança no mundo, pois pressentimos que nela está a chave de tudo, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16).        

Se Deus é amor, então, “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento!”. Se Deus é amor e se Deus é a origem, se o amor é o maior mandamento, intuímos que o amor seja, portanto, a essência da realidade, a última palavra da compreensão, o critério definitivo do juízo. Compreendê-lo e vivê-lo será justamente alcançar o mistério do universo, encontrar a chave do sentido da vida, chegar à fonte da vida que é Deus.  Santo Agostinho dizia: “Qual o valor desta virtude(amor/caridade)? É a alma das Sagradas Letras, a força da profecia, a vida dos sacramentos, o fundamento da ciência, o fruto da fé, a riqueza do pobre, a vida dos moribundos”. Unicamente na direção do amor é que poderemos caminhar em direção ao centro da vida: o resto equivale a se perder. Se um dia formos condenados, não por termos amado demais e sim por termos amado de menos. O amor é o critério do julgamento final.         

Amor! Eis a mensagem central do cristianismo. Ser o mandamento primeiro significa que é ele que dá sentido a todo o resto. Por isso, basta eliminar o amor da vida e o mundo virará um cemitério. E quando acaba o amor, formamos uma imagem estática do outro e ficamos no passado do outro apesar do outro ter-se mudado. E sem o amor, julgamos e nos atemos a preconceitos mútuos. Isto é a morte. O amor nos liberta de tais imagens e mantém o futuro aberto aos outros. Nutrimos esperança pelo outro, por isso esperamos do outro. Isto é a vida.  O amor é a origem da realidade, motivo da salvação, meio da comunhão, fonte da atividade e critério da vida. Basta cada um de nós deixar-se levar pelo amor, a vida ou o cristianismo se apresentará com outro aspecto, com outro estilo e viver com outro calor, com muita espontaneidade e alegria. Por isso, no mundo humano, como também no mundo animal, o crescimento não é possível sem amor, como dizia Teilhard de Chardin: “O amor é a mais universal, a mais formidável e a mais misteriosa das energias cósmicas. Socialmente, fingimos ignorá-lo na ciência, nos negócios e nas assembléias, ao passo que sub-repticiamente ele está em toda parte”. O amor faz crescer. O amor tranqüiliza. O amor dá segurança. Por isso, aquele que não é amado, fecha-se em si mesmo como uma prisão sem portas, sem outra saída e se torna uma pessoa egoísta. Sabemos que o egoísmo devora o que o outro tem. O amor, ao contrário, oferece ao outro o que lhe falta.  Quando amamos e nos sentimos amados, recordamos que jamais estamos sozinhos em nossas lutas e conseguiremos sobreviver até às circunstâncias mais atribuladas. Quanto mais o amor tiver recebido sadiamente, tanto mais poderá alguém dá-lo. O amor que ele dá faz o eco ao amor recebido.          

Amor é a autocomunicação do bem. Ele é a capacidade, inerente ao bem, de sair de si mesmo, de transferir para outro ser, de participar do outro ser e de entregar-se por um outro ser. Aquele que ama está totalmente no outro, conservando plenamente sua identidade. O amor não pode realizar-se na esfera de um sujeito isolado.          

Por ser muito essencial na vida dos homens, Jesus pede para amar a Deus em primeiro lugar com coração, mente e alma. Isto quer dizer: amar com toda interioridade do homem e com o aspecto racional dessa interioridade e com alma que é a força vital. Com tudo isto, o homem deve orientar-se para Deus, pois o amor não é mero sentimento, mas direção de vida. Se Jesus nos pede isto, é porque precisamente no amor o homem encontra a verdadeira realização de si mesmo e faz uma autêntica experiência de Deus.          

Mas não basta só amar a Deus, pois o homem cairia na mais ilusória das ilusões; faria experiência de um deus sem vulto e sem coração; estaria adorando um ídolo feito por mãos humanas.         

Justamente para impedir essa distorção é que Jesus diz no Evangelho que o maior mandamento não é só o de amar a Deus, mas também o próximo como a ti mesmo. Jesus quer que nos elevemos até Deus, mas sem deixar esta terra; propõe-nos um amor sem limites a Deus, porém apresenta-nos o homem como passagem obrigatória e normal desse amor.         

“O segundo é semelhante a esse: ‘Amarás ao teu próximo como a ti mesmo’”, diz Jesus (Mt 22,39). O homem tem que saber amar-se a si mesmo, pois não se pode compartir ou partilhar aquilo que não se tem. Santo Agostinho dizia: “Se não sabes amar-te a ti mesmo, tampouco saberás amar aos demais de verdade”. O amor ao semelhante emana, se nutre do manancial que procede do amor que sente um por si mesmo. Amarmo-nos a nós mesmos é ver-nos como pessoas. É aprender os valores que constituem nosso ser. É iluminar os dons e talentos para nos elevar ao topo mais alto de nossa existência.          

Se a base da caridade é o amor a si mesmo, devemos aceitar também que a base do amor a si mesmo é a caridade. O amor nunca é imanente, mas sempre flui e se expande fora de si, transcende. O amor que transcende até o bem do próximo é caridade. Esta qualidade de transcender é essencial no e do amor. Se não transcender, se não fluir de si, o amor não será amor. O bem ao próximo é o modo em que transcende o amor a si mesmo. A caridade constitui-se em fundamento e sentido do amor a si mesmo. Amor a si mesmo e amor ao próximo se retroalimentam.         

Na vida real, há quem ame pouco o próximo (o homem) por receio de ofender a Deus. E há quem ame pouco a Deus por receio de excluir o próximo (o homem), como se fosse impossível ser, ao mesmo tempo, amigos de Deus e dos homens. Mas quem deseja realmente fazer experiência de Deus, busca-O com todo o coração, entendimento e alma e deixar-se busca por Ele, acaba por encontrá-lo em todo lugar: nas coisas e nos acontecimentos, nas pessoas e na história. O amor a Deus e ao homem (próximo) se tornam só porque animados por um único e profundo amor.           

Jesus coloca o amor a Deus e o amor ao próximo como a si mesmo em relação com toda a revelação bíblica da vontade de Deus. Por isso, ele conclui: “Toda a Lei e os profetas dependem desses dois mandamentos” (v.40). No amor gira toda a revelação bíblica. E Jesus é o revelador definitivo e perfeito da vontade de Deus (Mt 5,17). A vontade de Deus gira em torno do amor total a Deus e do amor ao próximo cuja medida é o amor a si mesmo.          

Kahlil Gibran escreveu: “Quando um de vós ama, que não diga: ‘Deus está no meu coração’, mas que diga antes: ‘eu estou no coração de Deus’”. Porque, diz São João: “Nós amamos, porque Deus nos amou primeiro” (1Jo 4,19). 

“Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento! Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Toda a Lei e os profetas dependem desses dois mandamentos”.

A 1ª leitura pode servir, de modo muito expressivo, para mostrar como concretizar esse amor aos homens, que é a manifestação real do amor a Deus. “Não oprimas nem maltrates o estrangeiro, pois vós fostes estrangeiros na terra do Egito. Não façais mal algum à viúva nem ao órfão. Se os maltratardes, gritarão por mim, e eu ouvirei o seu clamor. Minha cólera, então, se inflamará e eu vos matarei à espada; vossas mulheres ficarão viúvas e órfãos os vossos filhos” (Ex 22,20-23) 

Não se pode separar o amor a Deus e o amor ao próximo. Se o amor a Deus for separado do amor aos homens, trata-se de uma farsa, uma armadilha. Pois Deus está presente no ser humano. Não é possível amar a Deus sem amar o próximo (cf. 1Jo 4,20). Como podemos comungar do Corpo de Jesus Cristo, por exemplo, se não sabemos comungar das preocupações, necessidades, dores e alegrias dos homens? Como podemos pedir o perdão de Deus se não sabemos perdoar os nossos irmãos? Como ousamos dizer que amamos a Deus plenamente, se somos tão egoístas e mesquinhos na forma como tratamos aqueles que nos rodeiam? Jesus Cristo não nos pede um amor meramente "humanista", sensato, correto, baseado na troca ("dou-te o que me dás"), mas nos convida a dar um salto: amar sem condições, sem calcular retribuições, a ponto de dar a própria vida, como o próprio Jesus fez (cf. Jo 15,13). Acreditar que, ao amar o ser humano, estamos amando a Deus, não significa que não amemos esta ou aquela pessoa por si mesmas; significa, sim, que desejamos ir além e descobrir que em cada homem e em cada mulher, em cada criança, em cada idoso, está o mistério de um Deus ali presente (cf. Mt 25,40.45), pois Deus está em cada homem e não nas paredes das igrejas. O próprio homem é o templo do Espírito Santo (cf. 1Cor 3,16-17).         

Portanto, que cada um se pergunte: “Será que posso afirmar que amo a Deus e ao próximo como eu me amo? De que maneira eu sei me amar? Será que o amor governa minha vida e minha atitude com o próximo? A quem ainda não amei suficientemente? A quem não quero amar, de jeito nenhum? É a resposta de Jesus para cada um de nós é esta: Por amor a cada um de nós Jesus aceitou ser crucificado e morto, mas ressuscitado por amor. O amor não pode morrer, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16).

P. Vitus Gustama,svd

Sábado Da XXIX Semana Comum, Ano Par, 24/10/2026

CONVERTER-SE PERMANENTEMENTE PARA PRODUZIR CONSTANTEMENTE OS FRUTOS DE AMOR NO CORPO DE CRISTO QUE É A IGREJA

Sábado da XXIX Semana Comum

Primeira Leitura: Efésios 4,7-16 (Ano Par)

Irmãos, 7 cada um de nós recebeu a graça na medida em que Cristo lha deu. 8 Daí esta palavra: “Tendo subido às alturas, ele capturou prisioneiros, e distribuiu dons aos homens”. 9 “Ele subiu”! Que significa isso, senão que ele desceu também às profundezas da terra? 10 Aquele que desceu é o mesmo que subiu mais alto do que todos os céus, a fim de encher o universo. 11 E foi ele quem instituiu alguns como apóstolos, outros como profetas, outros ainda como evangelistas, outros, enfim, como pastores e mestres. 12 Assim, ele capacitou os santos para o ministério, para edificar o corpo de Cristo, 13 até que cheguemos todos juntos à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, ao estado do homem perfeito e à estatura de Cristo em sua plenitude. 14 Assim, não seremos mais crianças ao sabor das ondas, arrastados por todo vento de doutrina, ludibriados pelos homens e induzidos por sua astúcia ao erro. 15 Motivados pelo amor queremos ater-nos à verdade e crescer em tudo até atingirmos aquele que é a Cabeça, Cristo, 16 Graças a Ele, o corpo, coordenado e bem unido, por meio de todas as articulações que o servem, realiza o seu crescimento, segundo uma atividade à medida de cada membro, para a sua edificação no amor.

Evangelho: Lc 13, 1-9

1 Naquele tempo, vieram algumas pessoas trazendo notícias a Jesus a respeito dos galileus que Pilatos tinha matado, misturando seu sangue com o dos sacrifícios que ofereciam. 2 Jesus lhes respondeu: “Vós pensais que esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus, por terem sofrido tal coisa? 3 Eu vos digo que não. Mas se vós não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo. 4 E aqueles dezoito que morreram, quando a torre de Siloé caiu sobre eles? Pensais que eram mais culpados do que todos os outros moradores de Jerusalém? 5 Eu vos digo que não. Mas, se não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo”. 6 E Jesus contou esta parábola: “Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha. Foi até ela procurar figos e não encontrou. 7 Então disse ao vinhateiro: ‘Já faz três anos que venho procurando figos nesta figueira e nada encontro. Corta-a! Por que está ela inutilizando a terra?’ 8 Ele, porém, respondeu: ‘Senhor, deixa a figueira ainda este ano. Vou cavar em volta dela e colocar adubo. 9 Pode ser que venha a dar fruto. Se não der, então tu a cortarás’”.

____________________

Respeitar a Diversidade De Dons, e Manter a Unidade Eclesial

Prosseguindo a meditação do dia anterior o autor da Carta aos Efésios nos propõe contemplar a Igreja como “sinal e instrumento” desta ascensão da humanidade até  “a unidade de Deus”. No dia anterior, o autor pedia à Igreja para a unidade, baseada em que um só é o Senhor, e a fé, e o Batismo para todos. Mas a unidade não significa uniformidade. A verdadeira unidade reconhece a diversidade de dons e carismas para a sua edificação e seu aperfeiçoamento. A pluralidade é uma riqueza.

Na Igreja o próprio Cristo que é sua Cabeça há a riqueza dos ministérios e dos carismas: uns são apóstolos, outros profetas e evangelistas e pastores e doutores. Tudo isso tem uma só objetivo: para o aperfeiçoamento dos fieis e para a edificação do Corpo de Cristo. A Igreja é um Corpo (cf. 1Cor 12,1-30), um organismo vivente que deve ir crescendo e amadurecendo até que todos cheguem à estatura de Cristo “o homem perfeito, à medida de Cristo em sua plenitude”: “Motivados pelo amor queremos ater-nos à verdade e crescer em tudo até atingirmos aquele que é a Cabeça, Cristo. Graças a Ele, o corpo, coordenado e bem unido, por meio de todas as articulações que o servem, realiza o seu crescimento, segundo uma atividade à medida de cada membro, para a sua edificação no amor” (Ef 4,15-16). A unidade é a expressão e a prova mais evidente do amor. Quem estiver unido com Cristo que está unido ao Pai, jamais será causador da desunião e da divisão entre os cristãos ou entre as pessoas; ele buscará sempre a reconciliação. A comunhão com Cristo é impossível sem a vivência do amor fraterno. Assim como o amor fraterno cria unidade, assim também a comunhão com Jesus deve criar a comunhão entre os cristãos.

A unidade na diversidade é um aspecto que sempre cria tensões e que nunca acabamos de conjugar construtivamente. Uns sublinham a importância da unidade, mas a entendem quase como uniformidade, sem respeitar, portanto, a riqueza de carismas que o Espirito Santo suscita em sua Igreja para a própria edificação da Igreja. Outros valorizam a diversidade, mas não a harmonizam com a unidade eclesial. Neste caso, os carismas não constroem e sim que dividem a comunidade.

Deveríamos nos alegrar da riqueza de dons que há na Igreja e valorizar, ao mesmo tempo, sua unidade dinâmica em que cada um contribui a partir de seu dom e carisma para a edificação da Igreja sem pretender monopólios nem invadir o terreno dos demais. São Paulo faz uma boa comparação ao usar o corpo humano como exemplo: no corpo humano cada membro tem sua função e todos contribuem para o bem do único corpo (Cf. 1Cor 12). É o que passa numa empresa ou em equipe desportivo ou em coral ou em uma orquestra.

A meta que o autor da Carta aos Efésios põe para toda a comunidade é sua amadurecimento progressivo. “Assim, não seremos mais crianças ao sabor das ondas, arrastados por todo vento de doutrina, ludibriados pelos homens e induzidos por sua astúcia ao erro”, e sim que cheguemos à altura de Cristo. Este amadurecimento é orgânico: Cristo é a Cabeça e d´Ele o corpo todo recebe seu crescimento “por meio de todas as articulações que o servem, realiza o seu crescimento”. E este crescimento tem uma consigna clara o amor: “realizando a verdade no amor”, “para construção de si mesmo no amor”: “Graças a Ele, o corpo, coordenado e bem unido, por meio de todas as articulações que o servem, realiza o seu crescimento, segundo uma atividade à medida de cada membro, para a sua edificação no amor”. É o crescimento orgânico baseado no amor. Se todos crescerem no amor, a comunidade cristã será uma ambiente enriquecedor para os de dentro e um motivo de atração para os de fora.

A Conversão Nos Faz Crescer No Amor a Deus e Ao Próximo

Continuemos a ouvir atentamente as últimas e mais importantes lições de Jesus no seu caminho para Jerusalém (Lc 9,51-19,28), pois logo depois ele será crucificado, morto e glorificado. Tratam-se das Lições do Caminho.

O texto do Evangelho de hoje nos apresenta dois fatos: uma morte e um incidente com muitas vítimas. No primeiro caso, está em jogo a liberdade e a maldade do homem; no segundo, a inevitabilidade e a violência da criação, os desastres da natureza, ou seja, alguém pode morrer por causa da fúria da natureza (raios, tempestades, inundações etc.). Toda hora é a hora da morte. Dai a necessidade de conversão diária.

No dia anterior o evangelista Lucas nos relatou a exortação de Jesus sobre a importância do discernimento sobre os sinais dos tempos para perceber neles o querer de Deus para nossa salvação. Para isso é preciso ter um coração e a mente abertas. Como foi dito anteriormente, o coração aberto é a chave para a mente aberta, e vice-versa.

Por isso, em seguida, Jesus nos dá a lição sobre a importância da conversão permanente, a lição no evangelho de hoje, para que a vontade de Deus fique nítida na nossa visão diária. O pecado ofusca a vontade de Deus. A conversão não implica apenas a mudança de pensamento (metanoia), mas uma mudança radical de direção do próprio caminho que se vive na experiência cotidiana. A conversão é abertura constante para o futuro do Reino que se experimenta antecipadamente, embora não seja completo ainda.

A existência humana na história não é eterna. Um dia o homem partirá deste mundo. Mas o momento dessa partida é incerto ou desconhecido. O fato de não conhecermos o momento em que a morte virá (a vinda do Senhor), nos leva à conversão diariamente. O tempo da salvação e o da conversão se encontram na nossa história. Não procuremos a salvação fora da história. Cada momento é kairós, isto é, o momento de Deus, e, por isso, é o momento de salvação que precisamos saber usá-lo para nosso bem. A resistência à conversão nos torna excluídos do Reino de Deus. Deus não quer excluir ninguém do Reino, pois ele quer salvar a todos (1Tm 2,4). Alem disso, do ponto de vista humano, viver sem a conversão paralisa nosso crescimento espiritual e nos torna cruzes para os demais. Os erros não corrigidos é uma forma de cometer outros novos erros.

“Vós pensais que esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus, por terem sofrido tal coisa? Eu vos digo que não. E aqueles dezoito que morreram, quando a torre de Siloé caiu sobre eles? Pensais que eram mais culpados do que todos os outros moradores de Jerusalém? Eu vos digo que não”, assim nos disse o Senhor hoje.

Os judeus do tempo de Jesus, como os povos de todos os tempos, como nós mesmos atualmente, tratavam de explicar os desastres e a dor, provocados pela natureza ou pelas pessoas, de forma que aqueles que sofriam as consequências tiveram alguma culpa. Essa era a forma de pensar na justiça de Deus. pensam que se para essas pessoas sucediam essas coisas tão más, era ou é, porque elas são também más. Se uma pessoa tinha uma grave enfermidade era porque havia cometido muitos pecados. O mesmo se pensava dos galileus assassinados no Templo de Jerusalém pelos soldados de Pilatos ou dos que morreram esmagados pela queda da Torre de Siloé.

Para o pensamento na época em que Jesus estava não há culpa sem castigo. Se há grandes catástrofes é porque há grandes pecados. Qualquer doença é a conseqüência do pecado cometido. É uma maneira fácil de justificar-se e de calar a consciência. Será que ainda encontramos este tipo de pensamento na nossa época?

Em vez de seguir esse pensamento, Jesus opta por outro caminho. Trata-se de um apelo permanente para a conversão: “Mas se vós não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo”, disse Jesus. Para Jesus, viver sem conversão é uma morte eterna preanunciada. Em grego “metanoeite” é algo mais do que arrepender-se: pensar de outro modo. Equivale a renunciar-se.

A conversão é polivalente. Em sentido geral indica mudança de vida; deixar o comportamento habitual de antes que não salva, para empreender outro novo que salva; prescindir da busca egoísta de si mesmo para colocar-se a serviço do Senhor que se traduz no amor fraterno. Conversão é toda decisão ou inovação que de alguma forma nos aproxima da vida divina e nos torna mais próximos para com os outros.        

Na Bíblia, a noção básica da conversão é a mudança. Envolve voltar-se do pecado, da morte e das trevas para a graça, a nova vida e luz. A ação dual de voltar-se sempre leva a pessoa a um novo nível de existência humana. É uma mudança total do próprio modo de pensar e de agir, uma renovação total e integral do eu. É um abandono total em Deus. Somente abandonando-se a Deus a ponto de se deixar transformar inteiramente por Ele e permanecer amistosamente abraçado com Ele. O móvel da conversão não é tanto a ameaça de castigo ou de perder a salvação, quanto a fascinação de penetrar na vida do amor trinitário divino. A conversão conduz as pessoas juntas à maturidade espiritual, que se reflete em sua aversão ao mal e sua atração pelo bem. Um aspecto da conversão específico do NT é estar intimamente ligado à pessoa de Jesus Cristo, em quem o Reino se realiza. A conversão é realidade cristológica. É união com o corpo de Cristo e íntimo conhecimento pessoal de Jesus Cristo como Senhor ressuscitado e Salvador. Esta conversão total não pode ser obra do homem; é tarefa que supõe dom e graça. Só pode realizar-se como participação do mistério pascal de Cristo. A conversão só se realiza na fé; propõe-se como resposta ao chamado de Deus, como correspondência à graça redentora.                    

A conversão envolve mudanças internas (de atitude) e externas (comportamentais) na vida. A autêntica conversão cristã nunca está separada de ações concretas que espelham a realidade interior mudada. Assim, a conversão sempre leva a algum aspecto de responsabilidade e justiça sociais.     

A conversão é crescimento contínuo; não é um acontecimento instantâneo, pontual e de uma vez por todas; não é uma carreira acabada, mas que constitui um crescimento sem interrupção e ascendente. Por mais decidida que seja a entrega de um cristão ao Reino, ela tenderá sempre a ser precária. De um coração convertido aos valores do Reino e do Evangelho se seguirão naturalmente os frutos visíveis de uma conversão que atinge a realidade da vida.                  

Jesus quer nos libertar dessa concepção que por um lado, impede-nos de enfrentar as verdadeiras causas dos males que ocorrem conosco ou na sociedade, remetendo-os a demônio para desviar alguém da própria responsabilidade ou a uma espécie de fatalidade que nos leva a nos afundarmos na passividade. Por outro lado, Jesus quer nos apresentar a imagem do Deus de amor e de vida e não um Deus de castigo.  

Pecar é não dar fruto, não produz nada pelo bem da humanidade ou pelo bem dos outros. Esta é a mensagem da parábola da figueira estéril. Esse Deus que Jesus nos apresenta espera com paciência, até o último minuto de nossa vida, os bons frutos que produzimos.         

Para os ouvintes de Jesus era familiar a imagem da figueira infértil, para indicar o comportamento infiel do povo de Deus (cf. Jr 8,13;Mq 7,1). Mas esta imagem é atual para nós. A parábola da figueira estéril revela-nos um Deus paciente e bondoso conosco. Mas ele é paciente para esperar que produzamos bons frutos para o Seu Reino. Perante tamanho amor para com a vinha e para com a pobre figueira, somos convidados a responder e corresponder produzindo bons frutos para uma convivência mais fraterna.  Ser útil para os demais não significa esperar recompensa ou reconhecimento. Precisamos ser como a figueira que produz frutos sem precisar saber quem vai se alimentar com seus frutos. O importante é que outros possam viver com a nossa presença frutífera. É necessário que a parábola seja aplicada para nós individualmente e como uma comunidade cristã ou Igreja. Uma Igreja, uma comunidade que não der frutos perde razão de ser. Mas Deus continua esperando, pois para Deus nada é impossível (cf. Lc 1,36-37). Sempre espera com toda esperança.  Deus é amor (1Jo 4,8.16), e o amor procura ser amado. O amor vive onde é amado. 

Cada pessoa tem uma vocação particular, e toda vida que não responde a esse desígnio  divino se perde. O Senhor espera correspondencia a tantos cuidados, a tantas graças concedidas ainda que não tenha paridade  entre o que damos e o que recebemos. No entanto, com a graça é que podemos oferecer aos outros muitos frutos de amor diariamente:  a caridade, o apostolado, o trabalho bem feito e assim por diante.

P. Vitus Gustama,svd

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Sexta-feira Da XXIX Semana Comum, Ano Par, 23/10/2026

DEUS, PAI DE TODOS NÓS, ESTÁ NA VIDA COTIDIANA: ESTEJAMOS UNIDOS E ATENTOS PARA SUA PRESENÇA

Sexta-Feira da XXIX Semana Comum

Primeira Leitura: Efésios 4,1-6 (Ano Par)

Irmãos, 1 eu, prisioneiro no Senhor, vos exorto a caminhardes de acordo com a vocação que recebestes: 2 Com toda a humildade e mansidão, suportai-vos uns aos outros com paciência, no amor. 3 Aplicai-vos a guardar a unidade do espírito pelo vínculo da paz. 4 Há um só Corpo e um só Espírito, como também uma só é a esperança à qual fostes chamados. 5 Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, 6 um só Deus e Pai de todos, que reina sobre todos, age por meio de todos e permanece em todos.

Evangelho: Lc 12, 54-59

Naquele tempo, 54 Jesus dizia às multidões: “Quando vedes uma nuvem vinda do ocidente, logo dizeis que vem chuva. E assim acontece. 55 Quando sentis soprar o vento do sul, logo dizeis que vai fazer calor. E assim acontece. 56 Hipócritas! Vós sabeis interpretar o aspecto da terra e do céu. Como é que não sabeis interpretar o tempo presente? 57 Por que não julgais por vós mesmos o que é justo? 58 Quando, pois, tu vais com o teu adversário apresentar-te diante do magistrado, procura resolver o caso com ele enquanto estais a caminho. Senão ele te levará ao juiz, o juiz te entregará ao guarda, e o guarda te jogará na cadeia. 59 Eu te digo: daí tu não sairás, enquanto não pagares o último centavo”.

________________

Sejamos Unidos, Pois Todos Nós Formamos Uma Única Família Na Fé

“Há um só Corpo e um só Espírito, como também uma só é a esperança à qual fostes chamados. Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos”.

Continuamos a nossa reflexão sobre a Carta aos Efésios. Os primeiros capítulos da Carta aos Efésios (Ef 1-3) são mais teológicos. Nos primeiros capítulos São Paulo, sendo prisioneiro por Cristo, em Roma, nos apresenta com entusiasmo o mistério de Cristo e de sua Igreja.

Agora, a partir do Ef 4 o autor da Carta entra em uma seção mais exortativa e prática (Ef 4,1-6,22). Nessa seção há variedade de exortações porque a vida é variada. Algumas são dirigidas a todos contra a mentira, a impureza, a ira, a avareza, enfim, todas as “obras das trevas”. Outras exortações são dirigidas para as diversas categorias de pessoas: há admoestação para maridos e esposas, pais e filhos, escravos e senhores.

Essas exortações são, na verdade, a aplicação prática do mistério de Cristo e da Igreja. A aplicação do mistério à vida pede que “caminhardes de acordo com a vocação que recebestes”. Em seguido, são Paulo concretiza: a primeira consequência é que vivamos a unidade dentro da Igreja: “Aplicai-vos a guardar a unidade do espírito pelo vínculo da paz”.

Teologicamente o verbo “unir” significa salvar. Unir é salvar. Salvar é unir. Por isso, o bom Pastor vai atrás da ovelha perdida para reunir novamente com o resto das ovelhas (Lc 15,4-6). O próprio Deus é, em si mesmo, um mistério de unidade: Três constituídos em um.

Os homens aspiram a unidade. Estar juntos. Estar de acordo. Amar e ser amado. Colaboração e diálogo em vez de rivalidade. A concórdia e solidariedade em vez da atmosfera de suspeita e de domínio. O ser humano ama ser acariciado. No entanto, a humanidade sempre está desgarrada e os conflitos de hoje são mais profundos do que nunca: discriminação, divisão, separatismo e assim por diante. Mas a aspiração subsiste como um sonho de felicidade. Por isso, ainda encontramos tantas pessoas que lutam para que todos vivam na solidariedade uns dos outros, dialoguem a fim de evitar conflitos desnecessários. Deus está naqueles que lutam pela solidariedade, pelo diálogo, pela defesa da vida, pela união, pela paz e assim por diante. “A soberba gera a divisão. A caridade, a comunhão”, dizia Santo Agostinho..

A raiz última desta unidade segundo esta Carta é que temos um só Espírito, um só Senhor, um só Deus e Pai. Também todos temos uma mesma fé e uma única esperança, um só Batismo: “Há um só Corpo e um só Espírito, como também uma só é a esperança à qual fostes chamados. Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, que reina sobre todos, age por meio de todos e permanece em todos”. Mas tudo isso não será realizado se as outras recomendações não forem cumpridas: "Sejam sempre humildes e amáveis, suportem-se uns aos outros no amor".

O autor da Carta quer nos dizer que mesmo que tenha todos os argumentos, por profundos e teológicos que sejam em favor da unidade, se não houver a caridade e o amor em nossas comunidades, tudo ficará sem sentido. Viver bem como cristão quem testemunha a vida cristã com a própria vida mais do que com um belo discurso. 

Um só Corpo....Um só Espírito...Um só Deus e Pai. Fórmula Trinitária: a exigência da unidade de todos os homens é absoluta e essencial. O segredo da “unidade” de todos os homens procede da vida comum das Três Divinas Pessoas. O Concílio Vaticano II revalorizou esta convicção: “A Igreja, em Cristo, é como que o sacramento, ou sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano, pretende ela, na sequência dos anteriores Concílios, pôr de manifesto com maior insistência, aos fiéis e a todo o mundo, a sua natureza e missão universal. E as condições do nosso tempo tornam ainda mais urgentes este dever da Igreja, para que deste modo os homens todos, hoje mais estreitamente ligados uns aos outros, pelos diversos laços sociais, técnicos e culturais, alcancem também a plena unidade em Cristo” (LG n.1).

O Senhor nos chamou a vivermos unidos a Cristo. Feitos um com Ele e n´Ele, não podemos gerar divisões entre nós mesmos. Esta unidade é fruto da presença do mesmo Espírito em nós. Ele nos põe ao serviço do bem que temos que fazer para os demais homens. O Senhor nos convida a vivermos como irmaos em torno de nosso único Deus e Pai, que reina sobre todos, de tal forma que ninguém é mais importante do que os outros. diante de Deus todos nós somos seus filhos e ninguém é superior aos demais.

Para manter a unidade tem que ter a humildade e a mansidão. ”Com toda a humildade e mansidão, suportai-vos uns aos outros com paciência, no amor”. O manso é a pessoa boa nas relações com os outros. Jesus se proclama o Mestre “manso e humilde de coração” (Mt 11,28-30), pois ele é totalmente aberto a Deus e é bom com os outros a ponto de compartilhar de sua existência. A “mansidão” é fruto do Espírito (Gl 5,23) e é sinal da presença da sabedoria do alto (Tg 3,13.17). A mansidão é a virtude a ser invocada e conquistada por quem pretende seguir fielmente a Jesus manso.

Além da mansidão é precisa viver na humildade para manter a unidade. O humilde é aquele que tem noção da própria capacidade e da própria fraqueza e limitações e está aberto totalmente a Deus e para qualquer correção fraterna a fim de ter o crescimento no bem. É na humildade e da humildade que germinam nossos autênticos valores.

A humildade e a mansidão precisa ser vividas com paciência no amor. A vivência do amor misericordioso nos leva a ter paciência como Deus tem tido paciência para conosco apesar de nossos contínuos desvios do caminho de Deus. O paciente não é aquele que é cego, nem aquele que fecha os olhos às qualidades e às idéias menos boas ou até más dos outros. Seremos pacientes na medida em que saibamos aceitar as nossas próprias limitações e agradecer ao nosso próximo o fato de nos aceitar, apesar das nossas sombras e dos nossos defeitos. O impaciente veste sempre a pele do “infalível”, porque não reconhece nem vive os próprios limites e defeitos.

A Igreja de Cristo nos quer como um sinal de seu amor para a humanidade de todos os tempos e lugares. Devemos viver unidos como irmãos, pois enquanto surgirem divisões entre nós, não poderemos ser um sinal do amor de Deus no mundo. sejamos uma Igreja humilde, isto é, disponíveis ao serviço dos demais. não busquemos honras e sim somente o saber entregar a Cristo e a seu Evangelho.

“Irmãos, eu, prisioneiro no Senhor, vos exorto a caminhardes de acordo com a vocação que recebestes”. Ser prisioneiro no Senhor é ser livre, é ser salvo. Ser prisioneiro do mundo é ficar excluído da salvação.

Deus Nos Faz Seu Apelo Para Nós Diariamente Através Dos Acontecimentos

Continuamos a acompanhar as últimas e mais importantes lições que Jesus nos dá no Seu caminho para Jerusalém (Lc 9,51-19,28). Por isso, é preciso ouvi-las atentamente.

Hoje, na passagem do evangelho, Jesus quer que estejamos atentos para a presença de Deus através de vários sinais na nossa vida, como estamos atentos para a mudança do tempo (previsão do tempo). Jesus nos convida a irmos além do aspecto físico da realidade para o sentido querido por Deus através da realidade. Em cada acontecimento Deus deixa Seu recado para quem o presencia. É preciso estar ligado à realidade, pois Deus está em tudo e em todos. Em cada luz, aparece a luz do próprio Deus. Em cada vida, Deus é a vida. Em cada coisa sentida é o próprio Deus que está sendo sentido. Em cada existir, Deus é o próprio Ser. Ao tocarmos uma flor temos a certeza de que, misteriosamente, estamos ticando o Criador da flor. A flor não é Deus, mas ela nos leva à própria perfeita beleza de Deus e ao próprio Criador da flor. O homem profundo é aquele que vive sua humanidade a partir da graça e da presença permanente de Deus na sua vida.

“Quando vedes uma nuvem vinda do ocidente, logo dizeis que vem chuva. E assim acontece. Quando sentis soprar o vento do sul, logo dizeis que vai fazer calor. E assim acontece. Hipócritas! Vós sabeis interpretar o aspecto da terra e do céu. Como é que não sabeis interpretar o tempo presente?”. Os homens sempre se interessam pelo tempo e pelo clima, especialmente para os agricultores, os aeronáuticos, os marinheiros e assim por diante em função de suas tarefas. No evangelho de hoje, Jesus nos chama nossa atenção, porque sabemos muito bem prever o clima, mas não sabemos discernir ou ler os sinais abundantes e claros que Deus nos envia diariamente. O Senhor continua passando perto de nossa vida, com suficientes referências ou sinais. Mas podemos ter perigo de que não captamos nem reconhecemos essa presença. O Senhor se faz presente na enfermidade ou na tribulação (cf. Mt 25,38-40), nas pessoas com as quais trabalhamos ou com as quais formamos nossa família, nas boas notícias que cada pessoa espera para sua vida, sua família e assim por diante. Nossa vida será bem diferente, se estivermos bastante conscientes da presença divina na nossa vida diária. Se tivermos consciência da presença de Deus na nossa vida diária (cf. Mt 28,20), desaparecerá de nossa vida a rotina, o mau-humor, as tristezas e as preocupações exageradas porque viveremos com muita fé na providência divina.

Jesus reprova seus concidadãos de não serem capazes de interpretar os “sinais dos tempos”, quando são perfeitamente capazes de interpretar os sinais meteorológicos.

Lendo e meditando as palavras de Jesus no evangelho deste dia o Concilio Vaticano II, através de um dos seus famosos documentos, chamado Gaudium et Spes (GS) afirma: “é dever da Igreja investigar a todo o momento os sinais dos tempos, e interpretá-los à luz do Evangelho; para que assim possa responder, de modo adaptado em cada geração, às eternas perguntas dos homens acerca do sentido da vida presente e da vida futura, e da relação entre ambas. É, por isso, necessário conhecer e compreender o mundo em que vivemos, as suas esperanças e aspirações, e o seu caráter tantas vezes dramático” (GS, no.4). “O Povo de Deus, movido pela fé com que acredita ser conduzido pelo Espírito do Senhor, o qual enche o universo, esforça-se por discernir nos acontecimentos, nas exigências e aspirações, em que participa juntamente com os homens de hoje, quais são os verdadeiros sinais da presença ou da vontade de Deus. Porque a fé ilumina todas as coisas com uma luz nova, e faz conhecer o desígnio divino acerca da vocação integral do homem e, dessa forma, orienta o espírito para soluções plenamente humanas” (GS no. 11).

Analisando o estado atual do mundo, “o momento presente”, o Concílio reconheceu alguns “sinais dos tempos” essenciais: a solidariedade crescente dos povos apesar do barulho do pequeno grupo que sempre faz o contrário, o ecumenismo apesar da resistência de alguns grupos religiosos; a preocupação pela liberdade religiosa apesar de determinados país prenderem a liberdade de escolha.

O Espírito de Deus continua atuando no mundo através de muitos sinais. Ele continua atuando nos olhos dos que choram, nos que sofrem por serem justos, honestos, e verdadeiros; nos que trabalham pela paz apesar da resistência diante da reconciliação; em quantos trabalham pela erradicação da fome e da pobreza apesar da exploração e da corrupção de alguns grupos insensíveis às questões sociais; em todo o homem e a mulher que procura Deus com coração sincero apesar das dores encontradas na vida. A sua vontade de rezar e de meditar a Palavra de Deus é sinal de que o Espírito de Deus continua atuando em você. O Espírito de Deus continua atuando em você quando reza por si e pelos outros; em tantas pessoas que estão sempre prontas para ajudar quem está em necessidade. Numa palavra, em tudo o que é bondade e amor, paz e bem porque tudo isto é reflexo e semente do sinal básico do sacramento perene do próprio Deus. Em tudo que aconteceu e acontece e acontecerá na nossa vida Deus quer nos dizer alguma coisa a respeito de nossa salvação, mas que nem sempre sabemos criar o silêncio para ouvir a mensagem de Deus. O silêncio é o vazio fecundo que possibilita a presença do Eterno, ou da Plenitude na nossa vida.

Segundo o convite de Jesus, é preciso dar-nos conta do momento em que nos encontramos. Em outras palavras, precisamos transformar o kronos, isto é, o tempo medido pelos segndos, em kairós, isto é , tempo da graça de Deus e da oportunidade de salvaçao. A consciência do tempo de Deus transforma nossas atividades diárias em atividades salvíficas e transforma nossos trabalhos em vivência do amor fraterno.

Portanto, é preciso que façamos a revisão de nossa vida e o modo pelo qual vivemos. A finalidade da “revisão de vida” é tratar, humildemente de “reconhecer” a ação de Deus nos acontecimentos, em nossas vidas, nas pessoas com as quais encontramos diariamente ou ocasionalmente, nos sofrimentos e nas dores, nas vitórias e nos desafios de cada dia, e assim por diante, para encontrá-Lo e participar nessa ação de Deus a fim de revelá-Lo, enquanto for possível, aos que O ignoram. Somente quem vive aberto ao Espírito de Deus, percebe sua voz, sua chamada e sua presença. Por isso, há que estar sempre alerta e atento.

Portanto, é bom cada um se perguntara: O que é que Deus quer de mim através de todos os acontecimentos da vida minha vida e de todos os acontecimentos ao meu redor? Que resposta eu devo dar a tudo isto? Que ação eu devo fazer como resposta ao convite de Deus através desses acontecimentos? Deus nunca deixa de nos dar recado diariamente. Basta abrir os olhos e o coração.

P. Vitus Gustama,svd

Segunda-feira Da XXX Semana Comum, Ano Par, 26/10/2026

DEUS É NOSSO PAI MISERICORDIOSO QUE NOS AMA E SALVA PARA QUE TAMBÉM AMEMOS OS OUTROS Segunda-Feira Da XXX Semana Comum Primeira Leitura:...