terça-feira, 16 de junho de 2026

Quinta-feira Da XI Semana Comum, Ano Par, 18/06/2026

PAIZINHO NOSSO QUE ESTÁ NO CÉU

Quinta-feira da XI Semana Comum

Primeira Leitura: Eclo 48,1-15

1O profeta Elias surgiu como um fogo, e sua palavra queimava como uma tocha. 2 Fez vir a fome sobre eles e, no seu zelo, reduziu-os a pouca gente. 3Pela palavra do Senhor fechou o céu e de lá fez cair fogo por três vezes. 4Ó Elias, como te tornaste glorioso por teus prodígios! Quem poderia gloriar-se de ser semelhante a ti? 5Tu, que levantaste um homem da morte e dos abismos, pela palavra do Senhor; 6tu, que precipitaste reis na ruína e fizeste cair do leito homens ilustres; 7tu, que ouviste censuras no Sinai e decretos de vingança no Horeb. 8Tu ungiste reis, para tirar vingança, e profetas, para te sucederem; 9tu foste arrebatado num turbilhão de fogo, um carro de cavalos também de fogo, 10tu, nas ameaças para os tempos futuros, foste designado para acalmar a ira do Senhor antes do furor, para reconduzir o coração do pai ao filho, e restabelecer as tribos de Jacó. 11Felizes os que te viram, e os que adormeceram na tua amizade! 12Nós também, com certeza, viveremos; mas, após a morte, não será tal o nosso nome. 13Apenas Elias foi envolvido no turbilhão, Eliseu ficou repleto do seu espírito. Durante a vida não temeu príncipe algum, e ninguém o superou em poder. 14Nada havia acima de suas forças, e, até já morto, seu corpo profetizou. 15Durante a vida realizou prodígios e, mesmo na morte, suas obras foram maravilhosas.

Evangelho: Mt 6,7-15

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 7 ”Quando orardes, não useis muitas palavras, como fazem os pagãos. Eles pensam que serão ouvidos por força das muitas palavras. 8 Não sejais como eles, pois vosso Pai sabe do que precisais, muito antes que vós o peçais. 9 Vós deveis rezar assim: Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o teu nome; 10 venha o teu Reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como nos céus. 11 O pão nosso de cada dia dá-nos hoje. 12 Perdoa as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido. 13 E não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal. 14 De fato, se vós perdoardes aos homens as faltas que eles cometeram, vosso Pai que está nos céus também vos perdoará. 15 Mas, se vós não perdoardes aos homens, vosso Pai também não perdoará as faltas que vós cometestes”.

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As Palavras De Um profeta Purifica, Consagra e Renova Os Homens Por Dentro

A Primeira Leitura tirada do livro de Eclesiástico é o resumo sobre a vida do profeta Elias que nos recorda o que lemos nos dias anteriores (Eclo 48,1 - 1Rs18,38; Eclo 48,2-1Rs 19,18; Eclo 48,3- 1Rs 17,1-7 + 2Rs 1,10-12 sobre fogo três vezes descido do céu; Eclo 48,5 – 1Rs 17,17-24 etc.). E o Salmo Responsorial reflete também o rasgo que o Eclesiástico  destaca do temperamento de Elias em sua luta contra a idolatria a fim de defender o monoteismo. “Vai um fogo caminhando à sua frente e devora ao redor seus inimigos. Seus relâmpagos clareiam toda a terra; toda a terra ao contemplá-los estremece. Os que adoram as estátuas se envergonhem e os que põem a sua glória nos seus ídolos; aos pés de Deus vêm se prostrar todos os deuses!” (Sl 96/97). O estilo do profeta Elias é fogoso.

O profeta Elias surgiu como um fogo, e sua palavra queimava como uma tocha. Pela palavra do Senhor fechou o céu e de lá fez cair fogo por três vezes” (Eclo 48,1.3). É o elogio do autor do Livro de Eclesiástico que se fez muito tempo depois da “subida” (arrebatamento) de Elias ao céu. Geralmente, os fatos do passado são constantemente interpretados pelas gerações sucessivas para tirar deles as lições para a atualidade.

Segundo o texto do livro de Eclesiástico que lemos na Primeira leitura o profeta Elias surgiu “como um fogo” e sua palavra abrasava “como uma tocha” e “fez cair fogo três vezes”.

Para os hebreus, como para muitos povos acostumados com “sacrifícios”, o fogo é o elemento misterioso que une o homem a Deus. A vítima (animal sacrificado) se passava pelo fogo para que o fogo penetrasse nela e se comia essa vitima em uma comida sagrada para entrar em comunhão com a divindade.

Para muitos povos fogo é considerado sagrado, purificador e renovador. Seu poder destruidor, muitas vezes, é interpretado como meio de renascimento para um nível mais elevado. Em algumas culturas há até deus de fogo: Agni na India; Héstia na Grega; e vários deuses de fogo na China. O fogo purifica. A própria existência dos profetas que se aproximaram de Deus sem serem consumidos é testemunho disso (cf. 2Rs 2,11).

Porém, os profetas escritores gostam também de anunciar e descrever a ira de Deus com um fogo: castigo dos ímpios (Am 1,4-2,5). O fogo do juízo, no fim dos tempos, se torna verdadeiro fogo da ira de Deus quando cai sobre o pecador cujo coração permanece endurecido até o fim.

A Igreja vive deste fogo que abrasa o mundo, graças ao sacrifício de Cristo. O fogo ardia o coração dos discípulos de Emaús quando ouviram o Ressuscitado (Lc 24,32). O fogo desceu do céu sobre os discípulos no dia de Pentecostes. Mas o fogo aqui simboliza o Espirito Santo que tem por missão transformar todos os que devem difundir a linguagem do Espirito para todas as nações.

A palavra de um profeta é como fogo: purifica, renova e torna sagrado quem ouve essa palavra. Assim eram as palavras do profeta Elias. Trata-se de um ardor que tudo vence como a chama do amor divino que salva (cf. Ct 8,6s). As palavras de um profeta podem assustar quem as ouve, mas na verdade tem por objetivo levantar as pessoas para uma vida digna de filhos e filhas de Deus e de irmãos entre si. Para quem ama  e para quem é amado não tem como não falar e não ouvir as palavras purificadoras, mesmo que sejam amargas. Mas há remedidos que amargam, porém curam muitas doenças.  Nas palavras amargas de quem nos ama contém sabedoria para vivermos em retidão. Pedro até foi chamado de satanás pelo Senhor por causa do escândalo que ele queria arrumar (cf. Mt 16,23).

Nosso Deus É Nosso Papaizinho

O nome mais adequado ao Deus que reina, o nome mais sábio da teologia definitiva, o nome que exalta a transcendência da divindade e a revela próxima a nós e imanente como fonte de nossa vida, o nome que Jesus acendeu sobre o mundo e entregou às almas em busca de uma linguagem para dirigir-se a Deus, é o dulcíssimo, humaníssimo e sublime nome de Pai (...) A religião nova nasce daqui: Pai nosso, que estais nos céus. Um novo modo de ser nasce daqui: sejais perfeitos, como vosso Pai é perfeito” (Papa Paulo VI).        

Estamos ainda no Sermão da Montanha (Mt 5-7) onde podemos encontrar vários ensinamentos fundamentais de Jesus para nós, seus seguidores. No evangelho de hoje Jesus nos dá seu conselho sobre oração. ”Quando orardes, não useis muitas palavras, como fazem os pagãos 

Rezar significa abrir-se para Deus. Nossa vida não pode estar centrada em nós mesmos ou só nas coisas deste mundo. Rezar é saber escutar a Palavra d’Aquele que é maior do que nosso cérebro e dirigir-lhe, pessoal e comunitariamente nossa palavra de louvor e de súplica com confiança de filhos. A oração é mais do que recitar umas fórmulas, é, sobretudo, uma convicção íntima de que Deus é nosso Pai e que quer nosso bem. A oração nos situa diante de Deus e nos faz reconhecer tal como somos já que somos criados à imagem de Deus. A oração vai nos descobrindo o que temos de ser em cada momento. A oração nos humaniza, faz-nos mais humanos, mais criaturas, e não criadores. Se não rezarmos é impossível que nos conheçamos a fundo, porque não saberemos o que poderíamos ser, não saberemos até onde vamos. A oração nos possibilita dizermos em profundidade o que somos, o que pensamos e o que vivemos e para onde vamos. 

No texto do evangelho anterior o aspecto individual da oração é destacado com a advertência sobre o perigo de exibicionismo:Quando orardes, não sejais como os hipócritas, que gostam de rezar em pé, nas sinagogas e nas esquinas das praças, para serem vistos pelos homens” (Mt 6,5). Na prática de Jesus a oração individual e a oração comunitária são da mesma importância.

“Vós, portanto, orai assim: Pai nosso que estás nos céus....”, diz nos Jesus. De todas as revoluções do Evangelho, a mais profunda e a mais radical é a revelação de Deus como Pai, e consequentemente Deus como amor, como o Pai mais carinhoso e entranhável e todos nós somos Seus filhos. A tradução mais fiel da palavra “Abba” não é simplesmente “Pai” e sim “Papaizinho”. Qualquer pai sabe muito bem como se sente ao ouvir o apelido “paizinho”. E qualquer filho sabe muito bem como se sente ao chamar seu pai de “paizinho”. Só pode ser uma grande intimidade e ternura. Ao ensinar seus discípulos a chamarem Deus como Pai na oração, Jesus quer enfatizar a simplicidade, a proximidade, a intimidade, a ternura e a familiaridade. A palavra “pai” é algo que tem a ver com a família, a intimidade e a informalidade.

O Pai-Nosso não é uma simples oração apesar de ser breve. O Pai-Nosso é uma síntese de tudo o que Jesus viveu e sentiu a propósito de Deus, do mundo e de seus discípulos. Chamar Deus de “Pai” é algo insólito, inimaginável que expressa a máxima confiança, proximidade e ternura. Jesus quer nos dizer que Deus é o nosso Pai que está sempre ao nosso lado, cheio de cuidados e ternura para cada um de seus filhos e filhas. Com a palavra “Pai” abre-se um mundo novo nas relações de Deus para com o homem. A vida cristã está banhada de alegria, pois sabemos que somos filhos e filhas de Deus independentemente de nossa situação e de nosso modo de viver. Ou seja, no Pai Nosso Jesus nos convida a sermos amplos em nossos desejos e anseios na oração. No Pai Nosso, Jesus nos apresenta o que deve ser o grande anseio cristão: que Deus e seu amor estejam presentes em nossa vida diária e no coração de todos os homens. Nele pedimos que o mundo seja como Jesus o quer: que o amor e a fraternidade sejam o que marcam a vida dos homens. Que ninguém fique à margem de uma vida digna; que ninguém falte o alimento de cada dia, tampouco o alimento espiritual que nos ajuda a crescer como pessoas e como cristãos. O Pai Nosso nos faz olharmos para nossa realidade débil e pecadora, recordando-nos a importância da oração para não cairmos na tentação.

Além do mais, ao chamar Deus de Pai precisamos estar conscientes de que precisamos viver como irmãos e irmãs, como recorda Santo Tomás de Aquino: “Ao dizermos Pai, recordemos duas obrigações que temos para com os semelhantes: Primeiro, devemos amá-los porque são nossos irmãos, pelo fato de serem filhos de Deus (cf. 1Jo 4,20). Segundo, devemos reverenciá-los, tratando-os como filhos de Deus (cf. Ml 2,10; Rm 12,10; Hb 5,9) “.        

Rezar o Pai-Nosso é seguir Jesus Cristo, aprendendo dele a maneira de viver, de escolher e também o modo de enfrentar a morte; quais são as razões profundas, as raízes da própria existência. Dizer “Pai” nos torna disponíveis, enche-nos de confiança, facilita a nossa entrega, pois estamos certos de sermos ouvidos, e isto nos permite superar as barreiras do medo e da incerteza. Dizer “Pai” significa que eu devo me comportar como filho diante dele e como irmão diante dos outros, pois eu sou irmão de muitos outros irmãos. Dizer “Pai” faz nascer a certeza de que somos amados, isto é, nos leva a um ato de inteiro abandono em Deus. Quem chama Deus de “Paizinho” (Abba) jamais pode perder a perspectiva na vida apesar dos problemas e da idade avançada. Em Deus Pai sempre ganhamos novas perspectivas e o maior horizonte na nossa frente, pois Deus Pai está nos nossos olhos para podermos ver muito além da visão humana.

O Pai-Nosso é um modelo de oração que Jesus nos ensina. Primeiro, esta oração nos faz pensar em Deus que é nosso Pai: Seu nome, Seu Reino, Sua vontade. Jesus quer estejamos em sintonia com Deus, nosso Pai. Logo em seguida, passa para nossas necessidades que devemos pedir ao Pai: o pão de cada dia, o perdão de nossas faltas, a força para não cair em tentação e vencer o mal. Trata-se de uma oração de uma espiritualidade equilibrada. E esta oração confirma nossa condição de filhos para Deus e também nossa condição de irmãos dos demais, dispostos a perdoar, porque todos nós somos filhos do mesmo Pai. 

Diante de um mundo que prescinde de Deus, Jesus propõe como primeira petição, como ideal supremo do discípulo, o desejo da glória de Deus: “Santificado seja Vosso nome!”. Nessa petição situa Deus acima de tudo e de todos, exalta sua majestade e deseja que seja proclamada sua glória. 

Diante de um mundo onde predomina o ódio, a violência, a vingança, a crueldade, Jesus pede que seja instaurado o Reino de Deus, o Reino de justiça, de amor, de compaixão, de paz, de fraternidade onde um cuida do outro, pois o outro é o filho de Deus e por isso, é meu irmão. “Venha o teu Reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como nos céus”.  Só assim será instaurado o Reino de Deus nesta terra.

E como uma comunidade de irmãos, filhos do mesmo Pai celeste, os seguidores de Jesus precisam diariamente do pão que sustenta a vida, pois a vida é sagrada, do perdão mútuo, pois todos são pessoas com suas limitações e fraquezas, e da ajuda de Deus para manter-se firmes. Por isso, a partir da dimensão comunitária (Pai nosso), a oração do Pai nosso é um convite para estabelecermos com Deus uma relação de confiança e intimidade e uma relação de fraternidade com os demais com uma disposição constante de perdão. 

Vamos Meditar Um Pouco Mais Através das Palavras do Papa Francisco: “’Pai’: sem dizer, sem ouvir essa palavra não se pode rezar. A quem eu rezo? Ao Deus Todo-poderoso? Muito distante, não conseguirá sentir sua presença aqui perto de mim; nem mesmo Jesus sentiria. A quem eu rezo? Ao Deus cósmico? Está na moda em nossos dias orar ao Deus cósmico: é a modalidade politeísta típica de uma cultura light... Você deve rezar ao Pai! é uma palavra forte, ‘Pai’. Você de rezar Àquele que o criou, que lhe deu a vida. Ele a deu a todos, é claro, mas ‘todos’ é muito impessoal. Ele deu a vida a você e também a mim. e também é Ele que acompanha você no seu caminho, conhece toda a sua vida; o que é bom e aquilo que não é tao bom. Se não começamos a oração com ess palavra, vinda do coração e não simplesmente dos lábios, não podemos rezar ‘como verdadeiros cristãos’. Temos um Pai muito perto de nós, que nos abraça. Todas as necessidades, todas as preocupações que possamos ter, entreguemo-las nas mãos do Pai: Ele conhece muito bem tudo de que precisamos. Mas ‘Pai’ em que sentido? Meu Pai? Não, Nosso Pai! Porque não sou filho único, ninguém de nós o é; e se não posso ser irmão, dificilmente poderei tornar-me filho desse Pai, porque Ele é o pai de todos. É meu pai, claro, mas também dos outros, dos meus irmãos. E se não estou em paz com meus irmãos, não posso chamar a Deus de ‘Pai’. Não é possível rezar quando temos inimigos no coração...com irmaos e inimigos no mesmo coração. Sei que não é fácil. “Mas Santo Padre, não consigo dizer ‘Pai’, a palavra não vem”. É verdade, eu entendo. “Não posso dizer ‘nosso’ porque o meu irmão, meu adversário, mez isso, me fez aquilo e... deviam ir para o inferno, não são da minha turma”. É verdade, não é fácil. Mas Jesus nos prometeu o Espírito Santo: é Ele quem nos ensina como dizer ‘Pai’ e como dizer ‘nosso’ a partir de dentro, do coração. Peçamos ao Espírito Santo  que nos ensine a dizer ‘Pai’ e também a poder dizer ‘nosso’, fazendo as pazes com todos os nossos inimigos. ... Espero que cada um de nós, enquanto diz ‘Pai nosso’, sinta-se cada vez mais amado, perdoado, banhado pelo orvalho do Espirito Santo, e ao mesmo tempo seja capaz de amar e perdoar a todos os seus irmaos e irmãs. Assim teremos uma ideia do que é o paraíso” (Pai Nosso, Ed. Planeta, São Paulo, 2018 pp.11-13).

Enquanto não crermos em Deus Pai, dificilmente poderemos aceitar que somos irmãos. E o racismo, a discriminação, e a desigualdade permanecerão dominar nossa convivência, e haverá vítimas cada vez maior em número.

P. Vitus Gustama, SVD

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Quarta-feira Da XI Semana Comum, Ano Par, 17/06/2026

VIVER NA INTERIORIDADE E NA AUTENTICIDADE CONFORME O ESPÍRITO DO SENHOR

Quarta-Feira da XI Semana Comum

Primeira Leitura: 2Rs 2,1.6-14

1 Quando o Senhor quis arrebatar Elias ao céu, num redemoinho, Elias e Eliseu partiram de Guilgal. 6 Tendo chegado a Jericó, Elias disse a Eliseu: “Permanece aqui, porque o Senhor me mandou até o Jordão”. E ele respondeu: “Pela vida do Senhor e pela tua, eu não te deixarei”. E partiram os dois juntos. 7 Então, cinquenta dos filhos dos profetas os seguiram, e ficaram parados, à parte, a certa distância, enquanto eles dois chegaram à beira do Jordão. 8 Elias tomou então o seu manto, enrolou-o e bateu com ele nas águas, que se dividiram para os dois lados, de modo que ambos passaram a pé enxuto. 9 Depois que passaram, Elias disse a Eliseu: “Pede o que queres que eu te faça antes de ser arrebatado da tua presença”. Eliseu disse: “Que me seja dada uma dupla porção do teu espírito”. 10 Elias respondeu: “Tu pedes uma coisa muito difícil. Se me vires quando me arrebatarem da tua presença, isso te será concedido; caso contrário, isso não te será dado”. 11 E aconteceu que, enquanto andavam e conversavam, um carro de fogo e cavalos de fogo os separaram um do outro, e Elias subiu ao céu num redemoinho. 12 Eliseu o via e gritava: “Meu pai, meu pai, carro de Israel e seu condutor!” Depois, não o viu mais. E, tomando as vestes dele, rasgou-as em duas. 13 Em seguida, apanhou o manto que Elias tinha deixado cair e, voltando sobre seus passos, estacou à margem do Jordão. 14 Tomou então o manto de Elias e bateu com ele nas águas dizendo: “Onde está agora o Deus de Elias?” E bateu nas águas, que se dividiram, para os dois lados, e Eliseu atravessou o rio.

Evangelho: Mt 6,1-6.16-18

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 1“Ficai atentos para não praticar a vossa justiça na frente dos homens, só para serdes vistos por eles. Caso contrário, não recebereis a recompensa do vosso Pai que está nos céus. 2Por isso, quando deres esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem elogiados pelos homens. Em verdade vos digo: eles já receberam a sua recompensa. 3Ao contrário, quando deres esmola, que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua mão direita, 4de modo que, a tua esmola fique oculta. E o teu Pai, que vê o que está oculto, te dará recompensa. 5Quando orardes, não sejais como os hipócritas, que gostam de rezar em pé, nas sinagogas e nas esquinas das praças, para serem vistos pelos homens. Em verdade, vos digo: eles já receberam a sua recompensa. 6Ao contrário, quando tu orares, entra no teu quarto, fecha a porta, e reza ao teu Pai que está oculto. E o teu Pai, que vê o que está escondido, te dará a recompensa. 16Quando jejuardes, não fi­queis com o rosto triste como os hipócritas. Eles desfiguram o rosto, para que os homens vejam que estão jejuando. Em verdade, vos digo: Eles já receberam a sua recompensa. 17Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto, 18para que os homens não vejam que estás jejuando, mas somente teu Pai, que está oculto. E o teu Pai, que vê o que está escondido, te dará a recompensa”.

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Quem Vive De Acordo Com o Espírito Divino Permanece Vivo Em Deus

A primeira Leitura fala da última passagem do profeta Elias neste mundo na presença de seu discípulo Eliseu. Fala-se  do arrebatamento de Elias ao céu. A finalidade do texto é introduzir o ciclo do profeta Eliseu, sucessor legítimo do profeta Elias no ministério profético. Portanto, a autoridade do profeta Eliseu serve como herdeiro privilegiado do espírito profético do seu grande mestre, o profeta Elias.

A passagem de Elias deste mundo é misteriosa: “Aconteceu que, enquanto andavam e conversavam, um carro de fogo e cavalos de fogo os separaram um do outro, e Elias subiu ao céu num redemoinho”. Um profeta de alma de fogo, como Elias, não podia desaparecer sem ser no “fogo”, símbolo de Deus. Isto significa que Elias está em Deus. Elias permanece vivo.

Na transfiguração, Pedro, Tiago e João viram Jesus conversando com Moisés e Elias (Mc 9,2-13; Mt 17,1-13; Lc 9,28-36). Através dessas páginas evangélicas está a afirmação de nossa fé no mais além, na supervivência. “Creio na comunhão dos santos... Creio na ressurreição da carne... Creio na vida eterna”, assim professamos no nosso Credo. A morte não é o ponto final para nossa vida. Na morte estamos indo para a casa do Pai (Cf. Jo 14,1-3). Pensemos nos inumeráveis “viventes” que estão em Deus, inclusive nossos familiares, amigos e tantos outros (Cf. Ap 7,4.9-14).

No tempo de Jesus, a crença popular esperava o retorno de Elias que devia preceder o Messias. Assim o povo perguntava a João Batista: “Quem és? És tu Elias?(Jo 1,21). Além disso,  na anunciação do nascimento de João Batista o anjo disse a Zacarias: “Ele (João Batistas) estará com o espírito e poder de Elias(Lc 1,17). E um dia, Jesus dirá quando fala de João Batistas: “Se quiserdes dar crédito, ele é o Elias que deve vir(Mt 11,14).

A divisão das águas do Jordão onde passam o profeta Elias e seu discípulo Eliseu é um eco do episódio do mar Vermelho (cf. Ex 14,21). Assim o autor do segundo Livro dos reis quer colocar mais uma vez em paralelo as figuras de Moisés e de Elias.

Na sua última passagem deste mundo, o profeta Elias proíbe Eliseu de segui-lo, repetidamente. Mas Eliseu lhe respondeu: “Pela vida do Senhor e pela tua, eu não te deixarei”. A repetição da proibição quer enfatizar as provas que o discípulo deve superar para ser testemunha privilegiada do mestre. A contemplação da partida do profeta Elias serve para Eliseu como sinal e garantia da sucessão.

Além disso, na despedida, Eliseu pede a Elias: “Que me seja dada uma dupla porção do teu espírito”. Eliseu quer que tenha o espírito de Elias. Elias é o homem sempre à escuta de Deus e cumpre a ordem de Deus, e é enviado (por Deus) para estar sempre próximo dos homens, apesar dos medos e das perseguições, a fim de restabelecer a Aliança entre Deus e os homens.

Aconteceu que, enquanto andavam e conversavam, um carro de fogo e cavalos de fogo os separaram um do outro, e Elias subiu ao céu num redemoinho”. Diante de um texto como este, não cabe perguntar se as coias assim aconteceram. É preciso perguntar o que significam.  Só a fidelidade consomem os fieis. Somente Deus é a meta dos que buscam o Deus único.

Se Elias não morreu, se ele vive no céu em Deus é verdade também que continuará vivendo aqui na terra em seus sucessores, seus discípulos, nos que prosseguem sua missão. O manto de Elias é herança, símbolo de seu espirito. O “manto de Elias”, símbolo de seu papel de profeta, passa aos ombros de Eliseu. Eliseu recolheu o manto de Elias e com ele volta a dividir as águas de Jordão. Ao Eliseu receber o manto de Elias, o texto quer nos dizer que Eliseu é o legítimo sucessor de Elias, como profeta.

Com uma série de gestos simbólicos -o rio Jordão com sua memória de Josué e do povo entrando na terra prometida, o manto sobre a água, o "ver ou não ver" do profeta em sua despedida, o carro de fogo-, Eliseu é consagrado como profeta de Deus, entre os discípulos que Elias formou como o grupo dos fiéis à aliança de Deus, que não adoravam Baal.

Quem é Elias e Eliseu hoje entre nós? Quem pode ser Elias e Eliseu hoje entre nós? No Batismo quando o sacerdote/diácono unge nossa fronte (unção pós-batismal) diz a seguinte frase: “... Que Deus consagre....com o óleo santo para que, inseridas em Cristo, sacerdote, profeta e rei, continuem no seu povo até a vida eterna”. No batismo recebemos, então, a missão profética: missão de anunciar a Boa Nova e denunciar tudo que se opõe à Boa Nova.

Homens de Deus, como Elias, são homens espirituais, isto é, homens que vivem de acordo com o espírito do Senhor, transfigurados por dentro; são homens que dentro deles tem manancial; homens que mana “a água viva”. Os que vivem de acordo com o Espírito do Senhor não morrem, mas fazem uma passagem deste mundo, por força de Deus, para o mundo de Deus. Os que estão transfigurados por dentro pelo Espírito de Deus, permanecem vivos em Deus como o profeta Elias. Os que vivem de acordo com o Espírito de Deus são levados por Deus para estar junto a Ele eternamente. Os que vivem de acordo com o Espírito de Deus se perpetuam na terra através de suas palavras, ações e obras e se tornam nossos irmãos que rezam por nós diante de Deus, pois somos um só diante de Deus. homens como Elias não morrem nunca. Toda a sua trajetória foi a dos que vivem morrendo  de amor pelo Senhor e pelo  próximo.

Somos Chamados a Viver Na Interioridade e Na Autenticidade

Ficai atentos para não praticar a vossa justiça na frente dos homens só para serdes vistos por eles. Caso contrário, não recebereis a recompensa do vosso Pai que está nos céus” (Mt 6,1). O texto do evangelho de hoje pertence ao Sermão da Montanha (Mt 5-7). Através de sua Palavra de hoje o Senhor nos convida a vivermos na interioridade e na autenticidade, pois esse modo de viver nos traz a paz e a felicidade. Quando nossa interioridade ficar vazia, procuraremos algo fora de nós para nos apoiar. Somente usa a bengala quem tem pernas fracas para caminhar. Quem vive na interioridade a partir da interioridade, isto é, viver de acordo com os valores, não precisa provar que é importante. uma pessoa é valorizada pelos valores vividos e não pelos bens que se tem.

Através do Sermão da Montanha, Jesus quer que nossa vida seja na interioridade e na autenticidade; que não busquemos elogios nem a aprovação nem a recompensa; que busquemos apenas o bem e vivamos de acordo com ele. Simplesmente trabalhemos pelo bem. Em nome do bem, não temamos a reprovação nem o esquecimento nem a ingratidão. Basta viver com Deus, para Deus e na Sua presença. O que conta na nossa vida não é a opinião que os demais podem/possam ter de nós, e sim o que pensa Deus de nós, pois somente Deus tem capacidade de nos ver por dentro. É um deixar-se julgar por Deus, deixar-se interrogar por Ele, deixar-se impugnar por Ele. Por isso, é uma exigência muito mais forte do que a exigência dos homens e de todos os tipos de comentários.

Agradar a Deus exige um desprendimento de si infinitamente maior do que agradar os homens. Mas esta exigência é apaziguadora porque procede do interior, não busca vaidade nem vantagens humanas, nem exibicionismo nem apresentação teatral ao ajudar os demais ou ao fazer o bem. É preciso viver na autenticidade. É preciso saber distinguir o que apresentamos e o que representamos; o que é apresentação e o que é representação. Não basta apresentação, é preciso saber o que você está representando em tudo que você diz, comenta e faz.

Jesus nos alerta para vivermos na interioridade porque os mais belos gestos da verdadeira religião como a esmola, jejum e oração, podem, por desgraça, ser desviados de seu sentido: busca apenas de si mesmo, dos próprios interesses. A hipocrisia religiosa é pior de todas porque ela pode afastar as pessoas de Deus, especialmente os mais simples. Que nossa caridade seja invisível para os olhos dos homens, mas visível para os olhos de Deus. As obras de piedade não devem ser praticadas para ganhar prestígio diante dos homens e com isto, adquire uma posição de poder ou privilégio. Quem faz assim se priva da comunicação divina, cessa a relação de filho-Pai com Deus.

Quando se trabalha somente por Deus ou para Deus no bem praticado pelo bem do homem não há perigo de cair na demagogia, na adulação e no compromisso interesseiro. Na presença de Deus não há lugar para oportunismos nem para os oportunistas. A vida cristã há de ser vivida na simplicidade. Não podemos confundir o testemunho com teatralidade.

Três Práticas de Piedade: a Esmola, a Oração e o Jejum

Dar a esmola é uma prática comum no AT (cf. Dt 15,7-10; PR 11,17; Tb 4,7-11; Dn 11,17). Em Dn 4,24 versão LXX  a esmola se expressa com o termo “justiça”. Segundo o dito dos antigos, a esmola une a quem a dá com o pobre, seu irmão, filho de Deus, e com Deus. Daí a sentença de Jesus: “... não toques a trombeta diante de ti”. Ou seja, não busques tua glória, humilhando o pobre, pois perderias toda recompensa diante de Deus. Viva a misericórdia no Senhor, realiza teu dever para com o próximo necessitado. No NT, a comunidade cristã sente e vive em profundidade este compromisso.

É um convite para a prática de misericórdia para os pobres. A esmola une quem a dá com quem a recebe e com Deus, segundo os antigos. Por isso é que Jesus disse: “Quando deres esmola, não toques a trombeta diante de ti..”, isto é, não buscar a própria glória, humilhando o pobre, pois perderia a recompensa de Deus e diante de Deus. É preciso ajudar o pobre pelo seu bem e não pelo bem de quem presta a ajuda. É o bem pelo bem. Mais nada! O fim da própria atuação ao dar esmola é unir-se a Deus, o Pai que vê tudo em segredo.

No NT, a comunidade cristã vive profundamente esse compromisso (cf. Lc 4,18-21; At 2,42-46; 4,32.37; 2Cor 8,9.13). Quem dá esmola quer restabelecer a relação com o pobre. A situação de pobreza é contrária à vontade de Deus (cf. Mt 5,1-12) e, por isso, quem dá esmola cumpre a vontade de Deus. No entanto, o gesto de dar esmola deve ser fruto de cálculos egoístas e sim de uma verdadeira comunhão de bens: “Que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua mão direita”. Ao mesmo tempo a esmola não pode favorecer à preguiça pela facilidade em ganhar bens (dinheiro e outros bens materiais) por parte de quem a recebe. Não podemos trabalhar somente pelo pobre; temos que trabalhar com o pobre. Se você fizer um benefício ou um bem, nunca se lembre dele; se você receber um, nunca se esqueça dele.

A segunda prática de piedade é a oração. Não tem como não rezar se o homem leva a sério seu ser; se o homem vive sua vida na profundidade. A oração aproxima a terra ao céu. A oração derruba o muro que separa a humanidade de Deus. Oração leva quem reza para a esfera divina e introduz o homem no terreno sagrado. Mas Jesus nos alerta que o momento de oração não é um momento de ostentação. Quem reza, busca Deus e não a própria glória ou para ser visto pelos demais. Por isso, Jesus insiste na prática da interioridade. Jesus nos ensina que precisamos buscar momentos de encontro pessoal com o Pai e manter as conversas com Ele.

Além disso, Jesus acrescenta que o importante na oração não é a materialidade das palavras e sim como se vivem essas palavras no coração e como se pode expressar através delas a própria relação com o Pai e sentir-se em sintonia com Ele. Se o momento de oração é o momento de conversar com o Pai, logo o momento de oração é o momento de Deus se revelar. Para Deus se revelar é preciso criar o silêncio. O silêncio possibilita a presença da Eternidade no nosso presente.

A terceira prática da piedade é o jejum. Na tradição do Povo de Deus tanto o jejum como a esmola e a oração são fundamentos da relação: Deus-homem (eu)-irmãos. No AT se pratica também o jejum comunitário, por exemplo, no dia da Expiação (cf. Lv 16,29; 23,27). Jesus não elimina a prática de piedade; Ele quer que a cumpramos com sinceridade, sem nenhum tipo de hipocrisia. Todo sinal externo de jejum pessoal deve desaparecer para converter-se em um ato dirigido exclusivamente para Deus. A prática do jejum tem como objetivo buscar um contato mais íntimo com Deus, com Seu perdão, com Sua benevolência e com Sua graça. O jejum bíblico é um ato essencialmente de buscar o contato íntimo com Deus para que vivamos como irmãos. O profeta Isaias critica duramente quem pratica o jejum, mas oprime o irmão (cf. is 58,3-9). Os elementos essenciais de um jejum agradável a Deus: o jejum unido à oração e encontra sua expressão mais autentica no serviço aos pobres. Trata-se de um jejum com uma dimensão social.

Ficai atentos para não praticar a vossa justiça na frente dos homens só para serdes vistos por eles. Caso contrário, não recebereis a recompensa do vosso Pai que está nos céus (Mt 6,1) é o recado de Jesus para nós todos. Vivamos na interioridade e na autenticidade para que sejamos felizes e firmes nesta vida.

P. Vitus Gustama, SVD

Terça-feira Da XI Semana Comum, Ano Par, 16/06/2026

INIMIGO: POR QUE DEVO AMÁ-LO E REZAR POR ELE?

Terça-Feira da XI Semana Comum

Primeira Leitura: 1Rs 21,17-29

Após a morte de Nabot, 17 a palavra do Senhor foi dirigida a Elias, o tesbita, nestes termos: 18 “Levanta-te e desce ao encontro de Acab, rei de Israel, que reina em Samaria. Ele está na vinha de Nabot, aonde desceu para dela tomar posse. 19 Isto lhe dirás: ‘Assim fala o Senhor: Tu mataste e ainda por cima roubas!’ E acrescentarás: ‘Assim fala o Senhor: No mesmo lugar em que os cães lamberam o sangue de Nabot, lamberão também o teu’”. 20 Acab disse a Elias: “Afinal encontraste-me, ó meu inimigo?” Elias respondeu: “Sim, eu te encontrei. Porque te vendeste para fazer o que desagrada ao Senhor, 21 farei cair sobre ti a desgraça: varrerei a tua descendência, exterminando todos os homens da casa de Acab, escravos ou livres em Israel. 22 Farei com a tua família como fiz com as famílias de Jeroboão, filho de Nabat, e de Baasa, filho de Aías, porque provocaste a minha ira e fizeste Israel pecar. 23 Também a respeito de Jezabel o Senhor pronunciou uma sentença: ‘Os cães devorarão Jezabel no campo de Jezrael. 24 Os da família de Acab, que morrerem na cidade, serão devorados pelos cães, e os que morrerem no campo, serão comidos pelas aves do céu’”. 25 Não houve ninguém que se tenha vendido como Acab, para fazer o que desagrada ao Senhor, porque a isto o incitava sua mulher Jezabel. 26 Portou-se de modo abominável, seguindo os ídolos dos amorreus que o Senhor tinha expulsado diante dos filhos de Israel. 27 Quando Acab ouviu estas palavras, rasgou as vestes, pôs um cilício sobre a pele e jejuou. Dormia envolto num pano de penitência e andava abatido. 28 Então a palavra do Senhor foi dirigida a Elias, o tesbita, nestes termos: 29 “Viste como Acab se humilhou diante de mim? Já que ele assim procedeu, não o castigarei durante a sua vida, mas nos dias de seu filho enviarei a desgraça sobre a sua família”.

Evangelho: Mt 5,43-48

43“Vós ou­vistes o que foi dito: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo!’ 44Eu, porém, vos digo: ‘Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem!’ 45Assim, vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus, porque ele faz nascer o sol sobre maus e bons, e faz cair a chuva sobre os justos e injustos.46Porque, se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Os cobradores de impostos não fazem a mesma coisa? 47E se saudais somente os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Os pagãos não fazem a mesma coisa? 48Portanto, sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito”.

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Ser Homem de Deus e Irmão Dos Homens

Levanta-te e desce ao encontro de Acab, rei de Israel, que reina em Samaria. Ele está na vinha de Nabot, aonde desceu para dela tomar posse. Isto lhe dirás: ‘Assim fala o Senhor: Tu mataste e ainda por cima roubas!”. Esta é a ordem de Deus para o profeta Elias.

Perseguido por Jezabel, Elias teve que fugir, mas agora volta à cidade, por ordem de Deus, e está pronto para continuar atuando como profeta, após sua crise de desânimo (cf. 1Rs 19,1-18).

Desta vez ele corajosamente confronta Acab pelo grave erro que cometeu: ele assassinou Nabot e roubou sua terra e fez "Israel pecado" com a idolatria.

O profeta Elias anuncia um duro castigo de Deus, embora mais tarde, diante do arrependimento demonstrado pelo rei fraco e inconstante Acab, lhe diga que isso acontecerá mais tarde, no tempo de seu filho. Fato paralelo ao de Davi, que também se arrependeu de seu pecado e obteve a extensão do castigo (cf. 1Sm 12,13-15).

O Salmo  Responsorial («miserere») é o eco desta humilde atitude de Acab, como também o foi de Davi: “Misericórdia, ó meu Deus, misericórdia! Eu reconheço toda a minha iniquidade. Na imensidão de vosso amor, purificai-me!”.

Levanta-te e desce ao encontro de Acab, rei de Israel, que reina em Samaria. Ele está na vinha de Nabot, aonde desceu para dela tomar posse. Isto lhe dirás: ‘Assim fala o Senhor: Tu mataste e ainda por cima roubas!’ E acrescentarás: ‘Assim fala o Senhor: No mesmo lugar em que os cães lamberam o sangue de Nabot, lamberão também o teu’”, ordenou Deus ao profeta Elias que lemos na Primeira Leitura que é a continuação do texto do dia anterior.

É a mesma Palavra de Deus que pede a Elias que se retire ao deserto na solidão e que vá ao encontro dos homens saindo da fuga. Oração e ação! O profeta Elias obedece sem condição à Palavra de Deus. Elias é um profeta incondicionalmente entregue a Deus e totalmente entregue aos homens pela sua salvação. Elias é um homem capaz de viver em relação com o invisível, na oração, e capaz de arriscar-se em serviço da justiça para defender os justos e inocentes. Sua missão provem de uma fonte profunda: contemplação. O Deus contemplado é que empurra Elias para a ação.

Assim fala o Senhor: Tu mataste e ainda por cima roubas! No mesmo lugar em que os cães lamberam o sangue de Nabot, lamberão também o teu”. É terrível transmitir essa mensagem! Mas Deus pede que o profeta Elias diga estas palavras para o rei Acab. Deus quer dizer a qualquer homem, por poderoso que ele pareça ser, que a prepotência, a injustiça e o assassinato nunca podem ter a última palavra, pois Deus que tirou os hebreus da escravidão do Egito é também o Defensor dos fracos, inocentes e justos. Por isso, Deus envia o profeta Elias para denunciar os pecados do rei Acab que são assassinato de Nabot e o roubo, pois tomou posse da terra que era de Nabot.

A intervenção do profeta Elias nos leva para a intervenção de Natã que denuncia o rei Davi que cometeu dois pecados graves: a luxuria com a mulher de Urias e assassinato de Urias para Davi poder ficar com a mulher de Urias (cf. 2Sm 2). O profeta Elias não denuncia apenas, mas anuncia o castigo que o rei Acab sofrerá: “No mesmo lugar em que os cães lamberam o sangue de Nabot, lamberão também o teu”. Mas sabemos que Deus não ameaça por ameaçar, pois Deus não quer a morte do pecador e sim que se converta e viva (Cf. Ez 18,23). Tanto que Deus suspende o castigo sobre o rei Acab quando este se arrependeu: “Viste como Acab se humilhou diante de mim? Já que ele assim procedeu, não o castigarei durante a sua vida, mas nos dias de seu filho enviarei a desgraça sobre a sua família”. Nisto percebemos que não há pecado, por grave que seja, não possa ser perdoado por Deus, desde que o pecador se arrependa e se converta. O campo da misericórdia divina é muito mais vasto do que o campo da miséria criado por homem.

Nabot é a imagem de pessoa honrada, exposta à arbitrariedade dos poderosos. Não há que vender-se aos poderosos representados pelo rei Acab e sua esposa Jezabel. Deus cuida das viúvas e dos pobres de qualquer lugar e cultura.

Em todos os tempos há profetas valentes, verdadeiros profetas que falam em nome de Deus sobre determinadas situações. O profeta é humano, ferido pela realidade, mas somente Deus o põe em pé.Estes profetas defendem os direitos dos débeis e dos pobres porque o que falat ao pobre falta para Deus. Tudo que se faz para um pobre, um débil faz-se para o próprio Deus (Cf. Mt 25,40.45).

A justiça social também entra, e de forma muito importante, no campo de atividade dos cristãos. Basta ler as encíclicas sociais dos papas recentes. O Catecismo da Igreja Católica (n.1397) apresenta um aspecto importante da nossa missa (Eucaristia): "A Eucaristia compromete com ospobres", e cita uma dura homilia de São João Crisóstomo, na qual se queixa de alguns cristãos que mostram um culto muito cuidadoso ao Cristo eucarístico, porém não reconhecem o Cristo que está nos irmãos mais pobres: “Degustaste o Sangue do Senhor e não reconheces sequer o teu irmão. Desonras esta própria mesa, não julgando digno de compartilhar do teu alimento aquele que foi julgado digno de participar desta mesa. Deus te libertou de todos os teus pecados e te convidou para esta mesa. E tu, nem mesmo assim, te tornaste mais misericordioso”.

Há muitos como Nabot no mundo de hoje: pobres e débeis maltratados pela vida e afastados pelos demais homens. Terá que ter também muito como Elias que denunciam a injustiça e trabalham concretamente pela justiça social. Trata-se de uma luta contra o pecado social e estrutural e outros tipos de pecado.

Também na vida cotidiana há muitos Acabs e Jezabels que roubam e matam ou roubam de mão armada. Muitos como Acab se arrependem. Mas também muitos demoram para sentir na própria pele a dor dos outros e por isso, continuam roubando e matando. Onde está errado?

O pecado é um mal intolerável porque destrói em nós a vida, pois nos faz cortar nosso relacionamento com Deus da vida e nos aliena da Casa Paterna; nos faz perder nossa relação fraterna com o próximo e vê-lo como inimigo a quem tratamos de eliminar em função de nossos interesses egoístas. Mas apesar de nossas grandes misérias e pecados, voltemos para Deus com um coração contrito e humilhado, pois Deus é misericórdia. “Na Sagrada Escritura, como se vê, a misericórdia é a palavra-chave para indicar o agir de Deus para conosco. Ele não Se limita a afirmar o seu amor, mas torna-o visível e palpável. Aliás, o amor nunca poderia ser uma palavra abstrata. Por sua própria natureza, é vida concreta: intenções, atitudes, comportamentos que se verificam na atividade de todos os dias. A misericórdia de Deus é a sua responsabilidade por nós. Ele sente-Se responsável, isto é, deseja o nosso bem e quer ver-nos felizes, cheios de alegria e serenos. E, em sintonia com isto, se deve orientar o amor misericordioso dos cristãos. Tal como ama o Pai, assim também amam os filhos. Tal como Ele é misericordioso, assim somos chamados também nós a ser misericordiosos uns para com os outros” (Papa Francisco: Misericordiae Vultus n.9d).

Somos Chamados a Viver Como Cristãos Misericordiosos

Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem!’ Assim, vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus, porque ele faz nascer o sol sobre maus e bons, e faz cair a chuva sobre os justos e injustos”. É uma aplicação do mandamento do amor ao próximo: “Amarás ao teu próximo”. É lógico que Jesus não se oponha ao que disse. O próximo é todo se humano. Por isso, não tem sentido dizer: “Odiarás ao teu inimigo”.

O texto do Evangelho de hoje se encontra no Sermão da Montanha (Mt 5-7). O texto do evangelho de hoje faz parte das seis antíteses nesse Sermão. Encontra-se no texto de hoje a última antítese. Nesta ultima antítese Jesus nos diz: “Ouvistes o que foi dito: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo’”. Através desta antítese o cristão é chamado a não apenas superar a justiça dos fariseus (Mt 5,20), mas também a dos publicanos (pecadores), inclusive a dos pagãos. O cristão é chamado a viver sua filiação divina na convivência com os demais seres humanos. Viver na filiação divina é viver na sintonia com o coração do Pai que “faz nascer o sol sobre maus e bons, e faz cair a chuva sobre os justos e injustos”.

Por isso, diante da lei antiga Jesus faz seu comentário e sua reflexão que servem de instrução para os cristãos: Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem, para serdes filhos do vosso Pai que está nos Céus».          

Inimigo é uma palavra muito forte. Geralmente se refere àqueles que estão em estado de guerra. Pode também ser usada para descrever grupos ou indivíduos que oprimem outros, que algemam sua liberdade e impedem seu crescimento. Inimigo também é alguém que se coloca no caminho da nossa liberdade e dignidade. É alguém a quem evitamos e com quem nos recusamos comunicar. Nem sempre temos coragem de dizer que temos inimigos, pois esta palavra é muito forte. 

Porém, consciente ou conscientemente a atitude de uma pessoa de não querer se comunicar com seu rival/inimigo vai virar a antipatia e a antipatia pode se transformar em mágoa; a mágoa se torna raiva e a raiva vai virar ódio. O ódio é como uma gangrena: devora a pessoa. Também o ódio é igual alguém a tomar o veneno e espera que o outro morra. Mas na verdade, quem toma o veneno é que vai morrer. Todas as nossas recusas em nos comunicarmos com os outros e nos abrirmos a eles encerram-nos na prisão. Em vez de nos ajudar a crescermos no amor, no perdão e na abertura, esse processo pode nos fechar em formas sutis de depressão e inércia. Nesse caso somos prisioneiros de nós mesmos ou do nosso grupo.

Creio que ainda temos plena consciência que as forças da vida e os desejos de comunhão são maiores do que a força da morte e do ódio. Por isso, no fundo, em todos os momentos nós somos chamados à liberdade e à abertura. Viver é uma permanente busca da liberdade para a salvação.                 

Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem”, diz-nos Jesus. Aqui amar o inimigo consiste em se tornar seu intercessor: “Orai por aquele que vos persegue”. O verdadeiro amor recusa qualquer tipo de vingança contra o inimigo. Ao contrário, deve-se oferecer-lhe alternativa para conviver. A motivação para fazer tudo isso é o modo de agir do Pai que “faz nascer o sol sobre maus e bons, e faz cair a chuva sobre os justos e injustos”. Nisto consiste nosso ser como cristãos: ser imitadores do Pai do céu. Tal Pai, tal filho! 

Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem”. Trata-se de um apelo à mudança, a não mais sermos controlados por nossas mágoas e nossos medos, mas em pensarmos sobre a paz na direção à maturidade cristã.  Essas palavras parecem impossíveis de serem vividas quando o relacionamento foi profundamente atingido, ou mesmo rompido; quando o inimigo é aquele ou aquela que está na origem das graves feridas ou dos profundos sofrimentos, que talvez tenham destruída toda a nossa vida; quando nos encontramos diante do imperdoável.                 

Quando Jesus nos diz: “Amai vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem”, ele não vive no sonho. Em nenhum caso, amar o inimigo e orar por ele poderia significar que lhe damos licença de nos destruir. O amor é nunca destrutivo.                 

Amar o inimigo não pertence ao âmbito do sentimento, do sensível, mas ao domínio da vontade profunda, da opção, da vontade de estar em concordância com as leis do Reino. A palavra de Cristo é uma ordem de vida, não se refere ao sentimento.                 

Por isso, o mandamento do amor ao inimigo é a maior exigência da mensagem de Jesus. Segundo Jesus, o amor há de chegar a todos porque todo homem há de ter a experiência do amor de Deus. Neste ponto o homem há de ser colaborador de Deus. A medida da ação do homem é Deus: “Sejam perfeitos como o Pai do céu é perfeito”. Deus está no ato de amar. É o que diz o evangelho falando de “imitação de Deus” no mesmo ato de amar acima das comunidades naturais e sagradas nas quais vivemos. É o mesmo ato de amar que constitui caminho para Deus e não a qualidade sagrada do objeto amado.                 

Amar os inimigos e rezar por eles quando nos tratam mal superam todo preceito. É uma exigência que se apóia no exemplo do próprio Deus, que vê todos, bons e maus, como os Seus filhos. Amar os inimigos é gratuidade do amor que é vivido na presença de Deus e palavras que encontram a sua garantia na própria prática de Jesus. Na cruz Jesus rezou pelos inimigos: “Pai perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34). Tão integral foi sua identificação com os pecadores e criminosos, que ele teve que suplicar ao Pai que perdoasse aos responsáveis por sua crucificação. O perdão é a maior necessidade de toda a humanidade, pois somente através do perdão de nossos pecados e através do perdão que oferecemos aos outros é que alcançaremos paz de espírito, sem o qual a vida se tornará um tormento, uma infindável procura de uma satisfação que jamais chega. O perdão é o testamento escrito por Jesus na cruz.          

Jesus não dá apenas leis novas para os cristãos e para as pessoas de boa vontade. Ele dá aquilo que não cabe dentro de nenhuma lei: uma atitude totalmente nova que não se explica humanamente.  “Amigo” e “inimigo” não serão nem salvos por minha simpatia, nem malditos por meu ódio. Pelo contrário, o que será julgado, salvo ou maldito, será meu ódio e meu amor. No relacionamento com o próximo, na minha facilidade de classificar amigos e inimigos, o julgado sou eu. O decisivo, portanto, não é o meu sentimento, mas a fé de que eles também estão colocados diante da face de Deus. A partir do meu comportamento diante deles e contra eles, eu serei julgado por Deus. 

Infelizmente, em nossa pequena história de cada dia, há espaço para distinguir as pessoas por simpatia ou interesse, brigas e indiferenças prolongadas, ou ressentimento para com aqueles que nos parecem não estar nos olhando bem. Temos um campo de exame e propósito ao ler essas recomendações de Jesus. 

"Ama os teus inimigos, porque eles falam-te dos teus defeitos. Causar um dano coloca você abaixo do inimigo, vingar-se faz com que você se iguale a ele, perdoá-lo coloca você acima dele" (Benjamin Franklin).

P. Vitus Gustama, SVD

domingo, 14 de junho de 2026

Segunda-feira Da XI Semana Comum, Ano Par, 15/06/2026

VIVER COMO CRISTÃOS É VIVER COMO JUSTOS E RECONCILIADOCONTRA TODO O MAL

Segunda-Feira da XI Semana Comum

Primeira Leitura: 1Rs 21,1-16

Naquele tempo, 1 Nabot de Jezrael possuía uma vinha em Jezrael, ao lado do palácio de Acab, rei de Samaria. 2 Acab falou a Nabot: “Cede-me a tua vinha, para que eu a transforme numa horta, pois está perto da minha casa. Em troca eu te darei uma vinha melhor, ou, se preferires, pagarei em dinheiro o seu valor”.  3 Mas Nabot respondeu a Acab: “O Senhor me livre de te ceder a herança de meus pais”. 4 Acab voltou para casa aborrecido e irritado por causa desta resposta que lhe deu Nabot de Jezrael: “Não te cederei a herança de meus pais”. Deitou-se na cama, com o rosto voltado para a parede, e não quis comer nada.  5 Sua mulher Jezabel aproximou-se dele e disse-lhe: “Por que estás triste e não queres comer?” 6 Ele respondeu: “Porque eu conversei com Nabot de Jezrael e lhe fiz a proposta de me ceder a sua vinha pelo seu preço em dinheiro, ou, se preferisse, eu lhe daria em troca outra vinha. Mas ele respondeu que não me cede a vinha”.  7 Então sua mulher Jezabel disse-lhe: “Bela figura de rei de Israel estás fazendo! Levanta-te, toma alimento e fica de bom humor, pois eu te darei a vinha de Nabot de Jezrael”. 8 Ela escreveu então cartas em nome de Acab, selou-as com o selo real, e enviou-as aos anciãos e nobres da cidade de Nabot. 9 Nas cartas estava escrito o seguinte: “Proclamai um jejum e fazei Nabot sentar-se entre os primeiros do povo, 10 e subornai dois homens perversos contra ele, que deem este testemunho: ‘Tu amaldiçoaste a Deus e ao rei!’ Levai-o depois para fora e apedrejai-o até que morra”. 11 Os homens da cidade, anciãos e nobres concidadãos de Nabot, fizeram conforme a ordem recebida de Jezabel, como estava escrito nas cartas que lhes tinha enviado. 12 Proclamaram um jejum e fizeram Nabot sentar-se entre os primeiros do povo. 13 Chegaram os dois homens perversos, sentaram-se diante dele e testemunharam contra Nabot diante de toda a assembleia, dizendo: “Nabot amaldiçoou a Deus e ao rei”. Em virtude disto, levaram-no para fora da cidade e mataram-no a pedradas. 14 Depois mandaram a notícia a Jezabel: “Nabot foi apedrejado e morto”. 15 Ao saber que Nabot tinha sido apedrejado e estava morto, Jezabel disse a Acab: “Levanta-te e toma posse da vinha que Nabot de Jezrael não te quis ceder por seu preço em dinheiro; pois Nabot já não vive; está morto”. 16 Quando Acab soube que Nabot estava morto, levantou-se para descer até a vinha de Nabot de Jezrael e dela tomar posse.

Evangelho: Mt 5,38-42

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 38 “Ouvistes o que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente!’ 39 Eu, porém, vos digo: Não enfrenteis quem é malvado! Pelo contrário, se alguém te dá um tapa na face direita, oferece-lhe também a esquerda! 40 Se alguém quiser abrir um processo para tomar a tua túnica, dá-lhe também o manto! 41 Se alguém te forçar a andar um quilômetro, caminha dois com ele! 42 Dá a quem te pedir e não vires as costas a quem te pede emprestado”.

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No Abuso Do Poder, o Inocente, o Simples É Sempre Vítima

Lemos na Primeira leitura o abuso do poder do rei Acab através de sua esposa, Jezabel. Sabe-se que quanto maior for o poder, maior será o abuso. Na realidade, o poder em si não corrompe; são as pessoas que corrompem o poder. Tomemos cuidado com o poder, pois ele atrai o pior e corrompe o melhor. Onde o amor fraterno e o serviço imperam, não há desejo de poder. Mas onde o poder predomina, sempre haverá a falta de amor e de serviço pelo bem comum. Um é sombra do outro.

O episódio de um poderoso (Acab) que se apropria injustamente do que pertence a um pobre (Nabot) é uma cena que pode contar-se do século IX a.C ou de hoje mesmo.

É um fato cheio de cinismo, sobretudo por parte de Jezabel, a rainha adoradora de Baal, que entende a religião e o poder somente a seu favor, sem ter em conta a justiça social. O bom homem Nabot faz bem em recusar-se a vender sua vinha, mesmo que o rei a tenha pedido em termos justos. Trata-se da herança que recebeu dos pais e que não pode ser alienada assim. E o rei fica triste por causa desta recusa: “Deitou-se na cama, com o rosto voltado para a parede, e não quis comer nada”.

Por que Nabot não quer entregar seu terreno ao rei Acab? Porque, como foi dito, o terreno é sagrado no conceito do povo eleito. Cada família recebeu sua parte da terra prometida, dada pelo Senhor, e esta terra tem que permanecer unida à família como um depósito sagrado e inalienável (cf. Lv 25,23).

Segundo o conceito do rei Acab, em nome da ganância, a venda e a troca da herança familiar faz parte de um negócio completamente legal: “Cede-me a tua vinha, para que eu a transforme numa horta, pois está perto da minha casa. Em troca eu te darei uma vinha melhor, ou, se preferires, pagarei em dinheiro o seu valor” (1Rs 21,2). Porém o rei deve respeitar a razão e o direito de Nabot: “Não te cederei a herança de meus pais”, disse Nabot ao rei Acab (1Rs 21,4). Para Nabot a vinha representa o lugar de sua fidelidade aos antepassados e ao próprio Javé de quem recebeu a terra.

Mas quem abusa do poder sempre acha alguma “saída”, mesmo que seja contra a ética ou mesmo que alguém deva ser vítima disso. Neste caso, a mulher de Acab, Jezabel resolveu arrumar um problema para Nabot para poder possuir o terreno de Nabot: “Ela escreveu então cartas em nome de Acab, selou-as com o selo real, e enviou-as aos anciãos e nobres da cidade de Nabot. Nas cartas estava escrito o seguinte: ´Proclamai um jejum e fazei Nabot sentar-se entre os primeiros do povo, e subornai dois homens perversos contra ele, que deem este testemunho: ‘Tu amaldiçoaste a Deus e ao rei!’ Levai-o depois para fora e apedrejai-o até que morra´”. 

Para Jezabel, a rainha devota de Baal, é inconcebível  que a autoridade permita a um súdito não obedecer ao rei Acab, seu marido. Os que se acham poderosos sempre procuram algum meio, nem que seja através da violência para calar seus súditos, os pobres, os inocentes. Deste modo, Jezabel tem a porta bem aberta para continuar pervertendo o povo de Israel e os anciãos do povo caíram na armadilha da rainha Jezabel. E o rei Acab, sem personalidade e sem ética aceitou o plano da mulher, Jezabel. Nabot, o inocente, se torna uma vítima fatal: foi apedrejado até a morte. A briga dos poderosos sempre termina com o sacrifício da vida dos inocentes.

Para um poderoso, como o rei Acab e a rainha Jezabel, tudo é permitido e não existe lei ou direito que o limite. Para ele, não agir assim significa não reinar. Quantos inocentes foram e continuam sendo vítimas dos poderosos. O resultado desse plano: “Nabot foi apedrejado e morto”. E o rei Acab toma posse do terreno que não era dele, mas era do morto Nabot: “Quando Acab soube que Nabot estava morto, levantou-se para descer até a vinha de Nabot de Jezrael e dela tomar posse”. Tudo é crime, pois acaba com a morte do inocente, Nabot.

Para um ambicioso como o rei Acab e sua esposa, Jezabel, o recurso à violência parece-lhe justo e honesto. O ambicioso só obedece ao seu instinto de mandar e receber honrarias. E esse instinto é violento.  Quem desejar ser a todo custo o primeiro, dificilmente se preocupará com ser justo. Nas mãos de um ambicioso, o poder só representa um constante perigo. Para ele, o poder é um convite aos seus maus instintos para que explorem a força que ele tem a seu dispor. Quando no vértice do poder, o ambicioso transmitirá aos súditos os seus sentimentos, arruinando as pessoas contrárias ao seu desejo, arruinando a nação com assim chamada  a política do prestígio, dos que só visam a conseguir a sua própria grandeza. Prestígio! Palavra mágica que encanta e corrompe a tantos mortais.

Um ambicioso anda com o político corrupto.  Um corrupto consegue arrancar dinheiro de ruas, de rodovias, de ferrovias, de portos, de aeroportos, de hospitais, de escolas, cursos profissionalizantes e assim por diante para si próprio e suas comparsas. A desonestidade consegue inventar todo o tipo de fraudes. Na avareza está oculta uma ofensa social. E nosso coração chora ao nos sentirmos traídos por pessoas às quais delegamos o poder para ser nossos representantes políticos em função do bem comum.

Mas o Senhor não renunciava a ser o attentico Rei de Israel, defensor dos desamparados, dos excluídos, dos inocentes, dos justos. A voz do profeta se levanta como um eco da bondade de Deus que recusa totalmente a perversão do poder. A força da palavra profética na pessoa de Elias é muito mais forte do que o poder da rainha Jezabel, pois a culpa pesa muito mais do que qualquer poder neste mundo. é um aviso à autoridade injusta e atodos os seus cúmplices.

A maldade dos cínicos e o abuso de poder continuam a existir no nosso mundo.

Muitas pessoas poderosas tiram vantagem de sua situação para sua própria vantagem. O que hoje chamamos de "tráfico de influências" ou os vários tipos de corrupção do poder, é a mesma coisa que Acab e Jezabel fizeram com o pobre Nabot. O fraco sempre sai perdendo, mesmo que esteja com a verdade. Isso pode acontecer em níveis políticos, na relação entre poderosos e fracos, ou na economia mundial, entre ricos e pobres. Também na Igreja. João Paulo II, no Limiar Do Terceiro Milênio, convidou a comunidade cristã a examinar quantas vezes recorreu à violência, acreditando que, ao fazê-lo, estava fazendo o bem para a verdade ou para a religião, com o que chama de «métodos de intolerância e até da violência a serviço da verdade» (Tertio Millennio Adveniente, 35).

Mas também pode acontecer em nosso pequeno mundo doméstico. Cada um de nós pode ser um tirano e abusar de seu poder em relação a outros mais fracos. Será que recorremos a truques e até injustiças para conseguir o que queremos, quando não conseguimos de outra maneira?

Não nos contentemos em julgar Jezabel e Acabe. Pode ser que nós também às vezes “esmaguemos os fracos” quando eles nos atrapalham em nossos propósitos e em nossos interesses.

A Misericórdia Divina Pede Para Vivermos Reconciliados

Não enfrenteis quem é malvado!”

O texto do evangelho lido neste dia se encontra no Sermão da Montanha (Mt 5-7). Este texto é conhecido como a quinta antítese nesse Sermão que nos fala sobre como devemos nos relacionar com quem nos ofendeu. Deus jamais legitima o mal ou a vingança contra quem nos pratica o mal.

Para entender o significado desta antítese precisamos conectá-la com as bem-aventuranças na abertura do Sermão da Montanha. Em algumas das bem-aventuranças Jesus declara: “Bem-aventurados os mansos... Bem-aventurados os misericordiosos... Bem-aventurados os que promovem a paz...”. É isto que Jesus nos ensina agora e nos ensinará também com seu exemplo (cf. Mt 11,28-30; 12,18-21). Na Paixão, Jesus pedirá o perdão ao Pai para os malvados (cf. Lc 23,34). São Pedro na sua primeira Carta escreveu: “Quando injuriado, não revidava; ao sofrer, não ameaçava, antes, punha a sua causa  nas mãos daquele que julga com justiça” (1Pd 2,23).

Nesta quinta antítese, Jesus faz seu comentário sobre a lei de talião do Antigo Testamento. No Livro do Êxodo lemos: “Vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, queimadura por queimadura, ferida por ferida, golpe por golpe(Ex 21,23-25; cf. Lv 20,17-22). Aqui se acentua a vingança proporcional ou a vingança na mesma medida.                

A lei de talião era conhecida em todo o Oriente Antigo. Ela é encontrada no Código Hammurábi, nas leis assírias, na Torah bem como também entre os gregos e os romanos.

No famoso Código de Hammurabi (século XVIII a.C) encontramos os seguintes artigos referentes à Lei de talião:

·      O artigo 196: “Se alguém arrancar um olho de outro, também seu olho será arrancado”.

·      O artigo 197: “Se alguém quebrar um membro de outro, também um de seus membros será quebrado”.

·      O artigo 200: “Se alguém quebrar um dente de outro, um de seus dentes será quebrado”.

A finalidade primordial dessa lei era colocar um limite a uma vontade desenfreada de vingança em uma sociedade em que a vingança era quase que institucionalizada (cf. Gn 4,23-24). Portanto, a intenção dessa lei era proteger os direitos das pessoas contra os excessos de violência.

Na quinta antítese do Sermão da Montanha Jesus faz uma reflexão sobre a lei de talião e oferece uma solução: “Pelo contrário, se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a esquerda. Se alguém quiser levar-te ao tribunal, para ficar com a tua túnica, deixa-lhe também o manto. Se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante um quilômetro, caminha dois com ele. Dá a quem te pedir e não vires as costas a quem te pede emprestado” (Mt 5,38-42).

No tempo de Jesus, a lei de Talião já estava bastante superada. Platão já tinha ensinado no mundo grego: “Não se deve responder à injustiça com injustiça, nem fazer dano a nenhum homem, independentemente do dano que nos fez”. No mundo judaico, a comunidade de Qumran tinha a seguinte regra: “Não retribuirei o mal com o mal a ninguém, mas farei o bem a todos, pois o julgamento pertence a Deus”.

Jesus se explica ainda melhor e nos descreve o comportamento adequado diante da injustiça: uma resistência passiva nos três primeiros casos (Mt 5,39b-41), uma reação ativa e benéfica em todo caso (Mt 5,42). Tudo é guiado por um princípio: “Não enfrenteis quem é malvado!”. Jesus nos está ensinando uma forma de mudar a comunidade dos homens e, sobretudo, como se deve comportar a comunidade dos discípulos no mundo para que sempre triunfe a vida.

Um primeiro passo (Mt 5,39b) é não reagir à violência com violência, não entrar em sua engrenagem infernal. Este é o sentido da expressão hiperbólica: “Se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a esquerda”. Leia Jo 18,22-23 onde se encontra algum exemplo de Jesus.

O segundo exemplo (Mt 5,40) é o caso de um tão malvado que quer arruinar você completamente, inclusive diante de um processo de justiça: “Tirar a túnica”. Jesus diz que devemos dar-lhe também o manto. Para Mateus, o manto é mais querido pelo pobre, pois serve também para se proteger do frio da noite. Quem não o tem, porque foi tirado, pode somente confiar em Deus que escuta o grito do pobre (cf. Dt 24,13). Quando o mal se manifesta, o que pode fazer aquele que deseja ser justo? (Salmo 11,3). Confie em Deus e procure espalhar um pouco de bondade, de gentileza, evitando sempre a violência.

Às vezes, a injustiça ou o mal pode, inclusive, institucionalizar-se (Mt 5,41). É o terceiro passo. Na atualidade, com impostos exorbitantes que obrigam as pessoas a realizar trabalhos árduos, transportar mercadorias ou outras atividades..."Se alguém te forçar a andar um quilômetro, caminha dois com ele!”. Na prática, Jesus ensina a afrontar as situações tristes com uma certa serenidade e generosidade. É manter uma atitude aberta em situação de doação e de serviço aos irmãos a exemplo do próprio Jesus (cf. At 20,38)                 

Com esta antítese Jesus coloca como alternativa à violência, não a lei de talião, mas a não-violência. Na verdade, Jesus já colocou nas Bem-aventuranças a atitude certa contra a violência: “Bem-aventurados os mansos, bem-aventurados os misericordiosos, bem-aventurados os que promovem a paz”. Jesus nos ensina também com seu exemplo (cf. Mt 11,28-30; 12,18-21). E São Pedro na sua Carta escreveu que Cristo “Quando injuriado, não revidava; ao sofrer não ameaçava, antes, punha a sua causa nas mãos daquele que julga com justiça” (1Pd 2,23).

A reação paradoxal que Jesus sugere aos cristãos, diante da violência, tem uma finalidade concreta: mostrar as possibilidades extremas de aplicação do seu mandamento de amor. Quem é movido por um amor incondicional ao próximo será capaz de fazer gestos radicais para coibir a violência, sem responder com a mesma moeda. Tudo supõe que se tenha um coração limpo (cf. Mt 5,8). A lei de talião é excluída pela limpeza de coração e pela compaixão. O cristão é chamado a não entrar na engrenagem infernal de um violento e não reagir com a violência à violência.       

Segundo Jesus não basta “aguentar” os maus; devemos fazer, por eles, algo de positivo. Jesus não quer bobos, mas fortes, capazes de fazer algo para que o mundo mude ou melhore. Não é suficiente sofrer, enquanto tivermos ainda uma possibilidade de fazer positivamente o bem.

Não é possível viver odiando em inimizade profunda e irreversível. O dano interior provocado por uma relação esfarrapada corrói nossas melhores energias e o Templo de Deus em nós se deteriora (cf. 1Cor 3,16-17) e os sentimentos de vingança o deformam lentamente. O perdão é o testamento escrito por Jesus na cruz. Da cruz Jesus pede perdão por todos aqueles que o crucificaram: “Pai, perdoa-lhe porque sabem o que fazem” (Lc 23,34). 

Vamos olhar para nossa realidade, tanto dentro da Igreja como fora dela, na sociedade, e vamos nos perguntar: a Lei de Talião ainda continua sendo praticada? Será que abandonamos a cultura que o Papa Francisco denomina a Cultura do encontro em que um se torna próximo do outro e por isso, um tem que cuidar do outro? A cultura do encontro freia até elimina a cultura de violência em que tudo se resolve com a briga e a vingança? Não temos tentação em fazer vingança contra o outro que não está de acordo com nosso pensamento e nossa maneira de viver? Viver uma vida de uma maneira só é uma grande pobreza e mata toda a criatividade. 

Deveríamos realizar um progressivo desarme intelectual, moral e religioso. É não justificar o injustificável. É crer na força do amor. É tirar da Eucaristia a certeza de curar nossas feridas profundas. Toda vez que fazemos memória da morte e ressurreição de Cristo, o mesmo Senhor nos introduz, pelo Espírito, na plenitude de sua existência pascal. 

Quando o amor for “excesso” o mal é obrigado a não se produzir e sua existência se extingue. Não é uma petição aos heróis e sim para todos os cristãos para que imitem o exemplo do seu Senhor Jesus Cristo. Para isso, temos que pedir permanentemente ao Senhor sua graça e força que vem de Seu Espírito para acontecer uma transformação profunda no nosso modo de viver com os demais homens. Mas “Empregar o nome de não-violência quando existe uma espada em vosso coração é, não somente hipocrisia e desonesto, mas, ainda, covardia. Se permanecermos não-violentos, o ódio ficará sem efeito. O primeiro princípio da ação não-violenta é o da não-cooperação com tudo que é humilhante” (Mahatma Gandhi). 

Reflitamos as seguintes palavras do escritor e psicólogo argentino, René Juan Trossero: 

“Não me importam as suas teorias sobre a violência;

O que me interessa saber é como você vive

No meio da violência que nos cerca por todas as partes.

 

Se você nunca foi vítima da violência,

Fale sobre ela com prudência

Por respeito aos que a sofrem na pele.

 

Provocar a violência em nome de Deus

E do Evangelho é um sacrilégio.

Pregar a resignação para os que sofrem a violência,

Invocando Deus e o Evangelho, é uma trapaça.

 

Não acabará a violência quando houver menos armas,

E sim quando houver mais amor.

 

Destruir a violência com a violência

É como apagar um incêndio com gasolina.

A única maneira de lutar contra a violência

É não provocá-la”.  

São Pedro descreve Jesus da seguinte maneira: “Quando injuriado, não revidava; ao sofrer, não ameaçava, antes, punha a sua causa nas mãos daquele que julga com justiça” (1Pd 2,23). Diante deste Jesus precisamos olhar para nossa maneira de viver e de conviver, pois adotamos a maneira de viver de Jesus como nossa e assumimos seus ensinamentos para nossa vida cotidiano, pois somos cristãos? Será que podemos nos dizer como somos cristãos, ou estamos cristãos ainda?

P.Vitus Gustama,svd

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