segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Quinta-feira Da XX Semana Comum, Ano Par, 20/08/2026

É PRECISO ESTARMOS PREPARADOS PARA O BANQUETE ETERNO DO SENHOR

Quinta-Feira Da XX Semana Comum

Primeira Leitura: Ez 36,23-28

Assim fala o Senhor: 23 “Vou mostrar a santidade do meu grande nome, que profanastes no meio das nações. As nações saberão que eu sou o Senhor – oráculo do Senhor Deus –, quando eu manifestar minha santidade à vista delas por meio de vós. 24 Eu vos tirarei do meio das nações, vos reunirei de todos os países, e vos conduzirei para a vossa terra. 25 Derramarei sobre vós uma água pura, e sereis purificados. Eu vos purificarei de todas as impurezas e de todos os ídolos. 26 Eu vos darei um coração novo e porei um espírito novo dentro de vós. Arrancarei do vosso corpo o coração de pedra e vos darei um coração de carne; 27 porei o meu espírito dentro de vós e farei com que sigais a minha lei e cuideis de observar os meus mandamentos. 28 Habitareis no país que dei a vossos pais. Sereis o meu povo e eu serei o vosso Deus”.

Evangelho: Mt 22,1-14

Naquele tempo, 1 Jesus voltou a falar em parábolas aos sumos sacerdotes e aos anciãos do povo, 2 dizendo: “O Reino dos Céus é como a história do rei que preparou a festa de casamento do seu filho. 3 E mandou os seus empregados chamar os convidados para a festa, mas estes não quiseram vir. 4 O rei mandou outros empregados, dizendo: ‘Dizei aos convidados: já preparei o banquete, os bois e os animais cevados já foram abatidos e tudo está pronto. Vinde para a festa!’ 5 Mas os convidados não deram a menor atenção: um foi para o seu campo, outro para os seus negócios, 6 outros agarraram os empregados, bateram neles e os mataram. 7 O rei ficou indignado e mandou suas tropas, para matar aqueles assassinos e incendiar a cidade deles. 8 Em seguida, o rei disse aos empregados: ‘A festa de casamento está pronta, mas os convidados não foram dignos dela. 9 Portanto, ide às encruzilhadas dos caminhos e convidai para a festa todos os que encon­trar­des’. 10 Então os empregados saíram pelos caminhos e reuniram todos os que encontraram, maus e bons. E a sala da festa ficou cheia de convidados. 11 Quando o rei entrou para ver os convidados observou ali um homem que não estava usando traje de festa 12 e perguntou-lhe: ‘Amigo, como entraste aqui sem o traje de festa?’ Mas o homem nada respondeu. 13 Então o rei disse aos que serviam: ‘Amarrai os pés e as mãos desse homem e jogai-o fora, na escuridão! Ali haverá choro e ranger de dentes’. 14 Porque muitos são chamados, e poucos são escolhidos”.

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O Coração Puro e Purificado É a Melhor Maneira De Honrar o Deus Santo

Continuamos a acompanhar a Primeira Leitura tirada do livro do profeta Ezequiel. Cada ano, na Vigília Pascal, escutamos o texto da Primeira Leitura de hoje. Porque é a noite em que celebramos a passagem de Cristo para a Nova Vida, e a noite que recordamos nosso Batismo quando participamos da morte e da ressurreição do Senhor.

Estamos nos últimos capítulos do livro do profeta Ezequiel cujo contexto é o exílio na Babilônia. Os últimos capítulos de Ezequiel estão cheios de esperança e de consolo. Tudo  será novo na volta da Babilônia para a própria terra, Israel: uma água pura, um coração e um espirito novos, uma vida caminhando segundo os mandamentos de Deus.

Vou mostrar a santidade do meu grande nome, que profanastes no meio das nações. As nações saberão que eu sou o Senhor – oráculo do Senhor Deus –, quando eu manifestar minha santidade à vista delas por meio de vós”.

A santificação do nome de Deus será feita em três etapas. Primeira etapa é a libertação do povo israelita da Babilônia. A volta dos israelitas da Babilônia para sua terra é a promessa de Deus que será cumprida. Os campos devastados serão repovoados, as cidades em ruinas serão reconstruídas.  Este retorno se expressa em termos de reunião. Será uma volta definitiva.

Segunda etapa consiste em que Deus purificará o povo com a aspersão de água pura (Ez 36,25). O simbolismo da água como fonte de vida e elemento purificador é levado às últimas consequências, por Ezequiel (cf. Ez 47).

Terceira etapa: a  a santidade do nome de Deus, profanada pelos israelitas no meios das nações pagãs, exige uma mudança completa. O modo de recuperá-la será a purificação e a santificação do povo. Por isso, a nova Aliança com Deus depois do exílio será a transformação do povo por dentro, isto é, a transformação do coração: “Eu vos darei um coração novo e porei um espírito novo dentro de vós. Arrancarei do vosso corpo o coração de pedra e vos darei um coração de carne”. Para o Israelita, o coração é a sede da inteligência e da compreensão, dos sentimentos e da vontade humana. Isto quer dizer que a renovação dos israelitas deve partir daquilo que move o homem em suas mais profunda intimidade: do seu coração. A partir da transformação do coração, o homem não cairá mais na impureza, tanto cultual como, sobretudo, moral-social. Além disso, a consequência dessa purificação é a capacidade de acolher a lei divina do amor e do respeito a Deus e ao próximo. É viver no espirito novo, depois que o coração for renovado através da purificação.

Através do Salmo 51(50) podemos recordar o processo ou etapa dessa purificação como confissão dos pecados por uma renovação total que se expressa através da purificação total do coração. Em primeiro lugar, exige-se uma purificação radical (Sl 51/50,4.9). Esta purificação se faz através de lavar e apagar os pecados (Sl 51/50,3.11). Em segundo lugar, pede-se ou exige-se um coração novo. Mas  a criação do coração novo só pode acontecer com a ação de Deus (Sl 51/50,12). E em terceiro lugar, invoca-se o triplo espirito para que consuma e conserve essa transformação total. Estes três passos se encontram no texto do Primeira Leitura de hoje. Em resumo: por parte do povo há de ter uma sincera conversão através do pedido da misericórdia de Deus. E por parte de Deus,  o perdão dos pecados.

Muitas vezes, nós mesmos, chamados cristãos e filhos de Deus, profanamos o Nome do Senhor entre as pessoas. Santificar o Senhor com atitude e obras novas não pode ser o resultado somente de uma boa vontade de nossa parte. É o Senhor que nos transforma com sua graça e nos renova para ser o homem novo. Somente a partir de nossa docilidade ao Senhor, deixando-nos amar por Ele, Ele poderá levar adiante sua obra de salvação em nós. a partir de nós e fortalecidos pelo Espírito Santo que vive em nós, seremos realmente um contínuo louvor do Nome de nosso Deus e Pai.

Toda vez que a missa começa com a aspersão com água, deveríamos recordar que Deus quer nos purificar, nos libertar de todo pecado e renovar nossa existência como cristãos. Sempre é bom invocar ao Senhor: “Dai-nos, Senhor um coração novo!”.

Para participar do Banquete do céu que é a Eucaristia, o céu na Terra, é sempre digno de nos vestirmos da santidade como enfatiza o texto do Evangelho de hoje. Não basta entrar na Igreja, ou pertencer a uma família cristã ou a uma comunidade religiosa. Exige-se uma conversão e uma atitude de fé coerente com o convite do Senhor para participar do banquete com Ele.

É Preciso Estar Preparado Para Poder Participar Do Banquete Do Reino

A parábola apresentada no evangelho de hoje fala do banquete. Na Bíblia o Reino de Deus é comparado a um banquete, onde se come e se bebe à saciedade, onde se dança, se brinca, se ri, se fala com os amigos e se contam histórias e todos se sentem felizes. Em uma festa alegre o tempo parece ficar parado. É um pedaço da eternidade experimentada nesta terra. É uma antecipação, parcialmente, daquilo que será experimentado perfeitamente na eternidade.

Tanto no Antigo Testamento como no Novo Testamento, o banquete é símbolo da abundância, da vida, da felicidade, da fraternidade, da comunhão e  da alegria. É o símbolo da grande reunião, da reunião universal de Deus, a que todos os povos são convidados. Isto quer nos dizer que o Reino de Deus é alegre e gozoso; é semelhante a um banquete de bodas, que, na tradição bíblica, é a expressão mais elevada da festa. Deus nos chama à alegria.

Com efeito, o cristianismo é, antes de tudo, vida, amor, festa, fraternidade, família, comunhão... Nessa família, Deus é o Pai de todos. Não é por acaso que São Paulo nos convida com firmeza: “Alegrai-vos sempre no Senhor. Repito: alegrai-vos!” (Fl 4,4). E o profeta Isaías (Is 25,1-10) nos conta que Deus, num determinado tempo, vai organizar um banquete e vai convidar todos os povos da terra. Deus simplesmente não discrimina; sua escala de valores e seu estilo de agir são diferentes dos nossos. Nossas classificações das pessoas não são válidas para o Senhor que faz nascer o sol cada manhã sobre maus e bons (Mt 5,45). Com efeito a alegria tem uma relação com o amor. O amor profundo produz uma alegria profunda. A alegria permanecerá, se sua fonte que é o amor não se deixar secar. Tudo que se ama se torna alegre. Sem o amor as gargalhadas se parecem mais a um soluço do que com uma risada.  Ninguém pode encobrir sua tristeza com um gesto de alegria. A alegria compartilhada sempre cresce e se multiplica, pois a alegria se parece com as borboletas: se você as perseguir, fugirão. Basta plantar no seu jardim flores, as borboletas estarão presentes.

O convite à alegria do banquete é uma graça, um dom que compromete a vida. Diante deste convite o homem dispõe da liberdade de aceitá-lo ou de recusá-lo. Deus convida, Deus chama e Deus propõe. É uma das melhores imagens do destino do homem. Hoje em dia, muitas pessoas não sabem mais qual é o objetivo de sua vida: para que nascem e que sentido tem sua vida? Jesus responde que fomos feitos para a união com Deus através de Jesus Cristo: “Eu sou o Caminho, a verdade e a Vida; ninguém vai ao Pai senão por mim” (Jo 14,6). O objetivo do homem, seu desenvolvimento total, é a “relação com Deus”: amar e ser amado. Deus-nos-ama é a certeza de nossa vida. E cada um é convidado a responder a esse amor com o mesmo amor. E todos os verdadeiros amores na terra são o anúncio, a imagem, a preparação e o sinal desse amor misterioso de Deus por cada um de nós.

Apesar de ser gratuita a entrada para o banquete, dos comensais é exigida uma disposição correspondente: deve-se vestir de acordo com o habito de uma festa de bodas: roupas decentes. O vestido de bodas é a vida levada ou vivida com dignidade. O vestido de bodas significa as “obras de justiça” que cada um deve fazer (Mt 5,20;7,21s;13,47s;21,28ss). O vestido de festa é a mudança de mentalidade, a conversão necessária para entrar na dimensão gozosa do Reino. Sem esta mudança é impossível entrar no Reno da alegria. Nós hoje necessitamos modificar nossa mentalidade, ter um coração mais humano, mais misericordioso, um coração mais fraterno. Um coração duro como pedra pode nos levar para qualquer lugar menos para o céu, menos para a alegria. Nenhuma pessoa de coração duro que seja alegre e feliz. Pessoa de amor é uma pessoa alegre e feliz.

Cada dia é um dia feliz para nós que escutamos o convite que brota das fontes da Palavra de Deus. Deus nos chama à festa de seu Reino, festa autêntica, alegria completa, oferta total de felicidade. A mensagem cristã é a boa notícia da libertação já iniciada e o gozo da esperança plena da mesma; e isto, apesar de tantas misérias que nos cercam. Quem confia em Deus sabe que Deus guarda por ele, que ele está convidado para o futuro de Deus e tem em suas mãos, com isso, o mais maravilhoso convite de sua vida.

O homem que entrou sem a roupa nupcial sublinha a dimensão de vigilância de nossa vida. Devemos estar preparados sempre porque em qualquer momento o Senhor pode nos chamar. Vamos trabalhar como se o encontro definitivo com Deus estivesse longe ainda, mas vamos rezar como se esse encontro estivesse próximo. Vamos viver a vida presente, mas com uma visão do futuro, dar às coisas uma função de meio e não de fim. Vamos eliminar diariamente toda a desordem que há dentro nós mesmos, em especial a autossuficiência ou orgulho e todo tipo de segurança falsa. É verdade que Deus não vai nos excluir. Cuidado, porém, para não acabarmos ser excluídos por nossa própria iniciativa.

Nós participamos da Eucaristia antecipando o banquete celeste. Que “vestido” nos revestimos? Quais são nossas obras? O homem que não levou vestido nupcial é aquele que carece da graça santificante, sem a qual ninguém pode aproximar-se do banquete do Cordeiro (cf. Ap 19,6ss). Se o cristianismo é um convite à alegria, o que impede você de alcançar essa alegria? O que você faz para manter sua alegria apesar dos problemas desta vida. Para ser alegre e feliz temos que fazer os outros alegres e felizes. Quem mantiver a alegria sempre tem força suficiente para levar a vida com dignidade e leveza. ”A alegria evita mil males e prolonga a vida” (William Shakespeare). “Alegrai-vos sempre no Senhor. Repito: alegrai-vos!” (Fl 4,4). Quem estiver conectado permanente com o Senhor, haverá alegria na vida: alegria no Senhor. Quem vive somente em função do prazer do mundo é porque não tem prazer de viver. “A alegria não está nas coisas, está em nós” (Johann Goethe).

P.Vitus Gustama,svd

Quarta-feira Da XX Semana Comum, Ano Par, 19/08/2026

JUSTIÇA DE DEUS DIANTE DA MINHA JUSTIÇA

Quarta-Feira da XX Semana Comum

Primeira Leitura: Ez 34,1-11

1 A palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos: 2 “Filho do homem, profetiza contra os pastores de Israel! Profetiza, dizendo-lhes: Assim fala o Senhor Deus aos pastores: Ai dos pastores de Israel, que se apascentam a si mesmos! Não são os pastores que devem apascentar as ovelhas? 3 Vós vos alimentais com o seu leite, vestis a sua lã e matais os animais gordos, mas não apascentais as ovelhas. 4 Não fortalecestes a ovelha fraca, não curastes a ovelha doente, nem enfaixastes a ovelha ferida. Não trouxestes de volta a ovelha extraviada, não procurastes a ovelha perdida; ao contrário, dominastes sobre elas com dureza e brutalidade. 5 As ovelhas dispersaram-se por falta de pastor, tornando-se presa de todos os animais selvagens. 6 Minhas ovelhas vaguearam sem rumo por todos os montes e colinas elevadas. Dispersaram-se minhas ovelhas por toda a extensão do país, e ninguém perguntou por elas, nem as procurou. 7 Por isso, ó pastores, escutai a palavra do Senhor: 8 Eu juro por minha vida – oráculo do Senhor Deus – já que minhas ovelhas foram entregues à pilhagem e se tornaram presa de todos os animais selvagens, por falta de pastor; e porque os meus pastores não procuraram as minhas ovelhas, mas apascentaram-se a si mesmos e não as ovelhas, 9 por isso, ó pastores, escutai a palavra do Senhor! 10 Assim diz o Senhor Deus: Aqui estou para enfrentar os pastores e reclamar deles as minhas ovelhas. Vou tirar-lhes o ofício de pastor, e eles não mais poderão apascentar-se a si mesmos. Vou libertar da boca deles as minhas ovelhas, para não mais lhes servirem de alimento. 11 Assim diz o Senhor Deus: Vede! Eu mesmo vou procurar minhas ovelhas e tomar conta delas.

Evangelho: Mt 20,1-16

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos esta parábola: 1“O Reino dos Céus é como a história do patrão que saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha. 2Combinou com os trabalhadores uma moeda de prata por dia, e os mandou para a vinha. 3Às nove horas da manhã, o patrão saiu de novo, viu outros que estavam na praça, desocupados, 4e lhes disse: ‘Ide também vós para a minha vinha! E eu vos pagarei o que for justo’. 5E eles foram. O patrão saiu de novo ao meio-dia e às três horas da tarde, e fez a mesma coisa. 6Saindo outra vez pelas cinco horas da tarde, encontrou outros que estavam na praça, e lhes disse: ‘Por que estais aí o dia inteiro desocupados?’ 7Eles responderam: ‘Porque ninguém nos contratou’. O patrão lhes disse: ‘Ide vós também para a minha vinha’. 8Quando chegou a tarde, o patrão disse ao administrador: ‘Chama os trabalhadores e paga-lhes uma diária a todos, começando pelos últimos até os primeiros!’ 9Vieram os que tinham sido contratados às cinco da tarde e cada um recebeu uma moeda de prata. 10Em seguida vieram os que foram contratados primeiro, e pensavam que iam receber mais. Porém, cada um deles recebeu uma moeda de prata. 11Ao receberem o pagamento, começaram a resmungar contra o patrão: 12‘Estes últimos trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o cansaço e o calor o dia inteiro’. 13Então o patrão disse a um deles: ‘Amigo, eu não fui injusto contigo. Não combinamos uma moeda de prata? 14Toma o que é teu e volta para casa! Eu quero dar a este que foi contratado por último o mesmo que dei a ti. 15Por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou estás com inveja, porque estou sendo bom?’ 16aAssim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos”.

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Ser Pastor Do Rebanho A Exemplo Do Próprio Deus

“Filho do homem, profetiza contra os pastores de Israel! Profetiza, dizendo-lhes: Assim fala o Senhor Deus aos pastores: Ai dos pastores de Israel, que se apascentam a si mesmos! Não são os pastores que devem apascentar as ovelhas? Vós vos alimentais com o seu leite, vestis a sua lã e matais os animais gordos, mas não apascentais as ovelhas. Não fortalecestes a ovelha fraca, não curastes a ovelha doente, nem enfaixastes a ovelha ferida. Não trouxestes de volta a ovelha extraviada, não procurastes a ovelha perdida; ao contrário, dominastes sobre elas com dureza e brutalidade.....” (Ez 34,2-4).

Ez 34,1-34 de onde o texto da Primeira Leitura foi tirado é um dos grandes discursos em forma de crítica sobre a atuação pastoral dos dirigentes, tanto civis como religiosos em Israel. Este mesmo discurso pode se encontrar também em Jeremias 23,1-8. Mas o profeta Ezequiel desenvolve um pouco mais o discurso do profeta Jeremias. E este tipo de discurso, de algum modo, será modelo de discurso de Jesus em Jo 10 sobre o Bom Pastor.

Ez 34,1-15, onde se encontra o texto da Primeira Leitura, é a primeira parte do discurso. É um ataque direto contra as autoridades políticas de Judá, às quais o profeta Ezequiel considera responsáveis pelo exílio da Babilônia. Os pastores (dirigentes) se aproveitam do rebanho. Eles se transformaram em devoradores do rebanho. Não o apascentaram. Os pastores (dirigentes) fizeram das ovelhas seu próprio alimento. Em vez de governar com justiça, os pastores (dirigentes) oprimiram o rebanho sem piedade. Consequentemente, o rebanho ficou abandonado, dispersou-se e se tornou presa fácil para os inimigos (animais selvagens). Ezequiel descreve com precisao o pecado dos dirigentes: “Apascentam-se a si mesmos”. Ezequiel aponta diretamente aos reis de Israel que exerceram o poder em proveito próprio no lugar de exercer o poder como um serviço para o bem comum. Em vez de cuidar das ovelhas, curando as ovehas feridas, fortalecendo as débeis, trazendo de volta as perdidas, defendendo-as contra as feras, o que os dirigentes fazem é descuidar delas e maltratá-las, e quando há perigo, eles as abandonam. Em outras palavras, eles são mercenários (cf. Jo 10,8-13). A responsabilidade pela dispersão do rebanho não é apenas dos dirigentes políticos, mas também de todos os membros dos povos ricos e fortes que exploraram os pobres e os fracos. Somente a intervenção salvadora de Deus poderá resolver a situação.

Por isso, o profeta Ezequiel nos mostra que a queixa de Deus contra os maus pastores (“Aqui estou para enfrentar os pastores e reclamar deles as minhas ovelhas”) se converte em promessa: “Eu mesmo vou procurar minhas ovelhas e tomar conta delas”. O próprio Deus terá que remediar a situação.

O que Deus tinha prometido através do profeta Ezequiel se cumpriu em Jesus Cristo. Em Jesus vemos como Deus cumpre sua promessa de alimentar (“Eu sou o Pão da Vida”), de buscar e de defender suas ovelhas que é o povo de Israel e toda a humanidade. Deus enviou Jesus Cristo, seu próprio Filho por amor (Cf. Jo 3,16) como Bom Pastor (Cf. Jo 10: Discurso sobre o Bom Pastor). E depois de sua ressurreição Jesus Cristo confiou a Pedro, como o primeiro entre as partes dos Apóstolos (Primus Inter Pares), a missão de apascentar as ovelhas do Senhor (povo): Apascenta as minhas ovelhas (cf. Jo 21,15-17)

Por isso, o salmista se alegra, através do Salmo Responsorial (Sl 22/23): O Senhor é o pastor que me conduz; não me falta coisa alguma. Pelos prados e campinas verdejantes ele me leva a descansar. Para as águas repousantes me encaminha e restaura as minhas forças.

Quando Jesus, em Jo 10, ao descrever as qualidades do bom pastor, enumera precisamente as atitudes contrárias às que o profeta Ezequiel assinalou nos maus pastores de sua época, os que levaram o povo de Israel à ruina total. Jesus, o Bom Pastor, conhece suas ovelhas, vai adiante deles, as busca e reabilita, as defende, dá a vida por elas. Aqui Jesus é o modelo para todos nós que, de uma maneira ou outra, somos “pastores” ou “lideres” ou encarregados do bem dos demais: os bispos e os sacerdotes, os pais, os educadores, os catequistas, os responsáveis de uma pastoral, de um movimento, de um ministério e de qualquer grupo religioso e também as autoridades civis.

Muitas vezes criticamos, e às vezes com razão, os dirigentes ou governantes corruptos e os chefes oportunistas de seu cargo ou poder. Mas, temos que nos examinar a nós mesmos, porque pode ser que, em nosso nível, também tendamos a abusar de nossos cargos para a própria vantagem seja econômica, seja social.

Aqueles que são encarregados de alguma missão na Igreja devem velar por aqueles que são lhes confiados. Por isso, mais do que uma honra é uma grave responsabilidade de procurar o bem de todos os que são sob sua responsabilidade.

Portanto, vale a pena cada um se perguntar: Sou um servidor dos outros através do cargo que foi confiado a mim? Aproveito-me de forma egoísta, colocando meu interesse pessoal acima do bem comum e mesmo em detrimento do bem dos outros? De que maneira eu faço para exercer minhas responsabilidades? Quando se fala de um rebanho, a prioridade sempre está sempre em relação às ovelhas mais débeis, às feridas, às que sofrem. Como líder ou coordenador, tenho também este tipo de prioridade ou só penso na minha própria vantagem?

Bondade E Generosidade De Deus

O evangelho lido neste dia nos convida a nos colocarmos diante da bondade e da generosidade sem fim de Deus para percebermos e reconhecermos melhor nossa mesquinhez que, muitas vezes, se expressa em forma de inveja, de comentários maldosos, de ódio etc. Conhecer Deus ou estar na presença de Deus é uma necessidade vital, porque só através disto é que podemos compreender melhor nós mesmos, inclusive nossas misérias, ingratidões, invejas, mesquinhes, etc. Diante da bondade e da generosidade sem limite de Deus deveríamos ficar envergonhados, porque muitas vezes, damos espaço, facilmente, à vanglória ou à vaidade por termos feito algo de bom pelos nossos semelhantes na comunidade. Estamos neste mundo com o objetivo único: fazer o bem em qualquer hora e para qualquer pessoa em sua necessidade.      

A parábola do Evangelho de hoje justamente apresenta um Deus que age de forma muito diferente, contrária a qualquer lógica dos homens e qualquer justiça dos homens. Em sua intenção original esta parábola é escrita para responder às críticas dos fariseus porque eles não aceitam que Jesus se misture com os pecadores, com os publicanos e marginalizados.

Mas sem perceber, ao marginalizar o outro eu me marginalizo, pois faço parte da própria humanidade. Ao marginalizar o outro, eu estou me agredindo na minha humanidade. Por isso, eu devo sentir a dor do outro e fazer algo para aliviá-la a partir das minhas condições. É mais fácil excluir e condenar o outro do que ajudá-lo. O difícil é encontrar alguma solução e fazer parte dessa solução. Jesus sempre se oferece como solução para qualquer problema da humanidade. E eu sou seguidor de Jesus e por isso, eu me chamo cristão (pessoa de Cristo). Que vantagem ou utilidade eu terei, se eu viver excluir e condenar o outro? Na condenação que eu lanço sobre alguém, na exclusão que eu faço sobre o outro, nos comentários maldosos que pronuncio sobre alguém, tudo isso vai edificar minha vida e vida do outro? Que utilidade tem nisso tudo? Quantos minutos e horas nós jogamos fora sem utilizá-los para o bem da humanidade! Não vivamos inutilmente nem morramos inutilmente! Estamos neste mundo para tirar para fora o bem que temos dentro de nós para partilhá-lo com os demais irmãos a fim de que todos vivam felizes.     

Através da parábola no evangelho de hoje Jesus quer nos mostrar que o Seu Deus é Aquele que dá espaço para todos em seu Reino. A igualdade se sublinha. E Deus não pode ser feliz, se o mais humilde dos homens não é feliz, pois todos são filhos e filhas de Deus, como nenhum pai neste mundo tem prazer de ver seu filho infeliz. Por isso, Deus nunca se cansa de sair ao encontro do homem para salvá-lo nem se cansa em perdoar os pecados dos homens que se arrependeram.

Por isso, o Deus de Jesus Cristo, o Deus de bondade e de generosidade, vive surpreendendo as pessoas. Os que querem apropriar-se da generosidade de Deus acabam perdendo tudo. Em nossa vida cristã somos convidados a deixar sempre lugar para a surpresa da generosidade de Deus, de nossa generosidade e a do semelhante nosso. Ser generoso é ser livre de si, de seu pequeno eu, de suas pequenas covardias, de suas pequenas posses. A generosidade nos eleva em direção aos outros e ao Deus da generosidade que criou tudo gratuitamente em função de felicidade neste mundo.

Minha Justiça E Justiça De Deus

Outro aspecto que a parábola quer destacar é a inveja dos homens, manifestados nos operários das primeiras horas. Eles argumentam contra o dono da vinha que suportaram o peso do trabalho durante o dia inteiro sob o calor do sol, por isso não julgavam justo serem igualados aos trabalhadores da última hora. Para eles o dono da vinha não é justo.

O justo, biblicamente, significa aquele que é fiel aos mandamentos de Deus; aquele que tem fé nos anúncios dos profetas e espera com paciência seu cumprimento, pois Deus é fiel às suas promessas. É justo o homem que olha para Deus e ordena a sua vida segundo os ditames da vontade divina. É justo o homem que cumpre a Lei divina de todo coração e com sincera alegria e leveza. O justo é o homem sábio e bondoso. O justo é, portanto, uma figura ideal do homem agradável a Deus e aos homens de boa vontade. Não podemos praticar a justiça apenas para que sejamos perfeitos, mas para que o nosso irmão, nosso próximo, não seja tratado injustamente. Para podermos praticar a caridade devemos, antes, praticar a justiça. Justiça é o reconhecimento do direito do outro; é dar aquilo que é do outro. Caridade é dar aquilo que é meu. Justiça e caridade devem andar juntas na vida de um cristão ou na vida de qualquer pessoa de boa vontade.

Amigo, eu não fui injusto contigo. Não combinamos uma moeda de prata? Toma o que é teu e volta para casa! Eu quero dar a este que foi contratado por último o mesmo que dei a ti”. Leiamos e releiamos esta afirmação do dono da vinha. Esta afirmação é a lição central da parábola. Se soubermos ler entre linhas, descobriremos aqui o retrato maravilhoso que Jesus nos traz do Pai do céu. Ele é um Deus que ama aos homens prioritariamente, e os ama e quer introduzi-los em Sua própria felicidade. Ele é um Deus que reparte seus benefícios a todos sem excluir ninguém e os chama sem parar para receber os benefícios. Ele é um Deus cuja generosidade e bondade não estão limitadas por nossos méritos, mas que Ele dá com largueza ou generosidade sem calcular méritos. Ele é um Deus que afasta qualquer que pretenda ter direitos e privilégios impedindo os outros de aproveitar-se. Esta parábola nos faz uma revelação absolutamente essencial: a salvação que Deus nos dá é totalmente gratuita e desproporcionada a nossos pobres méritos humanos, pois Deus é misericordioso.

O dono da vinha não se considera injusto, pois ele paga o salário combinado. A bondade do dono da vinha é ainda mais acentuada na pergunta final aos murmuradores: “...ou teu olho é mau porque eu sou bom?” (v.15b). A palavra “mau” (poneros, em grego) é termo mateano comum para a inveja provocada por coisas materiais. O vocábulo representa dinheiro e posição que atraem o olho da pessoa. O olho mau indica a falta de amor dos trabalhadores murmuradores da primeira hora que se deixavam levar pela inveja diante do bem que os seus companheiros experimentavam. Eles não souberam participar da alegria do bem experimentado.

Sabemos que o invejoso tem sempre os olhos fixos nos outros, sofrendo amargamente com a satisfação que neles têm, tendo sentimentos de aversão quando percebe que estão bem. Podemos dizer que a inveja é filha de uma soberba. O invejoso não tolera os sucessos dos outros, não admite que os outros possuam qualidades iguais ou superiores às suas. Ele sempre teme ser superado pelos outros. Ele sofre quando percebe que seu rival possui uma cota maior do que a sua.

Será difícil encontrar uma alma tão generosa que não sinta um pequeno mal-estar com a boa sorte alheia. Mas precisamos reconhecer que magnânimo não é o que jamais sente inveja, mas o que imediatamente a supera. A nossa maior satisfação não provém de sermos considerados mais ou melhores do que os outros, mas da consciência de termos realizado todo o bem que nos era ou é possível. Quem deseja só seu bem-estar pessoal é egoísta e as coisas não poderão ir bem com ele.

Muitas vezes a infelicidade nos atinge porque vivemos comparando com os outros. Sempre estamos na tentação de compararmos Deus conosco, de medirmos sua soberana ação com os nossos méritos ou com as nossas condições desiguais. Antes de ser justo para com as “nossas obras”, Deus é essencialmente justo consigo mesmo. Certamente o amor de Deus é a causa do que eu sou, como o único neste mundo. Por isso, não me posso comparar com o outro, pois cada um é único. Devo, sim, comparar-me com a insondável e sublime vontade de Deus, de me fazer feliz, exatamente como Deus me quer amar e beatificar eternamente. Somente ao comparar-me com o amor de Deus, serei capaz de louvar a Deus que me faz coisas tão maravilhosas na minha vida e traduzir o louvor em amar e aceitar o outro como ele é.        

No Reino de Deus o importante é a misericórdia de Deus, pois, para Deus não há privilégios baseados no prestigio, na quantidade de trabalho ou em qualquer outra vantagem. Deus é quem nos chama gratuitamente e nossa resposta deve ser igualmente gratuita. O importante é que Deus nos chama e que podemos participar na obra de Deus de salvar todos. O evangelho lido e meditado neste dia é uma advertência para todos os cristãos. Os seguidores de Cristo não se podem fixar em direitos de propriedade no Reino de Deus. Os “últimos” podem tornar-se “primeiros” do mesmo modo que os “primeiros podem tornar-se “últimos”. Eles serão passados para trás, se não souberem reconhecer a bondade gratuita de Deus, se não souberem alegrar-se de todo o coração com o pequenino que Deus chama a seu Reino, se não souberem viver o amor em comunidade.

Pensamos que ao desempenhar um ministério ou serviço na comunidade somos proprietários dele. Às vezes, também, excluímos os outros porque consideramos que não estão preparados ou porque cremos que chegaram tarde à comunidade. O evangelho nos pede uma mudança de mentalidade. Todos têm direito a participar na obra do Reino. E este direito não nasce de nossa generosidade e sim é algo que o próprio Deus nos deu. Se Deus chamou muitos para Sua obra, não podemos ser pessoas que fecham a porta. Devemos reconhecer a ação do Espírito Santo e permitir que na comunidade todos participem por igual. 

P. Vitus Gustama,SVD

domingo, 16 de agosto de 2026

Terça-feira Da XX Semana Comum, Ano Par, 18/08/2026

BENS MATERIAIS E SALVAÇÃO:

SOMOS VALORIZADOS PELOS VALORES VIVIDOS E NÃO PELOS BENS POSSUIDOS

Terça-Feira da XX Semana Comum

Primeira Leitura: Ez 28,1-10

1 A palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos: 2 “Filho do homem, dize ao príncipe da cidade de Tiro: Assim fala o Senhor Deus: Porque o teu coração se tornou orgulhoso, tu disseste: ‘Eu sou um Deus e ocupo o trono divino no coração dos mares’. Tu, porém, és homem e não um deus, mas pensaste ter a mente igual à de um deus. 3 Sim, tu és mais sábio do que Daniel! Segredo algum te é obscuro. 4 Com talento e habilidade adquiriste uma fortuna, acumulaste ouro e prata em teus tesouros. 5 Com grande tino comercial aumentaste tua fortuna, e com ela teu coração se tornou soberbo. 6 Por isso, assim diz o Senhor Deus: Por teres igualado tua mente à de um deus, 7 vou trazer contra ti os povos mais violentos dos estrangeiros. Eles puxarão suas espadas contra a tua bela sabedoria e profanarão o teu esplendor. 8 Eles te farão baixar à cova, e morrerás de morte violenta no coração dos mares. 9 Porventura, ousarás dizer: ‘Sou um deus!’ na presença de teus algozes, tu que és um homem e não deus, nas mãos dos que te apunhalam? 10 Morrerás da morte dos incircuncisos, pela mão de estrangeiros, pois fui eu que falei — oráculo do Senhor Deus”.

Evangelho: Mt 19,23-30

Naquele tempo, 23 Jesus disse aos discípulos: “Em verdade vos digo, dificilmente um rico entrará no reino dos Céus. 24 E digo ainda: é mais fácil um camelo entrar pelo buraco de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus”. 25 Ouvindo isso, os discípulos ficaram muito espantados, e perguntaram: “Então, quem pode ser salvo?” 26 Jesus olhou para eles e disse: “Para os homens isso é impossível, mas para Deus tudo é possível”. 27 Pedro tomou a palavra e disse a Jesus: “Vê! Nós deixamos tudo e te seguimos. Que haveremos de receber?” 28 Jesus respondeu: “Em verdade vos digo, quando o mundo for renovado e o Filho do Homem se sentar no trono de sua glória, também vós, que me seguistes, havereis de sentar-vos em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel. 29 E todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos, campos, por causa do meu nome, receberá cem vezes mais e terá como herança a vida eterna. 30 Muitos que agora são os primeiros, serão os últimos. E muitos que agora são os últimos, serão os primeiros.

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Reconhecimento Da Existência Do Deus Criador Isenta-nos Da Arrogância

Filho do homem, dize ao príncipe da cidade de Tiro que Eu sou um deus e ocupo o trono divino no coração dos mares. Tu, porém, és homem e não um deus, mas pensaste ter a mente igual à de um deus”, alerta-nos Deus através do profeta Ezequiel que lemos na Primeira Leitura de hoje.

Tiro é uma cidade da costa mediterrânea que foi um dos grandes portos fenícios de onde o príncipe da cidade partiu para conquistar a bacia de Mediterrâneo.  Ao se dirigir para o príncipe de Tiro, o profeta Ezequiel afirma, em nome de Deus, a universalidade de sua mensagem (sua mensagem não fica confinada no interior das fronteiras de seu povo). O profeta Ezequiel denuncia a pretensão orgulhosa dessa cidade. No Evangelho, Tiro é também o símbolo da cidade pagã. Ali Jesus fez um milagre em favor de uma mulher siro-fenícia (cf. Mc 7,24). Para Jesus, Tiro é a referência essencial da cidade que não ouviu o anúncio do Evangelho, mas que Deus a ama como ama todos os pagãos: “Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Haverá menos rigor para Tiro e Sidônia do que para vós” (Lc 10,13-15).

Eu sou um Deus e ocupo o trono divino no coração dos mares. Tu, porém, és homem e não um deus, mas pensaste ter a mente igual à de um deus”, alerta-nos Deus. Na vida de muitas pessoas e de muitos povos há momentos ou épocas em que se torna difícil viver dependendo de Deus, pois uns se sentem cheios de poder, de riqueza ou de inteligência; uns pensam que não necessitam de mais nada, pois nada lhes falta e consequentemente, não necessitam de Deus e muito menos dos outros. Mas no leito da morte, todos começarão perceber que não era tudo que ele tem que ele procurava e sim uma boa convivência fraterna e o sentido da vida, pois não tendo a saúde, e estando à beira da morte, as riquezas, o poder e a fama não dizem mais nada. Este é o grande perigo de um ser humano que é apenas uma criatura e que a Primeira Leitura alerta. Este perigo leva o homem a praticar qualquer tipo de iniquidade: “Em virtude do teu comércio intenso te enchestes de violência e caístes em pecado... Teu coração se inflou de orgulho devido à tua beleza, arruinaste a tua sabedoria, por causa do teu esplendor.. À força de iniquidade e de desonestidade no teu comércio, profanaste os teus santuários(Ez 28,16-18). A riqueza, o poder, a saciedade dos bens materiais, se não forem bem usados, serão muito perigosos para a subsistência humana. Eles são capazes de levar seu dono a praticar tudo que é mau.

O arrogante é aquele que tem um excesso de confiança em si mesmo, no que diz, no que faz, nas decisões que toma. Para o arrogante, tudo que faz é perfeito; ele é perfeito; ele é Deus e faz tudo certo. Nada nem ninguém podem falar algo contra. O excesso de confiança não dá margem para melhorar. Soberbo, vaidoso exageradamente, arrogante, presunçoso, endeusado, imodesto, pedante, petulante, narcisista, autossuficiente são sinônimos de uma mesma palavra: arrogante/orgulhoso/prepotente.

A Primeira Leitura nos chama a nos vestirmos da humildade que é a própria condição nossa como criatura. Ser humilde não é ser tímido; não é aquele que fica no cantinho por medo de se comunicar com os outros ou por medo da multidão e assim por diante. Muito menos é aquele que simula a humildade, pois “Simular humildade é a maior das soberbas”, dizia Santo Agostinho (De sanc. virg. 43,44). O orgulho é como o mau hálito, todos percebem, exceto quem dele padece. O humilde é aquele que tem noção da própria capacidade e da própria fraqueza e limitações e está aberto totalmente a Deus e para qualquer crescimento no bem. "Quanto maiores somos em humildade, tanto mais próximos estamos da grandeza", dizia Rabindranath Tagore.

Os Bens Materiais Continuam Sendo Alheios a Nós, Pois Nunca Serão Nossos Amigos

Em verdade vos digo, dificilmente um rico entrará no reino dos Céus. E digo ainda: é mais fácil um camelo entrar pelo buraco de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus”.

O texto do evangelho lido neste dia é a continuação do texto do evangelho do dia anterior. No evangelho do dia anterior o jovem rico recusou o convite de Jesus para vender tudo o que tinha e deu aos pobres para depois seguir a Jesus. “Quando ouviu isso (convite), o jovem foi embora cheio de tristeza, porque era muito rico”, assim terminou o evangelho do dia anterior. Escravo da riqueza, tudo se desvaneceu, e o jovem rico se viu impedido de trilhar a vereda da vida eterna.

A história do jovem rico que não está preparado para viver no amor, na partilha, na solidariedade, na entrega da própria vida aos irmãos, serve a Jesus para dar uma exortação para todos: "Em verdade vos digo, dificilmente um rico entrará no reino dos Céus. É mais fácil um camelo entrar pelo buraco de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus”. Essa metáfora era um dito, uma espécie de provérbio, conhecido no Oriente Antigo para indicar algo absolutamente impossível.

A imagem do camelo, que jamais pode passar pelo buraco de uma agulha a aplica a imagem da “porta estreita” para a vida (cf. Mt 7,13s). Jesus cita o pequeno buraco de uma agulha e o camelo, um dos maiores animais da terra, para expressar com uma metáfora a impossibilidade. “Dificilmente...”. São João Crisostomo comentou: “Depois de dizer será difícil para um rico entrar no Reino dos céus, Jesus vai além e demonstra que é impossível; e não só impossível e sim absolutamente impossível, e o dá a entender com os exemplos da agulha e do camelo”.

Entrar no Reinoequivale a seguir Jesus: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no céu (=entrar no Reino). Depois, vem e segue-me” (Mt 19,21). O “Reino de Deus”  designa a comunidade messiânica que Jesus denomina “minha Igreja” (cf. Mt 16,18-19). E nesse Reino tem Deus como Rei (cf. Mt 5,3; 19,14). Com a hipérbole do camelo e da agulha Jesus quer afirmar a impossibilidade de um rico, como o jovem rico, de ser seu discípulo por causa do espírito materialista.

Diante da afirmação de Jesus de que dificilmente um rico entrar no Reino dos céus, os discípulos perguntam a Jesus: “Então, quem pode ser salvo?”  O Senhor responde que a salvação não está no poder dos homens e sim está no poder de Deus. Tudo é possível para Deus, mesmo que seja impossível para o homem: “Para os homens isso é impossível, mas para Deus tudo é possível(Mt 19,26; cf. Lc 1,37). A dedução é bem clara: a salvação é um dom. O bem que fazemos, as boas obras que realizamos não merecem a salvação (salvação como mérito), mas nos fazem e nos mantêm sempre abertos a Deus, abertos ao Seu dom e nos fazem vivermos já agora essa vida de salvos que será perfeita na face a face com Deus no céu. É a promessa que Jesus faz para todos os seguidores.

O ser humano tem tendência por natureza para o desenvolvimento de si mesmo, de melhorar sua situação econômica. Como garantia deste seu direito o ser humano procura apropriar-se das coisas que o rodeiam no intuito de utilizá-los ou de usá-los como meio. Trata-se de uma aspiração legítima. Por isso, Jesus não condena a riqueza, mas a ansiedade de acumular fortunas de forma gananciosa. O ideal do cristão não é a pobreza nem a fome nem a nudez, mas a divisão fraterna dos bens que Deus pôs à disposição de todos. Pecado não é ficar rico, mas ficar rico só por si, às vezes como fruto de exploração dos outros, deixando a maioria sem nada para sua sobrevivência. A riqueza possui uma potencialidade sedutora que procura subjugar o homem. Além disso, Na avareza está oculta uma ofensa social. Não é fácil conciliar a riqueza excessiva de alguns com os direitos que os outros têm ao necessário. Ao dizer: "É mais fácil um camelo entrar pelo buraco de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus”, Jesus quer sacudir, chocar e conscientizar os homens sobre a seriedade da situação. A advertência de Jesus é muito dura porque o perigo é maior. O que tem por trás não é a condenação e sim um convite para usar os bens como meio e não como fim sem perder o aspecto transcendente da vida. A vida está muito além do aspecto econômico apenas.

O alerta de Jesus sobre os perigos da riqueza não é somente para os ricos, de fato, mas para todos quantos queiram ser seus discípulos e entrar na vida eterna. O dinheiro é o deus que tem seu altar em cada coração humano: no jovem e no adulto, no leigo e no religioso/sacerdote. Seria ingênuo negá-lo. É um ensinamento para todos, pois todos nós temos “alma de rico”, incluindo os pobres que são cobiçosos, avarentos e apegados ao pouco que possuem. Em todos os níveis sociais se busca a riqueza material, freqüentemente com espírito de cobiça, e se põe nele a confiança mais que em Deus. A avareza é um desvio do significado de infinito, uma transposição do absoluto para o que é relativo. A avareza consiste em acreditar que a riqueza não é um meio para se viver, mas a própria razão de ser da vida.      

O que preciso fazer de bom para alcançar a vida eternaé uma questão que inquieta todos os que acreditam em Deus. A vida eterna é sempre um dom gratuito de Deus, fruto da sua bondade, da sua misericórdia, do seu amor pelo homem; no entanto, é um dom que o homem aceita, acolhe e com o qual se compromete. Se a vida eterna é um dom gratuito com o qual devemos nos comprometer, isto significa que nós todos somos chamados a ser generosos. Ser generoso é um sinal de gratidão e de liberdade interior. Tudo o que somos, tudo o que podemos temos é precioso se o apreciarmos como um dom do amor de Deus. Se apreciarmos realmente que o esplendor daquilo que temos vem de Deus, consequentemente, não nos agarraremos aos nossos bens materiais, mas procuraremos ser cada vez mais generosos. Isso é uma maneira de viver desde já a vida eterna. A vida eterna é uma realidade que deve marcar cada passo da nossa existência terrena diariamente e que atingirá a plenitude na comunhão plena com Deus no nosso encontro derradeiro com Ele. Nós, cristãos, sabemos que os bens deste mundo, embora nos proporcionem bem estar e segurança, não nos oferecem a vida eterna, pois tudo será deixado aqui nesta terra assim que partirmos deste mundo. Essa vida eterna que buscamos ansiosamente está no caminho de amor, de serviço, de dom da vida que Cristo nos ensinou a percorrer. 

O cristão não é um pobre coitado condenado a passar ao lado da felicidade, pois a felicidade é o projeto de Jesus (cf. Mt 5,1-12); mas é uma pessoa que renuncia a certas propostas falíveis e parciais de felicidade, pois sabe que a vida plena está em viver de acordo com os valores eternos propostos por Jesus. Sem dúvida, as nossas opções cristãs são criticadas, incompreendidas, e apresentadas como realidades incompreensíveis e ultrapassadas por aqueles que representam a ideologia dominante, que fazem a opinião pública. Precisamos, todavia, estar conscientes de que a perseguição e a incompreensão são realidades inevitáveis, que não podem desviar-nos das opções que fizemos. O Senhor nos pede que abramos nossos olhos e nosso coração diante da realidade da pobreza e da opressão que afeta grandes setores de nossa sociedade. Nós que cremos em Cristo não podemos seqüestrar o amor, a alegria, a paz nem a dignidade humana de nosso próximo em função de nossos interesses pessoais. Nós cristãos e todas as pessoas de boa vontade não podemos enterrar o amor, a fraternidade, a igualdade, a partilha, a compaixão, a solidariedade e assim por adiante. Os cristãos e as pessoas de boa vontade não podem fazer o mundo surdo e anestesiado diante dos valores acima mencionados e outros valores reconhecidos universalmente.  Os cristãos calados diante dos valores pisados em certo sentido são coniventes. Se o mal e a maldade avançam e porque os cristãos permanecem em silêncio. 

Todos precisam estar conscientes de que a vida eterna, a felicidade não está no ter e sim no ser. E para ser é indispensável a liberdade interior. E a liberdade interior se manifesta na doação, na partilha, na solidariedade, na compaixão, na caridade fraterna. Quem vive esses valores é porque rico por dentro a ponto de partilhar tudo que tem. Quem agarra tudo para si é porque pobre interiormente a ponto de não ter nada para partilhar. Enfim, a felicidade está no amor vivido na convivência com os demais e na partilha o que se tem com os que nada tem. Por este caminho só há felicidade e terminará na comunhão plena com Deus Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis que nos deu graciosamente e gratuitamente. Deus é tão Pai a ponto de criar primeiro as coisas para o bem do homem e depois, Ele criou o ser humano. Segundo o livro de Gênesis, antes da criação do homem, já existiam as coisas no universo (Cf. Gn 1-2). Vivemos realmente no mundo da graça e da gratuidade que devem nos fazer mais generosos, solidários, compassivos e caridosos para com os irmãos necessitados.

P.Vitus Gustama, svd

sábado, 15 de agosto de 2026

Segunda-feira Da XX Semana Comum, Ano Par, 17/08/2026

VIVER A VIDA FAZENDO O BEM PARA ALCANÇAR A ETERNIDADE

Segunda-Feira Da XX Semana Comum

Primeira Leitura: Ez 24,15-24

15 A palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos: 16 “Filho do homem, vou tirar de ti, por um mal súbito, o encanto de teus olhos. Mas não deverás lamentar-te nem chorar ou derramar lágrimas. 17 Geme em silêncio, sem fazer o luto dos mortos. Põe o turbante na cabeça, calça as sandálias nos pés, sem encobrir a barba, nem comer o pão dos enlutados”. 18 Eu tinha falado ao povo pela manhã, e à tarde minha esposa morreu. Na manhã seguinte, fiz como me foi ordenado. 19 Então o povo perguntou-me: “Não nos vais explicar o que têm a ver conosco as coisas que tu fazes?” 20 Eu respondi-lhes: “A palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos: 21 Fala à casa de Israel: Assim diz o Senhor Deus: Vou profanar o meu santuário, o objeto do vosso orgulho, o encanto de vossos olhos, o alento de vossas vidas. Os filhos e as filhas, que lá deixastes, tombarão pela espada. 22 E fareis assim como eu fiz: Não cobrireis a barba, nem comereis o pão dos enlutados, 23 levareis o turbante na cabeça, as sandálias nos pés, sem vos lamentar nem chorar. Definhareis por causa de vossas próprias culpas, gemendo uns para os outros. 24 Ezequiel servirá para vós como sinal: Fareis exatamente o que ele fez; quando isso acontecer, sabereis que eu sou o Senhor Deus”.

Evangelho: Mt 19,16-22

Naquele tempo, 16 alguém aproximou-se de Jesus e disse: “Mestre, que devo fazer de bom para possuir a vida eterna?” 17 Jesus respondeu: “Por que me perguntas sobre o que é bom? Um só é o Bom. Se queres entrar na vida, observa os mandamentos”. 18 O homem perguntou: “Quais mandamentos?” Jesus respondeu: “Não matarás, não cometerás adultério, não roubarás, não levantarás falso testemunho, 19 honra teu pai e tua mãe, e ama o teu próximo como a ti mesmo”. 20 O jovem disse a Jesus: “Tenho observado todas essas coisas. Que ainda me falta?” 21 Jesus respondeu: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me. 22 Quando ouviu isso, o jovem foi embora cheio de tristeza, porque era muito rico.

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Apesar De Nossas Fraquezas Deus Tem Ternura Para Conosco

Filho do homem, vou tirar de ti, por um mal súbito, o encanto de teus olhos. Mas não deverás lamentar-te nem chorar ou derramar lágrimas. Geme em silêncio, sem fazer o luto dos mortos. Põe o turbante na cabeça, calça as sandálias nos pés, sem encobrir a barba, nem comer o pão dos enlutados” é o oráculo do Senhor para o profeta Ezequiel que lemos na Primeira Leitura.

Lendo os livros dos profetas ficamos surpreendidos pelas experiências pessoais de cada profeta. Lemos, por exemplo, a experiência da infidelidade da esposa na vida do profeta Oseias; a indignidade do profeta Isaias por ter lábios impuros diante de Deus, diversos gestos simbólicos do profeta Jeremias e assim por diante. Mas poucos chegam à profundidade de sentimentos que nos apresentam através do gesto simbólico  na experiência da vida do profeta Ezequiel que lemos hoje na Primeira Leitura.

Ezequiel recebe de Deus o aviso sobre a morte de sua esposa: “Filho do homem, vou tirar de ti, por um mal súbito, o encanto de teus olhos”. Mas Deus pede para que não chore a morte de sua esposa: “Mas não deverás lamentar-te nem chorar ou derramar lágrimas. Geme em silêncio, sem fazer o luto dos mortos”.

Não chorar a esposa morta tão querida podia fazer qualquer um pensar como se Ezequiel não tivesse sentimentos. Mas, de fato, a morte da esposa de Ezequiel simboliza a destruição de Jerusalém, e a atitude de Ezequiel é a atitude do povo quando a destruição de Jerusalém ocorreu. Assim como o profeta perdeu a mulher que amava, todos vão perder Jerusalém e seu Templo: “Vou profanar o meu santuário, o objeto do vosso orgulho, o encanto de vossos olhos, o alento de vossas vidas”. Não terão nem tempo de fazer luto. Ezequiel é um sinal. Quando Deus permite a destruição do Templo de Jerusalém, então a dor, o desespero, o desterro serão tão inesperados que o povo nem tem tempo para o luto ou para chorar. Tudo desaparecerá. O povo é levado para o desterro na Babilônia. O objetivo de toda ação simbólica é conhecer e reconhecer Deus, pois quando Deus é abandonado, a destruição vai ter lugar na vida do homem.

Há tantos sinais de Deus ocorrem na nossa vida cotidiana. Precisamos parar para decifrar seus significados. Não há dia que não tenha sinais de Deus para qualquer um de nós. Deus nos ama e por isso, Ele nos alerta emitindo vários sinais. Mas a vida agitada jamais percebe o sinais de Deus e seus significado para nossa vida. Muitas vezes acontece que depois de uma tragégia é que podemos entender bem o sentido do que se passou ou se passa na nossa vida. Às vezes é tarde demais para entender isso.

Um profeta, um cristão deve ajudar os outros a descobrir a vontade de Deus através de sua própria vida. “Ezequiel os servirá de sinal”. A vida nos prepara, através de nossas experiências, sejam sucessos, sejam fracassos, para nos tornarmos, um dia, um “mestre” para os outros que passarem pela mesma experiência. Não há nada que acontece que não tenha sentido para nós e através de nós para os outros na nossa convivência.

Com a ação simbólica do profeta Ezequiel nós percebemos que a obrigação do profeta não é somente a de proclamar a Palavra de Deus em determinado momento e lugar. Toda a vida de um profeta deve ser um sinal. O profeta há de profetizar com sua vida em todas as circunstancias de sua existência. A pessoa toda e a vida toda do profeta devem ser uma proclamação.

Além disso, no texto da leitura de hoje percebemos a ternura de Deus por nós: “Filho do homem, vou tirar de ti, por um mal súbito, o encanto de teus olhos”. Deus sempre se dirige a nós com a ternura em todas as situações de nossa vida. Deus quer nos salvar, mesmo que tenhamos que passar por alguma situação bastante triste. Deus continua tendo o amor por nós. Deus sabe o que fazer com nossa vida, mesmo que nem sempre entendamos os planos de Deus sobre nós. A partir desta expressão não há nada que possa impedir o amor de Deus por mim nem minha fé neste Deus de ternura. (cf. Rm 8,35-39)

A frase “Filho do homem, vou tirar de ti, por um mal súbito, o encanto de teus olhos é uma mensagem consoladora. De fato, uma pessoa que amamos, “o encanto de nossos olhos” é tirada para estar com Deus. Se está com Deus, ela está conosco também, pois Deus está conosco (Cf. Mt 28,20). Onde Deus está, está também o “encanto de nossos olhos”. Encontrar-se com Deus na oração significa também encontrar-se com a pessoa amada que foi “tirada” por Deus. É preciso procurar Deus para encontrar “o encanto de nossos olhos”, pois aquele que se foi está com Deus. Por essa razão Deus se dirige ao profeta Ezequiel com as seguintes palavras: “Não deverás lamentar-te nem chorar ou derramar lágrimas. Geme em silêncio, sem fazer o luto dos mortos”. A vida não termina com a morte, pois o Deus em quem acreditamos é o Deus da Vida. (cf. Jo 11,25-26; 14,6).

A Bondade Praticada Nos Aproxima Da Vida Eterna

Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me”.

Mestre, o que eu devo fazer de bom para possuir a vida eterna?”. Esta é a pergunta de um jovem rico a Jesus. O jovem se aproxima de Jesus com entusiasmo e lhe faz essa pergunta fundamental que agora ninguém tinha feito. São João Crisóstomo comentou: “Todos se aproximam de Cristo ou para tentá-lo ou para obter dele a cura de alguma enfermidade deles ou de algum de seus familiares. Esse jovem se aproxima de Jesus para perguntar-lhe a vida eterna”. Até os próprios discípulos não fizeram essa pergunta a não ser para pedir alguma explicação. A pergunta do jovem aborda o sentido da existência humana e expressa todo seu desejo de comunhão com Deus.

“Mestre, o que eu devo fazer de bom para possuir a vida eterna?”, pergunta um jovem rico a Jesus. Ele usa o verbo “possuir”, porque ele é um homem rico; é um homem acostumado a comprar para possuir. “Para possuir a vida”. Ele até quer ter na mão (possuir) a vida eterna mediante um ato de compra. Na verdade, a própria vida em si é um dom que deve ser recebida e vivida com gratidão. A existência de outros dons supõe a existência desse dom maior que é a vida. A vida é um dom, mas a minha maneira de viver a vida pode não estar de acordo com o dom. A vida, como dom, é bela, mas muitas vezes eu não sei me comportar bem diante desse dom ou não sei viver na gratidão. Tudo que eu sou e tenho é de Deus, menos o pecado. Quando se trata de um dom é porque estou em um mundo de gratuidade. O mundo da gratuidade me leva a viver a vida em ação de graças permanentemente. É ser pessoa eucarística.

Na sua resposta Jesus corrige a pergunta do jovem rico. Em vez de usar a palavra “possuir”, Jesus usa a palavra “entrar”: “Se queres entrar na vida eterna...”. Jesus quer lhe dizer: “Deus te oferece a vida, portanto não é que tu possas possuí-la e sim, se quiseres participar nela, observa os mandamentos; se quiser entrar nela pratique a bondade, já que tu me perguntas ‘o que eu devo fazer de bom...’”. A bondade é a própria perfeição possuída por um ser e é a capacidade que possui num ser de dar a outro a perfeição que lhe falta. A bondade é a disposição natural a fazer o bem ou a trabalhar corretamente pelo bem de todos. Bondoso é quem se comporta com bondade. Quem tem bondade é porque tem amor.

O texto nos diz que o jovem rico observa todos os mandamentos. Mas ele insiste: “O que ainda me falta?”. Nesta pergunta percebemos algo importante de que por mais que alcancemos algo, sempre falta alguma coisa ou algumas coisas na nossa vida. A perfeição é um horizonte, pois é inalcançável como um horizonte que se afasta toda vez que nos aproximamos dele.  Por melhores que nós possamos ser, sempre falta alguma coisa na nossa vida ou para nossa vida. Com efeito, nós somos o que somos e o que nos falta. Não somos cristãos e sim estamos cristãos, isto é, estamos em processo para ser verdadeiros cristãos a exemplo do próprio Cristo.  Em nós há algo que exige de nós muito mais, que nos convida a fazermos um passo adiante, que exige profundidade de relações, relações pessoais com Deus e com os demais homens. O que falta em nós nos dá força para que possamos buscá-lo e pode nos inquietar. É preciso caminhar em função da busca o que nos falta para nossa salvação.

Segundo Jesus, para entrar na vida definitiva o que se necessita não é a relação a um código (“o que deve fazer de bom”), mas a uma pessoa (Sl 145,9): O Bom é um só”. A observância dos mandamentos é consequência dessa relação pessoal: os mandamentos são bons porque expressam a vontade do Supremo Bom que é Deus (Am 5,4.6.14-15; Mq 6,8). As normas ou as regras não produzem a graça. A graça é que produz regras para facilitar ou para orientar o homem no alcance da graça. Quando se vive na graça de Deus ou de acordo com o amor de Deus as regras cessam, pois pelo caminho de amor não há outro caminho. Enquanto estivermos na terra precisamos da fé. Mas, um dia, pela misericórdia divina, na face a face com Deus, não precisaremos mais da fé.

Na sua resposta Jesus diz ao jovem que ele deve desfazer-se de tudo o que tem sem esperança de retorno: “vender tudo e dar o dinheiro aos pobres”. Não somente “vender tudo”, porque o jovem poderia possuir o dinheiro, fruto da venda dos bens. Jesus exige dele muito mais: “dar aos pobres” tudo que é o fruto da venda dos bens. Deixada a segurança da riqueza ele encontrará outra segurança superior (Mt 6,25-34) que é o próprio Jesus que é “o Caminho, a verdade e a Vida” (cf. Jo 14,6). Por isso, em seguida Jesus acrescenta: “Depois, vem e segue-me”. Jesus chama-o à nova fidelidade, ao amor a todo homem, como o Pai do céu (Mt 5,48). O jovem é chamado para seguir Aquele que criou tudo. No entanto ele prefere uma vida egoísta. A felicidade plena, a vida em abundância está na partilha, na solidariedade, na compaixão, no amor mútuo... A felicidade não se obtém na sua busca e sim na partilha. Para eu poder ser feliz, eu preciso fazer o outro feliz. Este é o paradoxo da vida autêntica.

O jovem não responde ao convite de Jesus. Vai-se triste, em sua mesma condição de jovem, incapaz de chegar à maturidade. Ele ouviu a mensagem de Jesus, mas a sedução das riquezas o afogou (cf. Mt 13,22). A riqueza governa o coração do jovem. Embora deseje a vida eterna, o jovem não vai atrás dela para encontrá-la. O defeito moral não se define pelo mal que se intenta, mas pelo bem que se abandona” (Santo Agostinho. De civ. Dei. 2,8). A riqueza, quando não se considera como meio, mas como fim, sufoca as relações fraternas, sociais, familiares e sufoca o crescimento espiritual de quem a tem. “Amando a Deus nos tornamos divinos; amando ao mundo nos tornamos mundanos(Santo Agostinho. Serm. 121,1).

Os bens materiais continuam a ser alheios a nós. Eles jamais serão nossos próximos. O ser humano é sempre nosso próximo com quem podemos conversar, contar nossas histórias, nossas vitorias e nossas falhas na vida, para desabafar, rir juntos que torna a vida mais leve. “Se você tem dinheiro acumulado, pergunte-se como o ganhou e como o usa. Se você continua acumulando mais dinheiro do que precisa para viver, sabe para que o faz?” (René Juan Trossero, escritor e psicólogo argentino). Santo Agostinho dizia: “A verdadeira felicidade não consiste em possuir o que se ama e sim em amar o que se deve possuir” (In ps. 26,2,7).

Saber renunciar às coisas materiais é ser rico. Dar ou partilhar o que se tem é a manifestação da riqueza. Segurar egoisticamente, sem partilha, é a expressão do pobreza interior. Para possuir o Tudo temos que aprender a deixar tudo. Posso possuir as coisas, mas jamais as coisas podem me possuir para que eu possa manter minha liberdade e leveza na vida. O apego exagerado aos bens materiais é um terrível empecilho para o seguimento de Jesus. A dinâmica deste seguimento vai exigindo rupturas sempre mais radicais dos bens deste mundo. É preciso usarmos as coisas que passam e abraçarmos as coisas que não passam. Quem não está livre para fazê-las, ficará na metade do caminho, como o jovem rico no evangelho lido neste dia. O caminho da perfeição passa pela liberdade de coração, em relação aos bens deste mundo, para buscar Deus e solidarizar-se com os mais necessitados. É assim que se chega à vida eterna. Um homem que não cresce diariamente regride um passo cada dia.

O que devo fazer para entrar na vida eterna” e “O que ainda me falta?”. São duas perguntas que devem ser respondidas por cada um de nós diariamente. Nós somos o que somos e o que nos falta, pois o nosso ideal é bastante alto: “Sejam perfeitos como o Pai do céu é perfeito(Mt 5,48). Eu estou sendo o que devo ser para chegar a ser o que, na verdade, sou. Eu não posso me distancias, cada vez mais, daquilo para o qual devo ser. Santo Agostinho dizia: Não andes averiguando quanto tens, mas o que tu és. Dentro do coração sou o que sou (Serm. 23,3; Cof. 10,3)

P.Vitus Gustama, svd

Quinta-feira Da XX Semana Comum, Ano Par, 20/08/2026

É PRECISO ESTARMOS PREPARADOS PARA O BANQUETE ETERNO DO SENHOR Quinta-Feira Da XX Semana Comum Primeira Leitura: Ez 36,23-28 Assim fal...