quarta-feira, 1 de julho de 2026

São Tomé, Apóstolo- Festa, 03/07/2026

SÃO TOMÉ, APÓSTOLO

A FÉ EM DEUS NOS TORNA VERDADEIRAMENTE FELIZES


Primeira Leitura: Ef 2,19-22

Irmãos, 19já não sois mais estrangeiros nem migrantes, mas concidadãos dos santos. Sois da família de Deus. 20Vós fostes integrados no edifício que tem como fundamento os apóstolos e os profetas, e o próprio Jesus Cristo como pedra principal. 21É nele que toda a construção se ajusta e se eleva para formar um templo Santo no Senhor. 22E vós também sois integrados nesta construção, para vos tornardes morada de Deus pelo Espírito.

Evangelho: Jo 20,24-29

24 Tomé, chamado Dídimo, que era um dos doze, não estava com eles quando Jesus veio. 25 Os outros discípulos contaram-lhe depois: “Vimos o Senhor!” Mas Tomé disse-lhes: “Se eu não vir as marcas dos pregos em suas mãos, se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos e não puser a mão no seu lado, não acreditarei”. 26 Oito dias depois, encontravam-se os discípulos novamente reunidos em casa, e Tomé estava com eles. Estando fechadas as portas, Jesus entrou, pôs-se no meio deles e disse: “A paz esteja convosco”. 27 Depois disse a Tomé: “Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado. E não sejas incrédulo, mas fiel”. 28 Tomé respondeu: “Meu Senhor e meu Deus!” 29 Jesus lhe disse: “Acreditaste, porque me viste? Bem-aventurados os que creram sem terem visto!”

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Hoje, 03 de Julho, celebramos a festa do apóstolo Tomé, o cético, o incrédulo, o modelo dos realistas, dos pessimistas, dos que desconfiam quando as coisas saem bem. O Apóstolo Tomé é, como muitos homens modernos, um existencialista que não crê naquilo que não toca, porque não quer viver das ilusões. É aquele que pensa que o pior é sempre o mais seguro.

O quarto Evangelho, isto é, o Evangelho de João nos fornece dados sobre algumas características do Apostolo Tomé. Seu nome “Tomé” significa “gêmeo” (de origem hebraica “ta’am”, “gêmeo”). No entanto, não se dá razão deste nome.

Segundo o quarto Evangelho Tomé exorta aos demais sobre o perigo da ida de Jesus para Betânia para ressuscitar Lázaro, no momento crítico da vida de Jesus (cf. mc 10,32), pois Jesus é ameaçado de morte. ”Vamos todos morrer com ele!”, alerta Tomé (Jo 11,16). Mesmo assim Tomé mostra sua fidelidade a Jesus ao acompanhá-Lo para Betânia. A fidelidade de Tomé mostra sua adesão à vida de Jesus e à causa pela qual Jesus vive e exerce sua missão. Ele segue a Jesus apesar das dificuldades neste seguimento. Seguir Jesus significa viver junto, estar no coração de Jesus como Jesus está no nosso coração e morrer junto com ele para com ele ressuscitar junto.

O Evangelho de João nos fornece outra intervenção do Apostolo Tomé, desta vez, na Ultima Ceia. Na despedida Jesus disse aos Apóstolos: “Para onde eu vou, vós conheceis o caminho” (Jo 14,4), isto é para a casa do Pai, onde Jesus e os seus vão se encontrar um dia. Jesus vai preparar esse “lugar” para eles. No entanto, Tomé mostra seu pouco conhecimento sobre esse assunto: “Senhor, não sabemos para onde tu vais!” (Jo 14,5). O pouco conhecimento de Tomé sobre esse assunto é a grande oportunidade para Jesus se revelar através da famosa frase: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6).

Não tenha medo de nosso pouco conhecimento sobre o mistério de Deus. Basta mantermos as conversas com Deus nas nossas orações e meditações para que o mesmo Deus possa se revelar para nós algo pelo qual nós ansiamos tanto para compreender seu sentido.

O quarto Evangelho nos apresenta também uma cena bastante marcante a respeito do Apostolo Tomé: sua incredulidade. Ele não acreditava que Jesus tinha sido ressuscitado: “Se não vir em suas mãos o sinal dos pregos e não colocar meu dedo no lugar dos pregos e não colocar minha mão no seu lado, eu não acreditarei” (Jo 20, 25). Os sinais da crucificação no corpo de Jesus continuam marcando a memória de Tomé. Ele quer agora reconhecer Jesus através desses sinais. Isso significa que Tomé não se esquece da razão pela qual Jesus foi crucificado. Como se ele quisesse dizer: “Eu quero ver Jesus crucificado ressuscitado”.

A decepção de Tomé pela morte de Jesus mostra, no fundo, sua grande fé no mesmo Jesus e seu amor forte por Jesus. A decepção será maior por quem amamos tanto e em quem depositamos nosso amor, quando ele sair de nossa vida sem nenhuma explicação.

Depositar nosso amor no Senhor nunca nos decepciona. O quarto Evangelho nos relatou que Jesus crucificado ressuscitado volta a aparecer no meio dos discípulos entre os quais está o Apostolo Tome. Desta vez o olhar de Jesus é dirigido, especialmente, para Tomé: “Aproxima aqui teu dedo, Tomé, e olha minhas mãos; traz tua mão e coloca-a em meu lado, e não sejas incrédulo, mas crente” (Jo 20, 27). Tomé nunca se sentiu completamente comovido, porque nunca havia imaginado que Cristo atendesse um desejo tão difícil e absurdo. O pior castigo que se pode dar a quem não crê é conceder-lhe aquilo que se põe como condição indispensável para chegar à fé.

Diante dessa atenção tão grande do Senhor, que é sinal de Seu amor pelo apostolo, Tomé professa sua fé tão curta, mas tão profunda e esplêndida em todo Novo testamento: “Meu Senhor e meu Deus” (Jo 20,28). A fé de Tomé passa de mão (queria tocar nas chagas) para o coração; passa da incredulidade para o extase da fé: “Meu Senhor e meu Deus”. Nesta confissão Tomé não só manifesta sua fé na ressurreição de Jesus (Senhor: título pós-pascal), mas também na sua divindade (meu Deus). Com esta confissão Tomé nos ensina que a conseqüência última da ressurreição do Messias é o reconhecimento de sua condição divina. Os que crêem em Jesus Cristo de todos os séculos sempre agradecem a São Tomé por este feliz e deslumbrante ato de fé: “Meu Senhor e meu Deus”.

Diante da profissão da fé de Tomé, Jesus pronuncia uma frase que nos eleva para a categoria dos felizes porque acreditamos no Senhor: “Porque me viste, acreditaste. Felizes os que não viram e creram” (Jo 20, 29). Jesus pronuncia a bem-aventurança, não tanto por Tomé como por nós. O itinerário é sempre o mesmo embora a situação histórica possa mudar. Chegamos à fé através de um ato de abandono total em Jesus morto e ressuscitado.

“Felizes os que não viram e creram”. Esta é a bem-aventurança do Ressuscitado. Crer, segundo o Evangelho deste dia, é renunciar a ver com os olhos da carne, a tocar com as mãos, a enfiar o dedo nas feridas do Ressuscitado para identificá-Lo. Crer é buscar e encontrar o Senhor, nosso Deus, na Assembléia dos que crêem que Jesus é o Salvador, na assembléia dos que encontram nos sacramentos a vida que brotou da cruz. Não conhecemos Jesus segundo a carne, não buscamos visões ou fatos extraordinários onde apoiar nossa fé. A felicidade que nos salva agora é a presença vivificante do Senhor que nos reúne pelo Espírito do Ressuscitado na Igreja onde não cessa de nos pregar o Evangelho e de partir para nós o Pão da vida. Em cada domingo somos felizes por este encontro com o Senhor que faz a morte morrer e nos dá a vida eterna e que nos alimenta com o Pão da Vida. “Fé é crer no que não vemos. O premio da fé é ver o que cremos”, dizia Santo Agostinho (Serm. 43,1,1). E acrescentou: “A fé abre a porta ao conhecimento. A incredulidade a fecha” (Epist. 136,4).

Nosso futuro em Deus é questão de fé, não de evidência. Por isso, é necessário superar um conceito tátil e comprovador de ter que colocar as mãos para estarmos seguros do que cremos. “A vida da vida mortal é a esperança da vida imortal”, dizia Santo Agostinho (In os.103,4,17). E “não há motivo para tristeza duradoura onde há certeza de felicidade eterna”, acrescentou Santo Agostinho (Epist. 263,4). “A fé é a garantia dos bens que se esperam, a prova das realidades que não se veem”, diz a Carta aos Hebreus (Hb 11,1).

A partir do evangelho de hoje em que se narra a reunião dos apóstolos como uma comunidade cujo Cristo ressuscitado está no meio dela aprendemos que a comunidade pascal é uma comunidade de crentes que se reúnem pela fé em Cristo (At 2,42-47).

Nós somos irmãos de fé, como enfatiza a Primeira Leitura de hoje (Ef 2,19-22). Para São Paulo, o mistério de Cristo e o da Igreja estão intimamente conectados. Cristo é nossa paz: nele todos, tanto os distantes (os pagãos) como os próximos (os judeus) encontram o caminho da reconciliação e da unidade. Em Cristo já não há dois povos e sim um só; já não há separação entre gente diferente e sim unidade entre os semelhantes. Tudo isso é dom de Deus Pai, por meio de Cristo Senhor, no Espírito Santo. Neste contexto são Paulo imagina a Igreja como um grande edifício, um templo santo, a “morada de Deus”. Os “cimentos” deste edifício, no qual estão todos e vivem como “concidadãos dentro do povo de Deus”, como “família de Deus”, são os apóstolos e os profetas. No entanto, a “pedra angular” é Jesus Cristo: ele é a chave que consolida tudo e todos (o conjunto). A fé é que nos chama para formar uma comunidade onde somente há fraternidade e igualdade.

O Papa Bento XVI comentou: “O caso do apóstolo Tomé é importante para nós, ao menos por três motivos: primeiro, porque nos consola em nossas inseguranças; em segundo lugar, porque nos demonstra que toda dúvida pode ter um final luminoso, além de toda incerteza; e, por último, porque as palavras que Jesus lhe dirigiu nos recordam o autêntico sentido da fé madura e nos estimulam a continuar, apesar das dificuldades, pelo caminho de fidelidade a ele”.

Segundo uma antiga tradição, Tomé evangelizou em um primeiro momento a Síria e a Pérsia (assim afirma Orígenes, segundo refere Eusébio de Cesaréia, «Hist. Eccl. » 3, 1), e logo chegou até a Índia ocidental (cf. «Atos de Tomé» 1-2, 17 e seguintes), desde onde depois o cristianismo chegou também ao sul da Índia.

Para nós, o importante é observar a mudança da atitude de São Tomé. Ele tardou em compreender que sua postura diante da palavra dos companheiros não tinha sido razoável, pois, na verdade, ele tinha diante de si testemunhas fidedignas, por exemplo, Maria Madalena e os discípulos de Emaús. Mas o Senhor sempre tem paciência em esperar a resposta positivo dos seus seguidores. “Meu Senhor e meu Deus” é a mais alta e clara confissão de fé que aparece no quarto Evangelho (Evangelho de João).

Tomé, chamado Dídimo, que era um dos doze, não estava com eles quando Jesus veio”. O comportamento de Tomé é a nossa tendência de pretender obter uma demonstração particular de Deus sem compromisso com os outros, com a comunidade, sem integração e participação. Tomé representa aqueles que vivem fechados em si próprios e que não faz caso do testemunho da comunidade nem percebe os sinais de vida nova que nela se manifestam. Uma comunidade pode não ser perfeita, mas ela nos faz mais nós mesmos, pois nenhuma pessoa pode ser ela mesma sem as outras pessoas: suas irmãs e seus irmãos da jornada nesta vida.

Inspirado na confissão do Apóstolo Tomé, são Nicolau de Flüe rezava, que serve também para nossa oração: “Meu Senhor e meu Deus, tira de mim tudo que me afasta de Ti; meu Senhor e meu Deus, dá-me tudo aquilo que me aproxima de Ti; meu Senhor e meu Deus, tira-me de mim mesmo para dar-me inteiramente a Ti”.

P. Vitus Gustama,svd

Quinta-feira Da XIII Semana Comum, Ano Par, 02/07/2026

SEJAMOS COLABORADORES DA MISERICÓRDIA DIVINA E DA VERDADE E NÃO DO PODER MUNDANO

Quinta-Feira Da XIII Semana Comum

Primeira Leitura: Am 7,10-17

Naqueles dias, 10 Amasias, sacerdote de Betel, mandou dizer a Jeroboão, rei de Israel: “Amós conspira contra ti, dentro da própria casa de Israel; o país não consegue evitar que se espalhem todas as suas palavras. 11 Ele anda dizendo: ‘Jeroboão morrerá pela espada, e Israel será deportado de sua própria pátria, como escravo’”. 12 Disse depois Amasias a Amós: “Vidente, sai e procura refúgio em Judá, onde possas ganhar teu pão e exercer a profecia; 13 mas em Betel não deverás insistir em profetizar, porque aí fica o santuário do rei e a corte do reino”.  14 Respondeu Amós a Amasias, dizendo: “Não sou profeta nem sou filho de profeta; sou pastor de gado e cultivo sicômoros. 15 O Senhor chamou-me, quando eu tangia o rebanho, e o Senhor me disse: ‘Vai profetizar para Israel, meu povo’. 16 E agora ouve a Palavra do Senhor. Tu dizes: ‘Não profetizes contra Israel e não insinues palavras contra a casa de Isaac’. 17 Pois bem, isto diz o Senhor: ‘Tua mulher se prostituirá na cidade, teus filhos e filhas morrerão pela espada, tuas terras serão tomadas e loteadas; tu mesmo morrerás em terra poluída, e Israel será levado em cativeiro para longe de seu país’”.

Evangelho: Mt 9,1-8

Naquele tempo, 1 entrando em um barco, Jesus atravessou para a outra margem do lago e foi para a sua cidade. 2 Apresentaram-lhe, então, um paralítico deitado numa cama. Vendo a fé que eles tinham, Jesus disse ao paralítico: “Coragem, filho, os teus pecados estão perdoados!” 3 Então alguns mestres da Lei pensaram: “Esse homem está blasfemando!” 4 Mas Jesus, conhecendo os pensamentos deles, disse: “Por que tendes esses maus pensamentos em vossos corações? 5 O que é mais fácil, dizer: ‘Os teus pecados estão perdoados’, ou dizer: ‘Levanta-te e anda’? 6 Pois bem, para que saibais que o Filho do Homem tem na terra poder para perdoar pecados, — disse, então, ao paralítico — “Levanta-te, pega a tua cama e vai para a tua casa”. 7 O paralítico então se levantou, e foi para a sua casa. 8 Vendo isso, a multidão ficou com medo e glorificou a Deus, por ter dado tal poder aos homens.

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Ser Voz De Deus É Não Compactuar Com o Mal e Maldade De Qualquer Pessoa e Instituição

Disse Amasias a Amós: ´Vidente, sai e procura refúgio em Judá, onde possas ganhar teu pão e exercer a profecia; mas em Betel não deverás insistir em profetizar, porque aí fica o santuário do rei e a corte do reino´”, assim lemos na Primeira Leitura de hoje.

Amasias, o sacerdote de Betel, é um fiel servidor do culto. Ele está comprometido com o rei e a instituição. Pode-se dizer que Amasias era um teólogo dependente do rei e da instituição (teólogo da corte). Exatamente, essa dependência leva Amasias a uma situação emaranhada. Em outras palavras, como sacerdote, ele não serve ao Senhor e ao seu povo e sim à ordem do rei. O nome “Amasias” em hebraico significa “aquele que Deus conduz”. Infelizmente, em vez de se deixar conduzir pelo Senhor para salvar o povo, Amasias se deixa conduzir pela ordem do rei injusto.

Para agradar o rei, o sacerdote Amasias denuncia o profeta Amós como inimigo do estado e da religião. O que importa para Amasias não é a palavra da verdade e sim as palavras capazes de agradar os ouvidos do rei. “Vidente, sai e procura refúgio em Judá, onde possas ganhar teu pão e exercer a profecia; mas em Betel não deverás insistir em profetizar, porque aí fica o santuário do rei e a corte do reino”, disse Amasias para o profeta Amós. A voz do profeta Amós incomoda o rei Jeroboão e Amasias, sacerdote do Templo de Betel. Por isso, perseguem o profeta Amos.

Desde sempre, os verdadeiros profetas são perseguidos, porque dizem, não o que o povo ou os governantes querem escutar e sim, o que Deus quer que o profeta fale. Por isso, tanto no AT como n NT, na história antiga e na moderna, os que se dizem poderosos deste mundo querem calar ou excluir ou eliminar qualquer verdadeiro profeta, como Jesus Cristo, o profeta por excelência.

Paradoxalmente, o papel desempenhado pelo sacerdote Amasias é perverso, pois em vez de oferecer facilidade para a Palavra de Deus, expulsa o profeta de Deus. Amasias tem maior interesse em conservar a situação existente, da qual se aproveita, do que em colaborar na criação da situação que Deus quer surgir. Amasias se alinha com os poderosos e se coloca inteiramente a serviço da conservação de um poder edificado sobre a injustiça e a corrupção. Para o sacerdote Amasias, a participação na injustiça é mais importante do que se comprometer com o direito e com Deus que se coloca do lado dos pequenos, dos pobres e empobrecidos, dos justos e dos mansos e assim por diante. Como “sacerdote”, Amasias não se mostra como alguém preocupado com o futuro do povo. Ao contrário, ele procura garantir seus próprios privilégios, contra os interesses de sobrevivência do povo. Os interesses do sacerdote Amasias não coincidem com os do povo. A expulsão do profeta Amós do reino do Norte faz parte notória desse desinteresse “sacerdotal” pelo povo, uma vez que o povo é privado do que seria importante para o futuro: a palavra profética de Deus.

O profeta Amós não se deixa intimidar. A Palavra de Deus não está encarcerada, dizia são Paulo (2Tm 2,9). Apesar das ameaças, o profeta Amós é capaz de dizer aos poderosos deste mundo as palavras mais difíceis de dizer: “Tua mulher se prostituirá na cidade, teus filhos e filhas morrerão pela espada, tuas terras serão tomadas e loteadas; tu mesmo morrerás em terra poluída, e Israel será levado em cativeiro para longe de seu país” (Am 7,17).

Amós é uma pessoa de caráter firme, marcado pelo deserto e pelos campos áridos. Por isso, ele responde a Amasias: “Não sou profeta nem sou filho de profeta; sou pastor de gado e cultivo sicômoros. O Senhor chamou-me, quando eu tangia o rebanho, e o Senhor me disse: ‘Vai profetizar para Israel, meu povo´”. O profeta Amós quer dizer com outras palavras: “Eu não sou um profeta da corte. Eu mesmo posso ganhar meu pão. Sei, porém, que aqui represento a causa de Deus e isso constitui para mim vocação e legitimidade suficientes”. O profeta Amós fala de Deus não num tom confortador de púlpito, mas com imagens inabituais de Deus: Deus que ruge como leão (Am 1,2). Amós acusa frontalmente os responsáveis por sua falta de preocupação pela vida e salvação do povo.

Temos diante de nós, então, a aliança de trono e altar. Betel é o santuário do rei. E nele, no templo real, Amós fala em nome de Deus contra a casa real. Isso coloca o sacerdote do rei, Amasias, em guarda e consequentemente, anuncia ao rei a inquietação desencadeada pelo discurso profético.

A relação entre o trono e o altar, a relação da Igreja com o poder estatal é importante para a práxis profética da Igreja. Se for muito íntima, o altar, o “sacerdote”, perde a força profética. O conflito entre tal “sacerdote” e o profeta é inevitável.  O conflito entre “sacerdotes” e profetas aconteceu e continua acontecendo em todos os tempos e em todas as Igrejas e religiões. Quantos sacerdotes, quantos pastores que vivem servindo aos interesses dos poderosos em nome dos interesses econômicos e outros interesses.

Na nossa Igreja ocorre essa relação carregada de tensão entre o profético e o sacerdotal, algumas vezes no próprio individuo, outras vezes dentro da instituição. Sacerdotes como Amasias existem muitos hoje em dia. São “sacerdotes” que se limitam à rotina profissional e convertem a vocação em profissão. O impulso do Espirito Santo enfraquece neles, pois se transformam em funcionários da instituição e, acima de tudo, preferem uma boa relação com os poderosos ao compromisso profético com os pobres e empobrecidos.

Não é de hoje também que os profetas, os oponentes políticos éticos, os religiosos em favor dos pobres e empobrecidos, os Martin Luther King, as Madres Teresa de Calcutá são expulsos, como o profeta Amós? Não é de hoje também que se quer também calar as vozes que embaraçam? Jesus também não era uma dessa vozes que os adversários procuraram calar com sua morte? Não é de hoje também que muitos, como Amasias que era sacerdote oficial, tratam de conservar a qualquer preço seus privilégios e interesses? Não me sinto tentado alguma vez de adoçar a Palavra de Deus para evitar desgosto e para defender meus privilégios? Será que eu me deixo “prender” por Deus como Amós? Será que eu me atrevo a dizer certas palavras ainda que corra o risco de perder certas vantagens e certos privilégios? Será que sou tentado abandonar compromissos sérios em função do bem comum para que eu possa viver em paz comigo mesmo?

Deus É Misericordioso Para Quem Se Converte

Depois da tempestade acalmada e a libertação dos dois possuídos relatadas nos textos anteriores da passagem do evangelho de hoje (Mt 8,5-34), agora Jesus nos mostra seu poder sobre o mal mais profundo: o pecado. o Filho do Homem tem na terra poder para perdoar pecados”. Jesus disse expressamente, de uma única vez, o “porque” de seus milagres: é um sinal para mostrar, na terra, o poder de Deus, o poder de perdoas os pecados. Perdoar é um milagre maior do que ressuscitar um morto. Perdoar é nascer e fazer nascer a vida imortal, a mesma de Deus que é amor recebido e dado sem condenações. O pecado é divisão e a divisão é morte. Deus une e reúne. Unir e reunir é salvar.  O diabo desune. A salvação que Jesus Cristo quer para a humanidade é integral, do homem todo: seu corpo e espírito. O sinal externo- a cura da paralisia- é o símbolo da cura interior, a libertação do pecado, como tantas outras vezes em seus milagres.

Tem ânimo, meu filho; os teus pecados te são perdoados!”, diz Jesus ao paralítico. Para Jesus a enfermidade mais grave e urgente do paralítico não é sua enfermidade física e sim seu pecado (enfermidade da alma). Para a cura das enfermidades espirituais é necessária a colaboração do próprio enfermo (conversão e fé em Deus) e o perdão de Deus (misericórdia).

“Os teus pecados te são perdoados!” É a primeira vez que o evangelista Mateus menciona este tipo de poder que Jesus tem: o poder de perdão. O poder que Jesus tem em relação ao pecado é um poder de reconciliação dos homens com Deus. “Os pecados” em Mateus significam o passado pecador do homem, antes de seu encontro com Jesus. A fé em Jesus, que é a adesão a ele e a sua mensagem, apaga o passado pecador do homem e dá-lhe oportunidade de um novo começo. O pecado é capaz de paralisar a vida do homem, mas a conversão e a fé em Deus libertam o homem de sua paralisia para viver na liberdade de um filho de Deus. Da parte de Jesus não há pecado que não possa ser perdoado. Basta o homem se arrepender e voltar para Deus, o Deus da misericórdia não quer saber mais o passado do homem. Mas através do profeta Isaias Deus nos dá o seguinte recado: “Cessai de fazer o mal, aprendei a fazer o bem”.

Mas o evangelista Mateus não somente se concentra no poder de Jesus de perdoar pecados. Mais adiante, no seu evangelho, ele vai nos dizer que a comunidade cristã é o lugar de reconciliação e do perdão mútuo. Jesus Cristo vai dar o dom do poder de perdoar à comunidade cristã: “Em verdade vos digo: tudo o que ligardes sobre a terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes sobre a terra será também desligado no céu” (Mt 18,18). Assim a comunidade cristã ou a Igreja se transforma em lugar de libertação dos pecados e de liberdade dos reconciliados.

Os teus pecados te são perdoados!” Como é bom viver com uma consciência limpa. Como é leve uma vida sem mancha moral ou ética. É uma liberdade que faz qualquer um viver a vida na alegria. Quando o coração estiver limpo podemos aplicar para nós as palavras de São Paulo aos filipenses: “Alegrai-vos no Senhor. Repito: alegrai-vos(Fl 4,4). Há alegria disfarçada para calar ou abafar os gritos de um coração sujo, como escreveu um psicólogo argentino: “Há gargalhadas que se parecem mais com um soluço do que com uma risada(René Juan Trassero). Mas a alegria no Senhor é uma alegria que liberta e salva: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus”, prometeu-nos Jesus no Sermão da Montanha (Mt 5,8).

Ao dizer “Tem ânimo, meu filho; os teus pecados te são perdoados!”, Jesus usa aqui a visibilidade da cura corporal, perfeitamente controlável, para provar outra cura espiritual, a cura da alma em estado de pecado. Jesus pronunciou formulas de absolvição: “teus pecados são te perdoados”, e depois, fez gestos exteriores de cura: “levanta-te e vai para tua casa”. Muitas doenças acontecem conosco porque causa dos problemas não solucionados. Trata-se de doenças psicossomáticas. É preciso que reorganizemos nossa vida no Senhor para que nossa alegria seja plena.

A Igreja é o prolongamento real da Encarnação de Jesus, como Ele próprio é o grande Sacramento, a presença visível de Deus. Assim a Igreja é o grande Sacramento visível de Cristo. Jesus comunicou seu poder de perdoar a seus apóstolos, isto é, para aqueles que, durante todo o tempo da Igreja, têm missão de fazê-la existir como Igreja exercendo o ministério que lhes foi confiado (cf. Mt 16,19). Quando os apóstolos ou seus sucessores perdoam em nome de Cristo é todo o povo de Deus que se encontra comprometido no mistério da cruz e no ato divino-humano de perdão que ali tomou corpo. Os sacramentos são sinais visíveis que manifestam a graça invisível. A Igreja inteira, pelo ministério apostólico, está constituída no ato de misericórdia em proveito de toda a humanidade. Neste sentido pode se dizer que o cristão é ministro da misericórdia divina no sentido de que ele é chamado para perdoar sempre porque Deus o perdoa sempre e por isso, ele vive por causa da misericórdia divina. Todos são chamados a participar da obra de misericórdia. A Igreja é a misericórdia de Deus para os homens.

Vendo a fé que eles tinham, Jesus disse ao paralítico:Tem ânimo, meu filho; os teus pecados te são perdoados! ’”. A fé, que é o dom de Deus ao homem, se for autêntica é capaz de levar o homem à conversão, à orientação de sua vida e de sua caminhada para a felicidade e para a salvação. Deus valoriza o futuro do homem e perdoa seu passado desde que o homem se converta. Mas será que nossa fé é autêntica? A verdadeira fé em Deus mantém nossa vida em ordem que traz a paz. “A paz é a tranquilidade da ordem”, dizia Santo Agostinho. A fé é capaz de ordenar tudo na simplicidade de nossa vida, pois para Deus tudo é simples e para o simples tudo é divino.

Mas “alguns Mestres da Lei pensaram: ‘Esse homem (Jesus) está blasfemando’”. Com esta expressão se põe em evidência de que o Deus de Jesus não era o deus dos dirigentes de seu povo. Mais uma oposição contra o plano de Deus que o evangelista Mateus tem nos mostrado até agora.

Também nós corremos o perigo de fazermos um Deus à medida de um sistema ou de uma instituição que pode nos levar para um fanatismo fundamentalista que leva à autodestruição ou ao cataclismo de matar o outro por amor a suposto Deus em quem se acredita ou em nome de Deus e para servi-lo. Seria um Deus muito cruel, mas não é um Deus misericordioso revelado por Jesus. Temos que tomar cuidado para que nenhum sistema possa pensar por nós. Deste jeito criaremos ídolos e seremos idólatras, não mais filhos e filhas de Deus que precisam viver a fraternidade universal como consequência lógica e essencial da consciência de que Deus é o Pai de todos.

P. Vitus Gustama, SVD

terça-feira, 30 de junho de 2026

Quarta-feira Da XIII Semana Comum, Ano Par, 01/07/2026

JESUS VEM NOS LIBERTAR DO MAL PARA PRATICARMOS SOMENTE O BEM

Quarta-Feira Da XIII Semana Comum

Primeira Leitura: Am 5,14-15.21-24

14 Procurai o bem e não o mal, para que possais viver, e, deste modo, o Senhor, Deus dos exércitos estará convosco, como vós o dizeis. 15 Odiai o mal e amai o bem, restabelecei a justiça no julgamento, talvez o Senhor Deus dos exércitos se compadeça do resto da tribo de José. 21 “Aborreço, rejeito vossas festas, diz o Senhor, não me agradam vossas assembleias de culto. 22 Se me oferecerdes holocaustos, não aceitarei vossas oblações e não farei caso de vossos gordos animais de sacrifício. 23 Livra-me da balbúrdia dos teus cantos, não quero ouvir a toada de tuas liras. Que a justiça seja abundante como água e a vida honesta, como torrente perene”.

Evangelho: Mt 8,28-34

Naquele tempo, 28 quando Jesus chegou à outra margem do lago, na região dos gadarenos, vieram ao seu encontro dois homens possuídos pelo demônio, saindo dos túmulos. Eram tão violentos, que ninguém podia passar por aquele caminho. 29 Eles então gritaram: “Que tens a ver conosco, Filho de Deus? Tu vieste aqui para nos atormentar antes do tempo?” 30 Ora, a certa distância deles, estava pastando uma grande manada de porcos. 31 Os demônios suplicavam-lhe: “Se nos expulsas, manda-nos para a manada de porcos”. 32 Jesus disse: “Ide”. Os demônios saíram, e foram para os porcos. E logo toda a manada atirou-se monte abaixo para dentro do mar, afogando-se nas águas. 33 Os homens que guardavam os porcos fugiram e, indo até a cidade, contaram tudo, inclusive o caso dos possuídos pelo demônio. 34 Então a cidade toda saiu ao encontro de Jesus. Quando o viram, pediram-lhe que se retirasse da região deles.

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É Preciso Passar a Vida Fazendo o Bem Para Viver Na Plenitude De Deus

Procurai o bem e não o mal, para que possais viver, e, deste modo, o Senhor, Deus dos exércitos estará convosco, como vós o dizeis. 15 Odiai o mal e amai o bem, restabelecei a justiça no julgamento, talvez o Senhor Deus dos exércitos se compadeça do resto da tribo de José”, assim disse o profeta Amós na Primeira Leitura de hoje. “Deus convosco” é uma das fórmulas da Aliança.

Ao final do reinado de Jeroboão II (782-753 a.C), até o ano 750 a.C, o Reino do Norte vive na prosperidade: êxitos militares, atividades comerciais frutuosas, riqueza e luxo. As pessoas acabam por crer que são objeto de uma espécie de particular predileção divina. Mas o profeta Amos denuncia esta falsificação da Aliança, esta “pretensão” de privilégio. Para estar realmente com Deus há que procurar o bem e evitar o mal.

Detestai o mal, amai o bem, fazei que reine o direito no Tribunal”. Uma das características mais acusadas do profetismo bíblico, e que assinala sua linha reformadora é a ideia de que a religião e ética são inseparáveis.

O que agrada a Deus é a busca do bem, tanto no plano individual como no plano social. Uma civilização de abundancia pode, por desgraça, encobrir muitas injustiças: a corrupção do direito é, para o profeta Amos, um crime profissional, pois quando uma pessoa se torna cada vez mais poderosa, mais facilmente pode prejudicar as pessoas mais humildes que não podem defender-se.

Apesar do anúncio da desgraça, o discurso do profeta Amós não está totalmente fechado à esperança. A intenção do anúncio do juízo, como ameaça e predição, é a última advertência para que todos se convertam. Trata-se de um último chamamento para a criação das condições de justiça, de retidão e de fraternidade para que todos vivam felizes e seguros. Segundo o profeta Amós, a própria desgraça que Deus infligiu a seu povo tem como intenção de Deus de trazer de volta o povo para Seu lado. Tanto na desgraça como na ameaça dessa desgraça, segundo Amós, Deus se mostra interessado por seu povo.

Tudo isto quer nos dizer que no fundo do discurso de Amós sobre a desgraça e a ameaça, há uma mensagem de confiança. Existe uma tensão entre a ameaça do juízo, condicionada pelo pecado, pela conversão, pela salvação e pela retidão dos homens, e a esperança de salvação condicionada pela justiça e pela misericórdia de Deus. Deus é misericordioso desde que nos convertamos: “Detestai o mal, amai o bem, fazei reinar a justiça no tribunal”.

Buscai o bem, não o mal, para terdes mais vida, só assim o Senhor Deus dos exércitos vos assistirá”. “Busacar a Yahwe” significa tomar na vida religiosa uma firme determinação de descobrir. “Buscar” ( Hbr: darash) significava a consulta da vontade de Deus, tanto por procedimentos rituais como por reflexão sobre a Torá.

Tudo o que é bom absolutamente é o bem. Todo ser é bom na medida em que é perfeito como ser. O bem metafísico é o próprio ser enquanto perfeição absoluta. O bem vale por si. O bem é aquilo que todos desejam, porque todos tendem naturalmente para um fim que é seu bem e a nada aspiram senão sob o aspecto de bem. É aquilo que é buscado por razão de si próprio. Por isso, Aristóteles dizia “O bem é aquilo  a que todas as coisas tendem” (Ética a Nicômaco, I,1).

Quando uma pessoa se deixar conduzir pelo bem, ela praticará somente a bondade na convivência com as demais pessoas. A bondade é a própria perfeição possuída por um ser. E como atividade, a bondade é a capacidade que possui um ser de dar a outro a perfeição que lhe falta.

Busquemos o bem para que sejamos bons ou para que sejamos pessoas de bondade. Somente assim Deus nos assistirá. Uma vida significativa é feita de uma série de pequenos atos diários de bondade e de decência, que quando somados no final, resultam, paradoxalmente, em algo grandioso. Pela prática de atos justos, aprendemos a ser justos; pela prática de atos de autocontrole, aprendemos a ter autocontrole; e pela prática de atos de coragem, chegaremos a ser corajosos. Vivemos neste planeta por um tempo muito curto. A nossa vida relativamente curta é apenas faísca na tela da eternidade. Por isso, precisamos aprender a apreciar a jornada e a saborear o processo praticando a bondade.

Reflitamos sobre o seguinte pensamento: “Para ser, pelo menos, um pouquinho feliz, para ter um pouco do paraíso na terra, você deve reconciliar-se com a vida, com sua própria vida do jeito que estiver, deve fazer as pazes com seu serviço, com os recursos de sua carteira, com seu rosto que você não escolheu. Você deve fazer as pazes com as pessoas a seu redor, com suas falhas e fraquezas, com seu marido (ou sua mulher), mesmo que você não tenha encontrado o marido ou a mulher ideal. Reconcilie-se com a vida! Você está em sua própria pele e, em outra pele ninguém mais pode gerar você(Phil Bosmans: Eu Gosto De Você, Ed. Vozes).

É Preciso Acreditar Em Jesus Porque Ele É Mais Forte Do Que o Mal

Depois que acalmou a tempestade na cena do evangelho anterior, desta vez Jesus libertou (curou) dois enfermos dando-lhes uma nova oportunidade na vida. O ato de Jesus de libertar os dois enfermos mostra que o Deus da Bíblia é o Deus que entende a realidade humana e chama o ser humano a experimentar seu amor misericordioso para poder usufruir a vida dignamente.

O milagre da libertação dos dois possuídos na região dos gadarenos está cheio de símbolos. Mateus usa vários termos nesta cena para nos levar ao sentido da cena e o sentido da presença de Jesus nessa região: dois possuídos, violentos, moram entre os túmulos (cemitério), e uma manada de porcos está por perto deles. “Túmulo” é o lugar dos mortos ou onde os mortos são enterrados. É o lugar dos impuros, como também impuros são os porcos segundo os judeus. Ao dizer que os dois homens estão “saindo dos túmulos” o texto quer nos dizer que os dois pertencem aos descartáveis, estão no nível inferior da sociedade, vivem fisicamente nas margens, longe de núcleos familiares, estão em condições de mortos em vida e estão em rebelião contra a sociedade que os oprimem (violentos). Os endemoninhados estão “possessos” que os tornou não donos de si e sim estão sob o domínio do diabo. Diabo significa “divisão”, “desunião”: com mentira, divide o ser humano na sua verdade de filho e de irmão.

Precisamos nos lembrar daqueles que vivem desta maneira na nossa sociedade atual, especificamente na nossa cidade onde moramos atualmente. Quem são os descartáveis nas nossas cidades ou sociedade? Que não os vejamos como algo normal porque sempre passamos por eles diariamente. É sempre uma situação desafiadora para qualquer cristão, é uma situação que nos inquieta. Quando o nosso coração deixar de ter compaixão, deixaremos também de ser cristãos, discípulos do Senhor que prefere a misericórdia ao sacrifício.

Os dois, mortos em vida, vão ao encontro da Vida por excelência, que é Jesus Cristo (cf. Jo 14,6). Mas eles se aproximam de Jesus de maneira antagônica e fazem duas perguntas rápidas: 1). “Que queres de nós, Filho de Deus?”. Eles se dirigem a Jesus como Filho de Deus e O reconhecem como homem de Deus. 2). Tu vieste aqui para nos atormentar antes do tempo?”. Esta segunda pergunta revela a consciência do papel de Jesus como juiz escatológico, aquele que julga no fim dos tempos (Mt 25,31-46). O tempo do julgamento alvorece no ministério de Jesus embora ainda não seja plenamente.                 

Sem responder às perguntas Jesus os libertou e devolveu-lhes sua dignidade como filhos de Deus e os integrou novamente na comunidade, mostrando que o poder de Jesus é superior ao mal e ao mau e o vence eficazmente. 

O milagre da libertação dos possuídos não produz muito efeito para os habitantes locais, que pedem a Jesus que se retire do seu território. Eles consideram Jesus como culpado pela perda de uma manada de porcos e não lhe agradecem pela libertação dos dois homens de seus males. Jesus vai em busca dos corações dóceis ao seu poder. Eles amam mais coisas do que as pessoas (dois homens). Necessitamos amar as pessoas e usar as coisas e não amar as coisas e usar as pessoas. Necessitamos de uma presença humana ao nosso lado e não da abundância de bens que não conversam com nós. 

Isto significa que continua a oposição contra o plano de Deus como a tempestade contra a barca onde Jesus se encontrava. A existência alternativa do discipulado, seguindo o compromisso de Jesus para beneficiar aos excluídos, marginalizados e abandonados significa conflito porque ameaça os interesses criados pela elite de grande interesse pessoal da sociedade. Mas no coração aberto para a graça de Deus vai morar a salvação. Onde há o encontro com a Vida por excelência ali há libertação.  

Não há lugar para o poder do maligno em um mundo onde entrou ou deixa entrar o poder salvífico de Deus. E Jesus continua sua luta contra o mal. E nós com Ele. É o mal que há dentro de nós e o mal que há no mundo. É o mal dentro da Igreja e fora dela. É o mal entre os líderes da Igreja e entre os seus membros. E Jesus continua sendo forte, e nós com Ele. E no Pai Nosso pedimos sempre a Deus: “Livrai-nos do mal”, que também pode ser traduzido “livrai-nos do mau, do nocivo”.  Quando vamos comungar o Pão da Vida somos lembrados que Jesus é Aquele que tira o pecado do mundo. E somos enviados depois da comunhão a ajudar os outros a se libertarem de seus males. Devemos ser bons transmissores dessa vida recebida na comunhão para os demais para eles alcancem sua libertação e sua liberdade e vivam gozosamente sua vida. Onde houver espaço para o Bem e para o bem, não sobrará espaço para o mal. Jesus foi para a região dos gadarenos para que tenha espaço para o bem eliminando o mal daquele lugar. Somos enviados para que o bem tenha lugar na vida dos homens.                 

O poder de Jesus vence qualquer outro poder. Por isso, há um só poder com que nós devemos contar: o poder de Deus. “Quem não conta com Deus, não sabe contar” (B. Pascal). Crer verdadeiramente em Jesus, com todas as consequência deste crer, é ser vitorioso, pois Deus tem a ultima palavra sobre os homens e outras realidades. Mesmo que o mal tenha uma aparência poderosa, ele não tem futuro. Somente o bem tem a marca do futuro, uma marca divina, uma marca da eternidade. 

Será que somos como os gadarenos que desaprovam a presença de Jesus Cristo, nosso libertador de nossos males? Que lugar ocupa Jesus nossa vida e que lugar ocupam os bens materiais na nossa vida. Os gadarenos preferem perder Jesus a perder seus bens (porcos). Precisamos pedir a Jesus que nos liberte das cadeias que nos atam, dos males que nos possuem, das debilidades que nos impedem de uma marcha ágil em nossa caminhada cristã. E temos nos esforçar para corrigir nossos erros. Não corrigir os nossos erros é uma maneira de cometer novos erros.

P. Vitus Gustama,svd

domingo, 28 de junho de 2026

Terça-feira Da XIII Semana Comum, Ano Par, 30/06/2026

EM DEUS PARA TER CORAGEM DE LEVAR JESUS E SUA MENSAGEM PARA OS QUE ESTÃO DO OUTRO LADO

Terça-Feira da XIII Semana Comum

Primeira Leitura: Am 3,1-8;4,11-12

3,1 Ouvi, filhos de Israel, a palavra que disse o Senhor para vós e para todas as tribos que eu retirei do Egito: 2 “Dentre todas as nações da terra, somente a vós reconheci; por isso usarei o castigo por todas as vossas iniquidades. 3 Se duas pessoas caminham juntas, não é porque estão de acordo? 4 Se o leão ruge na selva, não é porque encontrou a presa? Se no covil rosna o filhote do leão, não é porque agarrou sua parte? 5 Acaso, sem armadilha, se prende uma ave no chão? Acaso dispara a armadilha, antes de capturar a presa? 6 Se ressoa na cidade o toque da trombeta, não fica a população apavorada? Se acontece uma desgraça na cidade, não foi o Senhor que fez? 7 Pois nada fará o Senhor Deus, que não revele o plano a seus servos, os profetas. 8 Ruge o leão, quem não terá medo? Falou o Senhor Deus, quem não será seu profeta?” 4,11 “Eu arrasei-vos, como arrasei Sodoma e Gomorra, e ficastes como um tição, retirado da fogueira; e, contudo, não voltastes para mim”, diz o Senhor. 12 Por isso, assim te tratarei, Israel; e, porque sabes como te vou tratar, prepara-te, Israel, para ajustar contas com o teu Deus.

Evangelho: Mt 8, 23-27

Naquele tempo, 23 Jesus entrou na barca, e seus discípulos o acompanharam. 24 E eis que houve uma grande tempestade no mar, de modo que a barca estava sendo coberta pelas ondas. Jesus, porém, dormia. 25 Os discípulos aproximaram-se e o acordaram, dizendo: “Senhor, salva-nos, pois estamos perecendo!” 26 Jesus respondeu: “Por que tendes tanto medo, homens fracos na fé?” Então, levantando-se, ameaçou os ventos e o mar, e fez-se uma grande calmaria. 27 Os homens ficaram admirados e diziam: “Quem é este homem, que até os ventos e o mar lhe obedecem?”

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Somos Chamados a Voltar Para Deus Antes Que Destruamos Nossa Própria Vida e a Vida Alheia

Ouvi, filhos de Israel, a palavra que disse o Senhor para vós e para todas as tribos que eu retirei do Egito: ´Dentre todas as nações da terra, somente a vós reconheci; por isso usarei o castigo por todas as vossas iniquidades´”.

Amós é um profeta que aparece subitamente como um relâmpago de tormenta num mundo de refinada crueldade com suas palavras firmes e rigorosas. Ele é quem introduz no profetismo a espontaneidade dinâmica e valente desconhecida desde a desaparição do profeta Elias. Outros profetas se amadurecem à sombra de um mestre. Amós conhece somente a feroz chamada de Deus que o arrasta a fazer sentir suas exigências no coração da cidade e a restituir a totalidade de uma obrigação: a aliança. As palavras do profeta Amós estão cheias de indignação moral: não condenam o progresso humano e sim o orgulho e a injustiça.

Através da Primeira Leitura de hoje, o profeta Amós quer nos relembrar que nenhum povo se escapará da justiça de Deus. Amós afirma a igualdade de todas as etnias e de todas as nações diante da justiça e da misericórdia de Deus. Além disso, o profeta Amós quer recordar todo o povo eleito ou quem quer que seja, que longe de ser um privilégio, a eleição particular de Israel é uma maior responsabilidade. Quanto maior for o privilégio e o cargo, maior será a responsabilidade e a cobrança fica maior também: “A quem muito foi dado, muito será exigido; e a quem muito foi confiado, muito mais será pedido” (Lc 12,48).

A palavra “responsabilidade” tem sua origem etimológica no latim: “respondere” que significa “prometer”, “garantir”. O que garante a responsabilidade e o sentido da vida do ser humano são os valores. Ter responsabilidade significa ser coerente com os valores reconhecidos. Responsabilizar-se significa elevar a própria existência para uma dimensão superior por causa da vivência dos valores reconhecidos. Responsabilidade e valores sempre andam inseparáveis. Todo ato autenticamente responsável está em comunhão com os valores. Quem vive de acordo com a responsabilidade jamais se torna escândalo para os demais. Responsabilidade é uma vida vivida de acordo com os valores reconhecidos universalmente.  Uma pessoa só pode ser chamada de responsável quando sua vida e sua atuação na sociedade ou na Igreja são orientadas pelos valores humanos reconhecidos universalmente.

O profeta Amós observa que o povo eleito vive fora da Aliança com Deus e por isso, vive irresponsavelmente, que causa muito sofrimento especialmente para os mais pobres e indigentes, para os mansos e os justos da sociedade. Por isso, o profeta Amós convida o povo a aprofundar a ideia de Aliança, pois Deus elegeu o povo de Israel para que fosse testemunha de uma certa concepção da existência e da coexistência na fraternidade e na justiça social.

No Batismo recebemos três funções de Cristo. Uma delas é a função profética (outras duas: a função sacerdotal e real/pastoral). Por isso, o Concílio Vaticano II afirma que todo o povo de Deus é profético (LG 12.35). O profeta é um dos crentes a quem Deus confia não unicamente uma mensagem, mas também Sua própria “preocupação”; não é somente um porta-voz de Deus e sim seu partidário e confidente. O profeta é um crente autentico, não é de fé vacilante e abalável. Ele assume sua parte do mistério de Deus. O profeta é o homem de Deus. Cada cristão, pelo Batismo, é profeta. O profeta não pode calar, porque Deus lhe mandou falar: “O que vos digo na escuridão, dizei-o às claras. O que vos é dito ao ouvido, publicai-o de cima dos telhados” (Mt 10,27).

Além disso, os israelitas eram duros e não se converteram. E por isso, Amós lança as palavras duras contra eles. E nós, não temos que escutar o aviso do profeta Amós: “Prepara-te, para ajustar contas com o teu Deus!”? Quantas vozes proféticas chegam até nós e continuamos com nossa arrogância? Ser cristão não é garantia de salvação. Deus sempre nos oferece a reconciliação. Oxalá possamos dizer com o Salmo Responsorial de hoje: “Não sois um Deus a quem agrade a iniquidade, não pode o mau morar convosco; nem os ímpios poderão permanecer perante os vossos olhos. Detestais o que pratica a iniquidade e destruís o mentiroso. Ó Senhor, abominais o sanguinário, o perverso e enganador. Eu, porém, por vossa graça generosa, posso entrar em vossa casa. E, voltado reverente ao vosso templo, com respeito vos adoro”.

É Preciso Manter a Fé Em Jesus Cristo Que Supera as Tempestades Da Vida

A cena do evangelho de hoje pode se encontrar em outros dois evangelhos sinóticos: em Marcos (Mc 4,35-41) e em Lucas (Lc 8, 22-25). Porém é inútil a comparação com Marcos e Lucas sobre a mesma cena. É a mesma cena, mas é vista de forma distinta porque é distinta a situação da comunidade em que se narra essa cena e é distinto o contexto.

Mateus coloca essa cena dentro do contexto do seguimento. A ordem de ir a “outro lado” suscita em um escriba o desejo de seguir a Jesus e em um discípulo uma certa dúvida (Mt 8,19-22). O fato é que Jesus se embarca e constatamos com alegria que “seus discípulos” O seguiram”. O verbo que aparece somente em Mateus, continua o tema do seguimento do fragmento precedente e suscita um sentimento de expectativa: quem está seguindo a Jesus?

Para entender o relato do evangelho de hoje com seus detalhes nós precisamos ter na mente alguns textos do AT que servem como o pano de fundo. Controle sobre o mar e o ato de acalmar tempestade são sinais característicos do poder divino (Jô 7,12; Salmo 73(74),13; 88(89),8-10; 92(93),3-4; Is 51,9-10). Acalmar uma tempestade no mar é a maior prova da atenção ou do cuidado amoroso de Deus (Salmo 106(107),23-32). É digno de notar também que dormir em paz e sem preocupar-se com nenhum problema é um sinal da perfeita confiança em Deus (cf. Pr 3,23-24;Sl 3,6;4,9; Jô 11,18-19).

Na literatura antiga a barca é imagem da comunidade que goza da presença do seu Senhor. Jesus convida os discípulos a irem a “outro lado do mar”. “Do outro ladoestão os pagãos, ou o território não- judeu. Jesus convida os discípulos para esse território para que lá possam semear também entre os pagãos a Boa Notícia do Reino.

Atravessar, ou “ir para outro lado”, então, significa sair de si mesmo, pensar nos outros e não ficar apenas no nosso lado, sem nenhum compromisso para melhorar o mundo ao redor. É preciso ampliar o horizonte para ver as pessoas, a vida e seus acontecimentos, o mundo em geral na sua justa perspectiva e no seu justo valor. É preciso ampliar o olhar para ver o campo maior de atuação. O convite para ir a outro lado é um convite para tomar coragem de adotar novas maneiras de viver e de atuar. É sair de nosso mundo pequeno para o mundo maior a fim de que renovemos nossa reflexão sobre tudo na nossa vida. Precisamos ir a “outro lado”. Precisamos estar no lugar do outro para saber e compreender a vida do outro. Quem sabe no “outro lado” em vez de evangelizarmos os outros, seremos muita mais evangelizados por eles do que eles por nós. Travessia é muitas vezes sinônimo de abertura ao novo e diferente.

Mas para que possamos atravessar para “outro lado”, precisamos vencer o “mar” de nossa vida. Andar seria impossível. Afundaríamos. Precisamos de algum meio. E o meio para chegar no “outro lado” para superar o “mar” a fim de levar Jesus é “barco”. Quem sabe um dos barcos mencionados neste texto que sumiram do relato é o nosso barco que ainda não foi usado para levar Jesus. É preciso ter coragem para renovar ou procurar meios para que Jesus e seus ensinamentos possam chegar até as pessoas. Os meios são sempre mutáveis, mas a mensagem de Jesus é eterna, pois só Jesus “tem palavras de vida eterna” (Jo 6,68). Não podemos eternizar os meios, pois eles podem se tornar caducos para outro tempo e lugar. O que é eterna é a mensagem de Jesus: “Passarão o céu e a terra. Minhas palavras, porém, não passarão” (Mt 24,35). Qualquer movimento, grupo ou pastoral que não se renovar, morrerá no caminho. Podemos andar no meso caminho, mas é preciso mudar o jeito de andar para que a caminhada não se torne cansativa.Na doação, a vida se fortalece; e se enfraquece no comodismo e no isolamento. De fato, os que mais desfrutam da vida são os que deixam a segurança da margem e se apaixonam pela missão de comunicar a vida aos demais. A vida se alcança e amadurece à medida que é entregue para dar vida aos outros(Papa Francisco: Exortação Apostólica: Evangelii Gaudium, no. 10).

Fala-se de uma violenta tempestade que agita o mar, a ponto de as ondas caírem dentro do barco. Para o povo da Bíblia, o mar agitado é a imagem da revolta dos povos inimigos que gera caos primitivo (cf. Sl 46,3-4.7; 65,8; 93,3-4). Além disto, tempestade é imagem de incerteza e de sentimento de derrota, daí se eleva a Deus o grito do povo (cf. Sl 18,16-20;69,2-5.15-16). E somente Deus pode dominar o mar e seu tumulto (Jô 38,7.11). Enquanto isso, Jesus parece estar ausente, dorme e parece estar completamente alheio à tragédia. O sono tranquilo de Jesus simboliza uma confiança total em Deus como foi explicado nos textos do AT acima mencionados.

“Jesus entrou na barca e os discípulos O seguiram”. Assim Mateus relatou o episódio do evangelho deste dia. A palavra “seguir” aqui é um termo chave que tem função de ligar este episódio com o episódio anterior sobre o seguimento radical (cf. Mt 8, 18-22). Seguir Jesus supõe riscos e renúncias. É por isso que Mt, logo depois da exortação sobre o seguimento radical (episódio anterior), fala da tempestade no meio do lago balançando o barco onde se encontram Jesus e seus discípulos.

As tempestades do Lago de Galileia têm fama por ser súbitas e muito violentas. E Jesus dormia no meio dessa perigosa tempestade (em grego se usa a palavra “sismo” semelhante ao terremoto, movimento interno violento). Deus dorme! Deus parece ficar calado! Por que não se manifesta? Por que o Senhor não intervém na minha vida?

“Por que tendes tanto medo, homens fracos na fé?”, responde Jesus diante de nossos gritos. É o núcleo deste relato: “Homens de pouca fé”. Medo e confiança são dois sentimentos opostos que habitam no coração de qualquer ser humano. Aumentando umO medo bloqueia o homem a ir adiante. A confiança , diminui o outro e vice-versa. o homem caminhar: “Ainda que eu atravesse o vale escuro, nada temerei, pois o Senhor está comigo” (Sl 22/23,4ª). Jesus apela para a fé. As situações limites também estimulam o crescimento da fé. E Jesus dá confiança: “Não tenhais medo!”. É nossa responsabilidade favorecer a confiança e controlar o medo. Para seguir Jesus a fé é condição essencial. As exigências, as renúncias fazem parte da perspectiva de fé. Quanto mais humanamente desesperadora e sem saída for a situação, mais a fé será necessária.

Jesus nos chama a termos fé. Há situações extremas para as quais todo apoio humano perde sua força. Nessas situações somente a fé em Deus é capaz de manter alguém em pé diante dessas situações. Para ficarmos em pé diante das situações extremas, é preciso mantermo-nos de joelhos diante de Deus. Quando a morte se aproximar, por exemplo, não há outra solução melhor do que a própria fé em Deus cujos braços permanecem abertos para nos acolher em sua casa (cf. Jo 14,1-2). No curso da vida de todo homem ou mulher há muitas situações nas quais a fé é o único recurso, o único meio de evitar o pânico: abandonar-se em Deus, confiar nele. Nessa situação precisamos ouvir profundamente o que Jesus nos diz hoje: “Por que vós tendes tanto medo, homens fracos na fé?”.

Ao relatar a tempestade acalmada por Jesus o evangelista Mateus quer nos mostrar que Jesus tem em suas mãos o poder criador de Deus. Por isso, com sua palavra apenas, tudo lhe obedece. O evangelista quer nos chamar a termos fé neste Jesus em qualquer situação onde nos encontramos.

Se encontrarmos alguma dificuldade, precisamos manter a cena do evangelho deste dia diante de nossos olhos: a tempestade violenta, o sono de Jesus, o grito de seus amigos, a chamada a uma fé mais forte e a paz que procede desta fé. Quando tudo parece contrário ou contraditório, Jesus está ali, na minha barca, na barca da Igreja. Precisamos rezar em silêncio: “Senhor, suprima meu medo, pois somente o Senhor tem palavras da vida eterna”.

A Palavra de Deus de hoje quer que tenhamos mais fé em Deus em qualquer situação, pois Ele é o nosso Pai e só quer nosso bem. Precisamos estar conscientes de que Cristo, Deus-Conosco está na barca da Igreja e na barca de nossa vida. É verdade que Jesus parece estar dormindo. Mas, na verdade, a nossa fé é que está adormecida. E o Deus-Conosco, Jesus Cristo, promete sua presença permanente na nossa vida: “Eis que estou convosco todos os dias até o fim do mundo” (Mt 28,20). “Coragem! Eu venci o mundo!” (Jo 16,33c). Temos que ter consciência dessa promessa e colocá-la em prática.

Pe. Vitus Gustama,SVD

Para Refletir:

·      Cada cristão e cada comunidade há-de discernir qual é o caminho que o Senhor lhe pede, mas todos somos convidados a aceitar esta chamada: sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho (Papa Francisco: Exortação Apostólica, Evangelii Gaudium no. 20).

·      A fé nasce no encontro com o Deus vivo, que nos chama e revela o seuamor: umamor quenos precede e sobreo qual podemos apoiar-nos paraconstruir solidamente a vida. Transformados por esteamor, recebemos olhosnovos e experimentamos que há nele uma grandepromessa de plenitudee nos é aberta a visãodo futuro. A fé,que recebemos de Deuscomo domsobrenatural, aparece-nos como luz para a estradaorientando os nossos passos no tempo (Pap Francisco: Enciclica Lumen Fidei, no. 4).

·      Na Bíblia hebraica, a é indicada pela palavra ‘emûnah, que deriva do verbo ‘amàn, cuja raiz significa « sustentar ». O termo ‘emûnah tanto pode significar a fidelidade de Deus como a do homem. O homem fiel é aquele que crê no Deus que promete; o Deus fiel é aquele que concede o que prometeu ao homem (idem n.10).

·      Por sua natureza, a fé pede para se renunciar à posse imediata que a visão parece oferecer; é um convite para se abrir à fonte da luz, respeitando o mistério próprio de um Rosto que pretende revelar-se de forma pessoal e no momento oportuno. (idem n.13)

·      Acreditar significa confiar-se a um amor misericordioso que sempre acolhe e perdoa, que sustenta e guia a existência, que se mostra poderoso na sua capacidade de endireitar os desvios da nossa história. A fé consiste na disponibilidade a deixar-se incessantemente transformar pela chamada de Deus. Paradoxalmente, neste voltar-se continuamente para o Senhor, o homem encontra uma estrada segura que o liberta do movimento dispersivo a que o sujeitam os ídolos. (idem n.13)

P. Vitus Gustama,svd

São Tomé, Apóstolo- Festa, 03/07/2026

SÃO TOMÉ, APÓSTOLO A FÉ EM DEUS NOS TORNA VERDADEIRAMENTE FELIZES Primeira Leitura: Ef 2,19-22 Irmãos, 19já não sois mais estrangeiros...