domingo, 23 de agosto de 2026

Terça-feira Da XXI Semana Comum, Ano Par, 25/08/2026

JUSTIÇA, MISERICÓRDIA E FIDELIDADE SÃO ESSENCIAIS PARA A VIDA DO SER HUMANO

Terça-Feira da XXI Semana Comum 

Primeira Leitura: 2Ts 2,1-3a.14-17

1 No que se refere à vinda de nosso Senhor Jesus Cristo e à nossa união com ele, nós vos pedimos, irmãos: 2 não deixeis tão facilmente transtornar a vossa cabeça, nem vos alarmeis por causa de alguma revelação ou carta atribuída a nós, afirmando que o Dia do Senhor está próximo. 3ª Que ninguém vos engane de modo algum. 14 Deus vos chamou para que, por meio do nosso evangelho, alcanceis a glória de nosso Senhor Jesus Cristo. 15 Assim, portanto, irmãos, ficai firmes e conservai firmemente as tradições que vos ensinamos, de viva voz ou por carta. 16 Nosso Senhor Jesus Cristo e Deus nosso Pai, que nos amou em sua graça e nos proporcionou uma consolação eterna e feliz esperança, 17 animem os vossos corações e vos confirmem em toda boa ação e palavra.

Evangelho: Mt 23,23-26

Naquele tempo, disse Jesus: 23 Ai de vós, mestres da Lei e fariseus hipócritas! Vós pagais o dízimo da hortelã, da erva-doce e do cominho, e deixais de lado os ensinamentos mais importantes da Lei, como a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Vós deveríeis praticar isto, sem contudo deixar aquilo. 24 Guias cegos! Vós filtrais o mosquito, mas engolis o camelo. 25 Ai de vós, mestres da Lei e fariseus hipócritas! Vós limpais o copo e o prato por fora, mas, por dentro, estais cheios de roubo e cobiça. 26 Fariseu cego! Limpa primeiro o copo por dentro, para que também por fora fique limpo.

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Viver o Presente Com Responsabilidade Cristã

No que se refere à vinda de nosso Senhor Jesus Cristo e à nossa união com ele, nós vos pedimos, irmãos: não deixeis tão facilmente transtornar a vossa cabeça, nem vos alarmeis por causa de alguma revelação ou carta atribuída a nós, afirmando que o Dia do Senhor está próximo. Que ninguém vos engane de modo algum”, é o conselho do autor da Segunda Carta aos tessalonicenses que lemos na Primeira Leitura.

A grande questão das duas Cartas de são Paulo aos Tessalonicenses é a Parusia, isto é, a vinda escatológica de Jesus, a última vinda do Senhor. O Dia do juízo é especificado: trata-se da parusia de Cristo, o “encontro” dos fiéis com Ele e o “Dia do Senhor”. O termo “parusia” significa “presença”, “vinda”. No contexto cristão o termo indica o retorno glorioso de Cristo ressuscitado ao final da história, na qualidade de juiz escatológico.

A mensagem central da Segunda Carta aos Tessalonicenses é esta: o autor da 2Ts quer resolver certas inquietudes e ansiedades provocadas pela demora da vinda do Senhor. A segunda vinda do Senhor (Parusia) é certa, porém seu momento é incerto. Na incerteza do momento da chegada do Senhor todos têm que estar vigilantes, porém sem ansiedade. Todos os seguidores do Senhor devem continuar a construir a cidade terrena onde o amor fraterna reina. Não é por acaso que o autor da 2Ts alerta: “Quem não quer trabalhar também não há de comer. ...que trabalhem na tranquilidade, para ganhar o pão com o próprio esforço (2Ts 3,10.12).

A finalidade da exortação do autor da 2Ts no texto de hoje é para equipar os Tessalonicenses perante o risco de mal-entendido sobre o momento exato deste encontro. Para o autor, o Dia do Senhor não está nada presente nem mesmo iminente. Por isso, pede-se que os Tessalonicenses não fiquem pertubados por causa disso. O autor inisiste para que ninguém se deixe enganar. A parusia não está às portas (2Ts 2,3b-12), porque antes, segundo autor, deve acontecer a “apostasia” e a manifestação do “homem da iniquidade” ou “filho da perdição”, “adversário”, “aquele que está contra tudo o que é divino e sagrado” (2Ts 2,3-4). A apostasia é a deserção (abandono) deliberada da fé e foi contada entre os pecados mais graves, porque marcava o abandono de uma realidade tão preciosa como a própria fé.

Quando o homem iníquo ou perverso for revelado, então Cristo, segundo o autor, o destruirá. Aquele será o momento verdadeiro da parusia do Senhor, que o “matará com o sopro de sua boca, destruindo-o com a manifestação de sua vinda (2Ts 2,8). Cristo na sua parusia, portanto, se apresentará como um guerreiro vitoriosos sobre os inimigos só com a força da sua Palavra e da sua Presença. Certamente, satanás vai colocar em campo todos os seus encantos sedutores, tentando imitar as ações prodigiosas de Deus e dando vazão ao seu poder (2Ts 2,9-10), mas o ápice de seu sucesso será também o início da sua ruína. Por isso, vale a pena ser fiel a Cristo seja no momento de alegria (sem problemas), seja no momento das perseguições.

Alguns cristãos tessalonicenses  estavam persuadidos da iminência do retorno de Jesus Cristo e os esperavam com tal impaciência que eram negligentes em seus deveres cotidianos. São Paulo pretende simplesmente repetir o que Jesus havia claramente proclamado: Ninguém sabe nem o dia nem a hora... o dia do Senhor vem como um ladrão... há que estar sempre vigilantes... (Mc 13; Mt 24; Lc 21). O “dia do Senhor”, segundo toda a tradição profética é o dia que marcará o ato final da história.

Por isso, são Paulo pede aos Tessalonicenses que “não deixeis tão facilmente transtornar a vossa cabeça, nem vos alarmeis por causa de alguma revelação ou carta atribuída a nós, afirmando que o Dia do Senhor está próximo”. Aqui parece dizer que não é iminente a última vinda do Senhor e que os Tessalonicenses não façam caso do rumores sobre visões e revelações neste sentido.

Ao longo da história sempre houve e continua havendo vários períodos em que se agitam os ânimos sobre a possível iminência do fim do mundo. Os sonhadores que anunciam o fim do mundo trazem sempre confusão, especialmente para os inocentes e simples. A orientação de são Paulo vale para qualquer cristão em qualquer lugar e época que assuma a realidade do momento presente, isto é, que faça algo com responsabilidade para o bem de todos. Quem fica pensando somente na morte é sinal de que não está vivendo bem sua vida nem leva a sério a responsabilidade como cristão. Quem fica pensando na morte, perde tempo para fazer o bem.

A vida real tem lugar aqui e agora. E o Deus em Quem acreditamos é um Deus do presente. O Deus em quem acreditamos é Aquele-que-é, que-era e que vem, e que é para mim no momento presente. Deus está presente neste momento quer seja difícil ou fácil, quer alegre ou triste (Cf. Mt 28,20). Eis porque Jesus veio para tirar de nós o peso do passado e as preocupações pelo futuro. “Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. Cada dia basta o seu cuidado” (Mt 6,34). Temos que aprende a viver um dia de cada vez e dar o melhor de nós para o mundo ao nosso redor. Deste modo, a vida vale a pena ser vivida.

Convém para nós olharmos para frente, pois isso nos ajuda a endireitarmos nossa rota e a motivarmos nosso trabalho de cada dia. Não tenhamos medo de praticar  bem mesmo que encontremos dificuldades ou experimentemos o cansaço. O que mais importante para nós é como vamos fazendo o caminho com consciência de o povo peregrino sem cidadania definitiva neste mundo, e como nos preparamos para o encontro derradeiro com o nosso Pai misericordioso.

Por isso, o autor da 2Ts fez uma oração, no fim do texto de hoje, pelo fortalecimento: Nosso Senhor Jesus Cristo e Deus nosso Pai, que nos amou em sua graça e nos proporcionou uma consolação eterna e feliz (boa) esperança, animem os vossos corações e vos confirmem em toda boa ação e palavra. (2Ts 2,16-17).  “A boa esperança pela sua graça” (Elpis agathe). A expressão “Boa esperança” era usada pelas religiões de mistério para descrever a felicidade após a morte. O novo contexto, contexto cristão, muda seu foco para a Parusia do Senhor (cf. 2Ts 1,12).

Viver o Essencial e Viver Em Função Do Bem Comum

Continuamos a acompanhar os “ais” de Jesus endereçados aos dirigentes religiosos do povo (escribas e fariseus). Como foi dito no dia anterior, o capítulo 23 do Evangelho de Mateus é uma página mais dura dirigida aos escribas e fariseus, pois a hipocrisia que eles vivem afeta a vida e a salvação do povo. No texto do evangelho de hoje Jesus desmascara todos aqueles que se escondem atrás de uma fachada religiosa para enganar o povo/os outros com o seu ensinamento.

Jesus se enfrentou abertamente com as autoridades judaicas. Ele os criticava a falta de responsabilidade sobre o povo de Deus, pois só pensavam nos próprio interesses e não no bem comum. As comparações que Jesus faz põe em evidência a mentira com que os fariseus se encobrem. Aparentemente eles são homens puros, mas em seu interior somente acumulam a cobiça, a corrupção e a maldade. Os fariseus se mostram como homens extremamente cumpridores da lei, mas não lhes importa a justiça nem a fidelidade a Deus.

Ai de vós, mestres da Lei e fariseus hipócritas! Vós pagais o dízimo da hortelã, da erva-doce e do cominho e deixais de lado os ensinamentos mais importantes da lei como a justiça, a misericórdia e a fidelidade”, disse Jesus aos fariseus. Os fariseus (e os escribas) se preocupam em pagar os dízimos até as mínimas coisas, mas esquecem-se de observar o mais essencial. Os pontos essenciais da lei que as normas se referem ao amor ao próximo são a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Justiça indica o comportamento para o homem que compreende todo o campo da justiça social, tal como entendiam os profetas (cf. Am 5,24; Os 4,1-2, etc.). Justo é aquele que vive de acordo com os mandamentos do Senhor resumidos no amor fraterno. Daqui nasce a “misericórdia”, isto é, amar até os que não merecem ser amados (misericórdia= dar o coração aos miseráveis) que tanto se enfatiza neste evangelho: “Ide e aprendei o que significam estas palavras: Eu quero a misericórdia e não o sacrifício” (Mt 9,13; cf. Mt 12,12-13). Da justiça nasce também a “fidelidade” entendida como verdadeiro cumprimento da vontade de Deus (cf. Mt 22,34-40). Jesus não despreza as mínimas coisas, mas que não se esqueça o essencial para a vida e a salvação do homem.

O que essencial no ensinamento de Jesus é amar a Deus e ao próximo. Toda a ação pastoral deve ser direcionada para essa essência. Muitas vezes acontece que gastamos bastante tempo para discutir os secundários, e gastamos menos tempo para o essencial! Ame! Amor. “Por este caminho não há outro caminho”, dizia Santo Agostinho.

Os cristãos receberam, no Batismo, uma das três funções: a função profética. A comunidade cristã é chamada e enviada para continuar a ação profética de Jesus. A comunidade cristã não pode guardar silêncio diante dos que usam o poder sem escrúpulo que enganam o povo com mentiras e projetos fantasiosos e promessas enganosas. Quem tem um olhar profético e permanece em Cristo percebe facilmente tudo que é falso e mentiroso, e logo toma posição contra.

Vós pagais o dízimo da hortelã, da erva-doce e do cominho e deixais de lado os ensinamentos mais importantes da lei como a justiça, a misericórdia e a fidelidade”. Os judeus eram minuciosos em algumas bagatelas e não se preocupavam com os assuntos importantes. Jesus nos recorda as grandes exigências de todos os tempos: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Justiça é reconhecer os direitos dos outros, é dar a outro o que lhe compete ou lhe pertence. Não tem como praticar a caridade sem praticar a justiça. Para praticar a caridade o homem tem que reconhecer o direito do outro. Simplesmente, podemos dizer que a justiça é dar a alguém o que é dele e dar a mim o que é meu. A caridade é dar a alguém o que é meu. Do mesmo modo podemos dizer quer não tem como pedir o perdão de Deus se não formos capazes de ser misericordiosos para com os outros. Não tem como sermos fieis, se nossa vida for contaminada pelas traições praticadas violando nossa própria dignidade e conseqüentemente a dignidade dos outros.

Vós pagais o dízimo da hortelã, da erva-doce e do cominho, e deixais de lado os ensinamentos mais importantes da Lei, como a justiça, a misericórdia e a fidelidade”. Hoje diríamos: a ajuda aos mais pobres, a defesa dos débeis e dos oprimidos, a pureza do coração, a honestidade profissional, a justiça social, respeito devido a toda pessoa, e assim por diante. Jesus quer que a fidelidade às observâncias cultuais seja o reflexo de uma fiel observância do amor aos demais durante toda a vida.

Os defeitos apresentados no evangelho de hoje não são exclusivos dos fariseus, podemos tê-los também hoje em dia. Na vida há coisas de pouca importância para as quais há que dar pouca importância. E há outras coisas muito mais transcendentes para as quais vale a pena que se preste atenção a elas. Em outras palavras temos que dar a importância para as coisas de acordo com seus valores para nossa vida e nossa salvação. Temos que saber discernir o que é importante e urgente para ser realizado e o que não é importante nem urgente. Há coisas que são importantes, mas não são urgentes para serem realizadas. É preciso a aprender a viver de acordo com a escala de valores. Para isso, temos que aprender a viver de acordo com os valores. Não podemos nivelar o valor do ouro com o da prata.

Seremos como os fariseus se reduzirmos nossa vida de fé a meros ritos exteriores sem nenhuma ligação com a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Seremos fariseus se dermos mais importância ao parecer do que ao ser, à aparência do que à transparência, ao bonzinho do que ao bom. Tudo é puro quando sai de um coração limpo. A impureza do coração afasta a pessoa da vontade de Deus. Pelo contrário, buscando-se a pureza interior, tudo o mais se torna puro. Autenticidade atrai, a falsidade afasta as pessoas. Uma pessoa simples atrai a simpatia dos outros; uma pessoa complicada afasta as outras pessoas de seu círculo.

Ao fazer qualquer coisa devemos também nos perguntar: Será que aquilo que estou fazendo é essencial? Será que aquilo que estou vivendo e praticando serve para minha edificação e para minha salvação e das pessoas com quem vivo? Não deixemos “de lado os ensinamentos mais importantes da Lei, como a justiça, a misericórdia e a fidelidade” é a mensagem forte da Palavra de Deus hoje para cada um de nós 

P. Vitus Gustama,svd

sábado, 22 de agosto de 2026

São Bartolomeu, Apóstolo, 24/08/2026

SÃO BARTOLOMEU, APÓSTOLO

24 de Agosto

Primeira Leitura: Ap 21,9b-14

9b Um anjo falou comigo e disse: “Vem! Vou mostrar-te a noiva, a esposa do Cordeiro”. 10 Então me levou em espírito a uma montanha grande e alta. Mostrou-me a cidade Santa, Jerusalém, descendo do céu, de junto de Deus, 11 brilhando com a glória de Deus. Seu brilho era como o de uma pedra preciosíssima, como o brilho de jaspe cristalino. 12 Estava cercada por uma muralha maciça e alta, com doze portas. Sobre as portas estavam doze anjos, e nas portas estavam escritos os nomes das doze tribos de Israel. 13 Havia três portas do lado do oriente, três portas do lado norte, três portas do lado sul e três portas do lado do ocidente. 14 A muralha da cidade tinha doze alicerces, e sobre eles estavam escritos os nomes dos doze apóstolos do Cordeiro.

Evangelho: Jo 1,45-51

45 Filipe encontrou-se com Natanael e lhe disse: “Encontramos aquele de quem Moisés escreveu na Lei, e também os profetas: Jesus de Nazaré, o filho de José”. 46 Natanael disse: “De Nazaré pode sair coisa boa?” Filipe respondeu: “Vem ver!” 47 Jesus viu Nata­nael que vinha para ele e comentou: “Aí vem um israelita de verdade, um homem sem falsidade”. 48 Natanael perguntou: “De onde me conheces?” Jesus respondeu: “Antes que Filipe te chamasse, enquanto estavas debaixo da figueira, eu te vi”. 49 Natanael respondeu: “Rabi, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel”. 50 Jesus disse: “Tu crês porque te disse: Eu te vi debaixo da figueira? Coisas maiores que esta verás!” 51 E Jesus continuou: “Em verdade, em verdade eu vos digo: Vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem”.

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Hoje é a festa de São Bartolomeu, Apóstolo. Seu nome é patronímico porque é formulado com uma referência explicita ao nome do pai.  Bartolomeu quer dizer filho de Tholmay (Bar Tholmay). Tholmay quer dizer arado ou agricultor. O nome de Bartolomeu aparece nos evangelhos sinóticos e nos Atos dos Apóstolos dentro da lista dos Apóstolos (Mt 10, 3; Mc. 3, 18; Lc. 6, 14; At. 1, 13). No Quarto Evangelho (evangelho de João) não se encontra o nome de Bartolomeu. Encontra-se apenas o nome de Natanael duas vezes. A tradição identifica o Apóstolo Bartolomeu com Natanael (Natanael significa dom de Deus ou Deus deu).

Bartolomeu, que era um dos doze apóstolos, foi pintado pelos antigos com a pele em seus braços, porque a tradição diz que seu martírio consistia em que a pele fosse arrancada de seu corpo, enquanto ele ainda estava vivo.

“Da sucessiva atividade apostólica de Bartolomeu-Natanael não temos notícias claras. Segundo uma informação referida pelo historiador Eusébio do século IV, um certo Panteno teria encontrado até na Índia os sinais de uma presença de Bartolomeu (cf. Hist. eccl., V 10, 3). Na tradição posterior, a partir da Idade Média, impôs-se a narração da sua morte por esfolamento (sua pele é tirada de seu corpo), que se tornou muito popular. Pense-se na conhecidíssima cena do Juízo Universal na Capela Sistina, na qual Michelangelo pintou São Bartolomeu que segura com a mão esquerda a sua pele, sobre a qual o artista deixou o seu auto-retrato. As suas relíquias são veneradas aqui em Roma na Igreja a ele dedicada na Ilha Tiberina, aonde teriam sido levadas pelo Imperador alemão Otão III no ano de 983. Para concluir, podemos dizer que a figura de São Bartolomeu, mesmo sendo escassas as informações acerca dele, permanece contudo diante de nós para nos dizer que a adesão a Jesus pode ser vivida e testemunhada também sem cumprir obras sensacionais. Extraordinário é e permanece o próprio Jesus, ao qual cada um de nós está chamado a consagrar a própria vida e a própria morte” (veja: Bento XVI AUDIÊNCIA GERAL Quarta-feira, 4 de Outubro de 2006).

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A festa de qualquer apóstolo nos leva a professarmos nossa fé na Igreja apostólica: “Creiom na Igreja, una, santa, católica e apostólica...” (Símbolo Niceno-Constantinopolitano). “A Igreja é apostólica por ser fundada sobre os Apóstolos, e isto em tríplice sentido:

1.    Ela foi e continua sendo construída sobre “o alicerce dos apóstolo’ (Ef 2,20), testemunhas escolhidas e enviadas em missão pelo próprio Cristo.

2.    Ela conserva e transmite, com a ajuda do Espírito que nela habita, o ensinamento, o depósito precioso, as salutares palavras ouvidas da boca dos Apóstolos.

3.    Ela continua a ser ensinada, santificada e dirigida pelos Apóstolos até a volta de Cristo, graças aos que a eles sucedem na missão pastoral: o colégio dos Bispos assistido pelos presbíteros, em união com o sucessor de Pedro, pastor supremo da Igreja.” (Catecismo Da Igreja Católica, 857).

O texto do evangelho de hoje é lido em função do apóstolo Bartolomeu. E o texto fala sobre Filipe e Natanael em relação a Cristo. A necessidade de comunicar a experiência de Jesus faz com que Filipe vá buscar Natanael, como fez André para Simão Pedro, seu irmão. Filipe identifica Jesus pela sua família e lugar de procedência: “Jesus, Filho de José de Nazaré” (v. 45).      

De imediato, a reação de Natanael é negativa: “De Nazaré pode sair algo de bom?” (v.46). Nazaré não se emciona nunca no Antigo Testamento, mas se converteu em uma das cidades mais famosas depois da vinda de Jesus. É possível que com a frase de desprezo pronunciada por Natanael o evangelista queira refletir sobre a desconfiança que tinham provocado os movimentos de libertação messiânicos, surgidos, sobretudo, na região da Galiléia, aos quais se oporá o messianismo de Jesus.        

Diante do ceticismo de Natanael, Filipe remete-se à experiência. Convida Natanael com palavras quase iguais às que Jesus usou para convidar os dois discípulos de João a irem ver onde residia (Jo 1,39). Mas o convite aqui refere-se à pessoa e não ao lugar. Os que não conhecem a Jesus têm que primeiro conhecê-lo. Jesus jamais se define a si mesmo; o contato com ele é que fará compreender sua pessoa.        

Natanael demonstra seu desejo de ver Jesus e está disposto a comprovar pessoalmente a afirmação de Filipe.        

Jesus assume a iniciativa e descreve Natanael como modelo de israelita porque nele não existe falsidade: Aí vem um israelita de verdade, um homem sem falsidade”.  De onde sai esta frase? “Não há falsidade”, isto é, trata-se de um homem simples,  de um homem reto, de um homem sem duplicidade, de um homem autêntico. Por isso, Jesus sente simpatia por Natanael. A qualificação “verdadeiro israelita” que Jesus aplica a Natanael, o homem sem falsidade, qualifica-o como alguém que conserva a autenticidade da primeira época e não atraiçoou ao seu Deus. Com isso, Jesus mostra sua intenção de integrar o verdadeiro Israel na comunidade de Jesus/messiânica, renovando a eleição feita outrora por Deus (Os 9,10). 

O verdadeiro encontro com Jesus sempre muda a vida de qualquer pessoa completamente. Vários relatos dos evangelhos nos mostram essa verdade. Quando se encontrou com Jesus, Natanael/Bartolomeu mudou completamente de vida: de uma atitude insolente quase agressiva: “De Nazaré pode sair coisa boa?” para uma rendida confissão de fé: “Mestre, Tu és o Filho de Deus, tu és o rei de Israel”. O verdadeiro encontro com Jesus transforma: uma pessoa agressiva em uma pessoa doce, gentil, educada; uma pessoa dura em uma pessoa flexível; uma pessoa que ataca em uma pessoa que reconcilia; uma pessoa que atrapalha em uma pessoa que ajuda; uma pessoa preocupada em uma pessoa serena; uma pessoa violenta em uma pessoa pacífica; um bandido crucificado com Ele em companheiro de viagem para o Paraíso: Hoje mesmo tu estarás comigo no Paraíso(Lc 23,43); Zaqueu, de ladrão em amigo de Jesus (Lc 19,2-10); a Samaritana, de uma mulher frívola em evangelizadora (Jo 4,28-30.39-42); São Paulo, de um assassino em grande evangelizador (At 9,1-19); até a água Jesus transformou em vinho saboroso (cf. Jo 2,1-11), pois “para Deus nada é impossível” (Lc 1,37). Basta ler a Bíblia, poderíamos aumentar esta lista. 

A mudança da vida de Natanael/ Bartolomeu brotou de um testemunho, da mediação de Felipe: “Vem e verás!”. Com estas palavras Natanael/ Bartolomeu ficou plasmado e foi ao encontro de Jesus e a partir daquele encontro sua vida mudou completamente; ele passou a ser um dos apóstolos de Jesus, aquele que é enviado para levar o que é digno, o que salva para os outros homens. “Venha e você verá!”. O apóstolo Bartolomeu, plasmado nesta frase, ilumine também nosso viver.

No evangelho de hoje Jesus faz o elogio sobre Natanael/ Bartolomeu: “Ai vem um israelita de verdade, um homem sem falsidade”. É muito difícil ser buscador da verdade e estar disposto a ser fiel à mesma, inclusive até sentir o desprezo e abandono de muitos em nome da verdade: tudo para ser apostolo, missionário. Os apóstolos ouviram dos lábios de Jesus: “Ide e pregai, batizai e perdoai, curai e sarai. A primeira missão da Igreja é evangelizar: levar e espalhar o que é bom para a dignidade da vida humana e para sua salvação. 

Os apóstolos acabaram sua vida no martírio como Bartolomeu. Foram testemunhas da verdade, e fieis até a morte. Graças ao testemunho dos apóstolos o evangelho chegou até nós. Nós formamos uma cadeia com eles pelo evangelho. É preciso que continuemos essa obra tirando o que é bom dentro de nós para que todos possam viver felizes como irmãos de uma família evangelizadora apesar da resistência do mundo. O sentido de nossa vida está na partilha do bem e da alegria, na solidariedade e na compaixão com os necessitados e na certeza de nosso futuro com Deus que se inicia já agora neste mundo sendo evangelizadores. O apostolo Bartolomeu interceda por nós! 

A memória dos Apóstolos nos fala de nossa própria vocação. Também fomos chamados por Cristo para ser enviados. Alguém nos apresentou Jesus, um dia, ou alguém nos introduziu na presença de Jesus Cristo, como Filipe para Natanael, ou simplesmente fomos chamados por Cristo através de outros meios, como um retiro ou um encontro de espiritualidade, ou simplesmente ouvimos o que Jesus nos disse: “Segue-me!”. A nós, como para cada um dos Apóstolos, foi confiada uma missão na Igreja conforme nossas capacidades ou talentos e nossas responsabilidades. Não podemos deixar que nossa vocação fique adormecida. Ser enviado (ser apóstolo) para anunciar o bem e servir a Igreja do Senhor nos irmãos faz parte de nosso ser Igreja. Sejamos colaboradores da fé e da Igreja e não consumidores da fé!

P.Vitus Gustama,svd

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

XXI Domingo Do Tempo Comum, Ano "A", 23/08/2026

QUEM É JESUS PARA MIM?

XXI DOMINGO DO TEMPO COMUM “A”

Primeira Leitura: Is 22,19-23

Assim diz o Senhor a Sobna, o administrador do palácio: 19“Eu vou te destituir do posto que ocupas e demitir-te do teu cargo. 20Acontecerá que nesse dia chamarei meu servo Eliacim, filho de Helcias, 21e o vestirei com a tua túnica e colocarei nele a tua faixa, porei em suas mãos a tua autoridade; ele será um pai para os habitantes de Jerusalém e para a casa de Judá. 22Eu o farei levar aos ombros a chave da casa de Davi; ele abrirá, e ninguém poderá fechar; ele fechará, e ninguém poderá abrir. 23Hei de fixá-lo como estaca em lugar seguro e aí ele terá o trono de glória na casa de seu pai”.

Segunda Leitura: Rm 11,33-36

33Ó profundidade da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus! Como são inescrutáveis os seus juízos e impenetráveis os seus caminhos! 34De fato, quem conheceu o pensamento do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro? 35Ou quem se antecipou em dar-lhe alguma coisa, de maneira a ter direito a uma retribuição? 36Na verdade, tudo é dele, por ele e para ele. A ele a glória para sempre. Amém!

Evangelho: Mt 16,13-20        

Naquele tempo, 13 Jesus foi à região de Cesareia de Filipe e aí perguntou a seus discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” 14 Eles responderam: “Alguns dizem que é João Batista; outros, que é Elias; outros ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas”. 15 Então Jesus lhes perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?” 16 Simão Pedro respondeu: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. 17 Respondendo, Jesus lhe disse: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. 18 Por isso, eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la. 19 Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus”. 20 Jesus, então, ordenou aos discípulos que não dissessem a ninguém que ele era o Messias.

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Interrogar-se, Interrogar e Deixar-se Interrogar

Nos momentos críticos ou decisivos de nossa caminhada, normalmente fazemos algumas perguntas decisivas ou importantes, como exemplo: por que tanto sofrimento? Por que os outros não compreendem minha situação? Por que eles me abandonam? Por que tanta insensibilidade em muitas pessoas?  Por que tanto vício que faz o viciado sofrer e os outros que o amam? Por que algumas pessoas vivem colocando as cruzes no caminho dos outros? Ou talvez mais existencial: Para que viver? Por que estou vivo? Qual é o sentido da minha vida? O que é a vida? O que o homem está procurando? Qual é o desejo mais profundo de um homem? Para onde o homem vai? Ainda podemos acrescentar mais uma lista grande de perguntas, se quisermos. Estas são apenas algumas de tantas.

Mesmo que não obtenhamos respostas claras ou precisas para muitas de nossas perguntas sobre nossa vida, é vital continuarmos a recordar quais são as nossas perguntas para manter qual rumo devemos seguir. Perder perguntas é certamente perder-se no caminho e até perder o caminho. O homem é um ser que interroga a vida. O homem deve se interrogar, interrogar e deixar-se interrogar, pois nisto consiste o sentido de sua vida. Ele não deixa que a vida o viva, mas faz-se senhor de sua existência, perguntando. Muita coisa foi descoberta por uma simples pergunta: Por que? Para que? ... etc..

Estamos conscientes de que é mais fácil fazer perguntas do que respondê-las. Mas mesmo que seja difícil uma pergunta, isto não significa que ela não tenha uma resposta certa. A nossa caminhada aqui nesta terra não passa de busca sem fim. Busca mais busca, pergunta mais pergunta, que só podemos encontrar respostas no encontro íntimo com Deus. Quanto mais se mergulha no mistério da vida, mais se descobre o mistério do homem e o de Deus. A vida, conseqüentemente, não é apenas um problema para ser resolvido, e sim um mistério para ser descoberto todos os dias. O que Deus quer de mim em cada momento e situação de minha vida? Quem procurar este mistério, a vida se torna sempre uma caixa de surpresas. Muitas vezes não estamos preparados para as surpresas desta vida ou das interrogações que a vida nos traz. Por isso, sai sempre da boca este tipo de pergunta: “Por que isso meu Deus?” Em cada pergunta que fazemos esconde sempre uma busca de resposta. Às vezes a resposta vem cedo, mas muitas vezes só vem pouco tarde. A grandeza de um ser humano se mede através de sua resposta sincera para suas perguntas e interrogações. A grandeza do homem começa na maneira como ele encara a si mesmo e a vida. A grandeza do homem mede-se pelas interrogações que ele se faz a si mesmo e sobre a vida que ele vive e pela honestidade com que vive procurando ser coerente com as respostas que vai encontrando ao longo de sua caminhada terrena.

Jesus Interroga        

A cena do Evangelho de hoje recolhe um momento decisivo da vida de Jesus. O lugar da cena acontece num lugar chamado Cesareia de Felipe (em torno de 32 km ao norte do lago de Genazaré. Nesse locar se encontra a fonte para abastecer o rio Jordão e o lago de Genazaré.  Nesse lugar, Jesus est´com os seus, a sós, para uma síntese da missão até aqui. Nesse lugar é que Jesus pergunta aos discípulos: Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?”  E vós, quem dizeis que eu sou?”. A pergunta tem uma dupla função: reafirmar Jesus em sua missão e confirmar os discípulos no seguimento.

Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” é a primeira pergunta feita para os discípulos. Alguns dizem que é João Batista; outros, que é Elias; outros ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas”, é a resposta dos discípulos. Todas as quatro respostas localizam Jesus na tradição profética.  Todos pensam que Jesus poderia ser um enviado de Deus. Ninguém crê que Jesus é uma personalidade excepecional desvinculada da história do povo de Israel. É interessante observar e saber que Mateus colocou Jeremias na resposta do povo, porque é o profeta que, em sua própria experiência de rejeição e sofrimento, anuncia a rejeição e o sofrimento do Messia (Jesus Cristo). 

E vós, quem dizeis que eu sou?”. Na resposta para a segunda pergunta a figura de Pedro está em destaque. É Pedro que responde como porta-voz dos discípulos à pergunta que Jesus lhes faz sobre sua identidade. Porém, no texto do evangelho de hoje, Pedro não é simplesmente porta-voz dos discípulos porque será felicitado pessoalmente por Cristo em Mateus  (Mt 16,17). Pedro sempre aparece como porta-voz dos Doze nos quarto evangelhos e é mencionado em primeiro lugar em todas as listas dos Doze. 

E por revelação do Pai, Pedro confessa sua fé em Jesus como Messias, Filho de Deus vivo: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”.  Para a resposta de Pedro em Marcos (Tu és o Cristo), Mateus acrescenta “o Filho de Deus vivo”.

Há dois títulos atribuídos a Jesus na resposta de Pedro: “Messias” / “Cristo” e “Filho do Deus vivo”. Estes títulos resumem a fé da comunidade de Mateus em Jesus, e a catequese sobre Jesus para os membros da comunidade.

“Messias” ou “Cristo”, “o Ungidoé Aquele que era esperado por Israel para libertar o povo a fim de dar-lhe a salvação definitiva. Esse “Cristo” é enviado por Deus, pois Deus ama a Seu povo e conhece seu sofrimento. 

Mas o que faz diferença para a comunidade de Mateus o segundo título: “Filho de Deus”. Este título é aplicado, no Antigo Testamento:

·      Aos anjos (cf. Dt 32,8; Sl 29,1; 89,7; Jô 1,6).

·      Ao Povo eleito (cf. Ex 4,22; Os 11,1; Jr 3,19).

·        Aos vários membros do Povo de Deus (cf. Dt 14,1-2; Is 1,2; 30,1.9; Jr 3,14).

·      Ao rei (cf. 2Sm 7,14).

·      Ao Messias/rei da linhagem de Davi (cf. Sl 2,7; 89,27).

Ser “filho de Deussignifica ter uma relação particular, íntima, e profunda com Deus. Ao chamar alguém de “filho de Deus” é porque recebe de Deus uma missão especifica a ser exercitada para o bem do povo de Deus.

Atribuir a Jesus o título deFilho do Deus vivosignifica que Jesus é aquele que está em plena comunhão com Deus (Deus vivo). A palavra “vivo” já mostra uma profunda intimidade entre Jesus e Deus, Seu Pai. Nessa profunda relação a missão encarregada por Jesus para salvar o mundo é a própria vontade de Deus (cf. Jo 3,16). Por causa da união profunda de vida com o Deus Pai, Jesus conhece os projetos do Pai e os realiza até o fim. Deus e Jesus é um só (cf. Jo 17,20-21). Por sua vez, Jesus revela aos discípulos esse “conhecimento”: “Eu vos chamei amigos, pois vos dei a conhecer tudo quanto ouvi do meu Pai”, disse Jesus aos discípulos (Jo 15,15b).

Na verdade, esses dois títulos (Messias e Filho de Deus) resume a fé da Igreja de Mateus não basta que Jesus é o Messias, o esperado de Israel. É preciso acrescentar que Jesus é o Filho de Deus. Mateus apresenta na primeira parte do seu Evangelho que Jesus é o Filho de Deus (Mt 1,1-4,16, e como seus discípulos O reconheceram (Mt 14,33), e os pagãos (Mt 27,54).

Ser o Deus vivo e vivificante, possuir a vida e comunicá-la, é a característica do Deus verdadeiro, à diferença dos deuses, dos ídolos que não têm vida própria e por conseguinte, não podem comunicá-la. Pelo contrário, exigem sacrifícios humanos e acabam escravizando e devorando todos os que se tornam seus adoradores. Jesus é o “Filho do Deus vivo”, e Ele é a própria vida em quem encontramos a força para nossa vida e a fonte de nossa vida e salvação (cf. Jo 11,25; 14,6).

Para conhecer a vontade de Deus sobre nós e nossa vida, para entender o significado de tudo que passa na nossa vida e ao redor de nossa vida, temos que criar uma intimidade profunda com Deus. Essa intimidade faz com que Pedro consiga dar resposta precisa sobre quem é Jesus: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu”.

Pedro É a Rocha Sobre a Qual Cristo Edifica Sua Igreja        

Em resposta, Jesus declara Pedro bem-aventurado e a seguir faz a promessa solene de edificar a sua Igreja sobre Pedro que é declarado rocha- alicerce da Igreja de Jesus: “Eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja”. “A minha Igreja”. “Igreja”, “Qahal” é um termo aramaico que significa “Assembleia” ou “convocação(quem convoca é o próprio Deus). Este termo é traduzido para o grego por “Ekklesia”, logo se conservou tal qual em latim “Ecclesia” do qual procede nosso termo “Igreja”.

O que Jesus quer edificar é uma “comunidade”, “Sua” comunidade, homens e mulheres que têm algo “em comum” e que “se reúnem” para festejar o que têm em comum e para vivê-lo. O Concílio Vaticano II definiu a Igreja como “o Povo de Deus(cf. Lumen Gentium do Concílio Vaticano II). Pedro recebeu um papel de responsabilidade nesse Povo (cf. Jo 21,15-19).

Eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la”, disse Jesus a Simão Pedro. A Igreja é uma casa construída sobre a rocha, ainda que se apoie na fragilidade dos homens. Portanto é uma estabilidade atormentada e inquieta, como um barco agitado pelas ondas e ventos, porém jamais ficará afundada, pois Jesus é a pedra angular e a cabeça da Igreja. “Sobre esta fortaleza construirei um templo eterno, e surgirá sobre a firmeza desta fé a sublimidade de minha Igreja a ser inserida no céu. As portas do inferno não prevalecerão contra esta confissão, as cadeias da morte não a prenderão, pois esta palavra é uma palavra de vida. E, assim como eleva até os céus os que a professam, mergulham nos infernos os que a negam(São Leão Magno: Sermão Sobre a Sua Ordenação 4,2-3: PL 54, 149-151).

Apesar de toda a debilidade da carne e o sangue de Pedro, a Igreja de Jesus nunca será destruída pelos poderes e potestades deste mundo nem pelas portas do inferno, pois o próprio Jesus é agente principal, e os homens são “pedras vivas” da Igreja do Senhor. Essa promessa nos torna resistentes, perseverantes, fieis até o fim apesar de todo tipo de dificuldade e obstáculo, pois sabemos que com Jesus seremos vencedores. Precisamos viver antecipadamente, na fé, essa vitória, pois “a fé é a antecipação do que se espera e a certeza daquilo que não se vê(Hb 11,1).

Eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la”. O destino da Igreja é como o destino de Cristo: um caminho em contradição. Não se trata somente de inimigos externos. Dentro da Igreja haverá sempre pecadores. Por isso, a Igreja tem necessidade de “atar” e “desatar”. Continua o pecado; por isso, deve continuar o perdão.

A função de Pedro se define com três metáforas: a pedra (rocha), as chaves e atar e desatar.

Pedro é a rocha/pedra que mantém firme a Igreja (cf. Mt 7,24-27). Em outras palavras, Pedro é o fator da unidade da comunidade.

A segunda metáfora é mais clara: dar as chaves significa confiar uma autoridade verdadeira e plena.

A terceira metáfora é atar e desatar. Atar e desatar tem o sentido de permitir e proibir, de separar e perdoar.

Os evangelistas sublinham intencionalmente o contraste entre a autoridade confiada a Pedro e a reprovação que Jesus faz sobre ele; o contraste entre a debilidade de Pedro e seu caráter de ponto de referência; entre graça e debilidade.  Com este contraste os evangelistas querem acentuar que por graça divina, em virtude da eleição divina e não por dons naturais, Pedro é a rocha sobre a qual Cristo edifica Sua Igreja.

Em outras palavras, o texto atribui a Pedro títulos e prerrogativas que ao longo da Bíblia se atribuem ao Messias. Como quer nos dizer que Pedro é imagem do Outro que é Cristo que é o verdadeiro Senhor da Igreja. Mas, precisamente porque é imagem de Cristo, a autoridade de Pedro é plena e indiscutível.

O mistério de Pedro permanece sempre na Igreja na pessoa daqueles que lhe sucedem. Pedro é o fator da unidade de toda a Igreja. A missão de Pedro e dos seus sucessores é precisamente a de servir esta unidade da única Igreja de Deus, formada por judeus e pagãos de todos os povos.

A Igreja tem um privilégio especial que nenhuma outra religião possui, a saber: que tendo sido fundada desde  a primeira vinda de Cristo, ela não desaparecerá até que Ele volte novamente. A batalha entre a Igreja e o mundo é esta: parece que todos os dias o mundo ganha terreno em relação à Igreja. No entanto, é a Igreja que realmente vence o mundo: “o poder do inferno nunca poderá vencê-la”. Aquilo que triunfa agora no mundo não vai durar muito. Por isso, qualquer que seja a perplexidade que o mundo nos inspire, vamos encará-la com um espírito puro e sincero.        

Até neste ponto, devemos fazer uma dupla petição ao Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus vivo, porque entramos aqui nos dois mistérios: o mistério de Cristo e o mistério da Igreja. 

Em primeiro lugar, devemos pedir a graça do “conhecimento interno” da pessoa de Jesus Cristo e da sua missão. Quem é este Jesus? O que é que ele faz neste mundo? Em segundo lugar, devemos pedir a graça, inseparável da primeira, do conhecimento do mistério da Igreja de Jesus, da Igreja que, na sua fraqueza e impotência, na sua debilidade, ela é o sacramento, a manifestação da força de Deus na história neste mundo. Cada um de nós é a Igreja de Jesus. E apesar de nossa debilidade, cada um é uma manifestação de Deus para o mundo, é um sacramento de Deus. Este é um mistério que devemos tentar descobrir todos os dias. Para falar autenticamente de Jesus, temos que falar, primeiramente, com Jesus na nossa intimidade com Ele. Nenhum cristão é autorizado para falar de Jesus sem falar, primeiro, com Ele.

Quem é Jesus Para Mim?         

Por isso, o texto do Evangelho enfatiza também o “VÓS” da pergunta: “E vós, quem dizeis que Eu sou?”.  Esta pergunta serve para descobrirmos quem é Jesus para nós e descobriremos também quem somos nós e nossa missão neste mundo. A certeza de nossa fé cristã e a nossa atuação neste mundo (missão) dependem da resposta a essa questão. A vida e a missão de Jesus deifinem nossa vida e nossa missão como cristãos. A pergunta “Quem é Jesus para mim” tem importância decisiva, pois a resposta para a pergunta condiciona nossa maneira de entender e de viver a fé. uma imagem empobrecida ou falsa ou parcial sobre Jesus nos conduzirá a uma vivência empobrecida, falsa e parcial da fé. Cada cristão crê naquilo que crê.

Por isso, Jesus não pede uma opinião e sim uma opção, não pede uma teoria, e sim uma confissão, não pede um discurso e sim uma tomada de posição. Porque a fé é relação, reconhecimento, confissão, opção radical e posição. A resposta de Pedro não foi uma definição racional e sim uma profissão de fé, foi a resposta de um homem que tinha a experiência de vida com Cristo: “Tu és o Cristo, Filho de Deus vivo”.  Pedro reconhece que Jesus Cristo é o cumprimento de todas as esperanças dos homens.

Reconhecer e confessar que Jesus é o Senhor não é qualquer coisa, e sim é uma das decisões fundamentais que o homem pode tomar em sua vida. E tal confissão deve transformar radicalmente a vida inteira de quem a faz. Não se pode dizer que Jesus é o Senhor para viver, depois, sob qualquer outro senhorio: senhorio do dinheiro, do prazer, do poder, da estética etc....          

Sabemos que normalmente nossa resposta é condicionada, mas deve ser também condicionante. Nossa resposta é condicionada porque depende de nossa cultura, nossa experiência, nossa estrutura psicológica com suas preocupações vitais e seus centros de interesse. Mas não por isso, ela deixa de ser condicionante. Nossa resposta deve ser condicionante porque Jesus não nos pede uma definição meramente objetiva e teórica de sua pessoa; não está nos submetendo a “exames” sobre nossos conhecimentos intelectuais. A pergunta de Jesus, que por certo, deve ser feita a um cristão, tem um caráter tão pessoal que ninguém pode responder por nós nem “soprar” a resposta, ou fazer uma “cola” de resposta, e que além do mais nos compromete muito seriamente. Nenhum de nós é grande vivendo a idéia dos outros. Nós somos grandes vivendo a nossa idéia sendo ajudados pelos outros.          

Se confessamos a Cristo como Filho de Deus, sua palavra e seu estilo de vida nos julgam, pois ele é o nosso Mestre e modelo a ser seguido em sua doutrina, critérios e conduta. Se O reconhecemos como nosso salvador e libertador do homem, nossa fé não pode contentar-se em receber passivamente a salvação de Deus em nossa vida individual, mas devemos responder pessoalmente a esse amor que nos precedeu e devemos colaborar missionariamente para que esse amor de Deus se torne realidade presente no mundo e alcance todos os homens, nossos irmãos. Em outras palavras, cada resposta é uma missão e uma responsabilidade.          

Por isso, conhecer Jesus Cristo não é um passatempo ou um luxo e sim uma necessidade vital, porque é só através desse conhecimento que podemos alcançar também a compreensão de nós mesmos, do significado e da importância da nossa vida. Somente com o Senhor Jesus e Nele nós podemos esperar a realização de nós mesmos. O conhecimento do Senhor Jesus, com as nossas orações, é que alimenta a chama da nossa esperança.          

E por isso é que o homem distingue-se dos animais e dos robôs porque não se contenta em registrar experiências sensíveis, dados e informações; ele levanta as questões, propõe problemas e formula perguntas e procura explicações sob a luz de Deus.          

Por isso, também, uma das tragédias da nossa vida é continuarmos a esquecer-nos de quem somos e quem é Jesus Cristo e a perder tempo e energias a demonstrar o que não precisa ser demonstrado.          

Precisamos, portanto, de muita oração e meditação para depois partir para a ação. Porque a oração é o exercício para escutar a voz de amor de Deus. Sem oração, tornamo-nos surdos à voz do amor e ficamos confundidos com as muitas vozes competitivas que exigem a nossa atenção. Sem ação, ou sem traduzir em ação, em vida, qualquer oração perde sua eficácia.          

Portanto, a pergunta de Jesus: “E vós, quem dizeis que eu sou?” deve ser refletida por cada um de nós diariamente para direcionar nossa vida para o Senhor e para dar o sentido para nossas lutas de cada dia. Repito: Para falar de Jesus autenticamente, temos que falar, primeiramente, com Jesus.          

Ao terminar esta reflexão eu gostaria de colocar aqui o pensamento de René Juan Trossero, psicólogo e escritor argentino, em relação à pergunta sobre quem é Jesus cuja resposta deve ser individual, pois não vale colar a resposta feita por alguém: 

Deus fez o homem para que andasse em pé, mas não o condena por começar engatinhando.

Se você está lendo só para pensar o que eu penso, ganhará muito pouco. Se lê para despertar o seu pensamento, mesmo que não pensemos a mesma coisa, estaremos crescendo juntos.         

Não faça de seu cérebro um arquivo para pensamentos alheios, mas o laboratório de suas próprias convicções.          

É preferível o erro de quem pensa por sua conta do que o acerto de quem repete o pensamento alheio.         

Você não aprende a lição dos grandes pensadores quando memoriza e repete o que eles pensaram, mas quando tem a coragem de criar os seus próprios pensamentos”.          

Então, “Quem dizeis que Sou?” pergunta Jesus a cada um de nós? Pedro já deu sua resposta. E a sua resposta?

P. Vitus Gustama,svd

Terça-feira Da XXI Semana Comum, Ano Par, 25/08/2026

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