sábado, 21 de fevereiro de 2026

23/02/2026- Segunda-feira Da I Semana Da Quaresma

AMOR A DEUS QUE SE EXPRESSA NO AMOR AO PRÓXIMO É O CRITÉRIO PARA ENTRAR NA VIDA ETERNA

Segunda-Feira da I Semana da Quaresma

Primeira Leitura: Lv 19,1-2.11-18

1 O Senhor falou a Moisés, dizendo: 2 “Fala a toda a Comunidade dos filhos de Israel, e dize-lhes: Sede santos, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo.  11 Não furteis, não digais mentiras, nem vos enganeis uns aos outros. 12 Não jureis falso por meu nome, profanando o nome do Senhor teu Deus. Eu sou o Senhor. 13 Não explores o teu próximo nem pratiques extorsão contra ele. Não retenhas contigo a diária do assalariado até o dia seguinte. 14 Não amaldiçoes o surdo, nem ponhas tropeço diante do cego, mas temerás o teu Deus. Eu sou o Senhor. 15 Não cometas injustiças no exercício da justiça; não favoreças o pobre nem prestigieis o poderoso. Julga teu próximo conforme a justiça. 16 Não sejas um maldizente entre o teu povo. Não conspires, caluniando-o, contra a vida do teu próximo. Eu sou o Senhor. 17 Não tenhas no coração ódio contra teu irmão. Repreende o teu próximo, para não te tornares culpado de pecado por causa dele. 18 Não procures vingança, nem guardes rancor aos teus compatriotas. Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor”.

Evangelho: Mt 25,31-46

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 31Quando o Filho do Homem vier em sua glória, acompanhado de todos os anjos, então se assentará em seu trono glorioso. 32Todos os povos da terra serão reunidos diante dele, e ele separará uns dos outros, assim como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. 33E colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda. 34Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Vinde benditos de meu Pai! Recebei como herança o Reino que meu Pai vos preparou desde a criação do mundo! 35Pois eu estava com fome e me destes de comer; eu estava com sede e me destes de beber; eu era estrangeiro e me recebestes em casa; 36eu estava nu e me vestistes; eu estava doente e cuidastes de mim; eu estava na prisão e fostes me visitar’. 37Então os justos lhe perguntarão: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer? Com sede e te demos de beber? 38Quando foi que te vimos como estrangeiro e te recebemos em casa, e sem roupa e te vestimos? 39Quando foi que te vimos doente ou preso, e fomos te visitar?’ 40Então o Rei lhes responderá: ‘Em verdade eu vos digo, que todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes!’ 41Depois o Rei dirá aos que estiverem à sua esquerda: ‘Afastai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno, preparado para o diabo e para os seus anjos. 42Pois eu estava com fome e não me destes de comer; eu estava com sede e não me destes de beber; 43eu era estrangeiro e não me recebestes em casa; eu estava nu e não me vestistes; eu estava doente e na prisão e não fostes me visitar’. 44E responderão também eles: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome, ou com sede, como estrangeiro, ou nu, doente ou preso, e não te servimos?’ 45Então o Rei lhes responderá: ‘Em verdade eu vos digo, todas as vezes que não fizestes isso a um desses pequeninos, foi a mim que não o fizestes!’ 46Portanto, estes irão para o castigo eterno, enquanto os justos irão para a vida eterna”.

-----------------

Ser Santo Como Deus, e Ser Protetor Do Próximo

Sede santos, porque eu, o Senhor vosso Deus, Sou santo”, assim diz o Senhor para o povo de Israel através do legislador Moisés que lemos na Primeira Leitura de hoje. O texto da Primeira Leitura tem influência do Decálogo (Ex 20).

O texto da Primeira Leitura (Lv 19,1-2.11-18) faz parte das prescrições morais e cultuais (Lv 19,1-37). Este capítulo forma uma unidade, com sua própria introdução (vv. 1-2) e sua conclusão (vv. 36b-37). No horizonte maior, o capítulo 19 do Levítico faz parte de um conjunto homogêneo de leis, designado, com o título de “Código de Santidade” (Lv 19-26). Todo este código é como um texto constitutivo que contém os mais essenciais princípios que devem informar a vida cotidiana de Israel em sua relação com Deus e com o próximo. O capitulo 19, concretamente, contém uma série de leis sociais.

Os versículos 11-18 (Lv 19,11-18) estão centrados principalmente na responsabilidade pessoal de praticar justiça e caridade em relações sociais. A proibição contra a profanação do nome divino pelo prejúrio (v.12); contra qualquer forma de mentira e falsidade (v.11b); contra o roubo (v.11ª);  o forte não deveria tirar proveito do fraco, pelo engano e roubo (v.13ª), pela retenção de salários (v. 13b), ou mediante outras formas de tratamento inadequado (v.14): contra a maldição, pois uma vez pronunciada, era irrevogável e efetiva, quer fosse ouvida pelo acusado ou não. Os procedimentos da corte, presididos pelos membros mais velhos do clã, (vv.15-16) deveriam ser marcados pela aderência rígida aos interesses da justiça, que proibia tanto o favorecimento do poderoso quanto a compaixão exacerbada para com o simples. Ou seja, o israelita deveria manter a justiça refreando-se de fazer qualquer acusação falsa contra uma pessoa. As exigências da caridade (vv.17-18) excluem um espírito de hostilidade, vingança, e rancor. Que a correção fraterna fosse feita sempre que necessário. O pecado seria a falha em corrigir o culpado quando necessário (Ez 3,18-19; 33,8-9. Cf. também Mt 18,15). O mais célebre versículo do texto de hoje é o v.18b: Propõe o amor a si mesmo como medida de caridade para com o próximo. Para são Paulo, a caridade é o cumprimento de toda a Lei (Rm 13,10) que está de acordo com o ensinamento de Cristo (Mt 22,37-39; Mc 12,30-31).

Em outras palavras, no livro de Levítico, Moisés apresenta ao povo de Israel um código de santidade para que o povo possa estar à altura de Deus que é o todo Santo. Há mandamentos que se referem a Deus: Não faça juramento falso. Mas, sobretudo, insiste-se na caridade e na justiça com os demais homens. A enumeração é vasta e afeta até os aspectos da vida que não perde jamais sua atualidade: não furtar, não enganar, não oprimir, não cometer injustiças nos juízos ou no exercício de justiça (para os tribunais), não odiar, não guardar rancor. Há dois detalhes concretos muito significativos: não maldizer ao surdo (aproveitando que não pode ouvir) e não pôr tropeço diante do cego (que não pode ver). Positivamente pode-se dizer que é preciso respeitar e amar ao próximo. E amar ao próximo inclui também a ajuda na sua necessidade báscia quando ele se encontra numa necessidade.

Por isso, a consignação final é bem positiva: Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Tudo isso tem uma motivação: “Eu sou o Senhor”, frase que se repete no conjunto da lei da santidade. Deus quer que sejamos santos como Ele, que O honremos mais com as obras do que com as orações, com os cantos e as palavras. O primeiro dom e mais necessário para a santidade é a CARIDADE com a qual amamos a Deus sobre todas as coisas e ao próximo por amor a Deus. O amor é a experiência espiritual mais profunda. “O amor é o único tesouro que se multiplica ao dividir-se, que tanto mais aumenta que mais se lhe tira. O único empreendimento no qual quanto mais se gasta mais se ganha” (Santo Agostinho).

Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra. És uma consagrada ou um consagrado? Sê santo, vivendo com alegria a tua doação. Estás casado? Sê santo, amando e cuidando do teu marido ou da tua esposa, como Cristo fez com a Igreja. És um trabalhador? Sê santo, cumprindo com honestidade e competência o teu trabalho ao serviço dos irmãos. És progenitor, avó ou avô? Sê santo, ensinando com paciência as crianças a seguirem Jesus. Estás investido em autoridade? Sê santo, lutando pelo bem comum e renunciando aos teus interesses pessoais” (Papa Francisco: Exortação Apostólica Gaudete Et Exsultate n.14).

O Salmo Responsorial (Sl 18) nos faz aprofundarmos nesta chave: “Os preceitos do Senhor são precisos, alegria ao coração. O mandamento do Senhor é brilhante, para os olhos é uma luz”.

Sede santos, porque eu, o Senhor vosso Deus, Sou santo”. A “lei de santidade, seção central e mais compacta do Levítico (Lv 17-26) se trata de modelar a ordem humana a partir da santidade de Deus. Santidade é aqui um conceito que não fala tanto de Deus em si, quanto de Deus como fundamento do mundo ou da humanidade. Daí que seja uma exigência radical para a própria humanidade para ser verdadeiramente o que é ou é chamada a ser. A lei se dirige ao povo de Deus no mundo para ensinar-lhe o caminho de acesso à santidade de Deus ou à plena realização de si mesmo. O caminho para a santidade é o homem-irmão, o próximo. Dentro deste código de santidade, o próximo se chama também parente, concidadão, irmão. É o homem da comunidade humana, na qual todos têm direitos e deveres. O cumprimento dos deveres faz que o próximo obtenha seus direitos. Dentro deste contexto é que podemos entender o mandamento do amor fraterno: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. O homem não está nunca tão próximo da santidade de Deus como quando ama a seu próximo.

Por isso, depois do princípio da santidade de Deus, o legislador faz a enumeração dos preceitos morais. Em primeiro lugar, justiça com o próximo. O legislador proíbe o furto, cortando de raiz suas ocasiões ao proibir todo tipo de engano e falsidade com o próximo: “Não furteis, não digais mentiras, nem vos enganeis uns aos outros”. Também é condenada toda opressão violenta contra o próximo: “Não explores o teu próximo nem pratiques extorsão contra ele”. Em nome de Deus que sejam protegidos os pobres e débeis e por isso, é proibido maldizer o surdo e pôr obstáculos ao cego porque estes não podem contestar a sua conduta: “Não amaldiçoes o surdo, nem ponhas tropeço diante do cego, mas temerás o teu Deus. Eu sou o Senhor”. Nem pode profanar o Nome de Deus através de um juramento falso: “Não jureis falso por meu nome, profanando o nome do Senhor teu Deus. Eu sou o Senhor”.

Em segundo lugar, a retidão e a caridade para o próximo. Contra toda acepção de pessoas é ordenado que pode favorecer a ninguém nem ao pobre, nem ao rico: “Não cometas injustiças no exercício da justiça; não favoreças o pobre nem prestigieis o poderoso. Julga teu próximo conforme a justiça”. A justiça é a base da ordem social, e por isso é inculcada a objetividade nas causas judiciais. Quem ama pratica a justiça social. O legislador acrescenta que não se deve difamar ninguém com vistas ao derramamento de sangue: “Não sejas um maldizente entre o teu povo. Não conspires, caluniando-o, contra a vida do teu próximo. Eu sou o Senhor”. E como base do sentido de justiça são proibidos os desejos adversos internos contra o próximo e é recomendada a correção fraterna: “Não tenhas no coração ódio contra teu irmão. Repreende o teu próximo, para não te tornares culpado de pecado por causa dele”. Os ódios reconcentrados no coração podem se transformar em explosões violentas contra o próximo. E por fim, o grande mandamento: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor”. Mas aqui “próximo” se refere ao israelita ou compatriota. No comentário rabínico se diz que “o próximo não é o samaritano, nem o estrangeiro, nem o prosélito”. É a interpretação que davam os judeus no tempo de Jesus. Na mensagem evangélica, o amor ao próximo é uma consequência e projeção do amor ao Deus-Pai celeste que faz nascer o sol para os bons e maus e faz cair a chuva para os justos e injustos (Mt 5,43-48).

É interessante observar que se repete a frase como refrão: “Eu sou o Senhor”. Aqui Deus se faz como garantia, o Guardião, o Juiz da qualidade de nossas relações humanas. O fato de o homem explorar o outro homem, seu próximo, Deus fica indiferente, mas se encoleriza.

Sede santos, porque eu, o Senhor vosso Deus, Sou santo”. Entre homem e Deus há um certo laço. Deus não se desinteressa da conduta do homem. E Jesus dirá: “Sede perfeitos como vosso Pai é perfeito” (Mt 5,48).

Roubo/Furto”, “Mentira”, “Exploração/Extorsão/Injustiça”, “Difamação/Calúnia”, “Maldição”, “Pedra de tropeço/Escândalo”, “Vingança/Guardar rancor”. Devo me deter em cada uma destas palavras. Qual é a minha forma de tratar o outro? Ajude-me, Senhor a amar sem cessar a todos.

O Amor Será o Critério De Deus Para Nos Examinar No Julgamento Final

O texto do evangelho lido neste dia se encontra no quinto e o último discurso de Jesus no evangelho de Mateus chamado o Julgamento final (Mt 23-25). O evangelista Mateus quer nos recordar que o homem jamais se esquece de que um dia sua vida na história terminará. Um dos seus dias será o dia de sua morte. Um poeta espanhol escreveu: “Partimos, quando nascemos, caminhamos enquanto vivemos, e chegamos no momento em que morremos”. São Paulo nos adverte: “Todos nós teremos de comparecer manifestamente perante o tribunal de Cristo, a fim de que cada um receba a retribuição do que tiver feito durante a sua vida no corpo, seja para o bem, seja para o mal” (2Cor 5,10; cf. Hb 9,27). Segundo São Paulo nós seremos julgados por Deus por aquilo que fizemos ou deixamos de fazer aqui neste mundo, durante a nossa história. E o critério de avaliação vai ser nosso amor para com os irmãos, para com todas as pessoas, principalmente para os necessitados (cf. 1Cor 13,1-13). O próximo é a passagem obrigatória para chegar até Deus.

Sabendo do término de nossa caminhada um dia aqui neste mundo, o texto do evangelho deste dia é uma das páginas mais incômodas de todo o evangelho. Uma das páginas do Evangelho que sempre temos mais medo é a da parábola do “Juízo final”. Trata-se do momento supremo do homem, do momento em que deverá prestar contas ao seu Criador, porque todos Lhe pertencem e que Ele esteve presente na história de todos (cf. Mt 28,20; 25,40.45; 1Cor 3,16-17 etc.). Por isso, fala-se de condenação e de salvação, de bênção e maldição, de chamada e de repulsa: de eternidade. Qualquer homem pode não encontrar Deus durante a vida, mas não tem como escapar do seu próximo com quem Jesus se identifica. O verdadeiro próximo é aquele em cujo caminho eu me coloco e não apenas aquele que eu encontro no meu caminho. 

No julgamento final, Jesus nos revela um Deus que não se pode medir com os nossos cálculos matemáticos, legais ou rituais; um Deus que, apesar de ser o mais próximo de nós, também é o mais afastado porque Ele é o “diferente”, o “diverso”, o “Outro”.

O critério usado no julgamento final é o AMOR ao próximo, de modo especial o bem feito aos pobres e marginalizados, pois o cerne da religião bíblica é a prática ou a vivência do amor. Todo o mais, por mais belo e importante que ele seja, como o conhecimento e a fé em Deus parecem ter valores apenas “parciais”. Mesmo o testemunho do sangue não significa nada em comparação com o amor ao próximo (cf. 1 Cor 13,1-13). Mas não se trata do bem, feito para atrair sobre si a bênção de Deus, ou com a esperança duma recompensa, servindo-se do próximo como instrumento da benevolência divina, mas trata-se do bem, feito ao homem pelo homem: o amor pelo amor. O ateu pode percorrer as ruas do mundo sem encontrar Deus, mas não pode deixar de cruzar-se com o seu próximo e com o próximo mais pobre, menos livre, mais oprimido, mais só. Jesus se identifica com eles.

No evangelho de hoje Jesus nos recorda que no último dia seremos julgados sobre o amor: “Todas as vezes que não fizestes isso (caridade) a um desses pequeninos, foi a mim que não o fizestes!”, diz o Senhor (Mt 25,45). Entre o homem e Deusum certo laço. Deus não se desinteressa da conduta do homem. As palavras do Senhor neste dia devem servir de exame de consciência sobre o estilo e a qualidade de nossas relações com todas as pessoas que tratamos: falta de caridade, mentira, agressão, falsidade, exploração, apatia, insensibilidade humana e assim por diante. Devemos nos deter em cada uma destas palavras e nas outras semelhantes. E cada um deve se perguntar: “Qual é o meu estilo ou meu modo de tratar os outros?”. Deus se faz juiz da qualidade de nossas relações com os outros, e não os comentários humanos.

Na Eucaristia, com os olhos da , não nos custa muito descobrir Cristo presente no sacramento do pão e do vinho. Mas nos custa muito descobrirmos Cristo fora da Eucaristia, no sacramento do irmão. Mas precisamente a partir deste ângulo é que será feita a pergunta final, se descobrimos Cristo no irmão ou não. O Cristo que escutamos e que recebemos na Eucaristia é o mesmo a quem devemos servir nas pessoas com as quais nos encontramos durante o dia.

Muitas vezes, e, sobretudo, em situações de crise perguntamos: “Onde está Deus?”. Hoje, através do texto de Mateus temos uma resposta clara: nos que sofrem, nos pobres, nos enfermos, ainda que não queiramos ver porque é incômodo, desagradável.  Mas comprometer-se, conviver, procurar qualidade de vida, calor, não é isso ser santo?

Se decidirmos realmente seguir a Jesus, teremos que escolher o caminho da vida. Optar pela vida é viver na solidariedade, na compaixão, na caridade, no perdão. Mas se escolhermos nossas ambições, o poder, a autossuficiência, etc., então estaremos escolher o caminho da morte eterna.

Portanto, viver não é simplesmente sorrir e sim fazer alguém sorrir. Viver não é medir ajuda e sim ajudar sem medida, pois Deus é o critério do bem. Viver não é somente ajudar que está próximo e sim estar sempre próximo para ajudar. Viver não é somente doar um pouco e sim doar sempre, pois nisto consiste a verdadeira vida. Viver não é somente compadecer-se e sim ajudar mesmo que por isso se torne incomodo. Quem ama não somente faz o que pode e sim faz até o impossível, poisDeus é amor(1Jo 4,8.16) e “para Deus nada é impossível (Lc 1,37).

A quaresma é o tempo oportuno para praticar a solidariedade pela solidariedade (esmola é um dos tres pilares da Quaresma, além da oração e jejum). Dividir o que se tem com quem não tem nada para viver é uma das maneiras de viver a quaresma. Não basta fazer jejum. Não basta rezar. É preciso saber partilhar com o necessitado com quem Jesus se identifica. O modo de amar, de abraçar, de aceitar o meu irmão mais pequeno e mais oprimido é uma participação evidente da intimidade mesma de Deus- Amor, um valor absoluto em si próprio. Tudo o que é amor já é de Deus. Um critério que servirá, então, para crentes e ateus será a lei do amor aos irmãos, escrito no interior de cada ser humano, impulso para o bem, a chamada à fraternidade. Porque alguém pode ter fé em Deus sem amar ao próximo e alguém pode se considerar ateu, mas sabe amar ao próximo

Que no último dia de nossa vida terrestre possamos tirar uma nota boa neste exame final de nossas relações e de nosso tratamento para com os outros. O decisivo será a atitude de amor ou de indiferença que fizemos com os irmãos mais pequenos: os famintos, sedentos, enfermos, encarcerados, imigrantes e assim por diante. Revisar com que consciência nós atuamos é o próprio da Quaresma.

Lembremo-nos que Deus não vai perguntar que tipo de carro você costumava dirigir, mas vai perguntar quantas pessoas que necessitavam de sua ajuda para transportá-las. Deus não vai perguntar qual o tamanho de sua casa, mas vai perguntar quantas pessoas você abrigou nela. Deus não vai fazer perguntas sobre as roupas do seu armário, mas vai perguntar quantas pessoas você ajudou a vestir. Deus não vai perguntar o montante de seus bens materiais, mas vai perguntar em que medida eles ditaram sua vida. Deus não vai perguntar qual foi o seu maior salário, mas vai perguntar se você comprometeu o seu caráter para obtê-lo. Deus não vai perguntar quantas promoções você recebeu, mas vai perguntar de que forma você promoveu outros para que pudessem crescer. Deus não vai perguntar qual foi o título do cargo que você ocupava, mas vai perguntar se você desempenhou o seu trabalho com o melhor de suas habilidades. Deus não vai perguntar quantos amigos você teve, mas vai perguntar para quantas pessoas você foi amigo. Deus não vai perguntar o que você fez para proteger seus direitos, mas vai perguntar o que você fez para garantir os direitos dos outros. Deus não vai perguntar em que bairro você morou, mas vai perguntar como você tratou seus vizinhos.

P. Vitus Gustama,svd

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

I Domingo Da Quaresma, Ano "A", 22/02/2026

VIVER DE ACORDO COM A VONTADE DE DEUS NOS FAZ VENCERMOS AS TENTAÇÕES DESTE MUNDO

I DOMINGO DA QUARESMA “A” 

  I Leitura: Gn 2,7-9; 3,1-7

7O Senhor Deus formou o homem do pó da terra, soprou-lhe nas narinas o sopro da vida e o homem tornou-se um ser vivente. 8Depois, o Senhor Deus plantou um jardim em Éden, ao oriente, e ali pôs o homem que havia formado. 9E o Senhor Deus fez brotar da terra toda sorte de árvores de aspecto atraente e de fruto saboroso ao paladar, a árvore da vida no meio do jardim e a árvore do conhecimento do bem e do mal. 3,1A serpente era o mais astuto de todos os animais dos campos que o Senhor Deus tinha feito. Ela disse à mulher: “É verdade que Deus vos disse: ‘Não comereis de nenhuma das árvores do jardim?’” 2E a mulher respondeu à serpente: “Do fruto das árvores do jardim nós podemos comer. 3Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus nos disse: ‘Não comais dele, nem sequer o toqueis, do contrário, morrereis’”. 4A serpente disse à mulher: “Não, vós não morrereis. 5Mas Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão e vós sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal”. 6A mulher viu que seria bom comer da árvore, pois era atraente para os olhos e desejável para se alcançar o conhecimento. E colheu um fruto, comeu e deu também ao marido, que estava com ela, e ele comeu. 7Então, os olhos dos dois se abriram; e, vendo que estavam nus, teceram tangas para si com folhas de figueira.

II Leitura: Rm 5,12.17-19

Irmãos: 12 Consideremos o seguinte: O pecado entrou no mundo por um só homem. Através do pecado, entrou a morte. E a morte passou para todos os homens, porque todos pecaram...17 Por um só homem, pela falta de um só homem, a morte começou a reinar. Muito mais reinarão na vida, pela mediação de um só, Jesus Cristo, os que recebem o dom gratuito e superabundante da justiça. 18 Como a falta de um só acarretou condenação para todos os homens, assim o ato de justiça de um só trouxe, para todos os homens, a justificação que dá a vida. 19 Com efeito, como pela desobediência de um só homem a humanidade toda foi estabelecida numa situação de pecado, assim também, pela obediência de um só, toda a humanidade passará para uma situação de justiça.

Evangelho: Mt 4,1-11

Naquele tempo, 1o Espírito conduziu Jesus ao deserto, para ser tentado pelo diabo. 2Jesus jejuou durante quarenta dias e quarenta noites, e, depois disso, teve fome. 3Então, o tentador aproximou-se e disse a Jesus: “Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães!” 4Mas Jesus respondeu: “Está escrito: ‘Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus’”. 5Então o diabo levou Jesus à Cidade Santa, colocou-o sobre a parte mais alta do Templo, 6e lhe disse: “Se és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo! Porque está escrito: ‘Deus dará ordens aos seus anjos a teu respeito, e eles te levarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra’”. 7Jesus lhe respondeu: “Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus!’” 8Novamente, o diabo levou Jesus para um monte muito alto. Mostrou-lhe todos os reinos do mundo e sua glória, 9e lhe disse: “Eu te darei tudo isso, se te ajoelhares diante de mim, para me adorar”. 10Jesus lhe disse: “Vai-te embora, Satanás, porque está escrito: ‘Adorarás ao Senhor, teu Deus, e somente a ele prestarás culto’”. 11Então o diabo o deixou. E os anjos se aproximaram e serviram a Jesus.

------------------

Ser Fiel à Palavra É Ser Salvo: Entre Adão e Jesus

Neste Primeiro Domingo da Quaresma, a Igreja nos apresenta as duas grandes figuras que centram toda a história da humanidade: Adão e Jesus Cristo. Adão, o primeiro homem no plano do tempo, na verdade inclui tanto o masculino quanto o feminino. Jesus, o filho de Deus em forma de homem (Deus encarnado), também está associado à sua missão uma mulher, Maria de Nazaré, Sua Mãe com seu Fiat ao Plano de Deus de ser Mãe do Salvador. Nas leituras de hoje, esses dois "homens" (Adão e Jesus) aparecem frente a frente e, ao mesmo tempo, relacionados. E os dois são tentados. Um caiu na tentação pela desobediência à Palavra de Deus (Adão) e o Outro venceu as tentações, pois viveu de acordo com a Palavra do Pai (Jesus). Aquele que vive de acordo com a Palavra de Deus pode ser tentado, porém nai cai na tentação.

O primeiro homem (Adão) é colocado no Paraíso na harmonia da criação e na harmonia da relação homem-Deus, assim como na harmonia do casal humano. Ser fiel à Palavra de Deus é permanecer em harmonia Homem-natureza, homem-mulher e Homem-Deus.

Ao contrário, não obedecer - cair em tentação - é quebrar o desígnio "harmônico" (de comunhão) de Deus Pai. Por isso, o segundo fragmento do texto da Primeira Leitura nos coloca na tentação de não obedecer à Palavra de Deus que resulta na desordem (perda da harmonia). Adão e Eva (o homem e a mulher) não confiam em Deus; duvidam e desconfiam de Seus projetos e caminhos, e por isso, eles (Adão e Eva) decidem tudo por conta própria. Ao Perder a comunhão com Deus e ao abandonar os caminhos de Deus, únicos onde poderiam encontrar vida, harmonia, alegria e paz, o homem perdido, o homem desobediente à Palavra de Deus só encontra caminhos de amargura, dor e morte. Segundo Santo Agostinho, o homem para onde se dirija sem se apoiar em Deus somemnte encontrará dor.

Não é simplesmente porque somos "pó" (feito de barro) que pecamos, e sim porque somos livres. Se o homem conhecesse e reconhecesse que não vem de si mesmo, e sim que é “doado”, agraciado, que vem de Alguém (Deus), ele escolheria os caminhos de Deus de Quem o criou.

Jesus, como sublinham a Segunda Leitura e o Evangelho de hoje, é fiel à Palavra do Pai, permanece sob a Palavra de Deus, alimenta-se da vontade do Pai (Jo 4,34), não cai em nenhuma tentação, envolve-nos em harmonia e reconcilia-nos, a partir da obediência, com a criação e com o Pai.

Na segunda leitura, São Paulo confirma a triste experiência de Adão e esta infeliz herança que os primeiros pais nos deixaram. “O pecado entrou no mundo por um só homem. Através do pecado, entrou a morte. E a morte passou para todos os homens, porque todos pecaram...”. Todos nós caímos, tropeçamos, cedemos ao princípio do prazer, ao orgulho e à autossuficiência, à soberba. Desde que existimos, temos a tendência de nos rebelarmos, de nos tornarmos independentes, de nos distanciarmos de Deus e de seus caminhos. O resultado não pode ser outro senão o caos na nossa vida e na nossa convivência com os outros.

E o evangelho quer nos levar a uma reflexão de que o homem tem a ver com coisas, com pessoas e com Deus, que respectivamente lhe assegura a vida animal, a vida humana e a vida espiritual. Estas três vidas são as dimensões com possibilidade de vitória ou derrota na medida em que estamos revestidos do Espírito do Filho que tudo recebe como dom e doa, ou com aquele espírito do velho Adão que tudo quer roubar: é uma ironia: roubar o que é nos dado de Deus. Deus é o dom e tudo recebemos dele, menos o pecado. Consequentemente, a possessão representa o contrário, origem de todos os males, “Porque a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro” (1Tm 6,10). Poder e dinheiro sempre andam de mãos dadas. As coisas, as pessoas e Deus são tres necessidades vitais: o homem pode satisfazer-se de modo diabólico ou filial, roubando ou recebendo tudo como dom, apossando-se ou partilhando.

As tres tentações de Jesus correspondem aos tres aspectos sedutores do fruto proibido (Gn 3,6): é bom possuir as coisas para comer (ídolo do ter), pois nos garante a vida animal. É bonito posssuir as pessoas porque garante a vida humana (ídolo do poder). E é desejável possuir Deus para ser autossuficiente em tudo (ídolo do apossar-se). São os tres ídolos que dominam o homem, projeção de suas necessidades: a idolatria das coisas, com um messianismo econômico que transforma as pedras em pão; a idolatria de Deus, com um messianismo milagroso que quer dispor do próprio Deus; e a idolatria do poder com um messianismo político que quer dominar a todos. Trata-se das tentações de sempre: trocar a salvação por saúde, Deus com nossos honorários/sensações, o outro com o nosso poder. Estes tres ídolos são a própria estrutura do mundo que resulta na sua própria anulação (nulidade nulificante).

Jesus foi tentado por satanás com os três ídolos. Na verdade, são a luta que Jesus enfrentará em toda a vida no esforço de viver o próprio limite, mesmo aquele extremo, de ser Filho. Jesus, vivendo sua filiação, vence o satanás. Ele desmascara satanás ao lhe dizer: “Vai embora, satanás!”. Mais tarde Jesus vai dirigir o mesmo alerta a Pedro que propõe implicitamente a mesma coisa e por isso, o chamará de “satanás”. Mas Jesus não dirá a Pedro “Vai embora”, e sim “vai atrás de mim!” (Mt 16,23).

Há, então, duas maneiras  de viver como cristãos: uma maneira de viver como filhos de Deus que nos leva a nos unir com os outros (partilha, solidariedade, compaxão etc.). Outra maneira é a do diabo que nos leva a nos distinguir dos outros pela riqueza, pela honra e pela arrogância. Onde há tentação diabólica há desunião, há miséria, há opressão.

Jesus realizou a escolha do Filho: solidariedade com os irmãos. Jesus recebe tudo do Pai e tudo dá aos irmãos. O seu relacionamento com as coisas não é de apossar-se, mas de doar-se, até o dom de si próprio, quando se fará o Pão para todos em obediência à Palavra do Pai (cf. Jo 6,22-71). O relcionamento de Jesus com Deus não é a vontade de usar Deus para sua própria vantagem, mas a confiança n´Ele. E seu relacionamento com os outros não é de dominar e sim de servir (cf. Mc 10,45), até fazer-se “o Servo” (cf. Jo 13,1-20: lavá-pés). O caminho de Deus, que é amor e partilha, é oposto ao do diábo/satanás que é egoismo (pensar apenas nos próprios interesses e vantagens) e divisão (desunir as pessoas para poder dominá-las facilmente). Trata-se de uma oposição interna que perpassa o coração de cada ser humano.

Graças a essa entrega de Jesus aos caminhos de seu Deus Pai, Ele triunfou sobre a morte e nos deu a vida, aquela vida e aquele triunfo que a Igreja nos aplica em sua pregação, sua oração, seus sacramentos, seu cuidado pastoral. Se ao nascer como filhos dos homens fomos inseridos no velho Adão, tronco do pecado e da morte, pelo batismo fomos inseridos no novo Adão, para sermos filhos no Filho: filhos de Deus. A Igreja nos convida a nos prepararmos para renovar nosso batismo na próxima Páscoa, meta principal da Quaresma.

Por isso, estejamos conscientes de que a Quaresma é tempo de conversão, de renovação e de aprofundamento de nossa vida cristã. Tempo de intensificar nossa oração e de revisar nossos caminhos para adaptá-los cada vez mais aos caminhos de Deus, ao seguimento de Jesus Cristo.

Em cada Eucaristia, o Senhor renova Sua Aliança, uma Aliança eterna e estável. Jesus Cristo sempre foi fiel, tanto ao Pai como a nós (cf. Jo 3,16). É preciso que renovemos nossa entrega agora ao Pai, com Cristo e com a comunidade. Por meio da comunhão na Eucaristia, vamos nos deixar penetrar e plenificar de Sua presença, para que, com seu amor e com sua força, com sua sabedoria e com sua companhia, possamos caminhar pelos caminhos do Senhor para chegar à Páscoa definitiva.

As Tentações Jesus São Nossas Tentações

O Evangelho deste dia fala das tentações de Jesus. Como em outros evangelhos sinóticos, o evangelho de Mateus também relata as tentações de Jesus antes de começar sua vida pública. As tentações relatadas no evangelho deste dia acontecem logo depois da cena do Batismo de Jesus (Mt 3,13-17). Toda a vida de Jesus foi, na verdade, uma luta contínua durante sua vida terrena, pois o número “três” nas suas tentações indica o completo e o definitivo. A tríplice negação de Pedro significa, por exemplo, sua renúncia total a ser discípulo (cf. Mc 14,30), uma tomada de posição decidida, no grande combate contra o adversário. O relato nos mostra que Jesus não é conivente do mal. Sua vida é totalmente orientada para Deus e centrada em Deus.         

Como já foi dito na reflexão sobre o Batismo do Senhor, este texto faz parte do complexo literário de Mt 3,1-4,16 que fala da preparação para a missão de Jesus. O evangelista Mt segue nestas passagens o relato de Mc 1,2-13, mas ele o completa com outras informações de outra fonte conhecida como fonte “Q” (Mt 3,7-10.12;4,3-11) e com a própria contribuição (Mt 4,12-17.23-25).          

O motivo condutor desses capítulos é a apresentação de Jesus como Filho de Deus (cf. Mt 2,15;3,17; 4,3.6). Na Genealogia Mt apresenta Jesus como filho de Davi e filho de Abraão provisoriamente (Mt 1,1), porque para ele, Jesus é, antes de tudo, o Filho de Deus. A afirmação velada de Mt 2,15 ao citar Os 11,1: “Do Egito chamei meu Filho” se torna uma confissão explícita no relato do Batismo de Jesus: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3,17). E nas tentações, essa filiação divina é testada. Por três vezes em suas tentações, o tentador apela certamente a essa filiação ao dizer: “Se és Filho de Deus...” (Mt 4,3.6).          

Ao relatar tudo isso, Mt expressa a fé de sua comunidade no Senhor ressuscitado que é o Filho de Deus diante das objeções dos judeus que negavam-se a reconhecer a origem divina de Jesus. Por isso, é fácil perceber nesta passagem um reflexo das controvérsias que a comunidade mateana sustentava com seus vizinhos judeus. Muitos judeus não podiam entender o escândalo de que Jesus tinha morto na cruz desprovido de todo poder e glória e por isso, se negavam a reconhecer Jesus como Filho de Deus. Mas sem dúvida nenhuma, para os cristãos a morte de Jesus em obediência absoluta à vontade do Pai (cf. Mt 26,36-46) era o sinal mais evidente de sua filiação divina. 

1. Jesus Foi Levado Para O Deserto: O Que É O Deserto?       

Logo depois de seu Batismo “Jesus foi levado pelo Espírito para o deserto” (Mt 4,1). Ao dizer que depois do Batismo “Jesus foi levado pelo Espírito” (Mc usa uma palavra mais forte: “impelir” ou “empurrar” Mc 1,12), o texto quer nos dizer que a partir de então Jesus não tinha mais vida privada para si, mas sua vida foi uma obediência plena à voz do Espírito, uma vida sob a direção total do Espírito de Deus. A partir de então sua vida se tornou inteiramente missão. Sua vida se tornou uma vida para Deus e para nós, seres humanos.        

Quando nos deixarmos levar ou guiar pelo Espírito de Deus, nós nos tornaremos uma ocasião de salvação para os outros; nossa vida se tornará uma missão; nossa vida se tornará útil para os demais.        

Jesus foi conduzido para o deserto. O que significa essa condução? Em primeiro lugar, o deserto é o lugar de silêncio e de solidão, longe das ocupações diárias, do ruído e da superficialidade. O deserto é o lugar do absoluto, é o lugar da liberdade que situa o homem diante das questões fundamentais de sua vida. No deserto foi que surgiu o monoteísmo, e por isso, é o lugar da graça. Quando o homem se esvaziar de suas preocupações, ele vai encontrar seu Criador. As grandes coisas começam sempre no silêncio, no deserto, na pobreza. Ninguém poderá participar da missão de Jesus, ninguém poderá participar da missão do evangelho se não participar na experiência do deserto, se não sofrer sua pobreza e sua fome. Não pode nascer um homem novo estando farto de tudo. Pedimos a graça do Senhor que nos permita descobrir aquele silêncio profundo, aquele deserto onde habita sua palavra.        

Em segundo lugar, o deserto é também o lugar da morte: no deserto não há água, elemento fundamental da vida. Com seu ardente e cruel calor o deserto se mostra como o extremo oposto da vida. No AT a solidão faz parte da morte porque o homem, como pessoa, vive de amor, vive de relação. O deserto é, portanto, não é unicamente uma região que destrói a vida biológica, mas ele é também um lugar da tentação onde se põe de manifesto o poder do mal. Jesus está diante desse poder e ele se enfrenta com esse poder para fazer valer de tudo.        

Em terceiro lugar, ao entrar no deserto, Jesus entra também na história da salvação do seu povo, do povo eleito. Esta história começa a raiz da saída do Egito, com os 40 anos de peregrinação através do deserto. No centro desses 40 anos estão os 40 dias de Moisés no monte: dias com Deus cara a cara, dias de jejum absoluto, dias de isolamento do povo na solidão da nuvem, no topo da montanha, e desses dias é que brota a fonte da revelação. Os 40 dias aparecem novamente na vida de Elias, perseguido pelo Rei Acab, o profeta caminha durante 40 dias pelo deserto, voltando, assim, ao ponto de origem da aliança, à voz de Deus para um novo princípio da história de salvação.        

Neste sentido, converter-se ao Senhor é entrar na história da salvação, voltar com Jesus às origens, é refazer o caminho de Moisés e de Elias que é a via que conduz até Jesus e o Pai.

2. Quem Caminha Com Deus É Tentado: As Tentações De Jesus São Nossas Tentações

Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo” (Mt 4,1)        

A tentação é uma verificação da fidelidade do homem a Deus. “Nossa maturidade se forja nas tentações. Ninguém conhece a si mesmo se não é tentado; nem pode ser coroado, se não vence; nem vencer, se não luta; nem lutar, se lhe faltam inimigos” (Santo Agostinho, In Ps. 60,30).  Quem é tentado não é propriamente o pecador, mas o homem piedoso, que caminha com o Senhor. Por isso, a tentação é, a partir desta ótica, uma prova da predileção de Deus para com aquele que é tentado (cf. Dt 8,2). Jesus é o Filho de Deus. Apesar disso, ele não está isento de qualquer tipo de tentação. A santidade de Jesus não anula sua condição como um ser humano. A tentação faz o cristão rever mais uma vez sua compreensão do desígnio de Deus e o perigo que possa desvi­á-lo do caminho de Deus.      

No relato das tentações observamos que tanto Jesus como o diabo utilizam os texto do AT nesse enfrentamento extraordinário. Aparece aqui um disputa sobre a verdadeira interpretação do AT em relação ao conteúdo desse acontecimento. O evangelho quer enfatizar nessa tentação a seguinte questão fundamental: O AT, lido com Jesus, é Palavra de Deus, revelação de sua verdadeira salvação. “O AT separado de Jesus se torna instrumento de anticristo, de inimigo, de perturbador” (Joseph Ratzinger). 

2.1. Tentação Do Pão (Materialismo)

Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães” (Mt 4,3)       

A tentação do pão nos leva a buscarmos realidades transitórias, finitas, como se fossem o básico da vida. Leva-nos a crer que um pode bastar-se a si mesmo independentemente de qualquer outro e de Deus. Mas esta forma de viver não nos deixa viver satisfeitos. E não nos deixa amar nem no sentir amados.        

Na primeira tentação o Diabo propõe que Jesus converta as pedras do deserto em pão, referindo-se assim ao milagre mosaico do maná. Segundo a tradição rabínica, o Messias tem que repetir esse milagre de forma definitiva, isto é, o Messias deve dar para sempre o pão à humanidade, desterrar a fome e criar um mundo onde todos ficam satisfeitos, o mundo da perfeita prosperidade. Isto seria sinal do Messias, a verdadeira redenção de uma humanidade que padece o flagelo da fome. Segundo esta interpretação, o Messias é aquele que satisfaz plenamente a fome e traz o pão para todos e para sempre. Esta tentação é sempre vinculada com a tentação do poder.        

A proposta do diabo é, na verdade, atendível, porque a fome é uma das pragas mais trágicas que padece a humanidade. Se tivéssemos que expressar espontaneamente uma idéia da redenção, o pão seria, sem dúvida nenhuma, o problema central.         

Na verdade, Jesus nos dá o pão; este é seu dom principal. Mas nos o dá de uma maneira completamente distinta da que propõe o diabo: Jesus, o grão de trigo que morre por nós, se faz pão. A multiplicação dos pães se prolonga na Eucaristia até o fim dos tempos, quando Deus, já sem véu, será para sempre nosso pão. Com sua morte, Jesus realiza o sinal do maná e se revela como o verdadeiro e definitivo Moisés.        

A verdadeira diferença entre o milagre eucarístico (o milagre divino) e o milagre sugerido pelo diabo consiste na resposta do Senhor: “Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4,4; Dt 8,3). Quando Deus e a verdade estiverem ausentes, o homem não pode se salvar. Aqui descobrimos a essência da mentira diabólica: na visão do diabo sobre o mundo, Deus aparece como algo supérfluo, inútil, como algo que não é necessário para a salvação do homem. Segundo o diabo, a única coisa decisiva é o pão, a matéria. O centro do homem seria o estômago. O homem não vive apenas de bem-estar material. Em nossos dias um número cada vez maior de indivíduos dispõe de recursos para viver, mas não de um sentido pelo qual viver. A verdade é que, a luta pela sobrevivência não se acaba, e ponto. De repente brota a pergunta: ‘Sobreviver? Mas para que?” (Viktor E. Frankl).        

A mentira do diabo é uma mentira perigosa porque absolutiza uma parte da verdade. Para o diabo basta somente o pão. O homem vive também do pão, mas não somente do pão. A fome do mundo é verdadeiramente um mal terrível, mas suprimindo unicamente este mal não se alcançam as raízes da enfermidade do homem. Jesus multiplica os pães, mas os multiplica por meio da caridade que distribui através de sua palavra, palavra em virtude da qual o homem se abre à verdade e deste modo se salva realmente.        

O desenvolvimento econômico que não é acompanhado de ou pelo desenvolvimento espiritual destrói o homem e o mundo. Sabemos que a terra tem riquezas suficientes para saciar a todos; não são os bens materiais os que faltam, mas as forças espirituais, que poderiam criar um mundo de justiça e de paz. Vivemos num mundo em que, paradoxalmente, se peca por converter os pães em pedras destruindo excedentes alimentações para manter o nível de vida de uns, enquanto outros morrer com este provocado dilúvio da fome. O pecado que o homem frequentemente comete é o egoísmo. Deus pede que nos arrependamos e deixemos o egoísmo, a fim de amar, servir os outros e partilhar com eles o que temos.        

O homem nunca fica satisfeito somente com o pão material. Ele precisa se alimentar com outros pães que são igualmente imprescindíveis para viver feliz: a confiança em Deus, a ação de graças e a adoração de Deus, a verdade, o amor, a generosidade, a compaixão, a solidariedade, a alegria, a esperança, a fidelidade, o serviço etc.... O homem deve aprender a viver de um pão novo, que é a vontade de Deus. Por isso, citando Dt 8,3, Jesus responde ao tentador: “O homem não pode viver só de pão, mas de toda palavra que Deus diz”(Mt 4,4).  Jesus não precisa provar de que é Filho de Deus fazendo milagres pretensiosos. Seja na alegria ou na dor, Jesus está consciente de que é o Filho de Deus. Não por estar na dor é que Deus deixará de amar Jesus, como uma mãe que continua a amar o filho mesmo estando doente. A partir do momento em que o homem se deixa investir ou guiar pela Palavra de Deus, ele participará da vitória de Cristo.        

O diabo (aquele que causa a divisão dentro da pessoa e entre as pessoas) pode nos invadir unicamente quando Deus se converter em algo secundário na vida pessoal. Na confusão de nossas ocupações diárias acontece facilmente que Deus passa ou pode passar para o segundo plano. Deus é silencioso e por isso, precisamos estar com os ouvidos bem atentos. 

2.2. Tentação Do Poder: O Poder Não É Libertador

Eu te darei tudo isso, se te ajoelhares diante de mim, para me adorar” (Mt 4,9)        

O afã de poder é uma tentação que vem rondando o homem desde que vive no mundo. O homem ambiciona dominar, ficar acima dos demais. É um instinto primário e voraz em todo homem. Estamos estruturados nas sociedades que se impõem pela força.        

O desejo de poder, o mesmo que o desejo de riquezas, é cego, não se sacia nunca. Impede que possamos criar relações de fraternidade e de igualdade entre todos. Faz impossível um clima de liberdade, já que é necessário reprimir e reduzir os direitos dos demais para conservar os próprios privilégios, conseguidos a custo da escravidão da maioria. A ânsia de poder nos leva a aproveitarmos uns dos outros. Este desejo de domínio vai cristalizando em estruturas de poder, radicalmente injustas, que nos são impostas e que nos envolvem. Mas, consciente ou inconscientemente, os que exercem este tipo de poder são vítimas do próprio poder já que lhes impede de ser livres porque vivem escravos do mesmo poder para conservá-lo. O poder exige adoração, subordinar-lhe todo o demais. E assim surge o ídolo; é um ídolo que carecendo de valor, se coloca no centro da vida e nos pede submissão e obediência.        

A única submissão válida é a Deus que consiste em buscar a autêntica liberdade de todos e para o bem de todos. Jesus manteve totalmente fora das estruturas de pode de seu tempo.        

A tentação de poder é uma tentação constante da Igreja e de cada cristão. Ceder à tentação de poder é aceitar uma verdadeira corrupção da mensagem de Jesus Cristo, ficando absorvido pela vontade de poder. A vontade de poder impossibilita a transmissão da mensagem de Jesus. Cada cristão tem que superar, como Jesus, toda estrutura de poder: entre pais e filhos, entre irmãos, entre os menores e maiores, entre chefes e seus funcionários. O mal não se vence com nenhum tipo de domínio e sim a partir de dentro de cada um, sendo homens novos que seguem do amor de Jesus. Esta utopia do homem novo parece impossível. Mas Jesus de Nazaré realizou este impossível: recusou para sempre o poder e demonstrou com sua vida inteira que é possível viver totalmente para os demais, sem mandar neles, sem ter nenhuma forma de poder ou de domínio sobre os demais. Somente há um Senhor: Deus a quem adorar e uma só ocupação fundamental: o amor. 

2.3. Tentação Do Triunfalismo: Tentação Do Messianismo Espetacular        

Se és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo! Porque está escrito: ‘Deus dará ordens aos seus anjos a teu respeito, e eles te levarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra” (Mt 4,6).        

Vivemos numa sociedade da facilidade em que tudo carece de importância. Passamos do tabu do pecado ao liberalismo ou à libertinagem de considerar tudo como relativo: cada um tem sua própria moral que fundamenta na lei do mínimo esforço.        

Jesus encarou a tentação do messianismo espetacular. É uma tentação de pensar que Deus esteja sempre ao seu dispor ou à sua ordem (Mt 4,5-7). É a tentação de crer em um Deus fácil, um Deus que nos dá tudo feito e que se adapta a nossas conveniências. Seria brincar com o poder de Deus, transformando-o em magia teatral, numa espécie de consagração da vitória sem guerra, do triunfo sem luta, de querer ganhar dinheiro sem trabalho.        

Jesus quer servir a Deus e não servir-se dele. Jesus não quer nos apresentar um Deus que elimine o risco e as decisões da liberdade humana. Toda superficialidade e facilidade são traição ao Deus de Jesus Cristo.           

Jesus não precisa de provas para acreditar que o Pai o ama, porque o próprio Deus chama Jesus de o Filho amado no Batismo (Mt 3,17), e que está permanentemente ao seu lado. Jesus rejeita frontalmente o falso messianismo dos prodígios, o messias milagreiro. Jesus não precisa verificar sua confiança em Deus porque ela é incondicional, mesmo Jesus estando na cruz. Por isso, ao citar Dt 6,16, Jesus diz ao tentador: “Não tentarás o Senhor, teu Deus”(Mt 4,7).          

Tentar Deus hoje em dia quem espera que Ele faça aquilo que nos compete fazer, quem se omite e deixa tudo por conta de Deus. Não podemos pedir a Deus que nos livre(na base de milagre) de todas as dificuldades. Temos que pedir-lhe, isto sim, que em qualquer situação, agradável ou triste, nos conceda a luz e a força para sairmos sempre vencedores e mais amadurecidos, mais homens.                  

Jesus é o Filho de Deus, mas, ao mesmo tempo, um verdadeiramente homem que vive uma vida autenticamente humana, limitada e exposta ao fracasso. Apesar desta debilidade Jesus triunfa porque tem total confiança em seu Pai. O único que Jesus busca é submeter-se à vontade do Pai. Chegou a dizer: “Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e consumar a sua obra” (Jo 4,34). Jesus venceu as tentações por nós. E logo depois “os anjos o serviram” (v.11). É uma afirmação que enfatiza a plenitude de comunicação entre o céu e a terra, e no centro está a pessoa de Jesus. Ele é servido pelos anjos como aquele que é reconhecido como o Filho amado de Deus. Ele restabelece a harmonia no cosmos e por causa disto os anjos o servem.          

Nesta situação, Jesus é o símbolo de toda pessoa que, depois de ter atravessado as provações fortes, é reconhecida como filho e readquire o domínio sobre si, sobre as forças obscuras da própria psique, sobre as forças destrutivas que se agitam nela, e passa a conviver harmoniosamente com elas, em familiaridade com Deus, com as outras pessoas e com os anjos.         

As tentações nos fazem mais próximos de Jesus. Elas são paradigmáticas para o nosso discernimento e a nossa conduta. Não estamos a sós nas nossas tentações. Se Jesus, nosso Senhor, venceu as tentações por nós, venceremos também as mesmas se estivermos sempre unidos com ele. Porque sem ele nada podemos fazer (Jo 15,5).

P. Vitus Gustama,svd

23/02/2026- Segunda-feira Da I Semana Da Quaresma

AMOR A DEUS QUE SE EXPRESSA NO AMOR AO PRÓXIMO É O CRITÉRIO PARA ENTRAR NA VIDA ETERNA Segunda-Feira da I Semana da Quaresma Primeira ...