terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

28/02/2026- Sábado Da I Semana Da Quaresma

PARA AMAR A JESUS VERDADEIRAMENTE E AO PRÓXIMO TEMOS QUE APRENDER A PERDOAR, ATÉ OS INIMIGOS

Sábado da I Semana da Quaresma

Primeira Leitura: Dt 26,16-19

Moisés dirigiu a palavra ao povo de Israel e lhe disse: 16 “Hoje, o Senhor teu Deus te manda cumprir esses preceitos e decretos. Guarda-os e observa-os com todo o teu coração e com toda a tua alma. 17 Tu escolheste hoje o Senhor para ser o teu Deus, para seguires os seus caminhos, e guardares seus preceitos, mandamentos e decretos, e para obedecerdes à sua voz. 18 E o Senhor te escolheu, hoje, para que sejas para ele um povo particular, como te prometeu, a fim de observares todos os seus mandamentos. 19 Assim ele te fará ilustre entre todas as nações que criou, e te tornará superior em honra e glória, a fim de que sejas o povo santo do Senhor teu Deus, como ele disse”.

Evangelho: Mt 5,43-48

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 43 Vós ouvistes o que foi dito: 'Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo!' 44 Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem! 45 Assim, vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus, porque ele faz nascer o sol sobre maus e bons, e faz cair a chuva sobre justos e injustos. 46 Porque, se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Os cobradores de impostos não fazem a mesma coisa? 47 E se saudais somente os vossos irmãos, o que fazeis de extraordinário? Os pagãos não fazem a mesma coisa? 48 Portanto, sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito.'

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O Senhor é Nosso Deus e Nós Somos Seu Povo

Tu escolheste hoje o Senhor para ser o teu Deus, para seguires os seus caminhos, e guardares seus preceitos, mandamentos e decretos, e para obedecerdes à sua voz. E o Senhor te escolheu, hoje, para que sejas para ele um povo particular, como te prometeu, a fim de observares todos os seus mandamentos”. O Deuteronômio, o último livro do Pentateuco, de onde foi tirada a Primeira Leitura de hoje, é, paradoxalmente, apesar da extensa parte legislativa que contém, um dos menos jurídicos. Sua finalidade é mais homilética do que legislativa e seu senso aguçado de história e das relações pessoais com Deus fazem dele, acima de tudo, um livro religioso.

O texto de hoje contém a fórmula central da Aliança e recorda o conteúdo desta Aliança e sublinha seu caráter espiritual. Na fórmula da Aliança (Dt 26,17-19) é salientada a reciprocidade entre os pactuantes isto é, entre Deus e Israel. Cada um deve se mostrar leal e respeitoso com os compromissos assumidos com o outro. Enfatiza-se o caráter dialogal e pessoal da aliança. Isto significa que Israel e Deus são um para o outro. Deus ama Israel e Israel, por sua vez, tem de amar a Deus (cf. Dt 6,5; 7,6ss; 10,12ss).

A Aliança é uma realidade sempre atual. O Deuteronômio insistiu fortemente sobre este valor e por isso, se usa a palavra “hoje” (“hoje” nos vv. 16-18; cf. Dt 5,3; 6,10-13). Por isso, não se trata de viver de uma economia antiga; o passado não serve mais que para definir melhor o presente, e as maravilhas passadas não cessam de renovar-se na atualidade. Sem a renovação e a inovação a humanidade não avança. A vida feliz e a glória (v.19) são a recompensa prometida por Deus para aqueles que observam a Aliança. Com efeito, a lei não é uma simples nomenclatura de preceitos impostos ao homem e sim que compromete muito mais uma atitude religiosa: “Eu serei teu Deus (v.17) e tu serás meu próprio povo” (vv.18-19).

Esta frase “Eu serei teu Deus e tu serás meu próprio povo” é para ser recordado por qualquer um de nós em todos os momentos de nossa vida, especialmente nos momentos de prova. É preciso estarmos conscientes de que não estamos sós, pois Deus está conosco e nós estamos com Deus (cf. Mt 28,20).

Viver Cristãmente É Caminhar Na Direção Do Bem e Da Salvação

Tu escolheste hoje o Senhor para ser o teu Deus, para seguires os seus caminhos, e guardares seus preceitos, mandamentos e decretos, e para obedecerdes à sua voz. E o Senhor te escolheu, hoje, para que sejas para ele um povo particular, como te prometeu, a fim de observares todos os seus mandamentos”.

O antigo semita é nômada. A estrutura do êxodo de Israel possui três momentos: saída, caminho no deserto e a chegada à Terra prometida. O êxodo de Israel constitui um processo de libertação feliz: libertado da escravidão do Egito à Terra prometida, uma “terra que mana leite e mel” (Ex 3,8). O caminho é seco e duro como o deserto, mas ao mesmo tempo não faltam as bênçãos de Deus durante essa caminhada. Neste contexto, o êxodo é entendido como marcha de um povo ou de um grupo de pessoas em busca de algum lugar melhor para se estabelecer, mas sempre com a ajuda divina. “Quem não contar com Deus não sabe contar” (Pascal). Caminho, via e sendas desempenham um papel essencial em sua existência. Como a coisa muito normal utiliza este mesmo vocabulário para falar da vida moral e religiosa e tal uso se manteve na língua hebraica.

E o êxodo existencial de um ser humano possui três fases: iniciar, transitar e terminar. A vida terrena de um ser humano tem, então, seu início, faz-se no pleno desenvolvimento e aponta para seu término inevitável. O êxodo da vida humana é sempre um caminho de crescimento, uma saída da “própria terra”, de si mesmo. Neste caminho de crescimento suscitam inevitáveis interrogações sobre o próprio homem, sua condição e destino: “Quem sou eu? Que sentido tem a vida? Qual é o sentido da minha vida? O que estou procurando nesta vida? Para onde a vida vai me levar?”. Sem uma resposta a estas perguntas, o itinerário ou o êxodo que conduz para o crescimento ou à plena realização pode terminar em um beco sem saída. Quem tem um porquê para viver, encontrará frequentemente o como viver.

Caminho, em sentido figurado, tem na Bíblia várias acepções. Fala-se de dois caminhos: o caminho da vida e o da morte que Deus põe diante do homem (Jr 21,8); o caminho bom (1Sam 12,13) e o caminho mau (Jr 18,11); o caminho dos justos e o dos pecadores (Sl 1,6). Os caminhos de Deus são distintos dos caminhos dos homens (Is 55,8-9). Os caminhos de Deus conduzem à paz (Is 59,6; Lc 1,79) e à vida (Mt 7,14). Os caminhos dos homens, ao contrário, levam à morte (Pr 14,12) e à perdição (Mt 7,13). Os caminhos de Deus são Sua própria vontade, as normas de conduta sempre retas, verdadeiras e justas (Ap 15,3). A missão fundamental de Jesus Cristo foi ensinar para o homem estes caminhos (Mt 22,16). O próprio Jesus é o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14,6). Nos Atos dos Apóstolos, o conjunto dos ensinamentos cristãos é chamado caminho, o caminho do Senhor (At 9,2; 18,25-26; 19,9.23; 22,4; 24,14-22).

A ideia do caminho descreve muito bem nossa vida. Moisés falou sobre isso para seu povo. Na Quaresma nos é recordado ou lembrado de maneira mais explicita que nós cristãos temos um caminho próprio, um estilo de vida que nos traça a Palavra revelada por Deus. A Palavra de Deus nos direciona para a vida em plenitude. Basta ler e meditá-la diariamente, especialmente durante a Quaresma, para que possamos caminhar bem na vida. Temos que nos comportar como o povo da Aliança: continuar a seguir somente Deus e Sua Palavra, palavras que têm vida eterna (Jo 6,68). Deus, por sua parte, nos promete ser nosso Deus, ajudar-nos, fazer de nós o “o povo consagrado”, eleito que dá testemunho de sua salvação em meio do mundo. Deus e Sua Palavra são o único caminho que leva à salvação, à felicidade, à Páscoa definitiva. Deus nos é sempre fiel. Por nossa vez, devemos ser fieis a Ele e cumprir Sua vontade “com todo o coração e com toda a alma”.

Somos o povo em peregrinação para a eternidade, para a comunhão plena com Deus. Por isso, o apego, a ganância, o materialismo se tornam inúteis, pois nada se levará. Precisamos de pão, mas “não só de pão o homem vive” (Dt 8,3; Lc 4,4). É preciso viver muito além do pão, pois a nossa fome não é só de pão, mas de outros valores que nos dão o sentido da vida.

Para Estar No Caminho Do Senhor É Preciso Aprender a Perdoar e Reconciliar-se

O Evangelho de hoje nos põe diante de um exemplo muito concreto deste estilo de vida que Deus quer de nós. Jesus nos apresenta seu programa como estilo de vida cristã: amar inclusive nossos inimigos. É o programa árduo. Mas a Páscoa a que nos preparamos é a celebração de um Cristo Jesus que se entregou totalmente pelos demais. Ele morreu perdoando todos os que O crucificaram.

Ser seguidores do Senhor Jesus é assumir seu estilo de vida. O modelo deste estilo de vida é o próprio Jesus, Deus-Conosco e o próprio Pai do céu que “faz nascer o sol para os bons e maus e faz cair a chuva para os justos e injustos”, pois Deus é o Pai de todos.

O texto do evangelho lido neste dia faz parte do Sermão da Montanha (Mt 5-7). Estamos na seção chamada de antíteses (Mt 5,21-48) conhecidas pelo uso da seguinte expressão: “Ouvistes... Porém eu vos digo...”. Jesus continua analisando a lei antiga (“Ouvistes...”) e dá uma nova ênfase (“Porém eu vos digo...). Ele sabe que o único que pode salvar o ser humano é entender que se não se tem o perdão como ponto de partida, jamais se poderá alcançar uma convivência digna entre os seres humanos. Daqui sua grande preocupação pela busca desses valores que o Pai quer para a humanidade, valores que farão que o ser humano se aproxime da mesma perfeição de Deus (cf. Mt 5,48). Para aprender a amar verdadeiramente, o cristão tem que aprender a perdoar, pois perdão é a expressão máxima do amor. Perdão é o último testamento de Jesus Cristo da cruz para todos os cristão (cf. Lc 23,34). O perdão é a expressão máxima do amor.

A palavra “perdão” provém do latim “per”: intensificação e “donare”: doar, dar. Assim o perdão é um ato de doação, tanto para aquele que o recebe como para aquele que o brinda. Ambos se enriquecem com o benefício da paz; ambos se libertam do cárcere que os aprisiona. Por isso, o perdão é seguir avançando; é amparo e encontro. O perdão revela a graça. O ato de perdoar é um ato da misericórdia de Deus que apaga os pecados (Am 7; Ex 32,12.14; Jr 26,19; Ez 36,29.33). Perdoar é estar com Deus que perdoa sem medida. Perdoar é estar do lado de Deus.

Quando a comunidade cristã primitiva chegou a compreender que Jesus queria a criação de uma sociedade universal, unida através do amor fraterno, foi capaz de romper todos os distanciamentos que histórica e culturalmente separavam os seres humanos. Para os discípulos nãolugar para distinções (cf. At 10,34). Eles que sofrem as perseguições (Mt 5,10-12) não podem deixar-se dominar pelo ódio. Segundo Jesus no lugar do ódio, o desejo do bem (amor, oração) deve ocupar o coração do cristão. Para isso o cristão tem que estar bem unido a Cristo. Sua força para perdoar está em Jesus Cristo que perdoa até os que O crucificaram: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34). Aqui Jesus intercede pelos inimigos apesar da maldade que os inimigos lhe causaram. Jesus não nega a culpa cometida pelos inimigos, mas busca uma solução não violenta. “Jesus viveria e morreria em vão, se não conseguisse nos ensinar a ordenarmos a nossa vida pela eterna lei do amor (Mahatma Gandhi: GANDHI E A NÃO VIOLÊNCIA, p.50 Vozes, 1967).

Amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos maltratam e perseguem. Deste modo sereis os filhos de vosso Pai do céu, pois ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos”. Como é difícil amar os que destruíram ou acabaram com nossa vida ou nossa família, e ainda rezar por eles!? No nosso inconsciente, como seres humanos, sempre resta algum sentimento vingativo. Trata-se de um sentimento com o intuito de acabar com a vida dos que nos fizeram algum mal, mas, infelizmente, resulta em acabar com a nossa própria vida por causa do mesmo sentimento: “O ódio que se opõe ao ódio consegue apenas aumentar a superfície e também a profundeza do ódio” (Mahatma Gandhi). Repito: O ódio é igual a beber o veneno e espera-se que o outro morra. Mas aquele que bebe o veneno é que morre. Daí lança-se a pergunta: vale a pena seguir o mesmo caminho (violência, vingança)? Não se trata de acariciar a cabeça de quem pratica a violência. Trata-se de procurar alguma alternativa. Nisto percebemos que ser cristão é o grande desafio diariamente. Todo dia devemos renovar o nosso ser de cristãos ao contemplar permanentemente Jesus Cristo, o amor misericordioso de Deus feito homem.

As sociedades humanas ao longo da história foram construídas a partir do princípio de interesses de grupos determinados que excluam todos aqueles que são vistos como ameaça à existência própria de ditos grupos. A comunidade cristã se encontra também a cada passo com pessoas que ameaçam sua existência. O inimigo está no horizonte de sua existência e frequentemente, esse inimigo pode ser qualificado de perseguidor. No entanto, para ela Jesus propõe uma nova lei que é a culminação de todas as contraposições mencionadas previamente. O “mandamento de amar” a todos deve converter-se em marca distintiva da comunidade de seguidores de Cristo, capaz de expressar sua originalidade na história humana, pois eles são filhos de Deus no Filho Jesus Cristo.  Ser filhos de Deus”, segundo Jesus, significa parecer-se a Ele ou com Ele no modo de fazer e de viver.

Por isso, as palavras de Jesus hoje são, na verdade, reveladoras: fazei o bem e orai. A fraternidade universal é a consequência de outra realidade essencial: a paternidade universal de Deus. O amor sem fronteiras que Deus nos pede é o que Ele mesmo vive,pois ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos”. Deus ama a todos os homens. Ama até aos que não O amam. Ele derrama seus benefícios, seu sol formoso e sua chuva sobre todos. Assim Jesus nos diz que quando deixamos de amar alguém significa que recusamos alguém que Deus ama. Aquele que consideramos como nosso inimigo é amado por Deus. Nosso ou meu inimigo é um filho de Deus. Não se trata de um formoso ideal humanista. Deus é a única referência. Amar aqui significa querer o bem do outro independente daquilo que o outro faz contra mim. Para fazer isso é preciso ter muita maturidade cristã e espiritual.

Amar as pessoas que nos amam, que se parecem a nós, é natural. Mas Deus nos pede mais. Deus nos pede que ampliemos nosso coração muito além do círculo de nossos amigos, de nossos parentes, de nosso âmbito. Isto será possível somente na medida em que todos os seres humanos chegarem a se amar e a se perdoar por ter consciência de que todos são os filhos e filhas do mesmo Pai celeste como rezamos diariamente o Pai Nosso (Mt 6,9-15). Se todos são filhos e filhas do Pai celeste, então, maltratar um ser humano é maltratar o Pai do céu, pois Deus também está no próximo (cf. Mt 25,40.45) e o próximo, como eu, é templo do Espírito Santo (cf. 1Cor 3,16-17).

"Sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito", assim Jesus concluiu. A perfeição é o horizonte de nossa existência. Como horizonte ela não é alcançável, mas serve como guia para nossa existência diária. “O fraco jamais perdoa: o perdão é uma das características do forte”. (Mahatma Gandhi).

Para pensar: “As três coisas mais difíceis do mundo são: guardar um segredo, perdoar uma ofensa e aproveitar o tempo.” (Benjamin Franklin).

P. Vitus Gustama,svd

27/02/2026- Sexta-feira Da I Semana Da Quaresma

A CONVERSÃO É CRER NO DEUS DA MISERICÓRDIA E DA COMPAIXÃO QUE QUER VIDA PARA TODOS

Sexta-Feira da I Semana da Quaresma

Primeira Leitura: Ez 18,21-28

Assim fala o Senhor: 21 “Se o ímpio se arrepender de todos os pecados cometidos, e guardar todas as minhas leis, e praticar o direito e a justiça, viverá com certeza e não morrerá. 22 Nenhum dos pecados que cometeu será lembrado \contra ele. Viverá por causa da justiça que praticou. 23 Será que tenho prazer na morte do ímpio? — oráculo do Senhor Deus. Não desejo, antes, que mude de conduta e viva? 24 Mas, se o justo desviar de sua justiça e praticar o mal, imitando todas as práticas detestáveis feitas pelo ímpio, poderá fazer isso e viver? Da justiça que ele praticou, nada mais será lembrado. Por causa da infidelidade e do pecado que cometeu, por causa disso morrerá. 25 Mas vós andais dizendo: ‘A conduta do Senhor não é correta’. Ouvi, vós da casa de Israel: É a minha conduta que não é correta, ou antes é a vossa conduta que não é correta? 26 Quando um justo se desvia da justiça, pratica o mal e morre, é por causa do mal praticado que ele morre. 27 Quando um ímpio se arrepende da maldade que praticou e observa o direito e a justiça, conserva a própria vida. 28 Arrependendo-se de todos os seus pecados, com certeza viverá; não morrerá”.

 

Evangelho: Mt 5,20-26

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 20 Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus. 21 Vós ouvistes o que foi dito aos antigos: 'Não matarás! Quem matar será condenado pelo tribunal'. 22 Eu, porém, vos digo: todo aquele que se encoleriza com seu irmão será réu em juízo; quem disser ao seu irmão: 'patife!' será condenado pelo tribunal; quem chamar o irmão de 'tolo' será condenado ao fogo do inferno. 23 Portanto, quando tu estiveres levando a tua oferta para o altar, e ali te lembrares que teu irmão tem alguma coisa contra ti, 24 deixa a tua oferta ali diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão. então vai apresentar a tua oferta. 25 Procura reconciliar-te com teu adversário, enquanto caminha contigo para o tribunal. Senão o adversário te entregará ao juiz, o juiz te entregará ao oficial de justiça, e tu serás jogado na prisão. 26 Em verdade eu te digo: dali não sairás, enquanto não pagares o último centavo.

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A liturgia da Palavra de Deus neste dia é uma catequese sobre a justiça cristã. Quem é justo diante de Deus? Como podemos ser justificados? Ela também nos apresenta a nova lei, a lei de Cristo ou a nova justiça.

 

Deus não quer a morte do pecador e sim que se converta de sua conduta, e viva. (Por isso, no Sermão da Montanha, o Senhor pede para não encararmos ou não eliminarmos o mallvado. É preciso eliminar o mal e salva o malvado. cf. Mt 5,39).  Mas há que ter presente a liberdade e responsabilidade pessoais, já que a relação com o Deus de Amor está muito longe de ser uma pura obediência mecânica ou um fatalismo irreversível. Por sua liberdade interior, o homem pode, em todo momento, converter-se e orientar sua vida para Deus. A Quaresma nos urge a fazer esta experiência. Uma das características da Quaresma é penitencial.

 

O cristianismo é a religião da interioridade e não a da ostentação e vã aparência diante dos homens. A piedade cristã tem por único objeto a Deus e a sua vontade. E o fundamento desta piedade é o amor. A conversão há de mostrar-se nas boas obras: ser mais carinhosos, mais amáveis, mais desprendidos, mais bondosos e caridosos. Temos que nos converter para o amor fraterno. Na falta de amor fraterno surgem as injustiças, as desonestidades, a exploração, a maldade contra o próximo, a corrupção, e assim por diante. O maior pecado é a falta de amor fraterno, pois “Deus é Amor” (1Jo 4,8.16).

 

Deus Quer a Vida Para Os Homens e Não Sua Perda Eterna

 

Ez 18,1-32 deve ser lido com Ez 33, pois estes dois capítulos têm um tema comum: responsabilidade individual.  Ou seja, o profeta Ezequiel quer nos dizer que ninguém carrega as culpas alheias ou as culpas dos antepassados. Ou seja, cada um é responsável pelos seus próprios atos e as consequências desses atos. Não vale lançar a culpa aos pais e avós. Sem anular a culpa anterior, anuncia-se a responsabilidade pessoal do indivíduo. Por isso, o profeta Ezequiel desmente repetidamente o ditado popular que diz: “Os pais comeram uvas verdes, mas são os dentes dos filhos que ficam embotados?” (Ez 18,2b). Embora o princípio da responsabilidade pessoal não tenha sua origem em Ezequiel (cf. 2Rs 14,6; Jr 31,29ss; Dt 24,16), porém o profeta Ezequiel é quem dá-lhe a formulação mais clara e exata.

 

Para Ezequiel é possível romper-se a cadeia com o passado/pecado cometido pelos pais (“Os pais comeram uvas verdes”) e comprometer-se com a reconstrução do futuro: “Será que tenho prazer na morte do ímpio? — oráculo do Senhor Deus. Não desejo, antes, que mude de conduta e viva?(Ez 18,23). O profeta Ezequiel insiste que a misericórdia de Deus atravessa a História sem fim. Deus oferece nova oportunidade, novo convite para começar tudo de novo: “Se o ímpio se arrepender de todos os pecados cometidos, e guardar todas as minhas leis, e praticar o direito e a justiça, viverá com certeza e não morrerá. Quando um ímpio se arrepende da maldade que praticou e observa o direito e a justiça, conserva a própria vida. Arrependendo-se de todos os seus pecados, com certeza viverá; não morrerá(Ez 18,21.27-28). Aqui se mostra o Deus misericordioso pronto para perdoar quelquer tipo de pecado cometido por qualquer um de nós desde que se converta e volte para Deus. A porta da misericórdia fica aberta para quem quiser entrar por ela para receber as bênçãos de Deus.

 

A Primeira Leitura tirada do livro do profeta Ezequiel nos apresenta a ideia bíblica bastante avançada sobre justiça. Para falar sobre justiça Ezequiel fala sobre Deus.

 

Para o profeta Ezequiel o Deus do AT é também um Deus de amor, um verdadeiro Pai para suas criaturas. Este Deus é a Vida. Por ser a Vida, Ele não pode querer o contrário; não quer a morte do pecador e sim sua conversão. Para todas as criaturas Ele é um Deus da Vida. Toda a vida provém de Deus. Ninguém pode dar a vida a não ser o próprio Deus da vida. Consequentemente, Ele quer a vida para suas criaturas e não o castigo: “Será que tenho prazer na morte do ímpio? — oráculo do Senhor Deus. Não desejo, antes, que mude de conduta e viva?” (Ez 18,23; cf. Os 11,8-9). O homem se castiga ao optar pela maldade. A vida aqui, neste texto, deve ser entendida como a comunicação, o amor, a plenitude, a participação no gozo da verdadeira vida, na graça do Ser que é o próprio Deus. Trata-se da vida em plenitude.

 

Será que tenho prazer na morte do ímpio?  Não desejo, antes, que mude de conduta e viva?” O profeta Ezequiel nos apresenta a compaixão de Deus. Em Deus há uma paixão; o amor para o homem caído (cf. Jo 3,16). Em Deus há compaixão e misericórdia. Aqui se fundamenta a paixão e compaixão de Jesus (cf. Lc 6,36). A história da salvação é a história da misericórdia de Deus.

 

Este Deus de compaixão e de misericórdia há de castigar o pecado de acordo com a verdade, mas por outro lado, Ele não pode destruir a vida, pois seria contra a Si mesmo porque Ele mesmo é a Vida (cf. Jo 14,6; 11,25). A misericórdia de Deus atravessa a História sem fim, por mil gerações. O profeta Ezequiel insiste nisso. E esta misericórdia se tornou carne em Jesus Cristo. Jesus Cristo é a misericórdia feita carne. Por Deus ser misericordioso, no evangelho de  Lucas, por exemplo, a misericórdia é também um mandamento: “Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36). Não só acreditamos em Deus, mas no Deus da misericórdia. Somos filhos do Deus da misericórdia.

 

Além de apresentar o Deus da compaixão e da misericórdia, o profeta Ezequiel derruba todo o gênero de coletivismo sobre o pecado. A teologia tradicional judaica afirmava que o castigo, o sofrimento, dor do presente são consequências do pecado ou de pecados do passado, cometidos por si mesmo que os sofre ou por algum antepassado seu. É a teologia da responsabilidade coletiva que ouvimos dos lábios de Jó, dos dirigentes judeus diante do cego de nascença (cf. Jo 9,2-3) e de tantos pregadores recentes. Os desterrados de Babilônia expressavam esta ideia com a seguinte frase: “Os pais comeram uvas verdes e os dentes dos filhos se embotaram” (Jr 31,29; Ez 18,2). O conceito de comunidade, de povo era como um “dogma” na mentalidade semítica: a comunidade se salva, a comunidade perece. O individual se dilui no coletivo, com todas as suas consequências.

 

Sem anular o princípio da responsabilidade coletiva (que liga solidariamente os membros da comunidade entre si e com seus antepassados), o profeta Ezequiel desenvolve o princípio da responsabilidade pessoal, que supõe uma avança revolucionária na teologia. Este princípio reza assim: “Eu vos julgarei a cada um conforme o seu procedimento” (Ez 18,30). O homem, cada homem sempre será o dono de seu destino, e por isso, poderá escolher entre o bem e o mal, entre a morte e a vida, mas tudo depende dele (cf. Ez 18,5ss). Assim é possível romper a cadeia do passado, já que o Senhor não quer a morte de nenhum homem. No entanto, para obter a vida não bastam os atos isolados, é necessário uma atitude firme e decidida: “Quando um justo se desvia da justiça, pratica o mal e morre, é por causa do mal praticado que ele morre. Quando um ímpio se arrepende da maldade que praticou e observa o direito e a justiça, conserva a própria vida. Arrependendo-se de todos os seus pecados, com certeza viverá; não morrerá” (Ez 18,26-28). A responsabilidade recai sobre cada pessoa humana (responsabilidade individual). Para o profeta Ezequiel cada um é responsável pelos seus atos, de modo que, quem pecar, morrerá (Ez 18,4.18.20.24.26). Resta apenas a possibilidade de converter-se para viver (Ez 18,32), pois Deus é misericordioso que não quer a morte do pecador e sim sua conversão.

 

Em teoria, todos nós estamos de acordo com o princípio de responsabilidade individual, mas a práxis é outra coisa. Por causa do erro de um sacerdote, condenamos todos os sacerdotes; por causa da culpa ou do crime de um membro de um partido ou de uma instituição, logo dizemos que tal partido ou tal instituição não vale para nada! Emitimos juízos categóricos e rotundos/redondos contra aquele partido ou aquele grupo ou instituição.  O profeta Ezequiel nos ensina que devemos nos despojar de uma mentalidade religiosa baseada nos méritos contraídos. Cada coisa deve ser tratada como uma coisa. Ou cada caso é um caso como dizemos frequentemente. Assim também cada pessoa deve ser tratada como uma pessoa. O descobrimento da unicidade da pessoa é o coração da liberdade. Este descobrimento é o fruto da fé em Deus-pessoa ou provem do Deus-pessoa. Este Deus não é instrumento da escravidão. O valor indestrutível da pessoa depende da presença de um Deus pessoal.

 

Será que tenho prazer na morte do ímpio? — oráculo do Senhor Deus. Não desejo, antes, que mude de conduta e viva.... Quando um justo se desvia da justiça, pratica o mal e morre, é por causa do mal praticado que ele morre. Quando um ímpio se arrepende da maldade que praticou e observa o direito e a justiça, conserva a própria vida. Arrependendo-se de todos os seus pecados, com certeza viverá; não morrerá”. É o recado de Deus para cada um de nós através da boca do profeta Ezequiel.

 

Deus nos ama como pessoas; Deus nos chama com um nome pessoal, conhecido unicamente por Ele (cf. Is 43; 49,16) e por aquele que recebe a chamada.

 

Ser Melhor Cristão

 

O texto do evangelho deste dia faz parte do Sermão da Montanha (Mt 5-7). O cristão deve recordar que já não está no Sinai e sim na Montanha das Bem-aventuranças (Sermão da Montanha); que não é um seguidor de Moises e sim um discípulo de Jesus que deve viver no amor, com amor e por amor.

 

O texto do evangelho de hoje inicia com a confrontação entre a justiça dos escribas e dos fariseus e a justiça exigida para os cristãos: Se a vossa justiça não for maior que a dos mestres da lei e dos fariseus, vós não entrareis no reino dos céus (Mt 5,20). É um princípio ético fundamental de Jesus. Para Jesus não basta ser bom, mas tem que ser melhor. “O bom é inimigo do ótimo”, dizia São João Bosco. A justiça do Reino de Deus é o sinônimo de amor misericordioso, de solidariedade fraterna, de perdão reconciliador, de igualdade respeitosa, de empenho por construir a paz, e a recusa de toda forma de idolatria e de injustiça.

 

Através desta afirmação que serve de alerta para quem quiser ser cristão, Jesus quer desenvolver o sentido profundo da Lei cristã. Por isso, o olhar se detém primeiramente nos deveres sociais (Mt 5) para passar às obras religiosas (Mt 6).

       

A primeira das oposições concerne ao ensinamento do quinto mandamento é: “Não matarás”. O fundamento mínimo de toda a relação é deixar o outro viver. Jesus propõe uma interpretação mais exigente desta disposição que abarca não somente as ações ou os atos culpáveis nessa ordem, mas também a raiz de onde brotam essas ações ou esses atos: o sentimento e a interioridade do ser humano. A proibição do homicídio inclui na nova interpretação de Jesus a proibição de todo sentimento de ira e animosidade, maledicência, insulto, desprezo contra o irmão: “Eu, porém, vos digo: todo aquele que se encoleriza com seu irmão será réu em juízo; quem disser ao seu irmão: 'patife!' será condenado pelo tribunal; quem chamar o irmão de 'tolo' será condenado ao fogo do inferno”. Segundo Jesus a ira e as palavras ofensivas contra o irmão são equiparadas ao homicídio. A ira é a morte do coração, a morte interior. Negando a fraternidade, eu mato a minha identidade de filho de Deus, pois o Deus em quem acreditamos é o Pai Nosso.  Por isso, a ira do homem não cumpre a justiça de Deus (Tg 1,20). Nas suas palavras Jesus enfatiza que a relação com o irmão adquire uma tal seriedade que com ela se chega a decidir o destino definitivo da pessoa humana diante de Deus: “Quem chamar o irmão de 'tolo' será condenado ao fogo do inferno”. O desprezo pelo outro é um assassinato interior que permite um exterior. Chamar alguém de “tolo” revela nossa prepotência. As brigas, as guerras  são precedidas de uma campanha difamatório do inimigo ou simplesmente do próximo. Negar a fraternidade para com o outro significa perder a própria filiação divina.

 

Segundo Jesus o mandamento de “não matar” somente ficará superado no momento em que se pensar num amor universal que leva a amar e a perdoar. Uma sociedade não se torna justa somente por não matar. Somente o amor sem medida, convertido em solidariedade e igualdade de direitos para todos pode formar uma sociedade justa. O que é mandado aqui não é “não matar” e sim “amar”. O pecado não é somente o mal que fazemos e sim o bem que deixamos de fazer (pecado de omissão).

 

Ser Cristão Reconciliado     

 

Logo depois que apresentou a nova formulação da antiga lei, Jesus passa a expor sua concretização em forma de um caso para enfatizar até que ponto essa nova lei deve ser observada. Trata-se de uma explicitação que indica a radicalidade de sua aplicação com a ajuda de um exemplo (cf. Mt 5,23-26). O cristão que se aproxima do Senhor da Vida deve reconciliar-se primeiro com o irmão: “Quando tu estiveres levando a tua oferta para o altar, e ali te lembrares que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa a tua oferta ali diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão. então vai apresentar a tua oferta. Se há discórdia entre os homens, a relação com Deus se rompe. Como se Deus quisesse nos dizer: “Antes de ter relações corretas comigo, tenham primeiro entre vocês, homens, essas relações corretas”. Não somente quem ofendeu está obrigado a se reconciliar, mas também quem sofreu uma ofensa (cf. Mt 18,15-18). Sublinha-se o caráter urgente deste dever diante do qual perde a importância de ter ou de não ter a razão no conflito. Cada um é chamado à superação de qualquer tipo de divisão comunitária que lhe afete.

 

Jesus chama os cristãos a fazerem uma passagem urgente: de uma prática religiosa formalista que põe ênfase sobre o cumprimento cultual (cumprir apenas preceitos) para a vivência do amor fraterno. O amor fraterno passa diante do culto. O primeiro de tudo e o mais essencial para cada cristão é o amor, pois “a caridade é a plenitude da lei” (Rm 13,10). Por isso, “Quanto mais tu amas, mais alto tu sobes” (Santo Agostinho).

 

Para Jesus a reconciliação é tarefa prioritária: a reconciliação está antes de qualquer culto a Deus, está antes que ir à missa, antes que rezar, porque o projeto de Deus sobre a humanidade é nada mais do que criar um mundo de irmãos onde todos podem chamar a Deus de Pai. É uma sociedade nova onde regem as relações humanas próprias do amor mútuo. Uma oferenda é agradável a Deus, se, quem a oferece, não guarda, em seu coração, ódio, nem rancor nem ressentimento contra o próximo. A oferenda a Deus seria inútil, se o coração do oferente fosse contaminado pela inimizade e o seu relacionamento com alguém estivesse rompido. Trata-se de uma exigência radical que escandalizam até os nossos sentimentos humanos.

 

Se houver discórdia entre os homens, a relação com Deu se rompe. Deus quer nos dizer: “Antes de ter relações corretas comigo, vocês devem tê-las entre vocês”. A caridade fraterna passa adiante do culto. A reconciliação é um princípio essencial de sobrevivência para as pessoas, as famílias, as profissões, as etnias de uma geração em geração.

      

Portanto, convém reconciliar-se, pôr-se de acordo, antes que chegue o momento do juízo definitivo de Deus. Não se esqueça: “O bom é inimigo do ótimo”. Somos chamados a ser melhores diariamente no amor fraterno para ser dignos do Reino de Deus e para sermos reconhecidos como seguidores de Jesus (Jo 13,35).

 

Todos nós somos pecadores e devemos ter consciência de pecadores. Ninguém pode olhar para o outro e dizer que o outro é mau. Se tivermos uma boa formação de nossa consciência e se trabalharmos seriamente na nossa sensibilidade, a consciência nos acusará como pecadores. O insensível carece de consciência e nisto consiste a ruína. Somente um santo é que capaz de se reconhecer pecador, pois ele está sempre frente a frente com o Deus santo.

 

Para viver a vida cristã e a fé cristã temos necessidade de viver da superabundância da misericórdia de Deus. E somente tendo acolhido essa misericórdia infinita do Pai é que poderemos, por nossa vez, perdoar nossos irmãos. Amar é perdoar. Guardar rancor contra alguém é privar-se da bênção divina. De fato, cada pessoa não tem senão um só coração e não saberá parti-lo em dois, sob o risco de vê-lo dilacerar-se e morrer. A unidade do coração repousa sobre essa dupla misericórdia. O nosso mundo morre por falta de misericórdia, pois o mundo está repleto de agressividade de todos os tipos. Não tenhamos medo de denunciar esse drama, inclusive o mesmo drama que tem dentro de nosso coração.

 

P. Vitus Gustama,svd

28/02/2026- Sábado Da I Semana Da Quaresma

PARA AMAR A JESUS VERDADEIRAMENTE E AO PRÓXIMO TEMOS QUE APRENDER A PERDOAR, ATÉ OS INIMIGOS Sábado da I Semana da Quaresma Primeira L...