segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Terça-feira Da XIX Semana Comum, Ano Par, 11/08/2026

FRATERNIDADE VIVIDA É CONSEQUÊNCIA DA FILIAÇAO DIVINA

Terça-Feira da XIX Semana Comum

Primeira Leitura: Ez 2,8-3,4

Assim fala o Senhor: 2,8 “Quanto a ti, Filho do homem, escuta o que eu te digo: Não sejas rebelde como esse bando de rebeldes. Abre a boca e come o que eu te vou dar”. 9 Eu olhei e vi uma mão estendida para mim e, na mão, um livro enrolado. Desenrolou-o diante de mim; estava escrito na frente e no verso e nele havia cantos fúnebres, lamentações e ais. 3,1 Ele me disse: “Filho do homem, come o que tens diante de ti! Come este rolo e vai falar aos filhos de Israel”. 2 Eu abri a boca, e ele fez-me comer o rolo. 3 Depois disse-me: “Filho do homem, alimenta teu ventre e sacia as entranhas com este rolo que eu te dou”. Eu o comi, e era doce como mel em minha boca. 4 Ele disse-me então: “Filho do homem, vai! Dirige-te à casa de Israel e fala-lhes com as minhas palavras”.

Evangelho: Mt 18,1-5.10.12-14

Naquele tempo, 1 os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram: “Quem é o maior no Reino dos Céus?” 2 Jesus chamou uma criança, colocou-a no meio deles 3 e disse: “Em verdade vos digo, se não vos con­ver­terdes, e não vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus. 4 Quem se faz pequeno como esta criança, este é o maior no Reino dos Céus. 5 E quem recebe em meu nome uma criança como esta é a mim que recebe. 10 Não desprezeis nenhum desses pequeninos, pois eu vos digo que os seus anjos nos céus veem sem cessar a face do meu Pai que está nos céus. 12 Que vos parece? Se um homem tem cem ovelhas, e uma delas se perde, não deixa ele as noventa e nove nas montanhas, para procurar aquela que se perdeu? 13 Em verdade vos digo, se ele a encontrar, ficará mais feliz com ela, do que com as noventa e nove que não se perderam. 14 Do mesmo modo, o Pai que está nos céus não deseja que se perca nenhum desses pequeninos”.

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Viver e Falar De Acordo Com a Palavra de Deus

’Filho do homem, come o que tens diante de ti! Come este rolo e vai falar aos filhos de Israel’. Eu o comi, e era doce como mel em minha boca. Ele disse-me então: ‘Filho do homem, vai! Dirige-te à casa de Israel e fala-lhes com as minhas palavras’”. Assim lemos na Primeira Leitura do Livro do profeta Ezequiel.

O texto da Primeira Leitura de hoje é a continuação da teofania da leitura do dia anterior sobre a vocação profética de Ezequiel (cf. . Ez 1,2-5.24-28c). No texto Ezequiel é chamado de “Filho do homem(Ben’adam: esta palavra encontra-se 90 vezes em Ezequiel), mas não deve ser entedido no sentido messiânico de Dn 7,13, e sim deve ser entendido como homem (Dn 8,17), ser humano de carne e osso. Ou seja, o uso da palavra “Filho de homem é para sublinhar o caráter mortal de qualquer homem. A palavra “adamindica a coletividade humana, e “ben”, o homem concreto e singular. O homem é mortal. O homem sabe que um dia ele vai morrer. É o que sublinha com insistência a expressão “filho do homem(Ez 2,8; 3,1.3.4). Mas infelizmente, para a maioria este saber continua sendo um saber não sabido. Muitos vivem como se nunca morressem e consequentemente, não vivem seriamente, não respeitam os outros, não aproveitam uma boa convivência.

Um profeta, como Ezequiel, é mortal por ser homem, porém é enviado por Deus para falar em nome de Deus: “Abre a boca e come o que eu te vou dar”. Ezequiel aceita plenamente sua vocação, em contraste com a atitude que o povo terá,:Eu abri a boca, e ele fez-me comer o rolo”.

Eu abri a boca, e ele fez-me comer o rolo”. Comer o rolo da Palavra de Deus é a ação simbólica. A Palavra de Deus não é para ser ouvida apenas, mas deve ser recebida no coração. E deste coração ocupado pela Palavra de Deus vai sair algo de bom para o próximo. A primeira vocação do profeta é assimilar e fazer sua a mensagem ou a Palavra de Deus. Antes de pronunciá-la ou pregá-la para os outros, o profeta deve interiorizar a Palavra de Deus para torná-la carne e sangue na sua vida. Mais tarde Jesus dirá de outra forma: “Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou(Jo 4,34). A assimilação com a Palavra de Deus deve ser plena, mesmo que algumas palavras que vem de Deus sejam desagradáveis para o povo ou sejam lamentações ou ameaças (os ais), como aconteceu com a vida do profeta Jeremias. Para ser forte diante de qualquer adversidade, o profeta é forte por causa da assimilação com a Palavra de Deus, pois Deus está nele.

Na condição de profeta, como Isaías (Is 6,1-8) e Jeremias (Jr 1,4-10), Ezequiel é enviado aos israelitas, aos rebeldes de Isarel, constantes e ibstinados. Rebeldes por sua apostasia e idolatria.

A Igreja é formada pela Palavra de Deus, como foi o povo eleito. Mas a Palavra de Deus somente é viva, se cada membro da Igreja consegue interiorizá-la, compartilhá-la e transfigurá-la no coração, na oração e na ação. A Palavra de Deus é fonte de conversão cotidiana quando conseguimos interiorizá-la. Faz parte da conversão de Santo Agostinho quando ele dizia a si mesmo diante da Palavra de Deus: “Tome e leia”. Tomar a Palavra de Deus, frequentá-la assiduamente e escutá-la diariamente torna qualquer um de nós profeta da Palavra de Deus. É “comer a Palavra” na belíssima expressão do profeta Ezequiel, fazê-la própria, fazer-se uma coisa só com ela, é modelar-se conforme a Palavra de Deus. Se assim for, seremos instrumentos eficazes de Deus neste mundo.

Somos Chamados a Conviver Na Fraternidade Amorosa

Em verdade vos digo, se não vos converterdes, e não vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus. Quem se faz pequeno como esta criança, este é o maior no Reino dos Céus. E quem recebe em meu nome uma criança como esta é a mim que recebe”, disse-nos o Senhor.

Um Discurso Sobre Vida Comunitária

Estamos no quarto grande discurso de Jesus nos evangelho de Mateus (Mt 18). E este quarto discurso é conhecido como “discurso eclesiológico” (discurso sobre a Igreja) ou “discurso comunitárioonde se acentua a vida na fraternidade, isto é, cada membro da comunidade é considerado como irmão, pois tem Deus como o Pai comum. Este discurso (Mt 18,1-35) foi escrito para responder aos problemas internos das comunidades cristãs: Quem é o primeiro na comunidade? O que fazer se acontecem escândalos? E se um cristão se perde ou se afasta da comunidade, o que fazer? Como corrigir um irmão que erra? Quando é que uma oração pode ser chamada de comunitária e partilhada? E quantas vezes se deve perdoar?         

Na comunidade de Mt (como também em qualquer comunidade cristã) cresce a ambição e se cultivam sonhos de grandeza dos membros que se acham mais importantes dos demais membros. Há pouca consideração para com os pequenos, até são desconsiderados ou desprezados. Estes pequenos correm risco de se tornarem incrédulos e de se afastarem da atividade comunitária. Na comunidade de Mt suscitam também pecadores notórios, inclusive as ofensas e os ressentimentos que abalam a convivência fraterna.         

Nesse capítulo, são dadas diversas orientações e algumas normas que têm por objetivo desenvolver o amor fraterno e favorecer a harmonia entre os membros da comunidade. Contra os sonhos de grandeza e de orgulho, Mt coloca a atitude de humildade que agrada a Deus e aos outros (18,1-4). Para os pequenos, os fracos na fé, é necessário ter uma acolhida cheia de caridade e de desvelo (18,6-7). O desprezo é inadmissível para uma boa convivência. Para enfatizar mais este tema, Mt fala dos anjos que sempre estão do lado dos pequenos (18,10). Se um dos membros da comunidade afastar-se ou desviar-se do caminho reto, em vez de condená-lo, a comunidade toda deve esforçar-se para que esse irmão volte para a comunidade, pois Deus não quer que nenhum deles se perca (18,12-14). E para o irmão pecador, a comunidade inteira deve usar todos os meios para recuperá-lo (18,15-20). E para as ofensas, deve haver perdão, pois uma comunidade só pode sobreviver se existe o perdão mútuo (18,21-35).

Ser Irmão e Fazer-se Pequeno

Quem é o maior no Reino dos céus?”. “Quem é o maior diante de Deus?”. “Quem vale mais diante de Deus?”. Assim inicia o quarto discurso de Jesus sobre a vida comunitária baseada na fraternidade. A pergunta é feita pelos discípulos para Jesus. Maior aqui significa proeminente, superior aos outros por força de uma qualidade ou de um poder ou de um cargo.

Atrás desta pergunta se esconde a ambição ou a mania de grandeza dos discípulos. É “a psicologia do príncipe”, segundo o Papa Francisco. É a ambição de grandeza que pode ser encontrada em qualquer comunidade cristã. É admirável a ambição de alguém que deseja redimir sua humilde condição, valorizando todas as suas capacidades de inteligência e de luta, pois um dos sentidos lexicais da palavra ambição é anseio veemente de alcançar determinado objetivo, de obter sucesso; aspiração, pretensão. A ambição só se transformará em vício quando a afirmação de si mesmo for exagerada e os meios adotados para atingir a glória forem desonestos. Uma pessoa de alma nobre não sai à procura das honras, e sim do bem, da fraternidade, da verdade, da caridade e assim por diante. Ao contrário, o ambicioso se sente totalmente envolto pela espiral da glória que o transforma em vítima da própria tirania. O ambicioso, quando dominado pelo vício, não suporta competidores, nem admite rivais. Quem desejar ser a todo o custo o primeiro, dificilmente se preocupar com ser justo. A soberba gera a divisão. A caridade, a comunhão (Santo Agostinho. Serm. 46,18).

Como resposta para a pergunta dos seus discípulos Jesus faz um gesto muito simbólico: Ele chamou uma criança e a colocou no meio dos discípulos. Ao ser colocada no meio de todos, a criança chamada se torna um centro de atenção de todos. Podemos imaginar que todos os olhares são dirigidos a essa criança e os ouvidos prontos para ouvir a palavra sábia do Mestre Jesus. “Em verdade vos digo, se não vos con­ver­terdes, e não vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus. Quem se faz pequeno como esta criança, este é o maior no Reino dos Céus. E quem recebe em meu nome uma criança como esta é a mim que recebe”, disse Jesus aos discípulos (Mt 18,3-5). Ser criança: frescor, beleza, inocência, não se basta a si mesma!

Esta é a primeira regra da vida comunitária: cuidar dos pequenos e tratá-los como irmãos, e fazer-se pequeno. Fazer-se pequeno, como exigência para viver a vida comunitária, significa renunciar a toda ambição pessoal e a todo desejo de colocar-se acima dos demais para estar em destaque e para oprimir os demais. Fazer-se pequeno é uma forma de “renegar-se a si mesmo” para colocar a vontade de Deus acima de tudo. A grandeza do Reino consiste no serviço humilde e gratuito ao próximo, na solidariedade para com os necessitados, na partilha do que se tem para com os carentes do básico para viver dignamente como ser humano, e no esforço para construir uma convivência mais fraterna. Trata-se de viver a espiritualidade familiar onde cada membro se preocupa com o outro membro e sua salvação. Vivendo desta maneira estaremos testemunhando para o mundo que temos fé em Deus e que estamos no Reino de Deus já neste mundo, pois vivemos como irmãos, filhos e filhas do mesmo Pai celeste.

Ser Ocasião de Salvação Para o Outro

Se um homem tem cem ovelhas, e uma delas se perde, não deixa ele as noventa e nove nas montanhas, para procurar aquela que se perdeu? Em verdade vos digo, se ele a encontrar, ficará mais feliz com ela, do que com as noventa e nove que não se perderam. Do mesmo modo, o Pai que está nos céus não deseja que se perca nenhum desses pequeninos”, acrescentou Jesus (Mt 18, 12-14). Esta é outra regra essencial da vida comunitária!

Os fariseus eram uns “separados”, e julgavam severamente os pecadores e os que erravam, os quais eram excluídos dos banquetes sagrados ou de um simples banquete comunitário, pois comer juntos significava igualar ou nivelar as relações. Deus atua completamente diferente. Deus nem sequer espera o arrependimento do pecador para amá-lo. Antes, abandonando o resto do rebanho, ele vai à busca de uma ovelha perdida. Através de uma conversa fraterna e através de sua participação na refeição com os excluídos pela sociedade em questão Jesus consegue trazer de volta para Deus muitos pecadores, como Zaqueu (Lc 19,2-10), como Mateus (Mt 9,9) e assim por diante.

O saudoso Cardeal François X. Van Thuan escreveu dois dos cinco “defeitos” de Jesus (Testemunhas Da Esperança. Edit. Cidade Nova). O primeiro defeito é que Jesus não tem boa memória. Ele esquece todos os pecados dos que se arrependeram, como o “bom ladrão”: “Hoje mesmo tu estarás comigo no Paraíso” (Lc 23,43) e a mulher pecadora: “... seus numerosos pecados lhe estão perdoados, porque ela demonstrou muito amor” (Lc 7,47). Deus não lhes pergunta nada a respeito de seu passado escandaloso. Deus esquece até mesmo que perdoou. E o segundo “defeito” de Jesus é que ele não “sabe” matemática. Ele abandona 99 ovelhas para procurar uma que está perdida. Na nossa matemática uma ovelha não é igual a 99 ovelhas. Para Jesus uma ovelha é igual a 99 ovelhas. Todos têm o mesmo valor diante de Deus.

Cada um de nós, por menor que seja no olhar de um ser humano ou de uma sociedade, é objeto de um carinho especial de Deus. Deus não despreza nenhum ser humano. Cada um é considerado na sua individualidade. A graça de Deus nos faz nós mesmos: “Eu sou o que sou pela graça de Deus” (1Cor 15,10). Jesus quer que cada membro da comunidade cristã precise ser uma ocasião de salvação para o outro e o outro é uma ocasião de salvação para mim. Somente é assim que uma comunidade cristã pode ser chamada e considerada como uma comunidade de irmãos.

Na Bíblia a misericórdia pertence rigorosamente à linguagem mais elevada da fé, designa uma atitude de todo o ser. A misericórdia é um amor visceral, entranhável, uterino. A misericórdia evoca tanto o aspecto de fidelidade ao compromisso como o aspecto de ternura do coração. A experiência da condição miserável e pecadora do homem deu corpo à noção da misericórdia de Deus, que se apresenta a nós como a atitude de Deus diante do pecado do homem. A misericórdia de Deus não é ingenuidade e sim convite à conversão e convite para cada homem a praticar, por sua vez, a misericórdia para os demais homens. Sem praticá-la corre o risco de o homem fica fora da salvação (cf. Tg 2,13).

Os escribas e os fariseus não são capazes de ver no pecados mais que a um inimigo de Deus. se um pecador é inimigo de Deus, logo é inimigos dos que se consideram “religiosos”. Não é esta a atitude daqueles que julgam com excessiva severidade das falhas dos outros? Deus, ao contrário, não espera o arrependimento para amar o pecador. Quem é responsável pela comunidade, pela pastoral, pelo grupo na Igreja do Senhor é encarregado de revelar ao irmão que pecou que Deus o ama primeiro (1Jo 4,10.19; 2Cor 5,20) e que esse Deus se preocupa com a salvação de todos. Será que todos os responsáveis na comunidade está consciente dessa responsabilidade?

P.Vitus Gustama,svd

sábado, 8 de agosto de 2026

São Lourenço, Diácono e Mártir, Festa, 10/08/2026

VIVER NO PARADOXO PARA VIVER UMA VIDA FECUNDA

Festa de São Lourenço: 10 de Agosto

Primeira Leitura: 2Cor 9,6-10

Irmãos, 6 “Quem semeia pouco colherá também pouco e quem semeia com largueza colherá também com largueza”. 7 Dê cada um conforme tiver decidido em seu coração, sem pesar nem constrangimento; pois Deus “ama quem dá com alegria”. 8 Deus é poderoso para vos cumular de toda sorte de graças, para que, em tudo, tenhais sempre o necessário e ainda tenhais de sobra para toda obra boa, 9 como está escrito: “Distribuiu generosamente, deu aos pobres; a sua justiça permanece para sempre”. 10 Aquele que dá a semente ao semeador e lhe dará o pão como alimento, ele mesmo multiplicará as vossas sementes e aumentará os frutos da vossa justiça.

Evangelho: Jo 12,24-26

Naquele tempo disse Jesus a seus discípulos: 24 “Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas se morre, então produz muito fruto. 25 Quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem faz pouca conta de sua vida neste mundo conservá-la-á para a vida eterna. 26 Se alguém me quer servir, siga-me, e onde eu estou estará também o meu servo. Se alguém me serve, meu Pai o honrará”.

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“O Senhor põe à prova os seus santos, e pôs particularmente à prova o bem-aventurado Lourenço na quádrupla virtude pela qual se rege toda a vida, a saber: na prudência, na justiça, na modéstia e na constância. A prudência, pois, do bem-aventurado Lourenço o provou na pregação da palavra divina; a justiça, no cumprimento do dever assumido; a modéstia, no bom exemplo; a constância, na resignação do amargo martírio. Em todas essas, porém, (foi) ele provado por Deus e deve ser merecidamente aprovado por nós”.

(São Boaventura In Sermões Sobre Os Santos: Sobre São Lourenço Mártir, Ed. Paulus 2026, p.344)

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Neste dia 10 de agosto celebramos a festa de São Lourenço, diácono e mártir. Uma das funções do diácono na época era distribuir as ajudas aos pobres. Lourenço foi feito diácono pelo Papa Sisto II.

Lourenço era um dos sete diáconos de Roma, ou seja, um dos sete homens de confiança do Sumo Pontífice. Seu trabalho era de grande responsabilidade, pois era encarregado de distribuir as ajudas aos pobres.

No ano 257/258 o imperador Valeriano publicou um decreto de perseguição no qual ordenava que aquele que se declarasse cristão seria condenado à morte. No dia 06 de agosto no mesmo ano o Papa Sisto II foi assassinado pela polícia do imperador enquanto estava celebrando a santa Missa com quatro de seus diáconos. 

Quatro dias depois, 10 de agosto de 258, o diácono Lourenço foi martirizado. A antiga tradição disse que quando Lourenço viu que o Sumo Pontífice estava para ser assassinado, disse: “Pai meu, tu te vais sem levar teu diácono?”. E o Papa Sisto II lhe respondeu: “Filho meu, dentro de poucos dias tu me seguirás”. Lourenço ficou muito feliz quando ouviu a palavra do Papa Sisto II.

Quando foi preso e conduzido ao martírio pelo imperador Valeriano, o Papa Sisto II deu ao diácono Lourenço o encargo de distribuir tudo o que tinha aos pobres. Quando o imperador Valeriano impôs a Lourenço de entregar-lhe os tesouros da Igreja dos quais tinha ouvido falar, Lourenço reuniu os pobres, as virgens consagradas, e as viúvas diante do imperador e disse com coragem: “Eis aqui os nossos tesouros, que nunca diminuem, e podem ser encontrados em toda parte”. Por essas palavras ele foi colocado vivo sobre um braseiro ardente até a morte. Ele foi o mártir romano mais celebrado depois dos apóstolos Pedro e Paulo. Até seu nome consta na primeira oração eucarística.

Nessa festa nos é proposto um evangelho luminoso. Jesus nos recorda que “Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas se morre, então produz muito fruto”. Estas palavras retratam a perfeição do diácono Lourenço. Ele soube entregar a vida e por isso é fonte de vida. Ele viveu servindo os pobres e foi martirizado pelos pobres. Ali há uma vida gastada no serviço por amor ao próximo. Ali há um diácono, ou seja, um servidor. Daí São Lourenço nos está convidando a servimos, a estarmos abertos às necessidades dos homens e mulheres de hoje, dos pobres, dos marginalizados e excluídos. Nos dias de sua vida Lourenço semeou com generosidade a semente do amor, da fé, da esperança no coração de seus irmãos.

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Mensagem do Evangelho

Ser cristão, a partir do texto do evangelho lido neste dia, é aprender a viver no paradoxo. Paradoxo significa pensamento ou argumento que contraria os princípios básicos e gerais que costumam orientar o pensamento humano, porém, nele, contém verdade e sabedoria de viver. Trata-se de um raciocínio aparentemente contraditório, porém contém nele uma sabedoria que nos faz crescermos em todos os sentidos. Viver no paradoxo é a lei da vida.

Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas se morre, então produz muito fruto. Quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem faz pouca conta de sua vida neste mundo conservá-la-á para a vida eterna”. É o verdadeiro paradoxo: morrer para viver e produzir mais frutos como trigo.

Segundo Jesus, não se produz vida sem dar a própria. Um grão de trigo que morre e cai não terra produz muitos outros grãos de trigo. Este é o paradoxo. Não se pode viver sem aprender a morrer. Esta morte é a culminação de um processo de doação de si mesmo: “Quem se apega à sua vida vai perdê-la”. É o paradoxo! Não se pode receber vida sem doá-la para o bem do próximo. Não se pode receber o perdão divino sem dar nosso perdão ao próximo: “Perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”, assim rezamos no Pai-Nosso. É o paradoxo! Para ser feliz é preciso fazer o outro feliz. Para ser amado e ser amoroso é preciso amar e ser amoroso para com o outro. Amar é dar-se em abundância até desaparecer, se for necessário. A fecundidade não depende da transmissão de uma doutrina e sim da transmissão e da vivencia do amor fraterno. “Quem não ama permanece na morte. (...) Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor”, diz-nos São João (1Jo 3,14b; 4,8).

Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas se morre, então produz muito fruto. Este é o primeiro paradoxo apresentado por Jesus no evangelho de hoje.

Na metáfora do grão de trigo que morre na terra, a morte é a condição para que se libere toda a energia vital que a semente contém, e a vida ali encerrada se manifeste plenamente. Com esta metáfora Jesus afirma que o homem tem muitas potencialidades e que somente o dom total de si libera essas potencialidades para que exerçam toda sua eficácia. O fruto começa paradoxalmente no mesmo grão que morre porque se não cair na terra não dá vida, não frutifica, é infecundo. A morte da qual fala Jesus não é um acontecimento isolado e sim é a culminação de um processo de doação da própria vida.

Por isso, dar a própria vida é condição para a fecundidade, é a suprema medida do amor. Para Jesus essa entrega da própria vida para o bem de todos não é uma perda para o homem; não significa frustrar a própria vida e sim uma vida fecunda. Aquele que sabe fazer o outro viver bem tem uma vida cheia de alegria. É uma vida feliz e fecunda. Quando deixarmos de crescer, ficaremos envelhecidos antes do tempo. Enquanto estivermos abertos para o crescimento, permaneceremos jovens, e jovens fecundos. O medo de crescer é o medo de tomar conta de si próprio.

“Quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem faz pouca conta de sua vida neste mundo conservá-la-á para a vida eterna”. É a segunda afirmação paradoxal de Jesus no evangelho de hoje.

Não se pode produzir vida (dar frutos) sem dar a própria vida (morrer). A vida é fruto do amor e não brotará vida, se o amor não for pleno, se não chegar a ser um dom total. Amar é dar tudo, entregar tudo sem guardar nada para si, até desaparecer, se for necessário, como individuo ou como comunidade. Jesus vai se entregar pelos demais. Ele é solidário com os necessitados e por eles aceita a morte, mas logo prevê já o fruto: “Dou minha vida para retomá-la(Jo 10,17).

“Quem se apega à sua vida, perde-a”

O temor de perder a vida e o tempo é o grande obstáculo para o compromisso pelos demais, porque o amor à própria vida pode levar alguém a praticar as injustiças e a ficar silêncio diante de uma realidade que necessite de sua colaboração. O silêncio dos bons diante da maldade faz com que a maldade avance. Mas aquele que oferece sua vida pelos demais, ama verdadeiramente, se esquece do próprio interesse e segurança, luta pela vida, pela dignidade em meio de uma sociedade onde reina a morte.

Como Jesus, muitos homens e mulheres de ontem e de hoje para dar vida deram sua própria vida porque estavam convencidos de que o fruto supõe uma morte, e a entrega exige uma fé na fecundidade do amor.

Um desses homens é São Lourenço cuja festa é celebrada neste dia (10 de agosto). Lourenço era o primeiro dos sete diáconos da Igreja de Roma em 258. Valeriano perseguia os membros da hierarquia eclesiástica: bispos, presbítero, diáconos. Lourenço era o principal dos sete diáconos encarregados de socorrer os pobres e de administrar os bens temporais da Igreja. Lourenço era chamado até “diácono do Papa”. O Estado, na pessoa de Valeriano, cobiçava os bens temporais da Igreja. É rica, sim, a Igreja, não o nego. Ninguém no mundo é mais rico que ela. O próprio imperador não tem tanta riqueza como a Igreja tem. Não recuso a entregar-lhe esses bens. Deixe-me um prazo para unir e inventariar esses bens tão copiosos e preciosos”. Lourenço chamou e reunir todos os pobres e os doentes e os levou para o imperador e disse: “Eis os tesouros da Igreja que nunca diminuem e podem ser encontrados em toda parte!”. Por essa razão, o diácono Lourenço foi martirizado em 10 de agosto de 258.

Que tenhamos a caridade de são Lourenço para com tantos pobres e doentes que necessitam de nossa ajuda, seja nosso tempo para dar um pouco de nossa atenção, seja nossa ajuda material. “Não é louvável no pobre sua pobreza, mas sua humildade; nem condenável no rico sua riqueza, mas seu orgulho. Sejam ricos ou pobres, Deus dá sua graça aos humildes. Desapropria-te de ti mesmo e lança-te nos braços de Deus” (Santo Agostinho). Na nossa sociedade há mártires, homens e mulheres que foram capazes de morrer por um ideal de fraternidade como também na Igreja.

Sentir-se Igreja não é somente estar batizado ou ser batizado. Sentir-se Igreja é viver e assumir com claridade e decisão um serviço pelo bem dos que são necessitados. Quem semeia pouco colherá também pouco e quem semeia com largueza colherá também com largueza. Dê cada um conforme tiver decidido em seu coração, sem pesar nem constrangimento; pois Deus ama quem dá com alegria... Aquele que dá a semente ao semeador e lhe dará o pão como alimento, ele mesmo multiplicará as vossas sementes e aumentará os frutos da vossa justiça” é o recado de São Paulo para todos nós através da Primeira Leitura de hoje.

Mensagem/Pregação De Santo Agostinho Sobre o Martírio De São Lourenço

DOS SERMÕES DE SANTO AGOSTINHO, BISPO

(Sermo 304,1-4: PL 38,1395-1397)                 

(Séc.V)

SERVIU O SAGRADO SANGUE DE CRISTO

“A Igreja Romana apresenta-nos hoje o dia glorioso de São Lourenço quando ele calcou o furor do mundo, desprezou sua sedução e num e noutro modo venceu o diabo perseguidor. Nesta mesma Igreja – ouvistes muitas vezes – Lourenço exercia o ministério de diácono. Aí servia o sagrado sangue de Cristo; aí, pelo nome de Cristo, derramou seu sangue. O santo apóstolo João expôs claramente o mistério da ceia ao dizer: Como Cristo entregou sua vida por nós, também nós devemos entregar as nossas pelos irmãos (1Jo 3,16). São Lourenço, irmãos, entendeu isto; entendeu e fez; e da mesmíssima forma como recebeu daquela mesa, assim a preparou. Amou a Cristo em sua vida, imitou-o em sua morte. 

Também nós, irmãos, se de verdade amamos, imitemos. Não poderíamos produzir melhor fruto de amor do que o exemplo da imitação; Cristo sofreu por nós, deixando-nos o exemplo para seguirmos suas pegadas (1Pd 2,21). Nesta frase, parece que o apóstolo Pedro quer dizer que Cristo sofreu apenas por aqueles que seguem suas pegadas e que a morte de Cristo não aproveita senão àqueles que caminham em seu seguimento. Seguiram-no os santos mártires até à efusão do sangue, até à semelhança da paixão; seguiram-no os mártires, porém não só eles. Depois que estes passaram, a ponte não foi cortada; ou depois que beberam, a fonte não secou. 

Tem, irmãos, tem o jardim do Senhor não apenas rosas dos mártires; tem também lírios das virgens, heras dos casados, violetas das viúvas. Absolutamente ninguém, irmãos, seja quem for, desespere de sua vocação; por todos morreu Cristo. Com toda a verdade, dele se escreveu: Que quer salvos todos os homens, e que cheguem ao conhecimento da verdade (1Tm 2,4). 

Compreendamos, portanto, como pode o cristão seguir Cristo além do derramamento de sangue, além do perigo de morte. O Apóstolo diz, referindo-se ao Cristo Senhor: Tendo a condição divina, não julgou rapina ser igual a Deus. Que majestade! Mas aniquilou-se, tomando a condição de escravo, feito semelhante aos homens e reconhecido como homem (Fl 2,7-8). Que humildade! 

Cristo humilhou-se: aí tens, cristão, a que te apegar. Cristo se humilhou: por que te enches de orgulho? Em seguida, terminada a carreira desta humilhação, lançada por terra a morte, Cristo subiu ao céu; sigamo-lo. Ouçamos o Apóstolo: Se ressuscitastes com Cristo, descobri o sabor das realidades do alto, onde Cristo está assentado à destra de Deus (Cl 3,1).”

P.Vitus Gustama, SVD

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

XIX Domingo Do Tempo Comum, Ano "A", 09/08/2026

O DEUS-CONOSCO É O NOME DE DEUS EM QUEM ACREDITAMOS: NÃO TENHAMOS MEDO!

XIX DOMINGO DO TEMPO COMUM “A”

Primeira Leitura: 1Rs 19,9a.11-13a

Naqueles dias, ao chegar a Horeb, o monte de Deus, 9ª o profeta Elias entrou numa gruta, onde passou a noite. E eis que a palavra do Senhor lhe foi dirigida nestes termos: 11 “Sai e permanece sobre o monte diante do Senhor, porque o Senhor vai passar”. Antes do Senhor, porém, veio um vento impetuoso e forte, que desfazia as montanhas e quebrava os rochedos. Mas o Senhor não estava no vento. Depois do vento, houve um terremoto. Mas o Senhor não estava no terremoto. 12 Passado o terremoto, veio um fogo. Mas o Senhor não estava no fogo. E, depois do fogo, ouviu-se o murmúrio de uma leve brisa. 13ª Ouvindo isso, Elias cobriu o rosto com o manto, saiu e pôs-se à entrada da gruta.

Segunda Leitura: Rm 9,1-5

Irmãos: 1 Não estou mentindo, mas, em Cristo, digo a verdade, apoiado no testemunho do Espírito Santo e da minha consciência. 2 Tenho no coração uma grande tristeza e uma dor contínua, 3 a ponto de desejar ser eu mesmo segregado por Cristo em favor de meus irmãos, os de minha raça. 4 Eles são israelitas. A eles pertencem a filiação adotiva, a glória, as alianças, as leis, o culto, as promessas 5 e também os patriarcas. Deles é que descende, quanto à sua humanidade, Cristo, o qual está acima de todos, Deus bendito para sempre! Amém!

Evangelho: Mt 14,22-33

Depois da multiplicação dos pães, 22 Jesus mandou que os discípulos entrassem na barca e seguissem, à sua frente, para o outro lado do mar, enquanto ele despediria as multidões. 23 Depois de despedi-las, Jesus subiu ao monte, para orar a sós. A noite chegou, e Jesus continuava ali, sozinho. 24 A barca, porém, já longe da terra, era agitada pelas ondas, pois o vento era contrário. 25 Pelas três horas da manhã, Jesus veio até os discípulos, andando sobre o mar. 26 Quando os discípulos o avistaram, andando sobre o mar, ficaram apavorados e disseram: “É um fantasma”. E gritaram de medo. 27 Jesus, porém, logo lhes disse: “Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!” 28 Então Pedro lhe disse: “Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água”. 29 E Jesus respondeu: “Vem!” Pedro desceu da barca e começou a andar sobre a água, em direção a Jesus. 30 Mas, quando sentiu o vento, ficou com medo e, começando a afundar, gritou: “Senhor, salva-me!” 31 Jesus logo estendeu a mão, segurou Pedro, e lhe disse: “Homem fraco na fé, por que duvidaste?” 32 Assim que subiram no barco, o vento se acalmou. 33 Os que estavam no barco prostraram-se diante dele, dizendo: “Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!”          

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Deus Se Faz Presente No Silêncio De Cada Dia

“‘Sai e permanece sobre o monte diante do Senhor, porque o Senhor vai passar’. Passado o terremoto, veio um fogo. Mas o Senhor não estava no fogo. E, depois do fogo, ouviu-se o murmúrio de uma leve brisa. Ouvindo isso, Elias cobriu o rosto com o manto, saiu e pôs-se à entrada da gruta (1Rs 19,11.12-13).

Nos tempos de crise religiosa e de perseguição, o profeta Elias refaz o caminho de Moisés e peregrina ao lugar da grande experiência religiosa: no monte Horeb. Ali experimenta a presença de Deus e escuta Sua palavra que confirma sua missão: Elias não pode abandonar a luta.

Mas diferentemente das teofanias habituais conforme a tradição, a passagem do Senhor no texto da Primeira Leitura é descrita em termos surpreendentes. Sucessivamente ocorrem três fenômenos naturais da manifestação de Deus na tradição bíblica: o furacão, o fogo, a tormenta (Cf. Ex 19,16.18; 2Sm 22,7-16; Is 29,6; Sl 48,3; 95,2-5). Mas o Senhor não está nestes três fenômenos naturais.  O profeta Elias percebe a passagem do Senhor em uma brisa ligeira, mas o relato não diz que o Senhor estava na brisa. A brisa ligeira, na realidade, serve para proteger o incógnito e o silêncio de Deus. Deus guarda o silêncio e somente o crente pode ouvir o Senhor no silêncio.

Em outras palavras, no texto da Primeira Leitura, Deus abandona um dos símbolos mais comuns no AT para designar a força e a presença de Deus é o vento, o furacão. Deus abandona este caminho espetacular e se manifesta num sinal simples que nem sempre percebemos sua importância: brisa ligeira. O profeta Elias tem que se esforçar para se situar nesta nova ótica da presença de Deus.

Este texto nos convida a discernirmos a presença do Senhor no “sussurro”, no silêncio, na brisa ligeira. O silêncio é o ventre onde são geradas as palavras com vida e sentido. O homem precisa do silêncio e da solidão para encontrar Deus e para se encontrar com Deus. O silêncio permite a presença da eternidade. O silêncio pode nos levar a encontrarmos o nosso eixo. A vida nunca é o que se consegue. A vida não é o que se tem. Não pode ignorar que tudo quanto se alcança, se perde. A vida é o que se é. E só o que se é, permanece. 

Para perceber o mistério da presença de Deus em nossas vidas de cada dia, não devemos esperar grandes manifestações esplendorosas e imponentes. Basta criar o silencia na nossa meditação é que a eternidade se faz presente na nossa vida. Deus não quer “show”. O profeta Elias experimenta este mistério como um sussurro e não como um furacão. Deus está tão próximo de nós como uma brisa ligeira, como o ar que respiramos em cada instante de nossa vida e penetra imperceptivelmente toda nossa vida e o mundo inteiro. Mas ninguém repara que o ar está penetrando em corpo.

A experiência do profeta Elias é uma representação muito significativa da fé no mundo moderno, um mundo que dessacralizou a natureza pela exploração sem medida e sem limite em nome do prazer material.  Entre os pobres mais abandonados e maltratados, conta-se a nossa terra oprimida e devastada, que ‘geme e sofre as dores do parto(Rm 8, 22). Esquecemo-nos de que nós mesmos somos terra (cf. Gn 2, 7). O nosso corpo é constituído pelos elementos do planeta; o seu ar permite-nos respirar, e a sua água vivifica-nos e restaura-nos”, escreveu o Papa Francisco na Carta Enciclica Laudato Si n.2. O espirito mundano deixa o homem que se diz moderno de perceber a presença de Deus na natureza e por isso, ele maltrata a natureza.

Descobrir a presença de Deus na simplicidade e no pequeno é uma tarefa que cada cristão ou de cada crente deve fazer todos os dias. Não tenhamos medo e não deixemos que a dúvida corroa o gozo escondido da presença do Senhor na nossa vida diária, como lemos no texto do Evangelho deste dia. Precisamos sair da cova de nossas seguranças e de nossos temores, e quem sabe se temos que empreender, como o profeta Elias, uma peregrinação longa e difícil. Mas não se trata de ir de cá para lá, pois Deus é acessível em qualquer lugar, pois Ele é Onipresente. Mas trata-se de uma peregrinação interior. A superfície ou a aparência nos dá prazer, mas a interioridade nos dá vida.

Deus Continua Presente Nas Nossas Dificuldades. Podemos Contar Sempre Com Ele

O evangelho deste domingo nos apresenta o relato da caminhada de Jesus sobre as águas. O mesmo relato podemos encontrar também em Mc (Mc 6,45-52) e em Jo (Jo 6,16-21). Mt segue a tradição de Mc, mas faz algumas reformulações, especialmente o acréscimo do episódio de Pedro caminhando sobre as águas (vv.28-31) e o reconhecimento de Jesus como Filho de Deus por parte dos discípulos (v.33).

Andar sobre as águas” é uma das caraterísticas do Deus no AT; só Deus pode andar sobre as águas (Sl 77(76),20; Is 51,10). Logo, Jesus é Deus (Jo 1,1-3: 20,28), pois Ele anda sobre as águas.

No Antigo Testamento e na literatura do Oriente Antigo em geral, as águas são o símbolo das forças caóticas ou das forças rebeldes e demoníacas. As águas revoltas que ameaçam o barco dos discípulos simbolizam as dificuldades e perigos que ameaçam a comunidade cristã.

O que tem por trás do relato do evangelho de hoje? A cena inicial (vv.22-27) apresenta de maneira simbólica a situação em que se encontra a comunidade de Mt depois da ressurreição de Jesus: a comunidade sente que Jesus está longe, enquanto eles se encontram no meio de dificuldades (tempestade). As ondas e o mar representam no AT as forças do mal que Deus vence com seu poder (Sl 77; Jó 9,8;38,16). Mas agora é Jesus quem vence a esta força maligna, pois Ele é o Deus-Conosco (cf. Mt 1,23; 18,20; 28,20). Sua manifestação aos discípulos neste episódio tem todas as marcas dos relatos de aparições após a ressurreição: a cena tem lugar de noite, o mesmo que a ressurreição do Senhor; Jesus vem ao encontro dos seus (cf. Jo 20,19); os discípulos creem ver um fantasma (cf. Lc 24,37s); finalmente, Jesus se apresenta afirmando sua identidade: “Tende confiança! Sou Eu”. Jesus quer dizer aos discípulos: “Vocês não estão sós nas suas lutas, pois Eu estou sempre presente, pois Eu sou Emanuel, Deus-Conosco. Tenham certeza e consciência disso!”.

O relato começa com a separação dos discípulos de Jesus logo depois da multiplicação dos pães, e termina com o reencontro- reunião com Jesus no mesmo barco. Podemos dizer: acontecem o encontro, o desencontro e o reencontro entre Jesus e seus discípulos. E os encontros ou reencontros com Jesus sempre produzem uma mudança qualitativa naqueles que são encontrados ou com aqueles que fazem encontro com Jesus: no primeiro caso, opera-se uma passagem do medo para a fé, e no segundo, da dúvida e da pouca fé para a solidez e para a plenitude da fé.

Reflitamos Sobre Outros Pontos Do Texto Do Evangelho De Hoje!

Jesus e Oração- Cristão e Oração

Mt fala da oração de Jesus somente em duas ocasiões: aqui, no texto do evangelho de hoje e em Getsêmani (Mt 26,36-44). Em ambos os casos sua oração precede a um momento importante de prova para os discípulos. Em geral, a oração solitária de Jesus precede ou segue a algum acontecimento muito importante. Aqui, sua oração precede a sua manifestação como Filho de Deus e a prova para os seus.

Ao olhar para o modo de viver de Jesus, percebemos a dupla dimensão de seu ministério: a oração e a ação, a solidão e a solidariedade, a intimidade mais profunda com o Pai e o engajamento mais radical no serviço dos necessitados. Em Jesus as duas dimensões são vividas não só como complementares, mas como necessariamente referidas uma à outra.

O cristão deve ter consciência de que, a partir de Jesus, a vida se põe na oração e a oração se traduz na vida. A vida antes de ser vivida, deve ser rezada. A oração e a ação concreta se nutrem. A ação sem a oração pode levar alguém a fazer tudo de acordo com seu gosto e não de acordo com o espírito do Senhor, e desiste diante de qualquer dificuldade. Enquanto a verdadeira fé resiste diante de qualquer dificuldade. Sem a ação, sem traduzir em atos concretos, a oração se tornaria uma fuga da realidade. Deste jeito não seria uma oração, não seria um diálogo com Deus e sim um monólogo consigo próprio. Quando o instinto básico que nos empurra, na oração, é o desejo de segurança, o significado da fé nos resulta praticamente incompreensível, pois o dinamismo característico dos crentes, dos cristãos não é a segurança e sim a fidelidade.

Precisamos estar conscientes de que um falar sobre Jesus somente é autentico quando é o fruto de falar com Jesus, de crer nele como triunfador da morte e Senhor da existência, de experimentar em nós a evidência de seu amor salvador e da força que nos infunde. ou seja, para falar de Jesus é preciso falar, primeiro, com Ele. Desta maneira a oração será muito profunda, pois tratar-se-á do encontro com o Senhor da existência, com Aquele que dá sentido à nossa existência.          

Jesus É Deus-Conosco

Enquanto Jesus está se retirando para orar, os discípulos se encontram no meio da noite lutando contra a tempestade. Evidentemente eles estão atormentados. O barco agitado pelas ondas representa a Igreja sacudida pelas forças opostas e que por isso se sente impotente, frágil e abandonada e que luta para encontrar um rumo certo. Muitas vezes, no meio das dificuldades, pensamos, como os discípulos, que sejamos nós os que temos que fazer triunfar a Igreja com a nossa luta. Nós nos esquecemos de que o único que pode salvar a Igreja é Jesus Cristo. Somos colaboradores do Senhor. O agente principal da obra da salvação continua sendo o próprio Senhor.         

Quando Jesus vem ao encontro dos discípulos, o medo se torna maior, pois acham que é um fantasma, pois eles não reconhecem Jesus. E quando eles não reconhecem Jesus, acabam tendo medo dos fantasmas que eles mesmos criam. Nessa altura Jesus se dá conhecer: “Tende confiança. Sou Eu”. Esta frase é suficiente para acalmar os discípulos.          

A mensagem do texto é nitidamente eclesiológica. A cena simboliza a relação de Cristo com todos nós como a Igreja. A barca no meio da tempestade e no meio da noite representa a Igreja. E Jesus se revela como “Eu sou”, o Deus-Conosco (Mt 1,23;28,20). Jesus está sempre unido à sua Igreja. Quando estivermos longe dele ou nos afastarmos dele, sentiremos, como os discípulos, o medo e o pavor. Mas estes desaparecem no fim da noite, quando Jesus vai ao nosso encontro. Aparentemente, Jesus está ausente quando nos encontramos no meio da tempestade desta vida ou em perigo de morte. Mas, na realidade, Jesus está sempre unido a cada um de nós, como sua Igreja, orando por nós, pois ele é o nosso Emanuel (Mt 1,23;18,20;28,20). Mantendo a fé nele, na hora certa o Senhor vai manifestar o seu poder, libertando-nos do medo e infundindo-nos ânimo: “Tende confiança! Sou Eu! Não tenhais medo!”, assim ele nos diz, como disse aos discípulos.          

Por isso, temos que perseverar na fé, mesmo quando agitada e açoitada pelas ondas e pelos ventos de provações e de perseguições, quaisquer que sejam as dificuldades e os obstáculos no caminho que temos que percorrer para ir ao encontro com Jesus e para obedecer à missão recebida dele. A fé autentica resiste diante de qualquer tempestade da vida, pois ter fé significa estar com o Senhor do universo.

Deixemos que esta frase “Tende confiança! Sou Eu! Não tenhais medo!” penetre em nós, nos momentos mais difíceis da nossa vida. Quando ouvirmos a voz do Senhor, a paz estará presente no nosso coração, ainda que estejamos rodeados pelas provações ou dificuldades. 

Caminhar Com O Senhor Significa Experimentar Também As Provações: Lição Do Episódio De Pedro Andando Sobre As Águas          

Pedro, na sua relação com Jesus, ocupa também nesta cena um lugar central. O episódio do encontro entre Jesus e Pedro se narra somente em Mt. E de acordo com outras passagens, Pedro aparece como porta-voz do grupo dos Doze (Mt 15,15;16,16;26,33). Ele representa a figura de cada cristão. Nas suas palavras, ações e atitudes, o episódio quer nos mostrar como não deve e como deve se comportar cada cristão na Igreja de Jesus.         

Ao ver Jesus, que, como um fantasma, vai ao encontro da barca sobre o mar e diz: “Tende confiança! Sou Eu”, Pedro responde: “Senhor, se és Tu, manda-me ir sobre as águas, até junto de Ti”. É uma palavra muito forte, porque caminhar sobre as águas é exclusivo de Deus, é uma característica de Deus no Antigo Testamento ou atributo próprio de Deus (Jó 9,8;38,16). Pedro quer andar sobre as águas. Isto quer dizer que ele quer participar da condição divina de Jesus. E Jesus não duvida e convida Pedro: “Venha!”          

Uma única palavra de Jesus num tom imperativo “Vem!” basta para Pedro lançar-se ao mar e caminhar sobre as águas ao encontro de Jesus apoiado unicamente na força da Palavra de Jesus. Para quem crê, “nada será impossível” (Mt 17,20b). Na medida em que crermos incondicionalmente na palavra de Jesus, participaremos também do Seu poder.          

Mas Pedro, ao ver as ondas agitadas, sente o medo. Isto quer dizer que ele espera a condição divina sem obstáculos, sem provações, sem dificuldades, de maneira milagrosa. Ele se esquece de que o homem se faz filho de Deus no meio da oposição e perseguição do mundo (Mt 5,10s). Isto quer dizer também que Pedro quer participar do poder de Jesus, mas ele não se conhece e não sabe que esta participação significa também compartilhar as provas de Jesus, deixar-se agitar pelo vento e pelas águas desta vida. Não tinha pensado nisso, imaginava um jogo mais fácil e então, perturbado, grita: “Senhor, salva-me!”          

O grito revela o fato de que Pedro não conhecia a si mesmo, tinha presunção de si, julgava-se já capaz de qualquer coisa. E ao mesmo tempo o grito revela que ele não conhecia Jesus, porque, a uma certa altura, não mais confiou nele, não entendeu que era o Salvador e que no meio da potência do furacão, lá onde a sua fraqueza se manifesta, Jesus estava ali para salvá-lo. Este grito é, ao mesmo tempo, uma súplica, e, portanto, uma expressão de fé. Nesse momento não tem mais nada a que possa se agarrar. Só pode dirigir seu olhar suplicante a Jesus e esperar que ele o salve estendendo-lhe a mão.          

O gesto de Jesus que estende a mão para salvar Pedro do perigo mortal evoca as imagens bíblicas do AT, especialmente dos Salmos, em que o Senhor estende a sua mão direita para salvar o orante que o invoca nos momentos de angústias e que se encontra no perigo da morte (cf. Sl 18,17;32,6; 69,2.5;144,7;Is 43,2 etc.). 

Homem fraco na fé, por que duvidaste?” disse Jesus a Pedro. Esta frase expressa um afeto e uma correção. Devemos ouvir sempre esta frase para que nossa fé seja mais forte, pois uma fé forte, que não se deixa invadir pelo medo nem contaminar pela dúvida é capaz de transportar montanhas ou de atravessar tormentas, e chegar ao encontro com Jesus.          

Por isso, não basta deixar-se encantar pela sublimidade dos ensinamentos e dos milagres de Jesus. É necessário deixar-se transformar por suas palavras e descobrir para além dos milagres quem é Jesus para mim e buscar imitar seu modo de proceder e de viver. Só assim a fé se torna consistente, capaz de superar as provações, os obstáculos etc.          

Pedro, por um lado, é o exemplo para todos os fiéis na grandeza e na fortaleza da fé incondicional, que ao reconhecer a voz e a pessoa de Jesus, sente-se irresistivelmente atraído por ele, mesmo que tenha que atravessar tempestades ou caminhar sobre as águas. Mas por outro lado, Pedro é igualmente um paradigma da pequenez e da fraqueza da fé dos seguidores. A fé de cada um de nós tem, como a de Pedro, altos e baixos.           

Perguntamos: por que Pedro quase afundou? Porque ele olhou mais para as águas agitadas ameaçadoras do que para o Senhor. Mas quando ele voltou a olhar para o Senhor, as águas agitadas não mais o ameaçaram, mas se tornaram uma estrada para ele caminhar ao encontro do Senhor.          

Também nós, quando nos encontramos no meio da tormenta ou do sofrimento, em perigo iminente de “perder a vida”, muitas vezes nos esquecemos de olhar para o Senhor e de ouvir a Sua voz, e, por isso, começamos a duvidar e a afundar nos nossos problemas. Se fixarmos o nosso olhar para o Senhor, creio que, como Pedro, os nossos problemas vão se tornar para nós uma estrada, pois só o Senhor é quem pode arrancar-nos do abismo que ameaça devorar-nos, estendendo para nós a sua mão: uma mão poderosa e caridosa.          

A partir desta mensagem, devemos fazer com muita confiança a petição do “conhecimento interno” de Jesus, de conhecê-lo cada dia mais profundamente, de deixar-nos encontrar sempre de novo por ele, de segui-lo cada dia de maneira mais fiel e mais incondicional, sejam quais forem as tormentas e as noites que tivermos que atravessar. O Senhor tem sempre a sua mão estendida para que nos agarremos a ela. Somos chamados a olhar para Jesus. Deixar de olhar para ele é naufragar, é incapacitar-se para dar um passo adiante, mesmo em terra firme de nossa vida. Quando a fé se torna pequena, as dificuldades ficam gigantescas., para quem não passou 

Palavras De Alguns Padres Da Igreja Sobre o Evangelho De Hoje: 

1. Coragem! Sou Eu!”. Se em alguma ocasião chegássemos a tombar no recife das tentações, recordemos que foi Jesus quem nos mandou subir na barca da prova, e que quer que Lhe precedamos na margem oposta. Pois é impossível, para quem não passou pela tentação das ondas e do vento contrário, chegar àquela margem.  ... Quando víssemos que o Verbo nos aparece, talvez nos assustemos  antes de percebermos de que estamos na presença do Salvador, e, crendo ver um fantasma, gritaremos atemorizados, mas Ele nos dirá em seguida: Coragem, sou Eu, não tenham medo! (Orígenes, Séc. III, In Comentário ao Evangelho de São Mateus 11,6-7, PG 13,919-923). 

2.    Senhor, salva-me, porque estou afundando”. O Evangelho que nos foi proclamado e que recolhe o episódio de Cristo, o Senhor, andando sobre as ondas do mar, e do Apóstolo Pedro, que ao caminhar sobre as águas vacilou sob a ação do temor, duvidando se afundava e confiando novamente saiu flutuando, nos convida a ver no mar um símbolo do mundo atual, e no Apóstolo Pedro a figura da única Igreja. ... Contemplando a este membro da Igreja (Pedro), tratemos de discernir nele o que procede de Deus e o que procede de nós. Deste modo não vacilaremos, mas estaremos fundamentados sobre a pedra, estaremos firmes e estáveis contra os ventos, as chuvas e os rios, isto é, contra as tentações do mundo presente. Observai, pois, nesse Pedro que então era nossa imagem: algumas vezes confia, outras vacila; algumas vezes confessa imortal e outras teme que morra. Por isso, porque a Igreja tem membros seguros, tem também inseguros, e não pode subsistir sem seguros nem sem inseguros. Naquilo que Pedro disse: Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo, representa os que são seguros; no fato de tremer e vacilar, não querendo que Cristo  padecesse, temendo a morte e não conhecendo a Vida, representa aos inseguros da Igreja. (Sto. Agostinho, bispo e doutor da Igreja, séc. V In Sermão 76,1.4-6.8-9, PL 38, 479-483).

3.    “Deus está em todas as partes, é imenso e está próximo de todos, conforme atesta de si mesmo: Eu sou, diz, um Deus próximo, e não distante. O Deus que buscamos não está longe de nós, já que está dentro de nós, se somos dignos de sua presença. Habita em nós como a alma no corpo, na condição de que sejamos seus membros sãos, de que estejamos mortos ao pecado” (São Columbano, séc. VII In Instrução sobre a fé 1,3-5. Opera omnia. Dublin1957, p. 62-66)

P. Vitus Gustama,svd

Terça-feira Da XIX Semana Comum, Ano Par, 11/08/2026

FRATERNIDADE VIVIDA É CONSEQUÊNCIA DA FILIAÇAO DIVINA Terça-Feira da XIX Semana Comum Primeira Leitura: Ez 2,8-3,4 Assim fala o Senhor...