domingo, 13 de setembro de 2026

Sexta-feira Da XXIV Semana Comum, Ano Par, 18/09/2026

HOMENS E MULHERES SÃO CHAMADOS A SER EVANGELIZADORES

Sexta-Feira da XXIV Semana Comum

Primeira Leitura: 1Cor 15,12-20 (Ano Par)

Irmãos, 12 ora, se se prega que Cristo ressuscitou dos mortos, como podem alguns dizer entre vós que não há ressurreição dos mortos? 13 Se não há ressurreição dos mortos, então Cristo não ressuscitou. 14 E se Cristo não ressuscitou, a nossa pregação é vã e a vossa fé é vã também. 15 Nesse caso, nós seríamos testemunhas mentirosas de Deus, porque teríamos atestado — contra Deus — que ele ressuscitou Cristo, quando, de fato, ele não o teria ressuscitado — se é verdade que os mortos não ressuscitam. 16 Pois, se os mortos não ressuscitam, então Cristo também não ressuscitou. 17 E se Cristo não ressuscitou, a vossa fé não tem nenhum valor e ainda estais nos vossos pecados. 18 Então, também os que morreram em Cristo pereceram. 19 Se é para esta vida que pusemos a nossa esperança em Cristo, nós somos — de todos os homens — os mais dignos de compaixão. 20 Mas, na realidade, Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram.

Evangelho: Lc 8,1-3

Naquele tempo: 1 Jesus andava por cidades e povoados, pregando e anunciando a Boa Nova do Reino de Deus. Os doze iam com ele; 2 e também algumas mulheres que haviam sido curadas de maus espíritos e doenças: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios; 3Joana, mulher de Cuza, alto funcionário de Herodes; Susana, e várias outras mulheres que ajudavam a Jesus e aos discípulos com os bens que possuíam.

----------------------------

Crer Na Ressurreição É Crer Na Vida Que Não Conhece a Morte

Se Jesus Cristo não ressuscitasse, seria vã a nossa pregação e seria vã também a vossa fé”, disse são Paulo aos Coríntios.

Os Coríntios acreditam na imortalidade da alma, segundo a filosofia grega. Mas eles negam a possibilidade da ressurreição dos mortos. Para o pensamento grego é impensável que o corpo que eles desprezam e o consideram como o cárcere da alma, possa ser transformado para uma vida nova. Muitos membros da comunidade de Corinto seguem este pensamento. 

São Paulo faz, então, um ataque forte contra esses cristãos na Comunidade de Corinto.  Para são Paulo negar a ressurreição dos mortos é negar a ressurreição de Cristo com quem são Paulo encontrou a caminho de Damasco (At 9,1-9). Como se são Paulo quisesse dizer aos Coríntios: Eu vi pessoalmente Cristo ressuscitado. Como é que  eu negaria o meu encontro pessoal com o Ressuscitado? Em outras palavras, são Paulo quer afirmar para os Coríntios a certeza da ressurreição por causa do próprio Ressuscitado, Jesus Cristo. Daqui podemos entender a afirmação de são Paulo ao escrever: “Se Jesus Cristo não ressuscitasse, seria vã a nossa pregação e seria vã também a vossa fé”. Negar a ressurreição de Cristo é negar nossa fé e nossa salvação, pois quem nos salva é Cristo. No texto do dia anterior são Paulo reafirmava a verdade central da fé, que Cristo ressuscitou. Hoje prossegue seu raciocínio: nosso destino, como seguidores de Cristo é o mesmo que o destino de Cristo. Para são Paulo nossa sorte está tão intimamente à de Cristo. Se Cristo ressuscitou, segui-Lo vale a pena.

A convicção na ressurreição, a parte central de todo nosso Credo e da Boa Notícia que Deus anuncia à humanidade é o que dá sentido e enche de esperança nossa vida: Cristo ressuscitou e nós também estamos destinados, ainda que não saibamos como, à vida eterna, como Cristo e com Ele.

Se não ressuscitássemos, tampouco Cristo. Se Cristo não ressuscitasse, tampouco nós. Mas o grito de são Paulo, que é também nosso grito, já desde mais de dois mil anos: Cristo ressuscitou e nós vamos ressuscitar também como Ele. Cristo ressuscitou dentre os mortos, o Primeiro de todos!

Nós mesmos temos que crer nesta fé, pois a fé na ressurreição nos dará ânimos para tudo e que nossa futura ressurreição está garantido. E por isso, vale a pena comunicarmos esta fé para os outros. Esta fé é que mais pode nos ajudar a vivermos esta vida com um norte cheio de esperança. A partir de Cristo Ressuscitado e a partir da fé n´Ele, a última palavra não vai ser a morte, e sim a vida, e a felicidade plena na presença de Deus. Se não fosse verdade isto, não valeria a pena seguirmos a Jesus Cristo. A partir da ressurreição do Senhor em quem acreditamos não vivemos mais para morrer e sim morremos para viver; a vida não pertence mais à morte e sim a morte pertence à vida.

É uma reflexão que não somente devemos recordar quando celebramos as exéquias de nossos seres queridos e sim, sempre, pois é a verdadeira fonte e a verdadeira força para continuar nossa luta pela dignidade de cada ser humano. A fé na ressurreição dá tom pascal para toda nossa vida: trata-se de um tom sério e cheio de confiança ao mesmo tempo. Na Eucaristia que celebramos já antecipamos de alguma maneira esta vida definitiva, pois celebramos a ressurreição do Senhor em cada Eucaristia e portanto, nossa futura ressurreição. “Quem come minha carne e bebe meu sangue tem a vida eterna”.

Homens e Mulheres São Chamados a Ser Evangelizadores

Jesus andava por cidades e povoados, pregando e anunciando a Boa Nova do Reino de Deus. Os doze iam com ele; e também algumas mulheres”: Maria, chamada Madalena, Joana, mulher de Cuza, alto funcionário de Herodes; Susana, e várias outras mulheres que ajudavam a Jesus e aos discípulos com os bens que possuíam”.

O evangelista Lucas se detém para apresentar a pequena comunidade itinerante, que serve como modelo para a vida da Igreja para a qual ele dirige seu evangelho. Jesus é acompanhado pelos “Doze” que intencionalmente foram escolhidos através de uma oração a noite inteira (cf. Lc 6,12-16). Mas Lucas também menciona de propósito algumas mulheres com seus nomes que acompanham o ministério de Jesus. Mais adiante, em Lc 10,39, Lucas vai dizer que entre os discípulos há também discípulas. Uma dessas discípulas é Maria, irmã de Marta, pois a expressão “Maria ficou sentada aos pés do Senhor” significa que Maria é discípula. “Ficar sentado aos pés de um mestre” significa “ser discípulo” (veja At 22,3: Paulo era o discípulo de Gamaliel).

As mulheres tiveram um grande papel na comunidade primitiva (Rm 16,1;  At 1,14; 12,12; 16,13s; 17,4.12.34). A própria Maria, Mãe do Senhor, modelo da Igreja e do fiel, figura do povo de Deus, a filha de Sião, aquela que guarda a Palavra de Deus nos seu coração é apresentada nos dois primeiros capítulos do Evangelho de Lucas. Maria escuta as Sagradas Escrituras e torna-se a esposa do Espírito Santo que gera a vida nova; é a nova Eva, mãe dos viventes. Os rabinos não admitiam as mulheres no círculo dos discípulos (veja Jo 4,27).

Em outras palavras, o evangelista Lucas afirma que, com os Doze, havia um grupo de mulheres que seguiam a Jesus. O evangelista Lucas é o único que menciona os nomes das mulheres que acompanhavam Jesus ao longo de suas viagens ou na sua missão itinerária. Essas mulheres são um bom símbolo das incontáveis mulheres que ao longo dos séculos deram na Igreja testemunho de uma fé rica e generosa: religiosas, leigas, missioneiras, catequistas, ministras extraordinárias da comunhão eucarística, as celebrantes, as mulheres testemunhas qualificadas para o matrimônio,  mães de família, enfermeiras, doutoras, mestras e assim por diante, que ajudaram Jesus em vida e que colaboraram eficazmente na missão da Igreja, cada uma a partir de sua situação, entregando seu tempo, seu trabalho e também sua ajuda econômica. Temos que agradecer a Deus pelo empenho de tantas mulheres na missão evangelizadora. O papel das mulheres na Igreja de Jesus hoje em dia já um fato incontestável.

Lucas é designado como “o Evangelho das mulheres”. Ele dá atenção e valoriza a mulher, precisamente por ela ser como “menor”, “pobre”. Por não ser valorizado a mulher fazia parte dos “pequenos” e marginalizados. Entre os quatro evangelistas, Lucas é aquele que mais dignifica, valoriza, enaltece e exalta o papel da mulher.

Para Deus Eu Tenho Nome e Sou Chamado Pelo Nome

Maria Madalena, Joana e Suzana! São nomes das mulheres, segundo o texto do evangelho deste dia, que também acompanhavam Jesus no seu trabalho de levar a Boa Nova para todos, especialmente para os excluídos da sociedade. Uma é casada, Joana, a mulher de Cuza, alto funcionário de Herodes. Outra é uma mulher renascida à vida nova graças à intervenção de Jesus que a resgatou da morte (libertada de sete demônios, segundo o evangelho), Maria Madalena. E a terceira, Suzana, é uma discípula da qual somente sabemos seu nome, mas que estava lá.

Maria Madalena, Joana e Suzana! Para o evangelista Lucas é muito importante mencionar seus nomes. Ter nome é ter dignidade, é ser gente! Ter nome é ser alguém e não ser número. É ser pessoa. Ter nome é ter personalidade. Chamar alguém e ser chamado pelo nome é sinal de intimidade. Entre dois amigos os títulos ficam de lado; cada um é chamado pelo nome. Em casa cada um tem seu nome e é chamado pelo nome e não pelo titulo. Para Deus eu tenho nome e Deus me chama pelo nome: “Eu te chamo pelo nome, és meu” (Is 43,1). E que meu nome está gravado na palma da mão de Deus e por isso, Ele jamais me esquecerá: “Pode uma mulher esquecer-se daquele que amamenta? Não tem ternura pelo fruto de suas entranhas? E mesmo que ela o esquecesse, eu não te esquecerei nunca. Eis que estás gravado na palma de minhas mãos” (Is 49,15-16). Deus nunca pode olhar Sua mão sem ver o meu nome. E meu nome quer dizer EU mesmo. Sou feliz por eu ser o que sou para Deus. Para sociedade em geral posso não ter nome, mas para Deus eu tenho nome. Eu sou uma pessoa e não um número para Deus. Quantas vezes saia dos lábios de Jesus os seguintes nomes: Maria Madalena, Joana, Suzana. Jesus as chamava pelo nome.

Diante de Deus Todos São Iguais

Maria Madalena, Joana e Suzana são seguidoras de Jesus junto com os doze Apóstolos. Esta frase tinha um grande peso para a sociedade da época de Jesus.

Na Palestina a estrutura social era patriarcal. Ou na linguagem mais popular: uma sociedade machista. O pai era o único que tinha direito de dispor, dar ordens, castigar, pronunciar as orações, oferecer os sacrifícios. A mulher era considerada em tudo inferior ao homem. Ela pertence completamente ao seu “dono”: ao pai, se for solteira; ao marido, se for casada; ao cunhado solteiro, se for viúva sem filhos (Dt 25,5-10).      

No Templo e na sinagoga homens e mulheres ficavam rigorosamente separados: as mulheres sempre em lugares inferiores, secundários. O culto na sinagoga era celebrado apenas caso houvesse ao menos 10 homens. As mulheres não contavam, por mais numerosas que fossem. 

A mulher não podia atuar como testemunha num tribunal, nem como testemunha de acusação. Apoiando-se em Gn 18,11-15, consideravam que seu testemunho carecia de valor por causa de sua inclinação à mentira. Os rabinos da época excluíam as mulheres do circulo de seus discípulos.

Jesus se levanta contra esse sistema sociorreligioso, dominante e opressivo para a mulher. Com sua atuação concreta, Jesus dá à mulher o seu devido lugar na vida social e religiosa. Para sua época essa atitude era considerada revolucionária e audaciosa! O que tem por trás da atitude de Jesus é o amor. E o amor é capaz de fazer até o impossível (cf. Jo 3,16). Tendo acompanhado Jesus desde o começo de seu ministério público, como os Doze, as mulheres discípulas eram iguais aos homens para o anúncio da Boa Nova (cf. Jo 4,28-29). Para Jesus, a mulher tem a mesma dignidade, categoria e direitos que o homem. Por isso, Jesus admite em sua comunidade homens judeus e mulheres judias com os mesmos direitos de aprender, de ser discípulos-discípulas, seguidores-seguidoras de Jesus pelo Reinado de Deus. As exigências e responsabilidades do seguimento são iguais para todos, homens e mulheres. A tradição nos relata que as primeiras aparições do Ressuscitado foram feitas para as mulheres (Lc 24,10) e precisamente às que Lucas anota no texto do evangelho deste dia.

Que belo é ver como desde as origens apostólicas, Jesus conta com as mulheres em plano de igualdade. Não faz plano machista do seguimento. Cria uma comunidade mista.

As mulheres não são meras assistentes dos homens e sim autênticas protagonistas da vida e missão da Igreja. Atuar de outra maneira é infidelidade ao Senhor que desde o princípio contou com elas. Elas serviam, punham seus bens ao serviço de Jesus e sua missão.

A Palavra de Deus de hoje quer nos enfatizar que todos, mulheres e homens, são chamados de igual maneira a proclamar a Boa Notícia. O Reino de Deus é uma Boa Notícia. No meio da superabundância de notícias ruins, o cristão e a cristã, a exemplo de Cristo, devem pregar a Boa Notícia. Martin Luther King dizia que o grande problema não é o avanço da maldade ou do mal, mas o silêncio dos bons. Em certo sentido, ficar calado pode ser até uma manifestação da prudência. Mas se ficar calado diante da maldade pode significar a cumplicidade.

Homens e mulheres são chamados a colaborar na evangelização a partir de seu próprio talento e de outras contribuições como as três mulheres citadas no evangelho deste dia. Assim um completa o outro para uma perfeita evangelização. Victor Hugo escreveu que o homem e a mulher se complementam para edificar a dignidade de um ser humano. Evangelizar significa dignificar a vida humana. Deveríamos ser mais abertos em nossa ideia teológica e social da Igreja. A Igreja do Senhor é de todas as pessoas de boa vontade para levar adiante a causa de Jesus: homens e mulheres, jovens e adultos, crianças e adolescentes. Não só de uma etnia, mas pluralista. Todos os cristãos temos algo em comum: fé e ação evangelizadora. “Todo aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mt 12,49-50).

P. Vitus Gustama,svd

Quinta-feira Da XXIV Semana Comum, Ano Par, 17/09/2026

A MISERICÓRDIA DIVINA QUE ATUA SOBRE A MISÉRIA DO HOMEM PARA SALVÁ-LO

Quinta-Feira da XXIV Semana Comum

Primeira Leitura: 1Cor 15,1-11 (Ano Par)

1 Irmãos, quero lembrar-vos o evangelho que vos preguei e que recebestes, e no qual estais firmes. 2 Por ele sois salvos, se o estais guardando tal qual ele vos foi pregado por mim. De outro modo teríeis abraçado a fé em vão. 3 Com efeito, transmiti-vos, em primeiro lugar, aquilo que eu mesmo tinha recebido, a saber: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; 4 que foi sepultado; que ao terceiro dia, ressuscitou, segundo as Escrituras, 5 e que apareceu a Cefas e, depois, aos Doze. 6 Mais tarde, apareceu a mais de quinhentos irmãos, de uma vez. Destes, a maioria ainda vive e alguns já morreram. 7 Depois, apareceu a Tiago e, depois, apareceu aos apóstolos todos juntos. 8 Por último, apareceu também a mim, como a um abortivo. 9 Na verdade, eu sou o menor dos apóstolos, nem mereço o nome de apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus. 10 É pela graça de Deus que eu sou o que sou. Sua graça para comigo não foi estéril: prova é que tenho trabalhado mais do que os outros apóstolos – não propriamente eu, mas a graça de Deus comigo. 11 É isso, em resumo, o que eu e eles temos pregado e é isso o que crestes.

Evangelho: Lc 7,36-50

Naquele tempo: 36 Um fariseu convidou Jesus para uma refeição em sua casa. Jesus entrou na casa do fariseu e pôs-se à mesa. 37 Certa mulher, conhecida na cidade como pecadora, soube que Jesus estava à mesa, na casa do fariseu. Ela trouxe um frasco de alabastro com perfume, 38 e, ficando por detrás, chorava aos pés de Jesus; com as lágrimas começou a banhar-lhe os pés, enxugava-os com os cabelos, cobria-os de beijos e os ungia com o perfume. 39 Vendo isso, o fariseu que o havia convidado ficou pensando: "Se este homem fosse um profeta, saberia que tipo de mulher está tocando nele, pois é uma pecadora". 40 Jesus disse então ao fariseu: "Simão, tenho uma coisa para te dizer". Simão respondeu: "Fala, mestre!" 41 "Certo credor tinha dois devedores; um lhe devia quinhentas moedas de prata, o outro cinqüenta. 42 Como não tivessem com que pagar, o homem perdoou os dois. Qual deles o amará mais?" 43 Simão respondeu: "Acho que é aquele ao qual perdoou mais". Jesus lhe disse: "Tu julgaste corretamente". 44 Então Jesus virou-se para a mulher e disse a Simão: "Estás vendo esta mulher? Quando entrei em tua casa, tu não me ofereceste água para lavar os pés; ela, porém, banhou meus pés com lágrimas e enxugou-os com os cabelos. 45 Tu não me deste o beijo de saudação; ela, porém, desde que entrei, não parou de beijar meus pés. 46 Tu não derramaste óleo na minha cabeça; ela, porém, ungiu meus pés com perfume. 47 Por esta razão, eu te declaro: os muitos pecados que ela cometeu estão perdoados porque ela mostrou muito amor. Aquele a quem se perdoa pouco mostra pouco amor". 48 E Jesus disse à mulher:  "Teus pecados estão perdoados". 49 Então, os convidados começaram a pensar:  "Quem é este que até perdoa pecados?" 50 Mas Jesus disse à mulher: "Tua fé te salvou. Vai em paz!"

___________________________

Crer Na Ressurreição É a Fé Cristã, Pois Cristo Ressuscitou

“... transmiti-vos, em primeiro lugar, aquilo que eu mesmo tinha recebido, a saber: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; que foi sepultado; que ao terceiro dia, ressuscitou, segundo as Escrituras..”

Nesta frase são Paulo faz a afirmação sobre a ressurreição baseando-se sobre a Tradição apostólica: “transmiti-vos aquilo que eu mesmo tinha recebido...”. Trata-se de uma espécie de primitiva confissão de fé na ressurreição do Senhor. São Paulo transmite com absoluta fidelidade o que recebeu. A transmissão, se estrutura em três tempos: a afirmação do fato (morte/ressurreição), comprovação experimental do mesmo (sepultamento-aparições) e testemunho da Sagrada Escritura. São Paulo não citou nenhum texto da Sagrada Escritura. Mas pode-se pensar que são Paulo esteja evocando Is 53,8-9, o quarto poema do servo do Senhor.

O capitulo 15 da Primeira Carta de são Paulo aos Coríntios é longo e trata de um dos temas com que preocupavam muito os gregos: a RESSURREIÇÃO dos mortos e não a imortalidade da alma.

Para os gregos era difícil crer na ressurreição corporalmente. Sua filosofia afirmava que a alma é imortal, mas não chegava a conceber a ressurreição do corpo: era uma concepção dualista do ser humano, ao contrário, da concepção judaica que afirmava uma unidade muito maior na pessoa humana. A imortalidade da alma é uma afirmação, uma convicção, um conceito da filosofia grega. Para os gregos, a alma humana é uma partícula da substância divina e esta partícula está exilada e presa num corpo humano. Como tal, a alma luta para libertar-se e para purificar-se da matéria que a aprisiona e a mancha. Com efeito, cada nascimento de uma pessoa significa uma queda para a alma, pois o pedacinho da divindade cai para a matéria. Quando se libertar e se purificar, a alma voltará para a divindade de onde saiu, pois a alma é imortal. Consequentemente, para os gregos o corpo era a prisão da alma, e a morte era o momento da libertação da escravidão ou da prisão da matéria.

Recordamos, por exemplo, o fracasso de são Paulo na sua pregação em Atenas: os gregos escutaram amavelmente a pregação de são Paulo até o momento em que lhes começou a falar da ressurreição (Cf. At 17,16-34)

No texto da Primeira Leitura de hoje, são Paulo dá testemunho da verdade básica da fé cristã: que Cristo ressuscitou. A ressurreição é uma afirmação, uma convicção nascida do Evangelho; é um conceito bíblico: “Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; que foi sepultado; que ao terceiro dia, ressuscitou, segundo as Escrituras...”.  Este conceito tem suas raízes no Antigo Testamento e seu desenvolvimento no Novo Testamento. Para são Paulo a ressurreição é a plenitude de vida, a continuação da vida pessoal em corpo e alma. A imortalidade é dom de Deus ao homem: este passará a participar da vida divina por dom e graça. O homem alacançará esta vida divina através de um processo de transformação e de conversão permanente. Trata-se de um novo nascimento.

Para enfatizar mais sua convicção sobre a fé na ressurreição são Paulo enumera uma série  de aparições do Ressuscitado, algumas narradas também pelos evangelhos e outras não, como, por exemplo, a aparição do Ressuscitado aos quinhentos irmãos de uma vez: “Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; que foi sepultado; que ao terceiro dia, ressuscitou, segundo as Escrituras, e que apareceu a Cefas e, depois, aos Doze. Mais tarde, apareceu a mais de quinhentos irmãos, de uma vez. Destes, a maioria ainda vive e alguns já morreram. Depois, apareceu a Tiago e, depois, apareceu aos apóstolos todos juntos. Por último, apareceu também a mim, como a um abortivo. Na verdade, eu sou o menor dos apóstolos, nem mereço o nome de apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus” (1Cor 15,3-9).

Isto é a Igreja prega. O que uns e outros anunciam é a ressurreição de Jesus, a base sobre a qual se apoia a fé cristã. Por isso, quando falamos de “evangelização” queremos dizer o mesmo que são Paulo: a comunidade cristã vai anunciando que Jesus ressuscitou e continua vivo e vive entre nós (Cf. Mt 28,20) e que nós, que cremos no Senhor Ressuscitado, estamos destinados à vida, como nossa Cabeça e Guia, Jesus Ressuscitado.

Cristo venceu a morte é a base de nossa fé. Não se trata mais de um milagre e sim do acontecimento por excelência, em que Deus mostrou qual é seu programa de salvação que encabeça em Cristo e continuará em nós. Talvez os homens de hoje custem entender isso como os gregos de então, cheios de outras sabedoria humanas. Mas os planos de Deus são distintos dos nossos e seu Espirito continua atuando, o Espirito que é “Doador de vida”.

Para nós cristãos morrer é abrir aquilo que vivemos na terra. Quem vive no banquete com os irmãos na terra será aberta para ele a porta do banquete do céu. A eternidade é uma opção na terra.  Quando nos esforçamos por ser através de amar discriminatoriamente, chegaremos para o estado mais que existir. Amar é uma forma de viver para sempre. Dizer a alguém: “Eu te amo” equivale a lhe dizer: “Tu nunca morrerás”. Como é bom amar em Deus, pois continuaremos a viver em Jesus Ressuscitado. Somente o amor permite afrontar a morte, pois amar é abrir-se aos outros, entrar no mundo do outro e do Outro, é passar para outro mundo. Se amarmos os outros suficientemente, nossa morte assemelha ao nosso amor. Abrir-se à morte é como abrir-se ao amor: ambos exigem sair de si. Isso cremos. Temos que viver e pregar tudo isso.

Mas podemos também atuar com coração mesquinho, como os fariseus, no Evangelho de hoje, que julgam e condenam todos ou como o irmão maior do filho pródigo que recrimina de uma maneira intransigente  ou como Simão, o fariseu, e os outros convidados que não devem ser pessoas más (pois convidaram Jesus para uma refeição), mas não sabem ainda ser benévolas e amar.

Quem Tem Amor No Coração Não Julga Nem Condena Quem Erra

O evangelho fala da misericórdia. Misericórdia é um dos temas preferidos do evangelista Lucas. No AT lemos: “Sejam santos porque Deus é santo(cf. Lv 20,7). O evangelista Mateus diz: “Sejam perfeitos como o Pai celeste é perfeito(Mt 5,48). E o evangelista Lucas diz: “Sejam misericordiosos como o Pai de vocês é misericordioso(Lc 6,36). Para o evangelista Lucas para ser santo, para ser perfeito só há um caminho: ser misericordioso.

O que significa a palavra “Misericórdia”. É a tradução da palavra hebraica RAHAMÎNS, que deriva da palavra REHEM. Rehem quer dizer o útero materno. O útero materno recebe, mantém e dá a vida, oferecendo ao feto, a cada segundo tudo de que ele necessita para viver. O amar do Pai, a Palavra de Deus e Jesus Cristo são como o útero materno que alimenta, cuida, mantém e dá vida. A vida, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo alimenta o mundo, sustenta o mundo; o mundo quer dizer todos os seres humanos. Misericórdia é dar o coração ao miserável. É amar até aquele que não merece ser amado. Mas por ser útero da humanidade, Deus é sempre misericordioso para todos os que não se cansam de pedir o perdão a Deus. Para eles também Deus não se cansa de perdoar. Por causa de sua misericórdia Deus tem estar contra a si próprio, pois ele poderia usar de justiça contra os pecadores. ”A misericórdia de Deus será sempre maior que a tua ingratidão”, dizia São Padre Pio de Pietrelcina.

O Deus que Lucas nos apresenta através do evangelho de hoje é um Deus de bondade e de misericórdia, que detesta o pecado, mas ama o pecador. Ele não pactua com o pecado, mas está ao lado do pecador e manifesta uma misericórdia infinita para com o pecador arrependido. O amor de Deus pelo homem é um amor essencialmente misericordioso, pois é dado a alguém que se tornou indigno, pela soberba, pela desobediência, pela ingratidão, pelos pecados, pela maldade, pela rebelião e assim por diante. E Deus ama o homem a ponto de fazer-se homem em Jesus Cristo: ele veio para o nosso meio, viveu como nós e ofereceu sua vida por nós. Ele nasceu nosso nascimento, viveu nossa vida, experimentou nosso medo, morreu nossa morte e ressuscitou nossa ressurreição.

A misericórdia não é simplesmente amor: é um amor que não conhece limites, barreiras, obstáculos, fronteiras: é um amor que sabe amar também quem se tornou  indigno do amor. Enquanto o amor diz somente doação, a misericórdia diz super doação. A misericórdia é um especial poder do amor, que prevalece sobre o ódio, a infidelidade, a deslealdade, a ingratidão. Como diz João Paulo II: “Esse amor misericordioso é capaz de curvar-se ante o filho pródigo, ante a miséria humana e, sobretudo, ante a miséria moral, ante o pecado. A misericórdia se manifesta em seu aspecto verdadeiro e próprio quando valoriza, promove e explicita o bem em todas as formas de mal existente no mundo e no homem” (Dives in misericordia, no.6).

Nesse gesto extremo do seu amor evidenciam-se duas verdades: a grande consideração de Deus pelo homem, Deus sempre está do lado do homem e contra o mal; e mostra o amor infinito que ele derrama sobre o homem. Este amor misericordioso de Deus sempre persegue o homem na sua aventura espiritual, nas suas fugas de Deus, nas suas rebeldias, na sua perversa ingratidão e na sua profunda miséria.

O evangelista Lucas relata a cena do evangelho de hoje com elegância e detalhes muito significativos. Há contraste entre o fariseu, Simão que convida Jesus para uma refeição, e aquela mulher pecadora que ninguém sabe como chegou a entrar na festa e fez gestos de afeto para Jesus. Mais ainda! Perdoar uma mulher pecadora (prostituta) precisamente na casa de um fariseu que convidou Jesus é um pouco provocativo. Não é raro que se escandalizaram os presentes: ou porque Jesus não conhecia que tipo de mulher era aquela ou que Jesus não reagia diante de seus gestos de afetos.

Mas Jesus quer transmitir uma mensagem básica e fundamental em sua pregação e missão: a importância do amor e do perdão. Para amar de verdade o cristão precisa aprender a perdoar. O argumento de Jesus vai para duas direções. A mulher é perdoada porque ama muito: “... os muitos pecados que ela cometeu estão perdoados porque ela mostrou muito amor. Aquele a quem se perdoa pouco mostra pouco amor”.

A cena nos faz repensar nossa conduta com os que consideramos “pecadores”. Como os tratamos? Podemos atuar com coração mesquinho, como os fariseus que julgam e condenam todos, ou como o filho mais velho da parábola do filho pródigo (cf. Lc 15,11-32) que recrimina de modo transigente o seu irmão que voltou para a casa arrependido, ou como Simão, o fariseu e os outros convidados, que não devem ser pessoas más (porque convidaram Jesus para uma refeição), mas que não sabem ser benévolos e amar. Ou podemos nos comportar como o pai do filho pródigo, e sobretudo como o próprio Jesus que perdoa a mulher pecadora que se arrependeu, e Zaqueu, o publicano, e tem palavras de ânimo para essa mulher que entrou em sala de banquete e unge os pés de Jesus. Deus é rico em misericórdia. Jesus é a encarnação da misericórdia divina. e nós todos somos chamados de cristãos, isto é, aqueles que querem viver como Cristo. “Quero a misericórdia e não o sacrifício” (Mt 9,13; Os 6,6). Portanto, “Sede misericordiosos como, como também vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36).

Vamos fazer um pouco de exame de consciência através da comparação de dois personagens no evangelho de hoje.

1. A mulher não tem nome por ser prostituta. Mas reconhece Jesus como Salvador. Simão, o fariseu tem nome até o sobrenome. No entanto não reconhece Jesus como Salvador.

2. A mulher demonstra toda a humildade e é elevada por Jesus por sua humildade. Simão, o fariseu, só vive e busca a arrogância. Um arrogante possui todos os vícios: egoísta, injusto, ingrato, imoral e fanfarrão. A arrogância é o pai de todos os vícios. Por buscar somente a arrogância, não há na vida de Simão o lugar para o amor e Deus se torna distante.

3. A mulher reconhece a situação como prostituta e se esforça para mudar. Simão, o fariseu, nega sua situação de pecador e não aceita mudar. Cada santo se reconhece como pecador, mas cada pecador se acha santo.

4. A mulher não julga e pede a compaixão e a misericórdia ao Senhor. Simão, o fariseu, julga e dispensa a misericórdia. “O julgamento será sem misericórdia para aquele que não pratica a misericórdia. A misericórdia, porém, desdenha o julgamento(Tg 2,13). Oscar Wilde escreveu: “Todo santo tem um passado, todo pecador tem um futuro.”. Muito santos, entre os quais santo Agostinho também cometeu erros (basta ler as Confissões de Santo Agostinho). Quem errou no passado não está condenado definitivamente. Há sempre a nova chance para a salvação. Um criminoso crucificado ao lado do Senhor crucificado basta dizer ao Senhor: “Jesus, lembra-te de mim quando vieres com Teu Reino”, ao que Jesus respondeu: “Hoje mesmo tu estarás comigo no Paraíso(Lc 23,40-43) .

5. A mulher se liberta do pecado e alcança a graça de Deus. Simão aumenta seu pecado e fica distante da graça de deus.

A mulher pecadora é um exemplo de conversão. Sua conversão implica claramente o propósito. Sua conversão é experimentalmente conversão a Alguém, e não somente uma nova forma de pensar ou uma resposta para as próprias obrigações. A conversão é, para essa mulher, comunhão com Jesus. Por isso, a conversão é o caminho para a felicidade e para uma vida plena. Não é algo penoso e sim sumamente gozoso, pois é o caminho da libertação.

Para Jesus as verdadeiras pessoas de Deus são aquelas pessoas capazes de se converter em fonte de vida para os demais. Jesus mostra ao fariseu, Simão, que o mais importante não é a rígida disciplina religiosa e sim o amor e a gratidão. Por isso, ele anuncia o perdão de Deus para a mulher.

Deus não nos envia para destruir os demais, por muito malvados que pareçam ser; nossa luta não é uma luta fratricida e sim uma luta contra o pecado e o mal. E o pecado não se expulsa acabando com os pecadores e sim amando-lhes de tal forma que possam recuperar sua dignidade de filhos de Deus.

Saber amar, saber perdoar como Deus nos amou e perdoou é a luz que fortalecerá para aqueles que se afastaram do caminho do bem para que voltem a encontrar-se com o Senhor e vivam comprometidos com Ele.

Somos chamados a adotar a misericórdia como um modo de viver: que cada um seja misericordioso nos comentários, nos julgamentos, nas conversas e no agir cotidiano. Se corrigir, corrija com amor e por amor. Se chamar atenção, faça-o com e por amor. Fora do amor não há salvação, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16).

 P.Vitus Gustama, SVD

sábado, 12 de setembro de 2026

Quarta-feira Da XXIV Semana Comum, Ano Par, 16/09/2026

VIVER NO AMOR E NA SABEDORIA DE DEUS

Quarta-Feira da XXIV Semana Comum

Primeira Leitura: 1Cor 12,31-13,13 (Ano Par)

Irmãos, 12,31 Aspirai aos dons mais elevados. Eu vou ainda mostrar-vos um caminho incomparavelmente superior. 13,1 Se eu falasse todas as línguas, as dos homens e as dos anjos, mas não tivesse caridade, eu seria como um bronze que soa ou um címbalo que retine. 2 Se eu tivesse o dom da profecia, se conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, se tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, mas se não tivesse caridade, eu não seria nada. 3 Se eu gastasse todos os meus bens para sustento dos pobres, se entregasse o meu corpo às chamas, mas não tivesse caridade, isso de nada me serviria. 4 A caridade é paciente, é benigna; não é invejosa, não é vaidosa, não se ensoberbece; 5 não faz nada de inconveniente, não é interesseira, não se encoleriza, não guarda rancor; 6 não se alegra com a iniquidade, mas regozija-se com a verdade. 7 Suporta tudo, crê tudo, espera tudo, desculpa tudo. 8 A caridade não acabará nunca. As profecias desaparecerão, as línguas cessarão, a ciência desaparecerá. 9 Com efeito, o nosso conhecimento é limitado e a nossa profecia é imperfeita. 10 Mas, quando vier o que é perfeito, desaparecerá o que é imperfeito. 11 Quando eu era criança, falava como criança, raciocinava como criança. Quando me tornei adulto, rejeitei o que era próprio de criança. 12 Agora nós vemos num espelho, confusamente, mas, então, veremos face a face. Agora, conheço apenas de modo imperfeito, mas, então, conhecerei como sou conhecido. 13 Atualmente permanecem estas três coisas: fé, esperança, caridade. Mas a maior delas é a caridade.

Evangelho: Lc 7,31-35

Naquele tempo, disse Jesus: 31 “Com quem hei de comparar os homens desta geração? Com quem eles se parecem? 32 São como crianças que se sentam nas praças, e se dirigem aos colegas, dizendo: ‘Tocamos flauta para vós e não dançastes; fizemos lamentações e não chorastes!’ 33 Pois veio João Batista, que não comia pão nem bebia vinho, e vós dissestes: ‘Ele está com um demônio!’ 34 Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e vós dizeis: ‘Ele é um comilão e beberrão, amigo dos publicanos e dos pecadores!’ 35 Mas a sabedoria foi justificada por todos os seus filhos”.

_____________________

Sem o Amor Tudo Está Sem Sentido. O Amor Transforma Tudo Em Obra Prima

Agora, portanto, permanecem fé, esperança, caridade, essas três coisas. A maior delas, porém, é a caridade” (1Cor 13,13).

O texto que lemos hoje na Primeira Leitura é uma das mais belas páginas de São Paulo e uma das mais empolgantes e teologicamente densas do Novo Testamento. São Paulo expõe aqui sua concepção a respeito do dom maior de toda comunidade: o amor.

No texto do dia anterior são Paulo falou dos dons/carismas, dos diversos ministérios e das distintas atividades na Igreja. Mas surgem disputas no tocante aos dons que, por sua natureza, deveriam conduzir os membros da comunidade a construírem a comunidade na unidade. São Paulo insiste em que um dom não se concede para benefício da pessoa que o recebe e sim em favor de toda a comunidade. São  Paulo enumerou esses dons que hão de servir a todos, finalizando pelo dom relativo às línguas. Por espetacular que seja este dom, não é o maior.

Por isso, depois de expor seu critério sobre os distintos carismas, são Paulo passa para o ponto central da existência cristã: o amor. São Paulo não diz que o amor é um carisma. Segundo são Paulo, o amor resume em si uma soma de valores religiosos, éticos e morais que não podem ser expressos com uma só palavra, tais como: benevolência, bondade, modéstia, desinteresse, confiança, verdade e assim por diante. O amor parece ser a mais perfeita e definitiva da ação salvífica de Cristo, que transforma radicalmente a condição existencial do cristão/fiel, levando-o a agir de acordo com a novidade do Evangelho. Esta realidade (o amor) é que dá sentido a todos os demais carismas. O amor não é um elemento variável, como os outros dons, e sim o amor é imprescindível para cada dom e para cada ser humano, especialmente para cada cristão. Quem se esforçar por viver realmente este amor, estará caminhando pela estrada de Jesus. O amor é essa estrada, é esse caminho: “Agora, portanto, permanecem fé, esperança, caridade, essas três coisas. A maior delas, porém, é a caridade(1Cor 13,13).

O amor não é um sentimento ou um estado de ânimo , tampouco é pura exterioridade ou o que chamamos “obras de caridade”. O amor é vida, dinamismo, a autentica força. O amor verdadeiro é o próprio Deus, pois Ele é Amor (1Jo 4,8.16). Por isso, são Paulo descreve o amor em termos ativos e utiliza nada menos que quinze termos para caracterizar o amor.A caridade é paciente, é benigna; não é invejosa, não é vaidosa, não se ensoberbece; não faz nada de inconveniente, não é interesseira, não se encoleriza, não guarda rancor; não se alegra com a iniquidade, mas regozija-se com a verdade. Suporta tudo, crê tudo, espera tudo, desculpa tudo. A caridade não acabará nunca”.

O saber e o dizer, o dom da ciência e o dom da profecia, passarão. Porque nosso conhecimento de Deus é imperfeito, infantil. Quando alcançarmos a idade adulta, quando amadurecer o que germina e crescer já em nós a graça de Deus e chegar o tempo do colheita, veremos Deus cara a cara. Então ficará apenas o amor, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). A fé ficará livre da obscuridade e da dúvida, a esperança estará livre do risco e da insatisfação do caminhante, pois diante de Deus, face a face, cessarão as perguntas ou interrogações, e experimentaremos, verdadeiramente, o que é o amor em Deus que é o próprio Amor.

Falar línguas e pregar é interessante. Predizer o futuro e conhecer a fundo as coisas é admirável. Dar esmolas é meritório. Mas tudo isso, se não houver amor, serve muito pouco. Inclusive a fé e a esperança, as outras duas virtudes que também são importantes, mas são menos do que o amor. Tudo o demais passará. Só o amor durará para sempre. Quando amamos é que chegamos à maturidade, deixando para trás as coisas da infantilidade.

Agora, portanto, permanecem fé, esperança, caridade, essas três coisas. A maior delas, porém, é a caridade” (1Cor 13,13). Na primeira frase não se introduzem diferenças radicais entre as três virtudes chamadas teologais: fé, esperança e caridade. Todas elas estavam unidas entre si. São Paulo não nega sua mútua interação, mas na caridade vê a dinâmica fundamental de toda atividade, e a vê na base de todo dom: “A maior delas, porém, é a caridade”.  Se os Coríntios não conseguem viver com esta caridade, de que lhe podem servir os dons que receberam e dos quais tanto se vangloriam? Não se trata de uma caridade qualquer e sim de um dom superior do Espirito de Deus. A caridade é insubstituível e fundamento de tudo (1Cor 13,1-3). Por isso, as outras virtudes acabam necessariamente no encontro definitivo com o Senhor que é o próprio Amor (1Jo 4,8.16).

Pode-se dizer que a fé e a esperança nos levam até a porta do céu. O que nos faz entrarmos no céu é o amor, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). A fé é incompatível com a visão, e por isso, desaparecerá absolutamente no Céu ao ser substituída pela visão beatífica do Deus de amor. A esperança é, por sua vez, uma virtude teologal infundida por Deus na vontade, pela qual confiamos com plena certeza alcançar a vida eterna onde se encontra o Deus de amor. Por isso, a maior das virtudes é o amor. Sem o amor tudo fica sem valor.

Reflitamos se em nossa vida de cristãos damos a importância ao amor, à tolerância, ao bom coração, a saber perdoar, a construir unidade.A caridade é paciente, é benigna; não é invejosa, não é vaidosa, não se ensoberbece; não faz nada de inconveniente, não é interesseira, não se encoleriza, não guarda rancor; não se alegra com a iniquidade, mas regozija-se com a verdade. Suporta tudo, crê tudo, espera tudo, desculpa tudo. A caridade não acabará nunca”.

Viver Na Sabedoria É Viver De Acordo Com o Desígnio De Deus

Com quem hei de comparar os homens desta geração?”, começa Jesus seu ensinamento no texto do evangelho deste dia. Sabemos que o termo ou a expressão “essa geração” na boca de Jesus é o resultado de um juízo/condenação. A expressão “essa geração” tem um tom de condenação na boca de Jesus. É uma alusão à geração do povo eleito que atravessava o deserto de Sinai que duvidava da presença de Deus apesar das evidências de Sua providência (cf. Sl 96; Dt 32, 5.20).

Veio João Batista, que não comia pão nem bebia vinho, e vós dissestes: ‘Ele está com um demônio!’ Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e vós dizeis: ‘Ele é um comilão e beberrão, amigo dos publicanos e dos pecadores!’”. Jesus foi criticado e censurado porque mostrou sua solidariedade com os pecadores e os marginalizados da sociedade, fazendo a refeição com eles. Comer juntos significava nivelar as relações. Jesus come com os pobres e pecadores para revelar que eles tem a mesma dignidade como qualquer ser humano. Não pode haver a diferença onde há a mesma substância. Somos todos da terra; somos pó e para o pó (terra) voltaremos.  Somos todos seres humanos. A única diferença entre nós é a função ou papel que cada um desempenha na sociedade. Jesus se aproxima dos pobres e pecadores, pois Ele veio para trazer a salvação para todos, como foi dito no discurso programático na sinagoga em Nazaré (cf. Lc 4,14-21). Ele veio por amor à humanidade sofrida. O amor une o ateu e o religioso, aproxima o rico do pobre, cria ponte entre o idoso e o jovem, une o céu e a terra, e leva alguém para o céu, pois Deus é amor (cf. 1Jo 4,8.16).Cada qual sabe amar a seu modo; o modo, pouco importa; o essencial é que saiba amar” (Machado de Assis). Em conseqüência desse amor, Jesus não mudou de comportamento apesar das criticas e das maledicências dos seus adversários. Jesus tem objetivo claro: quer salvar todos os homens. Por isso, Jesus viveu em função de Seu objetivo/missão e não em função das criticas. Em Jesus se revelou a sabedoria de Deus que é sempre solidária com a humanidade carente de salvação.

É uma atitude muito diferente da dos fariseus que mantinham distância das categorias sociais consideradas impuras para não ficarem contaminados. Se eu não ajudar quem está precisando de salvação, para que é que estou neste mundo? A atitude dos fariseus que não querem misrturar com ospecadores mostra a arrogância religiosa dos fariseus. Trata-se de uma atitude desrespeitosa para com os outros e conseqüentemente para Deus, pois Deus está nos pequenos (cf. Mt 25,40.45; 1Cor 3,16-17). A prática do culto sem o compromisso de uma conduta coerente engana os outros e é um ópio que adormece a própria consciência. Qualquer prática religiosa não pode ser mais importante do que o próprio Deus e do que o próprio ser humano a quem Deus amou tanto (cf. Jo 3,16). Um Deus banalizado torna absoluto o que é relativo e o homem se engana buscando o absoluto onde ele não está. O mais próximo do absoluto está em você mesmo e em seus irmãos. O próximo é a passagem obrigatória para chegar até Deus.

Os pobres, os excluídos e os pecadores não tinham nenhuma dificuldade para ouvir a Palavra de Deus a eles dirigida. Com a ajuda da Palavra de Deus eles reconstruíam sua própria dignidade. Faltava-lhes, até então, alguém que pudesse dirigir a palavra de esperança para eles. Jesus era para eles o Salvador. Jesus era Aquele que eles esperavam.

A pregação de Jesus é bastante alegre. Na sua alegre pregação ele coloca a penitência e a exigência divina. Ele come e bebe normalmente. Anuncia o Reino de Deus como um banquete. Um quinto do evangelho de Lucas fala de comida ou de banquete para enfatizar que no Reino de Deus há somente a fraternidade, pois todos são filhos e filhas do mesmo Pai, e há somente a alegria, pois é uma festa que não tem fim.

Mas a sabedoria foi justificada por todos os seus filhos”, conclui Jesus no seu ensinamento. A sabedoria em Mt 11,19 é o próprio Jesus que prepara o banquete nupcial. A sabedoria em Lucas é diversamente o plano de salvação de Deus que se idnetifca com a promessa (João Batista) e o cumprimento (Jesus). Por isso, a sabedoria da qual se fala aqui não se trata de ciência, mas trata-se daquilo que corresponde ao desígnio salvador de Deus a respeito do homem e do mundo (cf. Jo 3,16). E esse desígnio se realiza nas pessoas que têm a docilidade ao Espírito de Deus. E essa docilidade se encontra nos simples, nos pequenos, nos despretensiosos. Por isso, Jesus volta aqui a usar uma idéia mais cara: “os pequenos”, “os filhos”. Os pequenos possuem muito mais sabedoria do que os que se dizem entendidos, como os escribas, pois os pequenos vivem na simplicidade (cf. Mt 11,25-28). A simplicidade é um valor alto para Jesus e para a humanidade. Por causa do valor tão alto da simplicidade Jesus chegou a fazer uma oração de agradecimento: “Eu Te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste essas coisas aos sábios e entendidos, e a revelaste aos pequeninos(Lc 10,21).  Todos os simples são verdadeiros amigos de Jesus e amigos dos outros. O simples atrai a simpatia dos outros e as bênçãos de Deus.

Mas a sabedoria foi justificada por todos os seus filhos”, disse-nos Jesus.  Aprendemos o saber (conhecimento intelectual) com os mestres, cursos, livros... A sabedoria, aprendemos com a vida cotidiana. Cada dia de nossa vida é uma página de nossa vida. Em cada página de nossa vida aprendemos algo para a construção de nossa vida e convivência. É preciso fazer leitura de nossa vida de cada dia para tirar alguma lição para nossa sabedoria. Mas temos muita consciência de que “O que sabemos é uma gota; o que ignoramos é um oceano” (Isaac Newton). “A parte que ignoramos é muito maior que tudo quanto sabemos” (Platão). Porém, “O início da sabedoria é a admissão da própria ignorância. Todo o meu saber consiste em saber que nada sei” (Sócrates).

Para Nossa reflexão:

·      Se Jesus é o amigo da simplicidade, será que você é um cristão simples ou um cristão falso e vaidoso que simula as virtudes que não existem? “A soberba gera a divisão. A caridade, a comunhão” (Santo Agostinho). Santo Agostinho nos faz a seguinte pergunta: “O nome cristão traz em si a conotação de justiça, bondade, integridade, paciência, castidade, prudência, amabilidade, inocência e piedade. Como tu podes explicar a apropriação de tal nome se tua conduta mostra tão poucas dessas muitas virtudes?”.

·      Jesus é chamado também de “amigo dos pecadores”, pois ele se aproxima deles para salvá-los e devolver sua dignidade de filhos de Deus. Que atitude nós temos em relação àqueles que erraram ou cometeram algum pecado na vida: afastá-los ou nos aproximar deles, a exemplo de Cristo?

·      A pregação de Jesus é alegre, pois fala da fraternidade, do banquete onde as relações se nivelam. Que tipo de pregadores nós somos: da alegria ou da desgraça?

·      Com quem hei de comparar os homens desta geração? Com quem eles se parecem?”, perguntou Jesus retoricamente. De que geração somos, ou pertencemos a qual geração? Qual será nossa resposta se fizermos a mesma pergunta para a geração da qual fazemos parte?

P.Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Bem-Aventurada Virgem Maria Das Dores, 15/09/2026

BEM-AVENTURADA VIRGEM MARIA DAS DORES

 

15 de Setembro

I Leitura: Hb 5,7-9

 7 Cristo, nos dias de sua vida terrestre, dirigiu preces e súplicas, com forte clamor e lágrimas, àquele que era capaz de salvá-lo da morte. E foi atendido, por causa de sua entrega a Deus. 8 Mesmo sendo Filho, aprendeu o que significa a obediência a Deus por aquilo que ele sofreu. 9 Mas, na consumação de sua vida, tornou-se causa de salvação eterna para todos os que lhe obedecem. 

Evangelho: Jo 19, 25-27

Naquele tempo,25 perto da cruz de Jesus, estavam de pé a sua mãe, a irmã da sua mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena. 26 Jesus, ao ver sua mãe e, ao lado dela, o discípulo que ele amava, disse à mãe: “Mulher, este é o teu filho”. 27 Depois disse ao discípulo: “Esta é a tua mãe”. Daquela hora em diante, o discípulo a acolheu consigo.

------------------------------------- 

Celebramos hoje a memória da Bem-aventurada Virgem Maria Das Dores. Mãe, Dor e a Cruz. Nenhum coração de qualquer  filho deseja um alto nível de dor, sofrimento ou dificuldades para sua mãe, embora a dor seja inevitável.

Nenhum cristão se alegra com a dor de Maria, a Mãe de Jesus, mas todos reconhecem o imenso valor das espadas que transpassaram seu coração, das lágrimas em seus olhos, da névoa de mistério que obscurece a luz e do Calvário onde Jesus se ofereceu por nós.

Maria Santíssima, Mãe de Jesus (e também nossa), uniu-se em corpo e alma à ação redentora de seu Filho; e no caminho da redenção, desfrutou das delícias do amor mais puro, e sofreu as amargas dores de sua paixão e morte, como lhe anunciou o ancião Simeão no dia da Apresentação de Jesus no Templo.

A festa de Nossa Senhora das Dores foi celebrada em toda a Igreja em 1727 por ordem do Papa Bento XIII. O Papa Pio VIII publicou um decreto de 18 de setembro de 1814 para autorizar a celebração da festa para todo o mundo católico.                                                                                                                                  

No dia anterior celebramos a festa da Exaltação da Santa Cruz (14/9). Hoje (15/9) nos encontramos com Maria das Dores, mãe de Jesus. Os dois acontecimentos- Exaltação da Santa Cruz e Maria das Dores- nos mostram a união profunda entre Jesus, como filho, e Maria como mãe até as ultimas consequências, como afirmou o Concílio Vaticano II na Constituição Dogmatica Lumen Gentium: “A bem-aventurada Virgem avançou no caminho da fé, e conservou fielmente a união com seu Filho até a cruz, junto da qual, por desígnio de Deus, se manteve de pé (cf. Jo 19,25); sofreu profundamente com o seu Unigenitao maternal ao seu sacrifício...” (n.58).

Este fato, isto é, a união profunda entre Jesus, como filho, e Maria como mãe, na verdade, nós experimentamos no nosso cotidiano. Ninguém fica feliz sozinho como também ninguém sofre sozinho, pois não somente vivemos, mas convivemos. A felicidade de um filho é a felicidade de uma mãe ou de um pai. O sofrimento de um filho é o sofrimento de uma mãe ou de um pai. Diante de um filho sofredor uma mãe ou um pai vai procurar até os últimos recursos de sua vida a fim de que o filho volte a ser recuperado. Mesmo que se sinta impotente diante da dor do filho, uma mãe ou pai procura outro recurso sobre-humano: a oração. É dificilmente encontrar uma mãe ou um pai que fuja da dor de um filho. Mãe e pai sofrem com o filho, pois para uma mãe/um pai, o filho ou a filha é ela própria/ele próprio.

Maria, sofrendo, se encontra ao pé da cruz de Jesus, seu filho. A dor é a companheira inseparável de nosso peregrinar durante esta vida terrena. Ela aparece pelo caminho de nossa existência e se põe ao nosso lado. Cedo ou tarde ela vai bater na nossa porta. Ela não nos pede permissão para entrar. Ela entra e sai como se fosse um dos membros de nossa família.

A vida de Maria esteve profundamente marcada pela dor e pela fé em Deus. Maria experimentou a dor diante das palavras de Simeão (cf. Lc 2,34-35). Mas no seu coração não mora nenhum desespero. Na profundeza de sua alma reina a paz e a esperança em Deus. Em seu coração volta a ressoar com força e segurança seu Fiat cheio de amor na anunciação: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38).

Maria experimentou a dor do assassinato dos inocentes por Herodes, o Grande, pois Maria também era mãe (cf. Mt 2,16-18). Seguramente Maria conhecia muitos desses inocentes sacrificados em nome da crueldade de um poder sem limites de Herodes. Certamente Maria rezava por esses inocentes e sobretudo, por suas mães inconsoláveis. Nosso coração há de mostrar-se sensível ao sofrimento alheio, compadecer-se para socorrer, pelo menos para consolar, e rezar para aliviar.

Maria experimentou a dor da perda do filho de 12 anos de idade em Jerusalém (cf. Lc 2,41-52). “Onde ele está?  Está em perigo? Alguém o raptou ou o matou?”. Tudo isso passava na cabeça de Maria. Qualquer mãe sofre pela perda de um filho ou de uma filha. E como sofre! Quantas mães continuam a esperar a volta de um filho perdido e continuam a esperar sua volta. Maria sofria durante três dias da procura de seu filho, Jesus. Mas como uma mulher “cheia de graça” (Lc 1,28), com certeza, acreditava em Deus apesar de tudo. Ela quer entender o significado das palavras de seu filho: “Por que me procurais?” e tenta meditar essas mesmas palavras no seu coração. Nem sempre podemos entender o significado de cada acontecimento ou de cada experiência. Muitas vezes, depois de algum tempo é que podemos entender seu significado.

Maria também experimentou a dor da separação e da solidão. Chegou o dia de despedida depois de passar trinta anos juntos: mãe e filho! Trinta anos de experiências inesquecíveis vividos num ambiente inacreditavelmente divino e incrivelmente humano em Nazaré. Trinta anos de silêncio, de trabalho, de oração, de alegria, de entrega mútua. Trinta anos de uma família unida e maravilhosa. Abundantes e intensos sentimentos. “Adeus, filho...! Adeus mãe...!”. Todos nós intuímos o que passa pelo coração da mãe em uma despedida assim. Já vimos nos olhos de nossa mãe sua reação imediata ao sentir este tipo de experiência. Maria experimentou a solidão da ausência de seu filho. A solidão é um dos sofrimentos bastante profundos dos seres humanos, pois nascemos para viver em companhia dos demais. Como dura foi a solidão de Maria. Maria também soube viver esse sofrimento da separação e da solidão com amor, com fé, com serenidade interior. Ofereceu esse momento pelo seu filho que começou sua vida pública. Necessitamos, como Maria, ser fortes na solidão e nas despedidas. Fortes pelo amor, fortes pela fé e pela confiança em Deus e fortes pela oração.

Maria também experimentou a dor da paixão do filho (via crucis). Ela viu o filho carregar a cruz para o Calvário. Que momento tão duro para uma mãe ver o filho sofrer assim! Ao mesmo tempo, que fortaleza interior que Maria tem nesse momento! Muitos dos seus discípulos abandonaram Jesus, seu mestre. Mas a mãe jamais abandonaria seu filho no seu sofrimento. Ali ela estava, perto de seu filho, ao pé da cruz. Os dois se olham no silêncio de fortaleza. A nossa vida é, às vezes, uma via crucis. Busquemos o olhar amoroso de Maria. “A suave Mãe nos consola, transforma nossa tristeza em alegria e nos fortalece para carregar nossas cruzes” (Luis Monfort Grignion).

Por fim, Maria experimentou a dor da morte de seu filho. Terrível episódio! É uma mãe que vê seu filho morrer terrivelmente na cruz. Com o coração sangrento, de pé diante da cruz, Maria repetiu mais uma vez, sem palavras, na mais pura das obediências: “Faça-se a Tua vontade!”.

Mas crendo, confiando e amando, Maria soube esperar a maior alegria de sua vida: a ressurreição. A volta de seu filho na gloria da ressurreição.

Perto da cruz de Jesus, estava de pé a sua mãe...” (Jo 19,25). Esta presença significa fidelidade até as ultimas conseqüências, até a morte. Nós nos acostumamos ver em Maria, sobretudo na Semana Santa, como a Virgem dolorosa. No entanto, a tradição cristã nos recorda que Maria é uma mãe valente que se mantém firme de pé junto à cruz. Isto quer dizer que ela não se deixa derrubar pela dor. Ela está de pé. Para estarmos de pé diante da vida com todos os seus acontecimentos e contratempos, temos que nos habituar a ficarmos de joelho diante de Deus, pois nossa verdadeira força está em Deus.

Maria é protótipo da atitude de valor em meio ao sofrimento. Mas não se trata de qualquer valor. Trata-se do valor sustentado pela esperança. O coração de Maria nunca fica vazio de esperança. Por isso, a comunidade cristã recorda Maria neste dia como a mãe fiel que acompanha seu Filho até a morte na cruz, ainda que esteja no meio da máxima dor.

Nós cristãos devemos ser pessoas de esperança e pregadores de esperança. Ao entregar sua mãe para nós como nossa mãe, através de São João, Jesus quer que devamos ter os mesmos sentimentos de Maria. Com Maria podemos confiar sempre em Deus que nos ama, que nos anuncia, com a ressurreição de seu Filho, nossa própria ressurreição. Também nosso espírito pode se alegrar pela esperança que Deus da vida sustenta para nós, ainda que estejamos cercados pela dor.

Perto da cruz de Jesus, estava de pé a sua mãe...”. Esta presença significa fidelidade até as ultimas conseqüências, até a morte. Nos acostumamos ver em Maria, sobretudo na Semana Santa, como a Virgem dolorosa. No entanto, a tradição cristã nos recorda que Maria é uma mãe valente que se mantém firme de pé junto à cruz. Isto quer dizer que ela não se deixa derrubar pela dor. Ela está de pé. Maria não gritou. Maria não atraiu a atenção para si. Maria estava lá, de pé e não prostrada. Ela estava de pé perto da cruz olhando para Jesus, seu filho.

Maria nos ensina a nos esquecermos totalmente de nós para ter um olhar mais atento para o outro numa atitude de um puro acolhimento do sofrimento do outro. Esta atitude se chama compaixão. Compadecer-se não é apiedar-se pelo sofrimento do outro. É sentir com o outro a mesma dor para depois tomar atitude para aliviar essa dor mesmo que seja uma parte dela.

“Jesus disse à mãe: ‘Mulher, este é o teu filho’. Depois disse ao discípulo: ‘Esta é a tua mãe’. Daquela hora em diante, o discípulo a acolheu consigo”. A mãe de Jesus será sempre mãe e sempre mulher. Essa maternidade jamais será reduzida a um personagem histórico. Maria continua sendo a mãe para todos os que o discípulo amado representa. É a mãe de toda comunidade de fé e de todos os discípulos amados de Jesus, pois Maria e a pequena comunidade de discípulos juntamente ao discípulo amado representam todos os que seguem a Jesus até o fim, até perto da cruz, demonstrando coragem e fidelidade que nenhum dos servidores de Jesus manifestou.

Maria nos ensina que, para quem põe sua confiança em Deus e deixa que seja o Espírito divino que conduz sua vida é possível estar de pé diante da cruz encontrada no caminho desta vida ou a cruz fruto da fidelidade aos valores cristãos vividos até as ultimas conseqüências. A verdadeira dor cristã é o verdadeiro preço do amor aos demais, como Jesus que foi crucificado por causa do amor. O verdadeiro cristão jamais pode ser o causador da dor para os outros. O verdadeiro cristão jamais envenena o ambiente. O verdadeiro cristão jamais pode ser pregador da desgraça nem pode causar a angústia para os demais. O cristão é chamado a ser compassivo, isto é aquele que alivia a dor dos outros. Infelizmente, muitos que se dizem cristãos, que rezam supostamente, ao sair da igreja, se tornam espalhadores das coisas negativas na esquina, na rua, no salão de beleza, no grupo, no trabalho, em casa, em vez de serem proclamadores da esperança, de boa notícia e do amor. Quem prega ou espalha coisas negativas vai atrair mais coisas negativas para sua vida e para toda sua família. Quem prega a bênção, vai atrair mais as bênçãos para sua vida e para sua família. Ser cristão, a exemplo de Maria, é gestar Jesus no coração para dá-Lo aos irmãos.        

P.Vitus Gustama,svd

 

As provações que suportamos podem e devem revelar-nos quais são as nossas forças. Você possui forças que provavelmente desconhece. Encontre a que necessita nesse momento. Use-a!” (Epicteto)

Sexta-feira Da XXIV Semana Comum, Ano Par, 18/09/2026

HOMENS E MULHERES SÃO CHAMADOS A SER EVANGELIZADORES Sexta-Feira da XXIV Semana Comum Primeira Leitura: 1Cor 15,12-20 (Ano Par) Irmãos...