domingo, 10 de maio de 2026

Terça-feira Da VI Semana Da Páscoa,12/05/2026

SOB O IMPULSO DO ESPÍRITO DIVINO VIVEREMOS NA SERENIDADE COMO JUSTO DIANTE DOS DESAFIOS DA VIDA CRISTÃ

Terça-Feira da VI Semana da Páscoa

Primeira Leitura: At 16,22-34

Naqueles dias, 22 a multidão dos filipenses levantou-se contra Paulo e Silas; e os magistrados, depois de lhes rasgarem as vestes, mandaram açoitar os dois com varas. 23 Depois de açoitá-los bastante, lançaram-nos na prisão, ordenando ao carcereiro que os guardasse com toda a segurança. 24 Ao receber essa ordem, o carcereiro levou-os para o fundo da prisão e prendeu os pés deles no tronco. 25 À meia-noite, Paulo e Silas estavam rezando e cantando hinos a Deus. Os outros prisioneiros os escutavam. 26 De repente, houve um terremoto tão violento que sacudiu os alicerces da prisão. Todas as portas se abriram e as correntes de todos se soltaram. 27 O carcereiro acordou e viu as portas da prisão abertas. Pensando que os prisioneiros tivessem fugido, puxou da espada e estava para suicidar-se. 28 Mas Paulo gritou com voz forte: “Não te faças mal algum! Nós estamos todos aqui”. 29 Então o carcereiro pediu tochas, correu para dentro e, tremendo, caiu aos pés de Paulo e Silas. 30 Conduzindo-os para fora, perguntou: “Senhores, que devo fazer para ser salvo?” 31 Paulo e Silas responderam: “Crê no Senhor Jesus, e sereis salvos tu e todos os de tua família”. 32 Então Paulo e Silas anunciaram a Palavra do Senhor ao carcereiro e a todos os da sua família. 33 Na mesma hora da noite, o carcereiro levou-os consigo para lavar as feridas causadas pelos açoites. E, imediatamente, foi batizado junto com todos os seus familiares. 34 Depois fez Paulo e Silas subirem até sua casa, preparou-lhes um jantar e alegrou-se com todos os seus familiares por ter acreditado em Deus.

Evangelho: Jo 16,5-11

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 5 “Agora, parto para aquele que me enviou, e nenhum de vós me pergunta: ‘Para onde vais?’ 6Mas, porque vos disse isto, a tristeza encheu os vossos corações. 7No entanto, eu vos digo a verdade: É bom para vós que eu parta; se eu não for, não virá até vós o Defensor; mas, se eu me for, eu vo-lo mandarei. 8E quando vier, ele demonstrará ao mundo em que consistem o pecado, a justiça e o julgamento: 9o pecado, porque não acreditaram em mim; 10a justiça, porque vou para o Pai, de modo que não mais me vereis; 11e o julgamento, porque o chefe deste mundo já está condenado”.

_____________________________

Deus Está Com Seus Mensageiros Permanentemente

Ao receber essa ordem, o carcereiro levou-os para o fundo da prisão e prendeu os pés deles no tronco. À meia-noite, Paulo e Silas estavam rezando e cantando hinos a Deus. De repente, houve um terremoto tão violento que sacudiu os alicerces da prisão. Todas as portas se abriram e as correntes de todos se soltaram”. Assim lemos uma parte do texto da Primeira Leitura de hoje.

Alguns pontos para nossa reflexão a partir da Primeira Leitura: Primeiramente, apesar de estar presos, Paulo e Silas rezam e cantam hinos a Deus. Esta frase nos mostra a serenidade dos justos perseguidos sabendo que Deus está com eles, e, ao mesmo tempo, mostra, antecipadamente, a vitória iminente, pois eles vivem de acordo com a Palavra de Deus. “A vida dos justos está nas mãos de Deus, e nenhum tormento os atingirá... Os que nele confiam compreenderão a verdade, e os que perseveram no amor ficarão junto dele, porque a graça e a misericórdia são para seus eleitos”, assim afirma o livro de Sabedoria (Sb 3,1.9). Aquele que tem um coração puro, sem nenhuma mancha de pecado, vive na serenidade apesar das tribulações, ataques, difamações e calúnias, pois não há nada que possa atingir seu coração, e sabe, acima de tudo, em quem acredita: em Deus. “Somente o justo desfruta de paz de espírito” (Epicuro). Nenhum poder mundano é capaz de prender a graça de Deus, pois foge de qualquer controle humano e suas manipulações. Mesmo tentando de várias maneiras, a graça de Deus, o poder de Deus é incapaz de ser preso por qualquer poder deste mundo. A prisão com suas colunas firmes e com seus guardas armados da prisão é fácil de serem derrubados pelo “terremoto” da graça de Deus. A mesma coisa aconteceu com Jesus Cristo. O poder mundano O enterrou, mas o poder de Deus o ressuscitou. Não há verdade, não há amor, não há honestidade etc que possa permanecer enterrado, pois qualquer momento haverá a ressurreição. Quem confiar unicamente no poder mundano, um dia vai experimentar a destruição de sua vida. Quem confiar no poder de Deus, vai experimentar um dia e para sempre o triunfo de Deus. Com o poder de Deus ninguém pode brincar. “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8,31). 

Em segundo lugar, “De repente, houve um terremoto tão violento que sacudiu os alicerces da prisão. Todas as portas se abriram e as correntes de todos se soltaram”. Aqui se celebra a vitória de quem se apoia no poder de Deus, como Paulo e Silas. O terremoto natural destrói tudo. Mas neste relato o terremoto que aconteceu é para mostrar o poder maravilhoso de Deus que destrói todos os sinais de dominação humana e todos os poderes destruidores da dignidade humana. Todas as dominações humanas ficam sem futuro, pois o futuro é de Deus. Feliz quem deposita sua fé em Deus incondicionalmente! Quem acreditar no poder humano, vai ter que experimentar a derrota fatal um dia. O carcereiro estava para suicidar por medo de ver Paulo e Silas fugirem da prisão, pois ele seria responsável e receberia uma condenação inevitável. Mas Deus sempre sabe o que fazer com cada um dos seres humanos, seus filhos.

Em terceiro lugar, Então o carcereiro pediu tochas, correu para dentro e, tremendo, caiu aos pés de Paulo e Silas”.  Nenhum dos prisioneiros (Paulo e Silas) fugiu, pois eles querem mostrar para os incrédulos o poder de Deus. A libertação dos presos e a soberania de Deus se mostram simultaneamente. O carcereiro, na sua humildade, reconhece a grandeza de Deus neste acontecimento que o levou a cair aos pés de Paulo e Silas. A conversão do carcereiro é imediata, pois descobriu uma força maior de Deus através de seus mensageiros do que a força humana: Paulo e Silas. Deus opera seu poder através dos justos.

Em quarto lugar, “Conduzindo-os para fora, perguntou: ‘Senhores, que devo fazer para ser salvo?’, Paulo e Silas responderam: ´Crê no Senhor Jesus, e sereis salvos tu e todos os de tua família’. Então Paulo e Silas anunciaram a Palavra do Senhor ao carcereiro e a todos os da sua família”. Esta rápida conversão do cárcere nos lembra as etapas do Catecumenato de então: Primeiro, a questão ritual “O que preciso fazer?” (At 9,6). Segundo, a instrução do Evangelho (At 16,32). Terceiro, o Batismo (At 16,33). E finalmente, a refeição (Eucaristia), que o acompanha (cf. At 9,19), e se processa na alegria (cf. At 2,46; 8,8.39; 13,48-52). Aqui há alusões para a Eucaristia: “mesa”, “alegria”, exultação religiosa (cf. At 2,46).

Em quinto lugar, E, imediatamente, (o carcereiro) foi batizado junto com todos os seus familiares”. Pela segunda vez o livro de Atos nos relata a conversão e o batismo coletivo ou familiar (cf. At 16,15). Nos costumes e mentalidade antigos a escolha religiosa do pai ou do chefe da família condicionava a escolha dos outros membros da família. A partir desta mentalidade ou costumes não havia nenhum problema de batizar as crianças. Os recém-nascidos seguiam a opção do pai (dos pais).

Jesus Cristo Continua Acompanhando a Igreja Através Do Paráclito

Com o texto do Evangelho de hoje, continuamos acompanhando o longo discurso de despedida de Jesus de seus discípulos, no evangelho de João (Jo 13-17). A partida de Cristo e o aparente abandono em que deixa os seus apóstolos sozinhos constituem o tema essencial do texto do evangelho de hoje. Cristo afirma que a sua partida está cheia de sentido: volta ao Pai (Jo 14, 2, 3, 12; 16, 5), porque a sua missão terminou e o espírito Paráclito será testemunha da sua presença (Jo 14, 26; 15, 26). Jesus compara a missão do Espírito com a sua. Com efeito, não se trata de crer que o reino de Cristo terminou e que é substituído pelo do Espírito. Mas, de fato, a distinção está mais entre o modo de vida terreno de Cristo que esconde o Espírito e o modo de vida do qual Ele se beneficiará depois de sua ressurreição e que não será mais perceptível pelos sentidos, mas apenas pela fé: um modo de vida "transformado pelo Espírito" (Jo 7, 37-39).

É bom para vós que eu parta; se eu não for, não virá até vós o Defensor...”, disse Jesus na última Ceia para seus discípulos. Esta afirmação nos mostra que Jesus cumpriu sua missão e por isso, não é uma partida fracassada. Ele retorna ao Pai que O enviou (Jo 3,16) e para os discípulos esse retorno é a garantia do dom do Espírito: “Se eu não for, o Paráclito não virá a vós” (Jo 16,7). Com o Paráclito inicia-se a nova presença do Senhor no meio dos discípulos. Se antes, Ele estava “com” nós, agora está “em” nós como o Consolador, Práclito. A sua ausência de nós se torna a sua presença em nós e por meio de nós, ao mundo inteiro. Por isso, essas palavras de Jesus são um conforto para os discípulos que deverão enfrentar as mesmas dificuldades que Ele. Mas o Espírito da verdade vai testemunhar em seu favor, fazendo-os compreender a sua partida como vitória sobre o mal (Jo 16, 7-11; cf. Jo 15,26). O tempo entre Sua partida e o Seu retorno (Parusia) é a história da nossa vida no Espírito, como a Igreja. Dentro deste contexto, a nossa existência de discípulos tem tem um valor “escatológico”, definitivo: é já agora a vida eterna, porque vivemos como filhos de Deus e irmãos dos demais homens.

“Agora, parto para aquele que me enviou, e nenhum de vós me pergunta: ‘Para onde vais?’ Mas, porque vos disse isto, a tristeza encheu os vossos corações”, disse Jesus. Jesus anuncia aos discípulos a sua morte iminente (partida) que provoca uma reação negativa nos discípulos: tristeza (Jo 16,6) e perturbação (Jo 14,1). Jesus realmente vive conscientemente sua vida. Ele tem plena consciência de que um dia ele partirá deste mundo. Além disso, ele sabe de sua morte de maneira trágica em função do bem praticado, pois ele mexe com os interesses deste mundo. O bem praticado leva Jesus ao encontro do Bem maior: Deus Pai. Ele partirá para o Pai. Mas esta partida (morte) traz, ao mesmo tempo, consequências positivas: a vinda do Paráclito (Jo 16,7) e a reunião definitiva (Jo 14,2-3).

Jesus fala da sua morte, que só mais tarde os discípulos vão poder entender seu significado à luz do Espírito Santo (cf. Jo 16,12-13). Como aconteceu com qualquer um de nós. Muitas coisas na vida só podemos entender seu significa ou sua insignificância quando a idade vai avançando e as experiências vão se acumulando. Só quando encontramos nossas veias de coração entupidas é que poderemos entender que o cigarro que fumávamos com muita paixão, a gordura da carne que consumimos com muito apetite, a bebida alcoólica que engolimos frequentemente fazem mal para nossa saúde e encurtamos nossa presença neste mundo, e diminuímos nosso tempo nesta terra para ajudar os demais com nossos dons. Alguma experiência maior faz com que percebamos o significado de outras experiências menores cujo valor não percebemos até então. Sempre estamos no ritmo de vida em que somente “mais tarde” entendemos o sentido dos acontecimentos.

Os discípulos vão dar testemunho de Jesus, somente quando entenderem quem é Jesus, o que significou a sua presença no mundo, e qual foi o sentido da sua morte e da sua ressurreição. Quem pode possibilitar-lhes este entendimento é o Espírito Santo prometido por Jesus. Mas Jesus alerta aos discípulos que vão sofrer perseguições por causa desse testemunho.

Neste texto do evangelho de hoje Jesus afirma que a sua morte é uma partida para Aquele que o enviou. Este retorno Àquele que o enviou mostra que a causa pela qual Jesus lutava e vivia era a de Deus que é a salvação do mundo (Jo 3,16). Por isso, sua volta para Deus é para ser glorificado. A morte, para Jesus, é o momento da glorificação. É a “hora” de Jesus (cf. Jo 2,4; 12,23). A morte de quem vive de acordo com a vontade de Deus resumida no amor fraterno (ágape) é o momento de glorificação e não é um momento de tristeza. O homem morre não quando deixa de viver e sim quando deixa de amar. Amar alguém equivale a lhe dizer: “Tu jamais morrerás, pois ‘Deus é amor’ (1Jo 4,8.16)’”.

Os discípulos continuam sem compreender a morte como ida ao Pai. Também não pedem explicações a Jesus a respeito. Eles se sentem tristes ao pensar na separação que eles interpretam como desamparo (Jo 14,18). Para eles sem Jesus, na sua presença física, eles se tornam indefesos no mundo e diante do mundo.

Para Jesus a presença e a ajuda do Espírito farão muito melhor para os discípulos do que sua presença física, pois Jesus, na sua presença física, não pode estar com os discípulos em qualquer lugar. Além disso, enquanto se apoiarem na presença física de Jesus, os discípulos não aprenderão a tomar sua plena responsabilidade nem terão a autonomia em cumprir sua missão como discípulos. É preciso aprender a andar com as próprias pernas para saber até onde elas têm capacidade de andar, e aprender a pensar com os próprios pensamentos para saber até onde tem que pedir a ajuda. Mas, ao mesmo tempo, é indispensável se deixar impulsionar pelo Espírito, pois somente o Espírito de Deus pode transformar qualquer um em nova criatura. A ausência física de Jesus possibilita aos discípulos a atuarem por si mesmos sob o impulso do Espírito. A ausência física de Jesus faz os discípulos crescerem na maturidade no seu seguimento. Por isso, Jesus disse aos discípulos: É bom para vós que eu parta; se eu não for, não virá até vós o Defensor; mas, se eu me for, eu vo-lo mandarei”. Com a presença do Espírito Defensor, a ausência de Jesus se transforma em uma presença eficaz.

Quando vier o Defensor, ele demonstrará ao mundo em que consistem o pecado, a justiça e o julgamento: o pecado, porque não acreditaram em mim; a justiça, porque vou para o Pai, de modo que não mais me vereis; e o julgamento, porque o chefe deste mundo já está condenado”. O papel do Paráclito (o Defensor) é convencer o mundo no sentido de demonstrar, de provar, de culpar e de condenar. O Paraclito (o Espírito) executará a sentença de Deus contra o mundo. Para João o juízo “final” não acontecerá nos últimos dias, e sim acontece agora pelo fato de que a decisão escatológica já se concretizou na cruz e na ressurreição de Jesus. O Espírito convencerá o mundo sobre o pecado que consiste na incredulidade e no fato de fechar-se ao amor do Criador (Jo 3,16) manifestado em Jesus Cristo.

O sistema injusto condena o justo como criminoso. O sistema injusto se faz juiz contra os justos e honestos. É a inversão de valores em nome do interesse e das vantagens individuais. Mas o Espírito vai reabrir o processo para pronunciar a sentença contrária. Trata-se de uma sentença final.  Os que se fizeram juízes serão os culpados e culpáveis. E o condenado pelo sistema injusto encontrará a verdade em Deus e o próprio Deus, que não pode ser subornado, será o ponto de referência diante do qual cada um se condena ou se culpa. Diante da verdade a própria mentira se condena. Diante da originalidade a falsidade se exclui. Deus se constitui em juiz e inverte o juízo dado pelo mundo.

O “mundo” neste texto se designa ao círculo dirigente que condenou Jesus; o mundo no sentido das forças sociais, históricas e econômicas opostas ao plano divino, ao plano da fraternidade e da igualdade. Trata-se da personificação das forças malignas da história: a injustiça exercida sobre os inocentes, a opressão dos pobres, a tirania dos sistemas totalitários.

Jesus declara aos discípulos que o Espírito de Deus realizará este juízo da história no qual brilhará a justiça e a bondade divinas a favor dos seus: “Os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai” (Mt 13,43; cf. também Dn 12,3; Sb 3,1-9).

O mundo prefere suas trevas de pecado à luz poderosa da bondade e da verdade divinas que fazem o homem feliz permanentemente.  O pecado do mundo consiste em impedir, reprimir ou suprimir a vida impedindo a realização do projeto criador (Jo 1,10), e esse pecado alcançou seu ápice na recusa de Jesus (Jo 15,22). O Espírito mostrará aos discípulos a justiça de Deus e que o mundo é o réu de seu pecado, de ter recusado a presença de Deus em Jesus que salva.

Portanto, qualquer cristão não pode abandonar uma vida correta e justa nem que seja em nome de qualquer cargo ou de qualquer interesse material, pois tudo será deixado neste mundo. O homem animado pelo Espírito não pode tolerar nem compactuar com a maldade nem em nome dum benefício econômico nem em nome de uma posição social. A “justiça” humana pode desviar a verdade em nome dos interesses pessoais, mas ainda resta a justiça divina diante da qual a verdade, a justiça, a honestidade e a lealdade estarão em destaque. Por isso, “a vida dos justos está nas mãos de Deus e nenhum tormento os atingirá... Os que confiam em Deus compreenderão a verdade e os que são fieis habitarão com Ele no amor(Sabedoria 3,1.9). “No Reino de seu Pai, os justos resplandecerão como o sol” (Mt 13,43ª). O Espírito de Deus suscita homens particularmente sensíveis aos valores autênticos e a Eucaristia os capacita para comprometer-se efetivamente na contestação dos pseudo-valores.

P. Vitus Gustama,svd

sábado, 9 de maio de 2026

Segunda-feira Da VI Semana Da Páscoa, 11/05/2026

JESUS PERMANECE CONOSCO TAMBÉM NAS NOSSAS PROVAÇÕES E ATRAVÉS DE NÓS QUER SALVAR A HUMANIDADE

Segunda-Feira da VI Semana da Páscoa

Primeira Leitura: At 16,11-15

11 Embarcamos em Trôade e navegamos diretamente para a ilha de Samotrácia. No dia seguinte, ancoramos em Neápolis, 12 de onde passamos para Filipos, que é uma das principais cidades da Macedônia, e que tem direitos de colônia romana. Passamos alguns dias nessa cidade. 13 No sábado, saímos além da porta da cidade para um lugar junto ao rio, onde nos parecia haver oração. Sentados, começamos a falar com as mulheres que estavam aí reunidas. 14 Uma delas chamava-se Lídia; era comerciante de púrpura, da cidade de Tiatira. Lídia acreditava em Deus e escutava com atenção. O Senhor abriu o seu coração para que aceitasse as palavras de Paulo. 15 Após ter sido batizada, assim como toda a sua família, ela convidou-nos: “Se vós me considerais uma fiel do Senhor, permanecei em minha casa”. E forçou-nos a aceitar.

Evangelho: Jo 15,26-16,4

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 15,26“Quando vier o Defensor que eu vos mandarei da parte do Pai, o Espírito da Verdade, que procede do Pai, ele dará testemunho de mim. 27 E vós também dareis testemunho, porque estais comigo desde o começo. 16,1 Eu vos disse estas coisas para que a vossa fé não seja abalada. 2 Expulsar-vos-ão das sinagogas, e virá a hora em que aquele que vos matar julgará estar prestando culto a Deus. 3 Agirão assim, porque não conheceram o Pai, nem a mim. Eu vos digo isto, para que vos lembreis de que eu o disse, quando chegar a hora”.

________________

Somos Chamados e Enviados Pelo Senhor a Ser Evangelizadores Em Qualquer Lugar e Tempo

Lemos na Primeira Leitura: “No dia seguinte, ancoramos em Neápolis, de onde passamos para Filipos, que é uma das principais cidades da Macedônia, e que tem direitos de colônia romana. Passamos alguns dias nessa cidade”. A leitura destas palavras deve ser acompanhada pela oração. Na simplicidade de um diário de viagem estas palavras escondem a primeira penetração do evangelho na "Europa"! A aventura da Fé começou em Jerusalém, junto a um Gólgota e um Túmulo vazio... depois a Fé espalhou-se por Samaria, e Antioquia da Síria... depois pela Ásia Menor. E eis que ele aborda um novo continente. Estamos provavelmente na primavera do ano 50 depois de Cristo. Vinte anos depois de Jesus "dar a vida" e ressuscitar. Nos séculos seguintes, essa mesma corrente de vida chegará a todos os países. E ainda estamos no começo! Há muito o que fazer.

Um dia a Europa foi “terra de missão”. Graças a São Paulo, pois através dele a Europa conheceu o Evangelho. E a primeira cidade da Europa onde Paulo se instala é Filipos, capital de Macedônia. Esta cidade será a primeira comunidade cristã do continente europeia. Filipos é uma cidade fundada e desenvolvida por Filipe, o pai de Alexandre Magno. Como colônia militar romana, a cidade estava sob o direito romano.

No sábado, saímos além da porta da cidade para um lugar junto ao rio, onde nos parecia haver oração. Sentados, começamos a falar com as mulheres que estavam aí reunidas”. É assim começou a missão na Europa: umas mulheres reunidas para rezar. São judias que respeitam o Sábado. São de um pequeno grupo. Por o grupo ser pequeno demais não dá para dispor de uma sinagoga em Filipos, uma grande cidade pagã. Por isso, elas se reúnem fora, na saída da cidade à margem de um rio para orar. É ali que Paulo as encontra. O acontecimento histórico da evangelização na Europa começa com elas, à beira de um rio. Provavelmente aconteceu em torno da primavera do ano 50.

Uma delas chamava-se Lídia; era comerciante de púrpura, da cidade de Tiatira. Lídia acreditava em Deus e escutava com atenção. O Senhor abriu o seu coração para que aceitasse as palavras de Paulo”. Assim Lucas, o autor dos Atos continua seu relatório. As duas referências a essa mulher piedosa (Lídia) estão em At 16,14.40. Ela é descrita como uma cristã temente a Deus. Lídia é uma mulher rica e generosa. Lídia será a primeira europeia que crê em Jesus, conquistada por Cristo através de Paulo e seus companheiros. Além disso, ela é uma mulher hospitaleira que convida Paulo e seus companheiros a hospedarem-se em sua casa. A hospitalidade faz parte da espiritualidade cristã. Por isso, São Pedro, na sua Primeira Carta escreveu: “Exercei a hospitalidade uns aos outros, sem murmuração” (1Pd 4,9). Lídia não é de Filipos e sim de Tiatira na Lídia (Ap 2,18-19), cidade famosa pela indústria da púrpura. Os tecidos de púrpura são tecidos de grande luxo e por isso, são caros. Um lar cristão é aquele com uma porta sempre aberta, a porta de seu coração.

A comunidade cristã de Filipos recebeu mais tarde uma das Cartas mais amáveis de Paulo, a Carta aos Filipenses: sinal de que Paulo guardava recordações muito positivas dessa comunidade.

O que aprendemos da maneira de evangelizar de São Paulo? São Paulo se adaptava à circunstâncias que ia encontrando. Às vezes pregava na sinagoga, outras vezes num cárcere, ou junto ao rio ou na praça de Atenas. Quando era recusado, São Paulo ia para outras cidades. Quando o aceitavam, São Paulo ficava naquele lugar até consolidar a comunidade. Mas sempre anunciava Cristo ressuscitado e se deixava guiar pelo Espirito Santo. A obra de salvação não é obra do homem. É a obra de Deus no homem e através do homem como instrumento de Deus. Deus é quem abre as mentes daqueles que escutam seus enviados para quem entendam e aceitem, deum modo pessoal, a obra de salvação que Deus quer realizar neles. Por isso, não somente devemos pedir a Deus que nos dê Sua sabedoria para poder proclamar dignamente Sua Palavra, mas também temos que pedir por todos aqueles que nos escutarão para que possa ser semeada eficazmente a semente da Palavra de Deus e produza frutos abundantes de salvação.

De São Paulo aprendemos que jamais podemos perder oportunidade para evangelizar em qualquer lugar e momento: propor sempre. O próprio São Paulo escreveu para Timóteo: “Prega a Palavra, insiste oportuna ou importunamente, reeprende, ameala, exorta como toda paciência e empenho de instruir. ... Toda a Escritura é inspirada por Deus, e útil para ensinar, para repreender, para corrigir e para formar na justiça. Por ela o homem de Deus se torna perfeito, capacitado para toda boa obra” (2Tm 4,2; 3,16-17). Quando nos deixarmos guiar pelo Espirito do Senhor ressuscitado, seremos testemunhas de nossa fé em qualquer ambiente onde nos encontramos, desde nossa família até o trabalho e toda atividade social. Quem é guiado pelo Senhor não se cansa de praticar o bem para qualquer pessoa e em qualquer lugar e tempo a exemplo do próprio Jesus que passou a vida fazendo o bem (cf. At 10,38). O próprio são Paul é incansável em pregar o Evangelho.

Como Testemunhas Dos Ensinamentos De Cristo Estejamos Preparados Para Ser Perseguidos

O evangelho de hoje pertence ao conjunto do discurso da despedida de Jesus dos seus discípulos (Jo 13-17). Nesse discurso Jesus dá as últimas lições para seus discípulos.

No texto do evangelho de hoje Jesus alerta aos discípulos e a todos os cristãos que a perseguição faz parte do ser do cristão: “Todos os que quiserem viver com piedade em Cristo Jesus serão perseguidos” (2Tm 3,12). Se o mundo opôs-se a Jesus Cristo, logo os cristãos experimentarão a mesma oposição. O mundo perseguirá os cristãos quando seus interesses forem afetados ou denunciados pelos cristãos. Até para fazer o bem o cristão é perseguido. Mas, do ponto de vista cristão, o tempo da perseguição é o tempo oportuno de testemunho. Tempo de provação e de perseguição é o tempo de expansão. O cristão é chamado a ser mártir no sentido pleno da palavra e para espalhar o amor. Viver no amor é viver em Deus, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). Mas sem dúvida, os que fazem parte de pessoas de boa vontade aceitarão o anúncio cristão cuja essência é o amor fraterno e cujas expressões são a justiça, a honestidade, a fraternidade, a solidariedade, a compaixão, a igualdade e assim por diante. Morrer por causa da honestidade, da justiça, da solidariedade etc. é o maior testemunho para o cristão. Este tipo de morte será uma morte feliz e por isso, uma vida ressuscitada.

Expulsar-vos-ão das sinagogas, e virá a hora em que aquele que vos matar julgará estar prestando culto a Deus. Agirão assim, porque não conheceram o Pai, nem a mim. Eu vos digo isto, para que vos lembreis de que eu o disse, quando chegar a hora”. Este texto nos quer informar a verdade de que a perseguição foi a primeira experiência da Igreja nascente. Os discípulos de Jesus foram expulsos da sinagoga e perseguidos, primeiro pelos judeus e, depois, também pelos pagãos. A segunda obra de São Lucas que é o Atos dos Apóstolos descreve muito bem esta situação. A Igreja se espalhava sendo perseguida. É o ponto positivo da perseguição.

São Paulo na Segunda Carta ao Timóteo nos recorda: “Em verdade, todos aqueles que quiserem viver piedosamente em Cristo Jesus, serão perseguidos” (2Tm 3,12). A persguição faz parte inseparável da vida crsitã. Viver como Jesus viveu sempre há grande possibilidade de sofre a perseguição.

Para que os discípulos não fiquem abalados nem desorientados na sua ausência física, Jesus promete-lhes uma presença nova no meio deles. Com essa nova presença, Jesus quer dizer aos discípulos que eles não serão abandonados como órfãos, pois o amor do Senhor por eles e por qualquer cristão jamais morrerá. Jesus nos ama até o fim (cf. Jo 13,1). O amor de Cristo vai até além da morte. Em Jo 14,16-17 Jesus prometeu o envio do Paráclito, do Defensor, do Espírito da Verdade. Em Jo 15, especialmente no evangelho de hoje, aparece novamente esse Paráclito, o Defensor, o Espírito da Verdade.

Quem é o Espírito Paráclito, ou o Defensor, o Espírito da Verdade? A palavra paráclito” em grego que é traduzida por “Defensor” em português. Ele é aquele que é chamado ao lado de quem se encontra em dificuldades com o fim de acompanhar, consolar, proteger e defendê-lo; em outras palavras: um ajudante, assistente, sustentador, protetor, procurador e, sobretudo, animador e iluminador no processo interno na fé. Mas o Espírito Paráclito é um dom de Deus oferecido para quem se abre a ele. A ajuda de Deus jamais faltará para nós, mas é preciso que tenhamos abertura diante dessa ajuda.

Esse Espírito Paráclito também recebe outro nome: “o Espírito da Verdade”.  Mas dentro de sua função de ajudar, de orientar, de animar, de proteger nas dificuldades, o Espírito da Verdade é entendido, sobretudo, como aquele que faz viver muito mais do que aquele que faz pensar. Pensar é uma coisa, viver é outra coisa.  Fazer um bom raciocínio é uma coisa; viver o que se raciocina é outra coisa. Orientar alguém para viver bem é uma coisa; perder a própria vida para que os outros possam viver é outra coisa. O mais importante não é o saber da vida e sim saborear a vida; não é sentir e sim o comprometer-se; não é o perceber e sim o decidir-se; não é o desejar e sim o querer. O Espírito da Verdade nos ensina a vivermos a vida na sua profundidade em cada momento. Ele não nos deixa presos no passado nem fugitivos do futuro; simplesmente vivemos na graça de Deus em cada momento de nossa vida. Por isso, o mais importante é fazer dos problemas, oportunidades; do passado, aprendizado; do amor, a experiência fundante e da vida, a arte de ser de cada dia.

É missão do Espírito Santo, então, revelar aos Apóstolos toda a verdade sobre Cristo, sobre suas obras, sua vida e sua morte, e fortalecê-los para que sejam capazes de dar testemunho. Ser testemunha é confessar com as consequências, expor-se, arriscar-se, encarar. É provar aquilo que se acredita até com o próprio sangue. É ser mártir.  “Testemunho” aparece no Novo Testamento com o sentido de “mártir”. Dar a vida é o grande testemunho; é confessar com sangue a Verdade. Não somente a morte por Cristo, mas também a vida cristã vivida com todas as suas consequências tem um valor de “martírio” e por isso, de testemunho.

Quem pode nos possibilitar para viver assim é o Espírito da Verdade. Por isso, precisamos pedir ao Senhor sua presença na nossa vida de cada dia e que estejamos abertos para a renovação no Espírito do Senhor que é o Espírito da Verdade, o Defensor de nossa vida toda vez que nos encontrarmos em qualquer dificuldade.

Mas quando a Igreja, em geral, e cada cristão, em particular, anda lado a lado, de mãos dadas com o mundo é sinal muito evidente de que a Igreja e cada cristão, particularmente, deixam de ser o sal da terra e a luz do mundo (Mt 5,13-14). Desta maneira, a Igreja se torna surda diante da voz do Senhor e cega diante da Luz divina (Jo 8,12). É o momento de conversão e de renovar os compromissos batismais!

P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 8 de maio de 2026

VI Domingo Da Páscoa, Ano "A", 10/05/2026

A VIDA DE QUEM AMA É GUIADA PELO ESPÍRITO PARÁCLITO


VI DOMINGO DA PÁSCOA DO ANO “A”

Primeira Leitura: At 8,5-8.14-17

Naqueles dias, 5Filipe desceu a uma cidade da Samaria e anunciou-lhes o Cristo. 6As multidões seguiam com atenção as coisas que Filipe dizia. E todos unânimes o escutavam, pois viam os milagres que ele fazia. 7De muitos possessos saíam os espíritos maus, dando grandes gritos. Numerosos paralíticos e aleijados também foram curados. 8Era grande a alegria naquela cidade.14Os apóstolos, que estavam em Jerusalém, souberam que a Samaria acolhera a Palavra de Deus, e enviaram lá Pedro e João. 15Chegando ali, oraram pelos habitantes da Samaria, para que recebessem o Espírito Santo. 16Porque o Espírito ainda não viera sobre nenhum deles; apenas tinham recebido o batismo em nome do Senhor Jesus.17Pedro e João impuseram-lhes as mãos, e eles receberam o Espírito Santo.

Segunda Leitura: 1Pd 3,15-18

Caríssimos: 15 Santificai em vossos corações o Senhor Jesus Cristo, e estai sempre prontos a dar razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la pedir. 16 Fazei-o, porém, com mansidão e respeito e com boa consciência. Então, se em alguma coisa fordes difamados, ficarão com vergonha aqueles que ultrajam o vosso bom procedimento em Cristo. 17 Pois será melhor sofrer praticando o bem, se esta for a vontade de Deus, do que praticando o mal. 18 Com efeito, também Cristo morreu, uma vez por todas, por causa dos pecados, o justo, pelos injustos, a fim de nos conduzir a Deus. Sofreu a morte, na sua existência humana, mas recebeu nova vida pelo Espírito.

Evangelho: Jo 14,15-21

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 15 Se me amais, guardareis os meus mandamentos, 16 e eu rogarei ao Pai, e ele vos dará um outro Defensor (Paráclito), para que permaneça sempre convosco: 17 o Espírito da Verdade, que o mundo não é capaz de receber, porque não o vê nem o conhece. Vós o conheceis, porque ele permanece junto de vós e estará dentro de vós. 18 Não vos deixarei órfãos. Eu virei a vós. 19 Pouco tempo ainda, e o mundo não mais me verá, mas vós me vereis, porque eu vivo e vós vivereis. 20 Naquele dia sabereis que eu estou no meu Pai e vós em mim e eu em vós. 21 Quem acolheu os meus mandamentos e os observa, esse me ama. Ora, quem me ama será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele.

----------------------------------    

Na liturgia da Palavra deste Sexto Domingo da Páscoa, o Espírito que é o Espírito de Cristo, domina a cena. Possuir o Espírito de Cristo é viver sob sua ação salvífica, santificadora. O alento do Espírito é vida e esperança. Quem ama é porque vive de acordo com o Espírito de Cristo (cf. Jo 13,34-35).

A Primeira Leitura, tirada dos Atos dos Apóstolos (At 8,5-17) nos mostra como, na comunidade cristã primitiva, se foram dando passos muito valiosos a respeito da compreensão da ação do Espirito e da vida no Espírito. Foi o Espírito quem tomou a iniciativa, quem estava à frente dos próprios Apóstolos. E os Apóstolos se se deixam guiar pelo Espírito Santo. E a Igreja, sem o Espírito do Senhor, não saberia se abrir a novos caminhos e lugares de evangelização. É o Espírito quem sempre dá à comunidade cristã a liberdade e o valor necessários.

A Segunda Leitura (1Pd 3,15-18) enfatiza sobre a importância da esperança cristã na missão: “Caríssimos: Santificai em vossos corações o Senhor Jesus Cristo, e estai sempre prontos a dar razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la pedir. Fazei-o, porém, com mansidão e respeito e com boa consciência”.

A Segunda Leitura nos proporciona uma tese teológica que deve ser determinante para os seguidores de Jesus Cristo: nós devemos estar sempre dispostos a dar razão de nossa esperança. Os primeiros cristãos tiveram que explicar muitas vezes, a quem os pedia, os motivos de sua fé e de sua esperança. Eram tempos de perseguição. Qual é a razão de sua fé e de sua esperança como cristão? A esperança faz com que as pessoas lutem até o fim por aquilo que almeja. A esperança aponta para o futuro. A esperança sempre fica na nossa frente que nos convida a caminhar cheios de alegria, do ponto de vista cristão, o garantidor desse futuro é, na Bíblia, o próprio Deus. Se Deus é o grantidor desse futuro, então Deus reserva para nós algo melhor do que passado e do que o presente.

Ser cristão, ser seguidor de Jesus, nos outorga seu Espírito e estamos convocados como então a dar testemunho, a dar razão de nossa esperança e fé. Se não sofremos perseguições, o mundo tem outros valores e contra valores que temos que discernir, e não podemos reduzir nosso testemunho a certas manifestações ocultas. A fé cristã não é para o culto e sim para a vida inteira. Por que cremos? Por que esperamos? Por que amamos e perdoamos? Não podemos ocultar nossa verdade que nos liberta e salva e garante nosso futuro.

Vamos Estender Um Pouco Mais Nossa Reflexão Sobre O Evangelho Proclamado Neste Domingo!

O Evangelho deste domingo é a continuação do Evangelho do domingo anterior e por isso, ainda pertence ao discurso de despedida de Jesus de seus discípulos  (Jo 13-17). O texto é tirado da segunda unidade (Jo 14,15-24). Nesta unidade encontram-se três temas paralelos que se completam mutuamente. 1. Os vv.15-17 falam da vinda do Paráclito, o espírito da verdade, que habitará naqueles que creem em Jesus. 2. Vv. 18-21 falam da promessa da volta e da permanência de Jesus para sempre com os seus. 3. Vv.23-34 (com a introdução do v.22) falam da habitação do Pai e de Jesus naqueles que amam a Jesus.

Fé e Amor Interligados          

Jesus começa o discurso dizendo: “Se me amardes, guardareis os meus mandamentos(v.15; cf. Jo 14,21.23.24). O que isso significa? Não basta amar a Jesus e não viver conforme seu projeto de vida. Neste sentido, amar significa praticar. De nada vale amar a Jesus e esquecer seus mandamentos. Para Jesus, o amor é a revelação de Deus, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). somente quem se abrir a este “ambiente” espiritual de amor, pode receber o Espírito de Deus (Jo 14,16)

Amar-me” e “guardar/observar meus mandamentos” são duas expressões que têm uma relação recíproca, isto é, uma sempre reflete outra independentemente de sua ordem. Amar-observar é uma expressão bem vivida na tradição deuteronômica do Antigo Testamento (cf. Dt 5,10; 6,5s; 10,12s; 11,13.22). Amar e observar os mandamentos de Deus fazem parte da própria Aliança com Deus. Amar, neste contexto, significa conhecer Deus e seu Filho, pois este conhecimento não é intelectual e sim comunhão e partilha. Amar é guardar os mandamentos, pois estes mandamentos se resumem num só: o amor. Ou seja, o próprio conteúdo do mandamento do Cristo é o amor (cf. Jo 13,34-35). Para Jesus, o amor é a revelação de Deus; Deus é amor (1Jo 4,8.16). 

Guardar a palavra de Jesus significa crer nessa palavra; é crer Naquele que é a verdade e a vida (cf. Jo 14,6); é crer na totalidade dos ensinamentos e das obras de Jesus. O amar/observar produz uma morada divina no discípulo: “A ele viremos e nele estabeleceremos morada” (Jo 14,23; cf. Ex 25,8; Lv 26,11; Ez 37,27; Zc 2,14). No Evangelho de João CRER e AMAR constituem uma unidade indivisível. Somente pode dizer que CRÊ aquele que AMA. 

Por isso, quem quiser permanecer em união de amor com Jesus, deverá entrar na esfera da fé, deverá relacionar-se na fé com o Revelador de Deus (v.15). Esse relacionar-se na fé significa salvar. Sublinha-se, assim, a ligação entre fé e amor. Aderir a Jesus significa aceitar o amor que ele oferece, manifestando até ao extremo, em sua morte (Jo 13,1), e tomar Jesus por modelo de vida, adotando como norma de conduta o amor ao homem como o dele (cf. Jo 15,12). A comunhão com Jesus, que produz a unidade de Espírito com ele, é o que se chama amor. A identificação com Jesus, que se expressa em termos de amor (v.15) é condição para que o discípulo possa cumprir a mensagem do amor. Somente esta identificação, que é cume da adesão (fé), é que permite ao discípulo amar como Jesus amou (Jo 13,34).          

A ligação com Jesus pelos laços de amor não pára apenas no entusiasmo emocional, mas significa compromisso com a sua palavra. Amar a Jesus é guardar os seus mandamentos. Fé não é reconhecimento irrestrito e carinhoso da pessoa de Jesus, mas compromisso com os seus ensinamentos, na formulação de nossa vida. Trata-se de assumir a práxis de Jesus e nisso demonstramos o nosso amor para com ele (cf. 1Jo 4,20). Quem não guardar o mandamento de Jesus é o sinal de que ele não ama a Jesus. Jesus é o modelo e exemplo do amor (Cf. 15,12). Deus não ama o que é digno de amor. Mas amando, Deus confere o valor ao objeto de seu amor. Ou seja, o que em si está privado de valor, adquire valor ao fazer-se objeto do amor divino. Deus não espera que o homem seja bom para ser amado por Deus; Deus ama ao homem para que ele seja bom. Deus não me ama porque tenho qualidade e méritos. Faço-me precioso porque Deus me ama. O amor divino não constata os valores. Deus confere valor amando. O amor divino, o amor ágape é princípio criativo de valores.

Paraclito e Seu Papel Na Vida Dos Cristãos       

Logo em seguida Jesus promete a vinda do Espírito Santo que recebe dois nomes: “Paráclito” e “Espírito da verdade”: “Pedirei ao Pai e vos dará um outro Paráclito, que permanecerá convosco para sempre: o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o conhece (v.16-17).  A grande promessa que nos fez Cristo foi o envio do Espirito Santo, dom do Pai aos que, pela fé e o amor se entregam a Cristo. Este Espirito, ao recebe-lo é a fonte de vida e de santidade para toda a Igreja. O Espírito Paráclito é continuador e intérprete da mensagem de Cristo. Ele torna Jesus presente na Comunidade. A presença de Jesus se prolonga (depois de sua morte) através da ação do Espírito no coração dos que creem em Jesus Cristo: “... vos dará um outro Paráclito, que permanecerá convosco para sempre”.

Sobre a importância do Espirito Santo, lemos na Primeira Leitura em que “Pedro e João impuseram-lhes as mãos, e eles receberam o Espírito Santo”. Pedro e Joao fizeram este gesto sobre os samaritanos. A hierarquia é o órgão sacramental que nos garante a doação e a presença do Espirito Santo na vida da Igreja. São Basílio afirma: “Para o Espirito Santo dirigem seu olhar todos os que sentem necessidade de santificação, para Ele tende o desejo de todos os que levam uma vida virtuosa.... Fonte de santificação, Luz de nossa inteligência, Ele é quem dá, de Si mesmo, uma espécie de claridade a nossa razão natural para que conheça a verdade. Inacessível por natureza, se faz acessível por sua bondade” (Sobre o Espirito Santo 9,22-23).

A assistência do Espirito conferirá a infalibilidade à Igreja, pois Ele “permanecerá convosco para sempre: o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o conhece”. O Espirito de verdade permanecerá solidário com a aventura da Igreja. Isto não quer dizer que a Igreja não possa cometer erros ou estar isenta de ambiguidade. A maravilha da assistência do Espírito é que, apesar de seus erros, a Igreja jamais seja abandonada pela verdade de Deus. Isto quer dizer que a verdade possuída pela Igreja é um dom e não o fruto de suas reflexões.          

Pedirei ao Pai e vos dará um outro Paráclito, que permanecerá convosco para sempre: o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o conhece (v.16-17). O termo grego “Paráclito” encontra-se cinco vezes no NT e somente nas obras joaninas (Jo 14,16.26;15,26;16,7; e uma vez é empregado relacionado com Jesus em 1Jo 2,1). Este termo “Paráclito” tem um amplíssimo significado: Aquele que é chamado para junto de alguém (parakaléo) ou aquele que é chamado ao lado de quem se encontra em dificuldades com o fim de acompanhar, consolar, proteger e defendê-lo; em latim advocatus. Literalmente Paráclito (parakaléo) significa “ chamado para junto de alguém”.  Em outras palavras, Paráclito é um ajudante, assistente, sustentador, protetor, consolador, procurador e, sobretudo, animador e iluminador no processo interno na fé. Daí é que o Paráclito se traduz por Defensor. Por isso, o sentido deste título atribuído ao Espírito Santo é o de ”protetor dos cristãos” que estão no mundo, inclusive quando eles atravessam momentos difíceis no seu testemunho da vida cristã. Quando se fala do Paráclito não se trata de outro nome do Espírito Santo, mas trata-se da função do mesmo que é atribuída também a Jesus, “protetor junto do Pai” (1Jo 2,1). 

E Jesus revela que esse Protetor é o “Espírito da verdade”, isto é, aquele que revela a verdade de Deus. E a verdade de Deus consiste no seu seu amor incondicional para a humanidade (cf. Jo 3,16). O Protetor revela o amor que se torna serviço, e todos aqueles que vivem no amor percebem sua presença constante e ativa. “A verdade” é, com efeito, para os escritos joaninos, em primeiro lugar, a realidade divina enquanto se manifesta e pode ser reconhecida pelo homem. O que o homem percebe dela é amor sem limite de Deus (cf. Jo 3,16). Este amor é, portanto, a verdade de Deus. O Espírito Santo é a força e a atividade de amor.          

A vinda do apoio do Espírito pressupõe a partida de Jesus (= morte). Porém, Jesus garante que a presença dess Protetor não se deve a situações de perigo para a comunidde, mas é constante (“para sempre”), e o seu socorro não somente nasce como resposta a uma situação difícil da comunidade, mas precede-a. 

E pelo apoio do Espírito, Jesus permanece entre os seus, governa a comunidade por intermédio do Espírito. Ele exerce uma dupla função, interna e externa: como mestre da comunidade cristã e como testemunha diante do mundo. O mais importante função do Espírito consiste em tornar presente a palavra e a obra de Jesus e em revelar seu sentido. A presença do Espírito é considerada como uma força dinâmica e atuante no processo de fazer Jesus presente, tornando realidade o acontecimento sempre novo da presença de Jesus na história. 

Mas o Espírito Santo Paráclito está reservado aos que vivem amando os outros sem medida. Um amor “motivado” é um amor humano. Um amor sem motivo (ágape) é divino. O motivo do amor de Deus reside exclusivamente em Deus e não no homem. Ele ama porque Sua natureza é amor (cf. 1Jo 4,8.16). Ele salva os homens por amor (Jo 3,16). Este é o motivo que inspira Jesus quando busca os que estão perdidos, quando conversa e come com os publicanos e pecadores. É uma conduta inexplicável e injustificada do ponto de vista da lei. A comunidade cristã e o “mundo” distinguem-se entre si pela presença ou pela ausência do amor.           

Os cristãos, que acreditam na presença do Espírito Santo, não podem perder a serenidade, a paz do coração, a alegria e a esperança mesmo que estejam rodeados pelos problemas ou dificuldades. Na Igreja não há lugar para gente triste, medrosa e desanimada, pois o Espírito Santo é o próprio Consolador do cristão. Aquele que observa os mandamentos de Deus não há como ficar triste, pois ele acredita nas palavras pronunciadas por Jesus (vv.16-17) e essas palavras são as palavras da vida eterna (cf. Jo 6,68). Necessitamos ouvir em todos os momentos essas palavras da certeza e da esperança para todos nós, pois, muitas vezes, temos facilidade de cair no desespero. Quem acredita na força do Paráclito, do Espírito de defensor, não teme sair derrotado nem nas situações mais difíceis e intrincadas da vida, pois ele sabe que Deus está sempre ao seu lado para defendê-lo e protegê-lo. O Paráclito é o nosso Consolador enquanto caminhamos neste mundo no meio de dificuldades e sob a tentação da tristeza. Podemos, por isso, olhar para os Céus e sentir-nos cheios de alegria: Deus nos ama e quer nos libertar: “Ora, quem me ama será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele”.          

O Paráclito introduz os cristãos na verdade (Espírito da verdade). Para o Evangelho de João, a verdade indica o próprio Deus que se manifesta em Jesus Cristo. Por isso, introduzir na verdade quer dizer agir no coração de cada cristão, de cada ser humano e induzi-lo a aderir livremente à revelação de Deus. Exige, por isso, de cada cristão um abandono total nas mãos de Deus para que o Espírito Santo possa agir e operar nele. E o Espírito de Deus que nos faz conhecer tudo o que é de Deus e o que é do mundo. Penetrando no coração de Deus, através de ajuda do Seu Santo Espírito, descobrimos seu amor e seu projeto por nós todos. Tudo que Deus fala e faz é só com o mesmo objetivo: para nos salvar.         

O segundo significado de “introduzir na plena verdade” diz respeito às novidades introduzidas pelo Espírito Santo. Há muitas coisas que Jesus não revelou explicitamente, porque os discípulos não estavam em condições de entendê-las (Jo 16,12-15: “Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não as podeis suportar agora. Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a verdade, porque não falará por si mesmo, mas dirá o que ouvir, e anunciar-vos-á as coisas que virão...”). O Espírito da Verdade ou o Paráclito tem a missão de introduzir o cristão, na descoberta de toda a verdade, ajudará até o fundo, até as últimas consequências, a mensagem de Jesus Cristo.          

A presença do Espírito exprime a presença de Deus e Jesus: “Não vos deixarei órfãos, mas voltarei a vós”. Os discípulos sabem que Jesus está prestes a deixá-los, por isso ficam entristecidos e se perguntam como lhes será possível permanecer unidos a ele e continuar amando-o, se ele for embora. Jesus também compreende perfeitamente a situação deles e por isso, ele promete não deixá-los sós, sem proteção e sem guia: “Não vos deixarei órfãos. Eu voltarei a vós”.  Pela presença do Espírito Jesus sempre de novo “vem’ à sua comunidade. O abandono só dura pouco tempo.  Trata-se aqui, na verdade, de uma experiência pascal. Se o mundo vê na morte como um fim de tudo, para Jesus é apenas uma passagem. Ele ressuscitou. Com a ressurreição de Jesus, Deus manifestou-se, definitivamente, como VIDA. Para a fé, páscoa significa não que Jesus esteja vivo em algum lugar, mas que ele se manifesta sempre novo, pela palavra e pelo Espírito, como a força que leva aos homens. O próprio Ressuscitado está em espírito junto dos seus e não os deixará sós jamais. O Espírito é a presença atual e futura de Jesus, aquele futuro que não conhece fim. Neste futuro aberto vive a fé. Com a presença de Jesus no Espírito e na realidade realmente já se iniciou a comunhão de Deus com os homens. Pelo amor a Jesus, já começa a operar em nós a sua força pascal. Já está presente em nós o que será eternamente futuro (1Tm 4,8; cf. 2Cor 1,9; Rm 6,3ss).         

Daqui nasce a obrigação de cada cristão, permanecer sempre disposto a seguir os impulsos do Espírito Santo que nos conduz à descoberta de coisas sempre novas. Pois o Espírito da Verdade é, por sua natureza, aquele que renova a face da terra.         

Por isso, quem não se aprofunda na Palavra de Deus, quem não se abre a novas ideias e permanece agarrado, teimosamente, a tradições já ultrapassadas e gastas pode, sem dúvida nenhuma, agir contra o Espírito da Verdade.          

Mas ele esclarece antes de tudo que o Espírito Santo está reservado aos que O amam, aos que observam os seus mandamentos, aos que praticam o amor ao irmão, como ele afirma: “Quem tem meus mandamentos e os observa é que me ama; e quem me ama será amado por meu Pai, e também eu o amarei e me manifestarei a ele (v.21). Quem tem a iniciativa do amor é Deus (Jo 3,16). A comunidade cristã e o “mundo” distinguem-se entre si pela presença ou pela ausência do amor.          

Portanto, podemos nos perguntar: Por acaso, podemos nos considerar abertos ao Espírito da Verdade, nós, que muitas vezes, temos medo de tudo o que é novo? Peçamos sempre a ajuda do Espírito da Verdade para que possamos penetrar nos segredos de Deus, nos mistérios de Deus para entender o mistério da vida e do homem. Temos observado os mandamentos do Senhor que são resumidos no amor fraterno? 

Quem Se Deixa Guiar Pelo Paraclito Dá Razão de Esperança Para Todos 

Santificai em vossos corações o Senhor Jesus Cristo, e estai sempre prontos a dar razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la pedir”, assim exorta São Pedro na Segunda Leitura deste domingo. “Dar razão da vossa esperança!”. Pedro, testemunha excepcional do Evangelho, nos exorta a darmos razão de nossa esperança a todos quantos nos perguntarem. Dar razão de nossa esperança não é dar razoes para atrairmos os outros para nossa causa, e sim viver com esperança, esperando apesar de tudo, sem nos deixar dominados pela ganância e corrupção para que nossa vida seja a melhor denúncia diante do egoísmo e da indiferença do mundo; para que nossa solidariedade e partilha questionem o egoísmo e o individualismo que degrada a vida e desestabiliza a sociedade. 

Dar razão de nossa esperança não significa apenas crer no céu. Não podemos inventar o céu se a credibilidade de nossa vida ética e moral é questionada. Não basta amontoar palavras acerca do céu; é imprescindível que a esperança do céu tenha credibilidade a partir da vida e do amor fraterno vividos pelos cristãos. Incrível é outro mundo, o céu, quando brindamos como “revanche” aos pobres para que se conformem com sua pobreza e não nos pedem contas de nossas riquezas. Incrível é o céu, quando somente serve de pretexto para fugirmos das vítimas de injustiças para viver em paz com nós mesmos. Jesus encara a cruz para salvar a humanidade. 

Além disso, quem quer dar razão da esperança, deve aprender a viver na mansidão, pois a agressividade não pode ser nunca sinal da esperança e sim de medo.

P. Vitus Gustama,svd

Terça-feira Da VI Semana Da Páscoa,12/05/2026

SOB O IMPULSO DO ESPÍRITO DIVINO VIVEREMOS NA SERENIDADE COMO JUSTO DIANTE DOS DESAFIOS DA VIDA CRISTÃ Terça-Feira da VI Semana da Páscoa ...