sexta-feira, 5 de junho de 2026

X Domingo Do Tempo Comum, Ano "A", 07/06/2026

VIVER CONFORME A MISERICÓRDIA DE DEUS

X DOMINGO DO TEMPO COMUM “A”

Primeira Leitura: Os 6,3-6

3É preciso saber segui-lo para reconhecer o Senhor. Certa como a aurora é a sua vinda, ele virá até nós como as primeiras chuvas, como as chuvas tardias que regam o solo. 4Como vou tratar-te, Efraim? Como vou tratar-te, Judá? O vosso amor é como nuvem pela manhã, como orvalho que cedo se desfaz. 5Eu os desbastei por meio dos profetas, arrasei-os com as palavras de minha boca, como luz, expandem-se meus juízos; 6quero amor, e não sacrifícios, conhecimento de Deus, mais do que holocaustos.

Segunda Leitura: Rm 4,18-25

Irmãos: 18Abraão, contra toda a humana esperança, firmou-se na esperança e na fé. Assim, tornou-se pai de muitos povos, conforme lhe fora dito: “Assim será a tua posteridade.” 19Não fraquejou na fé, à vista de seu físico desvigorado pela idade – cerca de cem anos – ou considerando o útero de Sara já incapaz de conceber. 20Diante da promessa divina, não duvidou por falta de fé, mas revigorou-se na fé e deu glória a Deus, 21convencido de que Deus tem poder para cumprir o que prometeu. 22Esta sua atitude de fé lhe foi creditada como justiça. 23Afirmando que a fé lhe foi creditada como justiça, a Escritura visa não só à pessoa de Abraão, 24mas também a nós, pois a fé será creditada também para nós que cremos naquele que ressuscitou dos mortos Jesus, nosso Senhor. 25Ele, Jesus, foi entregue por causa de nossos pecados e foi ressuscitado para nossa justificação.

Evangelho: Mt 9,9-13

Naquele tempo: 9Partindo dali, Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado na coletoria de impostos, e disse-lhe: “Segue-me!” Ele se levantou e seguiu a Jesus.10Enquanto Jesus estava à mesa, em casa de Mateus, vieram muitos cobradores de impostos e pecadores e sentaram-se à mesa com Jesus e seus discípulos. 11Alguns fariseus viram isso e perguntaram aos discípulos: “Por que vosso mestre come com os cobradores de impostos e pecadores?” 12Jesus ouviu a pergunta e respondeu: “Aqueles que têm saúde não precisam de médico, mas sim os doentes. 13Aprendei, pois, o que significa: ‘Quero misericórdia e não sacrifício.’ De fato, eu não vim para chamar os justos, mas os pecadores”.

-----------------------------

 Mateus, Cobrador De Impostos

Palavras de alguns Padres da Igreja:

1.   Os outros evangelistas (Mc 2 e Lc 5), por respeito e honra do mesmo Mateus, não quiseram chamá-lo pelo nome com que era vulgarmente conhecido, mas chamaram-no de Levi, pois ele usava esses dois nomes. Mas o próprio Mateus, seguindo o que diz Salomão- O justo é o primeiro acusador de si (Pr 18,17)- chama a si mesmo de Mateus e de publicano, para mostrar a todos os que o lerem que ninguém deve desesperar de sua salvação, como se converta a uma vida melhor, já que ele mesmo foi repentinamente transformado de publicano em apóstolo (São Jerônimo. In Santo Tomás de Aquino: Catena Aurea Vol.1: Evangelho de São Mateus, 1ª Edição. Ecclesiae, Campinas, SP, 2018 p.334).

2.   Por esse acontecimento nos é mostrado o poder d´Aquele que chama: pois arranca do meio do mal um homem que não renunciava a um ofício perigoso, como fez com Paulo, que estava enloquecido. Por isso segue-se: e disse-lhe: “Segue-me”. Assim como viste o poder d´Aquele que chama, aprende também a obediência do que é chamado. Ele não lhe opõe resistência, nem pede para voltar até sua casa e comunicar sua decisão aos seus (São João Crisóstomo. Idem).

3.   Os fariseus eram psioneiros de dois erros: na altivez da soberba, julgavam-se justos a si mesmos, estando muito longe da justiça, e tinham por injustos todos aqueles que, arrependidos de seus pecados, aproximavam-se da justiça (Rábano Mauro. Idem)

4.   Lucas acrescenta a penitência (Lc 5,32), o que significa, desenvolvendo seu pensamento, que ninguém deve julgar que Cristo ama os pecadores pelo simples fato de serem pecadores; além disso, a comparação com os doentes dá-nos a inteligência clara do que Deus quer, chamando os pecadores como um médico chama os enfermos, isto é, para salvá-los da iniquidade como de uma doença, o que se consegue através da penitência (Santo Agostinho. In Santo Tomás de Aquino: Catena Aurea Vol.1: Evangelho de São Mateus, 1ª Edição. Ecclesiae, Campinas, SP ,2018 p.335).

-------------------------

O trecho do evangelho deste domingo faz parte de um pequeno conjunto de Mt 9,9-17 onde se fala da controvérsia entre Jesus e seus discípulos, de um lado, contra os fariseus e judeus, do outro lado (inclusive, com os discípulos de João).         

Depois da segunda série de milagres(Mt 8,1-9,8), vem um intervalo onde o texto fala da chamada de um novo discípulo, que aqui é chamado de Mateus (veja os textos paralelos: Mc 2,13-17 chama esse novo discípulo de Levi, o filho de Alfeu; Lc 5,27-32 o chama simplesmente de Levi) a quem a tradição atribui como o autor do primeiro Evangelho na Bíblia (Evangelho de Mateus). Neste relato encontram-se duas controvérsias(Mt 9,10-13 e 9,14-17) cujo tema de fundo é o estilo de vida de Jesus e de seus discípulos. Nas duas controvérsias Jesus e seus discípulos aparecem intimamente unidos, pois para saber sobre Jesus, os adversários perguntam aos discípulos (Mt 9,11); e para saber sobre os discípulos, eles perguntam a Jesus (Mt 9,14). Falaremos somente a primeira controvérsia com alguns detalhes, de acordo com o que o evangelho deste domingo nos apresenta.

Jesus Chama Um Cobrador De Impostos Para Ser Seu Discípulo

Como se sabe, ser cobrador de impostos (como profissão) era considerado como uma das profissões desprezíveis, até mesmo odiadas pela população judaica. O hábito chamava  categoricamente os cobradores de impostos de pecadores(Lc 19,7) ou publicanos.         

Por que os fariseus e judeus consideravam os cobradores de impostos como pecadores ou publicanos(pecadores públicos)?         

Em primeiro lugar, porque os cobradores de impostos colaboravam com o império romano. A população judaica os detestava pelo fato de eles terem o contato freqüente com os pagãos (os romanos) que os causavam impuros; e pelo fato de ter em casa e usar moedas com imagens dos imperadores que se proclamavam divinos e por não respeitar a lei do Sábado e outros mandamentos de Deus. Além disso, os cobradores tinham o direito de cobrar a parte deles em cada taxa além do limite. Conseqüentemente, eles eram exploradores, desonestos e viviam da exploração dos mais pobres do seu próprio povo.         

Por serem pecadores públicos, os cobradores de impostos, pela legislação judaica, não podiam ser testemunhas em tribunais, pois sua palavra não valia nada. E se convertessem-se, deveriam abandonar a profissão e restituir 20% de tudo o que possuíam como prova de conversão, o que era impossível para o pensamento da população judaica. Por isso, para eles não existia a possibilidade de salvação. Além disso, era proibido aceitar o dinheiro dos cobradores de impostos para a caixa dos pobres (como esmola), porque a injustiça impregnava esse dinheiro (dinheiro sujo).

A lei denuncia o pecado e pune o pecador. Enquanto somos duros com os pecadores, somos coniventes com o pecado. Jesus rejeita o pecado e acolhe o pecador, pois Deus não é lei e sim amor; não é punição e sim perdão e remédio.  A misericórdia é que levará Jesus a se sacrificar na Cruz.  A religião da lei e da punição é substituída por aquela da liberdade e do amor. O amor e o perdão libertam. Ou seja, o pecado não exclui ninguém do Reino desde que o homem se converta. O amor de Deus é para todos os homens e para todas as criaturas, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16).

“Eu não vim para chamar os justos, mas os pecadores”.        

A missão de Jesus não é para os justos. Nenhum justo é salvo, pois ninguém é justo (Sl 12,2; Rm 3,23), exceto Ele, que se perde por todos os justos. Jesus é o Filho enviado a todos os irmãos perdidos: come, vive e caminha com eles.

Jesus tem, então, uma independência total diante da cultura do seu povo, quando se trata de romper com barreiras culturais que os “religiosos” tinham contra os “pecadores”. Ao enfrentar os judeus e fariseus, Jesus quer mostrar-lhes que sair ao encontro de um pecador é uma expressão maior da fidelidade ao Deus Santo, que é o Deus de amor e misericórdia, do que isolar-se para alardear a própria perfeição. Por isso, ele chama Mateus, o cobrador de impostos, para ser seu discípulo.

Eu não vim para chamar os justos, mas os pecadores”. A lei denuncia o pecado e pune o pecador. O Senhor rejeita o pecado, mas acolhe o pecador. Deus não é lei e sim é amor (1Jo 4,8.16). Deus não é punição e sim o perdão e remédio. Por isso, a nossa miséria fica muito menor do que a misericórdia divina. Basta ouvir a chamada do Senhor e seguir seus passos. Deus ama mais o pecador porque necessita mais, assim como o pecador amará mais, porque recebeu mais amor (Lc 7,36-50). Uma pessoa, quanto mais doente, mais tem direito ao médico. O pecado não impede o pecador de ter uma experiência de Deus, antes, precisamente por causa dele, Deus o chama pelo seu verdadeiro nome, que é Jesus, Deus salva (Mt 1,21; cf. Lc 1,77).          

Jesus escolheu esse homem, porque devia estar vendo o coração dele. Lá no fundo do coração desse homem devia ter bondade. No momento, sem dúvida, ele não era bom, pois era um ladrão diplomado. Mas a graça de Deus sempre faz surpresas. Com a graça e o convite de Jesus, e com a disposição interna do coração, Mateus iria se converter, iria seguir a Jesus e ser o seu grande testemunho pelo mundo afora. Com esse relato, Mateus faz questão de lembrar a todos os pecadores ou os que se acham pecadores para não terem medo nem fugirem ou se afastarem de Jesus. Um pecador convertido pode ser um grande evangelizador. Esse pecador pode ser que seja eu ou seja você que está lendo este texto que fala do testemunho da conversão de Mateus. A possibilidade  de converter-se e de ser evangelizador em seguida é sempre aberta para todos.

Seguir a Jesus         

Jesus chama Mateus para segui-lo: “Segue-me(Mt 9,9). E ele o segue (Mt 9,9). Ele diz a mesma coisa para Simão e André (Mt 4,19) e para Tiago e João (Mt 4,21). Diante de palavra tão poderosa, a única reação de Mateus é colocar-se em pé e seguir a Jesus.

O termo “seguir”(akoloutheo, em grego) aparece 90 vezes no NT, das quais 11 vezes se encontram fora dos Evangelhos (em Atos, 4 vezes; em Ap, 6 vezes; e o resto em 1Cor 10,4). Nos evangelhos este termo se refere ao seguimento de Jesus (no total 73 vezes).          

O verbo “seguir”, em sentido próprio, significa “ir atrás de alguém”; e no sentido figurado significa “ser discípulo”, “ir em seguimento de alguém”. No NT, ambos significados se aplicam a Jesus, por exemplo, quando se diz que a multidão de gente seguia a Jesus e que, por outro lado, os discípulos iam em seguimento de Jesus. E os sujeitos do “seguir” são normalmente pessoas (somente Ap 14,13 constitui uma exceção: “as obras” dos que morrem no Senhor lhes seguem). E o objeto do “seguir” é sempre uma pessoa ou grupo de pessoas.         

O que significa seguir a Jesus? Seguir a Jesus significa romper todo o passado, abandonar tudo (cf. Mt 4,18-22;9,9s;19,21;Lc 9,61;Mc 10,28), submetendo-se com fé e obediência à salvação oferecida em Cristo. Seguir também tem sentido de imitação. Neste sentido seguir significa  unir-se com Jesus numa comunhão de vida e de destino; é modelar-se segundo o exemplo de Jesus (cf. Jo 13,15.34;15,12;1Ts 1,6;1Cor 11,1;Ef 5,2;1Jo 2,6 etc.). Assim, seguir a Jesus não é apenas aderir a um ensinamento moral e espiritual, mas compartilhar sua sorte. Por isso, Jesus exige o desapego total: renunciar às riquezas e à segurança, deixar os familiares (Mt 8,19-22;10,37;19,16-22), sem esperar o retorno(troca ou retribuição). Ao exigir de seus discípulos um tal sacrifício, Jesus se revela como Deus, única garantia e revela integralmente até que ponto vão as exigências de Deus. Pode ser que seja até o sacrifício da cruz e até se sentir abandonado pelos outros, como Jesus sentiu(Mt 26,56).          

A partir deste sentido, somos convidados a refletir sobre o nosso seguimento de Cristo. Até que ponto estamos dentro deste padrão? Em outras palavras, o que significa para nós hoje seguir a Jesus? Para responder esta pergunta, devemos responder outra pergunta: quem é Jesus a quem seguimos?         

Seguir a Jesus é viver a sua vida. E a vida de Jesus foi marcada particularmente por amor ao Pai e ao homem, especialmente aos mais necessitados. Seu relacionamento profundo com o Pai se traduz na prática da solidariedade com os marginalizados e pecadores. Seguir a Jesus é viver segundo o seu projeto. Ele quer que as relações humanas e sociais se baseiem sobre a justiça, o amor, a fraternidade e o perdão. Tudo isso se tornará realidade , se o homem se descobrir como filho de um Pai amoroso. Seguir a Jesus é estar pronto para viver o seu destino. Viver segundo o projeto de Jesus leva o seguidor a viver o martírio. O martírio é o preço a pagar pela fidelidade à causa jamais traída. Quem se propõe seguir a Jesus deve estar pronto para viver a bem-aventurança das perseguições(Mt 5,10s).

Os Publicanos E Os Pecadores Sentam-Se À Mesa Com Jesus        

Os fariseus se escandalizam junto dos discípulos pelo fato de seu Mestre comer com os publicanos e pecadores: “Por que vosso Mestre come com os cobradores de impostos e pecadores?”(v.11). Os fariseus usam a linguagem “nós/vocês, eles” em oposição: “vosso” mestre, em oposição aos mestres com quem eles estão familiarizados e com quem são benevolentes. É o primeiro exemplo de franca oposição dos fariseus a Jesus. A pergunta feita pelos fariseus, aqui, é uma tentativa de desacreditar Jesus, chamando a atenção para algo que muita gente ou todo o mundo acharia revoltante. É uma controvérsia sobre quem teria influência e constituiria a liderança e autoridade local.         

Por que os fariseus se escandalizam diante da atitude de Jesus? Porque comer com alguém ou partilhar à mesa, a quem se dava usualmente o nome de “amigo de mesa”, era sinal de amizade e compatibilidade. Não é qualquer um é convidado para uma refeição(jantar ou almoço), nem na época de Jesus e, creio que, nem também na nossa época. No Oriente, receber alguém em comunhão de mesa significa até os dias de hoje uma honra que quer dizer oferta de paz, confiança, fraternidade e perdão. Em outras palavras, comunhão de mesa é comunhão de vida. Ao comer com os pecadores, Jesus se identificava com eles. Enquanto na época não se podia comer com gente “impura” e isso era um costume apoiado pelas autoridades e pela tradição religiosa. Ao verem os companheiros de mesa de Jesus eram pessoas religiosamente impuras, os fariseus acreditavam que Jesus estava comprometendo sua posição de Mestre.

O número de refeições tomados por Cristo com pecadores, o fato de o pai de família perdoar seu filho pródigo por uma refeição suntuosa(Lc 15,22-24), a atitude de Jesus de “pôr a mão” junto com Judas no prato(Mt 26,23) como sinal de intimidade, e sua preocupação em oferecer o pão e o vinho para a remissão dos pecados(Mt 26,28), manifestam claramente a consciência dos primeiros cristãos em face da eucaristia como sacramento do perdão(Mt 18,15-18). Existe aqui o elo entre a eucaristia e o sacramento do perdão. Jesus pronunciou o perdão não só por palavra, mas também por atos. A forma mais impressionante de anúncio do perdão através de atos para os homens daquele tempo foi sua comunhão de mesa com os pecadores. No judaísmo em particular, comunhão de mesa é comunhão perante os olhares de Deus, visto que ela é restabelecida enquanto cada um dos participantes, comendo um pedaço do pão partido, participa da bênção que o dono da casa pronunciou sobre o pão antes de parti-lo. Assim sendo, as refeições de Jesus com os publicanos e pecadores não são acontecimentos puramente de ordem social, não são apenas expressão de incomum cordialidade humana e de generosidade social, mas o seu sentido é mais profundo: a inclusão de pecadores na comunidade de salvação, realizada na comunhão de mesa, é a expressão mais patente da mensagem do amor redentor de Deus. Essas refeições são celebrações antecipatórias do banquete salvífico do fim dos tempos(Mt 8,11).

Quero Misericórdia e Não Sacrifício         

“Misericórdia: é o ato último e supremo pelo qual Deus vem ao nosso encontro. Misericórdia: é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida. Misericórdia: é o caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado. ... A Igreja tem a missão de anunciar a misericórdia de Deus, coração pulsante do Evangelho, que por meio dela deve chegar ao coração e à mente de cada pessoa. A Esposa de Cristo assume o comportamento do Filho de Deus, que vai ao encontro de todos sem excluir ninguém.” (Papa Francisco: Bula De Proclamação Do Jubileu Extraordinário Da Misericórdia: Misericordiae Vultus n.2 e 12).

Jesus responde à pergunta dos fariseus citando um provérbio: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes” (v.12). Como o médico cura os doentes, do mesmo modo, Jesus veio, exatamente, para a sua reconciliação, e deu sua vida por todos os pecadores: “Não vim chamar os justos, mas os pecadores” (v.13b). Ao associar-se aos pecadores, Jesus não está defendendo o rebaixamento dos padrões bíblicos de retidão. A misericórdia de Deus não é cumplicidade e laxismo permissivo (laxismo é doutrina que restringe excessivamente a obrigação moral). Ao contrário, o propósito de seu ministério é possibilitar que os decaídos sejam levantados e vivam segundo o padrão de retidão de Deus.         

Jesus também cita um ensinamento bíblico de Os 6,6: “Quero misericórdia e não sacrifício”(v.13). Misericórdia significa o sentimento que se experimenta diante do infortúnio que aflige a outra pessoa, e a ação que brota desse sentimento. Ao citar Os 6,6  Jesus declara a primazia da misericórdia, da caridade ativa, acima do sacrifício (Mt 9,13;12,7;23,23).  Toda a experiência profunda de Deus nos leva à prática eficaz da misericórdia. As nossas pequenas mortificações, e exercícios ascéticos só tem valor na medida em que servirem de treino para o exercício da misericórdia. Para Jesus a misericórdia é o pré-requisito para a construção de relações saudáveis e fraternas.        

Através da citação de Os 6,6, Jesus (como faziam os profetas) está denunciando o culto vazio e a hipocrisia dos que se julgam em ordem com Deus (os fariseus) apenas por cumprirem certos ritos (dízimo, jejum, purificação etc.), enquanto se esquecem da justiça, do amor ao próximo e da reconciliação fraterna.  Segundo Jesus, a religião que agrada a Deus é aquela que se expressa na piedade e na misericórdia, no amor ao irmão, na praxis da reconciliação, na paixão pela justiça e libertação humana. Para Jesus, a pureza religiosa autêntica não é a legal, mas a conversão ao amor, à piedade e à misericórdia. Jesus não critica uma religião sem culto, mas uma religião alheia ao compromisso da vida, ao amor fraterno, à misericórdia.         

Neste dia somos convidados a verificar as nossas motivações religiosas, tanto as autênticas como as falsas na pratica da religião. Não podemos esquecer de que o Deus revelado pela palavra e pela ação de Jesus é um Deus de misericórdia, que acolhe os perdidos oferecendo-lhes uma possibilidade nova de refazer-se. E este mesmo Deus mostra sua compaixão a quem é compassivo, mas não a mostra a quem não o é. São Tiago diz categoricamente: “...o julgamento será sem misericórdia para aquele que não pratica a misericórdia. A misericórdia, porém, triunfa sobre o julgamento” (Tg 2,13; cf. também Mt 18,32s).

“Deus nunca Se cansa de escancarar a porta do seu coração, para repetir que nos ama e deseja partilhar conosco a sua vida. A Igreja sente, fortemente, a urgência de anunciar a misericórdia de Deus. A sua vida é autêntica e credível, quando faz da misericórdia seu convicto anúncio.” (Papa Francisco: Misericordiae Vultus n.25).

“O amor apaixonado de Deus pelo seu povo, pelo ser humano, é, ao mesmo tempo, um amor que perdoa. E é tão grande que chega a virar Deus contra si próprio, o amor contra a sua justiça” (Bento XVI: Carta encíclica: DEUS CARITAS EST n.10).

Pe. Vitus Gustama,SVD

Sábado Da IX Semana Comum, Ano Par, 06/06/2026

SER IMITADOR DA GENEROSIDADE DE DEUS

Sábado Da IX Semana Comum

Primeira Leitura: 2Tm 4,1-8

Caríssimo, 1 conjura-te solenemente diante de Deus e de Cristo Jesus, que há de vir a julgar os vivos e os mortos, e em virtude da sua manifestação gloriosa e do seu Reino, eu te peço com insistência: 2 proclama a palavra, insiste oportuna ou importunamente, argumenta, repreende, aconselha, com toda a paciência e doutrina. 3 Pois vai chegar o tempo em que não suportarão a sã doutrina, mas, com o prurido da curiosidade nos ouvidos, se rodearão de mestres ao sabor de seus próprios caprichos. 4 E assim, deixando de ouvir a verdade, se desviarão para as fábulas. 5 Tu, porém, mostra vigilância em tudo, suporta o sofrimento, desempenha o teu serviço de pregador do evangelho, cumpre com perfeição o teu ministério. Sê sóbrio. 6 Quanto a mim, eu já estou para ser derramado em sacrifício; aproxima-se o momento de minha partida. 7 Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé. 8 Agora está reservada para mim a coroa da justiça, que o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos que esperam com amor a sua manifestação gloriosa.

Evangelho: Mc 12,38-44

Naquele tempo, 38Jesus dizia, no seu ensinamento, à multidão: “Tomai cuidado com os doutores da Lei! Eles gostam de andar com roupas vistosas, de ser cumprimentados nas praças públicas; 39gostam das primeiras cadeiras nas sinagogas e dos melhores lugares nos banquetes. 40Eles devoram as casas das viúvas, fingindo fazer longas orações. Por isso eles receberão a pior condenação”. 41Jesus estava sentado no Templo, diante do cofre das esmolas, e observava como a multidão depositava suas moedas no cofre. Muitos ricos depositavam grandes quantias. 42Então chegou uma pobre viúva que deu duas pequenas moedas, que não valiam quase nada. 43Jesus chamou os discípulos e disse: “Em verdade vos digo, esta pobre viúva deu mais do que todos os outros que ofereceram esmolas. 44Todos deram do que tinham de sobra, enquanto ela, na sua pobreza, ofereceu tudo aquilo que possuía para viver”.

______________________

Viver Preparados Para O Dia De Julgamento

Conjuro-te, solenemente, diante de Deus e de Cristo Jesus, que há de vir a julgar os vivos e os mortos, e em virtude da sua manifestação gloriosa e do seu Reino, eu te peço com insistência: proclama a palavra, insiste oportuna ou importunamente, argumenta, repreende, aconselha, com toda a paciência e doutrina”, escreveu são Paulo para Timóteo.

Termina hoje nossa meditação sobre a Segunda Carta de são Paulo para Timóteo. No texto de hoje, são Paulo exorta a Timóteo solenemente para que cumpra a sua missão nos diversos aspectos que foram indicados nos textos anteriores. O motivo principal dessa exortação é o dia do juízo sobre o qual cada um deverá prestar contas para Deus sobre o cumprimento ou não cumprimento da missão recebida de Deus conforme os dons ou talentos dados por Deus a fim de multiplicá-los para a edificação da comunidade humana. Com uma patética despedida são Paulo escreveu: “Quanto a mim, eu já estou para ser derramado em sacrifício; aproxima-se o momento de minha partida”. Há duas maneiras de dar a vida por Cristo: uma através da consumação da própria vida diariamente em função de dar conhecer Jesus Cristo para as pessoas (2Cor  12,15). Outra é derramar o sangue por causa de Cristo. estas duas maneira continuam sendo um grande desafio para cada cristão.

“... aproxima-se o momento de minha partida”. São Paulo tem consciência de que onde há o começo, também há o fim; onde há a chegada, há também a partida; onde há o nascimento, há também a morte. Mas ele entregou totalmente sua vida para a evangelização. Trata-se de uma vida fecunda, útil para o bem comum que ele cumpriu muito bem. E ele espera que Timóteo faça a mesma coisa.

Por isso é que são Paulo escreveu para Timóteo: “... eu te peço com insistência: proclama a Palavra, insiste oportuna ou importunamente, argumenta, repreende, aconselha, com toda a paciência e doutrina”. A fórmula é extremamente solene. O que Paulo diz a Timóteo é sério! De fato, ele volta novamente a um de seus assuntos ou temas favoritos: o evangelho ... proclamado ... Ele dedicou e entregou toda a sua vida a essa tarefa. Ele transmite o evangelho a seu discípulo, Timóteo, e a todos os bispos do futuro.

Proclama a Palavra, insiste oportuna ou importunamente...”. O inoportunamente indica que Timóteo deve pregar a Palavra também em situações que não parecem propícios, se deixar-se levar pelas considerações humana. A graça não admite demora e pode atuar frequentemente onde menos se espera.

Para são Paulo, existem muitas maneiras de "proclamar a Palavra de Deus": o anúncio das boas novas, a refutação de erros, a luta contra o mal em todas as suas formas (heresia, falsa doutrina etc.), a exortação encorajadora para aqueles que estão passando na prova, o ensinamento ou sã doutrina.

Cada cristão é seguidor do Verbo Divino, Jesus Cristo (Jo 1,1-3.14). Como cristão, seguidor de Cristo, Palavra do Pai, sou também responsável desta “Palavra” para vivê-La e proclamá-La para os outros onde eu estiver. Se for necessário, podemos pregar com nossas palavras, pois a primeira pregação mais eficaz é através de nossa atitude ou de nossa maneira de viver conforme os ensinamentos de Cristo (Cf. Mt 7,16-20). Viver validamente, do ponto de vista cristão, é viver para ajudar os outros e fazer algo útil para a salvação da humanidade, unidos a Cristo. desta maneira é que estamos preparados para o dia de julgamento do Senhor, o justo Juiz.

Estejamos longe Da Hipocrisia Religiosa e Pratiquemos a Generosidade

1. Hipocrisia Religiosa (vv. 38-40)

Nos versículos 38-40 no texto do evangelho de hoje Jesus alerta a todos os cristãos sobre o perigo da hipocrisia e do exibicionismo, pois “eles receberão a pior condenação”.

Hipócrita é aquele gosta de simular virtudes, sentimentos nobres e boas qualidades que, na verdade, não tem nele. Essa simulação tem como objetivo enganar as outras pessoas no intuito de conquistar a estima delas. É um “mendigo” de louvores e aplausos. Ao constatar sua perversidade interior, incapaz de confessá-la e corrigi-la, o hipócrita se refugia na simulação de possuir virtudes. Ele não se preocupa em ser bom, mas em apropriar-se daqueles indícios que o faz parecer como tal. O hipócrita não está consciente de que a dignidade da pessoa humana não consiste em parecer bom e sim em ser bom. Bondade é a própria perfeição possuída por um ser. Uma pessoa boa é capaz de dar a outra pessoa a perfeição que lhe falta.

No evangelho, hipócrita eram os fariseus que respeitavam a Lei até a última vírgula, porém era apenas um respeito formal à legalidade sem nenhuma convicção íntima. Eles substituíam a procura do bem pela busca da própria glória. Eram ateus de coração.

Os hipócritas fariseus morreram? É claro que não! Basta abrirmos os jornais ligarmos a TV para nos dar conta das astúcias dos hipócritas. Sob aparências de bondade violam os ditames da consciência e as normas legais. Podemos, por isso, encontrar um fornecedor de drogas dentro de um comitê antidrogas. Podemos ver alguém na TV mandar beijos para sua esposa, mas esconde, ao mesmo tempo, muitos amantes, e assim por diante. Todo hipócrita tem um comportamento falso

2. Ser Generoso É Ser Rico Por Dentro (vv.41-44)

Se careces de riquezas, não as busques por meios ilícitos. Se tens riqueza, deposita-a no céu por tuas boas obras. Quem se entusiasma com a aquisição de bens deprime-se com sua perda” (Santo Agostinho: Epist. 189,7).

O Evangelho deste dia nos relatou que a viúva deu de sua indigência, em oposição aos ricos que deram de seu poder e de seus privilégios. Neste aspecto contradiz o provérbio segundo o qual ninguém dá o que não tem; esta mulher, ao contrario, somente possui o que deu. Sua oferta é um símbolo de seu amor.

Esta viúva é o reflexo da generosidade de Deus que criou tudo por amor e dá tudo por amor; até o próprio filho amado Ele não poupou a fim de nos resgatar (cf. Jo 3,16). Ser de Deus é servir e dar, não aquilo que um tem e sim a si mesmo. Jesus não é o turista rico que veio visitar a terra subdesenvolvida da humanidade. Ele é o servidor de todos. Seu modo de ser Deus é a pobreza: dar tudo a fim de salvar todos.

Com sua oferta, a viúva se dá a si mesma. Ela faz de Deus o valor supremo acima de sua própria pessoa e faz depender sua vida de Deus, pois não tem mais meios de subsistência. Só uma pessoa de uma fé muito profunda, como essa viúva, será capaz de fazer essa “loucura”. Sobre este tipo de “loucura” São Paulo nos faz a seguinte reflexão: “Mas o que para o mundo é loucura, Deus o escolheu para envergonhar os sábios, e o que para o mundo é fraqueza, Deus o escolheu para envergonhar o que é forte. Deus escolheu o que no mundo não tem nome nem prestígio, aquilo que é nada, para assim mostrar a nulidade dos que são alguma coisa. Assim, ninguém poderá gloriar-se diante de Deus” (1Cor 1,27-29). 

Através de sua oferta a viúva traduz em pratica aquilo que Jesus disse anteriormente: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com toda a tua força!” (Mc 12,30). Uma entrega total, ainda que de aparência modesta, tem muito mais valor do que uma entrega parcial ainda que de uma aparência volumosa. O que vale é a totalidade do dom. A viúva é exemplo de um amor total a Deus, manifestado no total desprendimento dos bens materiais; é a antítese dos dirigentes do evangelho de hoje, infiéis a Deus por seu amor aos bens materiais.

Quando o coração humano se deixar arrebatar por Deus e o experimentar fortemente, então a esperança de poder possuir Deus se converte na força que move a vida. Basta ver como a esperança de Deus fez santos crianças, jovens e adultos, mulheres e homens que foram capazes de dar a vida pelo bem da humanidade como tradução da fé em Deus-generoso. Mas também é verdade que a falta de ilusão (ilusão é falta de correspondência entre a sensação e o objeto percebido) por Deus conduz muitos outros cristãos à mediocridade, à tibieza, à avareza e assim por diante. Por mais que tentemos para possuir nesta terra, nada conseguiremos. Nada podemos possuir. Temos apenas o usufruto das coisas deste mundo. Largaremos um dia assim que terminarmos nossa caminhada histórica.

Olhando para sua maneira de ser, o que é que essa viúva quer corrigir e purificar em você hoje? O que falta em você para ter a maneira de viver dessa viúva? Será que a fé na providência divina? Será que o desprendimento? Será que a generosidade? Será que a esperança?

P. Vitus Gustama,svd

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Sexta-feira Da IX Semana Comum, 05/06/2026

VIVER CONFORME A PALAVRA DE DEUS PARA CHEGAR À PERFEIÇÃO

Sexta-Feira Da IX Semana Comum

Primeira Leitura: 2Tm 3,10-17

Caríssimo, 10 tu me tens seguido fielmente no ensino, no procedimento, nos projetos, na fé, na paciência, no amor, na perseverança, 11 nas perseguições e nos sofrimentos que suportei em Antioquia, Icônio e Listra. E que perseguições sofri! Mas de todas elas o Senhor me livrou. 12 Aliás, todos os que quiserem levar uma vida fervorosa em Cristo Jesus serão perseguidos. 13 Os homens maus e sedutores irão de mal a pior, enganando e sendo enganados. 14 Permanece firme naquilo que aprendeste e aceitaste como verdade; tu sabes de quem o aprendeste. 15 Desde a infância conheces as Sagradas Escrituras: elas têm o poder de te comunicar a sabedoria que conduz à salvação pela fé em Cristo Jesus. 16 Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para ensinar, para argumentar, para corrigir e para educar na justiça, 17 a fim de que o homem de Deus seja perfeito e qualificado para toda boa obra.

Evangelho: Mc 12,35-37

35Naquele tempo, Jesus ensinava no Templo, dizendo: “Como é que os mestres da Lei dizem que o Messias é Filho de Davi? 36O próprio Davi, movido pelo Espírito Santo, falou: ‘Disse o Senhor ao meu Senhor: senta-te à minha direita, até que eu ponha teus inimigos debaixo dos teus pés’. 37Portanto, o próprio Davi chama o Messias de Senhor. Como é que ele pode então ser seu filho?” E uma grande multidão o escutava com prazer.

_________________

Somos Chamados a Ser Pessoas Ideais De Deus

Todos os que quiserem levar uma vida fervorosa em Cristo Jesus serão perseguidos. Permanece firme naquilo que aprendeste e aceitaste como verdade.....”. São algumas frases da Primeira Leitura que lemos hoje.

Depois de ter recordado a Timóteo as maravilhas passadas da evangelização (2Tm 1) e exposto as dificuldades presentes (2Tm 2), são Paulo enfoca o porvir e seus perigos: heresias e corrupção da doutrina (falsa doutrina), apostasias e perseguições. Tudo isso é dirigido ao seu fiel discípulo: Timóteo. Em outras palavras, haverá o combate decisivo entre o bem e o mal por causa da fidelidade na vivência dos ensinamentos de Jesus Cristo e daquilo que é verdade: “Todos os que quiserem levar uma vida fervorosa em Cristo Jesus serão perseguidos”. Perseguição foi o caminho seguido por Cristo e ele o anunciou aos discípulos no discurso da despedida (Jo 15,19-20). Agora são Paulo  anunciou a Timóteo o mesmo caminho. Mas não deve ter medo das perseguições pelo evangelho, pois o próprio Cristo prometeu o Reino para aqueles que sofressem perseguição por sua causa (Mt 5,11).

Podemos dizer que a vida de um cristão e da Igreja em geral, se permanecer fiel aos ensinamentos de Cristo, é uma luta permanente contra o mal (“homens maus e sedutores”). Qualquer cristão verdadeiro sofrerá perseguições e ódios de uma grande parte da sociedade injusta e desonesta, por manter sua opção pelos valores do Reino tais como amor, justiça, honestidade, verdade, igualdade, fraternidade e assim por diante. A presença do justo é sempre uma censura viva para os desonestos. Enquanto a Igreja existir sobre a face da terra, vão continuar a existir também mártires. Mas o sangue do mártir é a semente para a Igreja e para a humanidade inteira.

Diante do anúncio da futura perseguição, são Paulo dá conselho para Tomóteo para que permaneça fiel à sã doutrina que Timóteo aprendeu da tradição (ensinamentos orais etc.)como verdade e das Sagradas Escrituras (Bíblia), que ele aprendeu desde a infância, pois elas contém a sabedoria para viver na retidão, e conduzem os homens à salvação: “Permanece firme naquilo que aprendeste e aceitaste como verdade; tu sabes de quem o aprendeste. Desde a infância conheces as Sagradas Escrituras: elas têm o poder de te comunicar a sabedoria que conduz à salvação pela fé em Cristo Jesus”.

A expressão “As Sagradas Escrituras” da qual são Paulo fala aqui se refere ao Antigo Testamento (AT), já que a coleção do Novo Testamento (NT) não existia, todavia. É impossível entender o NT sem uma leitura inteligente do AT. Jamais podemos mutilar a Bíblia de acordo com o nosso gosto. Uma leitura do AT independente da tradição, independente “da fé em Jesus Cristo” (2Tm 3,15), não seria salvífica, de acordo com São Paulo.

O segundo conselho de são Paulo para Timóteo é este: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para ensinar, para argumentar, para corrigir e para educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e qualificado para toda boa obra”. É por isso que cada cristão deve ler, meditar e viver de acordo com a Palavra de Deus.

São Paulo enfatiza, em primeiro lugar, que na composição dos livros que formam a Escritura interveio misteriosamente o Espírito Santo (“inspirado por Deus”). A ação do Espirito Santo influiu no entendimento e na vontade dos autores dos livros bíblicos  de tal modo que os autores colocaram por escrito o que Deus queria nos comunicar por meio deles. Isto significa que os autores bíblicos são pessoas que se deixam inspirar e guiar pelo Espirito Santo. Por isso, o Concílio Vaticano II, na Constituição Dogmática, Dei Verbum, afirma: “As coisas reveladas por Deus, contidas e manifestadas na Sagrada Escritura, foram escritas por inspiração do Espírito Santo. Com efeito, a santa mãe Igreja, segundo a fé apostólica, considera como santos e canónicos os livros inteiros do Antigo e do Novo Testamento com todas as suas partes, porque, escritos por inspiração do Espírito Santo (cfr. Jo. 20,31; 2 Tim. 3,16; 2 Ped. 1, 19-21; 3, 15-16), têm Deus por autor, e como tais foram confiados à própria Igreja. Todavia, para escrever os livros sagrados, Deus escolheu e serviu-se de homens na posse das suas faculdades e capacidades, para que, agindo Ele neles e por eles, pusessem por escrito, como verdadeiros autores, tudo aquilo e só aquilo que Ele queria” (DV n.11). Mais carinhosa ainda é a afirmação do Papa Leão XII: “Oráculos e palavras divinas, cartas dirigidas pelo Pai celestial e transmitidas pelos autores sagrados ao gênero humano que peregrina longe de sua pátria” (Encíclica Providentíssimus Deus).

Sendo inspirada por Deus, a Sagrada Escritura possui a fonte para toda formação e educação cristã. Santo Tomás de Aquino comentou: “São quatro os efeitos da Sagrada Escritura: é útil para ensinar a verdade e confrontar a falsidade, isto quanto à ordem especulativa; para libertar do mal e induzir ao bem, quanto à ordem prática; serve, além disso, para conduzir o homem à perfeição. Porque não o torna bom de qualquer maneira, mas sim aquele que busca a perfeição”.

Portanto, preparemos sempre tempo para nos familiarizar com a Palavra de Deus. Procuremos algum tempo durante o dia para ler e meditar a Palavra de Deus para nos aperfeiçoar como pessoas de Deus. A Bíblia não é somente um livro e sim ela é o Livro. Ela é a voz de Deus; ela é o livro para todos os tempos. No processo da história da salvação a Palavra se faz Aliança, se faz Torá, se faz Palavra profética, que denuncia e anuncia. Ela se faz Palavra Orante(Salmos); se faz Palavra Encarnada em Jesus de Nazaré (Jo 1,14). A Salvação de Jesus se faz Relato e Narração oral que pouco a pouco se plasma em escrito(Evangelho). Como voz de Deus a Palavra de Deus deve ser escutada, meditada, contemplada e vivida. Quando a Palavra de Deus for proclamada e lida, estarei frente a frente com Deus. Cada Palavra de Deus proclamada ou lida, Deus sempre tem alguma palavra para mim: para minha vida (meu comportamento, meu modo de viver, meu modo de falar etc), minha família, meu casamento, minha profissão, meu trabalho, minhas dificuldades e meus problemas.Por isso, eu preciso escutá-la.

Timóteo caminhou com são Paulo e sofreu com ele todo tipo de tribulações e perseguições por causa do Evangelho. Apesar do duro seguimento de Cristo, Timóteo, junto com são Paulo, permaneceu fiel ao Senhor, de tal modo que a Palavra de Deus se converteu para ele e para os evangelizados em fonte de salvação. Por isso, o verdadeiro discípulo é aquele vai atrás das pegadas de Cristo, pois não são palavras dos homens e sim Cristo, Evangelho vivente do Pai que nos ensina, repreende, corrige e educa na virtude para que sejamos perfeitos em Deus.

Jesus Cristo É Poderoso No Amor

O texto do evangelho deste dia pertence ao conjunto de relatos polêmicos entre Jesus e os dirigentes do povo de sua época. Finalmente Jesus se encontrou em Jerusalém e se enfrenta com os representantes do judaísmo oficial em uma série de controvérsias religiosas sobre temas fundamentais da fé.

Neste texto Jesus disse: “Como é que os mestres da Lei dizem que o Messias é Filho de Davi? ... O próprio Davi chama o Messias de Senhor. Como é que ele pode então ser seu filho?”.

O título “filho de Davi”, aplicado a Jesus Cristo faz parte da medula do evangelho. Na Anunciação, a Virgem Maria recebeu esta mensagem: “O Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai, e reinará sobre a descendência de Jacó para sempre” (Lc 1,32-33). Os pobres, que pediam a cura a Jesus, clamavam: “Jesus, Filho de Davi, tem compaixão de mim” (Mc 10,48). Em sua entrada solene em Jerusalém, Jesus foi aclamado com o mesmo título (cf. Mc 11,10).

Mas Jesus não é somente filho de Davi. Ele é o Senhor. Jesus afirma isso solenemente ao citar o Salmo 110,1: “Disse o Senhor ao meu Senhor: senta-te à minha direita, até que eu ponha teus inimigos debaixo dos teus pés”. Em outras palavras, o texto quer esclarecer sobre a verdadeira identidade e autoridade de Jesus. É a vez de Jesus colocar em questão e de pôr em causa a autoridade que os doutores da lei se outorgam a si próprios em respota à pergunta: “Com que autoridade fez essas coisas?”.

Quem é Jesus? Esta é a pergunta que o evangelista Marcos quer responder no seu evangelho. Jesus é Cristo/Messias, o Filho de Deus! É a resposta dada pelo evangelista Marcos logo no início do seu evangelho. No contexto do evangelho de Mc, o Messias é o Filho do Homem e o Filho de Deus. A esperança de um rei messiânico da dinastia davídica está assente na profecia de Natan (2Sm 7,11b-16) e presente nos profetas (Is 9,5s; Jr 23,5; 33,15-17; Ez 34,23s; 37,24s)

Jesus é o Filho do Homem e Filho de Deus, o Messias, mas não ostenta o poder. Jesus se afasta de todo poder para instaurar uma realidade nova, onde os que não exercem o poder se sentem importantes e são chamados para a plenitude. Por isso é que Jesus está sempre próximo dos marginalizados, dos empobrecidos, dos excluídos, dos abandonados e faz refeição com eles.

Jesus está consciente de sua Messianidade e de seu ser Senhor e Rei. No entanto, toda sua vida se desenvolve no serviço e na entrega em amor por nós; amor que chega ao extremo de sacrificar sua própria vida por nós, como se nós fôssemos os Senhores. Trata-se de uma maneira de viver que contém uma crítica dura para os escribas e fariseus que vivem a ostentação na maneira de vestir, que adoram as honrarias e o louvor dos homens, mais do que a honra e o louvor a Deus, que amam o dinheiro impulsivamente, e assim por diante. A falsa profissão religiosa e a hipocrisia são uns dos maiores pecados dos homens. É fingir religiosidade, mas na realidade estão servindo ao mundo. Em tudo que o que fizermos no campo religioso, jamais usemos disfarce como os escribas e fariseus. Sejamos sinceros, reais, honestos, humildes e francos no nosso cristianismo. Jamais poderíamos enganar Deus que nos vê. Por isso, Deus não se deixa enganar. O dia do julgamento logo chegará.  

Em que consiste, então, o poder de Deus? Ele é poderoso, mas no amor. Ele está acima de tudo, mas sempre no amor. Ele é onipotente, mas no amor. Ele é onipresente, mas está sempre presente por amor. Ele é onisciente, mas nos conhece no amor e por amor.  Por causa do seu amor por nós, Jesus foi capaz de aceitar ser crucificado na cruz, em vez de derrubar e matar seus adversários. Jesus nos amou, e nos amou até o fim (cf. Jo 13,1). Jesus é amado pelo Pai por causa disso tudo. E para nós Jesus é o amor encarnado do Pai (cf. Jo 3,16).

Cada dia nós somos chamados a entender este Jesus, o Deus próximo do homem. Não podemos continuar sustentando uma teologia nem uma Igreja que apresente um Jesus cheio de poder, já que esta imagem contradiz a experiência que os evangelhos e todo o Novo Testamento nos apresentam de Jesus.

Quanto mais amor dá, tanto mais você se enche de amor: o amor não se gasta ao ser dado; pelo contrário, você se enche cada vez mais de amor. Quando se ama, as diferença se aproximam e se enriquecem mutuamente e as forças se somam. Qualquer um será um bom líder, bom diretor, se for amado mais do que obedecido ou temido. Uma pessoa só terá autoridade, se conseguir fazer o outro crescer.

P. Vitus Gustama,svd

terça-feira, 2 de junho de 2026

Corpus Christi, Solenidade, 04/06/2026

SOLENIDADE DO SANTÍSSIMO CORPO E SANGUE DE CRISTO ANO “A”

Primeira Leitura: Dt 8,2-3.14-16

Moisés falou ao povo, dizendo: 2 Lembra-te de todo o caminho por onde o Senhor teu Deus te conduziu, esses quarenta anos, no deserto, para te humilhar e te pôr à prova, para saber o que tinhas no teu coração, e para ver se observarias ou não seus mandamentos. 3 Ele te humilhou, fazendo-te passar fome e alimentando-te com o maná que nem tu nem teus pais conhecíeis, para te mostrar que nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca do Senhor. 14b Não te esqueças do Senhor teu Deus que te fez sair do Egito, da casa da escravidão, 15 e que foi teu guia no vasto e terrível deserto, onde havia serpentes abrasadoras, escorpiões, e uma terra árida e sem água nenhuma. Foi ele que fez jorrar água para ti da pedra duríssima, 16ª e te alimentou no deserto com maná, que teus pais não conheciam.

Segunda Leitura: 1Cor 10,16-17

Irmãos: 16 O cálice da bênção, o cálice que abençoamos, não é comunhão com o sangue de Cristo? E o pão que partimos, não é comunhão com o corpo de Cristo? 17Porque há um só pão, nós todos somos um só corpo, pois todos participamos desse único pão.

Evangelho: Jo 6,51-58

Naquele tempo, disse Jesus às multidões dos judeus: 51 “Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que eu darei é a minha carne dada para a vida do mundo”. 52 Os judeus discutiam entre si, dizendo: “Como é que ele pode dar a sua carne a comer?” 53 Então Jesus disse: “Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. 54 Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. 55 Porque a minha carne é verdadeira comida, e o meu sangue, verdadeira bebida. 56 Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. 57 Como o Pai, que vive, me enviou, e eu vivo por causa do Pai, assim aquele que me recebe como alimento viverá por causa de mim. 58 Este é o pão que desceu do céu. Não é como aquele que os vossos pais comeram. Eles morreram. Aquele que come este pão viverá para sempre”.

-------------------

Corpus Christi

Esta solenidade é produto da devoção eucarística medieval ocidental que surgiu para afirmar a PRESENÇA REAL do Senhor na Eucaristia contra os erros do teólogo francês Berengário de Tours (998-1088) que aplica o uso da razão e lógica no campo da fé. A partir do raciocínio lógico Berengário nega a possibilidade do milagre da transubstanciação do pão e do vinho para o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo, pois o pão continua sendo o pão.

Esta devoção surgiu a partir do ano 1110 na França e sobretudo em Liège (Bélgica), e está relacionada também às revelações da beata Juliana de Rétine, religiosa agostiniano (1193-1258) em Liège no ano de 1209. O bispo de Liège marcou a festa em honra do “Corpus Domini” para a Quinta-feira da oitava da Solenidade da Santíssima Trindade e celebrou-se pela primeira vez em 1246. O Papa Urbano IV, em conexão com o milagre de Orvieto em torno da Eucaristia, instituiu essa festa para toda a Igreja em 11 de agosto de 1264.  Aconteceu que um sacerdote, assaltado por dúvidas sobre a presença real de Cristo na Eucaristia, enquanto celebrava a missa viu que da Hóstia consagrada manava sangue até tingir de vermelho o corporal que até hoje é conservado na cidade de Orvieto construída para esse fim. São Boaventura e Santo Tomas de Aquino (+ ambos em 1274) foram os delegados pontifícios para comprovar a veracidade do milagre. Mas com Clemente V (1314) é que esta festa se difundiu com mais rapidez.

O missal romano de 1570 denomina esta festa “do Santíssimo Corpo de Cristo” (“Sanctissimi Corporis Christi”). O missal de 1970 denomina-a “Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo” (“Corporis et Sanguinis Christi). Ou seja, a reforma do Vaticano II menciona não apenas o Corpo (“Corpus Domini”), mas também o Sangue de Cristo, e com uma maior riqueza de textos bíblicos para exprimir uma visão do mistério eucarístico que leve em conta todos os seus aspectos. Completa-se assim a realidade integral do sacramento da eucaristia.

A liturgia da Palavra do Ano litúrgico A (ano em que estamos) com o texto do livro de Deuteronômio (Dt 8,2-3.14-16) recorda os grandes prodígios do Êxodo: a água e o maná. A queda do maná do céu é considerada como prefiguração da Eucaristia. A experiência do deserto levou o povo de Deus a compreender “que o homem não vive só de pão, mas de tudo o que sai da boca do Senhor”. O verdadeiro pão, do qual o homem tem necessidade absoluta, é a Palavra de Deus; Cristo é essa Palavras e esse Pão vivo. Quem come deste Pão vive eternamente, diferentemente dos hebreus no deserto, que comeram o maná e morreram (Evangelho, Jo 6,51-59). E em sua Carta ao Coríntios (1Cor 10,16-17), são Paulo lembra que a participação no cálice é comunhão com o Sangue de Cristo e participação no pão repartido é comunhão com o Corpo de Cristo. Havendo um só Pão, nós, embora sendo muitos, somos um só corpo.

Ao celebrar na Quinta-feira, recordamos a Quinta-feira Santa, dia da instituição da Eucaristia. Ambos os dias têm um objeto similar, mas não são um simples duplicado. A festa do Corpus Christi nos proporciona uma segunda oportunidade para ponderar o mistério da Eucaristia e considerar seus vários aspectos. Esta solenidade nos convida a manifestar nossa fé e devoção a este Sacramento que é o Sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade, banquete pascal no qual Cristo é comungado, e a alma se enche da graça.

O que, sobretudo, distingue a festa de hoje de todas as outras festas cristãs é a procissão. É o mais exterior nesta festa. Mas quando o exterior nasce de dentro é também a manifestação de seu núcleo interior. A Procissão do Corpus Christi nos faz descobrir que somos peregrinos sobre a Terra; não temos aqui a pátria permanente, caminhamos pelo espaço e o tempo rumo à Pátria celeste. Somos pessoas que devem deixar-se transformar, porque ser homem significa deixar-se transformar. Nossa temporalidade e os distintos lugares onde se desenvolve nossa existência se manifestam através de uma procissão.

A solenidade de Corpus Christi é a festa que exalta a presença real de Jesus Cristo no Sacramento da Eucaristia. Precisamente por ser “festa do Sacramento” exaltamos o Corpo e o Sangue, pão e vinho eucarísticos, de Jesus, sinal significativo e eficaz de sua presença entre nós. Mas neste caso o sinal aponta para a comida fraterna na qual o próprio Cristo se dá como alimento. E a comida fraterna e festiva não pode ser entendida sem comunhão, sem convivência com o Senhor Jesus e com os demais comensais (irmãos, próximos). É certo que a Eucaristia constrói a Igreja, mas a constrói como comunidade que compartilha. A Eucaristia significa a Aliança que nos vincula aos demais. Não sou eu o único aliado de Deus, individualmente. Todos somos solidários. Somos todo um povo de Deus.

O mistério da Eucaristia tem muitas evocações: é memorial da Paixão, é Banquete de unidade, é antecipação da vida divina que compartilharemos com Cristo no Céu. Por isso, é necessário descobrirmos uma vez mais o que cremos e celebramos: o Corpo que se entrega, o Sangue que se derrama. A entrega é essência profunda e última do Corpus Chirsti que devemos renovar constantemente. O cristão deve ser pão que se multiplica, pão de vida, pão de união, pão que sacia a fome. A exemplo de Cristo que derramou seu sangue, o cristão deve converter-se também em vinho bom, de melhor colheita que vai passando de mão em mão e de cálice em cálice para que todos bebam a salvação e não a morte.

Além disso, a Eucaristia, dom de Deus, nos ensina a valorizar que o homem não somente vive do pão humano e sim de tudo quanto sai da boca de Deus. E nos assegura o socorro especial do Senhor na travessia do deserto da vida até chegar ao banquete eterno. Comer a carne do Senhor e beber seu sangue é habitar n´Ele e Ele em nós.

A Eucaristia tem duas dimensões: sua celebração (a missa) e sua prolongação, com a reserva do Pão eucarístico no sacrário para os enfermos e para o caso de viático, e a conseguinte adoração que lhe dedica a comunidade cristã. A finalidade principal da Eucaristia é sua celebração e a comunhão com o Corpo e o Sangue de Cristo, que quis ser nosso alimento para o caminho da vida a fim de que sejamos vida também para os outros.

Mensagem do Evangelho

O evangelho desta santa missa (Jo 6,51-59) pertence ao conhecido discurso sobre o Pão da vida (Jo 6). Jesus diz que ele mesmo é o Pão descido do céu para ser comido. Mas comungar o Corpo de Cristo significa aceitar identificar-se com ele; oferecer-lhe a nossa pessoa, para que ele possa continuar a viver, a doar-se e a ressuscitar em cada um de nós. Somente quando nos mantemos nesta disposição de nos transformar na pessoa de Jesus, podemos afirmar que toda a nossa vida está iluminada pela Eucaristia.

Na Eucaristia, Deus se encontra com nossa vida mortal, tão desejosa da eterna imortalidade. Na Eucaristia Deus pronuncia sobre nós Sua Palavra de Vida, reveste-nos da ressurreição de Cristo e deixa a nós estes angustiados pela morte, comer da sua imortalidade num convívio sagrado partindo e repartindo o que se tem e o que se é, como Cristo, Pão da Vida é partido e repartido nos nossos altares. Na Eucaristia, neste Corpo ferido e neste Sangue derramado, temos perenemente presente sua última palavra: O SIM de Jesus ao Pai, por nós e o SIM de Deus a nós, por causa de Jesus.

Consequentemente, comer a carne e beber o sangue de Jesus significa incorporar-se, fusionar. É entrar em comunhão de amor e de destino de Jesus. Tomar o Corpo e o sangue, além disso, é reconhecer a vida do Espírito na carne e no sangue da humanidade, pois a Igreja é o Corpo místico de Jesus (cf. 1Cor 3,16-17). É a humanidade que sofre, que busca, que dá a luz ao mundo com dor; a humanidade que se alegra, que canta e dança. É a humanidade de ricos e de pobres, humanidade de pecadores e de santos. É a humanidade dos rápidos e dos atrasados em descobrir a graça de Deus. É a humanidade da humanidade.       

A eucaristia proporciona uma comunhão real de vida e de destino com a pessoa de Jesus. Seu Corpo nos faz participarmos na ressurreição, nos faz vivermos por Cristo que é vida para sempre, nos faz convivermos como irmãos, nos leva a vivermos na igualdade e na fraternidade, na partilha e na generosidade. 

A celebração eucarística, o mistério mais sagrado que a Igreja guarda como seu tesouro será cada vez menos compreendida, se esta celebração não for feita por uma comunidade viva que se preocupa com a bondade e o bem de todos e para todos. É na convivência fraterna, na experiência da generosidade de quem estima e me quer bem, que o mistério da Eucaristia tem sua plena realização. A missa se torna um espetáculo e um mito se a comunidade cristã não experimenta a beleza humana da bondade divinamente inspirada. Pouco adianta pregarmos o divino, se negarmos o humano.          

O Corpo e o Sangue de Cristo, isto é, a pessoa de Cristo, recebidos com fé são fonte de vida eterna, já desde agora, para o que comunga eucaristicamente. Não acontece a magia e o automatismo sacramentais. Sem fé não há sacramento, vida e comunhão com Jesus. Se Cristo se autodefine como a Vida, então, a Eucaristia comunica ao cristão a vida que Cristo recebe do Pai. Assim o comungante começa a participar da vida trinitária e da aliança de Deus com o homem por meio do sangue de Cristo. Cristo é a vida imortal prometida ao homem desde o princípio e à qual agora pode ter acesso efetivo mediante a comunhão do Corpo do Senhor com fé, isto é com a disposição de se deixar transformar na pessoa de Jesus.          

Portanto, a eucaristia é o centro de toda vida e liturgia de um cristão que quer viver o mistério de Cristo em profundidade.          

Mas “Corpo de Cristo” (Corpus Christi) é também a Igreja, quer dizer, todos os que acreditam em Jesus Cristo. O sacramento do Corpo do Senhor, a Eucaristia, relaciona-se, diretamente com a comunidade que o celebra. Daí que a Eucaristia, para ser autêntico do mistério profundo de amor que é a paixão, morte e ressurreição de Jesus, exija a união, o amor fraterno e completa unidade de grupo que celebra com fé a Eucaristia. É impossível celebrá-la sem comunidade de amor. Temos que nos converter, decisivamente, à dimensão comunitária da eucaristia e de toda a vida cristã, optando pelo amor e fraternidade na saudação cordial, no sorriso afável, no gesto acolhedor e compreensivo.  A nossa eucaristia deve ser uma reunião familiar.          

O dia de Corpus Christi oferece-nos a oportunidade de revisar nossa fé, celebração e comunhão eucarísticas. Queremos um teste para saber se elas estão qualificadas, como diz São Paulo, de dignas ou indignas, autênticas ou falsas. Há uma prova de autenticidade que não falha: é o amor no compartilhar com os homens nossos irmãos. Temos que nos purificar de tudo quanto nos separa deste amor para que nossa eucaristia seja agradável a Deus.          

A breve fórmula da comunhão: “O Corpo de Cristo: Amém”, é uma síntese admirável da fé eucarística, é todo um programa de vida, um amém muito sério, um gesto de compromisso maduro, um sinal total à união e ao amor fraterno do qual o Sacramento da Eucaristia é, e deve ser antes de tudo, um sinal eficaz e visível. 

A eucaristia é uma ceia fraterna na qual todos são tratados como irmãos e irmãs. A ceia fraterna não pode ser entendida sem comunhão fraterna, sem convivência com o Senhor e com os demais comensais ou com as demais pessoas. É certo que a Eucaristia constrói ou edifica a Igreja, mas a constrói ou edifica como comunidade que compartilha. Compartilhar é mais do que repartir o que temos, é mudar nossa forma de pensar e de viver para fazer possível uma convivência fraterna e solidária. Como dizia João Paulo II: “Nossa união com Cristo na Eucaristia deve manifestar-se, no dia de hoje, em nossa existência: em nossas atividades, em nossa conduta, em nosso estilo de vida e na relação com os demais”. Não é possível celebrar ou participar da Eucaristia sem a vivencia do amor fraterno, da caridade mútua e da solidariedade. Um escritor francês disse: “Não se pode crer impunemente”, isto é, não se pode crer sem que tenha consequências em nossa vida. Não se pode comungar o Corpo de Cristo sem que tenha consequências em nossa vida. Compartir o pão com os irmãos, especialmente com os necessitados é comungar com Cristo. Não tomaremos a sério a comunhão se não tomarmos a sério a vida, a justiça, a fraternidade e a honestidade.

Comer o Corpo e beber o Sangue do Senhor significa comer e beber o amor à vida e tudo o que se refere à vida: liberdade, justiça, participação, fraternidade, igualdade. Uma Eucaristia que fica reduzida a um mero ato litúrgico é uma traição à última Ceia de Jesus da qual nasceu a Igreja. Trata-se de uma Igreja de irmãos, de apóstolos (enviados), de testemunhas, de mártires. Comer e beber a carne e o sangue de Jesus significa alimentar-se e alimentar uma humanidade necessitada de Jesus, Pão da Vida, necessitada do amor fraterno. É uma humanidade que para poder ser chamada de cristã precisa fazer desaparecer a injustiça, o ódio, a vingança, a discriminação, o racismo e assim por diante. Comungar com Cristo é comungar com sua causa. Todos somos chamados a seguir a Jesus Cristo, a ter fé nele, a caminhar pelo seu caminho. Todos nós sabemos que em Cristo temos o Caminho, a Verdade e a Vida. Na última Ceia Jesus nos recomendou: “Fazei isto em minha memória”. Toda Eucaristia é memorial que faz presente a entrega à morte do Mestre. Na Eucaristia, é o amor no Filho que se entregou para que possamos ter a vida eterna. Quem descobre o amor de um Deus que amou tanto os homens (cf. Jo 3,16), experimenta a chamada para difundir entre os homens este mesmo amor. Não se pode comungar com o gesto supremo de amor e ao mesmo tempo continua odiando, desprezando os outros.

Senhor, pelo Santíssimo Mistério do Vosso Corpo e do Vosso Sangue com que, todos os dias, na Vossa Igreja, nos alimentamos, nos dessedentamos, nos purificamos e nos santificamos, que nos torna, enfim, participantes de uma mesma divindade, Vos suplico ainda que me concedais as Vossas santas virtudes que me encham e me permitam aproximar-me do Vosso altar com segura consciência, de sorte que estes celestes sacramentos para mim sejam salvação e vida.

Pão dulcíssimo, sarai-me o paladar, para que eu sinta a suavidade do Vosso amor. Curai em mim toda languidez, para que, fora de Vós, não sinta doçura alguma. Pão puríssimo, que tendes todas as delícias e todo bom sabor, que incessantemente nos restaurais e nunca nos faltais, minha alma Vos receba, e minhas entranhas se encham da doce suavidade de tão saboroso alimento.     

Pão santo, Pão vivo, Pão cheio de pureza, que descestes do céu e dais a vida ao mundo, vinde ao meu coração; purificai-me de toda mancha, quer da carne, quer do espírito. Penetrai na minha alma, curai-me, purificai-me interior e exteriormente. Sede a minha salvaguarda, sede a contínua salvação da minha alma e do meu corpo! Afastai de mim os inimigos que me maquinam ciladas; afastem-se eles da vossa Majestade infinita, do Vosso infinito poder. Fortalecido por Vós, por fora e por dentro, Oxalá eu chegue, pelo caminho direto, ao Vosso Reino, onde nos veremos, não já em mistério como agora, mas face a face, porque todo o poder sobre as almas será dado ao Pai e a Deus, e Vós sereis, o Jesus, o Deus de todos. Então me saciareis de Vós de um modo maravilhoso; já não terei fome, já não terei sede. Vós que, com o mesmo Deus Pai e com o Espírito Santo, viveis e reinais por todos os séculos. Amém!  (Santo Ambrósio).

P. Vitus Gustama,svd

X Domingo Do Tempo Comum, Ano "A", 07/06/2026

VIVER CONFORME A MISERICÓRDIA DE DEUS X DOMINGO DO TEMPO COMUM “A” Primeira Leitura: Os 6,3-6 3É preciso saber segui-lo para reconhece...