sexta-feira, 24 de julho de 2026

Segunda-feira Da XVII Semana Comum, Ano Par, 27/07/2026

CRER  E SER FIEL NA FORÇA DA PALAVRA DE DEUS

Segunda-Feira Da XVII Semana Comum

Primeira Leitura: Jr 13,1-11

1 Isto disse-me o Senhor: “Vai comprar um cinto de linho e põe-no em torno da cintura, mas não o deixes molhar na água”. 2 Comprei o cinto, conforme a ordem do Senhor, e coloquei-o à cintura. 3 E a palavra do Senhor dirigiu-me a mim pela segunda vez, dizendo: 4 ”Toma o cinto que compraste e tens à cintura, levanta-te e vai ao Eufrates, esconde-o lá na fenda de uma pedra”. 5 Fui e o escondi perto do Eufrates, conforme mandara o Senhor. 6 Ora, ao cabo de muitos dias, disse-me o Senhor: “Levanta-te, vai ao Eufrates, e retira de lá o cinto que te mandei esconder”. 7 Fui ao Eufrates, cavei e retirei o cinto do lugar onde o tinha escondido; mas eis que o cinto tinha apodrecido tanto que não servia mais para nada. 8 E a palavra do Senhor dirigiu-me a mim, dizendo: 9 ”Isto diz o Senhor: Assim farei apodrecer a grande soberba de Judá e de Jerusalém; 10 este povo perverso, que se recusa a ouvir minhas palavras, convive com a maldade no coração, e vai atrás de deuses estrangeiros, prestando-lhes culto e prostrando-se diante deles será como este cinto que não serve mais para nada. 11 Pois assim como o cinto se une à cintura do homem, assim quis eu que toda a casa de Israel e toda a casa de Judá se unissem a mim, diz o Senhor, para ser meu povo, honra do meu nome, louvor e glória. Mas não ouviram”.

Evangelho: Mt 13,31-35

Naquele tempo, 31Jesus contou-lhes outra parábola: “O Reino dos Céus é como uma semente de mostarda que um homem pega e semeia no seu campo. 32 Embora ela seja a menor de todas as sementes, quando cresce, fica maior do que as outras plantas. E torna-se uma árvore, de modo que as aves do céu vêm e se abrigam nos seus ramos”. 33 Jesus contou-lhes ainda uma outra parábola: “O Reino dos Céus é como fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado”. 34Tudo isso Jesus falava em parábolas às multidões. Nada lhes falava sem usar parábolas, 35 para se cumprir o que foi dito pelo profeta: ‘Abrirei a boca para falar em parábolas; vou proclamar coisas escondidas desde a criação do mundo’.

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Vestir-se Da Justiça, Da Fidelidade É Vestir-se Da Força Protetora De Deus

“Vai comprar um cinto de linho e põe-no em torno da cintura, mas não o deixes molhar na água”.

As ações simbólicas servem aos profetas para expressar sua mensagem com uma pedagogia popular. No texto de hoje, o profeta Jeremias usa como símbolo o “Cinto de linho”.

Devido à sua forma circular e a sua função de atar, “Cintoé símbolo de força, poder, consagração, fidelidade (ligação a uma pessoa, grupo ou tarefa), proteção e castidade. Privar alguém do seu cinto significava tirar-lhe suas vinculações e sua força, e eventualmente a sua dignidade. Na Bíblia o cinto é mencionado como símbolo de prontidão: a Páscoa deve ser comida com rins cingidos, pés calçados e com o bordão à mão (Ex 12,11). Além disso, na linguagem bíblica o cinto significa: justiça, força, fidelidade, verdade (Is 11,5; Ef 6,14; Sl 18,23: Deus me cinge com força). O cinto tem função protetora e separadora no campo da vida sexual. Assim o cinto se tornou na compreensão cristã símbolo da proteção, da continência, da castidade, trazido sobretudo pelos eremitas. Não é por acaso que cinto, de que narra a Bíblia é inserido na “roupa” de folhas de figo que Adão e Eva vestiram depois da queda no pecado: “... entrelaçaram folhas de figueira e se cingiram” (Gn 3,7). Em Jo 21,18  encontra-se a frase de Jesus para Simão Pedro “quando fores velho o outro te cingirá” que significa a partir daquele momento Pedro deve obedecer à sua vocação. Assim, o cinto significa ao mesmo tempo humildade e força.

“Vai comprar um cinto de linho e põe-no em torno da cintura, mas não o deixes molhar na água”.

Um cinto de linho pode ser um adorno muito bonito, apertado ao vestido. Mas se deixar o cinto molhar e não se cuidar dele, ele se decompõe e não será mais útil. Isto é o que acontece com Jeremias: escondido no rio Eufrates, depois de um tempo, ele está totalmente podre e nem pode ser apresentado.

A intenção é simbólica. O cinturão é o povo de Israel, que uma vez foi tão bonito que o próprio Deus o "vestiu" com o ornamento e ficou feliz com isso. A imagem é eloquente. Deus fez de Israel algo entranhavelmente seu, e este povo vive da própria intimidade que Deus lhe propõe. Enquanto Israel rompe seus compromissos com seu Senhor, perde automaticamente sua razão de ser, como o cinto exposto à humidade e apodrece. A idolatria praticada pelo povo eleito estragou tudo. Em sua terra é tentado por outros deuses. Mas muito mais nos países pagãos do Norte: o Eufrates na Babilônia, que seria o lugar do exílio e da contaminação. Por isso, o ato simbólico de deixar o cinto numa fenda significa que Israel recebe o castigo de Deus pela sua infidelidade ao adorar os deuses pagãos ou ou praticar a idolatria.

Como ação simbólico, não é preciso pensar que Jeremias viajou para lá (Babilônia)  que é mais de mil quilômetros. Esta viagem é um gesto que simboliza as "viagens" que os infiéis fazem fora da Casa Paterna. E, então, Israel não é mais bom para nada: “Assim como o cinto se une à cintura do homem, assim quis eu que toda a casa de Israel e toda a casa de Judá se unissem a mim, diz o Senhor, para ser meu povo, honra do meu nome, louvor e glória. Mas não ouviram(Jr 13,11).

Nós cristãos devemos ser o adorno da Igreja, como um cinto que adorna o vestido, com a nossa fidelidade, a continência, a consagração de nossa vida a Deus, e a prontidão para levar adiante a missão que nos é confiada pelo Senhor, e o próprio Senhor ficará orgulhoso de nós, por isso. Mas também corremos o risco de sermos mimados pela "umidade", pelas tendências anti-cristãs do mundo em que vivemos.

Por isso, temos que ouvir e rezar profundamente o texto do Deuteronômio que serve como o Salmo Responsorial de hoje (Dt 32,18-19.20.21): Da Rocha que te deu à luz te esqueceste, do Deus que te gerou não te lembraste. Com deuses falsos provocaram minha ira, com ídolos vazios me irritaram”. O amor está ligado à ira mencionada no Salmo Responsorial. Quantas vezes os profetas compararam o amor e o desamor entre Deus e seu povo com a fidelidade ou a infidelidade (traições) na vida conjugal.

Para Jesus, somos o sal da terra e a luz do mundo (Mt 5,13-14). Mas Ele nos alerta que se uma luz se esconde, já não tem nenhuma utilidade. Assim como o sal: “Se o sal perde o sabor, para nada mais serve senão para ser lançado fora”. Trata-se de ser cristão sem fazer nada, sem colaborar com seus dons para o bem da comunidade ou da Igreja do Senhor.

Quem É Fiel a Deus Não Será Decepcionado

As duas parábolas (grão de mostarda e fermento) são muito parecidas em seus efeitos finais: aquilo que é, aparentemente, pequeno e frágil, produz um efeito maior em comparação ao seu tamanho original. As sementes da mostrada são muito pequenas: não mais de um milímetro de comprimento (tamanho). Mas ao plantar tornam-se uma planta com uma altura mais de dois metros a ponto de os pássaros fazerem ninho nos seus galhos.  O fermento é bem conhecido no mundo culinário para fermentar a massa.  Um pouco de fermento pode fazer crescer a massa num tamanho e quantidade maior.          

O aspecto mais chamativo nestas duas parábolas é o contraste que existe entre a situação inicial e o resultado final. Um grão de mostarda, sendo a menor das sementes, pode fazer surgir uma planta grande. E o mesmo acontece com o fermento que tem capacidade para fazer fermentar uma massa em tamanho maior.

O que tem por trás das parábolas da pequena semente de mostarda que vira uma planta grande, e da pequena quantidade de fermento que faz a massa crescer de tamanho?

Jesus proclama o Reino de Deus e houve muitas objeções. O mundo ou a realidade estava do mesmo jeito: os romanos continuavam a saquer o povo de Israel, os colaboradores do poder romano ficavam cada vez mais ricos, e os pobres ficavam cada vez mais desprotegidos. Até questionava-se sobre a presença do pequeno grupo que seguia a Jesus: será que o começo do novo Israel?

Jesus respondeu a tais objeções com parábolas, especificamente com as parábolas do “grão de mostarda”, do “fermento”, da semente que cresce secretamente (Mc 4,26-29) e da “colheita abundante” (Mc 4,3-9). Todas estas parábolas são bem relacionadas.

Com a parábola da semente de mostarda e fermento Jesus não compara o Reino de Deus pontualmente com a pequena semente de mostarda ou de fermento. O que Jesus acentua é o processo inteiro em que uma semente tão pequena é capaz de virar um grande arbusto (árvore). Aqui Jesus fala sobre a dinâmica do reino de Deus. O Reino de Deus agora ainda é pequeno, discreto, fácil de ficar despercebido e aparentemente é ineficaz. Deus não faz barulho, pois Ele age em silêncio e discretamente. É preciso ter muito discernimento para enxergar Deus que está agindo. O Reino de Deus acontece no meio do mundo comum, cotidiano, familiar aos seus ouvintes. O Reino de Deus não está longe; não espera em “um dia qualquer”. Quem vê pela fé, o que está acontecendo por meio de Jesus e ao redor de Jesus, já vê o Reino de Deus: “Felizes os olhos que veem o que vós vedes...” (Lc 10,23).

Através das parábolas do grão da mostarda e do fermento o Senhor quer nos ensinar a olharmos, em silêncio, para as mãos eternas de Deus em plena obra da redenção do mundo. Cristo, o Verbo divino do Pai, veio e se fez semente fértil no campo do mundo: “Tal como a chuva e a neve caem do céu e para lá não volvem sem ter regado a terra, sem a ter fecundado, e feito germinar as plantas, sem dar o grão a semear e o pão a comer, assim acontece à palavra que minha boca profere: não volta sem ter produzido seu efeito, sem ter executado minha vontade e cumprido sua missão”. (Is 55,10-11). A Terra recebeu Seu Corpo sacrificado e a semente de Seu Sangue rendeu um por mil. A Sua Palavra caiu nos corações de pessoas de boa vontade, sensíveis ao impulso do Espírito divino, e deu infinitos bons frutos até neste momento. “Os grãos” que a Semente divina produziu somos nós todos. Fazemos parte deste grande milagre. E através de nós, mesmo que em pequeno número, Deus é capaz de fazer efeitos maiores no mundo. Mas que sejamos perseverantes. A fé autêntica resiste diante de qualquer obstáculo e dificuldade, pois sabe-se da vitória final logo no início. A fé é a antecipação daquilo que se espera e a certeza daquilo que não se vê (cf. Hb 11,1) .                     

Com estas parábolas o Senhor quer, então, difundir esperança e ânimo aos seus discípulos e a todos os seus seguidores. Os seguidores não devem admitir nunca o desalento nem o pessimismo derrotista. A graça de Deus continua sendo a graça de Deus. Este é o fundamento de nossa esperança. Não olhemos apenas para nossas técnicas. Temos que acreditar na própria força da Palavra de Deus que devemos semear por onde passarmos, e tenhamos certeza de que, no fim, haverá o resultado maior do que imaginamos, a exemplo do grão de mostrada e o fermento, pois a própria Palavra de Deus tem força intrínseca. É inesgotável a fecundidade da Palavra de Deus, como a força germinadora da natureza em um contínuo rejuvenescer-se. Em cada semente, mesmo do tamanho do grão de mostarda, tem uma tal plenitude de vida que move o semeador a colocá-la na terra. 

À imagem do campo semeado, acrescentam-se hoje as parábolas da semente de mostarda e do fermento. O Senhor, mais uma vez, permite-nos vislumbrar as células ocultas do crescimento do Reino de Deus. No silêncio, vemos as mãos eternas de Deus atuando na redenção do mundo. A semente foi semeada. Cristo, o Verbo divino do Pai, veio e tornou-se semente fértil no campo desolado do mundo. A terra recebeu o seu corpo sacrificado, e a semente do seu sangue rendeu mil vezes mais. A sua palavra caiu no solo esponjoso dos corações e produziu incontáveis ​​frutos maduros: muitos santos, muitos mártires na história até hoje. E, consciente ou inconscientemente nós nos rncontramos em meio a este milagre de crescimento. Um dia alguém semeou as sementes de Deus em nosso coração.

Por isso, não desistamos em semear o que é bom e digno, pois a bondade é o único investimento que nunca falha. Independentemente do reconhecimento humano ou não, a bondade continua sendo a bondade, o bem continua sendo o bem, a graça de Deus continua sendo a graça de Deus. Nossa única tarefa na nossa passagem neste mundo é continuar a semear a bondade por todos os meios possíveis e em qualquer lugar e tempo. O Senhor não permite o derrotismo pessimista nem o desespero, porque o êxito final é de Deus, que tem nas suas mãos as chaves da história humana. Não cabe ao cristão ficar decepcionado porque o resultado não aparece logo. Semear e semear a bondade é o único negócio do cristão, e deixar para Deus o resultado final. Alguém pode não reconhecer a bondade praticada, mas ela está escrita em Deus. 

O texto do evangelho de hoje termina com a seguinte frase: “Nada lhes falava sem usar parábolas, para se cumprir o que foi dito pelo profeta: ‘Abrirei a boca para falar em parábolas; vou proclamar coisas escondidas desde a criação do mundo’”. 

Esta frase se remonta à pergunta dos discípulos: “Por que lhes fala em parábola?” (Mt 13,10). Jesus fala do Reino de Deus em parábola para a multidão. Trata-se  de realidades invisíveis, como toda a atuação de Deus na história. É preciso usar comparações (em parábolas) para explicar e revelar melhor a realidade do Reino. Em todo caso fica claro que o falar de Jesus em parábola também é revelação. Isto quer nos dizer que Jesus tem uma atitude de revelação e de cumprimento. Não há nada de estranho em que este versículo 35 se encontra somente em Mateus. Trata-se de seu tema especifico: apresentar Jesus como Aquele que veio para cumprir e levar a seu cumprimento a Lei e os Profetas (Mt 5,17), para revelar a todos os mistérios do Reino e, depois para explicar em sua catequese seu sentido para aqueles que acolhem a mensagem. O evangelista Mateus cita o Salmo 78,2 que ele atribui a profeta (cf. Mt 1,22; 2,15), não porque este Salmo se atribui a um profeta (pois não se encontra em nenhum profeta) e sim porque todas as Escrituras do Antigo Testamento (AT) têm para Mateus o valor profético cujo cumprimento acontece na vida e missão de Jesus (cf. Mt 5,17). 

Afinal, o que devemos fazer a partir das duas parábolas lidas neste dia? É sermos terra aberta para a semente da Palavra de Deus, para sua majestosa e sempre operante força, e tirar do caminho o que possa obstaculizar esta força e sarar a terra, que somos todos, para que através de nós cresça o bem no mundo. É ser massa macia para que o fermento da Palavra possa operar dentro de nosso coração para que sejamos pães para alimentar os demais. É tudo que devemos fazer.

P. Vitus Gustama,svd

quinta-feira, 23 de julho de 2026

XVII Domingo Do Tempo Comum, Ano "A", 26/07/2026

VIVER EM BUSCA DA PÉROLA PRECIOSA PARA NOSSA SALVAÇÃO É VIVER COM SABEDORIA

XVII Domingo Comum Ano “A

I Leitura: 1Rs 3,5.7-12

Naqueles dias, 5 em Gabaon, o Senhor apareceu a Salomão, em sonho, e lhe disse: “Pede o que desejas, e eu te darei”. 7 E Salomão disse: “Senhor meu Deus, tu fizeste reinar o teu servo em lugar de Davi, meu pai. Mas eu não passo de um adolescente, que não sabe ainda como governar. 8 Além disso, teu servo está no meio do teu povo eleito, povo tão numeroso que não se pode contar ou calcular. 9 Dá, pois, ao teu servo, um coração compreensivo, capaz de governar o teu povo e de discernir entre o bem e o mal. Do contrário, quem poderá governar este teu povo tão numeroso?” 10 Esta oração de Salomão agradou ao Senhor. 11 E Deus disse a Salomão: “Já que pediste esses dons e não pediste para ti longos anos de vida, nem riquezas, nem a morte de teus inimigos, mas sim sabedoria para praticar a justiça, 12 vou satisfazer o teu pedido; dou-te um coração sábio e inteligente, como nunca houve outro igual antes de ti nem haverá depois de ti”.

II Leitura: Rm 8,28-30

Irmãos: 28 Sabemos que tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados para a salvação, de acordo com o projeto de Deus. 29 Pois aqueles que Deus contemplou com seu amor desde sempre, a esses ele predestinou a serem conformes a imagem de seu Filho, para que este seja o primogênito numa multidão de irmãos. 30 E aqueles que Deus predestinou, também os chamou. E aos que chamou, também os tornou justos; e aos que tornou justos, também os glorificou.

Evangelho: Mt 13,44-52

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 44 “O Reino dos Céus é como um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra e o mantém escondido. Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo. 45 O Reino dos Céus é também como um comprador que procura pérolas preciosas. 46 Quando encontra uma pérola de grande valor, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquela pérola. 47 O Reino dos Céus é ainda como uma rede lançada ao mar e que apanha peixes de todo tipo. 48 Quando está cheia, os pescadores puxam a rede para a praia, sentam-se e recolhem os peixes bons em cestos e jogam fora os que não prestam. 49 Assim acontecerá no fim dos tempos: os anjos virão para separar os homens maus dos que são justos, 50 e lançarão os maus na fornalha de fogo. E aí haverá choro e ranger de dentes. 51 Compreendestes tudo isso?” Eles responderam: “Sim”. 52 Então Jesus acrescentou: “Assim, pois, todo o mestre da Lei, que se torna discípulo do Reino dos Céus, é como um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas”.

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O fio condutor que a liturgia deste domingo nos propõe para nossa meditação é a sabedoria do coração. A palavra “sabedoria” provém do latim “sapere” (sapientia) que quer dizer ter inteligência, ser compreendido. Mas propriamente significa ter gosto, exercer o sentido do gosto, ter este ou aquele sabor, capacidade desenvolvida de saborear. Etimologicamente, da palavra “sapere” derivam duas palavras: “saber” e “sabor”, duas palavras que indicam o mesmo: um saber que sabe saboreando a vida. É um saber que saboreia o fruto da vida, não um saber teórico sobre a vida. É o testemunho do experimentado, a experiência da vida mesma, de seu sabor de viver. A sabedoria é reunir o gosto pela vida. A sabedoria é refinar o gosto pela vida. Com a sabedoria a existência se torna mais saborosa, pois a sabedoria se alimenta pelos valores. Com a sabedoria o homem é capaz de dar respostas adequadas e magníficas para cada momento. Sabedoria é, segundo a palavra latina “sapientia”, conhecimento das coisas, natural ou adquirido. Aquilo que está conforme as regras da razão e da moral. Na teologia, a sabedoria se apoia no discernimento da ordem sobrenatural, uma vez que somente Deus é absolutamente sábio.

O mundo nos apresenta muitos valores que deslumbram: dinheiro, fama, poder e assim por diante. Muitos valores também que vão mudando conforme modas. Mas a vida necessita de uma razão que coordene todas as nossas atividades, que as impulsione e as ilumine. A vida necessita de um tesouro, mas muitas vezes este tesouro está escondido. Não podemos ficar sem razão de viver. Não podemos viver sem sentido.

Viver a Vida Na sabedoria

Dá ao teu servo, um coração compreensivo, capaz de governar o teu povo e de discernir entre o bem e o mal. Do contrário, quem poderá governar este teu povo tão numeroso? ”. Este é o pedido de Salomão a Deus que lemos na Primeira Leitura. Dou-te um coração sábio e inteligente, como nunca houve outro igual antes de ti nem haverá depois de ti”. É a resposta de Deus ao pedido de Salomão.

Salomão, consciente da magnitude de sua tarefa como rei e de suas próprias limitações, pede a Deus um coração sábio para governar: “Dá ao teu servo, um coração compreensivo, capaz de governar o teu povo e de discernir entre o bem e o mal. Do contrário, quem poderá governar este teu povo tão numeroso? ”

A partir da Bíblia a sabedoria é a arte do viver bem. O verdadeiro sábio distingue o verdadeiro do falso, o justo do injusto, o bem do mal. O sábio bíblico coloca como fundamento todas as grandes virtudes: prudência, moderação, trabalho, não violência, humildade, sinceridade, justiça, solidariedade, compaixão, amor. A sabedoria bíblica é uma palavra reveladora: a autêntica sabedoria vem do alto, não está atada ao interesse ou ao cálculo humano. Ela é a verdade total que deve ser desejada e buscada pelo homem. A sabedoria é assim uma força geradora: ela dá origem ao homem, a sua história e a todo o ritmo da criação. A sabedoria é o conhecimento dos caminhos de Deus, de seu objetivo; indica ao cristão a direção em que ele deve caminhar, as normas às quais deve adaptar seu viver.

Sábio não é quem pensou a vida e sim quem deixa que a vida lhe diga, o que ele mesmo aprendeu vivendo a vida, quem deixa que a vida lhe entregue seu sabor e lhe revele seu sentido. Em geral, o homem sábio não diz sua sabedoria e sim a mostra. Sábio irradia sentido da vida e da convivência. O sábio é uma testemunha e não professor. O sábio testemunha uma experiência, ensina o que vive, não o que sabe. Em outras palavras, ele sabe viver testemunhando a vida.

Os sábios eram autênticos santos que, iluminados por uma luz transcendente, descobriram o caminho ou senda da vida, e, portanto, podiam ensiná-la aos demais homens tanto com seu exemplo como com sua palavra. Sábio era o homem prudente, equilibrado, reto, equânime e justo. É um exemplo para as gerações futuras.

Governar com sabedoria é um serviço e não um poder. Como serviço ao povo é absolutamente indispensável escutar a este povo, ter os olhos e ouvidos atentos à complexa realidade do povo. Governar com sabedoria é sintonizar com os autênticos interesses que o povo manifesta, e tratar de dar ao povo uma verdadeira resposta para suas necessidades reais e básicas. Governar com sabedoria é aprender a detectar a verdade onde possa ser detectada. A verdade não dói, mas liberta. O que dói é a mentira e falsidade. Governar com sabedoria é ser servidor da verdade e não ser cacique. Somente assim o poder humano se diviniza, pois, salva o povo. Do contrário, é pura farsa e mera busca de interesses mesquinhos. Quando o interesse mesquinho prevalece, o mais inocente e humilde se torna vítima sem defesa. 

Salomão somente pede a Deus a capacidade de escutar o povo para poder governar com justiça, deixando de lado o poder e as riquezas. É assim que os nossos governantes vivem? É assim que os líderes religiosos, os bispos, os sacerdotes, os coordenadores das comunidades governam?

Viver Com Sabedoria É Viver Em Função De Alcançar a Glória Eterna

Aqueles que Deus contemplou com seu amor desde sempre, a esses ele predestinou a serem conformes a imagem de seu Filho, para que este seja o primogênito numa multidão de irmãos”, escreveu São Paulo aos Romanos que lemos na Primeira Leitura.

Estas palavras brotam da fé. A vida pode dar muitas voltas, mas estamos seguros de que nada poderá nos afastar de Cristo que tanto nos ama. É preciso suportar um pouco as dores da vida, pois Deus nos ama incondicionalmente (Jo 3,16; 13,1).  Precisamente em Cristo, Deus mostrou e demonstrou seu amor. Com efeito, a fé sempre é fonte de alegria íntima, de estabilidade interior, de segurança profunda. Numa sociedade onde há tantas pessoas instáveis que sofrem todo tipo de pressão e de depressão, sabemos que nossa fonte de estabilidade está na Palavra do Senhor cheia de amor por nós. É claro que estas certezas brotam da fé. Quem tem fé, tem certeza de que no fundo do poço sempre há esperança, pois Deus nos ama infinitamente.

O amor de Deus por nós não tem outra finalidade que esta: fazer-nos conformes à imagem do Filho, Jesus Cristo. Todo o plano de Deus desde o princípio dos tempos se concentra nesta finalidade. Deus criou o universo, Deus se encarnou tem um único porquê: o amor pela humanidade (cf. Jo 3,16).

Aqueles que Deus predestinou, também os chamou. E aos que chamou, também os tornou justos; e aos que tornou justos, também os glorificou”, acrescentou São Paulo. Para São Paulo o supremo objetivo da vida nova em Cristo Ressuscitado é a glorificação com Cisto.

Portanto, temos que ter a humildade de abandonar aquilo que não nos glorificar em Jesus Cristo, antes que nossa vida caia em pedaços.

O Sábio Vive Em Busca Do Essencial, Do Tesouro para Sua Vida e Salvação

O Reino dos Céus é como um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra e o mantém escondido. Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo”.

As inúmeras guerras, que aconteceram em Palestina, levavam muitas pessoas a enterrar seus tesouros valiosos por motivo de segurança contra os ladrões. Pode acontecer que o proprietário do tesouro morra sem revelar a ninguém o lugar onde foi escondido o tesouro.    

Os personagens das duas primeiras parábolas (tesouro escondido e pérola preciosa) são respectivamente um “homem” (v.44) e um “comerciante” (vv.45-46). Ambos descobrem um bem extraordinário: um tesouro em um campo, no primeiro caso, e uma pérola, no segundo. O primeiro descobriu, por acaso, o tesouro ao trabalhar em um campo. Para dizer que o descobrimento do Reino de Deus não é devido ao esforço unicamente humano, mas à revelação ou ao descobrimento de Jesus, entendido como projeto que leva à plenitude a própria existência. Jesus sai ao nosso encontro. O segundo, procura intencionalmente a pérola preciosa e a encontrou. Para dizer que é preciso a participação do próprio homem na descoberta do valor do Reino de Deus. Por esta pérola, são Paulo disse: “Na verdade julgo como perda todas as coisas, em comparação com este bem supremo: o conhecimento de Jesus Cristo, meu Senhor. Por Ele tudo desprezei e tenho em conta de esterco, a fim de ganhar Cristo e estar com Ele” (Fl 3,8-9ª). O homem deve sair ao encontro de Jesus para ter a experiência com Deus a fim de chegar à própria plenitude como ser humano. “A Alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria. ” (Papa Francisco: Exortação Apostólica: Evangelii Gaudium, n.1)

Na experiência dos dois personagens o descobrimento de um valor precioso muda a vida de ambos, e os leva para a mesma decisão: “vender tudo o que tinham” e “comprar” o objeto que “encontraram”. E o dito objeto relativiza o resto. Para o homem da primeira parábola o tesouro representa uma fonte de alegria por ter encontrado um valor incomparável. Para o comerciante a pérola significa o abandono de sua profissão porque, com a aquisição da pérola preciosa que ele procurava, deve interromper a cadeia de sua atividade.

Assim também é em relação à vida do homem diante do Reino de Deus. Somente o Reino de Deus, o Reino de amor, o Reino da Paz, o Reino da alegria, o Reino da preciosidade,  descoberto como o supremo valor da existência, coloca o homem na possibilidade de descobrir o sentido dos restantes bens que se possui. A vida em Deus ou ser filhos e filhas de Deus é um valor incalculável, um dom do céu, e quem desfruta dele, por meio da fé, é um autêntico afortunado. A possessão, desta forma, se apresenta como algo relativo. A experiência do amor de Deus relativiza o resto sem desprezar seu valor no seu próprio lugar. A partir deste tesouro que é o Reino de Deus, todo o resto se ordena e adquire o seu valor próprio. Como aquele que encontrou a pérola preciosa foi capaz de colocar todas as demais coisas em uma escala justa de valores, de relativizá-las em relação com a pérola preciosa. E ele o fez com extrema simplicidade porque, ao ter como pedra de comparação, a pedra preciosa, sabe compreender melhor o valor de todas as demais pedras.  Quem encontrar o valor supremo de sua vida, a experiência de fazer parte da família de Deus em Jesus Cristo não desprezará outros valores, mas colocá-los-á em seu devido lugar. O bem relativo pode ser, mais ou menos, importante para a satisfação das necessidades humanas, porém, deve ser sempre confrontado com o bem supremo que é a experiência do amor de Deus, a experiência de serem filhos e filhas de Deus. Desta forma, as parábolas do tesouro escondido e a pérola preciosa conectam com a primeira bem-aventurança: “Bem-aventurados os pobres em espírito porque deles é o Reino dos céus” (Mt 5,3). A experiência do amor de Deus por nós é um dom incalculável

Quem Vive Na Sabedoria Sabe Onde Se Encontra Seu Tesouro

Onde está teu tesouro, ai estará também teu coração” (Mt 6,21).

Do ponto de vista de um homem que busca o sentido de sua vida, o tesouro de sua existência ou de sua vida é como uma utopia: não sabe onde está, nem sequer sabe se está em algum lugar ou em nenhum lugar. A busca é um esforço para encontrar algo que não se tem. Quem busca reconhece uma carência de algo. É uma atitude humilde por si mesma.

Nesta busca o homem somente conhece a inquietude de seu coração, porque “onde está teu tesouro, ai estará também teu coração(Mt 6,21). Um homem que ainda não encontrou seu tesouro fica inquieto e busca incessantemente um sentido para sua vida. O coração errático do homem, sua vontade, pode, nestas circunstancias, fixar-se em qualquer coisa e agarrar-se a ela como se tivesse encontrado seu tesouro. Mesmo assim, ele continua inquieto, pois o tesouro do homem não é qualquer coisa. O homem pode ter tudo, mas se carecer o essencial, ele continuará inquieto.

A busca do Reino de Deus é compreender uma certa carência essencial em nossa vida, carência que nos impulsiona a sair de nós mesmos e não repousará até que encontremos essa realidade que faz completo nosso ser. Por isso, não é a riqueza, nem o êxito, nem o poder, nem a fama, mas o próprio Deus é o tesouro supremo do homem que o faz completo. Escondido no nosso mundo, coberto pela carne crucificada de Jesus de Nazaré, perdido entre os pobres, identificado com eles, está o tesouro do homem. Jesus é o “lugar de Deus”, e o irmão, o próximo é o “lugar” de encontro com Jesus. O próximo se transforma, então, em ocasião de salvação. Não é nada que o homem pode alcançar por si mesmo e somente para si mesmo, pois ele foi feito por Deus e para Deus na convivência fraterna com os outros. Por isso, Santo Agostinho rezava: “... Senhor, inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em Ti (Confissões I,1). O homem só se encontrará, somente chegará à sua plena realização na medida em que ele buscar e viver e conviver de acordo com o Amor que é Deus (cf. 1Jo 4,8.16).

O homem que encontrou o sentido de sua vida em Deus é um homem alegre e dinâmico, como os dois homens na parábola que encontraram seu tesouro. Por este tesouro, ele é capaz de se desprender de tudo, de se despojar de tudo, de compreender a fraqueza do outro, de perdoar, de reconciliar-se com todos, de ser justo e honesto nos seus negócios, de ser correto e coerente no seu modo de ser, pois sua vida é direcionada por este supremo valor. A busca do Reino de Deus modifica nosso esquema de vida e não pode ser levado adiante sem uma absoluta sinceridade de coração. A busca do Reino de Deus é compreender uma certa carência essencial em nossa vida.

Nesta parábola, nem o homem que encontrou o tesouro nem aquele que descobriu a pérola sentem falta do que antes possuíam e que venderam. A riqueza do que acharam é de tal ordem que compensa tudo o que tinham. A mesma coisa acontece com os que descobrem ou encontram o seu caminho pessoal para Deus: abandonam tudo e encontram tudo, porque Deus é tudo. Quem, pela mensagem de Cristo, encontra Deus, renuncia jubilosamente a tudo. Tal verdade somente pode ser experimentada pela própria vida. Por isso, eles podem renovar tudo, acabar com a rotina de sua vida e começam a olhar mais longe e mais alto. E quem encontra Cristo expande a alegria e o otimismo para todos.

A vocação de seguir Jesus, Deus-conosco que é o nosso supremo tesouro sempre exige renúncia e uma mudança na conduta com alegria. Implica a entrega a Deus daquilo que se tinha reservado para si, e se abandonam os apegos, as fraquezas que se supunham intocáveis e que, no entanto, é preciso destruir para adquirir o tesouro sem preço. Se Jesus nos chama, também ele nos dá as graças necessárias para segui-lo durante a nossa vida.

A eucaristia é também um tesouro escondido. Tanto que passa despercebida, inclusive para nós que frequentamos a missa com assiduidade. Escondida em coisas triviais como pão e vinho está nada menos que todo insondável amor de Deus a todos nós. Só teremos a experiência do amor de Deus, se nós começarmos por demonstrar amor a nossos irmãos, especialmente aos mais débeis. Se descobrirmos a eucaristia como tesouro, se a apreciarmos, estaremos plenos de alegria e a nossa eucaristia resultará verdadeiramente em festa, em ação de graças.

E nós, já descobrimos esse tesouro? Desde que descobrimos Cristo, o que mudou na nossa vida, no nosso modo de pensar e de falar, e no nosso relacionamento com os outros e com as coisas? Que renúncias que temos que fazer ainda? “Onde está o teu tesouro, aí está também o teu coração” (Mt 6,21). Será que por algum bem material, ou alguma posição social abandonamos Cristo, o nosso tesouro incalculável? Muitos são os esforços que fazemos para encontrar o que nos falta: trabalho, dinheiro, prazer, cultura e assim por diante. Hoje podemos nos perguntar se existe o mesmo esforço para encontrar a Verdade no sentido de uma verdadeira visão da vida. Sem dúvida nenhuma, esta é uma das crises mais profundas de nossa cultura: tem-se de tudo, mas carece-se do essencial: uma visão geral do homem no cosmos que lhe permite situar-se como homem.

A Sabedoria Nos Faz Pensarmos No Fim De Nossa Vida Onde Haverá o Julgamento Final Parábola da Pesca: Mt 13,47-50 

Esta parábola praticamente no seu conteúdo repete a parábola do joio no meio do trigo (Mt 13,24-30). As duas últimas parábolas orientam-se para o fim dos tempos, pois as duas tratam do julgamento final.

A imagem da pesca ilustra a dinâmica do Reino de Deus feita de perdas e ganhos. Uma vez a rede lançada ao mar, a pescaria já não depende da vontade do pescador. Cada lançada de rede é uma surpresa. A seleção será feita somente no final da pescaria, quando os peixes bons são colocados em cestas, enquanto os não comestíveis são jogados fora. Na lista dos animais impuros que os israelitas não tinham direito de comer (Lv 11) está dito que se pode comer tudo o que se move na água e que tenha escamas e barbatanas; os outros animais aquáticos são impuros e, portanto, proibidos (Lv 11,9-12). Uma parte dos peixes jogados fora deve ter classificado como animais aquáticos proibidos (impuros).

A pesca representa a oferta do Reino que se faz a todos. São muitos os que entram nele, mas a chave está no como se vive a vida. No Reino de Deus, como no mundo e na Igreja, é inevitável a presença simultânea de bons e maus, do trigo e do joio. Todos podem ser batizados e nominalmente se chamam cristãos e a todos se oferece o Reino de Deus através do Evangelho e do seguimento de Cristo. É inevitável também a variedade de respostas de uma para outra pessoa. A seleção acontecerá no fim.     

Jesus diz que “assim acontecerá no fim dos tempos: os anjos virão para separar os homens maus dos que são bons. E lançarão os maus na fornalha de fogo. Aí eles vão chorar e ranger os dentes(vv.49-50). A expressão “choro e ranger de dentes” se repete várias vezes em Mt (8,12;13,42.50; 22,13;24,51;25,30) e uma vez apenas em Lucas (Lc 13,28). Esta expressão sublinha a frustração definitiva do homem pela perda da vida eternamente. A parábola propõe, então, aos seguidores de Jesus a sorte final, para orientá-los na decisão presente. O paraíso é a certeza para quem responde a chamada de Deus para sua plena realização gradativamente. Com efeito, a não-salvação é apenas uma possibilidade para quem opta por ele. O problema não está em Deus, mas está no homem que não sabe lidar com a própria liberdade. 

Mas Deus tem paciência para salvar. Ele não quer precipitar o julgamento. Ele aguarda a colheita, não diminuída por prematuras intervenções de escolha. Só então, no fim, haverá a colheita, com base na realidade de ser peixe bom ou mau, de ser trigo ou joio. É uma advertência eficaz, embora tácita: Deus é paciente com todos e deixa a todos tempo para amadurecer sua conversão; Deus sabe esperar a livre decisão do homem. Cabe a cada um escolher ser peixe bom ou peixe não comestível, ser trigo ou joio. No fim, a bondade, o amor, a justiça, a compaixão é que têm valor diante de Deus. Um homem que é livre para amar e para dar a vida é o homem que é livre para ganhá-la. Para ele tudo tem sentido porque sabe onde está seu coração.

Para Refletir:

·      “Ou, o homem que busca boas perolas encontra só uma que é preciosa. Isto é, ao buscar homens bons, com quem possa viver utilmente, encontra um só que é sem pecado, Jesus Cristo. Ou, ao buscar os preceitos de vida que o permitam viver bem entre os homens, encontra o amor ao próximo, no qual, segundo palavras do Apóstolo, estão contidas todas as coisas. Ou, ao buscar os bons pensamentos, encontra aquele Verbo que os abarca a todos: No princípio existia o Verbo (Jo 1,1) – palavra que brilha com a candura da verdade, que é sólida com firmeza da eternidade e  por toda a parte é semelhante a si mesma pela pureza da verdade; e que, quando penetramos sua couraça, percebemos que é Deus” (Santo Agostinho: Questiones evangeliorum, 1,12).

·      “Este tesouro escondido no campo são os dois Testamentos que há na Igreja, dos quais, quando alguém chega a compreender uma parte, sente que ainda há grandes coisas ocultas neles; vai, vende tudo o que tem e o compra, ou seja, compra com o desprezo das coisas temporais o ócio, para que seja rico com o conhecimento de Deus” (Santo Agostinho: Questiones evangeliorum, 1,13).

  • "Ensinamos uma sabedoria divina, misteriosa. O mistério não admite demonstração, mas anuncia o que é. E não seria um mistério exclusivamente divino se lhe acrescentasse algo por tua conta. Ademais, chama-se mistério porque cremos o que não vemos: uma coisa é o que vemos e outra o que cremos. Esta é, de fato, a natureza de nossos mistérios" (São João Crisóstomo: Sermão Sobre a Primeira Carta Aos Coríntios 7,1-2 - PG 61, 55-56).

P. Vitus Gustama,svd

São Tiago Maior, Apóstolo- Festa, 25/07/2026

SÃO TIAGO MAIOR

VIVER UMA VIDA APOSTÓLICO NO SERVIÇO AOS IRMÃOS COMO ESTILO DE VIDA

25 de julho 

Primeira Leitura: 2Cor 4,7-15

Irmãos, 7 trazemos esse tesouro em vasos de barro, para que todos reconheçam que este poder extraordinário vem de Deus e não de nós. 8 Somos afligidos de todos os lados, mas não vencidos pela angústia; postos entre os maiores apuros, mas sem perder a esperança; 9 perseguidos, mas não desamparados; derrubados, mas não aniquilados; 10 por toda a parte e sempre levamos em nós mesmos os sofrimentos mortais de Jesus, para que também a vida de Jesus seja manifestada em nossos corpos. 11 De fato, nós, os vivos, somos continuamente entregues à morte, por causa de Jesus, para que também a vida de Jesus seja manifestada em nossa natureza mortal. 12 Assim, a morte age em nós, enquanto a vida age em vós. 13 Mas, sustentados pelo mesmo espírito de fé, conforme o que está escrito: “Eu creio e, por isso, falei”, nós também cremos e, por isso, falamos, 14certos de que aquele que ressuscitou o Senhor Jesus nos ressuscitará também com Jesus e nos colocará ao seu lado, juntamente convosco. 15 E tudo isso é por causa de vós, para que a abundância da graça em um número maior de pessoas faça crescer a ação de graças para a glória de Deus.

Evangelho: Mt 20,20-28

20 Naquele tempo, a mãe dos filhos de Zebedeu aproximou-se de Jesus com seus filhos e ajoelhou-se com a intenção de fazer um pedido. 21 Jesus perguntou: “O que tu queres?” Ela respondeu: “Manda que estes meus dois filhos se sentem, no teu Reino, um à tua direita e outro à tua esquerda”. 22 Jesus, então, respondeu-lhes: “Não sabeis o que estais pedindo. Por acaso podeis beber o cálice que eu vou beber?” Eles responderam: “Podemos”. 23 Então Jesus lhes disse: “De fato, vós bebereis do meu cálice, mas não depende de mim conceder o lugar à minha direita ou à minha esquerda. Meu Pai é quem dará esses lugares àqueles para os quais ele os preparou”. 24 Quando os outros dez discípulos ouviram isso, ficaram irritados contra os dois irmãos. 25 Jesus, porém, chamou-os e disse: “Vós sabeis que os chefes das nações têm poder sobre elas e os grandes as oprimem. 26 Entre vós não deverá ser assim. Quem quiser tornar-se grande, torne-se vosso servidor; 27 quem quiser ser o primeiro, seja vosso servo. 28 Pois, o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate em favor de muitos”.

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Sobre Apóstolo São Tiago Maior

O apóstolo Tiago Maior é irmão de João. Ele ocupa o segundo lugar, na lista dos apóstolos, logo depois de Pedro (Mc 3, 17), ou o terceiro lugar depois de Pedro e André no Evangelho de Mateus (Mt 10, 2; Lc 6,14) e de Lucas (6, 14), ou depois de Pedro e de João (At 1,13). Ele faz parte do grupo dos três discípulos privilegiados (Pedro, Tiago e João) que foram admitidos por Jesus em momentos importantes da sua vida, especialmente na Transfiguração de Jesus (Mc 9,2-13; Mt 17,1-13; Lc 9,28-36) e no horto do Getsêmani (Mc 14,32-41; Mt 26,36-46; Lc 22,39-46).

Quando Jesus chamou Tiago (bem como Pedro e João) para segui-Lo e ser seu discípulo, ele estava envolvido com a pesca (Mc 1,20). Posteriormente, depois de passar a noite em oração, Jesus o chamou para fazer parte do grupo dos Doze (Lc 6,12-14). E na lista dos Apóstolos em Marcos Tiago e seu irmão João foram chamados Boanerges, que significa “filhos do trovão(Mc 3,17). Aparentemente o apelido (Boanerges), descrevia a personalidade tempestiva que os irmãos  demonstraram quando foram chamados por Jesus. O desejo de “mandar descer fogo do céu”, para consumir uma aldeia de samaritanos (Lc 9,54) é um bom exemplo de como Tiago e João, seu irmão, eram impetuosos e iracundos, quando seguiam suas inclinações naturais. Mesmo assim eles foram fieis ao Senhor até a morte.

Uma tradição sucessiva, que remonta pelo menos a Isidoro de Sevilha, relata que São Tiago Maior permaneceu algum tempo na Espanha para evangelizar aquela importante região que fazia parte do Império Romano. Mas outra tradição disse que o seu corpo teria sido transportado para a cidade de Santiago de Compostela na Espanha onde até hoje essa cidade continua sendo um lugar de veneração e objeto de peregrinações.

Graças ao Apóstolo São Tiago, como a outros Apóstolos, a Boa Noticia de salvação chega até nós hoje. Por nossa vez não podemos deixar a Palavra de Deus morrer em nossas mãos. Precisamos ser apóstolos na atualidade.

Mensagem da Festa do Apostolo São Tiago Maior

Sempre que celebramos a festa de um apóstolo, fazemos memória do fato fundacional da Igreja. Nossa Igreja é chamada a Igreja apostólica e nossa fé é a fé apostólica, fé que foi nos transmitida pelos apóstolos, testemunhas oculares da vida de Jesus. Falar da fé apostólica significa que nossa fé, nossa esperança, nossa vida de comunidade tem como base a experiência dos apóstolos que estiveram perto de Jesus e o acompanharam até a morte e testemunharam sua ressurreição. Falar da “fé apostólica” significa sentir-se parte de uma longa cadeia de homens e mulheres que em muitos lugares e de muitas maneiras foram atraídos por esse Jesus que os apóstolos conheceram e viveram a mesma experiência que eles viveram e transmitiram aos demais. Falar da fé apostólica significa que tudo que cremos e vivemos não é algo que foi inventado. É a fé que os apóstolos viveram e que é transmitida para nós hoje.

O Novo Catecismo da Igreja Católica no artigo 857 afirma: “A Igreja é apostólica, porque está fundada sobre os Apóstolos. E isso em três sentidos:

1.    -foi e continua a ser construída sobre o «alicerce dos Apóstolos» (Ef 2, 20), testemunhas escolhidas e enviadas em missão pelo próprio Cristo;

2.    -guarda e transmite, com a ajuda do Espírito Santo que nela habita, a doutrina, o bom depósito, as sãs palavras recebidas dos Apóstolos;

3.    -continua a ser ensinada, santificada e dirigida pelos Apóstolos até ao regresso de Cristo, graças àqueles que lhes sucedem no ofício pastoral: o colégio dos bispos, assistido pelos presbíteros, em união com o sucessor de Pedro, pastor supremo da Igreja: ‘Pastor eterno, não abandonais o vosso rebanho, mas sempre o guardais e protegeis por meio dos santos Apóstolos, para que seja conduzido através dos tempos, pelos mesmos chefes que pusestes à sua frente como representantes do vosso Filho, Jesus Cristo’”.

E no artigo 869 do mesmo Catecismo lê-se: “A Igreja é apostólica: está edificada sobre alicerces duradouros, que são os Doze apóstolos do Cordeiro; é indestrutível; é infalivelmente mantida na verdade: Cristo é quem a governa por meio de Pedro e dos outros apóstolos, presentes nos seus sucessores, o Papa e o colégio dos bispos”.

E os apóstolos são as testemunhas da ressurreição de Jesus Cristo; são testemunhas de que para aquele que aceita Jesus Cristo não conhece a morte, pois ressuscitará como Jesus Cristo ressuscitou. Os apóstolos são proclamadores do triunfo de Jesus sobre a morte, portanto, são os primeiros anunciadores da salvação para todos os homens. E os apóstolos faziam tal proclamação com valentia, sem medo porque era fruto da convicção profunda que produz a verdadeira fé.  Como diz São Paulo: “Sustentados pelo mesmo espírito de fé, conforme o que está escrito: ‘Eu creio e, por isso, falei’, nós também cremos e, por isso, falamos, certos de que aquele que ressuscitou o Senhor Jesus nos ressuscitará também com Jesus e nos colocará ao seu lado” (2Cor 4,13-14). Quando você tem realmente convicção de uma coisa, você jamais se entregará. Você vai lutar até o fim. Assim foi a vida dos apóstolos. A valentia e a ousadia dos apóstolos não se detinham nem sequer diante das ameaças dos poderosos porque estavam com uma grande convicção da ressurreição do Senhor. São Tiago foi o primeiro de todos a pagar com sua própria vida a intrepidez de seu testemunho. São Tiago aceitou beber o cálice do Senhor. Consequentemente, teve que aprender a servir, a viver desprendido de si mesmo até dar a vida por sua fé e sua dedicação pelo bem comum.

Nós somos encarregados de continuar no mundo esse mesmo testemunho dos apóstolos. Somos chamados e enviados a ser testemunhas da ressurreição, da vida sem fim. Se nós acreditamos realmente na ressurreição, devemos respeitar a vida, a nossa própria e a dignidade da vida dos outros no seu início, na sua duração e no seu fim na história. Quem desrespeita a própria vida e a vida dos outros, nega a ressurreição. Se realmente acreditamos na ressurreição temos que ter certeza de que a vida não termina aqui, pois a vida é de Deus (cf. Jo 11,25; 14,6). Se acreditamos realmente na ressurreição devemos ter certeza de que os que nos precederam estão em comunhão conosco e intercedem por nós como nossos irmãos. Se realmente acreditamos na ressurreição não devemos prolongar nossa tristeza pelo falecimento de nosso irmão/ nossa irmã, nosso pai/nossa mãe, marido/esposa, filho/filha, pois eles apenas voltaram para a casa do Pai (cf. Jo 14,1-6). Se acreditamos realmente na ressurreição, devemos ter certeza de que o amor dos que nos precederam para a eternidade não morre, pois o amor é o nome próprio de Deus: “Deus é amor”, disse são João (1Jo 4,8.16). São Paulo escreveu: “Se o Espírito d'Aquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos habita em vós, Ele, que ressuscitou Cristo Jesus de entre os mortos, também dará vida aos vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que habita em vós” (Rm 8, 11). E o Novo Catecismo da Igreja Católica afirma: “Crer na ressurreição dos mortos foi, desde o princípio, um elemento essencial da fé cristã. A ressurreição dos mortos é a fé dos cristãos: é por crer nela que somos cristãos” (Artigo 991):

Portanto, devemos revisar com seriedade a nossa fé na ressurreição e a qualidade de nossa maneira de testemunhar essa fé: se nosso testemunho realmente provém de uma convicção interior ou não. A prova disto é a nossa perseverança em tudo a exemplo dos apóstolos.

Por isso, ser cristão, como lição tirada do evangelho deste dia, não pode ser um pretexto para situar-se bem no mundo, para ficar nos primeiros postos ou posições, como pediram os dois irmãos, Tiago e João. Se viver desta maneira, a religião é capaz de cair no perigo de fanatismo e na violência. Ser cristão é seguir Jesus Cristo. Seguir Cristo significa acompanhá-lo em cada momento. É adotar a vida dele na nossa vida e sua missão na nossa missão.

O maior perigo para qualquer cristão, especialmente para aqueles que trabalham na Igreja do Senhor é o mesmo: converter a autoridade em poder e domínio e não em serviço. Quem busca o poder, e uma vez no poder será difícil perceber e achar que está errado. Toda autoridade que se exerce como poder e não como serviço tiraniza e oprime. Quem exerce a autoridade puramente como serviço ao irmão e à comunidade tem um mérito extraordinário. O poder já é perigoso, muito mais ainda super-poderoso.

Na Igreja de Cristo todos nós somos chamados a servir no espírito de Jesus. Servir é adorar a Deus em ação. Servir é fazer algo de bom sem esperar nada de troca ou de reconhecimento. Uma Igreja que não serve, não serve para nada. Servir pela salvação dos demais é o centro do cristianismo. O poder e o serviço se excluem. A ambição de poder é o câncer do serviço. O poder pode servir para muitas coisas, mas não serve para tornar bons os homens. Geralmente os maus líderes produzem os maus funcionários. A competitividade na Igreja do Senhor faz desaparecer a solidariedade, a compaixão, a igualdade e a colaboração. A competitividade sempre torce para que a vida do outro não dê certo para que ele possa estar em destaque solitariamente para ser adorado pelos demais. O cristão existe para os outros e é batizado para os outros.

Não é a missão de Cristo na terra situar seus seguidores nos melhores postos e conceder honras, e sim salvar os homens com um amor que jamais morre.Toda autoridade na Igreja é fazer os outros crescerem no bem e para salvar as pessoas.

Pequena Mensagem Dos Textos

O pedido da mãe em favor de seus filhos Tiago e João é o fruto de um pensamento no reino temporal em que há honras, dignidades, privilégios, primeiros lugares em tudo e assim por diante. Mas não é a missão de Jesus Cristo situar seus amigos nos melhores postos, e conceder honras e honrarias, e sim salvar os homenes com um amor que não se detém diante da morte e morte de cruz. Aquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos, também ressuscitará e premiará em seu dia os que agora seguem os passos de Jesus.

Por acaso podeis beber o cálice que eu vou beber?”. A expressão “beber o cálice” simboliza no Antigo Testamento o sofrimento e o castigo (cf. Is 51,17; Jr 25,15; Sl 75,8). No Getsêmani Jesus usa a mesma expressão para referir-se à sua Paixão. Os discípulos são convidados a associarem-se à Paixão de Jesus como o único meio para serem fieis à sua condição de discípulos.

É admirável a ambição de alguém que deseja redimir sua humilde condição de nascimento, valorizando todas as suas capacidades de inteligência e de luta. É um desejo inato, primordial. É muito normal ter o desejo de ser, de valorizar a própria existência, de subir mais alto na vida. E isso acontece em todos os campos. Não há ninguém que, para viver, não sinta necessidade de ser o primeiro em alguma coisa.

Porém, o perigo está na ambição desenfreada onde tudo vale. Para um ambicioso as honras valem tudo: ele se sente totalmente envolto pela espiral da glória. Quando dominado pelo vício, ele não suporta competidores, nem admite rivais. Quem é ambicioso, é dificilmente se preocupará com ser justo. Perante a necessidade de alcançar o que deseja, ele só enxerga uma alternativa: humilhar os outros e eliminá-los. Os outros já não são pessoas que merecem respeito, mas são degraus que só servem para ser galgados no intuito de ele atingir o vértice do poder. O ambicioso, quando estiver no vértice do poder, transmitirá aos súditos os seus sentimentos, arruinando a nação/grupo/comunidade etc. com assim chamada de política do prestígio, dos que só visam a conseguir a sua própria grandeza. Ele só obedece ao seu instinto de mandar e receber honrarias.

Em sua Meditação sobre o poder e a graça, José I. Gonzalez Faus (o mesmo autor de A autoridade da verdade) afirmou:  O poder serve para muitas coisas. Mas não serve para que os homens se tornem bons; não serve para libertar ou curar a liberdade humana, só serve para suprimi-la. A graça, ao contrário, faz bons homens e liberta a liberdade humana. O poder obriga, a graça ajuda. O poder cria quartéis ou campos de concentração; o carisma edifica a comunidade. O poder impõe o silêncio, o carisma fala em silêncio...O poder se atribui carismas, o carisma não se atribui poderes. O poder suplanta o Espírito, o carisma faz transparecer o Espírito. E por isso, o poder acaba por levantar a cruz, e o carisma acaba por morrer pregado na cruz”.

Poderíamos resumir o Evangelho de hoje com o seguinte pensamento: o modelo do Reino, e, portanto, dos que o pregam, não será o do poder politico e sim do serviço tal como Jesus o entende e o realiza em sua vida. O modelo que Jesus propõe é o do “servidor” (diakonos), e “escravo” dos demais. A novidade deste modelo é o serviço aos demais: para os judeus era uma honra chamar-se servidores de Deus, mas não dos homens. O serviço de Jesus é redentor, pois Ele serve para salvar os homens. Jesus dá sua vida para resgatar os homens.  Aquele que se preocupa com a própria fama na Igreja em vez de procurar meios adequados para melhorar a vida do próximo e salvar o próximo não está seguindo a Jesus Cristo.

E este serviço que Jesus propõe tem um modelo muito claro: Ele próprio. Com suas últimas palavras Jesus corrige um concepção errônea que poderia ter sobre sua pessoa e ao mesmo tempo se apresenta como modelo do serviço que lava até os pés dos apóstolos (cf. Jo 13,1-20; Mc 10,45). Com uma frase negativa: “Eu não vim para...” e logo com outra frase positiva: “e sim para dar sua vida...”, Jesus indica que Ele será o verdadeiro Servo de Javé e que Sua morte terá sentido de ser para todos os homens uma libertação (resgate) para levar uma vida nova. A resposta de Jesus é remetida ao anúncio de sua paixão pronunciada anteriormente, e lhes mostra que o importante dno Reino não é ter um lugar de honra, e sim segui-Lo em seu caminho de entrega e de serviço. Para Jesus o serviço não é somente um conjunto de pequenas boas obras de ajuda aos demais. Para ele o que conta é a atitude de serviço como atitude de vida: “Eu vim para servir”. Ou seja, desejar sempre uma vida gozosa e plena para todos e orientar toda a atividade para consegui-la: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Servir torna-se, então, um estilo de vida, e não é apenas uma atividade em determinado momento da vida diante dos demais.

O serviço pode produzir até a morte de quem serve, mas será a vida para os demais. Jesus foi morto por ter servido a todos até o fim por amor (Cf. Jo 13,1). A vida inteira de Jesus foi um serviço, uma entrega pessoal de amor. Nos misteriosos caminhos de Deus, o sofrimento de um justo por causa do serviço vivido até a morte se torna uma dinâmica geradora de vida nova para todos. Jesus Cristo demonstrou, com a sua Paixão, Morte e Ressurreição, a verdade desta afirmação. Por essa absoluta fidelidade ao amor, por essa entrega plena, os homens são arrebatados até a esfera divina.

O caminho da conversão dos Doze, em particular de Tiago e João, é uma chamada para todos nós. Também nós podemos mudar. Podemos, sim, fazer o melhor na Igreja em que não há governantes nem súditos, poderosos e escravos, uns lá em cima e outros lá em baixo.

Para que isto possa acontecer, temos que voltar ao Evangelho de Jesus Cristo. Cada cristão deve marchar pelo caminho do Mestre, que não veio para ser servido e sim para servir e dar sua vida pela salvação dos homens. Esta plena solidariedade com os homens e a entrega da vida por eles é o programa permanente de todos os cristãos. Dar a vida significa projetar a existência inteira como doação.

Mas não é fácil viver essa missão, pois “trazemos esse tesouro em vasos de barro...”. O “tesouro” que a passagem alude é o conhecimento, a experiência de Jesus ressuscitado. Este é o incomparável dom que levamos em “vasos de barro”, expressão que pode fazer referência à debilidade da pessoa do próprio Paulo (cf. 2Cor 12,7-10; Gl 4,14) ou talvez, ao próprio corpo do homem saído de barro segundo a tradição de Gn 2,7. A pregação da fé se faz a partir da própria limitação do homem. Essa limitação faz o cristão recorrer sempre ao Senhor para pedir ajuda.

Paulo sabe muito bem que sem a graça de Deus ele cairia ao fracasso total. A debilidade do que crê não é sintoma de fracasso e sim lugar da manifestação de Deus. Na debilidade de Jesus como ser humano se manifesta a glória do Pai. A Igreja, cada cristão anuncia o Evangelho não a partir do poder e sim da distância do poder, pois o Evangelho só pode ser anunciado com credibilidade a partir da Cruz onde aparece a verdade crua.

São Tiago aceitou beber o cálice do Senhor. Com efeito, São Tiago teve que aprender a servir, a viver desprendido de si mesmo, como Cristo, até dar a vida por sua fé. Que a recordação do sangue derramado de São Tiago seja para nós uma força para continuarmos a testemunhar uma vida dedicada ao bem.

Além disso, ser cristão não pode ser um pretexto para situar-se bem no mundo, para alcançar primeiros postos pela ambição de poder a fim de ter privilégios desmedidos. Quando a religião se degrada, a fé facilmente se torna uma pseudo-crença e cai no perigo de fanatismo.

Celebrar a Eucaristia é comer o pão e beber o cálice. Com esse gesto de comunhão significamos nossa comunhão com Jesus e com os irmãos. Comungamos, então, com a causa de Jesus. Assim damos sentido à nossa fé e nos envolvemos na missão da Igreja, fundada sobre os apóstolos.

P.Vitus Gustama, SVD

Segunda-feira Da XVII Semana Comum, Ano Par, 27/07/2026

CRER   E SER FIEL NA FORÇA DA PALAVRA DE DEUS Segunda-Feira Da XVII Semana Comum Primeira Leitura: Jr 13,1-11 1 Isto disse-me o Senhor...