domingo, 8 de fevereiro de 2026

10/02/2026- Terça-feira Da V Semana Do TComum

É PRECISO VIVER DE ACORDO COM O CORAÇÃO RETO E INDIVISÍVEL, POIS SOMOS TEMPLO DE DEUS

Terça-Feira Da V Semana Comum

Primeira Leitura: 1Rs 8,22-23.27-30

Naqueles dias, 22 Salomão pôs-se de pé diante do altar do Senhor, na presença de toda a assembleia de Israel, estendeu as mãos para o céu e disse: 23 “Ó Senhor, Deus de Israel, não há Deus igual a ti nem no mais alto dos céus, nem aqui embaixo na terra; tu és fiel à tua misericordiosa aliança com teus servos, que andam na tua presença de todo o seu coração. 27 Mas será que Deus pode realmente morar sobre a terra? Se os mais altos céus não te podem conter, muito menos esta casa que eu construí! 28 Mas atende, Senhor meu Deus, à oração e à súplica do teu servo, e ouve o clamor e a prece que ele faz hoje em tua presença. 29 Teus olhos estejam abertos noite e dia sobre esta casa, sobre o lugar do qual disseste: ‘Aqui estará o meu nome!’ Ouve a oração que o teu servo te faz neste lugar. 30 Ouve as súplicas de teu servo e de teu povo Israel, quando aqui orarem. Escuta-os do alto da tua morada, no céu, escuta-os e perdoa!

Evangelho: Mc 7,1-13

Naquele tempo, 1os fariseus e alguns mestres da Lei vieram de Jerusalém e se reuniram em torno de Jesus. 2Eles viam que alguns dos seus discípulos comiam o pão com as mãos impuras, isto é, sem as terem lavado. 3Com efeito, os fariseus e todos os judeus só comem depois de lavar bem as mãos, seguindo a tradição recebida dos antigos. 4Ao voltar da praça, eles não comem sem tomar banho. E seguem muitos outros costumes que receberam por tradição: a maneira certa de lavar copos, jarras e vasilhas de cobre.  5Os fariseus e os mestres da Lei perguntaram então a Jesus: “Por que os teus discípulos não seguem a tradição dos antigos, mas comem o pão sem lavar as mãos?” 6Jesus respondeu: “Bem profetizou Isaías a vosso respeito, hipócritas, como está escrito: ‘Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim. 7De nada adianta o culto que me prestam, pois as doutrinas que ensinam são preceitos humanos’. 8Vós abandonais o mandamento de Deus para seguir a tradição dos homens”. 9E dizia-lhes: “Vós sabeis muito bem como anular o mandamento de Deus, a fim de guardar as vossas tradições. 10Com efeito, Moisés ordenou: ‘Honra teu pai e tua mãe’. E ainda: ‘Quem amaldiçoa o pai ou a mãe deve morrer’. 11Mas vós ensinais que é lícito alguém dizer a seu pai e à sua mãe: ‘O sustento que vós poderíeis receber de mim é Corban, isto é, Consagrado a Deus’. 12E essa pessoa fica dispensada de ajudar seu pai ou sua mãe. 13Assim vós esvaziais a Palavra de Deus com a tradição que vós transmitis. E vós fazeis muitas outras coisas como estas”.

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Somos Templo Vivo De Deus

Salomão pôs-se de pé diante do altar do Senhor, na presença de toda a assembleia de Israel, estendeu as mãos para o céu e disse: ... ‘Ouve a oração que o teu servo te faz neste lugar. Ouve as súplicas de teu servo e de teu povo Israel, quando aqui orarem. Escuta-os do alto da tua morada, no céu, escuta-os e perdoa!’”. É uma pequena parte da oração do rei Salomão.

A Primeira Leitura de hoje fala da oração do rei Salomão dirigida a Deus. Em sua oração Salomão reconhece que a presença de Deus no templo construído pelo sucessor de Davi é uma nova mostra de sua fidelidade. Isto lhe dá confiança para pedir que Deus continue a ser fiel a Suas promessas, exigindo solenemente, de acordo com a doutrina deuteronômica que os descendentes de Davi sigam o exemplo de fidelidade que o rei lhes deixou.

A unidade central de 1Rs 8 está constituída pela longa e magnifica oração de Salomão, considerada como uma amplição das ideias contidas em seu discurso anterior (1Rs 8,15-21). Nesta oração domina a teologia da aliança. Assegura-se a benevolência de Deus para Israel em virtude do pacto contraído no Sinai sob a condição de que Israel corresponda com o cumprimento da Lei.

É impressionante a postura do jovem rei, Salomão, diante do povo; ele eleva os braços ao céu, dirigindo-se a Deus no Templo recém-edificado, numa oração solene em nome de todos. Diante de um povo que se considera propriedade de Deus, Salomão se sente rei e ao mesmo tempo sacerdote.

Lemos no texto da Primeira Leitura uma seleção da formosa oração de Salomão que no livro de Reis aparece bastante longa. Salomão dá graças a Deus por Sua fidelidade. Ele reconhece que Deus não necessita de templos nem pode ficar encerrado neles. Salomão está consciente de que Deus é transcendente, o Todo Outro e, ao mesmo tempo, está próximo também de seu povo. Salomão termina sua oração pedindo a Deus, por si mesmo e por todos os membros de su povo presente e futuro, que Deus preste sempre atenção e escute as orações que são dirigidas a Ele neste Templo.

Na sua oração, Salomão não só pensa nas próprias necessidades, mas também nas necessidades do povo presente e da futura geração. É uma boa lição! Às  vezes, somos bastante egoístas nas nossas orações, pois pedimos a Deus que atenda às nossas próprias necessidades. Esquecemos os outros de nosso lado no mesmo templo/igreja, como também os outros se esquecem de nós. Entramos e saímos de nosso templo egoístas. Salomao nos ensina a pensarmos e a orarmos também pelas necessidades dos outros, pelos menos dos membros da mesma comunidade. fomos batizados para ser luz do mundo e sal da terra. O cristão existe para os outros. o cristão é católico, isto é, é uma pessoa com um coração universal.       

Todas as religiões dão importância ao lugar sagrado, lugar de oração e de encontro com a divindade. Os judeus tiveram, durante o tempo de sua peregrinação pelo deserto, sua “tenda de encontro”, e depois este Templo de Jerusalém.

Para nós, cristãos, a novidade radical foi a pessoa de Cristo, que além de ser o sacerdote e a vítima e o altar, também Ele é apresentado como o autêntico Templo do encontro com Deus: “’Destruí este templo, e em três dias eu o levantarei’. ...Ele falava do templo do seu corpo(Jo 2,19.21). Os cristãos, desde o princípio deram mais importância à comunidade do que ao edifício (cf. 1Cor 3,16-17; 6,19; 1Pd 2,4-5). Os cristãos entenderam o lugar de culto, sobretudo, como “domus ecclesiae”, a casa da comunidade, considerando a própria comunidade como lugar privilegiado da presença de Cristo: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles(Mt 18,20).

Não há nada que seja impossível para Deus. A Ele não podem conter os céus dos céus. Deus não habita em um coração manchado de pecados. Por isso, devemos ser morada digna para Deus. Para isso, devemos, com amor de filhos fieis, viver numa contínua conversão a Ele, aprendendo a cumprir de todo coração Sua vontade que consiste no amor a Ele e ao próximo como amamos a nós mesmos. Deus sempre está disposto a escutar nossas orações como Pai compassivo e misericordioso.

Evangelho e Sua Mensagem

Lendo o texto do evangelho de hoje logo percebemos qual foi a situação por trás do texto. O evangelista Marcos sente a necessidade de explicar quais eram os costumes dos fariseus e quase de todos os judeus (Mc 7,3-4). Isto nos mostra que Marcos escreveu seu evangelho para cristãos que não eram da origem judaica. Marcos está falando para uma comunidade cristã a fim de comunicar um ensinamento muito importante de Jesus.

O ensinamento parte da pergunta dos escribas e dos fariseus vindos de Jerusalém: “Por que os teus discípulos não seguem a tradição dos antigos, mas comem o pão sem lavar as mãos?”. Na mentalidade do judaismo, Israel era o povo consagrado por Deus (Dt 7,6; 14,2 Dn 7,23.27). Para Israela, todos os demais povos eram profanos, isto é, não estavam vinculados, como Israel, ao verdadeiro Deus. E para a interpretação dos fariseus, a maneira de manter-se no âmbito do sagrado era a observância da Lei. A observância da Lei, para os fariseus, expressa a vontade de Deus. Consequentemente, pertenciam ao povo “santo/consagrado” os que observavam fielmente  a Lei. Os que não observavam a Lei minusiosamente eram considerados “profanos”, separados de Deus. Mais ainda: para um fariseu, o contato com as pessoas “profanas” colocava em perigo a própria consagração a Deus. Daí a importância da purificação das mãos. Dentro deste contexto é que podemos entender a pergunta dos fariseus: “Por que os teus discípulos não seguem a tradição dos antigos, mas comem o pão sem lavar as mãos?”.

Jesus, colocando-se na linha dos antigos profetas, cita o profeta Isaias e depois, Moises, para rebater seus adversários: “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim. De nada adianta o culto que me prestam, pois as doutrinas que ensinam são preceitos humanos”.

Na expressão de Jesus há antíteses: “lábios- coração”, “render culto- preceitos humanos”. Na primeira antítese se descreve a exterioridade, a aparência. Trata-se de uma vida não vivida na intimidade ou na profundidade do coração. Este tipo de vida é chamada de vida hipócrita, pois o externo não corresponde com o que há no coração e nas aspirações humanas. Na segunda antítese  se descreve um culto hipócrita porque está regido pelos preceitos humanos que abandonam (Mc 7,8), anulam (Mc 7,9) e esvaziam (Mc 8,13) os mandamentos de Deus.

“Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim”. Com esta afirmação Jesus quer colocar em destaque a moral do coração e não somente a moral das ações. Somente de um homem devidamente ordenado, de um homem de coração limpo é que podem proceder ações morais e éticas. Uma pessoa íntegra, de coração indivisível sabe se governar e se controlar, sabe ser justo e honesto.  Aquele que não é capaz de governar a si mesmo não será capaz de governar os outros (Mahatma Gandhi). É uma chamada para a retidão de intenção ou a retidão do coração. Quando o coração está em desordem, então a conduta se torna cega. Nisto consiste um esforço contínuo de purificação. Para Jesus o primeiro dever do homem é ter a consciência limpa ou o coração puro. “Faz de teu coração um tribunal e senta-te nele como juiz de ti mesmo. Tua memória seja o promotor, tua consciência a testemunha, e o temor de Deus, o juiz” (Santo Agostinho: Serm. 351, 4,7). Portanto, não se trata somente de fazer as coisas de coração e sim de fazer coisas que procede do coração reto e limpo. Para Jesus o coração tem que estar limpo para que possa estar em disposição para captar a vontade de Deus, uma vontade que não é simplesmente letra escrita. Não basta superar a hipocrisia e o formalismo; a interiorização pede algo mais que sentimento de sinceridade.

O coração reto do qual fala Jesus não é feito somente de coragem, de fidelidade e de boa memória sobre todos os ensinamentos. O coração é feito de disponibilidade, entendendo com isso a liberdade e a intuição. Trata-se de criar uma situação interior capaz de conhecer a Deus, ao verdadeiro Deus, capaz de ler de novo a vontade de Deus. O coração é o lugar onde Deus se revela, não simplesmente o lugar onde se percebe a obrigatoriedade de um esquema já existente e onde se encontra a coragem de repeti-lo. o coração é a parte do ser humano que Deus principalmente observa na religião. A cabeça pendente e os joelhos dobrados, a fisionomia séria e a postura rígida não são suficientes para fazer um adorador espiritual. Os olhos de Deus penetram mais longe e mais profundo. Deus requer aquela adoração que parte do próprio coração. Deus diz a cada um de nós: “Dá-me, filho meu, o teu coração (Pv 23,26).

O olho humano pode não detectar qualquer defeito em nossa adoração. Os nossos vizinhos poderão pensar de nós como modelos daquilo que um crente deve ser. A nossa voz pode ser a mais ouvida no louvor a Deus e na oração, porém tudo será pior do que nada aos olhos do Senhor, se os nossos corações estiverem distantes d´Ele.

Assim no texto do evangelho de hoje Jesus reprova o espírito farisaico: a confusão entre o rigorismo minucioso na observância da moral e da fidelidade a Deus. A minuciosidade nem sempre é sinal da fidelidade. Jesus também reprova artimanhas casuísticas na interpretação dos deveres morais, um defeito que leva a um duplo desequilíbrio: complicar a observância da lei especialmente para a gente simples e tranqüilizar a consciência dos astutos que intentam salvar o esquema da lei descuidando de sua substância. Jesus também critica a confiança nas próprias obras acima do amor de Deus que nos chega gratuitamente. Aquele que se gloria pelas próprias obras, e não pelo amor gratuito de Deus e pela sua misericórdia, tem pretensão inútil de ser Deus para si próprio.

Para tudo isto, o evangelho assume uma dupla tarefa: pôr em evidência qual é o centro da lei: é a caridade. “Atente para que a sua prática religiosa não seja mais importante do que seu Deus e seu próximo(René Juan Trossero). O egoísmo devora o que o outro tem; o amor oferece ao outro o que lhe falta. Segundo, considerar a obediência do homem à lei como resposta ao gesto salvífico e gratuito de Deus e não a lei por lei. A lei ou as normas devem me ajudar a me aproximar de Deus.  Em outras palavra, não são as normas que produzem a graça de Deus e sim a graça de Deus é que produz disciplina e normas para o homem. A graça de Deus ordena minha vida e me coloca em uma disciplina. Atrás de tudo isto há uma advertência fundamental de Jesus que serve de fio condutor para todo o capitulo 7 de Marcos: todas as formas de legalismo são sempre uma forma de recusar a Deus. O legalismo farisaico nasce de uma incompreensão de Deus e oferece uma razão para recusá-Lo; de fato foi um motivo para recusar a Jesus.

Os homens verdadeiros e autênticos podem ser aplaudidos ou condenados, amados ou odiados, mas sempre despertam nossa admiração. Quem vive na retidão tem como critério a verdade e a caridade. A verdade dita com caridade convence até os ateus em tudo. A verdade dita com caridade humaniza nossa maneira de falar e de tratar dos assuntos mais complicados. “O amor e a verdade estão tão unidos entre si que é praticamente impossível separá-los. São como duas faces da mesma medalha(Mahatma Gandhi). É preciso ter um coração indivisível e íntegro para ter uma ação ética.

Vós abandonais o mandamento de Deus para seguir a tradição dos homens”, disse Jesus citando o profeta Isaías. Através desta afirmação Jesus quer nos dizer que o mandamento de Deus e as tradições dos homens têm que ser considerados como duas coisas distintas. Os dois não estão no mesmo plano e por isso, não podem ser colocados no mesmo patamar, pois o mandamento de Deus é perene e as tradições dos homens são provisionais.

Todos nós podemos ter algo de fariseus em nossa conduta. Por exemplo, se realmente damos mais valor ao formalismo exterior, às práticas externas do que à fé interior. Ou se damos mais importância a normas humanas, às vezes insignificantes, acima da caridade ou da justiça. O cristão, como Jesus Cristo, somente tem que amar. Nada mais! essa é a verdadeira fidelidade ao Deus de amor e de misericórdia.

Portanto, sempre é bom ouvirmos e meditarmos permanentemente sobre o alerta do Senhor no Evangelho de hoje, citando o profeta Isaías: “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim. De nada adianta o culto que me prestam, pois as doutrinas que ensinam são preceitos humanos”.

Para ser lembrado: Somente de um homem devidamente ordenado e de coração puro é que podem proceder ações morais e éticas. É uma chamada para a retidão de intenção e ação.

P. Vitus Gustama,svd

sábado, 7 de fevereiro de 2026

09/02/2026- Segunda-feira Da V Semana Do TComum

DEUS ESTÁ NO MEIO DE NÓS: É PRECISO TOCAR E DEIXAR-SE TOCAR POR ELE

Segunda-Feira Da V Semana Comum

Primeira Leitura: 1Rs 8,1-7.9-13

Naqueles dias, 1 Salomão convocou para junto de si, em Jerusalém, todos os anciãos de Israel, todos os chefes das tribos e príncipes das famílias dos filhos de Israel, a fim de transferir da cidade de Sião, que é Jerusalém, a arca da aliança do Senhor. 2 Todo o Israel reuniu-se em torno de Salomão, no mês de Etanim, ou seja, no sétimo mês, durante a festa. 3 Vieram todos os anciãos de Israel, e os sacerdotes tomaram a arca 4 e carregaram-na junto com a tenda da reunião, como também todos os objetos sagrados que nela estavam; quem os carregava eram os sacerdotes e os levitas. 5 O rei Salomão e toda a comunidade de Israel, reunida em torno dele, imolavam diante da arca ovelhas e bois em tal quantidade, que não se podia contar nem calcular. 6 E os sacerdotes conduziram a arca da aliança do Senhor ao seu lugar, no santuário do templo, ao Santo dos Santos, debaixo das asas dos querubins, 7 pois os querubins estendiam suas asas sobre o lugar da arca, cobrindo a arca e seus varais por cima. 9 Dentro da arca só havia as duas tábuas de pedra, que Moisés ali tinha deposto no monte Horeb, quando o Senhor concluiu a aliança com os filhos de Israel, logo que saíram da terra do Egito. 10 Ora, quando os sacerdotes deixaram o santuário, uma nuvem encheu o templo do Senhor, 11 de modo que os sacerdotes não puderam continuar as funções porque a glória do Senhor tinha enchido o templo do Senhor. 12 Então Salomão disse: “O Senhor disse que habitaria numa nuvem, 13 e eu edifiquei uma casa para tua morada, um templo onde vivas para sempre”.

Evangelho: Mc 6, 53-56

Naquele tempo, 53tendo Jesus e seus discípulos acabado de atravessar o mar da Galileia, chegaram a Genesaré e amarraram a barca. 54Logo que desceram da barca, as pessoas imediatamente reconheceram Jesus. 55Percorrendo toda aquela região, levavam os doentes deitados em suas camas para o lugar onde ouviam falar que Jesus estava. 56E, nos povoados, cidades e campos onde chegavam, colocavam os doentes nas praças e pediam-lhe para tocar, ao menos, a barra de sua veste. E todos quantos o tocavam ficavam salvos.

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Templo De Jerusalém e a Arca Da Aliança: Momento Da União Nacional Na Presença De Deus

Naqueles dias, Salomão convocou para junto de si, em Jerusalém, todos os anciãos de Israel, todos os chefes das tribos e príncipes das famílias dos filhos de Israel, a fim de transferir da cidade de Sião, que é Jerusalém, a arca da aliança do Senhor. Todo o Israel reuniu-se em torno de Salomão...”.

Uma das grandes realizações de Salomão foi a conclusão de um dos projetos de seu pai Davi: construir um templo para Deus. Convém recordarmos a trágica história desse Templo de Jerusalém.

·      Em 960 a.C: Salomão constrói um templo grandioso.

·      Em 586 a.C: este Templo é destruído por Nabucodonosor.

·      Em 516 a.C: é reconstruído depois do retorno do exílio de Babilônia.

·      10 anos antes de Jesus Cristo: Herodes, o Grande, reconstrói o Templo. Ali onde Jesus, aos doze anos, encontra os doutores da Lei. Ali também vai orar em peregrinação da Páscoa, todos os anos. Ali pronuncia vários grandes discursos.

·      Em 66 d.C: os exércitos de Tito incendiam o Templo.

·      Em 132: edificam-se ali vários templos em honra de Júpiter.

·      Em 687: se constrói uma Mesquita muçulmana na explanada do Templo.

·      No século XVI: se edificou a Mesquita atual

O mais característico do reinado de Salomão é que construiu o Templo de Jerusalém, o que Davi tinha querido edificar, mas que as circunstâncias e a voz do profeta, aconselharam para deixar mais tarde a realização da construção.

Este templo, inaugurado uns mil anos antes de Cristo, foi destruído por Nabucodonosor quatro centos anos mais tarde, e logo reconstruído várias vezes. Nos tempos de Jesus o Templo estava em seu esplendor (cf. Mc 13,1-2; Mt 24,1-2; Lc 21,5-6). Mas logo no ano 66 d.C, os exércitos de Tito o destruíram novamente. Agora em seu lugar há uma grande Mesquita (muçulmana).

Hoje lemos sobre como Salomão organizou a solene e festiva trasladação da Arca da Aliança para dentro do Templo na festa da dedicação do Templo recém-construido. A Arca da Aliança acompanhou o povo em sua época nômade pelo deserto e que logo havia depositado em vários templos e casas. A Arca da Aliança com as duas tábuas da Lei de Moisés é agora levada ao Templo, como símbolo da continuidade com o período das peregrinações, apesar de que o povo já tinha se assentado definitivamente. A trasladação da Arca da Aliança coincide com a festa dos Tabernáculos ou a festa das tendas (1Rs 8,2. Cf. Lv 26,29-43).

Quando a Arca é introduzida no Templo, Deus toma posse de sua casa. A nuvem (1Rs 8,9), associada à glória de Deus, é a manifestação sensível da presença do Senhor (cf. Ex 14,20; 19,16; 24,15-17). A partir dai, o povo de Israel está consciente de que o Templo é a sede da presença divina; o Templo é a “casa” de Deus. Essa fé do povo isarelita na presença de Deus em seu Templo é a razão do culto que aí é celebrado e das iniciativas dos fieis. A certeza de que Deus residia no Templo, a devoção para com a “casa de Deus” frequentemente são expressas nos Salmos, cujas ligações com o culto e com o Templo são evidentes. Mas essa presença de Deus no meio de seu povo é uma graça e será retirada se o povo for infiel.

Deus, que tomou posse de seu santuário com a entrada da Arca, se apresenta, ao mesmo tempo, como um Deus escondido (na nuvem) e um Deus manifestado (na luminosidade da glória).

Além de toda a assembleia de Israel que se encontra presente nesta festa (1Rs 8,2.5.13.22), têm um papel preeminente os conselhos de anciãos, os chefes de tribos, os chefes de famílias e, teoricamente, os sacerdotes e o rei (1Rs 8,1). Eles representam “todo o Israel” e legitimam o Templo de Salomão como santuário nacional. O Templo, a santa Habitação, continuará o centro da piedade judaica.

Se os judeus estavam orgulhosos de seu Templo e da Arca da Aliança, nós temos, todavia, mais motivos para apreciar nossas igrejas como edifício sagrado onde podemos conversar com tranquilidade com Deus. É preciso respeitar o silêncio sagrado. Somente fala com autoridade quem aprende a calar-se no momento certo e quem aprecia o silêncio. As nossas palavras somente terão conteúdo densamente, se forem frutos de um silencio profundo.Todas as obras primas são fruto de um longo silêncio. Não há obra maravilhosa em todos os setores da vida que não sejam fruto de um silêncio.

Sabemos e temos consciência de que Deus está presente em todas partes do universo. Mas ter um espaço adequado, convenientemente separado do espaço profano nos ajuda para nossa oração e para a reunião da comunidade e para nosso encontro com Deus.

Além disso, a presença eucarística de Jesus Cristo que quer que participemos sacramentalmente de seu Corpo e seu Sangue na comunhão, e que prolonga esta presença no sacrário, sobretudo, para a comunhão dos enfermos ou moribundos, dá a nossas igrejas uma dignidade nova e entranhável. Cristo Jesus eucarístico é uma presença privilegiada, um sacramento visível de sua contínua e invisível proximidade como Senhor Ressuscitado. É nosso “viático”, alimento para o caminho.

Mas, Deus não somente habita no Templo. Sua morada especial somos nós mesmos (cf. 1Cor 3,16-17). Ele nos consagrou como seus. Por isso, a glória de Deus deve resplandecer desde nosso próprio interior. A partir de sua encarnação, Deus veio viver entre nós. Já não é a nuvem que O representa e sim ele próprio no meio de seus. A partir de Sua presença em nós, nós nos convertemos em um sinal d´Ele no meio de nossos irmãos. Donsequentemente, devemos respeitar e reverenciar o outro, pois ele é templo do Espirito Santo. Jamais podemos esquecer o homem-templo. Devemos respeitar simultaneamente o homem-templo e espaço-templo onde podemos rezar ou conversar com Deus e ouvi-Lo em silêncio.

O Evangelho e Sua Mensagem

O texto do evangelho de hoje pode ser qualificado na categoria de “sumário” ou síntese que o evangelista Marcos faz, de vez em quando, para resumir um período de atividade de Jesus e para unir as distintas partes de seu relato. Nesse sumário Jesus não toma nenhuma iniciativa nem se põe, como tantas outras vezes, a ensinar (cf. Mc 6,34). As pessoas se aproximam de Jesus para ser curadas por Ele.

Marcos nos relatou que Jesus visitou a região de Genesaré. “Genesaréé figura da periferia do judaísmo, à margem da instituição judaica. Jesus entra em qualquer núcleo da população por pequeno que seja, pois Jesus é “Deus que visitou seu povo” (Lc 1,68; 7,16). Na região de Genesaré não se encontram os endemoninhados, isto é, fanatismos destruidores. Encontra-se mal (Mc 1,32;2,17): os enfermos que vivem excluídos pela sociedade legalista que espiritualmente mata todos os que padecem algum tipo de mal físico.

Anteriormente Jesus fez o milagre da multiplicação dos pães.  E esse milagre despertou o entusiasmo popular. Jesus e seus discípulos querem sair desse entusiasmo e vão para algum lugar para descansar. Mas Jesus e seus discípulos não têm como escapar das multidões. Jesus acaba as atendendo e deixa o descanso para mais tarde. Isto se chama a disponibilidade baseada na misericórdia. A misericórdia é sinônima de partilha íntima da dor dos que sofrem, dos desprezados, dos marginalizados ou excluídos. Por isso, a misericórdia cura e liberta. A verdadeira misericórdia obriga à ação. O preço da misericórdia divina é infinito: a encarnação de Deus em Jesus Cristo e sua morte salvadora na cruz.

“... levavam os doentes deitados em suas camas para o lugar onde ouviam falar que Jesus estava”, assim relatou o evangelista Marcos.

A enfermidade e os sofrimentos acompanham a vida do homem permanentemente e o situa numa terrível insegurança. Tudo isso simboliza a fragilidade da condição humana submetida aos riscos inesperados e imprevisíveis. A enfermidade contradiz o desejo de absoluto e de solidez que todos nós temos. Por isso é que a enfermidade guarda sempre uma significação religiosa mesmo para o homem moderno.

Em nossos dias a cura das enfermidades corresponde à ciência médica. Mas os antigos, em todas as civilizações do mundo, deram à enfermidade e à cura um significado religioso. As pessoas enfermas recorreram a Deus para ser curadas. Hoje em dia a primeira reação de quem se encontra enfermo é procurar ou chamar médico. Mas se refletirmos profundamente nós perceberemos que o homem com a inteligência que Deus lhe deu, e que combate o mal através de ajuda, de remédios capazes de curar etc. continua sendo um dom de Deus. A vocação de ser médico e enfermeiro é maravilhosa ao serviço da humanidade. Deus quer cuidar dos enfermos através de seus filhos médicos e enfermeiros.

Todos quantos tocavam Jesus, ficavam salvos”.  Esta frase tem um peso teológico. “Salvaré ato próprio de Deus em relação ao homem. Por isso, esta frase vai muito além de uma simples cura. Toda proximidade de Jesus possibilita a passagem do homem para a nova condição de vida. Trata-se de uma total restauração do homem que se aproxima de Jesus com fé. A fé é simples: as pessoas querem tocar Jesus para ficar curadas de seus males. Para ser tocado, o homem precisa se aproximar de Deus e deixar-se tocar por Deus. As pessoas dos contornos levavam os enfermos para Jesus para que pudessem tocar, ao menos, a barra de sua veste.  As pessoas, na sua simplicidade, acreditavam que somente o contato direto com Jesus é que se sentiam afetadas pelo poder de Jesus. Dessa maneira ficavam curadas.

Com estas curas o evangelista Marcos quer nos mostrar o efeito mais notável do anúncio do Reino de Deus: a Graça. A graça de Deus nos devolve a alegria de viver, pois em Deus encontramos o sentido de nossa vida, inclusive de nossas dores e enfermidade e nos dá esperança de estar em comunhão plena com Deus um dia. No seu ato de libertação Jesus nos apresenta o plano maravilhoso de seu Pai: o amor gratuito de Deus Pai para com o ser humano. Este amor gratuito não pode ser comprado nem exigido nem é resposta aos méritos que alguém crê ter acumulado. Diante da graça anunciada e vivenciada por Jesus, o sistema religioso de seu tempo, que se baseava na acumulação de méritos, entra em crise. Os pobres, os marginalizados e excluídos, por outro lado, são os maiores beneficiados pela proposta revolucionária de Jesus, pois são mais disponíveis e abertos diante da graça de Deus.

O amor gratuito, que Deus nos tem, desperta nossa consciência de que vivemos num mundo de gratuidade que nos faz vivermos agradecidos e gratos permanentemente ou nos faz vivermos uma vida eucarística. E essa consciência nos leva a ajudarmos gratuitamente os que se encontram “enfermos” nesta vida. Da experiência cotidiana percebemos que os que ajudam mais os outros, sem esperar nada de troca, são mais felizes do que os demais. “Quando perguntamos pela bondade de um homem, não perguntamos por suas crenças ou esperanças, mas por seus amores” (Santo Agostinho: De fide, spe et char. 31).

Todos quantos tocavam Jesus, ficavam salvos”. Nós, cristãos, temos que aprender a “tocar” Jesus, a não perder nenhuma maneira o contato direto com Jesus, porque Ele é a fonte do que somos e daquilo que dá sentido à nossa vida. Somente tocando Jesus, encontraremos a força para seguir adiante nesta vida e para segui-Lo pelos caminhos da vida.

Há, pelo menos, dois caminhos para nos encontrarmos com Jesus e tocá-Lo. Um é através da Eucaristia e da leitura e da escuta da Palavra de Deus. Em cada Palavra proclamada e meditada há sempre alguma palavra para minha vida se eu estiver aberto diante dela. Há sempre uma palavra que toca minha vida ou minha maneira de viver. Na Eucaristia a Palavra de Deus se faz alimento para minha peregrinação nesta terra rumo à casa do Pai, nosso lar definitivo.  Outra maneira é nos aproximarmos dos nossos irmãos e irmãs, especialmente dos mais pobres e desamparados, dos que sofrem. Eles são, hoje, sacramentos viventes da presença de Jesus no meio de nós (Mt 25,40.45). O contato físico, real, diário, com eles nos fará experimentar, sem dúvida nenhuma, a humanidade viva e real de Jesus que nos cura de nossas enfermidades.

O Senhor nos recebe em sua Casa e nos alimenta com sua Palavra e Seu Pão eucarístico. Mas ele nos envia para que demos testemunho de nossa fé, alimentando os demais com nosso amor gratuito para que eles possam voltar a viver com mais vigor como filhos e filhas amados do Pai.

P. Vitus Gustama,svd

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

V Domingo Do Tempo Comum, Ano "A", 08/02/2026

SER CRISTÃO É SER SAL E LUZ DO MUNDO

V DOMINGO DO TEMPO COMUM  ANO “A”

Primeira Leitura: Is 58,7-10

Assim diz o Senhor: 7 Reparte o pão com o faminto, acolhe em casa os pobres e peregrinos. Quando encontrares um nu, cobre-o, e não desprezes a tua carne. 8 Então, brilhará tua luz como a aurora e tua saúde há de recuperar-se mais depressa; à frente caminhará tua justiça e a glória do Senhor te seguirá. 9 Então invocarás o Senhor e ele te atenderá, pedirás socorro, e ele dirá: “Eis-me aqui”. Se destruíres teus instrumentos de opressão, e deixares os hábitos autoritários e a linguagem maldosa;10 se acolheres de coração aberto o indigente e prestares todo o socorro ao necessitado, nascerá nas trevas a tua luz e tua vida obscura será como o meio-dia.

Segunda Leitura: 1Cor 2,1-5

Irmãos, quando fui à vossa cidade anunciar-vos o mistério de Deus, não recorri a uma linguagem elevada ou ao prestígio da sabedoria humana. 2 Pois, entre vós, não julguei saber coisa alguma, a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado. 3. Aliás, eu estive junto de vós, com fraqueza e receio, e muito tremor. 4 Também a minha palavra e a minha pregação não tinham nada dos discursos persuasivos da sabedoria, mas eram uma demonstração do poder do Espírito,5 para que a vossa fé se baseasse no poder de Deus, e não na sabedoria dos homens.

Evangelho: Mt 5,13-16

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos:13 “Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal se tornar insosso, com que salgaremos? Ele não servirá para mais nada, senão para ser jogado fora e ser pisado pelos homens. 14 Vós sois a luz do mundo. Não pode ficar escondida uma cidade construída sobre um monte.15 Ninguém acende uma lâmpada e a coloca debaixo de uma vasilha, mas sim, num candeeiro, onde brilha para todos, que estão na casa. 16 Assim também brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e louvem o vosso Pai que está nos céus”.

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O texto do Evangelho de hoje pertence ao complexo do Sermão da Montanha e continuação imediata das bem-aventuranças. Continuando seu discurso, usando pronome “vós”, que se iniciou na última bem-aventurança, Jesus se dirige explicitamente aos discípulos para falar-lhes da sua missão no mundo (identidade do discípulo): ser “o sal da terra” e “a luz do mundo”. Estas duas comparações formam parte do preâmbulo do Sermão da Montanha e estão muito relacionadas com a última bem-aventurança (Mt 5,11-12) que reflete a experiência de perseguição vivida pela comunidade de Mateus. Seu objetivo é animar aos discípulos perseguidos e mostrar qual é a missão daqueles que vivem segundo o espírito das bem-aventuranças.

O Evangelho lido neste dia nos faz as seguintes perguntas: Quem são os discípulos de Cristo? Que sentido tem de ser cristão no mundo?  Por duas vezes escutamos ou lemos hoje esta expressão: “Vós sois”. A expressão “Vós sois” fala da definição dos cristãos. Porém para esta definição é acrescentada duas imagens: “o sal da terra” e “a luz do mundo” que nos faz dar conta de quem tem Jesus por discípulos seus.

Além disso, na expressão de Jesus há uma coisa surpreendente. É o tom afirmativo: “Vós sois”. Ele não diz “Vós deveríeis sere sim “Vós sois”. Nós, os discípulos de Jesus, somos assim: sal e luz (Vós sois o sal da terra e a luz do mundo). Ser sal e luz é nossa grande responsabilidade. Por ser discípulos de Cristo, somos, de fato, desta maneira: ser sal e ser luz. Ainda que também esteja certo de que depois da afirmação categórica se põem as condições para que a realidade do que somos seja, em todos os casos, o que deve ser. Em outras palavras, se somos o sal da terra e a luz do mundo, então, devemos ser assim na nossa vida de cristãos. A afirmação se torna uma imperativa para viver como tal. Por isso, depois de nos sentir confortados ao escutar hoje que Jesus nos diz “quem somos” convém nos fixar em como devemos ser sem rebaixar nossa condição de cristãos. Ou segundo Jesus, não podemos ser sal insosso e a luz escondida.

Vós sois o Sal da terra. Vós sois a luz do mundo”. “Vós sois..” é indicativo. Quer afirmar o que você é. A partir do indicativo vem o imperativo: o que você deve viver (viver de acordo com o indicativo). Vocês são pais, logo vivam sua paternidade, a mãe, a sua maternidade; professor, sua vocação de educar e ensinar; Se vocês são o sal da terra e a luz do mundo, então devem viver como o sal e como a luz.

Vós sois o sal da terra... Vós sois a luz do mundo”. Jesus não diz isto porque o são: o são porque ele o disse, porque os chamou e, uma vez recebida sua adesão, os instaura em sua missão de “sal e luz”, como fará mais adiante com Simão quando lhe confiará a missão de Pedro (cf. Mt 16,18-19). Simão é Pedro porque Jesus o fez assim. O discípulo é “sal da terra” e “luz do mundo” porque Jesus quer. São duas definições de discípulos que se unem aos precedentes, sobretudo, à de “misericordioso” e a de “portador de paz”, delineando o papel do discípulo na história ou no mundo.

Sal e luz são duas coisas que devem ser bem dosadas. O sal dá sabor ao alimento, mas quando excessivo tira-lhe o sabor e faz o paladar provar apenas o dissabor do sal. Acontece mesma coisa com a luz. Precisamos da luz como um dos elementos da sobrevivência. Mas quando a luz é excessiva, pode até cegar, eliminando a capacidade de visão dos olhos. A prática da religião, das virtudes e o bom exemplo, quando mal dosada, pode causar efeito contrário. Se praticarmos as virtudes para criticar os que não as têm e querendo que os outros sejam como nós, nasce, então, a aversão e ainda impede os outros de serem melhores. Mas se as pessoas virem a nossa fé religiosa e a nossa conduta orientadas para a fraternidade e o amor, reconhecer-nos-ão como portadores da luz de Cristo e glorificarão o Pai.

Vós Sois O Sal Da Terra         

O sal é um protagonista muito especial, para não dizer indispensável, no âmbito culinário. Ele é elemento familiar para qualquer cultura, pois desde sempre foi empregado para dar sabor à comida. Até o surgimento do frio industrial(geladeira, freezer/frigorífico) era praticamente o único meio para preservar da corrupção os alimentos, especialmente carne.  Sua presença discreta na comida não é detectada; mas sua ausência não pode ser dissimulada(embora hoje em dia exista o sal artificial, mas nunca substituirá o sal verdadeiro). O sal dissolve-se completamente nos alimentos e se perde  em agradável sabor(principalmente para quem não tem problema de pressão). Sua condição é passar despercebido, mas atuar eficazmente.

Vós sois o sal da terra. No AT ia magem de sal é polivalente:

·      O sal como artigo de primeira necessidade para a vida humana (Eclo 39,26

·      O sal temperaalimenta (Jó 6,6)

·      O sal e sacrifício estão vinculados (Lv 2,13;Ez 43,24)

·      Elias usa sal para purificar água potável (2Rs 2,19-23)           

Na cultura bíblica o sal tinha uma grande função. O sal, que assegura a incorruptibilidade, usava-se nos pactos como símbolo de sua firmeza e permanência. No AT, prescrevia-se que tudo o que se oferecesse a Deus devia estar condimentado com sal para significar o desejo de que a oferenda fosse agradável, principalmente como sinal da permanência da aliança (Lv 2,13;Nm 18,19;2 Cr 13,5).

O sal também é símbolo de sabedoria, amizade e disponibilidade para o sacrifício. E não é em vão que nas línguas latinas os vocábulos sabor, saber e sabedoria pertencem à mesma raiz semântica e família lingüística. Uma pessoa sem sal é uma pessoa pouco agradável, sem conteúdo. Uma pessoa- sal é aquela que tem muito sabedoria, uma pessoa sensata.Nunca se ache como dominador da ciência, pois “A parte que ignoramos é muito maior que tudo quanto sabemos”(Platão). Não basta dominar a ciência; é preciso ser sábio ou ser “sal” na linguagem do evangelho.

  O sal também é símbolo de sabedoria, amizade e disponibilidade para o sacrifício.  Nunca se ache como dominador da ciência, pois “A parte que ignoramos é muito maior que tudo quanto sabemos”(Platão). Não basta dominar a ciência; é preciso ser sábio ou ser “sal” na linguagem do evangelho.

A palavra “sabedoria” que  provém do latim “sapere” propriamente significa ter gosto, exercer o sentido do gosto, ter este ou aquele sabor, capacidade desenvolvida de saborear. É um saber que saboreia o fruto da vida, não um saber teórico sobre a vida. Com a sabedoria a existência se torna mais saborosa, pois a sabedoria se alimenta pelos valores. Por isso, com a sabedoria o homem é capaz de dar respostas adequadas e magníficas para cada momento de sua vida.

Consequentemente, sábio não é quem pensou a vida, e sim quem deixa que a vida lhe diga, o que ele mesmo aprendeu vivendo a vida; quem deixa que a vida lhe entregue seu sabor e lhe revele seu sentido. Sabedoria  é como uma forma específico de lidar com a realidade, uma “escola que ensina a ver e a enxergar” ou a observar com atenção, a tomar a sério as experiências cotidianas a fim de decifrar seu sentido para o bem de todos.        

Os discípulos de Jesus, os cristãos são o sal que assegura a aliança de Deus com a humanidade (terra). Como o sal é firme e permanente na comida, os discípulos devem ser fiéis ao projeto de Jesus. A missão dos discípulos é dar um sentido mais alto a todos os valores humanos, evitar a corrupção, trazer com as suas palavras a sabedoria aos homens. O discípulo é aquele que consegue dar sabor e sentido a tudo aquilo que acontece, difunde uma palavra de sabedoria onde existe dor e semeia bondade onde existe ódio, rancor e a vontade de vingar-se. Com a sua presença o discípulo impede que a humanidade se corrompa, não permite que a sociedade seja conduzida por princípios perversos, apodreça e descambe para a ruína.

 O sal serve, na vida cotidiana para temperar os alimentos e também para impedir que se deteriorem. Os discípulos de Jesus, todos os cristãos, são chamados a exercer no mundo  um papel análogo ao sal. Mas se o sal perder seu sabor com nada se pode recuperá-lo. Assim acontece com cada discípulo de Jesus. Se aqueles que se chamam cristãos/discípulos de Jesus não forem fiéis aos ensinamentos de Jesus, sem dúvida, merecerão o desprezo dos homens cuja libertação deviam ter colaborado (veja Mt 7,26). Uma comunidade ou um discípulo que, em sua prática, trai a mensagem evangélica perde a razão de existir e a credibilidade será tirada do cristão.        

O texto sublinha também o modo de presença do discípulo. Como o sal que passa despercebido, mas atua eficazmente e se torna em agradável sabor, assim sublinha a sublime tarefa do discípulo: transbordar sem ostentação a riqueza de uma vida cristã interior, fecunda, alentadora para os outros. Na prática do bem e da bondade o cristão não pode fazer barulho ou trocar trombeta. As obras boas falam por si sobre quem as fez ou praticou. O cristão deve ser como Cristo que passou a vida fazendo o bem. O cristão não pode deixar o tempo passar sem fazer o bem ou a bondade. A bondade é o único investimento que jamais falha. A única coisa que o cristão pode exagerar é praticar a bondade. Para o resto ele tem que ser bastante moderado. 

O cristianismo não consiste em um grupo de eleitos que contemplam sua feliz salvação. Mas o cristianismo é força que conserva e que transforma. Procuremos manter o sabor autêntico da fé para poder contagiá-la ao nosso redor. 

Vós Sois A Luz Do Mundo 

No AT, Deus é o Criador da luz. Ao criar a luz e dividir o tempo entre luz e trevas, Deus acabou com o primitivo estado de caos (Gn 1,3). A luz é criada por Deus, por isso, ela é um sinal que manifesta visivelmente alguma coisa de Deus. Em outras palavras, a luz é o reflexo da glória de Deus. O Sl 104,2 descreve a luz como vestimenta em que Deus se envolve. Como luz, quando Deus aparece, seu esplendor é semelhante ao dia e das suas mãos saem raios (Hab 3,3s). A luz é, então, a glória ou esplendor de Deus.         

No NT a luz é reflexo da divindade. A nuvem luminosa na transfiguração mostra a presença de Deus (Mt 17,5). Deus habita em luz inacessível (1Tm 6,16). Deus é luz (1Jo 1,5). E quem obedece aos seus mandamentos andam na luz (1Jo 1,7). A luz de Deus é vista em Jesus, que é a luz do mundo (Jo 3,19;8,12;9,5;12,35s.46). Jesus é a luz que ilumina todo homem (Jo 1,9) por meio da vida que ele tem dentro de si (Jo 1,4) e brilha para os homens (1Jo 2,8-10). Jesus é também a luz para guiar os pagãos (Lc 2,32). O cristão através de sua participação na luz e na vida de Deus por meio de Jesus, transforma-se em instrumento de luz para aqueles que se acham nas trevas. 

Para são João a luz é o esplendor da vida (Jo 1,4). Luz é o símbolo da vida. Por isso, quando alguém nasce diz-se: Fulana deu a luz a seu filho(a). Não existe luz anterior à vida; é a própria vida.  A luz-vida precede à aparição das trevas (Jo 1,5). A identificação da luz com a vida mostra a equivalência de trevas e morte. Na literatura grega clássica, “a luz”, em contraste com “as trevas” em sentido figurado significa a esfera do bem. Viver na luz é viver no bem e conforme o bem. O bem é tudo o que é bom absolutamente. Fazer o bem é fazer aquilo que é bom, correto, humano absolutamente. “O bem é aquilo que todos amam”, dizia Aristóteles.

Portanto, optar pela Luz que é Cristo Jesus é optar pela vida, pelo bem, pela bondade e pela salvação. No bem praticado está o sentido da vida. Optar pela Luz é optar pela verdade, pois não há nada que seja escondido perante a luz.

Optar pela Luz é optar pela transparência e não pelo jogo de esconde-esconde ou jogo de falso raciocínio com o intuito de esconder a verdade. Optar pela Luz é optar pela originalidade e não pela falsidade ou artificialidade. Optar pela Luz é optar pelo caminho certo e não inventar caminho com os fins egoístas.  Optar pela Luz é saber discernir os caminhos. Optar pela Luz é saber discernir o que é certo e o que não o é. Optar pela Luz de Cristo é optar pela vida iluminada a fim de iluminar os demais homens.

Para Jesus, Ser luz é estar à vista de todos, como a cidade no topo de um monte. Isto implica para os discípulos ser identificados como crentes e de algum modo estar expostos à crítica, à ironia e à perseguição. 

Hoje Jesus nos chama por nosso nome: “Luz”: “Vós sois a luz do mundo!”. Essa é nossa vocação com Igreja: dissipar a escuridão ou as trevas que rodeiam a tantos corações, a tantos povos: guerras, injustiça, assassinato, sem esperança. A fé em Jesus ressuscitado é a luz que pode dar respostas a todas as inquietudes do homem.  

A luz serve para iluminar os objetos e aquece, especialmente a luz do sol. A luz existe não para ser olhada diretamente, pois pode causar a cegueira se for forte como o sol ou uma lâmpada de grande watt. Não se deve olhar para a luz, mas para as coisas iluminadas. Numa escuridão ninguém usa uma lanterna direcionada para os olhos, mas para o caminho para que seja iluminado, assim facilitará a caminhada sem tropeços.          

Na Bíblia, a luz é a glória ou esplendor de Deus mesmo que, segundo Is 60,1-3, devia luzir ou brilhar sobre Jerusalém. A interpretação deste texto (v.3) aplicava a frase a Israel; também à Lei e ao Templo (Is 2,2) e à cidade de Jerusalém (Is 60,19), sempre como reflexo da presença de Deus neles. Deus é a luz de Jerusalém e de seu povo; assim, este povo se torna, por sua vez, luz para o mundo.          

Chamados a ser “a luz do mundo”, os discípulos devem viver como reflexos de jesus Cristo, a Luz do mundo (Jo 8,12). Só assim eles podem garantir a continuidade da missão de Jesus. Essa presença radiante e perceptível se verificará doravante nos discípulos. Essa luz há de ser percebida: a comunidade cristã e cada cristão não se podem esconder nem viver cerrados em si mesmos. A glória de Deus não mais se manifesta no texto da Lei nem no lugar do templo, mas no modo de agir dos que seguem Jesus e vivem seus ensinamentos fielmente. Os discípulos são a luz do mundo à medida que são os reflexos autênticos da vida e do ensinamento de seu Mestre Jesus, e não como os vaga-lumes que só piscam de vez em quando.          

A parábola da lâmpada (v.15) explicita a metáfora da luz. Uma lâmpada acesa colocada debaixo de uma vasilha se apaga a chama. Deve-se colocá-la, de preferência, em um candelabro, num lugar bem alto, para aumentar o alcance da luz e conseqüentemente, todos os moradores se beneficiam da claridade. A conclusão tirada disto é clara: os discípulos não têm o direito de se omitir na transmissão da luz, pois ser a luz é a identidade deles. Por isso, devem eles estar bem visíveis e brilhar todos os que se aproximarem deles ou todos os que conviverem com eles. Mas nenhuma luz faz barulho. Simplesmente ilumina silenciosamente. É o silêncio que faz efeito.          

Por isso, apesar de os discípulos serem a luz, eles não podem praticar as boas obras para chamar a atenção sobre si, para ser admirados e elogiados (como objetivo e não como conseqüência). Não é para eles que os homens devem olhar, mas para Deus de Bondade, fonte de todas as boas obras. Os discípulos devem permanecer discretos, pois se a luz bate diretamente nos olhos, somente prejudica, incomoda e irrita.                 

A prática da religião, das virtudes e o bom exemplo, quando mal dosados, podem causar efeito contrário. Se praticarmos as virtudes para criticar quem não as tem e querendo que os outros sejam como nós, nasce, então, a aversão e ainda impede os outros de serem melhores, como quem toma um raio luminoso diretamente nos olhos que só cega. Mas se as pessoas virem a nossa fé religiosa e a nossa conduta, orientadas para a fraternidade e o amor, reconhecer-nos-ão como portadores da luz de Cristo e glorificarão o Pai.          

Para Mateus, ser luz (e ser sal) consiste, antes de tudo, em praticar as boas obras para que todos os homens dêem glória a Deus. Com esta menção das boas obras se introduz o corpo do Sermão da Montanha, cujo tema principal será, precisamente, aclarar quais são as boas obras que o discípulo deve pôr em prática.           

Por isso, devemos nos perguntar se os outros, os colegas, os nossos familiares, ao perceberem as nossas boas obras e vêem nelas a luz de Cristo, os levam a glorificar a Deus e os levam a praticar as mesmas. Já paramos para pensar sobre como podemos fazer para um testemunho evangélico mais eficaz na nossa vida cotidiana? Na escuridão não percebemos se a roupa que usamos está suja ou limpa, pois somente existe uma cor: preta. Se não conseguirmos distinguir mais o que é certo e errado, cuidado, talvez estejamos na escuridão. 

Se o sal torna-se insípido... Não serve mais para nada: joga-se fora e é pisado pelas pessoas”.  O povo antigo costumava colocar uma placa de sal nas fornalhas de terra como substância capaz de catalisar o calor. Com o tempo a placa formada por sal ia perdendo sua capacidade catalisadora e então era descartada (nota-se que o texto não diz que o sal perde seu sabor, e sim se desvirtua, pois quimicamente o sal não pode perder seu sabor). Assim acontece com cada discípulo de Jesus. Se aqueles que se chamam cristãos/discípulos de Jesus não forem fiéis aos ensinamentos de Jesus, ao espírito das bem-aventuranças, sem dúvida, merecerão o desprezo dos homens cuja libertação deviam ter colaborado (veja Mt 7,26), e eles serão inúteis, inclusive perigosos e odiosos para os homens. A impropriedade da imagem serve, então, para sublinhar a gravidade daquilo que acontecerá com os discípulos caso eles não vivam segundo o espírito das bem-aventuranças.  Uma comunidade ou um discípulo que, em sua prática, trai a mensagem evangélica perde a razão de existir. A comunidade de discípulos perderá sua identidade como sal, se ela parar de viver no mundo. Consequentemente, o mundo que os discípulos buscam salvar, acabam o destruindo.

O famoso Mahatma Gandhi um dia disse: “Cristo, se os teus fossem como Tu, hoje toda a Índia seria Tua”. Sempre que alguém nos diz: “Cristo sim, mas vocês, cristãos, não”, devemos sempre pensar que existe em nós qualquer coisa que não é Cristo ou não é de Cristo, que Deus morreu em nós em certa medida, e que temos o dever de O fazer ressuscitar. Se Deus não conseguir ser visto no mundo é porque não se vê mais na vida de quem se chama cristão. Quem crê em Jesus se converte em luz para si mesmo e para os outros.

P. Vitus Gustama,svd

10/02/2026- Terça-feira Da V Semana Do TComum

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