CONFIEMOS EM DEUS, POIS ELE TEM A ÚLTIMA
PALAVRA PARA NOSSA VIDA: PALAVRA QUE SALVA
XVI Domingo Comum Ano “A”
Primeira Leitura: Sb 12,13.16-19
13 Não há, além de ti, outro Deus que cuide de todas as coisas e a quem devas mostrar que teu julgamento não foi injusto. 16 A tua força é princípio da tua justiça, e o teu domínio sobre todos te faz para com todos indulgente. 17 Mostras a tua força a quem não crê na perfeição do teu poder; e nos que te conhecem, castigas o seu atrevimento. 18 No entanto, dominando tua própria força, julgas com clemência e nos governas com grande consideração; pois, quando quiseres, está ao teu alcance fazer uso do teu poder. 19 Assim procedendo, ensinaste ao teu povo que o justo deve ser humano; e a teus filhos deste a confortadora esperança de que concedes o perdão aos pecadores.
Segunda Leitura: Rm 8,26-27
Irmãos: 26 O Espírito vem em socorro da nossa fraqueza. Pois nós não sabemos o que pedir nem como pedir; é o próprio Espírito que intercede em nosso favor, com gemidos inefáveis. 27 E aquele que penetra o íntimo dos corações sabe qual é a intenção do Espírito. Pois é sempre segundo Deus que o Espírito intercede em favor dos santos
Evangelho: Mt 13,24-43
Naquele tempo, 24Jesus contou outra parábola à multidão: “O Reino
dos Céus é como um homem que semeou boa semente no seu campo. 25Enquanto
todos dormiam, veio seu inimigo, semeou joio no meio do trigo, e foi embora. 26Quando
o trigo cresceu e as espigas começaram a se formar,
apareceu também o
joio. 27Os empregados foram procurar o dono e lhe disseram:
‘Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde veio então o joio?’ 28O
dono respondeu: ‘Foi algum inimigo que fez isso’. Os empregados lhe
perguntaram: ‘Queres que vamos arrancar o joio?’ 29O dono respondeu: ‘Não! Pode
acontecer que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo. 30 Deixai crescer
um e outro até a colheita! E, no tempo da colheita, direi aos que
cortam o trigo: arrancai primeiro o joio e amarrai-o em feixes para ser
queimado! Recolhei, porém, o trigo no meu celeiro!’” 31Jesus contou-lhes
outra parábola: “O Reino dos Céus é como uma semente de mostarda que um homem pega e semeia no seu campo. 32Embora
ela seja a menor de todas as sementes, quando cresce, fica maior do que as
outras plantas. E torna-se uma árvore, de modo que os pássaros vêm e fazem
ninhos em seus ramos”. 33Jesus contou-lhes ainda uma outra parábola: “O
Reino dos Céus é como o fermento que
uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique
fermentado”. 34Tudo isso Jesus falava em parábolas às multidões. Nada
lhes falava sem usar parábolas, 35para se cumprir o que foi dito pelo profeta:
“Abrirei a boca para falar em parábolas; vou proclamar coisas escondidas desde
a criação do mundo”. 36Então Jesus deixou as multidões e foi para casa.
Seus discípulos aproximaram-se dele e disseram: “Explica-nos a parábola do
joio!” 37Jesus respondeu: “Aquele que semeia a boa semente é o Filho do
Homem. 38O campo é o mundo. A boa semente são os que pertencem ao Reino.
O joio são os que pertencem ao Maligno. 39O inimigo que semeou o joio é
o diabo. A colheita é o fim dos tempos. Os ceifeiros são os anjos. 40Como
o joio é recolhido e queimado ao fogo, assim também acontecerá no fim dos
tempos: 41o Filho do Homem enviará seus anjos, e eles retirarão do seu
Reino todos os que fazem outros pecar e os que praticam o mal; 42e
depois os lançarão na fornalha de fogo. Aí haverá choro e ranger de dentes. 43Então
os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai. Quem tem ouvidos, ouça”.
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Um Olhar Geral Sobre As Leituras Deste Domingo
A onipotência e a paciência de Deus é o tema que aparece com claridade na liturgia deste domingo.
O Evangelho deste Domingo nos oferece novamente a imagem de um semeador para nos falar do Reino de Deus (o evangelista Mateus usa a expressão “o reino dos céus” para não pronunciar o nome de Deus em função do respeito que os judeus tem para com Deus). O semeador lança boa semente no campo. Mas, à noite, o inimigo semeia joio, uma planta nociva e venenosa. Os trabalhadores, indignados pela astúcia do inimigo, querem arrancar o mais rapidamente o joio que ameaça o crescimento do trigo. Porém o dono do campo impede que façam isso, pois existe o risco de que, junto ao joio, se arranque também o trigo. É a morte certa para os dois sem nenhuma oportunidade para o trigo produzir grãos. Os servos são proibidos pelo agricultor de arrancar o joio. Aqui se revela o centro da parábola. Ou seja, a paciência. No final o próprio agricultor fará esse ato (separação). Trata-se de um convite a viver a paciência diante da presença da maldade no campo do Reino de Deus.
Este semeador generoso com a boa semente e paciente diante da adversidade não desejada, é o Filho do Homem (Jesus Cristo) que semeia a boa semente, que são os cidadãos do Reino de Deus. Jesus não exclui os pecadores (os maus), mas os procura; corre atrá deles e, solícito, os acolhe. Jesus segue o pecador e com amor Ele persegue os desanimados e lhes dá tempo para uma conversão sincera. Basta os pecadores acolherem o convite do Senhor é que o joio (o mau) transformará em trigo (o bom). Deus quer salvar todos. Quem deseja a salvação deve ter um coração disposto para a conversão. O poder de Deus é infinito e também sua paciência. Não permite que ceifadores arranquem o joio. Ao contrário, ele os convida a ter paciência até o tempo da colheita. O trigo deverá crescer junto ao joio e todos deverão seguir o exemplo da paciência do semeador. Precisamente porque Ele é todo-poderoso e tem em sua mão os destinos do mundo é que ele tem paciência e misericórdia com todos.
O texto do Livro de Sabedoria, que lemos na Primeira Leitura (Sb 12,13.16-19), chega à mesma conclusão depois de perguntar-se sobre a razão pela qual Deus se mostra tão misericordioso em relação ao Egito (Sb 11,15-20) e Canaã (Sb 12,1-11): “Não há, além de ti, outro Deus que cuide de todas as coisas... A tua força é princípio da tua justiça, e o teu domínio sobre todos te faz para com todos indulgente”.
E no texto da Segunda Leitura, tirado da Carta aos Romanos (Rm 8,26-27), são Paulo nos mostra como o Espirito Santo vem em ajuda de nossa debilidade e nos ensina a rezar(orar) como devemos. Através da ação deo Espirito Santo, quando estiver aberto a Ele, o cristão chega a compreender o atuar misericordioso de Deus. Somente o Espirito Santo que sonda os corações sabe suscitar o sentimento e a oração apropriada diante da Santidade de Deus.
Tudo isto a parábola quer nos mostrar algo evidente no mundo que vivemos. Junto ao bem e aos cidadãos do Reino, a boa semente, existe o mal e existem também os operadores da iniquidade, que existem pessoas que se deixam arrastar pelo mal, pela corrupção, pela roubalheira, pela injustiça, e assim por diante.
Diante desta situação, surge, espontaneamente, em nossos corações, como nos empregados da parábola, o desejo de pôr rápida solução para as pessoas em questão, eliminando-as de nossa convivência. Os empregados da parábola não aprecem dispostos a tolerar uma situação que exigirá deles paciência, discernimento, prudência e moderação. A parábola quer nos mostrar que a onipotência de Deus se manifesta em sua misericórdia. O juízo sobre o coração humano, por seu caráter absoluto e definitivo, corresponde somente a Deus que sonda ou perscruta o coração humano. E o juízo de Deus se reserva para o final dos tempos. Por isso, podemos entender que, na sua primeira Carta aos Coríntios, são Paulo nos adverte: “Não julgueis antes do tempo; esperai que venha o Senhor. Ele porá às claras o que se acha escondido nas trevas. Ele manifestará as intenções dos corações. Então cada um receberá de Deus o louvor que merece” (1Cor 4,5).
Mas quem é fraco e débil, reage com violência e prepotência diante de qualquer perigo ou ameaça que lhe afeta. Paradoxalmente, a violência e a prepotência revelam muito mais nossa fraqueza do que nossa força. São Paulo tinha razão ao escrever: “Quando me sinto fraco, então é que sou forte” (2Cor 12,10b). O reconhecimento da fraqueza revela a existência da força em nós; o reconhecimento de nossos pecados mostra que existe a santidade crescente em nós.
O tempo de Deus é, para nós, o tempo de crescimento e de esperança com muita paciência diante do sofrimento. O semeador e os trabalhadores devem armar-se de paciência e acompanhar de perto o crescimento de suas plantas, sabendo em todo caso, que a colheita está assegurada pela onipotência de Deus. A paciência dos trabalhadores nasce da paciência de Deus e de sua misericórdia que não fica desesperado jamais e sempre propõe e repropõe as vias da salvação. O Livro de Sabedoria o expressa de maneira clara e sintética sobre a atitude de Deus: “Assim procedendo, ensinaste ao teu povo que o justo deve ser humano; e a teus filhos deste a confortadora esperança de que concedes o perdão aos pecadores” (Sb 11,9).
Nisto compreendemos o sentido da parábola do grão de mostarda e a do fermento. Estas parábola são uma chamada entusiasta à fé e à esperança. O Reino de Deus tem origens minúsculas. Jesus semeou a Palavra durante, mais ou menos, três anos para um grupo de pessoas simples humildes em um lugar escuro do império. No entanto, daquelas origens humildes veio à luz uma realidade esplêndida. Esta lei evangélica continua tendo vigência para nosso tempo e para qualquer tempo e lugar. Tudo aquilo que é feito por Deus nasce no pequeno, no simples para que se manifeste que é Deus, não o homem, quem dá fecundidade e bom êxito para a tarefa de evangelização. O joio (fracasso) não poderá jamais o fruto total da colheita. Há que seguir semeando! Há que olhar para o futuro com muita esperança e fé em Deus, sem reter-se no passado. Há que vencer o mal com o bem. Quanto maiores forem as sombras que cobrem o mundo, tanto maior deve ser a presença dos cristãos, cidadãos do Reino. Trata-se da presença da boa semente capaz de embelezar a humanidade. Não percamos tempo nas murmurações, lamentações, críticas. Nossa vida aqui neste mundo é o tempo dado por Deus para semear o que bom. Não nos preocupemos com pessoas vão usufruir da bondade semeada e sim semear e semear. Quantas mangueiras cujas mangas comemos, quantos coqueiros cujos cocôs saboreamos e tantas outras plantas que foram plantadas por nossos pias ou nossos antepassados que não estão mais aqui neste mundo, no entanto usufruímos sua bondade. Semeemos!
Um Olhar Especial Sobre O Evangelho Deste Domingo
O Reino de Deus É Um Acontecimento Cotidiano
Estamos ainda no terceiro discurso de Jesus sobre o Reino dos Céus em parábola (Mt 13). “O Reino dos Céus é como...”, assim Jesus disse.
O Reino de Deus se parece como uma rede que se joga no mar e apanha todo tipo de peixes. Quando está cheia se arrasta para a margem. O Reino de Deus se parece como um tesouro escondido num campo que, ao encontrá-lo, o homem vende tudo o que tem para comprar o campo onde se encontra o tesouro. O Reino de Deus se parece como uma semente de mostarda que o homem semeou no campo que vira uma planta maior onde os pássaros podem fazer seus ninhos. O Reino de Deus se parece como o fermento que uma mulher mistura com a massa e esta cresce. Tudo isso quer nos dizer uma coisa: O Reino de Deus se parece sempre a um sucesso. Confiar em Deus sempre termina na salvação que é o sucesso maior para um ser humano.
O Reino de Deus não é um lugar, nem uma coisa, nem uma organização imponente. Por isso, o Reino de Deus não está circunscrito geograficamente, nem institucionalmente, nem sequer pode dizer-se com precisão. O Reino de Deus é um acontecimento, é algo que sucede em qualquer parte dentro deste mundo. Para entrar nele não é necessário mudar de profissão, nem sair de um lugar para outro lugar ou de uma Igreja para outra Igreja, nem abandonar o mundo. O mais importante e essencial é mudar de vida, pois o Reino de Deus é uma vida nova, uma vida com Deus, uma vida de amor fraterno, uma vida de justiça, uma vida de igualdade, uma vida de sucesso, uma vida de salvação. O princípio desta vida está em Deus. Deus tem a iniciativa, pois Ele quer nos salvar por amor. Cristo é o princípio e a origem deste acontecimento que chamamos Reino de Deus. A partir de Cristo, algo passa no mundo, ainda que ninguém o note, pois o Reino de Deus acontece no silêncio. No silêncio Deus tem oportunidade para nos falar e para falar sobre nós. No silêncio da Cruz, no silêncio da semente que se morre, no silêncio do fermento que fermenta a massa. Do silêncio sai o resultado surpreendente para a humanidade. O silêncio é o início de uma obra prima.
Semente/grão, massa, fermento e pão, rede e peixe, tesouro incalculável encontrado. Tudo isto tem a ver com a vida do homem, com sua subsistência. Toda vez que Deus fala, toda vez que a Palavra de Deus é proclamada é porque tudo tem a ver com a salvação do homem, tem a ver com sua felicidade, sua paz, sua esperança e o sentido de sua vida neste mundo.
Onde há um homem que viva para os demais, onde há um homem que defenda a justiça, onde há uma mulher que se sacrifique para que um ser possa viver, onde há um enfermo que sofra com esperança e fé, onde há médico e enfermeiro que se dedique heroicamente para recuperar a saúde do paciente, onde há um jovem que busque a verdade, que busque um caminho correto, um ancião que olhe com serenidade o futuro, um governante ou político que reconheça seus erros para dar o melhor para a sociedade, e assim por diante, ali não passam somente coisas da vida; ali acontece o Reino de Deus.
O evangelho deste domingo apresenta três parábolas do Reino: a do trigo e joio com a explicação da parábola (vv.24-30.36-43); e a dupla parábola do grão de mostarda e do fermento (vv.31-35).
O Joio No Meio Do Trigo: a Paciência de Deus É a Salvação Do Homem
A parábola do joio é exclusiva de Mateus (encontra-se também no Evangelho apócrifo de são Tomé). O termo grego para o joio, de origem semita, é “zizánion”. O joio é uma planta da família das gramíneas (lolium temulentum) que cresce no meio do trigo que dificilmente se distingue do bom trigo durante o seu crescimento; só se vê a diferença nas espigas. As espigas do trigo alimentam o homem (animal), enquanto o joio produz uma espiga de grãos escuros de efeito altamente tóxico. Mas, na verdade, não há necessidade saber da espécie de erva parasita que Jesus fala nessa parábola; basta saber que se trata de uma planta nociva.
Esta parábola conta uma cena da vida cotidiana: o dono do campo que semeia a boa semente, o inimigo que prejudica o campo de trigo ao semear o joio, as relações entre o patrão e os empregados. Tudo parece normal, exceto a surpreendente reação do dono do campo: deixar que ambos (joio e trigo) cresçam juntos. A atitude do dono, evidentemente, chama a atenção dos ouvintes, porque a atitude normal é arrancar logo o joio para que o trigo possa crescer saudavelmente a fim de produzir boas espigas (bons grãos). O dono sabe que o joio pode impedir ou dificultar o crescimento do trigo, mas os dois parecem muito ao princípio e é possível que ao arrancar o joio, arranquem também o trigo. O dono quer que se espere o tempo da colheita para separar o trigo do joio.
Evidentemente a parábola do joio orienta-se para o fim dos tempos, pois ela trata do juízo final, que introduz o Reino de Deus. Nesta parábola rejeita-se expressamente a ideia duma separação antes do tempo, e exorta-se à paciência até chegar o tempo da colheita. Os homens não estão absolutamente em condição de fazer esta separação (v.29), pois ao fazer separação que é a competência de Deus, os homens cairiam em erros de julgamento, e os dois (joio e trigo) acabam morrendo juntos, pois quem julga o outro, cai também no julgamento (Mt 7,1).
Infelizmente a tendência espontânea dos homens é a de repartir a humanidade em duas categorias: os bons e os maus. E os maus sempre são os outros e os bons sempre somos nós. Por isso, somos intolerantes para as faltas alheias, mas muito amigos de nos autojustificarmos, e muito ligeiros a desculpar-nos. Que as bênçãos de Deus caiam sobre nós e nossa família, e as maldições sobre os maus, sobre os inimigos, sobre os criminosos e corruptos, ladrões e bandidos. Com isso, somos maus do mesmo jeito. Com esta atitude os homens, no fundo até inconsciente, tem uma tendência espontaneamente sectária e intolerante. O outro o amedronta enquanto não se tornou seu “semelhante”. O mal e o bem não estão só fora de nós, mas dentro do nosso coração. Ao esquecermos isto, nos constituímos juízes dos outros. Ninguém pode ter a presunção de ser trigo limpo, porque ninguém é tão bom que não tenha algum joio. Somente Deus é bom plenamente (Mc 10,18).
Através desta parábola Jesus quer revelar também a paciência de um Deus que adia o julgamento (vv.28-30) a fim de deixar ao pecador o tempo para se converter. A porta da misericórdia está aberta até os últimos minutos da vida do homem. Apesar de ter na sua mão todo o poder, Deus se mostra tolerante e paciente para com a sua criatura, o homem, que é débil e pecador. Ele não exclui ninguém do Reino: todos são convocados até o último minuto, todos podem entrar nele até no último minuto de sua vida (cf. Lc 23,40-43). A cólera não é a última palavra da manifestação divina. O perdão sempre prevalece sobre quem se converte. A paciência divina está aberta para todos aqueles se convertem.
Por sua atitude durante toda a sua vida, Jesus encarna a paciência de Deus em relação aos pecadores. Não existe pecado que não possa ser perdoado por Deus, se o pecador se converter; nenhum pecado arranca o homem do poder misericordioso de Deus. O perdão de Deus deixa as sombras para trás na vida do homem. Perdão é o momento de entrar na luz divina diante da qual tudo se torna claro.
A paciência de Jesus causa escândalo porque testemunha um amor a Deus e à humanidade baseado na total abnegação ou no desprendimento. Aceitar os laços de amor que Jesus oferece à humanidade implica, por sua vez, aceitar essa exigência de pobreza radical. Mas as pessoas temem renunciar a tudo porque sentem que perderão tudo. Jesus nos convida a perder tudo para ganhar tudo quando nos revela, por meio de sua vida e morte, o mistério da paciência divina.
Ou seja, o segredo desta paciência de Jesus é o amor. Jesus ama o Pai com o mesmo amor com que é amado, pois é o Filho. Jesus ama os homens com o mesmo amor com que o Pai os ama. Talvez a expressão joanina seja melhor para descrever o amor de Jesus: “...amou-os até o fim” (Jo 13,1). Jesus ama os homens até em seu pecado. Foi o pecado dos homens que conduziu Jesus à cruz. No momento supremo em que o desígnio divino parece comprometido pela atitude dos homens, o amor se faz totalmente misericordioso: “Pai, perdoa-lhes; porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34). Jesus, realmente, amou os homens até o fim. Segundo o evangelista Lucas, a última palavra de Jesus para o homem é o perdão. A última palavra de Jesus para o Deus Pai é a entrega total de sua vida: “Pai, em tuas mãos entrego meu espirito”.
Por ser membro do Corpo de Cristo, todos nós temos a missão de encarnar a paciência de Jesus. É na paciência que se conquista a vida (Lc 21,19). A paciência não é passividade. A paciência é resistir com firmeza. A paciência é o período entre o semear e o colher. A paciência é uma virtude dos fortes e prudentes.
Nossa tarefa neste mundo não é a de repartir os homens entre os bons e os maus, embora ninguém escape da tentação de intolerância e da impaciência, mas a de revelar o amor misericordioso de Deus. Ninguém por si tem o direito de se constituir critério para o seu irmão. Não o irmão justo é o nosso critério, mas o Deus santo e misericordioso. Aqui na terra, o trigo está sempre misturado com o joio, e a linha de demarcação entre um e outro passa em todo homem. O cristão e a cristã são chamados a exercer sua função como pedra insubstituível na construção do Corpo de Cristo e a cooperar de modo original na realização da história da salvação. Quando o cristão não se tornar mais o sinal do amor de Deus, a missão automaticamente degrada-se em propaganda ou em tentativa de autopromoção. Para isso, temos que nos renovar sem cessar por dentro através do alimento da Palavra de Deus e da Palavra que se faz carne na Eucaristia.
Além disso, essa parábola serve de exortação para todos os cristão. Deus deixa conviver os bons com os maus, sem pressa de fazer juízo. E nessas circunstâncias não sabemos se fazemos parte do grupo dos bons ou do dos maus; se somos do trigo ou do joio. Mas como Deus tem paciência, sempre é tempo de tentarmos produzir alguma coisa positiva, e rendermos para a vida presente e para a vida eterna. Além disso, a conversão é um trabalho silencioso de cada dia. Deus está sempre esperando nossa volta, como o pai que espera a volta do filho pródigo.
Para Refletir:
· “’Porém, enquanto os homens dormiam, veio seu inimigo, e semeou joio no meio do trigo, e foi-se’. Com estas palavras nos faz ver que o erro vem depois da verdade, como atesta o decorrer dos fatos. Assim, depois dos profetas vieram os falsos profetas, depois dos apóstolos os falsos apóstolos, e depois de Cristo, o Anticristo.” (São João Crisóstomo In Homiliae in Matthaeum, hom. 46,1).
· “Quando algum cristão no seio da Igreja for pego num pecado digno de anátema, seja anatematizado onde não houve perigo de cisma, e faça-se com amor, não a fim de eliminá-lo, mas de corrigi-lo. Mas se ele não reconhecer nem se corrigir através da penitência, ele mesmo irá para fora e será separado da comunhão da Igreja por sua própria vontade. Por isso o Senhor, como dissesse: Deixai crescer uma e outra coisa até à ceifa, acrescentou a razão nas palavras seguintes: para que talvez não suceda que, arrancando o joio, arranqueis juntamente com ele o trigo.” (Santo Agostinho In Contra epistolam Parmeniani, 3,2);
A Dupla Parábola Do Grão De Mostarda E Do Fermento: Com Deus Tudo Terminará Com Sucesso
As duas parábolas (grão de mostarda e fermento) são muito parecidas em seu conteúdo e sua forma. A mostarda é uma planta que atinge facilmente uma altura de mais de dois metros e é cultivada por causa de seus grãos. As sementes são muito pequenas: não mais de um milímetro de comprimento. O fermento é bem conhecido no mundo culinário para fermentar a massa a fim de que ela cresça mais depressa. Um pouco de fermento pode fazer crescer uma grande quantidade de massa.
O aspecto mais chamativo nestas duas parábolas é o contraste que existe entre a situação inicial e o resultado final. Um grão de mostarda, sendo a mais pequena das sementes, pode fazer surgir uma “árvore” grande, e o mesmo acontece com o fermento que tem capacidade para fazer fermentar uma grande quantidade de massa.
Através destas parábolas, Jesus fala da presença do Reino que está começando a chegar: embora sua presença seja germinal e sua aparência seja insignificante, mas leva dentro de si uma força transformadora e seu crescimento será irreversível. Ambas as parábolas acentuam a desproporção entre os princípios insignificantes do Reino e o seu esplendoroso final. Ainda assim, cada uma das parábolas tem seu matiz próprio: a do grão de mostarda fala do crescimento do Reino em extensão, e a do fermento em intensidade. Jesus quer nos dizer que o Reino de Deus é uma realidade oculta e quase imperceptível no seu desenvolvimento, tão lento que os nossos olhos não podem vê-lo no instante em que se está produzindo. Só com comprovações distanciadas no tempo podemos verificar o seu crescimento, como se passa com as crianças e as plantas.
Com estas parábolas o Senhor quer, então, difundir esperança e ânimo a seus discípulos e todos os seus seguidores. Os seguidores não devem admitir nunca o desalento nem o pessimismo derrotista. O Reino de Deus chega indefectivelmente, graças a Cristo ressuscitado e ao seu Espírito. Esta é o fundamento de nossa esperança. É importante que ninguém segure eternamente a semente na mão, deve plantá-la para torná-la uma árvore; como também o fermento, deve misturá-lo com a massa, para torná-lo junto com a massa em pão saboroso.
Por outro lado, Jesus justifica seu modo de
evangelizar que não correspondia às expectativas de triunfalismo e
espetaculariedade com que os judeus imaginavam a irrupção do Reino de Deus na
era messiânica. O crescimento
do Reino de Deus segue um processo desconcertante para a nossa impaciência e
intolerância. Ele não
permite o derrotismo pessimista nem o desespero, porque o êxito final é de
Deus, que tem nas suas mãos as chaves da história humana. Não cabe ao cristão ficar
decepcionado porque o resultado não aparece logo. Não é o jardineiro que faz
crescer a árvore e as flores: ele rega, aduba e protege, mas a força vem de
dentro, da própria semente. O jardineiro não pode parar de plantar, regar,
adubar e proteger. Todos nós somos jardineiros da semente do Reino de Deus.
P.
Vitus Gustama,SVD