sábado, 15 de agosto de 2026

Segunda-feira Da XX Semana Comum, Ano Par, 17/08/2026

VIVER A VIDA FAZENDO O BEM PARA ALCANÇAR A ETERNIDADE

Segunda-Feira Da XX Semana Comum

Primeira Leitura: Ez 24,15-24

15 A palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos: 16 “Filho do homem, vou tirar de ti, por um mal súbito, o encanto de teus olhos. Mas não deverás lamentar-te nem chorar ou derramar lágrimas. 17 Geme em silêncio, sem fazer o luto dos mortos. Põe o turbante na cabeça, calça as sandálias nos pés, sem encobrir a barba, nem comer o pão dos enlutados”. 18 Eu tinha falado ao povo pela manhã, e à tarde minha esposa morreu. Na manhã seguinte, fiz como me foi ordenado. 19 Então o povo perguntou-me: “Não nos vais explicar o que têm a ver conosco as coisas que tu fazes?” 20 Eu respondi-lhes: “A palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos: 21 Fala à casa de Israel: Assim diz o Senhor Deus: Vou profanar o meu santuário, o objeto do vosso orgulho, o encanto de vossos olhos, o alento de vossas vidas. Os filhos e as filhas, que lá deixastes, tombarão pela espada. 22 E fareis assim como eu fiz: Não cobrireis a barba, nem comereis o pão dos enlutados, 23 levareis o turbante na cabeça, as sandálias nos pés, sem vos lamentar nem chorar. Definhareis por causa de vossas próprias culpas, gemendo uns para os outros. 24 Ezequiel servirá para vós como sinal: Fareis exatamente o que ele fez; quando isso acontecer, sabereis que eu sou o Senhor Deus”.

Evangelho: Mt 19,16-22

Naquele tempo, 16 alguém aproximou-se de Jesus e disse: “Mestre, que devo fazer de bom para possuir a vida eterna?” 17 Jesus respondeu: “Por que me perguntas sobre o que é bom? Um só é o Bom. Se queres entrar na vida, observa os mandamentos”. 18 O homem perguntou: “Quais mandamentos?” Jesus respondeu: “Não matarás, não cometerás adultério, não roubarás, não levantarás falso testemunho, 19 honra teu pai e tua mãe, e ama o teu próximo como a ti mesmo”. 20 O jovem disse a Jesus: “Tenho observado todas essas coisas. Que ainda me falta?” 21 Jesus respondeu: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me. 22 Quando ouviu isso, o jovem foi embora cheio de tristeza, porque era muito rico.

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Apesar De Nossas Fraquezas Deus Tem Ternura Para Conosco

Filho do homem, vou tirar de ti, por um mal súbito, o encanto de teus olhos. Mas não deverás lamentar-te nem chorar ou derramar lágrimas. Geme em silêncio, sem fazer o luto dos mortos. Põe o turbante na cabeça, calça as sandálias nos pés, sem encobrir a barba, nem comer o pão dos enlutados” é o oráculo do Senhor para o profeta Ezequiel que lemos na Primeira Leitura.

Lendo os livros dos profetas ficamos surpreendidos pelas experiências pessoais de cada profeta. Lemos, por exemplo, a experiência da infidelidade da esposa na vida do profeta Oseias; a indignidade do profeta Isaias por ter lábios impuros diante de Deus, diversos gestos simbólicos do profeta Jeremias e assim por diante. Mas poucos chegam à profundidade de sentimentos que nos apresentam através do gesto simbólico  na experiência da vida do profeta Ezequiel que lemos hoje na Primeira Leitura.

Ezequiel recebe de Deus o aviso sobre a morte de sua esposa: “Filho do homem, vou tirar de ti, por um mal súbito, o encanto de teus olhos”. Mas Deus pede para que não chore a morte de sua esposa: “Mas não deverás lamentar-te nem chorar ou derramar lágrimas. Geme em silêncio, sem fazer o luto dos mortos”.

Não chorar a esposa morta tão querida podia fazer qualquer um pensar como se Ezequiel não tivesse sentimentos. Mas, de fato, a morte da esposa de Ezequiel simboliza a destruição de Jerusalém, e a atitude de Ezequiel é a atitude do povo quando a destruição de Jerusalém ocorreu. Assim como o profeta perdeu a mulher que amava, todos vão perder Jerusalém e seu Templo: “Vou profanar o meu santuário, o objeto do vosso orgulho, o encanto de vossos olhos, o alento de vossas vidas”. Não terão nem tempo de fazer luto. Ezequiel é um sinal. Quando Deus permite a destruição do Templo de Jerusalém, então a dor, o desespero, o desterro serão tão inesperados que o povo nem tem tempo para o luto ou para chorar. Tudo desaparecerá. O povo é levado para o desterro na Babilônia. O objetivo de toda ação simbólica é conhecer e reconhecer Deus, pois quando Deus é abandonado, a destruição vai ter lugar na vida do homem.

Há tantos sinais de Deus ocorrem na nossa vida cotidiana. Precisamos parar para decifrar seus significados. Não há dia que não tenha sinais de Deus para qualquer um de nós. Deus nos ama e por isso, Ele nos alerta emitindo vários sinais. Mas a vida agitada jamais percebe o sinais de Deus e seus significado para nossa vida. Muitas vezes acontece que depois de uma tragégia é que podemos entender bem o sentido do que se passou ou se passa na nossa vida. Às vezes é tarde demais para entender isso.

Um profeta, um cristão deve ajudar os outros a descobrir a vontade de Deus através de sua própria vida. “Ezequiel os servirá de sinal”. A vida nos prepara, através de nossas experiências, sejam sucessos, sejam fracassos, para nos tornarmos, um dia, um “mestre” para os outros que passarem pela mesma experiência. Não há nada que acontece que não tenha sentido para nós e através de nós para os outros na nossa convivência.

Com a ação simbólica do profeta Ezequiel nós percebemos que a obrigação do profeta não é somente a de proclamar a Palavra de Deus em determinado momento e lugar. Toda a vida de um profeta deve ser um sinal. O profeta há de profetizar com sua vida em todas as circunstancias de sua existência. A pessoa toda e a vida toda do profeta devem ser uma proclamação.

Além disso, no texto da leitura de hoje percebemos a ternura de Deus por nós: “Filho do homem, vou tirar de ti, por um mal súbito, o encanto de teus olhos”. Deus sempre se dirige a nós com a ternura em todas as situações de nossa vida. Deus quer nos salvar, mesmo que tenhamos que passar por alguma situação bastante triste. Deus continua tendo o amor por nós. Deus sabe o que fazer com nossa vida, mesmo que nem sempre entendamos os planos de Deus sobre nós. A partir desta expressão não há nada que possa impedir o amor de Deus por mim nem minha fé neste Deus de ternura. (cf. Rm 8,35-39)

A frase “Filho do homem, vou tirar de ti, por um mal súbito, o encanto de teus olhos é uma mensagem consoladora. De fato, uma pessoa que amamos, “o encanto de nossos olhos” é tirada para estar com Deus. Se está com Deus, ela está conosco também, pois Deus está conosco (Cf. Mt 28,20). Onde Deus está, está também o “encanto de nossos olhos”. Encontrar-se com Deus na oração significa também encontrar-se com a pessoa amada que foi “tirada” por Deus. É preciso procurar Deus para encontrar “o encanto de nossos olhos”, pois aquele que se foi está com Deus. Por essa razão Deus se dirige ao profeta Ezequiel com as seguintes palavras: “Não deverás lamentar-te nem chorar ou derramar lágrimas. Geme em silêncio, sem fazer o luto dos mortos”. A vida não termina com a morte, pois o Deus em quem acreditamos é o Deus da Vida. (cf. Jo 11,25-26; 14,6).

A Bondade Praticada Nos Aproxima Da Vida Eterna

Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me”.

Mestre, o que eu devo fazer de bom para possuir a vida eterna?”. Esta é a pergunta de um jovem rico a Jesus. O jovem se aproxima de Jesus com entusiasmo e lhe faz essa pergunta fundamental que agora ninguém tinha feito. São João Crisóstomo comentou: “Todos se aproximam de Cristo ou para tentá-lo ou para obter dele a cura de alguma enfermidade deles ou de algum de seus familiares. Esse jovem se aproxima de Jesus para perguntar-lhe a vida eterna”. Até os próprios discípulos não fizeram essa pergunta a não ser para pedir alguma explicação. A pergunta do jovem aborda o sentido da existência humana e expressa todo seu desejo de comunhão com Deus.

“Mestre, o que eu devo fazer de bom para possuir a vida eterna?”, pergunta um jovem rico a Jesus. Ele usa o verbo “possuir”, porque ele é um homem rico; é um homem acostumado a comprar para possuir. “Para possuir a vida”. Ele até quer ter na mão (possuir) a vida eterna mediante um ato de compra. Na verdade, a própria vida em si é um dom que deve ser recebida e vivida com gratidão. A existência de outros dons supõe a existência desse dom maior que é a vida. A vida é um dom, mas a minha maneira de viver a vida pode não estar de acordo com o dom. A vida, como dom, é bela, mas muitas vezes eu não sei me comportar bem diante desse dom ou não sei viver na gratidão. Tudo que eu sou e tenho é de Deus, menos o pecado. Quando se trata de um dom é porque estou em um mundo de gratuidade. O mundo da gratuidade me leva a viver a vida em ação de graças permanentemente. É ser pessoa eucarística.

Na sua resposta Jesus corrige a pergunta do jovem rico. Em vez de usar a palavra “possuir”, Jesus usa a palavra “entrar”: “Se queres entrar na vida eterna...”. Jesus quer lhe dizer: “Deus te oferece a vida, portanto não é que tu possas possuí-la e sim, se quiseres participar nela, observa os mandamentos; se quiser entrar nela pratique a bondade, já que tu me perguntas ‘o que eu devo fazer de bom...’”. A bondade é a própria perfeição possuída por um ser e é a capacidade que possui num ser de dar a outro a perfeição que lhe falta. A bondade é a disposição natural a fazer o bem ou a trabalhar corretamente pelo bem de todos. Bondoso é quem se comporta com bondade. Quem tem bondade é porque tem amor.

O texto nos diz que o jovem rico observa todos os mandamentos. Mas ele insiste: “O que ainda me falta?”. Nesta pergunta percebemos algo importante de que por mais que alcancemos algo, sempre falta alguma coisa ou algumas coisas na nossa vida. A perfeição é um horizonte, pois é inalcançável como um horizonte que se afasta toda vez que nos aproximamos dele.  Por melhores que nós possamos ser, sempre falta alguma coisa na nossa vida ou para nossa vida. Com efeito, nós somos o que somos e o que nos falta. Não somos cristãos e sim estamos cristãos, isto é, estamos em processo para ser verdadeiros cristãos a exemplo do próprio Cristo.  Em nós há algo que exige de nós muito mais, que nos convida a fazermos um passo adiante, que exige profundidade de relações, relações pessoais com Deus e com os demais homens. O que falta em nós nos dá força para que possamos buscá-lo e pode nos inquietar. É preciso caminhar em função da busca o que nos falta para nossa salvação.

Segundo Jesus, para entrar na vida definitiva o que se necessita não é a relação a um código (“o que deve fazer de bom”), mas a uma pessoa (Sl 145,9): O Bom é um só”. A observância dos mandamentos é consequência dessa relação pessoal: os mandamentos são bons porque expressam a vontade do Supremo Bom que é Deus (Am 5,4.6.14-15; Mq 6,8). As normas ou as regras não produzem a graça. A graça é que produz regras para facilitar ou para orientar o homem no alcance da graça. Quando se vive na graça de Deus ou de acordo com o amor de Deus as regras cessam, pois pelo caminho de amor não há outro caminho. Enquanto estivermos na terra precisamos da fé. Mas, um dia, pela misericórdia divina, na face a face com Deus, não precisaremos mais da fé.

Na sua resposta Jesus diz ao jovem que ele deve desfazer-se de tudo o que tem sem esperança de retorno: “vender tudo e dar o dinheiro aos pobres”. Não somente “vender tudo”, porque o jovem poderia possuir o dinheiro, fruto da venda dos bens. Jesus exige dele muito mais: “dar aos pobres” tudo que é o fruto da venda dos bens. Deixada a segurança da riqueza ele encontrará outra segurança superior (Mt 6,25-34) que é o próprio Jesus que é “o Caminho, a verdade e a Vida” (cf. Jo 14,6). Por isso, em seguida Jesus acrescenta: “Depois, vem e segue-me”. Jesus chama-o à nova fidelidade, ao amor a todo homem, como o Pai do céu (Mt 5,48). O jovem é chamado para seguir Aquele que criou tudo. No entanto ele prefere uma vida egoísta. A felicidade plena, a vida em abundância está na partilha, na solidariedade, na compaixão, no amor mútuo... A felicidade não se obtém na sua busca e sim na partilha. Para eu poder ser feliz, eu preciso fazer o outro feliz. Este é o paradoxo da vida autêntica.

O jovem não responde ao convite de Jesus. Vai-se triste, em sua mesma condição de jovem, incapaz de chegar à maturidade. Ele ouviu a mensagem de Jesus, mas a sedução das riquezas o afogou (cf. Mt 13,22). A riqueza governa o coração do jovem. Embora deseje a vida eterna, o jovem não vai atrás dela para encontrá-la. O defeito moral não se define pelo mal que se intenta, mas pelo bem que se abandona” (Santo Agostinho. De civ. Dei. 2,8). A riqueza, quando não se considera como meio, mas como fim, sufoca as relações fraternas, sociais, familiares e sufoca o crescimento espiritual de quem a tem. “Amando a Deus nos tornamos divinos; amando ao mundo nos tornamos mundanos(Santo Agostinho. Serm. 121,1).

Os bens materiais continuam a ser alheios a nós. Eles jamais serão nossos próximos. O ser humano é sempre nosso próximo com quem podemos conversar, contar nossas histórias, nossas vitorias e nossas falhas na vida, para desabafar, rir juntos que torna a vida mais leve. “Se você tem dinheiro acumulado, pergunte-se como o ganhou e como o usa. Se você continua acumulando mais dinheiro do que precisa para viver, sabe para que o faz?” (René Juan Trossero, escritor e psicólogo argentino). Santo Agostinho dizia: “A verdadeira felicidade não consiste em possuir o que se ama e sim em amar o que se deve possuir” (In ps. 26,2,7).

Saber renunciar às coisas materiais é ser rico. Dar ou partilhar o que se tem é a manifestação da riqueza. Segurar egoisticamente, sem partilha, é a expressão do pobreza interior. Para possuir o Tudo temos que aprender a deixar tudo. Posso possuir as coisas, mas jamais as coisas podem me possuir para que eu possa manter minha liberdade e leveza na vida. O apego exagerado aos bens materiais é um terrível empecilho para o seguimento de Jesus. A dinâmica deste seguimento vai exigindo rupturas sempre mais radicais dos bens deste mundo. É preciso usarmos as coisas que passam e abraçarmos as coisas que não passam. Quem não está livre para fazê-las, ficará na metade do caminho, como o jovem rico no evangelho lido neste dia. O caminho da perfeição passa pela liberdade de coração, em relação aos bens deste mundo, para buscar Deus e solidarizar-se com os mais necessitados. É assim que se chega à vida eterna. Um homem que não cresce diariamente regride um passo cada dia.

O que devo fazer para entrar na vida eterna” e “O que ainda me falta?”. São duas perguntas que devem ser respondidas por cada um de nós diariamente. Nós somos o que somos e o que nos falta, pois o nosso ideal é bastante alto: “Sejam perfeitos como o Pai do céu é perfeito(Mt 5,48). Eu estou sendo o que devo ser para chegar a ser o que, na verdade, sou. Eu não posso me distancias, cada vez mais, daquilo para o qual devo ser. Santo Agostinho dizia: Não andes averiguando quanto tens, mas o que tu és. Dentro do coração sou o que sou (Serm. 23,3; Cof. 10,3)

P.Vitus Gustama, svd

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Assunção Da Bem-Aventurada Virgem Maria, Domingo, 16/08/2026

ASSUNÇÃO DE MARIA É UM TRIUNFO DA VIDA SOBRE TODAS AS MORTES

 

I Leitura: Ap 11,19a; 12,1.3-6a.10ab

19ª Abriu-se o Templo de Deus que está no céu e apareceu no Templo a Arca da Aliança. 12,1 Então apareceu no céu um grande sinal: uma Mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas. 3 Então apareceu outro sinal no céu: um grande Dragão, cor de fogo. Tinha sete cabeças e dez chifres e, sobre as cabeças, sete coroas. 4 Com a cauda, varria a terça parte das estrelas do céu, atirando-as sobre a terra. O Dragão parou diante da Mulher, que estava para dar à luz, pronto para devorar o seu Filho, logo que nascesse. 5 E ela deu à luz um filho homem, que veio para governar todas as nações com cetro de ferro. Mas o Filho foi levado para junto de Deus e do seu trono. 6ª A mulher fugiu para o deserto, onde Deus lhe tinha preparado um lugar. 10ab Ouvi então uma voz forte no céu, proclamando: “Agora realizou-se a salvação, a força e a realeza do nosso Deus, e o poder do seu Cristo”

II Leitura: 1Cor 15,20-27a

Irmãos: 20 Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram. 21 Com efeito, por um homem veio a morte e é também por um homem que vem a ressurreição dos mortos. 22 Como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos reviverão. 23 Porém, cada qual segundo uma ordem determinada: Em primeiro lugar, Cristo, como primícias; depois, os que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda. 24 A seguir, será o fim, quando ele entregar a realeza a Deus-Pai, depois de destruir todo principado e todo poder e força. 25 Pois é preciso que ele reine até que todos os seus inimigos estejam debaixo de seus pés. 26 O último inimigo a ser destruído é a morte. 27ª Com efeito, “Deus pôs tudo debaixo de seus pés”.

Evangelho: Lc 1,39-56

Naqueles dias, 39 Maria partiu para a região montanhosa, dirigindo-se, apressadamente, a uma cidade da Judeia. 40 Entrou na casa de Zacarias e cumprimentou Isabel. 41 Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou no seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. 42 Com grande grito, exclamou: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre! 43 Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar? 44 Logo que a tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança pulou de alegria no meu ventre. 45 Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu”. 46 Então Maria disse: “A minha alma engrandece o Senhor, 47 e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, 48 porque olhou para a humildade de sua serva. Doravante todas as gerações me chamarão bem-aventurada, 49 porque o Todo-poderoso fez grandes coisas em meu favor. O seu nome é santo, 50 e sua misericórdia se estende, de geração em geração, a todos os que o respeitam. 51 Ele mostrou a força de seu braço: dispersou os soberbos de coração. 52 Derrubou do trono os poderosos e elevou os humildes. 53 Encheu de bens os famintos, e despediu os ricos de mãos vazias. 54 Socorreu Israel, seu servo, lembrando-se de sua misericórdia, 55 conforme prometera aos nossos pais, em favor de Abraão e de sua descendência, para sempre”. 56 Maria ficou três meses com Isabel; depois voltou para casa.

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Hoje celebramos a solenidade da Assunção de Maria, a Mãe do Senhor, Jesus Cristo. É uma celebração do triunfo da vida sobre todas as forças da morte que há no mundo. A Assunção é como a Páscoa de Maria: no desembocar da aventura ou peripécia humana que foi a vida de Jesus estava o Pai e a vida plena da ressurreição. A vida plena, graças a Cristo, é também o desembocar daquela mulher de Nazaré, Maria, Mãe de Jesus. "Bem-aventurada és que tu creste!”, podemos repetir com Isabel o que o Senhor disse a Maria foi cumprido.

Olhando para Maria temos certeza de que o Reino - a vida de Deus em nós - não se reduz às perspectivas de espaço e tempo que agora moldam nossa vida, mas nos abre às perspectivas de Deus, a seus horizontes de plenitude e eternidade. Crer é construir nossa existência com uma esperança que nos faz olhar para cima e seguir em frente: está ancorada onde está Cristo com o Pai. Somos todos de Adão, da terra. É por isso que todos nós morremos. Mas os crentes carregam em si uma semente que nasceu de cima; é por isso que vamos viver com Cristo e com Maria. Este movimento não se detém: depois de Jesus, Maria; depois de Maria, nós todos que cremos em Jesus Ressuscitado.

O povo cristão tem recorrido a Maria e a venerada em milhares de santuários, apresentada e vestida de milhares modos, cantado milhares de hinos. Podemos confiar em Maria, na sua intercessão e recorrer a Ela, não para que sejamos salvos milagrosamente e sim para que transforme o coração de cada um de nós em santuário de Deus.

I. Sobre o Culto a Maria, Mãe do Senhor         

O culto é um ato de honra, reverência, estimação e louvor que se presta a uma pessoa ou à divindade. Literalmente a palavra “culto” vem do latin “colere” que significa encontro com o divino, geralmente no quadro de determinadas formas. É evidentemente vasto o significado da palavra “encontro”. Conforme o conteúdo do encontro mudam também as suas formas, variados são os lugares, os tempos, as intenções, os efeitos, os executores, o círculo dos participantes e a intensidade da participação. Temos o culto cívico, patriótico, religioso etc....         

Em sentido estrito, o culto é só a Deus que se tributa pela sua excelência infinita; podemos, no entanto, tributá-lo, indiretamente aos santos pela estreita união que têm com Deus. Por isso, o culto pode ser de latria (adoração) que se presta unicamente a Deus em reconhecimento da sua excelência e do seu domínio supremo sobre todo o universo. Pode ser o de dulia (veneração) que se tributa aos santos em reconhecimento da sua vida de entrega e união a Deus. Dulia é conseqüência do dogma da comunhão dos santos como professamos no Credo: “Creio na comunhão dos santos...”.          

Pode ser o culto de hiperdulia (veneração especial) que se presta a Maria Santíssima, reconhecendo a sua dignidade de Mãe de Deus (declaração do Concílio de Éfeso em 431; cf. LG no. 53 do Concílio Vaticano II). Por ser criatura, não se pode prestar-lhe o culto de adoração (cf. LG no. 62). Só assim, evita-se o perigo da “mariolatria” e os excessos na devoção mariana. Por “mariolatria” entendemos exatamente o atribuir em surdina à Virgem Maria o culto devido a Cristo. Se Maria não permanecer o ostensório, onde tudo brilha para o Cristo, estaremos depreciando a verdadeira glória de Maria. 

A glória de Maria reside no insondável mistério de sua concepção corporal e espiritual de Cristo, na aspiração de todo o seu ser pelo único mediador, Cristo Jesus.  Cristo é que faz compreender Maria e não Maria que nos faz compreender Cristo. Maria não é um elo que une o homem a Deus, mas o seio que gera todos os irmãos de Cristo (cf. Jo 19,26-27). O encontro com Cristo faz-se nela. Toda a vida mariana é essencialmente cristocêntrica. Mas por ser a mais excelsa de todas as criaturas, acima de todos os anjos e santos, presta-lhe culto de especial veneração. Na santa Igreja ela ocupa o lugar mais alto depois de Cristo e o mais perto de nós (LG no. 54). Ao sabermos disso, a devoção mariana em nada afasta de Cristo. Nem substitui nossa obrigação diante dele. A veneração de Maria no culto litúrgico não é acréscimo e excrescência, nem tampouco implica diminuição do culto a Cristo, porque a graça do Filho resplandece em sua Mãe mais que em qualquer outro membro do corpo do Senhor.               

Devemos estar conscientes de que a devoção mariana é um verdadeiro culto. Situa-se num plano mais elevado em razão do excepcional lugar de Maria na ordem da graça e da vida cristã. Por isso, temos dogmas marianos, mas não temos dogmas de tal ou qual santo. Isso dá ao culto mariano uma amplidão que outras devoções não têm, nem mesmo o culto aos santos em geral. Se nossas orações sobem ao Pai pelo Filho na medida em que elas são objetivamente no fiat de Maria, elas ganharão em intensidade e eficácia se as engajamos pessoalmente na oração todo-poderosa de Maria. 

II. Sobre o Dogma da Assunção de Maria          

No calendário litúrgico temos as quatro solenidades nas quais Maria é protagonista: 1 de janeiro: Maternidade Divina; 8 de dezembro: Imaculada Conceição; 15 de agosto: Gloriosa Assunção; 25 de março: Anunciação do Senhor. Duas delas têm referencias mais cristológicas: maternidade e anunciação. E outras duas têm mais eclesiológicas: Conceição e Assunção. É claro que toda festa mariana é cristológica: em função de Cristo Salvador. Mas com esta distinção quer-se enfatizar um fator exemplar de Maria que é importante para a Igreja: ela é a primeira redimida (imaculada conceição), é a primeira discípula (Faça-se em segundo a Tua Palavra) e é a primeira glorificada (Assunção). 

A Páscoa de Jesus, isto é, a Sua passagem deste mundo para a glória do Pai através da sua Paixão e Morte, se cumpriu para que se tornasse a Páscoa de toda a humanidade. Maria é certamente a criatura mais inserida neste mistério, porque foi redimida desde o momento da sua imaculada concepção, em previsão dos méritos de Cristo,  depois foi associada de modo todo especial à Paixão e glória do seu Filho, Jesus Cristo. A Assunção de Maria ao Céu é, portanto, o mistério da Páscoa plenamente realizada em Maria. 

O corpo da Imaculada, preservado de todo pecado, o corpo da Mãe de Deus que gerou p Verbo de Deus segunda a carne, este corpo do qual o Espírito Santo conservou integralmente a virgindade, não ficou prisioneiro dos laços da morte.

A proclamação do dogma da Assunção de Maria à glória dos céus, em alma e corpo, pertence ao século XX: foi declarado solenemente por Pio XII em 01 de Novembro de 1950 na bula Munificentissimus Deus. (Deus Generosíssimo)   

No entanto, a liturgia da Igreja universal, tanto no Oriente quanto no Ocidente, celebrou por muitos séculos esta convicção de fé.  No século V celebrava-se em Jerusalém no dia 15 de agosto uma festa importante que tinha por objeto a excelência da pessoa da Mãe de Deus, eleita por supremo conselho para desempenhar uma missão muito especial na história da salvação. Entre o V e VI século, a narração apócrifa sobre o Trânsito de Maria da vida terrena à glória eterna alcançou uma difusão extraordinária: a conseqüência foi o desejo natural dos peregrinos que ocorriam a Jerusalém de honrar o túmulo da Virgem. Durante o século VII, com o nome de Assunção foi acolhida na Igreja de Roma, juntamente com as festa da Apresentação, Anunciação e Natividade, para as quais o Papa Sérgio I (+ 701), instituiu uma procissão preparatória para a missa, celebrada na Santa Maria Maior. No fim do século VII encontra-se uma antiga oração romana composta para a procissão que introduz a celebração mariana do dia 15 de agosto: “Venerável é para nós, Senhor, a festa deste dia em que a Santa Mãe de Deus sofreu a morte terrena, mas não permaneceu nas amarras da morte, ela que, do próprio ser, gerou, encarnado, o teu Filho, Senhor nosso” (Sacramentário Gregoriano Adrineu, no.661)          

A bula da definição dogmática (Munificentissimus Deus) não fala de argumentos bíblicos, pois a Escritura não afirma a Assunção de Maria. Discute-se se Maria morreu ou não. Por isso, o texto dogmático, cautelosamente, diz “terminado o curso de sua vida terrestre”. Nós, por isso, afirmamos que Maria morreu, pois só assim se pode falar, verdadeiramente, de ressurreição, porquanto somente um morto pode ressuscitar. Maria morreu pelo fato natural da morte que pertence à estrutura da vida humana, independentemente do pecado. Maria, livre e isenta de todo o pecado, pôde integrar a morte como pertencente à vida criada por Deus. A morte não é vista como fatalidade e perda da vida, mas como chance e passagem para uma vida mais plena em Deus.          

Além disso, Maria participa na economia da redenção pelo fato de ser a Mãe do Senhor (Lc 1,43). Ela se associou totalmente ao destino de seu Filho. A redenção implica sempre a colaboração de quem a recebe. Maria colaborou admiravelmente na própria salvação. Já por este título ela é o modelo original de quantos recebem a salvação, o modelo de todos os redimidos. Como tal, ela já tem um significado universal de salvação. É o protótipo da vida redimida, a plena e perfeita realização, a imagem ideal de toda a vida cristã. Por sua vida e morte Jesus nos libertou. Por sua vida e morte Maria participou desta obra messiânica e universal. A co-redenção significa a associação de Maria tanto à cruz de Jesus como à sua ressurreição e exaltação gloriosa ou ascensão. Esta razão teológica tem o seu fundamento no triunfo de Cristo sobre a morte, de que faz participantes todos os cristãos por meio da fé e do batismo.          

Maria foi assunta ao céu em corpo e alma. Aqui não se trata de dogmatizar um esquema antropológico (corpo e alma). Utiliza-se esta expressão, compreensível à cultura ocidental, para enfatizar o caráter totalizante e completo da glorificação de Maria. Maria vê-se envolvida na absoluta realização.  “Assunta ao céu”, ela se nos apresenta como as primícias da redenção, tendo já consumado em si o que ainda se realizará em nós e na Igreja. O corpo de Maria, enquanto ela perambulava por este mundo, foi somente veículo de graça, de amor, de compreensão e de bondade. Não foi instrumento de pecado, da vontade de auto-afirmação humana e de desunião com os irmãos.  O corpo é forte e frágil, cheio de vida e contaminado pela doença e morte. Por isso, é exaltado por uns até a idolatria e odiado por outros até a trituração. Maria vive e goza, no corpo e na alma, quer dizer na totalidade de sua existência, desta inefável realização humana e divina. 

O Papa Paulo VI resume o sentido da festa com estas palavras: “A solenidade de 15 de agosto celebra a gloriosa Assunção de Maria ao céu; festa do seu destino de plenitude e de bem-aventurança, da glorificação da sua alma imaculada e do seu corpo virginal, da sua perfeita configuração com Cristo Ressuscitado. É uma festa, pois, que propõe à Igreja e à humanidade a imagem e o consolante penhor do realizar-se da sua esperança final: que é essa mesma glorificação plena, destino de todos aqueles que Cristo fez irmãos, ao ter como eles "em comum o sangue e a carne" (Hb 2,14; cf. Gl 4,4)” [Marialis Cultus, n. 6]. 

A partir desta exortação podemos dizer que a Assunção de Maria é a realização da utopia humana, isto é, aquilo que o homem sonha, aquilo que o homem aspira, aquilo que responde maximamente à vontade de Deus. Em Maria a humanidade chega ao maior esplendor da existência humana, à beleza suprema do ser. Em Maria encontramos a melhor resposta, a melhor realização da vida de uma pessoa humana: sua glorificação. Maria nos revela até onde pode chegar a cooperação entre Deus e a humanidade. Diante do mistério de Cristo, Maria se deixa levar pelo Espírito Santo, e inventou cada dia novas respostas.      

Para Maria a assunção significa o definitivo encontro com seu Filho que a precedeu na glória. Mãe e Filho vivem um amor e uma união inimaginável tanto na Terra como no Céu. Maria agora vive aquilo que nós também iremos viver quando atingirmos o céu. Enquanto peregrinamos, Maria atua como imagem que recorda e concretiza o nosso futuro. Em cada um que morre no Senhor se realiza aquilo que ocorreu com Maria: a ressurreição e a elevação ao céu. 

Portanto, toda a celebração de hoje tem uma cor de vitória e de esperança que nos vai muito bem: em meio de um mundo sem demasiadas perspectivas, quando, confuso em muitos aspectos, nós cristãos celebramos a vitória de Maria, a Mãe de Jesus e da Igreja, e nos deixamos contagiar de sua alegria. 

Esta vitória consiste em três tempos ou em três níveis.  Primeiro, a vitória de Cristo Jesus: Cristo Ressuscitado, tal como nos apresenta são Paulo, é o ponto culminante da História da Salvação, do plano salvador de Deus. Cristo  Jesus é a “primícia”, o primeiro que triunfa plenamente da morte e do mal, passando para a nova existência. Cristo é o Segundo e Definitivo Adão que corrige a culpa do primeiro Adão. 

Segundo, é a vitória da Virgem Maria, como primeira cristã, como a primeira salvada por Cristo. Maria participa da vitória de seu Filho: Ela é também elevada à glória em corpo e alma. Ela que soube dizer seu “Sim” radical a Deus, que creu n´Ele e Lhe foi plenamente obediente em sua vida (Faça-se em mim segundo Tua Palavra) é glorificada, como primeiro fruto da Páscoa de Jesus, associada à Sua vitória. Na verdade o Senhor “fez grandes obras” n´Ela. 

Terceiro, a solenidade da Assunção de Maria apresenta o triunfo de Cristo e de sua Mãe em sua projeção a todos nós, à Igreja e, em certo modo, a toda a humanidade. Maria, como membro entranhável da família eclesial, condensa em si mesma nosso destino. Sua “Sim” a Deus foi, em certo modo, em nome de todos nós. O “Sim” de Deus a Ela, glorificando-a, é também um “Sim” a todos nós: nos assinala o destino que Deus prepara para todos nós. A Igreja é uma comunidade em marcha, em luta constante contra o mal. Mas a Mulher do Apocalipse, ainda que diretamente seja a própria Igreja é também, de modo eminente, a Virgem Maria, a Mãe do Messias e auxílio constante para a Igreja contra todos os “dragões” que lutam contra ela. Ao celebrar a vitória de Maria, celebramos nossa própria esperança, porque diz o prefácio: “Aurora e esplendor da Igreja triunfante, ela é consolo e esperança para o vosso povo ainda em caminho...”. 

A Assunção de Maria nos demonstra que o plano de Deus é plano de vida e de salvação para todos e que se cumpre além de em Cristo, mas também em nossa família. A Assunção é um grito de fé em que é possível esta salvação. É uma resposta aos pessimistas e aos preguiçosos. É uma resposta de Deus ao homem materialista e secularizado que não vê mais do que os valores econômicos. O destino do homem é a glorificação em Cristo e com Cristo. 

Andando por entre as tribulações do tempo presente, erguemos os olhos ao céu e rezamos: Salve Maria, vida, doçura e esperança, salve! Rogai por nós pecadores agora e na hora de nossa morte. Doce mãe da esperança, em quem apareceu o futuro do mundo e nos foi antecipada e prometida a glória do tempo futuro, ajuda-nos a ser peregrinos na esperança a caminho da unidade futura do Reino, sem pararmos diante das resistências e das canseiras, antes nos empenhando, com fidelidade e paixão, em levar no presente os homens ao futuro da promessa de Deus. Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte. Amém! 

III. Sobre Algumas Mensagens Da Leitura Evangélica Desta Festa          

1.     O evangelista Lucas nos relatou que Maria “se dirigiu apressadamente”. A expressão “apressadamente” aqui tem muitos significados: zelo, diligência, empenho, cuidado, seriedade, dignidade. Maria é uma mulher que se põe em caminho com dignidade, com cuidado, com prontidão. Não o faz para satisfazer uma necessidade pessoal: ela faz para servir sua parenta, Isabel, que está grávida e que necessita de uma ajuda. Ela faz tudo com dignidade como uma irmã. Maria é de Deus e por isso, ela é do povo e para o povo. Maria é mulher de nossa história, aberta a Deus e aos seres humanos. Viveu sempre em atitude de gratuidade e de doação. Se formos realmente de Deus, seremos também do povo a exemplo de Maria. 

Na anunciação Maria faz perguntas para ter certeza sobre sua missão de ser Mãe do Salvador. Quando tudo se torna certo, Maria diz seu Sim a Deus radicalmente. Maria deixa a Palavra de Deus entrar em sua vida e ela é fecundada pelo Salvador. Jesus, o Salvador, que está no seio de Maria já “empurra” Maria para a ação pastoral, isto é, para Maria ir ao encontro de Isabel que está precisando de sua presença. Maria poderia pensar em si mesma, na sua gravidez. Mas ela pensa no outro e vai ao encontro do outro em necessidade. 

Quem permitir e viver o mistério da Anunciação, ele será fecundado como Maria. Quem não é fecundado, não é feliz. Com a fecundação e a fecundidade na vivência do mistério da Anunciação, eu serei capaz de sair de mim mesmo para a ação pastoral como Maria que visitou Isabel na sua necessidade. Se permitirmos a entrada da Palavra de Deus na nossa vida, ficaremos fecundados e seremos capazes de fazer Jesus nascer para o mundo. O sim de Maria para a entrada de Deus na sua vida é radical. Quanto maior for a radicalidade de nosso sim a Deus, maior será nossa fecundidade e numerosos terão filhos espirituais. Eu sou chamado a ser “Pai” para ter “filhos espirituais” que salvam o mundo. 

Na Anunciação o Anjo do Senhor “entrou” na casa de Maria e a “saudou”. Nessa visita Maria fez a mesma coisa: ela “entrou” na casa de Zacarias e saudou a Isabel. É a saudação da Mãe do Senhor para a mãe do Precursor do Senhor. A saudação de Maria comunica o Espírito a Isabel e ao menino.

2. A presença do Espírito Santo em Isabel se traduz em um grito poderoso e profético: Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar? Logo que tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança pulou de alegria no meu ventre. Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu (Lc 1,42-45). Aqui Isabel fala como profetisa: se sente pequena e indigna diante da visita daquela que leva em seu seio o Senhor do universo. Sobram as palavras e explicações quando alguém entra na sintonia com o Espírito. Maria leva no seu seio o Filho de Deus concebido pela obra do Espírito Santo. E a presença do Espírito Santo em Isabel faz com que Isabel glorifique a Deus. Por isso, o encontro entre Maria e sua prima Isabel é uma espécie de “pequeno Pentecostes”. Onde entra o Espírito Santo, ai entra também paz, alegria e vida divina. 

A Mãe de Deus que leva Jesus em seu seio é a causa ou o fator fundamental de alegria. Quando estivermos cheios de Jesus Cristo em nosso coração, a nossa presença traz alegria e a paz para a convivência. A ausência de Cristo em nosso coração produz problemas na convivência. O encontro de duas pessoas benditas sempre causa alegria: Maria causa alegria em Isabel e Jesus em pequeno João Batista. Ao contrário, o encontro de duas pessoas não benditas sempre causa angústia e mal-estar na convivência. Cada cristão deve fazer os encontros felizes e alegres com os outros. E isso só pode acontecer se houver lugar para Cristo em nosso coração. Precisamos “engravidar” Jesus Cristo para fazê-lo nascer para os outros. Por isso, vale a pena cada um se perguntar: Que tipo de encontro que fazemos diariamente: de pessoas benditas ou de pessoas não benditas?                                   

3. Aprendemos também de Maria sobre a fé-missionária. Depois de Maria dizer o seu “sim”, leva-o pelos caminhos do nosso mundo para suscitar a alegria e o louvor, e para ganhar novos parceiros do bem. A viagem de Maria à Judeia, onde sua prima Isabel mora (cf. Lc 1,39-45.56), é um símbolo do caminho da fé - que precisa ser testemunhada, compartilhada, a fé que precisa servir; porque a fé não é somente o dom de Deus, mas é também uma resposta humana, e com todo o ato humano. Dessa fé é que se fazem encontro e serviço.  Quando Deus entra e atua na história de uma pessoa que tem realmente Jesus no coração, esse mesmo Jesus vai levá-la ao encontro dos outros, especialmente aos necessitados, para partilhar a alegria e a esperança, e irradiará e santificará os que dela se aproximarem.    

4. As palavras de saudação e agradecimento dirigidas por Isabel a Maria despertaram nela uma maravilhosa profissão de fé. Coisa semelhante acontece com cada um de nós. Lemos ou escutamos a Palavra de Deus ou lemos um bom livro espiritualmente. E quantas vezes tudo isso nos toca o coração e faz brotar dos lábios uma oração de louvor. Maria reconhece que o amor misericordioso do Senhor a tocou; e tocando-a, tocou a humanidade inteira. Por isso é que Isabel a proclama “bem-aventurada”. Por Maria e nela, todos os homens reconhecem o amor infinito e misterioso de Deus(Jo 3,16). Todos nós temos necessidade de que um outro nos revele a nós mesmos. É grande graça na vida de uma pessoa encontrar um mestre de espírito que lhe indique o seu nome, a sua vocação, a sua missão.

5.    Na anunciação Maria tornou-se a primeira discípula, entre os primeiros cristãos, ouvindo a Palavra de Deus e aceitando-a . Na Visitação, ela se apressa em partilhar esta palavra do evangelho com os outros e, no Magnificat, temos sua interpretação dessa palavra que se assemelha à interpretação que seu Filho tinha dado em seu ministério. A primeira discípula cristã exemplifica a tarefa essencial de um discípulo: Depois de ouvir a Palavra de Deus e aceitá-la, devemos reparti-la com os outros, não simplesmente repetindo-a, mas interpretando-a, de modo que todos possam vê-la como uma Boa Nova. 

6.    No Magnificat Deus é proclamado como “Santo”. Santo significa aquele que está para além de tudo quanto pudermos pensar e imaginar; é totalmente outro que habita numa luz inacessível (v.49). Mas não vive numa soberana distância dos gritos dolorosos de seus filhos, pois este Deus santo é também misericordioso. Possui um coração sensível aos míseros e protesta contra a injustiça e a exploração e opressão. O texto chama-nos a atenção que os orgulhosos, os detentores do poder e os ricos fechados para si não possuem a última palavra como sempre pretendem, pois cada um tem que prestar contas diante de Deus. Alguém pode escapar da justiça humana, mas sobra a justiça divina. Aí é que ninguém escapa.  Pela sua fé no poder ilimitado de Deus (v.37), Maria reconhece que a situação provocada pela prepotência, opressão e exploração não é desejada por Deus e, por isso, espera que não seja definitiva. Esta intervenção de Deus é vista como um ato de fidelidade para com o povo da aliança. 

7.    O Deus a quem o Magnificat proclama está orientado para os homens, em especial para os fracos, os pobres, os infelizes, os desgraçados, os oprimidos; privilegia o humilde, o humilhado, aqueles aos quais não se concede o direito à existência. Quem reconhece a Deus como seu Senhor, deve estimar todo homem como irmão.          

Como Maria, estamos convencidos de que tudo é possível para quem crê (Lc 1,37; Mc 9,23).

P. Vitus Gustama,svd

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

XX Domingo Do Tempo Comum, Ano "A", 16/08/2026

FÉ AUTÊNTICA RESISTE DIANTE DE QUALQUER DIFICULDADE

XX DOMINGO DO TEMPO COMUM “A”

I Leitura: Isaías 56, 1.6-7

1Eis o que diz o Senhor: «Respeitai o direito, praticai a justiça, porque a minha salvação está perto e a minha justiça não tardará a manifestar-se. 6Quanto aos estrangeiros que desejam unir-se ao Senhor para O servirem, para amarem o seu nome e serem seus servos, se guardarem o sábado, sem o profanarem, se forem fiéis à minha aliança, 7hei-de conduzi-los ao meu santo monte, hei-de enchê-los de alegria na minha casa de oração. Os seus holocaustos e os seus sacrifícios serão aceites no meu altar, porque a minha casa será chamada casa de oração para todos os povos».

II Leitura: Romanos 11, 13-15.29-32

Irmãos: 13É a vós, os gentios, que eu falo: Enquanto eu for Apóstolo dos gentios, procurarei prestigiar o meu ministério 14a ver se provoco o ciúme dos homens da minha raça e salvo alguns deles. 15Porque, se da sua rejeição resultou a reconciliação do mundo, o que será a sua reintegração senão uma ressurreição de entre os mortos? 29Porque os dons e o chamamento de Deus são irrevogáveis. 30Vós fostes outrora desobedientes a Deus e agora alcançastes misericórdia, devido à desobediência dos judeus. 31Assim também eles desobedeceram agora, devido à misericórdia que alcançastes, para que, por sua vez, também eles alcancem agora misericórdia. 32Efectivamente, Deus encerrou a todos na desobediência, para usar de misericórdia para com todos.

Evangelho: Mt 15,21-28

Naquele tempo, Jesus retirou-Se para a região de Tiro e Sidônia. E eis que, uma mulher Cananéia daquela região, veio gritando: «Senhor, Filho de Davi, tem compaixão de mim: a minha filha está cruelmente endemoninhada». Ele, porém, nada lhe respondeu. Então os seus discípulos aproximaram-se dele e pediram-Lhe:  «Despede-a, porque ela vem gritando atrás de nós». Jesus respondeu:  «Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel». Mas a mulher aproximando-se, prostrou-se diante d’Ele, e pôs-se a rogar: «Socorre-me, Senhor».  Ele respondeu: «Não fica bem tirar o pão dos filhos e atirá-lo aos cachorrinhos». Mas ela insistiu: «É verdade, Senhor; mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa de seus donos». Então Jesus respondeu-lhe: «Mulher, grande é a tua fé! seja feito como queres! ». E, a partir daquele momento, a sua filha ficou curada.

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Através do episódio do evangelho de hoje Mateus dá um passo importante para frente, pois a cena não tem lugar em Israel e sim no território estrangeiro: na região de Tiro e Sidônia, na região pagã. Em termos de sociologia religiosa judaica isto significa que a cena se desenvolve no território pagão. Toma corpo assim o que Mateus tinha insinuado quando, ao apresentar a atividade de Jesus, citava o texto de Isaias que fala da Galiléia dos pagãos (Mt 4,15). Os pagãos estão agora aqui, representados pela mulher Cananéia que vivia na atual Líbano. É chamada de “cananéia”. Este termo é bastante negativo para um judeu por quanto encarna tudo o que é de sedutor e perigoso para a fé javista.

O texto está cheio de surpresas. A primeira surpresa: uma estrangeira dá a Jesus o título tipicamente judeu: “Filho de Davi” e “Senhor”. A mulher proclama Jesus como “Filho de Davi”, isto é, como Messias prometido a Israel. Com este titulo Mateus introduziu a ascendência de Jesus na genealogia (Mt 1,1). Além desse titulo, a mulher vê em Jesus o Salvador e O proclama “Senhor”.  Somente quem tem fé pode invocar a Jesus como “Senhor”. Trata-se de um título pós-pascal.

Seja quem for este Messias, tão falado pelos judeus (“Filho de Davi”), ela reconhece humildemente que Deus é capaz de operar nele e através dele em função da libertação ou da salvação do povo. Ela não se considera nada, a não ser uma mulher com o coração cheio de dor por sua filha atormentada, e com a alma iluminada pela esperança tão certa, porque Deus nunca abandonará os que O procuram com simplicidade e sinceridade. Com toda a grandeza ela se entrega a Cristo que é o Senhor, o Salvador. Ela está necessitada; o Senhor e somente o Senhor pode ajudá-la.

A segunda surpresa é o silêncio de Jesus diante do grito da mulher, primeiro, e sua resposta, depois, para a demanda dos discípulos (Mt 15,23): Eu fui enviado somente para as ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 15,24). Esta resposta é repetição do mandato de Jesus aos Doze, no discurso sobre a missão, ao dizer-lhes: “Não deveis ir aos territórios dos pagãos, nem entrar nas cidades dos samaritanos! Ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel!” (Mt 10,5-6).

O aparente silêncio de Deus diante de nossos problemas não significa Sua ausência e Sua insensibilidade. O aparente silêncio de Deus é o momento precioso para entrarmos numa reflexão profunda. Além disso, pode ser que nesses momentos sejamos purificados de tudo para que possamos gritar com mais fé apesar dos obstáculos, a exemplo da mulher cananéia.

A terceira surpresa é a apresentação da mulher no v. 25 com o gesto típico judeu de adoração a Deus, gesto característico no evangelho de Mateus para expressar a atitude de um crente diante de Jesus. A mulher considera Jesus como Deus e por isso, ela se prostra diante de Jesus: “A mulher, aproximando-se, prostrou-se diante de Jesus e começou a implorar...”. E pediu: “Senhor, ajuda-me!”. Ela já é uma só coisa com sua filha. Ela se identifica totalmente com a dor e o tormento de sua filha. É uma verdadeira mãe! Para essa mãe, sua filha é ela mesma: “Senhor, socorre-me!”, em vez de dizer “Senhor, socorre minha filha”.

A quarta surpresa é a resposta de Jesus à mulher: “Não fica bem tirar o pão dos filhos para jogá-lo aos cachorrinhos” (Mt 15,26). Jesus faz seu o termo depreciativo “cachorro/cachorrinho” que os judeus aplicavam aos pagãos/ estrangeiros. O rabino Eliezer dizia: “Quem come com um idólatra é como quem come com um cachorro”. É difícil encontrar em qualquer dos quatro evangelhos uma imagem de Jesus tão judia como a que nos oferece Mateus neste texto. Será que ele aceita este termo ou está fazendo alguma ironia? Escutamos a frase fora do território judeu onde Jesus se encontra. É a frase que traz um questionamento sobre a tradição judaica. A lógica da encarnação está aqui levada ao máximo de identificação com a história concreta do povo.

A quinta e a ultima surpresa é a reação da mulher pagã que não aspira a suplantar, mas simplesmente a participar: “É verdade, Senhor; mas os cachorrinhos também comem as migalhas que caem da mesa de seus donos” (Mt 15,27).

Essa mulher não desiste nem é amedrontada. Seu amor de mãe espera contra toda esperança porque sabe captar nas palavras de Jesus uma nota de bondade. Jesus não a trata com apelido “cachorro” e sim com um apelido mais suave: “cachorrinhos”. Ela quer dizer: “Deixa que me alimente do que cai da mesa onde está o pai com os filhos; faz que também eu seja parte da família!”. E a mulher Cananéia, que não é membro do Povo de Deus, encarna o ideal do que deve ser um membro do Povo de Deus.

Todo este conjunto de surpresas no texto de Mateus tem uma função de preparar e de ressaltar a frase final de Jesus: “Ó mulher, grande é tua fé!”. É a frase que o leitor de Mateus pressentia e esperava. A frase que ratifica a queda do muro de separação entre judeus e pagãos. Um mundo religioso fechado em si mesmo fica aqui superado e derrubado para dar lugar a outro mundo de todos e para todos. São Paulo expressa muito bem esse pensamento ao escrever: “Não há distinção entre judeu e grego, porque todos têm um mesmo Senhor, rico para com todos os que o invocam, porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (Rm 10,12-13; Jl 3,5).

Vale a pena fixar-se na capacidade de admiração de Jesus diante da fé dos pagãos. Jesus não duvida em afirmar: “Em ninguém em Israel encontrei tanta fé” (Mt 8,10). Fé, aqui, é confiança, é abertura a sua pessoa e a seu poder. E esta fé, que se dirige a Jesus, tem seu motor e extrai sua força da própria necessidade: a situação da filha “endemoninhada” (Mt 15,22), e o empregado que “está em cama paralitico e sofre muito” (Mt 8,6). Desde nossas situações vitais é que vamos a Jesus e confiamos nele, como a cananéia. Aprendamos a nos admirar da fé dos que estão fora da Igreja, da gente simples. E fiquemos atentos porque a fé pode estar ausente entre os próprios cristãos: “Em ninguém em Israel encontrei tanta fé” (Mt 8,10), disse Jesus sobre a fé de quem não pertence ao povo eleito. É uma grande ironia: os que se dizem crentes, têm pouco fé. Os que são considerados “pagãos”, têm tanta fé. afinal, quem é o verdadeiro pagão?

Ó mulher, grande é tua fé!”. Esta frase rompe os esquemas religiosos até agora vigentes no Povo de Deus. A partir daqui já não tem sentido falar do Povo de Deus num sentido limitado de etnia ou nação; já não há “cachorrinhos” nem amos, judeus nem gregos, servos nem livres, varões nem mulheres (cf. Rm 10,12; Gl 3,28). Nacionalidade, condição social e sexo ficam eliminados como fatores determinantes de pertença ao Povo de Deus. A própria escolha da mulher como protagonista do relato é um fato em si mesmo significativo. Se alguém não tinha voz no interior do Povo de Deus, eram precisamente as mulheres. Escolhendo uma mulher, primeiro; estrangeira, depois; e cananéia por último, Mateus acaba com todos os esquemas até então vigentes. A partir de agora o que determina a pertença ao Povo de Deus é a fé em Jesus, a adesão à sua Pessoa, a vivência de seus ensinamentos. Não nos esqueçamos nunca, no contexto de Mateus, de que esta fé significa a relativização da Lei e da Tradição, importantes e necessárias, por suposto, mas nunca prioritárias nem com valor de absolutos. Esquecer esta relativização tem o risco, entre outros, de reduzir a fé em Jesus a um pietismo pessoal.

Muitas pessoas estão fora da Igreja porque ainda não sabemos acolhê-las, porque lhe exigimos uma mudança de cultura, de atitude diante da vida que nem mesmo Cristo pediu isso dos seus parceiros de diálogo.

“Senhor, Filho de Davi, tem piedade de mim: minha filha está cruelmente atormentada por um demônio!”. É uma oração de petição que sai de uma fé profunda em que Deus pode fazer o que se pede e de uma confiança ilimitada no que Deus fará alguma coisa para resolver o problema existente. A fé é o distintivo essencial do cristão, além do amor (cf. Jo 13,35). É uma fé que recebe o que quer, porque o que quer é a vontade de Deus. Esta mulher não desiste diante dos obstáculos. Ela está na linha que Jesus ensinou anteriormente: “pedi..., buscai..., chamai/batei a porta...,” (Mt 7,7-8). São estes três aspectos (pedir, buscar, bater a porta) que definem substancialmente o homem. Daí a necessidade de “lutar” com Deus no terreno de uma oração perseverante. A Cananéia obteve o que pedia porque se manteve nessa atitude de essencial pobreza. Por causa de sua perseverança, cumpre-se nela a Palavra de Deus: “recebereis..., achareis/encontrareis..., a porta será aberta...,” (Mt 7,7-8). “Pedindo as migalhas que caem da mesa, logo a mulher se encontrou sentada à mesa”, comentou Santo Agostinho. Três aspectos que definem Deus: receber, encontrar e a porta será aberta. Deus e o homem estão postos frente a frente e cada um faz o que lhe é próprio: o homem com sua pobreza do essencial e Deus com a abundância de sua graça e benção para o homem aberto diante da providência divina.

Deus não pretende demonstrar que é um Criador poderoso e sim um Pai amoroso e misericordioso. Por ser Pai, Deus quer estar próximo de cada pessoa e de suas necessidades. Ele quer consolar e salvar. Mais que a admiração intenta provocar a confiança e o amor. Por isso, suas intervenções preferentemente têm lugar em contatos pessoais. Um caso é o da mulher Cananéia. É uma mãe pagã que pede a ajuda de Jesus em favor de sua filha. Na verdade ela é uma pessoa cheia de fé que se dirige a Jesus no convencimento de que Ele é o Enviado de um Deus que é Pai para todos. A oração dessa mulher foi atendida.

Jesus, ao elogiar a fé da mulher e curar sua filha, quer nos mostrar que para ele a fé tem uma força superior a qualquer delineamento ou prejuízo: a fé salva sempre. Ali onde há a fé, Jesus atua. E fé, aqui, significa convencimento de que Jesus é a Vida e o Caminho (cf. Jo 14,6) e confiança nele. Esta fé é que Jesus busca em cada um de nós. A mulher cananéia nos assinala o caminho para esta fé: a absoluta confiança em Jesus Cristo. É uma confiança que não necessita de nenhuma condição prévia; é uma fé que vai além do que pedimos para chegar à Pessoa de Jesus Cristo que é “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6).

Hoje somos convidados a examinar se nossa fé é verdadeira e firme, se temos Jesus presente em nossa vida, se confiamos nele em qualquer situação de nossa vida. Ao mesmo tempo somos convidados a examinar possíveis desvios: confiar demasiadamente em outras coisas (seja nossos bens materiais, sejam nossas “boas obras” etc.) ou se negamos o direito que o outro tem para expressar sua fé de modo distinto ao nosso.

P.Vitus Gustama, svd

Para Refletir: 

ALGUMAS FRASES SOBRE A FÉ DA CARTA ENCÍCLICA LUMEN FIDEI DO PAPA FRANCISCO: 

1.     A fé nasce no encontro com o Deus vivo, que nos chama e revela o seu amor: um amor que nos precede e sobre o qual podemos apoiar-nos para construir solidamente a vida. Transformados por este amor, recebemos olhos novos e experimentamos que há nele uma grande promessa de plenitude e nos é aberta a visão do futuro. A fé, que recebemos de Deus como dom sobrenatural, aparece-nos como luz para a estrada orientando os nossos passos no tempo.

2.     A fé é luz que vem do futuro, que descerra diante de nós horizontes grandes e nos leva a ultrapassar o nosso « eu » isolado abrindo-o à amplitude da comunhão. Deste modo, compreendemos que a fé não mora na escuridão, mas é uma luz para as nossas trevas.

3.     Fé, esperança e caridade constituem, numa interligação admirável, o dinamismo da vida cristã rumo à plena comunhão com Deus.

4.     « O homem fiel é aquele que crê no Deus que promete; o Deus fiel é aquele que concede o que prometeu ao homem.

5.     A fé pede para se renunciar à posse imediata que a visão parece oferecer; é um convite para se abrir à fonte da luz, respeitando o mistério próprio de um Rosto que pretende revelar-se de forma pessoal e no momento oportuno.

6.     O homem renunciou à busca de uma luz grande, de uma verdade grande, para se contentar com pequenas luzes que iluminam por breves instantes, mas são incapazes de desvendar a estrada. Quando falta a luz, tudo se torna confuso: é impossível distinguir o bem do mal, diferenciar a estrada que conduz à meta daquela que nos faz girar repetidamente em círculo, sem direção.

7.     Por isso, urge recuperar o caráter de luz que é próprio da fé, pois, quando a sua chama se apaga, todas as outras luzes acabam também por perder o seu vigor. De fato, a luz da fé possui um caráter singular, sendo capaz de iluminar toda a existência do homem.

8.     Ora, para que uma luz seja tão poderosa, não pode dimanar de nós mesmos; tem de vir de uma fonte mais originária, deve porvir em última análise de Deus.

9.     A fé está ligada à escuta. Abraão não vê Deus, mas ouve a sua voz. Deste modo, a fé assume um caráter pessoal: o Senhor não é o Deus de um lugar, nem mesmo o Deus vinculado a um tempo sagrado específico, mas o Deus de uma pessoa, concretamente o Deus de Abraão, Isaac e Jacob, capaz de entrar em contato com o homem e estabelecer com ele uma aliança. A fé é a resposta a uma Palavra que interpela pessoalmente, a um Tu que nos chama por nome.

10. A fé “vê” na medida em que caminha, em que entra no espaço aberto pela Palavra de Deus.

11. O contrário da fé é a idolatria. O ídolo é um pretexto para se colocar a si mesmo no centro da realidade, na adoração da obra das próprias mãos. A idolatria é sempre politeísmo, movimento sem meta de um senhor para outro. A idolatria não oferece um caminho, mas uma multiplicidade de veredas que não conduzem a uma meta certa, antes se configuram como um labirinto.

12. A fé, enquanto ligada à conversão, é o contrário da idolatria: é separação dos ídolos para voltar ao Deus vivo, através de um encontro pessoal.

13. Acreditar significa confiar-se a um amor misericordioso que sempre acolhe e perdoa, que sustenta e guia a existência, que se mostra poderoso na sua capacidade de endireitar os desvios da nossa história. A fé consiste na disponibilidade a deixar-se incessantemente transformar pela chamada de Deus. Paradoxalmente, neste voltar-se continuamente para o Senhor, o homem encontra uma estrada segura que o liberta do movimento dispersivo a que o sujeitam os ídolos.

Segunda-feira Da XX Semana Comum, Ano Par, 17/08/2026

VIVER A VIDA FAZENDO O BEM PARA ALCANÇAR A ETERNIDADE Segunda-Feira Da XX Semana Comum Primeira Leitura: Ez 24,15-24 15 A palavra do S...