terça-feira, 7 de julho de 2026

Quinta-feira Da XIV Semana Comum, Ano Par, 09/07/2026

SER CRISTÃO É SER MISSIONÁRIO DO AMOR E DA PAZ DE DEUS

Quinta-Feira da XIV Semana Comum

Primeira Leitura: Os 11,1-4.8c-9

Assim fala o Senhor: 1 “Quando Israel era criança, eu já o amava, e desde o Egito chamei meu filho. 2 Quanto mais eu os chamava tanto mais eles se afastavam de mim; imolavam aos Baals e sacrificavam aos ídolos. 3 Ensinei Efraim a dar os primeiros passos, tomei-o em meus braços, mas eles não reconheceram que eu cuidava deles. 4 Eu os atraía com laços de humanidade, com laços de amor; era para eles como quem leva uma criança ao colo, e rebaixava-me a dar-lhes de comer. 8c Meu coração comove-se no íntimo e arde de compaixão. 9 Não darei largas à minha ira, não voltarei a destruir Efraim, eu sou Deus, e não homem; o santo no meio de vós, e não me servirei do terror”.

Evangelho: Mt 10,7-15

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 7 “Em vosso caminho, anunciai: ‘O Reino dos Céus está próximo’. 8 Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. De graça recebestes, de graça deveis dar! 9 Não leveis ouro nem prata nem dinheiro nos vossos cintos; 10 nem sacola para o caminho, nem duas túnicas nem sandálias nem bastão, porque o operário tem direito a seu sustento. 11 Em qualquer cidade ou povoado onde entrardes, informai-vos para saber quem ali seja digno. Hos­pedai-vos com ele até a vossa partida. 12 Ao entrardes numa casa, saudai-a. 13 Se a casa for digna, desça sobre ela a vossa paz; se ela não for digna, volte para vós a vossa paz. 14 Se alguém não vos receber, nem escutar vossa palavra, saí daquela casa ou daquela cidade, e sacudi a poeira dos vossos pés. 15 Em verdade vos digo, as cidades de Sodoma e Gomorra serão tratadas com menos dureza do que aquela cidade, no dia do juízo.

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Nosso Deus é o Verdadeiro Pai Amoroso

Quando Israel era criança, eu já o amava, e desde o Egito chamei meu filho. Ensinei Efraim a dar os primeiros passos, tomei-o em meus braços. Eu os atraía com laços de humanidade, com laços de amor; era para eles como quem leva uma criança ao colo, e rebaixava-me a dar-lhes de comer”, revelou-nos Oseias sobre o Deus amoroso.

Não é difícil ouvir ou ler ou comentar que o Deus do AT é um Deus duro, severo, vingativo, distante, que manda e impõe. É verdade que, às vezes, o povo judeu (parte do povo em certos momentos) imagina assim seu Deus. Mas é verdade também que no AT fala-se de Deus de uma imagem cheia de amor. Não se esqueça que muitas vezes o AT fala de Deus como um marido que ama entranhavelmente, como um pai que cuida incansavelmente de seus filhos. Deus ama com um amor exigente como qualquer verdadeiro amor, mas também com o amor compassivo, aberto ao perdão e nunca para de ter esperança no homem. Este Deus de amor é que o profeta Oséias quer nos mostrar.

Quando Israel era criança, eu já o amava, e desde o Egito chamei meu filho. Ensinei Efraim a dar os primeiros passos, tomei-o em meus braços. Eu os atraía com laços de humanidade, com laços de amor; era para eles como quem leva uma criança ao colo, e rebaixava-me a dar-lhes de comer”.

Através destas palavras o profeta Oseias nos revelou a natureza de Deus no Antigo Testamento. No início de seu livro (Os 2), o profeta Oseias nos revelou o Deus-esposo. No texto de hoje, ele nos revelou o Deus-Pai amoroso. O amor é expresso com toda ternura da revelação pai-filho-criança: ensina-lhe a andar, carrega-o nos braços, cuida dele, alimenta-o, beija-o com todo carinho. Falando humanamente, nenhum pai poupa seu amor, seu esforço pelo filho, pois para o pai, o filho é ele. O sucesso do filho é o sucesso do pai. A tristeza do filho é a tristeza do pai. Este Deus-Pai amoroso será revelado por Jesus, no NT, como Abbá, o Paizinho. Sentimos uma ternura enorme ao chamar Deus de Paizinho, pois nos tornamos uma criancinha no colo desse Abbá, não para ficar na infantilidade e sim para sentir uma grande proteção e um profundo amor desste Deus por nós todos. Somos amados por Deus e por isso, devemos amar aos outros, por nossa vez. A vida sem amor mal parece valer esforço. Sem amor, a vida se torna vazia de sentido.

Se antes o amor de Deus pelo povo é comparado ao amor conjugal (do marido para a esposa), agora Oseias descreve este amor com traços bem ternos de um pai ou de uma mãe pelo filho que leva nos braços, a quem acaricia e beija, a quem ensina a andar, a quem atrai com laços de amor. Trata-se de um amor que se manifesta sob todas as formas de ternura. Da mesma forma que os pais mimam o filho, o levam nos braços, o dão de comer e mais tarde o ensinam seus primeiros passos, assim também se comporta Deus com seu “filho eleito”, Israel 

Mas este filho agora é infiel. O povo rompeu a aliança que havia prometido guardar: “Quanto mais eu os chamava tanto mais eles se afastavam de mim”. Geralmente, como os pais não recebem nenhum agradecimento, assim também Deus não receberá mais que ingratidão por parte de seu filho, Israel. O Senhor “os atraía com laços de humanidade, com laços de amor”, mas são precisamente esses laços que impulsionam o filho a libertar-se deles e fazer-se independente: não dos pais humanos e sim de Deus: “Quanto mais eu os chamava tanto mais eles se afastavam de mim; imolavam aos Baals e sacrificavam aos ídolos”.

O que fará Deus agora? O profeta Oseias, refletindo sobre sua própria incapacidade de condenar a sua mulher infiel, descreve com traços muito humanos esse amor de Deus: “Meu coração comove-se no íntimo e arde de compaixão. Não darei largas à minha ira”, disse o Senhor. A razão mais impressionante disso: “Eu sou Deus, e não homem; o santo no meio de vós, e não me servirei do terror”. O próprio de Deus não é castigar e sim amar e perdoar. Deus é um verdadeiro “amigo” que está no meio de seu povo (Cf. Jo 15,14-15).

Mas Deus como Pai que quer envolver o filho com laços de amor, se encontra agora “prisioneiro” desses mesmo laços, porque não somente tem amor e sim que é o amor (cf. 1Jo 4,8.16). Porque “sou Deus e não homem”, Deus não pode irritar-se, não pode destruir, não pode abandonar o filho infiel que saiu da casa como o filho pródigo, mas deve esperá-lo, correr ao seu encontro, abraçá-lo e dar uma festa em sua honra (cf. Lc 15,11-32). O estilo de Deus não é o estilo vingativo do homem. A apelação surpreendente à sua santidade, à sua radical distinção de tudo e de todos é a mais forte garantia de um amor sem retrocesso. Este amor é o amor ágape que conhece uma direção só: o bem e salvação do outro. Toda a pregação de Oseias prepara esta afirmação que fará eco em outros profetas: “Pode uma mulher esquecer-se daquele que amamenta? Não ter ternura pelo fruto de suas entranhas? E mesmo que ela o esquecesse, eu não te esqueceria nunca” (Is 49,15). 

A proclamação de Oseias sobre o amor de Deus que sai ao encontro do homem na dupla relação de matrimônio e filiação, de um Deus que ama simplesmente porque é Deus, e não é homem, constitui um dos capítulos mais ricos da teologia veterotestamentária. É uma antecipação daquela doutrina joanina que considera o amor como essência e realidade de Deus (1Jo 4,8.16). Somente quem tem experiência de amor pode ter experiência deste Deus que é o primeiro em amar (1Jo 4,19). Amar criadoramente significa estar presente a favor dos homens. Deus é amor e se compromete pessoalmente em favor dos homens, o amor que precede ao homem. Amor é caminho para Deus e caminho para a realização. Amar é, portanto, questão de qualidade de vida. Poe este caminho não há outro caminho para chegar até Deus. 

Nós Somos Missionários Do Amor De Deus Neste Mundo

Com o texto do Evangelho de hoje, continuamos a acompanhar o discurso de Jesus sobre a missão (Mt 9,36-11,1).  Na passagem do evangelho de hoje Jesus dá algumas instruções para seus discípulos na tarefa de proclamar a Boa Nova. 

Primeiramente, Jesus disse aos discípulos: “Em vosso caminho, anunciai: ‘O Reino dos céus está próximo’”. Jesus coloca em primeiro lugar o anúncio da Boa Nova. Onde quer que ande um seguidor de Jesus deve falar somente das coisas boas, da esperança, da fraternidade, da igualdade e assim por diante. O evangelizador é aquele que sempre leva adiante o que é bom e o que é certo e o que edifica. Um seguidor não pode perder tempo em falar ou em discutir coisas que nada edificam a humanidade. Qualquer cristão não pode desperdiçar o tempo com coisas fúteis e inúteis, pois para ele cada minuto é o minuto da graça de Deus (Kairós) que jamais voltará.  A vida vivida apenas para satisfazer a própria vida nunca satisfaz a vida de ninguém. Não há melhor exercício para fortalecer o coração do que estender o braço para baixo para erguer pessoas esmagadas pelo peso da vida vivida diariamente. O propósito verdadeiro de nossa existência é fazer uma vida válida, bem feita e útil. Praticar e pregar o bem fazem parte da vida de um cristão! Esta é a tarefa principal de qualquer cristão. Tudo o mais virá depois: “Buscai, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça, e todas outras coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6,33). 

Proclamai que o reino de Deus está próximo”. Muitas vezes se busca Deus demasiadamente longe. De fato ele está próximo de nós; Ele está conosco (Mt 28,20). Deus está ali; naquele cantinho mais secreto da tua vida, aonde ninguém chega, em que uma voz que não sabes donde vem, nem para onde vai, te diz o que não querias ouvir, te recorda o que desejarias ter esquecido, te profetiza o que nunca desejarias saber. Nessa voz que não ouves, mas que te desaprova. Nessa voz que não é tua, mas que nasce em ti e que nem o sono, nem o barulho, nem a bebida, nem a carne conseguem fazer calar(Juan Arias: O Deus Em Quem Não Creio). O Deus que Jesus revela é um Deus próximo, um Deus amoroso. Por isso, jamais eu estou sozinho, inclusive quando me sinto abandonado ou solitário, nem na minha doença nem na minha morte capazes de me separar de Deus, pois Deus está comigo (Cf. Rm 8,35-39). Para poder proclamar aos demais sobre a bondade, a proximidade da presença de Deus, o cristão-missionário há que ter feito a experiência do Deus próximo em si mesmo pessoalmente. Quem se torna próximo de Deus, vai ser próximo dos outros homens. Um coração afastado de Deus nos torna distantes dos outros. 

 Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios”.  A atividade dos apóstolos, pode-se dizer que, é uma atividade trapéutica. Jesus já tinha feito tudo isso: Ele curou os enfermos (Mt 8,5-15); purificou os leprosos (Mt 8,2-4); ressuscitou os mortos (Mt 9,23-25); expulsou os demônios (Mt 8,28-34). O cristão-missionário é aquele que distribui benefícios, aquele que faz o irmão crescer e viver a vida dignamente, aquele que leva a paz; aquele que nutre a vida dos outros; aquele que protege a vida em todas as suas instâncias. O cristão é aquele que, ao imitar seu Mestre Jesus, passa a vida fazendo o bem  para onde for, onde estiver e com quem estiver (cf. At 10,38). O cristão é aquele que pratica o bem nos momentos oportunos e inoportunos. Não diríamos que fosse fácil. Mas não estamos aqui neste mundo sem um propósito determinado. As atividades diárias  são os caminhos ou meios pelos quais somos convidados a fazer o bem. Com o bem praticado criamos um impacto no ambiente físico, mental e emocional da comunidade ou do grupo ao qual pertencemos. 

“Não leveis ouro nem prata nem dinheiro nos vossos cintos; nem sacola para o caminho, nem duas túnicas nem sandálias nem o dom é  bastão, porque o operário tem direito a seu sustento”. O cristão tem que ser dom para os outros. O dom é vitória sobre a possessão e sobre o egoísmo. O ouro e a prata (os bens materiais) nunca vão ser nossos amigos. Os bens continuam sendo alheios a nós. Eles são necessários, mas apenas como meios para facilitar nosso trabalho. A sua utilidade para nossa vida terminará assim que terminar nossa passagen neste mundo. O ser humano tem que gostar do ser humano e usar os bens, e não pode usar o ser humano porque gosta dos bens materiais. É preciso que o cristão esteja despojado, sem ser dominado pela coisa morta. Despojamento é todo um empenho para dar lugar à riqueza do poder da graça de Deus. Despojamento nos torna imunes contra as ciladas da prepotência e da senção de se sentirmos poderosos. Deus só oferecerá a riqueza da Sua graça ao que saiba despojar-se de si mesmo e das coisas materiais. Despojamento é o ponto de encontro com Deus e com os outros irmãos. “O bem tende sempre a comunicar-se. Toda a experiência autêntica de verdade e de beleza procura, por si mesma, a sua expansão; e qualquer pessoa que viva uma libertação profunda adquire maior sensibilidade face às necessidades dos outros. E, uma vez comunicado, o bem radica-se e desenvolve-se. Por isso, quem deseja viver com dignidade e em plenitude, não tem outro caminho senão reconhecer o outro e buscar o seu bem”, escreveu o Papa Francisco (Exortação Apostólica, Evangelii Gaudium n.9). 

Não leveis nem sacola”: geralmente o dinheiro é a segurança do rico; a sacola é a segurança do pobre, pois na sacola o pobre põe e repõe suas provisões. Nem em tudo isso o cristão põe sua segurança. “Nem duas túnicas”: a primeira túnica é tua; a segunda não é tua, e sim do irmão que não tem nada para vestir-se. Evita-se assim a mentalidade materialista. É preciso crer mais no Deus das coisas, e não somente nas coisas de Deus (ouro e prata). “Nem sandálias”: as sandálias são para os homens libertados e livres (cf. Lc 15,22). O cristão é o servidor/servo da Palavra (cf. Lc 1,38) cuja missão é transmiti-la aos irmãos. “Nem cajado”: cajado é o prolongamento da mão que permite alcançar o inalcançável. Ter cajado é sinal de poder de quem tem mais posses que se usa, muitas vezes, para dominar os outros, especialmente os mais pobres. O cajado de Deus é a Cruz que salva todos, pois na Cruz se revela o amor ilimitado e incondicional de Deus por todos os homens. 

Na sua instrução, Jesus pede aos discípulos para que vivam despojados: não levar nem ouro, nem prata, nem sandálias, nem bastão. Estas exigências parecem estar tomadas das normas estabelecidas para participar do culto a Deus no templo: “que ninguém entre no templo com bastão, sapatos nem com a bolsa de dinheiro”. Partindo desta norma judaica se diria simplesmente que os discípulos, na realização de sua tarefa evangelizadora devem fazer a mesma coisa diante de Deus e devem viver como estando na presença de Deus, sabendo que o êxito da missão depende de Deus. 

A expressão “Estar desarmados e despojados” é usada para enfatizar que a obra é de Deus e não de um ser humano. Este estilo é chamado de “pobreza evangélica” que não se apóia unicamente nos meios materiais e nas técnicas, e sim na ajuda de Deus e na força de Sua palavra. Nós devemos confiar mais na força de Deus do que em nossas qualidades ou meios técnicos. O homem que se deixa conquistar pelo despojamento, deixa de estar alienado ou agarrado a qualquer coisa. O despojamento se torna um encontro libertador consigo próprio. ”Não andes averiguando quanto tens, mas o que tu és”, dizia Santo Agostinho (Serm. 23,3). 

Recebestes de graça, de graça dai!”. Além de ter uma vida despojada, o cristão deve ser generoso e viver na gratuidade. O cristão-missionário deve atuar com desinteresse econômico, não buscando seu próprio proveito. Todos sabem que quanto mais se tem, mais se quer. A felicidade ficará cada vez mais distante quando o ser humano começar a criar mais necessidades. O espírito materialista é como beber a água salgada: quanto mais você beber, mais sede você terá. Aquele que sabe reduzir ao mínimo suas necessidades encontra uma alegria e uma liberdade maior. Possuído ou dominado pelas coisas o homem perde sua liberdade. “Onde só o amor serve e não a necessidade, a escravidão se torna liberdade” (Santo Agostinho. In ps. 99,8).

“Entrando numa casa, saudai-a: Paz a esta casa. Se aquela casa for digna, descerá sobre ela vossa paz; se, porém, não o for, vosso voto de paz retornará a vós”. Paz (Shalom) que é a saudação habitual entre os judeus tem uma grande densidade de significado, pois este termo não significa apenas a ausência de conflitos ou a tranquilidade da alma, mas também a saúde, a prosperidade, a felicidade em plenitude, harmonia com tudo e com todos. A palavra “Shalom” talvez possa ser traduzida com uma expressão que todos nós desejamos aos outros: “Tudo de bom”. “All the best” para os da língua inglesa. Desejar a paz significa desejar tudo de bom para o próximo. Desejar “Shalom” é desejar a alguém uma harmonia com tudo, com todos e com o Todo por excelência que é o próprio Deus. 

O cristão jamais pode ser uma pessoa agressiva verbal e fisicamente. A serenidade produz outra serenidade. Cada sorriso gera outro sorriso. O cristão deve propor a Boa Nova e não se pode impor: os homens ficam livres. A tarefa do cristão-missionário é oferecer a paz e a alegria. Dar alento. O cristão deve saber que o trabalho não é forçar de qualquer maneira, nem Jesus fez isso. A tarefa do cristão-missionário é formular a proposta clara e convincente e logo deixa para a liberdade do homem. 

A missão está marcada pela constante ameaça dos anti-valores da sociedade e pela oposição dos filhos das trevas. Os verdadeiros lobos são aqueles que sacrificam seus irmãos para obter benefícios pessoais. Os evangelizadores não podem ser ingênuos diante deles. Os cristãos devem manter sua simplicidade, mas acompanhada pela prudência para agir sabiamente e eficazmente: “Eu vos envio como ovelhas no meio de lobos. Sede, pois, prudentes como as serpentes, mas simples como as pombas”. 

Em resumo: o cristão deve ser despojado, simples, pacífico, prudente e desarmado. Só com estas qualidades ele convence qualquer um para ser parceiro do bem e para ganhar novos evangelizadores. A verdadeira felicidade não consiste em possuir o que se ama, mas em amar o que se deve possuir (Santo Agostinho: In ps. 26,2,7).                         

P. Vitus Gustama, SVD

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Quarta-feira Da XIV Semana Comum, Ano Par, 08/07/2026

SER CRISTÃO É SER CHAMADO E ENVIADO PARA FAZER O BEM E SER PARCEIRO DO BEM

Quarta-Feira Da XIV Semana Comum

Primeira Leitura: Os 10,1-3.7- 8.12

1 Israel era uma vinha exuberante e dava frutos para seu consumo; na medida de sua produção erguia os numerosos altares; na medida da fertilidade da terra, embelezava seus ídolos. 2 Com o coração dividido, deve agora receber castigo; o Senhor mesmo derrubará seus altares, destruirá os seus simulacros. 3 Decerto, dirão agora: “Não temos rei; não temos medo do Senhor. Que poderia o rei fazer por nós?” 7 Samaria está liquidada, seu rei vai flutuando como palha em cima da água. 8 Será desmantelada a idolatria dos lugares altos, pecado de Israel; ali crescerão espinhos e abrolhos sobre seus altares; então se dirá aos montes: “Cobri-nos!” e às colinas: “Caí sobre nós!” 12 Semeai justiça entre vós, e colhereis amor; desbravai uma roça nova. É tempo de procurar o Senhor, até que ele venha e derrame a justiça em vós.

Evangelho: Mt 10,1-7

Naquele tempo, 1 Jesus chamou os doze discípulos e deu-lhes poder de expulsar os espíritos maus e de curar todo tipo de doença e enfermidade. 2 Estes são os nomes dos doze apóstolos: primeiro, Simão chamado Pedro, e André, seu irmão; Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João; 3 Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o cobrador de impostos; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu; 4 Simão, o Zelota, e Judas Iscariotes, que foi o traidor de Jesus. 5 Jesus enviou estes Doze, com as seguintes recomendações: “Não deveis ir aonde moram os pagãos, nem entrar nas cidades dos samaritanos! 6 Ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel! 7 Em vosso caminho, anunciai: ‘O Reino dos Céus está próximo’”.

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Semeai justiça e colhereis amor. É tempo de procurar o Senhor, até que ele venha e derrame a justiça.

Israel era uma vinha exuberante e dava frutos para seu consumo; na medida de sua produção erguia os numerosos altares; na medida da fertilidade da terra, embelezava seus ídolos. Com o coração dividido, deve agora receber castigo; o Senhor mesmo derrubará seus altares, destruirá os seus simulacros”.

O tema da vinha foi desenvolvido em todo texto bíblico. Israel era uma vinha frondosa (cf. Is 5,1-7; Jr 2,21. Ez 15; 17,6; Sl 80). Jesus utilizará essa imagem tradicional (Mt 21,33; 20,1; Jo 15,1).

Desta vez, o pecado do povo de Israel é descrito, precisamente, com imagens tomadas da vida do campo. O povo eleito era uma vinha que produzia frutos abundantes, mas agora se converteu em campo estéril, pois se esqueceu de Deus e confia apenas nas forças humanas. Consequentemente “Com o coração dividido, deve agora receber castigo; o Senhor mesmo derrubará seus altares, destruirá os seus simulacros. Samaria está liquidada, seu rei vai flutuando como palha em cima da água”.

As imagens da dor vivida pelo profeta Oséias por causa do adultério de sua esposa são insuficientes para descrever o drama do afastamento de Israel de Deus: “Com o coração dividido, deve agora receber castigo”. O profeta recrimina novamente a idolatria (coração dividido). O pecado mais grave de Israel é ter depositado sua confiança fora de Deus, desprezando o espirito da Aliança. Para expressar a profundidade da relação com Deus os profetas empregam o verbo “crer”. O homem da Aliança é, por definição “buscador de Deus”, mendigo da luz que possibilita caminhar ate as fronteiras da terra prometida.

O povo adora ídolos e se esquece do verdadeiro Deus. A idolatria ou traição é fruto de coração dividido, não consagrado ao Deus único que exige coração íntegro (cf. Os 10,2). Um coração dividido possibilita todo tipo de traição. E todo tipo de traição abre espaço para todo tipo de mentira. Onde houve a mentira, não haverá espaço para a mutua confiança que resulta na mútua acusação.

O castigo, baseado no amor e na verdade, exige a destruição do objeto de divisão dos altares e das imagens e momentos idolátricos para voltar a ser feliz de verdade tendo o coração íntegro. Pelo sentido da palavra, feliz é aquele que é capaz de produzir frutos bons na vida para si e para os convívios. Produção de bons frutos abundantemente ou suficientemente sempre causa contentamento naquele que os produz e naqueles que vao saborear esses frutos. Isso se chama felicidade. Em outras palavras, o único remédio é que Israel volte a praticar justiça e se converta a Deus, “seu esposo”: Semeai justiça entre vós, e colhereis amor. É tempo de procurar o Senhor, até que ele venha e derrame a justiça em vós”. E que Israel reconheça sua culpa: “... então se dirá aos montes: ´Cobri-nos!´ e às colinas: ´Caí sobre nós!’”. São palavras que Jesus repetirá em Lc 23,30.

Como aconteceu com Israel, na nossa vida há também nossas condutas duvidosas, coração dividido ou duplo jogo em nosso estilo de vida em nome de interesses, prazeres ou “ própria segurança” sacrificando o verdadeiro que nos traz felicidade perene. Na nossa vida também há momentos em que nos deixamos levar pelo egoísmo ou ambição que sufoca e mata a fraternidade, a justiça, a igualdade e a convivência fraterna que nos deixa isolados dos demais, atitude que acaba nos matando. O egoísmo é um suicídio silencioso.

O convite do profeta Oseias para voltar a Deus é sempre atual para todos nós de qualquer idade: “Semeai justiça entre vós, e colhereis amor. É tempo de procurar o Senhor, até que ele venha e derrame a justiça em vós”.  Quem não admite qualquer dependência de Deus, fica sem a alma magnânima em que o agradecimento e a gratidão fazem parte de uma vida saudável e humana e fraterna. O orgulhoso/arrogante abandona o sentimento religioso. Sentimento religioso se baseia no reconhecimento de que fomos criados (somos criaturas e não Criadores) e de que existe um Deus que cria tudo e cuida de tudo na sua infinita providência. Ontem Oseias dizia: “Quem semeia ventos, acolhe tempestades”. Hoje Oseias nos convida a semear justiça para acolher amor e misericórdia.

A partir da primeira Leitura de hoje vamos fazer o exame de consciência se nós também criamos ídolos para abandonar o Deus verdadeiro, se levantarmos altares para os deuses falsos, se temos um coração dividido como Israel. Ou seja, se decidimos seguir a Jesus com coração íntegro, mas na realidade fazemos mais caso a este mundo e seus critérios de vida, então estamos caminhando para o desmoronamento interior. E a destruição vai progressivamente do interior para o exterior de nossa vida.

É impossível viver sem se comprometer. A autenticidade de seu compromisso com o seu Deus se mede pela sua atitude para com os homens. Na vida não se pode ser neutro e permanecer à margem; ou você  se compromete com o bem ou acaba comprometido com o mal” (René Juan Trossero, psicólogo e escritor argentino).

Todos Nós Somos Missionários Da Misericórdia

Terminada a série de milagres narrados depois do Sermão da Montanha, entramos agora no segundo dos cinco grandes discursos de Jesus no evangelho de Mateus chamado o Discurso missionário que abrange Mt 9,36-11,1.

Há cinco grande discurso de Jesus no evangelho de Mateus:

·      Mt 5,1-7,28: Sermão da Montanha;

·      Mt 9,36-11,1: Discurso missionário;

·      Mt 13,1-52: Discurso sobre o Reino em parábolas;

·      Mt 18,1-35: Discurso sobre a vida comunitária/Igreja;

·      Mt 24,1-25,46: Discurso sobre o Julgamento final/ a Vinda do Filho do Homem.

Notemos que a missão em Mt não se limita apenas aos doze, mas para todos aqueles que queriam seguir a Jesus. Por isso, neste discurso sobre a missão não se fala nem da partida dos doze (Mc 6,12-13; Lc 9,6) nem do seu regresso (Mc 6,30; Lc 9,10). O discurso sobre a missão não é endereçado para a multidão e sim para os discípulos que serão enviados. Podemos dizer que este discurso serve como um tipo de “manual” para os seguidores de Jesus na tarefa de exercer a missão neste mundo. Todos os batizados são missionários. Cada batizado é discípulo-missionário.

O texto do evangelho de hoje nos fala da constituição dos Doze Apóstolos. Doze tribos. Doze Apóstolos. Doze colunas da Igreja. O doze simboliza a unidade e a totalidade do povo eleito. Em Mateus o número Doze é símbolo da comunidade cristã em sua totalidade, considerada como o novo Israel. Em Mt 28,16, em vez dos “Doze” aparecem “Os Onze discípulos. O Onze representa esta comunidade com exclusão do antigo Israel (Judas) que rejetou o Messias. Os Doze são os Apóstolos e discípulos do Senhor, as testemunhas de Sua vida, iluminados com sua mensagem. Sua missão será propagar a Boa Nova de Cristo, revelar o rosto de Deus, Pai misericordioso e que os homens devem viver na fidelidade ao Senhor. A missão se baseia sobre a compaixão: Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor (Mt 9,36). É uma da razões pelas quais Jesus escolheu os Doze para acompanhar de perto a vida e a missão atividade de Jesus.

É interessante observar que Jesus não buscou primeiro reunir pessoas ilustres, e sim pessoas disponíveis, capazes de segui-Lo até o fim. São aqueles que darão sua vida por Ele. Os doze foram chamados/escolhidos (Mt 10,1) para ser enviados (Mt 10,5). Precisamente, “apóstolos” significa “enviados, mandados”. A vocação e a missão estão sempre juntas.  A vocação de ser filho realiza-se, na verdade, na missão para com os irmãos, especialmente irmãos necessitados: “Ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel!”. Os apóstolos foram as primeiras testemunhas de Jesus, dos quais estiveram com o Mestre desde o “batismo de João até o dia em que subiu ao céu” (At 1,22); são o “fundamento” de nossa fé (cf. Ef 2,20). Jesus chama para si operários que continuarão a fazer e a dizer tudo o que Ele, antes deles,fez e disse. Nasce a Igreja, que tem nos Doze a raiz; essa Igreja é apostólica, não somente porque é fundada sobre os apóstolos, ms porque é feita de apóstolos, de filhos enviados aos irmãos, especialmente aos irmãos necessitados.

Por outro lado, tanto a chamada (vocação) quanto a missão são comunitárias: Os Doze representam as doze tribos de Israel, são nomeados em duplas e serão mandados dois a dois (Mc 6,7). A comunidade é ponto de partida e de chegada da missão: realiza-se na fraternidade. Somente quem é irmão, é filho (de Deus), e somente quem é filho, se faz irmão dos outros.

Os Doze são enviados a levar às doze tribos a Palavra do Filho: “Ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel! ”. Mas depois dessa primeira etapa da missão os Doze serão enviados a todos os povos: “Ide, pois, e fazei discípulos todos os povos...” (Mt 28,19)

O papel essencial dos escolhidos é expulsar os “espíritos imundos” e “curar os homens” de seus males. Em outras palavras são enviados para fazer o bem e destruir o mal. São chamados para ser parceiros do bem e enviados em busca de outros parceiros do bem para que o bem avance. É para ajudar os que estão abandonados para serem parceiros também do bem. É compadecer-se com eles. Todos são chamados a tirar o bem que tem dentro de cada um para partilhá-lo com os outros homens para que o homem prossiga na paz e no desenvolvimento em todos os aspectos de sua vida.               

Judas Iscariotes faz parte de seu grupo. Ele também foi enviado para a missão, uma grande missão. Jesus tomou esse risco ao confiar a responsabilidade de sua obra para pobres humanos. dentro do homem há possibilidade para o bem ou para o mal. Por isso, há que rezar sempre por aqueles que têm responsabilidade na Igreja. Cada um de nós também tem uma missão, cada um é responsável, em uma parte da obra de salvação de Jesus. Mas cada batizado tem que ter seus momentos para para fazer um autoexame a fim de descobrir mais cedo as tendências negativas que causam a destruição da própria pessoa e da convivência, especialmente da obra salvífica do Senhor. 

Jesus é muito consciente da amplitude de sua obra. É necessário ter muito tempo. Sem pressa Jesus limita a missão no momento só dentro do território de Israel. Ele mesmo, durante sua vida terrena, se limitou ao que podia fazer: dirigir-se às ovelhas agarradas da casa de Israel. Mais tarde ele enviaria os discípulos pelo mundo inteiro (Mt 28,18-20). Em outras palavras, é preciso arrumar primeiro a casa. É preciso evangelizar os que estão dentro de casa para depois evangelizar os que estão fora dela que nem sempre é fácil. É o desafio de cada missionário-evangelizador.

A constituição do Novo Israel (12 apóstolos) tem uma dupla finalidade: “estar com Jesus” e “ser enviados a proclamar o Reino de Deus”. O envio é o objetivo principal da constituição dos Doze. Jesus assinala a seus discípulos sua tarefa no mundo dando-lhes seu próprio poder, poder que se estende ao anúncio da proximidade do Reino e a cura de toda enfermidade. Suas palavras ficam confirmadas com uma atividade libertadora que se expressa como “expulsar espíritos imundos”.

Para os discípulos eleitos, Jesus os chama “apóstolos”, ou seja, “enviados”. Sua missão vai ser antes de tudo: “Ide! Em vosso caminho, anunciai: ‘O Reino dos Céus está próximo”. Mas este anúncio deve ir acompanhado de fatos: “ expulsar espíritos imundos, curar toda enfermidade”. A oferta da salvação é dada, em primeiro lugar, para Israel. ao final do Evangelho de Mateus, o Senhor dará a ordem: “Ide e fazei discípulos todas as nações!”.                 

Ao enviá-los Jesus dá-lhes o poder. Mas este poder deve ser entendido como um dom de autoridade (latim: autoridade: augere =crescer. Somente tem autoridade aquele que é capaz de fazer o outro crescer). E a autoridade tem as seguintes características: 1). Está orientado por inteiro ao ministério apostólico, ou para o serviço do bem e não para dominar ou mandar e desmandar: expulsar o mal, fazer o bem, pregar o Reino. É um dom completamente missionário. Por isso, não se trata de nenhum poder de direção ou de governo. 2). É uma autoridade conferida, mas não abandonada por Jesus a seus discípulos. 3). Jesus reconhece que haverá oposição por causa de interesses. A autoridade dada aos Doze é a própria autoridade de Jesus, isto é, aquela que vence o mal com o bem. É a autoridade somente para fazer o bem. Se assim for, não haverá o abuso do poder. A verdade e o amor vencerão a mentira (o demônio é pai da mentira: Jo 8,44) e o egoísmo, pois todos viverão no amor fraterno.                 

Nem todos são sucessores dos apóstolos, mas todos são seguidores de Jesus e por isso, devem continuar, cada um em seu ambiente, a missão que cada um recebeu no batismo. Todos nós formamos a Igreja “apostólica” e “missionária”. Por isso, não vamos à missa para ir à missa. Que a missa é, de uma parte, a expressão de nossa fé, de nossa esperança e de nossa caridade. Mas de outra parte, a missa é sempre um imperativo, uma exigência para fazer operativa nossa fé, nossa esperança e nossa caridade. Por isso, quando finaliza a missa, começa a realidade na vida; quando termina a celebração eucarística ou qualquer reunião eclesial, deve começar nosso compromisso cristão; quando termina a missa, deve começar a missão. Se não a missa careceria de sentido.   

Somos chamados por Jesus Cristo para estar com ele a fim de aprendermos a ser parceiros do bem. Somos enviados depois do encontro com ele para fazer o bem e em busca dos novos parceiros do bem. A alma da missão é caridade. A única coisa que nos faz bem é fazer o bem. A vida não é uma luta para superar os outros, mas uma missão a ser exercida para dar o melhor de nós para a humanidade conforme os talentos recebidos de Deus. Estamos aqui neste mundo com um objetivo único, com um objetivo nobre que nos permitirá manifestar nosso mais alto potencial enquanto, ao mesmo tempo, acrescentamos valor às vidas das pessoas que estão a nossa volta. Descobrir a própria missão significa trazer mais de você mesmo para o trabalho, para a convivência e concentrar-se nas coisas que você sabe fazer melhor e dar sempre o melhor de você para os outros sem esperar nada em troca.  

Todos os dias Jesus nos chama. Toda chamada é um convite. E isso implica uma certa iniciativa e interesse por parte de que o realiza. Na passagem dos discípulos de Emaús, vemos como Jesus caminhava junto a eles, mesmo assim não eram capazes de reconhecer a presença do Senhor. quantas vezes, Jesus caminha conosco e não somos capazes de descobri-Lo. E Ele que toma a iniciativa, convida e chama. Ele sai ao nosso encontro para conversar conosco e nos convidar. Quando Jesus elegeu os Doze, em cada um deles, estávamos representados como cristãos. Diz o evangelho que os chamou por seu nome. 

Cada dia Jesus nos chama por nosso nome. Jesus o faz através de múltiplas maneiras: algum sacramento, o testemunho de tantas pessoas, os eventos/acontecimentos da vida cotidiana. O mundo necessita da luz do cristianismo e de cada cristão, reflexo de Cristo. Quanto paz, alegria, amor e vida se reflete em quem contempla Deus. Quando Jesus disse aos Doze: “Ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel! Em vosso caminho, anunciai: ‘O Reino dos Céus está próximo’”, Ele nos convida a nos concentrarmos mais nos necessitados, nas almas atribuladas pelo pecado. Por isso, nossa mensagem deve ser uma mensagem de salvação; é uma mensagem de confiança, de esperança e de alegria; é uma mensagem transformadora; é uma mensagem capaz de tocar até o fundo do coração; é uma mensagem que interpela. Uma mensagem capaz de levantar as pessoas de suas quedas para seguir adiante com o Senhor rumo a uma vida glorificada. Sejamos apóstolos da esperança e da felicidade. Não caiamos na tentação de ser pregadores da desgraça. Deus se encarnou e transformou nosso tempo em tempo da graça e nossa vida vida em oportunidade para a salvação. Deus se fez homem para nos tornar divinos. Cada ato de caridade, de bondade, de solidariedade, de compaixão é um ato divino que se torna uma ordem para cada cristão e para cada pessoa de boa vontade: Ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel! Em vosso caminho, anunciai: ‘O Reino dos Céus está próximo”. É uma chamada para sair de nosso cantinho de sossego ao encontro de um irmão necessitado. Não esqueçamos a seguinte frase do Papa Francisco: O grande risco do mundo atual, com sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada. Quando a vida interior se fecha nos próprios interesses, deixa de haver espaço para os outros, já não entram os pobres, já não se ouve a voz de Deus, já não se goza da doce alegria do seu amor, nem fervilha o entusiasmo de fazer o bem. Este é um risco, certo e permanente, que correm também os crentes. Muitos caem nele, transformando-se em pessoas ressentidas, queixosas, sem vida. Esta não é a escolha duma vida digna e plena, este não é o desígnio que Deus tem para nós, esta não é a vida no Espírito que jorra do coração de Cristo ressuscitado”. (Evangelii Gaudium, n.2).

P. Vitus Gustama, SVD

Terça-feira Da XIV Semana Comum, Ano Par, 07/07/2026

SOMOS PROLONGAMENTO DO AMOR MISERICORDIOS DE DEUS


Terça-Feira da XIV Semana Comum

Primeira Leitura: Os 8,4-7.11- 13

Assim fala o Senhor: 4 Eles constituíram reis sem minha vontade; constituíram príncipes sem meu consentimento; sua prata e seu ouro serviram para fazer ídolos e para sua perdição. 5 Teu bezerro, ó Samaria, foi jogado ao chão; minha cólera inflamou-se contra eles. Até quando ficarão sem purificar-se? 6 Esse bezerro provém de Israel; um artesão fabricou-o, isso não é um Deus; será feito em pedaços esse bezerro da Samaria. 7 Semeiam ventos, colherão tempestades; se não há espiga, o grão não dará farinha; e, mesmo que dê, estranhos a comerão. 11 Efraim ergueu muitos altares em expiação do pecado, mas seus altares resultaram-lhe em pecado. 12 Eu lhes deixei, por escrito, grande número de preceitos, mas estes foram considerados coisa que não lhes toca. 13 Gostam de oferecer sacrifícios, imolam carnes e comem; mas o Senhor não os recebe. Antes, o Senhor lembra seus pecados e castiga suas culpas: eles deverão voltar para o Egito.

Evangelho: Mt 9,32-38

Naquele tempo, 32 apresentaram a Jesus um homem mudo, que estava possuído pelo demônio. 33 Quando o demônio foi expulso, o mudo começou a falar. As multidões ficaram admiradas e diziam: “Nunca se viu coisa igual em Israel”. 34 Os fariseus, porém, diziam: “É pelo chefe dos demônios que ele expulsa os demônios”. 35 Jesus percorria todas as cidades e povoados, ensinando em suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino, e curando todo o tipo de doença e enfermidade. 36 Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor. Então disse a seus discípulos: 37 “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. 38 Pedi pois ao dono da messe que envie trabalhadores para a sua colheita!”

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Para Viver Feliz e Com Sentido É Preciso Voltar a Adorar o Verdadeiro Deus

 

No texto da Primeira Leitura de hoje, o profeta Oséias interpreta o sentido teológico dos grandes acontecimentos que afetam interna e externamente a vida do pequeno reino de Israel. Suas palavras explicam a iminente chegada do exército do rei assírio, Tiglat-Píleser III (subiu ao trono em 745 a.C), excelente militar, e é desejoso de ampliar seu império, e que vai exigir de Israel o pagamento de imposto anual.

 

Para o profeta Oséias tudo isso é o fruto do pecado da idolatria, tanto religiosa (cultual) como política, do povo de Israel. Israel busca sua segurança e seu apoio fora de Deus: no Egito, lugar de sua escravidão. E a idolatria religiosa/cultual (adoração a Baal) é praticada pelo povo de Israel. Segundo Oséias o castigo é apresentado como consequência natural do pecado e não como resultado de um juízo externo e arbitrário. Israel recusa o Senhor porque recusa o bem (Os 8,2). Para Oséias, o culto se torna vão se não é acompanhado pela prática do bem. As discrepâncias entre o culto e a moral/ética são provocativas:Efraim ergueu muitos altares em expiação do pecado, mas seus altares resultaram-lhe em pecado. Gostam de oferecer sacrifícios, imolam carnes e comem; mas o Senhor não os recebe” (Os 8,11.13). É a mesma denúncia de Jesus na conclusão do Sermão da Montanha: “Nem todo o que diz: ‘Senhor, Senhor!, entrará no Reino dos céus, e sim o que faz a vontade de meu Pai que está nos céus” (Mt 7,21). Mas o Deus de ira que Oseias apresenta é também um Deus de amor e de misericórdia, que trata a seu povo como o pai trata a seu filhinho: “Não darei curso ao ardor de minha cólera, já não destruirei Efraim, porque sou Deus e não um homem, sou o Santo no meio de ti, e não gosto de destruir" (Os 11,9).

 

Quando falamos de idolatria, espontaneamente se pensa em algumas estatuetas de madeira, barro ou pedra, às quais os idólatras adoram, apesar de saberem que não são deuses, mas são feitas por suas próprias mãos. Mas, na verdade, todos somos idólatras quando erguemos altares e prestamos atenção aos deuses que criamos para nós mesmos. Não serão estatuetas, mas serão dinheiro, poder, prazer, o êxito, uma ideologia ... Somos idólatras quando damos aos valores secundários a importância que somente merecem os últimos lugares na nossa vida e então, falta-nos o primeiro e principal mandamento: "Você não terá outro deus além de Mim", diz o Senhor.

 

Quem semeia ventos, colhe tempestades, a curto ou longo prazo. O Salmo Responsorial (Sl 113B), não sem ironia, descreve esta falha básica: "São os deuses pagãos ouro e prata, todos eles são obras humanas. Têm boca e não podem falar, têm olhos e não podem ver; têm nariz e não podem cheirar, tendo ouvidos, não podem ouvir. Têm mãos e não podem pegar, têm pés e não podem andar. Como eles serão seus autores, que os fabricam e neles confiam”. Eles são ídolos que são inúteis e, no entanto, existem pessoas que continuam a adorá-los e a confiar neles.

 

Assim fala o Senhor: Eles constituíram reis sem minha vontade; constituíram príncipes sem meu consentimento... “. Os reis não são mais por dinastia e sim por assassinatos.

 

O profeta Oseias nos propõe uma série de perguntas que nos ajudam a olharmos para nossa realidade atual. Quem detecta a autoridade em nosso povo? Temos eleito os poderes da sociedade pensando em suas capacidades para governar nosso povo segundo o plano de Deus ou segundo o plano ético? O que prevalece na nossa Igreja de hoje, autoridades que se preocupam pelos pobres, pelos que sofrem, seguindo a opção de Deus e de Jesus Cristo, ou poderíamos dizer que foram eleitas sem contar com o Senhor? Em que se utiliza o dinheiro, em construir novos altares, em fabricar novos ídolos? Nós nos apoiamos nas coisas que fabricamos ou no Senhor? Estas e muitas perguntas que nos propõe o texto de Oseias que lemos hoje servem para nos ajudar a esclarecer se rompemos a aliança com Deus ou se permanecemos nela.

 

Sua prata e seu ouro serviram para fazer ídolos e para sua perdição... Até quando ficarão sem purificar-se?”, assim continua a denúncia de Oseias.

 

O povo de Isarel, apesar de todas as manifestações de amor que recebeu de Deus, rompeu sua aliança. O povo se torna idólatra. Com sua prata e seu ouro, eles se tornaram ídolos para sua destruição. O profeta Oseias considera que os valores do povo estão se perdendo e Deus perde também seu lugar no povo.

 

Gostam de oferecer sacrifícios, imolam carnes e comem; mas o Senhor não os recebe”. Este é o problema de um culto que não transcende na vida, uma religiosidade popular vazia de conteúdo. Os altares se tornam um lugar para pecar, porque em seus cultos o povo está traindo seu Deus. uma fé que não se traduz na prática da justiça e da caridade fraterna. Trata-se de um culto alienado de uma vida ética e de uma caridade fraterna.

 

O profeta fala em nome de Deus para condenar a contaminação da religião autêntica pela idolatria e pelos demais pecados sociais. O estrito monoteísmo pouco a pouco vai se misturando com as práticas pagãs. Pelo fato de viver entre populações cananeias os hebreus consentem no que vão introduzindo elementos do culto de Baal.

 

O profeta Oseias enumera alguns dos grandes pecados de Israel em sua infidelidade à Aliança com Deus: não contam com Deus; não pedem conselho; constroem-se ídolos, touros e bezerros como no tempo de Jeroboão, para adorá-los em vez de adorar ao verdadeiro Deus; decadência moral (“prostituição sagrada”).

 

Por isso, o profeta Oseias anuncia o castigo: “Semeiam ventos, colherão tempestades... Efraim ergueu muitos altares em expiação do pecado, mas seus altares resultaram-lhe em pecado”.

 

Baal era um deus da fecundidade da natureza simbolizado por um touro. Em sua honra tinham lugar frenéticos de ritos sexuais (a “prostituição sagrada”). Essas concepções religiosas naturalistas eram, por desgraça, muito populares porque davam a impressão de ser uma súplica ao deus da fecundidade para obter abundantes colheitas e rebanhos saudáveis assim como o nascimento de muitos filhos nas famílias como sinal da benção de Deus. Com efeito, a esterilidade era sinal da maldição de Deus pelos supostos pecados cometidos. Os sacerdotes de Javé, do Deus verdadeiro e único, estavam tentados de consentir essas práticas, explorando assim as tendências populares mais elementares.

 

Confiar no “Baal” ou no “bezerro de ouro” é fiar-se em ídolos que “têm boca e não falam, têm olhos e não veem” (Sl 115). Na verdade, a atitude de fundo não é de fé, uma vez que só são dignas de fé as pessoas e um Deus pessoal. Ou melhor dizer que é uma atitude de busca de segurança para a qual seria preciso “manipular” o deus correspondente, neste caso, o deus da fertilidade, para que lhes mandasse a chuva ou protegesse suas colheitas e seus rebanhos, a atitude que reflete uma relação com Deus de tipo mercantil: “dou-te para que me dês, dá-me para que eu creia”.

 

Como na época do profeta Oseias, um dos problemas de nosso tempo é a contaminação da fé autêntica pelo materialismo: o ouro, a prata, a sexualidade, que são ídolos também em nosso tempo; são ídolos ilusórios  incapazes de satisfazer a fome profunda do homem e no homem. Quem sabe se nossa sociedade de “consumismo” que é também uma sociedade de “prazer” não contém em seu seio sua própria destruição. As pessoas carentes de todo ideal nobre e profundo vão se destruindo aos poucos para desaparecer um dia sem deixar nada de bom que possa se perpetuar nos que ficam.

 

Viver De Acordo Com A Palavra de Deus

 

1. Palavra Na Nossa Vida Cotidiana

 

A primeira parte do evangelho de hoje fala da cura de um mudo que logo em seguida ele começou a falar.

 

Deus criou o homem dotado de fala. A palavra é um dos grandes meios de comunicar-se com os irmãos. A palavra é um dos meios que nos vincula aos outros. A palavra pontua nossa vida cotidiana. A palavra é também algo que nos liga a nós mesmos. Quantas vezes, ao acordar de manhã ou em determinadas situações na nossa vida cotidiana, nós falamos a nós mesmos, pelo menos mentalmente. A palavra nos acompanha quase o tempo todo, até mesmo, paradoxalmente, o silêncio, que se tornou tão raro no mundo moderno, tem significado por causa dela. Há profissões que usam menos palavra. Mas há também profissões que trabalham com palavra e dependem da palavra para transmitir sua mensagem ou seu ponto de vista sobre algo na vida ou na sociedade. A palavra está no âmago de nossa vida pessoal, familiar, social e profissional. Já imaginou se você pudesse contar quantas palavras ditas diariamente por você? Creio que você mesmo ficaria assustado ou admirado por tantas palavras ditas em vão, ao mesmo tempo por tantas palavras que saíram de sua boca que ajudaram tantas pessoas por terem sido boas! Milhares e milhares de pessoas mudaram de qualidade de vida por causa da palavra ouvida de outras pessoas ou lida em um bom livro. Cada palavra representa uma realidade ou um mundo contido nela. Você já pensou quantos mundos contidos numa frase que pronunciamos ou escrevemos? Mas será que cada frase pronunciada ou escrita representa mesmo a realidade ou inventamos frases e frases para enganar os outros? Será que em cada frase contém a verdade? Será que levamos em conta a caridade e a fraternidade ao soltar/pronunciar ou ao escrever alguma frase?

 

A reação negativa dos fariseus é amarga: “É pelo chefe dos demônios que ele expulsa os demônios”. São pessoas incapazes de sair de seus esquemas mentais. Tradicionalistas e legalistas, os fariseus não conseguem ver em Jesus a revelação da bondade e misericórdia de Deus. Para os fariseus, Jesus não pode vir de Deus porque sua forma de atuar choca com as tradições sãs e com o conhecimento de Deus que é, para eles, o único verdadeiro.  Por isso, o poder extraordinário de Jesus pode ser concebido como algo diabólico para os fariseus. Mas diante da crítica dos fariseus Jesus não reage. Simplesmente Jesus continua fazendo bem para as pessoas ao seu redor que estão em necessidade (cf. At 10,38).  Criticar quem faz o bem e pratica a bondade é negar a Deus da bondade.

 

2. Cada Batizado Deve Ser Prolongamento da Palavra de Deus Encarnada

 

Deus quer que o homem se comunique. Se alguém não se comunicar, se está sempre quieto ou mudo, é sinal de que alguma coisa está errada nele fisicamente, ou psiquicamente ou espiritualmente. A fala é dom de Deus, tanto que São João, no Prólogo de seu evangelho dá um título muito significativo a Jesus: Palavra ou Verbo (Jo 1,1-14). Jesus é a Palavra de Deus para nós; é a comunicação de Deus para nós. Através de Jesus é que Deus fala conosco: “O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14).  O próprio Pedro, no seu discurso no livro dos Atos dos Apóstolos, nos disse: “Deus enviou a sua palavra aos filhos de Israel, anunciando-lhes a boa nova da paz, por meio de Jesus Cristo. Este é o Senhor de todos” (At 10,36). Como é que opera a Palavra de Deus na vida do homem? O autor da Carta aos Hebreus responde: “A palavra de Deus é viva, eficaz, mais penetrante do que uma espada de dois gumes e atinge até a divisão da alma e do corpo, das juntas e medulas, e discerne os pensamentos e intenções do coração. Nenhuma criatura lhe é invisível. Tudo é nu e descoberto aos olhos daquele a quem havemos de prestar contas” (Hb 4,12-13).  Mas nem a boca santa de Jesus que emite a Palavra de Deus terá qualquer efeito na nossa vida, se nós estivermos surdos a ela.

 

É bom notar que seremos também julgados pelas palavras que dizemos ou pronunciamos sobre os outros, além dos atos que praticamos. O livro de Provérbio nos alerta: “Nas muitas palavras não falta ofensas; quem retém os lábios é prudente” (Pr 10,19). “A boca dos justos é fonte de vida, mas a boca dos ímpios encobre violência” (Pr 10,11). Da mesma forma são Tiago nos diz: “Aquele que não peca no falar é realmente um homem perfeito, capaz de frear todo o seu corpo” (Tg 3,2b). Que nossas palavras não ultrapassem nossos atos para não sermos chamados de mentirosos ou falsos. Por isso, São Tiago nos alerta: “Tornai-vos praticantes da Palavra(de Deus) e não simples ouvintes, enganando-vos a vós mesmos” (Tg 1,22).

 

A cura do mudo no texto do evangelho de hoje se refere àquele que não quer escutar a voz de Deus, que não quer seguir Seu projeto porque há outras coisas que o ensurdecem. Biblicamente o surdo-mudo (o termo grego “kôphos” significa surdo, mudo e surdo-mudo) é aquele que perde o contato com sua própria realidade de filho de Deus. Ele vive paralisado porque está privado da comunicação com o único que o faz livre: Deus (através de Sua Palavra).

 

A Igreja, isto é, todo batizado, é responsável pelo Evangelho de Jesus no mundo (cf. Mt 28,18-20). O anúncio da Palavra de Deus define sua missão no mundo. Todos os batizados hão de realizar sua vida na fidelidade à Palavra de Deus. Todos os batizados devem construir a casa de sua vida sobre a Palavra de Deus para que ela seja firme como construir uma casa sobre a rocha (cf. Mt 7,24-25). Cada batizado deve ser pessoa da palavra de Deus, isto é, sua palavra deve ser palavra que edifica e leva os outros para Deus. Cada batizado deve ser encarnação da Palavra de Deus.

 

3. Até Para Fazer o Bem Encontramos Dificuldades

 

Jesus veio ao mundo unicamente para fazer o bem, como pregou o Apóstolo Pedro: “Vós sabeis como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com o poder, como ele andou fazendo o bem e curando todos os oprimidos do demônio, porque Deus estava com ele” (At 10,38). Mas sabemos muito bem que até para fazer o bem encontramos dificuldades e críticas como aconteceu com Jesus no texto do evangelho de hoje. Jesus libertou um surdo de sua mudez e começou a falar. Jesus foi criticado por causa disso: “Os fariseus, porém, diziam: É pelo príncipe dos demônios que ele expulsa os demônios” (Mt 9,34). Mas “a acusação teológica (dos fariseus) não é mais que um pretexto que apenas dissimula sua sede de autoridade sobre o povo”, comentou P. Bonnard. Atrás de uma acusação ou crítica há interesse. Mas a questão é esta: que tipo de interesse?

 

4. Ser Compassivo Como Cristo

 

A segunda parte do texto do evangelho de hoje (Mt 9,35-38), na verdade, é uma introdução para o discurso de Jesus sobre a missão  (Mt 9,35-10,16).

 

Esta segunda parte fala da compaixão de Jesus pela multidão: “Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas...”. Jesus sempre se compadece pelos que sofrem como o mudo no evangelho de hoje. A compaixão é uma das características de Deus.

 

Uma verdadeira compaixão não olha o necessitado de cima para baixo (sentimento de superioridade), mas é capaz de padecer-com, sentir-com para daí atuar. Cada compaixão sempre tem a ver com o deixar aproximar-se, prestar atenção, sentar-se à mesma mesa, chamar pelo nome, perceber a necessidade, oferecer a ajuda. A compaixão é comover-se até as entranhas, solidarizar-se profundamente, sentir-se a partir de outrem; é sofrer com (Latim: pati + cum, compaixão = sofrer com). A compaixão requer que estejamos com as pessoas que sofrem e dispostos a partilhar nosso tempo com elas. É estar no lugar do outro para sentirmos o que ele sente e ajudar no que puder dentro do limite da capacidade. Por isso, pode-se dizer que a verdadeira compaixão é muito humana e divina simultaneamente. Quando compartilhamos nosso coração e tempo com uma pessoa que sofre, uma parte do sofrimento dela será aliviada. Vamos deixar o resto com Deus desde que façamos nossa parte até o limite de nossa capacidade. Somos seguidores do Deus da Compaixão que se tornou carne em Jesus Cristo. A compaixão deve se tornar carne também em nós.

 

P. Vitus Gustama,svd

Quinta-feira Da XIV Semana Comum, Ano Par, 09/07/2026

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