segunda-feira, 6 de julho de 2026

Terça-feira Da XIV Semana Comum, Ano Par, 07/07/2026

SOMOS PROLONGAMENTO DO AMOR MISERICORDIOS DE DEUS


Terça-Feira da XIV Semana Comum

Primeira Leitura: Os 8,4-7.11- 13

Assim fala o Senhor: 4 Eles constituíram reis sem minha vontade; constituíram príncipes sem meu consentimento; sua prata e seu ouro serviram para fazer ídolos e para sua perdição. 5 Teu bezerro, ó Samaria, foi jogado ao chão; minha cólera inflamou-se contra eles. Até quando ficarão sem purificar-se? 6 Esse bezerro provém de Israel; um artesão fabricou-o, isso não é um Deus; será feito em pedaços esse bezerro da Samaria. 7 Semeiam ventos, colherão tempestades; se não há espiga, o grão não dará farinha; e, mesmo que dê, estranhos a comerão. 11 Efraim ergueu muitos altares em expiação do pecado, mas seus altares resultaram-lhe em pecado. 12 Eu lhes deixei, por escrito, grande número de preceitos, mas estes foram considerados coisa que não lhes toca. 13 Gostam de oferecer sacrifícios, imolam carnes e comem; mas o Senhor não os recebe. Antes, o Senhor lembra seus pecados e castiga suas culpas: eles deverão voltar para o Egito.

Evangelho: Mt 9,32-38

Naquele tempo, 32 apresentaram a Jesus um homem mudo, que estava possuído pelo demônio. 33 Quando o demônio foi expulso, o mudo começou a falar. As multidões ficaram admiradas e diziam: “Nunca se viu coisa igual em Israel”. 34 Os fariseus, porém, diziam: “É pelo chefe dos demônios que ele expulsa os demônios”. 35 Jesus percorria todas as cidades e povoados, ensinando em suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino, e curando todo o tipo de doença e enfermidade. 36 Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor. Então disse a seus discípulos: 37 “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. 38 Pedi pois ao dono da messe que envie trabalhadores para a sua colheita!”

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Para Viver Feliz e Com Sentido É Preciso Voltar a Adorar o Verdadeiro Deus

 

No texto da Primeira Leitura de hoje, o profeta Oséias interpreta o sentido teológico dos grandes acontecimentos que afetam interna e externamente a vida do pequeno reino de Israel. Suas palavras explicam a iminente chegada do exército do rei assírio, Tiglat-Píleser III (subiu ao trono em 745 a.C), excelente militar, e é desejoso de ampliar seu império, e que vai exigir de Israel o pagamento de imposto anual.

 

Para o profeta Oséias tudo isso é o fruto do pecado da idolatria, tanto religiosa (cultual) como política, do povo de Israel. Israel busca sua segurança e seu apoio fora de Deus: no Egito, lugar de sua escravidão. E a idolatria religiosa/cultual (adoração a Baal) é praticada pelo povo de Israel. Segundo Oséias o castigo é apresentado como consequência natural do pecado e não como resultado de um juízo externo e arbitrário. Israel recusa o Senhor porque recusa o bem (Os 8,2). Para Oséias, o culto se torna vão se não é acompanhado pela prática do bem. As discrepâncias entre o culto e a moral/ética são provocativas:Efraim ergueu muitos altares em expiação do pecado, mas seus altares resultaram-lhe em pecado. Gostam de oferecer sacrifícios, imolam carnes e comem; mas o Senhor não os recebe” (Os 8,11.13). É a mesma denúncia de Jesus na conclusão do Sermão da Montanha: “Nem todo o que diz: ‘Senhor, Senhor!, entrará no Reino dos céus, e sim o que faz a vontade de meu Pai que está nos céus” (Mt 7,21). Mas o Deus de ira que Oseias apresenta é também um Deus de amor e de misericórdia, que trata a seu povo como o pai trata a seu filhinho: “Não darei curso ao ardor de minha cólera, já não destruirei Efraim, porque sou Deus e não um homem, sou o Santo no meio de ti, e não gosto de destruir" (Os 11,9).

 

Quando falamos de idolatria, espontaneamente se pensa em algumas estatuetas de madeira, barro ou pedra, às quais os idólatras adoram, apesar de saberem que não são deuses, mas são feitas por suas próprias mãos. Mas, na verdade, todos somos idólatras quando erguemos altares e prestamos atenção aos deuses que criamos para nós mesmos. Não serão estatuetas, mas serão dinheiro, poder, prazer, o êxito, uma ideologia ... Somos idólatras quando damos aos valores secundários a importância que somente merecem os últimos lugares na nossa vida e então, falta-nos o primeiro e principal mandamento: "Você não terá outro deus além de Mim", diz o Senhor.

 

Quem semeia ventos, colhe tempestades, a curto ou longo prazo. O Salmo Responsorial (Sl 113B), não sem ironia, descreve esta falha básica: "São os deuses pagãos ouro e prata, todos eles são obras humanas. Têm boca e não podem falar, têm olhos e não podem ver; têm nariz e não podem cheirar, tendo ouvidos, não podem ouvir. Têm mãos e não podem pegar, têm pés e não podem andar. Como eles serão seus autores, que os fabricam e neles confiam”. Eles são ídolos que são inúteis e, no entanto, existem pessoas que continuam a adorá-los e a confiar neles.

 

Assim fala o Senhor: Eles constituíram reis sem minha vontade; constituíram príncipes sem meu consentimento... “. Os reis não são mais por dinastia e sim por assassinatos.

 

O profeta Oseias nos propõe uma série de perguntas que nos ajudam a olharmos para nossa realidade atual. Quem detecta a autoridade em nosso povo? Temos eleito os poderes da sociedade pensando em suas capacidades para governar nosso povo segundo o plano de Deus ou segundo o plano ético? O que prevalece na nossa Igreja de hoje, autoridades que se preocupam pelos pobres, pelos que sofrem, seguindo a opção de Deus e de Jesus Cristo, ou poderíamos dizer que foram eleitas sem contar com o Senhor? Em que se utiliza o dinheiro, em construir novos altares, em fabricar novos ídolos? Nós nos apoiamos nas coisas que fabricamos ou no Senhor? Estas e muitas perguntas que nos propõe o texto de Oseias que lemos hoje servem para nos ajudar a esclarecer se rompemos a aliança com Deus ou se permanecemos nela.

 

Sua prata e seu ouro serviram para fazer ídolos e para sua perdição... Até quando ficarão sem purificar-se?”, assim continua a denúncia de Oseias.

 

O povo de Isarel, apesar de todas as manifestações de amor que recebeu de Deus, rompeu sua aliança. O povo se torna idólatra. Com sua prata e seu ouro, eles se tornaram ídolos para sua destruição. O profeta Oseias considera que os valores do povo estão se perdendo e Deus perde também seu lugar no povo.

 

Gostam de oferecer sacrifícios, imolam carnes e comem; mas o Senhor não os recebe”. Este é o problema de um culto que não transcende na vida, uma religiosidade popular vazia de conteúdo. Os altares se tornam um lugar para pecar, porque em seus cultos o povo está traindo seu Deus. uma fé que não se traduz na prática da justiça e da caridade fraterna. Trata-se de um culto alienado de uma vida ética e de uma caridade fraterna.

 

O profeta fala em nome de Deus para condenar a contaminação da religião autêntica pela idolatria e pelos demais pecados sociais. O estrito monoteísmo pouco a pouco vai se misturando com as práticas pagãs. Pelo fato de viver entre populações cananeias os hebreus consentem no que vão introduzindo elementos do culto de Baal.

 

O profeta Oseias enumera alguns dos grandes pecados de Israel em sua infidelidade à Aliança com Deus: não contam com Deus; não pedem conselho; constroem-se ídolos, touros e bezerros como no tempo de Jeroboão, para adorá-los em vez de adorar ao verdadeiro Deus; decadência moral (“prostituição sagrada”).

 

Por isso, o profeta Oseias anuncia o castigo: “Semeiam ventos, colherão tempestades... Efraim ergueu muitos altares em expiação do pecado, mas seus altares resultaram-lhe em pecado”.

 

Baal era um deus da fecundidade da natureza simbolizado por um touro. Em sua honra tinham lugar frenéticos de ritos sexuais (a “prostituição sagrada”). Essas concepções religiosas naturalistas eram, por desgraça, muito populares porque davam a impressão de ser uma súplica ao deus da fecundidade para obter abundantes colheitas e rebanhos saudáveis assim como o nascimento de muitos filhos nas famílias como sinal da benção de Deus. Com efeito, a esterilidade era sinal da maldição de Deus pelos supostos pecados cometidos. Os sacerdotes de Javé, do Deus verdadeiro e único, estavam tentados de consentir essas práticas, explorando assim as tendências populares mais elementares.

 

Confiar no “Baal” ou no “bezerro de ouro” é fiar-se em ídolos que “têm boca e não falam, têm olhos e não veem” (Sl 115). Na verdade, a atitude de fundo não é de fé, uma vez que só são dignas de fé as pessoas e um Deus pessoal. Ou melhor dizer que é uma atitude de busca de segurança para a qual seria preciso “manipular” o deus correspondente, neste caso, o deus da fertilidade, para que lhes mandasse a chuva ou protegesse suas colheitas e seus rebanhos, a atitude que reflete uma relação com Deus de tipo mercantil: “dou-te para que me dês, dá-me para que eu creia”.

 

Como na época do profeta Oseias, um dos problemas de nosso tempo é a contaminação da fé autêntica pelo materialismo: o ouro, a prata, a sexualidade, que são ídolos também em nosso tempo; são ídolos ilusórios  incapazes de satisfazer a fome profunda do homem e no homem. Quem sabe se nossa sociedade de “consumismo” que é também uma sociedade de “prazer” não contém em seu seio sua própria destruição. As pessoas carentes de todo ideal nobre e profundo vão se destruindo aos poucos para desaparecer um dia sem deixar nada de bom que possa se perpetuar nos que ficam.

 

Viver De Acordo Com A Palavra de Deus

 

1. Palavra Na Nossa Vida Cotidiana

 

A primeira parte do evangelho de hoje fala da cura de um mudo que logo em seguida ele começou a falar.

 

Deus criou o homem dotado de fala. A palavra é um dos grandes meios de comunicar-se com os irmãos. A palavra é um dos meios que nos vincula aos outros. A palavra pontua nossa vida cotidiana. A palavra é também algo que nos liga a nós mesmos. Quantas vezes, ao acordar de manhã ou em determinadas situações na nossa vida cotidiana, nós falamos a nós mesmos, pelo menos mentalmente. A palavra nos acompanha quase o tempo todo, até mesmo, paradoxalmente, o silêncio, que se tornou tão raro no mundo moderno, tem significado por causa dela. Há profissões que usam menos palavra. Mas há também profissões que trabalham com palavra e dependem da palavra para transmitir sua mensagem ou seu ponto de vista sobre algo na vida ou na sociedade. A palavra está no âmago de nossa vida pessoal, familiar, social e profissional. Já imaginou se você pudesse contar quantas palavras ditas diariamente por você? Creio que você mesmo ficaria assustado ou admirado por tantas palavras ditas em vão, ao mesmo tempo por tantas palavras que saíram de sua boca que ajudaram tantas pessoas por terem sido boas! Milhares e milhares de pessoas mudaram de qualidade de vida por causa da palavra ouvida de outras pessoas ou lida em um bom livro. Cada palavra representa uma realidade ou um mundo contido nela. Você já pensou quantos mundos contidos numa frase que pronunciamos ou escrevemos? Mas será que cada frase pronunciada ou escrita representa mesmo a realidade ou inventamos frases e frases para enganar os outros? Será que em cada frase contém a verdade? Será que levamos em conta a caridade e a fraternidade ao soltar/pronunciar ou ao escrever alguma frase?

 

A reação negativa dos fariseus é amarga: “É pelo chefe dos demônios que ele expulsa os demônios”. São pessoas incapazes de sair de seus esquemas mentais. Tradicionalistas e legalistas, os fariseus não conseguem ver em Jesus a revelação da bondade e misericórdia de Deus. Para os fariseus, Jesus não pode vir de Deus porque sua forma de atuar choca com as tradições sãs e com o conhecimento de Deus que é, para eles, o único verdadeiro.  Por isso, o poder extraordinário de Jesus pode ser concebido como algo diabólico para os fariseus. Mas diante da crítica dos fariseus Jesus não reage. Simplesmente Jesus continua fazendo bem para as pessoas ao seu redor que estão em necessidade (cf. At 10,38).  Criticar quem faz o bem e pratica a bondade é negar a Deus da bondade.

 

2. Cada Batizado Deve Ser Prolongamento da Palavra de Deus Encarnada

 

Deus quer que o homem se comunique. Se alguém não se comunicar, se está sempre quieto ou mudo, é sinal de que alguma coisa está errada nele fisicamente, ou psiquicamente ou espiritualmente. A fala é dom de Deus, tanto que São João, no Prólogo de seu evangelho dá um título muito significativo a Jesus: Palavra ou Verbo (Jo 1,1-14). Jesus é a Palavra de Deus para nós; é a comunicação de Deus para nós. Através de Jesus é que Deus fala conosco: “O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14).  O próprio Pedro, no seu discurso no livro dos Atos dos Apóstolos, nos disse: “Deus enviou a sua palavra aos filhos de Israel, anunciando-lhes a boa nova da paz, por meio de Jesus Cristo. Este é o Senhor de todos” (At 10,36). Como é que opera a Palavra de Deus na vida do homem? O autor da Carta aos Hebreus responde: “A palavra de Deus é viva, eficaz, mais penetrante do que uma espada de dois gumes e atinge até a divisão da alma e do corpo, das juntas e medulas, e discerne os pensamentos e intenções do coração. Nenhuma criatura lhe é invisível. Tudo é nu e descoberto aos olhos daquele a quem havemos de prestar contas” (Hb 4,12-13).  Mas nem a boca santa de Jesus que emite a Palavra de Deus terá qualquer efeito na nossa vida, se nós estivermos surdos a ela.

 

É bom notar que seremos também julgados pelas palavras que dizemos ou pronunciamos sobre os outros, além dos atos que praticamos. O livro de Provérbio nos alerta: “Nas muitas palavras não falta ofensas; quem retém os lábios é prudente” (Pr 10,19). “A boca dos justos é fonte de vida, mas a boca dos ímpios encobre violência” (Pr 10,11). Da mesma forma são Tiago nos diz: “Aquele que não peca no falar é realmente um homem perfeito, capaz de frear todo o seu corpo” (Tg 3,2b). Que nossas palavras não ultrapassem nossos atos para não sermos chamados de mentirosos ou falsos. Por isso, São Tiago nos alerta: “Tornai-vos praticantes da Palavra(de Deus) e não simples ouvintes, enganando-vos a vós mesmos” (Tg 1,22).

 

A cura do mudo no texto do evangelho de hoje se refere àquele que não quer escutar a voz de Deus, que não quer seguir Seu projeto porque há outras coisas que o ensurdecem. Biblicamente o surdo-mudo (o termo grego “kôphos” significa surdo, mudo e surdo-mudo) é aquele que perde o contato com sua própria realidade de filho de Deus. Ele vive paralisado porque está privado da comunicação com o único que o faz livre: Deus (através de Sua Palavra).

 

A Igreja, isto é, todo batizado, é responsável pelo Evangelho de Jesus no mundo (cf. Mt 28,18-20). O anúncio da Palavra de Deus define sua missão no mundo. Todos os batizados hão de realizar sua vida na fidelidade à Palavra de Deus. Todos os batizados devem construir a casa de sua vida sobre a Palavra de Deus para que ela seja firme como construir uma casa sobre a rocha (cf. Mt 7,24-25). Cada batizado deve ser pessoa da palavra de Deus, isto é, sua palavra deve ser palavra que edifica e leva os outros para Deus. Cada batizado deve ser encarnação da Palavra de Deus.

 

3. Até Para Fazer o Bem Encontramos Dificuldades

 

Jesus veio ao mundo unicamente para fazer o bem, como pregou o Apóstolo Pedro: “Vós sabeis como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com o poder, como ele andou fazendo o bem e curando todos os oprimidos do demônio, porque Deus estava com ele” (At 10,38). Mas sabemos muito bem que até para fazer o bem encontramos dificuldades e críticas como aconteceu com Jesus no texto do evangelho de hoje. Jesus libertou um surdo de sua mudez e começou a falar. Jesus foi criticado por causa disso: “Os fariseus, porém, diziam: É pelo príncipe dos demônios que ele expulsa os demônios” (Mt 9,34). Mas “a acusação teológica (dos fariseus) não é mais que um pretexto que apenas dissimula sua sede de autoridade sobre o povo”, comentou P. Bonnard. Atrás de uma acusação ou crítica há interesse. Mas a questão é esta: que tipo de interesse?

 

4. Ser Compassivo Como Cristo

 

A segunda parte do texto do evangelho de hoje (Mt 9,35-38), na verdade, é uma introdução para o discurso de Jesus sobre a missão  (Mt 9,35-10,16).

 

Esta segunda parte fala da compaixão de Jesus pela multidão: “Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas...”. Jesus sempre se compadece pelos que sofrem como o mudo no evangelho de hoje. A compaixão é uma das características de Deus.

 

Uma verdadeira compaixão não olha o necessitado de cima para baixo (sentimento de superioridade), mas é capaz de padecer-com, sentir-com para daí atuar. Cada compaixão sempre tem a ver com o deixar aproximar-se, prestar atenção, sentar-se à mesma mesa, chamar pelo nome, perceber a necessidade, oferecer a ajuda. A compaixão é comover-se até as entranhas, solidarizar-se profundamente, sentir-se a partir de outrem; é sofrer com (Latim: pati + cum, compaixão = sofrer com). A compaixão requer que estejamos com as pessoas que sofrem e dispostos a partilhar nosso tempo com elas. É estar no lugar do outro para sentirmos o que ele sente e ajudar no que puder dentro do limite da capacidade. Por isso, pode-se dizer que a verdadeira compaixão é muito humana e divina simultaneamente. Quando compartilhamos nosso coração e tempo com uma pessoa que sofre, uma parte do sofrimento dela será aliviada. Vamos deixar o resto com Deus desde que façamos nossa parte até o limite de nossa capacidade. Somos seguidores do Deus da Compaixão que se tornou carne em Jesus Cristo. A compaixão deve se tornar carne também em nós.

 

P. Vitus Gustama,svd

sábado, 4 de julho de 2026

Segunda-feira Da XIV Semana Comum, Ano Par, 06/07/2026

JESUS, O AMOR ENCARNADO DO PAI, É FIEL E MISERICORDIOSO

Segunda-Feira da XIV Semana Comum

Primeira Leitura: Os 2,16.17b-18.21-22

Assim fala o Senhor: 16 Eis que eu a vou seduzir, levando-a à solidão, onde lhe falarei ao coração; 17b e ela aí responderá ao compromisso, como nos dias de sua juventude, nos dias da sua vinda da terra do Egito. 18 Acontecerá nesse dia, diz o Senhor, que ela me chamará ‘Meu marido’, e não mais chamará ‘Meu Baal’. 21 Eu te desposarei para sempre; eu te desposarei conforme as sanções da justiça e conforme as práticas da misericórdia. 22 Eu te desposarei para manter fidelidade e tu conhecerás o Senhor.

Evangelho: Mt 9, 18-26

18 Enquanto Jesus estava falando, um chefe aproximou-se, inclinou-se profundamente diante dele, e disse: “Minha filha acaba de morrer. Mas vem, impõe tua mão sobre ela e ela viverá”. 19 Jesus levantou-se e o seguiu, junto com os seus discípulos. 20 Nisto, uma mulher que sofria de hemorragia há doze anos veio por trás dele e tocou a barra do seu manto. 21 Ela pensava consigo: “Se eu conseguir ao menos tocar no manto dele, ficarei curada”. 22 Jesus voltou-se e, ao vê-la, disse: “Coragem, filha! A tua fé te salvou”. E a mulher ficou curada a partir daquele instante. 23 Chegando à casa do chefe, Jesus viu os tocadores de flauta e a multidão alvoroçada, 24 e disse: “Retirai-vos, porque a menina não morreu, mas está dormindo”. E começaram a caçoar dele. 25 Quando a multidão foi afastada, Jesus entrou, tomou a menina pela mão, e ela se levantou. 26 Essa notícia espalhou-se por toda aquela região.

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Deus É Fiel e Misericordiosa

A partir de hoje até a próxima sexta-feira refletimos sobre o profeta Oseias nas Primeiras Leituras.

O profeta Oseias vive no reino do Norte (Israel) durante o governo do rei Jeroboão II (782-753 a.C), pouco depois que o profeta Amós, seu contemporâneo. A atuação profética de Oseias coincide com a de Amós, no início, e com a de Isaías e Miqueias, no final. Com o Jerobão II, o reino do Norte passa por um período de prosperidade, mas, ao mesmo tempo, reinam-se também a injustiça social e a corrupção. Neste período os ricos exploram e oprimem os pobres. Além da crise social e política, há crise religiosa: a idolatria, isto é, a adoração a Baal, deus feníciocananeu da natureza e da fertilidade, e a adoração do bezerro feito de ouro mandado fazer pelo rei Jeroboão I que foi a razão da divisão do reino de Salomão.

Para entender a mensagem do profeta Oséias é preciso levar em consideração os outros dois dados principais: o culto a Baal (foi mencionado anteriormente) e a infidelidade de Gômer, esposa do profeta Oséias.

Quando os israelitas chegaram à Palestina, depois de longos anos nos deserto vindo do Egito, são um povo de pastores seminômades. A imagem de Deus que eles tinham era a de um Deus de pastores (cf. Sl 22/23) que protegia suas migrações e guiava-os pelo caminho e salvava-os no combate contra tribos e povos vizinhos. Quando se estabeleceram em Canaâ, eles se tornaram agricultores e não mais pastores. Consequentemente, a imagem de Deus como Pastor perdeu sentido. E Assiria que dominava Palestina adorava Baal que é o deus especialista da agricultura. Os israelitas aceitaram o culto a Baal embora implicasse práticas muito degradantes, como a “prostituição sagrada”. Nisto, o profeta Oséias critica duramente os israelitas, pois Yahweh é um Deus pessoal e intransigente que não permite competição de nenhum outro deus.

Oséias se casou com uma jovem normal, mas que posteriormente lhe foi infiel e esta foi embora com outro homem. A infeliz experiência matrimonial de Oseias, homem amante e apaixonado, serviu de pano de fundo para um aprofundamento na relação de Deus com seu povo.

Para o profeta Oseias, a mulher prostituta com quem Oséias deverá se casar é, na realidade, o país (Israel) prostituido e afastado do Senhor. A linguagem de prostituição é usada para descrever a infidelidade de Israel (idolatria) e o amor inquebrantável de Deus. O amor de Deus pelo povo é eterno (cf. Jr 31,3), apesar da infidelidade da parte do povo.

Chama a atenção o fato de que, no início do livro do profeta Oseias, Javé mande que o profeta Oseias se case com uma “prostituta”. A partir dos estudos existentes, o mais verossímil é pensar que Oseias se casou com uma jovem normal que, posteriormente, lhe foi infiel, indo embora com outro.

A experiência da infidelidade da esposa serve para Oseias como base para denunciar as relações do povo com Javé (Yhwh). Isso nos leva para uma importante constatação de que as experiências vividas por um crente em determinado nível de sua personalidade afetam a pessoa em sua globalidade e por conseguinte em sua experiência de fé, como Oseias que experimenta a infidelidade em nível psicológico-existencial. Este salto dado permite Oseias ter um olhar de fé em termos de infidelidade na relação entre o povo com Javé. Oseias nos ensina que é necessário descobrirmos a ação de Deus em nossa vida cotidiana e fazermos dela o caminho “normal” de nosso crescimento total para que tenhamos uma sabedoria de viver nosso cotidiano. Oseias descreverá este Deus com imagens belíssimas e claríssimas no seu livro.

Por isso, há duas críticas ou denúncias que o profeta lança contra o povo e os dirigentes do povo: Primeira, a idolatria cultual que consiste na adoração de Baal com seus ritos de fertilidade e na adoração do bezerro de ouro construído por Jerobão I em Samaria em torno do ano 930 a.C em tempos de Elias e Eliseu (compare Ex 32). Segunda crítica/denúncia: a idolatria política que consiste na tentação de Israel de buscar a salvação fora de Deus, conretamente, nas alianças com a Assíria e o Egito, potências militares no momento. Em vez de confiar em Deus, o povo se alia às potências políticas estrangeiras.

Oseias que significa “Deus/Javé salva”, começa sua atividade profética nos últimos anos do rei Jerobão II (782-753), no reino do Norte, pouco depois que o profeta Amós, seu contemporâneo, foi expulso do reino do Norte (veja as reflexões da semana anterior sobre Amós).

Quando chegam à Palestina (vindo do Egito), os israelitas se tornam um povo de pastores seminômades. A imagem divina que possuíam era a de um Deus de pastores que protegia suas migrações, guiava-os pelo caminho e salvava-os no combate contra tribos e povos vizinhos (cf. Sl 23). Mas quando se estabeleceram em Canaã, mudaram parcialmente de profissão, tornando-se agricultores. Muitos dos israelitas não podiam conceber que um Deus de pastores pudesse ajudá-los a cultivar a terra, enviar-lhes a chuva, garantir-lhes estações propícias e uma boa colheita. O deus especialista da agricultura era o cananeu Báal. Os israelitas aceitaram esse culto, embora implicasse práticas muito degradantes, como a “prostituição sagrada”.

Mas Javé (Yhwh) é um Deus pessoal e intransigente, que não permite competição de nenhum tipo: “Acontecerá nesse dia, diz o Senhor, que ela me chamará ‘Meu marido’, e não mais chamará ‘Meu Baal’”.

Em “aquele dia”, é tão impreciso como seguro. A expressão “eu te desposarei” é três vezes repetida no texto lido hoje para fazer notar a importância da intenção divina em salvar os homens, apesar de sua infidelidade, e a solenidade do ato baseado na misericórdia. De modo que “não mais chamará ‘Meu Baal’ e sim ‘Meu marido’”.

Aqui quem paga o preço da infidelidade do povo é o próprio Javé. Oseias coloca cinco presentes de Javé que são essenciais para a felicidade e a santidade do povo: “Direito e justiça” divinas para com o povo que é “esposa infiel”; retidão”: Javé buscará sempre o reto como norma de suas ações; “amor constante”, não somente afetividade ou sentimento e sim afetividade que implica solidariedade, lealdade e assistência; “misericórdia porque Javé sabe das debilidades humanas e por isso, saberá compreender e perdoar a fragilidade inata do povo; e finalmente, “fidelidade”: Javé será um Deus-Esposo em quem sempre pode fiar e confiar. Trata-se de uma mensagem cheia de esperança para quem não vê sua situação sem saída. Deus é fiel porque Ele é fiel para si próprio. É como a água que continua sendo água mesmo que o homem a maltrate.

JESUS É O DEUS-CONOSCO QUE SALVA

1. Um Chefe Que Suplica A Jesus Pela Filha Morta: Jesus É A Ressurreição E A Vida

Os dois episódios no evangelho de hoje (uma menina morta que voltou a viver, e uma mulher curada de sua hemorragia) se encontram também em Marcos (Mc 5,21-43) e em Lucas (Lc 8,40-56).

Em Mateus, no primeiro episódio, aquele que se aproxima de Jesus que suplica pela filha morta não tem nome. Simplesmente ele é “um chefe. Não se diz que é um chefe de uma sinagoga como em Marcos e Lucas nos quais se fala de Jairo. Este chefe que manifesta sua fé em Jesus nos leva ao episódio do centurião que pediu a cura para seu empregado (Mt 8,5-13). Mas o caso do chefe é grave, pois trata-se da filha morta.

Neste primeiro episódio do evangelho deste dia Jesus se encontra, então, diante da morte de uma menina, e o pai desta pede a Jesus para impor sua mão sobre ela a fim de ela voltar a viver: “Minha filha acaba de morrer. Mas vem, impõe tua mão sobre ela e ela viverá”. Trata-se de um pobre chefe esmagado pela dor: a morte de sua filha. O homem pede a Jesus para impor as mãos sobre a filha morta. “A imposição de mãosera um gesto de Jesus ao curar os enfermos; sugere a “transmissão” da saúde ou da vida, e revela o caráter religioso, e não formalmente terapêutico , da cura.

Há situações diante das quais a força humana (chefe) fica impotente, como diante da morte. Nessas situações só a fé é que pode nos ajudar, como fez o pai da menina falecida. É algo surpreendente a confiança posta por esse homem em Jesus. É uma verdadeira fé no impossível: fé no poder de Jesus de fazer sua filha voltar a viver. Lá onde a força humana terminar, a fé a continuará. Jesus não se resiste a este tipo de oração. “Jesus se levantou e o seguiu junto com seus discípulos”, assim relatou Mateus.

Quando chegou à casa da menina morta, Jesus disse à multidão: “Retirai-vos porque a menina não morreu e sim está dormindo”.  Jesus quer dizer que para ele e para o poder de Deus a morte não significa mais que um sono ligeiro. Morrer é descansar em paz nos braços do Pai celeste. Da mesma maneira Jesus também falou de Lázaro morto: “Nosso amigo Lázaro está dormindo e vou despertá-lo” (Jo 11,11). A morte para Deus não é um poder insuperável. As coisas têm um aspecto muito distinto diante do olhar de Deus e diante da experiência do homem. Mas se aprendermos a olhar tudo a partir de Deus, então a morte perderá seu caráter arrepiante. Para Jesus, a morte não tem o caráter temível e definitivo. Para ele, a morte é uma espécie de “sono” do qual Deus tem o poder de despertar. Se para Jesus a morte não tem nenhum caráter temível, pois é apenas uma passagem para a vida eterna, deve ser também para quem quiser segui-lo. O cristão é chamado a proteger a vida no seu início, na sua duração e no seu término na história, pois Deus é a Vida por excelência e por isso, chama todos à vida, especialmente para aqueles que vivem no desespero e na falta de esperança. A menina morta voltou a viver por causa do poder de Jesus.

Quem é este “chefe”? Ele não tem nome nem determinada função (se é chefe de sinagoga ou se é chefe dos judeus ou se é chefe do sinédrio). Ele é simplesmente um chefe.  Pode ser qualquer um de nós, pois, de alguma forma, cada um é chefe: seja dentro da família, seja fora dela (na sociedade). Uma pessoa pode ser muito importante (“chefe”) entre os homens ou muito poderosa do ponto de vista humano, mas ela precisa também de salvação. O poder mundano não salva, pois diante da morte tudo que é humano cai no chão. O brilho falso tem seu fim. Somente Deus salva e nos garante a vida eterna. Do ponto de vista humano, paradoxalmente, o aparente superpotente ou superpoderoso é, na verdade, impotente. Mas “quando me sinto fraco, então é que sou forte”, escreveu São Paulo à comunidade de Corinto (2Cor 12,10).

Um ser humano precisa de outro ser humano para possibilitar seu crescimento como ser humano. Podemos possuir tudo que o mundo tem a oferecer em termos de status, realizações e bens, no entanto, sem nos sentirmos integrados, tudo isso parece vazio e inútil. A integração (viver em comunidade como irmãos/família) sugere calor, compreensão e abraço. Quando ficamos isolados, estamos propensos a ser prejudicados. Sentir-se integrada mantém a pessoa em equilíbrio. Sempre que há distância, há também anseio.

E o ser humano, enquanto criatura, precisa do Salvador que dá sentido para tudo na sua vida. Por isso, Santo Agostinho dizia: “Ninguém está tão só do que aquele que vive sem Deus. E, o homem, para onde se dirija, sem se apoiar em Deus só encontrará a dor”. Nas suas Confissões, Santo Agostinho rezou: “Fizeste-nos para Ti, Senhor, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em Ti. Dá-me, Senhor, saber e compreender qual seja o primeiro: invocar-Te ou louvar-Te; conhecer-Te ou invocar-Te. Mas quem Te invocará sem Te conhecer? (...) Que eu Te busque, Senhor, invocando-Te; e que eu Te invoque, crendo em Ti: Tu nos foste anunciado” (Conf. 1,1).

2. Mulher Curada Da Hemorragia

Dentro do primeiro episódio Mateus insere outro episodia: uma mulher que sofria de hemorragia há doze anos. Em primeiro lugar, essa mulher não tem nome, nem se menciona sua família nem sua tradição. Menciona-se, além disso, seus doze anos de sofrimento! O número “doze” aplicado aos anos de sua enfermidade é clara alusão a Israel. A mulher enferma representa, então, o povo que para que seja salvo (cura) é preciso renunciar à Lei para entrar contato direto com Jesus. Jesus seria “impuro”, isto é, não tem acesso a Deus (salvação) por seu contato com os “pecadores” (Mt 9,10-13). Mas Jesus é Emanuel, Deus-Conosco (Mt 1,23; 18,20; 28,20) que vem para salvar. Para encontrar a salvação nele é preciso se aderir a ele e fazer contato com ele.

Segundo o texto do evangelho de hoje essa mulher não pede nada e não diz nada a Jesus, mas quer fazer tudo (ter cura) a escondidas. Mas ela mostra sua fé total em Jesus. A fé dessa mulher é comparável à do chefe do primeiro episódio; sua certeza de cura é total. Ela somente pensa e silenciosamente se aproxima de Jesus para tocar a barra do seu manto: “Se eu conseguir ao menos tocar no manto dele, ficarei curada”, pensou essa mulher. Jesus tinha curado o leproso com seu contato (Mt 8,15).

A mulher que sofre de hemorragia se aproxima e toca a orla do manto de Jesus. Este gesto era proibido na cultura judaica. Uma mulher não podia olhar para um homem em público, muito menos tocá-lo. A situação fica pior ainda porque a mulher está com a hemorragia que pode causar a impureza legal para a pessoa tocada. Por ser mulher e pela sua enfermidade essa mulher estava duplamente excluída. Mas ela não quer saber das proibições. Ela quer encontrar-se com Jesus e tocar seu manto. Ela não quer ser escrava das regras e dos costumes desumanos. Pois de fato, as regras culturais e de culto a afasta da convivência e da salvação.

Quantas pessoas são escravas das regras. A graça produz as regras, mas as regras não produzem a salvação, pois elas são apenas meios e não o fim. Os costumes que não salvam, não podem ser mantidos.

Jesus reconhece nessa mulher a fé que transforma sua situação triste em alegria por encontrar o Salvador, Jesus: “Coragem, filha! A tua fé te salvou”. A cura-salvação não é um toque mágico e sim um encontro de pessoa com Jesus. É um encontro com Jesus na fé que salva e somente depois do encontro pessoal com Jesus é que vem a afirmação: “A tua fé te salvou”. E Jesus se dirige à mulher chamando-a de “filha”. O termo “filha” coloca essa mulher em relação à “filha” do chefe. Ambas são figuras de Israel. A partir de então, a mulher voltou a viver sua vida saudavelmente.

Os dois (chefe cuja filha estava morta e a mulher que sofria de hemorragia há doze anos) se aproximam de Jesus com muita fé e obtêm o que pedem. Eles confiam, se apóiam e se abandonam totalmente em Jesus.  E receberam uma resposta adequada da parte de Jesus: a volta da filha para a vida e a cura da mulher sofrida de hemorragia de longos anos. Por causa da fé eu preparo o espaço necessário para que Deus possa atuar. A fé é sempre e continua sendo a condição e o fundamento da ação salvadora de Deus no homem. A novidade do Reino trazido por Jesus não é somente a cura, mas principalmente a ressurreição ou a salvação.

A dor daquele pai e o sofrimento daquela mulher podem ser um bom símbolo de todos os nossos males, pessoais e comunitários.  Também agora, como em sua vida terrena, Jesus nos quer atender e nos encher de sua força e de sua esperança. É preciso manter nosso contato diário com Jesus para que sejamos vivos e salvos. Na Eucaristia ele mesmo se dá como alimento, para que, quando nos aproximamos dele e o recebemos com fé, possa curar também nossos males. Mas a cura-salvação não é um toque mágico e sim um encontro de pessoas com Jesus. É o encontro com Jesus na fé que cura e salva, e somente depois do encontro é que Jesus diz as seguintes palavras: “A tua fé te salvou!”. Fé é crer no que não vemos. O prêmio da fé é ver o que cremos” (Santo Agostinho: In Serm. 43,1,1).

P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 3 de julho de 2026

XIV Domingo Do Tempo Comum, Ano "A", 05/07/2026

NOS SIMPLES DEUS PAI SE REVELA

XIV Domingo Comum “A”

I Leitura: Zacarias 9,9-10

Assim diz o Senhor: 9 “Exulta, cidade de Sião! Rejubila, cidade de Jerusalém! Eis que vem teu rei ao teu encontro; ele é justo, ele salva; é humilde e vem montado num jumento, um potro, cria da jumenta. 10 Eliminará os carros de Efraim, os cavalos de Jerusalém; ele quebrará o arco de guerreiro, anunciará a paz às nações. Seu domínio se estenderá de um mar a outro mar, e desde o rio até os confins da terra”.

II Leitura: Rm 8,9.11-13

Irmãos: 9Vós não viveis segundo a carne, mas segundo o espírito, se realmente o Espírito de Deus mora em vós. Se alguém não tem o Espírito de Cristo, não pertence a Cristo. 11E, se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos mora em vós, então aquele que ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos vivificará também vossos corpos mortais por meio do seu Espírito que mora em vós. 12Portanto, irmãos, temos uma dívida, mas não para com a carne, para vivermos segundo a carne. 13Pois, se viverdes segundo a carne, morrereis, mas se, pelo Espírito, matardes o procedimento carnal, então vivereis.

Evangelho: Mt 11,25-30

Naquele tempo, Jesus pôs-se a dizer: 25 “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos. 26 Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado. 27 Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar. 28 Vinde a mim, todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso. 29 Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis descanso. 30 Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.

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Um Olhar Geral Sobre As Leituras Deste Domingo

O profeta Zacarias, na Primeira Leitura de hoje, faz um anúncio gozoso para os habitantes de Jerusalém sobre a vinda ou volta de um rei humilde, mas vitorioso. E a entrada triunfal do rei, justo e vitorioso é humilde e pacífico (cavalgadura de um asno ou jumento) : “Eis que vem teu rei ao teu encontro; ele é justo, ele salva; é humilde e vem montado num jumento, um potro, cria da jumenta”. Ele virá para estabelecer a paz e a justiça nas nações, e condensa de maneira admirável toda a esperança de salvação do povo de Israel. O rei (Messias) que nos apresenta por este texto é humilde e justo e traz a paz para as nações. “Paz” é uma expressão hebraica “Shalom” que compreende o conjunto de todos os bens desejáveis pelo homem.

O profeta Zacarias nos apresenta, então, um canto messiânico no qual nos descreve a presença de um personagem que tem as características de rei e pastor. O contexto político e social desse poema é a invasão de Alexandre, o Grande, em todo o mundo, que serviu de modelo para o autor descrever a grande vitória de Deus nos tempos messiânicos. Zacarias nos transmite o sentimento do povo de Israel após o retorno do exilio, que espera a chegada de um "príncipe da paz" que entrará em Jerusalém para restaurar as antigas fronteiras geográficas do grande reino de Davi.

A forma de atuar do rei messiânico não se parece nada como a forma de atuar dos grandes reis da terra que conquistam e dominam com a força e com o poder de suas armas, impondo a tirania, a escravidão e a morte. O profeta Zacarias está convencido de que o rei messiânico que virá não trará armas para nos conduzir à verdadeira e autêntica paz. Por isso, as descrições não são as de um militar ou de um grande guerreiro que cavalga sobre um cavalo e sim ele cavalga sobre um humilde e simples asno para sublinhar a paz. A missão do rei messiânico é restaurar a justiça e a paz em toda a terra construindo uma nova ordem social que não está construída sobre o poder ou o uso da força ou qualquer forma de violência.

O semelhante anúncio profético encontra seu perfeito cumprimento em Jesus manso e humilde de coração que vem trazer o alívio e o descanso para todos os que estão cansados e sobrecarregados, consequência do jugo da lei antiga (Evangelho de hoje).

O evangelho que a liturgia nos propõe neste Domingo nos oferece uma das revelações de caráter cristológico mais profundas: Jesus é o Filho eterno do Pai, epifania do rosto do Pai. Jesus chama Deus com o termo preciso em hebraico que é “Abbá”  e que pode ser traduzido por “Paizinho”. Assim, se por um lado, Jesus nos manifesta a grandeza do Pai, sua senhoria e transcendência, pois é o “Senhor do céu e da terra”. Por outro lado, esse mesmo Pai é revelado como Paizinho para enfatizar sua proximidade e sua bondade. Por isso, o Deus que nos revela Jesus Cristo é um Deus Pai no sentido mais profundo e verdadeiro: Deus e Pai simultaneamente. Nesto sentido podemos entender a afirmação que se encontra no Novo Catecismo da Igreja Catolica no artigo 239: “Ao designar Deus com o nome de «Pai», a linguagem da fé indica principalmente dois aspectos: que Deus é a origem primeira de tudo e a autoridade transcendente, e, ao mesmo tempo, que é bondade e solicitude amorosa para com todos os seus filhos. Esta ternura paternal de Deus também pode ser expressa pela imagem da maternidade, que indica melhor a imanência de Deus, a intimidade entre Deus e a sua criatura”.

Conhecendo o Pai intimamente, Jesus revela o verdadeiro rosto de Deus que éamor, paciência, e compaixão e é muito bom para com todos, pois sua ternura abraça toda criatura” (Salmo Responsorial).

Por sua parte, São Paulo (Segunda Leitura) nos recorda que o plano de salvação que este Rei veio instaurar no mundo inicia com a conversão do coração que implica não viver conforme à desordem egoísta do homem (“viver segundo a carne”) e sim conforme ao Espirito de Cristo (vida nova). A nova vida (Rm 6,4) que recebemos no batismo é uma vida “no espírito”, isto é, segundo o homem renovado pela ação do Espirito de Deus que habita em nós (Cf.1Cor 3,16-17; 6,19).

São Pauo nos diz que já saímos do pecado pela ação de Deus através de seu Filho Jesus e da ação do Espirito Santo. Esta é a verdadeira libertação. A maior prova do amor de Deus para os homens é a entrega de seu próprio Filho à morte e morte de cruz e desta maneira vence o mal pelo amor. como o amor e o perdão, Deus construiu um mundo novo no qual não há rancor nem desejo de vingança nem remorsos. Estamos em paz com Deus quando estamos em paz com os demais. são Paulo nos diz que pela ação do Espirito Santo em nossa vida vamos experimentando e desejando livremente uma nova forma de vida, imitando o modo de viver do próprio Cristo Jesus.

Precisamos abrir espaço em nossa vida para o Espírito de Deus. Se nos deixarmos levar pelo Espírito, seremos efetivamente filhos de Deus. E se formos filhos, também seremos herdeiros daquela glória que Cristo, o Senhor, já possui, que é "o primogênito entre muitos irmãos" (Rm 8:29).

Um Olhar Específico  Sobre O Evangelho De Hoje

No texto do Evangelho deste Domingo, o evangelista Mt reuniu três sentenças de Jesus que provavelmente tiveram uma origem independente (fonte Q).

. Uma oração de louvor ou de ação de graças (vv.25-26) que vem logo depois das ameaças de Jesus contra as cidades da Galileia (Mt 11,20-24).

2ª. Fala da revelação de caráter profundamente cristológica (v.27). Esta sentença explica em que consiste a revelação aos simples.

3ª. Na terceira sentença (vv.28-30) encontramos algo muito parecida ao convite a fazer-se discípulo da sabedoria que lemos nos livros sapienciais: vinde a mim (Eclo 24,19;51,23); tomai meu jugo (Eclo 6,24s;51,26); encontrareis descanso (Eclo 6,28). Jesus apresenta-se aqui como a Sabedoria de Deus que convida os homens a virem a ele (v.28).

Oração De Louvor Ao Pai Porque Ele Se Revela Aos Simples

Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado”. Jesus é homem de oração. No Evangelho de hoje encontramos Jesus rezando.

Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra...”.

Jesus chama Deus de “Pai” cinco vezes neste texto. Na boca de Jesus esse Pai é Abbá que, literalmente corresponde ao nosso apelativo afetuoso “papai” ou “paizinho”. “Abbá” é a palavra cheia de amor com a qual o Filho fala ao Pai. “Abbá” é o centro do cristianismo. O Espírito do Filho, infundido em nossos corações, grita em nós: “Abbá!” (Rm 5,5; 8,15). O fiel é aquele que conheceu e acreditou no amor que Deus tem por ele, como filho (1Jo 4,16; Jo 17,21). O Pai é aquele que se inclina até os pequenos, que se deleita na pequenez, que ama o simples, que defende os pobres (anawim), os oprimidos, que sente o grito do sofrimento. Quando esses “pequenos” olham para Ele, Ele se revela.

Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra...”. Geralmente distinguimos na oração: o louvor, a petição e a ação de graças. Na realidade, na Bíblia, se falam frequentemente o louvor e a ação de graças num mesmo movimento da alma e no plano literário, nos mesmos textos.

Deus se revela digno de louvor por todos os seus benefícios para com o homem. O louvor e a ação de graças suscitam as mesmas manifestações exteriores de gozo, sobretudo no culto, confessando as grandezas de Deus.

Os cânticos de louvor, nascidos em uma explosão de entusiasmo, multiplicam as palavras para tratar de descrever a Deus e suas grandezas: cantam a bondade de Deus, sua justiça (Sl 145,6s), sua salvação (Sl 71,15) seu auxilio (1Sm 2,1), seu amor e sua fidelidade (Sl 89,2; 117,2), sua glória (Ex 15,21), sua fortaleza (Sl 29,4), seu maravilhoso desígnio (Is 25,1) seus juízos libertadores (Sl 145,7), todas as suas obras (Sl 92,5s) e assim por diante.

Este louvor ou ação de graças ao Pai expressa uma experiência: já faz tempo que o Mestre evangeliza, e seus discípulos também tinham sido enviados para a missão evangelizadora e se encontraram com todo tipo de pessoas: os que os acolheram e os que os recusaram. Jesus agradece ao Pai, pois foram os pequenos, os simples que se abriram ao anúncio: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos”.

O louvor de Jesus se dirige ao Pai como “Senhor do céu e da terra”. No texto do Evangelho de hoje Jesus pronuncia a palavra “Pai” cinco vezes. Jesus recusado percebe, apesar de tudo, a presença do Pai que se revela aos pequenos. O ato de Jesus chamar a Deus de Pai (Abba) reflete a confiança e proximidade que tem com ele. Na presença do Pai, Jesus se sente confiante e seguro. Os primeiros cristãos conservaram essa palavra: “Abba” (Mc 14,36; Gl 4,6s; Rm 8,15), que se encontram detrás de quase todas as orações de Jesus (Mc 14,36 e par.; Jo 12,27s;17; Lc 23,34.46). 

Jesus fala do Pai como “Senhor do céu e da terra”, isto é, Aquele que domina o universo porque Ele é o seu Criador, mas que não atua como “dono” prepotente. Porque o Pai é Aquele que se inclina para os pequenos, que se deleita na pequenez, que ama o simples, que defende os pobres, os oprimidos, que ouve e sente o grito do sofrimento dos injustiçados e dos excluídos que também são filhos Seus. Quando os pequenos olham para Ele, o Pai se revela a eles. A simplicidade é uma porta aberta para a revelação de Deus. A simplicidade-humildade é um terreno fértil onde a graça e a bênção do Pai se multiplicam.

“... porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos...”

 Que é “estas coisas” ?. É o que acontece em Jesus: é sua vida, sua obra, sua doutrina. É toda a revelação do Pai que se realiza na vida e pela vida de Jesus. Tudo isso somente pode ser entendido através da graça divina.

“... e as revelaste aos pequeninos”.

Jesus afirma que os simples têm vantagem sobre os entendidos, mesmo sobre os teólogos, se estes forem apenas sábios autossuficientes, possuídos pelo orgulho doutrinal: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e doutores e as revelaste aos pequeninos(v.25). Os sábios e entendidos, neste contexto, são os escribas e os fariseus que conhecem a Lei de Moisés, mas recusam a Jesus; eles estão fechados na sua autossuficiência (cf. Is 29,14 onde Deus recrimina a hipocrisia na relação com ele). Os simples, ao contrário, sabem receber a revelação e acolhem Jesus (cf. também Mt 13,11 e Is 28,9) e se tornam os beneficiários do acontecimento da graça divina. Trata-se de compreender o sentido das obras de Jesus, de ver nelas a atividade do Messias que salva a humanidade.         

Por que os simples têm vantagem? Quais são as características de um simples?          

A simplicidade (grego, haplótes) designa a sinceridade, a franqueza, o falar sem segundas intenções, inequívoco, claro. Em Latim, a palavra “simplicitus” (simplicidade) é caráter daquilo que é despojado, fácil, solto, natural, desprovido de complicação, de malícia, de inteções secretas ou distorcidas. Virtude daquele que evita fausto ou complicação. Para o judaísmo, a vida do homem sábio tem uma orientação clara; obediente à Lei e está isento da dualidade interior, com coração inteiro (não dividido). A bondade faz parte da simplicidade porque ela é uma qualidade do coração (coração não dividido).

O simples não se louva nem se despreza. Ele é o que é, sem desvios, sem afetação, faz o que faz, mas não vê nisso matéria para discursos ou para comentários. É a vida sem mentiras, sem exagero, sem grandiloquência. Ele acolhe o que vem, sem nada guardar como coisa sua. Ele ocupa-se do real, não de si. O presente é sua eternidade e o satisfaz. Ele é aquele que não simula, não presta atenção em si nem na sua imagem ou reputação. Ele não calcula, sem artimanhas nem segundas intenções. Ele aprende a desprender-se: de tudo e de si mesmo. De certa forma, poderíamos dizer que ele é esse desprendimento. Se para Deus tudo é simples, para o simples tudo é divino.          

A simplicidade é despojamento, liberdade, leveza, transparência. É ausência de cálculo, de artifícios, de composição. É esquecimento de si, de seu orgulho. A simplicidade é o contrário do narcisismo, da pretensão, da autossuficiência, da duplicidade, da complexidade. A simplicidade é quietude contra inquietude, alegria contra preocupação, ligeireza contra seriedade, verdade contra pretensão.  É nisso que a simplicidade é uma virtude para ser conquistada. 

Somente quem contemplar profundamente a grandeza do universo e da vida em si, somente quem viver na simplicidade e na humildade, fará o louvor a Deus e viverá em ação de graças permanentemente. O universo ou a natureza em si é uma das portas para chegar ao amor ilimitado de Deus pela humanidade. E somente quem se sente filho diante do Deus-Pai é capaz de viver confiante e seguro. Diante do pai presente, qualquer filho se sente seguro e tranquilo. É assim que Jesus quer que nos sintamos como filhos diante de Deus, nosso Pai.

Deus se revela certamente àquele que se despoja de si mesmo e de tudo, ao simples, àquele que vive segundo o Espírito, àquele que tem um olhar e o coração limpos. O coração limpo e a ausência de todo interesse torcido permitem o simples discernir nas obras realizadas por Jesus a mão de Deus. Por isso, o simples é capaz de entender Deus e sua vontade. Os simples são os que, ao se esvaziarem de si mesmos, se abrem a Cristo e aos irmãos. Por isso, eles são preferidos de Deus. Por isso também, pode acontecer que os simples tenham mais fé em Deus do que os teólogos ou os que pertencem a uma elite consagrada. Por essa mesma razão, podemos encontrar pessoas simples, sem estudos e de muito poucos recursos intelectuais, mas de grande fé, que compreendem as coisas de Deus e intuem a sua vontade. Santa Teresa de Ávila foi declarada doutora da Igreja não por seus estudos de Teologia numa universidade, mas por ter alcançado uma sabedoria espiritual. O ideal poderá se tornar realidade, se fé e ciência, sabedoria e humildade de espírito andarem juntas.

Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos”. Deus quer que os homens não se ocupem de si mesmos para que ele possa ter espaço neles para suas graças, pois aquele que se enche de si não sobra espaço nem para Deus nem para os outros. Em outras palavras, que os homens voltem a ser simples.

Jesus Personificação Da Sabedoria

Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar”. 

Neste pequeno fragmento, Jesus aparece como a Sabedoria personificada: “Tudo me foi entregue por meu Pai”.  O Pai se revela por meio dele e Jesus realiza em si mesmo o que o AT dizia sobre a Sabedoria. Ele ilumina os simples e é sempre Ele, pois “A sabedoria não entrará na alma perversa, nem habitará no corpo sujeito ao pecado(Sb 1,4) e por isso, “escondeste estas coisas aos sábios e entendidos”.

Os sábios e entendidos” alude a Is 29,14 em que Deus recrimina o povo por sua hipocrisia na relação com Ele, pois honra-O somente com os lábios, mas está longe seu coração. Os sábios e entendidos não captam o sentido das obras de Jesus por causa de sua autossuficiência. Os “simples” não têm esse obstáculo. Ao contrário, eles têm facilidade de entender a revelação de Deus na sua vida.

Chamada Ao Seguimento

Vinde a mim, todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis descanso. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve”.

E a 3ª sentença (vv.28-30) é muito parecida ao convite a fazer-se discípulo da sabedoria que lemos nos livros sapienciais: vende a mim (Eclo 24,19;51,23); tomai meu jugo (Eclo 6,24s;51,26); encontrareis descanso (Eclo 6,28). Jesus apresenta-se aqui como a Sabedoria de Deus que convida os homens a virem a ele (v.28).

As chamadas de Jesus formuladas como exigência (o evangelho do XIII Domingo Comum “A”), encontram hoje um complemento importante. A chamada hoje tem tom de acolhida e de descanso. É uma chamada preparada pela Primeira Leitura que apresenta “rei justo e vitorioso, modesto e cavalgando num asno, que entra em Jerusalém.

O Jugo De Jesus É Leve

Tomai sobre vós o meu jugo..., pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (v.29), disse Jesus.

No seu sentido literal, o jugo é uma barra pesada feita de madeira que é posta e presa nos ombros (nucas) dos animais (boi: 1Sm 11,7; Jó 1,3; vaca: 1Sm 6,7; ou cavalos/burros: Is 21,7). Pôr o jugo sobre um boi significa usá-lo pela primeira vez, daí profaná-lo. Enquanto os bois destinados para o uso sagrado, por ex., para puxar a arca (1Sm 6,7) ou para expiar um homicídio (Dt 21,3ss) não podiam ter sido atrelados ao jugo.

No seu sentido figurado, o jugo é símbolo da submissão tanto no sentido positivo como no negativo. O jugo pode simbolizar a submissão a Javé, neste caso ele tem sentido positivo (Jr 2,20). O jugo pode ter um sentido negativo: opressão (Gn 27,40; Lv 26,13;1Rs 12; 2Cr 10; Is 9,3;14,25; Jr 30,8;10,27;Os 11,4); o jugo pode ser a dependência de um escravo no sentido literal (1Tm 6,1) ou religioso no sentido de escravo da Lei judaica (At 15,10;Gl 5,1); o jugo é também o símbolo da imposição de uma carga pesada, uma submissão forçada à tirania, mostrando soberania de quem manda (2Cr 10). Na LXX, “jugo” frequentemente assume o sentido de justiça. O vocábulo grego para “jugo”, zugos, também pode ser o contrapeso no prato da balança. Pode haver falsos “pesos” (zugoi), que permitam às pessoas enganarem ou roubarem no mercado ou no comércio. O livro de Provérbios fala de um peso justo (zugos) que tem o favor de Deus (Pr 11,1), e os pesos falsos desagradam a Deus (Mq 6,11; Ez 45,10).      

Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo...Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” é o convite de Jesus. Trata-se aqui (cansados e fatigados sob o peso) da opressão moral e religiosa, provocada pelo formalismo de uma religião estéril. Os “cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos” aqui são os pobres e famintos, ignorantes e pequeninos, os míseros e os doentes. Além do peso de sua vida oprimida e trabalhosa, eles carregam também a carga de uma interpretação insuportável da Lei, uma carga insuportável de centenas de determinações detalhadas da Lei interpretadas pelos escribas e fariseus. Ninguém conseguia cumpri-las, nem os próprios escribas e fariseus (Mt 23,4). O legalismo judaico era sufocante, uma moral sem alegria. Assim, a religião fica longe de ser motivo de liberdade e alegria, pois ele é reduzida a uma carga pesada. O ser humano se torna animal, pois a quem se impõe “jugo” e “carga”, se não aos animais?          

Pelo contrário, o jugo de Jesus é suave e a sua carga é leve. Os adjetivos “suave” e “leve” não invalidam os substantivos “jugo” e “carga”. Jugo suave e carga leve não falam do laxismo (doutrina que restringe excessivamente a obrigação moral, do latin “laxare” = tornar frouxo, relaxar), mas de prática possível. O cristianismo e a moral cristã não são uma imposição. A lei de Cristo é libertação, é lei de liberdade, lei do Espírito que dá vida, lei de relação filial com Deus, Pai Nosso e amigo da vida. Ao lado de Cristo, todas as fadigas se tornam amáveis e tudo o que poderia ser mais custoso no cumprimento da vontade de Deus se suaviza. Quem se aproxima de Jesus, encontrará repouso para suas aflições. Jesus veio, certamente, para libertar o ser humano de todo tipo de escravidão, mostrando-se manso e humilde de coração e recusando-se a multiplicar normas religiosas. Jesus reduziu tudo ao essencial: amor e misericórdia. A religião torna-se, assim, prazerosa por respeitar a liberdade e ser humanizadora.          

Para tudo isso se tornar possível, há uma chave principal: o amor, tanto como um dom recebido de Deus, pois ele nos amou primeiro (1Jo 4,19), como uma responsabilidade (cf. Jo 15,12), como Cristo que se dá a si mesmo a Deus e aos irmãos (cf. Jo 15,13). Quem ama não sente a lei de Cristo como uma obrigação pesada. Pela experiência sabemos que quando se ama de verdade muitas coisas se tornam fáceis e suportáveis e que seriam difíceis e até insuportáveis sem o amor. O amor torna tudo leve. Por amor um pai ou uma mãe é capaz de fazer até o impossível.          

Depois de ouvir o convite de Jesus “venham a mim todos vocês que estão cansados de carregar suas cargas pesadas”, vem pergunta: como você está? Como você se sente no momento? Como tem passado ultimamente? Sente-se cansado, desanimado, abatido por qualquer negócio malfeito, por qualquer doença em casa, por falta de entusiasmo ou de objetivos? Talvez você não tenha experimentado ainda ser simples como Jesus pede. Não se sinta arrogante que acha que já sabe de tudo, por isso não precisa de ajuda de ninguém. É melhor parar para verificar seu barco que talvez esteja furado e pode afundar a qualquer momento. Jesus está oferecendo ajuda. Não tenha medo de recomeçar!

Venham a Mim!”. Precisamos nos aproximar de Jesus para que Ele possa nos inspirar com Sua palavra e ganhemos nova força dele. Ir para Jesus é descarregar o fardo aos seus pés, olhá-lo nos olhos, renunciando às nossas pequenas idéias sobre a questão, e preferindo seu pensamento ao nosso.

P. Vitus Gustama,SVD

Terça-feira Da XIV Semana Comum, Ano Par, 07/07/2026

SOMOS PROLONGAMENTO DO AMOR MISERICORDIOS DE DEUS Terça-Feira da XIV Semana Comum Primeira Leitura: Os 8,4-7.11- 13 Assim fala o Senho...