segunda-feira, 16 de março de 2026

Solenidade De São José, Esposo Da Bem-Aventurada Virgem Maria, 19 de Março

SÃO JOSÉ, ESPOSO DA BEM-AVENTURADA VIRGEM MARIA,

PADROEIRO DA IGREJA UNIVERSAL

Primeira Leitura: 2Sm 7,4-5a.12-14a.16

Naqueles dias, 4a Palavra do Senhor foi dirigida a Natã nestes termos: 5a“Vai dizer ao meu servo Davi: ‘Assim fala o Senhor: 12 Quando chegar o fim dos teus dias e repousares com teus pais, então, suscitarei, depois de ti, um filho teu, e confirmarei a sua realeza. 13 Será ele que construirá uma casa para o meu nome, e eu firmarei para sempre o seu trono real. 14ª Eu serei para ele um pai e ele será para mim um filho. 16 Tua casa e teu reino serão estáveis para sempre diante de mim, e teu trono será firme para sempre’”.

Segunda Leitura: Rm 4,13.16-18.22

Irmãos, 13 não foi por causa da Lei, mas por causa da justiça que vem da fé que Deus prometeu o mundo como herança a Abraão ou à sua descendência. 16 É em virtude da fé que alguém se torna herdeiro. Logo, a condição de herdeiro é uma graça, um dom gratuito, e a promessa de Deus continua valendo para toda a descendência de Abraão, tanto para a descendência que se apega à Lei, quanto para a que se apoia somente na fé de Abra­ão, que é o pai de todos nós. 17 Pois está escrito: “Eu fiz de ti pai de muitos povos”. Ele é pai diante de Deus, porque creu em Deus que vivifica os mortos e faz existir o que antes não existia. 18 Contra toda a humana esperança, ele firmou-se na esperança e na fé. Assim, tornou-se pai de muitos povos, conforme lhe fora dito: “Assim será a tua prosperidade”. 22 Esta sua atitude de fé lhe foi creditada como justiça.

Evangelho: Mt 1,16.18-21.24a

16 Jacó gerou José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que é chamado o Cristo. 18 A origem de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, estava prometida em casamento a José, e, antes de viverem juntos, ela ficou grávida pela ação do Espírito Santo. 19 José, seu marido, era justo e, não querendo denunciá-la, resolveu abandonar Maria em segredo. 20 Enquanto José pensava nisso, eis que o anjo do Senhor apareceu-lhe, em sonho, e lhe disse: “José, Filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque ela concebeu pela ação do Espírito Santo. 21 Ela dará à luz um filho, e tu lhe darás o nome de Jesus, pois ele vai salvar o seu povo dos seus pecados”. 24ª Quando acordou, José fez conforme o anjo do Senhor havia mandado.

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José É Um Homem Que Sabe Escutar Deus e Ler Os Sinais De Deus

Sabe-se muito pouco da vida de José, esposo de Maria. Mas inquestionavelmente, ele pertence à “casa e família de Davi” (Lc 2,4), à linhagem do Messias (2Sm 7,12.16).  O silêncio de José fala de sua profunda interioridade e de sua intimidade com o mistério, e como consequência, de sua sabedoria de discernir os sinais dos tempos e acaba sendo colaborador de Deus na obra da redenção da humanidade. Neste espaço silencioso criado por José, Deus tem oportunidade para falar com ele. José fala pouco, mas escuta muito. Nisto consiste a compreensão do mistério, embora, intelectualmente, José não entenda. O silêncio de José nos mostra que ele está atento às manifestações ou sinais de Deus no seu cotidiano, pois precisamente Deus fala no nosso cotidiano e através do nosso dia-a-dia.  José é alguém que sabe escutar a voz que vem do profundo do seu ser e a voz que vem do mistério. O silêncio de José é reflexão. Diante do mistério da Encarnação de Deus, José se cala. O seu silêncio permite a presença da eternidade, permite que o Céu fale para ele. Por isso é que ele reconhece naquele Menino Jesus o Salvador do mundo.

A partir de então, José não é apenas esposo de Maria, mas o servo do Senhor que está pronto para exercer ou executar o que o Senhor lhe manda. Precisamente, a grandeza de José está em discernir sua missão a partir de uma profunda consciência de ser servo do Senhor e de ser pai adotivo para o menino Jesus, pois Jesus é o Filho de Deus.

Creio que não estamos habituados a refletir e sim a reagir. Por isso, em muitas coisas somos muito precipitados e acabamos cometendo muitos erros. A precipitação nos abre espaço para cairmos com facilidade de um erro atrás de outros erros. São José vem nos ensinar que precisamos escutar mais para compreender melhor, e falar menos.

A Primeira Leitura nos fala, com acentos históricos e teológicos, da descendência de Davi, que reinará para sempre. Seguramente, a profecia de Natan alude a Salomão, filho de Davi, e construtor do Templo. No entanto, as palavras “confirmarei/consolidarei a sua realeza/reino” (2Sm 7,12) indicam uma larga descendência sobre o trono de Judá. Esta descendência teve um final histórico e por isso, o oráculo é interpretado com força profética, e alude ao Messias, descendente de Davi. A tradição cristã releu sempre este fragmento como profético e messiânico, aplicando-o a Jesus, Messias descendente de Davi e de modo indireto, também a José, o último nome da genealogia davídica e transmissor histórico da promessa divina feita a Israel.

José: Um Homem Justo

“José, seu marido, era justo...”

O justo, biblicamente, significa aquele que é fiel aos mandamentos de Deus; aquele que tem fé nos anúncios dos profetas e espera com paciência seu cumprimento, pois Deus é fiel às suas promessas. Nada desvia José do caminho traçado por Deus. Embora passe por situações bastante dolorosas, José continua sendo firme como a rocha e sempre conta com a ajuda de Deus. É justo o homem que olha para Deus e ordena a sua vida segundo os ditames da vontade divina. É justo o homem que cumpre a Lei divina de todo coração e com sincera alegria e leveza. O justo é o homem sábio e bondoso. O justo é, portanto, uma figura ideal do homem agradável a Deus e aos homens de boa vontade. Será que estou dentro deste critério?

José: Um Homem Que É Chamado A Entrar No “Sonho” De Deus         

“Sonho” é um estado no qual a nossa atividade pessoal se detém ou pelo menos, está fortemente diminuída. No sonho não temos mais controle sobre a nossa vida e atividade. É um estado de profunda tranquilidade, de profunda serenidade, ou podemos dizer, de profundo êxtase. Certamente, quando nos calarmos, Deus começará a falar para nós (cf.1Rs 19,1-18). Enquanto não ficarmos calados, Deus não terá chance para falar conosco e de nós. Deus pode muito mais facilmente irromper na nossa vida, quando soubermos nos calar.          

José sabe criar o silêncio dentro de si para escutar melhor o que Deus quer dele numa situação complicada humanamente. Se dependesse de sua vontade, José abandonaria Maria e o Salvador no ventre de Maria: “José, seu marido, era justo e, não querendo denunciá-la, resolveu abandonar Maria em segredo”. Mas José acredita muito mais na vontade de Deus do que na sua própria vontade. Por causa da sua fidelidade à vontade de Deus, ele deixa de lado os planos de raciocínios meramente humanos. José deixa de se preocupar consigo próprio para seguir a vontade de Deus. Ele cria um espaço interior para ouvir a voz de Deus. Ele deixa ser convidado a entrar no “sonho” de Deus. O “sonho” de Deus é salvar a humanidade, mas com a participação do próprio ser humano.

"Mediante o sacrifício total de si próprio, José exprime o seu amor generoso para com a Mãe de Deus, fazendo-lhe ‘dom esponsal de si’. Muito embora decidido a afastar-se, para não ser obstáculo ao plano de Deus que nela estava a realizar-se, por ordem expressa do anjo ele manteve-a consigo e respeitou a sua condição de pertencer exclusivamente a Deus(João Paulo II: REDEMPTORIS CUSTOS no. 20b).

É tocante a docilidade de José diante da vontade de Deus que ele nem pede nenhuma explicação de Deus, como Maria (Lc 1,34), nem diz uma única palavra. Simplesmente ele faz seus os desígnios de Deus. Por isso, na perspectiva de sua fé que o anima, a estrutura humana de José se torna gigantesca. Ele é realmente um homem-sinal e homem-missão que se expressa no respeito pelo mistério de Deus operado em Maria e na vocação de ser o pai legal de Jesus.

Da mesma forma, somos todos convidados, a exemplo de José, a participar no “sonho” de Deus. É bom sonharmos com Deus para que todos sejam salvos.

José E Maria, Duas Pessoas Totalmente Dominadas Pela Luz De Deus e Obedientes à vontade de Deus

Não dá para falar de São José sem falar de Maria. Porque a existência de Maria ilumina a existência de José. E os dois são pessoas totalmente dominadas pela luz divina e obedientes à Palavra de Deus. Por isso, são José é chamado de o homem justo, isto é, aquele que vive totalmente de acordo com os mandamentos de Deus; é aquele se deixa guiar pela luz da Palavra de Deus.

Maria, mesmo antes de se casar com José, é uma jovem totalmente dominada pela graça de Deus. Por estar totalmente plenificada pela luz da graça de Deus, o Anjo do Senhor a chama de “cheia de graça”. Trata-se de uma jovem que se deixa conduzir totalmente pela graça de Deus.

Não é por acaso que, pela benevolência de Deus, o ventre da jovem Maria se torna o ninho do Salvador. E só pode ser José, o homem justo pode se tornar pai adotivo de Jesus. Somente dentro de uma família em que Maria como esposa cheia da graça e José, como esposo justo que vive de acordo com os mandamentos do Senhor é que o menino Jesus cresce em sabedoria e a graça diante dos homens e diante de Deus (cf. Lc 2,52).

Se quisermos encontrar uma jovem exemplar para ser espelhada pela juventude na preparação para formar uma família ou para seguir outra vocação, encontramos este exemplo em jovem Maria. Se quisermos encontrar um jovem para ser um futuro pai justo, encontramos em José como modelo. O casamento de duas pessoas de Deus: uma é cheia de graça e o outro vive de acordo com a Palavra de Deus, só pode sair uma geração cheia de sabedoria e da graça como Jesus.

Creio que, por tudo isso, não tem como não pedirmos a intercessão tanto do homem justo, José, como da jovem Maria, cheia de graça pela nossa juventude. A juventude, como todos nós, precisa olhar para José e Maria para que nossa família, nossos jovens, deixando-se guiar pela Palavra de Deus, possam crescer na sabedoria e na graça diante de Deus e diante dos homens. Somente assim seremos luzes para as pessoas ao redor.

Papa Francisco Sobre São José Na Carta Apostólica PATRIS CORDE

1. Pai Amado

A grandeza de São José consiste no facto de ter sido o esposo de Maria e o pai de Jesus. Como tal, afirma São João Crisóstomo, «colocou-se inteiramente ao serviço do plano salvífico».

2. Pai Na Ternura

Dia após dia, José via Jesus crescer «em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens» (Lc 2, 52). Como o Senhor fez com Israel, assim ele ensinou Jesus a andar, segurando-O pela mão: era para Ele como o pai que levanta o filho contra o seu rosto, inclinava-se para Ele a fim de Lhe dar de comer (cf. Os 11, 3-4). Jesus viu a ternura de Deus em José: «Como um pai se compadece dos filhos, assim o Senhor Se compadece dos que O temem» (Sl 103, 13).

3. Pai Na Obediência

De forma análoga a quanto fez Deus com Maria, manifestando-Lhe o seu plano de salvação, também revelou a José os seus desígnios por meio de sonhos, que na Bíblia, como em todos os povos antigos, eram considerados um dos meios pelos quais Deus manifesta a sua vontade.

Em todas as circunstâncias da sua vida, José soube pronunciar o seu «fiat», como Maria na Anunciação e Jesus no Getsêmani. Na sua função de chefe de família, José ensinou Jesus a ser submisso aos pais (cf. Lc 2, 51), segundo o mandamento de Deus (cf. Ex 20, 12).

Vê-se, a partir de todas estas vicissitudes, que «José foi chamado por Deus para servir diretamente a Pessoa e a missão de Jesus, mediante o exercício da sua paternidade: desse modo, precisamente, ele coopera no grande mistério da Redenção, quando chega a plenitude dos tempos, e é verdadeiramente ministro da salvação».

4. Pai No Acolhimento

José acolhe Maria, sem colocar condições prévias. Confia nas palavras do anjo. «A nobreza do seu coração fá-lo subordinar à caridade aquilo que aprendera com a lei; e hoje, neste mundo onde é patente a violência psicológica, verbal e física contra a mulher, José apresenta-se como figura de homem respeitoso, delicado que, mesmo não dispondo de todas as informações, se decide pela honra, dignidade e vida de Maria. E, na sua dúvida sobre o melhor a fazer, Deus ajudou-o a escolher iluminando o seu discernimento».

O acolhimento de José convida-nos a receber os outros, sem exclusões, tal como são, reservando uma predileção especial pelos mais frágeis, porque Deus escolhe o que é frágil (cf. 1 Cor 1, 27), é «pai dos órfãos e defensor das viúvas» (Sal 68, 6) e manda amar o forasteiro. Posso imaginar ter sido do procedimento de José que Jesus tirou inspiração para a parábola do filho pródigo e do pai misericordioso (cf. Lc 15, 11-32).

5. Pai Com Coragem Criativa

Se a primeira etapa de toda a verdadeira cura interior é acolher a própria história, ou seja, dar espaço no nosso íntimo até mesmo àquilo que não escolhemos na nossa vida, convém acrescentar outra caraterística importante: a coragem criativa. Esta vem ao de cima sobretudo quando se encontram dificuldades. Com efeito, perante uma dificuldade, pode-se estacar e abandonar o campo, ou tentar vencê-la de algum modo. Às vezes, são precisamente as dificuldades que fazem sair de cada um de nós recursos que nem pensávamos ter.

José é o homem por meio de quem Deus cuida dos primórdios da história da redenção; é o verdadeiro «milagre», pelo qual Deus salva o Menino e sua mãe. O Céu intervém, confiando na coragem criativa deste homem que, tendo chegado a Belém e não encontrando alojamento onde Maria possa dar à luz, arranja um estábulo e prepara-o de modo a tornar-se o lugar mais acolhedor possível para o Filho de Deus, que vem ao mundo (cf. Lc 2, 6-7). Face ao perigo iminente de Herodes, que quer matar o Menino, de novo em sonhos José é alertado para O defender e, no coração da noite, organiza a fuga para o Egito (cf. Mt 2, 13-14).

Sempre nos devemos interrogar se estamos a proteger com todas as nossas forças Jesus e Maria, que misteriosamente estão confiados à nossa responsabilidade, ao nosso cuidado, à nossa guarda. O Filho do Todo-Poderoso vem ao mundo, assumindo uma condição de grande fragilidade. Necessita de José para ser defendido, protegido, cuidado e criado. Deus confia neste homem, e o mesmo faz Maria que encontra em José aquele que não só Lhe quer salvar a vida, mas sempre A sustentará a Ela e ao Menino. Neste sentido, São José não pode deixar de ser o Guardião da Igreja, porque a Igreja é o prolongamento do Corpo de Cristo na história e ao mesmo tempo, na maternidade da Igreja, espelha-se a maternidade de Maria. José, continuando a proteger a Igreja, continua a proteger o Menino e sua mãe; e também nós, amando a Igreja, continuamos a amar o Menino e sua mãe.

6. Pai Trabalhador

Um aspeto que caracteriza São José é a sua relação com o trabalho. São José era um carpinteiro que trabalhou honestamente para garantir o sustento da sua família. Com ele, Jesus aprendeu o valor, a dignidade e a alegria do que significa comer o pão fruto do próprio trabalho.

O trabalho torna-se participação na própria obra da salvação, oportunidade para apressar a vinda do Reino, desenvolver as próprias potencialidades e qualidades, colocando-as ao serviço da sociedade e da comunhão; o trabalho torna-se uma oportunidade de realização não só para o próprio trabalhador, mas sobretudo para aquele núcleo originário da sociedade que é a família. Uma família onde falte o trabalho está mais exposta a dificuldades, tensões, fraturas e até mesmo à desesperada e desesperadora tentação da dissolução. Como poderemos falar da dignidade humana sem nos empenharmos para que todos, e cada um, tenham a possibilidade dum digno sustento?

A pessoa que trabalha, seja qual for a sua tarefa, colabora com o próprio Deus, torna-se em certa medida criadora do mundo que a rodeia. A crise do nosso tempo, que é económica, social, cultural e espiritual, pode constituir para todos um apelo a redescobrir o valor, a importância e a necessidade do trabalho para dar origem a uma nova «normalidade», em que ninguém seja excluído. O trabalho de São José lembra-nos que o próprio Deus feito homem não desdenhou o trabalho. A perda de trabalho que afeta tantos irmãos e irmãs e tem aumentado nos últimos meses devido à pandemia de Covid-19, deve ser um apelo a revermos as nossas prioridades. Peçamos a São José Operário que encontremos vias onde nos possamos comprometer até se dizer: nenhum jovem, nenhuma pessoa, nenhuma família sem trabalho!

7. Pai Na Sombra

O escritor polaco Jan Dobraczyński, no seu livro A Sombra do Pai, narrou a vida de São José em forma de romance. Com a sugestiva imagem da sombra, apresenta a figura de José, que é, para Jesus, a sombra na terra do Pai celeste: guarda-O, protege-O, segue os seus passos sem nunca se afastar d’Ele. Lembra o que Moisés dizia a Israel: «Neste deserto (…) vistes o Senhor, vosso Deus, conduzir-vos como um pai conduz o seu filho, durante toda a caminhada que fizeste até chegar a este lugar» (Dt 1, 31). Assim José exerceu a paternidade durante toda a sua vida.

Não se nasce pai, torna-se tal... E não se torna pai, apenas porque se colocou no mundo um filho, mas porque se cuida responsavelmente dele. Sempre que alguém assume a responsabilidade pela vida de outrem, em certo sentido exercita a paternidade a seu respeito.

Ser pai significa introduzir o filho na experiência da vida, na realidade. Não segurá-lo, nem prendê-lo, nem subjugá-lo, mas torná-lo capaz de opções, de liberdade, de partir. Talvez seja por isso que a tradição, referindo-se a José, ao lado do apelido de pai colocou também o de «castíssimo». Não se trata duma indicação meramente afetiva, mas é a síntese duma atitude que exprime o contrário da posse. A castidade é a liberdade da posse em todos os campos da vida. Um amor só é verdadeiramente tal, quando é casto. O amor que quer possuir, acaba sempre por se tornar perigoso: prende, sufoca, torna infeliz. O próprio Deus amou o homem com amor casto, deixando-o livre inclusive de errar e opor-se a Ele. A lógica do amor é sempre uma lógica de liberdade, e José soube amar de maneira extraordinariamente livre. Nunca se colocou a si mesmo no centro; soube descentralizar-se, colocar Maria e Jesus no centro da sua vida.

Maria e José: Duas Pessoas Que Se Deixam Guiar Pela Palavra De Deus

Não dá para falar de São José sem falar de Maria. Porque a existência de Maria ilumina a existência de José. E os dois são pessoas totalmente dominadas pela luz divina e se deixam guiar pela Palavra de Deus. Por isso, são José é chamado de o homem justo, isto é, aquele que vive totalmente de acordo com os mandamentos de Deus; é aquele se deixa guiar pela luz da Palavra de Deus.

Maria, mesmo antes de se casar com José, é uma jovem totalmente dominada e guiada pela graça de Deus. Por Maria estar totalmente plenificada pela luz da graça de Deus, o Anjo do Senhor a chama de “cheia de graça”. Trata-se de uma jovem que se deixa conduzir totalmente pela Palavra de Deus. Não é por acaso que, pela benevolência de Deus, o ventre da jovem Maria se torna o ninho do Salvador.

E só pode ser José, o homem justo, é que pode se tornar pai adotivo de Jesus. Somente dentro de uma família em que Maria como esposa cheia da graça e José, como esposo justo que vive de acordo com os mandamentos do Senhor é que o menino Jesus cresce em sabedoria e a graça diante dos homens e diante de Deus (cf. Lc 2,52).

Se quisermos encontrar uma jovem exemplar para ser espelhada pela juventude na preparação para formar uma família ou para seguir outra vocação, encontramos este exemplo em jovem Maria. Se quisermos encontrar um jovem para ser um futuro pai justo, encontramos em José. O casamento de duas pessoas de Deus: uma é cheia de graça e o outro vive de açodo com a Palavra de Deus, só pode ter como resultado uma geração cheia de sabedoria e da graça como Jesus.

O exemplo de São José é para todos nós um forte convite a desempenhar com fidelidade, simplicidade e humildade a tarefa que a Providência nos destinou. Penso antes de tudo, nos pais e nas mães de família, e rezo para que saibam sempre apreciar a beleza de uma vida simples e laboriosa, cultivando com solicitude o relacionamento conjugal e cumprindo com entusiasmo a grande e difícil missão educativa. Aos sacerdotes, que exercem a paternidade em relação às comunidades eclesiais, São José obtenha que amem a Igreja com afeto e dedicação total, e ampare as pessoas consagradas na sua jubilosa e fiel observância dos conselhos evangélicos de pobreza, castidade e obediência. Proteja os trabalhadores de todo o mundo, para que contribuam com as suas várias profissões para o progresso de toda a humanidade, e ajude cada cristão a realizar com confiança e com amor a vontade de Deus, cooperando assim para o cumprimento da obra da salvação.(PAPA BENTO XVI: Durante ANGELUS no III Domingo da Quaresma, 19 de Março de 2006)

Neste dia em que celebramos a sua solenidade, São José vem questionar nossa pouca fé, nossa infidelidade à vontade de Deus, nosso ceticismo em relação ao poder de Deus, nossas rebeldias contra Deus. São José vem sussurrar no nosso interior: “Confie em Deus, pois ele é fiel às suas promessas!”.  As almas mais sensíveis aos impulsos do amor divino vêem em José um exemplo luminoso de vida interior. Mais ainda, a aparente tensão entre a vida ativa e a vida contemplativa tem em José uma superação ideal, possível para quem possui a perfeição da caridade.” (João Paulo II: REDEMPTORIS CUSTOS no. 27).

São José e Quaresma

O pai adotivo de Jesus tem uma estreita ligação com a Quaresma. Esta ligação se explica como caminho preparatório ao Mistério central da Redenção: a Paixão, Morte Ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo. Mas tal tipo de Redenção foi possível porque o Filho de Deus é verdadeiramente homem. como todo homem tem umas raízes, um povo, uma história: o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai (Primeira Leitura). Sem raízes, sem estirpe, Jesus seria um estranho. É este o grande serviço que são José presta a partir de sua fé para a obra da Redenção.

A Quaresma é um caminho de iluminação progressiva na fé. É voltar a aprendermos a ver as pessoas, as coisas e os acontecimentos como os olhos com que Deus os vê. E nisto, temos em são José um verdadeiro Patriarca na linha da fé dos grandes personagens do Antigo Testamento. E no Novo Testamento, depois de Maria, e junto com Ela, rompe o caminho da fé para toda a Igreja: Apoiado na esperança, ele creu contra toda a esperança (Segunda Leitura). Ele fez o que o anjo do Senhor havia ordenado (Evangelho).

Também a Quaresma vai restaurar a comunhão com a Igreja, que o pecado rompeu, ou, ao menos relaxou ou corrompeu. Isso supõe voltar a viver a Igreja como conservadora (aquela que conserva, protege, cuida) e transmissora do mistério de Cristo para a salvação do mundo. Para esta dimensão faz referência a oração da coleta recordando a estreita vinculação de São José com a Igreja, já que a sua fiel custódia foram confiados por Deus os primeiros mistérios da salvação dos homens: “Deus todo-poderoso, pelas preces de são José, a QUEM CONFIASTES AS PRIMÍCIAS da Igreja, concedei que ela possa levar à plenitude os mistérios da salvação”.

A condição especial da paternidade de José em relação a Jesus não deve nos levar a pensar que ele não se exercitou como pai humano de Jesus, contribuindo para seu crescimento corporal e espiritual o próprio de um bom pai. Precisamente isso fazia parte de seu serviço ao Filho de Deus feito homem. Se a Quaresma está especialmente relacionada à educação na fé, como tempo catecumenal, a figura de São José é um chamado para os pais cristãos se exercitarem como tais, sendo os primeiros educadores da fé de seus filhos.

P. Vitus Gustama,svd

18/03/2026- Quarta-feira Da IV Semana Da Quaresma

DEUS TRABALHA ATRAVÉS DE NÓS EM PROL DO BEM DA HUMANIDADE

Quarta-Feira da IV Semana da Quaresma

Primeira Leitura: Is 49,8-15

8 Isto diz o Senhor: “Eu atendo teus pedidos com favores e te ajudo na obra de salvação; preservei-te para seres elo de aliança entre os povos, para restaurar a terra, para distribuir a herança dispersa; 9 para dizer aos que estão presos: ‘Saí!’ e aos que estão nas trevas: ‘Mostrai-vos’. E todos se alimentam pelas estradas e até nas colinas estéreis se abastecem; 10 não sentem fome nem sede, não os castiga nem o calor nem o sol, porque o seu protetor toma conta deles e os conduz às fontes d’água. 11 Farei de todos os montes uma estrada e os meus caminhos serão nivelados. 12 Eis que estão vindo de longe, uns chegam do Norte e do lado do mar, e outros, da terra de Sinim”. 13 Louvai, ó céus, alegra-te, terra; montanhas, fazei ressoar o louvor, porque o Senhor consola o seu povo e se compadece dos pobres. 14 Disse Sião: “O Senhor abandonou-me, o Senhor esqueceu-se de mim!” 15 Acaso pode a mulher esquecer-se do filho pequeno, a ponto de não ter pena do fruto de seu ventre? Se ela se esquecer, eu, porém não me esquecerei de ti.

Evangelho: Jo 5,17-30

Naquele tempo, 17Jesus respondeu aos judeus: “Meu Pai trabalha sempre, portanto também eu trabalho”. 18Então, os judeus ainda mais procuravam matá-lo, porque, além de violar o sábado, chamava Deus o seu Pai, fazendo-se, assim, igual a Deus.  19Tomando a palavra, Jesus disse aos judeus: “Em verdade, em verdade vos digo, o Filho não pode fazer nada por si mesmo; ele faz apenas o que vê o Pai fazer. O que o Pai faz, o Filho o faz também. 20O Pai ama o Filho e lhe mostra tudo o que ele mesmo faz. E lhe mostrará obras maiores ainda, de modo que ficareis admirados.  21Assim como o Pai ressuscita os mortos e lhes dá a vida, o Filho também dá a vida a quem ele quer. 22De fato, o Pai não julga ninguém, mas ele deu ao Filho o poder de julgar, 23para que todos honrem o Filho, assim como honram o Pai. Quem não honra o Filho, também não honra o Pai que o enviou.  24Em verdade, em verdade, eu vos digo, quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou, possui a vida eterna. Não será condenado, pois já passou da morte para a vida. 25Em verdade, em verdade, eu vos digo: está chegando a hora, e já chegou, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus e os que a ouvirem viverão. 26Porque, assim como o Pai possui a vida em si mesmo, do mesmo modo concedeu ao Filho possuir a vida em si mesmo. 27Além disso, deu-lhe o poder de julgar, pois ele é o Filho do Homem. 28Não fiqueis admirados com isso, porque vai chegar a hora em que todos os que estão nos túmulos ouvirão a voz do Filho e sairão: 29aqueles que fizeram o bem, ressuscitarão para a vida; e aqueles que praticaram o mal, para a condenação.  30Eu não posso fazer nada por mim mesmo. Eu julgo conforme o que escuto, e meu julgamento é justo, porque não procuro fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou.

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Na Primeira Leitura, o profeta Isaías (Deutero-Isaías) descreve o retorno do exílio (Babilônia) - sinal e penhor da libertação messiânica - com renovados temas e imagens do antigo Êxodo do Egito. O amor eterno do Senhor pelo seu povo (eleito), semelhante ao amor de uma mãe pelos seus filhos, exprime-se de forma concreta em toda a sua gratuidade e fidelidade infalível.

No Evangelho, Jesus revela seu poder divino, que recebe do Pai, para dar vida. Ele comunica esta vida pela proclamação da Palavra e anuncia a hora em que os mortos pelo pecado poderão encontrar a salvação e ter acesso à vida divina, e a hora em que os que jazem nos sepulcros ressuscitarão para o julgamento de o Filho. No Evangelho de hoje, Jesus anuncia, então, as maravilhas da "vida" que marcam o Reino inaugurado: o Filho dá vida aos mortos. A morte perdeu sua eficácia destruidora pela presença da Vida, pela Palavra vivificadora de Jesus: “... os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus e os que a ouvirem viverão” (Jo 5,25b). Não se refere aos fisicamente mortos e sim os que estão mortos espiritualmente e podem ser vivificados pela Palavra de Jesus. Aqueles que escutam Sua Palavra e creem, têm a vida eterna, e para eles, a experiência da morte e do juízo está superada.

Deus Nos Ama Com Um Amor Materno Eternamente

Acaso pode a mulher esquecer-se do filho pequeno, a ponto de não ter pena do fruto de seu ventre? Se ela se esquecer, eu, porém não me esquecerei de ti(Is 49,15).

A Primeira Leitura, tirada do Livro do profeta Isaías, faz parte do conjunto chamado Segundo Isaías, ou Deutero-Isaías (Is 40-55). Esta parte foi escrita durante o exílio na Babilônia. Por isso, percebe-se o desespero dos israelitas exilados: “O Senhor abandonou-me, o Senhor esqueceu-se de mim!”. O sofrimento durante o exílio é tanto a ponto de o povo se sentir abandonado por Deus. O povo fica longe do Templo de Jerusalém onde adora o Deus de Israel.

Temos a mesma tentação de questionar a existência de Deus quando somos dominados pelos sofrimentos insuportáveis. “Será que Deus existe?”, assim perguntamos. “Por que as minhas orações, até agora, não foram atendidas por Deus? Por que Deus demora em responder minhas orações?”. Mas fiquemos atentos, pois Deus sempre dá resposta através de tantas pessoas ou acontecimentos ou de alguns sinais que não conseguimos enxergar seu sentido. A oração não muda Deus, mas muda quem reza. Paradoxalmente, muitos vezes, Deus não atende como uma forma de atender, pois Ele quer nos salvar.

Para a pergunta dos israelitas desterrados se o Senhor os abandonou e se esqueceu deles, Deus dá sua resposta através da boca do profeta Isaías: “Acaso pode a mulher esquecer-se do filho pequeno, a ponto de não ter pena do fruto de seu ventre? Se ela se esquecer, eu, porém não me esquecerei de ti.

O amor eterno de Deus por seu povo, especialmente pelos israelitas desterrados, parecido ao amor de uma mãe por seus filhos, se expressa de uma maneira concreta em toda a sua gratuidade e fidelidade indefectível: “Acaso pode a mulher esquecer-se do filho pequeno, a ponto de não ter pena do fruto de seu ventre? Se ela se esquecer, eu, porém não me esquecerei de ti. Deus jamais pode esquecer-se de seu povo, pois lhe professa um amor mais forte do que o amor maternal, o amor mais sincero e profundo, e com um acento enfático Deus diz ao povo confidencialmente que o tem gravado nas palmas de suas mãos: “Eis que estás gravada na palma de minhas mãos, tenho sempre sob os olhos tuas muralhas” (Is 49,16). Deus leva o povo eleito nas palmas de suas mãos de modo que Deus possa tê-lo sempre presente para não esquecê-lo. Deus me leva na palma de Sua mão e me ama com amor uterino. Tenho que manter a certeza do amor de Deus por mim.

O profeta Isaias quer nos relembrar que Deus jamais nos abandona, como uma mãe que jamais abandona seu filho mesmo que este esteja muito doente. Deus está dentro de nós. Ou melhor dizer, nós estamos dentro de Deus, pois somos filhos e filhas seus. Sofrimento ou dor não sinaliza o abandono de Deus, mas mostra que somos finitos e criaturas dependentes de Deus. As duas frases do profeta Isaias servem como força para nós em qualquer momento: “Acaso pode a mulher esquecer-se do filho pequeno, a ponto de não ter pena do fruto de seu ventre? Se ela se esquecer, eu, porém não me esquecerei de ti” e “Eis que estás gravada na palma de minhas mãos, tenho sempre sob os olhos tuas muralhas”. Seja na alegria, seja no sofrimento e dor Deus está conosco todos os dias (Mt 28,20). O sofrimento nos faz procurarmos os outros e Deus.

A dor e o sofrimento parecem ter a habilidade especial de nos mostrar quanto nós necessitamos uns dos outros porque, de fato, somos frágeis e fracos. Nossas lutas nos recordam quão frágeis nós somos realmente. Inclusive, a debilidade dos demais pode nos sustentar quando nossa própria fortaleza ou força se esgota. Deus nos faz depender uns dos outros. A dor une as pessoas de todas as classes, pois a dor ou sofrimento não tem religião. Temos muito que oferecer aos que sofrem, e os demais tem muito que oferecer a nós quando temos problemas. O sofrimento nos ajuda a ter consciência de que necessitamos uns dos outros. E o sofrimento nos ajuda a aliviar as necessidades dos demais à medida que deixamos que Deus viva dentro de nós e através de nós. O amor nos capacita a detectarmos instintivamente daquilo que os outros necessitam e nos faz estendermos nossas mãos para ajudá-los.

Acaso pode a mulher esquecer-se do filho pequeno, a ponto de não ter pena do fruto de seu ventre? Se ela se esquecer, eu, porém não me esquecerei de ti. Há que deter-se prolongamente diante destas frases tão ardentes, diante de tais declarações de amor maternal da parte de Deus, tão profundas! Sou amado assim por Deus. Eu preciso continuar minha meditação sobre esta frase com um longo silêncio contemplativo. Deus não pode esquecer-se de mim. Tu, Senhor, jamais te esqueces de mim!

Temos Que Viver e Trabalhar Como Filhos de Deus

“Em verdade, em verdade vos digo, o Filho não pode fazer nada por si mesmo; ele faz apenas o que vê o Pai fazer. O que o Pai faz, o Filho o faz também”.

O evangelho deste dia é a continuação do evangelho do dia anterior. Seus contemporâneos judeus perseguem Jesus porque Ele “violou” o Sábado porque curou o paralítico nesse dia que para eles é o dia muito sagrado. Jesus justifica sua atuação com umas palavras que acabam agravando a situação: Jesus chama Deus de Pai e faz igual ao Pai: “Meu Pai trabalha até agora e eu também trabalho”.

Precisamos sublinhar a diferença sobre o tema do Sábado nos sinóticos (Mt, Mc e Lc) e no evangelho de João. No evangelho de João a cura no Sábado não tem como objetivo relativizar a lei do Sábado como nos evangelhos sinóticos, embora acabe relativizando o Sábado em função da salvação do homem. O evangelho de João quer nos demonstrar a autoridade de Jesus sobre o Sábado que vem por sua igualdade com Deus, como lemos no texto: “Meu Pai trabalha até agora e eu também trabalho...O que o Pai faz, o Filho o faz também”.

As razões para esta interpretação se encontram no Gn 2,2-3 onde Deus descansa no mesmo dia que termina a obra da criação. Nesta perspectiva Jesus resgata a dimensão criadora do Sábado devolvendo a vida e a liberdade ao homem enfermo, ao mesmo tempo, demonstra a união perfeita entre a ação de Jesus e a ação do Pai. O ponto de partida é que o Pai continua sendo o Autor da obra e o Filho, seu cumprimento definitivo. O projeto de Jesus atualiza o projeto de Deus que continua tendo como fundamento Deus Pai, o amor, a fé, a Palavra e a vida. Se quisermos unir nosso projeto com o projeto que vem do Pai e passa pelo Filho, devemos trabalhar em torno desse fundamento. Os projetos são muitos, mas o problema se eles estão em comunhão com o projeto de Deus. Ao fazer qualquer obra ou trabalho pastoral devemos lançar primeiro nosso olhar para o Pai e o Filho, pois “O que o Pai faz, o Filho o faz também”.  E o que Jesus Cristo faz é isso que devemos fazer também.

O que Deus faz pela humanidade nós podemos ler também na primeira leitura e no Salmo de meditação neste dia. A primeira leitura deste dia, tirada do Segundo Isaías e foi escrita durante o exílio na Babilônia, nos apresenta Deus não como o soberano onipotente e majestoso, nem como juiz implacável, mas como “aquele que tem compaixão”, que “consola”, que “conduz seu Povo às fontes de água”, como uma mãe carinhosa que cuida dos seus filhos e se comove por eles. São imagens cheias de calor humano. Imagens que dizem como Deus está ligado às criaturas e como Ele as ama com muita ternura! Deus dialoga com o homem nos largos espaços do amor, não no escrúpulo da observância dos preceitos. Deus ama todos nós mais do que uma mãe que ama seus filhos: “Acaso pode a mulher esquecer-se do filho pequeno, a ponto de não ter pena do fruto de seu ventre? Se ela se esquecer, eu, porém, não me esquecerei de ti”, diz-nos Deus (Is 49,15). E a bondade, a ternura, a misericórdia, a justiça e a santidade de Deus são proclamadas no Salmo de meditação deste dia.

No NT o amor cheio de ternura de Deus se fez carne em Jesus Cristo, Deus-Conosco (Mt 1,23; 18,20; 28,20), pois Ele dá a vida por nós todos: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham abundantemente” (Jo 10,10b). Jesus coloca o homem acima de qualquer lei por sagrada que ela pareça ser, como a Lei de Sábado para o Povo eleito. Para Jesus a salvação do homem é muito mais importante do que a Lei do Sábado por sagrado que ele possa ser considerado, como lemos no texto do evangelho deste dia. Toda a obra de Jesus é a obra do Pai que tem como foco o ser humano e sua salvação: “Em verdade, em verdade Eu vos digo, o Filho não pode fazer nada por si mesmo; ele faz apenas o que vê o Pai fazer. O que o Pai faz, o Filho o faz também” (Jo 5,19). Jesus trabalha como o Pai para salvar o homem. A glória de Deus é a salvação do homem. Jesus atua em perfeita sintonia com o Pai que O enviou. A plena unidade na ação brota de uma profunda comunhão de amor entre o Pai e o Filho. Por esta perfeita união Jesus tem o poder sobre a vida e a autoridade de juízo.

Os judeus acusaram Jesus por violar o Sábado. Mas Jesus respondeu: Meu Pai trabalha até agora e eu também trabalho(Jo 5,17). Trata-se de uma revelação surpreendente. O fazer de Jesus (Filho), como o seu ser, é do Pai. O Filho é contemplador e ouvinte amoroso do Pai. Poré, eles são consubstancial.

Meu Pai trabalha até agora e eu também trabalho. Palavra que deve continuar ressonando e ressoando em nós. Deus “trabalha”! A palavra “Sabbat” (hebraico), Sábado, significa repouso. Acusaram Jesus de não respeitar o repouso de Sábado. Resposta de Jesus: Deus não cessa de trabalhar. Sim, Deus continua “trabalhando” em mim e através de mim, na Igreja e através da Igreja, nas pessoas de boa vontade e através delas, nos que ajudam os necessitados e através deles, nos doentes e através dos doentes, nos que guiam e ensinam os demais para o bem e através deles, nos que acolhem os outros como irmãos e através deles, nos que visitam os doentes e através deles, nos que alimentam os famintos e através deles, nos que lutam pela dignidade de sua família e a família dos demais. Deus continua trabalhando através das pessoas ao meu redor, e assim por diante. Deus realmente continua trabalhando. Jesus, o Filho amado do Pai continua cooperando no trabalho do Pai em salvar a humanidade, em devolver a dignidade para os excluídos e marginalizados. Por isso, ele curou o paralítico no Sábado. A salvação e a dignidade do paralítico estão acima de qualquer lei por sagrada que ela pareça ser. O ser humano é mais sagrado do que qualquer lei, pois ele é o templo do Espírito Santo (cf. 1Cor 3,16-17).

O Pai não conhece o repouso, não cessou de trabalhar, porque enquanto o homem estiver/está oprimido pelo pecado e privado de liberdade, enquanto não tiver/não tem plenitude de vida, o Pai continuará trabalhando. Deus continua comunicando vida onde o homem coloca a morte, a esperança aos desesperados, a força aos debilitados, a guia e a luz de seu Santo Espírito para os desorientados e confusos. O amor de Deus pela humanidade está sempre ativo. Jesus atua como o Pai, não aceita leis que limitem sua atividade em favor da dignidade do homem.

Que nosso lema como cristãos seja o lema de Cristo: “O que o Pai faz, o Filho o faz também”. Não podemos parar de fazer o bem como Jesus que “passou a vida fazendo o bem” (At 10,38). Deus quer trabalhar através de nossa inteligência, de nossos dons, de nossa profissão, através de nossas obras de cada dia, através de nosso coração, de nossos braços que ajudam, e de nossos pés para ir ao encontro dos necessitados.  Se “Deus é trabalhador”, devemos, sim, como filhos d´Ele, ser trabalhadores do Pai. Se não for assim, deixaremos de ser chamados de filhos e filhas de Deus.

No fim do texto do evangelho de hoje Jesus fez a seguinte declaração:Não fiqueis admirados com isso, porque vai chegar a hora em que todos os que estão nos túmulos ouvirão a voz do Filho e sairão: aqueles que fizeram o bem, ressuscitarão para a vida. Os que praticam o bem não ficarão para sempre no túmulo. O túmulo nenhum é capaz de destruir quem pratica o bem, a exemplo do próprio Jesus ressuscitado. A partir de Jesus e com Jesus a ressurreição e a vida começam para os homens que acreditam n’Ele e para aqueles que praticam o bem.

Jesus prosseguiu: “Em verdade, em verdade, eu vos digo, quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou, possui a vida eterna. Não será condenado, pois já passou da morte para a vida”. A morte perdeu sua eficácia destruidora pela presença da vida, pela palavra vivificadora de Jesus, pela prática do bem. Crer é a orientação da vida para Jesus como centro da existência, ou orientar a vida para o bem. Vale a pena, então, fazer o bem todos os dias. Vale a pena não se cansar de praticar o bem apesar dos sofrimentos ou dificuldades. Uma vida dedicada ao bem do próximo é sempre uma vida glorificada. “Só a caridade, um dilúvio de caridade pode salvar o mundo” (Maritain).

As leituras de hoje nos convidam a colocarmos o nosso coração em harmonia com o coração de Deus. É preciso contemplarmos o mistério de Cristo, Deus-Conosco para que possamos alcançar o que diz São Paulo: “para termos o pensamento de Cristo” (1Cor 2,16) ou para termos “os mesmos sentimentos que havia em Jesus Cristo” (Fl 2,5). O que nos identifica com Cristo é o nosso amor fraterno (Jo 13,35; 15,12). Se Jesus coloca o homem acima de qualquer lei por sagrada que ela pareça ser, o cristão deve estar em plena unidade na ação com Cristo onde o ser humano é o foco de qualquer trabalho, pastoral e apostolado. Somente assim seremos chamados de irmãos, irmãs, mães, pais de Jesus: “Todo aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mt 12,50). Se quisermos ser verdadeiros cristãos devemos trabalhar em nome de Cristo e em perfeita sintonia de amor com ele para que todos nós sejamos reflexos do amor de Deus neste mundo. O amor nos faz detectarmos as necessidades dos outros. Sem o amor nada se detecta.

“Meu Pai trabalha até agora e eu também trabalho”. Nesta Quaresma, especialmente, somos chamados a nos vestir do Espírito de Jesus. Converter-se a Cristo significa deixar Cristo presente na minha existência em todos os momentos da minha vida. Consequentemente, faremos tudo que o Pai quer: salvar a humanidade.

P. Vitus Gustama,svd

17/03/2026- Terça-feira Da IV Semana Da Quaresma

JESUS, ÁGUA VIVA, SATISFAZ MEUS ANSEIOS MAIS PROFUNDOS DA MINHA VIDA

Terça-Feira da IV Semana da Quaresma

 

I Leitura: Ez 47,1-9.12

Naqueles dias, 1 o anjo fez-me voltar até a entrada do Templo e eis que saía água da sua parte subterrânea na direção leste, porque o Templo estava voltado para o oriente; a água corria do lado direito do Templo, ao sul do altar. 2 Ele fez-me sair pela porta que dá para o norte, e fez-me dar uma volta por fora, até a porta que dá para o leste, onde eu vi a água jorrando do lado direito. 3 Quando o homem saiu na direção leste, tendo uma corda de medir na mão, mediu quinhentos metros e fez-me atravessar a água: ela chegava-me aos tornozelos. 4 Mediu outros quinhentos metros e fez-me atravessar a água: ela chegava-me aos joelhos. 5 Mediu mais quinhentos metros e fez-me atravessar a água: ela chegava-me à cintura. Mediu mais quinhentos metros, e era um rio que eu não podia atravessar. Porque as águas haviam crescido tanto, que se tornaram um rio impossível de atravessar, a não ser a nado. 6Ele me disse: “Viste, filho do homem?” Depois fez-me caminhar de volta pela margem do rio. 7Voltando, eu vi junto à margem muitas árvores, de um e de outro lado do rio. 8Então ele me disse: “Estas águas correm para a região oriental, descem para o vale do Jordão, desembocam nas águas salgadas do mar, e elas se tornarão saudáveis. 9Onde o rio chegar, todos os animais que ali se movem poderão viver. Haverá peixes em quantidade, pois ali desembocam as águas que trazem saúde; e haverá vida onde chegar o rio. 12Nas margens junto ao rio, de ambos os lados, crescerá toda espécie de árvores frutíferas; suas folhas não murcharão e seus frutos jamais se acabarão: cada mês darão novos frutos, pois as águas que banham as árvores saem do santuário. Seus frutos servirão de alimento e suas folhas serão remédio”.

Evangelho: Jo 5,1-16

1Houve uma festa dos judeus, e Jesus foi a Jerusalém. 2Existe em Jerusalém, perto da porta das Ovelhas, uma piscina com cinco pórticos, chamada Betesda em hebraico. 3Muitos doentes ficavam ali deitados — cegos, coxos e paralíticos. 4De fato, um anjo descia, de vez em quando, e movimentava a água da piscina, e o primeiro doente que aí entrasse, depois do borbulhar da água, ficava curado de qualquer doença que tivesse. 5Aí se encontrava um homem, que estava doente havia trinta e oito anos. 6Jesus viu o homem deitado e sabendo que estava doente há tanto tempo, disse-lhe: “Queres ficar curado?” 7O doente respondeu: “Senhor, não tenho ninguém que me leve à piscina, quando a água é agitada. Quando estou chegando, outro entra na minha frente”. 8Jesus disse: “Levanta-te, pega tua cama e anda”. 9No mesmo instante, o homem ficou curado, pegou sua cama e começou a andar. Ora, esse dia era um sábado. 10Por isso, os judeus disseram ao homem que tinha sido curado: “É sábado! Não te é permitido carregar tua cama”. 11Ele respondeu-lhes: “Aquele que me curou disse: ‘Pega tua cama e anda’”. 12Então lhe perguntaram: “Quem é que te disse: ‘Pega tua cama e anda’?” 13O homem que tinha sido curado não sabia quem fora, pois Jesus se tinha afastado da multidão que se encontrava naquele lugar.  14Mais tarde, Jesus encontrou o homem no Templo e lhe disse: “Eis que estás curado. Não voltes a pecar, para que não te aconteça coisa pior”. 15Então o homem saiu e contou aos judeus que tinha sido Jesus quem o havia curado. 16Por isso, os judeus começaram a perseguir Jesus, porque fazia tais coisas em dia de sábado.

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Em Deus Encontro a Fonte Para Fecundar Minha Vida

O anjo fez-me voltar até a entrada do Templo e eis que saía água da sua parte subterrânea na direção leste, porque o Templo estava voltado para o oriente; a água corria do lado direito do Templo, ao sul do altar”. É a visão do profeta Ezequiel. Ezequiel usa a imagem da água para falar dos efeitos vivificantes que produz a presença da glória do Senhor no Templo.

Nesta Primeira Leitura, o profeta usa a imagem da torrente (fluxo de água rápida). As torrentes são no Antigo Testamento (AT) símbolo da vida que Deus dá, especialmente nos tempos messiânicos. E aqui Ezequiel usa a imagem da milagrosa corrente de água que flui do lado direito do templo (lugar da presença de Deus e centro de adoração que lhe agrada), e inunda tudo com sua saúde e fecundidade. Em São João (Jo 7,35-37) esta água é o Espírito que brota/emana do Cristo glorificado. E no evangelho de hoje, Jesus cura um paralítico perto da piscina. É o tema da água viva, água que vive e dá Vida. Jesus é esta Água Viva.

A água, como princípio da vida, é uma imagem frequentemente encontrada nos Livros Sagrados (por exemplo, Jl 4,18 Zac 14,8; Is 35, etc.). Não é de surpreender que Ezequiel use essa imagem ao falar dos efeitos vivificantes produzidos pela presença da glória do Senhor no Templo.

A palavra “água” aparece em torno de 582 vezes no AT e cerca de 80 vezes no NT. Mas em torno do termo “água” aparece toda uma constelação de términos que expressam mais diretamente à experiência humana de água. Assim na Bíblia se encontra:

1.    Terminologia meteorológica: chuva, orvalho, geada, neve, granizo, furacão etc. 

2.    Terminologia geográfica: oceano, abismo, mar, fonte, rio, torrente.

3.    Terminologia de provisionamento: poço, canal, cisterna.

4.    Terminologia do uso da água: beber, saciar a sede, submergir/batizar, lavar, purificar, derramar.

A água assume em todas as áreas geográfico-culturais um valor simbólico-evocativo. Para o AT o tema sobre água afeta uns 1500 versículos e mais de 430 versículos no NT. É uma massa enorme de textos que testemunham a quase contínua presença desse elemento na Bíblia, em suas diversas expressões e valorizações.

A Bíblia se abre (Gn 1,1ss) e se fecha (Ap 21-22) sobre um fundo de “visões”, em que a água é um elemento dominante. As duas tradições do Pentateuco (P: Gn 1,1ss; J: Gn 2,4bss) que se remontam às origens põem em cena a água como elemento decisivo da protologia (princípio). O mesmo faz o Apocalipse (Ap 21-22) com a escatologia (fim). Parece como se a protologia e a escatologia não pudessem pensar-se sem associar de algum modo o homem bíblico a este elemento que envolve a vida do ser humano: a água. Numa terra seca a busca de água e seu provisionamento era e é um problema constante e uma questão de vida e de morte. Por ser fator de vida que limpa sujeiras (além de outros benefícios), na Bíblia a água se converte em símbolo do Espírito de Deus que limpa e elimina o mal.

Para o homem bíblico a água é benéfica, condição do bem-estar e de felicidade, indispensável para a vida do homem e seus ritos religiosos. Mas o homem bíblico tem consciência de que a água também pode se converter em água de morte, de devastação, de purificação: dilúvio, mar, inundações, tempestades e assim por diante.

Em outras palavras, na Bíblia a água conserva ambos os sentidos simbólicos: símbolo destruidor e símbilo vivificante. O símbolo da água destruidora é o que estava na base do batismo de João.

“Estas águas correm para a região oriental, descem para o vale do Jordão, desembocam nas águas salgadas do mar, e elas se tornarão saudáveis. Onde o rio chegar, todos os animais que ali se movem poderão viver. Haverá peixes em quantidade, pois ali desembocam as águas que trazem saúde; e haverá vida onde chegar o rio. Nas margens junto ao rio, de ambos os lados, crescerá toda espécie de árvores frutíferas; suas folhas não murcharão e seus frutos jamais se acabarão: cada mês darão novos frutos, pois as águas que banham as árvores saem do santuário. Seus frutos servirão de alimento e suas folhas serão remédio”. Assim descreveu o profeta Ezequiel sobre a água.

São imagens simbólicas. Deus anuncia aqui uns tempos maravilhosos: do Templo sai uma fonte cujo curso cresce, cresce até chegar a ser uma torrente saudável. Isto quer nos dizer que Deus não retém Seus bens para Si, mas deixa os homens participarem das Suas bênçãos. Até o próprio Filho Ele enviou para o mundo a fim de salvar a humanidade (Jo 3,16). As abundantes graças de Deus continuam a nos inundar desde que estejamos abertos a Deus, como Maria, a Mãe do Senhor, está cheia de graça (Lc 1,28).

“Onde o rio chegar, todos os animais que ali se movem poderão viver. Haverá peixes em quantidade, pois ali desembocam as águas que trazem saúde; e haverá vida onde chegar o rio. Nas margens junto ao rio, de ambos os lados, crescerá toda espécie de árvores frutíferas”. Há aqui uma “água nova” como um poder de ressurreição: suscita seres vivos. É uma água que dá vida.

O sinal atual desta água é o Batismo. Com o Batismo entramos na força divina. Com Sua graça Deus é capaz de transformar o deserto de nossos corações em jardins florescentes de vida. Meu Batismo é uma fonte de Vida. Tenho que estar consciente disso.

Ezequiel usa a imagem da água para falar dos efeitos vivificantes que produz a presença da glória do Senhor no Templo.

Jesus É a Água Viva Que Satisfaz Nossos Anseios Profundos

Jo 5,1-16 como o texto de nossa reflexão neste dia se encontra na primeira parte do evangelho de João (Quarto Evangelho) conhecida como “Livro dos sinais” (Jo 2,1-12,50). Chama-se “Livro dos Sinais” porque, nesta parte, referem-se aos sete sinais realizados por Jesus. Os sete sinais são: a transformação da água em vinho (Jo 2,1-12), a cura do filho do funcionário real (Jo 4,46-54), a cura do paralítico (Jo 5,1-9), a multiplicação dos pães/partilha dos pães (Jo 6,1-15), Jesus anda sobre as águas (Jo 6,16-21), a cura do cego de nascença (Jo 9,1-41), e a “ressurreição” / reanimação de Lázaro (Jo 11,1-44).

O “sinal”, por definição, visa a outra realidade além de si mesmo. Por isso, este nome (sinal) indica que se trata de ações simbólicas, pois os sete sinais são as setas indicadoras que nos impulsionam a buscarmos muito mais além do episódio concreto, para uma realidade mais profunda para a qual aponta o relato narrado.

No evangelho de hoje, Jesus cura um paralítico perto da piscina. É o tema da água viva, água que vive e dá a vida. Podemos ler também este tema através da revelação na visão do profeta Ezequiel na primeira leitura (Ez 47,1-9.12). A água como princípio de vida é uma imagem que se encontra frequentemente na Bíblia (Por exemplo: Jl 4,18; Zc 14,8; Is 35 etc.).

A água de Ez 47 é protótipo de a água dos últimos tempos abertos por Cristo: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crê em mim, do seu interior manarão rios de água viva” (Jo 7,37-38; cf. Zc 14,8; Is 58,1). Em Jesus se cumpriu a profecia do profeta Ezequiel. Dele nos vem a grande efusão do Espírito que simbolizava a água. Unicamente de Jesus nos pode vir a fecundidade, a vida individual e coletivamente, pois por onde a agua passa, aí surge vida. A única salvação, a única solução se encontra em Jesus Cristo, Deus que salva: “Em nenhum outro há salvação, porque debaixo do céu nenhum outro nome foi dado aos homens, pelo qual devamos ser salvos” (At 4,12), senão Jesus Cristo, nosso Senhor.

O evangelista João nos apresenta Jesus, no evangelho de hoje, como libertador, como aquele que vem salvar a humanidade. A libertação se adquire não por meios mágicos, como o correr da água da piscina de Betesda, e sim mediante um encontro pessoal com o Senhor. Buscar a proximidade de Deus, permanecer junto a Ele, respirar Sua própria vida é o único mandamento que Deus propõe ao homem para que o homem seja salvo.

1. Jesus É Água Viva

O nome da piscina onde se encontra o paralítico, como outros enfermos, é “Betesda”. Sua etimologia aramaica significaria “casa da misericórdia” (outros dizem que significaria “lugar do derramamento”: beth ‘eshdah, hebariaco). É uma espécie de refúgio para adoentados de todo tipo. Essa piscina foi descoberta pelos arqueólogos em 1931-1932 entre as ruínas da basílica de Santa Ana.

Os enfermos (cegos, coxos e paralíticos) estavam próximos dessa piscina porque acreditava-se que aquelas águas tinham poder curativo. Acreditava-se, conforme o relato, que quem pulasse primeiro nessas águas, ficaria curado de sua doença. Por isso, podemos imaginar cada disputa e concorrência sem piedade, pois cada um quer ficar curado. Nesse momento ninguém quer saber de ningué, pois cada um por si em nome da cura. Raiva, rancor e expectativa se misturam numa pessoa só. Raiva e rancor ao ver que o outro conseguiu rapidamente entrar na água. Expectativa porque cada um fica esperando o borbulhar da água para poder pular a fim de ficar curado. Mas isso supõe pessoas prontas para ajudar o doente a entrar na piscina. Mas até quando pode pular na piscina, tendo tanta gente doente perto da piscina. O nome “Betesda” que significa “casa de misericórdia” se torna um paradoxo, pois há mais miséria do que misericórdia.

Podemos imaginar também a solidão de um que sofria durante trinta e oito anos sem ninguém para ajudá-lo. Trinta e oito anos de sofrimento. Só faltavam dois anos para completar uma geração.  É um solitário que necessita da misericórdia de outras pessoas ali presentes, mas quem daria lugar para ele para pular na piscina? Cada uma dessas pessoas se preocupa com seu próprio doente.

O doente em questão está num estado desesperador: “Senhor, não tenho ninguém que me leve à piscina, quando a água é agitada. Quando estou chegando, outro entra na minha frente”.  O evangelista João gosta de ressaltar casos tão desesperadores, como Lázaro enterrado há quatro dias (Jo 11,39-44), o cego de nascença (Jo 9,1-41) para destacar o poder de Deus que ultrapassa os limites humanos, que faz o impossível em possível (Lc 1,37), o morto em uma pessoa viva etc....

Por esta razão o que mais importante neste relato não é saber se as águas tinham ou não tinham poder curativo. O ensinamento fundamental que o evangelista João quer nos transmitir é que a Palavra de Jesus é vivificante. A palavra de Jesus dá vida. Jesus é a água viva que purifica e sacia a sede eterna da felicidade do homem (cf. Jo 4,1-42). A palavra de Jesus tem poder vivificador, isto é, dá vida, vivifica. A vida eterna, a salvação só encontra em Jesus. Em são João esta água é o Espírito que mana de Cristo glorificado: “Se alguém tiver sede, venha a mim e beba. Quem crê em mim, do seu interior manarão rios de água viva” (Jo 7,37-38). Unicamente de Cristo nos pode vir a fecundidade, a vida, tanto para o nível pessoal como para o nível coletivo. Nossa vida se rejuvenesce quando o Espírito de Deus nos inunda.

2. A Primazia Do Amor Sobre A Lei Por Sagrada Que Ela Seja

Ora, esse dia era um sábado” e o homem curado carrega sua cama no sábado que é proibido para os judeus. Com isso, o relato da cura do enfermo da piscina Betesda nos coloca diante da polêmica típica dos evangelhos: a primazia do amor sobre a lei. Jesus enfatiza que a necessidade do ser humano está acima de qualquer lei ainda que uma lei seja sagrada. Jesus não se preocupa em cumprir o preceito de descanso (Jo 5,9b); para ele conta somente o bem do homem em qualquer circunstância, muito mais ainda quando se trata de uma vida em jogo.  Jesus comunica uma nova vitalidade que permite os homens se levantarem de prostração. Para os dirigentes do povo, ao contrário, conta somente a observância da lei ou do preceito (Jo 5,10). A observância da lei de descanso equivale à observância da lei toda; sua violação é a violação da lei inteira. O foco da atividade de Jesus é o homem e seu bem e salvação, e não a própria atividade. A lei suprema é a o bem e a salvação do homem.                 

Precisamos nos examinar se frequentamos a Igreja só para cumprir preceitos ou para celebrar alguma coisa. Precisamos nos perguntar também se colocamos pessoas no centro de nossas atividades ou fazemos apenas uma agitação estéril. Se não colocarmos as pessoas como o centro de todas as nossas atividades pastorais, trabalharemos inutilmente na Igreja de Jesus Cristo. Ama menos quem se preocupa demasiadamente com as regras. As regras devem ajudar o homem a crescer e a se aproximar mais de Deus.

3. Jesus É A Nossa Única Esperança

Os enfermos estão próximos da piscina, não podem entrar no Templo, estão esperando uma possibilidade de encontrar-se com Deus. Para o paralitico do evangelho de hoje, símbolo de tantos que esperam, a agitação da água era algo que o mantinha na esperança ainda que essa esperança levasse já muitos anos sem ver-se realizada: 38 anos de sofrimento, quase uma vida inteira (o número 40 representa uma geração). 

A única coisa que mantinha o paralítico na esperança, apesar de um longo sofrimento, era a água agitada de cura. Mas apareceu o inesperado, maior do que a água agitada: Jesus Cristo, Água viva.

4. O Que Mantém Você Na Esperança Nesta Vida?  Qual É Sua Esperança Nesta Vida?

Jesus se aproxima do paralítico com esta pergunta: “Queres ficar curado?”. Apesar de seu relato pouco longo, Jesus compreende que o paralítico quer realmente a cura. Por isso, logo em seguida Jesus disse as seguintes palavras: “Levanta-te, pega tua cama e anda”. A cama carregava o paralítico durante tanto tempo e o fazia deitado nela. Agora é ele quem carrega a cama. É superação! A força de Jesus penetra na vida desse homem que o faz capaz de superar tudo na vida e de carregar tudo, pois a força que está dentro é a própria força do Senhor.

Queres ficar curado?” é a pergunta dirigida a cada um de nós. Queres ficar curado do teu pecado e de tua mesquinhez? Queres ficar curado da tua angústia, da tua confusão, e de tua preocupação? Queres ficar curado da tua doença, da tua depressão? Mas será que nós sabemos o que queremos? Será que ainda somos capazes de querer e de querer viver? Quem nos dará hoje a vontade de viver, de reviver? Quem nos dará forças para lutar e andar?

“Levanta-te e anda!”. Levantar-se e andar é o começo de uma vida nova. Deus quer um “homem de pé”, um homem que avança, um homem capaz de superar-se. O pecado é uma paralisia. O pecado paralisa o homem. O “homem de pé” é capaz de levar sua “cama” que o oprimia, é capaz de suportar-se a si mesmo. Para isso o homem precisa escutar atentamente a Palavra de Deus. Com Jesus a nossa vida continuará vitoriosa. Confiemos n´Ele e ouçamos sempre sua Palavra que é a Palavra da vida.

O que perturba não é o que aconteceu, e sim o modo de ver o que aconteceu; não o fato em si, mas a interpretação que se lhe dá. Os fatos passados jamais mudarão, mas o nosso modo de vê-los e de vivê-los pode mudar.

Levanta-te e anda!” é a ordem divina para cada um de nós. Ouvindo atentamente e acreditando profundamente na força da Palavra de Deus, nós poderemos andar com muita segurança para o futuro de Deus que ele prepara para quem o merece. Com Jesus os problemas que nos faziam deitados sem ânimo e sem força, podemos carregá-los, a exemplo do paralítico no evangelho de hoje. Que a ordem de Jesus penetre no nosso coração para reviver as forças divinas, adormecidas dentro de nós.

P. Vitus Gustama,svd

Solenidade De São José, Esposo Da Bem-Aventurada Virgem Maria, 19 de Março

SÃO JOSÉ, ESPOSO DA BEM-AVENTURADA VIRGEM MARIA , PADROEIRO DA IGREJA UNIVERSAL Primeira Leitura: 2Sm 7,4-5a.12-14a.16 Naqueles dias,...