quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Sexta-feira Após Quarta-feira de Cinzas, 20/02/2026

O JEJUM QUE DEUS QUER DE CADA UM DE NÓS

Sexta-Feira Após Quarta-Feira De Cinzas

Primeira Leitura: Is 58,1-9

Assim fala o Senhor Deus: 1“Grita forte, sem cessar, levanta a voz como trombeta e denuncia os crimes do meu povo e os pecados da casa de Jacó. 2Buscam-me cada dia e desejam conhecer meus propósitos, como gente que pratica a justiça e não abandonou a lei de Deus. Exigem de mim julgamentos justos e querem estar na proximidade de Deus: 3“Por que não te regozijaste, quando jejuávamos, e o ignorastes, quando nos humilhávamos?”. É porque no dia do vosso jejum tratais de negócios e oprimis os vossos empregados. 4 É porque, ao mesmo tempo que jejuais, fazeis litígios e brigas e agressões impiedosas. Não façais jejum com esse espírito, se quereis que vosso pedido seja ouvido no céu. 5 Acaso é esse jejum que aprecio, o dia em que uma pessoa se mortifica? Trata-se talvez de curvar a cabeça como junco, e de deitar-se em saco e sobre cinza? Acaso chamas a isso jejum, dia grato ao Senhor? 6 Acaso o jejum que prefiro não é outro: quebrar as cadeias injustas, desligar as amarras do jugo, tornar livres os que estão detidos, enfim, romper todo tipo de sujeição? 7 Não é repartir o pão com o faminto, acolher em casa os pobres e peregrinos? Quando encontrares um nu, cobre-o, e não desprezes a tua carne. 8 Então, brilhará tua luz como a aurora e tua saúde há de recuperar-se mais depressa; à frente caminhará tua justiça e a glória do Senhor te seguirá. 9ª Então invocarás o Senhor e ele te atenderá, pedirás socorro, e ele dirá: “Eis-me aqui”.

Evangelho: Mt 9, 14-15

Naquele tempo, 14os discípulos de João aproximaram-se de Jesus e perguntaram: “Por que razão nós e os fariseus praticamos jejuns, mas os teus discípulos não?” 15Disse-lhes Jesus: “Por acaso, os amigos do noivo podem estar de luto enquanto o noivo está com eles? Dias virão em que o noivo será tirado do meio deles. Então, sim, eles jejuarão”.

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Sexta-feira é o dia de jejum. As leituras de hoje nos falam do JEJUM. O jejum sempre tem sentido de “privaçãoou de “renúncia”. Jejuar consiste essencialmente em nos privar de alimento pelo sentido da palavra, mas em geral é referido a qualquer tipo de privação. O jejum começa a reentrar na nossa cultura atual por razões de dieta e de estética, ou aconselhado por certas formas de religiosidade, com origem no Oriente.

O jejum é um dos componentes fundamentais da Quaresma. Mas podemos entender mal as suas motivações ou até cair no egoísmo e no orgulho. Por isso, a Igreja nos alerta para duas dimensões essenciais do jejum: a sua referência a Cristo e a sua dimensão de solidariedade. Mais que a privação de alimentos, é o espírito com que se realiza o jejum que determina o verdadeiro sentido do jejum. O jejum deve ser uma expressão do desejo profundo de conversão. Santo Agostinho dizia: Para jejuar deveras há que abster-se, antes de mais, de todo pecado”.

Fazer jejum significa saber renunciar a algo e dá-lo aos demais que estão em necessidade; é saber controlar nossas apetências; é saber nos defender com liberdade interior das contínuas urgências do mundo de consumismo. É jejuar em função da partilha, especialmente para os mais necessitados. Jejuar é purificador. Jejuar não seria privar-se de tudo e sim usar moderação em tudo, isto é, ser sóbrios. Jejum supõe um grande domínio de si, de disciplina de olhos, da mente e da imaginação. A falta de sobriedade é uma das causas pelas quais se obscurecem e se debilitam as melhores iniciativas e decisões de um cristão. A sobriedade é certamente uma garantia da capacidade de orar e de apreciar o Espírito Santo. Com a renúncia às coisas Cristo nos chama à alegria, a uma alegria profunda, nascida da paz da alma. Fazer jejum é renunciar a algo para dá-lo aos necessitados. O jejum com uma dimensão de solidariedade nos tira do egoísmo, nos tira de uma vida vazia. Paradoxalmente a vida vazia é pesada para quem a tem. Sou livre quando a graça pesa mais do que as regras e não o contrário.

O jejum deve conduzir o cristão para uma abertura maior para com os demais, especialmente para os necessitados. É Jejuar para poder dar mais aos pobres. Se a falta da caridade continuar, se a injustiça estiver presente em nosso modo de atuar com os demais, pouco poderá agradar a Deus nosso jejum e nossa Quaresma. Poderemos queixar, como os judeus do tempo do profeta Isaías, de que Deus não nos escuta, se não cuidarmos os filhos e filhas de Deus que estão passando por necessidade pelo básico?

O profeta Isaías, na Primeira Leitura, é chamado pelo Senhor para denunciar com energia e coragem o divórcio entre o culto e a moral: “Grita forte, sem cessar, levanta a voz como trombeta e denuncia os crimes do meu povo e os pecados da casa de Jacó”. Jejuar e conspirar contra o pobre é a forma mais perversa de religiosidade. O culto para ser autêntico deve ir precedido da justiça: antes de aproximar-se do altar, há que estar em paz com o irmão. O Deus dos profetas se conhece no implacável imperativo moral de justiça. É um erro separar o amor e a justiça. O profeta Isaías denuncia o vazio do jejum exterior, incapaz de transformar a conduta. Deus quer que a penitência leve à renovação do espirito pela prática da justiça e do bem. O Senhor somente está ao lado daqueles que se esforçam na prática do amor. Por isso, o profeta Isaias, na Primeira Leitura de hoje, descreve qual é o verdadeiro jejum que agrada a Deus (Is 58,6-9).  Deus não quer o jejum formalista que não tem em conta a vida do outro, e muito menos a justiça. Nada valem as ações que excluem o amor ao próximo. O verdadeiro jejum, no pensamento do profeta, remete ao comportamento capaz de renunciar à ganância, à avareza para começar a ser generoso e solidário; capaz de renunciar ao tempo pessoal para ir ao encontro do necessitado (doente, prisioneiro, idoso etc.) para estar com ele a fim de aliviar uma parte de sua dor. O jejum verdadeiro consiste em quebrar todas as cadeias injustas, em repartir o pão com o faminto. Segundo o profeta Isaias, o culto deve estar unido à solidariedade com os necessitados. Caso contrário, não agrada a Deus e é estéril. As manifestações exteriores de conversão têm a sua prova real na caridade e na misericórdia para com os necessitados, com os pobres, com os carentes do essencial como um ser humano para viver. O verdadeiro jejum é um verdadeiro compromisso com os irmãos necessitados e empobrecidos ou injustamente são presos.

Segundo o profeta Isaias, o culto deve estar unido à solidariedade com os necessitados. O jejum que Deus quer é a conversão a Ele e ao amor dos irmãos; é o jejum do egoísmo, partilhando com os necessitados o que se tem. Jejuar é bom, diz Deus, mas não é o essencial. O essencial é respeitar o próximo, não explorá-lo, não considerá-lo como um objeto para nosso proveito. Jejum sem amor carece de sentido, não agrada a Deus e é estéril. As manifestações exteriores de conversão têm a sua prova real na caridade e na misericórdia para com os necessitados, com os pobres, com os carentes do essencial como um ser humano para viver.

O texto do qual foram extraídos os dois versículos do Evangelho de hoje descreve a refeição que Mateus, o publicano, ofereceu a Jesus e a seus discípulos depois de ter recebido o convite de seguir o Messias, Jesus Cristo.

A frase-chave: “O noivo está com eles” (Mt 9,15). Por isso, não tem necessidade de fazer jejum. Jesus Cristo é o “Noivo”. Deus não é Alguém que era ou que será: Ele é. Na eternidade não há jejum, pois Deus está conosco e nós estamos com Deus e diante d´Ele. Por isso, os discípulos de Jesus não jejuam, pois vivem a alegria do encontro com Ele. O banquete do Cordeiro que o Senhor nos oferece elimina a morte para sempre e enxuga as lágrimas de cada rosto (Is 25,6-12; Ap 7,17). Em sua carne está inseparadamente unida a divindade e a humanidade. Celebram-se, então, as núpcias entre o homem e Deus. Ninguém está excluido das núpcias (festa), porque o Noivo, Jesus Cristo, é o princípio e o fim da criação e por Ele e em vista d´Ele  tudo foi feito e tudo susbsite (cf. Cl ,1,16s; Jo 1,3-5). Por isso, na casa de Mateus, o pecador (publicano), se encontram os discípulos, os outros pecadores, os discípulos de João e também os fariseus (veja a passagem anterior): todos estão presentes nas núpcias do Cordeiro, que carrega sobre si o pecado do mundo (Jo 1,29: Mt 8,17-citando Isaías). Todos estão convidados a participar da festa da salvação. O Senhor quer ceiar com todos, pecadores convictos ou não. Com Jesus acaba o jejum e inicia-se o banquete nupcial (Mt 9,14-15).

Na casa de Mateus, nós pecadores somos chamados para o banquete das núpcias. Nós homens conhecemos jejum ou carência, solidão, tédio e evidência/certeza de morte, porque tem fome de amor, vestido, embriaguez, novidade, vida e salvação. A vinda do Senhor sacia essa fome, tão antiga quanto o próprio homem, pois Ele vem para nos dar vida em abundância (Jo 10,10). Jesus Cristo é o alimento, o Pão da Vida (Jo 6,48), a veste nova, o melhor vinho reservado por último (Jo 2,1-12). Em Jesus é nos dado tudo o que Deus é.

Os discípulos de João Batista ficaram admirados pelo fato de que Jesus e seus discípulos não jejuem como eles, de maneira rigorosa. Na sua resposta Jesus diz que os discípulos de João Batista não viram ainda em Jesus “o esposo” messiânico. Se tivessem visto, compreenderiam que então o jejum não tinha o mesmo significado.

Jejum está relacionado com o tempo da espera. O próprio Jesus jejuou no deserto resumindo em sua pessoa a longa preparação da humanidade em vista da instauração do Reino de Deus. Mas quando começa seu ministério público, Jesus pode dizer com pleno direito que o Reino está presente, que o Esposo chegou e que não é conveniente aos amigos do Esposo jejuarem enquanto o Esposo está com eles. O jejum não tem mais sentido no tempo de realização. Somente depois da Ressurreição, o jejum retomará sua significação na medida em que o tempo da Igreja deverá ainda integrar a dimensão da preparação e construção do Reino de Deus.

Este é o ritmo da Igreja: o que ela já possui, dá o verdadeiro sentido àquilo que ainda está construindo e o que ela ainda constrói lhe dá consciência daquilo que já possui. Neste ritmo é que tem lugar o jejum: ele está ligado pela Igreja aos dias dedicados à espera e à preparação.

Tendo presentes estas dimensões, entendemos melhor o sentido do jejum que nos é recomendado e pedido pela Igreja, e mais facilmente evitamos cair na busca de uma perfeição individualista e fechada, sem nos preocuparmos com Cristo presente nos outros irmãos necessitados (Mt 25,40.45) como bem enfatizou o profeta Isaías na Primeira Leitura.

Em outras palavras, o verdadeiro jejum consiste em que cessam as palavras, mas que falem os fatos e as obras de caridade; que cale o entendimento, mas que grite o coração. Não há nada que seja mais eloquente do que um minuto de silêncio. Um minuto de silêncio pode ser um minuto de escuta, um minuto de reflexão, um minuto de compromisso, um minuto de amor, um minuto solidariedade, um minuto de ação compassiva para o necessitado. Um dia de jejum deve ser também um dia de amor e uma semente de esperança. Cada dia de jejum deve ser traduzido em um passo contra o egoísmo, um esforço de compreensão, um compromisso pela justiça e solidariedade, um trabalho pela paz, uma força irresistível de amor para amar quem não merece ser amado.

Um dia de jejum não nos converte, mas nos faz conscientes da necessidade de nos convertermos; não soluciona o problema da fome, mas nos solidariza com os famintos; não nos liberta do consumo, mas nos inicia no exercício da liberdade. É protesto contra a injustiça e o consumismo desenfreado; é chamada à conversão, é grito profético. Se alguém se castiga a si mesmo através do jejum é para que os outros não sejam castigados de fome pelo básico. Quando fazemos parar o estomago é para que o espírito trabalhe em nós. Quando nos privamos de alimentos é para que nos privemos dos vícios.

Por isso, o jejum cristão não consiste apenas em abster-se de alimentos. Consiste, sobretudo, em desejar o encontro com Jesus salvador e o encontro com irmão, especialmente com irmão carente do básico para viver e sobreviver como um ser humano. Jejuamos para nos tornarmos sensíveis à fome e à sede de tantos irmãos e para assumirmos a nossa responsabilidade na resolução dos problemas dos pobres e carentes. A memória da paixão de Jesus não é um simples ritual, mas um ato de misericórdia, no sentido da palavra do Senhor: «Prefiro a misericórdia ao sacrifício» (cf. Mt 9, 13). A sua paixão é obediência ao Pai, mas também um gesto de extrema caridade, de solidariedade com todos nós. Não podemos restringir o jejum em não comer a carne. A maioria de nossa gente nem arroz tem e muito menos a carne. O verdadeiro jejum é dividir o que temos para oferecer a quem nada tem para viver. É dar nossas roupas não mais usadas para cobrir quem está sem nada para se vestir (cf. Mt 25,31-46). Sabemos que jamais podemos arrancar totalmente o sofrimento alheio, mas uma parte dele pode ser aliviada com nossa solidariedade e compaixão. Ninguém pode entrar no céu feliz deixando o irmão passando fome e outras necessidades básicas para um ser humano viver dignamente.

Por isso, podemos dizer que o que importa no jejum não é somente a privação de alimento e sim a seriedade da nas tarefas da vida para que sejam a expressão mais viva do serviço de Deus e dos homens ao mesmo tempo. O jejum não se concebe sem caridade e sem uma mudança de vida para uma vida mais fraterna. O jejum que Deus quer é o cumprimento dos deveres morais e humanos com o próximo na vivência do amor fraterno.

A febre do consumismo hoje em dia é um grande desafio para praticar um profundo jejum, isto é, o verdadeiro encontro com Deus e com o próximo. Jejum é um dos caminhos da libertação.

Não podemos nos esquecer que a Quaresma que agrada a Deus e que nos traz a paz é: Quebrar as cadeias injustas; Libertar os oprimidos; Repartir o pão com o faminto; Acolher em casa os pobres e peregrinos; Cobrir ou vestir os nus; Não desprezar o próximo. É preciso jejuar de julgar os outros para descobrir Cristo que vive neles. É preciso jejuar de palavras que prejudicam os outros para substituí-las com frases curadoras. Jejuar de descontento para substitui-lo de gratuidade. Jejuar de pessimismo para substitui-lo de esperança cristã. Jejuar de preocupações para enchê-las de confiança em Deus. Jejuar das pressões que não cessam para enchê-las de uma oração sem cessar. Jejuar de amargura para enchê-la de perdão e de reconciliação. Jejuar de dar importância a si mesmo para substitui-la de compaixão pelos demais.  Jejuar de ansiedade sobre suas coisas para se comprometer com a propagação do Reino de amor. Jejuar de desalento para enchê-lo de entusiasmo da fé. Jejuar de pensamentos mundanos para enchê-los das verdades que fundamentam a santidade.  O melhor jejum nestes tempos da quaresma é reconciliar-nos com o irmão a quem insultamos, é aceitar seu perdão e apoiá-lo em suas necessidades. O melhor jejum que podemos oferecer nestes tempos de quaresma é voltar os olhos para Deus amando ao próximo e perdoando de coração a quem nos fez dano.

Somente então, “invocarás o Senhor e ele te atenderá, pedirás socorro, e ele dirá: “Eis-me aqui” (Is 58,9ª). É preciso levar à oração essas palavras que nos queimam como as brasas.

P. Vitus Gustama,svd

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Quinta-feira Após Quarta-feira de Cinzas, 19/02/2026

ESCOLHA A VIDA PARA ENCONTRAR O DEUS DA VIDA

Quinta-feira, Após Quarta-feira de Cinzas

Primeira Leitura: Dt 30,15-20

Moisés falou ao povo dizendo: 15 “Vê que eu hoje te proponho a vida e a felicidade, a morte e a desgraça. 16 Se obedeceres aos preceitos do Senhor teu Deus, que eu hoje te ordeno, amando ao Senhor teu Deus, seguindo seus caminhos e guardando seus mandamentos, suas leis e seus decretos, viverás e te multiplicarás, e o Senhor teu Deus te abençoará na terra em que vais entrar, para possuí-la. 17 Se, porém, o teu coração se desviar e não quiseres escutar, e se, deixando-te levar pelo erro, adorares deuses estranhos e os servires, 18 eu vos anuncio hoje que certamente perecereis. Não vivereis muito tempo na terra onde ides entrar, depois de atravessar o Jordão, para ocupá-la. 19 Tomo hoje o céu e a terra como testemunhas contra vós, de que vos propus a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e teus descendentes, 20 amando ao Senhor teu Deus, obedecendo à sua voz e apegando-te a ele — pois ele é a tua vida e prolonga os teus dias —, a fim de que habites na terra que o Senhor jurou dar a teus pais Abraão, Isaac e Jacó”.

Evangelho: Lc 9, 22-25

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 22“O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da Lei, deve ser morto e ressuscitar no terceiro dia”. 23Depois Jesus disse a todos: “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia e siga-me. 24Pois quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, esse a salvará. 25Com efeito, de que adianta a um homem ganhar o mundo inteiro, se se perde e se destrói a si mesmo?”

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É Preciso Viver De Acordo Com Os Mandamentos De Deus Para Encontrar a Felicidade e a Vida Eterna

Hoje te proponho a vida e a felicidade, a morte e a desgraça. Se obedeceres aos preceitos do Senhor teu Deus, que eu hoje te ordeno, amando ao Senhor teu Deus, seguindo seus caminhos e guardando seus mandamentos, suas leis e seus decretos, viverás e te multiplicarás, e o Senhor teu Deus te abençoará na terra em que vais entrar, para possuí-la”. É o discurso de Moisés para os israelitas que lemos na Primeira Leitura.

Israel é obrigado a escolher entre a vida e e a morte, a felicidade e a desventura. O povo se encontra do Senhor. No contexto do tipo cultual, a vida é compreendida no sentido de estar com o Senhor, e a morte é entedida como afastamento do Senhor. “Deus de quem separar-se é morrer, a quem retornar-se é ressuscitar, com quem habitar é viver” (Santo Agostinho: Solil. 1,1,3).

O tema dos dois caminhos, o da vida e o da morte, é muito típico das literaturas religiosas da antiguidade. A vida e a felicidade dependem da obediência aos mandamentos do Senhor. Por outro lado, o caminho da morte ou o da desgraça parte do coração desviado dos mandamentos do Senhor que resulta na idolatria. O homem tem a total liberdade para escolher entre a bênção ou maldição de Deus.

Vivemos a vida de cada dia escolhendo. Entramos numa loja ou num supermercado para escolher o que é melhor. Ninguém leva nada para casa sem antes escolher o que é melhor. Em tudo na vida temos que escolher. Na escolha está decidida nossa vida e nosso futuro. Ninguém é nem pode ser espectador da própria vida. A vida é para ser vivida a partir da escolha feita. Não reclame nem se lamente pelos resultados, e sim pela escolha feita anteriormente. Como disse uma canção: “Eu não choro pela despedida e sim pelo encontro”. Por causa do encontro tem como consequência a despedida. A morte supõe o nascimento. A alegria e a tristeza vivem lado a lado.

A história dos dois caminhos é, portanto, a história do homem diariamente: bem e mal, maldição e bênção, fidelidade e idolatria, vida e morte, obediência e traição, senda larga e senda estreita. Qualquer escolha que o homem faz ou fizer, se jogarão seu futuro e sua vida. Cada escolha na vida sempre tem suas consequências seja para o bem, seja para o mal. Não fazer nenhuma escolha é também uma escolha, e o futuro e a vida são decididos também a partir desta atitude de indiferença. 

Na vida, então, nos encontramos com duas realidades bem definidas: o caminho da vida, pelo qual todos nós aspiramos; e o caminho da morte, contra tudo que lutamos. Contemplando nossa realidade, percebemos quealguns ou muitos lados escuros de nossa vida como fruto do egoísmo do ser humano. Muitos confundiram a felicidade com o possuir o passageiro. Eles se tornaram, muitas vezes, compradores compulsivos de coisas que finalmente continua deixando para eles o coração vazio.

O texto do livro de Deuteronômio que lemos na Primeira Leitura nos convida a começarmos a Quaresma optando entre a vida e a morte, a bênção ou a maldição. Optar pela vida é optar por Deus e optar por Deus significa levantar-nos cada dia com a alegria e o compromisso de voltar para nossa Terra prometida (família, comunidade, país etc.) para reconstruir a fraternidade, a esperança, a justiça, a paz.

A Quaresma é tempo de renovação cristã, retomando o caminho iniciado por nosso Batismo, de dar um novo passo a uma maior perfeição cristã no seguimento de Cristo. Isto significa que o cristão deve se converter permanentemente. No momento em que o cristão se converte, ele se abre para Deus, se compromete com Ele e assume a responsabilidade de lutar contra o mal, e tudo o que causa a morte, a destruição, a injustiça, a violência e assim por diante.

Não nos esqueçamos que a Quaresma é o caminho para a Páscoa. Este mistério de morte e vida atinge a existência íntima do cristão. O discípulo de Jesus Cristo deve abraçar a cruz para encontrar a vida. De nada adianta ganhar o mundo se o cristão perde sua vida com Deus. Somente morrendo para nós mesmos para dar lugar à vontade de Deus teremos o caminho da verdadeira liberdade e alegria.

No Evangelho de hoje, Jesus propõe a cruz como um caminho, uma via para a plenitude da “vida”: é preciso que o Filho do Homem padeça muito para entrar em sua glória, “morte” que conduz para a “ressurreição”. Mas precisamos entender que toda a razão de ser de Jesus é amar. Sua missão é amar e dar a vida aos homens. Mas o pecado dos homens unirá esta missão à morte.

É óbvio que Deus não quer que seu Filho sofra. Deus quer Ele ame e dê a vida por todos (cf. Is 53). A morte de Jesus não é a meta; é somente o passo para a “Vida”.

Como Jesus, os cristãos/discípulos devem amar, viver para os demais, em meio do egoísmo do mundo. Este é dar a vida, enterrar-se cada dia no dom tendo como apoio a esperança.

Dar a vida, morrer, neste sentido, é viver para o cristão. É realizar-se no dom total. Este viver na morte é duro quando se pensa no caminho dos triunfalismos. É mais fácil destruir os outros do que construí-los, quando a condição para isso é a própria morte.

O viver cristão é uma contínua proximidade à cruz de Jesus. A cruz é o caminho para a plenitude da vida e a condição indispensável para seguir a Jesus.  Morrer com Cristo é viver; ganhar o mundo é perde-lo; amar a própria vida é odiar-se. Somente quem abraça a morte por amor aos demais passa além da morte e entra na vida de Aquele que venceu a morte: Jesus Cristo, nosso Salvador.

Ser Cristão É Uma Opção Fundamental

Dentro da reflexão sobre a Primeira Leitura, o texto do Evangelho de hoje quer nos dizer que ser cristão não é uma pequena opção e sim uma opção fundamental. A Primeira Leitura nos apresenta dois caminhos. É claro que o caminho que nos propõe Jesus não é precisamente fácil, como nos apresenta o evangelho de hoje. O caminho de Jesus é muito bem paradoxal: a vida através da morte. É um caminho exigente, que inclui a subida a Jerusalém, a cruz e a negação de si mesmo: é saber amar, perdoar, oferecer-se serviçalmente aos demais, é saber crucificar nossa própria vontade (cf. Gl 5,24). Mas é o caminho que vale a pena. O que vale, custa. Todo amor supõe renúncia. No fundo, para nós, o próprio Cristo é o Caminho: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6).

Ser cristão não é um cargo honorífico nem um doutorado honoris causa. Há condições claras resumidas em três linhas: Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, esse a salvará”.  Este texto é uma profecia sobre o discípulo e cada cristão (Jesus disse a todos...v.23). O cristão/discípulo viverá na própria carne a mesma Paixão que o Senhor acaba de predizer. Porém, terminará numa vida gloriosa. Por isso, a cena que segue é a Transfiguração que é a antecipação da Ressurreição. Por isso, seguir a Jesus e carregar a cruz, perder a vida por Cristo e ganhá-la são interligados.

Jesus Cristo nos ensina, não somente com palavras, e sim com seu próprio exemplo, que o caminho da felicidade, o caminho da vida se encontra na capacidade de nos relacionarmos com os demais e de vivermos fraternalmente unidos pelo amor. Por isso, temos de ir atrás das pegadas de Cristo, carregando nossa cruz de cada dia. Quem for por um caminho diferente ao de amor que Cristo nos mostrou, em lugar de dar vida, dará morte, ele próprio se converterá em destruidor da vida alheia.

A glória de Cristo passa, primeiro, pela cruz. E passa pela cruz como consequência de sua maneira de viver a missão cuja alma é o amor. Por isso, a cruz de Jesus não é um acidente, tampouco uma equivocação. Quando Jesus anuncia sua morte, não está dizendo outra coisa que assumirá consequentemente sua vida justa e solidária. Mas não somente anuncia sua morte, anuncia também sua ressurreição. É a ressurreição que somente virá como consequência de sua morte na cruz pela vida justa e solidaria que ele viveu. O ressuscitado é o crucificado.

Tomar a cruz”, por isso, não é outra coisa que assumir o projeto de vida que Jesus nos mostrou. A cruz é o fruto de uma obediência ou fidelidade incondicional ao projeto de Deus. Obedecer é criar relações; é atender ao convite de outrem. Obedecer é fazer próprias as necessidades do(s) outro(s). A obediência é a resposta a uma solicitação ou proposta que vem de fora, do outrem. E não há obediência sem fidelidade ao projeto assumido.  Neste sentido e no sentido do próprio termo, a obediência não tem nada a ver com coisa imposta, pois a imposição tira a liberdade e cria o medo. A imposição aterroriza qualquer subordinado, e, conseqüentemente, cria um relacionamento falso. E na imposição não há diálogo, há apenas ordem para ser obedecida e cumprida. Na imposição não há amor, somente medo e terror. A obediência de Jesus é uma obediência baseada no amor e voltada unicamente ao cumprimento da vontade do Pai que é a salvação dos homens por amor. Jesus assumiu a cruz em sinal de fidelidade ao amor. A cruz é o resultado de decisões voluntárias e compromissos escolhidos ao querer seguir a Jesus. O Calvário é a revelação da fidelidade de Jesus ao amor e revelação do seu amor num mundo de males e sofrimento. Nós existimos, então, porque Deus nos amou, somos porque Deus nos ama, fomos redimidos e santificados porque Cristo se ofereceu por nós por amor. O amor, por isso, é o fundamento e o princípio de nosso ser e deve sê-lo também do nosso agir, e de nossa obediência a Deus que se traduz no amor ao próximo. Carregar a cruz é, portanto, um estilo de vida cotidiana como resultado da vivência dos valores do Reino, da obediência à vontade de Deus, da escolha de uma ética de justiça e de solidariedade e de compromisso com o projeto de Deus na transformação de um mundo mais fraterno.

O caminho de Jesus se resume em três palavras: sofrimento, morte, ressurreição (mistério pascal). Nosso caminho constitui três aspectos: negar-nos a nós mesmos, tomar cada dia a cruz e acompanhar Jesus. “Negar-se a si mesmo” é renunciar a nossos gostos, desejos para estar com Jesus. O problema de nosso cristianismo hoje é que queremos levar as vantagens de ser cristão sem tomar as responsabilidades que estas implicam (benefícios sem obrigações). A Quaresma pode ser uma boa oportunidade para iniciarmos no exercício da renúncia. Pensemos bem de que maneira utilizaremos nossa Quaresma para que a Páscoa seja verdadeiramente uma “Páscoa de Ressurreição”.

Portanto, as leituras de hoje nos falam, por um lado, de um coração resistente diante de Deus e por outro lado, de um coração que se adere a Deus. Meu coração é resistente diante de Deus quando não quero ver Sua graça, quando não quero ver Sua obra na minha vida, quando não quero ver Seu caminho sobre a minha existência. Meu coração se adere a Deus, quando em meio de mil inquietudes e vicissitudes, em meio de mil circunstancias, eu vou sendo capaz de descobrir, de encontrar, de amar, de pôr-me diante d’Ele e Lhe dizer: “Aqui estou, Senhor! Pode contar comigo!”. Escutar Deus será o esforço de toda minha quaresma, será a minha escolha da vida e da felicidade. O céu e a terra são testemunhas da minha opção de cada dia: Tomo hoje por testemunhas contra vós o céu e a terra; ponho diante de vós a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolhe a vida para viveres, tu e a tua descendência, amando o SENHOR, teu Deus, escutando a sua voz e apegando-te a Ele, porque Ele é a tua vida e prolongará os teus dias para habitares na terra, que o SENHOR jurou que havia de dar a teus pais, Abraão, Isaac e Jacob”.

Oração do Dia

Inspirai, ó Deus, as nossas ações e ajudai-nos a realizá-las, para que em vós comece e termine tudo aquilo que fizemos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Quarta-Feira De Cinzas,18/02/2026

QUARTA-FEIRA DE CINZAS:

ÉS PÓ E AO PÓ VOLTARÁS

Primeira Leitura: Joel 2,12-18

12“Agora, diz o Senhor, voltai para mim com todo o vosso coração, com jejuns, lágrimas e gemidos; 13rasgai o coração, e não as vestes; e voltai para o Senhor, vosso Deus; ele é benigno e compassivo, paciente e cheio de misericórdia, inclinado a perdoar o castigo”. 14Quem sabe, se ele se volta para vós e vos perdoa, e deixa atrás de si a bênção, oblação e libação para o Senhor, vosso Deus? 15Tocai trombeta em Sião, prescrevei o jejum sagrado, convocai a assembleia; 16congregai o povo, realizai cerimônias de culto, reuni anciãos, ajuntai crianças e lactentes; deixe o esposo seu aposento, e a esposa, seu leito. 17Chorem, postos entre o vestíbulo e o altar, os ministros sagrados do Senhor, e digam: “Perdoa, Senhor, a teu povo, e não deixes que esta tua herança sofra infâmia e que as nações a dominem”. Por que se haveria de dizer entre os povos: “Onde está o Deus deles?” 18Então o Senhor encheu-se de zelo por sua terra e perdoou ao seu povo.

Segunda Leitura: 2Cor 5,20-21.6,1-2

Irmãos: 20Somos embaixadores de Cristo, e é Deus mesmo que exorta através de nós. Em nome de Cristo, nós vos suplicamos: deixai-vos reconciliar com Deus.  21Aquele que não cometeu nenhum pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nele nós nos tornemos justiça de Deus. 6,1Como colaboradores de Cristo, nós vos exortamos a não receberdes em vão a graça de Deus, 2pois ele diz: “No momento favorável, eu te ouvi e, no dia da salvação, eu te socorri”. É agora o momento favorável, é agora o dia da salvação.

Evangelho: Mt 6,1-6.16-18

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 1“Ficai atentos para não praticar a vossa justiça na frente dos homens, para serdes vistos por eles. Caso contrário, não recebereis a recompensa do vosso Pai que está nos céus. 2Por isso, quando deres esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem elogiados pelos homens. Em verdade vos digo: eles receberam a sua recompensa. 3Ao contrário, quando deres esmola, que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua mão direita, 4de modo que a tua esmola fique oculta. E o teu Pai, que o que está oculto, te dará a recompensa. 5Quando orardes, não sejais como os hipócritas, que gostam de rezar de , nas sinagogas e nas esquinas das praças, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo: eles receberam a sua recompensa. 6Ao contrário, quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta, e reza ao teu Pai que está oculto. E o teu Pai, que o que está escondido, te dará a recompensa. 16Quando jejuardes, não fiqueis com o rosto triste como os hipócritas. Eles desfiguram o rosto, para que os homens vejam que estão jejuando. Em verdade vos digo: eles receberam a sua recompensa. 17Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto, 18para que os homens não vejam que tu estás jejuando, mas somente teu Pai, que está oculto. E o teu Pai, que o que está escondido, te dará a recompensa”.

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Quaresma-Conversão

Com a Quarta-feira de Cinzas iniciamos a nossa Quaresma. Quaresma é um programa, um caminho, um esforço para revisar e renovar nosso ser de cristãos, que consiste radicalmente em viver a vida de Cristo desde agora, enquanto somos peregrinos e testemunhas do Reino de Deus. Quaresma é um caminhada da penitência feita por cada cristão, seguidor de Cristo. Esta caminhada vai durar durante quarenta dias a partir da Quarta-feira de Cinzas até a Ceia do Senhor, exclusiva (Paschalis Sollemnitatis: A Preparação e Celebração das Festas Pascais, n.27, da CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO, 16 de janeiro de 1988).

Para a Quaresma, o Concílio Vaticano II prescreveu o seguinte: “A dupla índole do tempo quaresmal, que principalmente pela lembrança ou preparação do batismo e pela penitência, fazendo os fiéis ouvirem com mais frequência a Palavra de Deus e entregarem-se à oração, os dispõe à celebração do mistério pascal. Por isso: a) utilizem-se com mais abundância os elementos batismais próprios da liturgia quaresmal; segundo as circunstâncias, restaurem-se certos elementos da tradição anterior; b) o mesmo diga-se dos elementos penitenciais” (SC 109).

Hoje o sinal identificador do início da Quaresma é a Cinza. A imposição da cinza comunica com facilidade sua mensagem de humildade e de conversão. O sacerdote se impõe ele mesmo a cinza, porque ele também é débil, necessita converter-se à Páscoa do Senhor. Em seguida, o sacerdote impõe a cinza sobre a cabeça/fronte dos fiéis.

Na imposição das cinzas temos duas fórmulas, igualmente tradicionais: “Convertei-vos e Crede no EvangelhoouLembra-te que és , e ao hás de tornar”. O sentido da conversão penitencial (Convertei-vos) e o da caducidade (és ) são igualmente predicáveis ao homem de hoje. Nesta vida breve o homem velhoque alcançar o fogo e a luz do homem novo, ressuscitado na Páscoa. Morte e vida, cinza e água convivem na Quaresma.

O gesto simbólico deste dia é aquele que penetrou na comunidade cristã e pode ser muito pedagógico se for feito com autenticidade, sem precipitação; com sobriedade, mas de forma expressiva. A imposição da cinza facilmente comunica sua mensagem de humildade e conversão.

As três leituras de hoje expressam claramente o programa de conversão que Deus quer de nós durante a Quaresma: converter-se e acreditar no Evangelho; Volte-se para mim de todo o seu coração; Tem misericórdia, Senhor, porque pecamos; deixai-vos reconciliar com Deus; Deus é compassivo e misericordioso...

Cada um de nós, a comunidade e toda a sociedade, precisa ouvir este chamado urgente (conversão) para a mudança pascal, porque somos todos fracos e pecaminosos e porque, sem perceber, estamos sendo derrotados pelo critério deste mundo. Para melhorar a comunidade e o mundo temos que ter coragem de nos converter. Sem a conversão nada mudará e seremos um fator de destruição da comunidade.

Há a triple direção desta conversão que aponta o Evangelho para nos ajudar a reorientarmos nossa vida para a Páscoa. Primeiro, é a abertura aos demais através da esmola que é, antes de tudo, caridade, compreensão, amabilidade, perdão e assim por diante. Segundo, a abertura a Deus, que é escuta da Palavra, oração pessoal e familiar, participação mais ativa e frequente na Eucaristia e o sacramento da Reconciliação. Terceiro, o jejum, que é autocontrole, busca de um equilíbrio em nossa escala de valores, renúncia à coisas supérfluas, sobretudo, se expressa na ajuda aos necessitados.

O caminho da conversão pascal começa com o símbolo da Cinza e terminará na Vigília Pascal com o símbolo do fogo, a água e a luz. É uma unidade dinâmica que quer comprometer a cada cristão em seu seguimento de Cristo e comunicar-lhe a graça pascal. Com a renúncia de tudo que não é de Deus chegaremos à nova existência de ressuscitados. O homem velho deve dar lugar para o homem novo.

Neste sentido a Quaresma nos convida a praticar o espirito da penitência no sentido de elevar nosso espirito, libertando-nos do mal e fazendo passos para a plenitude da vida. Penitência serve, então, como remédio, como reparação, como mudança de mentalidade para nos dispor à fé e à graça. Portanto, a penitência expressa nosso compromisso no seguimento de Cristo.

A cinza nos fala de nossa fragilidade, de nossa condição humana: mortal e pecadora. Mas as palavras que acompanham iluminam o rito e elevam nosso olhar: “Convertei-vos e crede no Evangelho”. Assim pois, a cinza nos convence da necessidade do Evangelho, da necessidade de aceitar e crer na Boa Notícia. É um Evangelho que nos salva da fragilidade e da morte. Por isso é Boa Notícia. É um Evangelho capaz de transformar nossa cinza em luz. Hoje nos impomos a cinza para propiciar nossa conversão e para nos ajudar a crer mais no Evangelho. Hoje nos impomos a cinza para nos convencer de que nossa própria cinza pode ser redimida e ressuscitada, cinza iluminada, cinza consagrada. A imposição da cinza eleva nosso espirito para a realidade eterna, para Deus que é o princípio e o fim, o Alfa e o Ômega de nossa existência (cf. Ap 21,6).

Cinza E Seu Significado Para Nossa Vida         

Hoje, para encontrar a rota, é-nos oferecido um sinal: cinzas na cabeça. É um sinal que nos faz pensar naquilo que trazemos na cabeça. Frequentemente, os nossos pensamentos seguem coisas passageiras, coisas que vão e vêm. Os grãos de cinza que receberemos pretendem dizer-nos, com delicadeza e verdade: de tantas coisas que trazes na cabeça, atrás das quais corres e te afadigas diariamente, nada restará. Por mais que te afadigues, não levarás contigo qualquer riqueza da vida. As realidades terrenas dissipam-se como poeira ao vento. Os bens são provisórios, o poder passa, o sucesso declina. A cultura da aparência, hoje dominante e que induz a viver para as coisas que passam, é um grande engano. Pois é como uma fogueira: uma vez apagada, ficam apenas cinzas. A Quaresma é o tempo para nos libertarmos da ilusão de viver correndo atrás de pó. A Quaresma é descobrir que somos feitos para o fogo que arde sempre, não para a cinza que imediatamente se some; para Deus, não para o mundo; para a eternidade do Céu, não para o engano da terra; para a liberdade dos filhos, não para a escravidão das coisas. Hoje podemos interrogar-nos: De que parte estou? Vivo para o fogo ou para as cinzas?” (Papa Francisco: Quarta-feira, 6 de março de 2019). 

O significado simbólico da cinza está ligado com sua semelhança com o e com o fato de que ela é o resíduo frio e ao mesmo tempo purificado da queima após a extinção do fogo. Por isso, em muitas culturas ela é símbolo da morte, da transitoriedade, do arrependimento e da penitência, mas também da purificação e da ressurreição. Para expressar luto, os gregos, os egípcios, os judeus, os árabes e as tribos primitivas espalhavam cinzas sobre a cabeça ou assentavam-se ou rolavam-se sobre as cinzas (alguns textos bíblicos para entender o que foi dito: Gn 18,27; Jó 2,8;13,12; Is 44,20;61,3; Jr 6,26; Ez 27,30; Lm 3,16;2Sm 13,19;J n 3,6; Mt 11,21). O homem expressa com isso (cf. Gn 18,27) a consciência da relativa nulidade da criatura diante do Criador.           

Ao recebermos as cinzas ouvimos uma das fórmulas usadas: “Tu és , e em te hás de tornar(Gn 3,19). A cinza recorda ao homem o reconhecimento de sua origem. A cinza é leve e por isso, ela é a imagem das coisas frágeis e efêmeras. Tudo é caduco. E toda a vaidade, todo o brilho falso e esta vida mortal, um dia conhecerão um fim. Recebemos as cinzas para nos relembrar de que somos ; é uma lembrança de que somos , de que não temos morada certa neste mundo, de que a morte é a única realidade inevitável no futuro de nossa existência. Na verdade, não é a morte que é absurda e sim a vida sem a morte. Muitos se esquecem da morte e por isso, acabam vivendo absurdamente e acabam vivendo somente em função do prazer. Como foi dito uma vez, quem vive em função do prazer, não tem prazer de viver. O prazer deve ser resultado de um viver bem. E para nós cristãos viver bem significa viver de acordo com os valores cristãos. A cinza é uma lembrança incômoda para quem acredita que o presente histórico é absoluto. Mas esta lembrança, na verdade, nos ajuda a vivermos bem, a colocarmos as coisas no seu devido lugar para ganhar seu justo valor e sua justa perspectiva.         

Com as cinzas recebidas o homem experimenta o próprio nada. Para expressá-lo, cobre-se de cinza. Quando o homem experimenta o seu nada, nãolugar nele para a arrogância. Ao contrário, ele volta a ser humilde: humus, , criatura dependente de Deus. Quando vivemos a humildade que é a nossa própria existência o poder e a glória mundanos não vão nos atingir. Mas quando o homem deixar de reconhecer sua condição de criatura, querendo igualar-se a Deus, ele se tornará um morto e por isso, terá que voltar à terra de que fora tirado, “porque és , em te hás de tornar” (Gn 3,19).         

E somente quando o homem reconhece que é , que faz parte da terra, e que tudo o mais provém de Deus, brotará novamente a vida desse pó e deixará de ser soberbo ou arrogante. E certamente as cinzas usadas na Quarta-feira de Cinzas provêm das palmas do Domingo de Ramos do ano anterior, palmas triunfais do Cristo vitorioso sobre o pecado e a morte. Cristo, morrendo, deu nova vida à terra, conquanto o homem se reconheça como terra, . A quem assim confessa o próprio nada faz-se ouvir a promessa de Jesus Cristo que vem triunfar do pecado e da morte, consolar os aflitos e dar-lhes, em lugar de cinzas, um diadema, uma coroa de um rei.        

Ao receber as cinzas, o cristão testemunha o absoluto de Deus em sua vida. E como consequência da profissão sobre o absoluto de Deus, o cristão relativiza todas as coisas. Isto quer dizer que as coisas somente têm seu valor em relação ao seu Criador. Sob o sinal das cinzas, o cristão reafirma hoje a sua liberdade de filho de Deus e ao mesmo tempo reafirma sua condição como ou criatura e que pode sobreviver como tal por causa da misericórdia de Deus. E Deus não tem como não ajudá-lo, pois o ser humano foi feito de acordo com a própria imagem de Deus (cf. Gn 1,26). Devemos ler, portanto, as três práticas de piedade apresentadas através do evangelho deste dia que abre nossa caminhada quaresmal. 

Hoje, todos nós somos convidados a reconhecer nossa fraqueza. Quanta distância existe entre nós e o Evangelho, entre nós e a vida de fidelidade, totalmente entregues, de Jesus! Hoje somos convidados a ser sinceros, de verdade, com nós mesmos. Se nos colocarmos diante de Deus, não podemos nos gloriar em nada. 

Hoje, somos convidados a ser sinceros. Neste começo da Quaresma, temos de ter um olhar introspectivo e reconhecer o nosso pecado. E, ao mesmo tempo, olhemos para Deus, nosso Pai, e reafirmemos nossa confiança em seu amor. Hoje, a imposição das cinzas em nossa cabeça será esse sinal de reconhecimento. Será como dizer: somos fracos, somos pecadores, mas nosso Deus é o Pai misericordioso e por isso, posso voltar a Ele. 

A leitura do Evangelho quer responder a seguinte pergunta: “Como agradar a Deus?”. A prática da esmola, da oração e do jejum tem finalidade de sintonizar-nos com a vontade do Pai, de forma a preparar-nos da melhor maneira possível, para a celebração da Páscoa.          

Jesus enuncia o princípio geral sobre a prática dessa piedade. Estas obras de piedade não se devem praticar para ganhar prestígio diante dos homens e com isso, adquirir posição de poder ou privilégio. Os que fazem assim privam-se da comunicação divina, cessa a relação de filho-Pai com Deus. Segundo Jesus, ninguém merece a graça de Deus se ele finge executar ação que não corresponde à atitude interior que ele chama de hipocrisia. 

Obras Da Piedade Quaresmal 

O Evangelho nos mostra três obras de piedade como expressão de fé em Deus: Esmola, Oração e Jejum. Estas três piedades vão aparecendo durante a Quaresma nas leituras da santa missa. A esmola, a oração e o jejum (Tb 12,8) são três pilares da religião que definem o nosso relacionamento com os outros, com Deus e com as coisas. Neles vivemos ou não a nossa verdade de filhos. Neles vivemos ou não conforme a justiça de Deus. A justiça de Deus se concretiza na esmola, na oração e no jejum, em um correto relacionamento com os irmãos, com o Pai do céu e com as coisas. 

Para a prática desses três pilares (esmola, oração e jejum) tem o mesmo critério: tudo deve ser feito em segredo, diante de Deus e não em público para ser glorificado pelos homens. 

Pela experiência humana, qualquer ação nossa pode ser realizada de duas maneiras opostas: realizamos as coisas para o nosso autoprazer (egolatria) com o intuito de receber elogios e reconhecimento dos homens, ou realizamos tudo para agradar Aquele que nos reconhece como filhos seus. 

Na vida cotidiana, o ser humano tem necessidade de ser visto e reconhecido, pois para a mentalidade de muitos, quem não é visto por ninguém, não existe. Aqui está a “escravidão” dos olhos em função da vanglória. Mas somente quem sabe que é filho de Deus, amado infinitamente, está livre da vanglória, pois ele possui a verdadeira glória. Por isso, não pode acreditar em Deus quem procura a glória dos homens (cf. Jo 5,44). 

 A esmola (vv.1-4)         

A linguagem utilizada por Mt nesta passagem e nas outras duas seguintes revela uma forte polêmica entre cristãos e judeus. Os hipócritas são os fariseus do tempo do evangelista que praticavam e queriam impor aos outros um cumprimento externo da Lei de Moisés. Segundo Jesus aos quer querem entrar no Reino dos céus devem cumprir a vontade do Pai sem ostentação.          

A expressão utilizada por Mt para descrever esta atitude e comportamento (praticar a justiça) somente aparece neste evangelho (sete vezes. Cinco delas se encontram em Mt 5-7) e tem uma grande importância para a teologia de Mt. Mas não se trata da justiça como a entendemos. Quando se fala da justiça nos círculos judaicos trata-se do conjunto de atos que fazem o homem merecedor da salvação. Entre os fariseus do tempo de Jesus estes atos de piedade eram fundamentalmente três: a esmola, a oração e o jejum. Mas para muitos estas práticas se tornavam uma questão puramente externa e um motivo de orgulho, até o ponto de que alguns faziam exibição pública de sua religiosidade (justiça).   

Os profetas do AT falam frequentemente do dever da compaixão para com o pobre, mas eles acentuam muito mais a justiça do que a caridade. O mendigo ou o pobre é acusação de um sistema injusto que gera pobres e miseráveis, dependentes da “bondadealheiaMendigo é o fruto de uma sociedade que não quer partilhar seus bens para os outros (Mas de outra lado, certo mendigo é aquele que quer uma vida fácil, pois pela experiência, muitos não querem trabalhar, apesar de alguém oferecer-lhe trabalho. Mas eles são apenas um grupo pequeno).          

A esmola deve ser expressão da misericórdia que existe no coração de quem se faz solidário com a carência alheia. A solidariedade acontece quando o homem tem compaixão, quando sente na própria pele o sofrimento alheio. O que sobra para nós, por pouco que seja, sempre faz falta para os outros que não tem nada. Mas sempre ficamos incomodados, pois sabemos que isso nunca resolverá completamente o problema do mendigo ou do pobre. Mas a esmola é um sinal, um lembrete de que devemos lutar por um sistema econômico que realmente faça uma partilha justa dos bens. Reflitamos as palavras de São Basílio (+ 379): Ao faminto pertence o pão que guardas. Ao homem nu, o manto que guardas até nos teus cofres. Ao que anda descalço, o calçado que apodrece em tua casa. Ao miserável, o dinheiro que guardas escondido. É assim que vives oprimindo tanta gente que poderias ajudar”. E Santo Agostinho acrescenta: “O Senhor te fez servo bom, mas tu criaste em teu coração um mau senhor. Ficas alegres por causa da riqueza do cofre e não te lamentas pela pobreza de teu coração? Há acréscimo em tua arca, mas observa bem o que diminui em teu coração”.          

O próprio Jesus menciona a esmola para censurar a ostentação (cf. Mt 6,22ss). Isso devemos começar dentro de nossa família. Enquanto isso não acontece, ficamos incomodados.           

Ao dar a esmola Jesus pede a separação da pessoa quem a dá do seu gesto: “...a tua mão esquerda ignore aquilo que faz a direita...E o teu Pai...dar-te-á a recompensa(vv.3-4). A nossa tarefa como seguidores de Jesus Cristo é fazer o bem sem sermos contadores de nossos  méritos, pois deixamos o resultado para Deus. O resultado do bem fica escondido ao homem que recusa de ser o juiz de seus atos.  O único capaz de apreciar é um Deus invisível que habita no segredo e não presta conta a ninguém. E quem dá ao pobre empresta a Deus (Pr 19,17). Um dito popular diz: “Se você fizer um benefício, nunca se lembre dele; se receber um, nunca se esqueça dele”. A vida vivida apenas para satisfazer a própria pessoa nunca satisfaz ninguém. Nãomelhor exercício para fortalecer o coração do que estender o braço para baixo e erguer pessoas. A bondade é o único investimento que nunca falha.

 A oração (vv5-6)      

Quem sabe viver bem, sabe também rezar bem. Quem vive profundamente, também reza profundamente. Quem vive conscientemente, também reza conscientemente. A instrução sobre a oração durante a Quaresma (vv.5-15) é a mais extensa das três práticas de piedade judaica e está situada no centro literário do Sermão da Montanha. A instrução sobre a oração (vv.5-15) é a mais extensa das três práticas de piedade judaica e está situada no centro literário do Sermão da Montanha. Esta instrução é composta por uma introdução sobre a forma de orar (vv.5-8), o Pai-Nosso (vv.9-13) e uma conclusão que fala do perdão (vv.14-15).          

Através deste texto Mt quer fazer uma catequese sobre a oração cristã, semelhante a de Lc (Lc 11,1-11), mas cada um dos dois evangelistas se dirige a um grupo distinto. Lc escreve para uma comunidade que necessita aprender a orar. Mt, ao contrário, escreve para uma comunidade que sabe orar, mas necessita aprender a fazer a oração de outra maneira (“Quando orardes, não sejais como os hipócritas...” v.5.7). Lc tem diante de si uma comunidade de origem pagã que não tem hábito de orar (será que viraremos pagãos se pararmos de orar?). Mt, ao contrário, está diante de uma comunidade ondebastantes judeus que haviam aprendido a orar três vezes por dia desde sua infância.          

Mt enfrenta um problema em relação à prática de oração. A oração como as demais práticas religiosas os fariseus convertem em um motivo de ostentação e em uma prática pura externa. A oração não é mais um momento de falar com Deus, mas serve de instrumento para alcançar honra e prestígio diante dos homens.          

Mt convida os cristãos a recuperar o sentido religioso da oração, purificando-a daquilo que há desviado a oração de seu fim. Para Mt a oração do cristão deve estabelecer um relacionamento íntimo com o Pai: “...entra no teu quarto, fecha a porta, e reza ao teu Pai” (v.6a), num clima de abandono e confiança em Deus: “O Pai de vocês conhece as necessidades que vocês têm” (v.8). Os cristãos devem orar como Jesus orava. E o estilo desta oração é condensado na oração do Pai-Nosso (vv.9-13).          

Uma das principais raízes da vida cristã que nos ajuda a sugar a energia inesgotável do amor divino é a prática da oração. Nossa oração deve ser discreta, vivida na intimidade de nosso coração, repleta de silêncio capaz de perceber as insinuações do Espírito Santo. Mas se cresce na vida de oração, reservando a ela, diariamente, o mesmo tempo, pelo menos, que reservamos às refeições que nutrem o nosso corpo. 

A Igreja aprende na oração o caminho da liberdade e é uma das expressões da liberdade. Orar é estar em comunhão amorosa com Deus, pois Ele é o Pai de todos (cf. Jo 20,17). Quem ora, acredita e quem acredita, precisa orar. A história de nossa oração é a história de nossa vida com Deus. De certa forma, pode-se dizer que a vida sem oração é a vida sem história com Deus. A vida, antes de ser vivida, precisa ser rezada para que tudo comece e termine na graça de Deus. 

O Jejum(vv. 16-18)       

O jejum lembra as relações com o outro, com Deus, com as coisas e consigo próprio. Na relação com o outro, o jejum é aquela limitação de vida que a sua presença impõe limite que se torna um princípio de relacionamento, de comunicação e de comunhão. Na relação com Deus, o jejum é como a oração do corpo, que a própria vida não é absoluta e sim o próprio Deus e a sua Palavra. Na relação com as coisas, o jejum é um corretivo necessário para a ânsia de “possuir” as coisas (temos apenas o direito de usar as coisas. Este direito terminará assim que partirmos deste mundo. Tudo será deixado em termos de bens). Na relação consigo mesmo, o jejum nos conduz a um correto direcionamento com a nossa vida e nossa morte. O jejum é também necessário para alcançar a “sobriedade”, que consiste no servir-se das coisas tanto quanto são úteis para amar a Deus e ao próximo. O ser humano ou aprende a ser senhor de seus sentidos (cinco sentidos) e de suas faculdades, orientando-os ao fim próprio, ou será escravo de seu apetite. 

Sobre o jejum Mt utiliza o mesmo esquema literário que há utilizado nas duas instruções anteriores (quando...não façam como os hipócritas: v.2.5.16). Como foi refletido no domingo anterior, o jejum era uma prática estendida entre os grupos religiosos ao redor de Jesus (Mt 9,14). Os fariseus jejuavam duas vezes por semana (Lc 18,12).          

Mt relata que Jesus praticou o jejum para preparar-se antes de exercer sua missão (Mt 4,12). E a comunidade de Mt praticava o jejum (Mt 9,15), mas Mt quer dar um sentido novo a esta prática, evitando toda a ostentação exterior.              

Com o jejum evitamos que os bens deste mundo não nos escravizem. Faz uso deles para o bem próprio e do próximo, e neles degusta o Bem maior que é Deus. Jejuar, então, significa abster-se de alimento, tomar uma atitude de respeito e de liberdade diante das coisas, fazer espaço para os outros e para Deus, confiar na providência de Deus; constituir um ato de conversão a Deus através das coisas. Neste tempo quaresmal devemos aprender a morrer com Cristo para renascer com ele. Com a ajuda de sua graça, devemos combater tudo aquilo que, na nossa vida, impede o nascimento do homem novo anunciado pelo Evangelho: nossas tendências burguesas, nossos pequenos apegos, o comodismo ou o medo que nos impedem uma atuação mais eficaz, nosso farisaísmo em querer fazer aquilo que nosvantagem ou prestígio, nosso vício/nossa dependência da TV ou do mundo virtual como a internet etc.    

Muita gente acha que a quaresma é apenas um tempo em que não se come carne às sextas-feiras. No Brasil a grande maioria não come carne em dia nenhum não por causa de dieta ou por questão de saúde, mas porque não tem condição para comprar carne. Por isso, aqueles que não passam necessidade, devem mesmo por uma questão de solidariedade aos necessitados, privam-se de carne ou de outras coisas.       

O jejum que agrada a Deus, diz o profeta Isaías (Is 58,1-14) é quebrar as cadeias injustas, libertar os oprimidos, realizar a justiça.       

A quaresma, neste sentido, é o tempo em que reassumimos a nossa vida cristã com um engajamento efetivo de transformação do mundo em vista do Reino de Deus.

Hoje a liturgia nos convida a reconhecer nossa fraqueza ou debilidade. Quanta distância existe entre nós e o Evangelho, entre nós e a vida de fidelidade, totalmente, entregue de Jesus! Hoje, se olharmos para nós mesmos, em nosso modo de viver, agir, brotará das profundezas de nossos corações as palavras que rezamos no Salmo Responsorial: “Tende piedade, ó meu Deus, misericórdia! Na imensidão de vosso amor, purificai-me! Lavai-me todo inteiro do pecado e apagai completamente a minha culpa!” 

Hoje somos convidados a ser sinceros, verdadeiramente, com nós mesmos. Se nos colocarmos diante de Deus, não poderemos nos gloriar em nada. Quanto nossos desejos e interesses nos dominam! Quantos desejos que temos que impõem nossos critérios e nossa vontade! Que pouca capacidade de renunciar (de dinheiro, tempo, tranquilidade) para o serviço dos outros! Quão pouco nos esforçamos para compreender os que não pensam como nós. Quão pouco temos rezado! Hoje Jesus me convida a rezar mais, a fazer mais caridade e a me controlar mais. Tudo isso deve ser meu programa para esta quaresma para poder experimentar a vida glorificada, a vida pascal.

P. Vitus Gustama,SVD

Sexta-feira Após Quarta-feira de Cinzas, 20/02/2026

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