VIVER DE
ACORDO COM A VONTADE DE DEUS NOS FAZ VENCERMOS AS TENTAÇÕES DESTE MUNDO
I DOMINGO DA QUARESMA “A”
I
Leitura: Gn 2,7-9; 3,1-7
7O Senhor Deus formou o homem do pó da
terra, soprou-lhe nas narinas o sopro da vida e o homem tornou-se um ser
vivente. 8Depois, o Senhor Deus plantou um jardim em Éden, ao oriente, e ali
pôs o homem que havia formado. 9E o Senhor Deus fez brotar da terra toda sorte
de árvores de aspecto atraente e de fruto saboroso ao paladar, a árvore da vida
no meio do jardim e a árvore do conhecimento do bem e do mal. 3,1A serpente era
o mais astuto de todos os animais dos campos que o Senhor Deus tinha feito. Ela
disse à mulher: “É verdade que Deus vos disse: ‘Não comereis de nenhuma das
árvores do jardim?’” 2E a mulher respondeu à serpente: “Do fruto das árvores do
jardim nós podemos comer. 3Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim,
Deus nos disse: ‘Não comais dele, nem sequer o toqueis, do contrário,
morrereis’”. 4A serpente disse à mulher: “Não, vós não morrereis. 5Mas Deus
sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão e vós sereis
como Deus, conhecendo o bem e o mal”. 6A mulher viu que seria bom comer da
árvore, pois era atraente para os olhos e desejável para se alcançar o
conhecimento. E colheu um fruto, comeu e deu também ao marido, que estava com
ela, e ele comeu. 7Então, os olhos dos dois se abriram; e, vendo que estavam
nus, teceram tangas para si com folhas de figueira.
II Leitura: Rm 5,12.17-19
Irmãos: 12 Consideremos o seguinte: O
pecado entrou no mundo por um só homem. Através do pecado, entrou a morte. E a
morte passou para todos os homens, porque todos pecaram...17 Por um só homem,
pela falta de um só homem, a morte começou a reinar. Muito mais reinarão na
vida, pela mediação de um só, Jesus Cristo, os que recebem o dom gratuito e
superabundante da justiça. 18 Como a falta de um só acarretou condenação para
todos os homens, assim o ato de justiça de um só trouxe, para todos os homens,
a justificação que dá a vida. 19 Com efeito, como pela desobediência de um só
homem a humanidade toda foi estabelecida numa situação de pecado, assim também,
pela obediência de um só, toda a humanidade passará para uma situação de
justiça.
Evangelho: Mt 4,1-11
Naquele tempo, 1o Espírito conduziu
Jesus ao deserto, para ser tentado pelo diabo. 2Jesus jejuou durante quarenta
dias e quarenta noites, e, depois disso, teve fome. 3Então, o tentador
aproximou-se e disse a Jesus: “Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se
transformem em pães!” 4Mas Jesus respondeu: “Está escrito: ‘Não só de pão vive
o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus’”. 5Então o diabo levou Jesus
à Cidade Santa, colocou-o sobre a parte mais alta do Templo, 6e lhe disse: “Se
és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo! Porque está escrito: ‘Deus dará ordens
aos seus anjos a teu respeito, e eles te levarão nas mãos, para que não
tropeces em alguma pedra’”. 7Jesus lhe respondeu: “Também está escrito: ‘Não
tentarás o Senhor teu Deus!’” 8Novamente, o diabo levou Jesus para um monte
muito alto. Mostrou-lhe todos os reinos do mundo e sua glória, 9e lhe disse:
“Eu te darei tudo isso, se te ajoelhares diante de mim, para me adorar”.
10Jesus lhe disse: “Vai-te embora, Satanás, porque está escrito: ‘Adorarás ao
Senhor, teu Deus, e somente a ele prestarás culto’”. 11Então o diabo o deixou.
E os anjos se aproximaram e serviram a Jesus.
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Ser Fiel à Palavra É Ser Salvo: Entre Adão e Jesus
Neste Primeiro Domingo
da Quaresma, a Igreja nos apresenta as duas grandes figuras que centram toda a
história da humanidade: Adão e Jesus Cristo. Adão, o primeiro homem
no plano do tempo, na verdade inclui tanto o masculino quanto o feminino.
Jesus, o filho de Deus em forma de homem (Deus encarnado), também está
associado à sua missão uma mulher, Maria de Nazaré, Sua Mãe com seu Fiat ao
Plano de Deus de ser Mãe do Salvador.
Nas
leituras de hoje, esses dois "homens" (Adão e Jesus) aparecem frente
a frente e, ao mesmo tempo, relacionados. E os dois são tentados. Um caiu na
tentação pela desobediência à Palavra de Deus (Adão) e o Outro venceu as
tentações, pois viveu de acordo com a Palavra do Pai (Jesus). Aquele que vive de
acordo com a Palavra de Deus pode ser tentado, porém nai cai na tentação.
O primeiro homem (Adão)
é colocado no Paraíso na harmonia da criação e na harmonia da relação
homem-Deus, assim como na harmonia do casal humano. Ser fiel à Palavra
de Deus é permanecer em harmonia Homem-natureza, homem-mulher e Homem-Deus.
Ao contrário, não obedecer - cair em tentação - é quebrar o desígnio
"harmônico" (de comunhão) de Deus Pai. Por isso, o segundo
fragmento do texto da Primeira Leitura nos coloca na tentação de não obedecer à
Palavra de Deus que resulta na desordem (perda da harmonia). Adão e Eva (o homem e a mulher) não confiam em
Deus; duvidam e desconfiam de Seus projetos e caminhos, e por isso, eles (Adão
e Eva) decidem tudo por conta própria. Ao Perder a comunhão com Deus e ao
abandonar os caminhos de Deus, únicos onde poderiam encontrar vida, harmonia, alegria
e paz, o homem perdido, o homem desobediente à Palavra de Deus só encontra
caminhos de amargura, dor e morte. Segundo Santo Agostinho, o homem para onde
se dirija sem se apoiar em Deus somemnte encontrará dor.
Não é simplesmente porque somos "pó" (feito de
barro) que pecamos, e sim porque somos livres. Se o homem conhecesse e reconhecesse que não vem de si
mesmo, e sim que é “doado”, agraciado, que vem de Alguém (Deus), ele escolheria
os caminhos de Deus de Quem o criou.
Jesus, como sublinham a Segunda Leitura e o Evangelho de hoje, é fiel à Palavra do Pai,
permanece sob a Palavra de Deus, alimenta-se da vontade do Pai (Jo 4,34), não
cai em nenhuma tentação, envolve-nos em harmonia e reconcilia-nos, a partir da
obediência, com a criação e com o Pai.
Na segunda leitura, São
Paulo confirma a triste experiência de Adão e esta infeliz herança que os
primeiros pais nos deixaram. “O
pecado entrou no mundo por um só homem. Através do pecado, entrou a morte. E a
morte passou para todos os homens, porque todos pecaram...”. Todos
nós caímos, tropeçamos, cedemos ao princípio do prazer, ao orgulho e à
autossuficiência, à soberba. Desde que existimos, temos a tendência de nos
rebelarmos, de nos tornarmos independentes, de nos distanciarmos de Deus e de
seus caminhos. O resultado não pode ser outro senão o caos na nossa vida e na
nossa convivência com os outros.
E o evangelho quer nos
levar a uma reflexão de que o
homem tem a ver com coisas, com pessoas e com Deus, que respectivamente
lhe assegura a vida animal, a vida humana e a vida espiritual.
Estas três vidas são as dimensões com possibilidade de vitória ou derrota na
medida em que estamos revestidos do Espírito do Filho que tudo recebe como dom
e doa, ou com aquele espírito
do velho Adão que tudo quer roubar: é uma ironia: roubar o que é nos dado de
Deus. Deus é o dom e tudo recebemos dele, menos o pecado. Consequentemente, a possessão representa o contrário,
origem de todos os males, “Porque
a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro” (1Tm 6,10). Poder e dinheiro
sempre andam de mãos dadas. As coisas, as pessoas e Deus são
tres necessidades vitais: o homem pode satisfazer-se de modo diabólico ou
filial, roubando ou recebendo tudo como dom, apossando-se ou partilhando.
As
tres tentações de Jesus correspondem aos tres aspectos sedutores do fruto
proibido (Gn 3,6): é
bom possuir as coisas para comer (ídolo do ter), pois nos garante a vida animal.
É bonito posssuir as pessoas
porque garante a vida humana (ídolo do poder). E é desejável possuir Deus para ser autossuficiente em
tudo (ídolo
do apossar-se). São os tres ídolos que dominam o homem, projeção
de suas necessidades: a idolatria das
coisas, com um messianismo econômico que transforma as pedras
em pão; a idolatria de Deus, com um
messianismo milagroso que quer dispor do próprio Deus; e a
idolatria do poder com um messianismo político que quer dominar a
todos. Trata-se das tentações de sempre: trocar a salvação por saúde, Deus
com nossos honorários/sensações, o outro com o nosso poder. Estes tres ídolos
são a própria estrutura do mundo que resulta na sua própria anulação (nulidade
nulificante).
Jesus
foi tentado por satanás com os três ídolos. Na verdade, são a luta que Jesus
enfrentará em toda a vida no esforço de viver o próprio limite, mesmo aquele
extremo, de ser Filho. Jesus, vivendo sua filiação, vence o satanás. Ele
desmascara satanás ao lhe dizer: “Vai embora, satanás!”. Mais tarde Jesus vai
dirigir o mesmo alerta a Pedro que propõe implicitamente a mesma coisa e por
isso, o chamará de “satanás”. Mas Jesus não dirá a Pedro “Vai embora”, e sim “vai atrás de mim!”
(Mt 16,23).
Há,
então, duas maneiras de viver como
cristãos: uma maneira de viver como filhos de Deus que nos leva a
nos unir com os outros (partilha, solidariedade, compaxão etc.). Outra maneira é a do diabo que nos
leva a nos distinguir dos outros pela riqueza, pela honra e pela arrogância.
Onde há tentação diabólica
há desunião, há miséria, há opressão.
Jesus realizou a escolha do Filho:
solidariedade com os irmãos. Jesus recebe tudo do Pai e tudo dá aos irmãos.
O seu relacionamento com
as coisas não é de apossar-se, mas de doar-se, até o dom de si próprio, quando
se fará o Pão para todos em obediência à Palavra do Pai (cf.
Jo 6,22-71). O
relcionamento de Jesus com Deus não é a vontade de usar Deus para sua própria
vantagem, mas a confiança n´Ele. E seu relacionamento com os outros não é de
dominar e sim de servir (cf. Mc 10,45), até fazer-se “o Servo”
(cf. Jo 13,1-20: lavá-pés). O caminho de Deus, que é amor e partilha, é oposto ao do
diábo/satanás que é egoismo (pensar apenas nos próprios interesses e
vantagens) e
divisão (desunir as pessoas para poder dominá-las
facilmente). Trata-se de uma oposição interna que perpassa o coração de cada ser
humano.
Graças
a essa entrega de Jesus aos caminhos de seu Deus Pai, Ele triunfou sobre a
morte e nos deu a vida, aquela vida e aquele triunfo que a Igreja nos aplica em
sua pregação, sua oração, seus sacramentos, seu cuidado pastoral. Se ao nascer como filhos dos
homens fomos inseridos no velho Adão, tronco do pecado e da morte, pelo batismo
fomos inseridos no novo Adão, para sermos filhos no Filho: filhos de Deus.
A Igreja nos convida a nos
prepararmos para renovar nosso batismo na próxima Páscoa, meta principal da
Quaresma.
Por
isso, estejamos conscientes de que a Quaresma é tempo de conversão, de
renovação e de aprofundamento de nossa vida cristã. Tempo de intensificar nossa
oração e de revisar nossos caminhos para adaptá-los cada vez mais aos caminhos
de Deus, ao seguimento de Jesus Cristo.
Em
cada Eucaristia, o Senhor renova Sua Aliança, uma Aliança eterna e estável.
Jesus Cristo sempre foi fiel, tanto ao Pai como a nós (cf. Jo 3,16). É preciso
que renovemos nossa entrega agora ao Pai, com Cristo e com a comunidade. Por
meio da comunhão na Eucaristia, vamos nos deixar penetrar e plenificar de Sua
presença, para que, com seu amor e com sua força, com sua sabedoria e com sua
companhia, possamos caminhar pelos caminhos do Senhor para chegar à Páscoa
definitiva.
As Tentações Jesus São Nossas Tentações
O Evangelho deste dia
fala das tentações de Jesus. Como em outros evangelhos sinóticos, o evangelho
de Mateus também relata as tentações de Jesus antes de começar sua vida
pública. As tentações relatadas no evangelho deste dia acontecem logo depois da
cena do Batismo de Jesus (Mt 3,13-17). Toda a vida de Jesus foi, na verdade,
uma luta contínua durante sua vida terrena, pois o número “três” nas suas tentações
indica o completo e o definitivo. A tríplice negação de Pedro significa, por
exemplo, sua renúncia total a ser discípulo (cf. Mc 14,30), uma tomada de
posição decidida, no grande combate contra o adversário. O relato nos mostra
que Jesus não é conivente do mal. Sua vida é totalmente orientada para Deus e
centrada em Deus.
Como
já foi dito na reflexão sobre o Batismo do Senhor, este texto faz parte do
complexo literário de Mt 3,1-4,16 que fala da preparação para a missão de
Jesus. O evangelista Mt segue nestas passagens o relato de Mc 1,2-13, mas ele o
completa com outras informações de outra fonte conhecida como fonte “Q” (Mt
3,7-10.12;4,3-11) e
com a própria contribuição (Mt 4,12-17.23-25).
O motivo condutor
desses capítulos é a apresentação de Jesus como Filho de Deus (cf. Mt
2,15;3,17; 4,3.6). Na Genealogia Mt apresenta Jesus como filho de Davi e filho
de Abraão provisoriamente (Mt 1,1), porque para ele, Jesus é, antes de tudo, o
Filho de Deus. A afirmação velada de Mt 2,15 ao citar Os 11,1: “Do Egito chamei meu Filho” se torna
uma confissão explícita no relato do Batismo de Jesus: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3,17). E nas
tentações, essa filiação divina é testada. Por três vezes em suas tentações, o
tentador apela certamente a essa filiação ao dizer: “Se és Filho de Deus...” (Mt 4,3.6).
Ao relatar tudo isso,
Mt expressa a fé de sua comunidade no Senhor ressuscitado que é o Filho de Deus
diante das objeções dos judeus que negavam-se a reconhecer a origem divina de
Jesus. Por isso, é fácil perceber nesta passagem um reflexo das controvérsias
que a comunidade mateana sustentava com seus vizinhos judeus. Muitos judeus não
podiam entender o escândalo de que Jesus tinha morto na cruz desprovido de todo
poder e glória e por isso, se negavam a reconhecer Jesus como Filho de Deus.
Mas sem dúvida nenhuma, para os cristãos a morte de Jesus em obediência
absoluta à vontade do Pai (cf. Mt 26,36-46) era o sinal mais evidente de sua
filiação divina.
1. Jesus Foi Levado Para O
Deserto: O Que É O Deserto?
Logo depois de seu Batismo
“Jesus foi levado pelo Espírito
para o deserto” (Mt 4,1). Ao dizer que depois do Batismo “Jesus foi levado pelo
Espírito” (Mc usa uma palavra mais forte: “impelir” ou “empurrar” Mc 1,12), o texto quer nos dizer que a
partir de então Jesus não tinha mais vida privada para si, mas sua vida foi uma
obediência plena à voz do Espírito, uma vida sob a direção total do Espírito de
Deus. A partir de
então sua vida se tornou inteiramente missão. Sua vida se tornou uma vida para
Deus e para nós, seres humanos.
Quando nos deixarmos levar ou guiar pelo
Espírito de Deus, nós nos tornaremos uma ocasião de salvação para os outros;
nossa vida se tornará uma missão; nossa vida se tornará útil para os demais.
Jesus foi conduzido
para o deserto. O que significa
essa condução? Em primeiro lugar,
o deserto é o lugar de silêncio e de solidão, longe das ocupações diárias, do
ruído e da superficialidade. O deserto é o lugar do absoluto, é o lugar da
liberdade que situa o homem diante das questões fundamentais de sua vida. No
deserto foi que surgiu o monoteísmo, e por isso, é o lugar da graça. Quando o
homem se esvaziar de suas preocupações, ele vai encontrar seu Criador. As
grandes coisas começam sempre no silêncio, no deserto, na pobreza. Ninguém
poderá participar da missão de Jesus, ninguém poderá participar da missão do
evangelho se não participar na experiência do deserto, se não sofrer sua
pobreza e sua fome. Não pode nascer um homem novo estando farto de tudo.
Pedimos a graça do Senhor que nos permita descobrir aquele silêncio profundo,
aquele deserto onde habita sua palavra.
Em segundo lugar, o deserto é também o lugar da morte: no
deserto não há água, elemento fundamental da vida. Com seu ardente e cruel
calor o deserto se mostra como o extremo oposto da vida. No AT a solidão faz
parte da morte porque o homem, como pessoa, vive de amor, vive de relação. O
deserto é, portanto, não é unicamente uma região que destrói a vida biológica,
mas ele é também um lugar da tentação onde se põe de manifesto o poder do mal.
Jesus está diante desse poder e ele se enfrenta com esse poder para fazer valer
de tudo.
Em terceiro lugar, ao entrar no deserto,
Jesus entra também na história da salvação do seu povo, do povo eleito. Esta
história começa a raiz da saída do Egito, com os 40 anos de peregrinação
através do deserto. No centro desses 40 anos estão os 40 dias de Moisés no
monte: dias com Deus cara a cara, dias de jejum absoluto, dias de isolamento do
povo na solidão da nuvem, no topo da montanha, e desses dias é que brota a
fonte da revelação. Os 40 dias aparecem novamente na vida de Elias, perseguido
pelo Rei Acab, o profeta caminha durante 40 dias pelo deserto, voltando, assim,
ao ponto de origem da aliança, à voz de Deus para um novo princípio da história
de salvação.
Neste
sentido, converter-se ao Senhor é entrar na história da salvação, voltar com
Jesus às origens, é refazer o caminho de Moisés e de Elias que é a via que conduz
até Jesus e o Pai.
2. Quem Caminha Com Deus É
Tentado: As Tentações De Jesus São Nossas Tentações
“Jesus foi
levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo” (Mt
4,1)
A tentação é uma
verificação da fidelidade do homem a Deus. “Nossa maturidade se forja nas
tentações. Ninguém conhece a si mesmo se não é tentado; nem pode ser coroado,
se não vence; nem vencer, se não luta; nem lutar, se lhe faltam inimigos”
(Santo Agostinho, In Ps. 60,30). Quem é tentado não é propriamente o
pecador, mas o homem piedoso, que caminha com o Senhor. Por isso, a tentação é,
a partir desta ótica, uma prova da predileção de Deus para com aquele que é
tentado (cf. Dt 8,2). Jesus é o Filho de Deus. Apesar disso, ele não
está isento de qualquer tipo de tentação. A santidade de Jesus não anula sua
condição como um ser humano. A
tentação faz o cristão rever mais uma vez sua compreensão do desígnio de Deus e
o perigo que possa desviá-lo do caminho de Deus.
No relato das tentações
observamos que tanto Jesus como o diabo utilizam os texto do AT nesse
enfrentamento extraordinário. Aparece aqui um disputa sobre a verdadeira
interpretação do AT em relação ao conteúdo desse acontecimento. O evangelho
quer enfatizar nessa tentação a seguinte questão fundamental: O AT, lido com
Jesus, é Palavra de Deus, revelação de sua verdadeira salvação. “O AT separado de Jesus se torna
instrumento de anticristo, de inimigo, de perturbador” (Joseph
Ratzinger).
2.1. Tentação Do Pão (Materialismo)
“Se és
Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães” (Mt 4,3)
A tentação do pão nos leva a buscarmos
realidades transitórias, finitas, como se fossem o básico da vida. Leva-nos a crer que um pode
bastar-se a si mesmo independentemente de qualquer outro e de Deus. Mas esta
forma de viver não nos deixa viver satisfeitos. E não nos deixa amar nem no
sentir amados.
Na primeira
tentação o Diabo propõe que Jesus converta as pedras do deserto em pão,
referindo-se assim ao milagre mosaico do maná. Segundo a tradição rabínica, o
Messias tem que repetir esse milagre de forma definitiva, isto é, o Messias
deve dar para sempre o pão à humanidade, desterrar a fome e criar um mundo onde
todos ficam satisfeitos, o mundo da perfeita prosperidade. Isto seria sinal do
Messias, a verdadeira redenção de uma humanidade que padece o flagelo da fome.
Segundo esta interpretação, o Messias é aquele que satisfaz plenamente a fome e
traz o pão para todos e para sempre. Esta tentação é sempre vinculada com a
tentação do poder.
A proposta do diabo é,
na verdade, atendível, porque a fome é uma das pragas mais trágicas que padece
a humanidade. Se tivéssemos que expressar espontaneamente uma idéia da
redenção, o pão seria, sem dúvida nenhuma, o problema central.
Na verdade, Jesus nos
dá o pão; este é seu dom principal. Mas nos o dá de uma maneira completamente
distinta da que propõe o diabo: Jesus, o grão de trigo que morre por nós, se
faz pão. A multiplicação dos pães se prolonga na Eucaristia até o fim dos
tempos, quando Deus, já sem véu, será para sempre nosso pão. Com sua morte,
Jesus realiza o sinal do maná e se revela como o verdadeiro e definitivo
Moisés.
A verdadeira diferença
entre o milagre eucarístico (o milagre divino) e o milagre sugerido pelo diabo
consiste na resposta do Senhor: “Não só de pão vive o homem, mas de toda
palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4,4; Dt 8,3). Quando Deus e a verdade
estiverem ausentes, o homem não pode se salvar. Aqui descobrimos a essência da
mentira diabólica: na visão do diabo sobre o mundo, Deus aparece como algo
supérfluo, inútil, como algo que não é necessário para a salvação do homem.
Segundo o diabo, a única coisa decisiva é o pão, a matéria. O centro do homem
seria o estômago. “O homem não vive apenas de bem-estar material. Em nossos
dias um número cada vez maior de indivíduos dispõe de recursos para viver, mas
não de um sentido pelo qual viver. A verdade é que, a luta pela sobrevivência
não se acaba, e ponto. De repente brota a pergunta: ‘Sobreviver? Mas para que?’”
(Viktor E. Frankl).
A mentira do diabo é
uma mentira perigosa porque absolutiza uma parte da verdade. Para o diabo basta
somente o pão. O homem
vive também do pão, mas não somente do pão. A fome do mundo é verdadeiramente um mal terrível,
mas suprimindo unicamente este mal não se alcançam as raízes da enfermidade do
homem. Jesus multiplica os pães, mas os multiplica por meio da caridade que
distribui através de sua palavra, palavra em virtude da qual o homem se abre à
verdade e deste modo se salva realmente.
O desenvolvimento
econômico que não é acompanhado de ou pelo desenvolvimento espiritual destrói o
homem e o mundo. Sabemos que a terra tem riquezas suficientes para saciar a
todos; não são os bens materiais os que faltam, mas as forças espirituais, que
poderiam criar um mundo de justiça e de paz. Vivemos num mundo em que,
paradoxalmente, se peca por converter os pães em pedras destruindo excedentes
alimentações para manter o nível de vida de uns, enquanto outros morrer com
este provocado dilúvio da fome. O pecado que o homem frequentemente comete é o
egoísmo. Deus pede que nos arrependamos e deixemos o egoísmo, a fim de amar,
servir os outros e partilhar com eles o que temos.
O homem nunca fica
satisfeito somente com o pão material. Ele precisa se alimentar com outros pães
que são igualmente imprescindíveis para viver feliz: a confiança em Deus, a
ação de graças e a adoração de Deus, a verdade, o amor, a generosidade, a
compaixão, a solidariedade, a alegria, a esperança, a fidelidade, o serviço
etc.... O homem deve aprender a viver de um pão novo, que é a vontade de Deus.
Por isso, citando Dt 8,3, Jesus responde ao tentador: “O homem não pode viver
só de pão, mas de toda palavra que Deus diz”(Mt 4,4). Jesus não precisa provar de que é Filho de
Deus fazendo milagres pretensiosos. Seja na alegria ou na dor, Jesus está
consciente de que é o Filho de Deus. Não por estar na dor é que Deus deixará de
amar Jesus, como uma mãe que continua a amar o filho mesmo estando doente. A
partir do momento em que o homem se deixa investir ou guiar pela Palavra de
Deus, ele participará da vitória de Cristo.
O diabo (aquele que
causa a divisão dentro da pessoa e entre as pessoas) pode nos invadir
unicamente quando Deus se converter em algo secundário na vida pessoal. Na
confusão de nossas ocupações diárias acontece facilmente que Deus passa ou pode
passar para o segundo plano. Deus é silencioso e por isso, precisamos estar com
os ouvidos bem atentos.
2.2. Tentação Do Poder: O Poder Não É Libertador
“Eu te darei tudo
isso, se te ajoelhares diante de mim, para me adorar” (Mt 4,9)
O
afã de poder é uma tentação que vem rondando o homem desde que vive no mundo. O homem ambiciona dominar, ficar
acima dos demais. É
um instinto primário e voraz em todo homem. Estamos estruturados nas sociedades
que se impõem pela força.
O desejo de poder, o mesmo que o desejo de riquezas, é
cego, não se sacia nunca.
Impede que possamos criar relações de fraternidade e de igualdade entre todos.
Faz impossível um clima de liberdade, já que é necessário reprimir e reduzir os
direitos dos demais para conservar os próprios privilégios, conseguidos a custo
da escravidão da maioria. A ânsia de poder nos leva a aproveitarmos uns dos outros.
Este desejo de domínio vai cristalizando em estruturas de poder, radicalmente
injustas, que nos são impostas e que nos envolvem. Mas, consciente ou
inconscientemente, os que exercem este tipo de poder são vítimas do próprio
poder já que lhes impede de ser livres porque vivem escravos do mesmo poder
para conservá-lo. O poder exige adoração, subordinar-lhe todo o demais. E assim
surge o ídolo; é um ídolo que carecendo de valor, se coloca no centro da vida e
nos pede submissão e obediência.
A única submissão
válida é a Deus que consiste em buscar a autêntica liberdade de todos e para o
bem de todos. Jesus manteve totalmente fora das estruturas de pode de seu
tempo.
A tentação de poder é
uma tentação constante da Igreja e de cada cristão. Ceder à tentação de poder é
aceitar uma verdadeira corrupção da mensagem de Jesus Cristo, ficando absorvido
pela vontade de poder. A vontade de poder impossibilita a transmissão da
mensagem de Jesus. Cada cristão tem que superar, como Jesus, toda estrutura de
poder: entre pais e filhos, entre irmãos, entre os menores e maiores, entre
chefes e seus funcionários. O mal não se vence com nenhum tipo de domínio e sim
a partir de dentro de cada um, sendo homens novos que seguem do amor de Jesus.
Esta utopia do homem novo parece impossível. Mas Jesus de Nazaré realizou este
impossível: recusou para sempre o poder e demonstrou com sua vida inteira que é
possível viver totalmente para os demais, sem mandar neles, sem ter nenhuma
forma de poder ou de domínio sobre os demais. Somente há um Senhor: Deus a quem
adorar e uma só ocupação fundamental: o amor.
2.3. Tentação Do Triunfalismo: Tentação Do Messianismo
Espetacular
“Se és Filho de
Deus, lança-te daqui abaixo! Porque está escrito: ‘Deus dará ordens aos seus
anjos a teu respeito, e eles te levarão nas mãos, para que não tropeces em
alguma pedra” (Mt 4,6).
Vivemos numa sociedade
da facilidade em que tudo carece de importância. Passamos do tabu do pecado ao
liberalismo ou à libertinagem de considerar tudo como relativo: cada um tem sua
própria moral que fundamenta na lei do mínimo esforço.
Jesus encarou a tentação do messianismo espetacular. É uma tentação de pensar que
Deus esteja sempre ao seu dispor ou à sua ordem (Mt 4,5-7). É a tentação de crer em um Deus
fácil, um Deus que nos dá tudo feito e que se adapta a nossas conveniências.
Seria brincar com o poder de
Deus, transformando-o em magia teatral, numa espécie de consagração da vitória
sem guerra, do triunfo sem luta, de querer ganhar dinheiro sem trabalho.
Jesus quer servir a
Deus e não servir-se dele. Jesus não quer nos apresentar um Deus que elimine o
risco e as decisões da liberdade humana. Toda superficialidade e facilidade são
traição ao Deus de Jesus Cristo.
Jesus não precisa de
provas para acreditar que o Pai o ama, porque o próprio Deus chama Jesus de o
Filho amado no Batismo (Mt 3,17), e que está permanentemente ao seu lado. Jesus
rejeita frontalmente o falso messianismo dos prodígios, o messias milagreiro.
Jesus não precisa verificar sua confiança em Deus porque ela é incondicional,
mesmo Jesus estando na cruz. Por isso, ao citar Dt 6,16, Jesus diz ao tentador:
“Não tentarás o Senhor, teu Deus”(Mt 4,7).
Tentar Deus hoje em dia quem espera que Ele faça aquilo
que nos compete fazer, quem se omite e deixa tudo por conta de Deus. Não podemos pedir a Deus que nos
livre(na base de milagre) de todas as dificuldades. Temos que pedir-lhe, isto
sim, que em qualquer situação, agradável ou triste, nos conceda a luz e a força
para sairmos sempre vencedores e mais amadurecidos, mais homens.
Jesus
é o Filho de Deus,
mas, ao mesmo tempo, um verdadeiramente homem que vive uma vida autenticamente
humana, limitada e exposta ao fracasso. Apesar desta debilidade Jesus triunfa
porque tem total confiança em seu Pai. O único que Jesus busca é submeter-se à
vontade do Pai. Chegou a dizer: “Meu alimento é fazer a vontade daquele que
me enviou e consumar a sua obra” (Jo 4,34). Jesus venceu as tentações por
nós. E logo depois “os anjos o serviram” (v.11). É uma afirmação que enfatiza a
plenitude de comunicação entre o céu e a terra, e no centro está a pessoa de
Jesus. Ele é servido pelos anjos como aquele que é reconhecido como o Filho
amado de Deus. Ele restabelece a harmonia no cosmos e por causa disto os anjos
o servem.
Nesta
situação, Jesus é o
símbolo de toda pessoa que, depois de ter atravessado as provações fortes, é
reconhecida como filho e readquire o domínio sobre si, sobre as forças obscuras
da própria psique, sobre as forças destrutivas que se agitam nela, e passa a
conviver harmoniosamente com elas, em familiaridade com Deus, com as outras
pessoas e com os anjos.
As tentações nos fazem mais próximos de Jesus. Elas são paradigmáticas
para o nosso discernimento e a nossa conduta. Não estamos a sós nas nossas
tentações. Se Jesus, nosso Senhor, venceu as tentações por nós, venceremos
também as mesmas se estivermos sempre unidos com ele. Porque sem ele
nada podemos fazer (Jo 15,5).
P. Vitus Gustama,svd