quarta-feira, 1 de abril de 2026

Sábado Santo, 04/04/2026

ELE RESSUSCITOU! ALEGRAI-VOS!

SÁBADO SANTO

ANO “A”

Leitura: Rm 6,3-11

Irmãos: 3Será que ignorais que todos nós, batizados em Jesus Cristo, é na sua morte que fomos batizados? 4Pelo batismo na sua morte, fomos sepultados com ele, para que, como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, assim também nós levemos uma vida nova. 5Pois, se fomos de certo modo identificados a Jesus Cristo por uma morte semelhante à sua, seremos semelhantes a ele também pela ressurreição. 6Sabemos que o nosso velho homem foi crucificado com Cristo, para que seja destruído o corpo de pecado, de maneira a não mais servirmos ao pecado. 7Com efeito, aquele que morreu está livre do pecado. 8Se, pois, morremos com Cristo, cremos que também viveremos com ele. 9Sabemos que Cristo ressuscitado dos mortos não morre mais; a morte já não tem poder sobre ele. 10Pois aquele que morreu, morreu para o pecado uma vez por todas; mas aquele que vive, é para Deus que vive. 11Assim, vós também considerai-vos mortos para o pecado e vivos para Deus, em Jesus Cristo.

Evangelho: Mt 28,1-10

1Depois do sábado, ao amanhecer do primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o sepulcro. 2De repente, houve um grande tremor de terra: o anjo do Senhor desceu do céu e, aproximando-se, retirou a pedra e sentou-se nela. 3Sua aparência era como um relâmpago, e suas vestes eram brancas como a neve. 4Os guardas ficaram com tanto medo do anjo, que tremeram, e ficaram como mortos. 5Então o anjo disse às mulheres: “Não tenhais medo! Sei que procurais Jesus, que foi crucificado. 6Ele não está aqui! Ressuscitou, como havia dito! Vinde ver o lugar em que ele estava. 7Ide depressa contar aos discípulos que ele ressuscitou dos mortos, e que vai à vossa frente para a Galileia. Lá vós o vereis. É o que tenho a dizer-vos”. 8As mulheres partiram depressa do sepulcro. Estavam com medo, mas correram com grande alegria, para dar a notícia aos discípulos. 9De repente, Jesus foi ao encontro delas, e disse: “Alegrai-vos!” As mulheres aproximaram-se, e prostraram-se diante de Jesus, abraçando seus pés. 10Então Jesus disse a elas: “Não tenhais medo. Ide anunciar aos meus irmãos que se dirijam para a Galileia. Lá eles me verão”.

----------------

Segundo o Missal Romano, a Vigília Pascal é “mãe de todas as noites” e celebra o acontecimento fundamental, o cume da história da salvação que é a Ressurreição do Senhor. A noite pascal, em seu verdadeiro sentido, é a festa nupcial da Igreja. Todas as imagens de núpcias e bodas, cheias de promessas, que nos acompanham ao longo da liturgia anual, alcançam hoje toda a sua plenitude. A solenidade desta noite começou na sepultura. Mas agora sabemos que o sepulcro está vazio; apareceu o anjo para anunciar a ressurreição do Senhor. Por essa razão, a Semana Santa sem a celebração pascal é algo mutilado e quase sem sentido e pode conduzir a um cristianismo equivocado. Seria ficar-se apenas na dor e morte, se Jesus não ressuscitasse e quando Ele não trouxesse a vida e a renovação para a humanidade (cf. 1Cor 15,12-19).        

A Páscoa é a grande festa cristã, pois Jesus ressuscitou e nos deu a nova vida, a nova esperança de viver com sentido, e para o homem de hoje que está carente da alegria e da esperança encontra a fonte de sua vida em Jesus Ressuscitado. A partir de tudo isto, resta-nos uma coisa a fazer: obedecer ao encargo do anjo para anunciar a ressurreição aos que a buscam, aos que dela duvidam, aos que nela não creem. Para todos precisamos dizer com São Paulo: “Se, pois, ressuscitastes com Cristo, procurais as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Pensais nas coisas do alto, e não nas coisas da terra, pois morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus: quando Cristo, que é a vossa vida, se manifestar, então, vós também com ele sereis manifestados em glória” (Cl 3,1-4). 

O texto do Evangelho lido nesta noite é o breve capitulo sobre a ressurreição, mas dá sentido para todo o Evangelho. Cada evangelista escreve ou relata o capítulo sobre a ressurreição com liberdade de forma. Mas os quatro evangelistas seguem um mesmo esquema didático em três fases:

1.    O sinal do sepulcro vazio.

2.    A aparição de Jesus a alguns membros da comunidade.

3.    O encontro definitivo com o colégio apostólico.

Tudo converge para um pensamento principal: que foi o mesmo Ressuscitado quem comunica aos Apóstolos a missão de proclamar o Evangelho a todo o mundo.

Entender Um Pouco Sobre o Contexto Do texto

Quando Mateus escreveu seu Evangelho, os cristãos já viviam uma ruptura com o judaísmo oficial. De fato, os cristãos não viveram mais em Jerusalém e sim na Galileia. Com o Templo de Jerusalém não há mais possibilidade de entendimento. Mateus expressa esta ruptura através do relato sobre a morte de Jesus. No dia em que Jesus morreu, o véu do Templo se rasgou de cima para baixo, simbolizando a ruptura definitiva com o judaísmo oficial.

Para os cristãos de Mateus o Templo é lugar de terrores e de medos. Mas “Vós, não tenhais medo!”. Os cristãos, simbolizados nas mulheres, são o âmbito em que se vive a alegria da vida. Um anjo lhes impede o acesso ao túmulo: este não é um lugar cristão. Não se pode procurar nem causar a morte e sim a vida. No Paraíso o anjo cerrava o passo para a utopia, expulsando Adão e Eva do Paraíso, fruto de sua desobediência. Aqui um anjo abre o passo para a utopia e convida os cristãos, que são chamados de irmãos pelo Ressuscitado, a irem simplesmente para a Galileia porque a utopia é uma realidade na Galileia, onde unicamente e não em Jerusalém, pode perceber que Jesus vive e vive com eles (cf. Mt 28,20): “Ide anunciar aos meus irmãos que se dirijam para a Galileia. Lá eles me verão” (Mt 28,10).

A finalidade de Mateus não é, pois, narrar o que passou e sim dar razão do fato cristão cuja base é a fé inquebrantável no fato de que Jesus vive. Por isso, na Sexta-Feira Santa, em que Jesus foi morto, aparentemente era a vitória do Templo sobre Jesus. Mas Mateus insinua que se trata de uma vitória aparente, pois Jesus ressuscitou. Jesus vence a morte. Mateus simbolicamente relata esta vitória com o gesto do anjo de sentar-se sobre a pedra do túmulo de Jesus: “O anjo do Senhor desceu do céu e, aproximando-se, retirou a pedra e sentou-se nela”.

Alguns Detalhes e Sua Mensagem

1. “Ele não está aqui! Ressuscitou, como havia dito, e vai à vossa frente para a Galileia”.

Passou o dia de repouso dos judeus, o dia em que Jesus repousou, morto no sepulcro. As duas mulheres que antes ficavam diante do sepulcro, agora voltam a ir para o mesmo lugar para ver onde repousa aquele a quem haviam seguido.

Mas repentinamente tudo muda. Deus intervém: o terremoto, o anjo do Senhor resplandecente extraordinariamente, a pedra do túmulo retirada, os guardas ficam como mortos. Deus intervêm. Ninguém vê sua ação, mas o anjo do Senhor, aquele que fala em nome de Deus, explica às mulheres o que estava acontecendo. Não é no túmulo onde encontraram Jesus, o crucificado. A morte na cruz não foi a última palavra sobre Jesus, sobre sua vida e sobre sua mensagem. Ele ressuscitou! Algo novo começou. Jesus não está entre os mortos. Jesus continua sendo o Caminho a seguir: Ele “vai à vossa frente para a Galileia” (Cf. Jo 14,6).

Temor e alegria se misturam no coração das mulheres, como sucede sempre quando Deus se manifesta. Elas fazem caso do mensageiro do Senhor, mas a Boa Nova é para comunicá-la aos outros. Elas não podem ficar presas no sentimento de alegria e de temor. Elas devem ser novas mensageiras do Senhor: “Ide depressa contar aos discípulos que ele ressuscitou dos mortos, e que vai à vossa frente para a Galileia. Lá vós o vereis”. Tudo o que é bom e digno de viver não pode ser guardado para si, pois muitos precisam viver de tudo isto para viver na alegria e com sentido: “Ide de pressa!”. A graça de Deus não admite demora! Não é por acaso que Jesus Ressuscitado repete a mensagem do anjo: “Não tenhais medo. Ide anunciar aos meus irmãos que se dirijam para a Galileia. Lá eles me verão”. O anjo fala de “discípulos”. Jesus Ressuscitado fala de “meus irmãos”. O Senhor, o Ressuscitado é Irmão! Ele é um Irmão que convida cada cristão a fazer seu o mesmo caminho, o caminho que conduz da morte para a vida que jamais pode morrer, pois Jesus é “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6).

Não tenhamos medo de viver e de levar aos outros o que é digno, justo, honesto, correto, amoroso, bondoso e assim por diante. A bondade que devemos fazer hoje deve ser feita hoje mesmo, pois amanhã pode ser tarde demais. O perdão que devemos oferecer e receber deve ser feito hoje mesmo, pois não somos controladores do tempo que sempre foge de nós. Tudo ou nada é determinado somente no hoje. Temos que ter pressa para fazer o bem. Temos que ser exagerados no bem que devemos fazer. O bem praticado deve ser prioritário para qualquer cristão em qualquer lugar e tempo e para qualquer pessoa. O resto vale a pena a ser abandonado!Os ideais que iluminaram o meu caminho são a bondade, a beleza e a verdade” (Albert Einstein).

2. Ele Ressuscitou! Ele Não Está Aqui!

É o anúncio do anjo do Senhor para as duas mulheres que foram ao sepulcro de Jesus. É a Boa Notícia que nós escutamos também cada ano na Noite Santa da Páscoa. Cristo passou da morte para uma nova existência, definitiva e vive para sempre.

Ele não está aqui! Ressuscitou, como havia dito!”.  O lugar do encontro não é num passado, mas num futuro novo. O lugar do encontro não é na contemplação de um morto, mas no seguimento de quem está vivo. Jesus ressuscitado deve ser seguido, vivendo o seu projeto. Jesus não é uma figura num livro, mas uma presença viva e vivificante. Não é suficiente estudar a história de Jesus como qualquer grande figura histórica. Nós podemos começar desta maneira, mas devemos terminá-la com o encontro com ele, pois Jesus não é uma memória, mas uma presença. Ele continua vivo entre nós (Mt 28,20). Na liturgia da missa expressamos esta presença ao dizer: “O Senhor esteja convosco. Ele está no meio de nós!”. Se realmente acreditarmos nesta Presença, encontraremos sempre forças mais do que suficientes para encarar qualquer tipo de dificuldade, pois o próprio Jesus venceu a morte e está conosco.

Este é o motivo pelo qual nesta noite nos reunimos aqui e nos gozamos pela presença do Senhor Ressuscitado em meio de nós, ainda que não O vejamos com nossos olhos físicos, mas os olhos da fé sentem Sua presença. Se os judeus se alegram, ao celebrar a Páscoa, de sua libertação da escravidão e de sua passagem para a nova vida na terra prometida, nós, cristãos, nunca nos cansamos de celebrar que no meio da escuridão da noite, Cristo foi libertado da morte e cheio do Espirito de Deus, o Espirito da vida que nos vivifica para seguir o caminho do Senhor em que “passou a vida fazendo o bem” para todos (cf. At 10,38).

3. A Páscoa de Jesus Deve Ser Nossa Páscoa: Alegrai-vos!

De repente, Jesus foi ao encontro delas, e disse: ´Alegrai-vos! ´ As mulheres aproximaram-se, e prostraram-se diante de Jesus, abraçando seus pés”.

Alegremo-nos!” É o convite do Senhor nesta noite para cada um de nós. É o convite daquele que venceu a morte. As tristezas de cada dia podem acontecer, as tribulações podem nos cercar, mas nada nem ninguém possa nos tirar do caminho da Vida e do amor de Cristo por nós (cf. Rm 8,35-39). Nossa alegria nasce da serena certeza de que somos queridos do Senhor infinitamente, amados em todas as nossas limitações e fraquezas. É a alegria de saber que nossa vida tem sentido e tem futuro. Que a Palavra do Senhor que meditamos, vivemos e pregamos é a Palavra de vida eterna. Por isso, a falta de alegria profunda, no fundo, é sinal da falta de fé, sinal da falta de profundidade na vida de fé. Um cristão triste é, verdadeiramente, um triste cristão.

Tenhamos confiança, o Senhor sempre está conosco. O Senhor quer que através de cada um de nós surja uma nova humanidade onde haja menos dor, menos pobreza, menos tristeza, menos angústia, menos exploração dos menos favorecidos, menos injustiças sociais, menos vícios que minem a saúde das pessoas e a paz familiar. O Senhor continua nos enviando para que possamos gerar uma autêntica alegria cristã.

A alegria cristã é independente de qualquer coisa no mundo porque tem sua fonte na contínua presença de Cristo (cf. Mt 28,20). O cristão pode perder todas as coisas e todas as pessoas, mas ele jamais perderá Cristo Jesus. Embora se encontre numa circunstância em que a alegria se tornaria impossível, a alegria cristã permanece, pois o Senhor está presente (Mt 28,20). Para São Paulo, nenhum obstáculo ou dificuldade é capaz de impedir a verdadeira alegria, pois ela é um dos frutos do Espírito Santo (cf. Gl 5,22). Trata-se da origem superior, e por isso, está acima de tudo que é passageiro. Tudo pode passar, inclusive o sofrimento, mas a alegria permanece, pois é o fruto da aceitação de Deus na vida do homem, fruto do Espírito Santo. O mistério de alegria nasce de Deus, é um dom, não se compra em nossos mercados nem se encontra em nossas salas de festa. A alegria brota de dentro e tem sua origem no Espírito Deus. Dois amores, quando estiverem juntos, são sempre felizes, onde quer que eles estejam. Seria blasfêmia apresentar Deus como inimigo da vida e da alegria. O homem foi criado para expandir-se na alegria e é, por isso, chamado por Deus para expandir a alegria.  Não é por acaso que para o evangelista Lucas a alegria é um mandamento: “Alegrai-vos porque vossos nomes estão inscritos nos céus” (Lc 10,20). O verdadeiro cristão jamais perderá sua alegria porque jamais perderá Jesus Cristo.

Alegrai-vos!”. Este é o motivo pelo qual celebramos a Páscoa do Senhor e também nossa Páscoa. Isto é que dá sentido para nossa vida. Por isso, cremos e temos esperança e intentamos viver como cristãos: nós não seguimos uma doutrina ou um livro nem estamos celebrando o aniversário de um fato passado. Celebramos, sim e seguimos a Cristo Jesus, invisível, porém presente no meio de nós como o Senhor Ressuscitado. Deixemo-nos dominar por esta alegria! Participemos com toda a Igreja desta festa da Páscoa que começa agora e que durará sete semanas até o dia de Pentecostes. Assim Deus quer renovar os dons da graça com que nos encheu no dia do Batismo e nos comunicar Sua força para todo o ano. Deixemo-nos encher de vida pelo mesmo Espirito de Deus que ressuscitou Jesus. Ele quer nos comunicar força, energia, esperança para seja notado e sentido não somente nesta noite de celebração e sim em toda nossa vida que somos seguidores do Ressuscitado e queremos viver com Ele e como Ele.

4. Vivamos Uma Vida Nova e Caminhemos Na Vida Nova: Compromisso Batismal

Será que ignorais que todos nós, batizados em Jesus Cristo, é na sua morte que fomos batizados? Pelo batismo na sua morte, fomos sepultados com ele, para que, como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, assim também nós levemos uma vida nova” (Rm 6,3-4).

O Apóstolo Paulo se encarrega de nos fazer descer das nuvens e do romanticismo pascal para que compreendamos que a Páscoa é uma realidade permanente em cada cristão que foi batizado. A noite pascal é a hora de batizar-se. Mas o que significa isto?

O batismo não é um simples rito: é viver já como homens e mulheres novos. A Páscoa tem um sentido espiritual e profundo. É morrer a nós mesmos no que de velhos e pecadores temos e viver para Deus em Cristo Jesus. O texto de Paulo que lemos nesta noite é uma nova formulação do relato de Mateus (Leia Mt 28).

O que quer dizer ressuscitar com Cristo? É viver agora como Cristo, compenetrados do Evangelho que nos exige que sejamos despojados do homem velho cheio de pecado para viver em Cristo. Por isso, a Páscoa não é um dia do ano em que temos ideia de que algum dia ressuscitaremos com Cristo. É caminhar agora na vida nova: nova maneira de nos comunicar, de tratar o vizinho, de estar em família, de organizar nosso trabalho de praticar o bem para qualquer pessoa e em qualquer lugar e tempo. A Páscoa é a permanente reforma da sociedade através de cada cristão, a mudança contínua. Se cada cristão se renovar no Espirito do Senhor Ressuscitado, a sociedade inteira se renovará.

5. A Páscoa É a Festa Das Festas

A Páscoa cristã é a festa das festas, e o cristão é aquele que afirma: o Senhor ressuscitou verdadeiramente. O cristianismo nasce e progride desta proclamação fundamental: Jesus Cristo, que foi crucificado, ressuscitou verdadeiramente. Da ressurreição de Cristo deriva todo o resto da mensagem cristã. Sem a vitória de Cristo sobre a morte, toda a pregação seria inútil e a nossa fé seria vazia de conteúdo (cf. 1Cor 15,14-17). A ressurreição do Senhor é uma realidade central da fé cristã. A importância deste milagre é tão grande que os Apóstolos são, antes de mais nada, testemunhas da ressurreição de Jesus(cf. At 1,22;2,32;3,15). O núcleo de toda a pregação é este: Cristo vive e vive no meio de nós(cf. Jo 1,14;Mt 28,20). A páscoa da ressurreição é a grande festa cristã. Este mistério é tão importante e central é que o celebramos ao longo de todos os domingos e festas do ano litúrgico e inclusivamente na Eucaristia diária. Certamente cada eucaristia que se celebra, celebra-se e proclama-se ao mesmo tempo a ressurreição do Senhor e a nossa também. A eucaristia dominical é a páscoa semanal. A eucaristia diária é a páscoa diária.          

Sem dúvida nenhuma, a Páscoa é, por isso, o próprio conteúdo da fé cristã, é o coração da vida da Igreja porque ela nos revela quem é Deus, quem é Jesus Cristo e quem somos nós. A ressurreição nos mostra que o Deus revelado por Cristo é Aquele que ama e quer a vida. A Páscoa nos revela que Jesus, morto e ressuscitado, é Aquele que converge toda a história da humanidade. E ao mesmo tempo revela que a fidelidade é o caminho certo para chegar à Páscoa eterna com Deus. A Páscoa também nos revela que somos chamados a ressuscitar com Jesus, a superar com ele o drama da morte para podermos permanecer com ele na vida que não tem fim. FELIZ PÁSCOA a todos e a todas! Aleluya!

P. Vitus Gustama,SVD 

FELIZ PÁSCOA

Páscoa é sempre passagem, é dar o passo, é o passo sempre para frente. Na Páscoa contemplamos e celebramos o passo de um Deus torturado e executado numa cruz a um Deus ressuscitado e vivo entre nós: “Eis que Eu estou com vocês todos os dias até o fim do mundo” (Mt 28,20).

Não há outro caminho à maturidade e à realização como seres humanos sem aprendermos a suportar os golpes da vida. O êxito é aprender a ir de fracasso em fracasso sem se desesperar, pois Deus está conosco. O ser humano é um ser perfectível, mas não perfeito. A perfeição é o horizonte de nossa existência. Estou sendo o que devo ser para chegar a ser o que, na verdade, sou.

Triunfar é também aprender a fracassar. O êxito na vida vem do saber afrontar as inevitáveis faltas de êxito do viver de cada dia. Deste curioso paradoxo depende muito o acerto no viver. Cada frustração, cada contrariedade, cada desilusão leva consigo a semente de uma infinidade de capacidades humanas desconhecidas sobre as quais os espíritos pacientes e decididos, isto é, as pessoas de sucesso, souberam ir edificando o melhor de suas vidas. Mas aquele que quer desta vida todas as coisas a seu gosto, terá muitos desgostos também na vida.

O melhor testemunho da ressurreição de Jesus é a permanente busca do bem e sua incansável ação por amor e para o amor. O amor é a maior força criativa, transformadora e curativa. O amor permite o homem ir além e captar no fracasso e na deficiência a potencialidade oculta, contribuindo a que se converta num talento manifesto.

 

Cristo é tudo para nós.

Se tu queres curar tuas feridas, ele é médico.

Se a febre te abrasa, Ele é a fonte de água fresca.

Se te oprime o peso da culpa, Ele é a justiça.

Se tu necessitas de ajuda, Ele é a força.

Se tu temes a morte, Ele é a vida.

Se tu desejas o céu, Ele é o caminho.

Se tu andas na escuridão, Ele é a Luz.

Se tu buscas comida, Ele é alimento”, o Pão da Vida

 (Santo Ambrósio de Milão).

 ---------------------------------------------------------------------------------------------

FELIZ PÁSCOA! SHALOM!

P. Vitus Gustama,SVD

Sexta-feira Santa, Paixão Do Senhor, 03/04/2026

SEXTA-FEIRA SANTA

A CRUZ QUE ME SALVOU

Hoje é, propriamente dito, o início da celebração da Páscoa (Primeiro dia do Tríduo Pascal). Páscoa significa passagem: a passagem da morte para a vida. Portanto, a celebração de hoje não pode se concentrar apenas na tristeza e na compaixão pela morte e pelo sofrimento (celebramos com vestes vermelhas de testemunho, não pretas para funerais). Nem pode ser uma celebração em que, ao querer enfatizar a ressurreição, a realidade da morte de Cristo seja negligenciada. A morte de Jesus é uma morte real, dolorosa e trágica, não um mero acidente ou um assunto rotineiro.

Hoje celebramos a Páscoa, começando pelo seu primeiro momento, o da Morte. A Páscoa abrange um movimento duplo, descendente e ascendente, e é um único evento: a morte e ressurreição do Senhor. Os três dias (Tríduo Pascal) são celebrados como um só, e há apenas uma Eucaristia, a Vigília Pascal, o ponto culminante do Tríduo Pascal, onde não só se recorda o seu glorioso aspecto, mas também a imolação completa do Cordeiro Pascal. A Páscoa não é apenas a ressurreição: antes dela, é a Morte. Não podemos ficar focados apenas na celebração da Morte, mas também não podemos ficar focados apenas na glorificação.

Hoje é o primeiro dia do Tríduo Pascal, inaugurado com a Eucaristia da noite de ontem. A Páscoa é todo o movimento da passagem de Jesus da morte para a Vida Nova do Ressuscitado. Hoje celebramos com grande intensidade o primeiro ato dessa passagem, a “Pascha Crucifixionis", como os Padres da Igreja a chamavam. Morte e ressurreição formam a grande unidade que chamamos de Páscoa. A memória da Morte hoje já está repleta de esperança e vitória.

Este dia centra-se claramente na morte salvadora de Jesus na Cruz. Mas não com um ar de tristeza, e sim com uma celebração sóbria e intensa: a comunidade cristã proclama a Paixão do Senhor e venera a sua Cruz salvadora. A celebração deve exalar um tom de serenidade e contemplação em torno do mistério central da paixão e morte de Cristo.

O Relato da Paixão de São João, que lemos neste dia, é a paixão que descreve a obra do sexto dia: a formação (criação) do novo homem através dos sofrimentos do Homem: "Eis o Homem!” “Ecce Homo!" (João 19,5). Jesus Cristo é o Homem, o homem definitivamente realizado, porque viveu plenamente aquilo que nos torna verdadeiramente humanos: o Amor, isto é, a vida de Deus.

Por isso, alguns elementos sugestivos podem ser levados em consideração para nossa meditação:

- Contemplar o Amor. É adorar e agradecer porque alguém decidiu nos amar plenamente. É adorar e agradecer porque Deus escolheu abraçar também a história humana, transformando-a em história divina. A adoração da Cruz de Jesus hoje será uma expressão de tudo isso.

- Crer No Amor. Diante da Cruz de Jesus Cristo, símbolo do fracasso, dizemos que cremos n´Ele, em seu caminho. Que acreditamos que seu amor é fonte de vida, que o amor é mais forte que o mal que o crucificou. Que diante de Sua Cruz podemos dizer: Jesus Cristo é o Senhor. E podemos dizer isso também diante de todas as cruzes que crucificam o amor em nosso mundo.

- O Verdadeiro Homem. Como foi dito ante é que Jesus Cristo é o único que foi verdadeiramente humano, que não se deixou diminuir ou anular pela mentalidade fechada, pela dureza de espírito e pela mesquinhez que nos impedem de sermos verdadeiramente humanos e que impedem a humanidade de atingir seu pleno potencial.

 - A Humanidade Aos Pé Da Cruz. Este elemento não pode estar ausente hoje na nossa meditação, e é conveniente apreciar sua expressão solene na oração universal: hoje, mais do que nunca, sentimos solidariedade com os sofrimentos e as esperanças de todos os povos, porque o Senhor deu a sua vida por todos. A Oração Universal tem um significado especial hoje: toda a humanidade está aos pés da cruz.

Contra todas as nossas concepções de divindade, na Cruz descobrimos com surpresa que Deus é alguém que sofre com os nossos sofrimentos. Nossa miséria O afeta. Nosso sofrimento O "atinge". Deus não pode nos amar sem sofrer. Como disse D. Bonhoeffer, "Só um Deus que sofre pode nos salvar". Este "Deus crucificado" só pode ser "compreendido" quando soubermos amar aqueles que sofrem, e descobrirmos, através da nossa própria experiência, que o verdadeiro amor pelos crucificados causa sofrimento.

Estendamos Nossa Meditação!

1. O Homem Que Questiona A Existência De Deus Por Causa Do Sofrimento          

Celebrar a Sexta-Feira Santa nos leva a pensarmos na cruz e a cruz nos leva a pensarmos na dor e no sofrimento. E falar da dor é falar das pessoas concretas, pessoas que sofrem.          

A pergunta que o próprio sofrimento faz a todos nós é esta: Se existe um Deus justo, por que existem o mal e o sofrimento? E se existem o mal e o sofrimento, como poderá existir um Deus justo?  E se Deus é justo e misericordioso, por que um inocente ou uma criança recém-nascida sofre? Por que Deus parece ficar calado diante de uma oração para pedir a solução para um problema ou para um sofrimento insuportável?  Por que as coisas ruins acontecem a pessoas boas? Como posso acreditar num Deus que ame a dor, num Deus que acende a luz vermelha às alegrias humanas?       

Estas perguntas servem apenas como exemplo de uma ladainha de perguntas sobre o mesmo tema.  As desgraças que atingem as pessoas boas não são um problema apenas para as próprias vítimas e para suas famílias, mas também são problemas para todos os que desejam acreditar em Deus, e num mundo mais justo, fraterno, razoável e suportável.          

A dor é realidade e mistério, noite e dia, névoa e luz, fraqueza e força, morte e vida, desespero e esperança. A vida é uma mistura de alegria, felicidade e esperança, e também de tristeza, mágoa e dor. Cada um de nós carrega sempre esse pequeno fardo. Nós sofremos simplesmente porque essa é a condição do ser humano. A vida humana terrena é por si mesma pequena, fraca e frágil. A morte e a dor são companheiras naturais de nossa própria estrutura. O sofrimento chega a todos nós. Não lhe podemos escapar. Mas embora a dor em si seja inevitável, durante esta vida, muitas dores e muitas mortes podem ser evitadas. 

Mas quando nos damos conta do amor que Nosso Senhor tem por nós, quando compreendemos que a sua vida nos revelou o amor que Deus tem por nós, então temos de ficar cheios de esperança, de alegria e de paz. Por isso, sei que a resposta se encontra olhando para Cristo crucificado. Madre Teresa de Calcutá dizia: “Se olhamos para a Cruz de Jesus sabemos muito bem como ele nos amou. Quando olhamos para a Eucaristia, sabemos muito bem como ele nos ama”. 

2. Nossas Cruzes E A Nossa Cruz Existencial Sob A Cruz De Cristo: Um Chamado À Conversão Contínua          

Todos nós carregamos alguma cruz na nossa vida. Há cruzes de todos os tipos. Há cruzes em todos os caminhos. Para encará-la cada um tem seu próprio modo. Para alguns, a cruz pode ser vivida como tribulação, para os outros ela pode ser vivida como libertação. Há cruzes com Cristo, mas há também cruzes sem Cristo. Cada cruz, então, tem uma história e cada história tem uma cruz. A cruz sem Cristo é a cruz-condenação. É a cruz de quem deseja ser um deus. É a cruz que não tem finalidade em si mesmo. É a cruz sem fé, sem amor, sem sentido da vida, sem renúncia por amor. É a cruz de quem deseja viver numa liberdade sem responsabilidade, de quem vive no prazer desenfreado que resulta no sofrimento sem fim. Jesus Cristo, que foi crucificado, transformou a cruz de castigo em bênção.          

A mãe de Jesus, silenciosamente, acompanhava o filho Jesus que estava carregando a cruz. É uma grande dor para uma mãe, como maria, vendo seu filho assim. A cruz do filho é a cruz da mãe. Ela também carrega esta cruz silenciosamente. A ressurreição do filho é a ressurreição da mãe. Na Mãe de Jesus podemos ver tantas mães do mundo. Sem dúvida, muitas mães carregam silenciosamente a cruz ao saber que seu filho se droga ou se perde no mundo da criminalidade ou sofre de alguma doença incurável. Crucificadas, essas mães acompanham a cruz de seu(s) filho(s) com o amor incondicional como a Mãe de Jesus que se encontrou ao pé da cruz com o amor incondicional.          

Todos nós somos convidados a refletir tais situações e outros tipos de cruz sob a Cruz de Jesus ressuscitado que transformou a cruz em momento de transfiguração cujo ápice é a sua ressurreição. A partir de Cristo e somente com Cristo podemos sofrer, mas nunca sofreremos em vão. Sem Cristo é que sofreremos em vão. Este tipo de sofrimento tortura e angustia e não liberta.          

Além das cruzes que encontramos na vida, ou por nossa própria culpa ou como consequência de uma opção pelos valores cristãos, carregamos também a cruz existencial. Gostaríamos de viver eternamente nesta terra, e livres de qualquer contratempo, por um lado, mas os nossos limites como criaturas não nos deixam sermos o que gostaríamos de ser, por outro lado. Temos desejo infinito por vida ou pela vida, mas somos obrigados a aceitar um fato brutal de que temos que morrer. A vida em si, em sua estrutura, hospeda a morte. Jesus, o homem verdadeiro e o Deus verdadeiro, participou da estrutura humana. Ele morreu não somente porque os homens O mataram, mas também porque ele é o homem que morreu como todos nós morremos. Mas para que esta estrutura de uma criatura limitada se torne em uma transfiguração, precisamos ser despojados como Cristo para que o Deus da vida, o Absoluto, o Eterno, o Infinito possa hospedar na nossa estrutura mortal para transformá-la em uma estrutura imortal. Somente com isto teremos outra concepção sobre a morte: morrer não é mais um fim de tudo(acabou tudo), e sim uma peregrinação para a fonte da vida, para o Deus vivo que nos espera. Esta consciência e a fé nesta certeza nos leva a dizermos que o homem nunca morre e sim uma criatura que nasce duas vezes: nasce quando deixa o seio materno para entrar num mundo maior onde ele se junta com outros companheiros de viagem rumo para o outro nascimento que é a entrada na vida eterna.        

Cristo carregou uma cruz mas nunca foi cruz para os outros nem colocou cruzes nos caminhos dos outros. Quando contrariarmos a vontade de Deus por causa do pecado que faz ninho dentro de nós, nos tornaremos cruzes para os outros e colocaremos cruzes em seus caminhos. Quando os outros contrariarem a vontade de Deus, tornar-se-ão cruzes para nós e colocarão cruzes em nossos caminhos. Assim, os outros são cruzes para nós e nós somos cruzes para os outros. Cristo quer que não sejamos cruzes para ninguém mas imitadores de seu amor apaixonado.          

Por isso, pregar a cruz a partir de Cristo significa ter consciência do pecado que faz ninho no nosso coração que causa tantas cruzes na própria vida de quem o comete e na vida dos outros com quem convive. A presença do pecado como uma força destruidora cria muitas cruzes na convivência humana, pois nunca somente vivemos, mas sempre convivemos. Cada ato nosso, seja positivo ou negativo, sempre tem conseqüência direto ou indiretamente para a vida dos outros. Esta consciência de ser nosso coração a hospedagem também do pecado, nos leva a um ato de acabar com as muitas cruzes que criamos através do trabalho contínuo de arrancar o ninho do pecado dentro de nós através da conversão contínua. Não podemos esquecer que a cruz de Jesus é uma revolta contra a dignidade humana violada, contra aquilo que deveria ter evitado para não criar tantos sofrimentos na própria vida e na vida alheia. Pregar a cruz de Cristo significa convocar as pessoas para um amor e para um perdão incondicionais, para a capacidade de não permitir que o ódio e suas múltiplas manifestações reinem o coração humano onde Deus deposita seus segredos. Sem esta atitude não haverá a paz e a ressurreição; não haverá a passagem do homem velho para o homem novo criado para o céu. Que sejamos uma ressurreição e não a cruz para os outros. Que sejamos solução e não problema para os outros.

A partir do amor de Cristo, por nós, que foi levado até o fim percebemos que estávamos lá no Calvário. Todos nós estávamos lá na mente e no coração de Cristo. Ele nos conhecia todos, sofria por todos, nos amava e nos redimia a todos. Ele “tomou as nossas enfermidades e sobrecarregou-se dos nossos males” (Is 53,4; Mt 8,17). Estávamos lá cravados na cruz com Cristo, moremos com ele e ressuscitamos com ele.

Olhando para a Cruz de Cristo, a partir de nós, percebemos que a cruz de Cristo é um produto terrível do pecado. Foi meu pecado que crucificou Jesus. Da cruz sabemos que o preço do pecado é a morte. Jesus morreu porque o ser humano não tolera a defesa do pobre e do inocente, nem o desvelamento da hipocrisia, nem a denúncia da injustiça, nem a ruptura das convenções e privilégios sociais e religiosos. Jesus morreu porque era bom e não compactou com a maldade, com a corrupção, com a desonestidade, com a exploração, com a deslealdade, com a injustiça, mas se colocou, do lado dos oprimidos, dos justos, dos leais, dos honestos, dos inocentes sem retroceder diante das consequências. Cristo prefere ser crucificado a trair a verdade, o amor, a justiça, a honestidade. Por isso é que Ele foi ressuscitado por Deus Pai. 

3. Nós Também Estávamos Lá        

O perigo que temos ao ler o relato da Paixão de Jesus é ficarmos como espectadores da cena cujo papel de cada personagem da Paixão não tem nada a ver com a nossa vida cotidiana. Mas se refletirmos seriamente sobre este relato, na verdade, estávamos também lá desempenhando nosso papel para causar o sofrimento de Jesus. E ao olharmos para o nosso modo de viver atualmente confessamos que continuamos a fazer Jesus sofrer, pois “Em verdade vos digo: cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes. E todas as vezes que o deixastes de fazer a um desses pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer” (Mt 25,39.45).       

Hoje Cristo continua sofrendo a Paixão quando não soubermos acompanhar nossos irmãos que sofrem, que sentem angústia e se sentem sós, como fizeram os discípulos prediletos no Jardim de Getsêmani. Hoje Cristo continua sofrendo a Paixão quando vendermos nossa dignidade por algumas moedas como Judas que vendeu Jesus por trinta moedas de prata; quando nossa ganância nos levar a fazermos negócios sujos e quando não prestarmos a ajuda aos irmãos necessitados. Hoje Cristo continua sofrendo a Paixão quando buscarmos na violência a solução de nossos problemas como aqueles que prenderam Jesus com paus e espadas; quando não estivermos convencidos de que “quem usa espada, com/ de a espada morrerá”. Hoje Cristo continua sofrendo a Paixão quando acusarmos injustamente os irmãos como fizeram os líderes religiosos de Jerusalém e as falsas testemunhas; quando não respeitarmos os homens e os acusamos sem verdade. Hoje Cristo continua sofrendo a Paixão quando negarmos ou mentirmos por vergonha e covardia, como fez Pedro; quando não confessarmos com valentia e sinceridade nossa fé; quando não defendermos a causa da justiça por medo dos problemas e dificuldades que isto possa nos trazer. Hoje Cristo continua sofrendo a Paixão quando lavarmos as mãos como Pilatos; quando não vivermos comprometidos com a causa dos que sofrem; quando encolhermos os ombros e não defendermos a verdade e a justiça por medo das consequências. Hoje Cristo continua sofrendo a Paixão quando condenarmos os outros sem ponderar o que há de verdade nessas condenações, como fez a multidão em Jerusalém. Hoje Cristo continua sofrendo a Paixão quando zombarmos os que sofrem, os marginalizados da sociedade, os pobres, os idosos, os embriagados, os aleijados, os débeis e assim por diante. Somos nós responsáveis deste mundo. Sou eu responsável deste mundo!        

Nosso caminho de conversão se une hoje ao caminho de Jesus para aprender dele que o mais importante da vida é colocá-la ao serviço de uma causa digna. Se nos esforçamos por mudar atitudes e afinar nossos sentimentos durante o tempo da Quaresma é simplesmente para nos identificar melhor com este Jesus que hoje entra triunfante em Jerusalém, e compreender que a alegria e a felicidade formam parte de nosso ser cristão, para celebrar e viver mais autenticamente unidos a Cristo Ressuscitado a nova vida que ele nos oferece no domingo da Páscoa. Nosso caminhar ao lado de Jesus ao longo da Semana Santa é a melhor escola que podemos frequentar para nossa vida de cada dia. Com a segurança de que nosso caminho já não o fazemos sozinhos, e sim com este Jesus da Semana Santa e com tantos irmãos na fé que têm a mesma esperança. Hoje Jesus nos ensina mais do que nunca a caminharmos juntos: Jesus, os irmãos e eu mesmo. Manifestamos isto simbolicamente na procissão que fazemos juntos com os ramos na mão, símbolo de nossa vitória antecipada.

3. Jesus Cristo Crucificado Que Ressuscitou É A Resposta De Deus Para Nós          

Popularmente, a cruz, com frequência, tem sido tomado apenas como símbolo da dor humana. Às vezes se tem usado para induzir os homens a não se rebelarem, mas a negociar com a dor; tem sido motivo para justificar o sofrimento e ainda como pretexto para certas formas de repressão. Com esta concepção, a cruz foi afastada grosseiramente de sua referência a Jesus, Salvador.          

Sem dúvida nenhuma, Deus não aceita a sociedade na qual uns homens desprezam os outros, praticam injustiça, exploram, roubam, maltratam, atropelam e matam os outros. As cruzes que os homens levantam para seus irmãos são abomináveis aos olhos de Deus. É preciso lutar contra elas, pois Deus as detesta. 

Jesus Cristo também sente na própria carne todas as dimensões do sofrimento humano. A dor nos faz mais próximos de Jesus Cristo. Mas a dor de Jesus não se encerrou jamais sobre si mesmo, ao contrário, estava totalmente aberta ao próximo. Por isso, o profeta Isaías resumiu: Jesus “tomou as nossas enfermidades e carregou as nossas doenças” (Mt 8,17). Tão profundamente sentiu a dor humana, que dedicou sua vida para servir a todos, para aliviar suas penas e para ensinar-lhes o caminho da superação e da irmandade (Lc 4,18-19). Sua existência esteve totalmente orientada no sentido de aliviar a dor alheia. Não fechava seu coração para ninguém. Ele fazia o máximo possível para que cada um pudesse ver o amor de Deus que Deus lhe tinha e seu próprio valor humano.          

Portanto, Jesus não veio para glorificar a dor, mas sim para dar um fim a seu reinado. A cruz de Jesus é um instrumento de exaltação porque ela é o fruto de amor. A cruz é o último ato de uma vida vivida no amor, na doação e na entrega. A cruz é a expressão suprema do amor de Deus por nós. Por isso, para os cristãos a contemplação da cruz é fonte de alegria serena porque vemos na cruz a manifestação mais clara do amor de Deus por nós todos e por cada um em particular. Deus fez a alma humana de tal forma que apenas uma vida de bondade, de amor e de honestidade nos faz sentir espiritualmente saudáveis, humanos e fraternos.           

Por isso, nunca podemos olhar para a cruz de Jesus sem nos lembrarmos da ressurreição. Sexta-Feira Santa não tem qualquer significado sem o Domingo da Páscoa. No Calvário a vida ganhou, porque o amor era mais forte que a morte. Somente a partir dessa perspectiva se pensa, se corrige e se assume o símbolo da cruz. A redenção é antes de tudo uma vitória. Cristo é o vencedor da morte. Cristo é o Salvador do mundo, Salvador de cada um de nós.                    

Por isso, somos convidados a olhar para o alto, para a Cruz de Jesus. Somente olhando para o alto, para Deus, o homem encontra o sentido da sua existência e tudo que se passa aqui nesta terra. Só do alto vem a luz que dá sentido à alegria e à dor, às vitórias e às derrotas, à solidão e à morte. Olhar para Jesus na cruz significa aceitar com fé a mensagem que ele dirige para todos nós, cristãos. Aqui crer significa identificar a própria vida com a de Cristo. Este é o caminho para alcançar a vida do alto, a salvação. Por isso, Madre Teresa de Calcutá dizia: “Se olhamos para a Cruz de Jesus sabemos muito bem do quanto Deus nos amou. Mas quando participamos da Eucaristia, da missa, sabemos muito bem do quanto Deus nos ama”, porque Jesus continua nos amando, dando-nos Seu Corpo e Sangue para nos fortalecer na nossa caminhada para alcançar a vida eterna.

“Jesus Crucificado!

Sempre Te levo comigo,

Preferindo-Te acima de qualquer coisa.

Quando caio, Tu me levantas.

Quando choro, Tu me consolas.

Quando sofro, Tu me curas.

Quando Te chamo, Tu me respondes.

Tu és a Luz que me ilumina.

O sol que me aquece.

O alimento que me nutre.

A fonte que me sacia.

A doçura que me inebria.

O bálsamo que me restaura.

A beleza que me encanta.

Jesus Crucificado!

Sejas Tu a defesa de minha vida.

Meu conforto e confiança na minha agonia.

E repousa no meu coração

Quando chegar a minha última hora.

Amém!” (Dom Bruno Forte).

  

P. Vitus Gustama,svd

terça-feira, 31 de março de 2026

Quinta-feira Santa, 02/04/2026

SERVIR POR AMOR: O LAVA-PÉS COMO EXPRESSÃO DO AMOR SEM LIMITE

QUINTA-FEIRA SANTA

Jo 13,1-15; Ex 12,1-8.11-14; 1Cor 11,23-26

Servir Por Amor E O Amor Nos Leva Ao Serviço

Vocês entendem o que lhes tenho feito?” (Jo 13,12). É a pergunta do Senhor aos discípulos no Lava-pés. Esta pergunta não perde sua atualidade. Será que realmente entendemos o gesto de Jesus durante o Lava-pés? Para nos ajudar se realmente entendemos o gesto de Jesus temos que partir das seguintes perguntas retóricas: Na nossa comunidade há comunhão ou divisão (Judas traiu o Senhor, e portanto, traiu a comunidade inteira). Há partilha ou ostensão? (“Os pobres sempre estarão com vocês”). Há Serviço ou busca de privilégio? (Dois irmãos, Tiago e João, querem uma posição de destaque no grupo). Então, será que entendemos mesmo o gesto de Jesus durante o Lava-pés?

A Eucaristia instituída por Jesus Cristo, como dom de vida para a humanidade, deveria estar acima de qualquer divisão e ambição. Por meio da Eucaristia, como dom de vida, as barreiras seriam superadas e pontes seriam criadas, como enfatiza a Segunda Leitura deste dia. Aqueles que se aproximam da Eucaristia e comungam o Corpo do Senhor, que é a Cabeça da Igreja, já não haveria mais distância entre um seguidor e outro seguidor do Senhor, entre um irmão e outro irmão da humanidade. Em comunhão com Cristo todos seriam um só onde cada um desempenha seu papel em função do Corpo todo. Na Mesa Da Eucaristia nos nutrimos do verdadeiro alimento da fraternidade. Tomar refeição juntos é sinal verdadeiro de comunhão e de partilha. Com a divisão que criamos, o Corpo de Cristo (Igreja) poderia ser fragmentado, e consequentemente  não haveria espaço para o amor, a partilha e o serviço.

A Eucaristia em si é a doação, o amor e o serviço. A celebração eucarística é partilha. Jesus doou sua vida para que se multiplicasse em nós. Para Jesus, amar é servir. Nossa aproximação da Mesa do Senhor exige de nós a mesma partilha. O núcleo fundamental do amor é o serviço; é partilha. Eu sirvo por amor e eu amo por isso devo servir. O serviço por amor, nesta celebração, é palavra de ordem, e por consequência, não há maiores e menores. A partir de Jesus, as pessoas se relacionam como iguais. Ele se despoja de sua autoridade e veste o avental para se tornar servo. Jesus assume a posição de servo por amor para nos iluminar o caminho do serviço desinteressado e solidário pelo próximo.        

I. REFLEXÃO SOBRE O TEXTO DO EVANGELHO

O texto Jo 13,1-15 faz parte do discurso da despedida de Jesus (Jo 13,1-17,26). Na realidade, o discurso de despedida se encontra apenas nos capítulos 13,31-14,31. A continuação lógica de Jo 14,31 encontramos em Jo 18,1, no relato da paixão. Jo 15-17(três capítulos) havia sido introduzido neste espaço aberto por evangelista-redator para incluir no evangelho o material precioso que até agora não tem encaixado dentro do esquema do evangelista.

Era antes da festa da Páscoa”. E também Jesus, como o povo judeu, SE PREPARA PARA DAR ESSE PASSO que nos abrirá o caminho e nos transportará da escravidão para a liberdade.

Jesus se dispõe a mostrar aos seus discípulos - e a todos nós - que nos ama ao extremo. Jesus, por amor, convertido tudo em amor, subirá à cruz como último e mais pleno ato de seu caminho neste mundo, como ÚLTIMO E MAIS PLENO ATO de lealdade aos homens e ao Pai, e fará desta cruz nascer o rebento de toda a vida, para ele e para todos nós: o rebento da Páscoa, de sua Páscoa, de nossa Páscoa e da do mundo inteiro. Que não será mais apenas a libertação de um povo da escravidão, mas sim o CAMINHO ABERTO PARA QUE CADA HOMEM, cada povo, toda a humanidade, com as únicas armas do amor, possa trilhar este caminho que, através dos pequenos passos de cada dia, através do amor e da liberdade de cada dia, conduz à VIDA PLENA QUE O PAI NOS OFERECE a todos os seus filhos.

1.1.   Amar Até o Fim       

O texto começa com esta frase: Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim”. Este primeiro versículo do capítulo 13 é muito solene; e é uma abertura e uma espécie de síntese de toda a segunda parte do Evangelho de João (Jo 13,1-20,29). Fala-se neste versículo a chegada da hora de Jesus que vinha sendo preparado passo a passo na parte anterior (Jo 2,4; 7,6.30; 8,20;9,3-5; 12,23).          

Fala-se também da PÁSCOA (passagem).  A páscoa do Senhor se caracteriza pelo amor: “Ele, que tinha amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim”. Jesus vai passar ao Pai (páscoa, passagem). É uma passagem nova e diferente. Mas para chegar ao Pai ele tem que passar pela cruz onde ele se entrega para dar a vida ao homem por amor. O seu amor se expressa no máximo grau dando a vida por seus amigos (Jo 15,13). Por isso, Jo usa o termo ÁGAPE, aqui, quando se fala do amor. Ágape é o amor divino cujas características são estas: gratuita, total, imutável e definitiva. Estas características nos mostram que Jesus está totalmente com Deus, a ponto de ele amar como Deus ama. Consequentemente, por estar totalmente com Deus, Jesus está totalmente como a humanidade, com os homens e mulheres. Jesus ama a todos sem medida, até o fim (Jo 13,1). Um ser humano que ama desta maneira significa que ele foi totalmente modelado por Deus de amor. Este é a última etapa passada por Jesus. O que vem a seguir é explicação e aprofundamento do que significa “amar até o fim”.          

Jesus quer que façamos esta páscoa (passagem). É uma passagem, na linguagem de São Paulo, do homem velho ao homem novo, do fermento da malícia aos pães não fermentados de pureza e de verdade (cf. 1Cor 5,8). Esta passagem é um modo de viver a um outro, isto é, do viver para o mundo e conforme o mundo, ao viver para o Pai. É uma passagem do “eupara Deus e do “eupara o outro. A páscoa é caminhar em direção de Deus. É deixar-nos iluminar pela luz de Deus e expor nossa vida ao Seu Julgamento e ao seu perdão. É preciso abrirmos “as janelas” de nosso coração para deixar a luz divina entrar nele. Por isso, é uma passagem à liberdade e à alegria. Se formos sinceros, somos ainda escravos de tantas coisas. E Deus nos convida a sairmos de tudo isto. Isto se chama a páscoa, uma passagem. Como é bom ser livre!          

A expressãoos seus” é característica nesta passagem. Ela indica a intensidade do amor, a predileção e a pertença a Cristo. Esta expressão é unida a outra: “que estavam no mundopara sublinhar a situação de solidão, de perseguição e de estranheza dos discípulos no mundo. A relação “discípulo-mundo” aparece com frequência nos capítulos 13-17. A expressãoaté o fim” (eis telos), que significa duplamente: “total, absolutamente” e “até o último momento da vida, até a plenitude ou no mais alto grau”, prepara a exclamação de Jesus na cruz: “Está consumado” (Jo 19,30; 19,28). Jesus ama sem medida. Em Jo 15,13 se apresenta a morte voluntária como a expressão suprema do amor: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos”.

1.2. O Lava-Pés e Seu Sentido: Servir Como Estilo de Vida       

Depois da solene abertura segue-se a última ceia. Para a mentalidade semítica, partilhar uma ceia não é apenas comer juntos um mesmo alimento. Mais do que isto, é ter a ocasião de trocar ideias e de entrar profundamente em comunhão de sentimentos; sublinha-se uma relação íntima; assim, a convivialidade assume um valor social e espiritual. As alianças entre as pessoas eram, na maioria das vezes, firmadas durante um banquete (cf. Gn 26,30;31,54; Ex 24,9-11).        

Em meio ao jantar, Jesus se levanta, tira o manto, pega uma toalha e a amarra na cintura e começa a lavar os pés dos discípulos. “Tirar o manto significa abrir mão de todo privilégio ou posição social em função de salvar os excluidos, os marginalizados, os abandonados, os injustiçados e assim por diante.

O ato de “lavar os pés (nos vv. 5-14 ocorre 8 vezes o verboniptein”,lavar”, num total de 13 vezes no NT) era comum no Antigo Oriente para honrar um hóspede que viera por caminhos poeirentos. Este gesto fazia parte da hospitalidade. Quem prestava esse serviço podiam ser, com uma conotação de carinho, os filhos para os pais ou a esposa para o marido, ou, como manifestação de dedicação, o próprio anfitrião (cf. Lc 7,44). Mas normalmente era feito por algum escravo. O gesto tinha uma conotação de humilhação tão forte até certos rabinos proibiam que os escravos judeus fossem obrigados a prestar esse serviço a seus patrões.

Ao lavar os pés dos discípulos Jesus inova e provoca reflexão. Jesus se põe a fazer (lavar os pés) o que faziam os escravos não-judeus ou as mulheres. Para Jesus o núcleo fundamental do amor é serviço. Com efeito, lavar os pés, aqui, não expressa a humildade e sim expressa o amor serviçal.  Para Jesus  amar é servir. E quando servir deve servir por amor.  Servir por amor é salvar. Jesus se despoja de sua autoridade e pega o avental para tornar-se servo. Jesus garante que a felicidade não está nos títulos, honra, ou posição social que as pessoa ocupam, mas está em descobrir o caminho do serviço que entrega a vida por amor. Segundo o plano de Deus, que Jesus nos revelou, o amor tornado serviço é o caminho para alcançar a plenitude humana. O que nos faz mais humanos é o cuidado e a proteção do fraco, do necessitado, do ancião, do desvalido através do serviço por amor.       

O evangelho não diz quem foi o primeiro a ter os pés lavados. Isso é sinal de que Jesus não privilegia ninguém. Todos recebem seu amor-serviço de modo igual e imparcial, inclusive o traidor, Judas.        

Simão Pedro reage com energia. Ele viu no gesto de Jesus lavar os pés um mero gesto de humilhação; Jesus, porém, a dedicação da própria vida. Ele continua acreditando que é muito normal que numa comunidade alguns sejam senhores e outros sejam servos, os primeiros cheios de direitos e privilégios e os segundos cheios de deveres. Ele crê piamente numa sociedade de desiguais. Por isso, ele representa aquelas que seguem a Jesus mas ainda não se encontraram.        

Diante da reação de Pedro Jesus disse: “Se não te lavo os pés, não terás parte comigo” (v.8). A resposta de Jesus a Pedro quer lhe afirmar que o sacrifício da cruz purifica muito mais eficazmente que as abluções antigas.

O lava-pés simboliza toda a missão de Jesus: a entrega de sua vida; não somente o serviço prestado aos demais, e sim o serviço supremo prestado aos homens pelo Servo de Deus por excelência. Jesus diz que sem lavar os pés, Pedro não terá parte com Jesus. Ter parteé uma expressão semítica. A parte é a herança que Deus concede ao seu povo (Gn 31,14;2Sm 20,1;1Rs 12,16). Na meditação judaica, o tema da herança aprofundou-se em três direções: individual, espiritual e escatológica. A herança, por isso, não é mais simplesmente a Terra Prometida, mas a comunhão com Deus, a salvação ou a vida, na linguagem de João; e não mais uma realidade presente, mas futura. O gesto de Jesus, então, deve ser compreendido no sentido de participar do dom escatológico. E não é possível comungar da vida de Jesus sem aceitar sua lógica do serviço radical pela salvação dos demais em nome do Senhor Jesus Cristo.          

No diálogo com Pedro, Jesus afirma: “Também vós estais limpos, mas não todos” (v.10b). Jesus está falando do traidor(Judas). Por isso, é bom ler o v.21 logo depois do v.11 para ver sua sequência lógica. Cristo não exclui o traidor do benefício do rito do lava-pés. Todavia, o rito não terá para ele nenhuma utilidade. Mas mesmo diante daquele que o trairá, o Senhor se abaixa. Ao dizer” nem todos estão limpos” Jesus se refere à pureza que nasce do coração da acolhida à Palavra e que cresce na . No relato mais adiante, Jesus identificará o traidor com estas palavras: “É aquele a quem eu der pão que vou umedecer no molho” (Jo 13,26). O ato de Jesus de oferecer o pão umedecido no molho a Judas é o sinal de carinho especial. Isto quer dizer que até o traidor Jesus ama até as últimas consequências, de maneira extraordinária e quer sua salvação. Mas Deus continua respeitando a liberdade de escolha do homem. Deus sempre provoca as pessoas à tomada de decisão. A única coisa que Deus faz é oferecer o seu amor ao ser humano até o fim, poisDeus é amor” (1Jo 4,8.16). E infelizmente, Judas não aceita esta oferta de amor. É duro não querer ser amado. É incompreensível não querer aceitar o carinho. Aquele que é capaz de receber amor do Outro e dos outros, é capaz também amar os outros.        

Depois de lavar os pés dos discípulos, Jesus retoma o manto e senta de novo à mesa, ou seja, volta à condição de pessoa livre pois os dois gestos “retomar as vestes” e “sentar-se” indicam a condição da pessoa livre (os escravos permaneciam de pé, prontos para executar as ordens do seu senhor). Aqui há um detalhe importante: o evangelho não diz que Jesus tenha tirado a toalha, símbolo do serviço por amor. Esse pormenor é muito significativo, pois o serviço de Jesus continuará até a cruz. Servir é um estilo de vida de cada cristão, seguidor do Senhor Jesus Cristo, o Servo de Deus.        

A toalha ou o avental é o símbolo do serviço ao irmão. O serviço ao irmão é o distintivo que o cristão jamais pode depor, deve vesti-lo vinte quatro horas por dia, pois a todo momento pode haver um irmão que precisa dele e ele deve estar sempre pronto a prestar-lhe o seu serviço. Se não aceita gastar a vida no humilde serviço aos necessitados, nada tem em comum com Jesus: “Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz” (v.15). É um indicativo e um imperativo ao mesmo tempo. O que devemos fazer (imperativo) está fundado sobre algo que nos foi dado por Cristo(indicativo), algo que é anterior à nossa obrigação. Antes da obrigação moral vem o dom de Deus em Jesus. Importa “deixar lavar os pés” (ser salvo) por Jesus, mas devemos tambémlavar os pés uns dos outros” (serviço fraterno). Jesus amou primeiro (cf. 1Jo 4,10.19), mas a partir daí é nossa vez. Continuar as ações de Cristo não é repetir ritos, mas atitudes: amor e serviço. O amor sincero e o serviço alegre, ao estilo de Jesus, há de ser o modo de presença de cada cristão neste mundo.        

O serviço pode ser animado pelo amor devotado (o dos pais pelos filhos). Mas muitas vezes esse mesmo amor pode ser corrompido pela vontade de poder que se aninha no coração do homem, tornando-se o serviço prestado uma maneira de levar o outro a depender da pessoa em questão. Não podemos esquecer de que a morte de Jesus é um grande dom para nós porque nos liberta. quando tivermos assimilado esse fato de esvaziamento de Deus para nós, seremos capazes de “lavar os pés” uns aos outros sem nos tornarmos importantes ou impormos nossacaridade”. Imitar Jesus é imitar Deus que se esvazia por nós.        

De que modo podemos traduzir em gestos concretos o lava-pés na nossa vida cotidiana e o amar até o fim? Não poderemos exercer o amor até o fim, se nosso coração não estiver despojado. 

II. QUINTA-FEIRA SANTA É O DIA DA INSTITUIÇÃO DA EUCARISTIA E DO SACERCÓDIO MINISTERIAL

A Igreja recebeu a Eucaristia de Cristo seu Senhor, não como um dom, embora precioso, entre muitos outros, mas como o dom por excelência, porque dom d'Ele mesmo, da sua Pessoa na humanidade sagrada, e também da sua obra de salvação. Esta não fica circunscrita no passado, pois « tudo o que Cristo é, tudo o que fez e sofreu por todos os homens, participa da eternidade divina, e assim transcende todos os tempos e em todos se torna presente(João Paulo II: Carta Encíclica Ecclesia De Eucharistia, no. 11b).

A Igreja vive da Eucaristia. Esta verdade não exprime apenas uma experiência diária de fé, mas contém em síntese o próprio núcleo do mistério da Igreja. É com alegria que ela experimenta, de diversas maneiras, a realização incessante desta promessa: « Eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo » (Mt 28, 20); mas, na sagrada Eucaristia, pela conversão do pão e do vinho no corpo e no sangue do Senhor, goza desta presença com uma intensidade sem par. Desde o Pentecostes, quando a Igreja, povo da nova aliança, iniciou a sua peregrinação para a pátria celeste, este sacramento divino foi ritmando os seus dias, enchendo-os de consoladora esperança(idem no.1). 

Neste dia celebramos também o dia da instituição da eucaristia. Em Jo não se fala da instituição da eucaristia. No lugar disto, ele coloca um discurso longo sobre o Pão da vida (veja Jo 6).          

Os relatos da Instituição da Ceia chegaram até nós segundo quatro recensões diferentes: a de Mt 26,26-28, a de Mc 14,22-24, a de Lc 22,19-20 e a de Paulo em 1Cor 11,23-25. Não analisaremos estes textos. Tiraremos apenas algumas mensagens da Instituição da Ceia ou a importância da Eucaristia na nossa vida como cristãos. Cada um pode tirar outras mensagens que não se encontraram nesta reflexão. Assim nos enriquecemos uns aos outros.

2.1. A Eucaristia É Uma Refeição Compartilhada E Antecipação Do Banquete Celeste

Nenhum dos outros sacramentos instituídos por Cristo supera a este em virtude e excelência. Os outros conferem a graça, mas este contém o próprio Autor da graça, é origem e fim dos outros; como esplendoroso sol do meio-dia em torno do qual giram e são iluminados os outros satélites (Paulo VI: Carta ao Cardeal Landázuri).           

A refeição sempre foi e ainda é um momento importante na vida de qualquer família. Comer juntos significa repartir os dons, as alegrias e os sofrimentos. É o momento sagrado, principalmente para o mundo oriental. Convidar alguém para almoçar ou jantar é sinal de hospitalidade e de amizade, pois ninguém convida qualquer pessoa para um almoço ou jantar na família. Para o mundo oriental, convidar alguém para a própria mesa é sinal de paz, de confiança, de fraternidade, de perdão (cf. alguns exemplos: Gn 26,30s;31,54;2Rs 25,27-29;Jr 52,31-33).          

Jesus certamente instituiu a eucaristia dentro de uma refeição, a ceia. Na ceia Jesus não somente oferece alimento, mas deu-se como comida e bebida sagradas: seu Corpo e Sangue. Sabemos que a vida é uma caminhada para a casa do Pai onde participaremos do banquete do Reino eternamente (cf. Lumen Gentium VII, 48-50; SC 8). Se a nossa vida é uma peregrinação rumo à casa do Pai, necessitamos de duas coisas: o caminho e o alimento. Jesus certamente é o Caminho (Jo 14,6). Ele se faz o caminho para que não fiquemos perdidos no mundo cheio de outros caminhos que nos levam à perdição. Além do caminho, para que possamos chegar à casa do Pai nesta peregrinação precisamos também de alimento. Quem quiser andar longe com força necessária, precisa ter alimento suficiente para não morrer de fome no meio do caminho. Jesus sabe disto e por isso ele se faz alimento para todos os peregrinos desta vida: “Tomam e comam, isto é o meu corpo que é dado por vocês(Mt 26,26; Lc 22,19). Com Jesus que é o Caminho e o alimento chegaremos até a casa do Pai.          

Mas o banquete eucarístico da qual participamos nesta terra não é somente o alimento na nossa peregrinação para a comunhão plena com o Pai. O banquete eucarístico também é “o céu na terra. E a liturgia que celebramos na terra é misteriosa participação na liturgia celeste”, diz o Papa João Paulo II. Como a própria Constituição Sacrosanctum Concilium do Concílio Vaticano II afirma: “Na liturgia da terra nós participamos, saboreando-a já, da liturgia celeste, que se celebra na cidade santa de Jerusalém, para a qual nos encaminhamos como peregrinos, onde o Cristo está sentado à direita de Deus...” (SC 8). Por isso, vamos realmente ao céu quando vamos à missa, independentemente da qualidade da música ou do fervor da homilia. A missa é realmente o céu na terra. No céu agora mesmo! Na missa você e eu temos o céu na terra. Não podemos obter mais na terra do que o próprio céu. Que maravilhoso Jesus que instituiu a eucaristia. 

O significado fundamental da Eucaristia é muito claro: ela é o sacramento de a vida compartilhada, isto é, a Eucaristia é o símbolo sacramental que expressa e produz a solidariedade com a vida que Jesus levou (“Tomai todos e comei. Isto é o meu Corpo; Tomai todos e bebei. Ito é o meu Sangue”); e a solidariedade também entre os fiéis que participam do mesmo sacramento e a solidariedade com os demais irmãos fora dessa comunhão (amor sem fronteiras). 

O mais importante no dom da partilha não é o ato de dar e de partilhar e sim o doar-se. Não é somente dar o que é meu, mas dar-me a mim mesmo (“Corpo e Sangue”). É dar, doando-se; é converter-se em dom que se doa; é oferecer-se a si mesmo na oferenda. Quando o dom envolve e compromete o doador, chega à sua máxima verdade de dom. 

Já que a Eucaristia é um sacramento da vida compartilhada, consequentemente, não há mais lugar para a indiferença, nem para o egoísmo, nem para a objetivação, nem para o individualismo, nem para o ódio, nem para vingança (cf. Mt 5,23-24), nem para disputas para saber quem é melhor e maior. A melhor oferenda a Deus é o próprio oferecimento de si mesmo ao irmão. Os outros necessitam de nossos bens, mas, sem dúvida nenhuma, necessitam muito mais de nosso amor, de nossa compaixão, de nossa solidariedade, de nossa compreensão... Se por trás de uma oferenda está a atitude de amor, então a nossa oferenda se torna autêntica. Oferecer-se a si mesmo é colocar diante de Deus, com simplicidade, o que somos e o que temos: nossas alegrias e nossas dores, nossos desejos e nossas esperanças, nossas lutas e nossos fracassos juntamente aos outros irmãos. 

De tudo que foi Dito percebemos que o significado fundamental da Eucaristia está em relação à comida compartilhada. Compartilhar a mesma comida é compartilhar a mesma vida. Como na Eucaristia a comida é Jesus (Tomai todos e comei. Isto é o meu Corpo. Tomai todos e bebei. Isto é o meu Sangue), daí se segue que a Eucaristia é o sacramento no qual os crentes se comprometem a compartilhar a mesma vida que levou Jesus e a compartilhar também a mesma vida entre eles no amor e na solidariedade. 

Por conseguinte, pode-se dizer, com toda certeza e com todo direito, que onde não há amor e vida compartilhada não há Eucaristia. 

2.2.           Na Eucaristia Jesus É O Cordeiro Sacrificado Para A Nossa Salvação          

Jesus morre na mesma hora em que os judeus matavam o cordeiro da sua páscoa. Isto quer nos dizer que o verdadeiro Cordeiro não é o animal e sim o Cristo que morre na cruz. O sacrifício de Jesus, como cordeiro, realizou o que todo o sangue de milhões de ovelhas e touros e bodes jamais conseguiu. “Pois é impossível que o sangue de touros e bodes elimine os pecados” (Hb 10,4). Para expiar as ofensas contra um Deus que é bom, infinito e eterno, a humanidade precisava de um sacrifício perfeito. E esse era Jesus, o único que podia “abolir o pecado com seu próprio sacrifício” (Hb 9,26). A eucaristia é a manifestação do amor apaixonado de Jesus pelo homem.          

A verdadeira páscoa é a Ceia do Senhor, onde se come e se bebe o Corpo e o Sangue de Cristo. A verdadeira páscoa é a de Jesus que está morrendo na cruz, entregando seu corpo e derramando seu Sangue para a nossa salvação. E na missa repetimos e atualizamos com ele, sua paixão, morte e ressurreição. 

2.3. A Eucaristia, O Corpo E O Sangue Do Senhor, É A Expressão Do Amor De Jesus Por Todos E É O Alimento Para Todos          

Na primeira carta aos Coríntians, São Paulo diz: “...na noite em que foi entregue, o Senhor Jesus tomou o pão...” (1Cor 11,23). É a frase conhecida por todos, pois em cada Eucaristia que celebramos pronunciamos ou ouvimos esta mesma frase na hora da consagração. O que se refere aqui é Judas que traiu Jesus e todos nós, pecadores. Jesus dá o seu Corpo e o seu Sangue para todos tanto para os que o traem, os que fogem e os que o renegam tanto para os que o seguem fielmente. As nossas traições, as nossas fugas e as nossas infidelidades não podem senão exaltar a grandeza e a profundidade do o amor de Jesus por mim, por você, por todos nós. Ele ama o pobre, o infeliz, o pecador, como uma mãe que ama seu filho simplesmente porque é seu filho e se este filho se tornar um desgraçado, a mãe o amará ainda mais, pois somente amando-o ele se sente amado que o levará a ser um bom filho novamente. Através da eucaristia que Jesus instituiu, Deus faz da misericórdia a realidade que nos envolve do alto a baixo. Na nossa miséria, Deus derrama sua misericórdia. 

2.4.            A Eucaristia Faz A Comunidade          

Deus deseja comunhão: uma unidade que é vital, um laço que é verdadeiramente mútuo, pois o próprio Deus é uma comunidade da Santíssima Trindade. A comunhão cria a comunidade. Deus faz tudo para tornar esta comunhão possível: “...que eles sejam um, como nós somos um...” (Jo 17,11.21-23). Deus deseja estar plenamente unido a nós para que nós possamos estar unidos num amor duradouro. Toda a história da salvação é uma história de uma comunhão entre Deus e os homens cada vez mais profunda, uma história na qual Deus busca caminhos sempre novos para comungar intimamente com os homens criados à própria imagem de Deus. E o desejo intenso de Deus em criar esta comunhão forma a essência da celebração eucarística e da vida eucarística. Jesus se transforma em pão partilhado para todos nós. Não podemos realmente viver, como cristãos, sem um pão que seja tomado, abençoado, partido e dado. Sem este Pão nãofraternidade à mesa, nãocomunidade, nenhum laço de amizade, nãopaz, amor e esperança. Com ele tudo se transforma.          

A comunhão cria a comunidade, pois o Deus que habita em nós faz com que reconheçamos o Deus em nossos semelhantes. Somente o Deus dentro de nós é capaz de ver Deus na outra pessoa. Nossa participação na vida íntima de Deus nos conduz a um novo modo de participação na vida das outras pessoas. De forma retórica São Paula pergunta: “O cálice de bênção que abençoamos não é comunhão com o sangue de Cristo? O pão que partimos não é comunhão com o corpo de Cristo? queum único pão, nós, embora muitos, somos um corpo, visto que todos participamos desse único pão(1Cor 10,16-17). 

2.5.            A Eucaristia Faz A Missão        

Na Eucaristia celebramos o “simtotal e fiel de Jesus ao Pai e aos homens. Ao celebrarmos a Eucaristia nós queremos dizer o nossosim” ao Pai e a todos os irmãos e irmãs sem excluir aqueles que nos criticam, ou os que nos desprezam, ou os que se opõem a nós. A Eucaristia se tornaria vazia, se ela não se transformasse numa força de amor pelo próximo. As palavras pronunciadas por Jesus dirigidas a todos nós: “Fazei isto em minha memória!” (Lc 22,19) são um pedido para que nós façamos também a doação, um pão partilhado para os outros. 

Fazei Isto Em Minha Memória”. 

Fazei”. Com este verbo entendemos que a eucaristia é um agir, um acontecer de maneira misteriosa e sacramental em que Deus está agindo presentemente para entrar em contato com os fiéis no aqui e agora. O contato entre Deus e os fiéis se faz em e por Jesus Cristo através de seu corpo e sangue comungados pelos fiéis. O agir de Jesus foi um abandono total à vontade de Deus. Por sua vez, o agir de Cristo é para os fiéis uma missão. Viver o fazer de Cristo significa realizar tudo que Deus pede de cada um de nós a exemplo de Cristo; significa acabar com toda a soberba e aversão contra Deus e os irmãos. Viver o fazer de Cristo significa “Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). Comungar o corpo de Cristo para viver o seu agir é um compromisso permanente.          

Por isso, a comunhão não é o fim. A missão é. A eucaristia é sempre uma missão. A vida vivida eucaristicamente é sempre uma vida de missões. Na Eucaristia somos solicitados a deixar a mesa para procurar os outros e os nossos amigos para descobrirmos com eles que Jesus está verdadeiramente vivo e ao mesmo tempo nos chama para que juntos no tornemos um novo povo, o povo da ressurreição. Somos chamados e enviados para que formemos um corpo de amor, moldar o novo povo da ressurreição. Nossa experiência da comunhão com o Senhor nos envia aos nossos irmãos e irmãs para partilharmos com eles nossas histórias e construirmos ao seu lado um corpo de amor. O movimento que brota da eucaristia é o movimento da comunhão à comunidade e da comunidade à missão e da missão à eucaristia, formando um círculo sem fim. 

2.6.            A Eucaristia e o Sacerdócio Ministerial

Na Quinta-feira Santa são instituídos dois sacramentos inseparáveis: a Eucaristia e o Sacerdócio ministerial (Sacramento da Ordem). Quero colocar aqui uma parte da reflexão do Papa Francisco sobre o sacerdócio ministerial que ocorreu na Quinta-feira, 17 de Abril de 2014

“No Hoje da Quinta-feira Santa, em que Cristo levou o seu amor por nós até ao extremo (cf. Jo 13, 1), comemoramos o dia feliz da instituição do sacerdócio e o da nossa ordenação sacerdotal. O Senhor ungiu-nos em Cristo com óleo da alegria, e esta unção convida-nos a acolher e cuidar deste grande dom: a alegria, o júbilo sacerdotal. A alegria do sacerdote é um bem precioso tanto para si mesmo como para todo o povo fiel de Deus: do meio deste povo fiel é chamado o sacerdote para ser ungido e ao mesmo povo é enviado para ungir. 

Na nossa alegria sacerdotal, encontro três características significativas: uma alegria que nos unge (sem nos tornar untuosos, sumptuosos e presunçosos), uma alegria incorruptível e uma alegria missionária que irradia para todos e todos atrai a começar, inversamente, pelos mais distantes. 

Uma alegria que nos unge. Quer dizer: penetrou no íntimo do nosso coração, configurou-o e fortificou-o sacramentalmente. Os sinais da liturgia da ordenação falam-nos do desejo materno que a Igreja tem de transmitir e comunicar tudo aquilo que o Senhor nos deu: a imposição das mãos, a unção com o santo Crisma, o revestir-se com os paramentos sagrados, a participação imediata na primeira Consagração... A graça enche-nos e derrama-se íntegra, abundante e plena em cada sacerdote. Ungidos até aos ossos... e a nossa alegria, que brota de dentro, é o eco desta unção. 

Uma alegria incorruptível. A integridade do Dom – ninguém lhe pode tirar nem acrescentar nada – é fonte incessante de alegria: uma alegria incorruptível, a propósito da qual prometeu o Senhor que ninguém no-la poderá tirar (cf. Jo 16, 22). Pode ser adormentada ou sufocada pelo pecado ou pelas preocupações da vida, mas, no fundo, permanece intacta como o tição aceso dum cepo queimado sob as cinzas, e sempre se pode renovar. Permanece sempre atual recomendação de Paulo a Timóteo: reaviva o fogo do dom de Deus, que está em ti pela imposição das minhas mãos (cf. 2Tm 1, 6). 

Uma alegria missionária. Sobre esta terceira característica, quero alongar-me mais convosco sublinhando-a de maneira especial: a alegria do sacerdote está intimamente relacionada com o povo fiel e santo de Deus, porque se trata de uma alegria eminentemente missionária. A unção ordena-se para ungir o povo fiel e santo de Deus: para batizar e confirmar, para curar e consagrar, para abençoar, para consolar e evangelizar”.

P. Vitus Gustama,svd

PARA REFLETIR MAIS:

  1. « Queres honrar o Corpo de Cristo? Não permitas que seja desprezado nos seus membros, isto é, nos pobres que não têm que vestir, nem O honres aqui no templo com vestes de seda, enquanto fora o abandonas ao frio e à nudez. Aquele que disse: « Isto é o meu Corpo », [...] também afirmou: « Vistes-Me com fome e não me destes de comer », e ainda: « Na medida em que o recusastes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim o recusastes. [...] De que serviria, afinal, adornar a mesa de Cristo com vasos de ouro, se Ele morre de fome na pessoa dos pobres? Primeiro dá de comer a quem tem fome, e depois ornamenta a sua mesa com o que sobra » (S. João Crisóstomo, Homilias sobre o Evangelho de Mateus, 50, 3-4: PG 58, 508-509)
  1. Na Eucaristia, Jesus nãoum pedaço de pão, mas o pão da vida eterna, dá a Si mesmo, oferecendo-se ao Pai por amor a nós. Mas nós temos que ir à Eucaristia com aqueles sentimentos de Jesus, ou seja, a compaixão e aquela vontade de compartilhar. Quem vai à Eucaristia sem ter compaixão dos necessitados e sem compartilhar, não se encontra bem com Jesus (Papa Francisco: Homilia, Roma, 03 de Agosto de 2014).
  1. A Eucaristia, embora constitua a plenitude da vida sacramental, não é um prêmio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos. Estas convicções têm também consequências pastorais, que somos chamados a considerar com prudência e audácia. Muitas vezes agimos como controladores da graça e não como facilitadores. Mas a Igreja não é uma alfândega; é a casa paterna, ondelugar para todos com a sua vida fadigosa (Papa Francisco: Evangelii Gaudium n.47).
  1. A natureza sacramental da encontra a sua máxima expressão na Eucaristia. Esta é alimento precioso da , encontro com Cristo presente de maneira real no seu ato supremo de amor: o dom de Si mesmo que gera vida. Na Eucaristia, temos o cruzamento dos dois eixos sobre os quais a percorre o seu caminho. Por um lado, o eixo da história: a Eucaristia é ato de memória, atualização do mistério, em que o passado, como um evento de morte e ressurreição, mostra a sua capacidade de se abrir ao futuro, de antecipar a plenitude final; no-lo recorda a liturgia com o seu hodie, o « hoje » dos mistérios da salvação. Por outro lado, encontra-se aqui também o eixo que conduz do mundo visível ao invisível: na Eucaristia, aprendemos a ver a profundidade do real. O pão e o vinho transformam-se no Corpo e Sangue de Cristo, que Se faz presente no seu caminho pascal para o Pai: este movimento introduz-nos, corpo e alma, no movimento de toda a criação para a sua plenitude em Deus (Papa Francisco: Carta Encíclica Lumen Feidei n.44)

P. Vitus Gustama,svd

Sábado Santo, 04/04/2026

ELE RESSUSCITOU! ALEGRAI-VOS! SÁBADO SANTO ANO “A” Leitura: Rm 6,3-11 Irmãos: 3Será que ignorais que todos nós, batizados em Jesus C...