segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Quarta-feira Da XXVI Semana Comum, Ano Par, 30/09/2026

SEGUIR A JESUS INCONDICIONALMENTE, APESAR DAS CRUZES, PARA ALCANÇAR A LIBERDADE PLENA

Quarta-Feira Da XXVI Semana Comum

Primeira Leitura: Jó 9,1-12.14-16 (Ano Par)

1 Jó respondeu a seus amigos e disse: 2 “Sei muito bem que é assim: como poderia o homem ser justo diante de Deus? 3 Se quisesse disputar com ele, entre mil razões não haverá uma para rebatê-lo. 4 Ele é sábio de coração e poderoso em força; quem poderia enfrentá-lo e ficar ileso? 5 Ele desloca as montanhas, sem que elas percebam e as derruba em sua cólera. 6 Ele abala a terra em suas bases e suas colunas vacilam. 7 Ele manda ao sol que não brilhe e guarda escondidas as estrelas. 8 Sozinho desdobra os céus, e caminha sobre as ondas do mar. 9 Criou a Ursa e o Órion, as Plêiades e as constelações do Sul. 10 Faz prodígios insondáveis, maravilhas sem conta. 11 Se passa junto de mim, não o vejo, e quando se afasta, não o percebo. 12 Se ele apanha uma presa, quem ousa impedi-lo? Quem pode dizer-lhe: — ‘Que está fazendo?’ 14 Quem sou eu para replicar-lhe, e contra ele escolher meus argumentos? 15 Ainda que eu tivesse razão, não poderia replicar, e deveria pedir misericórdia ao meu juiz. 16 Se eu clamasse e ele me respondesse, não creio que daria atenção à minha voz”.

Evangelho: Lc 9,57-62

Naquele tempo, 57 enquanto Jesus e seus discípulos caminhavam, alguém na estrada disse a Jesus: “Eu te seguirei para onde quer que fores”. 58 Jesus lhe respondeu: “As raposas têm tocas e os pássaros têm ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça”. 59 Jesus disse a outro: “Segue-me”. Este respondeu: “Deixe-me primeiro ir enterrar meu pai”. 60 Jesus respondeu: “Deixa que os mortos enterrem os seus mortos; mas tu, vai anunciar o Reino de Deus”. 61 Um outro ainda lhe disse: “Eu te seguirei, Senhor, mas deixa-me primeiro despedir-me dos meus familiares”. 62 Jesus, porém, respondeu-lhe: “Quem põe a mão no arado e olha para trás não está apto para o Reino de Deus”.

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O Bem e a Bondade Se Encontram Em Deus, e o Mal Se Encontra No Homem

“Sei muito bem que é assim: como poderia o homem ser justo diante de Deus? Se quisesse disputar com ele, entre mil razões não haverá uma para rebatê-lo. Ele é sábio de coração e poderoso em força; quem poderia enfrentá-lo e ficar ileso?”, disse Jó aos seus amigos.

Por que a dor? Por que a dor e o sofrimento do justo e do inocente? O Deus Todo-poderoso não pode impedir o desamparo dos pequenos e as torturas que atingem os inocentes? Jó e seus amigos buscam resposta à pergunta sobre o mal que atinge os inocentes e justos. Jó, sendo justo, fica assustado diante de Deus. Porém, continua sua busca pela resposta de Deus.

Dois amigos foram dar “sermão” a Jó, mas não lhe ajudam muito. Esta é também uma experiência  humana corrente: uns “bons amigos” se aproximam de nosso leito de dor e tratam de nos dizer alguma palavra boa e consoladora. Mas como é fácil falar da dor quando não se sofre a dor!

Mas o próprio Jó volta a tomar palavra e não se atreve a pleitear contra Deus : “Como poderia o homem ser justo diante de Deus? Se quisesse disputar com ele, entre mil razões não haverá uma para rebatê-lo. Ele é sábio de coração e poderoso em força; quem poderia enfrentá-lo e ficar ileso?”. As buscas de Jó são muito humanas. Em sua imperfeição, suas respostas são admiráveis. A primeira impressão é que a Deus não se pedem contas. Esta é a verdade essencial. Mas o homem deve prestar contas diante de Deus. Para Jó Deus é Todo-poderoso que sabe tudo e pode fazer tudo. Como podemos encontrar argumentos contra Deus ou pedir contas a Ele? Não sabemos de nada de qualquer resposta exata. Somente em Deus se encontra nossas resposta! Nem sempre no momento entendemos o sentido de nossas experiências sejam boas ou dolorosas. No momento exato Deus vai nos revelar o sentido de nossas experiências.

Mas o mal existe. É inútil fugir! É inútil não querer vê-lo. É inútil refugiar-se na droga, nos prazeres carnais e em outros tipos de fuga. Há que olhar o mal de frente para saber o porquê de sua existência. Nada na vida deve ser temido. É só para ser compreendido a partir da luz divina. Sem dúvida nenhuma que o mal não se encontra em Deus e sim no homem. No próprio homem é que tem que procurar a razão da existência do mal. Tudo o que Deus criou era bom. A bondade e o bem se encontram em Deus e podem ser encontrados no homem de boa vontade. Não podemos perguntar a Deus algo cuja resposta se encontra no próprio homem. “Não é a carne corruptível que torna o homem pecador. É a alma pecadora que o torna corruptível. Não é por ser de carne, mas por viver de acordo com os próprios instintos que o homem se tronou como o Demônio” (Santo Agostinho: De cic.Dei 14,3). E não podemos pedir a Deus aquilo que o próprio homem pode e deve fazer. Se o homem pratica o mal contra outro homem Deus somente quer nosso bem e nossa salvação (Cf. Jo 3,16). Em Deus somente existe o bem. Se existisse o mal em Deus, Ele não seria o verdadeiro Deus. Por isso, não perguntemos a Deus sobre o mal, pois Deus não tem resposta; a resposta está no próprio homem.

A situação de Jó pode acontecer com qualquer um de nós ou com nossos conhecidos tão justos, no entanto sofrem alguma injustiça. Por que acontece isso comigo? Por que o inocente sofre? Por que Deus permite tudo isso, se Ele é Todo-poderoso? São perguntas habituais que ouvimos de muitas pessoas.

O Papa João Paulo II escreveu na sua Carta Apostólica: Salvifici Doloris (11/2/1984): “No fundo de cada sofrimento experimentado pelo homem, como também na base de todo o mundo dos sofrimentos, aparece inevitavelmente a pergunta: porquê? É uma pergunta acerca da causa, da razão e também acerca da finalidade (para quê?); trata-se sempre, afinal, de uma pergunta acerca do sentido. Esta não só acompanha o sofrimento humano, mas parece até determinar o seu conteúdo humano, o que faz com que o sofrimento seja propriamente sofrimento humano. A dor, como é óbvio, em especial a dor física, encontra-se amplamente difundida no mundo dos animais. Mas só o homem, ao sofrer, sabe que sofre e se pergunta o porquê; e sofre de um modo humanamente ainda mais profundo se não encontra uma resposta satisfatória. Trata-se de uma pergunta difícil, como é também difícil uma outra muito afim, ou seja, a que diz respeito ao mal. Por que o mal? Por que o mal no mundo? Quando fazemos a pergunta desta maneira fazemos sempre também, ao menos em certa medida, uma pergunta sobre o sofrimento” (n.9). “O homem pode dirigir tal pergunta a Deus, com toda a comoção do seu coração e com a mente cheia de assombro e de inquietude; e Deus espera por essa pergunta e escuta-a, como vemos na Revelação do Antigo Testamento. A pergunta encontrou a sua expressão mais viva no Livro de Job (Jó)” (n.10).

Será , como dizem seus amigos a Jó, que essas desgraças são necessariamente castigo de seus pecados? Será uma pedagogia divina, pelo valor educativo que têm as provas e a dor?

João Paulo II escreveu na mesma Carta Apostólica: “Job, no entanto, contesta a verdade do princípio que identifica o sofrimento com o castigo do pecado; e faz isso baseando-se na própria situação pessoal. Ele, efetivamente, tem consciência de não ter merecido semelhante castigo; e, por outro lado, vai expondo o bem que praticou durante a sua vida. Por fim, o próprio Deus desaprova os amigos de Job pelas suas acusações e reconhece que Job não é culpado. O seu sofrimento é o de um inocente: deve ser aceite como um mistério, que o homem não está em condições de entender totalmente com a sua inteligência” (n.10).

Onde se encontra o sentido do sofrimento e da dor? O Papa João Paulo II na mesma Carta Apostólica escreveu: “Para descobrir o sentido profundo do sofrimento, seguindo a Palavra de Deus revelada, é preciso abrir-se amplamente ao sujeito humano com as suas múltiplas potencialidades. É preciso, sobretudo, acolher a luz da Revelação, não só porque ela exprime a ordem transcendente da justiça, mas também porque ilumina esta ordem com o amor, qual fonte definitiva de tudo o que existe. O Amor é ainda a fonte mais plena para a resposta à pergunta acerca do sentido do sofrimento. Esta resposta foi dada por Deus ao homem na Cruz de Jesus Cristo” (n.13b).

Temos a resposta em Cristo, em sua dor assumida, em sua solidariedade total conosco, em sua morte inocente e em sua ressurreição. Deus quis nos salvar assumindo Ele nossa dor, entrando até o fundo no mundo de nosso sofrimento e dando-lhe assim um sentido redentor, de amor, a partir da profundidade do sacrifício pascal de Cristo, o Servo de Javé, que se entrega pelos demais voluntariamente apesar de ser inocente. Deus nos ama, em Cristo Jesus, até quando nós sofremos como uma mãe que ama ama seu filho doente mais do que os filhos saudáveis, que não precisam de tantos cuidados. Deus nos mostrou seu amor precisamente através de sua dor solidária de nossa dor. Nossa dor, então, se converte em solidário da do Cristo. com a mesma finalidade: salvar o mundo. Jesus nos deu o exemplo, entregando-se nas mãos de Deus e caminhando para seu sacrifício: “Não se faça minha vontade e sim a tua vontade. Em tuas mãos entrego meu espirito”.

O Salmo Responsorial (Sl 87/88) não nos dá resposta e sim forças para viver o mistério: “Clamo a Vós, ó Senhor, sem cessar, todo o dia, minhas mãos para Vós se levantam em prece. Quanto a mim, ó Senhor, clamo a Vós na aflição. Minha prece se eleva até Vós desde a aurora”. É a confissão de nossa impotência radical a compreender tudo que se passa na nossa vida e tudo que existe no universo.

Disponibilidade, Radicalidade de entrega e Coerência No Seguimento De Cristo

O texto do evangelho lido neste dia se encontra no conjunto do texto que fala da ultima viagem de Jesus para Jerusalém, pois lá ele será crucificado e morto, mas ressuscitado: “Enquanto Jesus e seus discípulos estavam a caminho (para Jerusalém)...”. é o caminho do êxodo (cf. Lc 9,31.51), que tem como objetivo Jerusalém. Durante a viagem para Jerusalém Jesus vai dando suas ultimas lições para seus discípulos e para os cristãos de todos os tempos e lugares. Trata-se das lições do caminho. (Lc 9,51-19,28). E Lucas não tem pressa de relatar a chegada de Jesus em Jerusalém.

No evangelho deste dia Jesus põe outras três exigências. As exigências começa com a palavra “Alguém...”. Trata-se de uma pessoa indeterminada. Por isso, esse “Alguém” representa qualquer pessoa que quer seguir a Jesus.

Este alguém quer seguir a Jesus a onde quer que Jesus vá. No primeiro diálogo de Jesus com este alguém, o que é sugerido é que o discípulo deve despojar-se das preocupações materiais exageradamente: para o discípulo, o Reino tem de ser infinitamente mais importante do que as comodidades e o bem-estar material. Por isso Jesus diz: “As raposas têm tocas e os pássaros têm ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça”.  As raposas são animais astutos, como as serpentes, e os pássaros são animais ingênuos como as pombas (Mt 10,16). O homem do mundo coloca a sua segurança nos bens materiais que um dia serão deixados assim que ele morrer. Herodes é chamado por Jesus de raposa: astuto, violento, avarento, materialista (Lc 13,32). O homem-raposa procura a própria morada naquilo que é caduco. Contra o desejo da carne, movido pela necessidade de proteger a própria vida e a realidade, Jesus vive em pobreza absoluta (2Cor 8,9). Quem quiser ter uma morada feliz e definitiva deve seguir a Jesus totalmente.

Antes (no primeiro diálogo) a iniciativa era de alguém (discípulo). Agora a iniciativa é de Jesus: “Jesus disse a outro: ‘Segue-me’. Este respondeu: ‘Deixe-me primeiro ir enterrar meu pai’”. A iniciativa a partir de Jesus significa que somos nós a seguir Jesus e não Ele a nos seguir. A chamada é clara e precisa: “Segue-me!”. É ir atrás d´Ele no mesmo caminho, sem toca sem ninho. O segundo diálogo sugere que o discípulo deve despegar-se dos deveres e obrigações que, apesar da sua relativa importância impedem uma resposta imediata e radical ao Reino. “Deixa que os mortos enterrem os seus mortos; mas tu, vai anunciar o Reino de Deus”. É a resposta de Jesus. A realidade humana, mesmo importante, não é absoluta. Colocar a criatura antes do Criador é inverter o relacionamento vital homem-Deus. Todo o bem tem em Deus o seu começo e o seu repouso (Gn 1): feito dele e por ele, somente nele encontra a si próprio. Se o homem não abandona o pai, não se torna adulto e não se casa. Se não abandonamos todo afeto anterior a Deus e não ordenado a Ele, não estaremos livres e fracassaremos o sentido da vida; viveremos no reino da morte governado pelas nossas propriedades que são nossos ídolos. Quem colocou a prioridade no Reino, começa a anunciá-lo. Isto mostra o coração livre de tudo e de todos para estar com Aquele que é Todo para o homem: Deus.

A terceira figura de discípulo combina as dificuldades dos primeiros dois. É ele que se convida e é ele que se coloca a prioridade: “Eu te seguirei, Senhor, mas deixa-me primeiro despedir-me dos meus familiares”. Para este terceira figura, o seguimento é a sua reivindicação, porém é para o futuro: “Seguirei”. O convite do Senhor está no presente: “Segue-me!”. Quem  está apegado à coisas, às pessoas ou ao próprio eu, e procura outra segurança que não seja a obediência à vontade de Deus, está decididamente não apto para o Reino. É sal sem sabor (Lc 14,35). O terceiro diálogo sugere que o discípulo deve despegar-se de tudo para fazer do Reino a sua prioridade fundamental.

Em outras palavras, seguir a Jesus exige disponibilidade, radicalidade de entrega e coerência. Quem quiser seguir a Jesus, não pode deter-se a pensar nas vantagens ou desvantagens materiais que isso lhe traz, nem nos interesses que deixou para trás, nem nas pessoas a quem tem de dizer adeus. Muitas vezes a exigência do “ter” não serve mais para encobrir e dissimular a pobreza do “ser”. O que se deve viver é ser pobre no espírito e não ser pobre do espírito. A pobreza no espírito tem o amor como ponto de partida e como ponto de chagada. Por isso, pode-se dizer que a pobreza no espírito é mais do que uma renúncia, é uma conquista.

“Deixa que os mortos enterrem os seus mortos; mas tu, vai anunciar o Reino de Deus”. Precisamos deixar o modo de viver e de pensar que nos fazem como mortos: sem vida, sem horizonte, sem perspectivas, sem criatividade e assim por diante. A tradição morta gera a morte e mortos. Ao contrário, precisamos seguir Aquele que nos faz viver, Aquele que nos diz: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6); Aquele que nos diz: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham abundantemente” (Jo 10,10). Precisamos crer n’Aquele que nos garante a vida e a ressurreição: “Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crer em mim, ainda que esteja morto, viverá” (Jo 11,25).

Muitas das vezes temos tentação de estar dispostos a seguir a Jesus apenas durante umas horas de nossa vida, ou em uns aspectos de nossa vida. Muitas das vezes temos tentação de colocar condições a Jesus para segui-Lo, apresentando supostamente boas desculpas, como narra o evangelho de hoje: “Deixa-me primeiro ir enterrar meu pai” ou “Deixa-me primeiro despedir-me dos meus familiares”.  O que dizemos parece sensato, mas na verdade é um modo de não aceitar a radicalidade da exigência que nos arrancaria de nossa mediocridade. Não se pode perder o tempo em enterrar tantos mortos que estão dentro de nós mesmos e que nos aprisionam sutilmente: valores mundanos, práticas religiosas sem compromisso e assim por diante. Tudo isto tem que morrer em nós para que possa surgir o espírito de liberdade e de vida nova. Jesus não anula o que tem de bom e de verdadeiro no nosso passado ou do nosso passado, mas nos exige que aprendamos a olhar a vida a partir de um critério absoluto.

“Segue-me” é o convite de Jesus hoje para cada um de nós. Vamos nos fazendo cristãos na medida em que nos atrevermos a seguir a Jesus. Vamos nos abrindo ao Espírito de Jesus para viver como ele viveu e passar por onde ele passou.  O cristão não é somente aquele que evita o mal e sim aquele que luta contra o mal e a injustiça como fez Jesus. O cristão não é somente aquele que faz o bem e sim aquele que luta por um mundo melhor adotando a postura de Jesus e tomando suas mesmas opções. “Segue-me” é o convite de Jesus para caminhar, para avançar e não para ficar parado e paralisado. Pessoas que tem coragem de caminhar são pessoas que fazem a diferença. “Pessoas que fazem diferença não desistem antes de começar, não dão moradia ao desânimo. Pessoas que fazem a diferença sabem que os problemas são relativos, transformam fracassos em aprendizados. Pessoas que fazem a diferença não se deixam amedrontar, alimentam sonhos possíveis. Pessoas que fazem a diferença começam cada dia com convicção, confiam que a vitória é dos persistentes no amor” (Canísio Mayer). “Não é porque certas coisas são difíceis que nós não ousamos; é justamente porque não ousamos que tais coisas são difíceis”, dizia Sêneca.

P. Vitus Gustama,svd

domingo, 27 de setembro de 2026

Santos Miguel, Gabriel e Rafael, Arcanjos, festa, 29/09/2026

ARCANJOS: MIGUEL, GABRIEL E RAFAEL

29 de Setembro

1ª Leitura: Dn 7,9-10.13-14

9 Eu continuava olhando até que foram colocados uns tronos, e um Ancião de muitos dias aí tomou lugar. Sua veste era branca como neve e os cabelos da cabeça, como lã pura; seu trono eram chamas de fogo, e as rodas do trono, como fogo em brasa. 10 Derramava-se aí um rio de fogo que nascia diante dele; serviam-no milhares de milhares, e milhões de milhões assistiam-no ao trono; foi instalado o tribunal e os livros foram abertos. 13 Continuei insistindo na visão noturna, e eis que, entre as nuvens do céu, vinha um como filho de homem, aproximando-se do Ancião de muitos dias, e foi conduzido à sua presença. 14 Foram-lhe dados poder, glória e realeza, e todos os povos, nações e línguas o serviam: seu poder é um poder eterno que não lhe será tirado, e seu reino, um reino que não se dissolverá.

Evangelho: Jo 1, 47-51

Naquele tempo, 47 Jesus viu Natanael que vinha para ele e comentou: “Aí vem um israelita de verdade, um homem sem falsidade”. 48 Natanael perguntou: “De onde me conheces?” Jesus respondeu: “Antes que Filipe te chamasse, enquanto estavas debaixo da figueira, eu te vi”. 49 Natanael respondeu: “Rabi, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel”. 50 Jesus disse: “Tu crês porque te disse: “Eu te vi debaixo da figueira? Coisas maiores que esta verás!” 51 E Jesus continuou: “Em verdade, em verdade eu vos digo: Vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem”.

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Estamos conscientes de que Deus é o único ser que não tem história. Todos os seres criados são, em maior ou menor grau, seres históricos: nascem, evoluem, morrem. Só que a história de cada um tem um sinal diferente, de acordo com o lugar que ocupa na hierarquia ontológica. À medida que se ascende do inerte para o sensível ou sensitivo, e do irracional para o mundo do espírito, a história vai se enriquecendo e entranhando-se na própria essência do ser. É por isso que o homem é o ser mais histórico de todos os que habitam a terra. Sobre a fundação de algumas tendências universais e permanentes de sua natureza, cada homem participa da história geral da humanidade a partir de seu próprio e irrevogável ângulo e sua insubstituibilidade como pessoa, mas não como função. Do homem, e só do homem, é possível fazer biografia.

Porém, e os anjos? Existe, certamente, uma história universal dos anjos, criaturas de Deus; uma história que foi escrita nos Livros Sagrados, do Gênesis ao Apocalipse. Os anjos nasceram de uma Palavra de Deus. Logo, alguns rebeldes, outros fiéis, sua história coletiva bifurcaram para sempre em dois imensos blocos, de luz e sombra, de ódio e amor. A grande maioria dos anjos, espíritos puros, ficaram sem nome. Só Deus conhece seus nomes e seus papéis no grande teatro do mundo. Para nós, eles são como estrelas cadentes anônimas, que de vez em quando, atravessam o firmamento do espírito. Assim, os que apareceram aos pastores de Belém anunciando a paz aos homens de boa vontade; o anjo do Getsêmani, que consolou Cristo em sua agonia, que perfurou o coração de Santa Teresa com um golpe; e tantos outros, que colocaram um momento de luz na vida de alguns eleitos de Deus e desapareceram para sempre.

Mas há alguns anjos, muito poucos, que têm, além dessa história anônima e coletiva, que estão em destaque: os Arcanjos. Arcanjo São Miguel, o capitão das tropas angelicais contra Lúcifer; arcanjo São Rafael, o companheiro da peregrinação de Tobias, e o arcanjo são Gabriel que ocupa a posição preeminente, que faz a anunciação a Maria.

Neste dia celebramos a festa desses Arcanjos: Miguel, Gabriel e Rafael. Arcanjos significa anjos principais. Como que chefe dos anjos.

O nome de anjos não é um nome de natureza e sim de função: “mallak” (hebraico), “Ángelos” (grego), significa mensageiro. “Anjo (mensageiro) é designação de encargo, não de natureza. Se perguntares pela designação da natureza, é um espírito; se perguntares pelo encargo, é um anjo: é espirito por aquilo que é, enquanto é anjo, por aquilo que faz” (Santo Agostinho: En.in Psal. 103,1,15).

Na Bíblia se evita apresentar Deus atuando em forma direta na história, pois isto ameaçaria a transcendência de Deus. Por isso, aparece um anjo (=mensageiro) que na verdade é Deus mesmo que atua na história através de sua Providência permanente. E a história não é somente o que se vê e se toca. Há uma dimensão transcendente, oculta e invisível da história. A revelação é um desocultamento dessa realidade, que é o fundamento de nossa esperança. Os anjos (mensageiros) são os que nos recordam e os que nos fazem visível essa dimensão transcendente. Por isso, o mundo dos anjos não é outro mundo e sim a dimensão transcendente de nossa história. Crer nos anjos significa crer na presença transcendente de Deus na história e na sua Providência. Atrás de cada pessoa e de cada sucesso libertador há sempre um anjo, isto é, há sempre uma realidade divina transcendente.

Os Arcanjos: Miguel, Gabriel e Rafael são símbolos dessa comunicação entre Deus e os homens, um Deus que em Jesus infunde força (Gabriel significa Deus é forte), cura (Rafael significa Deus cura) e se mostra totalmente diferente (Miguel significa quem como Deus? Esse Deus que é Pai de todos).

1. São Miguel: Em hebraico “Mikhá-El” significa “Quem (milá) é como Deus?” (El), ou “Ninguém é como Deus”.        

Na bíblia ele é mencionado somente no Livro de Daniel (Antigo Testamento), em Epístola de Judas (Jd 9) e em Apocalipse. No AT o nome encontra-se apenas em Dn 10,13.21; 12,1 onde Miguel é chamado “um dos primeiros príncipes” e “o grande príncipe” representante e defensor de Israel na sua luta para defender sua fé em Deus. Miguel é concebido como um espírito celeste que vela pelos judeus. Em Ap 12,7 Miguel é o chefe dos Anjos na batalha contra o Dragão e seus anjos. Na liturgia cristã, Miguel é o protetor da Igreja e o Anjo que acompanha as almas dos mortos ao céu.        

Miguel sempre foi considerado como o Anjo que luta por nós. Ele derrota o Dragão. É corajoso lutador de Deus. Por isso, Miguel não é nenhum anjo bonitinho, e sim um Anjo de muita força. E esta força de Deus envia a cada pessoa para que não seja vencida pelos poderes deste mundo. Ao nosso lado está um anjo que luta por nós. Ele nos defende quando pessoas lutam contra nós na vivência dos valores. A Igreja católica sempre tem uma grande devoção ao Arcanjo São Miguel, especialmente para pedir-lhe que nos livre dos ataques dos inimigos (demônio/satanás) e dos espíritos infernais. E quando o invocarmos, ele vem nos defender com o grande poder que Deus lhe concedeu. 

A Igreja dá ao São Miguel o mais alto lugar entre os arcanjos e lhe chama “Príncipe dos espíritos celestiais”, “chefe ou cabeça da milícia celestial”. Já desde o Antigo Testamento aparece como o grande defensor do povo de Deus contra o demônio e sua poderosa defesa continua no Novo Testamento. 

Na liturgia é ensinado através da Tradição que o Arcanjo são Miguel preside o culto de adoração que se rende ao Altíssimo e oferece a Deus as orações dos fieis simbolizadas pelo incenso que se eleva diante do altar. A liturgia nos apresenta são Miguel como aquele que leva o incenso e está de pé diante do altar como nosso intercessor e o portador das orações da Igreja diante do Trono de Deus. 

Muito apropriadamente, são Miguel é representado na arte como o anjo guerreiro, o conquistador de Lúcifer, pondo seu calcanhar sobre a cabeça do inimigo infernal, ameaçando-lhe com sua espada, transpassando-o com sua lança.  

É tradicionalmente reconhecido como o guardião dos exércitos cristãos contra os inimigos da Igreja e como protetor dos cristãos contra os poderes diabólicos, especialmente na hora da morte. 

“A veneração ao São Miguel é o maior remédio contra a rebeldia e a desobediência aos mandamentos de Deus, contra o ateísmo, contra o ceticismo e a infidelidade” (São Francisco de Sales). Precisamente, estes vícios são muito evidentes em nosso tempo atual. O ateísmo e a falta de fé ou ceticismo infiltraram todos os setores da sociedade humana. Com a ajuda de São Miguel nos manteremos fieis à nossa fé. Nossa missão é confessar nossa fé com valentia e gozo, fé que se traduz no amor fraterno, pois todos nós somos irmãos do Pai comum que está no céu. Que, como o Arcanjo Miguel que serve Deus sem cessar, possamos dizer: “Dai-me a única ambição para Vos servir e servir o próximo!”. Nós cristãos, a exemplo do Arcanjo Miguel, que sejamos força e suporte para os outros. 

2. São Gabriel: Em hebraico “Gabri-El” significa “homem de Deus” ou “Deus é forte”, “Deus é meu protetor” ou Homem forte (geber) de Deus (El) ou herói, homem de Deus; força de Deus; o enviado de Deus.        

“Gabriel” é nome próprio de um anjo, não arcanjo. Só na literatura posterior é chamado arcanjo. Gabriel sempre se apresenta como portador de notícias da graça de Deus.

No AT ele aparece pela primeira vez em Dn, explicando a Daniel a visão do carneiro e do bode (Dn 8,16-26), e o sentido dos setenta anos de Jr 25,11;29,10 (Dn 9,21-27). No NT Gabriel aparece a Zacarias, anunciando-lhe o nascimento de João Batista (Lc 1,11-20). Ele chama-se a si mesmo Gabriel, que está diante da face de Deus (cf. Tb 12,15). Ele é quem leva a Boa Nova a Maria na Anunciação do nascimento de nosso Salvador (Lc 1,26-38). A figura de Gabriel é a de embaixador de Deus. A mais alegre de todas as mensagens que Gabriel é encarregado por Deus para transmitir é a Encarnação do Filho de Deus. Na chegada da plenitude dos tempos é Gabriel quem comunica à Nossa Senhora, em nome de Deus, o Deus-conosco em Jesus Cristo. As palavras deste Arcanjo para Maria se torna nossa oração: “Ave Maria cheia de graça, o Senhor é contigo” que é completada com a aclamação de Isabel: “Bendita és tu entre as mulheres e é bendito o fruto do teu ventre...”.       

Como aconteceu com Daniel, Gabriel nos interpreta as nossas visões. Ele nos faz compreender o que já intuímos em nosso coração. Mas precisamos compreender também o que Deus deseja operar em nós. Gabriel nos faz compreender o que Deus realiza em nós. 

Nossa tarefa ou missão de cada dia, a exemplo do Arcanjo Gabriel é torna-nos boa notícia para os outros e transmitir o que alegra e dignifica os outros.

3. São Rafael: Em hebraico “Repha-El” significa “Deus (El) que cura/sara (repha) ou Medicina (repha) de Deus (El).        

Segundo o livro de Tobias (Tb 12,15) Rafael é um dos sete anjos ou arcanjos que estão diante do Senhor. Ele desempenha papel importante na história de Tobias. Rafael é o companheiro de viagem (Tb 5-6), aquele que cura (Tb 6; 11,1-15), aquele que expulsa demônios (Tb 6,15-17;8,1-13). É um dos sete anjos que oferecem as orações do povo de Deus e são admitidos na presença do Senhor (Tb 12,15). Peçamos a ele que cure nossas doenças e males que fazem ninhos em nosso coração.         

Rafael não é somente o Anjo que cura as feridas nossas ou aquele que expulsa os demônios ou o companheiro, mas também é o Anjo que possibilita as relações sadias. Através de Rafael Tobias torna-se capaz de amar sua mulher sem ser morto por ela. Ele aprende a amar seu pai sem ser determinado por ele.        

Tudo isso quer nos dizer que Deus está sempre ao nosso lado. Ele é providente para quem se abre a ele. Deus nunca abandona os seus nesta terra (Mt 28,20) desde que sejamos fiéis a Ele eternamente. E somos chamados a ser “anjos” para os outros, isto é, ser mensageiros de Deus que leva somente coisas boas (evangelizar). 

Que nossas palavras de cada dia curem a vida de tantas pessoas que necessitam nossa ajuda. Que nossas palavras tenham força para que as pessoas se aproximem de Deus e dos irmãos, seus próximos. O Arcanjo Rafael interceda por nós! 

Tudo isso quer nos dizer que a história não é somente o que se vê e se toca. Há uma dimensão transcendente, oculta e invisível da história. A revelação é um desocultamento dessa realidade que é o fundamento de nossa esperança. Os anjos são os que nos recordam e os que nos fazem visível essa dimensão transcendente. O mundo dos anjos não é outro mundo e sim a dimensão transcendente de nossa história. Na Bíblia se evita apresentar Deus atuando em forma direta na história, pois isto ameaçaria a transcendência de Deus. ai onde aparece um anjo, é Deus mesmo que atua. 

Portanto, crer nos anjos é crer na presença transcendente de Deus na história. Detrás de cada pessoa e de cada sucesso libertador há sempre um anjo, isto é, há sempre uma realidade divina transcendente. O contrário é satanás, que representa o mistério da iniquidade detrás das pessoas e estruturas opressoras. A luta dos anjos contra os demônios é a representação simbólica da luta transcendente entre o bem e o mal (Cf. Ef 6,10-20). 

No evangelho lido neste dia Jesus descreve Natanael como modelo de israelita: “Eis um verdadeiro israelita, em quem não há fraude” (Jo 1,47). Natanael representa precisamente Israel eleito que conservou a fidelidade a Deus. E Jesus renova a eleição. 

“Antes que Filipe te chamasse, eu te vi quando estavas de baixo da figueira”, disse Jesus a Natanael. A menção da figueira alude ao Livro do profeta Oseías 9,10: “Encontrei Israel como cachos de uvas no deserto; vi os vossos pais como os primeiros frutos da figueira”. 

Natanael reage com entusiasmo e diz a Jesus: “Rabi, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel”. Natanael chama Jesus de “Rabi”, isto é, Mestre fiel à tradição e “Rei”, interpretado como rei de Israel, o Ungido, o prometido sucessor de Davi (Sl 2,26s; 2Sam 7,14; Sl 89,4s.27) que restaurará a grandeza do povo. 

Diante da reação de Natanael Jesus disse aos discípulos: “Em verdade, em verdade vos digo: vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem” (Jo 1,51). A obra do Messias não se limita à eleição de Israel (figueira). Jesus faz a primeira declaração sobre si mesmo e alude à visão de Jacó em Betel (Gn 28,11-27) fazendo uma promessa (“vereis”): a comunicação permanente com Deus em Jesus (“o céu aberto”). A promessa se realizará na cruz na qual a glória ou o amor brilhará (cf. Jo 19,34).

“Em verdade, em verdade vos digo: vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem”, disse Jesus (Jo 1,51). 

A existência dos Arcanjos ou simplesmente dos anjos e sua proximidade e companhia na nossa vida cotidiana nos faz pedirmos com a Igreja o auxílio dos Arcanjos: “Ó Deus, que organizais de modo admirável o serviço dos anjos e dos homens, fazei que sejamos protegidos na terra por aqueles que vos servem no céu”. Que assim seja! (Oração do dia/Coleta).

P. Vitus Gustama,svd

sábado, 26 de setembro de 2026

Segunda-feira Da XXVI Semana Comum, Ano Par, 28/09/2026

VIVER COMO JUSTO E TER AUTORIDADE E SER PARCEIRO DO BEM


Segunda-Feira da XXVI Semana Comum

Primeira Leitura: Jó 1,6-22 (Ano Par)

6 Um dia, foram os filhos de Deus apresentar-se ao Senhor; entre eles também Satanás. 7 O Senhor, então, disse a Satanás: “Donde vens?” “Venho de dar umas voltas pela terra”, respondeu ele. 8 O Senhor disse-lhe: “Reparaste o meu servo Jó? Na terra não há outro igual: é um homem íntegro e correto, teme a Deus e afasta-se do mal”. 9 Satanás respondeu ao Senhor: “Mas será por nada que Jó teme a Deus? 10 Porventura não levantaste um muro de proteção ao redor dele, de sua casa e de todos os seus bens? Tu abençoaste tudo o que ele fez, e seus rebanhos cobrem toda a região. 11 Mas, estende a mão e toca em todos os seus bens; e eu garanto que ele te lançará maldições no rosto!” 12 Então o Senhor disse a Satanás: “Pois bem, de tudo o que ele possui, podes dispor, mas não estendas a mão contra ele”. E Satanás saiu da presença do Senhor. 13 Ora, num dia em que os filhos e filhas de Jó comiam e bebiam vinho na casa do irmão mais velho, 14 um mensageiro veio dizer a Jó: “Estavam os bois lavrando e as mulas pastando a seu lado, 15 quando, de repente, apareceram os sabeus e roubaram tudo, passando os criados ao fio de espada. Só eu consegui escapar para trazer-te a notícia”. 16 Estava ainda falando, quando chegou outro e disse: “Caiu do céu o fogo de Deus e matou ovelhas e pastores, reduzindo-os a cinza. Só eu consegui escapar para trazer-te a notícia”. 17 Este ainda falava, quando chegou outro e disse: “Os caldeus, divididos em três bandos, lançaram-se sobre os camelos e levaram-nos consigo, depois de passarem os criados ao fio da espada. Só eu consegui escapar para trazer-te a notícia”. 18 Este ainda falava, quando chegou outro e disse: “Teus filhos e tuas filhas estavam comendo e bebendo vinho na casa do irmão mais velho, 19 quando um furacão se levantou das bandas do deserto e se lançou contra os quatro cantos da casa, que desabou sobre os jovens e os matou. Só eu consegui escapar para trazer-te a notícia”. 20 Então, Jó levantou-se, rasgou o manto, rapou a cabeça, caiu por terra e, prostrado, disse: 21 “Nu eu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei para lá. O Senhor deu, o Senhor tirou: como foi do agrado do Senhor, assim foi feito. Bendito seja o nome do Senhor!” 22 Apesar de tudo isso, Jó não cometeu pecado nem se revoltou contra Deus.

Evangelho: Lc 9,46-50

Naquele tempo, 46 houve entre os discípulos uma discussão, para saber qual deles seria o maior. 47 Jesus sabia o que estavam pensando, pegou então uma criança, colocou-a junto de si 48 e disse-lhes: “Quem receber esta criança em meu nome, estará recebendo a mim. E quem me receber, estará recebendo aquele que me enviou. Pois aquele que entre todos vós for o menor, esse é o maior”. 49 João disse a Jesus: “Mestre, vimos um homem que expulsa demônios em teu nome. Mas nós lho proibimos, porque não anda conosco”. 50 Jesus disse-lhe: “Não o proibais, pois quem não está contra vós, está a vosso favor”.

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Viver Como Justo Apesar Dos Sofrimentos, Pois Deus É Justo

"Nu eu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei para lá. O Senhor deu, o Senhor tirou: como foi do agrado do Senhor, assim foi feito. Bendito seja o nome do Senhor!”.

Durante vários dias vamos acompanhar, nos dias da semana, a leitura de outro livro sapiencial: o Livro de Jó. Este livro não pode ser lido superficialmente nem fragmentariamente. Este livro é para ser lido com uma profunda reflexão. Cada leitor é chamado a se colocar no lugar de Jó, o proganista do livro, para compreender sua situação, suas reações psicológicas e sua fé. Trata-se de um livro que questiona uma fé baseada apenas nos conhecimentos ou teorias, não alinhada com a experiência da vida cotidiana com sua complexidade, com Deus que se manifesta nos acontecimentos e na História e portanto, é um Deus que nos acompanha diariamente (Cf. Mt 28,20).

O Livro de Jó, um livro sapiencial do século V antes de Cristo, é um dos mais impressionantes do Antigo Testamento. Os críticos creem que o livro foi escrito nos tempos posteriores ao exílio, e reflete as inquietudes das escolas de “sábios” que se preocupavam com os problemas pessoais do individo como tal, revisando as teses conformistas tradicionais.

Não conhecemos o nome do autor deste maravilhoso livro sapiencial, mas sem dúvida nenhuma, é um judeu que conhece as leis mosaicas.

A figura central do livro é Jó, um homem justo e paciente. Neste livro, o relato é organizado a modo de parábola sapiencial, como desenvolvimento de uma interrogação que preocupa a humanidade em todos os tempos: o problema do mal: Por que Deus permite que os inocentes, os justos passem por tantas desgraças? Por que Deus está ausente na dor?

O livro é composto de um prólogo e epílogo muito poético, enquanto o corpo central, quarenta capítulos, é um entrelaçamento de solilóquios e orações de Jó, de conversas com seus amigos e a resposta de Javé (Deus).

Os amigos defendem a sabedoria tradicional: Estabelece-se uma relação quase matemática entre pecado humano e o castigo de Deus (retribuição automática). O autor do livro de Jó não crê nessa explicação e continua buscando outra resposta sobre a existência do mal: deve ter outra razão misteriosa, a não ser que Deus seja caprichoso e cruel. Segundo a teologia oficial da época, que desconhecia a vida além-túmulo, Deus aplicava prêmios e castigos só nesta vida. Riqueza, saúde, vida longa, prole numerosa, êxito e assim por diante eram índice de santidade, ao passo que a pobreza, enfermidade, vida curta, esterilidade etc., são castigo de Deus pelo pecado. Esta sabedoria irá perdurar por muito tempo em Israel, e também na Igreja.

Um  percurso sobre a dor, ao longo do Novo Testamento, seria extenso e deslocado. Existem textos nos quais perdura a ideia da retribuição automática: “Rabi, quem pecou para que ele nascesse cego, ele ou seus pais?”, perguntam os apóstolos, e Jesus responde: “Nem ele nem seus pais” (Jo 9: cego de nascença).

Os amantes de Deus tentaram superar essa teologia egoísta da retribuição. É o caso do autor de Jó que escreveu seu livro revolucionário contra a teologia oficial de então, duas ou três gerações depois da volta do desterro. Nesse caso, então, o autor do livro de Jó não crê na explicação da teologia de retribuição e continua buscando outra resposta sobre a existência do mal: deve ter outra razão misteriosa, a não ser que Deus seja caprichoso e cruel. Ainda que o personagem seja ficção literária sapiencial, sua mensagem é absolutamente atual.

Nem sequer as palavras finais que o autor coloca nos lábios de Deus fornecem uma solução completamente convincente. Lembre-se de que estamos no AT: todavia, ainda não se tem uma ideia clara da outra vida, nem se acendeu a luz da Páscoa de Jesus, o verdadeiro Inocente que experimenta uma injustiça maior do que a de Jó, a morte.

Este livro poético-didático e maravilhoso gira em torno da tragédia de um justo em Israel que foi submetido a provações terríveis por Deus para avaliar sua virtude. De fato, o problema teórico que surge nesta obra é o sofrimento do justo nesta vida, uma questão que tinha sido levantada nas várias literaturas da antiguidade. Hagiógrafo, em vez de colocar o problema em abstrato, ele prefere apresentar a história de um justo irrepreensível, que, apesar de sua verdadeira virtude, sofre as mais terríveis penalidades: perda de riquezas materiais, da família e da própria saúde. No entanto, ele aceita a prova resignada, porque tudo vem de Deus: o bem e o mal.

A tese tradicional na sociedade israelita era que Deus recompensa a virtude nesta vida e castiga o vício. Aos cumpridores da lei divina são reservados todos os tipos de bens temporais: longevidade de vida, prosperidade material, numerosa posteridade ou descendência, enquanto que  aos pecadores lhes  espera a morte em plena juventude, a perda de seus bens e a esterilidade. Por outro lado,  se estabelece uma relação causal entre o pecado e o sofrimento, de modo que aquele que sofria contrariedades de ordem física ou moral tinha por causa o pecado indefectível. A história do justo Jó será a prova irrefutável de que essa tese, geralmente aceita pela sabedoria tradicional, não tem validade em todos os casos e, portanto, não se deve atribuir necessariamente a infelicidade e a enfermidade ao pecado como causa.

O livro começa, como lemos na Primeira Leitura de hoje, com um prólogo que é um conto dramatizado. No céu, na presença de Deus, tem lugar como um conselho pastoral, em que Satanás, “o adversário”, põe em dúvida a solidez de Jó, e desafia Deus para testar Jó, para ver se ele é tão fiel quanto parece.

Todos os tipos de calamidades recaem sobre o pobre homem, Jó. E, no momento, sua reação é consistente com sua reputação como paciente. Suas palavras têm sido um slogan para tantas pessoas ao longo dos séculos: "Nu eu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei para lá. O Senhor deu, o Senhor tirou: como foi do agrado do Senhor, assim foi feito. Bendito seja o nome do Senhor!”.

O Salmo Responsorial de hoje (Sl 16) reflete a fidelidade de Jó: “Ó Senhor, ouvi a minha justa causa, escutai-me e atendei o meu clamor! Inclinai o vosso ouvido à minha prece, pois não existe falsidade nos meus lábios!”.

Não é fácil ver as coisas a partir desta perspectiva. No momento, Jó na se rebela contra Deus. Porém, mais adiante ele terá crises profundas.

A desgraça e a dor são uma realidade com que tropeçamos frequentemente. Os ensinamentos do Livro de Jó são sempre atuais. Jó era uma homem temeroso de Deus que recebia inumeráveis bênçãos. Satanás insinua que a virtude de Jó é interesseiro e que desapareceria com a destruição de suas riquezas. Jó foi despojado de todos os bens e de sua saúde. Sua conformidade com a vontade de Deus e sua fé se manteve firme apesar das zombarias que ferem que saíram da boca de sua mulher: “Se recebemos de Deus os bens, não deveríamos receber também os males?” (Jó 2,10).

Hoje pode ser uma boa oportunidade para que examinemos nossa postura diante do Senhor, quando, em nós ou naqueles que amamos, acontecem a desgraça e a dor. Deus é nosso Pai e por isso, sabe muito bem o que fazer com nossa situação. Basta manter nossa fé nele que nem sempre é fácil neste tipo de situação. A pergunta fica para nós: será que nos comportamos como filhos agradecidos na abundancia e na escassez, na saúde e na enfermidade?

Muitas vezes, fora da fé, o sofrimento do inocente e do justo casa desconcerto. Enquanto que a vida dos outros que viveram longe de Deus, está sorrindo a eles. A Paixão de Cristo é a única que pode iluminar este mistério do sofrimento humano, de modo particular do inocente. Na Cruz de Cristo não somente se cumpriu a redenção mediante o sofrimento e sim que o próprio sofrimento humano ficou redimido. Os padecimentos de Jesus forma o preço de nossa salvação. desde então, nossa dor pode se unir à dor de Jesus e participar na redenção da humanidade inteira. Nunca a dor passa ao nosso lado deixando-nos como antes. Ao contrário, ela purifica nossa vida e aumenta o grau de união com a vontade divina em Jesus Cristo e nos ajuda a desapegarnos de de nossos bens materiais. Temos que aprende a olhar para Cristo em meio de nossas provações e tribulações.  Nos fixemos, pelo menos, na Cruz de Jesus e daremos passo ao amor. E entenderemos que carregar a Cruz tem sentido quando a levarmos junto ao Mestre Jesus. Ao pés do Crucificado compreenderemos que não é possível amar sem sacrifício.

É Preciso Ter a Autoridade e Não o Poder

O Evangelho deste dia nos narra a parte final da atividade de Jesus na Galileia. A partir de Lc 9,51-19,28 Jesus sairá da Galileia rumo a Jerusalém onde será crucificado, morto e glorificado.

Na primeira parte do evangelho lido neste dia o evangelista Lucas nos relatou que entre os discípulos houve uma discussão sobre quem era maior ou quem tinha mais poder. Em outras palavras, eles tinham ambição de ter o poder na mão. Isso significa que até então eles ainda não captaram o essencial da mensagem de Jesus que é preciso pensar no outro e fazer tudo pela sua salvação.

Quem tem o poder geralmente impõe aos outros suas decisões, muitas vezes através dos meios injustos como opressão, repreensão, tortura, ameaça, execução etc.. O poder não respeita a liberdade humana, por isso ele não faz que os homens se tornem bons.  O poder obriga e impõe o silêncio. Quem tem poder geralmente não se preocupa com a ética e com a humanidade. Aquele que tem poder sempre tem tendência de manipular as pessoas e dirigi-las para seus próprios objetivos e sua necessidade de poder. O ambicioso pelo poder, quando dominado pelo vício, não suporta competidores, nem admite rivais e por isso, ele procura todos os meios para humilhá-los e eliminá-los. Ele considera “justo” e “honesto” o uso da violência para atingir seus objetivos. Ele não tem consciência de que o poder é passageiro. Quem desejar ser o primeiro a todo custo não pensa na justiça e na honestidade nem na necessidade dos outros. O respeito aos outros está ausente na vida de um ambicioso.

O contrário do poder é a autoridade. A autoridade está ligada ao crescimento. A palavra “autoridade” vem do latim “augere”, que quer dizer “crescer”. Exercer a autoridade significa sentir-se realmente responsável pelos outros e por seu crescimento sabendo que eles são pessoas que tem um coração, nas quais existe o Espírito de Deus (cf. 1Cor 3,16-17) e que são chamadas a crescer na liberdade da verdade e do amor. Na linguagem bíblica, a autoridade é uma rocha que dá apoio. É o pastor que conduz o gado para o bom pasto (cf. Sl 23 sobre o bom pastor; cf. Jo 10). Os membros da comunidade são essencialmente o rebanho de Jesus: “Apascenta as minhas ovelhas” (cf. Jo 21,15-17). Os membros de uma comunidade logo sentem quando os responsáveis (autoridade) os amam e querem ajudá-los a crescer e não quando estão presentes apenas para administrar, impor sua lei e sua própria visão. A autoridade é o autêntico serviço para a comunidade. A crise de liderança geralmente surge da crise da autoridade.

O grande não é reinar e sim servir no espírito de Jesus. Para Jesus servir é coisa grande e faz quem serve grande diante de Deus, pois servir o mais desprezado dos homens é servir a Deus (cf. Mt 25,40.45). É imitar Jesus.

Os discípulos de Jesus, mesmo estando com Ele, nunca abandonaram suas pretensões de poder. E nós, será que também nós não abandonamos nossas pretensões de poder ao estar na Igreja? Ou usamos a Igreja para facilitar o alcance de nosso poder?

Hoje necessitamos criar uma catequese que realmente cultive o conhecimento de Jesus e a prática de suas atitudes, pois o que Jesus queria era criar um grupo de pessoas que, ao atender a chamada de Deus, proporcionam novas alternativas de vida.

É Preciso Ser Parceiro do Bem

A segunda parte do Evangelho de hoje nos relata que o discípulo João se queixa por ter visto alguém “expulsando demônios” em nome de Jesus, mas esse alguém não pertence ao grupo dos discípulos. A reação de João é imediata: proibir que se faça o bem, pois não é membro da comunidade dos seguidores de Cristo. Com essa proibição os discípulos mostram seu comportamento incompatível com o Reino de Deus: arrogância, sectarismo, intransigência, intolerância, ciúmes, mesquinhez, pretensão de monopolizar Jesus e a sua proposta.        

Diante desse comportamento dos discípulos Jesus disse-lhes: “Não o proibais, pois quem não está contra vós está a vosso favor”. Com esta exortação Jesus quer que os discípulos superem o sectarismo na prática do bem.  A comunidade cristã deve ser colaboradora na prática do bem e acolher todas as pessoas que praticam o bem independentemente de pertencer ou não à Igreja. Cada cristão deve ser parceiro do bem e por isso, deve reconhecer o bem praticado por qualquer pessoa. Se realmente alguém pratica o bem é porque tem algo de Deus dentro dele, pois Deus é o Bem supremo. E tudo que Ele criou era bom (cf. Gn 1,1ss). 

O Espírito de Deus é livre e atua onde quer e como quer. Ele não está limitado por fronteiras, nem por regras, nem por interesses pessoais, nem por privilégios de grupo. Nenhuma Igreja ou religião ou grupo tem o monopólio do Espírito Santo, nenhuma instituição consegue controlá-lo nem prendê-lo. O Espírito não é privilégio dos membros da hierarquia; mas está bem vivo e bem presente em todos aqueles que abrem o coração aos dons de Deus e que aceitam comprometer-se com Jesus e o seu projeto de vida.

Somos convidados a abandonar atitudes como o fanatismo, a intolerância, a intransigência, preconceitos, etc. , pois elas fazem fechar os olhos e o coração diante da manifestação do amor de Deus em tantas pessoas de boa vontade mesmo que se digam não acreditar em Deus, mas Deus acredita nelas por causa do bem que elas praticam. Não temos que sentir-nos ciumentos se Deus quer agir no mundo através de pessoas que não pertencem à nossa Igreja. É preciso ser parceiro deste tipo de pessoa.

Os cristãos são chamados a constituir uma comunidade sem arrogância, sem ciúmes, sem presunção de posse exclusiva do bem e da verdade, pois estes sentimentos e atitudes são incompatíveis com a opção pelo Reino: “Deus resiste aos soberbos, mas dá a sua graça aos humildes” (1Pd 5,5b;Pr 3,34).

P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

XXVI Domingo Do Tempo Comum, Ano "A", 27/09/2026

ENTRE O DIZER E O FAZER NA VIDA DO CRISTÃO

XXVI DOMINGO DO TEMPO COMUM  ANO “A”

I Leitura: Ez 18,25-28

Assim diz o Senhor: 25 “Vós andais dizendo: ‘A conduta do Senhor não é correta’. Ouvi, vós da casa de Israel: É a minha conduta que não é correta, ou antes é a vossa conduta que não é correta? 26 Quando um justo se desvia da justiça, pratica o mal e morre, é por causa do mal praticado que ele morre. 27 Quando um ímpio se arrepende da maldade que praticou e observa o direito e a justiça, conserva a própria vida. 28 Arrependendo-se de todos os seus pecados, com certeza viverá, não morrerá”.

II Leitura: Fl 2,1-11

Irmãos: 1 Se existe consolação na vida em Cristo, se existe alento no mútuo amor, se existe comunhão no Espírito, se existe ternura e compaixão, 2 tornai então completa a minha alegria: aspirai à mesma coisa, unidos no mesmo amor; vivei em harmonia, procurando a unidade. 3 Nada façais por competição ou vanglória, mas, com humildade, cada um julgue que o outro é mais importante, 4 e não cuide somente do que é seu, mas também do que é do outro. 5 Tende entre vós o mesmo sentimento que existe em Cristo Jesus. 6 Jesus Cristo, existindo em condição divina, não fez do ser igual a Deus uma usurpação, 7 mas esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-se igual aos homens. Encontrado com aspecto humano, 8 humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até à morte, e morte de cruz. 9 Por isso, Deus o exaltou acima de tudo e lhe deu o Nome que está acima de todo nome. 10 Assim, ao nome de Jesus, todo joelho se dobre no céu, na terra e abaixo da terra, 11 e toda língua proclame: “Jesus Cristo é o Senhor!”

Evangelho: Mt 21,28-32

Naquele tempo, Jesus disse aos sacerdotes e anciãos do povo: 28 “Que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Dirigindo-se ao primeiro, ele disse: ‘Filho, vai trabalhar hoje na vinha!’ 29 O filho respondeu: ‘Não quero’. Mas depois mudou de opinião e foi. 30 O pai dirigiu-se ao outro filho e disse a mesma coisa. Este respondeu: ‘Sim, senhor, eu vou’. Mas não foi. 31 Qual dos dois fez a vontade do pai?” Os sumos sacerdotes e os anciãos do povo responderam: “O primeiro”. Então Jesus lhes disse: “Em verdade vos digo que os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus. 32 Porque João veio até vós, num caminho de justiça, e vós não acreditastes nele. Ao contrário, os cobradores de impostos e as prostitutas creram nele. Vós, porém, mesmo vendo isso, não vos arrependestes para crer nele”

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Depois de instruir a seus discípulos sobre seu destino e sobre as exigências do seguimento (Mt 16,21-20,34), Jesus entra em Jerusalém, centro do poder político, econômico, religioso, judiciário e ideológico do povo de Deus, representado pelo Sinédrio, o Supremo Tribunal dos judeus, responsável pela morte de Jesus. Jesus se confronta com essas lideranças e, uma após outra, vai desmascarando-as, mostrando o descompromisso delas com o Reino. De acusado (Mt 21,23) Jesus passa ao ataque através de parábolas contadas para essas lideranças (Mt 21,28-22,14). A comoção inicial da cidade (Mt 21,10; veja Mt 2,3) vai se convertendo, ao longo dos próximos capítulos deste evangelho (leia Mt 21,1-23,39), numa recusa frontal de Jesus e seus discípulos.         

Nestes capítulos (Mt 21,1-23,39) percebe-se a tensão que aconteceu nos últimos dias da vida de Jesus: Jesus manifesta-se como Messias através de três gestos simbólicos (Mt 21,1-22); os fariseus questionam sua autoridade (21,23-27); Jesus lhes responde por meio de três parábolas (21,28-22,14); os adversários buscam um motivo para acusá-lo através da apresentação de três questões discutidas: sobre imposto, ressurreição e maior mandamento (22,15-40); e Jesus propõe-lhes a questão decisiva: sobre Messias, filho de Davi (22,41-46); e diante da incapacidade dos adversários de reconhecê-lo como Messias, Jesus pronuncia o veredicto de Deus sobre os líderes de Israel e sobre Jerusalém (23,1-39). Mas o que aparece nestes capítulos com mais claridade é o enfrentamento posterior entre a comunidade de Mt e o judaísmo quando a ruptura entre ambos já havia tido lugar; aparece também que a Igreja cristã é a herdeira das promessas feitas a Israel (Mt 21,43).           

A parábola dos dois filhos que lemos no texto do evangelho deste domingo tem uma função similar à parábola do filho pródigo de Lc (Lc 15,11-32) embora cada evangelista a desenvolva diversamente. A mesma parábola também é o eco do Sermão da Montanha que enfatiza o fazer do que o dizer (Mt 7,21-23; cf. Mt 12,50;23,3-4).          

Mt começa a parábola com a pergunta: “Que vós parece?” (v.28a). Esta pergunta é típica de Mt (cf. Mt 17,25;18,12;22,17;26,66). A pergunta não é mais dirigida aos discípulos, mas aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo, os mesmos interlocutores da unidade anterior (cf. Mt 21,23-27). A pergunta obriga os ouvintes a comprometer-se e a tomar posição. A resposta à pergunta torna-se um julgamento para os ouvintes. E no fim da parábola, mais uma vez, os mesmos interlocutores são obrigados a escolher “qual dos dois fez a vontade do pai?” (v.31). A resposta dada a estas perguntas pelos ouvintes será sua salvação ou seu juízo. 

Nossa Fala Não Pode Ultrapassar Nossa Ação 

Antes de tirar a mensagem da parábola, primeiramente, temos que fazer uma leitura da parábola dentro do contexto da comunidade de Mateus, que é uma comunidade mista (judeus e pagãos convertidos), para a qual ele escreveu seu evangelho. Na parábola o pai pede a um filho (primeiro filhos) para que va à vinha, mas este filho não aceita o pedido. Porém, arrependido ele vai. Este filho representa, na verdade, os povos pagãos que viviam sob a influência dos mitos, das crenças livres, da lei do mais forte e portanto, estavam longe do Reino de Deus. Quando ouviram dos discípulos de Jesus o Evangelho, os pagãos (os gregos) acreditavam com maior facilidade e rapidez do que os próprios judeus. 

Para o segundo filho, o pai faz o mesmo pedido. Ele aceita o pedido, mas não vai para a vinha. Este segundo filho representa o povo judaico. Por causa da influência dos patriarcas e dos profetas o povo judaico (na época) comprometeu-se em praticar a justiça e em ensinar o mundo para viver o bem, porém sempre foi um filho rebelde, que usou a violência e a barganha em busca da própria vantagem  e com isso acaba não praticar a justiça em nome dos interesses egoístas. Eles são religiosos, mas vivem como pagãos. Enquanto os publicanos e as prostitutas, que são considerados impuros e, por isso, estariam excluídos da salvação, acreditam no Evangelho e se convertem. Pela sua fé e conversão os publicanos e as prostitutas entrarão primeiro no Reino do que os escribas, fariseus, anciãos e sumos sacerdotes (Mt 21,31-32). É uma grande ironia: os pecadores acreditam e se convertem, mas os “religiosos”, os supostos “puros” não aceitam as palavras de repreensão e advertência e não querem se converte, pois se acham puros e sem pecado. O santo, o puro sempre se acha pecador; o verdadeiro pecador sempre se acha santo. Os que ficam distante da luz acham que seu corpo está limpo; os que ficam perto da luz, com facilidade percebem a sujeiro nas suas roupas e no seu corpo. É um paradoxo de uma vida religiosa.          

A parábola coloca os dois filhos em contraste. Contrasta a maneira como se dirigem ao pai: o primeiro (filho mais velho) de forma mal educada e grosseira e rebelde para os padrões comportamentais daquele tempo: “Não quero ir”, disse ele. O segundo filho, de forma delicada e polida, não sabe dizer “não”, mas desmente tudo na prática: “Eu irei, senhor”. Mas não foi. Contrasta a atitude que tomaram: um foi e o outro não foi. E, de modo especial, contrasta a contradição entre a palavra e a ação dos dois. O primeiro filho peca por falta de educação. Ele não admite conversa ou diálogo. Mas ele vai trabalhar. O segundo, apesar de sua boa educação, apesar de seu “sim” verbal, não vai trabalhar. O pai se agrada com o “não” arrependido do filho mais velho, e não com o “sim” gentil mas mentiroso do filho mais jovem.          

Os ouvintes de Jesus não tiveram dificuldade de dar uma resposta exata à pergunta de Jesus: “Qual dos dois fez a vontade do pai?”. Sem hesitar os ouvintes responderam: o primeiro filho, isto é, aquele que falou que não iria, mas de fato foi e fez o que o pai pedia. Mas ao dar sua resposta, os próprios ouvintes (judeus) foram colocados contra a parede e se auto condenaram.          

A mensagem, portanto, é muito clara. Entre palavra e ação, a primazia é dada à ação. Entre intenção e ação, a primazia é dada à ação. O homem se salva não pelas palavras, intenções, palavras estéreis e descompromissadas, e sim por fatos concretos e precisos.         

O critério do agir é tão fundamental que a primeira denúncia que se fez dos escribas e fariseus é que o agir deles era fictício: eles agiam apenas de modo aparente, faziam de conta que agiram, mas na realidade não agiram. Desse modo eles pecaram contra os seus próprios princípios.          

Quando nós não somos fiéis à nossa palavra deixa de respeitarmos a nós mesmos e consequentemente aos outros, e a verdade não está em nós, não somos fiéis a nós mesmos, e também aos outros. Deste jeito estamos mentindo para nós mesmos e para os outros. A mentira é a defesa fácil dos fracos, que não são capazes de assumir a responsabilidade de seus atos. Triste é que o mentiroso não somente se condena a si próprio a vergonhosas contradições, mas também priva os demais do direito que têm à verdade, semeando desconfiança entre as pessoas.         

O fazer ou o agir é tão importante que Jesus Cristo pede aos discípulos o seguimento. Seguir a Jesus é agir com ele e como ele, acompanhá-lo no seu agir, é imitá-lo. Jesus chama os discípulos convidando-os a segui-Lo (Mt 4,19-22; 8,22; 9,9; 16,24; 19,21.27).         

Então, o que importa não é aquele que se comporta bem que se salva, mas sim quem cumpre a vontade de Deus. O que conta diante de Deus não são as aparências, nem as boas intenções ou palavras, mas a PRÁTICA. Deus olha para o que de fato fazemos, não importa o que pensamos ou dizemos. Em Deus e diante de Deus o homem vale pelo que faz e não pelo que fala. Neste sentido, o que importa não é a conversão externa, mas sim a atitude interior. E aquele que honra a Deus, não é aquele que observa uns ritos exteriores, mas sim aquele que põe em prática a vontade de Deus. Por isso, devemos ficar sempre atentos para que a nossa prática religiosa ou nossos ritos exteriores, não seja mais importante do que nosso Deus e nosso próximo.         

Por isso, o maior escândalo de nossos tempos é a separação da religião da vida. Reza-se, mas não se vive o que se reza. Canta-se mas não se vive o que se canta. Recebe-se a Eucaristia, mas não se vive a comunhão fraterna. Dobra-se os joelhos diante do sacrário, mas despreza-se o irmão, o corpo vivo e imagem de Cristo. Numa ocasião o Papa Paulo VI disse: “O grande pecado da moderna cristandade é o vazio entre a fé e as obras. É o pecado de ser ilógico, inconsciente e infiel”.           

O Evangelho de Mateus enfatiza muito a questão do AGIR. O critério definitivo para Jesus é o agir. A regra decisiva do discernimento é a distinção entre o falar e o agir. Por isso, os verdadeiros discípulos são os que agem, que praticam a vontade de Deus. Ao contrário, os falsos discípulos são aqueles que falam palavras bonitas, mas não fazem nada. Por isso, Jesus diz, no sermão do monte: “Nem todo aquele que me diz ‘Senhor, Senhor’ entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que pratica a vontade do meu Pai” (Mt 7,21). Da mesma maneira, o verdadeiro profeta se reconhece pelos frutos (Mt 7,16-20). 

É Preciso Ter Uma Posição Certa 

Pela sua atitude os dois filhos merecem uma repreensão. Um em atitude de revolta, ofende o pai com resposta grosseira: “Não vou!”. No entanto, ele tem uma vantagem sobre o outro filho que é hipócrita. Ele erra, mas não mente. Quando este filho descobriu a verdade maior, isto é, os motivos do pai, ele é capaz de mudar. Ele foi trabalhar.  Quem se opõe, de verdade, pelo menos, tem uma opção ou deve ter uma opçãp, pois ninguém se opõe por opor-se. Se não tiver uma opção, ao menos, terá que ter uma posição clara. Ninguém se opõe para manter o comodismo ou algumas vantagens pessoais. Quem tem uma posição clara é capaz de defender o seu ponto de vista. Mas quem procura a verdade, é capaz de largar o ponto de vista a partir de um momento em que a verdade está em destaque. Porque cada ponto de vista é apenas visto de um ponto. É preciso ter um pouco de uma visão multidimensional de uma realidade para errar menos. É preciso mudar para crescer e avançar. “O triste não é mudar de ideia. O triste é não ter ideia para mudar” (Francis Bacon, filósofo britânico). 

A hipocrisia e a mentira são piores que a insurreição (contra a ordem preestabelecida com o objetivo de derrubá-la). O homem moderno, dentro e fora da Igreja, tem uma grande sensibilidade para tudo que é autêntico em teoria e em prática, e uma irrefutável aversão contra tudo o que é falsidade, hipocrisia e afetação de virtude.

A pergunta de Jesus “O que vos parece?” é dirigida a cada um de nós. Você se parece com qual dos dois filhos? O que Jesus não aceita é a atitude hipócrita e santarrão dos que se creem melhores do que os demais sem necessidade de mudança alguma. Prefere o longo caminho, cheio de liberdade e de fracassos, de buscas de novos horizontes a causa de seu inconformismo com a vida que os rodeia à comodidade dos que dizem “sim” a tudo, mas não se comprometem com nada.          

A parábola dos dois filhos é um convite para fazermos o sério exame de consciência sobre o nosso agir diário. As nossas palavras nunca podem ultrapassar o nosso agir para não sermos chamados de cristãos falsos ou hipócritas: religiosos, mas não cristãos. Os cristãos falsos podem possibilitar ou facilitar o surgimento do ateísmo nas pessoas inocentes. Muitos, que se dizem ateus, acreditam em Deus e não nas suas caricaturas. Se não nos convertermos continuamente, o mundo vai repetir as palavras de Mahatma Gandhi: “Eu aceito o vosso Cristo, mas não aceito o vosso cristianismo”. Precisamos abandonar a religião das aparências para assumir a religião da responsabilidade. Precisamente, através da parábola no evangelho de hoje, Jesus ataca diretamente a religião com práticas puramente exteriores, formais, tradicionais sem senso crítico, que não afetam o interior da pessoa e sua responsabilidade e seu compromisso social. Jesus adverte, muitas vezes, os escribas, sacerdotes e dirigentes religiosos de um dos perigos que ameaçam os “profissionais” da religião: falam muito de Deus e acreditam pouco n´Ele e acham que sabem tudo d´Ele, pregam em Seu nome a lei para os outros, a ordem e a moral, mas não vivem conforme acreditam (cf. Mt 23,2-7). Há pessoas muito “religiosas” que desprezam os outros, acusam, ameaçam e até condenam em nome de Deus. 

Jesus termina a parábola com as seguintes palavras terríveis: “Em verdade vos digo que os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus.”. Os que aparentemente têm pouco a ver com Deus estão frequentemente mais próximos de Deus do que os teólogos e sacerdotes e os que se acham “religiosos”, pois entendem a Palavra de Deus t tocam seu coração para voltar ao caminho de Deus que é o caminho da salvação. 

A verdadeira religião está enraizada na consciência de cada um, que não só sabe distinguir entre o bem e o mal, mas luta para que o bem supere o mal, para que a verdade prevaleça sobre a mentira e todo tipo de fake-news e para que o amor (a Deus e ao próximo) ocupe o lugar do ódio e do egoísmo e de todos os interesses egoístas.                                          

P. Vitus Gustama,SVD

Quarta-feira Da XXVI Semana Comum, Ano Par, 30/09/2026

SEGUIR A JESUS INCONDICIONALMENTE, APESAR DAS CRUZES, PARA ALCANÇAR A LIBERDADE PLENA Quarta-Feira Da XXVI Semana Comum Primeira Leitura...