quarta-feira, 22 de julho de 2026

Quinta-feira Da XVI Semana Comum, Ano Par, 23/07/2026

DEUS NOS FALA ATARVÉS DE NOSSA VIDA E DE SUAS OBRAS

Quinta-Feira Da XVI Semana Comum

Primeira Leitura: Jr 2,1-3.7-8.12.13

1 A palavra do Senhor foi-me dirigida, dizendo: 2 “Vai e grita aos ouvidos de Jerusalém. Isto diz o Senhor: Lembro-me de ti, da afeição da jovem, do amor da noiva, de quando me seguias no deserto, numa terra inculta. 3 Israel, consagrado ao Senhor, era como as primícias de sua colheita; todos os que dele comiam, pecavam; males caíam sobre eles”, diz o Senhor. 7 “Eu vos introduzi numa terra de pomares, para que gozásseis de seus melhores produtos, mas, apenas chegados, contaminastes o país e tornastes abominável minha herança. 8 Os sacerdotes nem perguntaram onde está o Senhor. Os versados na Lei não me reconheceram, e os chefes do povo voltaram-me as costas, os profetas profetizaram em nome de Baal e correram atrás de coisas que para nada servem. 12 Ó céus, espantai-vos diante disso, enchei-vos de grande horror”, diz o Senhor. 13 “Dois pecados cometeu meu povo: abandonou-me a mim, fonte de água viva, e preferiu cavar cisternas, cisternas defeituosas que não podem reter água”.

Evangelho: Mt 13, 10-17

Naquele tempo, 10 os discípulos aproximaram-se e disseram a Jesus: “Por que tu falas ao povo em parábolas?” 11 Jesus respondeu: “Porque a vós foi dado o conhecimento dos mistérios do Reino dos Céus, mas a eles não é dado. 12 Pois à pessoa que tem, será dado ainda mais, e terá em abundância; à pessoa que não tem, será tirado até o pouco que tem. 13 É por isso que eu lhes falo em parábolas: porque olhando, eles não veem, e ouvindo, eles não escutam, nem compreendem. 14 Deste modo se cumpre neles a profecia de Isaías: ‘Havereis de ouvir, sem nada entender. Havereis de olhar, sem nada ver. 15 Porque o coração deste povo se tornou insensível. Eles ouviram com má vontade e fecharam seus olhos, para não ver com os olhos nem ouvir com os ouvidos, nem compreender com o coração, de modo que se convertam e eu os cure’. 16 Felizes sois vós, porque vossos olhos veem e vossos ouvidos ouvem. 17 Em verdade vos digo, muitos profetas e justos desejaram ver o que vedes, e não viram, desejaram ouvir o que ouvis, e não ouviram”.

---------------------------

Ser Responsável Pelos Outros Na Comunidade

Os sacerdotes nem perguntaram onde está o Senhor. Os versados na Lei não me reconheceram, e os chefes do povo voltaram-me às costas, os profetas profetizaram em nome de Baal e correram atrás de coisas que para nada servem”, é o oráculo do Senhor através do profeta Jeremias que lemos na Primeira leitura.

Com o texto da Primeira leitura começam os primeiros oráculos de Jeremias que é correspondente à primeira atividade do profeta entre os anos 627 e 622 a.C, quando teve lugar a reforma deuteronômica  do rei Josias.

Segundo Jr 1,2 Jeremias (nascido entre 650 e 645 a.C), ainda adolescente, recebeu sua vocação no décimo terceiro ano do reinado de Josias (640-609 a.C) em 627 a.C aproximadamente. Mas a consagração de Jeremias aconteceu desde a sua concepção: “... antes de teu nascimento, Eu já te havia consagrado, e te havia designado profeta das nações(Jr 1,5). Na concepção dos hebreus, Deus vai realizando no seio materno como que uma tarefa de coser, de textura. Deus vai configurando, “tecendo” a criança no útero. Não somente profeta para o povo de Israel e sim profeta das nações, profeta universal, profeta para todos.

O profeta Jeremias é um homem que experimenta a paixão e a posse do afeto inquebrantável de Deus. É um profeta de coração aberto, que deixa transparecer sua grandeza e sua fragilidade e sua tragédia. Ele, filho de um sacerdote, era de origem rural do povo de “Anatot, no território de Benjamin” (Jr 1,1) cerca de seis quilômetros  a nordeste de Jerusalém. Aparecem no livro de Jeremias três grandes reis: Josias, Joaquim e Sedecias. No reinado dos três reis é que Jeremias desempenhou seu ministério profético.

Jeremias começou a pregar como profeta em Anatot e posteriormente em Jerusalém em torno do ano 622 a.C no ano (ano de euforia) em que Josias dá início a uma reforma religiosa que prescrevia a centralização do culto em Jerusalém.

Nos inícios de seu ministério profético, Jeremias prega contra a idolatria instalada em Judá, especialmente sob o reinado de Ezequias. A boa parte da mensagem do profeta Jeremias consiste em denunciar os pecados do povo que são desobediência, infidelidade e rebeldia contra Deus. Para isso Jeremias tem que enfrentar os profetas da corte que sistematicamente dão razão ao poder, em vez de defender o povo. Jeremias depara com um culto hipócrita, a prática das injustiças sociais e a idolatria. Suas denúncias são dirigidas ao povo, porém algumas, especificamente, são dirigidas ao rei, aos falsos profetas e aos sacerdotes. Para Jeremias, o castigo, como consequências desses pecados será a invasão do “inimigo do norte”.

O conteúdo da pregação de Jeremias era extraordinariamente agressivo e injurioso para seus contemporâneos . Descreve-se em seis verbos: quatro de destruição, dois de construção: “arrancar e derrubar”, “arruinar e demolir”; e logo a seguir, a proposta de esperança: “construir e plantar” (Jr 1,10). Para Jeremias, era muito difícil transmitir tal mensagem. Jeremias sente sua fraqueza, sua fragilidade e sua pequenez: “Sou uma criança, um adolescente”. Mas Deus dá-lhe uma garantia: “Não tenhas medo de ninguém: Eu estou contigo para te libertar(Jr 1,8).

Porém, como foi dito, a denúncia e o castigo não são a única nem a última palavra na pregação do profeta Jeremias. O objetivo principal de suas denúncias é provocar a conversão ou a volta para o Senhor. Em vista disto, Jeremias anuncia a conversão e a salvação para os que vivem deportados. Para os que residem em Jerusalém, a salvação significa submeter-se ao jugo babilônico. A mensagem final será como a semente num campo, germe de esperança (Jr 31,27-34).

Na sua teologia, Jeremias se descreve como um homem predestinado desde o seio materno (Jr 1,5). Ele é um homem chamado a ser profeta tanto para o povo como para as nações (Jr 1,5). Toda a sua vida é assinalada pelo colorido da influência de Deus (por exemplo, em Jr 16 fala-se do celibato). Jeremias não é somente um pregador, mas também um intercessor (Jr 18,20; 42,2). Ele sofre com o povo (Jr 8,18-21), mas sofre também por causa do povo, pois alguns do povo fazem Jeremias sofrer de modo particular. Nas suas palavras, Jeremias quer recordar ao povo que Yahweh é o Deus da Aliança que tirou o povo do Egito (Jr 2,6) e concedeu-lhe a terra. Para jeremias, o verdadeiro conhecimento de Deus não está no culto e sim na justiça (Jr 22,16). Jeremias convida à conversão de coração, pois o pecado está enraizado no coração (Jr 3,12). A consequência da conversão é que Deus realizará a restauração, isto é, criará algo novo (Jr 31,22). O próprio Deus juntará o que resta e o conduzirá à terra prometida (Jr 23,3) e firmará uma ova aliança que produzirá uma transformação interior (Jr 31,31s). Jerusalém será reconstruída a partir de um rebento da dinastia davídica (Jr 23,5; 33,15). Dentro de tudo isto é que podemos entender as mensagens do profeta Jeremias.

O que está em jogo no texto da Primeira leitura  de hoje é sobre o que Deus fez pelo Seu povo e a atitude do povo diante das obras de Deus em favor do povo.

O profeta Jeremias faz uma recordação sobre o amor de Deus pelo povo: libertou o povo da escravidão do Egito e conduziu o povo com carinho para a terra prometida.

Como respondeu o povo eleito? Na travessia do deserto, depois da saída do Egito, o povo amava a Deus com o amor de noiva e seguia Deus: “Lembro-me de ti, da afeição da jovem, do amor da noiva, de quando me seguias no deserto, numa terra inculta”. O deserto é o lugar da provação e da tentação. Mas para os profetas Oseias (Os 2,16) e Jeremias, o deserto é o lugar da lua-de-mel do Senhor com seu povo, sem deuses rivais.

Porém, logo depois que o povo eleito entrou em Canaã se sucederam as infidelidades: profanaram a Aliança com todo tipo de idolatria. As classes dirigentes: os sacerdotes, os doutores da lei, os pastores e os profetas foram os primeiros em desviar-se de seu dever de dirigentes do povo ao dar mau exemplo para todos: Os sacerdotes nem perguntaram onde está o Senhor. Os versados na Lei não me reconheceram, e os chefes do povo voltaram-me às costas, os profetas profetizaram em nome de Baal e correram atrás de coisas que para nada servem”. O povo eleito abandonou o Deus libertador e Promotor da fraternidade humana para seguir deuses vãos porque nada valem cujas exigências são alienantes e afastam todos da tarefa humana.

O ataque de Deus é dirigido ao povo e sobretudo, aos dirigentes que são responsáveis pela infidelidade da comunidade. O dever dos dirigentes consistia em detectar as exigências concretas de Deus em cada tempo, porém nem sequer exortaram o povo a mudar de conduta e trabalhar de acordo com o espirito da Aliança. O agradecimento pelas obras de Deus (pela libertação do Egito e condução para a terra prometida) deveria comprometer a trabalhar pela libertação plena de todos. Mas a classe dirigente abandona o povo de Deus para pensar nos próprios interesses e vantagens.

As palavras ditas por Deus através da boca do profeta Jeremias foram ditas mais ou menos seiscentos anos antes de Cristo, porém são palavras ditas pelo Deus vivente hoje e aqui para nós. Estas palavras nos interpelam seriamente. Temos mantido nosso primeiro amor a Deus e nossa memória agradecida pelos benefícios contínuos de Deus em nosso favor? Será que temos sido fieis aos nossos compromissos batismais?

Se você é religioso ou ministro ou é encarregado de alguma responsabilidade na comunidade, será que você tem dado o bom exemplo para sua comunidade, ou escandaliza a mesma com seus maus exemplos, como aconteceu na época do profeta Jeremias? Como é que o seu modo de liderar: com arrogância, com humildade, com sabedoria, com equilíbrio, com responsabilidade? Não nos esqueçamos de que nossa espiritualidade é cristã. Espiritualidade cristã significa viver a vida e trabalhar de acordo com o Espírito de Jesus. É adotar na nossa vida sua maneira de viver, tornar nossas suas atitudes e levar adiante sua obra apesar das cruzes de cada dia.

Uma pessoa só pode ser chamada de responsável quando sua vida e sua atuação na Igreja são orientadas pelos valores cristãos. Quanto mais convertido for alguém, mais responsável se tornará. A conversão e a responsabilidade são duas coisas inseparáveis. O irresponsável na sua missão deixa de ser cristão apesar de ser chamado de coordenador, de ministro, de presidente e assim por diante. Todo ato autenticamente responsável está em comunhão com os valores. Quem vive de acordo com a responsabilidade jamais se torna escândalo para os demais.

O essencial para qualquer responsável na comunidade é que ele seja mais servidor do que chefe, mais líder do que comandante. Quem tem tendência de dominar e mandar é porque precisa aparecer ou porque deseja privilégios ou prestígios. Este tipo de líder será sempre um mau responsável porque não procura, antes de tudo, ser servidor.

Deus Nos Fala Através de Nossa Vida e De Seus acontecimentos

Estamos ainda no terceiro discurso de Jesus sobre o Reino de Deus em parábolas (Mt 13). Para a multidão entender a realidade do Reino de Deus Jesus usa parábolas da vida cotidiana como comparação.

No texto do evangelho de hoje os discípulos lançaram a seguinte pergunta para Jesus: “Por que tu falas em parábolas ao povo?”. As parábolas de Jesus têm claridade e pedagogia para fazer entender sua intenção para todos, menos aos que não querem entendê-las.

Na sua resposta Jesus enfatiza que Deus é “mistério”. A palavra “mistério” é usada no AT, a partir de Daniel, para denotar uma realidade dos tempos finais que Deus somente pode revelar (Dn 2,27-30.47), a realidade de um Reino eterno (Dn 2,44). Por Deus ser mistério trata-se, por isso, de uma realidade difícil de entender e de conhecer. Na sabedoria judaica (Sb 6,17-22) e fontes especialmente apocalípticas, o conceito sobre o mistério denota a revelação dos modos e propósitos de Deus, particularmente o fim do pecado e de governantes pecadores e estabelecimento do reinado de Deus sobre todas as coisas devolvendo a criação para a sua ordem original (Dn 2,27-28). Estes mistérios não podem ser conhecidos fora da ação reveladora de Deus. Os mistérios (de Deus) são escondidos da maioria (cf. Mt 11,25). Os segredos revelados a alguns reforçam a existência e identidade distintiva do grupo.

Jesus conhece o mistério de Deus. Ele sabe que as coisas do Espírito necessitam de uma certa sensibilidade para poder captar seu sentido. Deus não está no nível das coisas. Deus não é da ordem das coisas. O mistério de Deus, em toda sua riqueza, não é uma verdade que se impõe para a inteligência humana. É um mistério que somente se dá aos que estão dispostos a escutar. Por isso, o ouvinte tem que se esforçar para escutar. Escutar é ouvir com atenção. É participar da mensagem ouvida para entender seu recado. É estar no outro para entender e compreender aquilo que ele quer transmitir.

Olhando, eles não veem e, ouvindo eles não escutam nem compreendem”. É a segunda razão dada por Jesus. As multidões não entendem as parábolas porque elas não entendem Jesus. Há duas maneiras de “ver” e de “ouvir”. Há um modo estritamente material: eu ouço palavras ditas por alguém, ruído de vozes etc. E outro modo é o modo espiritual; é “ver” e “ouvir” com o coração.  Ver e ouvir” é discernir o império de Deus no mistério de Jesus. “Não ouvir” é não acreditar nem seguir a Jesus (Mt 7,26; 10,14). Conhecer os mistérios do Reino dos céus” é o conhecimento da vontade do Pai, a participação no seu amor mútuo com o Filho (Mt 11,25-30). Mistério é o desígnio de Deus na história.

O mistério de Deus somente é entendido com o coração. Deus cabe no é não acreditar nosso coração e não na nossa cabeça. É preciso compreender tudo com o coração. Quando calarmos a inteligência, o coração começará a compreender. O coração entende e compreende aquilo que a razão desconhece.

Pois à pessoa que tem, será dado ainda mais, e terá em abundância; à pessoa que não tem, será tirado até o pouco que tem.”, acrescentou Jesus. Os discípulos têm fé em Jesus e por isso,, eles estão dispostos a acolher o que Jesus revela. Deus é dom sem fim. A única medida ao Seu dom desmedido é abertura de nossos desejos ao dom dado. Quanto mais for aberto o homem diante de Deus, mais dons ele receberá. Ao contrário “à pessoa que não tem, será tirado até o pouco que tem.”. Quem não tem desejo para os dons de Deus, não recebe dom. quem se fecha na autossuficiência, esteriliza-se sempre mais. O que impede de receber dom de Deus é o coração afogado nos próprios interesses, que tornam os ouvidos lentos para escutar e os olhos fechados à luz que ilumina e aquece. O Senhor quer nos curar e espera nossa abertura diante de dom de Deus.

Toda nossa vida é uma parábola na qual Deus está escondido e pela qual Deus nos fala. Um pode ficar no exterior das coisas e dos acontecimentos, ou pode “ouvir” e “ver” Deus no fundo e na profundidade dos acontecimentos da vida. Uma pessoa com coração sempre vê além das coisas, pois o coração entende e sente aquilo que a inteligência desconhece. Com efeito, uma pessoa que “vê” e “ouve” com coração os acontecimentos de cada dia, capta as mensagens de Deus e vive com mais sabedoria e prudência. Mas aquele que vive sem coração, vê apenas as coisas negativas e reclama da vida apesar de ela ser um dom de Deus. Aquele que vê e ouve com coração vê longe e vê além das aparências. Aquele que vê e ouve com coração compreende os outros e entende o significado do silêncio do outro.

Uma pessoa com coração é uma pessoa profunda, próxima, compreensiva, capaz de ir ao fundo das coisas e dos acontecimentos. Uma pessoa com coração não é dominada pelo sentimentalismo e sim é uma pessoa que alcançou uma unidade e uma coerência, um equilíbrio e uma maturidade. Ela nunca é fria, mas cordial, nunca é cega diante da realidade, mas realista, nunca é vingativa, mas pronta para perdoar e para reconciliar-se.  A espiritualidade do coração é uma verdadeira espiritualidade, pois inclui a oração, a conversão, a escuta do Espírito, o cuidado para o próximo, a compaixão, a solidariedade e a partilha. o amor transforma tudo que é pesado em leveza e a oração se torna prazerosa.

Felizes sois vós, porque vossos olhos veem e vossos ouvidos ouvem. Em verdade vos digo, muitos profetas e justos desejaram ver o que vedes, e não viram, desejaram ouvir o que ouvis, e não ouviram”, disse Jesus aos seus seguidores. Os olhos dos simples são os que descobrem os mistérios do Reino e o sentido da vida, em geral e de cada acontecimento em particular. Jamais acontecerá isso para os olhos dos arrogantes ou complicados. Recebemos de Deus o dom da fé com o qual somos capacitados a descobrir o sentido das coisas, pois a “fé é a antecipação daquilo que se espera e a certeza daquilo que não se vê” (Hb 11,1).

A revisão de vida consiste, por isso, em “olhar de novo” com os olhos da fé, os acontecimentos, que na primeira vez eram vistos com um olhar simplesmente humano, para entender os “recados” de Deus para cada um de nós em particular e para a humanidade toda, em geral. Esta revisão é necessária, pois também pode acontecer conosco aquilo que Jesus disse: “... olhando, eles não veem, e ouvindo, eles não escutam, nem compreendem”. Muita das vezes, não queremos ouvir ou entender algo porque , no fundo, não nos interessa em aceitar o conteúdo daquilo que ouvimos ou que vemos. Não há pior surdo do que aquele que não quer ouvir e não há pior cego do que aquele que não quer ver. Porventura, fazemos caso, cada dia, da Palavra de Deus que ouvimos/escutamos? Será que nos deixamos interpelar por ela quando ela se torna exigente para nossa maneira de viver? Nós, que temos ouvido a Palavra de Deus, devemos dar mais frutos do que os outros que nunca ouviram diretamente a Palavra de Deus. Se levássemos a sério a Palavra de Deus que temos escutado, nossa vida seria bastante distinta e faríamos diferença na família, na comunidade, no trabalho e na sociedade em geral.

Felizes sois vós, porque vossos olhos veem e vossos ouvidos ouvem. Dai-nos, Senhor, uns olhos novos e uns ouvidos finos, para podermos ver e entender seus mistérios na nossa vida.

P. Vitus Gustama,svd

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Santa Maria Madalena, festa, 22/07/2026

MARIA MADALENA:

SEU AMOR E SEU PRANTO POR JESUS

22 de Julho

----------------------

Primeira Leitura: Ct 3,1-4a

Eis o que diz a noiva: 1 Em meu leito, durante a noite, busquei o amor de minha vida: procurei-o, e não o encontrei. 2 Vou levantar-me e percorrer a cidade, procurando pelas ruas e praças, o amor de minha vida: procurei-o, e não o encontrei. 3 Encontraram-me os guardas que faziam a ronda pela cidade. “Vistes porventura o amor de minha vida?” 4ª E logo que passei por eles, encontrei o amor de minha vida.

Evangelho: Jo 20,1-2.11-18

1 No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo. 2 Então ela saiu correndo e foi encontrar Simão Pedro e o outro discípulo, aquele que Jesus amava, e lhes disse: “Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram”. 11 Maria estava do lado de fora do túmulo, chorando. Enquanto chorava, inclinou-se e olhou para dentro do túmulo. 12 Viu, então, dois anjos vestidos de branco, sentados onde tinha sido posto o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés. 13 Os anjos perguntaram: “Mulher, por que choras?” Ela respondeu: “Levaram o meu Senhor e não sei onde o colocaram”. 14 Tendo dito isto, Maria voltou-se para trás e viu Jesus, de pé. Mas não sabia que era Jesus. 15 Jesus perguntou-lhe: Mulher, por que choras? A quem procuras?” Pensando que era o jardineiro, Maria disse: “Senhor, se foste tu que o levaste dize-me onde o colocaste, e eu o irei buscar”. 16 Então Jesus disse: “Maria!” Ela voltou-se e exclamou, em hebraico: “Rabunni” (que quer dizer: Mestre). 17 Jesus disse: “Não me segures. Ainda não subi para junto do Pai. Mas vai dizer aos meus irmãos: subo para junto do meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus”. 18 Então Maria Madalena foi anunciar aos discípulos: “Eu vi o Senhor”, e contou o que Jesus lhe tinha dito.

____________________

O que procurais? (Jo 1,38); A quem procuras? (Jo 20,15).

Maria Madalena: Do Seu Primeiro Encontro com Jesus. Este é um dos personagens bíblicos escritos pelo famoso escritor libanês, Khalil Gibran, no seu livro: Jesus, o Filho do Homem. No encontro com Maria Madalena, Khalil Gibran colocou na boca de Jesus as seguintes palavras dirigidas a Maria Madalena: “Tu tens muitos amantes; entretanto só eu te amo. Os outros homens amam a si mesmos quando te procuram. Eu ti amo por ti mesma. Os outros homens veem em ti uma beleza que desaparecerá mais cedo do que seus próprios anos. Mas eu vejo em ti uma beleza que não esmaecerá e, no outono dos teus dias, esta beleza não terá receio de olhar-se no espelho, e não será ofendida. Somente eu amo o que não se vê em ti”.

Khalil Gibran colocou na boca de Maria Madalena as seguintes palavras como sua reação diante da pessoa e das palavras de Jesus: Então, levantou-se e olhou-me como as estações devem olhar para os campos, e sorriu. E disse novamente: ‘Todos os homens te amam por si mesmos. Eu te amo por ti mesma’. E afastou-se, caminhando. Eu não sabia, mas naquele dia o poente de Seus olhos matou o dragão que havia em mim, e tornei-me uma mulher, tornei-me Miriam”.

Celebramos no dia 22 de julho a festa de Maria Madalena. “Maria” significa “preferida por Deus”. Seu sobrenome “Madalena” é o nome da cidade onde ela nasceu, situada na orla do mar da Galileia.

Dela sabemos muito pouco, mas os traços, que nos oferece o evangelho, nos permitem adentrarmos no mistério de “um amor muito mais forte do que a morte”, como nos relatou o episódio do evangelho lido neste dia. A frase “Encontrei o amor de minha vida” que nos diz o Livro do Cântico dos Cânticos parece-nos apropriada para resumir a trajetória pessoal de Maria Madalena. Quem experimenta o amor de Cristo vê as coisas de outra maneira, vê a morte da vida velha ou vê a morte da vida passada para experimentar a vida nova. Por causa dessa nova visão a pessoa acaba mudando de vida (maneira de viver). Maria Madalena viveu essa experiência em seu encontro pessoal com Jesus. Tão profundo e tão decisivo foi o primeiro encontro com Jesus que tornou a vida de Maria Madalena uma busca incessante do Bem Maior que é Jesus Cristo como relatou o evangelho deste dia. Somente busca o Bem Maior aquele que foi encontrado pelo Bem Maior. Parece-nos que o Salmo Responsorial foi feito para esse fim: “A minha alma tem sede de vos, Senhor, minha carne também vos deseja como terra sedenta e sem água!... Vosso amor vale mais do que a vida, e por isso, meus lábios vos louvam (Sl 62/63,1-2).

Que o amor que transformou Maria Madalena em uma buscadora do Senhor fica patente na pergunta que o Ressuscitado lhe dirigiu: “Mulher a quem procuras?”. Chamam nossa atenção duas coisas. A primeira é que esta pergunta-chave é precedida por outra pergunta: “Mulher, por que choras?”. Como se a intensidade da busca/procura fosse proporcional à magnitude da perda. Somente choramos por aquilo que nos afeta profundamente, seja por causa da tristeza profunda, seja por causa da alegria profunda, seja por causa da partida de uma pessoa tão amada. O pranto de Maria Madalena é um certificado de um amor direto ao coração. Choramos por causa de alegria profunda como choramos por causa de uma tristeza profunda. O choro é a única linguagem capaz de expressar tudo que sentimos profundamente em lagrimas que nenhuma outra língua capaz de expressar.

O pranto de Maria Madalena, como o de Pedro durante a Paixão é fruto de uma descoberta da verdade. Por isso, trata-se de um pranto salutar, de um pranto que exprime o que não pode ser expresso por nenhuma palavra humana. O pranto de Maria Madalena nasce do sentimento de pertença. Ela chora por estar em relação com Jesus que em determinado momento desaparece. Ela tem sentimento de pertencer a Cristo, a relação com define sua vida. Ela é como é agora por causa de Cristo que devolveu sua dignidade.

A segunda coisa que chama atenção é a mudança de termos. Para o pranto se busca uma causa: “Por que choras?”. Ou “Por qual razão tu choras”. O que se busca na pergunta é a causa do pranto. Mas para a busca se faz referência a uma pessoa: “A quem procuras?”. Maria Madalena não busca um ideal, não uma causa pela qual lutar, não busca um sentido, pois tudo isto vem por acréscimo. Maria Madalena busca Aquele que, olhando-a de outra maneira, restituiu-a em sua dignidade de mulher. Ela busca Aquele a Quem seguia pelos caminhos da Galileia em companhia de outros homens e mulheres. Ela busca Aquele que foi cravado em uma madeira e abandonado quase por todos, exceto ela e a própria mãe de Jesus e algumas outras pessoas (cf. Jo 19,25). Ela busca Aquele que lhe garante um futuro seguro. Ela busca Aquele que tem a última palavra para sua vida e sua morte. Ela busca Aquele que é capaz de lhe dar a serenidade apesar de estar no meio das tempestades desta vida.

“Jesus lhe disse: ‘Maria’”. Jesus escolhe a maneira mais pessoal e a mais imediata: chama-a pelo nome “Maria”. Aqui, neste texto, Jesus manifesta sua ternura por Maria Madalena através de duas frases: primeira, através da pergunta: “Mulher, por que choras?”, e a segunda: Jesus chama Maria pelo nome: “Maria”. Ternura é amor respeitoso, delicado, concreto, atento, alegre. Ternura é amor sensível, eficaz, vitorioso, desarmado e desarmante, e aberto à reciprocidade. Chamar alguém pelo nome revela uma intimidade, amizade e familiaridade. Quando consideramos o outro como amigo, nós o chamamos pelo nome e não pelo título).

Para cada um de nós Deus tem nome, por anônima que seja uma pessoa na sociedade. E Deus nos chama pelo nome: “Eu te chamo pelo nome, és meu”, disse Deus para cada um de nós (Is 43,1). “Eis que estás gravada na palma de minhas mãos, tenho sempre sob os olhos tuas muralhas”, acrescentou Deus (Is 49,16). Quando estivermos dominados pelas preocupações, pelo medo, pela tristeza, pelo desespero, pela confusão; quando trilharmos pelo caminho errado, quando compactuarmos com o mal ou com a maldade; quando ficamos irritados, nervosos com a vontade de destruir tudo, Deus nos chama pelo nome: Maria, Valéria, Mônica, Bernardo, Lucas, João, José...! Deus quer nos dizer: “Ei.. Estou aqui! Não estás Me vendo? Dirige teus olhos para Mim, e não para o túmulo de tua vida!”.

Merecem nossa atenção e nossa meditação para duas perguntas essenciais encontradas no evangelho de João para nossa vida e nossa peregrinação neste mundo: “O que realmente você está procurando neste mundo?”. Esta pergunta é feita por Jesus logo no início do evangelho de João: “Que estais procurando?”. É a pergunta dirigida aos primeiros discípulos no evangelho de João (Jo 1,37). 

Parece-me que dedicamos bastante tempo de nossa vida em função da procura do “o quê” de nossa vida. Uma vez Oscar Wilde escreveu: “Neste mundo só há duas tragédias: uma é não se conseguir o que se quer, a outra é conseguir”. Mas no fim confessamos que o dinheiro e o poder não satisfazem aquela fome sem nome que temos na alma. Carl Gustav Jung escreveu no seu livro: O Homem Moderno à Procura de Uma alma, escreveu: “O problema de cerca de um terço de meus pacientes não é diagnosticado clinicamente como neurose, mas resulta da falta de sentido de suas vidas vazias. Isto pode ser definido como a neurose geral de nossa época”. O que nos frustra e tira nossa alegria de viver é a ausência do significado de nossa vida. Nossa alma não está sedenta de poder, de fama, de popularidade, de conforto, de propriedades e assim por diante. Nossa alma tem fome do significado da vida, ou de aprendermos a viver de tal modo que nossa existência ou nossa passagem neste mundo tenha importância ou significado capaz de modificar ou de melhorar o mundo, pelo menos, ao nosso redor.

Através dessa primeira pergunta o evangelista João nos dirige para a pergunta essencial que ele coloca no fim do seu evangelho. A pergunta é esta: “A quem procuras?”. De fato, as coisas, as riquezas, os bens materiais mesmo que os possuamos, eles continuam sendo alheios a nós. Eles jamais serão nossos próximos. No fim confessamos que estamos procurando Alguém capaz de nos salvar de uma vida vazia. A resposta que o evangelista nos dá é Jesus: “Jesus fez ainda, diante de seus discípulos, muitos outros sinais, que não se acham escritos neste livro. Esses, porém, foram escritos para crerdes que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo 20,30-31; cf. Jo 10,10; 14,6).

O que estais procurando?” e “A quem estais procurando?”. Como é que você pode colocar em equilíbrio estas duas perguntas na sua vida cotidiana para que sua vida realmente tenha sentido? Você enfatiza mais na pergunta “O que estais procurando?” ou “A quem estais procurando?”. Pela experiência sabemos que na idade avançada o que o homem ou mulher precisa mais é a presença de alguém ao seu lado e não mais da riqueza material. Para uma pessoa avançada em idade a riqueza não diz mais nada para ela. Nesta altura ela precisa muito da companhia: “A quem estais procurando?”. A solidão dói e a companhia consola, cura e fortalece.

Deixe De Me Segurar

“Não me segures. Ainda não subi para junto do Pai. Mas vai dizer aos meus irmãos: subo para junto do meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus”.

Esta é a última frase do Senhor ressuscitado dirigida a Maria Madalena: “Não me segures!”. Outras traduções: “Solte-me!”. Ou  Deixa de tocar-me”. E na mesma linha há explicação de Jesus: “Ainda não subi para junto do Pai”. Através destas duas frases quer-se afirmar que a partir de agora as relações com Jesus Ressuscitado não poderão continuar sendo como eram antes. Exclui-se o contato físico, espacial, temporal, e inicia-se um novo tipo de relações com o Senhor que serão distintas e de maior intimidade, expressas no Evangelho de João através da fórmula da imanência mútua: Eu em vocês e vocês em Mim.

E Jesus ressuscitado acrescenta: “Ainda não subi para junto do Pai”. Para são João evangelista, a Cruz já é a Glória: é hora de Jesus de transferir-se deste mundo ao Pai (Jo 13,1). Como podemos entender, então, que mesmo Ressuscitado e ainda não está com o Pai? Na verdade, o Filho já subiu ao Pai. Com a sua morte, foi preparar-nos um “lugar” e prometeu que viria para nos levar Consigo, para que também nós estejamos onde Ele está (Jo 14,2s). Agora que é Ressuscitado, cumpre a promessa: volta para nós com a força do seu Espírito, para que também nós possamos ir lá onde Ele está desde sempre (Jo 1,1-3). Portanto, a “saída” ao Pai da qual fala aqui não é tanto a sua e sim a dos seus irmãos, aos quais mostrou o caminho (Jo 14,4). É impossível reter Jesus para conduzi-lo para nosso caminho. Houve esta tentativa da parte de Pedro e ele foi chamado de satanás por Jesus (cf. Mt 16,22-23). Devemos seguir a Jesus para chegar à Casa do Pai celestial.

Maria Madalena recebeu o encargo de Jesus Ressuscitado para anunciar aos discípulos que “subo para junto do meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus”. É uma afirmação muito profunda e interessante. É o Filho que introduz os discípulos numa relação nova com o Pai (Jo 1,12). É claro que a paternidade de Deus não é um fato natural e sim um privilégio concedido aos discípulos (Jo 16,27; 14,21.23).

Deus é o Pai nosso e nós todos somos filhos e filhas de Deus e portanto todos nós somos irmãos e irmãs.

Para Refletir:

“Onde é que Te encontrei para poder conhecer-Te (Senhor)? Não estavas na minha memória antes de eu Te conhecer. Onde, então, Te encontrei, para conhecer-Te, senão em Ti mesmo, acima de mim?

Eis que habitavas dentro de mim e eu Te procurava do lado de fora! Tu me chamaste, e Teu grito rompeu a minha surdez. Fulguraste e brilhaste e Tua luz afugentou a minha cegueira. Espargiste tua fragrância e, respirando-a, suspirei por Ti. Eu Te saboreei, e agora tenho fome e sede de Ti. Tu me tocaste, e agora estou ardendo no desejo de Tua paz.

Fizeste-nos para Ti, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em Ti. Dá-me, Senhor, saber e compreender qual seja o primeiro: invocar-Te ou louvar-Te... Quem O procura O encontra, e, tendo-O encontrado, O louvará”.  (Santo Agostinho. Confissões, X,26-27; I,1). 

P. Vitus Gustama,svd

Terça-feira Da XVI Semana Comum, Ano Par, 21/07/2026

PARA TRANSFORMAR A FAMILIA HUMANA EM FAMÍLIA DE DEUS É NECESSÁRIO CONVERTER-SE E VIVER SEGUNDO A PALAVRA DE DEUS

Terça-feira da XVI Semana Comum

Primeira Leitura: Mq 7,14-15.18-20

14 Apascenta o teu povo com o cajado da autoridade, o rebanho de tua propriedade, os habitantes dispersos pela mata e pelos campos cultivados; que eles desfrutem a terra de Basã e Galaad, como nos velhos tempos. 15 E, como foi nos dias em que nos fizeste sair do Egito, faze-nos ver novos prodígios. 18 Qual Deus existe, como tu, que apagas a iniquidade e esqueces o pecado daqueles que são resto de tua propriedade? Ele não guarda rancor para sempre, o que ama é a misericórdia. 19 Voltará a compadecer-se de nós, esquecerá nossas iniquidades e lançará ao fundo do mar todos os nossos pecados. 20 Tu manterás fidelidade a Jacó e terás compaixão de Abraão, como juraste a nossos pais, desde tempos remotos.

 Evangelho: Mt 12, 46-50

Naquele tempo, 46 enquanto Jesus estava falando às multidões, sua mãe e seus irmãos ficaram do lado de fora, procurando falar com ele. 47 Alguém disse a Jesus: “Olha! Tua mãe e teus irmãos estão aí fora, e querem falar contigo”. 48 Jesus pergun­tou àquele que tinha falado: “Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos?” 49 E, estendendo a mão para os discípulos, Jesus disse: “Eis minha mãe e meus irmãos. 50 Pois todo aquele que faz a vontade do meu Pai, que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”.

__________________

Deus é Misericordioso Em Quem Devemos Confiar e a Quem Devemos Voltar

Deus não guarda rancor para sempre, o que ama é a misericórdia. Voltará a compadecer-se de nós, esquecerá nossas iniquidades e lançará ao fundo do mar todos os nossos pecados”, assim disse o profeta Miqueias para o povo, que lemos na Primeira Leitura.

Com o texto de hoje terminamos a leitura do profeta Miqueias. O profeta Miqueias fala para alentar o povo eleito e para estimulá-lo a manter firme sua fé em Yahweh (Deus), pois tendo fé em Deus os tempos primitivos cheios de prodígios voltarão, sem medo aos ataques do inimigo nas fronteiras do Carmelo, de Basã e Galaad. Tendo a fé neste Deus, o povo verá novamente os prodígios de Deus como os que se narraram na época do êxodo (Cf. Êx 14-15).

O profeta Miqueias acredita que a potência das nações inimigas não pode destruir a obra de Yahweh, que é seu povo, o povo eleito por Deus entre as nações. O fundamento desta esperança está na fé na misericórdia de Deus, por puro dom, capaz de apagar a iniquidade do povo eleito e de perdoar o pecado.

Por isso, podemos entender que o texto nos apresenta uma oração humilde cheia de confiança em Deus da misericórdia. Na vivência religiosa da história do povo de Israel há uma forte dose de medo a Deus. Em meio deste sentimento de medo, também palpita uma experiência religiosa de confiança na misericórdia divina.

No texto de hoje, o profeta Miqueias, na sua oração, suplica a Deus que não abandone seu povo, mas que realize nele as promessas, de maneira que Israel, agora triste e abatido, possa refazer sua vida. Trata-se de uma oração humilde, cheia de confiança em Deus que o profeta Miqueias nos oferece hoje.

“Apascenta o teu povo com o cajado da autoridade, o rebanho de tua propriedade, os habitantes dispersos pela mata e pelos campos cultivados; que eles desfrutem a terra de Basã e Galaad, como nos velhos tempos”. O contexto deste texto é a saída do povo eleito do Egito. O povo eleito se sente como um rebanho no meio de uma floresta onde não se encontra nenhuma pastagem. Trata-se de um rebanho perdido sem guia. Nisto surge um pedido para que Deus continue sendo o Pastor para que o povo encontre uma “pastagem” abundante (Cf. Sl 23: o Senhor é o meu Pastor). Diante deste pedido muito humilde do povo, Deus se mostra benevolente, e renova outra vez os pródigios do êxodo.

Como é bom reconhecermos com humildade de que, às vezes, nossa vida fica sem rumo a exemplo do povo eleito. Quantas vezes nos sentimos perdidos diante de determinadas situações. Mas para Deus nada é perdido. Basta nos dirigirmos a Ele é que vamos encontrar o caminho de volta para a nova pastagem abundante de nossa vida. Se formos capazes de invocar a Deus como o nosso Guia diário, nunca faltaremos a orientação para nossa vida.

No mesmo tom o salmista do Salmo Responsorial de hoje (Sl 84/85) pede a Deus: “Renovai-nos, nosso Deus e Salvador, esquecei a vossa mágoa contra nós! Ficareis eternamente irritado? Guardareis a vossa ira pelos séculos? Não vireis restituir a nossa vida, para que em vós se rejubile o vosso povo? Mostrai-nos, ó Senhor, vossa bondade, concedei-nos também vossa salvação!”.

Nesta oração, também, o profeta fala para alentar o povo e estimulá-lo a manter fé em Deus, e o povo verá prodígios de Javé como os que narram da época do êxodo (Mq 7,14-15). O fundamento da esperança está na fé na misericórdia de Javé que apaga a iniquidade e perdoa o pecado.

O profeta traça as características de Javé em que o povo deve confiar. Javé é como o pastor que irá reconhecendo as ovelhas de Israel que andam perdidas. Javé repetirá os prodígios que fez quando libertou o povo da escravidão do Egito. Javé não castigará o povo, mas perdoa, pois ele é a misericórdia. Javé “lançará ao fundo do mar todos os nossos pecados”. Do abismo de nossa miséria, sob o peso de nosso hábitos difíceis de vencer, como é bom saber que, quando nos arrependermos, Deus lança todos os nossos pecados ao fundo do mar e os desaparecerão para sempre. É um esquecimento total da parte de Deus. É uma verdadeira anistia que o profeta Miqueias nos anuncia hoje: “Ele não guarda rancor para sempre, o que ama é a misericórdia. Voltará a compadecer-se de nós, esquecerá nossas iniquidades e lançará ao fundo do mar todos os nossos pecados”. Efetivamente, nossa segurança é esta constante ação de Deus ao longo da história chamada misericórdia.

Através do texto de hoje o profeta Miqueias nos recorda da misericórdia de Deus para que o medo nunca obscureça a certeza de que a misericórdia do Senhor prevalece como resposta esperançada e libertadora do pecador. Sempre há conversão do pecador, há perdão de Deus, porque Deus é compassivo e misericordioso. Deus não quer a morte do pecador e sim que se converta e viva. Quando o homem arrependido retornar a Deus, ele encontrará sempre os braços do Pai, que sente ternura pelos seus filhos, como o filho pródigo que voltou para a casa paterna e foi recebido com os braços abertos do pai (cf. Lc 15,11-32). A misericórdia é a palavra-chave para indicar o agir de Deus para conosco... A misericórdia de Deus é a sua responsabilidade por nós. Ele sente-Se responsável, isto é, deseja o nosso bem e quer ver-nos felizes, cheios de alegria e serenos. E, em sintonia com isto, se deve orientar o amor misericordioso dos cristãos. Tal como ama o Pai, assim também amam os filhos. Tal como Ele é misericordioso, assim somos chamados também nós a ser misericordiosos uns para com os outros”, escreveu o Papa Francisco na Bula Misericordiae Vultus (n.9d).

É Preciso Transformar a Família Humana Em Família Divina Para Que Seja Salva

Todo aquele que faz a vontade do meu Pai, que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”, disse Jesus.

A maior parte das religiões do mundo se apoia na família, comunidade natural. Jesus edifica sua comunidade não sobre as relações familiares, e sim sobre uma comunidade de tipo seletivo em virtude da fé para elevar a família humana para a família de Deus. Elevar a família humana para a família de Deus significa salvá-la. Para divinizar a família humana é preciso que Deus seja o centro de cada família e é preciso que cada membro viva de acordo com a Palavra de Deus. Por isso, podemos viver no céu já aqui na terra, quando nossa vida é fundada sobre a Palavra de Deus. É o céu aqui na terra.

A evolução do mundo técnico tende a tirar o homem de suas comunidades naturais para submergi-lo em comunidades mais “artificiais” ou “mais seletivas”. Por isso, a família vive, muitas vezes, de maneira dramática o conflito das gerações que caracteriza a nossa época. Os pais rezam melhor em companhia de seus amigos do que em família, com seus filhos e familiares. Mas se todos se preocuparem com a vontade de Deus ao praticar o bem, ao viver o amor fraterno, o único que nos edifica, humaniza e diviniza, acabarão salvar a comunidade natural que é a família humana. Por isso, Jesus afirma hoje: “Todo aquele que faz a vontade do meu Pai, que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mt 12,50).

O verbo “fazer” é característico da narração do evangelista Mateus. Os fariseus dizem e não fazem (Mt 23,3.15). Unir-se a Cristo não significa outra coisa que fazer a vontade de seu Pai. No evangelho de São João Jesus fala de outra maneira sobre a mesma coisa: “Vós sois meus amigos se praticais o que vos mando” (Jo 15,14). Trata-se de uma família ou uma comunidade de Deus, e por isso, de uma comunidade de salvação.

No cristianismo, o mais importante são os fatos, os fatos de vida, as demonstrações práticas de que cremos em um Deus Pai e Amor. No cristianismo, o mais importante são os testemunhos vivos de que confiamos tanto em Deus. O mais importante no cristianismo é a fraternidade vivida dia a dia, junto a cada homem e sua necessidade concreta, sua dor pessoal, sua necessidade básica e específica. Por isso, Orígenes dizia: “Tu que segues a Cristo e o imitas, tu que vives na Palavra de Deus.... Não é um lugar onde há que buscar o santuário e sim nos atos, na vida, nos costumes... Se são de acordo com a vontade de Deus, pouco importa que estes em casa, ou na rua, pouco importa, inclusive, que te encontres no teatro; se serves ao Verbo de Deus, estás no Santuário, sem dúvida alguma!”.

Jesus, por sua encarnação, entrou no mundo e formou parte de nossa humanidade, de uma verdadeira humanidade, com os laços de sangue e de cultura. Ele se tornou humano para nos divinizar. Ele nasceu numa família para santificar a família. Ele viveu em um país determinado, Palestina; tinha uma mãe, Maria. Essas realidades humanas têm grande importância, constituem realmente o lugar de nossa vida.

Quem é minha mãe? Quem são meus irmãos?”, pergunta Jesus. A pergunta não significa um desprezo de Jesus à sua mãe, Maria. Maria sempre cumpriu a vontade de Deus: “Eu sou a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra(Lc 1,38). Ela foi chamada pelo anjo Gabriel de “cheia de graça” e que ela “está com o Senhor(Lc 1,28). Além disso, ninguém amou Sua mãe melhor que o próprio Jesus. E nenhuma mãe amou melhor seu Filho, Jesus Cristo, Deus-Conosco do que a própria Maria, a mãe de Jesus. Ela acompanhava seu filho Jesus até ao pé da cruz, enquanto muitos discípulos o abandonaram (Jo 19,25-27).

É claro que a resposta de Jesus para a própria pergunta mostra que Jesus relativiza os vínculos familiares em função da vontade de Deus. Com esta pergunta Jesus quer nos revelar algo muito importante: o discípulo, cada cristão, cada cristã que vive os ensinamentos de Jesus é um parente de Jesus. Jesus oferece aos homens a qualitativa intimidade de sua família. A família humana de Jesus viveu conforme a vontade de Deus: José que criou Jesus era chamado de “o justo”, aquele que vive segundo os mandamentos de Deus (cf. Mt 1,19). Maria, a Mãe de Jesus foi chamada pelo anjo de “cheia de graça” (cf. Lc 1,28).

Por isso, a família humana de Jesus serve de exemplo para todas as famílias humanas. Que é possível formar uma família de Deus nesta terra quando Jesus se torna o centro de todos. Quando Jesus fica no meio, tudo se ordena e tudo se une e todos formarão um círculo de irmãos ao redor de Jesus Cristo. Quando Cristo se torna o centro, todos ficarão olhando para Ele para saber o que se deve fazer e como se deve fazer. Se alguém ocupar o centro, que é o lugar de Cristo, todos terão um olhar sem direção ou cada um vai criando sua própria direção. “Onde te envaideceste, ali mesmo caíste” (Santo Agostinho. Serm. 131,5). Jesus Cristo deve ser o fator central para que todos tenham a mesma direção: formar uma família divina logo nesta terra onde o amor fraterno é a única identidade para todos: “Nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros” (Jo 13,35). “Quando se enfraquece o amor, também se enfraquece o fervor”, dizia Santo Agostinho (In ps. 85,24). A única maneira de salvar a família humana ou qualquer comunidade é transformá-la em família de Deus, família que vive de acordo com os mandamentos de Deus.

Entre Deus e os homens já não há somente relações frias de obediência e de submissão como entre o patrão e o empregado. Com Jesus entramos na família divina, como seus irmãos e irmãs, como sua mãe. Se em todos os meus atos e atitudes de cada dia, se em todos os minutos de minha vida procurar me manter unido a Deus, serei irmão de Jesus, farei parte da família de Deus desde aqui na terra junto aos outros irmãos e irmãs no mundo inteiro que fazem a mesma coisa.

Todo aquele que faz a vontade do meu Pai, que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”. O texto nos convida a pensarmos sobre a maneira como podemos pertencer ao grupo de Jesus e ser parte de sua verdadeira família a qual nos unimos se assumirmos seu projeto, isto é, se nos comprometermos na construção do Reino de Deus com uma atitude profética, que não cale diante da dor e do sofrimento e que grite firmemente contra a fome, a miséria, a opressão, a hipocrias e a injustiça, contra o egoísmo e a morte dos inocentes fruto da exploração dos que se acham poderosos, contra a falta de compromisso com os empobrecidos e contra a insensibilidade diante da realidade cruel que vivemos. Ser parte da família de Jesus é, definitivamente, compartilhar sua vida e seu projeto. O Reino de Deus cria uma nova família que ultrapassa todos os laços terrenos sem diminuir o valor da família. A vivência da vontade de Deus eleva a família humana para o nível divino. Por isso, a frase de Jesus acima citada deve servir de orientação para nossa vida diária. Será que faço parte da família de Jesus?

P. Vitus Gustama,svd

sábado, 18 de julho de 2026

Segunda-feira Da XVI Semana Comum, Ano Par, 20/07/2026

CRER NUM DEUS MISERICORDIOSO E APRENDER A ENXERGAR DEUS ATRAVÉS DO SINAIS COTIDIANOS

Segunda-Feira Da XVI Semana Comum

Primeira Leitura: Mq 6,1-4.6-8

1 Ouvi o que diz o Senhor: “Levanta-te, convoca um julgamento perante os montes e faze com que as colinas ouçam tua voz”. 2 Ouvi, montes, as razões do Senhor em juízo, escutai-o, fundamentos da terra; a pendência do Senhor é com seu povo, ele disputa em juízo contra Israel. 3 “Povo meu, que é que te fiz? Em que te fui penoso? Responde-me. 4 Eu te retirei da terra do Egito e te libertei da casa da servidão, e pus à tua frente Moisés, Aarão e Maria”. 6 “Que oferta farei ao Senhor, digna dele, ao ajoelhar-me diante do Deus altíssimo? Acaso oferecerei holocaustos e novilhos de um ano? 7 Acaso agradam ao Senhor carneiros aos milhares e torrentes de óleo? Porventura ofertaria eu o meu primogênito, por um crime meu, o fruto do meu sangue pelos pecados da minha vida?” 8 Foi-te revelado, ó homem, o que é o bem, e o que o Senhor exige de ti: principalmente praticar a justiça e amar a misericórdia, e caminhar solícito com teu Deus.

Evangelho: Mt 12,38-42

Naquele tempo, 38 alguns mestres da Lei e fariseus disseram a Jesus: “Mestre, queremos ver um sinal realizado por ti”. 39 Jesus respondeu-lhes: “Uma geração má e adúltera busca um sinal, mas nenhum sinal lhe será dado, a não ser o sinal do profeta Jonas. 40 Com efeito, assim como Jonas esteve três dias e três noites no ventre da baleia, assim também o Filho do Homem estará três dias e três noites no seio da terra. 41 No dia do juízo, os habitantes de Nínive se levantarão contra essa geração e a condenarão, porque se converteram diante da pregação de Jonas. E aqui está quem é maior do que Jonas. 42 No dia do juízo, a rainha do Sul se levantará contra essa geração, e a condenará, porque veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão. E aqui está quem é maior do que Sa­lomão”.

----------------------------

Chamados a Criar Silêncio Para Ouvir Deus Que Nos Chama à Conversão

Ouvi o que diz o Senhor: ‘Levanta-te, convoca um julgamento perante os montes e faze com que as colinas ouçam tua voz’”, lemos na Primeira Leitura tirada do profeta Miqueias. 

Como já se sabe que “Miqueias”, em hebraico, significa “Quem é como Javé (Yahweh)?”.  Um nome semelhante é “Michael” (Miguel): “Quem é como Elohim?”. Para o profeta Miqueias o Deus de Israel é incomparável, pois Ele perdoa a iniquidade e se esquece da transgressão (Cf. Mq 7,18). Em outras palavras, Deus é misericordioso que está do lado do pecador e não do pecado. Essa ideia proporciona a base para o pensamento e a proclamação do profeta em todo seu livro.

Miqueias viveu em tempos do rei Acaz (736-716 a.C) e Ezequias (716-687 a.C), e, portanto, foi contemporâneo do profeta Isaías, chamado por Deus para fazer ouvir Sua Palavra nos difíceis tempos anteriores à ruina de Judá. Do profeta Miqueias conhecemos, sobretudo, seu oráculo sobre Belém que lemos no Advento, porque anuncia que deste pequeno povo sairá aquele que governará e apascentará Israel (Mq 5,1; Mt 2,6).

Miqueias se enfrenta com os poderosos de sua época e denuncia com valentia seus despropósitos, pois os poderosos abusam do poder, tramam iniquidades, são cobiçados pelos bens alheios, roubam enquanto puderem, oprimem os demais, são idiólatras de si mesmos (egolatria). E,  consequentemente, o profeta Miqueias anuncia-lhes o castigo de Deus.

Miqueias coloca a cena desta denúncia em forma de uma estrutura judicial: O juiz (Deus), o acusador (Deus), e o acusado (o povo). Deus acusa o povo que não correspondeu aos benefícios recebidos de Deus na história de sua salvação até então. Estes benefícios, entre os quais, são a libertação do Egito, a bênção em vez de maldição por parte de Balaão, o mago, a derrota do rei Moab, passagem pelo rio Jordão e posse da terra prometida. A fidelidade de Deus, cerne de toda a história da salvação, exige a fidelidade do povo. Deus quer que o povo guarda bem tudo isso no seu coração (re-cor-dar). A partir da recordaçao  o povo vai compreender a ação de Deus na história do povo eleito. Tudo isso deveria levar o povo a praticar a justiça e a misericórdia para mostrar que o povo está andando com Senhor.                                                            

Miqueias não pode ficar em silêncio diante da infidelidade e das injustiças que são cometidos pelos poderosos (econômicos e políticos) contra Seu povo. O texto de hoje constitui uma chamada à conversão, a fazer o que é reto diante dos olhos do Senhor. Em sua reflexão, Miqueias quer mostrar ao povo a incoerência de seu comportamento diante de Deus. Com este fim, Miqueias se apresenta em primeiro lugar como o porta-voz de Deus diante do país. Deus tem um pleito, uma causa pública com seu povo. O povo, com seu comportamento injusto, mostra não reconhecer a retidão da atuação de Deus em sua história passada quando resgatou o povo da escravidão do Egito. Por isso, Deus lança as seguintes perguntas retóricas: Povo meu, que é que te fiz? Em que te fui penoso? Responda-me!”. O povo não pode ou não consegue responder. Miqueias convoca o povo para que faça sua reflexão: olhar suas próprias injustiças em contraste com a retidão e fidelidade de Deus. A ignorância ou o esquecimento da história, que recorda a atuação de Deus, não justifica o comportamento injusto do povo. A injustiça não é questão de esquecimento. O homem leva consigo o juízo de suas obras, enquanto sabe, e lhe é ensinado quais são obras boas e obras más. Para Miqueias, o culto se torna vazio de sentido, quando se pratica a injustiça social.

Por isso, o que Deus exige, através da boca do Profeta Miqueias, é defender e respeitar o direito e amar a fidelidade ou lealdade que se resumem na fiel e humilde obediência ao Senhor.

Uma experiência profunda com Deus nos leva a não separarmos o ato litúrgico da justiça social para com os pobres e débeis. Por isso, podemos entender a seguinte convocação do profeta Miqueias: “Ouvi o que diz o Senhor: ‘Levanta-te, convoca um julgamento perante os montes e faze com que as colinas ouçam tua voz... Ouvi, montes, as razões do Senhor em juízo, escutai-o, fundamentos da terra’”, assim disse o profeta Miqueias na Primeira Leitura.

Na Bíblia, os montes são um dos lugares escolhidos para os encontros com Deus: Monte de Sinai, Monte de Tabor, Monte Sião, Monte do Carmelo, Monte das bem-aventuranças e assim por diante. Todas as montanhas de Palestina desempenharam um papel do simbolismo do encontro com Deus. Na montanha se encontra o ar mais puro, mais vivificante, o silêncio fecundo, de grandes espaços; a impressão de imutabilidade, de fortaleza, de um vigor superior à fragilidade humana. Montanha é o lugar de topo, próximo do céu, lugar para o qual há que subir para ter uma visão ampla sobre a realidade. Montanha é o lugar onde há silêncio para possibilitar  o diálogo com Deus para que se alcance o vigor superior às fragilidades humanas e as visõe s de mediocridade. Ver tudo a partir de Deus ganha uma visão ampla sobre a vida e seus acontecimentos. Para esta situação é que o povo é convocado. No texto de hoje, Deus toma as montanhas como testemunha para o juízo que quer fazer contra Seu povo: “Ouvi, montes, as razões do Senhor em juízo, escutai-o, fundamentos da terra”.

Os perigos do poder e do dinheiro continuam sendo atuais. Em nosso mundo e nosso tempo continuamos presenciando a exploração e o abandono dos débeis, dos pobres, dos últimos, e presenciamos as injustiças flagrantes, as corrupções desenfreadas cometidas frequentemente, o abuso do poder para o próprio interesse da parte dos poderosos e dos políticos sem escrúpulo. Todo corrupto é preguiçoso, pois ele não quer trabalhar muito para ganhar muito. Ele trabalha o mínimo possível para ganhar o máximo por meios desonestos.

Precisamos estar conscientes de que a vida leva em si mesma os próprios princípios da retidão, pois a vida é um dom de Deus, veio do Deus Justo e fiel. A vida vinda de Deus é pura e imaculada. Por isso, a injustiça não é questão de esquecimento, pois o homem leva consigo o juízo de suas obras e sabe quais são as obras boas que devem ser feitas e as obras más que devem ser evitadas: “Foi-te revelado, ó homem, o que é o bem, e o que o Senhor exige de ti: principalmente praticar a justiça e amar a misericórdia, e caminhar solícito com teu Deus”. A lei de Deus não está escrita em um papel e sim no coração do homem. Nenhum homem é capaz de se mentir a si mesmo. O próprio homem é a testemunha da própria vida. Se a vida que vem de Deus é pura e imaculada, logo a vida deve voltar para Deus do jeito que veio: pura e imaculada. Fora disso significa a exclusão da salvação eterna.

Tudo Na Vida Fala De Deus. É Preciso Criar o Silêncio Para Captar Seu Significado

“Mestre, queremos um sinal realizado por Ti”. Este é o pedido dos escribas e fariseus para Jesus. É uma pergunta com intenção de investigar Jesus e até de refutar Jesus.

Percebendo a malícia dos escribas e fariseus, Jesus logo os chama de “geração má e adúltera”. “Geração má” é a geração que pratica a maldade, que não aceita a compaixão e a justiça. É “Geração adúltera”, porque, para manter os privilégios, essa geração adulterava a lei (Is 10,1-2) e oprimia o povo (Mt 23,1ss). O adultério, na crítica de Jesus, é toda a alteração dos princípios fundamentais da justiça para obter ganhos. É sacrificar a justiça em nome do dinheiro.

“... nenhum sinal lhe será dado, a não ser o sinal do profeta Jonas”. O sinal de Jonas serve de paradigma para os os escribas e fariseus (investigadores). No livro de Jonas conta-se que Jonas prefere morrer a aceitar a proposta de Deus de ir até Nínive para converter os ninivitas. Para Jonas, os ninivitas merecem a morte, a vingança e o ódio, porque eles dominaram o Reino de Samaria em 722 a.C. Por isso, aqui, Jonas serve de o arquétipo do judeu duro, como os escribas e fariseus em geral, vingativo e sem espaço para o perdão. Jonas chegou a fazer tentativa de suicidar ao jogar-se ao mar do que ir a Nínive para converter aquela cidade. Mas Deus quer salvar todos os homens e quer a conversão de todos antes que o julgamento final aconteça.

Em profeta Jonas encontram-se duas coisas opostas. Encontra-se a resistência do homem diante de Deus. Mas encontra-se também a misericórdia infinita de Deus por todos. Em Deus não encontra a inimizade, pois "Deus é amor" (1Jo 4,8.16). No fim da caminhada Jonas reconhece a misericórdia de Deus. Jonas, contra a sua vontade, foi profeta da misericórdia. Jesus é maior do que Jonas, pois Jesus é a própria misericórdia de Deus que se doa para salvar todos os homens.

Sempre estamos tentados em fazer para Deus esta pergunta: “Senhor, queremos um sinal realizado por Ti”. Além disso, queremos ainda mais fazer uma ladainhas de perguntas para Deus. Por que Deus não escreveu seu Nome no céu para o ser humano ler e acreditar nele sem dificuldade? Por que Ele não nos dá uma prova expressa de Sua existência de maneira que nossa dúvida se torne impossível? Assim os ateus, os pagãos e os adeptos de qualquer religião ficariam tranquilos? Por que Deus não faz, então, este sinal? Simplesmente porque Deus não é o que pensamos.

A imagem de Deus que temos nem sempre é o próprio Deus. Até acontece muitas vezes que ficamos mais com uma suposta imagem de Deus do que com o próprio Deus. Agarramos, muitas vezes, uma suposta imagem de Deus do que o próprio Deus.  Deus é um Deus de amor (1Jo 4,8.16), e estamos sempre tentados a atribui-lhe outro papel. Deus não quer ser servidor dos caprichos dos homens. Deus é diferente e é o Diferente por excelência.

O sinal de Deus, por excelência, é a morte de Jesus na cruz por amor aos homens (Jo 3,16; 13,1) e a sua ressurreição, pois Deus é a Vida (Jo 14,6). É o mistério pascal de Jesus Cristo.

Pedimos “sinais” a Deus.  E ele nos dá muitos sinais na nossa vida; mas não sabemos vê-los nem sabemos interpretá-los ou não temos tempo para interpretar os sinais de Deus na nossa vida. Não há nenhum dia em que Deus não dê sinal para cada um de nós. O mundo e a história estão cheios de sinais de Deus. Um dos objetivos da “revisão de vida” é o de aprender uns dos outros a ver e a ler os sinais de Deus nos acontecimentos e na própria vida de cada um de nós. Deus trabalha no mundo. Nele é que o mistério pascal continua se realizando. Deus nos dá sinais, mas são sinais discretos e não espetaculares. É preciso ter muita serenidade para captar e entender os sinais de Deus na nossa vida e os sinais que estão ao nosso redor.

Deus está tão próximo de Deus. “Estava no mundo e o mundo não O conheceu”, escreveu são João (Jo 1,10). Deus continua atuando nos olhos dos que choram pela dignidade pisada pelos demais homens, nos que sofrem por serem justos, honestos, e verdadeiros; nos que trabalham pela paz apesar da resistência diante da reconciliação; em quantos trabalham pela erradicação da fome e da pobreza apesar da exploração e da corrupção de alguns grupos insensíveis às questões sociais; em todo o homem e a mulher que procuram Deus com coração sincero apesar das dores encontradas na vida. A sua vontade de rezar e de meditar a Palavra de Deus é sinal de que o Espírito de Deus continua atuando em você. O Espírito de Deus continua atuando em você quando reza por si e pelos outros; Ele está em quantos estão sempre prontos para ajudar quem está em necessidade. Numa palavra, em tudo o que é bondade e amor, paz e bem porque tudo isto é reflexo e semente do sinal básico do sacramento perene do próprio Deus. Em tudo que aconteceu e acontece e acontecerá na nossa vida Deus quer nos dizer alguma coisa a respeito de nossa salvação, mas que nem sempre sabemos criar o silêncio para ouvir a mensagem de Deus. O silêncio é o vazio fecundo que possibilita a presença do Eterno, ou da Plenitude na nossa vida.

Jesus não quer que nossa fé se baseie unicamente nas coisas maravilhosas (milagres etc.), e sim na Sua Palavra: “Se vocês não vissem sinais, não acreditariam(Jo 4,48). Temos sorte do dom da fé. Para crer em Jesus Cristo não necessitamos de milagres novos. Basta ter a fé, seremos felizes (Jo 20,29; cf. Hb 11,1). Sua ressurreição é suficiente para qualquer cristão. A ressurreição de Jesus é o maior de todos os milagres que nos leva a termos a esperança de que temos um futuro com Deus. A fé não é ciosa de provas exatas, nem se apóia em novas aparições nem em milagres espetaculares ou em revelações pessoais. Jesus já nos felicitou: “Felizes os que crêem sem terem visto” (Jo 20,29). Deus está muito mais no nosso coração do que na nossa cabeça. O coração sente aquilo que os olhos não vêem. Deus cabe no nosso coração e não na nossa cabeça.

O Concilio Vaticano II, através de um dos seus famosos documentos, chamado Gaudium et Spes, afirma: é dever da Igreja investigar a todo o momento os sinais dos tempos, e interpretá-los à luz do Evangelho; para que assim possa responder, de modo adaptado em cada geração, às eternas perguntas dos homens acerca do sentido da vida presente e da vida futura, e da relação entre ambas. É, por isso, necessário conhecer e compreender o mundo em que vivemos, as suas esperanças e aspirações, e o seu caráter tantas vezes dramático” (GS, no.4).

P. Vitus Gustama,svd

Quinta-feira Da XVI Semana Comum, Ano Par, 23/07/2026

DEUS NOS FALA ATARVÉS DE NOSSA VIDA E DE SUAS OBRAS Quinta-Feira Da XVI Semana Comum Primeira Leitura: Jr 2,1-3.7-8.12.13 1 A palavra ...