domingo, 20 de setembro de 2026

Terça-feira Da XXV Semana Comum, Ano Par, 22/09/2026

SER MEMBRO DA FAMÍLIA DE JESUS E VIVER DE ACORDO COM A PALAVRA DE DEUS É VIVER NA SABEDORIA

Terça-Feira da XXV Semana Comum

Primeira Leitura: Provérbios 21,1-6.10-13

1 O coração do rei nas mãos do Senhor é como água corrente; ele o dirige para onde quer. 2 O homem pensa que o seu caminho é sempre reto, mas é o Senhor quem sonda os corações. 3 Praticar a justiça e o direito é mais agradável ao Senhor do que os sacrifícios. 4 Olhar arrogante e coração orgulhoso, a lâmpada dos malvados não é senão o pecado. 5 Os projetos do homem aplicado produzem abundância, mas todos os apressados só alcançam indigência. 6 Tesouros adquiridos com língua mentirosa são ilusão passageira dos que procuram a morte. 10 A alma do malvado deseja o mal, ele olha sem piedade para o seu próximo. 11 Quando se castiga o zombador, aprende o imbecil, e quando o sábio é instruído, ele adquire mais saber. 12 O justo observa a casa do ímpio e leva os ímpios à desgraça. 13 Quem tapa os ouvidos ao clamor do pobre, também há de clamar, mas não será ouvido.

Evangelho: Lc 8,19-21

Naquele tempo, mãe e os irmãos de Jesus aproximaram-se, mas não podiam chegar perto dele, por causa da multidão. 20 Então anunciaram a Jesus: “Tua mãe e teus irmãos estão aí fora e querem te ver”. 21 Jesus respondeu: “Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus, e a põem em prática”.

____________________________

É Necessário Viver e Conviver Com Sabedoria e Discernimento

Continuamos a acompanhar as reflexões do sábio do livro dos Provérbios, cheias de sentido comum e de sensibilidade religiosa. São páginas para ler sem pressa, projetando suas gotas de sabedoria sobre nosso comportamento, e que servem como um exame de consciência para todos nós. Mesmo sendo ideias dispersas sem relação aparente entre elas, porém elas são critérios de sabedoria para a vida cotidiana para qualquer ser humano.

Por exemplo, “O coração do rei nas mãos do Senhor é como água corrente; ele o dirige para onde quer”. Mas muitas vezes, os grandes “dirigentes” ou “governantes”, ou “chefes” vivem como se não tivesse Alguém superior (Deus, o Criador) e por este comportamento acabam fazendo tudo ao seu gosto e prazer, esquecendo-se que um dia todos terminarão sua passagem neste mundo e cada um tem que prestar contas diante de Deus por tudo que fez na vida (Cf. 2Cor 5,10; Hb 9,27).

O sábio dos Provérbios nos relembra também que, O homem pensa que o seu caminho é sempre reto, mas é o Senhor quem sonda os corações”.

Frequentemente, caímos na tentação das aparências, mas é Deus quem conhece o coração humano e sabe se é sólido ou não. Já deveríamos ter a experiência de que “Tesouros adquiridos com língua mentirosa são ilusão passageira dos que procuram a morte”. E que "tesouros ganhos pela boca enganosa são a fumaça que se dissipa". Nosso conhecimento é sempre limitado e superficial. Somente Deus tem um conhecimento exato das coisas dos homens, pois “é o Senhor quem sonda os corações”.

Além disso, mais uma vez aparece uma afirmação, tantas vezes ouvida nos lábios dos profetas e do próprio Jesus, que "Praticar a justiça e o direito é mais agradável ao Senhor do que os sacrifícios”. No evangelho Jesus afirma que “amar a Deus de todo o coração, de toda a inteligência e com toda a força, e amar o próximo como a si mesmo vale mais do que todos os holocaustos e todos os sacrifícios” (Mc 12,33). As exigências de justiça e de direito são exigências divinas. Praticar a justiça e direito vale mais do que “prática religiosa”, se as práticas religiosas nao correspendem com a boa conduta diariamente.

Com efeito, o justo, biblicamente, significa aquele que é fiel aos mandamentos de Deus; aquele que tem nos anúncios dos profetas e espera com paciência seu cumprimento, pois Deus é fiel às suas promessas. É justo o homem que olha para Deus e ordena a sua vida segundo os ditames da vontade divina. É justo o homem que cumpre a Lei divina de todo coração e com sincera alegria e leveza. O justo é o homem sábio e bondoso. O justo é, portanto, uma figura ideal do homem agradável a Deus e aos homens de boa vontade.

Também somos lembrados de que um dia nos acontecerá o que vemos acontecer aos outros na sua necessidade, no entanto, não os ajudamos. Sabemos muito bem que nossa vida é uma roda que gira sem parar. Um dia estamos muito bem, outro dia nos encontramos sem força pelo peso dos problemas ou de alguma doença e dor. Nisso, a convivência fraterna nos ajuda muito nesses momentos difíceis. Por isso, o sábio nos alerta: “Quem tapa os ouvidos ao clamor do pobre, também há de clamar, mas não será ouvido”.

Com o Salmo Responsorial de hoje (Sl 118/119), rezemos a Deus que nos ensine Sua Sabedoria: “Guiai-me, Senhor, no caminho de vossos preceitos! Fazei-me conhecer vossos caminhos, e então meditarei vossos prodígios! Escolhi seguir a trilha da verdade, diante de mim eu coloquei vossos preceitos. Dai-me o saber, e cumprirei a vossa lei, e de todo o coração a guardarei. Guiai meus passos no caminho que traçastes, pois só nele encontrarei felicidade. Cumprirei constantemente a vossa lei, para sempre, eternamente a cumprirei!”. A vontade de Deus deve ser a lei suprema para cada homem, pois Deus está em todas as coisas e Seu domínio é supremo. A capacidade de “ver” Deus em todas as coisas e Sua vontade em todos os eventos é o caminho para a sabedoria, a felicidade e a paz.

Ser Praticante Da Palavra De Deus Nos Torna Membros Da Família do Senhor

 Tua mãe e teus irmãos estão aí fora e querem te ver”.

Os parentes, mãe e irmãos, querem “ver” Jesus. É muito difícil saber o significado preciso desta palavra: VER. No texto correspondente de Marcos, a intenção da família é bem precisa: buscar Jesus para levá-Lo para a casa porque pensam que ele está fora de si (Mc 3,20-21). Lucas como um evangelista fino e humano que respeita a família de Jesus suprimiu esse motivo (sobre a intenção da família em querer ver Jesus). Mesmo assim tem-se impressão de que os parentes querem monopolizar Jesus, utilizando os privilégios que lhes oferece seu parentesco. Neste contexto compreende-se a resposta da parte de Jesus: “Minha mãe e meus irmãos são aqueles, que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática”. Diante do velho parentesco de sangue, Jesus funda as bases da nova família de Seu Reino, no qual fazem parte aqueles que recebem e cumprem Sua Palavra com dois traços. Primeiro, é preciso “escutar a Palavra”, isto é, estar aberto diante da graça recebendo o dom de amor que Deus ofereceu em e através de Jesus. Segundo, há que cumprir a Palavra. Somente aquele que traduz a Palavra de Deus em sua vida faz parte da família de Jesus. Neste sentido, ser cristão significa viver no mistério do amor que Deus nos comunica como nova possibilidade de existência e de convivência fraterna. E este amor se torna um principio de nossa existência: Devemos ser pontes do amor de Deus para que ele chegue aos outros. Em Jesus e por Jesus, encarnação do amor de Deus, os homens, que escutam Sua Palavra e a vivem conforme essa Palavra, constituem uma mesma família com Jesus.

“... mas não podiam chegar perto dele, por causa da multidão. “ Para aproximar-se de Jesus não basta ser dos seus. Relata-se no texto que entre Jesus e os seus (“Tua mãe e teus irmãos), está no meio “a multidão”. A multidão está com Jesus para ouvi-Lo e segui-Lo. Os parentes de Jesus (e o próprio Isarel) para aproximar-se de Jesus devem entrar nessa multidão de discípulos. Assim contrapõe-se uma parentela segundo o Espírito a uma segundo a carne.

Por isso, em seguida Jesus afirma: Minha mãe e meus irmãos são aqueles, que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática”.

A comunidade com Jesus está no ouvir e no tornar realidade a Palavra de Deus. Maria é a mãe de Jesus por causa do seu “sim” total e absoluto, dado um dia à Palavra de Deus. “Faça-se em mim segundo a Tua Palavra(Lc 1,37), disse Maria, a mãe de Jesus na anunciação. Maria guarda cada Palavra e a medita em seu coração (Lc 2,19). Ela leva a Palavra a Isabel, e seu anúncio é tão rico que transborda em um cântico chamado “Magnificat” (Lc 1,46-55) e em alegria para quem ainda em crescimento (Lc 1,44). Maria é o coração bom que retém para irradiar a Palavra de Deus e produz fruto com constância. Maria foi um “sim” à Luz e deu a luz a Luz do mundo (Jo 8,12). Por isso, o texto do evangelho deste dia é um grande elogio de Jesus a Maria, sua mãe que entregou totalmente sua vida e sua vontade a Deus para o bem de todos. Maria escuta a Palavra de Deus, medita-a e vive de acordo com esta Palavra. Pela escuta e vivência da Palavra Maria se torna de Deus e do Povo de Deus.       

Para escutar bem precisamos criar o silêncio dentro de nós e ao nosso redor. O silêncio cria ressonância à Palavra. Para escutar bem é necessário que estejamos vazios de nós mesmos: “Estar vazio de toda criatura é estar cheio de Deus. E estar cheio de toda criatura é estar vazio de Deus” (Meister Eckhart). O silêncio é um vazio em que a plenitude se torna presente. O silêncio nos ajuda a calarmos em nós a fantasia, o nosso rancor, o nosso ódio, o nosso medo, a nossa angústia, a nossa indiferença, o nosso mau humor, a nossa inveja, o nosso orgulho, ou o nosso ser em geral, e a limparmos da alma tudo quanto nos possa perturbar para ouvir a verdade de Quem é maior que nós: Deus.        

Cada um de nós é vítima da agressão externa de hordas de palavras, de sons, de clamores, que ensurdecem o nosso dia e até mesmo, às vezes, a nossa própria noite. Somos agredidos e envolvidos pelo multilóquio mundano que, com mil futilidades, nos distrai e nos dispersa. Só depois do amor ao silêncio é que despertará a nossa capacidade de escuta.    

Quando compreendemos a Palavra de Deus como um chamado urgente para ser escutada é que conseguimos perceber melhor o que está em jogo na nossa vida. É a Palavra de Deus que nos mostra o que fazer e como fazer.

Uma comunidade somente pode ser chamada de a Igreja de Cristo, se cada um de seus membros souber viver de acordo com a Palavra de Deus. O que nos une é a vivência da Palavra de Deus e a mútua oração. O povo eleito foi formado não por decreto, mas pela escuta e pela obediência à Palavra de Deus. A Igreja de Cristo é edificada pela Palavra de Deus. A Igreja dá a igual reverência à Mesa da Palavra e à Mesa da Eucaristia. Esta é a alma da Igreja e a Igreja é seu fruto. Da Palavra de Deus brota sempre Igreja viva. Somos cristãos não por decreto, mas pela convicção e pela opção. Ser cristão significa viver no mistério de amor que Deus nos comunicou através de Jesus, Deus encarnado, a Palavra Encarnada como nova possibilidade de existência. A partir desse amor de Deus que nos é oferecido nós devemos ser ponte de amor para os outros. Os irmãos e as irmãs se reconhecem mutuamente pela mesma prática do amor fraterno, pela disposição a viver reconciliados e a trabalhar juntos pela causa de Jesus.

Além desse amor mútuo, outra característica da comunidade de Jesus é o serviço mútuo. Quando um começar a servir o outro na comunidade, todo tipo de rivalidade desaparece. Mas quando cada um começar a se considerar como o mais importante do que os outros, a disputa e a briga vão começar a acontecer na própria comunidade e a comunidade perderá sua força para dar testemunho. Se cada membro deixar de cuidar do outro membro da comunidade, a comunidade vai formar uma comunidade de traidores, como Judas que traiu o próprio Mestre. E as palavras de Mahatma Gandhi vão ter que soar novamente nos nossos ouvidos: “Aceito vosso Cristo, mas não aceito vosso cristianismo”.

Se o Senhor nos diz hoje: Minha mãe e meus irmãos são aqueles, que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática”, cada um de nós precisa se perguntar: “Será que sou mãe, irmã ou irmão de Jesus? Será que posso me dizer que sou um dos membros da comunidade de Jesus?”. Que Deus nos conceda, por intercessão de Maria, nossa Mãe a graça de viver de acordo com a Palavra de Deus para que possamos, pela misericórdia divina, alcançar os bens eternos.

A comunhão com Jesus somente se alcança na aceitação de Seu projeto, de Sua vida e de Suas palavras na própria vida e somente dele se pode construir um autentico vínculo familiar que faça indissolúvel nossa união com Ele.

P. Vitus Gustama,svd

São Mateus, Apóstolo e Evangelista, 21/09/2026

SEGUIR A JESUS PARA SER SEU DISCÍPULO-MISSIONÁRIO

FESTA DE SÃO MATEUS, APÓSTOLO E EVANGELISTA

Leitura - Ef 4,1-7.11-13

Irmãos: 1 Eu, prisioneiro no Senhor, vos exorto a caminhardes de acordo com a vocação que recebestes: 2 Com toda a humildade e mansidão, suportai-vos uns aos outros com paciência, no amor. 3 Aplicai-vos a guardar a unidade do espírito pelo vínculo da paz. 4 Há um só Corpo e um só Espírito, como também é uma só a esperança à qual fostes chamados. 5Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, 6um só Deus e Pai de todos, que reina sobre todos, age por meio de todos e permanece em todos. 7Cada um de nós recebeu a graça na medida em que Cristo lha deu. 11E foi ele quem instituiu alguns como apóstolos, outros como profetas, outros ainda como evangelistas, outros, enfim, como pastores e mestres. 12Assim, ele capacitou os santos para o ministério, para edificar o corpo de Cristo, 13até que cheguemos todos juntos à unidade da fé e do conheci mento do Filho de Deus, ao estado do homem perfeito e à estatura de Cristo em sua plenitude.

Evangelho: Mt 9,9-13

Naquele tempo: 9 Partindo dali, Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado na coletoria de impostos, e disse-lhe: 'Segue-me!' Ele se levantou e seguiu a Jesus. 10 Enquanto Jesus estava à mesa, em casa de Mateus, vieram muitos cobradores de impostos e pecadores e sentaram-se à mesa com Jesus e seus discípulos. 11 Alguns fariseus viram isso e perguntaram aos discípulos: 'Por que vosso mestre come com os cobradores de impostos e pecadores?' 12 Jesus ouviu a pergunta e respondeu: 'Aqueles que têm saúde nóo precisam de médico, mas sim os doentes. 13 Aprendei, pois, o que significa: `Quero misericórdia e não sacrifício'. De fato, eu não vim para chamar os justos, mas os pecadores'.

________________

No dia 21 de setembro celebramos a festa de São Mateus, Apóstolo e Evangelista. O seu nome hebraico significa "dom de Deus. A tradição da Igreja antiga concorda na atribuição a Mateus da autoria do primeiro Evangelho. Isto acontece já a partir de Papias (+140 d.C), Bispo de Hierápoles na Frígia por volta do ano 130. Ele escreveu: "Mateus reuniu as palavras (do Senhor) em língua hebraica, e cada um as interpretou como podia" (em Eusébio de Cesareia, Hist. eccl. III, 39, 16). Como Apóstolo Mateus está sempre presente nos elencos dos Doze escolhidos por Jesus para serem apóstolos (cf. Mt 10, 3; Mc 3, 18; Lc 6, 15; At 1, 13).

Mateus desempenhava a profissão de publicano (cobrador de impostos) e por isso era considerado pecador público (publicano), excluído da convivência. Mas tudo mudou quando Jesus o chamou: "Segue-me!". Não há nada que seja mais salvador para um pecador do que ouvir a chamada de Deus para viver novamente o caminho da felicidade e de salvação. Mateus experimentou isso. E Mateus respondeu prontamente ao chamado: ele se levantou e seguiu a Jesus. De cobrador de impostos tornou-se imediatamente discípulo de Cristo. De "último" passou a ser "primeiro", graças à lógica de Deus que amou a todos de igual maneira! A base da chamada de Deus é amor, e o amor desconhece a discriminação. Nisto percebemos que os planos humanos são totalmente diferentes do plano de Deus: "Os meus projetos não são os vossos projetos e os vossos caminhos não são os meus caminhos", diz o Senhor (Is 55, 8). Se dependesse dos planos humanos (especialmente dos fariseus e escribas) Mateus, como um publicano, jamais poderia ser discípulo do Senhor. O encontro de Jesus com Mateus, o publicano, foi um escândalo para os escribas e fariseus que andavam espiando os passos de Jesus para colocá-Lo contra o povo. Mas o Senhor chama a quem Ele quiser para estar com Ele a fim de ser seu discípulo/Apóstolo. E Mateus, que sem dúvida nenhuma, havia visto e ouvido Jesus pregando em várias ocasiões, se decidiu a abandonar seu posto de trabalho de publicano para seguir, definitivamente, a Jesus até a morte. Desde então, a casa de Mateus em Cafarnaum foi escolhida por Jesus para descansar de suas excursões apostólicas na Galileia.

Mateus é um cristão de origem judaica. Seu conhecimento do Antigo Testamento (AT), suas citações literais do AT (ao todo 44), suas alusões ao AT (cerca de 130), seus hebraísmos ou aramaísmos (cerca de 329) mostram claramente que se trata de um judeu convertido ao cristianismo. Mateus escreveu seu evangelho em língua grega entre anos 80-85 depois de Cristo, provavelmente em Antioquia da Síria, uma das mais importantes cidades do Império romano (500.000 habitantes), cidade conhecida por suas escolas, a cidade que, após a destruição de Jerusalém, se tornou a mãe das igrejas e centro de expansão do Cristianismo. Foi ali que, pela primeira vez, os discípulos de Jesus foram designados como “cristãos” (cf. At 11,26). E foi de Antioquia que Paulo e seus companheiros empreenderam as três viagens missionárias (cf. At 13,1-3). Destinatários do seu evangelho são cristãos convertidos do judaísmo e cristãos convertidos do gentilismo (paganismo). Isso indica que a comunidade destinatária é mista. O evangelho de Mateus possui 28 capítulos com um total de 1.068 versículos e 18.278 palavras.

O Evangelho de Mateus ocupa o primeiro lugar na sequência atual dos livros do Novo Testamento, porque o evangelho de Mateus foi o Evangelho mais lido, mais comentado, mais rezado e mais divulgado nos dois primeiros séculos do Cristianismo. Mateus é o evangelho preferido da Igreja dos primórdios. “De todos os escritos do Novo Testamento, o Evangelho de Mateus foi o que exerceu a influência mais generalizada e profunda na literatura cristã que vai até as últimas décadas do século II” (E. Masseax). Prova disto é o uso de Mateus feito pela Didaquê, o primeiro catecismo cristão escrito entre os anos 90-100 depois de Cristo: o Pai-Nosso que ali encontramos se baseia sobre Mt 6,9-13 (e não sobre Lc 11,2-4); os seis primeiros capítulos de Didaquê são profundamente influenciados pelo Sermão da Montanha (Mt 5,1-7,29). Prova desta mesma influência são os numerosos comentários que surgiram sobre Mateus nos primeiros séculos: Hipólito de Roma (+235 d.C); Orígenes (+254 d.C); Santo Ambrósio (+397 d.C), São Jerônimo (+420 d.C); Santo Agostinho (+ 430 d.C) e assim por diante. Somente a partir do século III, o Evangelho de Lucas começou a ser aceito por todas as comunidades. Dai porque as festas da Ascensão e Pentecostes (que constam apenas em Lucas) apareceram pelo ano 350 d.C.

Mateus é representado por um anjo ou homem alado porque inicia o seu evangelho com a genealogia de Jesus Cristo, mostrando a sua origem e descendência humanas, marcados pelo seu nascimento (Cf. Mt 1). É a dimensão da obra-prima de Deus que criou o homem à sua imagem e semelhança. São Mateus é simbolizado pelo anjo com rosto de homem, porque seu Evangelho se preocupa em comprovar a natureza humana de Cristo.

___________________

O texto do evangelho lido na festa de São Mateus nos relatou que depois da cura do paralítico Jesus se encontrou com Mateus, cobrador de impostos e o chamou para segui-lo: “Segue-me!”. Trata-se de um homem que o povo detesta, pois é um colaborador do governo romano na cobrança de impostos. Os publicanos se enriquecem, especialmente, a custo dos pobres. Por isso, é uma profissão odiada.

Qualquer pessoa pode perguntar-se: “Como pode Deus estar presente em certos ambientes, como o de Mateus, especialmente tão repugnantes, maus ou perversos, em certas situações injustas como a vida vivida pelo publicano Mateus?”. Deus se encontra ali para curar, para salvar: “Quero misericórdia e não sacrifício”. Todo o Evangelho, quando se trata de Deus, nos urge que saibamos ultrapassar a noção de justiça e descobrir a Misericórdia infinita de Deus pelos pecadores. Deus não se cansa de perdoar e de se encontrar com os pecadores, os perdidos da vida para salvá-los, pois Jesus, o Deus-Conosco, veio para chamar e salvar os pecadores.

Como Jesus transformou os pescadores de peixes em pescadores de homens, assim também transformou um cobrador de impostos, um pecador público num “escriba do Reino de Deus”, num discípulos e mais ainda, num apóstolo.  Quem entra na esfera de Jesus deixa de ser como antes. Por isso, é preciso definir a que seguimos e a quem seguimos na vida para antecipar qual resultado final deste seguimento?

Jesus chama Mateus para segui-lo: “Segue-me” (Mt 9,9). E ele o segue (Mt 9,9). Ele diz a mesma coisa para Simão e André (Mt 4,19) e para Tiago e João (Mt 4,21). O termo “seguir” (akoloutheo, em grego) aparece 90 vezes no NT, das quais 11 vezes se encontram fora dos Evangelhos (em Atos, 4 vezes; em Ap, 6 vezes; e o resto em 1Cor 10,4). Nos evangelhos este termo se refere ao seguimento de Jesus (no total 73 vezes).         

O verbo “seguir”, em sentido próprio, significa “ir atrás de alguém”; e no sentido figurado significa “ser discípulo”, “ir em seguimento de alguém”. Seguir significa andar, avançar, ver mais, aprender mais. Quem andar, quem caminhar vai encontrar muita coisa no caminho. Quem fica parado e paralisado vê menos.          

Seguir a Jesus significa romper todo o passado, abandonar tudo (cf. Mt 4,18-22;9,9s;19,21; Lc 9,61; Mc 10,28), submetendo-se com fé e obediência à salvação oferecida em Cristo. Seguir também tem sentido de imitação. Neste sentido seguir significa unir-se com Jesus numa comunhão de vida e de destino; é modelar-se segundo o exemplo de Jesus (cf. Jo 13,15.34;15,12;1Ts 1,6;1Cor 11,1;Ef 5,2;1Jo 2,6 etc.). Assim, seguir a Jesus não é apenas aderir a um ensinamento moral e espiritual, mas compartilhar sua sorte. Por isso, Jesus exige o desapego total: renunciar às riquezas e à segurança, deixar os familiares (Mt 8,19-22;10,37;19,16-22), sem esperar o retorno (troca ou retribuição). Ao exigir de seus discípulos um tal sacrifício, Jesus se revela como Deus, única garantia, e revela integralmente até que ponto vão as exigências de Deus. Pode ser que seja até o sacrifício da cruz e até se sentir abandonado pelos outros, como Jesus sentiu (Mt 26,56).        

A partir deste sentido, somos convidados a refletir sobre o nosso seguimento de Cristo. Até que ponto nós estamos dentro deste padrão? Em outras palavras, o que significa para nós hoje seguir a Jesus? Para responder esta pergunta, devemos responder outra pergunta: quem é Jesus a quem seguimos?          

Seguir a Jesus é viver a sua vida. E a vida de Jesus foi marcada particularmente por amor ao Pai e aos homens, especialmente aos mais necessitados. Seu relacionamento profundo com o Pai se traduz na prática da solidariedade com os marginalizados e pecadores. Seguir a Jesus é viver segundo o seu projeto. Ele quer que as relações humanas e sociais se baseiem sobre a justiça, o amor, a fraternidade e o perdão. Tudo isso se tornará realidade, se o homem se descobrir como filho de um Pai amoroso. Seguir a Jesus é estar pronto para viver o Seu destino. Viver segundo o projeto de Jesus leva o seguidor a viver o martírio. O martírio é o preço a pagar pela fidelidade à causa jamais traída. Quem se propõe a seguir a Jesus deve estar pronto também para viver a bem-aventurança das perseguições (Mt 5,10s). 

Ao ouvir a chamada do Senhor Mateus prontamente aceitou o convite. Não só a prontidão para seguir a Jesus, mas a prontidão para limpar seu coração de toda a maldade praticada, pois ele era um cobrador de impostos e por isso, era um ladrão diplomado, pecador público, ladrão do bem comum. Ele deixa seu coração livre e limpo para que o Senhor possa usá-lo para o bem do seu Reino. O fruto maior de sua conversão para nós hoje é o evangelho que ele escreveu sobre a vida de Jesus: O evangelho de Mateus. Através do seu evangelho conhecemos o Jesus em quem acreditamos, como Emanuel, Deus Conosco (Mt 1,23; 18,20; 28,20). 

Hoje é o dia mais adequado para recordar nosso particular “segue-me”. É o dia em que celebramos uma festa por nosso nome, pois Deus nos chama pelo nome. Diante de Deus cada um tem nome e Deus chama cada um pelo nome (cf. Is 43,1; Jo 10,3). É o dia adequado para recordar a maneira que Deus chamou cada um de nós. O seguimento é a expressão prática da fé/adesão. Mas temos que estar conscientes de que esse chamamento é permanente. Quem não tem tempo para ouvir Deus permanentemente, vai ouvir somente desgraças dos outros e do mundo. Quem não presta para Deus, não presta para os outros. Mas quem presta para os outros é porque no seu coração mora Deus, mesmo que ele não tenha nenhuma religião. Temos que confessar que o que determina a nossa salvação não é aquilo que rezamos, pois pode acontecer que façamos apenas monólogos nas nossas orações. A oração feita é um compromisso assumido para viver de acordo com o Espírito de Deus. Ninguém crê impunemente. O que determina nossa salvação é o nosso comportamento diário, nossa maneira de viver e de conviver de acordo com o bem praticado (cf. Mt 25,31-46).

P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Segunda-feira Da XXV Semana Comum, Ano Par, 21/09/2026

SER CRISTÃO É VIVER UMA VIDA DE SABEDORIA E DE DISCERNIMETO  CAPAZ DE ILUMINAR OS OUTROS

Segunda-Feira da XXV Semana

Primeira Leitura: Pr 3,27-35

Meu filho, 27 não recuses um favor a quem dele necessita, se tu podes fazê-lo. 28 Não digas ao próximo: “Vai embora, volta amanhã, então te darei”, quando podes dar logo! 29 Não trames o mal contra o próximo, quando ele vive contigo cheio de confiança. 30 Não abras processo contra alguém sem motivo, se não te fez mal algum! 31 Não invejes o homem violento, e não escolhas nenhum de seus caminhos, 32 porque o Senhor detesta o perverso, mas reserva sua amizade aos íntegros. 33 O Senhor amaldiçoa a casa do ímpio, mas abençoa a morada dos justos. 34 Ele zomba dos zombadores, mas concede o seu favor aos humildes. 35 A glória será a herança dos sábios, mas os insensatos suportarão a ignomínia.

Evangelho: Lc 8,16-18

Naquele tempo, disse Jesus à multidão: 16 “Ninguém acende uma lâmpada para cobri-la com uma vasilha ou colocá-la debaixo da cama; ao contrário, coloca-a no candeeiro, a fim de que todos os que entram vejam a luz. 17 Com efeito, tudo o que está escondido deverá tornar-se manifesto; e tudo o que está em segredo deverá tornar-se conhecido e claramente manifesto. 18 Portanto, prestai atenção à maneira como vós ouvis! Pois a quem tem alguma coisa, será dado ainda mais; e àquele que não tem, será tirado até mesmo o que ele pensa ter”.

------------------

Ter Discernimento É Imprescíndivel Para Viver Uma Vida De Qualidade

“Meu filho, não recuses um favor a quem dele necessita, se tu podes fazê-lo. Não digas ao próximo: ‘Vai embora, volta amanhã, então te darei’, quando podes dar logo!”.

Durante quinze dias, retornaremos à leitura dos livros do Antigo Testamento, os livros de sabedoria. Este título engloba diversos livros cuja característica principal é a de reunir reflexões morais e filosóficas que circulavam nos países vizinhos a Israel. Essas máximas de sabedoria são um bem comum a todos os povos. Sua inclusão na Bíblia, no Livro Sagrado, deve-se ao discernimento dos "sábios" que as reuniram e compilaram. Esses homens acreditavam que toda a "sabedoria humana" deriva da Sabedoria de Deus, pois quando a humanidade é inteligente, quando descobre uma parte da verdade, participa de alguma forma da Inteligência divina.

Segundo muitos especialistas o Livro dos Provérbios foi escrito em Jerusalém em torno dos anos 190/180 antes de Cristo. Este livro é feito de centenas de frases breves atribuídas a Salomão ou a outros sábios do Antigo Testamento e que, baseando-se na fé em Deus, mas também no bom sentido e na experiência da vida, nos querem orientar em nossa conduta de cada dia. Todos querem a verdadeira sabedoria para caminhar com segurança nesta vida sem equivocar a direção.

Os pensamentos sapienciais dessa leitura nos convidam para uma reflexão sobre a história e a vida. Neles falam daqueles “sábios” do Antigo Testamento que guiaram seu povo e preparam a vinda de Jesus, o autentico Mestre e Sábio. Os Sábios viviam numa sociedade violenta e tratavam de entender seu significado, especialmente como armadilha que conduz à morte e nos priva da desejada plenitude de vida. Nisto é importante ter discernimento como elemento indispensável para construir uma sociedade mais justa. Aqueles que perseguem a justiça e a bondade encontrarão vida (Pr 21,21) e a vida dará a mente serena ao corpo (Pr14,30).

A primeira palavra hebraica que serve como o título do livro é “Provérbios de Salomão(mishlê shelomôh). A palavra “provérbios” aqui tem um sentido muito amplo. Ela se refere a diferentes tipos de comparações e analogias que inclui provérbios ou refrãos.

O livro tem muita a ver com a atualidade, pois seus principais temas são importantes para nós. O livro dos Provérbios em seu conjunto gira em torna da busca da vida, da qualidade da vida, da plenitude de vida, do discernimento na vida, e portanto, do sentido da vida. O livro dos Provérbios fala da vida mais de trinta vezes. O desejo humano mais profundo é a plenitude de vida.

Além da vida, o livro dos Provérbios fala do discernimento. Discernimento é a habilidade que permite compreender o mundo ao entorno. E com essa compreensão há como realizar ações com mais precisão e bom direcionamento. O discernimento se caracteriza como uma habilidade cognitiva, em que a pessoa teria a capacidade de notar e entender as nuances existentes em uma situação, pessoa ou mesmo em um contexto.

Uma pessoa sábia tem muito discernimento, isto é, fazer o que é justo no momento justo. É fazer as coisas pelo seu sentido e não somente pelo prazer de fazê-las. O discernimento é penetração, intuição, compreensão, sutileza, prudência (Pr 1,2-3). O discernimento é o centro da teologia moral. O discernimento pode ser descrito como um caminho. O bom caminho significa fazer o que é correto, justo e adequado (Pr 2,9). Discernimento é escutar os bons conselhos de outras pessoas. O discernimento conduz cada pessoa individualmente e a comunidade em geral para a vida.

Além da vida e do discernimento encontra-se neste livro outro tema: mulheres. Encontramos neste livro cinco mulheres distintas. Em Pr 1-9 encontramos a Dona Sabedoria e a Dona Necessidade. Em Pr 31 encontramos a mãe de Lemuel, e a Mulher forte e capaz. A quinta mulher que se encontra no livro (Pr 1-9) é definida como a “zarah” e, às vezes, como “nokriyah(Pr 5,20) que pode significar estrangeira, estranha, forasteira ou simplesmente “outra”. A colocação dessas mulheres como símbolo deve ter certa relevância social depois do exílio de Babilônia.

Outro tema que se sublinha no livro também é o tema da violência. Para o livro dos Provérbios, o caminho da vida é um caminho de amor. Do amor dependem as relações humanas mais saudáveis e a construção da comunidade mais fraterna. A violência é contrária do amor. A violência é uma armadilha que conduz à morte. O ódio faz parte da violência. O ódio provoca disputas, mas o amor cobre todas as ofensas. Este provérbio se repete sete vezes no Novo Testamento (1Cor 13,4-7; 1Pd 4,8; Tg 5,20). Os que odeiam a sabedoria amam a morte (Pr 8,36). O malvado comete violência (Pr 21,7). O discernimento nos liberta da violência recíproca. Os sábios não necessitam da violência porque são mais poderosos que os fortes. A violência é a arma dos mais fracos.

Por fim, encontra-se também neste livro o tema da justiça. A justiça (sedaqah) é uma categoria básica do livro dos Provérbis. A justiça está intimamente ligada à vida. A recompensa do justo conduz à vida (Pr 10,16). O malvado não reconhece os direitos do pobre (Pr 29,7), e não entende nada de justiça (Pr 28,5). Para aumentar sua riqueza, o malvado oprime o pobre (Pr 22,16). O malvado confia somente na sua riqueza e imagina que os bens o protegem de todo mal (Pr 18,11). O malvado usa a lei para devorar o pobre (Pr 13,23) e gosta de mentir. Mas aqueles que vão atrás da justiça e da bondade encontrarão honra e vida (Pr 21,21).

O texto da Primeira Leitura de hoje se refere a nossa relaçao com o próximo, com exortações que escutamos muitas vezes também no Novo Testamento: “não recuses um favor a quem dele necessita, se tu podes fazê-lo”. “Não digas ao próximo: ‘Vai embora, volta amanhã, então te darei’, quando podes dar logo!”, “Não invejes o homem violento, e não escolhas nenhum de seus caminhos”. No Oriente e na África, esses valores humanos eram bem vividos na vida cotidiana, de modo geral. Muitos não-cristãos também vivenciam essas atitudes simples de profunda solidariedade. Torcemos que os cristãos vivam esses valores no cotidiano.

O primeiro pensamento que se destaca na Primeira Leitura é a necessidade da generosidade. A generosidade é um sinal de gratidão pelos benefícios recebidos de Deus e, ao mesmo tempo, manifesta a liberdade interior. O generoso não só dá as coisas para os necessitados, mas dá-se a si próprio por amor de Deus e do próximo, graças à sua liberdade interior. Por isso, a generosidade que se concretiza na partilha e na solidariedade não empobrece, mas é geradora de vida e de vida em abundância. Ao lado da generosidade destacam-se também a convivência harmoniosa e a conduta justa. A generosidade, a convivência harminiosa e a conduta justa fazem parte da sensibilidade social da sabedoria cultivada no Oriente Próximo antigo.

Não recuses um favor a quem dele necessita, se tu podes fazê-lo”. “Não digas ao próximo: ‘Vai embora, volta amanhã, então te darei’, quando podes dar logo!”.

São recomendações a uma caridade concreta, sem deixar a ajuda ao próximo para o dia seguinte enquanto hoje tem condições e urgência para fazer, e não invejar a sorte dos malvados são úteis para nós.

Não invejes o homem violento, e não escolhas nenhum de seus caminhos”. É preciso ser um homem de "paz", de "perdão", de "reconciliação".

Um tema central enfatizado é que Deus não é amigo dos ímpios. Os ímpios podem rir de todos, até mesmo de Deus, mas no final, "O Senhor amaldiçoa a casa do ímpio, mas abençoa a morada dos justos. Ele zomba dos zombadores, mas concede o seu favor aos humildes. A glória será a herança dos sábios, mas os insensatos suportarão a ignomínia”. (Pr 3,33-35) Por isso, não desista nunca de ser bom, de ser justo, de ser honesto, e assim por diante. É a ideia que recolhe o Salmo Responsorial de hoje (Sl 14): “O justo habitará no monte santo do Senhor. Aquele que caminha sem pecado e pratica a justiça fielmente; que pensa a verdade no seu íntimo e não solta em calúnias sua língua. Que em nada prejudica o seu irmão, nem cobre de insultos seu vizinho; que não dá valor algum ao homem ímpio, mas honra os que respeitam o Senhor”. O justo é quem acerta na vida apesar dos pesares causados pelos malvados.

A malícia premeditada constitui um crime contra o próximo e uma traição às relações de confiança que devem reger a vida comunitária. Tem-se impressão de que o justo sofre, enquanto o mau parece prosperar impunemente (Cf. Sl 73,3-15; Jó 21,7-13). Mas não se engane! O próprio texto conclui que perverso, mau, arrogante e néscio têm suas correspondentes contrapartidas no plano ético: Não invejes o homem violento, e não escolhas nenhum de seus caminhos, porque o Senhor detesta o perverso, mas reserva sua amizade aos íntegros. O Senhor amaldiçoa a casa do ímpio, mas abençoa a morada dos justos. Ele zomba dos zombadores, mas concede o seu favor aos humildes”.

O Modo De Viver Do Cristão Deve Servir Como Luz Para Guiar Os Outros Para Deus

A escuridão não pode expulsar a escuridão, apenas a luz pode fazer isso. O ódio não pode expulsar o ódio, só o amor pode fazer isso”. (Martin Luther King). Há homens que são como as velas; sacrificam-se, queimando-se para dar luz aos outros”.(António Vieira)

No sábado passado, lemos a parábola da semente, a Palavra de Deus, que deve dar cem vezes mais se a ouvirmos "com um coração nobre e generoso" e a guardarmos. (cf. Lc 8,4-15 sobre a parábola da semente).

Ninguém acende uma lâmpada para cobri-la com uma vasilha ou colocá-la debaixo da cama; ao contrário, coloca-a no candeeiro, a fim de que todos os que entram vejam a luz”, assim Jesus nos diz hoje.

Os breves ensinamentos de hoje são uma continuação dos ensinamentos no evangelho do sábado passado. Jesus quer que sejamos uma luz que brilha para os outros: uma lâmpada não é acesa para ficar escondida. O que a Palavra nos disse não deve permanecer oculto: deve ser divulgado. Se agirmos assim, será verdade que "a quem tem alguma coisa, será dado ainda mais”, porque a Palavra multiplica os seus frutos em nós. E, inversamente, aqueles que não lhe dão ouvidos deles "será tirado até mesmo o que ele pensa ter”, e ficarão estéreis.

Através deste ensinamento Jesus quer que sejamos luz que ilumine os demais. No Sermão da Montanha Jesus define nosso ser como sal e como luz: “Vós sois o sal da terra... Vós sois a luz do mundo(Mt 5,13-14). Trata-se de uma presença indispensável para os demais. Um cozinheiro pode colocar todos os tipos de tempero na comida, mas basta o sal estar ausente, o resto fica sem sabor. Alguém pode querer andar para qualquer lugar, mas sem a luz nada poderá acontecer nem poderá chegar ao endereço desejado. Se cada cristão tiver consciência do seu ser e de sua importância neste mundo, ele usará seu tempo de vida para iluminar a vida dos outros e para dar sabor à vida dos demais. Sua vida é para os demais. O cristão existe para os outros como Cristo existiu para a humanidade. Um cristão egoísta deixa de ser um verdadeiro cristão, pois a alma de todo projeto de Cristo é a partilha. Cristo se dá para que os outros tenham vida em abundância (cf. Jo 10,10).

Mas para ser luz para o próximo o cristão precisa ser, primeiro, iluminado pela Luz divina que é o próprio Cristo (Jo 8,12) para que possa ser reflexo dessa Luz para os outros. Contemplar permanentemente Cristo, Luz do mundo por excelência, é uma forma de manter nossa vida luz para os demais.  a partir do memento em que deixarmos de contemplar Cristo, Luz do mundo, deixaremos de ser reflexos de Cristo para o mundo ao nosso redor. É ser refletido por Cristo para eu ser reflexo de Cristo para os demais. Aquele que contempla Cristo será reflexo do próprio Cristo.

O que o cristão recebe de Deus é para a edificação dos demais e não para o proveito próprio. O cristão não pode viver só para si: Ninguém acende uma lâmpada para cobri-la com uma vasilha ou colocá-la debaixo da cama”. Ele precisa ter consciência de sua missão como luz para os demais: “... ao contrário, coloca-a (luz) no candeeiro, a fim de que todos os que entram vejam a luz. O cristão deve fazer-se público, mostrando seu rosto de cristão com os valores vividos a fim de iluminar as pessoas ao seu redor. O modo cristão de viver a vida serve para iluminar os demais e para acordar quem vive adormecido. Se temos uma certa tendência de privatizar a fé, Jesus nos convida a darmos testemunho diante dos demais publicamente de acordo com a vocação de cada um de nós na sociedade: político, médico, artista, esportista, professor e assim por diante. Sua presença em qualquer lugar deve ser como a presença da luz: iluminar. Pode até criar a sombra com a presença da luz, mas até a sombra é iluminada também pelos raios da luz. “A principal missão do homem, na vida, é dar luz a si mesmo e tornar-se aquilo que ele é potencialmente(Erich Fromm).

Se o cristão não viver de acordo com sua essência como sal da terra e luz do mundo, ele vai se cumprir nele o que Jesus diz hoje: “A quem tem alguma coisa, será dado ainda mais; e àquele que não tem, será tirado até mesmo o que ele pensa ter”. Os dons que não se fazem frutificar se perdem. Os músculos que não se fazem atuar se atrofiam. E a fé se apaga aos poucos quando não se coloca em prática. A vida sem amor se apaga. A vida sem abertura para o crescimento se esteriliza. Quem não avança no desenvolvimento se infantiliza.

No dia de nosso Batismo cada um acendeu a vela no círio pascal, tomando a luz do Círio pascal, símbolo de Cristo. É um gesto que nos recorda nosso compromisso, como batizados, de dar testemunho dessa Luz diante das pessoas ao nosso redor. O Concílio Vaticano II chamou a Igreja de Lumen Gentium, luz das nações. Isto quer nos dizer que o que devemos ser, na realidade, conforme nossa essência é comunicar a luz, a alegria e a força que recebemos de Deus para os outros. Sendo luz do mundo e sal da terra, o cristão se tornará um amigo que sabe animar e dizer uma palavra orientadora para as pessoas ao seu redor. o cristão jamais obscurece o caminho dos outros, pois ele é enviado para ser luz do mundo (Mt 5,13-14).

Cada momento e cada circunstância devem ser, para o cristão, ocasião para renovar a opção do primeiro momento (Batismo) para não encontrar-se ao final da existência com as mãos vazias merecedoras das duras palavras de Jesus: “Àquele que não tem, será tirado até mesmo o que ele pensa ter”. A existência vivida na fidelidade, pelo contrário, faz realidade na vida de cada cristão a verdade da afirmação confortante e asseguradora do Senhor: “A quem tem alguma coisa, será dado ainda mais”.

P. Vitus Gustama,svd

 

O amor é uma luz que não deixa escurecer a vida(Camilo Castelo Branco). “Sem pureza de alma, como você poderá dizer que há de glorificar a Deus? Aquela luz que, como uma estrela da manhã, vive no coração de cada um, esta é a luz da salvação”. (Provérbio Indiano) “Quem tem luz exterior caminha sem tropeçar, quem tem luz interior caminha sem medo de viver(Augusto Cury) Há homens que são como as velas; sacrificam-se, queimando-se para dar luz aos outros”. (António Vieira). Certa vez, perguntado qual a definição de luz. A luz... é a sombra de Deus...” (Albert Einstein). “A luz é especialmente apreciada após a escuridão. Nada é mais precioso do que a luz; mas o excesso ofusca (texto judaico).

XXV Domingo Do Tempo Comum, Ano "A", 20/09/2026

VIVER NO AMOR GENEROSO DE DEUS: MINHA JUSTIÇA DIANTE DA JUSTIÇA DE DEU

XXV Domingo Do Tempo Comum Ano “A”

I Leitura: Is 55,6-9

6 Buscai o Senhor, enquanto pode ser achado; invocai-o, enquanto ele está perto. 7 Abandone o ímpio seu caminho, e o homem injusto, suas maquinações; volte para o Senhor, que terá piedade dele, volte para nosso Deus, que é generoso no perdão. 8 Meus pensamentos não são como os vossos pensamentos, e vossos caminhos não são como os meus caminhos, diz o Senhor. 9 Estão meus caminhos tão acima dos vossos caminhos e meus pensamentos acima dos vossos pensamentos, quanto está o céu acima da terra.

II Leitura: Fl 1,20c-24.27a

Irmãos: 20c Cristo vai ser glorificado no meu corpo, seja pela minha vida, seja pela minha morte. 21 Pois, para mim, o viver é Cristo e o morrer é lucro. 22 Entretanto, se o viver na carne significa que meu trabalho será frutuoso, neste caso, não sei o que escolher. 23 Sinto-me atraído para os dois lados: tenho o desejo de partir, para estar com Cristo — o que para mim seria de longe o melhor — 24 mas para vós é mais necessário que eu continue minha vida neste mundo. 27ª Só uma coisa importa: vivei à altura do Evangelho de Cristo.

Evangelho: Mt 20,1-16

Naquele tempo, Jesus contou esta parábola a seus discípulos: 1 “O Reino dos Céus é como a história do patrão que saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha. 2 Combinou com os trabalhadores uma moeda de prata por dia, e os mandou para a vinha. 3 Às nove horas da manhã, o patrão saiu de novo, viu outros que estavam na praça, desocupados, 4 e lhes disse: ‘Ide também vós para a minha vinha! E eu vos pagarei o que for justo’. 5 E eles foram. O patrão saiu de novo ao meio-dia e às três da tarde, e fez a mesma coisa. 6 Saindo outra vez pelas cinco horas da tarde, encontrou outros que estavam na praça, e lhes disse: ‘Por que estais aí o dia inteiro desocupados?’ 7 Eles responderam: ‘Porque ninguém nos contratou’. O patrão lhes disse: ‘Ide vós também para a minha vinha’. 8 Quando chegou a tarde, o patrão disse ao administrador: ‘Chama os trabalhadores e paga-lhes uma diária a todos, começando pelos últimos até os primeiros!’ 9 Vieram os que tinham sido contratados às cinco da tarde e cada um recebeu uma moeda de prata. 10 Em seguida vieram os que foram contratados primeiro, e pensavam que iam receber mais. Porém, cada um deles também recebeu uma moeda de prata. 11 Ao receberem o pagamento, começaram a resmungar contra o patrão: 12 ‘Estes últimos trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o cansaço e o calor o dia inteiro’. 13 Então o patrão disse a um deles: ‘Amigo, eu não fui injusto contigo. Não combinamos uma moeda de prata? 14 Toma o que é teu e volta para casa! Eu quero dar a este que foi contratado por último o mesmo que dei a ti. 15 Por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou estás com inveja, porque estou sendo bom?’ 16ª Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos”. 

-----------------------------------        

Ao ler a parábola, que serve como o evangelho deste domingo, cada um pode intitulá-la de acordo com sua própria acentuação. Ou a parábola dos Trabalhadores na Vinha ou a parábola do “patrão diferente” ou a parábola dos operários da última hora ou a parábola do patrão bondoso ou a parábola da murmuração dos operários da primeira hora, etc...  Esta parábola encontra-se exclusivamente em Mt.           

Se voltarmos para a comunidade de Mt, perceberemos facilmente, através desta parábola, a tensão existente na comunidade de Mt sobre a opinião de judaísmo mateano a respeito de posição e lugar no Reino e na comunidade; sobre a tensão existente entre membros mais idosos e membros mais novos ou mais jovens (os pagãos convertidos etc.) da comunidade. Novas idéias e princípios, que os novos membros trazem, criam tensão e discussão sobre quem chegou primeiro, a voz de quem deve prevalecer e quem realmente constitui o conhecido suporte principal da Igreja. Era esta situação que a comunidade de Mt estava vivendo de forma especial. Esta nova situação provocou uma inflamada polêmica, que é reconhecível facilmente em outros escritos do NT (cf. Gl 1-2;At 15). Alguns cristãos de origem judia não podiam entender que os pagãos que vieram mais tarde, tiveram na Igreja a mesma situação que eles. Esta atitude está refletida naqueles operários da primeira hora, que se sentem discriminados ao receberem o mesmo salário que os contratados da última hora. Aqui Mt responde que todos são iguais e, gostem ou não, todos têm a mesma voz e a todos é oferecida a mesma oportunidade para entrar no reino de Deus.      

Deus Trabalha Com Disponibilidade e Não Com a Hora de Chegada 

A parábola nos conta que o proprietário sai logo cedo para contratar trabalhadores com um denário de pagamento. O trabalhador rural da Palestina trabalhava do nascer ao por do sol com um denário como o pagamento que era o salário vigente na época. O proprietário saiu outra vez pela terceira hora, isto é, entre às 08:00 e 09:00h para contratar novos trabalhadores sem combinar o valor do pagamento. Pela sexta e pela nona hora, isto é, às 12:00h e no início da tarde o propretário contrata outros trabalhadores e nada se fala de salário. E finalmente, pela undécima hora, isto é, uma hora antes do fim do trabalho ainda contrata outros trabalhadores e também não se fala do valor do pagamento. No fim do trabalho todos os trabalhadores recebem o mesmo salário: um denário. 

Através desta parábola ele quer falar de uma coisa mais profunda: a bondade ou o amor gratuito de Deus para todos os homens e mulheres, seus filhas e filhas. O amor de Deus como Pai de todos os homens e mulheres é derramado de modo igual sobre todos. Deus não trabalha com a “hora” da chegada de cada ser humano. Deus quer que todos tenham a mesma disponibilidade e disposição para colaborar com Deus na salvação do mundo. O que Deus quer é, então,  a disponibilidade e a disposição de cada pessoa para colaborar na obra de Deus, e não a hora de chegada. O que é essencial para Deus que o homem atenda ao Seu apelo para ser colaborador na evangelização a fim de que todos possam viver como irmãos e irmão, como uma família cujo Pai comum é o próprio Deus. Para Deus não há tratamento especial sobre o critério do tempo da chegada (conversão). Todos merecem Seu amor, pois Deus quer que todos os seus filhos sejam salvos. Por isso, todos têm os direitos iguais perante o convite de Deus e a recompensa que ele promete e se configura como contestação de qualquer méritos em nome da gratuidade do amor. Haverá recompensa para todos os que responderem ao chamamento de Deus independentemente do tempo. Para todos, Deus tem tempo: para os rápidos, os lentos até os céticos convertidos.

Santo Agostinho comentou: “Sou um trabalhador como vocês. Pensem que vocês são aqueles que foram conduzidos à vinha. Os que vieram como crianças, considerem-se conduzidos à primeira hora; os adolescentes, à terceira; os adultos, à sexta; os idosos, à nona; e os velhos, à décima primeira. Não se preocupem com o tempo. Observem a obra que estão realizando e aguardem com confiança a recompensa. E, considerando quem é o seu Senhor, não tenham inveja se a recompensa for a mesma para todos. Vocês sabem qual é a obra, mas eu lhes lembrarei. Ouçam o que vocês já sabem e façam o que ouviram. Quando perguntaram a Jesus qual era a obra que Deus nos ordenou fazer, ele respondeu: "A obra de Deus é esta: crer naquele que ele enviou" (João 6:29). Nosso misericordioso Senhor poderia ter dito: a justiça é a obra de Deus. Se a obra de Deus é a justiça, como eu disse, como pode ser verdade o que o Senhor disse — que vocês creiam nele — se a própria justiça não consistir em crer nele?” (Sermão 49,2)

Uma Parábola Que Critica a Meritocracia Religiosa         

Com esta parábola Jesus quer também denunciar de uma forma extremamente dura a religião dos “méritos(meritocracia religiosa), ensinada pelos guias espirituais de Israel (e por alguns pregadores dos nossos dias, por exemplo: quanto maior for sua oferta/seu dízimo na Igreja, maior será a bênção como recompensa. O pobre nunca receberia uma bênção maior). Até os rabinos ensinavam: “Quem cumpre um preceito, ganha um advogado; quem pratica uma transgressão, ganha um acusador. Todos os julgamentos de Deus estão na base da medida por medida”. No Reino de Deus ninguém é primeiro nem último. Todos são iguais. Não é porque alguém se converteu há muito tempo que possa merecer um melhor tratamento do que aquele que se converteu recentemente ou tardiamente (cf. Lc 23,42-42: um criminoso converteu-se nos últimos minutos de sua vida e foi com Jesus para o Paraíso). A prudência cronológica não é usada como medida para uma disposição de ser servidor, mas a disposição e disponibilidade em fazer o bem para todos sem exceção.          

Muitas vezes a infelicidade nos atinge porque vivemos comparando com os outros. Sempre estamos na tentação de compararmos Deus conosco, de medirmos sua soberana ação com os nossos méritos ou com as nossas condições desiguais. Antes de ser justo para com as “nossas obras” (supostos méritos), Deus é essencialmente justo consigo mesmo. A justiça de Deus consiste em salvar todos os homens. Certamente o amor de Deus é a causa do que eu sou, como o único neste mundo. Por isso, não me posso comparar com o outro, pois cada um é único. Devo, sim, comparar-me com a insondável e sublime vontade de Deus, de me fazer feliz, exatamente como Deus me quer amar e beatificar eternamente. Somente ao comparar-me com o amor de Deus, serei capaz de louvar a Deus que me faz coisas tão maravilhosas na minha vida e traduzir o louvor em amar e aceitar o outro como ele é. 

Egoísmo ou Individualismo Mata Tudo          

O mal dos operários da primeira hora consiste em trabalhar mais para si do que para o Senhor. Por isso, eles aceitam sua diária, porém, o próximo não merece igual, embora o patrão tenha combinado o preço: um denário para cada um:Combinou com os trabalhadores uma moeda de prata por dia, e os mandou para a vinha” (Mt 20,2). 

Esses operários representam todos os egoístas, egocêntricos e ególatras. Egoísta porque quer devorar tudo o que o outro tem para si próprio. Para o egoísta, amigo não é alguém a quem se dá, mas alguém a ser utilizado em proveito próprio.  

Quem pensa nas coisas dos homens é egocêntrico porque ele quer ser centro de tudo. Quando Deus não se torna centro, as coisas mundanas começam a ocupar o centro de nossa vida e começaremos a nos perder neste mundo. A nossa é muito pedagógica, pois ela nos relembra que Deus deve estar no meio: “O Senhor está convosco”, saúda o presidente da celebração. Ao que assembleia responde: “Ele está no meio de nós”. Deus deve estar no meio de nossa vida, de nossa família, de nossa profissão para que tudo dê certo.   

Quem pensa somente nas coisas dos homens é ególatra porque ele gosta de se adorar e de ser idolatrado. O objetivo de todos os atos de um egoísta é seu próprio interesse. Ele ignora que está inserido dentro de uma unidade mais ampla e superior. Ele se esquece de que o seu desenvolvimento só será justo quando for fruto do equilíbrio entre vida individual e vida em comum. O egoísta não compreende que a essência do amor é a gratuidade, que o verdadeiro amor é feito de doação, sem cálculos e sem interesses. Sempre que se exigir o sacrifício de si próprio, ali certamente o egoísta não estará presente. Além disso, ele gosta de corroborar a imagem de pessoa generosa. 

Mas quando compararmos nossa pequena vida com a infinita graça de Deus na nossa vida, saberemos agradecer a Deus infinitamente. Na medida em que comparamos a justiça de Deus com ele mesmo, ela coincide com sua misericórdia. Mas quando compararmos a justiça de Deus com a nossa, acontecerá a incompatibilidade entre a nossa justiça e bondade divina. A justiça do homem calcula-se por seu relacionamento com outrem. A justiça de Deus, porém, é medida por sua fidelidade a si mesmo. 

Parábola Quer Falar Do Amor Generoso De Deus Para Todos       

Deus, representado pelo dono da vinha, mostrou-se generoso para com os últimos, sem ser injusto para com os primeiros, a quem pagou conforme devia. Com os últimos o critério de ação que ele toma não é econômico, mas o amor gratuito que qualifica seu ser profundo. Ele anula o privilégio dos primeiros que querem manter a distância dos últimos e supera a deficiência dos últimos.  Deus olha para o seu povo como uma família cujos membros se satisfazem verificando que aqueles que fizeram bem pouco são tão amados quanto os que muito realizaram. É preciso que haja uma íntima reviravolta para aceitar esse modo de pensar isento de comparações. Mas essa é a maneira de pensar de Deus na parábola contada hoje.          

A parábola quer nos apresentar também um Deus que age de forma muito diferente, contrária a qualquer lógica dos homens. Em sua intenção original esta parábola também é escrita para responder às críticas dos fariseus porque eles não aceitam que Jesus se misture com os pecadores, os publicanos e marginalizados. Apegados firmemente aos próprios privilégios religiosos de observantes escrupulosos da Lei, os fariseus desconhecem o próprio Deus de bondade misericordiosa que se revela em Jesus Cristo. Jesus quer nos mostrar que o Seu Deus é Aquele que dá espaço para todos em seu Reino quando decidirem converter-se. Toda vez que alguém se converte, o Paraíso se torna presente na sua vida. Todos têm a mesma oportunidade para a conversão, e a porta da misericórdia está aberta para todos até o último munuto de sua vida. A igualdade se sublinha. E Deus não pode ser “feliz” se o mais humilde dos homens não é feliz. Por isso, Ele nunca se cansa de sair ao encontro do homem, mesmo quando este falha em todos os encontros. Diante de Deus não há monopólios exclusivistas nem tem lugar a pretensão de manipular sua liberdade conforme nossos egoísmos pessoais, raciais ou nacionalista. Por isso, o Deus de Jesus Cristo, o Deus de bondade e de generosidade, vive surpreendendo as pessoas. Os que querem apropriar-se da generosidade de Deus acabam perdendo tudo.         

Em nossa vida cristã somos convidados a deixar sempre lugar para a surpresa da generosidade de Deus, de nossa generosidade e a do semelhante nosso. Ser generoso é ser livre de si, de seu pequeno eu, de suas pequenas covardias, de suas pequenas posses. A generosidade nos eleva em direção aos outros e a Deus de generosidade. 

Parábola Que Critica Nossas Invejas        

Outro aspecto que a parábola quer destacar é a inveja dos homens, manifestados nos operários das primeiras horas. Eles argumentam contra o dono da vinha que suportaram o peso do trabalho durante o dia inteiro sob o calor do sol, por isso não julgavam justo serem igualados aos trabalhadores da última hora. O dono não se considera injusto, pois ele paga o salário combinado. A bondade do dono da vinha é ainda mais acentuada na pergunta final aos murmuradores: “...ou teu olho é mau porque eu sou bom?” (v.15b). A palavra “mau” (poneros em grego) é termo mateano comum para a inveja provocada por coisas materiais. O vocábulo representa dinheiro e posição que atraem o olho da pessoa. O olho mau indica a falta de amor dos trabalhadores murmuradores da primeira hora que se deixavam levar pela inveja diante do bem que os seus companheiros experimentavam. Eles não souberam participar da alegria do bem experimentado.         

A inveja é a tristeza pelo bem alheio ou pelo sucesso do outro. Sabemos que o invejoso tem sempre os olhos fixos nos outros, sofrendo amargamente com a satisfação que nele têm, tendo sentimentos de aversão quando percebe que estão bem. Podemos dizer que a inveja é filha de uma soberba. O invejoso não tolera os sucessos dos outros, não admite que os outros possuam qualidades iguais ou superiores às suas. Ele sempre teme ser superado pelos outros. Ele sofre quando percebe que seu rival possui uma cota maior do que a sua.        

Será difícil encontrar uma alma tão generosa que não sinta um pequeno mal-estar com a boa sorte alheia. Mas precisamos reconhecer que “magnânimo não é o que jamais sente inveja, mas o que imediatamente a supera. A nossa maior satisfação não provém de sermos considerados mais ou melhores do que os outros, mas da consciência de termos realizado todo o bem que nos era ou é possível. Quem deseja só seu bem-estar pessoal é egoísta e as coisas não poderão ir bem com ele.          

A leitura evangélica deste domingo, portanto, nos convida a colocar-nos diante da bondade e da generosidade sem fim de Deus para percebermos e reconhecermos melhor nossa mesquinharia( mesquinhez) que, muitas vezes, se expressa em forma de inveja, ciúme, ódio etc. Diante da bondade e da generosidade sem limite de Deus deveríamos ficar envergonhados, porque muitas vezes, damos espaço, facilmente, à vanglória ou vaidade por termos feito algo de bom pelos nossos semelhantes.        

Este evangelho é uma advertência para todos os cristãos. Os seguidores de Cristo não se podem fixar em direitos de propriedade no Reino de Deus. Os “últimos” podem tornar-se “primeiros” do mesmo modo que os “primeiros podem tornar-se “últimos”. Eles serão passados para trás, se não souberem reconhecer a bondade gratuita de Deus, se não souberem alegrar-se de todo o coração com o pequenino que Deus chama a seu Reino, se não souberem viver o amor em comunidade.          

Por isso, o convite do profeta Isaías à conversão (primeira leitura) vale para todos os homens em todos os tempos e lugares: “Abandone o ímpio seu caminho e o injusto, suas maquinações...volte para nosso Deus que é generoso no perdão” (Is 55,7. Esse é o caminho de felicidade eterna.

P. Vitus Gustama,svd

Terça-feira Da XXV Semana Comum, Ano Par, 22/09/2026

SER MEMBRO DA FAMÍLIA DE JESUS E VIVER DE ACORDO COM A PALAVRA DE DEUS É VIVER NA SABEDORIA Terça-Feira da XXV Semana Comum Primeira Lei...