quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Sábado Após Quarta-feira De Cinzas,21/02/2026

CONVERTER-SE PARA SE TORNAR DOM PARA OS DEMAIS HOMENS

Sábado Depois Das Cinzas

Primeira Leitura: Is 58,9b-14

Assim fala o Senhor, 9b se destruíres teus instrumentos de opressão, e deixares os hábitos autoritários e a linguagem maldosa; 10 se acolheres de coração aberto o indigente e prestares todo socorro ao necessitado, nascerá nas trevas a tua luz e tua vida obscura será como o meio-dia. 11 O Senhor te conduzirá sempre e saciará tua sede na aridez da vida, e renovará o vigor do teu corpo; serás como um jardim bem regado, como uma fonte de águas que jamais secarão. 12 Teu povo reconstruirá as ruínas antigas; tu levantarás os fundamentos das gerações passadas: serás chamado reconstrutor de ruínas, restaurador de caminhos, nas terras a povoar. 13 Se não puseres o pé fora de casa no sábado, nem tratares de negócios em meu dia santo, se considerares o sábado teu dia favorito, o dia glorioso, consagrado ao Senhor, se o honrares, pondo de lado atividades, negócios e conversações, 14 então te deleitarás no Senhor; eu te farei transportar sobre as alturas da terra e desfrutar a herança de Jacó, teu pai. Falou a boca do Senhor.

Evangelho: Lc 5,27-32

Naquele tempo, 27Jesus viu um cobrador de impostos, chamado Levi, sentado na coletoria. Jesus lhe disse: “Segue-me”. 28Levi deixou tudo, levantou-se e o seguiu. 29Depois, Levi preparou em casa um grande banquete para Jesus. Estava grande número de cobradores de impostos e outras pessoas sentadas à mesa com eles. 30Os fariseus e seus mestres da Lei murmuravam e diziam aos discípulos de Jesus: “Por que vós comeis e bebeis com os cobradores de impostos e com os pecadores?” 31Jesus respondeu: “Os que são sadios não precisam de médico, mas sim os que estão doentes. 32Eu não vim chamar os justos, mas sim os pecadores para a conversão”.

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No evangelho de hoje, Jesus convida o publicano Levi-Mateus a segui-lo. E o pecador se levanta, deixa tudo e segue a Jesus. Levi-Mateus oferece-lhe um grande banquete para celebrar a sua conversão. Conversão e alegria. Esse também é o tema de Isaías.

Deus se alcança com a justiça para com os irmãos, o compromisso de torná-los mais livres, o acolhimento de todos e a comunicação dos bens. Só assim a pessoa se transforma e se realiza segundo os desígnios divinos; Esta é também a única maneira de reconstruir o povo do Senhor. A ideia bíblica de justiça ou de retidão geralmente expressa conformidade com todas as áreas da vida de Deus: lei, governo, aliança, lealdade, integridade ética ou ações amáveis. Ou seja, viver de acordo com os mandamento de Deus. Quando os homens aderem à vontade de Deus como expressa em Sua Lei ou em seus mandamentos, eles são considerados justos ou retos. Jesus ensinou que aqueles que conformam suas vidas aos seus ensinamentos também são justos, retos. Por isso, o profeta Isaías, na Primeira Leitura, critica duramente a opressão sofrida no povo causada pelos dirigentes do povo. E Levi, na Evangelho, é chamado por Jesus para parar de explorar o próximo através da cobrança de imposto mais do que deve em nome do enriquecimento ilícito. A alma do projeto de Jesus é a partilha no lugar de exploração. Jesus Cristo tem uma missão bem definida: reunir os pecadores ao seu redor e oferecer-lhes sua intimidade: a entrega ao Senhor da felicidade, seu seguimento, um novo sentido para nossa vida.

Não vale protestar contra a injustiça na sociedade em geral, se nós mesmos em casa, ou na comunidade, exercemos sutilmente o racismo ou a discriminação e ficamos alheios para o irmão que necessita de nossa ajuda. Muitas vezes, de maneira muito sutil, cometemos muitas injustiças, racismos, discriminação nas nossas comunidades eclesiais. É o tempo para nos convertermos; é o tempo favorável para nossa salvação.

Para Ser Feliz e Fazer o Outro Feliz É Preciso Destruir Todos Os Instrumentos da Opressão e Do Autoritarismo

Se destruíres teus instrumentos de opressão, e deixares os hábitos autoritários e a linguagem maldosa; se acolheres de coração aberto o indigente e prestares todo socorro ao necessitado, nascerá nas trevas a tua luz e tua vida obscura será como o meio-dia”.

Segundo o profeta Isaías, que lemos na Primeira Leitura de hoje, as exigências de Deus têm a ver com a ação de abandonar, por um lado: abandonar a opressão, a prepotência e a calúnia; e, por outro lado, tem a ver com a partilha: repartir o pão com o necessitado e saciar a alma sedenta. Na conversão, o ponto de partida é a conversão pessoal, mas o ponto de chegada é o serviço ao irmão necessitado. Somente a solidariedade realizará o sonho evangélico da justiça social.

Ser cristão é ser homens e mulheres de portas abertas e de coração aberto que não discriminam nem excluem, e sim que acolhem, partilham e compartilham, partem e repartem com os mais necessitados, pois é ali que reconhecemos e encontramos o Senhor (cf. Mt 25,40.45). Onde há partilha, não há carência, pois Deus criou tudo suficientemente para todos. A acumulação em algum lugar ou em alguma pessoa produz carência em outro lugar ou em outras pessoas.  Onde há partilha, há abundância. Onde há partilha, o egoismo ou o materialista é esmagado.

Por isso, uma pergunta importante para refletir e para melhorar nosso cristianismo nesta Quaresma: Como está a minha solidariedade com os mais necessitados em minha família, em meu trabalho ou estudo/escola, em minha comunidade, em minha paróquia e assim por diante. Não esqueçamos o programo quaresmal: esmola, jejum e oração.

Se destruíres teus instrumentos de opressão, e deixares os hábitos autoritários e a linguagem maldosa; se acolheres de coração aberto o indigente e prestares todo socorro ao necessitado, nascerá nas trevas a tua luz e tua vida obscura será como o meio-dia”. Como a Primeira Leitura do dia anterior, as palavras do profeta Isaias na Primeira Leitura de hoje são umas sugestões muito concretas que podem nos ajudar no esforço que a Quaresma nos pede: pôr suavidade e bondade em todas as nossas falas, conversas e relações: “Uma palavra amena multiplica os amigos e acalma os inimigos; uma língua afável multiplica as saudações” (Eclo 6,5), e estar atentos aos desejos dos demais e às necessidades dos indigentes para torná-los mais felizes.

Só se chega a Deus pela justiça praticada para com os irmãos, pelo compromisso de fazer os irmãos mais livres, pela aceitação de todos como irmãos e pela comunicação ou partilha dos bens. Afinal, para que acumular os bens materiais, se temos apenas uma vida, e um corpo? Não é para acumular os bens materiais que estamos no mundo, e sim para partilhar a bondade, a felicidade para quem carece delas. A fome e a necessidade básica não necessitam de discussão ou polêmica e sim de solução. Cada um faz o que pode e o que deve. Somente desta maneira é que a pessoa é transformada e se realiza de acordo com os desígnios de Deus. É a maneira de reconstruir o povo do Senhor.

A partir das sugestões do profeta Isaias nós podemos lançar perguntas: A quem eu posso dar uma alegria? Quem do meu redor está esperando minha ajuda? Quem está precisando de minha ajuda na rua/avenida onde eu moro ou no trabalho ou na comunidade? Se eu não sair de mim ao encontro do outro, jamais poderei identificar quem está em necessidade da minha ajuda. Amar é sair de si. Amar é um êxodo rumo à pátria celeste, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). E ninguém chegará ao Deus de Amor sem passar pelo próximo. O próximo é a passagem obrigatória para chegar até Deus (cf. Mt 25,40.45).

No evangelho deste dia, Jesus convida o publicano Levi (Mateus) a segui-Lo. Convidar aqui tem um sentido de abandonar a vida passada escura para viver uma vida iluminada com sentido sendo parceiro do bem. O coração de Levi sente tocado pelo convite de uma pessoa que o quer bem: o convite do próprio Salvador, Jesus Cristo.  E o publicano se levanta, abandona tudo e vai seguir a Jesus.

Levi oferece um grande banquete para celebrar sua conversão. Conversão e alegria andam juntas. É a alegria de ser livre dos apegos e do passado, pois a fonte da verdadeira alegria é encontrada: Jesus Cristo, o Salvador. É a alegria de ser libertado das garras do poder e da ganância. Este tema é enfatizado também pelo profeta Isaias na primeira leitura (Is 58,9-14): “Se destruíres teus instrumentos de opressão, e deixares os hábitos autoritários e a linguagem maldosa; se acolheres de coração aberto o indigente e prestares todo socorro ao necessitado, nascerá nas trevas a tua luz e tua vida obscura será como o meio-dia. Essas palavras se tornaram realidade para Levi.

Nas palavras do profeta Isaias podemos dizer que é necessário esquecer um pouco, na proporção certa, nossas preocupações, nossos assuntos, demasiado humanos e egocêntricos para considerar os assuntos de Deus, pois são assuntos para o bem da humanidade e sua salvação. É abandonar nossa vontade de mandar nos outros para começar a dialogar sobre o que é digno para ser vivido em conjunto como irmãos e irmãs da mesma família de Deus. É parar de explorar o outro, pois faço parte também da humanidade. É parar de cobrar dos outros tudo que não devia ser cobrado para aprender a viver na honestidade. É ser “novo Levi” capaz de ver a vida num horizonte novo, de ver o outro como irmão.

Jesus Chama Cada Um Para Levar Adiante Tudo Que Salva a Humanidade

No evangelho deste dia Jesus convida o publicano Levi (Mateus) a segui-Lo: “Segue-me”.  Levi é “seduzido” e se “levanta” como o parlítico à voz do Senhor. 

O publicano se levantou, deixou tudo e seguiu a Jesus.  Seguir significa “ir atrás”. Esteir atrás” significa adotar a atitude do Mestre. É viver uma vida dedicada para o bem de todos. É escutar as lições do Mestre e imitar seu exemplo de vida. O sentido da vida consiste em viver e conviver como irmãos. Para isso, o discípulo tem que estar ligado totalmente ao Mestre. É preciso estar no lugar de discípulo (atrás) para poder aprender.  Simão Pedro chamado de Satanás (tentador) porque estava querendo ficar na frente do Mestre, isto é, atrapalhar o projeto de Deus em Jesus (cf. Mc 8,32b-33). É preciso aderir a Jesus e ao seu projeto. Essa adesão total ao Mestre pode ser chamada de “inseparável da conversão. Ser verdadeiro seguidor é aquele que sempre deixa Jesus na frente para não ficar perdido na vida e na missão. No momento em que deixamos Jesus de lado ou de trás, perderemos o horizonte de nossa vida e missão. Devemos estar conectados permanentemente a Jesus.

Depois do chamado e da resposta, nos encontramos na “casa” para a qual caminha o pecador reconciliado. É a nossa própria casa, que finalmente acolhe e hospeda o Senhor e na qual nos banqueteamos juntos. É onde nós, antes excluídos, estamos em casa e vivemos com o Senhor e Ele conosco. Esse banquete é uma clara alusão à Eucaristia. Uma vez limpos e reconciliados pelo Batismo, chegamos à casa na qual somos comensais com o Senhor: hospedamos Aquele que nos acolheu, comemos juntos o alimento e vivemos um para o outro, como um está para o outro. Mas, com o ex-pecador Levi, estão à mesa outros pecadores! Esta é a Igreja de Lucas para responder à pergunta: como comportar-se com os pecadores? Excluir ou admitir à mesa aqueles que consideramos não perfeitos? A Igreja é uma fraternidade de purificados e absolvidos, aberta aos pecadores. A Igreja, em seu exemplo, evita se tornar uma seita de puros e descobre qual deve ser a sua atitude para com os pecadores: em vez de objeto de exclusão, tornam-se objeto de missão, para que todos se convertam e sejam salvos.

Jesus chama cada um no lugar onde se encontra, no lugar onde trabalha como Levi. Jesus chama as pessoas normais. Levi não é uma pessoa perfeita nem um super-homem. Ele é um cobrador de impostos e por isso, é um ladrão público. Um publicano é uma pessoa desclassificada e considerada como pecador. Por isso, ele é excluído da vida social. Todos odiavam essa profissão, pois explorava o povo para se enriquecer ilicitamente.

Mas Jesus é o Deus-Conosco. Ao chamar Levi para segui-lo, Jesus se apresenta como Aquele que veio não para os justos, mas para todos os que pecaram para que estes se convertam. Jesus é Aquele que vai ao encontro dos que são excluídos por causa do seu presumível pecado. Não só vai ao encontro deles, mas também come com eles. Comer junto significa nivelar os relacionamentos. Porque Jesus veio para os pecadores, em vez de se afastar de Levi Jesus se aproxima dele, pois para Deus nãofilhos de segunda classe. Todos são iguais. Deus se aproxima de cada um, pois para cada um de nós Deus tem alguma proposta ou alguma missão neste mundo.

Ao ouvir atentamente a Palavra da vida eterna (cf. Jo 6,68) Levi não resiste, pois a salvação é muito mais importante do que qualquer riqueza e profissão no mundo. Levi deixa o poder divino operar na sua fraqueza de pecado sem temor. Aqui se traça o caminho do verdadeiro discípulo: encontrar-se pessoalmente com o Senhor, ouvir atentamente sua Palavra e ir atrás do Senhor incondicionalmente que supõe o abandono da maneira de viver anterior. Levi abandonou tudo, pois encontrou tudo e permaneceu com o Tudo que é o Senhor do Universo. Levi ganhou tudo em Jesus Cristo. Depois que conheceu Jesus Cristo, São Paulo escreveu: Por ele tudo desprezei e tenho em conta de esterco, a fim de ganhar Cristo” (Fl 3,8b).

Banquete É O Momento Da Comunhão, Do Amor Fraterno

Levi oferece um grande banquete para celebrar sua volta para o caminho da felicidade com Deus (conversão). O banquete é o momento familiar onde todos se igualam e se alimentam da mesma refeição. É o momento de fraternidade e de alegria em conjunto.

Comer juntos era naquele tempo o sinal mais evidente e valioso de amizade e comunhão, não só a nível simplesmente humano, mas também a nível religioso. Por esta razão, os judeus evitavam o contato alimentar com membros pecadores de seu povo. Jesus agiu de maneira diferente: não chamou apenas Levi, o publicano; não só oferece perdão aos que então eram pecadores, mas partilhou com eles a sua amizade e o seu alimento. Por mais humana que pareça a sua atitude, por mais misericordioso que pareça o seu gesto, constitui motivo de escândalo aos olhos de Israel: Jesus colocou-se no lugar de Deus, levando o sinal da sua graça e comunhão ao perdido e culpado desta terra! Lembremo-nos de que essas refeições com os pecadores são sinal e antecipação da festa do banquete completo (do reino); neles tornou-se visível o tom peculiar da mensagem de Jesus, ou seja, a oferta do perdão e o estabelecimento de um novo tipo de relacionamento com Deus e com o próximo (vim chamar os pecadores!). Por tudo isso, os seus inimigos levaram Jesus ao Calvário, acusando-o de blasfêmia (quebrando a ordem de Deus na terra).

Para a mentalidade judaica, o banquete é, então, o lugar do encontro, da fraternidade, da igualdade onde os convivas estabelecem laços de família e de comunhão mais profundos e íntimos. Todos os pactos no AT sempre terminam com o banquete. Para os judeus, como para os orientais, em geral, na época, comer juntos constituía o sinal evidente e mais valioso de amizade e comunhão, não somente num nível simplesmente humano, mas também no plano religioso. Por isso, os judeus evitavam o contato na refeição com os membros pecadores de seu povo.

Jesus se comportou de forma diferente: não somente chamou Levi, o publicano; não somente ofereceu o perdão aos que, até então, eram pecadores, mas também fez refeição com eles e compartilhou sua amizade.

Mas por muito humana que pareça a atitude de Jesus, por misericordioso que seu gesto possa apresentar-se, constitui diante dos olhos dos seus contemporâneos causa de escândalo. Na verdade, ao fazer isso, Jesus se colocou no lugar de Deus, levando o sinal de sua graça e comunhão aos perdidos e culpáveis deste mundo: Os que são sadios não precisam de médico, mas sim os que estão doentes. Eu não vim chamar os justos, mas sim os pecadores para a conversão”.

É preciso nos recordar que as refeições de Jesus com os homens, especialmente com os pecadores convertidos são um sinal e antecipação do banquete pleno no Reino.

O símbolo mais apropriado do Reino de Deus é o banquete, pois se estabelecem a fraternidade, a comunhão e o amor sem limites. Não é por acaso que um dos sacramentos instituídos por Jesus é o Sacramento da Eucaristia (da refeição). A Eucaristia é a celebração da comunhão, da fraternidade, da igualdade, da família. É um dos momentos de nossa humanização, isto é, para nos tornarmos mais humanos, mais fraternos, mais familiares. Somente por este caminho é que podemos entrar no processo da divinização de nossa vida.  Ao sair de cada celebração eucarística devemos ser mais humanos, mais fraternos a ponto de sermos reflexos de Deus e devemos pensar mais no outro, pois o outro é o nosso irmão, ovelha do Senhor que devemos apascentar (cf. Jo 21,15-17). 

Os fariseus não entendem isso e criticam o comportamento de Jesus que se aproxima do publicano e faz banquete com ele. Como os fariseus nós também podemos ficar numa atitude de autossuficiência, achando que não precisamos do dom de Deus porque cumprimos os mandamentos, as regras rituais e achamos que Deus não tenha outra solução senão salvar-nos. E nos esquecemos de que a conversão é uma carreira inacabada. Além disso, quem não tem o amor fraterno no coração, como os fariseus, jamais entende o que é o Reino de Deus e desprezará a importância da conversão. A conversão é o encontro de dois amores: o amor eterno de Deus por mim e eu voltei a amar esse Amor eterno que me faz feliz neste mundo e me devolve na minha dignidade como filho amado de Deus. A conversão é o início do caminho da felicidade.

A quaresma é o tempo forte liturgicamente para dedicar um tempo para a reflexão e a oração. É o tempo para ouvir um pouco nossas preocupações, nossos assuntos demasiados humanos para levar em consideração os assuntos de Deus para nossa própria salvação.

“Ensinai-me os vossos caminhos e na vossa verdade andarei” é o refrão do Salmo Responsorial de hoje. Sempre temos algo a aprender na vida. Dentro do contexto da Palavra de Deus sabemos que somos débeis e nunca estamos prontos completamente para estar no caminho da Páscoa. A conversão é uma tarefa inacabada e silenciosa de cada dia e somente terminará no momento em que nossa respiração terminar aqui neste mundo. Quem deixar de aprender nunca será um bom evangelizador.

Ajude-me, Senhor, a destruir meus instrumentos de opressão e de prepotência, de egoismo e de materialismo e a deixar os meus hábitos autoritários, a linguagem maldosa que sempre eu emiti, e o meu olhar que condena. Dê-me um pouco de Sua força para acolher de coração aberto o indigente e prestar todo socorro ao necessitado, para que possa nascer na minha vida a Vossa Luz. Que minha mão seja Sua mão estendida para todas as pessoas em cujo caminho eu me coloco. Que Seu convite para abandonar tudo que não presta para o bem comum ressoe permanentemente no meu coração, e que não perca tempo nem demore em seguir Sua voz, Senhor. Dê-me, Senhor, a força para seguir adiante atrás de Seus passos para que um dia possa experimentar também Sua Ressurreição. Amém!”.

P. Vitus Gustama,svd

Sexta-feira Após Quarta-feira de Cinzas, 20/02/2026

O JEJUM QUE DEUS QUER DE CADA UM DE NÓS

Sexta-Feira Após Quarta-Feira De Cinzas

Primeira Leitura: Is 58,1-9

Assim fala o Senhor Deus: 1“Grita forte, sem cessar, levanta a voz como trombeta e denuncia os crimes do meu povo e os pecados da casa de Jacó. 2Buscam-me cada dia e desejam conhecer meus propósitos, como gente que pratica a justiça e não abandonou a lei de Deus. Exigem de mim julgamentos justos e querem estar na proximidade de Deus: 3“Por que não te regozijaste, quando jejuávamos, e o ignorastes, quando nos humilhávamos?”. É porque no dia do vosso jejum tratais de negócios e oprimis os vossos empregados. 4 É porque, ao mesmo tempo que jejuais, fazeis litígios e brigas e agressões impiedosas. Não façais jejum com esse espírito, se quereis que vosso pedido seja ouvido no céu. 5 Acaso é esse jejum que aprecio, o dia em que uma pessoa se mortifica? Trata-se talvez de curvar a cabeça como junco, e de deitar-se em saco e sobre cinza? Acaso chamas a isso jejum, dia grato ao Senhor? 6 Acaso o jejum que prefiro não é outro: quebrar as cadeias injustas, desligar as amarras do jugo, tornar livres os que estão detidos, enfim, romper todo tipo de sujeição? 7 Não é repartir o pão com o faminto, acolher em casa os pobres e peregrinos? Quando encontrares um nu, cobre-o, e não desprezes a tua carne. 8 Então, brilhará tua luz como a aurora e tua saúde há de recuperar-se mais depressa; à frente caminhará tua justiça e a glória do Senhor te seguirá. 9ª Então invocarás o Senhor e ele te atenderá, pedirás socorro, e ele dirá: “Eis-me aqui”.

Evangelho: Mt 9, 14-15

Naquele tempo, 14os discípulos de João aproximaram-se de Jesus e perguntaram: “Por que razão nós e os fariseus praticamos jejuns, mas os teus discípulos não?” 15Disse-lhes Jesus: “Por acaso, os amigos do noivo podem estar de luto enquanto o noivo está com eles? Dias virão em que o noivo será tirado do meio deles. Então, sim, eles jejuarão”.

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Sexta-feira é o dia de jejum. As leituras de hoje nos falam do JEJUM. O jejum sempre tem sentido de “privaçãoou de “renúncia”. Jejuar consiste essencialmente em nos privar de alimento pelo sentido da palavra, mas em geral é referido a qualquer tipo de privação. O jejum começa a reentrar na nossa cultura atual por razões de dieta e de estética, ou aconselhado por certas formas de religiosidade, com origem no Oriente.

O jejum é um dos componentes fundamentais da Quaresma. Mas podemos entender mal as suas motivações ou até cair no egoísmo e no orgulho. Por isso, a Igreja nos alerta para duas dimensões essenciais do jejum: a sua referência a Cristo e a sua dimensão de solidariedade. Mais que a privação de alimentos, é o espírito com que se realiza o jejum que determina o verdadeiro sentido do jejum. O jejum deve ser uma expressão do desejo profundo de conversão. Santo Agostinho dizia: Para jejuar deveras há que abster-se, antes de mais, de todo pecado”.

Fazer jejum significa saber renunciar a algo e dá-lo aos demais que estão em necessidade; é saber controlar nossas apetências; é saber nos defender com liberdade interior das contínuas urgências do mundo de consumismo. É jejuar em função da partilha, especialmente para os mais necessitados. Jejuar é purificador. Jejuar não seria privar-se de tudo e sim usar moderação em tudo, isto é, ser sóbrios. Jejum supõe um grande domínio de si, de disciplina de olhos, da mente e da imaginação. A falta de sobriedade é uma das causas pelas quais se obscurecem e se debilitam as melhores iniciativas e decisões de um cristão. A sobriedade é certamente uma garantia da capacidade de orar e de apreciar o Espírito Santo. Com a renúncia às coisas Cristo nos chama à alegria, a uma alegria profunda, nascida da paz da alma. Fazer jejum é renunciar a algo para dá-lo aos necessitados. O jejum com uma dimensão de solidariedade nos tira do egoísmo, nos tira de uma vida vazia. Paradoxalmente a vida vazia é pesada para quem a tem. Sou livre quando a graça pesa mais do que as regras e não o contrário.

O jejum deve conduzir o cristão para uma abertura maior para com os demais, especialmente para os necessitados. É Jejuar para poder dar mais aos pobres. Se a falta da caridade continuar, se a injustiça estiver presente em nosso modo de atuar com os demais, pouco poderá agradar a Deus nosso jejum e nossa Quaresma. Poderemos queixar, como os judeus do tempo do profeta Isaías, de que Deus não nos escuta, se não cuidarmos os filhos e filhas de Deus que estão passando por necessidade pelo básico?

O profeta Isaías, na Primeira Leitura, é chamado pelo Senhor para denunciar com energia e coragem o divórcio entre o culto e a moral: “Grita forte, sem cessar, levanta a voz como trombeta e denuncia os crimes do meu povo e os pecados da casa de Jacó”. Jejuar e conspirar contra o pobre é a forma mais perversa de religiosidade. O culto para ser autêntico deve ir precedido da justiça: antes de aproximar-se do altar, há que estar em paz com o irmão. O Deus dos profetas se conhece no implacável imperativo moral de justiça. É um erro separar o amor e a justiça. O profeta Isaías denuncia o vazio do jejum exterior, incapaz de transformar a conduta. Deus quer que a penitência leve à renovação do espirito pela prática da justiça e do bem. O Senhor somente está ao lado daqueles que se esforçam na prática do amor. Por isso, o profeta Isaias, na Primeira Leitura de hoje, descreve qual é o verdadeiro jejum que agrada a Deus (Is 58,6-9).  Deus não quer o jejum formalista que não tem em conta a vida do outro, e muito menos a justiça. Nada valem as ações que excluem o amor ao próximo. O verdadeiro jejum, no pensamento do profeta, remete ao comportamento capaz de renunciar à ganância, à avareza para começar a ser generoso e solidário; capaz de renunciar ao tempo pessoal para ir ao encontro do necessitado (doente, prisioneiro, idoso etc.) para estar com ele a fim de aliviar uma parte de sua dor. O jejum verdadeiro consiste em quebrar todas as cadeias injustas, em repartir o pão com o faminto. Segundo o profeta Isaias, o culto deve estar unido à solidariedade com os necessitados. Caso contrário, não agrada a Deus e é estéril. As manifestações exteriores de conversão têm a sua prova real na caridade e na misericórdia para com os necessitados, com os pobres, com os carentes do essencial como um ser humano para viver. O verdadeiro jejum é um verdadeiro compromisso com os irmãos necessitados e empobrecidos ou injustamente são presos.

Segundo o profeta Isaias, o culto deve estar unido à solidariedade com os necessitados. O jejum que Deus quer é a conversão a Ele e ao amor dos irmãos; é o jejum do egoísmo, partilhando com os necessitados o que se tem. Jejuar é bom, diz Deus, mas não é o essencial. O essencial é respeitar o próximo, não explorá-lo, não considerá-lo como um objeto para nosso proveito. Jejum sem amor carece de sentido, não agrada a Deus e é estéril. As manifestações exteriores de conversão têm a sua prova real na caridade e na misericórdia para com os necessitados, com os pobres, com os carentes do essencial como um ser humano para viver.

O texto do qual foram extraídos os dois versículos do Evangelho de hoje descreve a refeição que Mateus, o publicano, ofereceu a Jesus e a seus discípulos depois de ter recebido o convite de seguir o Messias, Jesus Cristo.

A frase-chave: “O noivo está com eles” (Mt 9,15). Por isso, não tem necessidade de fazer jejum. Jesus Cristo é o “Noivo”. Deus não é Alguém que era ou que será: Ele é. Na eternidade não há jejum, pois Deus está conosco e nós estamos com Deus e diante d´Ele. Por isso, os discípulos de Jesus não jejuam, pois vivem a alegria do encontro com Ele. O banquete do Cordeiro que o Senhor nos oferece elimina a morte para sempre e enxuga as lágrimas de cada rosto (Is 25,6-12; Ap 7,17). Em sua carne está inseparadamente unida a divindade e a humanidade. Celebram-se, então, as núpcias entre o homem e Deus. Ninguém está excluido das núpcias (festa), porque o Noivo, Jesus Cristo, é o princípio e o fim da criação e por Ele e em vista d´Ele  tudo foi feito e tudo susbsite (cf. Cl ,1,16s; Jo 1,3-5). Por isso, na casa de Mateus, o pecador (publicano), se encontram os discípulos, os outros pecadores, os discípulos de João e também os fariseus (veja a passagem anterior): todos estão presentes nas núpcias do Cordeiro, que carrega sobre si o pecado do mundo (Jo 1,29: Mt 8,17-citando Isaías). Todos estão convidados a participar da festa da salvação. O Senhor quer ceiar com todos, pecadores convictos ou não. Com Jesus acaba o jejum e inicia-se o banquete nupcial (Mt 9,14-15).

Na casa de Mateus, nós pecadores somos chamados para o banquete das núpcias. Nós homens conhecemos jejum ou carência, solidão, tédio e evidência/certeza de morte, porque tem fome de amor, vestido, embriaguez, novidade, vida e salvação. A vinda do Senhor sacia essa fome, tão antiga quanto o próprio homem, pois Ele vem para nos dar vida em abundância (Jo 10,10). Jesus Cristo é o alimento, o Pão da Vida (Jo 6,48), a veste nova, o melhor vinho reservado por último (Jo 2,1-12). Em Jesus é nos dado tudo o que Deus é.

Os discípulos de João Batista ficaram admirados pelo fato de que Jesus e seus discípulos não jejuem como eles, de maneira rigorosa. Na sua resposta Jesus diz que os discípulos de João Batista não viram ainda em Jesus “o esposo” messiânico. Se tivessem visto, compreenderiam que então o jejum não tinha o mesmo significado.

Jejum está relacionado com o tempo da espera. O próprio Jesus jejuou no deserto resumindo em sua pessoa a longa preparação da humanidade em vista da instauração do Reino de Deus. Mas quando começa seu ministério público, Jesus pode dizer com pleno direito que o Reino está presente, que o Esposo chegou e que não é conveniente aos amigos do Esposo jejuarem enquanto o Esposo está com eles. O jejum não tem mais sentido no tempo de realização. Somente depois da Ressurreição, o jejum retomará sua significação na medida em que o tempo da Igreja deverá ainda integrar a dimensão da preparação e construção do Reino de Deus.

Este é o ritmo da Igreja: o que ela já possui, dá o verdadeiro sentido àquilo que ainda está construindo e o que ela ainda constrói lhe dá consciência daquilo que já possui. Neste ritmo é que tem lugar o jejum: ele está ligado pela Igreja aos dias dedicados à espera e à preparação.

Tendo presentes estas dimensões, entendemos melhor o sentido do jejum que nos é recomendado e pedido pela Igreja, e mais facilmente evitamos cair na busca de uma perfeição individualista e fechada, sem nos preocuparmos com Cristo presente nos outros irmãos necessitados (Mt 25,40.45) como bem enfatizou o profeta Isaías na Primeira Leitura.

Em outras palavras, o verdadeiro jejum consiste em que cessam as palavras, mas que falem os fatos e as obras de caridade; que cale o entendimento, mas que grite o coração. Não há nada que seja mais eloquente do que um minuto de silêncio. Um minuto de silêncio pode ser um minuto de escuta, um minuto de reflexão, um minuto de compromisso, um minuto de amor, um minuto solidariedade, um minuto de ação compassiva para o necessitado. Um dia de jejum deve ser também um dia de amor e uma semente de esperança. Cada dia de jejum deve ser traduzido em um passo contra o egoísmo, um esforço de compreensão, um compromisso pela justiça e solidariedade, um trabalho pela paz, uma força irresistível de amor para amar quem não merece ser amado.

Um dia de jejum não nos converte, mas nos faz conscientes da necessidade de nos convertermos; não soluciona o problema da fome, mas nos solidariza com os famintos; não nos liberta do consumo, mas nos inicia no exercício da liberdade. É protesto contra a injustiça e o consumismo desenfreado; é chamada à conversão, é grito profético. Se alguém se castiga a si mesmo através do jejum é para que os outros não sejam castigados de fome pelo básico. Quando fazemos parar o estomago é para que o espírito trabalhe em nós. Quando nos privamos de alimentos é para que nos privemos dos vícios.

Por isso, o jejum cristão não consiste apenas em abster-se de alimentos. Consiste, sobretudo, em desejar o encontro com Jesus salvador e o encontro com irmão, especialmente com irmão carente do básico para viver e sobreviver como um ser humano. Jejuamos para nos tornarmos sensíveis à fome e à sede de tantos irmãos e para assumirmos a nossa responsabilidade na resolução dos problemas dos pobres e carentes. A memória da paixão de Jesus não é um simples ritual, mas um ato de misericórdia, no sentido da palavra do Senhor: «Prefiro a misericórdia ao sacrifício» (cf. Mt 9, 13). A sua paixão é obediência ao Pai, mas também um gesto de extrema caridade, de solidariedade com todos nós. Não podemos restringir o jejum em não comer a carne. A maioria de nossa gente nem arroz tem e muito menos a carne. O verdadeiro jejum é dividir o que temos para oferecer a quem nada tem para viver. É dar nossas roupas não mais usadas para cobrir quem está sem nada para se vestir (cf. Mt 25,31-46). Sabemos que jamais podemos arrancar totalmente o sofrimento alheio, mas uma parte dele pode ser aliviada com nossa solidariedade e compaixão. Ninguém pode entrar no céu feliz deixando o irmão passando fome e outras necessidades básicas para um ser humano viver dignamente.

Por isso, podemos dizer que o que importa no jejum não é somente a privação de alimento e sim a seriedade da nas tarefas da vida para que sejam a expressão mais viva do serviço de Deus e dos homens ao mesmo tempo. O jejum não se concebe sem caridade e sem uma mudança de vida para uma vida mais fraterna. O jejum que Deus quer é o cumprimento dos deveres morais e humanos com o próximo na vivência do amor fraterno.

A febre do consumismo hoje em dia é um grande desafio para praticar um profundo jejum, isto é, o verdadeiro encontro com Deus e com o próximo. Jejum é um dos caminhos da libertação.

Não podemos nos esquecer que a Quaresma que agrada a Deus e que nos traz a paz é: Quebrar as cadeias injustas; Libertar os oprimidos; Repartir o pão com o faminto; Acolher em casa os pobres e peregrinos; Cobrir ou vestir os nus; Não desprezar o próximo. É preciso jejuar de julgar os outros para descobrir Cristo que vive neles. É preciso jejuar de palavras que prejudicam os outros para substituí-las com frases curadoras. Jejuar de descontento para substitui-lo de gratuidade. Jejuar de pessimismo para substitui-lo de esperança cristã. Jejuar de preocupações para enchê-las de confiança em Deus. Jejuar das pressões que não cessam para enchê-las de uma oração sem cessar. Jejuar de amargura para enchê-la de perdão e de reconciliação. Jejuar de dar importância a si mesmo para substitui-la de compaixão pelos demais.  Jejuar de ansiedade sobre suas coisas para se comprometer com a propagação do Reino de amor. Jejuar de desalento para enchê-lo de entusiasmo da fé. Jejuar de pensamentos mundanos para enchê-los das verdades que fundamentam a santidade.  O melhor jejum nestes tempos da quaresma é reconciliar-nos com o irmão a quem insultamos, é aceitar seu perdão e apoiá-lo em suas necessidades. O melhor jejum que podemos oferecer nestes tempos de quaresma é voltar os olhos para Deus amando ao próximo e perdoando de coração a quem nos fez dano.

Somente então, “invocarás o Senhor e ele te atenderá, pedirás socorro, e ele dirá: “Eis-me aqui” (Is 58,9ª). É preciso levar à oração essas palavras que nos queimam como as brasas.

P. Vitus Gustama,svd

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Quinta-feira Após Quarta-feira de Cinzas, 19/02/2026

ESCOLHA A VIDA PARA ENCONTRAR O DEUS DA VIDA

Quinta-feira, Após Quarta-feira de Cinzas

Primeira Leitura: Dt 30,15-20

Moisés falou ao povo dizendo: 15 “Vê que eu hoje te proponho a vida e a felicidade, a morte e a desgraça. 16 Se obedeceres aos preceitos do Senhor teu Deus, que eu hoje te ordeno, amando ao Senhor teu Deus, seguindo seus caminhos e guardando seus mandamentos, suas leis e seus decretos, viverás e te multiplicarás, e o Senhor teu Deus te abençoará na terra em que vais entrar, para possuí-la. 17 Se, porém, o teu coração se desviar e não quiseres escutar, e se, deixando-te levar pelo erro, adorares deuses estranhos e os servires, 18 eu vos anuncio hoje que certamente perecereis. Não vivereis muito tempo na terra onde ides entrar, depois de atravessar o Jordão, para ocupá-la. 19 Tomo hoje o céu e a terra como testemunhas contra vós, de que vos propus a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e teus descendentes, 20 amando ao Senhor teu Deus, obedecendo à sua voz e apegando-te a ele — pois ele é a tua vida e prolonga os teus dias —, a fim de que habites na terra que o Senhor jurou dar a teus pais Abraão, Isaac e Jacó”.

Evangelho: Lc 9, 22-25

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 22“O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da Lei, deve ser morto e ressuscitar no terceiro dia”. 23Depois Jesus disse a todos: “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia e siga-me. 24Pois quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, esse a salvará. 25Com efeito, de que adianta a um homem ganhar o mundo inteiro, se se perde e se destrói a si mesmo?”

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É Preciso Viver De Acordo Com Os Mandamentos De Deus Para Encontrar a Felicidade e a Vida Eterna

Hoje te proponho a vida e a felicidade, a morte e a desgraça. Se obedeceres aos preceitos do Senhor teu Deus, que eu hoje te ordeno, amando ao Senhor teu Deus, seguindo seus caminhos e guardando seus mandamentos, suas leis e seus decretos, viverás e te multiplicarás, e o Senhor teu Deus te abençoará na terra em que vais entrar, para possuí-la”. É o discurso de Moisés para os israelitas que lemos na Primeira Leitura.

Israel é obrigado a escolher entre a vida e e a morte, a felicidade e a desventura. O povo se encontra do Senhor. No contexto do tipo cultual, a vida é compreendida no sentido de estar com o Senhor, e a morte é entedida como afastamento do Senhor. “Deus de quem separar-se é morrer, a quem retornar-se é ressuscitar, com quem habitar é viver” (Santo Agostinho: Solil. 1,1,3).

O tema dos dois caminhos, o da vida e o da morte, é muito típico das literaturas religiosas da antiguidade. A vida e a felicidade dependem da obediência aos mandamentos do Senhor. Por outro lado, o caminho da morte ou o da desgraça parte do coração desviado dos mandamentos do Senhor que resulta na idolatria. O homem tem a total liberdade para escolher entre a bênção ou maldição de Deus.

Vivemos a vida de cada dia escolhendo. Entramos numa loja ou num supermercado para escolher o que é melhor. Ninguém leva nada para casa sem antes escolher o que é melhor. Em tudo na vida temos que escolher. Na escolha está decidida nossa vida e nosso futuro. Ninguém é nem pode ser espectador da própria vida. A vida é para ser vivida a partir da escolha feita. Não reclame nem se lamente pelos resultados, e sim pela escolha feita anteriormente. Como disse uma canção: “Eu não choro pela despedida e sim pelo encontro”. Por causa do encontro tem como consequência a despedida. A morte supõe o nascimento. A alegria e a tristeza vivem lado a lado.

A história dos dois caminhos é, portanto, a história do homem diariamente: bem e mal, maldição e bênção, fidelidade e idolatria, vida e morte, obediência e traição, senda larga e senda estreita. Qualquer escolha que o homem faz ou fizer, se jogarão seu futuro e sua vida. Cada escolha na vida sempre tem suas consequências seja para o bem, seja para o mal. Não fazer nenhuma escolha é também uma escolha, e o futuro e a vida são decididos também a partir desta atitude de indiferença. 

Na vida, então, nos encontramos com duas realidades bem definidas: o caminho da vida, pelo qual todos nós aspiramos; e o caminho da morte, contra tudo que lutamos. Contemplando nossa realidade, percebemos quealguns ou muitos lados escuros de nossa vida como fruto do egoísmo do ser humano. Muitos confundiram a felicidade com o possuir o passageiro. Eles se tornaram, muitas vezes, compradores compulsivos de coisas que finalmente continua deixando para eles o coração vazio.

O texto do livro de Deuteronômio que lemos na Primeira Leitura nos convida a começarmos a Quaresma optando entre a vida e a morte, a bênção ou a maldição. Optar pela vida é optar por Deus e optar por Deus significa levantar-nos cada dia com a alegria e o compromisso de voltar para nossa Terra prometida (família, comunidade, país etc.) para reconstruir a fraternidade, a esperança, a justiça, a paz.

A Quaresma é tempo de renovação cristã, retomando o caminho iniciado por nosso Batismo, de dar um novo passo a uma maior perfeição cristã no seguimento de Cristo. Isto significa que o cristão deve se converter permanentemente. No momento em que o cristão se converte, ele se abre para Deus, se compromete com Ele e assume a responsabilidade de lutar contra o mal, e tudo o que causa a morte, a destruição, a injustiça, a violência e assim por diante.

Não nos esqueçamos que a Quaresma é o caminho para a Páscoa. Este mistério de morte e vida atinge a existência íntima do cristão. O discípulo de Jesus Cristo deve abraçar a cruz para encontrar a vida. De nada adianta ganhar o mundo se o cristão perde sua vida com Deus. Somente morrendo para nós mesmos para dar lugar à vontade de Deus teremos o caminho da verdadeira liberdade e alegria.

No Evangelho de hoje, Jesus propõe a cruz como um caminho, uma via para a plenitude da “vida”: é preciso que o Filho do Homem padeça muito para entrar em sua glória, “morte” que conduz para a “ressurreição”. Mas precisamos entender que toda a razão de ser de Jesus é amar. Sua missão é amar e dar a vida aos homens. Mas o pecado dos homens unirá esta missão à morte.

É óbvio que Deus não quer que seu Filho sofra. Deus quer Ele ame e dê a vida por todos (cf. Is 53). A morte de Jesus não é a meta; é somente o passo para a “Vida”.

Como Jesus, os cristãos/discípulos devem amar, viver para os demais, em meio do egoísmo do mundo. Este é dar a vida, enterrar-se cada dia no dom tendo como apoio a esperança.

Dar a vida, morrer, neste sentido, é viver para o cristão. É realizar-se no dom total. Este viver na morte é duro quando se pensa no caminho dos triunfalismos. É mais fácil destruir os outros do que construí-los, quando a condição para isso é a própria morte.

O viver cristão é uma contínua proximidade à cruz de Jesus. A cruz é o caminho para a plenitude da vida e a condição indispensável para seguir a Jesus.  Morrer com Cristo é viver; ganhar o mundo é perde-lo; amar a própria vida é odiar-se. Somente quem abraça a morte por amor aos demais passa além da morte e entra na vida de Aquele que venceu a morte: Jesus Cristo, nosso Salvador.

Ser Cristão É Uma Opção Fundamental

Dentro da reflexão sobre a Primeira Leitura, o texto do Evangelho de hoje quer nos dizer que ser cristão não é uma pequena opção e sim uma opção fundamental. A Primeira Leitura nos apresenta dois caminhos. É claro que o caminho que nos propõe Jesus não é precisamente fácil, como nos apresenta o evangelho de hoje. O caminho de Jesus é muito bem paradoxal: a vida através da morte. É um caminho exigente, que inclui a subida a Jerusalém, a cruz e a negação de si mesmo: é saber amar, perdoar, oferecer-se serviçalmente aos demais, é saber crucificar nossa própria vontade (cf. Gl 5,24). Mas é o caminho que vale a pena. O que vale, custa. Todo amor supõe renúncia. No fundo, para nós, o próprio Cristo é o Caminho: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6).

Ser cristão não é um cargo honorífico nem um doutorado honoris causa. Há condições claras resumidas em três linhas: Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, esse a salvará”.  Este texto é uma profecia sobre o discípulo e cada cristão (Jesus disse a todos...v.23). O cristão/discípulo viverá na própria carne a mesma Paixão que o Senhor acaba de predizer. Porém, terminará numa vida gloriosa. Por isso, a cena que segue é a Transfiguração que é a antecipação da Ressurreição. Por isso, seguir a Jesus e carregar a cruz, perder a vida por Cristo e ganhá-la são interligados.

Jesus Cristo nos ensina, não somente com palavras, e sim com seu próprio exemplo, que o caminho da felicidade, o caminho da vida se encontra na capacidade de nos relacionarmos com os demais e de vivermos fraternalmente unidos pelo amor. Por isso, temos de ir atrás das pegadas de Cristo, carregando nossa cruz de cada dia. Quem for por um caminho diferente ao de amor que Cristo nos mostrou, em lugar de dar vida, dará morte, ele próprio se converterá em destruidor da vida alheia.

A glória de Cristo passa, primeiro, pela cruz. E passa pela cruz como consequência de sua maneira de viver a missão cuja alma é o amor. Por isso, a cruz de Jesus não é um acidente, tampouco uma equivocação. Quando Jesus anuncia sua morte, não está dizendo outra coisa que assumirá consequentemente sua vida justa e solidária. Mas não somente anuncia sua morte, anuncia também sua ressurreição. É a ressurreição que somente virá como consequência de sua morte na cruz pela vida justa e solidaria que ele viveu. O ressuscitado é o crucificado.

Tomar a cruz”, por isso, não é outra coisa que assumir o projeto de vida que Jesus nos mostrou. A cruz é o fruto de uma obediência ou fidelidade incondicional ao projeto de Deus. Obedecer é criar relações; é atender ao convite de outrem. Obedecer é fazer próprias as necessidades do(s) outro(s). A obediência é a resposta a uma solicitação ou proposta que vem de fora, do outrem. E não há obediência sem fidelidade ao projeto assumido.  Neste sentido e no sentido do próprio termo, a obediência não tem nada a ver com coisa imposta, pois a imposição tira a liberdade e cria o medo. A imposição aterroriza qualquer subordinado, e, conseqüentemente, cria um relacionamento falso. E na imposição não há diálogo, há apenas ordem para ser obedecida e cumprida. Na imposição não há amor, somente medo e terror. A obediência de Jesus é uma obediência baseada no amor e voltada unicamente ao cumprimento da vontade do Pai que é a salvação dos homens por amor. Jesus assumiu a cruz em sinal de fidelidade ao amor. A cruz é o resultado de decisões voluntárias e compromissos escolhidos ao querer seguir a Jesus. O Calvário é a revelação da fidelidade de Jesus ao amor e revelação do seu amor num mundo de males e sofrimento. Nós existimos, então, porque Deus nos amou, somos porque Deus nos ama, fomos redimidos e santificados porque Cristo se ofereceu por nós por amor. O amor, por isso, é o fundamento e o princípio de nosso ser e deve sê-lo também do nosso agir, e de nossa obediência a Deus que se traduz no amor ao próximo. Carregar a cruz é, portanto, um estilo de vida cotidiana como resultado da vivência dos valores do Reino, da obediência à vontade de Deus, da escolha de uma ética de justiça e de solidariedade e de compromisso com o projeto de Deus na transformação de um mundo mais fraterno.

O caminho de Jesus se resume em três palavras: sofrimento, morte, ressurreição (mistério pascal). Nosso caminho constitui três aspectos: negar-nos a nós mesmos, tomar cada dia a cruz e acompanhar Jesus. “Negar-se a si mesmo” é renunciar a nossos gostos, desejos para estar com Jesus. O problema de nosso cristianismo hoje é que queremos levar as vantagens de ser cristão sem tomar as responsabilidades que estas implicam (benefícios sem obrigações). A Quaresma pode ser uma boa oportunidade para iniciarmos no exercício da renúncia. Pensemos bem de que maneira utilizaremos nossa Quaresma para que a Páscoa seja verdadeiramente uma “Páscoa de Ressurreição”.

Portanto, as leituras de hoje nos falam, por um lado, de um coração resistente diante de Deus e por outro lado, de um coração que se adere a Deus. Meu coração é resistente diante de Deus quando não quero ver Sua graça, quando não quero ver Sua obra na minha vida, quando não quero ver Seu caminho sobre a minha existência. Meu coração se adere a Deus, quando em meio de mil inquietudes e vicissitudes, em meio de mil circunstancias, eu vou sendo capaz de descobrir, de encontrar, de amar, de pôr-me diante d’Ele e Lhe dizer: “Aqui estou, Senhor! Pode contar comigo!”. Escutar Deus será o esforço de toda minha quaresma, será a minha escolha da vida e da felicidade. O céu e a terra são testemunhas da minha opção de cada dia: Tomo hoje por testemunhas contra vós o céu e a terra; ponho diante de vós a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolhe a vida para viveres, tu e a tua descendência, amando o SENHOR, teu Deus, escutando a sua voz e apegando-te a Ele, porque Ele é a tua vida e prolongará os teus dias para habitares na terra, que o SENHOR jurou que havia de dar a teus pais, Abraão, Isaac e Jacob”.

Oração do Dia

Inspirai, ó Deus, as nossas ações e ajudai-nos a realizá-las, para que em vós comece e termine tudo aquilo que fizemos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

P. Vitus Gustama,svd

Sábado Após Quarta-feira De Cinzas,21/02/2026

CONVERTER-SE PARA SE TORNAR DOM PARA OS DEMAIS HOMENS Sábado Depois Das Cinzas Primeira Leitura: Is 58,9b-14 Assim fala o Senhor, 9b se ...