terça-feira, 30 de junho de 2026

Quarta-feira Da XIII Semana Comum, Ano Par, 01/07/2026

JESUS VEM NOS LIBERTAR DO MAL PARA PRATICARMOS SOMENTE O BEM

Quarta-Feira Da XIII Semana Comum

Primeira Leitura: Am 5,14-15.21-24

14 Procurai o bem e não o mal, para que possais viver, e, deste modo, o Senhor, Deus dos exércitos estará convosco, como vós o dizeis. 15 Odiai o mal e amai o bem, restabelecei a justiça no julgamento, talvez o Senhor Deus dos exércitos se compadeça do resto da tribo de José. 21 “Aborreço, rejeito vossas festas, diz o Senhor, não me agradam vossas assembleias de culto. 22 Se me oferecerdes holocaustos, não aceitarei vossas oblações e não farei caso de vossos gordos animais de sacrifício. 23 Livra-me da balbúrdia dos teus cantos, não quero ouvir a toada de tuas liras. Que a justiça seja abundante como água e a vida honesta, como torrente perene”.

Evangelho: Mt 8,28-34

Naquele tempo, 28 quando Jesus chegou à outra margem do lago, na região dos gadarenos, vieram ao seu encontro dois homens possuídos pelo demônio, saindo dos túmulos. Eram tão violentos, que ninguém podia passar por aquele caminho. 29 Eles então gritaram: “Que tens a ver conosco, Filho de Deus? Tu vieste aqui para nos atormentar antes do tempo?” 30 Ora, a certa distância deles, estava pastando uma grande manada de porcos. 31 Os demônios suplicavam-lhe: “Se nos expulsas, manda-nos para a manada de porcos”. 32 Jesus disse: “Ide”. Os demônios saíram, e foram para os porcos. E logo toda a manada atirou-se monte abaixo para dentro do mar, afogando-se nas águas. 33 Os homens que guardavam os porcos fugiram e, indo até a cidade, contaram tudo, inclusive o caso dos possuídos pelo demônio. 34 Então a cidade toda saiu ao encontro de Jesus. Quando o viram, pediram-lhe que se retirasse da região deles.

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É Preciso Passar a Vida Fazendo o Bem Para Viver Na Plenitude De Deus

Procurai o bem e não o mal, para que possais viver, e, deste modo, o Senhor, Deus dos exércitos estará convosco, como vós o dizeis. 15 Odiai o mal e amai o bem, restabelecei a justiça no julgamento, talvez o Senhor Deus dos exércitos se compadeça do resto da tribo de José”, assim disse o profeta Amós na Primeira Leitura de hoje. “Deus convosco” é uma das fórmulas da Aliança.

Ao final do reinado de Jeroboão II (782-753 a.C), até o ano 750 a.C, o Reino do Norte vive na prosperidade: êxitos militares, atividades comerciais frutuosas, riqueza e luxo. As pessoas acabam por crer que são objeto de uma espécie de particular predileção divina. Mas o profeta Amos denuncia esta falsificação da Aliança, esta “pretensão” de privilégio. Para estar realmente com Deus há que procurar o bem e evitar o mal.

Detestai o mal, amai o bem, fazei que reine o direito no Tribunal”. Uma das características mais acusadas do profetismo bíblico, e que assinala sua linha reformadora é a ideia de que a religião e ética são inseparáveis.

O que agrada a Deus é a busca do bem, tanto no plano individual como no plano social. Uma civilização de abundancia pode, por desgraça, encobrir muitas injustiças: a corrupção do direito é, para o profeta Amos, um crime profissional, pois quando uma pessoa se torna cada vez mais poderosa, mais facilmente pode prejudicar as pessoas mais humildes que não podem defender-se.

Apesar do anúncio da desgraça, o discurso do profeta Amós não está totalmente fechado à esperança. A intenção do anúncio do juízo, como ameaça e predição, é a última advertência para que todos se convertam. Trata-se de um último chamamento para a criação das condições de justiça, de retidão e de fraternidade para que todos vivam felizes e seguros. Segundo o profeta Amós, a própria desgraça que Deus infligiu a seu povo tem como intenção de Deus de trazer de volta o povo para Seu lado. Tanto na desgraça como na ameaça dessa desgraça, segundo Amós, Deus se mostra interessado por seu povo.

Tudo isto quer nos dizer que no fundo do discurso de Amós sobre a desgraça e a ameaça, há uma mensagem de confiança. Existe uma tensão entre a ameaça do juízo, condicionada pelo pecado, pela conversão, pela salvação e pela retidão dos homens, e a esperança de salvação condicionada pela justiça e pela misericórdia de Deus. Deus é misericordioso desde que nos convertamos: “Detestai o mal, amai o bem, fazei reinar a justiça no tribunal”.

Buscai o bem, não o mal, para terdes mais vida, só assim o Senhor Deus dos exércitos vos assistirá”. “Busacar a Yahwe” significa tomar na vida religiosa uma firme determinação de descobrir. “Buscar” ( Hbr: darash) significava a consulta da vontade de Deus, tanto por procedimentos rituais como por reflexão sobre a Torá.

Tudo o que é bom absolutamente é o bem. Todo ser é bom na medida em que é perfeito como ser. O bem metafísico é o próprio ser enquanto perfeição absoluta. O bem vale por si. O bem é aquilo que todos desejam, porque todos tendem naturalmente para um fim que é seu bem e a nada aspiram senão sob o aspecto de bem. É aquilo que é buscado por razão de si próprio. Por isso, Aristóteles dizia “O bem é aquilo  a que todas as coisas tendem” (Ética a Nicômaco, I,1).

Quando uma pessoa se deixar conduzir pelo bem, ela praticará somente a bondade na convivência com as demais pessoas. A bondade é a própria perfeição possuída por um ser. E como atividade, a bondade é a capacidade que possui um ser de dar a outro a perfeição que lhe falta.

Busquemos o bem para que sejamos bons ou para que sejamos pessoas de bondade. Somente assim Deus nos assistirá. Uma vida significativa é feita de uma série de pequenos atos diários de bondade e de decência, que quando somados no final, resultam, paradoxalmente, em algo grandioso. Pela prática de atos justos, aprendemos a ser justos; pela prática de atos de autocontrole, aprendemos a ter autocontrole; e pela prática de atos de coragem, chegaremos a ser corajosos. Vivemos neste planeta por um tempo muito curto. A nossa vida relativamente curta é apenas faísca na tela da eternidade. Por isso, precisamos aprender a apreciar a jornada e a saborear o processo praticando a bondade.

Reflitamos sobre o seguinte pensamento: “Para ser, pelo menos, um pouquinho feliz, para ter um pouco do paraíso na terra, você deve reconciliar-se com a vida, com sua própria vida do jeito que estiver, deve fazer as pazes com seu serviço, com os recursos de sua carteira, com seu rosto que você não escolheu. Você deve fazer as pazes com as pessoas a seu redor, com suas falhas e fraquezas, com seu marido (ou sua mulher), mesmo que você não tenha encontrado o marido ou a mulher ideal. Reconcilie-se com a vida! Você está em sua própria pele e, em outra pele ninguém mais pode gerar você(Phil Bosmans: Eu Gosto De Você, Ed. Vozes).

É Preciso Acreditar Em Jesus Porque Ele É Mais Forte Do Que o Mal

Depois que acalmou a tempestade na cena do evangelho anterior, desta vez Jesus libertou (curou) dois enfermos dando-lhes uma nova oportunidade na vida. O ato de Jesus de libertar os dois enfermos mostra que o Deus da Bíblia é o Deus que entende a realidade humana e chama o ser humano a experimentar seu amor misericordioso para poder usufruir a vida dignamente.

O milagre da libertação dos dois possuídos na região dos gadarenos está cheio de símbolos. Mateus usa vários termos nesta cena para nos levar ao sentido da cena e o sentido da presença de Jesus nessa região: dois possuídos, violentos, moram entre os túmulos (cemitério), e uma manada de porcos está por perto deles. “Túmulo” é o lugar dos mortos ou onde os mortos são enterrados. É o lugar dos impuros, como também impuros são os porcos segundo os judeus. Ao dizer que os dois homens estão “saindo dos túmulos” o texto quer nos dizer que os dois pertencem aos descartáveis, estão no nível inferior da sociedade, vivem fisicamente nas margens, longe de núcleos familiares, estão em condições de mortos em vida e estão em rebelião contra a sociedade que os oprimem (violentos). Os endemoninhados estão “possessos” que os tornou não donos de si e sim estão sob o domínio do diabo. Diabo significa “divisão”, “desunião”: com mentira, divide o ser humano na sua verdade de filho e de irmão.

Precisamos nos lembrar daqueles que vivem desta maneira na nossa sociedade atual, especificamente na nossa cidade onde moramos atualmente. Quem são os descartáveis nas nossas cidades ou sociedade? Que não os vejamos como algo normal porque sempre passamos por eles diariamente. É sempre uma situação desafiadora para qualquer cristão, é uma situação que nos inquieta. Quando o nosso coração deixar de ter compaixão, deixaremos também de ser cristãos, discípulos do Senhor que prefere a misericórdia ao sacrifício.

Os dois, mortos em vida, vão ao encontro da Vida por excelência, que é Jesus Cristo (cf. Jo 14,6). Mas eles se aproximam de Jesus de maneira antagônica e fazem duas perguntas rápidas: 1). “Que queres de nós, Filho de Deus?”. Eles se dirigem a Jesus como Filho de Deus e O reconhecem como homem de Deus. 2). Tu vieste aqui para nos atormentar antes do tempo?”. Esta segunda pergunta revela a consciência do papel de Jesus como juiz escatológico, aquele que julga no fim dos tempos (Mt 25,31-46). O tempo do julgamento alvorece no ministério de Jesus embora ainda não seja plenamente.                 

Sem responder às perguntas Jesus os libertou e devolveu-lhes sua dignidade como filhos de Deus e os integrou novamente na comunidade, mostrando que o poder de Jesus é superior ao mal e ao mau e o vence eficazmente. 

O milagre da libertação dos possuídos não produz muito efeito para os habitantes locais, que pedem a Jesus que se retire do seu território. Eles consideram Jesus como culpado pela perda de uma manada de porcos e não lhe agradecem pela libertação dos dois homens de seus males. Jesus vai em busca dos corações dóceis ao seu poder. Eles amam mais coisas do que as pessoas (dois homens). Necessitamos amar as pessoas e usar as coisas e não amar as coisas e usar as pessoas. Necessitamos de uma presença humana ao nosso lado e não da abundância de bens que não conversam com nós. 

Isto significa que continua a oposição contra o plano de Deus como a tempestade contra a barca onde Jesus se encontrava. A existência alternativa do discipulado, seguindo o compromisso de Jesus para beneficiar aos excluídos, marginalizados e abandonados significa conflito porque ameaça os interesses criados pela elite de grande interesse pessoal da sociedade. Mas no coração aberto para a graça de Deus vai morar a salvação. Onde há o encontro com a Vida por excelência ali há libertação.  

Não há lugar para o poder do maligno em um mundo onde entrou ou deixa entrar o poder salvífico de Deus. E Jesus continua sua luta contra o mal. E nós com Ele. É o mal que há dentro de nós e o mal que há no mundo. É o mal dentro da Igreja e fora dela. É o mal entre os líderes da Igreja e entre os seus membros. E Jesus continua sendo forte, e nós com Ele. E no Pai Nosso pedimos sempre a Deus: “Livrai-nos do mal”, que também pode ser traduzido “livrai-nos do mau, do nocivo”.  Quando vamos comungar o Pão da Vida somos lembrados que Jesus é Aquele que tira o pecado do mundo. E somos enviados depois da comunhão a ajudar os outros a se libertarem de seus males. Devemos ser bons transmissores dessa vida recebida na comunhão para os demais para eles alcancem sua libertação e sua liberdade e vivam gozosamente sua vida. Onde houver espaço para o Bem e para o bem, não sobrará espaço para o mal. Jesus foi para a região dos gadarenos para que tenha espaço para o bem eliminando o mal daquele lugar. Somos enviados para que o bem tenha lugar na vida dos homens.                 

O poder de Jesus vence qualquer outro poder. Por isso, há um só poder com que nós devemos contar: o poder de Deus. “Quem não conta com Deus, não sabe contar” (B. Pascal). Crer verdadeiramente em Jesus, com todas as consequência deste crer, é ser vitorioso, pois Deus tem a ultima palavra sobre os homens e outras realidades. Mesmo que o mal tenha uma aparência poderosa, ele não tem futuro. Somente o bem tem a marca do futuro, uma marca divina, uma marca da eternidade. 

Será que somos como os gadarenos que desaprovam a presença de Jesus Cristo, nosso libertador de nossos males? Que lugar ocupa Jesus nossa vida e que lugar ocupam os bens materiais na nossa vida. Os gadarenos preferem perder Jesus a perder seus bens (porcos). Precisamos pedir a Jesus que nos liberte das cadeias que nos atam, dos males que nos possuem, das debilidades que nos impedem de uma marcha ágil em nossa caminhada cristã. E temos nos esforçar para corrigir nossos erros. Não corrigir os nossos erros é uma maneira de cometer novos erros.

P. Vitus Gustama,svd

domingo, 28 de junho de 2026

Terça-feira Da XIII Semana Comum, Ano Par, 30/06/2026

EM DEUS PARA TER CORAGEM DE LEVAR JESUS E SUA MENSAGEM PARA OS QUE ESTÃO DO OUTRO LADO

Terça-Feira da XIII Semana Comum

Primeira Leitura: Am 3,1-8;4,11-12

3,1 Ouvi, filhos de Israel, a palavra que disse o Senhor para vós e para todas as tribos que eu retirei do Egito: 2 “Dentre todas as nações da terra, somente a vós reconheci; por isso usarei o castigo por todas as vossas iniquidades. 3 Se duas pessoas caminham juntas, não é porque estão de acordo? 4 Se o leão ruge na selva, não é porque encontrou a presa? Se no covil rosna o filhote do leão, não é porque agarrou sua parte? 5 Acaso, sem armadilha, se prende uma ave no chão? Acaso dispara a armadilha, antes de capturar a presa? 6 Se ressoa na cidade o toque da trombeta, não fica a população apavorada? Se acontece uma desgraça na cidade, não foi o Senhor que fez? 7 Pois nada fará o Senhor Deus, que não revele o plano a seus servos, os profetas. 8 Ruge o leão, quem não terá medo? Falou o Senhor Deus, quem não será seu profeta?” 4,11 “Eu arrasei-vos, como arrasei Sodoma e Gomorra, e ficastes como um tição, retirado da fogueira; e, contudo, não voltastes para mim”, diz o Senhor. 12 Por isso, assim te tratarei, Israel; e, porque sabes como te vou tratar, prepara-te, Israel, para ajustar contas com o teu Deus.

Evangelho: Mt 8, 23-27

Naquele tempo, 23 Jesus entrou na barca, e seus discípulos o acompanharam. 24 E eis que houve uma grande tempestade no mar, de modo que a barca estava sendo coberta pelas ondas. Jesus, porém, dormia. 25 Os discípulos aproximaram-se e o acordaram, dizendo: “Senhor, salva-nos, pois estamos perecendo!” 26 Jesus respondeu: “Por que tendes tanto medo, homens fracos na fé?” Então, levantando-se, ameaçou os ventos e o mar, e fez-se uma grande calmaria. 27 Os homens ficaram admirados e diziam: “Quem é este homem, que até os ventos e o mar lhe obedecem?”

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Somos Chamados a Voltar Para Deus Antes Que Destruamos Nossa Própria Vida e a Vida Alheia

Ouvi, filhos de Israel, a palavra que disse o Senhor para vós e para todas as tribos que eu retirei do Egito: ´Dentre todas as nações da terra, somente a vós reconheci; por isso usarei o castigo por todas as vossas iniquidades´”.

Amós é um profeta que aparece subitamente como um relâmpago de tormenta num mundo de refinada crueldade com suas palavras firmes e rigorosas. Ele é quem introduz no profetismo a espontaneidade dinâmica e valente desconhecida desde a desaparição do profeta Elias. Outros profetas se amadurecem à sombra de um mestre. Amós conhece somente a feroz chamada de Deus que o arrasta a fazer sentir suas exigências no coração da cidade e a restituir a totalidade de uma obrigação: a aliança. As palavras do profeta Amós estão cheias de indignação moral: não condenam o progresso humano e sim o orgulho e a injustiça.

Através da Primeira Leitura de hoje, o profeta Amós quer nos relembrar que nenhum povo se escapará da justiça de Deus. Amós afirma a igualdade de todas as etnias e de todas as nações diante da justiça e da misericórdia de Deus. Além disso, o profeta Amós quer recordar todo o povo eleito ou quem quer que seja, que longe de ser um privilégio, a eleição particular de Israel é uma maior responsabilidade. Quanto maior for o privilégio e o cargo, maior será a responsabilidade e a cobrança fica maior também: “A quem muito foi dado, muito será exigido; e a quem muito foi confiado, muito mais será pedido” (Lc 12,48).

A palavra “responsabilidade” tem sua origem etimológica no latim: “respondere” que significa “prometer”, “garantir”. O que garante a responsabilidade e o sentido da vida do ser humano são os valores. Ter responsabilidade significa ser coerente com os valores reconhecidos. Responsabilizar-se significa elevar a própria existência para uma dimensão superior por causa da vivência dos valores reconhecidos. Responsabilidade e valores sempre andam inseparáveis. Todo ato autenticamente responsável está em comunhão com os valores. Quem vive de acordo com a responsabilidade jamais se torna escândalo para os demais. Responsabilidade é uma vida vivida de acordo com os valores reconhecidos universalmente.  Uma pessoa só pode ser chamada de responsável quando sua vida e sua atuação na sociedade ou na Igreja são orientadas pelos valores humanos reconhecidos universalmente.

O profeta Amós observa que o povo eleito vive fora da Aliança com Deus e por isso, vive irresponsavelmente, que causa muito sofrimento especialmente para os mais pobres e indigentes, para os mansos e os justos da sociedade. Por isso, o profeta Amós convida o povo a aprofundar a ideia de Aliança, pois Deus elegeu o povo de Israel para que fosse testemunha de uma certa concepção da existência e da coexistência na fraternidade e na justiça social.

No Batismo recebemos três funções de Cristo. Uma delas é a função profética (outras duas: a função sacerdotal e real/pastoral). Por isso, o Concílio Vaticano II afirma que todo o povo de Deus é profético (LG 12.35). O profeta é um dos crentes a quem Deus confia não unicamente uma mensagem, mas também Sua própria “preocupação”; não é somente um porta-voz de Deus e sim seu partidário e confidente. O profeta é um crente autentico, não é de fé vacilante e abalável. Ele assume sua parte do mistério de Deus. O profeta é o homem de Deus. Cada cristão, pelo Batismo, é profeta. O profeta não pode calar, porque Deus lhe mandou falar: “O que vos digo na escuridão, dizei-o às claras. O que vos é dito ao ouvido, publicai-o de cima dos telhados” (Mt 10,27).

Além disso, os israelitas eram duros e não se converteram. E por isso, Amós lança as palavras duras contra eles. E nós, não temos que escutar o aviso do profeta Amós: “Prepara-te, para ajustar contas com o teu Deus!”? Quantas vozes proféticas chegam até nós e continuamos com nossa arrogância? Ser cristão não é garantia de salvação. Deus sempre nos oferece a reconciliação. Oxalá possamos dizer com o Salmo Responsorial de hoje: “Não sois um Deus a quem agrade a iniquidade, não pode o mau morar convosco; nem os ímpios poderão permanecer perante os vossos olhos. Detestais o que pratica a iniquidade e destruís o mentiroso. Ó Senhor, abominais o sanguinário, o perverso e enganador. Eu, porém, por vossa graça generosa, posso entrar em vossa casa. E, voltado reverente ao vosso templo, com respeito vos adoro”.

É Preciso Manter a Fé Em Jesus Cristo Que Supera as Tempestades Da Vida

A cena do evangelho de hoje pode se encontrar em outros dois evangelhos sinóticos: em Marcos (Mc 4,35-41) e em Lucas (Lc 8, 22-25). Porém é inútil a comparação com Marcos e Lucas sobre a mesma cena. É a mesma cena, mas é vista de forma distinta porque é distinta a situação da comunidade em que se narra essa cena e é distinto o contexto.

Mateus coloca essa cena dentro do contexto do seguimento. A ordem de ir a “outro lado” suscita em um escriba o desejo de seguir a Jesus e em um discípulo uma certa dúvida (Mt 8,19-22). O fato é que Jesus se embarca e constatamos com alegria que “seus discípulos” O seguiram”. O verbo que aparece somente em Mateus, continua o tema do seguimento do fragmento precedente e suscita um sentimento de expectativa: quem está seguindo a Jesus?

Para entender o relato do evangelho de hoje com seus detalhes nós precisamos ter na mente alguns textos do AT que servem como o pano de fundo. Controle sobre o mar e o ato de acalmar tempestade são sinais característicos do poder divino (Jô 7,12; Salmo 73(74),13; 88(89),8-10; 92(93),3-4; Is 51,9-10). Acalmar uma tempestade no mar é a maior prova da atenção ou do cuidado amoroso de Deus (Salmo 106(107),23-32). É digno de notar também que dormir em paz e sem preocupar-se com nenhum problema é um sinal da perfeita confiança em Deus (cf. Pr 3,23-24;Sl 3,6;4,9; Jô 11,18-19).

Na literatura antiga a barca é imagem da comunidade que goza da presença do seu Senhor. Jesus convida os discípulos a irem a “outro lado do mar”. “Do outro ladoestão os pagãos, ou o território não- judeu. Jesus convida os discípulos para esse território para que lá possam semear também entre os pagãos a Boa Notícia do Reino.

Atravessar, ou “ir para outro lado”, então, significa sair de si mesmo, pensar nos outros e não ficar apenas no nosso lado, sem nenhum compromisso para melhorar o mundo ao redor. É preciso ampliar o horizonte para ver as pessoas, a vida e seus acontecimentos, o mundo em geral na sua justa perspectiva e no seu justo valor. É preciso ampliar o olhar para ver o campo maior de atuação. O convite para ir a outro lado é um convite para tomar coragem de adotar novas maneiras de viver e de atuar. É sair de nosso mundo pequeno para o mundo maior a fim de que renovemos nossa reflexão sobre tudo na nossa vida. Precisamos ir a “outro lado”. Precisamos estar no lugar do outro para saber e compreender a vida do outro. Quem sabe no “outro lado” em vez de evangelizarmos os outros, seremos muita mais evangelizados por eles do que eles por nós. Travessia é muitas vezes sinônimo de abertura ao novo e diferente.

Mas para que possamos atravessar para “outro lado”, precisamos vencer o “mar” de nossa vida. Andar seria impossível. Afundaríamos. Precisamos de algum meio. E o meio para chegar no “outro lado” para superar o “mar” a fim de levar Jesus é “barco”. Quem sabe um dos barcos mencionados neste texto que sumiram do relato é o nosso barco que ainda não foi usado para levar Jesus. É preciso ter coragem para renovar ou procurar meios para que Jesus e seus ensinamentos possam chegar até as pessoas. Os meios são sempre mutáveis, mas a mensagem de Jesus é eterna, pois só Jesus “tem palavras de vida eterna” (Jo 6,68). Não podemos eternizar os meios, pois eles podem se tornar caducos para outro tempo e lugar. O que é eterna é a mensagem de Jesus: “Passarão o céu e a terra. Minhas palavras, porém, não passarão” (Mt 24,35). Qualquer movimento, grupo ou pastoral que não se renovar, morrerá no caminho. Podemos andar no meso caminho, mas é preciso mudar o jeito de andar para que a caminhada não se torne cansativa.Na doação, a vida se fortalece; e se enfraquece no comodismo e no isolamento. De fato, os que mais desfrutam da vida são os que deixam a segurança da margem e se apaixonam pela missão de comunicar a vida aos demais. A vida se alcança e amadurece à medida que é entregue para dar vida aos outros(Papa Francisco: Exortação Apostólica: Evangelii Gaudium, no. 10).

Fala-se de uma violenta tempestade que agita o mar, a ponto de as ondas caírem dentro do barco. Para o povo da Bíblia, o mar agitado é a imagem da revolta dos povos inimigos que gera caos primitivo (cf. Sl 46,3-4.7; 65,8; 93,3-4). Além disto, tempestade é imagem de incerteza e de sentimento de derrota, daí se eleva a Deus o grito do povo (cf. Sl 18,16-20;69,2-5.15-16). E somente Deus pode dominar o mar e seu tumulto (Jô 38,7.11). Enquanto isso, Jesus parece estar ausente, dorme e parece estar completamente alheio à tragédia. O sono tranquilo de Jesus simboliza uma confiança total em Deus como foi explicado nos textos do AT acima mencionados.

“Jesus entrou na barca e os discípulos O seguiram”. Assim Mateus relatou o episódio do evangelho deste dia. A palavra “seguir” aqui é um termo chave que tem função de ligar este episódio com o episódio anterior sobre o seguimento radical (cf. Mt 8, 18-22). Seguir Jesus supõe riscos e renúncias. É por isso que Mt, logo depois da exortação sobre o seguimento radical (episódio anterior), fala da tempestade no meio do lago balançando o barco onde se encontram Jesus e seus discípulos.

As tempestades do Lago de Galileia têm fama por ser súbitas e muito violentas. E Jesus dormia no meio dessa perigosa tempestade (em grego se usa a palavra “sismo” semelhante ao terremoto, movimento interno violento). Deus dorme! Deus parece ficar calado! Por que não se manifesta? Por que o Senhor não intervém na minha vida?

“Por que tendes tanto medo, homens fracos na fé?”, responde Jesus diante de nossos gritos. É o núcleo deste relato: “Homens de pouca fé”. Medo e confiança são dois sentimentos opostos que habitam no coração de qualquer ser humano. Aumentando umO medo bloqueia o homem a ir adiante. A confiança , diminui o outro e vice-versa. o homem caminhar: “Ainda que eu atravesse o vale escuro, nada temerei, pois o Senhor está comigo” (Sl 22/23,4ª). Jesus apela para a fé. As situações limites também estimulam o crescimento da fé. E Jesus dá confiança: “Não tenhais medo!”. É nossa responsabilidade favorecer a confiança e controlar o medo. Para seguir Jesus a fé é condição essencial. As exigências, as renúncias fazem parte da perspectiva de fé. Quanto mais humanamente desesperadora e sem saída for a situação, mais a fé será necessária.

Jesus nos chama a termos fé. Há situações extremas para as quais todo apoio humano perde sua força. Nessas situações somente a fé em Deus é capaz de manter alguém em pé diante dessas situações. Para ficarmos em pé diante das situações extremas, é preciso mantermo-nos de joelhos diante de Deus. Quando a morte se aproximar, por exemplo, não há outra solução melhor do que a própria fé em Deus cujos braços permanecem abertos para nos acolher em sua casa (cf. Jo 14,1-2). No curso da vida de todo homem ou mulher há muitas situações nas quais a fé é o único recurso, o único meio de evitar o pânico: abandonar-se em Deus, confiar nele. Nessa situação precisamos ouvir profundamente o que Jesus nos diz hoje: “Por que vós tendes tanto medo, homens fracos na fé?”.

Ao relatar a tempestade acalmada por Jesus o evangelista Mateus quer nos mostrar que Jesus tem em suas mãos o poder criador de Deus. Por isso, com sua palavra apenas, tudo lhe obedece. O evangelista quer nos chamar a termos fé neste Jesus em qualquer situação onde nos encontramos.

Se encontrarmos alguma dificuldade, precisamos manter a cena do evangelho deste dia diante de nossos olhos: a tempestade violenta, o sono de Jesus, o grito de seus amigos, a chamada a uma fé mais forte e a paz que procede desta fé. Quando tudo parece contrário ou contraditório, Jesus está ali, na minha barca, na barca da Igreja. Precisamos rezar em silêncio: “Senhor, suprima meu medo, pois somente o Senhor tem palavras da vida eterna”.

A Palavra de Deus de hoje quer que tenhamos mais fé em Deus em qualquer situação, pois Ele é o nosso Pai e só quer nosso bem. Precisamos estar conscientes de que Cristo, Deus-Conosco está na barca da Igreja e na barca de nossa vida. É verdade que Jesus parece estar dormindo. Mas, na verdade, a nossa fé é que está adormecida. E o Deus-Conosco, Jesus Cristo, promete sua presença permanente na nossa vida: “Eis que estou convosco todos os dias até o fim do mundo” (Mt 28,20). “Coragem! Eu venci o mundo!” (Jo 16,33c). Temos que ter consciência dessa promessa e colocá-la em prática.

Pe. Vitus Gustama,SVD

Para Refletir:

·      Cada cristão e cada comunidade há-de discernir qual é o caminho que o Senhor lhe pede, mas todos somos convidados a aceitar esta chamada: sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho (Papa Francisco: Exortação Apostólica, Evangelii Gaudium no. 20).

·      A fé nasce no encontro com o Deus vivo, que nos chama e revela o seuamor: umamor quenos precede e sobreo qual podemos apoiar-nos paraconstruir solidamente a vida. Transformados por esteamor, recebemos olhosnovos e experimentamos que há nele uma grandepromessa de plenitudee nos é aberta a visãodo futuro. A fé,que recebemos de Deuscomo domsobrenatural, aparece-nos como luz para a estradaorientando os nossos passos no tempo (Pap Francisco: Enciclica Lumen Fidei, no. 4).

·      Na Bíblia hebraica, a é indicada pela palavra ‘emûnah, que deriva do verbo ‘amàn, cuja raiz significa « sustentar ». O termo ‘emûnah tanto pode significar a fidelidade de Deus como a do homem. O homem fiel é aquele que crê no Deus que promete; o Deus fiel é aquele que concede o que prometeu ao homem (idem n.10).

·      Por sua natureza, a fé pede para se renunciar à posse imediata que a visão parece oferecer; é um convite para se abrir à fonte da luz, respeitando o mistério próprio de um Rosto que pretende revelar-se de forma pessoal e no momento oportuno. (idem n.13)

·      Acreditar significa confiar-se a um amor misericordioso que sempre acolhe e perdoa, que sustenta e guia a existência, que se mostra poderoso na sua capacidade de endireitar os desvios da nossa história. A fé consiste na disponibilidade a deixar-se incessantemente transformar pela chamada de Deus. Paradoxalmente, neste voltar-se continuamente para o Senhor, o homem encontra uma estrada segura que o liberta do movimento dispersivo a que o sujeitam os ídolos. (idem n.13)

P. Vitus Gustama,svd

sábado, 27 de junho de 2026

Segunda-feira Da XIII Semana Comum, Ano Par, 29/06/2026

SEGUIR A JESUS PARA ALCANÇAR A SALVAÇÃO E SALVAR O PRÓXIMO

Segunda-Feira da XIII Semana Comum

Primeira Leitura: Am 2,6-10.13-16

6 Isto diz o Senhor: “Pelos três crimes de Israel, pelos seus quatro crimes, não retirarei a palavra: porque eles vendem o justo por dinheiro e o indigente pelo preço de um par de chinelos; 7 pisam, na poeira do chão, a cabeça dos pobres, e impedem o progresso dos humildes; filho e pai vão à mesma mulher, profanando meu santo nome; 8 deitando-se junto a qualquer altar, usando roupas que foram entregues em penhor, bebem vinho à custa de pessoas multadas, na casa de Deus. 9 Entretanto, eu tinha aniquilado, diante deles, os amorreus, homens espadaúdos como cedros e robustos como carvalhos, destruindo-lhes os frutos na ramada e arrancando-lhes as raízes. 10 Fui eu que vos fiz sair da terra do Egito e vos guiei pelo deserto, durante quarenta anos, para ocupardes a terra dos amorreus. 13 Pois bem, eu vos calcarei aos pés, como calca o chão a carroça carregada de feixes; 14 o mais ágil não conseguirá fugir, o mais forte não achará força, o valente não salvará a vida; 15 o arqueiro não resistirá de pé, o corredor veloz não terá pernas para escapar, nem se salvará o cavaleiro; 16 o mais corajoso dentre os corajosos fugirá nu, naquele dia”, diz o Senhor.

Evangelho: Mt 8,18-22

Naquele tempo, 18 vendo uma multidão ao seu redor, Jesus mandou passar para a outra margem do lago. 19 Então um mestre da Lei aproximou-se e disse: “Mestre, eu te seguirei aonde quer que tu vás”. 20 Jesus lhe respondeu: “As raposas têm suas tocas e as aves dos céus têm seus ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça”. 21 Um outro dos discípulos disse a Jesus: “Senhor, permite-me que primeiro eu vá sepultar meu pai”. 22 Mas Jesus lhe respondeu: “Segue-me, e deixa que os mortos sepultem os seus mortos”.

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Deus Se Esconde Atrás Dos Débeis, Dos Indigentes, Dos Inocentes, Dos Justos

Pelos três crimes de Israel, pelos seus quatro crimes, não retirarei a palavra: porque eles vendem o justo por dinheiro e o indigente pelo preço de um par de chinelos; pisam, na poeira do chão, a cabeça dos pobres, e impedem o progresso dos humildes; filho e pai vão à mesma mulher, profanando meu santo nome; deitando-se junto a qualquer altar, usando roupas que foram entregues em penhor, bebem vinho à custa de pessoas multadas, na casa de Deus”.

Os três séculos de monarquia de Israel que vão do século IX até o século VI a.C foram os tempos muito agitados: guerras internacionais, luta social, injustiça social, conflitos políticos, distúrbios religiosos e assim por diante. Neste contexto uns “homens de Deus”, os profetas, intervém: Amós, Oseas, Isaías, Miqueias, Jeremias, Naum, Habacuc, Ezequiel...

Nas próximas semanas ouviremos a voz destes profetas através das primeiras leituras. Todos eles vão combater sem armas, a não ser somente através da oração e da palavra. São as verdadeiras e maiores testemunhas de Deus de toda a história, pois eles defendem o projeto de Deus que é a Aliança, defendem os humildes e oprimidos, defendem a justiça, sem medo. Os profetas têm a audácia não somente de falar de Deus, mas também de pensar que falam “em Seu nome”: Deus fala por sua boca. João Batista dizia: “Sou a voz que grita...”

Esta semana ouviremos o áspero e valente profeta Amós que profetizou, principalmente, no Reino de Samaria sob o reinado de Jerobão II (786-746 a.C), o 13º rei de Israel, sucedendo a seu pai, o rei Joás.

Amós significa “Deus sustenta”, que viveu por volta do ano 750 a.C. Era um campesino, cultivador de uma plantação de sicômoros, que vivia em Teqoa, uma pequena aldeia cerca de 20 ou 30 Km da capital Jerusalém. Amós não tinha relação alguma com os grupos proféticos profissionais, pois sua profissão era pastor e produtor de figos (Am 7,14). Emigrou para o reino de Norte ou seja, para a Samaria e ali alcançou a chamada de Deus e se converteu em profeta, porta voz de Deus no tempo do rei Jerobão II. Amós experimenta a vocação profética com força irresistível (Am 3,8) a partir da situação pessoal e social.

Amós observa como os comerciantes falsificam os pesos no mercado, como vendem às pessoas, por bom dinheiro, produtos sem valor.  Ele observa como os comerciantes ricos ou latifundiários se aproveitam desavergonhadamente de sua posição de monopólio e as pessoas humildes caem cada vez mais na dependência e na pobreza. Amós tem grande ousadia de anunciar o castigo e de denunciar as causa. O que o profeta Amós proclama é uma única acusação: não se pode ir bem quando se viola a ordem de Deus. Amós protesta e acusa em nome de Deus com incrível energia e veemência. Amós estava convencido de que o mal de Israel não tinha solução a não ser que fosse castigado por Deus. Para Amós o castigo deve ser inapelável por causa dos pecados sociais: luxuria, injustiça, opressão aos fracos, e também por causa dos pecados religiosos: culto hipócrita e a falsa segurança religiosa, isto é, viver uma vida dupla: dentro do templo é uma vida, e fora do templo é outra vida sem conexão nenhuma. Todos esses pecados dificultam a busca do Senhor e a convivencia fraterna (Am 5,4-6). Como resultados desses pecados,  quarenta anos depois, o reino de Israel cai nas mãos da Assíria e boas parte de seus habitantes é exilada.

Será que nossa situação atual é diferente da situação na época do profeta Amós?

No texto da Primeira Leitura de hoje o profeta Amós disse: “... pelos seus quatro crimes, não retirarei a palavra”. Quais são as quatro crimes que suscitam a cólera do profeta Amós e dos quais também suscitam a cólera de Deus?

1.    Primeiro, porque vendem o justo por dinheiro e o indigente por um par de sandálias.

2.    Segundo, porque pisam, na poeira do chão, a cabeça dos pobres, e impedem o progresso dos humildes e pervertem o caminho dos mansos.

3.    Terceiro, porque pai e filho abusam da mesma mulher (serva), assim profanando o santo nome de Deus.

4.    Quarto, porque deitando-se junto a qualquer altar, usando roupas que foram entregues em penhor, bebem vinho à custa de pessoas multadas, na casa de Deus.

Trata-se de a injustiça social, de juízos corrompidos, de sexualidade aberrante, de afã de prazer, de sociedade de consumismo indiferente.

O profeta Amós denuncia, então, a opressão do débil: na vida social e nos tribunais (o justo é vendido por dinheiro, o inocente injustamente condenado pelo interesse de um par de sandálias); na vida familiar (pai e filho abusam sexualmente a mesma serva); no culto, a mais repugnante das injustiças sociais (bebem o vinho dos multados na casa de Deus). Cada um destes crimes manifesta o mesmo desprezo do homem, comportamento que Deus condena nos povos pagãos vizinhos.

Com isso, o profeta Amós quer nos transmitir a verdade de que o Deus de Israel é um Deus exigente na ordem ética. Deus “se esconde” atrás de cada homem despojado de seus direitos. Consequentemente, tratar mal aos débeis, aos inocentes, aos justos significa tratar mal ao próprio Deus (cf. Mt 25,40.45). Aqui é que o desprezo do homem adquire sua autêntica dimensão, e aqui também reside o perigo da exclusão do homem da salvação.

É Preciso Seguir a Jesus Para Alcançar a Salvação

“É graça divina começar bem. Graça maior, persistir na caminhada certa, manter o ritmo... Mas a graça das graças é não desistir. Podendo ou não podendo, Caindo, embora aos pedaços, Chegar até o fim...” (Dom Hélder Câmara)

O evangelho de Mateus foi escrito em torno dos anos 80 para os fieis de sua comunidade. Os fieis de sua comunidade já tinham feito sua escolha cristã. Mas em determinado tempo vacilavam por causa das dificuldades, e abatidos por causa de duras perseguições. Por isso, veio a exortação para que os fiéis retomassem consciência mais viva de sua identidade cristã, chamados a transformar a história humana em história de salvação.

Nesta perspectiva Mt coloca dois personagens para transmitir essa exortação. O primeiro é um especialista da Lei que escolheu ser cristão. Trata-se de um letrado que reconhece em Jesus um mestre superior a si mesmo e decide seguir a Jesus, o grande mestre. Mas ele ainda não é comprometido com o cristianismo e por isso, ele é alertado antecipadamente para não tomar uma decisão superficial e ilusória. “As raposas têm suas tocas e as aves têm seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeção”. No comentário de Santo Agostinho as raposas são animais enganadores e por isso, as raposas representam os enganadores. E as aves resprentam os orgulhosos ou soberbos porque voam muito alto. (cf. Sto. Agostinho In Serm. 100,1). E para São gregório Magno as raposas designam-se os enganos e as fraudes e as aves representam os demônios soberbos (São Gregório Magno In Moralia, 19,1).

Para o letrado o caminho de Jesus tem seu termo. Mas Jesus alerta ao letrado que toda a vida de Jesus, até o momento de Sua morte, será uma entrega total, sem instalação nem descanso, sem engano nem soberbo.

Para ser um verdadeiro cristão, um verdadeiro seguidor de Cristo, é preciso ter espírito de despojamento e de pobreza, pois aquele que está cheio de coisas do mundo não sobra nenhum espaço para Deus nem para o próximo. O cristão existe para fazer o bem permanentemente. Fazer o bem não tem descanso nem tem término. Ninguém ama suficientemente nem definitivamente. O amor sempre deixa quem ama em dívida. O amor não descansa nem cansa.

As raposas têm suas tocas e as aves dos céus têm seus ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (Mt 8,20). O instinto de segurança e a necessidade de estabilidade estão inscritos profundamente na natureza humana: o homem busca o calor de um refúgio, uma fogueira, uma casa para morar, uns objetos que lhe pertencem. Os animais têm este mesmo instinto de propriedade.                 

Jesus desde que saiu de sua casa familiar de Nazaré, deixando sua mãe sozinha, não tem seu próprio lugar, vive como nômade, como viajante: “Não tenho onde reclinar minha cabeça”. Renunciou o calor de um lugar, renunciou a toda propriedade.                 

Seguir a Jesus é fazer forçosamente certa escolha; é renunciar a uma série de coisas; é viver na segurança com Deus que criou tudo. Jesus quer que estejamos sempre caminhando em busca da perfeição. Jesus quer que estejamos abertos ao novo, à novidade, ao impulso do seu Espírito. Jesus não quer que estejamos parados, pois o Espírito de Deus sopra para onde quer. Jesus não quer que fiquemos apegados às coisas mortas, pois elas servem apenas de meio e não de fim.                 

Por esta razão Jesus adota para si o título de “Filho do Homem”. O duplo título “Filho do Homem” indica unicidade e excelência: é “Homem acabado”, o modelo de homem, por possuir em plenitude o Espírito de Deus. Para chegar a ser um homem acabado, pleno do Espírito de Deus, o cristão precisa participar da missão de Jesus, precisa levar adiante a Palavra de Deus.

A mensagem cristã é exigente. Não se trata de aderir a uma doutrina, mas a uma pessoa; não se trata de adotar um modo de pensar, mas de orientar-se para um modo de viver: o modo de viver de Jesus Cristo. Um cristão que se contenta de não fazer mal a ninguém não é suficiente. É preciso fazer o bem em função do bem e não em função do mal. É colocar o interesse do Reino de Deus acima de todas as preocupações pessoais assim como dos afetos mais caros, com plena dedicação. É viver aberto diante de Deus permanentemente. 

O segundo personagem já é discípulo, mas ainda não compreendeu todas as exigências de sua escolha. Por isso, o texto diz que ele pede um período de interrupção antes de seguir o Mestre. Ele quer ser um cristão periódico. Cristão de estação. É um cristão que procura Deus quando estiver livre de tudo, quando tiver tempo livre. É um cristão que procura Deus de vez em quando. Mas para este tipo de cristão Jesus faz prevalecer a exigência de uma escolha coerente, total e radical para si que é escolha para toda a vida. 

Este segundo personagem pede a Jesus permissão para enterrar o pai, mas recebe de Jesus esta resposta: “Segue-me! Deixa que os mortos sepultem os seus mortos”. A menção do pai nos leva ao episódio relacionado com a chamada de Eliseu no Antigo Testamento. Eliseu pediu licença a Elias para ir despedir-se de seu pai (cf. 1Rs 19,20). No Antigo Testamento a tradição (o pai) estava viva, mas para Jesus está morta. 

Segue-me! Deixa que os mortos sepultem os seus mortos. Não se trata da falta com os deveres de piedade para o pai defunto. O “pai” aqui representa uma tradição que não mais salva. Abandonar o “pai” significa ficar independente da tradição transmitida que não tem mais valor para ser mantida. O pedido para “enterrar o pai” indica a veneração, o respeito e a estima pelo passado que não mais salva homem algum. Por isso, os mortos aqui são os que professam essas tradições mortais. São figuras de um mundo de morte, sem salvação. A tradição morta ou a cultura de morte gera morte e mortos. 

O discípulo, o cristão, ao contrário, é chamado a ser defensor e protetor da vida em qualquer instância e circunstância, pois a vida é o dom de Deus, e o próprio Jesus se identifica com a Vida: “Eu sou a Vida e a Ressurreição” (Jo 11,25; cf. 14,6).

Segue-me! Deixa que os mostos sepultem seus mortos”. Jesus não quer que descuidemos dos nossos falecidos. Isto seria falta de caridade e da humanidade. O que Jesus quer é que abandonemos todos os hábitos que não nos fazem crescer como pessoas e filhos de Deus e irmãos dos outros. Precisamos deixar o modo de viver e de pensar que nos fazem como mortos: sem vida, sem horizonte, sem criatividade e assim por diante. A tradição morta gera a morte e mortos. Ao contrário, precisamos seguir Aquele que nos faz viver, Aquele que nos diz: Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6). Precisamos crer n’Aquele que nos garante a vida: “Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crer em mim, ainda que esteja morto, viverá” (Jo 11,25).     

Precisamos olhar com carinho e seriedade para os nosso modo de viver para descobrirmos nele os hábitos que não nos fazem crescer ou não nos fazem viver com dignidade e avançar na caminhada da perfeição cristã. Sabemos que nosso grande problema não é implementar as coisas novas na nossa cabeça e sim tirar as coisas velhas e mortas de nossa cabeça. Ao mesmo tempo precisamos olhar para o modo de viver de Jesus para que sejamos homens acabados como foi ele. “Se queres seguir a Deus, deixa-O ir adiante. Não queiras que Ele te siga(Santo Agostinho. In ps. 124,9).

Para estar aberto diante de Deus é preciso abandonar hábitos negativos, isto é, todos os hábitos ou costumes que não nos levam à vida plena. Nos ensinamentos de Jesus encontramos o caminho para a verdadeira vida. Vale a pena encarar todas as dificuldades, pois a vitória está reservada para quem é perseverante neste caminho (cf. Mt 10,22; Jo 16,33).

P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 26 de junho de 2026

XIII Domingo Do Tempo Comum, Ano "A", 28/06/2026

AS EXIGÊNCIAS  E AS RECOMPENSAS DO SEGUIMENTO

XIII Domingo Comum “A”

I Leitura: 2Re 4,8-11.14-16ª

Certo dia, o profeta Eliseu passou por Sunam. Vivia lá uma distinta senhora, que o convidou com insistência a comer em sua casa. A partir de então, sempre que por ali passava, era em sua casa que ia tomar a refeição. A senhora disse ao marido: “Estou convencida de que este homem, que passa frequentemente pela nossa casa, é um santo homem de Deus. Mandemos-lhe fazer no terraço um pequeno quarto com paredes de tijolo, com uma cama, uma mesa, uma cadeira e uma lâmpada. Quando ele vier a nossa casa, poderá lá ficar”. Um dia, chegou Eliseu e recolheu-se ao quarto para descansar. Depois perguntou ao seu servo Giezi: “Que podemos fazer por esta senhora?” Giezi respondeu: “Na verdade, ela não tem filhos e o seu marido é de idade avançada”. “Chama-a” – disse Eliseu. O servo foi chamá-la e ela apareceu à porta. Disse-lhe o profeta: “No próximo ano, por esta época, terás um filho nos braços”.

II Leitura: Rom 6,3-4. 8-11

Irmãos: Todos nós que fomos baptizados em Jesus Cristo fomos baptizados na sua morte. Fomos sepultados com Ele na sua morte, para que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos, para glória do Pai, também nós vivamos uma vida nova. Se morremos com Cristo, acreditamos que também com Ele viveremos, sabendo que, uma vez ressuscitado dos mortos, Cristo já não pode morrer; a morte já não tem domínio sobre Ele. Porque na morte que sofreu, Cristo morreu para o pecado de uma vez para sempre; mas a sua vida, é uma vida para Deus. Assim, vós também, considerai-vos mortos para o pecado e vivos para Deus, em Cristo Jesus.

Evangelho:  Mt 10,37-42

Naquele tempo, disse Jesus aos seus apóstolos: “Quem ama o pai ou a mãe mais do que a Mim, não é digno de Mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a Mim, não é digno de Mim. Quem não toma a sua cruz para Me seguir, não é digno de Mim. Quem encontrar a sua vida há-de perdê-la; e quem perder a sua vida por minha causa, há-de encontrá-la. Quem vos recebe, a Mim recebe; e quem Me recebe, recebe Aquele que Me enviou. Quem recebe um profeta por ele ser profeta, receberá a recompensa de profeta; e quem recebe um justo por ele ser justo, receberá a recompensa de justo. E se alguém der de beber, nem que seja um copo de água fresca, a um destes pequeninos, por ele ser meu discípulo, em verdade vos digo: não perderá a sua recompensa”.

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A HOSPITALIDADE constitui o tema principal da Primeira Leitura (2Re 4,8-11.14-16ª) deste XIII Domingo Comum, e o Evangelho fala também deste tema nos seus últimos versículos: “Quem recebe um profeta por ele ser profeta, receberá a recompensa de profeta; e quem recebe um justo por ele ser justo, receberá a recompensa de justo. E se alguém der de beber, nem que seja um copo de água fresca, a um destes pequeninos, por ele ser meu discípulo, em verdade vos digo: não perderá a sua recompensa”.

Lemos na Primeira Leitura que o servo do profeta Eliseu, chamado Giezi adverte ao profeta que a mulher com seu marido que os acolhe em casa não tem nenhum filho e  que seu marido é um ancião (idoso). Para uma mulher judaica não existia pena maior que a de não dar a seu marido um descendente varão. O primogênito era o futuro da família, e as famílias de Israel viviam para o futuro, no qual iam cumprir-se as promessas feitas a Abraão.

O profeta Eliseu (discípulo do profeta Elias) anuncia profeticamente à mulher hospitaleira que no ano seguinte terá o filho desejado: “No próximo ano, por esta época, terás um filho nos braços”. O mesmo que Sara, a mãe de Isaac (Gn 18,3), esta mulher recebe o anúncio com ceticismo. Mas a Palavra de Deus através do seu profeta será cumprida. Em ambos os casos, o nascimento do filho prometido será uma recompensa de Deus à hospitalidade para seus enviados. Séculos depois, Jesus estabelecerá esta lei recompensa divina: “Quem recebe um profeta por ele ser profeta, receberá a recompensa de profeta”.

A palavra “HOSPITALIDADE” vem do latim “hospitalitas, atis”. É uma virtude que se pratica para peregrinos, necessitados, e desamparados ou desprotegidos prestando-lhes a devida assistência em suas necessidades. A hospitalidade é a obra de misericórdia. É ato de hospedar; acolhida de hóspedes; é boa acolhida. É recepção ou tratamento afável, cortês; amabilidade, gentileza. Hospitaleiro é aquele que oferece hospedagem por bondade ou caridade.

Para os homens da antiguidade a hospitalidade era sagrada. Gregos, judeus e romanos praticavam, da mesma maneira, a hospitalidade, pois acreditavam que, no visitante, o próprio Deus batia à sua porta para entrar. E acreditavam que Deus presentearia o anfitrião com dádivas divinas. Nisto entendemos a mensagem da Primeira Leitura de hoje.

Os cristãos primitivos praticavam a hospitalidade. Sem essa virtude, o cristianismo provavelmente teria dificuldades para se expandir no mundo romano. Até a Carta aos Hebreus admoesta ou alerta os cristãos: “Não esqueçais a hospitalidade, pois, graças a ela, alguns, sem saber, acolheram anjos” (Hb 13,2). O que tem por traz desse alerta é a experiência de Abraão que hospedou três pessoas em sua casa sem saber que eram os três anjos para anunciar que Sara, apesar de sua velhice, geraria um filho chamado Isaac (Gn 18,3; 19,1-2: Lot convida os dois anjos para sua casa). Por isso, antigamente tratava o estrangeiro como sagrado.

Não será inútil escutar o convite que estes textos dirigem aos cristãos de hoje. No mundo desumanizado e muito urbanizado em que vivemos, sem contar outras discriminações e exclusões, o testemunho da hospitalidade adquire uma dimensão profética. Com a hospitalidade nasce uma rede de amor entre as pessoas, derruba preconceitos e produz a alegria mútua e a convivência fraterna. A hospitalidade possibilita o encontro e o diálogo e transforma o estrangeiro em amigo e irmão.

Dentro deste tema podemos também entender o recado de São Paulo na Segunda Leitura  (Rom 6,3-4. 8-11). São Paulo nos diz que o Batismo recebido por nós faz que vivamos uma vida nova: “Fomos sepultados com Ele na sua morte, para que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos, para glória do Pai, também nós vivamos uma vida nova”.

A ideia essencial da Primeira Leitura é a “morte com Cristo”. Para a Bíblia, Deus é a vida e seu plano é um plano de vida. A morte física é um acidente que a mentalidade judaica atribui ao pecado (Gn 3; Ez 18). Herdeiro desse conceito judaico, São Paulo liga a morte natural e a morte espiritual do pecado.

Podemos entender esse elo com precisão: não se trata de dizer que a morte física foi um castigo externo estabelecido por Deus pelo pecado do homem. Pelo contrário, é uma questão de entender que, ao encerrar-se no pecado, ou seja, contando apenas consigo para realizar o futuro, o homem se trancou fatalmente na morte, uma vez que apenas uma iniciativa de Deus e, conseqüentemente, uma conversão a Deus pelo homem pode tirá-lo disso. Nesse sentido, São Paulo tem razão ao relacionar o pecado à morte.

Agora, Cristo é o primeiro a penetrar na morte não com o pecado, ou seja, a vontade de viver por si mesmo, mas, pelo contrário, com absoluta fidelidade e total adesão ao Pai, confiando que o Pai salvaria o Filho. Assim, a morte de Cristo suprime o elo que existia até então entre a morte e o pecado; assim, sua morte é verdadeiramente libertadora do pecado, pois ele descobre um homem capaz de ser libertado da morte e ressuscitar simplesmente porque se coloca totalmente nas mãos de seu Pai. Assim, a morte não é um acidente no plano divino da difusão da vida, e sim precisamente aquilo pelo qual Deus dá sua vida ao homem.

Cada Domingo, na celebração da Eucaristia, renovamos o que começamos no Batismo. Cada batizado é enviado a ser irmão da humanidade. Ainda assim, a experiência comum nos mostra que nossa vida, por muito que tenhamos recebido os sacramentos, tem poucas novidades, poucas mudanças, poucas renovações e inovações no Senhor, está instalada em umas formas habituais de atuar, de pensar que nada demonstram a mudança na vida prática e na convivência fraterna.

O evangelho de hoje é a parte final do discurso de Jesus sobre a missão. Mt colocou aqui diversos elementos que ele tomou de diferentes contextos. Dividimos o texto em duas partes. A primeira parte (vv.37-39) apresenta as exigências que Jesus propõe para quem quer segui-lo. Na segunda parte (vv.40-42) Jesus promete recompensar todos aqueles que acolherem os seus enviados.

I. AS EXIGÊNCIAS DE JESUS (vv.37-49)        

Jesus é terrivelmente exigente. Ele exige renúncia de uma radicalidade inaudita e conclui cada exigência com o mesmo refrão: “não é digno de mim!” Ele pede uma adesão total e indivisível à sua pessoa.

1. A Primeira Exigência: Jesus Deve Ser Preferido Aos Vínculos Humanos Mais Sagrados          

Aquele que ama pai e mãe mais do que a mim, não é digno de mim. Aquele que ama o filho ou filha mais do que a mim, não é digno de mim” (v.37).           

Jesus usa aqui a palavra mais sagrada: “amar”. Certamente a primeira das renúncias se refere ao que há de mais caro a Deus e aos homens: o amor. O mundo inteiro é fruto do amor de Deus. O amor é o porquê da encarnação de Jesus Cristo. A redenção encontra sua resposta no amor de Deus pela humanidade. Todo o NT se fundamenta no amor. E todos nós reconhecemos que nascemos de um momento fecundo do amor. Nenhum preceito que fira o amor tem legitimidade para Jesus e para os cristãos. No entanto, o primeiro e maior amor se deve a Deus (Mt 22,38), porque de Deus provêm todas as expressões do amor e a Deus retornam todos os nossos gestos de amor. Portanto, Jesus não manda não amar pai e mãe e filhos, mas deve amá-los dentro do grande amor que devemos a Deus e devemos renunciá-los sempre que forem empecilho. Trata-se, então, de estruturar a vida inteira a partir desse amor maior que dá sentido a todos os outros. A partir desse amor maior todos os outros amores se enriquecem. Se amarmos os pais e irmãos com o coração cheio do amor de Deus, esse amor se torna digno de confiança. Por isso, embora Jesus insista nas obrigações de seus seguidores aos pais (Mt 15,3ss) e à família (cf. Mt 5,27ss;19,1ss), contudo esse relacionamento não pode, de modo algum, impedir ou prejudicar a obediência do homem diante das exigências de Deus, o Bem Absoluto, o Maior Amor (cf. Mt 8,21s). Todos devem ser dispostos a qualquer sacrifício quando está em jogo a causa de Deus e a própria salvação. Precisamos estar conscientes de que há amores familiares que matam, principalmente do ponto de vista espiritual. Portanto, vivemos em contínua renúncia e permanente abertura às manifestações do amor de Deus.          

Mas cada um de nós, a partir desta exigência, precisa se perguntar: Que lugar ocupa Jesus na sua vida? Ele ocupa o primeiro lugar ou em segundo lugar na sua vida? 

2. A Segunda Exigência É Carregar A Cruz E Renunciar À Própria Vida          

“Quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim”.

“Tomar sua cruz” é uma expressão metafórica para a prontidão para a morte, para o movimento de partida de si mesmo em direção a Deus. Cada partida em direção a Deus sempre representa uma morte de si mesmo. A vida que se entrega a Deus tem algo desse morrer em si e será uma nota característica de nossas mais sinceras intenções em seguir a Jesus. Não se ama a cruz em si mesmo, mas ao seguir a Jesus incondicionalmente encontra-se a cruz.          

Cada história tem sua própria cruz e cada cruz tem sua própria história. Todos nós, de alguma forma, carregamos alguma cruz na nossa vida. Mas existe cruz com Cristo, como também existe cruz sem Cristo. Para alguns, a cruz pode ser vivida como tribulação, para os outros ela pode ser vivida como libertação. A cruz sem Cristo é a cruz-condenação. É a cruz de quem deseja ser um deus. É a cruz que não tem finalidade em si mesmo. É a cruz sem fé, sem amor, sem sentido da vida, sem renúncia por amor. É a cruz de quem deseja viver numa liberdade sem responsabilidade. Jesus Cristo, que foi crucificado, transformou a cruz de castigo em bênção. Por isso, se procuramos Cristo sem sua cruz acabamos encontrando a cruz sem Cristo. Mas se procuramos Cristo com sua cruz acabamos encontrando a salvação. Que tipo de cruz que você carrega: com Cristo ou sem Cristo?          

E Jesus acrescenta: “Quem procura conservar a sua vida, vai perde-la. E quem perde a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la” (v.39). Buscar a vida era o ideal dos sábios do Antigo Testamento. Mas Jesus convida a mudar esta sabedoria por outra mais profunda que consiste em imitar sua entrega a fim de alcançar a vida em plenitude: a vida sem fim com Deus. A vida vem de Deus e somente ele é capaz de dar a vida. Se a vida é totalmente de Deus e para Deus, então, todas as vezes que o homem se fecha em si mesmo, ele se desliga da sua fonte, da sua razão de ser e da sua única meta possível. Só salva sua vida quem não confia na sua mortalidade, mas se inclui na imortalidade de Deus; mas isto significa morrer para viver eternamente. Certamente, aqui é que está a grandeza maior do homem. A proposta de Jesus é levar a vida a sério, enfrentar com dignidade os desafios, mas sempre se abrir à fonte da vida: Deus. É preciso sair de si mesmo, ultrapassar-se a si mesmo em direção à vida por excelência: Deus. Se renunciarmos aos nossos interesses pessoais, acolheremos os interesses de Deus. Se renunciarmos às falsas propostas da vida, acolheremos a cruz redentora de cada dia, que nos traz consigo o Cristo Salvador. 

II. A PROMESSA DE JESUS A QUEM ACOLHE SEUS ENVIADOS/MISSIONÁRIOS (vv.40-42)        

 Quem recebe um profeta, por ser profeta, receberá a recompensa de profeta. E quem recebe um justo, por ser justo, receberá a recompensa de justo... até um copo de água fresca dada a um dos pequeninos não perderá a sua recompensa” (vv.41-42). 

Encontramos aqui, pelo menos, três grupos na comunidade de Mateus. Os profetas exerciam um ministério itinerante que consistia, sobretudo, na pregação; eram homens suscitados por Deus. Os justos eram homens de virtude comprovada na comunidade, quer pela sua vida exemplar, quer pela fé praticada na caridade. Eram homens fiéis aos mandamentos de Deus. Os pequeninos eram os simples discípulos de Jesus, não ocupavam nenhuma posição destacada na comunidade.          

Qual será a recompensa prometida por Jesus? O texto não especifica a recompensa. Mas se olharmos para o cap. 25 de Mateus, saberemos que uma obra boa feita para os mais insignificantes, mesmo sem consideração de quem ele é ou sem saber se está servindo a Cristo nele, a recompensa será grande: a alegria eterna (Mt 25,31-46). Na atitude adotada diante de um pobre, mostramos a verdadeira generosidade de nosso coração. Partilhar o que temos para os mais pobres é uma forma de prolongar a generosidade do Deus-Criador que criou tudo gratuitamente para os homens. Nós que acreditamos no Deus-Criador devemos manter viva esta generosidade através da partilha daquilo que temos e somos.          

Que as pessoas percebam a marca do amor de Deus nos nossos gestos, palavras e obras para que possam acreditar que Deus existe e que esse Deus é Amor. Assim seja.

P. Vitus Gustama,SVD

Quarta-feira Da XIII Semana Comum, Ano Par, 01/07/2026

JESUS VEM NOS LIBERTAR DO MAL PARA PRATICARMOS SOMENTE O BEM Quarta-Feira Da XIII Semana Comum Primeira Leitura: Am 5,14-15.21-24 14 ...