terça-feira, 12 de maio de 2026

Sexta-feira Da VI Semana Da Páscoa, 15/05/2026

A TRISTEZA SE TRANSFORMA EM ALEGRIA NA COMPONHIA DO SENHOR



Sexta-Feira da VI Semana da Páscoa

Primeira Leitura: At 18,9-18

Estando Paulo em Corinto, 9 uma noite, o Senhor disse-lhe em visão: “Não tenhas medo; continua a falar e não te cales, 10 porque eu estou contigo. Ninguém te porá a mão para fazer mal. Nesta cidade há um povo numeroso que me pertence”. 11 Assim Paulo ficou um ano e meio entre eles, ensinando-lhes a Palavra de Deus. 12 Na época em que Galião era procônsul na Acaia, os judeus insurgiram-se em massa contra Paulo e levaram-no diante do tribunal, 13 dizendo: “Este homem induz o povo a adorar a Deus de modo contrário à Lei”. 14 Paulo ia tomar a palavra, quando Galião falou aos judeus, dizendo: “Judeus, se fosse por causa de um delito ou de uma ação criminosa, seria justo que eu atendesse a vossa queixa. 15 Mas, como é questão de palavras, de nomes e da vossa Lei, tratai disso vós mesmos. Eu não quero ser juiz nessas coisas”. 16 E Galião mandou-os sair do tribunal. 17 Então todos agarraram Sóstenes, o chefe da sinagoga, e espancaram-no diante do tribunal. E Galião nem se incomodou com isso. 18 Paulo permaneceu ainda vários dias em Corinto. Despedindo-se dos irmãos, embarcou para a Síria, em companhia de Priscila e Áquila. Em Cencréia, Paulo rapou a cabeça (cortou os cabelos), pois tinha feito uma promessa.

Evangelho: Jo 16,20-23

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 20Em verdade, em verdade vos digo: Vós chorareis e vos lamentareis, mas o mundo se alegrará; vós ficareis tristes, mas a vossa tristeza se transformará em alegria. 21A mulher, quando deve dar à luz, fica angustiada porque chegou a sua hora; mas, depois que a criança nasceu, ela já não se lembra dos sofrimentos, por causa da alegria de um homem ter vindo ao mundo. 22Também vós agora sentis tristeza, mas eu hei de ver-vos novamente e o vosso coração se alegrará, e ninguém vos poderá tirar a vossa alegria. 23aNaquele dia, não me perguntareis mais nada”.

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O Senhor Jamais Abandona Seus Mensageiros

A meta da ação missionária de Paulo são sempre os centros mais importantes de uma cidade. Agora será Corinto, "a cidade dos mares", uma ponte entre o Oriente e o Ocidente, capital da província romana da Acaia e um florescente centro comercial. Em um ano e meio, seguramente, Paulo fundou a Igreja, que seria a destinatária de duas de suas principais cartas. A história destaca o dramático rompimento com a sinagoga (At 18,5-7), as angústias do início e o extraordinário sucesso da missão (At 18,8-11) e a perseguição dos judeus, que conduzirão Paulo diante do procônsul Gálio (At 18,12-17). Este episódio permite datar os acontecimentos, quase com certeza, no ano 52 depois de Cristo. Na parte final da história (At 18,18-28) a ação muda de cenário. Paulo volta a Antioquia na Síria, onde conclui a segunda viagem (At 18,18-22) e inicia a terceira, que faria de Éfeso a base de suas operações missionárias (At 18,23-28).

Depois de Filipos e Atenas, São Paulo foi para a terceira cidade da Europa que recebeu o Evangelho: Corinto. Corinto era uma cidade mais importante da Grécia e sede do governador romano, o prôconsul e centro comercial de primeira ordem. Por isso, era um lugar muito estratégico para a evangelização. Corinto foi reconstruída por César em 44 a.C depois de sua destruição por obra de Lúcio Múmio em 146 a.C (Lucius Mummius Achaicus foi eleito cônsul em 146 a.C).

Conforme o texto da Primeira Leitura de hoje, em Corinto é que, numa visão noturna, o Senhor falou para São Paulo: “Não tenhas medo; continua a falar e não te cales, porque eu estou contigo”. “Eu estou contigo” é uma expressão vinda de Deus quando envia uma pessoa para uma missão.

Em cada Carta de são Paulo, para não dizer em cada capítulo de suas cartas é muito dificilmente não encontrar o nome de Jesus ou algo referente a Jesus. Não era simplesmente uma maneira de falar. A citação do nome de Jesus ou algo referente a Jesus quer nos mostrar que São Paulo e Jesus viviam juntos. Esta união era tão profunda que São Paulo chegou a escrever: “Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim. A minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim(Gl 2,20). Jesus e São Paulo continuamente se comunicavam um ao outro. Como São Paulo, os primeiros cristãos estavam convencidos da presença de Cristo e esta convicção constituía sua força. Nas dificuldades cotidianas eles se agarravam nesta certeza. Esta certeza deve servir também a todos nós cristãos, pois o próprio Senhor nos promete uma presença permanente na nossa vida de cada dia (Mt 28,20).

Com a visão noturna de São Paulo, que lemos na Primeira Leitura, Lucas, o autor dos Atos, quer revelar a seus leitores a promessa ou projeto do Senhor: “Não tenhas medo; continua a falar e não te cales, porque eu estou contigo”.

As palavras que o Senhor disse a São Paulo, numa visão noturna, são palavras que mais vezes se escutam tanto no AT como no NT, dirigidas às pessoas das quais Deus escolheu para ser testemunhas no mundo: “Não temas!”. Ouviram o próprio Moisés (Dt 31,6), Josué (Js 1,9), Jeremias (Jr 1,8), Isaías (Is 41,10; 43,5) e a Virgem Maria (Lc 1,30), e agora São Paulo.

Sentir medo não é errado porque somos criaturas expostas a perigos e ameaças. Os nossos medos são um sinal de alarme que podem nos ajudar a evitarmos o perigo e nos criam prudência. O que se evita é o medo exagerado. Sabemos pela experiência que o resultado do medo (exagerado) é a imobilidade. Quando estamos envolvidos pelo medo (exagerado), não conseguimos avançar. O medo nos deixa de termos novos pensamentos, de vivermos novas experiências e de conhecermos novas personalidades, pois ficamos trancados no nosso isolamento.

Por que “Não tenha medo!”? Sabemos pela experiência que o resultado do medo é a imobilidade. Quando estamos envolvidos pelo medo, não conseguimos avançar. O medo nos deixa de termos novos pensamentos, de vivermos novas experiências e de conhecermos novas personalidades. Por causa do medo, tudo o que a vida está pronta a nos oferecer passa sem ser percebido. De fato, a vida é uma série de oportunidades para o crescimento emocional, espiritual e intelectual, e nenhuma oportunidade para ação está além de nossa capacidade.

Paulo como os antigos profetas escolhidos por Deus para efetuar uma missão no certo momento em que se encontravam os profetas, pode encarar as resistências e perseguições com coragem e liberdade porque o “Senhor está com ele”. Isto quer nos dizer que quando fizermos a vontade de Deus, quando vivermos de acordo com os ensinamentos de Jesus Cristo, podemos ter certeza de que não vamos lutar sozinhos e sim com Jesus Cristo. E Se Deus é por nós, quem será contra nós? .... Nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem as potestades, nem as alturas, nem os abismos, nem outra qualquer criatura nos poderá apartar do amor que Deus nos testemunha em Cristo Jesus, nosso Senhor”, escreveu São Paulo aos romanos (Rm 8,31.38-39).

Não tenhas medo; continua a falar e não te cales, porque eu estou contigo”. Temos direito de desconfiar na Palavra de Deus? Temos direito de ficar desanimados porque nos aparece que nossa sociedade está desordenada, sem justiça social e cheia de corrupção? Temos direito de ter medo diante das dificuldades onde nos encontramos no momento, enquanto Deus continua conosco?

Quem Acredita Em Deus Seu Sofrimento Será Transformado Em Alegria

Continuamos acompanhando o longo discurso de despedida de Jesus de seus discípulos no evangelho de João (Jo 13-17). Como qualquer despedida, o tom é sempre melancólico. Mas em cada despedida há sempre as últimas recomendações ou lições dadas ou deixadas por aquele que vai partir para que os que ficam não vivam desamparados ou desorientados.

“Em verdade, em verdade vos digo: Vós chorareis e vos lamentareis, mas o mundo se alegrará; vós ficareis tristes, mas a vossa tristeza se transformará em alegria. ... vós agora sentis tristeza, mas eu hei de ver-vos novamente e o vosso coração se alegrará, e ninguém vos poderá tirar a vossa alegria. Naquele dia, não me perguntareis mais nada”, disse Jesus aos discípulos no evangelho de hoje. A promessa que Jesus faz para seus discípulos de voltar a vê-los em breve se refere às aparições do Ressuscitado, a sua presença entre os seus por meio do Espírito, a experiência pessoal do encontro com ele na vida de cada um (experiência de Emaús): “... eu hei de ver-vos novamente e o vosso coração se alegrará,

“Em verdade, em verdade vos digo: Vós chorareis e vos lamentareis, mas o mundo se alegrará; vós ficareis tristes, mas a vossa tristeza se transformará em alegria.”. Nos versículos 20 a 22 aparecem várias vezes a palavra “tristeza” e “alegria”. Mas a alegria é muito maior do que a tristeza, pois a alegria que vem da Cruz é invencível, pois trata-se de amor e de vida que vence o ódio e a própria morte. O discípulo diante da cruz está triste, como uma mulher à qual chegou a hora do parto. Mas diante da Cristo ressuscitado a tristeza é superada. Para são Paulo, a alegria é sinal de que habita em nós o Espírito Santo, pois a alegria é um dos frutos do Espírito Santo (cf. Gl 5,22-23)

O sofrimento e a dor, a alegria e a tristeza, o sucesso e o fracasso, o nascimento e a morte, o sorriso e o choro moram no mesmo homem. O famoso escritor libanês, Khalil Gibran, escreveu no seu livro O Profeta:Quando estiverdes alegres, olhai no fundo de vosso coração, e achareis que o que vos deu tristeza é aquilo mesmo que vos está dando alegria. E quando estiverdes tristes, olhai novamente no vosso coração e vereis que, na verdade, estais chorando por aquilo mesmo que constituiu vosso deleite... A alegria e a tristeza vêm sempre juntas; e quando uma está sentada à vossa mesa, lembrai-vos de que a outra dorme em vossa cama”.

Dentro dos sofrimentos e das alegrias ou com eles, nós crescemos ou avançamos na vida. Até se soubermos aproveitá-los o nosso crescimento fica acelerado e nossa maturidade nos aproxima bem cedo. Eles fazem parte de ingredientes para saborear a vida na sua plenitude, como cada rosa que tem seus espinhos, mas os espinhos não tiram a beleza de uma rosa. Todo sofrimento por amor nos faz crescer na nossa maturidade. O filósofo romano, Epicteto escreveu: “Cada dificuldade na vida nos oferece uma oportunidade para nos voltarmos para dentro de nós mesmos e recorrermos aos nossos recursos interiores escondidos ou mesmo desconhecidos. As provações que suportamos podem e devem revelar-nos quais são as nossas forças... Você possui forças que provavelmente desconhece(Arte de Viver, p.37, Sextante: Rio de Janeiro,2000). E a Palavra de Deus veio certamente para despertar essa força misteriosa que temos dentro de nós para superar as nossas “paralisias”.

Jesus anuncia para os discípulos sua morte iminente como uma partida para o Pai (Jo 16,5). Consequentemente, os discípulos ficarão tristes por causa da ausência física de Jesus. Mas Jesus afirma que a tristeza dos discípulos é apenas uma passagem. Ele evoca a imagem de uma mulher parturiente: “A mulher, quando deve dar à luz, fica angustiada porque chegou a sua hora; mas, depois que a criança nasceu, ela já não se lembra dos sofrimentos, por causa da alegria de um homem ter vindo ao mundo”. Na Bíblia as dores do parto caracterizam um “castigo” terrível (Gn 3,16; Jr 4,31; 6,24; 13,21). No entanto, são as únicas dores que têm um sentido porque trazem uma nova vida ao mundo. Para os discípulos os sofrimentos são de caráter passageiro, pois sofrem em nome de Jesus que é a vida de suas vidas (Jo 14,6; 11,25), como uma mãe parturiente que sofre em nome de uma vida que está para vir ao mundo. Trata-se, paradoxalmente, de um sofrimento que tem sabor de alegria ou uma dor fecunda.

Para quem está com o Senhor os sofrimentos desta vida não são sofrimentos de agonia e sim são sofrimentos de parto que conduzem à vida, são sofrimentos fecundos que fertilizam nossa vida de salvação. Com o Senhor e no Senhor todo sofrimento é fecundo. Com o Senhor cada sofrimento faz nascer uma nova visão cada vez maior sobre a vida que vivemos. Se o coração se alegra, se alegra todo o homem desde sua raiz mais profunda.

E Jesus promete aos discípulos: “Ninguém vos poderá tirar a vossa alegria”. Trata-se da alegria que nunca se acaba, pois é a alegria eterna vinda do Senhor. É a promessa daquele que venceu a morte. As tristezas de cada dia podem acontecer, as tribulações podem nos cercar, mas nada nem ninguém possa nos tirar do caminho da Vida e do amor de Cristo por nós. Deus é por nós (cf. Rm 8,35-39). Nossa alegria nasce da serena certeza de que somos queridos do Senhor infinitamente, amados em todas as nossas limitações e fraquezas. É a alegria de saber que nossa vida tem sentido e tem futuro. Por isso, a falta de alegria profunda, no fundo, é sinal da falta de fé, sinal da falta de profundidade na vida de fé. Um cristão triste é, verdadeiramente, um triste cristão.

De início, o sofrimento nos parece sempre grande demais. Porém, o sentido de qualquer sofrimento é levar-nos ao nosso limite para nos fazer descobrir novas forças.   Aprendamos da mulher-mãe da qual fala o evangelho de hoje. Nela concorrem sucessivamente tristeza-dor e triunfante alegria, porque o dom da maternidade é muito grande. Assim também nós, filhos e filhas de Deus, discípulos e discípulas de Cristo, caminharemos da provação-sofrimento-tristeza para a alegria-consolo, fecundidade do gozo no Espírito de Deus. A força de Deus é tal que é capaz de nos encher de serenidade e confiança, enquanto a provação, ao contrário, tenta nos impor um sentimento de fracasso e o desejo de perecer.

Tenhamos confiança; o Senhor sempre está conosco. O Senhor quer que através de cada um de nós surja uma nova humanidade onde haja menos dor, menos pobreza, menos tristeza, menos angústia, menos exploração dos menos favorecidos, menos injustiças sociais, menos vícios que minem a saúde das pessoas e a paz familiar. O Senhor continua nos enviando para que possamos gerar uma autêntica alegria cristã. Mas temos que estar conscientes de que para gerar um homem novo e renovado nos custará grandes sofrimentos, perseguições e incompreensões. Na vida o que é valioso custa muito. Não há nada que seja valioso que seja dado de graça. Ninguém cresce sem aprender a morrer de muitas coisas na vida. Mas o Senhor quer que sejamos fortes, valentes, seguros e que confiemos n’Ele e caminhemos atrás de suas pegadas. E quem crê em Jesus Cristo deve ser o primeiro em trabalhar pelo bem de todos.

Ninguém vos poderá tirar a vossa alegria” é a Palavra do Senhor hoje para todos nós. Para isso, temos que viver de acordo com os ensinamentos de Cristo que se resumem no amor fraterno, pois quem ama o próximo, não vai fazer mal contra ele. A vivência do amor fraterno nos traz uma alegria plena, pois trata-se de estar com o Deus de amor (cf. Jo 15,9-11). Além disso, o segredo desta alegria plena está na seguinte oração: “Inspirai, ó Deus, as nossas ações e ajudai-nos a realizá-las, para que em Vós comece e termine aquilo que fizermos(Coleta/oração do dia da Quinta-Feira após as Cinzas).

Vamos tentar descobrir a seguinte verdade: O modo como você começa seu dia determina o modo como você passará o restante dele. Os seus primeiros trinta minutos depois de acordar são os minutos mais importantes e valiosos do dia porque têm uma enorme influência na qualidade de cada minuto que segue. Tenha apenas pensamentos puros e conceba apenas coisas boas para que seu dia tenha uma continuidade maravilhosa. Seja simples porque a simplicidade é a virtude dos sábios, e a sabedoria dos santos. Não pense no mal para que o mal não pense em você. Mas pense no bem para que o bem pense em você. “Contemple o bem, e persiga-o, como se não pudesse alcançá-lo; contemple o mal e evite-o, como evitaria colocar a mão em água fervente” (Confúcio: Aforismos de Confúcio).

Então, comece bem seu dia e você nunca mais será o mesmo. Além disso, pela comunhão, Cristo morto e ressuscitado se faz nossa força para passar triunfalmente pelo sofrimento que encontramos na vida como ele próprio venceu a morte.

P.Vitus Gustama, SVD

São Matias, Apóstolo, Festa 14/05/2026

SÃO MATIAS, APÓSTOLO

14 de Maio

Primeira Leitura: At 1,15-17.20-26

15Naqueles dias, Pedro levantou-se no meio dos irmãos e disse: 16“Irmãos, era preciso que se cumprisse o que o Espírito Santo, por meio de Davi, anunciou na Escritura sobre Judas, que se tornou o guia daqueles que prenderam Jesus. 17Judas era um dos nossos e participava do mesmo ministério. 20De fato, no livro dos Salmos está escrito: ‘Fique deserta a sua morada, nem haja quem nela habite!’ E ainda: ‘Que outro ocupe o seu lugar!’ 21Há homens que nos acompanharam durante todo o tempo em que o Senhor Jesus vivia no meio de nós, 22a começar pelo batismo de João até o dia em que foi elevado ao céu. Agora, é preciso que um deles se junte a nós para ser testemunha da sua ressurreição.” 23Então eles apresentaram dois homens: José, chamado Barsabás, que tinha o apelido de Justo, e Matias. 24Em seguida, fizeram esta oração: “Senhor, tu conheces os corações de todos. Mostra-nos qual destes dois escolhestes 25para ocupar, neste ministério e apostolado, o lugar que Judas abandonou para seguir o seu destino!”.  26Então tiraram a sorte entre os dois. A sorte caiu em Matias, o qual foi juntado ao número dos onze apóstolos.

Evangelho: Jo 15,9-17

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 9 Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei. Permanecei no meu amor. 10 Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como eu guardei os mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor. 11 E eu vos disse isto, para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena. 12 Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei. 13 Ninguém tem amor maior do que aquele quesua vida pelos amigos. 14 Vós sois meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando. 15 não vos chamo servos, pois o servo não sabe o que faz o seu senhor. Eu vos chamo amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai. 16 Não fostes vós que me es­colhestes, mas fui eu que vos escolhi e vos designei para irdes e para que produzais fruto e o vosso fruto permaneça. O que então pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo concederá. 17 Isto é o que vos ordeno: amai-vos uns aos outros.

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Neste dia celebramos a festa de São Matias, Apostolo. Matias (hebraico: Mattityah) significa presente ou dom (mattit) de Javé (Iah). Do apóstolo Matias sabemos somente seu Nome e sua eleição (Cf. At 1,15-26). Ele é o apóstolo número 13. É um apóstolo “póstumo”, pois ele foi eleito por outros 11 Apóstolos depois da Morte e da Ascensão do de Jesus para preencher o lugar de Judas Iscariotes que se enforcou.

A escolha de Matia tem como objetivo completar o número dos Doze, pois o número Doze é simbólico os Doze representam o Novo de Israel., em paralelismo com os doze patriarcas. Jesus constituiu esses Doze para enfatizar que a sua comunidade possui, continua e renova a realidade do antigo Israel e as suas promessas de salvação que vão realizar de modo especial. Por isso, o importante é que o núcleo da Primeira Comunidade está completo. Os bispos atuais na Igreja católica são sucessores dos Apóstolos.

Os discípulos de Jesus, imediatamente depois da Ascensão, voltaram do monte das Oliveiras para Jerusalém (cf. At 1,12). Jesus havia escolhido Doze homens para que fossem seus Apóstolos especiais (cf. Mc 3,14), mas naquele momento não eram Doze e sim onze. Judas Iscariotes tinha passado para o grupo dos inimigos de Jesus. E os Apóstolos tinham que ser Doze quando Jesus voltasse. Ele lhes havia dito que, na sua volta gloriosa, os Doze se sentariam sobre doze tronos para reger as doze tribos de Israel (cf. Lc 22,28-30). Mas naquele momento faltava um homem para um trono. O primeiro problema com que se enfrentou a Igreja foi buscar um substituto de Judas Iscariotes, o traidor.

Pedro, que sempre foi o porta-voz do pensamento dos demais apóstolos, se levantou em meio da comunidade e disse: “Irmãos, era necessário que se cumprisse o que o Espírito Santo anunciou na Escritura pela boca de David a respeito de Judas, que foi o guia dos que prenderam Jesus” (At 1,16).

Pedro, ao falar de Judas Iscariotes com tanta delicadeza, parece ter presente a advertência de Jesus: “Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso. Não julgais, e não sereis julgados; não condeneis, e não sereis condenados” (Lc 6,36-37). Pedro não chamou Judas de ladrão nem de traidor, pois Jesus havia ensinado a caridade fraterna que se estende a todos como a misericórdia divina (cf. Mt 5,44-45).

E Pedro acrescentou: “Está realmente escrito no Livro dos Salmos: ‘Fique deserta a sua habitação e não haja quem nela resida’. E ainda: ‘Receba outro o seu encargo’”. Estas palavras de Pedro são tiradas de dois salmos: Sl 69 e Sl 109. Esses dois Salmos pertencem à serie das maldiçoes dirigidas contra os inimigos do rei Davi, quando não existia ainda a caridade cristã. Interpretando esses versículos como profecias, a primeira se cumpriu com a morte de Judas Iscariotes. É necessário que a segunda se cumpra também. Por isso, foi feita a eleição do substituto de Judas Iscariotes.

Postas condições, se encontraram dois homens que pareciam com iguais méritos para aspirar ao apostolo. Um era José, de apelido Barsabás, chamado Justo, e Matias. Como o chamamento ao apostolado não é coisa de homens e sim de Deus, Deus terá que escolher entre aqueles dois discípulos que pareciam iguais em méritos. Por isso, aquela comunidade cristã rezou confiadamente: “Senhor, tu conheces os corações de todos. Mostra-nos qual destes dois escolhestes para ocupar, neste ministério e apostolado, o lugar que Judas abandonou para seguir o seu destino!”. Nesta primeira súplica da Igreja há uma nova mostra da delicadeza e da caridade que vemos em Pedro. A expressãoseguir seu destino” é uma expressão ou eufemismo aramaico para dizer simplesmente que um homem morreu.

Para conhecer a vontade divina, sem exigir de Deus uma aparição nem uma revelação, decidiram tirar sorte. É algo que hoje em dia nos pode estranhar, mas que era costume naquela época. Apelava-se para a sorte para decidir entre duas soluções aparentemente equivalentes, mas é feita antes a oração. Por isso, recorriam à vontade e à providencia divina ao tirar sorte. Não se tratava de causalidade física ou humana e sim da causalidade divina. Cada semana, no Templo de Jerusalém, os sacerdotes tiravam sorte para fazer os ofícios no Templo (cf. Lc 1,8-9). Ao pedir a intervenção divina na eleição, coloca Matias na categoria dos Onze Apóstolos: “A sorte caiu em Matias, o qual foi juntado ao número dos onze apóstolos”.

É digno de observar e de levar em conta a eleição do novo apóstolo num clima de oração. Os Onze apóstolo entram em oração para saber a vontade de Deus. Com isso os apóstolos querem nos dizer claramente que a eleição realizada não é obra dos apóstolos e sim totalmente a vontade e a intervenção de Deus. Esta lição é um ótimo ensinamento para nós: temos que deixar abertas nossas decisões à vontade de Deus e inspirar nossas opções nas opções de Deus.

Assim termina, no Livro dos Atos, a história de São Matias. Nada mais se sabe dele em particular. Com esta simplicidade aparece e desaparece no documentário histórico este Apostolo póstumo. E daquele colégio apostólico que atuou desde Pentecostes, Matias foi o único não escolhido diretamente por Jesus, pois foi o apostolo póstumo de Jesus, incorporado ao colégio apostólico para ocupar o lugar deixado por Judas Iscariotes. Assim com a eleição de Matias completou-se novamente o número Doze. Uma antiga tradição conta que Matias morreu crucificado.

Matias foi escolhido através da chamada divina para ocupar o lugar de Judas Iscariotes, como para compensar a traição de Judas. Como sabemos que Judas traiu Jesus, seu Mestre. O Verbo "trair" deriva de uma palavra grega que significa "entregar". Por vezes o seu sujeito é inclusivamente Deus em pessoa: foi ele que por amor "entregou" Jesus por todos nós (cf. Rm 8, 32). No seu misterioso projeto salvífico, Deus assume o gesto imperdoável de Judas como ocasião da doação total do Filho para a redenção do mundo. Matias precisamente ocupa o lugar de Judas Iscariotes. Deus precisa de cada um de nós para completar sua obra de redenção.

Tenhamos consciência de que na Igreja não faltam cristãos indignos e traidores. Mas compete a cada um de nós equilibrar o mal que eles praticam com o nosso testemunho transparente a Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador.

São Matias, Apostolo, é pouco conhecido, mas é santo. Ele é como tantos homens e mulheres simples, de caridade enorme, de compaixão sem medida pelo próximo, mas silenciosos na sua missão e no bem e na bondade que praticam e cuja vida é desconhecida pela maioria, mas são santos como São Matias: as santas mães, as santas costureiras pelos pobres, santas pessoas que dedicam seu tempo para ajudar os necessitados na caridade fraterna, os que se dedicam seu tempo para visitar os doentes e os idosos nos asilos. É como uma formiga num formigueiro, mas ajuda na sua construção. O brilho dos santos silenciosos se marca nas pessoas que eles ajudam, pois eles sempre fazem tudo por amor de Deus e com muito amor a Deus e ao próximo. Sãosantos Matias” de hoje e de sempre.  Que, pela intercessão de São Matias, sejamos instrumentos da caridade para tantos irmãos que necessitam, de alguma forma, de nossa ajuda. São Matias, o apóstolo do Senhor, rogai por nós.

O apóstolo é alguém que se sente chamado a amar, a amar até o extremo, a amar além de toda possibilidade humana, a amar a todos, sempre, a amar até a entrega total de si mesmo, a exemplo do prório Jesus. Por isso, o apóstolo, antes de tudo, deve “permanecer no amor”: no amor de Jesus a eles (apóstolos) e no amor do Pai a Jesus: “Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei. Permanecei no meu amor”. Permanecer no amor significa viver em comunhão perfeita que é, ao mesmo tempo, horizontal e vertical, isto é, com os irmãos na fé e com Deus, término último de nosso amor.

“Deus nos ama” é a mensagem muito forte do Evangelho de hoje. O amor de Deus por nós chegou até o extremo de entregar seu próprio Filho para o perdão de nossos pecados e para que n´Ele recebamos a própria vida de Deus. Jesus Cristo, sua vida, seu ministério, suas palavras, suas obras, sua própria pessoa, é a linguagem pela qual Deus nos diz quanto nos ama. Mas de nada servirá esta oferta de amor que Deus faz, se nos fecharmos e não nos deixarmos amar. Nossa felicidade não consiste apenas em ser amados, nem tampouco em amar aos demais como Cristo nos amou. Para que a felicidade seja nossa e chegue à sua plenitude em nós, devemos nos deixar amar, devemos aceitar conscientemente esse amor, devemos caminhar alegres por este amor, seguros e dispostos a tudo num compromisso de totalidade com Aquele que nos ama. Esse amor nos leva a darmos frutos, frutos de amor que permaneçam como um sinal de que glorificamos nosso Deus e Pai.

O amor, que Deus nos tem, nos reúne, como filhos e filhas seus, para participarmos da Mesa em que seu Filho não somente se faz presente entre nós mediante o Memorial de seu Mistério Pascal (Paixão-Morte-Ressurreição) e sim que se converte em alimento de Vida eterna para nós todos. Jesus, tendo nos amado, nos amou até ao extremo. Que abramos nosso ser completamente a esse amor para que o amor de Deus, que nos manifestou em seu Filho Jesus Cristo, seja nosso. O amor é que nos leva para a vida eterna. O amor nos eleva até Deus de amor. O amor nos torna irmãos para os outros.

Entrar em comunhão de vida com Cristo, portanto, nos leva a aceitarmos ser perdoados e renovados em Cristo Jesus. Na Eucaristia não somente celebramos o amor de Deus por nós e sim que o tornemos nosso, de tal forma que, renovados em Cristo Jesus, não caminharemos sob o impulso de nossos caprichos nem de nossas paixões desordenadas e sim sob o impulso do Espirito de Deus e a Vida nova que de Deus recebemos em Jesus Cristo, Pão da Vida eterna para nós.

Todos os cristãos são chamados a exercer uma vida apostólica. Fazemos parte da Igreja católica-apostólica-romana. O verdadeiro cristão, seguidor de Cristo, se sente chamado a viver este amor “até o fim”, isto é, até a entrega de si mesmo. Não há a verdadeira amizade sem a entrega de si mesmo: “Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida pelos amigos. Vós sois meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando”. Nisto se diferencia o amigo do servo!

P. Vitus Gustama,svd

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Quarta-feira Da VI Semana Da Páscoa, 13/05/2026

O ESPÍRITO DA VERDADE E SEU PAPEL NA VIDA DOS CRISTÃOS

Quarta-Feira da VI Semana da Páscoa

Primeira Leitura: At 17,15.22–18,1

Naqueles dias, 17,15 os que conduziram Paulo levaram-no até Atenas. De lá, voltando, transmitiram a Silas e Timóteo a ordem de que fossem ter com ele o mais cedo possível. E partiram. 22 De pé, no meio do Areópago, Paulo disse: “Homens atenienses, em tudo eu vejo que vós sois extremamente religiosos. 23 Com efeito, passando e observando os vossos lugares de culto, encontrei também um altar com esta inscrição: ‘Ao Deus desconhecido’. Pois bem, esse Deus que vós adorais sem conhecer é exatamente aquele que eu vos anuncio. 24 O Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe, sendo Senhor do céu e da terra, ele não habita em santuários feitos por mãos humanas. 25 Também não é servido por mãos humanas, como se precisasse de alguma coisa; pois é ele que dá a todos vida, respiração e tudo o mais. 26 De um só homem ele fez toda a raça humana para habitar sobre a face da terra, tendo fixado os tempos previamente estabelecidos e os limites de sua habitação. 27 Assim fez, para que buscassem a Deus e para ver se o descobririam, ainda que às apalpadelas. Ele não está longe de cada um de nós, 28 pois nele vivemos, nos movemos e existimos, como disseram alguns dentre vossos poetas: ‘Somos da raça do próprio Deus. 29 Sendo, portanto, da raça de Deus, não devemos pensar que a divindade seja semelhante a ouro, prata ou pedra, trabalhados pela arte e imaginação do homem. 30 Mas Deus, sem levar em conta os tempos da ignorância, agora anuncia aos homens que todos e em todo lugar se arrependam, 31 pois ele estabeleceu um dia em que irá julgar o mundo com justiça, por meio do homem que designou, diante de todos, oferecendo uma garantia, ao ressuscitá-lo dos mortos”. 32 Quando ouviram falar da ressurreição dos mortos, alguns caçoavam, e outros diziam: “Nós te ouviremos falar disso em outra ocasião”. 33 Assim Paulo saiu do meio deles. 34 Alguns, porém, uniram-se a ele e abraçaram a fé. Entre eles estava também Dionísio, o areopagita, uma mulher chamada Dâmaris e outros com eles. 18,1 Paulo deixou Atenas e foi para Corinto.

Evangelho: Jo 16,12-15

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 12“Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender agora. 13Quando, porém, vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena verdade. Pois ele não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido; e até as coisas futuras vos anunciará. 14Ele me glorificará, porque receberá do que é meu e vo-lo anunciará. 15Tudo o que o Pai possui é meu. Por isso, disse que o que ele receberá e vos anunciará, é meu”.

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O “Deus Desconhecido” É o Criador Do Céu e Do Universo

Homens atenienses, em tudo eu vejo que vós sois extremamente religiosos. Com efeito, passando e observando os vossos lugares de culto, encontrei também um altar com esta inscrição: ‘Ao Deus desconhecido’. Pois bem, esse Deus que vós adorais sem conhecer é exatamente aquele que eu vos anuncio. O Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe, sendo Senhor do céu e da terra, ele não habita em santuários feitos por mãos humanas”.

Desta vez Paulos se encontra em Atenas. Atenas era um importante centro cultural. Seus templos ricamente decorados e inúmeras estátuas finamente esculpidas deram-lhe uma atmosfera de requinte artístico único. Em suas praças, filósofos, pregadores de religiões orientais, poetas e pessoas atraídas por novidades se reuniam para conversar. As correntes filosóficas e éticas predominantes foram o estoicismo e o epicurismo. Pablo tentou estabelecer um diálogo com eles.

Paulo prega desta vez em Atenas, no meio do Areópago, centro simbólico do pensamento filosófico e religioso. Areópago se designava a colina situada a sudoeste da Acrópole, a colina de Ares, onde se reunia, à época da República, a corte marcial, para tratar das causas criminais. Depois passou a indicar o conselho (boulê) dos magistrados que realizava suas reuniões no pórtico régio (stoa basileios).

A intenção do autor dos Atos, ao colocar Paulo no Areópago, o famoso tribunal de Atenas, conhecido dos leitores, é a de dispor o cenário para o discurso solene de Paulo. O discurso de Paulo é um discurso típico sobre como apresentar o plano de Deus aos pagãos, neste caso, para os pensadores gregos. Paulo adapta-se ao modo de pensar deles, torna-se verdadeiramente um "grego com os gregos", como em outras ocasiões tinha sido um "judeu com os judeus".

De todos os discursos missionários dirigidos aos pagãos, o mais longo é o discurso de São Paulo ao povo de Atenas. É interessante observar a sabedoria de São Paulo em adaptar sua mensagem de acordo com o conhecimento do auditório onde ele se encontra. “Esse Deus que vós adorais sem conhecer é exatamente aquele que eu vos anuncio”. Ele observa as circunstâncias e vê uma frase escrita pelo povo de Atenas: “Ao Deus desconhecido”, e Paulo prega a partir desta frase.

Além disso, São Paulo conhece muito bem o conhecimento do povo de Atenas. São Paulo tem uma preocupação real em estar atento à mentalidade de seus interlocutores para que sua mensagem chegue e seja entendida pelos seus ouvintes.  Ele se esforçou em conhecer as principais correntes espirituais do paganismo grego e especialmente a concepção de uma paternidade universal e a consciência comum sobre a dignidade humana. É um Apóstolo com pé no chão na linguagem popular.  Por isso, no seu discurso, ele escolhe temas bíblicos suscetíveis de ser compreendidos pelos pagãos de Atenas.

Primeiro tema que é fundamental neste discurso é o conhecimento de Deus. Para o judeu, a ignorância considerada culpável do paganismo sobre Deus é o fruto das paixões desatadas (Rm 1,18-32; Sb 13,14; Ef 4,17-19). Mas São Paulo abandona o tom severo da Escritura para descobrir na piedade uma sorte de confissão de sua ignorância de Deus: dedicação de um altar ao “Deus desconhecido”. Precisamente, este “Deus desconhecido” é o Criador do céu e da terra. “Deus fez o mundo (grego:cosmos) e tudo o que nele existe” (Is 42,5). Aqui Paulo mostra, indiretamente, para os atenenses o senhorio de Deus sobre os deuses gregos. Deus não pode ser assemelhado às obras produzidas pela fantasia ou pelas mãso dos homens. E ao confessar a existência do Criador do céu e da terra, o homem se reconhece criatura.

O segundo tema é que o verdadeiro Deus não habita em templos construídos pelos homens (At 17,24). Neste tema São Paulo enfatiza a importância do culto verdadeiro contra todo tipo de idolatria (At 17,29; cf. Sl 113/115; Is 44,9-20; Jr 10,1-16). Deus não mora nas paredes de uma igreja ou templo, mas no coração de cada ser humano. Por isso, mais tarde o próprio são Paulo escreverá aos Coríntios: “Não sabeis que sois o templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá. Porque o templo de Deus é sagrado - e isto sois vós(1Cor 3,16-17). O homem é a única imagem legítima de Deus, porque criado à sua imagem e semelhança (Gn 1,26-27; Sb 2,23; Sr 17,1-8). É preciso respeitar o espaço sagrado (igreja, templo etc.), sim, mas o mais importante é proteger a dignidade humana, respeitar a vida humana, de quem quer que seja, pois cada ser humano é o próprio Templo de Deus. A vida humana é sustentada pelo sopro de Deus. O que fizermos para o próximo, especialmente, os últimos no critério da sociedade, faremos isso para o Senhor (Cf. Mt 25,40.45). Com este tema São Paulo chama todos, especialmente o povo de Atenas, para a espiritualização de sua concepção de Deus e do culto que lhe é devido.

No terceiro tema, São Paulo quer chamar a atenção do povo de Atenas que não se pode colocar o ouro ou a prata ou qualquer criatura acima de Quem (Deus) os criou. Essa consciência é o sinal da pertença a Deus e da confissão da fé em Deus, Criador de todas as coisas. Existimos por causa de Deus. Por isso, São Paulo disse que em Deusvivemos, nos movemos e existimos, como disseram alguns dentre vossos poetas: ‘Somos da raça do próprio Deus’. Sendo, portanto, da raça de Deus, não devemos pensar que a divindade seja semelhante a ouro, prata ou pedra, trabalhados pela arte e imaginação do homem” (Cf. At 17,28).

Por fim, como consequência da fé no Deus Criador do céu e do universo é a ruptura: “Alguns uniram-se a ele e abraçaram a fé. Entre eles estava também Dionísio, o areopagita, uma mulher chamada Dâmaris e outros com eles”. A fé no Criador de todas as coisas leva o homem a se converter, a não adorar criatura (idolatria).

O que tem por trás de tudo que foi dito é a busca de Deus da parte do homem. Mas, muitas vezes, nesta busca o homem se move como um cego que procura a saída num quarto escuro: vive apalpando. O homem busca a Deus tão longe, mas na verdade Ele está tão perto. Por isso, Paulo disse: “Ele não está longe de cada um de nós, pois nele vivemos, nos movemos e existimos, como disseram alguns dentre vossos poetas: ‘Somos da raça do próprio Deus”. Nas suas Confissões Santo Agostinho escreveu: Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu te amei! Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora... Tu me chamaste, e teu grito rompeu a minha surdez. Tua luz afugentou a minha cegueira. Tu me tocaste, e agora estou ardendo no desejo de tua paz (Confissões, X,27).

Que tipo de discurso da Igreja em geral e de cada cristão no mundo atual?  Quais são novos “Areópagos” no mundo atual em que há consciência sobre Deus, mas este Deus passa a ser um “Deus desconhecido”? De que maneira, a Igreja e cada cristão, em particular desperta a consciência do mundo para adorar ao Deus-Criador do céu e do universo e que não se pode colocar criatura acima do Criador? Será que nossa pregação ou discurso provoca a conversão ou ruptura nos ouvintes?

O Espirito Santo Nos Conduz a Vivermos Na Verdade de Deus

Continuamos ainda no discurso de despedida de Jesus de seus discípulos (Jo 13-17).  E no evangelho lido neste dia Jesus disse aos discípulos: “Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender agora”. Sempre há algo mais para entender, que permanece não dito, o “muitas coisas a dizer-vos”. O Espírito nos fará entender o “não dito” daquilo que Jesus disse: “Quando vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena verdade”. Espírito Santo, além de nosso defensor e advogado, é também nosso professor. “Ele vos conduzirá à plena verdade”. Essa afirmação não é para ser entendida como se Jesus fosse uma “meia verdade”, e que depois o Espírito da verdade completará: o Filho já é a Verdade “toda inteira” (cf. Jo 6,14: Jesus é a Verdade). Cessado o “falar” de Jesus, continuará o “dizer” do Espírito em nós que torna presentes para nós as suas Palavras. O espírito não diz nada de diferente de tudo quanto disse o Filho. O Espírito fará ressoar em nosso coração o que escutou no Deus pai. O Espírito nos faz compreendermos as Palavras de Jesus.

Durante a vida de Jesus, seus seguidores muitas vezes não compreendiam completamente o que Jesus lhes dizia: que tipo de messianismo era o seu, como entender a metáfora do templo destruído e reconstruído, por que a morte e a ressurreição entraram em seu caminho redentor, o que a Eucaristia que prometia significava. Cristo é a verdade, e a verdade plena. Mas a compreensão dessa verdade por ele mesmo será devida ao Espírito, depois da Páscoa e do Pentecostes: "quando ele vier, o Espírito da verdade, ele os guiará à plena verdade".

Na filosofia conhecemos a verdade lógica e a verdade ontológica ou transcendental. A verdade lógica se define como conformidade da inteligência com seu objeto (adaequatio intellectus ad rem). A verdade ontológica ou transcendental se define como conformidade da coisa com a inteligência (adaequatio rei ad intellectum). A verdade lógica é uma propriedade da inteligência que conhece. Enquanto que a verdade ontológica é uma propriedade das coisas: a propriedade pela qual as coisas são conforme a seu tipo ideal. Uma banana é conhecida como uma banana. Se alguém estiver com uma banana na mão, ele não vai dizer que é uma manga, pois uma manga tem seu próprio tipo como manga.               

Para os hebreus a verdade é o termo que designa a fidelidade e a confiança em alguém. A verdade para o mundo da Bíblia é uma relação interpessoal que se experimenta ao longo de uma história. O contrário da verdade é a ruptura de um vínculo de confiança que perdurava no tempo. 

O texto do evangelho de hoje identifica Jesus com a verdade: Jesus-Verdade. Por isso para o evangelho de João, a verdade não é um conceito nem uma categoria e sim uma pessoa. Jesus é a própria Verdade (Jo 14,6), ou a própria Palavra de Deus (Jo 1,1). E o Espírito Santo é o Espírito de Cristo que Cristo envia do Pai, e por isso, é o Espírito da Verdade. Somente os que aceitarem o Espírito da Verdade é que poderão compreender plenamente a verdade e o sentido da vida. 

Quando, porém, vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena verdade”, disse Jesus. A verdade plena é a compreensão mais profunda de Jesus e de sua mensagem. É pleno no sentido mais profundo. Através da experiência diária sabemos que o conhecimento de uma pessoa não acontece uma vez por todas. Vamos conhecendo a pessoa ao longo de nossa vida e ao longo da convivência. Conforme o evangelho de hoje, o Espírito da Verdade nos facilita a alcançarmos esse conhecimento gradualmente: Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender agora. Quando, porém, vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena verdade(Jo 16,12-13). O Espírito da Verdade não ensinará novas verdades e sim nos conduzirá ao pleno conhecimento da Verdade, o pleno conhecimento da pessoa de Jesus e de seus ensinamentos. Este Espírito nos recorda tudo o que o Pai revelou uma vez por todas em Jesus Cristo, que é sua Palavra. O Espírito não obscurece a posição reveladora de Jesus. A função de guia do Espírito está em conexão com Jesus como Jesus em conexão com o Pai: “Eu e o Pai somos um”, disse Jesus. O Espírito não anuncia nada novo e sim que abre a mensagem própria de Jesus para as situações mudadas da comunidade de forma que essa mensagem possa adquirir seu sentido sempre atual.

“Até as coisas futuras (o Espírito da Verdade) vos anunciará”. “Anunciar as coisas futuras” significa fazer entender, para as gerações vindouras, o significado de tudo que Jesus fez e ensinou. A partir do texto do Evangelho deste dia, a melhor preparação cristã para o porvir não é uma previsão exata do futuro e sim um conhecimento profundo do que Jesus significa para cada época. Há muito chão inexplorado na verdade de Jesus, isto é, em sua pessoa, que somente pode ser conhecida (a pessoa de Jesus) na medida em que a experiência coloca a comunidade e cada cristão diante de novos fatos ou circunstâncias aberto para o impulso do Espírito da Verdade. Para isso, os cristãos devem estar abertos à vida e à história e à voz do Espírito Santo simultaneamente, pois somente o Espírito da Verdade é capaz de tirar o sentido de cada fato ou experiência. O Espírito Santo possibilita um maior conhecimento do que Jesus significa para cada época: suas enormes possibilidades de vida, de força transformadora para nosso mundo. Principalmente possibilita para o maior entendimento o fascinante, maravilhoso e surpreendente Deus de Jesus que ama o mundo apaixonadamente sem limitar as condições (Jo 3,16). Ele ama o mundo porque quer salvá-lo.

O NOVO CATECISMO nos diz:

1. “É o Espírito Santo que dá aos leitores e ouvintes, segundo a disposição dos seus corações, a inteligência espiritual da Palavra de Deus. Através das palavras, ações e símbolos, que formam a trama duma celebração, o Espírito Santo põe os fiéis e os ministros em relação viva com Cristo, Palavra e Imagem do Pai, de modo a poderem fazer passar para a sua vida o sentido daquilo que ouvem, veem e fazem na celebração” (1101).

2. “Na liturgia da Palavra, o Espírito Santo «lembra» à assembleia tudo quanto Cristo fez por nós. Segundo a natureza das ações litúrgicas e as tradições rituais das Igrejas, uma celebração «faz memória» das maravilhas de Deus numa anamnese mais ou menos desenvolvida. O Espírito Santo, que assim desperta a memória da Igreja, suscita então a ação de graças e o louvor [doxologia]” (1103).

O Espírito da Verdade é o dom de Deus. É preciso que estejamos abertos diante dele e para sua ação, e, ao mesmo tempo, precisamos pedir sua presença na nossa vida diária para entender o sentido da vida e seus acontecimentos. Pedimos ao Senhor que o nosso espírito seja guiado por Ele e que jamais nos consideremos como satisfeitos definitivamente, conhecedores de tudo, orgulhosos de nossos conhecimentos doutrinais, pois há verdade e atitudes que não foi ainda descoberto seu sentido. Que o Senhor nos conduza à verdade completa dando-nos Sua santa paciência e Sua pedagogia.

O Espírito da Verdade será o guia para os discípulos ou para os cristãos. Ele não transmitirá uma doutrina nova e sim explicará e aplicará a mensagem e fará descobrir o sentido da mensagem de Jesus que até então oculto. Além disso, o Espírito da Verdade vai interpretando a história como dialética entre o “mundo” e o projeto de Deus. Isso significa que os discípulos/cristãos, em sua atividade, devem ficar atentos, por um lado, à vida e à história e por outro lado, devem estar atentos à voz do Espírito que interpreta. Jamais os cristãos poderão interpretar e encontrar o significado da história e dos acontecimentos diários sem a inspiração do Espírito da Verdade. Consequentemente, todos os cristãos, para viver com sentido, devem estar em sintonia com o Espírito da Verdade permanentemente.

P. Vitus Gustama,svd

Sexta-feira Da VI Semana Da Páscoa, 15/05/2026

A TRISTEZA SE TRANSFORMA EM ALEGRIA NA COMPONHIA DO SENHOR Sexta-Feira da VI Semana da Páscoa Primeira Leitura: At 18,9-18 Estando Pau...