domingo, 12 de julho de 2026

Terça-feira Da XV Da Semana Comum, Ano Par", 14/07/2026

SOMOS CHAMADOS  À CONVERSÃO PERMANENTE PARA ALCANÇAR A SALVAÇÃO

Terça-Feira Da XV Semana Comum

Primeira Leitura: Is 7,1-9

1 No tempo de Acaz, filho de Joatão, filho de Ozias, rei de Judá, aconteceu que Rason, rei da Síria, e Faceia, filho de Romelias, rei de Israel, puseram-se em marcha para atacar Jerusalém, mas não conseguiram conquistá-la. 2 Foi dada a notícia à casa de Davi: “Os homens da Síria estão acampados em Efraim”. Tremeu o coração do rei e de todo o povo, como as árvores da floresta diante do vento. 3 Então disse o Senhor a Isaías: “Vai ao encontro de Acaz com teu filho Sear-Iasub (isto é, ‘um resto voltará’) até a ponta do canal, na piscina superior, na direção da estrada do Campo dos pisadores; 4 e dirás ao rei: Procura estar calmo; não temas nem estremeça o teu coração por causa desses dois pedaços de tição fumegantes, diante da ira furiosa de Rason e da Síria, e do filho de Romelias, 5 por terem a Síria, Efraim e o filho de Romelias conjurado contra ti, dizendo: 6 ‘Vamos atacar Judá, enchê-lo de medo e conquistá-lo para nós, e nomear novo rei, o filho de Tabeel’. 7 Isto diz o Senhor Deus: ‘Este plano fracassará, nada disso se realizará! 8 Que seja Damasco a capital da Síria e Rason o chefe de Damasco; dentro de sessenta e cinco anos deixará Efraim de ser povo; 9 que seja a Samaria capital de Efraim e o filho de Romelias chefe de Efraim. De resto, se não confiardes, não podereis manter-vos firmes’.

Evangelho: Mt 11,20-24

“Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque se tivessem sido feitos em Tiro e em Sidônia os milagres que foram feitos em vosso meio, há muito tempo elas se teriam arrependido sob o cilício e a cinza. Por isso vos digo: no dia do juízo, haverá menor rigor para Tiro e para Sidônia que para vós!  E tu, Cafarnaum, serás elevada até o céu? Não! Serás atirada até o inferno! Porque, se Sodoma tivesse visto os milagres que foram feitos dentro dos teus muros, subsistiria até este dia. Por isso te digo: no dia do juízo, haverá menor rigor para Sodoma do que para ti!”

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É Preciso Confiar Mais Em Deus Do Que Na Força Limitada Do Homem

Então disse o Senhor a Isaías: ‘Vai ao encontro de Acaz com teu filho Sear-Iasub (isto é, ‘um resto voltará’)... e dirás ao rei: Procura estar calmo; não temas nem estremeça o teu coração por causa desses dois pedaços de tição fumegantes... Este plano fracassará, nada disso se realizará!”.

Continuamos a acompanhar a leitura do livro do profeta Isaias como a Primeira Leitura. Isaías, de origem aristocrática, vive em Jerusalém, a capital do reino de Judá, em um círculo de escribas, especialistas políticos, conselheiros do rei. Continuamente intervém na política do seu país, pois Deus quer que fale aquilo que lhe é inspirado. Já vimos como isso parecia natural para todos os profetas.

É mencionado, no texto de hoje, o nome do rei Acaz. Estamos no ano 735 e 733 a. (cf. 2Rs 16). Um dos sérios problamas é o pagamento de tributo para Assíria desde 738 a.C por parte de a Síria e Israel. Agora tinham decidido o não pagamento do tributo. Judá, cujo rei é Acaz, não entra na campanha da Síria e de Israel. Síria e Israel decidem então a destronar Acaz para substitui-lo por outro rei para atender aos interesse de Síria e Israel.

Jerusalém está cercada pelos exércitos que acampam a poucos quilômetros antes de atacar Jerusalém. O enlouquecimento é geral: Tremeu o coração do rei e de todo o povo, como as árvores da floresta diante do vento”. Acaz (forma abreviada de Jeoacaz. Heb. “O Senhor tem possuído”) foi sucessor de seu pai Joatão (740-736 a.C. Jotão: “o Senhor é perfeito. Cf. 2Rs 15,32-38). Acaz (736-716 a.C: cf. 2Rs 16,1-4) reinou em Judá durante o final conturbado do reino de Israel, no Norte. Seu governo foi caracterizado por muitos problemas e ele mesmo recebeu esse epitáfio: “Não fez o que era reto aos olhos do Senhor seu Deus, como Davi, seu pai (2Rs 16,2). Acaz ganhou esta reputação por aprovar a colocação das imagens dos ídolos assírios no Templo de Jerusalém (2Rs16,10-16). Além disso, fazendo parte do povo de Aliança, Acaz ofereceu sacrifícios aos deuses de Damasco (2Crônicos 28,23).

Até aqui é bom nos perguntarmos: Quais são os ídolos que colocamos no nosso “Templo” que somos nós, profanando o Templo do Espirito Santo que somos nós? (cf. 1Cor 3,16-17). Se não os tirarmos imediatamente, a nossa própria destruição estará certa, como a queda de Judá era inevitável pela mesma razão. Se uma pessoa não se mudar pelo bem e pelo amor, um dia será obrigada a se mudar pela dor. E isso pode ser que seja tarde demais.

O profeta Isaías estava em atividade nessa época e os capítulos 7 a 10 de seu livro nos dão uma visão do estado do governo de Acaz. Acaz começou seu reino diante de alguns problemas consideráveis como coalizão entre a Síria e Israel contra Judá, além da aprovação da colocação das imagens dos ídolos no Templo. Nesse momento crítico, Isaías vai encontrar Acaz. O profeta Isaías está contra essa coalizão e pede que o rei Acaz confie em Deus: Se não o crerdes, certamente não ficareis firmes (Is 7,9b). Contudo, como essa confiança já comprometida, a queda de Judá se tornou inevitável e Deus usou a Babilônia como seu instrumento para trazer o juízo divino.

Não é que cada desgraça seja castigo pelo pecado cometido ou cada êxito, como prêmio para a virtude. Mas nós mesmos vamos nos construindo um futuro bom ou mau conforme os caminhos que seguimos e as opções que fazemos. O que semeia ventos recolhe tempestades. O mal que praticamos tem sempre as consequências destrutivas para nossa vida e a vida das pessoas ao nosso redor. Como poderemos ter uma vida estável, se a construirmos sobre os interesses ou falsidades? Somos chamados a projetar aquilo que fazemos no agora para saber por antecipação como vai ser nossa vida daqui a algum tempo. Ninguém colherá o milho se plantar o arroz. Continuar a fazer a mesma coisa, e espera, ao mesmo tempo, o resultado diferente chama-se a insanidade.

No texto da Primeira Leitura lemos: “Então disse o Senhor a Isaías: ‘Vai ao encontro de Acaz com teu filho Sear-Iasub (isto é, ‘um resto voltará’)... e dirás ao rei: Procura estar calmo; não temas nem estremeça o teu coração por causa desses dois pedaços de tição fumegantes... Este plano fracassará, nada disso se realizará!’”.

O gesto simbólico que Deus sugere a Isaías é lindo. Ele tem que ir ao encontro do rei Acaz acompanhado pelo filho do profeta, que tem por nome "Sear Yasub", que significa "um resto voltará". Deus nunca fecha a porta para a esperança e para a conversão. Aqueles que fecham a porta da esperança, muitas vezes, somos nós, com nossos desvios e esquecimentos sobre as graças de Deus na nossa vida.

“Dirás ao rei: Procura estar calmo!” porque “Tremeu o coração do rei e de todo o povo, como as árvores da floresta diante do vento” diante da noticia sobre a tentativa da invasão de Israel e da Assíria em Jerusalém. Acreditamos que  Quando o poder do amor sobrepuser sobre o amor pelo poder, o mundo alcançará a paz e a convivência fraterna.

Procura estar calmo!”. Como seres humanos imperfeitos,  a tentação e o nervosismo são características  comuns para todos nós. Muitas vezes, entregamos o comando de nossa vida ao nervosismo e ao medo, quando nossa mente deixa de funcionar e nossa fé deixa de operar, pois está faltando o espaço na nossa vida para esta fé dominar a situação.

Procura estar calmo!”. É a Palavra de Deus para o rei Acaz através do profeta Isaías. Em outras palavras: “Tenha fé em Deus apesar de tudo!”. A verdadeira fé em Deus é capaz de vencer as influências nefastas do mundo, pois quem se mantém na profissão da verdadeira fé vive no mundo de Deus e vence o mundo mundano. A fé nos garante a serenidade. A serenidade não é a libertação da tempestade, e sim a paz no meio da tempestade, porque acreditamos que Deus está conosco (Cf. Mt 4,35-41). A serenidade abre a porta para a inspiração e para a criatividade.Só por hoje ficarei bem firme na fé, de que a Divina Providência se ocupa de mim, mesmo se existisse somente eu no mundo, ainda que as circunstâncias manifestem o contrário.” (Papa São João XXIII)

O contraste é evidente entre a perturbação do rei Acaz e a lúcida serenidade do profeta Isaías, pois Isaias escuta Deus em pleno centro dos acontecimentos: “O Senhor disse a Isaias”. O profeta Isaias é um fiel ouvinte de Deus. O Salmo Responsorial insiste nesta confiança baseada no amor que Deus tem a Jerusalém: “Deus revelou-se em suas fortes cidadelas um refúgio poderoso.... Os reis da terra se aliaram, e todos juntos avançaram; mal a viram, de pavor estremeceram, debandaram perturbados”.

Para o profeta Isaias os acontecimentos são a chamada a uma intensa vida espiritual, a uma intensa vida com Deus. É sempre importante escutar Deus que sabe de todos os mistérios.

Será que eu sei escutar Deus que também fala a mim através de tudo que sucede na minha vida e também através das situações coletivas que afetam uma grande número de pessoas. A finalidade de revisão de vida ou do exame de consciência é procurar escutar o que Deus diz em pleno centro dos acontecimentos.

Jesus Nos Chama à Conversão Permanente Para Que a Graça Opere Na Nossa Vida

No evangelho deste dia Jesus dirigiu suas maldiçoes para três cidades: Corazim, Betsaida e Cafarnaum que se situam à beira do lago Tiberíades. “As cidades” são sedes de escolas rabínicas e centros de cultura religiosa. Essas maldições são a contrapartida das bem-aventuranças que Jesus pronunciou no Sermão da Montanha. Essas cidades tiveram mais ocasiões de ouvir Jesus e de presenciar os milagres operados por ele. Os milagres de Jesus são sinais que anunciam a chegada do Reino de Deus.  Os milagres são a assinatura de Deus sobre Sua existência. E a resposta do ser humano deve ser a conversão e a fé. No entanto, ninguém se converteu nessas três cidades. Continuavam a viver na injustiça e na arrogância.

Jesus não aguentou mais a dureza do coração dos habitantes dessas cidades, e por isso, pronunciou as maldiçoes. Não se trata de o ódio da parte de Jesus para essas cidades. Sua voz é a voz profética. Os profetas do AT falavam duro para que seus ouvintes mudassem de vida. Deus não quer a morte do pecador, mas sua salvação. Deus está do lado do pecador e odeia o pecado, pois Pecar é desmoronar o próprio ser e caminhar para o nada, dizia Santo Agostinho (De mor. manich. 6,8). Por isso, o que tem por trás dessas maldições é o convite de Jesus para a conversão. Converter-se significa, neste sentido, deixar de praticar a injustiça e começar uma vida baseada na justiça. Justiça é o reconhecimento dos direitos dos outros. A verdadeira conversão deve mudar a qualidade das relações humanas.

Às vezes a Palavra de Jesus é ameaçadora, porque a vida humana não é um “jogo”; é algo muito sério onde há lugar para o juízo de Deus: nossa vida cotidiana é uma correspondência a Deus ou é uma recusa a Deus. Em todo momento nossos atos são uma escolha pró ou contra Deus. Infelizmente nem sempre pensamos nisso. Em todo momento Deus quer algo de nós. E em todo momento podemos saber qual é a vontade de Deus sobre nós. Quando pensarmos realmente em Deus em todo momento, e não só em algum momento de nossa vida, poderemos viver com Ele em correspondência à Sua vontade.

As maldições pronunciadas por Jesus no evangelho de hoje são as terríveis advertências para os que se gloriam de ser cristãos, mas não vivem os ensinamentos de Jesus ou não se convertem permanentemente. “De que vale ter o nome de cristão se tua vida não é cristã”, perguntou Santo Agostinho (In epist. Joan. 4,4). “O nome de cristão traz em si a conotação de justiça, bondade, integridade, paciência, castidade, prudência, amabilidade, inocência e piedade”, acrescentou Santo Agostinho (De vit. Christ. 6). Basta substituir nome das cidades amaldiçoadas por seu nome e ouvir estas palavras atentamente, creio que, logo você dá a vontade de fazer o sinal da cruz e se benzer. E você diria: “Deus me livre!”.

O Reino de Deus certamente começa em nós pela nossa conversão aos valores do Reino de Deus tais como à verdade, à veracidade, à honestidade, à justiça, à paz, à fraternidade, ao respeito pela vida e dignidade dos outros e assim por diante. No coração de cada cristão deve germinar a semente dos valores do Reino de Deus, porque do coração humano brota tudo o que é bom e mau que vemos no mundo. Temos que lutar contra a armadilha do velho egoísmo que quer perpetuar o desamor, e a falta de respeito pela dignidade dos outros. Viver em estado permanente de conversão é a lei de crescimento para cada cristão. Lembemo-nos de que “As trevas obscurecem a vista. Os pecados obnubilam a mente. E não permitem ver a luz nem a si mesmo”, dizia Santo Agostinho (In ps. 18,13).

O texto do Evangelho de hoje está construído tendo em conta os oráculos e lamentações dos grande profetas contra as cidades pecadoras e resumem o juízo do Messias sobre o povo que não aceitou sua mensagem de conversão ao Reino de Deus. converter-se significa deixar de praticar a injustiça e começar uma vida justa e honesta. A conversão deve mudar a qualidade das relações humanas.

É bom cada um de nós perguntar-se: Como posso me situar diante das maldiçoes de Jesus? A cidade onde eu moro e o país ao qual eu pertenço merecem as advertências de Jesus como Ele amaldiçoou Cafarnaum, Corazim e Betsaida? Ai de ti!” são duras palavras do Senhor para quem rejeita a ação de Deus em sua vida. O Senhor condena o mal e não quem o faz se este se converter.

P.Vitus Gustama, SVD

Segunda-feira Da XV Semana Comum, Ano Par, 13/07/2026

AMAR COM O AMOR DIVINO  SE EXPRESSA NA GENEROSIDADE E NO DESPOJAMENTO

Segunda-Feira da XV Semana Comum

Primeira Leitura: Is 1,10-17

10 Ouvi a palavra do Senhor, magistrados de Sodoma, prestai ouvidos ao ensinamento do nosso Deus, povo de Gomorra. 11 Que me importa a abundância de vossos sacrifícios? — diz o Senhor. Estou farto de holocaustos de carneiros e de gordura de animais cevados; do sangue de touros, de cordeiros e de bodes, não me agrado.12 Quando entrais para vos apresentar diante de mim, quem vos pediu para pisardes os meus átrios? 13 Não continueis a trazer oferendas vazias! O incenso é para mim uma abominação! Não suporto lua nova, sábado, convocação de assembleia: iniquidade com reunião solene! 14 Vossas luas novas e vossas solenidades, eu as detesto! Elas são para mim um peso, estou cansado de suportá-las. 15 Quando estendeis as vossas mãos, escondo de vós os meus olhos. Ainda que multipliqueis a oração, eu não ouço: Vossas mãos estão cheias de sangue! 16 Lavai-vos, purificai-vos. Tirai a maldade de vossas ações de minha frente. Deixai de fazer o mal! 17 Aprendei a fazer o bem! Procurai o direito, corrigi o opressor. Julgai a causa do órfão, defendei a viúva.

Evangelho: Mt 10,34-11,1

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 10,34 “Não penseis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, mas sim a espada. 35 De fato, vim separar o filho de seu pai, a filha de sua mãe, a nora de sua sogra. 36 E os inimigos do homem serão os seus próprios familiares. 37 Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim, não é digno de mim. Quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim, não é digno de mim. 38 Quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim. 39 Quem procura conservar a sua vida vai perdê-la. E quem perde a sua vida por causa de mim vai encontrá-la. 40 Quem vos recebe a mim recebe; e quem me recebe, recebe aquele que me enviou. 41 Quem recebe um profeta, por ser profeta, receberá a recompensa de profeta. E quem recebe um justo, por ser justo, receberá a recompensa de justo. 42 Quem der, ainda que seja apenas um copo de água fresca, a um desses pequeninos, por ser meu discípulo, em verdade vos digo: não perderá a sua recompensa”. 11,1 Quando Jesus acabou de dar essas instruções aos doze discípulos, partiu daí, a fim de ensinar e pregar nas cidades deles.

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A Oração e o Sacrifício Devem Ser Traduzidos Na Vivência Da Justiça e Da Fraternidade

Ouvi a palavra do Senhor, magistrados de Sodoma, prestai ouvidos ao ensinamento do nosso Deus, povo de Gomorra. Que me importa a abundância de vossos sacrifícios? Estou farto de holocaustos de carneiros e de gordura de animais cevados; do sangue de touros, de cordeiros e de bodes, não me agrado”, disse Deus através do profeta Isaías.

No Sábado passado refletimos sobre a vocação profética de Isaías. Hoje vemos o profeta Isaias atuando com valentia. Ele se faz porta-voz de um Deus que se queixa de Seu povo. No texto de hoje, Isaías citou duas cidades: Sodoma e Gomorra como símbolos de cidades pervertidas; duas cidades destruídas pelo fogo do céu por causa de sua corrupção (Gn 19).

Isaías denuncia a falsidade de um culto considerado um refúgio para praticar mais ainda a maldade. O culto serve apenas como máscara para esconder o mal praticado. Deus declara sua recusa e seu cansaço, não do culto em geral, e sim do culto falso. Quem descuida da justiça, seu culto fica carente de valor. Podemos dizer que, o homem fica de joelho diante de Deus, mas os mesmos pés pisam sobre a dignidade dos outros e dos seus direitos. Fala-se do Deus de amor, mas vive-se na injustiça, na desonestidade, nas discriminação e assim por diante. Canta-se liturgicamente, mas não se vive de acordo com o que se canta. No entanto, o texto continua com uma palavra de esperança: Deus (Yahweh) tem o projeto e o desejo de perdoar: “Vossas mãos estão cheias de sangue! Lavai-vos, purificai-vos. Tirai a maldade de vossas ações de minha frente. Deixai de fazer o mal! Aprendei a fazer o bem! Procurai o direito, corrigi o opressor. Julgai a causa do órfão, defendei a viúva”.

Is 1,10-20, onde se encontra o texto da Primeira Leitura é o primeiro oráculo do Senhor transmitido pelo profeta Isaías que contém uma crítica sobre o culto vazio de sentido, isto é, a boca reza, mas se pratica a injustiça.  Deus quer que se busque o bem e se evite o mal para que o culto tenha sentido. O bem que se busca se identifica com a justiça para com o oprimido, com a viúva e com o órfão (Is 1,16-18). Os gestos exteriores não têm valor enquanto não expressam algo profundo, algo de nosso coração. No entanto, todos esses ritos de holocaustos, sacrifícios, Sábados, peregrinações são ordenados por Deus em Lv 1,1-17; 23,1-8 com maldiçoes para quem não observa esses ritos (Lv 26,14).

Que me importa a abundância de vossos sacrifícios? Estou farto de holocaustos de carneiros e de gordura de animais cevados; do sangue de touros, de cordeiros e de bodes, não me agrado”. Aqui se apresenta a oposição entre o sangue derramado pelos animais sacrificados (Is 1,11) e o sangue de injustiças que mancha as mãos e o coração dos sacrificadores: “Quando estendeis as vossas mãos, escondo de vós os meus olhos. Ainda que multipliqueis a oração, eu não ouço: Vossas mãos estão cheias de sangue!”  (Is 1,15).

Como se hoje Deus quisesse nos dizer: “Não continuem vindo à missa, se continuam a praticar a injustiça, a desonestidade, a corrupção...”. Até o próprio Jesus nos relembra no Sermão da Montanha: “Se estás, portanto, para fazer a tua oferta diante do altar e te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; só então vem fazer a tua oferta(Mt 5,23-24). O que mais forte ainda é que Jesus citou textualmente outra passagem do próprio profeta Isaías que  critica o culto vazio, ao dizer: “Hipócrita! É bem de vós que fala o profeta Isaias: ‘Este povo somente me honra com os lábios; seu coração, porém, está longe de mim’” (Mt 5,7-8; Is 29,13).

Apesar disso, Deus chama o povo à conversão: “Lavai-vos, purificai-vos. Tirai a maldade de vossas ações de minha frente. Deixai de fazer o mal! Aprendei a fazer o bem! Procurai o direito, corrigi o opressor. Julgai a causa do órfão, defendei a viúva”. O órfão, a viúva são símbolos dos “economicamente débeis”. O verdadeiro culto que Deus quer é que nossa vida cotidiana seja uma vida de serviço, especialmente dos mais necessitados e débeis. O que Deus recusa é uma liturgia vazia, um culto feito de palavras e muito incenso, mas com “as mãos cheias de sangue”. Trata-se de uma liturgia que não é acompanhada de justiça social. O único remédio é a conversão para Deus.

A vida dedicada apenas a cumprir normas rituais para “agradar” a Deus termina por converter-se numa vida estéril, pois o único modo para agradar a Deus é viver na justiça e na fraternidade. Por isso, não podemos confundir nossa fé como um sistema de leis e regras cujo cumprimento dá segurança, que muitas vezes uma falsa segurança. Mas devemos considerar a fé como resposta e aposta decidida e valiosa para trabalhar em favor da fraternidade e da justiça. Isto deve ser o estilo de vida de quem quer seguir a Jesus. Para isso, todos nós somos chamados a nos converter permanentemente. Somente através da conversão é que teremos uma vida fecunda. A conversão é o momento oportuno para o crescimento na direção do bem e do Bem Absoluto que é Deus.

Todos Devem Se Submeter Aos Valores Do Reino

Estamos nas ultimas instruções de Jesus no discurso sobre a missão (Mt 9,36-11,1). Na passagem do Evangelho de hoje Jesus nos mostra quais são as condições para que sejamos Seus discípulos dignos. Radicalidade e discipulado são inseparáveis.

1. Amar Com Amor Divino

Jesus começa a última parte do discurso sobre a missão dizendo: “Não julgueis que vim trazer a paz à terra. Vim trazer não a paz, mas a espada. Eu vim trazer a divisão entre o filho e o pai, entre a filha e a mãe, entre a nora e a sogra...”

Quem acolhe Jesus e seus ensinamentos se encontra, muitas vezes, numa escolha radical, inclusive nos afetos mais íntimos, não para abandoná-los e sim para purificá-los e fazê-los mais autênticos cristãos. O amor do pai e da mãe está inscrito na natureza e é um mandamento de Deus (cf. Dt 20,12; 21,12. veja Mt 15,4; 19,19 e par.). Ao amar os nossos pais reconhecemos neles o dom da vida recebida de Deus através deles. Ao nos fazer nascer para este mundo, os pais são colaboradores do Deus Criador. No entanto, quando os amamos no Senhor, os pais devem estar em comunhão com Deus de Quem depende nossa vida e salvação. Os filhos não podem compactuar com a maldade dos pais nem os pais podem colaborar com a injustiça e a desonestidade dos filhos. Neste sentido, ser verdadeiro cristão e seguir realmente a Jesus podem provocar a oposição de nossos parentes.  Amar a Jesus significa, então, amar intensamente ao Pai do céu que nos entregou Seu Filho para nos salvar (cf. Jo 3,16) e amar com mais convicção àqueles que nos entregaram materialmente a existência.  E os pais, ao amar seus filhos, vivem a paternidade e maternidade que tem sua origem em Deus. Ao amar a Jesus sobre todas as coisas, os pais são capacitados a viver como maior plenitude a doação total de si aos filhos.

O amor preferencial a Jesus, por isso, não elimina o amor humano e sim o sublima, o faz autêntico, o faz ágape, isto é, difusivo, nunca centralizador:Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim, não é digno de mim. Quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim, não é digno de mim. Quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim”.  É amar os outros no amor divino para tornar o amor sublime e divino. E o amor de Deus purifica tudo, pois o amor divino é redentor.

Neste contexto, a paz que Jesus traz é uma paz fundada na verdade, na justiça, na honestidade, no amor, na igualdade e assim por diante, por isso cria conflito, divisão e oposição. Mas o cristão tem que ser amigo da verdade em qualquer circunstância. O cristão tem que estar do lado da verdade e do amor. A fé, quando é coerente, nos põe diante das opções decisivas em nossa vida diariamente.

Ser cristão, seguidor de Jesus, não é fácil, e supõe saber renunciar às tentações fáceis nos negócios. A renúncia aos laços do egoísmo humano implica a dor das rupturas e do estranhamento social, mas ao mesmo tempo, produz uma nova rede divina na qual estão implicados o Pai do céu, Jesus e seus enviados e aquele que está disposto a oferecer hospitalidade generosa aos que se comprometem com o projeto de Jesus.           

Por isso, o cristão tem que ser, antes de tudo, uma pessoa livre e responsável. Livre da mentalidade apegada ao lucro em nome da desonestidade. Livre para enfrentar o conflito que suscita o anúncio do Reino de Deus. Livre para se comportar e ser um verdadeiro filho de Deus como Jesus o é. É a liberdade e responsabilidade para assumir a cruz que implica o seguimento de Jesus. Quem foge é porque não está livre.

2. Viver Como Cristão é Viver No Paradoxo                

Paradoxo é um pensamento que vai contra a opinião ou contra o pensamento, porém nele tem verdade. “Quem procura conservar a sua vida vai perdê-la. E quem perde a sua vida por causa de mim vai encontrá-la” é uma afirmação paradoxal. ”Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só; mas se morre, então produz muito fruto” (Jo 12,24), é outro exemplo da afirmação paradoxal.

Jesus continua seu discurso dizendo: “Quem procurar conservar sua vida, vai perdê-la”. Esta afirmação de Jesus é uma das leis fundamentais da existência: não há que tentar possuir a vida só para si. Há que sair de si mesmo; há que aprender a superar-se. Para viver em Deus temos que aprender a morrer. Para ganhar com Deus, temos que aprender a perder. Para encontrar a liberdade em Deus, temos que aprender a abandonar e a renunciar às nossas liberdades.  No esquecimento de si está a verdadeira vida, a verdadeira felicidade, o verdadeiro crescimento e a plenitude, segundo Jesus. A preocupação pela própria vida e pelos próprios interesses pode levar o cristão a trair a mensagem do evangelho. A busca de segurança e comodidade para a própria existência conduz inevitavelmente para a própria ruína.

Uma existência fechada em si mesma, centrada totalmente em si mesma, se vai esvaziando paulatinamente de sentido e acaba se perdendo. Uma existência que aceita sair de si mesma e de seus interesses, que se vai gastando e consumindo em beneficio dos demais, vai-se enriquecendo e vai-se salvando. Quem não está disposto a dar a vida, está predisposto a tirar a vida de sua fecundidade. Crer na vida eterna é entender esta vida como um viver pelos demais. O sentido da vida não está em nós, em nosso egoísmo, então, e sim no outro, nos outros, na solidariedade. O sentido da vida está no Outro de todos nós que é Deus. Crer na ressurreição é viver já para fazer possível a vida.

3. Dar é Uma Expressão da Riqueza Interior                 

No fim do texto Jesus nos diz: Todo aquele que der ainda que seja somente um copo de água fresca a um destes pequeninos, porque é meu discípulo, em verdade eu vos digo: não perderá sua recompensa”.

Dar significa privar-se de algo, renunciar a algo. Estamos tão condicionados por nossa sociedade industrial e tão inclinados a possuir, a acumular, a consumir apenas. E por isso, “dar” nos parece algo improdutivo; um empobrecimento doloroso que não estamos dispostos a fazer em qualquer momento. Em nossa sociedade, o homem que dá sem receber é um homem pouco prático, sem futuro, sem sentido realista, incapaz de realizar uma operação produtiva. No entanto, o gesto de dar é a expressão mais rica de vitalidade, de força, riqueza e poder criador.

Quando damos algo de verdade, nos experimentamos a nós mesmos cheios de vida com capacidade de enriquecer os outros, ainda que seja em grau muito modesto. Dar significa estar vivo e ser rico. Quem tem muito e não sabe dar, não é rico. É um homem pequeno, impotente, empobrecido, por muito que possua. Precisamos aprender a dar nossa alegria, nossa compreensão, esperança, amor e assim por diante para que nossa vida seja cada vez mais rica em Deus.

Todo aquele que der ainda que seja somente um copo de água fresca a um destes pequeninos, porque é meu discípulo, em verdade eu vos digo: não perderá sua recompensa”.  Damos algo ou nos damos não para ganhar recompensa, mas é a parte essencial do ser cristão a exemplo de Jesus “passou a vida fazendo o bem” (At 10,38). Dar é a expressão da minha riqueza interior e o meu despojamento. Trata-se de um caminho de libertação das garras da ganância.  

P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 10 de julho de 2026

XV Domingo Do Tempo Comum, Ano "A", 12/07/2026

SER CRISTÃO É SER SEMEADOR DO BEM ENQUANTO ESTIVER AQUI NESTE MUNDO


XV Domingo Comum ANO A

Primeira Leitura: Is 55,10-11

Isto diz o Senhor: 10 “Assim como a chuva e a neve descem do céu e para lá não voltam mais, mas vêm irrigar e fecundar a terra, e fazê-la germinar e dar semente, para o plantio e para a alimentação, 11 assim a palavra que sair de minha boca: não voltará para mim vazia; antes, realizará tudo que for de minha vontade e produzirá os efeitos que pretendi, ao enviá-la”.

Segunda Leitura: Rm 8,18-23

Irmãos: 18 Eu entendo que os sofrimentos do tempo presente nem merecem ser comparados com a glória que deve ser revelada em nós.  19 De fato, toda a criação está esperando ansiosamente o momento de se revelarem os filhos de Deus. 20 Pois a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua livre vontade, mas por sua dependência daquele que a sujeitou; 21 também ela espera ser libertada da escravidão da corrupção e, assim, participar da liberdade e da glória dos filhos de Deus. 22 Com efeito, sabemos que toda a criação, até o tempo presente, está gemendo como que em dores de parto. 23 E não somente ela, mas nós também, que temos os primeiros frutos do Espírito, estamos interiormente gemendo, aguardando a adoção filial e a libertação para o nosso corpo.

Evangelho: Mt 13,1-23

1Naquele dia, Jesus saiu de casa e foi sentar-se às margens do mar da Galiléia. 2Uma grande multidão reuniu-se em volta dele. Por isso Jesus entrou numa barca e sentou-se, enquanto a multidão ficava de pé, na praia. 3E disse-lhes muitas coisas em parábolas: 'O semeador saiu para semear. 4Enquanto semeava, algumas sementes caíram à beira do caminho, e os pássaros vieram e as comeram. 5Outras sementes caíram em terreno pedregoso, onde não havia muita terra. As sementes logo brotaram, porque a terra não era profunda. 6Mas, quando o sol apareceu, as plantas ficaram queimadas e secaram, porque não tinham raiz. 7Outras sementes caíram no meio dos espinhos. Os espinhos cresceram e sufocaram as plantas. 8Outras sementes, porém, caíram em terra boa, e produziram à base de cem, de sessenta e de trinta frutos por semente. 9Quem tem ouvidos, ouça!' 10Os discípulos aproximaram-se e disseram a Jesus: 'Por que tu falas ao povo em parábolas?' 11Jesus respondeu: 'Porque a vós foi dado o conhecimento dos mistérios do Reino dos Céus, mas a eles não é dado. 12Pois à pessoa que tem, será dado ainda mais, e terá em abundância; mas à pessoa que não tem, será tirado até o pouco que tem. 13É por isso que eu lhes falo em parábolas: porque olhando, eles não vêem, e ouvindo, eles nóo escutam, nem compreendem. 14Deste modo se cumpre neles a profecia de Isaías: `Havereis de ouvir, sem nada entender. Havereis de olhar, sem nada ver. 15Porque o coração deste povo se tornou insensível. Eles ouviram com má vontade e fecharam seus olhos, para não ver com os olhos, nem ouvir com os ouvidos, nem compreender com o coração, de modo que se convertam e eu os cure'. 16Felizes sois vós, porque vossos olhos vêem e vossos ouvidos ouvem. 17Em verdade vos digo, muitos profetas e justos desejaram ver o que vedes,  e não viram, desejaram ouvir o que ouvis, e não ouviram. 18Ouvi, portanto, a parábola do semeador: 19Todo aquele que ouve a palavra do Reino e não a compreende, vem o Maligno e rouba o que foi semeado em seu coração. Este é o que foi semeado à beira do caminho. 20A semente que caiu em terreno pedregoso é aquele que ouve a palavra e logo a recebe com alegria; 21mas ele não tem raiz em si mesmo, é de momento: quando chega o sofrimento ou a perseguição, por causa da palavra, ele desiste logo. 22A semente que caiu no meio dos espinhos é aquele que ouve a palavra, mas as preocupações do mundo e a ilusão da riqueza sufocam a palavra, e ele não dá fruto. 23A semente que caiu em boa terra é aquele que ouve a palavra e a compreende. Esse produz fruto. Um dá cem, outro sessenta e outro trinta.'

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Uma das Palavras-chave das leituras deste domingo é ouvir e praticar a Palavra de Deus inseparavelmente. Não basta ouvir. O ouvir exige o praticar. Ouvir e praticar sua Palavra é o desejo de Deus: “Assim como a chuva e a neve descem do céu e para lá não voltam mais, mas vêm irrigar e fecundar a terra, e fazê-la germinar e dar semente, para o plantio e para a alimentação, assim a palavra que sair de minha boca: não voltará para mim vazia; antes, realizará tudo que for de minha vontade e produzirá os efeitos que pretendi, ao enviá-la”. (Is 55,10-11). De certa forma pode-se dizer que praticar a Palavra de Deus é ser discípulo, pois na prática da Palavra de Deus revela-se o ser discípulo. Negativamente, pode-se dizer que muito discurso, mas pouca vivência da Palavra de Deus, revela uma relação de hipocrisia com Deus (cf. Mt 7,21-27).

Às vezes ou muitas vezes, o cristianismo está cheio de palavras formosas; mas nem sequer são o mais importante. No cristianismo, o mais importante são os fatos, os fatos de vida, as demonstrações práticas de que cremos em um Deus Pai e Amor. No cristianismo, o mais importante são os testemunhos vivos de que confiamos tanto em Deus a ponto de não termos medo de nada e de ninguém neste mundo. O mais importante no cristianismo é a fraternidade vivida dia a dia, junto a cada homem e sua necessidade concreta, sua dor pessoal, sua necessidade básica e específica. É ser semeador do bem , da bondade, do amor, da compaixão, da paz, da solidariedade, da fraternidade, e assim por diante, em qualquer lugar e momento. Por isso, Orígenes dizia: “Tu que segues a Cristo e o imitas, tu que vives na Palavra de Deus.... não é um lugar onde há que buscar o santuário e sim nos atos, na vida, nos costumes... Se são de acordo com a vontade de Deus, pouco importa que estes em casa, ou na rua, pouco importa, inclusive, que te encontres no teatro; se serves ao Verbo de Deus, estás no Santuário, sem dúvida alguma!”.

Em cada um de nós Deus semeia tudo o que é bom e útil para a vida e a convivência. Se nosso coração  estiver cheio de “pedras”, isto é um coração duro e insensível, nada crescerá de bom em nós. Se nosso coração estiver cheio de “espinhos”, isto é, um hábito de machucar todos os que nos aproximarem, então morrerá em pouco tempo tudo o que é bom em nós. Se tivermos o hábito de pisar sobre os outros (semente encontrada na estrada), dificilmente teremos uma vida fraterna e igualitária. Somente no coração bom e amoroso é que crescem as virtudes que alimentam a convivência.

Portanto, é necessário acolher a Palavra e estar aberto para as suas exigências. A Palavra de Deus escutada não é descartável, isto é, não é para ser esquecida ou jogada fora de nossa vida. A Palavra de Deus proclamada, escutada e meditada precisa ser semeada nos espaços onde vivemos e trabalhamos. Sejamos “terreno fértil” e transformemos a vida dos outros em “terreno fértil” para a Palavra de Deus! Somente assim criaremos a vida fraterna e a convivência amorosa.

A Palavra De Deus É Nossa Força

“... a palavra que sair de minha boca: não voltará para mim vazia; antes, realizará tudo que for de minha vontade e produzirá os efeitos que pretendi, ao enviá-la”.

A palavra é um dom. Ela é o principal meio de comunicação. A palavra é uma negação do isolamento. Ela é o meio para nos aproximarmos uns dos outros. De certa forma, podemos dizer que a palavra é a expressão de nós mesmos.

Deus se manifestou e expressou seu amor através da Palavra: “No princípio era a Palavra. A Palavra estava com Deus. A Palavra era Deus” (Jo 1,1-2). A Palavra de Deus é como nossa, mas é muito mais: viva, dotada de poder, fecunda: “A palavra que sair de minha boca: não voltará para mim vazia; antes, realizará tudo que for de minha vontade e produzirá os efeitos que pretendi, ao enviá-la”, disse o Senhor (Is 55,11). A Palavra de Deus é vida, pois por ela tudo foi criado: “Tudo foi feito por meio dela e sem ela nada foi feito” (Jo 1,3). Por ela recebemos a salvação (nova criação) e por ela, presente nos sacramentos da Igreja, somos salvos constantemente.

A Palavra de Deus tem força: possui uma potência total para transformar os corações. Porém, mesmo tendo muita potência, a Palavra de Deus nunca se impõe e sim se propõe. Quem aceitar a viver segundo a Palavra de Deus produzirá muitos bons frutos. A Palavra de Deus cresce e frutifica no coração aberto. Viver a Palavra de Deus é viver com o próprio Deus. E viver com o próprio Deus é viver na luz: tudo será iluminado na nossa vida.

A liturgia é uma verdadeira fonte da Palavra. É a grande oportunidade para penetrar no mistério de Deus para nos transformar em homens novos segundo Jesus Cristo. A Igreja vive tanto do Pão da Palavra (Mesa da Palavra) como do Pão da vida (Mesa da Eucaristia). Por isso, as duas mesas (Mesa da Palavra e a da Eucaristia) recebem a mesma reverência. Somos nutridos, primeiro, pela Palavra de Deus (No princípio era a Palavra). Depois somos nutridos pelo Pão da Vida (e a Palavra  se fez carne).

A palavra que sair de minha boca: não voltará para mim vazia; antes, realizará tudo que for de minha vontade e produzirá os efeitos que pretendi, ao enviá-la”, disse o Senhor.

Há palavras que transformaram uma vida inteira com sua mensagem. Um bom livro é capaz de abrir horizontes e possibilitar novos caminhos. Uma boa palestra pode reestruturar uma vida. Para os antigos, o discípulos era como um recipiente que recolhia e retinha avidamente todas as palavras do mestre sem que deixasse escapar nenhuma. Isto significa que as palavras do mestre estavam cheias de sentido. As palavras de muito conteúdo são frutos do silêncio, da meditação e as observação atenta da vida de cada dia.

Se a palavra tem uma potência para transformar a vida das pessoas, então precisamos recuperar o valor da palavra, pois a palavra é como a semente, ao ser espalhada, resulta em uma plantinha. A palavra é como a chuva que cai na terra e a fecunda.

Cuidar Da Natureza É Cuidar Do Futuro; Salvar a Natureza É Salvar o Próprio Homem

Sabemos que toda a criação, até o tempo presente, está gemendo como que em dores de parto. E não somente ela, mas nós também, que temos os primeiros frutos do Espírito, estamos interiormente gemendo, aguardando a adoção filial e a libertação para o nosso corpo”.

Realmente no mundo há todo tipo de dor. E a própria natureza se submete a uma situação absurda. Pensemos nas guerras que destroem bosques, plantações, e as pessoas que na sua maioria é inocente. Pensemos também na contaminação por causa dos resíduos químicos jogados na natureza que destroem e matam as plantas e os seres vivos nela e nos seus rios.

Este sofrimento e a morte são gemidos e dores de todos. Cada cristão e cada pessoa de boa vontade deve voltar a ter consciência de que ele é a terra, o pó. O ser humano faz parte integral da terra: Ele veio dela, vive e sobrevive por causa dela. E um dia o ser humana se integrará à terra (do pó viemos e ao pó voltaremos). Como seria vida sem o oxigênio quando não sobrassem nenhuma árvore na natureza? Como seria a vida sem a água, quando os rios ficassem secos? Todos vão perceber que o dinheiro, o ouro, a prata etc. não podem ser comidos. Cuidar do meio ambiente é cuidar de nós mesmos, pois fazemos parte dele. E a terra é criada por Deus. Somos de Deus, pertencemos a Ele.

Na sua Carta Encíclica, Laudato Si, o Papa Francisco nos alerta: “Quando os seres humanos destroem a biodiversidade na criação de Deus; quando os seres humanos comprometem a integridade da terra e contribuem para a mudança climática, desnudando a terra das suas florestas naturais ou destruindo as suas zonas húmidas; quando os seres humanos contaminam as águas, o solo, o ar.... tudo isso é pecado. Porque um crime contra a natureza é um crime contra nós mesmos e um pecado contra Deus” (n.8).

Temos que estar conscientes de que a destruição ou o abuso desconsiderado da natureza é um problema moral. Não somos os donos deste planeta, e sim os cultivadores deste mundo. Não somente não devemos destruir a natureza nem contaminá-la e sim deixa-la mais limpa e habitável. O pecado contra nossa paz é matar os seres vivos pelo gosto de matar; todo tipo de guerra; provocar ou permitir desastres ecológicos; pôr em perigo as condições de vida humana para o futuro; não manter uma relação harmoniosa entre o homem e a natureza; não esforçar-se para salvaguardar a casa comum (nosso planeta) e assim por diante. As principais ameaças à nossa sobrevivência já não vêm da natureza externa e sim de nossa natureza humana interna. São nossas hostilidades, nosso descaso, o egoísmo, o orgulho/a arrogância, prepotência e a ignorância deliberada que põem o mundo em perigo. Se não conseguirmos domar e transmutar o potencial da alma humana para o mal, nós estaremos perdidos e faremos perdida até nossa própria família. O homem está tão intimamente unido à criação que não pode ter para ele a salvação que não seja também a salvação da natureza ou da criação.

Mas não podemos perder a esperança, pois a nossa esperança não é algo e sim Alguém: Jesus Cristo Ressuscitado, o Rei do Universo: “Eu entendo que os sofrimentos do tempo presente nem merecem ser comparados com a glória que deve ser revelada em nós.  De fato, toda a criação está esperando ansiosamente o momento de se revelarem os filhos de Deus”, escreveu São Paulo aos romanos. Pois bem, o olhar do cristão é esperançoso por causa de Cristo que venceu a morte. A ressurreição do Senhor e o dom do Espirito apontam para a aurora de um mundo novo. Deus quer trabalhar em nós e através de nós neste mundo.

O cristão deve ser um homem convertido e transfigurado para se tornar filho de Deus cuja missão é salvar a criação para que ele também seja salvo. O homem convertido e transfigurado em Cristo alcançará sua liberdade, sua dignidade e sua primeira beleza. Por meio dele tudo se converterá em algo divino. A presença do homem transfigurado em Cristo transfigura a natureza ao seu redor. 

O Cristão É Chamado a Semear o Bem Na Sua Passagem Neste Mundo

Mt 13, onde se encontra o texto do Evangelho proclamado neste Domingo, é o terceiro dos cinco discursos de Jesus no Evangelho de Mateus (vamos ler este capitulo também nos próximos domingos).  Mt 13 é o discurso sobre o mistério ou a natureza do Reino dos Céus em parábolas.

As parábolas têm uma função didática. Elas são comparações que ensinam ou transmitem uma verdade sobre o Reino de Deus. As parábolas contêm “os segredos do Reino de Deus”. Para captar seu sentido, é preciso estar em sintonia com Jesus, pois o Reino se faz presente nele (Mt 13,10). 

1. A Parábola Do Semeador É Uma Mensagem De Esperança                     

Esta parábola é uma resposta de Jesus ao pessimismo dos fariseus a respeito do insucesso de sua missão até então (a sua pregação encontra a resistência e a oposição da parte dos fariseus). Nesse contexto evidentemente havia crise da credibilidade que envolvia a pessoa de Jesus e sua pregação messiânica. Duvidava-se de que Jesus fosse o Messias e que se pudesse confiar no Reino pregado por ele. Jesus quer recuperar a confiança das pessoas, especialmente dos discípulos através da parábola do Semeador. 

A parábola do Semeador, por isso, é uma parábola de confiança. Jesus acredita firmemente que sua força salvífica terá fruto no futuro apesar dos obstáculos e dificuldades como a fraqueza, a aparente derrota e o insucesso. Esta parábola é um apelo a confiar no Reino de Deus manifestado na palavra e ação de Jesus. A confiante ação do semeador (Jesus) que espalha com mãos cheias a semente interpela o ouvinte a sair dos seus medos para abrir-se à novidade de Jesus. Com a força salvífica de Jesus os obstáculos e dificuldades serão superados, pois a Palavra de Deus será a última palavra para a vida e a salvação do homem. 

As palavras humanas (nossas palavras) são apenas palavras e que muitas vezes estão longe de nossos atos ou de nossa vida (separação entre o que se fala e se faz). Não é assim com Deus. O termo “dabar” em hebraico significa simultaneamente palavra e ato (veja Gn 24,66; Jz 6,29;Am 3,7). E através do relato da criação em Gênesis sabemos como é poderosa a Palavra de Deus. Para a Palavra de Deus, não há obstáculo que não possa ser atravessado. O que Deus diz, acontece instantaneamente (Gn 1,6.9.11.14). Nada pode resistir a Palavra poderosa de Deus (Is 55,10s). A Palavra de Deus, o poder de Deus superará frustrações na nossa vida quando depositamos nossa confiança nela em qualquer situação de nossa vida. Em outras palavras, a parábola do Semeador é uma mensagem de otimismo e de esperança, como o cristianismo é uma religião de otimismo. 

Jesus está querendo dizer aos discípulos: ânimo! Não tenham medo! Apesar do fracasso aparente e de sua presença oculta, o resultado final será maravilhoso e incalculável, pois a Palavra de Deus supera a palavra humana. 

2. É Preciso Que Sejamos Bom Terreno Para Produzirmos Bons Frutos          

Na parábola, as sementes caídas em terra boa produzem frutos de forma diferenciada: 100 por 1; 60 por 1; 30 por 1. O que isso quer nos dizer? Isso quer nos dizer que não há um padrão numérico para medir frutos de um trabalho evangelizador. Por isso, não cabe a nós ficar frustrados quando esperávamos 100, mas produzimos apenas 10. O importante é que saibamos dar o melhor de nós. Que produzamos frutos bons. Não tem muita importância se produzimos muito ou pouco. Não sejamos terrenos estéreis. 

Nesta parábola a acentuação não está na semente, mas no solo. Porque a semente, a Palavra de Deus, é eficaz em si (a iniciativa de Deus que oferece ao homem). Porém, para produzir fruto depende também do tipo de solo, ou da capacidade de aceitar e de colaborar com essa semente. A eficácia da palavra é condicionada pelo tipo de acolhimento que os ouvintes lhe reservam. Somente no coração dócil e perseverante é que a Palavra de Deus pode produzir muitos frutos bons.

A parábola fala de algumas sementes que caíram à beira do caminho comidas pelos pássaros. Outras sementes caíram em terreno pedregoso, onde não havia muita terra que morrem em seguida. Outras sementes ainda caíram no meio dos espinhos que impossibilita seu crescimento e sua sobrevivência. 

As sementes comidas pelos pássaros nos lembram das pessoas que pensam que viver de acordo com a Palavra de Deus, que viver ajudar a Igreja do Senhor é somente para os fracos, vencidos e velhos. Elas tiram do seu caminho aquilo que, na verdade, pode edificar sua vida. Elas preferem o consumismo desenfreado. Elas preferem o caminho da autossuficiência e o resto elas tiram de seu caminho sem nenhuma verificação sobre seu valor para sua vida. Mas esta autossuficiência termina sua força no leito da morte. Feliz seja aquele que vive de acordo com a Palavra de Deus, pois até na dor ele sente a presença de Deus que o ama incondicionalmente. 

As sementes caídas no terreno pedregoso e por isso, sem raiz profunda que as faz morrerem nos lembram das pessoas que no início do caminho cristão estão cheias de entusiasmo, mas com um coração inconstante. Como resultado, eles ficam desanimados diante de qualquer contrariedade, dificuldade ou perseguição. São pessoas que não nutrem seu coração com a Palavra de Deus, e por isso, perdem coragem para encarar as dificuldades. Uma fé verdadeira vive em todos os tipos de situação e no fim ela vence tudo (cf. 1Jo 5,4; Hb 11,1).   

As sementes caídas e crescidas entre os espinhos e que morrem por sufoco nos faz lembrar naquelas pessoas que ferem (como espinho) os que convivem com elas por causa do materialismo desenfreado, do comodismo. Quantas pessoas, que se dizem “religiosas”, fazem do dinheiro, do poder, da fama, do êxito profissional ou social o verdadeiro “deus” que sacrifica os outros em nome do “deus dinheiro, e do poder”. Os valores do Reino, como a solidariedade, a caridade, a compaixão, a justiça, a honestidade, a igualdade, a partilha etc. não valem para elas. Mas não se pode esquecer de que os bens materiais continuam sendo alheios a nós mesmo sendo necessários. O ser humano para se tornar mais humano precisa de outro ser humano. Sufocar o outro, como espinhos sufocam outras plantas, significa sufocar a própria vida. Ninguém é uma ilha. 

A parábola chama nossa atenção para outro detalhe: apesar de todas as dificuldades (os pássaros, as pedras, os espinhos) há sempre terreno fértil que produz muitos frutos. Jesus quer nos dizer que jamais desistimos de semear o bem, de partilhar o que se tem para o bem de todos apesar das dificuldades neste trabalho. Sempre há resultado: 100%, 60% ou 30%. Apesar do barulho da minoria que faz mal, os bons neste mundo são numerosos. O mal não tem futuro com Deus; somente o bem tem futuro com Deus. Porém, precisamos estar conscientes de que até para fazer o bem encontramos dificuldades e obstáculos. Se olharmos apenas para os pássaros que se preocupam com o próprio prazer, para os espinhos que só machucam e para as pedras que não deixam nada crescer, teremos tentação de desistir de tudo. Mas se tivermos consciência de que há terreno fértil, ganharemos mais forças e ânimo para continuar a semear o que é bom, digno e verdadeiro. Mesmo que ao redor exista a indiferença, a crítica pelo bem praticado, que não valorize o esforço e a boa vontade, mesmo assim, nada deve impedir de nós continuarmos a semear o bem. Somente vence quem persevera no trabalho de semear o bem, pois ele está com Deus e Deus esta com ele. Nosso trabalho de cada dia é semear, semear e semear o bem no nosso caminho. 

Por isso, com sinceridade, vamos nos perguntar: que tipo de terreno somos nós? Terreno pedregoso, cheio de espinhos ou terreno bom? Qual fruto que temos produzido até agora? Sabemos muito bem que a eficácia da Palavra é condicionada pelo tipo de acolhimento que os ouvintes lhe reservam. A audição superficial que é acompanhada pela inconstância nas dificuldades e pelo fato de ceder às tentações, a palavra permanece estéril e pode ser morta. 

3. Para o Exame De Consciência Sobre Nossa Atuação Como Cristãos: Que Tipo De Terreno Você É?

“É de se notar que, assim como na terra má havia três classes, a saber, a que estava junto ao caminho, a pedregosa e a cheia de espinhos, assim também há três classes de terra boa: a que produz cem, a que produz sessenta e a que produz trinta” (São Jerônimo). 

Nenhuma terra má produz algo de bom. Ao contrário, a terra boa sempre produz algo bom em certa quantidade de acordo com o grau de sua fertilidade. Por isso, uma terra produz trinta, outra produz sessenta e outra ainda produz cem. No Reino de Deus não existe trabalho inútil; nada se malgasta. O ênfase não está na produção ou no fruto abundante que cada um faz, e sim o esforço cheio de esperança como o semeador que semeia com a esperança de que possa ter uma boa colheita. Nunca temos certeza de um resultado final. Só podemos ter certeza de nosso esforço que éo segredo para avançar e crescer na vida. Um esforço honesto nos permitirá algum tipo de progresso ou de crescimento. Quando trabalhamos com amor e executarmos nosso trabalho da melhor forma, conquistaremos uma vitória na vida e conquistaremos novos bons parceiros. 

Como a semente que cresce diariamente até dar seus frutos, assim também a nossa vida. A vida é um processo. Aprendemos, crescemos e avançamos para nossas metas pouco a pouco. A escolha de pararmos de progredir cabe a nós também. Às vezes até é necessário que façamos um breve período de descanso quando estamos percorrendo um caminho pedregoso e espinhoso. Contudo, é necessário, em seguida, retomarmos a jornada para começar de novo o processo de crescimento ou de evolução.

P. Vitus Gustama,svd

Terça-feira Da XV Da Semana Comum, Ano Par", 14/07/2026

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