quarta-feira, 2 de setembro de 2026

XXIII Domingo Do Tempo Comum, Ano "A", 06/09/2026

CORRIGIR O IRMÃO PARA SALVÁ-LO

XXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM “A”

I Leitura: Ezequiel 33, 7-9

Assim diz o Senhor: 7 "Filho do homem, eu te constituí sentinela na casa de Israel. Logo que escutares um oráculo meu, tu lhe transmitirás esse oráculo de minha parte. 8 Se eu disser ao pecador que ele deve morrer, e tu não o avisares para pô-lo de guarda contra seu proceder nefasto, ele perecerá por causa de seu pecado, mas a ti pedirei conta do seu sangue. 9 Todavia, se depois de receber tua advertência para mudar de proceder, nada fizer, ele perecerá devido a seu pecado, enquanto tu salvarás a tua vida".

II Leitura: Romanos 13,8-10

Irmãos, 8 A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, a não ser o amor recíproco; porque aquele que ama o seu próximo cumpriu toda a lei. 9 Pois os preceitos: Não cometerás adultério, não matarás, não furtarás, não cobiçarás, e ainda outros mandamentos que existam, eles se resumem nestas palavras: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. 10 A caridade não pratica o mal contra o próximo. Portanto, a caridade é o pleno cumprimento da lei.

Evangelho: Mt 18,15-20

Naquele tempo, Jesus disse a seus discípulos: 15 Se o teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular, a sós contigo! Se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão16 Se ele não te ouvir, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão seja decidida sob a palavra de duas ou três testemunhas. 17 Se ele não vos der ouvido, dize-o à Igreja. Se nem mesmo à Igreja ele ouvir, seja tratado como um pagão ou um pecador público. 18 Em verdade vos digo, tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu. 19 De novo, eu vos digo: se dois de vós estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa que quiserem pedir, isso lhes será concedido por meu Pai que está nos céus. 20 Pois, onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí, no meio deles”. 

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Mt 18: Um Discurso Sobre a Vida Comunitária

O capítulo 18 de Mt é o quarto dos cinco grandes discursos de Jesus neste evangelho. O discurso neste capítulo é conhecido como “discurso eclesiológico” (discurso sobre a Igreja) ou “discurso comunitário” (sobre vida comunitára). Este capítulo, do qual são extraídos o trecho de hoje e o do próximo domingo, foi escrito para responder aos problemas internos das comunidades cristãs: Quem é o primeiro na comunidade? O que fazer se acontecem escândalos? E se um cristão se perde ou se afasta da comunidade, o que fazer? Como corrigir um irmão que erra? Quando é que uma oração pode ser chamada de comunitária e partilhada? E quantas vezes se deve perdoar?        

Na comunidade de Mt (como muitas vezes na nossa) cresce a ambição e se cultivam sonhos de grandeza dos membros que se consideram mais importantes dos demais. Há pouca consideração para com os pequenos, até são desconsiderados e desprezados (quem são pessoas que não levamos em consideração na comunidade? Como será nossa vida, se nos colocarmos no lugar destes desconsiderados?) Estes pequenos correm risco de desviar-se e de se tornar incrédulos e de afastar-se da atividade comunitária. Nessa comunidade suscitam também pecadores notórios, inclusive as ofensas e os ressentimentos que abalam a convivência fraterna. Como encarar tudo isso?         

Nesse capítulo, são dadas as diversas orientações e algumas normas que têm por objetivo desenvolver o amor e favorecer a harmonia entre os membros da comunidade. Para isso, Mt coloca em ordem o material transmitido pela tradição para regular as relações internas da comunidade. 

Contra os sonhos de grandeza e de orgulho, Mt coloca a atitude de humildade que agrada a Deus e aos outros (18,1-4). Para os pequenos, os fracos na fé é necessário ter uma acolhida cheia de caridade e de desvelo (18,6-7). O desprezo é inadmissível para uma boa convivência. Para enfatizar mais este tema, Mt fala dos anjos que sempre estão do lado dos pequenos (18,10). Se um dos membros da comunidade afastar-se ou desviar-se do caminho reto, em vez de condená-lo, a comunidade toda deve esforçar-se para que esse irmão volte para a comunidade, pois Deus não quer que nenhum deles se perca (18,12-14). E para o irmão pecador, a comunidade inteira deve usar todos os meios para recuperá-lo (18,15-20). E para as ofensas, deve haver perdão sem limite, pois uma comunidade só pode sobreviver se existe o perdão mútuo(18,21-35). Se o pecado continua a existir, o perdão deve existir também.                

O trecho de hoje enfrenta um destes problemas: que atitude tomar em relação a quem erra ou peca? Como corrigir o irmão que peca? A instrução sobre a correção fraterna é imediatamente precedida pela parábola da ovelha perdida (Mt 18,12-14) que termina com a seguinte frase: “Assim, também, é da vontade de vosso Pai que está nos céus, que não se perca um só destes pequeninos” (Mt 18,14). A parábola serve de ilustração para o ensinamento que segue, isto é, serve para ilustrar sobre o tema da correção fraterna. O “pequeno” é aquele que crê em Jesus (cf. Mt 18,1-3), mesmo assim também peca. E Deus se preocupa com ele como o pastor que procura a ovelha extraviada. Se o próprio Deus cuida do pequeno para que não se perca, a comunidade deve ter o mesmo procedimento para seus membros que erram. 

O pecado tem sempre uma dimensão comunitária, pois sendo uma revolta contra Deus, prejudica toda a comunidade em seu relacionamento com Deus. Dai nasce a necessidade de conversão permanente. Onde dois irmãos procurarem a verdade maior, numa correção fraterna, “o Senhor estará entre eles” (Mt 18,20). A graça do perdão que o cristão recebeu de Deus é devolvida ao irmão, que pecou contra ele, por seu perdão. Ninguém pode receber o perdão de Deus sem oferecer o mesmo perdão para o irmão que errou ou pecou.         

A Igreja, todos nós, não constitui uma comunidade de perfeitos, mas de pessoas em busca da perfeição. Ninguém de nós é perfeito, e não é porque seguimos a Jesus é que estamos livres de cometer erros. Todos nós, membros da Igreja de Jesus Cristo, somos convidados a manifestarmos nossa responsabilidade para com o irmão que erra ou peca. Não se trata de condenar, mas de fazer a correção fraterna para que se estabeleça o amor. A lei do amor, com certeza, obriga a um esforço para reconduzi-lo ao bom caminho.         

Por isso, há uma coisa que absolutamente não deve ser feita (mas infelizmente, a primeira que se faz): espalhar a notícia do erro cometido. Porque isto é difamação. A difamação presta-se somente a humilhar quem errou, a irritá-lo, a fazê-lo teimar no mal. É mesmo que perder para sempre a oportunidade de recuperar o irmão. A difamação pode destruir o homem, como diz o Eclesiástico: “Um golpe de chicote deixa marca, mas um golpe de língua quebra completamente os ossos” (Eclo 28,17). A difamação(língua) pode matar um irmão, pode arruinar uma família e pode destruir um casamento. Há quem pense que por ter falado a verdade pode ficar tranqüilo. Mas a verdade que não produz amor, mas que provoca perturbação e desunião, que gera discórdias, ódios e rancores, não deve ser dita. A verdade que mata opõe-se à vida. 

Correção Fraterna: Ocasião De Salvação 

O texto do evangelho de hoje fala da correção fraterna. A correção fraterna é norma antiquíssima, como lemos em Lv 19,17: “Deves repreender teu próximo, e assim não terás a culpa do pecado”. Lemos também na Primeira Leitura de hoje:  Se eu disser ao pecador que ele deve morrer, e tu não o avisares para pô-lo de guarda contra seu proceder nefasto, ele perecerá por causa de seu pecado, mas a ti pedirei conta do seu sangue. (Ez 33,8) Com a correção fraterna nos tornamos um para o outro ocasião de salvação. Ao corrigir o outro com caridade, eu me torno ocasião de salvação para o outro. Somente entre irmãos é que pode haver correção. Ser irmão significa sentir-se responsável pelo crescimento do outro e, portanto, gozar de seu bem ou capacidade e sentir seu mal. É ir além da indiferença e do medo, da inveja, da rejeição e do ciúme.

Biblicamente falando, a correção fraterna é uma atividade espiritual, pois deve ser feita à luz do Espírito de Deus para não transformá-la em censura e juízo que exprimem mais a superioridade do que a fraternidade. Por isso, a correção fraterna deve partir do amor, como enfatiza a Segunda Leitura de hoje: “A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, a não ser o amor recíproco; porque aquele que ama o seu próximo cumpriu toda a lei” (Rm 13,8).  A correção fraterna é um modo de ser e crescer juntos, de ligar a própria vida à vida de quem me está “próximo”, de conceber a fraternidade como evento de salvação. A correção fraterna me faz descobrir o irmão e me faz irmão para o outro. A correção fraterna faz alguém colocar-se ao lado do outro para caminhar junto na direção do Bem maior que é o próprio Deus.

A correção fraterna é importantíssima para o crescimento da Igreja. E estamos conscientes de que a Igreja, todos nós, não constitui uma comunidade de perfeitos, mas de pessoas em busca da perfeição. Não somos perfeitos, mas somos perfectíveis, isto é, a capacidade de caminhar para a perfeição. Para nós todos a perfeição é um horizonte. Como horizonte, a perfeição é inalcançável, pois o ideal é o próprio Deus: “Sejam perfeitos como o Pai do céu é perfeito(Mt 5,48). 

A palavra perfeição provém do verbo latino “perficere” que indica cumprimento. A perfeição pode ser considerada como a possessão plena do próprio ato, isto é, como atualidade em oposição à potencialidade e virtualidade. Neste sentido, Deus é perfeição infinita por ser Ato puro, Ser subsistente sem limitação alguma. Aquele que crê em Deus é chamado permanentemente a ser, como Deus, um Ato puro.

À luz da revelação e da autêntica experiência religiosa, somente é possível falar da santificação e da perfeição cristã e humana no contexto do Deus santo e perfeito. Em todas as grandes religiões, mas particularmente na revelação do AT e do NT o etos sagrado aparece como a base absoluta para a vida moral e ética dos crentes ou dos que creem em Deus. 

Mesmo sendo incansável, a perfeição serve como o ponto de referência para podermos nos avaliar se estamos longe ou perto ou fora da própria perfeição ou da santificação. O termo santificação, como o termo de perfeição, ocupa um posto central na mensagem bíblica e geralmente também na teologia mística e sacramental. Somos chamados a ser outro Cristo para os demais, a ser configurados em Jesus Cristos para que nos tornemos vida para os outros. 

Dentro da perfeição de Deus, estamos conscientes de que ninguém de nós é perfeito, e não é porque seguimos a Jesus é que estejamos livres de cometer erros. São João diz: “Se dissermos: ‘Não temos pecado’, enganamo-nos a nós mesmos e a verdade não está em nós...Se dissermos: ‘Não pecamos’, fazemos dele um mentiroso, e a sua palavra não está em nós” (1Jo 1,8.10). Todos nós, membros da Igreja de Jesus Cristo, somos convidados a manifestar nossa responsabilidade para com o irmão que erra ou peca. Não se trata de condenar, mas de fazer a correção fraterna para que se estabeleça o amor. A lei do amor, com certeza, obriga a um esforço para reconduzir o irmão que erra ao bom caminho.

 Na correção fraterna, a verdadeira verdade deve ser dita na caridade com o intuito de sermos ocasião de salvação para o irmão. A verdade que não produz amor, mas que provoca perturbação e desunião, que gera discórdias, ódios e rancores, não deve ser dita.

A verdade nua e crua, às vezes, provoca o efeito contrário do amor. A verdade que mata opõe-se à vida. Como dizia São Francisco de Sales: “Uma verdade que não é caridosa procede de uma caridade que não é verdadeira”. A verdade, então, está submetida à caridade. Precisamos levar em consideração o grande respeito e prudência em ditar a verdade. O que se diz e como se diz deve-se levar sempre em consideração. 

Em outras palavras, todo nosso trabalho na Igreja, qualquer tipo de ajuda e de contribuição na Igreja e para a Igreja e fora dela, nas comunidades, nas famílias que são as Igrejas domésticas é para salvar as almas; é para sermos ocasião de salvação para o outro. Deus nos coloca no caminho do outro e o outro é colocado por Deus no nosso caminho com o objetivo de nos tornarmos ocasião de salvação para o outro: eu me torno a ocasião de salvação para o outro e outro se torna ocasião de salvação para mim. Fora disso, todo o trabalho na Igreja careceria de sentido. 

Por fim, o Evangelho de hoje propõe uma coisa que é a força maior para todas as etapas proposta por Jesus no evangelho de hoje: a oração partilhada ou comunitária. Acreditamos que Deus reprova as pessoas que pensam só em si mesmas, que se preocupam só com sua própria vida espiritual, pois no Reino de Deus não há espaço para os egoístas, pois Deus é Amor. Ele quer encontrar um povo, quer relacionar-se com as pessoas que vivem em comunidade. Pois onde dois ou três estarem reunidos em nome do Senhor Jesus, ele está no meio deles (Mt 18,20). Neste versículo se exprime a certeza de que Deus está no meio da comunidade quando ela se reúne no seu nome. Consequentemente, Deus está aqui e agora no meio de nós numa presença misteriosa, como o vento que não se vê, mas se sente. A presença de Jesus no coração de uma comunidade fraterna é o que qualifica a oração cristã. Quando os que creem rezarem juntos, revelarão a própria fé, reconhecendo-se irmãos e irmãs, e assim proclamarão ao mundo o seu pertencer ao Cristo ressuscitado. A comunidade torna-se o contexto vital do encontro com o Senhor, porque esse é o berço da vida de fé e o seu destino. Tenhamos certeza de que Deus está no meio de nós neste momento.         

O caminho que Jesus propõe para dizer a verdade a um irmão que está cometendo erros ou pecados (correção fraterna), inclui três etapas: 

1ª. Falar Pessoalmente Na Caridade         

Ir falar pessoalmente com o irmão, de homem para homem, cara a cara na caridade. Se fizer na caridade isto quer dizer que tudo deve ser feito em segredo para evitar que alguém tome conhecimento do que aconteceu.         

Esta primeira tentativa é mais delicada, porque, normalmente, ninguém gostaria de fazê-lo; ao contrário, todos preferem falar com os outros, não com a pessoa interessada. É também muito difícil encontrar palavras apropriadas para o(a) irmão(a) não ficar ofendido(a). Porém, se fizermos isso com o intuito de salvar o irmão teremos coragem de falar pessoalmente com o irmão para alertá-lo.         

Numa situação dessas, o pensamento que lemos na segunda leitura pode nos ajudar muito: “Não fiqueis devendo nada a ninguém, a não ser o amor mútuo, pois quem ama o próximo está cumprindo a Lei” (Leia Rm 13,8-10). Ao mantermos vivo o princípio do amor é fácil compreender o irmão que erra. Pois o amor é a essência da realidade, por isso, é a do cristianismo também. Ele é a última palavra da compreensão e o critério definitivo do juízo. Todos os demais preceitos dependem da lei do amor. Por isso, à medida que a vida avança, o critério do amadurecimento real é a capacidade de amar. Por isso também, “o céu é o lugar onde todos os presentes devem estar de tal forma “maduros” para o amor” (Carlo Carreto). Pois o amor é o resumo da vida eterna. Compreendê-lo e vivê-lo seria chegar à fonte da vida que é Deus, pois “Deus é AMOR” (1Jo 4,8.16). E geralmente, aquelas pessoas puras, que têm muito amor no coração, enxergam as coisas boas e procuram ignorar os defeitos dos outros, refletem a sua serenidade interior e transmitem a paz aos que, inclusive aos que erram na vida.         

Quantos problemas na comunidade ou nas famílias que poderíamos resolver se tivéssemos um pouco de amor e um pouco de espírito dialogal no nosso coração.

2ª. Procurar Pessoas Que Tenham Sensibilidade E Sabedoria         

O segundo passo que Jesus propõe é pedir ajuda a um ou dois irmãos da comunidade que tenham sensibilidade e sabedoria para evitar qualquer tipo de fofoca. Por isso, é preciso lembrar sempre que o objetivo é a recuperação do irmão, e não para encostá-lo na parede ou colocá-lo diante de testemunhas que possam acusá-lo. Ele deve perceber que está falando com amigos, com pessoas que lhe querem bem. 

3ª. O Apelo À Comunidade          

A última etapa que Jesus propõe é o apelo à comunidade. Isto somente pode acontecer nos casos nos quais a falta cometida seja um perigo de inquietação para todos os irmãos, especialmente para os mais fracos na fé. O Evangelho de hoje diz que se desta vez também o irmão que erra não quisesse corrigir-se, deveria considerado “como um pagão e como um publicano”. Mas isto não significa que tudo seja encerrado. Agora a comunidade deve procurar o irmão, assim como o pastor procura a ovelha perdida, porque “Jesus veio para salvar o que estava perdido” (Mt 18,1). A missão de Jesus deve ser também a nossa missão, já que somos cristãos, seguidores do Cristo.         

Portanto, o Evangelho de hoje propõe uma coisa é que a força maior para todas as etapas proposta por Jesus é a oração partilhada ou comunitária. Acreditamos que Deus não gosta das pessoas que pensam só em si mesmas, que se preocupam só com sua própria vida espiritual, pois no Reino de Deus não há espaço para os egoístas já que Deus é Amor (1Jo 4,8.16). Ele quer encontrar um povo, quer relacionar-se com pessoas que vivem em comunidade. Pois onde dois ou três estiverem reunidos em nome do Senhor Jesus, ele está no meio deles. Ainda vem uma promessa maior: “Em verdade vos digo: se dois de vós estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa queiram pedir (em nome de Jesus), isso lhes será concedido por meu Pai que está nos céus”. 

O Evangelho deste domingo nos convida a amarmos o nosso irmão, mas não a pactuarmos com as atitudes erradas cometidas.  Amar alguém é não ficar indiferente quando ele está no caminho errado; Faz parte do amor amar é corrigir, alertar, questionar, orientar, interpelar, aconselhar para o bom caminho etc.... Quem ama educa e corrige. Quando uma pessoa faz parte de uma comunidade ou família não tem como não chamar atenção de quem está no caminho errado moral e eticamente.         

Será que nos sentimos ainda como uma comunidade? Será que tratamos aos outros membros da comunidade como irmãos? Existe sempre na comunidade um conflito entre os “antigos e os modernos”. Os “antigos” têm medo do novo, e o encaram como uma ameaça, um perigo, um erro; eles o condenam e, muitas vezes, o destroem. O novo incomoda. Os “modernos” também se irritam com o que é antigo e o rejeitam como errado, corrompido, ruim, conservador, e rompem com ele. E o responsável da comunidade pode ser crucificado por essas tensões. Mas, no fundo, não existe o conflito entre o “novo/moderno” e o “antigo”. O verdadeiro conflito existe entre o falso e o verdadeiro. Todos devem se submeter à verdade de acordo com a Palavra de Deus. Quando a verdade fica no meio e não o poder nem interesse individual, e todos aceitarem a verdade como critério, as tensões vão diminuindo aos poucos, pois “...a verdade vos libertará” (Jo 8,32).

P. Vitus Gustama,svd

Sábado Da XXII Semana Comum, Ano Par, 05/09/2026

VIVER CONFORME O ESPIRITO DE DEUS É VIVER EM FUNÇÃO DO BEM DO HOMEM

Sábado da XXII Semana Comum

Primeira Leitura: 1Cor 4,6-15 (Ano Par)

Irmãos, apliquei essa doutrina a mim e a Apolo, por causa de vós, para que o nosso exemplo vos ensine a não vos inchar de orgulho, tomando o partido de um contra outro, e a "não ir além daquilo que está escrito". 7 Com efeito, quem é que te faz melhor que os outros? O que tens que não tenhas recebido? Mas, se recebeste tudo que tens, por que, então, te glorias, como se não o tivesses recebido? 8 Vós já estais saciados! Já vos enriquecestes! Sem nós, já começastes a reinar! Oxalá estivésseis mesmo reinando, para nós também reinarmos convosco! 9 Na verdade, parece-me que Deus nos apresentou, a nós apóstolos, em último lugar, como pessoas condenadas à morte. Tornamo-nos um espetáculo para o mundo, para os anjos e os homens. 10 Nós somos os tolos por causa de Cristo, vós, porém, os sábios nas coisas de Cristo. Nós somos os fracos; vós, os fortes. Vós sois tratados com toda a estima e atenção, e nós, com todo o desprezo. 11 Até à presente hora, padecemos fome, sede e nudez; somos esbofeteados e vivemos errantes; 12 fadigamo-nos, trabalhando com as nossas mãos; somos injuriados, e abençoamos; somos perseguidos, e suportamos; 13 somos caluniados, e exortamos. Tornamo-nos como que o lixo do mundo, a escória do universo, até ao presente. 14 Escrevo-vos tudo isto, não com a intenção de vos envergonhar, mas para vos admoestar como meus filhos queridos. 15 De fato, mesmo que tivésseis dez mil educadores na vida em Cristo, não tendes muitos pais. Pois fui eu que, pelo anúncio do Evangelho, vos gerei em Jesus Cristo.

Evangelho: Lc 6,1-5

1 Num sábado, Jesus estava passando através de plantações de trigo. Seus discípulos arrancavam e comiam as espigas, debulhando-as com as mãos. 2 Então alguns fariseus disseram: 'Por que fazeis o que não é permitido em dia de sábado?' 3 Jesus respondeu-lhes: 'Acaso vós não lestes o que Davi e seus companheiros fizeram, quando estavam sentindo fome? 4 Davi entrou na casa de Deus, pegou dos pães oferecidos a Deus e os comeu, e ainda por cima os deu a seus companheiros. No entanto, só os sacerdotes podem comer desses pães.' 5 E Jesus acrescentou: 'O Filho do Homem é senhor também do sábado.'

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Servir Com Humildade

Os Coríntios fazem parte da cultura grega e têm orgulho de si por causa de sua filosofia (filosofia grega). Essa cultura acaba contaminando  os cristãos de Corinto com o mesmo orgulho: sentem-se superiores; complexo de superioridade. Essa mentalidade cria grupinhos entre os cristãos de Corinto.

São Paulo, ironicamente, critica a conduta deles, pois os cristãos de Corinto, que sendo pobres, gostam de se apresentar e aparecer como gente importante. São Paulo ironiza os cristãos de Corinto através de uma série de antíteses: “Nós somos os tolos por causa de Cristo, vós, porém, os sábios nas coisas de Cristo. Nós somos os fracos; vós, os fortes. Vós sois tratados com toda a estima e atenção, e nós, com todo o desprezo”.

São as frases irônicas de são Paulo contra os cristãos de Corinto. Os cristãos de Corinto têm uma orgulhosa autossuficiência. A autossuficiência sempre produz desunião. O que são Paulo pretende colocar acima de tudo é que os coríntios recapacitem e recuperam a unidade perdida. No lugar de autossuficiência deve vestir-se de humildade. O que tens que não tenhas recebido? Mas, se recebeste tudo que tens, por que, então, te glorias, como se não o tivesses recebido?. Se tudo é de Deus, menos o pecado, não há que ter a arrogância.

O princípio para todos, e particularmente para os Coríntios, deve ser a humildade. Se quiser ser importante, cada cristão deve mostrar a humildade.  A humildade é a arma mais poderosa para levar alguém para Deus. A humildade em si tem  seu poder de persuasão. A palavra “humildade” deriva do latim: “humilis”, que por sua vez, deriva de “humus” que significa “chão”, “terra” e parte fértil da terra. Todos nós somos terra, pó. Humilde é aquele que se acha bem consubstanciado com a terra. É aquele que tem os pés bem firmes no chão. É aquele que pisa firme, com segurança e confiança em si mesmo. A partir da humildade não se despreza, nem se teme ninguém. O “húmus” é a parte nutritiva da terra que possibilita o crescimento de uma planta. Da mesma maneira, a humildade é refúgio e alimento do ser. A humildade possibilita crescimento para quem a tem. É na humildade e da humildade que germinam nossos autênticos valores. Só a partir da humildade é possível trilhar a infinita e misteriosa caminhada do conhecimento de si mesmo e de crescimento. O humilde reverencia o sagrado, pois ele se reconhece “terra”, “pó”, mas é “pó” vivente por causa do hálito que é soprado nele pelo Criador (cf. Gn 2,7; Jo 20,22).

Ontem Paulo nos disse que éramos servos e não proprietários. Hoje ele afronta aqueles que acreditam ser alguma coisa ou que se sentem superiores: “Com efeito, quem é que te faz melhor que os outros? O que tens que não tenhas recebido? Mas, se recebeste tudo que tens, por que, então, te glorias, como se não o tivesses recebido?” Quem te torna tão importante? Você tem algo que não recebeu” (de Deus)? Esta frase parece ter impressionado Santo Agostinho, segundo alguém, que a comenta mais de duzentas vezes nos seus escritos. Contrapõe à arrogância e à pretensão dos Coríntios, Jesus propõe que quem quiser ser seu discípulo deve tomar a cruz, renunciar a si mesmo e segui-Lo (Mt 16,24).

Quando tivermos conscieência de que tudo vem de Deus, menos nosso pecado, não haverá nenhum espaço na nossa vida para a arrogância e acabaremos vivendo na ação de graças e conviveremos como irmãos, pois todos nós somos um dom de Deus.

O Amor Fraterno É o Cumprimento Da Vontade De Deus

O Filho do Homem é senhor também do sábado

A controvérsia entre Jesus e os fariseus continua. No evangelho anterior era sobre o jejum. Hoje é sobre o Sábado. Guardar o sábado para um judeu era algo importantíssimo; estava entre os principais mandamentos. Transgredir o sábado podia levar o acusado à condenação de acordo com a gravidade do ato. A punição prevista chegava à pena de morte (cf. Ex 31,12-17; 35,1-3).

E tirar espigas (com foice) era uma das trinta e nove formas de violar o sábado, segundo as interpretações exageradas que algumas escolas dos fariseus faziam da lei na época. Por isso, se escandalizam quando percebem que os discípulos de Jesus arrancam as espigas para matar a fome no dia de sábado. Na verdade Dt 23,25 determina: “Quando entrares na seara de trigo do teu próximo, poderás colher espigas com a mão, mas não usarás a foice”. Era permitido, então, colher espigas com a mão. Só não era permitido passar a foice.

Os fariseus ficam presos com suas próprias idéias e usam os textos da Sagrada Escritura em função de suas idéias. “O triste não é mudar de ideia. O triste é não ter ideia para mudar” (Francis Bacon, filódofo britânico). Ler e meditar a Palavra de Deus é para descobrir a vontade de Deus. Precisamos rezar, a exemplo de Samuel, quando lemos e meditamos a Palavra de Deus: “Fale, Senhor; vosso servo escuta!” (1Sm 3,10). A Bíblia é inspirada por Deus e por isso, precisamos pedir ao Espírito Santo que nos inspire na hora de ler e de meditá-la. Em outras palavras, quando lermos e meditarmos a Palavra de Deus temos que ter uma mente aberta e um coração necessitado da graça de Deus.

Jesus veio ao mundo para salvar a humanidade por amor (cf. Jo 3,16). Por isso, Jesus aplica um princípio fundamental para todas as leis, em função dos homens: “O Sábado foi feito para o homem e não o homem para o Sábado”. O homem está sempre no centro da doutrina de Jesus. Sua preocupação é fazer o bem para o homem, e salvá-lo mesmo no dia de Sábado, mesmo “transgredindo” a lei religiosa. A lei do Sábado foi dada precisamente a favor da liberdade, do bem e da alegria do homem (Dt 5,12-15).

Para Jesus, o espírito da lei deve estar sempre ao serviço de Deus para glorificá-Lo, e ao serviço do ser humano para dignificá-lo e salvá-lo. A glória de Deus é a vida e a felicidade de seus filhos, os seres humanos. Para Jesus, as leis, ainda que sejam sagradas, não podem estar por cima da vida, das necessidades vitais, da felicidade, da plena realização dos seres humanos. Por isso Jesus tem coragem de afirmar: “O Sábado foi feito para o homem e não o homem para o Sábado”. Se é para salvar o homem na sua necessidade vital no sábado, logo o sábado perde sua sacralidade, pois o sábado foi feito para a vida do homem que é sagrada, pois a vida pertence a Deus.

A lei civil é uma afirmação dupla: a existência dos maus e a dos bons. Para que os bons sejam protegidos é necessário ter lei. Se todos fossem bom, se todos tivessem capacidade de amar, a existência da lei não teria sentido. “Ama e faze o que quiseres. Por esse caminho não existe outro”, dizia Santo Agostinho.

A lei é boa e necessária. A lei é, na verdade, o caminho para levar à prática o amor. Somente o mandamento do amor rompe fronteiras, divisões, prejuízos e escravidões (Jo 13,34-35; 15,12). Por isso mesmo a lei não pode ser absolutizada. O Sábado, (para nós o domingo), está pensado para o bem do homem. É um dia em que nos encontramos com Deus, com a comunidade, com os irmãos, com a natureza e com nós mesmos. O descanso é um gesto profético que nos faz bem a todos para fugir ou escapar da escravidão do trabalho ou da carreira consumista. O dia do Senhor é também dia do homem, com a Eucaristia como momento privilegiado.

O sagrado do sábado”, comenta o rabino Nilton Bonder, “não é o descanso em si, mas o ritmo mágico do trabalho ao descanso e ao trabalho novamente. É essa entrada e saída que é sagrada. (...) Sem as pausas há apenas ilusão; sem os silêncios há apenas ilusão da música; sem a luz-transparência há apenas ilusão da cor” (Código Penal Celeste).

Por que fazeis o que não é permitido em dia de sábado?”, perguntaram alguns fariseus a Jesus. O homem sempre tem uma tendência fastidiosa em dar uma importância aos meios, esquecendo-se muitas vezes do fim. Na minha fé, nos costumes religiosos, nos ritos há de ver primeiro sua finalidade, seu objetivo profundo, e os modos de expressão podem mudar. O legalismo religioso pode matar o espírito cristão. Toda comunidade em que os interesses particulares, as desigualdades, o monopólio têm espaço, deixa de ser campo para o triunfo do Espírito Santo. Jesus nos pede que acima de tudo deve ficar a misericórdia, o amor: “A caridade é a plenitude da Lei” (Rm 13,10b). Nascemos do Amor criador e devemos levar essa marca divina para toda a nossa vida. Somos filhos de Deus em Jesus Cristo e não estranhos, e, portanto, devemos atuar e viver como tais. Somos membros do Corpo de Cristo unidos pela fé, amor e esperança. Somos chamados a viver em comunhão da fé, amor, esperança, vida e solidariedade. Temos que nos salvar juntos. Todos nós temos que chegar juntos à casa do Pai (cf. Jo 14,1-6). Mas diante da responsabilidade não podemos pretender que os outros realizem a parte que a cada um corresponde. Cada um é insubstituível na sua responsabilidade.

Jesus nos convida, então, a fazer da Palavra de Deus um instrumento de libertação. Sua Palavra é a constituição para os cristãos, o novo povo de pessoas livres.

Precisamos nos perguntar: “Não somos, às vezes, demasiados legalistas? Não julgamos nossos irmãos quando cremos que eles não cumprem as leis ou as regras, sejam as leis humanas, as leis da Igreja ou as leis consideradas como divinas? Se para Jesus o homem está sempre no centro de seu ensinamento, será que colocamos o ser humano como centro de nossas atividades?”. A denúncia da escravidão ao sábado nos convida a nos libertarmos da religião da observância formal e segui-la pelos caminhos do amor libertador. Quando as coisas materiais ou rituais mandam, e não a lei do amor, o homem se faz escravo.

O Filho do Homem é senhor também do sábado”. Deus se encarnou precisamente para salvar o homem por amor (cf. Jo 3,16) e não para oprimi-lo. Deus entrou na história do homem fazendo-se palavra de homem. Com sua encarnação, a vida dos homens se torna o único lugar onde Deus fala. Praticamente, Jesus é acusado como “ateu”, pois não respeita o Sábado. Através de sua encarnação, Deus não levanta uma barreira entre o mundo da terra e o mundo de Deus. Deus santifica a condição mundana do homem.

“Por que fazeis o que não é permitido em dia de sábado?”, perguntaram os fariseus. O homem tem uma tendência de dar uma importância desmedida aos “meios”, esquecendo-se, muitas vezes, do “fim”; segura firmemente o secundário e abandona o essencial. Obedece à lei sabática e abandona o ser humano que precisa de salvação. Ama menos quem se preocupa demasaidamente com a regra ou lei. Onde houver o amor fraterno, a lei se torna secundária. Onde falta o amor, é necessário ter lei. O homem, frequentemente, dedica seu tempo para discutir coisas secundárias, e não sobra tempo para tratar dos essências da vida. Disto aprendemos que em nossa fé, em nossos costumes religiosos, nos ritos, temos que ver primeiro sua finalidade, seu objetivo profundo e pensar que os meios de expressão podem mudar. Todas as leis na Igreja tem como objetivo salvar o homem.

P. Vitus Gustama,svd

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Sexta-feira Da XXII Semana Comum, Ano Par, 04/09/2026

SER SERVIDOR DE CRISTO E PRÁTICA DO O JEJUM QUE MUDAM NOSSA MENTALIDADE

Sexta-Feira da XXII Semana Comum

Primeira Leitura: 1Cor 4,1-5 (Ano Par)

Irmãos, 1 que todo o mundo nos considere como servidores de Cristo e administradores dos mistérios de Deus. 2 A este respeito, o que se exige dos administradores é que sejam fiéis. 3 Quanto a mim, pouco me importa ser julgado por vós ou por algum tribunal humano. Nem eu me julgo a mim mesmo. 4 É verdade que a minha consciência não me acusa de nada. Mas não é por isso que eu posso ser considerado justo. 5 Quem me julga é o Senhor. Portanto, não queirais julgar antes do tempo. Aguardai que o Senhor venha. Ele iluminará o que estiver escondido nas trevas e manifestará os projetos dos corações. Então, cada um receberá de Deus o louvor que tiver merecido.

Evangelho: Lc 5,33-39

Naquele tempo, 33 os fariseus e os mestres da Lei disseram a Jesus: “Os discípulos de João, e também os discípulos dos fariseus, jejuam com frequência e fazem orações. Mas os teus discípulos comem e bebem”. 34 Jesus, porém, lhes disse: “Os convidados de um casamento podem fazer jejum enquanto o noivo está com eles? 35 Dias virão em que o noivo será tirado do meio deles. Então, naqueles dias, eles jejuarão”. 36 Jesus contou-lhes ainda uma parábola: “Ninguém tira retalho de roupa nova para fazer remendo em roupa velha; senão vai rasgar a roupa nova, e o retalho novo não combinará com a roupa velha. 37 Ninguém põe vinho novo em odres velhos; porque, senão, o vinho novo arrebenta os odres velhos e se derrama; e os odres se perdem. 38 Vinho novo deve ser posto em odres novos. 39 E ninguém, depois de beber vinho velho, deseja vinho novo; porque diz: o velho é melhor”.

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As leituras de hoje nos oferecem a oportunidade de refletir sobre a maneira de ser um servidor de Cristo: “... que todo o mundo nos considere como servidores de Cristo e administradores dos mistérios de Deus”, escreveu são Paulo aos Coríntios que lemos na Primeira Leitura. Ninguém é triunfador se não torna a vida dos outros mais feliz, e melhor, isto é, mais frutífera através de nosso serviço. O risco de todo triunfador deste mundo, e não ao estilo de Jesus, é cair derrotado por sua falta de amor ao próximo, especialmente ao mais necessitado.

“... que todo o mundo nos considere como servidores de Cristo e administradores dos mistérios de Deus”. É difícil falar sobre o ser servidor de Cristo porque o mais fácil é cair na crítica barata e na desclassificação superficial, assumindo assim o papel de moralista barato dentro da Igreja. Criticar nossa Igreja cuja cabeça é o próprio Cristo (Cl 1,18), de dentro e de fora, é muito fácil, mas com pena, e parece ser uma prática muito antiga se já na Carta aos Coríntios são Paulo escreveu: “Quanto a mim, pouco me importa ser julgado por vós ou por algum tribunal humano. Nem eu me julgo a mim mesmo. ... Quem me julga é o Senhor”.

Da mesma forma, o Evangelho de hoje se abre com uma crítica, quase um murmúrio do povo: “Os discípulos de João, e também os discípulos dos fariseus, jejuam com frequência e fazem orações. Mas os teus discípulos comem e bebem”.

São Paulo, em sua Carta, e Jesus, no Evangelho, nos dão a entender que servir a Deus nos leva sempre, antes ou depois, a enfrentarmos o juízo e as críticas dos demais e que, muitas vezes, esse enfrentamento  pode chegar a ser muito duro, pode chegar a ser uma revolução segundo os parâmetros do pensamento comum. São Paulo, na Carta aos Coríntios, nos convida a abstecer-nos das críticas: “Não queirais julgar antes do tempo. Aguardai que o Senhor venha”. Ao mesmo tempo, são Paulo nos dá o seguinte conselho: “... que todo o mundo nos considere como servidores de Cristo e administradores dos mistérios de Deus”. Se alguém não tivesse essa confiança, da parte dos irmãos da comunidade, seria muito melhor que deixasse de exercer seu cargo: melhor para ele e melhor para seus irmãos.

No Evangelho Jesus não duvida em romper os esquemas do pensamento comum e nos prepara ao que será a sua mensagem  no texto seguinte do Evangelho deste dia: se há que transgredir as regras para demonstrar ao mundo inteiro que nos sentimos felizes de estar com o Noivo, isto é, com Cristo, e de viver de acordo com seus ensinamentos, temos que ser muito valentes sem nos preocupar com tudo que os demais pensam, das instituições, da sociedade e assim por diante.

Aprofundemos um pouco mais sobre as leituras de hoje!

Somos Chamados a Ser Servidores De Cristo e Não a Ser Chefes

“... que todo o mundo nos considere como servidores de Cristo e administradores dos mistérios de Deus”.

Percebemos nesta Carta que o problema dos ministros e sua compreensão dentro da comunidade de Corinto era grave, porque são Paulo continua tratando deste assunto. Nos dias anteriores lemos na mesma Carta a divisão entre os partidários de Apolo ou de Paulo.

Para são Paulo, os apóstolos e todos os que de alguma maneira exercem um ministério pastoral na comunidade são “servidores de Cristo e administradores dos mistérios de Deus”. Por isso, devem ser “fieis” àquilo que se pede de um administrador com forme sua função. Eles não são donos nem são protagonistas. Eles pregam a Palavra que não é sua e sim de Deus.

As palavras “servidores” e “administradores” dos dons de Deus são muito belas ou formosas e necessitam de proteção e de vivência em todos os âmbitos. Ser “servidores de Cristo e administradores dos mistérios de Deus” nos encantarão, se tivermos uma consciência plena e da profundidade desta missão. Jesus, muitas vezes se dá a si mesmo este título de “servidor”: “O Filho do Homem não veio para ser servido e sim para servir e dar a sua vida em resgate de muitos” (Mc 10,45). Nenhuma vaidade, nenhum exibicionismo vão nos afetar se mantivermos nossa consciência de que somos simplesmente servidores de Deus. servir é salvar a exemplo de Cristo (cf. Mc 10,45).

E ser “administradores dos mistérios de Deus”! Quão grandes e temíveis estas palavras! O verdadeiro serviço é algo feito em favor de outras pessoas. Os ministros na Igreja têm entre suas mãos esta responsabilidade: todos os meios da graça, a doutrina de Jesus, os sacramentos...., os mistérios de Deus! Eles os receberam para dispensá-los aos demais.

Mas temos de reconhecer, ao mesmo tempo, que cada um de nós, leva dentro de si uma raiz de egoísmo ou de propotencia, que se não a tratamos com rigor, acabaremos prejudicando o Corpo Místico de Cristo que é a Igreja, cuja cabeça é Ele próprio. Dizia Santo Agostinho: “Alguns superiores pensam que são superiores porque são chefes, não porque prestam um serviço(Serm. 44,1; Epist. 208,2).

Por isso, é uma boa ocasião para que os encarregados de uma comunidade, ou de uma pastoral, ou de um ministério... se examinem a si mesmos: será que eles são administradores e servidores de uns bens que pertencem a Deus e à comunidade? Sua atuação deve ser séria, responsável, com olhar posto no juízo de Deus que é profundo, pois “iluminará o que estiver escondido nas trevas e manifestará os projetos dos corações”. É o juízo de Deus, que sonda nosso coração, com que devemos nos preocupar.

O Sentido Do Jejum Para a Vida De Um Cristão

Pela terceira vez em Lc 5 Jesus entra em controvérsias com os fariseus (cf. Lc 5,12-16; 5,27-32; 5,33-39). O tema da controvérsia desta vez é o do jejum e suas consequências.

1. Para Que Jejum?

O jejum é algo antigo escrito na Lei de Moisés (Lv 23,26-32; Nm 29,7-11). O jejum era praticado dentro do contexto de expectativa ou de preparação. Os fariseus e os discípulos de João Batista necessitavam fazer jejuns, pois estavam no tempo de espera. Os fariseus praticavam, além do jejum ritual, também um jejum suplementar, duas vezes por semana, na segunda e na quinta-feira (cf. Lc 18,12).

Os discípulos de Jesus não precisam fazer o jejum, nesta perspectiva, pois o Messias esperado está com eles: Jesus Cristo. Nesse sentido perdeu a razão de fazer o jejum. Porque o Messias esperado está presente, então, a salvação não é mais uma expectativa do passado ou uma esperança de futuro; é dom presente do qual se deve usufruir e agradecer; é novidade de vida, é plenitude de amor e vinho que se bebe. Aquilo que o passado indicava e o futuro prometia está aqui, agora, em Jesus Cristo.

A novidade de Jesus e do evangelho não permitem comprometimento com o velho sistema judaico das observâncias legais ou práticas devotas. É uma roupa nova. É um vinho cheio de força e fermentação, que faria arrebentar os odres do velho sistema religioso. Quem fica apegado ao velho sistema não está em condições de apreciar a novidade cristã.

Em qualquer controvérsia, Jesus sempre se apresenta como um independente diante das regras e das observâncias legais conforme as tradições. A independência de Jesus choca os que estão apegados ao pé da letra todas as leis. Jesus entra no espírito da lei, naquilo que possa edificar o ser humano, pois a pessoa humana é o foco de todo trabalho de Jesus (cf. Jo 3,16; 10,10). Por isso, em outra ocasião ele diz: “O sábado existe para o homem e não o contrário”.

O jejum sempre tem sentido de “privação” ou de “renúncia”. Jejuar consiste essencialmente em nos privar de alimento pelo sentido da palavra, mas em geral é referido a qualquer tipo de privação. Ao se controlar diante de um alimento ou da bebida, o homem é disciplinado para se controlar diante de outras provações ou desafios da vida. através do jejum o homem faz uma passagem significativa do autocontrole físico para o autocontrole psicológico, mental e espiritual. Pode-se também fazer uma passagem contrária: a força espiritual faz com que o homem seja capaz de se controlar diante do alimento ou bebida ou as demais coisas. O verdadeiro jejum sempre beneficia ao homem para seu bem (físico e espiritual simultaneamente: Mens sana in corpore sano- Mente sã em corpo são).

A prática do jejum está ligada, no AT, à espera da vinda do Messias. A prática do jejum aceleraria a chegada do Messias. Os fariseus e os discípulos de João Batista praticam o jejum. Por isso, questionam o comportamento dos discípulos de Jesus que não o praticam. A resposta de Jesus aqui é bem clara: se seus discípulos não praticam o jejum é porque não tem nada que esperar porque o Messias já chegou e está com eles. Eles estão vivendo esta intimidade. Esta intimidade será rompida no momento da paixão e da morte de seu Mestre.

Estamos em outro contexto. Por isso, o jejum ganha seu novo significado. Quando soubermos dar ou preparar o espaço para Deus na nossa vida, este espaço não será ocupado por outra coisa. Ao darmos esse espaço para Deus o resto ganha seu justo valor e sua justa perspectiva. Por isso, ao praticarmos o jejum estamos manifestando nossa vontade de não deixar nenhuma coisa material dominar nossa vida ou mandar na nossa vida. Podemos possuir as coisas, mas as coisas jamais podem nos possuir para não perdermos nossa liberdade. Mesmo não querendo, um dia largaremos tudo. É preciso que aprendamos a ser livres todos os dias, desde já. Sou livre quando a graça pesa mais do que as regras e não o contrario. Sou livre quando o amor e a humanidade pesam mais do que a religião. Sou livre quando eu estou no coração de Deus de Amor (1Jo 4,8.16) para eu ser capaz de amar com total liberdade e amar para libertar o outro da escravidão de uma vida sem sentido apesar de tratar-se de uma crença.

Tanto cristã como humanamente o jejum faz bem a todos. Fazer jejum significa saber renunciar a algo e dá-lo aos demais; é saber controlar nossas apetências; é saber nos defender com liberdade interior das contínuas urgências do mundo de consumismo. Jejuar é purificador. Jejuar não seria privar-se de tudo e sim usar moderação em tudo, isto é, ser sóbrios. Jejum supõe um grande domínio de si, de disciplina de olhos, de mente e da imaginação. A falta de sobriedade é uma das causas pelas quais se obscurecem e se debilitam as melhores iniciativas e decisões de um cristão. A sobriedade é certamente uma garantia da capacidade de orar e de apreciar o Espírito Santo. Com a renúncia às coisas Cristo nos chama à alegria, a uma alegria profunda, nascida da paz da alma. Fazer jejum é renunciar a algo para dá-lo aos necessitados. O jejum com uma dimensão de solidariedade nos tira do egoísmo, nos tira de uma vida vazia. Paradoxalmente a vida vazia é pesada para quem a tem. Sou livre quando a graça pesa mais do que as regras e não o contrario.

Por isso, o jejum cristão não consiste apenas em abster-se de alimentos. Consiste, sobretudo, em desejar o encontro com Jesus salvador e o encontro com irmão, especialmente com irmão carente do básico para viver e sobreviver como um ser humano. Jejuamos para nos tornarmos sensíveis à fome e à sede de tantos irmãos e para assumirmos a nossa responsabilidade na resolução dos problemas dos pobres, dos necessitados e dos carentes do essencial e básico.

O profeta Isaias descreve qual é o verdadeiro jejum que agrada a Deus (Is 58,6-9).  Deus não quer o jejum formalista que não tem em conta a vida do outro, e muito menos a justiça. Nada valem as ações que excluem o amor do próximo. O verdadeiro jejum, no pensamento do profeta, remete ao comportamento capaz de renunciar à ganância, à avareza para começar a ser generoso; capaz de renunciar ao tempo pessoal para ir ao encontro do necessitado (doente, prisioneiro, idoso etc.) para estar com ele a fim de aliviar uma parte de sua dor. O jejum verdadeiro consiste em quebrar todas as cadeias injustas, em repartir o pão com o faminto. Segundo o profeta Isaias, o culto deve estar unido à solidariedade com os necessitados. Caso contrário, não agrada a Deus e é estéril. As manifestações exteriores de conversão têm a sua prova real na caridade e na misericórdia para com os necessitados, com os pobres, com os carentes do essencial como um ser humano para viver. O verdadeiro jejum é um verdadeiro compromisso com os irmãos necessitados e empobrecidos ou injustamente são presos.

Por isso, pode-se dizer que o que importa no jejum não é somente a privação de alimento e sim a seriedade da fé nas tarefas da vida para que sejam a expressão mais viva do serviço de Deus e dos homens ao mesmo tempo. O jejum não se concebe sem caridade e sem uma mudança de vida para uma vida mais fraterna. O jejum que Deus quer é o cumprimento dos deveres morais e humanos com o próximo.

2.    A Novidade Exige O Novo Estilo De Vida 

Além disso, no evangelho de hoje Jesus faz uma declaração que tem o mesmo conteúdo: “Ninguém põe o vinho novo em odres velhos”. Aceitar Jesus em nossa vida comporta mudanças importantes. Não se trata somente de “saber” de quantas verdades a respeito de Jesus, mas trata-se de mudar nosso estilo de vida segundo o estilo de vida de Jesus. Significa viver com alegria interior. Significa também novidade radical. Jesus rompe moldes. É aquilo que São Paulo chama de “revestir-se de Cristo Jesus”. Quais são nossos “odres velhos” que não servem mais para “guardar” os tesouros de Deus? Quais são nossos “odres velhos” que precisamos abandonar?

Uma mentalidade velha, caduca nunca nos aproximará do novo e do avançado. A mentalidade velha é sinônimo  de mediocridade, de estancamento e de pobreza. “A maior descoberta de uma geração é que os seres humanos podem mudar sua vida modificando suas atitudes mentais” (Albert Schweitzer). Precisamos abandonar uma mente de escravo porque ela é nostálgica, isto é, acredita que o passado foi melhor. Um homem com mentalidade de escravo é briguento, gozador, fanfarrão e vive criticando a tudo e a todos. Uma pessoa com uma mente de escravo se conforma com a mediocridade e não se permite aprender. A mente de escravo utiliza mecanismos de defesa que não nos permitem visualizar onde está a falha para saber em que devemos melhorar. Quem for capaz de fazer uma observação inteligente dos fatos, ele alcançará os melhores resultados. Quem tem mente de escravo usa a gentileza e a cortesia com os que estão acima (superiores), mas agride, maltrata e abusa emocionalmente dos que estão abaixo (inferiores).

Todos temos forças para mudar. Basta praticar a vontade de mudar. Dizia Victor Hugo: “A ninguém faltam forças; o que falta a muitos é vontade”. A vida é uma questão de decisão, e você se faz a cada decisão que toma. Decidir supõe sempre escolher, preferir e abandonar. “Quando um homem não sabe para onde navega, nenhum vento lhe é favorável” (Sêneca).

Ninguém põe vinho novo em odres velhos; porque, senão, o vinho novo arrebenta os odres velhos e se derrama; e os odres se perdem “, disse-nos o Senhor hoje.

P.Vitus Gustama,svd

Quinta-feira Da XXII Semana Comum, Ano Par, 03/09/2026

TRABALHAR E COLABORAR COM O SENHOR RESULTA NOS FRUTOS ABUNDANTES

Quinta-Feira da XXII Semana Comum

Primeira Leitura: 1Cor 3,18-23 (Ano Par)

Irmãos, 18 ninguém se iluda: Se algum de vós pensa que é sábio nas coisas deste mundo, reconheça sua insensatez, para se tornar sábio de verdade; 19 pois a sabedoria deste mundo é insensatez diante de Deus. Com efeito, está escrito: “Ele apanha os sábios em sua própria astúcia”, 20 e ainda: “O Senhor conhece os pensamentos dos sábios; sabe que são vãos”. 21 Portanto, que ninguém ponha a sua glória em homem algum. Com efeito, tudo vos pertence: 22 Paulo, Apolo, Cefas, o mundo, a vida, a morte, o presente, o futuro, tudo é vosso, 23 mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus.

Evangelho: Lc 5,1-11

Naquele tempo, 1 Jesus estava na margem do lago de Ge­nesaré, e a multidão apertava-se a seu redor para ouvir a palavra de Deus. 2 Jesus viu duas barcas paradas na margem do lago. Os pescadores haviam desembarcado e lavavam as redes. 3 Subindo numa das barcas, que era de Simão, pediu que se afastasse um pouco da margem. Depois sentou-se e, da barca, ensinava as multidões. 4 Quando acabou de falar, disse a Simão: “Avança para águas mais profundas, e lançai vossas redes para a pesca”. 5 Simão respondeu: “Mestre, nós trabalhamos a noite inteira e nada pescamos. Mas, em atenção à tua palavra, vou lançar as redes”. 6 Assim fizeram, e apanharam tamanha quantidade de peixes que as redes se rompiam. 7 Então fizeram sinal aos companheiros da outra barca, para que viessem ajudá-los. Eles vieram, e encheram as duas barcas, a ponto de quase afundarem. 8 Ao ver aquilo, Simão Pedro atirou-se aos pés de Jesus, dizendo: “Senhor, afasta-te de mim, porque sou um pecador!” 9 É que o espanto se apoderara de Simão e de todos os seus companheiros, por causa da pesca que acabavam de fazer. 10 Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram sócios de Simão, também ficaram espantados. Jesus, porém, disse a Simão: “Não tenhas medo! De hoje em diante tu serás pescador de homens”. 11 Então levaram as barcas para a margem, deixaram tudo e seguiram a Jesus.

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Viver Conforme o Espírito De Deus Para Viver Na Sabedoria De Deus e Para Viver Com Sentido

Na Primeira Leitura do dia anterior, são Paulo acusava os Coríntios de imaturos e infantis pelas divisões que se suscitavam entre eles. Hoje ele volta ao tema da perspectiva da “sabedoria”. Se são “sábios do mundo”, então está explicada a razão das divisões entre os Coríntios.

 Se algum de vós pensa que é sábio nas coisas deste mundo, reconheça sua insensatez, para se tornar sábio de verdade; pois a sabedoria deste mundo é insensatez diante de Deus”.

A Igreja de Corinto estava profundamente dividida. Diferentes escolas de pensamento, vários pequenos grupos, apegavam-se tenazmente aos seus próprios sistemas, às suas próprias compreensões ou concepção das coisas. Como encontrar a verdade em meio a tudo isso?

Para São Paulo, a santidade é serviço amoroso, a antítese das divisões promovidas pelas especulações sapienciais coríntias que seguiam padrões mundanos. Por isso, são Paulo afirma:Se algum de vós pensa que é sábio nas coisas deste mundo, reconheça sua insensatez”.

A força e a vontade de defender as próprias idéias, a pessoa termina contemplando a si mesma, ouvindo a si mesma e não prestando atenção aos pontos de vista dos outros. Essa pessoa se encerra em sua própria dialética. Há que estar muito “louco” e “insensato” para absolutizar um sistema humano, seja qual for, segundo são Paulo. Tudo o que é humano é ambíguo, frágil e provisional/passageiro. Um dia tudo terá o fim. Apoiar-se somente sobre análises humanas, sobre critérios “deste mundo”, sobre a sabedoria deste mundo é insuficiente para um cristão que são Paulo considera como insensatez. Mas com sensatez o homem é capacitado para agir com prudência, equilíbrio, bom senso, discernimento e autocontrole.

É próprio dos sistemas filosóficos ou políticos pretender encerrar toda a realidade no observável. Do âmbito da fé, o mundo não está encerrado em si mesmo. Alguém tem que se vestir do Espirito de Deus para ver além do aparente para descobri seu sentido. A história não pode reduzir-se pura e simplesmente a mecanismos quase materiais. Quem podia prever a Encarnação de Deus, a Crucificação de Jesus? Mas tudo isso sucedeu. Era uma loucura imaginar coisas semelhantes. Foi a obra da sabedoria imprevisível de Deus! Somente Deus é verdadeiramente Sábio. E seu projeto se cumprirá apesar de todas as aparências contrárias, pois a Palavra de Deus é a última palavra para a humanidade.

Por isso, nada é absoluto a não ser Cristo e Deus. Os demais, incluído os ministros da comunidade, são relativos. Morreu Apolo e morreu são Paulo, e morrerá o Papa atual e o seguinte. Mas Cristo é sempre o mesmo: ontem, hoje e sempre (Hb 13,8). E que através desta Igreja frágil e caduca levamos Deus a todos. Esta é a chave da sabedoria espiritual, a sabedoria do grupo que busca o Senhor do qual fala o Salmo Responsorial de hoje.

Para são Paulo é preciso julgar as coisas e as pessoas a partir da mentalidade espiritual e madura. São Paulo expressa este olhar com uma profunda e lúcida gradação: “Com efeito, tudo vos pertence: Paulo, Apolo, Cefas, o mundo, a vida, a morte, o presente, o futuro, tudo é vosso, mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus”.

“... tudo é vosso, mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus”. Com esta afirmação conclusiva são Paulo previne contra todo tipo de egocentrismo desmedido. “Vós sois de Cristo”, isto é, a medida, o centro e meta de todas as coisas é Cristo. E tudo é subordinado a Deus, pois “Cristo é de Deus”.

Em nossa vida de comunidade se estabelecem, às vezes, uma série de divisões, mais ou menos sutis, baseadas no que Paulo chama claramente “necessidades”. Damos importância ao que não tem nenhuma importância. Os ministros da comunidade: o Papa, o bispo, os pastores mais próximos, não são os protagonistas nem os donos. Sua eloquência ou seus carismas pessoais não são o fator determinante. Estão ao serviço da comunidade (“são vossos”). São colaboradores de Deus. e todos nós somos chamados, a partir de seu carisma, a colaborar na edificação da Igreja do Senhor.

Trabalhar Com o Senhor Sempre Rende Frutos Abundantes

É narrada no evangelho de hoje a história da pesca milagrosa, ressaltando o papel de Jesus e o dos pescadores. Pedro que é especialista na pescaria se torna um pescador frustrado pelo insucesso da noite inteira, pois nada pescou. Por isso, quando Jesus lhe disse: “Avança para águas mais profundas e lança redes para a pesca” (v.4) veio aquela resposta de desconfiança da parte de Pedro: “Mestre, nós trabalhamos a noite inteira e nada pescamos” (v.5). “Deus precisou de apenas uma palavra para criar-nos, mas de seu sangue para redimir-nos. Se às vezes te sentes frustrado por tuas misérias, recorda quanto custaste”, dizia Santo Agostinho (Serm. 36,8).

Espelhando-nos em Pedro frustrado, podemos também citar muitas das nossas situações frustrantes de cada dia: cansei-me muito, gastei muita energia e tempo, empenhei-me a fundo, rezei muito e não aconteceu nada. É aquela sensação de derrotismo, de desânimo, de desespero. Dá vontade de desistir de tudo, de fugir, de abandonar tudo. Em outras palavras, quantas vezes experimentamos o cansaço, isto é, aquele estado de esgotamento físico ou emocional que se manifesta como um constante sentimento negativo cujos sintomas são sensação de incapacidade, raiva e aversão, sentimento de culpa, desânimo e indiferença, negativismo, isolamento e retraimento, constante sensação de cansaço e esgotamento.

Apesar dessa sensação negativa, o cansaço nos desafia a perguntarmos a nós mesmos: para onde, na verdade, caminha minha vida? Para onde meu cansaço vai me levar? O que espero da minha vida (de mim mesmo), dos outros e de Deus? Por acaso, tenho humildade de escutar os bons conselhos? Por acaso tenho tempo para escutar a Palavra de Deus mesmo que seja contrária ao bom senso? A partir dessas perguntas e outras perguntas relacionadas à questão, o cansaço nos leva a encontrarmos nosso verdadeiro ser e conseqüentemente, é também um momento transcendente de nossa vida.          

Experimentando a frustração e o cansaço físico e mental, Pedro põe em jogo a própria pessoa, a própria vida e o próprio futuro. Ele e seus companheiros haviam trabalhado durante a noite inteira sem conseguir apanhar um só peixe, e agora, em plena luz do dia, Jesus manda-lhes que lancem as redes para a pesca. Eles conhecem Jesus, mas apenas como Mestre: “Mestre nós trabalhamos...”. Apesar de todas as objeções que um profissional poderia levantar contra ela, a palavra de Jesus tem mais força para Simão do que sua longa experiência de pescador: “Avança para águas mais profundas e lança redes para a pesca”, ordenou Jesus. Pedro tenta superar a própria desconfiança: “Na tua palavra lançarei a rede”.

A palavra de Deus é poderosa, mas é preciso que seja posta em prática para que desenvolva sua força. E Pedro cumpre a palavra de Jesus imediatamente: Na tua palavra lançarei a rede” (v.5). Notemos quanto há de profundo neste “na tua palavra” porque é a expressão que, na Bíblia, especialmente nos Salmos, designa a atitude do homem diante de Deus. “Confio na Tua Palavra, é Tua Palavra que me dá vida, Senhor; Tu me afligiste. Tu permitiste tantos sofrimentos na minha vida, mas na Tua Palavra confio”. Em outra ocasião, no discurso sobre o Pão da vida, Pedro dirá a Jesus: “Senhor, a quem iremos? Tens palavras de vida eterna e nós cremos e reconhecemos que Tu és Santo de Deus” (Jo 6,68-69). Certamente, na força da Palavra de Deus, os apóstolos encontram a vida ali onde tudo parecia morto; messe abundante onde tudo parecia vazio; abertura onde tudo parecia fechado. Quando for colocada em prática, a Palavra de Deus sempre dá fruto.          

Na tua palavra lançarei a rede”. Aqui Pedro sai dos cálculos e se atira, confiando na Palavra do Senhor. De fato, à fé, à obediência incondicional de Simão Pedro segue-se o milagre, a manifestação do poder da Palavra criadora de Deus. O poder da Palavra de Deus manifestada em Jesus domina toda esta cena. Toda força, todo poder vem de Deus. Nesta perspectiva devemos situar-nos para compreender o que segue. Mas antes disso, vamos tirar alguma lição. 

Jesus nunca permite o aborrecimento pelo insucesso no nosso trabalho. Não cabe a cada um de nós calcular o último resultado. Cada um deve trabalhar, empenhar-se todo, confiando unicamente na Palavra do Senhor. Empenhar-se significa dar tudo, experimentar tudo, estudar, corrigir, mudar e recomeçar. A eficácia de nossa ação está na obediência à Palavra de Deus. Se agirmos em nome próprio, nossos esforços serão estéreis. A Palavra de Deus é a semente que tem em si uma força criadora, uma potência enorme. Então, por que ainda duvidamos dela? Por que não levamos a sério a Palavra de Deus? Por que não a lemos e meditamos? Com Deus podemos pescar onde parece que não há peixe, podemos plantar justiça ou amor onde outros dizem que não adianta tentar; podemos levar fraternidade onde parece que a competição é a única lei que funciona.         

Vendo a pesca milagrosa, Pedro descobre a manifestação do poder de Deus em Jesus e se lança aos pés dele, dizendo: “Afasta-te de mim, Senhor, pois sou um pecador” (v.8). Ele não chama mais Jesus de “Mestre”, mas de “Senhor”. O descobrimento de Jesus, Deus-Conosco leva o discípulo a submeter à crítica para sua própria vida. Reconhecer significa voltar a conhecer ou aprofundar o conhecimento. Há um conhecimento superficial que não se une ao compromisso, e há um conhecimento bíblico que entranha experiência, conversão e compromisso. Simão se reconhece no sentido bíblico da palavra. 

O poder de Jesus faz sobressair a pecaminosidade de Pedro: Pedro não estava entre os maiores pecadores, mas também ele era um homem que, colocado diante do poder, da santidade de Deus, sentia que muitas coisas de sua vida não funcionavam. Com clarividência instantânea, Pedro percebe a distância entre seu pecado e a santidade de Deus, entre sua pequenez e sua fragilidade e a grandeza e poder de Deus. Pedro sente com uma clareza insuportável que não há lugar para ele, pecador, na presença do Deus santo. Esta experiência da sua indignidade diante da manifestação de Deus é o que causa em Pedro e em seus companheiros o “tremendo espanto” de que nos fala o texto. A Palavra de Deus nos ensina a não temer, mesmo que tenhamos medo, e a temer mesmo quando não temos medo. Temamos, pois, para não temer”, dizia Santo Agostinho (Serm. 65, 1,1). 

Num fragmento de Votos Irlandês encontram-se as seguintes frases: “Deus está sobre mim para dar-me abrigo. Deus está diante de mim para indicar-me o caminho certo. Deus está junto de mim para proteger-me dos perigos à esquerda e à direita. Deus está à minha retaguarda para defender-me da malícia dos maus. Deus está sob mim para reerguer-me quando caio. Deus está em mim para consolar-me quando eu estou triste”. Basta ter fé e vivê-la em todos os momentos de nossa vida, então nossas forças serão renovadas na graça de Deus.          

Da experiência percebemos que enquanto vivemos no meio dos outros homens, fracos e frágeis como nós, não nos damos conta do nosso pecado, de nossa fragilidade, de nossas fraquezas; aliás, comparando-nos com os que estão ao nosso lado, podemos até pensar que sejamos justos, honestos, sinceros, caridosos, misericordiosos e irrepreensíveis. Mas ao entrarmos em contato com Deus, as coisas mudam: constatamos de forma dramática a nossa pobreza, a nossa indignidade, a nossa miséria. Só quem fica perto de uma luz percebe a sujeira da própria roupa. Esta experiência é vivida por todos aqueles que entram em contato com a Palavra de Deus, aquela palavra que é “viva e eficaz, mais penetrante do que uma espada de dois gumes” (Hb 4,12). É a experiência vivida por Paulo, quando toma consciência da própria indignidade de pregador do Evangelho: “Nós carregamos este tesouro em vasos de barro” (2Cor 4,7).                   

A palavra de Deus se manifesta em Jesus Cristo como uma palavra que pacifica, que infunde ânimo, que dá segurança; como uma palavra que escolhe, que chama, que fortalece e que transforma a existência daquele que é chamado. A palavra de Jesus vai superar a distância: “Não temas!” São mesmas palavras que ecoam nas manifestações de Deus no AT (cf. Gn 15,1;21,17;26,24;28,13;Jz 6,23;1Sm 4,20).         

Às palavras de pacificação, de segurança e de coragem, seguem-se as da promessa- missão: “Doravante serás pescador de homens”. A palavra de Jesus tem esse poder de fazer começar uma história nova na vida de um homem.          

A nova missão de Pedro e de seus companheiros será a de “salvar vidas”: entrar mar adentro para tirar os homens das águas profundas, do abismo da morte; “pegar vivos ou para a vida” os homens, assim como eles mesmos foram colhidos- escolhidos. A resposta de Pedro e de seus companheiros às palavras de Jesus foi a disponibilidade absoluta, a da obediência incondicional: “...e deixando tudo, eles o seguiram” (v.11). A renúncia, o “deixar tudo”, é uma conseqüência, e não uma condição prévia, do chamamento de Jesus. A vocação é a vocação para uma missão. 

Aprendemos que pecar- salvar sem Jesus é impossível. Todos os saberes e técnicas humanas, horas oportunas (a noite), não são capazes de salvar sem a ajuda de Jesus. O fruto abundante (pesca milagrosa) será constante na atividade missionária se cada cristão seguir as diretrizes de Jesus. Nossas próprias forças não são suficientes para superar tudo. Necessitamos da confiança na Palavra d’Aquele que nos prometeu que nunca nos deixaria sozinhos (cf. Mt 28,20). Quem, como Pedro, aceitar sua limitação, estará em condições de aceitar que os frutos de seu trabalho apostólico não são seus e sim d’Aquele que nos convidou para ser seu instrumento. Jesus chama os apóstolos a serem pescadores de homens, mas o verdadeiro pescador é Ele.         

Diante da força da Palavra de Deus posta em prática a exemplo de Pedro que resultou na pesca abundante, devemos, por acaso, desistir diante das dificuldades? Devemos recusar o convite do Senhor para ser pescadores de homens, para espalhar a Palavra do Senhor? Temos convicção de que a única força que possuímos é a da Palavra de Deus que nos foi confiada? Não nos sentimos, por vezes, inclinados a confiar em outras forças?

Meu Senhor e meu Deus, despoja-me de tudo que me afaste de Ti. Meu Senhor e meu Deus, concede-me tudo que me conduz a Ti. Meu Deus e meu Senhor, despoja-me de mim mesmo e faz com que eu pertença totalmente a Ti” (Nicolau de Flüe [1407-1487]).

P. Vitus Gustama,svd

XXIII Domingo Do Tempo Comum, Ano "A", 06/09/2026

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