quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Sábado Da XXIX Semana Comum, Ano Par, 24/10/2026

CONVERTER-SE PERMANENTEMENTE PARA PRODUZIR CONSTANTEMENTE OS FRUTOS DE AMOR NO CORPO DE CRISTO QUE É A IGREJA

Sábado da XXIX Semana Comum

Primeira Leitura: Efésios 4,7-16 (Ano Par)

Irmãos, 7 cada um de nós recebeu a graça na medida em que Cristo lha deu. 8 Daí esta palavra: “Tendo subido às alturas, ele capturou prisioneiros, e distribuiu dons aos homens”. 9 “Ele subiu”! Que significa isso, senão que ele desceu também às profundezas da terra? 10 Aquele que desceu é o mesmo que subiu mais alto do que todos os céus, a fim de encher o universo. 11 E foi ele quem instituiu alguns como apóstolos, outros como profetas, outros ainda como evangelistas, outros, enfim, como pastores e mestres. 12 Assim, ele capacitou os santos para o ministério, para edificar o corpo de Cristo, 13 até que cheguemos todos juntos à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, ao estado do homem perfeito e à estatura de Cristo em sua plenitude. 14 Assim, não seremos mais crianças ao sabor das ondas, arrastados por todo vento de doutrina, ludibriados pelos homens e induzidos por sua astúcia ao erro. 15 Motivados pelo amor queremos ater-nos à verdade e crescer em tudo até atingirmos aquele que é a Cabeça, Cristo, 16 Graças a Ele, o corpo, coordenado e bem unido, por meio de todas as articulações que o servem, realiza o seu crescimento, segundo uma atividade à medida de cada membro, para a sua edificação no amor.

Evangelho: Lc 13, 1-9

1 Naquele tempo, vieram algumas pessoas trazendo notícias a Jesus a respeito dos galileus que Pilatos tinha matado, misturando seu sangue com o dos sacrifícios que ofereciam. 2 Jesus lhes respondeu: “Vós pensais que esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus, por terem sofrido tal coisa? 3 Eu vos digo que não. Mas se vós não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo. 4 E aqueles dezoito que morreram, quando a torre de Siloé caiu sobre eles? Pensais que eram mais culpados do que todos os outros moradores de Jerusalém? 5 Eu vos digo que não. Mas, se não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo”. 6 E Jesus contou esta parábola: “Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha. Foi até ela procurar figos e não encontrou. 7 Então disse ao vinhateiro: ‘Já faz três anos que venho procurando figos nesta figueira e nada encontro. Corta-a! Por que está ela inutilizando a terra?’ 8 Ele, porém, respondeu: ‘Senhor, deixa a figueira ainda este ano. Vou cavar em volta dela e colocar adubo. 9 Pode ser que venha a dar fruto. Se não der, então tu a cortarás’”.

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Respeitar a Diversidade De Dons, e Manter a Unidade Eclesial

Prosseguindo a meditação do dia anterior o autor da Carta aos Efésios nos propõe contemplar a Igreja como “sinal e instrumento” desta ascensão da humanidade até  “a unidade de Deus”. No dia anterior, o autor pedia à Igreja para a unidade, baseada em que um só é o Senhor, e a fé, e o Batismo para todos. Mas a unidade não significa uniformidade. A verdadeira unidade reconhece a diversidade de dons e carismas para a sua edificação e seu aperfeiçoamento. A pluralidade é uma riqueza.

Na Igreja o próprio Cristo que é sua Cabeça há a riqueza dos ministérios e dos carismas: uns são apóstolos, outros profetas e evangelistas e pastores e doutores. Tudo isso tem uma só objetivo: para o aperfeiçoamento dos fieis e para a edificação do Corpo de Cristo. A Igreja é um Corpo (cf. 1Cor 12,1-30), um organismo vivente que deve ir crescendo e amadurecendo até que todos cheguem à estatura de Cristo “o homem perfeito, à medida de Cristo em sua plenitude”: “Motivados pelo amor queremos ater-nos à verdade e crescer em tudo até atingirmos aquele que é a Cabeça, Cristo. Graças a Ele, o corpo, coordenado e bem unido, por meio de todas as articulações que o servem, realiza o seu crescimento, segundo uma atividade à medida de cada membro, para a sua edificação no amor” (Ef 4,15-16). A unidade é a expressão e a prova mais evidente do amor. Quem estiver unido com Cristo que está unido ao Pai, jamais será causador da desunião e da divisão entre os cristãos ou entre as pessoas; ele buscará sempre a reconciliação. A comunhão com Cristo é impossível sem a vivência do amor fraterno. Assim como o amor fraterno cria unidade, assim também a comunhão com Jesus deve criar a comunhão entre os cristãos.

A unidade na diversidade é um aspecto que sempre cria tensões e que nunca acabamos de conjugar construtivamente. Uns sublinham a importância da unidade, mas a entendem quase como uniformidade, sem respeitar, portanto, a riqueza de carismas que o Espirito Santo suscita em sua Igreja para a própria edificação da Igreja. Outros valorizam a diversidade, mas não a harmonizam com a unidade eclesial. Neste caso, os carismas não constroem e sim que dividem a comunidade.

Deveríamos nos alegrar da riqueza de dons que há na Igreja e valorizar, ao mesmo tempo, sua unidade dinâmica em que cada um contribui a partir de seu dom e carisma para a edificação da Igreja sem pretender monopólios nem invadir o terreno dos demais. São Paulo faz uma boa comparação ao usar o corpo humano como exemplo: no corpo humano cada membro tem sua função e todos contribuem para o bem do único corpo (Cf. 1Cor 12). É o que passa numa empresa ou em equipe desportivo ou em coral ou em uma orquestra.

A meta que o autor da Carta aos Efésios põe para toda a comunidade é sua amadurecimento progressivo. “Assim, não seremos mais crianças ao sabor das ondas, arrastados por todo vento de doutrina, ludibriados pelos homens e induzidos por sua astúcia ao erro”, e sim que cheguemos à altura de Cristo. Este amadurecimento é orgânico: Cristo é a Cabeça e d´Ele o corpo todo recebe seu crescimento “por meio de todas as articulações que o servem, realiza o seu crescimento”. E este crescimento tem uma consigna clara o amor: “realizando a verdade no amor”, “para construção de si mesmo no amor”: “Graças a Ele, o corpo, coordenado e bem unido, por meio de todas as articulações que o servem, realiza o seu crescimento, segundo uma atividade à medida de cada membro, para a sua edificação no amor”. É o crescimento orgânico baseado no amor. Se todos crescerem no amor, a comunidade cristã será uma ambiente enriquecedor para os de dentro e um motivo de atração para os de fora.

A Conversão Nos Faz Crescer No Amor a Deus e Ao Próximo

Continuemos a ouvir atentamente as últimas e mais importantes lições de Jesus no seu caminho para Jerusalém (Lc 9,51-19,28), pois logo depois ele será crucificado, morto e glorificado. Tratam-se das Lições do Caminho.

O texto do Evangelho de hoje nos apresenta dois fatos: uma morte e um incidente com muitas vítimas. No primeiro caso, está em jogo a liberdade e a maldade do homem; no segundo, a inevitabilidade e a violência da criação, os desastres da natureza, ou seja, alguém pode morrer por causa da fúria da natureza (raios, tempestades, inundações etc.). Toda hora é a hora da morte. Dai a necessidade de conversão diária.

No dia anterior o evangelista Lucas nos relatou a exortação de Jesus sobre a importância do discernimento sobre os sinais dos tempos para perceber neles o querer de Deus para nossa salvação. Para isso é preciso ter um coração e a mente abertas. Como foi dito anteriormente, o coração aberto é a chave para a mente aberta, e vice-versa.

Por isso, em seguida, Jesus nos dá a lição sobre a importância da conversão permanente, a lição no evangelho de hoje, para que a vontade de Deus fique nítida na nossa visão diária. O pecado ofusca a vontade de Deus. A conversão não implica apenas a mudança de pensamento (metanoia), mas uma mudança radical de direção do próprio caminho que se vive na experiência cotidiana. A conversão é abertura constante para o futuro do Reino que se experimenta antecipadamente, embora não seja completo ainda.

A existência humana na história não é eterna. Um dia o homem partirá deste mundo. Mas o momento dessa partida é incerto ou desconhecido. O fato de não conhecermos o momento em que a morte virá (a vinda do Senhor), nos leva à conversão diariamente. O tempo da salvação e o da conversão se encontram na nossa história. Não procuremos a salvação fora da história. Cada momento é kairós, isto é, o momento de Deus, e, por isso, é o momento de salvação que precisamos saber usá-lo para nosso bem. A resistência à conversão nos torna excluídos do Reino de Deus. Deus não quer excluir ninguém do Reino, pois ele quer salvar a todos (1Tm 2,4). Alem disso, do ponto de vista humano, viver sem a conversão paralisa nosso crescimento espiritual e nos torna cruzes para os demais. Os erros não corrigidos é uma forma de cometer outros novos erros.

“Vós pensais que esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus, por terem sofrido tal coisa? Eu vos digo que não. E aqueles dezoito que morreram, quando a torre de Siloé caiu sobre eles? Pensais que eram mais culpados do que todos os outros moradores de Jerusalém? Eu vos digo que não”, assim nos disse o Senhor hoje.

Os judeus do tempo de Jesus, como os povos de todos os tempos, como nós mesmos atualmente, tratavam de explicar os desastres e a dor, provocados pela natureza ou pelas pessoas, de forma que aqueles que sofriam as consequências tiveram alguma culpa. Essa era a forma de pensar na justiça de Deus. pensam que se para essas pessoas sucediam essas coisas tão más, era ou é, porque elas são também más. Se uma pessoa tinha uma grave enfermidade era porque havia cometido muitos pecados. O mesmo se pensava dos galileus assassinados no Templo de Jerusalém pelos soldados de Pilatos ou dos que morreram esmagados pela queda da Torre de Siloé.

Para o pensamento na época em que Jesus estava não há culpa sem castigo. Se há grandes catástrofes é porque há grandes pecados. Qualquer doença é a conseqüência do pecado cometido. É uma maneira fácil de justificar-se e de calar a consciência. Será que ainda encontramos este tipo de pensamento na nossa época?

Em vez de seguir esse pensamento, Jesus opta por outro caminho. Trata-se de um apelo permanente para a conversão: “Mas se vós não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo”, disse Jesus. Para Jesus, viver sem conversão é uma morte eterna preanunciada. Em grego “metanoeite” é algo mais do que arrepender-se: pensar de outro modo. Equivale a renunciar-se.

A conversão é polivalente. Em sentido geral indica mudança de vida; deixar o comportamento habitual de antes que não salva, para empreender outro novo que salva; prescindir da busca egoísta de si mesmo para colocar-se a serviço do Senhor que se traduz no amor fraterno. Conversão é toda decisão ou inovação que de alguma forma nos aproxima da vida divina e nos torna mais próximos para com os outros.        

Na Bíblia, a noção básica da conversão é a mudança. Envolve voltar-se do pecado, da morte e das trevas para a graça, a nova vida e luz. A ação dual de voltar-se sempre leva a pessoa a um novo nível de existência humana. É uma mudança total do próprio modo de pensar e de agir, uma renovação total e integral do eu. É um abandono total em Deus. Somente abandonando-se a Deus a ponto de se deixar transformar inteiramente por Ele e permanecer amistosamente abraçado com Ele. O móvel da conversão não é tanto a ameaça de castigo ou de perder a salvação, quanto a fascinação de penetrar na vida do amor trinitário divino. A conversão conduz as pessoas juntas à maturidade espiritual, que se reflete em sua aversão ao mal e sua atração pelo bem. Um aspecto da conversão específico do NT é estar intimamente ligado à pessoa de Jesus Cristo, em quem o Reino se realiza. A conversão é realidade cristológica. É união com o corpo de Cristo e íntimo conhecimento pessoal de Jesus Cristo como Senhor ressuscitado e Salvador. Esta conversão total não pode ser obra do homem; é tarefa que supõe dom e graça. Só pode realizar-se como participação do mistério pascal de Cristo. A conversão só se realiza na fé; propõe-se como resposta ao chamado de Deus, como correspondência à graça redentora.                    

A conversão envolve mudanças internas (de atitude) e externas (comportamentais) na vida. A autêntica conversão cristã nunca está separada de ações concretas que espelham a realidade interior mudada. Assim, a conversão sempre leva a algum aspecto de responsabilidade e justiça sociais.     

A conversão é crescimento contínuo; não é um acontecimento instantâneo, pontual e de uma vez por todas; não é uma carreira acabada, mas que constitui um crescimento sem interrupção e ascendente. Por mais decidida que seja a entrega de um cristão ao Reino, ela tenderá sempre a ser precária. De um coração convertido aos valores do Reino e do Evangelho se seguirão naturalmente os frutos visíveis de uma conversão que atinge a realidade da vida.                  

Jesus quer nos libertar dessa concepção que por um lado, impede-nos de enfrentar as verdadeiras causas dos males que ocorrem conosco ou na sociedade, remetendo-os a demônio para desviar alguém da própria responsabilidade ou a uma espécie de fatalidade que nos leva a nos afundarmos na passividade. Por outro lado, Jesus quer nos apresentar a imagem do Deus de amor e de vida e não um Deus de castigo.  

Pecar é não dar fruto, não produz nada pelo bem da humanidade ou pelo bem dos outros. Esta é a mensagem da parábola da figueira estéril. Esse Deus que Jesus nos apresenta espera com paciência, até o último minuto de nossa vida, os bons frutos que produzimos.         

Para os ouvintes de Jesus era familiar a imagem da figueira infértil, para indicar o comportamento infiel do povo de Deus (cf. Jr 8,13;Mq 7,1). Mas esta imagem é atual para nós. A parábola da figueira estéril revela-nos um Deus paciente e bondoso conosco. Mas ele é paciente para esperar que produzamos bons frutos para o Seu Reino. Perante tamanho amor para com a vinha e para com a pobre figueira, somos convidados a responder e corresponder produzindo bons frutos para uma convivência mais fraterna.  Ser útil para os demais não significa esperar recompensa ou reconhecimento. Precisamos ser como a figueira que produz frutos sem precisar saber quem vai se alimentar com seus frutos. O importante é que outros possam viver com a nossa presença frutífera. É necessário que a parábola seja aplicada para nós individualmente e como uma comunidade cristã ou Igreja. Uma Igreja, uma comunidade que não der frutos perde razão de ser. Mas Deus continua esperando, pois para Deus nada é impossível (cf. Lc 1,36-37). Sempre espera com toda esperança.  Deus é amor (1Jo 4,8.16), e o amor procura ser amado. O amor vive onde é amado. 

Cada pessoa tem uma vocação particular, e toda vida que não responde a esse desígnio  divino se perde. O Senhor espera correspondencia a tantos cuidados, a tantas graças concedidas ainda que não tenha paridade  entre o que damos e o que recebemos. No entanto, com a graça é que podemos oferecer aos outros muitos frutos de amor diariamente:  a caridade, o apostolado, o trabalho bem feito e assim por diante.

P. Vitus Gustama,svd

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Sexta-feira Da XXIX Semana Comum, Ano Par, 23/10/2026

DEUS, PAI DE TODOS NÓS, ESTÁ NA VIDA COTIDIANA: ESTEJAMOS UNIDOS E ATENTOS PARA SUA PRESENÇA

Sexta-Feira da XXIX Semana Comum

Primeira Leitura: Efésios 4,1-6 (Ano Par)

Irmãos, 1 eu, prisioneiro no Senhor, vos exorto a caminhardes de acordo com a vocação que recebestes: 2 Com toda a humildade e mansidão, suportai-vos uns aos outros com paciência, no amor. 3 Aplicai-vos a guardar a unidade do espírito pelo vínculo da paz. 4 Há um só Corpo e um só Espírito, como também uma só é a esperança à qual fostes chamados. 5 Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, 6 um só Deus e Pai de todos, que reina sobre todos, age por meio de todos e permanece em todos.

Evangelho: Lc 12, 54-59

Naquele tempo, 54 Jesus dizia às multidões: “Quando vedes uma nuvem vinda do ocidente, logo dizeis que vem chuva. E assim acontece. 55 Quando sentis soprar o vento do sul, logo dizeis que vai fazer calor. E assim acontece. 56 Hipócritas! Vós sabeis interpretar o aspecto da terra e do céu. Como é que não sabeis interpretar o tempo presente? 57 Por que não julgais por vós mesmos o que é justo? 58 Quando, pois, tu vais com o teu adversário apresentar-te diante do magistrado, procura resolver o caso com ele enquanto estais a caminho. Senão ele te levará ao juiz, o juiz te entregará ao guarda, e o guarda te jogará na cadeia. 59 Eu te digo: daí tu não sairás, enquanto não pagares o último centavo”.

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Sejamos Unidos, Pois Todos Nós Formamos Uma Única Família Na Fé

“Há um só Corpo e um só Espírito, como também uma só é a esperança à qual fostes chamados. Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos”.

Continuamos a nossa reflexão sobre a Carta aos Efésios. Os primeiros capítulos da Carta aos Efésios (Ef 1-3) são mais teológicos. Nos primeiros capítulos São Paulo, sendo prisioneiro por Cristo, em Roma, nos apresenta com entusiasmo o mistério de Cristo e de sua Igreja.

Agora, a partir do Ef 4 o autor da Carta entra em uma seção mais exortativa e prática (Ef 4,1-6,22). Nessa seção há variedade de exortações porque a vida é variada. Algumas são dirigidas a todos contra a mentira, a impureza, a ira, a avareza, enfim, todas as “obras das trevas”. Outras exortações são dirigidas para as diversas categorias de pessoas: há admoestação para maridos e esposas, pais e filhos, escravos e senhores.

Essas exortações são, na verdade, a aplicação prática do mistério de Cristo e da Igreja. A aplicação do mistério à vida pede que “caminhardes de acordo com a vocação que recebestes”. Em seguido, são Paulo concretiza: a primeira consequência é que vivamos a unidade dentro da Igreja: “Aplicai-vos a guardar a unidade do espírito pelo vínculo da paz”.

Teologicamente o verbo “unir” significa salvar. Unir é salvar. Salvar é unir. Por isso, o bom Pastor vai atrás da ovelha perdida para reunir novamente com o resto das ovelhas (Lc 15,4-6). O próprio Deus é, em si mesmo, um mistério de unidade: Três constituídos em um.

Os homens aspiram a unidade. Estar juntos. Estar de acordo. Amar e ser amado. Colaboração e diálogo em vez de rivalidade. A concórdia e solidariedade em vez da atmosfera de suspeita e de domínio. O ser humano ama ser acariciado. No entanto, a humanidade sempre está desgarrada e os conflitos de hoje são mais profundos do que nunca: discriminação, divisão, separatismo e assim por diante. Mas a aspiração subsiste como um sonho de felicidade. Por isso, ainda encontramos tantas pessoas que lutam para que todos vivam na solidariedade uns dos outros, dialoguem a fim de evitar conflitos desnecessários. Deus está naqueles que lutam pela solidariedade, pelo diálogo, pela defesa da vida, pela união, pela paz e assim por diante. “A soberba gera a divisão. A caridade, a comunhão”, dizia Santo Agostinho..

A raiz última desta unidade segundo esta Carta é que temos um só Espírito, um só Senhor, um só Deus e Pai. Também todos temos uma mesma fé e uma única esperança, um só Batismo: “Há um só Corpo e um só Espírito, como também uma só é a esperança à qual fostes chamados. Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, que reina sobre todos, age por meio de todos e permanece em todos”. Mas tudo isso não será realizado se as outras recomendações não forem cumpridas: "Sejam sempre humildes e amáveis, suportem-se uns aos outros no amor".

O autor da Carta quer nos dizer que mesmo que tenha todos os argumentos, por profundos e teológicos que sejam em favor da unidade, se não houver a caridade e o amor em nossas comunidades, tudo ficará sem sentido. Viver bem como cristão quem testemunha a vida cristã com a própria vida mais do que com um belo discurso. 

Um só Corpo....Um só Espírito...Um só Deus e Pai. Fórmula Trinitária: a exigência da unidade de todos os homens é absoluta e essencial. O segredo da “unidade” de todos os homens procede da vida comum das Três Divinas Pessoas. O Concílio Vaticano II revalorizou esta convicção: “A Igreja, em Cristo, é como que o sacramento, ou sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano, pretende ela, na sequência dos anteriores Concílios, pôr de manifesto com maior insistência, aos fiéis e a todo o mundo, a sua natureza e missão universal. E as condições do nosso tempo tornam ainda mais urgentes este dever da Igreja, para que deste modo os homens todos, hoje mais estreitamente ligados uns aos outros, pelos diversos laços sociais, técnicos e culturais, alcancem também a plena unidade em Cristo” (LG n.1).

O Senhor nos chamou a vivermos unidos a Cristo. Feitos um com Ele e n´Ele, não podemos gerar divisões entre nós mesmos. Esta unidade é fruto da presença do mesmo Espírito em nós. Ele nos põe ao serviço do bem que temos que fazer para os demais homens. O Senhor nos convida a vivermos como irmaos em torno de nosso único Deus e Pai, que reina sobre todos, de tal forma que ninguém é mais importante do que os outros. diante de Deus todos nós somos seus filhos e ninguém é superior aos demais.

Para manter a unidade tem que ter a humildade e a mansidão. ”Com toda a humildade e mansidão, suportai-vos uns aos outros com paciência, no amor”. O manso é a pessoa boa nas relações com os outros. Jesus se proclama o Mestre “manso e humilde de coração” (Mt 11,28-30), pois ele é totalmente aberto a Deus e é bom com os outros a ponto de compartilhar de sua existência. A “mansidão” é fruto do Espírito (Gl 5,23) e é sinal da presença da sabedoria do alto (Tg 3,13.17). A mansidão é a virtude a ser invocada e conquistada por quem pretende seguir fielmente a Jesus manso.

Além da mansidão é precisa viver na humildade para manter a unidade. O humilde é aquele que tem noção da própria capacidade e da própria fraqueza e limitações e está aberto totalmente a Deus e para qualquer correção fraterna a fim de ter o crescimento no bem. É na humildade e da humildade que germinam nossos autênticos valores.

A humildade e a mansidão precisa ser vividas com paciência no amor. A vivência do amor misericordioso nos leva a ter paciência como Deus tem tido paciência para conosco apesar de nossos contínuos desvios do caminho de Deus. O paciente não é aquele que é cego, nem aquele que fecha os olhos às qualidades e às idéias menos boas ou até más dos outros. Seremos pacientes na medida em que saibamos aceitar as nossas próprias limitações e agradecer ao nosso próximo o fato de nos aceitar, apesar das nossas sombras e dos nossos defeitos. O impaciente veste sempre a pele do “infalível”, porque não reconhece nem vive os próprios limites e defeitos.

A Igreja de Cristo nos quer como um sinal de seu amor para a humanidade de todos os tempos e lugares. Devemos viver unidos como irmãos, pois enquanto surgirem divisões entre nós, não poderemos ser um sinal do amor de Deus no mundo. sejamos uma Igreja humilde, isto é, disponíveis ao serviço dos demais. não busquemos honras e sim somente o saber entregar a Cristo e a seu Evangelho.

“Irmãos, eu, prisioneiro no Senhor, vos exorto a caminhardes de acordo com a vocação que recebestes”. Ser prisioneiro no Senhor é ser livre, é ser salvo. Ser prisioneiro do mundo é ficar excluído da salvação.

Deus Nos Faz Seu Apelo Para Nós Diariamente Através Dos Acontecimentos

Continuamos a acompanhar as últimas e mais importantes lições que Jesus nos dá no Seu caminho para Jerusalém (Lc 9,51-19,28). Por isso, é preciso ouvi-las atentamente.

Hoje, na passagem do evangelho, Jesus quer que estejamos atentos para a presença de Deus através de vários sinais na nossa vida, como estamos atentos para a mudança do tempo (previsão do tempo). Jesus nos convida a irmos além do aspecto físico da realidade para o sentido querido por Deus através da realidade. Em cada acontecimento Deus deixa Seu recado para quem o presencia. É preciso estar ligado à realidade, pois Deus está em tudo e em todos. Em cada luz, aparece a luz do próprio Deus. Em cada vida, Deus é a vida. Em cada coisa sentida é o próprio Deus que está sendo sentido. Em cada existir, Deus é o próprio Ser. Ao tocarmos uma flor temos a certeza de que, misteriosamente, estamos ticando o Criador da flor. A flor não é Deus, mas ela nos leva à própria perfeita beleza de Deus e ao próprio Criador da flor. O homem profundo é aquele que vive sua humanidade a partir da graça e da presença permanente de Deus na sua vida.

“Quando vedes uma nuvem vinda do ocidente, logo dizeis que vem chuva. E assim acontece. Quando sentis soprar o vento do sul, logo dizeis que vai fazer calor. E assim acontece. Hipócritas! Vós sabeis interpretar o aspecto da terra e do céu. Como é que não sabeis interpretar o tempo presente?”. Os homens sempre se interessam pelo tempo e pelo clima, especialmente para os agricultores, os aeronáuticos, os marinheiros e assim por diante em função de suas tarefas. No evangelho de hoje, Jesus nos chama nossa atenção, porque sabemos muito bem prever o clima, mas não sabemos discernir ou ler os sinais abundantes e claros que Deus nos envia diariamente. O Senhor continua passando perto de nossa vida, com suficientes referências ou sinais. Mas podemos ter perigo de que não captamos nem reconhecemos essa presença. O Senhor se faz presente na enfermidade ou na tribulação (cf. Mt 25,38-40), nas pessoas com as quais trabalhamos ou com as quais formamos nossa família, nas boas notícias que cada pessoa espera para sua vida, sua família e assim por diante. Nossa vida será bem diferente, se estivermos bastante conscientes da presença divina na nossa vida diária. Se tivermos consciência da presença de Deus na nossa vida diária (cf. Mt 28,20), desaparecerá de nossa vida a rotina, o mau-humor, as tristezas e as preocupações exageradas porque viveremos com muita fé na providência divina.

Jesus reprova seus concidadãos de não serem capazes de interpretar os “sinais dos tempos”, quando são perfeitamente capazes de interpretar os sinais meteorológicos.

Lendo e meditando as palavras de Jesus no evangelho deste dia o Concilio Vaticano II, através de um dos seus famosos documentos, chamado Gaudium et Spes (GS) afirma: “é dever da Igreja investigar a todo o momento os sinais dos tempos, e interpretá-los à luz do Evangelho; para que assim possa responder, de modo adaptado em cada geração, às eternas perguntas dos homens acerca do sentido da vida presente e da vida futura, e da relação entre ambas. É, por isso, necessário conhecer e compreender o mundo em que vivemos, as suas esperanças e aspirações, e o seu caráter tantas vezes dramático” (GS, no.4). “O Povo de Deus, movido pela fé com que acredita ser conduzido pelo Espírito do Senhor, o qual enche o universo, esforça-se por discernir nos acontecimentos, nas exigências e aspirações, em que participa juntamente com os homens de hoje, quais são os verdadeiros sinais da presença ou da vontade de Deus. Porque a fé ilumina todas as coisas com uma luz nova, e faz conhecer o desígnio divino acerca da vocação integral do homem e, dessa forma, orienta o espírito para soluções plenamente humanas” (GS no. 11).

Analisando o estado atual do mundo, “o momento presente”, o Concílio reconheceu alguns “sinais dos tempos” essenciais: a solidariedade crescente dos povos apesar do barulho do pequeno grupo que sempre faz o contrário, o ecumenismo apesar da resistência de alguns grupos religiosos; a preocupação pela liberdade religiosa apesar de determinados país prenderem a liberdade de escolha.

O Espírito de Deus continua atuando no mundo através de muitos sinais. Ele continua atuando nos olhos dos que choram, nos que sofrem por serem justos, honestos, e verdadeiros; nos que trabalham pela paz apesar da resistência diante da reconciliação; em quantos trabalham pela erradicação da fome e da pobreza apesar da exploração e da corrupção de alguns grupos insensíveis às questões sociais; em todo o homem e a mulher que procura Deus com coração sincero apesar das dores encontradas na vida. A sua vontade de rezar e de meditar a Palavra de Deus é sinal de que o Espírito de Deus continua atuando em você. O Espírito de Deus continua atuando em você quando reza por si e pelos outros; em tantas pessoas que estão sempre prontas para ajudar quem está em necessidade. Numa palavra, em tudo o que é bondade e amor, paz e bem porque tudo isto é reflexo e semente do sinal básico do sacramento perene do próprio Deus. Em tudo que aconteceu e acontece e acontecerá na nossa vida Deus quer nos dizer alguma coisa a respeito de nossa salvação, mas que nem sempre sabemos criar o silêncio para ouvir a mensagem de Deus. O silêncio é o vazio fecundo que possibilita a presença do Eterno, ou da Plenitude na nossa vida.

Segundo o convite de Jesus, é preciso dar-nos conta do momento em que nos encontramos. Em outras palavras, precisamos transformar o kronos, isto é, o tempo medido pelos segndos, em kairós, isto é , tempo da graça de Deus e da oportunidade de salvaçao. A consciência do tempo de Deus transforma nossas atividades diárias em atividades salvíficas e transforma nossos trabalhos em vivência do amor fraterno.

Portanto, é preciso que façamos a revisão de nossa vida e o modo pelo qual vivemos. A finalidade da “revisão de vida” é tratar, humildemente de “reconhecer” a ação de Deus nos acontecimentos, em nossas vidas, nas pessoas com as quais encontramos diariamente ou ocasionalmente, nos sofrimentos e nas dores, nas vitórias e nos desafios de cada dia, e assim por diante, para encontrá-Lo e participar nessa ação de Deus a fim de revelá-Lo, enquanto for possível, aos que O ignoram. Somente quem vive aberto ao Espírito de Deus, percebe sua voz, sua chamada e sua presença. Por isso, há que estar sempre alerta e atento.

Portanto, é bom cada um se perguntara: O que é que Deus quer de mim através de todos os acontecimentos da vida minha vida e de todos os acontecimentos ao meu redor? Que resposta eu devo dar a tudo isto? Que ação eu devo fazer como resposta ao convite de Deus através desses acontecimentos? Deus nunca deixa de nos dar recado diariamente. Basta abrir os olhos e o coração.

P. Vitus Gustama,svd

Quinta-feira Da XXIX Semana Comum, Ano Par, 22/10/2026

OPTAR POR JESUS É OPTAR PELA VIDA E SALVAÇÃO DE TODOS COMO FILHOS DO MESMO PAI DO CÉU A QUEM DEVEMOS ADORAR

Quinta-Feira da XXIX Semana Comum

Primeira Leitura: Efésios 3,14-21

Irmãos, 14 eu dobro os joelhos diante do Pai, 15 de quem toda e qualquer família recebe o seu nome, no céu e sobre a terra. 16 Que ele vos conceda, segundo a riqueza de sua glória, serdes robustecidos, por seu Espírito, quanto ao homem interior, 17 que ele faça habitar, pela fé, Cristo em vossos corações, que estejais enraizados e fundados no amor. 18 Tereis assim a capacidade de compreender, com todos os santos, qual a largura, o comprimento, a altura, a profundidade, 19 e de conhecer o amor de Cristo, que ultrapassa todo o conhecimento, a fim de que sejais cumulados até receber toda a plenitude de Deus. 20 Àquele que tudo pode realizar superabundantemente, e muito mais do que nós pedimos ou concebemos, e cujo poder atua em nós, 21 a ele glória, na Igreja e em Jesus Cristo, por todas as gerações, para sempre. Amém.

Evangelho: Lc 12, 49-53

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 49 Eu vim para lançar fogo sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso! 50 Devo receber um batismo, e como estou ansioso até que isto se cumpra! 51 Vós pensais que eu vim trazer a paz sobre a terra? Pelo contrário, eu vos digo, vim trazer divisão. 52 Pois, daqui em diante, numa família de cinco pessoas, três ficarão divididas contra duas e duas contra três; 53 ficarão divididos: o pai contra o filho e o filho contra o pai; a mãe contra a filha e a filha contra a mãe; a sogra contra a nora e a nora contra a sogra.'

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Deus É a Origem De Toda Paternidade e Pai De Todos Os Homens

Continuamos a acompanhar a leitura da Carta aos Efésios. O autor termina a primeira parte da Carta aos Efésios, a parte mais teológica, com uma oração e uma doxologia final de louvor ao Deus Trino. Como no início essa parte começa com uma oração ou louvor, também termina como uma prece ou súplica. É uma oração de súplica ao Pai celeste de quem procede toda família nos céus e na terra.

Diante do sublime mistério, do qual fala o texto do dia anterior (Ef 3,2-12), sobre a vocação dos pagãos, são Paulo prorrompe numa fervorosa pregação. Ele realiza isso ajoelhando-se como faziam os judeus em suas mais ardentes orações. São Paulo pede a Deus o fortalecimento da vida interior dos fiéis. Esta implica uma fé profunda em Cristo Jesus e uma caridade manifestada em obras.

A oração é muito sincera: "dobrando os joelhos diante do Pai", pede aos Efésios que se apeguem mais às atitudes de fé que já possuem: "Fortalecer-se profundamente dentro de seu ser"; "Que Cristo habite pela fé em seus corações"; "Que o amor seja sua raiz e fundamento"; "entendendo o que transcende toda filosofia: amor". Trata-se do amor cristão, isto é, o amor ao estilo de Cristo, o Amor de Cristo amando em e através de nosso coração, de nossas mãos, de nossos pés, de nossos olhares, de nossas palavras. Trata-se do amor ágape, amor que salva e que não espera nada em troca. "E assim chegarás à plenitude, segundo a plenitude de Deus". O amor é o único caminho da plenitude, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). Basta amar de verdade, o cristão cumprirá toda a Lei (Rm 13,10). A Eucaristia da qual participamos é a escola de amor ativo ao próximo, pois o Senhor renova sua entrega por nós por amor para que tenhamos mais mais vida e mais amor ao próximo, pois o Senhor é o Pão da Vida dado por amor.

Para são Paulo não basta a simples exposição do mistério de Cristo, que lemos no dia anterior (Ef 3,2-12), pois há algo maior do que a inteligência: somente o Espirito e a graça de Deus podem iluminar o mistério divino. Por isso, o autor da Carta aos Efésios se põe a rezar, e ele faz essa oração com tanta espontaneidade, pois ele considera a oração como o complemento natural de sua pregação. A oração é a mediação entre Deus e homens.

Ele começa a oração com esta frase: “Por isso, eu dobro os joelhos diante do Pai, de quem toda e qualquer família recebe o seu nome, no céu e sobre a terra”.  “Dobrar os joelhos” com todo o corpo inclinado até o solo para prostrar-se põe em destaque um profundo sentimento de adoração. Deus é o Pai de todos e de tudo (origem) que merece uma intensa adoração. “Mas então que significa adorar a Deus? Significa aprender a estar com Ele, demorar-se em diálogo com Ele, sentindo a sua presença como a mais verdadeira, a melhor, a mais importante de todas. ... Adorar o Senhor quer dizer dar-Lhe o lugar que Ele deve ter; adorar o Senhor significa afirmar, crer – e não apenas por palavras – que Ele é o único que guia verdadeiramente a nossa vida; adorar o Senhor quer dizer que vivemos na sua presença convencidos de que é o único Deus, o Deus da nossa vida, o Deus da nossa história. ... Daqui deriva uma consequência para a nossa vida: despojar-nos dos numerosos ídolos, pequenos ou grandes, que temos e nos quais nos refugiamos, nos quais buscamos e muitas vezes depomos a nossa segurança. São ídolos que frequentemente conservamos bem escondidos; podem ser a ambição, o carreirismo, o gosto do sucesso, o sobressair, a tendência a prevalecer sobre os outros, a pretensão de ser os únicos senhores da nossa vida, qualquer pecado ao qual estamos presos, e muitos outros. ... Adorar é despojarmo-nos dos nossos ídolos, mesmo os mais escondidos, e escolher o Senhor como centro, como via mestra da nossa vida.” (Papa Francisco: Homilia pronunciada na Celebração Eucarística do III Domingo de Páscoa, Roma, 15 de Abril de 2013).

O autor chama Deus de Pai. A paternidade descreve o relacionamento mais íntimo de amor, da proximidade e do cuidado.

Para o autor da Carta aos Efésios, a origem de toda a paternidade está em Deus como o Pai por excelência. Mas  o vocábulo grego “paternidade”, colhido no Antigo Testamento, tem um sentido concreto, isto é, exprime uma pluralidade de indivíduos que provém de uma comum cabeça de estirpe. Em outras palavras, “paternidade” significa toda forma social de origem natural. Deus se mostra Pai “dos povos” justamente porque chama os pagãos  à salvação em Jesus Cristo.

Também “paternidade” alude ao Deus-Criador. Ele é o único Deus que criou o universo e em Jesus Cristo o redimiu. Uma das características da verdadeira paternidade é a vontade de salvar todos. Para isso, procura todos os meios para realizar esta vontade. Ninguém está excluído do amor do Pai.

Ao mencionar Deus como Pai, isto é, a origem de toda a paternidade, o autor da Carta aos Efésios quer demonstrar sua preocupação pela ideia da unidade. Através do evento de Cristo (Ef 1,18), todos os homens, todas as criaturas têm um Pai comum.  Para o autor da Carta, esta é a base da comunidade humana e a base da harmonia para o resto do universo. Nenhum homem, nenhuma Igreja, nenhuma nação tem possessão exclusiva de Deus. A paternidade de Deus se estende para todos os homens. Isto significa que devemos amar e respeitar uns aos outros. Se somos do mesmo Pai, não deveria haver a desunião e divisão entre nós. todos devem voltar à mesma origem.

O autor de Carta aos Efésios quer nos relembrar que tudo de bom tem sua origem em Deus. Viver com fé significa reconhecer nossa origem em Deus através de Jesus Cristo, Palavra do Pai, pois “Tudo foi feito por meio dele e sem ele nada foi feito” (Jo 1,3).

Ninguém Fica Indiferente Diante De Jesus

Continuamos a ouvir atentamente para as ultimas e mais importantes lições de Jesus dadas durante sua última viagem para Jerusalém onde Ele será crucificado e morto (Lc 9,51-19,28). E estamos ainda dentro do tema sobre a vigilância. A opção por Jesus e seus ensinamentos provoca a separação, pois quem quiser estar com Jesus deve estar do lado do bem.

“Eu vim lançar fogo à terra, e que tenho eu a desejar se ele já está aceso?   Julgais que vim trazer paz à terra? Não, digo-vos, mas divisão”, diz o Senhor.  A metáfora do “fogo” é muito usada em qualquer literatura antiga e moderna, com significados diversos: pode significar purificação, renovação, amor etc.... Em toda a Bíblia, o fogo é símbolo de Deus: na sarça ardente encontrada por Moisés (Ex 3,1-15); no fogo ou raio da tempestade no Sinai (Ex 19,16-25); nos sacrifícios do Templo onde as vitimas passadas pelo fogo; como símbolo do juízo final que purifica todas as coisas. Na tradição bíblico-profética, o “fogo” é um elemento purificador que consome as impurezas.  Na linguagem bíblica e apocalíptica “fogo” significa também juízo que supõe o fim do mundo e o início do outro. O fogo é o sinal do julgamento que, como o fogo, purifica e consome (cf. Lc 17,29-30).

“Eu vim lançar fogo à terra”, disse Jesus. O fogo é geralmente uma figura do julgamento (Lc 3,16-17) e pode significar o castigo ou a purificação. Também pode sugerir em outros casos a futura presença do Espírito (At 2,1-13), é dessa forma que deve ser entendida esta frase em Lucas. Em qualquer caso, esse texto se refere aos momentos decisivos (= escatológicos) da humanidade, tal como é descrita nos grandes textos escatológicos do AT (Is 66,15s; Ez 38,22; 39,6; Ml 3,19).

Em algumas partes dos evangelhos encontramos o uso do termo fogo. Jesus se compara com aquele que leva em sua mão a pá para limpar a eira e recolher o trigo e queimar as palhas (Mt 3,12). Jesus fala do joio que jogará no fogo (Mt 13,40). Mas Jesus recusa fazer baixar fogo do céu sobre os samaritanos (Lc 9,54). A Igreja vive do “fogo do Espírito” descido em Pentecostes (At 2,3). Esse fogo ardia no coração dos peregrinos de Emaús quando escutavam o Ressuscitado sem conhecê-Lo (Lc 24,32).

Vir trazer fogo à terra significa que a presença de Jesus tem a força de purificar o mundo da impureza, do egoísmo, da desigualdade, da discriminação, da exclusão, da insensibilidade e assim por diante. e por isso, tem força de separar o bem do mal. Através da purificação dessas impurezas a graça tem seu lugar para brilhar em todo seu esplendor. Por isso, a divisão imposta por Jesus significa a eliminação da ilusória convivência do bem com o mal, pois ninguém pode servir a dois senhores (cf. Lc 16,13; Mt 6,24).

O fogo de Jesus é o mesmo Reino de Deus que traz um elemento destruidor de pecado. É o fogo que vai queimando as impurezas dos homens, destruindo a arrogância (altivez) dos soberbos. Não poderá surgir a nova humanidade, se não forem destruídas as estruturas que oprimem o homem por dentro e por fora. Este fogo do Espírito destrói e purifica ao mesmo tempo. Jesus é o portador do fogo de Deus sobre a terra. Neste sentido sua missão fundamental consiste em purificar o homem velho ao destruir o que se encontra pervertido nele. Jesus proclama uma mensagem que é fogo, que coloca as consciências diante de sua própria verdade profunda. Conseqüentemente causa divisão: ou opta pela verdade que Jesus que significa salvação ou manter-se na falsidade e mentira que tem como resultado final, a perdição eterna.

Jesus acendeu um fogo e nos convida a mantê-lo aceso; um fogo que deve queimar dentro da Igreja tantas coisas inúteis, tanto organismos estéreis e paralizantes, tantas palavras vazias, tantas falhas morais e éticas, e assim por diante. É preciso morrer o que é velho em nós para surgir o novo.

O que acontece quando esse fogo não fica aceso na Igreja e em cada um em particular? Quando é que esse fogo não fica aceso? Ele não fica aceso quando vivemos o cristianismo não como novidade original que nos renova permanentemente; quando vivemos sem nos opor às estruturas que criam na humanidade um estado de injustiça, de fome, da violação dos direitos humanos, de exploração dos pequenos e assim por diante. Não haverá esse fogo de Jesus quando tudo continua igual, quando os sacramentos não significam mais que um ato social que não nos levam para uma vida transformada. Não haverá o fogo de Jesus quando a instituição religiosa se contenta com repetir mecanicamente gestos ou ritos que os homens de hoje não entendem nem lhes interessam.

Julgais que vim trazer paz à terra? Não, digo-vos, mas divisão”, diz o Senhor. A paz é um dos maiores benefícios que o homem deseja. Os hebreus se saúda dizendo “Shalom”. Jesus despede os pecadores e as pecadoras com esta frase cheia de sentido: Vá em paz (Lc 7,50; 8,48; 10,5-9). E seus discípulos desejavam a “paz” para as casas onde entravam. Trata-se da paz nova que vem transtornar a paz deste mundo. Mas não é uma paz fácil, pois há que construí-la na dificuldade e com muito esforço e maturidade espiritual.

Jesus traz a paz, dá a paz, mas não a qualquer preço. Pôr-se ao lado de Jesus supõe uma opção, uma decisão e com freqüência romper com a vida anterior ou com os laços humanos familiares e sociais que não salvam: “Daqui em diante, numa família de cinco pessoas, três ficarão divididas contra duas e duas contra três; ficarão divididos: o pai contra o filho e o filho contra o pai; a mãe contra a filha e a filha contra a mãe; a sogra contra a nora e a nora contra a sogra”. O Pai não pode compactuar com a maldade do filho e vice-versa. A mãe não pode participar da desonestidade da filha e vice-versa. Cada membro de uma família deve ficar do lado do bem, da honestidade, da verdade e assim por diante. Somente acontecerá tudo isto, se o fogo de Jesus permanecer aceso na nossa vida e no nosso coração. Por isso, diante de Jesus não se pode ficar neutro.

“Mas devo ser batizado num batismo; e quanto anseio até que ele se cumpra!”, acrescenta Jesus. Jesus vive sua vocação/ missão como uma paixão. Este batismo do qual Jesus fala é sua própria morte assassinada, conseqüência do seu amor incondicional pelos homens, esquecendo-se de si próprio. Trata-se da morte diante da qual Jesus sente uma angústia que não pode reprimir.

A vinda de Jesus para este mundo e o nosso encontro com Ele é o Kairós, o momento decisivo de conversão. A eucaristia nos torna contemporâneos  do grande mistério.  A eucaristia doa e exige o justo julgamento. Quem quiser seguir a Jesus fielmente, quem quiser viver piedosamente todos os ensinamentos de Jesus deve estar preparado para ser perseguido até ser morto (cf.2Tm 3,12).  A nossa amizade com Jesus pode criar a inimizade da parte de quem vive conforme o espírito mundano. A nossa vida cristã é um caminho cheio de adversidades: inimigo, o inferno e assim por diante. Mas trata-se de uma morte que termina na glorificação da vida em Deus. Não há o amor verdadeiro sem sacrifício.

P. Vitus Gustama,svd

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Quarta-feira Da XXIX Semana Comum, Ano Par, 21/10/2026

COMO COHERDEIROS DA PROMESSA DE CRISTO SOMOS CHAMADOS A VIVER NA GRAÇA E NA PERMANENTE VIGILÂNCIA

Quarta-Feira da XXIX Semana Comum

Primeira Leitura:  Efésios 3,2-12

Irmãos, 2 se ao menos soubésseis da graça que Deus me concedeu para realizar o seu plano a vosso respeito, 3 como, por revelação, tive conhecimento do mistério, tal como o esbocei rapidamente. 4 Ao ler-me, podeis conhecer a percepção que eu tenho do mistério de Cristo. 5 Este mistério, Deus não o fez conhecer aos homens de gerações passadas mas acaba de o revelar agora, pelo Espírito, aos seus santos apóstolos e profetas: 6 os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo, por meio do Evangelho. 7 Disto eu fui feito ministro pelo dom da graça que Deus me concedeu no exercício de seu poder. 8 Eu, que sou o último de todos os santos, recebi esta graça de anunciar aos pagãos a insondável riqueza de Cristo 9 e de mostrar a todos como Deus realiza o mistério desde sempre escondido nele, o criador do universo. 10 Assim, doravante, as autoridades e poderes nos céus conhecem, graças à Igreja, a multiforme sabedoria de Deus, 11 de acordo com o desígnio eterno que ele executou em Jesus Cristo, nosso Senhor. 12 Em Cristo nós temos, pela fé nele, a liberdade de nos aproximar de Deus com toda confiança.

Evangelho: Lc 12, 39-48

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 39 “Ficai certos: se o dono da casa soubesse a hora em que o ladrão iria chegar, não deixaria que arrombasse a sua casa. 40 Vós também ficai preparados! Porque o Filho do Homem vai chegar na hora em que menos o esperardes”. 41 Então Pedro disse: “Senhor, tu contas esta parábola para nós ou para todos?” 42 E o Senhor respondeu: “Quem é o administrador fiel e prudente que o senhor vai colocar à frente do pessoal de sua casa para dar comida a todos na hora certa? 43 Feliz o empregado que o patrão, ao chegar, encontrar agindo assim! 44 Em verdade eu vos digo: o senhor lhe confiará a administração de todos os seus bens. 45 Porém, se aquele empregado pensar: ‘Meu patrão está demorando’, e começar a espancar os criados e as criadas, e a comer, a beber e a embriagar-se, 46 o senhor daquele empregado chegará num dia inesperado e numa hora imprevista, ele o partirá ao meio e o fará participar do destino dos infiéis. 47 Aquele empregado que, conhecendo a vontade do senhor, nada preparou, nem agiu conforme a sua vontade, será chicoteado muitas vezes. 48 Porém, o empregado que não conhecia essa vontade e fez coisas que merecem castigo, será chicoteado poucas vezes. A quem muito foi dado, muito será pedido; a quem muito foi confiado, muito mais será exigido!”.

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A Fé Em Jesus Nos Torna Coherdeiros das Promessas De Deus

“Irmãos, se ao menos soubésseis da graça que Deus me concedeu para realizar o seu plano a vosso respeito, como, por revelação, tive conhecimento do mistério, tal como o esbocei rapidamente”.

São Paulo não pode esconder o orgulho que sente por ter recebido a missão de anunciar o mistério de Cristo aos pagãos. O chamamento dos pagãos para formar um só povo em igualdade com os que foram membros  do povo escolhido, constitui o admirável desígnio de Deus. São Paulo constata que este projeto salvador lhe fora comunicado por especial benevolência divina.

“Ao ler-me, podeis conhecer a percepção que eu tenho do mistério de Cristo.  Este mistério, Deus não o fez conhecer aos homens de gerações passadas mas acaba de o revelar agora, pelo Espírito, aos seus santos apóstolos e profetas: os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do  mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo, por meio do Evangelho” (Ef 3,4-6).  Estes versículos apresentam um tríplice conteúdo do denso mistério: (1). Todos os povos foram chamados a compartilhar da mesma herança em igualdade de condições; (2). Todos formam um mesmo corpo místico, que é a Igreja, do qual Cristo é a Cabeça, d´Ele emana a vida para todos os membros; e (3). Todos participam da promessa feita por Deus a Abraão (Gn 12,3), cuja realização Cristo leva a bom termo.

São Paulo denomina essa missão de anunciar o mistério de Cristo para os pagãos como “dom da graça” (Ef 3,7). O termo “graça’” significa benefício absolutamente gratuito, livre e sem motivo. Também tem outro significado: um efeito do favor divino que torna alguém belo, amável e encantador. “Graça” é algo absolutamente imerecido e que provém da livre escolha e incomensurável misericórdia de Deus. A graça da criatura depende da graça de Deus, e não vice-versa. No começo de tudo, está a graça, a livre e gratuita eleição de Deus, o seu inexplicável favor, o seu vir ao nosso encontro em Cristo e está o seu doar-se a nós por puro amor.

A primeira coisa que cada um de nós deve fazer como resposta à graça de Deus é dar graças. A graça de Deus tem de ser acompanhada pelo agradecimento do homem. Dar graças significa, antes de tudo, reconhecer a graça, aceitar a gratuidade da mesma. Dar graças significa aceitar-se como devedor, como dependente; deixar que Deus seja Deus.

E são Paulo também fala do “conhecimento do mistério”. O termo “mistério” indica o plano soteriológico de Deus, que abrange o cosmo todo e começa a se realizar com o chamado dos gentios a ser coherdeiros da promessa de Cristo, junto com os judeus (Ef 3,6). E este mistério se realiza por meio do evento da cruz e da ressurreição de Jesus. É por Cristo que somos “filhos adotivos” (Ef 1,5); é pelo sangue de Cristo que “temos a redenção e a remissão dos pecados” (Ef 1,7); É em Cristo que ocorre a recapitulação cósmica de todas as coisas (Ef 1,10). O Cristo universal é, portanto, a personificação do próprio mistério de Deus.

Até então podia parecer que os únicos herdeiros da promessa de Deus eram os judeus. Agora são Paulo tem a alegria de “anunciar aos gentios a riqueza insondável que é Cristo” e proclamar que todos os que creem em Jesus, vindo do judaísmo ou do paganismo, “nós temos, pela fé nele, a liberdade de nos aproximar de Deus com toda confiança”.

Mas o mistério apresenta também uma dimensão eclesiológica. O âmbito da realização do “mistério” é a própria Igreja, para a qual começam a convergir judeus e gentios, que nela encontram a paz (Ef 3,6). Os cristãos vindos do paganismo se tornam “concidadãos dos santos e membros da família de Deus” (Ef 2,19) e fazem parte, com os hebreus convertidos, do Novo Templo escatológico que é o Cristo (Cf. Jo 2,19-22). Para são Paulo, a Igreja é, pois, o âmbito da confluência unificadora de grupos diversos, social e religiosamente diferentes, anteriormente divididos e inimigos. Os homens, os povos e as culturas são chamados a se reconciliar em uma unidade superior. A visão oferecida pela Carta aos Efésios é a união na diversidade e no pluralismo.

Nesse plano de salvação denominado como “mistério” de Deus que abrange todos os seres, Israel tem uma função toda particular. À luz de seu papel na história da salvação do Antigo Testamento, é o “primeiro” a ser convidado a participar do “mistério”. O adjetivo “primeiro” indica não somente uma dimensão temporal, mas especialmente o primado histórico do povo eleito.

Como são Paulo, todos nós deveríamos nos sentir satisfeitos, não somente pela sorte de crermos em Jesus Cristo, mas também pela oportunidade de podermos comunicar a todos os a Boa Notícia de que todos nós somos “co-herdeiros” de Jesus Cristo e que não há privilégios diante de Deus. Não importa a etnia e a idade nem cultura, mas se alguém crer em Jesus já é co-herdeiros, ou seja, está chamado a compartilhar com os outros a vida que Deus nos tem preparado desde a eternidade.

Por nossa fé e nossa união a Cristo, a humanidade inteira se converte em coerdeira da mesma promessa em Jesus Cristo. a Igreja não somente é a portadora desta mensagem de salvação, mas também que distribui a graça de Deus em favor de todas as pessoas. No entanto, não podemos proclamar o Nome do Senhor somente a partir de nossas imaginações ou a partir de nossos estudos, por muito eruditos que sejam, pois a salvação somente é fruto do Espirito de Deus que habita em nós; Ele é o único que pode fazer que a Palavra de Deus se encarne em nós e que sua salvação não seja estéril em nossa vida. Por isso, o Senhor nos quer não como simples pregadores e sim como testemunhas de seu Reino no mundo.

Além disso, todos os membros da Igreja tem a missão de preservar a unidade e a paz tanto para os membros existentes como para os futuros membros, pois a Igreja é o âmbito da realização do “mistério” de Deus.

Como membros da Igreja devemos estar vigilantes, como enfatiza o Evangelho deste dia, pois o Senhor chegará em uma hora inesperada. Viver vigilantes na presença de Deus é aprender a orar como discípulos, escutando ao Senhor e pedindo que nos conceda sua graça para trabalhar decididamente por seu Reino de amor e de paz. Deus nos confiou muito e nos exigirá muito mais, pois seu Espirito Santo vai guiando nossa vida e nossas obras. Não apaguemos o Espirito Santo que habita em nós!

Quem Vive Na Graça Vive Na Permanente Vigilância

“Vós também ficai preparados! Porque o Filho do Homem vai chegar na hora em que menos o esperardes”.

Estamos acompanhando Jesus no seu caminho para Jerusalém, ouvindo atentamente suas últimas e mais importantes lições para todos os cristãos, seus seguidores, pois lá em Jerusalém Ele será crucificado e morto para salvar a humanidade.

Na passagem do evangelho de hoje Jesus continua a falar sobre a vigilância, como no evangelho do dia anterior (cf. Lc 12,35-38).

“Ficai certos: se o dono da casa soubesse a hora em que o ladrão iria chegar, não deixaria que arrombasse a sua casa. Vós também ficai preparados! Porque o Filho do Homem vai chegar na hora em que menos o esperardes”.

Novamente o Senhor nos pede para que estejamos vigilantes permanentemente. Vigiar significa estar constantemente alertas, despertos à espera. Significa viver uma atitude de serviço. Por isso, implica luta, esforço e renúncia. Não é em modo algum falta de compromisso ou indiferença. Trata-se, em outras palavras, de adquirir um certo modo de orientar nossa atenção para o que é verdadeiramente importante e essencial para nossa existência e para nossa salvação. Porque não sabemos do quando da chegada do Senhor do tempo e da vida, nós precisamos estar preparados vivendo nossa vida com responsabilidade. O alerta do Senhor sobre a vigilância quer nos relembrar sobre a provisoriedade de nossa existência aqui neste mundo. Tudo será deixado, mas que sejamos levados pelo Senhor para onde Ele estiver (cf. Jo 14,3).

Concretamente podemos dizer que vigiar significa pôr em prática as palavras de Jesus, especialmente o mandamento do amor. Significa enfrentar a tentação do egoísmo, que nos leva a convencer-nos da inutilidade de fazer o bem. Significa acreditar que vale a pena lutar para construir o Reino de Deus, a exemplo de Jesus, num mundo onde a injustiça e a maldade parecem falar mais alto. Significa estar sempre disposto a perdoar e a se reconciliar, revertendo a espiral da violência que assume proporções sempre maiores. Significa ser capaz de detectar tudo quanto possa desviar nossa atenção do convite de Deus para o encontro definitivo com Ele. Significa estar vigilante no que se deve falar e no que não se deve: ser vigilante nos comentários, nos julgamentos etc.. Vigiar é aprender a falar o necessário e fazer o mais essencial para nossa salvação.

“A quem muito foi dado, muito será pedido; a quem muito foi confiado, muito mais será exigido!”. Mais uma vez Jesus exorta à vigilância, especialmente a todos os responsáveis da comunidade (v.41). Eles têm o encargo especial de velar pelos outros, como diz o autor da primeira Carta de Pedro (1Pd 5,2-4): “Velai sobre o rebanho de Deus, que vos é confiado. Tende cuidado dele, não constrangidos, mas espontaneamente; não por amor de interesse sórdido, mas com dedicação; não como dominadores absolutos sobre as comunidades que vos são confiadas, mas como modelos do vosso rebanho. E, quando aparecer o supremo Pastor, recebereis a coroa imperecível de glória”.  Isto quer dizer que os outros são as ovelhas do Senhor (cf. Jo 21,15-17: “Apascenta as minhas ovelhas”, diz o Senhor). Cuidar de cada ovelha do Senhor com carinho e responsabilidade é a manifestação do respeito pelo dono das ovelhas que é o próprio Senhor. Quem cuida das ovelhas deve estar consciente de que ele também é a ovelha e faz parte do próprio rebanho, mas com a função de velar sobre o resto do rebanho. A liderança eclesial tem o dever de dar testemunho de fé robusta que se expressa em cuidar bem dos irmãos que são ovelhas do Senhor.

Os que cuidam dos irmãos, ovelhas do Senhor, têm muito mais responsabilidade do que qualquer outro membro na comunidade. A palavra “responsabilidade” tem sua origem etimológica no latim: “respondere” que significa “prometer”, “garantir”. O que garante a responsabilidade são os valores. Ter responsabilidade significa ser coerente com os próprios atos, com os valores reconhecidos. Através dos valores o ser humano descobre e desenvolve seu sentido de vida. Responsabilizar-se significa elevar a própria existência para uma dimensão superior.

A tentação típica do ministério é a de esquecer-se de que todos, na comunidade, são apenas administradores. Temos tentação de atuar como se fosse dono das ovelhas do Senhor ou donos da comunidade. É a tentação de explorar os outros e a de apascentar-se a si mesmo. Não se deve esquecer que todos haverão de prestar contas diante de Deus. Cada administrador do Senhor recebeu encargo de maior responsabilidade. Mas recebeu também dons correspondentes. A medida da exigência de Deus aos homens se regula conforme à medida dos dons que se outorgou a cada um. Tudo que o homem recebeu é um capital que lhe é confiado para que trabalhe com ele: “A quem muito foi dado, muito será pedido; a quem muito foi confiado, muito mais será exigido!”. Isto quer dizer que quanto mais alguém se aproxima de Jesus e se deixa interpelar por Ele, mais responsabilidade ele deverá ter de colocar em prática os ensinamentos de Jesus. Ao contrário, ele terá motivos sérios para ficar inquieto, pois chegará um dia para prestar contas.

Para qualquer cargo ou tarefa na comunidade se requer fidelidade e sensatez. Fidelidade porque cada um é apenas um administrador pelo qual deve trabalhar conforme a vontade do Senhor. Sensatez porque não deve perder de vista que o Senhor pode vir repentinamente e pedir-lhe contas. A vinda do Senhor é certa, o momento é incerto. Estejamos, então, vigilantes!

Portanto, a parábola do administrador, no evangelho deste dia, nos mostra que o tempo da espera da chegada da segunda vinda do Senhor é preciso como tempo de serviço, porque o Reino de Deus se reflete já de forma decisiva em nossa vida. A todos é confiado um tipo de serviço no tempo dessa espera. A riqueza do Reino de Deus se traduz para todos a maneira de amor que dirige aos outros. Aquele que recebeu o grande tesouro que lhe faz rico para Deus começa a ser imediatamente fonte de amor para os demais homens.

A expectativa da vinda do Senhor que é inesperada ou o momento que é desconhecido e repentina, deve criar em nós uma forte consciência da responsabilidade nas tarefas que nos foram encomendadas. A consciência de sermos administradores e não donos deve nos levar a conceber nossa liberdade em termos de responsabilidade. Todas as nossas tarefas, portanto, concernem à administração dos bens que o Senhor nos confiou. A falta de responsabilidade é, no fundo, uma falta da vivência de fé diariamente.

As graças e as funções concedidas por Deus a cada um de nós não podem ser concebidas como uma honra, e sim como um dever a cumprir em favor do bem de todos para que todos possam chegar à comunhão plena com Deus na eternidade. Isso leva cada um a viver na fidelidade e na prudência.

Portanto, segundo Jesus no evangelho de hoje, a vida dos cristãos deve ser caracterizada por duas atitudes principais: a vigilância e a responsabilidade, porque o cristão é uma pessoa voltada para o futuro do qual espera a salvação. Por isso, ele deve estar preparado em todos os momentos. O futuro de um cristão não é uma utopia anônima. O futuro de um cristão tem nome e um rosto preciso: Jesus Cristo, o Salvador.

Fica a seguinte pergunta: Onde é que Deus não chegou ainda na minha vida? Porque Deus está onde eu O deixo entrar. Qual parte da minha vida que eu não deixo ainda que Deus entre?

P. Vitus Gustama,svd

Sábado Da XXIX Semana Comum, Ano Par, 24/10/2026

CONVERTER-SE PERMANENTEMENTE PARA PRODUZIR CONSTANTEMENTE OS FRUTOS DE AMOR NO CORPO DE CRISTO QUE É A IGREJA Sábado da XXIX Semana Comum ...