sexta-feira, 20 de março de 2026

23/03/2026- Segunda-feira Da V Semana Da Quaresma

MISERICÓRDIA DIVINA DIANTE DA MISÉRIA HUMANA

Segunda-Feira Da V Semana Da Quaresma 

I Leitura: Dn 13,1-9. 15-17.19-30.33-62 (ou Dn 13,41c-62)

Naqueles dias: 1Na Babilônia vivia um homem chamado Joaquim. 2Estava casado com uma mulher chamada Susana, filha de Helcias, que era muito bonita e temente a Deus. 3Também os pais dela eram pessoas justas e tinham educado a filha de acordo com a lei de Moisés. 4Joaquim era muito rico e possuía um pomar junto à sua casa. Muitos judeus costumavam visitá-lo, pois era o mais respeitado de todos. 5Ora, naquele ano, tinham sido nomeados juízes dois anciãos do povo, a respeito dos quais o Senhor havia dito: 'Da Babilônia brotou a maldade de anciãos-juízes, que passavam por condutores do povo.' 6Eles frequentavam a casa de Joaquim, e todos os que tinham alguma questão se dirigiam a eles. 7Ora, pelo meio-dia, quando o povo se dispersava, Susana costumava entrar e passear no pomar de seu marido. 8Os dois anciãos viam-na todos os dias entrar e passear, e acabaram por se apaixonar por ela. 9Ficaram desnorteados, a ponto de desviarem os olhos para não olharem para o céu, e se esqueceram dos seus justos julgamentos. 15Assim, enquanto os dois estavam à espera de uma ocasião favorável, certo dia, Susana entrou no pomar como de costume, acompanhada apenas por duas empregadas. E sentiu vontade de tomar banho, por causa do calor. 16Não havia ali ninguém, exceto os dois velhos que estavam escondidos, e a espreitavam. 17Então ela disse às empregadas: 'Por favor, ide buscar-me óleo e perfumes e trancai as portas do pomar, para que eu possa tomar banho'. 19Apenas as empregadas tinham saído, os dois velhos levantaram-se e correram para Susana, dizendo: 20'Olha, as portas do pomar estão trancadas e ninguém nos está vendo. Estamos apaixonados por ti: concorda conosco e entrega-te a nós! 21Caso contrário, deporemos contra ti, que um moço esteve aqui, e que foi por isso que mandaste embora as empregadas'. 22Gemeu Susana, dizendo: 'Estou cercada de todos os lados! Se eu fizer isto, espera-me a morte; e, se não o fizer, também não escaparei das vossas mãos; 23mas é melhor para mim, não o fazendo, cair nas vossas mãos do que pecar diante do Senhor!' 24Então ela pôs-se a gritar em alta voz, mas também os dois velhos gritaram contra ela. 25Um deles correu para as portas do pomar e as abriu. 26As pessoas da casa ouviram a gritaria no pomar e precipitaram-se pela porta do fundo, para ver o que estava acontecendo, 27Quando os velhos apresentaram sua versão dos fatos, os empregados ficaram muito constrangidos, porque jamais se dissera coisa semelhante a respeito de Susana. 28No dia seguinte, o povo veio reunir-se em casa de Joaquim, seu marido. Os dois anciãos vieram também, com a intenção criminosa de conseguir sua condenação à morte. Por isso, assim falaram ao povo reunido: 29'Mandai chamar Susana, filha de Helcias, mulher de Joaquim'! E foram chamá-la. 30Ela compareceu em companhia dos pais, dos filhos e de todos os seus parentes. 33Os que estavam com ela e todos os que a viam, choravam. 34Os dois velhos levantaram-se no meio do povo e puseram as mãos sobre a cabeça de Susana. 35Ela, entre lágrimas, olhou para o céu, pois seu coração tinha confiança no Senhor. 36Entretanto, os dois anciãos deram este depoimento: 'Enquanto estávamos passeando a sós no pomar, esta mulher entrou com duas empregadas. Depois, fechou as portas do pomar e mandou as servas embora. 37Então, veio ter com ela um moço que estava escondido, e com ela se deitou. 38Nós, que estávamos num canto do pomar, vimos esta infâmia. Corremos para eles e os surpreendemos juntos. 39Quanto ao jovem, não conseguimos agarrá-lo, porque era mais forte do que nós e, abrindo as portas, fugiu. 40A ela, porém, agarramos, e perguntamos quem era aquele moço. Ela, porém, não quis dizer. Disto nós somos testemunhas'. 41A assembleia acreditou neles, pois eram anciãos do povo e juízes. E condenaram Susana à morte. 42Susana, porém, chorando, disse em voz alta: 'Ó Deus eterno, que conheces as coisas escondidas e sabes tudo de antemão, antes que aconteça! 43Tu sabes que é falso o testemunho que levantaram contra mim! Estou condenada a morrer, quando nada fiz do que estes maldosamente inventaram a meu respeito!' 44O Senhor escutou sua voz. 45Enquanto a levavam para a execução, Deus excitou o santo espírito de um adolescente, de nome Daniel. 46E ele clamou em alta voz: 'Sou inocente do sangue desta mulher!' 47Todo o povo então voltou-se para ele e perguntou: 'Que palavra é esta, que acabas de dizer?' 48De pé, no meio deles, Daniel respondeu: 'Sois tão insensatos, filhos de Israel? Sem julgamento e sem conhecimento da causa verdadeira, vós condenais uma filha de Israel? 49Voltai a repetir o julgamento, pois é falso o testemunho que levantaram contra ela!' 50Todo o povo voltou apressadamente, e outros anciãos disseram ao jovem: 'Senta-te no meio de nós e dá-nos o teu parecer, pois Deus te deu a honra da velhice.' 51Falou então Daniel: 'Mantende os dois separados, longe um do outro, e eu os julgarei.' 52Tendo sido separados, Daniel chamou um deles e lhe disse: 'Velho encarquilhado no mal! Agora aparecem os pecados que estavas habituado a praticar. 53Fazias julgamentos injustos, condenando inocentes e absolvendo culpados, quando o Senhor ordena: 'Tu não farás morrer o inocente e o justo!' 54Pois bem, se é que viste, dize-me à sombra de que árvore os viste abraçados?'  Ele respondeu: 'É sombra de uma aroeira.' 55Daniel replicou 'Mentiste com perfeição, contra a tua própria cabeça. Por isso o anjo de Deus, tendo recebido já a sentença divina, vai rachar-te pelo meio!' 56Mandando sair este, ordenou que trouxessem o outro: 'Raça de Canaã, e não de Judá, a beleza fascinou-te e a paixão perverteu o teu coração. 57Era assim que procedíeis com as filhas de Israel, e elas por medo sujeitavam-se a vós. Mas uma filha de Judá não se submeteu a essa iniquidade. 58Agora, pois, dize-me debaixo de que árvore os surpreendeste juntos?' Ele respondeu: 'Debaixo de uma azinheira.' 59Daniel retrucou: 'Também tu mentiste com perfeição, contra a tua própria cabeça. Por isso o anjo de Deus já está à espera, com a espada na mão, para cortar-te ao meio e para te exterminar!' 60Toda a assistência pôs-se a gritar com força, bendizendo a Deus, que salva os que nele esperam. 61E voltaram-se contra os dois velhos, pois Daniel os tinha convencido, por suas próprias palavras, de que eram falsas testemunhas. E, agindo segundo a lei de Moisés, fizeram com eles aquilo que haviam tramado perversamente contra o próximo. 62E assim os mataram, enquanto, naquele dia, era salva uma vida inocente.

Evangelho: Jo 8,1-11 (para o Ano “A” e “B”)

Naquele tempo, 1Jesus foi para o monte das Oliveiras. 2De madrugada, voltou de novo ao Templo. Todo o povo se reuniu em volta dele. Sentando-se, começou a ensiná-los. 3Entretanto, os mestres da Lei e os fariseus trouxeram uma mulher surpreendida em adultério. Levando-a para o meio deles, 4disseram a Jesus: “Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério. 5Moisés na Lei mandou apedrejar tais mulheres. Que dizes tu?” 6Perguntavam isso para experimentar Jesus e para terem motivo de o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, começou a escrever com o dedo no chão. 7Como persistissem em interrogá-lo, Jesus ergueu-se e disse: “Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra”. 8E tornando a inclinar-se, continuou a escrever no chão. 9E eles, ouvindo o que Jesus falou, foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos; e Jesus ficou sozinho, com a mulher que estava lá, no meio, em pé. 10Então Jesus se levantou e disse: “Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?” 11Ela respondeu: “Ninguém, Senhor”. Então Jesus lhe disse: “Eu, também, não te condeno. Podes ir, e de agora em diante não peques mais”.

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As duas leituras de hoje nos apresentam um paralelismo. Trata-se de um juízo contra duas pessoas, isto é, contra duas mulheres: uma inocente (Suzana), e outra pecadora, adúltera (sem nome). No evangelho de hoje Jesus salva uma mulher adúltera dos que a acusavam e queriam sua morte. O relato de Daniel, na primeira leitura, nos apresenta uma situação semelhante em que Daniel salvou não uma adúltera e sim uma mulher inocente, Suzana. As duas cenas têm muito em comum e nos ajudam a prepararmos a celebração da Páscoa que está próxima com o juízo misericordioso de Deus sobre nosso pecado. Somente Deus pode nos julgar retamente, pois Ele julga segundo o coração e não conforme as aparências. Deus sempre vê muito mais o nosso coração do que nossa aparência. Por isso, Deus, na sua infinita sabedoria, jamais erra no seu juízo.

O mal não tem rosto, porque ele pode tomar o ser de qualquer um de nós. Ninguém está isento da possibilidade do mal. O mal é tudo que serve à morte; tudo que sufoca a vida, estreita-a, e corta-a em pedaços. O pecado faz com que os homens se comportem como insensatos ou imprudentes e escravos do próprio pecado. Quem é escravo é porque não tem mais a liberdade. Por isso, a realidade do mal exige vigilância.

As principais ameaças à nossa sobrevivência já não vêm da natureza externa e sim de nossa natureza humana interna. São nossas hostilidades, nosso descaso, o egoísmo, o orgulho/a arrogância, prepotência e a ignorância deliberada que põem o mundo em perigo. Se não conseguirmos domar e transmutar o potencial da alma humana para o mal, nós estaremos perdidos e faremos perdida até nossa própria família”.

Por isso, São Paulo nos escreveu aos Gálatas: “Ora, as obras da carne são manifestas: formicação, impureza, libertinagem, idolatria, feitiçaria, ódio, rixas (disputa/briga), ciúmes, ira, discussões, discórdia, divisões, invejas, bebedeiras, orgias, e coisas semelhantes a estas, a respeito das quais eu vos previno como já vos preveni: os que tais coisas praticam não herdarão o reino de Deus” (Gl 5,19-21).

Deus Sempre Está Do Lado Do Inocente

Na Babilônia vivia um homem chamado Joaquim. Estava casado com uma mulher chamada Susana, filha de Helcias, que era muito bonita e temente a Deus. Também os pais dela eram pessoas justas e tinham educado a filha de acordo com a lei de Moisés”. Assim lemos na Primeira Leitura.

A Primeira Leitura é tirada do Livro de Daniel capitulo 13. Dn 13-14 pertence à parte deuterocanônica do livro e só se encontra na versão grega.

Os principais personagens no texto da Primeira Leitura de hoje são Susana que só aparece aqui no AT e dois anciãos. “Susana” significa “lírio” que é muito em consonância com sua pura conduta. Uma pessoa pura, como Susana, é uma pessoa absolutamente honesta e decente. Quem é puro é limpo de todas as manchas de sujeira interna e externa. Uma pessoa pura é aquela que é totalmente ela mesma, que é livre de todas as contaminações, de tudo que é artificial. Todas estas qualidades descrevem bem quem é Susana: uma pessoa pura.

O autor do livro de Daniel, ironicamente, destaca o contraste entre a má conduta dos anciãos que deveriam dar exemplo de virtude por sua idade e sua qualidade de juízes, e a virtude heroica da bela Susana que não aceitou a vergonhosa proposta dos dois anciãos para fazer uma relação íntima com ela. Susana sabia que se ela aceitasse a proposta vergonhosa dos dois anciãos, ela seria condenada à morte (cf. Lv 20,10; Dt 22,21-22; Jo 8,4-5).  Quando Susana não aceitou a proposta vergonhosa deles, os dois anciãos denunciaram Susana falsamente.

Susana era conhecida por sua honestidade. Ela representa a alma pura, a fidelidade a Deus. Deus nunca deixa o inocente lutar sozinho. Por isso, no fim a inocência vencerá diante da mentira e da falsidade. Deus permite a prova e as provações para o justo até ao extremo que, às vezes, tem-se impressão de que Deus se esqueça do justo. Mas o bem sempre triunfa. De fato, Susana saiu vitoriosa pela sua inocência e os falsos anciãos são condenados pela sua mentira.

Da história de Susana aprendemos que por mais que os outros falem das calúnias contra você, é preciso prosseguir confiando no Bem Maior, Deus cuja palavra final será um julgamento para todos. Por mais que os odiosos lhe demonstrem rancores, prossiga perdoando, pois o perdão é a expressão máxima do amor divino. Por mais que lhe ameacem os aparentes fracassos, prossiga apostando na vitória final de Deus. Por mais que os outros tentem destruí-lo, prossiga na construção da humanidade mais humana e fraterna, pois pertencemos à família do Papai do céu. Por mais que os outros lhe demonstrem a arrogância, prossiga com sua humildade para se manter na simplicidade e na pureza. “A humildade é a única base sólida de todas as virtudes” (Confúcio). E “Quanto maiores somos em humildade, tanto mais próximos estamos da grandeza” (Rabindranath Tagore).

Misericórdia Divina Diante Da Miséria Humana

No texto do evangelho de hoje os escribas e os fariseus trouxeram a Jesus uma mulher que havia sido apanhada cometendo adultério. Eles a colocaram no meio e disseram: “Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério. Moisés, na sua lei, manda apedrejar tais mulheres. Que dizes tu?”. Na verdade, o verdadeiro acusado não é a mulher adúltera, e sim Jesus. A adúltera serve como desculpa para os inimigos do Senhor encontrarem o motivo para condená-lo. A sorte da adúltera recairá sobre Jesus: se ela deve ser apedrejada pelo seu pecado de adultério, no final eles (inimigos de Jesus) tentarão apedrejá-lo pelo seu pecado de blasfêmia (Jo 8,59).

É surpreendente que não se fale do “parceiro” deste ato de adultério (porque é difícil cometer adultério sozinho). Por que o “parceiro” também não foi agarrado? Em todo o adultério, a mulher é sempre considerada como culpa e não o homem. É a história de sempre: a agressividade, a violência, as paixões sempre se descarregam sobre os mais fracos: os mais fortes sempre conseguem se safar ou se escapar por causa do poder social, cultural, político ou econômico. Os fracos sempre são vítimas porque eles não têm recursos em todos os sentidos. O único recurso dos fracos é o próprio Deus.

Diante da pressão da multidão, especialmente dos escribas e fariseus Jesus fica calado. Se Deus parece calar-se, acontece isso porque já nos disse tudo: não tem mais nada a acrescentar. Deus só deseja que escutemos com maior atenção a palavra que nunca chegamos a compreender perfeitamente. A Palavra de Deus não se gasta e é perpétua.  Se soubermos escutar atentamente a Palavra de Deus, jamais nos precipitaremos em nada. No ritmo acelerado de nossa sociedade habituamo-nos a um gasto colossal de palavras. Vivemos numa sociedade cada vez mais reacionária diante de tudo do que numa sociedade refletiva em que tudo precisa ser analisado calmamente. Estamos cada vez mais distante do valor de um silencia para escutar a ressonância de nossas palavras e atos. Quem é incapaz de entender o silêncio de um amigo, também nunca há de compreender suas palavras.

Por causa de tanta pressão da multidão Jesus abandona o silêncio para pronunciar a seguinte frase: “Quem dentre vós não tiver pecado, atire-lhe a primeira pedra”. O efeito destas palavras é marcante. Ao ouvirem isso, todos foram-se embora um após outro, a começar pelos mais velhos. Eles são acusados por sua própria consciência. O detalhe “a começar pelos mais velhos” poderia referir-se à sua mais ampla experiência da fraqueza humana. Quanto mais vivemos, mais possibilidades nós teremos para cometer erros na vida.

A palavra de Jesus inibiu esses homens de cometer um ato de violência, e eles renunciam livremente. O fato de eles irem embora já uma confissão implícita de seu pecado. Concretamente podemos dizer que Jesus é situado duplamente: em relação aos fariseus, a cilada é desfeita e em relação à mulher adúltera, a absolvição foi feita. Diante do pecado que é mais pesado que as pedras em que eles estão pegando, Jesus, vindo de fora, está só, enquanto a mulher está diante dele.

A cena do evangelho de hoje tem sua “ironia” divina. Aquele que é sem pecado (Is 8,46), Aquele que é a santidade participada sem limite e eternamente do Pai encontra-se com a pecadora numa atitude de perdão, de acolhimento. Aqueles, que vinham eles mesmos carregados de pecados, querem a condenação, sendo frustrados precisamente pelo choque com a inocência de Jesus, que os desafia. O rigor de nosso julgamento sobre o nosso próximo mostra que desconhecemos a nossa própria fragilidade e os nossos defeitos e a nossa condição de pecadores diante de Deus. Certas atitudes de rigor em relação ao irmão dificilmente conseguem encobrir alguma fraqueza ou miséria própria não aceita, não confessada. Aí está Jesus escrevendo no chão, seja revelando a cada um sua miséria, seja simplesmente desconversando uma acusação vinda de más intenções.   

Também não te condeno. Vai em paz e de agora em diante não peques mais!”, disse Jesus à mulher pecadora. Trata-se, na verdade, de uma palavra poderosa de pleno perdão do pecado. Estas palavras finais de Jesus são dirigidas à mulher e aos pretensos juízes. Jesus fica ali para receber novamente a todos. Jesus não quer condenar, mas libertar. Com sua decisão, Jesus restitui a vida à mulher, dando-lhe uma nova coragem para viver, uma nova oportunidade para recomeçar. O que importa de verdade para a mulher é este novo começo.

Todos nós necessitamos que alguém nos diga: “Eu também não te condena: vai, e doravante não peques mais!” Tal é a palavra criadora de Jesus. Jesus nos torna capazes de aceitar nosso pecado para que iniciemos juntos uma existência reconciliada.

Há duas classes de homens: Uns, pecadores que se julgam justos e os outros, justos que se creem pecadores. Em que grupo você está? A raiz do mal e da injustiça está dentro de cada um de nós; dentro de mim.  Se não reconheço isto, nada melhorará dentro e fora de mim.

O texto permanece aberto, sem nada dizer sobre o que aconteceu depois com a mulher, como na parábola do filho pródigo/pai misericordioso, nada é dito sobre a decisão final do filho mais velho (Lc 15,32). O leitor é igualmente convidado a perder seu medo, a não se fechar em seu passado, às vezes um outro círculo mortal, e a andar na liberdade dos filhos de Deus (leia consecutivamente Sl 103,10-14 e Sl 32,1.13).

P. Vitus Gustama,svd

V Domingo Da Quaresma, Ano "A", 22/03/2026

PERMANECER EM CRISTO JESUS SIGNIFICA JAMAIS CONHECERÁ A MORTE, POIS ELE É A RESSURREIÇÃO E A VIDA

V DOMINGO DA QUARESMA DO ANO “A”

I Leitura: Ez 37,12-14

12 Assim fala o Senhor Deus: “Ó meu povo, vou abrir as vossas sepulturas e conduzir-vos para a terra de Israel; 13 e quando eu abrir as vossas sepulturas e vos fizer sair delas, sabereis que eu sou o Senhor. 14 Porei em vós o meu espírito, para que vivais e vos colocarei em vossa terra. Então sabereis que eu, o Senhor, digo e faço — oráculo do Senhor”.

II Leitura: Rm 8,8-11

 Irmãos: 8Os que vivem segundo a carne não podem agradar a Deus. 9Vós não viveis segundo a carne, mas segundo o Espírito, se realmente o Espírito de Deus mora em vós. Se alguém não tem o Espírito de Cristo, não pertence a Cristo. 10Se, porém, Cristo está em vós, embora vosso corpo esteja ferido de morte por causa do pecado, vosso espírito está cheio de vida, graças à justiça. 11E, se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos mora em vós, então aquele que ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos vivificará também vossos corpos mortais por meio do seu Espírito que mora em vós.

Evangelho: Jo 11,1-45

Naquele tempo: 1 Havia um doente, Lázaro, que era de Betânia, o povoado de Maria e de Marta, sua irmã. 2 Maria era aquela que ungira o Senhor com perfume e enxugara os pés dele com seus cabelos. O irmão dela, Lázaro, é que estava doente. 3 As irmãs mandaram então dizer a Jesus: 'Senhor, aquele que amas está doente.' 4 Ouvindo isto, Jesus disse: 'Esta doença não leva à morte; ela serve para a glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela.' 5 Jesus era muito amigo de Marta, de sua irmã Maria e de Lázaro. 6 Quando ouviu que este estava doente, Jesus ficou ainda dois dias no lugar onde se encontrava. 7 Então, disse aos discípulos: 'Vamos de novo à Judéia.' 8 Os discípulos disseram-lhe: Mestre, ainda há pouco os judeus queriam apedrejar-te, e agora vais outra vez para lá?' 9 Jesus respondeu: 'O dia não tem doze horas? Se alguém caminha de dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo. 10 Mas se alguém caminha de noite, tropeça, porque lhe falta a luz'. 11 Depois acrescentou: 'O nosso amigo Lázaro dorme. Mas eu vou acordá-lo.' 12 Os discípulos disseram: 'Senhor, se ele dorme, vai ficar bom.' 13 Jesus falava da morte de Lázaro, mas os discípulos pensaram que falasse do sono mesmo. 14 Então Jesus disse abertamente: 'Lázaro está morto. 15 Mas por causa de vós, alegro-me por não ter estado lá, para que creiais. Mas vamos para junto dele'. 16 Então Tomé, cujo nome significa Gêmeo, disse aos companheiros: 'Vamos nós também para morrermos com ele'. 17 Quando Jesus chegou, encontrou Lázaro sepultado havia quatro dias. 18 Betânia ficava a uns três quilômetros de Jerusalém. 19Muitos judeus tinham vindo à casa de Marta e Maria para as consolar por causa do irmão. 20 Quando Marta soube que Jesus tinha chegado, foi ao encontro dele. Maria ficou sentada em casa. 21 Então Marta disse a Jesus: 'Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido. 22 Mas mesmo assim, eu sei que o que pedires a Deus, ele to concederá.' 23 Respondeu-lhe Jesus: 'Teu irmão ressuscitará.' 24 Disse Marta: 'Eu sei que ele ressuscitará na ressurreição, no último dia.' 25 Então Jesus disse: 'Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. 26E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais. Crês isto?' 27 Respondeu ela: 'Sim, Senhor, eu creio firmemente que tu és o Messias, o Filho de Deus, que devia vir ao mundo.' 28 Depois de ter dito isto, ela foi chamar a sua irmã, Maria, dizendo baixinho: 'O Mestre está aí e te chama'. 29 Quando Maria ouviu isso, levantou-se depressa e foi ao encontro de Jesus. 30Jesus estava ainda fora do povoado, no mesmo lugar onde Marta se tinha encontrado com ele. 31 Os judeus que estavam em casa consolando-a, quando a viram levantar-se depressa e sair, foram atrás dela, pensando que fosse ao túmulo para ali chorar. 32 Indo para o lugar onde estava Jesus, quando o viu, caiu de joelhos diante dele e disse-lhe: 'Senhor, se tivesses estado aqui, o meu irmão não teria morrido.' 33 Quando Jesus a viu chorar, e também os que estavam com ela, estremeceu interiormente, ficou profundamente comovido, 34 e perguntou: 'Onde o colocastes?' Responderam: 'Vem ver, Senhor.' 35 E Jesus chorou. 36 Então os judeus disseram: 'Vede como ele o amava!' 37 Alguns deles, porém, diziam: 'Este, que abriu os olhos ao cego, não podia também ter feito com que Lázaro não morresse?' 38 De novo, Jesus ficou interiormente comovido. Chegou ao túmulo. Era uma caverna, fechada com uma pedra. 39 Disse Jesus: 'Tirai a pedra'! Marta, a irmã do morto, interveio: 'Senhor, já cheira mal. Está morto há quatro dias.' 40 Jesus lhe respondeu: 'Não te disse que, se creres, verás a glória de Deus?' 41 Tiraram então a pedra. Jesus levantou os olhos para o alto e disse: 'Pai, eu te dou graças porque me ouviste. 42 Eu sei que sempre me escutas. Mas digo isto por causa do povo que me rodeia, para que creia que tu me enviaste.' 43 Tendo dito isso, exclamou com voz forte: 'Lázaro, vem para fora!' 44 O morto saiu, atado de mãos e pés com os lençóis mortuários e o rosto coberto com um pano. Então Jesus lhes disse: 'Desatai-o e deixai-o caminhar!' 45 Então, muitos dos judeus que tinham ido à casa de Maria e viram o que Jesus fizera, creram nele.

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“Eu Sou a Ressurreição e a Vida”, diz o Senhor

Uma palavra que se repete uma e outra vez nas leituras deste Quinto Domingo da Quaresma, uma palavra chave, decisiva, uma palavra que sintetiza tudo o que significa a Páscoa, que sintetiza o que é nossa fé, e uma palavra que resume ao mesmo tempo o que o homem deseja e sonha, a palavra chave é “vida”.

Através do evangelho deste V Domingo da Quaresma em que o Senhor ressuscitou Lázaro, Jesus quer que optemos pela vida. Optar pela vida significa dizer não à morte em qualquer instância e em qualquer de suas formas; significa dizer não: ao aborto provocado, à violência, ao assassinato, à agressividade verbal e física, a uma vida deteriorada em sua qualidade, ao desespero e à desesperança, à contaminação e destruição da natureza e assim por diante. Optar pela vida significa dizer sim ao homem como valor supremo, a uma paternidade ou maternidade responsável, a uma distribuição justa dos bens da terra, a um progresso que melhore a qualidade de vida, aos movimentos pacifistas e ecologistas, a Deus e à vida que não termina com a morte, pois Deus é a Vida, por excelência.

Retrno De Lázaro À Vida É Um Sinal

A ressurreição (reanimação/retorno à vida) de Lázaro é o sétimo sinal realizado por Jesus no Evangelho de João. O evangelista João jamais emprega a palavra milagre (dýnamis, grego, como ato de poder e de força) que aparece com muita freqüência nos sinóticos (Mc, Mt e Lc). Em vez disso, ele usa o termo “sinal” (seméion, grego). Este termo pertence ao vocabulário técnico do quarto evangelho, onde aparece 17 vezes, sobretudo na primeira metade.

Em João, “sinal” é ação/obra realizada por Jesus que, sendo visível, leva por si ao conhecimento de realidade superior. O “sinal” remete a outra coisa. Os “sinais joaninos”, porém, não somente apontam para uma realidade que está além da coisa ou acontecimento visível, mas contém já em si mesmos a realidade significada. Eles são, de certo modo, uma manifestação da “glória” de Jesus. Enquanto o milagre, pelo poder surpreendente que ele força a constatar, tem por função orientar em direção à pessoa e à dignidade do seu autor. O “sinal” visa a outra realidade além de si mesmo, ele é considerado menos em si do que na sua relação com as testemunhas: o gesto realizado as convida a deduzir uma consequência para além do significante. Este termo joanino inclui sempre dois aspectos: demonstrativo, o sinal suscita a fé dos discípulos em Jesus; expressivo, ele manifesta a glória daquele que o opera.

Encontram-se no Evangelho de João sete sinais de Jesus:

1.    Jo 2,1-11: bodas de Caná;

2.    Jo 4,46-54: a cura do filho do funcionário real;

3.    Jo 5,1-9: a cura do paralítico;

4.    6,1-15: a partilha dos pães;

5.    6,16-21: Jesus caminha sobre as águas;

6.    9,1-41: a cura do cego de nascença;

7.    11,1-44: a reanimação (“ressurreição”) de Lázaro.

A primeira parte do Evangelho de João (1,19-12,50) chama-se o LIVRO DOS SINAIS (sete sinais). Enquanto a segunda parte (13,1-20,29) chama-se o GRANDE SINAL que fala da paixão, morte e ressurreição de Jesus.

A “reanimação” /o retorno de Lázaro à vida é o último e maior dos “sinais” realizados pelo Jesus joanino.  O retorno de Lázaro à vida é o mais alto dos sinais (milagres) porque aqui não se trata da cura de uma doença, mas da “ressurreição” de um morto que já havia sido enterrado há quatro dias. Estamos, sem dúvida nenhuma, diante do sinal mais importante, porque ele toca o cerne da fé, já que mostra a vitória da vida sobre a morte, a última inimiga (cf. 1Cor 15,26). Este último sinal ocupa o centro do evangelho de João. Ele encerra o Livro dos sinais (a primeira parte do evangelho de Jo: Jo 1,19-12,50) e abre o Livro da glória (a segunda parte do evangelho de Jo: Jo 13,1-20,29).

Nota-se facilmente um crescendo destes sinais que vai desde o primeiro até o último sinal. Neste sétimo ou último sinal alcançam os sinais sua cota mais elevada. O primeiro sinal tem como base os elementos materiais, água e vinho,(Jo 2,1-11); o segundo acentua a cura a distância (Jo 4,46-54); o terceiro insiste na infusão de uma vida nova no organismo paralisado (Jo 5,1ss);  no quarto e no quinto vem a continuação a saciedade da fome profunda do homem por aquele que se apresenta como “Eu Sou” (Jo 6); no sexto, põe-se em cena a iluminação da existência humana, em que Jesus se autodefine como Luz (Jo 9,1ss) para chegar à proclamação da vida sobre a morte(sétimo sinal), a vitória da vida sobre a morte (Jo 11,1ss), “o último inimigo a ser derrotado” (1Cor 15,26).         

Muitos autores concordam que neste sétimo sinal não se trata da ressurreição, mas de “reanimação de Lázaro” ou de “retorno” de Lázaro à vida”, pois ele, de fato, apenas volta à vida terrena, e já deverá morrer de novo (leia também outros relatos similares: 1Rs 17,17-24: Elias reanima o filho da viúva de Sarepta; 2Rs 4,18-37: Eliseu reanima o filho da Sunamita; Mc 5,22-43 par.: Jesus reanima a filha de Jairo;  Lc 7,11-17: Jesus reanima o filho da viúva de Naim; At 9,36-42: Pedro reanima a Tabita; 20,9ss: Paulo reanima Eutico).

O termo “ressurreição” é impróprio usado neste relato porque, segundo o dado bíblico, é reservado à passagem da morte ocorrida para a vida que não mais termina; não pode designar a volta à vida deste mundo. Teologicamente, a ressurreição é um fato definitivo.

Fé Na Ressurreição

O motivo teológico dos relatos de ressurreição de mortos é evidentemente o de assinalar a Jesus como Vencedor do poder da morte. A fé atribui esse poder a Jesus. Acreditar ou permanecer em Jesus significa viver para sempre. A morte é apenas uma passagem para uma vida de alta qualidade: estar eternamente com o Deus da Vida eterna.

Neste relato percebe-se a fé das comunidades joaninas em Jesus que é a Ressurreição e a Vida. Por trás do relato da “ressurreição” de Lázaro está a primitiva fé pascal dos cristãos, a confissão de fé no Ressuscitado e em sua presença permanente na Igreja e a participação dos cristãos na ressurreição pela fé no Ressuscitado. A ressurreição de Jesus é, por isso, a pedra angular de toda a fé cristã (leia 1Cor 15).

A narração da ressurreição de Lazaro é um verdadeiro prelúdio para a Paixão de Jesus. O evangelista João quer dizer aos leitores, com esta narração, que o caminho de Jesus não é definitivamente um caminho para a morte e sim um caminho, que através da morte, conduz para a glorificação, à ressurreição e à vida. A ressurreição de Lazaro antecipa a ressurreição de Jesus e sinaliza para todos os cristãos que a vida não termina com a morte, pois Jesus Cristo em quem acreditamos é a “Ressurreição e Vida”.      

O que é proposto pelo evangelista João ao leitor, ao apresentar esse episódio, não é crer em Jesus grande taumaturgo, e sim crer em Cristo que é para todos os homens “a ressurreição e a vida”, e que ele o é por sua própria passagem pela morte. Jesus em pessoa é a ressurreição e a vida. Ele é quem dá a vida eterna àqueles que creem nele. A vida que ele dá, então, não é a vida humana comum; é a vida de Deus, a vida eterna, transmitida no presente aos crentes que aceitam Jesus, o Cristo, o Filho de Deus (cf. Jo 20,31; veja também Jo 10,10). Esta vida de Deus, a vida eterna passa a ser dada diretamente e por inteiro no nível físico a quem crê, graças à presença de Jesus, Ressurreição e Vida. Por isso, este último sinal é qualificado como o maior, o mais extraordinário símbolo da vida divina de Jesus que se oferece àquele que crê nele.          

Desatai-o e deixai-o caminhar” (v.44). Com esta ordem de Jesus termina o relato. As ataduras nas mãos e nos pés e sobre o sudário no rosto acentuam o significado da morte. A morte mantém os homens cegos, mudos e surdos, atados e asfixiados. É a missão da comunidade cristã, dos que estão ao redor de Jesus, cumprir o seu mandato de libertar os que estão impedidos de ver e de andar e fazer com que as pessoas vivam livremente. Para isso, os discípulos têm de entregar voluntariamente sua vida por amor a Deus e aos homens, como Jesus a entregou e permanecer em Jesus em todos os momentos de sua vida. 

Jesus - Amigo Que Nos Ama          

No texto do evangelho de hoje são apresentados Lázaro, Marta e Maria como personagens conhecidos do leitor. Eles também são amigos de Jesus, pois frequentemente Jesus se hospeda em Betânia onde os três moram (cf. Mc 11,11;14,3; Lc 10,38-42). E Jesus se encontra na Transjordânia, a uma jornada de caminho de Betânia.      

A mensagem das irmãs de Lázaro endereçada ao “Senhor”, mostra que elas são discípulas de Jesus; limitando-se a informá-lo: “Senhor, aquele que Tu amas está doente” (Jo 2,3). Através desta informação sabemos que Lázaro é amigo de Jesus: “Aquele que Tu amas está doente”.  É um pedido semelhante ao que mãe de Jesus fez em Caná: “Eles não têm mais vinho” (Jo 2,3). Implicitamente, elas queriam que Jesus fosse logo visitar o doente para curá-lo (Jo 11,21.32). Mas, ao mesmo tempo, elas confiam e esperam, deixando que o próprio Jesus decida o que fazer, o quando e o como. Entre amigos sempre tem uma mútua compreensão sem nenhuma necessidade de muitos detalhes ou explicações.       

Esta doença não leva à morte, mas é para a glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela”, afirma Jesus diante da morte de Lázaro. Este sinal (milagre) glorificará a Jesus não no sentido de que o povo se sentirá admirado, e sim porque provocará a morte de Jesus que é um passo necessário para chegar à sua glorificação (Jo 12,23s;17,1). 

Isto quer nos dizer que a doença de Lázaro (e, depois, sua morte e “ressurreição”) é destinada a se tornar lugar de revelação, lugar no qual o poder de Deus se manifesta como ressurreição, como vitória da vida sobre a morte. A doença não somente é destinada a revelar o Pai, mas ainda a revelar a glória do Filho, isto é, sua vitória sobre a morte. Para João, Jesus parece esperar que seu amigo doente esteja realmente morto (vv.5.17.39). Deste modo, ele quer revelar seu domínio sobre a morte no momento em que esta vai apoderar-se de Lázaro. O sinal do retorno de Lázaro à vida tem lugar não somente em razão do amor de Jesus por seus amigos, mas para manifestar a glória de Deus e suscitar a fé naquele que enfrenta a morte (cf. v.45) e que tem o poder de renunciar à vida e o poder de retomá-la para comunicá-la aos homens que acreditam nele. Para Jesus a morte não tem a última palavra, porque Jesus é a vida e a ressurreição. Acreditar em Jesus e viver conforme seus ensinamentos significa viver para sempre. Ao realizar o sinal de devolução da vida a Lázaro, o Pai é glorificado através da glorificação do Filho e da fé dos discípulos e de todos que creem nele.          

A mensagem das irmãs de Lázaro dirigida a Jesus pode ser também a nossa oração: “Senhor Jesus, aquele que tu amas está doente, aquele tu amas está drogado; aquele casal está sem nenhuma harmonia; aquela família está cheia de brigas e de desunião; aquele meu irmão, meu filho, meu marido, minha esposa, que tu amas está sem muito ânimo e está deprimido, está nervoso...” e assim por diante. Estamos doentes de muitas maneiras, com muitas enfermidades, fraquezas, impotência etc.... Precisamos ser curados pelo Senhor Jesus. Ao terminar este tipo de pedido, vamos confiar e esperar em Jesus que dá a vida de Deus para quem crê nele, e vamos deixar Jesus decidir o que fazer, o quando e o como. Muitas vezes temos tentação de ter pressa. Mas a nossa pressa não resolve nada. Jesus sabe de tudo, por que não seguimos ao ritmo dele? Esta é a única solução: esperar no Senhor apesar da aparência e circunstâncias desfavoráveis e sem esperança nenhuma. Acreditemos em Deus e não nas circunstâncias. Jesus é o Salvador não só do Lázaro, mas de todos nós. Nossa total confiança no tempo quaresmal é esta: Jesus nos ama. Somos enfermos, sim, mas somos amados por ele.          

Quando Jesus chegou a Betânia fazia já quatro dias que Lázaro havia sido sepultado. Segundo uma crença dos rabinos, amplamente difundida entre o povo, a alma do defunto permanecia durante três dias rodando o sepulcro; depois ia embora e não havia mais esperança alguma de vida. O quarto dia depois da morte representa, então, o fim de todas as esperanças de vida, pois o cadáver iniciava a decomposição; é preciso adaptar-se à situação: “Senhor, já cheira mal. Está morto há quatro dias”, diz Marta (v.39).          

O que quer nos dizer esta passagem? As situações em que se encontram os homens, em que se encontra o homem, em que às vezes nos encontramos como mentira, escravidão, condicionamentos, inautenticidade, desorientação, morte que sempre nos ameaçam, como medo da morte e como possibilidade de nos revoltarmos contra a morte, são em si mesmas situações insuperáveis. Um só vem ao nosso encontro, inesperada e gratuitamente, como amigo, tomando a iniciativa: é o Verbo de Deus feito homem, que amigavelmente, vem a nós para socorrer-nos, elevar-nos, purificar-nos; ele nos toma ali onde estamos, e conosco aquele pouco que podemos dar-lhe naquele momento, e de maneira superabundante e régia, nos transforma. 

Jesus É A Ressurreição E A Vida          

Ao saber que Jesus estava chegando, Marta sai ao encontro de Jesus, enquanto Maria fica em casa. Marta reafirma sua fé na ressurreição, que é obra de Deus, porém, a um futuro longínquo. Jesus aproveita a afirmação de Marta para fazer uma nova revelação de si próprio: “Eu sou a ressurreição e a vida” (v.25). 

Eu sou a ressurreição e a vida”. Este é o ponto alto do trecho. Fé na ressurreição é um dos artigos do Credo Apostólico: “Creio na ressurreição da carne e na vida eterna”. Na resposta de Jesus está condensado o conteúdo central da fé cristã que todo o relato quer transmitir: a vida eterna que Marta espera para a ressurreição dos últimos tempos já chegou com e em Jesus.  As palavras de Jesus começam com o “Eu sou” (Ego eimi), característico das afirmações de revelação (cf. Ex 3,14).          

Jesus não promete: eu darei a ressurreição. Mas é muito mais o que ele diz. Ele é, em si mesmo, a causa da nossa fé, a meta da nossa esperança, a felicidade do nosso amor que nunca mais morre.  A “ressurreição” de Lázaro quer tornar visível o mistério imortal do Deus feito homem. 

O texto do Evangelho não nega a morte física, simplesmente afirma que a morte não é o limite da realidade humana. A morte física pela qual passará irremediavelmente, não será já uma interrupção da vida e sim unicamente uma necessidade biológica. Não é missão de Jesus libertar o homem da morte física, e sim dar a esta vida um novo sentido. Jesus não veio para suprimir a morte física e sim para comunicar a vida que ele mesmo possui e da qual dispõe, seu próprio Espírito: a vida que não conhece a morte eterna. Na frase de Jesus: “Eu sou a Ressurreição e a Vida”, o primeiro termo “ressurreição” depende do segundo termo: “vida”: Jesus é a Ressurreição por ser a Vida (Jo 14,6). Jesus não veio para impedir a morte corporal. Mas neste sinal (milagre) e na sua palavra torna-se visível que ele quer e pode dar uma outra vida, uma existência eterna com Deus. Jesus como Filho de Deus tem em si a vida e tem o poder de no-la dar. “Eu sou a Vida”, Jesus afirma. A vida que se refere aqui (v.25) é a vida que procede do alto, gerada pelo Espírito, que vence a morte física. Quem recebe o dom da vida pela fé em Jesus jamais morrerá da morte espiritual, pois esta é uma vida eterna.          

 Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais” (vv.25-26).  Quem crê em Jesus já entrou na vida definitiva, tem já agora “a vida eterna” como uma realidade presente sobre a qual a morte não tem poder algum. Esta realidade é chamada por alguns exegetas a “escatologia presente”. Quem crê em Jesus, já “passou da morte à vida(cf. Jo 3,36;5,24;6,47). Porque Jesus é já agora “a Ressurreição e a Vida”. A morte corporal não pode mais destruir a vida nova, o novo nascimento, a vida eterna dada pela fé em Jesus. A vida recebida pela fé em Jesus Cristo é indestrutível (cf. Jo 3,3ss;7,39;19,30;20,22).  A insaciável sede de vida eterna enraizada no mais fundo do coração de todos os homens só pode ser saciada por aquele que ”a Ressurreição e a Vida”. A vida de Deus não está mais fora de nosso mundo, porque o Filho de Deus veio no meio de nós e mora entre nós (Jo 1,14). A morte só tem poder destrutivo quando Jesus está ausente de nossa vida. Jesus é a ressurreição porque é a vida. Ele nos ressuscita dando-nos, pelo Espírito, a vida eterna que ele tem, que ele é. A vida não é destruída pela morte, mas, antes, simplesmente se serve desta. Jesus veio não para dar pêsames, mas para dar a vida a quem crê nele. 

Oração De Ação De Graças Reflete a Ação De Deus Na Nossa Vida          

Diante do túmulo Jesus reza: “Pai, eu te dou graças porque me ouviste. Eu sei que sempre me escutas. Mas digo isto por causa do povo que me rodeia, para que creia que tu me enviaste”. A oração de Jesus na beira do túmulo não é uma oração de petição, mas de ação de graças. Jesus que está sempre em comunhão com o Pai, restabelece com a sua oração a comunhão entre o céu e a terra. Jesus no quarto evangelho está sempre orando porque está sempre unido ao Pai, porque o Pai nunca o deixa só (Jo 8,29), porque ele e o Pai são um (Jo 10,30).  Sua oração “abre os céus” e essa abertura chega até as profundezas da terra, até o reino da morte. E pede aos seus seguidores que orem com a mesma confiança (cf. Jo 14,12-13;15,16;16,23.16).

A oração de ação de graças supõe a capacidade de perceber as maravilhas de Deus na nossa vida cotidiana. Quem tem o olhar da fé contempla as maravilhas de Deus diariamente e sempre tem motivo para agradecer a Deus. Quem sabe agradecer vive com entusiasmo, pois ele reconhece que Deus está dentro dele ou melhor dizer ele está dentro da vida de Deus, e contagia os outros com o mesmo entusiasmo.

Com Jesus Somos Capazes De Tirar Pedras De Nossa Vida               

Diante do túmulo de Lázaro Jesus ordena: “Levanta a pedra!” (v.39).          

Tira a pedra!” A pedra sobre o túmulo é o símbolo da separação entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. Ela não deixa entrar quem está fora e não deixa sair quem está dentro. Ao devolver a vida a Lázaro, Jesus vai mostrar que tem o poder de abrir as portas da morte, de libertar os mortos, e depois de fechá-las definitivamente, instaurar a comunhão definitiva dos homens com Deus e dos homens entre si.          

Perante este Jesus que se revelou diante do túmulo de Lázaro, aprendemos a “tirar a imensa pedra da nossa vida”. A pedra de nossa incapacidade de crer em profundidade, a pedra de nossas dúvidas sobre o poder de Deus na nossa vida, a pedra das nossas culpas, tão pesadas para nós, e mais ainda para os outros, a pedra da nossa impermeável autocomplacência. “Tirai a pedra!”. 

’Lázaro, vem para fora!' O morto saiu, atado de mãos e pés com os lençóis mortuários e o rosto coberto com um pano.” (Jo 11,44). Essa forma de sepultar os mortos era desconhecida entre os judeus, que lavavam o cadáver e o envolvia num lençol. A descrição do evangelista tem, portanto, um valor simbólico: o morto foi amarrado como um prisioneiro, capturado pela morte (cf. Sl 116,3).                     

Desatai-o e deixai-o caminhar” é a outra ordem de Jesus em seguida (v.44). Com esta ordem termina o relato. As ataduras nas mãos e nos pés e sobre o sudário no rosto acentuam o significado da morte. A morte mantém os homens presos, cegos, mudos e surdos, atados e asfixiados. Desamarrando o morto, a comunidade se liberta do medo da morte. e o morto, uma vez solto dos laços da morte, desaparece. A fé em Jesus significa a vida triunfa sobre a morte. A a missão da comunidade cristã, dos que estão ao redor de Jesus, é, portanto,  cumprir o seu mandato de libertar os que estão impedidos de verem e de andarem e de fazerem com que as pessoas vivam livremente. Para isso, os discípulos têm de entregar voluntariamente sua vida por amor a Deus e aos homens, como Jesus a entregou. 

Quem crê em mim, ainda que morra, viverá” (v.25). Esta é a mensagem central que o evangelista quer nos transmitir. A verdadeira vida consiste em ouvir a voz do Filho, do Enviado pelo Pai para dar a vida ao mundo. Só a fé em Jesus Cristo pode vencer o medo da morte porque foi o próprio Jesus quem a venceu e destruiu total e definitivamente.

“Cristo é tudo para nós.

Se queres curar tuas feridas, Ele é Médico.

Se a febre te abrasa, Ele é a Fonte de Água fresca.

Se te oprime o peso da culpa, Ele é a Justiça.

Se necessitas de ajuda, Ele é a Força

Se temes a morte, Ele é a Vida.

Se desejas o céu, Ele é o Caminho.

Se foges das trevas, Ele é a Luz.

Se buscas comida, Ele é o Alimento.

Buscai e vede quão bom é o Senhor.

Bem-aventurado o homem que espera por ele.

(Santo Ambrósio)

PARA REFLETIR: Cheira Mal

·      “Examine cada um a própria alma; se peca, morre. O pecado é a morte da alma. Há um tipo grave de morte; chama-se mau costume. Pois uma coisa é pecar, outra é contrair o costume de pecar. Quem peca e, em seguida, corrige-se, revive rapidamente; porque ainda não se acha envolvido pelo costume, não foi sepultado. Quem, todavia, se acostumou a pecar, foi sepultado e apropriadamente se diz a seu respeito: “cheira mal!”. Começa, com efeito, a ter péssima fama, qual horroroso odor. Tais são todos os que habaituaram às más ações, os que se perderam em seus costumes” (Santo Agostinho In Serm. 49,3).

P. Vitus Gustama,svd

quarta-feira, 18 de março de 2026

21/03/2026- Sábado Da IV Semana Da Quaresma

O JUSTO É PERSEGUIDO E MORTO POR AQUELES QUE VIVEM NA INJUSTIÇA E NA DESONESTIDADE

Sábado da IV Semana da Quaresma

Primeira Leitura: Jr 11,18-20

18 Senhor, avisaste-me e eu entendi; fizeste-me saber as intrigas deles. 19 Eu era como manso cordeiro levado ao sacrifício, e não sabia que tramavam contra mim: “Vamos cortar a árvore em toda a sua força, eli­miná-lo do mundo dos vivos, para seu nome não ser mais lembrado”. 20 E tu, Senhor dos exércitos, que julgas com justiça e perscrutas os afetos do coração, concede que eu veja a vingança que tomarás contra eles, pois eu te confiei a minha causa.

Evangelho: Jo 7,40-53

Naquele tempo, 40ao ouvirem as palavras de Jesus, algumas pessoas diziam: “Este é, verdadeiramente, o Profeta”. 41Outros diziam: “Ele é o Messias”. Mas alguns objetavam: “Porventura o Messias virá da Galileia? 42Não diz a Escritura que o Messias será da descendência de Davi e virá de Belém, povoado de onde era Davi?” 43Assim, houve divisão no meio do povo por causa de Jesus. 44Alguns queriam prendê-lo, mas ninguém pôs as mãos nele. 45Então, os guardas do Templo voltaram para os sumos sacerdotes e os fariseus, e estes lhes perguntaram: “Por que não o trouxestes?”  46Os guardas responderam: “Ninguém jamais falou como este homem”. 47Então os fariseus disseram-lhes: “Também vós vos deixastes enganar? 48Por acaso algum dos chefes ou dos fariseus acreditou nele? 49Mas esta gente que não conhece a Lei, é maldita!” 50Nicodemos, porém, um dos fariseus, aquele que se tinha encontrado com Jesus anteriormente, disse: 51“Será que a nossa Lei julga alguém, antes de o ouvir e saber o que ele fez?” 52Eles responderam: “Também tu és galileu, porventura? Vai estudar e verás que da Galileia não surge profeta”. 53E cada um voltou para sua casa.

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Na Primeira Leitura o profeta Jeremias usa a imagem do cordeiro manso levado ao matadouro. Ao cumprir sua missão e chamar o povo à conversão, o profeta se vê rejeitado e traído por seus próprios irmãos. Jeremias, seis séculos antes de Cristo, viveu o mesmo destino que Jesus. Ele também foi perseguido por ter sido fiel à Palavra de Deus. É a imagem de Jesus que, como um cordeiro, morrerá para tirar o pecado do mundo. A imagem do "cordeiro" sugere a inocência daquela pequena vítima que não merece ser sacrificada. Esta imagem sugere a liturgia do cordeiro pascal, cujo sacrifício é útil a todo o povo. Todo homem que sofre como inocente é uma imagem do Cristo sofredor.

Jeremias aparece hoje como uma figura de Jesus, um homem justo perseguido por sua condição de profeta corajoso, que em nome de Deus anuncia e denuncia um povo que não quer ouvir suas palavras.

O Justo Perseguido É Sacrificado, Como Cordeiro Manso, Pelos Injustos

Eu era como manso cordeiro levado ao sacrifício, e não sabia que tramavam contra mim”, confessou o profeta Jeremias. Sabemos que o profeta Jeremias nos deixou um diário de seu drama interior chamado “Confissões de Jeremias” que se encontram entre o capítulo 10 e o capitulo 20 de seu livro. Merece uma leitura especial: Jr 11,8-12,3 (Jeremias “inimigo do povo”); Jr 7,14-18 (Ironia de seus adversários: Onde está a palavra do Senhor? Que se cumpra!” - Jr 17,5); Jr 18,18-23 (a perseguição); Jr 20,7-9.14-18 (a crise de vocação). Nestas páginas o testemunho de uma personalidade sensível se funde com o desespero por uma situação impossível. Jeremias é um homem sentimental e aberto aos demais, no entanto é condenado a ser um solitário, um isolado pelos seus compatriotas. Ele é rodeado somente pelo ódio (Jr 15,17; 16,12), amaldiçoado (Jr 20,10), perseguido (Jr 26,11), golpeado e torturado (Jr 20,1-2), sob a ameaça de morte (Jr 18,18). É um idealista que sente o horror pela corrupção de seu povo (Jr 9,1), que sente a mesma indignação de Deus (Jr 5,14; 6,11; 15,17), que com uma imensa dor interior anuncia a ruína iminente (Jr 4,19-21; 8,18-23; 14,17-18). O profeta Jeremias experimenta profundamente a perseguição que, por causa de sua perseguição, os adversários, inclusive seus familiares e amigos, tramam contra ele. Esta perseguição move Jeremias a perguntar a Deus: Por que os maus vivem cheios de “bênçãos”? A resposta de Deus desconcerta o profeta: verá coisas piores.

A fidelidade à vocação é uma conquista cotidiana, que passa por dúvidas e crises e que às vezes, pesa como uma maldição, sobretudo se experimenta o silêncio de Deus (Jr 15,15.18; 20,7; veja Sl 21/22,2; Mt 27,46; Mc 15,34). A tentação de renunciar é muito forte. Este é o Getsêmani de Jeremias. Mas a Palavra de Deus é como um incêndio que devora os ossos e que o homem é incapaz de aplacar e de extinguir, nem o próprio Jeremias.

Nesta primeira leitura (Jr 11,18-20) o profeta Jeremias utiliza a imagem do cordeiro manso levado ao matadouro para falar de sua própria inocência e mansidão. Para manter a fidelidade à aliança com Deus o profeta Jeremias denuncia os crimes, as corrupções e as traições cometidos pelo seu próprio povo. Em outras palavras, Jeremias chama o seu povo à conversão, a voltar ao Deus da Aliança. Para Jeremias o verdadeiro conhecimento do Senhor não está no culto e sim na justiça (Jr 22,16).

Infelizmente, como consequência, Jeremias é odiado pelo bem que faz. Ele é uma vítima inocente comparada a um cordeiro manso. “Toda vez que um justo grita, um carrasco vem calar. Quem não presta fica vivo, quem é bom, mandam matar” (Cecília Meireles). Pelo fato de cumprir sua missão e chamar o povo à conversão, o profeta Jeremias foi recusado e traído por seus próprios irmãos.

A sorte ou o destino do profeta Jeremias que viveu seis séculos antes de Jesus é a mesma sorte, o mesmo destino de Jesus. Jesus é também perseguido por ser fiel à Palavra de Deus, por considerar a vontade de Deus como seu alimento (Jo 4,34). O cordeiro manso que o profeta Jeremias usa é imagem de Jesus que, como Cordeiro, morrerá para tirar o pecado do mundo (Jo 1,29). O profeta Jeremias aparece hoje como figura de Jesus, um justo perseguido por sua condição de profeta valente, que da parte de Deus anuncia e denuncia um povo que não quer ouvir sua palavra.

A imagem do “cordeiro” nos sugere a inocência dessa pequena vitima que não merece ser sacrificada. Essa imagem nos sugere a liturgia do Cordeiro pascal cujo sacrifício é útil para o povo inteiro.

Jeremias aparece hoje como figura de Jesus, um Justo perseguido por sua condição de profeta valente, que da parte de Deus anuncia e denuncia um povo que não quer ouvir a Palavra de Deus. Jesus é sinal de contradição (Cf. Lc 2,34): uns O aceitam, outros O recusam. Nestes dias para nós cristãos a figura mais impressionante é a de Jesus que caminha com decisão, ainda que com sofrimento, para o sacrifício da cruz. Jesus é perseguido, condenado a morte por aqueles que se escandalizam de sua mensagem. Será também “como manso cordeiro levado ao sacrifício”. Confia em Deus, o profeta Jeremias pede: “Eu te confiei a minha causa”. Jesus na Cruz grita: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espirito” (Lc 23,46). Mas Jesus mostra uma fortaleza e um estilo diferente. Jeremias pediu a Deus para vingar-se de seus inimigos. Jesus morre pedindo a Deus que perdoe seus executores (cf. Lc 23,34).

No profeta Jeremias descobrimos: consciência de sua situação, assunção de sua responsabilidade e missão, confiança no Senhor a Quem se deve totalmente, convicção de que ao final resplandecerá a luz da verdade apesar de qualquer tipo de dor no cumprimento da missão. Este é um bom caminho a seguir.

Quem É Jesus a Quem Sigo?

Ao ouvirem as palavras de Jesus, algumas pessoas diziam: ‘Este é, verdadeiramente, o Profeta’. Outros diziam: ‘Ele é o Messias’”.

No evangelho de hoje lemos como a pessoa de Jesus e sua maneira de viver provocam discussões e posturas diversas. A vida dos homens se decide de acordo com sua atitude vivencial com Jesus.

Uns dizem que é o Messias, outros dizem que é o profeta. Jesus é o sinal de contradição no mundo: divide os homens com Sua simples presença entre os homens (cf. Lc 2,34-35). Jesus continua sendo um mistério para seus contemporâneos. Porém suas obras pelo bem da humanidade ninguém pode negar. Jesus vive somente em função do bem e é perseguido e morto pelo bem que fez (cf. At 10,37-41).

Os escribas e os fariseus eram a mais alta autoridade doutrinal, os melhores especialistas em discussões sobre a Sagrada Escritura. Segundo eles, em Jesus não se cumprem todas as condições necessárias. Por isso, Ele não é o Messias, apesar das evidências. Segundo eles o Messias não vem da Galileia e sim de Belém (Jo 7,52).  Mas os fatos não negam, mesmo que alguém tente argumentar. Os fatos falam por si.

O pior cego é aquele que não reconhece a própria cegueira a fim de poder pedir a ajuda. Daí nós concluímos que a condição essencial para conhecer a Deus é a humildade. Há que saber renunciar aos nossos próprios pontos de vista, deixar-nos conduzir pela luz da sabedoria divina. A crença bíblica não basta para descobrir verdadeiramente quem é Deus em Jesus Cristo. A vida e seus acontecimentos são outra “sagrada Escritura” que Deus nos deixou para que leiamos cada dia uma página para saber o recado de Deus para nós e sobre nós. O conhecimento de Deus não é questão de intelectualidade. O Espírito é que nos sensibiliza para nos abrirmos à verdade de Deus, ao seu amor, à vida nova que Ele quer nos comunicar, à luz com que Ele quer iluminar nossa escuridão.

Nicodemos, o fariseu notável que pertencia ao círculo dos membros do Sinédrio (Sinédrio ou Sanhedrin era uma assembleia de juízes judeus que constituía a corte e legislativo supremos da antiga Isarael) e que havia visitado Jesus de noite (Jo 3,1-21), mostra sua preocupação pela justiça: “Será que a nossa Lei julga alguém, antes de ouvi-lo e saber o que ele fez?. Ele pensa que a Lei deve ser usada como instrumento de justiça. No entanto, ele é reprovado pelos colegas ao chamá-lo de “galileu” (chamar alguém de “galileu” na época era um palavrão): “Também tu és galileu, porventura? Vai estudar e verás que da Galileia não surge profeta”. No lugar de responder Nicodemos, eles o insultam, tratando-o como um ignorante. Para eles, segundo a Lei na qual eles se apoiam e não em Deus, profetas jamais sairiam da Galileia, enquanto que Deus sopra para onde quer e através de qualquer pessoa e em qualquer lugar. Basta cada um ficar atento para captar a passagem de Deus em cada momento na vida de qualquer homem.

Será que a nossa Lei julga alguém, antes de ouvi-lo e saber o que ele fez?”. Esta frase nos convida a refletirmos profundamente sobre nosso comportamento ou nosso julgamento em relação aos outros.  Jamais podemos falar além daquilo que vemos e daquilo que sabemos, pois cairemos na invenção dos fatos e no julgamento sem fundamento e faremos aquele que julgamos sofrer injustamente. Não podemos julgar qualquer pessoa apressadamente. É preciso sabermos ouvir e conhecermos a pessoa e suas obras. Não podemos nos deixar guiar por nossos motivos egoístas e interesseiros. Lembremo-nos de que a palavra é poderosa e por isso é perigosa. Uma vez pronunciada, a palavra não tem volta. Se feriu, a ferida fica. Se curou, a pessoa fica livre de sua prisão. Não podemos falar o que pensamos, mas temos que pensar bastante sobre tudo que vamos falar. O silêncio dá conteúdo para nossas palavras. Temos que silenciar nossa boca, para o intelecto ter vez em escolher palavras certas para momentos certos a fim de não ferir gratuitamente as pessoas.

Os escribas e os fariseus se sentem seguros na Lei a ponto de chamar “maldito” quem não conhece a Lei. Em nome desta Lei, eles vão crucificar e matar Jesus Cristo. Nas mãos dos escribas e dos fariseus a Lei não é um instrumento de justiça e sim de vingança. Eles confundem o conhecimento da Lei com o conhecimento de Deus. Para eles, os que estão fora da Lei são considerados desviados, malditos. Mas na verdade, os próprios fariseus e os escribas estão fora do conhecimento de Deus. Conhecer Jesus consiste em se preocupar com o bem do homem e sua salvação. Quem não se preocupa com o bem do homem e com a sua salvação, ele se separa de Deus, o Pai, que quer a vida para todos os homens, seus filhos.

Os simples têm, ao contrário, facilidade de captar a mensagem de Jesus e de considerar Jesus como Messias ou Profeta: “Este é, verdadeiramente, o Profeta. Ele é o Messias”. Jesus dirá mais tarde: “Minhas ovelhas escutam minha voz”. Escutar” e “crer” são quase sinônimos no evangelho de João.

A condição essencial para conhecer Deus é a humildade e a simplicidade. A simplicidade é a condição fundamental para conhecer o projeto de Jesus sobre o homem. Há que saber desprender-se de si mesmo, renunciar a seus próprios pontos de vista, de suas “regrinhas” (como os escribas e os fariseus presos na própria Lei que acabam não conhecendo o verdadeiro Deus) e deixar-se conduzir pelo Espírito divino.

Encontrar o sentido da vida é independente da idade, do sexo, da capacidade intelectual e do grau de instrução da pessoa, pois a vida é simples. Nós é que não sabemos nos comportar diante desse dom de Deus. Em Jesus encontramos o sentido, pois Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida. Por causa de Jesus milhares de homens mudaram de vida, abandonaram seus hábitos negativos. Por causa dele muitos dedicam sua vida para o bem do próximo. O modo de viver de Jesus em se preocupar com os pequenos, com os necessitados, com os excluídos, com os abandonados fascinam qualquer pessoa. Ele trabalha sem esperar nada de recompensa. Ele quer ver todo mundo na sua dignidade como um ser humano e acima de tudo, como filho e filha de Deus.

Deus permanece escondido atrás das aparências humanas. Cada um tem que descobrir esse Deus diariamente. Se dizes ‘já basta’, tu estás perdido; aumenta sempre, progride sempre, avança sempre, não te pares no caminho, não voltas para trás, não te desvies!” dizia Santo Agostinho.

Vale a pena cada um se perguntar: “Quem é Jesus para mim? O que significa ele na minha vida? Será que seus ensinamentos provocam uma profunda reflexão para mim? Será que ele ocupa o centro de minha vida? Será que escuto a voz de Jesus como meu pastor?” Eu me preocupo com a regra ou com o bem do homem e sua salvação? Será que eu uso também as regras para dominar os demais ou eu uso a caridade? Temos que caminhar com Jesus Cristo e fazer nossa sua salvação. Será que posso dizer que sou também uma vítima inocente no ambiente em que vivo? Eu me mantenho justo apesar das perseguições? Eu continuo praticando o bem apesar do ódio daqueles cujo negócio é afetado?

Percebemos das leituras de hoje que até para fazer o bem encontramos dificuldades, inclusive a violência da parte daqueles que defendem seus próprios interesses mesmo que sejam errados eticamente. Mas todo homem que sofre inocentemente e injustamente é uma imagem de Cristo sofredor. Todo sofrimento fruto da colaboração para salvar o mundo, para edificar a humanidade, para defender os sem voz e sem vez é o sofrimento do próprio Cristo. Todos esses sofredores estão no coração de Deus: “A vida dos justos está nas mãos de Deus, nenhum tormento os atingirá... Os que confiam em Deus compreenderão a verdade e os que são fieis permanecerão junto a ele no amor, pois graça e misericórdia são para seus santos e sua visita é para seus eleitos” (Sb 3,1.9). Será que estamos no coração de Deus?

P. Vitus Gustama,svd

23/03/2026- Segunda-feira Da V Semana Da Quaresma

MISERICÓRDIA DIVINA DIANTE DA MISÉRIA HUMANA Segunda-Feira Da V Semana Da Quaresma   I Leitura: Dn 13,1-9. 15-17.19-30.33-62 (ou Dn 13,...