quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Sexta-feira Da XXV Semana Comum, Ano Par, 25/09/2026

JESUS NOS INTERROGA SOBRE QUEM ELE É PARA NÓS

Sexta-Feira da XXV Semana

Primeira Leitura: Eclesiastes 3,1-11 (Ano Par)

1 Tudo tem seu tempo. Há um momento oportuno para tudo o que acontece debaixo do céu. 2 Tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de colher a planta. 3 Tempo de matar e tempo de salvar; tempo de destruir e tempo de construir. 4 Tempo de chorar e tempo de rir; tempo de lamentar e tempo de dançar. 5 Tempo de atirar pedras e tempo de as amontoar; tempo de abraçar e tempo de separar. 6 Tempo de buscar e tempo de perder; tempo de guardar e tempo de esbanjar. 7 Tempo de rasgar e tempo de costurar; tempo de calar e tempo de falar. 8 Tempo de amar e tempo de odiar; tempo de guerra e tempo de paz. 9 Que proveito tira o trabalhador de seu esforço? 10 Observei a tarefa que Deus impôs aos homens, para que nela se ocupassem. 11 As coisas que ele fez são todas boas no tempo oportuno. Além disso, ele dispôs que fossem permanentes; no entanto o homem jamais chega a conhecer o princípio e o fim da ação que Deus realiza.

Evangelho: Lc 9,18-22

Aconteceu que Jesus 18 estava rezando num lugar retirado, e os discípulos estavam com ele. Então Jesus perguntou-lhes: “Quem diz o povo que eu sou?” 19 Eles responderam: “Uns dizem que és João Batista; outros, que és Elias; mas outros acham que és algum dos antigos profetas que ressuscitou”. 20 Mas Jesus perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Pedro respondeu: “O Cristo de Deus”. 21 Mas Jesus proibiu-lhes severamente que contassem isso a alguém. 22 E acrescentou: “O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da Lei, deve ser morto e ressuscitar no terceiro dia”.

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Quem Não Valoriza o Tempo Que Sempre Passa Sem Volta, Enterra Muitas oportunidades

Tudo tem seu tempo. Há um momento oportuno para tudo o que acontece debaixo do céu”.

O autor do Eclesiastes reconhece que o sábio caminha na luz e o néscio na escuridão, no entanto ambos caminham para a morte, e isso iguala a todos, conforme foi dito na leitura do dia anterior. O Coélet se interessa pela sabedoria humana e por isso, investiga (Ecl 1,13s; 12,9ss). A parte importante da tarefa do sábio é prevenir a decepção paralisante. Contar com a morte é medida elementar da arte de viver bem (Ecl 7,1-2.4.12). O sábio é contar com o que se tem (neste caso uns quantos dias “de baixo do sol” cf. Ecl 9,9-10) e aprender a viver com isso.

Mas o Coélet sabe que existe algo como uma norma que exerce misteriosamente seu domínio sobre todos os acontecimentos: o tempo, como lemos na Primeira Leitura de hoje (Cf. Ecl 3,1-8.17). O Coélet afirma que cada coisa tem seu seu tempo e critério (Ecl 8,6). Consequentemente, o homem é chamado a aproveitar cada tempo que sempre foge do controle humano. O tempo passa e a idade sobe sem volta. Quem valoriza o tempo, ganha muitas oportunidades para ser produtivo. Quem não valorizar o tempo, vai enterrar muitas oportunidades.

O poema que lemos na Primeira Leitura leva em conta o tempo humano e que todos os momentos da existência  são compreendidos entre o nascimento e a morte (Ecl 3,2). Neste poema encontramos catorze conjuntos binários antitéticos  de uma serie de ações sem nenhuma ordem lógica, tomados da vida cotidiana.  São situações complementares, no entanto cada um tem seu próprio tempo. Cada conjunto binário  forma uma expressão bipolar, isto é, são citados os extremos opostos de uma realidade: Tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de colher a planta. Tempo de matar e tempo de salvar; tempo de destruir e tempo de construir. Tempo de chorar e tempo de rir; tempo de lamentar e tempo de dançar. Tempo de atirar pedras e tempo de as amontoar; tempo de abraçar e tempo de separar. Tempo de buscar e tempo de perder; tempo de guardar e tempo de esbanjar. Tempo de rasgar e tempo de costurar; tempo de calar e tempo de falar. Tempo de amar e tempo de odiar; tempo de guerra e tempo de paz (Ecl 3,2-8).

Nesta enumeração, são Jerônimo viu uma descrição da vaidade das coisas humanas: tudo é temporal e transitório. A intenção do autor do livro é, sem dúvida, demonstrar que os acontecimentos da vida humana dependem da Providencia divina e não da vontade humana. Por isso, é sempre prudente submeter-se docilmente aos desígnios de Deus que governa o universo na sua permanente providência.

O nascer e o morrer são acontecimentos mais importantes de nossa vida sobre os quais Deus vela misteriosamente. Um e outro tem seu momento assinalado por Deus. O homem nenhum é capaz de adiantar ou atrasar o momento, pois o tempo tem seu próprio curso.

Num povo agrícola como o hebreu, plantar e arrancar o que foi plantado é uma das ocupações mais frequentes. Deus, ao dispor as diversas estações, estabeleceu as condições atmosféricas que determinam o tempo no qual o homem deve levar a cabo as diferentes trabalhos do campo. Ações desagrdaveis, como ferir e, em consequência, curar; as mesmas obras em caminhadas a destruir e edificar estão dentro dos planos de Deus que em seus insondáveis desígnios permitiu as circunstancias que determinaram tais fatos. Em cada fato ou acontecimento sempre tem algum recado ou apelo de Deus. Basta o homem parar para decifrar o sentido de cada fato ou acontecimento através da meditação ou introspecção. Porque para Deus não existe a causalidade ou o ocaso. Tudo tem seu sentido.

A sabedoria de um cristão é feita, sobretudo, da Palavra de Cristo no Evangelho. Mas também pode tirar sensatez e sentido comum nas páginas do Antigo Testamento que não nos apresentam altas teologias e sim a sensibilidade de um crente que olha para Deus e, ao mesmo tempo, tem pés bem postos no chão.

Não devemos nos levar tão a sério. Ficaríamos mais felizes se olhássemos com humor o que fazemos, sem subir à altura quando estiver bem ou afundandar quando falharmos. Que não é um convite para o fatalismo ou não para o trabalho, mas para trabalhar com mais serenidade dentro e fora, sem nada que nos assuste. Se soubéssemos discernir, por exemplo, quando é hora de nascer e morrer, chorar ou rir, destruir ou construir, plantar e colher, as coisas seriam muito melhores nas opções pessoais e comunitárias. Tudo tem seu tempo. É importante saber distinguir o tempo para cada coisa. O homem tem que ter certeza de que uma ação sucederá sua ação oposta, mas ele não é dono do instante para alterar cada situação, pois cada coisa ou acontecimento tem seu tempo. O escritor libanês, Khalil Gibran escreveu: Quando estiverdes alegres, olha no fundo de vosso coração, e achareis que o que vos deu tristeza é aquilo mesmo que vos está dando alegria. E quando estiverdes tristes, olhai novamente no vosso coração e vereis que, na verdade, estais chorando por aquilo mesmo que construiu vosso deleite(veja o livro: O Profeta).

As coisas têm seu tempo. Uma vez transcorrido este tempo elas desparecem e deixam lugar necessariamente a outras. Algumas, por sua própria natureza, são chamadas de acordo com um ritmo e periodicidade inevitáveis.

O homem se separa em todo momento e dolorasamente do presente, mas esta necessidade não é puramente negativa. Revela, ao contrário, que a oneração do homem no tempo mortifica nele uma exigência espiritual de seu “ego” mais profundo.

Certamente, o homem está sujeito à mobilidade universal e cada uma de suas ações é arrastada pelo fluxo da história, mas o fato de sentir essa extrema mobilidade como uma dor prova que ele é feito para uma possessão eterna e imutável de si mesmo e das coisas. O tempo tem, pois, um sentido, um significado que não lhe chega do exterior e sim de si mesmo. Mas, do ponto de vista cristão, sua condição provisional através da consciência da morte leva o homem a participar do mistério pascal de Cristo.

Portanto, o tempo tem um sentido, mas não em si mesmo e sim em Deus, na eternidade de Deus. No entanto, não se trata de buscar o sentido do tempo somente no mais além e no depois desta vida, como se fosse necessário refugiar-se no céu e fugir do temporal para descobrir o sentido do eterno. A eternidade já começou; é concomitante com o tempo. HOJE se desenvolve a eternidade, está imerso nela. Cada minuto tem uma densidade eterna em Deus

Estar com Deus em cada instante significa submeter-se à Provdencia divina que dá sentido para cada coisa ou acontecimento de nossa vida. E não nos esqueçamos que há Alguém que caminha conosco e que com sua ajuda, impulsiona nossa vida e, que, mesmo sendo Verdadeiro Deus, é homem verdadeiro igual a nós: Cristo Jesus. Com Ele que é o próprio Caminho (Jo 14,6) chegaremos à Casa Paterna que é nossa Casa comum: o Céu. Ao mesmo tempo, nós que cremos em Cristo, devemos pôr nossa vida nas mãos do Senhor para que fortalecidos por Sua Graça e à luz do Espirito Santo, que habita em nós (1Cor 3,16-17), possamos colaborar para levar adiante sua obra salvadora. Não fujamos de nossa resonsabilidade como cristãos, não queiramos viver covardemente escondidos do mundo e de nossa missão. É preciso conhecer quem é Jesus para nós como exige o Evangelho deste dia.

Quem É Jesus Para Mim e Quem Sou Eu Para Jesus, e O Que Devo Fazer Como Cristão?

O evangelista Lucas volta ao tema do evangelho do dia anterior sobre a identidade de Jesus (cf. Lc 9,7-9). No texto do evangelho do dia anterior o interessado por saber quem era Jesus foi Herodes Antipas, filho do rei Herodes, o Grande. No texto do evangelho de hoje é o próprio Jesus quem dirige a pergunta a seus discípulos. Quem é Jesus para as pessoas em geral e quem é Jesus para os próprios discípulos?

A resposta do povo é múltipla: Elias, João Batista, um profeta que ressuscitou. Segundo os discípulos Jesus é o Messias. “Messias” é palavra hebraica que é em grego “Christos” que significa “Ungido”. Jesus é o Ungido de Deus, ou seja, Aquele sobre quem Deus derramou seu Espírito, ungindo-o com Sua força para que leve a cabo uma missão. Jesus está totalmente aberto à vontade de Deus a ponto de o Espírito divino repousar sobre Ele (cf. Lc 3,21-22; Mt 3,16-17) e se deixa guiar completamente pelo mesmo Espírito (cf. Mc 1,12).

Mas que tipo de Messias Jesus é? Estamos aqui no centro da fé: crer em um Messias que será crucificado. A cruz de Jesus não é um incidente e sim uma conseqüência. A presença de Deus se manifesta no caminho da cruz, isto é, na entrega de si mesmo, na recusa de toda imposição, no amor que aceita ser contradito e aparentemente derrotado: É necessário o Filho do Homem sofrer muito e ser rejeitado pelos anciãos, sumos sacerdotes e escribas, ser morto e, no terceiro dia, ressuscitar”.

Mas a cruz de Jesus é saborosa, pois trata-se de uma vida vivida até o fim por amor aos homens como manifestação do amor a Deus (cf. Jo 3,16). Por isso, na sua cruz vemos com clareza o amor de Deus por cada um de nós. Deus encarnado é capaz de tudo, até o impossível, pois cada um tem um valor incalculável diante de Deus. Por você e por mim Deus se encarnou em Jesus e por amor a nós todos Jesus aceitou ser crucificado (cf. Mt 8,17; Jo 3,16). O caminho do amor é o caminho que nos leva à salvação. Fora do amor não há a salvação independentemente de nossas práticas religiosas. Por este caminho (amor) não há outro caminho para chegar até Deus que é Amor por excelência (1Jo 4,8.16).

O amor transforma tudo. Com amor levamos a carga sem carga, pois o amor torna tudo leve. O amor faz doce e saboroso o que é amargo. O amor nobre de Jesus nos impulsiona a desejar sempre o mais perfeito e a fazer o bem para todos. O amor não é detido por qualquer coisa deste mundo. O amor quer ser livre. Não há nada que seja mais doce, mais forte, mais alto, mais alegre, mais humano e mais divino do que o amor, pois o amor nasce de Deus, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). O amor sempre vela, e dormindo não se dorme; fatigado, não se cansa; angustiado, não se angustia; espantado, não se espanta; é forte na sua fraqueza.

A pergunta de Jesus é repetida para nós em todos os momentos: “Quem é Jesus para nós?”. Não se trata de uma pergunta supérflua. É claro que “sabemos” já quem é Jesus. Não somente cremos em Jesus como o Filho de Deus e Salvador da humanidade, mas queremos segui-Lo com fidelidade na vida de cada dia. Mas temos que refrescar ou renovar com freqüência esta convicção, pensando se realmente nossa vida está orientada para Ele, se nossas opções de cada dia estão de acordo com seus critérios e seus ensinamentos. Quem é Jesus para mim agora, nesta etapa concreta da vida que estou vivendo? Não podemos responder a esta pergunta com palavras magistrais nascidas do estudo. Nossa resposta deve ser muito simples, nascida da vida de cada dia com o próprio Senhor. Jesus não pede uma opinião e sim uma opção, não pede uma teoria, e sim uma confissão, não pede um discurso e sim uma tomada de posição. Porque a fé é relação, reconhecimento, confissão, opção radical e posição na vida.

O segundo ponto que Lucas quer nos transmitir através do texto do evangelho de hoje é a importância da oração. Lucas nos mostra Cristo em oração toda vez que ele toma uma decisão importante ou quando se compromete em uma etapa de sua missão (Lc 3,21; 6,12; 9,29; 11,1; 22,31-39). Lucas é o único evangelista que menciona a oração de Cristo antes de obter a profissão de fé nos seus e de anunciar-lhes sua Paixão. Assim cabe pensar, como em cada uma das demais circunstâncias mencionadas por Lucas, que Jesus reza pelo cumprimento de sua missão cujos contornos ele não vê mais que na obscuridade. Através da oração vemos a realidade da humanidade de Jesus. “Para ser um bom orador é necessário ser um bom orante”, dizia Santo Agostinho (De doc. christ. 4,15,32).

Se a oração de Jesus demonstra a realidade de sua humanidade, não deixa de ser um sinal de sua divindade. Que Jesus pode reunir em sua oração a profundidade de sua pessoa, onde se estabelece sua vocação como o Ungido de Deus, é o indício de que dispõe do Espírito do Pai. Com feito, a oração não é um discurso que se dirige a Deus como um objeto e sim ter Deus por sujeito que conhece a profundidade de nosso ser. Não podemos alcançar esta profundidade sem a ajuda do Santo Espírito (cf. Rm 8,26-27). Do ponto de vista humano podemos dizer que somente aquele que reza profundamente é que reconhece os próprios limites e fraquezas, pois diante de Deus tudo fica iluminado. Rezar é deixar Deus iluminar nossa vida e nossas decisões de cada dia. Com efeito, sem oração a vida se torna escura. Quem não reza, obscurece a própria vida. A história de nossa oração é a história de nossa vida, pois na oração contamos para Deus tudo o que acontece na nossa vida embora Ele saiba de tudo. Erraremos o caminho se pararmos de orar, pois Deus é a Luz de nossa vida (Jo 8,12).

Mas para vós, quem sou Eu?”. A pergunta sobre Jesus é a pergunta sobre nós mesmos. É uma pergunta fundamental, porque implica a nossa própria identidade cristã. Jesus agora não pede uma opinião, mas uma opção; não uma teoria, mas uma confissão; não uma conclusão de um discurso, mas uma tomada de posição, porque a questão: “O que significa seguir a Jesus” não pode ser separada da questão sobre a identidade de Jesus: “Quem é Jesus (para mim)?” A resposta do povo já não serve. A pergunta exige uma resposta sem meias-palavras. A pergunta exige uma tomada de posição. Estar com Jesus em pessoa não era suficiente. Ter o conhecimento da multidão não era suficiente. É necessário que seja Deus quem nos revele a cada um o conhecimento da verdadeira identidade de Jesus.

Jesus continua dirigindo esta pergunta à Igreja e aos cristãos de todos os tempos. Todos são chamados a não contentar-se com uma opinião, uma teoria, um curso, uma pesquisa ou uma doutrina a respeito de Jesus, por nova e moderna que ela seja. Podemos até perguntar se temos realmente consciência da importância e da seriedade de nossa fé no Deus que Jesus Cristo nos revelou.

P. Vitus Gustama,svd

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Quinta-feira Da XXV Semana Comum, Ano Par, 24/09/2026

O HOMEM QUE INTERROGA SOBRE JESUS INTERROGA A PRÓPRIA VIDA

Quinta-Feira da XXV Semana Comum

Primeira Leitura: Eclesiastes 1,2-11 (Ano Par)

2 “Vaidade das vaidades, diz o Eclesiastes, vaidade das vaidades! Tudo é vaidade”. 3 Que proveito tira o homem de todo o trabalho com o qual se afadiga debaixo do sol? 4 Uma geração passa, outra lhe sucede, enquanto a terra permanece sempre a mesma. 5 O sol se levanta, o sol se deita, apressando-se para voltar a seu lugar, donde novamente torna a levantar-se. 6 Dirigindo-se para o sul e voltando para o norte, ora para cá, ora para lá, vai soprando o vento, para retomar novamente o seu curso. 7 Todos os rios correm para o mar, e contudo o mar não transborda; voltam ao lugar de onde saíram para tornarem a correr. 8 Tudo é penoso, difícil para o homem explicar. A vista não se cansa de ver, nem o ouvido se farta de ouvir. 9 O que foi será; o que aconteceu, acontecerá: 10 não há nada de novo debaixo do sol. Uma coisa da qual se diz: “Eis aqui algo de novo”, também esta já existiu nos séculos que nos precederam. 11 Não há memória do que aconteceu no passado, nem também haverá lembrança do que acontecer, entre aqueles que viverão depois.

Evangelho: Lc 9, 7-9

Naquele tempo, 7 o tetrarca Herodes ouviu falar de tudo o que estava acontecendo, e ficou perplexo, porque alguns diziam que João Batista tinha ressuscitado dos mortos. 8 Outros diziam que Elias tinha aparecido; outros ainda, que um dos antigos profetas tinha ressuscitado. 9 Então Hero­des disse: “Eu mandei degolar João. Quem é esse homem, sobre quem ouço falar essas coisas?” E procurava ver Jesus.

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Viver Com Sentido e Fazer As Coisas a Partir Do Seu Sentido

Vaidade das vaidades! Tudo é vaidade. Que proveito tira o homem de todo o trabalho com o qual se afadiga debaixo do sol? Uma geração passa, outra lhe sucede, enquanto a terra permanece sempre a mesma”.

Nestes dias vamos ler e meditar (nas Primeiras Leituras semanais) sobre alguns textos do outro livro dos Livros sapienciais: Eclesiastes ou Coélet (Qohelet). A partir dos indícios linguísticos e sociocultural, a maioria dos especialistas concluiu que o livro foi composto em torno do século III antes de Cristo, na época do processo de helinazação da Palestina.

O nome Eclesiastes é a forma latinizada do grego Ekklesiastés, que traduz o título hebraico Coélet (Qohelet), nome atribuído ao suposto autor do livro (Ecl 1,1.12; 2,27; 12,8.9.10). Em hebraico a palavra “Coélet” (pregador) é do verbo qhl que significa reunir em assembleia, convocar. O substantivo é qahal (assembleia). Mas não se diz quem convoca ou dirige uma assembleia, também nem se fala sobre tipo de assembleia (religiosa, política, profissional, e assim por diante). Mas conforme o próprio livro, pode-se dizer que trata-se de uma escola sapiencial (Cf. Ecl 12,9). Coélet, o autor do livro, era judeu, conhecedor das tradições culturais e religiosas de seu povo e sensível às correntes internacionais.

Vaidade das vaidades! Tudo é vaidade. Que proveito tira o homem de todo o trabalho com o qual se afadiga debaixo do sol? Uma geração passa, outra lhe sucede, enquanto a terra permanece sempre a mesma, assim começa o livro.

Vaidade das vaidades! Tudo é vaidade”. A palavra vaidade vem do latim vanitas, vanitatis, que significa “vazio”, “oco” ou “vacuidade. “Vanitas” deriva de “vanus” que significa “ocioso”, “vazio” ou “sem valor”. É algo ilusório e sem substância real. É futilidade.

Coélet pretende fazer, em primeiro lugar, um exame empírico-discursivo da existência: a criação, as atividades e a história do homem, e o ser humano em si. A primeira coisa que observa, e que lhe causa o impacto é o vaivém da criação e de todo o humano. Nada é permanente: nem no mundo da natureza, nem no mundo dos assuntos humanos. Tudo é passageiro, provisional, porque em qualquer momento a morte pode intervir para demonstrar a frágil armação que é a vida e os projetos de um ser humano. Para o Coélet a morte é o critério de valorização em todos os planos: diante da morte relativizam-se valores materiais e espirituais, pessoais e sociais. A morte nivela o esforço e o ócio, o riso e o pranto, a justiça e a injustiça, a sabedoria e a necessidade, o bem e o mal (Ecl 9,2-3). Diante da morte todo mundo se nivela. Alguns autores pensam que é o tema central do livro seria a inevitabilidade da morte. Segundo os outros, o escândalo maior é que todos têm que morrer, tanto o justo como o malvado. Os que se acham poderosos, os corruptos, os ladrões, os maus, os malvados, os mentirosos, etc. também se envelhecem e morrem como qualquer outra pessoa.

Não podendo encontrar nenhum significado duradouro, verdadeiramente sólido na vida, especialmente devido à morte que vicia tudo e todos, e põe fim a toda empresa ou obra humana (ou pelo menos põe em risco), Coélet conclui  que tudo é vaidade. Este termo “vaidade”, pela frequência de seu uso é uma das chaves da leitura do livro Eclesiastes. Além disso, o lema “vaidade das vaidades; tudo é vaidade” utiliza a forma superlativa do vocábulo, faz uma afirmação universal, e enquadra o livro como síntese de sua mensagem (Ecl 1,2; 12,8).

A morte deixa descoberto o lado caduco das coisas, sua incongruência e sua vaidade. Não se questiona a possibilidade do êxito ou do prazer na vida (enriqueceu-se, alcançou fama, se tornou sábio etc.) e sim o sentido de todo este afã diante da morte, pelo qual alguém perde tudo que acumulou na vida materialmente (Cf. Ecl 1,12.18-21).

A razão de viver ou o sentido da vida é uma das questões mais profundas e reiterativas que os seres humanos fizeram ao longo dos séculos. Correlatos desta questão é o esforço, vão muitas vezes, de conhecer os eventos futuros da história, e até mesmo o que acontecerá além da existência terrena. A questão da razão de ser não é uma preocupação filosófica, mas corresponde ao desejo de viver com dignidade em face de desafios conflitantes, sejam eles econômicos, culturais, sociais ou políticos até religiosos.

Nossa verdadeira vida não está sedenta de fama, conforto, propriedade ou poder. Porque podemos alcançar todos os itens de nossa lista de desejos, e ainda assim nos sentimos vazios. Podemos ter atingido o ápice de nossa profissão ou carreira, e mesmo assim sentimos que nos falta alguma coisa. O dinheiro e o poder ou a fama não satisfazem aquela fome sem nome que temos na alma. Nossa alma tem fome do significado da vida, ou de aprendermos a viver de tal forma que nossa existência tenha importância ou valor, capaz de modificar o mundo ao menos um pouquinho pela nossa passagem por ele. O que nos frustra e rouba a alegria de nossa vida é esta ausência de significado.

Para nós cristãos, “Temos tudo em Cristo. Que toda alma chegue a ele, seja a que está doente dos pecados do corpo, seja a que foi virada pelos pregos de algum desejo deste século, seja ainda a imperfeita, contanto que progrida numa meditação perseverante, seja a perfeita em múltiplas virtudes: estas todas dizem respeito ao poder do Senhor, e Cristo é tudo para nós. Se queres curar tua ferida, ele é médico; se queimas de febre, ele é a fonte; se és acusado de iniquidade, ele é a justiça; se necessitas de socorro, ele é a fortaleza; se temes a morte, ele é a vida; se desejas o céu, ele é o caminho para lá; se foges das trevas, ele é a luz; se procuras sustento, ele é o alimento. ‘Provai e vede como ele é bom. Feliz o homem que tem nele o seu refúgio!’[Sl 34,9]”(Santo Ambrósio de Milão, + 397).

“Uma geração passa, outra lhe sucede, enquanto a terra permanece sempre a mesma, disse Coélet. O único que não passa é Deus que para nós Ele é Emanuel, Deus-Conosco. Por isso, o Salmo Responsorial de hoje (Sl 89/90) nos diz: Vós fazeis voltar ao pó todo mortal, quando dizeis: ‘Voltai ao pó, filhos de Adão!’ Pois mil anos para vós são como ontem, qual vigília de uma noite que passou. Eles passam como o sono da manhã, são iguais à erva verde pelos campos: De manhã ela floresce vicejante, mas à tarde é cortada e logo seca. Ensinai-nos a contar os nossos dias, e dai ao nosso coração sabedoria!”.

Precisamos viver na novidade do amor incondicional de Deus que nos faz avançar para a realização do homem perfeito, o homem que habitam no seu coração a sabedoria e o amor.

A Palavra De Nos Interpela Permanentemente

O modo de viver de Jesus, os valores que ele vive e prega, a igual maneira de ele tratar as pessoas, sua preocupação com a vida do povo em geral e de cada pessoa em particular, sua independência perante a lei religiosa, sua compaixão pelo povo abandonado pelas autoridades chamam muito atenção de todos, especialmente das autoridades. Por se preocupar com a vida do povo, a presença de Jesus se torna uma censura viva para as autoridades que só pensam em sua própria vida e em seu próprio poder. Herodes Antipas, tetrarca da Galiléia, uma das autoridades, ficou perturbado com  a fama de Jesus.

O texto do evangelho de hoje se abre com a palavra “ouvir” e termina com a palavra “ver”. “O tetrarca Herodes ouviu falar de tudo o que estava acontecendo. .... E procurava ver Jesus”. “Ouvir e ver” são os dois termos que contêm toda a experiência de fé que o evangelista Lucas propõe para nós. Por meio da escuta chega-se a conhecer quem é Jesus para associar-se a Ele e vê-lo na sua viagem a Jerusalém onde Ele será cruicicado e morto, e ressuscitado em direção ao Pai. Em Herodes há um escutar que não entende e um olhar que não vê (Lc 8,10).

Curiosamente, a pergunta de Herodes sobre Jesus surge entre o relato da missão dos Doze e o da multiplicação dos pães. Herodes se pergunta: Eu degolei João. Quem é, pois, este, de quem ouço tais coisas? E procurava ocasião de vê-lo”.

A pergunta de Herodes tem outra profundidade, efetivamente, coincide com a pergunta de todos os que se sentem interpelados pela pessoa e pelo modo de viver de Jesus e pelo testemunho dos discípulos. Herodes Antipas estava cheio de curiosidades porque no meio do povo se falava muito de Jesus, se contava mil coisas sobre Ele, dos seus lábios saiam palavras com poder e autoridade, se contavam fatos extraordinários como os milagres realizados por Ele. Herodes que estava no poder queria ver esse individuo tão “exótico” numa Galiléia tão provinciana. Seu pai, Herodes, o Grande, tinha a curiosidade de conhecer Jesus - menino, rei recém-nascido, mas com o intuito de eliminá-lo (cf. Mt 2,1-23). Uma das maneiras de falar de Deus e com Deus é a “voz de nossa consciência”. Herodes não tinha sua consciência tranqüila: uma voz do fundo de si mesmo lhe recordava seu pecado, sua maldade. Por isso, fica inquieto.

A sabedoria popular diz que há curiosidades maldosas, tais como as de Herodes,... quando permitem abusar de um poder ou de um interesse que elas atribuíram injustamente; quando alimentam o escândalo que elas mesmas exploram ou inventaram. Herodes queria ver Jesus para colocá-lo em sua Corte.

Mas se há curiosidades maldosas, precisamos estar conscientes de que a curiosidade também é o primeiro passo para o encontro e para a fé. O assombro, a surpresa, a provocação são o pórtico que nos introduz no descobrimento dos labirintos da casa e que nos inicia no mistério de uma morada.

A curiosidade é boa, pois ela desperta à vida. Uma criança vive na permanente curiosidade, e pergunta constantemente, pois ela quer saber mais e mais. Para ela o mundo está cheio de surpresas. O sentido da vida consiste em interrogar, em ser interrogado e em se interrogar. Curiosidade é sinônimo de descobrimento; é tensão até um objeto entrevisto ou desejado.

Ao lado da curiosidade há dúvida. A dúvida é o estado de equilíbrio entre afirmação e negação. Quem tem dúvida fica impedido de afirmar ou de negar por falta de dados nas mãos. A dúvida nos empurra para procurar fundamentos para podermos afirmar ou negar ou para podermos ter certeza daquilo que nos faz duvidosos. A incredulidade é, ao contrário, uma ausência da crença. 

Herodes sentiu a curiosidade de querer ver Jesus. Mas com qual finalidade de ele querer ver Jesus? Para armar alguma cilada? Para ouvir da própria boca de Jesus de tudo que o povo fala e comenta? Para pedir de Jesus algum milagre ou alguma ajuda para o povo? Para desacreditá-Lo diante do povo? O texto não fala e por isso, não sabemos. Ele só terá oportunidade de ver Jesus na sua Paixão. Mas Jesus se manterá calado diante de Herodes, pois Herodes agirá de má-fé. Diante do silêncio de Jesus Herodes morrerá, um dia, sem saber quem é Jesus.

Será que nós, chamados de cristãos, ainda sentimos curiosidade por Jesus? Será que já descobrimos esse Jesus na sua profundidade? Será que conhecemos realmente esse Jesus? Será que somente confessamos em Jesus nas definições sem alma e reconhecê-lo nos dogmas frios e secos? Será que paramos de ter curiosidade sobre a pessoa e o modo de viver de Jesus a fim de purificar nossa vida já que somos chamados de cristãos? Podemos ter certeza de que a Palavra de Deus, os ensinamentos de Jesus nos interpelam todas vez que os lermos e meditarmos ou ouvirmos pregação ou retiro a respeito de Jesus.

Dentro deste contexto, podemos dizer que a fé é curiosidade permanente, isto é, assombro que compromete a arriscar-se na aventura, num encontro entrevisto e, em conseqüência, desejado. A fé é curiosidade, de forma que a dúvida lhe é indispensável. Por isso, somente na coragem de fazer uma aventura cheia de riscos é que chegaremos à resposta desejada para afirmar ou negar nossa dúvida. A incerteza e a incompreensão pertencem ao terreno de nossa fé como o oco que espera ser preenchido, como a espera que aguarda o encontro, como a fome que se alimenta com o que pode satisfazê-la.

A pergunta continua fica no ar para cada cristão: “Será que você ainda tem curiosidade de Jesus? Que curiosidade você tem de Jesus?”. Tenho medo de que quando a curiosidade sobre Jesus morrer, morrerá também nossa fé. O evangelho que não mais nos incomoda deixa de ser evangelho. A Palavra de Deus que não nos interroga deixa de ser a Palavra de Deus.

Quem é esse home, sobre quem ouço falar essas coisas?” E procurava ver Jesus. Somente são os que se aproximarem de Jesus com simplicidade e com um coração puro conseguirão entender gradualmente a identidade de Jesus que tem uma missão salvadora. São muitos as pessoas: jovens e adultos que também em nossa geração desejam ver Jesus. Fisicamente Jesus não está neste mundo. Somos nós o prolongamento de Cristo, pois livremente escolhemos ser cristãos. Temos, então, a missão de dar testemunho, com nossa vida e palavra de que Jesus é a resposta plena de Deus para todas as nossas buscas. Se no mundo não se vê mais Jesus Cristo é porque não se vê mais na vida de cada cristão. Talvez as seguintes palavras de São Paulo possam nos despertar para que voltemos a viver os ensinamentos de Cristo na nossa vida e nos nossos negócios: “Vós sois uma carta de Cristo... escrita não com tinta, mas com o Espírito de Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, em vossos corações(2Cor 3,3). “Somos para Deus o perfume de Cristo entre os que se salvam e entre os que se perdem” (2Cor 2,15).

P. Vitus Gustama,svd

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Quarta-feira Da XXV Semana Comum, Ano Par, 23/09/2026

SER BATIZADO É SER ENVIADO DO SENHOR PARA LIBERTAR OS OUTROS

Quarta-Feira da XXV Semana

Primeira Leitura: Provérbios 30,5-9 (Ano Par)

5 A Palavra de Deus é comprovada. Ele é um escudo para os que nele se abrigam. 6 Não acrescentes nada às suas palavras, para que ele não te repreenda e passes por mentiroso! 7 Duas coisas eu te pedi; não mais recuses, antes de eu morrer: 8 afasta de mim a falsidade e a mentira, não me dês pobreza nem riqueza, mas concede-me o pão que me é necessário. 9 Não aconteça que, saciado, eu te renegue e diga: “quem é o Senhor?” Ou que, empobrecido, eu me ponha a roubar e profane o nome de meu Deus.

Evangelho: Lc 9,1-6

Naquele tempo, 1 Jesus convocou os Doze, deu-lhes poder e autoridade sobre todos os demônios e para curar doenças, 2 e enviou-os a proclamar o Reino de Deus e a curar os enfermos. 3 E disse-lhes: “Não leveis nada para o caminho: nem cajado nem sacola nem pão nem dinheiro nem mesmo duas túnicas. 4 Em qualquer casa onde entrardes, ficai aí; e daí é que partireis de novo. 5 Todos aqueles que não vos acolherem, ao sairdes daquela cidade, sacudi a poeira dos vossos pés, como protesto contra eles”. 6 Os discípulos partiram e percorriam os povoados, anunciando a Boa Nova e fazendo curas em todos os lugares.

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A Palavra De Deus É Nosso Tesouro e Nosso Escudo.

“A Palavra de Deus é comprovada. Ele é um escudo para os que nele se abrigam. Não acrescentes nada às suas palavras, para que ele não te repreenda e passes por mentiroso!”.

Terminamos hoje a leitura do livro dos Provérbios. Os últimos pensamentos deste livro que lemos hoje se baseiam  também no valor da Palavra de Deus, que é nosso melhor tesouro e escudo: “A Palavra de Deus é comprovada. Ele é um escudo para os que nele se abrigam. Não acrescentes nada às suas palavras, para que ele não te repreenda e passes por mentiroso!”. A Palavra escutada e colocada na prática vai nos conduzindo na vida e vai conformando nossa vontade à vontade de Deus. Como tesouro e escudo, a Palavra de Deus não nos deixa enganar por outras palavras que manipulam e desorientam nossa vida.

A Palavra de Deus continuará a ser eficaz, curadora, e libertadora, se nós soubermos ouvi-la atentamente e vivê-la na nossa vida cotidiana. Se ela curou tantas pessoas, converteu tantos pecadores, libertou tantas pessoas de seus problemas, guiou a vida de tantos homens, transformou muitos em santos e mártires, esta mesma Palavra continua tendo o mesmo poder e a mesma eficácia. A palavra humana pode errar e enganar, porque o homem é fraco. Mas a Palavra de Deus não erra nem engana. A Palavra de Deus é firme para sustentar a vida de quem nela se agarra e por ela se orienta.

Ler a Bíblia é aprender a conhecer o coração de Deus mediante Suas palavras” (Gregório Magno). E coração de Deus é um coração cheio de amor misericordioso. Certamente, da primeira até a última página da Bíblia conta-se a história do amor de Deus pela humanidade. “Toda a Bíblia nada mais do que narrar o amor de Deus” (Santo Agostinho). O amor de Deus é a ultima resposta para todos os “porquês” da Bíblia: por que a criação, por que a encarnação, por que a redenção. Tudo o que Deus faz e fala na Bíblia é amor. Deus move o mundo enquanto é amado, isto é, enquanto é objeto de amor e causa final de todas as criaturas. Deus nos ama e acreditamos no Seu amor.

Mas será que acreditamos nela? Será que temos tempo para ler, meditar, e vivê-la? Será que deixamos que essa mesma Palavra opere na nossa vida?

Não acrescentes nada às suas palavras, para que ele não te repreenda e passes por mentiroso!”, acrescentou o sábio.

Não se deve falsificar a Palavra de Deus. Há muitos modos de falsificar a Palavra de Deus: escolher somente o que me agrada do Evangelho, acrescentar interpretações tão pessoais que acabam sendo uma simples justificativa para o injustificável. Quem tira o texto da Bíblia fora do contexto é o pretexto. Há que aceitar a Palavra de Deus como ela é e lê-la na sua totalidade.

Viver Segundo a Palavra De Deus É Viver O Necessário

“Não me dês pobreza nem riqueza, mas concede-me o pão que me é necessário. Não aconteça que, saciado, eu te renegue e diga: ‘quem é o Senhor?’ Ou que, empobrecido, eu me ponha a roubar e profane o nome de meu Deus”, acrescentou o sábio dos Provérbios.

Não me dês pobreza nem riqueza, mas concede-me o pão que me é necessário!”. A motivação é boa: quando se tem os bens materiais demasiadamente, Deus, o Criador dos bens materiais, será capaz de ser esquecido. Quando se vive na miséria, terá a tentação de maldizer Deus e começará a roubar ou furtar: “Não aconteça que, saciado, eu te renegue e diga: ‘quem é o Senhor?’ Ou que, empobrecido, eu me ponha a roubar e profane o nome de meu Deus.

A avareza ou a ganância é uma transposição do absoluto para o que é relativo. Para o avarento a riqueza não é um meio para se viver e sim a própria razão de ser da vida. Na avareza está oculta uma ofensa social, seja os bens lícitos, muito pior ainda se forem ilícitos na sua aquisição. Não é fácil conciliar a riqueza excessiva de alguns com os direitos que os outros têm ao necessário.

Não centremos nossa vida nos bens passageiros, nem os façamos nosso Deus. Usemos as coisas para amar as pessoas na partilha do que temos e somos, e não amemos as coisas usando as pessoas para adquirir os bens materiais que são passageiros. Somente assim não tiraremos do centro de nosso coração Deus, Criador de todas as coisas, nem os necessitados que precisam de nossa ajuda. Relativizar os bens materiais é a chave para adquirir o bem maior de Deus. É preciso acreditarmos no Deus das coisas e não somente nas coisas de Deus, esquecendo-nos do próprio Criador. Não coloquemos o ouro e a prata acima de Quem os criou (Deus). Tudo que se adquire aqui neste mundo materialmente, será deixado no lugar onde foi tirado: no mundo.

O que se enfatiza no Evangelho deste dia é a pobreza evangélica para todos os cristãos, no sentido de confiar totalmente em Deus. e todos são batizados para ser apóstolos do Senhor. Os cristãos-missionários, discípulos-missionários devem ser livres interiormente. Não devem buscar a si mesmo e sim dar exemplo de desapego e confiar na força intrínseca da Palavra de Deus que vivem e proclamam. Somos todos condutores da força salvadora da Palavra de Deus. Ser batizado é ser eleito do Senhor. E ser eleito do Senhor é ser missionário do Senhor.

Ser Cristão é Ser Missionário Do Senhor (discípulo-missionário)

O texto do evangelho deste dia fala da missão dos Doze Apóstolos de Jesus e, portanto, a missão de toda a Igreja, de todos os cristãos. Para esta missão Jesus não apenas chama os Doze, mas ele os convoca: “Jesus convocou os Doze...”. No seu sentido lexical “convocar” significa chamar para determinada reunião ou ato coletivo, ou mandar comparecer. Para um ato coletivo, ninguém pode ficar fora. Na coletividade está a força somada para alcançar com facilidade determinado objetivo ou meta comum.

Depois de uma longa temporada de formação e de instrução, Jesus convoca seus discípulos e os envia. A missão consiste na tarefa de libertar as pessoas de suas prisões para serem livres a fim de que possam desfrutar, novamente, sua dignidade de filhos e filhas de Deus.  Jesus “deu-lhes poder e autoridade sobre todos os demônios e para curar doenças...”. “Demônio” é algo que representa coisa maléfica. Doença representa tudo que leva alguém não desfrutar bem a vida. os Doze são enviados para superar tudo isso com o poder e a autoridade de Jesus. Eles continuarão a ter esse poder e essa autoridade na medida em que eles exercerem essa missão libertadora. Aqui o poder e a autoridade são sinônimos de serviço para libertar as pessoas e para dominar as forças maléficas e destruidoras da dignidade humana. Somente a partir dessa missão colocada em prática é que os Doze poderão despertar nas pessoas a consciência do próprio valor e honra, da autoridade e da nobreza. “O mérito do trabalho não está em sua dificuldade, mas no grau de caridade, de amor, de união com o Cristo, contido na alma daquele que age” (Simone Patris).

A missão confiada aos Doze também consiste em proclamar ou anunciar a Boa Nova: Jesus “enviou-os a proclamar o Reino de Deus e a curar os enfermos”.

A primeira tarefa na frase é o anúncio: “... enviou-os a proclamar o Reino de Deus”. A palavra grega para o anúncio é Kerygma: anúncio, mensagem ou proclamação feita com voz alta. O objetivo do anúncio é suscitar a fé em Jesus para aderir-se a Ele pessoalmente, pois Jesus Cristo é o Enviado do Pai pelo Espírito Santo e que por amor, se entrega para a salvação dos homens. Através do anúncio as pessoas são convidadas a fazer uma experiência de encontro com Cristo que dá novo significado à vida. “Cabe à Igreja o dever e també o direito sagrado de evangelizar todos os homens(Catecismo Da Igreja Católica, 848)

Anunciar não se restringe somente em proclamar e sim em curar os fracos, fortalecer os caídos e socorrer os necessitados. Trata-se de uma ação concreta sobre pessoas concretas que se encontram em determinada necessidade vital. Vale para nós a frase de são Francisco de Assis: “Pregue o Evangelho em todo o tempo. Se necessário, use palavras”. É um discurso acompanhado com ações concretas.

A missão pode se resumir em dois pontos precisos: um é uma palavra, uma proclamação, um anúncio; outro é um ato propriamente dito, uma cura/libertação. Além do anúncio, os evangelizadores devem ajudar as pessoas a saírem de sua prisões e de todo tipo de escravidão. O missionário não pode ficar contente apenas com “palavras”, mas são necessários “atos” concretos que mostram aos homens que estes contribuem para libertá-los do poder do mal: expulsar os demônios, curar os doentes. Mas o missionário não pode ficar contente com somente “atos”, é preciso que suas palavras explicitem o que faz: dizer que o Reino de Deus está atuando entre o povo. Toda a vida do cristão deve ser evangelizadora. Por isso, é bom cada cristão responder as seguintes perguntas: Estou consciente de que sou discípulo-missionário? Tenho lutado contra o mal que existe dentro de mim e ao meu redor? Tenho anunciado Jesus Cristo Salvador com minhas obras e com minhas palavras? “O trabalho deve ser concebido e vivido como vocação e missão, como tributo à civilização” (João XXIII).

Reflitamos sobre as palavras do Papa Francisco: Não podemos ficar encerrados na paróquia, nas nossas comunidades, quando há tanta gente esperando o Evangelho! Não se trata simplesmente de abrir a porta para acolher, mas de sair pela porta fora para procurar e encontrar. Decididamente pensemos a pastoral a partir da periferia, daqueles que estão mais afastados, daqueles que habitualmente não freqüentam a paróquia. Também eles são convidados para a Mesa do Senhor” (Homilia Na Missa Com Os Bispos – Catedral Metropolitana, Rio de Janeiro- Brasil, Sábado, 27 de julho de 2013).

Para exercer esta missão cada enviado, cada cristão deve ser revestido de a “pobreza evangélica”: “Não leveis nada para o caminho: nem cajado nem sacola nem pão nem dinheiro nem mesmo duas túnicas”.

As supostas seguranças para o dia-a-dia pesam para quem deve estar em movimento (missão). O apego aos bens materiais tira a fé na providencia divina que criou tudo para todos generosamente. Se o Deus em quem acredito tem poder de criar tudo, porque não posso acreditar na Sua providência? Vivem na fé e com fé não é tão fácil como falar da fé. A fé autentica exige para cada cristão a estar livre interiormente, sem demasiada bagagem. O cristão não busca a si mesmo e sim deve dar exemplo de desapego e deve confiar na força intrínseca da Palavra de Deus. O cristão deve estar despojado, ter um coração livre e desarmado. Somente aquele que se esvazia de si tem espaço para a graça de Deus. E quando uma pessoa estiver cheia da graça de Deus, como a mãe de Jesus, ele será uma bênção para os demais.

Não leveis nada para o caminho: nem cajado nem sacola nem pão nem dinheiro nem mesmo duas túnicas. Em qualquer casa onde entrardes, ficai aí; e daí é que partireis de novo”. A Igreja primitiva cuidava muito de manter esse ideal de pobreza real. A pobreza era para ela um sinal do Reino (Lc 6,20;14,25-33; 16,19-31; 18,18-30).

Toda vez que nos encontrarmos com essa exigência evangélica devemos nos interrogar, pois somos muito propensos a esquecê-la e a nos instalar no conforto e no bem-estar com o risco tremendo de nos contentar com esses bens materiais e nos falte a disponibilidade. Vale a pena fazer uma reflexão sobre as seguintes palavras do Papa Francisco na sua entrevista com Gerson Camarotti da Globo News durante a Jornada Mundial da Juventude de 2013 no Rio de Janeiro, Brasil: “Penso que temos que dar testemunho de uma certa simplicidade, eu diria, inclusive, de pobreza. Nosso povo exige a pobreza de nossos sacerdotes. ... O povo sente seu coração magoado quando nós, as pessoas consagradas, estamos apegadas ao dinheiro. Isso é ruim. E realmente não é um bom exemplo que um sacerdote tenha um carro último tipo, de marca” (Papa Francisco, Mensagens e Homilias- JMJ Rio 2013 , pp. 130-131. Ed. Conferência Nacional dos Bispos do Brasil).

A Igreja que somos nós todos, devemos servir de ponte entre Deus e a humanidade, deve servir de testemunha da simplicidade e do amor de Deus aos homens. A fé, que é a resposta humana ao convite de Deus deve ser refletida na terra em que vivemos e em que trabalhamos. Toda a atividade da Igreja ou de cada cristão deve ser dirigida para este fim: ser espelho do amor de Deus.

A imagem da Igreja, que somos nós todos, deve ser a imagem de uma realidade acolhedora e não excludente, deve ser a imagem de um “recinto” em que todos cabem porque todos são recebidos com amor. Neste sentido, toda a vida do cristão há de ser evangelizadora. Onde há amor, há espaço. Onde não há amor, há apenas um sufoco e agressividade e mútuo ataque.

Na Eucaristia celebramos o amor daquele que, conhecendo nossa fragilidade, faz suas nossas dores, carregou sobre si nossas misérias e nos curou com suas chagas (cf. Mt 8,17; Is 53,4). Ele se apresentou não como um Deus terrível que dá medo e sim com simplicidade de quem nos ama entranhavelmente e se aproxima de nós para se manifestar a nós como a Boa Notícia que o Pai misericordioso pronuncia a nosso favor.

Que Deus nos conceda a graça de viver confiados no amor de Deus, mas ao mesmo tempo, de viver fieis a todo aquilo que nos foi encomendado, especialmente proclamar seu Evangelho não somente com palavras, principalmente com obras, de tal forma que sejamos construtores de seu Reino neste mundo.

P. Vitus Gustama,svd

domingo, 20 de setembro de 2026

Terça-feira Da XXV Semana Comum, Ano Par, 22/09/2026

SER MEMBRO DA FAMÍLIA DE JESUS E VIVER DE ACORDO COM A PALAVRA DE DEUS É VIVER NA SABEDORIA

Terça-Feira da XXV Semana Comum

Primeira Leitura: Provérbios 21,1-6.10-13

1 O coração do rei nas mãos do Senhor é como água corrente; ele o dirige para onde quer. 2 O homem pensa que o seu caminho é sempre reto, mas é o Senhor quem sonda os corações. 3 Praticar a justiça e o direito é mais agradável ao Senhor do que os sacrifícios. 4 Olhar arrogante e coração orgulhoso, a lâmpada dos malvados não é senão o pecado. 5 Os projetos do homem aplicado produzem abundância, mas todos os apressados só alcançam indigência. 6 Tesouros adquiridos com língua mentirosa são ilusão passageira dos que procuram a morte. 10 A alma do malvado deseja o mal, ele olha sem piedade para o seu próximo. 11 Quando se castiga o zombador, aprende o imbecil, e quando o sábio é instruído, ele adquire mais saber. 12 O justo observa a casa do ímpio e leva os ímpios à desgraça. 13 Quem tapa os ouvidos ao clamor do pobre, também há de clamar, mas não será ouvido.

Evangelho: Lc 8,19-21

Naquele tempo, mãe e os irmãos de Jesus aproximaram-se, mas não podiam chegar perto dele, por causa da multidão. 20 Então anunciaram a Jesus: “Tua mãe e teus irmãos estão aí fora e querem te ver”. 21 Jesus respondeu: “Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus, e a põem em prática”.

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É Necessário Viver e Conviver Com Sabedoria e Discernimento

Continuamos a acompanhar as reflexões do sábio do livro dos Provérbios, cheias de sentido comum e de sensibilidade religiosa. São páginas para ler sem pressa, projetando suas gotas de sabedoria sobre nosso comportamento, e que servem como um exame de consciência para todos nós. Mesmo sendo ideias dispersas sem relação aparente entre elas, porém elas são critérios de sabedoria para a vida cotidiana para qualquer ser humano.

Por exemplo, “O coração do rei nas mãos do Senhor é como água corrente; ele o dirige para onde quer”. Mas muitas vezes, os grandes “dirigentes” ou “governantes”, ou “chefes” vivem como se não tivesse Alguém superior (Deus, o Criador) e por este comportamento acabam fazendo tudo ao seu gosto e prazer, esquecendo-se que um dia todos terminarão sua passagem neste mundo e cada um tem que prestar contas diante de Deus por tudo que fez na vida (Cf. 2Cor 5,10; Hb 9,27).

O sábio dos Provérbios nos relembra também que, O homem pensa que o seu caminho é sempre reto, mas é o Senhor quem sonda os corações”.

Frequentemente, caímos na tentação das aparências, mas é Deus quem conhece o coração humano e sabe se é sólido ou não. Já deveríamos ter a experiência de que “Tesouros adquiridos com língua mentirosa são ilusão passageira dos que procuram a morte”. E que "tesouros ganhos pela boca enganosa são a fumaça que se dissipa". Nosso conhecimento é sempre limitado e superficial. Somente Deus tem um conhecimento exato das coisas dos homens, pois “é o Senhor quem sonda os corações”.

Além disso, mais uma vez aparece uma afirmação, tantas vezes ouvida nos lábios dos profetas e do próprio Jesus, que "Praticar a justiça e o direito é mais agradável ao Senhor do que os sacrifícios”. No evangelho Jesus afirma que “amar a Deus de todo o coração, de toda a inteligência e com toda a força, e amar o próximo como a si mesmo vale mais do que todos os holocaustos e todos os sacrifícios” (Mc 12,33). As exigências de justiça e de direito são exigências divinas. Praticar a justiça e direito vale mais do que “prática religiosa”, se as práticas religiosas nao correspendem com a boa conduta diariamente.

Com efeito, o justo, biblicamente, significa aquele que é fiel aos mandamentos de Deus; aquele que tem nos anúncios dos profetas e espera com paciência seu cumprimento, pois Deus é fiel às suas promessas. É justo o homem que olha para Deus e ordena a sua vida segundo os ditames da vontade divina. É justo o homem que cumpre a Lei divina de todo coração e com sincera alegria e leveza. O justo é o homem sábio e bondoso. O justo é, portanto, uma figura ideal do homem agradável a Deus e aos homens de boa vontade.

Também somos lembrados de que um dia nos acontecerá o que vemos acontecer aos outros na sua necessidade, no entanto, não os ajudamos. Sabemos muito bem que nossa vida é uma roda que gira sem parar. Um dia estamos muito bem, outro dia nos encontramos sem força pelo peso dos problemas ou de alguma doença e dor. Nisso, a convivência fraterna nos ajuda muito nesses momentos difíceis. Por isso, o sábio nos alerta: “Quem tapa os ouvidos ao clamor do pobre, também há de clamar, mas não será ouvido”.

Com o Salmo Responsorial de hoje (Sl 118/119), rezemos a Deus que nos ensine Sua Sabedoria: “Guiai-me, Senhor, no caminho de vossos preceitos! Fazei-me conhecer vossos caminhos, e então meditarei vossos prodígios! Escolhi seguir a trilha da verdade, diante de mim eu coloquei vossos preceitos. Dai-me o saber, e cumprirei a vossa lei, e de todo o coração a guardarei. Guiai meus passos no caminho que traçastes, pois só nele encontrarei felicidade. Cumprirei constantemente a vossa lei, para sempre, eternamente a cumprirei!”. A vontade de Deus deve ser a lei suprema para cada homem, pois Deus está em todas as coisas e Seu domínio é supremo. A capacidade de “ver” Deus em todas as coisas e Sua vontade em todos os eventos é o caminho para a sabedoria, a felicidade e a paz.

Ser Praticante Da Palavra De Deus Nos Torna Membros Da Família do Senhor

 Tua mãe e teus irmãos estão aí fora e querem te ver”.

Os parentes, mãe e irmãos, querem “ver” Jesus. É muito difícil saber o significado preciso desta palavra: VER. No texto correspondente de Marcos, a intenção da família é bem precisa: buscar Jesus para levá-Lo para a casa porque pensam que ele está fora de si (Mc 3,20-21). Lucas como um evangelista fino e humano que respeita a família de Jesus suprimiu esse motivo (sobre a intenção da família em querer ver Jesus). Mesmo assim tem-se impressão de que os parentes querem monopolizar Jesus, utilizando os privilégios que lhes oferece seu parentesco. Neste contexto compreende-se a resposta da parte de Jesus: “Minha mãe e meus irmãos são aqueles, que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática”. Diante do velho parentesco de sangue, Jesus funda as bases da nova família de Seu Reino, no qual fazem parte aqueles que recebem e cumprem Sua Palavra com dois traços. Primeiro, é preciso “escutar a Palavra”, isto é, estar aberto diante da graça recebendo o dom de amor que Deus ofereceu em e através de Jesus. Segundo, há que cumprir a Palavra. Somente aquele que traduz a Palavra de Deus em sua vida faz parte da família de Jesus. Neste sentido, ser cristão significa viver no mistério do amor que Deus nos comunica como nova possibilidade de existência e de convivência fraterna. E este amor se torna um principio de nossa existência: Devemos ser pontes do amor de Deus para que ele chegue aos outros. Em Jesus e por Jesus, encarnação do amor de Deus, os homens, que escutam Sua Palavra e a vivem conforme essa Palavra, constituem uma mesma família com Jesus.

“... mas não podiam chegar perto dele, por causa da multidão. “ Para aproximar-se de Jesus não basta ser dos seus. Relata-se no texto que entre Jesus e os seus (“Tua mãe e teus irmãos), está no meio “a multidão”. A multidão está com Jesus para ouvi-Lo e segui-Lo. Os parentes de Jesus (e o próprio Isarel) para aproximar-se de Jesus devem entrar nessa multidão de discípulos. Assim contrapõe-se uma parentela segundo o Espírito a uma segundo a carne.

Por isso, em seguida Jesus afirma: Minha mãe e meus irmãos são aqueles, que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática”.

A comunidade com Jesus está no ouvir e no tornar realidade a Palavra de Deus. Maria é a mãe de Jesus por causa do seu “sim” total e absoluto, dado um dia à Palavra de Deus. “Faça-se em mim segundo a Tua Palavra(Lc 1,37), disse Maria, a mãe de Jesus na anunciação. Maria guarda cada Palavra e a medita em seu coração (Lc 2,19). Ela leva a Palavra a Isabel, e seu anúncio é tão rico que transborda em um cântico chamado “Magnificat” (Lc 1,46-55) e em alegria para quem ainda em crescimento (Lc 1,44). Maria é o coração bom que retém para irradiar a Palavra de Deus e produz fruto com constância. Maria foi um “sim” à Luz e deu a luz a Luz do mundo (Jo 8,12). Por isso, o texto do evangelho deste dia é um grande elogio de Jesus a Maria, sua mãe que entregou totalmente sua vida e sua vontade a Deus para o bem de todos. Maria escuta a Palavra de Deus, medita-a e vive de acordo com esta Palavra. Pela escuta e vivência da Palavra Maria se torna de Deus e do Povo de Deus.       

Para escutar bem precisamos criar o silêncio dentro de nós e ao nosso redor. O silêncio cria ressonância à Palavra. Para escutar bem é necessário que estejamos vazios de nós mesmos: “Estar vazio de toda criatura é estar cheio de Deus. E estar cheio de toda criatura é estar vazio de Deus” (Meister Eckhart). O silêncio é um vazio em que a plenitude se torna presente. O silêncio nos ajuda a calarmos em nós a fantasia, o nosso rancor, o nosso ódio, o nosso medo, a nossa angústia, a nossa indiferença, o nosso mau humor, a nossa inveja, o nosso orgulho, ou o nosso ser em geral, e a limparmos da alma tudo quanto nos possa perturbar para ouvir a verdade de Quem é maior que nós: Deus.        

Cada um de nós é vítima da agressão externa de hordas de palavras, de sons, de clamores, que ensurdecem o nosso dia e até mesmo, às vezes, a nossa própria noite. Somos agredidos e envolvidos pelo multilóquio mundano que, com mil futilidades, nos distrai e nos dispersa. Só depois do amor ao silêncio é que despertará a nossa capacidade de escuta.    

Quando compreendemos a Palavra de Deus como um chamado urgente para ser escutada é que conseguimos perceber melhor o que está em jogo na nossa vida. É a Palavra de Deus que nos mostra o que fazer e como fazer.

Uma comunidade somente pode ser chamada de a Igreja de Cristo, se cada um de seus membros souber viver de acordo com a Palavra de Deus. O que nos une é a vivência da Palavra de Deus e a mútua oração. O povo eleito foi formado não por decreto, mas pela escuta e pela obediência à Palavra de Deus. A Igreja de Cristo é edificada pela Palavra de Deus. A Igreja dá a igual reverência à Mesa da Palavra e à Mesa da Eucaristia. Esta é a alma da Igreja e a Igreja é seu fruto. Da Palavra de Deus brota sempre Igreja viva. Somos cristãos não por decreto, mas pela convicção e pela opção. Ser cristão significa viver no mistério de amor que Deus nos comunicou através de Jesus, Deus encarnado, a Palavra Encarnada como nova possibilidade de existência. A partir desse amor de Deus que nos é oferecido nós devemos ser ponte de amor para os outros. Os irmãos e as irmãs se reconhecem mutuamente pela mesma prática do amor fraterno, pela disposição a viver reconciliados e a trabalhar juntos pela causa de Jesus.

Além desse amor mútuo, outra característica da comunidade de Jesus é o serviço mútuo. Quando um começar a servir o outro na comunidade, todo tipo de rivalidade desaparece. Mas quando cada um começar a se considerar como o mais importante do que os outros, a disputa e a briga vão começar a acontecer na própria comunidade e a comunidade perderá sua força para dar testemunho. Se cada membro deixar de cuidar do outro membro da comunidade, a comunidade vai formar uma comunidade de traidores, como Judas que traiu o próprio Mestre. E as palavras de Mahatma Gandhi vão ter que soar novamente nos nossos ouvidos: “Aceito vosso Cristo, mas não aceito vosso cristianismo”.

Se o Senhor nos diz hoje: Minha mãe e meus irmãos são aqueles, que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática”, cada um de nós precisa se perguntar: “Será que sou mãe, irmã ou irmão de Jesus? Será que posso me dizer que sou um dos membros da comunidade de Jesus?”. Que Deus nos conceda, por intercessão de Maria, nossa Mãe a graça de viver de acordo com a Palavra de Deus para que possamos, pela misericórdia divina, alcançar os bens eternos.

A comunhão com Jesus somente se alcança na aceitação de Seu projeto, de Sua vida e de Suas palavras na própria vida e somente dele se pode construir um autentico vínculo familiar que faça indissolúvel nossa união com Ele.

P. Vitus Gustama,svd

Sexta-feira Da XXV Semana Comum, Ano Par, 25/09/2026

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