terça-feira, 6 de outubro de 2026

Quinta-feira Da XXVII Semana Comum, Ano Par, 08/10/2026

SER PERSEVERANTE NA ORAÇÃO

Quinta-Feira da XXVII Semana Comum 

Primeira Leitura: Gl 3,1-5

1 Ó gálatas insensatos, quem é que vos fascinou? Diante de vossos olhos, não foi acaso representado, como que ao vivo, Jesus Cristo crucificado? 2 Só isto quero saber de vós: Recebestes o Espírito pela prática da Lei ou pela fé através da pregação? 3 Sois assim tão insensatos? A ponto de, depois de terdes começado pelo espírito, quererdes terminar pela carne? 4 Foi acaso em vão que sofrestes tanto? Se é que foi mesmo em vão! 5 Aquele que vos dá generosamente o Espírito e realiza milagres entre vós, faz isso porque praticais a Lei ou porque crestes, através da pregação?

Evangelho: Lc 11,5-13

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 5 “Se um de vós tiver um amigo e for procurá-lo à meia-noite e lhe disser: ‘Amigo, empresta-me três pães,  6 porque um amigo meu chegou de viagem e nada tenho para lhe oferecer’, 7 e se o outro responder lá de dentro: ‘Não me incomodes! Já tranquei a porta, e meus filhos e eu já estamos deitados; não me posso levantar para te dar os pães’; 8 eu vos declaro: mesmo que o outro não se levante para dá-los porque é seu amigo, vai levantar-se ao menos por causa da impertinência dele e lhe dará quanto for necessário. 9 Portanto, eu vos digo: pedi e recebereis; procurai e encontrareis; batei e vos será aberto. 10 Pois quem pede recebe; quem procura encontra; e, para quem bate, se abrirá. 11 Será que algum de vós que é pai, se o filho pedir um peixe, lhe dará uma cobra? 12 Ou ainda, se pedir um ovo, lhe dará um escorpião? 13 Ora, se vós que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do céu dará o Espírito Santo aos que o pedirem!”

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A Graça De Deus Nos Chama a Seguir Adiante e Não Para Voltar Para Trás, Pois a Vida É Um Êxodo

“Ó gálatas insensatos, quem é que vos fascinou? ... Sois assim tão insensatos? A ponto de, depois de terdes começado pelo espírito, quererdes terminar pela carne?” (Gl 3,1.3).

Na maior parte dos capítulos 1 e 2 da Carta aos Gálatas, são Paulo defendeu intrepidamente a origem divina de sua missão e sua mensagem apostólica contra a acusação dos falsos mestres (judaizantes).

Agora, no texto da Primeira Leitura de hoje (Gl 3,1-5) são Paulo ataca a infidelidade dos Gálatas com o Evangelho como consequência  da influência corruptora dos falsos mestres. Ele chama os Gálatas de “insensatos” (grego, “anoetói”). A expressão “anoetói” indica o estado sem raciocínio, sem “cabeça”, sem inteligência. A estupidez não permite ao cabeçudo discernir o verdadeiro e o falso, entre o bem e o mal, entre o útil e o prejudicial. A mesquinhez não permite que o cabeçudo avalie as possibilidades de atingir sua meta.

Os Gálatas tinham recebido o Evangelho através de são Paulo e Barnabé. Ao aceitar o Evangelho eles foram batizados no Espirito para uma vida nova, na liberdade, na fidelidade e no compromisso com Jesus Cristo. Porém, eles são persuadidos pelos falsos mestres para voltar à antiga prática de circuncisão como valor determinante, ou seja, outro evangelho, um evangelho inexistente (Gl 1,6-10).

Por isso, são Paulo faz a seguinte pergunta retórica: “Ó gálatas insensatos, quem é que vos fascinou?”. A palavra grega “baskaíno” tem sentido de seduzir, encantar ou enfeitiçar. Mas sempre no sentido negativo. O feitiço consiste em sedução, fantasia e ilusão. A ilusão é a falta de correspondência  entre a sensação e o objeto percebido.Trata-se da “fascinação” para voltar às práticas caducas e velhos cujo sentido é inexistente. Depois de uma experiência nova no Evangelho, os Gálatas voltaram à submissão da escravidão da Lei e dos preceitos antigos da circuncisão. Por isso, taxativamente são Paulo afirma que não há outro evangelho “Gl 1,7). Este retrocesso é o fruto de um trabalho maldoso dos falsos mestres e por isso, retoricamente são Paulo pergunta: “Quem é que vos fascinou?”.

Há momentos na vida de um cristão e da comunidade inteira, em que é bom repensar a direção que levamos, e quais são os valores que  estamos descuidando ou perdendo, empobrecendo-nos, caminhando para trás. Há situações das quais sabemos que nos prejudicam, no entanto, por falta da escala de valores ou porque nos deixamos levar pelo comodismo ou preguiça acabamos voltando para trás destruindo nossa própria vida e a vida dos que nos amam e nos querem bem. Sabemos que a mudança e transformação são o código do mundo que nos cerca, no entanto, nem sempre queremos mudar. O problema que temos é que olhamos com velhos “óculos” a realidade que muda. Nossas opiniões, atitudes diante da vida são influenciadas e expandidas pelas informações e formações que recebemos nos muitos momentos vividos e é com base nelas que agimos com flexibilidade e prudência na hora de tomar decisões. É muito mais cômodo manter a mente fechada a novas informações e formações, e um comportamento dentro de padrões rígidos, não correndo risco de nos aventurar dentro de territórios não demarcados. As alegrias da vida estão na aventura, e cada instante nos oferece aventuras para que comecemos a caminhar, se estamos de olhos abertos a ele. Todas as nossas decisões são tomadas em um clima ou estado de espírito que certamente se modificará.

Aprender a dizer não ao que não é essencial nos dará mais tempo para nos dedicarmos às coisas que poderão engrandecer nossa vida e ajudar-nos a deixar como legado. As mais difíceis situações da vida acabam por revelar as maiores oportunidades para nós, se tivermos sabedoria suficiente e autodisciplina. Aquele que se arrisca mais, ousa mais e faz mais do que os outros, naturalmente, vai enfrentar mais fracasso. As pessoas felizes passaram pelas mesmas adversidades que atingem as infelizes. O sucesso não se mede pela posição atingida na vida e sim pelos obstáculos vencidos na tentativa de sair vencedor.

Eu poderia dizer que, de alguma forma, seduzido pelos argumentos falsos, estou voltando para trás, como os Gálatas? De alguma forma, eu fiz alguma tentativa para seduzir os outros a seguir o caminho errado? Para se salvar todos têm que olhar para Jesus Cristo crucificado e ressuscitado.

Ser Perseverante Na Oração Por Causa Da Bondade De Deus

Continuamos acompanhar Jesus no seu caminho para Jerusalém ouvindo suas últimas e importantes lições para nossa vida de cristãos (Lc 9,51-19,28). São suas ultimas lições porque Jesus será crucificado, morto e glorificado em Jerusalém.

Na passagem do evangelho de hoje, Lucas volta a falar da necessidade de rezar sempre insistentemente. Rezar é uma maneira mais eficaz para aproximar a terra ao céu; para encurtar a distância entre a humanidade e a divindade. A oração derruba o muro que nos separa de Deus, pois na oração conversamos diretamente com o céu, isto é, com Deus. Distanciar-se da oração significa distanciar-se do céu. É impossível um filho chamar Deus de Pai sem conversar com Ele permanentemente: de pai para filho e de filho para pa. “Orar é sempre possível porque o tempo do cristão é o tempo de Cristo ressuscitado, o qual «permanece conosco todos os dias» (Mt 28,20). Oração e vida cristã são, por isso, inseparáveis” (Compêndio do Novo Catecismo, 576, ou Catecismo Da Igreja Católica, 2742-2745. 2757).  Como dizia São João Crisóstomo: “É possível, mesmo no mercado ou durante um passeio sozinho, fazer oração freqüente e fervorosa. É possível rezar, mesmo sentados na vossa loja, a tratar de compras e vendas, ou até mesmo a cozinhar”.

Nossa oração é certamente petição, mas não tem nada a ver com um regateio mercantil. Há que recorrer a Deus como pobre na necessidade. A oração é antes de tudo uma confissão da própria indigência: Senhor, eu não consegui alcançar tal objetivo, Senhor, eu ando buscando..., Senhor, eu não compreendo tudo.., Senhor, eu necessito de Ti. A oração nos humaniza, faz-nos mais humanos, mais criaturas, e não criadores.

“A oração é um dom da graça, mas pressupõe sempre uma resposta decidida da nossa parte, porque o que reza combate contra si mesmo, contra o ambiente e, sobretudo, contra o Tentador, que faz tudo para retirá-lo da oração. O combate da oração é inseparável do progresso da vida espiritual. Reza-se como se vive, porque se vive como se reza” (Compêndio do Novo Catecismo, 572; Novo Catecismo, no.  2725).

Jesus nos convida a perseverar em nossa oração, a dirigir confiadamente nossas súplicas ao Pai. Ele nos recomenda que sejamos persistentes na oração não porque Deus seja surdo e sim porque nós necessitamos perseverar para alcançá-Lo. A natureza humana é geralmente caracterizada pela inconstância. Ficamos desanimados e apavorados diante do primeiro obstáculo que nos é apresentado na conseqüência de nossos projetos e metas. Abandonamos a nave diante do menor indício de tormenta. As coisas fáceis geralmente não são valiosas. Para vencer os obstáculos são necessárias a humildade, a confiança e a perseverança.

Por isso, o evangelista nos convida a crer em nossas aspirações e a fortalecer nosso espírito com a oração constante. O Reino de Deus exige muita qualidade pessoal e muito apoio comunitário que serve sempre de testemunho perseverante.

Se decidirmos cultivar uma atitude perseverante, uma entrega decidida, e uma sobriedade diante das dificuldades, nós veremos que ao término de nosso esforço se encontra a generosa vontade de Deus que nos tem acompanhado desde o início de nossa vida.

Há três verbos, que se encontram no evangelho deste dia, que só os simples praticam: pedir, buscar e chamar/bater porta. Se nestes três verbos for acrescentado o advérbio “insistentemente” então temos um programa de vida de um verdadeiro seguidor de Cristo.

Pedir supõe reconhecer que não temos tudo daquilo que necessitamos. Pedir é um ato de humildade. E a humildade nos faz crescer na nossa humanidade. É tomar consciência de nossos limites e de nossas limitações, admitir que alguém tenha muito mais coisas do que as que temos. Os mendigos pedem. Os pobres pedem. A presença do humilde, do pobre, do necessitado, na nossa vida, corrige nossa arrogância e acelera nossa humanidade. Eles nos humanizam. Não pedem os autossuficientes e arrogantes.

Buscar implica experimentar a atração de algo valioso, admitir que há um tesouro pelo qual vale a pena arriscar-se, sentir estimulado pelas perguntas pelas quais não existem respostas pré-fabricadas. Não buscam os que sucumbem à rotina, os desesperançados, os preguiçosos, os que não querem melhorar a qualidade de vida.

Bater a porta ou chamar é dirigir-se a alguém com confiança de que vamos ser escutados. Chamar é invocar uma presença que nos supera e que ao mesmo tempo se encarrega de nós. Não chamam os que temem que não haja nada do outro lado da porta, os que não são preparados para um mundo novo cheio de surpresas de felicidade.

Se Deus nos atender é para nosso bem. Se Deus não nos “atender” para aquilo que pedimos e que achamos que seja importante é também para nosso bem maior. Não atender é uma forma de atender. Se um filho pedir cocaína para o pai e o pai nega em dar/compar o que o filho pede é uma forma de atender, pois o pai não quer a destruição do filho. Na Sua sabedoria infinita Deus sabe muito bem daquilo do qual necessitamos. Ser atendido ou “não ser atendido” por Deus é tudo para nosso bem maior e para a glória de Deus. Em tudo temos que agradecer a Deus, pois até na oração Ele nos corrige sobre aquilo que devemos pedir a Ele.

Comparando com os amigos, Jesus quer nos dizer que Deus é para nós um amigo sempre fiel que atende às nossas necessidades e é também o Pai bom. Mas desse Amigo fiel e desse Pai bom não devemos esperar sempre uma resposta idêntica à resposta esperada. Podemos pedir muitas coisas boas que talvez não sejam atendidas. No entanto, tenhamos certeza de que Deus responde sempre com um dom que é superior ao que temos pedido: o Espírito Santo que nos ilumina, purifica, transforma e salva. Com o Espírito Santo que Deus nos concede podemos ter força necessária para enfrentar as dificuldades que entrecruzam nossa existência. Acompanhados por Ele podemos superar as angustias e tudo que nos ameaça. Este é o fruto principal da oração que justifica nossa Constancia e nossa perseverança em sua prática.

A síntese de tudo que nós podemos receber e encontrar é o Espírito Santo, isto é, tudo do que necessitamos para dizer “Abbá”, “Papaizinho nosso no céu” e para reconhecer com nossos lábios nosso coração que Jesus é nosso Senhor. “Se a nossa oração se une à de Jesus, sabemos que Ele nos concede muito mais do que este ou aquele dom: recebemos o Espírito Santo que transforma o nosso coração” (Comp. do Novo Catecismo, 575. Novo Catecismo, 2734-2741).

P. Vitus Gustama,svd

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Bem-aventurada Virgem Maria do Rosário, Memória, 07/10/2026

BEM-AVENTURADA VIRGEM MARIA DO ROSÁRIO

SER DISCÍPULO-MODELO A EXEMPLO DE MARIA

Primeira Leitura: At 1,12-14

Depois que Jesus foi elevado ao céu, 12 os apóstolos voltaram para Jerusalém, vindo do monte das Oliveiras, que fica perto de Jerusalém, a mais ou menos um quilômetro. 13 Entraram na cidade e subiram para a sala de cima, onde costumavam ficar. Eram Pedro e João, Tiago e André, Filipe e Tomé, Bartolomeu e Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão Zelota e Judas, filho de Tiago. 14 Todos eles perseveravam na oração em comum, junto com algumas mulheres, entre as quais Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos de Jesus.

Evangelho: Lc 1, 26-38

Naquele tempo, 26 o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Naza­ré, 27 a uma virgem, prometida em casamento a um homem chamado José. Ele era descendente de Davi e o nome da Virgem era Maria. 2 8O anjo entrou onde ela estava e disse: “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!” 29 Maria ficou perturbada com estas palavras e começou a pensar qual seria o significado da saudação. 30 O anjo, então, disse-lhe: “Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. 31 Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. 32Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi. 33 Ele reinará para sempre sobre os descendentes de Jacó, e o seu reino não terá fim”. 34Maria perguntou ao anjo: “Como acontecerá isso, se eu não conheço homem algum?” 35 O anjo respondeu: “O Espírito virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra. Por isso, o menino que vai nascer será chamado Santo, Filho de Deus. 36 Também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na velhice. Este já é o sexto mês daquela que era considerada estéril, 37 porque para Deus nada é impossível”. 38 Maria, então, disse: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!” E o anjo retirou-se.

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A memória de Nossa Senhor do Rosário (de caráter devocional) está ligada à vitória de Lepanto em 1571 contra a inavasão do exército turco. A vitória foi obtida por uma particular proteção da Santíssima Virgem Maria. O Papa Pio V (o Papa dominicano) instituiu, então, a festa de Nossa Senhora da Vitória em Roma. Dois anos depois, a pedido da Ordem dominicana o Papa Gregório XIII, sucessor do Pio V, estendeu esta festa para toda a Igreja (universalmente). O Papa Gregório XIII mudou o nome da festa: de Nossa Senhora da Vitória passa a ser chamada de Santíssimo Rosário da Bem-aventurada Virgem Maria. Era celebrada no primeiro domingo do mês de outubro. A reforma rubrical de 1960 retocou o título da festa de “SS.Rosário da Bem-Aventurada Virgem” para “Bem-aventurada Virgem Maria do Rosário”. A nova denominação desloca oportunamente o acento da forma de oração (o rosário) para a PESSOA da Mãe de Deus. Dai deriva o convite a não vermos no rosário o objeto da celebração, e muito menos “uma arma de guerra”, e sim a exortação a olhar para Aquela que gerou o mistério da nossa pacificação, Cristo Senhor. O gesto expresso pelo Papa Paulo VI na viagem à Turquia em julho de 1967 é muito eloquente: devolvendo ao presidente turco o estandarte mulçumano que caíra nas mãos dos cristãos, o Papa Paulo VI demonstrava que seu gesto queria indicar que “as divergências do passado haviam cessado definitivamente e que a Igreja tinha por todos os povos uma só mensagem, a da paz”. Atualmente a festa é celebrada no dia 7 de outubro.

Na Idade Média a Virgem Maria é saudada com o título de rosa, símbolo da alegria. O Bem-aventurado Hermann dizia a Maria: “Alegra-te, Tu, a mesma beleza. Eu Te digo: Rosa, Rosa”. E num manuscrito francês medieval está escrito: “Quando a bela Rosa Maria começa a florescer, o inverno de nossas tribulações se desvanece e o verão da terna alegria começa a brilhar”. As imagens da Virgem Maria eram adornadas ou decoradas com uma coroa de rosas e se cantava a Maria como “Jardim de rosa” (em latim medieval rosarium). Assim se explica a etimologia do nome que chegou a nossos dias. Nessa época, os que não sabiam recitar os 150 Salmos do Oficio Divino, eles substituíam por 150 Ave Marias, acompanhadas de genuflexões.

 O Rosário 

“... O rosário ou salteiro da beatíssima Virgem Maria é um modo piedosíssimo de oração e súplica a Deus, modo fácil ao alcance de todos, que consiste em louvar a própria Santíssima Virgem repetindo a saudação angélica, cento e cinquenta vezes, tantos quantos são os Salmos do saltério de Davi, intercalando a cada dezena a oração do Senhor, com determinadas meditações que ilustram toda a vida de nosso Senhor Jesus Cristo” (Pio V: Bula, Consueverunt Romani Pontifices, 17/09/1569).

Os Elementos Teológicos Sobre Os Quais Se Baseia Com O Elia O Rosário são:

1.    O Rosário é Uma Oração Evangélica. O Pai Nosso é uma oração ensinada por Jesus. A Ave Maria é a oração que combina a saudação do anjo com o elogio de Isabel. O glória (que se reza depois de cada dezena) é a evolução da fórmula trinitária pronunciado por Jesus quando enviou os discípulos ao mundo (Mt 28,19). O conteúdo dos mistérios, em síntese, nos apresenta as etapas fundamentais do mistério de Cristo, encarnação, paixão e glória. A encarnação, a paixão e a glória são exatamente os três elementos que são Paulo desenvolve na Carta aos Filipenses (Fl 2,5-11). Vistos e sentidos com Maria e através dela, eles se transformam nos mistérios gozosos, dolorosos e gloriosos.

2.    O Rosário é Uma Oração Cristocêntrica. “O interminável louvor que o rosário tributa a Maria tem o seu fundamento em Jesus. Os louvores a ela dirigidos querem simplesmente proclamar e defender, com toda a severidade, a fé em Jesus como Deus e como homem cada Ave Maria recitada em sua eterna memória nos lembra que houve alguém que não desdenhou, por amor dos pecadores, o corpo da Virgem” (H. Newman). A Ave Maria é louvor incessante a Cristo, e Cristo continua sendo o objeto central do rosário, porque nos mistérios gozosos é contemplado na sua vida oculta, nos dolorosos na sua paixão e morte e nos gloriosos na sua exaltação compartilhada com sua Mãe e sua Igreja.

3.    O Rosário é Uma Oração Eclesial. A Igreja é o povo dos chamados à salvação mediante a fé em Jesus Cristo. O Rosário oferece o conhecimento de Jesus Cristo e do seu mistério de salvação e solicita, de nossa parte, a adesão humilde e agradecida a Ele. No processo evolutivo dessa oração a finalidade continua sendo sempre o ato de fé que, vivido com Maria, é sinal mais evidente de eclesialidade.

Apoiados  nos motivos teológicos, os valores espirituais do Rosário são: Uma oração simples; uma oração contemplativa; uma oração catequética (é uma forma privilegiada de pedagogia e de catequese); uma oração que respeita os ritmos da vida, pois a repetição das Ave-Marias se expande até o infinito, um louvor sem fim que continuaremos depois da hora de nossa morte na pátria bem-aventurada; uma oração criativa, pois ela nos leva continuamente a relacionar, a comparar os nossos sentimentos com os sentimentos de Cristo, o nosso agir com o agir de Cristo, o nosso pensar com o pensar de Cristo, Senhor da vida e Mestre da existência; uma oração que introduz à liturgia, pois existe entre Liturgia e o Rosário um estreito nexo: assim como a liturgia, o Rosário também tem índole comunitária, nutre-se da Escritura, gravita em torno do mistério de Cristo.

Nos mistérios gozosos, por exemplo, nós entramos na casa da Mulher bendita de Nazaré (Maria) para escutar a mensagem salvífica do Divino Mensageiro, o Anjo Gabriel (Lc 1,26-38). Logo depois, vamos a Ain Karim (para a casa de Isabel e Zacarias) onde com Isabel e com ela (Maria) proclamamos a Maternidade divina de Maria (Maria é chamada de “Mãe do meu Senhor” por Isabel (cf. Lc 1,43). Em Belém ficamos com pasmo diante da manjedoura onde se deita o Salvador do mundo e honramos com os pastores ao mesmo Salvador, Jesus Cristo (cf. Lc 2,8-14). Logo em seguida, vemos o mesmo Salvador no Templo apresentado a Deus pelos seus pais (Lc 2,22-40), e reencontra entre os doutores cheios de estupor por sua inteligência (Lc 2,41-52). E nos mistérios luminosos contemplamos a vida publica de Jesus para aprender d’Ele como devemos viver como cristãos para que, um dia, possamos contemplar a vida glorificada. Ou, nos mistérios dolorosos, contemplamos a Paixão de Jesus e de Maria que O acompanhava, desde Getsêmani até o Calvário (cf. Jo 19,25-27). E nos mistérios gloriosos, refletimos sobre o triunfo de Jesus, no qual tem parte Sua Mãe na economia da salvação.

Por essa razão, o rosário (ou o terço) não é apenas mariológico, mas, principalmente, cristológico, pois nele se contemplam os mistérios de Cristo que são os mistérios de nossa redenção. Na sua Carta Apostólica sobre o Rosário o Papa João Paulo II escreveu:

·       “O Rosário, de fato, ainda que caracterizado pela sua fisionomia mariana, no seu âmago é oração cristológica. Na sobriedade dos seus elementos, concentra a profundidade de toda a mensagem evangélica, da qual é quase um compêndio. Nele ecoa a oração de Maria, o seu perene Magnificat pela obra da Encarnação redentora iniciada no seu ventre virginal. Com ele, o povo cristão freqüenta a escola de Maria, para deixar-se introduzir na contemplação da beleza do rosto de Cristo e na experiência da profundidade do seu amor. Mediante o Rosário, o crente alcança a graça em abundância, como se a recebesse das mesmas mãos da Mãe do Redentor”. (ROSARIUM VIRGINIS MARIAE no.1)

Assim começando com a oração que Jesus nos ensinou (Pai Nosso) e que nos autoriza a invocarmos ao Seu Pai como nosso Pai, nós repetimos a Ave Maria, a saudação do Anjo dada à maior de todas as criaturas (Maria) e a saudação de Isabel para a mesma (primeira parte da Ave Maria) e ao mesmo tempo, somos convidados a contemplar os maiores mistérios de nossa redenção em cada dezena de Ave-Marias.

A riqueza mística da oração de rosário permite a cada sacerdote, de maneira especial, entrar no mistério da própria vocação, contemplar os princípios da vida sacerdotal e dar a possibilidade de retornar aos momentos mais íntimos nos quais nascia, crescia e amadurecia a chamada de Jesus a segui-Lo. Como aconteceu com Jesus, a vida sacerdotal passa pelos momentos gozosos e dolorosos para chegar aos momentos gloriosos que terão seu cumprimento na vida futura para a qual são dirigidas as seguintes palavras: “Venha o Teu Reino!”. Por isso, a contemplação dos mistérios do Rosário pode chegar a ser um exame de consciência da devoção sacerdotal a Maria. Essa devoção consiste em imitar as virtudes de Maria. Não é por acaso que o Papa João Paulo II dizia as seguintes palavras:

·       “O Rosário é a minha oração predileta. Oração maravilhosa! Maravilhosa na simplicidade e na profundidade. Nesta oração repetimos muitas vezes as palavras que a Virgem Maria ouviu ao Arcanjo e à Sua parente Isabel. A estas palavras associa-se a Igreja inteira. Pode dizer-se que o Rosário é, em certo modo, um Comentário-prece do último capítulo da Constituição Lumen Gentium do Vaticano II, capítulo que trata da admirável presença da Mãe de Deus no mistério de Cristo e da Igreja. De fato, sobre o fundo das palavras "Ave Maria" passam diante dos olhos da alma os principais episódios da vida de Jesus Cristo. Eles dispõem-se no conjunto dos mistérios gozosos, dolorosos e gloriosos, e põem-nos em comunhão viva com Jesus através — poderíamos dizer — do Coração de Sua Mãe. Ao mesmo tempo o nosso coração pode incluir nestas dezenas do Rosário todos os fatos que formam a vida do indivíduo, ela família, da nação, da Igreja e da humanidade. Acontecimentos pessoais e os do próximo, e de modo particular daqueles que nos estão mais vizinhos, que temos mais no coração. Assim a oração simples do Rosário marca o ritmo da vida humana”. (Angelus, 29.10.1978)

Mensagem Do texto Do Evangelho Deste Dia

No texto do evangelho lido neste dia, inicialmente o Anjo de Deus não chama Maria pelo nome, mas chama-a simplesmente de “Cheia de graça”. O termo ‘graça’ significa benefício absolutamente gratuito, livre e sem motivo (cf. 1Cor 15,10). Também tem outro significado: um efeito do favor divino que torna alguém belo, amável e encantador. A graça da criatura depende da graça de Deus, e não vice-versa.       

Na graça reside a completa explicação de Maria, a sua grandeza e a sua beleza. Maria encontrou graça, isto é, favor, junto de Deus; ela é cheia do favor divino. Como as águas preenchem o mar, assim a graça preenche a alma de Maria. Maria é cheia de graça também em outro sentido: ela é bela, daquela beleza que chamamos de santidade. Sendo agraciada, Maria é também graciosa.

Maria lembra cada um de nós que tudo na nossa vida é graça. A graça é a presença de Deus. As duas expressões: “cheia de graça” e “o Senhor está contigo” são quase a mesma coisa. Esta presença de Deus no homem realiza-se agora em Cristo e por Cristo. De fato ele é o Emanuel, o Deus-Conosco (Mt 1,23; 18,20;28,20).

A primeira coisa que cada um de nós deve fazer como resposta à graça de Deus é dar graças. A graça de Deus tem de ser acompanhada pelo agradecimento do homem. Dar graças significa, antes de tudo, reconhecer a graça, aceitar a gratuidade da mesma. Dar graças significa aceitar-se como devedor, como dependente; deixar que Deus seja Deus. É preciso fazer o possível para renovar cada dia o contato com a graça de Deus que está em nós. Pela graça podemos manter, desde esta vida, o contato com Deus. Precisamos crer na graça, crer que Deus nos ama, que nos é favorável de verdade, pela graça fomos salvos.

O texto quer dizer também que Maria é a primeira cristã por causa do seu sim a Deus para que possa nascer para a humanidade Jesus Cristo, nosso Salvador. Não era nenhuma princesa nem nenhuma patroa na sociedade do seu tempo. Era uma mulher simples do povo, uma moça pobre. Mas Deus se compadece dos humildes e dos simples. Para Deus tudo é simples, e para o simples tudo é divino. A simplicidade atrai a bênção de Deus e a simpatia humana. O simples, o humilde é o terreno fértil onde a graça de Deus encontra seu lugar e através do qual Deus fala para o mundo.

De certa forma, podemos dizer que com o sim de Maria à vontade de Deus a Igreja começou. A Virgem Maria, no momento de sua eleição radical e no momento de seu sim a Deus foi início e imagem da Igreja. Quando ela aceitou o anúncio do anjo, da parte de Deus, pode-se dizer que começou a Igreja: a humanidade, nela representada, começou a dizer sim à salvação que Deus lhe ofereceu. Nela e através dela a humanidade foi abençoada. Podemos olhar, por isso, para Maria como modelo de fé e motivo de esperança e de alegria.

O sim de Maria à Palavra de Deus expressa um compromisso total, uma confiança absoluta no amor e no poder de Deus que a faz sair de si mesma e aposta totalmente sua vida no poder de Deus. E este compromisso total de uma moça simples com a Palavra de Deus compromete também o destino da humanidade. Nós, cristãos, devemos ter uma consciência mais clara daquilo que sucede quando nos reunimos para celebrar a Eucaristia. A participação da Palavra e do Corpo de Cristo é algo que produz a união mais íntima possível com Cristo vivo. Por isso, o sim pronunciado no momento desta participação eucarística é o que compromete de uma maneira mais profunda todos nós cristãos.

Toda vez que dissermos Sim à vontade de Deus e aos seus mandamentos geraremos algo de bom, algo de humano e algo de divino para o mundo. Toda vez que dissermos a Deus conscientemente “Faça-se em mim segundo a Sua Palavra!”, nossa vida se encherá de Deus (cheia de graça), seremos instrumentos eficazes de Deus e faremos nascer algo de Deus para salvar o mundo. Toda vez que dissermos Sim a Deus e à Sua vontade, sairemos de nós para ir ao encontro dos demais para ajudá-los.  Cada cristão é chamado a dizer Sim ao bem, à bondade, ao amor, à justiça, à solidariedade, à honestidade, à retidão e assim por diante, pois tudo isso significa dizer Sim a Deus.                

O compromisso da vida cristã é deixar-se fecundar pelo Espírito de Deus, como Maria, escutando a Palavra de Deus que vem por meio de mensageiros, tendo em conta nossa situação e nossas forças, mas respondendo a Deus com confiança e interesse. O cristão deve deixar-se encarnar pela Palavra de Deus para que se torne Boa Nova para os demais como Maria.

“Ó, Virgem fiel, dia e noite permaneces em profundo silêncio, em uma paz inefável, em uma oração divina, que não cessa nunca, com a alma inteiramente inundada por eternos resplendores. (...) Em uma paz inefável, em um misterioso silêncio, penetraste no insondável levando em ti o Dom de Deus. Guarda-me sempre em um abraço divino. Que leve sempre em mim a estampa deste Deus de amor”. (Isabel da Trindade)

P. Vitus Gustama,SVD

Terça-feira Da XXVII Semana Comum, Ano Par, 06/10/2026

É PRECISO FAZER TUDO DE ACORDO COM O ESPÍRITO DA PALAVRA DE DEUS

Terça-feira da XXVII Semana Comum

Primeira Leitura: Gl 1,13-24 (Ano Par)

Irmãos, 13 certamente ouvistes falar como foi outrora a minha conduta no judaísmo, com que excessos perseguia e devastava a Igreja de Deus 14 e como progredia no judaísmo mais do que muitos judeus de minha idade, mostrando-me extremamente zeloso das tradições paternas. 15 Quando, porém, aquele que me separou desde o ventre materno e me chamou por sua graça 16 se dignou revelar-me o seu Filho, para que eu o pregasse entre os pagãos, não consultei carne nem sangue 17 nem subi, logo, a Jerusalém para estar com os que eram apóstolos antes de mim. Pelo contrário, parti para a Arábia e, depois, voltei ainda a Damasco. 18 Três anos mais tarde, fui a Jerusalém para conhecer Cefas e fiquei com ele quinze dias. 19 E não estive com nenhum outro apóstolo, a não ser Tiago, o irmão do Senhor. 20 Escrevendo estas coisas, afirmo diante de Deus que não estou mentindo. 21 Depois, fui para as regiões da Síria e da Cilícia. 22 Ainda não era pessoalmente conhecido das Igrejas da Judéia que estão em Cristo. 23 Apenas tinham ouvido dizer que “aquele que, antes, nos perseguia, está agora pregando a fé que, antes, procurava destruir”. 24 E glorificavam a Deus por minha causa.

Evangelho: Lc 10,38-42

Naquele tempo, 38 Jesus entrou num povoado, e certa mulher, de nome Marta, recebeu-o em sua casa. 39 Sua irmã, chamada Maria, sentou-se aos pés do Senhor, e escutava a sua palavra. 40 Marta, porém, estava ocupada com muitos afazeres. Ela aproximou-se e disse: “Senhor, não te importas que minha irmã me deixe sozinha, com todo o serviço? Manda que ela me venha ajudar!” 41 O Senhor, porém, lhe respondeu: “Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas. 42 Porém, uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada”.

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Deus Quer Nos Salvar Mesmo Que a Situação Seja Muito Difícil

“Irmãos, certamente ouvistes falar como foi outrora a minha conduta no judaísmo, com que excessos perseguia e devastava a Igreja de Deus e como progredia no judaísmo mais do que muitos judeus de minha idade, mostrando-me extremamente zeloso das tradições paternas. Quando, porém, aquele que me separou desde o ventre materno e me chamou por sua graça se dignou revelar-me o seu Filho para que eu o pregasse entre os pagãos”, escreveu são Paulo aos Gálatas que lemos na Primeira Leitura de hoje (Gl 1,14-16).

Nestes versículos citados, são Paulo descreve o que aconteceu antes de sua conversão (v.14) e o que aconteceu na sua conversão (vv.15 e 16).

“Irmãos, certamente ouvistes falar como foi outrora a minha conduta no judaísmo, com que excessos perseguia e devastava a Igreja de Deus e como progredia no judaísmo mais do que muitos judeus de minha idade, mostrando-me extremamente zeloso das tradições paternas”.

Nesta citação, são Paulo descreve a sua situação antes da conversão, isto é, quando ainda era um “judeu praticante”. Ele menciona dois aspectos da sua vida antes da regeneração: a perseguição à Igreja, que ele agora reconhece ser “a Igreja de Deus” (Gl 1,13), e o seu entusiasmo pelas tradições paternas (Gl 1,14). Em ambos ele era fanático.

Paulo perseguia a Igreja de Deus com violência. Ele ia de casa em casa em Jerusalém prendendo todos os cristãos que encontrasse, homens e mulheres, arrastando-os para a cadeia (At 8,3). Ainda não satisfeito em perseguir a Igreja, ele se sentia realmente inclinado a devastar a Igreja de Deus (Gl 1,13). Ele estava determinado para acabar com a Igreja de Deus.

Do mesmo modo, ele era fanático em seu entusiasmo pelas tradições judaicas: “Como eu progredia no judaísmo mais do que muitos judeus de minha idade, mostrando-me extremamente zeloso das tradições paternas” (Gl 1,14). Ele era defensor entusiasta do judaísmo.

Esta era a condição de Saulo de Tarso antes de sua conversão: um fanático inveterado, completamente dedicado ao judaísmo e à perseguição de Cristo e da Igreja. Um homem nessa condição mental e emocional, de maneira alguma, mudaria de opinião ou de posição, nem se deixaria influenciar por outras pessoas por sábias que fossem. Somente Deus poderia alcançá-lo e foi o que Deus fez.

“Quando, porém, Aquele que me separou desde o ventre materno e me chamou por sua graça se dignou revelar-me o seu Filho para que eu o pregasse entre os pagãos”, escreveu são Paulo.

Há o contraste entre os vv. 13 e 14, de um lado, e os vv.15 e 16, do outro lado. Aqui acontece uma interrupção dramática na vida de são Paulo. Neste relato há uma mudança de sujeito nos verbos. Nos vv. 13 e 14 Paulo está falando de si mesmo: “Eu perseguia a Igreja de Deus....”. Mas nos vv. 15 e 16, Paulo começa a falar de Deus. Foi Deus que me esperou antes de eu nascer. Deus “me chamou pela sua graça”. Deus “se dignou revelar-me o seu Filho”. Em outras palavras, são Paulo quer dizer: “No meu fanatismo eu me inclinava a perseguir e a destruir, mas Deus me prendeu e alterou meu impetuoso curso. Todo o meu violento fanatismo nada era diante da boa vontade de Deus”. “Deus me chamou pela sua graça”, isto é, por seu amor totalmente imerecido.

Saulo estava lutando contra Deus, contra Cristo, contra os homens cristãos. Mas a misericórdia de Deus foi ao encontro de Saulo para salvá-lo e, por sua vez, vai salvar os pagãos, em nome de Deus que quer a salvação de todos. Saulo de Tarso foi oponente fanático do Evangelho. Mas Deus se agradou fazer dele um pregador desse mesmo Evangelho ao qual ele antes se opunha tão ferozmente.

É verdade que Paulo não conheceu pessoalmente Jesus e foi perseguidor da Igreja, mas “me separou desde o ventre materno e me chamou por sua graça, se dignou revelar-me o seu Filho para que eu o pregasse entre os pagãos”. Ou seja, é Apostolo legítimo ainda que seja de modo distinto que Pedro e os demais Apóstolos. Portanto, os cristãos de Galácia não têm que cair na tentação de mudar o que são Paulo lhes havia ensinado.

No caso de são Paulo são os tradicionalistas, instalados na formação recebida, os que não querem que se mova nada e atacam este revolucionário que, segundo eles, não respeitam os valores mais sagrados do judaísmo. O modo indireto de atacar são Paulo é negar a legitimidade de seu ministérios.

Quando não gostamos de uma doutrina, intentamos desacreditar a quem a proclama. Quando a Igreja defende valores que resultam incômodos e não populares, está exposta a ser vítima de uma campanha, mais ou menos, sutil de desprestígio ou inclusive de violência. Mas Deus “persegue” quem é violento para que um dia se converta em apóstolo, a exemplo de são Paulo. Não percamos a fé em Deus! Nossa meta não é defender a próprio honra nem conseguir aplausos e sim anunciar a salvação a todos.

Deus chama cada um de nós ao apostolado e para participar de sua Vida divina de um modo gratuito. Cada um de nós é chamado por Deus para ser seu discípulo. Não importa o passado pessoal. Diante de Deus somente conta a resposta e a disponibilidade que cada pessoa dá quando Deus quer confiar-lhe alguma missão. E isso deve ser precedido por uma verdadeira conversão, pois ninguém pode anunciar Cristo aos demais e, ao mesmo tempo, converter-se em um perseguidor da Igreja ou em um destruidor da mesma através de um antitestemunho da fé que ele proclama. O Senhor nos quer totalmente comprometidos com Ele. Diante de Deus somente conta o amor que temos no coração (Cf. Jo 21,15-17). Diante da fragilidade de nossa natureza somente Deus pode nos fortalecer para que permaneçamos como suas testemunhas.

O Senhor nos convida a não separarmos ação de oração, nem oração de ação, como enfatiza o Evangelho de hoje. Conheçamos os males que açoitam grandes setores da humanidade; reconheçamos o trabalho de muito que trabalham a favor de uma vida melhor e mais justa para os demais. Roguemos ao Senhor que nos conceda a graça de viver nossa fé numa sincera relação de amor com Ele, mas também num serviço amoroso e fraterno ao nosso próximo.

Quem Escuta Deus e Sua Palavra Tem Condições De Descobrir o Essencial Na Vida

Continuamos a acompanhar Jesus no seu caminho para Jerusalém e suas ultimas e importantes lições para todos nós, seus seguidores durante essa viagem (Lc 9,58-19,28). Hoje o Senhor nos fala sobre a importância da escuta da Palavra de Deus para que possamos falar, agir e fazer tudo de acordo com o espírito da Palavra de Deus.

Jesus nos dá essa lição dentro do contexto de um banquete. Trata-se de um momento familiar e da fraternidade onde as relações se nivelam. Não se diz se havia muitos ou poucos convidados; o que se diz é que uma das irmãs (Marta) andava atarefada “com muito serviço”, enquanto a outra (Maria) “sentada aos pés de Jesus, ouvia a sua Palavra”. Marta, naturalmente, não se conformou com a situação e queixou-se a Jesus pela indiferença da irmã. A resposta de Jesus: «Marta, Marta, andas inquieta e preocupada com muitas coisas, quando uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada», constitui o centro do relato e nos dá o sentido da catequese que, com este episódio, Lucas nos quer apresentar: a Palavra de Jesus deve estar acima de qualquer outro interesse.

A posição de Maria: “sentada aos pés de Jesus” é a posição típica de um discípulo diante do seu mestre. Logo, Maria é discípulo do Senhor (cf. Lc 8,35; At 22,3). Lucas mostra, neste episódio, que Jesus não faz qualquer discriminação: o fato decisivo para ser seu discípulo é estar disposto a escutar a sua Palavra e vivê-la na prática. Por isso, Jesus aproveita a ocasião para repreender, não o útil serviço que Marta está prestando, e sim a excessiva inquietação e preocupação que lhe marcam negativamente o agir: “Marta, Marta, tu te inquietas e te agitas por muitas coisas; no entanto, pouca coisa é necessária, até mesmo uma só. Maria, com efeito, escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada”.

“Sua irmã, chamada Maria, sentou-se aos pés do Senhor, e escutava a sua palavra”. “Sentou-se aos pés do Senhor”... São os pés do Peregrino da Samaria (L 9,51ss), os pés do Samaritano que vai a Jerusalém, no caminho da paz (Lc 1,79; 7,50; 8,48), os pés que por todos os cantos da perdição do mundo, caminham em direção ao Pai. São os pés daquele que dá amor e perdão, sobre os quais se derramam as suas lágrimas e os seus cabelo, os seus beijos e os seus perfumes. Verdadeiramente são os pés “do Senhor”. Para Maria, Jesus é plenamente o seu Senhor.

Muitas vezes, este episódio foi lido à luz da oposição entre ação e contemplação; no entanto, não é bem isso que aqui está em causa. Lucas não está, nesta catequese, explicando que a vida contemplativa é superior à vida ativa; que o “fazer coisas”, que o “servir os irmãos” não seja mais importante do que a oração; mas significa que tudo deve partir da escuta da Palavra, pois a escuta da Palavra de Deus é que nos projeta para os outros e nos faz perceber o que Deus espera de nós e para que tudo possa ser feito dentro do espírito da Palavra de Deus. Por isso, a contraposição de Marta e Maria não está a nível de vida ativa e vida contemplativa e sim a nível de escuta ou não escuta da Palavra de Deus. Não se contrapõe duas formas de vida e sim duas atitudes que podem dar-se em uma mesma forma de vida, seja ativa ou contemplativa. A escuta da Palavra de Jesus é uma exigência fundamental do amor a Deus.

A vida cristã é esforço, mas também recepção, acolhida. No processo pessoal e comunitário há caminho e repouso, há missão e comunhão, há luta e festa. Estes aspectos não devem ser contemplados como sucessivos e desvinculados entre si e sim como acentos e perspectivas de uma mesma realidade invisível: a fidelidade a Jesus Cristo e à Sua Palavra.

 “Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada”. A fidelidade à Palavra de Deus é um valor jamais comprometido em si mesmo seja qual for a situação do cristão. Para outras coisas podem existir impedimentos, dificuldades internas e externas: enfermidade, situação social, cultura, economia e assim por diante. Mas a fidelidade à Palavra de Deus é o valor sempre “assegurado”. “Esta parte não lhe será tirada”.

É claro que a atitude de Marta que quer atender Jesus com toda classe tem seu mérito. Porém, Lucas quer sublinhar que há outra atitude fundamental que deve ter na vida de cada cristão: é a escuta da Palavra de Deus que é maior do que qualquer coisa, pois trata-se da Palavra d’Aquele que criou todas as coisas. Não há oposição entre ação e contemplação, mas tudo deve ter sua raiz profunda na escuta atenta da Palavra de Deus. Assim, podemos chegar a ser contemplativos na ação ou ativos na contemplação.

Lucas faz, então, de Maria um modelo de discípulo de Jesus em razão da escuta da Palavra de Jesus para viver e fazer as coisas conforme a vontade de Deus. Este é o objetivo central do texto que Lucas quer inculcar a seus leitores. Mal poderemos seguir a Jesus, mal poderemos cumprir o que ele nos pede, se não escutarmos, se não estivermos atentos à Sua palavra. É impossível viver como cristão sem escutar, serenamente, a Deus. A escuta da Palavra pode nos ajudar a re-centrarmos a nossa vida e a redescobrirmos o sentido da nossa existência.

P. Vitus Gustama,svd

domingo, 4 de outubro de 2026

Segunda-feira Da XXVII Semana Comum, Ano Par, 05/10/2026

SOMOS CHAMADOS A SER NOVOS BONS SAMARITANOS

Segunda-Feira Da XXVII Comum

Primeira Leitura: Gálatas 1,6–12

Irmãos, 6 Admiro-me de que tão depressa abandoneis aquele que vos chamou, pela graça de Cristo, e passeis a outro evangelho. 7 Não que haja outro evangelho, mas algumas pessoas vos estão perturbando e querendo mudar o evangelho de Cristo. 8 Pois bem, mesmo que nós ou um anjo vindo do céu vos pregasse um evangelho diferente daquele que vos pregamos, seja excomungado. 9 Como já dissemos e agora repito: Se alguém vos pregar um evangelho diferente daquele que recebestes, seja excomungado. 10 Será que eu estou buscando a aprovação dos homens ou a aprovação de Deus? Ou estou procurando agradar aos homens? Se eu ainda estivesse preocupado em agradar aos homens, não seria servo de Cristo. 11 Irmãos, asseguro-vos que o evangelho pregado por mim não é conforme critérios humanos. 12 Com efeito, não o recebi nem aprendi de homem algum, mas por revelação de Jesus Cristo.

Evangelho: Lc 10,25-37

Naquele tempo, 25 um mestre da Lei se levantou e, querendo pôr Jesus em dificuldade, perguntou: “Mestre, que devo fazer para receber em herança a vida eterna?” 26 Jesus lhe disse: “Que está escrito na Lei? Como lês?” 27 Ele então respondeu: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração e com toda tua alma, com toda a tua força e com toda a tua inteligência; e a teu próximo como a ti mesmo!” 28 Jesus lhe disse: “Tu respondeste certamente. Faze isso e viverás”. 29 Ele, porém, querendo justificar-se, disse a Jesus: “E quem é o meu próximo?” 30 Jesus respondeu: “Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos de assaltantes. Estes arrancaram-lhe tudo, espancaram-no, e foram-se embora deixando-o quase morto. 31 Por acaso, um sacerdote estava descendo por aquele caminho. Quando viu o homem, seguiu adiante, pelo outro lado. 32 O mesmo aconteceu com um levita: chegou ao lugar, viu o homem e seguiu adiante, pelo outro lado. 33 Mas um samaritano que estava viajando, chegou perto dele, viu e sentiu compaixão. 34 Aproximou-se dele e fez curativos, derramando óleo e vinho nas feridas. Depois colocou o homem no seu próprio animal e levou-o a uma pensão, onde cuidou dele. 35 No dia seguinte, pegou duas moedas de prata e entregou-as ao dono da pensão, recomendando: “Toma conta dele! Quando eu voltar, vou pagar o que tiveres gasto a mais”. E Jesus perguntou: 36 “Na tua opinião, qual dos três foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?” 37 Ele respondeu: “Aquele que usou de misericórdia para com ele”. Então Jesus lhe disse: “Vai e faze a mesma coisa”.

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Crer no único Cristo Que Nos Salvou e Viver Segundo O Mesmo  Evangelho Que Ele Nos Anunciou

“Irmãos, Admiro-me de que tão depressa abandoneis aquele que vos chamou, pela graça de Cristo, e passeis a outro evangelho”.

Durante uma semana e meia (mais ou menos nove dias) vamos ler e meditar sobre a Carta de São Paulo aos cristãos de Galácia (a atual Turquia).  A região de Galácia foi evangelizada durante a segunda viagem missionária de Paulo (Cf. At 16,16.; veja Gl 4,13). E na  sua terceira viagem apostólica, são Paulo também percorreu a região da Galácia (Cf. At 18,23).

A Carta aos Gálatas é de autoria ou de próprio punho de São Paulo (Gl 6,11), e pode ser configurada como uma espécie de autografia de São Paulo, pois nitidamente se descreve a personalidade de são Paulo nesta Carta. A data da composição da Carta entre anos 54 e 56 ou nos anos 56-57. Não tem ano preciso.

Esta carta foi escrita em plena «crise» da Igreja: alguns cristãos de origem judaica (judaizantes) pretendiam impor aos cristãos de origem pagã certo número de ritos tradicionais da Lei de Moisés, em particular a circuncisão. Paulo reagiu com veemência. Para ele, o que estava em jogo era a própria essência da fé cristã: se se voltasse à prática da Lei, a novidade de Cristo seria reduzida a nada. Além disso, os «judaizantes» haviam tentado desacreditar Paulo, insinuando que ele não possuía a verdadeira doutrina: «afinal, com que direito esse Paulo introduz novidades na tradição de Moisés? Ele não faz parte do grupo dos Doze que conviveram com Jesus e, além disso, é um antigo perseguidor!» Paulo responde a esse ataque pessoal.

Em outras palavras, na região de Galácia chegaram alguns pregadores do Evangelho (depois de são Paulo) e colocavam em dúvida a validade e a legitimidade dos anúncios realizados por são Paulo. Nesta Carta são Paulo é acusado de pregar um Evangelho multilado, e ele é considerado como um mini-apóstolo. Segundo os acusadores, o Evangelho autêntico é o dos apótolos de Jerusalém, e convidam os Gálatas a observarem fielmente a lei de Moisés, inclusive o rito da circuncisão.  Estes acusadores são denominados de “judaizantes”. São Paulo considera o assunto é muito grave e toma consciência deste perigo e por isso, decide escrever a Carta para os Gálatas e lutar para libertar os Gálatas deste tipo de doutrina.

A Carta aos Gálatas é chamada a Carta Magna da Liberdade Cristã. Segundo esta Carta, a verdadeira liberdade não vem da lei, e sim do poder de Deus, em Jesus Cristo, que nos resgatou da maldição da lei (Gl 3,13). O Espírito liberta e a letra escraviza (2Cor 3,6). Para a liberdade é que Jesus nos libertou (Gl 5,1).

No txto que lemos hoje, na Primeira Leitura, são Paulo escreveu aos Gálatas: “Admiro-me de que tão depressa abandoneis aquele que vos chamou, pela graça de Cristo, e passeis a outro evangelho” (Gl 1,6). Note-se que o verbo está na voz ativa e não na passiva, e que o tempo é o presente, não o passado.

A palavra grega “metatithêmi” é interessante, significa “transferir fidelidade”. É usada com referência a soldados do exército que se rebelam, e a pessoas que mudam de partido na política. É disso que são Paulo acusa os Gálatas. Trocar o anúncio da graça por outra coisa seria uma traição a Deus para seguir as coisas dos homens. “Metatithêmi”  indica a heresia e a apostasia. É uma atitude de quem nega, volta atrás e trai um compromisso, um pacto ou uma aliança.

Os Gálatas estavam abandonando aquele que os chamou para a graça de Cristo e abraçando um outro evangelho. O verdadeiro Evangelho é, na sua essência, o que são Paulo diz em Atos 20,24: “O Evangelho da graça de Deus”. Na graça Deus deu seu Filho para morrer por nós. Na graça Deus nos justifica quando cremos. “Tudo provém de Deus” (2Cor 5,18) significando que “tudo é de graça”. Nada é devido aos nossos esforços, aos nossos méritos ou às nossas obras. Tudo na salvação é devido à graça de Deus. Por isso, são Paulo chegou a escrever: “Pela graça de Deus sou o que sou” (1Cor 15,10). Para são Paulo há um só  Cristo e um só Evangelho. Por isso, não haveria razoes para trocar o Evangelho da graça recebido de graça por outras crenças. São Paulo enfatiza que não há outro Cristo e consequentemente, não pode ter outro anúncio diferente daquele que ele anunciou. Por não haver dois Cristos, não pode haver ambiguidades de propostas. Se há um só Senhor, há uma só fé e um só batismo (Ef 4,5).

São Paulo desautoriza duramente estes falsos mestres que se infiltram na Galácia: “Se alguém vos pregar um evangelho diferente daquele que recebestes, seja excomungado”.

Para a palavra “excumungado” usa-se a palavra “anátema”. O nátema era uma oferta votiva de sentido religioso na cultura grega (Cf. Cl 21,5). No contexto especifico de Gálatas 1,8-9, o sentido é claro de maldição.

São Paulo fecha a questão com as seguintes palavras: “Mesmo que nós ou um anjo vindo do céu vos pregasse um evangelho diferente daquele que vos pregamos, seja excomungado”. Em outras palavras, nem nós, nem anjos, nem ninguém está autorizado a alterar ou adulterar os ensinamentos e prática de Jesus Cristo. Se alguém fizer isso, será contado entre os amaldiçoados.  Ninguém pode procurar a agradar os homens e abandonar Deus.

A Igreja transmite ao mundo, século atrás de século, a verdade que ela aprendeu da própria fonte da revelação: Cristo. Através dessa Tradição viva que já dura mais de dois mil anos, a comunidade de Jesus se mantém fiel a Cristo e  a seus ensinamentos, e a Igreja defenda a pureza dessa fé contra possíveis desvios em uma direção ou em outra direção.

Ao longo da história, as interrogações podem ser de distinta natureza. Sempre há a tendência a configurar a doutrina de Jesus segundo nosso gosto e nossa mentalidade. Ou seja, criar “um evangelho de origem humana”. A Igreja tem a obrigação de estar vigilante, como foi são Paulo, para não falsificar a graça e a salvação de Deus. Não podemos inventar outro Evangelho para atender ao nosso gosto ou interesse. O Evangelho de Jesus deve ser aceito e vivido na sua integridade. Um Evangelho “light” é uma maneira de faltar à verdade que, às vezes é mais perigoso do que heresia ou apostasia. Não podemos adaptar o Evangelho ao nosso gosto e mentalidade. Nossa vida deve se adaptar ou deve estar em conformidade com o Evangelho. São Paulo está seguro de que sua mensagem vem do próprio Cristo. nada nem ninguém deve mudar, porque está em jogo o ponto central e único do Senhor Jesus como único Salvador.

Como no caso do Concílio de Jerusalém (At 15,1-21) temos que ter o discernimento para distinguir o falso do verdadeiro sob a luz do Espirito Santo, e com um alto sentido de corresponsabilidade comunitária para não perder a riqueza e a força da Palavra revelada por Deus. o Salmo Responsorial de hoje (Sl 110) nos orienta nessa direção: “Eu agradeço a Deus de todo o coração junto com todos os seus justos reunidos! Que grandiosas são as obras do Senhor, elas merecem todo o amor e admiração! Suas obras são verdade e são justiça, seus preceitos, todos eles são estáveis, confirmados para sempre e pelos séculos, realizados na verdade e retidão”.

Quem contempla e compreende a obra de salvação de Deus por nós não pode continuar vivendo sob o regime do pecado e sim sob o regime da graça. Deus se converteu em Deus-Conosco. Por isso, abramos nosso coração para que a salvação de Deus se realize plenamente em nós. Não vivamos como filhos rebeldes e sim que, humildes e simples, escutemos hoje a voz do Senhor e não endureçamos diante dele nosso coração.

Roguemos ao Senhor que nos conceda sua graça, sua força do alto para que toda nossa vida se converta em um contínuo louvor de seu Santo Nome.

Somos Chamados a Fazer o Bem Em Qualquer Momento e Lugar e Para Qualquer Pessoa

O texto do Evangelho nos fala do bom samaritano. O que está em jogo no texto do evangelho lido neste dia que nos é proposto uma pergunta de um mestre da Lei: “O que fazer, a fim de conseguir a vida eterna?”.

A resposta é previsível e evidente, de tal forma que o próprio mestre da Lei a conhece: amar a Deus, fazer de Deus o centro da vida e amar o próximo como a si mesmo. Certamente a maravilhosa parábola do bom Samaritano é um reflexo sobre como deve viver concretamente a lei do amor a Deus e ao próximo.

No entanto, a dúvida do mestre da Lei vai mais fundo quando se fala do próximo: “Quem é o meu próximo?”. Na época de Jesus, os mestres de Israel discutiam, precisamente, quem era o “próximo”. Naturalmente, havia opiniões diversas. Porém, havia consenso entre todos sobre o sentido exclusivo do próximo. De acordo com a Lei, o “próximo” era apenas o membro do Povo de Deus (cf. Ex 20,16-17; 21,14.18.35; Lv 19,11.13.15-18). No entanto, Jesus tinha outro conceito sobre quem é o próximo. É precisamente para explicar a sua perspectiva que Jesus conta a “parábola do bom samaritano”.

“O que acontecerá comigo se eu não obedecer à lei ritual diante do homem meio morto?”. Esta é a pergunta do sacerdote e do levita nesta parábola. Mas Jesus convida cada cristão a fazer a seguinte pergunta: “O que acontecerá com meus irmãos, especialmente com os irmãos mais necessitados, se eu não fizer nada por eles?”. Esta é a pergunta do bom samaritano. Por isso, o bom samaritano se solidariza, se aproxima, e se arrisca pelo irmão, pelo necessitado.

O samaritano é um dos que a religião tradicional considerava um inimigo, um infiel, longe da salvação e longe da Igreja. No entanto, foi ele quem parou, sem medo de correr riscos ou de adiar os seus esquemas e interesses pessoais, que cuidou do ferido e que o salvou. Apesar de ser um “herege”, um “excomungado”, mostra ser alguém atento ao irmão necessitado, com o coração cheio de amor e, portanto, cheio de Deus. “Amando ao próximo você limpa os olhos para ver a Deus” (Santo Agostinho). “O amor é a única dívida que mesmo depois de paga nos mantém como devedores” (Santo Agostinho).

 

A base da fé é, certamente, estar aberto à realidade humana, ser capaz de pensar no outro e na sua necessidade, de respeitar a vida do outro, de sentir o que o outro sente ou o que o outro pode sentir. O samaritano reage com uma atitude de homem para homem, e se converte, deste modo, em realizador da misericórdia. Para Jesus o importante não é saber quem é meu próximo e sim fazer-se próximo dos demais, aproximar-se, ajudar o outro. O verdadeiro amor não faz exceção com ninguém. O amor aproxima e nos faz descobrir o próximo. O amor torna o outro meu próximo. Por isso, para quem ama, qualquer ser humano é seu próximo, independentemente de sua crença, religião, política, ideologia e assim por diante. A verdadeira religião que conduz à salvação passa por este amor sem limites ao próximo. O próximo é a passagem obrigatória para chegar até Deus. Quem tem sensibilidade e é capaz de desfazer-se de seus planos para se mostrar solidário, estará no caminho da vida eterna. Quem, pelo contrário, desvia-se do próximo carente de solidariedade, desvia-se do caminho que conduz a Deus. O “próximo” é qualquer um que necessita de nós, seja amigo ou inimigo, conhecido ou desconhecido, da mesma nação ou doutra qualquer; o “próximo” é qualquer irmão caído nos caminhos da vida que necessita de nossa ajuda e de nosso amor para poder se levantar novamente. Neste gesto do bom samaritano, a Igreja de todos os tempos reconhece um aspecto fundamental da sua missão: a missão de levantar todos os homens e mulheres caídos nos caminhos da vida. É a missão de cada cristão, seguidor de Cristo. O próximo é aquele em cujo caminho eu me coloco.

Neste gesto do bom samaritano, a Igreja de todos os tempos reconhece um aspecto fundamental da sua missão: a missão de levantar todos os homens e mulheres caídos nos caminhos da vida. É a missão de cada cristão, seguidor de Cristo. Qualquer pessoa ferida com quem nos cruzamos nos caminhos da vida tem direito ao nosso amor, à nossa misericórdia, ao nosso cuidado – seja ela branca ou negra, cristã ou muçulmana, ateu ou crente, fascista ou comunista, pobre ou rica…

Em um mundo no qual se encurtam as distâncias e se incrementam as comunicações para todos os níveis, muitos homens não conseguem ser próximos para os outros porque as atitudes interiores diversas não estão em consonância com a proximidade física. Quantos estão sós em meio do barulho das grandes e pequenas cidades.

É preciso que estejamos conscientes de que perderemos o tempo se nós buscarmos Deus tão somente nas práticas religiosas ou rituais, mas distantes da vida e dos irmãos. Ambos devem se complementar. O encontro com Deus na oração deve levar necessariamente cada cristão ao encontro com os irmãos. O amor cria vida para quem ama e amado.

Vale a pena repetir a pergunta para que cada um de nós possa estender a reflexão: “De quem sou próximo?”. Será que sou próximo de acordo com o critério de Jesus a exemplo do bom samaritano? Para quem se conforma com a pergunta “quem é meu próximo?”, o próximo não está mais próximo e sim está distante, está do outro lado de nossa curiosidade.

Portanto, a parábola do bom samaritano põe como modelo de ser humano um homem que era desprezado na cultura israelita da época. Esta contradição se propõe ressaltar o valor da vida humana acima de qualquer diferença cultural, étnica ou política.

Quando os três personagens: o levita, o sacerdote e o samaritano, encontram o homem ferido e abandonado no caminho, têm que discernir se optam por sua comunidade (religião) ou optam pela vida. Os dois primeiros passam indiferentes, pois ainda que tenham uma função religiosa no povo, sua maneira de pensar lhes impede de ver que sua religião deve estar a favor da vida do ser humano. O Samaritano pelo contrário, a partir de sua opção pela vida, auxilia aquele homem sem importar-lhe de qual religião ele é, ou a qual nacionalidade ou etnia ele pertence. Para o Samaritano o importante é que esse homem ferido moribundo é um ser humano necessitado de compaixão. Portanto, atua conforme uns princípios humanitários.

A parábola elimina o falso dilema a quem devo e a quem não devo fazer o bem. A parábola delineia  uma opção por defender a vida do ser humano como um valor absoluto. Todo este ensinamento se pode resumir no conhecido adágio popular: “Faz o bem sem olhar a quem”. Pois o absoluto de Deus é a vida do ser humano. Portanto, devem-se superar as diferenças étnicas, patriótricas ou de qualquer índole diante de um ser humano enfermo e abandonado e que necessita de um pouco  de bondade de seu próximo. Com efeito, o próximo é aquele em cujo caminho eu me coloco, em sua necessidade real.

Aqueles que não querem se comprometer com o irmão necessitado falam sempre da vida eterna. É como uma droga que os aliena dos deveres com a vida presente: “Mestre, que devo fazer para receber em herança a vida eterna?”. O seguimento de Jesus tem exigências reais. Todos aqueles que se dedicam à libertação do homem, especialmente dos necessitados, estão com Jesus e sua causa.

P. Vitus Gustama,SVD

Quinta-feira Da XXVII Semana Comum, Ano Par, 08/10/2026

SER PERSEVERANTE NA ORAÇÃO Quinta-Feira da XXVII Semana Comum   Primeira Leitura: Gl 3,1-5 1 Ó gálatas insensatos, quem é que vos fasc...