quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Sexta-feira Da XIX Semana Comum, Ano Par, 14/08/2026

MATRIMÔNIO E SUA INDISSOLUBILIDADE NO PLANO DE DEUS

Sexta-Feira da XIX Semana Comum

                                                                                                                                    

Primeira Leitura: Ez 16,1-15.60.63

1 A palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos: 2 “Filho do homem, mostra a Jerusalém suas abominações. 3 Dirás: Assim fala o Senhor Deus a Jerusalém: Por tua origem e nascimento és do país de Canaã. Teu pai era um amorreu e tua mãe uma hitita. 4 E como foi o teu nascimento? Quando nasceste, não te cortaram o cordão umbilical, não foste banhada em água, nem esfregada com salmoura nem envolvida em faixas. 5 Ninguém teve dó de ti, nem te prestou algum desses serviços por compaixão. Ao contrário, no dia em que nasceste, eles te deixaram exposta em campo aberto, porque desprezavam a tua vida. 6 Então, eu passei junto de ti e vi que te debatias no próprio sangue. E enquanto estavas em teu sangue, eu te disse: “Vive!” 7 Eu te fiz crescer exuberante como planta silvestre. Tu cresceste e te desenvolveste, e chegaste à puberdade. Teus seios se firmaram e os pelos cresceram; mas estavas inteiramente nua. 8 Passando junto de ti, percebi que tinhas chegado à idade do amor. Estendi meu manto sobre ti para cobrir tua nudez. Fiz um juramento, estabelecendo uma aliança contigo — oráculo do Senhor —, e tu foste minha. 9 Banhei-te na água, limpei-te do sangue e ungi-te com perfume. 10 Eu te revesti de roupas bordadas, calcei-te com sandálias de fino couro, cingi-te de linho e te cobri de seda. 11 Eu te enfeitei de joias, pus braceletes em teus braços e um colar no pescoço. 12 Eu te pus um anel no nariz, brincos nas orelhas e uma coroa magnífica na cabeça. 13 Estavas enfeitada de ouro e prata, tuas vestimentas eram de linho finíssimo, de seda e de bordados. Eu te nutria com flor de farinha, mel e óleo. Ficaste cada vez mais bela e chegaste à realeza.14 Tua fama se espalhou entre as nações por causa de tua beleza perfeita, devido ao esplendor com que te cobri — oráculo do Senhor. 15 Mas puseste tua confiança na beleza e te prostituíste graças à tua fama. E sem pudor te oferecias a qualquer passante. 60 Eu, porém, me lembrarei de minha aliança contigo, quando ainda eras jovem, e vou estabelecer contigo uma aliança eterna. 63 É para que te recordes e te envergonhes, e na tua confusão não abras mais a boca, quando eu te houver perdoado tudo o que fizeste, — oráculo do Senhor Deus”.

Evangelho: Mt 19, 3-12

Naquele tempo, 3alguns fariseus aproximaram-se de Jesus, e perguntaram, para tentá-lo: “É permitido ao homem despedir sua esposa por qualquer motivo?” 4 Jesus respondeu: “Nunca lestes que o Criador, desde o início, os fez homem e mulher? 5 E disse: ‘Por isso, o homem deixará pai e mãe, e se unirá à sua mulher, e os dois serão uma só carne’? 6 De modo que eles já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe”. 7 Os fariseus perguntaram: “Então, como é que Moisés mandou dar certidão de divórcio e despedir a mulher?” 8 Jesus respondeu: “Moisés permitiu despedir a mulher, por causa da dureza do vosso coração. Mas não foi assim desde o início. 9 Por isso, eu vos digo: quem despedir a sua mulher – a não ser em caso de união ilegítima – e se casar com outra, comete adultério”. 10 Os discípulos disseram a Jesus: “Se a situação do homem com a mulher é assim, não vale a pena casar-se”. 11 Jesus respondeu: “Nem todos são capazes de entender isso, a não ser aqueles a quem é concedido. 12 Com efeito, existem homens incapazes para o casamento, porque nasceram assim; outros, porque os homens assim os fizeram; outros, ainda, se fizeram incapazes disso por causa do Reino dos Céus. Quem puder entender entenda”.

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Deus Continua Nos Amando Apesar De Nossos Pecados. É Preciso Voltar Ao Amor De Deus Que Nos Salva

Fiz um juramento, estabelecendo uma aliança contigo e tu foste minha. Eu me lembrarei de minha aliança contigo, quando ainda eras jovem, e vou estabelecer contigo uma aliança eterna. É para que te recordes e te envergonhes, e na tua confusão não abras mais a boca, quando eu te houver perdoado tudo o que fizeste é o oráculo do Senhor através da boca do profeta Ezequiel que lemos na Primeira Leitura de hoje.

O texto da Primeira Leitura é tirado do capítulo dezesseis do livro do profeta Ezequiel. O Ez 16 é uma meditação do profeta Ezequiel sobre a história de Jerusalém e de sua missão para estabelecer o Reino de Deus no mundo. Trata-se de um capítulo belo da Sagrada Escritura escrito com a maior força e paixão.

A queixa de Deus contra seu povo se expressa através de uma alegoria escrita com grande realismo. Trata-se de a história de um amor não correspondido. Deus encontrou  uma garota abandonada e  a adota. A descrição dos favores que cercam essa garota, até transformá-la em uma mulher madura e bonita, é repleta de detalhes muito humanos. Mas ela, vendo-se cheia de atratividade, esquece seu benfeitor e se prostitui com quem passa: ela esquece seu Deus e sai com os falsos deuses.

Com essa grande alegoria, o profeta Ezequiel descreve a história de Israel desde suas origens até a renovação da aliança. O profeta Ezequiel escreveu que toda a história de Israel com Deus é uma luta constante entre o amor de Deus, de um lado e os contínuos pecados de Jerusalém, do outro lado. Assim como as relações com Deus são descritas como uma história de amor do esposo para com a esposa, as relações com os ídolos são explicadas com a imagem da prostituição ou fornicação como uma manifestação da infidelidade de Israel contra o Senhor. Trata-se da infidelidade, que, às vezes, foi a mesma prostituição sagrada praticada pelos judeus e certas religiões cananeias nos santuários. A história de Israel é feita de pecados e ingratidões.

Apesar disso, o profeta Ezequiel quer enfatizar sobre este fato tão escuro da história de Israel que sobressaem e brilham extraordinariamente a bondade e o imenso e gratuito amor de Deus para seu povo. Desde princípio o próprio Deus tomou a iniciativa, quando o povo não tinha nem mérito nem valor: “No dia em que nasceste, eles te deixaram exposta em campo aberto, porque desprezavam a tua vida. Então, eu passei junto de ti e vi que te debatias no próprio sangue. E enquanto estavas em teu sangue, eu te disse: ‘Vive!’. Eu te fiz crescer exuberante como planta silvestre”.

Ao longo de sua vida, Deus inunda o povo de todo tipo de bens, mas o próprio povo utiliza todos os bens de Deus para cometer pecados. Em vez de adorar o Deus dos bens, o povo apenas adora os bens de Deus. Mas a atitude maravilhosa e surpreendente de Deus perdoa o povo. Apesar da infidelidade do povo, Deus restabelece a aliança. Trata-se de uma pura benevolência de Deus. O que se exige do povo é o arrependimento e a conversão.

Este texto do profeta Ezequiel nos leva a algumas afirmações mais importantes do Novo Testamento: “Deus nos amou primeiro” (1Jo 4,10ss); “Deus que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, quando estávamos mortos em nossos delitos, nos vivificou juntamente com Cristo...” (Ef 2,4ss). O amor de Deus é um amor totalmente gratuito: “O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espirito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5).

O profeta Ezequiel quer nos transmitir a certeza de que não há pecado, por grave que seja e por numerosos que sejam pecados cometidos, que não possa ser perdoado por Deus: “Ainda que vossos pecados sejam como escarlate, tornar-se-ão alvos como a neve; ainda que sejam vermelhos como carmesim, tornar-se-ão como a lã” (Is 1,18). Deus é rico em misericórdia. A única condição que Deus quer é que nos convertamos para recomeçar nossa vida na graça abundante de Deus. A misericórdia está sempre na nossa frente. É preciso olharmos sempre para a misericórdia de Deus e as sombras de nossa vida vão ficar para trás. Quando não acreditarmos mais na misericórdia de Deus, as sombras de nossa vida vão escurecer nossa caminhada e ficaremos infelizes, perdido e confusos para o resto de nossa vida.

Matrimônio É o Sacramento de Amor: o Amor mútuo entre Os Esposos e o Amor Deus Para Os Esposos

O que Deus uniu, o homem não separe”.

Terminado o discurso sobre a vida comunitário ou discurso eclesial (Mt 18), seguem algumas recomendações de Jesus em seu caminho para Jerusalém. Desta vez é sobre a questão de divórcio.

Na época de Jesus, a Lei permitia a possibilidade de um homem repudiar a mulher (mas nenhuma mulher tinha direito de repudiar seu marido). A lei determina que o homem (marido) dê um documento legal de divórcio, que a deixe livre para se casar novamente (Dt 24,1-4; Jr 3,8). O Deuteronômio dá uma razão geral para o marido divorciar-se da mulher: “Esta não encontra mais graça aos seus olhos, porque viu nela algo de inconveniente” (Dt 24,1). Expressa, então, a superioridade do homem e seu domínio sobre a mulher e reflete a opressão exercida em todos os níveis da sociedade na época. A mulher é considerada como objeto ou propriedade do homem (uma moça solteira era propriedade de seu pai; uma mulher casada era propriedade de seu marido).                

Questionando Jesus sobre o divórcio, os fariseus se aproximam de Jesus para tentá-lo: “É lícito a um marido repudiar sua mulher?” Se responder “sim”, Jesus se mostrará como seguidor de Moisés, assim Jesus não será maior do que Moisés. Se responder “não”, Jesus estará em oposição à lei de Moisés. Logo Jesus será desprezado pelo povo.        

Jesus, porém, não está preocupado com a lei que mantém a lógica dominante. Ele levanta duas questões: Por que Moisés escreveu tal lei? E será que Moisés a escreveu com intenção de permitir o divórcio? Por isso, Jesus responde: “Foi por causa da dureza do coração de vocês que Moisés escreveu esse mandamento. Mas, desde o início da criação, Deus os fez homem e mulher...os dois serão uma só carne/ser”. Para o hebreu, coração significa o centro da pessoa, da sua liberdade, dos seus relacionamentos: lá onde a pessoa se abre e se dá na conversão, no amor e no compromisso. A vitória do Reino será justamente a transformação do coração humano. A condição de “dureza de coração” impede que se perceba o valor que cada pessoa tem aos olhos de Deus (3,5); e ela causa cegueira diante da manifestação do Amor de Deus (Mt 6,52;8,17). 

O que Deus uniu o homem não separe”, afirma Jesus. A fidelidade indissolúvel n matrimônio que Jesus propõe não deve ser entendida como lei e sim como Evangelho. Jesus deixa de lado a casuística e afirma a indissolubilidade do matrimônio, recordando o plano de Deus: “Desde o início da criação, Deus os fez homem e mulher...os dois serão uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe ”. O plano é de Deus: Ele é quem quer que exista essa atração e esse amor entre o homem e a mulher com uma admirável complementaridade, e, além disso, com a abertura ao milagre da vida (gerar) no qual colaboram com o próprio Deus Criador. 

No Sermão da Montanha Jesus desautorizava o divórcio (Mt 5,31-32). Aqui apela para a vontade original de Deus, que comporta uma união mais séria e estável, não sujeita a um sentimento passageiro ou a um capricho. O texto mostra que a união matrimonial, no plano de Deus, transforma os cônjuges em “companheiros de eternidade”: “O que Deus uniu...”. Para Jesus a mais alta concepção humana do amor conjugal é um dom de Deus. Isso significa que para se casar o homem e a mulher devem se deixar inspirar por Deus para poderem amar indissoluvelmente, fielmente e infinitamente. 

Ao mesmo tempo, negando o divórcio, Jesus estabelece a dignidade da mulher, que não pode ser tratada como  a era tratada naquele tempo com a visão machista. O que Deus quer é a igualdade entre as pessoas. Por isso, o homem não é superior à mulher. E Jesus nos chama a valorizarmos as pessoas conforme o plano de Deus e não para tirar vantagens de uma relação. 

Tudo que Jesus afirma nos recorda a necessidade de cada comunidade eclesial levar a sério o matrimônio: a preparação humana e psicológica do matrimônio, sua celebração, seu acompanhamento depois..., pois o amor que Deus quer é estável, fiel e maduro. Se o matrimônio se aceita com todas as consequências, não buscando somente a si mesmo, mas a admirável comunhão de vida que supõe a vida conjugal evidentemente é comprometido, nobre e gozoso.

A definitividade do matrimônio faz com que o amor se torne cada vez mais maduro, pois ele é refletido toda vez que encontra sua dificuldade e seus obstáculos. Nisto consiste a beleza do matrimônio.  Precisamente na medida em que os momentos de crise matrimonial se superam, cresce também uma nova dimensão do amor e ao mesmo tempo se abre uma porta para uma dimensão da vida. Na superação de cada momento de crise abre-se uma porta para uma nova dimensão da convivência matrimonial e familiar. Com efeito, a verdadeira beleza do matrimônio não consiste apenas na sua harmonia, mas também na superação de cada momento de crise.

A beleza do matrimônio também consiste em ser ninho do amor e de outros valores para uma família. A família é a base de uma história para cada membro dela. A família é o ambiente em que cada um aprende a dar e a receber o amor; a sacrificar pelo outro, a ser solidário com o outro, a carregar juntos o fardo que se encontra na caminhada, a perdoar mutuamente pelas ofensas que muitas vezes são frutos não da maldade, mas das limitações naquele momento em que elas ocorreram. A grandeza de um matrimônio e de uma família consiste na entrega sincera de si mesmo ao outro, de ser fiel um ao outro.Se você quiser ser fiel até a morte, deve estar disposto a mudar durante toda a sua vida. Os esposos fiéis podem olhar-se nos olhos sem temores (René Juan Trossero). 

Por isso, a beleza de um matrimônio também consiste na transmissão dos valores para os filhos. Nada pode substituir a existência de uma família, pois ela é a base de uma história, de um crescimento, da maturidade humana e cristã. A família é um bem necessário para cada ser humano para toda a sua vida. Não é por acaso que cada família cristã é chamada de Igreja doméstica, pois através da vivência dos valores a família se torna uma comunidade de graça e uma escola das virtudes humanas e cristãs. A linguagem da fé de cada cristão se aprende no lar. A fé e a ética cristã se aprendem no lar que vão marcar a vida de cada membro para o resto da vida. Nenhum de nós adquiriu por si só os conhecimentos básicos para a vida. Cada um recebe de outros, principalmente da família, a vida e as verdades básicas para viver uma vida sadia pessoal, social e comunitariamente. Neste sentido, os próprios pais são exemplo e professores das virtudes humanas e cristãs. Somente desta maneira cada família pode superar a cultura que exalta o egoísmo e o individualismo como se cada um se fizesse só e se bastasse a si mesmo esquecendo o valor de uma relação com os outros e sua responsabilidade diante dos outros.    

Ao lermos este texto sabemos que Jesus não queria ensinar que o casamento é um simples contrato legal que não pode ser dissolvido. Pois um simples contrato pode sempre ser dissolvido, porque se trata apenas de um acordo entre duas vontades humanas. Com sua resposta, Jesus quer mostrar que o casamento é mais do que uma lei. Ele é graça de Deus. É uma união de amor.O amor é o único jogo no qual dois podem jogar e ambos ganharem (Erma Freesman). O fundo de uma agulha é bastante espaçoso para um casal que se ama; mas o mundo todo é pequeno para dois inimigos (Solomon Ibn Gabirol).  É neste nível que deve ser compreendido, e é neste plano que os esposos devem viver. Jesus dá, então, ao casamento uma dignidade nova.         

Se a instituição do matrimônio é tão ameaçada atualmente talvez porque nossa cultura tenha aspectos que favoreçam a condição de dureza de coração. Valoriza-se a liberdade, mas sem compromissos. Cria-se um conceito da afetividade e sexualidade que é baseado mais no egoísmo do que no respeito pela dignidade do outro, e no espírito de doação.       

Hoje sentimos como é necessário ajudar as pessoas a conhecerem a pessoas de Jesus, e a encarar a vida conjugal como uma vocação, ou seja, como um chamamento a viver o Amor do Reino neste estado de vida. Continuamos na obrigação de educar para um amor capaz de assumir compromissos definitivos. Isso se faz para valorizar a confiança mútua, a fidelidade ao outro e a si mesmo, para dar uma chance à felicidade que estava no plano de Deus desde o começo. Não vemos casamento indissolúvel como uma obrigação a ser carregada, e sim como um direito que não deve ser sacrificado num mundo que fez do descartável um modo de vida. Responsabilidade, desejo de fidelidade, seriedade na palavra empenhada têm muito a ver com o direito de ser e fazer feliz. 

Não separe o homem o que Deus uniu”, diz Jesus. Jesus está sempre contra a corrente. Palavra incompreensível para muitos homens e mulheres, qualquer seja a sua idade. O ser humano foi criado à imagem de Deus por amor. O casal humano é chamado por Deus a tornar-se o primeiro lugar de encarnação deste movimento de amor. O amor humano, sob todas as suas formas, não nasceu dos acasos da evolução biológica. É dom de Deus. Quando os homens recusarem este dom, impedirão Deus de imprimir neles a sua imagem. O casamento indissolúvel é um grito para todas as pessoas ao redor que existe o amor. É o mesmo que dizer: Deus existe, pois ele é Amor (1Jo 4,8.16). 

A lição da fidelidade estável vale igualmente para os que optaram por outro caminho, o do celibato. Disso fala Jesus hoje quando afirma que há quem renuncia ao matrimônio e se mantém celibatário “pelo Reino dos Céus”, como fazem os ministros ordenados e os religiosos: não para não amar e sim para amar mais e de outro modo, para dedicar sua vida inteira, também como sinal, a colaborar na salvação do mundo. Jesus apresenta o celibato como um dom de Deus, e não como uma opção que seja possível para todos. 

Deus abençoe todas as famílias, todos os casados e todos os futuros casados, todos os ministros ordenados e religiosos.

P.Vitus Gustama, svd

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Quinta-feira Da XIX Semana Comum, Ano Par, 13/08/2026

PERDOAR: O POR QUÊ E O PARA QUÊ?

Quinta-Feira da XIX Semana Comum

Primeira Leitura: Ez 12,1-12

1 A palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos: 2 “Filho do homem, estás morando no meio de um povo rebelde. Eles têm olhos para ver e não veem, ouvidos para ouvir e não ouvem, pois são um povo rebelde. 3 Quanto a ti, Filho do homem, prepara para ti uma bagagem de exilado, em pleno dia, à vista deles. Emigrarás do lugar onde estás, à vista deles, para outro lugar. Talvez percebam que são um povo rebelde. 4 Deverás tirar a bagagem em pleno dia, à vista deles, como se fosse a bagagem de um exilado. Mas deverás sair à tarde, à vista deles, como quem vai para o exílio. 5 À vista deles deverás cavar para ti um buraco no muro, pelo qual sairás; 6 deverás carregar a bagagem nas costas e retirá-la no escuro. Deverás cobrir a face para não ver o país, pois eu fiz de ti um sinal para a casa de Israel”. 7 Eu fiz assim como me foi ordenado. Tirei a bagagem durante o dia, como se fosse a bagagem de exilado; à tarde, abri com a mão um buraco no muro. Saí no escuro, carregando a bagagem às costas, diante deles. 8 De manhã, a palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos: 9 “Filho do homem, não te perguntaram os da casa de Israel, essa gente rebelde, o que estavas fazendo? 10 Dize-lhes: Assim fala o Senhor Deus: Este oráculo refere-se ao príncipe de Jerusalém e a toda a casa de Israel que está na cidade. 11 Dize: Eu sou um sinal para vós. Assim como eu fiz, assim será feito com eles: irão cativos para o exílio. 12 O príncipe que está no meio deles levará a bagagem às costas e sairá no escuro. Farão no muro um buraco para sair por ele. O príncipe cobrirá o rosto para não ver com seus olhos o país.

Evangelho: Mt 18,21-35

Naquele tempo, 18,21 Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou: “Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?” 22 Jesus respondeu: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete. 23 Porque o Reino dos Céus é como um rei que resolveu acertar as contas com seus empregados. 24 Quando começou o acerto, trouxeram-lhe um que lhe devia uma enorme fortuna. 25 Como o empregado não tivesse com que pagar, o patrão mandou que fosse vendido como escravo, junto com a mulher e os filhos e tudo o que possuía, para que pagasse a dívida. 26 O empregado, porém, caiu aos pés do patrão, e, prostrado, suplicava: ‘Dá-me um prazo! e eu te pagarei tudo’. 27 Diante disso, o patrão teve compaixão, soltou o empregado e perdoou-lhe a dívida. 28 Ao sair dali, aquele empregado encontrou um dos seus companheiros que lhe devia apenas cem moedas. Ele o agarrou e começou a sufocá-lo, dizendo: ‘Paga o que me deves’. 29 O companheiro, caindo aos seus pés, suplicava: ‘Dá-me um prazo! e eu te pagarei’. 30 Mas o empregado não quis saber disso. Saiu e mandou jogá-lo na prisão, até que pagasse o que devia. 31 Vendo o que havia acontecido, os outros empregados ficaram muitos tristes, procuraram o patrão e lhe contaram tudo. 32 Então o patrão mandou chamá-lo e lhe disse: ‘Empregado perverso, eu te perdoei toda a tua dívida, porque tu me suplicaste. 33 Não devias, tu também, ter compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?’ 34 O patrão indignou-se e mandou entregar aquele empregado aos torturadores, até que pagasse toda a sua dívida. 35 É assim que o meu Pai que está nos céus fará convosco, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão”. 19,1 Ao terminar estes discursos, Jesus deixou a Galileia e veio para o território da Judeia além do Jordão.

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A Vida Está Cheia De Símbolos Que Contêm Recados De Deus Para Cada Um De nós

Filho do homem, prepara para ti uma bagagem de exilado, em pleno dia, à vista deles. Emigrarás do lugar onde estás, à vista deles, para outro lugar. Talvez percebam que são um povo rebelde. Deverás tirar a bagagem em pleno dia, à vista deles, como se fosse a bagagem de um exilado. Mas deverás sair à tarde, à vista deles, como quem vai para o exílio”, lemos na Primeira Leitura do livro do profeta Ezequiel. É uma ação simbólica que o profeta Ezequiel deve fazer a ordem de Deus.

O texto da Primeira Leitura nos oferece novo anúncio sobre a próxima deportação ou a segunda deportação. A primeira deportação já aconteceu em 597 a.C em que a melhor parta do povo foi exilada em Babilônia (o atual Iraque). Os anúncios anteriores nãi foram suficientes, pois os destinatários continuam sendo povo rebelde. O próprio Deus chama o povo de povo rebelelde no início da vocação de Ezequiel (Ez 2,3-4).

No texto de hoje, Ezequiel faz um ato simbólico. A mesma ação simbólica que a Primeira Leitura de hoje nos apresenta, lemos também em Ez 5,1-17. O objetivo destas ações simbólicas é para fazer penetrar mais nos ouvintes a profecia de Ezequiel, profecia no sentido de transmissão da palavra ou do desígnio de Deus em determinado momento.

A ação simbólica do profeta Ezequiel na leitura de hoje é simples: Ezequiel tem que preparar as coisas para marchar/viajar como um emigrante: preparar as coisas durante o dia e sair de noite. O sentido que o profeta quer transmitir ao povo através da ação simbólica é claro: anunciar a segunda deportação para Babilônia, tanto do rei como dos habitantes elites da cidade de Jerusalém apesar de eles não quererem reconhecer o sentido dessa ação. A cidade será destruída, porque “Eles têm olhos para ver e não veem, ouvidos para ouvir e não ouvem, pois são um povo rebelde” (Ez 12,2b). Por isso, não querem fazer caso de Ezequiel. Consequentemente, não mudaram sua maneira de viver. Quando não mudar a maneira de viver, também não mudará o destino. Somente um insano faz isso. Insano é aquele que continua a fazer a mesma coisa e, ao mesmo tempo, espera o resultado diferente.

Um profeta é uma pessoa que deve ir indicando aos demais quais são os caminhos de Deus. O profeta anuncia o que é que vai bem e denuncia o que deve ser corrigido para não ir à ruina. No Batismo, através da unção de óleo de crisma colocado na nossa testa, recebemos a função profética (além da função sacerdotal e real/pastoral). Com a função profética temos a missão de anunciar a Palavra de Deus e denunciar, como nossa maneira de viver, tudo o que é injusto, desonesto, humilhante e assim por diante. Qualquer batizado jamais compactua com a maldade, a corrupção e assim por diante.

O Salmo Responsorial de hoje (Sl 77/78) reconhece humildemente os motivos do desastre nacional: “Mesmo assim, eles tentaram o Altíssimo, recusando-se a guardar os seus preceitos... provocaram-lhe o ciúme com seus ídolos... Deus ouviu e enfureceu-se contra eles, e repeliu com violência a Israel. Entregou a sua arca ao cativeiro”.

Mesmo que não haja nenhuma mudança na vida do povo, Ezequiel não se deixa levar nem pelo cansaço nem pelo desalento. Na verdade é o próprio Deus que está atrás da atividade de Ezequiel, pois é Deus quem manda fazer toda a ação simbólica. É admirável a paciência de Deus e de seu profeta em mandar sinais para que o povo se converta, um povo que, aparentemente, perdeu toda possibilidade de perceber o sentido de tudo que Deus diz e faz. Deus sempre espera na possibilidade de o homem voltar para o caminho certo pelo sua própria salvação.

De tudo isso aprendemos que nunca podemos dizer que o endurecimento é permanente. Tem que ter sempre a esperança de uma mudança, de uma conversão, de um conhecimento de Deus que levam ao reconhecimento do amor de Deus.

Além disso, através das ações simbólicas do profeta Ezequiel para transmitir a mensagem de Deus aprendemos que na nossa vida de cada dia Deus sempre deixa seus sinais para nos alertar e para nos ajudar a tomar o caminho do bem. Um sinal nos leva daquilo que vemos para aquilo que não vemos, do conhecido ao desconhecido, isto é, que evoca algo que está muito além de sua própria realidade. Alguns sinais podemos decifrar facilmente: a fumaça indica, geralmente, que há fogo, o riso indica alegria, as pegadas indicam os passos de um homem ou de um animal que passou. Em cada experiência e acontecimento de nossa vida Deus sempre deixa Seu recado para nós. Na vida de um ser humano, do ponto de vista teológico, não há nada que seja acaso e sim, providência divina. Em cada experiência, em cada acontecimento de nossa vida, devemos lançar a seguinte pergunta: O que Deus quer de mim através daquela experiência ou através daquele acontecimento? Qual foi o recado de Deus para mim através daquele acontecimento, daquela conversa, daquela briga etc.? Mas podemos ter certeza de que somente quem vive o verdadeiro amor fraterno é capaz de perceber os sinais de Deus, até nas pequenas coisas de cada dia. “Às vezes, os problemas são sinais de que chegou a hora de o guerreiro iniciar uma nova batalha” (Roberto Shinyashiki).

Perdão É a Expressão Máxima Do Amor

Não te digo até sete vezes tu deves perdoar, mas até setenta vezes sete”.

Estamos na última parte do quarto discurso de Jesus sobre a vida comunitária no evangelho de Mateus (Mt 18). Na passagem do evangelho de hoje Jesus enfatiza a importância do mútuo perdão para que a convivência subsista e o Reino de Deus se realize na terra.

Um dos maiores desafios para qualquer tipo de convivência, como também na comunidade de Mt, é o perdão. A sobrevivência de qualquer comunidade humana depende da capacidade que seus membros têm de perdoar. Sem isto, não há comunidade ou convivência que possa subsistir por muito tempo. O perdão é que possibilita a própria existência e a continuação da comunidade ou de uma convivência. Sem o perdão não existe vida fraterna, vida religiosa, vida conjugal, vida familiar ou vida comunitária. Para aprender a amar verdadeiramente o cristão tem que aprender a perdoar vivendo o espírito de Deus que não se cansa de nos perdoar. Por isso, perdoar não é somente dever moral, e sim o eco da consciência de ter sido perdoado por Deus. Assim chega a ser uma espécie de virtude teologal que prolonga o perdão dado por Deus a mim (cf. Cl 3,13; Mt 6,14-15; 2Cor 5,18-20). “Perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido...”, assim rezamos no Pai Nosso. Neste sentido, perdoar o próximo é sinal da plenitude da eficácia do perdão de Deus recebido. Para pedir o perdão a Deus tenho que aprender a perdoar o outro.          

Até quantas vezes devo perdoar? Os judeus diziam que o máximo de vezes a perdoar era quatro vezes. E quem perdoava sete vezes já era considerado santo. Pedro é generoso porque ele eleva o número para sete, pensando chegar ao ideal de Jesus. Mas qualquer que seja o motivo que leva Pedro a fazer sua pergunta ou a elevar o número quatro para o sete, uma coisa é certa: ele quer que Jesus confirme a existência de um limite no exercício da caridade cristã, especialmente no perdão.         

Jesus, porém, enfatiza o perdão sem limite: Até 70 vezes sete (v.22). No AT o número 77 representava a vingança dos filhos de Caim (Gn 4, 24). O que tem por trás da afirmação de Jesus é o Deus da misericórdia. Jesus quer nos levar à consciência primordial sobre a razão de nossa existência. Jesus quer nos relembrar de que no início era a misericórdia. Fomos criados por um gesto misericordioso, fomos feitos por mãos misericordiosas, fomos idealizados por uma mente misericordiosa e fomos gerados pelo ventre misericordioso (misericórdia no AT significa “seio materno” = rahamim que se traduz para o português por “misericórdia”, que deriva do latim: miseris, “miserável” + “cor”, “coração” + “dare”, “dar”. Misericórdia significa dar o coração aos miseráveis).       

A nossa origem é a misericórdia. Somos seres perdoados e por isso somos chamados a perdoar sem parar. Se esta é a nossa origem, o perdão não é mais uma realidade ocasional, da qual temos necessidade de vez em quando. Se a misericórdia existe desde o princípio, ela ainda agora é fonte de vida e da graça da qual temos necessidade continuamente e que constantemente está agindo em nós para nos reconciliar. O perdão é a expressão máxima do amor. Por isso, não existe perdão sem amor. O perdão é o critério para saber se temos ou não o amor no coração. Se não tem amor no coração, então somos ateus porque Deus é amor (1Jo 4,8.16). O amor é uma força poderosíssima, maior que pecado, não se rende diante do mal, porque é sempre capaz de descobrir o bem e de dar novamente a esperança ou de convidar ainda o outro a caminhar juntos. Para perdoar, basta ter um ato de amor. Mas se é sincero, é força que pode mudar a história.          

Perdoar significar encarar positivamente os nossos sentimentos negativos como: a raiva, a mágoa, a culpa, a vingança, o rancor e assim por diante. Os sentimentos estão em cada um de nós. Os sentimentos não podem ser controlados, mas sim podem ser controladas suas reações. Sentir-se ofendido ou ofender o outro é uma prova de que somos vulneráveis e humanos, e que nossa pobreza interior foi posta à vista. Posso ser ofendido por alguém e sentir raiva ou mágoa dele. Mas posso reagir a esse sentimento com o perdão, pois o perdão não é sentimento, mas é decisão. Quando a raiva e outros sentimentos negativos não se libertam, costumam manifestar-se em forma de medo, isolamento, autodepreciação, fúria, depressão, comportamentos agressivos, falta de concentração no trabalho e incapacidade para relações emocionais íntimas. Muita gente sofre demasiadamente porque vive em mágoa contínua. Mantém-se preso ao passado levando vida sofrida, estagnada como água parada que apodrece. A mágoa produz efeitos nocivos. O estresse causado pela mágoa, pela falta de perdão, ataca muitas vezes o sistema imunológico. Assim se pode explicar a origem de muitas doenças, tais como artrite, arteriosclerose, doenças cardiovasculares, diabetes etc. Entre as melhores estratégias contra os efeitos múltiplos do ressentimento é a prática habitual do perdão no dia-a-dia. Muitas vezes acontece que o que nos perturba não é o que acontece, mas o modo de ver o que acontece; não o fato em si, mas a interpretação que é dada a esse fato. A interpretação, muitas vezes, atinge mais a pessoa do que o próprio ato ou evento desagradável. O que perturba é o modo de olhá-lo ou de interpretá-lo. Algumas pessoas não se corrigem e não podem sofrer correção porque vivem negativamente e se ofendem por qualquer coisa.          

A recusa do perdão é a fonte de tristeza. O rancor (a mágoa do coração) é fruto do perdão recusado. A Bíblia mostra as conseqüências da amargura: o obscurecimento da inteligência, o desespero, o refúgio em Deus considerado um Deus vingativo (cf. Sl 12,2-5). O perdão recusado pode gerar a raiva e o desespero. Em troca, o perdão libera em nós a força de amar. A verdadeira liberdade é amar, pois o amor dilata o coração.                 

Perdoar não é uma atitude para gente fraca. A vingança é que o prazer do ofendido e o ódio rancoroso é o único refúgio do mais fraco. Quando se odeia alguém, o que se quer, no fundo, é que ele sofra e até se fica satisfeito com seus sofrimentos. A dificuldade de perdoar o outro nos revela a nós mesmos que existe em nós um instinto de perversidade e nos faz descobrir um eu hostil, atraído pelo mal. Isto quer dizer que existe violência em nosso coração e seria ingênuo e perigoso negá-lo. Perdoar, neste sentido, significa abandonar os desejos sutis de vingança, é renunciar a fazer justiça em causa própria. Quando você perdoa, você se livra do veneno que está dentro de você e sua saúde é recuperada. Quando você se nega a perdoar, você adoece e sofre pelo veneno da recusa do perdão.    

A palavra grega para “perdão” é aphesis, que significa liberar, libertar da escravidão, remissão da dívida, da culpa e do castigo. É usada quando a prisão é aberta e o prisioneiro pode sair livre. 

Todos nós somos chamados a ser livres, perdoando os outros e recebendo o pedido de perdão do outro. O não- perdão é um veneno que adoece a pessoa, que faz a pessoa infeliz, presa, triste, sem liberdade por causa dos sentimentos negativos cultivados em si. Todos nós que pensamos sobre a paz e queremos a paz, devemos considerar seriamente esse apelo para perdoar. É um apelo à mudança, a não mais sermos controlados por nossas mágoas e medos, nossos sentimentos de vingança e ressentimentos. “Quereis ser feliz por um instante? Vingai-vos! Quereis ser feliz para sempre? Perdoai !” (Henri Ladordaire). 

Deixemos hoje as seguintes interrogações que podem complementar a interrogação de Pedro: 

1). Eu em relação aos outros no perdão:

Quantas vezes eu tenho que perdoar os outros quando o outro me ofendeu? O que é que eu tenho que perdoar nos outros? Eu devo colocar o limite para o perdão que eu devo dar aos outros?

2). Os outros em relação a mim no perdão:

Quantas vezes os outros devem me perdoar quando eu os ofendeu? O que eles devem me perdoar? Os outros devem colocar o limite para o perdão que eles devem me dar?

3. Eu e a Oração do Pai-Nosso

No Pai-Nosso rezamos: “Perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. Isto quer dizer que o perdão dado é o perdão recebido. Dentro do conteúdo dessa oração, o que acontecerá comigo diante de Deus se eu não perdoar o irmão? “O homem não se movimenta pelos pés, mas pelos afetos. Até os próprios pés ele move por afetos” (Santo Agostinho: In ps. 9,15). O afeto nos move a perdoarmos o outro. Perdoar não muda o passado, mas engrandece o presente e o futuro.

P.Vitus Gustama, svd

Quarta-feira Da XIX Semana Comum, Ano Par, 12/08/2026

VIVER NO AMOR FRATERNO E NA CORREÇÃO FRATERNA É OCASÃO DE SALVAÇÃO PARA O PRÓXIMO

Quarta-Feira da XIX Semana Comum

Primeira Leitura: Ez 9,1-7; 10,18-22

9,1 O Senhor gritou a meus ouvidos, com voz forte: “Aproxima-se o castigo da cidade! Cada um tenha sua arma destruidora na mão!” 2 Então, eu vi seis homens vindo da porta superior, voltada para o norte, cada qual empunhando uma arma de destruição. Entre eles havia um homem vestido de linho, que levava um estojo de escriba na cintura. Eles foram colocar-se junto do altar de bronze. 3 Então a glória do Deus de Israel elevou-se de cima do querubim sobre o qual estava, em direção à soleira do Templo. E chamou o homem vestido de linho, que levava um estojo de escriba à cintura. 4 O Senhor disse-lhe: “Passa pelo meio da cidade, por Jerusalém, e marca com uma cruz na testa os homens que gemem e suspiram por causa de tantos horrores que nela se praticam”. 5 E escutei o que ele dizia aos outros: “Percorrei a cidade atrás dele e matai sem dó nem piedade. 6 Matai velhos, jovens e moças, mulheres e crianças, matai a todos, até o extermínio. Mas não toqueis em nenhum homem sobre quem estiver a cruz. Começai pelo meu santuário”. E eles começaram pelos anciãos que estavam diante do Templo. 7 Ele disse-lhe: “Profanai o Templo, enchei os átrios de cadáveres. Ide”. E eles saíram para matar na cidade! 10,18 Então a glória do Senhor saiu da soleira do Templo e parou sobre os querubins. 19 Os querubins levantaram suas asas e elevaram-se da terra à minha vista, partindo juntamente com eles as rodas. Eles pararam à entrada da porta oriental do Templo do Senhor, e a glória do Deus de Israel estava em cima deles. 20 Eram estes os seres vivos que eu tinha visto debaixo do Deus de Israel, nas margens do rio Cobar, e compreendi que eram querubins. 21 Cada um tinha quatro faces e quatro asas, e debaixo das asas, uma forma de mão humana. 22 Suas faces eram semelhantes às faces que eu tinha visto junto ao rio Cobar. Cada um seguia em sua frente.

Evangelho: Mt 18,15-20

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 15 “Se teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular, à sós contigo! Se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão. 16 Se ele não te ouvir, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão seja decidida sob a palavra de duas ou três testemunhas. 17 Se ele não vos der ouvido, dize-o à Igreja. Se nem mesmo à Igreja ele ouvir, seja tratado como se fosse um pagão ou um pecador público. 18 Em verdade vos digo, tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu. 19 De novo, eu vos digo: se dois de vós estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa que quiserem pedir, isto vos será concedido por meu Pai que está nos céus. 20 Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome eu estou ali, no meio deles”.

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Somos Marcados De Um Sinal Vitorioso: a Cruz Do Senhor

Passa pelo meio da cidade, por Jerusalém, e marca com uma cruz na testa os homens que gemem e suspiram por causa de tantos horrores que nela se praticam”.

Iniciamos a leitura do profeta Ezequiel desde Segunda-feira passada e vamos acompanhar a leitura de Ezequiel durante duas semanas.

Ezequiel é um profeta muito singular, cheio de fantasia, e imaginativo com uma linguagem carregada de simbolismos. Por isso, ao longo da história, Ezequiel sempre foi considerado profeta enigmático e misterioso. Sua personalidade e suas ações simbólicas tornam o profeta um personagem profundamente atual tanto para os exegetas e teólogos, como também para estudiosos da psiquiatria e da psicanálise. Nasceu em 623 a.C em Jerusalém; filho de família sacerdotal.  Era sacerdote em Jerusalém, e,  junto com muitos outros israelitas, foi deportado para Babilônia em 597 a.C. Portanto, ele é um profeta que ompartilha com o povo a experiência do maior desastre nacional e religioso. Ele exerceu o ministério profético por, mais ou menos, vinte anos, de 593 a 571 a.C. Sua mensagem é dirigida especialmente aos exilados.

No primeiro momento de sua mensagem, antes da queda de Jerusalém (597-586 a.C), o profeta Ezequiel se preocupa com a conversão do povo. Para isso, ele utiliza a linguagem de ameaça. Ele descreve enigmaticamente a destruição da cidade e do templo, os sofrimentos que virão e os demais pecados que causam o desastre, e a certeza do cumprimento da Palavra de Deus caso o povo não se converta.

Após a queda de Jerusalém (586 a.C), o profeta faz uma pausa para refletir, e permanece mudo, durante, mais ou menos, seis meses. Trata-se de o silêncio pela morte da esposa e dor pela queda da cidade. Nesse ínterim (Ez 24,26-27), Ezequiel recupera o movimento e a fala (Ez 33,21-22) e começa a nova função profética. Ele muda o tom da pregação: em vez de ameaça, ele passa a transmitir a mensagem de consolo, tão necessária para um povo outrora desobediente, hoje, arrependido.

O tema central, em torno do qual gira toda a pregação de Ezequiel é o da “santidade de Deus”. Deus, apesar de ser inacessível em si mesmo, está presente no mundo. Segundo o profeta a santidade de Deus é ofendida pelo pecado que pode ser de dois tipos: a profanação das criaturas, como acontece na idolatria, e a profanação do culto no santuário. Um dos principais interesses de Ezequiel é o culto que sonha como um novo Israel, como comunidade cultual e teocrática , sob o cetro do sumo sacerdote e em torno do Templo. Percebe-se que Ezequiel segue a linha da tradição sacerdotal.

A Primeira Leitura de hoje nos relata que Ezequiel está no desterro de Babilônia, mas, em espirito se encontra em Jerusalém e nos apresenta um quadro impressionante de matança e desgraças. A visão de Ez 9,1-11 é a visão de uma destruição total da cidade (Jerusalém), e faz lembrar o extermínio dos egípcios na noite em que Deus libertou seu povo (cf. Ex 12). O desastre tem início no santuário, foco especial de idolatria e termina nas ruas, cena de grande violência. O profeta intercede pelo povo, mas é tarde demais. Ninguém se livra da destruição. Mas os marcados com a letra T (Tau), última letra do alfabeto hebraico (cf. Ap 7), os javistas fieis não verão o castigo.

Um personagem misterioso, o homem vestido de linho, marca com uma cruz, na fronte dos que “gemem e suspiram por causa de tantos horrores que na cidade se praticam”. Ou seja, os que resistiram à tentação da idolatria e são fieis à Aliança com Deus. Os que levam esta marca, se salvam: serão o “resto” de Israel. Os outros, começando pelos anciãos e dirigentes, são exterminados. Naturalmente os executores são os exércitos babilônicos. Mas aqui, dramaticamente, a ação é atribuída à vontade de Deus, que os usa como instrumentos de seu castigo.

A visão de Ezequiel é dirigida também aos judeus que agora vivem em terra pagã, Babilônia, cercados de tentações religiosas e morais. Se os idólatras de Jerusalém eram castigados, o mesmo destino poderão ter os idólatras do desterro.

Em meio de um mundo que nos pode parecer corrupto e idólatra pelo dinheiro, o “resto” da nova Israel que é a Igreja que somos batizados, devemos ser como o fermento e a semente de uma nova humanidade, porque Deus continua tendo planos de salvação. Deus continua crendo na humanidade.

A marca na fronte das pessoas, que segundo Ezequiel é a garantia de sua salvação, aparece novamente no livro de Apocalipse, outro livro simbólico e guerreiro: Não danifiqueis a terra, o mar e as árvores, até que tenhamos marcado a fronte dos servos do nosso Deus (Ap 7,3; Ez 9,4). As famílias dos judeus, no Egito, na noite decisiva da passagem do anjo exterminador, se livraram da morte pela marca do sangue do cordeiro em suas portas (Cf. Ex 12).

Para nós, a marca salvadora é a Cruz de Jesus. Quem crê em Jesus, quem evita as idolatrias deste mundo, quem participa em seu Corpo e Sangue da Cruz, vivendo os ensinamentos de Jesus Cristo, ele está no caminho da salvação e fará parte do núcleo da nova humanidade, como a alma no corpo, vivificando todas as realidades em que vive. Escreveu São Paulo aos romanos: Se com tua boca confessares que Jesus é o Senhor, e se em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. É crendo de coração que se obtém a justiça, e é professando com palavras que se chega à salvação (Rm 10,9-10).

Estejamos dentro das “muralhas” seguras, estejamos na aventura dolorosa de um “desterro”, ou de uma enrome dificuldade, Deus está conosco para nos ajudar. Por isso, voltemos arrependidos ao Senhor rico em misericórdia. Ele jamais se esquece de nós nem nos deixa sem amparo. Mas se recai sobre nós a desgraça, não culpemos Deus, porque muitos desastres que acontecem no mundo são provocados pelo próprio homem. Mesmo assim, o Senhor sempre está disposto a vir ao nosso encontro com todo seu amor de Pai, quando, com sinceridade O buscamos e quando, arrependidos, Lhe pedimos o perdão. O Senhor nos marcou e selou com seu Sangue. Ele continuará sendo o Deus-conosco (Mt 28,20) e nos buscará ate nos encontrar para nos oferecer a restauração da Aliança com Ele, pois não quer a morte do pecador e sim que se converta e seja salvo. Ele seja bendito para sempre!

Ser Ocasião De Salvação Para o Outro

Estamos acompanhando o quarto discurso de Jesus no evangelho de Mateus (Mt 18). Neste quarto discurso o que se enfatiza é a vida comunitária na fraternidade.

A passagem do evangelho de hoje quer dar resposta às seguintes questões: que atitude tomar em relação a quem erra? Em outras palavras, como corrigir o irmão que peca/erra? (Correção fraterna).         

A correção fraterna é uma norma antiqüíssima, como lemos em Lv 19,17: “Deves repreender teu próximo, e assim não terás a culpa do pecado”. Com a correção fraterna nos tornamos um para o outro ocasião de salvação. Somente entre irmãos é que pode haver a correção. É por isso que s chama a correção fraterna. Ser irmão significa sentir-se responsável pelo crescimento do outro e, portanto, gozar de seu bem ou capacidade, e sentir seu mal. É ir além da indiferença e do medo, da inveja, da rejeição e do ciúme.

Nós não praticamos a correção fraterna a partir da agressividade e da condenação imediata de quem errou. A correção fraterna deve ser guiada pelo amor e pela compreensão na busca do bem do irmão: estender a mão para ajudá-lo, dirigir-lhe uma palavra de ânimo e ajudá-lo na sua recuperação.          

A correção fraterna é uma atividade espiritual, pois deve ser feita à luz do Espírito de Deus para não transformá-la em censura e juízo que exprimem mais superioridade que fraternidade. A correção fraterna é um modo de ser e crescer juntos, de ligar a própria vida à vida de quem me está “próximo”, de conceber a fraternidade como evento de salvação. A correção fraterna me faz descobrir o irmão e me faz irmão para o outro. A correção fraterna faz alguém pôr-se ao lado do outro para caminhar junto.          

A Igreja, todos nós, não constitui uma comunidade de perfeitos, mas de pessoas em busca da perfeição. Não somos perfeitos e sim perfectíveis. Ninguém de nós é perfeito, e não é porque seguimos a Jesus é que estejamos livres de cometer erros. São João diz: Se dissermos: ‘Não temos pecado’, enganamo-nos a nós mesmos e a verdade não está em nós... Se dissermos: ‘Não pecamos’, fazemos dele um mentiroso, e a sua palavra não está em nós” (1Jo 1,8.10). Todos nós, membros da Igreja de Jesus Cristo, somos convidados a manifestar nossa responsabilidade para com o irmão que erra ou peca. Não se trata de condenar, mas de fazer a correção fraterna para que se estabeleça o amor. A lei do amor, com certeza, obriga a um esforço para reconduzir o irmão que erra ao bom caminho.

O pecador ou um irmão que errou não descobrirá o perdão de Deus se não tomar consciência da misericórdia de Deus que atua na Igreja (entre os seus membros) ou em cada comunidade e na assembléia eucarística. Todos nós somos co-responsáveis na comunidade.          

Por isso, há uma coisa que absolutamente não deve ser feita (mas infelizmente, a primeira que se faz): espalhar a notícia do erro cometido. Porque isto é difamação. A difamação presta-se somente a humilhar quem errou, a irritá-lo, a fazê-lo teimar no mal. É mesmo que perder para sempre a oportunidade de recuperar o irmão. A difamação pode destruir o homem, como diz o Eclesiástico: “Um golpe de chicote deixa marca, mas um golpe de língua quebra completamente os ossos(Eclo 28,17). A difamação (língua) pode matar um irmão, pode arruinar uma família e pode destruir um casamento. Há quem pense que por ter falado a verdade pode ficar tranqüilo. A questão é de que modo se transmite a verdade. A verdade que não produz amor, mas que provoca perturbação e desunião, que gera discórdias, ódios e rancores, não deve ser dita. A verdade nua e crua, às vezes, provoca o efeito contrário do amor. A verdade que mata opõe-se à vida. Como dizia São Francisco de Sales: “Uma verdade que não é caridosa procede de uma caridade que não é verdadeira”. A verdade, então, está submetida à caridade. Precisamos levar em consideração o grande respeito e prudência em ditar a verdade. O que se diz e como se diz devem ser levados sempre em consideração. 

Além da correção fraterna o texto do evangelho de hoje fala também da oração partilhada ou comunitária. Segundo Jesus, a oração eficaz somente pode ser fruto da superação da própria agressividade, do próprio egoísmo e dos interesses individuais. Quando houver concórdia entre os membros de uma comunidade, isto é, união dos corações, quando há preocupação recíproca (um cuida do outro), quando reinar a igualdade, pois todos são do mesmo Pai celeste, a oração se tornará eficaz e chegará até Deus: Eu vos digo: se dois de vós estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa que quiserem pedir, isto vos será concedido por meu Pai que está nos céus. Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome eu estou ali, no meio deles”. 

Acreditamos que em Deus não há espaço para as pessoas que pensam só em si mesmas, que se preocupam só com sua própria vida espiritual, pois no Reino de Deus não há espaço para os egoístas, pois Deus é Amor. Ele quer encontrar um povo, quer relacionar-se com pessoas que vivem em comunidade vivida na fraternidade. Pois onde dois ou três estarem reunidos em nome do Senhor Jesus, ele está no meio deles (v.20). Neste versículo se exprime a certeza de que Deus está no meio da comunidade quando ela se reúne no seu nome e quando a comunidade faz tudo no Espírito do Senhor. A presença de Jesus no coração de uma comunidade fraterna é o que qualifica a oração cristã. Quando os que crêem rezam juntos, revelam a própria fé, reconhecendo-se irmãos e irmãs, e assim proclamam ao mundo o seu pertencer ao Cristo ressuscitado. Assim os discípulos que rezam juntos criam interiormente um movimento de comunhão, fazem crescer um só coração e uma só alma (cf. At 4,32). 

Precisamos manter nossa consciência de que a Igreja é o lugar da misericórdia, pois o Deus em quem ela acredita é amor (1Jo 4,8.16). “Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36). A ofensa cria, ao contrário, a divisão na comunidade. Lembremo-nos de que cada um tem que ser ocasião de salvação para o outro. Como cristão eu devo me tornar ocasião de salvação para meu próximo. E tu deves te tornar ocasião de salvação para mim. Somente assim seremos todos salvos na misericórdia divina (cf. Carta de São Tiago 2,13).   

P. Vitus Gustama,svd

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Terça-feira Da XIX Semana Comum, Ano Par, 11/08/2026

FRATERNIDADE VIVIDA É CONSEQUÊNCIA DA FILIAÇAO DIVINA

Terça-Feira da XIX Semana Comum

Primeira Leitura: Ez 2,8-3,4

Assim fala o Senhor: 2,8 “Quanto a ti, Filho do homem, escuta o que eu te digo: Não sejas rebelde como esse bando de rebeldes. Abre a boca e come o que eu te vou dar”. 9 Eu olhei e vi uma mão estendida para mim e, na mão, um livro enrolado. Desenrolou-o diante de mim; estava escrito na frente e no verso e nele havia cantos fúnebres, lamentações e ais. 3,1 Ele me disse: “Filho do homem, come o que tens diante de ti! Come este rolo e vai falar aos filhos de Israel”. 2 Eu abri a boca, e ele fez-me comer o rolo. 3 Depois disse-me: “Filho do homem, alimenta teu ventre e sacia as entranhas com este rolo que eu te dou”. Eu o comi, e era doce como mel em minha boca. 4 Ele disse-me então: “Filho do homem, vai! Dirige-te à casa de Israel e fala-lhes com as minhas palavras”.

Evangelho: Mt 18,1-5.10.12-14

Naquele tempo, 1 os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram: “Quem é o maior no Reino dos Céus?” 2 Jesus chamou uma criança, colocou-a no meio deles 3 e disse: “Em verdade vos digo, se não vos con­ver­terdes, e não vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus. 4 Quem se faz pequeno como esta criança, este é o maior no Reino dos Céus. 5 E quem recebe em meu nome uma criança como esta é a mim que recebe. 10 Não desprezeis nenhum desses pequeninos, pois eu vos digo que os seus anjos nos céus veem sem cessar a face do meu Pai que está nos céus. 12 Que vos parece? Se um homem tem cem ovelhas, e uma delas se perde, não deixa ele as noventa e nove nas montanhas, para procurar aquela que se perdeu? 13 Em verdade vos digo, se ele a encontrar, ficará mais feliz com ela, do que com as noventa e nove que não se perderam. 14 Do mesmo modo, o Pai que está nos céus não deseja que se perca nenhum desses pequeninos”.

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Viver e Falar De Acordo Com a Palavra de Deus

’Filho do homem, come o que tens diante de ti! Come este rolo e vai falar aos filhos de Israel’. Eu o comi, e era doce como mel em minha boca. Ele disse-me então: ‘Filho do homem, vai! Dirige-te à casa de Israel e fala-lhes com as minhas palavras’”. Assim lemos na Primeira Leitura do Livro do profeta Ezequiel.

O texto da Primeira Leitura de hoje é a continuação da teofania da leitura do dia anterior sobre a vocação profética de Ezequiel (cf. . Ez 1,2-5.24-28c). No texto Ezequiel é chamado de “Filho do homem(Ben’adam: esta palavra encontra-se 90 vezes em Ezequiel), mas não deve ser entedido no sentido messiânico de Dn 7,13, e sim deve ser entendido como homem (Dn 8,17), ser humano de carne e osso. Ou seja, o uso da palavra “Filho de homem é para sublinhar o caráter mortal de qualquer homem. A palavra “adamindica a coletividade humana, e “ben”, o homem concreto e singular. O homem é mortal. O homem sabe que um dia ele vai morrer. É o que sublinha com insistência a expressão “filho do homem(Ez 2,8; 3,1.3.4). Mas infelizmente, para a maioria este saber continua sendo um saber não sabido. Muitos vivem como se nunca morressem e consequentemente, não vivem seriamente, não respeitam os outros, não aproveitam uma boa convivência.

Um profeta, como Ezequiel, é mortal por ser homem, porém é enviado por Deus para falar em nome de Deus: “Abre a boca e come o que eu te vou dar”. Ezequiel aceita plenamente sua vocação, em contraste com a atitude que o povo terá,:Eu abri a boca, e ele fez-me comer o rolo”.

Eu abri a boca, e ele fez-me comer o rolo”. Comer o rolo da Palavra de Deus é a ação simbólica. A Palavra de Deus não é para ser ouvida apenas, mas deve ser recebida no coração. E deste coração ocupado pela Palavra de Deus vai sair algo de bom para o próximo. A primeira vocação do profeta é assimilar e fazer sua a mensagem ou a Palavra de Deus. Antes de pronunciá-la ou pregá-la para os outros, o profeta deve interiorizar a Palavra de Deus para torná-la carne e sangue na sua vida. Mais tarde Jesus dirá de outra forma: “Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou(Jo 4,34). A assimilação com a Palavra de Deus deve ser plena, mesmo que algumas palavras que vem de Deus sejam desagradáveis para o povo ou sejam lamentações ou ameaças (os ais), como aconteceu com a vida do profeta Jeremias. Para ser forte diante de qualquer adversidade, o profeta é forte por causa da assimilação com a Palavra de Deus, pois Deus está nele.

Na condição de profeta, como Isaías (Is 6,1-8) e Jeremias (Jr 1,4-10), Ezequiel é enviado aos israelitas, aos rebeldes de Isarel, constantes e ibstinados. Rebeldes por sua apostasia e idolatria.

A Igreja é formada pela Palavra de Deus, como foi o povo eleito. Mas a Palavra de Deus somente é viva, se cada membro da Igreja consegue interiorizá-la, compartilhá-la e transfigurá-la no coração, na oração e na ação. A Palavra de Deus é fonte de conversão cotidiana quando conseguimos interiorizá-la. Faz parte da conversão de Santo Agostinho quando ele dizia a si mesmo diante da Palavra de Deus: “Tome e leia”. Tomar a Palavra de Deus, frequentá-la assiduamente e escutá-la diariamente torna qualquer um de nós profeta da Palavra de Deus. É “comer a Palavra” na belíssima expressão do profeta Ezequiel, fazê-la própria, fazer-se uma coisa só com ela, é modelar-se conforme a Palavra de Deus. Se assim for, seremos instrumentos eficazes de Deus neste mundo.

Somos Chamados a Conviver Na Fraternidade Amorosa

Em verdade vos digo, se não vos converterdes, e não vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus. Quem se faz pequeno como esta criança, este é o maior no Reino dos Céus. E quem recebe em meu nome uma criança como esta é a mim que recebe”, disse-nos o Senhor.

Um Discurso Sobre Vida Comunitária

Estamos no quarto grande discurso de Jesus nos evangelho de Mateus (Mt 18). E este quarto discurso é conhecido como “discurso eclesiológico” (discurso sobre a Igreja) ou “discurso comunitárioonde se acentua a vida na fraternidade, isto é, cada membro da comunidade é considerado como irmão, pois tem Deus como o Pai comum. Este discurso (Mt 18,1-35) foi escrito para responder aos problemas internos das comunidades cristãs: Quem é o primeiro na comunidade? O que fazer se acontecem escândalos? E se um cristão se perde ou se afasta da comunidade, o que fazer? Como corrigir um irmão que erra? Quando é que uma oração pode ser chamada de comunitária e partilhada? E quantas vezes se deve perdoar?         

Na comunidade de Mt (como também em qualquer comunidade cristã) cresce a ambição e se cultivam sonhos de grandeza dos membros que se acham mais importantes dos demais membros. Há pouca consideração para com os pequenos, até são desconsiderados ou desprezados. Estes pequenos correm risco de se tornarem incrédulos e de se afastarem da atividade comunitária. Na comunidade de Mt suscitam também pecadores notórios, inclusive as ofensas e os ressentimentos que abalam a convivência fraterna.         

Nesse capítulo, são dadas diversas orientações e algumas normas que têm por objetivo desenvolver o amor fraterno e favorecer a harmonia entre os membros da comunidade. Contra os sonhos de grandeza e de orgulho, Mt coloca a atitude de humildade que agrada a Deus e aos outros (18,1-4). Para os pequenos, os fracos na fé, é necessário ter uma acolhida cheia de caridade e de desvelo (18,6-7). O desprezo é inadmissível para uma boa convivência. Para enfatizar mais este tema, Mt fala dos anjos que sempre estão do lado dos pequenos (18,10). Se um dos membros da comunidade afastar-se ou desviar-se do caminho reto, em vez de condená-lo, a comunidade toda deve esforçar-se para que esse irmão volte para a comunidade, pois Deus não quer que nenhum deles se perca (18,12-14). E para o irmão pecador, a comunidade inteira deve usar todos os meios para recuperá-lo (18,15-20). E para as ofensas, deve haver perdão, pois uma comunidade só pode sobreviver se existe o perdão mútuo (18,21-35).

Ser Irmão e Fazer-se Pequeno

Quem é o maior no Reino dos céus?”. “Quem é o maior diante de Deus?”. “Quem vale mais diante de Deus?”. Assim inicia o quarto discurso de Jesus sobre a vida comunitária baseada na fraternidade. A pergunta é feita pelos discípulos para Jesus. Maior aqui significa proeminente, superior aos outros por força de uma qualidade ou de um poder ou de um cargo.

Atrás desta pergunta se esconde a ambição ou a mania de grandeza dos discípulos. É “a psicologia do príncipe”, segundo o Papa Francisco. É a ambição de grandeza que pode ser encontrada em qualquer comunidade cristã. É admirável a ambição de alguém que deseja redimir sua humilde condição, valorizando todas as suas capacidades de inteligência e de luta, pois um dos sentidos lexicais da palavra ambição é anseio veemente de alcançar determinado objetivo, de obter sucesso; aspiração, pretensão. A ambição só se transformará em vício quando a afirmação de si mesmo for exagerada e os meios adotados para atingir a glória forem desonestos. Uma pessoa de alma nobre não sai à procura das honras, e sim do bem, da fraternidade, da verdade, da caridade e assim por diante. Ao contrário, o ambicioso se sente totalmente envolto pela espiral da glória que o transforma em vítima da própria tirania. O ambicioso, quando dominado pelo vício, não suporta competidores, nem admite rivais. Quem desejar ser a todo o custo o primeiro, dificilmente se preocupar com ser justo. A soberba gera a divisão. A caridade, a comunhão (Santo Agostinho. Serm. 46,18).

Como resposta para a pergunta dos seus discípulos Jesus faz um gesto muito simbólico: Ele chamou uma criança e a colocou no meio dos discípulos. Ao ser colocada no meio de todos, a criança chamada se torna um centro de atenção de todos. Podemos imaginar que todos os olhares são dirigidos a essa criança e os ouvidos prontos para ouvir a palavra sábia do Mestre Jesus. “Em verdade vos digo, se não vos con­ver­terdes, e não vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus. Quem se faz pequeno como esta criança, este é o maior no Reino dos Céus. E quem recebe em meu nome uma criança como esta é a mim que recebe”, disse Jesus aos discípulos (Mt 18,3-5). Ser criança: frescor, beleza, inocência, não se basta a si mesma!

Esta é a primeira regra da vida comunitária: cuidar dos pequenos e tratá-los como irmãos, e fazer-se pequeno. Fazer-se pequeno, como exigência para viver a vida comunitária, significa renunciar a toda ambição pessoal e a todo desejo de colocar-se acima dos demais para estar em destaque e para oprimir os demais. Fazer-se pequeno é uma forma de “renegar-se a si mesmo” para colocar a vontade de Deus acima de tudo. A grandeza do Reino consiste no serviço humilde e gratuito ao próximo, na solidariedade para com os necessitados, na partilha do que se tem para com os carentes do básico para viver dignamente como ser humano, e no esforço para construir uma convivência mais fraterna. Trata-se de viver a espiritualidade familiar onde cada membro se preocupa com o outro membro e sua salvação. Vivendo desta maneira estaremos testemunhando para o mundo que temos fé em Deus e que estamos no Reino de Deus já neste mundo, pois vivemos como irmãos, filhos e filhas do mesmo Pai celeste.

Ser Ocasião de Salvação Para o Outro

Se um homem tem cem ovelhas, e uma delas se perde, não deixa ele as noventa e nove nas montanhas, para procurar aquela que se perdeu? Em verdade vos digo, se ele a encontrar, ficará mais feliz com ela, do que com as noventa e nove que não se perderam. Do mesmo modo, o Pai que está nos céus não deseja que se perca nenhum desses pequeninos”, acrescentou Jesus (Mt 18, 12-14). Esta é outra regra essencial da vida comunitária!

Os fariseus eram uns “separados”, e julgavam severamente os pecadores e os que erravam, os quais eram excluídos dos banquetes sagrados ou de um simples banquete comunitário, pois comer juntos significava igualar ou nivelar as relações. Deus atua completamente diferente. Deus nem sequer espera o arrependimento do pecador para amá-lo. Antes, abandonando o resto do rebanho, ele vai à busca de uma ovelha perdida. Através de uma conversa fraterna e através de sua participação na refeição com os excluídos pela sociedade em questão Jesus consegue trazer de volta para Deus muitos pecadores, como Zaqueu (Lc 19,2-10), como Mateus (Mt 9,9) e assim por diante.

O saudoso Cardeal François X. Van Thuan escreveu dois dos cinco “defeitos” de Jesus (Testemunhas Da Esperança. Edit. Cidade Nova). O primeiro defeito é que Jesus não tem boa memória. Ele esquece todos os pecados dos que se arrependeram, como o “bom ladrão”: “Hoje mesmo tu estarás comigo no Paraíso” (Lc 23,43) e a mulher pecadora: “... seus numerosos pecados lhe estão perdoados, porque ela demonstrou muito amor” (Lc 7,47). Deus não lhes pergunta nada a respeito de seu passado escandaloso. Deus esquece até mesmo que perdoou. E o segundo “defeito” de Jesus é que ele não “sabe” matemática. Ele abandona 99 ovelhas para procurar uma que está perdida. Na nossa matemática uma ovelha não é igual a 99 ovelhas. Para Jesus uma ovelha é igual a 99 ovelhas. Todos têm o mesmo valor diante de Deus.

Cada um de nós, por menor que seja no olhar de um ser humano ou de uma sociedade, é objeto de um carinho especial de Deus. Deus não despreza nenhum ser humano. Cada um é considerado na sua individualidade. A graça de Deus nos faz nós mesmos: “Eu sou o que sou pela graça de Deus” (1Cor 15,10). Jesus quer que cada membro da comunidade cristã precise ser uma ocasião de salvação para o outro e o outro é uma ocasião de salvação para mim. Somente é assim que uma comunidade cristã pode ser chamada e considerada como uma comunidade de irmãos.

Na Bíblia a misericórdia pertence rigorosamente à linguagem mais elevada da fé, designa uma atitude de todo o ser. A misericórdia é um amor visceral, entranhável, uterino. A misericórdia evoca tanto o aspecto de fidelidade ao compromisso como o aspecto de ternura do coração. A experiência da condição miserável e pecadora do homem deu corpo à noção da misericórdia de Deus, que se apresenta a nós como a atitude de Deus diante do pecado do homem. A misericórdia de Deus não é ingenuidade e sim convite à conversão e convite para cada homem a praticar, por sua vez, a misericórdia para os demais homens. Sem praticá-la corre o risco de o homem fica fora da salvação (cf. Tg 2,13).

Os escribas e os fariseus não são capazes de ver no pecados mais que a um inimigo de Deus. se um pecador é inimigo de Deus, logo é inimigos dos que se consideram “religiosos”. Não é esta a atitude daqueles que julgam com excessiva severidade das falhas dos outros? Deus, ao contrário, não espera o arrependimento para amar o pecador. Quem é responsável pela comunidade, pela pastoral, pelo grupo na Igreja do Senhor é encarregado de revelar ao irmão que pecou que Deus o ama primeiro (1Jo 4,10.19; 2Cor 5,20) e que esse Deus se preocupa com a salvação de todos. Será que todos os responsáveis na comunidade está consciente dessa responsabilidade?

P.Vitus Gustama,svd

Sexta-feira Da XIX Semana Comum, Ano Par, 14/08/2026

MATRIMÔNIO E SUA INDISSOLUBILIDADE NO PLANO DE DEUS Sexta-Feira da XIX Semana Comum                                                     ...