terça-feira, 20 de outubro de 2026

Sexta-feira Da XXIX Semana Comum, Ano Par, 23/10/2026

DEUS, PAI DE TODOS NÓS, ESTÁ NA VIDA COTIDIANA: ESTEJAMOS UNIDOS E ATENTOS PARA SUA PRESENÇA

Sexta-Feira da XXIX Semana Comum

Primeira Leitura: Efésios 4,1-6 (Ano Par)

Irmãos, 1 eu, prisioneiro no Senhor, vos exorto a caminhardes de acordo com a vocação que recebestes: 2 Com toda a humildade e mansidão, suportai-vos uns aos outros com paciência, no amor. 3 Aplicai-vos a guardar a unidade do espírito pelo vínculo da paz. 4 Há um só Corpo e um só Espírito, como também uma só é a esperança à qual fostes chamados. 5 Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, 6 um só Deus e Pai de todos, que reina sobre todos, age por meio de todos e permanece em todos.

Evangelho: Lc 12, 54-59

Naquele tempo, 54 Jesus dizia às multidões: “Quando vedes uma nuvem vinda do ocidente, logo dizeis que vem chuva. E assim acontece. 55 Quando sentis soprar o vento do sul, logo dizeis que vai fazer calor. E assim acontece. 56 Hipócritas! Vós sabeis interpretar o aspecto da terra e do céu. Como é que não sabeis interpretar o tempo presente? 57 Por que não julgais por vós mesmos o que é justo? 58 Quando, pois, tu vais com o teu adversário apresentar-te diante do magistrado, procura resolver o caso com ele enquanto estais a caminho. Senão ele te levará ao juiz, o juiz te entregará ao guarda, e o guarda te jogará na cadeia. 59 Eu te digo: daí tu não sairás, enquanto não pagares o último centavo”.

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Sejamos Unidos, Pois Todos Nós Formamos Uma Única Família Na Fé

“Há um só Corpo e um só Espírito, como também uma só é a esperança à qual fostes chamados. Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos”.

Continuamos a nossa reflexão sobre a Carta aos Efésios. Os primeiros capítulos da Carta aos Efésios (Ef 1-3) são mais teológicos. Nos primeiros capítulos São Paulo, sendo prisioneiro por Cristo, em Roma, nos apresenta com entusiasmo o mistério de Cristo e de sua Igreja.

Agora, a partir do Ef 4 o autor da Carta entra em uma seção mais exortativa e prática (Ef 4,1-6,22). Nessa seção há variedade de exortações porque a vida é variada. Algumas são dirigidas a todos contra a mentira, a impureza, a ira, a avareza, enfim, todas as “obras das trevas”. Outras exortações são dirigidas para as diversas categorias de pessoas: há admoestação para maridos e esposas, pais e filhos, escravos e senhores.

Essas exortações são, na verdade, a aplicação prática do mistério de Cristo e da Igreja. A aplicação do mistério à vida pede que “caminhardes de acordo com a vocação que recebestes”. Em seguido, são Paulo concretiza: a primeira consequência é que vivamos a unidade dentro da Igreja: “Aplicai-vos a guardar a unidade do espírito pelo vínculo da paz”.

Teologicamente o verbo “unir” significa salvar. Unir é salvar. Salvar é unir. Por isso, o bom Pastor vai atrás da ovelha perdida para reunir novamente com o resto das ovelhas (Lc 15,4-6). O próprio Deus é, em si mesmo, um mistério de unidade: Três constituídos em um.

Os homens aspiram a unidade. Estar juntos. Estar de acordo. Amar e ser amado. Colaboração e diálogo em vez de rivalidade. A concórdia e solidariedade em vez da atmosfera de suspeita e de domínio. O ser humano ama ser acariciado. No entanto, a humanidade sempre está desgarrada e os conflitos de hoje são mais profundos do que nunca: discriminação, divisão, separatismo e assim por diante. Mas a aspiração subsiste como um sonho de felicidade. Por isso, ainda encontramos tantas pessoas que lutam para que todos vivam na solidariedade uns dos outros, dialoguem a fim de evitar conflitos desnecessários. Deus está naqueles que lutam pela solidariedade, pelo diálogo, pela defesa da vida, pela união, pela paz e assim por diante. “A soberba gera a divisão. A caridade, a comunhão”, dizia Santo Agostinho..

A raiz última desta unidade segundo esta Carta é que temos um só Espírito, um só Senhor, um só Deus e Pai. Também todos temos uma mesma fé e uma única esperança, um só Batismo: “Há um só Corpo e um só Espírito, como também uma só é a esperança à qual fostes chamados. Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, que reina sobre todos, age por meio de todos e permanece em todos”. Mas tudo isso não será realizado se as outras recomendações não forem cumpridas: "Sejam sempre humildes e amáveis, suportem-se uns aos outros no amor".

O autor da Carta quer nos dizer que mesmo que tenha todos os argumentos, por profundos e teológicos que sejam em favor da unidade, se não houver a caridade e o amor em nossas comunidades, tudo ficará sem sentido. Viver bem como cristão quem testemunha a vida cristã com a própria vida mais do que com um belo discurso. 

Um só Corpo....Um só Espírito...Um só Deus e Pai. Fórmula Trinitária: a exigência da unidade de todos os homens é absoluta e essencial. O segredo da “unidade” de todos os homens procede da vida comum das Três Divinas Pessoas. O Concílio Vaticano II revalorizou esta convicção: “A Igreja, em Cristo, é como que o sacramento, ou sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano, pretende ela, na sequência dos anteriores Concílios, pôr de manifesto com maior insistência, aos fiéis e a todo o mundo, a sua natureza e missão universal. E as condições do nosso tempo tornam ainda mais urgentes este dever da Igreja, para que deste modo os homens todos, hoje mais estreitamente ligados uns aos outros, pelos diversos laços sociais, técnicos e culturais, alcancem também a plena unidade em Cristo” (LG n.1).

O Senhor nos chamou a vivermos unidos a Cristo. Feitos um com Ele e n´Ele, não podemos gerar divisões entre nós mesmos. Esta unidade é fruto da presença do mesmo Espírito em nós. Ele nos põe ao serviço do bem que temos que fazer para os demais homens. O Senhor nos convida a vivermos como irmaos em torno de nosso único Deus e Pai, que reina sobre todos, de tal forma que ninguém é mais importante do que os outros. diante de Deus todos nós somos seus filhos e ninguém é superior aos demais.

Para manter a unidade tem que ter a humildade e a mansidão. ”Com toda a humildade e mansidão, suportai-vos uns aos outros com paciência, no amor”. O manso é a pessoa boa nas relações com os outros. Jesus se proclama o Mestre “manso e humilde de coração” (Mt 11,28-30), pois ele é totalmente aberto a Deus e é bom com os outros a ponto de compartilhar de sua existência. A “mansidão” é fruto do Espírito (Gl 5,23) e é sinal da presença da sabedoria do alto (Tg 3,13.17). A mansidão é a virtude a ser invocada e conquistada por quem pretende seguir fielmente a Jesus manso.

Além da mansidão é precisa viver na humildade para manter a unidade. O humilde é aquele que tem noção da própria capacidade e da própria fraqueza e limitações e está aberto totalmente a Deus e para qualquer correção fraterna a fim de ter o crescimento no bem. É na humildade e da humildade que germinam nossos autênticos valores.

A humildade e a mansidão precisa ser vividas com paciência no amor. A vivência do amor misericordioso nos leva a ter paciência como Deus tem tido paciência para conosco apesar de nossos contínuos desvios do caminho de Deus. O paciente não é aquele que é cego, nem aquele que fecha os olhos às qualidades e às idéias menos boas ou até más dos outros. Seremos pacientes na medida em que saibamos aceitar as nossas próprias limitações e agradecer ao nosso próximo o fato de nos aceitar, apesar das nossas sombras e dos nossos defeitos. O impaciente veste sempre a pele do “infalível”, porque não reconhece nem vive os próprios limites e defeitos.

A Igreja de Cristo nos quer como um sinal de seu amor para a humanidade de todos os tempos e lugares. Devemos viver unidos como irmãos, pois enquanto surgirem divisões entre nós, não poderemos ser um sinal do amor de Deus no mundo. sejamos uma Igreja humilde, isto é, disponíveis ao serviço dos demais. não busquemos honras e sim somente o saber entregar a Cristo e a seu Evangelho.

“Irmãos, eu, prisioneiro no Senhor, vos exorto a caminhardes de acordo com a vocação que recebestes”. Ser prisioneiro no Senhor é ser livre, é ser salvo. Ser prisioneiro do mundo é ficar excluído da salvação.

Deus Nos Faz Seu Apelo Para Nós Diariamente Através Dos Acontecimentos

Continuamos a acompanhar as últimas e mais importantes lições que Jesus nos dá no Seu caminho para Jerusalém (Lc 9,51-19,28). Por isso, é preciso ouvi-las atentamente.

Hoje, na passagem do evangelho, Jesus quer que estejamos atentos para a presença de Deus através de vários sinais na nossa vida, como estamos atentos para a mudança do tempo (previsão do tempo). Jesus nos convida a irmos além do aspecto físico da realidade para o sentido querido por Deus através da realidade. Em cada acontecimento Deus deixa Seu recado para quem o presencia. É preciso estar ligado à realidade, pois Deus está em tudo e em todos. Em cada luz, aparece a luz do próprio Deus. Em cada vida, Deus é a vida. Em cada coisa sentida é o próprio Deus que está sendo sentido. Em cada existir, Deus é o próprio Ser. Ao tocarmos uma flor temos a certeza de que, misteriosamente, estamos ticando o Criador da flor. A flor não é Deus, mas ela nos leva à própria perfeita beleza de Deus e ao próprio Criador da flor. O homem profundo é aquele que vive sua humanidade a partir da graça e da presença permanente de Deus na sua vida.

“Quando vedes uma nuvem vinda do ocidente, logo dizeis que vem chuva. E assim acontece. Quando sentis soprar o vento do sul, logo dizeis que vai fazer calor. E assim acontece. Hipócritas! Vós sabeis interpretar o aspecto da terra e do céu. Como é que não sabeis interpretar o tempo presente?”. Os homens sempre se interessam pelo tempo e pelo clima, especialmente para os agricultores, os aeronáuticos, os marinheiros e assim por diante em função de suas tarefas. No evangelho de hoje, Jesus nos chama nossa atenção, porque sabemos muito bem prever o clima, mas não sabemos discernir ou ler os sinais abundantes e claros que Deus nos envia diariamente. O Senhor continua passando perto de nossa vida, com suficientes referências ou sinais. Mas podemos ter perigo de que não captamos nem reconhecemos essa presença. O Senhor se faz presente na enfermidade ou na tribulação (cf. Mt 25,38-40), nas pessoas com as quais trabalhamos ou com as quais formamos nossa família, nas boas notícias que cada pessoa espera para sua vida, sua família e assim por diante. Nossa vida será bem diferente, se estivermos bastante conscientes da presença divina na nossa vida diária. Se tivermos consciência da presença de Deus na nossa vida diária (cf. Mt 28,20), desaparecerá de nossa vida a rotina, o mau-humor, as tristezas e as preocupações exageradas porque viveremos com muita fé na providência divina.

Jesus reprova seus concidadãos de não serem capazes de interpretar os “sinais dos tempos”, quando são perfeitamente capazes de interpretar os sinais meteorológicos.

Lendo e meditando as palavras de Jesus no evangelho deste dia o Concilio Vaticano II, através de um dos seus famosos documentos, chamado Gaudium et Spes (GS) afirma: “é dever da Igreja investigar a todo o momento os sinais dos tempos, e interpretá-los à luz do Evangelho; para que assim possa responder, de modo adaptado em cada geração, às eternas perguntas dos homens acerca do sentido da vida presente e da vida futura, e da relação entre ambas. É, por isso, necessário conhecer e compreender o mundo em que vivemos, as suas esperanças e aspirações, e o seu caráter tantas vezes dramático” (GS, no.4). “O Povo de Deus, movido pela fé com que acredita ser conduzido pelo Espírito do Senhor, o qual enche o universo, esforça-se por discernir nos acontecimentos, nas exigências e aspirações, em que participa juntamente com os homens de hoje, quais são os verdadeiros sinais da presença ou da vontade de Deus. Porque a fé ilumina todas as coisas com uma luz nova, e faz conhecer o desígnio divino acerca da vocação integral do homem e, dessa forma, orienta o espírito para soluções plenamente humanas” (GS no. 11).

Analisando o estado atual do mundo, “o momento presente”, o Concílio reconheceu alguns “sinais dos tempos” essenciais: a solidariedade crescente dos povos apesar do barulho do pequeno grupo que sempre faz o contrário, o ecumenismo apesar da resistência de alguns grupos religiosos; a preocupação pela liberdade religiosa apesar de determinados país prenderem a liberdade de escolha.

O Espírito de Deus continua atuando no mundo através de muitos sinais. Ele continua atuando nos olhos dos que choram, nos que sofrem por serem justos, honestos, e verdadeiros; nos que trabalham pela paz apesar da resistência diante da reconciliação; em quantos trabalham pela erradicação da fome e da pobreza apesar da exploração e da corrupção de alguns grupos insensíveis às questões sociais; em todo o homem e a mulher que procura Deus com coração sincero apesar das dores encontradas na vida. A sua vontade de rezar e de meditar a Palavra de Deus é sinal de que o Espírito de Deus continua atuando em você. O Espírito de Deus continua atuando em você quando reza por si e pelos outros; em tantas pessoas que estão sempre prontas para ajudar quem está em necessidade. Numa palavra, em tudo o que é bondade e amor, paz e bem porque tudo isto é reflexo e semente do sinal básico do sacramento perene do próprio Deus. Em tudo que aconteceu e acontece e acontecerá na nossa vida Deus quer nos dizer alguma coisa a respeito de nossa salvação, mas que nem sempre sabemos criar o silêncio para ouvir a mensagem de Deus. O silêncio é o vazio fecundo que possibilita a presença do Eterno, ou da Plenitude na nossa vida.

Segundo o convite de Jesus, é preciso dar-nos conta do momento em que nos encontramos. Em outras palavras, precisamos transformar o kronos, isto é, o tempo medido pelos segndos, em kairós, isto é , tempo da graça de Deus e da oportunidade de salvaçao. A consciência do tempo de Deus transforma nossas atividades diárias em atividades salvíficas e transforma nossos trabalhos em vivência do amor fraterno.

Portanto, é preciso que façamos a revisão de nossa vida e o modo pelo qual vivemos. A finalidade da “revisão de vida” é tratar, humildemente de “reconhecer” a ação de Deus nos acontecimentos, em nossas vidas, nas pessoas com as quais encontramos diariamente ou ocasionalmente, nos sofrimentos e nas dores, nas vitórias e nos desafios de cada dia, e assim por diante, para encontrá-Lo e participar nessa ação de Deus a fim de revelá-Lo, enquanto for possível, aos que O ignoram. Somente quem vive aberto ao Espírito de Deus, percebe sua voz, sua chamada e sua presença. Por isso, há que estar sempre alerta e atento.

Portanto, é bom cada um se perguntara: O que é que Deus quer de mim através de todos os acontecimentos da vida minha vida e de todos os acontecimentos ao meu redor? Que resposta eu devo dar a tudo isto? Que ação eu devo fazer como resposta ao convite de Deus através desses acontecimentos? Deus nunca deixa de nos dar recado diariamente. Basta abrir os olhos e o coração.

P. Vitus Gustama,svd

Quinta-feira Da XXIX Semana Comum, Ano Par, 22/10/2026

OPTAR POR JESUS É OPTAR PELA VIDA E SALVAÇÃO DE TODOS COMO FILHOS DO MESMO PAI DO CÉU A QUEM DEVEMOS ADORAR

Quinta-Feira da XXIX Semana Comum

Primeira Leitura: Efésios 3,14-21

Irmãos, 14 eu dobro os joelhos diante do Pai, 15 de quem toda e qualquer família recebe o seu nome, no céu e sobre a terra. 16 Que ele vos conceda, segundo a riqueza de sua glória, serdes robustecidos, por seu Espírito, quanto ao homem interior, 17 que ele faça habitar, pela fé, Cristo em vossos corações, que estejais enraizados e fundados no amor. 18 Tereis assim a capacidade de compreender, com todos os santos, qual a largura, o comprimento, a altura, a profundidade, 19 e de conhecer o amor de Cristo, que ultrapassa todo o conhecimento, a fim de que sejais cumulados até receber toda a plenitude de Deus. 20 Àquele que tudo pode realizar superabundantemente, e muito mais do que nós pedimos ou concebemos, e cujo poder atua em nós, 21 a ele glória, na Igreja e em Jesus Cristo, por todas as gerações, para sempre. Amém.

Evangelho: Lc 12, 49-53

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 49 Eu vim para lançar fogo sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso! 50 Devo receber um batismo, e como estou ansioso até que isto se cumpra! 51 Vós pensais que eu vim trazer a paz sobre a terra? Pelo contrário, eu vos digo, vim trazer divisão. 52 Pois, daqui em diante, numa família de cinco pessoas, três ficarão divididas contra duas e duas contra três; 53 ficarão divididos: o pai contra o filho e o filho contra o pai; a mãe contra a filha e a filha contra a mãe; a sogra contra a nora e a nora contra a sogra.'

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Deus É a Origem De Toda Paternidade e Pai De Todos Os Homens

Continuamos a acompanhar a leitura da Carta aos Efésios. O autor termina a primeira parte da Carta aos Efésios, a parte mais teológica, com uma oração e uma doxologia final de louvor ao Deus Trino. Como no início essa parte começa com uma oração ou louvor, também termina como uma prece ou súplica. É uma oração de súplica ao Pai celeste de quem procede toda família nos céus e na terra.

Diante do sublime mistério, do qual fala o texto do dia anterior (Ef 3,2-12), sobre a vocação dos pagãos, são Paulo prorrompe numa fervorosa pregação. Ele realiza isso ajoelhando-se como faziam os judeus em suas mais ardentes orações. São Paulo pede a Deus o fortalecimento da vida interior dos fiéis. Esta implica uma fé profunda em Cristo Jesus e uma caridade manifestada em obras.

A oração é muito sincera: "dobrando os joelhos diante do Pai", pede aos Efésios que se apeguem mais às atitudes de fé que já possuem: "Fortalecer-se profundamente dentro de seu ser"; "Que Cristo habite pela fé em seus corações"; "Que o amor seja sua raiz e fundamento"; "entendendo o que transcende toda filosofia: amor". Trata-se do amor cristão, isto é, o amor ao estilo de Cristo, o Amor de Cristo amando em e através de nosso coração, de nossas mãos, de nossos pés, de nossos olhares, de nossas palavras. Trata-se do amor ágape, amor que salva e que não espera nada em troca. "E assim chegarás à plenitude, segundo a plenitude de Deus". O amor é o único caminho da plenitude, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). Basta amar de verdade, o cristão cumprirá toda a Lei (Rm 13,10). A Eucaristia da qual participamos é a escola de amor ativo ao próximo, pois o Senhor renova sua entrega por nós por amor para que tenhamos mais mais vida e mais amor ao próximo, pois o Senhor é o Pão da Vida dado por amor.

Para são Paulo não basta a simples exposição do mistério de Cristo, que lemos no dia anterior (Ef 3,2-12), pois há algo maior do que a inteligência: somente o Espirito e a graça de Deus podem iluminar o mistério divino. Por isso, o autor da Carta aos Efésios se põe a rezar, e ele faz essa oração com tanta espontaneidade, pois ele considera a oração como o complemento natural de sua pregação. A oração é a mediação entre Deus e homens.

Ele começa a oração com esta frase: “Por isso, eu dobro os joelhos diante do Pai, de quem toda e qualquer família recebe o seu nome, no céu e sobre a terra”.  “Dobrar os joelhos” com todo o corpo inclinado até o solo para prostrar-se põe em destaque um profundo sentimento de adoração. Deus é o Pai de todos e de tudo (origem) que merece uma intensa adoração. “Mas então que significa adorar a Deus? Significa aprender a estar com Ele, demorar-se em diálogo com Ele, sentindo a sua presença como a mais verdadeira, a melhor, a mais importante de todas. ... Adorar o Senhor quer dizer dar-Lhe o lugar que Ele deve ter; adorar o Senhor significa afirmar, crer – e não apenas por palavras – que Ele é o único que guia verdadeiramente a nossa vida; adorar o Senhor quer dizer que vivemos na sua presença convencidos de que é o único Deus, o Deus da nossa vida, o Deus da nossa história. ... Daqui deriva uma consequência para a nossa vida: despojar-nos dos numerosos ídolos, pequenos ou grandes, que temos e nos quais nos refugiamos, nos quais buscamos e muitas vezes depomos a nossa segurança. São ídolos que frequentemente conservamos bem escondidos; podem ser a ambição, o carreirismo, o gosto do sucesso, o sobressair, a tendência a prevalecer sobre os outros, a pretensão de ser os únicos senhores da nossa vida, qualquer pecado ao qual estamos presos, e muitos outros. ... Adorar é despojarmo-nos dos nossos ídolos, mesmo os mais escondidos, e escolher o Senhor como centro, como via mestra da nossa vida.” (Papa Francisco: Homilia pronunciada na Celebração Eucarística do III Domingo de Páscoa, Roma, 15 de Abril de 2013).

O autor chama Deus de Pai. A paternidade descreve o relacionamento mais íntimo de amor, da proximidade e do cuidado.

Para o autor da Carta aos Efésios, a origem de toda a paternidade está em Deus como o Pai por excelência. Mas  o vocábulo grego “paternidade”, colhido no Antigo Testamento, tem um sentido concreto, isto é, exprime uma pluralidade de indivíduos que provém de uma comum cabeça de estirpe. Em outras palavras, “paternidade” significa toda forma social de origem natural. Deus se mostra Pai “dos povos” justamente porque chama os pagãos  à salvação em Jesus Cristo.

Também “paternidade” alude ao Deus-Criador. Ele é o único Deus que criou o universo e em Jesus Cristo o redimiu. Uma das características da verdadeira paternidade é a vontade de salvar todos. Para isso, procura todos os meios para realizar esta vontade. Ninguém está excluído do amor do Pai.

Ao mencionar Deus como Pai, isto é, a origem de toda a paternidade, o autor da Carta aos Efésios quer demonstrar sua preocupação pela ideia da unidade. Através do evento de Cristo (Ef 1,18), todos os homens, todas as criaturas têm um Pai comum.  Para o autor da Carta, esta é a base da comunidade humana e a base da harmonia para o resto do universo. Nenhum homem, nenhuma Igreja, nenhuma nação tem possessão exclusiva de Deus. A paternidade de Deus se estende para todos os homens. Isto significa que devemos amar e respeitar uns aos outros. Se somos do mesmo Pai, não deveria haver a desunião e divisão entre nós. todos devem voltar à mesma origem.

O autor de Carta aos Efésios quer nos relembrar que tudo de bom tem sua origem em Deus. Viver com fé significa reconhecer nossa origem em Deus através de Jesus Cristo, Palavra do Pai, pois “Tudo foi feito por meio dele e sem ele nada foi feito” (Jo 1,3).

Ninguém Fica Indiferente Diante De Jesus

Continuamos a ouvir atentamente para as ultimas e mais importantes lições de Jesus dadas durante sua última viagem para Jerusalém onde Ele será crucificado e morto (Lc 9,51-19,28). E estamos ainda dentro do tema sobre a vigilância. A opção por Jesus e seus ensinamentos provoca a separação, pois quem quiser estar com Jesus deve estar do lado do bem.

“Eu vim lançar fogo à terra, e que tenho eu a desejar se ele já está aceso?   Julgais que vim trazer paz à terra? Não, digo-vos, mas divisão”, diz o Senhor.  A metáfora do “fogo” é muito usada em qualquer literatura antiga e moderna, com significados diversos: pode significar purificação, renovação, amor etc.... Em toda a Bíblia, o fogo é símbolo de Deus: na sarça ardente encontrada por Moisés (Ex 3,1-15); no fogo ou raio da tempestade no Sinai (Ex 19,16-25); nos sacrifícios do Templo onde as vitimas passadas pelo fogo; como símbolo do juízo final que purifica todas as coisas. Na tradição bíblico-profética, o “fogo” é um elemento purificador que consome as impurezas.  Na linguagem bíblica e apocalíptica “fogo” significa também juízo que supõe o fim do mundo e o início do outro. O fogo é o sinal do julgamento que, como o fogo, purifica e consome (cf. Lc 17,29-30).

“Eu vim lançar fogo à terra”, disse Jesus. O fogo é geralmente uma figura do julgamento (Lc 3,16-17) e pode significar o castigo ou a purificação. Também pode sugerir em outros casos a futura presença do Espírito (At 2,1-13), é dessa forma que deve ser entendida esta frase em Lucas. Em qualquer caso, esse texto se refere aos momentos decisivos (= escatológicos) da humanidade, tal como é descrita nos grandes textos escatológicos do AT (Is 66,15s; Ez 38,22; 39,6; Ml 3,19).

Em algumas partes dos evangelhos encontramos o uso do termo fogo. Jesus se compara com aquele que leva em sua mão a pá para limpar a eira e recolher o trigo e queimar as palhas (Mt 3,12). Jesus fala do joio que jogará no fogo (Mt 13,40). Mas Jesus recusa fazer baixar fogo do céu sobre os samaritanos (Lc 9,54). A Igreja vive do “fogo do Espírito” descido em Pentecostes (At 2,3). Esse fogo ardia no coração dos peregrinos de Emaús quando escutavam o Ressuscitado sem conhecê-Lo (Lc 24,32).

Vir trazer fogo à terra significa que a presença de Jesus tem a força de purificar o mundo da impureza, do egoísmo, da desigualdade, da discriminação, da exclusão, da insensibilidade e assim por diante. e por isso, tem força de separar o bem do mal. Através da purificação dessas impurezas a graça tem seu lugar para brilhar em todo seu esplendor. Por isso, a divisão imposta por Jesus significa a eliminação da ilusória convivência do bem com o mal, pois ninguém pode servir a dois senhores (cf. Lc 16,13; Mt 6,24).

O fogo de Jesus é o mesmo Reino de Deus que traz um elemento destruidor de pecado. É o fogo que vai queimando as impurezas dos homens, destruindo a arrogância (altivez) dos soberbos. Não poderá surgir a nova humanidade, se não forem destruídas as estruturas que oprimem o homem por dentro e por fora. Este fogo do Espírito destrói e purifica ao mesmo tempo. Jesus é o portador do fogo de Deus sobre a terra. Neste sentido sua missão fundamental consiste em purificar o homem velho ao destruir o que se encontra pervertido nele. Jesus proclama uma mensagem que é fogo, que coloca as consciências diante de sua própria verdade profunda. Conseqüentemente causa divisão: ou opta pela verdade que Jesus que significa salvação ou manter-se na falsidade e mentira que tem como resultado final, a perdição eterna.

Jesus acendeu um fogo e nos convida a mantê-lo aceso; um fogo que deve queimar dentro da Igreja tantas coisas inúteis, tanto organismos estéreis e paralizantes, tantas palavras vazias, tantas falhas morais e éticas, e assim por diante. É preciso morrer o que é velho em nós para surgir o novo.

O que acontece quando esse fogo não fica aceso na Igreja e em cada um em particular? Quando é que esse fogo não fica aceso? Ele não fica aceso quando vivemos o cristianismo não como novidade original que nos renova permanentemente; quando vivemos sem nos opor às estruturas que criam na humanidade um estado de injustiça, de fome, da violação dos direitos humanos, de exploração dos pequenos e assim por diante. Não haverá esse fogo de Jesus quando tudo continua igual, quando os sacramentos não significam mais que um ato social que não nos levam para uma vida transformada. Não haverá o fogo de Jesus quando a instituição religiosa se contenta com repetir mecanicamente gestos ou ritos que os homens de hoje não entendem nem lhes interessam.

Julgais que vim trazer paz à terra? Não, digo-vos, mas divisão”, diz o Senhor. A paz é um dos maiores benefícios que o homem deseja. Os hebreus se saúda dizendo “Shalom”. Jesus despede os pecadores e as pecadoras com esta frase cheia de sentido: Vá em paz (Lc 7,50; 8,48; 10,5-9). E seus discípulos desejavam a “paz” para as casas onde entravam. Trata-se da paz nova que vem transtornar a paz deste mundo. Mas não é uma paz fácil, pois há que construí-la na dificuldade e com muito esforço e maturidade espiritual.

Jesus traz a paz, dá a paz, mas não a qualquer preço. Pôr-se ao lado de Jesus supõe uma opção, uma decisão e com freqüência romper com a vida anterior ou com os laços humanos familiares e sociais que não salvam: “Daqui em diante, numa família de cinco pessoas, três ficarão divididas contra duas e duas contra três; ficarão divididos: o pai contra o filho e o filho contra o pai; a mãe contra a filha e a filha contra a mãe; a sogra contra a nora e a nora contra a sogra”. O Pai não pode compactuar com a maldade do filho e vice-versa. A mãe não pode participar da desonestidade da filha e vice-versa. Cada membro de uma família deve ficar do lado do bem, da honestidade, da verdade e assim por diante. Somente acontecerá tudo isto, se o fogo de Jesus permanecer aceso na nossa vida e no nosso coração. Por isso, diante de Jesus não se pode ficar neutro.

“Mas devo ser batizado num batismo; e quanto anseio até que ele se cumpra!”, acrescenta Jesus. Jesus vive sua vocação/ missão como uma paixão. Este batismo do qual Jesus fala é sua própria morte assassinada, conseqüência do seu amor incondicional pelos homens, esquecendo-se de si próprio. Trata-se da morte diante da qual Jesus sente uma angústia que não pode reprimir.

A vinda de Jesus para este mundo e o nosso encontro com Ele é o Kairós, o momento decisivo de conversão. A eucaristia nos torna contemporâneos  do grande mistério.  A eucaristia doa e exige o justo julgamento. Quem quiser seguir a Jesus fielmente, quem quiser viver piedosamente todos os ensinamentos de Jesus deve estar preparado para ser perseguido até ser morto (cf.2Tm 3,12).  A nossa amizade com Jesus pode criar a inimizade da parte de quem vive conforme o espírito mundano. A nossa vida cristã é um caminho cheio de adversidades: inimigo, o inferno e assim por diante. Mas trata-se de uma morte que termina na glorificação da vida em Deus. Não há o amor verdadeiro sem sacrifício.

P. Vitus Gustama,svd

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Quarta-feira Da XXIX Semana Comum, Ano Par, 21/10/2026

COMO COHERDEIROS DA PROMESSA DE CRISTO SOMOS CHAMADOS A VIVER NA GRAÇA E NA PERMANENTE VIGILÂNCIA

Quarta-Feira da XXIX Semana Comum

Primeira Leitura:  Efésios 3,2-12

Irmãos, 2 se ao menos soubésseis da graça que Deus me concedeu para realizar o seu plano a vosso respeito, 3 como, por revelação, tive conhecimento do mistério, tal como o esbocei rapidamente. 4 Ao ler-me, podeis conhecer a percepção que eu tenho do mistério de Cristo. 5 Este mistério, Deus não o fez conhecer aos homens de gerações passadas mas acaba de o revelar agora, pelo Espírito, aos seus santos apóstolos e profetas: 6 os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo, por meio do Evangelho. 7 Disto eu fui feito ministro pelo dom da graça que Deus me concedeu no exercício de seu poder. 8 Eu, que sou o último de todos os santos, recebi esta graça de anunciar aos pagãos a insondável riqueza de Cristo 9 e de mostrar a todos como Deus realiza o mistério desde sempre escondido nele, o criador do universo. 10 Assim, doravante, as autoridades e poderes nos céus conhecem, graças à Igreja, a multiforme sabedoria de Deus, 11 de acordo com o desígnio eterno que ele executou em Jesus Cristo, nosso Senhor. 12 Em Cristo nós temos, pela fé nele, a liberdade de nos aproximar de Deus com toda confiança.

Evangelho: Lc 12, 39-48

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 39 “Ficai certos: se o dono da casa soubesse a hora em que o ladrão iria chegar, não deixaria que arrombasse a sua casa. 40 Vós também ficai preparados! Porque o Filho do Homem vai chegar na hora em que menos o esperardes”. 41 Então Pedro disse: “Senhor, tu contas esta parábola para nós ou para todos?” 42 E o Senhor respondeu: “Quem é o administrador fiel e prudente que o senhor vai colocar à frente do pessoal de sua casa para dar comida a todos na hora certa? 43 Feliz o empregado que o patrão, ao chegar, encontrar agindo assim! 44 Em verdade eu vos digo: o senhor lhe confiará a administração de todos os seus bens. 45 Porém, se aquele empregado pensar: ‘Meu patrão está demorando’, e começar a espancar os criados e as criadas, e a comer, a beber e a embriagar-se, 46 o senhor daquele empregado chegará num dia inesperado e numa hora imprevista, ele o partirá ao meio e o fará participar do destino dos infiéis. 47 Aquele empregado que, conhecendo a vontade do senhor, nada preparou, nem agiu conforme a sua vontade, será chicoteado muitas vezes. 48 Porém, o empregado que não conhecia essa vontade e fez coisas que merecem castigo, será chicoteado poucas vezes. A quem muito foi dado, muito será pedido; a quem muito foi confiado, muito mais será exigido!”.

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A Fé Em Jesus Nos Torna Coherdeiros das Promessas De Deus

“Irmãos, se ao menos soubésseis da graça que Deus me concedeu para realizar o seu plano a vosso respeito, como, por revelação, tive conhecimento do mistério, tal como o esbocei rapidamente”.

São Paulo não pode esconder o orgulho que sente por ter recebido a missão de anunciar o mistério de Cristo aos pagãos. O chamamento dos pagãos para formar um só povo em igualdade com os que foram membros  do povo escolhido, constitui o admirável desígnio de Deus. São Paulo constata que este projeto salvador lhe fora comunicado por especial benevolência divina.

“Ao ler-me, podeis conhecer a percepção que eu tenho do mistério de Cristo.  Este mistério, Deus não o fez conhecer aos homens de gerações passadas mas acaba de o revelar agora, pelo Espírito, aos seus santos apóstolos e profetas: os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do  mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo, por meio do Evangelho” (Ef 3,4-6).  Estes versículos apresentam um tríplice conteúdo do denso mistério: (1). Todos os povos foram chamados a compartilhar da mesma herança em igualdade de condições; (2). Todos formam um mesmo corpo místico, que é a Igreja, do qual Cristo é a Cabeça, d´Ele emana a vida para todos os membros; e (3). Todos participam da promessa feita por Deus a Abraão (Gn 12,3), cuja realização Cristo leva a bom termo.

São Paulo denomina essa missão de anunciar o mistério de Cristo para os pagãos como “dom da graça” (Ef 3,7). O termo “graça’” significa benefício absolutamente gratuito, livre e sem motivo. Também tem outro significado: um efeito do favor divino que torna alguém belo, amável e encantador. “Graça” é algo absolutamente imerecido e que provém da livre escolha e incomensurável misericórdia de Deus. A graça da criatura depende da graça de Deus, e não vice-versa. No começo de tudo, está a graça, a livre e gratuita eleição de Deus, o seu inexplicável favor, o seu vir ao nosso encontro em Cristo e está o seu doar-se a nós por puro amor.

A primeira coisa que cada um de nós deve fazer como resposta à graça de Deus é dar graças. A graça de Deus tem de ser acompanhada pelo agradecimento do homem. Dar graças significa, antes de tudo, reconhecer a graça, aceitar a gratuidade da mesma. Dar graças significa aceitar-se como devedor, como dependente; deixar que Deus seja Deus.

E são Paulo também fala do “conhecimento do mistério”. O termo “mistério” indica o plano soteriológico de Deus, que abrange o cosmo todo e começa a se realizar com o chamado dos gentios a ser coherdeiros da promessa de Cristo, junto com os judeus (Ef 3,6). E este mistério se realiza por meio do evento da cruz e da ressurreição de Jesus. É por Cristo que somos “filhos adotivos” (Ef 1,5); é pelo sangue de Cristo que “temos a redenção e a remissão dos pecados” (Ef 1,7); É em Cristo que ocorre a recapitulação cósmica de todas as coisas (Ef 1,10). O Cristo universal é, portanto, a personificação do próprio mistério de Deus.

Até então podia parecer que os únicos herdeiros da promessa de Deus eram os judeus. Agora são Paulo tem a alegria de “anunciar aos gentios a riqueza insondável que é Cristo” e proclamar que todos os que creem em Jesus, vindo do judaísmo ou do paganismo, “nós temos, pela fé nele, a liberdade de nos aproximar de Deus com toda confiança”.

Mas o mistério apresenta também uma dimensão eclesiológica. O âmbito da realização do “mistério” é a própria Igreja, para a qual começam a convergir judeus e gentios, que nela encontram a paz (Ef 3,6). Os cristãos vindos do paganismo se tornam “concidadãos dos santos e membros da família de Deus” (Ef 2,19) e fazem parte, com os hebreus convertidos, do Novo Templo escatológico que é o Cristo (Cf. Jo 2,19-22). Para são Paulo, a Igreja é, pois, o âmbito da confluência unificadora de grupos diversos, social e religiosamente diferentes, anteriormente divididos e inimigos. Os homens, os povos e as culturas são chamados a se reconciliar em uma unidade superior. A visão oferecida pela Carta aos Efésios é a união na diversidade e no pluralismo.

Nesse plano de salvação denominado como “mistério” de Deus que abrange todos os seres, Israel tem uma função toda particular. À luz de seu papel na história da salvação do Antigo Testamento, é o “primeiro” a ser convidado a participar do “mistério”. O adjetivo “primeiro” indica não somente uma dimensão temporal, mas especialmente o primado histórico do povo eleito.

Como são Paulo, todos nós deveríamos nos sentir satisfeitos, não somente pela sorte de crermos em Jesus Cristo, mas também pela oportunidade de podermos comunicar a todos os a Boa Notícia de que todos nós somos “co-herdeiros” de Jesus Cristo e que não há privilégios diante de Deus. Não importa a etnia e a idade nem cultura, mas se alguém crer em Jesus já é co-herdeiros, ou seja, está chamado a compartilhar com os outros a vida que Deus nos tem preparado desde a eternidade.

Por nossa fé e nossa união a Cristo, a humanidade inteira se converte em coerdeira da mesma promessa em Jesus Cristo. a Igreja não somente é a portadora desta mensagem de salvação, mas também que distribui a graça de Deus em favor de todas as pessoas. No entanto, não podemos proclamar o Nome do Senhor somente a partir de nossas imaginações ou a partir de nossos estudos, por muito eruditos que sejam, pois a salvação somente é fruto do Espirito de Deus que habita em nós; Ele é o único que pode fazer que a Palavra de Deus se encarne em nós e que sua salvação não seja estéril em nossa vida. Por isso, o Senhor nos quer não como simples pregadores e sim como testemunhas de seu Reino no mundo.

Além disso, todos os membros da Igreja tem a missão de preservar a unidade e a paz tanto para os membros existentes como para os futuros membros, pois a Igreja é o âmbito da realização do “mistério” de Deus.

Como membros da Igreja devemos estar vigilantes, como enfatiza o Evangelho deste dia, pois o Senhor chegará em uma hora inesperada. Viver vigilantes na presença de Deus é aprender a orar como discípulos, escutando ao Senhor e pedindo que nos conceda sua graça para trabalhar decididamente por seu Reino de amor e de paz. Deus nos confiou muito e nos exigirá muito mais, pois seu Espirito Santo vai guiando nossa vida e nossas obras. Não apaguemos o Espirito Santo que habita em nós!

Quem Vive Na Graça Vive Na Permanente Vigilância

“Vós também ficai preparados! Porque o Filho do Homem vai chegar na hora em que menos o esperardes”.

Estamos acompanhando Jesus no seu caminho para Jerusalém, ouvindo atentamente suas últimas e mais importantes lições para todos os cristãos, seus seguidores, pois lá em Jerusalém Ele será crucificado e morto para salvar a humanidade.

Na passagem do evangelho de hoje Jesus continua a falar sobre a vigilância, como no evangelho do dia anterior (cf. Lc 12,35-38).

“Ficai certos: se o dono da casa soubesse a hora em que o ladrão iria chegar, não deixaria que arrombasse a sua casa. Vós também ficai preparados! Porque o Filho do Homem vai chegar na hora em que menos o esperardes”.

Novamente o Senhor nos pede para que estejamos vigilantes permanentemente. Vigiar significa estar constantemente alertas, despertos à espera. Significa viver uma atitude de serviço. Por isso, implica luta, esforço e renúncia. Não é em modo algum falta de compromisso ou indiferença. Trata-se, em outras palavras, de adquirir um certo modo de orientar nossa atenção para o que é verdadeiramente importante e essencial para nossa existência e para nossa salvação. Porque não sabemos do quando da chegada do Senhor do tempo e da vida, nós precisamos estar preparados vivendo nossa vida com responsabilidade. O alerta do Senhor sobre a vigilância quer nos relembrar sobre a provisoriedade de nossa existência aqui neste mundo. Tudo será deixado, mas que sejamos levados pelo Senhor para onde Ele estiver (cf. Jo 14,3).

Concretamente podemos dizer que vigiar significa pôr em prática as palavras de Jesus, especialmente o mandamento do amor. Significa enfrentar a tentação do egoísmo, que nos leva a convencer-nos da inutilidade de fazer o bem. Significa acreditar que vale a pena lutar para construir o Reino de Deus, a exemplo de Jesus, num mundo onde a injustiça e a maldade parecem falar mais alto. Significa estar sempre disposto a perdoar e a se reconciliar, revertendo a espiral da violência que assume proporções sempre maiores. Significa ser capaz de detectar tudo quanto possa desviar nossa atenção do convite de Deus para o encontro definitivo com Ele. Significa estar vigilante no que se deve falar e no que não se deve: ser vigilante nos comentários, nos julgamentos etc.. Vigiar é aprender a falar o necessário e fazer o mais essencial para nossa salvação.

“A quem muito foi dado, muito será pedido; a quem muito foi confiado, muito mais será exigido!”. Mais uma vez Jesus exorta à vigilância, especialmente a todos os responsáveis da comunidade (v.41). Eles têm o encargo especial de velar pelos outros, como diz o autor da primeira Carta de Pedro (1Pd 5,2-4): “Velai sobre o rebanho de Deus, que vos é confiado. Tende cuidado dele, não constrangidos, mas espontaneamente; não por amor de interesse sórdido, mas com dedicação; não como dominadores absolutos sobre as comunidades que vos são confiadas, mas como modelos do vosso rebanho. E, quando aparecer o supremo Pastor, recebereis a coroa imperecível de glória”.  Isto quer dizer que os outros são as ovelhas do Senhor (cf. Jo 21,15-17: “Apascenta as minhas ovelhas”, diz o Senhor). Cuidar de cada ovelha do Senhor com carinho e responsabilidade é a manifestação do respeito pelo dono das ovelhas que é o próprio Senhor. Quem cuida das ovelhas deve estar consciente de que ele também é a ovelha e faz parte do próprio rebanho, mas com a função de velar sobre o resto do rebanho. A liderança eclesial tem o dever de dar testemunho de fé robusta que se expressa em cuidar bem dos irmãos que são ovelhas do Senhor.

Os que cuidam dos irmãos, ovelhas do Senhor, têm muito mais responsabilidade do que qualquer outro membro na comunidade. A palavra “responsabilidade” tem sua origem etimológica no latim: “respondere” que significa “prometer”, “garantir”. O que garante a responsabilidade são os valores. Ter responsabilidade significa ser coerente com os próprios atos, com os valores reconhecidos. Através dos valores o ser humano descobre e desenvolve seu sentido de vida. Responsabilizar-se significa elevar a própria existência para uma dimensão superior.

A tentação típica do ministério é a de esquecer-se de que todos, na comunidade, são apenas administradores. Temos tentação de atuar como se fosse dono das ovelhas do Senhor ou donos da comunidade. É a tentação de explorar os outros e a de apascentar-se a si mesmo. Não se deve esquecer que todos haverão de prestar contas diante de Deus. Cada administrador do Senhor recebeu encargo de maior responsabilidade. Mas recebeu também dons correspondentes. A medida da exigência de Deus aos homens se regula conforme à medida dos dons que se outorgou a cada um. Tudo que o homem recebeu é um capital que lhe é confiado para que trabalhe com ele: “A quem muito foi dado, muito será pedido; a quem muito foi confiado, muito mais será exigido!”. Isto quer dizer que quanto mais alguém se aproxima de Jesus e se deixa interpelar por Ele, mais responsabilidade ele deverá ter de colocar em prática os ensinamentos de Jesus. Ao contrário, ele terá motivos sérios para ficar inquieto, pois chegará um dia para prestar contas.

Para qualquer cargo ou tarefa na comunidade se requer fidelidade e sensatez. Fidelidade porque cada um é apenas um administrador pelo qual deve trabalhar conforme a vontade do Senhor. Sensatez porque não deve perder de vista que o Senhor pode vir repentinamente e pedir-lhe contas. A vinda do Senhor é certa, o momento é incerto. Estejamos, então, vigilantes!

Portanto, a parábola do administrador, no evangelho deste dia, nos mostra que o tempo da espera da chegada da segunda vinda do Senhor é preciso como tempo de serviço, porque o Reino de Deus se reflete já de forma decisiva em nossa vida. A todos é confiado um tipo de serviço no tempo dessa espera. A riqueza do Reino de Deus se traduz para todos a maneira de amor que dirige aos outros. Aquele que recebeu o grande tesouro que lhe faz rico para Deus começa a ser imediatamente fonte de amor para os demais homens.

A expectativa da vinda do Senhor que é inesperada ou o momento que é desconhecido e repentina, deve criar em nós uma forte consciência da responsabilidade nas tarefas que nos foram encomendadas. A consciência de sermos administradores e não donos deve nos levar a conceber nossa liberdade em termos de responsabilidade. Todas as nossas tarefas, portanto, concernem à administração dos bens que o Senhor nos confiou. A falta de responsabilidade é, no fundo, uma falta da vivência de fé diariamente.

As graças e as funções concedidas por Deus a cada um de nós não podem ser concebidas como uma honra, e sim como um dever a cumprir em favor do bem de todos para que todos possam chegar à comunhão plena com Deus na eternidade. Isso leva cada um a viver na fidelidade e na prudência.

Portanto, segundo Jesus no evangelho de hoje, a vida dos cristãos deve ser caracterizada por duas atitudes principais: a vigilância e a responsabilidade, porque o cristão é uma pessoa voltada para o futuro do qual espera a salvação. Por isso, ele deve estar preparado em todos os momentos. O futuro de um cristão não é uma utopia anônima. O futuro de um cristão tem nome e um rosto preciso: Jesus Cristo, o Salvador.

Fica a seguinte pergunta: Onde é que Deus não chegou ainda na minha vida? Porque Deus está onde eu O deixo entrar. Qual parte da minha vida que eu não deixo ainda que Deus entre?

P. Vitus Gustama,svd

Terça-feira Da XXIX Semana Comum, Ano Par, 20/10/2026

VIVER NA UNIDADE E NA VIGILÂNCIA FAZ PARTE DA VIDA NA GRAÇA DE DEUS

Terça-Feira da XXIX Semana Comum

Primeira leitura: Efésios 2,12-22 (Ano Par)

Irmãos, 12 naquele tempo, éreis sem Messias, privados de cidadania em Israel, estranhos às alianças da promessa, sem esperança e sem Deus no mundo. 13 Mas, agora, em Jesus Cristo, vós que outrora estáveis longe, vos tornastes próximos, pelo sangue de Cristo. 14 Ele, de fato é a nossa paz: do que era dividido, ele fez uma unidade. Em sua carne ele destruiu o muro da separação: a inimizade. 15 Ele aboliu a Lei com seus mandamentos e decretos. Ele quis, assim, a partir do judeu e do pagão, criar em si um só homem novo, estabelecendo a paz. 16 Quis reconciliá-los com Deus, ambos em um só corpo, por meio da cruz; assim ele destruiu em si mesmo a inimizade. 17 Ele veio anunciar a paz a vós que estáveis longe, e a paz aos que estavam próximos. 18 É graças a ele que uns e outros, em um só Espírito, temos acesso junto ao Pai. 19 Assim, já não sois mais estrangeiros nem migrantes, mas concidadãos dos santos. Sois da família de Deus. 20 Vós fostes integrados no edifício que tem como fundamento os apóstolos e os profetas, e o próprio Jesus Cristo como pedra principal. 21 É nele que toda a construção se ajusta e se eleva para formar um templo santo no Senhor. 22 E vós também sois integrados nesta construção, para vos tornardes morada de Deus pelo Espírito.

Evangelho: Lc 12,35-38

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 35 Que vossos rins estejam cingidos e as lâmpadas acesas. 36 Sede como homens que estão esperando seu senhor voltar de uma festa de casamento, para lhe abrirem, imediatamente, a porta, logo que ele chegar e bater. 37 Felizes os empregados que o senhor encontrar acordados quando chegar. Em verdade, eu vos digo: Ele mesmo vai cingir-se, fazê-los sentar-se à mesa e, passando, os servirá. 38 E caso ele chegue à meia-noite ou às três da madrugada, felizes serão, se assim os encontrar!

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Jesus Cristo É O Fator Da Unidade Da Humanidade Dividida

“Vós éreis sem Messias, privados de cidadania em Israel, estranhos às alianças da promessa, sem esperança e sem Deus no mundo. Mas, agora, em Jesus Cristo, vós que outrora estáveis longe, vos tornastes próximos, pelo sangue de Cristo” (Ef 2,12-13).

O texto trata, em seu sentido literal imediato, da reconciliação efetuada por Cristo, tirando diferenças entre judeus e “pagãos”, igualando todos. Jesus Cristo é o Deus Encarnado que veio para nos unir e recordar que temos o Pai Comum: Deus Pai. Pela nossa origem somos um só. Temos que voltar para a nossa origem primordial. Do Pai saímos para o Pai voltaremos (Cf. Jo 14,1-3). A partir do Pai celeste não há divisão entre os filhos (a humanidade). A divisão é causada pelos próprios filhos (a própria humanidade).

O Senhor Jesus fez desaparecer a inimizade e ódio que existia entre uns e outros. A partir de Cristo já não existe nem tem razão de ser para ambos sobre a origem da divisão. Em Cristo se estabeleceu uma profunda razão de união e solidariedade entre os homens. Em Jesus Cristo e por Ele todos temos acesso a Deus em um mesmo Espírito. Temos todos o mesmo fundamento e a humanidade é um templo único e um único corpo: “Vós fostes integrados no edifício que tem como fundamento os apóstolos e os profetas, e o próprio Jesus Cristo como pedra principal” (Ef 2,20). O mesmo Espírito habita em todos, sem exceção (Cf. 1Cor 3,16-17). Sendo como templo do Espírito Santo é absurdo dar-se aos interesses particulares, receios, divisões e ódios.

Esta imagem da casa de Deus (templo) oferece ocasião ao autor da Carta compor uma espécie de hino à Igreja, Templo: “É nele que toda a construção se ajusta e se eleva para formar um templo santo no Senhor” (Ef 2,21) e nova habitação de Deus: “E vós também sois integrados nesta construção, para vos tornardes morada de Deus pelo Espírito” (Ef 2,22; Cf. Mt 16,18) cuja construção começou pela palavra dos Apóstolos e dos profeta São Paulo dá muita importância ao papel da palavra deste na organização das assembleias litúrgicas (cf. 1Cor 12,28) com prioridade sobre os demais fenômenos religiosos .

Temos que ter e manter nossa consciência de que a vinculação mútua profunda, pela nossa origem de ser, é mais forte do que as razoes de divisão, não por sentimentalismo ou comodidade, nem por conveniência política e social ou por falta de valor para um enfrentar o outro.

O senhorio comum de Cristo, que todos devem aceitar e viver na sua profundidade, é um contrasentido fomentar a discórdia. Ele veio para unir (Cf. Jo 10,16) e roga ao Pai por esta união (Cf. Jo 17,11.20-21). Não se pode confessar a um mesmo Senhor e, ao mesmo tempo, não aceitar-se mutuamente.

Portanto, o autor da Carta aos Efésios faz nessa passagem que lemos na Primeira Leitura uma exposição acerca de um dos frutos mais importantes da obra redentora de Cristo: a reunião de pagãos e judeus e a única Igreja de Deus (Cf. Ef 2,11-18).

Cristo é “Paz” (Shalom) em duplo sentido: enquanto inaugurou um novo tipo de humanidade na qual desparecem as diferenças entre judeus e pagãos (Ef 2,14-16) e enquanto que fez a paz entre Deus e a humanidade que se constituiu na Igreja por sua morte (Ef 2,16) e pelo dom do Espirito (Ef 2,18).

Cristo também proclamou e realizou a paz que anunciaram e pregaram os profetas (Cf. Is 57,19) ao restaurar umas relações normais entre os homens e entre estes e Deus com tal eficácia que até os mais distantes ou afastados escutaram e aceitaram sua mensagem igual aos mais próximos.

Se Cristo em Quem acreditamos e a Quem seguimos é nossa paz (Shalom), logo cada cristão jamais seria o fator da divisão e sim, da união. Se um cristão se tornar um fator da divisão ou da desunião, é porque não está enraizado profundamente em Cristo que é Shalom para a humanidade, isto é, Aquele em Quem se encontra a harmonia total com Deus, com a humanidade e com  universo. Na sua despedida Jesus deixou o Shalom para seus seguidores, que a Igreja sempre reza na sua celebração eucarística, após o Pai Nosso: “Deixo-vos a paz, minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo dá” (Jo 14,27).

Para Nos Manter Na Graça De Deus Precisamos Estar Vigilantes Permanentemente

“Que vossos rins estejam cingidos e as lâmpadas acesas”

Continuamos acompanhando Jesus no seu caminho para Jerusalém, ouvindo atentamente suas últimas e importantes lições para que possamos alcança a vida glorificada a exemplo d’Ele. Trata-se das Lições do Caminho (Lc 9,51-19,28).

Na passagem de hoje Jesus nos ensina para que estejamos vigilantes permanentemente sobre nossa vida, pois a vida é de Deus e Ele está nela. A vida é curta demais sua existência neste mundo para não desperdiçá-la. A vida é um dom para não torná-la pesada. A vida é bela para não prejudicá-la. A vida é o fruto de amor de Deus para não odiá-la. Repito: a vida é de Deus e Ele está nela. Se Deus está na vida, logo Deus sabe o que fazer com a vida em nós desde que saibamos confiar n’Ele plenamente.

O tempo intermédio até a volta do Senhor, sua segunda vinda (Parusia), este tempo que vivemos (o tempo da Igreja) exige uma atitude: VIGIAR: “Estejam cingidos os vossos rins e acesas as vossas lâmpadas” (Lc 12, 35), diz-nos o Senhor.

No AT os rins e a gordura do rim eram uma porção escolhida do animal sacrifical, que devia ser oferecida a Deus em sacrifício (cf. Lv 3-4; 8-9). É uma parte central de um animal. Em outras palavras, a melhor parte de um animal devia ser oferecida a Deus (cf. Gn 4,3-5). Os rins (e o coração juntos) são mencionados como a sede do pensamento e do desejo; são considerados como a sede da consciência. O profeta Jeremias censura o povo que tem Deus perto da boca, mas longe dos rins. Quis dizer: Deus não tinha nenhuma importância para esse povo na hora em que deveria tomar decisões importantes. Na Bíblia muitas vezes Deus é designado como Aquele que examina os corações e os rins, e questiona o ser humano no mais profundo de sua existência.

A lâmpada era sempre conservada acesa nas casas tanto nas dos ricos como nas dos pobres, não somente porque as casas tinham pouquíssima iluminação da luz do dia, mas também porque era difícil acendê-la. A presença da lâmpada acesa numa casa era sinal de que a residência  ou estabelecimento ainda se achavam em atividade. Quando a lâmpada se achava apagada era sinal de completo fracasso, desastre ou infortúnio.

Por isso, quando Jesus pede que os rins estejam cingidos e as lâmpadas acesas significa que jamais um cristão pode deixar que o desastre, fracasso ou infortúnio atinjam a essência de sua vida. O coração do cristão deve ser mantido intacto de qualquer impureza ou de qualquer maldade. Suas atividade cotidianas devem se concentrar nas coisas mais essenciais para seu bem e sua salvação.O cristão deve manter seu coração aberta a Deus. O coração aberto  é a chave para a mente aberta, e vice-versa. Para isso, o cristão deve viver sempre na vigilância.

Velar ou vigiar, em sentido estrito, significa renunciar ao sono da noite para terminar um trabalho urgente e importante ou para não ser surpreendido pelo inimigo. Em um sentido mais simbólico significa lutar contra a negligência para estar sempre em estado de disponibilidade. É vive uma vida atenta à voz do Senhor e vigilante diante dos sinais da realidade. O Senhor voltará com toda segurança no nosso encontro derradeiro. O discípulo não pode ficar adormecido. Ele deve permanecer alerta, sempre em tensão e em atenção. Somente assim ele assegurará a comunhão com o Senhor no gozo e no amor.

Um cristão não pode ser nem estar alienado. Ele deve estar em alerta constante, sempre pronto para a ação, e preparado para servir dia e noite. A salvação prometida, o futuro que ansiamos ou sonhamos, exige uma atitude de vigilância, uma esperança ativa que nos coloca no caminho de serviço.

A principal atitude do cristão é ter uma disposição ininterrupta para o serviço. Fazer-se servo ou servidor é o caminho mostrado por Jesus na cena do lava-pés (cf. Jo 13,1-20). Fazer-se servo ou servidor é o único caminho para chegar à semelhança com Jesus e à igualdade com os demais. Somente a partir de baixo é que se pode mudar o mundo. Somente com o serviço se acaba com a escravidão e o desejo de domínio. O caminho de subida passa pelo caminho de descida. Para tornar-nos divinos precisamos ser muito humanos. A divinização passa pela humanização do ser humano. Por isso, servir para o cristão não é opcional, é lei constitutiva da vida cristã.

Celebrar a Eucaristia exige uma vida de serviço e de dedicação aos demais. Ao celebrar a Eucaristia ratificamos nosso compromisso de amor, de doação e de serviço. Quem assim atua, já é considerado por Jesus “bem-aventurado”, pois através do serviço e da doação é eliminado da comunidade todo desejo de domínio para passar a viver num clima permanente de mutuo serviço.

É sábio quem vive na vigilância permanente e sabe viver o presente com um olhar para o futuro. Nossa vida no presente tem uma dimensão do futuro. A vida  está sempre para frente. Não é porque não saiba gozar da vida presente e cumprir suas tarefas de hoje e sim porque sabe que é peregrino nesta vida e o importante é assegurar-se sua continuidade na vida eterna. É viver com uma meta e uma esperança. Por isso, o trabalho neste mundo para o cristão é um compromisso pessoal para transformar-se a si mesmo e para transformar o mundo em que vive.

Vale a pena cada um responder esta pergunta: “Como você prepara a segunda vinda do Senhor no seu dia a dia? Você já está preparado para esta vinda?”.

P. Vitus Gustama,svd

Sexta-feira Da XXIX Semana Comum, Ano Par, 23/10/2026

DEUS, PAI DE TODOS NÓS, ESTÁ NA VIDA COTIDIANA: ESTEJAMOS UNIDOS E ATENTOS PARA SUA PRESENÇA Sexta-Feira da XXIX Semana Comum Primeira L...