quinta-feira, 30 de julho de 2026

Sábado Da XVII Semana Comum, Ano Par, 01/08/2026

SER PROFETA E MÁRTIR DA VERDADE

Sábado da XVII Semana Comum

Primeira Leitura: Jr 26,11-16.24

Naqueles dias, 11 os sacedotes e profetas dirigiram-se aos chefes e a todo o povo, dizendo: “Este homem foi julgado réu de morte, porque profetizou contra esta cidade, como ouvistes com vossos ouvidos”. 12 Disse Jeremias aos dignitários e a todo o povo: “O Senhor incumbiu-me de profetizar para esta casa e para esta cidade através de todas as palavras que ouvistes. 13 Agora, portanto, tratai de emendar a vossa vida e as obras, ouvi a voz do Senhor, vosso Deus, que ele voltará atrás da decisão que tomou contra vós. 14 Eu estou aqui, em vossas mãos, fazei de mim o que vos parecer conveniente e justo, 15 mas ficai sabendo que, se me derdes a morte, tereis derramado sangue inocente contra vós mesmos e contra esta cidade e seus habitantes, pois em verdade o Senhor enviou-me a vós para falar tudo isso a vossos ouvidos”. 16 Os chefes e o povo em geral disseram aos sacerdotes e profetas: “Este homem não merece ser condenado à morte; ele falou-nos em nome do Senhor, nosso Deus”. 24 Jeremias passou a ter proteção de Aicam, filho de Safã, para não cair nas mãos do povo e evitar ser morto.

Evangelho: Mt 14,1-12

1 Naquele tempo, a fama de Jesus chegou aos ouvidos do governador Herodes. 2 Ele disse a seus servidores: “É João Batista, que ressuscitou dos mortos; e, por isso, os poderes mira­culosos atuam nele”. 3 De fato, Herodes tinha mandado prender João, amarrá-lo e colocá-lo na prisão, por causa de Herodíades, a mulher de seu irmão Filipe. 4 Pois João tinha dito a Herodes: “Não te é permitido tê-la como esposa”. 5 Herodes queria matar João, mas tinha medo do povo, que o considerava como profeta. 6 Por ocasião do aniversário de Herodes, a filha de Herodíades dançou diante de todos, e agradou tanto a He­ro­des 7 que ele prometeu, com juramento, dar a ela tudo o que pedisse. 8 Instigada pela mãe, ela disse: “Dá-me aqui, num prato, a cabeça de João Batista”. 9 O rei ficou triste, mas, por causa do juramento diante dos convidados, ordenou que atendessem o pedido dela. 10 E mandou cortar a cabeça de João, no cárcere. 11 Depois a cabeça foi trazida num prato, entregue à moça e esta a levou a sua mãe. 12 Os discípulos de João foram buscar o corpo e o enterraram. Depois foram contar tudo a Jesus.

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Viver Conforme a Palavra De Deus

Os sacerdotes e profetas dirigiram-se aos chefes e a todo o povo, dizendo: ‘Este homem foi julgado réu de morte, porque profetizou contra esta cidade, como ouvistes com vossos ouvidos’. Os chefes e o povo em geral disseram aos sacerdotes e profetas: ‘Este homem não merece ser condenado à morte; ele falou-nos em nome do Senhor, nosso Deus’”. É a condenação e a proteção do profeta Jeremias ao mesmo tempo.

Este homem foi julgado réu de morte, porque profetizou contra esta cidade, como ouvistes com vossos ouvidos”. É surpreendente a correspondência dessa cena e o processo da condenação de Jesus. Jeremias é figura de Jesus Cristo. Todo homem que sofre pela justiça participa, em certa maneira desse mesmo mistério: a Paixão de Jesus continua nos que sofrem pela justiça vivida e anunciada. São Paulo escreveu: “Agora me alegro nos sofrimentos suportados por vós. O que falta às tribulações de Cristo, completo na minha carne, por seu corpo que é a Igreja” (Cl 1,24).

“Este homem não merece ser condenado à morte; ele falou-nos em nome do Senhor, nosso Deus’” é a defesa que os chefes e o povo geral fazem em favor do profeta Jeremias. São representantes dos que defendem a verdade e vivem na sinceridade de coração.

Jeremias havia convidado o povo de Deus à conversão. Ele havia indicado que um culto dado a Deus com as mãos manchadas pelos crimes e maldades era culto vazio, do qual Deus retirava seu olhar. Ele havia indicado a necessidade de voltar para Deus antes que a cidade e o templo fossem destruídos a causa da maldade de seus habitantes, de suas autoridades e dos sacerdotes. Sem a conversão sincera do povo todo o que se espera é apenas a desgraça segundo o profeta Jeremias. E a tentativa de assassinar o profeta que anuncia a Palavra de Deus significa estar contra o próprio Deus. E o sangue do inocente (profeta) clamará diante de Deus como aconteceu com o sangue do inocente Abel assassinado pelo próprio irmão, Caim (Gn 4,10-11).

O Senhor nos convida a abrirmos nosso coração, através de uma conversão sincera, para que Aquele que é a Palavra encarnada, Jesus Cristo, realmente possa habitar em nós. Quem recusa o convite para uma sincera conversão, prepara a própria desgraça, isto é, uma vida sem a graça de Deus e põe em risco a própria salvação. No sangue de Cristo encontramos a salvação.

Somos Convidados a Ser Testemunhas Da Verdade a Exemplo de João Batista

Na passagem do Evangelho deste dia fala-se da identidade de Jesus, relacionada à de João Batista. O motivo dessa colocação é sempre o mesmo: para entender Jesus há que entender antes quem é João Batista, pois João Batista é o Precursor de Jesus. O destino de João Batista preanuncia o de Jesus.

O evangelho nos relatou que a fama de Jesus estava cada vez mais espalhada ao seu redor. Por isso chegou também aos ouvidos de Herodes que já tinha mandado decapitar João Batista. A presença e a fama de Jesus incomodam a consciência de Herodes: É João Batista, que ressuscitou dos mortos; e, por isso, os poderes miraculosos atuam nele, pensou Herodes. Herodes que já tinha mandado decapitar João Batista, por instigação de Herodiades, ficou sem a consciência tranquila.

A partir da reação de Herodes é que se conta o drama da vida de João Batista que denunciou Herodes por ter se casada com Herodíades, ex-mulher de seu irmão, pois era proibido pela Lei (cf. Lv 18,16).

A adúltera Herodíades não gostou da denúncia de João Batista em nome de seu prazer e interesse pessoal, e procurava algum meio para surpreender João Batista, e esperava momento certo para vingar-se. Quando chegou o momento oportuno ela pediu, através de sua filha (como meio), a cabeça de João Batista (vingança).

Herodes ouve com agrado João Batista, mas não lhe obedece. Seu coração está dividido. Herodes ouve João Batista, e sua consciência desperta em lucidez. Mas Herodes também ouve Herodíades, sua amante, e se embriaga em paixão. Herodes vive entre a lucidez e a paixão. O coração de Herodes é dividido. Do coração dividido de Herodes nasce a morte de João Batista. De seu coração dividido sai a divisão entre a cabeça e o corpo de João Batista numa degolação. Incapaz de obedecer à verdade, Herodes mata um inocente, o profeta de Deus. Incapaz de escutar o homem de Deus, Herodes silencia para sempre a voz de João Batista. Incapaz de segui-lo, Herodes detém João Batista na cadeia para depois encerrar sua vida com uma espada. Quando não se respeita a verdade, quando não se vive a caridade fraterna, o número de vítimas de violência e de agressão aumentarão cada vez mais. Os inocentes são , na maioria, sempre vítimas disso tudo.

João Batista é o último profeta do Antigo Testamento. Ele enfrenta abertamente os governantes da nação para chamá-los à mudança e para exigir um comportamento ético. O deserto, lugar de sua pregação, é símbolo de sua oposição à cidade e ao templo. Ele quer reviver a experiência do êxodo e recordar seu povo que o destino celestial depende completamente da fidelidade a Deus. No entanto, como qualquer profeta, João Batista pagou o preço alto de sua denúncia: a própria vida. Herodes, ainda que tivesse respeito pelo João Batista, se submeteu diante das pressões da adúltera Herodíades que pediu a cabeça de João Batista.

A morte de João Batista antecipa a morte de Jesus como mártir. Ambos são encarcerados injustamente, ambos rubricam com seu sangue a verdade de Deus. Jesus espera o mesmo destino de João Batista. Um profeta autêntico não é somente recusado em sua própria pátria (cf. Mt 13,57), mas também essa recusa termina, muitas vezes, com sua morte.

A denúncia de João Batista nos mostra que o Evangelho não é neutro. Diante de certos grandes problemas, o Evangelho toma posição com o risco de conduzir os crentes para o martírio pelo fato de defender a verdade, a justiça, a honestidade e assim por diante.

A figura de João Batista é admirável em sua coerência, na lucidez de sua pregação e de suas denúncias. João Batista é valente e comprometido. Diz a verdade, ainda que desagrade. É figura também de tantos cristãos que morreram vítimas da intolerância pelo testemunho que davam contra situações injustas e insuportáveis do ponto de vista da justiça e da honestidade. Os “profetas mudos” prosperam, mas os autênticos terminam pagando tudo com a própria vida.

A verdade continua sendo a verdade, embora o pregador da verdade possa ser eliminado por aqueles que vivem na mentira e na falsidade. A verdade tem seu próprio caminho. E por isso é que a verdade não pode ser deviada, eliminada ou enterrada. O tempo vai mostrar que a verdade vencerá tudo e todos. Thomas Merton, um grande escritor espiritual escreveu: “Devemos ser sinceros por dentro, sinceros com nós mesmos antes de podermos conhecer uma verdade que está fora de nós”. As palavras mais proféticas emanam da verdade.

Toda vez que celebramos o martírio de um discípulo de Cristo tocamos o próprio núcleo de nossa fé. A Igreja de Cristo é a Igreja dos profetas e dos mártires. Por ser profeta o cristão se torna mártir, isto é, aquele que testemunha a verdade e paga com seu sangue a verdade proclamada. A função profética é uma das funções de qualquer batizado. No dia em que é ungido com o óleo de crisma no momento de seu batismo, o cristão recebe as três funções: profética, sacerdotal e real. Ele é batizado para proclamar a verdade, praticar o bem e não para compactuar o mal e a maldade. O cristão se santifica vivendo de acordo com a verdade e o bem. Ele vive e prega os valores do Evangelho como a verdade, a honestidade, a justiça, a caridade, a solidariedade, partilha, igualdade e assim por diante.

Mas o que acontece é que estamos tão acostumados com o comodismo. Muitas vezes nos sentimos instalados comodamente no acampamento capitalista ou nas avenidas do hedonismo. Ninguém vai nos perseguir se não vivermos nosso martírio, nosso verdadeiro testemunho dos valores ensinados por Jesus Cristo.

A vida do cristão deve ser iluminada e conduzida pela verdade. A vida iluminada pela verdade ameaça quem está na sombra da desonestidade, da corrupção e da falsidade, e este reage violentamente diante da verdade em nome da defesa dos seus interesses e prazeres individuais. Toda vez que os cristãos se arriscarem para adentrar-se nos territórios obscuros, eles vão pagar o preço com sua própria vida, como João Batista. Toda vez que a Igreja abrir a boca contra a injustiça, a desonestidade, a corrupção, a exploração do ser humano, ela será perseguida. Mas dar a vida é a única maneira de dar vida. Ser verdadeira Igreja de Cristo não dá para parar de sofrer enquanto ela viver seu verdadeiro martírio, seu profundo testemunho de valores. A verdadeira Igreja de Cristo é a Igreja dos mártires, das testemunhas de Cristo.

Jesus nos diz que devemos ser luz, sal e fermento deste mundo (cf. Mt 5,13-14). Ou seja, profetas. Ser cristão é estar disposto a tudo. Profetas são os que interpretam e vivem as realidades deste mundo a partir da perspectiva de Deus e denunciam quando há injustiça ou desonestidade nelas. Ele faz tudo isso não para eliminar os pecadores e sim o pecado, pois o próprio Deus ama o pecador e odeia o pecado. Deus não quer a morte do pecador, mas que se converta (Ez 18,19-32).

Geralmente não gostamos de escutar as críticas que nos recordam o lado escuro de nossa vida. Sempre temos dificuldade para escutar um profeta. Mas mesmo que não gostemos de ouvir o profeta, suas palavras continuam a conter a verdade e a verdade nos liberta (cf. Jo 8,31-32), e torna nossa vida mais leve e nosso sono mais sadio. Mesmo que eliminemos o profeta, mas suas palavras continuam a ressoar ou a incomodar nossa consciência, como aconteceu com Herodes. Viver na verdade ou de acordo com a verdade, com a justiça, com a desonestidade, etc. é viver na serenidade.

O Senhor nos reúne em torno d’Ele nas nossas celebrações não para celebrar alguns ritos mágicos e sim para que renovemos diante d’Ele nossa aliança de amor, aliança com a verdade e voltemos a fazer nosso o compromisso de viver e de proclamar Seu Evangelho e construir Seu Reino de amor e de fraternidade entre nós.

Herodes ouvia com agrado João Batista, mas não lhe obedecia. Seu coração estava dividido. Herodes ouvia João Batista que despertava sua consciência, mas, ao mesmo tempo, ouvia Herodíades, sua amante e se embriagava em paixão por ela. Herodes estava entre na encruzilhada entre a lucidez e a paixão cega; entre o prazer mortal e a paz da consciência. Ele estava totalmente dividido. Da divisão de seu coração nasce morte. De sua divisão saiu a divisão entre o corpo e a cabeça de João Batista. Herodes foi incapaz de obedecer ao que pregava a verdade e a salvação, mas o matou; incapaz de escutá-lo, o silenciou para sempre neste mundo; incapaz de segui-lo, mas o deteve na prisão para depois eliminá-lo em nome do prazer passageiro.

Acontecerá a divisão dentro de nós mesmos e entre nós toda vez que estivermos desunidos de Cristo. E essa divisão pode produzir morte nosso próximo como aconteceu com Herodes. Estamos divididos toda vez que aplaudimos um corrupto, pois fazemos parte da corrupção. Estamos divididos toda vez que admiramos Cristo e seus ensinamentos, no entanto não fazemos caso de tudo isso. Estamos divididos se pregamos uma moral para o uso próprio em nome de nossos prazeres. O caso de Herodes nos chama a sermos vigilantes. Em qualquer momento podemos perder a razão para agir em nome do prazer e da emoção. O espírito de Herodes não morre.

P. Vitus Gustama,svd

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Sexta-feira Da XVII Semana Comum, Ano Par, 31/07/2026

É PRECISO FICAR ATENTO, POIS DEUS SE MANIFESTA NO COTIDIANO

Sexta-Feira da XVII Semana Comum

Primeira Leitura: Jr 26,1-9

1 No início do reinado de Joaquim, filho de Josias, rei de Judá, foi comunicada da parte do Senhor esta palavra, que dizia: 2 “Assim fala o Senhor: Põe-te de pé no átrio da casa do Senhor e fala a todos os que vêm das cidades de Judá, para adorar o Senhor no templo, todas as palavras que eu te mandei dizer. Não retires uma só palavra; 3 talvez eles as ouçam e voltem do mau caminho, e eu me arrependa da decisão de castigá-los por suas más obras. 4 A eles então dirás: Isto diz o Senhor: Se não vos dispuserdes a viver segundo a lei que vos dei, 5 a escutar as palavras dos meus servos, os profetas, que eu vos tenho enviado com solicitude e para vossa orientação, e que vós não tendes escutado, 6 farei desta casa uma segunda Silo e farei desta uma cidade amaldiçoada por todos os povos da terra”. 7 Os sacerdotes e profetas, e todo o povo presente ouviram Jeremias dizer estas palavras na casa do Senhor. 8 Quando Jeremias acabou de dizer tudo e que o Senhor lhe ordenara falasse a todo o povo, prenderam-no os sacerdotes, os profetas e o povo, dizendo: “Este homem tem que morrer! 9 Por que dizes, em nome do Senhor, a profecia: ‘Esta casa será como Silo, e esta cidade será devastada e vazia de habitantes?’” Todo o povo juntou-se contra Jeremias na casa do Senhor.

Evangelho: Mt 13, 54-58

Naquele tempo, 54 dirigindo-se para a sua terra, Jesus ensinava na sinagoga, de modo que ficavam admirados. E diziam: “De onde lhe vem essa sabedoria e esses milagres? 55 Não é ele o filho do carpinteiro? Sua mãe não se chama Maria, e seus irmãos não são Tiago, José, Simão e Judas? 56 E suas irmãs não moram conosco? Então, de onde lhe vem tudo isso?” 57 E ficaram escandalizados por causa dele. Jesus, porém, disse: “Um profeta só não é estimado em sua própria pátria e em sua família!58 E Jesus não fez ali muitos milagres, porque eles não tinham fé.

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Os Maus Caminhos Terminam Na Desgraça, Os Bons Caminhos Estão Cheios Da Graça e Bênção Do Senhor

Com Jr 26 iniciam-se as reações bem violentas dos dirigentes do povo diante do discurso do profeta Jeremias contra o templo, como lemos no texto da Primeira Leitura.

As diatribes ou as críticas severas e mórbidas do profeta Jeremias (Jeremias 7:1-11) contra o templo e o culto formalista de Jerusalém (no ano de 608 a.C) são a causa de sua prisão. Jesus será preso por um motivo semelhante (Mt 26,59-61).

Não haverá um culto verdadeiro e autêntico, se não houver compromisso com a justiça, a honestidade, a caridade, a solidariedade, a fraternidade e assim por diante. O culto sem o compromisso com a vida é um culto vazio de sentido. É preciso colocar o culto na vida e a vida no culto. É preciso colocar a oração na vida e a vida na oração. Eu rezo aquilo que eu vivo e eu vivo aquilo que eu rezo.

Ao questionar a presença contínua de Deus no templo enquanto o povo se entregava ao pecado e ao culto formalista, Jeremias lançou as bases para uma teologia do culto espiritual: “Se não vos dispuserdes a viver segundo a lei que vos dei, a escutar as palavras dos meus servos, os profetas, que eu vos tenho enviado com solicitude e para vossa orientação, e que vós não tendes escutado, farei desta casa uma segunda Silo e farei desta uma cidade amaldiçoada por todos os povos da terra. Isso diz o Senhor”.  

A cena representa um dos momentos culminantes da vida do profeta Jeremias: diante do povo e das autoridades (o rei Joaquim acaba de subir ao trono), ele anuncia, o que recebeu de Deus, que eles devem abandonar seus maus caminhos. Se não o fizerem, Deus permitirá desgraça total, e o Templo será destruído, como o de Silo, séculos antes (o templo onde o jovem Samuel havia crescido).

A reação diante do anúncio do profeta é violenta.Este homem tem que morrer!”, disseram os sacerdotes e os falsos profetas contra a denúncia do profeta Jeremias.  Como sempre é diante da voz de um profeta autêntico, que não anuncia coisas agradáveis ​​aos ouvidos do povo ou dos líderes que estão em pecado, sempre tem reação violenta, pois há muitos interesses para serem defendidos.

O que o profeta Jeremias deseja que os líderes e o povo em geral se convertam: "Vamos ver se eles escutam e cada um se desvia de seu mau comportamento e lamento o mal que medito para fazer com eles". Deus não quer, em princípio, punição, mas  a conversão. Ele pede correspondência e um tipo de conduta consistente com os planos de Deus. Quando um cristão - desde o Papa até o último batizado – for testemunha dos valores de Deus, no meio de um mundo atraído por outros ídolos e valores mais ou menos superficiais, a reação geralmente não é exatamente entusiasta. É por isso que houve e continua a haver tantos mártires.

Para ser profeta, é preciso coragem, como a de Jeremias, que não se calou, apesar das ameaças, em nome da verdade, da justiça, da honestidade e assim por diante. Como Pedro diante do Sinédrio ou Paulo diante de seus inimigos. Acima de tudo, como Jesus diante de seus acusadores, que o levaram à morte.

Deus Está No Nosso Cotidiano: Prestemos bem a Atenção Sobre Esta Presença Misteriosa

“‘Não é ele o filho do carpinteiro? Sua mãe não se chama Maria... Então, de onde lhe vem tudo isso?’. E ficaram escandalizados por causa dele”.

Os conterrâneos de Jesus, os nazarenos, acham conhecer Jesus, mas na verdade eles não O conhecem na sua profundidade. Não há nada que seja tão perigoso do que a pretensão de saber de tudo. Uma pessoa que tem essa pretensão se fecha em si mesma e deixa de aprender. A humildade sempre nos move a aprender mais para poder partilhar com os demais. “Você sabe? Então, ensine. Você não sabe, então, aprenda”, dizia Confúcio que viveu quinhentos anos antes de Cristo. Para ter resultados extraordinários precisamos ter humildade para aprender. A falta da humildade impede alguém de aprender mais e de continuar a crescer e impede alguém de ser irmão do outro. A pessoa que se fecha em si se torna conservadora. Todo conservador não tem futuro, pois não aceita qualquer novidade. Ela acha que não tenha mais nada para aprender. Certamente essas pessoas são os familiares de Jesus; são os mais próximos de Jesus.

Tenho medo de que essas pessoas sejamos nós também. Nós que achamos seguidores de Jesus, frequentadores de cultos ou celebrações, mas não queremos andar ou caminhar atrás de Jesus para segui-Lo. A palavra “seguir” supõe movimento, dinâmica, peregrinação. O verdadeiro seguidor é aquele que sempre olha para aquilo que seu Mestre faz, e escuta aquilo que o Mestre diz e ensina. O verdadeiro seguidor é aquele que mantém a mente e coração abertos, disponíveis, e prestes a renunciar tudo para aprender além do que já sabe ou supostamente sabe. Só seguindo atrás de Jesus é que poderemos ver muito mais coisas na vida e entenderemos o significado de cada coisa e acontecimento. Quem vive dentro de quatro paredes vê sempre as mesmas coisas e por isso, não há surpresa nem novidade. Ao sair do quatro para ir à rua, começam as surpresas para sua vida.

Não é ele o filho do carpinteiro?”. Os nazarenos reprovam a origem humilde de Jesus. Para eles, Jesus é nada mais do que um simples filho de um carpinteiro. Por ser filho de um carpinteiro, as palavras de Jesus não valem para eles embora nelas tenha toda a verdade.

É preciso sabermos distinguir quem fala e o que se fala. Se na fala de alguém, mesmo que não gostamos dele, contém verdade, temos que aceitar essa verdade. Jesus nos deu o seguinte critério: “Observai e fazei tudo o que eles dizem, mas não façais como eles, pois dizem e não fazem(Mt 23,3). Não podemos estar do lado de ninguém e sim do lado da verdade e do amor. Os nazarenos esperam um Messias cheio de glória e poder; um messias misterioso, celestial e transcendente. Mas Deus não encaixa em nossas ideias estereotipadas. Deus cabe no nosso coração, mas não cabe na nossa cabeça, pois o coração sente aquilo que os olhos não veem. O coração compreende quando a mente se tranquiliza. Além disso, é preciso que ouçamos aquilo que alguém diz e não importa quem o diz se há verdade nisso.

Os nazarenos preferem a imagem de Deus que eles têm na cabeça ao próprio Deus. Para eles, Jesus é cotidiano demais para ser Deus. Este é o maior perigo para qualquer adepto de qualquer religião ou Igreja: identificar a imagem que tem de Deus com o próprio Deus. Por isso, vale a pena cada um fazer esta pergunta: “A imagem de Deus que você tem será que é o próprio Deus?”. Muitas vezes abandonamos o próprio Deus para ficar com a imagem que achamos que seja Deus. Muitas vezes condenamos os outros a partir da imagem de Deus que temos. Quem sabe que os que se acham crédulos são muito mais incrédulos como os próprios conterrâneos de Jesus.

“Um profeta só não é estimado em sua própria pátria e em sua família!”.  E Jesus não fez ali muitos milagres, porque eles não tinham fé. As pessoas da cidade de Jesus (vilarejo de Nazaré), do lugar de seu trabalho não se dispõem de tempo para meditar se ali há um Profeta ou mais que um Profeta. Basta-lhes a vida rotineira. Falta-lhes a fome da verdade. Falta-lhes o discernimento. Falta-lhes a reflexão sobre a realidade. Deus se manifesta no nosso cotidiano sem espetáculo, como o vento que ao vemos, mas sentimos o efeito de sua presença ou de sua passagem. E a novidade do Reino trazida por Jesus suscita neles apenas dúvidas, suspeitas e gozação. É o grande desafio da própria encarnação. É o grande mistério da fé. A fé somente floresce em campos fecundos que se deixam regar com chuva do céu. Os mistérios de Deus somente são compreendidos com coração, pois o coração sente aquilo que a inteligência desconhece.

Ao longo da história tem tido muitas pessoas inspiradas por Deus para denunciar situações injustas e más condutas. Algumas são conhecidas. Mas há muitíssimos profetas anônimos, gente que se atreve a denunciar o que é injusto e desonesto. Muitos desses profetas pagam com a própria vida pela denúncia feita, pois os que defendem os próprios interesses, e não os interesses comuns não têm piedade de eliminar quem os denuncia.

Uma das funções como batizados é a função profética: anunciar o bem e denunciar o mal. Um batizado não pode ficar em silêncio diante da desonestidade e da injustiça. O silêncio nos faz cúmplices. Somos chamados a ser profetas na nossa atualidade.

Não somente somos chamados a denunciar, mas também a ouvir os que denunciam. Quem sabe que dentro dessa denúncia estamos nós também, pois muitas vezes nos sentimos tão cômodos em nossa vidinha tão perfeitamente organizada, em nossas próprias ideias tão formadas e preestabelecidas, em nossa maneira inflexível de entender as coisas, em nossa imagem estática de Deus que nos fazem surdos diante do apelo do Espírito de Deus para fazer e seguir o bem. Se há verdade na denúncia contra nós, temos que agradecer a Deus, pois é um chamado para voltarmos a trilhar o caminho do bem. Fé é caminhada, mas muitas vezes, em nome do prazer acabamos desandando. Quando ficamos incomodados, paramos de ter fé, pois a fé é caminhada. É mais cômodo crer em um Deus todo-poderoso que controla tudo o que ocorre, do que em um Deus que sofre com seus filhos, que é crucificado para salvar os outros filhos de Deus, e em um Deus que nos criou para que resolvamos as injustiças do mundo. No ritmo da velocidade do avanço tecnológico precisamos estar atentos para ver e ouvir o que Deus quer nisto tudo. Não tapemos nossos ouvidos nem fechemos nossos olhos nem paralisemos nossa mente. Precisamos tempo todo estar atentos ao que ocorre para que possamos nos posicionar como filhos e filhas de Deus, luz do mundo e sal da terra. Precisamos ter muita flexibilidade e disponibilidade para acolher aquilo que Deus nos quer dizer, inclusive através de quem menos esperamos, pois o Espírito de Deus sopra para onde quer e por quem quer.

Pare e verifique, Deus se manifesta na nossa vida cotidiana. A encarnação de Deus em um carpinteiro de Nazaré nos descobre que Deus não é um exibicionista que se oferece em espetáculo. Deus não é um “show”. Deus não é o Ser todo-poderoso que se impõe, mas que propõe e convida. Pergunte-se: “De que maneira Deus se manifesta a mim hoje? O que Ele quer me manifestar? Quais são os apelos de Deus para mim hoje através das minhas experiência e dos acontecimentos? ”. Estejamos todos atentos. Em cada momento Deus se manifesta a nós.

P. Vitus Gustama,svd

terça-feira, 28 de julho de 2026

Quinta-feira Da XVII Semana Comum, Ano Par, 30/07/2026

ESFORÇAR-SE PARA  SER SELECIONADO POR DEUS NO FIM DA HISTÓRIA

Quinta-Feira da XVII Semana Comum

Primeira Leitura: Jr 18,1-6

1 Palavra dirigida a Jeremias, da parte do Senhor: 2 “Levanta-te e vai à casa do oleiro, e ali te farei ouvir minhas palavras”. 3 Fui à casa do oleiro, e eis que ele estava trabalhando ao torno; 4 quando o vaso que moldava com barro se avariava em suas mãos, ei-lo de novo a fazer com esse material um outro vaso, conforme melhor lhe parecesse aos olhos. 5 Fez-se em mim a palavra do Senhor: 6 “Acaso não posso fazer convosco como este oleiro, casa de Israel? diz o Senhor. Como é o barro na mão do oleiro, assim sois vós em minha mão, casa de Israel”.

Evangelho: Mt 13, 47-53

Naquele tempo, disse Jesus à multidão: 47 “O Reino dos Céus é ainda como uma rede lançada ao mar e que apanha peixes de todo tipo. 48 Quando está cheia, os pescadores puxam a rede para a praia, sentam-se e recolhem os peixes bons em cestos e jogam fora os que não prestam. 49 Assim acontecerá no fim dos tempos: os anjos virão para separar os homens maus dos que são justos, 50 e lançarão os maus na fornalha de fogo. E aí, haverá choro e ranger de dentes. 51 Compreendestes tudo isso?” Eles responderam: “Sim”. 52 Então Jesus acrescentou: “Assim, pois, todo mestre da Lei, que se torna discípulo do Reino dos Céus, é como um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas”. 53 Quando Jesus terminou de contar essas parábolas, partiu dali.

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É Preciso Voltarmos Para Quem Nos Criou e Para Quem Nos Inspirou

Acaso não posso fazer convosco como este oleiro, casa de Israel? Como é o barro na mão do oleiro, assim sois vós em minha mão, casa de Israel”, assim disse o Senhor para o profeta Jeremias que lemos na Primeira Leitura.

A narração é breve que conta o episódio da vida de Jeremias a partir dos acontecimentos triviais da vida cotidiana (Jr 18,1-12). Deus pede que Jeremias preste atenção para o trabalho de um oleiro. Em Gn 2,7 Deus formou Adão com barro. Em Is 29,16, o profeta Isaias insiste na dependência absoluta do homem com seu Criador. São Paulo dirá também em Rm 9,21: “O oleiro não tem direito de fazer do mesmo barro um vaso para fins nobres e outro para uso desonroso?”. Esta imagem mostra a iniciativa absoluta de Deus. Enquanto Jeremias observa como o oleiro trabalha com o barro na mão: moldar e dar forma até onde o barro permite, assim também faz Deus com Judá (Casa de Israel). O Deus de Israel reconhece a liberdade do povo para escolher o bem ou o mal. O Criador (“Oleiro divino”) está limitado pelas propriedades de sua matéria prima chamada o ser humano.

A liberdade é algo dado por Deus ao ser humano para seu bem ou para seu mal. Mas no universo criado por Ele há as próprias leis embutidas nele que o ser humano deve observar. Para chegar até outros planetas, o ser humano deve obedecer às leis da natureza. Sem obedecer às leis da natureza o homem se destrói.  Pelo fato de ter criado da terra (barro) percebemos que homem é parte da criação. Ele foi tirado da terra (Gn 2,7) e por isso está vinculado a todo o criado; é um ser transitório, pois da terra ele foi feito e  para a terra ele vai voltar (Gn 3,19). No AT, morrer é voltar à terra de onde o homem veio. O homem é todo terra e, por isso, é mortal. Mas por ser vida da vida de Deus (sopro), o homem é transcendente e não apenas transitório. O sopro divino é que coloca o homem no âmbito humano e o distingue dos animais.

 Pela ua incoerência, pelo abuso da liberdade, o ser humano peca. Assim como não somos o que deveríamos ser, também fazemos coisas que não quereríamos (Cf. Rm 7,15.19). O pecado do ser humano consiste na impossibilidade de amar a Deus de todo o coração, com toda a alma e com todas as forças e assim como amar aos demais. Por isso, o ser humano se encontra em oposição consigo mesmo, com Deus, com os outros e com o mundo. Em tudo ele necessita de Deus.

Para se tornar o pó vivente novamente, o ser humano deve estar vinculado permanentemente ao seu Criador pois foi  Deus quem soprou seu hálito no homem (Gn 2,7), ou renovar este vínculo permanentemente. O ser humano é um ser inspirado por Deus porque traz em si a inspiração criadora. Mesmo praticando o mal, para o ser humano é dada oportunidade para estar vinculado outra vez com Aquele que o criou, para ser novamente o sopro divino. O homem-barro, o homem-carne precisa do poder de Deus para transcender sua condição de simples ser carnal, ser barro. O Deus vivo é como a estrutura que mantém a vida do homem. “Acaso não posso fazer convosco como este oleiro, casa de Israel? Como é o barro na mão do oleiro, assim sois vós em minha mão, casa de Israel”. É preciso que nós, barro, voltemos para a mão do Oleiro divino. Assumir s responsabilidade pelas nossas culpas e nossas ações em geral é o primeiro passo para nos tornar dignos do amor misericordioso de Deus.

Esforçar-se Para Ser Contado Entre Os Escolhidos

No fim dos tempos os anjos virão para separar os homens maus dos que são justos, e lançarão os maus na fornalha de fogo”.

Estamos ainda no discurso de Jesus sobre o Reino de Deus em parábolas (Mt 13). Desta vez Jesus conta uma parábola sobre a rede na pescaria em que no fim haverá a seleção entre os peixes bons e os peixes que não prestam: “Quando está cheia, os pescadores puxam a rede para a praia, sentam-se e recolhem os peixes bons em cestos e jogam fora os que não prestam.

As semelhanças com a parábola do joio são evidentes: na rede como no campo se misturam bons e maus; sua separação terá lugar somente ao fim do mundo. A diferença está no fato de que na parábola do joio se insiste em estar misturado: “Deixai-os (trigo e joio) crescer juntos até a colheita” (Mt 13,30). Na parábola da rede o acento esta na separação. Mas as duas parábola tendem para um cumprimento final.

“Quando está cheia, os pescadores puxam a rede para a praia, sentam-se e recolhem os peixes bons em cestos e jogam fora os que não prestam.”.  Nossa vida é uma série de escolhas. Na vida cotidiana sempre selecionamos e escolhemos o que é bom ou o que é melhor.  Selecionamos boas amizades. Selecionamos algo de bom ou de melhor para nos vestir, para comer, para morar, e assim por diante. Vivemos selecionando o que é bom ou o que é melhor. O bom ou o melhor é sempre o objeto do apetite ou do desejo do homem, qualquer que seja esse objeto. O ruim é, ao contrário, o objeto de ódio ou de aversão do homem. Mas nem tudo o que desejamos é bom, mas tudo o que é bom sempre desejamos. A bondade atrai, pois ela agrada e edifica. A bondade é a própria perfeição possuída por um ser. Por possuir a bondade, um ser que a tem é capaz de dar a outro a perfeição que lhe falta. Ser cristão não é somente aquele que escolhe entre o bom e o mau; ele é aquele que escolher entre o bom e o melhor. Ele sempre faz um passo adiante.

Quando Jesus compara o Reino de Deus a uma rede que é lançada sobre todos, mas que só os peixes bons são selecionados, ele está dizendo que se trata de uma coisa seletiva, em que a bondade é que tem valor e permanece para sempre. A bondade é sinal de amabilidade. Quem ama porque é bom. Quem é bom, ama.  A bondade é algo que em si tem algo divino, pois Deus é a Bondade por excelência. Por isso, a bondade tem uma marca de eternidade.

Os maus, ao contrário, vão fazer parte de outro reino, onde as pessoas somente vão odiar-se, segundo Jesus. A expressão: “Chorar e ranger os dentesmostra bem como é a pessoa que odeia: vive como que rangendo os dentes. Eternamente infeliz. A frustração definitiva do homem (pranto e ranger de dentes) é perder a vida para sempre. A grande frustração do homem é sua incapacidade de viver na bondade, no bem, na compaixão, na simplicidade, na solidariedade. A bondade atrai. A simplicidade atrai. A arrogância, a prepotência, o orgulho, o complexo de superioridade afastam as pessoas e matam a caridade e a igualdade, eliminam a comunhão fraterna e afastam os demais. Qualquer arrogante, prepotente, orgulhoso, ambicioso vive na tremenda solidão. Viver é conviver. Através da convivência saudável é que podemos crescer como seres humanos. Até a própria vulnerabilidade da convivência nos ajuda a crescermos como pessoas saudáveis.

A parábola da rede lida neste dia se refere ao julgamento final. A imagem da pesca ilustra a dinâmica do Reino de Deus feita de perdas e ganhos. Uma vez a rede lançada ao mar, a pescaria já não depende da vontade do pescador. Cada lançada de rede é uma surpresa. A seleção será feita somente no final da pescaria, quando os peixes bons são colocados em cestas, enquanto os maus são jogados fora.

A parábola propõe a todos nós a sorte final, para orientar-nos na decisão presente. Quando soubermos para onde vamos, saberemos também escolher por onde devemos caminhar (saber escolher o caminho). Os únicos que chegam à vida em plenitude, pela misericórdia de Deus, são os que produzem frutos bons nesta vida; são os que em si tem a marca de eternidade como a bondade, o amor, a compaixão, a solidariedade e assim por diante. Tudo que tem algo divino em mim e na minha vivência será reconhecido por Deus (cf. Mt 25,31-46). A sabedoria cristã consiste no discernimento dos verdadeiros valores do Evangelho como amor, partilha, solidariedade, compaixão, perdão, honestidade, justiça, paz etc., e em sua aplicação para as circunstâncias atuais. Há que estabelecer uma escala de valores para que cada cristão possa orientar sua maneira de viver no presente. Os outros valores devem estar subordinados em função dos valores superiores do Reino de Deus.

Mas ao mesmo tempo, esta parábola quer nos recordar que somente Deus tem a competência na seleção entre os bons e os maus no fim de cada história. Cristão nenhum tem condições para classificar quem vai para o céu e quem não vai para lá, pois sua própria salvação ainda não está garantida, pois ele continua sendo pessoa capaz de pecar em qualquer momento. É preciso olharmos para cada ser humano como filho(a) de Deus e nosso irmão. Como dizia Santo Agostinho: “Amando ao próximo tu limpas os olhos para ver a Deus” (In Joan. 17,8). Quanto mais santo for o homem, mais se reconhecerá como pecador. Quanto mais convertido for um cristão, mais responsável se tornará. A conversão não é uma carreira acabada. A conversão é diária, pois somos capazes de optar por outros valores em nome de algum interesse não-cristão. Deixemos Deus determinar a qualidade de cada um e não nos arroguemos pelas qualidades que temos, pois tudo de bom em nós tem sua origem no Supremo Bem que é Deus. Tudo de bom em nós deve ser partilhado para com os outros. Fazemos tudo de bom, porque Deus da bondade faz isso.Faze o que deves fazer. E faze-o bem. Esta é a única norma para alcançar a perfeição”, dizia Santo Agostinho (In ps. 34,2,16). Somos prolongamento da generosidade do Deus-Criador que criou tudo para o bem da humanidade gratuitamente. Temos apenas o direito de usufruto. Esse direito cessará neste mundo cessará quando terminar nossa caminhada na história.

Deus não castigará o homem por ter cometido a violência ou criminalidade; Ele também não salva o homem por não ter cometido algum crime. Mas Deus “castiga” (o homem que se castiga) por não ter feito bondade ou caridade. Se formos castigados um dia, não pelo mal que deixamos de cometer, e sim pelo bem que não praticamos.

Apesar de sermos pecadores, Deus tem paciência para esperar os frutos bons de cada um de nós. A história de nossa vida é o tempo para crescermos no bem e na bondade e para nos amadurecermos no amor como filhos e filhas de Deus.  Primordialmente, somos bons porque tudo o que Deus criou era bom (cf. Gn 1,1ss). Deus aguarda a colheita, não diminuída por prematuras intervenções de escolha. Só então, no fim, haverá a colheita, com base na realidade de ser grão ou joio/cizânia, peixe bom ou mau, de ser caridoso ou egoísta. É uma advertência eficaz, embora tácita: Deus é paciente com todos e deixa aos pecadores, cada um de nós, tempo para amadurecer sua conversão; Deus sabe esperar a livre decisão do homem, cabe a cada um escolher ser bom grão e bom peixe e não peixe imprestável.

Portanto, é prudente premunir-se, pensar enquanto é tempo, decidir-se a fazer o bem, ser útil aos outros, ser peixe bom, ser selecionado por Deus no fim de nossa história, pois “No fim dos tempos os anjos virão para separar os homens maus dos que são justos, e lançarão os maus na fornalha de fogo”.

P. Vitus Gustama, SVD

domingo, 26 de julho de 2026

Santos Marta, Maria e Lázaro-Memória, 29/07/2026

SANTOS MARTA, MARIAE LÁZARO

JESUS É A RESSURREIÇÃO E A VIDA

    

29 de Julho

Primeira Leitura: 1Jo 4,7-16

7Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece Deus. 8Quem não ama, não chegou a conhecer Deus, pois Deus é amor. 9Foi assim que o amor de Deus se manifestou entre nós: Deus enviou o seu Filho único ao mundo, para que tenhamos vida por meio dele. 10Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de reparação pelos nossos pecados. 11Caríssimos, se Deus nos amou assim, nós também devemos amar-nos uns aos outros. 12Ninguém jamais viu a Deus. Se nos amamos uns aos outros, Deus permanece conosco e seu amor é plenamente realizado entre nós. 13A prova de que permanecemos com ele, e ele conosco, é que ele nos deu o seu Espírito. 14E nós vimos, e damos testemunho, que o Pai enviou o seu Filho como Salvador do mundo. 15Todo aquele que proclama que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece com ele, e ele com Deus. 16E nós conhecemos o amor que Deus tem para conosco, e acreditamos nele. Deus é amor: quem permanece no amor, permanece com Deus, e Deus permanece com ele.

Evangelho: Jo 11,19-27

Naquele tempo, 19 muitos judeus tinham vindo à casa de Marta e Maria para as consolar por causa do irmão. 20 Quando Marta soube que Jesus tinha chegado, foi ao encontro dele. Maria ficou sentada em casa. 21 Então Marta disse a Jesus: “Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido. 22 Mas mesmo assim, eu sei que o que pedires a Deus, ele te concederá”. 23 Respondeu-lhe Jesus: “Teu irmão ressuscitará”. 24 Disse Marta: “Eu sei que ele ressuscitará na ressurreição, no último dia”. 25 Então Jesus disse: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. 26 E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais. Crês isto?” 27 Respondeu ela: “Sim, Senhor, eu creio firmemente que tu és o Messias, o Filho de Deus, que devia vir ao mundo”.

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Celebramos hoje a festa de Santos Marta, Maria e Lázaro. Eles são mencionados nos evangelhos de Lucas e de João.

Marta era irmã de Maria e de Lázaro, de Betânia. Ela era uma discípula e seguidora de Jesus Cristo, muito estimada por Ele (Jo 11,5). Marta vivia com seus dois irmãos, Maria e Lázaro, na pequena vila chamada Betânia (Jo 11,1), localizada nas encostas ao leste do monte das Oliveiras. Jesus os visitava frequentemente, quando estava em Jerusalém (Lc 10,38). Jesus estava com eles na semana antes de ser preso e crucificado (Mt 21,17).

Marta é conhecida como aquela que estava sempre envolvida e sobrecarregada com os afazeres diários (Lc 10,39-42). Nesse episódia Marta é uma anfitriã. Na Antiguidade, hospedar alguém, especialmente, estrangeiro era um ato sagrado. Acreditava-se que no hóspede algum anjo se escondia. Receber um hóspede ou um estrangeiro era receber um anjo (cf. Hb 13,2). Nisto Marta é louvável. Porém nesse episódio de Lc 10,39-42 Marta não é altruísta e desinteressada, pois ela espera ser reconhecida por Jesus como boa anfitriã. Marta quer servir Jesus sem perguntar o que Jesus deseja. Maria, sua irmã, ouve o Convidade (Jesus). Marta chama até a atenção de Jesus, pois Maria,  sua irmã, deixa ela fazer tudo sozinha. Maria é louvável, pois ela está aos pés de Jesus para ouvir sua Palavra; o próprio Jesus é a Palavra divina (cf. Jo 1,1-3).

Quando seu irmão, Lázaro, ficou gravemente enfermo, enviaram uma mensagem a Jesus para que viesse à casa deles com urgência (Jo 11,3). Marta foi honesta com Jesus ao dizer-lhe que se tivesse vindo imediatamente, seu irmão estaria vivo. Mas exercitou uma fé extraordinária ao identificar Jesus como o Filho de Deus e crer que Ele tinha grande poder (Jo 11,21-27). Jesus honrou sua fé e ressuscitou Lázaro, a fim de manifestar desta maneira a glória de Deus (Jo 11,38-44).

O evangelho nos relatou alguns encontros de Marta com Jesus. O primeiro encontro aconteceu quando Jesus estava indo para Jerusalém e hospedou na casa de Marta (Lc 10,38-42). Nesse encontro Jesus disse a Marta que estava muito ocupada com a preparação de refeição em vez de escutar as palavras de Jesus: “Marta, Marta, tu te inquietas e te agitas por muitas coisas; no entanto, pouca coisa é necessária, até mesmo uma só. Maria, com efeito, escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada(Lc 10,41-42). Nesse primeiro encontro, Maria, a irmã de Marta, escutava Aquele que era a própria Palavra de Deus (cf. Jo 1,1-3).

A comunidade cristã é fundamentalmente uma comunidade que escuta. Deixaria de ser uma comunidade cristã, se parasse de escutar a Palavra de Deus. Escutar é a primeira forma de fé e de oração, antes que dizer palavras ou entoar cantos. Escuta é a atitude mais cristã.

Silêncio e escuta são duas coisas inseparáveis. Uma não pode existir sem outra. Para escutar bem é preciso ter ou criar o silêncio. Para captar o sentido daquilo que está sendo escutado é indispensável o silêncio. O silêncio fomenta a sinceridade. Tenho que encontrar dentro de mim a verdade sobre a minha vida. O silêncio chega quando as minhas energias começam a descansar. A vida nunca é o que se consegue, pois não se pode ignorar que tudo quanto se alcança, se perde. A vida é o que se é. E só o que se é, permanece.

Outro encontro de Marta com Jesus aconteceu por ocasião da morte de Lázaro, seu irmão, como lemos no evangelho neste dia (Jo 11,19-27). A reflexão sobre esse encontro vamos ver mais adiante.

O último encontro de Marta com Jesus que o evangelho nos relatou aconteceu “Seis dias antes da Páscoa quando Jesus foi para Betânia” (cf. Jo 12,1-8). Nesse encontro Maria, a irmã de Marta, demonstrou seu amor por Jesus de modo peculiar. Enquanto Marta servia a refeição, Maria “ungiu os pés de Jesus e os enxugou com seus cabelos; e a casa inteira ficou cheia do perfume do balsamo” (Jo 12,3). Maria era uma pessoa que amava Jesus acima de tudo e de todos. Ela escolheu um perfume mais caro que tinha. O verdadeiro amor não tem preço. O verdadeiro amor dá tudo que se tem (cf. Jo 13,1). O gesto Maria antecipa a morte de Jesus cujo corpo será ungido (cf. Mc 16,1).

Depois desse três encontros Marta desapareceu dos relatos dos evangelhos. Nenhum documento antigo nos informa sobre seu comportamento durante os dias da Paixão de Jesus e do tempo que seguiu a ressurreição do Senhor até Sua ascensão ao céu.

Lázaro do Evangelho de hoje era o irmão de Marta e Maria (Jo 11,1-12,19), os quais viviam em Betânia. Jesus muitas vezes se hospedou na casa deles (Lc 10,38-41). E tinha uma profunda afeição pelos três irmãos (Jo 11,3.5.33.35). Lázaro, um dia, ficou gravemente enfermo, e suas irmãs enviaram uma mensagem a Jesus a fim de que Ele viesse curá-lo. Ao receber a notícia, Jesus falou que aquela enfermidade não resultaria na morte de Lázaro, e sim resulta na revelação da glória de Deus. “Eu sou a ressurreição e a vida” (Jo 11,25). Com uma palavra de comando, dirigida para dentro do túmulo onde Lazáro foi enterrado (faz quatro dias no túmulo), Lázaro retornou à vida e saiu do túmulo. No ressurgimento de Lázaro, Jesus demonstrou seu poder divino de dar a vida e prefigurou sua autoridade sobre a promessa geral da ressurreição: “Quem creem mim ainda que esteja morto viverá”.

Maria, de Betância, era outra irmã de Marta e de Lázaro (Jo 11,1). Como foi dito, os três irmãos estavam entre os amigos mais próximos de Jesus. Maria é descrita na Bíblia como uma mulher muito dedicada ao ministério de Jesus. Ela era uma discípulo com uma profunda fé no Senhor. Ela é vista como uma ouvinte atenta dos ensinamentos de Jesus Cristo.

A Bíblia descreve três eventos nos quais Maria esteve envolvida. O primeiro, encontra-se em Lc 10,38-42. Maria e Marta receberam Jesus em sua casa e a Bíblia diz que Maria “estava sentada aos pés de Jesus e ouvia a sua palavra” (Lc 10,39). “Sentar-se aos pés” aqui significa ser discípulo de um mestre. Logo, Maria era uma das discípulos de Jesus. O segundo evento é narrado em João 11,1-47. Neste texto se relata a enfermidade e a morte de Lázaro, mas que com o poder de Jesus Lázaro voltou a viver apesar de ter estado quatro dias no túmulo. Para Jesus, que é a Vida e Ressurreição, não há nenhuma impossibilidade. O terceiro evento que envolveu Maria de Betânia foi um jantar oferecido em homenagem a Jesus Cristo, ocasião em que Marta o servia. “Seis dias antes da Páscoa, foi Jesus a Betânia, onde vivia Lázaro, que ele ressuscitara. Deram ali uma ceia em sua honra. Marta servia e Lázaro era um dos convivas. Tomando Maria uma libra de bálsamo de nardo puro, de grande preço, ungiu os pés de Jesus e enxugou-os com seus cabelos. A casa encheu-se do perfume do bálsamo(Jo 12,1-3). Esta unção é o gesto de bondade de Maria para Jesus e o identificou como um sinal da morte iminente de Jesus na cruz, quando seu corpo será ungido com perfumes e colocado no túmulo.

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O episódio da ressurreição de Lázaro, narrado no texto do Evangelho de hoje, começa mostrando a sintonia que reina entre Jesus e a comunidade dos que nele acreditam, representada por Lázaro, Marta e Maria. De fato, esses três representam a comunidade do Discípulo Amado que crescem na fé em Jesus, e as comunidades que aderem a Jesus em todos os tempos.

Marta representa o tipo de discípulo de Jesus que precisa superar o preconceito da morte enquanto desfecho fatal. Ela crê na ressurreição do último dia, como a maioria dos judeus. Mas Jesus é a Ressurreição e a Vida aqui e agora. Esse é o desafio feito às duas irmãs e a todos nós: Jesus não é a Vida somente depois da morte, mas ele é a Vida em abundância para esta vida e para além dela.      

Superado o preconceito diante da morte, Marta se torna missionária porque ela vai chamar sua irmã Maria, que está sentada em casa, recebendo os pêsames da sociedade que nada faz diante das pessoas senão tentar consolar com palavras. “Maria ficou sentada em casa” esta expressão quer dizer que para Maria a morte de seu irmão significa o termino de sua vida. A ideia da morte como fim paralisa a comunidade e a faz permanecer no ambiente da dor, cercada pelos que não tem fé em Jesus. Maria tem de sair dessa casa para se encontrar com Jesus, a Ressurreição e a Vida. Também Maria, abandonando a “casa do desespero”, torna-se missionária porque ela conduz os judeus a Jesus que após o sinal (ressurreição) passam a acreditar em Jesus (v.31).       

Jesus não veio para dar pêsames, e sim para comunicar vida. Após ter agradecido ao Pai, fonte da vida que comunica vida por meio da ação libertadora do Filho, Jesus chama Lázaro à vida. Jesus não veio para prolongar a vida física que o homem possui. Ele veio para comunicar a vida que ele mesmo possui e da qual dispõe: “Assim como o Pai tem a vida em si mesmo, também concedeu ao Filho ter a vida em si mesmo(Jo 5,26). Esta vida é seu próprio Espírito, a presença Sua e do Pai naquele que o aceita e vive sua mensagem, e esta vida despoja à morte de seu caráter de extinção. Na frase de Jesus “Eu sou a ressurreição e a vida” o primeiro termo depende do segundo: ele é a ressurreição por ser a vida: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6). A vida que ele comunica, ao encontra-se com a morte, a supera; isto se chama ressurreição.

A ressurreição de Jesus e a nossa ressurreição pela fé em Jesus ressuscitado é a chave de nossa vida cristã. Crer na ressurreição não é somente crer em uma doutrina. Temos que crer na ressurreição com a vida; não somente com a cabeça. Temos que fazer nossa a ressurreição fazendo nosso o juízo de Deus contra o mal. Temos que crer na ressurreição com nossa atitude e nossas obras. Se nós acreditamos realmente na ressurreição, devemos respeitar a vida, a nossa própria e a dignidade da vida dos outros no seu início, na sua duração e no seu fim na história. Quem desrespeita a própria vida e a vida dos outros, nega a ressurreição. Se realmente acreditamos na ressurreição temos que ter certeza de que a vida não termina aqui, pois a vida é de Deus (cf. Jo 11,25; 14,6). Se acreditamos realmente na ressurreição devemos ter certeza de que os que nos precederam estão em comunhão conosco e intercedem por nós como nossos irmãos. Se realmente acreditamos na ressurreição não devemos prolongar nossa tristeza pelo falecimento de nosso irmão/ nossa irmã, nosso pai/nossa mãe, marido/esposa, filho/filha, pois eles apenas voltaram para a casa do Pai (cf. Jo 14,1-6). Se acreditamos realmente na ressurreição, devemos ter certeza de que o amor dos que nos precederam para a eternidade não morre, pois o amor é o nome próprio de Deus: “Deus é amor”, disse são João (1Jo 4,8.16). Em outras palavras, temos que fazer de nossa vida uma ressurreição permanente. 

Além disso, crer na ressurreição de Cristo é muito mais que afirmar que Jesus foi tirado por Deus do túmulo; é reconhecer que o projeto de Deus se realiza em cada homem para a vida e não para a morte. Crer na ressurreição é crer no Deus da vida. E não somente isso; é crer em nós mesmos como a verdadeira possibilidade que temos de ser algo de Deus. A ressurreição de Jesus é a primícia de que na morte se nasce já para sempre.

Lázaro voltou à vida por ação de Jesus. Mas sua ação libertadora quer comprometer todos os que o seguem. A ação libertadora de Jesus implica nossa prática de libertação: desamarrar todas as pessoas de todos os laços que as prendem a uma situação de morte. Somos chamados a respeitar e a proteger a vida desde seu início, na sua duração e no seu término, pois a vida é sagrada. Por ser sagrada, a vida não pode ser sacrificada em nome de ninguém. Assim agindo, estaremos continuando o que Jesus fez, a fim de que todos tenham vida em abundância (cf. Jo 10,10).

Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá”.  A partir da ressurreição do Senhor não vivemos mais para morrer e sim morremos para viver. A vida não pertence mais à morte e sim a morte pertence à vida.

Para que nossa vida se torne uma ressurreição permanente temos que ter algo divino dentro de nós: amor, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). Amar a alguém, do ponto de vista cristão, é equivale a lhe dizer: Tu nunca morrerás. Tu viverás para sempre. Tu estarás em comunhão conosco mesmo de pois de terminar a passagem nesta terra. Com efeito, o homem morre não quando deixa de viver e sim quando deixa de amar. “Ama e faze o que quiseres!”, dizia Santo Agostinho (In epist. Joan. 7,8).  O amor é a vida do espírito. O ódio, portanto, é sua morte”, acrescentou Santo Agostinho (In ps. 54,7). A amabilidade e a bondade estão sempre unidas. “Bons amores fazem boas condutas(Santo Agostinho: Serm. 311,11,11).

Quais são as amarras que nos prendem a uma situação de morte? E como nos livrar dessas amarras? Quantas vezes nos comportamos como Maria que consideramos a morte como o fim de tudo (acabou tudo) e esta crença, consequentemente, paralisa nossa vida. Precisamos ouvir e viver sempre aquilo que Jesus nos diz: “Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em mim ainda que esteja morto viverá”. É preciso que voltemos a ser verdadeiros cristãos vivendo na profundidade o que Jesus nos ensinou. Por este caminho superaremos muitas coisas na vida. Com Jesus ressuscitado, a vida não acaba, mas continua. Para chegar a esta verdade nós precisamos recuperar nossa fé em Jesus que é a ressurreição e a vida. É preciso que tenhamos consciência de que a fé na ressurreição é a razão de todas as celebrações e de todos os sacramentos e de todas as atividades evangelizadoras na Igreja. No Credo professamos: “Creio na comunhão dos santos; na remissão dos pecados; na ressurreição da carne e na vida eterna”.

P. Vitus Gustama,svd

Sábado Da XVII Semana Comum, Ano Par, 01/08/2026

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