segunda-feira, 13 de abril de 2026

Quinta-feira Da II Semana Da Páscoa,16/04/2026

SOMOS NASCIDO DO ALTO E PERTENCEMOS AO SENHOR

Quinta-Feira da II Semana da Páscoa

Primeira Leitura: At 5,27-33

Naqueles dias, 27 eles levaram os apóstolos e os apresentaram ao Sinédrio. O sumo sacerdote começou a interrogá-los, 28 dizendo: “Nós tínhamos proibido expressamente que vós ensinásseis em nome de Jesus. Apesar disso, enchestes a cidade de Jerusalém com a vossa doutrina. E ainda nos quereis tornar responsáveis pela morte desse homem!” 29 Então Pedro e os outros apóstolos responderam: “É preciso obedecer a Deus, antes que aos homens. 30 O Deus de nossos pais ressuscitou Jesus, a quem vós matastes, pregando-o numa cruz. 31 Deus, por seu poder, o exaltou, tornando-o Guia Supremo e Salvador, para dar ao povo de Israel a conversão e o perdão dos seus pecados. 32 E disso somos testemunhas, nós e o Espírito Santo, que Deus concedeu àqueles que a Ele obedecem”. 33 Quando ouviram isto, ficaram furiosos e queriam matá-los.

Evangelho: Jo 3, 31-36

31“Aquele que vem do alto está acima de todos. O que é da terra, pertence à terra e fala das coisas da terra. Aquele que vem do céu está acima de todos. 32Dá testemunho daquilo que viu e ouviu, mas ninguém aceita o seu testemunho. 33Quem aceita o seu testemunho atesta que Deus é verdadeiro. 34De fato, aquele que Deus enviou fala as palavras de Deus, porque Deus lhe dá o espírito sem medida. 35O Pai ama o Filho e entregou tudo em sua mão. 36Aquele que acredita no Filho possui a vida eterna. Aquele, porém, que rejeita o Filho não verá a vida, pois a ira de Deus permanece sobre ele”.

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Onde Se Vive e Se Prega o Evangelho Da Salvação Encontra-se Também Oposição e Perseguição

É preciso obedecer a Deus, antes que aos homens. O Deus de nossos pais ressuscitou Jesus, a quem vós matastes, pregando-o numa cruz. Deus, por seu poder, o exaltou, tornando-o Guia Supremo e Salvador, para dar ao povo de Israel a conversão e o perdão dos seus pecados. E disso somos testemunhas, nós e o Espírito Santo, que Deus concedeu àqueles que a Ele obedecem”. Este é o discurso de Pedro diante do Sinédrio.

Valente é o testemunho de Pedro e dos apóstolos perante o Sinédrio. No fundo, os chefes de Jerusalém estão com medo. A consciência deles os atormenta com a lembrança do assassinato de Jesus cometido por eles recentemente: o sangue derramado de Jesus na cruz os atormenta! Eles nem se atrevem a pronunciar seu nome: o caso de Jesus continua a envergonhá-los. De fato, Jesus está sempre presente, continua nos seus apóstolos. Em vez de um (Jesus), agora são onze Apóstolos! E não é por acaso que reproduzem quase fisicamente a vida do seu Mestre Jesus.

As autoridades lhes disseram para ficarem quietos (calados), para não falar sobre Jesus. Mas a Palavra de Deus não conhece obstáculos: os apóstolos devem obedecer a Deus e não aos homens. Eles não podem parar de pregar as Boas Novas, pois são as testemunhas de Jesus Ressuscitado. Ninguém pode ficar calado diante dos fatos ou diante da verdade. O compromisso com a verdade é poderoso e enaltece o espírito. Cada cristão precisa ter coragem para enfrentar a verdade e a verdade fortalecerá a própria vida do cristão. Tudo do que precisamos perante a verdade é a humildade para aceitar, para reconhecer e para transmitir a verdade. A verdade é a verdade e eu posso reconhecê-la onde a encontro.

As palavras de Pedro são um tipo de resume do anúncio primitivo apresentado neste contexto de oposição. Em Jerusalém eram as autoridades dos judeus que se sentiam ameaçadas pela mensagem anunciada. Em outros momentos são aqueles cujos interesses egoístas são afetados. Os protagonistas mudam, mas não a estrutura.

Um tema frequente na estrutura do Livro dos Atos, na sua grande parte, é o da oposição que vai encontrando a mensagem da salvação nos distintos ambientes. Mas o anúncio, aceito com convicção, pede uma atitude de superação das dificuldades, pois há que obedecer a Deus antes que aos homens, pois a salvação trazida por Jesus (At 5,30-31) se deve a Deus, ao Espirito e ao próprio Salvador, evidentemente. A oposição da parte do homem mundano põe em destaque a força resistível da realidade divina da mensagem e o dinamismo da comunidade primitiva, portadora desta mensagem.

Há um toque de realismo aqui: Jesus encontrou adversário. Logo, também os Apóstolos. Consequentemente, quando levamos a sério a mensagem do Senhor, também encontraremos a oposição, “Pois todos os que quiserem viver piedosamente em Jesus Cristo, terão de sofrer a perseguição” (2Tm 3,12). O Evangelho que não incomoda o mundo não é mais o verdadeiro Evangelho de Jesus Cristo. A Igreja é a continuação de Cristo, pois a Igreja é o Corpo místico de Cristo cuja Cabeça é o próprio Cristo. Logo, hoje, também a Igreja continua exposta ao "julgamento" do mundo.

Para os cristãos, então, a perseguição ou oposição ao Evangelho anunciado não é incidente de percurso, mas é um fato inevitável. Por isso, ela não constitui novidade na história da Igreja. Pode acontecer que numa ou na outra situação tenhamos que sofrer a calúnia ou a difamação por sermos verazes, por sermos fiéis à verdade; em outras, as nossas palavras ou as nossas ações serão, talvez, mal interpretadas. Em qualquer caso, o Senhor espera de nós, cristãos que falemos sempre a verdade com clareza.

O pior inimigo para quem deve anunciar o Evangelho e para quem deve dizer a verdade é o medo. Trata-se do medo de perder a própria posição social, a vantagem material (dinheiro), a estima dos superiores, do medo de perder os próprios bens, de ser castigados e até o medo de perder a própria vida. Quando uma pessoa tem medo, ela não é mais livre. A pior coisa é ter conhecido a verdade e depois trai-la. Essa culpa jamais nos deixará dormir em paz.

Somos Nascidos Do Alto

Estamos na conclusão de Jo 3 que contém a conversa entre Jesus e Nicodemos. Nesta conclusão o evangelista João nos descreve a superioridade de Jesus em relação aos demais seres humanos e a todos os enviados anteriores a Ele. Para descrever isto, Jesus usa os termos relacionados ao espaço: “do alto”, “da terra”. Jesus vem do “alto” (cf. Jo 1,1-18). Um profeta pode ser maior de quaisquer outros profetas, mas ele vem da “terra”, e por isso, não pode ser superior a Jesus.

“Aquele que vem do alto está acima de todos”.  Esta expressão significa ocupar uma posição de poder e de domínio. Moisés e os profetas são da terra (Jo 3,12). Deles vem a lei (Jo 1,17) e o testemunho da luz (Jo 1,6-9). Mas eles não são a vida nem a luz, pois o que é gerado da carne é carne (Jo 3,6). Por outro lado, de Jesus recebemos graça sobre graça (Jo 1,16), porque Ele é a Luz (Jo 8,12) e a Vida (Jo11,25; 14,6). Jesus obteve essa posição como Senhor sobre todos com sua ressurreição ou glorificação. Jesus é distinto e superior a todos os enviados por Deus antes de Jesus que, de fato, não vieram do alto. Jesus é superior a todos os demais seres humanos, porque ele experimentou a intimidade profunda do Pai e é a própria Palavra do Pai (Jo 1,1-5). Jesus é apresentado como Revelador do Pai, por excelência: sua vinda do céu (v.31), a fonte de seu testemunho: Jesus não fala por si mesmo, mas Ele fala as palavras de Deus (o que ele viu e ouviu do céu: v. 32), e o fato de Deus ter entregue tudo em suas mãos (v.35). Por isso, Jesus é distinto e superior a todos os anteriores enviados de Deus.

Toda a vida de Jesus teve como pano de fundo o amor, razão pela qual foi enviado (Jo 3,16) e o qual ele colocou como o Mandamento Novo (Jo 13,34; 15,12). O amor é o eixo condutor da vida. Este amor foi tão tenso na vida e missão de Jesus que o Pai não hesitou em colocar nas mãos do Filho, inclusive o poder de julgar a vida de quem se negar a crer nele. A superioridade divina consiste no amor. Deus é onipotente, mas no amor, pois ele ama até aquele que não é digno de ser amado pelo modo de viver. A misericórdia é maior do que qualquer miséria humana. Se Jesus ocupa essa posição superior a todos os demais seres humanos não devemos ter medo dos demais. Precisamos, sim, acreditar cegamente nele para que possamos também triunfar.

Hoje o evangelho nos convida a deixarmos de ser “mundanos”, a deixarmos de ser homens que somente falam de coisas mundanas, para passarmos a falar como “aquele que vem de cima” que é Jesus. Falaremos como “aquele vem de cima”, quando vivermos conforme os valores cristãos reconhecidos como valores universais, tais como amor, compaixão, bondade, solidariedade, igualdade, honestidade, justiça e assim por diante. Estar na superioridade é aquele que mantém sua vida de acordo com os valores.

É preciso olharmos para cima, para o céu para poder ordenar nossa vida aqui em baixo, no mundo. É necessário que em todo momento e circunstância nos esforcemos a ter o pensamento de Deus, que tenhamos ambição de ter os mesmos sentimentos de Cristo. Se atuarmos como “aquele que vem de cima” descobriremos facilmente o sentido da vida, das coisas e das pessoas ao nosso redor até o sentido de nosso sofrimento e dor. Se tivermos os sentimentos como os “daquele que vem do alto”, amaremos todos os seres humanos sem exceção e nos preocuparemos em cuidar da nossa própria vida e da vida dos demais, inclusive da vida da natureza criada por Deus. São Paulo nos aconselha: “Se ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas lá de cima, e não às de terra” (Cl 3,1-2).

“O que é da terra pertence à terra e fala das coisas da terra”. Ser da terra” conota a ausência de conhecimento imediato de Deus, que caracteriza a época anterior a Jesus (Jo 1,18). Ser da terra é ser limitado por um horizonte terreno incapaz de ver além da aparência. No olhar do terreno só tem coisas. É não ter o conhecimento imediato de Deus. Quem ama ao mundo fala somente coisas mundanas. Quem ama a Deus fala as coisas do alto. Os que amam ao mundo vivem de acordo com o espírito mundano. São Paulo descreveu da seguinte maneira:

·   Ora, as obras da carne são manifestas: formicação, impureza, libertinagem, idolatria, feitiçaria, ódio, rixas (disputa/briga), ciúmes, ira, discussões, discórdia, divisões, invejas, bebedeiras, orgias, e coisas semelhantes a estas, a respeito das quais eu vos previno como já vos preveni: os que tais coisas praticam não herdarão o reino de Deus” (Gl 5,19-21).

·   “Como não fizeram caso do verdadeiro conhecimento de Deus, Deus os entregou a sentimentos depravados. Por isso, procederam indignamente. Estão cheios de todo tipo de injustiça, perversidade, avareza e malícia, e também de inveja, homicídio, discórdia, velhacaria, depravação e calúnia. Difamam uns aos outros, odeiam a Deus, são atrevidos, soberbos, presunçosos, inventores de maldades, desobedientes aos pais. Eles não têm consciência, nem lealdade, nem coração, nem pena dos outros” (Rm 1,28-31).

Para superar o homem de carne, São Paulo nos recomendou através da Carta aos Colossenses: Se, portanto, ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas lá de cima, e não às da terra. Porque estais mortos e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, vossa vida, aparecer, então também vós aparecereis com ele na glória. Mortificai, pois, os vossos membros no que têm de terreno: a devassidão, a impureza, as paixões, os maus desejos, a cobiça, que é uma idolatria. Dessas coisas provém a ira de Deus sobre os descrentes” (Cl 3,1-6).

Uma pessoa do alto ou do céu é uma pessoa de valor. Sua vida é governada pelos valores cristãos como o amor, o perdão, a bondade, a solidariedade, a compaixão, e assim por diante. Todos estes valores e outros demais têm uma marca divina. São esses valores que levam o homem para a comunhão com Deus e com os irmãos. Chamamos alguém de responsável quando vive de acordo com os valores reconhecidos universalmente. O irresponsável é aquele que não vive os valores.

Cada cristão deve saber identificar as duas classes de consciências pelas quais o ser humano pode optar: o terreno (inferno, egoísta, prepotência etc.) ou o celestial (amor, partilha, fraternidade, igualdade, etc.). Estes dois polos de consciência expressam realmente os elementos com os quais cada um se identifica: um, busca seus próprios interesses (ser interesseiro); o outro, busca a criação de uma sociedade igualitária, mais fraterna, mais justa, mais honesta e assim por diante.

O celestial e o terreno influenciam nossa maneira de viver de cada dia. Mas no fim, o celestial triunfará e o terreno fracassará apesar da aparência vitoriosa. Fica apenas na aparência. Quem fica na aparência, vive apenas na superficialidade. Santo Agostino dizia: Amando a Deus nos tornamos divinos; amando o mundo nos tornamos mundanos (Serm. 121,1)... O amor ao mundo corrompe a alma; o amor ao Criador do mundo a purifica (Serm. 142,3,3).Queres saber que tipo de pessoa és? Põe à prova teu amor. Se amas as coisas terrenas, és terra. Se amas a Deus, não tenhas medo de dizer: és Deus” (Santo Agostinho: In epist. Joan. 2,214).

A verdade está em Deus e por isso, a verdade é eterna e imutável; os meios não são imutáveis nem eternos. A busca da verdade será sempre um exercício de modéstia, pois trata-se de indagar e não de possuir a verdade. O nosso conhecimento nunca é absoluto nem total, mas sempre parcial, pois vemos as coisas apenas do nosso ângulo, mas ainda tem outros ângulos. A verdade é uma só e universal e nunca parcial. Ou é a verdade ou não é verdade.

Deveríamos nos perguntar hoje: em quem cremos; em quem confiamos, quais são as fontes onde buscamos a verdade? Lamentavelmente temos experiência do que é a mentira. Muitas vezes fabricamos fatos inexistentes só para nos aparentar bons. Mentira é aquela distorção do real que gera desconfiança, medo, distância e confusão. Diante da mentira se situa a Verdade, mencionada na página do evangelho de hoje. A verdade é o próprio Deus (Jo 14,6) e por isso, gera a vida. A verdade é o conhecimento do sentido da vida. A mentira gera a morte. “O que é da terra pertence à terra e fala das coisas da terra”. Mas “Aquele que vem do alto está acima de todos”. Quem é da terra (mundano) pensa a partir do pó, do caduco, do efêmero, a partir dos próprios interesses. Quem é do alto, do céu pensa e fala como filho (filha) de Deus com pensamentos de Deus. A que você pertence: às coisas do alto ou à terra? Mas lembremo-nos aquilo que dizia Santo Agostinho que serve de alerta para nós: “Quando lhe convém, o homem esquece que é cristão (In ps. 21, 2,5).

P. Vitus Gustama,svd

Quarta-feira Da II Semana Da Páscoa,15/04/2026

DEUS NOS AMA PERMANENTEMENTE E CREMOS NO SEU AMOR ETERNAMENTE

Quarta-Feira da II Semana da Páscoa

Primeira Leitura: At 5,17-26

Naqueles dias, 17 levantaram-se o sumo sacerdote e todos os do seu partido — isto é, o partido dos saduceus — cheios de raiva 18 e mandaram prender os apóstolos e lançá-los na cadeia pública. 19 Porém, durante a noite, o anjo do Senhor abriu as portas da prisão e os fez sair, dizendo: 20 “Ide e, apresentando-vos no Templo, anunciai ao povo tudo o que se refere àquela Vida”. 21 Eles obedeceram e, ao amanhecer, entraram no Templo e começaram a ensinar. O sumo sacerdote chegou com seus partidários e convocou o Sinédrio e o Conselho formado pelas pessoas importantes do povo de Israel. Então mandaram buscar os apóstolos na prisão. 22 Mas, ao chegarem à prisão, os servos não os encontraram e voltaram dizendo: 23 “Encontramos a prisão fechada, com toda segurança, e os guardas estavam a postos na frente da porta. Mas, quando abrimos a porta, não encontramos ninguém lá dentro”. 24 Ao ouvirem essa notícia, o chefe da guarda do Templo e os sumos sacerdotes não sabiam o que pensar e perguntavam-se o que poderia ter acontecido. 25 Chegou alguém que lhes disse: “Os homens que vós pusestes na prisão estão no Templo ensinando o povo!” 26 Então o chefe da guarda do Templo saiu com os guardas e trouxe os apóstolos, mas sem violência, porque eles tinham medo que o povo os atacasse com pedras.

Evangelho: Jo 3,16-21

16Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna. 17De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele. 18Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho unigênito. 19Ora, o julgamento é este: a luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz, porque suas ações eram más. 20Quem pratica o mal odeia a luz e não se aproxima da luz, para que suas ações não sejam denunciadas. 21Mas quem age conforme a verdade aproxima-se da luz, para que se manifeste que suas ações são realizadas em Deus.

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Somos Enviados Pelo Senhor Ressuscitado Para Respeitar, Proteger e Defender a Vida

Ide e, apresentando-vos no Templo, anunciai ao povo tudo o que se refere àquela Vida”. Esta é a mensagem do anjo do Senhor para os Apóstolos no momento em que foram libertados da prisão, milagrosamente. 

Anunciai ao povo tudo o que se refere àquela Vida. Trata-se de uma mensagem muito densa teologicamente. Jesus devolve a vida aos mortos (Lc 7,11; Mt 9,18; Jo 11,1). Jesus veio trazer a vida em abundância (Jo 10,10). A missão que Jesus recebeu consiste em dar ao homem “vida eterna”, a mesma vida de Deus que provém da “água e do Espirito” (Jo 3,3) e que se concede aos homens em virtude do Filho do Homem elevado. Ser elevado significa, para Jesus, não somente a cruz e a morte, mas também sua ressurreição e exaltação junto ao Pai. Pedro e Paulo também o fazem como os profetas antigos (At 9,36; 20,7). Jesus ressuscitou para morrer nunca mais. Jesus ressuscitou para mostrar ao homem que Ele é o princípio de vida (Jo 1,3-5), princípio e fim da existência de todos os homens. A ressurreição de Jesus foi um fato revelador sobre o destino de Jesus e do homem. A ressurreição de Jesus é a mensagem mais clara sobre o futuro do homem. A imortalidade, a vida eterna é um dom de Deus. Por ser dom, a vida eterna somente se encontra em Deus. É preciso aderir-se à fonte deste dom que é o Senhor da Vida. A fé na ressurreição é parte da fé de todo o Novo Testamento.

Anunciai ao povo tudo o que se refere àquela Vida. É uma bela definição do anúncio cristão. Tudo o que o cristão anuncia deve dizer respeito à vida para que os destinatários de seu anúncio possam ser animados para seguir adiante, pois o próprio Senhor é a Vida (Jo 14,6). É um anúncio sobre a vitória de Jesus, o Vivente, sobre a morte. É um anúncio cujo objetivo é bem claro: para que os ouvintes optem pela vida e não pela cultura de morte. O cristão tem como missão respeitar a vida em todos os instantes. Optar pela vida significa dizer sim ao homem como valor supremo, a uma paternidade ou maternidade responsável, a uma distribuição justa dos bens da terra, a um progresso que melhore a qualidade de vida, aos movimentos pacifistas e ecologistas, a Deus e à vida que não termina com a morte, pois Deus é a Vida, por excelência. Optar pela vida significa estar pronto para se chocar com o poder que para auto conservar-se e para se manter nos seus privilégios, e dominado pela inveja, o poder produz escravidão e morte, sacrificando principalmente os inocentes.

A defesa incondicional de todos os seres humanos, principalmente dos excluídos e marginalizados, se converte na obra de Deus no mundo. Deste modo, a vida alcança a todos os seres humanos e os ilumina com a luz da esperança, pois Jesus venceu a morte ao ressuscitar dos mortos e continua a estar conosco (Cf. Mt 28,20).

O Senhor Se Encarnou Por Amor, Morreu Por Nós e Ressuscitou Para Continuar a Nos Amar

Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). Palavras profundas nas quais o nosso coração deve abismar-se. Deus se dá a Si mesmo. Com Ele nos é dado tudo, pois Ele se dá a Si mesmo. Deus se converte em dom para nós todos. É um dom de tal categoria que o próprio dom nos concede a graça de recebê-lo. Somente na medida em que reconhecermos isso, nós possuiremos aquilo que nos é dado. O amor é a experiência espiritual mais profunda.

Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna (Jo 3,16). Esta frase é uma síntese bíblica que condensa todo o quarto Evangelho (Evangelho de João). O quarto Evangelho foi escrito para que acreditemos em Jesus, oferta de amor e salvação de Deus para a humanidade, e para que, crendo nele, tenhamos a vida em seu nome (cf. Jo 20,31). Ele veio para que todos nós tenhamos vida e a tenhamos abundantemente (Jo 10,10). E esta oferta tem um motivo e uma finalidade e um meio. O motivo da oferta é o amor apaixonado de Deus pela humanidade: “Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho único”. E a finalidade desta oferta é a salvação da humanidade: “... para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna”. E o meio para que o amor de Deus chegue até a humanidade é a encarnação de Deus em Jesus Cristo. Jesus é a manifestação tangível do amor do Pai (1Jo 4,9). O objeto da fé em Jo é acreditar em um Deus que nos ama e que este Deus acampou no meio de nós (Jo 1,14). Toda a Bíblia é a história de amor de Deus por nós todos. “Se queres falar sobre o amor, não precisas dar-te ao trabalho de buscar citações. Onde quer que abras a Bíblia, ali se fala do amor” (Santo Agostinho: Serm. Mai 14,1).

Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). No vocabulário do cristianismo primitivo essa maneira de falar está sempre em relação à cruz. É uma reflexão sobre a morte na Cruz de Jesus por amor à humanidade. Nesta entrega do Filho único há uma recordação do sacrifício que outro pai fez também de seu filho único: Abraão (cf. Gn 22,2). Aquele sacrifício não chegou a realizar-se. O cordeiro que substitui Isaac e se sacrifica sem resistência é este Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (cf. Jo 1,29). O Pai não envia o Filho para a morte e sim para o cumprimento fiel de sua missão de revelar o amor de Deus, Sua misericórdia sobre todos os homens, e a morte de Jesus na cruz é a consequência desse amor levado até o fim (cf. Jo 13,1).

Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). A partir desta frase sabemos quem é Deus? Muitas definições foram feitas sobre Deus, tanto a partir da filosofia, como da teologia em geral e outras disciplinas científicas e exatas, mas nenhuma definição mais certa e curta do que a de São João: “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). Esta frase é carregada de mistério e de promessa, toda nossa história. É a frase nuclear e radiante. Esta frase, ao meditá-la e vivê-la no dia-a-dia, tem a capacidade de manter a esperança no mundo e tem uma força tremenda para o homem continuar sua luta pela dignidade, pois o amor é a última palavra da vida. “O Amor é a nossa origem. O Amor é o chamado constante na vida. O Amor é a plenitude da vida. No entardecer da nossa vida seremos julgados no amor” (Santo Agostinho).

A resposta para o porquê da criação, da encarnação e da redenção é o amor de Deus por todos nós. Toda a atividade de Deus é uma atividade amorosa. Se cria, Ele cria por amor; se governa as coisas, o faz no amor; quando julga, julga com amor. Tudo quanto faz é expressão de sua natureza, e sua natureza é amar. Amar é dar-se a si mesmo. O plano de salvação não tem outro fundamento que o incompreensível amor de Deus por nós todos e por cada um de nós em particular. Por amor anda Deus em nossa busca pelos caminhos do mundo. É um Deus que não tem medo de sacrificar até o próprio Filho para resgatar todos nós, pecadores e perdidos, por amor. O homem nenhum na face da terra sacrificaria seu próprio filho para resgatar os outros. Somente o Deus apaixonado por nós todos.

Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna”. Deus envia o seu Filho para salvar o mundo e não para o condenar; Deus quer a salvação de todos os homens, e Jesus é, como afirma a samaritana, o «salvador do mundo» (Jo 4, 42). Diante de qualquer dualismo do bem e do mal, Deus oferece a salvação a todos e não apenas a uma minoria privilegiada.

Deixar de olhar para Deus que se encarna em Jesus será para nós uma perdição eterna e será para nós uma infelicidade sem fim. Levado por seu amor, Deus salta o abismo que nos separava dele e se aproxima de nós para nos dar o que mais quer: seu “único Filho”. Mais ainda, entregou seu único Filho à morte para que todos nós tenhamos vida. E esta vida dada para nós gratuitamente se renova em cada Eucaristia para que sejamos um dom para os outros; para que façamos o bem também para os outros. Jamais um cristão pode fazer o mal ou ser cúmplice do mal.

O melhor comentário para este texto de Jo 3,16 é a primeira carta de São João 4,18-21: “No amor não há temor. Antes, o perfeito amor lança fora o temor, porque o temor envolve castigo, e quem teme não é perfeito no amor. Mas amamos, porque Deus nos amou primeiro. Se alguém disser: Amo a Deus, mas odeia seu irmão, é mentiroso. Porque aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a quem não vê. Temos de Deus este mandamento: o que amar a Deus, ame também a seu irmão”.  Será que amamos realmente a Deus no próximo? (cf. Jo 15,12).

A Paixão e morte de Jesus Cristo é a manifestação suprema do amor de Deus pelos homens. Deus é amor, amor que se difunde e se prodiga; e tudo se resume nesta grande verdade que tudo explica e o ilumina. É necessário ver a história de Jesus sob esta luz. “Ele me amou e sacrificado por mim”, escreveu São Paulo (Gl 2,20). Cada um precisa repetir esta frase a si mesmo. O amor de Deus por nós culmina no sacrifício do Calvário. A entrega de Cristo constitui uma chamada estimulante e apressada para corresponder a esse amor: amor com amor se paga. O homem foi criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,27), e Deus é amor (1Jo 4,8.16). Por isso, o coração do homem está feito para amar e quanto mais se ama, mais se identifica com Deus e somente quando ama, o homem pode ser feliz.

Num mundo acostumado ao comércio, ao preço das coisas, é difícil entender a gratuidade, é difícil entender a ação de Deus que quer dialogar, amar com liberdade a todos, oferecendo a oportunidade de salvação, graça e vida. Nós, na nossa vida cotidiana, damos uma parte de nossa vida, enquanto Deus dá tudo para a humanidade. Por isso, quando ele pedir do homem, Deus não pede muito do homem, mas pede tudo do homem.

“Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele”.  Segundo o Evangelho de João, o cristão não tem que ter medo do juízo último, pois o juízo não é algo externo e sim dentro do próprio homem. O cristão sabe que o juízo está nele e depende de sua própria escolha. A partir de Deus tudo é governado por amor. E a partir do homem?  será que nossa vida é governada por amor e com amor? “Quanto mais cresce teu amor, maior é tua perfeição. A perfeição da alma é o amor(Santo Agostinho: In epist. Joan. 9,2).

Deus amou tanto o mundo...”. Esta é a sua credencial e com ela se apresenta desde a primeira página da Bíblia. Por amor, Deus caminha à nossa procura pelas estradas do mundo. Por amor a nós Deus se encarnou. Esta é a única confissão de fé que estamos obrigados a professar para ser fiéis à herança que nos foi dada. Deus nos ama com um amor incompreensível e incomensurável. O Deus que Jesus nos revela é o Deus que ama. Não se pode pensar em Deus sem dar-Lhe este predicado que impressiona profundamente o coração do homem até suas entranhas.

A obra de Deus no mundo é principalmente o amor. Por isso, entregou Seu Filho para que dê vida abundantemente a todos os seres humanos. Na medida em que os seres humanos acolhem a vida divina, suas obras serão iluminadas pela verdade.

Pe. Vitus Gustama,svd

Terça-feira Da II Semana Da Páscoa, 14/04/2026

CRER EM JESUS E VIVER NO SEU ESPÍRITO   SIGNIFICAM NÃO PARAR DE EXISTIR E SE CONCRETIZA NA PARTILHA, EXPRESSÃO DE UM SÓ CORAÇÃO E DE UMA SÓ ALMA

Terça-Feira da II Semana da Páscoa

Primeira Leitura: At 4,32-37

32 A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava como próprias as coisas que possuía, mas tudo entre eles era posto em comum. 33 Com grandes sinais de poder, os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus. E os fiéis eram estimados por todos. 34 Entre eles ninguém passava necessidade, pois aqueles que possuíam terras ou casas, vendiam-nas, levavam o dinheiro, 35 e o colocavam aos pés dos apóstolos. Depois, era distribuído conforme a necessidade de cada um. 36 José, chamado pelos apóstolos de Barnabé, que significa filho da consolação, levita e natural de Chipre, 37 possuía um campo. Vendeu e foi depositar o dinheiro aos pés dos apóstolos.

Evangelho: Jo 3,7b-15

Naquele tempo, disse Jesus a Nicodemos: 7b “Vós deveis nascer do alto. 8O vento sopra onde quer e tu podes ouvir o seu ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim acontece a todo aquele que nasceu do Espírito”. 9Nicodemos perguntou: “Como é que isso pode acontecer?” 10Respondeu-lhe Jesus: “Tu és mestre em Israel, mas não sabes estas coisas? 11Em verdade, em verdade, te digo, nós falamos daquilo que sabemos e damos testemunho daquilo que temos visto, mas vós não aceitais o nosso testemunho. 12Se não acreditais, quando vos falo das coisas da terra, como acreditareis se vos falar das coisas do céu? 13E ninguém subiu ao céu, a não ser aquele que desceu do céu, o Filho do Homem. 14Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado, 15para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna”.

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Um Só Coração e Uma Só Alma

A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava como próprias as coisas que possuía, mas tudo entre eles era posto em comum(At 4,32). Assim lemos na Primeira Leitura de hoje. Um só coração e uma só alma”: Esta Palavra expressa o ideal de Deus para a humanidade por Ele criada. No século XX este ideal não cessou, porque o Concílio Vaticano II o reafirmou: "a Igreja é um povo unido pela unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo". Assim, “ter um só coração e uma só alma” nada mais é do que “reproduzir na terra as relações de amor das três pessoas divinas”; é a própria definição da Igreja! Este deve ser o esforço e o testemunho de cada comunidade de cristãos: embora sejamos muitos, é um só... “uma multidão, um só coração e uma só alma”.

“Um só coração e uma só alma”. Há aqui um informe-resumo da vida cristã nas comunidades apostólicas na primeira geração. Coincide praticamente com o primeiro informe que o autor nos deu em At 2,42-47. Nesta descrição sublinha-se especialmente a comunicação de bens materiais. O texto serve assim de introdução aos dois exemplos seguintes: o de Barnabé, que é objeto de uma menção honorífica, e o dos esposos Ananias e Safira, que são condenados por seu comportamento hipócrita.

A obediência ao evangelho une todos os crentes na raiz e faz com que todos tenham as mesmas convicções e os mesmos sentimentos em Cristo. E dessa profunda comunhão os frutos brotam depois ostensivamente. Por esses frutos são reconhecidos e julgados em seu ambiente: "Todos eram muito respeitados" ou “os fiéis eram estimados por todos”.

"A multidão dos que abraçaram a fé tinha um só coração e uma só alma." A vida cristã é comunitária de forma inata e congênita. Não poderíamos fingir que vivemos juntos se não tivéssemos uma origem comum. E isto, que se pode afirmar indubitavelmente da fraternidade humana, é vivido pelos cristãos, de modo especial e paradigmático, como um povo que vive em comunidade. Nossa comunidade não se baseia em nenhum tipo de uniformidade mental nem se forja na execução de um mesmo programa; nossa comunhão é uma questão de sopro vital. Somos um povo porque compartilhamos o mesmo Espírito! O cristão faz parte do grupo comunitário. Não poderíamos fingir que vivemos juntos se não tivéssemos uma origem comum; Se podemos continuar a viver juntos, é porque habita em nós o Amor d'Aquele que nos quer congregar, Aquele que ressuscitou por nós.

A tradição do evangelista Lucas se caracteriza pela insistência na renúncia efetiva das riquezas materiais; não se contenta apenas com uma pobreza em espirito, mas na partilha dos bens, como consequência da vida no Espírito. A partilha dos bens é a concretização do espirito do desapego e a vivência de uma vida fraterna, isto é, o outro é meu irmão porque o Deus em quem creio é o Pai Nosso. Para descobrir que Deus é o Pai, temos descobrir também que o meu próximo é meu irmão. Na vivência da fraternidade eu confesso que Deus é o Pai Nosso.

Porém, a comunicação de bens não aparece aqui como uma ordem socioeconômica e legalmente imposta a todos os membros da comunidade. Sua última motivação é religiosa. De uma parte, obedece ao mandamento do amor ao próximo. E de outra parte, pressupõe o despojamento característico de uns fieis que esperavam a iminente vinda do Senhor.

Todos nós sonhamos com uma comunidade assim. Mas quando olhamos como nossas comunidades cristãs estão hoje - na paróquia, nas comunidades eclesiais, na família cristã ou em uma comunidade religiosa - não podemos deixar de pensar que nosso testemunho da vida cristã teria mais credibilidade se mostrássemos uma imagem clara de unidade e solidariedade interna e externa, dentro e fora da comunidade. O testamento de Jesus na última ceia foi pedir ao Pai: "Que todos sejam um, como tu e eu somos um, para que o mundo creia".

No mundo de hoje, outras línguas podem não ser compreendidas, mas esta sim: quando o cristão estiver disposto a compartilhar seus bens com os mais necessitados, se tiver um grupo de cristãos dispostos para trabalhar para os outros, ajudá-los a mostrar solidariedade especialmente com aqueles que sofrem ou são menos favorecidos pela vida. Em nossa família, ou em nossas comunidades há pessoas que têm menos do que nós: menos de felicidade, de cultura, de sorte, de bens materiais e espirituais. Essas pessoas necessitam de nossa acolhida, de nossas palavras amigas e também, às vezes, de nossa ajuda econômica.

O Novo Catecismo da Igreja Católica n.1397 diz: “A Eucaristia compromete com os pobres. Para receber na verdade o Corpo e o Sangue de Cristo entregues por nós, devemos reconhecer o Cristo nos mais pobres, seus irmãos”.

O Evangelho De Hoje e Sua Mensagem

Jo 3, que começamos a ler já no dia anterior, é um capítulo importante para o evangelho de João porque neste capitulo se narra o primeiro discurso do ministério público de Jesus através do diálogo com Nicodemos, que é um dos membros do Sinédrio (trata-se de um homem público importante).

O texto do evangelho deste dia é a continuação do texto do evangelho do dia anterior que ainda fala do diálogo entre Jesus e Nicodemos. Porém, percebemos através da narração do texto que é muito mais o monólogo de Jesus do que o diálogo com Nicodemos.

Neste monólogo-diálogo Jesus se apresenta como o único capaz de revelar as coisas do Céu: “Se não acreditais, quando vos falo das coisas da terra, como acreditareis se vos falar das coisas do céu? E ninguém subiu ao céu, a não ser aquele que desceu do céu, o Filho do Homem. Jesus veio do Céu, como o Pão da vida (cf. Jo 6,51) e por isso, pode falar seguramente sobre as coisas do céu, pois Ele próprio é o Verbo que existe desde o Princípio e que é encarnado (cf. Jo 1,1-3.14). Consequentemente é preciso que o homem olhe para Jesus e viva de acordo com Suas palavras que são as Palavras da vida eterna (cf. Jo 6,68) a fim de que o homem tenha vida em seu nome, ou para que o homem seja salvo (cf. Jo 20,30-31). Necessitamos manter nossa conversa íntima com Jesus através da oração e da meditação da Palavra de Deus para que Ele nos revele o essencial para nossa vida nesta terra e para nossa salvação. Os mais belos pensamentos são fruto do silêncio e da inspiração divina. Quando o vento soprar não há arvore que não se movimente. Quando o Espírito de Deus nos dominar e nos inspirar, não há pensamento que não seja útil para o bem comum ou para o bem da humanidade.

Através de sua afirmação neste monólogo-diálogo Jesus anuncia antecipadamente que ele será crucificado (será levantado na Cruz) para que todos aqueles que acreditarem em Jesus sejam salvos: “Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado, para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna”.

A Linguagem Do Amor Nos Leva Ao Horizonte Infinito

As primeiras frases do texto do evangelho de hoje repetem a afirmação de Jesus no texto do evangelho do dia anterior: “Vós deveis nascer do alto. O vento sopra onde quer e tu podes ouvir o seu ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim acontece a todo aquele que nasceu do Espírito”, disse Jesus a Nicodemos.

Esta afirmação torna Nicodemos confuso, pois ele não entende essa nova linguagem: “Como é que isso pode acontecer?”. De fato, Nicodemos não possui a linguagem do coração, a linguagem de um amor de horizontes infinitos. O coração sente quilo que os olhos são incapazes de ver. O intelecto desconhece aquilo que o coração conhece. Jesus compreende a confusão de Nicodemos, e por isso, Ele recorre a uma comparação: vento. Mas o vento é também misterioso. Mesmo sendo misterioso, os efeitos de sua passagem são sentidos por todos. Em hebraico o termo “vento” (ruah) serve para designar tanto o vento como o espírito. Os efeitos do vento são sentidos, mas o próprio vento não pode ser visto. A força de Deus é sentida por quem acredita em Deus, mas essa força não pode ser vista. A força de Deus tornou muitos cristãos mártires, transforma muitos homens em profetas, leva muitos a se tornarem santos que despertam o mundo da sua sonolência em maldade.

Nicodemos pertence ao passado e sequer tenta abrir-se ao novo. Ele acredita no Deus dos pais, Aquele “que era”, mas não percebe a presença do Deus “que é”, e se fecha para a manifestação do Deus “que vem” (Ap 4,8).

Na sua resposta Jesus disse a Nicodemos: “Tu és mestre em Israel, mas não sabes estas coisas?”.  Toda a ciência de Israel é incapaz de saber o que Jesus revela. Conhecer o Espírito de Deus é impossível ao homem, inclusive ao mais inteligente dos homens, pois pela origem da palavra, o verbo “conhecer” quer dizer “com-nascer”, nascer com, fazer-se um com outro. Somente conhecemos o outro, entregando-nos a ele e aceitando que ele se entregue a nós. Trata-se de uma relação existencial. Nicodemos representa todos os mestres da terra, dos que têm bastante inteligência. A própria vida vivida profundamente diariamente nos dá sabedoria para saborearmos a vida. Ter conhecimento ou ter inteligência é uma coisa. Ser testemunha é outra coisa. Falar do amor é uma coisa; falar amorosamente é outra coisa. Na vida cotidiana, as pessoas necessitam muito mais das testemunhas do que dos mestres; necessitam do testemunho de vida do que qualquer bela teoria ou belo discurso.

Nicodemos, “mestre de Israel” é convidado a fazer-se pequeno: “nascer de novo”, isto é, tornar-se uma criancinha, um bebê para começar a aprender tudo de novo. Uma criança cresce aprendendo tudo de seus pais. Nicodemos é convidado a largar suas próprias luzes, seus orgulhos ou suas arrogâncias para que o Espírito de Deus possa começar a operar em sua vida. Não há em mim também algo de orgulho de Nicodemos?

Com Jesus E Nele A Vida Continua A Existir: É Preciso Crer Nele

Além disso, outro tema central do diálogo de Jesus com Nicodemos no evangelho de hoje é sobre a fé (“crer”). “A fé nasce no encontro com o Deus vivo, que nos chama e revela o seu amor: um amor que nos precede e sobre o qual podemos apoiar-nos para construir solidamente a vida. Transformados por este amor, recebemos olhos novos e experimentamos que há nele uma grande promessa de plenitude e nos é aberta a visão do futuro. A fé, que recebemos de Deus como dom sobrenatural, aparece-nos como luz para a estrada orientando os nossos passos no tempo... A fé está ligada à escuta. Abraão não vê Deus, mas ouve a sua voz. Deste modo, a fé assume um caráter pessoal: o Senhor não é o Deus de um lugar, nem mesmo o Deus vinculado a um tempo sagrado específico, mas o Deus de uma pessoa, concretamente o Deus de Abraão, Isaac e Jacob, capaz de entrar em contato com o homem e estabelecer com ele uma aliança. A fé é a resposta a uma Palavra que interpela pessoalmente, a um Tu que nos chama por nome(Papa Francisco: Carta Encíclica Lumen Fidei).

Em todo o seu evangelho João não usa o substantivo “fé” (ele usará uma vez apenas na primeira carta em 1Jo 5,4). Em vez disso, ele usa o verbo “crer” pelo menos 98 vezes no seu evangelho. Todo verbo sempre se refere ao dinamismo, à ação. E o verbo “crer” aparece com frequência, no evangelho de João, precisamente nos lugares privilegiados onde há os seguintes elementos: a manifestação de Jesus e a resposta de fé ou de incredulidade dos ouvintes diante desta manifestação. A importância da fé no quarto Evangelho aparece pelo fato de que ela é o escopo da “obra de Deus”. Para João, a fé já é também a vida eterna. Fé é conhecer o Filho que o Pai enviou, e este conhecer é “vida eterna” (Jo 17,3). E no evangelho de João aquilo que significa crer pode ser dado em várias expressões: “receber Jesus”, “vir a Jesus”, “procurá-lo”, “ouvi-lo”, “guardar a palavra”, “permanecer nele”. Todas essas expressões significam “crer”. E o objeto único da fé em João é Jesus.

Para o evangelho de João crer em Jesus Cristo significa não parar de existir; é viver para sempre: “Quem crê em mim, ainda que morra, viverá” (Jo 11,25). Ao acreditar em Jesus, o homem terá a vida eterna em Seu nome (cf. Jo 20,30-31). A morte é incapaz de acabar com a vida de quem acredita em Jesus. Em Jesus e com Ele a vida continua.

Como podemos traduzir na vida cotidiana a fé em Jesus? A leitura dos Atos dos Apóstolos nos mostra algumas pistas. A fé se expressa na escuta atenta à Palavra de Deus. O povo eleito foi formado não por um decreto e sim pela escuta da Palavra de Deus. Todos que escutam a Palavra de Deus formam uma comunidade de fé. A fé que nasce da escuta atenta à Palavra de Deus se transforma também em missão, pois é preciso que a Palavra de Deus seja proclamada para que todos possam ser salvos. A maioria das tragédias na Bíblia surgiu por causa da falta da escuta atenta à Palavra de Deus. Podemos imaginar a vida de um filho ou filha que não quer escutar nada dos bons conselhos dos seus pais.

Além da escuta atenta à Palavra de Deus, a verdadeira fé deve se traduzir ou se concretizar no amor mútuo e pela defesa da vida no seu início, na sua duração e no seu término na história, pois acreditamos no Deus da vida que ressuscitou Jesus da morte. Amor é o maior sinal de nossa pertença a Jesus Cristo (cf. Jo 13,35).

A fé em Jesus se traduz também na comunhão de vida em torno da Eucaristia. A Eucaristia é o verdadeiro alimento para a Igreja peregrina que nós somos todos. A Eucaristia é a fonte e o ponto mais alto da vida comunitária e cultual. A Eucaristia é “sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade, banquete pascal em que se recebe Cristo, a alma se enche de graça e nos é concedido o penhor da glória futura” (Sacrosanctum Concilium, 47).

A fé em Jesus nos urge a sermos missionários. Ser missionário é um dos traços mais importantes do ser cristão. Mas para ser missionário de Jesus tem que ser primeiro seu discípulo (cf. Mc 3,13-14). Ser discípulo de Jesus supõe abandonar o modo de viver vivido até então para adotar o estilo de vida de Jesus. Tudo isso implica a conversão. Mas ser discípulo de Jesus é apenas um ponto de partida. Como discípulo, o cristão é enviado para fazer os outros discípulos de Jesus (cf. Mt 28,19). Em outras palavras, o cristão é discípulo para ser missionário. Para ser missionário alguém precisa ser discípulo de Jesus. E a consequência de ser discípulo de Jesus é ser Seu missionário. O cristão é discípulo-missionário.

P. Vitus Gustama,svd

domingo, 12 de abril de 2026

Segunda-feira Da II Semana Da Páscoa, 13/04/2026

É PRECISO DEIXAR-NOS GUIAR PELO ESPÍRITO DE DEUS PARA QUE NOSSA VIDA SEJA RENOVADA E FRUTÍFERA

Segunda-Feira da II Semana da Páscoa

Primeira Leitura: At 4,23-31

23 Naqueles dias, logo que foram postos em liberdade, Pedro e João voltaram para junto dos seus e contaram tudo o que os sumos sacerdotes e os anciãos haviam dito. 24 Ao ouvirem o relato, todos eles elevaram a voz a Deus, dizendo: “Senhor, tu criaste o céu, a terra, o mar e tudo o que neles existe. 25 Por meio do Espírito Santo, disseste através do teu servo Davi, nosso pai: ‘por que se enfureceram as nações, e os povos imaginaram coisas vãs? 26 Os reis da terra se insurgem e os príncipes conspiram unidos contra o Senhor e contra o seu Messias’. 27 Foi assim que aconteceu nesta cidade: Herodes e Pôncio Pilatos uniram-se com os pagãos e os povos de Israel contra Jesus, teu santo servo, a quem ungiste, 28 a fim de executarem tudo o que a tua mão e a tua vontade haviam predeterminado que sucedesse. 29 Agora, Senhor, olha as ameaças que fazem e concede que os teus servos anunciem corajosamente a tua palavra. 30 Estende a mão para que se realizem curas, sinais e prodígios por meio do teu santo servo Jesus”. 31 Quando terminaram a oração, tremeu o lugar onde estavam reunidos. Todos, então, ficaram cheios do Espírito Santo e anunciaram corajosamente a palavra de Deus.

Evangelho: Jo 3,1-8

1Havia um chefe judaico, membro do grupo dos fariseus, chamado Nicodemos, 2que foi ter com Jesus, de noite, e lhe disse: “Rabi, sabemos que vieste como mestre da parte de Deus. De fato, ninguém pode realizar os sinais que tu fazes, a não ser que Deus esteja com ele”. 3Jesus respondeu: “Em verdade, em verdade, te digo, se alguém não nasce do alto, não pode ver o Reino de Deus”. 4Nicodemos disse: “Como é que alguém pode nascer, se já é velho? Poderá entrar outra vez no ventre de sua mãe?” 5Jesus respondeu: “Em verdade, em verdade, te digo, se alguém não nasce da água e do Espírito, não pode entrar no Reino de Deus. 6Quem nasce da carne é carne; quem nasce do Espírito é espírito. 7Não te admires por eu haver dito: Vós deveis nascer do alto. 8O vento sopra onde quer e tu podes ouvir o seu ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim acontece a todo aquele que nasceu do Espírito”.

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Quem Se Une a Cristo Une-se Aos Outros Na Fraternidade

Logo que foram postos em liberdade, Pedro e João voltaram para junto dos seus e contaram tudo o que os sumos sacerdotes e os anciãos haviam dito. Ao ouvirem o relato, todos eles elevaram a voz a Deus”, relatou-nos o autor dos Atos dos Apóstolos. Este relato está ainda dentro do contexto da narrativa da cura do paralítico.

Pedro e João voltaram para junto dos seus e contaram tudo o que os sumos sacerdotes e os anciãos haviam dito”. Esta frase nos mostra a harmonia existente entre os Apóstolos e a comunidade.  Esta harmonia é um traço especial dos Atos dos Apóstolos. Mais adiante em At 12,5 a comunidade vai suplicar a Deus por Pedro que se encontrará encarcerado. O relato de que Pedro e João, após sua libertação da prisão pelo Sinédrio, foram aos “seus” nos indica os laços de fraterna amizade que uniam os fiéis e seus dirigentes (Apóstolos).  Tertuliano (+220) testemunha que os primeiros cristão levavam a sério as palavras de Jesus que os pagãos exclamavam: Vede, como eles se amam (Apologético 39).

A vocação do ser humano é essencialmente comunitária. De fato, o ser humano nasce em uma comunidade de amor (família) e avança estendendo essa experiência de amor às amizades e às relações de proximidade. Ele é um ser sociável por natureza. Por isso, a pessoa humana só pode realizar-se de forma plena em comunidade com seus membros ou semelhantes. E por sua vez, a comunidade/família depende da perfeição das pessoas que a integram. O ser humano não pode realizar o seu destino em solidão, mas em comunidade.

Quando ficarmos isolados, estaremos propensos a ser prejudicados, a ser doentes. Sentir-se integrado ou unido mantém cada homem em equilíbrio, em meio às imensidões interiores e exteriores. Os antigos e eternos valores da vida humana como família, comunidade, unidade, verdade, bondade, justiça, beleza, ternura e amor, solidariedade e compaixão são afirmações da verdadeira integração, da unidade, da comunhão. Viver em solidariedade é qualidade de vida, porque o outro, para mim, não é rival e, sim, complemento, estímulo, fonte de minha própria personalidade. Consequentemente, é preciso crucificar o egoísmo, o individualismo e o narcisismo, pois o egoísmo vai matando em mim o amor, que é a autêntica vida. O individualismo me converte em um ser odioso e receoso.

Uma Comunidade Para Ser Cristã Tem Que Ser Também Orante a Partir Da Realidade Vivida

Ao ouvirem o relato, todos eles elevaram a voz a Deus…. Quando terminaram a oração, tremeu o lugar onde estavam reunidos. Todos, então, ficaram cheios do Espírito Santo e anunciaram corajosamente a palavra de Deus”, assim o autor dos Atos nos relatou. A Primeira comunidade cristã nos dá um exemplo magnífico de oração a partir dos fatos. Sabem “orar a vida”, vendo a partir dos olhos de Deus. Se olharmos à vida a partir dos fatos, não tem como não rezamos como a primeira comunidade cristã. Vive bem quem reza bem e reza bem quem vive bem. Oxalá saibamos interpretar e “rezar” nossa história a partir da perspectiva de Deus!

Todo o relato sobre a cura do paralítico de nascença operado e a consequente perseguição dos apóstolos Pedro e João termina com a oração da comunidade cristã (oração comunitária). A comunidade reage diante de um fato extraordinário (cura do paralítico, prisão e a libertação dos apóstolos) com oração. A comunidade cristã se coloca diante de Deus por motivo desse fato, diálogo com Ele e pedir-Lhe ajuda e confiança. E o faz todos juntos. Todos os membros estão unidos na oração. A união na oração é a chave principal para ter uma convivência fraterna, para a partilha dos bens e para colaborar na missão recebida do Senhor.

O primeiro reflexo dessa comunidade de irmãos é rezar/orar. Isto nos mostra que se trata de um grupo ou de uma convivência fraterna que sempre se situa diante de Deus. A oração cristã se situa na confluência da salvação encarnada por Jesus Cristo e na confluência dos fatos da vida encarnados na Igreja ou na vida em geral. A oração apostólica nos proporciona o exemplo de duas dimensões essências da oração. Primeiro, o aspecto de anamnese (aspecto de recordação, de memória) que repassa a história da salvação. Segundo, o aspecto de epiclese (aspecto de invocação. É a invocação que se eleva a Deus para que envie o seu Espírito Santo e transforme as coisas ou as pessoas substancialmente: transubstanciação) que repassa a revelação dessa salvação na vida atual. Aqui se enfatiza a importância do Espirito Santo para iluminar o ser do cristão a fim de entender o sentido do que se passa na vida e na Igreja. Na oração eucarística são lembrados esses dois aspectos. Na Eucaristia estão unidos o presente e o passado para nos dispor para o futuro. Podemos dizer que a estrutura principal de nossa oração diária, individualmente, se encontra nestes dois aspectos. Conversamos com Deus sobre o que se passou e o que está se passando na nossa vida presente para pedir a Deus um futuro melhor (saída dos problemas pela ajuda do Espirito Santo ao invocar sua presença). História de nossa vida é a história de nossa oração e a história de nossa oração é a história de nossa vida. Quem não reza não tem história com Deus.

Para Viver Com Sentido e Guiado Pelo Espirito Divino É Preciso Nascer Do Alto

Durante seis semana faremos uma leitura quase contínua do Evangelho segundo são João. O tempo pascal é um tempo de plenitude: a ressurreição de Jesus revelou seu ser profundo, seu mistério divino. O Filho único de Deus se encarnou e foi entregue pelo Pai ao mundo a fim de revelar e comunicar ao homens as riquezas misteriosas da vida divina. Ao acolhê-Lo, o ser humano terá a vida eterna.

A partir do segundo capitulo, o evangelista João se preocupa com os sinais (milagres, segundo os sinóticos) operados por Jesus e a atitude que provoca nas pessoas que os presenciam. Para o primeiro sinal, os discípulos respondem com fé (Jo 2,1-11), mas, diante do Templo, os judeus mostraram sua incredulidade (Jo 2,13-25). João dedica os capítulos 3 e 4 para a análise das reações diversas diante dos sinais messiânicos propostos por Jesus: um judeu chamado Nicodemos; uma mulher meia-pagã: a samaritana, e um pagão: o centurião.

No texto do evangelho deste dia fala-se do encontro pessoal de Nicodemos com Jesus. Nicodemos era um dirigente judeu muito representativo (membro do Sinédrio). Como homem de boa vontade ele ficava impressionado com as palavras e as ações de Jesus ou com os sinais operados por Jesus. E decidiu procurar conversar com Jesus à noite. A noite, aqui, significa a resistência para deixar-se iluminar por Jesus, pois Jesus é a Luz do mundo (Jo 8,12). Esta resistência existe por causa de uma ideologia que se opõe ao amor gratuito de Deus pelo homem. O mundo da lei que Nicodemos representa é o inimigo da vida contida no projeto de Deus. Jesus não admite os pressupostos de Nicodemos. A lei não pode levar o homem ao Reino, pois a lei é de baixo, dos homens, e por isso, não é fonte de vida. A vida vem de cima, de um novo nascimento. Com sua disposição de conversar com Jesus, Nicodemos se aproxima da luz que é o próprio Jesus.

Quanto mais nos aproximarmos de Jesus, mais iluminada ficará nossa vida. Consequentemente, seremos reflexos de Deus na convivência com os demais (cf. Mt 5,14-16), em vez de ser um peso para os outros e de criar confusão na vida dos outros. Ser reflexo de Deus significa ser orientador do bem (amor, bondade, justiça, honestidade etc.), como a luz que orienta a vida dos homens.

Nicodemos começa a conversa com o seu reconhecimento de que Jesus vem de Deus: “Rabi sabemos que vieste como mestre da parte de Deus. De fato, ninguém pode realizar os sinais que tu fazes a não ser que Deus esteja com ele”. Aquele que pratica o bem e que se preocupa com o bem do próximo ou de todos só pode ser uma pessoa de Deus. Nicodemos reconhece a bondade de Jesus tanto nas palavras como na ação. A bondade em palavras cria confiança; a bondade em pensamento cria profundidade; a bondade em dádiva cria amor”, dizia Lao-Tsé. E a bondade em ação cria a comunhão de irmãos. Toda ação feita pelo bem da humanidade, ou pela fraternidade é feita sob o impulso do Espírito de Deus embora aquele que a faz não tenha consciência disso: “Toda árvore boa dá bons frutos; toda árvore má dá maus frutos. Uma árvore boa não pode dar maus frutos; nem uma árvore má, bons frutos”, disse Jesus na conclusão do Sermão da Montanha (Mt 7,17-18). Os ideais que iluminaram o meu caminho são a bondade, a beleza e a verdade”, dizia Albert Einstein. A bondade é o único investimento que nunca falha.

Diante das palavras de Nicodemos, Jesus afirma: Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus”. Na Antiguidade, havia a ideia de que, para entrar numa nova religião ou num sistema filosófico, era preciso “renascer”. Ou na linguagem de hoje podemos dizer que é preciso mudar de mentalidade para mudar o modo de viver e de trabalhar. Mas o que Jesus quer enfatizar é o nascimento “do alto” ou de Deus. A expressão “nascer de novodesigna um giro completo da existência que situa o homem em dependência de Deus na fé. Ou na linguagem do evangelista Mateus “tornar-se como criança” (Mt 8,3). Trata-se de fazer-se pequeno diante de Deus, de aceitar o depender de Deus, de não empenhar-se em salvar-se por si mesmo, pois isso é impossível para uma criatura como um ser humano. E aquele que nasce de Deus vive sob o impulso do Espírito Santo para fazer unicamente o bem, e sempre se renova. O poder de Deus é capaz de romper com o passado porque é possível esperar de Deus uma vida nova e uma nova força que ninguém pode segurar.

Por isso, Jesus acrescenta outra afirmação: “O vento sopra para onde quer”. Para o homem antigo o sopro do vento era algo totalmente misterioso. O vento não pode ser segurado, não pode ser colocado num punho e ninguém pode estabelecer sua direção. A imagem de “vento” é sugestiva. Jesus quer sublinhar o caráter misterioso, invisível, difícil de controlar do vento. Não se sabe de onde vem e para onde vai. Estar batizado é ser conduzido por este sopro divino invisível, mas deixa a marca de sua passagem como o vento. Jesus usa essa comparação para quem é nascido do Espírito. Aquele que é dominado pelo Espírito de Deus e vive de acordo com seu impulso, não vive sob cálculos humanos, porque sua pessoa e sua existência se fundam em Deus e no Espírito divino. Como dizia Shakespeare: “Sabemos o que somos, mas não o que podemos ser, pois a vida é sempre para frente e nunca para trás.  Por isso, cada homem é possibilidade: para o bem ou para o mal em cada instante de sua vida. Aquele que se deixa conduzir pelo Espírito de Deus terá muitas surpresas de Deus na sua vida. É uma existência que participa do sopro do Espírito e, portanto, de Deus. Quem se deixa guiar pelo Espírito de Deus sempre pratica o bem e procura o bem do próximo. Os que se deixam conduzir pelo Espírito de Deus se renovam permanentemente, como o próprio Espírito que sempre renova a face da terra. Os renovadores no Espírito divino são pessoas otimistas. Eles vivem profundamente no presente com um olhar de confiança para o futuro, pois eles se deixam impulsionar pelo Espírito de Deus.

Mudança, renovação e transformação são o código do mundo avançado, no entanto nem sempre queremos mudar. Quando estamos felizes, desejamos que o relógio pare, e que nada mude: queremos parar o tempo, “imobilizar” o instante fugido. Apenas mudamos quando estamos mal (necessidade) ou quando tememos uma piora. Dizia Platão: “A necessidade é a mãe da inovação”. Mas quem quer avançar profissionalmente ou espiritualmente é preciso adotar o código do mundo avançado: renovação, mudança e transformação. “Quem não nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus”.  Criatividade consiste no total rearranjo do que sabemos com o objetivo de descobrir o que não sabemos” (George Kneller). ”O que os empreendedores têm em comum não é determinado tipo de personalidade, mas um compromisso com a prática sistemática da inovação” (Peter Drucker). É necessário inovarmos sempre no Espírito divino para nos motivar e crescer na vida. Inovar é colocar algo novo; é a coragem de fazer algo que não era feito antes, mas que é necessário para viver e crescer.

Para podermos aprender continuamente, crescer permanentemente, nos renovar constantemente necessitamos da humildade. Humildade é ter atitude de aprendizagem. E a aprendizagem é o caminho do sucesso. Uma pessoa soberba sempre acredita saber tudo e por isso, fica parado no tempo e deixa de ter sucesso na vida. Dizia Confúcio: “Quando não se aprende, a sinceridade vira grosseria; a valentia, desobediência; a Constância, caprichosa teimosia; a humanidade, estupidez; a sabedoria, confusão; a veracidade, ruína”. “Somente quando aprendermos ou conhecermos, teremos a possibilidade de começar a mudar o que não nos agrada” (Alvará Reyes). Nada mudará, quando nossa mente não mudar. A pior prisão é a prisão mental, isto é, aquela que acaba sendo um obstáculo para atingir tudo o que está por vir. Quando eliminamos as armadilhas mentais, estaremos aptos a começar a ter sucesso. Uma mentalidade velha e caduca resiste diante do novo e do avançado. Para acessar um novo nível de vida qualitativamente, precisamos renovar nossa mente. Mente sã, corpo são e sucesso garantido. “Em verdade, em verdade, te digo, se alguém não nasce do alto, não pode ver o Reino de Deus... Quem nasce da carne é carne; quem nasce do Espírito é espírito”, disse-nos Jesus.

A maior descoberta de uma geração é que os seres humanos podem mudar sua vida modificando suas atitudes mentais” (Albert Schweitzer). Precisamos abandonar uma mente de escravo porque ela é nostálgica, isto é, acredita que o passado foi melhor. Um homem com mentalidade de escravo é briguento, gozador, fanfarrão e vive criticando a tudo e a todos. Uma pessoa com uma mente de escravo se conforma com a mediocridade e não se permite aprender. A mente de escravo utiliza mecanismos de defesa que não nos permitem visualizar onde está a falha para saber em que devemos melhorar. Quem for capaz de fazer uma observação inteligente dos fatos, ele alcançará os melhores resultados. Quem tem mente de escravo usa a gentileza e a cortesia com os que estão acima (superiores), mas agride, maltrata e abusa emocionalmente dos que estão abaixo (inferiores).

P. Vitus Gustama,svd

Quinta-feira Da II Semana Da Páscoa,16/04/2026

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