domingo, 11 de outubro de 2026

Terça-feira Da XXVIII Semana Comum, Ano Par, 13/10/2026

A HIPOCRISIA E DIGNIDADE HUMANA:

VIVER NA VERDADE E NA DIGNIDADE AFASTA  A HIPOCRISIA

Terça-Feira Da XXVIII Semana Comum

Primeira Leitura: Gálatas 5,1-6 (ano Par)

Irmãos, 1 é para a liberdade que Cristo nos libertou. Ficai pois firmes e não vos deixeis amarrar de novo ao jugo da escravidão. 2 Eis que eu, Paulo, vos digo que Cristo não será de nenhum proveito para vós, se vos deixardes circuncidar. 3 Mais uma vez, atesto a todo homem circuncidado que ele está obrigado a observar toda a Lei. 4 Vós que procurais a vossa justificação na Lei rompestes com Cristo, decaístes da graça. 5 Quanto a nós, que nos deixamos conduzir pelo Espírito, é da fé que aguardamos a justificação, objeto de nossa esperança. 6 Com efeito, em Jesus Cristo, o que vale é a fé agindo pela caridade; observar ou não a circuncisão não tem valor algum.

Evangelho: Lc 11,37-41

Naquele tempo, 37 enquanto Jesus falava, um fariseu convidou-o para jantar com ele. Jesus entrou e pôs-se à mesa. 38 O fariseu ficou admirado ao ver que Jesus não tivesse lavado as mãos antes da refeição. 39 O Senhor disse ao fariseu: “Vós, fariseus, limpais o copo e o prato por fora, mas o vosso interior está cheio de roubos e maldades. 40 Insensatos! Aquele que fez o exterior não fez também o interior? 41 Antes, dai esmola do que vós possuís e tudo ficará puro para vós”.

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A Caridade Fraterna É o Caminho Certo Para Chegar Até Deus

“Quanto a nós, que nos deixamos conduzir pelo Espírito, é da fé que aguardamos a justificação, objeto de nossa esperança. Com efeito, em Jesus Cristo, o que vale é a fé agindo pela caridade; observar ou não a circuncisão não tem valor algum”.

A Primeira Leitura continua com o tema da liberdade: as últimas frases de ontem são também as primeiras de hoje: “É para a liberdade que Cristo nos libertou. Ficai pois firmes e não vos deixeis amarrar de novo ao jugo da escravidão”.

Para são Paulo, um sinal da volta ao antigo seria a circuncisão. Voltar a dar importância à circuncisão, que os cristãos praticamente já abandonaram, é o sinal de que também se está querendo voltar a toda a Lei antiga, e, portanto, “Cristo não será de nenhum proveito para vós, se vos deixardes circuncidar”, escreveu são Paulo. Aqui dá para perceber que os judaizante voltam a incitar os cristãos para a prática da circuncisão. Sempre é o mesmo argumento de são Paulo: por a esperança de salvação nas práticas religiosas ou morais é ter a pretensão de alcançar a justificação por si mesmo. Consequentemente, avinda de Cristo a este mundo “não será de nenhum proveito”.

“É para a liberdade que Cristo nos libertou. Ficai pois firmes e não vos deixeis amarrar de novo ao jugo da escravidão”. Como noção jurídica-política, a liberdade distingue-se da escravatura. No NT, a liberdade que “possuímos em Cristo Jesus” (Gl 2,4; 4,31) significa uma libertação redentora do “espírito de escravidão e de medo” (Rm 8,15). Há tríplice de libertação: 1) do pecado (Rm 6,18-23; 8,2; Jo 8,31-36; etc); 2) da lei que, pela sua própria formulação, provoca o desejo de pecar (At 15,10; Rm 7,3s; 8,2; Gl 2,4; 5,1.13); 3) da morte, o “salário do pecado” (Rm 6,23; 7,9-11; 1Cor 15,56).

“É para a liberdade que Cristo nos libertou. Ficai pois firmes e não vos deixeis amarrar de novo ao jugo da escravidão”. Não podemos evoluir e criar a não ser que nos sintamos livres para fazê-lo. Nosso progresso será proporcional à liberdade que sentimos de respirar, de nos mover, de viver a vida plenamente. Mas ninguém está livre até todos estarmos livres. Ninguém evolui emocionalmente, intelectualmente ou espiritualmente se sua energia está sendo gasta para cintrolar alguém. Só com a liberdade encontraremos alegria no trabalho, no lar e com os amigos e as demais pessoas. Viver com liberdade interior, com liberdade de filhos, é deixar-se mover pelo Espírito de Cristo, e não por um legalismo exagerado, que Jesus já criticou nos fariseus, que confiavam mais nas práticas externas e nos próprios méritos do que na graça de Deus.

Com efeito, “Vós que procurais a vossa justificação na Lei rompestes com Cristo, decaístes da graça”, escreveu são Paulo. O essencial é não romper com Cristo. O essencial é estar agregado a Cristo, crer que tudo vem d´Ele (Cf. Jo 1,3.16-17).

A palavra chave para toda esta questão é “graça”. O termo grego usado por são Paulo significa “dom gratuito e gozoso”. A graça é a ação de Deus em nós. A graça é a presença ativa de Deus na nossa vida cotidiana. É um dinamismo divino que atua no núcleo de nossa vida. Deus nos precede sempre através de sua graça. Deus salva o homem não por seus méritos e sim por puro amor ao qual aderimos pela fé, a esperança e a caridade.

Como resposta adequada para a graça de Deus é a fé que se traduz na prática da caridade fraterna e não a prática da circuncisão. Por isso, são Paulo insiste: “O que vale é a fé agindo pela caridade; observar ou não a circuncisão não tem valor algum”. Trata-se de uma fórmula esplêndida, densa e cheia de compromisso. O que mais importante não é a circuncisão e sim a prática da caridade. A prática da caridade é a expressão ou concretização da fé em Jesus Cristo. Jesus está com aquele que pratica a caridade. Não há nada mais exigente do que o amor fraterno. Numa família, os filhos não podem obedecer ou atuar por medo de castigo. Eles devem obedecer e atuar, sim, por amor e pela corresponsabilidade. A fonte da santidade não está na fiel observância dos mandamentos ou da Lei, e sim no amor gratuito e salvador de Deus. Por esse caminho, o caminho de amor, não há outro caminho para chegar até Deus, pois “a caridade é o pleno cumprimento da lei” (Rm 13,10).

O mais importante é a limpeza ou purificação permanente de nosso coração para que ele o amor permaneça intacto nele, como enfatiza o Evangelho deste dia.

No Coração Puro Não Há a Hipocrisia Nem o Exibicionismo

O texto do evangelho de hoje nos apresenta a questão sobre a purificação (ato de se tornar puro). E os fariseus davam máxima importância ao cumprimento dos preceitos e ritos da purificação.  Sem relação direta com a moralidade, a pureza assegura a aptidão legal para alguém poder participar do culto (cf. Lv 11-16). A pureza cultual inclui a limpeza física. Antes de comer, por exemplo, os comensais devem lavar as mãos (cf. Mc 7,2). Este rito faz parte da limpeza física para se afastar do que é sórdido ou das imundícies (cf. Dt 23,13ss). A maior parte das impurezas são apagadas pela ablução do corpo ou das vestes (cf. Ex 19,10; Lv 17,15s), ou por sacrifícios expiatórios (cf. Lv 12,6s).

A partir desse conceito (sobre a pureza) vem a pergunta: quem é puro perante Deus? Para os fariseus , os puros são aqueles que guardam os preceitos de purificação cultual; aqueles que limpam a parte externa dos pratos e dos cálices.

“Vós fariseus, limpais o copo e o prato por fora, mas o vosso interior está cheio de roubos e maldades”, assim Jesus disse aos fariseus. Os fariseus se importam com o exterior e não com o interior da pessoa. Eles se descuidam da pureza da consciência. Trata-se de uma vida na aparência, de uma vida incoerente. A maneira de viver assim é conhecida como hipocrisia. Os fariseus são chamados de insensatos por Jesus.

“Insensatos! Aquele que fez o exterior não fez também o interior?”. Deus só dá importância para a pureza ética que Jesus prega para todos. Quando a consciência estiver livre da injustiça e de qualquer atitude imoral, então o homem ou a mulher fica puro diante de Deus e fica livre para realizar-se. Todo mandamento de Deus se refere à relação ética e ao amor fraterno. A partir da vida ética e da convivência fraterna é que se joga e se julga a fidelidade daquele que se diz crente.

É importante ter a pureza do coração para podermos ver Deus em suas obras e para ver o outro como irmão, irmã, filhos e filhas de Deus. Uma coisa que não nos ajuda a crescermos na santidade e na fraternidade é maximizar o que não é importante e minimizar o que é importante. Hoje em dia, como no tempo de Jesus, muitos dão muita importância para a exterioridade. Das coisas verdadeiramente importantes, edificantes e dignificantes dependerá nossa vida moral.

“Antes, dai esmola do que vós possuís e tudo ficará puro para vós”. Para Jesus a pureza interior é adquirida ou alcançada através da esmola e das obras de caridade. O coração se torna puro através da vivencia fraterna que inclui a ajuda aos necessitados. O amor fraterno torna puro o coração humano. O coração é puro quando o amor fraterno é vivido. Como diz São Paulo aos romanos: “A caridade é o pleno cumprimento da lei” (Rm 13,10). Por isso, Santo Agostinho dizia: “Ama e faze o que quiseres” (In epist. Ad Gal. 57,6,1). A glória da vida consiste em amar, perdoar, dar, servir e assim por diante.

A maneira de viver dos fariseus que se preocupam apenas com o exterior é uma maneira de viver como hipócrita. A palavra hipócrita designava no mundo grego antigo o ator que, com uma máscara e um disfarce, assumia uma personalidade alheia. O ator representa um papel, não o que ele é inteiramente. É apresentação sem representação. Fingia diante do público ser outra pessoa freqüentemente sem nada a ver com a sua própria personalidade, porque trabalhava para a plateia. Ele não vivia sua própria identidade.

Todo hipócrita é exibicionista. Na verdade, um exibicionista é uma pessoa de personalidade superficial, fútil e sem sólidos ideais. Ele vive mendigando louvores e os procura de todas as maneiras. Ele se preocupa mais em ostentar do que em ser alguma coisa. Sua preocupação é colocar-se em evidência, ser notado, elogiado. Tudo o que ele faz é na perspectiva de algum louvor. Ele considera bons ou maus os seus atos não por estarem de acordo ou não com as normas éticas, mas por serem capazes ou não de atrair a atenção e despertar admiração.         

Segundo o Evangelho de hoje hipócrita é aquele que vive só na aparência e longe da verdade. É aparentar ser bom, sem sê-lo. É uma incoerência de vida. É uma duplicidade, um fingimento. Ele extremamente se apresenta como um homem religioso, alguém que faz questão de proferir palestras bonitas sobre o amor, sobre a paz, sobre o respeito para com os outros, quando ninguém o vê viver assim. É aquele que vive de etiqueta, mas continua pagando dívidas sem fim.         

A hipocrisia, que tenta esconder atrás da fachada limpa a podridão interior, não convém ao cristão que é chamado a viver e proclamar publicamente a palavra recebida de Jesus. O Senhor quer que tenhamos diante d’Ele e diante dos outros uma única vida, sem disfarces e mentiras, pois n’Ele mesmo encontramos a plenitude da unidade de vida, a mais profunda união entre as palavras e as obras. A verdade é sempre um reflexo de Deus e deve ser tratada com muito respeito. Ao buscar sempre a verdade, fugindo da duplicidade ou da hipocrisia, o cristão se torna uma pessoa honrada e respeitada. A falta de veracidade que se manifesta na mentira ou na hipocrisia ou na falta de unidade de vida, revela uma discórdia interior. Por isso, o Senhor diz no Sermão da Montanha: “Seja o vosso Sim, sim e o vosso Não, não. O que passa disso vem do Maligno” (Mt 5,37).          

A dignidade da pessoa humana não consiste em parecer bom, mas em ser bom. O verniz encobre o mal, mas não o suprime. O hipócrita não percebe que tudo que vem de fora não atinge o seu interior e que essa satisfação proveniente da aprovação dos outros é efêmera, superficial e inútil.         

Se deixarmos crescer o medo de ser nós mesmos, acabaremos não sabendo quem nós somos. É preciso saber assumir-se ou tomar conta de si. Nunca seremos autenticamente nós enquanto estivermos subordinados à opinião e às expectativas dos outros. A nossa riqueza consiste em que sejamos nós mesmos e não em que nos pareçamos com os outros ou com o que os outros esperam de nós. Os homens verdadeiros e autênticos podem ser aplaudidos ou condenados, amados ou odiados, mas sempre despertam nossa admiração.

P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Solenidade Da Bem-aventurada Virgem Maria Da Conceição Aparecida, 12/10/2026

BEM-AVENTURADA VIRGEM MARIA DA CONCEIÇÃO APARECIDA

Solenidade

Primeira Leitura: Ester 5,1-2; 7,2-3

1b Ester revestiu-se com vestes de rainha e foi colocar-se no vestíbulo interno do palácio real, frente à residência do rei. O rei estava sentado no trono real, na sala do trono, frente à entrada. 2 Ao ver a rainha Ester parada no vestíbulo, olhou para ela com agrado e estendeu-lhe o cetro de ouro que tinha na mão, e Ester aproximou-se para tocar a ponta do cetro. 7,2b Então, o rei lhe disse: “O que me pedes, Ester; o que queres que eu faça? Ainda que me pedisses a metade do meu reino, ela te seria concedida”. 3 Ester respondeu-lhe: “Se ganhei as tuas boas graças, ó rei, e se for de teu agrado, concede-me a vida — eis o meu pedido! — e a vida do meu povo — eis o meu desejo!”

Segunda Leitura: Apocalipse 12,1.5.13.15-16

1 Apareceu no céu um grande sinal: uma mulher vestida do sol, tendo a lua debaixo dos pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas. 5 E ela deu à luz um filho homem, que veio para governar todas as nações com cetro de ferro. Mas o filho foi levado para junto de Deus e do seu trono. 13ª Quando viu que tinha sido expulso para a terra, o dragão começou a perseguir a mulher que tinha dado à luz o menino. 15 A serpente, então, vomitou como um rio de água atrás da mulher, a fim de a submergir. 16ª A terra, porém, veio em socorro da mulher.

Evangelho: Jo 2,1-11

Naquele tempo, 1 houve um casamento em Caná da Galileia. A mãe de Jesus estava presente. 2Também Jesus e seus discípulos tinham sido convidados para o casamento. 3 Como o vinho veio a faltar, a mãe de Jesus lhe disse: “Eles não têm mais vinho”.  4 Jesus respondeu-lhe: “Mulher, por que dizes isto a mim? Minha hora ainda não chegou”. 5 Sua mãe disse aos que estavam servindo: “Fazei o que ele vos disser”. 6 Estavam seis talhas de pedra colocadas aí para a purificação que os judeus costumam fazer. Em cada uma delas cabiam mais ou menos cem litros. 7 Jesus disse aos que estavam servindo: “Enchei as talhas de água”. Encheram-nas até a boca. 8 Jesus disse: “Agora tirai e levai ao mestre-sala”. E eles levaram. 9 O mestre-sala experimentou a água que se tinha transformado em vinho. Ele não sabia de onde vinha, mas os que estavam servindo sabiam, pois eram eles que tinham tirado a água. 10 O mestre-sala chamou então o noivo e lhe disse: “Todo mundo serve primeiro o vinho melhor e, quando os convidados já estão embriagados, serve o vinho menos bom. Mas tu guardaste o vinho melhor até agora!” 11 Este foi o início dos sinais de Jesus. Ele o realizou em Caná da Galileia e manifestou a sua glória, e seus discípulos creram nele.

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Neste dia tragamos de volta aqueles três simples pescadores: Domingos Martins Garcia, Filipe Pedroso e Joao Alves. Eles estavam pescando no Rio Paraiba do Sul no lugar chamado Porto Itaguaçu em 1717. No início, em vez de pegar peixes, eles apanharam na sua rede a imagem de Nossa Senhora sem cabeça. Na nova tentativa apanharam a cabeça da imagem. Dai em diante, os peixes chegaram em abundância para os tres humildes pescadores. É o primeiro milagre para esses simples pescadores para sua vida, pois para os pescadores, peixe significa vida, significa o pão de cada dia o qual pedimos no Pai Nossos. Para vivermos a vida na sua abundância e plenitude precisamos colocar em primeiro lugar Aquele que é a fonte e o Doador da vida: Deus. Aqui Maria representa aquele ventre bendito pelo qual nos trouxe a vida.

Uma Pequena Reflexão Sobre o Fato Acima mencionado:

Onde foi encontrada a imagem de Nossa Senhora Aparecida? Foi encontrada no fundo do rio Paraíba do Sul, no Porto de Iguaçu. O fato de eles terem encontrado a imagem no fundo de um rio nos chama nossa atenção. Isso nos lembra aquilo que Jesus disse aos discípulos depois de uma noite sem apanharem nenhum peixe: avança para as águas profundas. Duc in altum! (cf.Lc 5,4). Não fique na superfície! Tenha coragem de mergulhar na profundeza de sua vida!

Além disso, não é qualquer imagem que foi encontrada, e sim a imagem de Nossa Senhora, Mãe do Senhor. Quem é a Nossa Senhora? É aquela que se abriu para o mistério e o plano de Deus. É aquela que recebeu a missão de ser Mãe do Autor da vida, a vida de nossas vidas, Jesus Cristo (cf. Jo 1,4; 10,10;14,6).

Onde se encontram coisas valiosas? Não na superfície e sim na profundeza. Santo Agostinho dizia que para rezar não precisa olhar para o céu e sim olhar para dentro de si, no fundo do seu ser. Até o Salmista rezou: das profundezas eu clamo a Ti, Senhor (Sl 130,1).

Não sejamos pessoas superficiais que não querem avançar para a vida de mais valores. Diante da vitória, continue! Diante da derrota, não desanime, diante da dor não se entregue, diante do fracasso, aprenda, diante do novo mergulhe, diante do desafio, abrace, diante do amor, ame, diante do passado, aprenda, diante do futuro, sonhe, diante do presente, vibre e diante de tudo, viva! Essa é maneira de viver na sua profundidade.

Segundo o relato, depois de uma longa distância sem conseguir nenhum peixe, os três pescadores apanharam, não peixe e sim a imagem de Nossa Senhora: primeiro, o corpo e depois, a cabeça de Nossa Senhora. Somente depois disso é que começaram a apanhar uma grande quantidade de peixes.

O que isso quer nos dizer? Isto quer nos dizer que para vivermos a vida na sua abundância e plenitude precisamos colocar em primeiro lugar Aquele que é a fonte e o Doador da vida: Deus. Aqui Maria representa aquele ventre bendito pelo qual nos trouxe a vida que é Jesus Cristo. Para vivermos na alegria, no ânimo, precisamos colocar Deus em primeiro lugar, precisamos viver a Palavra de Deus e de acordo com Sua Palavra. A vida, antes de ser vivida, precisa ser rezada para que possamos viver a vida na sua abundância e plenitude. Para vivermos na alegria, no ânimo, precisamos colocar Deus em primeiro lugar, precisamos viver a Palavra de Deus e de acordo com Sua Palavra. Precisamos viver a Palavra de Deus e da Palavra de Deus, a exemplo da Mãe do Senhor, Virgem Maria (Lc 1,38). A vida, antes de ser vivida, precisa ser rezada para que possamos viver a vida na sua abundância e plenitude.      

1. Festa De Casamento: Quem é O Nosso Deus Revelado Em Jesus Cristo?          

Para celebrar a festa de Nossa Senhora da Conceição Aparecida a Igreja (no Brasil) escolhe uma passagem do evangelho de São João 2,1-11 que fala da festa de casamento em Caná da Galiléia. No entanto, os protagonistas não são os noivos, mas Jesus e sua mãe, o que aponta já para dois níveis de leitura: a leitura a partir de Cristo que converte a água em vinho e a leitura a partir de Maria que faz a intervenção suplicante nessa festa.    

O simbolismo matrimonial é freqüente na Bíblia (Is 54,6.10;62,5;Os 2,16-18.21 etc...) para falar da ternura, da intimidade e do afeto da nova relação de Deus com o seu povo, todos nós. Isto quer nos dizer que o nosso Deus não é um Deus severo e tirano, e sim esposo e amigo, capaz de amar com ternura e paixão, de encontrar alegria no amor a seu povo.         

Não é por acaso que o texto diz: “Jesus e os seus discípulos foram também convidados para o casamento” (v.3). Isto quer nos dizer que o Deus de Jesus não nos é revelado rodeado de imponente majestade, mas nas bodas e acompanhado de amigos. É precisamente isto que o que o evangelista João diz: a presença de Jesus é a manifestação deste Deus novo e diferente. Não do medo e do castigo, distante das pessoas, mas o Deus próximo, em meio à festa compartilhando as suas alegrias e preocupações. É um Deus que nos acompanha, que está sempre no meio de nós (Mt 28,20; 18,20). A religião de Jesus é, e continua sendo a da alegria e a da festa compartilhada porque Jesus é o vinho novo da nossa vida. Ele é capaz de transformar as situações em que tudo parece como água, sem sabor nem cor. Quem está com Jesus tem vida sobrando, pois Jesus que é a Vida (Jo 14,6; 10,10) comunica continuamente vida e alegria. Para vivermos a vida na sua abundância precisamos ter lugar especial para Jesus na nossa vida diária. 

2. Maria, Nossa Mãe Quem Suplica por Nós                     

Maria, Mãe de Jesus também estava presente nas Bodas de Caná. E nessa festa, ao perceber que estava faltando vinho, Maria se dirigiu diretamente a Jesus e não ao organizador da festa: “Eles não têm mais vinho”. O vinho, na Bíblia, representa o amor e a alegria (cf. Ct 1,2;7,10;8,2). Quem são “eles” nesta frase da mãe de Jesus? Aqueles que basearam a relação com Deus não no amor, mas numa série de normas e regras, tornando assim essa relação fria e paralisada. Jesus é quem transforma essa relação cheia de regras para uma relação cheia de amor simbolizada na transformação da água em vinho.

Depois desta frase, Mãe de Jesus diz outra frase, mas, desta vez, para os serventes: “Fazei tudo o que ele vos disser” (v.5). O que leva Maria a dizer esta frase é a fé absoluta em Jesus Cristo. Ela não exige provas antes de render a seu Filho uma total confiança. Ela não tem dúvida alguma de que Jesus vai fazer algo. Maria leva até o limite a sua fé consciente. Ela abandona-se à decisão do Filho. A fé de Maria é ilimitada em Jesus. A expressão “Fazei tudo o que ele vos disser”, sublinha a soberania de Jesus, por um lado e a fé absoluta de Maria em Jesus, por outro lado.        

Pela sua atitude e pelas suas palavras, ao convidar os servidores a adotar a mesma atitude de obediência às palavras de Jesus, Maria é modelo para todos os que fazem parte do novo Povo de Deus. Maria não só realiza a vontade de Deus na sua vida, mas também orienta os outros a fazerem de acordo com a Palavra de Deus. Maria, como a perfeita discípula e seguidora de Jesus se torna mestra e guia para todos nós. Sua frase continua atual. Ela continua nos dizendo hoje: “Para ser feliz, para viver a vida na sua profundidade e na sua abundância, vale a pena ouvir, ler, meditar e viver de açodo com a Palavra de Deus”.          

Além disso, Maria nos ensina a orar pelos nossos irmãos, assim como ela fez nas Bodas de Caná. Maria está uma mulher muito atenciosa e prestativa. Por isso, ela percebe com rapidez as necessidades dos outros e logo toma providência. Maria é muito atenciosa. A atenção é um comportamento vigilante do eu sobre os outros; é uma transparência de olhar, uma prontidão em notar sinais de sofrimento em volta de si, um doar-se. A atenção é o amor verdadeiro, delicado, desinteressado e previdente. Ela é uma qualidade humana necessária e preliminar no caminho espiritual.        

Revivendo hoje o momento em que o Filho de Deus transforma a água em vinho para os convivas de Caná, deveríamos ter a capacidade de perceber que uma das mais exaltantes mensagens do cristianismo é a mensagem de alegria. Deus quer que haja o vinho nupcial da alegria, a alegria de permanecer unidos, como irmãos. Cabe a cada um de nós a tarefa de viver e de anunciar a mensagem de alegria para os outros de que Deus sempre tem a última palavra. E esta última palavra está cheia de vida, de paz e de alegria. Temos que proclamar as razões da alegria, não da tristeza; temos que apontar os motivos do otimismo, não do pessimismo; temos que promover a vida, não a morte. A alegria deveria ser característica de quem vive na fé e caminha para o Reino de Deus. A religião de Jesus é e continua sendo a da alegria e da festa compartilhada porque Jesus é o vinho novo da nossa vida. Ele é capaz de transformar as situações tristes em alegria. Quem está com Jesus tem vida sobrando, pois ele comunica continuamente vida e alegria. 

O papa Gregório Magno, uma vez na sua pregação, disse a seguinte frase: “Embora tenha quem escute as boas palavras, falta quem as diga”.

3. Nossa Devoção à Mãe Do Senhor Que Também É Nossa Mãe

Nós, católicos, sem dúvida nenhuma, acreditamos que Jesus é o Senhor (Rm 10,9; Fl 2,11), o único mediador entre Deus e a humanidade (1Tm 2,5). Por isso, no final das orações da missa, dizemos: “Por Nosso Senhor Jesus Cristo,... na unidade do Espírito Santo”. Em cada oração, nos dirigimos ao Pai, pelo Filho, no Espírito Santo.        

Se toda a oração é trinitária, dirigida ao Pai, pelo Filho, no Espírito, como então nós podemos rezar a Maria e aos santos?        

Se nós olharmos com cuidado o jeito como Jesus realiza sua missão aqui na terra, perceberemos que ele não trabalha sozinho. Ele conta com a colaboração dos discípulos (Mt 10,1-8). Também algumas mulheres seguem Jesus e fazem parte do seu grupo mais próximo (Lc 8,1-3). Maria, Mãe do Senhor, fazia parte desse grupo. O Evangelho de Lucas mostra com clareza que Maria é o exemplo do discípulo e seguidor de Jesus. Ela escuta a palavra com fé (Lc 1, 38.45), acolhe-a, medita no coração (Lc 2,19.51) e a põe em prática, transformando-a em belos frutos (Lc 1,42;11,28).        

Nós, católicos, adoramos somente a Deus e a Ele prestamos culto. Reconhecemos que só Jesus é o nosso Salvador, o único Senhor. Mas continuamos respeitando e veneramos os santos. Sabemos muito bem que isso não nos tira do rumo certo. Temos cuidado para que eles não ocupem o espaço de Jesus. Porque eles são santos porque participaram da santidade de Jesus, são reflexos de Jesus. A santidade dos santos tem como fonte a santidade de Jesus Cristo. Se Jesus não existisse, não existiria também santo nenhum. Ficamos contentes, quando experimentamos que não estamos sozinhos na travessia dessa vida. Não somente os nossos companheiros de comunidade estão conosco, mas também os santos, os “vivos em Deus”.        

Maria tem um posto especial na comunhão dos santos. Como diz o Concílio Vaticano II (LG VIII), ela ocupa o lugar único, mais perto de Cristo e mais perto de nós. Por isso, podemos rezar para ela, contar com sua intercessão, pedir sua proteção e auxílio e entregar-nos nas mãos de Deus. A graça que Maria nos dá não vem dela e ela nada segura para si. Tudo vem de Deus e para Deus volta. Qualquer oração a Maria nos coloca em sintonia com Deus mesmo: o Pai, o Filho e o Espírito.        

Quando chamamos Maria de “Nossa Senhora”, fazemos isso com delicadeza e afeto, reconhecimento e gratidão, pois por ela chegou até nós o Salvador do mundo, Jesus Cristo. Mas não podemos colocá-la no mesmo nível de Jesus. Jesus é o Nosso Senhor. Ela aprendeu de Jesus a ser serva, a prestar serviço a toda a humanidade (Mt 20,28). Maria, como um espelho ou um prisma, reflete e transmite a graça de Deus (Rm 3,18). No seu manto de luz, ela transmite a luz amorosa de Deus. 

Lugar De Maria Na Missão De Jesus         

Em relação ao Evangelho da missa, os teólogos concordam que o Evangelho de João é para os cristãos maduros porque o evangelista João tem uma profundidade nas suas reflexões. É naturalmente, ele fala de Maria de forma mais profunda. Ele não se preocupa com a infância de Jesus, ou com as relações familiares com sua mãe. Responde a outras perguntas: Qual é o lugar de Maria na missão de Jesus? E como ela contribui na comunidade dos amigos de Jesus.       

No Evangelho de João, Maria aparece somente duas vezes. Primeiro, Maria atua na realização do primeiro sinal de Jesus, em Caná da Galileia, ao inaugurar sua missão pública (Jo 2,1-11). Segundo, Maria permanece ao pé da cruz, no momento da morte de Jesus, no final de sua missão nesse mundo (Jo 19,25-27). Ao colocar Maria no início e no final da missão de Jesus, João está dizendo que ela tem um lugar especial, pois se faz presente nos momentos mais importantes da missão de Jesus.        

O evangelista nos conta Maria presente na festa de bodas em Caná. Quase todo mundo gosta de festa. Numa festa boa, parece que o tempo não existe. Ninguém olha para o relógio.  Se estivermos conscientes mesmos de que a missa é um grande banquete do Senhor, uma grande festa, ninguém se preocupará com o relógio ou com o celular. A festa rompe com a dureza do dia-a-dia. O Senhor que cada participante possa saborear esse banquete divino.        

Em Caná Maria está na festa. Jesus e seus discípulos também. O vinho, que é o elemento principal nessa festa, está terminando e Maria se dirige a Jesus, fazendo-lhe um pedido discreto: “Eles não têm mais vinho”.        

Jesus faz o primeiro sinal de forma discreta. João coloca, como primeiro sinal de Jesus, a transformação da água em vinho para nos transmitir que Jesus é o vinho novo da nossa vida. Ele é capaz de transformar as situações em que tudo parece “água”, sem sabor nem cor. No AT, o vinho simboliza a felicidade e a abundância que acontecerá para todos, quando o Messias chegar. Com o sinal do vinho Jesus está dizendo que ele é o vinho novo. Acabou o tempo de miséria. Quem está com Jesus tem vida sobrando. Ele comunica vida e alegria.   

O relato sobre a festa de Caná nos mostra Maria como a mãe da comunidade cristã, que estimula os servidores e amigos de Jesus a realizarem sua vontade: “Façam tudo o que ele disser a vocês”. Ela ajuda os discípulos a terem fé em Jesus e ficarem junto dele: “Jesus manifestou sua glória e os discípulos creram nele” (Jo 2,11). Maria, a mulher atenta às necessidades das pessoas, pede ao seu filho. O povo vê nesse gesto de Maria sua bondade e caridade, e também sua capacidade de intercessão, pelo bem de todos.        

Nós somos hoje os discípulos amados de Jesus. O Pai nos dá o mesmo amor com o qual amou a Jesus (Jo 17,26). E nos presenteia Maria, mãe educadora, para nos ajudar a viver nossa vocação cristã. Que saibamos captar as palavras de Maria: “Façam tudo o que Jesus disser a vocês”. Maria continua dizendo-nos hoje: “Vale a pena buscar a vontade de Jesus, ouvir suas palavras e tomar atitudes concretas”.

P. Vitus Gustama,svd

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

XXVIII Domingo Do Tempo Comum, Ano "A", 11/10/2026

É PRECISO ESTAR PREPARADO PARA PODER PARTICIPAR DO BANQUETE DO REINO

XXVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM “A”

Primeira Leitura: Is 25,6-10a

6O Senhor dos exércitos dará neste monte, para todos os povos, um banquete de ricas iguarias, regado com vinho puro, servido de pratos deliciosos e dos mais finos vinhos. 7Ele removerá, neste monte, a ponta da cadeia que ligava todos os povos, a teia em que tinha envolvido todas as nações. 8O Senhor Deus eliminará para sempre a morte e enxugará as lágrimas de todas as faces e acabará com a desonra do seu povo em toda a terra; o Senhor o disse. 9Naquele dia, se dirá: “Este é o nosso Deus, esperamos nele, até que nos salvou; este é o Senhor, nele temos confiado; vamos alegrar-nos e exultar por nos ter salvo”. 10aE a mão do Senhor repousará sobre este monte.

Segunda Leitura: Fl 4,12-14.19-20

Irmãos: 12Sei viver na miséria e sei viver na abundância. Eu aprendi o segredo de viver em toda e qualquer situação, estando farto ou passando fome, tendo de sobra ou passando necessidade. 13Tudo posso naquele que me dá força. 14No entanto, fizestes bem em compartilhar as minhas dificuldades. 19O meu Deus proverá esplendidamente com sua riqueza a todas as vossas necessidades, em Cristo Jesus. 20Ao nosso Deus e Pai a glória pelos séculos dos séculos. Amém.

Evangelho: Mt 22,1-14

Naquele tempo, Jesus dirigiu-Se de novo aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo e, falando em parábolas, disse-lhes: «O reino dos Céus pode comparar-se a um rei que preparou um banquete nupcial para o seu filho. Mandou os servos chamar os convidados para as bodas, mas eles não quiseram vir. Mandou ainda outros servos, ordenando-lhes: ‘Dizei aos convidados: Preparei o meu banquete, os bois e os cevados foram abatidos, tudo está pronto. Vinde às bodas’. Mas eles, sem fazerem caso, foram um para o seu campo e outro para o seu negócio; os outros apoderaram-se dos servos, trataram-nos mal e mataram-nos. O rei ficou muito indignado e enviou os seus exércitos, que acabaram com aqueles assassinos e incendiaram a cidade. Disse então aos servos: ‘O banquete está pronto, mas os convidados não eram dignos. Ide às encruzilhadas dos caminhos e convidai para as bodas todos os que encontrardes’. Então os servos, saindo pelos caminhos, reuniram todos os que encontraram, maus e bons. E a sala do banquete encheu-se de convidados. O rei, quando entrou para ver os convidados, viu um homem que não estava vestido com o traje nupcial. E disse-lhe: ‘Amigo, como entraste aqui sem o traje nupcial?’. Mas ele ficou calado. O rei disse então aos servos: ‘Amarrai-lhe os pés e as mãos e lançai-o às trevas exteriores; aí haverá choro e ranger de dentes’. Na verdade, muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos».

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A parábola do banquete nupcial do filho de um rei é a última das três parábolas aqui reunidas pela semelhança de tema (cf. Mt 21,28-22,14). Nesta parábola Mt une duas parábolas: a dos convidados a um banquete nupcial (Mt 22,1-10), que pode se encontrar em Lc (Lc 14,15-24) e no evangelho apócrifo de São Tomé (cf. EvT 64, cuja semelhança com a de Lc pode-se notar facilmente) e a do comensal sem vestido apropriado (Mt 22,11-14; sem paralelo em Lc).

1. A Parábola Do Banquete Nupcial Do Filho De Um Rei E Os Convidados (Mt 22,1-10)    

Para entender o sentido da parábola temos que reconstruir a cena social a que faz referência. Na época (como também na nossa) as refeições tinham uma função social importante, pois eram cerimônias  através das quais se confirmava o status das pessoas e seu lugar dentro da escala social. Os banquetes eram também um meio para estreitar laços, para afirmar alianças e relacionamentos. O status de uma pessoa podia medir-se muito bem pelas pessoas que freqüentavam  sua mesa. Em ocasiões especiais, como a boda de um filho, a seleção dos convidados era minuciosa. De modo geral eram convidadas pessoas importantes, pois a presença dessas aumentavam o status e a honra da família.       

Ler neste contexto, o mais surpreendente da parábola é que os convidados se negam a participar do banquete de bodas com motivos sem fundamentos. Recusar um convite como este era algo quase impossível, pois tratava-se do convite de um rei, por isso era uma ofensa gravíssima a quem convidava(rei) e mais grave ainda porque mataram os enviados do rei. O rei responde à ofensa mandando seus servos para convidar a todos os que se encontraram pelos caminhos, gente que nunca tinha nenhuma oportunidade de sentar-se à mesa de um banquete de um personagem importante, muito menos de um rei.         

O Que A Parábola Quer Nos Transmitir?       

Observamos que na parábola dos vinhateiros homicidas, o evangelho do domingo anterior (Mt 21,33-43), o duplo envio precede o envio do Filho. No texto deste domingo, ele se realiza tão logo o Filho já esteja presente.         

Outra observação que temos que levar em consideração é que em comparação ao relato de Lucas e do evangelho apócrifo de São Tomé, percebemos uma mudança notável no relato de Mateus. Só Mateus fala de servos em plural. Quem convida não é mais um simples homem/pai de família (Lc 14,16), mas um rei (Mt 22,2.11). O banquete não é uma simples refeição festiva qualquer (Lc 14,16), mas o banquete de bodas do filho de um rei (Mt 22,2.11-12). Tudo isto faz da parábola uma alegoria da História da Salvação. O rei é Deus. O primeiro grupo de enviados (v.3) representa os profetas que não foram ouvidos. O segundo grupo que é maltratado (perseguido e morto) representa os Apóstolos e missionários enviados aos judeus (vv.6-7). O terceiro grupo que foi enviado pelos caminhos representa a missão entre os pagãos. O banquete de bodas do filho simboliza a chegada do tempo messiânico manifestado na vinda de Jesus Cristo. O convite recusado representa a incredulidade em Jesus e sua mensagem. A vingança do rei em mandar incendiar a cidade dos que recusaram ao convite e mataram os enviados  refere-se à destruição de Jerusalém numa guerra entre judeus e romanos nos anos 66-70 d.C. Mt interpreta o acontecimento dentro da história da salvação para transmitir a mensagem sobre as conseqüências da aceitação ou da recusa da oferta da salvação feita por Deus em Jesus Cristo para a humanidade. O povo judeu perde seu papel privilegiado na História da Salvação e é substituído pela Igreja formada pelos pagãos convertidos.         

A parábola fala do banquete. Na Bíblia o Reino de Deus é comparado a um banquete, onde se come e se bebe à saciedade, onde se dança, se brinca, se ri, se fala com os amigos e se contam histórias e todos se sentem felizes. Tanto no Antigo Testamento como no Novo Testamento, o banquete é símbolo da abundância, da vida, da felicidade, da fraternidade e  da alegria. É o símbolo da grande reunião, da reunião universal de Deus, a que todos os povos são convidados.         

O profeta Isaías (Is 25,1-10) nos conta que Deus, num determinado tempo, vai organizar um banquete e vai convidar todos os povos da terra. Deus simplesmente não discrimina; sua escala de valores e seu estilo de agir são diferentes dos nossos. Nossas classificações das pessoas não são válidas para o Senhor que faz nascer o sol cada manhã sobre maus e bons(Mt 5,45).         

Conforme o profeta Isaías, Deus convida todos os povos para celebrar a vitória sobre a morte. Não se trata aqui da morte física, mas de tudo aquilo que para o homem é morte e derrota: uma vida sem sentido e sem ideais e sem esperança, o fracasso, a dor, a fome, a marginalização. Tudo aquilo que não é vida será eliminado. Na verdade o profeta está falando dos tempos messiânicos.         

Com a sua vinda no meio de nós, Jesus lança a mão da comparação do banquete para ensinar que todos igualmente são chamados  a participarem da vida, da alegria, da felicidade e da vitória de Deus. Isto nos mostra o amor gratuito de Deus para todos, porque todos são seus filhos(as).E ele os ama da mesma maneira. Por isso, Cristo rompeu as barreiras divisórias entre os homens, com grande surpresa dos puritanos que ouviram a parábola. A leitura desta parábola é, de certa forma, coerente com um dado importante da vida de Jesus: suas refeições com os pecadores e cobradores de impostos que causam duras críticas da parte dos fariseus. Jesus os critica pois a sua mensagem é muito melhor acolhida pelos pequenos(pecadores e cobradores de impostos), inclusive pelos pagãos do que pelos judeus.        

A parábola nos relata três atitudes diferentes perante o convite de Deus que têm muito a ver com o nosso dia a dia. Os primeiros convidados recusam o convite porque não querem largar os próprios interesses: a lavoura, os negócios e ódio contra os enviados de Deus. Não precisam que ninguém lhes ofereça um banquete pois eles têm tudo o que lhes pode garantir uma vida sem problemas. Estão satisfeitos. Essas pessoas acham não precisar de Deus ou de religião, pois  elas têm tudo de que precisam materialmente. Mas dificilmente elas percebem o seu vazio interior. “Ninguém está tão só do que aquele que vive sem Deus. Por isso, o homem para onde se dirija, sem se apoiar em Deus, só encontrará dor”(Santo Agostinho). A riqueza material sufoca qualquer aspiração religiosa para quem vive em função desta riqueza material. 

Onde o homem coloca muros com seus projetos pessoais e mesquinhos, Deus coloca portas abertas da misericórdia para todos. Nos projetos do homem há exclusão como palavra de ordem. No projeto de Deus, os rejeitados são os principais convidados. No projeto de Deus não existe periferia e sim lugar digno para todos; não há indignidade, e sim dignidade.     

A mensagem, portanto, é muito clara. Viver como se Deus não tivesse importância e o encontro com Ele estivesse tão distante que não valesse a pena preparar-se para ele, é pôr em risco a salvação eterna. Perante a salvação, o bem absoluto, não há nenhuma desculpa que seja razoável: nem campos, nem negócios, nem saúde, nem bem-estar. Alegamos falta de tempo, mas encontramos tempo para o jogo ou para a televisão ou para o lazer. A vida é tão corrida que não nos sobra um momento para o mais essencial: encontrar-nos com o Cristo, o nosso Salvador. Deus não pode ser tratado como uma moda. Com Deus está em jogo toda a nossa existência, presente e futura, a maneira de entender a vida etc. Deus é que nos tira do nada com um puríssimo ato de amor, e com o igual amor nos mantém no ser. Falar com Deus e falar de Deus não é um passa tempo e sim uma necessidade vital, porque é só através dele que podemos alcançar a compreensão de nós mesmos, do significado e da importância da nossa vida. Somente em Deus e com Deus o homem pode esperar a realização de si mesmo. O conhecimento de Deus, apesar de ser tão pobre e pouco, é como se fossem os carvões ardentes que alimentam a chama da nossa esperança.        

 Hoje é um dia feliz para nós que escutamos o convite que brota das fontes da Palavra de Deus. Deus nos chama à festa de seu Reino, festa autêntica, alegria completa, oferta total de felicidade. Pois a mensagem cristã é a boa notícia da libertação já iniciada e o gozo da esperança plena da mesma; e isto, apesar de tantas misérias que nos cercam. Quem confia em Deus sabe que Deus guarda por ele, que ele está convidado para o futuro de Deus e tem em suas mãos, com isso, o mais maravilhoso convite de sua vida.         

A eucaristia dominical é o banquete escatológico aqui na terra, e nos prepara para o futuro banquete de Deus, banquete sem fim; é o céu aqui na terra. Não é de admirar que Jesus instituiu a Última Ceia(a Eucaristia) e quer estar no meio de nós até o fim dos tempos(Mt 28,20) em forma do banquete eucarístico. Mas, infelizmente, muitos pensam que ir à igreja é bom somente para as mulheres, as crianças e os idosos, pois os que pensam desta maneira não percebem ainda o valor incalculável do banquete eucarístico e ao mesmo tempo não percebem ainda o vazio de seu coração.         

Outra mensagem da parábola que podemos tirar também é que Deus não convoca apenas uns convidados. Ele chama até os culpados para o perdão perante sua santa face. Deus ama e seu amor quer e deve ser amado. Não há uma vocação mais alta do que esta. O homem só se fechará na sua culpa inapagável, se recusar o convite. Em conseqüência dessa vocação, só podemos amar aqueles que não nos amam quando cremos que num amor superior que transcende todo amor da criatura; ou quando temos a certeza de libertarmos, por nosso amor gratuito, o outro, até então incapaz de amar.

A Parábola Do Homem Sem Roupa Apropriada Para A Festa (vv.11-14)                  

Na segunda parábola trata do relato do homem que entrou sem a roupa nupcial e foi expulso. Os biblistas concordam em dizer que se trata de uma outra parábola que foi acrescentada à precedente. Portanto, deve ser interpretada isoladamente para não interpretar erradamente acusando o rei como alguém que não é coerente no seu convite, já que ele mandou convidar todos para participarem do banquete sem nenhuma exigência posta. A segunda parábola, por isso, contém o seu ensinamento exclusivo. Nesta segunda parábola, aparece o tema do julgamento ou do juízo, mas desta vez não se trata do povo de Israel, e sim daqueles que crêem ter assegurado a salvação ou aqueles que se julgam salvos.         

Para entender a parábola temos que levar em consideração o costume da época. Na época tinha o costume de o anfitrião preparar vestidos apropriados para aqueles que chegaram sem eles (sem vestidos apropriados). O comensal a quem o rei se dirige com palavras severas, há recusado o vestido que lhe ofereceram e com isso há ofendido ao rei ao entrar em seu banquete vestido impropriamente.         

Por isso, a intenção teológica do evangelista é bem clara: lançar uma advertência séria para sua comunidade e para nossa comunidade e comunidade cristã em todos os tempos. Não basta ter sido chamado e ter respondido positivamente à mensagem evangélica para ter a garantia da salvação. Não basta confessar sua fé em Jesus e participar do banquete eucarístico; é necessário a veste nupcial de uma vida em conformidade com a vontade de Deus e com as exigências da mensagem de Jesus (cf. Mt 5,1-7,29). Para entrar no banquete do reino é necessário um estilo de vida que ponha em prática os ensinamentos de Jesus resumidos no amor a Deus e ao próximo. Só quem estiver vestido com esta veste nupcial tem o direito de participar do banquete eterno.        

O homem que entrou sem a roupa nupcial sublinha a dimensão de vigilância de nossa vida. Devemos estar preparados sempre porque em qualquer momento o Senhor pode nos chamar. Vamos trabalhar como se o encontro definitivo com Deus estivesse longe ainda, mas vamos rezar como se esse encontro estivesse próximo. Vamos viver a vida presente, mas com uma visão do futuro, dar às coisas uma função de meio e não de fim, vamos eliminar diariamente toda a desordem que há dentro nós mesmos, em especial a auto-suficiência ou orgulho e todo tipo de segurança falsa. É verdade que Deus não vai nos excluir. Cuidado, porém, para não nos acabarmos excluídos por nossa própria iniciativa.        

A aceitação do convite exige mudança; cumpre ser diferente do que se era. A veste nupcial, necessária para entrar no banquete eterno, figura as obras de justiça que cada um deve realizar. Se eu não tiver amor, não sirvo para nada. Este é a veste nupcial. Não é suficiente ter recebido o sacramento, é necessário ter comportamento novo, é preciso construir a vida sobre os valores cristãos. Não basta também dar esmola, é preciso mudar completamente as próprias atitudes em relação aos bens deste mundo. Não basta pertencer à Igreja de Jesus, é preciso assumir o compromisso como cristão. Precisamos, por isso, de conversão. Conversão é amar sua vocação mais sublime;  é aprender a amar o próprio Deus Santo e misericordioso que se traduz no amor ao próximo.         

Nós participamos do banquete da Eucaristia todos os domingos ou todos os dias. Devemos nos perguntar sempre: qual é nossa “veste” ? Quais as nossas obras que possamos oferecer ao Senhor ? Isto não é uma contabilidade espiritual ou um voluntarismo ético de mérito; mas  nossa colaboração é indispensável.

Ao convite de Deus devemos responder com uma disposição incondicional e alegre, pois o convite que nos faz felizes. Devemos nos afastar com todas as forças do excesso de atividade, de tudo o que não é estritamente necessário. “O banquete está pronto”. O banquete também é a imagem do repouso interior no qual desfrutamos de Deus como Ele a Si próprio. O conhecimento que nos foi dado para nos guiar no caminho da luz rumo ao banquete escatológico é: amemos quem nos criou, temamos quem nos modelou, glorifiquemos quem nos resgatou da morte. Não andemos com aqueles que andam no caminho da morte. Não nos coloquemos acima dos outros e sim sejamos humildes.

P. Vitus Gustama,svd

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Sábado Da XXVII Semana Comum, Ano Par, 10/10/2026

SOMOS BEM-AVENTURADOS NA ESCUTA ATENTA E NA VIVÊNCIA DA PALAVRA DE DEUS

Sábado da XXVII Semana Comum

Primeira Leitura: Gálatas 3,22-29 (Ano Par)

Irmãos, 22 a Escritura pôs todos e tudo sob o jugo do pecado, a fim de que, pela fé em Jesus Cristo, se cumprisse a promessa em favor dos que creem. 23 Antes que se inaugurasse o regime da fé, nós éramos guardados, como prisioneiros, sob o jugo da Lei. Éramos guardados para o regime da fé, que estava para ser revelado. 24 Assim, a Lei foi como um pedagogo que nos conduziu até Cristo, para que fôssemos justificados pela fé. 25 Mas, uma vez inaugurado o regime pela fé, já não estamos na dependência desse pedagogo. 26 Com efeito, vós todos sois filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo. 27 Vós todos que fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo. 28 O que vale não é mais ser judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos vós sois um só, em Jesus Cristo. 29 Sendo de Cristo, sois então descendência de Abraão, herdeiros segundo a promessa.

Evangelho: Lc 11, 27-28

Naquele tempo, enquanto Jesus assim falava, uma mulher levantou a voz no meio da multidão e lhe disse: Feliz o ventre que te trouxe e os seios que te amamentaram. Ele respondeu: Felizes, sobretudo, são os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática.

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A Graça Nos Torna Livres e Disciplinados, Mas a Lei Não Produz a Graça

“A Lei foi como um pedagogo que nos conduziu até Cristo, para que fôssemos justificados pela fé. Mas, uma vez inaugurado o regime pela fé, já não estamos na dependência desse pedagogo”.

Continuamos a acompanhar a leitura da Carta de são Paulo aos Gálatas. No texto da Primeira Leitura de hoje, são Paulo coloca sua argumentação sobre a razão ou a função da Lei.

Os judaizantes haviam entendido mal a posição de são Paulo sobre a Lei, como se, para ele, a Lei não tivesse nenhuma função. De fato, são Paulo nunca pretendia declarar a Lei desnecessária, pois sabia que a Lei desempenhava um papel essencial no próposito de Deus. A função da Lei não era, no entanto, conceder salvação e sim convencer os homens da necessidade desta. A Lei em si não é a própria salvação e sim um meio para disciplinar o povo a fim de alcançar a salvação. E a lei maior é o amor fraterno. Por este caminho o povo cumpriu todas as leis, pois “o amor é pleno cumprimento da lei” (Rm 13,10). Em Gl 3,19 são Paulo fez a seguinte declaração: “Por que, então a Lei? Foi acrescentada para que se manifestassem as transgressões...”. São Paulo explica isso na sua Carta aos Romanos: “Pela Lei vem o pleno conhecimento do pecado” (Rm 3,20); “Onde não há Lei, também não há transgressão” (Rm 4,15); e “Eu não conheci o pecado senão através da Lei” (Rm 7,7). Assim o papel principal da Lei era denunciar o pecado. A Lei confirma, ao mesmo tempo, a existência dos maus e dos bons. Geralmente, o princípio da lei é proteger os bons e punir os maus.

A segunda descrição metafórica da Lei feita por são Paulo está em Gl 3,24: “A Lei foi como um pedagogo que nos conduziu até Cristo, para que fôssemos justificados pela fé”. Aqui são Paulo usa a plavra “pedagogo”. Em grego a palavra “pedagogo” é “paidagogos”. Pedagogia vem de duas palavras gregas “pais, paidos”, “crianças”, e “agôgê”, “direção”. Trata-se de ciência prática da educação. A palavra “pedagogo” (“paidagogos”) significa literalmente um “tutor”, isto é, um guia e guardião de crianças. O tutor era geralmente um escravo cuja obrigação era conduzir a criança à escola e de volta dela, e supervisar a sua conduta de um modo geral. O “paidagogos” não era o professor da criança, e sim, aquele que a disciplinava. Era geralmente  severo a ponto de ser cruel, e apresentado comumente nos desenhos antigos com uma vara ou bengala na mão. O pedagogo, nas famílias romanas, era o escravo que levava as crianças à escola e se encarregava de sua disciplina. Era, portanto, um personagem, em princípio, não muito simpáticos e, sobretudo, provisional. Ao chegar à adolescência, já não precisava mais de um pedagogo.

O que significa a descrição metafórica da Lei como “pedagogo”? A lei expressa a vontade de Deus para o seu povo, dizendo-nos o que devemos fazer e o que não devemos fazer. E nos adverte das penalidades da desobediência. Todos nós estamos “sob o pecado” (Gl 3,22) e, portanto, estamos “sob a tutela da Lei” (Gl 3,23). Como um “paidagogos”, a Lei nos repreende e castiga pelas nossas más ações.

São Paulo aplica esta metáfora da seguinte maneira: durante nossa “infância” (AT) necessitamos de um “pedagogo”, mas quando Jesus Cristo chegou, já somos como filhos na família de Deus, e é uma insensatez querer voltar ao domínio do pedagogo, que seria a Lei de Moisés com suas práticas meticulosas (circuncisão, sábado, comidas, festas, etc.).

Quantas vezes, Jesus teve que criticar os fariseus por seu legalismo exagerado, que tornava o sábado, em vez de ser um dia de liberdade e gozo, o motivo de casuística e de angústias. Como a Primeira Comunidade cristã teve que esforçar-se por encontrar os caminhos justos em sua abertura ao mundo pagão, libertando-se, pouco a pouco, da formação legalista herdada do Antigo Testamento.

Cada um de nós saberá se se sente filho(a) na casa de Deus ou prisioneiro; se dirige-se a Deus como Pai ou somente como Criador ou como Juiz. Se cumpre com as regras do jogo, em sua família, em sua paroquia, em sua comunidade, em seu trabalho, por amor ou somente por interesse ou por medo de castigo. Se educa os filhos ou os jovens a cumprirem as normas da vida cristã: a oração, a participação na Eucaristia dominical, por mera tradição, por medo, por interesse comercial com Deus, ou, por convicção e amor.

A Lei nos diz o que temos que fazer, mas não nos dá vida. A vida nos vem de Cristo Jesus (Jo 10,10). Ao crer em Cristo Jesus e ser batizados n´Ele, recebemos sua Vida e seu Espírito, somos revestidos d´Ele, e então, desparecem de nós todas as divisões provenientes da etnia, da condição social ou do sexo. Unidos todos a Cristo, a humanidade inteira, se faz uma só em Cristo para se apresentar como filhos de Deus no único Filho amado do Pai. Deus não nos quer somente fieis cumpridores de preceitos ainda que estes venham diretamente d´Ele. Ele quer unidos a Ele mediante o único Caminho que nos leva ao Pai: Cristo Jesus (Jo 14,6). Buscar outros caminhos equivale a desprezar a salvação que Deus nos oferece em seu Filho amado, feito um de nós e constituído em nossa Salvação.

Na Eucaristia, o Senhor nos convoca para que sejamos um com Ele. Com Ele formamos um só corpo, sendo Ele a cabeça e o princípio de toda a Igreja. unidos a Cristo, nosso Alimento, é fazer a vontade do Deus Pai. E a vontade de Deus é que acreditemos n´Aquele que Ele nos enviou. Todos nós somos filhos de Deus por ter sido incorporados a Cristo Jesus.

Ser Praticante Da Palavra De Deus Para Ser Feliz

Continuamos a acompanhar Jesus no seu caminho para Jerusalém para ouvir e meditar suas últimas e importantes lições para nós, seus seguidores (Lc 9,51-19,28). É preciso levarmos adiante esses ensinamentos. Hoje Jesus nos dá a lição sobre a importância da vivência da Palavra de Deus para sermos chamados de bem-aventurados.

“Bem-aventurado o ventre que te trouxe, e os peitos que te amamentaram!”, disse uma mulher do meio do povo. Com estas palavras, Lucas quer mostrar que essa mulher é tomada de estupor imaginando a mulher (Maria) que gerou Aquele que o escuta. O poder de Jesus, a autoridade de sua palavra, a integridade de sua existência provocam a admiração no povo simples representado por essa mulher. Essa mulher se faz porta-voz da bem-aventurança fazendo-a extensiva à Mãe que gerou Jesus e o criou.

Mas Jesus estende tal felicidade a qualquer um que O escuta: “Jesus replicou: Antes bem-aventurados aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a observam!”. Quem O escuta está com Ele e não espalha (Lc 11,23). Maria foi a primeira que escutou e disse: “Eis aqui a serva” (Lc 1,38). A maternidade de Maria foi no ouvido e no coração. O ouvido é o princípio da escuta; o coração é o princípio do crescimento. Na escuta de Maria, o Verbo de Deus se fez sua carne. A Igreja, na escuta e na guarda da Palavra de Deus, se faz contemporânea de Jesus. Quem escuta a Palavra de Deus e a guarda no coração não tem necessidade de pedir nenhum sinal do céu, pois vemos que o céu está na terra.

Hoje escutamos a melhor das bem-aventuranças que Jesus podia ouvir para sua própria Mãe: “Bem-aventurado o ventre que te trouxe, e os peitos que te amamentaram!”. Com sua resposta, Jesus não recusa o apaixonado elogio que aquela mulher simples dedicava à Sua Mãe e sim que o aceita, e vai mais além, explicando que Maria, a Mãe de Jesus é bem-aventurada, sobretudo, pelo fato de ter sido boa e fiel no cumprimento da Palavra de Deus: “Antes, bem-aventurados aqueles que ouvem a Palavra de Deus”. Quem pode ser exemplo de quem ouve e pratica a Palavra de Deus é Maria, Mãe de Jesus, quando ela diz: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a Tua Palavra” (Lc 1,38). Cada um de nós, como Maria, é chamado a conceber, gerar e fazer crescer o Verbo na convivência com as demais pessoas (Jo 1,31).

“Bem-aventurado o ventre que te trouxe, e os peitos que te amamentaram!”. O ventre, que acolhe a semente (Verbo Divino), é a escuta que faz conceber a Palavra. O amamentar, que nutre aquilo que foi concebido, é a guarda ativa da Palavra para que cresça até a medida plena.

Através de seu evangelho Lucas mostra que Maria, a Mãe de Jesus, é um modelo de fé para os homens. Ela, como mulher e como símbolo de todos os seres humanos, recebeu o grande presente da presença transformante de Deus sobre a terra (Lc 1,28). Essa presença se concretiza como “Espírito criador” e se traduz no nascimento do Messias. Através da Palavra de Maria que se oferece e colabora (Lc 1,38: Fiat), se realiza o mistério primordial de nossa história: Deus feito homem; Deus que está conosco (cf. Mt 1,23; 18,20); Deus que vem nos visitar (cf. Lc 1,68.78; 7,16); e Deus que jamais nos abandona (Mt 28,20). Como diziam os antigos: Maria concebeu Jesus com fé antes de fazê-lo com o ventre. Maria é o sinal de uma nova forma de existência. A vida de Maria se converteu em fundamento de júbilo e de bênção para todos os que creem como ela. Maria é modelo de mulher aberta diante do mistério da vida e modelo de crente que responde de maneira confiante e generosa à Palavra que Deus lhe dirigiu. Maria viveu a Palavra de Deus e da Palavra de Deus.

“Bem-aventurados aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a observam!”. Ouvir atentamente a Palavra de Deus e traduzí-la na convivência com os outros homens resulta na nossa felicidade. Quando a felicidade nos alcança, as preocupações do dia se suavizam.  A felicidade está sempre onde estamos, desde que não tenhamos escolhido deixá-la fora. Toda luta é suavizada pelo sorriso. O dia de hoje será alegre se eu vivê-lo com sorriso. Deus quer que sejamos felizes, afortunados, bem-aventurados (cf. Mt 5,2-12; Jo 20,29). Deus quer nossa felicidade, uma felicidade que começa já neste mundo, ainda que os caminhos para alcançá-la não sejam fáceis. O projeto de Jesus é a felicidade do homem. Para Jesus crer em Deus e viver conforme a Palavra de Deus é a chave para nossa felicidade. É a alegria de crer. Trata-se de uma felicidade que é maior que a própria alegria de viver, porque cremos em uma vida sem fim, eterna. Maria, a Mãe de Jesus não é somente afortunada por ter amamentado e criado Jesus, seu Filho, e sim, sobretudo, por ter sido ouvinte da Palavra de Deus e por ter posto em prática a mesma; por ter amado e por ter se deixado amar por seu Filho. Um poeta chegou a escrever: “Poder dizer ‘Mãe’ e ouvir-se dizer ‘filho meu’ é a sorte que nos invejava Deus”.

Muitas vezes procuramos nossa felicidade longe de nós, às vezes nos lugares errados. Por isso, como resultado é a crescente angústia e a desorientação na vida a ponto de poder chegar ao desespero. Jesus nos dá hoje uma dica simples para viver na alegria, na paz, na felicidade e na serenidade: ler, ouvir, meditar e viver de acordo com a Palavra de Deus. “Bem-aventurados aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a observam!”. Será que sou bem-aventurado? 

A Palavra de Deus continuará a ser eficaz, curadora, e libertadora, se nós soubermos ouvi-la atentamente e vivê-la na nossa vida cotidiana. Se ela curou tantas pessoas, converteu tantos pecadores, libertou tantas pessoas de seus problemas, guiou a vida de tantos homens, esta mesma palavra continua tendo o mesmo poder e a mesma eficácia. A palavra humana pode errar e enganar, porque o homem é fraco. Mas a Palavra de Deus não erra nem engana. A Palavra de Deus é firme para sustentar a vida de quem nela se agarra e por ela se orienta.

Experimente a seguinte dica: antes de dormir leia e medite um texto da Bíblia e durma com a Palavra de Deus. Quando sua mente se deixar proteger pela Palavra de Deus, você vai dormir em paz e vai acordar, no dia seguinte, com outro ânimo. Deus nos ama e cremos no Seu amor.

P. Vitus Gustama,svd

Terça-feira Da XXVIII Semana Comum, Ano Par, 13/10/2026

A HIPOCRISIA E DIGNIDADE HUMANA: VIVER NA VERDADE E NA DIGNIDADE AFASTA   A HIPOCRISIA Terça-Feira Da XXVIII Semana Comum Primeira Le...