quarta-feira, 18 de março de 2026

21/03/2026- Sábado Da IV Semana Da Quaresma

O JUSTO É PERSEGUIDO E MORTO POR AQUELES QUE VIVEM NA INJUSTIÇA E NA DESONESTIDADE

Sábado da IV Semana da Quaresma

Primeira Leitura: Jr 11,18-20

18 Senhor, avisaste-me e eu entendi; fizeste-me saber as intrigas deles. 19 Eu era como manso cordeiro levado ao sacrifício, e não sabia que tramavam contra mim: “Vamos cortar a árvore em toda a sua força, eli­miná-lo do mundo dos vivos, para seu nome não ser mais lembrado”. 20 E tu, Senhor dos exércitos, que julgas com justiça e perscrutas os afetos do coração, concede que eu veja a vingança que tomarás contra eles, pois eu te confiei a minha causa.

Evangelho: Jo 7,40-53

Naquele tempo, 40ao ouvirem as palavras de Jesus, algumas pessoas diziam: “Este é, verdadeiramente, o Profeta”. 41Outros diziam: “Ele é o Messias”. Mas alguns objetavam: “Porventura o Messias virá da Galileia? 42Não diz a Escritura que o Messias será da descendência de Davi e virá de Belém, povoado de onde era Davi?” 43Assim, houve divisão no meio do povo por causa de Jesus. 44Alguns queriam prendê-lo, mas ninguém pôs as mãos nele. 45Então, os guardas do Templo voltaram para os sumos sacerdotes e os fariseus, e estes lhes perguntaram: “Por que não o trouxestes?”  46Os guardas responderam: “Ninguém jamais falou como este homem”. 47Então os fariseus disseram-lhes: “Também vós vos deixastes enganar? 48Por acaso algum dos chefes ou dos fariseus acreditou nele? 49Mas esta gente que não conhece a Lei, é maldita!” 50Nicodemos, porém, um dos fariseus, aquele que se tinha encontrado com Jesus anteriormente, disse: 51“Será que a nossa Lei julga alguém, antes de o ouvir e saber o que ele fez?” 52Eles responderam: “Também tu és galileu, porventura? Vai estudar e verás que da Galileia não surge profeta”. 53E cada um voltou para sua casa.

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Na Primeira Leitura o profeta Jeremias usa a imagem do cordeiro manso levado ao matadouro. Ao cumprir sua missão e chamar o povo à conversão, o profeta se vê rejeitado e traído por seus próprios irmãos. Jeremias, seis séculos antes de Cristo, viveu o mesmo destino que Jesus. Ele também foi perseguido por ter sido fiel à Palavra de Deus. É a imagem de Jesus que, como um cordeiro, morrerá para tirar o pecado do mundo. A imagem do "cordeiro" sugere a inocência daquela pequena vítima que não merece ser sacrificada. Esta imagem sugere a liturgia do cordeiro pascal, cujo sacrifício é útil a todo o povo. Todo homem que sofre como inocente é uma imagem do Cristo sofredor.

Jeremias aparece hoje como uma figura de Jesus, um homem justo perseguido por sua condição de profeta corajoso, que em nome de Deus anuncia e denuncia um povo que não quer ouvir suas palavras.

O Justo Perseguido É Sacrificado, Como Cordeiro Manso, Pelos Injustos

Eu era como manso cordeiro levado ao sacrifício, e não sabia que tramavam contra mim”, confessou o profeta Jeremias. Sabemos que o profeta Jeremias nos deixou um diário de seu drama interior chamado “Confissões de Jeremias” que se encontram entre o capítulo 10 e o capitulo 20 de seu livro. Merece uma leitura especial: Jr 11,8-12,3 (Jeremias “inimigo do povo”); Jr 7,14-18 (Ironia de seus adversários: Onde está a palavra do Senhor? Que se cumpra!” - Jr 17,5); Jr 18,18-23 (a perseguição); Jr 20,7-9.14-18 (a crise de vocação). Nestas páginas o testemunho de uma personalidade sensível se funde com o desespero por uma situação impossível. Jeremias é um homem sentimental e aberto aos demais, no entanto é condenado a ser um solitário, um isolado pelos seus compatriotas. Ele é rodeado somente pelo ódio (Jr 15,17; 16,12), amaldiçoado (Jr 20,10), perseguido (Jr 26,11), golpeado e torturado (Jr 20,1-2), sob a ameaça de morte (Jr 18,18). É um idealista que sente o horror pela corrupção de seu povo (Jr 9,1), que sente a mesma indignação de Deus (Jr 5,14; 6,11; 15,17), que com uma imensa dor interior anuncia a ruína iminente (Jr 4,19-21; 8,18-23; 14,17-18). O profeta Jeremias experimenta profundamente a perseguição que, por causa de sua perseguição, os adversários, inclusive seus familiares e amigos, tramam contra ele. Esta perseguição move Jeremias a perguntar a Deus: Por que os maus vivem cheios de “bênçãos”? A resposta de Deus desconcerta o profeta: verá coisas piores.

A fidelidade à vocação é uma conquista cotidiana, que passa por dúvidas e crises e que às vezes, pesa como uma maldição, sobretudo se experimenta o silêncio de Deus (Jr 15,15.18; 20,7; veja Sl 21/22,2; Mt 27,46; Mc 15,34). A tentação de renunciar é muito forte. Este é o Getsêmani de Jeremias. Mas a Palavra de Deus é como um incêndio que devora os ossos e que o homem é incapaz de aplacar e de extinguir, nem o próprio Jeremias.

Nesta primeira leitura (Jr 11,18-20) o profeta Jeremias utiliza a imagem do cordeiro manso levado ao matadouro para falar de sua própria inocência e mansidão. Para manter a fidelidade à aliança com Deus o profeta Jeremias denuncia os crimes, as corrupções e as traições cometidos pelo seu próprio povo. Em outras palavras, Jeremias chama o seu povo à conversão, a voltar ao Deus da Aliança. Para Jeremias o verdadeiro conhecimento do Senhor não está no culto e sim na justiça (Jr 22,16).

Infelizmente, como consequência, Jeremias é odiado pelo bem que faz. Ele é uma vítima inocente comparada a um cordeiro manso. “Toda vez que um justo grita, um carrasco vem calar. Quem não presta fica vivo, quem é bom, mandam matar” (Cecília Meireles). Pelo fato de cumprir sua missão e chamar o povo à conversão, o profeta Jeremias foi recusado e traído por seus próprios irmãos.

A sorte ou o destino do profeta Jeremias que viveu seis séculos antes de Jesus é a mesma sorte, o mesmo destino de Jesus. Jesus é também perseguido por ser fiel à Palavra de Deus, por considerar a vontade de Deus como seu alimento (Jo 4,34). O cordeiro manso que o profeta Jeremias usa é imagem de Jesus que, como Cordeiro, morrerá para tirar o pecado do mundo (Jo 1,29). O profeta Jeremias aparece hoje como figura de Jesus, um justo perseguido por sua condição de profeta valente, que da parte de Deus anuncia e denuncia um povo que não quer ouvir sua palavra.

A imagem do “cordeiro” nos sugere a inocência dessa pequena vitima que não merece ser sacrificada. Essa imagem nos sugere a liturgia do Cordeiro pascal cujo sacrifício é útil para o povo inteiro.

Jeremias aparece hoje como figura de Jesus, um Justo perseguido por sua condição de profeta valente, que da parte de Deus anuncia e denuncia um povo que não quer ouvir a Palavra de Deus. Jesus é sinal de contradição (Cf. Lc 2,34): uns O aceitam, outros O recusam. Nestes dias para nós cristãos a figura mais impressionante é a de Jesus que caminha com decisão, ainda que com sofrimento, para o sacrifício da cruz. Jesus é perseguido, condenado a morte por aqueles que se escandalizam de sua mensagem. Será também “como manso cordeiro levado ao sacrifício”. Confia em Deus, o profeta Jeremias pede: “Eu te confiei a minha causa”. Jesus na Cruz grita: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espirito” (Lc 23,46). Mas Jesus mostra uma fortaleza e um estilo diferente. Jeremias pediu a Deus para vingar-se de seus inimigos. Jesus morre pedindo a Deus que perdoe seus executores (cf. Lc 23,34).

No profeta Jeremias descobrimos: consciência de sua situação, assunção de sua responsabilidade e missão, confiança no Senhor a Quem se deve totalmente, convicção de que ao final resplandecerá a luz da verdade apesar de qualquer tipo de dor no cumprimento da missão. Este é um bom caminho a seguir.

Quem É Jesus a Quem Sigo?

Ao ouvirem as palavras de Jesus, algumas pessoas diziam: ‘Este é, verdadeiramente, o Profeta’. Outros diziam: ‘Ele é o Messias’”.

No evangelho de hoje lemos como a pessoa de Jesus e sua maneira de viver provocam discussões e posturas diversas. A vida dos homens se decide de acordo com sua atitude vivencial com Jesus.

Uns dizem que é o Messias, outros dizem que é o profeta. Jesus é o sinal de contradição no mundo: divide os homens com Sua simples presença entre os homens (cf. Lc 2,34-35). Jesus continua sendo um mistério para seus contemporâneos. Porém suas obras pelo bem da humanidade ninguém pode negar. Jesus vive somente em função do bem e é perseguido e morto pelo bem que fez (cf. At 10,37-41).

Os escribas e os fariseus eram a mais alta autoridade doutrinal, os melhores especialistas em discussões sobre a Sagrada Escritura. Segundo eles, em Jesus não se cumprem todas as condições necessárias. Por isso, Ele não é o Messias, apesar das evidências. Segundo eles o Messias não vem da Galileia e sim de Belém (Jo 7,52).  Mas os fatos não negam, mesmo que alguém tente argumentar. Os fatos falam por si.

O pior cego é aquele que não reconhece a própria cegueira a fim de poder pedir a ajuda. Daí nós concluímos que a condição essencial para conhecer a Deus é a humildade. Há que saber renunciar aos nossos próprios pontos de vista, deixar-nos conduzir pela luz da sabedoria divina. A crença bíblica não basta para descobrir verdadeiramente quem é Deus em Jesus Cristo. A vida e seus acontecimentos são outra “sagrada Escritura” que Deus nos deixou para que leiamos cada dia uma página para saber o recado de Deus para nós e sobre nós. O conhecimento de Deus não é questão de intelectualidade. O Espírito é que nos sensibiliza para nos abrirmos à verdade de Deus, ao seu amor, à vida nova que Ele quer nos comunicar, à luz com que Ele quer iluminar nossa escuridão.

Nicodemos, o fariseu notável que pertencia ao círculo dos membros do Sinédrio (Sinédrio ou Sanhedrin era uma assembleia de juízes judeus que constituía a corte e legislativo supremos da antiga Isarael) e que havia visitado Jesus de noite (Jo 3,1-21), mostra sua preocupação pela justiça: “Será que a nossa Lei julga alguém, antes de ouvi-lo e saber o que ele fez?. Ele pensa que a Lei deve ser usada como instrumento de justiça. No entanto, ele é reprovado pelos colegas ao chamá-lo de “galileu” (chamar alguém de “galileu” na época era um palavrão): “Também tu és galileu, porventura? Vai estudar e verás que da Galileia não surge profeta”. No lugar de responder Nicodemos, eles o insultam, tratando-o como um ignorante. Para eles, segundo a Lei na qual eles se apoiam e não em Deus, profetas jamais sairiam da Galileia, enquanto que Deus sopra para onde quer e através de qualquer pessoa e em qualquer lugar. Basta cada um ficar atento para captar a passagem de Deus em cada momento na vida de qualquer homem.

Será que a nossa Lei julga alguém, antes de ouvi-lo e saber o que ele fez?”. Esta frase nos convida a refletirmos profundamente sobre nosso comportamento ou nosso julgamento em relação aos outros.  Jamais podemos falar além daquilo que vemos e daquilo que sabemos, pois cairemos na invenção dos fatos e no julgamento sem fundamento e faremos aquele que julgamos sofrer injustamente. Não podemos julgar qualquer pessoa apressadamente. É preciso sabermos ouvir e conhecermos a pessoa e suas obras. Não podemos nos deixar guiar por nossos motivos egoístas e interesseiros. Lembremo-nos de que a palavra é poderosa e por isso é perigosa. Uma vez pronunciada, a palavra não tem volta. Se feriu, a ferida fica. Se curou, a pessoa fica livre de sua prisão. Não podemos falar o que pensamos, mas temos que pensar bastante sobre tudo que vamos falar. O silêncio dá conteúdo para nossas palavras. Temos que silenciar nossa boca, para o intelecto ter vez em escolher palavras certas para momentos certos a fim de não ferir gratuitamente as pessoas.

Os escribas e os fariseus se sentem seguros na Lei a ponto de chamar “maldito” quem não conhece a Lei. Em nome desta Lei, eles vão crucificar e matar Jesus Cristo. Nas mãos dos escribas e dos fariseus a Lei não é um instrumento de justiça e sim de vingança. Eles confundem o conhecimento da Lei com o conhecimento de Deus. Para eles, os que estão fora da Lei são considerados desviados, malditos. Mas na verdade, os próprios fariseus e os escribas estão fora do conhecimento de Deus. Conhecer Jesus consiste em se preocupar com o bem do homem e sua salvação. Quem não se preocupa com o bem do homem e com a sua salvação, ele se separa de Deus, o Pai, que quer a vida para todos os homens, seus filhos.

Os simples têm, ao contrário, facilidade de captar a mensagem de Jesus e de considerar Jesus como Messias ou Profeta: “Este é, verdadeiramente, o Profeta. Ele é o Messias”. Jesus dirá mais tarde: “Minhas ovelhas escutam minha voz”. Escutar” e “crer” são quase sinônimos no evangelho de João.

A condição essencial para conhecer Deus é a humildade e a simplicidade. A simplicidade é a condição fundamental para conhecer o projeto de Jesus sobre o homem. Há que saber desprender-se de si mesmo, renunciar a seus próprios pontos de vista, de suas “regrinhas” (como os escribas e os fariseus presos na própria Lei que acabam não conhecendo o verdadeiro Deus) e deixar-se conduzir pelo Espírito divino.

Encontrar o sentido da vida é independente da idade, do sexo, da capacidade intelectual e do grau de instrução da pessoa, pois a vida é simples. Nós é que não sabemos nos comportar diante desse dom de Deus. Em Jesus encontramos o sentido, pois Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida. Por causa de Jesus milhares de homens mudaram de vida, abandonaram seus hábitos negativos. Por causa dele muitos dedicam sua vida para o bem do próximo. O modo de viver de Jesus em se preocupar com os pequenos, com os necessitados, com os excluídos, com os abandonados fascinam qualquer pessoa. Ele trabalha sem esperar nada de recompensa. Ele quer ver todo mundo na sua dignidade como um ser humano e acima de tudo, como filho e filha de Deus.

Deus permanece escondido atrás das aparências humanas. Cada um tem que descobrir esse Deus diariamente. Se dizes ‘já basta’, tu estás perdido; aumenta sempre, progride sempre, avança sempre, não te pares no caminho, não voltas para trás, não te desvies!” dizia Santo Agostinho.

Vale a pena cada um se perguntar: “Quem é Jesus para mim? O que significa ele na minha vida? Será que seus ensinamentos provocam uma profunda reflexão para mim? Será que ele ocupa o centro de minha vida? Será que escuto a voz de Jesus como meu pastor?” Eu me preocupo com a regra ou com o bem do homem e sua salvação? Será que eu uso também as regras para dominar os demais ou eu uso a caridade? Temos que caminhar com Jesus Cristo e fazer nossa sua salvação. Será que posso dizer que sou também uma vítima inocente no ambiente em que vivo? Eu me mantenho justo apesar das perseguições? Eu continuo praticando o bem apesar do ódio daqueles cujo negócio é afetado?

Percebemos das leituras de hoje que até para fazer o bem encontramos dificuldades, inclusive a violência da parte daqueles que defendem seus próprios interesses mesmo que sejam errados eticamente. Mas todo homem que sofre inocentemente e injustamente é uma imagem de Cristo sofredor. Todo sofrimento fruto da colaboração para salvar o mundo, para edificar a humanidade, para defender os sem voz e sem vez é o sofrimento do próprio Cristo. Todos esses sofredores estão no coração de Deus: “A vida dos justos está nas mãos de Deus, nenhum tormento os atingirá... Os que confiam em Deus compreenderão a verdade e os que são fieis permanecerão junto a ele no amor, pois graça e misericórdia são para seus santos e sua visita é para seus eleitos” (Sb 3,1.9). Será que estamos no coração de Deus?

P. Vitus Gustama,svd

20/03/2026- Sexta-feira Da IV Semana Da Quaresma

A VIDA DO JUSTO ESTÁ NAS MÃOS DE DEUS QUE TEM A ÚLTIMA PALAVRA SOBRE O HOMEM

Sexta-Feira da IV Semana da Quaresma

I Leitura: Sb 2,1. 12-22

1ª Dizem entre si os ímpios, em seus falsos raciocínios: 12 “Armemos ciladas ao justo, porque sua presença nos incomoda: ele se opõe ao nosso modo de agir, repreende em nós as transgressões da lei e nos reprova as faltas contra a nossa disciplina. 13 Ele declara possuir o conhecimento de Deus e chama-se ‘filho de Deus’. 14 Tornou-se uma censura aos nossos pensamentos e só o vê-lo nos é insuportável; 15 sua vida é muito diferente da dos outros, e seus caminhos são imutáveis. 16Somos comparados por ele à moeda falsa e foge de nossos caminhos como de impurezas; proclama feliz a sorte final dos justos e gloria-se de ter a Deus por pai. 17 Vejamos, pois, se é verdade o que ele diz, e comprovaremos o que vai acontecer com ele. 18 Se, de fato, o justo é ‘filho de Deus’, Deus o defenderá e o livrará das mãos dos seus inimigos. 19 Vamos pô-lo à prova com ofensas e torturas, para ver a sua serenidade e provar a sua paciência; 20 vamos condená-lo à morte vergonhosa, porque, de acordo com suas palavras, virá alguém em seu socorro”. 21 Tais são os pensamentos dos ímpios, mas enganam-se; pois a malícia os torna cegos, 22 não conhecem os segredos de Deus, não esperam recompensa para a santidade e não dão valor ao prêmio reservado às vidas puras.

Evangelho: Jo 7,1-2.10.25-30    

Naquele tempo, 1Jesus andava percorrendo a Galileia. Evitava andar pela Judeia, porque os judeus procuravam matá-lo. 2Entretanto, aproximava-se a festa judaica das Tendas. 10Quando seus irmãos já tinham subido, então também ele subiu para a festa, não publicamente mas sim como que às escondidas. 25Alguns habitantes de Jerusalém disseram então: “Não é este a quem procuram matar? 26Eis que fala em público e nada lhe dizem. Será que, na verdade, as autoridades reconheceram que ele é o Messias? 27Mas este, nós sabemos donde é. O Cristo, quando vier, ninguém saberá donde ele é”. 28Em alta voz, Jesus ensinava no Templo, dizendo: “Vós me conheceis e sabeis de onde sou; eu não vim por mim mesmo, mas o que me enviou é fidedigno. A esse, não o conheceis, 29mas eu o conheço, porque venho da parte dele, e ele foi quem me enviou”. 30Então, queriam prendê-lo, mas ninguém pôs a mão nele, porque ainda não tinha chegado a sua hora.

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O texto da Primeira Leitura é um fragmento de Sb 2,1-22.  Por isso, seu melhor contexto seria a leitura da unidade a que pertence (Sb 2,1-22). É o discurso sobre os ímpios ou malvados.

Na Primeira Leitura, o autor do livro de Sabedoria nos apresenta uma questão sobre como as forças do mal, encarnadas nos ímpios, querem sufocar a força de Deus que se manifesta na vida dos justos. A presença do(s) justo justo(s) é, para os ímpios ou maus, uma contínua censura de que pretendem livrar-se. E a norma de conduta dos ímpios ou dos maus é a lei do mais forte. Ímpio” é aquele que não respeita os valores comumente admitidos, ou, é aquele que revela impiedade, ou aquele que tem desprezo pela religião. Os ímpios, com seus atos, geram a morte. Sua visão materialista da vida os incapacita a valorizarem o que ultrapassa a razão.Malícia é aptidão ou inclinação para fazer o mal; má índole; malignidade, maldade; ou habilidade para enganar, despistar. Todo ímpio tem malicia. Os ímpios se deixam levar por uma existência sem sentido. Eles vivem somente em função dos prazeres, pois para eles nãooutra vida além desta vida. Eles detestam a censura permanente que a vida do justo constitui para sua vida depravada. Quem vive somente em função dos prazeres é porque não tem prazer de viver. A vaidade torna qualquer um cego.

Esta passagem do AT (Primeira Leitura) parece uma análise, de antemão, do que acontecerá durante a Paixão. "Se ele é o Filho de Deus...", assim lemos na Primeira Leitura. Ao pé da cruz se repetirão estas palavras: "Se tu és o Filho de Deus...".

E estas palavras continuamente ressoam em nós: "Se eu sou justo..., bom..., honesto e honrado... por que Deus permite isso?

Aproximando-se a Semana Santa, seria conveniente que nos dedicássemos mais à contemplação do Cristo sofredor. À medida que a Semana Santa se aproxima, seria conveniente se eu tentasse entrar mais na contemplação do Cristo sofredor: o que ele sofreu, Aquele que tudo previu, Aquele que sentiu a cerca apertar, quinze dias antes de sua morte.

Viver Como Justo É Estar Com Deus Da Vida Eternamente

Dizem entre si os ímpios, em seus falsos raciocínios: ‘Armemos ciladas ao justo, porque sua presença nos incomoda: ele se opõe ao nosso modo de agir, repreende em nós as transgressões da lei e nos reprova as faltas contra a nossa disciplina. Ele declara possuir o conhecimento de Deus e chama-se ‘filho de Deus’. Tornou-se uma censura aos nossos pensamentos e só o vê-lo nos é insuportável; sua vida é muito diferente da dos outros, e seus caminhos são imutáveis. Somos comparados por ele à moeda falsa e foge de nossos caminhos como de impurezas; proclama feliz a sorte final dos justos e gloria-se de ter a Deus por pai. Assim lemos alguns versículos da Primeira Leitura tirada do Livro de Sabedoria.

Na primeira leitura de hoje, o autor do livro de Sabedoria nos apresenta como as forças do mal, encarnadas nos ímpios, querem afogar a força de Deus que se manifesta na vida dos justos. É o conflito de sempre, que atravessa o coração do homem. Este fragmento do livro de Sabedoria é dirigido diretamente aos judeus fiéis de Alexandria que são perseguidos e desprezados pelos judeus renegados e pelos pagãos. A Igreja vê neste texto um anúncio da paixão de Cristo, o homem bom e justo por excelência.

Esta passagem do livro de Sabedoria parece uma análise antecipada do que acontecerá durante a Paixão. À medida que a Semana Santa se aproxima, seria conveniente dedicar-nos mais à contemplação do Cristo sofredor: o que ele sofreu ao ver o cerco vai se apertando antes de sua morte. É uma experiência de estar cercada pelo ódio, de ser encurralada pelo desejo profundo de matar Jesus, da parte dos seus inimigos.

O autor do livro de Sabedoria nos apresenta neste fragmento (Sb 2,1-20) um dos mais belos de todo o livro por seu estilo e vigor, os sentimentos dos ímpios a respeito da vida presente (Sb 2,1-5), sua atitude diante dos prazeres da vida (Sb 2,6-9) e sua conduta frente o justo (Sb 2,10-20). Os ímpios aos quais o autor refere aqui poderiam ser também judeus apóstatas que influenciados pelo ateísmo e materialismo abandonaram a Lei e as tradições patrísticas.

A vida é curta assim começam a dizer os ímpios. Esta frase repetimos também para nós mesmos e para os outros. As primeiras palavras de um verso de Horácio (Odes, Livro I 11,8) diz: “Carpe diem quam minimum credula postera”, “Aproveita o dia (de hoje), confiada o menos possível no de amanhã”. No Evangelho conhecemos um grupo que vive desta maneira: os saduceus. Os saduceus não acreditam na ressurreição. Para eles a vida termina aqui. Consequentemente, eles vivem em função do puro prazer e vivem sem moral. Para os saduceus, a religião só vale dentro do templo. Fora dele cada um pode fazer o que quiser.

Dada a brevidade da vida e o vazio que existe no pensamento dos ímpios pela certeza da morte, não há outra conclusão lógica do que desfrutar dos prazeres da vida presente até o máximo possível: “Aproveitemo-nos das boas coisas que existem! Vivamente gozemos das criaturas durante nossa juventude! Inebriemo-nos de vinhos preciosos e de perfumes, e não deixemos passar a flor da primavera!” (Sb 2,6-7). São Paulo vê nesta conclusão como uma negação da ressurreição dos mortos (cf. 1Cor 15,32). A juventude é o tempo mais propício para gozar da vida com toda intensidade. O vinho de que se fala simboliza os prazeres da mesa. Os perfumes podem referir-se ao costume oriental de misturá-lo com o vinho ou para perfumar o corpo que os orientais introduzem nos judeus.

O autor do Livro dos Provérbios afirma que “as entranhas dos malvados são cruéis” (Pr 12,10). Com efeito eles são cruéis e desumanos com os justos, pois a presença dos justos é uma censura para a leviandade dos ímpios: “Armemos ciladas ao justo, porque sua presença nos incomoda: ele se opõe ao nosso modo de agir, repreende em nós as transgressões da lei e nos reprova as faltas contra a nossa disciplina”, lemos na Primeira Leitura de hoje.

Os grandes libertinos são frequentemente os mais cruéis perseguidores. As primeiras vítimas da crueldade dos libertinos, dos ímpios são os débeis, os justos, as viúvas, os anciãos que não podem sair em defesa própria por falta de recursos materiais e humanos. A impiedade, a libertinagem e o materialismo matam os sentimentos de compaixão, de solidariedade e de caridade que todo coração nobre tem e sente. Quando estes sentimentos faltarem, a única lei que vai funcionar é a lei da força. E o débil fica sem direito a viver e parece destinado a perecer sob a opressão dos tiranos, dos libertinos. A impiedade do coração e a entrega aos prazeres materiais nublam a inteligência e lhe impede de ver a luz das verdades ultra terrenas ou sobrenaturais. Assim os ímpios não descobriram os misteriosos desígnios de Deus.

Mas os justos se gloriam de possuir o verdadeiro conhecimento de Deus e ser membros do povo eleito. A consciência e o profundo convencimento que têm desta realidade é o que mantém os justos firmes em sua fé ainda que estejam cercados pelas dificuldades, pois a esperança dos justos está em Deus que tem palavra final para a vida humana.

Chama a atenção o parecido de Sb 2,10-20 com o Sl 22 e o poema do Servo de Javé (cf. Is 42,1-9; 49,1-13; 50,4-9; 52,13-53,12) e a semelhança de atitude dos ímpios a respeito dos justos que aqui se refere (alusão) à conduta de Cristo observada por parte de seus inimigos. Um bom número dos Padres da Igreja (São Hipólito, Orígenes, Santo Atanásio, São Cipriano, Santo Ambrósio, São Cirilo, Santo Agostinho) interpretou a perícope em sentido literal do Messias, vendo no justo que sofre uma profecia da Paixão de Cristo. Cremos que, em sentido literal histórico, o autor sagrado se refere aos israelitas justos que sofreram perseguições por parte dos pagãos e dos judeus apóstatas. Mas tendo em conta que o Espírito Santo é o Autor principal da Sagrada Escritura, não é difícil descobrir um sentido típico em relação ao Messias, pois o que o Livro da Sabedoria diz dos israelitas justos se verifica e de maneira eminente em Jesus Cristo. Jesus Cristo é o Justo por antonomásia (perífrase).

Em outras palavras, esse justo é um personagem típico, que pode representar grupos e indivíduos: o povo de Israel entre os pagãos, os israelitas fieis entre seus patriotas apóstatas, os justos perseguidos que rezam nos Salmos. Acima de tudo, ele representa Jesus, o Filho de Deus, o Inocente que, julgado, julga; condenado, é reivindicado; pela morte, alcança o perdão; e pela ressurreição, dá a vida.

Somos Chamados a Ser Justos Como Jesus

Jesus subiu a Jerusalém para a festa dos Tabernáculos (Sucot ou Sukkot). É a festa judaica de maior concorrência, que celebrava o final da colheita e preparava a próxima sementeira. As solenidades no templo se prolongavam durante oito dias: “Quando seus irmãos já tinham subido, então também ele subiu para a festa, não publicamente, mas sim como que às escondidas(Jo 7,10). Por si mesmo, Jesus não busca conflitos. Mas o conflito sempre vem porque Jesus permanece fiel à missão recebida do Pai para devolver a dignidade do homem e para salvá-lo. Mesmo assim, Ele é cercado de ódio dos adversários. Trata-se de o ódio mortal.

O texto do Livro de Sabedoria lido neste dia nos apresenta como as forças do mal, encarnadas nos ímpios, querem e tentam sufocar a força de Deus que se manifesta ou que se encarna na vida dos justos, neste caso na vida de Jesus. Como foi dito, “Ímpio” é aquele que não respeita os valores comumente admitidos ou é aquele que revela impiedade, ou aquele que tem desprezo pela religião. Os ímpios, com seus atos, geram a morte. Sua visão materialista da vida os incapacita a valorizarem o que ultrapassa a razão: “... a malícia os torna cegos, não conhecem segredos de Deus, não esperam recompensa para a santidade e não dão valor ao prêmio reservado às vidas puras(Sb 2,21-22). 

Malícia” é aptidão ou inclinação para fazer o mal; má índole; malignidade, maldade; ou habilidade para enganar, despistar. Todo ímpio tem malicia. Os ímpios se deixam levar por uma existência sem sentido. Eles vivem somente em função dos prazeres, pois para eles não há outra vida além desta vida. Eles detestam a censura permanente que a vida do justo constitui para sua vida depravada. Quem vive somente em função dos prazeres é porque não tem prazer de viver. A vaidade torna qualquer um cego.                 

O justo, ao contrário, se gloria de ter Deus como Pai, e Deus como Pai não faz mal a ninguém, somente faz o bem. O justo tem uma escala de valores e por isso, constitui uma acusação contra as convicções mundanas dos ímpios. Por ser uma censura viva para seu modo de viver, o justo é eliminado pelos ímpios. Mas “a vida dos justos está nas mãos de Deus e nenhum tormento os atingirá(Sb 3,1).                 

Para que o mundo não se torne surdo, Deus precisa permanentemente dos justos, dos honestos, dos verdadeiros, dos coerentes e assim por diante. Jesus Cristo é o Justo por excelência, e é o protótipo do justo, pois seu alimento é fazer a vontade de Deus: “Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e consumar a sua obra” (Jo 4,34). Por Jesus ser justo em tudo, os seus adversários querem silenciá-lo para sempre, pois Sua presença incomoda (cf. Sb 2,12). Todas as acusações dos adversários contra Jesus nascem do ódio e da raiva mórbida. 

No evangelho de João a ameaça sobre a morte de Jesus é constante. Apesar disso, Em alta voz, Jesus ensinava no Templo, dizendo: ‘Vós me conheceis e sabeis de onde sou; eu não vim por mim mesmo, mas o que me enviou é fidedigno. A esse, não o conheceis, mas eu o conheço, porque venho da parte dele, e ele foi quem me enviou’”. (Jo 7,28-29). Jesus grita sem medo (cf. Jo 7,37; 12,44). É um grito que ressoa ainda hoje. O grito de Jesus relembra o da sabedoria (Pr 1,20-22). Os inimigos de Jesus pensam conhecer Jesus, mas somente pela metade, pois conhecem apenas sua origem humana: nazareno, porém ignoram a sua origem divina. A origem de Sua Pessoa é a mesma do seu ensinamento: o próprio Deus (cf. Jo 7,17ss). Jesus conhece a Deus porque procede d´Ele (Jo 1,18.32; 3,31) e este é o fundamento de sua missão e atividade. Nisto o evangelista João nos mostra a experiência de união com o Pai, a experiência de vida (cf. Jo 6,57) própria do Filho (Jo 3,34) Não se pode saber e conhecer quem seja Deus como Pai sem ser filho (cf. Jo 17,3). Nesta filiação profunda se enraíza o saber de Jesus. Ele aprendeu tudo do Pai (cf. Jo 5,19s). Por isso, somente Jesus pode falar com autoridade sobre Deus. 

São João, em seu Evangelho, nos diz que para crer em Jesus devemos crer em suas obras, mas sobretudo em sua pessoa. Apesar de conhecermos sua origem terrena, somos chamados a ir além e crer nele como Aquele que foi enviado pelo Pai, o único que verdadeiramente O conhece. Se Jesus possui uma ciência que penetra o coração humano mais profundamente do que a dos escribas, é porque ele substituiu o conhecimento técnico das Escrituras pelo conhecimento direto do Pai. Para Cristo, a Palavra de Deus, não é primordialmente aquilo que está contido nas Escrituras, mas sim aquilo que Ele ouve diretamente do Pai em sua vida. A conhecimento que os judeus têm de Jesus os impede de aprofundar seu conhecimento sobre ele e de descobri-lo como o enviado do Pai. 

O conhecimento que temos de Deus, se o fixarmos para sempre e nos contentarmos com ele, será sempre o maior obstáculo à nossa contínua descoberta d´Ele. É precisamente isso que o autor do Livro de Jó quer incutir no leitor: que existe uma noção de Deus mais elevada do que a dos sábios, e que é uma presunção lamentável querer sempre conhecer os caminhos de Deus. 

À medida que ficamos próximos da Semana Santa será importante que dediquemos mais tempo para contemplar o Cristo que sofre por nossa causa: Ele está cercado de morte, fruto de um ódio fatal de seus adversários. Trata-se de uma experiência de estar rodeado e encurralado de ódio. É sempre ter gente que está contra e busca nos prejudicar ou acabar com nossa vida por vivermos uma vida digna, honesta e justa, como acabaram com a vida terrestre de Jesus. Ao pé da cruz alguém vai fazer a gozação contra Jesus: “Se tu és Filho de Deus...!”. Estas palavras continuam ressonando: “Se tu és justo, bom, religioso, frequentador da Igreja e tens vida honesta e correta, por que Deus permite as coisas ruins na tua vida?”. Jesus enfrenta tudo na serenidade porque Ele se sabe amado por Deus apesar do sofrimento. No mesmo momento em que é odiado, acusado, isolado, Jesus se sabe amado. Jesus é um homem cheio de paz ainda que esteja rodeado de homens rancorosos, porque vive sua relação profunda com o Pai.                 

Não sejamos os justos cansados por causa do mal que é, aparentemente, onipresente e onipotente. O mal e a maldade não têm futuro. Jesus Cristo veio manifestar o amor de Deus que nos espera como um Pai amoroso para nos receber nas moradas eternas depois de termos caminhado por esta vida fazendo o bem a todos. Para os justos, a exemplo de Jesus, a morte não tem a última palavra e sim a vida. A vida dos justos está nas mãos de Deus. Nossa passagem por este mundo nos conduzirá para a possessão dos bens eternos na medida em que abandonarmos nossos egoísmos e amarmos com lealdade nosso próximo na mesma forma que Deus nos ama (cf. Jo 15,12). Deus está sempre próximo daqueles que sabem amar e vivem fieis.

A Palavra de Deus foi e é proclamada sobre nós para que ela se converta em nossa salvação. E ao entrar em comunhão de vida com Jesus na Eucaristia é porque queremos entregar todo nosso ser para o bem, para a salvação de todos. O mal não tem futuro algum. Acaba destruindo-se a si mesmo. É essa a profunda convicção de Jesus. Por isso, ele não pede ao Pai nenhum poder destruidor; não pede legiões de anjos que o protejam. Tampouco o crucificado devolve o mal pelo mal, nem insulto por insulto, nem profere ameaças (1Pd 2,23). Um poder desarmado e vulnerável pode ser também um poder que desarma. O poder de Deus é o poder do amor que se encarna na vida de Jesus. É esse poder do amor o que lhe permite exclamar: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34), pois ele sabe que o mal não tem futuro, somente o bem. 

Jesus nos ensina que temos que nos apegar a Deus para manter nossa paz e serenidade apesar da realidade dura que nos cerca, e não ao caminho que temos para ir até Ele. Não podemos nos escravizar a uma maneira como a única maneira para chegar até Deus, pois nos colocaremos como superiores e fiscalizadores dos outros. Temos que estar abertos para qualquer forma que Deus queira para se apresentar ou para se revelar. Deus sempre quer nos surpreender em todos os momentos. “Se dizes ‘já basta’, estás perdido. Aumenta sempre, progride sempre, avança sempre, não pares no caminho, não voltas atrás, não te desvies”, dizia Santo Agostinho.

P. Vitus Gustama,svd

segunda-feira, 16 de março de 2026

Solenidade De São José, Esposo Da Bem-Aventurada Virgem Maria, 19 de Março

SÃO JOSÉ, ESPOSO DA BEM-AVENTURADA VIRGEM MARIA,

PADROEIRO DA IGREJA UNIVERSAL

Primeira Leitura: 2Sm 7,4-5a.12-14a.16

Naqueles dias, 4a Palavra do Senhor foi dirigida a Natã nestes termos: 5a“Vai dizer ao meu servo Davi: ‘Assim fala o Senhor: 12 Quando chegar o fim dos teus dias e repousares com teus pais, então, suscitarei, depois de ti, um filho teu, e confirmarei a sua realeza. 13 Será ele que construirá uma casa para o meu nome, e eu firmarei para sempre o seu trono real. 14ª Eu serei para ele um pai e ele será para mim um filho. 16 Tua casa e teu reino serão estáveis para sempre diante de mim, e teu trono será firme para sempre’”.

Segunda Leitura: Rm 4,13.16-18.22

Irmãos, 13 não foi por causa da Lei, mas por causa da justiça que vem da fé que Deus prometeu o mundo como herança a Abraão ou à sua descendência. 16 É em virtude da fé que alguém se torna herdeiro. Logo, a condição de herdeiro é uma graça, um dom gratuito, e a promessa de Deus continua valendo para toda a descendência de Abraão, tanto para a descendência que se apega à Lei, quanto para a que se apoia somente na fé de Abra­ão, que é o pai de todos nós. 17 Pois está escrito: “Eu fiz de ti pai de muitos povos”. Ele é pai diante de Deus, porque creu em Deus que vivifica os mortos e faz existir o que antes não existia. 18 Contra toda a humana esperança, ele firmou-se na esperança e na fé. Assim, tornou-se pai de muitos povos, conforme lhe fora dito: “Assim será a tua prosperidade”. 22 Esta sua atitude de fé lhe foi creditada como justiça.

Evangelho: Mt 1,16.18-21.24a

16 Jacó gerou José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que é chamado o Cristo. 18 A origem de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, estava prometida em casamento a José, e, antes de viverem juntos, ela ficou grávida pela ação do Espírito Santo. 19 José, seu marido, era justo e, não querendo denunciá-la, resolveu abandonar Maria em segredo. 20 Enquanto José pensava nisso, eis que o anjo do Senhor apareceu-lhe, em sonho, e lhe disse: “José, Filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque ela concebeu pela ação do Espírito Santo. 21 Ela dará à luz um filho, e tu lhe darás o nome de Jesus, pois ele vai salvar o seu povo dos seus pecados”. 24ª Quando acordou, José fez conforme o anjo do Senhor havia mandado.

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José É Um Homem Que Sabe Escutar Deus e Ler Os Sinais De Deus

Sabe-se muito pouco da vida de José, esposo de Maria. Mas inquestionavelmente, ele pertence à “casa e família de Davi” (Lc 2,4), à linhagem do Messias (2Sm 7,12.16).  O silêncio de José fala de sua profunda interioridade e de sua intimidade com o mistério, e como consequência, de sua sabedoria de discernir os sinais dos tempos e acaba sendo colaborador de Deus na obra da redenção da humanidade. Neste espaço silencioso criado por José, Deus tem oportunidade para falar com ele. José fala pouco, mas escuta muito. Nisto consiste a compreensão do mistério, embora, intelectualmente, José não entenda. O silêncio de José nos mostra que ele está atento às manifestações ou sinais de Deus no seu cotidiano, pois precisamente Deus fala no nosso cotidiano e através do nosso dia-a-dia.  José é alguém que sabe escutar a voz que vem do profundo do seu ser e a voz que vem do mistério. O silêncio de José é reflexão. Diante do mistério da Encarnação de Deus, José se cala. O seu silêncio permite a presença da eternidade, permite que o Céu fale para ele. Por isso é que ele reconhece naquele Menino Jesus o Salvador do mundo.

A partir de então, José não é apenas esposo de Maria, mas o servo do Senhor que está pronto para exercer ou executar o que o Senhor lhe manda. Precisamente, a grandeza de José está em discernir sua missão a partir de uma profunda consciência de ser servo do Senhor e de ser pai adotivo para o menino Jesus, pois Jesus é o Filho de Deus.

Creio que não estamos habituados a refletir e sim a reagir. Por isso, em muitas coisas somos muito precipitados e acabamos cometendo muitos erros. A precipitação nos abre espaço para cairmos com facilidade de um erro atrás de outros erros. São José vem nos ensinar que precisamos escutar mais para compreender melhor, e falar menos.

A Primeira Leitura nos fala, com acentos históricos e teológicos, da descendência de Davi, que reinará para sempre. Seguramente, a profecia de Natan alude a Salomão, filho de Davi, e construtor do Templo. No entanto, as palavras “confirmarei/consolidarei a sua realeza/reino” (2Sm 7,12) indicam uma larga descendência sobre o trono de Judá. Esta descendência teve um final histórico e por isso, o oráculo é interpretado com força profética, e alude ao Messias, descendente de Davi. A tradição cristã releu sempre este fragmento como profético e messiânico, aplicando-o a Jesus, Messias descendente de Davi e de modo indireto, também a José, o último nome da genealogia davídica e transmissor histórico da promessa divina feita a Israel.

José: Um Homem Justo

“José, seu marido, era justo...”

O justo, biblicamente, significa aquele que é fiel aos mandamentos de Deus; aquele que tem fé nos anúncios dos profetas e espera com paciência seu cumprimento, pois Deus é fiel às suas promessas. Nada desvia José do caminho traçado por Deus. Embora passe por situações bastante dolorosas, José continua sendo firme como a rocha e sempre conta com a ajuda de Deus. É justo o homem que olha para Deus e ordena a sua vida segundo os ditames da vontade divina. É justo o homem que cumpre a Lei divina de todo coração e com sincera alegria e leveza. O justo é o homem sábio e bondoso. O justo é, portanto, uma figura ideal do homem agradável a Deus e aos homens de boa vontade. Será que estou dentro deste critério?

José: Um Homem Que É Chamado A Entrar No “Sonho” De Deus         

“Sonho” é um estado no qual a nossa atividade pessoal se detém ou pelo menos, está fortemente diminuída. No sonho não temos mais controle sobre a nossa vida e atividade. É um estado de profunda tranquilidade, de profunda serenidade, ou podemos dizer, de profundo êxtase. Certamente, quando nos calarmos, Deus começará a falar para nós (cf.1Rs 19,1-18). Enquanto não ficarmos calados, Deus não terá chance para falar conosco e de nós. Deus pode muito mais facilmente irromper na nossa vida, quando soubermos nos calar.          

José sabe criar o silêncio dentro de si para escutar melhor o que Deus quer dele numa situação complicada humanamente. Se dependesse de sua vontade, José abandonaria Maria e o Salvador no ventre de Maria: “José, seu marido, era justo e, não querendo denunciá-la, resolveu abandonar Maria em segredo”. Mas José acredita muito mais na vontade de Deus do que na sua própria vontade. Por causa da sua fidelidade à vontade de Deus, ele deixa de lado os planos de raciocínios meramente humanos. José deixa de se preocupar consigo próprio para seguir a vontade de Deus. Ele cria um espaço interior para ouvir a voz de Deus. Ele deixa ser convidado a entrar no “sonho” de Deus. O “sonho” de Deus é salvar a humanidade, mas com a participação do próprio ser humano.

"Mediante o sacrifício total de si próprio, José exprime o seu amor generoso para com a Mãe de Deus, fazendo-lhe ‘dom esponsal de si’. Muito embora decidido a afastar-se, para não ser obstáculo ao plano de Deus que nela estava a realizar-se, por ordem expressa do anjo ele manteve-a consigo e respeitou a sua condição de pertencer exclusivamente a Deus(João Paulo II: REDEMPTORIS CUSTOS no. 20b).

É tocante a docilidade de José diante da vontade de Deus que ele nem pede nenhuma explicação de Deus, como Maria (Lc 1,34), nem diz uma única palavra. Simplesmente ele faz seus os desígnios de Deus. Por isso, na perspectiva de sua fé que o anima, a estrutura humana de José se torna gigantesca. Ele é realmente um homem-sinal e homem-missão que se expressa no respeito pelo mistério de Deus operado em Maria e na vocação de ser o pai legal de Jesus.

Da mesma forma, somos todos convidados, a exemplo de José, a participar no “sonho” de Deus. É bom sonharmos com Deus para que todos sejam salvos.

José E Maria, Duas Pessoas Totalmente Dominadas Pela Luz De Deus e Obedientes à vontade de Deus

Não dá para falar de São José sem falar de Maria. Porque a existência de Maria ilumina a existência de José. E os dois são pessoas totalmente dominadas pela luz divina e obedientes à Palavra de Deus. Por isso, são José é chamado de o homem justo, isto é, aquele que vive totalmente de acordo com os mandamentos de Deus; é aquele se deixa guiar pela luz da Palavra de Deus.

Maria, mesmo antes de se casar com José, é uma jovem totalmente dominada pela graça de Deus. Por estar totalmente plenificada pela luz da graça de Deus, o Anjo do Senhor a chama de “cheia de graça”. Trata-se de uma jovem que se deixa conduzir totalmente pela graça de Deus.

Não é por acaso que, pela benevolência de Deus, o ventre da jovem Maria se torna o ninho do Salvador. E só pode ser José, o homem justo pode se tornar pai adotivo de Jesus. Somente dentro de uma família em que Maria como esposa cheia da graça e José, como esposo justo que vive de acordo com os mandamentos do Senhor é que o menino Jesus cresce em sabedoria e a graça diante dos homens e diante de Deus (cf. Lc 2,52).

Se quisermos encontrar uma jovem exemplar para ser espelhada pela juventude na preparação para formar uma família ou para seguir outra vocação, encontramos este exemplo em jovem Maria. Se quisermos encontrar um jovem para ser um futuro pai justo, encontramos em José como modelo. O casamento de duas pessoas de Deus: uma é cheia de graça e o outro vive de acordo com a Palavra de Deus, só pode sair uma geração cheia de sabedoria e da graça como Jesus.

Creio que, por tudo isso, não tem como não pedirmos a intercessão tanto do homem justo, José, como da jovem Maria, cheia de graça pela nossa juventude. A juventude, como todos nós, precisa olhar para José e Maria para que nossa família, nossos jovens, deixando-se guiar pela Palavra de Deus, possam crescer na sabedoria e na graça diante de Deus e diante dos homens. Somente assim seremos luzes para as pessoas ao redor.

Papa Francisco Sobre São José Na Carta Apostólica PATRIS CORDE

1. Pai Amado

A grandeza de São José consiste no facto de ter sido o esposo de Maria e o pai de Jesus. Como tal, afirma São João Crisóstomo, «colocou-se inteiramente ao serviço do plano salvífico».

2. Pai Na Ternura

Dia após dia, José via Jesus crescer «em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens» (Lc 2, 52). Como o Senhor fez com Israel, assim ele ensinou Jesus a andar, segurando-O pela mão: era para Ele como o pai que levanta o filho contra o seu rosto, inclinava-se para Ele a fim de Lhe dar de comer (cf. Os 11, 3-4). Jesus viu a ternura de Deus em José: «Como um pai se compadece dos filhos, assim o Senhor Se compadece dos que O temem» (Sl 103, 13).

3. Pai Na Obediência

De forma análoga a quanto fez Deus com Maria, manifestando-Lhe o seu plano de salvação, também revelou a José os seus desígnios por meio de sonhos, que na Bíblia, como em todos os povos antigos, eram considerados um dos meios pelos quais Deus manifesta a sua vontade.

Em todas as circunstâncias da sua vida, José soube pronunciar o seu «fiat», como Maria na Anunciação e Jesus no Getsêmani. Na sua função de chefe de família, José ensinou Jesus a ser submisso aos pais (cf. Lc 2, 51), segundo o mandamento de Deus (cf. Ex 20, 12).

Vê-se, a partir de todas estas vicissitudes, que «José foi chamado por Deus para servir diretamente a Pessoa e a missão de Jesus, mediante o exercício da sua paternidade: desse modo, precisamente, ele coopera no grande mistério da Redenção, quando chega a plenitude dos tempos, e é verdadeiramente ministro da salvação».

4. Pai No Acolhimento

José acolhe Maria, sem colocar condições prévias. Confia nas palavras do anjo. «A nobreza do seu coração fá-lo subordinar à caridade aquilo que aprendera com a lei; e hoje, neste mundo onde é patente a violência psicológica, verbal e física contra a mulher, José apresenta-se como figura de homem respeitoso, delicado que, mesmo não dispondo de todas as informações, se decide pela honra, dignidade e vida de Maria. E, na sua dúvida sobre o melhor a fazer, Deus ajudou-o a escolher iluminando o seu discernimento».

O acolhimento de José convida-nos a receber os outros, sem exclusões, tal como são, reservando uma predileção especial pelos mais frágeis, porque Deus escolhe o que é frágil (cf. 1 Cor 1, 27), é «pai dos órfãos e defensor das viúvas» (Sal 68, 6) e manda amar o forasteiro. Posso imaginar ter sido do procedimento de José que Jesus tirou inspiração para a parábola do filho pródigo e do pai misericordioso (cf. Lc 15, 11-32).

5. Pai Com Coragem Criativa

Se a primeira etapa de toda a verdadeira cura interior é acolher a própria história, ou seja, dar espaço no nosso íntimo até mesmo àquilo que não escolhemos na nossa vida, convém acrescentar outra caraterística importante: a coragem criativa. Esta vem ao de cima sobretudo quando se encontram dificuldades. Com efeito, perante uma dificuldade, pode-se estacar e abandonar o campo, ou tentar vencê-la de algum modo. Às vezes, são precisamente as dificuldades que fazem sair de cada um de nós recursos que nem pensávamos ter.

José é o homem por meio de quem Deus cuida dos primórdios da história da redenção; é o verdadeiro «milagre», pelo qual Deus salva o Menino e sua mãe. O Céu intervém, confiando na coragem criativa deste homem que, tendo chegado a Belém e não encontrando alojamento onde Maria possa dar à luz, arranja um estábulo e prepara-o de modo a tornar-se o lugar mais acolhedor possível para o Filho de Deus, que vem ao mundo (cf. Lc 2, 6-7). Face ao perigo iminente de Herodes, que quer matar o Menino, de novo em sonhos José é alertado para O defender e, no coração da noite, organiza a fuga para o Egito (cf. Mt 2, 13-14).

Sempre nos devemos interrogar se estamos a proteger com todas as nossas forças Jesus e Maria, que misteriosamente estão confiados à nossa responsabilidade, ao nosso cuidado, à nossa guarda. O Filho do Todo-Poderoso vem ao mundo, assumindo uma condição de grande fragilidade. Necessita de José para ser defendido, protegido, cuidado e criado. Deus confia neste homem, e o mesmo faz Maria que encontra em José aquele que não só Lhe quer salvar a vida, mas sempre A sustentará a Ela e ao Menino. Neste sentido, São José não pode deixar de ser o Guardião da Igreja, porque a Igreja é o prolongamento do Corpo de Cristo na história e ao mesmo tempo, na maternidade da Igreja, espelha-se a maternidade de Maria. José, continuando a proteger a Igreja, continua a proteger o Menino e sua mãe; e também nós, amando a Igreja, continuamos a amar o Menino e sua mãe.

6. Pai Trabalhador

Um aspeto que caracteriza São José é a sua relação com o trabalho. São José era um carpinteiro que trabalhou honestamente para garantir o sustento da sua família. Com ele, Jesus aprendeu o valor, a dignidade e a alegria do que significa comer o pão fruto do próprio trabalho.

O trabalho torna-se participação na própria obra da salvação, oportunidade para apressar a vinda do Reino, desenvolver as próprias potencialidades e qualidades, colocando-as ao serviço da sociedade e da comunhão; o trabalho torna-se uma oportunidade de realização não só para o próprio trabalhador, mas sobretudo para aquele núcleo originário da sociedade que é a família. Uma família onde falte o trabalho está mais exposta a dificuldades, tensões, fraturas e até mesmo à desesperada e desesperadora tentação da dissolução. Como poderemos falar da dignidade humana sem nos empenharmos para que todos, e cada um, tenham a possibilidade dum digno sustento?

A pessoa que trabalha, seja qual for a sua tarefa, colabora com o próprio Deus, torna-se em certa medida criadora do mundo que a rodeia. A crise do nosso tempo, que é económica, social, cultural e espiritual, pode constituir para todos um apelo a redescobrir o valor, a importância e a necessidade do trabalho para dar origem a uma nova «normalidade», em que ninguém seja excluído. O trabalho de São José lembra-nos que o próprio Deus feito homem não desdenhou o trabalho. A perda de trabalho que afeta tantos irmãos e irmãs e tem aumentado nos últimos meses devido à pandemia de Covid-19, deve ser um apelo a revermos as nossas prioridades. Peçamos a São José Operário que encontremos vias onde nos possamos comprometer até se dizer: nenhum jovem, nenhuma pessoa, nenhuma família sem trabalho!

7. Pai Na Sombra

O escritor polaco Jan Dobraczyński, no seu livro A Sombra do Pai, narrou a vida de São José em forma de romance. Com a sugestiva imagem da sombra, apresenta a figura de José, que é, para Jesus, a sombra na terra do Pai celeste: guarda-O, protege-O, segue os seus passos sem nunca se afastar d’Ele. Lembra o que Moisés dizia a Israel: «Neste deserto (…) vistes o Senhor, vosso Deus, conduzir-vos como um pai conduz o seu filho, durante toda a caminhada que fizeste até chegar a este lugar» (Dt 1, 31). Assim José exerceu a paternidade durante toda a sua vida.

Não se nasce pai, torna-se tal... E não se torna pai, apenas porque se colocou no mundo um filho, mas porque se cuida responsavelmente dele. Sempre que alguém assume a responsabilidade pela vida de outrem, em certo sentido exercita a paternidade a seu respeito.

Ser pai significa introduzir o filho na experiência da vida, na realidade. Não segurá-lo, nem prendê-lo, nem subjugá-lo, mas torná-lo capaz de opções, de liberdade, de partir. Talvez seja por isso que a tradição, referindo-se a José, ao lado do apelido de pai colocou também o de «castíssimo». Não se trata duma indicação meramente afetiva, mas é a síntese duma atitude que exprime o contrário da posse. A castidade é a liberdade da posse em todos os campos da vida. Um amor só é verdadeiramente tal, quando é casto. O amor que quer possuir, acaba sempre por se tornar perigoso: prende, sufoca, torna infeliz. O próprio Deus amou o homem com amor casto, deixando-o livre inclusive de errar e opor-se a Ele. A lógica do amor é sempre uma lógica de liberdade, e José soube amar de maneira extraordinariamente livre. Nunca se colocou a si mesmo no centro; soube descentralizar-se, colocar Maria e Jesus no centro da sua vida.

Maria e José: Duas Pessoas Que Se Deixam Guiar Pela Palavra De Deus

Não dá para falar de São José sem falar de Maria. Porque a existência de Maria ilumina a existência de José. E os dois são pessoas totalmente dominadas pela luz divina e se deixam guiar pela Palavra de Deus. Por isso, são José é chamado de o homem justo, isto é, aquele que vive totalmente de acordo com os mandamentos de Deus; é aquele se deixa guiar pela luz da Palavra de Deus.

Maria, mesmo antes de se casar com José, é uma jovem totalmente dominada e guiada pela graça de Deus. Por Maria estar totalmente plenificada pela luz da graça de Deus, o Anjo do Senhor a chama de “cheia de graça”. Trata-se de uma jovem que se deixa conduzir totalmente pela Palavra de Deus. Não é por acaso que, pela benevolência de Deus, o ventre da jovem Maria se torna o ninho do Salvador.

E só pode ser José, o homem justo, é que pode se tornar pai adotivo de Jesus. Somente dentro de uma família em que Maria como esposa cheia da graça e José, como esposo justo que vive de acordo com os mandamentos do Senhor é que o menino Jesus cresce em sabedoria e a graça diante dos homens e diante de Deus (cf. Lc 2,52).

Se quisermos encontrar uma jovem exemplar para ser espelhada pela juventude na preparação para formar uma família ou para seguir outra vocação, encontramos este exemplo em jovem Maria. Se quisermos encontrar um jovem para ser um futuro pai justo, encontramos em José. O casamento de duas pessoas de Deus: uma é cheia de graça e o outro vive de açodo com a Palavra de Deus, só pode ter como resultado uma geração cheia de sabedoria e da graça como Jesus.

O exemplo de São José é para todos nós um forte convite a desempenhar com fidelidade, simplicidade e humildade a tarefa que a Providência nos destinou. Penso antes de tudo, nos pais e nas mães de família, e rezo para que saibam sempre apreciar a beleza de uma vida simples e laboriosa, cultivando com solicitude o relacionamento conjugal e cumprindo com entusiasmo a grande e difícil missão educativa. Aos sacerdotes, que exercem a paternidade em relação às comunidades eclesiais, São José obtenha que amem a Igreja com afeto e dedicação total, e ampare as pessoas consagradas na sua jubilosa e fiel observância dos conselhos evangélicos de pobreza, castidade e obediência. Proteja os trabalhadores de todo o mundo, para que contribuam com as suas várias profissões para o progresso de toda a humanidade, e ajude cada cristão a realizar com confiança e com amor a vontade de Deus, cooperando assim para o cumprimento da obra da salvação.(PAPA BENTO XVI: Durante ANGELUS no III Domingo da Quaresma, 19 de Março de 2006)

Neste dia em que celebramos a sua solenidade, São José vem questionar nossa pouca fé, nossa infidelidade à vontade de Deus, nosso ceticismo em relação ao poder de Deus, nossas rebeldias contra Deus. São José vem sussurrar no nosso interior: “Confie em Deus, pois ele é fiel às suas promessas!”.  As almas mais sensíveis aos impulsos do amor divino vêem em José um exemplo luminoso de vida interior. Mais ainda, a aparente tensão entre a vida ativa e a vida contemplativa tem em José uma superação ideal, possível para quem possui a perfeição da caridade.” (João Paulo II: REDEMPTORIS CUSTOS no. 27).

São José e Quaresma

O pai adotivo de Jesus tem uma estreita ligação com a Quaresma. Esta ligação se explica como caminho preparatório ao Mistério central da Redenção: a Paixão, Morte Ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo. Mas tal tipo de Redenção foi possível porque o Filho de Deus é verdadeiramente homem. como todo homem tem umas raízes, um povo, uma história: o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai (Primeira Leitura). Sem raízes, sem estirpe, Jesus seria um estranho. É este o grande serviço que são José presta a partir de sua fé para a obra da Redenção.

A Quaresma é um caminho de iluminação progressiva na fé. É voltar a aprendermos a ver as pessoas, as coisas e os acontecimentos como os olhos com que Deus os vê. E nisto, temos em são José um verdadeiro Patriarca na linha da fé dos grandes personagens do Antigo Testamento. E no Novo Testamento, depois de Maria, e junto com Ela, rompe o caminho da fé para toda a Igreja: Apoiado na esperança, ele creu contra toda a esperança (Segunda Leitura). Ele fez o que o anjo do Senhor havia ordenado (Evangelho).

Também a Quaresma vai restaurar a comunhão com a Igreja, que o pecado rompeu, ou, ao menos relaxou ou corrompeu. Isso supõe voltar a viver a Igreja como conservadora (aquela que conserva, protege, cuida) e transmissora do mistério de Cristo para a salvação do mundo. Para esta dimensão faz referência a oração da coleta recordando a estreita vinculação de São José com a Igreja, já que a sua fiel custódia foram confiados por Deus os primeiros mistérios da salvação dos homens: “Deus todo-poderoso, pelas preces de são José, a QUEM CONFIASTES AS PRIMÍCIAS da Igreja, concedei que ela possa levar à plenitude os mistérios da salvação”.

A condição especial da paternidade de José em relação a Jesus não deve nos levar a pensar que ele não se exercitou como pai humano de Jesus, contribuindo para seu crescimento corporal e espiritual o próprio de um bom pai. Precisamente isso fazia parte de seu serviço ao Filho de Deus feito homem. Se a Quaresma está especialmente relacionada à educação na fé, como tempo catecumenal, a figura de São José é um chamado para os pais cristãos se exercitarem como tais, sendo os primeiros educadores da fé de seus filhos.

P. Vitus Gustama,svd

21/03/2026- Sábado Da IV Semana Da Quaresma

O JUSTO É PERSEGUIDO E MORTO POR AQUELES QUE VIVEM NA INJUSTIÇA E NA DESONESTIDADE Sábado da IV Semana da Quaresma Primeira Leitura: Jr ...