domingo, 14 de junho de 2026

Segunda-feira Da XI Semana Comum, Ano Par, 15/06/2026

VIVER COMO CRISTÃOS É VIVER COMO JUSTOS E RECONCILIADOCONTRA TODO O MAL

Segunda-Feira da XI Semana Comum

Primeira Leitura: 1Rs 21,1-16

Naquele tempo, 1 Nabot de Jezrael possuía uma vinha em Jezrael, ao lado do palácio de Acab, rei de Samaria. 2 Acab falou a Nabot: “Cede-me a tua vinha, para que eu a transforme numa horta, pois está perto da minha casa. Em troca eu te darei uma vinha melhor, ou, se preferires, pagarei em dinheiro o seu valor”.  3 Mas Nabot respondeu a Acab: “O Senhor me livre de te ceder a herança de meus pais”. 4 Acab voltou para casa aborrecido e irritado por causa desta resposta que lhe deu Nabot de Jezrael: “Não te cederei a herança de meus pais”. Deitou-se na cama, com o rosto voltado para a parede, e não quis comer nada.  5 Sua mulher Jezabel aproximou-se dele e disse-lhe: “Por que estás triste e não queres comer?” 6 Ele respondeu: “Porque eu conversei com Nabot de Jezrael e lhe fiz a proposta de me ceder a sua vinha pelo seu preço em dinheiro, ou, se preferisse, eu lhe daria em troca outra vinha. Mas ele respondeu que não me cede a vinha”.  7 Então sua mulher Jezabel disse-lhe: “Bela figura de rei de Israel estás fazendo! Levanta-te, toma alimento e fica de bom humor, pois eu te darei a vinha de Nabot de Jezrael”. 8 Ela escreveu então cartas em nome de Acab, selou-as com o selo real, e enviou-as aos anciãos e nobres da cidade de Nabot. 9 Nas cartas estava escrito o seguinte: “Proclamai um jejum e fazei Nabot sentar-se entre os primeiros do povo, 10 e subornai dois homens perversos contra ele, que deem este testemunho: ‘Tu amaldiçoaste a Deus e ao rei!’ Levai-o depois para fora e apedrejai-o até que morra”. 11 Os homens da cidade, anciãos e nobres concidadãos de Nabot, fizeram conforme a ordem recebida de Jezabel, como estava escrito nas cartas que lhes tinha enviado. 12 Proclamaram um jejum e fizeram Nabot sentar-se entre os primeiros do povo. 13 Chegaram os dois homens perversos, sentaram-se diante dele e testemunharam contra Nabot diante de toda a assembleia, dizendo: “Nabot amaldiçoou a Deus e ao rei”. Em virtude disto, levaram-no para fora da cidade e mataram-no a pedradas. 14 Depois mandaram a notícia a Jezabel: “Nabot foi apedrejado e morto”. 15 Ao saber que Nabot tinha sido apedrejado e estava morto, Jezabel disse a Acab: “Levanta-te e toma posse da vinha que Nabot de Jezrael não te quis ceder por seu preço em dinheiro; pois Nabot já não vive; está morto”. 16 Quando Acab soube que Nabot estava morto, levantou-se para descer até a vinha de Nabot de Jezrael e dela tomar posse.

Evangelho: Mt 5,38-42

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 38 “Ouvistes o que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente!’ 39 Eu, porém, vos digo: Não enfrenteis quem é malvado! Pelo contrário, se alguém te dá um tapa na face direita, oferece-lhe também a esquerda! 40 Se alguém quiser abrir um processo para tomar a tua túnica, dá-lhe também o manto! 41 Se alguém te forçar a andar um quilômetro, caminha dois com ele! 42 Dá a quem te pedir e não vires as costas a quem te pede emprestado”.

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No Abuso Do Poder, o Inocente, o Simples É Sempre Vítima

Lemos na Primeira leitura o abuso do poder do rei Acab através de sua esposa, Jezabel. Sabe-se que quanto maior for o poder, maior será o abuso. Na realidade, o poder em si não corrompe; são as pessoas que corrompem o poder. Tomemos cuidado com o poder, pois ele atrai o pior e corrompe o melhor. Onde o amor fraterno e o serviço imperam, não há desejo de poder. Mas onde o poder predomina, sempre haverá a falta de amor e de serviço pelo bem comum. Um é sombra do outro.

O episódio de um poderoso (Acab) que se apropria injustamente do que pertence a um pobre (Nabot) é uma cena que pode contar-se do século IX a.C ou de hoje mesmo.

É um fato cheio de cinismo, sobretudo por parte de Jezabel, a rainha adoradora de Baal, que entende a religião e o poder somente a seu favor, sem ter em conta a justiça social. O bom homem Nabot faz bem em recusar-se a vender sua vinha, mesmo que o rei a tenha pedido em termos justos. Trata-se da herança que recebeu dos pais e que não pode ser alienada assim. E o rei fica triste por causa desta recusa: “Deitou-se na cama, com o rosto voltado para a parede, e não quis comer nada”.

Por que Nabot não quer entregar seu terreno ao rei Acab? Porque, como foi dito, o terreno é sagrado no conceito do povo eleito. Cada família recebeu sua parte da terra prometida, dada pelo Senhor, e esta terra tem que permanecer unida à família como um depósito sagrado e inalienável (cf. Lv 25,23).

Segundo o conceito do rei Acab, em nome da ganância, a venda e a troca da herança familiar faz parte de um negócio completamente legal: “Cede-me a tua vinha, para que eu a transforme numa horta, pois está perto da minha casa. Em troca eu te darei uma vinha melhor, ou, se preferires, pagarei em dinheiro o seu valor” (1Rs 21,2). Porém o rei deve respeitar a razão e o direito de Nabot: “Não te cederei a herança de meus pais”, disse Nabot ao rei Acab (1Rs 21,4). Para Nabot a vinha representa o lugar de sua fidelidade aos antepassados e ao próprio Javé de quem recebeu a terra.

Mas quem abusa do poder sempre acha alguma “saída”, mesmo que seja contra a ética ou mesmo que alguém deva ser vítima disso. Neste caso, a mulher de Acab, Jezabel resolveu arrumar um problema para Nabot para poder possuir o terreno de Nabot: “Ela escreveu então cartas em nome de Acab, selou-as com o selo real, e enviou-as aos anciãos e nobres da cidade de Nabot. Nas cartas estava escrito o seguinte: ´Proclamai um jejum e fazei Nabot sentar-se entre os primeiros do povo, e subornai dois homens perversos contra ele, que deem este testemunho: ‘Tu amaldiçoaste a Deus e ao rei!’ Levai-o depois para fora e apedrejai-o até que morra´”. 

Para Jezabel, a rainha devota de Baal, é inconcebível  que a autoridade permita a um súdito não obedecer ao rei Acab, seu marido. Os que se acham poderosos sempre procuram algum meio, nem que seja através da violência para calar seus súditos, os pobres, os inocentes. Deste modo, Jezabel tem a porta bem aberta para continuar pervertendo o povo de Israel e os anciãos do povo caíram na armadilha da rainha Jezabel. E o rei Acab, sem personalidade e sem ética aceitou o plano da mulher, Jezabel. Nabot, o inocente, se torna uma vítima fatal: foi apedrejado até a morte. A briga dos poderosos sempre termina com o sacrifício da vida dos inocentes.

Para um poderoso, como o rei Acab e a rainha Jezabel, tudo é permitido e não existe lei ou direito que o limite. Para ele, não agir assim significa não reinar. Quantos inocentes foram e continuam sendo vítimas dos poderosos. O resultado desse plano: “Nabot foi apedrejado e morto”. E o rei Acab toma posse do terreno que não era dele, mas era do morto Nabot: “Quando Acab soube que Nabot estava morto, levantou-se para descer até a vinha de Nabot de Jezrael e dela tomar posse”. Tudo é crime, pois acaba com a morte do inocente, Nabot.

Para um ambicioso como o rei Acab e sua esposa, Jezabel, o recurso à violência parece-lhe justo e honesto. O ambicioso só obedece ao seu instinto de mandar e receber honrarias. E esse instinto é violento.  Quem desejar ser a todo custo o primeiro, dificilmente se preocupará com ser justo. Nas mãos de um ambicioso, o poder só representa um constante perigo. Para ele, o poder é um convite aos seus maus instintos para que explorem a força que ele tem a seu dispor. Quando no vértice do poder, o ambicioso transmitirá aos súditos os seus sentimentos, arruinando as pessoas contrárias ao seu desejo, arruinando a nação com assim chamada  a política do prestígio, dos que só visam a conseguir a sua própria grandeza. Prestígio! Palavra mágica que encanta e corrompe a tantos mortais.

Um ambicioso anda com o político corrupto.  Um corrupto consegue arrancar dinheiro de ruas, de rodovias, de ferrovias, de portos, de aeroportos, de hospitais, de escolas, cursos profissionalizantes e assim por diante para si próprio e suas comparsas. A desonestidade consegue inventar todo o tipo de fraudes. Na avareza está oculta uma ofensa social. E nosso coração chora ao nos sentirmos traídos por pessoas às quais delegamos o poder para ser nossos representantes políticos em função do bem comum.

Mas o Senhor não renunciava a ser o attentico Rei de Israel, defensor dos desamparados, dos excluídos, dos inocentes, dos justos. A voz do profeta se levanta como um eco da bondade de Deus que recusa totalmente a perversão do poder. A força da palavra profética na pessoa de Elias é muito mais forte do que o poder da rainha Jezabel, pois a culpa pesa muito mais do que qualquer poder neste mundo. é um aviso à autoridade injusta e atodos os seus cúmplices.

A maldade dos cínicos e o abuso de poder continuam a existir no nosso mundo.

Muitas pessoas poderosas tiram vantagem de sua situação para sua própria vantagem. O que hoje chamamos de "tráfico de influências" ou os vários tipos de corrupção do poder, é a mesma coisa que Acab e Jezabel fizeram com o pobre Nabot. O fraco sempre sai perdendo, mesmo que esteja com a verdade. Isso pode acontecer em níveis políticos, na relação entre poderosos e fracos, ou na economia mundial, entre ricos e pobres. Também na Igreja. João Paulo II, no Limiar Do Terceiro Milênio, convidou a comunidade cristã a examinar quantas vezes recorreu à violência, acreditando que, ao fazê-lo, estava fazendo o bem para a verdade ou para a religião, com o que chama de «métodos de intolerância e até da violência a serviço da verdade» (Tertio Millennio Adveniente, 35).

Mas também pode acontecer em nosso pequeno mundo doméstico. Cada um de nós pode ser um tirano e abusar de seu poder em relação a outros mais fracos. Será que recorremos a truques e até injustiças para conseguir o que queremos, quando não conseguimos de outra maneira?

Não nos contentemos em julgar Jezabel e Acabe. Pode ser que nós também às vezes “esmaguemos os fracos” quando eles nos atrapalham em nossos propósitos e em nossos interesses.

A Misericórdia Divina Pede Para Vivermos Reconciliados

Não enfrenteis quem é malvado!”

O texto do evangelho lido neste dia se encontra no Sermão da Montanha (Mt 5-7). Este texto é conhecido como a quinta antítese nesse Sermão que nos fala sobre como devemos nos relacionar com quem nos ofendeu. Deus jamais legitima o mal ou a vingança contra quem nos pratica o mal.

Para entender o significado desta antítese precisamos conectá-la com as bem-aventuranças na abertura do Sermão da Montanha. Em algumas das bem-aventuranças Jesus declara: “Bem-aventurados os mansos... Bem-aventurados os misericordiosos... Bem-aventurados os que promovem a paz...”. É isto que Jesus nos ensina agora e nos ensinará também com seu exemplo (cf. Mt 11,28-30; 12,18-21). Na Paixão, Jesus pedirá o perdão ao Pai para os malvados (cf. Lc 23,34). São Pedro na sua primeira Carta escreveu: “Quando injuriado, não revidava; ao sofrer, não ameaçava, antes, punha a sua causa  nas mãos daquele que julga com justiça” (1Pd 2,23).

Nesta quinta antítese, Jesus faz seu comentário sobre a lei de talião do Antigo Testamento. No Livro do Êxodo lemos: “Vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, queimadura por queimadura, ferida por ferida, golpe por golpe(Ex 21,23-25; cf. Lv 20,17-22). Aqui se acentua a vingança proporcional ou a vingança na mesma medida.                

A lei de talião era conhecida em todo o Oriente Antigo. Ela é encontrada no Código Hammurábi, nas leis assírias, na Torah bem como também entre os gregos e os romanos.

No famoso Código de Hammurabi (século XVIII a.C) encontramos os seguintes artigos referentes à Lei de talião:

·      O artigo 196: “Se alguém arrancar um olho de outro, também seu olho será arrancado”.

·      O artigo 197: “Se alguém quebrar um membro de outro, também um de seus membros será quebrado”.

·      O artigo 200: “Se alguém quebrar um dente de outro, um de seus dentes será quebrado”.

A finalidade primordial dessa lei era colocar um limite a uma vontade desenfreada de vingança em uma sociedade em que a vingança era quase que institucionalizada (cf. Gn 4,23-24). Portanto, a intenção dessa lei era proteger os direitos das pessoas contra os excessos de violência.

Na quinta antítese do Sermão da Montanha Jesus faz uma reflexão sobre a lei de talião e oferece uma solução: “Pelo contrário, se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a esquerda. Se alguém quiser levar-te ao tribunal, para ficar com a tua túnica, deixa-lhe também o manto. Se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante um quilômetro, caminha dois com ele. Dá a quem te pedir e não vires as costas a quem te pede emprestado” (Mt 5,38-42).

No tempo de Jesus, a lei de Talião já estava bastante superada. Platão já tinha ensinado no mundo grego: “Não se deve responder à injustiça com injustiça, nem fazer dano a nenhum homem, independentemente do dano que nos fez”. No mundo judaico, a comunidade de Qumran tinha a seguinte regra: “Não retribuirei o mal com o mal a ninguém, mas farei o bem a todos, pois o julgamento pertence a Deus”.

Jesus se explica ainda melhor e nos descreve o comportamento adequado diante da injustiça: uma resistência passiva nos três primeiros casos (Mt 5,39b-41), uma reação ativa e benéfica em todo caso (Mt 5,42). Tudo é guiado por um princípio: “Não enfrenteis quem é malvado!”. Jesus nos está ensinando uma forma de mudar a comunidade dos homens e, sobretudo, como se deve comportar a comunidade dos discípulos no mundo para que sempre triunfe a vida.

Um primeiro passo (Mt 5,39b) é não reagir à violência com violência, não entrar em sua engrenagem infernal. Este é o sentido da expressão hiperbólica: “Se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a esquerda”. Leia Jo 18,22-23 onde se encontra algum exemplo de Jesus.

O segundo exemplo (Mt 5,40) é o caso de um tão malvado que quer arruinar você completamente, inclusive diante de um processo de justiça: “Tirar a túnica”. Jesus diz que devemos dar-lhe também o manto. Para Mateus, o manto é mais querido pelo pobre, pois serve também para se proteger do frio da noite. Quem não o tem, porque foi tirado, pode somente confiar em Deus que escuta o grito do pobre (cf. Dt 24,13). Quando o mal se manifesta, o que pode fazer aquele que deseja ser justo? (Salmo 11,3). Confie em Deus e procure espalhar um pouco de bondade, de gentileza, evitando sempre a violência.

Às vezes, a injustiça ou o mal pode, inclusive, institucionalizar-se (Mt 5,41). É o terceiro passo. Na atualidade, com impostos exorbitantes que obrigam as pessoas a realizar trabalhos árduos, transportar mercadorias ou outras atividades..."Se alguém te forçar a andar um quilômetro, caminha dois com ele!”. Na prática, Jesus ensina a afrontar as situações tristes com uma certa serenidade e generosidade. É manter uma atitude aberta em situação de doação e de serviço aos irmãos a exemplo do próprio Jesus (cf. At 20,38)                 

Com esta antítese Jesus coloca como alternativa à violência, não a lei de talião, mas a não-violência. Na verdade, Jesus já colocou nas Bem-aventuranças a atitude certa contra a violência: “Bem-aventurados os mansos, bem-aventurados os misericordiosos, bem-aventurados os que promovem a paz”. Jesus nos ensina também com seu exemplo (cf. Mt 11,28-30; 12,18-21). E São Pedro na sua Carta escreveu que Cristo “Quando injuriado, não revidava; ao sofrer não ameaçava, antes, punha a sua causa nas mãos daquele que julga com justiça” (1Pd 2,23).

A reação paradoxal que Jesus sugere aos cristãos, diante da violência, tem uma finalidade concreta: mostrar as possibilidades extremas de aplicação do seu mandamento de amor. Quem é movido por um amor incondicional ao próximo será capaz de fazer gestos radicais para coibir a violência, sem responder com a mesma moeda. Tudo supõe que se tenha um coração limpo (cf. Mt 5,8). A lei de talião é excluída pela limpeza de coração e pela compaixão. O cristão é chamado a não entrar na engrenagem infernal de um violento e não reagir com a violência à violência.       

Segundo Jesus não basta “aguentar” os maus; devemos fazer, por eles, algo de positivo. Jesus não quer bobos, mas fortes, capazes de fazer algo para que o mundo mude ou melhore. Não é suficiente sofrer, enquanto tivermos ainda uma possibilidade de fazer positivamente o bem.

Não é possível viver odiando em inimizade profunda e irreversível. O dano interior provocado por uma relação esfarrapada corrói nossas melhores energias e o Templo de Deus em nós se deteriora (cf. 1Cor 3,16-17) e os sentimentos de vingança o deformam lentamente. O perdão é o testamento escrito por Jesus na cruz. Da cruz Jesus pede perdão por todos aqueles que o crucificaram: “Pai, perdoa-lhe porque sabem o que fazem” (Lc 23,34). 

Vamos olhar para nossa realidade, tanto dentro da Igreja como fora dela, na sociedade, e vamos nos perguntar: a Lei de Talião ainda continua sendo praticada? Será que abandonamos a cultura que o Papa Francisco denomina a Cultura do encontro em que um se torna próximo do outro e por isso, um tem que cuidar do outro? A cultura do encontro freia até elimina a cultura de violência em que tudo se resolve com a briga e a vingança? Não temos tentação em fazer vingança contra o outro que não está de acordo com nosso pensamento e nossa maneira de viver? Viver uma vida de uma maneira só é uma grande pobreza e mata toda a criatividade. 

Deveríamos realizar um progressivo desarme intelectual, moral e religioso. É não justificar o injustificável. É crer na força do amor. É tirar da Eucaristia a certeza de curar nossas feridas profundas. Toda vez que fazemos memória da morte e ressurreição de Cristo, o mesmo Senhor nos introduz, pelo Espírito, na plenitude de sua existência pascal. 

Quando o amor for “excesso” o mal é obrigado a não se produzir e sua existência se extingue. Não é uma petição aos heróis e sim para todos os cristãos para que imitem o exemplo do seu Senhor Jesus Cristo. Para isso, temos que pedir permanentemente ao Senhor sua graça e força que vem de Seu Espírito para acontecer uma transformação profunda no nosso modo de viver com os demais homens. Mas “Empregar o nome de não-violência quando existe uma espada em vosso coração é, não somente hipocrisia e desonesto, mas, ainda, covardia. Se permanecermos não-violentos, o ódio ficará sem efeito. O primeiro princípio da ação não-violenta é o da não-cooperação com tudo que é humilhante” (Mahatma Gandhi). 

Reflitamos as seguintes palavras do escritor e psicólogo argentino, René Juan Trossero: 

“Não me importam as suas teorias sobre a violência;

O que me interessa saber é como você vive

No meio da violência que nos cerca por todas as partes.

 

Se você nunca foi vítima da violência,

Fale sobre ela com prudência

Por respeito aos que a sofrem na pele.

 

Provocar a violência em nome de Deus

E do Evangelho é um sacrilégio.

Pregar a resignação para os que sofrem a violência,

Invocando Deus e o Evangelho, é uma trapaça.

 

Não acabará a violência quando houver menos armas,

E sim quando houver mais amor.

 

Destruir a violência com a violência

É como apagar um incêndio com gasolina.

A única maneira de lutar contra a violência

É não provocá-la”.  

São Pedro descreve Jesus da seguinte maneira: “Quando injuriado, não revidava; ao sofrer, não ameaçava, antes, punha a sua causa nas mãos daquele que julga com justiça” (1Pd 2,23). Diante deste Jesus precisamos olhar para nossa maneira de viver e de conviver, pois adotamos a maneira de viver de Jesus como nossa e assumimos seus ensinamentos para nossa vida cotidiano, pois somos cristãos? Será que podemos nos dizer como somos cristãos, ou estamos cristãos ainda?

P.Vitus Gustama,svd

quinta-feira, 11 de junho de 2026

XI Domingo Do Tempo Comum, Ano "A", 14/06/2026

SOMOS CHAMADOS A SER MISSIONÁRIOS COMPASSIVOS

XI DOMINGO DO TEMPO COMUM “A”

Primeira Leitura: Êx 19,2-6a

Naqueles dias, os israelitas, 2 partindo de Rafidim, chegaram ao deserto do Sinai, onde acamparam. Israel armou aí suas tendas, defronte da montanha. 3 Moisés, então, subiu ao encontro de Deus. O Senhor chamou-o do alto da montanha, e disse: “Assim deverás falar à casa de Jacó e anunciar aos filhos de Israel: 4 Vistes o que fiz aos egípcios, e como vos levei sobre asas de águia e vos trouxe a mim. 5 Portanto, se ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, sereis para mim a porção escolhida dentre todos os povos, porque minha é toda a terra. 6ª E vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa”.

Segunda Leitura: Rm 5,6-11

Irmãos: 6 Quando éramos ainda fracos, Cristo morreu pelos ímpios, no tempo marcado. 7 Dificilmente alguém morrerá por um justo; por uma pessoa muito boa, talvez alguém se anime a morrer. 8 Pois bem, a prova de que Deus nos ama é que Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores. 9 Muito mais agora, que já estamos justificados pelo sangue de Cristo, seremos salvos da ira por ele. 10 Quando éramos inimigos de Deus, fomos reconciliados com ele pela morte do seu Filho; quanto mais agora, estando já reconciliados, seremos salvos por sua vida! 11 Ainda mais: Nós nos gloriamos em Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo. É por ele que, já desde o tempo presente, recebemos a reconciliação.

Evangelho: Mt 9,35-10,8

Naquele tempo, 36 vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor. Então disse a seus discípulos: 37” A Messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. 38 Pedi pois ao dono da messe que envie trabalhadores para a sua colheita!” 10,1 Jesus chamou os doze discípulos e deu-lhes poder para expulsarem os espíritos maus e para curarem todo tipo de doença e enfermidade. 2 Estes são os nomes dos doze apóstolos: primeiro, Simão chamado Pedro, e André, seu irmão; Tiago, filho de Zebedeu, e seu Irmão João; 3 Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o cobrador de impostos; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu; 4 Simão, o Zelota, e Judas Iscariotes, que foi o traidor de Jesus. 5 Jesus enviou estes Doze, com as seguintes recomendações: “Não deveis ir aonde moram os pagãos, nem entrar nas cidades dos samaritanos! 6 Ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel! 7 Em vosso caminho, anunciai: ‘O Reino dos Céus está próximo’. 8 Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. De graça recebestes, de graça deveis dar!”

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Neste Domingo o Evangelho fala da vocação e da missão dos Doze. Jesus olha para a multidão de uma maneira muito especial, cuidando  da realidade deles. Ele se compadece dessa multidão “porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor”. E Ele dá resposta à situação com a oração comum, com a eleição dos Doze e sua missão ao povo.  Tudo é gratuitamente!

O evangelho nos mostra a compaixão que o Senhor tem por cada um de nós. Jesus não está interessado em pessoas em massa, mas em cada homem em particular. Ele se interessa por você. Ele conhece seu rosto, seu nome, sua história. Ele quer estabelecer um relacionamento com você. Você existe para Ele com seus problemas, suas dificuldades, suas exigências, suas esperanças. O único requisito para trabalhar em sua colheita/messe é abnegação, gratuidade; fugir dos êxitos, aplausos, honras, e privilégios. Escutemos as leituras que nos convidam a semearmos com paciência em tantos sulcos abertos que esperam a compaixão de cada um de nós e a compaixão de Cristo.

Do Evangelho aprendemos que devemos olhar para as pessoas como Jesus olha para a multidão, cuidando de sua situação e compadecendo-se, ou seja, entrando em sua pele para sentir o que elas sentem. É a campaixão! É sentir juntos para juntor procurarmos solução. Temos, ao mesmo tempo, uma missão de ajudar o outro a ter o olhar de Jesus sobre a realidade das pessoas, do povo. Jesus olha para as pessoas com amor. O que tem em cada coração fica transparente no seu olhar. De que maneira você olha para as pessoas e logo se saberá o que tem no seu coração. O olhar de Jesus é compacissvo, pois no seu coração somente tem amor.

O Livro do Êxodo, na Primeira Leitura (Êx 19,2-6ª) nos prepara para escutar o Evangelho com a recordação da Aliança que o Senhor estabelece com o povo eleito: o Senhor escolhe o povo como proprietário seu e atua em seu favor: “Sereis para mim a porção escolhida dentre todos os povos, porque minha é toda a terra. E vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa”. E o reconhecemos com o Salmo Responsorial (Sl 99): “Nós somos o povo e o rebanho do Senhor”. É sempre bom manter nossa consciência de que pertencemos ao Senhor. Somos o povo de Deus.

Através da Primeira Leitura, vemos como a mão de Deus está sempre por trás de nossos acontecimentos decisivos. É por isso que temos que reconhecer que tudo o que somos e temos devemos a Ele. Quantas dificuldades superamos em nossas vidas! Parece-nos quase impossível chegar até aqui; é toda a graça de Deus. O olhar misericordioso de Deus sempre nos acompanha como enfatiza o Evangelho. É preciso dirigirmos nosso olhar para Deus para agradecer e para pedir mais inspirações para nossas dificuldades de cada dia.

E finalmente, a Segunda Leitura (Rm 5,6-11), tirada da Carta de são Paulo aos Romanos, recorda o núcleo de nossa fé: fomos reconciliados com Deus pela morte de Jesus Cristo, e também seremos salvos graças à sua vida. A cruz de Jesus é o preço de nossa vida diante de Deus. Somos tão valiosos no olhar amoroso e misericordioso de Deus.

A segunda leitura, então, nos convida a tomarmos consciência de que Cristo morreu por nós sendo pecadores. Ai está a grandeza de seu amor: ele não morreu por nossos pecados, mas apesar deles. Seu sacrifício foi uma oferta generosa e gratuita. Seu amor se elevou acima de nossas rejeições.

Estendamos um pouco mais nossa meditação sobre o Evangelho proclamado neste domingo!

A seção de Mt 9,35-11,1, onde se encontra o nosso texto deste domingo (como também de alguns próximos domingos), é chamada o Discurso de Jesus sobre a missão da Igreja. Notemos que a missão em Mt não se limita apenas aos doze, mas para todos aqueles que queriam seguir a Jesus. Por isso, no discurso sobre a missão na versão de Mt não se fala nem da partida dos doze (Mc 6,12-13; Lc 9,6) nem de seu regresso (Mc 6,30; Lc 9,10). Podemos dizer que este discurso serve como um tipo de “manual” para os seguidores de Jesus na tarefa de exercer a missão como cristãos, seguidores de Jesus Cristo.

O evangelista Mateus reúne no Sermão da Missão tudo o que os outros sinóticos dizem a respeito da identidade dos discípulos e da sua vocação. Vocação e missão andam inseparáveis: a minha “Vocação” de filho (de Deus) se realiza na “Missão com os irmãos.         

Neste discurso encontram-se uma introdução (9,35-38); o tema da missão (10,1-16); as perseguições na missão (10,17-25); a coragem requerida dos missionários frente as perseguições (10,26-33); as exigências radicais que se pedem dos missionários (10,34-39); e termina com uma conclusão(11,1).

Missão Baseada Sobre Compaixão e Oração   

Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor. Então disse a seus discípulos” é a introdução do discurso sobre a missão.    

No Antigo e no Novo Testamento encontra-se a descrição de Deus e de Jesus Cristo como sensíveis às dores, crises e sofrimentos do povo. Deus não fica alheio dos sofrimentos do povo (cf. Ex 3,7-14). A alta sensibilidade leva Deus a ver, a ouvir, a conhecer e a descer para libertar o povo. E Jesus, por sua vez, ao olhar para a multidão desamparada, enche-se de compaixão o interior de Jesus moveu-se em direção a cada uma das pessoas que estavam na multidão. Exatamente, na miséria se vive a misericórdia, o grande dom de Deus que é o próprio Deus.      

Nesta introdução fala-se, por um lado da reprovação dos líderes do povo: “As multidões estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor”. 

A tarefa do pastor é levar o rebanho para o bom pasto para dele se alimentar, e dele cuidar. O profeta Ezequiel acusava, em nome de Deus, os pastores oficiais de Israel, os príncipes e magistrados que não apascentavam o rebanho, mas a si mesmos (Ez 34,2). Por causa disso, no futuro, o próprio Deus vai exercer o ministério pastoral (Ez 34,11ss). O próprio Deus veio em Jesus como o Bom Pastor que veio para o rebanho ter vida em abundância (Jo 10,10). E para os que são encarregados de ser pastores ou líderes do rebanho, Jesus deixou a seguinte ordem: “Apascenta as minhas ovelhas!” (Jo 21,15-17). “Apascentar” significa guiar, conduzir, alimentar, reger, governar, conduzir ao pasto, vigiar no pasto, pastorear. É cuidar do rebanho do Senhor (minhas ovelhas). 

Por outro lado, na introdução do discurso sobre a missão, fala-se também da compaixão de Jesus pela multidão cansada e abatida como rebanho sem pastor: Jesus ”ao ver a multidão teve compaixão dela, porque estava cansada e abatida como ovelhas sem pastor”(v.36).

Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor”. O verbo “Compadecer-se” se usava no judaísmo somente ao falar de Deus; e no NT, somente de Jesus. Compaixão é o amor entranhado de Deus pelos homens, manifestado em Jesus. A compaixão é a característica divina. A compaixão não conhece marginalização alguma, pois o reinado de Deus não exclui ninguém da salvação. Compaixão é sentir com outrem, achegar-se ao seu lugar, assumir-lhe a experiência e a dor. A compaixão atinge o próprio centro da pessoa, nas próprias vísceras. Assim se comporta Deus, segundo AT (cf. Is 63,15; Jr 31,20). A compaixão é comover-se até as entranhas, solidarizar-se profundamente, sentir a partir de outrem, é sofrer- com. A compaixão requer que eu esteja com as pessoas que sofrem, e disposto a partilhar meu tempo e meu coração com eles. Quando eu compartilhar meu coração com uma pessoa que sofre, uma parte dela não será tocada pelo sofrimento. O meu coração partilhado alivia a dor do outro. Assim é que vivia Jesus e é assim também que os seus seguidores devem viver. 

Na Bíblia, a compaixão (hebraico, rahamim) significa um amor uterino (rehém quer dizer útero). É a qualidade materna do amor de Deus. O nosso mal move as vísceras do Senhor (splánchna, grego) a ponto de com-sofrer e de sofrer-com o nosso próprio mal. O amor de Deus pelo povo é como uma mãe que olha e ama seu bebê que está no seu útero. Desta maneira é que Jesus olha e sente pela multidão. A vinda de Jesus ao mundo decorre da compaixão de Deus pela humanidade. Sua missão consiste em manifestar esta misericórdia, por meio dos gestos concretos. A compaixão é a marca da vida de Jesus. Por onde passa, o olhar de Jesus recai sobre os doentes e sofredores, as vítimas da marginalização e dos preconceitos e assim por diante. 

A compaixão é o motivo pelo qual Jesus pensa na necessidade da missão feita por seus discípulos. Os discípulos são enviados como missionários da compaixão. A alma da missão é o amor compassivo. O próprio Jesus deseja que seus discípulos desempenhem o papel como pastores verdadeiros e compassivos do seu povo no seu lugar e conforme a sua maneira de apascentar o povo (missão movida pela compaixão). A raiz da missão é, certamente, a compaixão que significa sofrer junto, sentir em si mesmo as dores e os problemas do povo, significa compartilhar e tornar próprios os sofrimentos e os anseios dos outros, significa solidarizar-se. Consequentemente, esforçar-se em encontrar algumas soluções concretas.

Jesus olha a multidão com compaixão. O olhar de Jesus nos convida a ter um olhar contemplativo e compassivo. Olhar contemplativo e compassivo sobre as pessoas e a realidade é uma certa ternura que faz ver além das aparências e evitar a indiferença. É colocar-se no lugar de quem sofre. Esse olhar move alguém a fazer algo, e não apenas olhar. Foi por causa do povo abandonado que os discípulos foram chamados e enviados. Nenhum deles foi chamado por outro motivo. Era uma resposta às necessidades dos filhos e filhas de Deus e não em função da necessidade dos enviados.          

Jesus afirma que a missão dos discípulos de levar a Boa Notícia aos outros e de apascentar fiéis na sua comunidade, também faz parte do acontecimento escatológico. Por essa razão Mt coloca a parte apocalíptica do discurso de Mc no seu discurso. Jesus sabe do tamanho da dificuldade dessa missão: por um lado, há poucos trabalhadores (v.37. Este versículo reflete a situação da comunidade de Mateus em que poucas pessoas têm interesse em ingressar no trabalho da missão. Mt admite que poucas pessoas se dedicaram à obra iniciada por Jesus. “Poucas” foram enviadas e continuava grande a necessidade de ajuda além das fronteiras da comunidade mateana. E nossa comunidade, também tem o mesmo problema?), e por outro lado, Jesus não oferece uma solução mágica ou através de milagre. Já que a missão faz parte do acontecimento escatológico, a solução desse problema, então, está nas mãos do Pai, dono da messe. O que os discípulos podem fazer é pedir ao Pai na oração para que mande mais trabalhadores para missão (v.38). 

A Vida De Jesus É Nossa Vida e Sua Missão É Nossa Missão 

A Messe (a colheita) é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi pois ao dono da messe que envie trabalhadores para a sua colheita!”, disse o Senhor para seus discípulos. 

O juízo final é visto como a colheita ou a messe (Mt 3,12; 13,30.39). quem salva a colheita (a messe) é o próprio agricultor. O julgamento de Deus é nossa salvação, mas também a d´Ele, pois Ele não pode aceitar que os seus filhos estejam perdidos ou sem salvação. O pecado é lugar de perder-se, a perdição da salvação. Missão é semear e colher. Quem semeia se encontra como quem acolhe (Jo 4,35-38), quem semeia misericórdia, obtém misericórdia (Mt 5,7). 

Nesta visão, a oração em si se torna missionária e escatológica. A oração deve fazer parte da missão, e não apenas se preocupar em procurar técnicas ou métodos para atrair mais pessoas para uma missão ou para a Igreja/comunidade. Aquele que é encarregado para liderar o rebanho tem que fazer seu trabalho dentro do espirito de oração, isto é, incluir Deus indispensavelmente no seu trabalho de pastor ou de líder. Um líder, um coordenador, um pastor que não reza não é digno de depositar confiança nele, pois ele vai fazer tudo em nome do próprio interesse e não em nome da salvação do rebanho do qual ele próprio faz parte. 

Através desta última exortação, Mt convida a sua comunidade e a nossa a contemplar a missão a partir da perspectiva e dos critérios de Deus, e a orar antes de empreender a tarefa de anunciar o evangelho. Isto quer nos dizer que a missão não depende da iniciativa autônoma dos homens, mas origina-se da vontade soberana de Deus. O que os homens podem fazer é rezar sempre para o Dono da messe mandar mais missionários. 

Jesus Nos Chama Pelo Nome Para Sermos Seus Apóstolos          

Até este momento, Mt somente há nomeado cinco discípulos de Jesus: Pedro e seu irmão André (Mt 4,18), Tiago e seu irmão João (Mt 4,21), e Mateus (Mt 9,9). Agora o grupo se completa até chegar ao número simbólico de doze. Estes doze discípulos representam doze tribos de Israel, e serão as colunas do novo povo de Deus, simbolizando a unidade e a totalidade do povo eleito. Pedro encabeça a lista e Judas Iscariotes a encerra. Ambos terão um protagonismo especial no relato da paixão (Mt 26-27). E Pedro aparecerá mais com um papel especial em outros lugares do evangelho (Mt 14,28-31;16,16-19;17,24-27).           

A lista dos escolhidos indica o caráter pessoal da vocação e da missão dos discípulos. Dificilmente encontramos os critérios adotados por Jesus na escolha dos Doze. Mas sabemos através da personalidade ou profissão dos Doze de que eles não eram pessoas de caráter excelente e firmes na fé, nem dotados de alto conhecimento teológico, tampouco provindos da classe alta da sociedade. Ao contrário, eles eram incultos, pescadores. Judas traiu e Pedro negou Jesus. Basta verificar a história da salvação. Ao longo dela, Deus serviu-se de meios precários para realizar seu plano. O próprio Deus continua sendo o próprio protagonista da missão. Somos apenas enviados. A missão é de Deus. Apesar da fragilidade dos escolhidos, eles foram instrumentos válidos nas mãos de Deus, pois era ele, como continua sendo quem realizava e continua realizando a salvação.          

Por isso, ao ver a lista dos escolhidos, não podemos mais ter nem criar desculpas diante da chamada de Deus. Como dizia São João Crisóstomo: “Não há nada mais frio que um cristão despreocupado da salvação alheia. Não podes aduzir como pretexto a tua pobreza econômica. Acusar-te-á a velhinha que deu as suas moedas no Templo. O próprio Pedro dirá mais tarde: ‘Não tenho ouro nem prata’ (At 3,6). E Paulo era tão pobre que muitas vezes passava fome e não tinha o necessário para viver. Não podes pretextar a tua origem humilde: eles também eram pessoas humildes, de condição modesta. Nem a ignorância te servirá de desculpa: todos eles eram homens sem letras. Sejas escravos ou fugitivo, podes cumprir o que depende de ti. ...Não invoques a doença como pretexto, pois Timóteo estava submetido a frequentes indisposições...Cada um pode ser útil ao seu próximo, se quiser fazer o que está ao seu alcance” (Homilia 20 sobre os Atos dos Apóstolos). 

E em relação ao grande tamanho da missão enquanto há poucos trabalhadores, São Gregório Magno comenta: “A messe é muita, mas os operários poucos...Ao escutarmos isto, não podemos deixar de sentir uma grande tristeza, porque é preciso reconhecer que há pessoas que desejam escutar coisas boas; falta, no entanto, quem se dedique a anunciá-la”.          

A lista dos doze está aí. Verifique, se nesta lista você encontrou seu nome. Se não, então, você precisa acrescentar seu nome para aumentá-la. Você está disposto a colocar seu nome nesta lista?

Todos Nós Somos Enviados Para Libertar Os Irmãos De Qualquer Tipo de Escravidão          

Os doze discípulos são chamados agora de os Doze Apóstolos ou enviados. Somente neste capítulo, Jesus usa o termo “Apóstolo”. Isso quer nos dizer que a missão é própria de todo discípulo de Jesus e que todos os seguidores de Cristo são chamados à missão. 

A missão que devemos levar adiante é esta: Não deveis ir aonde moram os pagãos, nem entrar nas cidades dos samaritanos! Ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel! Em vosso caminho, anunciai: ‘O Reino dos Céus está próximo’. Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. De graça recebestes, de graça deveis dar!” 

Ao chamar os Doze, Jesus lhes dá poder sobre os espíritos maus e sobre todo tipo de doença e enfermidade (10,1). A autoridade/poder que Jesus dá aos Doze não é qualquer autoridade e sim uma autoridade totalmente para o ministério apostólico: libertar e curar. É uma autoridade completamente missionária. Aqui, neste capítulo, não se fala do poder de presidir/dirigir ou governar.  Jesus capacita os discípulos para vencer a resistência à mensagem oposta pelas ideologias que dominam os homens, e a tudo que vai contra o projeto de Deus (cf. Mt 8,14-15). Os discípulos são chamados a lutar contra tudo aquilo que destrói a vida do homem, quer a física, quer a espiritual; contra aqueles sistemas sociais que reduzem o ser humano a instrumento de produção, sem receber a parte que lhe é devida, que negam a liberdade de falar a verdade.

Na hora de enfrentar qualquer dificuldade, o discípulo deve estar consciente de que ele já recebeu de Jesus a capacidade para superá-la (cf. Mt 28,18-19). Não cabe ao discípulo desistir diante de qualquer espécie de problema (cf. Mt 10,22). A maior derrota é desistir antes de lutar, enquanto em si tem capacidade suficiente para vencer.

A tarefa dada se concretiza em algumas instruções básicas para a missão. A primeira instrução de Jesus é “Não tomeis o caminho dos gentios, nem entreis em cidade de samaritanos” (v.5). Podemos ter duas interpretações deste versículo. Primeiro, ele reflete uma tensão viva na comunidade de Mt onde certos grupos de origem judaica não compreendiam nem aceitavam a missão aos pagãos. Segundo, na cultura de Jesus, a palavra “estrada/caminho” significa caminho ou modo de viver. Jesus pode ter querido dizer que não sigam o modo de viver dos pagãos que são idólatras.          

A segunda instrução, “Ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel” (v.6).  Em Mt encontramos duas etapas da missão. Na primeira etapa (Mt 10), a missão de Jesus e de seus discípulos é limitada para as “ovelhas perdidas de Israel”. Aqui não se fala da seleção entre os melhores, mas trata-se de gente necessitada. Para as pessoas necessitadas de Israel foram enviados os Doze. Na segunda etapa (Mt 28,19), o mandato missionário será para espalhar a Boa Nova a todos os povos. Mais tarde, então, a missão se abrirá a todos.          

Estas duas etapas da missão nos trazem uma lição muito importante para nossa comunidade: somos chamados a cuidar tanto dos de dentro da comunidade (missão ad intra), como dos de fora (missão ad extra). Na linguagem popular podemos dizer que vamos arrumar primeiro nossa casa. Vamos cuidar de nossa casa para depois cuidar das casas fora de nossa casa. Quem somente olha para a casa dos outros é porque não cuida da própria casa. A Igreja ou comunidade sem caridade interna, não tem força para dar testemunho. O testemunho interno de comunhão é o primeiro passo para um anúncio mais eloquente para fora dela.

Mas o cuidado com os de dentro não pode ser uma desculpa para ignorar os de fora. Ou, o cuidado com os de fora não justifica a falta de tempo ou atenção para com os de dentro. Temos, muitas vezes, mais facilidade de sorrir para os de fora do que para os de dentro.          

Terceira instrução: Os Doze são enviados para anunciar a proximidade do Reino de Deus. E mensagem do Reino de Deus é a de libertação: curar os enfermos, ressuscitar os mortos, sarar os leprosos, expulsar os demônios (vv. 7-8). Em outras palavras, anunciar o Reino de Deus significa instaurar a vida ali onde há carência dela ou está sendo ameaçada; onde há marginalização e onde há a dominação do espírito da injustiça e da desunião. O sinal da chegada do Reino é a libertação do povo de todo tipo de escravidão e dominação.          

Quarta instrução: Segundo Jesus, essa missão deve ser feita na gratuidade: “De graça recebestes, de graça daí” (v.8b). Se fosse com fins lucrativos, com certeza, muitos empresários teria interesse em exercê-la. Mas pelo fato de ter que fazê-la gratuitamente, poucas pessoas se interessam nesse trabalho. Para os que têm disposição para exercer a tarefa de evangelização, devem realizá-la na pobreza, sem intenção de lucro nem para proveito próprio. Trata-se de dar grátis o que foi recebido gratuitamente de Deus. Essa não é só uma proibição de fazer da evangelização uma fonte de lucro. É principalmente um alerta para que ninguém se engrandeça, se julgue superior, se envaideça quando se realiza algo de bom. Quando não envolve dinheiro, normalmente, as cobranças são outras: reconhecimento, prestígio, cargos, privilégios, e muitas vezes, competições entre grupos. Tudo isso não combina com o espírito de serviço que Jesus exige. Se alguém estiver consciente de que tudo nesta vida é graça de Deus, sem dúvida, é movido para fazer algo pelo bem dos outros, seguindo seguinte conselho de um sábio: “Se você fizer um benefício, nunca se lembre dele; se receber um, nunca se esqueça dele”. 

A Igreja, isto é, cada batizado, existe no mundo como um sinal eficaz da graça de Deus. Isto significa que a Igreja, cada batizado é projetado para os homens como uma presença salvadora na comunhão plena com o próprio Salvador do mundo, Jesus Cristo. A Igreja não está adotada de umas prerrogativas que a fazem firme e sim que tem umas promessas de assistência divina até o fim dos tempos de que a salvação possa chegar a todos os homens da história: “Eis que estou convosco todos os dias até o fim dos tempos” (Mt 28,20). 

Ser seguidor de Cristo nos constitui em missionários. De que maneira? Simplesmente fazer caso da chamada de Deus, sentir-se responsáveis do desígnio de Deus, ser misericordioso e diligente, lutar contra o mal, animar os demais, viver desprendido, viver na gratuidade.

Portanto, o evangelho de hoje que fala da missão não pode deixar ao lado sem ressonância para cada cristão batizado. Cada um deve autocriticar sobre o sentido missionário de sua existência cristã e buscar meios adequados que ajudem o sentido apostólico em seus diversos graus de compromisso. Assim seja!

P. Vitus Gustama,SVD

Imaculado Coração Da Bem-aventurada Virgem Maria, 13/06/2026

IMACULADO CORAÇÃO DE MARIA

Primeira Leitura: Is 61,9-11

9 A descendência do meu povo será conhecida entre as nações, e seus filhos se fixarão no meio dos povos; quem os vir há de reconhecê-los como descendentes abençoados por Deus. 10 Exulto de alegria no Senhor e minha alma regozija-se em meu Deus; ele me vestiu com as vestes da salvação, envolveu-me com o manto da justiça e adornou-me como um noivo com sua coroa, ou uma noiva com suas joias. 11 Assim como a terra faz brotar a planta e o jardim faz germinar a semente, assim o Senhor Deus fará germinar a justiça e a sua glória diante de todas as nações.

Evangelho: Lc 2,41-51      

41 Os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém, para a festa da Páscoa. 42 Quando ele completou doze anos, subiram para a festa, como de costume. 43 Passados os dias da Páscoa, começaram a viagem de volta, mas o menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que seus pais o notassem. 44 Pensando que ele estivesse na caravana, caminharam um dia inteiro. Depois começaram a pro­curá-lo entre os parentes e conhecidos. 45 Não o tendo encontrado, voltaram para Jerusalém à sua procura. 46 Três dias depois, o encontraram no Templo. Estava sentado no meio dos mestres, escutando e fazendo perguntas. 47 Todos os que ouviam o menino estavam maravilhados com sua inteligência e suas respostas. 48 Ao vê-lo, seus pais ficaram muito admirados e sua mãe lhe disse: “Meu filho, por que agiste assim conosco? Olha que teu pai e eu estávamos, angustiados, à tua procura”. 49 Jesus respondeu: “Por que me procuráveis? Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai?” 50 Eles, porém, não compreenderam as palavras que lhes dissera. 51 Jesus desceu então com seus pais para Nazaré, e era-lhes obediente. Sua mãe, porém, conservava no coração todas estas coisas.

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Neste dia celebramos a memória obrigatória do Imaculado Coração de Maria, logo depois da Solenidade do Sagrado Coração de Jesus: Mãe e Filho são inseparáveis.

A devoção ao coração de Maria foi propagada por São João Eudes no século XVII (remonta a 1643), devoto aos Corações de Jesus e Maria. Em 1944, Pio XII consagrou toda a humanidade ao coração de Maria, e fixou a celebração de sua festa no dia 22 de Agosto, oitava da Assunção, no intuito de pedir a paz. Esta festa é colocada no dia imediato à solenidade do Sagrado Coração de Jesus para voltar à origem histórica desta devoção. No século XVII, São João Eudes, em seus escritos, não separava os dois corações nos projetos litúrgicos. Esta celebração convida o povo a meditar no mistério de Cristo e da Virgem Maria em sua interioridade e profundidade. Maria conserva as palavras e os fatos do Senhor, meditando-os em seu coração (Lc 2,19); ela é morada do Espírito Santo, sede da sabedoria, imagem e modelo da Igreja que ouve e testemunha a mensagem do Senhor.

O coração de Jesus e o coração de Maria são inseparáveis. Falar do coração, e ainda mais falar do coração de uma mulher bendita (Maria) é situar-nos em um campo de esperança. A linguagem popular diz: “tem um coração de ouro”, “é de todo coração”. Coração significa intimidade, vida interior, o motor e a raiz da pessoa. Na Bíblia, coração é igual à própria pessoa. O Coração da Virgem Maria é representado com dois símbolos: a espada da dor e do martírio e as chamas do amor e da ternura.

O que é que entendemos quando falamos do Coração de Maria? Ao falar do Coração de Maria entendemos, em primeiro lugar, seu Coração físico, o que batia em seu peito durante sua vida mortal e agora no céu. Em segundo lugar, O conjunto de afetos, qualidades e virtudes que constituem “sua vida interior”. É sua pessoa mesma, considerada em seu mais nobre aspecto: o amor a Deus e à humanidade, pois ela aceito o convite de Deus para ser Mãe do Salvador da humanidade.

Em todos os tempos, na linguagem usual, a palavra “coração” é tomada como símbolo da vida interior do homem e da sua vida afetiva. A Sagrada Escritura geralmente dá ao termo “coração” este caráter simbólico. Deste modo, através do Coração físico de Maria veneramos sua vida interior e sua própria pessoa pela suprema razão da sua dignidade imensa de Mãe de Deus.

A maternidade divina de Maria é a raiz e a causa de todas as graças que adornam seu Coração. Escreveu Papa Pio XII na Carta Enciclica Fulgens Corona de 1953: “Como a santíssima Virgem é saudada com as palavras ‘cheia de graça’ (Lc 1, 28) – isto é kekaritoméne e ‘bendita entre todas as mulheres’, claramente se manifesta com essas palavras, como aliás sempre a tradição católica entendeu, que, com essa singular e solene saudação, nunca até então ouvida, se quer significar que a Mãe de Deus foi a sede de todas as graças divinas, e ornada com todos os carismas do Espírito Santo, e, mais ainda, com o tesouro quase infinito e inexaurível abismo deles, de tal forma que nunca esteve sujeita à maldição” (n.8). Graças tão excepcionais que Santo Tomás de Aquino afirma que, por ser Mãe de Deus, a Santíssima Virgem tem certa dignidade infinita.

E esta excelsa ou sublime maternidade, que coloca Maria acima de todas as criaturas, foi realizada em seu Imaculado Coração, antes que em suas puríssimas entranhas "Ao Verbo que deu à luz segundo a carne, O concebeu, primeiramente, segundo a fé no seu Coração", afirmam os Santos Padres. Através da fé e do amor, através da pureza, submissão e humildade do seu Coração, Maria merecia levar em seu ventre o Filho de Deus.

Se todo coração de mãe já é uma admirável cristalização do amor de Deus, que será o Coração de Maria destinado à mais augusta maternidade? Todos os adjetivos ficam aquém quando se trata de definir o Coração de Maria. Depois de ter dito que ele é imaculado, bondoso, santo, muito humilde, cheio de caridade, muito misericordioso, temos a impressão de não ter dito nada.

As leituras da missa (textos bíblicos)  destacam, acima de tudo do coração de Maria, a primeira discípula do Senhor Jesus Cristo. Maria é apresentada como uma Mulher que está inclinada, no íntimo do seu coração, à escuta e ao aprofundamento da Palavra de Deus (veja o canto ao evangelho). Maria tem a amorosa atenção ao que vê e escuta e aos acontecimentos divinos em que se acha envolvida. Maria escutava e meditava no seu coração a Palavra de Deus, que era para ela como que um pão que a nutria no íntimo. Ela também tem dupla atitude diante dos eventos e das palavras de Jesus: de um lado, ela conserva a lembrança delas e, do outro lado, ele se esforça para aprofundar a compreensão das Palavras, refletindo sobre elas em seu coração. O coração de Maria é sagrao porque guarda ou conserva o que é sagrado.

O evangelho lido neste dia nos relatou que “Três dias depois, encontraram Jesus no Templo. Estava sentado no meio dos mestres, escutando e fazendo perguntas”. Muitos biblistas consideram os “três dias” como alusão aos três dias entre a Cruz e a Ressurreição. Três dias são dias de sofrimento pela ausência de Jesus; são três dias de escuridão. E o peso destes três dias se revela nas palavras da Mãe de Jesus: “Meu filho, por que agiste assim conosco? Olha que teu pai e eu estávamos, angustiados, à tua procura” (Lc 2,48).

Este relato nos mostra a importância da presença de Jesus e de sua palavra na nossa vida, sem os quais nossa vida se torna escura, sem sabermos para qual direção devemos caminhar. Não é por acaso que, na sua busca do terreno que não o satisfez, Santo Agostinho dizia na sua oração: “Fizeste-nos para Ti, Senhor, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em ti (Confissões 1,1). Unir-se com Deus, estar em comunhão com Deus é a condição para ter paz do coração. Estar em comunhão com Jesus e Sua Palavra significa também estar envolvido no mistério de Sua Paixão e Ressurreição.

Por isso, podemos entender o significado da resposta de Jesus à Sua Mãe: “Por que me procuráveis? Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai?”. Aqui Jesus usa a palavra “devo” para dizer que Jesus pertence a Deus que é o seu próprio Pai e ele deve estar com o Pai. Consequentemente, Jesus não está desobedecendo a Mari e José, mas na realidade mostra sua obediência filial ao Deus Pai. Implicitamente, Jesus quer que Maria e José se mantenham no Deus Pai, obedientes à Sua vontade. Essa obediência é que vai levar Jesus para a Cruz e a Ressurreição.

Mas Lucas nos relatou que “Eles, porém, não compreenderam as palavras que lhes dissera. Jesus desceu então com seus pais para Nazaré, e era-lhes obediente. Sua mãe, porém, conservava no coração todas estas coisas”. As palavras de Jesus sempre são maiores do que nossa razão, nossa inteligência. Jamais podemos entender perfeitamente o sentido profundo da Palavra de Deus. A palavra de Jesus é grande demais para Maria. É tão grande a ponto de Maria só guardá-la no seu coração: “Sua mãe, porém, conservava no coração todas estas coisas”. Maria, que conservava as palavras e os fatos do Senhor, meditando-os em seu coração (Lc 2,19) é a verdadeira morada do Espirito Santo, sede da sabedoria, imagem e modelo da Igreja que ouve, medita e testemunha a mensagem do Senhor Jesus Cristo. Cedo ou tarde a Palavra de Deus vai nos iluminar para captar o sentido de cada coisa, de cada acontecimento na nossa vida.     

O coração de Maria esteve sempre cheio de Deus a ponto de o anjo do Senhor chamá-la de “cheia de graça” (cf. Lc 1,28). O seu coração imaculado é chamado santuário do Espírito Santo (LG 53), como rezamos na coleta, em virtude da sua maternidade divina e da inabitação contínua e plena do Espírito divino na sua alma. O Verbo que Maria deu à luz segundo a carne foi antes concebido segundo a fé no seu coração (Santo Agostinho). Foi em vista do seu Coração Imaculado, cheio de fé e de amor humilde, juntamente à benevolência totalmente gratuita e de uma complacência absolutamente pura de Deus que Maria mereceu trazer o Filho de Deus no seu seio virginal. 

Sua mãe, porém, conservava no coração todas estas coisas”. Maria, que ainda não entende, é  modelo da Igreja: “Guarda através do tempo” (esse é o significado da palavra grega diatereîn), essas palavras, como uma semente que vai crescer. Depois de ter carregado o Filho no útero, agora o leva no coração e se torna realmente mãe (Lc 8,21; 11,28), com a Igreja. Essa gestão espiritual do coração forma a estrutura plena de Cristo (Ef 4,13). Maria é realmente o ideal de qualquer crente.

O coração de Maria conservava as palavras de Jesus Cristo. Por isso, podemos dizer que seu peito foi um sacrário: “Sua mãe, porém, conservava no coração todas estas coisas”. O Coração de Maria é a projeção do Evangelho para nosso século. Maria viveu o Evangelho em seu mais puro e elevado espírito na interioridade de seu coração. Ela é a verdadeira discípula de Jesus que vive por causa da Palavra de Deus: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a Tua Palavra” (Lc 1,38).       

O cristão de nossos dias, que pretende adaptar sua vida às exigências do Evangelho, tem que penetrar com o máximo respeito no sagrado Coração de Maria e ver e aprender como ela viveu as exigências da Palavra de Deus. Maria sabe guardar a Palavra de Deus no seu coração para do seu coração sair frutos que Deus quer para o bem de toda a humanidade. Ao aderir à Palavra de Deus e ao guardar a Palavra de Deus no seu coração, Maria cresce progressivamente com a Palavra, mesmo que ela não compreenda seu significado no momento como aconteceu com a resposta de Jesus no Templo aos doze anos de idade, como relatou o evangelho lido neste dia. De Maria aprendemos que o coração é feito para guardar os tesouros da vida divina, para guardar a Palavra de Deus. Não guardemos no nosso coração aquilo que nos prejudica e destrói a vida alheia. Guardemos a Palavra redentora de Deus no nosso coração, para ela possa purificar nosso coração progressivamente a fim de um dia poder se tornar um coração imaculado semelhante ao Coração imaculado de Maria.       

Do coração de Maria brotam torrentes de graças de perdão, de misericórdia, de ajuda nas situações difíceis. Por isso, queremos pedir-lhe hoje que nos dê um coração puro, humano, compreensivo com os defeitos dos que convivem conosco.

Quando se fala do coração imaculado fala-se do coração capaz de amar sem limites. Amor é capacidade de sair de si mesmo, de transferir-se para outro ser, de participar de outro ser e de entregar-se por um outro ser. Aquele que ama está totalmente no outro, conservando sua identidade. O amor não pode realizar-se na esfera de um sujeito isolado. O verdadeiro amor é sempre como uma experiência de derrota que se transforma em vitória; uma experiência de entrega que se transforma em enriquecimento; uma experiência de sair de si que se transforma no mais profundo encontro consigo mesmo; uma experiência de morte que se transforma em vida. O ponto final do amor é a vitória sobre a morte. O ponto final do egoísmo é a morte, e a ausência do amor é a ausência de Deus. “É preciso amar os homens não pela simpatia que nos inspiram nem pelas qualidades que apreciamos, mas porque Deus os ama” (Martin Luther King).

Dizer-se devoto(a) do Coração de Maria é ser homem ou mulher de coração misericordioso onde habita o amor e a ternura. Por isso, terminamos a nossa oração pedindo ao Senhor: “Ó Deus, que preparastes no Imaculado Coração de Maria uma digna morada para o vosso Filho e um santuário para o Espírito Santo, concedei-nos um coração limpo e dócil, para que, sempre submissos aos vossos preceitos, Vos amemos sobre todas as coisas e ajudemos os nossos irmãos em todas as suas necessidades”. Assim seja.

P. Vitus Gustama,svd

Segunda-feira Da XI Semana Comum, Ano Par, 15/06/2026

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