quinta-feira, 12 de março de 2026

14/03/2026- Sábado Da III Semana Da Quaresma

HUMILDADE NO REZAR E NO AGIR E NO CONVIVER É TAMBÉM FRUTO DE NOSSA CONVERSÃO

Sábado da III Semana da Quaresma 

Primeira Leitura: Os 6,1-6

1 “Vinde, voltemos para o Senhor, ele nos feriu e há de tratar-nos, ele nos machucou e há de curar-nos. 2 Em dois dias, nos dará vida, e, ao terceiro dia, há de restaurar-nos, e viveremos em sua presença. 3 É preciso saber segui-lo para reconhecer o Senhor. Certa como a aurora é a sua vinda, ele virá até nós como as primeiras chuvas, como as chuvas tardias que regam o solo”. 4 Como vou tratar-te, Efraim? Como vou tratar-te, Judá? O vosso amor é como nuvem pela manhã, como orvalho que cedo se desfaz. 5 Eu os desbastei por meio dos profetas, arrasei-os com as palavras de minha boca, mas, como luz, expandem-se meus juízos; 6 quero amor, e não sacrifícios, conhecimento de Deus, mais do que holocaustos.

Evangelho: Lc 18, 9-14        

Naquele tempo, 9Jesus contou esta parábola para alguns que confiavam na sua própria justiça e desprezavam os outros: 10Dois homens subiram ao Templo para rezar: um era fariseu, o outro cobrador de impostos. 11O fariseu, de , rezava assim em seu íntimo: ‘Ó Deus, eu te agradeço porque eu não sou como os outros homens, ladrões, desonestos, adúlteros, nem como este cobrador de impostos. 12Eu jejuo duas vezes por semana, e eu dou o dízimo de toda a minha renda’. 13O cobrador de impostos, porém, ficou à distância, e nem se atrevia a levantar os olhos para o céu; mas batia no peito, dizendo: ‘Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador!’ 14Eu vos digo: este último voltou para casa justificado, o outro não. Pois quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado”.

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A Conversão É o Trabalho Diário Até o Fim De Nossa Vida Neste Mundo

Vinde, voltemos para o Senhor, ele nos feriu e há de tratar-nos, ele nos machucou e há de curar-nos. Em dois dias, nos dará vida, e, ao terceiro dia, há de restaurar-nos, e viveremos em sua presença”.

Desta vez é o profeta Oseias quem nos convida a nos converter aos caminhos de Deus. Sua experiência pessoal (sua mulher foi infiel no casamento, pois esta foi atrás de outro homem, mas Oseias continuava mostrando sua fidelidade) serve-lhe para descrever a infidelidade do povo de Israel para Deus, o Esposo sempre fiel. E ele põe nos lábios dos israelitas umas palavras muito belas de conversão: “Vinde, voltemos para o Senhor, ele nos feriu e há de tratar-nos, ele nos machucou e há de curar-nos. Em dois dias, nos dará vida, e, ao terceiro dia, há de restaurar-nos, e viveremos em sua presença”.

Converter-se é em hebraico, como também em latim, voltar-se, voltar, desandar: o homem volta para Deus, porque Deus o chama. Este Deus, quem nos chama  de volta de nossos desvios, está cheio de ternura: “... ele nos machucou e há de curar-nos. Em dois dias, nos dará vida, e, ao terceiro dia, há de restaurar-nos, e viveremos em sua presença. ... Certa como a aurora é a sua vinda, ele virá até nós como as primeiras chuvas, como as chuvas tardias que regam o solo”. Segundo o profeta Oséias, voltamos para Deus porque Ele é amoroso e misericordioso. A bondade e a misericórdia de Deus nos atraem, nos fazem voltarmos ao caminho de Deus, pois descaminhamos. A certeza de que Deus nos cura e nos restaura torna nossa volta a Deus mais fácil e leve. A misericórdia de Deus e sua ternura pesa mais do que nossa miséria. Tudo se tornará leve, apesar de nossos pecados, quando olharmos a partir da ternura e da misericórdia de Deus, como o filho pródigo que decidiu voltar para a casa paterna (cf. Lc 15,11-32).

A voz de Deus que nos chama é uma voz que salva a distância e supera os obstáculos para voltar a criar presença e intimidade. Voltar-se supõe o desvio do caminho certo. A conversão é um retorno. Jesus ilustra de maneira inesquecível essa imagem do retorno com a maravilhosa parábola do filho pródigo (cf. Lc 15,11-32). Isto significa que o pecado é sempre um afastamento. Com o pecado se estabelecem distâncias, se abandona a casa paterna. Por Jesus sabemos que o Pai continua nos esperando nossa volta. A Conversão é toda decisão ou inovação que de alguma forma nos aproxima da vida divina e nos torna mais conformes a ela para que sejamos mais humanos e mais irmãos com os outros. A conversão conduz as pessoas juntas à maturidade espiritual, que se reflete em sua aversão ao mal e sua atração pelo bem.

Por isso, esta conversão não deve ser superficial, por interesse ou para evitar o castigo. A conversão não deve ser passageira ou pontual “como nuvem pela manhã, como orvalho que cedo se desfaz”. Quantas vezes os israelitas se converteram desse jeito e logo voltavam a pecar.

Deste vez o profeta Oseias quer que a conversão seja levada a sério. A conversão não consiste em ritos exteriores e sim em atitudes interiores: “Quero amor, e não sacrifícios, conhecimento de Deus, mais do que holocaustos”. Desta maneira, Deus vai ajudar os israelitas: “Certa como a aurora é a sua vinda, ele virá até nós como as primeiras chuvas, como as chuvas tardias que regam o solo”. Com esta imagem, o profeta Oseias quer nos dizer que a ação de Deus faz fecunda a atividade humana, desde que o homem esteja aberto como a terra aberta para a chuva que cai. O homem só, com seus recursos sozinhos, se evapora, se desvanece e se empobrece, “como nuvem pela manhã, como orvalho que cedo se desfaz”. Este empobrecimento se manifesta em holocaustos e sacrifícios, isto é, em uma piedade coberta de uma idolatria (cf. Os 5,11). Seu ponto alto é a opressão, a própria aflição e a aflição alheia, e a morte. É desta maneira que o homem sente a ausência de Deus. Por outro lado, a busca de Deus e seu amor pelo homem (conhecimento de Deus, v.6b) refletem-se no amor ao outro, ao próximo que leva o homem à vida, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16).

A chamada do profeta Oseias para a conversão soou hoje para nós, e não somente para o povo de Israel: "Vamos voltar ao Senhor". Ele nos convidou para conhecer melhor a Deus. O profeta nos convida a organizar nossa vida muito mais de acordo com as atitudes internas - misericórdia com os outros - do que com os atos externos (ritos exteriores). Somente assim, a Quaresma será uma aurora de luz e uma fonte de nova vida.

Nossa conversão quaresmal está sendo interior, séria e sincera? Ou teremos a mesma experiência de tantos anos em que também decidimos voltar aos caminhos de Deus e depois fomos fracos e voltamos aos nossos próprios caminhos de pecado?  Vamos recordar aquilo que o autor da Segunda Carta de São Pedro: “Com efeito, se, depois de fugir às imundices do mundo pelo conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo, e de novo são seduzidos se deixam vencer por elas, o último estado se torna pior do que o primeiro” (2Pd 2,20).

Crer em Deus, aceitá-Lo em nossa vida, significa busca-Lo para caminhar com Ele em uma autêntica Aliança de amor, e para sermos fieis a Sua Palavra na riqueza e na pobreza, na saúde e na enfermidade todos os dias de nossa vida, e não somente com um amor comparado a uma nuvem pela manhã ou como orvalho matinal que se evapora. Voltar para o Deus da ternura e misericórdia é para nos tornarmos mais amorosos, tenros, misericordiosos para com os outros. Ternura é amor respeitoso, delicado, concreto, atento, alegre. Ternura é amor sensível, aberto à reciprocidade, não ganancioso nem pretensioso nem possessivo, mas forte na sua fraqueza, eficaz e vitorioso, desarmado e desarmante. A ternura supõe a capacidade de participar nas alegrias e nas tristezas da humanidade convivendo com cordialidade recíproca. Tratemos de que esta Quaresma nos ajude a vivermos nossa proximidade a Deus da ternura e da misericórdia com um autêntico compromisso de fé. “Quero amor, e não sacrifícios, conhecimento de Deus, mais do que holocaustos”! “Quero amor”, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16).

Sejamos Humildes Até Nas Nossa Orações

Oração é um dos temas preferidos do evangelista Lucas. Lucas é o evangelista da oração. Ele é o único evangelista que inicia (Lc 1,8-10) e termina (Lc 24,53) seu evangelho com o tema da oração. É ele quem mais nos apresenta Jesus orando, principalmente nos momentos decisivos de sua vida: no Batismo (Lc 3,21), na escolha dos discípulos (Lc 6,12), na profissão de fé de Pedro (Lc 9,8), na transfiguração (Lc 9,28s), no Getsêmani (Lc 22,39-46) e na cruz (Lc 23,34.46). Jesus também ensina os discípulos a orar (Lc 11,1ss). No evangelho de Lucas podemos encontrar as orações mais conhecidas e citadas pela Igreja: o Magnificat (Lc 1,46-56); o Benedictus (Lc 1,67-79); o Glória (Lc 2,14); o Nunc Dimittis (Lc 2,29-32). Além disso, Lucas ainda conta três parábolas sobre a oração (Lc 11,5-13;18,1-8;18,9-13). E na sua segunda obra (nos Atos) Lucas nos fala novamente deste tema. Ele nos apresenta a Comunidade Primitiva como uma comunidade orante (At 1,14;2,42). A oração está presente nos momentos mais importantes da Igreja Primitiva (At 1,24;8,15;11,4;12,5;13,2;14,23).

O texto do evangelho de hoje fala da oração de um publicano humilde e de um fariseu arrogante. Sobre a oração o Novo Catecismo da Igreja Católica diz: “A oração é um dom da graça, mas pressupõe sempre uma resposta decidida da nossa parte, porque o que reza combate contra si mesmo, contra o ambiente e, sobretudo, contra o Tentador, que faz tudo para retirá-lo da oração. O combate da oração é inseparável do progresso da vida espiritual. Reza-se como se vive, porque se vive como se reza” (Compêndio do Novo Catecismo, 572; Novo Catecismo, no. 2725).

Não nos esqueçamos: o Tentador quer nos tirar da oração, pois rezar é conversar com Deus. E o Tentador não quer que conversemos com Deus. Quem não rezar (quem não conversar com Deus), pode acabar conversando com o adversário (satanás) ou com o diabo (aquele que cria a desunião e divisão). Além disso, quem não conversa com Deus, gosta de falar de si próprio (egolatria). Quem conversa com Deus permanentemente, torna-se mais humano ou se humaniza. Quem se humaniza, torna-se irmão do outro. A oração nos serena, pois confiamos totalmente n’Aquele que torna tudo existir e possibilita o que é impossível (cf. Lc 1,37). Quanto mais crescermos na espiritualidade, mais rezaremos, pois “O combate da oração é inseparável do progresso da vida espiritual”. A verdadeira oração nos torna mais humildes ou mais nós mesmos. A oração potencia nossa humanidade.

Estamos na parte do evangelho de Lucas na qual se fala do caminho de Jesus para Jerusalém onde será morto e ressuscitado (Lc 9,58-19,28). Jesus está na etapa final de seu caminho (Lc 17,11-19,28). Durante esse caminho Jesus dá muitas lições importantes para seus discípulos.

Na passagem do evangelho deste dia Jesus continua a enfatizar sobre a importância da oração perseverante e humilde (Lc 18,1-14) que se iniciou na passagem anterior deste texto. Para falar da oração humilde Jesus conta uma parábola na qual ele coloca em confronto dois tipos de atitude diante de Deus representados por um fariseu e um publicano, como protagonistas da parábola: o fariseu que se elogia desprezando o outro, e o publicano que simplesmente pede a misericórdia de Deus sem desprezar ninguém, porque ele tem consciência de seus pecados.

O texto começa com esta afirmação: “... alguns confiavam na sua própria justiça e desprezavam os outros”. Quem confia na própria justiça despreza os outros para apreciar a si próprio. Quem está cheio de si e centrado no próprio eu(ego), não tem espaço nem para os outros nem para Deus. Arrogância e desprezo sempre andam inseparáveis. O arrogante se fecha ao Pai celeste; quem despreza, fecha-se aos irmãos.        

Na “oração” do fariseu, Deus ficou esquecido e somente o EU predomina: Eu não sou como os demais, eu jejuo, eu pago o dízimo. A arrogante consciência de ter feito alguma coisa, o faz acreditar que Deus se tornou seu Devedor, mas é inútil. Ele abusava da oração para demonstrar sua própria grandeza a fim de se colocar em destaque diante dos demais. É um verdadeiro exibicionista. O exibicionismo é a linguagem que demonstra a ausência de um valor. Quando um valor cresce na experiência espiritual de uma pessoa, ela ama discrição, que é a linguagem do tesouro escondido, e se comunica pelo caminho da simplicidade e da discrição. Toda a arrogância é contra ao amor fraterno que é essencial para uma convivência mais humana.        

É curioso comprovar que os santos, os que estão de verdade mais perto de Deus, se consideram sempre uns grandes pecadores, pois eles compreendem verdadeiramente o que o pecado significa. Somente à luz de Deus é possível reconhecer a própria miséria. O aproximar-se de Deus consiste em perder ou em abandonar nosso egoísmo e autossuficiência para encontrar a felicidade de Deus. 

Na parábola o publicano se sente pequeno, não se atreve a levantar os olhos ao céu, e por isso, sai do templo engrandecido. Reconhece-se pobre e por isso, sai enriquecido. Reconhece-se pecador e por isso, sai justificado. Com razão o Livro de Eclesiástico afirma: “Quem serve a Deus como Ele o quer, será bem acolhido e suas súplicas subirão até as nuvens. A prece do humilde atravessa as nuvens” (Eclo 35,20-21).                

Somos fariseus quando vamos à igreja não para escutar Deus e suas exigências, mas para convidá-Lo a nos admirar pelo bom que somos. Somos fariseus quando esquecemos a grandeza de Deus e nosso nada, e cremos que as virtudes próprias exigem o desprezo dos demais. Somos fariseus quando nos separamos dos demais e nos cremos mais justos, menos egoístas e mais puros/limpos que os outros. Somos fariseus quando entendemos que nossas relações com Deus têm de ser quantitativas e medimos somente nossa religiosidade pelas missas das quais participamos e não pelo amor que vivenciamos com os demais. A vaidade nos faz perder tempo em coisas fúteis e sem valor. 

O evangelho deste dia nos chama a nos vestirmos da humildade. E para que nos mantenhamos humildes jamais podemos nos esquecer que quem presencia nossa vida e nossas obras é o próprio Senhor a Quem temos que procurar agradar em cada momento. Se não estivermos vigilantes nisso, a soberba vai nos dominar. E a soberba tem manifestações em todos os aspectos de nossa vida: faz-nos susceptíveis, injustos em nossos juízes e em nossas palavras e ações, faz-nos crer melhores do que os demais e negar as boas qualidades dos outros e a soberba nos convence ter virtudes que não possuímos.

O Senhor se comove e esbanja suas graças diante de um coração humilde. A soberba é o maior obstáculo que o homem põe diante da graça de Deus. A soberba é o vício capital mais perigoso: se insinua e tende até infiltrar-se até nas boas obras. Por causa da soberba as boas obras perdem até seu mérito sobrenatural, pois as boas obras praticadas são uma participação na bondade de Deus.

Nossa oração deve ser como a do publicano: humilde, atenta, confiada, procurando que não seja monólogo em que damos voltas a nos mesmos, às virtudes que cremos possuir. A humildade é o fundamento de toda nossa relação com Deus e com os demais. Por isso, a humildade atrai a bênção de Deus e a simpatia dos homens. 

Sabendo que todos nós somos pecadores não podemos desprezar aqueles que vivem dominados pela maldade, pelo vício e assim por diante. Deus ama os pecadores e odeia o pecado. Por isso, o Senhor tomou nossa natureza humana para nos salvar e nos levar junto de Si como Seus amados. Por isso, fica a pergunta: temos rezado por as pessoas que vivem dominadas por algum vício e alguma maldade? Sejamos compassivos nas nossas orações por essas pessoas, pois quem é compassivo e justo brilhará com a mesma Luz de Deus para os demais. Sejamos um sinal de Cristo, Luz do mundo, dando-lhes nosso afeto, carinho e a caridade cristã. Rezemos/oremos uns pelos outros, principalmente nesta Quaresma, para que o amor de Deus e sua salvação cheguem a todos. ”Há pensamentos que são orações. Há momentos nos quais, seja qual for a posição do corpo, a alma está de joelhos” (Victor Hugo) 

Sempre que nós rezamos de verdade, a nossa oração é eficaz não porque modificamos Deus, mas porque nos modificamos, assim saímos diferentes do que entramos do templo.        

Reflita o que São Paulo escreveu: “Verdade é que a minha consciência de nada me acusa, mas nem por isto estou justificado; meu juiz é o Senhor” (1Cor 4,4). “As melhores e as mais lindas coisas do mundo não se pode ver nem tocar. Elas devem ser sentidas com o coração” (Charles Chaplin).

P. Vitus Gustama,svd

quarta-feira, 11 de março de 2026

13/03/2026- Sexta-feira Da III Semana Da Quaresma

AMAR COM CORAÇÃO, COM ALMA, COM ENTENDIMENTO E COM TODA FORÇA


Sexta-Feira da III Semana da Quaresma

I Leitura: Os 14,2-10

Assim fala o Senhor Deus, 2 Volta, Israel, para o Senhor, teu Deus, porque estavas caído em teu pecado. 3 Vós todos, encontrai palavras e voltai para o Senhor; dizei-lhe: 'Livra-nos de todo o mal e aceita este bem que oferecemos; o fruto de nossos lábios. 4 A Assíria não nos salvará; não queremos montar nossos cavalos, não chamaremos mais 'Deuses nossos' a produtos de nossas mãos; em ti encontrará o órfão misericórdia.' 5'Hei de curar sua perversidade e me será fácil amá-los, deles afastou-se a minha cólera. Serei como orvalho para Israel; ele florescerá como o lírio e lançará raízes como plantas do Líbano. 7 Seus ramos hão de estender-se; será seu esplendor como o da oliveira, e seu perfume como o do Líbano. 8Voltarão a sentar-se à minha sombra e a cultivar o trigo, e florescerão como a videira, cuja fama se iguala à do vinho do Líbano. 9 Que tem ainda Efraim a ver com ídolos? Sou eu que o atendo e que olho por ele. Sou como o cipreste sempre verde: de mim procede o teu fruto. 10 Compreenda estas palavras o homem sábio, reflita sobre elas o bom entendedor! São retos os caminhos do Senhor e, por eles, andarão os justos, enquanto os maus ali tropeçam e caem.

Evangelho: Mc 12, 28-34

Naquele tempo, 28bum escriba aproximou-se de Jesus e perguntou:  “Qual é o primeiro de todos os mandamentos?” 29Jesus respondeu: “O primeiro é este: Ouve, ó Israel! O Senhor nosso Deus é o único Senhor. 30Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e com toda a tua força! 31O segundo mandamento é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo! Não existe outro mandamento maior do que estes”.32O mestre da Lei disse a Jesus: “Muito bem, Mestre! Na verdade, é como disseste: Ele é o único Deus e não existe outro além dele. 33Amá-lo de todo o coração, de toda a mente, e com toda a força, e amar o próximo como a si mesmo é melhor do que todos os holocaustos e sacrifícios”. 34Jesus viu que ele tinha respondido com inteligência, e disse: “Tu não estás longe do Reino de Deus”. E ninguém mais tinha coragem de fazer perguntas a Jesus.

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Converter-se É Reconhecer os Pecados e Voltar Para o Deus de Amor

Volta, Israel, para o Senhor, teu Deus, porque estavas caído em teu pecado. Vós todos, encontrai palavras e voltai para o Senhor”.

O texto da Primeira Leitura fala das palavras finais do livro do profeta Oseías. Oséias se casou com uma mulher a quem ele amava muito. Mas, infelizmente, ela foi infiel e fugiu com o outro homem. Mesmo assim Oséias continuava a amá-la e foi atrás dela para tomá-la de volta como esposa.

O profeta Oseías converte este episódio dolorosa em símbolo do amor que Deus tem ao seu povo. Israel, com quem Deus tinha se desposado, estava vivendo como uma mulher infiel, como prostituta que provocou o furor e os zelos de seu esposo divino. Mas Deus continuava a querê-la, e quando a castigava era para atraí-la para Si e para devolver-lhe a alegria do primeiro amor.

O Deus de Oséias, tão ferido, tão maltratado por seu povo, não se consome em lamentos estéreis e rancorosos e sim que o povo se converta: “Volta, Israel, para o Senhor, teu Deus, porque estavas caído em teu pecado. Vós todos, encontrai palavras e voltai para o Senhor. 'Hei de curar sua perversidade e me será fácil amá-los, deles afastou-se a minha cólera’, disse o Senhor”. Isto significa que o retorno a Deus não pode ser alcançada sem esta confissão humilde de caminhos errados que foram seguidos pelo povo. O reconhecimento dos pecados cometidos é o primeiro passo para a conversão. Este reconhecimento tem que ser acompanhado pelo arrependimento profundo seguido pelos propósitos claros e firmes para viver segundo os mandamentos de Deus. O mesmo aconteceu com o filho mais novo da parábola do filho pródigo que devemos seguir: “Vou me Levantar e irei a meu pai, e vou dizer-lhe: Meu pai, pequei contra o céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho. Trata-me como a um dos teus empregados” (Lc 15,18-19).

O livro de Oséias comoveu profundamente os homens do AT. Não é de estranhar que os evangelistas se inspirem nele e o citem com frequência. A comunidade cristã viu em suas páginas a imagem do amor que Cristo tem à Sua Igreja.

Reconhecemos que a falta maior de todos nós é a resistência a nos encontrar com Deus diariamente que nos ama incondicionalmente (cf. Jo 3,16). Por causa de nossos pecados acabamos não vendo Deus na nossa história. O pecado nos afasta de Deus e do próximo, e acabamos vivendo no isolamento mortal. Sem querer querendo negamos ver Deus na história e nos acontecimentos de cada dia. Por isso, a conversão essencial não consiste em fazer coisas e sim que vivamos cada acontecimento de cada dia profundamente no espírito de Deus, pois nele Deus nos convida a vivermos n’Ele e com Ele para que possamos viver no amor e por amor. Em cada acontecimento, Deus sempre tem seu apelo para todos nós, em geral e para cada um de nós, em particular. Através da reflexão conseguiremos decifrar este apelo.

O mal não tem rosto porque ele pode tomar o ser de qualquer um de nós. Ninguém está isento da possibilidade do mal. O mal é tudo que serve à morte; tudo que sufoca a vida, estreita-a, e corta-a em pedaços. Por isso, a realidade do mal exige vigilância. A conversão se torna, assim, um trabalho silencioso e permanente de cada dia. O pecado é um dos acontecimentos diários que todos temos em comum, algo com que todos nós podemos nos identificar. É uma batalha para vencer ou perder. Mas se confiarmos na misericórdia de Deus, seremos vencedores de qualquer batalha.

Amar Com Coração, Com Alma, Com Entendimento e Com Toda a Força

“Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e com toda a tua força! Amarás o teu próximo como a ti mesmo!”

O texto do evangelho deste dia fala do mandamento de amor. Sem dúvida nenhuma, todos, sem exceção, dão ao mandamento de amor uma prioridade quase exclusiva, pois o amor é uma chave geral para entender tudo na vida, até para entender a vida eterna, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16), e o amor é a força extraordinária para fazer até o impossível. Por amor Deus salvou o mundo (Jo 3,16). Por isso, São Paulo escreveu aos Romanos: “O amor é o pleno cumprimentoda Lei” (Rm 13,10). O amor é uma forma de nos comunicarmos com Deus profundamente. Por esta razão, o amor é um ato sagrado, a forma mais pura de alimentar a alma de outra pessoa, assim como a sua própria. “Se um dia tiver que escolher entre o mundo e o amor lembre-se: se você escolher o mundo ficará sem o amor, mas se escolher o amor com ele você conquistará o mundo”, dizia Albert Einstein. “Amai, pois o amor desata a língua do gago, ilumina o obtuso, torna o avaro generoso e inspira a todos a civilidade, a elegância, a atividade, o refinamento” (Ditado árabe antigo).

Em várias ocasiões Jesus recordou que o preceito sabático era secundário em relação ao mandamento de amor (Mc 3,4; Lc 13,16). O amor relativiza a lei e a eleva sobre si mesma. Sobre o amor seremos julgados (cf. Mt 25,40.45). Quem não encontra o caminho do amor, quem não se deixa conduzir pelo mandamento de amor, perde o sentido da vida.

O escriba do Evangelho de Marcos se apresenta a Jesus com uma pergunta autêntica e não para pôr Jesus à prova: “Qual é o primeiro de todos os mandamentos?”.  Por isso, no fim do texto Jesus elogiou o escriba: “Tu não estás longe do Reino de Deus”.

Nas escolas rabínicas se distinguia entre mandamentos “graves” ou de peso e mandamentos “leves”. Tinham 248 preceitos positivos (de acordo com o número de órgãos do corpo) e 365 proibições legais (de acordo com o número dos dias do ano). Os rabinos investigaram qual de todos esses mandamentos era realmente importante; qual era o primeiro e principal que serve como resumo de todos os mandamentos.

Jesus responde citando ao pé de letra a passagem do Dt 6,4-5 (amar a Deus), mas acrescenta imediatamente o mandamento do amor ao próximo que se encontra em outro contexto em Lv 19,18. Para Jesus os dois mandamentos são como um só: “Não há mandamento maior que estes”. Não se pode amar a Deus sem amar ao próximo (cf. 1Jo 4,20). Neste mandamento de amor se funda a única piedade verdadeira. O verdadeiro culto não pode se separar da atenção aos mais necessitados. Nesta mesma linha São Tiago afirma rotundamente: “A religião pura e sem mácula diante de Deus, nosso Pai, consiste nisso: visitar os órfãos e as viúvas em suas tribulações e guardar-se livre da corrupção do mundo” (Tg 1,27). 

Amar! Este é o mandamento do Senhor. A acumulação dos termos: “coração, alma, mente, força” quer significar uma plenitude de amor que compreende todas as nossas faculdades de amar. É preciso que o amor arda em nossos pés à cabeça, em nosso espírito ao corpo, em nossa manhã até a noite, em nossa infância à velhice, em nosso mundo à eternidade. O amor não é horizontal nem vertical. Só conhece a dimensão da profundidade e da totalidade.

Amor é a essência para qualquer relacionamento com suas três direções: a Deus, ao próximo e a mim mesmo. Amor é relação, comunicação, encontro. Para eu poder valorizar o outro eu preciso saber me valorizar. Para eu poder amar o outro, eu preciso saber me amar. Para eu poder compreender o outro, eu preciso me compreender. Para eu poder fazer o encontro com o outro, eu preciso fazer o encontro comigo mesmo, reconhecendo tantos minhas capacidades e virtudes como também meus defeitos e limitações.

Não basta amar a Deus, alguém tem que amar também o próximo. Não basta amar o outro, mas tem que saber se amar: “Amar a Deus com toda força e o próximo como a ti mesmo”. Não faça do outro como objeto de sua carência de amor. Isto não é amor. É exploração. Para amar tem que ser livre. O amor verdadeiro se direciona unicamente ao outro, sem esperar recompensa. O amor liberta, dá segurança e possibilita o crescimento. Quando uma pessoa começar a sufocar a outra pessoa é porque está faltando amor. Amar a Deus somente é possível amando o próximo. O amor que se pratica com Deus deve ser igual ao amor que se pratica com o próximo. Como isso, Jesus destaca a importância de um ser humano e não as leis que matam as pessoas para render um culto errado para um deus falso.

Por isso é que Jesus não fala de qualquer amor. Ele fala do amor ágape. Ágape é uma palavra grega que significa o amor que se dirige unicamente para o outro, incondicional, e que não espera nada em troca. É uma doação pura de si mesmo. Por isso, Jesus chegou a fazer uma afirmação muito extrema: “Amai vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem” (Mt 5,43-44). A única coisa que se espera dos inimigos é o bem deles. Este é o amor-ágape. É o amor que salva e liberta. Com efeito, a atitude de fé é procurar descobrir o projeto de amor de Deus e corresponder a ele. Amar a Deus significa escutá-Lo, adorá-Lo, encontrar-nos com ele na oração e na vida e amar o que ele ama. Amar o próximo não apenas significa deixar de fazer o mal, e sim estar pronto para ajudá-lo, acolhê-lo e perdoá-lo. Amor é o único meio que em si tem capacidade de convencer o outro, até os ateus de que somos cristãos.

Portanto, hoje Jesus nos oferece a chave fundamental para cumprir a vontade de Deus: o amor íntegro a Deus como único Senhor e o amor ativo e efetivo e desinteressado para próximo. São Paulo nos relembra através da Carta aos romanos: “Não fiqueis devendo nada a ninguém… a não ser o amor que deveis uns aos outros, pois quem ama o próximo cumpre plenamente a Lei. De fato, os mandamentos: ‘Não cometerás adultério’, ‘Não matarás’, ‘Não roubarás’, ‘Não cobiçarás’, e qualquer outro mandamento, se resumem neste: ‘Amarás o próximo como a ti mesmo’. O amor não faz nenhum mal contra o próximo. Portanto, o amor é o cumprimento perfeito da Lei (Rm 13,8-10).

É tão importante o mandamento de amor a ponto de Marcos colocar a palavra “ouvir”: “Ouve, ó Israel!”. “Ouve, ó Israel” são as mesmas palavras que todo judeu fiel pronunciava cada manhã como oração matinal. É preciso que prestemos nossa atenção para esse mandamento para que possamos ser elevados até Deus.Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e com toda a tua força! E amarás o teu próximo como a ti mesmo! Não existe outro mandamento maior do que estes”. Toda a lei se resume no amor. “O amor é a única dívida que mesmo depois de paga nos mantém como devedores”, dizia Santo Agostinho (Epist. 192,2).

Neste sentido a conversão significa voltar a amar a Deus e ao próximo e à própria vida de todo o coração. O caminho do Senhor é o caminho de amor. “São retos os caminhos do Senhor e por eles andarão os justos, enquanto os maus ali tropeçam e caem” (Os 14,10b). Trilhar por este caminho significa estar com Deus de amor. “Quanto mais amas, mais alto tu sobes” (Santo Agostinho).

Todo ato de amor vem de Deus, tem sua fonte e origem no coração de Deus (cf. 1Jo 4,19). Por isso, Deus pode ser contemplado em: O amor de uma mãe que ama seu filhinho e de um filho que ama seus pais. O amor de um prometido a sua prometida, de um esposo para sua esposa. O amor de um homem ou de um patrão que se desvela por seus companheiros de trabalho. O amor de um pastor para seu rebanho. E assim por diante.

O amor faz qualquer um feliz e leva alguém à alegria completa. É a promessa do Senhor: “Disse-vos essas coisas (mandamento do amor) para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa” (Jo 15,11). “Não há felicidade onde não há amor” (Santo Agostinho).

O amor autêntico exige sempre o sacrifício e o total esquecimento de si. É amar por amor.  São Bernardo afirma: “O amor basta por si só e por causa de si. Seu prêmio e seu mérito se identifica com ele mesmo. O amor não requer outro motivo fora de si mesmo. Amo porque amo; amo para amar”. Se Deus é Amor (1Jo 4,8.16), logo, você vive não quando respira, mas quando ama. Do ponto de vista cristão a capacidade de viver o amor fraterno é o critério de maturidade cristã. Amar é estar em comunhão plena com o Deus de amor.

O amor é essencial do Evangelho e da vida evangélica, da vida cristã. É a Boa Nova que minha vida toda deve estar proclamando. Eu devo me perguntar diariamente: Será que eu amo efetivamente? A quem eu amo. A quem eu deixo de amar? Como se traduz este amor na minha atitude diária? Quem é meu próximo? Como eu me amo a mim mesmo? Amar a Deus somente é possível amando ao próximo (cf. Jo 15,12).

“Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e com toda a tua força! Amarás o teu próximo como a ti mesmo!”. Amor sem limite a Deus e ao irmão é a plenitude da lei de Cristo. São Paulo escreveu aos romanos: “Amar é cumprir a lei inteira” (Rm 13,10). Todas as celebrações e todas as atividades na Igreja de Cristo têm só uma função: para que todos cresçam cada vez mais no amor fraterno. Sem o amor fraterno tudo careceria de sentido.

A vida pessoal e social dos seres humanos, de modo geral, é movida por duas grandes paixões: o amor e o ódio. Sobre estas duas forças poderosas Santo Agostinho tem sua concepção universal: o amor leva o eu até à morte por causa do outro, e o ódio leva o outro até à morte por causa do eu. O amor funda a Cidade de Deus, onde os humanos se sentem seguros e integrados como um grande útero. O ódio funda a cidade de Satanás, onde os humanos se entredevoram como numa prisão.

Onde o amor é impotente, onde não se produz amor, aí não está Deus. Quem não ama não conhece a Deus (1Jo 4,8). Um homem que não ama não é um homem. Podemos dizer que não é um cristão. Por isso, quem não ama é um ateu, o único verdadeiro ateu.

P. Vitus Gustama,svd

12/03/2026- Quinta-feira Da III Semana Da Quaresma

ESCUTAR DEUS E SUA PALAVRA PARA ESTAR DO LADO DO BEM CONTRA O ESPÍRITO DO MAL

Quinta-Feira da III Semana da Quaresma

I Leitura: Jr 7,23-28

Assim fala o Senhor: 23 Dei esta ordem ao povo dizendo: Ouvi a minha voz, assim serei o vosso Deus, e vós sereis o meu povo; e segui adiante por todo o caminho que eu vos indicar para serdes felizes. 24 Mas eles não ouviram e não prestaram atenção; ao contrário, seguindo as más inclinações do coração, andaram para trás e não para a frente, 25 desde o dia em que seus pais saíram do Egito até ao dia de hoje. A todos enviei meus servos, os profetas, e enviei-os cada dia, começando bem cedo; 26 mas não ouviram e não prestaram atenção; ao contrário, obstinaram-se no erro, procedendo ainda pior que seus pais. 27 Se falares todas essas coisas, eles não te escutarão, e, se os chamares, não te darão resposta. 28 Dirás, então: Esta é a nação que não escutou a voz do Senhor, seu Deus, e não aceitou correção. Sua fé morreu, foi arrancada de sua boca.'

Evangelho: Lc 11,14-23

Naquele tempo 14 Jesus estava expulsando um demônio que era mudo. Quando o demônio saiu, o mudo começou a falar, e as multidões ficaram admiradas. 15 Mas alguns disseram: 'É por Belzebu, o príncipe dos demônios, que ele expulsa os demônios.' 16 Outros, para tentar Jesus, pediam-lhe um sinal do céu. 17 Mas, conhecendo seus pensamentos, Jesus disse-lhes: 'Todo reino dividido contra si mesmo será destruído; e cairá uma casa por cima da outra. 18 Ora, se até Satanás está dividido contra si mesmo, como poderá sobreviver o seu reino? Vós dizeis que é por Belzebu que eu expulso os demônios. 19 Se é por meio de Belzebu que eu expulso demônios, vossos filhos os expulsam por meio de quem? Por isso, eles mesmos serão vossos juízes. 20 Mas, se é pelo dedo de Deus que eu expulso os demônios, então chegou para vós o Reino de Deus. 21 Quando um homem forte e bem armado guarda a própria casa, seus bens estão seguros. 22 Mas, quando chega um homem mais forte do que ele, vence-o, arranca-lhe a armadura na qual ele confiava, e reparte o que roubou. 23 Quem não está comigo, está contra mim. E quem não recolhe comigo, dispersa.

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Escutar a Palavra De Deus Para Viver Frutífero

Ouvi a minha voz, assim serei o vosso Deus, e vós sereis o meu povo; e segui adiante por todo o caminho que eu vos indicar para serdes felizes”, assim fala o Senhor através da boca do profeta Jeremias. É uma das expressões mais perfeitas da Aliança. O Deus do povo eleito é também o Deus da alainça. É uma pertença reciproca: “Serei vosso Deus e vós sereis o meu povo”.

Escutar é uma das chamadas constantes da Sagrada Escritura. Quando você fala, não há novidade porque você vai dizer aquilo que você já sabe. Quando você escuta, sempre há possibilidade de receber algo novo para sua vida. Nisto consiste a importância da escuta. Escutar significa fazer próprio o que se proclama e o que se escuta. Escutar também significa atender, ir assimilando o que se ouve, reconstruir interiormente o conteúdo da mensagem. Escutar é a primeira forma de fé e de oração, antes que dizer palavras ou entoar cantos. Escutar é uma das atitudes mais cristãs. Somente os que têm a humildade é que são capazes de escutar. O autossuficiente e o prepotente não sabem escutar e não querem escutar. Ouvir profundamente significa escutar as palavras, os pensamentos, a tonalidade dos sentimentos, o significado pessoal, até mesmo o significado que subjaz às intenções conscientes, até os gritos enterrados muito abaixo da superfície do interlocutor. O povo eleito é formado pela escuta da Palavra de Deus. E a maior das tragédias na Bíblia é causada pela falta da escuta da Palavra de Deus. Quando nos abrirmos para o discurso divino, aprenderemos que nós somos escuta, dom e que nos realizamos na gratuidade.

Mas, em vez de escutar Deus, o povo fez seu próprio caminho fora de Deus: “Mas eles não ouviram e não prestaram atenção; ao contrário, seguindo as más inclinações do coração, andaram para trás e não para a frente”. É a queixa amarga de Deus por meio do profeta Jeremias. É uma contra seu povo Israel porque não cumpre a Aliança que havia feito entre Deus e seu povo. Trata-se de uma acusação que clama o céu. Muitas tragédias aconteceram na vida de uma pessoa por falta da escuta ou não levou em consideração o alerta vindo de quem tem mais conhecimento e experiência. Mas quando eu ecutar atentamente à Palavra de Deus, minha vida terá mais direção certa. Jesus é a Palavra Divina, o Verbo Divino. Caminhando com Ele que é o próprio Caminho (Jo 14,6), jamais errarei o caminho.

Por isso, Escutar atentamente à Palavra Divina é uma coisa mais séria, requer uma certa dose de interesse, de preocupação, de atenção. Há que parar-se para detectar o que ouvimos, para clarificá-lo, para assimilá-lo e para respondê-lo. Escutar é um exercício humano para certa categoria. Muitas vezes acontece que ouvimos mas não escutamos.

Um dos grandes temas da Escritura é a escuta da Palavra de Deus. Na Bíblia, a escuta é uma palavra–chave que caracteriza toda a tradição do povo hebraico. O povo foi formado pela escuta da Palavra de Deus, assim como o próprio cristianismo foi formado pela escuta da palavra do Senhor Jesus Cristo. Cada piedoso e observante israelita, para se compenetrar da vontade de Deus, repete dia a dia esta frase: “Escutai, ó Israel”, conhecida como “Shemah (Dt 6,4; Mc 12,29), que desde o fim do século I d. C não deixou de ser rezado de manhã e à tarde. Por trás da palavra “Shemah”, que convida Israel a se colocar numa atitude de escuta, proclama-se solenemente a unidade de Deus que causa a união plena e total de Israel com o Senhor.

Escutar é a primeira forma de fé e de oração, antes que dizer palavras ou entoar cantos. Escutar é uma das atitudes mais cristãs. Somente os que têm a humildade é que são capazes de escutar. O autossuficiente e o orgulhoso não sabem escutar e não querem escutar. Quem não aprender a escutar e a perguntar, não poderá ir longe nem pode crescer na vida.

Certamente a Boa Notícia consiste no fato de que Deus tem uma palavra para mim, para minha família, para meu casamento, para meu trabalho, para meus problemas e dificuldades e assim por diante, e eu posso e preciso escutar esta palavra no silêncio e na paz. Eu devo me alimentar desta escuta, para que eu cresça na fé e me realize como pessoa. Na escuta da Palavra de Deus Eu cresço junto a tantos outros que, como eu, formam a Igreja que caminha, escutando a Palavra de Deus. O drama do homem, na verdade, consiste em não escutar a Deus e a Sua Palavra, não escutar os bons conselhos, não escutar as boas orientações, não escutar os alertas (leia Dt 18,16.19).

Estamos no tempo da Quaresma. É um tempo forte para nos abrirmos para Deus (oração, meditação, reflexão etc.), para nos abrirmos para os outros (obra de caridade, a esmola) e para nos abrirmos para nós mesmos (jejum, autocontrole a fim de dar maior espaço para Deus na nossa). São três pilares de nossa Quaresma. É bom cada um se perguntar: será que me esforço para esta abertura? Se não, a Páscoa deste ano será mais uma páscoa na minha vida, sem novidade nem renovação dentro de mim. E será cumprida em nós a Palavra de Deus em forma de um crítica forte: “Esta é a nação que não escutou a voz do Senhor, seu Deus, e não aceitou correção. Sua fé morreu, foi arrancada de sua boca”. Que nossa fé não morra em nós. E por isso ela precisa ser alimentada pela escuta, pela oração, pela obra de caridade e pelo jejum que expressa nosso autocontrole.

“... segui adiante por todo o caminho que eu vos indicar para serdes felizes”. O Senhor da aliança é também o Senhor do direito e da obediência, não o dos sacrifícios e holocaustos. A libertação do povo oprimido no Egito foi um primeiro ato de justiça de Deus, ao qual  se deve corresponder com obediência. Os profetas sempre alertaram o povo sobre isso. Mas infelizmente o povo não quis ouvir a voz deles. Não obedecer a Deus e seus mandamentos tem como resultado a tragédia na vida do povo em geral e na vida de cada um,de modo especial. Chegou a hora de cada um converter-se.

É Preciso Estar Unido a Cristo Para Combater Todos Os Tipos de Demônio Na nossa Sociedade

A história se repete no tempo de Jesus. Israel foi surdo à Palavra de Deus através das palavras do profeta Jeremias. E os contemporâneos de Jesus foram cegos aos sinais do Mestre.

Em Lc 11,14-54, onde se encontra o texto do Evangelho de hoje, encontra-se a oposição no Caminho de Jesus.

Jesus veio para expulsar o demônio do egoísmo que divide, o espírito demoníaco que luta contra a força do Espírito de partilha e de fraternidade que há dentro de cada pessoa e de cada comunidade. Ele veio para expulsar o demônio do individualismo que se coloca contra as correntes solidárias na sociedade. Ele veio para destruir os demônios com o poder de Deus e implantar Seu Reino de justiça e de paz.

O texto do evangelho de hoje começa com a seguinte afirmação: “Jesus estava expulsando um demônio que era mudo”. O demônio mudo nos destrói na nossa essência, pois o homem é feito para escutar Deus e responder Seus apelos. O homem é o parceiro de Deus, depositório de sua Palavra. O espírito mudo é o contrário daquele do Filho: é o egoismo ao invés do amor, é divisão ao invés de comunhão, ciúme ao invés de louvor, desolação ao invés de consolação, trevas ao invés de luz, a morte ao invés de vida. Ao invés de falar e comunicar ao Pai celeste, fecha-se ao Pai e desune os irmãos. Jesus veio para eliminar do homem este espírito mudo.

Depois que Jesus expulsou de uma pessoa um demônio que era mudo, os adversários de Jesus o acusaram dizendo: “É por Belzebu, o príncipe dos demônios, que ele expulsa os demônios”. Quando ficam sem meios justos para criticar Jesus (ad rem), os adversários atacam a pessoa de Jesus (ad hominem) através dos meios injustos. Eles atribuem o poder de Jesus para expulsar os demônios não a Deus e sim ao Satanás. Mas os simples percebem, que através da ação de Jesus que liberta as pessoas de suas prisões, o Reino de Deus chegou. Jesus não só salva a alma, mas a pessoa inteira.

Contra a esta acusação Jesus responde com algumas intervenções ou alguns ditos.

Primeira intervenção: “Todo reino dividido contra si mesmo será destruído; e cairá uma casa por cima da outra”.

Segunda intervenção: “Se até Satanás está dividido contra si mesmo, como poderá sobreviver o seu reino?”.

Satanás não pode estar em contra de si mesmo, assim como um reino não pode estar dividido, tampouco Satanás pode estar dividido.

Depois vem a parábola do homem forte que muito mais armado do que aquele que guarda a casa e por isso, consegue derrotar o guarda da casa.

Com esta parábola o texto quer nos dizer que Jesus veio para expulsar o Satanás e dificultar sua obra e despojar sua casa, pois Jesus é muito mais forte do que qualquer Satanás. A ação de Jesus e a dos que O seguem sempre produzem unidade, paz, bondade, misericórdia, perdão, liberdade e libertação, atenção aos demais, que são as características das ações evangélicas. São Paulo, na sua carta aos gálatas, escreveu: “Vós fostes chamados à liberdade. Não abuseis, porém, da liberdade como pretexto para prazeres carnais. Pelo contrário, fazei-vos servos uns dos outros pela caridade, porque toda a lei se encerra num só preceito: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Gl 5,13-14). Segundo São Paulo, os que têm o espírito evangélico possuem as seguintes características: “Os frutos do Espírito são: amor, alegria, paz, generosidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, continência” (cf. Gl 5,13-21. 22-23). Quando encontrarmos estas características em nós e em nossas ações, poderemos estar seguros de que estaremos diante de um espírito evangélico. Pelo contrário, “se vos mordeis e vos devorais, vede que não acabeis por vos destruirdes uns aos outros?” (Gl 5,15).

Outros pensamentos para nossa reflexão:

1. Importância da Unidade                      

Todo reino dividido contra si mesmo será destruído; e cairá uma casa por cima da outra”, diz o Senhor. Nesta controvérsia Jesus sublinha a importância da unidade. Pela história sabemos que a guerra civil destrói mais os impérios do que os ataques exteriores. Quem usar a “ação de dividirpara atacar será destruído pela mesma divisão que recairá contra suas próprias tropas. Coração dividido é o coração ferido. O Corpo Eucarístico o qual comungamos torna cada um Corpo de Cristo para os outros.

A unidade é a expressão e a prova mais evidente do amor. Quem estiver unido com Cristo que está unido ao Pai, jamais será causador da desunião e da divisão entre os cristãos ou entre as pessoas; ele buscará sempre a reconciliação. A comunhão com Cristo é impossível sem a vivência do amor fraterno. Assim como o amor fraterno cria unidade, assim também a comunhão com Jesus deve criar a comunhão entre os cristãos.

2. Estar do lado da justiça, do bem e da verdade é estar do lado de Jesus

Quem não está comigo, está contra mim; quem não recolhe comigo, espalha”, alerta-nos o Senhor hoje.

Na sua pregação o Apóstolo Pedro deu seu testemunho sobre Jesus ao dizer que Ele “passa a vida fazendo o bem(At 10,38). Apesar disso Jesus enfrentou muitas oposições. Muitos se consideravam proprietários das boas obras, do poder divino, e demonizavam aquelas pessoas que não atuavam segundo seus parâmetros. Eles davam esmolas ou conselhos com intuito de ter o bom nome, o prestígio e a admiração (cf. Mt 23,1-36). Quando Jesus veio para dar sua vida generosamente sem esperar nada em troca, eles o consideraram comodemônio”, “Belzebu”. Era uma maneira fácil que eles encontraram para desprestigiar e eliminar o oponente, neste caso, Jesus. No entanto, Jesus os enfrentou com a verdade, o bem e a justiça.

Na atualidade continua sendo corrente a prática de demonizar o oponente, de desprestigiá-lo para aumentar o brilho próprio. Pois, atuar a favor dos demais sem buscar o bom nome e o prestígio é uma coisa que não chama a atenção de ninguém.

3. Vida cristã como um combate permanente contra o poder do mal

No evangelho de hoje, Jesus nos apresenta a vida cristã como um combate: “Quem não está comigo, está contra mim; quem não recolhe comigo, espalha. Ele nos apresenta que há dois poderes sempre em guerras: o poder divino e o poder de Belzebu ou o poder do mal. Estamos, às vezes, obrigados a constatar que o mal tem raízes extremamente profundas por causa das forças destruidoras e violentas que aparentemente, nenhum homem é capaz de dominar.  O poder de Belzebu ou do mal, conforme o evangelho de hoje, prende as pessoas (se tornam presos do poder do mal) e cria a mudez nas pessoas (lei de silêncio). Este poder faz com que as pessoas sejam incapacitadas de se comunicar com os demais e com o mundo, não permite diálogo e relacionamento (viver no isolamento). É como o mudo no evangelho de hoje. O poder divino em Jesus suscita consciência crítica nas pessoas, são chamadas e capacitadas a se dialogar com os outros na igualdade e na fraternidade, a entrarem em relacionamento com as outras pessoas e com o Deus que liberta. O evangelho quer nos dizer que é preciso voltarmos para Jesus e vivermos seus ensinamentos e estarmos vigilantes para que o poder do mal não nos surpreende em qualquer momento.

Portanto, o evangelho de hoje nos convida a estarmos do lado de Jesus, isto é, do lado do bem, da verdade e da justiça, não para adquirir ganâncias pessoais e sim para ser as mãos de Deus que atuam eficazmente no mundo. Por isso, o mundo de hoje exige que lutemos contra o mal com as armas da verdade, do bem, da honestidade, da solidariedade e da justiça. Não podemos combater o mal com suas próprias armas: a violência somente gera violência, e a manipulação ideológica somente gera opressão, polarização e desequilíbrio mental. Lutar para acumular os bens e o poder é uma ilusão, pois tudo isso termina no leito da morte. Um morto não tem título nem poder nem status social. No leito da morte tudo se iguala como na hora do parto. Somos chamados a conviver como irmãos em que um cuida do outro; um protege o outro; um se preocupa com a dignidade do outro.  Necessitamos combater o mal como o fez Jesus: com a bondade e generosidade de um Deus que defende incondicionalmente a vida das pessoas humanas e sua dignidade como seres humanos. O cristianismo e o mal e a maldade são incompatíveis. Fazer o bem permanentemente significa que estamos no Reino da verdade, da justiça e da caridade que é o Reino de Deus. Para viver uma vida autenticamente humana, temos que nos amar muito com a verdade, a justiça, o bem e a caridade que são, em certo modo, coisas sagradas que requerem ser tratadas com amor e respeito e são os valores que têm a marca de eternidade.

  1. Como eu era miserável! E Tu, Senhor, tocavas na minha chaga viva, a fim de que eu deixasse tudo e me convertesse a Ti, que estás acima de todas as coisas (Santo Agostinho: Confissões VI, 6)

2.    O mundo não está ameaçado pelas pessoas más, e sim por aquelas que permitem a maldade. (Albert Eisntein).

  1. O mal não pode vencer o mal. Só o bem pode fazê-lo (Leon Tolstoi).

4.    Quem faz o bem, conquista paz interior (ditado judaico).

5.    Ver o bem e não fazê-lo é sinal de covardia (Confúcio)

P. Vitus Gustama,svd

14/03/2026- Sábado Da III Semana Da Quaresma

HUMILDADE NO REZAR E NO AGIR E NO CONVIVER É TAMBÉM FRUTO DE NOSSA CONVERSÃO Sábado da III Semana da Quaresma   Primeira Leitura: Os 6...