JESUS RESSUSCITADO CHEIO DE MISERICÓRDIA DEVE OCUPAR O LUGAR CENTRAL NA VIDA DOS HOMENS
PARA QUE HAJA A PAZ NA CONVIVÊNCIA
II
DOMINGO DA PÁSCOA
I Leitura: At
2,42-47
Os que se
haviam convertido 42eram perseverantes em ouvir o ensinamento dos apóstolos, na
comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações. 43E todos estavam cheios de
temor por causa dos numerosos prodígios e sinais que os apóstolos realizavam.
44Todos os que abraçavam a fé viviam unidos e colocavam tudo em comum;
45vendiam suas propriedades e seus bens e repartiam o dinheiro entre todos,
conforme a necessidade de cada um. 46Diariamente, todos frequentavam o Templo,
partiam o pão pelas casas e, unidos, tomavam a refeição com alegria e
simplicidade de coração. 47Louvavam a Deus e eram estimados por todo o povo. E,
cada dia, o Senhor acrescentava ao seu número mais pessoas que seriam salvas.
II Leitura: 1Pd
1,3-9
3Bendito seja
Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Em sua grande misericórdia, pela
ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, ele nos fez nascer de novo, para
uma esperança viva, 4para uma herança incorruptível, que não se mancha nem
murcha, e que é reservada para vós nos céus. 5Graças à fé, e pelo poder de
Deus, vós fostes guardados para a salvação que deve manifestar-se nos últimos
tempos. 6Isto é motivo de alegria para vós, embora seja necessário que agora
fiqueis por algum tempo aflitos, por causa de várias provações. 7Deste modo, a
vossa fé será provada como sendo verdadeira — mais preciosa que o ouro
perecível, que é provado no fogo — e alcançará louvor, honra e glória no dia da
manifestação de Jesus Cristo. 8Sem ter visto o Senhor, vós o amais. Sem o ver
ainda, nele acreditais. Isso será para vós fonte de alegria indizível e
gloriosa, 9pois obtereis aquilo em que acreditais: a vossa salvação.
Evangelho: Jo
20,19-31
19Ao
anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos
judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e,
pondo-se no meio deles, disse: “A paz esteja convosco”. 20Depois dessas
palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos se alegraram por verem
o Senhor. 21Novamente, Jesus disse: “A paz esteja convosco. Como o Pai me
enviou, também eu vos envio”. 22E, depois de ter dito isso, soprou sobre eles e
disse: “Recebei o Espírito Santo. 23A quem perdoardes os pecados, eles lhes
serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos”. 24Tomé,
chamado Dídimo, que era um dos doze, não estava com eles quando Jesus veio.
25Os outros discípulos contaram-lhe depois: “Vimos o Senhor!” Mas Tomé
disse-lhes: “Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos, se eu não puser o
dedo nas marcas dos pregos e não puser a mão no seu lado, não acreditarei”.
26Oito dias depois, encontravam-se os discípulos novamente reunidos em casa, e
Tomé estava com eles. Estando fechadas as portas, Jesus entrou, pôs-se no meio
deles e disse: “A paz esteja convosco”. 27Depois disse a Tomé: “Põe o teu dedo
aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado. E não
sejas incrédulo, mas fiel”. 28Tomé respondeu: “Meu Senhor e meu Deus!” 29Jesus
lhe disse: “Acreditaste, porque me viste? Bem-aventurados os que creram sem
terem visto!” 30Jesus realizou muitos outros sinais diante dos discípulos, que
não estão escritos neste livro. 31Mas estes foram escritos para que acrediteis
que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e, para que, crendo, tenhais a vida em
seu nome.
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I. Domingo Da Divina Misericórdia
“É importante que
acolhamos inteiramente a mensagem que nos vem da Palavra de Deus neste segundo Domingo de Páscoa, que de
agora em diante na Igreja inteira tomará o nome de "Domingo da Divina Misericórdia". Nas
diversas leituras, a liturgia parece traçar o caminho da misericórdia que,
enquanto reconstrói a relação de cada um com Deus, suscita também entre os
homens novas relações de solidariedade fraterna. Cristo ensinou-nos que "o homem não só recebe e
experimenta a misericórdia de Deus, mas é também chamado a "ter
misericórdia" para com os demais. "Bem-aventurados os
misericordiosos, porque alcançarão misericórdia" (Mt 5, 7)" (Dives in misericordia, 14). Depois, Ele indicou-nos as múltiplas vias da
misericórdia, que não só perdoa os pecados, mas vai também ao encontro de todas
as necessidades dos homens. Jesus inclinou-se sobre toda a miséria humana,
material e espiritual” (João Paul II, Homilia, 30 de abril de 2000 na
celebração do Rito De Canonização Da Beata Maria Faustina Kowalska).
Umas das palavras do AT que se traduz simplesmente com a palavra
“misericórdia” para o português é RACHAMIM/RAHAMIM/REHEM.
RACHAMIM/RAHAMIM/Rehem, literalmente quer dizer Matriz, “vísceras maternas”
ou útero materno, ou o útero da mulher. A matriz recebe, mantém
e dá a vida, oferecendo ao feto, a cada segundo, tudo de que ele necessita para
viver.
A misericórdia como o útero materno, deixa o afeto crescer e vir à luz
e, ao mesmo tempo, permanece cuidando e alimentando maternalmente. Por isso, pela raiz da palavra denota o amor da mãe. Trata-se do vínculo
mais profundo da unidade que liga a mãe ao filho (placenta), uma relação
particular, um amor particular. Este amor visceral é totalmente gratuito, não é
fruto de merecimento. É uma exigência do coração.
O amar do Pai, a Palavra de
Deus e Jesus Cristo são como o útero materno que alimenta, cuida, mantém e dá
vida para todos nós. A vida, a morte e a ressurreição de Jesus alimentam o
mundo, sustém o mundo, e cuida, cura e transforma todos os seres humanos. É a
Misericórdia.
A palavra hebraica “Rahamim” é traduzida para o portugês por
misericórdia. Por sua vez, a palavra “Misericórdia” é composta de miserere
(ter piedade), de cor/cordis (coração) e de dare
(dar). É dar coração ao miserável
isto é, para aquele que não merece ser amado. É uma virtude que impele a
perdoar aquilo que teríamos o direito de punir. Neste sentido, a misericórdia
vai além da justiça, uma vez que renuncia à punição. A misericórdia é a
essência do amor.
Rahamim ou misericórdia dá
origem a bondade e a ternura, a paciência e a compreensão e o perdão. Em relação com Deus, rahamim significa que
Deus nos ama com o amor visceral de uma mãe, não em relação ao mérito da Sua
criatura, mas simplesmente porque a Sua criatura existe (cf. Is 49,14-16;63,16;Jr 31,20;Sl 131). É um amor que existiu antes que qualquer rejeição fosse possível e
permanecerá depois de todas as rejeições tenham existido. É o primeiro e o
eterno amor de um Deus que é Pai-Mãe.
É a fonte de todo o amor humano verdadeiro, mesmo o mais limitado. O amor de
Deus por nós não é, portanto, “o fruto” ou o “rendimento” de nossas “obras” ou
de nossos “méritos”. Seu amor é anterior a tudo. Ele nos amou primeiro, diz S.
João (1Jo 4,19).
Acreditamos no Deus do amor misericordioso. Vale nos lembrarmos do
alerta de São Tiago na sua Carta: “O
julgamento será sem misericórdia para quem tiver agido sem misericórdia. A
misericórdia triunfa sobre o julgamento” (Tg 2,13; veja também Mt 25,36-45: Julgamento final).
II. Segundo Domingo Da Páscoa e São Tomé
Neste Domingo que encerra a oitava da Páscoa, Domingo
da Misericórdia, voltamos os olhos ao apostolo Tomé, o cético, o incrédulo, o
modelo dos realistas, de todos os pessimistas, dos que desconfiam quando as
coisas saem bem. São Tomé é, como muitos homens modernos, um existencialista
que não crê naquilo que não pode ser tocado ou visto porque não quer viver de
ilusões. Para Tomé, como para muitos, o pior é sempre o mais seguro,
paradoxalmente. Mas o que mais comovente, o que faz tão fraternal o apóstolo Tomé é sua
violenta resistência. Porque ele sofreu muito mais do que os outros na paixão
do Mestre. Mas sofrer por não crer é uma forma discreta, humilde, trágica, leal
de começar a crer. Mas Tomé tem a humildade para voltar à comunidade que ele
abandonou.
A liturgia deste domingo tem como ponto específico
o anúncio do Evangelho de João 20, 19-31. Todos os anos lemos a mesma coisa
precisamente porque o mistério deste domingo nos aproxima. Primeiro ele aponta
que o domingo vem do Senhor. O primeiro domingo da Páscoa é o dia da
manifestação do Ressuscitado, primeiro às mulheres, depois aos discípulos. A
primeira preocupação do Senhor é reunir os discípulos depois do escândalo da
cruz. No segundo domingo, primeiro dia da semana, isto é, hoje, o Ressuscitado
reúne novamente os discípulos para confirmá-los na fé.
Antes da ressurreição, o Espírito Santo não tinha
vindo (Jo 7, 39). Na tarde do primeiro Domingo de Páscoa, Jesus ressuscitado
deu o Espírito Santo aos apóstolos, exalando sobre eles o seu hálito. O
Espírito é o sopro da nova criação. O Espírito é a força que os apóstolos
recebem que os torna homens novos, lutadores contra o mal, libertadores do
pecado, para continuar formando a nova criação no mundo.
O Espírito é o primeiro fruto da Páscoa do Senhor e
aquele que dá a plenitude. Vejamos como João situa na tarde de Páscoa, no
primeiro encontro dos discípulos com o Ressuscitado, o dom do Espírito Santo, o
que Lucas vê realizado cinquenta dias depois na Páscoa. Vamos antecipar que
para o Pentecostes também lemos a primeira parte do evangelho de hoje. O que
deve ser lembrado é que o grande dom do Ressuscitado é o Espírito.
Na História da Salvação, quem recebe um dom é
porque lhe é confiada uma missão. Não pode haver um dom em vão. A doação do
Espírito pelo Ressuscitado inclui a missão, como acontece também no final dos
três Evangelhos: "Assim como o Pai
me enviou, também eu vos envio". Os discípulos são enviados para
continuar a missão do Filho de Deus, morto e ressuscitado, missão que recebeu
do Pai. O Espírito cumprirá esta missão de destruir o reino do pecado e da
morte, aniquilando o pecado, fazendo uma nova criação, na qual resida
eternamente a "paz", a "paz" que é um dom messiânico por
excelência e que o Ressuscitado também comunica hoje, desde o início, aos seus
discípulos.
Dentro da alegria do dom do Espírito, uma das fortes mensagens da nossa liturgia para este segundo domingo é a
força da fé em Cristo ressuscitado. O Evangelho nos diz que os apóstolos foram
presos ou trancados dentro de casa por medo dos judeus. Sua situação era
precária. Eles careciam de meios humanos e materiais para enfrentar a situação
atual. Cristo irrompe em cena e dá uma nova dimensão à vida daqueles homens:
eles se enchem de alegria, recebem o Espírito Santo, são enviados por Cristo em
uma missão que eles nem imaginam. No momento de maior desânimo é quando o poder
salvífico de Deus irrompe com maior força. É Cristo ressuscitado que dá unidade
à Igreja nascente, que enche de alegria o coração dos discípulos, dá-lhes força
no Espírito e inflama-os de amor e coragem.
“Não sejas incrédulo”, disse Jesus a Tomé. Jesus não lhe disse: “Não tenhas dúvida!” e sim
“Não sejas incrédulo”. Dúvida se define com o estado de equilíbrio entre a
afirmação e a negação. Neste estado ninguém pode afirmar ou negar por falta de
dados ou fundamentos. Nisto consiste a dúvida. No caminho de um verdadeiro
conhecimento a dúvida faz parte, pois ninguém pode afirmar ou negar sem dados
ou fatos. Enquanto que a
incredulidade significa a ausência da fé na pessoa em questão. Tomé
estava muito além da dúvida, pois ele perdeu sua fé em Jesus. E Jesus tem que
chamar a atenção de Tomém ao dizer: “Não
sejas incrédulo”. Diante da chamada da atenção de Jesus, Tomé professa sua
fé bem curta, mas profunda: “Meu Senhor e meu Deus!”.
Parece que este é o convite que Cristo faz de novo
a cada um de nós: “Não sejas incrédulo”,
não te deixes levar pelo raciocínio simplesmente humano. Acredite em mim,
confie em mim, espere em mim. Estes são os cristãos. Estes são os santos:
aqueles que se entregaram totalmente a Deus. Para o cristão, é sempre atual o
convite a descobrir o poder transformador de Cristo ressuscitado. O cristão se
encontra diante de um mundo complexo em que a verdade está em crise (há fake
news em todo lugar). Sua missão, portanto, não é fácil, assim como não foi
fácil a missão dos apóstolos. Ele é testemunha do amor de Cristo, da sua
paixão, morte e ressurreição (mistério pascal). Ele deve proclamar
corajosamente a verdade com amor sobre o homem, sobre o mundo, sobre a vida,
sobre a eternidade. Em certo sentido ele, o cristão, deve proclamar verdades
que nem sempre são saborosas, que nem sempre têm bom mercado, mas que são
palavras de verdade e de salvação. Somente na fé em Cristo ressuscitado
poderemos, como os primeiros discípulos, "praticar a verdade no
amor", ser sinceros, totalmente sinceros no amor a Deus e aos homens.
III. APARIÇÃO DE JESUS SEM TOMÉ
A cena do evangelho deste dia acontece em Jerusalém num lugar não
especificado. A tradição o identificou, embora não tenha fundamento, com o
Cenáculo, a sala de cima na qual os discípulos se reuniram antes de Pentecostes
(At 1,13), e onde fora instituída a Eucaristia (Lc 22,12). Jo só nos relatou
que os discípulos estavam reunidos num mesmo lugar para sublinhar o caráter
eclesial da aparição. A primeira
unidade do evangelho de hoje (Jo
20,19-23) narra sobre a aparição do Ressuscitado aos discípulos sem a presença
de Tomé.
1. Jesus Vem Nos Trazer “Shalom” Conquanto Ele Deve Estar No Meio De Nós
O relato diz que as portas estão fechadas por medo dos judeus. “Todos
os homens têm medo. Todos. Aquele que não tem medo não é normal, isso nada tem
a ver com a coragem”, escreveu Sarte. “Sem
o medo nenhuma espécie teria sobrevivido”, acrescentou G. Delpierre.
Realmente, a segurança fica cada vez mais distante de nós hoje em dia.
Os homens perdem cada vez mais o direito de ir e de vir. Praticamente como se
não fôssemos dono das coisas que conquistamos pelo nosso trabalho duro de cada
dia. Perdemos o direito de usar as coisas que são nossas, fruto de nossa
conquista e suor. Todos têm medo de andar na rua com coisas valiosas na mão. O
muro de um prédio ou casa fica cada vez mais alto com intuito de impedir um
pouco a invasão dos estranhos. As câmeras podem ser vistas em qualquer canto
vigiando os que entram e saem num e dum prédio. Mas todas são feitas por um ser
humana o que sugere a sua precariedade. Todos começam, por isso, a ter saudade
dos tempos antigos em que podiam ficar na rua numa noite de lua cheia sem medo
nem preocupação. É uma saudade do paraíso perdido pela própria culpa do ser
humano. O pecado expulsa de nossa convivência a beleza do Paraíso da
fraternidade. Consequentemente o ser humano se torna cada vez mais estranho
para si e para os outros. Ele vive suspeitando qualquer outro desconhecido por
causa da insegurança. O outro não é mais considerado como irmão, mas como uma
ameaça. “A necessidade de segurança é, portanto, fundamental; está
na base da afetividade e da moral humanas. A insegurança é símbolo de morte e a
segurança símbolo da vida. Mas se ultrapassa uma dose suportável, ele se torna
patológico e cria bloqueios. Pode-se morrer de medo, ou ao menos ficar
paralisado por ele”, afirma Jean
Delumeau. Nas cidades grandes tem-se impressão de que o medo já
ultrapassou uma dose suportável. “O medo
é um inimigo mais perigoso do que todos os outros” (Simenon). O medo
constitui uma das maiores ameaças à vida; impede que a vida seja desfrutada e
vivida em sua tranquilidade. O medo impede a criatividade e põe em perigo a
esperança.
Será que temos ainda alguma esperança de encontrar algum meio para
arrancar todo este medo que ultrapassou uma dose suportável? A Bíblia conhece
somente um meio pelo qual o coração humano se pode defender do medo: a fé em
Deus. Só Deus é a rocha. As outras seguranças desiludem. Somos desafiados, por
isso, a viver e a mostrar este Deus, Pai de todos para que a fraternidade
universal volte a ser marca de uma convivência humana. Mas enquanto Deus
continuar a ser marginalizado (ficar na margem de nosso coração), o medo e a insegurança
permanecerão na convivência humana.
O motivo do medo não é novo no quarto evangelho (cf. Jo
7,13;9,22;12,42). Os discípulos experimentaram amplamente o medo dos judeus.
Seu Mestre foi executado e eles corriam risco de receber o mesmo castigo. O
medo é uma emoção-choque, frequentemente precedida de surpresa, provocada pela
tomada de consciência de um perigo presente e urgente que ameaça. Normalmente o medo provoca efeitos como: a
aceleração dos movimentos do coração ou sua diminuição; uma respiração
demasiadamente rápida ou lenta; um comportamento de imobilização ou uma
exteriorização violenta etc. Nessa situação, para os discípulos, ter medo era
ser realista.
Certamente nessa situação Jesus apareceu no meio deles e disse: “A paz
esteja convosco”. A paz, “Shalom”, é a palavra que
os judeus usam até hoje como uma saudação comum. A ideia bíblica de paz, Shalom, é rica. Significa
muito mais que a cessação de violência e conflito. É o estado para o qual o
mundo foi criado por Deus. É a melhor descrição de como será o Reino de Deus:
um “lugar” de segurança, justiça e verdade; “lugar” de confiança, inclusão e
amor; “lugar” de alegria, felicidade e bem-estar. Shalom é a harmonia com tudo
e com todos: com Deus, com o próximo,
comigo mesmo e com a natureza. Talvez possamos traduzir a palavra “Shalom” para
o português com a expressão: “Tudo de bom para você!”
O “A
paz esteja convosco” de Jesus, aqui neste texto, não é um desejo, e
sim uma declaração. Ele vai além de um cumprimento por causa daquilo que Jesus
proclamou na última ceia: “Deixo-vos a
paz, dou-vos a minha paz. Não vos dou a paz como o mundo dá” (Jo 14,27). A própria presença
de Jesus Ressuscitado oferece aos discípulos essa paz maravilhosa, pois essa é,
agora, a experiência de Jesus. Seu sofrimento ficou atrás, e ele agora habita
na paz de Deus. Jesus ressuscitado vem libertar os seus. Ele é fiel, pois
cumpriu aquilo que ele tinha prometido: “Não
vos deixarei órfãos. Eu virei a vós” (Jo 14,18). Aquele que se sente
desamparado, aquele que está desorientado, aquele que se sente perdido deve
escutar e refletir a verdade dessa promessa da presença de Jesus ressuscitado:
“Não vos deixarei órfãos. Eu virei a vós”. A paz voltará para a convivência, se
houve um lugar central para Jesus na convivência.
Sejam órfãos no sentido literal da palavra, sejam aqueles órfãos de
sentido, de carinho, de reconhecimento, de amor etc., todos encontrarão o
amparo em Jesus Cristo. Procuremos este Amparo para que não sejamos órfãos de
tudo. Não é por acaso que o evangelista João usa esta expressão “pôr-se no meio (centro) deles” (v.19). Isto quer
dizer que Jesus deve ser o centro de nossa vida, deve ser o centro da vida da
comunidade, pois ele é a fonte da vida, ele é o tronco dos galhos (cf. Jo 15,1-8), ele é o ponto
de referência, o fator da unidade (cf. Jo 17,11.21-22). Para que uma comunidade se torne
cristã, ela deve estar centrada em Jesus Cristo e somente nele. Somente quando Jesus se torna centro de uma
comunidade, evitar-se-á todo tipo de disputa desnecessária, a não ser somente
uma disputa para servir. Sem este centro ficaremos órfãos, desamparados e
perderemos a segurança. Além do mais a presença do outro se torna sempre uma
ameaça e não mais uma presença de um irmão ou de uma irmã, quando Jesus Cristo
não se torna único centro para todos.
Os discípulos são convidados a superar o medo e a abrir-se à fé; só
assim tornam-se disponíveis para o dom da paz e da alegria, os dois dons que
Jesus lhes tinha prometido no seu discurso de despedida (cf. Jo 14,27;16,33). A paz e a alegria
são o dom do Cristo Ressuscitado, mas também condição para reconhecê-lo.
Ao contar a reação dos discípulos, Jo escreveu: “Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor” (v.20b). O uso deste
título-padrão “Senhor”
pós-ressurreição é o mais próximo que João podia empregar para nos dizer que os
discípulos acreditavam. Certamente “crer” no Senhor é o objetivo principal do
Evangelho de João.
2. Missão De Jesus É A Missão Dos Discípulos
Que Tem Origem No Pai
O que se segue é a missão
dos discípulos: “Como o Pai me
enviou, também eu vos envio” (v.21). Jesus é o Enviado por excelência (Jo
3,31-34;5,30;7,17s.28;8,16.28s.42;12,44s;16,28). A missão provém de Deus, que quer dar a vida
ao mundo. O envio dos discípulos implica tudo o que visava o ministério
confiado a Jesus: glorificar o Pai, fazendo conhecer seu nome e manifestando
seu amor (cf. 17,6.26). Do mesmo modo como o Pai esteve presente com Jesus na
sua missão, assim os discípulos não estarão nunca sozinhos no cumprimento de
sua missão (cf. Mt 28,20). O uso do termo
“como” aqui (vv.17.18.20.21), por isso, expressa ao mesmo tempo semelhança e causalidade. A missão dos
discípulos deve ser uma continuação da missão de Jesus que tem como modelo na
missão de revelação e de salvação que Jesus recebeu do Pai (cf. Jo 3,17.34; 5,36.38;6,57
etc.). Isto significa que os discípulos devem seguir o caminho que Jesus
percorreu, devem agir como Jesus agiu, servir como ele serviu, perdoar como ele
perdoou; ou simplesmente pode-se dizer que devem amar como ele amou (cf. Jo
13,34; 15,12). Trata-se, por isso, de uma única missão.
Aqui a ressurreição está vinculada à missão. Os discípulos são chamados e enviados para ser testemunhas do anúncio
da morte que foi vencida, para ser testemunhas do “Shalom”. A Igreja surge ao
redor dessa fé na ressurreição. Os discípulos são enviados para proclamar a
verdade de que não é qualquer vida pode ressuscitar gloriosamente como a de
Jesus, e sim somente uma vida que tem como características: vida de doação, de
serviço, de perdão, de fidelidade plena a Deus, como foi a vida de Jesus.
Somente assim, o cristão possuirá a vida eterna ressuscitada. Ser enviado
significa ser pessoa que lança as sementes da ressurreição feito de justiça, de
amor, de reconciliação e de abertura incondicional a Deus. Se um cristão, o
enviado, fizer assim, a vida nova e a ressurreição estão germinando. E ele tem
que cuidar bem deste germe para que ele possa chegar à sua plenitude.
3. O Sopro De Jesus É O Sopro Da Vida
“Dito isso, soprou
sobre eles e disse: ‘Recebei o Espírito Santo’” (v.22). O gesto de Jesus reproduz o gesto primordial da
criação dos seres humanos por Deus (Gn 2,7). O Criador “insuflou no homem um sopro
que faz viver” (Sb 15,11; Ez 37,9).
Assim como na primeira criação o sopro de Deus trouxe a vida ao ser
humano, à sua imagem e semelhança, assim também a dádiva de Jesus de seu
próprio Espírito torna os discípulos filhos de Deus, à semelhança do Filho.
Agora eles nasceram do Espírito (cf. Jo 3,5). O sopro de Deus no Gênesis deu vida; o sopro de
Jesus dá vida eterna. “Soprar”, por isso, quer dizer dar vida a quem não a tem.
Isso significa que o ser humano só existe porque é sustentado pelo sopro de
Deus. Trata-se agora da nova criação: Jesus glorificado comunica o Espírito que
faz renascer o homem (cf. Jo
3,3-8), capacitando-o para partilhar a comunhão divina. O
Filho que “tem a vida em si mesmo” dispõe dela a favor dos seus (cf. 5,26.21); e seu sopro é o da
vida eterna.
4. A Participação Dos Discípulos No Poder De Jesus
Ressuscitado De Perdoar
João relata a dádiva do Espírito por Jesus com poder sobre o pecado: “A quem perdoardes os
pecados eles lhes serão perdoados; a quem os não perdoardes,
eles lhes serão retidos” (v.23). Jesus foi enviado como o Cordeiro de Deus
que tira o pecado do mundo (Jo 1,29; cf. 1Jo 2,1-2). Agora Jesus
compartilha esse poder de perdoar com seus discípulos na pessoa de Jesus.
A descrição deste poder se relaciona ao fato de que a vinda de Jesus produzirá
um julgamento (krisis) na medida em
que as pessoas optarem pelas trevas ou pela luz, de modo que alguns serão
condenados e outros, não (cf. Jo 3,18-21).
Jesus se assemelha tanto a Deus, a ponto de as pessoas que o encontram
serem levadas a um autojulgamento. Do mesmo modo, os discípulos devem se
assemelhar a Jesus para que aqueles que os encontram sejam levados também a um autojulgamento
similar. Neste sentido, representar Cristo em um grau que força as pessoas a
tomarem uma decisão em suas vidas é um tremendo poder. A outorga do poder de
perdoar os pecados, repetida duas vezes, é formulada de maneira tipicamente
semita. A frase acima dita por Jesus (v.23) significa que o poder de perdoar
dado por Ressuscitado à sua Igreja é total e definitivo. Os discípulos
representam, em Jo, todos os cristãos futuros: as palavras que Jesus lhes
dirige coletivamente visam sempre aos fiéis em geral. Do ponto de vista
exegético, não se pode limitar aos “Onze” e aos seus “sucessores” a mediação do
perdão divino que o Ressuscitado confia à comunidade dos seus, menos ainda
porque esta palavra segue-se imediatamente depois daquela sobre o dom do
Espírito Santo.
Para Jo o pecado fundamental é
a recusa do Logos libertador. E essa recusa se manifesta através
do medo e a busca da própria glória (Jo12,42s), da mentira (Jo 8,44), do ódio (Jo 15,18-25), do assassinato do Justo (Jo 7,19;8,40 e cf.
19,11). Estes
princípios frustram o projeto criador e levam o homem à sua própria condenação. O pecado é opção que
frustra o desígnio divino sobre o homem, privando-o da vida. O pecado cria
assim uma situação de morte. O homem que faz a opção pelo pecado condena-se com
ela à morte. O pecado é a solidariedade com o mal. Essa solidariedade
opõe-se à solidariedade do bem criada por Jesus. Mas a salvação divina
prevaleceu sobre as trevas e alcançou doravante todo ser humano, pela mediação
dos discípulos. No contexto joanino, é o próprio Jesus que por meio dos seus
discípulos, exerce o ministério do perdão (Jo 14,12. 20). A formulação em forma positiva e negativa vem do
estilo semítico, que exprime a totalidade por um par de opostos. “Perdoar/manter”
significa aqui a
totalidade do poder misericordioso transmitido pelo Ressuscitado aos discípulos.
A forma passiva “serão
perdoados/retidos” referente ao efeito obtido implica que Deus é o autor do
perdão. Pode-se dizer que no momento em que a comunidade perdoa, Deus mesmo
perdoa.
IV.
A APARIÇÃO DE JESUS AOS DISCÍPULOS COM TOMÉ (Jo 20,24-29)
1. A Incredulidade E A Profissão De Fé De Tomé
A segunda unidade fala do episódio com Tomé. É
exclusivo de Jo. Tomé foi retratado em Jo 11,16 e 14,5 como uma figura não
facilmente persuasível. Ele é um seguidor fino ou sutil mas é lento em captar o
mistério da pessoa de Jesus, pois ele procura provas concretas e claras de fé (Jo
11,16;14,5).
Todos os discípulos sabem,
menos Tomé, que Jesus já ressuscitou. Às vezes, é mais fácil acreditar na
ressurreição de Jesus do que acreditar que Ele está vivo e está conosco todos
os dias (Mt 28,20) e que vivemos n´Ele (Jo 15,1ss) e através de nós. A partir da
mentalidade de Tomé não entendemos que a fé comunitária. Como Tomé (que se
afastou da comunidade), queremos seguir por caminhos isolados, evitando
encontros e conversas. Precisamos estar conscientes de que fazemos parte do Corpo
de Cristo e que isso indica total interdependência de todos os membros.
Existimos na comunidade para o outro e em função do outro e que o crescimento
na fé acontece de forma comunitária. A vida comunitária é sinônimo de patilha.
Não há vida em comunidade sem partilha.
O texto nos diz que “Tomé não estava com eles quando Jesus
apareceu” (v.14). Ele está ausente da comunidade não só em sentido próprio, mas também no
figurado. Com intransigência, ele rejeita o testemunho pascal dos outros discípulos
que viram o Senhor. Recusar o testemunho da ressurreição é romper com a
comunidade. Por esta recusa Tomé estraga sua própria alegria e ele se torna um
isolado e decepcionado. Uma
pessoa que se isola não tem como curá-la. As pessoas decepcionadas têm logo a
tendência a criticar duramente nos outros aquilo que mais ardentemente
desejaram para si mesmas, e que não puderam conseguir. A inveja torna a pessoa
amarga. A pessoa se fecha no passado, incapaz de superá-lo. A
dificuldade de Tomé é ter permanecido na Paixão quando a Ressurreição mudou
tudo. Ele vive nas trevas do passado e recusa o hoje radioso. Por isso, ele se
torna um isolado. Uma
pessoa isolada não pode ser ajudada. Só ao sair do isolamento é que ela pode
ser ajudada.
Os discípulos, que viram Jesus ressuscitado em Jo 20,19-23, fazem
exatamente o mesmo relato que Maria Madalena fizera a eles: “Vimos o Senhor!”(Jo 20,18.25). Mas Tomé foi
inflexível ao recusar-se a acreditar na palavra deles: “Se eu não vir... e puser meu dedo... não acreditarei” (v.25b). Na verdade, outros
evangelistas relatam também dúvidas dos discípulos depois da ressurreição (cf. Mt 28,17; Mc 16,11.14; Lc 24,11.41), mas somente o evangelista João dramatiza a dúvida de modo tão pessoal em
um só indivíduo. A atitude de Tomé em pedir provas foi condenada por Jesus em
Jo 4,48: “Se não virdes sinais e
prodígios, não crereis”. O Jesus de João não rejeita a possibilidade de que
sinais (milagres) e prodígios levem o povo à fé, mas rejeita sinais(milagres)
que exijam o cumprimento absoluto de condições. Neste relato Tomé é apresentado
como um discípulo pré-pascal, pois ele exige o aspecto miraculoso da aparição
de Jesus (Jo 4,48). Como Natanael, Tomé rejeitou a fé dos outros discípulos que tinham
“visto o Senhor” (v.25;1,45-46). Tomé não só não aceita o testemunho dos que viram Jesus, mas põe
condições para crer. Para ele a ressurreição não aconteceu e ele acha que ele
tem razão e o resto está enganado. Tais exigência revelam a teimosia e a autossuficiência
de Tomé. Ele pretende ter razão sozinho contra o testemunho de todos os outros.
A teimosia, geralmente, costuma pagar caro.
Apesar da decepção e da dúvida que ele tem, no coração de Tomé ainda
sobrevive o sentimento ou o desejo de ver o Senhor. Embora, para ele, voltar ao
grupo signifique curvar a cabeça. Mas justamente no lugar de cura é que alguém
tem coragem de mostrar as feridas. Diante de um médico é que uma pessoa tem
coragem de falar das doenças.
Nesse encontro quem toma a iniciativa é Jesus. Depois de saudá-los,
Jesus logo convida Tomé a colocar dedo nas suas feridas dos pregos. Nessa
altura, na sua experiência pessoal com Jesus, Tomé somente é capaz de dizer: “Meu Senhor e meu Deus”
(v.28). A profissão de fé
de Tomé encerra uma série de confissões feitas ao longo do Evangelho de João:
por Natanael (1,49), pelos samaritanos (4,42), por Pedro (6,69), pelo cego de nascença (9,38), por Marta (11,27). ”Senhor” e “Deus” (Yahweh Elohim) são nomes para Deus no AT (Sl 35,23). Isto quer dizer que
a fé pascal de Tomé reconhece Deus em Jesus ressuscitado. Na verdade, o
evangelista o reconhecimento da divindade de Jesus já é enfatizado no prólogo
do seu evangelho: “No princípio era o
Verbo... e o Verbo era Deus... E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,1.14). A resposta de Tomé
em sua profissão de fé chama de volta as palavras de Jesus para si próprio e
para Filipe: “Se me conheceis, também
conhecereis a meu Pai...Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,7.9).
Como Natanael, o seu firme cepticismo se transforma
numa suprema profissão de fé depois que ele teve uma experiência pessoal com
Jesus (v.28; 1,45-49).
A profissão de fé: “Meu
Senhor e meu Deus” é a maior
profissão de fé no Evangelho de João. A resposta de Tomé
é tão extremada como sua incredulidade. Ao chamar Jesus “meu Senhor”, Tomé
reconhece o amor de Jesus e o aceita, expressando ao mesmo tempo sua total
adesão. Tomé reconhece em Jesus o acabamento do projeto divino sobre o homem e
o toma como modelo para si (meu Senhor e meu Deus) e reconhece em
Jesus o servo glorificado em pé da igualdade com o Pai (Deus).
Esta confissão de fé no fim do Evangelho de João faz um elo com o
prólogo (Jo 1,1). A
ironia final do Evangelho é que o discípulo que mais duvidou faz a mais alta da
profissão de fé e diz a expressão da mais alta avaliação de Jesus, proferida em
qualquer Evangelho:
“Meu Senhor
e meu Deus”. No prólogo o evangelista afirma que a Palavra
era Deus (Jo 1,1). Agora, por uma inclusão, ele mostrou como foi difícil para
os seguidores de Jesus chegarem à tal visão. Tomé tem sido lembrado como o
homem que é incrédulo por excelência; todavia, as últimas palavras de Jesus
para ele, em resposta à sua profissão de fé, constituem um invejável elogio: “Tu acreditaste” (v.29a).
3. A Bem-Aventurança Dirigida A Tomé E A Todos Os Que Creem Em Cristo
Tomé acreditou quando foi desafiado pelo Mestre a realizar seu projeto
de investigação para acabar com a incredulidade. O louvor final para a fé, no
entanto, é estendido por Jesus àqueles que tinham acreditado sem ver a presença
corporal: “Felizes os que, sem terem
visto, creram!” (v.29b). Esta é a única bem-aventurança explícita referente
à fé no Evangelho de João (compare Jo 13,17). Além desta bem-aventurança,
somente há em todo o NT mais uma bem-aventurança referente à fé: “Feliz és tu que creste...” (Lc 1,45)
dita por Isabel a Maria. A autenticidade da fé não é verificada por
experiências extraordinárias, como pretendia Tomé, mas pelas práticas concretas
de comunhão (Tomé antes afastou-se da comunidade), de amor (que é o maior mandamento
do Senhor cf. Jo 15,12), e de serviço aos irmãos como Jesus enfatizou no
lava-pés (Jo 13,14-17). Por isso, esta bem-aventurança está ao alcance de
todos. Ela privilegia os que creem sem ter visto. Esta bem-aventurança é dirigida
aos cristãos de todos os tempos. Portanto ela é dirigida também a mim. Tenho que estar consciente de que para Jesus
sou feliz porque creio nele como o Senhor da minha vida. Exageradamente posso dizer que eu deveria gritar diante do
mundo que sou feliz, sou bem-aventurado pelo fato de eu acreditar n´Aquele que
dá sentido à minha existência, n´Aquele se chama “Meu Senhor e meu Deus”;
n´Aquele que vive para sempre. No evangelho de João, nenhum maior louvor pode
ser dado a Jesus do que a frase “Meu Senhor
e meu Deus”; e nenhum maior louvor pode ser dado aos seguidores de Jesus do
que a frase “Felizes os que, sem terem
visto, creram!”. Através desta fé, a profecia de Oséias 2,25 é cumprida:
“Um povo que antigamente não era um povo disse: ‘O Senhor é meu Deus’”. O próprio evangelista João
afirma que através daquela fé, os seguidores de Jesus “têm a vida em seu nome”
(Jo 20,31).
Na verdade, não precisamos
mais de outros sinais ou aparições. É basta abrir o Evangelho, descobrir o
sentido profundo da Palavra de Deus e crer em Jesus para ter a vida em
abundância (Jo 20,31), pois Jesus é a maior revelação do Pai. Crendo,
começaremos ver o mundo com olhos diferentes, começaremos a perceber sentido na
proposta de Jesus. A fé produz um modo novo de ver, traz uma nova escala de
valores. A carta de São João diz que a vitória que vence o mundo é a fé (1Jo
5,4). Essa fé é que dá força para viver a partilha, mesmo quando a sociedade
vive de acumular e explorar o próximo. Não se pode viver em paz enquanto outros
sofrem e têm carência do essencial. Não sobra espaço onde cada um só pensa em
si. Crer em Jesus é apostar a vida naquilo que ele propôs, mesmo quando não
vemos logo um resultado. Ele nos diz que seremos felizes se acreditarmos nele.
Mas também nos convida a levar a outros essa capacidade de crer e viver o
evangelho. Pedro nos oferece um paralelo em sua primeira carta: “Sem tê-Lo
visto, vós o amais “(1Pd 1,8). Este amor pede coragem porque jamais vimos Jesus histórico; e esta fé
exige generosidade, porque não há mão que possamos segurar a não ser a mão de
Deus. Que esta fé se realize na vida de cada um de nós e por nós na vida de
muitos outros pois somos carta viva do Senhor ressuscitado, como diz São
Paulo: “Evidentemente, sois uma carta de
Cristo, entregue ao nosso ministério, escrita não com tinta, mas com o Espírito
de Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, nos corações!”
(2Cor 3,3).
P.
Vitus Gustama,svd