domingo, 7 de junho de 2026

Segunda-feira Da X Semana Comum, Ano Par, 08/06/2026

SER FELIZ NO CRITÉRIO DE JESUS

Segunda-Feira da X Semana Comum

Primeira Leitura: 1Rs 17,1-6

Naqueles dias, 1 o profeta Elias, tesbita de Tesbi de Galaad, disse a Acab: “Pela vida do Senhor, o Deus de Israel, a quem sirvo, não haverá nestes anos nem orvalho nem chuva, senão quando eu disser!”  2 E a palavra do Senhor foi dirigida a Elias nestes termos: 3 “Parte daqui e toma a direção do oriente. Vai esconder-te junto à torrente de Carit, que está defronte ao Jordão. 4 Lá beberás da torrente. E eu ordenei aos corvos que te deem alimento”. 5 Elias partiu e fez como o Senhor lhe tinha ordenado, e foi morar junto à torrente de Carit, que está defronte do Jordão. 6 Os corvos traziam-lhe pão e carne, tanto de manhã como de tarde, e ele bebia da torrente.

Evangelho: Mt 5,1-12

Naquele tempo: 1 Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-se. Os discípulos aproximaram-se, 2 e Jesus começou a ensiná-los: 3 “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus. 4 Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados. 5 Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra. 6 Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão sa­ciados. 7 Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. 8 Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. 9 Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. 10 Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. 11 Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e, mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim. 12 Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus. Do mesmo modo perseguiram os profetas que vieram antes de vós.

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Entre Providência e Avareza Humana

Durante alguns dias leremos as leituras do Antigo Testamento na segunda parte do Livro dos Reis. Os livros dos Reis, na Bíblia hebraica, formavam um só livro sem divisão. A divisão em dois livros é tardia. E seu objetivo material é a história de Israel e de Judá e, mais concretamente, de seus reis, desde Salomão até os últimos reis de Israel e de Judá. O conteúdo global dos livros dos Reis é a história dos reis de Israel e de Judá, desde a morte de Davi até o exílio para Babilônia, que vão desde 970 a.C, aproximadamente, até 561 a.C. Apesar de sua finalidade teológica os livros dos Reis são o mais importante documento bíblico para a reconstituição histórica do período que vai desde o reinado de Salomão até a destruição de Jerusalém em 587 a.C.

Pela vida do Senhor, o Deus de Israel, a quem sirvo, não haverá nestes anos nem orvalho nem chuva, senão quando eu disser!”, assim lemos no texto da Primeira Leitura de hoje. 

Este período da história do povo de Deus dura três séculos: do ano 935 a.C, ano do cisma entre o Reino Norte e Sul, até o ano 586, ano da destruição de Jerusalém pelo rei Nabuconosor.  Neste período há a decadência humana e religiosa do povo de Deus: a idolatria, as divisões, as injustiças sociais arruínam lentamente as relações humanas no seio do povo de Israel e se torna presa fácil dos grandes impérios vizinhos.

Durante este período surgem os profetas que intervém como defensores da fé no Deus único (monoteísmo) e da justiça social: Elias, Eliseu, Isaias, Amós.

A primeira Leitura de hoje nos relatou: “Naqueles dias, o profeta Elias disse a Acab: “Pela vida do Senhor, o Deus de Israel, a quem sirvo, não haverá nestes anos nem orvalho nem chuva, senão quando eu disser!”.

Acab (Heb. “irmão do pai”) é o sétimo rei de Israel após a divisão do reino, na mesma época em que o profeta Elias desenvolveu seu ministério. Ele governou Israel de 874 a 853 a.C. Acaba foi um dos piores reis do Norte (1Rs 16,30-33). Seus crimes não eram apenas políticos. Sua culpa maior foi permitir a propagação da adoração a Baal. Sua hábil politica internacional é interpretada negativamente devido às graves consequências da adoração mista.O rei Acab é um dos reis que se aproveitam do poder para se enriquecer, explorando o povo simples. Enquanto seus súditos vivem na miséria, sob o jugo de impostos demasiado onerosos, Acab vive na mordomia. Além do mais, Acab construiu um templo  para Baal e obriga seus súditos a fazer culto idolátrico.

O profeta Elias se apresenta diante do rei Acab proclamando a soberania do Deus de Israel (Javé) sobre a natureza. Somente o Deus da Israel é o Deus verdadeiro, o único que pode dar a chuva e tirá-la. Por isso, Elias, o profeta de Deus, pode anunciar um período de seca de dois anos. As palavras de Elias seguramente provocam a fúria do rei Acab. E Elias, pela ordem do Senhor, se esconde e o próprio Deus vai garantir sua subsistência: “Parte daqui e toma a direção do oriente. Vai esconder-te junto à torrente de Carit, que está defronte ao Jordão. Lá beberás da torrente. E eu ordenei aos corvos que te deem alimento”.

Duas lições que podemos tirar da Primeira leitura. Primeira lição, a providência divina existe e está aberta para quem acredita firmemente em Deus a exemplo do profeta Elias. Deus salva. E salvar é criar e recriar continuamente. Somos fruto do amor de Deus. O Criador poderia contentar-se com dar existência às coisas, abandonando-as a sua sorte. Mas Deus que gera vida por amor continuará amando o que ele gerou, pois ali persiste de alguma maneira sua própria vida, pois somos “sopro de Deus” (Cf. Gn 2,7; 1Cor 3,16-17). Na criação por amor, a vida é chamada a ser tão duradoura como o amor que a gerou, pois o amor não abandona aquele que ele gerou; seria como abandonar-se a si mesmo. Tudo isto simplesmente chama-se de a PROVIDENCIA DIVINA. Providência é atributo pelo qual Deus concebe o plano das coisas e dirige-lhe a execução, determinando cada criatura e para todo o universo o fim a seguir, bem como os meios necessários para sua realização.

A segunda lição é o perigo da avareza encarnada na vida do rei Acab e sua esposa, Jezabel (muito longe do significado do seu nome. “Jezabe” em hebraico significa “virtuosa”). Sabemos muito bem que por natureza o ser humano procura apropriar-se das coisas no intuito de usá-las para vida durante sua passagem neste mundo. É uma aspiração legítima. Mas se a cobiça dos bens materiais for exagerada, se for excessivo o apego a eles, os bens materiais deixarão seu caráter de meio. Consequentemente, o ser humano deste tipo não estará mais exercendo um direito e sim será vítima de um vício hediondo chamado a AVAREZA. A avareza é um desvio do significado de infinito para o finito, é uma transposição do absoluto para o relativo. Não podemos nos esquecer que todos os bens materiais que adquirimos aqui neste mundo, vão ficar aqui neste mundo. E tudo que tem o caráter divino: amor, bondade, solidariedade, hospitalidade, compaixão etc. (cf. Mt 25,31-45), será levado para a eternidade, pois será reconhecido pelo próprio Deus. Podemos entender aquilo que Jean de La Fontaine dizia: "A avareza perde tudo ao pretender ganhar tudo."  Ou nas palavras de Plutarco: "A avareza é um tirano bem cruel; manda ajuntar e proíbe o uso daquilo que se junta; visita o desejo e interdiz o gozo". O avarento vive como pobre e morre como rico.

Somos Chamados a Ser Felizes

O texto lido no evangelho de hoje é o início do Sermão da Montanha (Mt 5-7). O Sermão da Montanha é um “indicativo” (quem somos) e que se faz “imperativo” (o que devemos fazer e como devemos viver).

O texto do evangelho deste dia é conhecido com as Bem-aventuradas. As Bem-aventuranças são “a Carta Magna” do Reino, pois afirma quem são os seus cidadãos e qual a sua condição para ser cidadão do Reino. As Bem-aventuranças são um “breviário” de vida cristã; a regra de vida do Filho. Através destas bem-aventuranças logo percebemos que o projeto de Jesus para os homens é a felicidade. Jesus quer que todos sejam felizes. As bem-aventuranças são descrições das qualidades que devem ser encontradas na vida dos que se submetem à soberania de Deus. Elas são também uma declaração das bênçãos ou uma proclamação da felicidade (não só promessas da felicidade) que já experimentam em parte e que irão gozar mais plenamente na vida futura todos os que revelem tais virtudes. As bem-aventuranças refletem a própria experiência, perpassada pelo sofrimento e pela perspectiva da cruz. Jesus é, por isso, garantia e modelo da existência feliz.

A própria palavrafelicidadederiva do latimfelicitas”, substantivo proveniente do adjetivo “felix”, que quer dizer frutífero, fértil, fecundo e, por extensão, próspero.

Quais são pessoas declaradas felizes por Jesus e por quê? Jesus declara felizes àqueles que mantêm viva a confiança em Deus apesar de serem indefesos, oprimidos, marginalizados e perseguidos por causa do bem praticado e do amor vivido até o fim.

Os felizes são os que têm coração pobre, um coração centrado em Deus e que se traduz no amor ao próximo e que rejeitam toda espécie de idolatria, os pobres em espírito (anawim ruah, grego). A pbreza em espírito é a humildade, característica primeira do amor. Deus dá seus dons ao pobre, até doa a Si mesmo. A pobreza em espírito é a condição para acolher o Absoluto. A pobreza é aquela pobreza absoluta que recebe o Absoluto. Os pobres em espírito (e não pobre de espírito) são os “piedosos no espírito”, são aqueles se submetem interiormente, sem resistência à vontade de Deus. O espírito de humilde submissão à vontade de Deus, nasce da fé inabalável na soberania e na misericórdia de Deus e que se traduz em atitudes e condutas de bondade e de mansidão, de misericórdia e de compaixão, de tolerância e de compreensão na convivência com os outros. Esta atitude de humildade diante de Deus, nascida da fé, se traduz em atitudes e condutas de desapego aos bens materiais, de bondade, de partilha que é a alma do projeto/plano de Deus, e de solidariedade. É ser pobre no espírito, e não é pobre de espírito.

É bom sabermos que a primeira e e a última bem-aventurança estão no presente, as outras são para o futuro. Isto quer nos dizer que o Reino de Deus já é dos pobres em espírito e dos perseguidos. O Reino dos Céus é o próprio Deus que reina.         

Os felizes são os mansos que por não responderem à violência com violência, mas que estão prontos a perdoar. Jesus declara felizes não os que são mansos por temperamento, mas os que, apesar de não disporem de meios para fazer valer seus direitos, não são violentos nem agressivos, mas pacientes e indulgentes. Eles acreditam que a vida baseada no princípio “olho por olho” só resulta na cegueira, e na cegueira nada se vê. Só escuridão.  O manso aceita o tempo de Deus e a maneira de Deus. Por isso, o manso não é um fraco, mas um crente que tem força da alma. A mansidão é o sinal visível da benevolência e do respeito. Em Cristo encontramos o modelo perfeito da mansidão: “... aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração...” (cf. Mt 11,29).          

Os felizes são os indefesos que não têm como defender seus direitos por falta de recursos, mas que esperam somente a intervenção divina. Os felizes são os que não pactuam com a maldade, com a divisão, com a malícia, nem se deixam levar pela lógica da dominação e do autoritarismo. Jesus declara felizes os que estão aflitos(v.5) por experimentarem a ausência da justiça de Deus mas continuam esperando em Deus pois só Ele pode converter a tristeza em alegria e o pranto em canto.        

Os felizes são os que têm um coração cheio de misericórdia para com os semelhantes. Um misericordioso é aquele que é capaz de amar até a pessoa que não merece ser amada do ponto de vista humano. Mas por acreditar na misericórdia de Deus, ele sempre quer o bem da mesma. Os misericordiosos são aqueles que, efetivamente, abrem seu coração para os outros e executam gestos concretos para aliviar sua aflição. Os felizes não são os que, por índole natural, têm um coração sensível e sentimentos de compaixão, mas os que fazem gestos concretos de misericórdia, ajudando e servindo os necessitados.     

Os felizes são os promotores da paz que procuram criar laços de amizade e banir toda espécie de ódio, ajudar a superar as divisões para que mundo seja cada vez mais fraterno, e mais humano. Santo Agostinho dizia: “Não basta ser pacífico. É necessário ser promotor da paz. Quem são os pacíficos? Não os pacifistas, mas os promotores da paz. Não basta estar disposto a perdoar ou ignorar os inimigos, é preciso amá-los e ter compaixão por eles. Não odeias aos cegos, mesmo que ames a luz. Da mesma forma, deves amar a paz sem odiar os que fazem guerra”. Aos construtores da paz é feita a promessa solene de que no juízo final lhes será dado o maior de todos os títulos: “Serão chamados filhos de Deus”.          

Os felizes são os perseguidos por causa da justiça, por causa do bem que fazem, por viverem retamente. Quem sempre faz o bem, muitas vezes acaba sendo perseguido e crucificado como Jesus. Mas ele é feliz, pois até o fim ele é capaz de dizer sim para o bem e dizer não para o mal. Quem pára de crescer neste espírito das bem-aventuranças, começa a morrer. Quem, ao anunciar o Evangelho, for aplaudido por todos e, sobretudo, pelos donos de poder, pode estar certo de que ele ainda não é o profeta verdadeiro, pois ele deixou de ser o sal da terra para converter-se em adoçante. No caso de perseguição (como também na primeira bem-aventurança), a promessa é formulada no presente: “Deles é o Reino dos céus”. O reino lhes pertence desde agora          

Portanto, as bem-aventuranças são uma proclamação de amizade de Deus para as pessoas que participaram do espírito dessas bem-aventuranças e são um programa da vida de cada cristão (vocação á felicidade é para todos), e também são uma celebração da felicidade como dom ou graça presente, como uma realidade já presente e não apenas como algo depois da morte ou uma recompensa futura pela carência na terra. Se entendêssemos as bem-aventuranças somente como uma compensação para depois da morte, elas seriam “ópio do povo”. Em outras palavras, somos felizes já na medida em que pertencemos a Deus no presente que se traduz na vivência da fraternidade universal. Então, também o futuro de Deus nos pertence. A partir daí, o céu é a experiência de compartilhar a alegria, a paz e o amor de Deus na plena capacidade humana e vivida entre os homens.

Será que posso me declarar que sou um dos bem-aventurados na declaração de Jesus?

P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 5 de junho de 2026

X Domingo Do Tempo Comum, Ano "A", 07/06/2026

VIVER CONFORME A MISERICÓRDIA DE DEUS

X DOMINGO DO TEMPO COMUM “A”

Primeira Leitura: Os 6,3-6

3É preciso saber segui-lo para reconhecer o Senhor. Certa como a aurora é a sua vinda, ele virá até nós como as primeiras chuvas, como as chuvas tardias que regam o solo. 4Como vou tratar-te, Efraim? Como vou tratar-te, Judá? O vosso amor é como nuvem pela manhã, como orvalho que cedo se desfaz. 5Eu os desbastei por meio dos profetas, arrasei-os com as palavras de minha boca, como luz, expandem-se meus juízos; 6quero amor, e não sacrifícios, conhecimento de Deus, mais do que holocaustos.

Segunda Leitura: Rm 4,18-25

Irmãos: 18Abraão, contra toda a humana esperança, firmou-se na esperança e na fé. Assim, tornou-se pai de muitos povos, conforme lhe fora dito: “Assim será a tua posteridade.” 19Não fraquejou na fé, à vista de seu físico desvigorado pela idade – cerca de cem anos – ou considerando o útero de Sara já incapaz de conceber. 20Diante da promessa divina, não duvidou por falta de fé, mas revigorou-se na fé e deu glória a Deus, 21convencido de que Deus tem poder para cumprir o que prometeu. 22Esta sua atitude de fé lhe foi creditada como justiça. 23Afirmando que a fé lhe foi creditada como justiça, a Escritura visa não só à pessoa de Abraão, 24mas também a nós, pois a fé será creditada também para nós que cremos naquele que ressuscitou dos mortos Jesus, nosso Senhor. 25Ele, Jesus, foi entregue por causa de nossos pecados e foi ressuscitado para nossa justificação.

Evangelho: Mt 9,9-13

Naquele tempo: 9Partindo dali, Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado na coletoria de impostos, e disse-lhe: “Segue-me!” Ele se levantou e seguiu a Jesus.10Enquanto Jesus estava à mesa, em casa de Mateus, vieram muitos cobradores de impostos e pecadores e sentaram-se à mesa com Jesus e seus discípulos. 11Alguns fariseus viram isso e perguntaram aos discípulos: “Por que vosso mestre come com os cobradores de impostos e pecadores?” 12Jesus ouviu a pergunta e respondeu: “Aqueles que têm saúde não precisam de médico, mas sim os doentes. 13Aprendei, pois, o que significa: ‘Quero misericórdia e não sacrifício.’ De fato, eu não vim para chamar os justos, mas os pecadores”.

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 Mateus, Cobrador De Impostos

Palavras de alguns Padres da Igreja:

1.   Os outros evangelistas (Mc 2 e Lc 5), por respeito e honra do mesmo Mateus, não quiseram chamá-lo pelo nome com que era vulgarmente conhecido, mas chamaram-no de Levi, pois ele usava esses dois nomes. Mas o próprio Mateus, seguindo o que diz Salomão- O justo é o primeiro acusador de si (Pr 18,17)- chama a si mesmo de Mateus e de publicano, para mostrar a todos os que o lerem que ninguém deve desesperar de sua salvação, como se converta a uma vida melhor, já que ele mesmo foi repentinamente transformado de publicano em apóstolo (São Jerônimo. In Santo Tomás de Aquino: Catena Aurea Vol.1: Evangelho de São Mateus, 1ª Edição. Ecclesiae, Campinas, SP, 2018 p.334).

2.   Por esse acontecimento nos é mostrado o poder d´Aquele que chama: pois arranca do meio do mal um homem que não renunciava a um ofício perigoso, como fez com Paulo, que estava enloquecido. Por isso segue-se: e disse-lhe: “Segue-me”. Assim como viste o poder d´Aquele que chama, aprende também a obediência do que é chamado. Ele não lhe opõe resistência, nem pede para voltar até sua casa e comunicar sua decisão aos seus (São João Crisóstomo. Idem).

3.   Os fariseus eram psioneiros de dois erros: na altivez da soberba, julgavam-se justos a si mesmos, estando muito longe da justiça, e tinham por injustos todos aqueles que, arrependidos de seus pecados, aproximavam-se da justiça (Rábano Mauro. Idem)

4.   Lucas acrescenta a penitência (Lc 5,32), o que significa, desenvolvendo seu pensamento, que ninguém deve julgar que Cristo ama os pecadores pelo simples fato de serem pecadores; além disso, a comparação com os doentes dá-nos a inteligência clara do que Deus quer, chamando os pecadores como um médico chama os enfermos, isto é, para salvá-los da iniquidade como de uma doença, o que se consegue através da penitência (Santo Agostinho. In Santo Tomás de Aquino: Catena Aurea Vol.1: Evangelho de São Mateus, 1ª Edição. Ecclesiae, Campinas, SP ,2018 p.335).

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O trecho do evangelho deste domingo faz parte de um pequeno conjunto de Mt 9,9-17 onde se fala da controvérsia entre Jesus e seus discípulos, de um lado, contra os fariseus e judeus, do outro lado (inclusive, com os discípulos de João).         

Depois da segunda série de milagres(Mt 8,1-9,8), vem um intervalo onde o texto fala da chamada de um novo discípulo, que aqui é chamado de Mateus (veja os textos paralelos: Mc 2,13-17 chama esse novo discípulo de Levi, o filho de Alfeu; Lc 5,27-32 o chama simplesmente de Levi) a quem a tradição atribui como o autor do primeiro Evangelho na Bíblia (Evangelho de Mateus). Neste relato encontram-se duas controvérsias(Mt 9,10-13 e 9,14-17) cujo tema de fundo é o estilo de vida de Jesus e de seus discípulos. Nas duas controvérsias Jesus e seus discípulos aparecem intimamente unidos, pois para saber sobre Jesus, os adversários perguntam aos discípulos (Mt 9,11); e para saber sobre os discípulos, eles perguntam a Jesus (Mt 9,14). Falaremos somente a primeira controvérsia com alguns detalhes, de acordo com o que o evangelho deste domingo nos apresenta.

Jesus Chama Um Cobrador De Impostos Para Ser Seu Discípulo

Como se sabe, ser cobrador de impostos (como profissão) era considerado como uma das profissões desprezíveis, até mesmo odiadas pela população judaica. O hábito chamava  categoricamente os cobradores de impostos de pecadores(Lc 19,7) ou publicanos.         

Por que os fariseus e judeus consideravam os cobradores de impostos como pecadores ou publicanos(pecadores públicos)?         

Em primeiro lugar, porque os cobradores de impostos colaboravam com o império romano. A população judaica os detestava pelo fato de eles terem o contato freqüente com os pagãos (os romanos) que os causavam impuros; e pelo fato de ter em casa e usar moedas com imagens dos imperadores que se proclamavam divinos e por não respeitar a lei do Sábado e outros mandamentos de Deus. Além disso, os cobradores tinham o direito de cobrar a parte deles em cada taxa além do limite. Conseqüentemente, eles eram exploradores, desonestos e viviam da exploração dos mais pobres do seu próprio povo.         

Por serem pecadores públicos, os cobradores de impostos, pela legislação judaica, não podiam ser testemunhas em tribunais, pois sua palavra não valia nada. E se convertessem-se, deveriam abandonar a profissão e restituir 20% de tudo o que possuíam como prova de conversão, o que era impossível para o pensamento da população judaica. Por isso, para eles não existia a possibilidade de salvação. Além disso, era proibido aceitar o dinheiro dos cobradores de impostos para a caixa dos pobres (como esmola), porque a injustiça impregnava esse dinheiro (dinheiro sujo).

A lei denuncia o pecado e pune o pecador. Enquanto somos duros com os pecadores, somos coniventes com o pecado. Jesus rejeita o pecado e acolhe o pecador, pois Deus não é lei e sim amor; não é punição e sim perdão e remédio.  A misericórdia é que levará Jesus a se sacrificar na Cruz.  A religião da lei e da punição é substituída por aquela da liberdade e do amor. O amor e o perdão libertam. Ou seja, o pecado não exclui ninguém do Reino desde que o homem se converta. O amor de Deus é para todos os homens e para todas as criaturas, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16).

“Eu não vim para chamar os justos, mas os pecadores”.        

A missão de Jesus não é para os justos. Nenhum justo é salvo, pois ninguém é justo (Sl 12,2; Rm 3,23), exceto Ele, que se perde por todos os justos. Jesus é o Filho enviado a todos os irmãos perdidos: come, vive e caminha com eles.

Jesus tem, então, uma independência total diante da cultura do seu povo, quando se trata de romper com barreiras culturais que os “religiosos” tinham contra os “pecadores”. Ao enfrentar os judeus e fariseus, Jesus quer mostrar-lhes que sair ao encontro de um pecador é uma expressão maior da fidelidade ao Deus Santo, que é o Deus de amor e misericórdia, do que isolar-se para alardear a própria perfeição. Por isso, ele chama Mateus, o cobrador de impostos, para ser seu discípulo.

Eu não vim para chamar os justos, mas os pecadores”. A lei denuncia o pecado e pune o pecador. O Senhor rejeita o pecado, mas acolhe o pecador. Deus não é lei e sim é amor (1Jo 4,8.16). Deus não é punição e sim o perdão e remédio. Por isso, a nossa miséria fica muito menor do que a misericórdia divina. Basta ouvir a chamada do Senhor e seguir seus passos. Deus ama mais o pecador porque necessita mais, assim como o pecador amará mais, porque recebeu mais amor (Lc 7,36-50). Uma pessoa, quanto mais doente, mais tem direito ao médico. O pecado não impede o pecador de ter uma experiência de Deus, antes, precisamente por causa dele, Deus o chama pelo seu verdadeiro nome, que é Jesus, Deus salva (Mt 1,21; cf. Lc 1,77).          

Jesus escolheu esse homem, porque devia estar vendo o coração dele. Lá no fundo do coração desse homem devia ter bondade. No momento, sem dúvida, ele não era bom, pois era um ladrão diplomado. Mas a graça de Deus sempre faz surpresas. Com a graça e o convite de Jesus, e com a disposição interna do coração, Mateus iria se converter, iria seguir a Jesus e ser o seu grande testemunho pelo mundo afora. Com esse relato, Mateus faz questão de lembrar a todos os pecadores ou os que se acham pecadores para não terem medo nem fugirem ou se afastarem de Jesus. Um pecador convertido pode ser um grande evangelizador. Esse pecador pode ser que seja eu ou seja você que está lendo este texto que fala do testemunho da conversão de Mateus. A possibilidade  de converter-se e de ser evangelizador em seguida é sempre aberta para todos.

Seguir a Jesus         

Jesus chama Mateus para segui-lo: “Segue-me(Mt 9,9). E ele o segue (Mt 9,9). Ele diz a mesma coisa para Simão e André (Mt 4,19) e para Tiago e João (Mt 4,21). Diante de palavra tão poderosa, a única reação de Mateus é colocar-se em pé e seguir a Jesus.

O termo “seguir”(akoloutheo, em grego) aparece 90 vezes no NT, das quais 11 vezes se encontram fora dos Evangelhos (em Atos, 4 vezes; em Ap, 6 vezes; e o resto em 1Cor 10,4). Nos evangelhos este termo se refere ao seguimento de Jesus (no total 73 vezes).          

O verbo “seguir”, em sentido próprio, significa “ir atrás de alguém”; e no sentido figurado significa “ser discípulo”, “ir em seguimento de alguém”. No NT, ambos significados se aplicam a Jesus, por exemplo, quando se diz que a multidão de gente seguia a Jesus e que, por outro lado, os discípulos iam em seguimento de Jesus. E os sujeitos do “seguir” são normalmente pessoas (somente Ap 14,13 constitui uma exceção: “as obras” dos que morrem no Senhor lhes seguem). E o objeto do “seguir” é sempre uma pessoa ou grupo de pessoas.         

O que significa seguir a Jesus? Seguir a Jesus significa romper todo o passado, abandonar tudo (cf. Mt 4,18-22;9,9s;19,21;Lc 9,61;Mc 10,28), submetendo-se com fé e obediência à salvação oferecida em Cristo. Seguir também tem sentido de imitação. Neste sentido seguir significa  unir-se com Jesus numa comunhão de vida e de destino; é modelar-se segundo o exemplo de Jesus (cf. Jo 13,15.34;15,12;1Ts 1,6;1Cor 11,1;Ef 5,2;1Jo 2,6 etc.). Assim, seguir a Jesus não é apenas aderir a um ensinamento moral e espiritual, mas compartilhar sua sorte. Por isso, Jesus exige o desapego total: renunciar às riquezas e à segurança, deixar os familiares (Mt 8,19-22;10,37;19,16-22), sem esperar o retorno(troca ou retribuição). Ao exigir de seus discípulos um tal sacrifício, Jesus se revela como Deus, única garantia e revela integralmente até que ponto vão as exigências de Deus. Pode ser que seja até o sacrifício da cruz e até se sentir abandonado pelos outros, como Jesus sentiu(Mt 26,56).          

A partir deste sentido, somos convidados a refletir sobre o nosso seguimento de Cristo. Até que ponto estamos dentro deste padrão? Em outras palavras, o que significa para nós hoje seguir a Jesus? Para responder esta pergunta, devemos responder outra pergunta: quem é Jesus a quem seguimos?         

Seguir a Jesus é viver a sua vida. E a vida de Jesus foi marcada particularmente por amor ao Pai e ao homem, especialmente aos mais necessitados. Seu relacionamento profundo com o Pai se traduz na prática da solidariedade com os marginalizados e pecadores. Seguir a Jesus é viver segundo o seu projeto. Ele quer que as relações humanas e sociais se baseiem sobre a justiça, o amor, a fraternidade e o perdão. Tudo isso se tornará realidade , se o homem se descobrir como filho de um Pai amoroso. Seguir a Jesus é estar pronto para viver o seu destino. Viver segundo o projeto de Jesus leva o seguidor a viver o martírio. O martírio é o preço a pagar pela fidelidade à causa jamais traída. Quem se propõe seguir a Jesus deve estar pronto para viver a bem-aventurança das perseguições(Mt 5,10s).

Os Publicanos E Os Pecadores Sentam-Se À Mesa Com Jesus        

Os fariseus se escandalizam junto dos discípulos pelo fato de seu Mestre comer com os publicanos e pecadores: “Por que vosso Mestre come com os cobradores de impostos e pecadores?”(v.11). Os fariseus usam a linguagem “nós/vocês, eles” em oposição: “vosso” mestre, em oposição aos mestres com quem eles estão familiarizados e com quem são benevolentes. É o primeiro exemplo de franca oposição dos fariseus a Jesus. A pergunta feita pelos fariseus, aqui, é uma tentativa de desacreditar Jesus, chamando a atenção para algo que muita gente ou todo o mundo acharia revoltante. É uma controvérsia sobre quem teria influência e constituiria a liderança e autoridade local.         

Por que os fariseus se escandalizam diante da atitude de Jesus? Porque comer com alguém ou partilhar à mesa, a quem se dava usualmente o nome de “amigo de mesa”, era sinal de amizade e compatibilidade. Não é qualquer um é convidado para uma refeição(jantar ou almoço), nem na época de Jesus e, creio que, nem também na nossa época. No Oriente, receber alguém em comunhão de mesa significa até os dias de hoje uma honra que quer dizer oferta de paz, confiança, fraternidade e perdão. Em outras palavras, comunhão de mesa é comunhão de vida. Ao comer com os pecadores, Jesus se identificava com eles. Enquanto na época não se podia comer com gente “impura” e isso era um costume apoiado pelas autoridades e pela tradição religiosa. Ao verem os companheiros de mesa de Jesus eram pessoas religiosamente impuras, os fariseus acreditavam que Jesus estava comprometendo sua posição de Mestre.

O número de refeições tomados por Cristo com pecadores, o fato de o pai de família perdoar seu filho pródigo por uma refeição suntuosa(Lc 15,22-24), a atitude de Jesus de “pôr a mão” junto com Judas no prato(Mt 26,23) como sinal de intimidade, e sua preocupação em oferecer o pão e o vinho para a remissão dos pecados(Mt 26,28), manifestam claramente a consciência dos primeiros cristãos em face da eucaristia como sacramento do perdão(Mt 18,15-18). Existe aqui o elo entre a eucaristia e o sacramento do perdão. Jesus pronunciou o perdão não só por palavra, mas também por atos. A forma mais impressionante de anúncio do perdão através de atos para os homens daquele tempo foi sua comunhão de mesa com os pecadores. No judaísmo em particular, comunhão de mesa é comunhão perante os olhares de Deus, visto que ela é restabelecida enquanto cada um dos participantes, comendo um pedaço do pão partido, participa da bênção que o dono da casa pronunciou sobre o pão antes de parti-lo. Assim sendo, as refeições de Jesus com os publicanos e pecadores não são acontecimentos puramente de ordem social, não são apenas expressão de incomum cordialidade humana e de generosidade social, mas o seu sentido é mais profundo: a inclusão de pecadores na comunidade de salvação, realizada na comunhão de mesa, é a expressão mais patente da mensagem do amor redentor de Deus. Essas refeições são celebrações antecipatórias do banquete salvífico do fim dos tempos(Mt 8,11).

Quero Misericórdia e Não Sacrifício         

“Misericórdia: é o ato último e supremo pelo qual Deus vem ao nosso encontro. Misericórdia: é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida. Misericórdia: é o caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado. ... A Igreja tem a missão de anunciar a misericórdia de Deus, coração pulsante do Evangelho, que por meio dela deve chegar ao coração e à mente de cada pessoa. A Esposa de Cristo assume o comportamento do Filho de Deus, que vai ao encontro de todos sem excluir ninguém.” (Papa Francisco: Bula De Proclamação Do Jubileu Extraordinário Da Misericórdia: Misericordiae Vultus n.2 e 12).

Jesus responde à pergunta dos fariseus citando um provérbio: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes” (v.12). Como o médico cura os doentes, do mesmo modo, Jesus veio, exatamente, para a sua reconciliação, e deu sua vida por todos os pecadores: “Não vim chamar os justos, mas os pecadores” (v.13b). Ao associar-se aos pecadores, Jesus não está defendendo o rebaixamento dos padrões bíblicos de retidão. A misericórdia de Deus não é cumplicidade e laxismo permissivo (laxismo é doutrina que restringe excessivamente a obrigação moral). Ao contrário, o propósito de seu ministério é possibilitar que os decaídos sejam levantados e vivam segundo o padrão de retidão de Deus.         

Jesus também cita um ensinamento bíblico de Os 6,6: “Quero misericórdia e não sacrifício”(v.13). Misericórdia significa o sentimento que se experimenta diante do infortúnio que aflige a outra pessoa, e a ação que brota desse sentimento. Ao citar Os 6,6  Jesus declara a primazia da misericórdia, da caridade ativa, acima do sacrifício (Mt 9,13;12,7;23,23).  Toda a experiência profunda de Deus nos leva à prática eficaz da misericórdia. As nossas pequenas mortificações, e exercícios ascéticos só tem valor na medida em que servirem de treino para o exercício da misericórdia. Para Jesus a misericórdia é o pré-requisito para a construção de relações saudáveis e fraternas.        

Através da citação de Os 6,6, Jesus (como faziam os profetas) está denunciando o culto vazio e a hipocrisia dos que se julgam em ordem com Deus (os fariseus) apenas por cumprirem certos ritos (dízimo, jejum, purificação etc.), enquanto se esquecem da justiça, do amor ao próximo e da reconciliação fraterna.  Segundo Jesus, a religião que agrada a Deus é aquela que se expressa na piedade e na misericórdia, no amor ao irmão, na praxis da reconciliação, na paixão pela justiça e libertação humana. Para Jesus, a pureza religiosa autêntica não é a legal, mas a conversão ao amor, à piedade e à misericórdia. Jesus não critica uma religião sem culto, mas uma religião alheia ao compromisso da vida, ao amor fraterno, à misericórdia.         

Neste dia somos convidados a verificar as nossas motivações religiosas, tanto as autênticas como as falsas na pratica da religião. Não podemos esquecer de que o Deus revelado pela palavra e pela ação de Jesus é um Deus de misericórdia, que acolhe os perdidos oferecendo-lhes uma possibilidade nova de refazer-se. E este mesmo Deus mostra sua compaixão a quem é compassivo, mas não a mostra a quem não o é. São Tiago diz categoricamente: “...o julgamento será sem misericórdia para aquele que não pratica a misericórdia. A misericórdia, porém, triunfa sobre o julgamento” (Tg 2,13; cf. também Mt 18,32s).

“Deus nunca Se cansa de escancarar a porta do seu coração, para repetir que nos ama e deseja partilhar conosco a sua vida. A Igreja sente, fortemente, a urgência de anunciar a misericórdia de Deus. A sua vida é autêntica e credível, quando faz da misericórdia seu convicto anúncio.” (Papa Francisco: Misericordiae Vultus n.25).

“O amor apaixonado de Deus pelo seu povo, pelo ser humano, é, ao mesmo tempo, um amor que perdoa. E é tão grande que chega a virar Deus contra si próprio, o amor contra a sua justiça” (Bento XVI: Carta encíclica: DEUS CARITAS EST n.10).

Pe. Vitus Gustama,SVD

Sábado Da IX Semana Comum, Ano Par, 06/06/2026

SER IMITADOR DA GENEROSIDADE DE DEUS

Sábado Da IX Semana Comum

Primeira Leitura: 2Tm 4,1-8

Caríssimo, 1 conjura-te solenemente diante de Deus e de Cristo Jesus, que há de vir a julgar os vivos e os mortos, e em virtude da sua manifestação gloriosa e do seu Reino, eu te peço com insistência: 2 proclama a palavra, insiste oportuna ou importunamente, argumenta, repreende, aconselha, com toda a paciência e doutrina. 3 Pois vai chegar o tempo em que não suportarão a sã doutrina, mas, com o prurido da curiosidade nos ouvidos, se rodearão de mestres ao sabor de seus próprios caprichos. 4 E assim, deixando de ouvir a verdade, se desviarão para as fábulas. 5 Tu, porém, mostra vigilância em tudo, suporta o sofrimento, desempenha o teu serviço de pregador do evangelho, cumpre com perfeição o teu ministério. Sê sóbrio. 6 Quanto a mim, eu já estou para ser derramado em sacrifício; aproxima-se o momento de minha partida. 7 Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé. 8 Agora está reservada para mim a coroa da justiça, que o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos que esperam com amor a sua manifestação gloriosa.

Evangelho: Mc 12,38-44

Naquele tempo, 38Jesus dizia, no seu ensinamento, à multidão: “Tomai cuidado com os doutores da Lei! Eles gostam de andar com roupas vistosas, de ser cumprimentados nas praças públicas; 39gostam das primeiras cadeiras nas sinagogas e dos melhores lugares nos banquetes. 40Eles devoram as casas das viúvas, fingindo fazer longas orações. Por isso eles receberão a pior condenação”. 41Jesus estava sentado no Templo, diante do cofre das esmolas, e observava como a multidão depositava suas moedas no cofre. Muitos ricos depositavam grandes quantias. 42Então chegou uma pobre viúva que deu duas pequenas moedas, que não valiam quase nada. 43Jesus chamou os discípulos e disse: “Em verdade vos digo, esta pobre viúva deu mais do que todos os outros que ofereceram esmolas. 44Todos deram do que tinham de sobra, enquanto ela, na sua pobreza, ofereceu tudo aquilo que possuía para viver”.

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Viver Preparados Para O Dia De Julgamento

Conjuro-te, solenemente, diante de Deus e de Cristo Jesus, que há de vir a julgar os vivos e os mortos, e em virtude da sua manifestação gloriosa e do seu Reino, eu te peço com insistência: proclama a palavra, insiste oportuna ou importunamente, argumenta, repreende, aconselha, com toda a paciência e doutrina”, escreveu são Paulo para Timóteo.

Termina hoje nossa meditação sobre a Segunda Carta de são Paulo para Timóteo. No texto de hoje, são Paulo exorta a Timóteo solenemente para que cumpra a sua missão nos diversos aspectos que foram indicados nos textos anteriores. O motivo principal dessa exortação é o dia do juízo sobre o qual cada um deverá prestar contas para Deus sobre o cumprimento ou não cumprimento da missão recebida de Deus conforme os dons ou talentos dados por Deus a fim de multiplicá-los para a edificação da comunidade humana. Com uma patética despedida são Paulo escreveu: “Quanto a mim, eu já estou para ser derramado em sacrifício; aproxima-se o momento de minha partida”. Há duas maneiras de dar a vida por Cristo: uma através da consumação da própria vida diariamente em função de dar conhecer Jesus Cristo para as pessoas (2Cor  12,15). Outra é derramar o sangue por causa de Cristo. estas duas maneira continuam sendo um grande desafio para cada cristão.

“... aproxima-se o momento de minha partida”. São Paulo tem consciência de que onde há o começo, também há o fim; onde há a chegada, há também a partida; onde há o nascimento, há também a morte. Mas ele entregou totalmente sua vida para a evangelização. Trata-se de uma vida fecunda, útil para o bem comum que ele cumpriu muito bem. E ele espera que Timóteo faça a mesma coisa.

Por isso é que são Paulo escreveu para Timóteo: “... eu te peço com insistência: proclama a Palavra, insiste oportuna ou importunamente, argumenta, repreende, aconselha, com toda a paciência e doutrina”. A fórmula é extremamente solene. O que Paulo diz a Timóteo é sério! De fato, ele volta novamente a um de seus assuntos ou temas favoritos: o evangelho ... proclamado ... Ele dedicou e entregou toda a sua vida a essa tarefa. Ele transmite o evangelho a seu discípulo, Timóteo, e a todos os bispos do futuro.

Proclama a Palavra, insiste oportuna ou importunamente...”. O inoportunamente indica que Timóteo deve pregar a Palavra também em situações que não parecem propícios, se deixar-se levar pelas considerações humana. A graça não admite demora e pode atuar frequentemente onde menos se espera.

Para são Paulo, existem muitas maneiras de "proclamar a Palavra de Deus": o anúncio das boas novas, a refutação de erros, a luta contra o mal em todas as suas formas (heresia, falsa doutrina etc.), a exortação encorajadora para aqueles que estão passando na prova, o ensinamento ou sã doutrina.

Cada cristão é seguidor do Verbo Divino, Jesus Cristo (Jo 1,1-3.14). Como cristão, seguidor de Cristo, Palavra do Pai, sou também responsável desta “Palavra” para vivê-La e proclamá-La para os outros onde eu estiver. Se for necessário, podemos pregar com nossas palavras, pois a primeira pregação mais eficaz é através de nossa atitude ou de nossa maneira de viver conforme os ensinamentos de Cristo (Cf. Mt 7,16-20). Viver validamente, do ponto de vista cristão, é viver para ajudar os outros e fazer algo útil para a salvação da humanidade, unidos a Cristo. desta maneira é que estamos preparados para o dia de julgamento do Senhor, o justo Juiz.

Estejamos longe Da Hipocrisia Religiosa e Pratiquemos a Generosidade

1. Hipocrisia Religiosa (vv. 38-40)

Nos versículos 38-40 no texto do evangelho de hoje Jesus alerta a todos os cristãos sobre o perigo da hipocrisia e do exibicionismo, pois “eles receberão a pior condenação”.

Hipócrita é aquele gosta de simular virtudes, sentimentos nobres e boas qualidades que, na verdade, não tem nele. Essa simulação tem como objetivo enganar as outras pessoas no intuito de conquistar a estima delas. É um “mendigo” de louvores e aplausos. Ao constatar sua perversidade interior, incapaz de confessá-la e corrigi-la, o hipócrita se refugia na simulação de possuir virtudes. Ele não se preocupa em ser bom, mas em apropriar-se daqueles indícios que o faz parecer como tal. O hipócrita não está consciente de que a dignidade da pessoa humana não consiste em parecer bom e sim em ser bom. Bondade é a própria perfeição possuída por um ser. Uma pessoa boa é capaz de dar a outra pessoa a perfeição que lhe falta.

No evangelho, hipócrita eram os fariseus que respeitavam a Lei até a última vírgula, porém era apenas um respeito formal à legalidade sem nenhuma convicção íntima. Eles substituíam a procura do bem pela busca da própria glória. Eram ateus de coração.

Os hipócritas fariseus morreram? É claro que não! Basta abrirmos os jornais ligarmos a TV para nos dar conta das astúcias dos hipócritas. Sob aparências de bondade violam os ditames da consciência e as normas legais. Podemos, por isso, encontrar um fornecedor de drogas dentro de um comitê antidrogas. Podemos ver alguém na TV mandar beijos para sua esposa, mas esconde, ao mesmo tempo, muitos amantes, e assim por diante. Todo hipócrita tem um comportamento falso

2. Ser Generoso É Ser Rico Por Dentro (vv.41-44)

Se careces de riquezas, não as busques por meios ilícitos. Se tens riqueza, deposita-a no céu por tuas boas obras. Quem se entusiasma com a aquisição de bens deprime-se com sua perda” (Santo Agostinho: Epist. 189,7).

O Evangelho deste dia nos relatou que a viúva deu de sua indigência, em oposição aos ricos que deram de seu poder e de seus privilégios. Neste aspecto contradiz o provérbio segundo o qual ninguém dá o que não tem; esta mulher, ao contrario, somente possui o que deu. Sua oferta é um símbolo de seu amor.

Esta viúva é o reflexo da generosidade de Deus que criou tudo por amor e dá tudo por amor; até o próprio filho amado Ele não poupou a fim de nos resgatar (cf. Jo 3,16). Ser de Deus é servir e dar, não aquilo que um tem e sim a si mesmo. Jesus não é o turista rico que veio visitar a terra subdesenvolvida da humanidade. Ele é o servidor de todos. Seu modo de ser Deus é a pobreza: dar tudo a fim de salvar todos.

Com sua oferta, a viúva se dá a si mesma. Ela faz de Deus o valor supremo acima de sua própria pessoa e faz depender sua vida de Deus, pois não tem mais meios de subsistência. Só uma pessoa de uma fé muito profunda, como essa viúva, será capaz de fazer essa “loucura”. Sobre este tipo de “loucura” São Paulo nos faz a seguinte reflexão: “Mas o que para o mundo é loucura, Deus o escolheu para envergonhar os sábios, e o que para o mundo é fraqueza, Deus o escolheu para envergonhar o que é forte. Deus escolheu o que no mundo não tem nome nem prestígio, aquilo que é nada, para assim mostrar a nulidade dos que são alguma coisa. Assim, ninguém poderá gloriar-se diante de Deus” (1Cor 1,27-29). 

Através de sua oferta a viúva traduz em pratica aquilo que Jesus disse anteriormente: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com toda a tua força!” (Mc 12,30). Uma entrega total, ainda que de aparência modesta, tem muito mais valor do que uma entrega parcial ainda que de uma aparência volumosa. O que vale é a totalidade do dom. A viúva é exemplo de um amor total a Deus, manifestado no total desprendimento dos bens materiais; é a antítese dos dirigentes do evangelho de hoje, infiéis a Deus por seu amor aos bens materiais.

Quando o coração humano se deixar arrebatar por Deus e o experimentar fortemente, então a esperança de poder possuir Deus se converte na força que move a vida. Basta ver como a esperança de Deus fez santos crianças, jovens e adultos, mulheres e homens que foram capazes de dar a vida pelo bem da humanidade como tradução da fé em Deus-generoso. Mas também é verdade que a falta de ilusão (ilusão é falta de correspondência entre a sensação e o objeto percebido) por Deus conduz muitos outros cristãos à mediocridade, à tibieza, à avareza e assim por diante. Por mais que tentemos para possuir nesta terra, nada conseguiremos. Nada podemos possuir. Temos apenas o usufruto das coisas deste mundo. Largaremos um dia assim que terminarmos nossa caminhada histórica.

Olhando para sua maneira de ser, o que é que essa viúva quer corrigir e purificar em você hoje? O que falta em você para ter a maneira de viver dessa viúva? Será que a fé na providência divina? Será que o desprendimento? Será que a generosidade? Será que a esperança?

P. Vitus Gustama,svd

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Sexta-feira Da IX Semana Comum, 05/06/2026

VIVER CONFORME A PALAVRA DE DEUS PARA CHEGAR À PERFEIÇÃO

Sexta-Feira Da IX Semana Comum

Primeira Leitura: 2Tm 3,10-17

Caríssimo, 10 tu me tens seguido fielmente no ensino, no procedimento, nos projetos, na fé, na paciência, no amor, na perseverança, 11 nas perseguições e nos sofrimentos que suportei em Antioquia, Icônio e Listra. E que perseguições sofri! Mas de todas elas o Senhor me livrou. 12 Aliás, todos os que quiserem levar uma vida fervorosa em Cristo Jesus serão perseguidos. 13 Os homens maus e sedutores irão de mal a pior, enganando e sendo enganados. 14 Permanece firme naquilo que aprendeste e aceitaste como verdade; tu sabes de quem o aprendeste. 15 Desde a infância conheces as Sagradas Escrituras: elas têm o poder de te comunicar a sabedoria que conduz à salvação pela fé em Cristo Jesus. 16 Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para ensinar, para argumentar, para corrigir e para educar na justiça, 17 a fim de que o homem de Deus seja perfeito e qualificado para toda boa obra.

Evangelho: Mc 12,35-37

35Naquele tempo, Jesus ensinava no Templo, dizendo: “Como é que os mestres da Lei dizem que o Messias é Filho de Davi? 36O próprio Davi, movido pelo Espírito Santo, falou: ‘Disse o Senhor ao meu Senhor: senta-te à minha direita, até que eu ponha teus inimigos debaixo dos teus pés’. 37Portanto, o próprio Davi chama o Messias de Senhor. Como é que ele pode então ser seu filho?” E uma grande multidão o escutava com prazer.

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Somos Chamados a Ser Pessoas Ideais De Deus

Todos os que quiserem levar uma vida fervorosa em Cristo Jesus serão perseguidos. Permanece firme naquilo que aprendeste e aceitaste como verdade.....”. São algumas frases da Primeira Leitura que lemos hoje.

Depois de ter recordado a Timóteo as maravilhas passadas da evangelização (2Tm 1) e exposto as dificuldades presentes (2Tm 2), são Paulo enfoca o porvir e seus perigos: heresias e corrupção da doutrina (falsa doutrina), apostasias e perseguições. Tudo isso é dirigido ao seu fiel discípulo: Timóteo. Em outras palavras, haverá o combate decisivo entre o bem e o mal por causa da fidelidade na vivência dos ensinamentos de Jesus Cristo e daquilo que é verdade: “Todos os que quiserem levar uma vida fervorosa em Cristo Jesus serão perseguidos”. Perseguição foi o caminho seguido por Cristo e ele o anunciou aos discípulos no discurso da despedida (Jo 15,19-20). Agora são Paulo  anunciou a Timóteo o mesmo caminho. Mas não deve ter medo das perseguições pelo evangelho, pois o próprio Cristo prometeu o Reino para aqueles que sofressem perseguição por sua causa (Mt 5,11).

Podemos dizer que a vida de um cristão e da Igreja em geral, se permanecer fiel aos ensinamentos de Cristo, é uma luta permanente contra o mal (“homens maus e sedutores”). Qualquer cristão verdadeiro sofrerá perseguições e ódios de uma grande parte da sociedade injusta e desonesta, por manter sua opção pelos valores do Reino tais como amor, justiça, honestidade, verdade, igualdade, fraternidade e assim por diante. A presença do justo é sempre uma censura viva para os desonestos. Enquanto a Igreja existir sobre a face da terra, vão continuar a existir também mártires. Mas o sangue do mártir é a semente para a Igreja e para a humanidade inteira.

Diante do anúncio da futura perseguição, são Paulo dá conselho para Tomóteo para que permaneça fiel à sã doutrina que Timóteo aprendeu da tradição (ensinamentos orais etc.)como verdade e das Sagradas Escrituras (Bíblia), que ele aprendeu desde a infância, pois elas contém a sabedoria para viver na retidão, e conduzem os homens à salvação: “Permanece firme naquilo que aprendeste e aceitaste como verdade; tu sabes de quem o aprendeste. Desde a infância conheces as Sagradas Escrituras: elas têm o poder de te comunicar a sabedoria que conduz à salvação pela fé em Cristo Jesus”.

A expressão “As Sagradas Escrituras” da qual são Paulo fala aqui se refere ao Antigo Testamento (AT), já que a coleção do Novo Testamento (NT) não existia, todavia. É impossível entender o NT sem uma leitura inteligente do AT. Jamais podemos mutilar a Bíblia de acordo com o nosso gosto. Uma leitura do AT independente da tradição, independente “da fé em Jesus Cristo” (2Tm 3,15), não seria salvífica, de acordo com São Paulo.

O segundo conselho de são Paulo para Timóteo é este: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para ensinar, para argumentar, para corrigir e para educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e qualificado para toda boa obra”. É por isso que cada cristão deve ler, meditar e viver de acordo com a Palavra de Deus.

São Paulo enfatiza, em primeiro lugar, que na composição dos livros que formam a Escritura interveio misteriosamente o Espírito Santo (“inspirado por Deus”). A ação do Espirito Santo influiu no entendimento e na vontade dos autores dos livros bíblicos  de tal modo que os autores colocaram por escrito o que Deus queria nos comunicar por meio deles. Isto significa que os autores bíblicos são pessoas que se deixam inspirar e guiar pelo Espirito Santo. Por isso, o Concílio Vaticano II, na Constituição Dogmática, Dei Verbum, afirma: “As coisas reveladas por Deus, contidas e manifestadas na Sagrada Escritura, foram escritas por inspiração do Espírito Santo. Com efeito, a santa mãe Igreja, segundo a fé apostólica, considera como santos e canónicos os livros inteiros do Antigo e do Novo Testamento com todas as suas partes, porque, escritos por inspiração do Espírito Santo (cfr. Jo. 20,31; 2 Tim. 3,16; 2 Ped. 1, 19-21; 3, 15-16), têm Deus por autor, e como tais foram confiados à própria Igreja. Todavia, para escrever os livros sagrados, Deus escolheu e serviu-se de homens na posse das suas faculdades e capacidades, para que, agindo Ele neles e por eles, pusessem por escrito, como verdadeiros autores, tudo aquilo e só aquilo que Ele queria” (DV n.11). Mais carinhosa ainda é a afirmação do Papa Leão XII: “Oráculos e palavras divinas, cartas dirigidas pelo Pai celestial e transmitidas pelos autores sagrados ao gênero humano que peregrina longe de sua pátria” (Encíclica Providentíssimus Deus).

Sendo inspirada por Deus, a Sagrada Escritura possui a fonte para toda formação e educação cristã. Santo Tomás de Aquino comentou: “São quatro os efeitos da Sagrada Escritura: é útil para ensinar a verdade e confrontar a falsidade, isto quanto à ordem especulativa; para libertar do mal e induzir ao bem, quanto à ordem prática; serve, além disso, para conduzir o homem à perfeição. Porque não o torna bom de qualquer maneira, mas sim aquele que busca a perfeição”.

Portanto, preparemos sempre tempo para nos familiarizar com a Palavra de Deus. Procuremos algum tempo durante o dia para ler e meditar a Palavra de Deus para nos aperfeiçoar como pessoas de Deus. A Bíblia não é somente um livro e sim ela é o Livro. Ela é a voz de Deus; ela é o livro para todos os tempos. No processo da história da salvação a Palavra se faz Aliança, se faz Torá, se faz Palavra profética, que denuncia e anuncia. Ela se faz Palavra Orante(Salmos); se faz Palavra Encarnada em Jesus de Nazaré (Jo 1,14). A Salvação de Jesus se faz Relato e Narração oral que pouco a pouco se plasma em escrito(Evangelho). Como voz de Deus a Palavra de Deus deve ser escutada, meditada, contemplada e vivida. Quando a Palavra de Deus for proclamada e lida, estarei frente a frente com Deus. Cada Palavra de Deus proclamada ou lida, Deus sempre tem alguma palavra para mim: para minha vida (meu comportamento, meu modo de viver, meu modo de falar etc), minha família, meu casamento, minha profissão, meu trabalho, minhas dificuldades e meus problemas.Por isso, eu preciso escutá-la.

Timóteo caminhou com são Paulo e sofreu com ele todo tipo de tribulações e perseguições por causa do Evangelho. Apesar do duro seguimento de Cristo, Timóteo, junto com são Paulo, permaneceu fiel ao Senhor, de tal modo que a Palavra de Deus se converteu para ele e para os evangelizados em fonte de salvação. Por isso, o verdadeiro discípulo é aquele vai atrás das pegadas de Cristo, pois não são palavras dos homens e sim Cristo, Evangelho vivente do Pai que nos ensina, repreende, corrige e educa na virtude para que sejamos perfeitos em Deus.

Jesus Cristo É Poderoso No Amor

O texto do evangelho deste dia pertence ao conjunto de relatos polêmicos entre Jesus e os dirigentes do povo de sua época. Finalmente Jesus se encontrou em Jerusalém e se enfrenta com os representantes do judaísmo oficial em uma série de controvérsias religiosas sobre temas fundamentais da fé.

Neste texto Jesus disse: “Como é que os mestres da Lei dizem que o Messias é Filho de Davi? ... O próprio Davi chama o Messias de Senhor. Como é que ele pode então ser seu filho?”.

O título “filho de Davi”, aplicado a Jesus Cristo faz parte da medula do evangelho. Na Anunciação, a Virgem Maria recebeu esta mensagem: “O Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai, e reinará sobre a descendência de Jacó para sempre” (Lc 1,32-33). Os pobres, que pediam a cura a Jesus, clamavam: “Jesus, Filho de Davi, tem compaixão de mim” (Mc 10,48). Em sua entrada solene em Jerusalém, Jesus foi aclamado com o mesmo título (cf. Mc 11,10).

Mas Jesus não é somente filho de Davi. Ele é o Senhor. Jesus afirma isso solenemente ao citar o Salmo 110,1: “Disse o Senhor ao meu Senhor: senta-te à minha direita, até que eu ponha teus inimigos debaixo dos teus pés”. Em outras palavras, o texto quer esclarecer sobre a verdadeira identidade e autoridade de Jesus. É a vez de Jesus colocar em questão e de pôr em causa a autoridade que os doutores da lei se outorgam a si próprios em respota à pergunta: “Com que autoridade fez essas coisas?”.

Quem é Jesus? Esta é a pergunta que o evangelista Marcos quer responder no seu evangelho. Jesus é Cristo/Messias, o Filho de Deus! É a resposta dada pelo evangelista Marcos logo no início do seu evangelho. No contexto do evangelho de Mc, o Messias é o Filho do Homem e o Filho de Deus. A esperança de um rei messiânico da dinastia davídica está assente na profecia de Natan (2Sm 7,11b-16) e presente nos profetas (Is 9,5s; Jr 23,5; 33,15-17; Ez 34,23s; 37,24s)

Jesus é o Filho do Homem e Filho de Deus, o Messias, mas não ostenta o poder. Jesus se afasta de todo poder para instaurar uma realidade nova, onde os que não exercem o poder se sentem importantes e são chamados para a plenitude. Por isso é que Jesus está sempre próximo dos marginalizados, dos empobrecidos, dos excluídos, dos abandonados e faz refeição com eles.

Jesus está consciente de sua Messianidade e de seu ser Senhor e Rei. No entanto, toda sua vida se desenvolve no serviço e na entrega em amor por nós; amor que chega ao extremo de sacrificar sua própria vida por nós, como se nós fôssemos os Senhores. Trata-se de uma maneira de viver que contém uma crítica dura para os escribas e fariseus que vivem a ostentação na maneira de vestir, que adoram as honrarias e o louvor dos homens, mais do que a honra e o louvor a Deus, que amam o dinheiro impulsivamente, e assim por diante. A falsa profissão religiosa e a hipocrisia são uns dos maiores pecados dos homens. É fingir religiosidade, mas na realidade estão servindo ao mundo. Em tudo que o que fizermos no campo religioso, jamais usemos disfarce como os escribas e fariseus. Sejamos sinceros, reais, honestos, humildes e francos no nosso cristianismo. Jamais poderíamos enganar Deus que nos vê. Por isso, Deus não se deixa enganar. O dia do julgamento logo chegará.  

Em que consiste, então, o poder de Deus? Ele é poderoso, mas no amor. Ele está acima de tudo, mas sempre no amor. Ele é onipotente, mas no amor. Ele é onipresente, mas está sempre presente por amor. Ele é onisciente, mas nos conhece no amor e por amor.  Por causa do seu amor por nós, Jesus foi capaz de aceitar ser crucificado na cruz, em vez de derrubar e matar seus adversários. Jesus nos amou, e nos amou até o fim (cf. Jo 13,1). Jesus é amado pelo Pai por causa disso tudo. E para nós Jesus é o amor encarnado do Pai (cf. Jo 3,16).

Cada dia nós somos chamados a entender este Jesus, o Deus próximo do homem. Não podemos continuar sustentando uma teologia nem uma Igreja que apresente um Jesus cheio de poder, já que esta imagem contradiz a experiência que os evangelhos e todo o Novo Testamento nos apresentam de Jesus.

Quanto mais amor dá, tanto mais você se enche de amor: o amor não se gasta ao ser dado; pelo contrário, você se enche cada vez mais de amor. Quando se ama, as diferença se aproximam e se enriquecem mutuamente e as forças se somam. Qualquer um será um bom líder, bom diretor, se for amado mais do que obedecido ou temido. Uma pessoa só terá autoridade, se conseguir fazer o outro crescer.

P. Vitus Gustama,svd

Segunda-feira Da X Semana Comum, Ano Par, 08/06/2026

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