quinta-feira, 8 de outubro de 2026

XXVIII Domingo Do Tempo Comum, Ano "A", 11/10/2026

É PRECISO ESTAR PREPARADO PARA PODER PARTICIPAR DO BANQUETE DO REINO

XXVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM “A”

Primeira Leitura: Is 25,6-10a

6O Senhor dos exércitos dará neste monte, para todos os povos, um banquete de ricas iguarias, regado com vinho puro, servido de pratos deliciosos e dos mais finos vinhos. 7Ele removerá, neste monte, a ponta da cadeia que ligava todos os povos, a teia em que tinha envolvido todas as nações. 8O Senhor Deus eliminará para sempre a morte e enxugará as lágrimas de todas as faces e acabará com a desonra do seu povo em toda a terra; o Senhor o disse. 9Naquele dia, se dirá: “Este é o nosso Deus, esperamos nele, até que nos salvou; este é o Senhor, nele temos confiado; vamos alegrar-nos e exultar por nos ter salvo”. 10aE a mão do Senhor repousará sobre este monte.

Segunda Leitura: Fl 4,12-14.19-20

Irmãos: 12Sei viver na miséria e sei viver na abundância. Eu aprendi o segredo de viver em toda e qualquer situação, estando farto ou passando fome, tendo de sobra ou passando necessidade. 13Tudo posso naquele que me dá força. 14No entanto, fizestes bem em compartilhar as minhas dificuldades. 19O meu Deus proverá esplendidamente com sua riqueza a todas as vossas necessidades, em Cristo Jesus. 20Ao nosso Deus e Pai a glória pelos séculos dos séculos. Amém.

Evangelho: Mt 22,1-14

Naquele tempo, Jesus dirigiu-Se de novo aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo e, falando em parábolas, disse-lhes: «O reino dos Céus pode comparar-se a um rei que preparou um banquete nupcial para o seu filho. Mandou os servos chamar os convidados para as bodas, mas eles não quiseram vir. Mandou ainda outros servos, ordenando-lhes: ‘Dizei aos convidados: Preparei o meu banquete, os bois e os cevados foram abatidos, tudo está pronto. Vinde às bodas’. Mas eles, sem fazerem caso, foram um para o seu campo e outro para o seu negócio; os outros apoderaram-se dos servos, trataram-nos mal e mataram-nos. O rei ficou muito indignado e enviou os seus exércitos, que acabaram com aqueles assassinos e incendiaram a cidade. Disse então aos servos: ‘O banquete está pronto, mas os convidados não eram dignos. Ide às encruzilhadas dos caminhos e convidai para as bodas todos os que encontrardes’. Então os servos, saindo pelos caminhos, reuniram todos os que encontraram, maus e bons. E a sala do banquete encheu-se de convidados. O rei, quando entrou para ver os convidados, viu um homem que não estava vestido com o traje nupcial. E disse-lhe: ‘Amigo, como entraste aqui sem o traje nupcial?’. Mas ele ficou calado. O rei disse então aos servos: ‘Amarrai-lhe os pés e as mãos e lançai-o às trevas exteriores; aí haverá choro e ranger de dentes’. Na verdade, muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos».

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A parábola do banquete nupcial do filho de um rei é a última das três parábolas aqui reunidas pela semelhança de tema (cf. Mt 21,28-22,14). Nesta parábola Mt une duas parábolas: a dos convidados a um banquete nupcial (Mt 22,1-10), que pode se encontrar em Lc (Lc 14,15-24) e no evangelho apócrifo de São Tomé (cf. EvT 64, cuja semelhança com a de Lc pode-se notar facilmente) e a do comensal sem vestido apropriado (Mt 22,11-14; sem paralelo em Lc).

1. A Parábola Do Banquete Nupcial Do Filho De Um Rei E Os Convidados (Mt 22,1-10)    

Para entender o sentido da parábola temos que reconstruir a cena social a que faz referência. Na época (como também na nossa) as refeições tinham uma função social importante, pois eram cerimônias  através das quais se confirmava o status das pessoas e seu lugar dentro da escala social. Os banquetes eram também um meio para estreitar laços, para afirmar alianças e relacionamentos. O status de uma pessoa podia medir-se muito bem pelas pessoas que freqüentavam  sua mesa. Em ocasiões especiais, como a boda de um filho, a seleção dos convidados era minuciosa. De modo geral eram convidadas pessoas importantes, pois a presença dessas aumentavam o status e a honra da família.       

Ler neste contexto, o mais surpreendente da parábola é que os convidados se negam a participar do banquete de bodas com motivos sem fundamentos. Recusar um convite como este era algo quase impossível, pois tratava-se do convite de um rei, por isso era uma ofensa gravíssima a quem convidava(rei) e mais grave ainda porque mataram os enviados do rei. O rei responde à ofensa mandando seus servos para convidar a todos os que se encontraram pelos caminhos, gente que nunca tinha nenhuma oportunidade de sentar-se à mesa de um banquete de um personagem importante, muito menos de um rei.         

O Que A Parábola Quer Nos Transmitir?       

Observamos que na parábola dos vinhateiros homicidas, o evangelho do domingo anterior (Mt 21,33-43), o duplo envio precede o envio do Filho. No texto deste domingo, ele se realiza tão logo o Filho já esteja presente.         

Outra observação que temos que levar em consideração é que em comparação ao relato de Lucas e do evangelho apócrifo de São Tomé, percebemos uma mudança notável no relato de Mateus. Só Mateus fala de servos em plural. Quem convida não é mais um simples homem/pai de família (Lc 14,16), mas um rei (Mt 22,2.11). O banquete não é uma simples refeição festiva qualquer (Lc 14,16), mas o banquete de bodas do filho de um rei (Mt 22,2.11-12). Tudo isto faz da parábola uma alegoria da História da Salvação. O rei é Deus. O primeiro grupo de enviados (v.3) representa os profetas que não foram ouvidos. O segundo grupo que é maltratado (perseguido e morto) representa os Apóstolos e missionários enviados aos judeus (vv.6-7). O terceiro grupo que foi enviado pelos caminhos representa a missão entre os pagãos. O banquete de bodas do filho simboliza a chegada do tempo messiânico manifestado na vinda de Jesus Cristo. O convite recusado representa a incredulidade em Jesus e sua mensagem. A vingança do rei em mandar incendiar a cidade dos que recusaram ao convite e mataram os enviados  refere-se à destruição de Jerusalém numa guerra entre judeus e romanos nos anos 66-70 d.C. Mt interpreta o acontecimento dentro da história da salvação para transmitir a mensagem sobre as conseqüências da aceitação ou da recusa da oferta da salvação feita por Deus em Jesus Cristo para a humanidade. O povo judeu perde seu papel privilegiado na História da Salvação e é substituído pela Igreja formada pelos pagãos convertidos.         

A parábola fala do banquete. Na Bíblia o Reino de Deus é comparado a um banquete, onde se come e se bebe à saciedade, onde se dança, se brinca, se ri, se fala com os amigos e se contam histórias e todos se sentem felizes. Tanto no Antigo Testamento como no Novo Testamento, o banquete é símbolo da abundância, da vida, da felicidade, da fraternidade e  da alegria. É o símbolo da grande reunião, da reunião universal de Deus, a que todos os povos são convidados.         

O profeta Isaías (Is 25,1-10) nos conta que Deus, num determinado tempo, vai organizar um banquete e vai convidar todos os povos da terra. Deus simplesmente não discrimina; sua escala de valores e seu estilo de agir são diferentes dos nossos. Nossas classificações das pessoas não são válidas para o Senhor que faz nascer o sol cada manhã sobre maus e bons(Mt 5,45).         

Conforme o profeta Isaías, Deus convida todos os povos para celebrar a vitória sobre a morte. Não se trata aqui da morte física, mas de tudo aquilo que para o homem é morte e derrota: uma vida sem sentido e sem ideais e sem esperança, o fracasso, a dor, a fome, a marginalização. Tudo aquilo que não é vida será eliminado. Na verdade o profeta está falando dos tempos messiânicos.         

Com a sua vinda no meio de nós, Jesus lança a mão da comparação do banquete para ensinar que todos igualmente são chamados  a participarem da vida, da alegria, da felicidade e da vitória de Deus. Isto nos mostra o amor gratuito de Deus para todos, porque todos são seus filhos(as).E ele os ama da mesma maneira. Por isso, Cristo rompeu as barreiras divisórias entre os homens, com grande surpresa dos puritanos que ouviram a parábola. A leitura desta parábola é, de certa forma, coerente com um dado importante da vida de Jesus: suas refeições com os pecadores e cobradores de impostos que causam duras críticas da parte dos fariseus. Jesus os critica pois a sua mensagem é muito melhor acolhida pelos pequenos(pecadores e cobradores de impostos), inclusive pelos pagãos do que pelos judeus.        

A parábola nos relata três atitudes diferentes perante o convite de Deus que têm muito a ver com o nosso dia a dia. Os primeiros convidados recusam o convite porque não querem largar os próprios interesses: a lavoura, os negócios e ódio contra os enviados de Deus. Não precisam que ninguém lhes ofereça um banquete pois eles têm tudo o que lhes pode garantir uma vida sem problemas. Estão satisfeitos. Essas pessoas acham não precisar de Deus ou de religião, pois  elas têm tudo de que precisam materialmente. Mas dificilmente elas percebem o seu vazio interior. “Ninguém está tão só do que aquele que vive sem Deus. Por isso, o homem para onde se dirija, sem se apoiar em Deus, só encontrará dor”(Santo Agostinho). A riqueza material sufoca qualquer aspiração religiosa para quem vive em função desta riqueza material. 

Onde o homem coloca muros com seus projetos pessoais e mesquinhos, Deus coloca portas abertas da misericórdia para todos. Nos projetos do homem há exclusão como palavra de ordem. No projeto de Deus, os rejeitados são os principais convidados. No projeto de Deus não existe periferia e sim lugar digno para todos; não há indignidade, e sim dignidade.     

A mensagem, portanto, é muito clara. Viver como se Deus não tivesse importância e o encontro com Ele estivesse tão distante que não valesse a pena preparar-se para ele, é pôr em risco a salvação eterna. Perante a salvação, o bem absoluto, não há nenhuma desculpa que seja razoável: nem campos, nem negócios, nem saúde, nem bem-estar. Alegamos falta de tempo, mas encontramos tempo para o jogo ou para a televisão ou para o lazer. A vida é tão corrida que não nos sobra um momento para o mais essencial: encontrar-nos com o Cristo, o nosso Salvador. Deus não pode ser tratado como uma moda. Com Deus está em jogo toda a nossa existência, presente e futura, a maneira de entender a vida etc. Deus é que nos tira do nada com um puríssimo ato de amor, e com o igual amor nos mantém no ser. Falar com Deus e falar de Deus não é um passa tempo e sim uma necessidade vital, porque é só através dele que podemos alcançar a compreensão de nós mesmos, do significado e da importância da nossa vida. Somente em Deus e com Deus o homem pode esperar a realização de si mesmo. O conhecimento de Deus, apesar de ser tão pobre e pouco, é como se fossem os carvões ardentes que alimentam a chama da nossa esperança.        

 Hoje é um dia feliz para nós que escutamos o convite que brota das fontes da Palavra de Deus. Deus nos chama à festa de seu Reino, festa autêntica, alegria completa, oferta total de felicidade. Pois a mensagem cristã é a boa notícia da libertação já iniciada e o gozo da esperança plena da mesma; e isto, apesar de tantas misérias que nos cercam. Quem confia em Deus sabe que Deus guarda por ele, que ele está convidado para o futuro de Deus e tem em suas mãos, com isso, o mais maravilhoso convite de sua vida.         

A eucaristia dominical é o banquete escatológico aqui na terra, e nos prepara para o futuro banquete de Deus, banquete sem fim; é o céu aqui na terra. Não é de admirar que Jesus instituiu a Última Ceia(a Eucaristia) e quer estar no meio de nós até o fim dos tempos(Mt 28,20) em forma do banquete eucarístico. Mas, infelizmente, muitos pensam que ir à igreja é bom somente para as mulheres, as crianças e os idosos, pois os que pensam desta maneira não percebem ainda o valor incalculável do banquete eucarístico e ao mesmo tempo não percebem ainda o vazio de seu coração.         

Outra mensagem da parábola que podemos tirar também é que Deus não convoca apenas uns convidados. Ele chama até os culpados para o perdão perante sua santa face. Deus ama e seu amor quer e deve ser amado. Não há uma vocação mais alta do que esta. O homem só se fechará na sua culpa inapagável, se recusar o convite. Em conseqüência dessa vocação, só podemos amar aqueles que não nos amam quando cremos que num amor superior que transcende todo amor da criatura; ou quando temos a certeza de libertarmos, por nosso amor gratuito, o outro, até então incapaz de amar.

A Parábola Do Homem Sem Roupa Apropriada Para A Festa (vv.11-14)                  

Na segunda parábola trata do relato do homem que entrou sem a roupa nupcial e foi expulso. Os biblistas concordam em dizer que se trata de uma outra parábola que foi acrescentada à precedente. Portanto, deve ser interpretada isoladamente para não interpretar erradamente acusando o rei como alguém que não é coerente no seu convite, já que ele mandou convidar todos para participarem do banquete sem nenhuma exigência posta. A segunda parábola, por isso, contém o seu ensinamento exclusivo. Nesta segunda parábola, aparece o tema do julgamento ou do juízo, mas desta vez não se trata do povo de Israel, e sim daqueles que crêem ter assegurado a salvação ou aqueles que se julgam salvos.         

Para entender a parábola temos que levar em consideração o costume da época. Na época tinha o costume de o anfitrião preparar vestidos apropriados para aqueles que chegaram sem eles (sem vestidos apropriados). O comensal a quem o rei se dirige com palavras severas, há recusado o vestido que lhe ofereceram e com isso há ofendido ao rei ao entrar em seu banquete vestido impropriamente.         

Por isso, a intenção teológica do evangelista é bem clara: lançar uma advertência séria para sua comunidade e para nossa comunidade e comunidade cristã em todos os tempos. Não basta ter sido chamado e ter respondido positivamente à mensagem evangélica para ter a garantia da salvação. Não basta confessar sua fé em Jesus e participar do banquete eucarístico; é necessário a veste nupcial de uma vida em conformidade com a vontade de Deus e com as exigências da mensagem de Jesus (cf. Mt 5,1-7,29). Para entrar no banquete do reino é necessário um estilo de vida que ponha em prática os ensinamentos de Jesus resumidos no amor a Deus e ao próximo. Só quem estiver vestido com esta veste nupcial tem o direito de participar do banquete eterno.        

O homem que entrou sem a roupa nupcial sublinha a dimensão de vigilância de nossa vida. Devemos estar preparados sempre porque em qualquer momento o Senhor pode nos chamar. Vamos trabalhar como se o encontro definitivo com Deus estivesse longe ainda, mas vamos rezar como se esse encontro estivesse próximo. Vamos viver a vida presente, mas com uma visão do futuro, dar às coisas uma função de meio e não de fim, vamos eliminar diariamente toda a desordem que há dentro nós mesmos, em especial a auto-suficiência ou orgulho e todo tipo de segurança falsa. É verdade que Deus não vai nos excluir. Cuidado, porém, para não nos acabarmos excluídos por nossa própria iniciativa.        

A aceitação do convite exige mudança; cumpre ser diferente do que se era. A veste nupcial, necessária para entrar no banquete eterno, figura as obras de justiça que cada um deve realizar. Se eu não tiver amor, não sirvo para nada. Este é a veste nupcial. Não é suficiente ter recebido o sacramento, é necessário ter comportamento novo, é preciso construir a vida sobre os valores cristãos. Não basta também dar esmola, é preciso mudar completamente as próprias atitudes em relação aos bens deste mundo. Não basta pertencer à Igreja de Jesus, é preciso assumir o compromisso como cristão. Precisamos, por isso, de conversão. Conversão é amar sua vocação mais sublime;  é aprender a amar o próprio Deus Santo e misericordioso que se traduz no amor ao próximo.         

Nós participamos do banquete da Eucaristia todos os domingos ou todos os dias. Devemos nos perguntar sempre: qual é nossa “veste” ? Quais as nossas obras que possamos oferecer ao Senhor ? Isto não é uma contabilidade espiritual ou um voluntarismo ético de mérito; mas  nossa colaboração é indispensável.

Ao convite de Deus devemos responder com uma disposição incondicional e alegre, pois o convite que nos faz felizes. Devemos nos afastar com todas as forças do excesso de atividade, de tudo o que não é estritamente necessário. “O banquete está pronto”. O banquete também é a imagem do repouso interior no qual desfrutamos de Deus como Ele a Si próprio. O conhecimento que nos foi dado para nos guiar no caminho da luz rumo ao banquete escatológico é: amemos quem nos criou, temamos quem nos modelou, glorifiquemos quem nos resgatou da morte. Não andemos com aqueles que andam no caminho da morte. Não nos coloquemos acima dos outros e sim sejamos humildes.

P. Vitus Gustama,svd

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Sábado Da XXVII Semana Comum, Ano Par, 10/10/2026

SOMOS BEM-AVENTURADOS NA ESCUTA ATENTA E NA VIVÊNCIA DA PALAVRA DE DEUS

Sábado da XXVII Semana Comum

Primeira Leitura: Gálatas 3,22-29 (Ano Par)

Irmãos, 22 a Escritura pôs todos e tudo sob o jugo do pecado, a fim de que, pela fé em Jesus Cristo, se cumprisse a promessa em favor dos que creem. 23 Antes que se inaugurasse o regime da fé, nós éramos guardados, como prisioneiros, sob o jugo da Lei. Éramos guardados para o regime da fé, que estava para ser revelado. 24 Assim, a Lei foi como um pedagogo que nos conduziu até Cristo, para que fôssemos justificados pela fé. 25 Mas, uma vez inaugurado o regime pela fé, já não estamos na dependência desse pedagogo. 26 Com efeito, vós todos sois filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo. 27 Vós todos que fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo. 28 O que vale não é mais ser judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos vós sois um só, em Jesus Cristo. 29 Sendo de Cristo, sois então descendência de Abraão, herdeiros segundo a promessa.

Evangelho: Lc 11, 27-28

Naquele tempo, enquanto Jesus assim falava, uma mulher levantou a voz no meio da multidão e lhe disse: Feliz o ventre que te trouxe e os seios que te amamentaram. Ele respondeu: Felizes, sobretudo, são os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática.

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A Graça Nos Torna Livres e Disciplinados, Mas a Lei Não Produz a Graça

“A Lei foi como um pedagogo que nos conduziu até Cristo, para que fôssemos justificados pela fé. Mas, uma vez inaugurado o regime pela fé, já não estamos na dependência desse pedagogo”.

Continuamos a acompanhar a leitura da Carta de são Paulo aos Gálatas. No texto da Primeira Leitura de hoje, são Paulo coloca sua argumentação sobre a razão ou a função da Lei.

Os judaizantes haviam entendido mal a posição de são Paulo sobre a Lei, como se, para ele, a Lei não tivesse nenhuma função. De fato, são Paulo nunca pretendia declarar a Lei desnecessária, pois sabia que a Lei desempenhava um papel essencial no próposito de Deus. A função da Lei não era, no entanto, conceder salvação e sim convencer os homens da necessidade desta. A Lei em si não é a própria salvação e sim um meio para disciplinar o povo a fim de alcançar a salvação. E a lei maior é o amor fraterno. Por este caminho o povo cumpriu todas as leis, pois “o amor é pleno cumprimento da lei” (Rm 13,10). Em Gl 3,19 são Paulo fez a seguinte declaração: “Por que, então a Lei? Foi acrescentada para que se manifestassem as transgressões...”. São Paulo explica isso na sua Carta aos Romanos: “Pela Lei vem o pleno conhecimento do pecado” (Rm 3,20); “Onde não há Lei, também não há transgressão” (Rm 4,15); e “Eu não conheci o pecado senão através da Lei” (Rm 7,7). Assim o papel principal da Lei era denunciar o pecado. A Lei confirma, ao mesmo tempo, a existência dos maus e dos bons. Geralmente, o princípio da lei é proteger os bons e punir os maus.

A segunda descrição metafórica da Lei feita por são Paulo está em Gl 3,24: “A Lei foi como um pedagogo que nos conduziu até Cristo, para que fôssemos justificados pela fé”. Aqui são Paulo usa a plavra “pedagogo”. Em grego a palavra “pedagogo” é “paidagogos”. Pedagogia vem de duas palavras gregas “pais, paidos”, “crianças”, e “agôgê”, “direção”. Trata-se de ciência prática da educação. A palavra “pedagogo” (“paidagogos”) significa literalmente um “tutor”, isto é, um guia e guardião de crianças. O tutor era geralmente um escravo cuja obrigação era conduzir a criança à escola e de volta dela, e supervisar a sua conduta de um modo geral. O “paidagogos” não era o professor da criança, e sim, aquele que a disciplinava. Era geralmente  severo a ponto de ser cruel, e apresentado comumente nos desenhos antigos com uma vara ou bengala na mão. O pedagogo, nas famílias romanas, era o escravo que levava as crianças à escola e se encarregava de sua disciplina. Era, portanto, um personagem, em princípio, não muito simpáticos e, sobretudo, provisional. Ao chegar à adolescência, já não precisava mais de um pedagogo.

O que significa a descrição metafórica da Lei como “pedagogo”? A lei expressa a vontade de Deus para o seu povo, dizendo-nos o que devemos fazer e o que não devemos fazer. E nos adverte das penalidades da desobediência. Todos nós estamos “sob o pecado” (Gl 3,22) e, portanto, estamos “sob a tutela da Lei” (Gl 3,23). Como um “paidagogos”, a Lei nos repreende e castiga pelas nossas más ações.

São Paulo aplica esta metáfora da seguinte maneira: durante nossa “infância” (AT) necessitamos de um “pedagogo”, mas quando Jesus Cristo chegou, já somos como filhos na família de Deus, e é uma insensatez querer voltar ao domínio do pedagogo, que seria a Lei de Moisés com suas práticas meticulosas (circuncisão, sábado, comidas, festas, etc.).

Quantas vezes, Jesus teve que criticar os fariseus por seu legalismo exagerado, que tornava o sábado, em vez de ser um dia de liberdade e gozo, o motivo de casuística e de angústias. Como a Primeira Comunidade cristã teve que esforçar-se por encontrar os caminhos justos em sua abertura ao mundo pagão, libertando-se, pouco a pouco, da formação legalista herdada do Antigo Testamento.

Cada um de nós saberá se se sente filho(a) na casa de Deus ou prisioneiro; se dirige-se a Deus como Pai ou somente como Criador ou como Juiz. Se cumpre com as regras do jogo, em sua família, em sua paroquia, em sua comunidade, em seu trabalho, por amor ou somente por interesse ou por medo de castigo. Se educa os filhos ou os jovens a cumprirem as normas da vida cristã: a oração, a participação na Eucaristia dominical, por mera tradição, por medo, por interesse comercial com Deus, ou, por convicção e amor.

A Lei nos diz o que temos que fazer, mas não nos dá vida. A vida nos vem de Cristo Jesus (Jo 10,10). Ao crer em Cristo Jesus e ser batizados n´Ele, recebemos sua Vida e seu Espírito, somos revestidos d´Ele, e então, desparecem de nós todas as divisões provenientes da etnia, da condição social ou do sexo. Unidos todos a Cristo, a humanidade inteira, se faz uma só em Cristo para se apresentar como filhos de Deus no único Filho amado do Pai. Deus não nos quer somente fieis cumpridores de preceitos ainda que estes venham diretamente d´Ele. Ele quer unidos a Ele mediante o único Caminho que nos leva ao Pai: Cristo Jesus (Jo 14,6). Buscar outros caminhos equivale a desprezar a salvação que Deus nos oferece em seu Filho amado, feito um de nós e constituído em nossa Salvação.

Na Eucaristia, o Senhor nos convoca para que sejamos um com Ele. Com Ele formamos um só corpo, sendo Ele a cabeça e o princípio de toda a Igreja. unidos a Cristo, nosso Alimento, é fazer a vontade do Deus Pai. E a vontade de Deus é que acreditemos n´Aquele que Ele nos enviou. Todos nós somos filhos de Deus por ter sido incorporados a Cristo Jesus.

Ser Praticante Da Palavra De Deus Para Ser Feliz

Continuamos a acompanhar Jesus no seu caminho para Jerusalém para ouvir e meditar suas últimas e importantes lições para nós, seus seguidores (Lc 9,51-19,28). É preciso levarmos adiante esses ensinamentos. Hoje Jesus nos dá a lição sobre a importância da vivência da Palavra de Deus para sermos chamados de bem-aventurados.

“Bem-aventurado o ventre que te trouxe, e os peitos que te amamentaram!”, disse uma mulher do meio do povo. Com estas palavras, Lucas quer mostrar que essa mulher é tomada de estupor imaginando a mulher (Maria) que gerou Aquele que o escuta. O poder de Jesus, a autoridade de sua palavra, a integridade de sua existência provocam a admiração no povo simples representado por essa mulher. Essa mulher se faz porta-voz da bem-aventurança fazendo-a extensiva à Mãe que gerou Jesus e o criou.

Mas Jesus estende tal felicidade a qualquer um que O escuta: “Jesus replicou: Antes bem-aventurados aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a observam!”. Quem O escuta está com Ele e não espalha (Lc 11,23). Maria foi a primeira que escutou e disse: “Eis aqui a serva” (Lc 1,38). A maternidade de Maria foi no ouvido e no coração. O ouvido é o princípio da escuta; o coração é o princípio do crescimento. Na escuta de Maria, o Verbo de Deus se fez sua carne. A Igreja, na escuta e na guarda da Palavra de Deus, se faz contemporânea de Jesus. Quem escuta a Palavra de Deus e a guarda no coração não tem necessidade de pedir nenhum sinal do céu, pois vemos que o céu está na terra.

Hoje escutamos a melhor das bem-aventuranças que Jesus podia ouvir para sua própria Mãe: “Bem-aventurado o ventre que te trouxe, e os peitos que te amamentaram!”. Com sua resposta, Jesus não recusa o apaixonado elogio que aquela mulher simples dedicava à Sua Mãe e sim que o aceita, e vai mais além, explicando que Maria, a Mãe de Jesus é bem-aventurada, sobretudo, pelo fato de ter sido boa e fiel no cumprimento da Palavra de Deus: “Antes, bem-aventurados aqueles que ouvem a Palavra de Deus”. Quem pode ser exemplo de quem ouve e pratica a Palavra de Deus é Maria, Mãe de Jesus, quando ela diz: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a Tua Palavra” (Lc 1,38). Cada um de nós, como Maria, é chamado a conceber, gerar e fazer crescer o Verbo na convivência com as demais pessoas (Jo 1,31).

“Bem-aventurado o ventre que te trouxe, e os peitos que te amamentaram!”. O ventre, que acolhe a semente (Verbo Divino), é a escuta que faz conceber a Palavra. O amamentar, que nutre aquilo que foi concebido, é a guarda ativa da Palavra para que cresça até a medida plena.

Através de seu evangelho Lucas mostra que Maria, a Mãe de Jesus, é um modelo de fé para os homens. Ela, como mulher e como símbolo de todos os seres humanos, recebeu o grande presente da presença transformante de Deus sobre a terra (Lc 1,28). Essa presença se concretiza como “Espírito criador” e se traduz no nascimento do Messias. Através da Palavra de Maria que se oferece e colabora (Lc 1,38: Fiat), se realiza o mistério primordial de nossa história: Deus feito homem; Deus que está conosco (cf. Mt 1,23; 18,20); Deus que vem nos visitar (cf. Lc 1,68.78; 7,16); e Deus que jamais nos abandona (Mt 28,20). Como diziam os antigos: Maria concebeu Jesus com fé antes de fazê-lo com o ventre. Maria é o sinal de uma nova forma de existência. A vida de Maria se converteu em fundamento de júbilo e de bênção para todos os que creem como ela. Maria é modelo de mulher aberta diante do mistério da vida e modelo de crente que responde de maneira confiante e generosa à Palavra que Deus lhe dirigiu. Maria viveu a Palavra de Deus e da Palavra de Deus.

“Bem-aventurados aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a observam!”. Ouvir atentamente a Palavra de Deus e traduzí-la na convivência com os outros homens resulta na nossa felicidade. Quando a felicidade nos alcança, as preocupações do dia se suavizam.  A felicidade está sempre onde estamos, desde que não tenhamos escolhido deixá-la fora. Toda luta é suavizada pelo sorriso. O dia de hoje será alegre se eu vivê-lo com sorriso. Deus quer que sejamos felizes, afortunados, bem-aventurados (cf. Mt 5,2-12; Jo 20,29). Deus quer nossa felicidade, uma felicidade que começa já neste mundo, ainda que os caminhos para alcançá-la não sejam fáceis. O projeto de Jesus é a felicidade do homem. Para Jesus crer em Deus e viver conforme a Palavra de Deus é a chave para nossa felicidade. É a alegria de crer. Trata-se de uma felicidade que é maior que a própria alegria de viver, porque cremos em uma vida sem fim, eterna. Maria, a Mãe de Jesus não é somente afortunada por ter amamentado e criado Jesus, seu Filho, e sim, sobretudo, por ter sido ouvinte da Palavra de Deus e por ter posto em prática a mesma; por ter amado e por ter se deixado amar por seu Filho. Um poeta chegou a escrever: “Poder dizer ‘Mãe’ e ouvir-se dizer ‘filho meu’ é a sorte que nos invejava Deus”.

Muitas vezes procuramos nossa felicidade longe de nós, às vezes nos lugares errados. Por isso, como resultado é a crescente angústia e a desorientação na vida a ponto de poder chegar ao desespero. Jesus nos dá hoje uma dica simples para viver na alegria, na paz, na felicidade e na serenidade: ler, ouvir, meditar e viver de acordo com a Palavra de Deus. “Bem-aventurados aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a observam!”. Será que sou bem-aventurado? 

A Palavra de Deus continuará a ser eficaz, curadora, e libertadora, se nós soubermos ouvi-la atentamente e vivê-la na nossa vida cotidiana. Se ela curou tantas pessoas, converteu tantos pecadores, libertou tantas pessoas de seus problemas, guiou a vida de tantos homens, esta mesma palavra continua tendo o mesmo poder e a mesma eficácia. A palavra humana pode errar e enganar, porque o homem é fraco. Mas a Palavra de Deus não erra nem engana. A Palavra de Deus é firme para sustentar a vida de quem nela se agarra e por ela se orienta.

Experimente a seguinte dica: antes de dormir leia e medite um texto da Bíblia e durma com a Palavra de Deus. Quando sua mente se deixar proteger pela Palavra de Deus, você vai dormir em paz e vai acordar, no dia seguinte, com outro ânimo. Deus nos ama e cremos no Seu amor.

P. Vitus Gustama,svd

Sexta-feira Da XXVII Semana Comum, Ano Par, 09/10/2026

ESTAR UNIDO A CRISTO É ESTAR UNIDO AO BEM

Sexta-Feira da XXVII Semana Comum

Primeira Leitura: Gálatas 3,7-14 (Ano Par)

Irmaos, 7 ficai cientes que os que creem é que são verdadeiros filhos de Abrão. 8 E a Escritura, prevendo que Deus justificaria as nações pagãs pela fé, anunciou, muito antes, a Abraão: “Em ti serão abençoadas todas as nações”. 9 Portanto, os crentes são abençoados com o crente Abraão. 10 Aliás, todos os que põem sua confiança na prática da Lei estão ameaçados pela maldição, porque está escrito: “Maldito quem não cumprir perseverantemente tudo o que está escrito no livro da Lei”. 11 Pela Lei ninguém se justifica perante Deus; isso é evidente porque o justo vive da fé. 12 e a Lei não se funda na fé mas no cumprimento: Aquele que cumpre a Lei, por ela viverá. 13 Cristo resgatou-nos da maldição da Lei, fazendo-se maldição por nós, pois está escrito: “Maldito todo aquele é suspenso no madeiro!”. 14 Assim a bênção de Abraão se estendeu aos pagãos em Cristo Jesus e pela fé recebemos a promessa do Espírito.

Evangelho: Lc 11, 15-26

Naquele tempo, Jesus estava expulsando um demônio. 15 Mas alguns disseram: “É por Belzebu, o príncipe dos demônios, que ele expulsa os demônios”. 16 Outros, para tentar Jesus, pediram-lhe um sinal do céu. 17 Mas, conhecendo seus pensamentos, Jesus disse-lhes: “Todo reino dividido contra si mesmo será destruído; e cairá uma casa por cima da outra. 18 Ora, se até Satanás está dividido contra si mesmo, como poderá sobreviver o seu reino? Vós dizeis que é por Belzebu que eu expulso os de­mônios. 19 Se é por meio de Belzebu que eu expulso demô­nios, vossos filhos os expulsam por meio de quem? Por isso, eles mesmos serão vossos juízes. 20 Mas, se é pelo dedo de Deus que eu expulso os demônios, então chegou para vós o Reino de Deus. 21 Quando um homem forte e bem armado guarda a própria casa, seus bens estão seguros. 22 Mas, quando chega um homem mais forte do que ele, vence-o, arranca-lhe a armadura na qual ele confiava, e reparte o que roubou. 23 Quem não está comigo está contra mim. E quem não recolhe comigo dispersa. 24 Quando o espírito mau sai de um homem, fica vagando em lugares desertos, à procura de repouso; não o encontrando, ele diz: ‘Vou voltar para minha casa de onde saí’. 25 Quando ele chega encontra a casa varrida e arrumada. 26 Então ele vai, e traz consigo outros sete espíritos piores do que ele. E, entrando, instalam-se aí. No fim, esse homem fica em condição pior do que antes”.

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A Fé Em Deus Em Todos Os Momentos De Nossa Vida Nos Torna Filhos e Filhas De Deus e Herdeiros De Sua Bênção

“Ficai cientes que os que creem é que são verdadeiros filhos de Abrão. ... Os crentes são abençoados com o crente Abraão. O justo vive da fé, e a Lei não se funda na fé. Assim a bênção de Abraão se estendeu aos pagãos em Cristo Jesus e pela fé recebemos a promessa do Espírito”.

Continuamos nossa meditação sobre a Carta aos Gálatas que lemos nas Primeiras Leituras semanais. E acompanhamos os fundamentos apresentados pelo são Paulo contra os judaizantes que não reconhecem a autoridade de são Paulo e sua evangelização. São Paulo recorre ao exemplo de Abraão que seus interlocutores, os Gálatas podem entender muito bem, pois Abraão é o pai dos crentes.

Na Primeira Leitura de hoje, são Paulo faz alusão a Abraão. A alusão de são Paulo a Abraão, que começa em Gl 3,6 e no final em Gl 3,14, é seu golpe mestre contra seus oponentes, os judaizantes. São Paulo coloca Abraão e sua fé como protagonismo de sua argumentação. Sua citação é de Gn 15,6: “Abraão creu na promessa e isso lhe foi imputado para justiça”. Na sua idade avançada Deus prometeu a Abraão uma grande descendência como as estrelas do céu e as areias na praia e Abraão acreditava.

Levemos em consideração os três pontos seguintes! Primeiro, Deus fez uma promessa a Abraão. Segundo, Abraão creu em Deus apesar da inerente improbabilidade da promessa, do ponto de vista humano. Mas Abraão depositou sua total fé na fidelidade de Deus. Terceiro, a fé de Abraão foi reconhecida como justiça, isto é, ele foi ceito como justo, pela fé (o justo vive da fé). Abraão não foi justificado porque fizesse alguma coisa para merecê-lo, ou porque fosse circuncidado ou porque guardasse a Lei, (nem a circuncisão nem a Lei ainda haviam sido dadas), mas simplesmente porque Abraão creu em Deus. A lei, a circuncisão, as obras aparecem depois. Em primeiro lugar é a fé.

Abraão acreditava dem Deus apesar das impossibilidades, de ponto de vista humano. Embora tenha que abandonar tudo, embora tenha que viver como estrangeiro na terra prometida, embora tenha que ir ao Egito por causa da fome, correndo o risco de perder a esposa (Gn 12,10), embora tenha que separar-se do sobrinho Ló e ficar na solidão, embora a promessa demorasse a se cumprir, embora chegasse a ponto de sacrificar o depositário das promessas (Isaac), Abraão confia sempre na palavra divina, aceita o incompreensível e sente-se seguro diante do futuro.

Por isso, o melhor de Abraão foi sua fé. Para são Paulo, a lei do Antigo Testamento não salva ninguém, se entende-se meramente como um cumprimento de leis e de obras. Inclusive os que se salvaram antes de Cristo, se salvaram por sua fé em Deus.

Abraão recebeu de Deus uma missão universalista: “Prevendo que Deus justificaria as nações pagãs pela fé, anunciou, muito antes, a Abraão: ‘Em ti serão abençoadas todas as nações’”. Parece que os judeus, da época, esqueceram este universalismo que era traço de sua identidade já desde o princípio.       

O dilema para são Paulo é apoiar-nos em nossos próprios méritos ou na bondade de Deus, centrar nossa espiritualidade nas obras realizadas ou em nossa abertura à graça de Deus. É um dilema que tem sua atualidade para nossa vida.

A fé de Abraão é um modelo para todos os crentes e não crentes. Abraão era pagão quando foi chamado a uma missão que ele não estava entendendo. Mas ele acreditou totalmente em Deus e empreendeu sua peregrinação. Isso é que faz Abraão modelo dos crentes. Deus não elegeu Abraão por suas obras ou por seus méritos anteriores. Deus atua com gratuidade. Mas Abraão creu em Deus. A fé total em Deus nos faz esperar com paciência. Deus me faz enxergar, pela fé, aquilo que Ele prometeu, mesmo na escuridão.

A nós é pedido, por Deus, uma fé incondicionalmente em seu Filho, Jesus Cristo, uma fé que certamente comportará obras de fé e uma conduta coerente, mas não é a conduta que nos salva e sim a graça de Cristo. Não façamos contabilidade de coisas boas que estamos fazendo por Deus. Será o pai ou uma mãe faz contabilidade por tudo que eles fazem em favor da família? A generosidade sem condição dos pais que nos mantém vivos. É assim também a graça de Deus atua na nossa vida. E como agradecimento a Deus, prolongamos sua generosidade pelo bem que devemos fazer para os outros, especialmente para os necessitados. O amor é pago por um amor. A bondade se multiplica através de praticá-la.

Para nós, fazer parte da Igreja ou de uma família cristã ou de uma comunidade religiosa não nos salvará. É a resposta de cada um diante do amor e da graça de Deus que decidirá nossa salvação.

Vivemos em uma cultura da lei e das obras. Há milhares de leis para regular tudo: desde o funcionamento do Estado até a circulação do mercado. As sociedades “avançadas” fazem leis para tudo, com a esperança de que tudo possa funcionar bem. Porém,  não adiante ter tantas leis, se a sociedade vive sem a ética e o amor. Até para certas pessoas, a lei se usa para justificar o que está errado eticamente. Onde não houver amor, haverá um terreno fértil para a corrupção, a roubalheira, a desonestidade, a injustiça, a desigualdade, a exploração dos mais inocentes, a vioência, e assim por diante. Uma família ou um grupo ou um movimento ou uma comunidade, ou um partido que não tem lugar para Deus, prepara o terreno ou espaço para a agressão, violência, a briga, a desunião, discórdia etc. Uma família feliz com Deus nada mais é que o paraíso antecipado. “A sociedade não é mais do que o desenvolvimento da família; se o homem sai da família corrupto, corrupto estará para a sociedade” (Henri Lacordaire)

Evangelho e Sua Mensagem

Estamos acompanhando Jesus no seu caminho para Jerusalém ouvindo suas ultimas e importantes lições para nossa vida de cristãos, seus seguidores (Lc 9,58-19,28). Tratam-se das lições do caminho. Desta vez Jesus nos pede que estejamos unidos a Ele para que possamos superar o poder do mal existente no mundo.

É Preciso Ter Fé Em Deus

A mentalidade bíblica contempla a vida humana como uma luta entre dois espíritos: os espíritos que regem e dominam o homem natural, e o Espírito de Deus que faz o homem partícipe da liberdade humana. Expulsando o espírito do mal, Cristo revela que um novo Reino acaba de fazer sua aparição sobre a terra, um Reino capaz de destruir o reino do mal ou do satanás.

Para pertencer a este novo Reino é necessária uma opção ilimitada de fidelidade e de entrega a Jesus. Ao entregar-se a Jesus nenhum poder do mal sobre a face da terra será capaz de derrubar o homem. “Tenha coragem! Eu venci o mundo” (Jo 16,33), Jesus nos relembra sempre para que tenhamos consciência da força de Jesus em cada um de nós. E São João na sua primeira Carta nos relembra: “Esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé” (1Jo 5,4). O verbo “vencer”, aqui, é empregado no presente para dizer que em qualquer momento podemos vencer, sim, com a força de nossa fé. Mas ao mesmo tempo em qualquer momento precisamos renovar nossa fé com muita oração e muita leitura e meditação da Palavra de Deus e a participação dos sacramentos e a prática do amor fraterno. Ao praticarmos o bem, o mal se afasta de nós, pois em nós ele não tem vez.

Mas o evangelista Lucas nos relatou que algumas pessoas comentaram maldosamente sobre a atividade libertadora de Jesus: “É por Belzebu, o príncipe dos demônios, que ele expulsa os demônios”. O termo “Belzebu” não se encontra na literatura judaica anterior. Sua origem é incerta. Na boca dos fariseus “Belzebu” é o príncipe dos espíritos maus. No pensamento dos fariseus, Jesus faria um tipo de aliança com o Belzebu para que Jesus pudesse expulsar os espíritos maus. Trata-se de uma acusação sem fundamento. Simplesmente eles querem que Jesus perca sua credibilidade diante do povo. Mas o efeito é contrário, cada vez maior o número dos que seguem a Jesus porque ele “os ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas” (Mc 1,22). Toda a ação de Jesus é divina, pois humaniza e resgata as pessoas para o Reino de Deus que é o Reino do amor, da justiça, da fraternidade, da igualdade, etc..

“É por Belzebu, o príncipe dos demônios, que ele expulsa os demônios”, assim os fariseus acusaram Jesus. Sempre tem os fofoqueiros de plantão em qualquer época e lugar. São aqueles que não são parceiros do bem. São aqueles que têm tanta coisa negativa na cabeça e no coração. Estão tão cheios de coisas negativas a ponto de as pessoas boas e as coisas positivas ficarem escondidas para seus olhos. Essas pessoas não fazem nada para o bem comum, nem colaboram com as pessoas do bem. Elas vivem criticando. Geralmente, nada dá certo na vida desse tipo de pessoas, pois elas somente processam coisas negativas na sua cabeça.

Uma das maiores indigências é ser incompreendido ou ser desprezado; é ver deformados os bons propósitos como os de Jesus Cristo. E Jesus conhece esta classe de indigência. Imagine, eles até fazem acusação dura e depreciativa. Eles chamam Jesus, o Salvador do homem, de Belzebu, “Senhor das moscas”, príncipe de demônios. Quando não se tem a fé no coração, arruma-se qualquer justificativa, mesmo sem nenhum fundamento, para não crer naquilo que é óbvio aos nossos olhos. A vida do homem funciona da seguinte maneira: Quando queremos fazer qualquer coisa, procuramos qualquer jeito. Mas quando não queremos, arranjamos qualquer desculpa. Mas no fim, a verdade vai nos dizer sobre o que somos e o que não o somos.

É Preciso Manter a Unidade

“Todo reino dividido contra si mesmo será destruído; e cairá uma casa por cima da outra”, diz o Senhor.

Nesta controvérsia Jesus sublinha a importância da unidade. Unir- Reunir é salvar. Pela história sabemos que a guerra civil destrói muito mais os impérios do que os ataques exteriores. Quantos países usavam uma estratégia eficaz para dominar países estrangeiros, conhecido como um lema: “Divide et impera” (divide e impera) ou “Divide ut regnes” (divide para poder reinar).  Esta tática era adotada como lema por Luís XI, da França, por Catarina de Médicis e por outros governantes como a Holanda antiga. Quem usa a “ação de dividir” para atacar será destruído pela mesma divisão que recairá contra suas próprias tropas. Coração dividido é o coração ferido.

A unidade é a expressão e a prova mais evidente do amor. Por isso, o verbo “unir” ou “reunir” tem o sentido teológico de salvar. Quem estiver unido com Cristo que está unido ao Pai, jamais será causador da desunião e da divisão entre os cristãos ou entre as pessoas; ele buscará sempre a reconciliação. A comunhão com Cristo é impossível sem a vivência do amor fraterno. Assim como o amor fraterno cria unidade, assim também a comunhão com Jesus deve criar a comunhão entre os cristãos. “Quem abandona a unidade faz-se desertor da caridade”, dizia Santo Agostinho (Serm. 88,18,21). “Se vivem em discórdia, não louvem o Senhor. E, tampouco o Senhor os abençoa. Seus lábios desfiam louvores, mas seus corações o maldizem”, acrescentou Santo Agostinho (In ps. 132,13).

Santo Agostinho nos alerta: “A soberba gera a divisão. A caridade, a comunhão. Quem abandona a unidade se faz desertor da caridade. E se deserta da caridade, mesmo que possua tudo o mais, se reduz a nada. Em vão se possuem todas as coisas quando o único que interessa não se possui”.

Estar Do Lado Da Justiça, Do Bem E Da Verdade É Estar Do Lado De Jesus

“Quem não está comigo, está contra mim; quem não recolhe comigo, espalha”, alerta-nos o Senhor hoje. Para entrar no Reino do Pai é preciso estar com o Filho, Jesus Cristo, e é preciso ter o Espírito de Deus que é o amor. O estar “Com” Jesus qualifica a vida presente (Lc 8,2; cf. Mc 3,14) e futura do discípulo (1Ts 4,17). Quem não está com Ele, ainda está fora de si nas mãos do inimigo. Não estar com Ele é jogar fora a própria vida e a salvação.

Na sua pregação o Apóstolo Pedro deu seu testemunho sobre Jesus dizendo que Jesus “passou a vida fazendo o bem” (At 10,38). Apesar disso Jesus enfrentou muitas oposições. Muitos se consideravam proprietários das boas obras, do poder divino, e demonizavam aquelas pessoas que não atuavam segundo seus parâmetros. Eles davam esmolas ou conselhos com intuito de ter o bom nome, o prestígio e a admiração (cf. Mt 23,1-36). Quando Jesus veio para dar sua vida generosamente sem esperar nada em troca, eles o consideraram como “demônio”, “Belzebu”. Era uma maneira fácil que eles encontraram para desprestigiar e eliminar o oponente, neste caso, Jesus. No entanto, Jesus os enfrentou com a verdade, o amor, o bem e a justiça. A verdade e o amor seguem seu próprio caminho.

Na atualidade continua sendo corrente a prática de demonizar o oponente, de desprestigiá-lo para aumentar o brilho próprio. Pois, atuar a favor dos demais sem buscar o bom nome e o prestígio é uma coisa que não chama a atenção de ninguém. Muitos usam a rede social para demonizar os outros, mesmo sem fundamento. Trata-se de fakenews. Muitos deixam de usar o próprio cérebro para analisar e verificar as coisas e as mensagens e os maldosos ou os maus exploram o cérebro não usado pelas pessoas em questão. “Não faça de seu cérebro um arquivo para pensamentos alheios, mas o laboratório de suas próprias convicções” (René Juan Trossero, psicólogo e escritor argentino).

O evangelho de hoje nos convida a estarmos do lado de Jesus, isto é, do lado do bem, da verdade e da justiça, não para adquirir ganâncias pessoais e sim para sermos as mãos de Deus que atuam eficazmente no mundo. Por isso, o mundo de hoje exige que lutemos contra o mal com as armas da verdade, do bem, da honestidade, da solidariedade e da justiça. Não podemos combater o mal com suas próprias armas: a violência somente gera violência e a manipulação ideológica somente gera opressão e desequilíbrio mental. Necessitamos combater o mal, porém como o fez Jesus: com a bondade e generosidade de um Deus que defende incondicionalmente a vida das pessoas humanas e sua dignidade como seres humanos. O cristianismo e o mal e a maldade são incompatíveis. Fazer o bem permanentemente significa que estamos no Reino da verdade, da justiça e da caridade que é o Reino de Deus. Para viver uma vida autenticamente humana, temos que nos amar muito com a verdade, a justiça, o bem e a caridade que são, em certo modo, coisas sagradas que requerem ser tratadas com amor e respeito e são os valores que têm a marca de eternidade.  

P. Vitus Gustama,svd

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Quinta-feira Da XXVII Semana Comum, Ano Par, 08/10/2026

SER PERSEVERANTE NA ORAÇÃO

Quinta-Feira da XXVII Semana Comum 

Primeira Leitura: Gl 3,1-5

1 Ó gálatas insensatos, quem é que vos fascinou? Diante de vossos olhos, não foi acaso representado, como que ao vivo, Jesus Cristo crucificado? 2 Só isto quero saber de vós: Recebestes o Espírito pela prática da Lei ou pela fé através da pregação? 3 Sois assim tão insensatos? A ponto de, depois de terdes começado pelo espírito, quererdes terminar pela carne? 4 Foi acaso em vão que sofrestes tanto? Se é que foi mesmo em vão! 5 Aquele que vos dá generosamente o Espírito e realiza milagres entre vós, faz isso porque praticais a Lei ou porque crestes, através da pregação?

Evangelho: Lc 11,5-13

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 5 “Se um de vós tiver um amigo e for procurá-lo à meia-noite e lhe disser: ‘Amigo, empresta-me três pães,  6 porque um amigo meu chegou de viagem e nada tenho para lhe oferecer’, 7 e se o outro responder lá de dentro: ‘Não me incomodes! Já tranquei a porta, e meus filhos e eu já estamos deitados; não me posso levantar para te dar os pães’; 8 eu vos declaro: mesmo que o outro não se levante para dá-los porque é seu amigo, vai levantar-se ao menos por causa da impertinência dele e lhe dará quanto for necessário. 9 Portanto, eu vos digo: pedi e recebereis; procurai e encontrareis; batei e vos será aberto. 10 Pois quem pede recebe; quem procura encontra; e, para quem bate, se abrirá. 11 Será que algum de vós que é pai, se o filho pedir um peixe, lhe dará uma cobra? 12 Ou ainda, se pedir um ovo, lhe dará um escorpião? 13 Ora, se vós que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do céu dará o Espírito Santo aos que o pedirem!”

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A Graça De Deus Nos Chama a Seguir Adiante e Não Para Voltar Para Trás, Pois a Vida É Um Êxodo

“Ó gálatas insensatos, quem é que vos fascinou? ... Sois assim tão insensatos? A ponto de, depois de terdes começado pelo espírito, quererdes terminar pela carne?” (Gl 3,1.3).

Na maior parte dos capítulos 1 e 2 da Carta aos Gálatas, são Paulo defendeu intrepidamente a origem divina de sua missão e sua mensagem apostólica contra a acusação dos falsos mestres (judaizantes).

Agora, no texto da Primeira Leitura de hoje (Gl 3,1-5) são Paulo ataca a infidelidade dos Gálatas com o Evangelho como consequência  da influência corruptora dos falsos mestres. Ele chama os Gálatas de “insensatos” (grego, “anoetói”). A expressão “anoetói” indica o estado sem raciocínio, sem “cabeça”, sem inteligência. A estupidez não permite ao cabeçudo discernir o verdadeiro e o falso, entre o bem e o mal, entre o útil e o prejudicial. A mesquinhez não permite que o cabeçudo avalie as possibilidades de atingir sua meta.

Os Gálatas tinham recebido o Evangelho através de são Paulo e Barnabé. Ao aceitar o Evangelho eles foram batizados no Espirito para uma vida nova, na liberdade, na fidelidade e no compromisso com Jesus Cristo. Porém, eles são persuadidos pelos falsos mestres para voltar à antiga prática de circuncisão como valor determinante, ou seja, outro evangelho, um evangelho inexistente (Gl 1,6-10).

Por isso, são Paulo faz a seguinte pergunta retórica: “Ó gálatas insensatos, quem é que vos fascinou?”. A palavra grega “baskaíno” tem sentido de seduzir, encantar ou enfeitiçar. Mas sempre no sentido negativo. O feitiço consiste em sedução, fantasia e ilusão. A ilusão é a falta de correspondência  entre a sensação e o objeto percebido.Trata-se da “fascinação” para voltar às práticas caducas e velhos cujo sentido é inexistente. Depois de uma experiência nova no Evangelho, os Gálatas voltaram à submissão da escravidão da Lei e dos preceitos antigos da circuncisão. Por isso, taxativamente são Paulo afirma que não há outro evangelho “Gl 1,7). Este retrocesso é o fruto de um trabalho maldoso dos falsos mestres e por isso, retoricamente são Paulo pergunta: “Quem é que vos fascinou?”.

Há momentos na vida de um cristão e da comunidade inteira, em que é bom repensar a direção que levamos, e quais são os valores que  estamos descuidando ou perdendo, empobrecendo-nos, caminhando para trás. Há situações das quais sabemos que nos prejudicam, no entanto, por falta da escala de valores ou porque nos deixamos levar pelo comodismo ou preguiça acabamos voltando para trás destruindo nossa própria vida e a vida dos que nos amam e nos querem bem. Sabemos que a mudança e transformação são o código do mundo que nos cerca, no entanto, nem sempre queremos mudar. O problema que temos é que olhamos com velhos “óculos” a realidade que muda. Nossas opiniões, atitudes diante da vida são influenciadas e expandidas pelas informações e formações que recebemos nos muitos momentos vividos e é com base nelas que agimos com flexibilidade e prudência na hora de tomar decisões. É muito mais cômodo manter a mente fechada a novas informações e formações, e um comportamento dentro de padrões rígidos, não correndo risco de nos aventurar dentro de territórios não demarcados. As alegrias da vida estão na aventura, e cada instante nos oferece aventuras para que comecemos a caminhar, se estamos de olhos abertos a ele. Todas as nossas decisões são tomadas em um clima ou estado de espírito que certamente se modificará.

Aprender a dizer não ao que não é essencial nos dará mais tempo para nos dedicarmos às coisas que poderão engrandecer nossa vida e ajudar-nos a deixar como legado. As mais difíceis situações da vida acabam por revelar as maiores oportunidades para nós, se tivermos sabedoria suficiente e autodisciplina. Aquele que se arrisca mais, ousa mais e faz mais do que os outros, naturalmente, vai enfrentar mais fracasso. As pessoas felizes passaram pelas mesmas adversidades que atingem as infelizes. O sucesso não se mede pela posição atingida na vida e sim pelos obstáculos vencidos na tentativa de sair vencedor.

Eu poderia dizer que, de alguma forma, seduzido pelos argumentos falsos, estou voltando para trás, como os Gálatas? De alguma forma, eu fiz alguma tentativa para seduzir os outros a seguir o caminho errado? Para se salvar todos têm que olhar para Jesus Cristo crucificado e ressuscitado.

Ser Perseverante Na Oração Por Causa Da Bondade De Deus

Continuamos acompanhar Jesus no seu caminho para Jerusalém ouvindo suas últimas e importantes lições para nossa vida de cristãos (Lc 9,51-19,28). São suas ultimas lições porque Jesus será crucificado, morto e glorificado em Jerusalém.

Na passagem do evangelho de hoje, Lucas volta a falar da necessidade de rezar sempre insistentemente. Rezar é uma maneira mais eficaz para aproximar a terra ao céu; para encurtar a distância entre a humanidade e a divindade. A oração derruba o muro que nos separa de Deus, pois na oração conversamos diretamente com o céu, isto é, com Deus. Distanciar-se da oração significa distanciar-se do céu. É impossível um filho chamar Deus de Pai sem conversar com Ele permanentemente: de pai para filho e de filho para pa. “Orar é sempre possível porque o tempo do cristão é o tempo de Cristo ressuscitado, o qual «permanece conosco todos os dias» (Mt 28,20). Oração e vida cristã são, por isso, inseparáveis” (Compêndio do Novo Catecismo, 576, ou Catecismo Da Igreja Católica, 2742-2745. 2757).  Como dizia São João Crisóstomo: “É possível, mesmo no mercado ou durante um passeio sozinho, fazer oração freqüente e fervorosa. É possível rezar, mesmo sentados na vossa loja, a tratar de compras e vendas, ou até mesmo a cozinhar”.

Nossa oração é certamente petição, mas não tem nada a ver com um regateio mercantil. Há que recorrer a Deus como pobre na necessidade. A oração é antes de tudo uma confissão da própria indigência: Senhor, eu não consegui alcançar tal objetivo, Senhor, eu ando buscando..., Senhor, eu não compreendo tudo.., Senhor, eu necessito de Ti. A oração nos humaniza, faz-nos mais humanos, mais criaturas, e não criadores.

“A oração é um dom da graça, mas pressupõe sempre uma resposta decidida da nossa parte, porque o que reza combate contra si mesmo, contra o ambiente e, sobretudo, contra o Tentador, que faz tudo para retirá-lo da oração. O combate da oração é inseparável do progresso da vida espiritual. Reza-se como se vive, porque se vive como se reza” (Compêndio do Novo Catecismo, 572; Novo Catecismo, no.  2725).

Jesus nos convida a perseverar em nossa oração, a dirigir confiadamente nossas súplicas ao Pai. Ele nos recomenda que sejamos persistentes na oração não porque Deus seja surdo e sim porque nós necessitamos perseverar para alcançá-Lo. A natureza humana é geralmente caracterizada pela inconstância. Ficamos desanimados e apavorados diante do primeiro obstáculo que nos é apresentado na conseqüência de nossos projetos e metas. Abandonamos a nave diante do menor indício de tormenta. As coisas fáceis geralmente não são valiosas. Para vencer os obstáculos são necessárias a humildade, a confiança e a perseverança.

Por isso, o evangelista nos convida a crer em nossas aspirações e a fortalecer nosso espírito com a oração constante. O Reino de Deus exige muita qualidade pessoal e muito apoio comunitário que serve sempre de testemunho perseverante.

Se decidirmos cultivar uma atitude perseverante, uma entrega decidida, e uma sobriedade diante das dificuldades, nós veremos que ao término de nosso esforço se encontra a generosa vontade de Deus que nos tem acompanhado desde o início de nossa vida.

Há três verbos, que se encontram no evangelho deste dia, que só os simples praticam: pedir, buscar e chamar/bater porta. Se nestes três verbos for acrescentado o advérbio “insistentemente” então temos um programa de vida de um verdadeiro seguidor de Cristo.

Pedir supõe reconhecer que não temos tudo daquilo que necessitamos. Pedir é um ato de humildade. E a humildade nos faz crescer na nossa humanidade. É tomar consciência de nossos limites e de nossas limitações, admitir que alguém tenha muito mais coisas do que as que temos. Os mendigos pedem. Os pobres pedem. A presença do humilde, do pobre, do necessitado, na nossa vida, corrige nossa arrogância e acelera nossa humanidade. Eles nos humanizam. Não pedem os autossuficientes e arrogantes.

Buscar implica experimentar a atração de algo valioso, admitir que há um tesouro pelo qual vale a pena arriscar-se, sentir estimulado pelas perguntas pelas quais não existem respostas pré-fabricadas. Não buscam os que sucumbem à rotina, os desesperançados, os preguiçosos, os que não querem melhorar a qualidade de vida.

Bater a porta ou chamar é dirigir-se a alguém com confiança de que vamos ser escutados. Chamar é invocar uma presença que nos supera e que ao mesmo tempo se encarrega de nós. Não chamam os que temem que não haja nada do outro lado da porta, os que não são preparados para um mundo novo cheio de surpresas de felicidade.

Se Deus nos atender é para nosso bem. Se Deus não nos “atender” para aquilo que pedimos e que achamos que seja importante é também para nosso bem maior. Não atender é uma forma de atender. Se um filho pedir cocaína para o pai e o pai nega em dar/compar o que o filho pede é uma forma de atender, pois o pai não quer a destruição do filho. Na Sua sabedoria infinita Deus sabe muito bem daquilo do qual necessitamos. Ser atendido ou “não ser atendido” por Deus é tudo para nosso bem maior e para a glória de Deus. Em tudo temos que agradecer a Deus, pois até na oração Ele nos corrige sobre aquilo que devemos pedir a Ele.

Comparando com os amigos, Jesus quer nos dizer que Deus é para nós um amigo sempre fiel que atende às nossas necessidades e é também o Pai bom. Mas desse Amigo fiel e desse Pai bom não devemos esperar sempre uma resposta idêntica à resposta esperada. Podemos pedir muitas coisas boas que talvez não sejam atendidas. No entanto, tenhamos certeza de que Deus responde sempre com um dom que é superior ao que temos pedido: o Espírito Santo que nos ilumina, purifica, transforma e salva. Com o Espírito Santo que Deus nos concede podemos ter força necessária para enfrentar as dificuldades que entrecruzam nossa existência. Acompanhados por Ele podemos superar as angustias e tudo que nos ameaça. Este é o fruto principal da oração que justifica nossa Constancia e nossa perseverança em sua prática.

A síntese de tudo que nós podemos receber e encontrar é o Espírito Santo, isto é, tudo do que necessitamos para dizer “Abbá”, “Papaizinho nosso no céu” e para reconhecer com nossos lábios nosso coração que Jesus é nosso Senhor. “Se a nossa oração se une à de Jesus, sabemos que Ele nos concede muito mais do que este ou aquele dom: recebemos o Espírito Santo que transforma o nosso coração” (Comp. do Novo Catecismo, 575. Novo Catecismo, 2734-2741).

P. Vitus Gustama,svd

XXVIII Domingo Do Tempo Comum, Ano "A", 11/10/2026

É PRECISO ESTAR PREPARADO PARA PODER PARTICIPAR DO BANQUETE DO REINO XXVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM “A” Primeira Leitura: Is 25,6-10a 6...