domingo, 25 de outubro de 2026

Terça-feira Da XXX Semana Comum, Ano Par, 27/10/2026

A PALAVRA DE DEUS TEM PODER DE TRANSFORMAR VIDA MATRIMONIAL E NOSSA VIDA COTIDIANA EM UMA VIDA DO AMOR MÚTUO

Terça-Feira da XXX Semana Comum

Primeira Leitura: Efésios 5,21-33 (Ano Par)

Irmãos, 21 vós, que temeis a Cristo, sede solícitos uns para com os outros. 22 As mulheres sejam submissas aos seus maridos como ao Senhor. 23 Pois o marido é a cabeça da mulher, do mesmo modo que Cristo é a cabeça da Igreja, ele, o Salvador do seu Corpo. 24 Mas como a Igreja é solícita por Cristo, sejam as mulheres solícitas em tudo pelos seus maridos. 25 Maridos, amai as vossas mulheres, como o Cristo amou a Igreja e se entregou por ela. 26 Ele quis assim torná-la santa, purificando-a com o banho da água unida à Palavra. 27 Ele quis apresentá-la a si mesmo esplêndida, sem mancha nem ruga nem defeito algum, mas santa e irrepreensível. 28 Assim é que o marido deve amar a sua mulher, como ao seu próprio corpo. Aquele que ama a sua mulher ama-se a si mesmo. 29 Ninguém jamais odiou a sua própria carne. Ao contrário, alimenta-a e cerca-a de cuidados, como o Cristo faz com a sua Igreja; 30 e nós membros do seu corpo! 31 Por isso o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher, e os dois serão uma só carne. 32 Este mistério é grande, e eu o interpreto em relação a Cristo e à Igreja. 33 Em todo caso, cada um, no que lhe toca, deve amar a sua mulher como a si mesmo; e a mulher deve respeitar o seu marido.

Evangelho: Lc 13,18-21

Naquele tempo, 18 Jesus dizia: “A que é semelhante o Reino de Deus, e com que poderei compará-lo? 19 Ele é como a semente de mostarda, que um homem pega e atira no seu jardim. A semente cresce, torna-se uma grande árvore e as aves do céu fazem ninhos nos seus ramos”. 20 Jesus disse ainda: “Com que poderei ainda comparar o Reino de Deus? 21 Ele é como o fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado”.

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Imitar o Amor De Cristo Pela Igreja Nas Matrimoniais e nas outras relações fraternais

O autor da Carta aos Efésios continua com as recomendações ou exortações sobre a vida de cada dia. Desta vez ele fala sobre as relações entre marido e mulher (matrimônio).

“Sejam as mulheres solícitas em tudo pelos seus maridos. Maridos, amai as vossas mulheres, como o Cristo amou a Igreja e se entregou por ela”. O convite ao mútuo amor no matrimônio se baseia na vontade originária de Deus no Gênesis, quando criou o homem e a mulher e quis que os dois fossem “uma só carne”. Por isso, “cada um, no que lhe toca, o marido deve amar a sua mulher como a si mesmo; e a mulher deve respeitar o seu marido”.

O matrimônio cristão é também uma opção radical e irrevogável, imagem da opção de Cristo por sua Igreja. A primeira vista, este texto paulino parece definir a superioridade do homem sobre a mulher. É evidente que a imagem não se pode levar até o extremo de dizer que o marido salva a mulher no mesmo sentido que Cristo salva a Igreja e seus membros. O marido não é “cabeça” de sua mulher no mesmo sentido em que Cristo o é da Igreja.

Há que ter em conta a evoluição antropológica e social das pessoas como da família. Hoje o matrimônio é entendido muito mais em termos de complementariedade e corresponsabilidade. Mas na sociedade na qual, de fato, viviam os primeiros cristãos, a superioridade do homem era absoluta.

Tendo em conta esta superioridade, que são Paulo não define e sim que consta, o que esta passagem inculca é que a autoridade do marido deve ser um serviço de amor e de proteção, imitação do de Jesus Cristo para com sua Igreja. O marido deve amar sua esposa até a morte e considerá-la não como um objeto e sim como o próprio corpo: “O marido deve amar a sua mulher, como ao seu próprio corpo. Aquele que ama a sua mulher ama-se a si mesmo” (Ef 5,29).

“Maridos, amai as vossas mulheres, como o Cristo amou a Igreja e se entregou por ela. Ele quis assim torná-la santa, purificando-a com o banho da água unida à Palavra”. O autor da Carta aos Efésios não sentia dificuldade em trazer a imagem da Igreja como Esposa de Cristo. O profeta Oseias, para descrever as exigências da Aliança, já havia recorrido a esta imagem de Deus, Esposo de seu povo, e já havia desenvolvido o tema com realismo (Os 2,18-22). Em sua Segunda Carta aos Coríntios, são Paulo vê em Cristo o esposo, e na Igreja a esposa (2Cor 11,2). Na Carta aos Efésios, vê Cristo como Cabeça, e a Igreja como Corpo. É uma nova maneira de expressar a unidade entre Deus e seu povo; é um modo de expressao totalmente novo. Por outra parte, a nova imagem utilizada por são Paulo não era uma criação artificial de sua imaginação. Na Bíblia, e segundo o que nos diz o Gênesis, a esposa é o corpo de seu esposo: “Eis agora aqui o osso de meus ossos e a carne de minha carne porque foi tomada do homem” (Gn 2,23-24). Por isso, depois de citar esta passagem do Gênesis, são Paulo declara que este mistério é grande, e o diz pensando em Cristo e na Igreja.

São Paulo entende a união entre homem e mulher da perspectiva de Deus, e portanto, afirma que “Aquele que ama a sua mulher ama-se a si mesmo”, porque “é a própria carne”. Mas, sobretudo, ele a relaciona com o amor que se tem mutuamente Cristo e a Igreja: “Este mistério é grande, e eu o interpreto em relação a Cristo e à Igreja”. Este “tipo” da união do homem e a mulher que encontramos no Gênesis, se realiza na união de Cristo e sua Igreja e, por sua vez, o amtrimônio encontra hoje sua verdadeira realização em conformidade com esta união de Cristo e sua Igreja.

O amor de Cristo a sua Igreja não é precisamente romântico: Cristo o demonstrou na sua entrega na morte na cruz por amor à humanidade. Ai éstá a razão  de ser do mútuo amor para são Paulo entre o marido e a esposa.

O matrimônio é destinado a reproduzir a relação entre Cristo e Sua Igreja, e como Cristo é a cabeça da Igreja, tal deve ser o marido para a mulher. São Paulo não está querendo dizer que o marido seja autoritário em relação à mulher. Por isso, ele acrescenta: “Como Cristo, o Salvador do seu corpo”. Isto significa que a posição do marido como “cabeça” ou “comando” deve estar endereçada à “salvação” da mulher, como faz Cristo em relação à Igreja. A “submissão” endereçada à mulher da qual São Paulo fala deve ser sempre entendida no sentido do amor e do serviço e não no sentido da escravidão.

Como Cristo e a Igreja formam um só corpo, do mesmo modo marido e esposa, comprometidos numa comunidade de amor, formam um só corpo: “Por isso, o homem deixará pai e mãe para se unir à sua mulher e serão dois numa só carne” (Ef 5,31).

A expressão “uma só carne” aqui usada por Paulo não alude só à união carnal dos esposos, mas a toda a sua vida conjugal, feita de um empenho quotidiano na vivência do amor, da fidelidade e da partilha de toda a existência. “Os esposos, feitos à imagem de Deus e estabelecidos numa ordem verdadeiramente pessoal, estejam unidos em comunhão de afeto e de pensamento e com mútua santidade, de modo que, seguindo a Cristo, princípio da vida, se tornem, pela fidelidade do seu amor, através das alegrias e sacrifícios da sua vocação, testemunhas daquele mistério de amor que Deus revelou ao mundo com a sua morte e ressurreição” (Gaudium et Spes, 52).

Em nossas relações comunitárias: de família ou de vida religiosa ou de atividade paroquial, deveríamos aceitar este critério profundo: ver Cristo nos demais, imitar Cristo em sua entrega por amor. Todos, tanto casados como não casados, quando comungamos o “Cristo entregue por”, devemos também aprender seu amor de entrega pelos demais. O entregar por amor pelos demais deve-se notar durante o dia nas relações entre marido e esposa, entre filhos e pais, entre irmaos ou companheiros de trabalho e de vida da comunidade. Se não, será uma Eucaristia que não produz os frutos que Cristo esperava.

Portanto, hoje sentimos como é necessário ajudar as pessoas a conhecerem a pessoa de Jesus, e a encarar a vida conjugal como uma vocação, ou seja, como um chamamento a viver o Amor do Reino neste estado de vida. Continuamos na obrigação de educar para um amor capaz de assumir compromissos definitivos. Isso se faz para valorizar a confiança mútua, a fidelidade ao outro e a si mesmo, para dar uma chance à felicidade que estava no plano de Deus desde o começo. Não vemos casamento indissolúvel como uma obrigação a ser carregada, e sim como um direito que não deve ser sacrificado num mundo que fez do descartável um modo de vida. Responsabilidade, desejo de fidelidade, seriedade na palavra empenhada têm muito a ver com o direito de ser e fazer feliz.

O ser humano foi criado à imagem de Deus por amor. O casal humano é chamado por Deus a tornar-se o primeiro lugar de encarnação deste movimento de amor. O amor humano, sob todas as suas formas, não nasceu dos acasos da evolução biológica. É dom de Deus. Quando os homens recusarem este dom, impedirão Deus de imprimir neles a sua imagem. O casamento indissolúvel é um grito para todas as pessoas ao redor que existe o amor. É o mesmo que dizer: Deus existe, pois ele é Amor (1Jo 4,8.16).

A Palavra De Deus Vivida Tem Poder De Transformar Nossa Vida

Continuamos acompanhando Jesus no seu caminho para Jerusalém, durante o qual escutamos Suas últimas e importantes lições para nossa vida como cristãos (Lc 9,51-19,28).

Se em Lc 11 Jesus nos revelou a nossa filiação divina, em Lc 13, onde se encontra o texto do evangelho de hoje, revela-se para nós como devemos viver esta filiação divina no tempo presente. O tempo presente é o único tempo que nã está oculto, é a ocasião para nos convertermos.

Para darmos conta da presença do Reino de Deus e de sua ação na nossa vida no tempo presente é preciso voltarmos o olhar para aquilo que não conta: Deus realiza seu desígnio com aquilo que é pequeno, desprezível w nulo (1Cor 2,4ss).

O fermento do Reino tem características oposta ao fermento dos fariseus: no lugar do medo da morte (Lc 12,1ss), deve dar luga ao amor do Pai que nos salva (Lc 12,32ss); no lugar de acúmulo, deve dar lugar para o dom (Lc 12,13ss; 22ss); no lugar do ladrão que rouba a vida (Lc 12,39), deve dar lugar ao noivo que bate porta (Lc 12,35).

As duas pequenas parábolas (a semente de mostarda e o fermento) querem sublinhar claramente que a graça de Deus cresce em extensão (grão de mostarda) e em intensidade (fermento na massa). No entanto, elas não sublinham apenas sobre o crescimento, mas também sobre todo estado final que apontam para um valor escatológico. Elas servem, por isso, para animar qualquer cristão, qualquer comunidade para não desistirem em levar adiante a causa de Jesus apesar de se sentirem tão pequenos no meio dos “poderosos” deste mundo, pois no final Deus é quem tem a última palavra.

“O Reino de Deus é como a semente de mostarda, que um homem pega e lançou no seu jardim. A semente cresce, torna-se uma grande árvore e as aves do céu fazem ninhos nos seus ramos” (Lc 13,19), assim Jesus disse-nos hoje. Lançar semente à terra é um gesto absolutamente natural, apaixonante e misterioso. É um gesto de esperança e de aventura. Basta a semente estar na terra, começa, então, em segredo e em silêncio uma serie de maravilhas, pouco importa que o semeador se preocupe ou não com a semente. Cada semente lançada na terra surge a esperança no coração do semeador de ver a semente brotar e crescer em alguns dias. O semeador é aquele que crê na vida, que tem confiança no porvir. E ao ver a semente que se transformou em plantinha, a alegria inunda o coração do semeador a ponto de ele “conversar” com a plantinha quase diariamente. E com cuidado ele vai capinar ao redor dela para facilitar o crescimento saudável da plantinha a fim de ela dar bons frutos. O semeador é aquele semeia a mãos cheias para que a vida se multiplique que se transforma em alimento para cada família. O semeador é aquele que investe no porvir.

Jesus está consciente de estar fazendo isto: semear, lançar, esperar com paciência!  Ele empreende uma obra que tem porvir. Ele semeia a Palavra de Deus em cada coração. E aquele que escuta e se deixa guiar pela Palavra de Deus, vai produzir muitos bons frutos para a convivência fraterna.                

A Palavra de Deus tem dentro de si uma força misteriosa que apesar dos obstáculos encontrados no seu caminho vai germinar e dar fruto. Com esta parábola Jesus quer sublinhar a força intrínseca da graça e da intervenção de Deus.                 

“O Reino de Deus é como a semente de mostarda, que um homem pega e atira no seu jardim. A semente cresce, torna-se uma grande árvore e as aves do céu fazem ninhos nos seus ramos”.

A semente tem uma força vital invisível, mas irresistível, germina segundo a sua natureza e expressa, mesmo morrendo, toda a sua potencialidade de vida. A semente cresce somente se morre (Jo 12,24). Este é o seu mistério: produz a vida para além da morte. E “A semente cresce, torna-se uma grande árvore...”. É a árvore da cruz, cujas águas transforma em jardim o deserto do homem (Ap 22). E “as aves do céu fazem ninhos nos seus ramos”. São imagem de todos os povos (Dn 4,9), que acorrem para se abrigar na árvore que é o verdadeiro Israel. Sobre ele, pássaros e andorinhas encontram morada (Sl 84,4): todas as nações desejam ser acolhidas (Zc 8,20-23) e declaram que aí está a sua casa (Sl 87,7) é mais bela imagem da “catolicidade” do Reino, onde cada um encontra o seu ninho.

Além disso, ao falar da pequenez de uma semente como a de mostarda, Jesus quer nos convidar a rever os nossos critérios de atuação e a nossa forma de olhar o mundo e os nossos irmãos. Por vezes, naquilo que é pequeno, débil e aparentemente insignificante é que Deus se revela (cf. Mt 11,25-28). Deus está nos pequenos, nos humildes, nos pobres, nos que renunciaram a esquemas de triunfalismo e de ostentação; e é deles que Deus se serve para transformar o mundo.

“O Reino de Deus é como o fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado”, acrescentou Jesus. Esta comparação tem em conta a potência de transformação do fermento apesar de sua invisibilidade: assim que o fermento se mistura com a massa, a massa se transforma em tamanho maior  para se transformar em pão para a mesa de cada família: os começos são modestos, mas o resultado final é surpreendente.

Através das duas parábolas, Jesus quer nos dar lição de que, quando contamos com Deus, os meios podem ser muito pequenos, como a pequena semente de mostarda ou como o fermento, mas podem produzir frutos inesperados, não proporcionados nem a nossa organização nem a nossos métodos e instrumentos. A força da Palavra de Deus vem do próprio Deus e não de nossas técnicas. Quando em nossa vida há uma força interior, ou há espaço para Deus a eficácia do trabalho cresce notavelmente. Por isso, quando essa força interior é o amor que Deus nos tem, ou seu Espírito ou a Graça salvadora de Cristo ressuscitado, então, o Reino de Deus germina e cresce poderosamente. O que devemos fazer é colaborar com nossa liberdade. Mas o protagonista é Deus. Necessitamos trabalhar com o olhar posto em Deus, sem impaciência, sem exigir frutos a curto prazo, sem absolutizar nossos méritos, meios e técnicas e sem demasiado medo ao fracasso. Há que ter paciência como a tem o lavrador esperando a colheita.                 

O evangelho de hoje nos ajuda a entendermos como conduz Deus nossa história. Não teríamos que nos orgulhar nunca, como se o mundo se salvasse por nossas técnicas, métodos e esforços. Não podemos esquecer aquilo que São Paulo nos aconselhou: “Eu plantei, Apolo regou, mas Deus é quem fez crescer. Assim, nem o que planta é alguma coisa nem o que rega, mas só Deus, que faz crescer. O que planta ou o que rega são iguais; cada um receberá a sua recompensa, segundo o seu trabalho.  Nós somos operários com Deus. Vós, o campo de Deus, o edifício de Deus. Segundo a graça que Deus me deu, como sábio arquiteto lancei o fundamento, mas outro edifica sobre ele. Quanto ao fundamento, ninguém pode pôr outro diverso daquele que já foi posto: Jesus Cristo” (1Cor 3,6-11).                  

Os frutos da graça de Deus se produzem às ocultas, em pequenos gestos e projetos bem simples sem que ninguém se dê conta. Nossa tarefa é semear a bondade constantemente, catar um pedaço de felicidade diariamente para compartilhá-la com aqueles que não conseguiram catar nenhum pedaço. A fé vivida na obediência à vontade de Deus é capaz de operar uma transformação total da pessoa, uma reestruturação de todo o ser, como a semente que se transforma totalmente em uma planta. Nos fatos aparentemente irrelevantes, na simplicidade e normalidade de cada dia, na insignificância dos meios, esconde-se o dinamismo de Deus que atua na história e que oferece aos homens caminhos de salvação e de vida plena. Não podemos deixar nenhum dia sem semear a bondade nos corações de pessoas.

P. Vitus Gustama,svd

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Segunda-feira Da XXX Semana Comum, Ano Par, 26/10/2026

DEUS É NOSSO PAI MISERICORDIOSO QUE NOS AMA E SALVA PARA QUE TAMBÉM AMEMOS OS OUTROS

Segunda-Feira Da XXX Semana Comum

Primeira Leitura: Efésios 4,32-5,8 (Ano Par)

Irmãos, 4,32 sede bons uns para com os outros, sede compassivos; perdoai-vos mutuamente, como Deus vos perdoou por meio de Cristo. 5,1 Sede imitadores de Deus, como filhos que ele ama. 2 Vivei no amor, como Cristo nos amou e se entregou a si mesmo a Deus por nós, em oblação e sacrifício de suave odor. 3 A devassidão, ou qualquer espécie de impureza ou cobiça sequer sejam mencionadas entre vós, como convém a santos. 4 Nada de palavras grosseiras, insensatas ou obscenas, que são inconvenientes; dedicai-vos antes à ação de graças. 5 Pois, sabei-o bem, o devasso, o impuro, o avarento – que é um idólatra – são excluídos da herança no reino de Cristo e de Deus. 6 Que ninguém vos engane com palavras vazias. Tudo isso atrai a cólera de Deus sobre os que lhe desobedecem. 7 Não sejais seus cúmplices. 8 Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Vivei como filhos da luz.

Evangelho: Lc 13,10-17

Naquele tempo, 10 Jesus estava ensinando numa sinagoga, em dia de sábado. 11 Havia aí uma mulher que, fazia dezoito anos, estava com um espírito que a tornava doente. Era encurvada e incapaz de se endireitar. 12 Vendo-a, Jesus chamou-a e lhe disse: “Mulher, estás livre da tua doença”. 13 Jesus pôs as mãos sobre ela, e imediatamente a mulher se endireitou e começou a louvar a Deus. 14 O chefe da sinagoga ficou furioso, porque Jesus tinha feito uma cura em dia de sábado. E, tomando a palavra, começou a dizer à multidão: “Existem seis dias para trabalhar. Vinde, então, nesses dias para serdes curados, não em dia de sábado”. 15 O Senhor lhe respondeu: “Hipócritas! Cada um de vós não solta do curral o boi ou o jumento, para dar-lhe de beber, mesmo que seja dia de sábado? 16 Esta filha de Abraão, que Satanás amarrou durante dezoito anos, não deveria ser libertada dessa prisão, em dia de sábado?” 17 Esta resposta envergonhou todos os inimigos de Jesus. E a multidão inteira se alegrava com as maravilhas que ele fazia.

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Viver Na Fraternidade Com Amor, Pois Deus Nos Amou e Nos Perdoou

“Sede bons uns para com os outros, sede compassivos; perdoai-vos mutuamente, como Deus vos perdoou por meio de Cristo. Sede imitadores de Deus, como filhos que ele ama. Vivei no amor, como Cristo nos amou e se entregou a si mesmo a Deus por nós, em oblação e sacrifício de suave odor”.

Estamos ainda na parte exortativa da Carta aos Efésios, que começamos na Sexta-feira passada. Dentro deste tema, hoje o autor da Carta enfatiza dois aspectos básicos: a caridade fraterna e a chamada a evitar a imoralidade reinante na sociedade da época.

O modelo ou o fundamento do amor fraterno é Deus Pai e Jesus Cristo: “Perdoai-vos mutuamente, como Deus vos perdoou por meio de Cristo. Sede imitadores de Deus, como filhos que ele ama. Vivei no amor, como Cristo nos amou e se entregou a si mesmo a Deus por nós”.

A chamada para cada cristão é muito clara: Imitar Deus. O modo de argumentar é muito simples e eloquente: Deus te amou; ama tu também. Deus te perdoou; perdoa tu também. Deus te iluminou; sê luz tu também para os demais. No fundo, trata-se de não deter o rio da bondade: a bondade chegou até você, então, não detenha em você a mesma bondade, pois os outros precisam de sua bondade como você precisa da bondade dos outros; você tem que irradiar a mesma bondade para o próximo.

“Sede bons uns para com os outros, sede compassivos; perdoai-vos mutuamente, como Deus vos perdoou por meio de Cristo”. O autor da Carta enfatiza novamente sobre a importância da caridade que suporta tudo. Em outra Carta (aos Coríntians) que conhecemos como o Hino à Caridade (1Cor 13,4-7), são Paulo menciona as quinze características da caridade e não menos de oito exprimem explicitamente o que a caridade não faz (“não é invejosa”...etc.) e outras seis dizem respeito à caridade que suporta.

Não há tempo determinado para fazer a caridade. Todo momento ou toda circunstância é apropriado para fazer a caridade.  Pensemos: quantas oportunidades temos diariamente para fazer caridade, para fazer um favor, mas preferimos nossa comodidade? Quantas vezes nos refugiamos atrás de regulamentos para não ajudar a quem verdadeiramente está necessitado. Nenhuma lei pode condicionar a ajuda ao próximo, como Jesus que curou pessoas doentes aos Sábados. Deixemos que a caridade se converta mais que um lugar ou templo ou em um regulamento, em um estilo de vida.

A expressão máxima do amor é o perdão: “... perdoai-vos mutuamente, como Deus vos perdoou por meio de Cristo”. Da Cruz Jesus perdoou seus inimigos que o crucificaram: “Pai, perdoa-lhes, porque eles não sabem o que estão fazendo” (Lc 23,34).  O perdão é o último testemento de Jesus da Cruz antes de sua morte. Com o nosso perdão podemos imitar Aquele que primeiro nos perdoou: Deus. E devemos fazê-lo como filhos amados a exemplo de Cristo que chamou Deus de Pai. O modelo deste amor é, por isso, o Crucificado, o que diz claramente que caridade, aqui, significa sacrifício, servidão, doação de si até a morte. Não é por acaso, na última Ceia Jesus colocou como modelo e medida do amor é a seguinte afirmação: “Amai-vos uns aos outros como eu vos tenho amado” (Jo 15,12).

Estamos conscientes de que como é difícil para o homem, em geral, e para um cristão, em particular, saber perdoar, calar (sem vingar-se) e esquecer. A vingança não constrói e sim só destrói. Por isso, o autor da Carta aos Efésios nos motiva a perdoar, pois Deus sempre pronto para nos perdoar, se nos convertermos, independentemente da gravidade do pecado: “... perdoai-vos mutuamente, como Deus vos perdoou por meio de Cristo. Sede imitadores de Deus, como filhos que ele ama. Vivei no amor, como Cristo nos amou e se entregou a si mesmo a Deus por nós, em oblação e sacrifício de suave odor”.

Outro aspecto que o autor da Carta aos Efésios enfatiza é que os cristãos devem evitar em sua vida: “A devassidão, ou qualquer espécie de impureza ou cobiça”, “Nada de palavras grosseiras, insensatas ou obscenas”. Todas estas coisas “são os que atraem a cólera de Deus”. Com efeito, “o devasso, o impuro, o avarento – que é um idólatra – são excluídos da herança no reino de Cristo e de Deus”. Para o autor da Carta os cristãos têm que evitar toda indecência e imoralidade nas conversas e na vida. Trata-se da nova vida em pureza e luz (Ef 5,3-20).

Ainda que a maioria seja egoísta, um cristão não o deve ser. Se a maioria caiu na deterioração da ética, um cristão deve lutar contra corrente e saber defender a pureza de coração em meio da permissividade reinante. Apesar de ser geral neste mundo, um cristão evita a carreira para enriquecer-se ilicitamente a qualquer custo. Tudo isso é viver como filhos e filhas da luz. Que saibamos viver na luz e não nas trevas, e não sejamos servos da lei e sim da verdade e da caridade. Se somos filhos de Deus, que resplandeça em nós a verdade de Cristo inflamada em amor. Como motivo encontra-se um simples “como convém a santos” (Ef 5,3). Isto quer dizer que cada cristão deve estar consciente, de modo profundo e vital, de que, quem é batizado em Cristo e selado pelo Espírito Santo como sua propriedade, pertence tão estreitamente a Deus e à sua esfera de santidade, e fora disso será um sacrilégio.

O Salmo Responsorial de hoje (Sl 1) nos põe no caminho da verdadeira sabedoria: “Feliz é todo aquele que não anda conforme os conselhos dos perversos; que não entra no caminho dos malvados. Ele é semelhante a uma árvore que à beira da torrente está plantada; ela sempre dá seus frutos a seu tempo, e jamais suas folhas vão murchar”.

O exemplo maior de uma vida dedicada ao bem e à bondade é a própria vida de Jesus Cristo. Em seu caminho para Jerusalém, Jesus realiza outro gesto de “cura em um Sábado” uma mulher encurvada. Jesus se dedica a curar, a salvar, a transmitir vida para qualquer pessoa e em qualquer lugar e momento. Ele passou a vida “fazendo o bem” (At 10,38). Logo, deve ser assim também a vida dos que são chamados de cristãos. Cristo nos ensina que a caridade com as pessoas necessitadas é superior a muitas outras coisas, pois “a caridade é o pleno cumprimento da lei” (Rm 13,10).

Deus é o Nosso Pai Que Quer Nosso Bem e Nossa Salvação

Continuamos a acompanhar Jesus na sua última viagem para Jerusalém onde ele será crucificado, morto e glorificado (Lc 9,51-19,28). Durante esta viagem Ele vai dando suas últimas lições. Tratam-se das Lições do Caminho.

As comunidades de Lucas são comunidades de pobres com alguns ricos. Há um contraste que aparece, sobretudo, no evangelho de Lucas: de um lado, os pobres, famintos, perseguidos, aflitos (Lc 6,20-23) e, do outro, os ricos (Lc 12,16-21) que se banqueteiam sem se preocupar com a miséria dos outros (Lc 16,19-31); Comunidades com pessoas cansadas, medrosas, desanimadas e perdidas por causa da situação na qual viviam (Lc 24,13-24).

No texto do evangelho de hoje Lucas nos relata uma mulher sofrida durante dezoito anos e que Jesus a curou no Sábado. No seu evangelho Lucas relatou três vezes a cura ocorrida no Sábado: a cura do homem com a mão paralisada (Lc 6,6-11); a cura de uma mulher encurvada (13,10-17); e a cura de um hidrópico (14,1-6).

No evangelho lido neste dia, estamos diante de uma mulher encurvada durante dezoito anos. É todo um símbolo. É uma mulher que não pode endireitar-se nem levantar sua cabeça para o céu. Uma pessoa encurvada só pode olhar para o chão e sem condições para olhar para o céu. É uma mulher com uma perspectiva limitada e sem horizontes pelo peso carregado nas costas. É uma mulher que carrega um peso insuportável para sua vida que a incapacita de olhar além do chão. É uma mulher cansada e oprimida, esmagada e deprimida. É uma mulher que recebia, em seus ombros, fardos incontáveis. É um símbolo de todas as mulheres na história. É um símbolo de todos os que suportam ou carregam pesos intoleráveis.

Em qualquer lugar do planeta terra podemos encontrar homens e mulheres curvados pelo peso da fome e da pobreza, pela miséria e exploração, pelo abandono e exclusão de uma convivência mais humana e familiar, pela falsidade e mentira, pela perseguição e a tortura. Homens e mulheres curvados pelo peso dos filhos cheios de problemas e pelas preocupações familiares diante de tantas dificuldades que a vida impõe. Homens e mulheres curvados pelo peso de trabalho de escravidão e de exploração. Homens e mulheres encurvados pelo esforço e pela luta para não faltar pão para os filhos na mesa da família. Homens e mulheres encurvados pela incompreensão e solidão. Homens e mulheres encurvados pelo vício desenfreado e pelos apegos que cria uma vida vazia. Homens e mulheres encurvados pelos fracassos e pelas tristezas. Homens e mulheres curvados pela falta de saúde. Homens e mulheres encurvados pela violência sem piedade que causa tantas lágrimas e tristezas.

Diante de tudo isso, Jesus não fica insensível. Ele não espera o pedido da mulher para ser curada, como aconteceu com outros milagres. Ele nem quer saber se é num sábado ou qualquer dia sagrado na concepção dos homens. Jesus não quer saber das veneráveis prescrições religiosas por sagradas que pareçam ser. Nenhuma lei sagrada, nenhum dia santo de guarda, na concepção do homem, é capaz de impedir Jesus de fazer o bem e de salvar pessoas em necessidade. Jesus toma a iniciativa, mesmo que seja no dia de Sábado: “Vendo a mulher, Jesus chamou-a e lhe disse: ‘Mulher, estás livre da tua doença’. Jesus pôs as mãos sobre ela, e imediatamente a mulher se endireitou e começou a louvar a Deus”. A partir de agora em diante ela pode olhar para o céu, aquilo que ela não conseguia fazer, para louvar a Deus.

O chefe da sinagoga se preocupa com o que pode e o que não pode fazer no Sábado colocando de lado a necessidade humana. Ele olha muito mais para as regras e proibições do que para um ser humano em perigo. Por isso, Jesus o chama de “hipócrita”: “Hipócritas! Cada um de vós não solta do curral o boi ou o jumento, para dar-lhe de beber, mesmo que seja dia de sábado? Esta filha de Abraão, que Satanás amarrou durante dezoito anos, não deveria ser libertada dessa prisão, em dia de sábado?”. Ama menos quem se preocupa somente com as regras e proibições. O Deus de Jesus não é o Deus de regras e sim o Deus de amor (Jo 3,16; 1Jo 4,8.16). O que agrada a Deus não é o cumprimento das regras por sagradas que elas pareçam ser, e sim a vivência do amor fraterno. É a preocupação pela dignidade humana. Deus fica contente com a libertação de seus filhos. Para Jesus a Lei dever ser humana e torna o ser humano em irmão do outro.

Deus não quer que sejamos encurvados. Deus não quer que sejamos oprimidos e escravizados, nem deprimidos e prostrados no chão de uma vida sem sentido. Ele nos quer livres. Ele quer que estejamos em pé e de pé diante dessa vida para ver que a vida é maior do que chão para onde dirigíamos nosso olhar. Estar em pé ou estar de pé significa liberdade, confiança, transcendência. Deus não nos criou para ficarmos encurvados, e sim para que vivamos com dignidade, para que sejamos livres (cf. Mt 11,28). Para estar de pé durante esta vida temos que aprender a ficar de joelhos diante de Deus. Encurvar-se diante de Deus nos faz erguermo-nos diante desta vida para louvar a Deus que nos ama com seu amor misericordioso incondicionalmente e para exercer nossa missão como filhos e filhas de Deus.

Um dos imperativos que mais se repetem na história da salvação é “Levanta-te!”. Podemos ter fracassos na vida, podemos cair no chão, mas é preciso que nos levantemos, pois a misericórdia divina está nos esperando.

P. Vitus Gustama,svd

XXX Domingo Do Tempo Comum, Ano "A", 25/10/2026

AMOR: O MAIOR MANDAMENTO

XXX DOMINGO DO TEMPO COMUM “A”

Primeira Leitura: Êx 22,20-26

Assim diz o Senhor: 20 Não oprimas nem maltrates o estrangeiro, pois vós fostes estrangeiros na terra do Egito. 21 Não façais mal algum à viúva nem ao órfão. 22 Se os maltratardes, gritarão por mim, e eu ouvirei o seu clamor. 23 Minha cólera, então, se inflamará e eu vos matarei à espada; vossas mulheres ficarão viúvas e órfãos os vossos filhos. 24 Se emprestares dinheiro a alguém do meu povo, a um pobre que vive ao teu lado, não sejas um usurário, dele cobrando juros. 25 Se tomares como penhor o manto do teu próximo, deverás devolvê-lo antes do pôr do sol. 26 Pois é a única veste que tem para o seu corpo, e coberta que ele tem para dormir. Se clamar por mim, eu o ouvirei, porque sou misericordioso.

Segunda Leitura: 1Ts 1,5c-10

Irmãos: 5c Sabeis de que maneira procedemos entre vós, para o vosso bem. 6 E vós vos tornastes imitadores nossos e do Senhor, acolhendo a Palavra com a alegria do Espírito Santo, apesar de tantas tribulações. 7 Assim vos tornastes modelo para todos os fiéis da Macedônia e da Acaia. 8 Com efeito, a partir de vós, a Palavra do Senhor não se divulgou apenas na Macedônia e na Acaia, mas a vossa fé em Deus propagou-se por toda parte. Assim, nós já nem precisamos falar, 9 pois as pessoas mesmas contam como vós nos acolhestes e como vos convertestes, abandonando os falsos deuses, para servir ao Deus vivo e verdadeiro, 10 esperando dos céus o seu Filho, a quem ele ressuscitou dentre os mortos: Jesus, que nos livra do castigo que está por vir.

Evangelho: Mt 22,34-40

Naquele tempo, 34 os fariseus ouviram dizer que Jesus tinha feito calar os saduceus. Então eles se reuniram em grupo, 35 e um deles perguntou a Jesus, para experimentá-lo: 36 “Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?” 37 Jesus respondeu: “‘Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento!’ 38 Esse é o maior e o primeiro mandamento. 39 O segundo é semelhante a esse: ‘Amarás ao teu próximo como a ti mesmo’. 40 Toda a Lei e os profetas dependem desses dois mandamentos”.

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O evangelho deste domingo fala do maior mandamento para todos os cristãos: o amor. Este texto podemos encontrar nos evangelhos sinóticos, mas com o contexto diferente (Mc 12,28-34; Lc 10,25-28). Em Mc, este texto é uma conversa amistosa de caráter escolástico entre um mestre da Lei e Jesus. Por isso, sem nenhuma polêmica. O mestre da Lei até recebe o elogio de Jesus, pois ele concorda que o maior mandamento é o amor: “Não estás longe do Reino de Deus” (Mc 12,34). Em Lc (Lc 10,25-28), o mesmo texto serve de introdução à parábola do bom samaritano (Lc 10,30-37). Em Lc, não é Jesus quem enuncia o maior mandamento, mas um doutor da lei. Jesus concorda e manda que o doutor da lei faça a mesma coisa (amar) para poder viver: “Fazei isto e viverás!” (Lc 10,28). Enquanto que em Mt, este mandamento se encontra dentro de uma polêmica violenta entre Jesus e os líderes do povo em Jerusalém (veja Mt 22,15-21). Neste contexto Jesus proclama o mandamento do amor aos que O odeiam, pois eles estão procurando uma maneira para condená-lo à morte (Mt 22,15.34-35; 5,43-44). Se “Deus é amor” (1Jo 4,8.16), então o ódio está contra Deus. Somos semelhantes a Deus no amor.        

Antecipamos logo a situação da Igreja de Mateus que tem por trás deste texto. Havia confronto da comunidade de Mateus com um judaísmo dominado por mestres da lei e os fariseus. Para eles todos os mandamentos tinham a mesma importância. A atenção destes dirigia-se não para os conteúdos da lei, e sim sua característica formal de imposição. A lei por lei era o princípio. Enquanto que para a comunidade de Mateus o duplo mandamento do amor a Deus e ao próximo era cláusula fundamental da aliança entre Deus e seu novo povo. A característica fundamental do novo povo de Deus, isto é, da comunidade cristã mateana é o amor a Deus e ao próximo. Os mandamentos de amor servem de centro da lei, dando à Bíblia e aos ensinamentos de Jesus uma ordem e um impulso que distinguem a comunidade mateana de outros movimentos e comunidades judaicas. A ênfase nos mandamentos de amor, misericórdia e justiça serve para dar à comunidade mateana sua orientação interna e também para identificá-la em contraste com outros grupos.           

Como já sabemos nos textos anteriores, Jesus desfez a armadilha dos fariseus em relação ao imposto (Mt 22,15-22) e respondeu à pergunta dos saduceus sobre a ressurreição dos mortos (Mt 22,23-33). Depois desta derrota, os fariseus voltam a reunir-se para colocar novamente Jesus numa armadilha (cf. Mt 22,15). Este confronto culminará na paixão de Jesus (Mt 26,4.27,1). Agora interrogam Jesus sobre o maior mandamento: “Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?”(v.36).          

Os rabinos do tempo de Jesus, estudando a Bíblia, tinham chegado a compor uma lista dos mandamentos nela contidos. Ensinavam que o conjunto dos preceitos era de 613. Desses, 365 (como os dias do ano) eram proibições e 248 (como membros do corpo) eram ações a serem cumpridas.           

Os guias religiosos de Israel ensinavam que todos esses mandamentos tinham a mesma importância e eram igualmente obrigatórios; discutia-se, porém, qual fosse o primeiro e o maior de todos. A opinião mais comum era que o preceito do Sábado valia mais do que todos os outros juntos. Contou-se que de tanto mandamento até um pagão se apresentou a um famoso rabino chamado Hillel (que viveu poucos anos antes de Cristo) e lhe disse, ironicamente: “Se conseguires ensinar-me toda a lei enquanto permaneço ereto num pé só, converter-me-ei”.         

Por isso, um dos fariseus perguntou a Jesus, para experimentá-lo: “Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?”  E na sua resposta, unindo dois textos do AT (Dt 6,5 e Lv 19,18), Jesus disse que o amor era o maior de todos cuja direção são três: amar Deus, a si mesmo e ao próximo (Mt 22,37.39). Notemos bem: os fariseus perguntavam sobre leis, isto é, deveres, obrigações. Jesus chama para um confronto não com numerosas prescrições, normas, proibições e preceitos, mesmo de origem divina, mas com uma exigência global do amor. Na sua  resposta Jesus, por isso, fala de amor. Como todos nós sabemos, amor nunca é sentido como obrigação, mas como impulso que vem de dentro da pessoa, e a sua expressão exterior jamais é vista como dever ou obrigação, e sim como satisfação e prazer.         

Perguntamos: Por que amor é o maior ou primeiro de todos os mandamentos? São João responde: por que “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). Esta frase perpassa, carregada de mistério e de promessa toda nossa história. Por pouca sensibilidade que se tenha, se compreende que nela se toca o coração mesmo do cristianismo. Onde existe o amor, está o cristianismo, embora se trate de ateísmo; onde não existe amor, não existe cristianismo, embora exista o sacrifício ou a eucaristia. Por isso, Santo Agostinho dizia: “Se, por conseguinte, não há tempo para perscrutar todas as páginas sagradas, para deslindar todos os véus da linguagem, para penetrar todos os segredos das Escrituras, então, abraça a caridade, da qual tudo depende”.  “Deus é amor” é a frase nuclear e irradiante. Ela sozinha já seria capaz de manter a esperança no mundo, pois pressentimos que nela está a chave de tudo, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16).        

Se Deus é amor, então, “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento!”. Se Deus é amor e se Deus é a origem, se o amor é o maior mandamento, intuímos que o amor seja, portanto, a essência da realidade, a última palavra da compreensão, o critério definitivo do juízo. Compreendê-lo e vivê-lo será justamente alcançar o mistério do universo, encontrar a chave do sentido da vida, chegar à fonte da vida que é Deus.  Santo Agostinho dizia: “Qual o valor desta virtude(amor/caridade)? É a alma das Sagradas Letras, a força da profecia, a vida dos sacramentos, o fundamento da ciência, o fruto da fé, a riqueza do pobre, a vida dos moribundos”. Unicamente na direção do amor é que poderemos caminhar em direção ao centro da vida: o resto equivale a se perder. Se um dia formos condenados, não por termos amado demais e sim por termos amado de menos. O amor é o critério do julgamento final.         

Amor! Eis a mensagem central do cristianismo. Ser o mandamento primeiro significa que é ele que dá sentido a todo o resto. Por isso, basta eliminar o amor da vida e o mundo virará um cemitério. E quando acaba o amor, formamos uma imagem estática do outro e ficamos no passado do outro apesar do outro ter-se mudado. E sem o amor, julgamos e nos atemos a preconceitos mútuos. Isto é a morte. O amor nos liberta de tais imagens e mantém o futuro aberto aos outros. Nutrimos esperança pelo outro, por isso esperamos do outro. Isto é a vida.  O amor é a origem da realidade, motivo da salvação, meio da comunhão, fonte da atividade e critério da vida. Basta cada um de nós deixar-se levar pelo amor, a vida ou o cristianismo se apresentará com outro aspecto, com outro estilo e viver com outro calor, com muita espontaneidade e alegria. Por isso, no mundo humano, como também no mundo animal, o crescimento não é possível sem amor, como dizia Teilhard de Chardin: “O amor é a mais universal, a mais formidável e a mais misteriosa das energias cósmicas. Socialmente, fingimos ignorá-lo na ciência, nos negócios e nas assembléias, ao passo que sub-repticiamente ele está em toda parte”. O amor faz crescer. O amor tranqüiliza. O amor dá segurança. Por isso, aquele que não é amado, fecha-se em si mesmo como uma prisão sem portas, sem outra saída e se torna uma pessoa egoísta. Sabemos que o egoísmo devora o que o outro tem. O amor, ao contrário, oferece ao outro o que lhe falta.  Quando amamos e nos sentimos amados, recordamos que jamais estamos sozinhos em nossas lutas e conseguiremos sobreviver até às circunstâncias mais atribuladas. Quanto mais o amor tiver recebido sadiamente, tanto mais poderá alguém dá-lo. O amor que ele dá faz o eco ao amor recebido.          

Amor é a autocomunicação do bem. Ele é a capacidade, inerente ao bem, de sair de si mesmo, de transferir para outro ser, de participar do outro ser e de entregar-se por um outro ser. Aquele que ama está totalmente no outro, conservando plenamente sua identidade. O amor não pode realizar-se na esfera de um sujeito isolado.          

Por ser muito essencial na vida dos homens, Jesus pede para amar a Deus em primeiro lugar com coração, mente e alma. Isto quer dizer: amar com toda interioridade do homem e com o aspecto racional dessa interioridade e com alma que é a força vital. Com tudo isto, o homem deve orientar-se para Deus, pois o amor não é mero sentimento, mas direção de vida. Se Jesus nos pede isto, é porque precisamente no amor o homem encontra a verdadeira realização de si mesmo e faz uma autêntica experiência de Deus.          

Mas não basta só amar a Deus, pois o homem cairia na mais ilusória das ilusões; faria experiência de um deus sem vulto e sem coração; estaria adorando um ídolo feito por mãos humanas.         

Justamente para impedir essa distorção é que Jesus diz no Evangelho que o maior mandamento não é só o de amar a Deus, mas também o próximo como a ti mesmo. Jesus quer que nos elevemos até Deus, mas sem deixar esta terra; propõe-nos um amor sem limites a Deus, porém apresenta-nos o homem como passagem obrigatória e normal desse amor.         

“O segundo é semelhante a esse: ‘Amarás ao teu próximo como a ti mesmo’”, diz Jesus (Mt 22,39). O homem tem que saber amar-se a si mesmo, pois não se pode compartir ou partilhar aquilo que não se tem. Santo Agostinho dizia: “Se não sabes amar-te a ti mesmo, tampouco saberás amar aos demais de verdade”. O amor ao semelhante emana, se nutre do manancial que procede do amor que sente um por si mesmo. Amarmo-nos a nós mesmos é ver-nos como pessoas. É aprender os valores que constituem nosso ser. É iluminar os dons e talentos para nos elevar ao topo mais alto de nossa existência.          

Se a base da caridade é o amor a si mesmo, devemos aceitar também que a base do amor a si mesmo é a caridade. O amor nunca é imanente, mas sempre flui e se expande fora de si, transcende. O amor que transcende até o bem do próximo é caridade. Esta qualidade de transcender é essencial no e do amor. Se não transcender, se não fluir de si, o amor não será amor. O bem ao próximo é o modo em que transcende o amor a si mesmo. A caridade constitui-se em fundamento e sentido do amor a si mesmo. Amor a si mesmo e amor ao próximo se retroalimentam.         

Na vida real, há quem ame pouco o próximo (o homem) por receio de ofender a Deus. E há quem ame pouco a Deus por receio de excluir o próximo (o homem), como se fosse impossível ser, ao mesmo tempo, amigos de Deus e dos homens. Mas quem deseja realmente fazer experiência de Deus, busca-O com todo o coração, entendimento e alma e deixar-se busca por Ele, acaba por encontrá-lo em todo lugar: nas coisas e nos acontecimentos, nas pessoas e na história. O amor a Deus e ao homem (próximo) se tornam só porque animados por um único e profundo amor.           

Jesus coloca o amor a Deus e o amor ao próximo como a si mesmo em relação com toda a revelação bíblica da vontade de Deus. Por isso, ele conclui: “Toda a Lei e os profetas dependem desses dois mandamentos” (v.40). No amor gira toda a revelação bíblica. E Jesus é o revelador definitivo e perfeito da vontade de Deus (Mt 5,17). A vontade de Deus gira em torno do amor total a Deus e do amor ao próximo cuja medida é o amor a si mesmo.          

Kahlil Gibran escreveu: “Quando um de vós ama, que não diga: ‘Deus está no meu coração’, mas que diga antes: ‘eu estou no coração de Deus’”. Porque, diz São João: “Nós amamos, porque Deus nos amou primeiro” (1Jo 4,19). 

“Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento! Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Toda a Lei e os profetas dependem desses dois mandamentos”.

A 1ª leitura pode servir, de modo muito expressivo, para mostrar como concretizar esse amor aos homens, que é a manifestação real do amor a Deus. “Não oprimas nem maltrates o estrangeiro, pois vós fostes estrangeiros na terra do Egito. Não façais mal algum à viúva nem ao órfão. Se os maltratardes, gritarão por mim, e eu ouvirei o seu clamor. Minha cólera, então, se inflamará e eu vos matarei à espada; vossas mulheres ficarão viúvas e órfãos os vossos filhos” (Ex 22,20-23) 

Não se pode separar o amor a Deus e o amor ao próximo. Se o amor a Deus for separado do amor aos homens, trata-se de uma farsa, uma armadilha. Pois Deus está presente no ser humano. Não é possível amar a Deus sem amar o próximo (cf. 1Jo 4,20). Como podemos comungar do Corpo de Jesus Cristo, por exemplo, se não sabemos comungar das preocupações, necessidades, dores e alegrias dos homens? Como podemos pedir o perdão de Deus se não sabemos perdoar os nossos irmãos? Como ousamos dizer que amamos a Deus plenamente, se somos tão egoístas e mesquinhos na forma como tratamos aqueles que nos rodeiam? Jesus Cristo não nos pede um amor meramente "humanista", sensato, correto, baseado na troca ("dou-te o que me dás"), mas nos convida a dar um salto: amar sem condições, sem calcular retribuições, a ponto de dar a própria vida, como o próprio Jesus fez (cf. Jo 15,13). Acreditar que, ao amar o ser humano, estamos amando a Deus, não significa que não amemos esta ou aquela pessoa por si mesmas; significa, sim, que desejamos ir além e descobrir que em cada homem e em cada mulher, em cada criança, em cada idoso, está o mistério de um Deus ali presente (cf. Mt 25,40.45), pois Deus está em cada homem e não nas paredes das igrejas. O próprio homem é o templo do Espírito Santo (cf. 1Cor 3,16-17).         

Portanto, que cada um se pergunte: “Será que posso afirmar que amo a Deus e ao próximo como eu me amo? De que maneira eu sei me amar? Será que o amor governa minha vida e minha atitude com o próximo? A quem ainda não amei suficientemente? A quem não quero amar, de jeito nenhum? É a resposta de Jesus para cada um de nós é esta: Por amor a cada um de nós Jesus aceitou ser crucificado e morto, mas ressuscitado por amor. O amor não pode morrer, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16).

P. Vitus Gustama,svd

Terça-feira Da XXX Semana Comum, Ano Par, 27/10/2026

A PALAVRA DE DEUS TEM PODER DE TRANSFORMAR VIDA MATRIMONIAL E NOSSA VIDA COTIDIANA EM UMA VIDA DO AMOR MÚTUO Terça-Feira da XXX Semana Com...