sábado, 16 de maio de 2026

Terça-feira Da VII Semana Da Páscoa,19/05/2026

REZAR MELHOR QUEM SABE AMAR O PRÓXIMO

Terça-Feira da VII Semana da Páscoa

Primeira Leitura: At 20,17-27

Naqueles dias, 17 de Mileto, Paulo mandou um recado a Éfeso, convocando os anciãos da Igreja. 18 Quando os anciãos chegaram, Paulo disse-lhes: “Vós bem sabeis de que modo me comportei em relação a vós, durante todo o tempo, desde o primeiro dia em que cheguei à Ásia. 19 Servi ao Senhor com toda a humildade, com lágrimas e no meio das provações que sofri por causa das ciladas dos judeus. 20 Nunca deixei de anunciar aquilo que pudesse ser de proveito para vós, nem de vos ensinar publicamente e também de casa em casa. 21 Insisti, com judeus e gregos, para que se convertessem a Deus e acreditassem em Jesus nosso Senhor. 22 E agora, prisioneiro do Espírito, vou para Jerusalém sem saber o que aí me acontecerá. 23 Sei apenas que, de cidade em cidade, o Espírito Santo me adverte, dizendo que me aguardam cadeias e tribulações. 24Mas, de modo nenhum, considero a minha vida preciosa para mim mesmo, contanto que eu leve a bom termo a minha carreira e realize o serviço que recebi do Senhor Jesus, ou seja, testemunhar o Evangelho da graça de Deus. 25 Agora, porém, tenho a certeza de que vós não vereis mais o meu rosto, todos vós entre os quais passei anunciando o Reino. 26 Portanto, hoje dou testemunho diante de todos vós: eu não sou responsável se algum de vós se perder, 27 pois não deixei de vos anunciar todo o projeto de Deus a vosso respeito”.

Evangelho: Jo 17,1-11ª

Naquele tempo, 1Jesus ergueu os olhos ao céu e disse: “Pai, chegou a hora. Glorifica o teu Filho, para que o teu Filho te glorifique a ti, 2e, porque lhe deste poder sobre todo homem, ele dê a vida eterna a todos aqueles que lhe confiaste.3Ora, a vida eterna é esta: que eles te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e àquele que tu enviaste, Jesus Cristo. 4Eu te glorifiquei na terra e levei a termo a obra que me deste para fazer. 5E agora, Pai, glorifica-me junto de ti, com a glória que eu tinha junto de ti antes que o mundo existisse.6Manifestei o teu nome aos homens que tu me deste do meio do mundo. Eram teus, e tu os confiaste a mim, e eles guardaram a tua palavra. 7Agora eles sabem que tudo quanto me deste vem de ti, 8pois dei-lhes as palavras que tu me deste, e eles as acolheram, e reconheceram verdadeiramente que eu saí de ti e acreditaram que tu me enviaste.9Eu te rogo por eles. Não te rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus. 10Tudo o que é meu é teu e tudo o que é teu é meu. E eu sou glorificado neles. 11aJá não estou no mundo, mas eles permanecem no mundo, enquanto eu vou para junto de ti”.

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Ser Evangelizador é Viver Totalmente Sob o Impulso Do espirito Santo

A Primeira Leitura fala da despedida de São Paulo de Éfeso. As constantes perseguições dos judaizantes obrigam São Paulo a modificar continuamente seus planos de viagem. Ele está sempre acusado pelos judaizantes.

Esse discurso de despedida de São Paulo é um verdadeiro testamento pastoral, e está destinado especialmente aos que exercem um cargo ou uma responsabilidade na Igreja ou comunidade. Há aqui o retrato do “apóstolo” segundo São Paulo.

Em primeiro lugar, o serviço na humildade:Servi ao Senhor com toda a humildade”. O que diz não é sua própria palavra. São Paulo é servidor do Senhor na humildade. Por causa desta humildade, São Paulo se desprende de qualquer suficiência, de qualquer orgulho para estar sempre e exclusivamente ao serviço do Senhor deixando-se guiar pelo Espírito Santo: “...de cidade em cidade, o Espírito Santo me adverte”. A humildade consiste em reconhecer o que somos ou o que estamos sendo. A partir da humildade aprendemos que não devemos aparentar mais do que somos. É na humildade e da humildade que germinam nossos autênticos valores. A humildade é “terreno fértil” onde a graça de Deus cresce. O humilde reverencia o sagrado, pois ele se reconhece “terra”, “pó”, mas é “pó” vivente por causa do hálito que é soprado nele pelo Criador (cf. Gn 2,7; Jo 20,22). "Quanto maiores somos na humildade, tanto mais próximos estamos da grandeza", dizia Rabindranath Tagore.

Em segundo lugar, toda vida cristã autêntica está marcada pela cruz:Servi ao Senhor com toda a humildade, com lágrimas e no meio das provações...”. O servidor não está acima do seu Senhor: “Se o mundo vos odeia, sabeis que me odiou a mim antes que a vós” (Jo 15,18). O apostolado não é um tranquilo entretenimento. Trabalhar na Igreja do Senhor não é para passar tempo. Toda responsabilidade na Igreja, toda vida cristã autentica estão marcadas pela cruz ou provações.  Precisamente, o tempo de provação é o tempo de dar razão para nossa esperança e nossa fé. Cada um de nós tem sua cruz ou suas provações. Cada cruz tem sua história e cada história ou apostolado tem sua cruz. Mas toda prova, toda cruz tem valor, quando sabemos associá-la à redenção. A redenção do mundo se faz da maneira que Jesus Cristo estabeleceu. Até para fazer o bem encontramos dificuldades. Numa sociedade injusta, o honesto é odiado, pois sua presença incomoda.

Em terceiro lugar, um cristão evangeliza com valentia, segurança e audácia:Nunca deixei de anunciar aquilo que pudesse ser de proveito para vós, nem de vos ensinar publicamente e também de casa em casa. Insisti, com judeus e gregos, para que se convertessem a Deus e acreditassem em Jesus nosso Senhor”. “Nunca deixei de anunciar”. Mas com uma condição: “é de proveito para vós”, isto é, para o bem e a salvação das pessoas beneficiadas e não para o proveito próprio. Esta fórmula também deixa supor que alguma vez, São Paulo tenha sentido a tentação de acovardar-se, de fugir, de calar-se, de renunciar. Mas ele não se deixou dominar pelo desânimo. O bem e a bondade têm que ser vividos e partilhados. Estamos neste mundo para dar o nosso melhor para o bem comum. Se não nossa presença se tornará muito egoísta. Se formos egoístas, estaremos longe do Senhor porque “Deus ´amor” (1Jo 4,8.16).

Em quarto lugar, deixar-se conduzir até o fim pelo Espirito Santo:Agora, prisioneiro do Espírito, vou para Jerusalém sem saber o que aí me acontecerá. Sei apenas que, de cidade em cidade, o Espírito Santo me adverte, dizendo que me aguardam cadeias e tribulações”. Este é o motor profundo da ação apostólica de São Paulo: a força do Espirito Santo que habita nele, pois ele se deixa totalmente guiar pelo Espirito Santo. Sem dúvida, ele cria seu silêncio para ouvir a voz do Espirito Santo sobre o que deve fazer em certas circunstancias. Ele disse que “prisioneiro do Espirito”. Isto quer nos dizer que São Paulo não faz o que quer. Ele vai para onde o Espirito de Deus o leva. É uma aventura integral, sem nenhuma previsão possível. Ele simplesmente e totalmente vive sob a direção do Espirito de Deus. Desta maneira é que São Paulo terminou sua missão.

Momento Da Morte De Quem Vive De Acordo Com a Vontade De Deus É o Momento De Glorificação

Estamos ainda no discurso de despedida de Jesus dos seus discípulos no Evangelho de João (Jo 13-17). Nos grandes textos de despedida na Bíblia (cf. Dt 32-33; At 20,17-35), o herói termina seu discurso por uma prece, hino ou bênção. O evangelho de João segue esse modelo. Neste sentido Jo 17 é considerado como o ponto alto do discurso da despedida de Jesus neste evangelho.

Depois que deu as últimas instruções para seus discípulos e procurou fazê-los compreender que os sofrimentos que Ele vai encarar são como as dores do parto, porém que elas preanunciam imensa alegria ou seja, a ressurreição (Jo 16,21-22), Jesus agora se dirige ao Pai em oração. Na presença dos discípulos Jesus se dirige ao Pai na oração. O fato de Jesus pronunciar a sua oração ao Pai na presença dos seus discípulos já é um convite para que eles e os crentes das gerações futuras participem na mesma. Deus fala para quem tem tempo para ouvi-Lo, e escuta para aqueles que tem tempo para rezar (fidelidade). Rezamos sempre a fim de ter OLHOS de Deus para enxergar o que é bom nos outros e na realidade; CORAÇÃO amoroso para amar e perdoar; MENTE saudável para eliminar o que é ruim; ALMA imaculada para nunca perder a fé em qualquer situação, e MODO DE VIVER cristão para respeitar a dignidade de cada ser humano como um valor incalculável. Quando você reza somente quando tem problema é provável que você mesmo seja um problema. Quem reza e caminha com Jesus nunca erra o caminho, pois ele carrega o próprio Caminho: “Eu sou o Caminho”, disse Jesus (Jo 14,6).

O dialogo de Jesus com o Pai nesta oração de despedida reflete, em toda a sua amplitude, o desígnio do Pai que motivou o envio do filho (Jo 3,16).  E Jesus realizou esse desígnio ao manifestar o Nome para aqueles que o Pai lhe deu. Em outras palavras, nesta oração Jesus fala do cumprimento de sua missão que consiste em manifestar o nome de Deus aos homens, em transmitir-lhes a Palavra de Deus que tem como resultado a fé que eles tem em Deus. Depois que cumpriu sua missão e parte visivelmente, Cristo deixa para a comunidade eclesial como “sacramento”, sinal eficaz de sua presença salvadora.

É chegada a hora”, anunciada pela primeira vez nas núpcias de Caná (Jo 2,4), a hora da nova aliança de Deus com seu povo, pacto que não será escrito num  livro, mas na carne de Jesus, que não será selado com o sangue de novilhos (Ex 24,7-8), mas pelo sangue do Cristo. Aliança que não será baseada num código de normas externas ao homem, mas na comunicação interna da mesma força do Pai, o Espírito, aos homens chamados a serem seus filhos (Jo 1,12).

Agora chegaram a “hora” e a “glória” de Jesus (é uma forma de dizer a morte e a glorificação/ressurreição de Jesus). Os conceitos “hora” e “glória” têm em João (Quarto Evangelho) uma grande densidade. Trata-se do momento em que se manifestará mais palpavelmente a salvação, a vida divina que se oferece aos homens: a entrega obediente de Cristo à morte, Sua Ressurreição e Sua volta para a glória do Pai. Nesta “hora” pascal acontece quando Cristo participa mais plenamente da “glória” de Deus. E esta mesma “hora” pascal vai continuar ou vai acontecer também com os cristãos, se eles sofrerem por ser cristãos, seguidores de Cisto.   

Jesus, que está para voltar ao Pai (morte), reza pelos seus que estão ainda no mundo para que também realizem o desígnio do Pai: “Eu te rogo por eles. Não te rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus. Tudo o que é meu é teu e tudo o que é teu é meu. E eu sou glorificado neles. Já não estou no mundo, mas eles permanecem no mundo, enquanto eu vou para junto de ti”. Nesta oração, Jesus, o Intercessor divino junto ao Pai e a comunidade cristã se entrelaçam como uma unidade espiritual.

Na sua oração que concluiu seu discurso, Jesus interpreta sua morte como passo para a vida, como um momento de glorificação, e seu aparente fracasso é considerado como o verdadeiro êxito. Jesus manifesta em sua oração uma confiança inquebrantável no Pai e um amor entranhável para seus discípulos, e uma esperança que sabe se sobrepor, e ninguém pode dominá-Lo. Jesus é livre e libertador. Somente quem é livre pode libertar os outros. Quem foge é porque não está livre.

A oração é sempre uma práxis de libertação, porque orar é recorrer ao Pai sem esquecer-se dos homens, nossos irmãos; orar é abrir-se ao Outro e consequentemente, a qualquer outro; orar é libertar-se do egoísmo para o amor, pois o outro é evado conosco na oração. Quem entra em oração está em comunhão com Deus. E quem está em comunhão com Deus, está em ligação com os demais homens. A comunidade que ama é a comunidade que reza melhor. Uma pessoa que ama é a pessoa que reza melhor. Depois da ascensão de Jesus ao céu, a pequena comunidade de seus discípulos se reúne em oração (Lc 24,50-53). A Igreja aprende na oração o caminho da liberdade e é uma das expressões da liberdade. Orar é estar em comunhão amorosa com Deus, pois Ele é o Pai de todos (cf. Jo 20,17). Quem ora, acredita e quem acredita, precisa orar

Na sua oração Jesus roga, primeiramente por si mesmo, para que se realize plenamente a missão que lhe foi confiada (vv. 1-5). Por seis vezes Jesus repete a palavra “Pai” na oração. Neste sentido, a palavra “Pai” é um nome que qualifica Deus como origem, da qual tudo provem como dom, amor e proteção e por isso, a salvação. Jesus se sente inteiramente Filho e quer continuar vivendo esses momentos transcendentais de sua vida a partir de seu ser de Filho. Por isso, diante de sua morte iminente Jesus está completamente tranquilo, pois ele sabe de sua vitória sobre o mundo (cf. Jo 16,33).

Com esta oração Jesus nos ensina que o caminho da glorificação é a obediência aos mandamentos de Deus que se resumem na vivência do amor fraterno. Na cruz o amor de Deus por nós aparece em toda sua plenitude, seu esplendor e sua força vitoriosa. Só o amor justifica a cruz. Por isso, não é o poder que há no mundo e que normalmente se transforma em opressão e domínio de uns homens sobre outros que reina, e sim o poder-serviço (Jo 13,12-17) que surge do amor e se manifesta em obras em favor dos homens, o poder que brota do coração e cria comunidade de irmãos. O amor sempre resulta na formação de uma comunidade de irmãos. Sem amor não haverá comunidade e não haverá a salvação. No amor praticado eu me vejo no outro. No verdadeiro amor eu sou o outro e o outro é eu próprio. Todos nós somos um.

Nesta oração Jesus pede: “A vida eterna é esta: que eles te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e àquele que tu enviaste, Jesus Cristo”. Aqui não se trata de um conhecimento intelectual e sim experiencial, imediato, pessoal e vital; um conhecimento que só pode ser adquirido na intimidade do amor; é um conhecimento que é vida. Neste sentido, conhecer Deus, plenitude de vida para sempre, se identifica com a vida eterna. Deus é o verdadeiro presente e futuro do homem, pois não há nada no mundo que possa encher e preencher seu coração. Conhecer Jesus significa imitar seu modo de viver, tê-lo como único modelo a seguir. Nesse seguimento, encarnado na vida diária, vamos conhecendo o único Deus: na completa entrega a Ele, demonstrada no serviço-amor aos que nos rodeiam.               

Neste texto Jesus reza por nós todos e tenhamos consciência da força dessa oração: “Eu te rogo por eles. Não te rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus. Tudo o que é meu é teu e tudo o que é teu é meu. E eu sou glorificado neles. Já não estou no mundo, mas eles permanecem no mundo, enquanto eu vou para junto de ti. O Senhor reza por mim; Ele reza por nós. É a grande notícia para nós todos! Eu preciso continuar minha luta pela dignidade dos meus irmãos em Cristo, pois há alguém que reza por mim: o próprio Senhor Jesus Cristo.

P. Vitus Gustama,svd

Segunda-feira Da VII Semana Da Páscoa, 18/05/2026

VENCEREMOS O MUNDO  SE ESTIVERMOS UNIDOS A JESUS CRISTO

Segunda-Feira da VII Semana da Páscoa

Primeira Leitura: At 19,1-8

1 Enquanto Apolo estava em Corinto, Paulo atravessou as regiões montanhosas e chegou a Éfeso. Aí encontrou alguns discípulos e perguntou-lhes: 2 “Vós recebestes o Espírito Santo quando abraçastes a fé?” Eles responderam: “Nem sequer ouvimos dizer que existe o Espírito Santo!” 3 Então Paulo perguntou: “Que batismo vós recebestes?” Eles responderam: “O batismo de João”. 4 Paulo disse-lhes: “João administrava um batismo de conversão, dizendo ao povo que acreditasse naquele que viria depois dele, isto é, em Jesus”. 5 Tendo ouvido isso, eles foram batizados no nome do Senhor Jesus. 6 Paulo impôs-lhes as mãos e sobre eles desceu o Espírito Santo. Começaram então a falar em línguas e a profetizar. 7 Ao todo, eram uns doze homens. 8 Paulo foi então à sinagoga e, durante três meses, falava com toda convicção, discutindo e procurando convencer os ouvintes sobre o reino de Deus.

Evangelho: Jo 16,29-33

Naquele tempo, 29os discípulos disseram a Jesus: “Eis, agora falas claramente e não usas mais figuras. 30 Agora sabemos que conheces tudo e que não precisas que alguém te interrogue. Por isto cremos que vieste da parte de Deus”. 31 Jesus respondeu: “Credes agora? 32 Eis que vem a hora – e já chegou – em que vos dispersareis, cada um para seu lado, e me deixareis só. Mas eu não estou só; o Pai está comigo. 33Disse-vos estas coisas para que tenhais paz em mim. No mundo, tereis tribulações. Mas tende coragem! Eu venci o mundo!”

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São Paulo, Um Apóstolo Que Tem Anseio Para Salvar a Todos

Paulo atravessou as regiões montanhosas e chegou a Éfeso”. São Paulo está sempre em movimento. Ele é um grande missionário itinerante. O Cristo que está nele faz com são Paulo não se cansa em evangelizar (cf. Gl 2,20). Ele volta para Éfeso e ficará nesta comunidade pelo menos dois anos e meio. Estamos entre os anos 53 e 56 depois de Cristo. De Éfeso São Paulo enviará duas cartas: aos Gálatas e a Primeira Carta aos Coríntios. O Espirito de Deus não deixa São Paulo parado. O Espirito Santo move qualquer um a fazer o bem pelo próximo. Por isso, temos impressão de que são Paulo tem pressa para evangelizar. É um apóstolo incansável na evangelização: “Ai de mim, se eu não anunciar o Evangelho!” (1Cor 9,16b). São Paulo faz de tudo para salvar todas as pessoas: “Fiz-me tudo para todos, a fim de salvar a todos”, acrescentou São Paulo (1Cor 9,22).

A graça de Deus jamais admite demora. A salvação é urgente! Se a maldade está avançada é porque os bons ficam parados no seu cantinho, usufruindo egoisticamente a “paz” do seu coração. Não basta não praticar o mal. Para um cristão não basta não praticar o mal; tem que praticar o bem e a bondade. Cada cristão é, por sua vocação, um evangelizador, isto é, aquele que leva adiante a bondade, o bom, o certo, o justo. É preciso praticar o bem para que a área do mal vai ficar cada vez menor na sociedade. Este trabalho é permanente, pois o mal não morre; ele está apenas adormecido. A Bondade é a inclinação a fazer o bem, a ser benigno, indulgente. A bondade é a qualidade do que é bom. A bondade é o único investimento que nunca falha, pois é reconhecida pelo próprio Deus (cf. Mt 25, 40.45).

Espírito Santo É Uma Força De Coesão E Unificação Eclesial

São Paulo chega a Éfeso, em sua terceira viagem missionária. Éfeso era uma das cidades mais importantes da época. Ele passou mais de dois anos lá, fundando uma comunidade para a qual mais tarde escreveria uma de suas cartas. Em Éfeso, como sempre, ele primeiro prega aos judeus, na sinagoga. Dos vários episódios que Lucas conta sobre a permanência de Paulo em Éfeso, hoje ouvimos um que é um tanto estranho: ele encontra doze homens que eram crentes, mas que só receberam o batismo de João Batista e não conhecem o Espírito Santo.

Paulo gentilmente os instrui sobre a relação entre o batismo de João e a fé em Jesus. Esses doze aceitam a fé, são batizados novamente, desta vez em nome de Jesus, e recebem o Espírito com a imposição de mãos de Paulo. O Espírito desperta neles o carisma de línguas e profecias.

Vós recebestes o Espírito Santo quando abraçastes a fé?” é a pergunta de São Paulo aos Éfesos. Na sequência há diálogo sobre o batismo praticado por João Batista e o batismo feito em nome de Jesus. O Espírito está ligado ao batismo feito em nome de Jesus e à fé. O batismo em nome de Jesus é que comunica o Espirito Santo, dom dos tempos messiânicos.

O batismo de João, o Batista, tem como objetivo a conversão que orienta para Jesus, o Messias prometido. Mas é preciso ter a experiência do Espirito Santo, pois sem o Espirito Santo ninguém dará conta da reviravolta histórica inaugurada por Jesus Cristo. Por esta razão, São Paulo faz a imposição das mãos para comunicar o Espirito Divino aos Éfesos. Com a imposição das mãos, por Paulo, revela-se o mistério do Espirito Santo. A mesma experiência (comunicação do Espirito através da imposição das mãos) aconteceu em Samaria feita por alguns Apóstolos (At 8,14-17) e na casa de Cornélio por Pedro. A experiência em Éfeso é o terceiro “Pentecostes” dos Atos dos Apóstolos. Esta experiência da imposição das mãos para comunicar o Espirito significa uma força de coesão e unificação eclesial. O agente principal que atua na Igreja é o Espirito de Deus. Quem recebe o Espirito Santo se torna um evangelizador e fará tudo dentro do Espirito de Deus e sempre fica aberto para a renovação e a inovação. Quem está com o Espírito Santo se torna um fator de unidade na comunidade e na convivência. O Espírito é santo porque consagra ou santifica a pessoa. É santificado para uma missão especifica de acordo com os dons do Espírito Santo para cada pessoa.

Como em Éfeso, também existem situações muito diferentes entre nós quando se trata de abordar a fé em Jesus. De todo o livro de Atos devemos aprender como ajudar cada pessoa, a partir de sua situação específica, e não de alguns tópicos gerais que estão apenas nos livros, para chegar a Jesus: os judeus da sinagoga, ou o eunuco que viaja para o seu pátria, ou os pensadores gregos do Areópago, ou as mulheres que vão rezar às margens do rio, ou as que já receberam o batismo de João.

A comunidade cristã tem que ter uma resposta amável para todos. Ela deve saber como encontrar a linguagem certa para todos, com base no que eles já conhecem e apreciam. Especificamente, Pablo nos dá um exemplo de adaptação criativa a todas as circunstâncias que encontra. Nesse caso, ele não condena o batismo de João, mas os conduz ao seu complemento natural, que é a fé em Jesus, o Messias anunciado pelo João Batista.

Nós deveríamos também evangelizar com esta pedagogia, respeitando em cada caso os tempos oportunos, não simplesmente desautorizando a situação em que cada pessoa se encontra, partindo dos valores já assimilados, e que certamente constituem um bom caminho para o Valor supremo que é Cristo. Como deveríamos ter feito na história, não destruindo, mas completando os valores culturais e religiosos que foram encontrados na América ou na África ou na Ásia.

Se assim o fizéssemos, o Espírito sublinharia, inclusive com carismas, como em Éfeso, esse caráter de universalidade e pedagogia pessoal. Porque é ele quem dá à sua comunidade tudo o que tem de vida, de imaginação e animação, evangelizando cada cultura e cada situação pessoal.

Com Jesus Venceremos o Mundo

O texto do evangelho se encontra no conjunto do discurso de despedida de Jesus dos seus discípulos no evangelho de João (Jo 13-17). A vida em si é formada de despedidas diárias. A despedida da noite para saudar o novo dia. A despedida de uma hora para a entrada de nova hora que está se despedindo também. A passagem de um dia para a entrada de novo dia que está terminando. A despedida de quem parte e a saudação de quem chega ou nasce. O choro de tristeza sobre quem partiu, e o choro de alegria pela chegada de quem acabou de nascer. Na nossa caminhada da existência há um começo e há um término; há saudação e há despedida. Há risos como há choros. Enquanto o trem da existência percorre o tempo, cada passageiro vai descendo no seu destino, e termina ai sua viagem. Toda viagem acarreta despedidas. As despedidas fazem parte de nossa trajetória, e vamos nos formando enquanto pessoas por meio de encontros e despedidas, de ganhos e de perdas. A vida na história tudo passa. Estamos sempre em despedidas ou em partidas. Charles Chaplin dizia: “A vida me ensinou a dizer adeus às pessoas que amo, sem tirá-las do meu coração”.

Geralmente quem estiver para partir temporariamente ou permanentemente sempre dá alguns conselhos, recomendações, alertas, forças para lutar pelo bem, pela comunhão, pela dignidade e assim por diante. Jesus também, ao ter consciência de sua partida iminente (morte), dá alguns conselhos aos seus discípulos para que eles possam continuar sua obra neste mundo. Jesus sabe que até para fazer o bem os discípulos terão que enfrentar as tribulações e todo tipo de dificuldades. Mas não há melhor exercício para ter e fortalecer o bom coração do que estender o braço para baixo e erguer as pessoas. A bondade é o único investimento que nunca falha.

“Eis, agora falas claramente e não usas mais figuras. 30 Agora sabemos que conheces tudo e que não precisas que alguém te interrogue. Por isto cremos que vieste da parte de Deus”, disseram os discípulos a Jesus. Com esta afirmação os discípulos perceberam que Jesus é aquele que sabe de Deus e O conhece e sabe da felicidade e da miséria dos homens e por isso, ele foi enviado para o mundo pelo Pai para salvá-lo por amor (Jo 3,16). O conhecimento de Deus e o conhecimento dos homens estão intimamente ligados entre si. Diante deste conhecimento revelador de Jesus, todas as perguntas dos discípulos se tornam supérfluos: “Agora sabemos que conheces tudo e que não precisas que alguém te interrogue. Por isto cremos que vieste da parte de Deus”. A clareza da revelação de Jesus é de tal ordem que responde às derradeiras perguntas do homem sobre Deus e sobre o próprio homem. Quem se aproximar desta revelação, quem se aproximar de Jesus e permanecer com Ele, todas as suas perguntas encontrarão suas respostas (cf. Jo 1,45; 4,29-30). A fé estabelece nosso relacionamento com Jesus e possibilita nosso conhecimento sobre Deus e o homem. O conhecimento de Deus e o conhecimento dos homens estão intimamente ligados entre si. Quem está em profunda comunhão com Deus, está também tão próximo dos homens para ajudá-los. Quem encontra Deus acaba encontrando os homens objeto do amor salvador de Deus.

“No mundo, tereis tribulações. Mas tende coragem! Eu venci o mundo!”. “Estar no mundo” e o “medo” estão entrelaçados. O medo é a marca fundamental do “estar no mundo” no contexto do evangelho de hoje. O medo aqui é o medo da morte. O medo que o homem tem é o medo da morte diante do nada que jamais pode ser descartado, pois o poder da morte está sempre presente na vida.

Mas, de outro lado, Jesus afirma: “Mas tende coragem! Eu venci o mundo” (Jo 16,33b). a coragem que Jesus espea de seus discípulos justifica-se por uma espantosa exclamação: “Eu sou vencedor do mundo!”. O verbo grego “eu venci” está no perfeito presente, sublinhando a caráter definitivo da vitória obtida por Jesus. Basta permanecer em Jesus não há nada que possa nos superar neste mundo. a palavra final será do Senhor ressuscitado.  Esta afirmação só é possível porque Jesus é o ressuscitado que venceu a morte. A ressurreição é a morte da própria morte. A vitória de Jesus sobre o mundo é a vitória sobre o poder da morte que impera no mundo. Esta vitória de Jesus sobre o mundo deve assegurar os discípulos o dom da paz no meio das lutas da evangelização e dos sofrimentos da perseguição. O cristão sabe que nenhum poder sobre a terra é absoluto. Não o foram os grandes impérios que se sucederam sem interrupção ao longo da história, não o serão tampouco os poderes atuais do mercado, da eficiência, do dinheiro, da técnica da globalização informática, tecnológica e econômica. Todos os poderes deste mundo estão submetidos ao poder de Deus, pois todos não passam a ser simples criaturas. Jamais podemos colocar o ouro e a prata acima do Criador.

São João traduzirá estas palavras de Jesus na sua Primeira Carta da seguinte forma: “Esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé” (1Jo 5,4b). A fé em Jesus já é uma participação da vitória de Jesus. Como Ressuscitado, Jesus é o Doador e o Distribuidor escatológico da vida. Ter fé significa estar com Deus e participar de sua vida. A fé liberta o homem da morte para a vida. Deus está sempre do nosso lado e por isso, podemos ter serenidade em tudo. Uma certeza nos acompanha: Cristo venceu o mundo. Se Cristo venceu o mundo, venceremos também com ele. A última palavra não é a fraqueza do homem, não é a prepotência do homem e sim a fidelidade do Senhor para conosco. No Senhor todos os nossos gritos, todos os nossos porquês, todas as nossas perguntas e interrogações serão acolhidos e colocados em outras perspectivas. A certeza de Deus vai ao nosso encontro sempre e em toda parte. Por isso, o autor da Carta aos Hebreus escreveu: “A fé é um modo de já possuir aquilo que se espera, é um meio de conhecer realidades que não se veem. Foi por causa da fé que os antigos foram aprovados por Deus. Pela fé, sabemos que a Palavra de Deus formou os mundos; foi assim que aquilo que vemos se originou de coisas invisíveis” (Hb 11,1-3).  A fé é como uma luz ou uma lanterna. A luz ou a lanterna não é acesa para ser olhada e sim para alguém ver o que ela ilumina.

No mundo tereis tribulações. Mas tende coragem! Eu venci o mundo” é a mensagem do Senhor para você hoje. Acredite nesta Palavra, pois é a Palavra de quem criou o universo e de quem venceu a morte: “Tudo foi feito por Ele, e sem Ele nada foi feito. N’Ele havia vida, e a vida era a luz dos homens. ... Era a verdadeira luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem” (Jo 1,3-4.9).

Sobre a importância da fé, Santo Agostinho dizia: “Deus, de Quem separar-se é morrer, a Quem retornar é ressuscitar, com Quem habitar é viver. Deus de Quem fugir é cair, a Quem voltar é levantar-se, em Quem apoiar-se é estar seguro. Deus, a Quem esquecer é morrer, a Quem buscar é viver, a Quem ver é possuir. Deus, a Quem a fé nos impele, a esperança nos aproxima e a caridade nos une(Solil. 1,1,3). Deus não se torna maior pelo conhecimento de quem O encontra, mas quem O encontra torna-se maior por ter conhecido a Deus(Serm. 117,2,3).

P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Ascensão Do Senhor, Ano "A", Domingo 17/05/2026

ASCENSÃO DO SENHOR AO CÉU, ANO "A"

Primeira Leitura: At 1,1-11

1 No meu primeiro livro, ó Teófilo, já tratei de tudo o que Jesus fez e ensinou, desde o começo, 2 até o dia em que foi levado para o céu, depois de ter dado instruções pelo Espírito Santo, aos apóstolos que tinha escolhido. 3 Foi a eles que Jesus se mostrou vivo, depois de sua paixão, com numerosas provas. Durante quarenta dias apareceu-lhes falando do Reino de Deus. 4 Durante uma refeição, deu-lhes esta ordem: “Não vos afasteis de Jerusalém, mas esperai a realização da promessa do Pai, da qual vós me ouvistes falar: 5 ‘João batizou com água; vós, porém, sereis batizados com o Espírito Santo, dentro de poucos dias’”. 6 Então os que estavam reunidos perguntaram a Jesus: “Senhor, é agora que vais restaurar o Reino de Israel?” 7 Jesus respondeu: “Não vos cabe saber os tempos e os momentos que o Pai determinou com sua própria autoridade. 8Mas recebereis o poder do Espírito Santo que descerá sobre vós, para serdes minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e na Samaria, e até os confins da terra”. 9 Depois de dizer isso, Jesus foi levado ao céu, à vista deles. Uma nuvem o encobriu, de forma que seus olhos não podiam mais vê-lo. 10 Os apóstolos continuavam olhando para o céu, enquanto Jesus subia. Apareceram então dois homens vestidos de branco, 11 que lhes disseram: “Homens da Galileia, por que ficais aqui parados, olhando para o céu? Esse Jesus que vos foi levado para o céu virá do mesmo modo como o vistes partir para o céu”.

Segunda Leitura: Ef 1,17-23

Irmãos: 17 O Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai a quem pertence a glória, vos dê um espírito de sabedoria que vo-lo revele e faça verdadeiramente conhecer. 18 Que ele abra o vosso coração à sua luz, para que saibais qual a esperança que o seu chamamento vos dá, qual a riqueza da glória que está na vossa herança com os santos, 19 e que imenso poder ele exerceu em favor de nós que cremos, de acordo com a sua ação e força onipotente. 20 Ele manifestou sua força em Cristo, quando o ressuscitou dos mortos e o fez sentar-se à sua direita nos céus, 21 bem acima de toda a autoridade, poder, potência, soberania, ou qualquer título que se possa mencionar, não somente neste mundo, mas ainda no mundo futuro. 22 Sim, ele pôs tudo sob seus pés e fez dele, que está acima de tudo, a Cabeça da Igreja, 23 que é o seu corpo, a plenitude daquele que possui a plenitude universal.

Evangelho: Mt 28,16-20

Naquele tempo, 16 os onze discípulos foram para a Galileia, ao monte que Jesus lhes tinha indicado. 17 Quando viram Jesus, prostraram-se diante dele. Ainda assim alguns duvidaram. 18 Então Jesus aproximou-se e falou: “Toda a autoridade me foi dada no céu e sobre a terra. 19 Portanto, ide e fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, 20 e ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei! Eis que estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo”.

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Certos teólogos e Padres da Igreja, baseando-se sobre Jo 20,19-23 (Tertuliano, Hipólito, Eusébio, Atanásio, Ambrósio e Jerônimo) concordam que a ascensão de Jesus acontece simultaneamente com a ressurreição. O dia da Páscoa, por isso, não é somente o dia da ressurreição, mas também o dia da ascensão. Esta ideia durou até o fim do século IV. Celebrava-se no assim chamado “Pentecostes”, que durava desde a Páscoa até o dia de Pentecostes, num período festivo de cinquenta dias, a ressurreição, a ascensão e a missão do Espírito Santo como um único mistério festivo. A Igreja primitiva tinha bastante consciência da unidade íntima da ressurreição, ascensão e missão do Espírito Santo. Só a partir do século V (ou no fim do século IV), baseia-se sobre o relato lucano, é que começou a existir uma festa da ascensão no quadragésimo dia após a Páscoa e Pentecostes separadamente como hoje temos costume de celebrar (para ter uma visão maior sobre esse assunto veja Gerhard Lohfink, A Ascensão de Jesus, Paulinas,1977).

A ressurreição, ascensão e pentecostes são vários aspectos do mistério pascal. Se eles são apresentados como momentos diferentes e celebrados como tais na liturgia, é para destacar o rico conteúdo da passagem de Cristo deste mundo para o Pai. A ressurreição ressalta a vitória de Cristo sobre a morte, ascensão, seu retorno ao Pai e a inauguração do reino, e Pentecostes, sua nova forma de presença na história. A Ascensão é apenas uma consequência da ressurreição, a tal ponto que a ressurreição é a verdadeira e real entrada de Jesus na glória. Através da ressurreição, Cristo entra definitivamente na glória do Pai.

Por isso, afirmar que Jesus “subiu ao céu(1Pd 3,22) ou “foi exaltado na glória(1Tm 3,16) é exatamente a mesma coisa que afirmar que ele “ressuscitou”, que foi glorificado, que entrou na glória de Deus. A Ascensão do Senhor não foi uma viagem interplanetária. Não houve nenhum deslocamento no espaço. A ascensão significa a caminhada de Jesus que vai da morte à glória do Pai, caminhada que para nós é invisível e incompreensível. Não é uma caminhada como as que conhecemos pela nossa experiência aqui na terra. Não se pode fixá-lo no tempo, nem medir sua distância, nem se pode dizer se vai nesta ou naquela direção. Tempo, distância, direção, tudo isso vale para as nossas caminhadas terrenas. A caminhada de Jesus até a glória do Pai realiza-se na ressurreição. A ascensão é um evento pascal. A única maneira de transformar a Ascensão em uma partida é entender completamente a diferença radical entre um "desaparecimento e uma partida. Uma partida resulta em uma ausência. Um desaparecimento inaugura uma presença oculta. Através da Ascensão, Cristo tornou-se invisível: Ele entra na participação da onipotência do Pai, foi totalmente glorificado, exaltado, espiritualizado em sua humanidade e, por isso, se encontra mais do que nunca em relação a cada um de nós.

A festa da Ascensão nos dá a oportunidade de reacender cada dia com nova luz a maior das certezas de nossa vida: Jesus está vivo e está conosco todos os dias com seu poder (Mt 28,20). Jesus não foi para um outro lugar, mas permanece na companhia de cada um de nós. Com a Ascensão a sua presença não ficou limitada, mas se multiplicou. Por isso, a nossa esperança não está perdida no espaço, mas baseia-se na confiança depositada na lealdade de um Deus, “o qual faz viver os mortos e chama à existência as coisas que não existem” (Rm 4,17). O Deus da vida é fiel aos homens. Se este é o destino de todo o homem, a morte já não inspira medo. Jesus a transformou num nascimento para a vida com Deus. Todo aquele que tem essa esperança não se deixa ficar olhando para o céu, como fizeram os apóstolos naquele dia, mas, ao contrário, traduz esta esperança em empenho e testemunho.

O Texto Do Evangelho e Seus Detalhes

1. A Narrativa Da Ascensão Se Situa Na Galileia.

Este dado nos remete ao começo da atividade de Jesus (Mt 4,12). O evangelista Mateus faz coincidir o lugar de começo da atividade da Igreja com o começo da atividade de Jesus. Este procedimento está ao serviço de uma intencionalidade precisa: unidade indisolúvel entre Jesus e sua Igreja. Todavia, há algo muito mais do que isso. Para Mateus, Galileia é algo mais do que um dado geográfico. Galileia  é o símbolo dos iludidos e sem horizontes. Ao iniciar sua atividade na Galileia, Jesus devolve a perspectiva (ilusão) e a esperança para o povo nesse lugar. Logo, segundo Mateus, a Igreja tem a mesma missão: devolver a esperança e a perspectiva (ilusão) para uma terra dos iludidos e sem horizontes.

2. “Toda A Autoridade Me Foi Dada No Céu E Sobre A Terra”.

São as primeiras palavras de Jesus no Evangelho de hoje (Mt 28,18b). Estas palavras são uma revelação. Com estas palavras Jesus declara que Ele é o cumprimento da profecia de Daniel (Dn 7,13-14). O poder de Deus é criativo e libertador.

O onipotente Messias não aspira fazer da comunidade humana universal o seu império. Ser discípulo é entrar em uma nova relação com o Pai, o Filho e o Espírito de Deus. Essa relação relativiza e está muito acima de todas as formas de convivência humana, sejam elas fascistas ou democráticas. Somente quem seguiu Mateus passo a passo desde o início poderá entender o que significa ser discípulo e que o mandato de Jesus não tem nada de propagandístico.

Este “domínio universal” do Senhor Ressuscitado é a raiz de onde brota a universalidade da missão. Todo o breve discurso de Jesus ressuscitado está dominado pela ideia de plenitude e universalidade. O adjetivo “todo” aparece quatro vezes no texto: todo o poder, todos os povos, todo o que foi ordenado, todos os dias. A ideia da missão universal estava também no Antigo Testamento, porém na ordem da espera (a missão universal era uma esperança reservada para o tempo messiânico). Aqui está na ordem do cumprimento (a missão universal é um fato).

3. A Missão De Fazer Discípulos:

“... ide e fazei discípulos meus todos os povos...”.

O fim da missão é “fazer discípulos” (Mt 28,19ª). A expressão é interessante; contém todo o significado que "discípulo" ("machetes") tem no evangelho (de Mateus). É talvez a definição mais sintética e correta da existência cristã: o cristão é um discípulo. Não se trata de oferecer uma mensagem, mas de estabelecer uma relação íntima com Cristo (Mestre); um relacionamento pessoal e acompanhamento. Os discípulos dos rabinos não colocavam em primeiro lugar o relacionamento pessoal com o mestre, mas a doutrina que o mestre ensinava. Não é assim no evangelho; o discípulo liga-se à pessoa do Mestre e compromete-se a partilhar o seu projeto de vida.

4. O Batismo e O Ensinamento Em Fazer Discípulos: O Batismo e o Ensinamento.

Ide e fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei! Eis que estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo”.

O Batismo em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo não é uma mera fórmula. A expressão grega “baptizein eis tò ónoma tou...” indica uma relação para com a pessoa nomeada pela qual o baizado entra na esfera de possessão e de proteção dela. É o único lugar no Novo Testamento onde aparece a fórmula trinitária no batismo. Em geral se fala do batismo “em nome de Jesus” (cf. Mt 6,3; Gl 3,27; 1Cor 10,2; At 2,38; 8,16; 10,48; 19,5).

batizando-os em nome de...”. O nome na Bíblia é muito mais do que designação acidental de alguém. O nome participa da honra e da própria intimidade do sujeito. O nome tem o poder da própria pessoa. O nome é a pessoa. Onde está o nome, aí está a pessoa. Onde “o nome de Deus é pronunciado sobre nós, Ele mesmo está no nosso meio” (cf. Jr 14,9).

A segunda (Ensinamento) é de particular importância no Evangelho de Mateus. Jesus se define como Mestre em polêmica com maus mestres, como os escribas e fariseus (Mt 5,19; 15,9). Somente em nossa passagem é dito que os discípulos devem, por sua vez, ensinar; mas eles não são mestres, mas permanecem como discípulos. Pode parecer paradoxal: discípulos e mestres simultaneamente. Eles não ensinam nada de si mesmos, mas apenas "tudo o que ele lhes ordenou". É um ensinamento com a mais absoluta fidelidade e dependência; nasceu da escuta.

5. Uma Presença  Divina Permanentemente.

Eis que estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo”, promete Jesus Ressuscitado. Com esta afirmação do Senhor, Mateus encerra seu evangelho. Trata-se de um final com surpresa: o Senhor Ressuscitado não se foi e sim que veio para permanecer com sua Igreja. A expressão “Emanuel”, “Deus Conosco” Mateu coloca no início (Mt 1,23), no meio (Mt 18,20) e no fim do seu evangelho (Mt 28,20). Deus está conosco e nós estamos com Deus diariamente. Quando, na história bíblica, Deus confia uma missão a alguém, assegura ao homem comprometido a sua assistência eficaz: Não tenhas medo, eu estarei contigo. Essa assistência é garantia de eficiência e incentivo à humilde audácia. Graças à promessa do Senhor de estar conosco até o fim do mundo, temos uma garantia lá no céu (ascensão) a carne que Ele tomou de nós (Jo 1,14) e aqui em baixo: o Espírito Santo que habita em nós. O Céu possui o Corpo Sagrado e a Terra recebeu o Espírito Santo ( cf. Jo 20,22).

Dentro do tema da presença permanente de Deus na vida dos cristãos, São Paulo faz três pedidos para a comunidade de Éfeso como também para todas as comunidades cristãs em qualquer lugar e tempo, que leomos na Segunda Leitura (Ef 1,17-23): Primeiro, a sabedoria para reconhecer a Deus todos os dias; segundo, a iluminação dos olhos do coração para conhecer sua herança; terceiro, a compreensão do poder de Deus agindo em Jesus, isto é, o poder de Deus que fez Jesus ressuscitar dentre os mortos e o fez assentar-se à sua direita nos céus, numa posição acima de qualquer outro nome. Cristo é a Cabeça da Igreja (Corpo de Cristo). A Igreja (Corpo de Cristo) depende absolutamente de Cristo (Cabeça) para sua existência. Por isso, a Igreja não existe para si mesma e sim para estabelecer a vontade de Deus na terra. (veja no. 7)

Outros Pontos De Nossa Reflexão Sobre A Festa Da Ascensão Do Senhor:

1. Enquanto o evangelista Lucas mostra Jesus caminhar quase constantemente até Jerusalém para culminar ali sua Páscoa, o evangelista Mateus faz o os discípulos de Jesus “sair” de Jerusalém para centrarem sua missão na Galileia que Jesus lhes confia. Com isso, o evangelista Mateus quer enfatizar que o Templo e a Cidade santa de Davi, Jerusalém, perderam seu significado e que somente Jesus é o Novo Templo, e que o Ressuscitado é o centro de tudo. 

2. “Homens da Galileia, por que ficais aqui parados, olhando para o céu? Esse Jesus que vos foi levado para o céu virá do mesmo modo como o vistes partir para o céu”. É o recado de dois anjos para os discípulos. “Por que ficais aqui parados, olhando para o céu?”. Há aqui uma forma de luta de Cristo contra a tentação que os discípulos experimentam na sua missão: omissão diante da realidade que necessita de uma recuperação. Submergir-se na realidade do mundo, anunciar o Reino, proclamar ao mundo Jesus Cristo como Ressuscitado é a missão dos discípulos. Nenhum cristão, nenhum discípulos do Senhor tem direito de tirar da fé seu caráter de comunicável. Mesmo que seja difícil o testemunho, ninguém pode iludir-se. Crer em Jesus Cristo é ter consciência de ser testemunha enviada pelo Senhor. A fé, ao ser vivida, se faz testemunho. Basta viver a fé, essa vivência se transforma em testemunho, mesmo que, quem a vive, não fale nenhuma palavra, mas o modo de viver de acordo com os ensinamentos de Jesus Cristo já é um grande testemunho.

O olhar que dirigimos ao mundo pode converter-se em chamamento. Nosso mundo de hoje é mais propenso ao lamento que ao compromisso, pois é mais fácil e simples queixar-se do que remediar algo. É mais fácil criticar de longe do que oferecer solução inserindo-se na realidade necessitada de um remédio.

Diante da tentação de ficar-se extasiado (como aconteceu também no monte Tabor durante a transfiguração), agora o mandato é premente: “Sereis minhas testemunhas” para que “ao nome de Jesus todo joelho se dobre nos céus, sobre a terra e debaixo da terra, e que toda língua proclame que o Senhor é Jesus Cristo para a glória de Deus Pai (Fl 2,10-11).

A celebração da Ascensão do Senhor urge-nos a passar da comodidade (comodismo) dos bons sentimentos à realidade dos fatos, mesmo chegando a complicar nossa vida por amor de Cristo e dos irmãos mais necessitados. Somente assim cumpriremos como discípulos de Jesus a tarefa de tornar real em nosso mundo Cristo, nossa esperança e salvação.

3. Jesus subiu aos céus e está sentado à direita de Deus, Pai Todo-poderoso: “Quando Eu for elevado da terra, atrairei todos a Mim” (Jo 12,32). A elevação na Cruz significa e anuncia a elevação na Ascensão ao céu. É seu começo. Jesus Cristo, o único Sacerdote da Aliança nova e eterna não “entrou num santuário feito por mão humana, réplica do verdadeiro, e sim no próprio céu, a fim de comparecer, agora, diante da face de Deus a nosso favor” (Hb 9,24).

4. Precisamos Adorar O Nosso Senhor E Mais Nada         

No encontro os discípulos reconheceram Cristo imediatamente e prostraram-se diante de Jesus para adorá-lo, demonstrando sua fé nele como Filho de Deus. 

A palavra “adoração” indica o gesto de submissão dos discípulos que se dispõem a escutar as ordens do Ressuscitado. Ao nascer Jesus foi adorado pelos magos (Mt 2,11), no ministério público ele foi adorado pelos próprios discípulos e enfermos, e na ascensão Jesus recebeu a mesma adoração dos discípulos (Mt 28,17). Ao prostrarem-se diante de Jesus, agora eles o adoram não somente como o Senhor dos elementos, mas também o Senhor deles e o Senhor do mundo. A adoração presta-se somente a uma divindade. E Jesus é Deus: “No princípio era o Verbo e o Verbo era Deus. E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,1.14).          

Neste mundo não faltam aqueles que se consideram “Senhores”, pois têm poder na mão, mas que são criaturas limitadas em todos os sentidos. E muitas vezes nós mesmos adoramos a estes senhores ou somos obrigados a adorá-los porque escondemos, por trás disso, algum interesse. Muitas vezes temos mais medo deles do que do próprio Deus que vai julgar todo mundo. A partir da linguagem bíblica e do sentido da palavra “adoração”, precisamos respeitar qualquer autoridade, mas não para adorá-la, pois a adoração presta-se apenas a uma divindade. Quando começarmos a adorar qualquer criatura, seremos idólatras e nossa vida vai cair no nada, pois aquele que está cheio de criatura está vazio de Deus, e aquele que está cheio de Deus porque está vazio de criatura. Será que esse mesmo Jesus continua sendo o Senhor de nossa vida e de nossas decisões e o ponto de referência de nossos atos? Ou adoramos outros deuses, outros senhores ou criaturas? 

5. O Poder de Jesus Sobre o Céu e a Terra                     

Jesus recebeu todo o poder no céu e sobre a terra. Ao falar do poder de Jesus que ele recebeu, devemos estar conscientes de que a verdadeira natureza do poder de Cristo, não é um exercício de dominação sobre os homens, mas como uma capacidade operativa de proclamar as exigências da vontade de Deus, de libertar os pecadores da escravidão do seu passado de culpa, de romper os grilhões dos prisioneiros das forças diabólicas da morte e da destruição, de denunciar as religiões feitas de hipocrisia e de interesse. Em outras palavras, é um poder de realizar o Reino de Deus no mundo.          

Existe um poder que destrói e existe também um poder que cria. O poder que cria dá vida, gozo e paz. É liberdade e não escravidão, vida e não morte, transformação e não coerção. O poder que cria restaura relacionamentos e concede dom da integridade a todos. O poder que cria é o poder que procede de Deus cuja marca é o amor. E o amor exige que o poder seja usado para o bem de todos. Em Cristo, o poder é usado para destruir o mal de forma que o amor possa redimir o bem. O poder que cria produz união. Para criar essa união é preciso ouvir juntos à voz do Senhor em nossos lares, em nossas igrejas, em nossos negócios, em nossas comunidades, em nossos encontros etc..          

Ao contrário disso, nada é mais perigoso do que o poder a serviço da arrogância. A arrogância nos faz pensar que estamos certos e os outros estão errados. O único que está certo é Jesus Cristo. O restante de nós precisa reconhecer suas próprias fraquezas e fragilidades e buscar aprender através da correção dos outros. Se não o fizermos, o poder pode conduzir pelo caminho de destruição. O poder destrutivo destrói relacionamentos, a confiança, o diálogo e a integridade. 

6. A Partir Da Ascensão Tudo Nesta Vida É Passageira 

Tudo o que acontece nesta terra é provisional: os fracassos, os sofrimentos, as tristeza e assim por diante. Também todas as alegrias que existem neste mundo são provisionais: os momentos que gostaríamos eternizar. Não existe lugar definitivo aqui neste mundo. O lugar definitivo não está aqui. Também nossos bens, tudo o que possuímos é provisional. Não poderemos levar nada conosco. Tudo o que não partilhamos com os outros perdemos. Tudo o que guardamos para nós somente, tudo o que intentamos conservar com nossas próprias forças, se desfazer em nossas mãos. Tudo o que conservamos com carinho, tudo o que consideramos mais valioso de nossa vida, o perderemos se não pusermos ao serviço dos irmãos: bens materiais, tempo, conhecimento. 

Nossa vida sobre a terra deve ser uma constante Ascensão, isto é, deve ser uma constante superação, um progresso, uma maduração. Viver é dar passos adiante, alcançar novas metas, aproximar-se da plenitude. As imagens que indicam as possibilidades da vida humana são a semente que cresce, o caminho a percorrer, a meta a ser alcançada. A vida é um projeto que se vai perfilando, mas que nunca se acaba. Para manter a esperança temos ter sempre presente a meta que queremos alcançar. Ao dizer que Jesus subiu aos céus ou foi levado ao céu, o texto bíblico quer nos dizer que a vida de Jesus alcançou a plenitude, pois ele sempre a viveu em função do bem, da bondade, do amor, da compaixão. A vida de Jesus foi uma vivida em Deus que se traduziu no amor sem limite ao ser humano, especialmente aos necessitados. 

7. Deus Está Conosco Todos Os Dias

Eis que estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo”. 

O evangelho de Mateus quer nos transmitir uma certeza de que Jesus é a presença permanente de Deus na vida da humanidade, na vida de cada um de nós. Através da certeza de que Deus está sempre conosco Mateus quer dizer para cada cristão que ninguém tem mais direito de dizer que está só ou solitário, pois Deus veio para ficar com cada um de nós para sempre. Deus nunca deixa de atuar em cada um de nós mesmo quando cada um se encontra no meio da escuridão das dúvidas, no meio das angústias e das provações. Precisamos ouvir no silêncio de nossas orações e meditações o que Jesus nos diz: Eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos” (Mt 28,20). E por nossa vez, devemos passar esta certeza aos demais através de nossa paciência e tranquilidade em encarar a vida e seus acontecimentos. O homem é portador de Deus. A presença divina no outro converte os direitos humanos em direitos divinos.

P. Vitus Gustama,svd

Terça-feira Da VII Semana Da Páscoa,19/05/2026

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