sábado, 30 de maio de 2026

Terça-feira Da IX Semana Comum, Ano Par, 02/06/2026

O HOMEM, CRIATURA DE DEUS, É A IMAGEM DO DEUS ABSOLUTO

Terça-Feira do IX Semana Comum

Primeira Leitura: 2Pd 3,12-15a.17-18

Caríssimos, 12 esperais com anseio a vinda do Dia de Deus, quando os céus em chama se vão derreter, e os elementos, consumidos pelo fogo, se fundirão? 13 O que nós esperamos, de acordo com a sua promessa, são novos céus e uma nova terra, onde habitará a justiça. 14 Caríssimos, vivendo nesta esperança, esforçai-vos para que ele vos encontre sem mancha e em paz. 15ª Considerai também como salvação a longanimidade de nosso Senhor. 17 Vós, portanto, bem-amados, sabendo disto com antecedência, precavei-vos, para não suceder que, levados pelo engano desses ímpios, percais a própria firmeza. 18 Antes procurai crescer na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A ele seja dada a glória, desde agora, até o dia da eternidade.

Evangelho: Mc 12,13-17

Naquele tempo, 13as autoridades mandaram alguns fariseus e alguns partidários de Herodes, para apanharem Jesus em alguma palavra. 14Quando chegaram, disseram a Jesus: “Mestre, sabemos que tu és verdadeiro, e não dás preferência a ninguém. Com efeito, tu não olhas para as aparências do homem, mas ensinas, com verdade, o caminho de Deus. Dize-nos: É lícito ou não pagar o imposto a César? Devemos pagar ou não?” 15Jesus percebeu a hipocrisia deles, e respondeu: “Por que me tentais? Trazei-me uma moeda para que eu a veja”. 16Eles levaram a moeda, e Jesus perguntou: “De quem é a figura e inscrição que estão nessa moeda?” Eles responderam: “De César”. 17Então Jesus disse: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. E eles ficaram admirados com Jesus.

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Viver o Presente Com Alegria Na Espera Da Vinda Gloriosa Do Senhor

Através do texto da Primeira Leitura o autor da Carta de Pedro nos convida a olharmos para o futuro vivendo bem o nosso hoje. “Caríssimos, esperais com anseio a vinda do Dia de Deus, quando os céus em chama se vão derreter, e os elementos, consumidos pelo fogo, se fundirão? O que nós esperamos, de acordo com a sua promessa, são novos céus e uma nova terra, onde habitará a justiça”. O cristão vive em uma tensão para o futuro na espera da vinda do Senhor. A vinda do Senhor, seja próxima ou distante, deve iluminar e dar sabedoria para nossa vida diária.

A linguagem do texto é apocalíptica: “Os céus em chama se vão derreter, e os elementos, consumidos pelo fogo, se fundirão”. Quando se passa do “dia dos homens” para o “Dia de Deus” é como se com fogo se destruísse uma cidade para construir outra nova. Não se passa deste mundo para o mundo de Deus em uma continuidade total. Segundo o autor da Carta não há que imaginar a eternidade como uma continuidade indefinida do tempo. Há uma ruptura.

Mas não podemos viver no pessimismo e sim otimismo, pois são apenas imagens que não devem ser tiradas em sentido material. Pelo contrário, deixemo-nos capturar pela extraordinária esperança que estas palavras sugerem: isto será para permitir o advento radical do mundo de Deus, o mundo da justiça, da beleza, do amor, da santidade. a vinda do mundo de Deus é a destruição total de toda injustiça, de toda feiura, de todo egoísmo, de todo mal!

Com efeito, os cristãos deveriam ser encontrados por Deus entre os primeiros em fazer crescer na terra essa justiça que será triunfante no mundo novo prometido por Deus: “O que nós esperamos, de acordo com a sua promessa, são novos céus e uma nova terra, onde habitará a justiça”. Para que tudo isso aconteça conforme a promessa devemos nos esforçar para viver sem mancha, para viver em paz, para viver em justiça sem nos deixar cair na mentira do mundo. Em resumo: “Procurai crescer na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo”. Se confiarmos plenamente nossa vida no Senhor, viveremos com alegria apesar das dificuldades que tem caráter passageiro.

Por isso, “Esforçai-vos para que Ele vos encontre sem mancha e em paz. Precavei-vos, para não suceder que, levados pelo engano desses ímpios, percais a própria firmeza. Procurai crescer na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo”, são conselhos e advertências do autor da Segunda Carta de São Pedro que lemos na Primeira Leitura de hoje.

Esta advertência é a consequência da vinda de Deus. Em outras palavras, o que devemos fazer como preparação para a vinda de Deus, embora o momento seja desconhecido, mas a própria vinda de Deus é certa? Quem espera a vinda de Deus deve viver uma vida sem mácula e irrepreensível, em paz. “Paz” neste contexto não se trata da tranquilidade do espirito e sim da salvação escatológica que agora já cabe ao batizado como fruto  da reconciliação com Deus por Jesus Cristo.

A Eucaristia que celebramos é alimento, luz e força para o caminho enquanto esperamos a gloriosa vinda de nosso Salvador, Jesus Cristo. Com o olhar posto na Páscoa de Jesus, vivamos com firmeza o nosso hoje apesar de seus desafios e dificuldades. Deus terá a última palavra sobre cada ser humano.

Nós Pertencemos Ao Senhor. Somos De Deus

Estamos no segundo episódio de choque entre as autoridades e Jesus (veja o primeiro em Mc 11,27-33). Estes dois choques têm a mesma ideia de fundo: indagar sobre a consciência que Jesus tem de si mesmo e de sua missão. Na resposta precedente, dada em forma de parábola (Mc 12,1-12), aparece sua consciência messiânica e, portanto, sua missão de libertador do povo. Mas como, de quem e de que Jesus liberta o povo?

No episódio do evangelho lido neste dia entram em ação alguns fariseus e herodianos (do partido de Herodes) enviados pelo Sinédrio que não pode pegar Jesus por causa do povo (medo do povo. O povo apesar de não ter cargo e de ser pobre causa medo nas autoridades por se tratar de uma maioria na sociedade.  A esse povo que os candidatos para o poder público “mendigar” voto de confiança). Esses dois grupos (fariseus e herodianos) já decidiram há muito tempo em eliminar Jesus (Mc 3,6). Agora querem apanhá-Lo “em alguma palavra”. A armadilha é essencialmente política, mas se disfarça, hipocritamente, de religiosidade e de adulação. Eles chamam Jesus de “Mestre”, algo insólito entre os fariseus e O definem como “verdadeiro” e que Jesus ensina o caminho de Deus.

Os fariseus e os herodianos apresentam a Jesus um problema ou um dilema aparentemente insolúvel: “Mestre, sabemos que tu és verdadeiro, e não dás preferência a ninguém. Com efeito, tu não olhas para as aparências do homem, mas ensinas, com verdade, o caminho de Deus. Dize-nos: É lícito ou não pagar o imposto a César? Devemos pagar ou não?”.

É lícito ou não pagar o imposto a César? Devemos pagar ou não?”. Todos odiavam os impostos pagos ao imperador pagão. Na época do nascimento de Jesus, uma rebelião contra o imposto foi chefiada por um galileu e foi esmagada cruelmente pelos romanos (cf. At 5,37).

Os fariseus e os herodianos lançam a pergunta a Jesus como uma cilada. Para eles, Jesus ficaria sem saída. Ou ele responde a favor do pagamento dos impostos e, com isso, ofende os sentimentos nacionalistas dos judeus. Ou Jesus se pronuncia contra o pagamento, abrindo-se, assim, para a acusação de rebelião contra Roma.

Jesus lhes pede a moeda para a imagem incisa na moeda. Na moeda estava incisa a imagem de Tibério com a coroa de laurel para indicar sua dignidade divina, e a inscrição: Tibério César, filho do divino Augusto. Olhando para a moeda, Jesus lhes pergunta: “De quem é a figura e inscrição que estão nessa moeda?” Os fariseus e os herodianos são obrigados a responder: “De César”. Eles mesmos estavam usando uma moeda romana, cunhada e posta em circulação pelo governo romano. Por meio de sua própria confissão, eles mostraram que estavam, de algum modo, debaixo do poder dos romanos; ou, então, aquele dinheiro romano não seria válido entre eles. Na realidade, eles usam a mesma moeda para vender e para comprar. Os fariseus e os herodianos tinham a moeda e a levavam ao Templo. Isto significa que eles profanaram o Templo com uma imagem de um pagão.

Mas o que interessa ao evangelista Marcos é outra coisa: o ensinamento de Jesus é o único que tem valor para a comunidade cristã. Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. Logicamente, o ensinamento está na segunda parte: “Devolva a César o que é de César”. Podem ser propriedade uma moeda e um território, mas cada homem é propriedade de Deus, feito a imagem de Deus.

Jesus relativiza o insolúvel problema introduzindo Deus no horizonte do problema: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus. Quando o ser humano conta com Deus, tudo tem sua solução. O surpreendente de Jesus é que quando introduz Deus Ele não faz discursos sobre Deus. Jesus simplesmente vive de Deus, fala com Ele, O presente e O sente. Para Jesus Deus é Alguém, e não algo. É Alguém com quem conta em quaisquer momentos. É Alguém com quem Jesus convive. “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30).

Devolva a Cesar o que é do César”, diz Jesus. Mas somente devolver o que é do César e não tudo o que o poder pretende com todo seu aparato coercitivo. Por isso, Jesus acrescenta: “Devolva a Deus o que é de Deus”. Isto significa que nem tudo é do César, ou seja, que o poder do Estado não é absoluto. Na linguagem política os limites do poder político radicam na soberania popular, no reconhecimento e na declaração dos direitos humanos. Na linguagem espiritual ou religiosa o que se enfatiza é que os poderes do Estado ou qualquer poder estão limitados pela soberania de Deus, pois Deus criou o homem a sua imagem e semelhança. Assim expressa o profeta Isaias do seguinte modo: “Eu sou Deus. Não há outro Deus fora de mim” (cf. Is 45,20-25). A existência de Deus, o Absoluto, é a negação de qualquer outro que se apresente como absoluto. Só há um Deus, o resto não é Deus.

Na verdade, aqui não há uma verdadeira oposição, baseada no Evangelho, entre o que é do César e o que é Deus. Dar ou devolver a Deus o que é lhe devido implica que seja dado a César o que somente lhe pertence. O Reino de Deus não se situa fora dos reinos terrestres que são assumidos por Deus em Jesus Cristo. Por isso, não se pode ser cristão autentico à margem das realidades. O cristão é chamado e enviado para ser o sal e a luz do mundo (cf. Mt 5,13-16) para que ninguém explore ninguém, pois todos são filhos do mesmo Pai. O cristão na vida política deve ser justo. A obediência cívica não pode estar em contradição com deveres com Deus. Jesus respeita a autonomia do poder político, mas ao mesmo tempo afirma implicitamente que as estruturas políticas, representadas neste caso pelo imperador romano, não podem nunca ser divinizadas. Somente Deus é Deus.

Às vezes podemos cair na tentação de pensar que o evangelho e a vida cristã se reduzem à mera vida espiritual. O evangelho de hoje nos mostra que não é assim. A vida do evangelho toca todas as áreas da vida, e entre elas a vida econômica e a da justiça. “Devolva a César o que é do César e a Deus o que é de Deus” é o princípio da justiça equitativa, que, todavia, está longe da justiça cristã. Pagar o que se deve são deveres elementares de justiça. A injustiça não cabe na vida do cristão. Devolvamos a cada um o que lhe é próprio e nossa vida se encherá de paz e de alegria. Podemos até ganhar na justiça humana. Mas precisamos estar conscientes de que ainda resta a justiça divina, como diz São Paulo: “Todos nós teremos de comparecer manifestamente perante o tribunal de Cristo, a fim de que cada um receba a retribuição do que tiver feito durante sua vida no corpo, seja para o bem, seja para o mal” (2Cor 5,10).

“Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. Com sua resposta, Jesus não põe Deus e o César no mesmo plano e muito menos considera como independentes ambas realidades. É idolatria colocar em pé de igualdade Deus e César, o Criador e as criaturas (César). O âmbito da criatura é limitado, pois a criatura está cheia de limitações. O Criador tem tudo sob seu domínio. Por isso, Jesus jamais se submetia aos tiranos deste mundo que são simplesmente criaturas limitadas cuja existência neste mundo tem seu fim. De certa forma, podemos dizer que somos “moedas” de Deus, pois somos imagem e semelhança de Deus.

P. Vitus Gustama,svd

Segunda-feira Da IX Semana Comum, 01/06/2026

EU PRECISO VIVER NO AMOR, POIS DEUS ME AMA ATÉ AS ÚLTIMAS CONSEQUÊNCIAS

Segunda-Feira da IX Semana Comum

Primeira Leitura: 2Pd 1,2-7

Caríssimos, 2 graça e paz vos sejam concedidas abundantemente, porque conheceis Deus e Jesus, nosso Senhor. 3 O seu divino poder nos deu tudo o que contribui para a vida e para a piedade, mediante o conhecimento daquele que, pela sua própria glória e virtude, nos chamou. 4 Por meio de tudo isso nos foram dadas as preciosas promessas, as maiores que há, a fim de que vos tornásseis participantes da natureza divina, depois de libertos da corrupção, da concupiscência no mundo. 5 Por isso mesmo, dedicai todo o esforço em juntar à vossa fé a virtude, à virtude o conhecimento, 6ª o conhecimento o autodomínio, ao autodomínio a perseverança, à perseverança a piedade, 7 à piedade o amor fraterno e ao amor fraterno, a caridade.

Evangelho: Mc 12,1-12

Naquele tempo, 1Jesus começou a falar aos sumos sacerdotes, mestres da Lei e anciãos, usando parábolas: “Um homem plantou uma vinha, cercou-a, fez um lagar e construiu uma torre de guarda. Depois arrendou a vinha a alguns agricultores, e viajou para longe. 2Na época da colheita, ele mandou um empregado aos agricultores para receber a sua parte dos frutos da vinha. 3Mas os agricultores pegaram o empregado, bateram nele, e o mandaram de volta sem nada. 4Então o dono mandou de novo mais um empregado. Os agricultores bateram na cabeça dele e o insultaram. 5Então o dono mandou ainda mais outro, e eles o mataram. Trataram da mesma maneira muitos outros, batendo em uns e matando outros.6Restava-lhe ainda alguém: seu filho querido. Por último, ele mandou o filho até os agricultores, pensando: ‘Eles respeitarão meu filho’. 7Mas aqueles agricultores disseram uns aos outros: ‘Esse é o herdeiro. Vamos matá-lo, e a herança será nossa’. 8Então agarraram o filho, o mataram, e o jogaram fora da vinha. 9Que fará o dono da vinha? Ele virá, destruirá os agricultores, e entregará a vinha a outros.10Por acaso, não lestes na Escritura: ‘A pedra que os construtores deixaram de lado tornou-se a pedra mais importante; 11isso foi feito pelo Senhor e é admirável aos nossos olhos’?” 12Então os chefes dos judeus procuraram prender Jesus, pois compreenderam que havia contado a parábola para eles. Porém, ficaram com medo da multidão e, por isso, deixaram Jesus e foram-se embora.

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Somos Chamados a Viver Na Graça e Na Paz de Deus

Voltamos a ler a Carta de são Pedro. Desta vez a Segunda Carta. Há uma unanimidade entre os estudiosos de que esta Segunda Carta não é atribuída a Pedro, Apóstolo. Há uma enorme diferença de estilo e de vocabulário com a Primeira Carta. Além disso, nesta Segunda Carta há o acentuado helenismo religioso e moral que a Carta respira. Por causa disso e de outros tantos argumentos conclui-se que o autor da carta devia ser um judeu-cristão com sólida formação helenística e bom conhecedor da vida e catequese de Pedro.

A Segunda Carta de são Pedro começa com a típica saudação de uma carta, que inclui remetente, destinatários e a fórmula de saudação: “Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo, aos que receberam, pela justiça de nosso Deus e Salvador Jesus Cristo uma fé de valor igual à nossa, Graça e paz vos sejam concedidas abundantemente, porque conheceis Deus e Jesus, nosso Senhor”.

Uma das saudações no início da celebração eucarística é esta: “A graça e a paz de Deus, nosso Pai, e de Jesus Cristo, nosso Senhor, estejam convosco”. A cada participante da celebração são desejadas a graça e a paz.

Graça e paz resumem os bens da salvação que são dadas ao cristão e que são lembradas nas nossas celebrações. O termo “graça” significa benefício absolutamente gratuito, livre e sem motivo (cf. Ex 33,19; 34,6; 33,12). Para cada cristão é desejada a graça, isto é, a benevolência de Deus. Na graça se encontra nossa identidade mais profunda, pois somos salvos pela benevolência de Deus. São Paulo escreveu: “Pela graça de Deus, sou o que sou” (1Cor 15,10). E esta benevolência nos torna novamente agradáveis a Deus: “O seu divino poder nos deu tudo o que contribui para a vida e para a piedade, mediante o conhecimento daquele que, pela sua própria glória e virtude, nos chamou (2Pd 1,3).  O Deus da Bíblia não só nos concede graça, mas Deus é graça (cf. Ex 33,19; 3,14). Deus existe para si e também existe para nós. Deus é graça.

São Pedro também deseja a paz. A palavra “paz” é uma tradução da palavra “Shalom” que é uma harmonia total com Deus, com o próximo, consigo próprio e com a natureza. É tudo de bom de nossa vida. A paz, “Shalom” é concedida para nós por Cristo em nova glória. Esta paz cria a ordem para nossa interioridade e a comunhão entre os homens. Onde há paz, há ordem. A ordem existe quando cada elemento ocupa seu lugar e desempenha seu próprio papel em prol do funcionamento da totalidade. A paz é a restauração daquela ordem que o homem perdeu pelo pecado. Viver em pecado é viver sem paz.

Esses dons, graça e paz, devem ser aumentados pelo conhecimento e a experiência que fazemos com Jesus Cristo. O convívio permanente com Jesus Cristo no amor aumenta graça e paz na nossa vida: “Graça e paz vos sejam concedidas abundantemente (se multiplicam), porque conheceis Deus e Jesus, nosso Senhor”. Alcançamos graça e paz pelo conhecimento daquele que nos chamou: Jesus Cristo.

O convívio permanente com Jesus Cristo nos coloca longe da corrupção do mundo: “Por meio de tudo isso nos foram dadas as preciosas promessas, as maiores que há, a fim de que vos tornásseis participantes da natureza divina, depois de libertos da corrupção, da concupiscência no mundo” (2Pd 1,4). Participar da natureza divina é participar da própria vida de Deus. À participação da natureza divina se opõe a corrupção, como à vida eterna se opõe a morte eterna, isto é, exclusão da salvação. Cai na corrupção quem cede à concupiscência: “Quem pretende ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus” (Tg 4,4). Quem procurar seguir sempre seus desejos, quem desejar bastar-se a si mesmo e ser independente de Deus, cairá na perdição e fica distante de Deus.

São Pedro, na Primeira Leitura de hoje, pede a todos o empenho para poder permanecer na graça e na paz: Dedicai todo o esforço em juntar à vossa fé a virtude, à virtude o conhecimento, o conhecimento o autodomínio, ao autodomínio a perseverança, à perseverança a piedade, à piedade o amor fraterno e ao amor fraterno, a caridade” (2Pd 1,6-7).

A fé plena é entrega de si mesmo à Palavra e à vontade de Deus. A fé é a raiz da vida cristã. Da fé brota a virtude. Virtude é uma disposição adquirida de fazer o bem. A virtude em si é o próprio bem. Virtude é o esforço para se portar bem. Tem virtude aquele que cumpre a vontade de Deus.

É preciso acrescentar o conhecimento à virtude. Conhecer não é apenas aprender intelectualmente, mas aprofundar-se no amor. O agir correto, o esforço de fazer o bem aumenta nosso conhecimento. Sob a luz divina enxergamos de modo diferente as coisas e os acontecimentos ao nosso redor e o seu sentido.

O conhecimento se alcança através da perseverança, isto é, a capacidade de resistir em função da meta a ser alcançada. Quem aprende a dominar-se, também tem capacidade de lutar até o fim. Os bens elevados somente podem ser alcançados pelo esforço e pela luta sustentados com ânimo forte.

Mas somente conseguirá honrar verdadeiramente Deus aquele que tem piedade, aquele que se mantém filho de Deus, aquele que se conserva firme no combate contra o prazer desordenado e contra as potências que se opõem a Deus.

Mas não basta ter piedade. É preciso acrescentar a caridade fraterna na piedade. A verdadeira caridade se comprova na caridade operosa, como o amor recíproco na comunidade, a solicitude para com os outros, na bondade silenciosa. Se amarmos os outros no espirito de Cristo, chegaremos à plenitude do amor semelhante ao amor que Deus possui. A caridade é o “vínculo da perfeição” (Cl 3,14), pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16).

Para ser recordado, isto é, para colocar outra vez no coração o conselho do autor da Segunda Carta de Pedro: “Dedicai todo o esforço em juntar à vossa fé a virtude, à virtude o conhecimento, o conhecimento o autodomínio, ao autodomínio a perseverança, à perseverança a piedade, à piedade o amor fraterno e ao amor fraterno, a caridade”. A fé é a raiz da vida cristã de onde brota a virtude. A fé é assentimento à verdade e a entrega a Deus que se revela. O que necessitamos estar consciente de que na fé a virtude, na virtude o conhecimento, no conhecimento a temperança, na temperança a paciência, na paciência a piedade, na piedade a fraternidade, na fraternidade a caridade.

Deus Nos Ama Incondicionalmente

O profeta Jeremias, Ezequiel, Isaias (especialmente Is 5,1-7) e os Salmos chamam Israel “a vinha do Senhor”. O Dono da vinha é Javé. Os vinhateiros representam os líderes religiosos, cuja responsabilidade era a de cultivar a fé do povo. Apesar de Israel ser infiel, Deus nunca deixou de ser fiel à Aliança. Os servos enviados eram todos os mensageiros que Deus tinha enviado a Israel para que todo o povo se convertesse. A rejeição e a matança recorda a maneira com que Israel tratava os mensageiros de Deus (cf. 2Cr 24,20-22; 36,15-16). Como o último recurso de amor, Deus enviou aquele que lhe restou: “O Filho amado”. Foi justamente este o título dado a Jesus pela Voz celestial, já duas vezes no evangelho (cf. Mc 1,11: no Batismo de Jesus; Mc 9,7: na Transfiguração). O Jesus de são Marcos mostra a sua consciência de ser O Filho Amado que o Pai enviou a Israel. E a Igreja/comunidade de Marcos, lendo a frase, reconhece em Jesus o Filho de Deus (Mc 1,1) a quem ela adora.

Notemos na parábola contada por Jesus a bondade especial de Deus para com a comunidade e a nação judaica. Deus plantou-os em uma excelência terra, tendo expulsado dali sete outras nações. Deus deixou de lado nações maiores e mais poderosas, a fim de mostrar favor para Israel.

A parábola que Jesus conta é introduzida perfeitamente nessa linha profética e serve para contestar às duas perguntas que as autoridades judeus fizeram a Jesus: “Com que autoridade fazes tudo isso? Quem te deu essa autoridade?”. Jesus contesta relatando com imagens toda a história de Seu povo e oferece também aos seus discípulos e, portanto, para todos os cristãos, a possibilidade de saber quem somos nós para Ele. Através desta parábola Jesus respondeu à primeira pergunta: “Com a autoridade do Servo de Deus, com a autoridade do Filho de Deus”. E para a segunda pergunta, Jesus respondeu através desta parábola: “Quem deu essa autoridade é o Dono da vinha, o Deus de Israel, que é meu Pai”.

O texto do evangelho deste dia nos diz: “Agora restava ainda alguém: o filho amado. Por último, então, enviou o filho aos agricultores, pensando: ‘A meu filho respeitarão’. Mas aqueles agricultores disseram uns aos outros: ‘Este é o herdeiro. Vamos matá-lo, e a herança será nossa’. Agarraram o filho, mataram e o lançaram fora da vinha” (Mc 12,6-8). 

Restava ainda alguém: o filho amado”. É uma expressão que nos desconcerta toda vez que a lemos e sobre a qual refletimos e meditamos. Parece que Deus fica à margem da pobreza. Resta apenas o próprio Filho. Mais nada! Por causa dos homens e por causa do Seu amor sem limites pelos homens Deus usa todos os recursos e todas as possibilidades. Os recursos se esgotaram. Agora resta apenas seu Filho. Deus é verdadeiramente o pobre por excelência, porque nos deu tudo. Até seu próprio Filho, o ultimo que restou. Significa que Deus nos toma a sério e deixa o campo livre para que atuemos com plena responsabilidade. Mas Deus é impotente diante da liberdade do homem. O homem é responsável pela sua própria escolha. No momento em que o homem não respeitar as regras e as placas da vida que apontam para sua plena realização e para a eternidade, ele perderá sua liberdade e cairá em uma série de prisões e escravidões.

Não há pai que entregue seu filho amado para os criminosos a fim de resgatar algo ou alguém. Deus é diferente, o Diferente por excelência. Ele entrega seu Filho amado como resgate a fim de o homem ficar livre do cativeiro da perdição e da maldição (cf. Mt 20,28; Mc 10,45; Gl 3,13; 1Tm 2,6). É muito difícil entender e compreender a atuação de Deus. Até o salmista faz esta pergunta retórica: “Quando olho para o teu céu, obra de tuas mãos, vejo a lua e as estrelas que criaste: Quem é o homem, para dele te lembrares, quem é o ser humano, para o visitares? Ó SENHOR, Senhor nosso, como é glorioso o teu nome em toda a terra!” (Sl 8, 4-5.10). Somente quando calarmos nossa mente, o nosso coração vai começar a compreender tudo que Deus faz por nós e vai haver uma adequada correspondência de nossa parte.

Jesus é verdadeiramente o último, o “eskatos”, da perspectiva de Deus.  Não é o último em relação ao tempo, não o último de uma série de intentos. O último quer dizer o definitivo, tudo. Depois do qual não fica mais nada. Agora Deus é verdadeiramente o pobre por excelência. Pobre porque deu tudo. Em sua incurável paixão pelos homens não ficou com nada, nem com o seu próprio Filho.

A conduta dos lavradores se julga durante a ausência do patrão. O patrão confia tudo nos lavradores e por isso, não precisa estar presente. O Deus da confiança é também o Deus da ausência. Mas há que compreender exatamente esta ausência. Não se trata nem de abandono, nem de evasão nem de deserção. É um sinal de amor. É um Deus que pretende atuar exclusivamente através do amor, pois este caminho é que leva o homem à sua plenitude, à eternidade. Cristo morreu perdoando o homem.

’ Este é o herdeiro. Vamos matá-lo, e a herança será nossa’. Agarraram o filho, mataram e o lançaram fora da vinha”. Deus não manda Seu Filho para a morte: Ele o ama incondicionalmente. Por outro lado, a morte é um mal, e o Deus da vida não pode querê-la. Por isso, quem mata ou assassina comete pecado; vai contra a vontade de Deus. O castigo não cai sobre a vinha e sim sobre os guardiões. A vinha do Senhor seguirá, mas será um novo Israel, um novo Povo de Deus, o verdadeiro templo de Deus (cf. 1Cor 3,16-17) que tem como centro Jesus Cristo. Jesus morto e recusado pelos sumos sacerdotes, os escribas, e os anciãos, e ressuscitado pelo Pai, se converte em fundamento de um novo povo que é, ao mesmo tempo, continuação do antigo: a vinha passa a outros. Antigo e novo coexistem. As primeiras comunidades cristãs estavam compostas principalmente por judeus, isto é, pelo resto fiel de Israel que acolheu Jesus como Messias e Filho de Deus e por muitos que provinham do mundo pagãos e formavam com, como o resto de Israel, o novo e definitivo povo de Deus. O novo é realmente, com Jesus, a casa do Pai para todos os povos. É uma das mensagens do evangelho deste dia.

Cada um precisa entrar no silêncio sagrado para meditar sobre o amor incondicional de Deus por cada um e a resposta de cada um diante desse amor. Será que sou ingrato diante do amor de Deus? Será que sou irresponsável na minha atuação como pessoa amada de Deus? Será que eu vivo de acordo com o amor com que Deus me ama? Será que sou capaz de dar tudo por amor?  De que maneira eu devo reagir diante dos mensageiros de Deus?

P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Solenidade Da Santíssima Trindade, Ano "A", Domingo, 31/05/2026

SANTÍSSIMA TRINDADE “A”

I Leitura: Êx 34,4b-6.8-9

Naqueles dias: 4bMoisés levantou-se, quando ainda era noite, e subiu ao monte Sinai, como o Senhor lhe havia mandado, levando consigo as duas tábuas de pedra. 5O Senhor desceu na nuvem e permaneceu com Moisés, e este invocou o nome do Senhor. 6Enquanto o Senhor passava diante dele, Moisés gritou: “Senhor, Senhor! Deus misericordioso e clemente, paciente, rico em bondade e fiel”. 8Imediatamente, Moisés curvou-se até o chão 9e, prostrado por terra, disse: “Senhor, se é verdade que gozo de teu favor, peço-te, caminha conosco; embora este seja um povo de cabeça dura, perdoa nossas culpas e nossos pecados e acolhe-nos como propriedade tua”.

II Leitura: 2Cor 13,11-13

11Irmãos: Alegrai-vos, trabalhai no vosso aperfeiçoamento, encorajai-vos, cultivai a concórdia, vivei em paz, e o Deus do amor e da paz estará convosco. 12Saudai-vos uns aos outros com o beijo santo. Todos os santos vos saúdam. 13A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós.

 Evangelho: Jo 3,16-18

16Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna. 17De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele. 18Quem nele crê, não é condenado, mas quem não crê, já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho unigênito.                                            

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Crer No Deus Uno e Trino

O Novo Testamento aceita sem discussão a revelação do monoteísmo que Deus é único (Mc 12,29; Jo 17,3; Gl 3,20; Ef 4,6; 1Tm 2,5). E nós acreditamos em um só Deus. Que Deus é um e único, não há dúvidas.         

Mas não basta crer em um e único Deus. Devemos perguntar de que jeito vive Deus, para podermos questionar a nós mesmos, sobre de que jeito também nós vivemos e convivemos como cristãos. Deus vive do jeito trinitário. Pai Criador, Filho Redentor e Espírito Santo Fortificador se manifestam como a Santíssima Trindade. Na comunhão divina evidencia-se o  modelo para a comunhão na comunidade. Na convivência harmoniosa da Trindade encontra-se o modelo de como os relacionamentos nas comunidades cristãs devem ser construídos. Por isso, cremos que Deus é único, mas não é solidão ou solitário, é comunhão. Crer na Santíssima Trindade significa que a verdade está do lado da comunhão e não da exclusão. Isto implica que tudo se relaciona com tudo. É uma inclusão no relacionamento e na convivência. E por ser central para a nossa vida, a Santíssima Trindade é continuamente invocada em toda a liturgia e em todas as nossas orações. Fomos batizados e a futura geração da Igreja será batizada em nome da Santíssima Trindade. Os nossos pecados são perdoados no sacramento da reconciliação em nome da Santíssima Trindade. E ao começarmos e terminarmos a missa/celebração litúrgica e muitas orações nossas diariamente, inclusive as orações presidenciais da missa, nós invocamos a presença da Santíssima Trindade. E a primeira oração que aprendemos quando éramos criancinhas e que passamos também para outra geração é o sinal da cruz, invocando a presença da Santíssima Trindade. Nossa vida diária é realmente cercada pela Santíssima Trindade. A nossa vida é uma liturgia: ao iniciarmos a vida, fomos batizados em nome da Santíssima Trindade e ao terminarmos a nossa caminhada terrena, mais uma vez, a presença da Santíssima Trindade é invocada: a nossa vida se entrega de volta para a comunhão eterna com a Santíssima Trindade.          

A presença da Santíssima Trindade em todos os momentos de nossa vida nos leva a uma vida serena, pois, na verdade, há alguém que nos envolve, nos abraça e nos cerca por todos os lados e nos ama de verdade. Ninguém nos conhece melhor como Ele nos conhece, pois Ele nos conhece e penetra lá no fundo de nosso coração. Não só isso, também Ele conhece todos os segredos, todos os mistérios e todos os caminhos. N’Ele encontramos respostas para todas as nossas interrogações. Ele é realmente um útero infinito e a última ternura onde todos nós podemos nos refugiar. Com Ele ninguém se sente só, pois Ele é eternamente aberto para nós.          

Quem revela a Santíssima Trindade para nós? É Jesus Cristo. Jesus Cristo é o revelador do mistério da Santíssima Trindade em Deus, como relata o texto de hoje (Pai, Filho e Paráclito). Ele é o verdadeiro autor de uma primeira teologia trinitária. Por meio dele o Pai revelou o que necessitamos saber para nossa salvação; e não haverá outra revelação pública.        

O trecho do Evangelho lido neste domingo pertence ao complexo literário conhecido, em geral, como o “Diálogo com Nicodemos” (cf. Jo 3,1-21). Jo 3,1-21 podemos dividir em três partes: vv.1-3 falam do reconhecimento da autoridade de Jesus, graças a suas obras. O essencial é aceitá-lo como o enviado, como o revelador do Pai, procedente do mundo “de cima”; vv.4-8 falam do novo nascimento. Jesus só pode ser entendido se for nascido “do alto/de cima”. A partir da “carne” (possibilidades da mente humana) não é possível a compreensão de Jesus nem a entrada no Reino de Deus. O novo nascimento é obra do Espírito e do batismo. Sem eles não há salvação nem vida, nem possibilidade de entrar no reino. A única possibilidade de acesso ao mistério cristão é a abertura à fé e à ação do Espírito; e vv. 9-21 se centram na descrição do acontecimento salvífico. A iniciativa procede de Deus, se realiza por meio do Filho que veio do Pai e volta a Ele através da cruz- exaltação. O homem deve tomar uma decisão: ou aceitar o Enviado de Deus ou recusá-lo. E o nosso texto se encontra nesta terceira parte. Limitaremos nossa reflexão somente sobre o texto apresentado como o evangelho deste domingo (Jo 3,16-18). 

O Nosso Deus É Um Deus Apaixonado Pelo Homem         

O texto começa com estas palavras: “Deus amou tanto o mundo que deu seu Filho unigênito, para que todo aquele que crer nele não se perca, mas tenha a vida eterna” (v.16). Deus, em quem acreditamos, não é somente o Criador dos céus e da terra e o princípio de todas as coisas. Mais do que isso, Ele é o Deus que decidiu nos amar incondicionalmente até o fim (Jo 3,16; 13,1). O amor de Deus está cima de toda e qualquer fronteira. Trata-se de um amor que não se economiza.

O amor de Deus é tão incompreensível e tão apaixonado pelo mundo afastado de Deus que lhe entregou o seu Filho unigênito para que seja salvo. Para o cristianismo primitivo esse modo de falar se relaciona sempre com a cruz (cf. Rm 8,32) que implicitamente se mencionou no v. 14. O amor de Deus não tem limites; ele engloba toda a humanidade. Nenhum sacrifício foi tão grande do que o de Deus: o melhor que Deus tinha para dar, ele deu, seu único Filho, tão amado (cf. 1 Jo 4,7-10). O amor autêntico sempre leva a dar, e, sobretudo, a dar-se a si mesmo. Ele foi dado não só para um grupo ou povo, mas para todos os que põem fé nele, para que eles possam ser resgatados da destruição e abençoados com a vida verdadeira. Se duvidarmos do amor de Deus por nós, recordemos este texto de São João que hoje lemos.           

Uma vez que o amor é o único princípio de vida definitiva, para recebê-lo é preciso dar adesão a Jesus, modelo de amor até ao extremo (Jo 13,1.34). O que Deus pede do homem é somente acreditar no seu Filho amado. E isso não custa nada. Certamente, o objeto da fé, segundo o evangelista João, é um Deus que nos ama. O que custa muito é não acreditar nele; o preço será muito alto. Mais adiante falaremos sobre o juízo/julgamento segundo o quarto Evangelho.     

Deus ama porque ele é amor (1Jo 4,8.16). Até Santo Agostinho chega a dizer que toda a Bíblia (do Gênesis até o Apocalipse) nada mais faz do que “narrar o amor de Deus”. O amor de Deus é a última resposta para todos os “porquês” da Bíblia. Se faz-se a pergunta: por que Deus criou tudo de bom, por que ele se encarnou e por que quis/quer salvar? A única resposta é amor. Tudo quanto Deus faz e fala na Bíblia é amor. O filósofo S. Kierkegaard, impressionado por amor de Deus, diz: “Não importa saber se Deus existe; importa saber que é amor”. E a Bíblia nos dá a garantia disso mesmo: que Deus é amor. Se Deus é amor, então o amor é a essência/origem da realidade, motivo da salvação, meio da comunhão, fonte da atividade, critério da vida e o critério definitivo do juízo. Sobre o amor é que seremos julgados. Se um dia formos condenados, não será por termos amado demais, mas por termos amado de menos. O homem morre, por isso, não quando deixa de viver, mas quando deixa de amar.          

Se realmente nos sabemos amados por Deus, cedo ou tarde chegaremos a amá-lo. Saber que Deus nos ama, nos torna capazes de amar-nos e nos torna perfeitamente dóceis e obedientes ao menor sinal da vontade de Deus e começaremos também a aceitar os outros tal como eles são. No mundo de hoje há mais fome de amor do que do pão. São Bernardo dizia: “porque somos amados, amamos, e porque amamos, nos tornamos dignos de mais amor” (Carta 107,8). Nós nos amamos tal como somos, porque a fé nos convenceu de que Deus nos ama assim. A fé no amor de Deus nos liberta de toda pressão interior e com isso nos leva a um compromisso total.          

O amor de Deus dirige-se, em primeiro lugar “ao mundo” (v.16). Para João, dependendo do seu contexto, “o mundo” pode designar simplesmente o mundo físico/o universo (Jo 17,5.24), os homens em seu conjunto, ou os homens na medida em que eles se opõem à luz divina(cf. Jo 7,7;14,17.27.30;15,18-19;16,8.11.33;17,9.14-16.25). “O mundo” no nosso texto refere-se ao gênero humano de maneira global. “O mundo” se encontra numa situação de decadência. Por si, ele não é capaz de salvar-se. Quem pode salvá-lo é somente o amor de Deus, e por isso ele enviou seu Filho amado para salvá-lo. Em outras palavras, o mundo- humanidade é o objeto do amor de Deus e destinatário da missão do Filho (Jo 3,17;10,36;16,28;17,18; 18,20.37), que consiste, negativamente, em libertá-lo do pecado(Jo 1,29). O plano salvífico de Deus para o homem, que pela cruz de Jesus alcança na fé a vida eterna, tem seu fundamento último no amor imenso de Deus para sua criatura (veja i Jo 4,9; Rm 5,8-10). 

Um Deus Que É Amor Quer Que Vivamos Como Irmãos 

         Deus amou tanto o mundo que entregou seu Filho único, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16).        

Através deste texto sabemos que o Deus cristão que se manifesta em Jesus de Nazaré é um Deus que não quer julgar, que não ameaça, que não condena. É um Deus que somente é Pai, que somente é vida, que somente é amor (cf. 1Jo 4,8.16). Deus não impõe a salvação, somente a oferece através de Jesus Cristo, porque a salvação é efeito de seu amor. E o amor respeita sempre a liberdade da pessoa humana. No uso soberano dessa liberdade, o homem pode aceitar ou recusar a salvação que o Pai lhe oferece. Esta é a primeira qualidade de Deus que nós cristãos temos que ter em conta quando queremos falar de nosso Deus. Deus é amor. Seu amor é infinito, sem medida. É um amor que tem uma finalidade clara: a salvação dos homens. É uma salvação que não é somente uma promessa para a vida futura, mas é também uma possibilidade de chegar a ser filhos, a possibilidade de converter este mundo em um mundo de irmãos.        

Os filhos desse Deus, que é amor, devem sempre querer o bem dos outros independentemente de seus atos contra eles. O cristão é sempre convidado a fazer uma passagem do amor afetivo, cujo campo é limitado para as pessoas queridas ou as da mesma família, para o amor efetivo que sempre quer o bem do outro fora deste círculo. É fazer circular o bem além dos limites familiares e dos limites de pessoas queridas. Não podemos ter uma autêntica experiência religiosa a não ser a partir da ótica de amor. Quem não ama, diz a carta de São João, não pode dizer que conhece a Deus. Nós conhecemos a Deus e o reconhecemos como Pai, quando conhecemos e reconhecemos aos demais homens como irmãos. Na experiência da fraternidade, da amizade, da comunidade, sentimos a presença do Espírito de amor que nos impulsiona a nos sentirmos irmãos de Cristo, filhos de Deus nele. Quando a vida de um cristão se constrói sobre o egoísmo, ele não pode invocar a Deus de amor em seu favor. O encontro do homem com Deus é impossível se está separado do encontro do homem com o homem no amor. Somente vivemos se convivemos, porque somos imagem do Deus trino, comunidade de amor. Se o homem aceitar a dimensão da fraternidade e da igualdade na convivência com os demais, ele será irmão dos outros e filho de Deus de amor. Se recusar esta dimensão, ele será uma pessoa egoísta e insensível aos problemas da justiça. Não é a inteligência que nos faz pessoas e humanos, mas a relação de amor.

O Juízo No Quarto Evangelho          

O amor jamais condena, o amor sempre salva. Deus é é o modelo mais completo de doação. Deus nos ama através de seu Filho (Jo 3,16), para que nós também sejamos amados. A doação do amor de Deus se multiplica em todos aqueles e aquelas que acreditam em Jesus 

Deus mantém a sua oferta de amor, vida e salvação embora com o risco do desprezo do homem, cuja liberdade Deus respeita, inclusivamente na opção pelo pecado. O pecado é uma ruptura da aliança de amor com Deus; é uma escolha das trevas. Qual consequência de tudo isso?      

Quem crê nele não é julgado; quem não crê, já está julgado” (v.18). O juízo (krisis, em grego) indica, como implica a própria etimologia do termo grego, um processo de separação e de discriminação. Em alguns textos, “julgar” e “juízo” significam “discernir” ou “fazer justiça” (cf. Jo 9,39). Mas, na maioria, prevalece o aspecto negativo, a condenação (cf. Jo 3,17-18;12,47).          

Segundo a fé tradicional, o juízo/julgamento pertence ao futuro (juízo final). Enquanto o quarto Evangelho acentua a atualidade do juízo. É a opção presente pró ou contra à luz divina. Segundo o evangelista João, o homem não deve esperar por um juízo final. Ele deve decidir sua salvação aqui e agora. A responsabilidade pela autocondenação do homem não pode ser colocada sobre “o Salvador do mundo” (Jo 4,42;1Jo 4,14). Se Jesus veio para que aqueles que nele creem não morram, como os que rejeitam seu presente de vida podem evitar a morte? A Escritura em nenhum lugar sugere que todos devem ser salvos, queiram ou não; fica implícito que aqueles que insistem em dar as costas à salvação de Deus, serão privados dela. A pessoa que despreza Cristo, ou o considera indigno de sua confiança, julga a si mesmo, não a Cristo. Ele não precisa esperar até o dia do julgamento final (conforme a fé tradicional); o veredicto sobre ele já foi pronunciado. Se seguir a fé tradicional que afirma o julgamento final, a partir do quarto evangelho, ele servirá somente para confirmar o julgamento já decidido. Mas para aqueles que acreditam em Jesus, não há esta condenação. Ao contrário, eles se tornam filhos de Deus (Jo 1,12).   

Em última análise o que decide é a responsabilidade pessoal, isto é, a aceitação ou a rejeição de Cristo pela fé ou pela incredulidade, pela luz ou pela trevas, pela verdade ou pela mentira, pelo amor ou pelo egoísmo.          

O que nos salva é o amor de Deus precedeu nosso amor por ele. Mas pelo fato de eu ser amado por amor apaixonado de Deus, eu não posso fechar-me em mim mesmo. O amor chama o amado a se abrir aos outros. Neste sentido, mais do que sentimento ou emoção, o amor é um compromisso. Por amor que Jesus veio ao mundo para nos salvar até ao extremo desse amor: a morte na cruz. Madre Teresa de Calcutá disse: “Ao olharmos para a cruz de Jesus, sabemos como ele nos amou. Ao participarmos e olharmos para a eucaristia, sabemos como Jesus nos ama”. Sozinho o amor pode melhorar o mundo.

P. Vitus Gustama,SVD

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Sábado Da VIII Semana Comum, Ano Par, 30/05/2026

A AUTORIDADE DE JESUS DIANTE DOS ADVERSÁRIO

Sábado Da VIII Semana Comum

Primeira Leitura: Judas 17.20b-25

17 Vós, porém, amados, lembrai-vos das palavras preditas pelos apóstolos de nosso Senhor Jesus Cristo. 20b Edificai-vos sobre o fundamento da vossa santíssima fé e rezai, no Santo Espírito, 21 de modo que vos mantenhais no amor de Deus, esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, para a vida eterna. 22 E a uns, que estão com dúvidas, deveis tratar com piedade. 23 A outros, deveis salvá-los arrancando-os do fogo. De outros ainda deveis ter piedade, mas com temor, aborrecendo a própria veste manchada pela carne... 24 Àquele que é capaz de guardar-vos da queda e de apresentar-vos perante a sua glória irrepreensíveis e jubilosos, 25 ao único Deus, nosso Salvador, por Jesus Cristo, nosso Senhor: glória, majestade, poder e domínio, desde antes de todos os séculos, e agora, e por todos os séculos. Amém.

Evangelho: Mc 11,27-33

Naquele tempo, 27 Jesus e os discípulos foram de novo a Jerusalém. Enquanto Jesus estava andando no Templo, os sumos sacerdotes, os mestres da Lei e os anciãos aproximaram-se dele e perguntaram: 28 "Com que autoridade fazes essas coisas? Quem te deu autoridade para fazer isso?" 29 Jesus respondeu: "Vou fazer-vos uma só pergunta. Se me responderdes, eu vos direi com que autoridade faço isso. 30 O batismo de João vinha do céu ou dos homens? Respondei-me". 31 Eles discutiam entre si: "Se respondermos que vinha do céu, ele vai dizer: 'Por que não acreditastes em João?' 32 Devemos então dizer que vinha dos homens?" Mas eles tinham medo da multidão, porque todos, de fato, tinham João na qualidade de profeta. 33 Então eles responderam a Jesus: "Não sabemos". E Jesus disse: "Pois eu também não vos digo com que autoridade faço essas coisas".

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Somos Chamados a Estar Vigilantes Diante Dos Falsos Doutrinas

Hoje lemos na Primeira Leitura um dos escritos mais breves do Novo Testamento: a Carta de São Judas. Carta de São Judas tem apenas 25 versículos. Não sabemos com segurança quem é seu autor. Não parece ser o apóstolo são Judas. Talvez seja Judas, o irmão de são Tiago e portanto, primo de Jesus, que sucedeu são Tiago como responsável da comunidade de Jerusalém. Seguramente pertence ao tempo imediatamente depois dos apóstolos.

Nesta pequena Carta são Judas adverte a todos para não seguirem ensinamentos falsos e inaceitáveis, pois capazes de criar divisão dentro da própria comunidade. Segundo o autor dessa Carta, aqueles que seguem as doutrinas falsas e inaceitáveis são comparados com “os anjos caídos”, “nuvens sem água que os ventos levam”, “arvores sem frutos” (cf. vv. 11-13). Além disso, nessa Carta, o autor encoraja os leitores para não terem medo diante das dificuldades e desafios, pois Deus vai guardar Seus fieis (v. 24). É preciso ter fé em Deus (v.20). Mas, ao mesmo tempo, o autor pede que andemos pelo caminho de indulgência: “Vocês, porém, amados, construam sobre o alicerce da santíssima fé que vocês têm; rezem movidos pelo Espírito Santo; mantenham-se no amor de Deus, esperando que a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo lhes dê a vida eterna. Procurem convencer os vacilantes: salvem a uns, arrancando-os do fogo; tenham compaixão de outros, mas com temor. Detestem até a roupa contaminada pelos instintos egoístas dos ímpios..." (vv. 20-23).

Lemos os versículos finais, em que o autor anima os cristãos a manter-se fieis em sua fé, sem fazer caso dos desvios. Por uma parte, vê-se claramente que fala das três pessoas da Trindade: “Movidos pelo Espírito Santo; mantenham-se no amor de Deus, esperando que a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo lhes dê a vida eterna”. Também parece como se quisesse reunir num mesmo programa de vida as três virtudes teologais: “Construam sobre o alicerce da santíssima que vocês têm. ... mantenham-se no amor de Deus, esperando que a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo lhes dê a vida eterna”.

Cada geração cristã necessita permanecer alerta diante dos falsos mestres e dos movimentos que não vem do Espirito de Deus. Por isso, é preciso manter-se vigilante e exercer com sabedoria o oportuno discernimento, guiado pelo magistério dos que Cristo pus como pastores e responsáveis na comunidade. O próprio Jesus nos alerta na conclusão do Sermão da Montanha com as seguintes palavras: “Guardai-vos dos falsos profetas. Eles vêm a vós disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos arrebatadores. Pelos seus frutos os conhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos espinhos e figos dos abrolhos? Toda árvore boa dá bons frutos; toda árvore má dá maus frutos. Uma árvore boa não pode dar maus frutos; nem uma árvore má, bons frutos. Toda árvore que não der bons frutos será cortada e lançada ao fogo. Pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7, 15-20).

Faremos bem em escutar são Judas em seu dinâmico programa: continuar edificando solidamente a fé, manter o amor, deixar-nos ganhar pela esperança, apioar-nos em Deus que é “Aquele que é capaz de guardar-vos da queda e de apresentar-vos perante a sua glória irrepreensíveis e jubilosos”. E em tempos que corremos, tão difíceis como os primeiros, temos que nos ajudar mutuamente, apoiando-nos diante das dificuldades por amor.

Jesus Vive e Fala Com Autoridade

A cena do evangelho de hoje é continuação da do texto anterior em que Jesus fez um gesto profético ao expulsar os mercadores e cambistas do Templo. Diante desse gesto profético os três poderes: o poder religioso (Sumos sacerdotes), o poder ideológico (mestres da Lei) e o poder econômico (os anciãos) lançam a seguinte pergunta: “Com que autoridade fazes essas coisas? Quem te deu autoridade para fazer isso?".

Jesus, com suas obras e com sua palavra, já havia respondido a esta pergunta. Ele já havia demonstrado ter uma autoridade superior à dos mestres habituais (Mc 1,21-28) e uma autoridade de origem divina, como corresponde ao Filho do Homem (Mc 2,1-12.27).

As autoridades pedem conta a Jesus de sua autoridade (exousía): “Com que autoridade fazes essas coisas? Quem te deu autoridade para fazer isso?". Ou seja, “Quem te deu autoridade para fazer tais coisas?”. A pergunta das autoridades nos leva ao ínício do Evangelho de Marcos, quando aqueles que encontravam com Jesus, Lhe viam e escutavam: “Estavam espantados com o seu ensinamento, pois Ele os ensinava como quem tem autoridade (exousía) e não como os escribas” (Mc 1,22). Por isso, perguntavam-se espontaneamente: “Que é isto? Um novo ensinamento com autoridade!” (Mc 1,27). Os chefes religiosos não suportam que um simples rabino (Jesus), não formado nas escolas tradicionais, que procede, além disso, da escura Galileia (Mt 4,16), seja admirado e amado pelo povo. Por isso, acusam Jesus de receber seu poder de Satanás (Mc 3,22); depois pretendem que lhes dê um sinal do céu (Mc 8,11); por último, aqui, interrogam-Lhe diretamente, pedindo-Lhe que apresente seus credenciais. É uma ironia, pois umas autoridades que carecem de autoridade pedem a Jesus contas da autoridade que eles não a têm.

A cena do evangelho de hoje é singular, pois Jesus Cristo responde a uma pergunta com outra pergunta. "Com que autoridade fazes essas coisas? Quem te deu autoridade para fazer isso?", perguntam os adversários de Jesus. Ao que Jesus responde com outra pergunta: “O batismo de João vinha do céu ou dos homens? Respondei-me". Jesus não lhes pergunta qualquer coisa; Ele lhes pergunta por João Batista.

O caso-João é fundamental. Com efeito, Jesus se sente na linha com a missão de seu Precursor (João Batista). Porém, para afrontar bem a questão, é necessário fazer uma distinção sobre o conceito de “autoridade”. Trtata-se de “autoridade humana” ou de “autoridade divina”? É João um verdadeiro enviado de Deus ou atuou por iniciativa própria? Esta é a questão e Jesus lhes diz que quem é João Batista para eles?

Os adversários de Jesus estão ali não para buscar a verdade sobre Jesus e sim para procurar alguma armadilha a fim de eliminá-Lo. Portanto, a atuação dos adversários de Jesus está na linha da falsidade. Mc quer mostrar aqui para os leitores a cegueira espiritual dos sacerdotes e escribas e a desonestidade dos incrédulos.  Quanta cegueira spiritual pode ter nos corações daqueles que ocupam elevados cargos eclesiásticos! Além disso, notemos que como a inveja e a incredulidade levam os homens a pôr em descrédito a comissão recebida por aqueles que trabalham para Deus. O leitor já percebe, por antecipação, a razão da futura morte de Jesus na Cruz.

Quando um profeta nos desafia numa direção que abala os nossos hábitos mentais ou o nosso conforto ou os nossos interesses, em vez de nos perguntarmos se isso vem de Deus, rapidamente começamos a desacreditar o profeta, para não ter que ouvi-lo a exemplo dos adversários de Jesus. Acontece-nos sempre que no nosso caminho vemos ou ouvimos vozes proféticas que revelam a nossa preguiça e os nossos fracassos, ou nos encorajam para caminhos mais exigentes. Ignoramos o profeta, muitas vezes. Não percebemos o que Deus estava tentando nos dizer.

Há perguntas feitas em busca de respostas. Há perguntas feitas também para derrubar o outro. Mas há perguntas para nos questionar em que há verdade e por isso, não somos capazes de responder no momento a exemplo dos adversários de Jesus: “O batismo de João vinha do céu ou dos homens? Respondei-me". Mas a principal pergunta que Mc faz implicitamente para o leitor, todos nós é a seguinte: “Quem é Jesus? Quem é Jesus para mim? Queremos verdadeiramente conhecer o Senhor? Qual é o motivo principal de acreditarmos em Jesus? Quais são as consequências da fé em Jesus Cristo? Devemos nos examinar sobre a verdade de nosso seguimento, pois muitos querem ser cristãos, mas não querem seguir a Jesus.

No caminho do seguimento de Jesus são necessárias verdadeiras perguntas e respostas sinceras. Para Marcos, Jesus é o ungido de Deus e por isso, suas palavras, atos e obras estão cheios da força do Espírito de Deus. Além disso, Jesus é o Deus que salva, o Filho de Deus. E por isso, Jesus é livre de si mesmo, do egoismo e da procura do poder e do sucesso. Ele simplesmente quer nos salvar.

P. Vitus Gustama,svd

Sexta-feira Da VIII Semana Comum, 29/05/2026

VIVER COMO CRISTÃOSFRUTÍFEROS NO TEMPO DE DEUS (KAIRÓS)

Sexta-Feira Da VIII Semana Comum

 

Primeira Leitura: 1Pd 4,7-13

Caríssimos, 7 o fim de todas as coisas está próximo. Vivei com inteligência e vigiai, dados à oração. 8 Sobretudo, cultivai o amor mútuo, com todo o ardor, porque o amor cobre uma multidão de pecados. 9 Sede hospitaleiros uns com os outros, sem reclamações. 10 Como bons administradores da multiforme graça de Deus, cada um ponha à disposição dos outros o dom que recebeu. 11 Se alguém tem o dom de falar, proceda como com palavras de Deus. Se alguém tem o dom do serviço, exerça-o como capacidade proporcionada por Deus, a fim de que, em todas as coisas, Deus seja glorificado, em virtude de Jesus Cristo, a quem pertencem a glória e o poder, pelos séculos dos séculos. Amém. 12 Caríssimos, não estranheis o fogo da provação que se alastra entre vós, como se algo de estranho vos estivesse acontecendo. 13 Alegrai-vos por participar dos sofrimentos de Cristo, para que possais também exultar de alegria na revelação da sua glória.

 

Evangelho: Mc 11, 11-26

                                                                      

Tendo sido aclamado pela multidão, 11 Jesus entrou, no Templo, em Jerusalém, e observou tudo. Mas, como já era tarde, saiu para Betânia com os doze. 12 No dia seguinte, quando saíam de Betânia, Jesus teve fome. 13 De longe, ele viu uma figueira coberta de folhas e foi até lá ver se encontrava algum fruto. Quando chegou perto, encontrou somente folhas, pois não era tempo de figos. 14 Então Jesus disse à figueira: "Que ninguém mais coma de teus frutos". E os discípulos escutaram o que ele disse. 15 Chegaram a Jerusalém. Jesus entrou no Templo e começou a expulsar os que vendiam e os que compravam no Templo. Derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos vendedores de pombas. 16 Ele não deixava ninguém carregar nada através do Templo. 17 E ensinava o povo, dizendo: "Não está escrito: 'Minha casa será chamada casa de oração para todos os povos'? No entanto, vós fizestes dela uma toca de ladrões". 18 Os sumos sacerdotes e os mestres da Lei ouviram isso e começaram a procurar uma maneira de o matar. Mas tinham medo de Jesus, porque a multidão estava maravilhada com o ensinamento dele. 19 Ao entardecer, Jesus e os discípulos saíram da cidade. 20 Na manhã seguinte, quando passavam, Jesus e os discípulos viram que a figueira tinha secado até a raiz. 21 Pedro lembrou-se e disse a Jesus: "Olha, Mestre: a figueira que amaldiçoaste secou". 22 Jesus lhes disse: "Tende fé em Deus. 23 Em verdade vos digo, se alguém disser a esta montanha: 'Levanta-te e atira-te no mar', e não duvidar no seu coração, mas acreditar que isso vai acontecer, assim acontecerá. 24 Por isso vos digo, tudo o que pedirdes na oração, acreditai que já o recebestes, e assim será. 25 Quando estiverdes rezando, perdoai tudo o que tiverdes contra alguém, para que vosso Pai que está nos céus também perdoe os vossos pecados".[26]

 

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Viver Sobriamente e Sabiamente Na Espera Da Vinda Do Senhor

 

O texto da Primeira Leitura que lemos hoje é a última passagem da Primeira Carta de São Pedro.

 

A Carta de São Pedro aborda uns “deveres” muito concretos dos cristãos em suas relações habituais da vida corrente:

·      Deveres dos “cidadãos” em relação às autoridades civis.

·      Deveres dos “escravos” ou dos “empregados” em relação aos patrões.

·      Deveres dos esposos em relação ao cônjuge.

·      Deveres dos homens a respeito de todos os irmãos.

 

Lemos hoje uma parte muito pequena do final desta Carta.

 

Nos escritos da primeira geração se nota a crença de que o fim do mundo estava próximo e que a volta gloriosa do Ressuscitado era iminente. Às vezes seus autores argumentam a partir desta convicção: “Caríssimos, o fim de todas as coisas está próximo. Vivei com inteligência e vigiai, dados à oração. Sobretudo, cultivai o amor mútuo, com todo o ardor, porque o amor cobre uma multidão de pecados. Sede hospitaleiros uns com os outros, sem reclamações. Como bons administradores da multiforme graça de Deus, cada um ponha à disposição dos outros o dom que recebeu”.

Seja quando for o fim do mundo, um cristão deve olhar para a frente e viver vigilante que é contrário da rotina, preguiça ou embotamento mental. Se olhar para trás é para tirar a lição e não para ficar preso no passado triste, pois não tem mais volta. Tudo passou e passará!

Por isso, os conselhos de Pedro nos oferecem um programa muito sábio de vida: ter o espirito disposto à oração, levar um estilo de vida sóbrio e moderado, manter firme o amor mútuo, praticar a hospitalidade, pôr a disposição da comunidade as próprias qualidades. E tudo é para a glória de Deus e a felicidade e a salvação dos homens.

Esta Carta é dirigida aos recéns-batizados. O autor lembrou sua pertença a um povo e mostra-lhes como o batismo os transformou à semelhança de Cristo (1Pd 3,18-4,7). Resta-lhes dar testemunho desta transformação na vida cotidiana.

Este testemunho será, sobretudo, o da caridade fraterna que se manifesta de duas maneiras particulares. Primeiramente, no acolhimento mútuo ou na hospitalidade. A hospitalidade supera os limites que separam os homens. É recepção ou tratamento afável, cortês; amabilidade, gentileza. Hospitaleiro é aquele que oferece hospedagem por bondade ou caridade. Para os homens da antiguidade a hospitalidade era sagrada. Gregos, judeus e romanos praticavam, da mesma maneira, a hospitalidade, pois acreditavam que, no visitante, o próprio Deus batia à sua porta para entrar (Cf. Hb 13,2). E acreditavam que Deus presentearia o anfitrião com dádivas divinas.

O segundo campo de aplicação da caridade fraterna é a maneira de celebrar a Eucaristia na qual cada carisma ou dom se acomodará ao do vizinho para permitir a edificação de uma assembleia única, sinal de reunião universal que Deus realiza na humanidade (Cf. 1Pd 4,10-11; 1Cor 12). Nesta reunião universal ninguém é superior a ninguém, pois cada um oferece seu dom para a edificação da comunidade. Se alguém tem o dom da fala, que ele seja um porta-voz de Deus! Se ele tem o dom do serviço, que o cumpra com a força o que Deus lhe dá! Deus está aqui, presente, aparece incessantemente. Nossos “carismas”, dons recebidos, procedem de Deus. Por isso, não podemos guarda-los zelosamente para nós mesmos.

Em outras palavras, ser batizado é comprometer-se a amar! A caridade cobre nossos pecados, e Deus vê a caridade: “Sobretudo, cultivai o amor mútuo, com todo o ardor, porque o amor cobre uma multidão de pecados”. Ser batizado é ser acolhedor: “Sede hospitaleiros uns com os outros, sem reclamações”.

Ser Cristão É Ser Frutífero Diante De Deus:

Figueira Estéril e Nós

“De longe, Jesus viu uma figueira coberta de folhas e foi até lá ver se encontrava algum fruto. Quando chegou perto, encontrou somente folhas, pois não era tempo de figos”.

A figueira (como a vinha) é símbolo de Israel. Especialmente é figura do templo (capital Jerusalém), das autoridades de Jerusalém; sua aparência é frondoso (uma figueira com muitas folhas). O templo ou a instituição vai desaparecer e Jesus quer salvar o que puder (Jesus foi até lá ver se encontrava algum fruto). A aparência da figueira é enganosa. É a aparência que oculta ou esconde a esterilidade. É um esplendor sem fruto. Jesus queria encontrar algo (fome), porém não há nada encontrado.

Vista de longe (v.13ª) a figueira aparenta algo que, por perto, não corresponde (v.13b). a culpa é das folhas, que, pelo aparato que criam, sugerem uma vitalidade que, depois, não se revela nos frutos. Do mesmo modo, também o aparato do templo enche o olho de quem o visita (13,1), mas, na verdade, tornou-se antro de salteadores (11,17)

O texto diz que “não era tempo de figos.  O termo “Kairós”, traduzido por “tempo”, refere-se ao momento oportuno remetendo, neste contexto, para a chegada da plenitude da história que se dá com a vinda de Jesus que é o mesmo dizer, a vinda do Reino de Deus.

Não era tempo de figos.  Esta expressão significa não dar fruto enquanto poderia ter dado. O tempo não usado é o tempo estéril, isto é, nada se produz de bom do tempo dado por Deus. Você não pode possuir o tempo, mas você pode usá-lo. Você não pode guardar o tempo, mas você pode aproveitá-lo. Porque uma vez você perder o tempo, ele jamais vai voltar para você. Em cada instante cada um de nós é uma possibilidade: ou para o bem, ou para o mal.

Deste texto aprendemos qual o grande perigo envolvido na falta de frutos e na formalidade nas coisas espirituais. A figueira estéril é uma lição que deveria falar em alto e bom som para as consciências de todos os que se dizem cristãos. Rica em folhas de formalidade religiosa, mas estéril quanto a todos os frutos do Espírito (cf. Gl 5,22-24). Naquela figueira há uma voz dirigida a todos os cristãos, em todos os séculos e em todos os lugares do mundo. Nessa figueira encontramos uma advertência contra uma profissão de fé cristã, desacompanhada de doutrinas sãs e a falta de vivência da fé professada. O cristão deste tipo um dia se tornará um cristão ressecado e portanto, estéril. Ele ocupa o tempo de Deus (kairós) sem utilizá-lo para o bem comum ou a salvação de todos.

Quão bom seria para todos os cristãos, todos os batizados que se contentam com o nome de que vivem, enquanto, na realidade estão mortos (ressecados), se ao menos quisessem contemplar os seus rostos refletidos no espelho dessa passagem da Bíblia, nessa figueira ressecada.

Pe. Vitus Gustama,SVD

Sexta-feira Da XI Semana Comum, Ano Par, 19/06/2026

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