segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Quarta-feira Da XXII Semana Comum, Ano Par, 02/09/2026

SER SALVO PARA SERVIR O PRÓXIMO E SER COLABORADOR DE DEUS

Quarta-Feira da XXII Semana Comum

Primeira Leitura: 1Cor 3,1-9 (Ano Par)

1 Irmãos, não pude falar-vos como a pessoas espirituais. Tive de vos falar como a pessoas carnais, como a crianças na vida em Cristo. 2 Pude oferecer-vos somente leite, não alimento sólido, pois ainda não éreis capazes de tomá-lo. E nem atualmente sois capazes de receber alimento sólido, 3 visto que ainda sois carnais. As rivalidades e rixas que existem aí, no meio de vós, acaso não mostram que sois carnais e que procedeis de acordo com os impulsos naturais? 4 Quando um declara: “Eu sou de Paulo”, e outro: “Eu sou de Apolo”, não estais procedendo como pessoas simplesmente naturais? 5 Pois, que é Apolo? que é Paulo? Não passam de servidores, pelos quais chegastes à fé. E cada um deles exerce seu serviço segundo o dom recebido de Deus. 6 Eu plantei, Apolo regou, mas Deus é que fazia crescer. 7 De modo que nem o que planta, nem o que rega são, propriamente, importantes. Quem é importante é aquele que faz crescer: Deus. 8 Aquele que planta e aquele que rega formam uma unidade, mas cada um receberá o seu próprio salário, proporcional ao seu trabalho. 9 Com efeito, nós somos cooperadores de Deus, e vós sois lavoura de Deus, construção de Deus.

Evangelho: Lc 4,38-44

Naquele tempo, 38 Jesus saiu da sinagoga e entrou na casa de Simão. A sogra de Simão estava sofrendo com febre alta, e pediram a Jesus em favor dela. 39 Inclinando-se sobre ela, Jesus ameaçou a febre, e a febre a deixou. Imediatamente, ela se levantou e começou a servi-los. 40 Ao pôr do sol, todos os que tinham doentes atingidos por diversos males, os levaram a Jesus. Jesus punha as mãos em cada um deles e os curava. 41 De muitas pessoas também saíam demônios, gritando: “Tu és o Filho de Deus”. Jesus os ameaçava, e não os deixava falar, porque sabiam que ele era o Messias. 42 Ao raiar do dia, Jesus saiu e foi para um lugar deserto. As multidões o procuravam e, indo até ele, tentavam impedi-lo de as deixar. 43 Mas Jesus disse: “Eu devo anunciar a Boa Nova do Reino de Deus também a outras cidades, porque para isso é que eu fui enviado”. 44 E pregava nas sinagogas da Judéia.

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Somos Chamados a Edificar a Comunidade e Não Para Criar Grupinhos Rivais Dentro Dela

“As rivalidades e rixas que existem aí, no meio de vós, acaso não mostram que sois carnais e que procedeis de acordo com os impulsos naturais?... Eu plantei, Apolo regou, mas Deus é que fazia crescer. ... Quem é importante é aquele que faz crescer: Deus”.

Os cristãos de Corinto haviam saído do paganismo e do judaísmo. Haviam dado grande passo na caminhada da fé. Mas não tinham uma maturidade suficiente na fé. Eles viviam uma fé infantil que os levava a formar grupinhos rivais dentro da própria comunidade.  A “fé” que eles viviam era exclusivista, fechada e egoísta.

O que são Paulo escreveu no texto da Primeira leitura de hoje nos mostra que os Coríntios continuam fechados ao Espírito e não assimilaram a sabedoria de Deus, profunda e misteriosa. São Paulo os acusa de imaturos, incapazes de compreender a mensagem do Crucificado. Para são Paulo, a existência de divisão na comunidade de Corinto é um sinal claro da imaturidade, da falta da verdadeira sabedoria. Percebe-se no texto que formavam “bandos” dentro da comunidade: uns eram “fans” de Paulo e outro de Apolo. Para são Paulo estas divisões acontecem porque alguns seguem uns critérios humanos, “carnais”, e não se deixam guiar pelo Espírito de Deus.  Segundo são Paulo eles são crianças pequenas e por isso não podem alimentar-se mais que de leite, não de alimentos sólidos.

Se os Coríntios tivessem o olhar do Espírito, veriam Paulo e Apolo como “agentes de Deus”, servidores, ministros e pregadores da comunidade que somente prepararam o campo para que Deus operasse na vida de cada membro de acordo com os dons recebidos para edificar a comunidade.

Para os gregos, o sábio fala em seu próprio nome (o eu) e quem tem força decisiva e persuasiva são suas qualidades. Mas o olhar dos cristãos deveria estar posto mais em Deus do que em Paulo e Apolo. Como repete o Salmo da meditação de hoje (Sl 32/33): “Feliz o povo cujo Deus é o Senhor...”.

A sabedoria não se avalia pelos conhecimentos eruditos e sim pelas atitudes concretas do amor fraterno na vida comunitária. Um termômetro da maturidade para uma comunidade cristã é a existência ou não de cismas/divisões e zelos em seu seio. Por isso, a seguinte pergunta é válida a partir da experiência dos Coríntios: Fomentamos divisões em nossa comunidade, na nossa paróquia, na nossa Igreja, na vida religiosa ou na vida social?

O erro  dos Coríntios é repetido por tantos cristãos hoje em qualquer comunidade e por tantas comunidades em qualquer paróquia. É  o erro de permanecer criança na fé a vida inteira. Crescemos fisicamente, participamos de tantos sacramentos, formações e estudos e nos tornamos adultos em tudo, menos na fé, no conhecimento e na vivência dos ensinamentos de Cristo a quem seguimos. Por isso, os pequenos e insignificantes problemas na comunidade são capazes de nos derrubar e de dividir a comunidade em grupinhos. E cada um é rei de seu pedaço. Às Vezes chegamos a perder a paz e o bom humor por pequenas coisas. E começamos a criar divisão ou desunião. Esta divisão já demonstra, sem querer querendo, nossa negação de nossa fé na existência da Santíssima Trindade, a Comunidade-modelo para todos os cristãos, pois nela o amor circula livremente. Fazemos o sinal da cruz antes e depois de nossas celebrações e orações para nos mantes na união e na comunhão a exemplo da Santíssima Trindade. Com o sinal da cruz, onde professamos “Em nome do Pai e do Filho e Do Espírito Santo”, queremos esmagar e eliminar de nossa vida e convivência todo tipo de egoísmo e de prepotência.

Deus é o único Autor da salvação. A nós, seus colaboradores, é confiada Sua Palavra para que, como a melhor das sementes, a semeamos no coração de todas as pessoas. Nossa tarefa é semear. Semear o bem enquanto puder e tiver tempo. Quem faz crescer é o próprio Deus. Vamos semear o bem  e a bondade diariamente sem nos cansar, pois é o único investimento que nos leva até Deus que nos salva. Somos colaboradores do Evangelho. Cumpramos com amor a missão a nos confiada. Procuremos que o coração daquele a quem proclamamos a Boa Nova de salvação não vá atrás de nós e sim atrás de Cristo, até chegar junto com Ele à glória que Deus oferece à humanidade inteira.

Somos Salvos Para Servir e Salvar Os Outros

O que Jesus anunciou na sinagoga de Nazaré, no seu discurso programático (Lc 4,14-30), ele vai o cumprindo. Aplicando para si a profecia de Isaias, Jesus diz que vem anunciar a salvação aos pobres e curar os cegos e dar a liberdade aos oprimidos.

Hoje lemos o programa de uma jornada de Jesus “ao sair da sinagoga”: curar a febre da sogra de Pedro, impor as mãos e curar os enfermos que as pessoas trouxeram para Jesus, libertar os possuídos pelo demônio e não se cansar de ir ao encontro do povo para anunciar o Reino de Deus. Mas, no meio de suas atividades missionárias, Jesus nunca deixa de buscar momentos de paz para rezar pessoalmente num lugar solitário.

Depois de sair da Sinagoga, em Nazaré, Jesus e alguns discípulos foram para a casa de Simão Pedro. Jesus saiu de um lugar oficial (Sinagoga é lugar de oração, de ensino e de catequese para os judeus) para um ambiente familiar: casa. Em casa todos tem seu espaço e cada um é chamado pelo nome e não pelo título (se é um doutor, deputado, presidente e assim por diante). Cada um é gente em casa. Em casa um se preocupa com o outro. Basta um membro sofrer, todos sofrerão. Basta um membro ter sucesso, todos experimentarão a felicidade. Ninguém fica feliz sozinho como também ninguém sofre sozinho, pois não somente vivemos, mas convivemos. Nossa vida é cercada por outras vidas. Oxalá possamos viver a espiritualidade familiar também fora de nossa família, como Jesus nos diz hoje: “Eu devo anunciar a Boa Nova do Reino de Deus também a outras cidades, porque para isso é que eu fui enviado” (Lc 4,43). O cristão existe para os outros. Nisto consiste o sentido de sua vida de cristão.

Pedro encontra sua sogra com febre em sua casa. No pensamento daquela época, a febre era causada pelo demônio. Com um gesto familiar, Jesus se aproximou da mulher, tocou-a e a ajudou a se levantar e a febre desapareceu. A sogra de Pedro começou a servir a todos imediatamente.

A palavra grega que a Bíblia geralmente traduz como “servir” é DIAKONEIN, que significa o serviço à mesa. Isto significa que quem serve à mesa serve à vida, nutre o outro com vida, atrai vida para o outro. É despertar vida. É atrair vida nas pessoas. Servir é, portanto, algo vital, isto é, algo que tem a ver com a vida. Se eu conseguir despertar no outro a capacidade de recomeçar a vida, estarei praticando o verdadeiro serviço.

A febre representa tudo que nos impede de servirmos aos outros. Cada um pode descobrir que tipo de “febre” que o impede de servir aos outros, “febre” que faz a vida perder seu sentido (ficar deitado todo tempo). O que é que me faz viver uma “vida deitada”, isto é, sem ação, sem ânimo, sem perspectivas. Eu preciso convidar Jesus para entrar na minha casa onde estou “deitado” para que ele se aproxime de mim, me toque e me ajude a me levantar. A palavra “levantar-se” no Novo Testamento, em outros contextos, também significa ressuscitar. Eu preciso me levantar de uma vida estéril (deitar) para uma vida fecunda (servir). Para isso, eu preciso segurar a mão de Jesus, mão que me potencia, mão que me levanta, mão que me cura e liberta, mão que me torna uma mão que ajuda os outros.

Um outro detalhe que chama nossa atenção no evangelho deste dia é que Jesus não deixava os demônios falarem. Ele simplesmente os expulsou (Lc 4,41). Nesta marca comum nos antigos exorcismos se descobre que é preciso lutar contra o mal sem deter-se em discutir suas pretensões.

Todos nós sabemos que o mal pode vestir-se de uma aparência boa, enganando os que procuram escutar suas “orações” ou “pedidos”. Jesus não ficou parado nisto. Jesus sabe que tudo que destrói o homem é perverso, e Jesus se esforça para vencê-lo, devolvendo assim a dignidade para as pessoas sofridas.

Outro detalhe que chama bastante nossa atenção é que diante da obra de Jesus surge uma reação bastante egoísta entre as pessoas: querem monopolizar o aspecto mais extenso da atividade de Jesus e utilizá-lo como um simples curandeiro: “As multidões o procuravam e, indo até ele, tentavam impedi-lo de as deixar”.

Podemos ter a tentação ou a tendência para este tipo de relacionamento com Jesus no sentido de que nós aceitamos Jesus simplesmente na medida em que ele nos ajuda a resolver nossos problemas para garantir tranqüilidade psicológica ou uma ordem na família, ou uma garantia na vida financeira. Santo Agostinho nos relembra que a razão de nossa existência neste mundo é a vida eterna. Temos que viver e conviver dentro desta dimensão. Conseqüentemente eu sou uma ocasião de salvação para o próximo e o próximo é uma ocasião de salvação para mim. Jesus nos salva na medida em que cada um se torna uma ocasião de salvação para o outro (cf. Mt 25,40.45; veja também Lc 22,31-32). Estando conscientes disso entenderemos que Jesus é muito maior do que um fazedor de milagres. Ele é a nossa Salvação (cf. Jo 6,68-69). Que Jesus Cristo é nosso Salvador é uma das afirmações mais sólidas e repetidas do Novo Testamento. É a primeira noticia do céu à terra através do anjo falando a uns pastores: “Hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós um Salvador que é o Cristo Senhor” (Lc 2,11). A salvação alcança o que foi criado, pessoas humanas em umas condições concretas. Anunciar a salvação é anunciar a vida em todas as suas dimensões, inclusive em algo tão relativo como a saúde (a palavra “salus” [salvar/salvação] exige previamente uma cura. Para um cego, depois da recuperação de vista, Jesus disse: “Tua fé te salvou” [Mc 10,52]). Cada cristão existe para ajudar, proteger e salvar o outro. Se um cristão é egoísta é porque ele deixa de ser cristão. Se um cristão é desonesto, injusto, incoerente, etc., não ele não pode ser chamado mais de cristão, como dizia Santo Agostinho: “O nome de cristão traz em si a conotação de justiça, bondade, integridade, paciência, castidade, prudência, amabilidade, inocência e piedade. Como podes explicar a apropriação de tal nome se tua conduta mostra tão poucas dessas muitas virtudes?” (De vit. christ. 6).

A resposta de Jesus, para a tentação de monopólio, é clara: “Eu devo anunciar a Boa Nova do Reino de Deus também a outras cidades, porque para isso é que eu fui enviado” (Lc 4,43). Sua exigência se traduz em um dom que fica aberto para todos os que O esperam. Certamente o Evangelho é um presente que enriquece a existência, porém um presente que não se pode encerrar e sim um presente que nos abre sem cessar para os outros.

Podemos revisar alguns traços significativos do texto do evangelho lido neste dia. Em primeiro lugar, o texto diz que Jesus foi para casa de Pedro ao sair da sinagoga. Trata-se de um bom programa para qualquer cristão. “Ao sair da sinagoga...”. Ou seja, na nossa linguagem “ao sair de nossa missa ou de nossa oração”, nos espera uma jornada de trabalho, de pregação e evangelização, de serviço curativo para os demais traduzindo nossas orações em ações. É colocar a oração na vida e a vida na oração. Em segundo lugar, Jesus, em meio de uma jornada com um horário intensivo de trabalho e dedicação missionária, encontra momentos para rezar sozinho. Em terceiro lugar, Jesus não quer “se instalar” num lugar onde ele é bem acolhido: “Eu devo anunciar a Boa Nova do Reino de Deus também a outras cidades, porque para isso é que eu fui enviado”. É preciso que nós evitemos dois perigos: o ativismo exagerado, descuidando da oração (espiritualidade) e a tentação de ficarmos no ambiente em que somos bem recebidos, descuidando da universalidade de nossa missão. É preciso que olhemos para Cristo para saber o que precisamos fazer: Jesus é evangelizador, libertador, orante.

Para Refletir Mais...

Uma das atitudes fundamentais de Jesus, que Lucas nos descreveu no seu evangelho, é a sua grande misericórdia. A misericórdia leva Jesus a ser disponível para os demais. Por causa da misericórdia, para Jesus não há momento determinado para ajudar, para curar e para atender aos que O procuram e necessitam dele. Todo tempo de Jesus é para os necessitados, para os quais ele foi enviado (cf. Lc 4,18-19). E todos encontram nele alívio, consolo e força para continuar a seguir adiante na vida. Servir é amar. E amar é viver para sempre, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16).

Que “motor” que nos move a trabalharmos como cristãos tanto na Igreja como na sociedade em geral? Como está nossa disponibilidade como cristãos? Existe algum momento dedicado para os outros no nosso dia-a-dia para ajudar, consolar, aconselhar ou simplesmente para escutar o outro?

P. Vitus Gustama,svd

sábado, 29 de agosto de 2026

Terça-feira Da XXII Semana Comum, Ano Par, 01/09/2026

TER AUTORIDADE É AQUELE QUE FAZ O OUTRO CRESCER E LEVÁ-LO PARA A COMUNHÃO PLENA COM DEUS

Terça-Feira da XXII Semana Comum

Primeira Leitura: 1Cor 2,10b-16 (Ano Par)

Irmãos, 10b o Espírito esquadrinha tudo, mesmo as profundezas de Deus. 11 Quem dentre os homens conhece o que se passa no homem senão o espírito do homem que está nele? Assim também, ninguém conhece o que existe em Deus, a não ser o Espírito de Deus. 12 Nós não recebemos o espírito do mundo, mas recebemos o Espírito que vem de Deus, para que conheçamos os dons da graça que Deus nos concedeu. 13 Desses dons também falamos, não com palavras ensinadas pela sabedoria humana, mas com a sabedoria aprendida do Espírito: assim, ajustamos uma linguagem espiritual às realidades espirituais. 14 O homem psíquico – o que fica no nível de suas capacidades naturais – não aceita o que é do Espírito de Deus: pois isso lhe parece uma insensatez. Ele não é capaz de conhecer o que vem do Espírito, porque tudo isso só pode ser julgado com a ajuda do mesmo Espírito. 15 Ao contrário, o homem espiritual – enriquecido com o dom do Espírito – julga tudo, mas ele mesmo não é julgado por ninguém. 16 Com efeito, quem conheceu o pensamento do Senhor, de maneira a poder aconselhá-lo? Nós, porém, temos o pensamento de Cristo.

Evangelho: Lc 4,31-37

Naquele tempo, 31 Jesus desceu a Cafarnaum, cidade da Galileia, e aí os ensinava aos sábados. 32 As pessoas ficavam admiradas com o seu ensinamento, porque Jesus falava com autoridade. 33 Na sinagoga, havia um homem possuído pelo espírito de um demônio impuro, que gritou em alta voz: 34 “Que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste para nos destruir? Eu sei quem tu és: tu és o Santo de Deus!” 35 Jesus o ameaçou, dizendo: “Cala-te, e sai dele!” Então o demônio lançou o homem no chão, saiu dele, e não lhe fez mal nenhum. 36 O espanto se apossou de todos e eles comentavam entre si: “Que palavra é essa? Ele manda nos espíritos impuros, com autoridade e poder, e eles saem”. 37 E a fama de Jesus se espalhava em todos os lugares da redondeza.

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Entre o Homem Psíquico e o Homem Espiritual

“Ninguém conhece o que existe em Deus, a não ser o Espírito de Deus. Nós não recebemos o espírito do mundo, mas recebemos o Espírito que vem de Deus, para que conheçamos os dons da graça que Deus nos concedeu”.

Em 1Cor 2,6-3,4 são Paulo fala da verdadeira sabedoria sobrenatural que é reservada aos que fizeram progresso na fé ou aos que se deixam guiar pelo Espirito de Deus.

Com efeito, quem é o verdadeiro sábio? Quem pode chegar a conhecer em profundidade as pessoas, as coisas e os acontecimentos?

Paulo insiste: o Espírito sonda tudo, tanto a profundidade do próprio homem como a profundidade de Deus: “Quem dentre os homens conhece o que se passa no homem senão o espírito do homem que está nele? Ninguém conhece o que existe em Deus, a não ser o Espírito de Deus. Nós não recebemos o espírito do mundo, mas recebemos o Espírito que vem de Deus, para que conheçamos os dons da graça que Deus nos concedeu”.

Em cada pessoa há áreas em que ninguém de fora pode penetrar. Somente a autoconsciência de cada um pode revelá-las (Consciência é definida como o conhecimento íntimo de si e de seus atos). Do mesmo modo, somente a autoconsciência divina (Espírito de Deus) pode penetrar a profundidade de Deus.

Para são Paulo tudo procede do Espirito de Deus, tanto o correto conhecimento das coisas de Deus como as palavras adequadas para expressar este conhecimento. Dai  há uma grande importância de ser possuído pelo Espirito de Deus. Por isso, quando nos deixarmos iluminar por este Espírito que não é o espirito do mundo, entenderemos tudo em profundidade.

Para São Paulo há dois tipos de homens. Uns se movem ao “nível humano” que em grego chama-se “physikos anthropos” ou o homem físico. Estes não são capazes de captar nem perceber o que é o próprio do Espirito de Deus. Há também “o homem de espírito” (pneumatikós), isto é, aquele que se deixa guiar pelo Espirito de Deus. E este é capaz de julgar tudo, pois é iluminado e guiado pelo Espirito de Deus.

Se nós ficarmos apenas no aparente e no superficial, não chegaremos nunca a conhecer bem nem a história, nem as pessoas e nem a nós mesmos. Se julgarmos a partir do “critério do Espirito” ou se tivermos a mente de Cristo, sua mentalidade, sua maneira de pensar e hierarquizar os valores, então estaremos no bom caminho: conheceremos o mais profundo do humano e do divino.

O segredo da vida em plenitude e com sentido é contemplar e meditar as coisas e os acontecimentos a partir do olhar de Deus. O olhar do Espirito, simples e penetrante que podem também gozar as pessoas menos cultas é mais importante do que nossas filosofias eruditas. Um cristão simples, com fé e disponibilidade diante do Espirito, sabe mais do que todos os sábios da Grecia.

A Verdadeira Autoridade Faz o Outro Crescer

Estamos nos primeiros dias da pregação publica de Jesus segundo o evangelho de Lucas. Recusado pelo seu povo em Nazaré, Jesus vai a Cafarnaum cuja população era uma mistura de várias nacionalidades. Em Cafarnaum Ele fala com autoridade para as pessoas, e desperta a admiração de todos, pois Ele prega e liberta.

Todos os evangelhos sinóticos (Mt, Mc, Lc) colocaram em destaque a autoridade extraordinária, o prestigio que emanava da pessoa e da palavra de Jesus (Mt 7,29; Mc 1,22; Lc 4,32). Naquela época tinha bastante “escolas”, grupos de escribas ou de letrados que faziam comentários sobre a Sagrada Escritura. Agora Jesus faz seus próprios comentários que totalmente são novos (sem nenhuma influência de alguma escola). Do fundo de si mesmo surgem pensamentos magistrais revestidos de autoridade que causa a admiração no povo. O evangelista Marcos registrou a admiração do povo diante do ensinamento de Jesus com as seguintes palavras: “Estavam espantados com o seu ensinamento, pois ele os ensinava como quem tem autoridade e não como escribas” (Mc 1,22). No seu ensinamento, Jesus não se apoia nas tradições de escolas rabínicas, pois Ele é enviado de Deus, o Filho de Deus em quem repousa o Espírito de Deus (Mc 1,9-11); Ele é a própria Palavra de Deus (Jo 1,1-3.14). Jesus apela diretamente para a consciência de seus interlocutores.

A autoridade de Jesus não está a serviço de uma instituição, mas está a serviço do ser humano para que este reconheça sua própria dignidade, seu valor e sua vocação à vida comunitária de irmãos. A nova forma de Jesus ensinar “com autoridade” apela para valores e atitudes fundamentais do ser humano: apela à capacidade de convivência como irmãos do mesmo Pai do céu, apela ao reconhecimento respeitoso e tolerante do outro, apela ao desenvolvimento da autoestima como condições para uma autêntica libertação da situação de marginalização em que vive a grande maioria. Onde não houver um mútuo respeito, não haverá espaço para a mútua admiração. O Pai que está no céu nos faz irmãos aqui na terra. Ao aceitar o Espírito de Deus o homem se liberta de suas escravidões e se torna irmão do outro.

Por esta razão, Lucas nos relatou também um homem endemoninhado que se encontrou dentro do templo. Um endemoninhado é um homem possuído por uma ideologia que aliena completamente a liberdade, e o faz falar como instrumento de outro. Este personagem representa uma parte do público (ele fala em plural: “Que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste para nos destruir?”), que se alarma diante do messianismo que Jesus pretende expor. Esta parte do público tem medo de que o patriotismo nacionalista perca terreno. Se Jesus continuar falando assim (com autoridade), a libertação de Israel vai fracassar. Assim pensa esse grupo.

Jesus não se deixa instrumentalizar. Ele liberta com conjuração o homem possuído por aquela ideologia de morte e lhe devolve sua condição de um homem livre, que pensa por si próprio. Com a Palavra ungida com o Espírito criador de Deus Jesus humaniza o homem no meio de tantos oportunistas que se arrogam o poder de Deus em beneficio de seus interesses mesquinhos. “Todo aquele que, ocupando uma posição de autoridade, aproveita para divertir-se, para aumentar seu patrimônio, ou para conseguir lucros pessoais, não é um servidor dos demais, mas um escravo de si mesmo”, dizia Santo Agostinho (Serm. 46,2). Jesus não quer que o cérebro desse homem vire um arquivo para pensamentos alheios. De outra forma podemos dizer: Se não usarmos nosso cérebro, alguém vai abusar nosso cérebros para os fins negativos. Jesus quer que o homem possuído tenha coragem de criar os seus próprios pensamentos e não apenas memorizar os pensamentos alheios.

Por isso, o episódio do homem possuído por um espírito impuro, mais do que demonstrar autoridade de Jesus sobre as forças do mal, quer mostrar como Jesus integra ao seio da comunidade aquele que era excluído e recusado como muitos outros em nome de um poder que desumaniza ou em nome de uma instituição desumanizante.

Se você quer saber quanta autoridade tem, não se pergunte a quantos você submete, mas a quantos você ajudou a crescer. O medo que os outros têm de você não mede sua autoridade, mas seu poder autoritário. A autoridade põe respeito, o autoritarismo põe medo nas pessoas. Quando alguém acredita que a força de sua autoridade está em seu poder e não em seu amor, ele desautoriza a si mesmo como pessoa. Se ou quando alguém precisa apelar para a força e para o poder para ser autoritário é porque como pessoa já não tem mais autoridade. Os títulos e os cargos podem até confirmar a autoridade que cada um tem, mas não lhe dão a que não tem.             

Jesus fala como quem tem autoridade, assim o evangelista Marcos registrou. O que significa para nós falar com autoridade? Há palavras ou ações que nos aproximam de Jesus. Quais são estas palavras? 

Sempre que pronunciarmos uma palavra viva, aquela que não é fingida, aquela que sabe detectar em cada momento aquilo do qual o outro está necessitando, aquela palavra que faz o outro melhorar e crescer, aquela que não semeia a discórdia, a palavra que humaniza, estaremos falando com autoridade. Sempre que pronunciarmos uma palavra compassiva, aquela que consola nos momentos de dificuldade, a palavra que anima quem está desesperado, a palavra sincera de querer ajudar, estaremos falando com autoridade. Sempre que pronunciarmos uma palavra solidária, aquela que coloca as coisas no seu devido lugar, aquela que sai do coração para aliviar a dor do outro, aquela que serena, estaremos falando com autoridade. Sempre que pronunciarmos uma palavra de esperança que diz que nem tudo está perdido, que o melhor está para vir porque Deus está conosco (Mt 28,20) e que “para Deus nada é impossível” (Lc 1,37), estaremos falando com autoridade.             

É bom cada um de nós fazer um exame de consciência para saber se fala com autoridade como Jesus ou não? É bom cada um se perguntar se está próximo de Jesus no modo de viver e de tratar os demais ou não? Hoje em dia precisamos muito mais das pessoas com autoridade e carisma do que das pessoas com o poder.

P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Segunda-feira Da XXII Semana Comum, Ano Par, 31/08/2026

LIBERTADOS POR JESUS PARA PARA LIBERTAR OS OUTROS A FIM DE CONSTRUIRMOS UMA FRATERNIDADE

Segunda-Feira da XXII Semana Comum

Primeira Leitura: 1Cor 2,1-5 (Ano Par)

1 Irmãos, quando fui à vossa cidade anunciar-vos o mistério de Deus, não recorri a uma linguagem elevada ou ao prestígio da sabedoria humana. 2 Pois, entre vós, não julguei saber coisa alguma, a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado.3 Aliás, eu estive junto de vós, com fraqueza e receio, e muito tremor. 4 Também a minha palavra e a minha pregação não tinham nada dos discursos persuasivos da sabedoria, mas eram uma demonstração do poder do Espírito, 5 para que a vossa fé se baseasse no poder de Deus e não na sabedoria dos homens.

Evangelho: Lc 4,16-30

Naquele tempo, 16 veio Jesus à cidade de Nazaré, onde se tinha criado. Conforme seu costume, entrou na sinagoga no sábado, e levantou-se para fazer a leitura. 17 Deram-lhe o livro do profeta Isaías. Abrindo o livro, Jesus achou a passagem em que está escrito: 18 “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa Nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos 19 e para proclamar um ano da graça do Senhor”. 20 Depois fechou o livro, entregou-o ao ajudante e sentou-se. Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele. 21 Então começou a dizer-lhes: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”. 22 Todos davam testemunho a seu respeito, admirados com as palavras cheias de encanto que saíam da sua boca. E diziam: “Não é este o filho de José?” 23 Jesus, porém, disse: “Sem dúvida, vós me repetireis o provérbio: Médico, cura-te a ti mesmo. Faze também aqui, em tua terra, tudo o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum”. 24 E acrescentou: “Em verdade eu vos digo que nenhum profeta é bem recebido em sua pátria. 25 De fato, eu vos digo: no tempo do profeta Elias, quando não choveu durante três anos e seis meses e houve grande fome em toda a região, havia muitas viúvas em Israel. 26 No entanto, a nenhuma delas foi enviado Elias, senão a uma viúva que vivia em Sarepta, na Sidônia. 27 E no tempo do profeta Eliseu, havia muitos leprosos em Israel. Contudo, nenhum deles foi curado, mas sim Naamã, o Sírio”. 28 Quando ouviram estas palavras de Jesus, todos na sinagoga ficaram furiosos. 29 Levantaram-se e o expulsaram da cidade. Levaram-no até o alto do monte sobre o qual a cidade estava construída, com a intenção de lançá-lo no precipício. 30 Jesus, porém, passando pelo meio deles, continuou o seu caminho.

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Entre a Sabedoria Da Cruz de Cristo e a Sabedoria Humana

Depois de ter provado a superioridade do Evangelho sobre os sistemas de sabedoria humana (1Cor 1,18-25), são Paulo explica por que não pregou uma doutrina de sabedoria humana a não ser Cristo Crucificado que é a força e a sabedoria de Deus: “Entre vós, não julguei saber coisa alguma, a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado... A minha palavra e a minha pregação não tinham nada dos discursos persuasivos da sabedoria, mas eram uma demonstração do poder do Espírito, para que a vossa fé se baseasse no poder de Deus e não na sabedoria dos homens”, escreveu São Paulo aos Coríntios que lemos na Primeira Leitura.

São Pauolo é o homem que confia na força da mensagem, pois é a mensagem do próprio Senhor Crucificado que ele tem que transmitir aos outros. No fundo, a fé é a partilha e a transmissão de uma vivência pessoal e comunitária com o Senhor. São Paulo não põe seu ponto de apoio na sabedoria humana e sim no conhecimento de Cristo Crucificado. Pela origem da palavra, o verbo “conhecer” quer dizer “com-nascer, nascer com, fazer-se um com outro. Somente conhecemos o outro, entregando-nos a ele e aceitando que ele se entregue a nós. Trata-se de uma relação existencial. O conhecimento de Cristo Crucificado é o que possuíram os santos ao longo da história da Igreja. Inclusive, os mais sábios humanamente se submeteram seu saber a Cristo, e se deram conta de que a sabedoria humana não tinha nenhum valor em comparação com o conhecimento de Deus, pois “para os que são chamados, tanto judeus como gregos, esse Cristo é poder de Deus e sabedoria de Deus. Pois o que é dito insensatez de Deus é mais sábio do que os homens, e o que é dito fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1Cor 1,24-25).

A eloquência e a sabedoria humanas não levam são Paulo à verdade desnuda da Cruz de Cristo. Ele não quer apresentar-se aos Coríntios falando com palavras altíssonas  e fazendo alarde de eloquência. Ele lhes pregou simplesmente Jesus Cristo Crucificado sem triunfalismos. São Paulo se apresentou diante dos Corintos como um pobre homem, débil e temeroso. Mas sua debilidade presta o único e o melhor serviço ao assunto de Jesus, evitando o equívoco e mostrando que não era a palavra avassaladora de um homem culto e sim a força de Deus que operava na pregação cristã.

São Paulo não prega uma doutrina da sabedoria e sim apresenta um testemunho: “Irmãos, quando fui à vossa cidade anunciar-vos o mistério de Deus, não recorri a uma linguagem elevada ou ao prestígio da sabedoria humana” (1Cor 2,1). O testemunho vale em razão da qualidade do acontecimento que apresenta e não em razão da retorica com que arroupa. As palavras da testemunha são os fatos vividos que falam por si mesmas. No entanto, são Paulo realizou uma seleção nos sucessos de que dá testemunho: institiu mais em torno da Cruz do que em torno da soberania de Cristo (1Cor 2,2); em torno da humildade de Jesus do que em torno de sua sabedoria.

São Paulo recusa decididamente os discursos de uma sabedoria humana, que seria persuasivos por si mesmos (1Cor 2,4) e que fariam da fé uma adesão de ordem puramente humana (1Cor 2,5). Sua pregação é muito mais uma demonstração do poder do Espirito que vem de Deus e requer, consequentemente, uma adesão de outro ordem: a do Espirito: “A minha palavra e a minha pregação não tinham nada dos discursos persuasivos da sabedoria, mas eram uma demonstração do poder do Espírito, para que a vossa fé se baseasse no poder de Deus e não na sabedoria dos homens” (1Cor 2,4-5).

São Paulo quer nos mostrar que a autenticidade do trato com o Senhor é o pedestal da verdadeira pregação. É real que nossa força, a única força nossa como cristãos é a fé vivida e vivida profundamente pessoal e comunitariamente. A fé dá liberdade, segurança e independência para testemunhar diante das situações mais adversas, sem perder a esperança nem ser vítima da decepção e do desespero, a exemplo de são Paulo, pois a Palavra de Deus não conhece fracasso.

O mundo de hoje não parece tampouco ter ouvidos prestos a escutar a mensagem de Cristo Crucificado. A comunidade cristã, desde mais de dois mil anos, se apresenta diante do mundo “débil e temeroso”, como são Paulo na Gréica, porque sabe que a mensagem que prega é difícil (Cristo crucificado). Mas por outro lado, a própria palavra que ele anuncia tem uma força intrínseca capaz de fazer frutificar nos ambientes menos predispostos. Para Deus, a força verdadeira está no simples e no débil. Na Cruz de Cristo, símbolo de fracasso e da fragilidade para o mundo, está a sabedoria e a chave para a salvação.

Nos momentos atuais de exaltação do homem e de sua tecnologia relativamente avançada é bom, de vez em quando, refletir sobre a debilidade humana e mostrar os verdadeiros valores para que ninguém se perca no meio do avanço tecnológico.

Deus Vem Para Nos Libertar a Fim De Estar Com Ele Eternamente

O texto do evangelho de hoje nos fala do início da pregação pública de Jesus segundo Lucas. Trata-se de um discurso programático, isto é, tudo o que está neste discurso será realizado por Jesus ao longo do evangelho de Lucas. A pregação inaugural (discurso programático em Nazaré) tem como lugar numa sinagoga em Nazaré, por ocasião de um culto sinagogal no Sábado. E a leitura que Jesus fez e sobre o qual comentou é o texto do Trito-Isaias (cf. Is 61,1-2) que fala da missão do Messias. E a missão do Messias, do Ungido de Deus, é proclamar a Boa Notícia que consiste na libertação dos prisioneiros do sofrimento, na libertação da opressão, da injustiça, e proclamar a Boa Notícia, preferencialmente, para os pobres, os escravos, os marginalizados: os leprosos, os doentes, os publicanos, as mulheres.

E Jesus se apresenta como o Ungido, o Messias (cf. Lc 3,21-22). Em outras palavras, o que o livro de Isaias anunciava se cumpriu em Jesus: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”. Jesus veio ao encontro do homem para devolver sua dignidade como pessoa humana e filho (filha) de Deus.

Trata-se de uma cena bem significativa, programática que se pode dizer que dá sentido a todo ministério messiânico de Jesus: sua primeira pregação na sinagoga de seu povo de Nazaré. Trata-se de uma cena densa, muito bem narrada por Lucas com uma série de detalhes significativos: o costume de ir à sinagoga todos os sábados; o convite para que leia a Palavra de Deus; o comentário de Jesus sobre a leitura do Livro de Isaias cujo conteúdo é o programa do ministério de Jesus: “Hoje se cumpriu a Escritura...”; as primeiras reações e aprovação por parte dos seus conterrâneos que ficam bloqueados em seu caminho de fé, pois conhecem demais Jesus: “Não é este o filho de José?”; a queixa de Jesus sobre essa falta de fé; a reação de ira.

“O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa Nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ano da graça do Senhor”. Jesus veio para libertar, para unir e reunir, para salvar. “Deus é amor misericordioso e o seu projeto de amor, que se estende e realiza na história, é primeiramente o seu descer e vir estar entre nós para nos libertar da escravidão, dos medos, do pecado e do poder da morte. Com um olhar misericordioso e o coração cheio de amor, Ele dirigiu-se às suas criaturas, preocupando-se com a sua condição humana e, portanto, com a sua pobreza. Precisamente para partilhar os limites e as fraquezas da nossa natureza humana, Ele mesmo se fez pobre, nasceu segundo a carne como nós e reconhecemo-lo na pequenez de uma criança recostada numa manjedoura e na extrema humilhação da cruz, onde partilhou a nossa radical pobreza, que é a morte” (Papa Leão XIV: Dilexi Te, Exortação Apostólica n.16).

A idéia de libertação, de liberdade, está subjacente em todo o Evangelho de Lucas (e outros evangelhos). Toda vez que Deus visita e se aproxima do homem, Ele o faz para libertá-lo: “Bendito seja o Senhor Deus de Israel, porque visitou e redimiu o seu povo...” (Lc 1,68). E toda vez que o homem se aproxima de Deus, ele ganha a libertação e a liberdade. A aproximação de Deus em Jesus Cristo tem como objetivo libertar o homem: libertar para ser livre.

Jesus vem ao encontro do homem para que este se torne mais humano e mais irmão dos outros, e para fazer que o homem seja capaz de se levantar contra si próprio, isto é, contra àquilo que não é humano dentro de si, penetrando até o intimo de seu ser para destruir o que é caduco e podre dentro de si próprio a fim de fazer florescer o que tem de esplêndido e admirável dentro de si. Jesus vem ao encontro do homem para que este seja capaz de jogar para longe as cadeias de seu egoísmo que prejudica a convivência fraterna. Jesus vem ao encontro do homem para que este seja capaz de sentir-se, com todas as suas conseqüências, filho de Deus e irmão dos demais homens. Jesus vem para libertar o homem em sua totalidade a fim de fazê-lo apto para construir o hoje e o aqui do Reino de Deus que Ele anuncia e quer construir como tarefa prioritária de sua vida e missão. Jesus vem para libertar o homem daquilo que se chama “pecado” e que consiste em subverter a escala de valores e no lugar de buscar o Reino de Deus e sua justiça (cf. Mt 6,33), buscar a própria e direta satisfação acima de qualquer valor. Jesus vem para que, ao libertar o homem, desaparecem da terra o ódio, a guerra, a violência, a extorsão, a exploração, a injustiça, a miséria, a opressão, a intolerância, e assim por diante. Jesus vem para construir o homem novo capaz de colaborar na realização da nova terra e do novo céu (cf. Ap 21,1-8).

Jesus veio como o verdadeiro Libertador dos homens. Convém pensar serenamente na passagem do Evangelho deste dia e saborear a cena num momento no qual vivemos na atualidade com proliferação dos que se dizem “libertadores” ou “os liberais” e que pregam tantas “liberdades” ou “libertinagem”. Estamos rodeados dos libertadores oficiais que nos querem liberar para gozar do sexo, da vida, de cada momento que se escapa de nossas mãos como rapidez. No entanto, nunca o homem está tão prisioneiro de si próprio, prisioneiro, precisamente, daquilo por onde dizem que vem a libertação ou uma simples liberação de tudo. Trata-se de uma liberação ou libertinagem que arranca um sorriso limpo e estimulante de tantos lábios, a violência mortal ao impor os próprios modos de conceber a vida a ponta de uma pistola ou de um revolver, a fome que é possível morrer em nossas civilizadas e estupendas cidades, uma solidão que enche de vazio nossas populosas cidades, a injustiça que se traduz em pobreza institucionalizada. Esses são os frutos da liberação ou da libertinagem que nos anunciam os messias de turno. Diante deles se levanta Jesus, com a Escritura na mão, anunciando que real e verdadeiramente libertação consiste em romper as cadeias pessoais para conseguir ser o que se deve ser: filhos de Deus e irmãos dos demais homens. Para um cristão o que deve ser é ser um sincero e verdadeiro filho de Deus, com toda a amplitude e a exigência que essa realidade traz consigo. É preciso escutar a Palavra anunciada por Jesus, a Palavra do Pai.

Na sinagoga Jesus leu uma passagem da Escritura e fez o comentário sobre ela. Os nazarenos ficaram admirados com a explicação de Jesus, mas, ao mesmo tempo, se escandalizaram porque para eles Jesus é o filho de um simples carpinteiro. Jesus que anuncia é tão “humano” e por isso, ele é uma presença de Deus. O anúncio tão humano de Jesus não se trata de filantropia ou de ação social, mas trata-se, precisamente do projeto de Deus e da ação do Espírito Santo: “O Espírito do Senhor está sobre mim para...”. A presença de Jesus é uma chuva de benefícios para todos: para os pobres, para os cativos, para os cegos, para os oprimidos...   

Quando escutamos a Palavra de Deus, temos que recebê-la não como um discurso humano e sim como uma Palavra que tem um poder transformador em nós, pois tudo o que diz está profundamente cheio de sentido e de amor. Deus não fala para nossos ouvidos e sim para nosso coração. Um coração renovado é uma vida renovada. A Palavra de Deus é uma fonte inextinguível de vida. A Palavra de Deus sai do próprio coração de Deus para atingir nosso coração. Desse Coração, do seio da Trindade veio Jesus, a Palavra do Pai, é dirigida para os homens (cf. Jo 1,1-4.14).

Por isso, cada dia, quando lemos ou escutamos o Evangelho, nós temos que dizer, como Maria: “Faça-se em mim segundo a Tua Palavra” (Lc 1,38). Ao que Deus nos responderá: “Hoje se cumpriu a Escritura que acabastes de ouvir”. Os nazarenos não compreenderam as palavras de Jesus, pois olhavam somente com os olhos humanos: “Não é este o filho de José?” (Lc 4,22). Viam a humanidade de Jesus, mas se escondia a Sua divindade aos olhos dos nazarenos. Toda vez que escutamos a Palavra de Deus, além de seu estilo literário, da beleza das expressões ou da singularidade da situação, temos que saber e estar conscientes de que é Deus Quem nos fala.

O Senhor “me enviou para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos”. A vida de Jesus é nossa vida. A missão de Jesus é nossa missão. Temos missão de libertar as pessoas de suas “ataduras” de vida; de fazer as pessoas enxergarem sua vida e a realidade ao redor para tomar posição como cristão, de viver na alegria do Senhor apesar dos contra-tempos. Mas para podermos libertar os outros temos que ser, primeiro, livres, pois somente quem é livre pode libertar.

P. Vitus Gustama,svd

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

XXII Domingo Do Tempo Comum, Ano "A", 30/08/2026

SEGUIR INCONDICIONALEMENTE A JESUS QUE NOS CHAMA

XXII DOMINGO DO TEMPO COMUM “A”

Primeira Leitura: Jr 20,7-9

7 Seduziste-me, Senhor, e deixei-me seduzir; foste mais forte, tiveste mais poder. Tornei-me alvo de irrisão o dia inteiro, todos zombam de mim. 8Todas as vezes que falo, levanto a voz, clamando contra a maldade e invocando calamidades; a palavra do Senhor tornou-se para mim fonte de vergonha e de chacota o dia inteiro. 9Disse comigo: “Não quero mais lembrar-me disso nem falar mais em nome dele”. Senti, então, dentro de mim um fogo ardente a penetrar-me o corpo todo; desfaleci, sem forças para suportar.

II Leitura: Rm 12, 1-2

1 Meus irmãos, eu vos peço pela misericórdia de Deus que ofereçais os vossos corpos como uma oferta viva, santa e agradável a Deus. Que este seja o vosso culto espiritual. 2 Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do espírito, para chegardes a conhecer qual seja a vontade de Deus, a saber, o que é bom, agradável e perfeito.                                         

Evangelho: Mt 16,21-27

Naquele tempo, 21 Jesus começou a mostrar a seus discípulos que devia ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos mestres da Lei, e que devia ser morto e ressuscitar no terceiro dia. 22 Então Pedro tomou Jesus à parte e começou a repreendê-lo, dizendo: “Deus não permita tal coisa, Senhor! Que isso nunca te aconteça!” 23 Jesus, porém, voltou-se para Pedro e disse: “Vai para longe, Satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens!” 24 Então Jesus disse aos discípulos: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga. 25 Pois, quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la. 26 De fato, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua vida? O que poderá alguém dar em troca de sua vida? 27 Porque o Filho do Homem virá na glória do seu Pai, com os seus anjos, e então retribuirá a cada um de acordo com a sua conduta”.

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O texto do evangelho deste domingo é a continuação do Evangelho do domingo anterior. No domingo anterior Pedro professou sua fé em Jesus dizendo: “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo” (Mt 16,16). Mas não basta proferir a fórmula certa sobre a identidade de Jesus. Importa compreendê-la dentro do espírito do próprio Jesus. Pedro, sob o influxo da revelação do Pai acertou a identidade de Jesus, mas a compreendeu a seu modo e nisso foi corrigido com palavras duríssimas por Jesus logo que Jesus falou do anúncio de sua paixão (Mt 16,22-23). Jesus convida os discípulos a entenderem o seu caminho. Por isso, Jesus convida os seus discípulos a segui-Lo pelo mesmo caminho, apresenta-lhes as condições para segui-Lo (Mt 16,24), os motivos das condições em forma de ditos paradoxais (Mt 16,25-26) e termina com o anúncio da vinda escatológica do Filho do Homem para julgar os homens, onde os discípulos são convidados a entrar da glória futura (Mt 16,27). Assim lemos no Evangelho deste domingo.

1. Anúncio Da Paixão, Reação De Pedro E Repreensão De Jesus (vv.21-23)         

Nos evangelhos sinóticos encontram-se cinco vezes o anúncio da paixão de Jesus: três em forma bastante desenvolvida (Mc 8,31-33 e par.; Mc 9,30-32 e par.; Mc 10,32-34 e par.) e dois outros são mais breves: um coloca no fim do relato da transfiguração (Mc 9,9; Mt 17,9), e outro encontra-se no episódio de Getsêmani (Mc 14,41; Mt 26,45).          

O Evangelho de hoje começa com estas palavras: “Desde então, Jesus começou a mostrar a seus discípulos...” (v.21). Aparentemente esta frase não tem nenhuma importância para nós, por isso não nos chama a atenção. O evangelista Mateus repete novamente o que disse em Mt 4,17 (para o início da missão na Galiléia). Ele quer enfatizar o novo começo na vida e no destino de Jesus a partir de Cesaréia de Filipe onde Pedro professou sua fé em Jesus (Mt 16,13-30) e com este novo começo Jesus pretende abrir os olhos dos discípulos para a nova caminhada. Por isso, ele usa o verbo “mostrar” para indicar a intenção de revelar um desígnio escondido do plano de Deus (cf. Ap 1,1). Trata-se do acontecimento da revelação última e definitiva.          

Optar por um novo começo significa deixar espaço ocupado até então, um espaço, por ser conhecido, dá segurança e partir rumo ao desconhecido, ao inseguro com muita fé porque Deus nos chama, como Ele chamou Abraão a sair da própria segurança, da própria pátria rumo a terra estrangeira/desconhecida apostando totalmente em Deus (cf. Gn 12,1ss). Não é fácil ouvir o chamado de Deus. Nossa insegurança, nossa hesitação e nossa grande afirmação fazem com que percamos a confiança em nossa voz íntima e fujamos de nós mesmos. Mas sabemos que Deus nos fala através da nossa voz íntima e que somente encontraremos alegria e paz se a seguirmos. Na verdade, o nosso espírito está disposto a obedecer, mas a nossa carne é fraca (cf. Mt 26,41).          

Concretamente, para Jesus o novo começo, a nova virada significa ir a Jerusalém ao encontro dos seus adversários, enumerados em três poderes que formavam o Sinédrio no tempo de Jesus: os anciãos, que são grandes latifundiários, representam o poder econômico; os sumos sacerdotes, que são de aristocracia sacerdotal, representam o poder religioso e os escribas que representam o poder intelectual (v.21). O poder econômico, o poder religioso e o poder intelectual opõem-se a Jesus, e estão decididos a eliminá-lo. E Jesus, ao enfrentar a rejeição, a condenação, o sofrimento e a morte, permanece fiel ao projeto salvífico de Deus. Uma vez disse “sim” a Deus, não mudou jamais para um “não”.          

A virada ou o novo começo na vida de Jesus “desde então” exige também uma virada, um novo começo, uma nova conversão dos seus seguidores, todos nós. A verdadeira conversão é um trabalho silencioso de cada dia. Nunca somos convertidos definitivamente. Cada novo dia somos chamados a nos converter para que a vida prossiga na sua dignidade de acordo com a vontade salvadora de Deus.          

Mas Pedro, que acabou de professar sua fé em Jesus como “Messias, o Filho de Deus vivo” (Mt 16,16), ainda segue o esquema de pensar deste mundo que dá mais valor ao poder, ao dinheiro, à honra e pompa que à simplicidade, à verdade e à humildade. Ele quer este tipo de Deus. Por isso, da boca de Pedro saíram estas palavras: “Deus não permita tal coisa, Senhor. Que isso nunca te aconteça!” (v.22). A veemente recusa de Pedro nos revela duas coisas: Por um lado, revela o amor de Pedro ao Mestre. Ele não quer ver seu Mestre sofrer. Mas nem sempre nossa boa intenção está de acordo com a objetividade. Até, às vezes, a boa intenção pode atrapalhar. Por outro lado, revela ao mesmo tempo que Pedro não havia compreendido ainda em profundidade a pessoa e a missão de Jesus, que ainda não havia chegado ao fundo do mistério de Cristo que o amor que se dá ao Pai e aos homens deve ser até o extremo, até as últimas conseqüências, até a morte na cruz. A sua fé na messianidade de Jesus é ainda uma fé tradicional, que associa o Messias ao poder e à glória e em nenhum momento ao sofrimento e à morte. As esperanças messiânicas tradicionalmente eram de caráter de glória e de poder. Esperava-se um Messias totalmente político e triunfalista, instaurador da nação. A fé dos discípulos tem de ser purificada e aprofundada até se tornar uma fé que reconheça em Jesus o Messias na forma do Servo sofredor.

Até aqui podemos tirar a seguinte lição: Se formos sinceros, deveremos reconhecer que, no fundo, pensamos e reagimos da mesma maneira que Pedro, de maneira tipicamente conformista: conforme os valores e critérios do mundo e não segundo as palavras e as práticas de Jesus. Muitas vezes estamos anestesiados com os hábitos. Por isso, não admitimos a entrada de uma novidade na nossa área de hábitos, embora esta pode nos fazer crescer na maturidade. É bom ter sucesso, como desejou Pedro e como todos desejam. Mas nada pode desviar um cristão da fidelidade ao Evangelho, mesmo que para isso alguns interesses ou prestígio tenham que ser contrariados. O maior prestígio de um cristão é trilhar fielmente o caminho traçado por Jesus Cristo. No entanto, como Pedro, podemos professar nossa fé em Cristo Jesus, mas muitas vezes imediatamente depois disso negá-la com o nosso comportamento, opondo-nos com todas as forças e todos os meios, inclusive os da invocação do nome de Deus em vão. Para São Paulo, estas reações são as reações do homem carnal, do homem velho (cf. Rm 7,14ss;8,5ss). Isto quer nos dizer que a nossa fé está sempre submetida às mais diversas tentações.          

Diante da veemente recusa de Pedro, Jesus o corrigiu com palavras duríssimas: “Sai da minha frente! Para trás Satanás!” (v.23). A resposta de Jesus é uma resposta indignada porque o que está em jogo é algo de uma importância e de uma gravidade suprema para ele. Quanto maior for perigo, maior também se tornará a bronca/repreensão. Aqui Jesus usa as mesmas palavras que usou para responder à terceira tentação de Satanás no início do seu ministério (Mt 4,10). Agora no fim do seu ministério vem Pedro desempenhando o papel próprio de Satanás ao tentar desviar Jesus de sua missão. Nisso Pedro é a encarnação do Adversário(Satanás). Opor-se à vontade de Deus e, em última análise, ser agente de satanás, é fazer o jogo de Satanás. Por isso, Jesus dá a Pedro a mesma resposta que dera ao Tentador no deserto.         

Jesus indica a Pedro que ele é apenas um seguidor. Por isso, seu lugar não é na frente, mas detrás de Jesus, no seguimento de Jesus. A palavra “seguir” já indica o lugar atrás de quem é guia ou mestre. A pretensão de Pedro de se colocar na frente é desmarcada por Jesus. E esta pretensão é considerada como um jogo do adversário(satanás). Com isso, Pedro se torna pedra de tropeço no caminho de Jesus. Por isso, essas palavras servem como convite para Pedro para que ele volte a ocupar o lugar do discípulo, a trilhar os passos marcados por Jesus. Porque ficar na frente de Jesus significa obstaculizar o caminho de Jesus. Por trás das palavras de Jesus está o texto de Is 55,8: “Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, e vossos caminhos não são os meus caminhos”.    

Apesar de tudo isso, depois da ressurreição, Pedro será Pastor-Modelo: sua autoridade é baseada sobre o AMOR (três vezes “Eu te amo” Jo 21,15-17): é o amor para o Senhor que se expressa no amor ao rebanho do Senhor (apascenta minhas ovelhas). O Senhor não nos pergunta sobre nossa capacidade e sim se temos o amor no coração para trabalhar com o Senhor na sua Igreja. Deus está no ato de amar, de solidarizar-se, no compadecer-se. A alma de toda a evangelização e de toda pastoral, ministério, movimento, apostolado e assim por diante é o amor. Além disso, apesar de sua fraqueza ele foi eleito como o Primeiro Papa, como primeiro entre as partes (Primus Interpares) para sublinhar que quem está no comando é o próprio Deus. A ele é dada a chave para abrir ou fechar, ligar ou desligar. Mas o julgamento final é a competência do Senhor e não de Pedro.     

Vamos nos perguntar e vamos verificar nossa consciência: quantas vezes desempenhamos o papel de Satanás na nossa vida como por exemplo: levar alguém a fazer algo que não é certo do ponto de vista cristão ou a levantar o falso testemunho etc. Em segundo lugar, para estarmos bem com Deus e com os outros, devemos saber o nosso lugar. Qual é o meu lugar? Se eu não ocupar o meu lugar e não reconhecer o lugar do outro, acabarei criando a desordem na convivência.           

Pedro e cada um de nós temos de nos converter sempre de novo, dar uma virada, um novo começo para que o caminho de nossa vida seja o de Deus e não o nosso, assim encontraremos a nossa felicidade e paz. Temos que mudar sempre do nosso modo de pensar(metanoia) para que os nossos pensamentos não sejam os nossos mas os de Deus, assim enxergaremos bem o nosso caminho e resolveremos melhor os nossos problemas. Enfim, no silêncio de nossas orações e reflexões, temos que buscar sempre de novo qual é a vontade de Deus em nossas vidas e praticá-la. Se nos chamamos de cristãos, devemos então, imitar a vida de Jesus. A vida de Jesus foi nutrida da vontade de Deus. Ele disse: “Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e cumprir a sua obra” (Jo 4,32).          

Se perseverarmos no amor de Jesus, no seu seguimento, nas suas exigências, passo a passo e dia a dia, acabaremos compreendendo o mistério de sua pessoa e de sua missão e optando pela comunhão de destino com ele e acabaremos também descobrindo e compreendendo a nossa verdadeira identidade. E quem opta por seguir a Jesus encontra um centro para sua vida fora de si mesmo.  Não gira mais em torno do próprio “Eu”, dos gostos individuais e dos próprios interesses e das vantagens pessoais. Mas o centro de sua vida está doravante na vontade de Deus manifestada para ele na pessoa e na missão de Jesus Cristo. Assim é que podemos entender as exigências de Jesus de negar a si mesmo, de tomar a cruz e de segui-Lo. Quando Deus se torna centro, o cristão se torna bom e correto consigo mesmo e com os outros. Será que Jesus é o centro de nossa vida ou ainda giramos em torno de nós mesmos? 

2. As Condições Do Seguimento De Jesus         

As exigências do seguimento de Jesus são repetidas seis vezes com variantes maiores e menores nos quatro evangelhos (Mt 16,24ss; Mc 8,34ss; Lc 9,23s;Jo 12,24ss;Lc 14,27;Mt 10,38s). Essa repetição nos indica a importância dada pela Igreja dos apóstolos a essas exigências.          

Ao apresentar aos discípulos as condições do seguimento, Jesus não impõe, mas propõe: “Se alguém quer...” O seguimento não é uma imposição. Todos têm a liberdade de aceitar ou de recusar. Mas quem quer seguir verdadeiramente a Jesus, tem que assumir as exigências postas por ele. Tudo tem que ser tomado na base da liberdade, da obediência da fé e por amor.          

A primeira condição é a renúncia: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo...” (v.24a). Com certeza, não podemos esperar que entremos no Reino de Deus sem dificuldades e sem renúncias. Não permitamos que a dificuldade nos faça retroceder.  Uma religião que nada custa, não vale. Uma fé que nada custa, também não vale como uma verdadeira fé. Uma atividade eclesial que nada custa, não vale como uma verdade atividade cristã. Nisto entendemos a afirmação de São Tiago: “A fé: se não se traduz em obras, por si só está morta. A fé sem a prática é vã. A fé concorreu para as obras, e, graças às obras, a fé tornou-se completa”.

Vale a pena insistirmos que Jesus não nos pede que renunciemos a vida, e sim exige que mudemos o projeto desta vida. Não se trata de uma renúncia à vida e sim de um projeto da mesma na linha do amor. Precisamos colocar esta vida na linha do amor para que ela tenha sentido e tenha valor eterno (cf. Jo 13,34-35; 15,12-14; Mc 12,29-31 etc..). 

Renunciar a si mesmo não significa uma resignação cansada diante da vida nem uma “entrega dos pontos” nem por falta de opções. Antes de tudo significa a libertação da própria liberdade dos egoísmos a que estava atada e que agora se entrega inteiramente a Deus. O seguidor, geralmente, coloca o próprio eu no centro do próprio interesse. O centro de sua vida está, doravante, na vontade de Deus, manifestada para ele na pessoa e na missão de Jesus Cristo. E esta entrega tem de ser livre para poder ser feita na alegria, no entusiasmo e na generosidade. O seguidor é chamado à renúncia, a arriscar a própria vida, porque só assim poderá, como Cristo, chegar à glória que é a meta de todo caminho da cruz. Mas toda renúncia deve ter como base o amor. O sacrifício, a renúncia de si mesmo que não seja animado pelo amor, que não seja uma manifestação de amor, uma expressão de doação de si mesmo, que não leve à comunhão com os outros é apenas uma tortura auto-infligida. A renúncia que Jesus pede não é uma ação negativa. Ele pede amor, doação de si mesmo. Tudo tem que ser feito por amor. Sem o amor, viveremos uma vida dupla. E este tipo de vida, não traz a alegria verdadeira nem para si nem para os outros. A falta de renúncia atrasa e infantiliza a vida. Quem não renuncia certos valores efêmeros em função dos valores eternos infantiliza-se. Na linguagem psicológica, renunciar é cortar o cordão umbilical das dependências do passado para assumir o presente com suas possibilidades para nos fazer crescer. É relativizar todo processo anterior para assumir outro processo que torna a pessoa mais madura e mais sucedida. É crescer sempre.   A palavra “crescer" como a palavra “mudança” tem uma conotação bastante positiva, associada aos conceitos de novidade, melhoramento, renovação, aperfeiçoamento.  “Quando você deixa de crescer, estará envelhecido. Enquanto estiver aberto ao crescimento, você é jovem. O seu medo de crescer é o seu medo de tomar conta de si mesmo ou da sua responsabilidade como adulto”. (René Juan Trossero, psicólogo e escritor argentino)    

A segunda condição é o “carregar a sua cruz” (v.24b). “Carregar a cruz” é uma expressão que os primeiros cristãos utilizaram muito para expressar sua união com Jesus na sua morte e ressurreição. É uma expressão relacionada ao mistério pascal de Jesus Cristo. Jesus pede ao seguidor o esvaziamento total de si mesmo, até a morte física, se for preciso. Quem não tiver esta disponibilidade, ainda não é verdadeiramente seguidor de Cristo. Todo aquele que quer seguir a Jesus incondicionalmente deve estar pronto para percorrer todos os passos da Paixão, pois o “mundo” tenta crucificar e eliminar os seguidores de Cristo por todos os meios, como aconteceu com Jesus. Jesus chama seus discípulos para segui-Lo fielmente e colocar-se a serviço de um mundo mais humano e fraterno chamado de Reino de Deus. A cruz é apenas o sofrimento que vem como consequência desse seguimento.          

Depois dessas condições, Jesus mostra os motivos em forma de ditos paradoxais. Em primeiro lugar Jesus afirma que quem busca egoisticamente, a todo custo, usando quaisquer meios, aproveitar, gozar e conservar a própria vida, acaba desperdiçando-a e perdendo-a (v.25). Querer guardar para si a própria vida é o caminho mais seguro para perdê-la. Pelo contrário, quem vive em função do serviço desinteressado aos outros na bondade e no amor, ele acaba encontrando a vida na sua plenitude, acaba ganhando a vida eterna. A vida só se encontra, doando-a. O próprio Jesus é o exemplo desta doação. Ele se doou até o fim a Deus e aos homens. O homem muitas vezes somente dá um pouco de sua vida. O verdadeiro cristão se doa tudo por amor.          

No v. 26 Jesus repete o paradoxo anterior: “De fato, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua vida? O que poderá alguém dar em troca de sua vida?” Possuir os bens deste mundo não seria um mal em si mesmo, mas torna-se o maior dos males quando, por causa de tais posses, o cristão é impedido de seguir a Cristo e viver os ensinamento de Cristo. Jesus, certamente, rejeitou o “mundo inteiro” que o Tentador lhe oferecera, pois o preço da oferta era a idolatria (Mt 4,8s). “Desapeguemos o coração de todas as criaturas. Quem está agarrado a alguma coisa da terra, ainda que mínima, nunca poderá voar e unir-se todo a Deus” (S. Afonso de Ligório). Ainda que alguém ganhasse o mundo inteiro (riqueza, glória, poder), a vida é efêmera. Na ótica da fé, todas as riquezas do mundo são insignificantes quando o que está em jogo é a vida em plenitude(eterna) que Jesus oferece aos que o seguem.          

O fundamento último da nossa opção pelo seguimento incondicional de Cristo é a certeza, dada pela fé, de que o Filho do Homem virá um dia na sua glória (v.27). Ele terá a última palavra sobre o homem. Essa palavra será uma palavra de graça para quem segue a Jesus incondicionalmente. O juízo final torna-se, então, a medida para avaliar a existência histórica e ao mesmo tempo a bússola que orienta a vida do cristão nas escolhas justas e sensatas nesta vida. Faça o certo conforme ensinou Jesus, e tudo dará certo, apesar de tudo!

Para Refletir Mais 

1.  Quem quiser ser meu discípulo que empreenda com valentia à mesma carreira de sofrimentos que eu trilhei, percorra praticamente o mesmo caminho e ame-o. Esse encontrará descanso em minha companhia e desfrutará de minha intimidade. (São Cirilo de Alexandria: Sobre a Adoração Em Espírito e Verdade L. 5, PG 68,391-395).

2. Disse, pois, Jesus a Pedro: “Vá para trás de mim”, como se, por sua ignorância, tivesse deixando de seguir a Cristo, e chama-o de Satanás por causa desta mesma ignorância, como quem tem algo contrário a Deus. ... Ele chama de escândalo para Si todo discípulo que peca, como também dizia Paulo (2Cor 11,29): Quem sofre escândalo, que eu não me consuma de dor? (Orígenes: Homilia 1 In Matthaeum, 16)

P. Vitus Gustama,SVD

Dedicação Da Basílica Do Latrão (Catedral de Roma, 09/11/2026

SOMOS TEMPLO DE DEUS FESTA DA DEDICAÇÃO DA BASÍLICA DO LATRÃO Primeira Leitura: 1Cor 3,9c-11.16-17 (ou Ez 47,1-2.8-9.12) Irmãos, 9c v...