segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Quarta-feira Da XXXI Semana Comum, Ano Par, 04/11/2026

OBEDECER E RENUNCIAR POR AMOR NO SEGUIMENTO DE CRISTO JESUS

Quarta-Feira da XXXI Semana Comum

Primeira Leitura: Filipenses 2,12-18

12 Meus queridos, como sempre fostes obedientes, não só em minha presença, mas ainda mais agora na minha ausência, trabalhai para a vossa salvação, com temor e tremor. 13 Pois é Deus que realiza em vós tanto o querer como o fazer, conforme o seu desígnio benevolente. 14 Fazei tudo sem reclamar ou murmurar, 15 para que sejais livres de repreensão e ambiguidade, filhos de Deus sem defeito, no meio desta geração depravada e pervertida, na qual brilhais como os astros no universo. 16 Conservai com firmeza a palavra da vida. Assim, no dia de Cristo, terei a glória de não ter corrido em vão, nem trabalhado inutilmente. 17 E ainda que eu seja oferecido em libação, no sacrifício que é o sagrado serviço de vossa fé, fico feliz e alegro-me com todos vós. 18 Vós também, alegrai-vos pelo mesmo motivo e congratulai-vos comigo.

Evangelho: Lc 14, 25-33

Naquele tempo, 25 grandes multidões acompanhavam Jesus. Voltando-se, ele lhes disse: 26 “Se alguém vem a mim, mas não se desapega de seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs e até da sua própria vida, não pode ser meu discípulo. 27 Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo. 28 Com efeito: qual de vós, querendo construir uma torre, não se senta primeiro e calcula os gastos, para ver se tem o suficiente para terminar? Caso contrário, 29 ele vai lançar o alicerce e não será capaz de acabar. E todos os que virem isso começarão a caçoar, dizendo: 30 ‘Este homem começou a construir e não foi capaz de acabar!’ 31 Ou ainda: Qual rei que, ao sair para guerrear com outro, não se senta primeiro e examina bem se com dez mil homens poderá enfrentar o outro que marcha contra ele com vinte mil? 32 Se ele vê que não pode, enquanto o outro rei ainda está longe, envia mensageiros para negociar as condições de paz. 33 Do mesmo modo, portanto, qualquer um de vós, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo!”

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Ser Obediente à Vontade Do Pai a Exemplo De Cristo Para Alcançar a Vida Em Plenitude e Viver Em Harmonia com Todos

“Meus queridos, como sempre fostes obedientes, não só em minha presença, mas ainda mais agora na minha ausência, trabalhai para a vossa salvação, com temor e tremor”.

Continuamos nossa leitura e reflexão sobre a Carta de são Paulo aos Filipenses.

Na Primeira Leitura são Paulo nos convida a viver na santidade. Ele começa o texto nos mostrando que Cristo entrou na glória porque consistiu até o fim em sua condição de homem, por obediência ao Pai. Jesus é obediente ao Pai até a morte, a morte na cruz. Jesus se esvziou para que a vontade do Pai se torne alimento para Ele. Para são Paulo esta também é a única via de salvação para nós.

“Meus queridos, como sempre fostes obedientes, não só em minha presença, mas ainda mais agora na minha ausência, trabalhai para a vossa salvação, com temor e tremor”.  Dentro do Novo Testamento, “obediência” é uma das palavras bastante usadas pelo são Paulo. Trata-se de uma marca paulina (Rm 6,17; 16,19; 2Cor 7,15; 10,6; 2Ts 3,4; Filemon 21). Nos evangelhos se encontram apenas cinco vezes a mesma palavra (Mc 1,27; 4,41; Mt 8,27; Lc 8,25; 17,6). A palavra obediência tem sua raiz na palavra “escutar”. (Latim: Oboedientia do verbo ob-audire: “escutar com atenção, escutar com seriedade). São Paulo usa a expressão “obediência de fé” (Rm 1,5; 16,26) com a qual ele expressa a abertura à vontade de Deus que a fé exige. A fé é acompanhada pela obediência à vontade de Deus, a exemplo de Abraão, pai de todos os fieis. São Paulo pede que os Filipenses permanecem abertos e obedientes à vontade de Deus mesmo na sua ausência.  

Ser obediente à Palavra de Deus mostra que realmente depositamos nossa fé e salvação em Deus.  Se fizermos o contrário é porque nossa fé é apenas de boca para fora. A meta da fé é a nossa salvação. Quando, pela misericórdia de Deus, tivermos a graça de ver Deus face a face, não necessitaremos mais da fé (Cf. Hb 11,1). A meta que queremos alcançar nos dá a capacidade de suportarmos qualquer situação, pois nosso olhar é sempre posto na meta alemejada. Aquele que vive sem meta, desiste com facilidade diante de qualquer dificuldade ou desafio. Nossa fé com a esperança da salvação deve nos levar a tarbalharmos constantemente com muita humildade, não atuando por medo de castigo de Deus e sim realizando nossa vida como uma manifestação de amor a Deus e ao próximo.

Agir em vista da unidade comunitária é obedecer a Deus, pois salvar é unir e reunir as pessoas como uma comunidade de irmaos na qual Deus é o Pai comum de todos. Quando um cristão realiza o bem da sua comunidade, Deus na verdade está agindo nele e por meio dele. O bem atrai o bem. A bondade atrai a bondade. O exemplo sempre arrasta os outros para a mesma causa: o bem e a bondade. Ninguém resiste diante da bondade.

“Trabalhai para a vossa salvação, com temor e tremor”.  A expressão “com temor e tremor” deve ser tomada a sério. É um expressão tirada do AT (cf. Gn 9,2; Ex 15,16; Dt 2,25).  Quando são Paulo usa utiliza esta expressão, ele quer expressar uma atitude de humildade e de reconhecimento da própria debilidade em ordem a conseguir a salvação (cf. 1Cor 2,3; 2Cor 7,15). Além disso, a expressão “com temor e tremor” é um modo de dizer que são Paulo usa geralmente num contexto de relacionamento comunitário. A expressão “temor e tremor”  se impõe aqui como cuidado para não ofender o próximo que resulta na perturbação na vida comunitária. É um estado de vigilância para evitar os atritos com os irmãos (Cf. 1Cor 2,3; 2Cor 7,5; Ef 6,5).

Dentro deste contexto, as recomendações de são Paulo no texto de hoje são para nós muito subastanciosas: “Fazei tudo sem reclamar ou murmurar”, “livres de repreensão e ambiguidade, filhos de Deus sem defeito”, já que “no meio desta geração depravada e pervertida”, e nós cristãos devemos “brilhar como os astros no universo” mostrando razão de viver.

O texto de hoje termina com uma chave litúrgica que aproxima o culto à vida: a vida de fé dos Filipenses é o “sacrafício litúrgico” (em grego “thysia” e “leitouria”, sacrifício e liturgia). E são Paulo está disposto a derramar seu próprio sangue como libação sobre esse sacrifício e faz isso com alegria: “E ainda que eu seja oferecido em libação, no sacrifício que é o sagrado serviço de vossa fé, fico feliz e alegro-me com todos vós. Vós também, alegrai-vos pelo mesmo motivo e congratulai-vos comigo”.

O que é uma libação? Libação é um ato que consiste na aspersão de um líquido sobre o sacrifício em intenção de uma divindade.Nos sacrifícios antigos era bastante frequente derramar um líquido sobre a vítima do sacrifício, por exemplo, azeite ou vinho ou água. Também derramavam  um líquido sobre o altar ou sobre o chão. A libação que são Paulo aplica para si alude às suas penas e fadigas apostólicas. Porque nunca se dá o nome de libação ao ato de derramar sangue.

Tudo que são Paulo fala para os Filipenses é um bom programa de crescimento em nossa fé e de testemunha diante dos demais. quando um cristão tem riqueza interior de fé, ele dá um testemunho crível sem necessidade de um belo discurso. As palavras apenam movem. Mas o bom testemunho ou um bom exemplo arrasta as pessoas para o bem. O bom exemplo ou um bom testemunho reflete a razão de nossa vida.

Portanto, são Paulo nos convida a não nos deixarmos viver como cristãos pelas simples aparências. Com nosso exemplo ou testemunho queremos mostrar a razão de nosso viver em Deus, que tem a última palavra sobre a humanidade.

Seguir a Jesus Firmemente Apesar De Tudo

Continuamos a acompanhar Jesus no seu Caminho para Jerusalém onde Ele será crucificado, morto e glorificado (Lc 9,51-19,28). Durante este caminho Jesus deu aos seus discípulos Suas últimas lições.

O Reino de Deus é gratuito (convite para o banquete no evangelho do dia anterior), porém existem condições para acolhê-lo. As lições apresentadas no texto do evangelho de hoje são sobre as condições para seguir a Jesus: ódio para com aquilo que é amado (Lc 14,26) e amor para com aquilo que é odioso ao mundo, para poder seguir a Jesus (Lc 14,27); prudente valorização de quem não quer deixar pela metade o empreendimento (Lc 14,28-30). É a resposta para a pergunta: O que nos torna verdadeiros discípulos de Jesus?

O evangelho deste dia nos recorda sobre o seguimento renunciante. Para ser um verdadeiro cristão é preciso aprender a renunciar a muita coisa na vida. A falta de renúncia atrasa e infantiliza a vida. Renunciar não é um ato negativo e sim uma opção por aquilo que é superior na escala de valores. Renunciar é, por isso, um momento de crescimento e de amadurecimento. E cada renúncia supõe o amor. Se cada renúncia não se complementa por, com e no amor, a renúncia pode se converter em anti-entrega. Somente o amor é que transforma qualquer renúncia em doação gratificante. Somente quem é livre é que capaz de libertar os outros.

É preciso sabermos que as condições do seguimento apresentadas por Jesus têm caráter universal, pois são dirigidas às multidões que o acompanham em seu caminho para Jerusalém. Todas elas são centradas no caráter global que tem o seguimento de Jesus.

E Jesus nos adverte que o seguimento em questão não é fácil. Podemos explicar isso através do texto do evangelho de ontem em que muitos não aceitaram o convite para participar do banquete do Reino, pois é exigente e não se trata somente de sentar-se à Sua mesa (cf. Lc 14,15-24). É necessário cumprir as exigência básicas.

Hoje Jesus nos diz que para ser seus discípulos temos que colocar a importância do Reino acima dos sentimentos familiares, pois a nossa salvação está em jogo.

A primeira condição do seguimento é esta: “Se alguém vem a mim, mas não se desapega de seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs e até da sua própria vida, não pode ser meu discípulo”. Assim Jesus começou suas lições sobre o seguimento. O discípulo é aquele que vai em direção a Jesus e corre para alcançá-Lo, porque foi conquistado por Ele (Fl 3,12). O homem foi feito para unir-se a Ele. Unir-se a Ele significa salvação. O amor materno do Pai é a sua única segurança de vida (Lc 12,22-31).

Somos advertidos sobre onde colocamos nosso maior amor. O amor sem condições e sem fronteiras não é um suave sentimento muito tranqüilo e fácil. É uma revolução. Jesus pede uma renúncia total para que nossa entrega a Ele seja total. Sabemos que Jesus quer que amemos aos nossos (cf. Jo 13,34-35; 15,12). O amor filial, o amor conjugal, o amor fraterno são “sagrados”. Todavia, o amor de Deus, que nos sustenta, anima e salva, deve ser maior. Para ser salvo, o amor para com o Senhor deve ser indiviso (1Cor 7,32-34).

Trata-se, desta primeira condição, de uma opção radical pela pessoa de Jesus e pela nova escala de valores que Ele propõe. Os valores do Reino devem estar acima de tudo. Quem não fizer opção pela Vida, por excelência, que o próprio Jesus personifica (cf. Jo 11,25; 14,6), terá que contentar-se com uma vida raquítica, isto é uma vida limitada sem desenvolvimento e não conseguirá jamais superar os problemas que estabelecem as relações humanas.

A segunda condição é conseqüência da anterior: “Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo”. A exemplo de Jesus, cada discípulo deve estar preparado para afrontar a recusa da sociedade que vive os valores contrários aos do Reino. O discípulos tem aceitar a sensação de fracasso ou experimentar o aparente fracasso. O “aparente fracasso” porque a última palavra sobre o homem será a de Deus e não a do homem. O discípulo deve estar preparado para sentir a sensação sem segurança.

Ao seguir a Jesus ficamos frente a frente com a cruz: a cruz da contrariedade, a cruz da injustiça, a cruz da desonestidade, a cruz da perda de um inocente, a cruz da corrupção e assim por diante. E Jesus continua nos chamando a caminhar atrás dele vivendo uma vida honesta, justa, fraterna no amor. A cruz nos convida a nos deixarmos contagiar pelo amor. Quem carrega a cruz com amor, une-se a Cristo. Quem a carrega sem amor, encontra-se com condenação.

Carreguemos nossa cruz de cada dia, sendo fieis à missão que o Senhor nos confiou de anunciar Seu Evangelho. Sejamos um Evangelho encarnado do amor de Deus para os demais. Passemos a vida, como Cristo, fazendo o bem a todos (cf. At 10,38). Somente edificaremos a Igreja sobre a Pedra angular que é Cristo, se renunciarmos a nossos egoísmos, a nossas injustiças, a nossas paixões ordenadas, a nossas inclinações desenfreadas aos bens materiais ou ao poder. Cristo nos quer livres de toda carga de maldade, de toda injustiça e de todo sinal de morte.

Podemos dizer que a moral cristã é uma moral simples que tem seu grande ponto de referência no amor ao próximo: “Não fique devendo a ninguém, a não ser o amor mútuo, pois quem ama o próximo está cumprindo a Lei. O amor é o cumprimento perfeito da Lei”, diz São Paulo aos romanos (Rm 13,8.10). Todos os preceitos da ética cristã ficam profundamente condicionados pelo preceito do amor ao próximo. Por isso, uma falta contra qualquer dos preceitos se descobre como uma falta contra a lei do amor. Todas as injustiças são conseqüências da falta de amor. Para os justos, os bons, os honestos, os que têm amor no coração não necessitariam de nenhuma lei.

Amar, não tem término. Há que avançar sempre no amor para alcançar o Deus de amor (1Jo 4,8.16). Amor é um grande desafio de cada dia, pois ele é essencial para os seres humanos e sua convivência diária a fim de chegar à sua plenitude. Por ser essencial, tudo deve partir dele e nele tudo deve terminar. Quando cumprirmos as leis civis, diremos que estamos dentro da lei. Mas o amor é uma “chamada” dirigida a todos para que o ser humano seja mais humano a fim de ser mais divino.

A partir do amor podemos entender o seguimento renunciante de Jesus, que nos recorda a passagem do evangelho lida neste dia. Jesus, para levar até o fim Sua missão salvadora da humanidade, renunciou a tudo, inclusive, a sua vida. Por isso, foi constituído Senhor e Salvador de todos. E nos diz que também nós devemos saber carregar a cruz de cada dia para fazer o bem como Ele e com Ele.

A fé em Cristo abarca toda nossa vida. Por isso, para ser um verdadeiro cristão é preciso aprender a renunciar a muita coisa na vida. Renunciar não é um ato negativo e sim uma opção por aquilo que é superior na escala de valores. Cada renúncia supõe o amor. Se cada renúncia não se complementar por, com e no amor, a renúncia poderá se converter em anti-entrega. Somente o amor é que transforma qualquer renúncia em doação gratificante.

A adesão a Jesus leva cada pessoa ou cada cristão a um comportamento novo diante de todas as coisas e diante de todas as pessoas, inclusive diante das pessoas que tem uma ligação afetiva.

Para ser seus discípulos, Jesus não nos pede que cumpramos as regras, ou que sejamos bons. Tudo isso é necessário. Jesus nos pede que sejamos absolutamente disponíveis. Ser discípulo de Jesus não é somente ser bom, pois todos têm que sê-lo independentemente de ser ou de não ser cristão. Ser discípulo de Jesus é ser diferente, por ser disponível e pronto para renunciar a tudo pelo valor superior. Ser cristão é sério e difícil. Por isso, muitos caminham com Jesus, mas poucos chegam a ser discípulos.

Nesta Eucaristia ou celebração, o Senhor nos manifesta quanto nos ama, dando sua vida por nós todos, e fazendo-nos participes da Vida que Ele recebeu do Deus Pai. Em seu amor por nós, Jesus carregou sobre si nossos pecados para nos redimir. Por isso, ele se converteu para nós no Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Entremos em comunhão de vida com Ele e estejamos dispostos a ir atrás de suas pecadas, carregando nossa cruz de cada dia. Carreguemos nossa cruz de cada dia, sendo fieis à missão que o Senhor nos confiou de anunciar seu Evangelho de salvação. Sejamos um evangelho encarnado do amor de Deus para os demais. Vivamos fazendo o bem para todos.

Que Deus nos conceda a graça de viver com lealdade nossa fé em Jesus Cristo para que, sendo luz em meio das trevas do mundo, colaboremos para que todos encontrem o caminho que leva a Cristo que é o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14,6), Luz das nações e salvação para todos os homens.

P.Vitus Gustama, SVD

Terça-feira Da XXXI Semana Comum, 03/11/2026

PARTICIPAR DA ALEGRIA DE DEUS EM COMUNHÃO COM OS IRMÃOS ATRAVÉS DO DESPOJAMENTO

Terça-Feira da XXXI Semana Comum

Primeira Leitura: Filipenses 2,5-11

Irmãos, 5 tende entre vós o mesmo sentimento que existe em Cristo Jesus. 6 Jesus Cristo, existindo em condição divina, não fez do ser igual a Deus uma usurpação, 7 mas ele esvaziou-se a si mesmo assumindo a condição de escravo e tornando-se igual aos homens. Encontrado com aspecto humano, 8 humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz. 9 Por isso, Deus o exaltou acima de tudo e lhe deu o Nome que está acima de todo nome. 10 Assim, ao nome de Jesus, todo joelho se dobre no céu, na terra e abaixo da terra, 11 e toda língua proclame: “Jesus Cristo é o Senhor” para a glória de Deus Pai.

Evangelho: Lc 14,15-24

Naquele tempo, 15 um homem que estava à mesa disse a Jesus: “Feliz aquele que come o pão no Reino de Deus!” 16 Jesus respondeu: “Um homem deu um grande banquete e convidou muitas pessoas. 17 Na hora do banquete, mandou seu empregado dizer aos convidados: ‘Vinde, pois tudo está pronto’. 18 Mas todos, um a um, começaram a dar desculpas. O primeiro disse: ‘Comprei um campo, e preciso ir vê-lo. Peço-te que aceites minhas desculpas’. 19 Um outro disse: ‘Comprei cinco juntas de bois, e vou experimentá-las. Peço-te que aceites minhas desculpas’. 20 Um terceiro disse: ‘Acabo de me casar e, por isso, não posso ir’. 21 O empregado voltou e contou tudo ao patrão. Então o dono da casa ficou muito zangado e disse ao empregado: ‘Sai depressa pelas praças e ruas da cidade. Traze para cá os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos’. 22 O empregado disse: ‘Senhor, o que tu mandaste fazer foi feito, e ainda há lugar’. 23 O patrão disse ao empregado: ‘Sai pelas estradas e atalhos, e obriga as pessoas a virem aqui, para que minha casa fique cheia’. 24 Pois eu vos digo: nenhum daqueles que foram convidados provará do meu banquete”.

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Jesus Cristo Se Humilhou e Se Fez Pequeno Para Nos Salvar

Continuamos a acompanhar a leitura e a reflexão sobre a Carta de são Paulo aos Filipenses. A passagem de hoje é continuação da passagem do dia anterior.

O texto de hoje é uma passagem conhecida, que parece ser um hino antiquíssimo dos primeiros cristãos que são Paulo incorporaria na sua Carta aos cristãos de Filipo.

O que são Paulo quer destacar no texto de hoje é a união que há entre a exortação moral de são Paulo aos Filipenses para que evitem as dissenções,  e a motivação cristológica dessa exortação. O que Paulo propõe aos cristãos de Filipos é muito mais do que um ideal humano de "boa harmonia", é muito mais do que "ceder para que haja paz"... A busca da unidade pela humildade é muito mais do que uma exortação moral em uso entre os sonhadores de "comunidades unidas".

A principal motivação que são Paulo dá aos Filipenses para que evitem as dissenções  que ameaçam a vida de toda a comunidade é “porque Deus nos amou”. Mas como sabemos disso? Porque  Cristo, sendo de condição divina, desceu até nossa condição humana, se humilhou, abandonou o poder e entrou por este caminho do amor humilde, de amor solidário, e se fez obediente até a morte.

Além de ser obediente ao Pai, Jesus Cristo é obediente à realidade humana, ao que exige a realidade de viver como homem. Como Cristo nos resgatou? Pela livre aceitação das insondáveis disposições de Deus; aceitando o caráter duro, inflexível e pesado da vida humana; pela obediência à sua "condição humana" que inclui a mortalidade. Aceita a condição do homem incluindo a morte que se aninha em seu seio e para a qual se dirige dia a dia, vendo nela uma insondável disposição divina vinda do amor do Pai. Desceu das alturas da glória divina onde preexistia... Ao fundo da humilhação e da morte.

Isto quer dizer que Cristo, ao fazer-se homem, não o fez com condições especiais. É que Ele era Deus (Jo 1,1-2.14). Ele se submeteu “obediente até a morte”, a tudo que comporta viver como homem: condicionamentos físicos e materiais (fome, sede, calor, fatiga); condicionamentos econômicos e culturais (os da própria sociedade de seu tempo, cultura limitada, meios pobres, oportunidades concretas mais ou menos reduzidas), e, sobretudo, condicionamentos sociais, que lhe implicam nos interesses (legítimos ou ilegítimos, puros ou bastardos) do povo de seu tempo que O ama e é amado por Ele; os que o aceitam ou o recusam e os que o matam porque não atende aos seus anseios. Fez-se obediente à realidade humana, tao complexa, promovendo tudo o que era verdadeiramente humano e recusando tudo o que era contrário ao homem.

É precisamente isto que são Paulo recomenda aos Filipenses: “Irmãos, tende entre vós o mesmo sentimento que existe em Cristo Jesus”. ele nos transmite um hino cristológico, certamente anterior a ele, que talvez a comunidade conhecesse e cantasse. É um hino que em poucas linhas exprime o mistério pascal de Cristo, a sua morte e ressurreição, a sua humilhação e a sua glorificação por Deus: despojou-se da sua posição... rebaixou-se até à morte... Deus o ressuscitou acima de tudo .. como Senhor do céu e da terra.

São Paulo traz para nós, através deste texto, para que aprendamos uma lição de humildade e dedicação aos outros. Assim como Jesus não "ostentou sua condição de Deus" e se fez igual a nós, rebaixando-se até a morte na cruz, também nós devemos estar abertos aos outros, sem nos julgarmos superiores a ninguém ou reivindicar grandeza. Pelo contrário, rebaixando-nos como os últimos, "como aquele que serve". O caminho da elevação paas pelo caminho de descida. Deus se torna homem para que o homem se torne divino.

“Irmãos, tende entre vós o mesmo sentimento que existe em Cristo Jesus”. Este é o modo de viver "em Cristo", que, sendo de condição divina, não quis reivindicar sua igualdade com Deus, mas esvaziou-se assumindo a condição de servo, tornando-se semelhante aos homens. Por isso, não se trata de puros sentimentos. Antes, trata-se de disposições pessoais de querer julgar, apreciar, de escolher as coisas conforme o discernimento de Jesus Cristo. Concretamente, trata-se de esaziamento da Cruz em que Jesus é totalmente obediente à vontade de Deus. Jesus Cristo se esvaziou totalmente (Kenosis) a fim de a vontade de Deus reinar na sua vida e na sua atividade apostólica. É a mesma obediência à realidade humana e ao Pai, ainda que tudo isso possa custar a vida, “até a morte”. Desta maneira, chegaremos ao núcleo desta Carta: a proclamação do Evangelho de Jesus Cristo.

A vida de Jesus é assumir a situação dos outros e ver como, a partir dentro dessa situação, se pode criar a relação filial com o Pai e relação fraterna com os irmãos. É olhar para o exemplo de Jesus que deixou a condição divina para salvar os homens, fazendo-se um de nós (Jo 1,14). Se quisermos salvar a humanidade, se quisermos praticar o bem no puro sentido, se quisermos amar de verdade (ágape), temos que nos esvaziar de tudo para que o querer divino em salvar a humanidade possa operar através de nós. Não podemos ser verdadeiros evangelizadores sem este esvaziamento (Kénosis).

Por isso, não podemos ler este texto sem sentir uma grande emoção, uma forte sacudida, uma iluminação sobre o mistério de Cristo. Este hino cristológico é uma joia por ser antigo, pela beleza, por ser conciso, por ser inspirador. De fato, diante dos olhos de Deus somos tão valiosos a ponto de Deus fazer-se carne para nos salvar. Por isso, este hino não pretende somente dar uma lição moral, “ter os mesmos sentimentos de Cristo”, e sim, uma exposição profunda e poética do mistério de Cristo em sua Encarnação, sua Paixão e sua Exaltação.

São Paulo coloca este hino de louvro na Carta aos Filipenses em agradecimento por ter experimentado a kénosis (esvaziamento/despojamento). A kénosis, o despojamento total é dar lugar na nossa vida para a riqueza da graça de Deus. O homem que se deixa conquistar pela kénosis de Cristo, deixa de estar alienado, egoísta, prepotente e agarrado a qualquer coisa ou a qualquer poder, mas sente-se livre em Cristo pelo seu Evangelho. O despojamento se torna, então, um encontro libertador consigo mesmo e pronto para ajudar o próximo. Quem é livre pode libertar os outros.

A parábola de Jesus dos convidados que se autoexcluem do banquete, no Evangelho de hoje, representa o misterioso diálogo entre a graça e a liberdade. Jesus fala de um Reino gratuito, representado por um banquete, mas os convidados se recusam dessa gratuidade, mas preferem asseguram suas posições econômicas. Quem busca a segurança em si próprio, se exclue da graça divina. "Ser salvo" é seguir os passos de Cristo e, confiando em sua graça, adotar sua mesma atitude.

Somos Chamados A Participar Do Banquete Divino Gratuitamente

Estamos com Jesus no Seu caminho para Jerusalém, escutando atentamente seus últimos e importantes ensinamentos para todos nós cristãos em qualquer época e lugar (Lc 9,51-19,28). Trata-se das lições do Caminho.

O texto do evangelho lido neste dia fala do banquete ou da comida comunitária. A comida, o banquete é, em todas as culturas, um dos maiores símbolos de unidade comunitária e familiar e da amizade. Na cultura semita o banquete era o símbolo da máxima comunhão. Participar do banquete significa participar (fazer parte) da comunhão ou da comunidade ou da família em questão.

Jesus aproveita este valor cultural para ressaltar os valores do Reino. Na verdade o Reino de Deus não é uma realidade longe de nossa cotidianidade. O Reino de Deus é precisamente a máxima realização dos ideais humanos de fraternidade, de solidariedade, de comunhão, de igualdade e de justiça. E precisamente no comer comunitário ou na festa comunitária se vivem os sinais que mostram como possível ou realizável o Reino de Deus entre os seres humanos. Para isso, há que ter uma disponibilidade generosa e a aspiração de construir algo maior do que os pequenos negócios e trabalhos particulares ou individuais.

A parábola do banquete é muito rica. Seus elementos recordam outros elementos. A recusa de alguns para o convite do banquete e a aceitação de outros nos recordam, por exemplo, a distinta sorte da semente na parábola do semeador (cf. Lc 8,4-8: algumas sementes caíram à beira do caminho, outras no pedregulho, no meio de espinhos e em terra boa). E o convite que se estende aos pobres, aos cegos, aos coxos faz pensar na busca dos perdidos. Na verdade, para o próprio Deus ninguém é perdido, pois Ele vai atrás de cada um dos homens. Mas o homem precisa correr aos abraços de Deus para sentir novamente a importância de uma comunhão no amor. O amor nos humaniza e nos diviniza, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16).

Vamos destacar alguns pensamentos ou alguns elementos sobre a parábola do convite ao banquete:

1. O Reino de Deus é festivo, precioso e alegre. Ele é semelhante a um banquete, a um tesouro, a uma pérola maravilhosa. Por isso, ele é superior a qualquer valor no mundo. Viver o Evangelho de Jesus é viver na alegria apesar das dificuldades passageiras. “A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria”, escreveu o Papa Francisco (Evangelii Gaudium (EG) n.1). Para viver na alegria do Evangelho, segundo o Papa Francisco, é preciso aprendermos a viver na partilha ou na doação: “Na doação, a vida se fortalece; e se enfraquece no comodismo e no isolamento. De fato, os que mais desfrutam da vida são os que deixam a segurança da margem e se apaixonam pela missão de comunicar a vida aos demais” (EG n. 10).

2. A parábola também destaca que a entrada no banquete não é livre, pois não se trata de direito; requer-se um convite. Um patrão chama, um rei convida. E o convite é um ato de graça, e quem convida quer difundir sua alegria, manifestá-la e quer que os outros participem na mesma alegria. É um ato generoso. Cada generosidade é criadora, pois prolonga o ato criador de Deus que criou e cria tudo para nós graciosamente e gratuitamente. Deus nos chama através de vários sinais para que possamos participar da alegria divina que não depende das coisas materiais, embora sejam necessárias, mas da comunhão de vida trinitária onde o amor circula livremente dentro da própria pessoa e entre as pessoas. Não há alegria maior do que amar e ser amado. Não é por acaso que Jesus nos deu apenas um mandamento: o amor (cf. Jo 13,34-35; 15,12). Deus está no ato de amar.

3. O convite é sério e exige empenho. O acento é muito forte sobre este aspecto. É um convite de amor que compromete a vida. É evidente, aqui, o salto de qualidade entre o humano e o divino. Um convite humano pode ser aceito ou recusado. Se for recusado não haverá nenhum prejuízo para quem recusa o convite. Também se for aceito, não há comprometimento existencial. Mas o convite de Deus é diferente. Deus é tão misterioso, maravilhoso que, ao convidar, compromete, e é um compromisso que muda totalmente a vida, transfigura-a e faz a vida nova e renovada. Se o convite de Deus tem como objetivo mudar de vida para a melhor a fim de alcançar a salvação que é uma alegria sem fim, então, aquele que o recusa é considerado como insensato e irracional. É como aquele que quer agarrar um dólar e recusa uma oferta de um milhão de dólares gratuitamente. Só poderia ser um irracional e insensato.

4. O convite é dirigido a todos e não apenas para os privilegiados ou elites ou para os santos ou os certinhos. Aqui encontramos o amor de Deus dirigido aos perdidos da vida, aos coxos, aos excluídos da sociedade, a todos, pois todos são os filhos e filhas do mesmo Pai: “Tomai todos e comei. Tomai todos e bebei!”, assim Jesus nos convida em cada banquete eucarístico. Trata-se do banquete celeste já na terra.  Isto significa que o rei que é Deus quer todos, ama a todos cujo único objetivo é salvar. Então, eu não sou excluído desse amor. Deus me ama e creio no seu amor. O amor de Deus me alcança e me abraça. Por isso, não há uma Igreja de elites, há sim uma Igreja para todos onde há espaço para todos. O convite se faz na primeira hora, nas horas intermediárias e nas ultimas horas. A santidade não depende dos anos na Igreja e sim depende da renovação da chamada em cada instante. Por isso, a Igreja é chamada santa e pecadora.

5. Como cristãos somos todos discípulos-missionários. Na parábola o dono da festa manda os empregados a chamarem todos os convidados para o banquete. Os convidados especiais recusaram o convite. Mas quando o convite foi lançado para os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos, estes prontamente o aceitaram. É preciso sermos simples e humildes para poder captar os sinais do convite de Deus na nossa vida.

Todos nós somos enviados para chamar todos a participarem do banquete da salvação. A missão nasce da fé em Deus. A missão é a conseqüência da fé em Deus. A fé é o bem supremo para nós, porque ela é o fundamento e a raiz da salvação plena e total do homem. “... Urge recuperar o caráter de luz que é próprio da fé, pois, quando a sua chama se apaga, todas as outras luzes acabam também por perder o seu vigor. De fato, a luz da fé possui um caráter singular, sendo capaz de iluminar toda a existência do homem. Ora, para que uma luz seja tão poderosa, não pode dimanar de nós mesmos; tem de vir de uma fonte mais originária, deve porvir em última análise de Deus. A fé nasce no encontro com o Deus vivo, que nos chama e revela o seu amor: um amor que nos precede e sobre o qual podemos apoiar-nos para construir solidamente a vida. Transformados por este amor, recebemos olhos novos e experimentamos que há nele uma grande promessa de plenitude e se nos abre a visão do futuro. A fé, que recebemos de Deus como dom sobrenatural, aparece-nos como luz para a estrada orientando os nossos passos no tempo” (Papa Francisco: Carta Encíclica Lumen Fidei, n.4).  O impulso missionário nasce da profundidade da fé, do encontro vivo com Deus, da vivência da fé, da alegria da fé, da fatiga da fé, do sofrimento pela fé. A missão é a proclamação da fé. Sendo em si mesma um bem maior, a fé pede, por sua natureza, ser difundida. A Igreja enquanto comunidade de fé é missionária. “Propagar a fé é o primeiro dever do cristianismo, é a caridade maior; todas as outras obras de caridade estão unidas e subordinadas a esta suma obra” (Cardeal Carlo Maria Martini). Todo cristão é missionário e por isso, é enviado.

6. Cada um é chamado para o banquete eterno, mas é tentado ao mesmo tempo pela aparência bela das atrações do mundo. O pecado tem aspecto atrativo. Mas quando alguém estiver nos seus abraços, ele o sufoca e o agarra. Para sair dos seus braços supõe a existência de uma força maior e a vontade sem limite para sair desses abraços. Quem tem objetivo para melhorar a vida, sempre arranja um jeito e somar forças para alcançá-lo. Como quem ama loucamente encontra sempre jeito para agradar o outro.

Deus convida cada um de nós diariamente à sua alegria que é redentora. Diante desse convite, você é insensato e irracional ou sensato e racional? Quais são minhas justificativas ou recusas habituais toda vez que fui ou for convidado para fazer parte da equipe que trabalha para o bem comum na minha comunidade? Que contrapõe ao que Deus espera de mim? Qual lugar ocupa Deus na minha vida?

P. Vitus Gustama,svd

Quarta-feira Da XXXI Semana Comum, Ano Par, 04/11/2026

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