quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Santos Anjos Da Guarda, Memória, 02/10/2026

SANTOS ANJOS DA GUARDA

SER IRMÃO E FAZER-SE PEQUENO 



Primeira Leitura: Êx 23,20-23

Assim diz o Senhor: 20“Vou enviar um anjo que vá à tua frente, que te guarde pelo caminho e te conduza ao lugar que te preparei. 21Respeita-o e ouve a sua voz. Não lhe sejas rebelde, porque não suportará as vossas transgressões, e nele está o meu nome. 22Se ouvires a sua voz e fizeres tudo o que eu disser, serei inimigo dos teus inimigos, e adversário dos teus adversários. 23O meu anjo irá à tua frente e te conduzirá à terra dos amorreus, dos hititas, dos ferezeus, dos cananeus, dos heveus e dos jebuseus, e eu os exterminarei”.

Evangelho: Mt 18,1-5.10

Naquela hora, 1os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram: “Quem é o maior no Reino dos céus?” 2Jesus chamou uma criança, colocou-a no meio deles 3e disse: “Em verdade vos digo, se não vos converterdes, e não vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos céus. 4Quem se faz pequeno como esta criança, esse é o maior no Reino dos céus. 5E quem recebe em meu nome uma criança como esta, é a mim que recebe. 10Não desprezeis nenhum desses pequeninos, pois eu vos digo que os seus anjos nos céus veem sem cessar a face do meu Pai que está nos céus”.

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No dia 02 de Outubro a Igreja celebra a festa do Santo Anjos da Guarda. A missa de 2 de outubro se apoia sobretudo nos textos bíblicos: Mt 18,1-5.10 (Evangelho); Ex 23,20-23 (Primeira Leitura).

A existência dos anjos faz parte de nossa fé: “A existência dos seres espirituais, não-corporais, que a Sagrada Escritura chama habitualmente de anjos, é uma verdade de fé. O testemunho da Escritura a respeito é tão claro quanto a unanimidade da Tradição” (Catecismo Da Igreja Católica, 328).

O mesmo Catecismo Da Igreja Católica afirma: “Desde o início até a morte, a vida humana é cercada pela proteção dos anjos e por sua intercessão. Cada fiel é ladeado por um anjo como protetor e pastor para conduzí-lo à vida. Ainda aqui na terra, a vida crista participa, na fé, da sociedade bem-aventurada dos anjos e dos homens, unidos em Deus” (artigo 336).

Por que se fala, especificamente de uns anjos que nos acompanham pessoalmente, que nos protegem na caminhada cotidiana?

Poderíamos responder, em primeiro lugar, que trata-se de símbolos para falar do amor providente de Deus que cuida de sua criatura para que esta chegue à sua plena realização (comunhão plea com Deus) quando houver colaboração da própria criatura ou das circunstâncias nas quais se encontra. Era normal expressar, através de recursos literários provenientes de um contexto, as realidades misteriosas usando uma linguagem figurativa.

Em segundo lugar, os anjos são um reflexo misterioso do rosto de Deus e de sua bondade em nossa realidade. De fato, quando alguém nos trata bem, nos ajuda sem reservas etc. logo lhe dizemos: “Você é um anjo!”. Isto significa que a bondade de Deus se reflete naqueles que fazem o bem, chamados de mensageiros de Deus ou anjos de Deus no nosso dia a dia.

Em terceiro lugar, Os anjos da guarda nos revelam a presença transcendente de Deus em cada pessoa, especialmente nos mais pobres. O maior no Reino de Deus é a criança e quem se faz pequeno como criança, porque representa em forma paradigmática o despojamento de todo poder. O despojamento da soberba e da prepotência do poder é a condição para entrar no Reino de Deus. Alguém entra nele, quando descobre o poder de Deus: o poder de seu amor, o poder de sua Palavra e o poder de seu Espírito. Reino de Deus é Poder de amor de Deus. Esta presença de Deus nos mais pobres, que são os maiores no Reino, é o que dá aos pobres essa transcendência.

Cada pessoa, cada família, cada comunidade, cada povo, tem seu próprio anjo da guarda. O Livro de Êxodo ( cf. Ex 23, 20-23) nos mostra o Povo de Deus conduzido diretamente pelo anjo de Deus. O povo deve comportar-se bem na sua presença, escutar sua voz e não ficar rebelde. No anjo está o Nome de Deus. O Nome é o que Deus é. O anjo é essa presença de Deus no Povo de Deus.

Também cada um de nós deve descobrir nosso próprio anjo da guarda, sentir sua presença e escutar sua voz. Devemos viver conforme a esta presença transcendente em nós e refleti-la continuamente em nosso rosto. Para isso, é preciso ler, meditar e colocar em prática a Palavra de Deus. Estar em sintonia com a Palavra de Deus nos faz sensíveis para a presença de Deus na nossa vida cotidiana e nos torna conscientes de nossa tarefa como mensageiros de Deus na convivência com os demais.

Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador, se a ti me confiou a piedade divina, sempre me rege, me guarda, me governa me ilumina. Amém

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O texto do evangelho lido neste dia é escolhido em função da festa dos santos anjos da guarda. É tirado de Mt 18.

O capítulo 18 do evangelho de Mateus é o quarto dos cinco grandes discursos de Jesus neste evangelho. E este quarto discurso é conhecido como “discurso eclesiológico” (discurso sobre a Igreja) ou “discurso comunitário” onde se acentua a vida na fraternidade, isto é, cada membro da comunidade é considerado como irmão. Este capítulo (Mt 18,1-35) foi escrito para responder aos problemas internos das comunidades cristãs: Quem é o primeiro na comunidade? O que fazer se acontecem escândalos? E se um cristão se perde ou se afasta da comunidade, o que fazer? Como corrigir um irmão que erra? Quando é que uma oração pode ser chamada de comunitária e partilhada? E quantas vezes se deve perdoar?

Na comunidade de Mt (como também em qualquer comunidade cristã) cresce a ambição e se cultivam sonhos de grandeza dos membros que se acham mais importantes do resto. Há pouca consideração para com os pequenos, até são desconsiderados ou desprezados. Estes pequenos correm risco de se tornarem incrédulos e de afastar-se da atividade comunitária. Na comunidade de Mt suscitam também pecadores notórios, inclusive as ofensas e os ressentimentos que abalam a convivência fraterna.

Nesse capítulo, são dadas diversas orientações e algumas normas que têm por objetivo desenvolver o amor e favorecer a harmonia entre os membros da comunidade. Para isso, Mt coloca em ordem o material transmitido pela tradição para regular as relações internas da comunidade. Contra os sonhos de grandeza e de orgulho, Mt coloca a atitude de humildade que agrada a Deus e aos outros (18,1-4). Para os pequenos, os fracos na fé, é necessário ter uma acolhida cheia de caridade e de desvelo (18,6-7). O desprezo é inadmissível para uma boa convivência. Para enfatizar mais este tema, Mt fala dos anjos que sempre estão do lado dos pequenos (18,10). Se um dos membros da comunidade afastar-se ou desviar-se do caminho reto, em vez de condená-lo, a comunidade toda deve esforçar-se para que esse irmão volte para a comunidade, pois Deus não quer que nenhum deles se perca (18,12-14). E para o irmão pecador, a comunidade inteira deve usar todos os meios para recuperá-lo (18,15-20). E para as ofensas, deve haver perdão, pois uma comunidade só pode sobreviver se existe o perdão mútuo (18,21-35).

Ser Irmão e Fazer-se Pequeno

“Quem é o maior no Reino dos céus?”. “Quem é o maior diante de Deus?”. “Quem vale mais diante de Deus?”. Assim inicia o quarto discurso de Jesus sobre a vida comunitária baseada na fraternidade. A pergunta é feita pelos discípulos para Jesus. Maior aqui significa proeminente, superior aos outros por força de uma qualidade ou de um poder.

Atrás desta pergunta se esconde a ambição ou a mania de grandeza dos discípulos. É a ambição de grandeza que pode ser encontrada em qualquer comunidade cristã. É admirável a ambição de alguém que deseja redimir sua humilde condição, valorizando todas as suas capacidades de inteligência e de luta, pois um dos sentidos lexicais da palavra ambição é anseio veemente de alcançar determinado objetivo, de obter sucesso; aspiração, pretensão. A ambição só se transformará em vício quando a afirmação de si mesmo for exagerada e os meios adotados para atingir a glória forem desonestos. Uma pessoa de alma nobre não sai à procura das honras, e sim do bem. Ao contrário, o ambicioso se sente totalmente envolto pela espiral da glória que o transforma em vítima da própria tirania. O ambicioso, quando dominado pelo vício, não suporta competidores, nem admite rivais. Quem desejar ser a todo o custo o primeiro, dificilmente se preocupar com ser justo. “A soberba gera a divisão. A caridade, a comunhão” (Santo Agostinho. Serm. 46,18).

Como resposta para a pergunta dos seus discípulos Jesus faz um gesto muito simbólico: Ele chamou uma criança e a colocou no meio dos discípulos. Ao ser colocada no meio de todos, a criança chamada se torna um centro de atenção de todos. Imaginamos que todos os olhares são dirigidos a essa criança e os ouvidos prontos para ouvir a palavra sábia do Mestre Jesus. “Em verdade vos digo, se não vos con­ver­terdes, e não vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus. Quem se faz pequeno como esta criança, este é o maior no Reino dos Céus. E quem recebe em meu nome uma criança como esta é a mim que recebe”, disse Jesus aos discípulos (Mt 18,3-5). Ser criança: frescor, beleza, inocência, não se basta a si mesma!

Esta é a primeira regra da vida comunitária: cuidar dos pequenos e tratá-los como irmãos. E fazer-se pequeno. Fazer-se pequeno, como exigência para viver a vida comunitária, significa renunciar a toda ambição pessoal e a todo desejo de colocar-se acima dos demais para estar em destaque e para oprimir os demais. Fazer-se pequeno é uma forma de “renegar-se a si mesmo” para colocar a vontade de Deus acima de tudo. A grandeza do Reino consiste no serviço humilde e gratuito ao próximo, na solidariedade para com os necessitados, na partilha do que se tem para com os carentes do básico para viver dignamente como ser humano e no esforço para construir uma convivência mais fraterna. Trata-se de viver a espiritualidade familiar onde cada membro se preocupa com o outro membro e sua salvação. Vivendo desta maneira estaremos testemunhando para o mundo que estamos no Reino de Deus já neste mundo.

P. Vitus Gustama,svd

Quinta-feira Da XXVI Semana Comum, Ano Par, 01/10/2026

SOMOS TODOS MISSIONÁRIOS DO SENHOR E CONFIEMOS NELE INCONDICIONALMENTE APESAR DOS OBSTÁCULOS

Quinta-feira da XXVI Semana Comum

Primeira Leitura: Jó 19,21-27 (Ano Par)

Disse Jó: 21 “Piedade, piedade de mim, meus amigos, pois a mão de Deus me feriu! 22 Por que me perseguis como Deus, e não vos cansais de me torturar? 23 Gostaria que minhas palavras fossem escritas e gravadas numa inscrição 24 com ponteiro de ferro e com chumbo, cravadas na rocha para sempre! 25 Eu sei que o meu redentor está vivo e que, por último, se levantará sobre o pó; 26 e depois que tiverem destruído esta minha pele, na minha carne, verei a Deus. 27 Eu mesmo o verei, meus olhos o contemplarão, e não os olhos de outros. Dentro de mim consomem-se os meus rins”.

Evangelho: Lc 10,1-12

Naquele tempo, 1 o Senhor escolheu outros setenta e dois discípulos e os enviou dois a dois, na sua frente, a toda cidade e lugar aonde ele próprio devia ir. 2 E dizia-lhes: “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos”. Por isso, pedi ao dono da messe que mande trabalhadores para a colheita. 3 Eis que vos envio como cordeiros para o meio de lobos. 4 Não leveis bolsa nem sacola nem sandálias, e não cumprimenteis ninguém pelo caminho! 5 Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: ‘A paz esteja nesta casa!’ 6 Se ali morar um amigo da paz, a vossa paz repousará sobre ele; se não, ela voltará para vós. 7 Permanecei naquela mesma casa, comei e bebei do que tiverem, porque o trabalhador merece o seu salário. Não passeis de casa em casa. 8 Quando entrardes numa cidade e fordes bem recebidos, comei do que vos servirem, 9 curai os doentes que nela houver e dizei ao povo: ‘O Reino de Deus está próximo de vós’. 10 Mas, quando entrardes nu­ma cidade e não fordes bem recebidos, saindo pelas ruas, dizei: 11 ‘Até a poeira de vossa cidade que se apegou aos nossos pés, sacudimos contra vós. No entanto, sabei que o Reino de Deus está próximo!’ 12 Eu vos digo que, naquele dia, Sodoma será tratada com menos rigor do que essa cidade”.

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Deus Está Acima De Nossos Argumentos

“Piedade, piedade de mim, meus amigos, pois a mão de Deus me feriu! Por que me perseguis como Deus, e não vos cansais de me torturar? Eu sei que o meu Redentor está vivo e que, por último, se levantará sobre o pó; e depois que tiverem destruído esta minha pele, na minha carne, verei a Deus. Eu mesmo o verei, meus olhos o contemplarão, e não os olhos de outros”, disse Jó aos seus amigos que querem convencê-lo de que os males que lhe afligem se devem a seus pecados.

Como se sabe que o livro de Jó é um livro que questiona uma fé apoiada apenas nos conhecimento ou teorias, não alinhada com a experiência da vida, com o Deus que se manifesta nos acontecimentos e na História. Deus é incompreensível na sua profundidade. Não é por acaso que são João da Cruz dizia: “Para possuir o Todo é necessário abandonar tudo” (cf. Noite Escura de são João da Cruz).

Vimos ontem que a resposta de Jó à pergunta: “Por que existe o mal, o sofrimento e a morte?”, era : “o mal é incompreensível, mas sou demasiado débil para compreender, e quero confiar em Deus que fez coisas tão boas e tão esplêndidas”. O tema da situação e das atitudes do homem diante da dor  e do “justo que sofre” era conhecido em outras literaturas orientais.

No texto de hoje, o pensamento de Jó progrediu a ponto de crer que nada é impossível para Deus, inclusive, a morte não pode ser um obstáculo para Deus. Todavia, se todas as aparências terrenas me dizem o contrário, eu continuo crendo em Deus. A fé é uma aposta, um salto no desconhecido de maneira total, mas confiando também totalmente n´Aquele em Quem confio.

No fundo, Jó tem fé em Deus. Ainda que no Antigo Testamento não tenha ideia clara da outra vida, Jó confia em Deus, e, de alguma maneira, parece intuir já o que nos revelará mais plenamente o Novo Testamento: “Eu sei que o meu Redentor está vivo e que, por último, se levantará sobre o pó; e depois que tiverem destruído esta minha pele, na minha carne, verei a Deus. Eu mesmo o verei, meus olhos o contemplarão, e não os olhos de outros”. Este “redentor” é a figura do “Goel” em Lv 25,25 que é o parente mais próximo que sai em defesa de uma viúva ou de um órfão que foi tratado injustamente.

No Lecionário das exéquias cristãs aparece a leitura de hoje. Nós, sim, podemos dizer com razão: “Eu sei que o meu Redentor está vivo”. Se o Redentor está vivo, então Ele vive comigo ou dentro de mim. Ou melhor, eu vivo dentro do meu Redentor com um galho no tronco. Eu sofro, mas estou com Ele e Ele está comigo. Para nós, nossa vida e nossa morte têm seu sentido mais profundo em nossa solidariedade com Cristo Jesus, em nossa comunhão de destino com o Senhor Jesus. Pelo nosso Batismo já fomos incorporados na sua Páscoa: na sua morte e ressurreição. Não só a dor, mas também a vida. Não somente a vida, mas também o mistério da dor. Tudo isso ilumina a vivência dos momentos difíceis e nos ajuda a poder comunicar aos outros nossa fé e esperança.

Há dois raios de luz que saltam da Palavra de Deus hoje. O primeiro, vem do livro de Jó. É um grito de esperança em meio à prova: “Depois que tiverem destruído esta minha pele, na minha carne, verei a Deus. Eu mesmo o verei, meus olhos o contemplarão, e não os olhos de outros”. Como é possível manter este grito quando se bebe do cálice do sofrimento? As palavras de Jó são como uma antecipação das palavras finais de Jesus: “Pai, nas Tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46).

O segundo raio de luz é uma mensagem de Jesus dirigido aos discípulos de todos os tempos: “Põe-os em caminho!”. São convidados a ir caminhando. Às vezes sonhamos em ter tudo claro para tomar um decisão. Mas esperar para ver com claridade nos paralisa. A luz se faz caminhando. Porque toda vez que nos pomos em caminho, o Senhor, como nos recorda o relato de Emaús (Lc 24,13-35), se põe a caminhar conosco. E Ele é o próprio Caminho, a Verdade das verdades e a Vida de todas as vida (Jo 14,6). Ponhamos em caminho sabendo que o Senhor vai conosco, sempre disposto a levar a cabo, por meio de nós, Sua obra de amor e de salvação entre nós, para que nos vejamos livres de tudo aquilo que nos oprime e destrói. Acudamos ao Senhor, pois Ele quem nos assinala o caminho por onde temos que ir até nos encontrarmos com Ele, não somente em Seu templo, mas também na vida diária e na Via eterna.

O Salmo Responsorial de hoje (Sl 26/27), mais uma vez, quer nos infundir sentimentos de fé e de confiança em Deus. Não entendemos o mistério do mal ou o mistério da morte, mas sim sabemos confiar em Deus, que é sempre Pai: “Sei que a bondade do Senhor eu hei de ver na terra dos viventes. Espera no Senhor e tem coragem, espera no Senhor!”.

É Preciso Colaborar Na Missão Deixada Por Jesus a Partir De Nossas Carismas

Continuamos a acompanhar a última viagem de Jesus para Jerusalém (Lc 9,51-19,28), pois  Ele será crucificado e morto, porém será ressuscitado. Durante essa viagem Jesus vai dando suas últimas lições para seus discípulos.

O evangelista Lucas, como Mateus, fala duas vezes sobre a missão. Logo, trata-se de um tema importante para a Igreja, pois a “Igreja é, por natureza, missionário” (Ad Gentes, 2). A Igreja se sente apostólica (missionária), porque é chamada a continuar a missão de Jesus que começou com os Doze e os setenta (e dois) como uma única missão. A missão da Igreja nada tem a ver com o proselitismo, pois a missão nasce do amor do Pai para com todos os filhos e termina no amor dos filhos pelo Pai e entre eles. A missionariedade da Igreja não é fanatismo ou proselitismo, mas conhecimento do amor do Pai por “todos” e “individualmente” pelos seus filhos. A imagem da colheita recorda a vinda decisiva do Senhor (Gl 4,13; Ap 14,15-16) para o julgamento de salvação. Na verdade, todo homem é para sempre colheita, trigo maduro para se tornar corpo do Senhor. A missão tem uma dimensão essencial na Igreja: realiza-se a natureza de filho na medida em que se vai em direção a todos os irmão com o mesmo amor do Pai.

No capítulo anterior do evangelho lido neste dia, lemos que a missão antes foi confiada aos Doze (Lc 9,1-6). Mas a obra de Jesus não está encerrada e não se restringe para um grupo pequeno. Realiza-se e expande-se através dos setenta (e dois). Setenta são, em Israel, os anciãos (Ex 24,1; Nm 11,16-24; compare Ex 24 e Nm 11: 72 anciãos), os membros do sínedro, os tradutores da Bíblia (Septuaginta), e os povos da terra (Gn 10).

Para dessas questões, se são setenta ou setenta e dois, o significado é claro: a Palavra dada a Israel deve atingir todos os filhos de Deus, todos os povos.  Com o número setenta (e dois), portanto, Lucas quer nos dizer que a missão não é apenas exercida por um pequeno grupo de pessoas, mas todos os que seguem a Jesus, todos os batizados têm a mesma missão de continuar a obra de Jesus. Todos os cristãos têm a mesma missão. Missão significa que alguém é enviado. Jesus envia todos os cristãos ao mundo para serem testemunhas de tudo o que Jesus fez e disse, especialmente de sua morte e ressurreição por amor à humanidade. Por isso, a missão dos discípulos tem como primeiro princípio ser testemunho do amor, do perdão, da justiça e da verdade, dentro e fora da comunidade.

São enviados como cordeiros entre os lobos. O lobo é o símbolo da violência e da arrogância, da vontade de dominar e de corromper os outros. O cordeiro simboliza a mansidão, a fraqueza, a fragilidade. O cordeiro somente consegue se salvar da agressão do lobo se o pastor intervém na sua defesa. Os discípulos não podem contar com a força, o poder e a violência (lobo). Devem estar sempre desarmados (cordeiro). Para isso, é necessário que os discípulos estejam vigilantes para que eles não sejam conduzidos a cumprir as ações dos lobos como o abuso de poder, as agressões, as violências etc..  Jesus salvou o mundo, comportando-se como cordeiro, e não como lobo.

Ao enviar 70 (e dois) discípulos para a missão Jesus dá as seguintes recomendações:

Primeiro, são enviados dois em dois. Deus quer que mudem as relações entre os seres humanos; que todos se vejam como iguais e se tratem como irmãos, pois todos são filhos e filhas do mesmo Pai do céu. Por isso, eles têm que viver como uma família, sem competições e sem ambições. O Reino não é tarefa para gente solitária. Por isso, Jesus envia os 70 (e dois) de dois em dois para que se ajudem, se confrontem e se complementem. Quando se compartilhar o que se tem, haverá sobra. Esta é a experiência do grupo de Jesus e daqueles que querem ser discípulos de Jesus.

Segundo, o Reino de Deus que eles anunciarão vai vencer o mal e a morte, porque o Reino de Deus vai ter a última palavra e não o mal. Por isso, o mal não tem futuro. Deus quer que todos tenham vida (Jo 10,10). Por isso, todos têm que optar pela vida e não pela morte eterna, e pelo bem e não pelo mal.

Terceiro, todos devem pôr toda sua confiança no Pai celeste, mas nos meios humanos. Isso é condição fundamental para quem quer colaborar com o Reino de Deus. É a pobreza no espírito. Desapegados de todas as coisas e de suas posses, pela pobreza sagrada enriqueciam-se com os tesouros eternos. Segundo a pregação apostólica, alegravam-se por nada ter do mundo e tudo possuir com Cristo.Essa pobreza no espírito lhes dará liberdade e será um testemunho maior do que mil palavras de que o Reino não se impõe pela força e sim que se oferece como amor e por isso, livre de todo poder. E devem aprender a reconstruir as relações de confiança formando uma comunidade de irmãos como o próprio Deus quer. Devemos abandonar nossos egoísmos, deixar a auto-suficiência e nos entregar nas mãos de Deus para que o Reino de Deus aconteça aqui e agora.

A coisa mais difícil que Jesus exigiu e exige de nós, seus seguidores é o desapego. Não basta correr atrás de Jesus, porque ele é bom e faz milagres. Não basta aplaudir Jesus nas muitas coisas que ensina e com as quais estamos de acordo. É preciso aceitá-lo por inteiro. É preciso termos o desapego de tudo e de todos para que possamos segui-Lo com um coração inteiro. O desapego é o sinal da minha liberdade interior em que não há nada que possa me prender. E o preço desta liberdade é a morte de Jesus na cruz. O desapego é o sinal da minha maturidade espiritual em que Deus está sempre em primeiro lugar. O desapego é o sinal do meu domínio sobre mim mesmo e sobre todas as coisas.

O fundamental que os discípulos devem ter em conta é que eles estão trabalhando na construção do Reino de Deus e não por seu próprio reino. A grantia maior de seu trabalho missionário é o Senhor que os enviou. Se cada um se preocupar em construir o próprio reino, haverá guerra permanente e disputa permanente, pois cada um quer defender o próprio reino e não o Reino de Deus. Quem tem consciência de que trabalha pelo Reino de Deus, também acredita na providência divina. Quem acredita somente na própria força e técnica, um dia vai se cansar quando as próprias forças se esgotarem. As ovelhas são do Senhor, temos tarefa de apascentá-los. A vinha é do Senhor, somos apenas colaboradores para essa vinha.

O envio dos 70 (e dois) tem, então, como horizonte fundamental o Reino de Deus. Este constitui o conteúdo de toda pregação cristã e o horizonte que jamais devemos perder de vista quando referimos à ação da Igreja no mundo. A Igreja existe em função do Reino. A Igreja existe a serviço do Reino de Deus. A Igreja não é o Reino de Deus.

A missão serve tanto para formar missionários como para despertar os que são visitados para serem também missionários. Todos são enviados para fazer missão e para tornar o outro missionário.

É bom cada um perguntar-se: “O que é que tenho contribuído na missão do Reino de Deus? O que é que tenho feito até agora na evangelização? Qual é o lugar da Palavra de Deus na minha vida? Será que faço parte daqueles que criticam muito, mas nada colaboram?”.

Quando  levantamos os olhos e vemos um mundo consumido pelo egoísmo, pela corrupção, pela injustiça social, pela exploração dos inocentes, um mundo que se destrói  a si mesmo com guerras e vícios, enfim, quando vemos que a mensagem do Evangelho de Jesus Cristo não penetra nossos corações e as estruturas do mundo, podemos compreender que efetivamente a messe é grande e os trabalhadores são poucos. Não é que o Senhor não tenha atendido a oração da Igreja e sim porque poucos que responderam o convite do Senhor. Não pensemos somente nas vocações religiosos (sacerdotes e religiosas), pensemos em que cada um de nós, pelo Batismo, somos convertidos em discípulos do Senhor, em homens e mulheres comprometidos a testemunhar nossa fé. Se cada um dos batizadaos tomasse a sério seu papel na Igreja, as mãos se multiplicariam e o trabalho seria muito mais fácil. Jesus chama cada um de nós, seja casado, seja solteiro ou religioso consagrado, a participar ativamente na evangelização a partir dos dons que cada um recebeu do Senhor. tomemos com zelo esta chamado e a partir de nossa vocação particular, façamos nossa contribuição na evangelização para que Cristo seja verdadeiramente o Senhor de todos os corações. Você pode fazer algo. Decida-se! Não demore, pois o tempo passa sem parar.

P. Vitus Gustama,SVD

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Quarta-feira Da XXVI Semana Comum, Ano Par, 30/09/2026

SEGUIR A JESUS INCONDICIONALMENTE, APESAR DAS CRUZES, PARA ALCANÇAR A LIBERDADE PLENA

Quarta-Feira Da XXVI Semana Comum

Primeira Leitura: Jó 9,1-12.14-16 (Ano Par)

1 Jó respondeu a seus amigos e disse: 2 “Sei muito bem que é assim: como poderia o homem ser justo diante de Deus? 3 Se quisesse disputar com ele, entre mil razões não haverá uma para rebatê-lo. 4 Ele é sábio de coração e poderoso em força; quem poderia enfrentá-lo e ficar ileso? 5 Ele desloca as montanhas, sem que elas percebam e as derruba em sua cólera. 6 Ele abala a terra em suas bases e suas colunas vacilam. 7 Ele manda ao sol que não brilhe e guarda escondidas as estrelas. 8 Sozinho desdobra os céus, e caminha sobre as ondas do mar. 9 Criou a Ursa e o Órion, as Plêiades e as constelações do Sul. 10 Faz prodígios insondáveis, maravilhas sem conta. 11 Se passa junto de mim, não o vejo, e quando se afasta, não o percebo. 12 Se ele apanha uma presa, quem ousa impedi-lo? Quem pode dizer-lhe: — ‘Que está fazendo?’ 14 Quem sou eu para replicar-lhe, e contra ele escolher meus argumentos? 15 Ainda que eu tivesse razão, não poderia replicar, e deveria pedir misericórdia ao meu juiz. 16 Se eu clamasse e ele me respondesse, não creio que daria atenção à minha voz”.

Evangelho: Lc 9,57-62

Naquele tempo, 57 enquanto Jesus e seus discípulos caminhavam, alguém na estrada disse a Jesus: “Eu te seguirei para onde quer que fores”. 58 Jesus lhe respondeu: “As raposas têm tocas e os pássaros têm ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça”. 59 Jesus disse a outro: “Segue-me”. Este respondeu: “Deixe-me primeiro ir enterrar meu pai”. 60 Jesus respondeu: “Deixa que os mortos enterrem os seus mortos; mas tu, vai anunciar o Reino de Deus”. 61 Um outro ainda lhe disse: “Eu te seguirei, Senhor, mas deixa-me primeiro despedir-me dos meus familiares”. 62 Jesus, porém, respondeu-lhe: “Quem põe a mão no arado e olha para trás não está apto para o Reino de Deus”.

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O Bem e a Bondade Se Encontram Em Deus, e o Mal Se Encontra No Homem

“Sei muito bem que é assim: como poderia o homem ser justo diante de Deus? Se quisesse disputar com ele, entre mil razões não haverá uma para rebatê-lo. Ele é sábio de coração e poderoso em força; quem poderia enfrentá-lo e ficar ileso?”, disse Jó aos seus amigos.

Por que a dor? Por que a dor e o sofrimento do justo e do inocente? O Deus Todo-poderoso não pode impedir o desamparo dos pequenos e as torturas que atingem os inocentes? Jó e seus amigos buscam resposta à pergunta sobre o mal que atinge os inocentes e justos. Jó, sendo justo, fica assustado diante de Deus. Porém, continua sua busca pela resposta de Deus.

Dois amigos foram dar “sermão” a Jó, mas não lhe ajudam muito. Esta é também uma experiência  humana corrente: uns “bons amigos” se aproximam de nosso leito de dor e tratam de nos dizer alguma palavra boa e consoladora. Mas como é fácil falar da dor quando não se sofre a dor!

Mas o próprio Jó volta a tomar palavra e não se atreve a pleitear contra Deus : “Como poderia o homem ser justo diante de Deus? Se quisesse disputar com ele, entre mil razões não haverá uma para rebatê-lo. Ele é sábio de coração e poderoso em força; quem poderia enfrentá-lo e ficar ileso?”. As buscas de Jó são muito humanas. Em sua imperfeição, suas respostas são admiráveis. A primeira impressão é que a Deus não se pedem contas. Esta é a verdade essencial. Mas o homem deve prestar contas diante de Deus. Para Jó Deus é Todo-poderoso que sabe tudo e pode fazer tudo. Como podemos encontrar argumentos contra Deus ou pedir contas a Ele? Não sabemos de nada de qualquer resposta exata. Somente em Deus se encontra nossas resposta! Nem sempre no momento entendemos o sentido de nossas experiências sejam boas ou dolorosas. No momento exato Deus vai nos revelar o sentido de nossas experiências.

Mas o mal existe. É inútil fugir! É inútil não querer vê-lo. É inútil refugiar-se na droga, nos prazeres carnais e em outros tipos de fuga. Há que olhar o mal de frente para saber o porquê de sua existência. Nada na vida deve ser temido. É só para ser compreendido a partir da luz divina. Sem dúvida nenhuma que o mal não se encontra em Deus e sim no homem. No próprio homem é que tem que procurar a razão da existência do mal. Tudo o que Deus criou era bom. A bondade e o bem se encontram em Deus e podem ser encontrados no homem de boa vontade. Não podemos perguntar a Deus algo cuja resposta se encontra no próprio homem. “Não é a carne corruptível que torna o homem pecador. É a alma pecadora que o torna corruptível. Não é por ser de carne, mas por viver de acordo com os próprios instintos que o homem se tronou como o Demônio” (Santo Agostinho: De cic.Dei 14,3). E não podemos pedir a Deus aquilo que o próprio homem pode e deve fazer. Se o homem pratica o mal contra outro homem Deus somente quer nosso bem e nossa salvação (Cf. Jo 3,16). Em Deus somente existe o bem. Se existisse o mal em Deus, Ele não seria o verdadeiro Deus. Por isso, não perguntemos a Deus sobre o mal, pois Deus não tem resposta; a resposta está no próprio homem.

A situação de Jó pode acontecer com qualquer um de nós ou com nossos conhecidos tão justos, no entanto sofrem alguma injustiça. Por que acontece isso comigo? Por que o inocente sofre? Por que Deus permite tudo isso, se Ele é Todo-poderoso? São perguntas habituais que ouvimos de muitas pessoas.

O Papa João Paulo II escreveu na sua Carta Apostólica: Salvifici Doloris (11/2/1984): “No fundo de cada sofrimento experimentado pelo homem, como também na base de todo o mundo dos sofrimentos, aparece inevitavelmente a pergunta: porquê? É uma pergunta acerca da causa, da razão e também acerca da finalidade (para quê?); trata-se sempre, afinal, de uma pergunta acerca do sentido. Esta não só acompanha o sofrimento humano, mas parece até determinar o seu conteúdo humano, o que faz com que o sofrimento seja propriamente sofrimento humano. A dor, como é óbvio, em especial a dor física, encontra-se amplamente difundida no mundo dos animais. Mas só o homem, ao sofrer, sabe que sofre e se pergunta o porquê; e sofre de um modo humanamente ainda mais profundo se não encontra uma resposta satisfatória. Trata-se de uma pergunta difícil, como é também difícil uma outra muito afim, ou seja, a que diz respeito ao mal. Por que o mal? Por que o mal no mundo? Quando fazemos a pergunta desta maneira fazemos sempre também, ao menos em certa medida, uma pergunta sobre o sofrimento” (n.9). “O homem pode dirigir tal pergunta a Deus, com toda a comoção do seu coração e com a mente cheia de assombro e de inquietude; e Deus espera por essa pergunta e escuta-a, como vemos na Revelação do Antigo Testamento. A pergunta encontrou a sua expressão mais viva no Livro de Job (Jó)” (n.10).

Será , como dizem seus amigos a Jó, que essas desgraças são necessariamente castigo de seus pecados? Será uma pedagogia divina, pelo valor educativo que têm as provas e a dor?

João Paulo II escreveu na mesma Carta Apostólica: “Job, no entanto, contesta a verdade do princípio que identifica o sofrimento com o castigo do pecado; e faz isso baseando-se na própria situação pessoal. Ele, efetivamente, tem consciência de não ter merecido semelhante castigo; e, por outro lado, vai expondo o bem que praticou durante a sua vida. Por fim, o próprio Deus desaprova os amigos de Job pelas suas acusações e reconhece que Job não é culpado. O seu sofrimento é o de um inocente: deve ser aceite como um mistério, que o homem não está em condições de entender totalmente com a sua inteligência” (n.10).

Onde se encontra o sentido do sofrimento e da dor? O Papa João Paulo II na mesma Carta Apostólica escreveu: “Para descobrir o sentido profundo do sofrimento, seguindo a Palavra de Deus revelada, é preciso abrir-se amplamente ao sujeito humano com as suas múltiplas potencialidades. É preciso, sobretudo, acolher a luz da Revelação, não só porque ela exprime a ordem transcendente da justiça, mas também porque ilumina esta ordem com o amor, qual fonte definitiva de tudo o que existe. O Amor é ainda a fonte mais plena para a resposta à pergunta acerca do sentido do sofrimento. Esta resposta foi dada por Deus ao homem na Cruz de Jesus Cristo” (n.13b).

Temos a resposta em Cristo, em sua dor assumida, em sua solidariedade total conosco, em sua morte inocente e em sua ressurreição. Deus quis nos salvar assumindo Ele nossa dor, entrando até o fundo no mundo de nosso sofrimento e dando-lhe assim um sentido redentor, de amor, a partir da profundidade do sacrifício pascal de Cristo, o Servo de Javé, que se entrega pelos demais voluntariamente apesar de ser inocente. Deus nos ama, em Cristo Jesus, até quando nós sofremos como uma mãe que ama ama seu filho doente mais do que os filhos saudáveis, que não precisam de tantos cuidados. Deus nos mostrou seu amor precisamente através de sua dor solidária de nossa dor. Nossa dor, então, se converte em solidário da do Cristo. com a mesma finalidade: salvar o mundo. Jesus nos deu o exemplo, entregando-se nas mãos de Deus e caminhando para seu sacrifício: “Não se faça minha vontade e sim a tua vontade. Em tuas mãos entrego meu espirito”.

O Salmo Responsorial (Sl 87/88) não nos dá resposta e sim forças para viver o mistério: “Clamo a Vós, ó Senhor, sem cessar, todo o dia, minhas mãos para Vós se levantam em prece. Quanto a mim, ó Senhor, clamo a Vós na aflição. Minha prece se eleva até Vós desde a aurora”. É a confissão de nossa impotência radical a compreender tudo que se passa na nossa vida e tudo que existe no universo.

Disponibilidade, Radicalidade de entrega e Coerência No Seguimento De Cristo

O texto do evangelho lido neste dia se encontra no conjunto do texto que fala da ultima viagem de Jesus para Jerusalém, pois lá ele será crucificado e morto, mas ressuscitado: “Enquanto Jesus e seus discípulos estavam a caminho (para Jerusalém)...”. é o caminho do êxodo (cf. Lc 9,31.51), que tem como objetivo Jerusalém. Durante a viagem para Jerusalém Jesus vai dando suas ultimas lições para seus discípulos e para os cristãos de todos os tempos e lugares. Trata-se das lições do caminho. (Lc 9,51-19,28). E Lucas não tem pressa de relatar a chegada de Jesus em Jerusalém.

No evangelho deste dia Jesus põe outras três exigências. As exigências começa com a palavra “Alguém...”. Trata-se de uma pessoa indeterminada. Por isso, esse “Alguém” representa qualquer pessoa que quer seguir a Jesus.

Este alguém quer seguir a Jesus a onde quer que Jesus vá. No primeiro diálogo de Jesus com este alguém, o que é sugerido é que o discípulo deve despojar-se das preocupações materiais exageradamente: para o discípulo, o Reino tem de ser infinitamente mais importante do que as comodidades e o bem-estar material. Por isso Jesus diz: “As raposas têm tocas e os pássaros têm ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça”.  As raposas são animais astutos, como as serpentes, e os pássaros são animais ingênuos como as pombas (Mt 10,16). O homem do mundo coloca a sua segurança nos bens materiais que um dia serão deixados assim que ele morrer. Herodes é chamado por Jesus de raposa: astuto, violento, avarento, materialista (Lc 13,32). O homem-raposa procura a própria morada naquilo que é caduco. Contra o desejo da carne, movido pela necessidade de proteger a própria vida e a realidade, Jesus vive em pobreza absoluta (2Cor 8,9). Quem quiser ter uma morada feliz e definitiva deve seguir a Jesus totalmente.

Antes (no primeiro diálogo) a iniciativa era de alguém (discípulo). Agora a iniciativa é de Jesus: “Jesus disse a outro: ‘Segue-me’. Este respondeu: ‘Deixe-me primeiro ir enterrar meu pai’”. A iniciativa a partir de Jesus significa que somos nós a seguir Jesus e não Ele a nos seguir. A chamada é clara e precisa: “Segue-me!”. É ir atrás d´Ele no mesmo caminho, sem toca sem ninho. O segundo diálogo sugere que o discípulo deve despegar-se dos deveres e obrigações que, apesar da sua relativa importância impedem uma resposta imediata e radical ao Reino. “Deixa que os mortos enterrem os seus mortos; mas tu, vai anunciar o Reino de Deus”. É a resposta de Jesus. A realidade humana, mesmo importante, não é absoluta. Colocar a criatura antes do Criador é inverter o relacionamento vital homem-Deus. Todo o bem tem em Deus o seu começo e o seu repouso (Gn 1): feito dele e por ele, somente nele encontra a si próprio. Se o homem não abandona o pai, não se torna adulto e não se casa. Se não abandonamos todo afeto anterior a Deus e não ordenado a Ele, não estaremos livres e fracassaremos o sentido da vida; viveremos no reino da morte governado pelas nossas propriedades que são nossos ídolos. Quem colocou a prioridade no Reino, começa a anunciá-lo. Isto mostra o coração livre de tudo e de todos para estar com Aquele que é Todo para o homem: Deus.

A terceira figura de discípulo combina as dificuldades dos primeiros dois. É ele que se convida e é ele que se coloca a prioridade: “Eu te seguirei, Senhor, mas deixa-me primeiro despedir-me dos meus familiares”. Para este terceira figura, o seguimento é a sua reivindicação, porém é para o futuro: “Seguirei”. O convite do Senhor está no presente: “Segue-me!”. Quem  está apegado à coisas, às pessoas ou ao próprio eu, e procura outra segurança que não seja a obediência à vontade de Deus, está decididamente não apto para o Reino. É sal sem sabor (Lc 14,35). O terceiro diálogo sugere que o discípulo deve despegar-se de tudo para fazer do Reino a sua prioridade fundamental.

Em outras palavras, seguir a Jesus exige disponibilidade, radicalidade de entrega e coerência. Quem quiser seguir a Jesus, não pode deter-se a pensar nas vantagens ou desvantagens materiais que isso lhe traz, nem nos interesses que deixou para trás, nem nas pessoas a quem tem de dizer adeus. Muitas vezes a exigência do “ter” não serve mais para encobrir e dissimular a pobreza do “ser”. O que se deve viver é ser pobre no espírito e não ser pobre do espírito. A pobreza no espírito tem o amor como ponto de partida e como ponto de chagada. Por isso, pode-se dizer que a pobreza no espírito é mais do que uma renúncia, é uma conquista.

“Deixa que os mortos enterrem os seus mortos; mas tu, vai anunciar o Reino de Deus”. Precisamos deixar o modo de viver e de pensar que nos fazem como mortos: sem vida, sem horizonte, sem perspectivas, sem criatividade e assim por diante. A tradição morta gera a morte e mortos. Ao contrário, precisamos seguir Aquele que nos faz viver, Aquele que nos diz: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6); Aquele que nos diz: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham abundantemente” (Jo 10,10). Precisamos crer n’Aquele que nos garante a vida e a ressurreição: “Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crer em mim, ainda que esteja morto, viverá” (Jo 11,25).

Muitas das vezes temos tentação de estar dispostos a seguir a Jesus apenas durante umas horas de nossa vida, ou em uns aspectos de nossa vida. Muitas das vezes temos tentação de colocar condições a Jesus para segui-Lo, apresentando supostamente boas desculpas, como narra o evangelho de hoje: “Deixa-me primeiro ir enterrar meu pai” ou “Deixa-me primeiro despedir-me dos meus familiares”.  O que dizemos parece sensato, mas na verdade é um modo de não aceitar a radicalidade da exigência que nos arrancaria de nossa mediocridade. Não se pode perder o tempo em enterrar tantos mortos que estão dentro de nós mesmos e que nos aprisionam sutilmente: valores mundanos, práticas religiosas sem compromisso e assim por diante. Tudo isto tem que morrer em nós para que possa surgir o espírito de liberdade e de vida nova. Jesus não anula o que tem de bom e de verdadeiro no nosso passado ou do nosso passado, mas nos exige que aprendamos a olhar a vida a partir de um critério absoluto.

“Segue-me” é o convite de Jesus hoje para cada um de nós. Vamos nos fazendo cristãos na medida em que nos atrevermos a seguir a Jesus. Vamos nos abrindo ao Espírito de Jesus para viver como ele viveu e passar por onde ele passou.  O cristão não é somente aquele que evita o mal e sim aquele que luta contra o mal e a injustiça como fez Jesus. O cristão não é somente aquele que faz o bem e sim aquele que luta por um mundo melhor adotando a postura de Jesus e tomando suas mesmas opções. “Segue-me” é o convite de Jesus para caminhar, para avançar e não para ficar parado e paralisado. Pessoas que tem coragem de caminhar são pessoas que fazem a diferença. “Pessoas que fazem diferença não desistem antes de começar, não dão moradia ao desânimo. Pessoas que fazem a diferença sabem que os problemas são relativos, transformam fracassos em aprendizados. Pessoas que fazem a diferença não se deixam amedrontar, alimentam sonhos possíveis. Pessoas que fazem a diferença começam cada dia com convicção, confiam que a vitória é dos persistentes no amor” (Canísio Mayer). “Não é porque certas coisas são difíceis que nós não ousamos; é justamente porque não ousamos que tais coisas são difíceis”, dizia Sêneca.

P. Vitus Gustama,svd

domingo, 27 de setembro de 2026

Santos Miguel, Gabriel e Rafael, Arcanjos, festa, 29/09/2026

ARCANJOS: MIGUEL, GABRIEL E RAFAEL

29 de Setembro

1ª Leitura: Dn 7,9-10.13-14

9 Eu continuava olhando até que foram colocados uns tronos, e um Ancião de muitos dias aí tomou lugar. Sua veste era branca como neve e os cabelos da cabeça, como lã pura; seu trono eram chamas de fogo, e as rodas do trono, como fogo em brasa. 10 Derramava-se aí um rio de fogo que nascia diante dele; serviam-no milhares de milhares, e milhões de milhões assistiam-no ao trono; foi instalado o tribunal e os livros foram abertos. 13 Continuei insistindo na visão noturna, e eis que, entre as nuvens do céu, vinha um como filho de homem, aproximando-se do Ancião de muitos dias, e foi conduzido à sua presença. 14 Foram-lhe dados poder, glória e realeza, e todos os povos, nações e línguas o serviam: seu poder é um poder eterno que não lhe será tirado, e seu reino, um reino que não se dissolverá.

Evangelho: Jo 1, 47-51

Naquele tempo, 47 Jesus viu Natanael que vinha para ele e comentou: “Aí vem um israelita de verdade, um homem sem falsidade”. 48 Natanael perguntou: “De onde me conheces?” Jesus respondeu: “Antes que Filipe te chamasse, enquanto estavas debaixo da figueira, eu te vi”. 49 Natanael respondeu: “Rabi, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel”. 50 Jesus disse: “Tu crês porque te disse: “Eu te vi debaixo da figueira? Coisas maiores que esta verás!” 51 E Jesus continuou: “Em verdade, em verdade eu vos digo: Vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem”.

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Estamos conscientes de que Deus é o único ser que não tem história. Todos os seres criados são, em maior ou menor grau, seres históricos: nascem, evoluem, morrem. Só que a história de cada um tem um sinal diferente, de acordo com o lugar que ocupa na hierarquia ontológica. À medida que se ascende do inerte para o sensível ou sensitivo, e do irracional para o mundo do espírito, a história vai se enriquecendo e entranhando-se na própria essência do ser. É por isso que o homem é o ser mais histórico de todos os que habitam a terra. Sobre a fundação de algumas tendências universais e permanentes de sua natureza, cada homem participa da história geral da humanidade a partir de seu próprio e irrevogável ângulo e sua insubstituibilidade como pessoa, mas não como função. Do homem, e só do homem, é possível fazer biografia.

Porém, e os anjos? Existe, certamente, uma história universal dos anjos, criaturas de Deus; uma história que foi escrita nos Livros Sagrados, do Gênesis ao Apocalipse. Os anjos nasceram de uma Palavra de Deus. Logo, alguns rebeldes, outros fiéis, sua história coletiva bifurcaram para sempre em dois imensos blocos, de luz e sombra, de ódio e amor. A grande maioria dos anjos, espíritos puros, ficaram sem nome. Só Deus conhece seus nomes e seus papéis no grande teatro do mundo. Para nós, eles são como estrelas cadentes anônimas, que de vez em quando, atravessam o firmamento do espírito. Assim, os que apareceram aos pastores de Belém anunciando a paz aos homens de boa vontade; o anjo do Getsêmani, que consolou Cristo em sua agonia, que perfurou o coração de Santa Teresa com um golpe; e tantos outros, que colocaram um momento de luz na vida de alguns eleitos de Deus e desapareceram para sempre.

Mas há alguns anjos, muito poucos, que têm, além dessa história anônima e coletiva, que estão em destaque: os Arcanjos. Arcanjo São Miguel, o capitão das tropas angelicais contra Lúcifer; arcanjo São Rafael, o companheiro da peregrinação de Tobias, e o arcanjo são Gabriel que ocupa a posição preeminente, que faz a anunciação a Maria.

Neste dia celebramos a festa desses Arcanjos: Miguel, Gabriel e Rafael. Arcanjos significa anjos principais. Como que chefe dos anjos.

O nome de anjos não é um nome de natureza e sim de função: “mallak” (hebraico), “Ángelos” (grego), significa mensageiro. “Anjo (mensageiro) é designação de encargo, não de natureza. Se perguntares pela designação da natureza, é um espírito; se perguntares pelo encargo, é um anjo: é espirito por aquilo que é, enquanto é anjo, por aquilo que faz” (Santo Agostinho: En.in Psal. 103,1,15).

Na Bíblia se evita apresentar Deus atuando em forma direta na história, pois isto ameaçaria a transcendência de Deus. Por isso, aparece um anjo (=mensageiro) que na verdade é Deus mesmo que atua na história através de sua Providência permanente. E a história não é somente o que se vê e se toca. Há uma dimensão transcendente, oculta e invisível da história. A revelação é um desocultamento dessa realidade, que é o fundamento de nossa esperança. Os anjos (mensageiros) são os que nos recordam e os que nos fazem visível essa dimensão transcendente. Por isso, o mundo dos anjos não é outro mundo e sim a dimensão transcendente de nossa história. Crer nos anjos significa crer na presença transcendente de Deus na história e na sua Providência. Atrás de cada pessoa e de cada sucesso libertador há sempre um anjo, isto é, há sempre uma realidade divina transcendente.

Os Arcanjos: Miguel, Gabriel e Rafael são símbolos dessa comunicação entre Deus e os homens, um Deus que em Jesus infunde força (Gabriel significa Deus é forte), cura (Rafael significa Deus cura) e se mostra totalmente diferente (Miguel significa quem como Deus? Esse Deus que é Pai de todos).

1. São Miguel: Em hebraico “Mikhá-El” significa “Quem (milá) é como Deus?” (El), ou “Ninguém é como Deus”.        

Na bíblia ele é mencionado somente no Livro de Daniel (Antigo Testamento), em Epístola de Judas (Jd 9) e em Apocalipse. No AT o nome encontra-se apenas em Dn 10,13.21; 12,1 onde Miguel é chamado “um dos primeiros príncipes” e “o grande príncipe” representante e defensor de Israel na sua luta para defender sua fé em Deus. Miguel é concebido como um espírito celeste que vela pelos judeus. Em Ap 12,7 Miguel é o chefe dos Anjos na batalha contra o Dragão e seus anjos. Na liturgia cristã, Miguel é o protetor da Igreja e o Anjo que acompanha as almas dos mortos ao céu.        

Miguel sempre foi considerado como o Anjo que luta por nós. Ele derrota o Dragão. É corajoso lutador de Deus. Por isso, Miguel não é nenhum anjo bonitinho, e sim um Anjo de muita força. E esta força de Deus envia a cada pessoa para que não seja vencida pelos poderes deste mundo. Ao nosso lado está um anjo que luta por nós. Ele nos defende quando pessoas lutam contra nós na vivência dos valores. A Igreja católica sempre tem uma grande devoção ao Arcanjo São Miguel, especialmente para pedir-lhe que nos livre dos ataques dos inimigos (demônio/satanás) e dos espíritos infernais. E quando o invocarmos, ele vem nos defender com o grande poder que Deus lhe concedeu. 

A Igreja dá ao São Miguel o mais alto lugar entre os arcanjos e lhe chama “Príncipe dos espíritos celestiais”, “chefe ou cabeça da milícia celestial”. Já desde o Antigo Testamento aparece como o grande defensor do povo de Deus contra o demônio e sua poderosa defesa continua no Novo Testamento. 

Na liturgia é ensinado através da Tradição que o Arcanjo são Miguel preside o culto de adoração que se rende ao Altíssimo e oferece a Deus as orações dos fieis simbolizadas pelo incenso que se eleva diante do altar. A liturgia nos apresenta são Miguel como aquele que leva o incenso e está de pé diante do altar como nosso intercessor e o portador das orações da Igreja diante do Trono de Deus. 

Muito apropriadamente, são Miguel é representado na arte como o anjo guerreiro, o conquistador de Lúcifer, pondo seu calcanhar sobre a cabeça do inimigo infernal, ameaçando-lhe com sua espada, transpassando-o com sua lança.  

É tradicionalmente reconhecido como o guardião dos exércitos cristãos contra os inimigos da Igreja e como protetor dos cristãos contra os poderes diabólicos, especialmente na hora da morte. 

“A veneração ao São Miguel é o maior remédio contra a rebeldia e a desobediência aos mandamentos de Deus, contra o ateísmo, contra o ceticismo e a infidelidade” (São Francisco de Sales). Precisamente, estes vícios são muito evidentes em nosso tempo atual. O ateísmo e a falta de fé ou ceticismo infiltraram todos os setores da sociedade humana. Com a ajuda de São Miguel nos manteremos fieis à nossa fé. Nossa missão é confessar nossa fé com valentia e gozo, fé que se traduz no amor fraterno, pois todos nós somos irmãos do Pai comum que está no céu. Que, como o Arcanjo Miguel que serve Deus sem cessar, possamos dizer: “Dai-me a única ambição para Vos servir e servir o próximo!”. Nós cristãos, a exemplo do Arcanjo Miguel, que sejamos força e suporte para os outros. 

2. São Gabriel: Em hebraico “Gabri-El” significa “homem de Deus” ou “Deus é forte”, “Deus é meu protetor” ou Homem forte (geber) de Deus (El) ou herói, homem de Deus; força de Deus; o enviado de Deus.        

“Gabriel” é nome próprio de um anjo, não arcanjo. Só na literatura posterior é chamado arcanjo. Gabriel sempre se apresenta como portador de notícias da graça de Deus.

No AT ele aparece pela primeira vez em Dn, explicando a Daniel a visão do carneiro e do bode (Dn 8,16-26), e o sentido dos setenta anos de Jr 25,11;29,10 (Dn 9,21-27). No NT Gabriel aparece a Zacarias, anunciando-lhe o nascimento de João Batista (Lc 1,11-20). Ele chama-se a si mesmo Gabriel, que está diante da face de Deus (cf. Tb 12,15). Ele é quem leva a Boa Nova a Maria na Anunciação do nascimento de nosso Salvador (Lc 1,26-38). A figura de Gabriel é a de embaixador de Deus. A mais alegre de todas as mensagens que Gabriel é encarregado por Deus para transmitir é a Encarnação do Filho de Deus. Na chegada da plenitude dos tempos é Gabriel quem comunica à Nossa Senhora, em nome de Deus, o Deus-conosco em Jesus Cristo. As palavras deste Arcanjo para Maria se torna nossa oração: “Ave Maria cheia de graça, o Senhor é contigo” que é completada com a aclamação de Isabel: “Bendita és tu entre as mulheres e é bendito o fruto do teu ventre...”.       

Como aconteceu com Daniel, Gabriel nos interpreta as nossas visões. Ele nos faz compreender o que já intuímos em nosso coração. Mas precisamos compreender também o que Deus deseja operar em nós. Gabriel nos faz compreender o que Deus realiza em nós. 

Nossa tarefa ou missão de cada dia, a exemplo do Arcanjo Gabriel é torna-nos boa notícia para os outros e transmitir o que alegra e dignifica os outros.

3. São Rafael: Em hebraico “Repha-El” significa “Deus (El) que cura/sara (repha) ou Medicina (repha) de Deus (El).        

Segundo o livro de Tobias (Tb 12,15) Rafael é um dos sete anjos ou arcanjos que estão diante do Senhor. Ele desempenha papel importante na história de Tobias. Rafael é o companheiro de viagem (Tb 5-6), aquele que cura (Tb 6; 11,1-15), aquele que expulsa demônios (Tb 6,15-17;8,1-13). É um dos sete anjos que oferecem as orações do povo de Deus e são admitidos na presença do Senhor (Tb 12,15). Peçamos a ele que cure nossas doenças e males que fazem ninhos em nosso coração.         

Rafael não é somente o Anjo que cura as feridas nossas ou aquele que expulsa os demônios ou o companheiro, mas também é o Anjo que possibilita as relações sadias. Através de Rafael Tobias torna-se capaz de amar sua mulher sem ser morto por ela. Ele aprende a amar seu pai sem ser determinado por ele.        

Tudo isso quer nos dizer que Deus está sempre ao nosso lado. Ele é providente para quem se abre a ele. Deus nunca abandona os seus nesta terra (Mt 28,20) desde que sejamos fiéis a Ele eternamente. E somos chamados a ser “anjos” para os outros, isto é, ser mensageiros de Deus que leva somente coisas boas (evangelizar). 

Que nossas palavras de cada dia curem a vida de tantas pessoas que necessitam nossa ajuda. Que nossas palavras tenham força para que as pessoas se aproximem de Deus e dos irmãos, seus próximos. O Arcanjo Rafael interceda por nós! 

Tudo isso quer nos dizer que a história não é somente o que se vê e se toca. Há uma dimensão transcendente, oculta e invisível da história. A revelação é um desocultamento dessa realidade que é o fundamento de nossa esperança. Os anjos são os que nos recordam e os que nos fazem visível essa dimensão transcendente. O mundo dos anjos não é outro mundo e sim a dimensão transcendente de nossa história. Na Bíblia se evita apresentar Deus atuando em forma direta na história, pois isto ameaçaria a transcendência de Deus. ai onde aparece um anjo, é Deus mesmo que atua. 

Portanto, crer nos anjos é crer na presença transcendente de Deus na história. Detrás de cada pessoa e de cada sucesso libertador há sempre um anjo, isto é, há sempre uma realidade divina transcendente. O contrário é satanás, que representa o mistério da iniquidade detrás das pessoas e estruturas opressoras. A luta dos anjos contra os demônios é a representação simbólica da luta transcendente entre o bem e o mal (Cf. Ef 6,10-20). 

No evangelho lido neste dia Jesus descreve Natanael como modelo de israelita: “Eis um verdadeiro israelita, em quem não há fraude” (Jo 1,47). Natanael representa precisamente Israel eleito que conservou a fidelidade a Deus. E Jesus renova a eleição. 

“Antes que Filipe te chamasse, eu te vi quando estavas de baixo da figueira”, disse Jesus a Natanael. A menção da figueira alude ao Livro do profeta Oseías 9,10: “Encontrei Israel como cachos de uvas no deserto; vi os vossos pais como os primeiros frutos da figueira”. 

Natanael reage com entusiasmo e diz a Jesus: “Rabi, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel”. Natanael chama Jesus de “Rabi”, isto é, Mestre fiel à tradição e “Rei”, interpretado como rei de Israel, o Ungido, o prometido sucessor de Davi (Sl 2,26s; 2Sam 7,14; Sl 89,4s.27) que restaurará a grandeza do povo. 

Diante da reação de Natanael Jesus disse aos discípulos: “Em verdade, em verdade vos digo: vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem” (Jo 1,51). A obra do Messias não se limita à eleição de Israel (figueira). Jesus faz a primeira declaração sobre si mesmo e alude à visão de Jacó em Betel (Gn 28,11-27) fazendo uma promessa (“vereis”): a comunicação permanente com Deus em Jesus (“o céu aberto”). A promessa se realizará na cruz na qual a glória ou o amor brilhará (cf. Jo 19,34).

“Em verdade, em verdade vos digo: vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem”, disse Jesus (Jo 1,51). 

A existência dos Arcanjos ou simplesmente dos anjos e sua proximidade e companhia na nossa vida cotidiana nos faz pedirmos com a Igreja o auxílio dos Arcanjos: “Ó Deus, que organizais de modo admirável o serviço dos anjos e dos homens, fazei que sejamos protegidos na terra por aqueles que vos servem no céu”. Que assim seja! (Oração do dia/Coleta).

P. Vitus Gustama,svd

XXIX Domingo Do Tempo Comum, Ano "A", 18/10/2026

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