sábado, 1 de agosto de 2026

Terça-feira Da XVIII Semana Comum, Ano Par, 04/08/2026

DEUS HABITA NO CORAÇÃO PURO DA MALDADE  

Terça-Feira Da XVIII Semana Comum

Primeira Leitura: Jr 30,1-2.12-15.18-22

1 Palavra que foi dirigida a Jeremias, da parte do Senhor: 2 “Isto diz o Senhor, Deus de Israel: Escreve para ti, num livro, todas as palavras que te falei. 12 Isto diz o Senhor: Incurável é tua ferida, maligna tua chaga; 13 não há quem conheça teu diagnóstico; uma úlcera tem remédio, mas em ti não se produz cicatrização. 14 Todos os teus amigos te esqueceram, não te procuram mais; eu te causei uma ferida, como se fosses inimigo, como um castigo cruel: por causa do grande número de maldades que te fez endurecer no pecado. 15 Por que gritas em teu sofrimento? É insanável a tua dor. Eu te tratei com rudeza por causa das tuas inúmeras maldades e por causa do teu endurecimento no pecado. 18 Isto diz o Senhor: Eis que eu mudarei a sorte das tendas de Jacó e terei compaixão de suas moradias, a cidade ressurgirá das suas ruínas e a fortaleza terá lugar para suas fundações; 19 de lá sairão cânticos de louvor e sons festivos. Hei de multiplicá-los, eles não diminuirão, hei de glorificá-los, eles não serão humilhados. 20 Teus filhos serão felizes como outrora, e sua Comunidade, estável na minha presença; e agirei contra todos os que os molestarem. 21 Para chefe será escolhido um dos seus, e o soberano sairá do seu meio; eu o incitarei, e ele se aproximará de mim. Quem dará a vida em penhor da sua aproximação de mim? – diz o Senhor. 22 Sereis meu povo e eu serei vosso Deus.

Evangelho: Mt 15,1-2. 10-14

1 Naquele tempo, alguns fariseus e mestres da Lei, vindos de Jerusalém, aproximaram-se de Jesus, e perguntaram: 2 "Por que os teus discípulos não observam a tradição dos antigos? Pois não lavam as mãos quando comem o pão!" 10 Jesus chamou a multidão para perto de si e disse: "Escutai e compreendei. 11 Não é o que entra pela boca que torna o homem impuro, mas o que sai da boca, isso é que torna o homem impuro". 12 Então os discípulos se aproximaram e disseram a Jesus: "Sabes que os fariseus ficaram escandalizados ao ouvir as tuas palavras?" 13 Jesus respondeu: "Toda planta que não foi plantada pelo meu Pai celeste será arrancada. 14 Deixai-os! São cegos guiando cegos. Ora, se um cego guia outro cego, os dois cairão no buraco".

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Em Deus Se Encontra Nossa Esperança e Salvação

“Eis que eu mudarei a sorte das tendas de Jacó e terei compaixão de suas moradias, a cidade ressurgirá das suas ruínas e a fortaleza terá lugar para suas fundações...Sereis meu povo e eu serei vosso Deus”, assim lemos na Primeira Leitura.

Os capítulos 30 a 33 do Livro de Jeremias, onde se encontra a Primeira Leitura de hoje, constituem o chamado “Livro da Consolação”.

Quando o povo e seus responsáveis se relaxam na indiferença ou na ilusão, Jeremias anuncia duramente a desgraça que se aproxima: “Incurável é tua ferida, maligna tua chaga; não há quem conheça teu diagnóstico; uma úlcera tem remédio, mas em ti não se produz cicatrização. Todos os teus amigos te esqueceram, não te procuram mais; eu te causei uma ferida, como se fosses inimigo, como um castigo cruel: por causa do grande número de maldades que te fez endurecer no pecado”.

Na verdade, o anúncio do castigo tem como objetivo chamar o povo todo à conversão. O AT não faz nunca distinção entre o que sucede (isto é, o que provem das leis naturais, da biologia, da história, da psicologia humana) e o que procede da “Causa Prima”, isto é, o que Deus permite ou quer. Assim o AT costuma atribuir diretamente a Deus tudo o que sucede, inclusivo o mal: “Eu te causei uma ferida, como se fosses inimigo, como um castigo cruel: por causa do grande número de maldades que te fez endurecer no pecado”.

Jesus retificará claramente este juízo demasiado simplista através do episódio do cego de nascença em que Jesus dirá: “Nem ele nem seus pais pecaram, mas é para que nele sejam manifestadas as obras de Deus” (Jo 9,3).

Quando a destruição de Jerusalém é mais iminente e se realiza em 586 a.C, Jeremias anuncia a restauração da parte de Deus e se propõe a consolar os desesperados: “Eis que eu mudarei a sorte das tendas de Jacó e terei compaixão de suas moradias, a cidade ressurgirá das suas ruínas e a fortaleza terá lugar para suas fundações”. Deus ama verdadeiramente os homens e que verdadeiramente a felicidade dos homens. Deus é um “esposo” verdadeiro. Não abandona os que Ele ama. Apesar do mal que acontece, Deus continua amando os homens.

O cristão, em sua vocação profética recebida no Batismo, é chamado a saber encontrar os sinais da esperança escondidos na situação da sociedade e a confirmar aos demais nesta esperança de que Deus jamais abandona seus filhos e filhas. Tudo isso nos faz voltarmos a viver como filhos e filhas de Deus e irmãos e irmãs entre nós.

É Preciso Purificar o Coração Da Maldade Como Limpar o Corpo Da Sujeira

“Por que os teus discípulos não observam a tradição dos antigos? Pois não lavam as mãos quando comem o pão!”. “Não é o que entra pela boca que torna o homem impuro, mas o que sai da boca, isso é que torna o homem impuro”.

Jesus já falou bem claro sobre a Lei: enunciou um princípio fundamental: “Não penseis que vim revogar a Lei e os Profetas. Não vim revogá-los, mas dar-lhes pleno cumprimento” (Mt 5,17). Em duas ocasiões Jesus declarou claramente qual é a opção fundamental de sua vida: “... cumprir de forma perfeita a vontade de Deus... viver de toda palavra que sai da boca de Deus” (Mt 3,15; 4,4). Ele disse com claridade que seus discípulos devem fazer o mesmo (Sermão da Montanha), também fez já referência às “tradições de seu povo” dizendo que não servem os “odres velhos” e que, por isso, necessitam dos “novos odres” (Mt 9,17).

É o que ocorre agora. A lei sobre “puro-impuro” estava em questão. A tradição dos fariseus identificava 613 mandamentos da Torá. Particularmente, a partir do exílio na Babilônia se acentuava a obsseiva preocupação com a “pureza”: pureza de sangue (cf. Esd 9-10), pureza física e ritual (Lv 11-16). Para os fariseus, “lavar as mãos” não se fazia por mera limpeza, mas por pureza legal. Para eles, se as mãos estavam “impuras” pelo contato com o mundo exterior, tornavam impuros os alimentos e esses, ao entrar no homem, causavam, por sua vez, sua impureza.

Diante dessa tradição, Jesus enuncia  o principio geral: “Não é o que entra pela boca que torna o homem impuro, mas o que sai da boca, isso é que torna o homem impuro”. O Evangelista Mateus muda a redação do evangelista Marcos. No lugar da expressão “o que sai do homem” (Mc 7,15) é substituída por outra expressão: “O que sai da boca” (Mt 15,11). Pela boca entra o alimento. Da boca sai a palavra. O homem pode dispor livremente de tudo: o que come e o que fala. O modo como ele dispõe é que o faz morrer e viver ( o que precisa entrar pela boca em termos de comida e o qu não deve entrar: determina sua saúde ou sua doença). E dispõe segundo aquilo que sai da sua boca: a palavra de amor ou a palavra de egoísmo, ou a palavra de ódio ou de caridade, apalavra de liberdade ou de domínio, de dom ou de posse, de comunhão ou de desunião, que tem dentro de seu coração.

Para Jesus não é o contato com o mundo exterior o que mancha o homem, e sim sua própria atividade com referência ao mundo exterior. Não há alimento impuro, pois nenhum alimento faz algum tipo de atividade para poder ser avaliado eticamente ou moralmente. Ao mesmo tempo, não há alimentos que tornem o homem impuro por não se cumprirem certos ritos. Não tem que culpar alimento pela impureza moral e ética do homem.

Para Jesus, o mandamento de Deus se refere às relações humanas e por isso, no terreno ético e moral é que se joga e se mede a fidelidade dos crentes aos mandamentos de Deus. Quanto mais ético for o homem, mais comprovará sua fidelidade aos mandamentos de Deus. O teste decisivo para saber se o coração do crente está perto de Deus é o comportamento fraterno e ético com o próximo. Somente os ídolos ficam satisfeitos com louvores rituais e cultos vazios da ética (Cf. Amós, 5,21-27; Is 1; Jr 7).

Jesus chama os discípulos para abandonar os fariseus e os escribas, pois eles não são mestres que podem ser imitados. Eles devem ser evitados, pois eles não são guias iluminados, mas cegos (Mt 15,14). O coração deles que é impuro , é incapaz de ver a Deus, mas somente ve si próprio.

Portanto, o “puro-impuro” não se estabelece segundo o que entra no homem ou ao que o homem toca e sim segundo o que sai do coração do homem. é o atuar de uma pessoa o que faz esta seja pura ou impura diante de Deus e portanto, pode ou não participar verdadeiramente no culto.

Todos nós podemos ter algo de fariseus em nosso coração e em nossa conduta. Às vezes caímos na tentação de dar a importância maior às práticas externas do que à fé interior; damos prioridades a normas humanas, às vezes, insignificantes, acima da caridade e da justiça. Muitas vezes se cumpre em nós aquilo que a Palavra de Deus nos diz: “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim”. Trata-se de uma religiosidade exterior, feita de palavras apenas. Não precisa amar a Deus e ao próximo com palavras e sim com os fatos e na verdade (1Jo 3,18). É um culto vazio de sentido. Grande parte da pregação profética é contra este culto vazio (cf. Is 1,10-20; 58,1-12; Jr 7,1-15). Pensemos nisso!

P. Vitus Gustama,svd

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