sábado, 30 de novembro de 2024

02/12/2024-Segundaf Da I Semana Do Advento

UM “PAGÃO” QUE CRÊ NA PALAVRA DEUS E AMA O PRÓXIMO

Segunda-Feira da I Semana do Advento

Primeira Leitura: Is 2,1-5

1 Visão de Isaías, filho de Amós, sobre Judá e Jerusalém. 2 Acontecerá nos últimos tempos, que o monte da casa do Senhor estará firmemente estabelecido no ponto mais alto das montanhas e dominará as colinas. A ele acorrerão todas as nações, 3 para lá irão numerosos povos e dirão: “Vamos subir ao monte do Senhor, à casa do Deus de Jacó, para que ele nos mostre seus caminhos e nos ensine a cumprir seus preceitos”; porque de Sião provém a lei e de Jerusalém, a Palavra do Senhor. 4 Ele há de julgar as nações e arguir numerosos povos; estes transformarão suas espadas em arados e suas lanças em foices: não pegarão em armas uns contra os outros e não mais travarão combate. 5 Vinde, todos da casa de Jacó, e deixemo-nos guiar pela luz do Senhor.

Evangelho: Mt 8,5-11

Naquele tempo, 5quando Jesus entrou em Cafarnaum, um oficial romano aproximou-se dele, suplicando: 6“Senhor, o meu empregado está de cama, lá em casa, sofrendo terrivelmente com uma paralisia”. 7Jesus respondeu: “Vou curá-lo”. 8O oficial disse: “Senhor, eu não sou digno de que entres em minha casa. Dize uma só palavra e o meu empregado ficará curado. 9Pois eu também sou subordinado e tenho soldados sob minhas ordens. E digo a um: ‘Vai! e ele vai; e a outro: ‘Vem!’ e ele vem; e digo a meu escravo: ‘Faze isto!, e ele o faz”. 10Quando ouviu isso, Jesus ficou admirado, e disse aos que o seguiam: “Em verdade, vos digo: nunca encontrei em Israel alguém que tivesse tanta fé. 11Eu vos digo: muitos virão do Oriente e do Ocidente, e se sentarão à mesa no Reino dos Céus, junto com Abraão, Isaac e Jacó”.

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Com a Presença Do Messias Esperado Na Nossa vida Todos Viverão Em Paz e Hamonia

“Ele há de julgar as nações e arguir numerosos povos; estes transformarão suas espadas em arados e suas lanças em foices: não pegarão em armas uns contra os outros e não mais travarão combate. Vinde, todos da casa de Jacó, e deixemo-nos guiar pela luz do Senhor” (Is 2,4-5).

Começamos o Advento. Este Advento começou como um tempo de graça para todos, próximos e distantes. Deus quer salvar a todos, seja qual for o seu estado de espírito, a sua história pessoal ou comunitária, pois todos são filhos e filhas de Deus. No meio da confusão geral da sociedade, Deus quer guiar todos os homens de boa vontade e mostrar-lhes os caminhos da verdadeira salvação, e por isso o profeta Isaías nos convida: “deixemo-nos guiar pela luz do Senhor” (Is 2,5). A luz do Senhor se encarna no Messias esperado: Jesus Cristo. Ele é a luz do mundo (Jo 8,12). Precisamos nos aproximar da Luz verdadeira que não se apaga jamais(Jesus Cristo) para que nos tornemos luz para o mundo ao nosso redor (Mt 5,14-16).

Se em nossas vidas decidimos baixar nossas espadas, nossas lanças, nossas armas em geral, e não atacar ninguém, estamos testemunhando que os tempos messiânicos já chegaram; nossa arma maior é o amor fraterno: “Estes transformarão suas espadas em arados e suas lanças em foices: não pegarão em armas uns contra os outros e não mais travarão combate” (Is 2,4). Bem-aventurados os que fazem a paz e o perdão. Aqueles que trabalham para que haja mais justiça neste mundo e sejam corrigidas as graves situações de injustiça, são os que melhor celebrarão o Advento. Não é que Jesus vá fazer milagres, mas seremos nós, seus seguidores, que trabalharemos para levar adiante seu programa de justiça e paz.

O amor de Isaías  pela paz e visto em suas descrições do rei ideal do futuro (Is 9,5-6; 11,6-9). O mundo ideal do Reino messiânico de Isaías é um mundo no qual homem e natureza, afinal, vivem em paz (Shalom) e fraternidade; todos vivem na harmonia total em que um cuida do outro. Ninguém representa ameaça para o outro. Ninguém ataca ninguém. Todos se compreendem e se confraternizam com a presença do Messias esperado: “Ele há de julgar as nações e arguir numerosos povos; estes transformarão suas espadas em arados e suas lanças em foices: não pegarão em armas uns contra os outros e não mais travarão combate” (Is 2,4). Por isso, o profeta Isaías lança o seguinte convite: “Vinde, todos da casa de Jacó, e deixemo-nos guiar pela luz do Senhor” (Is 2,5).

Para descrever este mundo ideal, Isaías usa várias expressões no texto da Primeira Leitura: “Estes transformarão suas espadas em arados e suas lanças em foices: não pegarão em armas uns contra os outros e não mais travarão combate” (Is 2,4). As espadas (espada fazia parte do equipamento normal do guerreiro) se transformam em arados (para cultivar a terra a fim de produzir alimentos); as lanças (uma arma mortal) se transformam em foices (instrumento para colher os frutos maduros que o homem plantou e cultivou). Todo um programa para hoje: derreter espadas e lanças, e forjar arados: o trabalho produtivo para fornecer o pão diário a tantos homens, mulheres e crianças famintos. O futuro da humanidade não está na guerra e sim em produzir alimentos para alimentar a humanidade. Quando todos vivem na abundância ou em suficiência materialmente, normalmente evitam-se as guerras. Quando todos abandonarem a ganância que exploram a humanidade, a humnaidade viverá em paz. Em qualquer guerra todos perdem, menos os que produzem e vendem as armas. Estes se enriquecem em cima do sangue de tantas vítimas de uma guerra. Nenhuma pessoa sã deseja a guerra. Que tal nos preparemos para a paz para que nosso Natal tenha sentido?

Quando hoje somos convidados a comungar, podemos dizer com a mesma humilde confiança do centurião que não somos dignos de Cristo Jesus vir a nossa casa, e vamos pedir-lhe que nos prepare para que o seu Corpo e Sangue sejam verdadeiramente alimento de vida eterna para nós, e um Natal antecipado. Que Ele transforme nosso coração cheio de ódio, de vingança, coração de “espada” e de “lança” em coração que ame e alimente o próximo com aquilo que produzimos de bom.

A primeira semana do Advento nos oferece algumas leituras de Isaías, profeta da esperança no meio de uma história atormentada do povo de Israel, oito séculos antes de Cristo. Suas passagens serão anúncios de esperança, de salvação, de um futuro mais otimista para o resto de Israel, para outros povos e até para todo o cosmos. O profeta, que vê a história com os olhos de Deus, anuncia luz e salvação para todos os povos. Jerusalém será como o farol que ilumina todos os povos. Um farol situado no alto de uma montanha, para todos verem de longe. Deus quer ensinar daqui os seus caminhos, e os povos se sentirão felizes e dispostos a seguir os caminhos de Deus, a palavra salvadora que brotará de Jerusalém. Tanto judeus como pagãos "andarão na luz do Senhor" e formarão um só povo. Os milagres de Jesus são sinais de que o Reino de Deus já está surgindo. O que o profeta havia anunciado, Jesus cumpre. Ele é a verdadeira Luz (Jo 8,12), a descendência que o povo de Israel esperava, o Messias que traz paz e serenidade, a Palavra eficaz e salvadora que Deus dirige à humanidade.

Nestes dias, a Igreja nos propõe a meditação das “profecias” do profeta Isaias. Isaias nasceu em Jerusalém por volta de 765 antes de Cristo (“Isaias”, hebraico: “salvação de Deus” ou “Javé é a salvação”). Com a idade de 25 anos, teve uma visão de Deus (cf. Is 6,1-8). A visão de Deus transformou Isaías em um servo do Senhor com uma mensagem única cheia de esperança. A partir daquele momento devotou-se à vocação da profecia. Isaías ministrou ao povo de Deus durante uma época de grande instabilidade política (740 a 686 a.C). Seu ministério está dividido em cinco períodos pelos quais podemos entender a linguagem do profeta:

·    O período da crítica social (Is 1-5): nos anos 740-734 a.C.

·    O período da guerra siro- efraimita (Is 7-9): nos anos 734-732 a.C

·    O período da rebelião anti-Assíria (Is 10-23): nos anos 713-711 a.C

·    O período da anti-Assíria e do cerco de Jerusalém (Is 28-32; 36-39): nos anos 705-701 a.C

·    O período dos últimos dias de Ezequias e possivelmente início do reinado de Manassés (Is 56-66): nos anos 701-686 a.C.

Esses períodos correspondem aos reis mencionados na introdução: “Profecia de Isaías, filho de Amós, a respeito de Judá e Jerusalém no tempo de Ozias, de Joatão, de Acaz e de Ezequias, rei de Judá" (Is 1,1).

Isaías era um pregador extremamente talentoso, que empregava plenamente toda a riqueza da língua hebraica, um profeta cheio de esperança. Sua profecia não foi escrita para que se concordasse com ela e sim para gerar uma resposta. O piedoso respondia com temor e adoração, mas o ímpio endurecia o coração contra o Senhor.

O profeta Isaías é uma das grandes testemunhas da espera messiânica. Vivia oito séculos antes de Jesus. Morava em Jerusalém, a capital de Judá. Ele viu o Reino do Norte, Samaria, desmoronar sob os golpes dos Assírios, e ele sente a mesma ameaça para o Reino do Sul. Além disso, Jerusalém, a capital, deixou de praticar a justiça e o direito (Is 1,21), e consequentemente, havia muitos assassinos.  Os chefes se tornaram ladrões, corruptos, gananciosos e violentos. Como consequência disso, os pobres, as viúvas e os órfãos viviam sem defesa e sem segurança e eram humilhados (Is 1,23). Onde reina a corrupção e a injustiça social, ali haverá a violência e assassinato. E os pobres sofrem as consequências.

É assim no contexto histórico de uma catástrofe iminente quando o profeta anuncia a esperança de um Messias que trará a paz. Esse Messias é chamado “Emanuel” que significa “Deus conosco” (Is 7,14). Quem está com Deus são aqueles que obedecem à sua Palavra e que confiam na presença libertadora de Deus.

Um “Pagão” Que Nos Ensina No Força Poderosa Da Palavra De Deus

Segundo Mateus, o primeiro milagre operado por Jesus (a cura do leproso) foi para um membro do povo de Deus (cf. Mt 8,1-4). O segundo milagre foi em favor de um pagão. Tudo é um programa. O movimento missionário da Igreja já está presente nesse segundo milagre. A salvação de Deus não está reservada para uns poucos. Deus ama a todos os homens. O amor de Deus rompe as barreiras que levantamos entre nós. Jesus fez seu segundo milagre em favor de um oficial romano, em favor de um pagão, pois ele amava o próximo. Os romanos eram mal vistos pela população, pois ocupavam a Palestina.             

Quando Jesus entrou em Cafarnaum, um oficial romano aproximou-se dele, suplicando: ‘Senhor, meu empregado está de cama, paralitico!’”Um oficial romano!”. “Um estrangeiro!”. Um estrangeiro, mais ainda um romano (poder romano), não pertence ao Povo eleito. Por ser estrangeiro, ele é impuro na concepção do Povo eleito e não pode tocar nele para não ficar impuro. Por ser impuro não pode receber as bênçãos do Senhor. Mas será mesmo que ele é impuro? O evangelista Mateus quer superar essa mentalidade separatista e discriminatória ao colocar, no seu evangelho, a história de um oficial romano cujo coração está cheio de amor para com o próximo.

O oficial romano do qual fala o evangelho deste dia demonstra sua grande bondade para com o próximo, para com seu empregado/escravo, apesar de não pertencer ao Povo de Israel. Sua sensibilidade humana ou sua humanidade é tão alta a ponto de ele se preocupar com seu escravo (empregado). Ele trata seu escravo como se fosse membro de sua família.  Ele não manda nenhum subordinado para procurar Jesus, mas é ele próprio quem se aproxima de Jesus para pedir a ajuda (cura) em favor do seu escravo/empregado. É um patrão exemplar! É um oficial extraordinário. É um líder que ama. Um líder que ama, é respeitado. Um líder temido, geralmente, não é respeitado.             

Ao atender esse oficial “pagão” Jesus quer nos mostrar que ele não aceita nossas divisões, nem nossos racismos nem nossas discriminações. O coração de cada seguidor de Jesus deve ser universal e missionário, como o próprio coração de seu Mestre, Jesus Cristo.                           

É impressionante também a profunda humildade desse oficial ao dizer a Jesus: “Senhor, eu não sou digno de que entres em minha casa. Dize uma só palavra e o meu empregado ficará curado”. Este oficial “pagão” é muito consciente da lei judaica a respeito dos pagãos. Ele não quer pôr Jesus em uma situação de “impureza legal”. Por isso, ele quer evitar que Jesus entre em sua casa. “Dize uma só palavra e o meu empregado ficará curado “, diz o oficial a Jesus. Ele respeito os costumes do povo local. Mas também este homem valoriza e acredita no poder da Palavra de Jesus, porque ele sabe que a Palavra de Jesus está cheia de autoridade e de poder, pois Jesus é a própria Palavra de Deus (cf. Jo 1,1.14). Por acreditar no poder da Palavra de Deus em Jesus, o oficial simplesmente disse a Jesus: “Dize uma só palavra e o meu empregado ficará curado!”. O próprio oficial também vive da palavra e usa as palavras para comandar seus soldados. Uma vez ele diz uma palavra dirigida aos soldados, eles logo tornam a palavra uma realidade: “Pois eu também sou subordinado e tenho soldados sob minhas ordens. E digo a um: ‘Vai! e ele vai; e a outro: ‘Vem!, e ele vem; e digo a meu escravo: ‘Faze isto!, e ele o faz”.           

Jesus elogia esse homem porque acredita no poder da palavra de Jesus: “Em verdade, vos digo: em ninguém em Israel encontrei tanta fé”. É a fé de quem se considera pagão. Mas se comporta como um verdadeiro cristão. Jesus elogia quem acredita no poder de Sua palavra.          

Jesus põe em contraste a incredulidade dos seus contemporâneos com a fé do pagão: “Em verdade, vos digo: em ninguém de Israel encontrei tanta fé”. A fé que Jesus exige é um impulso de confiança e de abandono pelo qual o homem renuncia a apoiar-se em seus pensamentos e em suas forças para abandonar-se à Palavra divina e ao poder d’Aquele em quem o homem deve acreditar. 

O oficial romano não pertence a uma Igreja ou a uma religião, oficialmente, porém se comporta como um verdadeiro homem de Deus. É um verdadeiro e autêntico cristão. Podemos encontrar os cristãos em qualquer religião, crença ou grupo “Vós os reconhecereis pelos seus frutos” (Mt 7, 16.20). Com efeito, o paganismo não depende da pertença ou não a uma religião. O paganismo depende do modo de viver e de se comportar para com os demais homens. Por causa do modo de viver há cristãos- pagãos como há também pagãos- cristãos. Um cristão pode ser um pagão por causa do seu modo de viver não-cristão. E aquele que se diz pagão pode ser um verdadeiro cristão se comportar-se como o oficial romano que se preocupa com o bem do outro. 

Senhor, meu empregado está de cama, paralitico”. A oração desse homem serve de exemplo para nós. Ele expõe simplesmente a situação; descreve a doença. E o mais notável é que ele pede em favor do outro, de seu empregado. É uma oração de intercessão. Será que eu rezo somente por mim mesmo, somente pela minha família? Será que tem lugar na minha vida uma oração de intercessão? 

Antes de receber o Corpo do Senhor na comunhão, repetimos a frase desse oficial romano: “Senhor, eu não sou digno de que entres em minha morada. Dize uma só palavra, serei salvo”. A Eucaristia quer curar nossas debilidades. O próprio Senhor Jesus se faz nosso alimento e nos comunica sua vida: “O Pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo. Quem come minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna” (Jo 6, 51.54). Em cada verdadeira Comunhão do Corpo do Senhor acontece uma verdadeira transfusão de vida: a vida de Jesus passa a ser a vida de quem a recebe na comunhão. Quando isso acontecer, será cumprido tudo aquilo que São Paulo escreveu: “Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). 

Podemos também pedir a Jesus da seguinte maneira: “Senhor Jesus, mesmo que eu não seja digno de recebê-Lo na minha vida, na minha família, mas pode entrar para que minha vida, minha família seja digna de receber sua bênção. Se em Belém o Senhor não encontrava nenhum abrigo para seu nascimento, entre na minha família e renasça entre nós para que minha família esteja cheia de luz para depois irradiá-la para os demais. 

Jesus não encontrou a fé naqueles que se acham “crentes”. “Em verdade, Eu vos digo: em ninguém em Israel encontrei tanta fé”. Ele encontrou a fé naquele é considerado “pagão”. Será que o Senhor encontrou a fé em mim ou apenas naqueles que não pertencem a nenhuma Igreja, porém acreditam? Será que o Senhor encontrou o amor em mim ou somente naqueles que não frequentam Igreja nenhuma? Será que sou um cristão-ateu cujo coração está vazio de amor? Será que acredito no poder da Palavra de Deus ou vivo como um verdadeiro pagão? Existe cristão-pagão como existe também pagão-cristão.

P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 29 de novembro de 2024

I Domingo Do Advento Ano "C", 01/12/2024

A FÉ PROFUNDA NOS FAZ ERGUER A CABEÇA EM TODAS AS SITUAÇÕES DA VIDA, POIS DEUS ESTÁ PRONTO PARA NOS SALVAR

I DOMINFO DO ADVENTO ANO “C”

I Leitura: Jr 33,14-16

14 “Eis que virão dias, diz o Senhor, em que farei cumprir a promessa de bens futuros para a casa de Israel e para a casa de Judá. 15 Naqueles dias, naquele tempo, farei brotar de Davi a semente da justiça, que fará valer a lei e a justiça na terra. 16 Naqueles dias, Judá será salvo e Jerusalém terá uma população confiante; este é o nome que servirá para designá-la: ‘O Senhor é a nossa justiça’”.

II Leitura: 1Ts 3,12-4,2

Irmãos: 3,12 O Senhor vos conceda que o amor entre vós e para com todos aumente e transborde sempre mais, a exemplo do amor que temos por vós. 13 Que assim ele confirme os vossos corações numa santidade sem defeito aos olhos de Deus, nosso Pai, no dia da vinda de nosso Senhor Jesus, com todos os seus santos. 4,1 Enfim, meus irmãos, eis que vos pedimos e exortamos no Senhor Jesus: Aprendestes de nós como deveis viver para agradar a Deus, e já estais vivendo assim. Fazei progressos ainda maiores! 2 Conheceis, de fato, as instruções que temos dado em nome do Senhor Jesus.

Evangelho: Lc 21,25-28.34-36

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 25 “Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas. Na terra, as nações ficarão angustiadas, com pavor do barulho do mar e das ondas. 26 Os homens vão desmaiar de medo, só em pensar no que vai acontecer ao mundo, porque as forças do céu serão abaladas. 27 Então eles verão o Filho do Homem, vindo numa nuvem com grande poder e glória. 28 Quando estas coisas começarem a acontecer, levantai-vos e erguei a cabeça, porque a vossa libertação está próxima. 34 Tomai cuidado para que vossos corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida, e esse dia não caia de repente sobre vós; 35 pois esse dia cairá como uma armadilha sobre todos os habitantes de toda a terra. 36 Portanto, ficai atentos e orai a todo momento, a fim de terdes força para escapar de tudo o que deve acontecer e para ficardes em pé diante do Filho do Homem”.

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Com este primeiro domingo do Advento começamos o Ano Novo na liturgia: o Ano C, durante o qual refletimos sobre as mensagens do Evangelho de Lucas. Cada Ano Novo litúrgico começa no Primeiro Domingo do Advento e termina na Festa do Cristo, Rei do Universo (XXXIV Domingo do Tempo Comum). O Ano Novo civil começa no dia primeiro de Janeiro; o Ano Novo na Liturgia começa no Primeiro Domingo do Advento.

Uma Dupla Característica Do Tempo Do Advento

O Advento é o tempo de preparação para a solenidade do Natal, em que se recorda a primeira vinda do Filho de Deus entre os homens (Encarnação). Um dia na história humana, um dos homens era Deus, O Verbo Encarnado que habitou entre os homens (Jo 1,14). O advento nos lembra a dimensão histórico-sacramental da salvação. Deus do advento é o Deus da história, o Deus que veio plenamente para a salvação do homem em Jesus de Nazaré em que se revela a face do Pai (Jo 14,9). Para salvar o homem Deus tomou a iniciativa se tornar homem. Assim que Deus entrou na nossa história através de sua encanação, nossa história se torna uma história da salvação; nosso tempo se torna tempo da graça (Kairós). A história é o lugar da realização das promessas de Deus.

Simultaneamente é o tempo no qual, através desta recordação, o espírito é conduzido à espera da segunda vinda de Cristo no final dos tempos (Parusia). Por isso, logo no Primeiro Domingo do Advento, o evangelho fala da Segundo Vinda do Senhor para nos relembrar que o Senhor que vamos celebrar seu Natal é o mesmo Senhor que vao nos julgar no final dos tempo. O advento é o tempo litúrgico em que se evidencia fortemente a dimensão escatológica do mistério cristão. Estamos em permanente viagem rumo à casa do Pai. Cristo veio na nossa carne, manifestou-se e revelou-se como ressuscitado, depois da morte, aos apóstolos e às testemunhas previamente escolhidas por Deus (cf. At 10,40-42) e aparecerá glorioso no fim dos tempos (At 1,11). Os cristãos, na sua peregrinação terrena, vivem continuamente a tensão do já da salvação toda realizada em Cristo e o ainda não da sua realização plena em nós e de sua plena manifestação na volta gloriosa do Senhor juiz e salvador.

Por esta dupla característica, o tempo do advento se apresenta como um tempo de piedosa e alegre expectativa. O advento celebra o Deus da esperança (Rm 15,13) e vive a alegre esperança (cf. Rm 8,24s) com fé. A fé une o homem a Cristo, a esperança abre esta fé para o vasto futuro de Cristo. A fé transforma a esperança em confiança e certeza; e a esperança torna a fé ampla e lhe dá a vida.      

Dentro desta alegre esperança, os cristãos são chamados a viver algumas atitudes essenciais à expressão evangélica da vida: a espera vigilante e jubilosa, a esperança, e a conversão. Os cristãos podem acreditar em Deus de Jesus Cristo cegamente porque o Deus da revelação é o Deus da promessa que em Cristo manifestou a sua fidelidade ao homem (cf. 2Cor 1,20). Os cristãos vivem esta espera na vigilância e na alegria. Mas Deus que entra na história põe em causa o homem, questiona-o. Por isso, o tempo do advento, sobretudo através da pregação de João Batista, é o convite à conversão para preparar os caminhos do Senhor e acolher alegremente o Senhor que vem pois ele só traz a salvação.

O evangelho do PRIMEIRO DOMINGO DO ADVENTO nos fala da Segunda Vinda do senhor (Parusia) e nos exorta à vigilância, como já foi dito. Se o Reino dos céus está próximo, é necessário preparar os caminhos. Este domingo no relembra sobre a dimensão futura de nossa vida. O homem é a única criatura que tem privilégio de saber que um dia ele vai morrer. Mas trata-se de um saber não sabido. Vivemos o presente mas sempre com o olhar posto no Senhor. A nossa vida é uma caminhada rumo à comunhão plena com Deus, nosso Criador. É necessário que estejamos preparados para acolher o reino que nos é oferecido todos os dias. Assim estaremos preparados para o encontro derradeiro com o Nosso Criador, Deus.

Na memória do passado em que Deus se encarnou, somos convidados a viver o presente com autenticidade cristã e a levar a sério a nossa vocação de eternidade, pois Ele veio para nos mostrar o caminho para a eternidade. O cristão é sempre um crente projetado para a eternidade, mas, ao mesmo tempo, ele deve viver sua responsabilidade todos os dias como o eleito de Cristo e testemunhar uma vida baseada no Evangelho na sua vida cotidiana.

Neste primeiro Domingo do Advento na Coleta (oração da entrada, Gelasiano) pedimos ao Senhor que aviva em seus fiéis o desejo de sair ao encontro de Cristo, acompanhados pelas boas obras, para que mereçamos o Reino eterno. Na oração do ofertório (Veronense), suplicamos ao Senhor para que aceite os bens que recebemos dele (pois tudo é de Deus, menos o pecado) e, através da apresentação do pão e do vinho, conceda que a ação santa que celebramos possa ser um penhor de salvação para nós. E na oração depois da Comunhão (recém-escrita, inspirada nos Sacramentais Veronense e Bergamo): suplicamos ao Senhor para que a celebração dos sacramentos seja frutífera em nós, com a qual ele nos ensina a descobrir o valor dos bens eternos e a colocar neles nossos corações.

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I. Um Olhar Geral Sobre As Leituras Deste Primeiro Domingo Do Advento

As leituras dos domingos do Advento, que hoje iniciamos, mantêm um tom geral que lhes dá unidade em torno dos eixos centrais deste tempo litúrgico: confiança na promessa do Senhor, impregnação da nossa vida na sua Palavra, vigilância perante os sinais de sua presença em nosso mundo.

1. Deus é Fiel e Somos Convidados a Ser Fieis Justos

A Primeira Leitura (Jr 33,14-16) quer nos transmitir uma mensagem de esperança de que apesar da degradação e dos desvios dos homens, Deus continua sendo fiel à sua promessa messiânica. “Eis que virão dias, diz o Senhor, em que farei cumprir a promessa de bens futuros para a casa de Israel e para a casa de Judá. Naqueles dias, naquele tempo, farei brotar de Davi a semente da justiça, que fará valer a lei e a justiça na terra. Naqueles dias, Judá será salvo e Jerusalém terá uma população confiante; este é o nome que servirá para designá-la: ‘O Senhor é a nossa justiça’” (Jr 33,14-16).

Em muitos lugares sempre encontramos a frase: “Deus é fiel”. A Sagrada Escritura  atribui ao próprio Deus a palavra fidelidade no sentido de que cumpre sempre suas promessas (1Cor 1,9; 2Cor 1,18; 1Ts 5,24; Hb 10,23, etc.). De modo geral, a fidelidade, como virtude, aplica-se na Bíblia ao cumprimento dos deveres para com Deus (Mt 25,21-23; Lc 16,10). Em relação ao próximo, a fidelidade consiste em leal e constante dedicação aos interesses comuns (Tb 5,4; 10,6). A fidelidade é exigida, principalmente,  para os representantes de Deus. A fidelidade nas pequenas coisas é prova da fidelidade nas grandes (Lc 16,10). E como adjetivo, o termo “fiel”, na Bíblia, tem o sentido de digno de confiança nos negócios (Lc 12,42), nas ordens dadas (Mt 24,45), nas promessas (1Cor 1,9). No Novo Testamento, como substantivo, fiel tem novo sentido: é aquele que tem fé e professa crer em Jesus Cristo (At 10,45; 16,1-15; 1Cor 7,12-15, etc.). Toda fidelidade supõe crer naqule em quem acredita, pois é fidedigno. Deus promete, Deus cumpre, cedo ou tarde. Bendito seja aquele que cre e é fiel à Palavra de Deus que será cumprida (cf. Lc 1,45).

O Messias prometido de quem fala o profeta Jeremias seria o descendente legítimo da linhagem de Davi, seu filho, vivendo com os homens. A vontade e a disposição de Deus para oferecer sua graça repetidas vezes, apesar das prevaricações do homem, são permanentes na Bíblia. Deus vive e desde que criou o homem, Deus vive sempre atento ao homem por amor perdoando o homem toda vez que ele se arrepende. Da parte Deus, o homem nunca será abandonado, pois Deus é como o pai do filho pródigo que está sempre na espera da volta do filho perdido. Deus procura e quer salvar o homem. Em toda a história da salvação, Deus aparece como fiel cúmplice de suas promessas. Eles são cumpridos na plenitude dos tempos, quando Cristo, o Salvador, veio, ou seja, quando Deus se encarnou como manifestação tão evidente seu amor pelos homens.

Ao lado da mensagem da esperança há uma exortação. A exortação do profeta Jeremias é assim: o Senhor é a nossa justiça. Não é um título, e sim o projeto e o compromisso do Deus da Aliança, com Israel e com todos os povos. Esse é o Deus que está encarnado, aquele que faz justiça. Justiça é mais do que dar a cada um o que lhe pertence. Aqui justiça significa muito mais: Deus levanta os oprimidos; Ele reforça aquele que não tem valor, porque se preocupa com todos os seres humanos. Esse projeto e esse compromisso divino, porém, não se impõem pela força, como fazem os poderosos deste mundo com sua estratégia preventiva, mas somos chamados no Advento a considerá-lo como uma espera e esperança para nos convertermos a Ele. Podemos especificar a primeira etapa do Advento: a conversão ao Deus de uma justiça prodigiosa. E a conversão é muito mais do que fazer penitência; é uma mudança de mentalidade, uma mudança de curso em nossa existência, uma mudança de valores. Porque quando mudamos os valores da nossa vida, transformamos a nossa forma de ser, de viver, de agir e de conviver.

A ideia bíblica de justiça ou de retidão geralmente expressa conformidade com todas as áreas da vida de Deus: lei, governo, aliança, lealdade, integridade ética ou ações amáveis. Ou seja, viver de acordo com os mandamentos de Deus. Quando os homens aderem à vontade de Deus como expressa em Sua Lei ou em seus mandamentos, eles são considerados justos ou retos. Jesus ensinou que aqueles que conformam suas vidas aos seus ensinamentos também são justos, retos. Quando o homem vive de acordo com os mandamento de Deus, ele vai viver em harmonia ou em paz com o próximo, respeitando seus direitos e deveres.

Através do Salmo Responsorial (Sl 24) pedimos ao Senhor que nos ensine Seus caminhos, que nos instrua em Suas sendas, que caminhemos com lealdade, como o próprio Senhor sempre é fiel a suas promessas para todos nós por amor, pois o Senhor é bom e reto. Através de Jesus, Deus ensina o caminho aos pecadores e faz o humilde andar com justiça e Ele próprio é o Caminho (Jo 14,6). Seus caminhos são misericórdia e lealdade para com aqueles que guardam sua aliança e seus mandamentos.

2. Na Espera Da Segunda Vinda Do Senhor É Preciso Manter-se Na Santidad Vivendo o mandamento do amor fraterno

Podemos entender a mensagem da Segunda Leitura tirada da Primeira Carta aos Tessalonicenses, documento mais antigo do NT (1Ts 3,12-4,2) de  que a vontade de Deus é nossa santificação. “Irmãos, o Senhor vos conceda que o amor entre vós e para com todos aumente e transborde sempre mais, a exemplo do amor que temos por vós. Que assim ele confirme os vossos corações numa santidade sem defeito aos olhos de Deus, nosso Pai, no dia da vinda de nosso Senhor Jesus, com todos os seus santos” (1Ts 3,12-13).

Para São Paulo a santidade de vida, requerida em função da Segunda Vinda do Senhor (Parusia), não se reduz a atitudes morais e éticas, mas esta santidade deve ser construida sobre e pelo amor fraterno e universal. A vida da santidade é a vida de acordo com o amor fraterno como o maior mandamentod o Senhor. Onde há amor fraterno, há santidade, por Deus é Santo e Amor simultaneamente. Por isso, viver abertos para o Dia do Senhor (Parusia, o encontro derradeiro) não permite fugir da história, mas, ao contrário, exige que se assume plenamente o compromisso de crescer cada vez mais no amor fraterno: “o Senhor vos conceda que o amor entre vós e para com todos aumente e transborde sempre mais, a exemplo do amor que temos por vós”.

Nossa autenticidade cristã consiste em viver cada dia nossa santidade para que possamos chegar irrepreensíveis ao julgamento de Deus a fim de possuir seu Reino eternamente. Para o cristão, não há outra finalidade ou outro propósito para sua vida e atividade responsável do que servir e amar a Deus com alegria e, portanto, estar sempre disponível para os outros, como Deus quer. Um vive pelo outro, mas como Deus quer, à maneira de Cristo. O cristão vive esperando e com os olhos fixos no futuro, não só no passado. Não é uma espécie de vida passiva ou resignada, melancólica ou retrógrada, mas em uma tensão alegre e pacífica, aguardando seu encontro definitivo com Jesus Cristo. O cristão espera não de braços cruzados, mas vivendo um amor ativo e concreto. Deste modo, o cristão está adiantando o que vai ser sua existência última e plena.

A carta é dirigida a uma comunidade cristã em uma situação de diáspora no meio dos pagãos. Corre-se o risco de ser sufocada pelo ambiente que exerce uma forte pressão. A comunidade existe graças ao amor de Cristo. O amor e a presença de Cristo no meio da comunidade devem irradiar-se e manifestar-se no amor recíproco que cria a unidade da comunidade e está aberto a todos até atingir o seu aspecto mais radical: amar os inimigos (Mt 5,44).

O próprio são Paulo coloca em prática o que ele recomenda. A autoridade de seu ministério é animada pelo amor aos irmãos. Com eles, ele se coloca no caminho da fé. A partir do amor, será mais fácil entender como agradar a Deus e colaborar na realização de seu plano de salvação.

A salvação que Cristo trouxe não é totalmente realizada. É uma realidade em expansão que avança em direção a sua realização escatológica, para a realização do mundo em Cristo ressuscitado. Assim, a Igreja de Cristo é, por definição, uma Igreja a caminho, chamada para ser enviada em missão. É uma Igreja em saída, na linguagem do Papa Francisco. Somente uma Igreja a caminho ou uma Igreja em saída, pode colocar o mundo na estrada rumo à Casa celeste, nossa Casa Comum (cf. Jo 14,1-4).

Ser uma Igreja e ser enviado é um dom que comporta uma responsabilidade. O dinamismo, os imperativos da história, a vinda do Senhor e a salvação exigem a colaboração do homem. O Deus da promessa exige do homem a responsabilidade de suas opções. O homem nunca está satisfeito consigo mesmo, nem com suas conquistas ou realizações. Está sempre em tensão para um futuro melhor.

II. Um Olhar Específico Sobre o Texto Do Evangelho: Levantai-vos e erguei a cabeça, porque a vossa libertação está próxima!”

Como os dois outros evangelhos sinóticos (Mt e Mc), também o evangelho de Lucas encerra a atividade de Jesus em Jerusalém (Lc19,29-21,38), antes de sua prisão e morte, com o discurso sobre o fim (escatológico) ou discurso apocalíptico (Lc 21,5-38). Tanto Mateus como Lucas inspiram seu discurso escatológico/apocalíptico do evangelho de Marcos capítulo 13.        

Mas Lucas tem seu próprio estilo, pois seu evangelho foi escrito depois do ano 70 d.C. Para ele a destruição de Jerusalém é um fato passado. Por isso, ele distingue claramente a Parusia (Segunda Vinda) de Jesus dos eventos ligados ao destino de Jerusalém. Além disso, ele leva em consideração o aspecto histórico e eclesial do discurso dentro do contexto da história da salvação. No discurso ele projeta a sua visão da história da salvação em três momentos: primeiro, a destruição de Jerusalém (julgamento sobre Jerusalém) como o fim de toda uma etapa da história salvífica, mas não é o sinal da chegada do fim; segundo, tempo da missão da Igreja e terceiro, a segunda vinda do Filho do Homem (Parusia) que trará a plenitude do Reino de Deus.          

Ao redimensionar a perspectiva escatológica deste discurso Lucas quer chamar a atenção de dois grupos, seja o dos fanáticos que esperam com impaciência o fim, seja o dos decepcionados e resignados que não esperam mais nada pela demora, para a necessidade do empenho presente, no Tempo da Igreja. Este é o tempo oportuno do testemunho em meio às perseguições violentas, a confiança e a esperança perseverante na espera da libertação com a vinda gloriosa do Senhor Ressuscitado, o Filho do Homem. Por isso, Jesus diz: “Quando estas coisas começarem a acontecer, levantai-vos e erguei a cabeça, porque a vossa libertação está próxima” (v.28).

Levantar-se” e “erguer a cabeça” são características de quem tem fé. Quando ousamos crer no domingo de Páscoa, porque em nós está a força da ressurreição, não há fracasso que nos faça sentir perdedores.  Os cristãos não podem se entregar a utopia futurista, perdendo o laço com a realidade histórica e cotidiana, a realidade do presente embora ela esteja cheia de mentiras, violências, perturbações absurdas que podem levar a desejar o fim. Se o Senhor havia vencido a morte, pensa Lucas, a comunidade cristã não está caminhando rumo à uma utopia anônima, mas o Filho do Homem, que é garantia e primícia da libertação humana. A nossa esperança, por isso, não será fraudada, pois ela tem um nome: Jesus Cristo. Por isso, São Paulo diz: ”Se Deus está conosco, quem estará contra nós? Quem nos separará do amor de Cristo? Em tudo isto somos mais que vencedores, graças àquele que nos amou(Rm 8, 31.35.37). Por isso, “tudo posso naquele que me fortalece(Fl 4,13).        

Lucas convida, assim, a comunidade cristã a trilhar o caminho da fidelidade e da coragem, o caminho que o próprio Senhor trilhou, mesmo diante da repressão violenta das estruturas do poder, sinagogas, e reis, mesmo perante a morte violenta (Lc 21,12). Lucas não fornece informações sobre o fim, mas refunda a esperança no acontecimento central da morte e ressurreição de Jesus. Ele convida os cristãos a olharem para a história para decifrar seus sinais, que fazem pressagiar/prever já agora a passagem da morte à vida, da escravidão à liberdade, como os primeiros brotos anunciam após o inverno a boa estação. 

O que importa para uma comunidade cristã é a vivacidade de esperança. É a esperança que arranca o homem de uma existência sem futuro e sem expectativas. A tristeza e o desânimo são um sinal da ausência de uma verdadeira esperança cristã que no fundo provém de uma falta de fé.       

Este discurso, portanto, é o discurso sobre o Filho do Homem, sobre Jesus, o Senhor Ressuscitado, o Homem fiel até a morte para dar a todos um futuro novo e diferente, e para afirmar aos cristãos ou para quem quer que seja que vale a pena lutar pelo que é digno, como o bem, o amor, a justiça, a solidariedade, a honestidade, a fraternidade, a paz etc., pois tudo isto tem a vitória sobre a morte como o ponto final.        

Para isso, são necessárias duas atitudes de esperança que recebem seu dinamismo da meta que é o encontro decisivo com o Filho do Homem: Vigilância (e conversão) e oração constante. “Portanto, ficai atentos e orai a todo momento, a fim de terdes força para escapar de tudo o que deve acontecer e para ficardes em pé diante do Filho do Homem”.

1. Vigilância          

No sentido literal do termo, vigiar significa renunciar ao sono da noite com o intuito de prolongar o tempo para trabalhar ou para não ser apanhado de surpresa pelo inimigo. Daí o sentido metafórico: vigiar significa estar atento e pronto para acolher o Senhor quando vier. Toda a moral evangélica está fundada na vigilância. O tema da vigilância não é acidental nos evangelhos, mas sempre intervém nos textos. De certa forma, o cristão é sinônimo de pessoa vigilante. A vigilância é a qualidade de quem emprega todo cuidado naquilo que deve ouvir, olhar, pensar, falar e fazer. Para o cristão, qualquer momento pode-se transformar em momento de graça (kairós). Ele tem consciência de estar inserido na história da salvação como receptor e como cooperador da graça. O cristão vigilante vive profundamente imerso na história da salvação, isto é, no aqui-e-agora, descobrindo tudo o que lhe oferece e respondendo tudo o que lhe exige o momento presente. O cristão vigilante não se lamenta perante os momentos espinhosos e sufocantes, mas sabe decifrar seu sentido para torná-los em oportunidades preciosas. O cristão vigilante sempre pergunta: “O que é que Deus quer de mim através daquele acontecimento ou através daquela pessoa”. Ele sempre procura decifrar o sentido das coisas. Vigilância, por isso, significa acordar para os fatos, despertar do sono das ilusões para enfrentar a realidade. O vigilante está sempre em contato com Deus e com a realidade. Ele tem uma intuição do que significa viver, respirar, ver, reunir-se com as pessoas e degustar o mistério de cada momento. Somente quem vigia com fidelidade e confiança, não experimentará o pavor de um acordar inseguro e assustador.          

Se o sentido literal da vigilância aponta para o ato de renunciar ao sono da noite, isto quer dizer que quando se fala da vigilância é inevitável falar da renúncia. Renunciar quer dizer optar por aquilo que tem o valor absoluto ou simplesmente um valor maior que tenho até então. A renúncia precisa sempre da liberdade interior e ao mesmo tempo pode levar alguém à liberdade. Ela não permite o relaxamento moral e espiritual. Os cristãos, por isso, devem sempre tomar cuidado para não relaxar, pervertendo o testemunho e acabando por assumir os vícios provocados pela sociedade injusta como a gula, a embriaguez e a preocupação exagerada sobre a vida. Quem precisa satisfazer toda necessidade imediatamente fica dependente. Acaba determinado por suas necessidades, e por isso, perde a liberdade.       

O julgamento está sempre operando na história, pois Deus continua nos visitando através de Seu Espírito. Em qualquer momento Deus bate a nossa porta. Os impulsos com os quais Deus nos chama a atenção para o que se deve fazer agora são suaves e por isso, precisa-se de muita vigilância (atenção). Em outras palavras, vigilância significa prestar atenção àquilo que aflui até nós. Mas, muitas vezes, por causa de nossas preocupações, acabamos reprimindo essa voz suave. Vigilância no momento significa estar inteiramente presente, envolver-se por inteiro no momento presente sem pensar no passado ou já planejar o futuro. Quando não vigiarmos, vai entrar furtivamente em nós muita coisa que nos desvia de nosso caminho consciente. Não devemos dar livre acesso a qualquer pensamento ou emoção, porque eles logo revelariam ser invasores que nos dificultam a vida em nosso lar interior e querem nos expulsar cada vez mais longe de nosso centro. Consequentemente, não viveremos nós mesmos mas seremos guiados por forças inconscientes e não seremos mais os senhores em nossa casa, pois seremos dominados por insatisfação e amargura, por medo e depressão que tomarão para si o governo de nossa casa.          

Os cristãos devem, portanto, estar sempre de prontidão, vigiando e praticando a justiça. Somente a sua perseverança na prática e no anúncio da justiça lhes permitirá ser considerados justos e inocentes no dia do julgamento.

2. Oração        

Além da vigilância, no seguimento de Jesus, a oração sustenta a caminhada dos cristãos. Ela é a expressão mais viva da fé. Quem crê, precisa orar e quem ora porque acredita. A oração é a alma da espera, o vigor espiritual de quem crê, capaz de assumir a lembrança do passado e de preparar para o futuro. Para tanto, Jesus ilustra o sentido profundo do advérbio “sempre” e do “não desistir jamais” por meio de uma parábola (cf. Lc 18,1-8). O rezar “sempre” é o programa de quem crê. São João Crisóstomo dizia: “É possível, mesmo no mercado ou durante um passeio sozinho, fazer oração freqüente e fervorosa. É possível rezar, mesmo sentados na vossa loja, a tratar de compras e vendas, ou até mesmo a cozinhar”. Quando rezarmos num supermercado, transformaremos aquele supermercado em santuário. O lugar onde rezarmos se transforma em santuário, pois em cada oração o nome de Deus é envolvido.          

A oração exige uma relação em que nós permitimos ao outro entrar no centro de nossa pessoa, permitimos-lhe falar ali, permitimos-lhe tocar o núcleo sensitivo de nosso ser e permitimos-lhe ver tudo o que nós preferiríamos ocultar na escuridão para que ninguém o soubesse.      

Ao homem convidado para rezar se pede que abra seus punhos fechados firmemente cerrados e dê sua última moeda.  Se nós não ousamos fazer ao menos uma pergunta a partir de nossa experiência com todos os nossos apegos, é porque já nos enrolamos no destino dos fatos. Nós nos sentimos mais seguros apegando-nos a um triste passado do que confiando em um novo futuro. Por isso, enchemos as mãos com pequenas moedas pegajosas das quais nunca quereremos nos desfazer.          

Por isso, sempre que nós rezamos de verdade, a nossa oração é eficaz, não porque modificamos Deus, mas porque nos modificamos. O mais difícil da oração não é tanto saber se Deus nos escuta, mas conseguirmos que nós O escutemos.    

Quando pararmos de rezar, e quando começarmos a nos impressionar demais os resultados de nosso trabalho, devagar chegaremos à conclusão errônea de que a vida é um grande placar onde alguém marca os pontos para medir nosso valor. Então, somos inteligentes porque alguém nos dá nota alta, úteis porque alguém agradece, dignos de estima porque alguém nos estima e importantes porque alguém nos considera indispensáveis. Em suma, somos de valor porque alcançamos sucessos.        

Mas de baixo de toda a nossa ênfase na ação bem-sucedida, muitos de nós sofremos de uma arraigada falta de amor-próprio e com o medo constante de que, algum dia, alguém descubra a ilusão e mostre que não somos tão espertos, tão bons ou tão estimáveis quanto fizemos o mundo acreditar que éramos. Esse medo desgastante de que descubram nossas fraquezas impede a participação comunitária e criativa. E corremos o sério perigo de ficar isolados, pois a amizade e o amor são impossíveis sem uma vulnerabilidade mútua.        

Levar uma vida cristã significa viver no mundo sem ser do mundo. É na solidão (oração) que essa liberdade se fortalece. A vida sem um lugar deserto torna-se facilmente destrutiva. Quando nos apegamos aos resultados de nossas ações como nosso único meio de identificação pessoal, tornamo-nos possessivos, ficamos na defensiva e tendemos a ver nossos semelhantes mais como inimigos a ser mantidos a distância que como amigos com os quais partilhamos as dádivas da vida.           

Na solidão (oração) descobrimos no centro de nossa personalidade que não somos mais o que conquistamos, mas o que nos é dado. Na solidão, escutamos a voz daquele que nos falou antes de pronunciarmos uma palavra, (Sl 139) que nos curou antes de esboçarmos um gesto pedindo ajuda, que nos libertou muito antes de libertarmos os outros e nos amou muito antes de darmos amor a alguém. Na solidão(oração), descobrimos que nossa vida não é um bem a ser defendido, mas uma dádiva a compartilhar.        

Quando deixamos de depender deste mundo, formamos uma comunidade de fé em que há pouco a defender, mas muito a partilhar. E como comunidade de fé lembramos uns aos outros constantemente que formamos uma fraternidade dos fracos, compreensível para aquele que nos fala nos lugares desertos de nossa existência e diz: Não temais, sois aceitos.          

Cristo já veio, mas nunca deixa de vir a caminho de nossa casa. O lugar que ele mais ambiciona é um coração convertido, que tenha a coragem de se “reformar” e de se abrir ao amor, à fraternidade, à justiça...Só criando espaço para Cristo num coração convertido é que conseguiremos à meta. Jesus continuamente visita e frequenta o coração daqueles que sabem crer, esperar e amar. Se na vida jogarmos sementes de egoísmo, de violência e de orgulho, de arrogância e de prepotência, estes serão nossos companheiros da viagem e por isso, nunca seremos felizes e nunca faremos ninguém feliz. Se jogarmos sementes da justiça, do amor, da fraternidade e da esperança e da fé em Cristo, Cristo será nossa herança feliz e com ele teremos a experiência da libertação. Importa viver sempre na presença de Cristo. Por isso,” ficai atentos e orai a todo momento, a fim de terdes força para escapar de tudo o que deve acontecer e para ficardes em pé diante do Filho do Homem”.

Portanto, o Advento nos convida a criarmos e cuidarmos de um espaço interior, no qual possamos ouvir uma voz e vivenciar uma presença amiga: “Estou à porta e bato”. Cuidemos de nossa alma. É uma bela tarefa para este tempo do Advento.

P. Vitus Gustama,svd


quinta-feira, 28 de novembro de 2024

30/11/2024-Sábado Da XXXIV Semana Comum

ORAR E VIGIAR SEMPRE PARA PERMANECER COM O PODER DE DEUS E ALCANÇAR O CÉU

Sábado da XXXIV Semana Comum

Primeira Leitura: Ap 22,1-7

A mim, João, 1 o anjo do Senhor mostrou-me um rio de água viva, o qual brilhava como cristal. O rio brotava do trono de Deus e do Cordeiro. 2 No meio da praça, de cada lado do rio, estão plantadas árvores da vida; elas dão frutos doze vezes por ano; em cada mês elas dão fruto; suas folhas servem para curar as nações. 3 Já não haverá maldição alguma. Na cidade estará o trono de Deus e do Cordeiro e seus servos poderão prestar-lhe culto. 4 Verão a sua face e o seu nome estará sobre suas frontes. 5 Não haverá mais noite: não se precisará mais da luz da lâmpada, nem da luz do sol, porque o Senhor Deus vai brilhar sobre eles e eles reinarão por toda a eternidade. 6 Então o anjo disse-me: “Estas palavras são dignas de fé e verdadeiras, pois o Senhor, o Deus que inspira os profetas, enviou o seu Anjo, para mostrar aos seus servos o que deve acontecer muito em breve. 7 Eis que eu venho em breve. Feliz aquele que observa as palavras da profecia deste livro”.

Evangelho: Lc 21,34-36

34 “Tomai cuidado para que vossos corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida, e esse dia não caia de repente sobre vós; 35 pois esse dia cairá como uma armadilha sobre todos os habitantes de toda a terra. 36 Portanto, ficai atentos e orai a todo momento, a fim de terdes força para escapar a tudo o que deve acontecer e para ficardes de pé diante do Filho do Homem”.

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O Céu Se Alcança Através De Nossa Fidelidade Ao Cordeiro De Deus Até o Fim, Aqui Na Terra

Com a liturgia deste dia chegamos ao final deste ano litúrgico (ano em que refletimos o evangelho de Marcos). Amanhã, o primeiro Domingo do Advento, se enicia o Ano Novo litúrgico.

O Apocalipse de são João, em seu último capítulo que lemos hoje na Primeira Leitura, nos mostra, através de imagens de extraordinária qualidade poética, a plenitude dos tempos, o Reino de Deus, desse Deus que é “Emanuel”, Deus-Conosco. Esta humanidade, fiel ao Cordeiro, agora chegou por Cristo, com Ele e n´Ele à Árvore da Vida: “No meio da praça, de cada lado do rio, estão plantadas árvores da vida; elas dão frutos doze vezes por ano; em cada mês elas dão fruto; suas folhas servem para curar as nações. Já não haverá maldição alguma” (Ap 22,2). Recuperou a intimidade com Deus, a experiência da unidade gozosa com o Todo e com cada um de suas partes no Novo Céu e Nova Terra.

A última página da Bíblia (Apocalipse) é a repetição da primeira página da Bíblia (Gênesis). É o novo começo do “Génesis”, o Paraíso encontrado novamente, o projeto de Deus realizado até o fim, a vida que corre como o rio de água viva, como árvore de vida que dá seus frutos, como a luz sem ocaso. É como o retorno ao paraíso terrestre.

“... o anjo do Senhor mostrou-me um rio de água viva, o qual brilhava como cristal.”. o Rio relembra a imagem do Gênesis (Gn 2,10) e de Ezequiel (Ez 47,1-12). Aqui é água da vida. , e está brotando como uma luz esplendorosa, transparente como o cristal, como diz o texto. Nesse novo Paraíso a vida divina é derramada para os fiéis como um rio, fazendo germinar a toda a criação. É a comunhão perfeita da vida de Deus com os homens que foram fieis até o fim, e dos homens entre si e da harmonia cósmica.

Estamos na última página da Bíblia e, sintomaticamente, as imagens deste fragmento apontam para a narração do paraíso no livro do Génesis (Primeiro livro), para a primeira criação, como se tentassem encontrar um paralelo entre o "paraíso perdido" e o "Paraíso redescoberto" ("os novos céus e a nova terra" no Apocalipse, o último Livro da Bíblia). Deus e o Cordeiro são, sem dúvida, os personagens centrais do Apocalipse. O último quadro da visão do Apocalipse descreve a vida dos escolhidos de Deus e com Deus.

O último capítulo marca o ponto alto do processo: a expressão "o trono de Deus e do Cordeiro" manifesta a misteriosa intimidade de ambos. Se desde o princípio Deus estava "sentado no trono", agora, como também o Cordeiro está sentado ali, sua condição divina aparece evidente. De ambos, como fonte de toda a vida, sai a água que dá vida aos habitantes da cidade, a força dinâmica do Espírito que se derrama sobre a nova Jerusalém. Os seus cidadãos saboreiam os frutos inesgotáveis ​​da árvore, cujas folhas oferecem um remédio salvador: o Deus da vida, Senhor da cidade, dá alimento seguro aos habitantes.

As leituras deste último dia do ano litúrgico  nos assinalam, então, o fim de nosso caminhar aqui na terra rumo à Casa do Pai, nossa morada definitiva (cf. 2Cor 5,1). O livro do Apocalipse nos ensina, através de símbolos, a realidade da vida eterna onde será cumprido o anseio do homem: a visão de Deus e a felicidade sem término e sem fim: “Verão a sua face e o seu nome estará sobre suas frontes. Não haverá mais noite: não se precisará mais da luz da lâmpada, nem da luz do sol, porque o Senhor Deus vai brilhar sobre eles e eles reinarão por toda a eternidade” (Ap 22,4-5). Para o homem a plenitude da vida consiste em ver o rosto de Deus, pois foi destinado para esta contemplação. A morte dos filhos de Deus será somente o passo prévio, a condição indispensável para unir-se com seu Deus Pai e permanecer com Ele por toda a eternidade.  A marca na fronte de cada fiel é o sinal de sua vocação e da predileção divina.

O Céu será a nova comunidade dos filhos e filhas de Deus que alcançam ali a plenitude de sua adoção divina. No Céu veremos Deus face a face e gozaremos n´Ele com um gozo infinito, segundo a santidade e os méritos adquiridos na terra conforme a misericórdia de Deus.

O livro de Apocalipse quer nos dizer que é bom e necessário fomentarmos a esperança do Céu; consolo e persistência nos momentos mais duros e ajuda a manter firme a virtude da fidelidade. Pensemos sempre nas palavras consoladoras de Jesus: “Vou preparar um lugar para vós” (Jo 14,2). Ali no Céu temos nossa casa definitiva, nossa Casa Comum, muito próximo do Senhor Jesus e de sua Mãe Santíssima, Maria. Neste mundo estamos apenas de passagem. Amanhã começa o Advento, tempo da espera e da esperança: esperamos Jesus que está conosco (cf. Mt 28,20).

Ficam claras para nós duas coisas: que há combate e que há vitória quem está com o Senhor. Como há combate devemos estar preparados. Como há vitória, nosso coração deve estar firme até o fim. A vida é contínua e está sempre fluindo. A vida está cheia de cruzamentos, curvas e afluentes. Essencialmente, viver é “viajar”, “peregrinar”. Sempre queremos seguir a estrada ou rio ou mar para ver o que há depois da próxima curva, por trás da próxima colina. Atrás da morte está a vida glorificaa em Deus para seus fieis.

O evangelho deste dia está na mesma tônica: estar desoertados, mas não angustiados; atentos, mas não desesperados; vigilantes do perigo, mas sem obsessão com ele. E sobretudo: orar. Deixar de orar já significa perder. Necessitamos da oração para que nossos olhos vejam como Deus vê tudo. Necessitamos da oração para que nossas forças não fiquem esgotadas. Necessitamos da oração porque nenhuma previsão será perfeita e nenhum raciocínio pode deduzir quando será aquele dia e aquela hora.

É Preciso Viver Na Sobriedade Para Viver Saudavelmente Físico e Espiritualmente

Tomai cuidado para que vossos corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida”.

Estamos na ultima parte do discurso escatológico ou apocalíptico de Jesus na versão de Lucas. Desta vez, somos alertados sobre a importância da vigilância e da oração no seguimento de Jesus Cristo.                  

Ficai atentos e orai a todo momento, a fim de terdes força para escapar a tudo o que deve acontecer e para ficardes de pé diante do Filho do Homem”, assim Jesus nos alerta.

No contexto do discurso, colocado imediatamente antes dos relatos da Paixão e da ressurreição do Senhor, esta exortação designa com claridade a Paixão do Filho do Homem durante a qual os discípulos se encontrarão em uma situação complicada. Consciente da situação complicada, com esta exortação Jesus quer animar seus discípulos para que sejam firmes em tudo, pois atrás do mistério da cruz está a ressurreição, atrás de uma aparente debilidade se encontra uma força irresistível, atrás de umas nuvens negras se esconde o sol. Em outras palavras, é preciso ir além da aparência e penetrar a camada exterior para entrar no miolo das coisas. Ao contemplar o mistério da Cruz na sua profundidade acabaremos enxergando o mistério da ressurreição, mistério que nos fortalece para superar tudo na nossa caminhada.

Mas o evangelista Lucas também pensa nos seus leitores de hoje e de amanhã. Encontrados ou situados no mistério da existência, com seus altos e baixos, não sentirão a tentação de abandonar tudo? Daí a importância da vigilância e da oração na vida de qualquer seguidor do Senhor.

Viver Orando

“Quando o Espírito (Santo) fixa a sua morada no coração do homem, este não pode parar de rezar... e a sua alma exala espontaneamente o perfume de oração” (Santo Isaac da Síria).

Para Jesus, rezamos “a fim de terdes força para escapar a tudo o que deve acontecer e para ficardes de pé diante do Filho do Homem”. A oração é a força sem limites para encarar a realidade, pois a encaramos com Deus, e se encararmos tudo com Deus, será cumprido aquilo que São Paulo escreveu: “Se Deus é por nós, quem será contra nós? Aquele que não poupou seu próprio Filho, mas que por todos nós o entregou, como não nos dará também com ele todas as coisas?” (Rm 8,31-32). Aquele que aprende a ficar de joelho diante de Deus em uma atitude de oração e adoração, ele ficará de pé firmemente diante da vida e de seus acontecimentos. Se pararmos de rezar, erraremos o caminho, pois rezar significa estar em comunhão com Deus e por isso, estar no caminho de Deus e com Deus. “Tuas orações são a seta que o mantém na raia (Santo Agostinho: Serm. 22,5).

Na verdadeira oração encontramos Deus, Fonte do ser e do existir, e ao encontrar a Fonte de nosso ser, acabamos encontrando nosso próximo, objeto do amor de Deus (cf. Jo 3,16). Por isso, não pedimos a Deus que governe nossa vida através de milagres, e sim Lhe pedimos o milagre de amar até o fim (cf. Jo 13,1), pois somente o amor capaz de transformar o mundo porque “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). O amor fraterno nos identifica como verdadeiros seguidores de Jesus Cristo (cf. Jo 13,35). Por isso, se nossa oração nos afasta dos homens, ainda não nos encontramos com o Deus dos homens, mas com sua fantasia. Sempre que rezamos de verdade, a nossa oração é eficaz porque nós nos modificamos. Não rezamos para convencer Deus que faça o que queremos e sim para conseguir nos aproximar de tudo que Deus espera de nós. Dizia Santo Agostinho: “É injusto desejar qualquer coisa do Senhor e não desejar a Ele mesmo. Pode, por acaso, a doação ser preferida ao doador?” (In ps.76,2).

Viver Na Vigilância e Na Permanente Atenção

Ficai atentos! Tomai cuidado para que vossos corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida, e esse dia não caia de repente sobre vós; pois esse dia cairá como uma armadilha sobre todos os habitantes de toda a terra”.

A última recomendação de Jesus no seu discurso escatológico na versão de Lucas, o ultimo conselho do ano litúrgico é este: “Ficai atentos!” ou “Estejais vigilantes”. Procuremos viver com critério o tempo que nos é dado e que continua fugindo de nosso controle conhecendo e procurar saber o querer de Deus em cada instante. O próprio evangelho de Lucas aconselha: sejamos misericordiosos, não julguemos, não condenemos, perdoenos mutuamente e sejamos generosos com os necessitados (Lc 6,36-38). O julgamento futuro acontece aqui e agora em nós, segundo a medida que usamos para medir os outros. A passagem obrigatória para chegar a Deus é o próximo. O tratamento que fazemos para os outros será o tratamento que receberemos de Deus futuramente.  A atitude do fiel é de discernimento e de vigilância na certeza de que o Senhor está próximo aqui e agora (Lc 21,28-33). Por isso, a conclusão de todo o discurso remete para a vigilância com responsabilidade (cf. Lc 16,9-12)

Ser vigilante não é uma opção para um cristão, e sim faz parte do seu ser como seguidor do Senhor. Estar atento é a verdadeira espiritualidade cristã, pois o centro é sempre o outro e o Outro. A atenção nos leva a nos aproximarmos do outro para estar com ele ou para ajudá-lo na sua necessidade. A vigilância nos capacita a detectarmos tudo que possa desviar nossa atenção de nossa meta de estar em comunhão plena com o Senhor, fonte de nosso ser. Somente os vigilantes são capazes de se afastar do mal.

Além disso, a vigilância e a oração têm o seguinte objetivo: “para ficardes de pé diante do Filho do Homem”.  Estar de pé diante de Cristo é estar em vigilância e em atitude de oração na nossa passagem neste mundo cumprindo nossa missão como seguidores de Jesus Cristo. O verdadeiro cristão não se preocupa se a vinda gloriosa de Jesus está próxima ou ainda está distante, pois ele tem um compromisso com o presente de levar até o fim uma grande tarefa de evangelização, isto é, em levar o que é bom e digno para os outros.

O contrário da vigilância é a gula, a embriaguez e as preocupações da vida:Tomai cuidado para que vossos corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida, e esse dia não caia de repente sobre vós; pois esse dia cairá como uma armadilha sobre todos os habitantes de toda a terra”.

Na época de Jesus, o alcoolismo, o afã de riqueza, a prostituição e os jogos de azar eram as grandes distrações. O povo judeu era muito zeloso de suas leis religiosas. Posteriormente as comunidades primitivas tiveram que definir parâmetros muito claros diante dos vícios que propagavam as culturas greco-romanas centradas no culto ao poder e ao prazer. 

O evangelho de hoje põe na boca de Jesus um conjunto de advertências acima mencionadas que tratam de resistir diante dos vícios que ameaçavam a integridade da pessoa e da comunidade. Não se trata de uma pregação moralista e sim um chamado para uma atitude ética consciente e responsável. O ser humano não pode ser livre se ainda permanece atado aos vícios que a cultura lhe impõe. O cristão não pode ficar atento à presença do Senhor se estiver dominado pelo vício. Ao contrário, o cristão precisa estar livre e estar atento diante da realidade para dar uma resposta adequada e eficaz. Por esta razão, o cristão precisa cultivar uma atitude orante que lhe permite estar atento diante da realidade e descobrir os sinais dos tempos. O fracasso sempre nos deixa muitos ensinamentos que nos ajudam a melhorar. Ele favorece a humildade e nos ajuda a manter os pés no chão; estimula nossa imaginação e nos leva a explorar novas alternativas; faz de nós pessoas mais reflexivas, evitando decisões precipitadas; é um convite para recomeçar. Ser cristão é ser eterno recomeço.

Em cada Eucaristia se concentram três direções para resumir tudo que foi falado até agora, no discurso escatológico de Jesus, através das palavras de São Paulo: “Todas as vezes que comeis desse pão e bebeis desse cálice (momento privilegiado do “hoje”) anunciais a morte do Senhor (o “ontem” da Páscoa), até que ele venha (o “amanhã da manifestação do Senhor)” (1Cor 11,26). Por isso aclamamos no momento central da missa: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte, proclamamos a vossa ressurreição, vinde Senhor Jesus”.

Com este texto terminamos o Tempo Comum para entrar a partir do próximo domingo no Tempo do Advento e do Natal. Na época de Natal é bom ficar na nossa memória as palavras do Senhor lidas hoje:Tomai cuidado para que vossos corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida, e esse dia não caia de repente sobre vós; pois esse dia cairá como uma armadilha sobre todos os habitantes de toda a terra”.

P. Vitus Gustama,svd

07/04/2025-Segundaf Da V Semana Da QUaresma

JESUS E SEUS ENSINAMENTOS SÃO A LUZ-VIDA PARA A HUMANIDADE Segunda-Feira da V Semana da Quaresma I Leitura: Dn 13,1-9. 15-17.19-30.33-...