sábado, 31 de janeiro de 2026

03/02/2026- Terça-feira Da IV Semana Do TComum

A VERDADEIRA FÉ EM JESUS CRISTO NOS TORNA VIVOS EM DEUS

Terça-Feira Da IV Semana Comum

Primeira Leitura: 2Sm 18,9-10.14b.24-25a.30-19,3

Naqueles dias, 18,9 Absalão encontrou-se por acaso na presença dos homens de Davi. Ia montado numa mula e esta meteu-se sob a folhagem espessa de um grande carvalho. A cabeça de Absalão ficou presa nos galhos da árvore, de modo que ele ficou suspenso entre o céu e a terra, enquanto a mula em que ia montado passou adiante. 10 Alguém viu isto e informou Joab, dizendo: “Vi Absalão suspenso num carvalho”. 14b Joab tomou então três dardos e cravou-os no peito de Absalão. 24 Davi estava sentado entre duas portas da cidade. A sentinela que tinha subido ao terraço da porta, sobre a muralha, levantou os olhos e divisou um homem que vinha correndo, sozinho. 25ª Pôs-se a gritar e avisou o rei, que disse: “Se ele vem só, traz alguma boa nova”. 30 O rei disse-lhe: “Passa e espera aqui”. Tendo ele passado e estando no seu lugar, 31 apareceu o etíope e disse: “Trago-te, senhor meu rei, a boa nova: O Senhor te fez justiça contra todos os que se tinham revoltado contra ti”. 32 O rei perguntou ao etíope: “Vai tudo bem para o jovem Absalão?” E o etíope disse: “Tenham a sorte deste jovem os inimigos do rei, meu senhor, e todos os que se levantam contra ti para te fazer o mal!” 19,1 Então o rei estremeceu, subiu para a sala que está acima da porta e caiu em pranto. Dizia entre soluços: “Meu filho Absalão! Meu filho, meu filho Absalão! Por que não morri eu em teu lugar? Absalão, meu filho, meu filho!” 2 Anunciaram a Joab que o rei estava chorando e lamentando-se por causa do filho. 3 Assim, a vitória converteu-se em luto, naquele dia, para todo o povo, porque o povo soubera que o rei estava acabrunhado de dor por causa de seu filho.

Evangelho: Mc 5,21-43

Naquele tempo, 21Jesus atravessou de novo, numa barca, para a outra margem. Uma numerosa multidão se reuniu junto dele, e Jesus ficou na praia. 22Aproximou-se, então, um dos chefes da sinagoga, chamado Jairo. Quando viu Jesus, caiu a seus pés, 23e pediu com insistência: “Minha filhinha está nas últimas. Vem e põe as mãos sobre ela, para que ela sare e viva!” 24Jesus então o acompanhou. Numerosa multidão o seguia e comprimia. 25Ora, achava-se ali uma mulher que, há doze anos, estava com hemorragia; 26tinha sofrido nas mãos de muitos médicos, gastou tudo o que possuía, e, em vez de melhorar, piorava cada vez mais. 27Tendo ouvido falar de Jesus, aproximou-se dele por detrás, no meio da multidão, e tocou na sua roupa. 28Ela pensava: “Se eu ao menos tocar na roupa dele, ficarei curada”. 29A hemorragia parou imediatamente, e a mulher sentiu dentro de si que estava curada da doença. 30Jesus logo percebeu que uma força tinha saído dele. E, voltando-se no meio da multidão, perguntou: “Quem tocou na minha roupa?” 31Os discípulos disseram: “Estás vendo a multidão que te comprime e ainda perguntas: ‘Quem me tocou’?” 32Ele, porém, olhava ao redor para ver quem havia feito aquilo. 33A mulher, cheia de medo e tremendo, percebendo o que lhe havia acontecido, veio e caiu aos pés de Jesus, e contou-lhe toda a verdade. 34Ele lhe disse: “Filha, a tua fé te salvou. Vai em paz e fica curada dessa doença”. 35Ele estava ainda falando, quando chegaram alguns da casa do chefe da sinagoga, e disseram a Jairo: “Tua filha morreu. Por que ainda incomodar o mestre?” 36Jesus ouviu a notícia e disse ao chefe da sinagoga: “Não tenhas medo. Basta ter fé!” 37E não deixou que ninguém o acompanhasse, a não ser Pedro, Tiago e seu irmão João. 38Quando chegaram à casa do chefe da sinagoga, Jesus viu a confusão e como estavam chorando e gritando. 39Então, ele entrou e disse: “Por que essa confusão e esse choro? A criança não morreu, mas está dormindo”. 40Começaram então a caçoar dele. Mas, ele mandou que todos saíssem, menos o pai e a mãe da menina, e os três discípulos que o acompanhavam. Depois entraram no quarto onde estava a criança. 41Jesus pegou na mão da menina e disse: “Talitá cum” — que quer dizer: “Menina, levanta-te!” 42Ela levantou-se imediatamente e começou a andar, pois tinha doze anos. E todos ficaram admirados. 43Ele recomendou com insistência que ninguém ficasse sabendo daquilo. E mandou dar de comer à menina.

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Um Coração Amoroso é o Lugar De Abrigo Para Todos Porque É Capaz De Perdoar

Na Primeira Leitura do dia anterior lemos que o rei Davi era acusado pelo seu próprio filho, Absalão e pelos inimigos. O rei Davi figiu, então de Jerusalém. Era o momento de duro fracasso. Porém, através dos livros históricos percebemos que fracasso e fraqueza não contrapõem o plano de Deus. Deus é capaz de alcançar seu fim, mesmo usando aparências contrárias. Toda a história da salvação é uma boa prova disso.

Eu preciso meditar seriamente sobre meus fracassos e fraquezes, pois neles posso também enxergar os planos de Deus sobre mim, “Pois a loucura de Deus é mais sábia do que os homens, e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens"(1Cor 1,25).

Novamente hoje estamos diante de uma cena comovedora: as lágrimas de Davi pela morte de seu filho, Absalão: “Meu filho Absalão! Meu filho, meu filho Absalão! Por que não morri eu em teu lugar? Absalão, meu filho, meu filho!”. É o pranto de Davi, pai de Absalão.  Sabemos muito bem que quem perde um filho(a), perde o futuro, e quem perde o marido/esposa, perde o presente/companhia. Mesmo que Davi sofra pela rebeldia do seu próprio filho, mas Absalão saiu das entranhas de Davi. É muito difícil um pai não se entristecer quando seu filho morrer. É como se uma parte de sua vida fosse embora. Davi e Absalão formam um lar. Nenhuma pessoa se torna pessoa sem lar. O lar é a base ou o ponto de partida de uma história. Somos o que somos também por causa de nosso lar.

Em Davi qualquer pai ou mãe pode se espelhar através da frase de Davi: “Por que não morri eu em teu lugar? Absalão, meu filho, meu filho!”. “Quando perdemos um ente querido, especialmente se foi algo súbito e inesperado, podemos sentir como se tivéssemos perdido o chão sob os pés. Isso nos tira o fôlego. Quando está sofrendo profundamente, se sofreu uma perda significativa, você precisa de pessoas que sejam capazes de simplesmente sentar e ouvir com compaixão. Mas o mais importante é que possamos ouvir a nós mesmos com compaixão. Para fazer isso, precisamos aprender a arte de ouvir profundamente. Paremos o que estamos fazendo e voltemos para nós mesmos. Olhemos profundamente para reconhecer e nomear nosso sofrimento e o abracemos ternamente. Ouvir profundamente nosso próprio sofrimento é um ato de autocompaixão” (Thich Nhat Hanh In Viver Quando Alguém Que Amamos Morrer, Ed. Vozes, Petrópolis, RJ, 2025, pp. 16.17)

Davi está velho. Seu filho, Absalão, ainda é jovem. Hoje em dia presenciamos muitas cenas trágicas em que os pais enterram os filhos por causa da violência cada vez mais crescente. Outras vezes, por imprudência do próprio filho. Mas qualquer morte sempre traz tristeza. Muitos jovens se tornam vitimas de um mundo violento por causa da ingenuidade e inocência, drogas ou por outras razões. O próprio Jesus cheio de sabedoria nos disse: “Os filhos deste mundo são mais espertos/prudentes do que os filos da luz” (Lc 16,8). É preciso saber escolher os amigos para não entrar numa vida trágica. Certas “amizades” podemos nos causar danos, se não adotarmos um pouco de sabedoria e prudência. O verdadeiro amigo nos alerta permanentemente, pois nos ama. “Para conhecermos os amigos é necessário passar pelo sucesso e pela desgraça. No sucesso, verificamos a quantidade e, na desgraça, a qualidade” (Confúcio).

Com astúcia e habilidade militar, o exército do rei Davi conseguiu derrotar o rebelde (Absalão) e foi morto tragicamente entre as árvores da floresta. Mas o que poderia ter sido uma vitória e o fim de uma rebelião incômoda, para Davi, o próprio pai de Absalão, é uma grande dor.

Mais uma vez o texto quer nos mostrar a magnanimidade de Davi: seu coração é tão amoroso a ponto de ter espaço para quem está contra ele, como seu próprio filho, Absalão, o rebelde. Davi já havia dado ordens para respeitar a vida de seu filho, mas o capitão Joab aproveitou a tragédia de Absalão (“A cabeça de Absalão ficou presa nos galhos da árvore, de modo que ele ficou suspenso entre o céu e a terra, enquanto a mula em que ia montado passou adiante”) para liquidar partidas adversárias e matou o rebelde Absalão. Davi já havia chorado pela morte do rei Saul apesar do mal feito contra ele, agora Davi chora por seu filho Absalão apesar da rebeldia do filho. Para Davi não há festa para celebrar esta triste vitória! Enquanto Davi chora por seu filho morto, o exército vitorioso não se atreve a comemorar a vitória e entra na cidade de Jerusalém. “A mais vergonhosa das vitórias é aquela que é obtida em uma guerra civil” (Valério Máximo).

Em Davi podemos ver  como Deus se comporta diante de nós pecadores. Nosso Pai celeste, mesmo que fiquemos rebeldes contra Ele e nos opomos a Ele, continua nos amando. “Eu não quero a morte do pecador, e sim que se converta e viva(Ez 33,11).

Eu me disponho a meditar sobre meus próprios pecados, para sentir em mim toda dor de Deus, toda a misericórdia de Deus. Se Davi compreendeu tão bem o perdão para seu filho é porque ele mesmo tinha experimentado o perdão de Deus. Davi recorda que depois do homicídio de Urias, o profeta Natã foi a seu palácio para revelar-lhe sua falta..e a superabundância da misericórdia divina. E Jesus nos recordará esta lei: “Se vocês não perdoarem, tampouco Deus os perdoará(Mt 6,14-15; cf. Mt 18,35).

O Salmo Responsorial (Sl 85) põe nos lábios de Davi uma súplica muito sentida a Deus para que Deus o ajude neste momento de dor: “Inclinai, ó Senhor, vosso ouvido, escutai, pois sou pobre e infeliz! Protegei-me, que sou vosso amigo, e salvai vosso servo, meu Deus, que espera e confia em vós! Piedade de mim, ó Senhor, porque clamo por vós todo o dia! Animai e alegrai vosso servo, pois a vós eu elevo a minh’alma”.

Realmente Davi é um sinal profético do grande amor que Deus nos tem, pois quando ainda éramos pecadores e inimigos de Deus, nos enviou seu próprio Filho e entregou sua vida para o perdão de nossos pecados. Deus não quer a morte do pecador e sim que se converta e viva. Deus nos ama com um amor eterno. Tudo pode desaparecer, mas o amor de Deus por nos permanece para sempre. Por isso, não devemos perseguir os pecadores para acabar com eles e sim que como Cristo saímos ao encontro do peridido a fim de voltar para a comunhão de irmãos na família de Deus.

O bom coração de Davi nos recorda a imensidade do amor de Deus que nos ama até o fim em Jesus Cristo (Jo 13,1), seu filho unigênito que nos enviou para nos salvar de nossos pecados (Jo 3,16). Como Davi não queria a morte de seu filho, Absalão, assim Deus nos diz: “Porventura, tenho eu prazer na morte do ímpio? ... Não tenho prazer na morte de quem quer que seja. Convertei-vos e vivereis!” (Ez 18,23.32). Jesus Cristo nos retrata o coração de Deus descrevendo como um pastor que se alegra imensamente quando encontra novamente a ovelha perdida ou um pai que celebra uma grande festa pela volta do filho pródigo (Cf. Lc 15,1-32).

A partir do texto da Primeira Leitura vale a pena nos perguntarmos: Temos/tenho um coração igual ao de Davi, especialmente ao de Jesus Cristo, o Bom Pastor? Sabemos/sei perdoar o que nos ofendem ou cremos que nos ofendem, inclusive os que nos perseguem? Quanto tempo dura o rancor no nosso/meu coração?

"Eu, porém, vos digo: amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos [maltratam e] perseguem. Deste modo sereis os filhos de vosso Pai do céu, pois ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos", disse-nos Jesus (Mt 5,44-45).

O Evangelho e Sua Mensagem Para Nós

Estamos nos últimos dois milagres de uma serie de milagres no início do evangelho de Marcos (Mc 4,35-5,43). No texto do Evangelho de hoje Jesus é apresentado como aquele que tem poder de curar as doenças por graves que elas sejam e de devolver a vida para quem se encontra morto. Mas para que seu poder possa acontecer na vida do homem, há uma condição indispensável: fé.  “Não tenhas medo. Basta ter fé!”, disse nos Jesus. “A fé é a garantia dos bens que se esperam, a prova das realidades que não se vêem(Hb 11,1). A mulher que estava doente de hemorragia durante 12 anos viveu a fé e ficou curada como premio de sua fé.

1. O Reino de Deus é a Vida Para Todos

Jesus percorre o país para anunciar o Reino de Deus e para estabelecê-lo. Ele fala e age com autoridade pelo bem de todos e pela salvação da humanidade inteira. A sua fama se espalha, porque uma força brota d’Ele; é a força da ressurreição, a força do Espírito de vida; suas palavras estão cheias de autoridade, pois fazem todos crescerem na fraternidade e na igualdade.

Fica curada!”. Em grego o verbo “curar” (sozein, sozo) significa tanto “salvar” como “curar”. Por isso, neste contexto, o evangelista deixa intuir que não se trata de uma simples cura, mas de uma “salvação” como dom da vida que vem de Deus. O imperativo de Jesus tem algo de afetuoso para com a mulher sofrida de hemorragia durante 12 anos, e é restaurada na sua dignidade, restabelecida na sociedade que excluía o seu mal. Este imperativo “fica curada” aparece também como uma constatação: é a fé dessa mulher que a salvou, e Jesus se alegrou por isso. A cura é conseqüência da fé, que é sempre fonte de vida e de felicidade. “Filha, a tua fé te salvou. Vai em paz e fica curada dessa doença”.   O justo viverá por sua fé(Hab 2,4). O justo é aquele que tem a certeza de sentir-se olhado por Deus. Sabendo-se olhado e chamado por Deus, ele sempre se volta para Deus em seu interior, principalmente, nos momentos mais angustiantes de sua vida. É assim esta mulher!      

Levanta-te!”. Este segundo imperativo do Evangelho deste dia é dinâmico e traduz perfeitamente a paixão de Deus em ver o homem vivo, o seu amor incondicional pela vida, pois Ele é a própria fonte de vida (cf. Jo 11,25; 14,6; 10,10). “Adormecida”, no “sono da morte”… um estado do qual Deus nos quer fazer sair, um estado do qual Ele nos salva, Jesus, o Deus-Conosco, chamou a jovem mulher a voltar à vida. “Eu te ordeno: levanta-te”. A palavra evoca a ressurreição, o novo surgir da vida, o amor divino que nos coloca de pé. É um imperativo que quer nos mostrar que  a vida jamais acaba, pois sua origem está em Deus (cf Jo 1,4; 11,25; 14,6). É preciso mantermos nossa fé no Deus da vida, origem e destino da vida. Ter fé no Deus da vida significa não parar de existir. É viver para sempre. Jesus pede ao pai da jovem apenas uma coisa: fé. “Não tenhas medo. Basta ter fé!”.  E quanto a nós, cremos verdadeiramente em Jesus Cristo, Filho de Deus vivo?

Retirai-vos porque a menina não morreu e sim está dormindo”, disse Jesus à multidão.  Jesus quer dizer que para ele e para o poder de Deus a morte não significa mais que um sono ligeiro. Da mesma maneira Jesus também falou de Lázaro morto: “Nosso amigo Lázaro está dormindo e vou despertá-lo” (Jo 11,11). A morte para Deus não é um poder insuperável. Para quem ainda não está no caminho da fé tem dificuldade para entender tudo isso. As coisas têm um aspecto muito distinto diante do olhar de Deus e diante da experiência do homem. Mas se aprendermos a olhar tudo a partir de Deus, então a morte perderá seu caráter arrepiante e teremos alegria de tratar nossa vida com carinho e respeito, pois a vida é de Deus e Deus está nela.

As duas beneficiadas das ações de Jesus neste Evangelho têm algo em comum: a primeira estava doente durante 12 anos, e a jovem filha morreu aos 12 anos, a idade em que se devia tornar mulher. No povo de Israel, o percurso destas duas mulheres era sinal de um fracasso. Uma estava atingida, como Sara, a mulher de Abraão, na sua fecundidade, pois essa mulher de hemorragia perdia o seu sangue, princípio de vida na mentalidade semítica. A outra perdia a vida, precisamente na idade em que se preparava para transmiti-la (era tradição casar-se muito cedo). Cristo cura as duas mulheres e permite-lhes assim assumir a sua vocação maternal. “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância”, disse-nos Jesus (Jo 10,10b). Estar com Jesus significa estar com a vida em abundância. Longe dele perdemos a capacidade de produzir frutos para uma vida em abundância (cf. Jo 15,5).

2. Transformação Pela Fé

Um chefe de sinagoga cai de joelhos, reconhecendo a divindade de Jesus, e suplica a Jesus para salvar a sua filha… Uma mulher atingida por hemorragias não diz nada, mas contenta-se em tocar as vestes de Jesus, porque se considera impura ritualmente (por isso ela fez tudo silenciosamente). Isto basta para Aquele que veio para levantar, curar, salvar a humanidade ferida. Só a fé solicita um sinal de Jesus, a fé de Jairo, a fé da mulher, a fé de Pedro, Tiago e João… E esta fé faz Jesus agir e transforma os beneficiados: a mulher é curada, a jovem volta a viver (levantar-se.

A fé nos diz que não há nada que seja perdido. A fé amplia nosso horizonte e alarga nossa perspectiva para mais longe. A fé nos levanta para um topo mais alto para ver até os vales da vida na sua profundidade. A fé nos coloca no mapa de nossa vida para que saibamos para onde vamos e por onde vamos. A fé é um tipo de “GPS” que nos leva até o endereço certo de nossa vida. Por causa da fé eu preparo o espaço necessário para que Deus possa atuar em mim. A fé é sempre e continua sendo a condição e o fundamento da ação salvadora de Deus em mim.

Não tenhas medo. Basta ter fé!”. É o convite de Jesus para cada um de nós. Jesus não nos pede outra coisa a não ser fé. E isso Ele pede até quando nos encontrarmos numa situação impossível de superar. A exemplo da mulher com a hemorragia durante 12 anos que toca na veste de Jesus, precisamos tocar o próprio mistério para que possamos sair de nossa situação sem saída. Além disso, precisamos deixar nossa mão segurada pelo Senhor para que possamos nos levantar novamente de uma situação de morte, como a menina de 12 anos que se encontrou morta e voltou a viver, pois o Senhor segurou sua mão e a ajudou a se levantar.

Não temas; basta que tenhas fé!”. Este é o segredo. Ter fé é uma maneira mais eficaz para ficar perto de Deus. Mas a fé não se adquire nem nos livros, nem nas revistas nem nas receitas e sim está no encontro pessoal com Jesus. Para esse Jesus podemos pedir: “Toque-me, Senhor, para que eu possa ficar curado e viva novamente!”.

A fé move montanhas. Nossas montanhas de medo, de covardias, de falta de compromisso com a vida. Aquela mulher, com fluxo de sangue, considerada impura que não podia ser tocada por ninguém nem tocar alguém, tomou coragem de tocar o manto de Jesus, pois tem fé no poder de Jesus de que ficaria curada. Para ela não há lei que a detenha. E ficou curada. Diante  da morte de sua filha, Jairo escuta  a voz do Senhor que lhe diz: “Não temas; basta que tenhas fé!”. Quem tem fé não há nada nem ninguém que possa o deter.

3. A Vida Que Nos Aproxima e A Força Curadora Que Nos Atrai e Levanta

Jesus se encontra no meio da multidão. Evidentemente há muita conversa, gritaria e barulho. A multidão esmaga Jesus. No meio dessa multidão eis que uma mulher se aproxima de Jesus, a todo o custo, somente para tocar ao menos as vestes do Senhor. Para ela chegou seu momento e Jesus passou providencialmente pela sua vida. Ela não quer perder esse precioso momento para se aproximar d’Aquele que é fonte da verdadeira vida. Ela conseguiu tocar as vestes do Senhor com muita fé. Destas vestes saiu uma força curadora para essa mulher.

Há momentos preciosos na nossa vida em que nos esforçamos, isto é, usar toda nossa força em função daquele momento. E nenhum de nós quer perder aquela oportunidade. Por isso, costuma-se dizer: “Ou agora ou nunca mais!”.

Se eu ao menos tocar na roupa dele, ficarei curada”. A mulher de hemorragia se esforça para tocar no corpo de Jesus em função de sua cura de uma doença de longos anos (12 anos). É claro que Jesus não crê que Seu corpo seja um tipo de talismã que emita umas forças misteriosas, pois Jesus atua sempre sabendo daquilo que faz, e cura os enfermos que crêem nele. Por isso, seus milagres não acontecem por debaixo de consciência. A fé é um ato consciente. É uma entrega total para Deus, aconteça o que acontecer, pois Deus é soberano nos seus atos e misericordioso em suas sábias decisões, pois tudo em função da salvação do homem. Tudo que Deus faz por nós é sempre para nos salvar. Basta correspondermos à ação de Deus para que aconteça a salvação.

Apesar de estar sendo esmagado pela multidão Jesus mantém sua atenção para cada um. Jesus está atento a estas pessoas concretas, manifesta uma disponibilidade extraordinária, está extremamente atento à sua presença. Ninguém fica anônimo aos olhos de Jesus. Para Jesus cada um é chamado silenciosamente pelo nome (Jo 10,3b; Is 43,1), pois o nome de cada um está tatuado na palma da mão do Senhor (cf. Is 49,16). Jesus está habitado pelo amor de Deus Pai para com os seus filhos. No Coração do Pai, Jesus é capaz de uma atenção extrema a cada angústia do ser humano. Não interessa quem possa vir junto d’Ele, não interessa qual seja a situação: ele será sempre acolhido, Jesus dará sempre a sua atenção como se cada um estivesse sozinho no mundo com Ele, pois ele ama cada um na sua individualidade. Se eu também começasse a fazer silêncio em mim para melhor escutar Jesus, através da sua Palavra, se eu tivesse tempo para a oração interior, para aprofundar o meu silêncio interior… certamente ficaria mais disponível, mais atento aos outros.

Na Eucaristia celebramos o memorial do amor de Jesus por nós. Ele veio como vem não somente para curar nossas enfermidades corporais, mas principalmente para nos libertar da enfermidade do pecado que nos separa do amor de Deus e do próximo. Deus não nos quer são em nosso corpo, mas principalmente que sejamos renovados no Seu amor para que possamos ver o outro como nosso irmão. Apesar de nossas rebeldias, Deus jamais nos abandona e jamais Ele deixa de nos amar. Essa fidelidade do Senhor é que celebramos em cada Eucaristia. Aceitamos o amor de Deus que tem por nós e nos deixamos conduzir por seu amor.

P. Vitus Gustama,svd

Apresentação Do Senhor, 02/02/2026

FESTA DA APRESENTAÇÃO DO SENHOR

Primeira Leitura: Ml 3,1-4

Assim diz o Senhor: 1 Eis que envio meu anjo, e ele há de preparar o caminho para mim; logo chegará ao seu templo o Dominador, que tentais encontrar, e o anjo da aliança, que desejais. Ei-lo que vem, diz o Senhor dos exércitos; 2 e quem poderá fazer-lhe frente, no dia de sua chegada? E quem poderá resistir-lhe, quando ele aparecer? Ele é como o fogo da forja e como a barrela dos lavadeiros; 3 e estará a postos, como para fazer derreter e purificar a prata: assim ele purificará os filhos de Levi e os refinará como ouro e como prata, e eles poderão assim fazer oferendas justas ao Senhor. 4 Será então aceitável ao Senhor a oblação de Judá e de Jerusalém, como nos primeiros tempos e nos anos antigos.

Segunda Leitura: Hb 2,14-18

Irmãos,14 Visto que os filhos têm em comum a carne e o sangue, também Jesus participou da mesma condição, para assim destruir, com a sua morte, aquele que tinha o poder da morte, isto é, o diabo, 15 e libertar os que, por medo da morte, estavam a vida toda sujeitos à escravidão. 16 Pois, afinal, não veio ocupar-se com os anjos, mas com a descendência de Abraão. 17 Por isso devia fazer-se em tudo semelhante aos irmãos, para se tornar um sumo-sacerdote misericordioso e digno de confiança nas coisas referentes a Deus, a fim de expiar os pecados do povo. 18 Pois, tendo ele próprio sofrido ao ser tentado, é capaz de socorrer os que agora sofrem a tentação.

Evangelho: Lc 2,22-40

22 Quando se completaram os dias para a purificação da mãe e do filho, conforme a lei de Moisés, Maria e José levaram Jesus a Jerusalém, a fim de apresentá-lo ao Senhor. 23 Conforme está escrito na lei do Senhor: “Todo primogênito do sexo masculino deve ser consagrado ao Senhor”. 24 Foram também oferecer o sacrifício — um par de rolas ou dois pombinhos — como está ordenado na Lei do Senhor. 25 Em Jerusalém, havia um homem chamado Simeão, o qual era justo e piedoso, e esperava a consolação do povo de Israel. O Espírito Santo estava com ele 26 e lhe havia anunciado que não morreria antes de ver o Messias que vem do Senhor. 27 Movido pelo Espírito, Simeão veio ao Templo. Quando os pais trouxeram o menino Jesus para cumprir o que a Lei ordenava, 28 Simeão tomou o menino nos braços e bendisse a Deus: 29 “Agora, Senhor, conforme a tua promessa, podes deixar teu servo partir em paz; 30 porque meus olhos viram a tua salvação, 31 que preparaste diante de todos os povos: 32 luz para iluminar as nações e glória do teu povo Israel”. 33 O pai e a mãe de Jesus estavam admirados com o que diziam a respeito dele. 34 Simeão os abençoou e disse a Maria, a mãe de Jesus: “Este menino vai ser causa tanto de queda como de reerguimento para muitos em Israel. Ele será um sinal de contradição. 35 Assim serão revelados os pensamentos de muitos corações. Quanto a ti, uma espada te traspassará a alma”. 36 Havia também uma pro­fe­tisa, chamada Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Era de idade muito avançada; quando jovem, tinha sido casada e vivera sete anos com o marido. 37 Depois ficara viúva, e agora já estava com oitenta e quatro anos. Não saía do Templo, dia e noite servindo a Deus com jejuns e orações. 38 Ana chegou nesse momento e pôs-se a louvar a Deus e a falar do menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém. 39 Depois de cumprirem tudo, conforme a Lei do Senhor, voltaram à Galileia, para Nazaré, sua cidade. 40 O menino crescia e tornava-se forte, cheio de sabedoria; e a graça de Deus estava com ele.

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Uma Pequena História Da Festa Da Apresentação do Senhor

Ainda que a festa da Apresentação do Senhor caia fora do tempo do Natal, porém, na verdade, ela faz parte inseparável do relato do Natal do Senhor. Trata-as de outra Epifania do Senhor no quadragésimo dia. Natal, Epifania e Apresentação do Senhor são três aspectos inseparáveis do Natal.

Esta festa faz parte do ciclo litúrgico epifánico. A sua primeira comemoração é lembrada pelo Itinerarium de Etéria (c.390), com o nome genérico de Quadragesima de Epiphania (A festa estava fixada não no dia 2 de fevereiro e sim no dia 14 de fevereiro, isto é, quarenta dias após a Epifania, celebrada em 6 de janeiro). No século V, para sublinhar as palavra do cântico de Simeão “Lumen ad revelationem gentium”, eram usadas tochas a fim de tornar a festa mais expressiva. São Cirilo de Alexandria (+ 444) diz: “Celebremos o mistério deste dia com lâmpadas flamejantes” (São Cirilo de Alexandria, Hom. Div. XII: PG 77,1040).

A Apresentação do Senhor é uma festa antiquíssima de origem oriental. A Igreja de Jerusalém  celebrava esta festa já no século IV. Celebrava-se ali aos quarenta dias da festa da Epifania, no dia 14 de fevereiro. A peregrina Etéria, como foi dito acima, conta isto em seu famoso diário com seu comentário de que “celebrava-se com o maior gozo, como se fosse a Páscoa mesma”.

Entre as igrejas orientais se conhecia esta festa como “A festa do Encontro”, “Ipapante” (em grego, Hypapante), nome muito significativo e expressivo, que destaca um aspecto fundamental da festa: o encontro do Ungido de Deus com seu povo. São Lucas evangelista narra o fato no capitulo dois de seu evangelho. Obedecendo à Lei de Moisés, os pais de Jesus levara seu filho ao templo quarenta dias depois de seu nascimento para apresenta-lo ao Senhor e fazer uma oferenda por Ele (Cf. Levítico 12,2-5; Êxodo 13,1-3; Números 18,15-16).

De Jerusalém, a festa se propagou para outras igrejas de Oriente e de Ocidente. No século VII, se não antes, a festa foi introduzida em Roma. Associou-se com esta festa uma procissão das velas. A Igreja romana celebrava a festa quarenta dias depois do Natal.

Provavelmente, seguindo o exemplo das Igreja Orientais, o Papa siríaco Sergio I (686-701) introduziu em Roma a celebração , maracando-a para o dia 2 de fevereiro.  No Gelasiano antigo é chamada com o nome de Purificação da Bem-aventurada Virgem Maria (De purificatione Mariae) e foi conservada com esse título no Missal romano da reforma de Pio V, colocando em relação a purificação de Maria, conforme as prescrições legais de Ex 13,1-3 e Lv 12,1-8.  Foi incluída entre as festas de Nossa Senhora. Mas isto não era correta totalmente, pois a Igreja celebra neste dia, essencialmente, um mistério de nosso Senhor.

Em pleno acordo com a tradição das Igrejas orientais, em 1960, o Código das rubricas estabeleceu que essa celebração deveria ser considerada festa do Senhor.

No calendário  romano, revisado em 1969, a festa mudou de nome de Purificação da Bem-Aventurada Virgem Maria para “A Apresentação Do Senhor”, tornando assim mais evidente que se trata de uma festa do Senhor. Este novo nome para a festa é uma indicação mais verdadeira da natureza e do objeto da festa. No entanto, não quer dizer que desvalorizemos o papel importantíssimo de Maria nos acontecimentos que celebramos. Os mistérios de Cristo e de Sua Mãe, Maria Santíssima, estão estreitamente ligados, de modo que nos encontramos aqui com uma espécie de celebração dual: uma festa de Cristo e de Maria.

A benção das vela antes da missa e a procissão com as velas acesas são marcas da celebração atual. O Missal romano mantém estes costumes, oferecendo duas formas alternativas de procissão.

A apresentação de Jesus no Templo, como narra o evangelho de Lucas (Lc 2,22-38) funde duas prescrições legais diferentes que eram, na legislação  do tempo de Jesus, referentes à mãe que tinha dado à luz; a outra era a lei do primogênito.

O aspecto a ser escolhido (no texto do Evangelho) é o significado da lei sobre o primogênito. Este, antes da libertação do Egito, estava na escravidão e, portanto, na morte. Somente a intervenção de Deus pode salvá-lo e libertá-lo. A apresentação do primogênito no templo significa que ele é oferecido a Deus como lembrança dos eventos do êxodo e Deus o restitui a seus pais. O sacrifício e o resgate expressam o sinal da vontade salvífica e libertadora de Deus. Maria e José, apresentando-o no templo, reconhecem que Jesus é “propriedade” de Deus e entra no plano da atuação do desígnio divino porque é “salvação e a luz para todos os povos” (Lc 2,30-32).

São Lucas vai além: ele vê no fato uma manifestação do Senhor. A profetisa Ana se une a Simeão para anunciar a notícia da vinda do Senhor para a salvação do seu povo. Jesus é aclamado por Simeão como “luz que veio para iluminar as nações e a glória do povo de Israel”. Os termos “luz” e “glória”, sobretudo “glória”, querem indicar uma realidade divina e exprimem a esperança, que é certeza, da habitação de Deus no seu templo em meio ao seu povo (Cf. Jo 1,14).

A Liturgia da Palavra anuncia o mistério com o texto do profeta Malaquias (3,1-4), que fala d iminência do “Dia do Senhor”, momento em que “vai chegar ao seu Templo o Senhor que vocês procuram”.  Na Sgunda Leitura, é lida a perícopes da Carta aos Hebreus (2,14-18). Cristo mediador devia tornar-se em tudo semelhante aos irmãos, menos no pecado. Assim “justamente porque foi colocado à prova e porque sofreu pessoalmente, ele é capaz de vir em auxílio daqueles que estão sendo provados”. O evangelho é o texto de Lucas (2,22-40), que narra a apresentação do Senhor no Templo.

O comportamento da Igreja na celebração desse mistério da salvação é o mesmo comportamento de alegria de Simeão ao acolher Cristo: “Os meus olhos viram a tua salvação, que preparastes diante de todos os povos”, e é também o comportamento da oferta pela qual a Igreja se vê simbolizada em Maria, que apresenta Jesus ao Pai.

I. A FESTA DA APRESENTAÇÃO DO SENHOR E SEU SENTIDO

1. Jesus Na Apresentação

A festa da Apresentação celebra uma chegada e um encontro: a chegada do Senhor desejado, núcleo da vida religiosa do povo e o bem-vindo concedido a ele pelos representantes dignos do povo eleito: Simeão e Ana. Por sua idade avançada os dois personagens simbolizam os séculos de espera e de anseio fervente dos homens e das mulheres devotos da Antiga Aliança (Antigo Testamento). Pode-se dizer que os dois simbolizam a esperança e o anseio da humanidade.

Ao festejar e reviver este mistério na fé, a Igreja dá novamente as boas vindas para Jesus Cristo. Este é o verdadeiro sentido da festa. É a festa do encontro: encontro de Cristo e a sua Igreja. Isto vale para qualquer celebração litúrgica, mas especialmente para esta festa. A liturgia nos convida a dar boas vindas a Cristo e à sua Mãe, como fizeram Simeão e Ana. Ao celebrar esta festa a Igreja professa publicamente a fé na Luz do mundo (Jo 8,12), Luz de revelação para a humanidade.

A festa da apresentação é uma festa de Cristo, por excelência. É um mistério da salvação. O nome “apresentação” tem um conteúdo rico. Fala de oferecimento, de sacrifício. Recorda a auto-oblação inicial de Cristo, Palavra Encarnada, quando entrou no mundo: “Eis me aqui que venho para fazer Tua vontade”. Aponta para a vida de sacrifício e para a perfeição final dessa auto-oblação na colina do Calvário. 

2. A Presença De Maria Na Apresentação E Seu Significado

Qual é o papel de Maria e José nessa Apresentação? Eles simplesmente cumprem o ritual prescrito, uma formalidade praticada por muitos outros casais?

Para Maria, a Apresentação e oferenda de seu Filho no Templo não era um simples gesto ritual. Indubitavelmente, Maria não estava consciente de todas as implicações nem da significação profética desse ato. Ela não consegue alcançar todas as conseqüências de sua Fiat na Anunciação. Mas foi um ato de oferecimento verdadeiro e consciente. Significava que ela oferecia seu Filho para a obra da redenção, renunciando aos seus direitos maternais e toda a pretensão sobre seu Filho. Ela oferecia seu Filho à vontade de Deus Pai. São Bernardo comentou que Santa Virgem ofereceu seu Filho e apresenta ao Senhor o fruto bendito de seu ventre e o oferece para reconciliação de todos os homens (citado na Enciclica Marialis Cultius do Papa Paulo VI).

Existe uma conexão entre esse oferecimento e o que sucederá na Gólgota quando se executam as implicações do ato inicial de obediência de Maria: “Faça-se em mim segundo Tua Palavra” (Lc 1,38b).

Na Apresentação Maria põe seu Filho nos braços do ancião Simeão. Esse gesto é simbólico. Ao atuar dessa maneira, ela oferece seu Filho não somente para Deus Pai, mas também para o mundo representado por aquele ancião. Dessa maneira, Maria desempenha seu papel de Mãe da humanidade e nos é recordado que o dom da vida vem através de Maria.

A festa deste dia não permite apenas revivermos um acontecimento passado. Ela também nos projeta para o futuro. Ela prefigura nosso encontro final com Cristo na sua segunda vinda, na Parusia. A procissão representa a peregrinação da própria vida. O povo peregrino de Deus caminha penosamente através deste mundo, no tempo, guiado pela Luz de Cristo e sustentado pela esperança de encontrar finalmente o Senhor da glória em Seu Reino eterno. Na bênção das velas o sacerdote pronuncia as seguintes palavras: “... Fazei que, levando as velas nas mãos em vossa honra e seguindo o caminho da virtude, cheguemos à luz que não se apaga”. A vela acesa na nossa durante a procissão recorda a vela de nosso batismo.

II. ALGUMAS MENSAGENS A PARTIR DO TEXTO DO EVANGELHO DA FESTA

1.   A Importância De Jerusalém Para Lucas         

Para Lucas, Jerusalém é importante, pois é centro de tudo. Por isso, todos os acontecimentos importantes da vida de Jesus acontecem em Jerusalém. Jerusalém é mencionado no início e no fim do relato (vv.22.25.38). A apresentação do Senhor acontece em Jerusalém. E em Jerusalém acontecerão sua morte e ressurreição. De Jerusalém ele subirá ao céu. E de Jerusalém partirá a missão cristã para o resto do mundo (cf. Lc 2,41-52;4,9-13;9,31.51.53;13,22;17,11;18,31;19,11.28-48;24,47-53;At 1,4.8). 

2. A Imposição Do Nome De Jesus          

Lucas, neste relato, quer sublinhar a importância da imposição do nome de Jesus que se afirma na frase principal: “Foi-lhe dado o nome de Jesus” (v.21). O nome “Jesus” foi escolhido pelo próprio Deus (Lc 1,31;2,21;cf. Mt 1,21).           

Para os judeus, o nome expressava a identidade e o destino pessoal que cada um devia realizar ao longo de sua vida.  E quando uma pessoa é eleita para uma nova missão, recebe um nome novo, em função da etapa de vida que começa (cf. Gn 17,5;17,15;32,29; Mt 16,18; cf. 2Rs 23,34;24,17;Is 62,2;65,15).          

Não há nenhum nome que coincidiu tão perfeitamente com o nome como no caso de Jesus. Jesus significa Salvador. Desde o primeiro instante de sua existência até a morte na cruz, ele foi o que significa seu nome: Salvador.          

Por isso, o nome de Jesus como Senhor e Salvador é invocado ao longo da história do cristianismo por bilhões de cristãos. O nome de Jesus é invocado, pois ele é o Senhor de tudo. Está acima de todo principado, de todo poder, de toda dominação e potência. Por mais poderoso que seja um político ou um atleta, um dia a morte o vencerá. Por mais rico que seja alguém, um dia a morte levará a melhor. Ao contrário, Jesus venceu a morte, pois ele ressuscitou. Por isso, São Paulo afirma: “Se confessas com tua boca que Jesus é o Senhor, e crês em teu coração, que Deus o ressuscitou dos mortos, tu serás salvo”(Rm 10,9; cf. Rm 8,35-39). Jesus é o Senhor porque vive uma vida sobre a qual a morte não tem poder algum. Ele detém a chave do segredo da vida e ilumina o mistério da vida.          

A soberania do Senhor Jesus pode nos dar uma força imensa para combater o mal dentro de nós e o mal ao nosso redor. Jesus é Senhor exprime uma fé libertadora que tira de nossas vidas toda a angústia exagerada. Jesus é Senhor implica que ele é Senhor de nossa vida. Exprime uma entrega, um total abandono nas mãos do Senhor. Implica construir a vida sobre ele (cf. Mt 7,24-25) e não sobre os fundamentos fracos e frágeis(cf. Mt 7,26-27). 

3. Jesus É Sinal De Contradição         

Israel tinha murmurado contra Deus na passagem do deserto (Nm 20,1-13;Dt 32,51). Na apresentação do Senhor no templo, Simeão profetiza a nova rebelião de Israel contra Jesus, que será relatada no evangelho da vida pública e da paixão e a rejeição da missão cristã em Israel que será contada no livro de Atos. Tudo isto resulta também no sofrimento de sua mãe, Maria.          

Lucas relata ao longo de sua obra que diante de Jesus e sua missão, uns são a favor, outros contra; uns abrem os olhos à luz, outros os fecham; uns encontram força nele e por isso, se levantam, enquanto os outros tropeçam e caem por não crer. Isto quer dizer que ninguém pode ficar indiferente diante de Jesus: ou aceitar Jesus para ser libertado ou rejeitá-lo que significa tropeço na caminhada.         

Jesus e seu evangelho continuam sendo em todos os tempos e lugares sinal de divisão e de contradição. Perante Jesus e seu evangelho ninguém pode ficar indiferente: ou aceitar ou rejeitar, com conseqüências para cada opção feita. A salvação é oferecida a todos, mas não é dada automaticamente nem pode ser recebida passivamente. Ela tem que ser recebida conscientemente como um compromisso a ser assumido a vida toda. O Evangelho de Jesus, quando for proclamado e vivido verdadeiramente, sempre incomoda tanto para quem o prega e vive como para quem o escuta, pois ele é como uma luz que brilha na escuridão: revela o verdadeiro ser de pessoas e das coisas. Aquele que quer manter uma vida falsa e dupla ou camuflada, a presença do Evangelho funciona como se fosse um espinho que irrita a carne. Se alguém não tiver medo de ser feliz, a presença incômoda do Evangelho será um momento oportuno de libertação. Para quem vive somente em função do prazer, não tem prazer de viver. O prazer tem que ser fruto de um viver bem.

4. Nós E Ancião Simeão          

Na parte central do relato (vv.25-35) encontramos o ancião Simeão. Ele é apresentado como um homem justo e piedoso, isto é, um homem fiel aos mandamentos de Deus. Ele se deixa guiar pelo Espírito Santo e por isso, compreende o sentido de sua existência. Ele é o símbolo da perseverança. Apesar de ter consciência de sua iminente morte, continua esperando a salvação. Na sua velhice ele é premiado, pela sua fidelidade e perseverança, pela presença do Messias esperado. Ele é uma pessoa que sabe olhar para frente para viver melhor o presente.           

A partir de Deus e com Deus nada é perdido no mundo. Simeão é a testemunha e prova disto. Ele nos ensina a conversarmos com Deus permanentemente e a olharmos para a frente. Ele nos ensina a olharmos para Jesus, o nosso Salvador e a irmos ao Seu encontro. No encontro com Jesus, como aconteceu com Simeão, são realizadas nossas esperas e esperanças, encontramos alegria e paz, nossos olhos são iluminados para ver as pessoas e as coisas no seu justo valor, como também a nossa própria vida. Mas para que o nosso encontro com Jesus aconteça, precisamos nos deixar guiar pelo Espírito Santo. 

5. O Silêncio De Maria E O Nosso Silêncio          

No relato, Maria é descrita como uma personagem que não profetiza nem fala. Em outras palavras, ela está em silêncio total. Ela acolhe na obediência as profecias sobre o futuro de seu Filho silenciosamente.          

Maria nos ensina a fazermos o silêncio obrigatório no meio de nossa vida e trabalho para vermos melhor as coisas, os acontecimentos e as pessoas na sua justa perspectiva e no seu justo valor. O silêncio chega quando as nossas energias começam a descansar e nos acolhe quando o nosso ego fica em paz e sossego. Quando não sabemos o que é descansar, não sabemos também o que é viver. O nosso ego não é o nosso centro de gravidade. O ego é o centro de todos os desejos desenfreados, dos lucros, possessões e domínios. Hoje em dia há uma dependência exagerada do trabalho. Quando há dependência, não existe liberdade. Há pessoas que se entregam a tudo desde que não fiquem no vazio. A vida nunca é o que se consegue. Não é o que se tem. A vida é o que se é. Não se pode ignorar que tudo quanto se alcança, se perde. Só o que se é, permanece. O silêncio, por isso, é tão importante, pois ele nos leva a encontrarmos o nosso eixo. As nossas palavras serão boas, se brotarem do silêncio. E Deus nunca cessa de clamar, mas para escutarmos a sua voz é preciso criarmos o silêncio dentro de nós. E a escuta exige uma atenção total e plena. O silêncio é um vazio que faz tornar presente a plenitude. Mas a plenitude não se torna presente de repente. É preciso tempo. Na semente está a qualidade do fruto, mas naturalmente é preciso tempo. Dizia Cícero: “Há três coisas na vida nas quais não pode haver pressa: a natureza, um ancião e a ação dos deuses na tua história”. O silêncio é esvaziar-se para receber. No silêncio diminuem as defesas e fica-se pronto para receber o que vier. O silêncio quando se souber aproveitá-lo melhor, ele será frutificante e benéfico para quem o cria e consequentemente para os que o cercam.

P. Vitus Gustama,svd

IV Domingo Do TComum, Ano "A", 01/02/2026

FAZER O HOMEM FELIZ É O PROJETO DE JESUS CRISTO

IV DOMINGO DO TEMPO COMUM “A”

Primeira Leitura: Sf 2,3; 3,12-13

3Buscai o Senhor, humildes da terra, que pondes em prática seus preceitos; praticai a justiça, procurai a humildade; achareis talvez um refúgio no dia da cólera do Senhor. 3,12E deixarei entre vós um punhado de homens humildes e pobres. E no nome do Senhor porá sua esperança o resto de Israel. 13Eles não cometerão iniquidades nem falarão mentiras; não se encontrará em sua boca uma língua enganadora; serão apascentados e repousarão, e ninguém os molestará.

Segunda Leitura: 1Cor 1,26-31

26Considerai vós mesmos, irmãos, como fostes chamados por Deus. Pois entre vós não há muitos sábios de sabedoria humana nem muitos poderosos nem muitos nobres. 27Na verdade, Deus escolheu o que o mundo considera como estúpido, para assim confundir os sábios; Deus escolheu o que o mundo considera como fraco, para assim confundir o que é forte; 28Deus escolheu o que para o mundo é sem importância e desprezado, o que não tem nenhuma serventia, para assim mostrar a inutilidade do que é considerado importante, 29para que ninguém possa gloriar-se diante dele. 30É graças a ele que vós estais em Cristo Jesus, o qual se tornou para nós, da parte de Deus: sabedoria, justiça, santificação e libertação, 31para que, como está escrito, “quem se gloria, glorie-se no Senhor”.

Evangelho: Mt 5,1-12a

Naquele tempo, 1Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-se. Os discípulos aproximaram-se, 2e Jesus começou a ensiná-los: 3”Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus. 4Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados. 5Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra. 6Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. 7Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. 8Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. 9Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. 10Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. 11Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e mentindo disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim. 12aAlegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus.

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O texto do evangelho deste domingo pertence ao “Sermão da Montanha” (Mt 5-7). Toda a tradição eclesial viu no Sermão da Montanha as bases fundadoras da ética cristã, isto é, a forma de viver de quem se diz cristão. Trata-se de “a Carta Magna” do Reino: diz quem são os seus cidadãos e qual a sua condição. Por isso, o Sermão da Montanha é um “indicativo” que se faz “imperativo”. O Filho nos dá a possibilidade de ser aquilo que somos: filhos; por isso, devemos nos tornar irmãos. A Igreja é constituida daqueles que escutam as bem-aventuranças e as vivem no cotidiano, e com a força do Espírito Santo, fazem de Jesus a sua vida e a sua regra de vida. E os critérios com os quais Deus julga e age são exatamente opostos aos nossos. “Quem quer que considere de modo piedoso e simples o Sermão que Nosso Senhor Jesus Cristo pronunciou na Montanha, julgo que encontrará nele, no tocante à retidão moral, a regra perfeita da vida cristã... Eu disse isto para mostrar que este sermão é perfeito no que toca aos preceitos reguladores da vida cristã...” (Santo Agostinho: Sobre o Sermão do Senhor na Montanha). O Sermão da Montanha é a Lei do Reino para todos os cristãos. Por isso, cada cristão precisa meditar sobre essa Lei.

O Sermão da Montanha não é um código legal, nem propriamente uma lista de normas morais: é, ao contrário, o alegre anúncio das condições que permitem seguir o caminho do Reino de Deus, traçado por Jesus.

Em outras palavras: o Sermão da Montanha não constitui um resumo das normas legais e éticas que regem a vida cristã, mas é, simplesmente, a proclamação das consequências, exigentes e libertadoras ao mesmo tempo, da fé cristã quando realmente a fé é vivida realmente.

Mateus reúne muitos dos ensinamentos de Jesus em cinco discursos que ele coloca ao longo do seu evangelho (Mt 5-7;10;13;18;24-25). Todos eles terminam com a mesma fórmula e têm umas características similares. Eles são muito mais uma coleção de ensinamentos do que discursos quando comparamos com outros discursos no livro dos Atos

Para compor este primeiro discurso, Mt se serviu de várias fontes que Lc também conhece (cf. Lc 6,20-49). Ao agrupar os ensinamentos de Jesus, Mt quer proporcionar sua comunidade uma série de ensinamentos para a vida cristã diariamente.

É evidente, então, que com a expressão “Sermão da Montanha” o evangelista não esteja registrando um discurso único pronunciado de uma só vez no mesmo lugar, e sim, reunindo e organizando pequenos grupos de ditos de Jesus sobre o discipulado pronunciados em várias ocasiões durante seu ministério. Dificilmente qualquer mestre condensaria tanta instrução em um único sermão e numa única vez e no único local.

As Bem-Aventuranças

Felizes..... Bem-aventurados.....”, disse Jesus a todos os seus seguidores.

Num mundo que busca loucamente a felicidade, nós seguidores de Cristo seremos capazes de fazer emergir a mensagem cristã como apelo à felicidade e como promessa de felicidade vinda de Deus e por isso, é uma maneira de viver como cristãos? Deparamo-nos com uma imagem que nós mesmos tínhamos dado (ou continuamos a dar?) de Deus e do cristianismo como pouco amigo da alegria da vida, para ver como Jesus responde às expectativas de felicidade das pessoas simples.

“Felizes..... Bem-aventurados.....”, disse Jesus daqueles que o mundo considera infelizes. Para o mundo é feliz o rico, o poderoso e o honrado e vale quem tem, quem pode e quem conta. Para Jesus feliz é o pobre no espírito e o desprezado pelo mundo: para Jesus tem valor aquele que não tem, senão o Deus Criador, tem valor aquele que não tem poder e não é importante para o mundo. Para Jesus são felizes aqueles que o mundo considera infelizes e infelizes aqueles que o mundo considera felizes. É uma reversão radical de valores (cf. Lc 1,51-53, no Magníficat).

Jesus, crucificado e ressuscitado, é a realização das bem-aventuranças. Enquanto crucificado, cumpre a primeira parte: é pobre, aflito, manso, com fome, desejoso de justiça, puro de coração, pacificador, perseguido. Ressuscitado, Ele cumpre a segunda parte: o Reino é seu, é consolado, herda a terra, é saciado, encontra misericórdia, vê Deus, é Filho de Deus. Por isso, pode-se dizer que  as bem-aventuranças são a carta de identidade do Filho.

Felizes..... Bem-aventurados.....”. A própria palavra “felicidade” deriva do latim “felicitas”, substantivo proveniente do adjetivo “felix”, que quer dizer frutífero, fértil, fecundo e, por extensão, próspero. Mais do que um sentimento, a felicidade é uma vida fecunda para a convivência fraterna.

Por isso, aqueles que só pensam em si próprios criam uma vida estreita e deixam de encontrar a felicidade. A felicidade fica fora de seu alcance porque eles não conseguem ir além deles mesmos. A civilização da abundância nos oferece meios de vida, mas não razões para viver.  O mais elevado do ser humano é ser homem, ser pessoa humana, ser humano, ser pessoa que humaniza, ser irmão do outro, ser solidário, ser compassivo, ser bondoso, ser honesto, ser justo, ser caridoso, ser misericordioso a exemplo de Jesus. Ajudar outras pessoas é algo que com toda a certeza eleva o espírito e traz felicidade. Disto tudo pode-se dizer que as pessoas felizes são em geral consideradas mais sociáveis, flexíveis, criativas, caridosas e capazes de suportar as frustrações diárias com maior facilidade porque elas não querem perder tempo com murmurações. Não é por acaso que Aristóteles dizia: “A felicidade está em viver bem de acordo com as virtudes. Vivendo de acordo com as virtudes, poderemos ser felizes e possuiremos o melhor dos bens”. Quando a felicidade nos alcança, as preocupações do dia se suavizam.

O Sermão da Montanha começa com as bem-aventuranças. É importante observar que o que se declara bem-aventurado são as pessoas e não as situações. Isto quer dizer que as bem-aventuranças não convalidam ou consagram situações sociológicas de injustiça e de dor e sim elogiam ou louvam as pessoas ativas, as pessoas que levam adiante os valores humanos-cristãos como desprendimento, justiça, perdão, compassivo, amor, mansidão, paz, solidariedade, fidelidade e assim por diante, mesmo que sofram por causa disso. Qualquer situação humana, vivida na linha do Evangelho é boa para realizar o projeto de santidade que Deus espera de nós.

As bem-aventuranças são como síntese da mensagem cristã, como projeto de vida para viver a santidade de Deus. Exegeticamente, o gênero bem-aventurança não é novo no NT, tampouco é exclusivo dos evangelhos. O AT nos apresenta numerosos exemplos de bem-aventuranças. Somente no Livro de Salmos encontramos mais de vinte (Sl 40,2; 127,1; etc.). No Livro de Apocalipse de Joao encontramos sete bem-aventuranças (cf. Ap 1,3; 14,3; 16,15; 19,9; 20,6; 22,7; 22,14).

As oito bem-aventuranças com que Mateus introduz o Sermão da Montanha se mostram literariamente bem construídas, o que nos mostra a mão do redator eclesial. A primeira e a última bem-aventurança contém a mesma promessa. A quarta e a oitava mencionam a justiça. Quatro delas apresentam situações de conflito: pobreza, pranto, sofrimento, fome-sede e perseguição. Três se centram em ações positivas: misericórdia, pureza de coração, esforço pela paz.

As bem-aventuranças são os gritos de alegria de Jesus pela chegada do Reino de Deus (dos céus) e a libertação que chegam com ele. Elas servem como orientação para a conversão e a mudança de vida que elas exigem. Em cada bem-aventurança existe uma tensão entre a situação presente e a situação que está para brotar ou chegar: o Reino de Deus se faz germinar nos corações dos pobres em espírito, nos mansos, nos misericordiosos etc.... e Deus está pronto a instaurar o seu Reino definitivamente através dos bem-aventurados. Por isso, as bem-aventuranças são mensagens de esperança, e palavras de consolo para os que aceitam a chegada do Reino de Deus.

No grego clássico, esta palavra “Bem-aventurado” (em grego makariori) significava “felicidade, boa sorte, bem estar”. Píndaro, Platão e Aristóteles, por exemplo, a usaram regularmente em saudações, para enviar votos de felicidade e para descrever a pessoa bem-nascida, educada ou feliz. O uso que Mateus dá à palavra tem esse mesmo sentido de perfeição, alegria e recompensa em decorrência de se viver da maneira que as bem-aventuranças encorajam. As bem-aventuranças são descrições das qualidades que devem ser encontradas na vida dos que se submetem à soberania de Deus. Elas são também uma declaração das bênçãos ou uma proclamação da felicidade (não só promessas da felicidade) que já experimentam em parte e que irão gozar mais plenamente na vida futura todos os que revelem tais virtudes.

Jesus quer fazer de seus discípulos felizes (veja Jo 15,11); não imagina que alguém possa ser seu discípulo e não ser feliz. Se um seguidor não estiver feliz, deve perguntar-se sobre o porquê desta situação. Quando nos falta a felicidade, não será porque, nesse momento, não procuramos a Deus de verdade no trabalho, naqueles que nos rodeiam, nas dificuldades? Mas devemos estar conscientes de que a felicidade da qual falam as bem-aventuranças não exclui as contradições e o sofrimento. Ninguém está livre de problemas. Esse é um dado básico da vida. A felicidade verdadeira passa pelo caminho da cruz. Jesus proclama as bem-aventuranças porque ele as viveu primeiro. As bem-aventuranças refletem sua experiência, na sua prática concreta de fé e de esperança, perpassada pelo sofrimento e pela perspectiva da cruz. Jesus é, por isso, garantia e modelo da existência feliz.

As bem-aventuranças foram pregadas por Jesus do alto da montanha, que desce até o lago de Tiberíades. A imagem invertida da montanha refletida no lago liso nos ensina que todo aquele que deseja se iniciar nos mistérios do espírito deve aprender a inverter todos os seus modos de ver e fazer, o rumo de seus desejos, o desígnio de sua vida.

Jesus Se Encontra Na Montanha Ensinando

As bem-aventuranças começa com dois versículos introdutórios bem densos teologicamente: “Vendo Jesus as multidões, subiu à montanha. Ao sentar-se, aproximaram-se dele os seus discípulos. E pôs-se a falar e os ensinava...”. Jesus vê as multidões. O olhar de Jesus é o olhar de Deus: penetrante e fascina. O olhar que não fica na superfície, mas penetra profundamente, atinge o coração e vê o que está no íntimo do homem. Os olhos de Jesus são os que sabem comunicar para estabelecer um contato. As multidões que Jesus enxerga diante de si são aquelas que lhe seguiram, aquela massa heterogênea, vindo de todas as partes de Israel (Mt 4,25). O discurso vai-se dirigir, portanto, a toda a terra de Israel, aos representantes de todos os distritos e de todas as tribos. Isto já basta para sublinhar a importância do discurso que vem em seguida.

Quando Jesus convida os discípulos a se aproximarem dele e permanecerem ao seu lado, o seu olhar de amor dirige-se sempre às multidões. Não podemos nos aproximar de Jesus e conhecer-lhe as intenções cheias de amor por nós, se não tivermos como ele este amoroso olhar pelas multidões.

Jesus subiu ao monte. A palavra “montesimboliza o lugar de Deus e o de sua manifestação (Sinai, Horeb, Tabor etc.), a esfera divina, o do encontro com Deus. Mas aqui Jesus é aquele que fala da revelação e dá a Lei; ele fala no lugar de Deus. Jesus nos convida a subir ao monte. Nossa vida deve ser sempre uma subida espiritual até chegar a Deus, à esfera divina. Quando o cristão estiver no lugar de Deus, ele poderá enxergar melhor sua vida e as pessoas ao seu redor. Consequentemente, à vaidade ele opõe a humildade, às blasfêmias a exortação, à arrogância uma educação sem falha e ele transforma sua crítica em humildes sugestões, sua lucidez em vigilância, sua força em persuasão e sua caridade em delicadeza.

Jesus sentou-se. “Estar sentado” é a atitude própria do mestre. Nas sinagogas sentados os rabinos ensinavam na cátedra de Moisés (Mt 23,2). Jesus sentou-se porque este era a postura antiga de mestres, um sinal de seu dignidade e autoridade. E a solenidade é acrescentada com a fórmula,” e ele abriu sua boca”.  Esta observação, sentar-se, revela que se trata de uma instrução importante, de um ensinamento oficial. A expressão também enfatiza a importância do ensinamento que vai começar imediatamente. Com isso, Jesus interpreta normativamente a Palavra de Deus. E ele traduz a Palavra de Deus para aquela multidão, mais acostumada a ouvir do que a ler, como chamas que iluminam e esquentam, mas que também queimam.

Os discípulos aproximaram-se de Jesus. Com o Deus encarnado não há mais a distância entre Deus e o homem (cf. Jo 1,14). A palavra “discípulo” aqui significa literalmente “aprendizes” ou “estudantes”. “Discípulo” é uma das palavras preferidas de Mateus e “membros de sua comunidade”. Ao dizer que os discípulos aproximaram-se de Jesus, Mateus quer nos dizer que não existe mais a distância que separe o ser humano de Deus. Se no Antigo Testamento só Moisés que subiu ao monte para encontrar-se com Deus e para receber o decálogo (cf. Ex 19-20), agora a partir de Jesus, qualquer ser humano tem o acesso a Deus. Mateus justamente quer nos mostrar, através de seu evangelho, que Deus é Emanuel, Deus conosco (Mt 1,23;18,20;28,20). A aproximação/subida dos discípulos mostra que não há mais distância entre Deus e o homem. Pela adesão a Jesus, superou-se a distância que os separava do Reinado de Deus (Mt 4,17: o Reino dos céus está próximo). Quem aderir a Jesus também não criará distância dos outros, pois os outros são passagem obrigatória para chegar até Deus. Quem acredita em Deus não cria muros e sim pontes.

Jesus pôs-se a falar e os ensinava. Ensinar é uma atividade característica de Jesus (Mt 4,23-25;9,35;11,1), que os discípulos só poderão assumir depois de ver Jesus Ressuscitado (Mt 28,16-20).

Quem São Os Felizes Na Proclamação De Jesus, No Sermão Da Montanha?

O feliz é aquele que é pobre no espírito (v.3). Sim, são aqueles que parecem não ter nada, mas possuem o Criador do mundo, e apenas Ele, pois o resto será acrescentado. São pobres nos espírito. O termo “espírito” na concepção semita conota sempre força e atividade vital. Os pobres em espírito são os “curvados de espírito” (anawim: os oprimidos socialmente, incapazes de fazer respeitar seus direitos, forçados a se curvar diante dos ricos e dos poderosos), os que se submetem interiormente, uma disposição espiritual, sem resistência, à vontade de Deus, os que aceitam humildemente o senhorio de Deus sobre suas vidas, aqueles que esperam tudo das mãos de Deus. É uma declaração de felicidade para quem se abre à ação de Deus numa atitude de acolhimento ou acolhida do Reino de Deus. Esta atitude de humildade diante de Deus, nascida da fé, se traduz em atitudes e condutas de desapego aos bens materiais, de bondade, de partilha que é a alma do projeto/plano de Deus, e de solidariedade. Esta primeira bem-aventurança é básica, porque exprime a atitude fundamental necessária para a pertença do Reino: a atitude de receptividade (diante da soberania de Deus). Sem ela, é impossível deixar-se enriquecer, viver e crescer na comunhão com Deus e os outros.

Os pobres no espirito são felizes porque têm esperança em Deus, algo que falta cada vez mais no mundo. Os ricos materialmente e poderosos já conseguiram o que queriam. Agora já não tem esperança, mas agora somente tem medo: medo de perder o poder, medo de que alguém possa roubar seu dinheiro, medo de ser pobres, medo de morrer e que não vão levar nada para o túmulo. Ao contrário, os pobres conhecem a esperança contra toda esperança.

Mas não é a esperança da raposa que declara imaturas as uvas por não poder alcança-las, pois a esperança dos pobres e a dos cristãos se acredita na luta diária pela justiça, a solidariedade, a igualdade e a fraternidade. O que esperamos, o que alcançaremos pela graça de Deus, mas não sem nosso esforço, compromisso e trabalho diário. 

Na medida em que confiarmos totalmente em Cristo, o Deus-Conosco e O seguirmos como pobres no espírito, nós seremos libertados de todo desejo de dominação e de posse, de ganancia e de materialismo. Além do mais, onde o Reino de Deus for acolhido com alegria e gratidão, ninguém mais explorará o pobre, o marginalizado, o que é objeto de toda espécie de competições; ninguém mais deixar-se-á dominar pelo egoísmo. A opressão, a injustiça, o racismo não terão mais lugar onde for verdadeiramente acolhido o grande dom, a riqueza infinita do Reino de Deus. E fazer bom uso da graça, de todas as nossas capacidades e dos bens materiais, significa sempre servir a Deus no próximo.

Portanto, a opção pelos pobres e a comunhão com eles em sua causa é o que acredita e sustenta nossa esperança no Reino. Pobreza no espirito é o campo fértil onde germina a graça de Deus. Em reconhecimento de sua debilidade e ao experimentar o poder de Deus, os pobres no espirito se abandonam em Deus e se entregam a Ele cegamente (fé firme). Os pobres nos espirito nos tornam mais humanos e irmãos toda vez que entrarmos em contato com eles. Eles nos humanizam. Eles são progressistas de verdade.

Jesus declara felizes não os que são mansos por temperamento (v.4), mas os que, apesar de disporem de meios para fazer valer seus direitos, não são violentos nem agressivos mas pacientes e indulgentes pois a justiça do Reino não será imposta através da violência que destrói, nem pelo “extermínio dos filhos das trevas” mas através da força de Deus e como fruto da confiança inabalável na justiça de Deus em favor dos injustiçados e humilhados. O manso é aquele que não se deixa dominar pelas contradições da vida e sabe manter-se paciente na espera da plenitude. O manso não procura exercer violência sobre Deus, arrancar dele tudo que deseja. O manso aceita o tempo de Deus e a maneira de Deus. Por isso, o manso não é um fraco, mas um crente que tem força da alma. A mansidão é o sinal visível da benevolência e do respeito. Em Cristo encontramos o modelo perfeito da mansidão: “...aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração...” (cf. Mt 11,29).

Jesus proclama bem-aventurados os aflitos porque serão consolado s(v.5). O termo grego que se usa é penthos que designa sofrimento muito intenso, uma dor viva quase desesperadora. Esses aflitos são muito concretamente: choram seus pais, seus amigos, suas seguranças sociais desaparecidas ou ameaçadas. É claro que Jesus não canoniza a tristeza nem condena a alegria quando proclama essa bem-aventurança. Jesus declara felizes os que estão aflitos(v.5) por experimentarem a ausência da justiça de Deus, mas continuam esperando em Deus, pois só Ele pode converter a tristeza em alegria, o pranto em canto e a água em vinho melhor. Todos os que se afligem diante das manifestações do anti-Reino serão consolados com a certeza do amor de Deus, mesmo no meio das maiores aflições. E com a certeza de que os frutos do que agora semeiam com lágrimas, a bondade, a justiça, a lealdade, serão colhidos com cânticos.

Para Jesus são felizes aqueles que praticam a justiça e não iniquidade (v.6). A “justiça nova” proclamada por Jesus é o tema central do Sermão da Montanha. Esta palavra aparece cinco vezes no Sermão da Montanha, de um total de sete vezes em todo o evangelho (3,15;5,6.10.20;6,1.33;21,32). A justiça aqui significa viver em conformidade com a vontade de Deus, submeter-se a Ele sem restrições. É a prática dessa justiça, a conduta em conformidade com a vontade de Deus, que dá acesso ao Reino de Deus.

Jesus proclama bem-aventurados os misericordiosos. A misericórdia é a atitude divina que perdoa as faltas cometidas e a mercê ativa de Deus em relação às pessoas na necessidade. Deus manifesta sua misericórdia pela nossa salvação perdoando nossos pecados. Ser misericordioso é uma necessidade na vida comunitária. A misericórdia é uma atitude que cada cristão deve ter (Cf Mt 6,14;18,21-35). É, portanto, essencial, para nós, perdoar generosamente a quem nos ofende e se nos opõe, a fim de merecermos ser filhos de Deus. O perdão é a obra de misericórdia por excelência. Misericórdia é ter o coração atento às misérias. Trata-se de um estado interior de bondade que se traduz no agir. Os misericordiosos são aqueles que, efetivamente, abrem seu coração para os outros e executam gestos concretos para aliviar sua aflição. Os felizes não são os que, por índole natural, têm um coração sensível e sentimentos de compaixão (v.7), mas os que fazem gestos concretos de misericórdia, ajudando e servindo os necessitados. O justo é aquele que é misericordioso e doa (Sl 37,21). Não se reduz a um puro sentimento afetivo; exige um movimento efetivo em direção ao necessitado. Exige emoção no sentido mover-se em direção ao outro e com o outro. Ao sentir-se “comovidos” pelo sofrimento dos outros, os misericordiosos entram em ação para aliviar e, se possível, curar o sofrimento atacando suas causas. O amor misericordioso constitui o centro do mistério de Deus revelado em Jesus Cristo. Tudo que Jesus faz, nasce de suas entranhas de misericórdia. A misericórdia pertence ao núcleo da pregação de Jesus em Mateus (5,17-20;9,13;12,7;25,31-46; cf. também 18,23-35;6,14s).

Se a misericórdia se tornar o empenho fundamental da nossa vida, do nosso modo de pensar, de falar e de agir, na hora de nossa partida desta terra iremos ao encontro de Cristo com confiança absoluta, pois alcançaremos misericórdia.

Jesus declara bem-aventurados os puros de coração, pois verão a Deus. Na Bíblia, o coração é a sede do pensamento, da vontade e dos sentimentos. Ter um coração limpo é viver e atuar sem nenhuma duplicidade e engano. A pureza de coração consiste não somente no nível de comportamento exterior, mas na disposições interiores. “Eles verão a Deus”, no sentido de não somente olharmos para Deus como para um objeto ou um espetáculo, mas tendo acesso a ele, pertenceremos à sua roda, gozando da sua familiaridade. Para isso, devemos ter um coração puro. Os que olham o mundo, as pessoas com os olhos de Deus são declarados felizes(v.8), pois tudo isso é a expressão da pureza do coração, um coração limpo, simples e sincero. É declarado feliz quem se põe a serviço de Deus e dos homens sem cálculos interesseiros e sem falsa piedade; o feliz é quem é transparente no pensar e no agir.

O homem de lábios impuros, que vive no meio de um povo de lábios impuros, será e permanecerá cego.

Os felizes não são os que têm temperamento tranquilo, que desfrutam da paz interior do coração e que não perturbam os outros. Este tipo de paz diz respeito aos próprios sujeitos. Mas nesta bem-aventurança trata-se dos que fazem, constroem, promovem a paz no dia-a-dia(v.9), tecendo laços novos de solidariedade, de verdade e de justiça (cf. Sl 34,14s). “Quem são os pacíficos? Não os pacifistas, mas os promotores da paz. Não basta ser pacífico. É necessário ser promotor da paz(Santo Agostinho). A paz (shalom) é síntese de todos os bens messiânicos, como dom aos homens que Deus ama (Lc 2,14). Aos construtores da paz é feita a promessa solene de que no juízo final lhes será dado o maior de todos os títulos: “Serão chamados filhos de Deus”.  Não odeias aos cegos, mesmo que ames a luz. Da mesma forma, deves amar a paz sem odiar os que fazem a guerra(Santo Agostinho, Sermão 357,1).

Na última bem-aventurança usa-se a segunda pessoa de plural: “sois vós”. O evangelista se dirige diretamente aos membros de sua comunidade que tem a experiência de ser perseguidos por causa de Jesus para animá-los no meio de sua adversidade.  E na última bem-aventurança (vv.10-12) se sublinha uma verdade: se não sofremos nenhuma forma de perseguição, de injúrias e calúnias por causa do Evangelho é sinal de que não optamos verdadeiramente por Jesus e seu Reino, pois o Evangelho que não incomoda mais não é mais o evangelho. Quem, ao anunciar o Evangelho, for aplaudido por todos e sobretudo pelos donos de poder, pode estar certo de que ele ainda não é o profeta verdadeiro, pois ele deixou de ser o sal da terra para converter-se em adoçante. Tirar do evangelho de Jesus o que possa ferir os que podem matar porque têm em suas mãos os poderes mortíferos da terra significa trair o evangelho e parar de ser cristão. O teste para verificar a fidelidade a Jesus de cada cristão, de cada comunidade cristã, e da Igreja como um todo, é ser ou não ser perseguido pelas forças do anti-Reino porque as razões da perseguição só podem ser mentirosas e as testemunhas só podem ser falsas. No caso de perseguição (como também na primeira bem-aventurança), a promessa é formulada no presente: “Deles é o Reino dos céus”. O reino lhes pertence desde agora.

Podemos dizer de outra forma sobre o sentido dessas bem-aventuranças:

1. A felicidade da pobreza no espírito. É vazio de tudo para poder receber o Absoluto. É querer ou apetecer  simplicidade, acima das satisfações do próprio pensamento e conhecimento. É disponibilidade de desapropriação e resignação, para não ficar no imediato  a fim de buscar o transcendente. Diante do Reino dos céus não há riqueza comparável.

2. A felicidade do sofrimento. É uma manifestação de resistência interior, serenidade e mansidão. Mansos são os que não fazem valer os seus próprios direitos e cedem, em vez de se irritarem: não agride, não quer dominar, não passa por cima de ninguém. Quem ama é sempre manso. E Deus é aquele que reivindica e defende. Há que saber sofrer os sofrimento e privações. O mundo precisa de testemunhas de mansidão, doçura e força no sofrimento.

3. A felicidade de choro ou do pranto. O que é chorar? É o primeiro grito, a primeira expressão do homem. Chora é aquele que é capaz de sentir nostalgia, aquele que sente uma separação, aquele que anseia por retornar ao ambiente caloroso e profundo do original. A alegria das lágrimas lava os olhos para ver o consolo da ternura de Deus. Não são lágrimas de tristeza ou melancolia, mas de fé.

4. A felicidade da fome e da sede. Da experiência das necessidades do corpo é preciso descobrir a fome e a sede de justiça, que é o alimento da alma, e significa a vontade de Deus. Portanto, a justiça é a salvação total. Não há que ter fome daquilo que é perecível, que não satisfaz, nem beber o que não tem espírito de transcendência. Bem-aventurado aquele que tem fome e sede de viver na terra o seu amor de Pai que está no céu. O ser saciado é a plenitude da vida.

5. A felicidade da misericórdia. Significa caridade recíproca e ativa, significa perdão, significa reconciliação, significa ter coração para os míseros ou miseráveis. Esta bem-aventurança se opõe ao materialismo e ao positivismo farisaico, que desprezavam os pobres, os miseráveis ​​e os pecadores. Seremos medidos por Deus com a mesma medida de misericórdia que usamos com os outros (cf. Tg 2,13). A misericórdia é a forma fundamental do amor: paixão que se faz com-paixão.

6. A felicidade da limpeza ou pureza. Bem-aventurados os que têm o coração limpo, como se fosse a água límpida da montanha que deixa ver o fundo onde Deus se reflete. Quem quiser ver Deus é preciso lavar seu coração sujo para que possa contemplar o valor do eterno no mais profundo de seu interior.

7. A felicidade da paz. Os pacíficos não são os calmos, mas os que fazem a paz, os que constroem a paz, os que a compõem a partir da desordem, os que a criam a partir do caos. A paz é o selo de Deus, a plenitude na unidade. É a harmonia com tudo e com todos. É o Shalom.

8. A felicidade da perseguição. O crente sabe que a vida não é fácil, que a fidelidade ao Evangelho exige muitos sacrifícios, que a incompreensão é a marca de quem segue os ensinamentos do Mestre, mas sobretudo que o Reino dos Céus vale qualquer perseguição. Quem vive realmente os valores cristãos, os valores que Jesus ensinou será perseguido inevitavelmente (Cf. 2Tm 3,12).

Portanto, que cada um de nós que se chama cristão, se pergunte: o que falta ainda em mim destas bem-aventuranças? Quais delas tenho vivido? E por que ainda não tenho vivido algumas dessas bem-aventuranças?

Pe. Vitus Gustama,SVD

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