sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

02/03/2026- Segunda-feira Da II Semana Da Quaresma

A MISERICÓRDIA NOS APROXIMA DE DEUS E NOS TORNA IRMÃOS PARA O PRÓXIMO

Segunda-Feira da II Semana da Quaresma

Primeira Leitura: Dn 9,4-10

4Eu te suplico, Senhor, Deus grande e terrível, que preservas a aliança e a benevolência aos que te amam e cumprem teus mandamentos; 5 temos pecado, temos praticado a injustiça e a impiedade, temos sido rebeldes, afastando-nos de teus mandamentos e de tua lei; 6 não temos prestado ouvidos a teus servos, os profetas, que, em teu nome, falaram a nossos reis e príncipes, a nossos antepassados e a todo povo do país. 7 A ti, Senhor, convém a justiça; e a nós, hoje, resta-nos ter vergonha no rosto: seja ao homem de Judá, aos habitantes de Jerusalém e a todo Israel, seja aos que moram perto e aos que moram longe, de todos os países, para onde os escorraçaste por causa das infidelidades cometidas contra ti. 8 A nós, Senhor, resta-nos ter vergonha no rosto: a nossos reis e príncipes, e a nossos antepassados, pois que pecamos contra ti; 9 mas a ti, Senhor, nosso Deus, cabe misericórdia e perdão, pois nos temos rebelado contra ti, 10 e não ouvimos a voz do Senhor, nosso Deus, indicando-nos o caminho de sua lei, que nos propôs mediante seus servos, os profetas”.

Evangelho: Lc 6,36-38

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 36 "Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso. 37 Não julgueis, e não sereis julgados; não condeneis, e não sereis condenados; perdoai, e sereis perdoados; 38 dai, e dar-se-vos-á. Colocar-vos-ão no regaço medida boa, cheia, recalcada e transbordante, porque, com a mesma medida com que medirdes, sereis medidos vós também".

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Reconhecer-se Pecador É o Ponto De Partida Para a Conversão

O texto da Primeira Leitura leitura de hoje é um fragmento da oração de Daniel, que nos mostra o aspecto dramático que, muitas vezes, envolvem as relações homem-Deus. O Senhor permanece fiel à Aliança e está sempre pronto a otorgar o seu amor, mas, por outro lado, muitas vezes o homem prefere viver por conta própria que resulta na sua própria destruição. Quem quer viver por conta própria é, muitas vezes, porque quer esconder algo do seu próprio interesse. Em nome do interesse egoista atingido, ele desobedece a qualquer ordem por verdadeira que ela seja.

A oração de Daniel se apoia inteiramente na misericórdia de Deus. Isso nos permite não "desmoronar" quando pensamos em nossos pecados. Quando Jesus nos dirá no Evangelho de hoje para “ser misericordiosos como Deus é misericordiso”, ele quer nos convidar a uma misericórdia infinita (há que perdoar 70 vezes sete). A grandeza de Deus, sua Santidade, sua Infinitude se aplicam também para a sua misericórdia. A misericórdia perfeita e infinita é uma das perfeições de Deus. Logo, nossa perfeição, como cristãos, consiste na vivência do amor misericordioso.

A oração de Daniel, que lemos na Primeira Leitura de hoje, pode ser um roteiro perfeito para compor nossa “oração mundial” em momentos tão críticos como os que estamos vivenciando: pandemia, vandalismo, assassinatos, corrupção, terremotos, guerras, fome, etc. Esta oração pertence ao gênero das "súplicas penitenciais". Certamente é anterior ao livro em si. Está dividido em três partes. A primeira apresenta o pecado do povo (desobediência à lei e aos profetas) e a inocência de Deus. A segundaa punição como uma consequência lógica do pecado. O terceiro é um pedido de perdão baseado nas ações salvadoras de Deus no passado: a libertação do Egito, a eleição do povo e de Jerusalém e a honra de Deus.

Eu te suplico, Senhor, Deus grande e terrível, que preservas a aliança e a benevolência aos que te amam e cumprem teus mandamentos; temos pecado, temos praticado a injustiça e a impiedade, temos sido rebeldes, afastando-nos de teus mandamentos e de tua lei; não temos prestado ouvidos a teus servos, os profetas, que, em teu nome, falaram a nossos reis e príncipes, a nossos antepassados e a todo povo do país”. É a oração de Daniel que lemos na Primeira Leitura. Toda a súplica de Daniel nesta oração tem uma nítida influência da doutrina do profeta Jeremias. A calamidade do povo serve como fundo para sua súplica.no momento em que descobrimos nossas limitações e fraquezas não tem como não recorremos ao Senhor. O reconhecimento de nossos pecados, nossas fraquezas revela nosso crescimento espiritualmente. Somente quem é forte é capaz de reconhecer suas fraquezas. O santo é aquele que é capaz de se reconhecer pecador. Somente é inteligente aquele que é capaz de distinguir entre a inteligência e a tolice.

A quaresma tem uma dupla característica: batismal (renovação dos compromissos batismais) e penitencial (conversão). Começamos a segunda semana da Quaresma com uma oração penitencial posta nos lábios de Daniel. Daniel reconhece a culpa do povo eleito, tanto do Sul (Judá) como do Norte (Israel), tanto do povo, em geral, como de seus dirigentes, em particular. Ele pede perdão porque o povo não prestaram atenção para os profetas que Deus enviou para o meio deles: “Não temos prestado ouvidos a teus servos, os profetas, que, em teu nome, falaram a nossos reis e príncipes, a nossos antepassados e a todo povo do país”. Daniel pede o perdão a Deus pelos pecados de todos.

Por outro lado, Deus continua sendo fiel ao Seu povo. Aqui Daniel faz uma emocionada confissão da bondade de Deus: “Deus grande e terrível, que preservas a aliança e a benevolência aos que te amam e cumprem teus mandamentos...  A ti, Senhor, nosso Deus, cabe misericórdia e perdão, pois nos temos rebelado contra ti”.

Reconhecer nossa debilidade é o melhor ponto de partida para a conversão pascal, para nossa volta aos caminhos de Deus. Aquele que se crê santo, não se converte. Aquele que se sente rico, não pede. Aquele que se acha sabe de tudo, não pergunta mais. E quem não pergunta, fica bobo eternamente. O verdadeiro santo é aquele que se converte permanentemente, pois ele percebe a santidade de Deus, por um lado, e reconhece sua própria pecaminosidade, por outro lado. O santo é aquele que sempre se considera pecador.

A partir da oração de Daniel, cada um de nós precisa se perguntar: quais são meus pecados, minhas falhas desde a Páscoa do ano passado? Quais são pecados dos meus pais, dos meus filhos, dos meus irmãos, da minha comunidade? Eu preciso, como Daniel, fazer uma oração de intercessão. Depois do exame da consciência, façamos nossa a súplica do Salmo Responsorial: “Não lembreis as nossas culpas do passado, mas venha logo sobre nós vossa bondade, pois estamos humilhados em extremo. Ajudai-nos, nosso Deus e Salvador! Por vosso nome e vossa glória, libertai-nos! Por vosso nome, perdoai nossos pecados!”.

Em segundo lugar, a oração de Daniel pode ser um perfeito guia para compor nossa oração mundial em momentos tão críticos como os que vivemos. Cada cristão é batizado para ser enviado ao mundo a fim de conduzir as pessoas para Deus. Cada cristão é irmão de todos e todos são seus irmão, pois temos Deus como nosso Pai comum. Por isso, cada cristão tem tarefa, para não dizer tem obrigação de rezar não somente pelas próprias necessidades, mas também pela necessidade do mundo inteiro. Rezar tem como objetivo principal conformar-se com a vontade de Deus. O cristão tem que pedir também o perdão pelos pecados que a humanidade cometeu para que todos possam voltar a viver na fraternidade universal. Temos que rezar por todos os que encontramos em qualquer lugar e em qualquer situação. Somos irmãos de todos, pois o Deus em que acreditamos é o Pai comum como já foi dito.

Somos chamados a Ser Misericordiosos Como Deus Pai Que Não Se Cansa De Nos Perdoar

Se a direção da Primeira Leitura é o reconhecimento dos pecados e o pedido do perdão a Deus, o texto do Evangelho de hoje nos faz tirarmos as consequências: Jesus nos ensina a sabermos perdoar o próximo. E o programa é muito concreto e progressivo: “Sede misericordiosos...Não julgueis... Não condeneis... perdoai...Dai...”. E o modelo a ser seguido é o próprio Deus: “Sede misericordiosos como também o vosso Pai é misericordioso”.  Na misericórdia há espaço para todos: para Deus e para o irmão/irmã que pecou contra nós. Esta atitude de perdão Jesus põe como condição para que sejamos perdoados por Deus: Com a mesma medida com que medirdes, sereis medidos vós também". É o que pedimos no Pai-Nosso: “Perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. Às vezes somos duros de coração e sem piedade em nossos julgamentos contra o próximo. Por isso, devemos aceitar o outro passo que Jesus propõe: ser misericordioso e perdoar os demais como Deus é misericordioso e nos perdoa sempre.

O texto do evangelho deste dia faz parte do Sermão de Jesus chamado Sermão da Planície no evangelho de Lucas (Lc 6,20-49). Chamado de Sermão da Planície é para distingui-lo do Sermão da Montanha de Mateus (Mt 5-7). Se em Mateus Jesus faz seu Sermão no topo da montanha, em Lucas Jesus faz o Sermão na planície depois que Jesus na companhia dos discípulos desceram da montanha onde os Doze Apóstolos foram escolhidos (Lc 6,12-16). O Sermão da Planície é muito mais breve do que o Sermão da Montanha.

“Sede misericordiosos.......”. No evangelho de Lucas o maior mandamento não é só o  amor (Lc 10,25-28), mas também a misericórdia (Lc 6,36).  "Precisamos sempre contemplar o mistério da misericórdia. É fonte de alegria, serenidade e paz. É condição da nossa salvação. Misericórdia: é a palavra que revela o mistério da Santíssima Trindade. Misericórdia: é o ato último e supremo pelo qual Deus vem ao nosso encontro. Misericórdia: é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida. Misericórdia: é o caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado” (Papa Francisco: Misericordiae Vultus n.2).

“Sede misericordiosos.......”. É uma palavra intraduzível que hoje corre o risco de ser mal interpretada. Procuremos seus sinônimos: Compartilhem as tristezas dos outros, sejam indulgentes, deixem-se comover, perdoem-se/desculpem-se, participem na tribulação de seus irmãos, esqueçam as injúrias, sejam sensíveis, não guardem rancor, tenham bom coração! A grandeza, a perfeição e a santidade de Deus está nos seu amor misericordioso para com o ser humano. Assim também a grandeza e a perfeição e a santidade do cristão está no amor misericordioso para com o próximo.

...como também o vosso Pai é misericordioso. A moral cristã se caracteriza pelo fato de que é, habitualmente, uma imitação de Deus. São João dirá: “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). Lucas diz: “Deus é misericordioso”. Jesus insiste sobre este ponto. Ele próprio era uma perfeita “imagem de Deus”, que modelava seu comportamento segundo o do Pai.

E eu? Muitas vezes, infelizmente, não me assemelho ao Pai nem a Jesus no minha vida e nos meus procedimentos. Muitas vezes, eu desfiguro a imagem de Deus em mim a ponto de apagar a imagem de Deus que sou eu. Como o meu modo de viver, muitas vezes, eu dou uma má ideia do Senhor, especialmente toda vez que eu não vivo de acordo com o amor. É preciso pedir o perdão ao Senhor.

“Sede misericordiosos como também o vosso Pai é misericordioso”. O texto do evangelho lido e proclamado neste dia fala da moral cristã que se caracteriza pelo fato de que é, habitualmente, uma imitação de Deus, como foi dito, e por isso, não é uma simples moral humana. Na sua primeira Carta são João diz: “Deus é amor” (1Jo 4,8.16), e são Lucas diz no evangelho deste dia: “Deus é misericórdia”.  Em Mateus Jesus diz: “Sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5,48). Em Lucas Jesus diz: “Sede misericordiosos como também o vosso Pai é misericordioso”. Para o evangelista Lucas a perfeição cristã consiste na prática da misericórdia. Ser verdadeiro cristão, segundo Lucas, é imitar o Deus de amor e de misericórdia. Consequentemente, na vivência do amor e da misericórdia não haverá lugar para o julgar e o condenar do próximo.

A esperança cristã mais sublime tem sempre a ver com a misericórdia de Deus e com a misericórdia dos seus fiéis. Não podemos professar seriamente a nossa fé no Deus de amor, sem confessarmos, ao mesmo tempo, a Sua Misericórdia, isto é, sem praticarmos ao fim o amor misericordioso. A misericórdia é sinônimo de partilha intima da dor dos que sofrem, dos desprezados, dos marginalizados, dos abandonados e assim por diante.

O cristão deve ser reconhecível e reconhecido pelo amor que ele pratica (e pela misericórdia; cf. Jo 13,35). Jesus concebe este amor não como um sentimento e sim como uma atuação. Não é um simples sentimento humanitário. Este amor do qual fala Jesus tem uma raiz existencial: a realidade do Pai: "Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso”. É o Pai quem dá sentido ao amor vivido na fraternidade. Através do amor misericordioso vivido Deus reconhece o homem como filho Seu e o homem se reconhece como filho de Deus.

Segundo Jesus, ser misericordioso deve ser uma regra para todos os discípulos. Se no Antigo Testamento o ideal da perfeição era ser santo (cf. Lv 19,2; veja também 11,44), o Jesus de Lucas coloca a misericórdia como o ideal da perfeição para um cristão. O ideal da perfeição cristã consiste em estar em conformidade ou em sintonia com a misericórdia de Deus. A imitação e a vivência da misericórdia excluem o cristão de qualquer tipo de julgamento para assumir a atitude de perdão, pois o próprio Deus não usa de justiça contra nós pecadores e sim Ele usa de misericórdia. Sem a misericórdia de Deus ninguém sobreviveria sobre a face da terra. “O amor apaixonado de Deus pelo seu povo — pelo homem — é ao mesmo tempo um amor que perdoa. E é tão grande, que chega a virar Deus contra Si próprio, o seu amor contra a sua justiça. Nisto, o cristão vê já esboçar-se veladamente o mistério da Cruz: Deus ama tanto o homem que, tendo-Se feito Ele próprio homem, segue-o até à morte e, deste modo, reconcilia justiça e amor(Bento XVI: Carta Encíclica: Deus Caritas Est, 10).

O que significa a palavra “Misericórdia”. É a tradução da palavra hebraica RAHAMÎNS, que deriva da palavra REHEM. Rehem quer dizer o útero materno. O útero materno recebe, mantém e dá a vida, oferecendo ao feto, a cada segundo tudo de que ele necessita para viver. O amar do Pai, a Palavra de Deus e Jesus Cristo são como o útero materno que alimenta, cuida, mantém e dá vida. A vida, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo alimenta, o mundo, sustenta o mundo; o mundo quer dizer todos os seres humanos. A misericórdia não é simplesmente amor: é um amor que não conhece limites, barreiras, obstáculos, fronteiras: é um amor que sabe amar também quem se tornou indigno do amor. Enquanto o amor diz somente doação, a misericórdia diz super-doação. A misericórdia é um especial poder do amor, que prevalece sobre o ódio, a infidelidade, a deslealdade, a ingratidão. Como diz João Paulo II: “Esse amor misericordioso é capaz de curvar-se ante o filho pródigo, ante a miséria humana e, sobretudo, ante a miséria moral, ante o pecado. A misericórdia se manifesta em seu aspecto verdadeiro e próprio quando valoriza, promove e explicita o bem em todas as formas de mal existente no mundo e no homem” (Dives In Misericordia, no.6).

O melhor caminho para humanizar cada vez mais um ser humano é o do amor e da misericórdia. Um cristão cheio de amor e de misericórdia é muito humano e educado. Ele é tão humano que se transforma em uma manifestação daquilo que é divino. Naquele que ama tem algo divino, poisDeus é amor”. Jesus Cristo foi tão humano e por isso, foi tão divino. Para sermos divinos temos que ser muito humanos. É o paradoxo de ser cristão.

Para Jesus todos os pecados da humanidade têm a mesma origem: a cobiça que é a manifestação clara do próprio egoísmo. O objetivo de todos os atos de um egoísta é apenas seu próprio interesse. Enquanto que o verdadeiro amor é feito de doação, sem cálculos e sem interesses. Quem ama, ama o próprio amor. “O amor não tem mais razões que o próprio amor” (Santo Agostinho. In epist. Joan. 8,5).

Em muitos momentos não fomos capazes de ser misericordiosos para com o próximo. Naquele momento em que fomos tão duros, impiedosos, inflexíveis até tão cruéis, apagamos a imagem do Deus misericordioso de nossa vida. Com esta atitude esquecemos aquilo que São Paulo nos diz: “Sois uma carta de Cristo escrita não com tinta, mas com o Espírito de Deus vivo, não em tabuas de pedra, mas em tabuas de carne, nos corações(2Cor 3,3). O Espírito de Deus vivo deve ser manifestado muito claro e muito encarnado na nossa vida para que os outros, até os “analfabetos” na consigam lê-lo.

Reconhecer nossa debilidade é o melhor ponto de partida para a conversão, para a nossa volta aos caminhos de Deus de misericórdia. Quem se acha santo, não se converte. Quem se acha rico, não pede. Quem se acha saber de tudo, não pergunta. Será que reconhecemos pecadores? Será que somos capazes de pedir o perdoa do fundo de nosso ser?

Além de reconhecer nossa debilidade, temos que aceitar outro passo que Jesus nos propõe hoje: ser misericordioso e perdoar os demais como o próprio Deus é misericordioso e perdoa nossos pecados. Perdoar significa crer na capacidade que nós seres humanos temos para começar de novo. O perdão não é uma simples trégua para fazer tolerável a vida sem uma nova criação que nos aproxima do plano de Deus. Nosso grande desafio é chegarmos a entender que precisamos viver toda a existência cristã na dinâmica do perdão que é a dinâmica do começo e do recomeço permanente.

P. Vitus Gustama,svd

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

II Domingo Da Quaresma, Ano "A", 01/03/2026

TRANSFIGURAÇÃO DO SENHOR

É PRECISO ESCUTAR A PALAVRA DE DEUS PARA SER TRANSFIGURADO

II DOMINGO DA QUARESMA ANO “A”

I Leitura: Gn 12,1-4a

1Naqueles dias, o Senhor disse a Abrão: “Sai da tua terra, da tua família e da casa do teu pai, e vai para a terra que eu te vou mostrar. 2Farei de ti um grande povo e te abençoarei; engrandecerei o teu nome, de modo que ele se torne uma bênção. 3Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; em ti serão abençoadas todas as famílias da terra!”. 4aE Abrão partiu, como o Senhor lhe havia dito.

Segunda Leitura: 2Tm 1,8b-10

Caríssimo: 8bSofre comigo pelo Evangelho, fortificado pelo poder de Deus. 9Deus nos salvou e nos chamou com uma vocação santa, não devido às nossas obras, mas em virtude do seu desígnio e da sua graça, que nos foi dada em Cristo Jesus, desde toda a eternidade. 10Esta graça foi revelada agora, pela manifestação de nosso Salvador, Jesus Cristo. Ele não só destruiu a morte, como também fez brilhar a vida e a imortalidade por meio do Evangelho.

Evangelho: Mt 17,1-9

Naquele tempo, 1Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e os levou a um lugar à parte, sobre uma alta montanha. 2E foi transfigurado diante deles; o seu rosto brilhou como o sol e as suas roupas ficaram brancas como a luz. 3Nisto apareceram-lhe Moisés e Elias, conversando com Jesus. 4Então Pedro tomou a palavra e disse: “Senhor, é bom ficarmos aqui. Se queres, vou fazer aqui três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”. 5Pedro ainda estava falando, quando uma nuvem luminosa os cobriu com sua sombra. E da nuvem uma voz dizia: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo o meu agrado. Escutai-o!” 6Quando ouviram isto, os discípulos ficaram muito assustados e caíram com o rosto em terra. 7Jesus se aproximou, tocou neles e disse: “Levantai-vos e não tenhais medo”. 8Os discípulos ergueram os olhos e não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus. 9Quando desciam da montanha, Jesus ordenou-lhes: “Não conteis a ninguém esta visão até que o Filho do Homem tenha ressuscitado dos mortos”.

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I.  Sentido Da Transfiguração

A Transfiguração de Jesus acontece no início de seu caminho para a cruz (cf. Mc 8,31—9,13). Esta colocação tem uma intenção catequética, pois depois que os discípulos ouviram o anúncio da Paixão e a Morte de Jesus, eles ficaram desanimados ao convite do seguimento de Jesus. Pedro repele este anúncio (Mt 16,22-23) e os demais discípulos não o compreenderam (Mt 17,23). Por isso, Deus mostra-lhes, por um instante, a Páscoa antecipada. Mas é uma antecipação temporária e provisória; o caminho que devem percorrer continua sendo o caminho da cruz. Os três discípulos privilegiados (Pedro, Tiago e João), são chamados a contemplar a glória de Cristo antecipadamente, e  são os mesmos que, pouco depois, no Getsêmani, serão chamados a presenciar a sua fraqueza.

A Transfiguração, que oferece aos três apóstolos um vislumbre da glória, é como uma garantia de seu destino pascal. A árdua jornada é animada por uma teofania e por um testemunho luminoso (em Mateus tudo é luminoso: o rosto de Jesus, suas vestes, a nuvem): a palavra autorizada do Pai: este é o meu Filho... ouçam-no

Jesus, na sua humanidade, mostra a divindade, e os discípulos têm o privilégio de presenciar o Corpo de Jesus que resplandece da glória do Filho no qual o Pai tem seu agrado, luz antecipada da ressurreição. Consequentemente, neste momento, a transfiguração é uma palavra de ânimo, pois na Transfiguração se manifesta, por antecipação, a glória de Jesus ou sua vitória sobre a morte (ressurreição). Esta glória da ressurreição se manifesta na brancura,  como luz, das vestes de Jesus (Mt 17,2). É uma iluminação interior tão forte  que “transforma” o próprio corpo de Jesus em sol e luz. Como se Jesus quisesse dizer aos discípulos: “Não tenha medo dos sofrimentos ou das cruzes, por causa de mim, pois tudo terminará na vida gloriosa!”. Ou seja, a Transfiguração é a Páscoa antecipada, ou  a antecipação da glória da Páscoa.

A Transfiguração de Jesus, Filho de Deus, representa também a antecipação daquilo que seremos. Tudo isso acontecerá se decidirmos “escutar” Jesus, verdadeiramente, e colocarmos na prática a Sua Palavra. Essa é a condição para transformar nossa vida em imagem de Jesus transfigurado, até que atinjamos a sua medida plena na vida eterna.

Escutar é uma das palavras-chaves do evangelho de hoje. Para chegar à transfiguração de nossa vida é necessário escutarmos tudo o que Jesus fala. Na escuta à Palavra de Jesus se encontra a semente de nossa transfiguração gloriosa. Quem escuta a Jesus se torna como Ele, pois Jesus é a própria Palavra de Deus, o Verbo Divino que se encarnou entre nós (Jo 1,1-3.14). A nossa transfiguração começa a partir do momento em que começarmos a escutar Jesus. Quando começarmos a escutar Jesus e pensarmos n´Ele, deixaremos de escutar a nós mesmos e deixaremos de pensar em nós mesmos. O fruto dessa escuta são as obras boas que praticamos diariamente. Toda obra boa se relaciona ao Espírito de Deus. As obras boas são frutos do Espírito Santo (cf. Gl 5,19-22).

Escutar é uma das atitudes mais cristãs. Somente os que têm a humildade é que são capazes de escutar. Deus sempre quer falar conosco e sobre nós, de várias maneiras, mas é preciso ter disposição para escutá-Lo. Deus sempre tem alguma palavra para minha vida, para minha família, para meu casamento, para minha profissão, para minha atual situação etc.. toda vez que eu escutar sua Palavra. Por isso, eu preciso escutar essa Palavra, pois diz a respeito da minha vida com seus problemas. Além disso, na vida cotidiana, quando você fala, você transmite ao outro o que você já sabe. Mas quando você escuta, geralmente você vai saber algo novo que o outro vai lhe transmitir. Daí a importância da escuta se quisermos crescer e avançar na vida.

A Transfiguração acontece em uma montanha. Montanha é o símbolo por excelência da proximidade de Deus. No seu Evangelho, Mateus nos revela que o nome de Deus é Emanuel, Deus-conosco (Mt 1,23; 18,20;28,20). Montanha é o lugar habitual das revelações divinas. Para nós, a montanha significa a necessidade de nos distanciarmos — um distanciamento interior — do nosso mundo cotidiano, dos nossos afazeres, das nossas ansiedades, da nossa agitação e assim por diante. No AT “o monte” (montanha) dá o sentido da proximidade de Deus e é o “lugar” que Deus escolhe para se manifestar.  Os evangelista falam de um monte, mas sem nenhuma localização precisa (exata), pois eles não pretendem falar de monte real, mas antes do lugar da presença e da ação divinas. O monte denota a esfera divina em contato com a história humana. Por isso, no “monte” se realizam ações de grande significado, que estão em ligação com a esfera divina (o decálogo, o Sermão da Montanha etc...). Para Mt a montanha é um dos seus símbolos favoritos. Ela é o “lugar” do encontro com Deus, lugar da revelação. Sobre uma montanha é que Jesus proclama as bem-aventuranças e todo o Sermão da montanha (Mt 5-7). Num monte na Galileia Jesus marca o último encontro com os seus discípulos antes da ascensão (Mt 28,16). E Jesus leva consigo o grupo especial dos três: Pedro, Tiago e João (compare com Ex 24,1) para a montanha.

Nessa montanha é que se ouve uma voz de tom de ordem: "Escutem-no." Este preceito é importante. O discípulo/o cristão não é uma pessoa de visões, mas de escuta. Não se trata de ver, de tocar o Senhor. É essencial escutar a sua voz, levar a sua mensagem a sério, deixar-nos desafiar pelas suas palavras. Escutar, não para saber mais sobre ele, ou para satisfazer a curiosidade, mas para obedecer, para tomar consciência das obrigações que nos são atribuídas, para cumprir o plano de Deus para nós e para o mundo. Quando escutamos, não ampliamos o alcance do nosso conhecimento teórico. Ampliamos, sim, o alcance do nosso compromisso.

II. Outras Mensagens Da Transfiguração

1. A Transfiguração Aconteceu “De Pois De Seis Dias”          

A transfiguração acontece “depois de seis dias” (v. 1). Há várias interpretações a respeito: seis dias é o tempo que se conta entre a confissão de Pedro até a transfiguração (John P. Meier e outros). Segundo P. Bonnard, (cf. Evangelio Segun San Mateo, Madrid,1983), “seis dias” é uma alusão aos seis dias que separam o grande dia da Expiação do começo da festa dos Tabernáculos (cf. Lv 23,27.34). Por isso, mais adiante Mt usa a palavra “tenda” no desejo de Pedro em fazer três tendas para os três personagens (Mt 17,4b). Os outros especialistas dizem que o sexto dia foi o dia da criação do homem, coroamento de toda a obra da criação. E o estado de glória, em que se vai mostrar Jesus, representa o êxodo final da criação, a realização plena do projeto de Deus sobre o homem. Santo Irineu costumava dizer que, logo depois de Deus ter pronunciado sua palavra na pessoa de Jesus, silenciou-se perenemente. Isto quer dizer que em Jesus Cristo aconteceu a expressão total e definitiva de Deus. Por isso, o modo como entendermos o homem, a partir de Jesus, realização plena do projeto de Deus, será o modo como nos entendermos a nós mesmos. A vocação e o destino do homem é realizar aquilo que Deus sonha para ele desde antes mesmo da criação do mundo. A vocação é um chamado permanente para que o homem seja livre interna e externamente. Deus sonha com o homem vivo e livre, pois ele foi criado para viver em liberdade. Por isso, escravizar o homem significa atingir a Deus em seu ponto mais sensível. O destino terreno do homem é conviver e compartilhar a vida com Deus e caminhar juntos para que o homem possa chegar à sua plena realização. 

2. Na Montanha Jesus Foi Transfigurado Diante Dos Três Discípulos           

Jesus costuma retirar-se a só para rezar. Desta vez, ele leva consigo três dos seus discípulos: Pedro, Tiago e João. Os três foram testemunhas da ressurreição da filha de Jairo (Mc 5,37). Os três vão ser também as testemunhas da agonia de Jesus no Getsêmani (Mt 26,36-46). E nesta transfiguração os três são as testemunhas do episódio.

Ficamos perguntando, por que somente os três? É um privilégio? É um mistério da escolha de Deus? Sabemos apenas o significado do número três: o três indica o completo e o definitivo. Quem sabe os três representam bem o conjunto dos discípulos de Jesus por este significado. Quem sabe o texto quer nos dizer que realmente, por completo Jesus é o Senhor, o Glorioso.         

Na transfiguração a aparência de Jesus se transformou. A verdadeira essência de Jesus se faz visível na transfiguração aos três discípulos escolhidos. O texto diz: “Jesus foi transfigurado”.  O uso da voz passiva” foi transfigurado” indica que se trata de uma ação de Deus. Por isso, se chama o passivo divino (passivum divinum) que indica veladamente uma ação de Deus. O rosto e as roupas radiantes mostram que Jesus pertence ao mundo celeste ou ao mundo divino, o mundo da luz (cf. Mt 13,43;28,3).        

O texto diz: “Ele foi transfigurado diante deles” (v.2a). Jesus não se transfigura diante de qualquer um, mas somente diante de alguns, diante daqueles que deixaram tudo: parentes, amigos, trabalho etc., e aceitaram seu convite de subir ao “monte da transfiguração”: Pedro, Tiago e João. Por sua fidelidade, os tres discípulos serão tanto as testemunhas da glória de Jesus (Mt 17,1; Mc 9,2; Lc 9,28), como de sua agonia, e de fato, serão vistos em Getsêmani (Mc 14,33-42). Jesus se transfigura diante daqueles e naqueles que se deixam conduzir pelo Espírito de Deus. Em Jesus transfigurado, em quem acreditamos e depositamos toda a nossa esperança e em quem encontramos toda a nossa certeza contemplamos também todo o nosso futuro glorioso que já começou nesta terra a partir do momento em que acreditamos em Jesus Cristo e vivemos os seus ensinamentos. 

Os três discípulos experimentaram o momento da transfiguração. A luz do transfigurado brilhou até eles a ponto de poder vê-la. Quem realiza em sua vida as obras de Jesus torna visível a presença de Deus-Pai (Mt 5,16). De fato, conhecemos muitas pessoas que não perdem jamais o irresistível poder de manifestar algo de Deus. Essas pessoas vivem de tal modo que são capazes de nos levar até Deus, pois percebemos que possuem, de certo modo, a experiência da “montanha”, da transfiguração com Jesus.          

O texto também nos diz que “O seu rosto resplandece como o sol e as suas vestes tornaram-se alvas como a luz” (v.2b). Nesta descrição a luz não se projeta de fora sobre Jesus, mas provém de seu interior. Seu rosto não está simplesmente “iluminado”, mas “brilha”. Na transfiguração, a luz, que simboliza a presença divina, não vem de fora nem paira “sobre” Jesus. Essa luz sai “de dentro dele”, emana dele próprio, porque lhe pertence substancialmente. Jesus brilha com a luz própria, não refletida, pois Ele é a própria Luz do mundo (Jo 8,12). A fonte desse esplendor é a glória de Deus que faz brilhar a carne de Jesus. A glória que brilha na carne de Jesus revela que Jesus é “o esplendor da glória de Deus, a expressão do seu ser” (Hb 1,3). Este é o ser profundo de Jesus, o estado natural da pessoa de Jesus. Ele é Deus mesmo (cf. Jo 1,1.14). Mas quando ele se esvaziou a si mesmo (cf. Fl 2,6-7), quando ele “se fez carne e acampou no meio de nós” (Jo 1,14), o Messias Jesus passou a ser visto pelos homens como um homem entre tantos. Mas muitos homens não o conhecem: “No meio de vós, está alguém que não conheceis” (Jo 1,26b). “Veio para o que era seu e os seus não o receberam” (Jo 1,11).

3. Aparecimento De Moisés E Elias Na Transfiguração, O Pedido De Pedro E O Mandato Para Escutar          

Os três discípulos presentes à cena, veem também dois personagens do AT em diálogo com Jesus. Moisés personifica aqui a lei, e Elias, os profetas. É uma forma de dizer que os dois representam todo o AT. Os dois tiveram no monte Sinai e Horeb, respectivamente, revelações divinas (cf. Ex 19,33s;1Rs 19,9-13). No Judaísmo acredita-se que os dois já foram levados ao céu; e um ou ambos eram esperados sua volta nos último dias. Esses dias, o tempo de cumprimento, já chegou com a chegada de Jesus, o Messias esperado.          

Nesse acontecimento, Pedro se dirige a Jesus e o chama não como “Rabbi” em Marcos (sinal de incredulidade, cf. Mc 9,5), mas simplesmente como “Senhor”, modo de um crente se dirigir a Deus (v.4). Pedro é pessoa super confidente de Jesus diz-lhe, de maneira educada (“se queres”) que é bom, “nós” que estamos aqui, atendermos suas necessidades. O próprio Pedro construirá (não os três discípulos como em Marcos, cf. Mc 9,5) para o trio do céu (Jesus, Moisés e Elias). Mateus não fala, explicitamente, da falta de compreensão de Pedro, como em Marcos (cf. Mc 9,6). Mas implicitamente o seu pedido manifesta sua total incompreensão daquilo que está ocorrendo. A proposta de Pedro de fazer três tendas é uma nova tentativa de Pedro de deter Jesus em seu caminho rumo à Paixão. É quase uma réplica daquilo que ele disse logo depois de sua profissão de fé em Jesus como o Messias (cf. Mt 16,22). O desejo de Pedro de fazer uma tenda para cada um dos três personagens demonstra também a sua falta de compreensão do fato ocorrido. Pedro quer colocá-los no mesmo plano. Ele desconhece a infinita distância existente entre Jesus, Messias e outros dois personagens do AT.          

Por isso, enquanto Pedro está falando, a revelação atinge seu clímax quando uma nuvem radiante, símbolo da presença de Deus, desce e encobre a cena. A nuvem que havia descido outrora sobre o monte Sinai (Ex 24,15s), sobre a Tenda da Reunião (Ex 40,34-35), e sobre o Templo de Salomão (1Rs 8,10-12), volta a descer agora sobre Jesus (cf. 2Pd 1,18). O céu e a terra, Deus e os homens se encontram e se unem em Jesus Cristo. Esta mesma nuvem envolve também os três discípulos para dizer que daqui em diante eles fazem parte da comunidade de Jesus e por isso tomarão parte do destino de Jesus: o sofrimento e a glória. Mas para que tudo isto possa se tornar realidade, só tem uma condição: Escutar sempre Jesus. Um elemento ausente na revelação batismal é a ordem: “Escutai-O!” Escutai- O, não somente quando ele confirma a alegre revelação do Messias glorioso e Filho de Deus, mas também quando ele acrescenta a revelação do sofrimento do Filho do Homem. Escutai- O quando desce da montanha. 

A voz não diz: “Escutai-os!” (plural), mas “Escutai-O!” (em singular). Cristo tomou o lugar da lei e o profeta (AT). Não é por acaso que logo depois Jesus se encontra sozinho diante dos discípulos. Agora em diante ele é a nova lei. É ele, em tudo o que diz e faz, a expressão definitiva e completa da vontade do Pai. É ele o profeta futuro anunciado pelo próprio Moisés, ordenando que fosse escutado (cf. Dt 18,15). Por isso, a frase “Escutai- O” tem um peso para Mt. Mt preocupava-se muito com a percepção da autoridade de Jesus e os problemas que a cercavam. 

4. Jesus Quer Nos Tocar Para Nos Levantar De Nossas “Enfermidades” ou Debilidades           

Quando ouvem a voz anunciando o mistério total do Filho, muito assustados, os discípulos caem com o rosto em terra. “Cair por terra” é a fraseologia usada em alguns textos bíblicos para descrever a reação humana diante da manifestação divina (Ez 1,28; cf. 43,3;44,4). Esta é a reação comum de homem fraco e mortal diante de uma visão apocalíptica (Dn 8,17;10,9-11; At 9,4;Ap 1,17). Os discípulos reagem da mesma maneira: caem com o rosto no chão.                

Mas “Jesus chegou perto deles e tocando-os, disse: ‘Levantai-vos e não tenhais medo” (v.7). O homem que cai na vida por suas “enfermidades” ou debilidades somente Deus pode levantá-lo. Esse Deus que Jesus revelou é o Deus que sempre chega perto para nos tocar. Somente Deus pode libertar o homem de seus medos, de suas debilidade e fraquezas. Jesus, encarnação de Deus na terra que acabou de se revelar aos discípulos na sua glória, põe sua mão no ombro de cada um deles e com sua voz inconfundível os chamou: “Levantai-vos e não tenhais medo!” O Filho do Deus vivo, que dá vida ao morto, levanta seus prostrados discípulos e liberta-os de medo.   

Jesus se aproxima dos discípulos para tocá-los dizendo-lhes: “Levantai-vos!”. “Levantar” é uma linguagem de ressurreição. O ato de Jesus em tocá-los e encorajá-los (encontra somente em Mt) se encontra também no mesmos textos apocalípticos. Mt já deu exemplos de toque de Jesus para reviver ou curar ou encorajar pessoas (Mt 8,3.15; 9,25.29). O Filho do Deus vivo, que dá vida ao morto, levanta seus prostrados discípulos e liberta-os de medo. É preciso que nos deixemos tocar por Jesus para que possam nos levantar novamente e continuar nossa vida até a sua plenitude.

É esta mesma mão que se estende para tocar e curar o leproso: “Eu quero, seja purificado!” (Mt 8,3). É esta mesma mão que toca a mão do sogro de Pedro que faz a febre desaparecer dela (Mt 8,15). É esta mesma mão que levanta a filha de Jairo a fim de ela voltar a viver (Mt 9,25). São estas mesmas mãos que seguram os cinco pães para abençoá-los a fim de saciar a fome do povo abandonado (Mt 14,1-21).  São estas mesmas mãos que se estendem para salvar Pedro do afogamento (Mt 14,30-31). São estas mesmas mãos, mesmo sendo invisíveis, das quais precisamos segurar nesta vida.  

Em cada Missa somos tocados por Deus através da Palavra de Deus e do Pão eucarístico para vivamos com Ele, por Ele e para Ele na convivência amorosa com o próximo.

Foi muito feliz Nelson Monteiro da Mota que compus a música que fala de “Segura Na Mão De Deus”: “Se as águas do mar da vida quiserem te afogar, segura na mão de Deus e vai. Se as tristezas desta vida quiserem te sufocar, segura na mão de Deus e vai. Se a jornada é pesada e te cansas da caminhada, segura na mão de Deus e vai. Segura na mão de Deus, pois ela te sustentará. Não temas, segue adiante e não olhes para trás. Segura na mão de Deus e vai”. Que não tenhamos pretensão de dispensar a mão de Deus. Precisamos da mão de Deus para nos levantar e nos guiar para a vida gloriosa. 

Na alta montanha Jesus transfigurou-se ou transformou-se. Há várias maneira para uma pessoa transformar-se. A pessoa pode transformar-se com uma ideia positiva e muito feliz, com uma surpresa agradável, a tal ponto de perder a cor, conservando uma face tranquila e quase infantil. A partir da ideia bíblica, a transfiguração tem esse último sentido, em que o divino, fazendo-se ver de modo palpável e feliz, transforma a pessoa de tal modo que ela chega até a perder peso e levitar. Dizem que os santos, que adquirem alto grau de mística, passam por experiência semelhante, de levitação e transfiguração.          

Para nós, os comuns mortais, que ainda não chegamos ao patamar da santidade que se encanta de Deus, a transfiguração tem apenas o sentido da conversão, de mudança de vida, no desejo da santidade.          

Guiados pela Palavra de Deus que devemos escutar sempre, como manda a voz celeste, agora finalmente encontramos Cristo. Sabemos que todas as demais luzes se apagaram, somente Jesus permaneceu e continua permanecendo como a única luz de nossa vida. Vale a pena escutar, meditar e viver de acordo com a Palavra de Deus! A mensagem da transfiguração é de otimismo radical e de esperança firme, e não ilusória. Jesus é nosso companheiro de caminhada até a luz final, até a Páscoa definitiva. Com ele somos capazes de superar a prova da fé e experimentar a libertação gratificante da autorenúncia e da cruz na quaresma de nossa vida, no caminho para a Páscoa com Cristo.

Pe. Vitus Gustama,SVD

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

28/02/2026- Sábado Da I Semana Da Quaresma

PARA AMAR A JESUS VERDADEIRAMENTE E AO PRÓXIMO TEMOS QUE APRENDER A PERDOAR, ATÉ OS INIMIGOS

Sábado da I Semana da Quaresma

Primeira Leitura: Dt 26,16-19

Moisés dirigiu a palavra ao povo de Israel e lhe disse: 16 “Hoje, o Senhor teu Deus te manda cumprir esses preceitos e decretos. Guarda-os e observa-os com todo o teu coração e com toda a tua alma. 17 Tu escolheste hoje o Senhor para ser o teu Deus, para seguires os seus caminhos, e guardares seus preceitos, mandamentos e decretos, e para obedecerdes à sua voz. 18 E o Senhor te escolheu, hoje, para que sejas para ele um povo particular, como te prometeu, a fim de observares todos os seus mandamentos. 19 Assim ele te fará ilustre entre todas as nações que criou, e te tornará superior em honra e glória, a fim de que sejas o povo santo do Senhor teu Deus, como ele disse”.

Evangelho: Mt 5,43-48

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 43 Vós ouvistes o que foi dito: 'Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo!' 44 Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem! 45 Assim, vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus, porque ele faz nascer o sol sobre maus e bons, e faz cair a chuva sobre justos e injustos. 46 Porque, se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Os cobradores de impostos não fazem a mesma coisa? 47 E se saudais somente os vossos irmãos, o que fazeis de extraordinário? Os pagãos não fazem a mesma coisa? 48 Portanto, sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito.'

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O Senhor é Nosso Deus e Nós Somos Seu Povo

Tu escolheste hoje o Senhor para ser o teu Deus, para seguires os seus caminhos, e guardares seus preceitos, mandamentos e decretos, e para obedecerdes à sua voz. E o Senhor te escolheu, hoje, para que sejas para ele um povo particular, como te prometeu, a fim de observares todos os seus mandamentos”. O Deuteronômio, o último livro do Pentateuco, de onde foi tirada a Primeira Leitura de hoje, é, paradoxalmente, apesar da extensa parte legislativa que contém, um dos menos jurídicos. Sua finalidade é mais homilética do que legislativa e seu senso aguçado de história e das relações pessoais com Deus fazem dele, acima de tudo, um livro religioso.

O texto de hoje contém a fórmula central da Aliança e recorda o conteúdo desta Aliança e sublinha seu caráter espiritual. Na fórmula da Aliança (Dt 26,17-19) é salientada a reciprocidade entre os pactuantes isto é, entre Deus e Israel. Cada um deve se mostrar leal e respeitoso com os compromissos assumidos com o outro. Enfatiza-se o caráter dialogal e pessoal da aliança. Isto significa que Israel e Deus são um para o outro. Deus ama Israel e Israel, por sua vez, tem de amar a Deus (cf. Dt 6,5; 7,6ss; 10,12ss).

A Aliança é uma realidade sempre atual. O Deuteronômio insistiu fortemente sobre este valor e por isso, se usa a palavra “hoje” (“hoje” nos vv. 16-18; cf. Dt 5,3; 6,10-13). Por isso, não se trata de viver de uma economia antiga; o passado não serve mais que para definir melhor o presente, e as maravilhas passadas não cessam de renovar-se na atualidade. Sem a renovação e a inovação a humanidade não avança. A vida feliz e a glória (v.19) são a recompensa prometida por Deus para aqueles que observam a Aliança. Com efeito, a lei não é uma simples nomenclatura de preceitos impostos ao homem e sim que compromete muito mais uma atitude religiosa: “Eu serei teu Deus (v.17) e tu serás meu próprio povo” (vv.18-19).

Esta frase “Eu serei teu Deus e tu serás meu próprio povo” é para ser recordado por qualquer um de nós em todos os momentos de nossa vida, especialmente nos momentos de prova. É preciso estarmos conscientes de que não estamos sós, pois Deus está conosco e nós estamos com Deus (cf. Mt 28,20).

Viver Cristãmente É Caminhar Na Direção Do Bem e Da Salvação

Tu escolheste hoje o Senhor para ser o teu Deus, para seguires os seus caminhos, e guardares seus preceitos, mandamentos e decretos, e para obedecerdes à sua voz. E o Senhor te escolheu, hoje, para que sejas para ele um povo particular, como te prometeu, a fim de observares todos os seus mandamentos”.

O antigo semita é nômada. A estrutura do êxodo de Israel possui três momentos: saída, caminho no deserto e a chegada à Terra prometida. O êxodo de Israel constitui um processo de libertação feliz: libertado da escravidão do Egito à Terra prometida, uma “terra que mana leite e mel” (Ex 3,8). O caminho é seco e duro como o deserto, mas ao mesmo tempo não faltam as bênçãos de Deus durante essa caminhada. Neste contexto, o êxodo é entendido como marcha de um povo ou de um grupo de pessoas em busca de algum lugar melhor para se estabelecer, mas sempre com a ajuda divina. “Quem não contar com Deus não sabe contar” (Pascal). Caminho, via e sendas desempenham um papel essencial em sua existência. Como a coisa muito normal utiliza este mesmo vocabulário para falar da vida moral e religiosa e tal uso se manteve na língua hebraica.

E o êxodo existencial de um ser humano possui três fases: iniciar, transitar e terminar. A vida terrena de um ser humano tem, então, seu início, faz-se no pleno desenvolvimento e aponta para seu término inevitável. O êxodo da vida humana é sempre um caminho de crescimento, uma saída da “própria terra”, de si mesmo. Neste caminho de crescimento suscitam inevitáveis interrogações sobre o próprio homem, sua condição e destino: “Quem sou eu? Que sentido tem a vida? Qual é o sentido da minha vida? O que estou procurando nesta vida? Para onde a vida vai me levar?”. Sem uma resposta a estas perguntas, o itinerário ou o êxodo que conduz para o crescimento ou à plena realização pode terminar em um beco sem saída. Quem tem um porquê para viver, encontrará frequentemente o como viver.

Caminho, em sentido figurado, tem na Bíblia várias acepções. Fala-se de dois caminhos: o caminho da vida e o da morte que Deus põe diante do homem (Jr 21,8); o caminho bom (1Sam 12,13) e o caminho mau (Jr 18,11); o caminho dos justos e o dos pecadores (Sl 1,6). Os caminhos de Deus são distintos dos caminhos dos homens (Is 55,8-9). Os caminhos de Deus conduzem à paz (Is 59,6; Lc 1,79) e à vida (Mt 7,14). Os caminhos dos homens, ao contrário, levam à morte (Pr 14,12) e à perdição (Mt 7,13). Os caminhos de Deus são Sua própria vontade, as normas de conduta sempre retas, verdadeiras e justas (Ap 15,3). A missão fundamental de Jesus Cristo foi ensinar para o homem estes caminhos (Mt 22,16). O próprio Jesus é o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14,6). Nos Atos dos Apóstolos, o conjunto dos ensinamentos cristãos é chamado caminho, o caminho do Senhor (At 9,2; 18,25-26; 19,9.23; 22,4; 24,14-22).

A ideia do caminho descreve muito bem nossa vida. Moisés falou sobre isso para seu povo. Na Quaresma nos é recordado ou lembrado de maneira mais explicita que nós cristãos temos um caminho próprio, um estilo de vida que nos traça a Palavra revelada por Deus. A Palavra de Deus nos direciona para a vida em plenitude. Basta ler e meditá-la diariamente, especialmente durante a Quaresma, para que possamos caminhar bem na vida. Temos que nos comportar como o povo da Aliança: continuar a seguir somente Deus e Sua Palavra, palavras que têm vida eterna (Jo 6,68). Deus, por sua parte, nos promete ser nosso Deus, ajudar-nos, fazer de nós o “o povo consagrado”, eleito que dá testemunho de sua salvação em meio do mundo. Deus e Sua Palavra são o único caminho que leva à salvação, à felicidade, à Páscoa definitiva. Deus nos é sempre fiel. Por nossa vez, devemos ser fieis a Ele e cumprir Sua vontade “com todo o coração e com toda a alma”.

Somos o povo em peregrinação para a eternidade, para a comunhão plena com Deus. Por isso, o apego, a ganância, o materialismo se tornam inúteis, pois nada se levará. Precisamos de pão, mas “não só de pão o homem vive” (Dt 8,3; Lc 4,4). É preciso viver muito além do pão, pois a nossa fome não é só de pão, mas de outros valores que nos dão o sentido da vida.

Para Estar No Caminho Do Senhor É Preciso Aprender a Perdoar e Reconciliar-se

O Evangelho de hoje nos põe diante de um exemplo muito concreto deste estilo de vida que Deus quer de nós. Jesus nos apresenta seu programa como estilo de vida cristã: amar inclusive nossos inimigos. É o programa árduo. Mas a Páscoa a que nos preparamos é a celebração de um Cristo Jesus que se entregou totalmente pelos demais. Ele morreu perdoando todos os que O crucificaram.

Ser seguidores do Senhor Jesus é assumir seu estilo de vida. O modelo deste estilo de vida é o próprio Jesus, Deus-Conosco e o próprio Pai do céu que “faz nascer o sol para os bons e maus e faz cair a chuva para os justos e injustos”, pois Deus é o Pai de todos.

O texto do evangelho lido neste dia faz parte do Sermão da Montanha (Mt 5-7). Estamos na seção chamada de antíteses (Mt 5,21-48) conhecidas pelo uso da seguinte expressão: “Ouvistes... Porém eu vos digo...”. Jesus continua analisando a lei antiga (“Ouvistes...”) e dá uma nova ênfase (“Porém eu vos digo...). Ele sabe que o único que pode salvar o ser humano é entender que se não se tem o perdão como ponto de partida, jamais se poderá alcançar uma convivência digna entre os seres humanos. Daqui sua grande preocupação pela busca desses valores que o Pai quer para a humanidade, valores que farão que o ser humano se aproxime da mesma perfeição de Deus (cf. Mt 5,48). Para aprender a amar verdadeiramente, o cristão tem que aprender a perdoar, pois perdão é a expressão máxima do amor. Perdão é o último testamento de Jesus Cristo da cruz para todos os cristão (cf. Lc 23,34). O perdão é a expressão máxima do amor.

A palavra “perdão” provém do latim “per”: intensificação e “donare”: doar, dar. Assim o perdão é um ato de doação, tanto para aquele que o recebe como para aquele que o brinda. Ambos se enriquecem com o benefício da paz; ambos se libertam do cárcere que os aprisiona. Por isso, o perdão é seguir avançando; é amparo e encontro. O perdão revela a graça. O ato de perdoar é um ato da misericórdia de Deus que apaga os pecados (Am 7; Ex 32,12.14; Jr 26,19; Ez 36,29.33). Perdoar é estar com Deus que perdoa sem medida. Perdoar é estar do lado de Deus.

Quando a comunidade cristã primitiva chegou a compreender que Jesus queria a criação de uma sociedade universal, unida através do amor fraterno, foi capaz de romper todos os distanciamentos que histórica e culturalmente separavam os seres humanos. Para os discípulos nãolugar para distinções (cf. At 10,34). Eles que sofrem as perseguições (Mt 5,10-12) não podem deixar-se dominar pelo ódio. Segundo Jesus no lugar do ódio, o desejo do bem (amor, oração) deve ocupar o coração do cristão. Para isso o cristão tem que estar bem unido a Cristo. Sua força para perdoar está em Jesus Cristo que perdoa até os que O crucificaram: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34). Aqui Jesus intercede pelos inimigos apesar da maldade que os inimigos lhe causaram. Jesus não nega a culpa cometida pelos inimigos, mas busca uma solução não violenta. “Jesus viveria e morreria em vão, se não conseguisse nos ensinar a ordenarmos a nossa vida pela eterna lei do amor (Mahatma Gandhi: GANDHI E A NÃO VIOLÊNCIA, p.50 Vozes, 1967).

Amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos maltratam e perseguem. Deste modo sereis os filhos de vosso Pai do céu, pois ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos”. Como é difícil amar os que destruíram ou acabaram com nossa vida ou nossa família, e ainda rezar por eles!? No nosso inconsciente, como seres humanos, sempre resta algum sentimento vingativo. Trata-se de um sentimento com o intuito de acabar com a vida dos que nos fizeram algum mal, mas, infelizmente, resulta em acabar com a nossa própria vida por causa do mesmo sentimento: “O ódio que se opõe ao ódio consegue apenas aumentar a superfície e também a profundeza do ódio” (Mahatma Gandhi). Repito: O ódio é igual a beber o veneno e espera-se que o outro morra. Mas aquele que bebe o veneno é que morre. Daí lança-se a pergunta: vale a pena seguir o mesmo caminho (violência, vingança)? Não se trata de acariciar a cabeça de quem pratica a violência. Trata-se de procurar alguma alternativa. Nisto percebemos que ser cristão é o grande desafio diariamente. Todo dia devemos renovar o nosso ser de cristãos ao contemplar permanentemente Jesus Cristo, o amor misericordioso de Deus feito homem.

As sociedades humanas ao longo da história foram construídas a partir do princípio de interesses de grupos determinados que excluam todos aqueles que são vistos como ameaça à existência própria de ditos grupos. A comunidade cristã se encontra também a cada passo com pessoas que ameaçam sua existência. O inimigo está no horizonte de sua existência e frequentemente, esse inimigo pode ser qualificado de perseguidor. No entanto, para ela Jesus propõe uma nova lei que é a culminação de todas as contraposições mencionadas previamente. O “mandamento de amar” a todos deve converter-se em marca distintiva da comunidade de seguidores de Cristo, capaz de expressar sua originalidade na história humana, pois eles são filhos de Deus no Filho Jesus Cristo.  Ser filhos de Deus”, segundo Jesus, significa parecer-se a Ele ou com Ele no modo de fazer e de viver.

Por isso, as palavras de Jesus hoje são, na verdade, reveladoras: fazei o bem e orai. A fraternidade universal é a consequência de outra realidade essencial: a paternidade universal de Deus. O amor sem fronteiras que Deus nos pede é o que Ele mesmo vive,pois ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos”. Deus ama a todos os homens. Ama até aos que não O amam. Ele derrama seus benefícios, seu sol formoso e sua chuva sobre todos. Assim Jesus nos diz que quando deixamos de amar alguém significa que recusamos alguém que Deus ama. Aquele que consideramos como nosso inimigo é amado por Deus. Nosso ou meu inimigo é um filho de Deus. Não se trata de um formoso ideal humanista. Deus é a única referência. Amar aqui significa querer o bem do outro independente daquilo que o outro faz contra mim. Para fazer isso é preciso ter muita maturidade cristã e espiritual.

Amar as pessoas que nos amam, que se parecem a nós, é natural. Mas Deus nos pede mais. Deus nos pede que ampliemos nosso coração muito além do círculo de nossos amigos, de nossos parentes, de nosso âmbito. Isto será possível somente na medida em que todos os seres humanos chegarem a se amar e a se perdoar por ter consciência de que todos são os filhos e filhas do mesmo Pai celeste como rezamos diariamente o Pai Nosso (Mt 6,9-15). Se todos são filhos e filhas do Pai celeste, então, maltratar um ser humano é maltratar o Pai do céu, pois Deus também está no próximo (cf. Mt 25,40.45) e o próximo, como eu, é templo do Espírito Santo (cf. 1Cor 3,16-17).

"Sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito", assim Jesus concluiu. A perfeição é o horizonte de nossa existência. Como horizonte ela não é alcançável, mas serve como guia para nossa existência diária. “O fraco jamais perdoa: o perdão é uma das características do forte”. (Mahatma Gandhi).

Para pensar: “As três coisas mais difíceis do mundo são: guardar um segredo, perdoar uma ofensa e aproveitar o tempo.” (Benjamin Franklin).

P. Vitus Gustama,svd

V Domingo Da Quaresma, Ano "A", 22/03/2026

PERMANECER EM CRISTO JESUS SIGNIFICA JAMAIS CONHECERÁ A MORTE, POIS ELE É A RESSURREIÇÃO E A VIDA V DOMINGO DA QUARESMA DO ANO “A” I Lei...