segunda-feira, 2 de março de 2026

04/03/2026- Quarta-feira Da II Semana Da Quaresma

SER VOZ DE DEUS E SERVIR A CRISTO NO IRMÃO

Quarta-Feira da II Semana da Quaresma

Primeira Leitura: Jr 18,18-20

Naqueles dias, 18 disseram eles: “Vinde para conspirarmos juntos contra Jeremias; um sacerdote não deixará morrer a lei; nem um sábio, o conselho; nem um profeta, a palavra. Vinde para o atacarmos com a língua, e não vamos prestar atenção a todas as suas palavras”. 19 Atende-me, Senhor, ouve o que dizem meus adversários. 20 Acaso pode-se retribuir o bem com o mal? Pois eles cavaram uma cova para mim. Lembra-te de que fui à tua presença, para interceder por eles e tentar afastar deles a tua ira.

Evangelho: Mt 20,17-28

Naquele tempo, 17enquanto Jesus subia para Jerusalém, ele tomou os doze discípulos à parte e, durante a caminhada, disse-lhes: 18Eis que estamos subindo para Jerusalém, e o Filho do Homem será entregue aos sumos sacerdotes e aos mestres da Lei. Eles o condenarão à morte, 19e o entregarão aos pagãos para zombarem dele, para flagelá-lo e crucificá-lo. Mas no terceiro dia ressuscitará”. 20A mãe dos filhos de Zebedeu aproximou-se de Jesus com seus filhos e ajoelhou-se com a intenção de fazer um pedido. 21Jesus perguntou: “Que queres?” Ela respondeu: “Manda que estes meus dois filhos se sentem, no teu Reino, um à tua direita e outro à tua esquerda”. 22Jesus, então, respondeu-lhes: “Não sabeis o que estais pedindo. Por acaso podeis beber o cálice que eu vou beber?” Eles responderam: “Podemos”. 23Então Jesus lhes disse: “De fato, vós bebereis do meu cálice, mas não depende de mim conceder o lugar à minha direita ou à minha esquerda. Meu Pai é quem dará esses lugares àqueles para os quais ele os preparou”. 24Quando os outros dez discípulos ouviram isso, ficaram irritados contra os dois irmãos. 25Jesus, porém, chamou-os, e disse: “Vós sabeis que os chefes das nações têm poder sobre elas e os grandes as oprimem. 26Entre vós não deverá ser assim. Quem quiser tornar-se grande, torne-se vosso servidor; 27quem quiser ser o primeiro, seja vosso servo. 28Pois, o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate em favor de muitos”.

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A Presença Do Justo Incomoda Os Desonestos Que Querem Manter Sua Desonestidade

Vinde para conspirarmos juntos contra Jeremias; um sacerdote não deixará morrer a lei; nem um sábio, o conselho; nem um profeta, a palavra. Vinde para o atacarmos com a língua, e não vamos prestar atenção a todas as suas palavras”. São palavras da conspiração dos judeus contra o profeta Jeremias.

A Primeira leitura faz parte de uma seção, no livro de Jeremias, chamada, Confissões de Jeremias. Vários textos do livro de Jeremias nos esclarecem a respeito das intrigas contra Jeremias: Jr 11,8; 12,6; 11,19-20; 12,3; 11,20b-23 (É preciso ler estes textos nesta ordem).

Os inimigos do profeta julgam que a morte de Jeremias (que eles planejam) não será prejudicial, pois ainda resta muita “palavra” no povo pela presença dos sacerdotes e dos sábios institucionais que falam o que lhes agrada, mas são os falsos profetas que fazem carreira. Consequentemente, segundo eles, as palavras de Jeremias (verdadeiro profeta) não seriam necessárias para eles: “Vinde para conspirarmos juntos contra Jeremias; um sacerdote não deixará morrer a lei; nem um sábio, o conselho; nem um profeta, a palavra. Vinde para o atacarmos com a língua, e não vamos prestar atenção a todas as suas palavras”. Os inimigos querem tirar para sempre de seu convívio Jeremias que denuncia sua desonestidade (pecados). Trata-se de uma perseguição mortal contra o profeta. O golpe da língua é uma forma de falar sobre o golpe homicida: “Vinde para o atacarmos com a língua, e não vamos prestar atenção a todas as suas palavras”. Eles querem condenar Jeremias diante da opinião pública como sacrilégio, pois anunciava coisas contra os interesses da nação eleita por Deus. É a mesma acusação que os contemporâneos de Jesus fizeram contra Ele.

Jeremias havia denunciado os pecados do povo e especialmente, os pecados dos chefes do povo, dos representantes oficiais da lei religiosa. Era o dever de Jeremias como profeta e o fazia em nome de Deus para suscitar a conversão.

Mas em vez de se converter, os inimigos querem matar o profeta. Agora Jeremias se vê numa perseguição. Os inimigos acusam Jeremias como “perturbador da ordem” e começam a espiá-lo a fim de surpreender o profeta numa acusação para acabar com ele. Eles podem acabar com o profeta, mas jamais podem acabar com o profetismo, pois Deus continua a mandar seus profetas para despertar a consciência do povo sobre seus pecados a fim de voltar a se converter.

Diante dessa perseguição, o profeta Jeremias se dirige a Deus com esta oração: “Atende-me, Senhor, ouve o que dizem meus adversários. Acaso pode-se retribuir o bem com o mal? Pois eles cavaram uma cova para mim. Lembra-te de que fui à tua presença, para interceder por eles e tentar afastar deles a tua ira”. Esta oração é o primeiro grito do justo, perseguido em nome da missão que Deus lhe confia. Jeremias não quer se vingar com as próprias mãos, mas ele invoca a lei do talião diante do tribunal de Deus (Jr 18,23).

É normal que o profeta Jeremias pense na vingança porque ele pertence a uma religião que ainda crê na retribuição temporal. Só o NT pode ajudar a ultrapassar este ponto de vista (cf. Mt 5,43-48).

Através do Batismo recebemos a missão profética ao ser colocado o óleo de crisma na nossa fronte: “Que o Espirito Santo consagre....... (Nome) com este óleo para que participe da missão de Cristo, sacerdote, profeta e rei…”. Mas não é simples aceitar as consequências do cumprimento fiel de nossa missão profética. Há duas coisas que temos que fazer na missão profética. Por um lado, temos a missão de denunciar o povo seus delitos. Mas, por outro lado, temos que propor caminhos de salvação. É claro que muitos se sentem afetados em seus interesses, carregados de maldades e de injustiças e consequentemente eles tentam acabar com nossa vida. No entanto, não por isso que permaneçamos calados. Ficar calado pode expressar uma atitude sábia. Mas pode também ser interpretado como conivência. Mas o Senhor Jesus Cristo nos ensina que há que orar por nossos inimigos, por aqueles que nos perseguem e amaldiçoam. Sejamos nós os primeiros em abris nosso coração a Deus. Deixemos nossos caminhos de maldade, de injustiça e de desonestidade. Reconheçamos humildemente nossos pecados e voltemos ao Senhor, rico em misericórdia e perdão. Ser Voz De Deus é não compactuar com o mal e maldade de qualquer pessoa e instituição.

Servir Os Outros Para Salvá-los

Vós sabeis que os chefes das nações têm poder sobre elas e os grandes as oprimem. Entre vós não deverá ser assim. Quem quiser tornar-se grande, torne-se vosso servidor; quem quiser ser o primeiro, seja vosso servo”. São palavras do Senhor para qualquer cristão em qualquer lugar e tempo.

O Evangelho deste dia fala do anúncio da paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo na sua subida para Jerusalém (vv. 17-19), por um lado, e a reação dos discípulos diante do mesmo, especialmente dos irmãos Tiago e João (vv. 20-28), por outro lado. Em nove lugares diferentes dos evangelhos encontramos esse anúncio: Mt 16,21-23; 17,22-23; 20,17-23; Mc 8,31-33; 9,30-32; 10,32-34; Lc 9,22. 44-45; 18,31-33.

Notamos que Jesus não somente anuncia a sua morte, mas também a sua ressurreição. A vida em sintonia com a vontade de Deus não termina na cruz e sim na ressurreição ou na sua glorificação. Deus aprova com a glorificação todos aqueles que passarem por provações na vivência da vontade de Deus. Encarar as cruzes como consequência da vida vivida de acordo com os valores vividos por Cristo é sinal de nosso amor a Deus e ao próximo, e a ressurreição é o amor que Deus nos mostra por tudo isso ou seja, a ressurreição é a resposta de Deus para quem vive de acordo com os ensinamentos de Cristo que se resumem no amor a Deus e ao próximo. Em outras palavras, com a ressurreição Deus quer dizer a cada um de nós, neste contexto: “Você está aprovado, pois amou muito!”.

Ao ouvir o anuncio de Jesus sobre sua própria morte, os irmãos João e Tiago logo querem pedir a Jesus postos importantes para poder mandar mais. O homem sempre tem desejo de reconhecimento. Por isso, procura constantemente algum motivo para ser visto pelos homens e reduzir a própria existência a uma procura de um puro aparecer, à idolatria (culto de imagem). Na ambição desenfreada, em vez da Glória divina que salva, opta-se pela vâ-glória que termina na perdição eterna.

Mas Jesus nunca deu espaço para o egoísmo e para o poder mundano no seu coração. Sua existência é um serviço generoso para libertar os homens de qualquer tipo de escravidão. Pelo bem do homem e em nome do bem praticado para a salvação do homem Jesus aceitou ser crucificado e morto. Porém, Deus o ressuscitou. O mal não é capaz de enterrar o bem. O ódio é incapaz de eliminar o amor, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). Por isso, o bem ou a bondade é o investimento que nunca falha, pois tudo isto tem característica divina. Tudo que é divino não conhece a morte. Jesus nunca deu espaço para o egoísmo e para o poder mundano no seu coração. Sua existência é um serviço generoso para libertar os homens de qualquer tipo de escravidão.                 

Contrastando com Jesus é a atitude dos filhos de Zebedeu: João e Tiago. Ambiciosos sem limite querem garantir um lugar de destaque no Reino do Messias para receberem honrarias e serem servidos. Aqui se encontram dois tipos de glória: a glória do Filho do Homem e a glória dos homens. A glória do Filho do Homem consiste em servir e em dar a vida para o próximo. A glória dos homens consiste no possuir, no ser servido e possivelmente consiste em dar a morte ou causar a morte em nome da glória mundana. Trata-se da oposição entre o egoísmo e o amor. O amor se perde para ganhar a vida e o egoismo, aparentemente, ganha para perder a vida. Paradoxalmente, pode-se dizer que o amor vence com a própria derrota e o egoismo perde com a própria vitóra. A glória mundana quer ser reconhecida pelos homens, mas é ignorada por Deus. O amor e o poder não se combinam. O verdadeiro poder que torna o homem semelhante a Deus é o amor, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). E o amor serve a todos os homens em vez de oprimir os homens. Para o Senhor a verdadeira grandeza consiste no serviço por amor. 

Os dois discípulos são tentados para cair na ambição mundana. A ambição em si não é negativa. Dentro do seu limite, a ambição pode servir de estímulo para nobres ações e para melhorar uma condição humilde. A ambição se transformará em vício quando a afirmação de si mesmo for exagerada e os meios para atingir a glória forem desonestos. O ambicioso, quando dominado pelo vício, não suporta competidores ou rivais. Ele gosta de humilhar os outros até eliminá-los em nome de sua ambição. Um viciado em ambição dificilmente se preocupa com ser justo. Ele utiliza os outros como escada sobre os quais ele pisa para chegar à própria afirmação ou glória. Quem é ambicioso, é dificilmente se preocupará com ser justo. Perante a necessidade de alcançar o que deseja, ele só enxerga uma alternativa: humilhar os outros e eliminá-los. Os outros já não são pessoas que merecem respeito, mas são degraus que só servem para ser galgados no intuito de ele atingir o vértice do poder. Uma pessoa de coração nobre não sai à procura das honras e dos aplausos, mas do bem, e ela reconhece o bem onde estiver.

Na cabeça dos dois filhos de Zebedeu têm apenas ideais de grandeza, postos a serviço do próprio egoísmo. Não lhes passa pela cabeça sacrificarem-se pelos outros, mas exigir que os demais se sacrifiquem por eles.

Diante da ambição dos filhos de Zebedeu Jesus dá esta lição para todos os seus discípulos e todos os cristãos de todos os tempos e lugares: “Quem quiser tornar-se grande, seja vosso servidor”. Para os discípulos de Jesus e para qualquer cristão existe uma grandeza reservada: servir com gratidão e gastar tudo que se tem (talentos, riquezas, cargos sociais etc.) para resgatar a vida do irmão. Servir no sentido cristão é igual a uma vela que se consome iluminando.

Quem quiser tornar-se grande, seja vosso servidor”. Atrás destas palavras Jesus quer nos alertar que existe um grande risco de transformar nossa missão, nossos trabalhos, nossaliderança” na comunidade/Igreja num exercício de poder e de ambição. Daí sairá a frase: “Quem manda aqui sou eu!”. Este tipo de frase na Igreja de Cristo é a expressão de um conceito de uma eclesiologia totalmente fora daquilo que Jesus quer: Quanto a vós, nunca vos deixeis chamar de Mestre, pois um é vosso Mestre e todos vós sois irmãos”. (Mt 23,8). A comunidade cristã é uma comunidade de irmãos. Como irmãos um deve se preocupar com outro; um deve cuidar do outro e todos se protegem. Trata-se de uma família onde ninguém é superior ao outro. Consequentemente, na comunidade cristã, a autoridade e a responsabilidade, inclusive a fraternidade devem ser sinônimos de serviço. Na comunidade dos que seguem os ensinamentos de Cristo não tem cabimento o domínio, o autoritarismo, a ambição sem limite e a vontade de poder e de exibicionismo. Se alguém tiver alguma ambição na comunidade é porque está querendo tirar alguma vantagem pessoal em vez de pensar no bem comum. Aquele que serve aos outros em função do bem dos outros é grande no Reino de Deus. Porque se Deus é o Bem absoluto, logo aquele que pratica o bem é de Deus, tem algo de Deus nele e por isso, está com Deus ou do lado de Deus.

Vós sabeis que os chefes das nações têm poder sobre elas e os grandes as oprimem. Entre vós não deverá ser assim. Quem quiser tornar-se grande, torne-se vosso servidor; quem quiser ser o primeiro, seja vosso servo”. A referência a “os chefes das nações” não pode menos que ser interpretada como referência ao império romano pelos leitores do evangelho. Porém o que interessa é o contraste. O Filho do Homem (Jesus) e os chefes das nações atuam de modos contrapostos e refletem duas atitudes contrapostas. Os chefes atuam “contra” e um exercício de poder que não seja em benefício do povo é pervertido. A atitude de serviço é exatamente contraposta: está em favor do povo. A diaconia é algo desprezado entre os chefes das nações.  O paralelismo de dois grupos e antítese de ambos reforça o contraste: chefes-dominam; os grandes-oprimem (grupo pervertido). Cristo propõe o contrário: ser grande-servidor; ser primeiro-servo.

A comunidade de Jesus deve ser constituída pelas pessoas capazes de abandonar definitivamente toda prática egoísta onde tudo se compra e se vende, até a consciência, em nome da vantagem pessoal. A opção pelo Reino equivale a uma opção pela humanização e fraternização. Tudo isto requer o abandono de todo tipo de ambição e de poder para deixar o poder da graça que salva operar na nossa vida e na nossa convivência. Assim, seremos o sacramento de Deus neste mundo.

Enquanto Jesus subia para Jerusalém, ele tomou os doze discípulos à parte...”. A Quaresma é também uma “subida para Jerusalém”. É um caminho para a cruz. Nossa vida deve ser uma subida contínua até Deus. Podemos até fazer algumas paradas, mas jamais uma paralisia.

Em cada Eucaristia comungamos o Corpo de Cristo. Ao comungar o Corpo do Senhor estamos querendo proclamar a todos que queremos servir e praticar o bem, que queremos viver como Cristo viveu, que queremos mergulhar no amor sem limite de Jesus Cristo. Sem a sintonia com a vida de Cristo, a Eucaristia da qual participamos, supostamente, carecerá de sentido.                 

Vós não sabeis o que estais pedindo”, diz Jesus aos filhos de Zebedeu. Também nós pedimos muitas coisas a Deus, sem que de fato, “saibamos” o significado de nossos pedidos.

Quem quiser tornar-se grande, torne-se vosso servidor; quem quiser ser o primeiro, seja vosso servo. Pois, o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate em favor de muitos”. A vida é dada a nós e nós a merecemos dando-a (Rabindranath Tagore). Nossa vida não é simplesmente uma série de dias que vão passando um dia atrás do outro dia, e sim que todos os dias de nossa vida são um dom de Deus, não somente para nós, mas sobretudo um dom de Deus para os demais, para aqueles que vivem conosco. Aproveitemos cada dia de nossa vida para o bem de todos. Nisto consiste nossa felicidade.

P. Vitus Gustama,svd

domingo, 1 de março de 2026

03/03/2026-Terça-feira Da II Semana Da Quaresma

VIVER NO AMOR FRATERNO E NA JUSTIÇA É O FRUTO MAIS VISÍVEL DE UMA CONVERSÃO PROFUNDA

Terça-Feira da II Semana da Quaresma

Primeira Leitura: Is 1,10.16-20

10 Ouvi a palavra do Senhor, magistrados de Sodoma, prestai ouvidos ao ensinamento do nosso Deus, povo de Gomorra. 16 Lavai-vos, purificai-vos. Tirai a maldade de vossas ações de minha frente. Deixai de fazer o mal! 17 Aprendei a fazer o bem! Procurai o direito, corrigi o opressor. Julgai a causa do órfão, defendei a viúva. 18 Vinde, debatamos — diz o Senhor. Ainda que vossos pecados sejam como púrpura, tornar-se-ão brancos como a neve. Se forem vermelhos como o carmesim, tornar-se-ão como lã. 19 Se consentirdes em obedecer, comereis as coisas boas da terra. 20 Mas se recusardes e vos rebelardes, pela espada sereis devorados, porque a boca do Senhor falou!

Evangelho: Mt 23,1-12

Naquele tempo, 1Jesus falou às multidões e aos seus discípulos e lhes disse: 2Os escribas e os fariseus estão sentados na cátedra de Moisés. 3Por isso, deveis fazer e observar tudo o que eles dizem. Mas não imiteis suas ações! Pois eles falam e não praticam. 4Amarram pesados fardos e os colocam nos ombros dos outros, mas eles mesmos não estão dispostos a movê-los, nem sequer com um dedo. 5Fazem todas as suas ações para serem vistos pelos outros. Eles usam faixas largas, com trechos da Escritura, na testa e nos braços, e põem na roupa longas franjas. 6Gostam de lugar de honra nos banquetes e dos primeiros lugares nas sinagogas. 7Gostam de ser cumprimentados nas praças públicas e de serem chamados de Mestre. 8Quanto a vós, nunca vos deixeis chamar de Mestre, pois um é vosso Mestre e todos vós sois irmãos. 9Na terra, não chameis a ninguém de pai, pois um é vosso Pai, aquele que está nos céus. 10Não deixeis que vos chamem de guias, pois um é vosso Guia, Cristo. 11Pelo contrário, o maior dentre vós deve ser aquele que vos serve. 12Quem se exaltar será humilhado, e quem se humilhar será exaltado”.

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A Verdadeira Conversão Consiste Na Prática Do Bem e Da Justiça

O texto da Primeira Leitura é um dos oráculos do profeta Isaías.Este oráculo remonta aos primeiros anos do ministério do profeta Isaías e ataca, no colorido estilo de Amós (Am 5, 14-21), contra a hipocrisia religiosa do povo, isto é, contra a religião formalista, externa e vazia, sem amor fraterno, contra o culto sem justiça. O culto legítimo não pode coexistir com a injustiça. O culto verdadeiro tem a ver com a prática da justiça. É aquela religião que caiu no culto literal da fórmula, do rito e do sinal vazios, sem fé e sem amor. Além disso, essas fórmulas religiosas eram usadas para oprimir os necessitados. Do mesmo modo, no Evangelho de hoje, Jesus condena duramente os fariseus que “dizem e não fazem” (hipocrisia religiosa). Trata-se da condenação pronunciada por Jesus uns séculos depois do profeta Isaías. Dai a importância da conversão. E o convite à conversão não é só e simplesmente a palavra de um homem. Tampouco é uma pregação de ordem moral. O convite à conversão procede de Deus. Os comportamentos ou as condutas interessam a Deus.

 Ouvi a palavra do Senhor, magistrados de Sodoma, prestai ouvidos ao ensinamento do nosso Deus, povo de Gomorra. Lavai-vos, purificai-vos. Tirai a maldade de vossas ações de minha frente. Deixai de fazer o mal! Aprendei a fazer o bem! Procurai o direito, corrigi o opressor. Julgai a causa do órfão, defendei a viúva”. Uma das características da Quaresma é penitencial (conversão). Qando se fala da conversão é porque há pecado cometido por nós. Este tema sempre aparece nas leituras durante a Quaresma, como lemos nas leituras de hoje.

O pecado é sempre um afastamento; é um desandar. Com o pecado se estabelecem distâncias, se abandona a casa paterna. A conversão, a oração e as obras de caridade elevam, ao contrário, a terra ao céu. Por Jesus sabemos que o Pai continua nos esperando nossa volta: conversão, como o pai  que espera a volta do filho pródigo. A conversão implica um duplo movimento. O movimento do pecador que se volta para Deus. Este movimento cria a liberdade. E o movimento de Deus que abre o caminho do retorno. O movimento de Deus que possibilita nossa volta chama-se a Graça. É voltar a fazer o bem e viver conforme a justiça de Deus que consiste no amor mútuo como irmãos.

A Primeira Leitura de hoje nos enfatiza que fazer o bem e buscar a justiça, tornando a própria a causa do pobre são manifestações de que o homem realmente deseja retornar ao Senhor, arrependido de seus pecados. A conversão profunda faz nascer um amor libertador. O amor que se libera para o bem dos outros é o amor que se mantém.

Este oráculo, que lemos na Primeira Leitura de hoje, remonta aos primeiros anos do ministério do profeta Isaías. Neste oráculo, o profeta Isaías ataca a hipocrisia religiosa do povo e de seus dirigentes. O povo pensa que vai dar muito prazer a Deus quando lota de gente os átrios de seu templo com oferendas tão opulentas. Mas a impureza moral daqueles que oferecem os sacrifícios é tão repugnante/nojenta que Deus não pode tolerar essa religião sem fé. Trata-se de um oráculo contra a religião formalista, externa e vazia, sem amor. Este povo podre é representado por duas cidades, Sodoma e Gomorra, que se aproveitam das fórmulas religiosas para oprimir e explorar os necessitados.

O profeta exorta o povo a mudar de conduta e assinala em que consiste a verdadeira religião: em obras de amor sincero que se expressa na prática do bem e da justiça, e na defesa do oprimido, como lemos nos textos de Isaías nos dias da semana de Cinzas: “Lavai-vos, purificai-vos. Tirai a maldade de vossas ações de minha frente. Deixai de fazer o mal! Aprendei a fazer o bem! Procurai o direito, corrigi o opressor. Julgai a causa do órfão, defendei a viúva”, assim escreveu o profeta. A verdadeira penitência consiste na procura do bem e da justiça. Caso contrário, o culto careceria de sentido. A boa relação com Deus se mede pela boa relação com o próximo. O meu tratamento com o próximo será usado como critério para o meu julgamento final (cf. Mt 25,31-46). Por isso, há uma possibilidade de Deus aceitar o culto: que o povo se converta acolhendo os pobres nas suas necessidades que são representados pelos órfãos e viúvas.

Não estamos longe da atitude do povo da época do profeta Isaías. Temos o perigo de que nosso culto a Deus pode se situar apenas no plano de um religião sem fé. O rito, o culto deve traduzir sempre a conversão pessoal e a da comunidade.

A prática do amor fraterno é a essência da religião ou o espírito da religião. Uma religião sem o compromisso com o amor fraterno e sem o compromisso de uma conduta coerente é um ópio que adormece a própria consciência e um instrumento que engana os outros. Deus se importa menos com a religião que seus adeptos praticam do que com o amor fraterno que eles vivem (cf. Mt 25,31-46). Fiquemos atentos para que nossa prática religiosa não seja mais importante do que o próprio Deus e nosso próximo.

É Preciso Ter Coerência Entre Fé e Vida

Os escribas e os fariseus estão sentados na cátedra de Moisés. Por isso, deveis fazer e observar tudo o que eles dizem. Mas não imiteis suas ações! Pois eles falam e não praticam”, disse Jesus.

A “cátedra de Moisés” é o lugar onde os profetas se sentavam para ensinar segundo aparece em Dt 18,15.18. Este símbolo da tradição judaica, de onde foram dadas as leis que o povo assumiu como mandadas por Deus, foi usurpado pelos poderosos para acomodar as regras à própria vontade e não conforme a vontade de Deus. O que menos importava para os manipuladores da Lei era a vida do povo.

Será que os nossos governantes também menos importam a vida do povo para pensar somente na defesa do próprio interesse egoísta? Será que os escribas e os fariseus da época de Jesus continuam vivendo entre nós? Quem pode, como Jesus, gritar em nome do povo sofredor para os manipuladores da vida do povo?

No evangelho de hoje, Jesus condena duramente os fariseus “que dizem e não fazem”. Nossas palavras não podem ultrapassar nossa vida ou nossas ações para não nos tornarmos hipócritas. O que menos importava para os manipuladores da Lei (os escribas e fariseus) era a vida do povo. A grandeza na nova forma de vida inaugurada por Jesus se baseava no serviço, especialmente aos pobres, aos simples e aos que não tinham nenhum privilegio, pois deles não se esperava nada de troca: “O maior dentre vós deve ser aquele que vos serve”. “Prestar serviço sem humildade é, ao mesmo tempo, egoísmo e egocentrismo” (Mahatma Gandhi). O objetivo da crítica de ambos (Isaias e Jesus) é provocar a conversão nos seus ouvintes. Uma religião sem fé e sem amor não leva ninguém para o céu.

Sem dúvida nenhuma que o capítulo 23 do Evangelho de Mateus é uma das páginas mais violentas do Novo Testamento. Quem o fica impressionado, sobretudo, com a linguagem dura de Jesus. Neste capítulo, o evangelista Mt inicia com uma introdução (vv.1-12) para um extenso discurso que Jesus pronuncia contra os líderes religiosos de Israel da sua época (vv.13-36) como consequência de um longo enfrentamento com eles (Mt 21-22). Estes ataques completam a obra dos profetas contra a falsa religiosidade. As palavras são duras porque o perigo que é denunciado é grave. E a validade da denúncia profética que ouvimos dos lábios de Jesus, neste capítulo, não perde sua atualidade, pois seu alcance é universal. O “fariseu” a quem Jesus dirige suas palavras duras e denúncia é personagem típico, representa um paradigma de comportamento oposto ao Evangelho.

Uma religião que não liberta as pessoas, mas somente está cheia de regras por regras, não é uma verdadeira religião. A intenção de Jesus é chamar a atenção para um perigo que ronda toda comunidade cristã: o risco de esconder-se atrás de normas e regras, atrás dos preceitos, o risco do abuso espiritual, de exercer o poder sobre os outros sob um pretexto religioso, o risco de usar a moralização para desviar a atenção das fraquezas humanas.

A religião real é na essência uma relação interior entre Deus e o homem. As regras são necessárias, se forem instrumentos para facilitar este relacionamento a fim de alcançar a graça e a misericórdia de Deus.

É verdade que a experiência interior precisa achar expressão externa, porém, esta expressão exterior deve ser natural, sem exibicionismo religioso. Sabemos que o exibicionista é uma pessoa de personalidade superficial, fraca e sem ideais sólidos. A norma de seu comportamento é a ostentação de si próprio. Sua preocupação é colocar-se em evidencia, ser notado e elogiado. Toda pessoa possui algum lado bom, e ninguém consegue resistir à tentação de considerar-se mais do que vale e de parecer mais do que é. Mas um exibicionista exagera tudo. Ele não quer ser bom, mas quer parecer bom. Por isso, ele fica com um coração vazio. Por esta razão, Jesus quer que abandonemos este comportamento para não nos tornarmos pessoas vazias, mas pessoas cheias de espírito de fraternidade e de igualdade.

Por isso, outro ponto que Jesus condena é o autoritarismo religioso e o uso da religião em função do prestigio e do poder pessoal. Jesus pede aos cristãos, seus seguidores que sejam irmãos, e que se constituam como comunidades igualitárias e evitem os títulos e as dependências: “Quanto a vós, nunca vos deixeis chamar de mestre, pois um é vosso mestre e todos vós sois irmãos” (Mt 23,8). É bom lembrar que o primeiro pecado, modelo de todos os outros, é contado na Bíblia como fruto da fome de poder e vaidade: vinha do desejo de competir até com Deus (cf. Gn 3,1ss).        

Além do exibicionismo e o autoritarismo religioso, Jesus critica também a hipocrisia dos fariseus e dos escribas. A palavra hipócrita designava no mundo grego antigo o ator que, com uma máscara e um disfarce, assumia uma personalidade alheia. O ator representa um papel, não o que ele é inteiramente. Fingia diante do público ser outra pessoa frequentemente sem nada a ver com a sua própria personalidade, porque trabalhava para a plateia. Ele não vivia sua própria identidade.

A hipocrisia consiste em enganar os outros através dos gestos religiosos ou das prerrogativas sacrais a quem não se tem direito. Em outras palavras, tem-se a aparência de um santo, mas por trás há podridão. Aparentemente, o hipócrita presta culto a Deus, mas que, na verdade, ele procura várias maneiras para que ele esteja em destaque sempre, e não Deus. Deste modo ele toma o lugar de Deus atribuindo a si mesmo um poder que não merece (Mt 23,8-10; cf. Mt 15,3-14). Em vez de conduzir as pessoas para Deus, o hipócrita faz com que as pessoas estejam ao serviço de seu egoísmo. O hipócrita põe sua ciência teológica a serviço de seu egoísmo. Por causa do desejo de querer estar sempre em destaque o hipócrita acaba desviando o sentido das práticas religiosas. Segundo o Evangelho de hoje hipócrita é aquele que diz, mas não faz. É aparentar ser bom, sem sê-lo. É uma incoerência de vida. É uma duplicidade, um fingimento. Ele extremamente se apresenta como um homem religioso, alguém que faz questão de proferir palestras bonitas sobre o amor, sobre a paz, sobre o respeito para com os outros, mas quando ninguém o viver assim.

A condenação da hipocrisia religiosa por parte de Jesus é um aviso para todos nós cristãos. A hipocrisia é uma tentação permanente ao longo da história da Igreja. Ela está presente nos sacerdotes, bispos e leigos. Todo cristão é candidato a este sistema de falsidade que se manifesta de múltiplas maneiras: na dissociação de crenças e conduta, no divórcio entre a e a vida, no orgulho religioso de quem se crê bom e santo e despreza os outros porque falham; em contentar-se com a estrita observância legal, esquecendo a conversão do coração. A dignidade da pessoa humana não consiste em parecer bom, mas em ser bom.      

Quando temos entre as mãos os corações daqueles que queremos melhores e os sabemos atrair com a mansidão de Cristo, percorremos metade do nosso caminho apostólico. Ao perceberem isto, os corações deles se tornam abertos, como terra boa, onde podemos semear a semente da Palavra de Deus. A Igreja nunca deve esquecer-se de que foi instituída para servir. O serviço é o único critério da grandeza para um cristão segundo o evangelho (Mt 23,11). O próprio Cristo é o exemplo disso (cf. Jo 13,15). Para se manter nessa missão a Igreja deve converter-se permanentemente. Segundo o profeta Isaias (cf. Is 1,10.16-20) o âmago da penitência está na procura do bem e da justiça, da retidão e da honestidade, da caridade e da solidariedade.

A Palavra de Deus proclamada hoje nos chama à conversão que se traduz no serviço despretensioso. Viver em estado permanente de conversão é a lei de crescimento para qualquer pessoa que acredita em Deus. Quem não reconhecer seus pecados ata-os às costas como uma mochila e põe em evidência os pecados dos outros. Não por diligência, mas por inveja. Acusando o próximo, procura esquecer a si mesmo (Santo Agostinho. In ps. 100,3). O móvel da conversão não é tanto a ameaça de castigo ou de perder a salvação, quanto a fascinação de penetrar na vida do amor trinitário divino. A conversão conduz as pessoas juntas à maturidade espiritual, que se reflete em sua aversão ao mal e sua atração pelo bem.

Se quisermos mostrar nossa fé aos outros não digamos em quantas verdades acreditamos; precisamos mostrar aos outros como vivemos o amor fraterno. Não nos transformamos em crentes ou fieis quando mudamos apenas nossa forma de pensar, e sim quando mudamos nossa forma de viver na fraternidade. Quando deixamos de acreditar em Deus com nossa forma de viver, começaremos a venerar muitos ídolos e explorar e oprimir os mais fracos da sociedade.

Se nosso Deus só vende seguros para depois da morte e não tem respostas para esta vida, muitos não vão querer partilhar de nossa fé. Creio que muitos ateus não se opõem a Deus e sim se opõem às caricaturas de Deus que os crentes ou fieis lhes mostram.             

P. Vitus Gustama,svd

04/03/2026- Quarta-feira Da II Semana Da Quaresma

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