sábado, 4 de abril de 2026

Domingo Da Páscoa, 05/04/2026

CORRER AO ENCONTRO DO SENHOR RESSUSCITADO PARA SER SALVO

DOMINGO DA PÁSCOA

Primeira Leitura: At 10,34a.37-43

Naqueles dias, 34aPedro tomou a palavra e disse: 37“Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do batismo pregado por João: 38como Jesus de Nazaré foi ungido por Deus com o Espírito Santo e com poder. Ele andou por toda a parte, fazendo o bem e curando a todos os que estavam dominados pelo demônio; porque Deus estava com ele. 39E nós somos testemunhas de tudo o que Jesus fez na terra dos judeus e em Jerusalém. Eles o mataram, pregando-o numa cruz. 40Mas Deus o ressuscitou no terceiro dia, concedendo-lhe manifestar-se 41não a todo o povo, mas às testemunhas que Deus havia escolhido: a nós, que comemos e bebemos com Jesus, depois que ressuscitou dos mortos. 42E Jesus nos mandou pregar ao povo e testemunhar que Deus o constituiu Juiz dos vivos e dos mortos. 43Todos os profetas dão testemunho dele: ‘Todo aquele que crê em Jesus recebe, em seu nome, o perdão dos pecados’”.

Segunda Leitura: Cl 3,1-4

Irmãos: 1Se ressuscitastes com Cristo, esforçai-vos por alcançar as coisas do alto, 2onde está Cristo, sentado à direita de Deus; aspirai às coisas celestes e não às coisas terrestres. 3Pois vós morrestes, e a vossa vida está escondida, com Cristo, em Deus. 4Quando Cristo, vossa vida, aparecer em seu triunfo, então vós aparecereis também com ele, revestidos de glória.

Evangelho: Jo 20,1-10

1 No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido tirada do túmulo. 2 Então ela saiu correndo e foi encontrar Simão Pedro e o outro discípulo, aquele que Jesus amava, e lhes disse: “Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram”. 3 Saíram, então, Pedro e o outro discípulo e foram ao túmulo. 4 Os dois corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa que Pedro e chegou primeiro ao túmulo. 5 Olhando para dentro, viu as faixas de linho no chão, mas não entrou. 6 Chegou também Simão Pedro, que vinha correndo atrás, e entrou no túmulo. Viu as faixas de linho deitadas no chão 7 e o pano que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não posto com as faixas, mas enrolado num lugar à parte. 8 Então entrou também o outro discípulo, que tinha chegado primeiro ao túmulo. Ele viu, e acreditou. 9 De fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos.

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A festa da Páscoa, a festa da Ressurreição do Senhor Jesus, representa o centro da fé cristã. A ressurreição de Jesus não somente é motivo de esperança para os cristãos, mas também representa que hoje deve ser vivido com a intensidade de uma força que venceu a morte.

Mas não basta saber que Jesus Cristo ressuscitou. É preciso crer. Para crer, é preciso experimentá-lo vivo e vivificante hoje. Jesus ressuscitado é o nosso hoje: o passado fugiu, escapou-se; o futuro desconhecido não tem segredos para Ele. A ressurreição de Jesus representa nossa própria ressurreição. Graças a Jesus, podemos viver seguros de que também seremos ressuscitados.

E a ressurreição traz um novo estilo de vida que se define como a busca das coisas do alto (Cl 3,1-4). O novo estilo de vida inclui o respeito pela vida: no seu início (concepção), na sua duração (vida) e no seu fim neste mundo.

Se a morte é a certeza, a imortalidade, por causa de Jesus ressuscitado, é a esperança. A esperança nos chama a caminhar. Somente quem caminha é que tem a esperança. Somente quem luta é que tem a esperança. De onde vem esta esperança? Ela vem das próprias palavras de Jesus Cristo: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crer em mim, ainda que esteja morto, viverá” (Jo 11,25), e nossa esperança vem da sua própria ressurreição: “Se Cristo não ressuscitasse seria vã a nossa pregação e seria vã a vossa fé(1Cor 15,14). Por isso, crer em Jesus Cristo, o Ressuscitado, significa jamais parar de existir.

A teologia da esperança nos leva à verdade de que nós existimos no mundo, mas acima do mundo, no tempo, mas acima do tempo. O nosso Credo termina com uma afirmação de esperança: “Creio na ressurreição da carne e na vida eterna”.

Morrer, para nós cristãos, não significa “acabou tudo”, e sim voltar para a Casa Paterna no céu, nossa Casa Comum. “Na Casa do meu Pai tem muitas moradas”, disse o Senhor, e por isso, ele nos pede para não ficarmos perturbados (Jo 14,1-3). Fomos criados para além dos horizontes materiais, pois somos o templo do Espírito de Deus (1Cor 3,16-17).

Se nós acreditamos que Jesus é a Ressurreição e a Vida, então a Vida está em nós e já podemos olhar para a morte com olhos e coração distintos. A morte vencida por Cristo é incorporada à Vida. Se nós acreditamos que Jesus é a Ressurreição e a Vida, então somos de Deus. Se nós somos de Deus, então não nos pertencemos. Esta dependência não anula nossa liberdade, mas que se alimenta dela. Quanto mais pertencemos a Deus, mais nos assemelharemos a Ele, mais respiraremos o ar de família que é liberdade e amor. Depender de Deus é unirmo-nos a uma força que rompe toda escravidão e todo apego. É apegarmo-nos à liberdade. Se nós acreditamos que Jesus é a Ressurreição e a Vida, então somos para Deus. Deus é nosso princípio, nossa Alfa original, mas é também nossa meta, nossa Ômega final. Há já um germe divino em nós, mas este germe tem que ir crescendo até seu desenvolvimento pleno quando nos submergimos e nos perdemos no oceano do amor, quando se rompem os limites da própria individualidade. Somos chamados a crescer em Deus, até nos perdermos em seus braços, meta definitiva de nossa existência. Se nós somos de Deus, se vivemos para Deus, então, temos que orientar até Ele nossa atividade inteira e nossa vontade, tudo o que fazemos e o que somos. Somos para Deus, trabalhamos para Deus, descansamos para Deus, sentimos e pensamos para Deus, sofremos e gozamos para Deus. Se nós acreditamos que Jesus é a Ressurreição e a Vida, então, somos em Deus. “Nele vivemos e nos movemos e somos”, diz São Paulo (At 17,28). Não estamos apenas na presença de Deus, e sim nós estamos submersos na sua essência. Somos de, para, em Deus-Amor, cujas relações conosco somente podem ser de amor. Pertencemos amorosamente a Deus, nos espera amorosamente Deus, vivemos e somos amorosamente em Deus.  

Além disso, a fé na ressurreição nos convida a valorizarmos o tempo e a boa convivência fraterna, a praticar o bem e a bondade para deixarmos marcas positivas no próximo assim que partirmos deste mundo, pois o Senhor em quem acreditamos passou a vida fazendo o bem (Cf. At 10,38). Estas marcas serão sinais de reconhecimento da parte de Deus (cf. Mt 25,34-40).

Aprendamos a valorizar o que temos, para não ser tarde demais em valorizar o que você teve. Às vezes você nunca vai saber do valor do momento até que se torne uma memória. A saudade é a presença forte na ausência. Como um dia bem aproveitado traz um sono feliz, assim também a vida bem vivida e convivida traz a morte feliz. Se você quiser ter algo que nunca teve, faça algo que nunca fez. Você nunca vai ser corajoso, se nunca sofreu alguma ferida; você nunca vai aprender, se nunca errou na vida; e você nunca vai ser uma pessoa sucedida, se nunca falhou na vida. A grande tragédia não é a morte e sim algo valioso que está morrendo dentro de você enquanto você está vivo. É uma de tantas mensagens da Páscoa.

Jo 20,1-29

O Capítulo 20 de João tem quatro episódios que algum teólogo intitula: “Em busca dos sinais do Ressuscitado”. O primeiro episódio (vv.1-10) tem como personagens Maria Madalena e depois, Pedro e João. O segundo episódio (vv.11-18) faz-nos contemplar Maria Madalena que gradualmente reconhece Jesus. Neste episódio Maria Madalena é apresentada como o personagem mais interessa  do na busca dos sinais e, através dos sinais, da própria presença do Senhor. O terceiro episódio (vv.19-23) é o episódio da manifestação de Jesus aos apóstolos: Jesus entre os seus. E por fim, Jesus e Tomé (vv.24-29). Tomé nos apresenta a tendência do homem a fechar-se ao mistério. Em outras palavras, ele representa aqueles que têm dificuldade de ver os sinais da presença do Senhor no mundo (os céticos). Para o Domingo de Páscoa o texto fala do primeiro episódio cujos personagens são Maria Madalena, Pedro e João.

Através do evangelho de hoje, o evangelista quer nos apresentar as duas primeiras formas de expressar a fé na ressurreição: as aparições e o túmulo vazio. Jo 20,1-18, onde se encontra o texto de hoje, sintetizou os relatos destas duas formas. Para o discípulo amado, discípulo ideal que Jesus amava, as duas formas são provas suficientes para indicar e afirmar a certeza da ressurreição do Senhor. Por isso, o texto de hoje diz a respeito do discípulo amado: “Ele viu, e acreditou(Jo 20,8b).

Além de ser o fundamento da esperança, a ressurreição do Senhor é também a verdade do homem que acredita em Deus. A partir da ressurreição do Senhor, a teologia da esperança nos leva à verdade que nós existimos no mundo, mas acima do mundo; no tempo, mas acima do tempo. Somos seres humanos, mas ao mesmo tempo cidadãos do céu. Fomos criados para além dos horizontes materiais, pois somos o templo do Espírito de Deus (1Cor 3,16-17), somos sopros ou hálitos de Deus (Gn 2,7). Por isso, o nosso Credo termina com uma afirmação de esperança na ressurreição: “Creio na ressurreição da carne e creio na vida eterna”. E o prefácio da missa pelos falecidos destaca a crença cristã na ressurreição: “Senhor, para os que creem em vós, a vida não é tirada, mas transformada...”.

A fé na ressurreição significa que existe um caminho que tem valor por si mesmo: o caminho do amor.  A ressurreição autentifica o caminho de Jesus que é o caminho do amor e no amor e por amor. Por isso, a fé na ressurreição nos convida a valorizarmos o tempo e a boa convivência fraterna, a praticar o bem e a bondade, o amor e a caridade. No amor e no serviço descobre-se a esperança dos homens. Deus está no ato de amar, de perdoar e de praticar a bondade. Para encontrar o Bem Maior, pratique o bem. Para encontrar o Deus de amor, viva o amor fraterno. Para entrar na comunhão do Deus Uno e Trino, devemos aprender a viver unidos na terra como uma família de irmãos. Com efeito, o mal, por potente que pareça ser, não tem futuro algum; ele acaba destruindo-se a si mesmo. Era essa a profunda convicção de Jesus. O poder de Deus é o poder de amor, como aparece constantemente ao longo da vida de Jesus. E esse poder do amor o que Lhe permite exclamar: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34).

Vamos Meditar Sobre Alguns Detalhes Do Texto Do Evangelho De Hoje!

1. O Primeiro Dia É O “Dia Do Senhor”

O texto começa com estas palavras: “No primeiro dia da semana quando estava escuro, Maria Madalena foi ao túmulo...” (v.1). O primeiro dia é o dia da ressurreição do Senhor. Na tradição cristã este dia é chamado “Domingo” palavra que vem do latim “dies dominicus” ou “Dies Domini”, “dia do Senhor”. “Senhor” é um título pós-pascal.

No contexto pascal, a expressão “primeiro dia” sugere que começou um tempo novo nascido da morte e ressurreição de Jesus para o mundo (2Cor 5,17). O dia que para os judeus era o primeiro depois do Sábado tornou-se para os cristãos “o primeiro dia da semana”.  Ele passou a ser chamado “dia do Senhor” (dies dominicus), domingo, porque nesse dia o Senhor ressuscitou. Por essa razão os cristãos se reúnem nesse dia para “partir o pão” (Eucaristia), o memorial da morte e ressurreição do Senhor (cf. 1Cor 16,2; At 20,7;Ap 1,10).  Jesus é a luz do novo dia que não termina jamais. Jesus é o Senhor que ilumina o mistério da vida. Cristo detém a chave do segredo da vida e deixa sua luz brilhar nas trevas. Nele o mistério da vida é tornado luminoso. O que é a vida, seu significado, sua finalidade, como apreciá-la e torná-la autêntica, dar-lhe um sentido, é tudo isto que Jesus pode nos ensinar, pois ele veio para nos fazer viver plenamente (Jo 10,10). Por isso, com muita certeza, São Paulo diz: “Se confessas, com tua boca que Jesus é o Senhor e crês em teu coração que Deus o ressuscitou dos mortos, tu serás salvo(Rm 10,9).

Portanto, não podemos considerar o Dia do Senhor (Domingo) como um peso. Ao contrário, ele é como uma explosão de vida que merece ser celebrada, pois, de fato, o nosso futuro está garantido pela ressurreição do Senhor. É claro que temos problemas! Mas ao mesmo tempo temos a certeza de nossa vida que terminará com a vitória. Quem nos garante isto é Jesus ressuscitado: “No mundo haveis de ter aflições. Coragem! Eu venci o mundo” (Jo 16,33), e “...aquele que perseverar até o fim será salvo(Mt 10,22). E o próprio Jesus foi perseverante até o fim. E o prêmio desta perseverança é a ressurreição, a vida que não acabará jamais.

2. Maria Madalena É Chamada Pelo Nome Pelo Ressuscitado.       

Um dos personagens principais do episódio do texto do evangelho de hoje é Maria Madalena. Ela é a discípula que ainda num processo de crescimento rumo à plenitude da fé em Jesus Ressuscitado. Ela ainda não compreendeu que a morte não interrompe a vida. Enquanto dirige o olhar para o lugar da morte, Maria Madalena não poderá encontrar Jesus, Aquele que é a Vida (Jo 14,6). Anda condicionada pela ideia judaica da morte como fim de tudo, Maria Madalena não reconhece Jesus, embora O vendo. Ela continua chorando Jesus morto e crê que o cadáver de Jesus tenha sido levado embora. Maria Madalena não procura o Vivo, mas o morto. 

Jesus chama Maria Madalena, então, pelo nome: “Maria!”. Aqui Jesus se apresenta como o Pastor que conhece suas ovelhas, as chama pelo nome e elas “O seguem porque conhecem  a sua voz” (Jo 10,4). Aquilo que Maria Madalena não havia conseguido descobrir com seus olhos, agora finalmente O percebe em toda a sua realidade, sentindo na voz de Jesus “ a voz do meu amado que bate à porta” (Ct 5,2): o Mestre está vivo e a chama pelo nome. 

Maria se afasta totalmente do túmulo e diz a Jesus Ressuscitado: “Rabuni!” (Jo 20,16). Com essa expressão (“Rabuni”) de grande respeito, nunca usada para referir-se a homens, e sim somente para dirigir-se a Deus, Maria Madalena reconhece em Jesus o Deus de Israel, Aquela que dissera ao seu povo: “Chamei-te pelo nome; tu me pertences” (Is 43,1). 

3. Com Jesus Ressuscitado Somos Chamados A Sair Das Trevas

Maria Madalena foi ao túmulo quando ainda estava escuro (em grego skotia: a treva). A escuridão, aqui, é um símbolo do estado interior de Maria, das trevas que a habitam e a envolvem. Com a morte de Jesus, que era a luz de sua vida, ela perdeu o sentido e a alegria de viver. Tudo se torna escuro para ela. Apesar da escuridão do seu interior, em Maria Madalena ainda sobrevive o amor que ela tem por Jesus. Ninguém jamais pode tirar esse amor do seu coração, pois ele é mais forte que a morte. Esse amor a leva ao encontro do Senhor. E quem fez nascer esse amor no coração de Maria Madalena, o amor absolutamente novo, puro e belo, depois que ela foi pisada e desprezada por tantos homens, certamente foi Jesus. Foi Jesus quem devolveu a dignidade a Maria Madalena depois que a libertou “de sete demônios” (Mc 16,9; Lc 8,2). O encontro com Jesus tinha sido para ela o novo começo de sua vida, a nova luz que ilumina tudo na sua vida, a nova fonte de sua verdadeira felicidade.          

Maria Madalena foi ao túmulo quando ainda estava escuro. No Evangelho de João, onde claro e escuro têm seus papéis, a escuridão dura até que alguém acredite em Jesus ressuscitado, Luz do mundo (Jo 8,12). Este termo, “escuridão/treva”, aparece em Jo oito vezes. “As trevas” em Jo não significam mera ausência de luz. Este termo apresenta dois aspectos: Primeiro, as trevas são consideradas como entidade ativa e perversa que pretende extinguir a luz da vida (Jo 1,5) e assim impedir a visão do projeto de Deus sobre o homem. Portanto, define-se como ideologia contrária ao desígnio criador. As trevas produzem no homem a cegueira (ocultamento do desígnio de Deus), impedindo-lhe de se realizar. Segundo, as trevas são consideradas como âmbito de obscuridade ou cegueira criada por sua ação, onde o homem se encontra privado da experiência da vida e não conhece o desígnio de Deus sobre ele. As trevas sugerem que os personagens ainda não têm a luz plena. Maria vai ao túmulo, possuída pela falsa concepção da morte, e não se dá conta de que o dia começou. Maria crê que a morte triunfou. Não é por acaso que o termo “túmulo” é mencionado nove vezes nesta perícope, mostrando que a ideia de Jesus morto domina na comunidade.          

O único meio que se encontrou para não sermos atingidos por esta escuridão total de nosso coração ou de nosso ser é aceitar Jesus, Luz do mundo (Jo 8,12), para que, por nossa vez, nos tornemos uma verdadeira luz para o mundo (Mt 5,14-16). Quem acredita em Jesus, Luz do mundo, não teme a escuridão, pois ele será sempre iluminado: “Ainda que eu caminhe por um vale tenebroso (escuro), nenhum mal temerei, pois estais junto comigo(Sl 23(22),4).

4. Quem Ama Corre Mais E Chega Primeiro

Quando chegou ao túmulo, a reação de Maria é de alarme quando viu que a pedra tinha sido “retirada”. E ela ficou mais espantada ainda ao encontrar o túmulo vazio. A tristeza de Maria ficou maior porque além da morte do seu Mestre, o corpo do mesmo desapareceu. O sepulcro vazio, por isso, não foi para Maria Madalena motivo de fé e de esperança, mas de um sofrimento maior. Maria Madalena ficou totalmente desolada e perdida. Mas se ela soubesse ver com os olhos da fé os sinais que viu com seus olhos carnais no túmulo, saberia ou pelo menos deduziria que Jesus não tinha sido feito prisioneiro da morte como todos os que morreram antes dele. A pedra retirada é um sinal de que não existe mais um abismo intransponível entre Jesus e o mundo dos vivos, entre Jesus e seus seguidores. Existe ainda alguma pedra na sua vida que o faz continuar vendo tudo escuro? O poder da ressurreição retira “qualquer pedra” na nossa vida. Mas será que você acredita no poder da ressurreição?          

A reação imediata de Maria Madalena, sem mesmo entrar no túmulo, é correr para comunicar aos discípulos sobre o fato: Pedro e o discípulo amado. A comunidade sente-se perdida sem Jesus. Há atitude de busca mas buscam um Senhor morto. Jesus representava a força da comunidade; crendo que passou a ser debilidade e impotência, a comunidade se vê por sua vez sem forças e sem amparo.          

Os dois discípulos têm a mesma reação diante da notícia que lhes dá Maria: dirigem-se ao túmulo. Os dois correm juntos, mostrando sua adesão a Jesus e o seu interesse pelo ocorrido. Durante a corrida, porém, o discípulo amado correu mais rápido e chegou primeiro do que Pedro no túmulo. 

Corre mais depressa o que tem a experiência do amor de Jesus e sempre chega primeiro. O amor é sem asas, mas pode voar, sem pernas, mas pode andar e correr, sem olhos, mas pode ver tudo. O amor é a força sem limite, por isso nunca cansa. Uma pessoa apaixonada está cheia de forças. Onde há amor, há força para tudo. 

Amar é sair de si para encontrar o outro. É dialogar. É estender a mão. É abraçar para fazer as pazes. É doar a vida, o coração e a felicidade aos outros. Páscoa é alegria. Somente encontra a alegria aquele que sabe amar os outros. Nossos lares são como túmulos cerrados a cimento, quando não se amam; quando não há respeito, ajuda mútua e fé. Túmulos cerrados são as igrejas quando não se vive o que se reza e se canta. 

Páscoa é a saída rápida. É êxodo, partida. Para onde? É sair para encontrar os outros. Se permanecermos fechados, trancados dentro de nós mesmos, vamos morrer. Páscoa é reencontro com a vida. Somente sabe viver, encontrando a vida, aquele que ama. Jesus morreu e ressuscitou porque nos ama verdadeiramente.

5. Quem Ama Acredita Que No Impossível Há O Possível          

Apesar de chegar primeiro, o discípulo amado não entrou no túmulo, mas esperou a chegada de Pedro. No texto de Jo, a precedência de Pedro é mantida (cf. Jo 21). Pedro é o primeiro a entrar no túmulo (v.6) e a observar os panos (vv.6-7). Ele viu os panos e ficou calado. Jo não diz nada da reação de Pedro. O discípulo amado também entrou. “Ele viu e acreditou” (v.8). Quem tem amor no coração sempre vê no impossível o possível, no incrível o crível. À luz de seu laço profundo com Jesus, o discípulo amado reconhece o mistério da presença por meio da ausência. Mesmo antes do contato com o Ressuscitado, ele foi capaz de superar o abismo: na ausência do corpo, o que ele viu dos panos funerários teve para ele valor de sinal. Além disso, o amor que penetrava o discípulo amado deixou entrar nele a luz com que ele pode ver tudo naturalmente e claramente. Para ele, o túmulo não está nem vazio, nem cheio. Ele se transformou em linguagem. Atento, ele capta no vazio do túmulo que Cristo vencera o que pertencia ao tempo; em outras palavras, Jesus venceu a morte, ele ressuscitou. Este discípulo também vai reconhecer a presença do Senhor Ressuscitado na sua aparição aos discípulos (cf. Jo 21,7) 

6. A Ressurreição É Uma Novidade Para O Mundo E Renova Tudo No Homem 

Com o fato da ressurreição de Cristo entrou uma novidade total na história humana, pois nunca aconteceu isso antes nem depois dele, em nosso mundo fechado pelo círculo da morte. Jesus rompeu esse círculo e deu esperança a todos nós. Ao vencer a morte, Jesus revoluciona todos os anseios e sonhos do mundo. Por isso, a Páscoa é a festa de alegria porque a nossa vida está assegurada; esta vida que aqui vivemos não nos será tirada com a morte; a morte será apenas um fenômeno biológico, mas que não poderá destruir o nosso verdadeiro ser. A partir da ressurreição do Senhor, não vivemos mais para morrer, mas morremos para viver; a vida não pertence mais à morte mas sim a morte pertence à vida. A morte não é total: atinge apenas o corpo do homem. O mundo precisa saber que não somos condenados a um fim sem sentido. Não há Boa Notícia mais radicalmente importante do que a certeza da vitória da vida. Por isso, Jesus nos diz: “Tenha coragem! Eu venci o mundo” Temos a garantia de que Deus não vai deixar que se perca nada do que é bom: nossos esforços, nossos sacrifícios, nossas lutas, nossas boas ações, nossos afetos, as pessoas que amamos, tudo isso fica guardando e seguro nas mãos de Deus da ressurreição. Se a morte não tem a última palavra, toda a nossa vida pode estar, sem medo, a serviço daquilo que traz mais vida para todos. Seja qual for o resultado, nada estará perdido. Por isso, compreendemos por que São Paulo escarnece da morte e triunfante lhe pergunta: “ Ó morte, onde está a tua vitória ? Ó morte, onde está o espantalho com que amedrontavas os homens?” (1Cor 15,55). O homem que crê em Jesus Cristo é destinado à ressurreição para participar, com a totalidade de sua realidade complexa, na vida eterna de Deus. 

7. Jesus Está Conosco Permanentemente

 Jesus ressuscitou significa também que Cristo vive e vive conosco (Mt 28,20). Esta é a grande verdade da nossa fé. Cristo vive quer dizer que ele não é uma figura que passou, que existiu num tempo, deixando-nos uma lembrança. Cristo vive quer dizer: ele está conosco. Ele não nos abandona. Isto significa que o cristão, cada um de nós, nunca é um homem solitário mas solidário porque ele vive com Deus e Deus com ele. Por isso, o centro da fé cristã não consiste na celebração da memória de um herói morto, mas da presença de um Vivo e Vivente no qual se decifrou para todos nós o sentido último da vida. 

Se Cristo está vivo, então todas as coisas da vida devem refletir isto; todas as coisas devem se voltar para Jesus Cristo. Quando Jesus Cristo é o centro, as pessoas tornam-se melhores; as pessoas tornam-se mais humanas, buscam o crescimento e têm vontade de conseguir todas as coisas no crescimento e na maturidade de Cristo. 

O texto diz que Maria Madalena não consegue ver o significado daquilo que está acontecendo, por isso corre e vai avisar Pedro e o discípulo amado. Pedro e o discípulo amado também correm. Mas o discípulo amado corre mais rápido e chega primeiro.  Pedro entra no túmulo e Jo não relata a reação de Pedro. O discípulo amado entra e conclui imediatamente que não roubaram o Senhor: “E viu e acreditou(Jo 20,8).      

Na Igreja que vai em busca dos sinais da presença do Senhor há diversos temperamentos, diversas mentalidades: há o afeto de Maria, a intuição de João e a lentidão de Pedro. Portanto, existem na Igreja diversos dons espirituais dos quais se originam diversas disposições: alguns mais velozes, outros mais lentos; mas todos se ajudam mutuamente, respeitando-se reciprocamente, para juntos procurarem os sinais da presença de Deus e comunicá-los entre si, apesar da diversidade de reações diante do mistério. É uma colaboração na diversidade: cada qual comunica ao outro o pouco que viu e encontrou, e juntos reconstroem a orientação da existência cristã, ali onde os sinais da presença do Senhor, diante das dificuldades ou das situações perturbadoras, parecem ter desaparecido. Se na Igreja primitiva Madalena não tivesse agido dessa forma, comunicando o que sabia, e se as pessoas não se tivessem ajudado umas às outras, o túmulo teria ficado ali e ninguém teria ido até lá; teria sido inútil a ressurreição de Jesus. Somente a busca comum e a ajuda uns dos outros levam finalmente a encontrar-se juntos, reunidos no conhecimento dos sinais do Senhor.                

Celebrar a Páscoa é afirmar: “Não sou mais aquele homem do túmulo, intransigente, morto, insuportável, nervoso. Agora uma nova luz entrou em mim e renasci, por isso. Quero remover aquela pedra que me está impedindo de ser comunicativo, caridoso; a pedra que me impede de pedir e de dar o perdão”. FELIZ PÁSCOA!

P. Vitus Gustama,svd

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Sábado Santo, 04/04/2026

ELE RESSUSCITOU! ALEGRAI-VOS!

SÁBADO SANTO

ANO “A”

Leitura: Rm 6,3-11

Irmãos: 3Será que ignorais que todos nós, batizados em Jesus Cristo, é na sua morte que fomos batizados? 4Pelo batismo na sua morte, fomos sepultados com ele, para que, como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, assim também nós levemos uma vida nova. 5Pois, se fomos de certo modo identificados a Jesus Cristo por uma morte semelhante à sua, seremos semelhantes a ele também pela ressurreição. 6Sabemos que o nosso velho homem foi crucificado com Cristo, para que seja destruído o corpo de pecado, de maneira a não mais servirmos ao pecado. 7Com efeito, aquele que morreu está livre do pecado. 8Se, pois, morremos com Cristo, cremos que também viveremos com ele. 9Sabemos que Cristo ressuscitado dos mortos não morre mais; a morte já não tem poder sobre ele. 10Pois aquele que morreu, morreu para o pecado uma vez por todas; mas aquele que vive, é para Deus que vive. 11Assim, vós também considerai-vos mortos para o pecado e vivos para Deus, em Jesus Cristo.

Evangelho: Mt 28,1-10

1Depois do sábado, ao amanhecer do primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o sepulcro. 2De repente, houve um grande tremor de terra: o anjo do Senhor desceu do céu e, aproximando-se, retirou a pedra e sentou-se nela. 3Sua aparência era como um relâmpago, e suas vestes eram brancas como a neve. 4Os guardas ficaram com tanto medo do anjo, que tremeram, e ficaram como mortos. 5Então o anjo disse às mulheres: “Não tenhais medo! Sei que procurais Jesus, que foi crucificado. 6Ele não está aqui! Ressuscitou, como havia dito! Vinde ver o lugar em que ele estava. 7Ide depressa contar aos discípulos que ele ressuscitou dos mortos, e que vai à vossa frente para a Galileia. Lá vós o vereis. É o que tenho a dizer-vos”. 8As mulheres partiram depressa do sepulcro. Estavam com medo, mas correram com grande alegria, para dar a notícia aos discípulos. 9De repente, Jesus foi ao encontro delas, e disse: “Alegrai-vos!” As mulheres aproximaram-se, e prostraram-se diante de Jesus, abraçando seus pés. 10Então Jesus disse a elas: “Não tenhais medo. Ide anunciar aos meus irmãos que se dirijam para a Galileia. Lá eles me verão”.

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Segundo o Missal Romano, a Vigília Pascal é “mãe de todas as noites” e celebra o acontecimento fundamental, o cume da história da salvação que é a Ressurreição do Senhor. A noite pascal, em seu verdadeiro sentido, é a festa nupcial da Igreja. Todas as imagens de núpcias e bodas, cheias de promessas, que nos acompanham ao longo da liturgia anual, alcançam hoje toda a sua plenitude. A solenidade desta noite começou na sepultura. Mas agora sabemos que o sepulcro está vazio; apareceu o anjo para anunciar a ressurreição do Senhor. Por essa razão, a Semana Santa sem a celebração pascal é algo mutilado e quase sem sentido e pode conduzir a um cristianismo equivocado. Seria ficar-se apenas na dor e morte, se Jesus não ressuscitasse e quando Ele não trouxesse a vida e a renovação para a humanidade (cf. 1Cor 15,12-19).        

A Páscoa é a grande festa cristã, pois Jesus ressuscitou e nos deu a nova vida, a nova esperança de viver com sentido, e para o homem de hoje que está carente da alegria e da esperança encontra a fonte de sua vida em Jesus Ressuscitado. A partir de tudo isto, resta-nos uma coisa a fazer: obedecer ao encargo do anjo para anunciar a ressurreição aos que a buscam, aos que dela duvidam, aos que nela não creem. Para todos precisamos dizer com São Paulo: “Se, pois, ressuscitastes com Cristo, procurais as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Pensais nas coisas do alto, e não nas coisas da terra, pois morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus: quando Cristo, que é a vossa vida, se manifestar, então, vós também com ele sereis manifestados em glória” (Cl 3,1-4). 

O texto do Evangelho lido nesta noite é o breve capitulo sobre a ressurreição, mas dá sentido para todo o Evangelho. Cada evangelista escreve ou relata o capítulo sobre a ressurreição com liberdade de forma. Mas os quatro evangelistas seguem um mesmo esquema didático em três fases:

1.    O sinal do sepulcro vazio.

2.    A aparição de Jesus a alguns membros da comunidade.

3.    O encontro definitivo com o colégio apostólico.

Tudo converge para um pensamento principal: que foi o mesmo Ressuscitado quem comunica aos Apóstolos a missão de proclamar o Evangelho a todo o mundo.

Entender Um Pouco Sobre o Contexto Do texto

Quando Mateus escreveu seu Evangelho, os cristãos já viviam uma ruptura com o judaísmo oficial. De fato, os cristãos não viveram mais em Jerusalém e sim na Galileia. Com o Templo de Jerusalém não há mais possibilidade de entendimento. Mateus expressa esta ruptura através do relato sobre a morte de Jesus. No dia em que Jesus morreu, o véu do Templo se rasgou de cima para baixo, simbolizando a ruptura definitiva com o judaísmo oficial.

Para os cristãos de Mateus o Templo é lugar de terrores e de medos. Mas “Vós, não tenhais medo!”. Os cristãos, simbolizados nas mulheres, são o âmbito em que se vive a alegria da vida. Um anjo lhes impede o acesso ao túmulo: este não é um lugar cristão. Não se pode procurar nem causar a morte e sim a vida. No Paraíso o anjo cerrava o passo para a utopia, expulsando Adão e Eva do Paraíso, fruto de sua desobediência. Aqui um anjo abre o passo para a utopia e convida os cristãos, que são chamados de irmãos pelo Ressuscitado, a irem simplesmente para a Galileia porque a utopia é uma realidade na Galileia, onde unicamente e não em Jerusalém, pode perceber que Jesus vive e vive com eles (cf. Mt 28,20): “Ide anunciar aos meus irmãos que se dirijam para a Galileia. Lá eles me verão” (Mt 28,10).

A finalidade de Mateus não é, pois, narrar o que passou e sim dar razão do fato cristão cuja base é a fé inquebrantável no fato de que Jesus vive. Por isso, na Sexta-Feira Santa, em que Jesus foi morto, aparentemente era a vitória do Templo sobre Jesus. Mas Mateus insinua que se trata de uma vitória aparente, pois Jesus ressuscitou. Jesus vence a morte. Mateus simbolicamente relata esta vitória com o gesto do anjo de sentar-se sobre a pedra do túmulo de Jesus: “O anjo do Senhor desceu do céu e, aproximando-se, retirou a pedra e sentou-se nela”.

Alguns Detalhes e Sua Mensagem

1. “Ele não está aqui! Ressuscitou, como havia dito, e vai à vossa frente para a Galileia”.

Passou o dia de repouso dos judeus, o dia em que Jesus repousou, morto no sepulcro. As duas mulheres que antes ficavam diante do sepulcro, agora voltam a ir para o mesmo lugar para ver onde repousa aquele a quem haviam seguido.

Mas repentinamente tudo muda. Deus intervém: o terremoto, o anjo do Senhor resplandecente extraordinariamente, a pedra do túmulo retirada, os guardas ficam como mortos. Deus intervêm. Ninguém vê sua ação, mas o anjo do Senhor, aquele que fala em nome de Deus, explica às mulheres o que estava acontecendo. Não é no túmulo onde encontraram Jesus, o crucificado. A morte na cruz não foi a última palavra sobre Jesus, sobre sua vida e sobre sua mensagem. Ele ressuscitou! Algo novo começou. Jesus não está entre os mortos. Jesus continua sendo o Caminho a seguir: Ele “vai à vossa frente para a Galileia” (Cf. Jo 14,6).

Temor e alegria se misturam no coração das mulheres, como sucede sempre quando Deus se manifesta. Elas fazem caso do mensageiro do Senhor, mas a Boa Nova é para comunicá-la aos outros. Elas não podem ficar presas no sentimento de alegria e de temor. Elas devem ser novas mensageiras do Senhor: “Ide depressa contar aos discípulos que ele ressuscitou dos mortos, e que vai à vossa frente para a Galileia. Lá vós o vereis”. Tudo o que é bom e digno de viver não pode ser guardado para si, pois muitos precisam viver de tudo isto para viver na alegria e com sentido: “Ide de pressa!”. A graça de Deus não admite demora! Não é por acaso que Jesus Ressuscitado repete a mensagem do anjo: “Não tenhais medo. Ide anunciar aos meus irmãos que se dirijam para a Galileia. Lá eles me verão”. O anjo fala de “discípulos”. Jesus Ressuscitado fala de “meus irmãos”. O Senhor, o Ressuscitado é Irmão! Ele é um Irmão que convida cada cristão a fazer seu o mesmo caminho, o caminho que conduz da morte para a vida que jamais pode morrer, pois Jesus é “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6).

Não tenhamos medo de viver e de levar aos outros o que é digno, justo, honesto, correto, amoroso, bondoso e assim por diante. A bondade que devemos fazer hoje deve ser feita hoje mesmo, pois amanhã pode ser tarde demais. O perdão que devemos oferecer e receber deve ser feito hoje mesmo, pois não somos controladores do tempo que sempre foge de nós. Tudo ou nada é determinado somente no hoje. Temos que ter pressa para fazer o bem. Temos que ser exagerados no bem que devemos fazer. O bem praticado deve ser prioritário para qualquer cristão em qualquer lugar e tempo e para qualquer pessoa. O resto vale a pena a ser abandonado!Os ideais que iluminaram o meu caminho são a bondade, a beleza e a verdade” (Albert Einstein).

2. Ele Ressuscitou! Ele Não Está Aqui!

É o anúncio do anjo do Senhor para as duas mulheres que foram ao sepulcro de Jesus. É a Boa Notícia que nós escutamos também cada ano na Noite Santa da Páscoa. Cristo passou da morte para uma nova existência, definitiva e vive para sempre.

Ele não está aqui! Ressuscitou, como havia dito!”.  O lugar do encontro não é num passado, mas num futuro novo. O lugar do encontro não é na contemplação de um morto, mas no seguimento de quem está vivo. Jesus ressuscitado deve ser seguido, vivendo o seu projeto. Jesus não é uma figura num livro, mas uma presença viva e vivificante. Não é suficiente estudar a história de Jesus como qualquer grande figura histórica. Nós podemos começar desta maneira, mas devemos terminá-la com o encontro com ele, pois Jesus não é uma memória, mas uma presença. Ele continua vivo entre nós (Mt 28,20). Na liturgia da missa expressamos esta presença ao dizer: “O Senhor esteja convosco. Ele está no meio de nós!”. Se realmente acreditarmos nesta Presença, encontraremos sempre forças mais do que suficientes para encarar qualquer tipo de dificuldade, pois o próprio Jesus venceu a morte e está conosco.

Este é o motivo pelo qual nesta noite nos reunimos aqui e nos gozamos pela presença do Senhor Ressuscitado em meio de nós, ainda que não O vejamos com nossos olhos físicos, mas os olhos da fé sentem Sua presença. Se os judeus se alegram, ao celebrar a Páscoa, de sua libertação da escravidão e de sua passagem para a nova vida na terra prometida, nós, cristãos, nunca nos cansamos de celebrar que no meio da escuridão da noite, Cristo foi libertado da morte e cheio do Espirito de Deus, o Espirito da vida que nos vivifica para seguir o caminho do Senhor em que “passou a vida fazendo o bem” para todos (cf. At 10,38).

3. A Páscoa de Jesus Deve Ser Nossa Páscoa: Alegrai-vos!

De repente, Jesus foi ao encontro delas, e disse: ´Alegrai-vos! ´ As mulheres aproximaram-se, e prostraram-se diante de Jesus, abraçando seus pés”.

Alegremo-nos!” É o convite do Senhor nesta noite para cada um de nós. É o convite daquele que venceu a morte. As tristezas de cada dia podem acontecer, as tribulações podem nos cercar, mas nada nem ninguém possa nos tirar do caminho da Vida e do amor de Cristo por nós (cf. Rm 8,35-39). Nossa alegria nasce da serena certeza de que somos queridos do Senhor infinitamente, amados em todas as nossas limitações e fraquezas. É a alegria de saber que nossa vida tem sentido e tem futuro. Que a Palavra do Senhor que meditamos, vivemos e pregamos é a Palavra de vida eterna. Por isso, a falta de alegria profunda, no fundo, é sinal da falta de fé, sinal da falta de profundidade na vida de fé. Um cristão triste é, verdadeiramente, um triste cristão.

Tenhamos confiança, o Senhor sempre está conosco. O Senhor quer que através de cada um de nós surja uma nova humanidade onde haja menos dor, menos pobreza, menos tristeza, menos angústia, menos exploração dos menos favorecidos, menos injustiças sociais, menos vícios que minem a saúde das pessoas e a paz familiar. O Senhor continua nos enviando para que possamos gerar uma autêntica alegria cristã.

A alegria cristã é independente de qualquer coisa no mundo porque tem sua fonte na contínua presença de Cristo (cf. Mt 28,20). O cristão pode perder todas as coisas e todas as pessoas, mas ele jamais perderá Cristo Jesus. Embora se encontre numa circunstância em que a alegria se tornaria impossível, a alegria cristã permanece, pois o Senhor está presente (Mt 28,20). Para São Paulo, nenhum obstáculo ou dificuldade é capaz de impedir a verdadeira alegria, pois ela é um dos frutos do Espírito Santo (cf. Gl 5,22). Trata-se da origem superior, e por isso, está acima de tudo que é passageiro. Tudo pode passar, inclusive o sofrimento, mas a alegria permanece, pois é o fruto da aceitação de Deus na vida do homem, fruto do Espírito Santo. O mistério de alegria nasce de Deus, é um dom, não se compra em nossos mercados nem se encontra em nossas salas de festa. A alegria brota de dentro e tem sua origem no Espírito Deus. Dois amores, quando estiverem juntos, são sempre felizes, onde quer que eles estejam. Seria blasfêmia apresentar Deus como inimigo da vida e da alegria. O homem foi criado para expandir-se na alegria e é, por isso, chamado por Deus para expandir a alegria.  Não é por acaso que para o evangelista Lucas a alegria é um mandamento: “Alegrai-vos porque vossos nomes estão inscritos nos céus” (Lc 10,20). O verdadeiro cristão jamais perderá sua alegria porque jamais perderá Jesus Cristo.

Alegrai-vos!”. Este é o motivo pelo qual celebramos a Páscoa do Senhor e também nossa Páscoa. Isto é que dá sentido para nossa vida. Por isso, cremos e temos esperança e intentamos viver como cristãos: nós não seguimos uma doutrina ou um livro nem estamos celebrando o aniversário de um fato passado. Celebramos, sim e seguimos a Cristo Jesus, invisível, porém presente no meio de nós como o Senhor Ressuscitado. Deixemo-nos dominar por esta alegria! Participemos com toda a Igreja desta festa da Páscoa que começa agora e que durará sete semanas até o dia de Pentecostes. Assim Deus quer renovar os dons da graça com que nos encheu no dia do Batismo e nos comunicar Sua força para todo o ano. Deixemo-nos encher de vida pelo mesmo Espirito de Deus que ressuscitou Jesus. Ele quer nos comunicar força, energia, esperança para seja notado e sentido não somente nesta noite de celebração e sim em toda nossa vida que somos seguidores do Ressuscitado e queremos viver com Ele e como Ele.

4. Vivamos Uma Vida Nova e Caminhemos Na Vida Nova: Compromisso Batismal

Será que ignorais que todos nós, batizados em Jesus Cristo, é na sua morte que fomos batizados? Pelo batismo na sua morte, fomos sepultados com ele, para que, como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, assim também nós levemos uma vida nova” (Rm 6,3-4).

O Apóstolo Paulo se encarrega de nos fazer descer das nuvens e do romanticismo pascal para que compreendamos que a Páscoa é uma realidade permanente em cada cristão que foi batizado. A noite pascal é a hora de batizar-se. Mas o que significa isto?

O batismo não é um simples rito: é viver já como homens e mulheres novos. A Páscoa tem um sentido espiritual e profundo. É morrer a nós mesmos no que de velhos e pecadores temos e viver para Deus em Cristo Jesus. O texto de Paulo que lemos nesta noite é uma nova formulação do relato de Mateus (Leia Mt 28).

O que quer dizer ressuscitar com Cristo? É viver agora como Cristo, compenetrados do Evangelho que nos exige que sejamos despojados do homem velho cheio de pecado para viver em Cristo. Por isso, a Páscoa não é um dia do ano em que temos ideia de que algum dia ressuscitaremos com Cristo. É caminhar agora na vida nova: nova maneira de nos comunicar, de tratar o vizinho, de estar em família, de organizar nosso trabalho de praticar o bem para qualquer pessoa e em qualquer lugar e tempo. A Páscoa é a permanente reforma da sociedade através de cada cristão, a mudança contínua. Se cada cristão se renovar no Espirito do Senhor Ressuscitado, a sociedade inteira se renovará.

5. A Páscoa É a Festa Das Festas

A Páscoa cristã é a festa das festas, e o cristão é aquele que afirma: o Senhor ressuscitou verdadeiramente. O cristianismo nasce e progride desta proclamação fundamental: Jesus Cristo, que foi crucificado, ressuscitou verdadeiramente. Da ressurreição de Cristo deriva todo o resto da mensagem cristã. Sem a vitória de Cristo sobre a morte, toda a pregação seria inútil e a nossa fé seria vazia de conteúdo (cf. 1Cor 15,14-17). A ressurreição do Senhor é uma realidade central da fé cristã. A importância deste milagre é tão grande que os Apóstolos são, antes de mais nada, testemunhas da ressurreição de Jesus(cf. At 1,22;2,32;3,15). O núcleo de toda a pregação é este: Cristo vive e vive no meio de nós(cf. Jo 1,14;Mt 28,20). A páscoa da ressurreição é a grande festa cristã. Este mistério é tão importante e central é que o celebramos ao longo de todos os domingos e festas do ano litúrgico e inclusivamente na Eucaristia diária. Certamente cada eucaristia que se celebra, celebra-se e proclama-se ao mesmo tempo a ressurreição do Senhor e a nossa também. A eucaristia dominical é a páscoa semanal. A eucaristia diária é a páscoa diária.          

Sem dúvida nenhuma, a Páscoa é, por isso, o próprio conteúdo da fé cristã, é o coração da vida da Igreja porque ela nos revela quem é Deus, quem é Jesus Cristo e quem somos nós. A ressurreição nos mostra que o Deus revelado por Cristo é Aquele que ama e quer a vida. A Páscoa nos revela que Jesus, morto e ressuscitado, é Aquele que converge toda a história da humanidade. E ao mesmo tempo revela que a fidelidade é o caminho certo para chegar à Páscoa eterna com Deus. A Páscoa também nos revela que somos chamados a ressuscitar com Jesus, a superar com ele o drama da morte para podermos permanecer com ele na vida que não tem fim. FELIZ PÁSCOA a todos e a todas! Aleluya!

P. Vitus Gustama,SVD 

FELIZ PÁSCOA

Páscoa é sempre passagem, é dar o passo, é o passo sempre para frente. Na Páscoa contemplamos e celebramos o passo de um Deus torturado e executado numa cruz a um Deus ressuscitado e vivo entre nós: “Eis que Eu estou com vocês todos os dias até o fim do mundo” (Mt 28,20).

Não há outro caminho à maturidade e à realização como seres humanos sem aprendermos a suportar os golpes da vida. O êxito é aprender a ir de fracasso em fracasso sem se desesperar, pois Deus está conosco. O ser humano é um ser perfectível, mas não perfeito. A perfeição é o horizonte de nossa existência. Estou sendo o que devo ser para chegar a ser o que, na verdade, sou.

Triunfar é também aprender a fracassar. O êxito na vida vem do saber afrontar as inevitáveis faltas de êxito do viver de cada dia. Deste curioso paradoxo depende muito o acerto no viver. Cada frustração, cada contrariedade, cada desilusão leva consigo a semente de uma infinidade de capacidades humanas desconhecidas sobre as quais os espíritos pacientes e decididos, isto é, as pessoas de sucesso, souberam ir edificando o melhor de suas vidas. Mas aquele que quer desta vida todas as coisas a seu gosto, terá muitos desgostos também na vida.

O melhor testemunho da ressurreição de Jesus é a permanente busca do bem e sua incansável ação por amor e para o amor. O amor é a maior força criativa, transformadora e curativa. O amor permite o homem ir além e captar no fracasso e na deficiência a potencialidade oculta, contribuindo a que se converta num talento manifesto.

 

Cristo é tudo para nós.

Se tu queres curar tuas feridas, ele é médico.

Se a febre te abrasa, Ele é a fonte de água fresca.

Se te oprime o peso da culpa, Ele é a justiça.

Se tu necessitas de ajuda, Ele é a força.

Se tu temes a morte, Ele é a vida.

Se tu desejas o céu, Ele é o caminho.

Se tu andas na escuridão, Ele é a Luz.

Se tu buscas comida, Ele é alimento”, o Pão da Vida

 (Santo Ambrósio de Milão).

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FELIZ PÁSCOA! SHALOM!

P. Vitus Gustama,SVD

Sexta-feira Santa, Paixão Do Senhor, 03/04/2026

SEXTA-FEIRA SANTA

A CRUZ QUE ME SALVOU

Hoje é, propriamente dito, o início da celebração da Páscoa (Primeiro dia do Tríduo Pascal). Páscoa significa passagem: a passagem da morte para a vida. Portanto, a celebração de hoje não pode se concentrar apenas na tristeza e na compaixão pela morte e pelo sofrimento (celebramos com vestes vermelhas de testemunho, não pretas para funerais). Nem pode ser uma celebração em que, ao querer enfatizar a ressurreição, a realidade da morte de Cristo seja negligenciada. A morte de Jesus é uma morte real, dolorosa e trágica, não um mero acidente ou um assunto rotineiro.

Hoje celebramos a Páscoa, começando pelo seu primeiro momento, o da Morte. A Páscoa abrange um movimento duplo, descendente e ascendente, e é um único evento: a morte e ressurreição do Senhor. Os três dias (Tríduo Pascal) são celebrados como um só, e há apenas uma Eucaristia, a Vigília Pascal, o ponto culminante do Tríduo Pascal, onde não só se recorda o seu glorioso aspecto, mas também a imolação completa do Cordeiro Pascal. A Páscoa não é apenas a ressurreição: antes dela, é a Morte. Não podemos ficar focados apenas na celebração da Morte, mas também não podemos ficar focados apenas na glorificação.

Hoje é o primeiro dia do Tríduo Pascal, inaugurado com a Eucaristia da noite de ontem. A Páscoa é todo o movimento da passagem de Jesus da morte para a Vida Nova do Ressuscitado. Hoje celebramos com grande intensidade o primeiro ato dessa passagem, a “Pascha Crucifixionis", como os Padres da Igreja a chamavam. Morte e ressurreição formam a grande unidade que chamamos de Páscoa. A memória da Morte hoje já está repleta de esperança e vitória.

Este dia centra-se claramente na morte salvadora de Jesus na Cruz. Mas não com um ar de tristeza, e sim com uma celebração sóbria e intensa: a comunidade cristã proclama a Paixão do Senhor e venera a sua Cruz salvadora. A celebração deve exalar um tom de serenidade e contemplação em torno do mistério central da paixão e morte de Cristo.

O Relato da Paixão de São João, que lemos neste dia, é a paixão que descreve a obra do sexto dia: a formação (criação) do novo homem através dos sofrimentos do Homem: "Eis o Homem!” “Ecce Homo!" (João 19,5). Jesus Cristo é o Homem, o homem definitivamente realizado, porque viveu plenamente aquilo que nos torna verdadeiramente humanos: o Amor, isto é, a vida de Deus.

Por isso, alguns elementos sugestivos podem ser levados em consideração para nossa meditação:

- Contemplar o Amor. É adorar e agradecer porque alguém decidiu nos amar plenamente. É adorar e agradecer porque Deus escolheu abraçar também a história humana, transformando-a em história divina. A adoração da Cruz de Jesus hoje será uma expressão de tudo isso.

- Crer No Amor. Diante da Cruz de Jesus Cristo, símbolo do fracasso, dizemos que cremos n´Ele, em seu caminho. Que acreditamos que seu amor é fonte de vida, que o amor é mais forte que o mal que o crucificou. Que diante de Sua Cruz podemos dizer: Jesus Cristo é o Senhor. E podemos dizer isso também diante de todas as cruzes que crucificam o amor em nosso mundo.

- O Verdadeiro Homem. Como foi dito ante é que Jesus Cristo é o único que foi verdadeiramente humano, que não se deixou diminuir ou anular pela mentalidade fechada, pela dureza de espírito e pela mesquinhez que nos impedem de sermos verdadeiramente humanos e que impedem a humanidade de atingir seu pleno potencial.

 - A Humanidade Aos Pé Da Cruz. Este elemento não pode estar ausente hoje na nossa meditação, e é conveniente apreciar sua expressão solene na oração universal: hoje, mais do que nunca, sentimos solidariedade com os sofrimentos e as esperanças de todos os povos, porque o Senhor deu a sua vida por todos. A Oração Universal tem um significado especial hoje: toda a humanidade está aos pés da cruz.

Contra todas as nossas concepções de divindade, na Cruz descobrimos com surpresa que Deus é alguém que sofre com os nossos sofrimentos. Nossa miséria O afeta. Nosso sofrimento O "atinge". Deus não pode nos amar sem sofrer. Como disse D. Bonhoeffer, "Só um Deus que sofre pode nos salvar". Este "Deus crucificado" só pode ser "compreendido" quando soubermos amar aqueles que sofrem, e descobrirmos, através da nossa própria experiência, que o verdadeiro amor pelos crucificados causa sofrimento.

Estendamos Nossa Meditação!

1. O Homem Que Questiona A Existência De Deus Por Causa Do Sofrimento          

Celebrar a Sexta-Feira Santa nos leva a pensarmos na cruz e a cruz nos leva a pensarmos na dor e no sofrimento. E falar da dor é falar das pessoas concretas, pessoas que sofrem.          

A pergunta que o próprio sofrimento faz a todos nós é esta: Se existe um Deus justo, por que existem o mal e o sofrimento? E se existem o mal e o sofrimento, como poderá existir um Deus justo?  E se Deus é justo e misericordioso, por que um inocente ou uma criança recém-nascida sofre? Por que Deus parece ficar calado diante de uma oração para pedir a solução para um problema ou para um sofrimento insuportável?  Por que as coisas ruins acontecem a pessoas boas? Como posso acreditar num Deus que ame a dor, num Deus que acende a luz vermelha às alegrias humanas?       

Estas perguntas servem apenas como exemplo de uma ladainha de perguntas sobre o mesmo tema.  As desgraças que atingem as pessoas boas não são um problema apenas para as próprias vítimas e para suas famílias, mas também são problemas para todos os que desejam acreditar em Deus, e num mundo mais justo, fraterno, razoável e suportável.          

A dor é realidade e mistério, noite e dia, névoa e luz, fraqueza e força, morte e vida, desespero e esperança. A vida é uma mistura de alegria, felicidade e esperança, e também de tristeza, mágoa e dor. Cada um de nós carrega sempre esse pequeno fardo. Nós sofremos simplesmente porque essa é a condição do ser humano. A vida humana terrena é por si mesma pequena, fraca e frágil. A morte e a dor são companheiras naturais de nossa própria estrutura. O sofrimento chega a todos nós. Não lhe podemos escapar. Mas embora a dor em si seja inevitável, durante esta vida, muitas dores e muitas mortes podem ser evitadas. 

Mas quando nos damos conta do amor que Nosso Senhor tem por nós, quando compreendemos que a sua vida nos revelou o amor que Deus tem por nós, então temos de ficar cheios de esperança, de alegria e de paz. Por isso, sei que a resposta se encontra olhando para Cristo crucificado. Madre Teresa de Calcutá dizia: “Se olhamos para a Cruz de Jesus sabemos muito bem como ele nos amou. Quando olhamos para a Eucaristia, sabemos muito bem como ele nos ama”. 

2. Nossas Cruzes E A Nossa Cruz Existencial Sob A Cruz De Cristo: Um Chamado À Conversão Contínua          

Todos nós carregamos alguma cruz na nossa vida. Há cruzes de todos os tipos. Há cruzes em todos os caminhos. Para encará-la cada um tem seu próprio modo. Para alguns, a cruz pode ser vivida como tribulação, para os outros ela pode ser vivida como libertação. Há cruzes com Cristo, mas há também cruzes sem Cristo. Cada cruz, então, tem uma história e cada história tem uma cruz. A cruz sem Cristo é a cruz-condenação. É a cruz de quem deseja ser um deus. É a cruz que não tem finalidade em si mesmo. É a cruz sem fé, sem amor, sem sentido da vida, sem renúncia por amor. É a cruz de quem deseja viver numa liberdade sem responsabilidade, de quem vive no prazer desenfreado que resulta no sofrimento sem fim. Jesus Cristo, que foi crucificado, transformou a cruz de castigo em bênção.          

A mãe de Jesus, silenciosamente, acompanhava o filho Jesus que estava carregando a cruz. É uma grande dor para uma mãe, como maria, vendo seu filho assim. A cruz do filho é a cruz da mãe. Ela também carrega esta cruz silenciosamente. A ressurreição do filho é a ressurreição da mãe. Na Mãe de Jesus podemos ver tantas mães do mundo. Sem dúvida, muitas mães carregam silenciosamente a cruz ao saber que seu filho se droga ou se perde no mundo da criminalidade ou sofre de alguma doença incurável. Crucificadas, essas mães acompanham a cruz de seu(s) filho(s) com o amor incondicional como a Mãe de Jesus que se encontrou ao pé da cruz com o amor incondicional.          

Todos nós somos convidados a refletir tais situações e outros tipos de cruz sob a Cruz de Jesus ressuscitado que transformou a cruz em momento de transfiguração cujo ápice é a sua ressurreição. A partir de Cristo e somente com Cristo podemos sofrer, mas nunca sofreremos em vão. Sem Cristo é que sofreremos em vão. Este tipo de sofrimento tortura e angustia e não liberta.          

Além das cruzes que encontramos na vida, ou por nossa própria culpa ou como consequência de uma opção pelos valores cristãos, carregamos também a cruz existencial. Gostaríamos de viver eternamente nesta terra, e livres de qualquer contratempo, por um lado, mas os nossos limites como criaturas não nos deixam sermos o que gostaríamos de ser, por outro lado. Temos desejo infinito por vida ou pela vida, mas somos obrigados a aceitar um fato brutal de que temos que morrer. A vida em si, em sua estrutura, hospeda a morte. Jesus, o homem verdadeiro e o Deus verdadeiro, participou da estrutura humana. Ele morreu não somente porque os homens O mataram, mas também porque ele é o homem que morreu como todos nós morremos. Mas para que esta estrutura de uma criatura limitada se torne em uma transfiguração, precisamos ser despojados como Cristo para que o Deus da vida, o Absoluto, o Eterno, o Infinito possa hospedar na nossa estrutura mortal para transformá-la em uma estrutura imortal. Somente com isto teremos outra concepção sobre a morte: morrer não é mais um fim de tudo(acabou tudo), e sim uma peregrinação para a fonte da vida, para o Deus vivo que nos espera. Esta consciência e a fé nesta certeza nos leva a dizermos que o homem nunca morre e sim uma criatura que nasce duas vezes: nasce quando deixa o seio materno para entrar num mundo maior onde ele se junta com outros companheiros de viagem rumo para o outro nascimento que é a entrada na vida eterna.        

Cristo carregou uma cruz mas nunca foi cruz para os outros nem colocou cruzes nos caminhos dos outros. Quando contrariarmos a vontade de Deus por causa do pecado que faz ninho dentro de nós, nos tornaremos cruzes para os outros e colocaremos cruzes em seus caminhos. Quando os outros contrariarem a vontade de Deus, tornar-se-ão cruzes para nós e colocarão cruzes em nossos caminhos. Assim, os outros são cruzes para nós e nós somos cruzes para os outros. Cristo quer que não sejamos cruzes para ninguém mas imitadores de seu amor apaixonado.          

Por isso, pregar a cruz a partir de Cristo significa ter consciência do pecado que faz ninho no nosso coração que causa tantas cruzes na própria vida de quem o comete e na vida dos outros com quem convive. A presença do pecado como uma força destruidora cria muitas cruzes na convivência humana, pois nunca somente vivemos, mas sempre convivemos. Cada ato nosso, seja positivo ou negativo, sempre tem conseqüência direto ou indiretamente para a vida dos outros. Esta consciência de ser nosso coração a hospedagem também do pecado, nos leva a um ato de acabar com as muitas cruzes que criamos através do trabalho contínuo de arrancar o ninho do pecado dentro de nós através da conversão contínua. Não podemos esquecer que a cruz de Jesus é uma revolta contra a dignidade humana violada, contra aquilo que deveria ter evitado para não criar tantos sofrimentos na própria vida e na vida alheia. Pregar a cruz de Cristo significa convocar as pessoas para um amor e para um perdão incondicionais, para a capacidade de não permitir que o ódio e suas múltiplas manifestações reinem o coração humano onde Deus deposita seus segredos. Sem esta atitude não haverá a paz e a ressurreição; não haverá a passagem do homem velho para o homem novo criado para o céu. Que sejamos uma ressurreição e não a cruz para os outros. Que sejamos solução e não problema para os outros.

A partir do amor de Cristo, por nós, que foi levado até o fim percebemos que estávamos lá no Calvário. Todos nós estávamos lá na mente e no coração de Cristo. Ele nos conhecia todos, sofria por todos, nos amava e nos redimia a todos. Ele “tomou as nossas enfermidades e sobrecarregou-se dos nossos males” (Is 53,4; Mt 8,17). Estávamos lá cravados na cruz com Cristo, moremos com ele e ressuscitamos com ele.

Olhando para a Cruz de Cristo, a partir de nós, percebemos que a cruz de Cristo é um produto terrível do pecado. Foi meu pecado que crucificou Jesus. Da cruz sabemos que o preço do pecado é a morte. Jesus morreu porque o ser humano não tolera a defesa do pobre e do inocente, nem o desvelamento da hipocrisia, nem a denúncia da injustiça, nem a ruptura das convenções e privilégios sociais e religiosos. Jesus morreu porque era bom e não compactou com a maldade, com a corrupção, com a desonestidade, com a exploração, com a deslealdade, com a injustiça, mas se colocou, do lado dos oprimidos, dos justos, dos leais, dos honestos, dos inocentes sem retroceder diante das consequências. Cristo prefere ser crucificado a trair a verdade, o amor, a justiça, a honestidade. Por isso é que Ele foi ressuscitado por Deus Pai. 

3. Nós Também Estávamos Lá        

O perigo que temos ao ler o relato da Paixão de Jesus é ficarmos como espectadores da cena cujo papel de cada personagem da Paixão não tem nada a ver com a nossa vida cotidiana. Mas se refletirmos seriamente sobre este relato, na verdade, estávamos também lá desempenhando nosso papel para causar o sofrimento de Jesus. E ao olharmos para o nosso modo de viver atualmente confessamos que continuamos a fazer Jesus sofrer, pois “Em verdade vos digo: cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes. E todas as vezes que o deixastes de fazer a um desses pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer” (Mt 25,39.45).       

Hoje Cristo continua sofrendo a Paixão quando não soubermos acompanhar nossos irmãos que sofrem, que sentem angústia e se sentem sós, como fizeram os discípulos prediletos no Jardim de Getsêmani. Hoje Cristo continua sofrendo a Paixão quando vendermos nossa dignidade por algumas moedas como Judas que vendeu Jesus por trinta moedas de prata; quando nossa ganância nos levar a fazermos negócios sujos e quando não prestarmos a ajuda aos irmãos necessitados. Hoje Cristo continua sofrendo a Paixão quando buscarmos na violência a solução de nossos problemas como aqueles que prenderam Jesus com paus e espadas; quando não estivermos convencidos de que “quem usa espada, com/ de a espada morrerá”. Hoje Cristo continua sofrendo a Paixão quando acusarmos injustamente os irmãos como fizeram os líderes religiosos de Jerusalém e as falsas testemunhas; quando não respeitarmos os homens e os acusamos sem verdade. Hoje Cristo continua sofrendo a Paixão quando negarmos ou mentirmos por vergonha e covardia, como fez Pedro; quando não confessarmos com valentia e sinceridade nossa fé; quando não defendermos a causa da justiça por medo dos problemas e dificuldades que isto possa nos trazer. Hoje Cristo continua sofrendo a Paixão quando lavarmos as mãos como Pilatos; quando não vivermos comprometidos com a causa dos que sofrem; quando encolhermos os ombros e não defendermos a verdade e a justiça por medo das consequências. Hoje Cristo continua sofrendo a Paixão quando condenarmos os outros sem ponderar o que há de verdade nessas condenações, como fez a multidão em Jerusalém. Hoje Cristo continua sofrendo a Paixão quando zombarmos os que sofrem, os marginalizados da sociedade, os pobres, os idosos, os embriagados, os aleijados, os débeis e assim por diante. Somos nós responsáveis deste mundo. Sou eu responsável deste mundo!        

Nosso caminho de conversão se une hoje ao caminho de Jesus para aprender dele que o mais importante da vida é colocá-la ao serviço de uma causa digna. Se nos esforçamos por mudar atitudes e afinar nossos sentimentos durante o tempo da Quaresma é simplesmente para nos identificar melhor com este Jesus que hoje entra triunfante em Jerusalém, e compreender que a alegria e a felicidade formam parte de nosso ser cristão, para celebrar e viver mais autenticamente unidos a Cristo Ressuscitado a nova vida que ele nos oferece no domingo da Páscoa. Nosso caminhar ao lado de Jesus ao longo da Semana Santa é a melhor escola que podemos frequentar para nossa vida de cada dia. Com a segurança de que nosso caminho já não o fazemos sozinhos, e sim com este Jesus da Semana Santa e com tantos irmãos na fé que têm a mesma esperança. Hoje Jesus nos ensina mais do que nunca a caminharmos juntos: Jesus, os irmãos e eu mesmo. Manifestamos isto simbolicamente na procissão que fazemos juntos com os ramos na mão, símbolo de nossa vitória antecipada.

3. Jesus Cristo Crucificado Que Ressuscitou É A Resposta De Deus Para Nós          

Popularmente, a cruz, com frequência, tem sido tomado apenas como símbolo da dor humana. Às vezes se tem usado para induzir os homens a não se rebelarem, mas a negociar com a dor; tem sido motivo para justificar o sofrimento e ainda como pretexto para certas formas de repressão. Com esta concepção, a cruz foi afastada grosseiramente de sua referência a Jesus, Salvador.          

Sem dúvida nenhuma, Deus não aceita a sociedade na qual uns homens desprezam os outros, praticam injustiça, exploram, roubam, maltratam, atropelam e matam os outros. As cruzes que os homens levantam para seus irmãos são abomináveis aos olhos de Deus. É preciso lutar contra elas, pois Deus as detesta. 

Jesus Cristo também sente na própria carne todas as dimensões do sofrimento humano. A dor nos faz mais próximos de Jesus Cristo. Mas a dor de Jesus não se encerrou jamais sobre si mesmo, ao contrário, estava totalmente aberta ao próximo. Por isso, o profeta Isaías resumiu: Jesus “tomou as nossas enfermidades e carregou as nossas doenças” (Mt 8,17). Tão profundamente sentiu a dor humana, que dedicou sua vida para servir a todos, para aliviar suas penas e para ensinar-lhes o caminho da superação e da irmandade (Lc 4,18-19). Sua existência esteve totalmente orientada no sentido de aliviar a dor alheia. Não fechava seu coração para ninguém. Ele fazia o máximo possível para que cada um pudesse ver o amor de Deus que Deus lhe tinha e seu próprio valor humano.          

Portanto, Jesus não veio para glorificar a dor, mas sim para dar um fim a seu reinado. A cruz de Jesus é um instrumento de exaltação porque ela é o fruto de amor. A cruz é o último ato de uma vida vivida no amor, na doação e na entrega. A cruz é a expressão suprema do amor de Deus por nós. Por isso, para os cristãos a contemplação da cruz é fonte de alegria serena porque vemos na cruz a manifestação mais clara do amor de Deus por nós todos e por cada um em particular. Deus fez a alma humana de tal forma que apenas uma vida de bondade, de amor e de honestidade nos faz sentir espiritualmente saudáveis, humanos e fraternos.           

Por isso, nunca podemos olhar para a cruz de Jesus sem nos lembrarmos da ressurreição. Sexta-Feira Santa não tem qualquer significado sem o Domingo da Páscoa. No Calvário a vida ganhou, porque o amor era mais forte que a morte. Somente a partir dessa perspectiva se pensa, se corrige e se assume o símbolo da cruz. A redenção é antes de tudo uma vitória. Cristo é o vencedor da morte. Cristo é o Salvador do mundo, Salvador de cada um de nós.                    

Por isso, somos convidados a olhar para o alto, para a Cruz de Jesus. Somente olhando para o alto, para Deus, o homem encontra o sentido da sua existência e tudo que se passa aqui nesta terra. Só do alto vem a luz que dá sentido à alegria e à dor, às vitórias e às derrotas, à solidão e à morte. Olhar para Jesus na cruz significa aceitar com fé a mensagem que ele dirige para todos nós, cristãos. Aqui crer significa identificar a própria vida com a de Cristo. Este é o caminho para alcançar a vida do alto, a salvação. Por isso, Madre Teresa de Calcutá dizia: “Se olhamos para a Cruz de Jesus sabemos muito bem do quanto Deus nos amou. Mas quando participamos da Eucaristia, da missa, sabemos muito bem do quanto Deus nos ama”, porque Jesus continua nos amando, dando-nos Seu Corpo e Sangue para nos fortalecer na nossa caminhada para alcançar a vida eterna.

“Jesus Crucificado!

Sempre Te levo comigo,

Preferindo-Te acima de qualquer coisa.

Quando caio, Tu me levantas.

Quando choro, Tu me consolas.

Quando sofro, Tu me curas.

Quando Te chamo, Tu me respondes.

Tu és a Luz que me ilumina.

O sol que me aquece.

O alimento que me nutre.

A fonte que me sacia.

A doçura que me inebria.

O bálsamo que me restaura.

A beleza que me encanta.

Jesus Crucificado!

Sejas Tu a defesa de minha vida.

Meu conforto e confiança na minha agonia.

E repousa no meu coração

Quando chegar a minha última hora.

Amém!” (Dom Bruno Forte).

  

P. Vitus Gustama,svd

Domingo Da Páscoa, 05/04/2026

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