terça-feira, 19 de junho de 2018



23/06/2018
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DIARIAMENTE TEMOS QUE ESCOLHER ENTRE O VERDADEIRO DEUS E OS ÍDOLOS
Sábado da XI Semana Comum


Primeira Leitura: 2Cr 24,17-25
17 Depois da morte de Joiada, os chefes de Judá vieram prostrar-se diante do rei Joás, que, atraído por suas lisonjas, se deixou levar por eles. 18 Os chefes de Judá abandonaram o templo do Senhor, o Deus de seus pais, e prestaram culto a troncos sagrados e a imagens esculpidas, atraindo a ira divina sobre Judá e Jerusalém por causa desse crime. 19 O Senhor mandou-lhes profetas para que se convertessem a ele. Porém, por mais que estes protestassem, não lhe queriam dar ouvidos. 20 Então o Espírito de Deus apoderou-se de Zacarias, filho do sacerdote Joiada, e ele apresentou-se ao povo e disse: “Assim fala Deus: Por que transgredis os preceitos do Senhor? Isto não vos será de nenhum proveito. Porque abandonastes o Senhor, ele também vos abandonará”. 21 Eles, porém, conspiraram contra Zacarias e mataram-no a pedradas por ordem do rei, no pátio do templo do Senhor. 22 O rei Joás não se lembrou do bem que Joiada, pai do profeta, lhe tinha feito, e matou o seu filho. Zacarias, ao morrer, disse: “Que o Senhor veja e faça justiça!” 23 Ao cabo de um ano, o exército da Síria marchou contra Joás, invadiu Judá e Jerusalém, massacrou os chefes do povo, e enviou toda a presa de guerra ao rei de Damasco. 24 Na verdade, o exército da Síria veio com poucos homens, mas o Senhor entregou nas mãos deles um exército enorme, porque Judá tinha abandonado o Senhor, o Deus de seus pais. Assim, os sírios fizeram justiça contra Joás. 25 Quando eles se retiraram, deixando-o gravemente enfermo, seus homens conspiraram contra ele, para vingar o filho do sacerdote Joiada, e mataram-no em seu leito. Ele morreu e foi sepultado na cidade de Davi, mas não no sepulcro dos reis.


Evangelho: Mt 6, 24-34
Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 24 “Ninguém pode servir a dois senhores: pois, ou odiará um e amará o outro, ou será fiel a um e desprezará o outro. Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro. 25 Por isso eu vos digo: não vos preocupeis com a vossa vida, com o que havereis de comer ou beber; nem com o vosso corpo, com o que havereis de vestir. Afinal, a vida não vale mais do que o alimento, e o corpo, mais do que a roupa? 26 Olhai os pássaros dos céus: eles não semeiam, não colhem, nem ajuntam em armazéns. No entanto, vosso Pai que está nos céus os alimenta. Vós não valeis mais do que os pássaros? 27 Quem de vós pode prolongar a duração da própria vida, só pelo fato de se preocupar com isso? 28 E por que ficais preocupados com a roupa? Olhai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham nem fiam. 29 Porém, eu vos digo: nem o rei Salomão, em toda a sua glória, jamais se vestiu como um deles. 30 Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é queimada no forno, não fará ele muito mais por vós, gente de pouca fé? 31 Portanto, não vos preocupeis, dizendo: O que vamos comer? O que vamos beber? Como vamos nos vestir? 32 Os pagãos é que procuram essas coisas. Vosso Pai, que está nos céus, sabe que precisais de tudo isso. 33 Pelo contrário, buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo. 34 Portanto, não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã terá suas preocupações! Para cada dia, bastam seus próprios problemas”.
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Temos Que Escolher Entre o Verdadeiro Deus ou os Ídolos e Assumir As Consequências Desta Escolha


Depois da morte de Joiada, os chefes de Judá vieram prostrar-se diante do rei Joás, que, atraído por suas lisonjas, se deixou levar por eles. Os chefes de Judá abandonaram o templo do Senhor, o Deus de seus pais, e prestaram culto a troncos sagrados e a imagens esculpidas, atraindo a ira divina sobre Judá e Jerusalém por causa desse crime”, assim lemos na Primeira Leitura de hoje do Segundo Livro das Crônicas.


Sabemos através da Primeira leitura do dia anterior que Joás começou a reinar com apenas sete anos de idade e reinou Judá em torno de quarenta anos, um período relativamente longo (Joás reinou de 885 até 839 a.C).


O sumo sacerdote Joiada, que salvou Joás do massacre de Atália e o ungiu como rei de Judá (depois que Atália foi morta), vivia e agia como pai e conselheiro para o rei Joás e o reinado de Joás prosperou com uma notória restauração da vida social e religiosa. Mas quando o sumo sacerdote Joiada morreu, que ajudava Joás a subir ao trono, Joás se esqueceu dos bons conselhos de Joiada e seguiu os conselhos de outros que conduziram novamente para a idolatria.


Mas não faltam os profetas de Deus. Zacarias, profeta de Deus, filho do sumo sacerdote Joiada, recriminou a mudança de conduta do rei Joás e denunciou o abandono de Deus por Joás que será castigado com a retirada do favor divino: “Porque abandonastes o Senhor, Ele também vos abandonará”. Infelizmente, Zacarias foi assassinado no Templo por ordem de Joás por causa desta denúncia. Mais tarde Jesus vai relembrar esse episódio para seus contemporâneos (cf. Mt 23,34-35).


O autor do Livro das Crônicas interpretou a invasão da Síria como castigo divino: Deus entregou o “grande” exército de Judá nas mãos do “pequeno” exército sírio (2Cr 24,24).


Toda a história do mundo está cheia de conflitos entre “o verdadeiro Deus” e “os ídolos” que o homem fabrica. Evidentemente, é mais tranquilizador fabricar um “deus” à sua própria necessidade do que encontrar-se diante do verdadeiro Deus que é sempre Outro e que questiona o comportamento não ético do homem e sua atitude desumana no tratamento aos outros (cf. Mt 25,40.45). Precisamente a característica de Deus é questionar o modo desumano do viver do homem com os demais.


Não julguemos com demasiada severidade nossos antepassados de ter adorado “árvores sagrados” e “vários ídolos”. Também temos hoje nossos ídolos. O dinheiro, o êxito social, a vaidade, a fama, o prazer, a ambição, a escravidão de ideologias: tudo isso pode ser nosso ídolo particular. Estejamos atentos que cedo ou tarde tudo isso vai arruinar nossa vida. Tudo o que absolutizamos e damos uma importância excessiva: um objeto, uma pessoa, uma ideologia, o conforto, o dinheiro, o prazer, a saúde, a beleza é nosso ídolo. Adoramos coisas de Deus e não o Deus das coisas. Procuramos os milagres de Deus e não o Deus dos milagres. Como resultado, nossa vida terminará na tragédia. Quem procura as coisas mais do que o Deus das coisas, acaba sendo contado entre as coisas. O ser humano para tornar-se mais humano, tem que gostar das pessoas e amá-las. E gostar das pessoas e amá-las significa honrar o próprio Deus que se identifica com qualquer ser humano (cf. Mt 25,40.45). O ser humano é a passagem obrigatória para chegar até Deus. Podemos não encontrar Deus durante a vida, mas não tem que como não cruzarmos com as pessoas diariamente com as quais Deus se identifica.


Entre Servir a Deus e Ao Dinheiro


Estamos ainda acompanhando o Sermão da Montanha (Mt 5-7). O evangelho de hoje é, na verdade, outra explicação sobre a primeira bem-aventurança: “Bem-aventurados os pobres no espírito”. A pobreza no espírito é uma disposição interior que nos permite nos rebaixarmos e converter os outros em amigos. Somente veremos o outro como rival ou inimigo se tivermos algo a defender. Mas se dissermos: “Minha casa é tua, minha alegria é tua alegria, minha tristeza é tua tristeza e minha vida é tua vida”, não teremos nada a proteger ou defender, porque não teremos nada a perder, e sim tudo por partilhar. A pobreza interior é instrumento da hospitalidade.


No evangelho de hoje Jesus afirma: “Ninguém pode servir a dois senhores... Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro”.   É outro modo de falar sobre a necessidade de escolher entre os “tesouros da terra” e os “tesouros do céu”. No texto do evangelho de hoje se encontra a palavra “Mammon” (aramaico), término que personifica o dinheiro, mas no sentido de algo demoníaco. O Dinheiro, com maiúscula (o dinheiro como ídolo, como razão de ser), é a potencia de escravidão. São Paulo nos relembra: “A raiz de todos os males é o amor ao dinheiro” (1Tm 6,10). Jesus quer que não nos tornemos escravos do Dinheiro, mas quer nos ver livres. Podemos possuir o dinheiro, mas ele não pode nos possuir para não perdermos nossa liberdade.


“Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro”. Jesus quer que seus discípulos decidam optar por uma causa só: a causa de Deus ou a causa do Dinheiro. O valor de cada uma dessas causas depende da forma como cada uma delas trata o ser humano.


A causa do Dinheiro trata o ser humano como uma mercadoria, como uma coisa negociável que deve ser posta ao serviço do lucro ou benefício de uma minoria. A causa de Deus, pelo contrário, trata o ser humano como seu objetivo central, principalmente se o ser humano se encontra oprimido ou desumanizado. Deus assume a causa do ser humano como sua própria causa (cf. Jo 3,16), porque o ser humano é Seu filho e em Jesus multiplicou os motivos de sua identificação com a Humanidade.


A causa do Dinheiro é a causa do lucro, do benefício, e é a causa dos poderosos. A causa de Deus, ao contrário, é a causa da justiça e da fraternidade, e por isso, é a causa que está a favor de quem sofre as injustiças e por isso, está a favor dos injustiçados, dos empobrecidos, dos marginalizados, dos excluídos. Quem luta por esta causa está lutando com Deus e por isso, está com Deus.


Quem se põe somente ao serviço da causa do dinheiro não deve estranhar-se de que na terra se multiplicam os seres humanos sem alimento e sem vestido, sem moradia e sem saúde, sem segurança e sem educação e assim por diante. Mas quem põe sua vida ao serviço da causa de Deus, mais tarde acolherá o fruto da fraternidade e da justiça. E o alimento, o vestido, a moradia, a educação, a saúde, a segurança nunca faltarão numa sociedade de irmãos governada pela igualdade e a solidariedade. A Igreja cristã primitiva experimentou tudo isso (cf. At 4,32-37).


Jesus nos apresenta outro estilo de vida para todos os cristãos: a confiança em Deus, em oposição à excessiva preocupação pelo dinheiro: “Procurai primeiro o Reino de Deus e sua justiça; o resto vos será dado por acréscimo”. Para Jesus esta deve ser a atitude básica de cada cristão. Trata-se de colocar tudo na escala de valores. Por isso, Jesus não nos diz “procurai unicamente o Reino de Deus”, e sim “procurai primeiro o Reino de Deus...”. Com isso Jesus não exclui o resto, mas coloca o resto no seu lugar apropriado. Cristo sabe muito bem que nós não somos pássaros nem lírios, e que nós necessitamos ganhar a vida com diligência e trabalho, mas descobrindo a cada passo a providência amorosa de Deus e confiando-nos totalmente ao Pai do céu, sem angústia obsessiva pela aquisição de coisas para a manutenção cotidiana. Se Deus vela com solicitude sobre criaturas tão insignificantes como os pássaros e as flores, quanto mais sobre os homens, seus filhos, todos nós que colaboramos na Sua obra.


É Preciso Abandonar-se ao Pai Celeste Que Nos Ama


Além disso, Jesus quer libertar seus seguidores da inquietude através da consagração da própria vida a Deus e da fidelidade na busca do Reino de Deus: “Não vos preocupeis com a vossa vida, com o que havereis de comer ou beber; nem com o vosso corpo, com o que havereis de vestir. Afinal, a vida não vale mais do que o alimento, e o corpo, mais do que a roupa? Olhai os pássaros dos céus: eles não semeiam, não colhem, nem ajuntam em armazéns. No entanto, vosso Pai que está nos céus os alimenta. Vós não valeis mais do que os pássaros? ... Olhai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham nem fiam... Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo”.


Jesus nos convida a criarmos a paz e a serenidade através da contemplação da natureza criada por Deus. Não temos ir para alguma lugar para aprender a fazer a contemplação. Nos pássaros e nas flores Jesus contempla Seu Pai. Jesus introduz no seu ensinamento a palavra “Pai” para que o cristão tenha o sentimento de confiança filial capaz de tranquilizar sua natural inquietude.


Se Deus vela com solicitude sobre as criaturas tão frágeis como são os pássaros e as flores no campo, que são pouco mais do que nada, e nada fazem, que cuidados não terá Deus em relação às criaturas mais dignas, suas obras primas que são os homens? Cristo quer nos libertar de nossa inquietação exagerada para que possamos nos consagrar total e fielmente à procura daquilo que nos dignifica e nos diviniza: o Reino de Deus e sua justiça. A atitude de um cristão diante de Deus deve ser semelhante à situação de uma criança que é serena e tranquila porque seu pai e sua mãe pensam nela e a amam.


 “Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça”, Jesus nos relembra. Jesus não quer nos afastar das tarefas e responsabilidades terrenas, mas Ele nos recorda o essencial. É assegurar primeiro o que é essencial em cada jornada. Aquilo que eu estou buscando é essencial? Aquilo que estou fazendo é essencial? Aquilo que estou comentando é essencial?


Não fará vosso Pai muito mais por vós, gente de pouca fé?”. A confiança e o abandono nas mãos do Pai celeste que Jesus nos pede hoje é a fé n’Aquele a quem servimos e por quem nos sentimos amados. Deus sabe muito bem de que necessitamos de muitas coisas para a subsistência de cada dia que se fundamenta no dinheiro, fruto de nosso trabalho honesto e nos bens que com o dinheiro se adquirem. Por isso, no texto anterior, Jesus nos ensinou a rezar: “Dá-nos hoje o pão nosso de cada dia”.


Mas esta confiança em Deus não nos isenta de nossa responsabilidade nas tarefas temporais, não nos permite desinteressarmos do nosso compromisso cristão no mundo. Se nós acreditamos que Deus é absoluto em tudo, então o resto é relativo ou é apenas meio ou instrumento e não o fim. Por isso, Jesus nos alerta: “Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro”. Dinheiro é um deus que tem seu altar em cada coração humano. Ninguém está isento de servir ao deus- dinheiro. Mas Santo Agostinho dizia: “Se tu pensas em Deus com parâmetros carnais, tua mente se converterá em uma fábrica de ídolos”. “Amando a Deus nos tornamos divinos; amando ao mundo nos tornamos mundanos. O amor ao mundo corrompe a alma; o amor ao Criador do mundo a purifica. O homem não se torna bom por possuir coisas boas. Ao contrário, o homem bom torna boas as coisas que possui, ao usá-las bem”, acrescentou Santo Agostinho.


Jesus nos relembra que os pássaros se esforçam por comer e não se dedicam para acumular. A preocupação obsessiva pelos bens materiais impede qualquer homem de viver na paz e na serenidade.
 
P. Vitus Gustama, SVD

segunda-feira, 18 de junho de 2018

22/06/2018
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CORAÇÃO POSTO EM DEUS É O CORAÇÃO DE TESOURO
Sexta-Feira da XI Semana Comum


Primeira Leitura: 2Rs 11,1-4.9-18.20
Naqueles dias, 1 quando Atália, mãe de Ocozias, soube que o filho estava morto, pôs-se a exterminar toda a família real. 2 Mas Josaba, filha do rei Jorão e irmã de Ocozias, raptou o filho dele, Joás, do meio dos filhos do rei, que iriam ser massacrados, e colocou-o, com sua ama, no quarto de dormir. Assim, escondeu-o de Atália e ele não foi morto. 3 E ele ficou seis anos com ela, escondido no templo do Senhor, enquanto Atália reinava no país. 4 No sétimo ano, Joiada mandou chamar os centuriões dos quereteus e da escolta, e introduziu-os consigo no templo do Senhor. Fez com eles um contrato, mandou que prestassem juramento no templo do Senhor e mostrou-lhes o filho do rei. 9 Os centuriões fizeram tudo o que o sacerdote Joiada lhes tinha ordenado. Cada um reuniu seus homens, tanto os que entravam de serviço no sábado, como os que saíam. Vieram para junto do sacerdote Joiada, 10 e este entregou aos centuriões as lanças e os escudos de Davi, que estavam no templo do Senhor. 11Em seguida, os homens da escolta, de armas na mão, tomaram posição a partir do lado direito do templo até o esquerdo, entre o altar e o templo, em torno do rei. 12 Então Joiada apresentou o filho do rei, cingiu-o com o diadema e entregou-lhe o documento da Aliança. E proclamaram-no rei, deram-lhe a unção e, batendo palmas, aclamaram: “Viva o rei!” 13 Ouvindo os gritos do povo, Atália veio em direção da multidão no templo do Senhor. 14 Quando viu o rei de pé sobre o estrado, segundo o costume, os chefes e os trombeteiros do rei junto dele, e todo o povo do país exultando de alegria e tocando as trombetas, Atália rasgou suas vestes e bradou: “Traição! Traição!” 15 Então o sacerdote Joiada ordenou aos centuriões que comandavam a tropa: “Levai-a para fora do recinto do templo e, se alguém a seguir, seja morto à espada”. Pois o sacerdote havia dito: “Não seja morta dentro do templo do Senhor”. 16 Agarraram-na e levaram-na aos empurrões pelo caminho da porta dos Cavalos até o palácio, e ali foi morta. 17 Em seguida, Joiada fez uma aliança entre o Senhor, o rei e o povo, pela qual este se comprometia a ser o povo do Senhor. Fez também uma aliança entre o rei e o povo. 18 Todo o povo do país dirigiu-se depois ao Templo de Baal e demoliu-o. Destruíram totalmente os altares e as imagens e mataram Matã, sacerdote de Baal, diante dos altares. E o sacerdote Joiada pôs guardas na casa do Senhor. 20 Todo o povo do país o festejou e a cidade manteve-se calma.


Evangelho: Mt 6,19-23
Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 19 “Não junteis tesouros aqui na terra, onde a traça e a ferrugem destroem, e os ladrões assaltam e roubam. 20 Ao contrário, juntai para vós tesouros no céu, onde nem a traça e a ferrugem destroem, nem os ladrões assaltam e roubam. 21 Porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração. 22 O olho é a lâmpada do corpo. Se o teu olho é sadio, todo o teu corpo ficará iluminado. 23 Se o teu olho está doente, todo o corpo ficará na escuridão. Ora, se a luz que existe em ti é escuridão, como será grande a escuridão.
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Somos Chamados a Conviver Como Irmãos e Irmãs


O homem, no que tem de animal, é violento, mas no que tem de espiritual é não-violento. No momento em que ele se torna consciente do espirito interior, não pode permanecer violento. O primeiro princípio da ação não-violenta é o da não-cooperação com tudo que é humilhante (Mahatma Gandhi).


Atália, filha do rei Acab e de Jezabel, muito influenciada pelo Jorão, seu marido e pelo seu filho, Ocozias, introduziu em Jerusalém o culto a Baal (2Rs 8,18.27).  Estava imbuída pelo paganismo fenício de sua mãe, fez o golpe de estado. O estilo de golpe de estado de Atália é próprio da forma monárquica que Israel imitou das nações pagãs. Para assegurar a possessão do trono era preciso começar a eliminar todos os possíveis rivais (cf. Jz 9,5; 2Sm 16,4; 19,30; 21,9; 1Rs 2,13-46). Segundo o ideal, a missão da monarquia devia ser a de defender o povo contra os inimigos e proteger os débeis contra a opressão dos poderosos. Porém, a repetição dos fatos indica suficientemente que a instituição levava facilmente os reis de Israel a uma ambição de poder que, no caso de Atália, chega a acabar com o amor familiar até o extremo de mandar matar, sem piedade, seus próprios netos para ocupar o trono real.


Com esse assassinato da família real, Atália crê ter acabado com a dinastia do rei Davi que significaria a ruptura da linha messiânica prometida por Deus. Mas felizmente, quem governa verdadeiramente o mundo é o próprio Deus, pois a Palavra de Deus será sempre a última palavra para a humanidade, por poderosa que a humanidade pareça ser. Atália não sabia que alguém (Josaba)  escondia um filho pequeno (Joás) do rei morto e que seria o rei em Israel.  Ao entronizar Joás para  ser rei a fim de voltar a reinar a Casa de Davi, o povo opta novamente a ser o Povo de Javé e não é o de Baal. É o aspecto que o Salmo Responsorial enfatiza hoje: “O Senhor fez a Davi um juramento, uma promessa que jamais renegará: ´um herdeiro que é fruto do teu ventre colocarei sobre o trono em teu lugar´” (Sl 131).


Também na história contemporânea vemos que existem a violência, os assassinatos e o genocídios. Alguns desses assassinatos são realizados em nome do suposto Deus em quem os autores desses assassinatos acreditam. Como também idas e voltas na fidelidade a Deus e caídas e recaídas nas idolatrias do momento. Quantos homens modernos ou pós-modernos trocam o Criador por alguma criatura para ser adorada. Muitos colocam o ouro e a prata acima de Quem os criou. Em nome do deus-ouro e do deus-prata, alguém é capaz de eliminar os outros desta vida. Mas no fim, todos vão entender que tudo que se adquire aqui, neste mundo, vai ficar aqui neste mundo. O caixão é feito para colocar o corpo morto e não para enterrar os ouros e pratas. Infelizemente o cofre não acompanha o caixão.


Nós, cristãos, jamais devemos perder a sensibilidade humana. A sensibilidade humana é a nova ética, pois somos chamados a sentir o que o outro sente e somos movidos a fazer algo pelo bem do próximo. Uma pessoa sem sensibilidade humana é uma pessoa muito violenta que acabará tirando a vida alheia. Da sensibilidade humana nascem a compaixão, a solidariedade, a misericórdia e assim por diante. Precisamos educar nossa sensibilidade humana para que possamos ser, cada vez mais, irmãos dos outros homens neste mundo em vez de ser inimigos dos outros.


Que não se repitam, nem sequer na escala muito reduzida as violências, as brutalidades, as corrupções que tiram o pão da boca de tantos famintos. Jesus Cristo, o Pão da Vida é partido e repartido em nossos altares para que, ao comungá-lo, possamos ser pão partido e repartido para os irmãos, isto é, ser vida para os demais em vez de tirar a vida dos outros.


Educar e Proteger o Coração Para Ser Tesouro Divino e Humano


“Onde está o teu tesouro, lá também está teu coração”


Ainda estamos no Sermão da Montanha onde encontramos várias orientações de Jesus para seus seguidores, para os cristãos de todos os tempos e lugares (Mt 5-7).


Lugar Devido Para O Coração


Depois dos três atos fundamentais de culto: esmola, jejum e oração, no texto do evangelho de hoje Jesus fala sobre lugar devido para nosso coração. O que devemos fazer para que não nos convertamos em materialistas ou secularizados? No uso dos bens o importante é fazer escolhas claras e limpas: “Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e as traças corroem, onde os ladrões furtam e roubam. Ajuntai para vós tesouros no céu, onde não os consomem nem as traças nem a ferrugem, e os ladrões não furtam nem roubam. Porque onde está o teu tesouro, lá também está teu coração” (Mt 6,19-21). Jesus personaliza ao máximo seu ensinamento e por isso, ele passa de “vós” para “tu” na sua afirmação. Com isso o texto quer nos mostrar que Jesus está interessado em nossa situação pessoal.


Jesus usa uma imagem inesquecível: traça. Traça é um pequeno inseto, mas destrói móveis: casa ou armário e os demais moveis de madeira. Com esta imagem Jesus quer nos dizer que não podemos nos concentrar somente nas coisas elementares da vida capazes de destruir nossa dignidade. É preciso que nos concentremos nas coisas essenciais; é preciso que tratemos mais coisas essenciais capazes de construir nossa vida e nossa convivência como filhos e filhas de Deus, capazes de nos levar para a comunhão com Deus. “Ajuntai para vós tesouros no céu”. A riqueza “no céu” é Deus mesmo (cf. Mt 19,21). “No céu” significa “em Deus”. O que é investido em Deus tem seu valor duradouro. Charles Chaplin dizia: “Não se mede o valor de um homem pelas suas roupas ou pelos bens que possui, o verdadeiro valor do homem é o seu caráter, suas ideias e a nobreza dos seus ideais”.


O oposto a acumular riquezas é compartilhar o que se tem, obra de generosidade. O apego ao dinheiro faz do homem um miserável; é precisamente o desapego, que se traduz no dom é que dá valor à pessoa. Jesus põe o valor da pessoa no desprendimento, que manifesta o amor.


O Evangelho de hoje, na verdade, é uma explicação do conteúdo da primeira bem-aventurança: “Bem-aventurados os pobres no espírito, porque deles é o reino do céu” (Mt 5,3). “Pobre no espírito” consiste no desapego interior às riquezas; também significa são os humildes de coração em oposição aos orgulhosos (interpretação dos Padres da Igreja); significa os que se submetem interiormente, sem resistência, à vontade de Deus, os que aceitam humildemente o senhorio de Deus sobre suas vidas. É uma atitude de humildade diante de Deus, nascida da fé em Deus, da experiência de Deus e que se traduz em atitudes e condutas de bondade e de mansidão, de misericórdia e de compaixão, de tolerância e de compreensão. São atitudes opostas às de orgulho, de prepotência e da violência, do endurecimento e da intransigência. Jesus foi um pobre espiritualmente porque seu alimento foi sempre a vontade do Pai (cf. Jo 4,34), sendo obediente até a morte, e morte de cruz.


 Onde está o teu tesouro, aí estará o teu coração”. Neste texto Jesus usa a palavra “tesouro”.  Como podemos definir “meu tesouro”? Como Jesus define o “tesouro” e de que forma o define?


Para nós o “tesouro” são os bens materiais que possuímos ou conjunto de riquezas de qualquer tipo: dinheiro que temos e que investimos em distintas atividades para acumular mais ainda, jóias, pedras e metais preciosos, bens valiosos, guardadas ou escondidas. No entanto, a experiência nos mostra que nada é seguro neste mundo. Deste pensamento Jesus define o tesouro a partir do lugar onde se recorre: se é na terra, não está seguro; se é no céu, está seguro. Seremos ricos e poderemos possuir e acumular verdadeiros tesouros somente se vivermos em Deus.


Isto quer dizer que o homem se define pelos valores que estima e as seguranças que busca. E estes valores que ele escolhe orientam sua vida, influenciam nas opções diárias e marcam sua personalidade. A avareza obscurece nossa visão das pessoas, das coisas e da vida. Tudo que amamos por causa de nós mesmos, fora de Deus, só cega nosso intelecto e paralisa nosso julgamento sobre os valores morais; vicia nossas opções, de maneira que não podemos distinguir com nitidez o bem do mal nem saber qual é a vontade de Deus. Dizia Santo Agostinho: “Possuamos as coisas terrenas sem deixar-nos possuir por elas. Que não nos deslumbre sua multiplicação nem nos afunde sua carência. Façamos que elas nos sirvam sem fazer-nos seus servidores”.


Onde está o teu tesouro, aí estará o teu coração”. Na linguagem bíblica, o coração designa toda a personalidade em seu conjunto, a vida interior, o caráter, a atividade consciente e volitiva do eu humano. O coração é feito para Deus e para os semelhantes (próximos). Não coloquemos nosso coração nas coisas, porque elas vão se destruir, elas vão acabar um dia, elas não serão levadas quando partirmos deste mundo, como dizia santo Agostinho: “Essa vida mortal, mais que uma morada de residentes por direito, é uma pousada de viajantes em trânsito”. Podemos ter muitas coisas na vida ou muitos bens materiais, mas eles continuam a ser alheios a nós; eles nunca serão nossos próximos. “Sem amigos ninguém escolheria viver, mesmo que tivesse todos os outros bens”, dizia Aristóteles. Nosso próximo é sempre o ser humano e não a coisa. Podemos ter as coisas, mas as coisas não podem nos possuir. Ao contrário, coloquemos nosso coração em Deus e nas pessoas, pois são eles que nos levam a Deus. Dentro do coração de Jesus encontraremos infinitos tesouros de amor. Procuremos que o nosso coração se assemelhe ao dele.


 A partir desse primeiro pensamento, é muito útil nos perguntarmos todos os dias: onde tenho o meu coração? Onde eu coloco o meu coração? Qual é o centro da minha vida?


Olhar São Expressa o Coração São


Jesus também nos diz: “O olho é a luz do corpo. Se teu olho é são, todo o teu corpo será iluminado. Se teu olho estiver em mau estado, todo o teu corpo estará nas trevas. Se a luz que está em ti são trevas, quão espessas deverão ser as trevas!” (Mt 6,22-23).  Na Bíblia, “corpo” não é somente nossa materialidade. “Corpo” representa a totalidade da pessoa humana na medida em que pode visualizar-se e distinguir-se dos demais como ser individual, isto é, a pessoa em sua individualidade, capaz de relacionar-se com os demais, sendo sempre ela mesma, capaz de ser interpelada como um “tu”. Para que a pessoa (o corpo) possa atuar, necessita de luz para poder ver. E o “ver” vai muito mais além do órgão material “olho”, pois também pode se ver com a mente. “Ver” é um ato que implica a toda a pessoa. Ver exterioriza os sentimentos do coração, ao referir-se ao “olho bom”, a Bíblia fala dos olhos dirigidos ao Senhor porque liberta e ajuda (Sl 25,12; 123,1; 141,8). Quando fala do “olho malvado” assinala para o homem vaidoso e avaro: “O olhar do avarento é insaciável a respeito da iniquidade: só ficará satisfeito quando tiver ressecado e consumido a sua alma. O olhar maldoso só leva ao mal; não será saciado com pão, mas será pobre e triste em sua própria mesa” (Eclo 14,9-10).


Se o olho estiver são veremos bem; se ele estiver enfermo, veremos apenas a escuridão ao nosso redor. Se o nosso olhar estiver posto em Deus, que é a luz de toda luz, o mistério da escuridão humana será iluminado e veremos tudo a partir de Deus. Se o nosso olhar não for posto em Deus, viveremos nas trevas, dentro do mistério da própria escuridão e a nossa visão será limitada. Como o coração pode escolher, assim também o olho. Se for dirigido a Deus, escolherá Deus e será envolto pela luz e verá com clareza a vida. “Ora, se a luz que existe em ti é escuridão, como será grande a escuridão”. É o convite de Jesus para que nosso olhar fixe permanentemente em Deus para que nossa vida não se transforme em escuridão total.


Reflita sobre a verdade das palavras seguintes de Mahatma Gandhi: “Plenamente liberto e livre é somente o homem que, depois de se consolidar definitivamente no mundo espiritual, volta ao mundo material sem se materializar; o seu reino não é daqui, mas ele ainda trabalha aqui, como se fosse o mais profano dos profanos. Somente um homem plenamente espiritual pode admitir aparências de materialidade sem desmentir a sua espiritualidade. De um homem que nada espera do mundo, tudo pode o mundo esperar”.
P. Vitus Gustama,SVD
21/06/2018
Quinta-feira da XI Semana Comum


Primeira Leitura: Eclo 48,1-15
1O profeta Elias surgiu como um fogo, e sua palavra queimava como uma tocha. 2 Fez vir a fome sobre eles e, no seu zelo, reduziu-os a pouca gente. 3Pela palavra do Senhor fechou o céu e de lá fez cair fogo por três vezes. 4Ó Elias, como te tornaste glorioso por teus prodígios! Quem poderia gloriar-se de ser semelhante a ti? 5Tu, que levantaste um homem da morte e dos abismos, pela palavra do Senhor; 6tu, que precipitaste reis na ruína e fizeste cair do leito homens ilustres; 7tu, que ouviste censuras no Sinai e decretos de vingança no Horeb. 8Tu ungiste reis, para tirar vingança, e profetas, para te sucederem; 9tu foste arrebatado num turbilhão de fogo, um carro de cavalos também de fogo, 10tu, nas ameaças para os tempos futuros, foste designado para acalmar a ira do Senhor antes do furor, para reconduzir o coração do pai ao filho, e restabelecer as tribos de Jacó. 11Felizes os que te viram, e os que adormeceram na tua amizade! 12Nós também, com certeza, viveremos; mas, após a morte, não será tal o nosso nome. 13Apenas Elias foi envolvido no turbilhão, Eliseu ficou repleto do seu espírito. Durante a vida não temeu príncipe algum, e ninguém o superou em poder. 14Nada havia acima de suas forças, e, até já morto, seu corpo profetizou. 15Durante a vida realizou prodígios e, mesmo na morte, suas obras foram maravilhosas.


Evangelho: Mt 6,7-15
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 7 ”Quando orardes, não useis muitas palavras, como fazem os pagãos. Eles pensam que serão ouvidos por força das muitas palavras. 8 Não sejais como eles, pois vosso Pai sabe do que precisais, muito antes que vós o peçais. 9 Vós deveis rezar assim: Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o teu nome; 10 venha o teu Reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como nos céus. 11 O pão nosso de cada dia dá-nos hoje. 12 Perdoa as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido. 13 E não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal. 14 De fato, se vós perdoardes aos homens as faltas que eles cometeram, vosso Pai que está nos céus também vos perdoará. 15 Mas, se vós não perdoardes aos homens, vosso Pai também não perdoará as faltas que vós cometestes”.
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As Palavras De Um profeta Purifica, Consagra e Renova Os Homens Por Dentro


O resumo que faz da vida do profeta Elias nos recorda o que lemos nos dias anteriores. E o Salmo Responsorial reflete também o rasgo que o Eclesiástico  destaca do temperamento de Elias em sua luta contra a idolatria. “Vai um fogo caminhando à sua frente e devora ao redor seus inimigos. Seus relâmpagos clareiam toda a terra; toda a terra ao contemplá-los estremece. Os que adoram as estátuas se envergonhem e os que põem a sua glória nos seus ídolos; aos pés de Deus vêm se prostrar todos os deuses!” (Sl 96/97). O estilo do profeta Elias é fogoso.


O profeta Elias surgiu como um fogo, e sua palavra queimava como uma tocha. Pela palavra do Senhor fechou o céu e de lá fez cair fogo por três vezes” (Eclo 48,1.3). É o elogio do autor do Livro de Eclesiástico que se fez muito tempo depois da “subida” de Elias ao céu. Geralmente, os fatos do passado são constantemente interpretados pelas gerações sucessivas para tirar deles as lições.


Segundo o texto do livro de Eclesiástico que lemos na Primeira leitura o profeta Elias surgiu “como um fogo” e sua palavra abrasava “como uma tocha” e “fez cair fogo três vezes”.


Para os hebreus, como para muitos povos acostumados com “sacrifícios”, o fogo é o elemento misterioso que une o homem a Deus. A vítima (animal sacrificado) se passava pelo fogo para que o fogo penetrasse nela e se comia essa vitima em uma comida sagrada para entrar em comunhão com a divindade.


Para muitos povos fogo é considerado sagrado, purificador e renovador. Seu poder destruidor, muitas vezes, é interpretado como meio de renascimento para um nível mais elevado. Em algumas culturas há até deus de fogo: Agni na India; Héstia na Grega; e vários deuses de fogo na China. O fogo purifica. A própria existência dos profetas que se aproximaram de Deus sem serem consumidos é testemunho disso (cf. 2Rs 2,11).


Porém, os profetas escritores gostam também de anunciar e descrever a ira de Deus com um fogo: castigo dos ímpios (Am 1,4-2,5). O fogo do juízo, no fim dos tempos, se torna verdadeiro fogo da ira de Deus quando cai sobre o pecador endurecido.


A Igreja vive deste fogo que abrasa o mundo graças ao sacrifício de Cristo. O fogo ardia o coração dos discípulos de Emaús quando ouviram o Ressuscitado (Lc 24,32). O fogo desceu do céu sobre os discípulos no dia de Pentecostes. Mas o fogo aqui simboliza o Espirito Santo que tem por missão transformar todos os que devem difundir a linguagem do Espirito para todas as nações.


A palavra de um profeta é como fogo: purifica, renova e torna sagrado quem ouve essa palavra. Assim eram as palavras do profeta Elias. Trata-se de um ardor que tudo vence como a chama do amor divino que salva (cf. Ct 8,6s). As palavras de um profeta podem assustar quem as ouve, mas na verdade tem por objetivo levantar as pessoas para uma vida digna de filhos e filhas de Deus e de irmãos entre si. Para quem ama  e para quem é amado não tem como não falar e não ouvir as palavras purificadoras, mesmo que sejam amargas. No batismo, cada cristão recebe a função profética.


Nosso Deus É Nosso Papaizinho


O nome mais adequado ao Deus que reina, o nome mais sábio da teologia definitiva, o nome que exalta a transcendência da divindade e a revela próxima a nós e imanente como fonte de nossa vida, o nome que Jesus acendeu sobre o mundo e entregou às almas em busca de uma linguagem para dirigir-se a Deus, é o dulcíssimo, humaníssimo e sublime nome de Pai (...) A religião nova nasce daqui: Pai nosso, que estais nos céus. Um novo modo de ser nasce daqui: sejais perfeitos, como vosso Pai é perfeito” (Papa Paulo VI).


De todas as revoluções do Evangelho, a mais profunda e a mais radical é a revelação de Deus como Pai, e consequentemente Deus como amor, como o Pai mais carinhoso e entranhável.


Estamos ainda no Sermão da Montanha (Mt 5-7) onde podemos encontrar vários ensinamentos fundamentais de Jesus para nós, seus seguidores. No evangelho de hoje Jesus nos dá seu conselho sobre oração.


Rezar significa abrir-se para Deus. Nossa vida não pode estar centrada em nós mesmos ou só nas coisas deste mundo. Rezar é saber escutar a Palavra d’Aquele que é maior do que nosso cérebro e dirigir-lhe, pessoal e comunitariamente nossa palavra de louvor e de súplica com confiança de filhos. A oração é mais do que recitar umas fórmulas, é, sobretudo, uma convicção íntima de que Deus é nosso Pai e que quer nosso bem. A oração nos situa diante de Deus e nos faz reconhecer tal como somos já que somos criados à imagem de Deus. A oração vai nos descobrindo o que temos de ser em cada momento. A oração nos humaniza, faz-nos mais humanos, mais criaturas, e não criadores. Se não rezarmos é impossível que nos conheçamos a fundo, porque não saberemos o que poderíamos ser, não saberemos até onde vamos. A oração nos possibilita dizermos em profundidade o que somos, o que pensamos e o que vivemos e para onde vamos.


No texto do evangelho anterior o aspecto individual da oração é destacado com a advertência sobre o perigo de exibicionismo:Quando orardes, não sejais como os hipócritas, que gostam de rezar em pé, nas sinagogas e nas esquinas das praças, para serem vistos pelos homens” (Mt 6,5). Na prática de Jesus a oração individual e a oração comunitária são da mesma importância.


“Vós, portanto, orai assim: Pai nosso que estás nos céus....”, diz nos Jesus. De todas as revoluções do Evangelho, a mais profunda e a mais radical é a revelação de Deus como Pai, e consequentemente Deus como amor, como o Pai mais carinhoso e entranhável. A tradução mais fiel da palavra “Abba” não é simplesmente “Pai” e sim “Papaizinho”. Qualquer pai sabe muito bem como se sente ao ouvir o apelido “paizinho”. E qualquer filho sabe muito bem como se sente ao chamar seu pai de “paizinho”. Só pode ser uma grande intimidade e ternura. Ao ensinar seus discípulos a chamarem Deus como Pai na oração, Jesus quer enfatizar a simplicidade, a proximidade, a ternura e a familiaridade. A palavra “pai” é algo que tem a ver com a família, a intimidade e a informalidade.


O Pai-Nosso não é uma simples oração apesar de ser breve. O Pai-Nosso é uma síntese de tudo o que Jesus viveu e sentiu a propósito de Deus, do mundo e de seus discípulos. Chamar Deus de “Pai” é algo insólito, inimaginável que expressa a máxima confiança, proximidade e ternura. Jesus quer nos dizer que Deus é o nosso Pai que está sempre ao nosso lado, cheio de cuidados e ternura para cada um de seus filhos e filhas. Com a palavra “Pai” abre-se um mundo novo nas relações de Deus para com o homem. A vida cristã está banhada de alegria, pois sabemos que somos filhos e filhas de Deus independentemente de nossa situação e de nosso modo de viver.


Além do mais, ao chamar Deus de Pai precisamos estar conscientes de que precisamos viver como irmãos e irmãs, como recorda Santo Tomás de Aquino: “Ao dizermos Pai, recordemos duas obrigações que temos para com os semelhantes: Primeiro, devemos amá-los porque são nossos irmãos, pelo fato de serem filhos de Deus (cf. 1Jo 4,20). Segundo, devemos reverenciá-los, tratando-os como filhos de Deus (cf. Ml 2,10; Rm 12,10; Hb 5,9) “.


Rezar o Pai-Nosso é seguir Jesus Cristo, aprendendo dele a maneira de viver, de escolher e também o modo de enfrentar a morte; quais são as razões profundas, as raízes da própria existência. Dizer “Pai” nos torna disponíveis, enche-nos de confiança, facilita a nossa entrega, pois estamos certos de sermos ouvidos, e isto nos permite superar as barreiras do medo e da incerteza. Dizer “Pai” significa que eu devo me comportar como filho diante dele e como irmão diante dos outros, pois eu sou irmão de muitos outros irmãos. Dizer “Pai” faz nascer a certeza de que somos amados, isto é, nos leva a um ato de inteiro abandono em Deus. Quem chama Deus de “Paizinho” (Abba) jamais pode perder a perspectiva na vida apesar dos problemas e da idade avançada. Em Deus Pai sempre ganhamos novas perspectivas e o maior horizonte na nossa frente, pois Deus Pai está nos nossos olhos para podermos ver muito além da visão humana.


O Pai-Nosso é um modelo de oração que Jesus nos ensina. Primeiro, esta oração nos faz pensar em Deus que é nosso Pai: Seu nome, Seu Reino, Sua vontade. Jesus quer estejamos em sintonia com Deus, nosso Pai. Logo em seguida, passa para nossas necessidades que devemos pedir ao Pai: o pão de cada dia, o perdão de nossas faltas, a força para não cair em tentação e vencer o mal. Trata-se de uma oração de uma espiritualidade equilibrada. E esta oração confirma nossa condição de filhos para Deus e também nossa condição de irmãos dos demais, dispostos a perdoar, porque todos nós somos filhos do mesmo Pai.


Diante de um mundo que prescinde de Deus, Jesus propõe como primeira petição, como ideal supremo do discípulo, o desejo da glória de Deus: “Santificado seja Vosso nome!”. Nessa petição situa Deus acima de tudo e de todos, exalta sua majestade e deseja que seja proclamada sua glória.


Diante de um mundo onde predomina o ódio, a violência, a vingança, a crueldade, Jesus pede que seja instaurado o Reino de Deus, o Reino de justiça, de amor, de compaixão, de paz, de fraternidade onde um cuida do outro, pois o outro é o filho de Deus e por isso, é meu irmão. Só assim será instaurado o Reino de Deus nesta terra.


E como uma comunidade de irmãos, filhos do mesmo Pai celeste, os seguidores de Jesus precisam diariamente do pão que sustenta a vida, pois a vida é sagrada, do perdão mútuo, pois todos são pessoas com suas limitações e fraquezas, e da ajuda de Deus para manter-se firmes. Por isso, a partir da dimensão comunitária (Pai nosso), a oração do Pai nosso é um convite para estabelecermos com Deus uma relação de confiança e intimidade e uma relação de fraternidade com os demais com uma disposição constante de perdão.
P. Vitus Gustama, SVD
20/06/2018
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VIVER NA INTERIORIDADE E NA AUTENTICIDADE CONFORME O ESPÍRITO DO SENHOR
Quarta-Feira da XI Semana Comum

Primeira Leitura: 2Rs 2,1.6-14
1 Quando o Senhor quis arrebatar Elias ao céu, num redemoinho, Elias e Eliseu partiram de Guilgal. 6 Tendo chegado a Jericó, Elias disse a Eliseu: “Permanece aqui, porque o Senhor me mandou até o Jordão”. E ele respondeu: “Pela vida do Senhor e pela tua, eu não te deixarei”. E partiram os dois juntos. 7 Então, cinquenta dos filhos dos profetas os seguiram, e ficaram parados, à parte, a certa distância, enquanto eles dois chegaram à beira do Jordão. 8 Elias tomou então o seu manto, enrolou-o e bateu com ele nas águas, que se dividiram para os dois lados, de modo que ambos passaram a pé enxuto. 9 Depois que passaram, Elias disse a Eliseu: “Pede o que queres que eu te faça antes de ser arrebatado da tua presença”. Eliseu disse: “Que me seja dada uma dupla porção do teu espírito”. 10 Elias respondeu: “Tu pedes uma coisa muito difícil. Se me vires quando me arrebatarem da tua presença, isso te será concedido; caso contrário, isso não te será dado”. 11 E aconteceu que, enquanto andavam e conversavam, um carro de fogo e cavalos de fogo os separaram um do outro, e Elias subiu ao céu num redemoinho. 12 Eliseu o via e gritava: “Meu pai, meu pai, carro de Israel e seu condutor!” Depois, não o viu mais. E, tomando as vestes dele, rasgou-as em duas. 13 Em seguida, apanhou o manto que Elias tinha deixado cair e, voltando sobre seus passos, estacou à margem do Jordão. 14 Tomou então o manto de Elias e bateu com ele nas águas dizendo: “Onde está agora o Deus de Elias?” E bateu nas águas, que se dividiram, para os dois lados, e Eliseu atravessou o rio.


Evangelho: Mt 6,1-6.16-18
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 1“Ficai atentos para não praticar a vossa justiça na frente dos homens, só para serdes vistos por eles. Caso contrário, não recebereis a recompensa do vosso Pai que está nos céus. 2Por isso, quando deres esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem elogiados pelos homens. Em verdade vos digo: eles já receberam a sua recompensa. 3Ao contrário, quando deres esmola, que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua mão direita, 4de modo que, a tua esmola fique oculta. E o teu Pai, que vê o que está oculto, te dará recompensa. 5Quando orardes, não sejais como os hipócritas, que gostam de rezar em pé, nas sinagogas e nas esquinas das praças, para serem vistos pelos homens. Em verdade, vos digo: eles já receberam a sua recompensa. 6Ao contrário, quando tu orares, entra no teu quarto, fecha a porta, e reza ao teu Pai que está oculto. E o teu Pai, que vê o que está escondido, te dará a recompensa. 16Quando jejuardes, não fi­queis com o rosto triste como os hipócritas. Eles desfiguram o rosto, para que os homens vejam que estão jejuando. Em verdade, vos digo: Eles já receberam a sua recompensa. 17Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto, 18para que os homens não vejam que estás jejuando, mas somente teu Pai, que está oculto. E o teu Pai, que vê o que está escondido, te dará a recompensa”.
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Quem Vive De Acordo Com o Espírito Divino Permanece Vivo Em Deus


A primeira Leitura fala da última passagem do profeta Elias neste mundo na presença de seu discípulo Eliseu. A finalidade do texto é introduzir o ciclo do profeta Eliseu, sucessor do profeta Elias no ministério profético.


A passagem de Elias deste mundo é misteriosa: “Aconteceu que, enquanto andavam e conversavam, um carro de fogo e cavalos de fogo os separaram um do outro, e Elias subiu ao céu num redemoinho”. Um profeta de alma de fogo, como Elias, não podia desaparecer sem ser no “fogo”, símbolo de Deus. Isto significa que Elias está em Deus. Elias permanece vivo.


Na transfiguração, Pedro, Tiago e João viram Jesus conversando com Moisés e Elias (Mc 9,2-13; Mt 17,1-13; Lc 9,28-36). Através dessas páginas evangélicas está a afirmação de nossa fé no mais além, na supervivência. “Creio na comunhão dos santos... Creio na ressurreição da carne... Creio na vida eterna”, assim professamos no nosso Credo. A morte não é o ponto final para nossa vida. Na morte estamos indo para a casa do Pai (Cf. Jo 14,1-3). Pensemos nos inumeráveis “viventes” que estão em Deus, inclusive nossos familiares, amigos e tantos outros (Cf. Ap 7,4.9-14).


No tempo de Jesus, a crença popular esperava o retorno de Elias que devia preceder o Messias. Assim o povo perguntava a João Batista: “Quem és? És tu Elias?” (Jo 1,21). Além disso,  na anunciação do nascimento de João Batista o anjo disse a Zacarias: “Ele (João Batistas) estará com o espírito e poder de Elias” (Lc 1,17). E um dia, Jesus dirá quando fala de João Batistas: “Se quiserdes dar crédito, ele é o Elias que deve vir” (Mt 11,14).


A divisão das águas do Jordão onde passam o profeta Elias e seu discípulo Eliseu é um eco do episódio do mar Vermelho (cf. Ex 14,21). Assim o autor do segundo Livro dos reis quer colocar mais uma vez em paralelo as figuras de Moisés e de Elias.


Na sua última passagem deste mundo, o profeta Elias proíbe Eliseu de segui-lo, repetidamente. Mas Eliseu lhe respondeu: “Pela vida do Senhor e pela tua, eu não te deixarei”. A repetição da proibição quer enfatizar as provas que o discípulo deve superar para ser testemunha privilegiada do mestre. A contemplação da partida do profeta Elias serve para Eliseu como sinal e garantia da sucessão.


Além disso, na despedida, Eliseu pede a Elias: “Que me seja dada uma dupla porção do teu espírito”. Eliseu quer que tenha o espírito de Elias. Elias é o homem sempre à escuta de Deus e cumpre a ordem de Deus, e é enviado (por Deus) para estar sempre próximo dos homens, apesar dos medos e das perseguições, a fim de restabelecer a Aliança entre Deus e os homens.


Se Elias não morreu, se ele vive no céu em Deus é verdade também que continuará vivendo aqui na terra em seus sucessores, seus discípulos, nos que prosseguem sua missão. O “manto de Elias”, símbolo de seu papel de profeta, passa aos ombros de Eliseu.


Quem é Elias e Eliseu hoje entre nós? Quem pode ser Elias e Eliseu hoje entre nós? No Batismo quando o sacerdote/diácono unge nossa fronte (unção pós-batismal) diz a seguinte frase: “... Que Deus consagre....com o óleo santo para que, inseridas em Cristo, sacerdote, profeta e rei, continuem no seu povo até a vida eterna”. No batismo recebemos a missão profética que anuncia e denuncia.


Homens de Deus, como Elias, são homens espirituais, isto é, homens que vivem de acordo com o espírito do Senhor, transfigurados por dentro; são homens que dentro deles tem manancial; homens que mana “a água viva”. Os que vivem de acordo com o Espírito do Senhor não morrem, mas fazem uma passagem deste mundo, por força de Deus, para o mundo de Deus. Os que estão transfigurados por dentro pelo Espírito de Deus, permanecem vivos em Deus como o profeta Elias. Os que vivem de acordo com o Espírito de Deus são levados por Deus para estar junto a Ele eternamente. Os que vivem de acordo com o Espírito de Deus se perpetuam na terra através de suas palavras, ações e obras e se tornam nossos irmãos que rezam por nós diante de Deus, pois somos um só diante de Deus.


Somos Chamados a Viver Na Interioridade e Na Autenticidade


Ficai atentos para não praticar a vossa justiça na frente dos homens só para serdes vistos por eles. Caso contrário, não recebereis a recompensa do vosso Pai que está nos céus” (Mt 6,1).


O texto do evangelho de hoje pertence ao Sermão da Montanha (Mt 5-7). Através de sua Palavra de hoje o Senhor nos convida a vivermos na interioridade e na autenticidade, pois esse modo de viver nos traz a paz e a felicidade. Quando nossa interioridade ficar vazia, procuraremos algo fora de nós para nos apoiar. Somente usa a bengala quem tem pernas fracas para caminhar. Quem vive na interioridade a partir da interioridade, isto é, viver de acordo com os valores, não precisa provar que é importante. uma pessoa é valorizada pelos valores vividos e não pelos bens que se tem.


Através do Sermão da Montanha, Jesus quer que nossa vida seja na interioridade e na autenticidade; que não busquemos elogios nem a aprovação nem a recompensa; que busquemos apenas o bem e vivamos de acordo com ele. Simplesmente trabalhemos pelo bem. Em nome do bem, não temamos a reprovação nem o esquecimento nem a ingratidão. Basta viver com Deus, para Deus e na Sua presença. O que conta na nossa vida não é a opinião que os demais podem/possam ter de nós, e sim o que pensa Deus de nós, pois somente Deus tem capacidade de nos ver por dentro. É um deixar-se julgar por Deus, deixar-se interrogar por Ele, deixar-se impugnar por Ele. Por isso, é uma exigência muito mais forte do que a exigência dos homens e de todos os tipos de comentários.


Agradar a Deus exige um desprendimento de si infinitamente maior do que agradar os homens. Mas esta exigência é apaziguadora porque procede do interior, não busca vaidade nem vantagens humanas, nem exibicionismo nem apresentação teatral ao ajudar os demais ou ao fazer o bem. É preciso viver na autenticidade. É preciso saber distinguir o que apresentamos e o que representamos; o que é apresentação e o que é representação. Não basta apresentação, é preciso saber o que você está representando em tudo que você diz, comenta e faz.


Jesus nos alerta para vivermos na interioridade porque os mais belos gestos da verdadeira religião como a esmola, jejum e oração, podem, por desgraça, ser desviados de seu sentido: busca apenas de si mesmo, dos próprios interesses. A hipocrisia religiosa é pior de todas porque ela pode afastar as pessoas de Deus, especialmente os mais simples. Que nossa caridade seja invisível para os olhos dos homens, mas visível para os olhos de Deus. As obras de piedade não devem ser praticadas para ganhar prestígio diante dos homens e com isto, adquire uma posição de poder ou privilégio. Quem faz assim se priva da comunicação divina, cessa a relação de filho-Pai com Deus.


Quando se trabalha somente por Deus ou para Deus no bem praticado pelo bem do homem não há perigo de cair na demagogia, na adulação e no compromisso interesseiro. Na presença de Deus não há lugar para oportunismos nem para os oportunistas. A vida cristã há de ser vivida na simplicidade. Não podemos confundir o testemunho com teatralidade.


Três Práticas de Piedade: a Esmola, a Oração e o Jejum


Dar a esmola é uma prática comum no AT (cf. Dt 15,7-10; PR 11,17; Tb 4,7-11; Dn 11,17). É um convite para a prática de misericórdia para os pobres. A esmola une quem a dá com quem a recebe e com Deus, segundo os antigos. Por isso é que Jesus disse: “Quando deres esmola, não toques a trombeta diante de ti..”, isto é, não buscar a própria glória, humilhando o pobre, pois perderia a recompensa de Deus e diante de Deus. É preciso ajudar o pobre pelo seu bem e não pelo bem de quem presta a ajuda. É o bem pelo bem. Mais nada! O fim da própria atuação ao dar esmola é unir-se a Deus, o Pai que vê tudo em segredo.


No NT, a comunidade cristã vive profundamente esse compromisso (cf. Lc 4,18-21; At 2,42-46; 4,32.37; 2Cor 8,9.13). Quem dá esmola quer restabelecer a relação com o pobre. A situação de pobreza é contrária à vontade de Deus (cf. Mt 5,1-12) e, por isso, quem dá esmola cumpre a vontade de Deus. No entanto, o gesto de dar esmola deve ser fruto de cálculos egoístas e sim de uma verdadeira comunhão de bens: “Que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua mão direita”. Ao mesmo tempo a esmola não pode favorecer à preguiça pela facilidade em ganhar bens (dinheiro e outros bens materiais) por parte de quem a recebe. Não podemos trabalhar somente pelo pobre; temos que trabalhar com o pobre. Se você fizer um benefício ou um bem, nunca se lembre dele; se você receber um, nunca se esqueça dele.


A segunda prática de piedade é a oração. Não tem como não rezar se o homem leva a sério seu ser; se o homem vive sua vida na profundidade. A oração aproxima a terra ao céu. A oração derruba o muro que separa a humanidade de Deus. Oração leva quem reza para a esfera divina e introduz o homem no terreno sagrado. Mas Jesus nos alerta que o momento de oração não é um momento de ostentação. Quem reza, busca Deus e não a própria glória ou para ser visto pelos demais. Por isso, Jesus insiste na prática da interioridade. Jesus nos ensina que precisamos buscar momentos de encontro pessoal com o Pai e manter as conversas com Ele.


Além disso, Jesus acrescenta que o importante na oração não é a materialidade das palavras e sim como se vivem essas palavras no coração e como se pode expressar através delas a própria relação com o Pai e sentir-se em sintonia com Ele. Se o momento de oração é o momento de conversar com o Pai, logo o momento de oração é o momento de Deus se revelar. Para Deus se revelar é preciso criar o silêncio. O silêncio possibilita a presença da Eternidade no nosso presente.


A terceira prática da piedade é o jejum. Na tradição do Povo de Deus tanto o jejum como a esmola e a oração são fundamentos da relação: Deus-homem (eu)-irmãos. No AT se pratica também o jejum comunitário, por exemplo, no dia da Expiação (cf. Lv 16,29; 23,27). Jesus não elimina a prática de piedade; Ele quer que a cumpramos com sinceridade, sem nenhum tipo de hipocrisia. Todo sinal externo de jejum pessoal deve desaparecer para converter-se em um ato dirigido exclusivamente para Deus. A prática do jejum tem como objetivo buscar um contato mais íntimo com Deus, com Seu perdão, com Sua benevolência e com Sua graça. O jejum bíblico é um ato essencialmente de buscar o contato íntimo com Deus para que vivamos como irmãos. O profeta Isaias critica duramente quem pratica o jejum, mas oprime o irmão (cf. is 58,3-9). Os elementos essenciais de um jejum agradável a Deus: o jejum unido à oração e encontra sua expressão mais autentica no serviço aos pobres. Trata-se de um jejum com uma dimensão social.


Ficai atentos para não praticar a vossa justiça na frente dos homens só para serdes vistos por eles. Caso contrário, não recebereis a recompensa do vosso Pai que está nos céus” (Mt 6,1) é o recado de Jesus para nós todos. Vivamos na interioridade e na autenticidade para que sejamos felizes e firmes nesta vida.
P. Vitus Gustama, SVD