domingo, 26 de março de 2017




30/03/2017
 

SER CRISTÃO É  SER TESTEMUNHA  DE CRISTO COM OBRAS BOAS

Quinta-Feira da IV Semana da Quaresma

I Leitura: Ex 32,7-14

Naqueles dias, 7 o Senhor falou a Moisés: “Vai, desce, pois corrompeu-se o teu povo, que tiraste da terra do Egito. 8 Bem depressa desviaram-se do caminho que lhes prescrevi. Fizeram para si um bezerro de metal fundido, inclinaram-se em adoração diante dele e ofereceram-lhe sacrifícios, dizendo: ‘Estes são os teus deuses, Israel, que te fizeram sair do Egito!’” 9 E o Senhor disse ainda a Moisés: “Vejo que este é um povo de cabeça dura. 10 Deixa que minha cólera se inflame contra eles e que eu os extermine. Mas de ti farei uma grande nação”. 11 Moisés, porém, suplicava ao Senhor seu Deus, dizendo: “Por que, ó Senhor, se inflama a tua cólera contra teu povo, que fizeste sair do Egito com grande poder e mão forte? 12 Não permitais, te peço, que os egípcios digam: ‘Foi com má intenção que ele os tirou, para fazê-los perecer nas montanhas e exterminá-los da face da terra’. Aplaque-se a tua ira e perdoa a iniquidade do teu povo. 13 Lembra-te de teus servos Abraão, Isaac e Israel, com os quais te comprometeste por juramento, dizendo: ‘Tornarei os vossos descendentes tão numerosos quanto as estrelas do céu; e toda esta terra de que vos falei, eu a darei aos vossos descendentes como herança para sempre”’. 14 E o Senhor desistiu do mal que havia ameaçado fazer a seu povo.

Evangelho: Jo 5, 31-47

Naquele tempo, disse Jesus aos judeus: 31“Se eu der testemunho de mim mesmo, meu testemunho não vale. 32Masum outro quetestemunho de mim, e eu sei que o testemunho que ele dá de mim é verdadeiro. 33Vós mandastes mensageiros a João, e ele deu testemunho da verdade. 34Eu, porém, não dependo do testemunho de um ser humano. Mas falo assim para a vossa salvação. 35João era uma lâmpada que estava acesa e a brilhar, e vós com prazer vos alegrastes por um tempo com a sua luz. 36Mas eu tenho um testemunho maior que o testemunho de João; as obras que o Pai me concedeu realizar. As obras que eu faço dão testemunho de mim, mostrando que o Pai me enviou. 37E também o Pai que me enviou dá testemunho a meu favor. Vós nunca ouvistes sua voz, nem vistes sua face, 38e sua palavra não encontrou morada em vós, pois não acreditais naquele que ele enviou. 39Vós examinais as Escrituras, pensando que nelas possuís a vida eterna. No entanto, as Escrituras dão testemunho de mim, 40mas não quereis vir a mim para ter a vida eterna! 41Eu não recebo a glória que vem dos homens. 42Mas eu sei que não tendes em vós o amor de Deus. 43Eu vim em nome do meu Pai, e vós não me recebeis. Mas, se um outro viesse em seu próprio nome, a este vós o receberíeis. 44Como podereis acreditar, vós que recebeis glória uns dos outros e não buscais a glória que vem do único Deus? 45Não penseis que eu vos acusarei diante do Pai. Há alguém que vos acusa: Moisés, no qual colocais a vossa esperança. 46Se acreditásseis em Moisés, também acreditaríeis em mim, pois foi a respeito de mim que ele escreveu. 47Mas se não acreditais nos seus escritos, como acreditareis então nas minhas palavras?”
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1. Idolatria De Ontem e De Hoje

Vai, desce, pois corrompeu-se o teu povo, que tiraste da terra do Egito. Bem depressa desviaram-se do caminho que lhes prescrevi. Fizeram para si um bezerro de metal fundido, inclinaram-se em adoração diante dele e ofereceram-lhe sacrifícios, dizendo: ‘Estes são os teus deuses, Israel, que te fizeram sair do Egito!’”, falou o Senhor para Moisés.

A Primeira Leitura nos relata o pecado do povo eleito. Não é um pecado de apostasia, pois o povo não renega seu Deus (Ex 32,4-5), nem um pecado de apego às riquezas materiais ou de culto ao dinheiro, mas fabricaram um bezerro de metal para ser adorado. Trata-se de idolatria. É o pecado contra o segundo mandamento do decálogo: “Não farás para ti escultura, nem figura alguma do que está em cima, nos céus, ou embaixo, sobre a terra, ou nas águas, debaixo da terra. Não te prostrarás diante delas e não lhes prestarás culto. Eu sou o Senhor, teu Deus, um Deus zeloso que vingo a iniqüidade dos pais nos filhos, nos netos e nos bisnetos daqueles que me odeiam, mas uso de misericórdia até a milésima geração com aqueles que me amam e guardam os meus mandamentos” (Ex 20,4-6).

Quando estava com eles (os hebreus), era Moisés quem lhes manifestava os planos e os desejos de Deus e lhes transmitia a Palavra de Deus. Mas agora, na ausência de Moisés eles se queixam. Além disso, eles se esqueceram que Moisés era o instrumento e intérprete da vontade divina. Por isso, eles buscam outras seguranças e não são capazes de permanecer em Deus que os tirou do Egito.

Devemos reconhecer que este é também nosso freqüente pecado. Não renegamos Deus, mas queremos um Deus ao nosso alcance, à nossa medida. Em vez de servir Deus, utilizamos Deus para Ele nos servir. Queremos Deus “domesticado”.

Diante do povo idólatra  Deus decide:  “Vejo que este é um povo de cabeça dura. Deixa que minha cólera se inflame contra eles e que eu os extermine”.

Esta reação de Deus mostra que Ele leva a sério as coisas. Não se pode andar com ambigüidade ou em meio termos. Deus é um Deus zeloso (Ex 20,5). Por outro lado, esta reação é completamente normal e necessária: a aliança é coisa de dois: de Deus com o povo eleito. Deus toma a sério a aliança. A aliança é comunhão de pessoas, não pode ser restabelecida mecanicamente e sim a relação real entre o homem e Deus. O povo eleito cometeu a idolatria.

Mas Moisés faz suplica a Deus para que perdoe o povo: Por que, ó Senhor, se inflama a tua cólera contra teu povo, que fizeste sair do Egito com grande poder e mão forte? Não permitais, te peço, que os egípcios digam: ‘Foi com má intenção que ele os tirou, para fazê-los perecer nas montanhas e exterminá-los da face da terra’. Aplaque-se a tua ira e perdoa a iniquidade do teu povo”. Por causa do pedido de Moisés Deus cancela o castigo sobre o povo: “O Senhor desistiu do mal que havia ameaçado fazer a seu povo”.

Em sentido próprio e clássico, idolatria é a adoração ou o culto que se tributa a entidades, objetos, imagens ou elementos naturais que se consideram dotados de poder divino, ou também a divindades falsas. A palavra “idolatria” provém do grego “eidolon”, imagem. É evidente que neste sentido se trata de um termo contextual que tem significado somente dentro de uma religião conhecida.

A idolatria é uma verdadeira aberração na ordem religiosa e moral já que nela se inverte por completo a ordem dos valores: o Absoluto, Deus, se relativiza, e o relativo se absolutiza. O que não é Deus ou o que é inferior aos homens se considera como Deus ou algo divino.

Quem pratica a idolatria erra no conhecimento de Deus (cf. Sb 14,22) e quem erra no mais fundamental acerca de Deus, pode chegar aos erros mais inimagináveis ético-religiosos, começando pela negação da existência do próprio Deus. Os autores sagrados estão familiarizados com a verdade de fé de que Deus é o Criador e Senhor absoluto dos homens e do universo. Com o projeto ou ideia dos ídolos, aberração capital, originam-se em cadeia males de toda ordem, especialmente de ordem religiosa e moral chamada “a corrupção da vida” (Sb 14,12), pois ao pôr no lugar de Deus uma criatura, a ordem dos valores na vida se perverte, se perde o sentido moral. Com a mesma facilidade se passa de um conceito inadequado de Deus para sua negação, fenômeno bastante freqüente em nosso mundo moderno. A humanidade não se humaniza com o passo do tempo e sim com os valores éticos e morais. Os mais fortes ou aqueles que se sentem superiores aos demais são capazes de qualquer injustiça ou perversidade.

A idolatria não é coisa passada, dos tempos escuros e de civilizações primitivas. Os homens leva consigo os ídolos. Ídolos são puras criações do egoísmo, do medo, da insegurança, da soberba do homem que não encontrou seu centro ou seu norte.

2. As Obras Boas Que Realizamos São Testemunhas De Que Somos Seguidores de Cristo

O texto do evangelho de hoje é a continuação do texto do evangelho do dia anterior em que relatou a cura de um paralítico no Sábado. Os judeus da época criticaram Jesus que curou o paralítico, pois a cura aconteceu no Sábado que era o dia sagrado para eles. Dessa vez os judeus questionaram a autoridade de Jesus em fazer essa cura no dia de Sábado.

2.1. Jesus e Sua Autoridade Divina

Um dos problemas que o evangelho de João enfrenta é o da autoridade de Jesus questionada pelos seus adversários, porque Jesus não faz parte do grupo dos escribas, nem é da descendência sacerdotal, e sim vem de um lugar desconhecido, Nazaré. Mas o fundamento de sua autoridade está na sua comunhão plena com o Pai. O fruto desta profunda comunhão com o Pai é a sua preocupação em fazer o bem para os homens em qualquer circunstância e para qualquer pessoa. Somente tem autoridade quem faz alguém crescer. Somente tem autoridade quem pratica o bem. As palavras cheias de autoridade de Jesus e suas obras pelo bem de todos falam por si de que Jesus está em plena comunhão com o Pai. Quem pratica o bem normalmente fala menos de si, pois as obras falam mais por ele: “O ruído faz pouco bem, o bem faz pouco ruído", dizia São Francisco de Sales.  Quem pratica o bem é porque ele está em sintonia com o Bem maior, que é Deus, mesmo que ele não tenha consciência disso. "O bem é aquilo que dá maior realidade aos seres e às coisas; o mal é aquilo que disso os priva" (Simone Weil).

Quando nosso coração estiver duro ficaremos cegos diante das obras boas daquele que consideramos adversário. Se colocarmos o bem do homem acima de qualquer interesse, reconheceremos qualquer bem praticado por qualquer pessoa. A dureza de coração dos adversários de Jesus os leva a um ódio sempre crescente contra Jesus, pois eles se preocupam apenas com a própria gloria e o próprio interesse: “Como podereis acreditar, vós que recebeis glória uns dos outros e não buscais a glória que vem do único Deus?”. E o ódio dos escribas terminará no assassinato de Jesus. "Aquele que sem autoridade mata um criminoso, torna-se tão criminoso como este" (Blaise Pascal).  “Há pessoas que amam o poder, e outras que têm o poder de amar” (Bob Marley).

2.2. Testemunho Na Vida De Cristo E Na Vida Do Cristão

A cura do paralitico no Sábado (Jo 5,1-15) cria uma violenta oposição entre Jesus e os escribas que João descreve sob a forma de processo através do uso da palavra “testemunha/ testemunho”. No texto de hoje a palavra “testemunha/ testemunho” aparece, pelo menos, onze vezes.

Para Jesus, no evangelho de João, testemunhar equivale a manifestar o Pai, a revelar o Pai. O testemunho designa a função reveladora de Cristo e este testemunho tem como objetivo o próprio Cristo em seu mistério pessoal de Filho. Por isso, Cristo dá testemunho com toda sua presença e durante toda sua existência. Para Cristo, dar testemunho é revelar-se, dar-se conhecer: tudo o que é e de onde vem: do Pai. Se esta revelação termina na Cruz é porque na Cruz se opera a suprema revelação de Cristo, a saber: o amor supremo do Pai aos homens manifestado no amor supremo de Cristo aos seus (cf. Jo 13,1).

Jesus está “sozinho” para se defender. Logo seu testemunho ficaria sem validade nenhuma, pois a jurisprudência judaica determina: para que um testemunho seja válido são exigidas duas ou três testemunhas (Jo 5,31). Jesus apela para as obras pelo bem da humanidade. Essas obras mostram que Jesus está com o Pai e faz o que o Pai continua fazendo: “Meu Pai trabalho e eu também”. Logo sua testemunha mais válida é o Pai. Trata-se de um testemunho que se verifica nas obras e milagres (= sinais) que Jesus opera em favor da humanidade e não para a autopromoção.

Em relação à importância do testemunho o Papa João Paulo II escreveu na sua Carta Encíclica Redemptoris Missio no. 42:

·        O homem contemporâneo acredita mais nas testemunhas do que nos mestres, mais na experiência do que na doutrina, mais na vida e nos fatos do que nas teorias. O testemunho da vida cristã é a primeira e insubstituível forma de missão: Cristo, cuja missão nós continuamos, é a « testemunha » por excelência (Ap 1, 5; 3, 14) e o modelo do testemunho cristão. O Espírito Santo acompanha o caminho da Igreja, associando-a ao testemunho que Ele próprio dá de Cristo (cf. Jo 15, 26-27 ).

·        A primeira forma de testemunho é a própria vida do missionário, da família cristã e da comunidade eclesial, que torna visível um novo modo de se comportar. O missionário que, apesar dos seus limites e defeitos humanos, vive com simplicidade, segundo o modelo de Cristo, é um sinal de Deus e das realidades transcendentes. Mas todos na Igreja, esforçando-se por imitar o divino Mestre, podem e devem dar o mesmo testemunho, que é, em muitos casos, o único modo possível de se ser missionário.

·        O testemunho evangélico, a que o mundo é mais sensível, é o da atenção às pessoas e o da caridade a favor dos pobres, dos mais pequenos, e dos que sofrem. A gratuidade deste relacionamento e destas ações, em profundo contraste com o egoísmo presente no homem, faz nascer questões precisas, que orientam para Deus e para o Evangelho. Também o compromisso com a paz, a justiça, os direitos do homem, a promoção humana, é um testemunho do Evangelho, caso seja um sinal de atenção às pessoas e esteja ordenado ao desenvolvimento integral do homem.

Jesus quer nos dizer que para convencer os outros que realmente acreditamos em Deus temos que mostrar não com palavras e sim com as obras boas em favor dos homens. Não basta falar do amor, temos que aprender a amar especialmente através do perdão mútuo.

Além disso, Jesus quer nos ensinar a abrirmos nossos olhos e o nosso coração diante do bem que os outros podem fazer. Ninguém é exclusivo para fazer o bem. Ninguém pode encurtar a mão de Deus para fazer o bem. Somos convidados a reconhecer o bem praticado por quem quer que seja. Todos os cristãos devem fazer parte de um grupo: o grupo do bem. No seio da Igreja de Cristo não pode nem deve existir outro tipo de grupo. Ou você é de Cristo por se preocupar somente com o bem que deve ser praticado ou você não é de Cristo se você não se preocupa com o bem praticado. O bem não tem fronteiras. Deus pode usar qualquer ser humano para praticar o bem. Por isso, não podemos encurtar a mão de Deus. Quem pratica o bem é de Deus independentemente de quem quer que ele seja. Quem não pratica o bem não tem nada a ver com Deus, mesmo que alguém se considere cristão. Por isso, falar da é uma coisa. Falar da experiência de é outra coisa. Falar de amor é uma coisa. Falar amorosamente é outra coisa. Não basta não cometer algum crime ou algum mal, é preciso praticar o bem. Praticando o bem você afasta o mal e a felicidade é atraída. O bem praticado é o sinal da abertura diante do Bem Absoluto: Deus.

No evangelho de hoje Jesus reprovou seus conterrâneos por não ter escutado realmente Moisés: “Se acreditásseis em Moisés, também acreditaríeis em mim, pois foi a respeito de mim que ele escreveu”. Em Ex 32,7-14 Moisés reprova a atitude do povo, pois ao descer da montanha de Sinai, onde havia estado para falar com Deus, encontrou o povo adorando uma estátua de bezerro de metal.

O homem se rebaixa quando dá importância para as coisas, e gasta tempo para dar atenção maior para as coisas menos importantes que não edificam o ser humano. O homem se rebaixa quando ama as coisas e usa as pessoas em vez de amar as pessoas e usa as coisas. A adoração ao verdadeiro Deus através da vivência do amor fraterno é a única que não rebaixa o ser humano. “Quanto mais amas, mais alto tu sobes” (Santo Agostinho)

Quem procura a própria gloria e o próprio interesse será difícil saborear a convivência fraterna, pois haverá somente disputa e o jogo de interesse. O jogo de interesse para o próprio bem e não para o bem comum acabará com a comunidade. O homem se rebaixará, se ele der tanta importância às coisas mais do que às pessoas.  Quem não procurar a glória de Deus, mas, somente os próprios interesses e a própria glória, vai alimentar a própria vida com o ódio cada vez mais crescente contra os outros irmãos que não realizarem esses interesses. “Ali onde se destrói a comunhão com Deus, destrói-se também a raiz e o manancial da comunhão entre nós” (Bento XVI).

P. Vitus Gustama,svd

sábado, 25 de março de 2017



29/03/2017
 
 Deus cuidadosoesquecerei
DEUS TRABALHA ATRAVÉS DE NÓS EM PROL DO BEM DA HUMANIDADE

Quarta-Feira da IV Semana da Quaresma

I Leitura: Is 49,8-15

8 Isto diz o Senhor: “Eu atendo teus pedidos com favores e te ajudo na obra de salvação; preservei-te para seres elo de aliança entre os povos, para restaurar a terra, para distribuir a herança dispersa; 9 para dizer aos que estão presos: ‘Saí!’ e aos que estão nas trevas: ‘Mostrai-vos’. E todos se alimentam pelas estradas e até nas colinas estéreis se abastecem; 10 não sentem fome nem sede, não os castiga nem o calor nem o sol, porque o seu protetor toma conta deles e os conduz às fontes d’água. 11 Farei de todos os montes uma estrada e os meus caminhos serão nivelados. 12 Eis que estão vindo de longe, uns chegam do Norte e do lado do mar, e outros, da terra de Sinim”. 13 Louvai, ó céus, alegra-te, terra; montanhas, fazei ressoar o louvor, porque o Senhor consola o seu povo e se compadece dos pobres. 14 Disse Sião: “O Senhor abandonou-me, o Senhor esqueceu-se de mim!” 15 Acaso pode a mulher esquecer-se do filho pequeno, a ponto de não ter pena do fruto de seu ventre? Se ela se esquecer, eu, porém não me esquecerei de ti.

Evangelho: Jo 5,17-30

Naquele tempo, 17Jesus respondeu aos judeus: “Meu Pai trabalha sempre, portanto também eu trabalho”. 18Então, os judeus ainda mais procuravam matá-lo, porque, além de violar o sábado, chamava Deus o seu Pai, fazendo-se, assim, igual a Deus.
19Tomando a palavra, Jesus disse aos judeus: Em verdade, em verdade vos digo, o Filho não pode fazer nada por si mesmo; ele faz apenas o que o Pai fazer. O que o Pai faz, o Filho o faz também. 20O Pai ama o Filho e lhe mostra tudo o que ele mesmo faz. E lhe mostrará obras maiores ainda, de modo que ficareis admirados. 21Assim como o Pai ressuscita os mortos e lhes dá a vida, o Filho também dá a vida a quem ele quer. 22De fato, o Pai não julga ninguém, mas ele deu ao Filho o poder de julgar, 23para que todos honrem o Filho, assim como honram o Pai. Quem não honra o Filho, também não honra o Pai que o enviou.  24Em verdade, em verdade, eu vos digo, quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou, possui a vida eterna. Não será condenado, pois passou da morte para a vida. 25Em verdade, em verdade, eu vos digo: está chegando a hora, e chegou, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus e os que a ouvirem viverão. 26Porque, assim como o Pai possui a vida em si mesmo, do mesmo modo concedeu ao Filho possuir a vida em si mesmo. 27Além disso, deu-lhe o poder de julgar, pois ele é o Filho do Homem. 28Não fiqueis admirados com isso, porque vai chegar a hora em que todos os que estão nos túmulos ouvirão a voz do Filho e sairão: 29aqueles que fizeram o bem, ressuscitarão para a vida; e aqueles que praticaram o mal, para a condenação.  30Eu não posso fazer nada por mim mesmo. Eu julgo conforme o que escuto, e meu julgamento é justo, porque não procuro fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. (Jo 5, 17-30)
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Deus Nos Ama Com Um Amor Materno e Eterno

Acaso pode a mulher esquecer-se do filho pequeno, a ponto de não ter pena do fruto de seu ventre? Se ela se esquecer, eu, porém não me esquecerei de ti”.

A Primeira Leitura, tirada do Livro do profeta Isaías, faz parte do conjunto chamado Segundo Isaías (Is 40-55). Esta parte foi escrita durante o exílio na Babilônia. Por isso, percebe-se o desespero dos israelitas exilados: “O Senhor abandonou-me, o Senhor esqueceu-se de mim!”. O sofrimento durante o exílio é tanto a ponto de o povo se sentir abandonado por Deus. O povo fica longe do Templo de Jerusalém onde adora o Deus de Israel.

Temos a mesma tentação de questionar a existência de Deus quando somos dominados pelos sofrimentos. “Será que Deus existe?”, assim perguntamos. Mas fiquemos atentos, pois Deus dá resposta através de tantas pessoas ou acontecimentos.

Para a pergunta dos israelitas desterrados se o Senhor os abandonou e se esqueceu deles, Deus dá sua resposta através da boca do profeta Isaías: “Acaso pode a mulher esquecer-se do filho pequeno, a ponto de não ter pena do fruto de seu ventre? Se ela se esquecer, eu, porém não me esquecerei de ti.

A dor e o sofrimento parecem ter a habilidade especial de nos mostrar quanto nós necessitamos uns dos outros. Nossa lutas nos recordam quão frágeis nós somos realmente. Inclusive, a debilidade dos demais pode nos sustentar quando nossa própria fortaleza ou força se esgota. Deus nos faz depender uns dos outros. Temos muito que oferecer aos que sofrem, e os demais tem muito que oferecer a nós quando temos problemas. O sofrimento nos ajuda a ter consciência de que necessitamos uns dos outros. E o sofrimento nos ajuda a aliviar as necessidades dos demais à medida que deixamos que Deus viva dentro de nós e através de nós. O amor nos capacita a detectarmos instintivamente daquilo que os outros necessitam e nos faz estendermos nossas mãos para ajudá-los.

O amor eterno de Deus por seu povo, especialmente pelos israelitas desterrados, parecido ao amor de uma mãe por seus filhos, se expressa de uma maneira concreta em toda a sua gratuidade e fidelidade indefectível: “Acaso pode a mulher esquecer-se do filho pequeno, a ponto de não ter pena do fruto de seu ventre? Se ela se esquecer, eu, porém não me esquecerei de ti. Deus jamais pode esquecer-se de seu povo, pois lhe professa um amor mais forte do que o amor maternal, o amor mais sincero e profundo e com um acento enfático Deus diz ao povo confidencialmente que o tem gravado nas palmas de suas mãos: “Eis que estás gravada na palma de minhas mãos, tenho sempre sob os olhos tuas muralhas” (Is 49,16). Deus leva o povo eleito nas palmas de suas mãos de modo que Deus possa tê-lo sempre presente para não esquecê-lo.

O profeta Isaias quer nos relembrar que Deus jamais nos abandona, como uma mãe que jamais abandona seu filho mesmo que este esteja muito doente. Deus está dentro de nós. Ou melhor dizer, nós estamos dentro de Deus, pois somos filhos e filhas seus. Sofrimento ou dor não sinaliza o abandono de Deus, mas mostra que somos finitos e criaturas dependentes de Deus. As duas frases do profeta Isaias servem como força para nós em qualquer momento: “Acaso pode a mulher esquecer-se do filho pequeno, a ponto de não ter pena do fruto de seu ventre? Se ela se esquecer, eu, porém não me esquecerei de ti”  e “Eis que estás gravada na palma de minhas mãos, tenho sempre sob os olhos tuas muralhas”. Seja na alegria, seja no sofrimento e dor Deus está conosco todos os dias (Mt 28,20). O sofrimento nos faz procurarmos os outros e Deus.

Temos Que Viver e Trabalhar Como Filhos de Deus

“Em verdade, em verdade vos digo, o Filho não pode fazer nada por si mesmo; ele faz apenas o que vê o Pai fazer. O que o Pai faz, o Filho o faz também”.

O evangelho deste dia é a continuação do evangelho do dia anterior. Seus contemporâneos judeus perseguem Jesus porque Ele “violou” o Sábado porque curou o paralítico nesse dia que para eles é o dia muito sagrado. Jesus justifica sua atuação com umas palavras que acabam agravando a situação: Jesus chama Deus de Pai e faz igual ao Pai: “Meu Pai trabalha até agora e eu também trabalho”.

Precisamos sublinhar a diferença sobre o tema do Sábado nos sinóticos (Mt, Mc e Lc) e no evangelho de João. No evangelho de João a cura no Sábado não tem como objetivo relativizar a lei do Sábado como nos evangelhos sinóticos, embora acabe relativizando o Sábado em função da salvação do homem. O evangelho de João quer nos demonstrar a autoridade de Jesus sobre o Sábado que vem por sua igualdade com Deus, como lemos no texto: Meu Pai trabalha até agora e eu também trabalho... O que o Pai faz, o Filho o faz também”.

As razões para esta interpretação se encontram no Gn 2,2-3 onde Deus descansa no mesmo dia que termina a obra da criação. Nesta perspectiva Jesus resgata a dimensão criadora do Sábado devolvendo a vida e a liberdade ao homem enfermo, ao mesmo tempo, demonstra a união perfeita entre a ação de Jesus e a ação do Pai. O ponto de partida é que o Pai continua sendo o Autor da obra e o Filho seu cumprimento definitivo. O projeto de Jesus atualiza o projeto de Deus que continua tendo como fundamento Deus Pai, o amor, a , a Palavra e a vida. Se quisermos unir nosso projeto com o projeto que vem do Pai e passa pelo Filho, devemos trabalhar em torno desse fundamento. Os projetos são muitos, mas o problema se eles estão em comunhão com o projeto de Deus. Ao fazer qualquer obra ou trabalho pastoral devemos lançar primeiro nosso olhar para o Pai e o Filho, poisO que o Pai faz, o Filho o faz também”.  E o que Jesus Cristo faz é isso que devemos fazer também.

O que Deus faz pela humanidade nós podemos ler também na primeira leitura e no Salmo de meditação neste dia. A primeira leitura deste dia, tirada do Segundo Isaías e foi escrita durante o exílio na Babilônia, nos apresenta Deus não como o soberano onipotente e majestoso, nem como juiz implacável, mas comoaquele que tem compaixão”, queconsola”, que “conduz seu Povo às fontes de água”, como uma mãe carinhosa que cuida dos seus filhos e se comove por eles. São imagens cheias de calor humano. Imagens que dizem como Deus está ligado às criaturas e como Ele as ama com muita ternura! Deus dialoga com o homem nos largos espaços do amor, não no escrúpulo da observância dos preceitos. Deus ama todos nós mais do que uma mãe que ama seus filhos: “Acaso pode a mulher esquecer-se do filho pequeno, a ponto de não ter pena do fruto de seu ventre? Se ela se esquecer, eu, porém, não me esquecerei de ti”, diz-nos Deus (Is 49,15). E a bondade, a ternura, a misericórdia, a justiça e a santidade de Deus são proclamadas no Salmo de meditação deste dia.

No NT o amor cheio de ternura de Deus se fez carne em Jesus Cristo, Deus-Conosco (Mt 1,23; 18,20; 28,20), pois Ele dá a vida por nós todos: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham abundantemente” (Jo 10,10b). Jesus coloca o homem acima de qualquer lei por sagrada que ela pareça ser como a Lei de Sábado para o Povo eleito. Para Jesus a salvação do homem é muito mais importante do que a Lei do Sábado por sagrado que ele possa ser considerado, como lemos no texto do evangelho deste dia. Toda a obra de Jesus é a obra do Pai que tem como foco o ser humano e sua salvação: “Em verdade, em verdade Eu vos digo, o Filho não pode fazer nada por si mesmo; ele faz apenas o que o Pai fazer. O que o Pai faz, o Filho o faz também” (Jo 5,19). Jesus trabalha como o Pai para salvar o homem. A glória de Deus é a salvação do homem. Jesus atua em perfeita sintonia com o Pai que O enviou. A plena unidade na ação brota de uma profunda comunhão de amor entre o Pai e o Filho. Por esta perfeita união Jesus tem o poder sobre a vida e a autoridade de juízo.

Os judeus acusaram Jesus por violar o Sábado. Mas Jesus respondeu: “Meu Pai trabalha até agora e eu também trabalho” (Jo 5,17). Trata-se de uma revelação surpreendente. Palavra que deve continuar ressonando e ressoando em nós. Deus “trabalha”! A palavra “Sabbat” (hebraico), Sábado, significa repouso. Acusaram Jesus de não respeitar o repouso de Sábado. Resposta de Jesus: Deus não cessa de trabalhar. Sim, Deus continua “trabalhando” em mim e através de mim, na Igreja e através da Igreja, nas pessoas de boa vontade e através delas, nos que ajudam os necessitados e através deles, nos doentes e através dos doentes, nos que guiam e ensinam os demais para o bem e através deles, nos que acolhem os outros como irmãos e através deles, nos que visitam os doentes e através deles, nos que alimentam os famintos e através deles, nos que lutam pela dignidade de sua família e a família dos demais. Deus continua trabalhando através das pessoas ao meu redor, e assim por diante. Deus realmente continua trabalhando. Jesus, o Filho amado do Pai continua cooperando no trabalho do Pai em salvar a humanidade, em devolver a dignidade para os excluídos e marginalizados. Por isso, ele curou o paralítico no Sábado. A salvação e a dignidade do paralítico estão acima de qualquer lei por sagrada que ela pareça ser. O ser humano é mais sagrado do que qualquer lei, pois ele é o templo do Espírito Santo (cf. 1Cor 3,16-17).

O Pai não conhece o repouso, não cessou de trabalhar, porque enquanto o homem estiver/está oprimido pelo pecado e privado de liberdade, enquanto não tiver/não tem plenitude de vida, o Pai continuará trabalhando. Deus continua comunicando vida onde o homem coloca a morte, a esperança aos desesperados, a força aos debilitados, a guia e a luz de seu Santo Espírito para os desorientados e confusos. O amor de Deus pela humanidade está sempre ativo. Jesus atua como o Pai, não aceita leis que limitem sua atividade em favor da dignidade do homem.

Que nosso lema como cristãos seja o lema de Cristo: “O que o Pai faz, o Filho o faz também”. Não podemos parar de fazer o bem como Jesus “passou a vida fazendo o bem” (At 10,38). Só assim seremos chamados de filhos e filhas de Deus.

No fim do texto do evangelho de hoje Jesus fez a seguinte declaração: “Não fiqueis admirados com isso, porque vai chegar a hora em que todos os que estão nos túmulos ouvirão a voz do Filho e sairão: aqueles que fizeram o bem, ressuscitarão para a vida”. Os que praticam o bem não ficarão para sempre no túmulo. O túmulo nenhum é capaz de destruir quem pratica o bem a exemplo do próprio Jesus ressuscitado. A partir de Jesus e com Jesus a ressurreição e a vida começam para os homens que acreditam n’Ele e para aqueles que praticam o bem.

Jesus prosseguiu: “Em verdade, em verdade, eu vos digo, quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou, possui a vida eterna. Não será condenado, pois já passou da morte para a vida”. A morte perdeu sua eficácia destruidora pela presença da vida, pela palavra vivificadora de Jesus, pela prática do bem. Crer é a orientação da vida para Jesus como centro da existência, ou orientar a vida para o bem. Vale a pena, então, fazer o bem todos os dias. Vale a pena não se cansar de praticar o bem apesar dos sofrimentos ou dificuldades. Uma vida dedicada ao bem do próximo é sempre uma vida glorificada. “Só a caridade, um dilúvio de caridade pode salvar o mundo” (Maritain).

As leituras de hoje nos convidam a colocarmos o nosso coração em harmonia com o coração de Deus. É preciso contemplarmos o mistério de Cristo, Deus-Conosco para que possamos alcançar o que diz São Paulo: “para termos o pensamento de Cristo” (1Cor 2,16) ou para termos “os mesmos sentimentos que havia em Jesus Cristo” (Fl 2,5). O que nos identifica com Cristo é o nosso amor fraterno (Jo 13,35; 15,12). Se Jesus coloca o homem acima de qualquer lei por sagrada que ela pareça ser, o cristão deve estar em plena unidade na ação com Cristo onde o ser humano é o foco de qualquer trabalho, pastoral e apostolado. Somente assim seremos chamados de irmãos, irmãs, mães, pais de Jesus: “Todo aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mt 12,50). Se quisermos ser verdadeiros cristãos devemos trabalhar em nome de Cristo e em perfeita sintonia de amor com ele para que todos nós sejamos reflexos do amor de Deus neste mundo. O amor nos faz detectarmos as necessidades dos outros. Sem o amor nada se detecta.

“Meu Pai trabalha até agora e eu também trabalho” . Nesta Quaresma, especialmente, somos chamados a nos vestir do Espírito de Jesus. Converter-se a Cristo significa deixar Cristo presente na minha existência em todos os momentos da minha vida. Consequentemente, faremos tudo que o Pai quer: salvar a humanidade.

P. Vitus Gustama,svd