segunda-feira, 12 de novembro de 2018


14/11/2018
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VIVER EM CRISTO É VIVER COM RESPONSABILIDADE E GRATIDÃO
Quarta-Feira da XXXII Semana Comum


Primeira Leitura: Tito 3,1-7
Caríssimo, 1 admoesta a todos que vivam submissos aos príncipes e às autoridades, que lhes obedeçam e estejam prontos para qualquer boa obra. 2 Não injuriem a ninguém, sejam pacíficos, afáveis e deem provas de mansidão para com todos os homens. 3 Porque nós outrora éramos insensatos, rebeldes, extraviados, escravos de toda sorte de paixões e prazeres, vivendo na maldade e na inveja, dignos de ódio e odiando uns aos outros. 4 Mas um dia manifestou-se a bondade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor pelos homens: 5 Ele salvou-nos não por causa dos atos de justiça que tivéssemos praticado, mas por sua misericórdia; quando renascemos e fomos renovados no batismo pelo Espírito Santo, 6 que ele derramou abundantemente sobre nós por meio de nosso Salvador Jesus Cristo. 7 Justificados, assim, pela sua graça, nos tornamos na esperança herdeiros da vida eterna.


Evangelho: Lc 17,11-19
Aconteceu que, caminhando para Jerusalém, Jesus passava entre a Samaria e a Galiléia. 12 Quando estava para entrar num povoado, dez leprosos vieram ao seu encontro. Pararam à distância, 13 e gritaram: 'Jesus, Mestre, tem compaixão de nós!' 14 Ao vê-los, Jesus disse: 'Ide apresentar-vos aos sacerdotes.' Enquanto caminhavam, aconteceu que ficaram curados. 15 Um deles, ao perceber que estava curado, voltou glorificando a Deus em alta voz; 16 atirou-se aos pés de Jesus, com o rosto por terra, e lhe agradeceu. E este era um samaritano. 17 Então Jesus lhe perguntou: 'Não foram dez os curados? E os outro nove, onde estão? 18 Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, a não ser este estrangeiro?' 19 E disse-lhe: 'Levanta-te e vai! Tua fé te salvou.'
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Respeitar As Autoridades Civis e Cumprir Os Deveres Sociais São Frutos De Nossa Fé Em Jesus Cristo


Continuamos a acompanhar a leitura  e a a reflexão sobre a Carta de são Paulo a Tito. No texto da Primeira Leitura de hoje lemos as recomendações de são Paulo a Tito e à comunidade cristã em Creta sobre os deveres sociais.


Nas recomendações de hoje são Paulo começa a fazer a distinção entre o “antes” e o “depois” da conversão à fé em Jesus Cristo. Antes, o panorama não é muito recomendável: “Éramos insensatos, rebeldes, extraviados, escravos de toda sorte de paixões e prazeres, vivendo na maldade e na inveja, dignos de ódio e odiando uns aos outros”.


Mas agora que cremos em Jesus Cristo deve mudar nossa imagem em meio da sociedade. Por isso, Tito deve recomendar aos cristaos de Creta, em primeiro lugar,  “que vivam submissos aos príncipes e às autoridades, e que lhes obedeçam” e que “estejam prontos para qualquer boa obra”. A obediência às autoridades é apresentada em Rm 13,1-7, onde se afirma que toda a autoridade vem de Deus. E em 1Tm 2,2 é recomendado que ore particularmente pelos constituídos em autoridade (Cf. também 1Pd 2,13-17). A autoridade era princípio da governabilidade seja numa família, na comunidade ou numa nação.


Na convivência com os outros, a recomendação de são Paulo para Tito  e a comunidade de Creta são as sequintes: que “não injuriem a ninguém”, mas que “sejam pacíficos, afáveis e deem provas de mansidão para com todos os homens”.


Em outras palavras, a vida de fé em Jesus Cristo se manifesta através de uma vida reta, de amor e de respeito aos demais. Através de nossa fé em Jesus Cristo e mediante o Batismo fomos regenerados, e libertados de nossa antiga condição de pecadores. Se isto é verdade, então devemos dar frutos de bondade. Então, Deus nos reconhecerá como seus e, junto a Cristo, seremos coherdeiros da vida eterna.


Façamos nossas as próprias palavras de são Paulo ao descrever a mudança que foi operada nele e que opera em todos aqueles que realmente conhecem a Cristo e O seguem. Em outra época, quando vivíamos e trabalhávamos movidos por interesses carnais, meramente culturais ou socioeconômicos, nossa perspectiva era muito limitada, condicionada pelo "homem exterior" que tem a si mesmo como centro de referência. E nessas circunstâncias, éramos iguais a muitos seres humanos que buscam se livrar de compromissos sociais, de trabalho honesto.


Mas quando conhecemos que Deus é Pai, amor, meta de nossa existência e que ele cuida de nós no caminho até Ele, tudo sofreu uma profunda transformação. Sabemos porquê e paraquê estamos neste solo, a partir do qual olhamos para os homens, a natureza e o céu, com olhos agradecidos, com mãos criativas colocadas a serviço dos outros, com uma capacidade aumentada de amar e sofrer, com firme esperança de voltar ao lar e ao coração de onde saímos: de Deus, Princípio e Fim de nossa existência. Consequentemente, não podemos converter nossa fé em buscar somente a satisfação de nosso interesses temporais, sejam econômicos, materiais ou de saúde.


Viver Como Cristãos é Viver Eucaristicamente, Isto É, Viver Na Gratidão Permanentemente


Continuamos a caminhar com Jesus para Jerusalém ouvindo e meditando suas ultimas lições para nós, seus seguidores (Lc 9,51-19,28), pois logo depois ele será condenado à morte (crucificado). Uma das lições que tiramos do texto de hoje é a de agradecimento através da cena dos dez leprosos em que somente um voltou para agradecer pelo beneficio recebido (cura). “A gratidão é o único tesouro dos humildes” (William Shakespeare). “A gratidão é a virtude das almas nobres” (Esopo). “Quem acolhe um benefício com gratidão, paga a primeira prestação da sua dívida” (Sêneca). “A gratidão é um fruto de grande cultura; não se encontra entre gente vulgar” (Samuel Johnson). “Expresse gratidão com palavras e atitudes. Sua vida mudará muito de modo positivo” (Masaharu Taniguchi).

Os leprosos eram, na época de Jesus, os seres mais depreciáveis. Eles permaneciam isolados, pois a lepra era considerada, segundo o modo de pensar na época, como meio pelo qual Deus usava para castigar os grandes pecadores. Tocar num leproso causava a impureza cultual. Por isso, eles gritavam: “Lepra! Lepra!”, assim que as pessoas se aproximassem deles (CF. Lv 13, 45). Eles viviam em cavernas ao longo dos caminhos e comiam o que os peregrinos lhes davam. Por serem considerados “grandes pecadores” eles eram considerados como pessoas impuras não aptas para conviver com as demais pessoas na sociedade, muito menos para participar das atividades cultuais/religiosas. Praticamente não eram considerados seres humanos. Se houvesse a cura, eles se apresentariam aos sacerdotes que tinham autoridade para declarar quem era puro e quem era impuro.

Jesus permite que um grupo de leprosos se aproxime dele. Com este gesto Jesus rompe com a mentalidade segregacionista que divide o mundo em puros e impuros, sagrados e profanos, pois todos são filhos de Deus que necessitam do mesmo tratamento e da mesma proteção (cf. 1Jo 3,1).

O pedido dos leprosos é simples: “Jesus, Mestre, tem compaixão de nós!”. Jesus os remete ao sacerdote que era a instituição encarregada de decidir quem era puro e quem era impuro. E no caminho todos ficaram curados. O que é condenável aos olhos do homem é redimido por Deus em Jesus Cristo.

Mas unicamente quem voltou para agradecer a Jesus era um samaritano, um estrangeiro. Aqueles que são considerados aparentemente como “adversários” de Deus é que sabem reconhecer a grandeza de Deus em Jesus Cristo que é capaz de transformar aquilo que é impossível em possível, um sonho impossível em um sonho realizado (cf. Lc 1,37; 18,27). Com isso o leproso curado, o samaritano, experimentou em sua vida o passo salvador de Deus em Jesus Cristo.

O leproso curado que voltou a Jesus sabe que Quem lhe deu a cura vale muito mais do que a instituição a qual deve se apresentar. Ele reconhece Jesus acima de outras instâncias de Israel. O leproso curado entende que Jesus o integrou à comunidade humana, não importa que como leproso e estrangeiro era um duplo marginalizado. Diante de Jesus ele se prostra e reconhece no Homem da Galiléia seu Redentor. A fé do homem enfermo e marginalizado é que lhe permite ser completamente redimido. Se os outros nove leprosos correram atrás de seus opressores, o samaritano curado foi atrás de seu Libertador, ao se jogar aos pés de Jesus.

Algumas lições que Jesus nos dá: Primeiro, os do povo eleito, os da Igreja, são os que menos sabem agradecer pelos favores de Deus, e por isso, vivem tristes e desorientados. Não existe um só dia em que Deus não nos conceda alguma graça particular e extraordinária. Pare e verifique! Agradecer é uma atitude própria de quem tem dignidade. Quem não sabe agradecer está mal preparado para conviver.

Segundo, Deus em Jesus Cristo se preocupa com a dignidade e a salvação do homem. Por isso, o próprio homem, especialmente os cristão e todas as pessoas de boa vontade devem se preocupar com a dignidade humana sem excluir nenhuma pessoa da convivência. Jesus acolhe os excluídos da sociedade, logo os cristãos devem fazer a mesma coisa, pois eles são “outro Cristo” neste mundo.

Terceiro, através da cura dos dez leprosos, Lucas quer nos mostrar que Deus tem uma proposta de vida nova e de libertação oferecidas a todos, mas sob uma condição: que o homem obedeça à Palavra de Deus, pois ela tem o poder libertador.

Quarto, a vida fundada sobre o egoísmo, sobre a exclusão, sobre a discriminação, sobre a arrogância ou prepotência, sobre o complexo de superioridade é precisamente o câncer que ameaça a convivência e ameaça a humanidade. Se levantarmos barreiras contra os outros, é porque nosso amor é ainda pequeno e bem frágil, pois nada é sem valor e ninguém é pequeno quando o amor é grande.

Quinto, os dez leprosos, os excluídos querem nos ensinar com sua vida e exemplo que jamais podemos ficar desesperados quando encontrarmos alguma dificuldade de qualquer espécie, pois a vida é de Deus e Deus está nela (cf. Gn 2,7). Uma sabedoria oriental diz: “Volta sempre teu rosto na direção do sol e, então, as sombras ficarão para trás”. Esse sol é Deus, e as sombras são nossas dificuldades.

Nós começamos nossa celebração eucarística com uma súplica parecida à dos leprosos: “Senhor, tende piedade de nós!”. Fazemos bem, porque somos débeis e pecadores e sofremos diversos tipos de “lepra”.

Mas será que sabemos também rezar e cantar dando graças a Deus por tudo na nossa vida? Há pessoa que nos parecem “aleijados” e que nos dão lições porque sabem reconhecer a proximidade de Deus, enquanto que nós, talvez pela familiaridade e pela rotina dos sacramentos, por exemplo, não sabemos nos alegrar pela cura de nossos pecados que Jesus Cristo nos concede através do sacramento da reconciliação. Jesus quer que saibamos cultivar em nós um coração que saiba agradecer por tudo de bom na nossa vida. Somente um coração grande é que sabe agradecer. Um coração mesquinho só sabe cobrar e reclamar. Como é fácil trabalhar com uma pessoa de grande coração porque ela tem capacidade de ver e de perceber o que é bom no outro e por isso, sabe agradecer. Precisamos procurar razão para agradecer e não motivos para reclamar e murmurar. Quem sabe agradecer tem uma vida leve e livre para ser vivida. Uma vida vazia de agradecimento é uma vida pesada para ser vivenciada e vivida.

Mas será que temos sido pessoas agradecidas? Somente o seremos quando, mediante nossa vida e nossas obras de caridade, nos convertermos em uma contínua glorificação do Santo Nome do Senhor através da vivência do amor fraterno. Verifique, se você também passou por uma experiência de "leproso" na sua vida: desespero, sentimento de desprezo e de abandono, ser excluído. Mas Deus também na nossa vida como Salvador. A Ele é que devemos dirigir nosso simples pedido: Tem piedade de mim, Senhor!

Se nos afundamos na dor humana, mais fundo estás Tu integrando as feridas. Se subimos no êxtase, ali te encontramos abrindo o instante a novas plenitudes” (Benjamin González Buelta: SALMOS: Para Sentir e Saborear As Coisas Internamente)
P. Vitus Gustama,svd

domingo, 11 de novembro de 2018

13/11/2018
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SER SERVO JUSTO DO SENHOR VIVENDO AS VIRTUDES BÁSICAS NA VIDA COTIDIAN
Terça-Feira da XXXII Semana Comum


Primeira Leitura: Tito 2,1-8.11-14
Caríssimo, 1 o teu ensino seja conforme à sã doutrina. 2 Os mais velhos sejam sóbrios, ponderados, prudentes, fortes na fé, na caridade, na paciência. 3 Assim também as mulheres idosas observem uma conduta santa, não sejam caluniadoras nem escravas do vinho, mas mestras do bem. 4 Saibam ensinar as jovens a amarem seus maridos, a cuidarem dos filhos, 5 a serem prudentes, castas, boas donas de casa, dóceis para com os maridos, bondosas, para que a palavra de Deus não seja difamada. 6 Exorta igualmente os jovens a serem moderados 7 e mostra-te em tudo exemplo de boas obras, de integridade na doutrina, de ponderação, 8 de palavra sã e irreversível, para que os adversários se confundam, não tendo nada de mal para dizer de nós. 11 Pois a graça de Deus se manifestou trazendo salvação para todos os homens. 12 Ela nos ensina a abandonar a impiedade e as paixões mundanas e a viver neste mundo com equilíbrio, justiça e piedade, 13 aguardando a feliz esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo. 14 Ele se entregou por nós, para nos resgatar de toda a maldade e purificar para si um povo que lhe pertença e que se dedique a praticar o bem.


Evangelho: Lc 17,7-10
Naquele tempo, disse Jesus: 7 “Se algum de vós tem um empregado que trabalha a terra ou cuida dos animais, por acaso vai dizer-lhe, quando ele volta do campo: ‘Vem depressa para a mesa?’ 8 Pelo contrário, não vai dizer ao empregado: ‘Prepara-me o jantar, cinge-te e serve-me, enquanto eu como e bebo; depois disso poderás comer e beber?’ 9 Será que vai agradecer ao empregado, porque fez o que lhe havia mandado? 10 Assim também vós: quando tiverdes feito tudo o que vos mandaram, dizei: ‘Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer’”.
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Viver Como Cristãos É Viver Como Pessoas sóbrias, ponderadas, prudentes, fortes na fé, na caridade, na paciência


Continuamos a refletir sobre a Carta de são Paulo para Tito. Tito, como pastor da comunidade de Creta, deve saber ensinar todos oportunamente. São Paulo lhe dita umas consignas que ele deve transmitir a diversos tipos de pessoas de sua comunidade, e, sobretudo, como ele mesmo deve se comportar: “Vós, os homens de idade (mais velhos), vós, as mulheres idosas, vós, os jovens...”. Cada um recebe o Evangelho segundo seu estado, sua situação e sua idade. Não há que copiar uns aos outros. Cada um tem uma papel diferente segundo suas possibilidades e situações. Em outras palavras, o fragmento da Carta a Tito que lemos hoje está refleto de advertências aos anciãos, aos jovens e aos dirigentes da comunidade cuja atualidade sempre vale para todas as comunidades cristãs em qualquer tempo e lugar.


Aos anciãos, que sejam sóbrios, sérios e bempensados, robustos no amor e na paciência. Para as anciãs, que sejam decentes no comportamento, não sejam caluniadores nem escravas de vinho (os vinhos de Creta eram e são famosos) e que sejam de bom exemplo a todos, aos familiares e aos mais jovens. Aos jovens, que tenham ideas justas e se apresentem como modelos de boa conduta. E para Tito, o bispo da comunidade, que seja integro e sensato, irrepreensível, de maneira que ninguém possa acusá-lo.


Se lermos com atenção o texto de hoje, poderemos observar que as exortações aos distintos membros da família cristã contêm listas de virtudes domesticas necessárias para a época. No entanto, não são estas virtudes em si o que mais se sublinha e sim sua finalidade: a evangelização. O princípio fundamental é que todos os cristãos, seja qual for sua função no lar, é enviado (do Senhor) a dar testemunho da Palavra recebida, como fez o próprio Cristo diante de Pilatos (1Tm 6,13).


Sobriedade, dignidade, ponderação, fortaleza na fé, na caridade, na perseverança, ser pessoa de bom conselho, sensateza, boas amas de casa e assim por diante são tudo que são Paulo quer para Tito e a comunidade de Creta. Os conselhos dados são muito “humanos”: trata-se de virtudes naturais.


Ainda que as recomendações pareçam de virtudes humanas, a motivação que põe são Paulo é de fé: no tempo intermédio que transcorre entre a “aparição da graça de Deus” até “a aparição gloriosa de nosso Salvador Jesus Cristo”, nós cristaos devemos levar uma vida, não segundo os desejos mundanos e sim sóbria, hnrada e religiosa, de modo que sejamos um povo purificado, dedicado às boas obras, já que Jesus se entregou por nós para nos resgatar de toda impiedade.


Tudo isso quer nos dizer que crer em Jesus Cristo tem consequências em nossa vida. Ninguém crê impunemente.  No nosso exame de consciência, devemos nos perguntar se, na verdade, somos robustos na fé, no amor e na paciência, e sóbrios, bondosos e modelos de conduta para os que convivem e trabalham conosco, tanto dentro de casa como fora dela. Ou, se, pelo contrário, somos intrigantes, malpensados, escravos de bebidas alcoolicas e nos deixamos levar pelos desejos mundanos que são opostos dos valores evangélicos.


Somos Simples Servos Do Senhor, Pois Fazemos O Que devemos


Continuamos a acompanhar Jesus no seu caminho para Jerusalém onde será crucificado, morto e glorificado (Lc 9,51-19,28). Continuamos também a escutar atentamente suas ultimas e importantes lições para todos nós, cristãos. Por isso, essa parte é chamada de Lições do caminho.


O texto do evangelho de hoje nos narra a parábola do agricultor que explora sem remorso seu servo. Precisamos saber de que no costume da antigüidade não existia contrato de trabalho que determinasse os limites de horário de trabalho ou reconhecesse horas extras de trabalho. O servo era propriedade do seu senhor, sem direitos à recompensa e ao reconhecimento. Por isso, se lêssemos literalmente esta parábola, ela traria um choque para nós ou se justificaria todo tipo de escravidão existente ainda na sociedade atual. Mas as parábolas de Jesus se servem das experiências reais para falar de outra coisa. É claro que Jesus não aprova a conduta daquele senhor que é abusiva e arbitrária, mas serve-se de uma realidade do seu tempo para ilustrar qual deve ser a atitude da criatura (ser humano) em relação ao Criador (Deus). O ser humano deve estar consciente de que tudo de bom procede do Senhor.


Logo depois de dizer que a fé nos faz realizar grandes obras no texto do evangelho do dia anterior (cf. Lc 17,1-6), Jesus nos mostra que, nem por isso, temos que ficar nos exibindo, vaidosos com o que pudermos realizar. Quando nós fazemos algo, em primeiro lugar, é porque a graça de Deus nos acompanha: “Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer”.  Servo inútil, no Evangelho de hoje, é aquele que une com simplicidade fé e serviço sem esperar outra recompensa que não seja a alegria de estar trabalhando por uma boa causa. Por isso, Santo Ambrósio comenta: “Não te julgues mais por tu seres chamado filho de Deus, deves, sim, reconhecer a graça, mas não deves esquecer a tua natureza, nem te envaideças por teres servido fielmente, já que esse era o teu dever. O sol cumpre a sua tarefa, a lua obedece, os anjos também servem”. Servir ao Senhor no irmão e pela comunidade é uma graça que Deus nos dá. Temos que agradecer a Deus por ser úteis para os outros no serviço fraterno. Mas temos que admitir que se Deus não nos ajudar, seremos incapazes de levar a cabo o que Ele nos encomendou. A graça divina é a única coisa que pode potenciar os nossos talentos humanos para trabalharmos por Cristo no irmão com quem ele se identifica (cf. Mt 25,40.45). Sem a graça santificante, para nada serviríamos. Santo Agostinho compara a necessidade do auxílio divino à da luz para podermos ver. É o olho que vê, mas não poderia fazê-lo se não houvesse luz, pois mesmo que tenhamos olhos saudáveis, eles não funcionam na escuridão. Do mesmo modo, podemos abrir as janelas de nossa casa, mas se não houver a luz (sol), a sala não será iluminada. Mesmo que abramos a janela à noite escura, a sala continuará escura, se não houver nenhuma lâmpada (luz).


Lucas também quer sublinhar o tema da gratuidade da fé. Quer-se afirmar firmemente que a fé é antes de tudo um dom. Nossa capacidade de viver a fé, de cumprir o “que lhe havia mandado” é também graça. Deus nos dá o tempo suficiente para viver nossa fé. Por isso, a afirmação de “inutilidade”, de que somos pobres servidores, é perfeitamente coerente com uma fé profundamente comprometida. A vida de fé é sempre um dom que acolhemos na medida em que amamos Deus e os demais. Fazemos o mínimo, de acordo com nossa capacidade, e Deus faz o máximo: “Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer”.


Em conseqüência, paradoxalmente, os servos verdadeiramente úteis são os que se reconhecem “inúteis”. “O serviço do Senhor é livre. É um serviço de total liberdade, no qual não é a necessidade quem serve, e sim o amor. Faz-te escravo da caridade, uma vez que a verdade te faz livre” (Santo Agostinho). Somente os que vivem e reconhecem esse dom podem ser portadores da gratuidade do amor de Deus aos demais.


A alegria de um cristão consiste em entregar-se sem reservas, à missão recebida, sem nada exigir. Basta-lhe a consciência do dever cumprido. A partir desta humildade na fé, tudo quanto façamos, por mais duro e esgotante que seja, resta-nos somente dizer: “Fiz tudo o que devia fazer”. Tudo mais está entregue à benevolência de Deus. O cristão que não serve, não serve como cristão. “O amor autêntico é sempre contemplativo, permitindo-nos servir o outro não por necessidade ou vaidade, mas porque ele é belo, independentemente da sua aparência: Do amor, pelo qual uma pessoa é agradável a outra, depende que lhe dê algo de graça” (Papa Francisco: Evangelii Gaudium n. 199).


Todos na comunidade, na verdade, somos pobres e simples servos de Deus. São Paulo diz: “Evangelizar não é glória para mim, senão necessidade. Ai de mim se não evangelizar. Eu que, sendo totalmente livre, fiz-me escravo de todos para ganhar a todos...” (1Cor 9,16.19).  Este texto é convite para vestirmos a humildade, pois, na verdade, fazemos muito pouco para Deus no próximo em comparação às bênçãos de Deus que recebemos diariamente.


Com esta parábola, Jesus também quer dizer a todos os seguidores de Cristo, que o serviço prestado deve ser desinteressado e gratuito. Assim está sendo desmantelada toda pretensão humana que tenta de alguma maneira servir-se de Deus ou condicioná-lo através de uma relação religiosa de tipo contratual ou contabilizável, segundo o modelo farisaico. E esta crítica à religiosidade mercantil e pretensiosa é tanto mais urgente quanto mais na comunidade a função ou o serviço goza de certo prestígio ou de responsabilidade. Não é por acaso que a parábola do servo sem pretensões é dirigida aos discípulos. Todos na comunidade são pobres e simples servos (cf. 1 Cor 9,16.19-23).


Outro cerne dessa parte diz respeito à atitude da pessoa. A atitude de um arrogante vê Deus muito feliz pelo fato da pessoa realizar o bom serviço. No entanto, a atitude adequada é a de agradecimento por termos privilégio e a oportunidade de servir a Deus. Seja qual for a recompensa que obtivermos por servir a Deus, na verdade, não a merecemos, mas a ganhamos porque Deus é gracioso. Nenhum cristão pode gabar-se diante de Deus (Rm 3,27). Os servos fiéis entendem isso, pelo que prosseguem em seu trabalho para Deus, motivados pelo amor a Deus e não por um senso de importância própria ou cobiça pela recompensa. Deus nos criou e tudo de bom vem dele.  Não podemos, por isso, nos vangloriar de nenhum bem que tenhamos recebido de Deus (cf. Ef 2,8). Todos os nossos méritos provêm de Deus. Evita-se assim qualquer auto-justificação farisaica. O que temos que fazer diante de tudo isto é agradecer a Deus. Temos que procurar sempre as razões para agradecer a Deus e não os motivos para reclamar a Deus por tudo que não anda bem na nossa vida. Deus já deu tudo para nós. O que fazemos é muito pouco em comparação com tudo que Deus nos deu através da sua criação. Somos nós que não sabemos nos comportar diante de tantos dons divinos que recebemos. Somos, às vezes, como os peixes que nadam na água que ainda perguntam se existe a água, ou onde está a água.


Para chegar até este ponto, para a fé ser viva e atuante, precisamos alimentá-la de diversas formas, todos os dias, sobretudo com a oração, com a reflexão, com a leitura da Palavra de Deus, com a participação na vida da Igreja e com o serviço ao próximo etc.. Sem alimentarmos a nossa fé com tudo isso, ficaremos frágeis e nos tornamos inconstantes.


Senhor, ajuda-me a ser aquele que espera sem cansaço, escuta sem fadiga, recebe com bondade, dá com amor. Ajuda-me a ser aquela presença que atrai, a amizade repousante e enriquecedora, a paz que irradia alegria e serenidade. Amém!
P. Vitus Gustama,svd

sábado, 10 de novembro de 2018

12/11/2018
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VIVER E CONVIVER COM SABEDORIA E RESPONSABILIDADE COMO CRISTÃOS E LÍDERES DA COMUNIDADE
Segunda-Feira da XXXII Semana Comum


Primeira Leitura: Tito 1,1-9
1 Paulo, servo de Deus e apóstolo de Jesus Cristo, para levar os eleitos de Deus à fé e a conhecerem a verdade da piedade 2 que se apoia na esperança da vida eterna. Deus, que não mente, havia prometido esta vida desde os tempos antigos, 3 e, no tempo marcado, manifestou a sua palavra por meio do anúncio que me foi confiado por ordem de Deus nosso Salvador. 4 A Tito, meu legítimo filho na fé comum, graça e paz da parte de Deus Pai e de Jesus Cristo nosso Salvador. 5 Eu deixei-te em Creta, para organizares o que ainda falta e constituíres presbíteros em cada cidade, conforme o que te ordenei: 6 todo candidato deve ser irrepreensível, marido de uma só mulher, com filhos crentes, e não acusados de levianos e insubordinados. 7 Porque é preciso que o epíscopo seja irrepreensível, como administrador posto por Deus. Não seja arrogante nem irascível nem dado ao vinho nem turbulento nem cobiçoso de lucros desonestos, 8 mas hospitaleiro, amigo do bem, ponderado, justo, piedoso, continente, 9 firmemente empenhado no ensino fiel da doutrina, de sorte que seja capaz de exortar com sã doutrina e refutar os contraditores.


Evangelho: Lc 17,1-6
Naquele tempo, 1 Jesus disse a seus discípulos: “É inevitável que aconteçam escândalos. Mas ai daquele que produz escândalos! 2 Seria melhor para ele que lhe amarrassem uma pedra de moinho no pescoço e o jogassem no mar, do que escandalizar um desses pequeninos. 3 Prestai atenção: se o teu irmão pecar, repreende-o. Se ele se converter, perdoa-lhe. 4 Se ele pecar contra ti sete vezes num só dia, e sete vezes vier a ti, dizendo: ‘Estou arrependido’, tu deves perdoá-lo”. 5 Os apóstolos disseram ao Senhor: “Aumenta a nossa fé!” 6 O Senhor respondeu: “Se vós tivésseis fé, mesmo pequena como um grão de mostarda, poderíeis dizer a esta amoreira: ‘Arranca-te daqui e planta-te no mar’, e ela vos obedeceria”.
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Para Viver Como Uma Comunidade Cristã É Necessário Praticar As Virtudes Humanas-Cristãs Básicas


Durante três dias, a partir de hoje, vamos ler e meditar sobre uma das Cartas pastorais de são Paulo: a Carta a Tito.


Por que algumas Cartas (Duas Cartas a Timóteo, e Carta a Tito) são chamadas “Cartas pastorais”? Porque estas Cartas são endereçadas aos pastores ou chefes das comunidades cristãs a fim de regulamentar a vida e a disciplina eclesiástica. Mesmo sendo endereçadas aos responsáveis da comunidade, as Cartas Pastorais abarcam todos os setores e momentos da vida comunitária, da oração à vida de relação, do contato com os dissidentes ao testemunho cristão diante do ambiente externo. Nelas há o conjunto de normas, regras e exortações práticas, catequese, hinos, profissões de fé, inclusive sentenças ou ditos sapienciais para a vida comunitária. Em outras palavras, as Cartas Pastorais estão ligadas sempre a pastores e rebanho, líder e comunidade.


A Carta pastoral que vamos ler e meditar durante três dias é endereçada a Tito. Tito era pagão. Uma vez convertido, ele acompanhou muitas vezes são Paulo em suas viagens, e ele era uma das pessoas da confiança de são Paulo. São Paulo considera Tito como “meu legítimo filho na fé comum”.


O tema da Carta a Tito é duplo: como deve organizar a vida eclesial da comunidade de Creta e como deve levar-se a término a luta contra as heresias que são um grave perigo para a fé na ilha de Creta. O primeiro deles encontramos nos versículo 5-9 da leitura de hoje: qualidades que devem ter os que presidem a comunidade. O segundo, nos versículos 10-16. Ambos os temas são interligados ou interdependentes.


São Paulo coloca Tito como responsável da comunidade cristã de Creta, uma ilha no mar Mediterrâneo. Hoje diríamos que Tito é como bispo daquela ilha para levar adiante os dois temas acima mencionados: primeiro, instituir e formar líderes dignos da funçao de cada igreja (presbítero em cada cidade). A segunda tarefa de Tito é combater os opositores que atacavam a comunidade que eram os mitos helenísticos  e os mitos judaicos e da circuncisão (Tt 1,10-16).


As qualidades necessárias para se tornar presbítero, que lemos na Primeira Leitura de hoje, são, sobretudo, de caráter humano: “ser irrepreensível, marido de uma só mulher, com filhos crentes, e não acusados de levianos e insubordinados”, “Não seja arrogante nem irascível nem dado ao vinho nem turbulento nem cobiçoso de lucros desonestos”. Ao contrário, “hospitaleiro, amigo do bem, ponderado, justo, piedoso, continente, firmemente empenhado no ensino fiel da doutrina, de sorte que seja capaz de exortar com sã doutrina e refutar os contraditores”.


Quando se fala das qualidades de “caráter humano”, logo todos nós cristãos somos interpelados, pondo-nos diante de um espelho, tanto aos que têm algum tipo de responsabilidade como aos demais membros da comunidade. Somos obrigados a nos perguntar: somos fieis às pessoas, justos, sóbrios, hospitaleiros, autodomínios, irrepreensíveis. Ou nos tocam algum dos aspectos negativos que são Paulo assinala: somos coléricos, gananciosos, injustos, arrogantes, desonestos, fieis no casamento?


Por que estas qualidades são necessárias também para todos nós cristaos? A motivação é que somos “administradores de Deus” aqui neste mundo, e que a missão que recebemos é “promover a fé dos eleitos e o conhecimento da verdade”, “capaz de exortar com sã doutrina e refutar os contraditores”, como enfatiza o texto de hoje. Para ser luz e sal e fermento neste mundo, devemos mostrar o estilo de vida que nos ensinou Jesus em nossa própria existência antes que em nossas palavras.


O Salmo Responsorial também aponta para as virtudes humanas: “Quem subirá até o monte do Senhor, quem ficará em sua santa habitação? Quem tem mãos puras e inocente coração, quem não dirige sua mente para o crime” (Sl 23/24).


Portanto, anunciar Cristo aos demais deve ser pessoa provada ou comprovada não somente por sua fé e sim por suas obras de amor e por suas relações fraternas que manifestem a fé que diz professar. É na própria pessoa e na própria família onde deve iniciar-se o processo de uma autêntica conversão. Quem foi chamado como ministro de Deus ou como responsável da comunidade ou de um grupo na comunidade cristã deve exercer sua autoridade não como uma projeção do que não é capaz de viver ele mesmo, e sim como um caminho de pastor diante dos seus mediante uma vida exemplar, através da qual conduzirá os seus à fé, à verdade e à vida eterna. Se, na verdade, quisermos ser capazes de exortar aos demais para conduzi-los à salvação, sejamos os primeiros em nos aderir à Palavra de Deus, fazendo que tome carne em nós, e que nos faça ser um sinal autêntico de Cristo Salvador no mundo onde vivemos e atuamos.


Dentro das qualidades humanas necessárias, no Evangelho de hoje, o evangelista Lucas nos oferece três ditos de Jesus: o primeiro se refere ao escândalo; o segundo, ao perdão e o terceiro à fé que são ligados entre si. escandalizar significa pôe pedra no caminho para que o outro tropece. Às vezes, quando somos dominados pelo espirito de vingança, fazemos isso. Às vezes nos tornamos escândalos para os outros nas redes sociais através dos comentários maldosos ou através de fake News que faz os outros tropecem na vida. E a fé e o perdão são muito ligados. O perdão é fruto da fé. Não é por acaso que os apóstolos pedem a Jesus: “Aumente-nos a fé”. Pôr limite ao perdão é pôr limite à fé. “Perdoai-nos a nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”, assim pedimos no Pai-Nosso.


Somos Chamados a Conviver Como Irmãos, Filhos e Filhas do mesmo Deus


Continuamos a acompanhar Jesus na sua última viagem para Jerusalém, pois lá ele será crucificado, morto e glorificado (Lc 9,51-19,28). Ele aproveita essa viagem para nos passar suas ultimas e importantes lições para nosso seguimento como cristãos (Lc 9,51-19,28).


No texto do evangelho de hoje encontramos três lições que Jesus passa para todos nós, seus seguidores e para todas as pessoas de boa vontade. As duas primeiras lições se referem às relações fraternas: sobre o escândalo e a necessidade do perdão mútuo (Lc 17,1-4). A terceira lição se refere ao tema da fé (Lc 17,5-6).


1. Não Sejamos Ocasião De Tropeço Para Os Outros


“É inevitável que aconteçam escândalos. Mas ai daquele que produz escândalos! Seria melhor para ele que lhe amarrassem uma pedra de moinho no pescoço e o jogassem no mar, do que escandalizar um desses pequeninos”. Assim Jesus começou suas lições. Trata-se do tema sobre o escândalo.


A palavra escândalo provém do grego “skándalon” que significa pedra de tropeço que aparece ou que é colocada no caminho de alguém que o leva a cair ou que provoca a queda de alguém.  Há escândalo ativo  que é toda palavra ou ação contrária à caridade, que cria perigo de pecado para o próximo. Há também o escândalo passivo que é a própria queda do próximo prejudicado pelo comportamento do outro. A pessoa sofre dano espiritual porque é frágil, pouco instruída, propensa a interpretar erroneamente o comportamento alheio.


Há o escândalo direto quando alguém procura e deseja que o próximo peque; chama-se também sedução. Há também o escândalo indireto, isto é, um ato que em si não é mau, mas pode ter as aparências de mal, de modo que possa levar o próximo à queda (p. ex. hospeda em casa uma pessoa de má vida, embora não tenha más intenções).


Jesus pede que não sejamos ocasião de tropeço para os outros, especialmente para os pequenos (os pobres, os humildes, os que não têm recursos materiais ou espirituais etc.) por meio de nossas atitudes negativas e de nossos maus exemplos. Cada cristão tem uma missão de levantar as pessoas prostradas pelos problemas e dificuldades encontrados na vida e não para causar a queda de quem quer que seja.


Em outras palavras, cada cristão não somente tem responsabilidade sobre si próprio, mas também sobre os demais. A palavra “responsabilidade” tem sua origem etimológica no latim: “respondere” que significa “prometer”, “garantir”. O que garante a responsabilidade e o sentido da vida do ser humano são os valores. Ter responsabilidade significa ser coerente com os valores reconhecidos. Responsabilizar-se significa elevar a própria existência para uma dimensão superior por causa da vivência dos valores reconhecidos. Responsabilidade e valores sempre andam inseparáveis. Todo ato autenticamente responsável está em comunhão com os valores. Quem vive de acordo com a responsabilidade jamais se torna escândalo para os demais.


“Os pequenos” dos quais Jesus fala neste texto são os que ainda estão fracos na fé. Em vez de fazer escândalo contra eles, o cristão deve dar-lhes a atenção e acolhê-los e cuidá-los. A palavra “cuidar” sempre se refere ao amor, à atenção, à proteção e assim por diante. Os que têm mais maturidade na fé jamais podem ser causadores de qualquer tipo de escândalo (cf. Rm 14,13; 1Cor 8,9.13).


2. Necessidade Do Mútuo Perdão


“Se o teu irmão pecar, repreende-o. Se ele se converter, perdoa-lhe. Se ele pecar contra ti sete vezes num só dia, e sete vezes vier a ti, dizendo: ‘Estou arrependido’, tu deves perdoá-lo”. Esta é a segunda lição dada por Jesus neste texto.


A comunidade cristã não é feita de pessoas isentas de fraquezas e limitações. Por isso, a convivência se torna vulnerável, no sentido de que um é capaz de ferir o outro, muitas vezes por causa das limitações. Daí a exigência de reconciliação ou de mútuo perdão. Isto supõe o reconhecimento do pecado, por parte de quem ofendeu o irmão e a oferta de perdão e de reconciliação de quem se sentiu ofendido.


Para os cristãos e para quem acredita em Deus de amor e de misericórdia, o perdão não é apenas uma exigência moral, e sim o testemunho visível da reconciliação de Deus operando em cada um de nós. Porque a lei do perdão é vinculante, e não facultativa: é como um contrato firmado com o sangue de Cristo. Depende de mim ratificá-lo, derramando sobre os meus semelhantes aquilo que Deus me deu. Por isso, quando alguém perdoa o outro, na verdade, ele está agindo em conformidade com Deus que concede prodigamente o seu perdão para o ser humano. O perdão é a expressão máxima do amor. Se Jesus insiste no perdão mútuo como a expressão máxima do amor é porque somente o amor tem futuro e se conta diante de Deus. O mal não se conta diante de Deus e por isso, ele não tem futuro.


3. É Preciso Manter a Fé Firme Permanentemente


“Os apóstolos disseram ao Senhor: ‘Aumenta a nossa fé! ’. O Senhor respondeu: ‘Se vós tivésseis fé, mesmo pequena como um grão de mostarda, poderíeis dizer a esta amoreira: ‘Arranca-te daqui e planta-te no mar’, e ela vos obedeceria’’”. É a terceira lição que Jesus passa para todos os seus seguidores.


Para cada cristão não se tornar pedra de tropeço aos demais e para ser capaz de perdoar mutuamente é preciso manter a fé firme permanentemente.


Os apóstolos percebem que estão vacilando, sentem-se tentados a voltar atrás, como tinham feito muitos discípulos (cf. Jo 6,60). Eles reconhecem que somente a força da fé os permitirá aceitar, com todas as suas conseqüências, as exigências do perdão. Eis então que surge espontaneamente nos seus lábios o pedido de socorro: “Aumenta a nossa fé!” Os apóstolos têm certeza que só com a confiança ilimitada em Jesus é que eles podem realizar coisas impossíveis aos olhos humanos. Por isso, eles querem ter o poder de Jesus Cristo.


Os discípulos querem ter mais fé. A resposta de Jesus tira deles o conceito de maior ou menor em termos de fé para o conceito de uma fé genuína. Basta ter uma mínima fé, mas autêntica (como o grão de mostarda, Lc 13,19) para que o homem possa realizar grandes coisas. Se há fé real, então, os efeitos se segurarão. Não é tanto uma grande fé em Deus que é exigida, quanto a fé num Deus grande. A imagem da amoreira arrancada e transplantada no mar expressa plasticamente a força da confiança plena em Deus. Isto quer dizer que a fé genuína pode realizar aquilo que a experiência, a razão e a probabilidade negariam, se for exercida dentro da vontade de Deus. Quando a força humana terminar, a fé vai a continuar, pois a fé transforma os nossos limites em forças, pois a fé é a participação na vida divina. A fé nos dá a convicção de que estamos constantemente envolvidos pelo amor de Deus.
 
P. Vitus Gustama,svd