terça-feira, 25 de abril de 2017

Domingo,30/04/2017

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DEUS NOS ACOMPANHA PERMANENTEMENTE


III DOMINGO DA PÁSCOA DO ANO “A”


I Leitura: At 2,14.22-33


No dia de Pentecostes, 14Pedro de pé, junto com os onze apóstolos, levantou a voz e falou à multidão: 22“Homens de Israel, escutai estas palavras: Jesus de Nazaré foi um homem aprovado por Deus, junto de vós, pelos milagres, prodígios e sinais que Deus realizou, por meio dele, entre vós. Tudo isto vós bem o sabeis. 23Deus, em seu desígnio e previsão, determinou que Jesus fosse entregue pelas mãos dos ímpios, e vós o matastes, pregando-o numa cruz. 24Mas Deus ressuscitou a Jesus, libertando-o das angústias da morte, porque não era possível que ela o dominasse. 25Pois Davi dele diz: ‘Eu via sempre o Senhor diante de mim, pois está à minha direita para eu não vacilar. 26Alegrou-se por isso meu coração e exultou minha língua e até minha carne repousará na esperança. 27Porque não deixarás minha alma na região dos mortos nem permitirás que teu Santo experimente corrupção. 28Deste-me a conhecer os caminhos da vida, e a tua presença me encherá de alegria’. 29Irmãos, seja-me permitido dizer com franqueza que o patriarca Davi morreu e foi sepultado e seu sepulcro está entre nós até hoje. 30Mas, sendo profeta, sabia que Deus lhe jurara solenemente que um de seus descendentes ocuparia o trono. 31É, portanto, a ressurreição de Cristo que previu e anunciou com as palavras: ‘Ele não foi abandonado na região dos mortos e sua carne não conheceu a corrupção’. 32Com efeito, Deus ressuscitou este mesmo Jesus e disto todos nós somos testemunhas. 33E agora, exaltado pela direita de Deus, Jesus recebeu o Espírito Santo que fora prometido pelo Pai, e o derramou, como estais vendo e ouvindo”.


II Leitura: 1Pd 1,17-21


Caríssimos: 17Se invocais como Pai aquele que sem discriminação julga a cada um de acordo com as suas obras, vivei então respeitando a Deus durante o tempo de vossa migração neste mundo. 18Sabeis que fostes resgatados da vida fútil herdada de vossos pais, não por meio de coisas perecíveis, como a prata ou o ouro, 19mas pelo precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem mancha nem defeito. 20Antes da criação do mundo, ele foi destinado para isso, e neste final dos tempos, ele apareceu, por amor de vós. 21Por ele é que alcançastes a fé em Deus. Deus o ressuscitou dos mortos e lhe deu a glória, e assim, a vossa fé e esperança estão em Deus.


Evangelho: Lc 24,13-35


13Naquele mesmo dia, o primeiro da semana, dois dos discípulos de Jesus iam para um povoado, chamado Emaús, distante onze quilômetros de Jerusalém. 14Conversavam sobre todas as coisas que tinham acontecido. 15Enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e começou a caminhar com eles. 16Os discípulos, porém, estavam como que cegos, e não o reconheceram. 17Então Jesus perguntou: “O que ides conversando pelo caminho?” Eles pararam, com o rosto triste, 18e um deles, chamado Cléofas, lhe disse: “Tu és o único peregrino em Jerusalém que não sabe o que lá aconteceu nestes últimos dias?” 19Ele perguntou: “O que foi?” Os discípulos responderam: “O que aconteceu com Jesus, o Nazareno, que foi um profeta poderoso em obras e palavras, diante de Deus e diante de todo o povo. 20Nossos sumos sacerdotes e nossos chefes o entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram. 21Nós esperávamos que ele fosse libertar Israel, mas, apesar de tudo isso, já faz três dias que todas essas coisas aconteceram! 22É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos deram um susto. Elas foram de madrugada ao túmulo 23e não encontraram o corpo dele. Então voltaram, dizendo que tinham visto anjos e que estes afirmaram que Jesus está vivo. 24Alguns dos nossos foram ao túmulo e encontraram as coisas como as mulheres tinham dito. A ele, porém, ninguém o viu”. 25Então Jesus lhes disse: “Como sois sem inteligência e lentos para crer em tudo o que os profetas falaram! 26Será que o Cristo não devia sofrer tudo isso o para entrar na sua glória?” 27E, começando por Moisés e passando pelos Profetas, explicava aos discípulos todas as passagens da Escritura que falavam a respeito dele. 28Quando chegaram perto do povoado para onde iam, Jesus fez de conta que ia mais adiante. 29Eles, porém, insistiram com Jesus, dizendo: “Fica conosco, pois já é tarde e a noite vem chegando!” Jesus entrou para ficar com eles. 30Quando se sentou à mesa com eles, tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e lhes distribuía. 31Nisso os olhos dos discípulos se abriram e eles reconheceram Jesus. Jesus, porém, desapareceu da frente deles. 32Então um disse ao outro: “Não estava ardendo o nosso coração, quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?” 33Naquela mesma hora, eles se levantaram e voltaram para Jerusalém onde encontraram os Onze reunidos com os outros. 34E estes confirmaram: “Realmente, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão!” 35Então os dois contaram o que tinha acontecido no caminho, e como tinham reconhecido Jesus ao partir o pão.
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A aparição de Jesus aos dois discípulos no caminho de Emaús é exclusiva de Lucas. Este relato é uma narração mais extensa de uma aparição pós-pascal nos evangelhos. É um relato encantador.


Este relato resume e descreve o caminho catequético-litúrgico da comunidade lucana (veja também um relato lucano similar em At 8,26-40). O relato responde às perguntas das comunidades contemporâneas do evangelista: Por que o Jesus ressuscitado, “o Vivente” (v.5.24), não se manifesta? Por que nossos olhos não são capazes de vê-Lo? Por que nossos corações são tão lentos para crer? Onde o Ressuscitado pode se encontrar?


Segundo o evangelista, para poder “ver” e reconhecer o Senhor é necessário ouvir longamente o testemunho das Escrituras e é necessário que o próprio Ressuscitado as explique e inspire os que as leem ou meditam. Para conhecer o Senhor ressuscitado é necessário também caminhar com ele, escutar longa e atentamente sua palavra, deixar-se cativar por ele, sentar-se à mesa com ele e deixar que ele parta e reparta para nós o pão da vida. Também, é necessário trilhar imediatamente o caminho de volta para a comunidade, ao reconhecê-Lo, para partilhar com ela a experiência do encontro com o Senhor e professar juntos a fé comum: “O Senhor realmente ressuscitou”.


Ao reconhecer que Jesus ressuscitou, fazem também as comunidades o itinerário pascal, isto é, uma passagem do fechamento para a abertura, do não-reconhecimento para o reconhecimento, do abandono da comunidade para o retorno à mesma, do afastamento para a aproximação, do isolamento para a comunhão, do lamento para o agradecimento, da tristeza para a alegria, do fechamento para a partilha e diálogo, do desânimo para o entusiasmo, da lentidão para a prontidão, do coração vazio e duro para o coração transbordante e abrasado.


A partir das perguntas e respostas acima mencionadas, podemos refletir sobre alguns pontos mais ou menos importantes deste relato.


1. A experiência do caminhar: decepções e surpresas


Todo o episódio se passou durante o caminho, isto é, durante a experiência da marcha rumo a um lugar específico: “Dois discípulos estavam a caminho”.


O evangelista Lucas fala muitas vezes de Jesus como aquele que caminha, que está percorrendo, um itinerário. O verbo “caminhar” é usado 150 vezes no NT, das quais 88 encontram-se nos escritos lucanos (Evangelho de Lucas e Atos dos Apóstolos). No relato dos discípulos de Emaús, os termos “caminhar/caminho” aparecem no início, no meio e no fim (vv.13.15.17.28.32.35). No livro dos Atos, a palavra “caminho” (no NT aparece 101 vezes o termo “caminho”, e quase um terço se encontra nas obras lucanas) designará a identidade e o modo de vida das comunidades cristãs (cf. 9,2;18,25s;19,9.23; 22,4;24,14.22). Lucas usa também frequentemente o verbo ”aproximar-se”: 18 vezes no Evangelho e 16 vezes em Atos. Neste relato, os dois verbos “caminhar” e “aproximar-se” são usados logo no início (v.15), sendo Jesus o sujeito das duas ações.


O texto sublinha o afastamento dos dois discípulos no dia (“neste mesmo dia”) em que aconteceram, certamente, coisas significativas que o próprio Jesus lhes havia dito que ressuscitaria, inclusive mensagens de anjos assegurando que “ele está vivo” (vv.21-24). Para os dois discípulos, a morte e a sepultura do Mestre significa o fim de todas as esperanças e sonhos, de ardor e da alegria de viver. Eles não conseguem encontrar uma explicação para o que “aconteceu com Jesus”. Ao afastar-se da companhia dos outros discípulos, eles querem enterrar a história de sua relação com Jesus e ao mesmo tempo refazer suas vidas longe do lugar onde tudo havia acontecido.


“O próprio Jesus se aproximou e começou a caminhar com eles” (v.15). Até determinado ponto de nossa caminhada muitas vezes, nos sentimos tristes, confusos, desiludidos ao ver nossos sonhos, ideais, e esperanças enterrados ou ficam cada vez mais longe de nosso alcance. Mas temos que estar conscientes de que sejam quais forem as provações, as tentações, as decepções, as feridas, as tristezas que sofremos, elas não são capazes de destruir a aproximação do Senhor na nossa caminhada. Mais cedo ou mais tarde, o Senhor virá ao nosso encontro, entrará em diálogo conosco, reascenderá o fogo em nosso coração até fazê-lo arder, abrirá nossos olhos para que possamos reconhecê-Lo e assim, nosso desânimo se transformará em entusiasmo e nossa tristeza se converterá em alegria; uma alegria que irradiará aos outros. Sejam quais forem os motivos para nos afastarmos do Senhor (e da comunidade) e para não reconhecê-lo, ele vem ao nosso encontro percorrendo exatamente os mesmos caminhos que percorremos para nos afastarmos dele. O mesmo Jesus que armou sua tenda no meio de nossas tendas (Jo 1,14) continua a nos aproximar.


“Seus olhos, porém, estavam impedidos de conhecê-lo” (v.16). A expressão “seus olhos estavam impedidos de reconhecê-lo” significa aqui a incapacidade dos discípulos de reconhecer o Senhor. O que impede o reconhecimento de Jesus é a falta de fé. Só depois de terem percorrido o longo itinerário da fé pascal, os olhos e o coração dos discípulos estarão preparados para reconhecer o Senhor.


Jesus fez uma pergunta para os dois discípulos e os dois pararam para escutar. Ter tempo para ouvir as perguntas de Deus e procurar respondê-las com sinceridade é certamente uma questão fundamental para a nossa vida cristã. E Deus está sempre nos questionando, quase nos perseguindo com suas perguntas. Só que os barulhos do mundo atual, até a desorientação interior nossa, não deixam que escutemos tais perguntas. E como Deus não fala aos gritos, muita gente passa a vida inteira sem escutar a Sua voz. O silêncio possibilita que o Senhor fale de nós.


Na grande caminhada da existência, pouca gente percebe o Deus-Conosco que vai ao seu lado, propondo-lhe questões sobre o sentido do homem e da vida, o rumo definitivo do destino humano, o valor das coisas deste mundo, o significado da dor, do Amor e da eternidade em que tudo isto deságua. Precisamos fazer umas paradas obrigatórias na vida para escutar as perguntas e as respostas certas de Deus sobre nós. A palavra dele vai nos iluminando e orientando e aos poucos perceberemos o nosso lugar correto nesta vida. E nunca é tarde para retomar o caminho de Deus, pois ele só nos leva ao caminho da felicidade e da paz.


Depois de ouvir o relato dos discípulos sobre o que aconteceu com o profeta de Nazaré, Jesus lhes faz uma repreensão muito dura: “Ó, insensatos e lentos de coração para crer tudo o que os profetas anunciaram! Não era preciso que o Cristo sofresse tudo isso e entrasse em sua glória?” (vv.25-26). Santo Agostinho comenta a incapacidade dos discípulos para crer e esperar, dizendo: “Eram seus discípulos, tinham-no escutado, tinham vivido com ele, tinham-nos reconhecido como Mestre, tinham sido instruídos por ele, e não foram capazes de imitar e ter a fé do ladrão pendurado na cruz.... Onde o ladrão encontrou a esperança, ali o discípulo a perdeu”. Mas, felizmente, o amor de Deus é muito maior e mais forte do que o nosso sofrimento. Deus nos ama e nos ama até o fim (cf. Jo 13,1)


2. A hospitalidade


Quando Jesus estava para ir adiante, os dois lhe convidaram a entrar em casa: “Permaneça conosco, pois já é tarde e a noite vem chegando” (v.29). A insistência no convite não é um gesto meramente convencional. Ao usar duas vezes o verbo “permanecer” no v. 29, Lucas quer mostrar aos destinatários do Evangelho que o pedido “permanecer conosco!” expressa o desejo de ser discípulo de Jesus. Ao Jesus aceitar o convite, a casa de Emaús, em vez de se tornar um lugar de fuga e fechamento, tornou-se um lugar de acolhida e de partilha, de iluminação e ponto de partida para a retomada da comunhão com a comunidade dos Onze e dos demais companheiros.


Além disso, estas palavras “Permanece conosco!” são uma expressão da hospitalidade. A hospitalidade, a acolhida é um símbolo primário e antiquíssimo da pessoa que supera o instintivo temor do outro. No Oriente, a hospitalidade é uma das pilastras dos bons costumes, é o modo de ser do homem bom: saber acolher qualquer um, a qualquer hora, em qualquer tempo, sem jamais se irritar, preparando-lhe tudo imediatamente e com alegria. É um dever muito caro e especial para todos os orientais. A hospitalidade é o mandamento fundamental do judaísmo. Arraigada nas mais profundas raízes da vida nômade da era patriarcal, a prática da hospitalidade aflora em toda a Bíblia sagrada. Devida obrigatoriamente para os judeus, a hospitalidade granjeava uma grande recompensa no mundo vindouro para quem a exercitasse em favor de qualquer peregrino. Acolher alguém significa deixá-lo de ser estranho para torná-lo membro da convivência.


Numa sociedade que valoriza o individualidade até o extremo do individualismo, a comunidade cristã e cada um de nós somos chamados a superar todo o comportamento meramente burocrático, frio e impessoal, para estabelecer uma relação pastoral personalizada. Os seguidores de Jesus devem oferecer hospitalidade particularmente para os “sem-teto religiosos”, os nômades espirituais, perdidos em busca do lar de um sentido. É um dever que nos interpela, que interpela os habitantes das grandes cidades, que muitas vezes, até quando vivem no mesmo conjunto residencial, ignoram-se durante anos, não advertem para a necessidade de visitar-se, de conhecer-se, de receberem uns aos outros.


 3. A fração do pão


Jesus aceita o convite dos dois discípulos. Quando Jesus entra na casa dos seus discípulos, esta se transforma em sua casa. O convidado transforma-se no anfitrião. Aquele que foi convidado, passa a convidar. O relato nos diz que Jesus sentou-se à mesa, tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e lhes distribuía.  Ao falar da partilha do pão, tem na mente do evangelista Lucas a Eucaristia. Na eucaristia Jesus dá tudo. Este é o mistério da eucaristia.


“Então, seus olhos se abriram e o reconheceram; ele, porém, ficou invisível diante deles” (v.31). Em contraposição à cegueira do início, a abertura dos olhos dos discípulos é enfatizada no momento em que Jesus abençoa, parte e reparte o pão. Esse momento, que é o ápice de todo o relato, é sublinhado novamente no último versículo: “E eles narraram... como o haviam reconhecido na fração do pão” (v.35). O uso do verbo na voz passiva “seus olhos foram abertos” é chamado “passivo divino”, porque é uma forma de afirmar que o sujeito da ação é Deus, que foi Deus quem abriu os olhos dos discípulos.


A “fração do pão” (Eucaristia) continua a ser para os discípulos de Jesus de todos os tempos o sinal por excelência da presença do Ressuscitado, o lugar onde eles podem e devem descobrir essa presença, e a partir do qual poderão dar testemunho da Ressurreição. Em várias passagens do livro dos Atos, Lucas diz que os cristãos se reuniam no fim do primeiro dia da semana para a “fração do pão” (cf. At 2,42.46; 20,7.11;27,35).


Nós comungamos o corpo do Senhor. Mas não só para saborearmos o corpo do Senhor. Somos chamados a viver uma vida eucarística, uma vida partilhada. Onde há partilha, há também abundância. A Eucaristia é uma celebração da nossa humanização. A Eucaristia deve tornar-nos mais humanos, mais irmãos repartindo e partilhando o que somos e temos. Partilha é a memória de Cristo da qual devemos nos relembrar sempre e a qual devemos fazer parte de nossa vida cristã. Quando as coisas saírem das garras da ganância, haverá abundância e ninguém passará por necessidade. As mãos gananciosas fazem com que falte pão para a mesa da maioria.


4. A volta à comunidade para uma partilha


Naquela mesma hora, eles se levantaram e voltaram para Jerusalém onde encontraram os Onze reunidos com os outros” (v.33).


No início, os dois discípulos estavam tristes, sem esperança e com medo do futuro; agora estão ansiosos por partilhar a experiência com os outros discípulos. A palavra e a fração do pão transformaram os discípulos de pessoas sombrias em portadores de esperança, de vida e de alegria. A expressão “na mesma hora voltaram para Jerusalém” acentua a pressa dos discípulos para empreender o novo rumo de suas vidas, operado pelo encontro com o Ressuscitado. A graça de Deus não admite demora, como a fome não quer esperar. “Voltar” é uma das palavras prediletas de Lucas. Ela aparece 25 vezes em seu Evangelho. No relato dos discípulos de Emaús é usada para dizer que os dois “voltaram para Jerusalém”, de onde o Evangelho deveria irradiar e chegar a todas as nações (cf. Lc 24,47; At 1,8).


Depois de terem reencontrado, reconhecido e de terem sido iluminados, a noite escura é para eles clara como o meio-dia, “Naquela mesma hora (era noite) eles se levantaram e voltaram para Jerusalém...”. Para quem fez a experiência do encontro com o Ressuscitado não existe mais medo, não existem mais obstáculos como cansaço, não existe mais escuridão (cf. Jo 8,12), nem portas fechadas etc., que impeçam empreender os caminhos do anúncio do Evangelho, da comunhão e da missão.


O que nos chama a atenção também é que um dos dois se chama Cléofas e o outro não tem nome. O outro sem nome poderia ser interpretado como um espaço vazio no qual cada um de nós é chamado a inserir o seu próprio nome. É um convite para percorrer, junto com Cléofas, o caminho que conduz ao reconhecimento do Ressuscitado, presente lá onde dois ou três estão reunidos no Seu nome (Mt 18,20).


Ao terminar esta reflexão, vamos rezar com Rabindranath Tagore (um grande escritor indiano):


“Se a porta de meu coração estiver fechada, ó Senhor, arromba-a e entra em minha alma. Não vás embora, ó Senhor!


Se algum dia nas cordas do alaúde, não ressoar teu doce nome, por piedade, espera um pouco, não vás embora, ó Senhor!


Se alguma vez tua voz não romper meu sono profundo, acorda-me com rumor do trovão, não vás embora, ó Senhor!


Se algum dia, em teu trono, eu preferir sentar outro, ó Rei de todos os meus dias, não vás embora, ó Senhor!”


“Faz tua esta minha casa e acende nela a tua lâmpada. Enche-a com a tua luz: ganharão valor também os sofrimentos.


Sejam dissipadas as trevas dos ângulos mais secretos, e, estabelecida a tua luz bendita, que eu ame as pessoas que devo amar. Faze tua esta minha casa e acende nela a tua lâmpada.


Tua lâmpada transformante tem uma chama imóvel, em instantes transforma em ouro todas as minhas manchas negras. Faze tua esta minha casa e acende nela tua lâmpada.


Eu acendo luzes, mas bruxuleiam e só produzem fumaça. Manda os raios da tua luz sobre os umbrais da minha casa. Faze tua esta minha casa e acende nela tua lâmpada”.


P. Vitus Gustama,svd

29/04/2019
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CAMINHAR COM O SENHOR E SERVIR OS NECESSITADOS POR AMOR NOS MANTÉM NA UNIDADE E NA PAZ


Sábado da II Semana da Páscoa


Primeira Leitura: At 6,1-7


1 Naqueles dias, o número dos discípulos tinha aumentado, e os fiéis de origem grega começaram a queixar-se dos fiéis de origem hebraica. Os de origem grega diziam que suas viúvas eram deixadas de lado no atendimento diário. 2 Então os Doze Apóstolos reuniram a multidão dos discípulos e disseram: “Não está certo que nós deixemos a pregação da Palavra de Deus para servir às mesas. 3 Irmãos, é melhor que escolhais entre vós sete homens de boa fama, repletos do Espírito e de sabedoria, e nós os encarregaremos dessa tarefa. 4 Desse modo nós poderemos dedicar-nos inteiramente à oração e ao serviço da Palavra”. 5 A proposta agradou a toda a multidão. Então escolheram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo; e também Filipe, Prócoro, Nicanor, Timon, Pármenas e Nicolau de Antioquia, um pagão que seguia a religião dos judeus. 6 Eles foram apresentados aos apóstolos, que oraram e impuseram as mãos sobre eles. 7 Entretanto, a Palavra do Senhor se espalhava. O número dos discípulos crescia muito em Jerusalém, e grande multidão de sacerdotes judeus aceitava a fé.


Evangelho: Jo 6,16-21


16Ao cair da tarde, os discípulos desceram ao mar. 17Entraram na barca e foram em direção a Cafarnaum, do outro lado do mar. Já estava escuro, e Jesus ainda não tinha vindo ao encontro deles. 18Soprava um vento forte e o mar estava agitado. 19Os discípulos tinham remado mais ou menos cinco quilômetros, quando enxergaram Jesus, andando sobre as águas e aproximando-se da barca. E ficaram com medo. 20Mas Jesus disse: “Sou eu. Não tenhais medo”. 21Quiseram, então, recolher Jesus na barca, mas imediatamente a barca chegou à margem para onde estavam indo.
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Servir Os Pobres Por Amor


O número dos discípulos tinha aumentado, e os fiéis de origem grega começaram a queixar-se dos fiéis de origem hebraica. Os de origem grega diziam que suas viúvas eram deixadas de lado no atendimento diário”.


Com o relato da Primeira Leitura começa uma nova etapa na comunidade cristã primitiva: o crescente número cada vez maior dos cristãos. Com este crescimento, aparecem também tensões que humanamente são compreensíveis. Com isso cresce a responsabilidade e solicitude dos Doze Apóstolos.


Na primeira comunidade cristã de Jerusalém havia dois grupos ou partidos: os helenistas e os hebreus. Ambos grupos são israelitas. Mas a língua e a forma de vida diferenciam os dois.


Os helenistas procediam da emigração judia (da diáspora) falavam o grego. Com a palavra “helenista” se alude aos judeus que se formaram com uma estreita vinculação à cultura helenista (grega). Os helenistas se mostravam mais abertos. O grupo judeu-helenista estava disseminado por todo o mundo mediterrâneo. Ou seja, aqueles que viveram naqueles territórios de Palestina e ao seu redor nos quais, desde a expansão da cultura helenista sob Alexandre Magno, predominavam a língua grega e a maneira de viver dos gregos. Paulo/Saulo (de Tarso de Cicília) e Barnabé (natural de Chipre- cf. At 4,36) eram helenistas. Os hebreus nascidos na Palestina falavam o hebraico (isto é, o aramaico).


As queixas dos helenistas são dirigidas aos hebreus porque estes não atendem às viúvas (e pobres) helenistas. Não se trata aqui apenas de desatendimento, mas trata-se de marginalizar todo o grupo helenista. Enquanto a comunicação dos bens era entendida como expressão de uma mesma comunhão de fé. Isto significaria estar contra a própria fé da comunidade cristã primitiva.


Os Apóstolos percebem o perigo e buscam ajudantes e colaboradores para o serviço da comunidade. Assim começa uma memorável evolução. A Igreja penetra no tempo e no espaço da história.  


Nenhuma comunidade está livre de tensões, por perfeita que pareça ser e por muito conjuntada que ela viva. Inclusive podemos dizer que as tensões são necessárias e ajudam a comunidade a crescer. Assim sucedeu na primitiva comunidade cristã. As queixas de um dos grupos deu origem a um melhor estudo da realidade. Apareceu a oportunidade de dividir as tarefas e responsabilidades.


Os apóstolos propõem aos discípulos para que a comunidade escolham sete homens para cuidar da administração e serviço aos pobres, pois eles passarão a ser dedicado exclusivamente à oração e à pregação do evangelho. Com o capítulo 6 do Livro dos Atos dos Apóstolos começa, então, um tema novo. Aparecem-nos as testemunhas para o serviço da caridade, os que depois foram os “diáconos”. Estas testemunhas, homens cheios do Espirito Santo e de sabedoria, são os sete primeiros colaboradores dos Apóstolos, com Estevão como chefe.


Ao ler o relato dos sete colaboradores constatamos que algo mudou na comunidade cristã primitiva. A crise (entre os hebreus e os helenistas), bem conduzida, leva a uma descentralização: “Não está certo que nós deixemos a pregação da Palavra de Deus para servir às mesas”, disse o grupo dos Apóstolos. O motor dessa descentralização é uma exigência da fidelidade à missão apostólica na que tem de essencial: a oração e o serviço da Palavra. Esta oração apostólica e litúrgica, com o ensinamento, é um dos componentes básicos da comunidade cristã. Oração e serviço da Palavra são dois aspectos de uma mesma tarefa: a dedicação à Palavra de Deus, sem dualismo e sem subordinações desnecessárias.


Surge assim a instituição da “diakonia” (diaconia), o serviço da caridade ou a caridade feita serviço. A diakonia será uma das dimensões fundamentais da Igreja, junto ao culto e a Palavra.


O amor e o bom sentido cristão salvou a unidade e as diferenças. A comunidade elege e apresenta os eleitos, mas somente os Apóstolos impõem as mãos sobre os eleitos. A “imposição de mãos” é um rito sagrado e jurídico pelo qual se autoriza a exercer um serviço público na comunidade e também significa a comunicação do Espirito (Santo) ou força de Deus para exercer bem este serviço. Seguindo o exemplo de Moisés que impus as mãos sobre Josué, os rabinos ordenavam seus discípulos com o mesmo rito. Por certo que nesta ordenação, na qual se conferia o poder de ensinar e de julgar segundo a Lei, se requeria a presença de três rabinos que impuseram as mãos sobre um discípulo.


Vale a pena sublinhar que também neste caso a necessidade cria o órgão que a Igreja vai se organizando a partir de suas necessidades e que os novos ministérios são sempre novos serviços. Sobretudo é necessária sublinhar a participação da comunidade na designação (eleição) e apresentação de seus servidores.


Como é que uma comunidade resolve suas tensões? Será que desta tensões podem surgir um novo serviço ou causar apenas mais divisões?


Jesus Anda Sobre As Águas


O relato da caminhada de Jesus sobre as águas se encontra, curiosamente, entre a multiplicação dos pães (cf. Jo 6,1-15) e o discurso sobre o Pão da vida (Jo 6,26-66). O “sinal” da caminhada sobre as águas está estreitamente ligado com a multiplicação dos pães (cf. Jo 6.1-15). A multiplicação dos pães prepara a parte principal do discurso sobre o Pão da vida: “O verdadeiro pão de Deus, Sou Eu, é meu Corpo e meu Sangue... dados em alimento”, assim Jesus disse.


A caminhada sobre as águas inicia o final do discurso (Jo 6,60-71): nele aparece Jesus andando sobre as águas, mostrando seu domínio sobre a natureza. E isto é uma resposta às dificuldades dos que não aceitam o discurso de Jesus sobre o Pão de vida que é Ele próprio.


Ao cair da tarde, os discípulos desceram ao mar. Entraram na barca e foram em direção a Cafarnaum, do outro lado do mar. Já estava escuro, e Jesus ainda não tinha vindo ao encontro deles”.  Jesus fica só. Por que não embarcou com os discípulos? Parece que foi muito intencional da parte de Jesus. O evangelista João ao empregar determinado(s) termo(s) é porque tem algum valor. A “noite”, as “trevas” têm um significado: Jesus está ausente. Onde Jesus estiver ausente ou for excluído as trevas começam a dominar a vida dos homens. Jesus é a Luz do mundo (Jo 8,12) e por isso, sua ausência significa a desorientação total. Sem a luz o ser humano vive apalpando. Através do mundo sensível o evangelista João sugere ou nos leva para o mundo espiritual. Tudo é símbolo. O evangelista João nos sugere que cultivemos nosso espírito de contemplação para captar o significado profundo das coisas e dos acontecimentos.


“Já estava escuro” ou “já era noite”, assim nos relatou o evangelista João. Esta noite era algo muito real. Mas, ao mesmo tempo, para o evangelista João “noite” significava a ausência de Jesus, Luz do mundo.


1. “Não tenham medo… Sou Eu”.      


Consciente ou inconscientemente temos medo de algo ou de alguém. Em outras palavras, convivemos com o medo, ou melhor, com os medos. Não estamos errados em sentir medo, porque somos criaturas expostas a perigos e ameaças. Sentir medo é vivenciar a nossa condição de criatura. O medo é uma manifestação de nosso instinto fundamental de conservação. É a reação a uma ameaça para nossa vida, a resposta a um verdadeiro ou suposto perigo: desde o perigo maior, que é o da morte até os perigos particulares que ameaçam a tranquilidade física ou nosso mundo afetivo.


Existem medos justificados como também os injustificados ou patológicos. Os nossos medos são um sinal de alarme que podem nos ajudar a evitar o perigo. O imprudente geralmente suprime o medo e se atira inutilmente ao perigo. O covarde teme tudo, se paralisa e não se atreve a correr nenhum risco. Não podemos nos torturar aumentando os nossos medos com nossa fantasia. O homem sadio usa seus medos para agir prudentemente.


“Não tenham medo… Sou Eu!”. Cristo dirigiu muitas vezes este convite aos homens com os quais se encontrava. Esta frase foi dita pelo Anjo do Senhor a Maria: “Não tenhas medo, Maria” (Lc 1,30). Foi dita ao São José: “Não tenhas medo, José” (Mt 1,20), e assim por diante.


O evangelho ou a Palavra de Deus, a Palavra daquele que é maior do que a morte nos ajuda a libertar de todos os nossos medos, revelando o caráter relativo, não absoluto dos perigos que os provocam. Há algo de nós que ninguém nem nada no mundo possa nos tirar: trata-se da alma imortal: “Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma” (Mt 10,28ª).


De que não devemos ter medo? Não devemos ter medo da verdade sobre nós mesmos, sobre nossa vida, sobre nossas fraquezas, sobre nossos defeitos e limitações, sobre nossas dificuldades, sobre nossas incapacidades. Não podemos fingir como se fossemos super homens. Somente uma pessoa forte é que capaz de reconhecer suas próprias fraquezas e pede, sem medo nem vergonha a ajuda dos que mais competentes na área.


2. Em tudo devemos contar com Jesus


Os discípulos navegam pela noite sem “a Luz do mundo” (Jesus). Confiados no poder e na força próprios, eles pensavam que pudesse controlar as circunstâncias. De fato, sua força é insuficiente. O mar que eles acreditam poder dominar se torna incontrolável. Nessa altura, normalmente vem a pergunta na cabeça: Onde está o Senhor? Acaso, Ele nos abandonou? O Senhor jamais abandona os seus mesmo que eles O abandonem: “Não temais! Sou Eu!”.


Quantas vezes cada um de nós quer fazer as coisas sozinho, à sua maneira e não como o Senhor quer. Quantas vezes cada um de nós caiu na tentação de pensar: “Sou uma pessoa forte e independente, posso tudo!”. Mas cedo ou tarde vai cair no fracasso. Lança-se, então, a pergunta: “Senhor, por que me abandonaste?”. Mas, na realidade, fui eu quem abandonou o Senhor; esqueci-me dele. Sem o Senhor, nada podemos fazer (cf. Jo 15,5). Mas com Ele não há nada que possa me separar dele (cf. Rm 8,31-39). Se caminharmos com o Senhor nesta vida, se vivermos em comunhão com Ele, a nossa vida será mais leve, pois o jugo do Senhor é suave e sua carga é ligeira (cf. Mt 11,30).


Como na pesca milagrosa, o texto do evangelho deste dia quer nos transmitir uma verdade de que sem Jesus é inútil qualquer esforço na missão e não haverá paz. Mas quando Jesus se aproxima, volta novamente a calma, e o trabalho resulta plenamente eficaz. É preciso colaborar com a graça de Deus para que ela possa operar em nós e através de nós para um trabalho frutífero.


3. Colaborar com o Senhor a partir de nossas condições


Não pedimos a Deus uma vida sem dificuldades, porque elas fazem parte de um verdadeiro crescimento. Não há crescimento sem dificuldades e obstáculos. Pedimos a Deus, sim, a força e a serenidade para encarar tudo na vida com ele. A partir do evangelho deste dia percebemos que a dificuldade não é um lugar vazio e desabitado, porque no meio da dificuldade está o Senhor. Ele está no centro da vida.  Tenhamos sagacidade para saber converter as dificuldades em lugar de encontro com Jesus, o Senhor que caminha sobre as águas dessas dificuldades. Basta escutá-lo em silêncio no meio do ruído do medo, e reconhecê-lo: “Não tenha medo, sou Eu”. E essas contrariedades serão esplêndida ocasião para o exercício contemplativo. Somente assim se produz o milagre.


Toda vez que celebramos a Eucaristia, o Ressuscitado se faz presente na comunidade reunida, nos é dada a Palavra salvadora e nos alimenta com o Pão da vida. É verdade que sua presença é sempre misteriosa como para os discípulos de então. Mas pela fé temos que saber ouvir a frase que tantas vezes se repete com suas variações na Bíblia: “Eu sou, não tenha medo!”. Com isso, de cada missa ganharemos mais ânimo e convicção para o resto da jornada, porque o Senhor nos acompanha, ainda que nós não O vejamos com os nossos olhos humanos. Por nossa vez, que se encarne na nossa vida a Palavra de Jesus: “Não tenha medo!”, isto é, que nossa presença não represente uma ameaça para os outros e sim a paz e a harmonia. Que não tiremos a alegria e o sucesso dos outros e sim que sejamos irmãos solidários com todos.


P. Vitus Gustama,svd