sábado, 14 de julho de 2018

18/07/2018
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DEUS SE REVELA AOS  SIMPLES E HUMILDES E LHES DÁ SUA FORÇA
Quarta-Feira da XV Semana Comum


Primeira Leitura: Is 10,5-7.13-16
Assim fala o Senhor: 5 “Ai de Assur, vara de minha cólera, bastão em minhas mãos, instrumento de minha indignação! 6 Eu o envio contra uma nação ímpia e ordeno-lhe, contra um povo que me excita à ira, que o submeta à pilhagem e ao saque, que o calque aos pés como lama nas ruas. 7 Mas ele assim não pensava, seu propósito não era esse; pelo contrário, sua intenção era esmagar e exterminar não poucas nações. 13 Pois diz o rei da Assíria: ‘Realizei isso pela força de minha mão e com minha sagacidade, pois tenho experiência; aboli as fronteiras dos povos, saqueei seus tesouros, e derrubei de golpe os ocupantes de altos postos; 14 minha mão espalmou como um ninho a riqueza dos povos; e como se apanha uma ninhada de ovos, assim ajuntei eu os povos da terra, e não houve quem batesse asa ou abrisse o bico e desse um pio’. 15 Mas acaso gloria-se o machado, em detrimento do lenhador que com ele corta? Ou se exalta a serra contra o serrador que a maneja? Como se a vara movesse quem a levanta e um bastão erguesse aquele que não é madeira. 16 Por isso, enviará o Dominador, Senhor dos exércitos, contra aqueles fortes guerreiros o raquitismo; e abalará sua glória com convulsões que queimam como fogo”.


Evangelho: Mt 11,25-27
25 Naquele tempo, Jesus pôs-se a dizer: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos. 26 Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado. 27 Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar”.
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É Preciso Se Submeter Ao Poder De Deus Que Não Destrói, Mas Salva


Ai de Assur, vara de minha cólera, bastão em minhas mãos, instrumento de minha indignação! Eu o envio contra uma nação ímpia e ordeno-lhe, contra um povo que me excita à ira, que o submeta à pilhagem e ao saque, que o calque aos pés como lama nas ruas”, assim é o oráculo do Senhor através da boca do profeta Isaías.


No texto da Primeira Leitura, o profeta Isaías fala da falta da compreensão por parte do povo sobre o desígnio de Deus. Em vez de ser fiel à Aliança estabelecida por Deus, o povo eleito substitui a Aliança divina pela busca do poder no império de Assíria, com planos criminais e imperialistas de dominação.


Uma das ideias básicas do profeta Isaías e dos profetas do AT é que Deus é quem conduz a história a seu modo, e não os que, à primeira vista, parecem ser os protagonistas. Hoje lemos as palavras cheias de críticas do profeta Isaias contra o assírio Senaquerib que com seus exércitos chega a crer todo-poderoso. Mas Deus se serve destes personagens estrangeiros para purificar e fazer amadurecer seu povo. Para Deus Assíria e seus exércitos são “a vara de minha ira”, a vara com que Deus castiga o filho (Israel) rebelde. E mais tarde, Deus se servirá de Ciro para facilitar a volta de seu povo do exilo de Babilônia para Israel.


O que Deus não permite é que estes “instrumentos” se creiam independentes e se orgulhem de seu poder. As comparações são muito expressivas: “Acaso gloria-se o machado, em detrimento do lenhador que com ele corta? Ou se exalta a serra contra o serrador que a maneja? Como se a vara movesse quem a levanta e um bastão erguesse aquele que não é madeira”, assim disse Deus pela boca do profeta Isaías. Assíria que exerce sua missão de castigar o povo de Israel, receberá, por sua sua vez, o castigo pela sua arrogância.


Sabemos muito bem que o poder necessita destruir os outros para se afirmar mais. Mas o poder é irônico, pois “Não há poder que não seja humano. É por isso que o poder é tão irritante, quando é o dos outros, e tão delicioso, quando é nosso” (André Comte-Sponville).


O poder e a prepotência estão de mãos dadas: “Realizei isso pela força de minha mão e com minha sagacidade, pois tenho experiência; aboli as fronteiras dos povos, saqueei seus tesouros, e derrubei de golpe os ocupantes de altos postos; minha mão espalmou como um ninho a riqueza dos povos; e como se apanha uma ninhada de ovos, assim ajuntei eu os povos da terra, e não houve quem batesse asa ou abrisse o bico e desse um pio”, assim disse o rei da Assíria.


O arrogante é aquele que tem um excesso de confiança em si mesmo, no que diz, no que faz, nas decisões que toma. Para o arrogante, tudo que faz é perfeito; ele é perfeito; ele é Deus e faz tudo certo. Nada nem ninguém podem falar algo contra. O excesso de confiança não dá margem para melhorar. Soberbo, vaidoso exageradamente, arrogante, presunçoso, endeusado, imodesto, pedante, petulante, narcisista, autossuficiente são sinônimos de uma mesma palavra: arrogante/orgulhoso/prepotente.


Quando fala dos outros, o arrogante o faz com o desprezo. A prepotência ou a arrogância é o pai de todos os vícios. A arrogância faz parte da vida de pessoas desequilibradas. O arrogante termina, em muitas ocasiões, humilhado.


Em uma pessoa de inteligência equilibrada não há abrigo para a arrogância, pois se submete à constatação da verdade. Uma pessoa de inteligência equilibrada reconhece suas próprias limitações que a torna humilde, e a humildade a faz aprender mais e por isso, ela cresce cada vez mais. A partir do momento em que somos capazes de romper com o excesso de confiança em nós mesmos (o contrário do arrogante) e estamos prontos para sair da estagnação, teremos clareza para focar nos novos objetivos e conquistar cada um dos sonhos. Pessoa simples e humilde conta com Deus e com suas capacidades conjuntamente.


Somos Chamados a Ser Pequeninos Para Que Deus Se Revele a Nós


Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos”.


Para entender o sentido do texto lido neste dia é preciso ler o texto precedente no qual Jesus condena as cidades da Galiléia (cf. Mt 11,20-24). Por esta razão, para manter a continuação do narrativo Mateus usa a expressão “Por esse tempo”: “en ekeinoi toi kairõi...” (Mt 11,20). Mateus emprega neste texto o termo “kairós” que aqui significa mais do que simplesmente “tempo”. É um tempo determinado, oportuno e decisivo. É o tempo de Deus. É o tempo da graça. É o tempo da salvação. Por isso, a conotação escatológica é bem clara neste texto.


No texto precedente Jesus dirige sua condenação às três cidades: Corazim, Betsaida e Cafarnaum, que são sede de escolas rabínicas e, por conseguinte, centros de cultura religiosa. Por ser centros de cultura religiosa, seus membros se enchem de autossuficiência e orgulho que lhes impedem de descobrir as ações divinas que se realizam por meio das obras de Jesus. Santo Agostinho perguntava retoricamente: “Se tu estás preocupado com tua própria glória, como poderás interessar-te seriamente pelo bem dos demais?” (In ps. 37,8). Os sábios e os entendidos são, neste contexto, todos aqueles que com sua atitude irresponsável não são capazes de aceitar as intervenções de Deus na história. Sua soberba lhes impede de aceitar e de perceber a manifestação divina. “A alma do soberbo está cheia, mas de ar” (In ps. 39,28). Por isso, o mesmo Santo Agostinho deu o seguinte conselho: “Para tu alcançares as alturas necessitas de uma escada. Para alcançares a altura da grandeza, usa a escada da humildade” (Serm. 96,3). E "Quanto mais humildes, maiores" (In ps. 146,16)


Mesmo assim, Deus, apresentado como “Senhor do céu e da terra” continua sua obra criadora na história. Se Deus é apresentado como “Senhor do céu e da terra”, isto significa que não há outro “senhor” que seja maior do que Deus. Todos os demais são criaturas, simplesmente. O poder humano é temporário. A sabedoria humana é limitada. Quem estiver em sintonia com o Espírito de Deus, captará a presença de Deus nesta vida ou na história. O desígnio de Deus (do Pai) encontra sua realização em outros sujeitos que são classificados como “gente simples”.


No texto do evangelho de hoje Jesus louva a Deus em uma oração de ação de graças: “Eu Te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra...”. É uma oração de ação de graças. É um louvor. O coração de Jesus transborda de agradecimento ao Pai.


O louvor se refere principalmente a Deus. Um cristão é vivo quando ergue o olhar para algo maior do que qualquer criatura, e o louva. Ao louvar a Deus, o homem olha tudo além de si mesmo. O homem louva porque percebe sua vida e seu sentido e a beleza do mundo a partir de Deus, e louva a Deus por tudo de bom que existe. O louvor é sinal de uma alma saudável e sempre faz bem para a alma. O louvor relativiza os problemas cotidianos. O homem que louva sempre ganha nova força para superar os problemas diários. O louvor é uma maneira de ver o mundo sob a nova luz que é a luz de Deus. quem vive louvando a Deus vive feliz e sereno.   


Somente quando estivermos serenos é que percebemos a beleza da vida. A serenidade é a expressão da tranquilidade vivida com gratidão por nos sentirmos amparados por Deus e em Deus. A serenidade oferece e garante a justa perspectiva das coisas. Diante da glória e da bondade do Deus misericordioso qualquer sofrimento ou dificuldade perde o seu caráter ameaçador.


Jesus louva a Deus com o seguinte motivo: “... porque escondestes estas coisas aos sábios e entendidos e as revelastes aos pequeninos” (Mt 11,25). “Estas coisas” das quais o texto fala se referem às obras messiânicas de Jesus das quais o capítulo inteiro fala por ocasião da pergunta dos enviados de João Batista (cf. Mt 11,2-6).


Os pequeninos dos quais Jesus fala são os que se sabem necessitados e limitados. Esta é a razão pela qual eles abrem seu coração à misericórdia divina. Sempre necessitamos ser amados por Deus e pelos homens, pois somente o amor é que nos faz crescer e chegar à maturidade como pessoa. A simplicidade e a humildade são a porta de entrada ao conhecimento de Deus. Se não fizermos este primeiro passo, avançaremos na direção da falsidade e ficaremos cheios de vangloria. As pessoas simples, as de coração humilde, são as que sabem entender os sinais da proximidade de Deus. Elas têm um coração sem demasiadas complicações. Os humildes têm um coração limpo e simples que lhes permite ver tudo com os olhos de Deus. É a pureza de coração, a ausência de todo interesse distorcido que nos permite discernirmos as coisas de Deus na nossa vida e na história. Jesus chama bem-aventurados os que têm o coração puro: “Bem-aventurados os puros do coração, porque verão a Deus” (Mt 5,8).


O simples não se louva nem se despreza. Ele é o que é, sem desvios, sem afetação, faz o que faz, mas não vê nisso matéria para discursos ou para comentários. É a vida sem mentiras, sem exagero, sem grandiloquência. Ele acolhe o que vem, sem nada guardar como coisa sua. Ele ocupa-se do real, não de si. Por isso, a vida de um simples é leve.


Deus quer que os homens não se ocupem de si mesmos para que ele possa ter espaço neles para Sua graça, pois aquele que se enche de si não sobra espaço nem para Deus nem para os outros. Em outras palavras, que os homens voltem a ser simples.


Deus se revela certamente àquele que se despoja de si mesmo e de tudo, ao simples, àquele que vive segundo o Espírito, àquele que tem um olhar e o coração limpos. O coração limpo e a ausência de todo interesse torcido permitem o simples discernir a ação de Deus na história. Os simples são os que, ao se esvaziarem de si mesmos, se abrem a Cristo e aos irmãos. Por isso, eles são preferidos de Deus. A atitude dos simples é, portanto, a alternativa diante da obstinada petulância dos soberbos.  Não é por acaso que Mahatma Gandhi dizia: “Como Deus se encontra mais freqüentemente entre suas criaturas mais humildes do que entre os poderosos, esforço-me por me colocar no nível das primeiras- o que só se pode fazer colocando-se a seu serviço. Daí minha paixão pelo serviço das classes oprimidas. Servir é a minha religião. Não me inquieto com o futuro”.


Eu Te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra porque escondestes estas coisas aos sábios e entendidos e as revelastes aos pequeninos”. Que esta oração de Jesus seja um grande motivo para voltarmos a viver no louvor e na simplicidade, pois uma vida de louvor a Deus e uma vida vivida na simplicidade é uma vida leve, alegre, animada e cheia de esperança.
 
P.Vitus Gustama, SVD
17/07/2018
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SOMOS CHAMADOS  À CONVERSÃO PERMANENTE PARA ALCANÇAR A QUALIDADE DE VIDA E DE CONVIVÊNCIA
Terça-Feira Da XV Semana Comum


Primeira Leitura: Is 7,1-9
1 No tempo de Acaz, filho de Joatão, filho de Ozias, rei de Judá, aconteceu que Rason, rei da Síria, e Faceia, filho de Romelias, rei de Israel, puseram-se em marcha para atacar Jerusalém, mas não conseguiram conquistá-la. 2 Foi dada a notícia à casa de Davi: “Os homens da Síria estão acampados em Efraim”. Tremeu o coração do rei e de todo o povo, como as árvores da floresta diante do vento. 3 Então disse o Senhor a Isaías: “Vai ao encontro de Acaz com teu filho Sear-Iasub (isto é, ‘um resto voltará’) até a ponta do canal, na piscina superior, na direção da estrada do Campo dos pisadores; 4 e dirás ao rei: Procura estar calmo; não temas nem estremeça o teu coração por causa desses dois pedaços de tição fumegantes, diante da ira furiosa de Rason e da Síria, e do filho de Romelias, 5 por terem a Síria, Efraim e o filho de Romelias conjurado contra ti, dizendo: 6 ‘Vamos atacar Judá, enchê-lo de medo e conquistá-lo para nós, e nomear novo rei, o filho de Tabeel’. 7 Isto diz o Senhor Deus: ‘Este plano fracassará, nada disso se realizará! 8 Que seja Damasco a capital da Síria e Rason o chefe de Damasco; dentro de sessenta e cinco anos deixará Efraim de ser povo; 9 que seja a Samaria capital de Efraim e o filho de Romelias chefe de Efraim. De resto, se não confiardes, não podereis manter-vos firmes’.


Evangelho: Mt 11,20-24
“Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque se tivessem sido feitos em Tiro e em Sidônia os milagres que foram feitos em vosso meio, há muito tempo elas se teriam arrependido sob o cilício e a cinza. Por isso vos digo: no dia do juízo, haverá menor rigor para Tiro e para Sidônia que para vós!  E tu, Cafarnaum, serás elevada até o céu? Não! Serás atirada até o inferno! Porque, se Sodoma tivesse visto os milagres que foram feitos dentro dos teus muros, subsistiria até este dia. Por isso te digo: no dia do juízo, haverá menor rigor para Sodoma do que para ti!”
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É Preciso Confiar Mais Em Deus Do Que Na Força Limitada Do Homem


Então disse o Senhor a Isaías: ‘Vai ao encontro de Acaz com teu filho Sear-Iasub (isto é, ‘um resto voltará’)... e dirás ao rei: Procura estar calmo; não temas nem estremeça o teu coração por causa desses dois pedaços de tição fumegantes... Este plano fracassará, nada disso se realizará!’”.


Continuamos a acompanhar a leitura do livro do profeta Isaias como a Primeira Leitura. Isaías, de origem aristocrática, vive em Jerusalém, a capital do reino de Judá, em um círculo de escribas, especialistas políticos, conselheiros do rei. Continuamente intervém na política do seu país, pois Deus quer que fale aquilo que lhe é inspirado. Já vimos como isso parecia natural para todos os profetas.


É mencionado, no texto de hoje, o nome do rei Acaz. Estamos no ano 735 antes de Cristo. Jerusalém está cercada pelos exércitos que acampam a poucos quilômetros antes de atacar Jerusalém. O enloquecimento é geral. Acaz (forma abreviada de Jeoacaz. Heb. “O Senhor tem possuído”) foi sucessor de seu pai Joatão (740-736 a.C. Jotão: “o Senhor é perfeito. Cf. 2Rs 15,32-38). Acaz (736-716 a.C: cf. 2Rs 16,1-4) reinou em Judá durante o final conturbado do reino de Israel, no Norte. Seu governo foi caracterizado por muitos problemas e ele mesmo recebeu esse epitáfio: “Não fez o que era reto aos olhos do Senhor seu Deus, como Davi, seu pai” (2Rs 16,2). Acaz ganhou esta reputação por aprovar a colocação das imagens dos ídolos assírios no Templo de Jerusalém (2Rs16,10-16). Além disso, fazendo parte do povo de Aliança, Acaz ofereceu sacrifícios aos deuses de Damasco (2Crônicos 28,23).


Até aqui é bom nos perguntarmos: Quais são os ídolos que colocamos no nosso “Templo” que somos nós, profanando o Templo do Espirito Santo? (cf. 1Cor 3,16-17). Se não os tirarmos imediatamente, a nossa própria destruição estará certa, como a queda de Judá era inevitável pela mesma razão. Se uma pessoa não se mudar pelo bem e pelo amor, um dia será obrigada a se mudar pela dor. E isso pode ser que seja tarde demais.


O profeta Isaías estava em atividade nessa época e os capítulos 7 a 10 de seu livro nos dão uma visão do estado do governo de Acaz. Acaz começou seu reino diante de alguns problemas consideráveis como coalizão entre a Síria e Israel contra Judá, além da aprovação da colocação das imagens dos ídolos no Templo. O profeta Isaías está contra essa coalizão e pede que o rei Acaz confie em Deus: “Se não o crerdes, certamente não ficareis firmes” (Is 7,9b). Contudo, como essa confiança já comprometida, a queda de Judá se tornou inevitável e Deus usou a Babilônia como seu instrumento para trazer o juízo divino.


Não é que cada desgraça seja castigo pelo pecado cometido ou cada êxito, como prêmio para a virtude. Mas nós mesmos vamos nos construindo um futuro bom ou mau conforme os caminhos que seguimos e as opções que fazemos. O que semeia ventos recolhe tempestades. O mal que praticamos tem sempre as consequências destrutivas para nossa vida e a vida das pessoas ao nosso redor. Como poderemos ter uma vida estável, se a construirmos sobre os interesses ou falsidades? Somos chamados a projetar aquilo que fazemos agora para saber por antecipação como vai ser nossa vida daqui a algum tempo. Ninguém colherá o milho se plantar o arroz.


No texto da Primeira Leitura lemos: “Então disse o Senhor a Isaías: ‘Vai ao encontro de Acaz com teu filho Sear-Iasub (isto é, ‘um resto voltará’)... e dirás ao rei: Procura estar calmo; não temas nem estremeça o teu coração por causa desses dois pedaços de tição fumegantes... Este plano fracassará, nada disso se realizará!’”.


O gesto simbólico que Deus sugere a Isaías é lindo. Ele tem que ir ao encontro do rei Acaz acompanhado pelo filho do profeta, que tem por nome "Sear Yasub", que significa "um resto voltará". Deus nunca fecha a porta para a esperança. Aqueles que fecham a porta da esperança, muitas vezes, somos nós, com nossos desvios e esquecimentos.


O contraste é evidente entre a perturbação do rei Acaz e a lúcida serenidade do profeta Isaías, pois Isaias escuta Deus em pleno centro dos acontecimentos: “O Senhor disse a Isaias”. O profeta Isaias é um fiel ouvinte de Deus. O Salmo Responsorial insiste nesta confiança baseada no amor que Deus tem a Jerusalém: “Deus revelou-se em suas fortes cidadelas um refúgio poderoso.... Os reis da terra se aliaram, e todos juntos avançaram; mal a viram, de pavor estremeceram, debandaram perturbados”.


Para o profeta Isaias os acontecimentos são a chamada a uma intensa vida espiritual, a uma intensa vida com Deus. É sempre importante escutar Deus que sabe de todos os mistérios.


Será que eu sei escutar Deus que também fala a mim através de tudo que sucede na minha vida e também através das situações coletivas que afetam uma grande número de pessoas. A finalidade de revisão de vida ou do exame de consciência é procurar escutar o que Deus diz em pleno centro dos acontecimentos.


Jesus Nos Chama à Conversão Permanente Para Que a Graça Opere Na Nossa Vida


No evangelho deste dia Jesus dirigiu suas maldiçoes para três cidades: Corazim, Betsaida e Cafarnaum que se situam à beira do lago Tiberíades. “As cidades” são sedes de escolas rabínicas e centros de cultura religiosa. Essas maldições são a contrapartida das bem-aventuranças que Jesus pronunciou no Sermão da Montanha. Essas cidades tiveram mais ocasiões de ouvir Jesus e de presenciar os milagres operados por ele. Os milagres de Jesus são sinais que anunciam a chegada do Reino de Deus.  Os milagres são a assinatura de Deus sobre Sua existência. E a resposta do ser humano deve ser a conversão e a fé. No entanto, ninguém se converteu nessas três cidades. Continuavam a viver na injustiça e na arrogância.


Jesus não aguentou mais a dureza do coração dos habitantes dessas cidades, e por isso, pronunciou as maldiçoes. Não se trata de o ódio da parte de Jesus para essas cidades. Sua voz é a voz profética. Os profetas do AT falavam duro para que seus ouvintes mudassem de vida. Deus não quer a morte do pecador, mas sua salvação. Deus está do lado do pecador e odeia o pecado, pois “Pecar é desmoronar o próprio ser e caminhar para o nada”, dizia Santo Agostinho (De mor. manich. 6,8). Por isso, o que tem por trás dessas maldições é o convite de Jesus para a conversão. Converter-se significa, neste sentido, deixar de praticar a injustiça e começar uma vida baseada na justiça. Justiça é o reconhecimento dos direitos dos outros. A verdadeira conversão deve mudar a qualidade das relações humanas.


Às vezes a Palavra de Jesus é ameaçadora, porque a vida humana não é um “jogo”; é algo muito sério onde há lugar para o juízo de Deus: nossa vida cotidiana é uma correspondência a Deus ou é uma recusa a Deus. Em todo momento nossos atos são uma escolha pró ou contra Deus. Infelizmente nem sempre pensamos nisso. Em todo momento Deus quer algo de nós. E em todo momento podemos saber qual é a vontade de Deus sobre nós. Quando pensarmos realmente em Deus em todo momento, e não só em algum momento de nossa vida, poderemos viver com Ele em correspondência à Sua vontade.


As maldições pronunciadas por Jesus no evangelho de hoje são as terríveis advertências para os que se gloriam de ser cristãos, mas não vivem os ensinamentos de Jesus ou não se convertem permanentemente. “De que vale ter o nome de cristão se tua vida não é cristã”, perguntou Santo Agostinho (In epist. Joan. 4,4). “O nome de cristão traz em si a conotação de justiça, bondade, integridade, paciência, castidade, prudência, amabilidade, inocência e piedade”, acrescentou Santo Agostinho (De vit. Christ. 6). Basta substituir nome das cidades amaldiçoadas por seu nome e ouvir estas palavras atentamente, creio que, logo você dá a vontade de fazer o sinal da cruz e se benzer. E você diria: “Deus me livre!”.


O Reino de Deus certamente começa em nós pela nossa conversão aos valores do Reino de Deus tais como à verdade, à veracidade, à honestidade, à justiça, à paz, à fraternidade, ao respeito pela vida e dignidade dos outros e assim por diante. No coração de cada cristão deve germinar a semente dos valores do Reino de Deus, porque do coração humano brota tudo o que é bom e mau que vemos no mundo. Temos que lutar contra a armadilha do velho egoísmo que quer perpetuar o desamor, e a falta de respeito pela dignidade dos outros. Viver em estado permanente de conversão é a lei de crescimento para cada cristão. Lembemo-nos de que “As trevas obscurecem a vista. Os pecados obnubilam a mente. E não permitem ver a luz nem a si mesmo”, dizia Santo Agostinho (In ps. 18,13).


O texto do Evangelho de hoje está construído tendo em conta os oráculos e lamentações dos grande profetas contra as cidades pecadoras e resumem o juízo do Messias sobre o povo que não aceitou sua mensagem de conversão ao Reino de Deus. converter-se significa deixar de praticar a injustiça e começar uma vida justa e honesta. A conversão deve mudar a qualidade das relações humanas.


É bom cada um de nós perguntar-se: Como posso me situar diante das maldiçoes de Jesus? A cidade onde eu moro e o país ao qual eu pertenço merecem as advertências de Jesus como Ele amaldiçoou Cafarnaum, Corazim e Betsaida?
 
P.Vitus Gustama, SVD

sexta-feira, 13 de julho de 2018

16/07/2018
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NOSSA SENHORA DO CARMO


Primeira Leitura: Zc 2,14-17
14 “Rejubila, alegra-te, cidade de Sião, eis que venho para habitar no meio de ti, diz o Senhor. 15 Muitas nações se aproximarão do Senhor, naquele dia, e serão o seu povo. Habitarei no meio de ti, e saberás que o Senhor dos exércitos me enviou a ti. 16 O Senhor entrará em posse de Judá, como sua porção na terra santa, e escolherá de novo Jerusalém. 17 Emudeça todo mortal diante do Senhor, ele acaba de levantar-se de sua santa habitação”.


Evangelho: Mt 12, 45-50
Naquele tempo, 46 enquanto Jesus estava falando às multidões, sua mãe e seus irmãos ficaram do lado de fora, procurando falar com ele. 47 Alguém disse a Jesus: “Olha! Tua mãe e teus irmãos estão aí fora, e querem falar contigo”. 48 Jesus perguntou àquele que tinha falado: “Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos?” 49 E, estendendo a mão para os discípulos, Jesus disse: “Eis minha mãe e meus irmãos. 50 Pois todo aquele que faz a vontade do meu Pai, que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”.
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Nossa Senhora Do Carmelo


Celebramos neste dia (16 de julho) a festa de Nossa Senhora do Carmo (Carmelo). “Karmel”, em hebraico significa “Jardim”. Esta festa nos traslada espontaneamente para a terra da Bíblia, para o monte Carmelo (cf. Is 35,2; Ct 7,6; Am 1,2). O Carmelo sempre foi um monte sagrado. No século IX antes de Cristo, o profeta Elias converteu esse lugar no refúgio da fidelidade ao Deus único (monoteísmo) e no lugar dos encontros entre o Senhor e seu povo (cf. 1Rs 18,39). Durante as Cruzadas, os ermitãos cristãos se recolheram nas grutas daquele monte emblemático, até que no século XIII formaram uma família religiosa à qual o patriarca Alberto de Jerusalém deu uma regra em 1209, confirmada pelo Papa Honório III (1216-1227) em 30 de Janeiro de 1226. O mesmo Papa também confirmou o reconhecimento de outras ordens: os dominicanos (22 de dezembro de 1216) e os franciscanos (29 de dezembro de 1223).


O Monte Carmelo está situado na planície de Galileia, perto de Nazaré, onde viveu Maria, a Mãe do Senhor que conservava tudo em seu coração (cf. Lc 2,51). Por isso, a Ordem do Carmelo se põe desde suas origens sob a proteção da Mãe dos contemplativos. Do Carmelo receberá São João da Cruz a inspiração para fazer de sua subida, o Monte da Perfeição Evangelica, Monte repleto de paz e doçura e de santidade. É natural que no século XVI, os dois doutores da Igreja e reformadores da Ordem, Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz converteram o Monte Carmelo no sinal do caminho para Deus.


Desde aqueles ermitãos que se estabeleceram no monte Carmelo, os carmelitas se distinguiram por sua profunda devoção à Santíssima Virgem Maria.


Quando Palestina foi invadida pelos sarracenos (árabes), os Carmelitas tiveram que abandonar o Monte Carmelo. Enquanto cantavam o cântico Salve apareceu lhes a Virgem Maria e lhes prometeu que seria sua Estrela do Mar, pela analogia da beleza do Monte Carmelo que se alça como uma estrela junto ao mar Mediterrâneo. A ordem se difundiu pela Europa, e a Estrela do Mar lhe acompanhou e a Ordem foi se propagando pelo mundo e eram chamados de “Irmãos de Nossa Senhora do Monte Carmelo”. Em sua profissão religiosa se consagravam a Deus e a Maria, e tomavam o habito em sua honra, como lembrança (aviso) de que suas vidas pertencem a ela, e por ela a Cristo. A busca da sabedoria, a escuta da Palavra de Deus e o cumprimento da vontade de Deus são temas que iluminam o sentido mais verdadeiro da devoção à Virgem do Carmelo segundo a mais pura e genuína tradição da Ordem do Carmelo.


Simon Stock, nomeado superior da Ordem dos Carmelitas (1245), compreendeu que sem a intervenção da Virgem Maria, a Ordem teria vida curta. Recorreu a Maria a qual chamou de “Flor do Carmelo” e “Estrela do Mar” e pus a Ordem sob seu amparo, suplicando-lhe sua proteção para toda a comunidade. Na resposta à sua oração, no dia 16 de Julho de 1251 apareceu-lhe a Virgem Maria (em Cambridge na Inglaterra) e deu-lhe o escapulário para a Ordem com a seguinte promessa: “Este deve ser um sinal e privilégio para ti e para todos os Carmelitas: quem morre com o escapulário não sofrerá o fogo eterno”.


Nós nos comunicamos por símbolos, bandeiras, emblemas, escudos e uniformes que nos identificam. As comunidades religiosas levam seu habito ou outro sinal ou símbolo como sinal de sua consagração a Deus. Os leigos que desejam associar-se aos religiosos no caminho da santidade podem usar escapulários, miniatura de habito, com rosário e a medalha milagrosa. São Afonso Ligório disse: “Os homens se orgulham quando os outros usam sua uniforme, e a Virgem está satisfeita quando seus servidores usam seu escapulário como prova de que se dedicaram a seu serviço, e são membros da família da Mãe de Deus”. O escapulário foi instituído pela Igreja como sacramental e sinal que nos ajuda a viver santamente e a aumentar nossa devoção e que propicia a renúncia ao pecado.


Por isso, é preciso que estejamos conscientes de que o escapulário de Nossa Senhora do Carmo, como qualquer outro, não é um objeto para uma proteção mágica (um amuleto); nem uma garantia automática de salvação; nem uma dispensa para não ouvir as exigências da vida cristã. O escapulário é um sinal “forte” aprovado pela Igreja desde séculos que representa nosso compromisso de seguir a Jesus como Maria: abertos a Deus e a sua vontade, guiados pela fé, pela esperança e pelo amor, ser próximos dos necessitados, orando constantemente e descobrindo Deus presente em todas as circunstâncias, ser um sinal que alimenta a esperança do encontro com Deus na vida eterna.


Quem usa o escapulário deve estar consciente de sua consagração a Deus e à Virgem Maria e ser consciente em seus pensamentos, palavras e obras. Maria, a Mãe do Senhor foi a primeira discípula de Jesus Cristo, pois ela viveu segundo a Palavra de Deus: “Eis me aqui a Serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a Tua Palavra” (Lc 1,38). Para são João da Cruz a Virgem Maria foi sempre dócil aos impulsos do Espírito Santo, pois “jamais teve impressa na alma forma de alguma criatura, nem se moveu por ela; mas sempre agiu sob a moção do Espírito Santo” (III Subida 2,10). E para Santa Teresa de Jesus Maria “estava sempre firme na fé” (VI Moradas 7,14), cheia de “tão grande fé e sabedoria” que sempre aceitou em sua vida os caminhos de Deus, escutando humildemente a Palavra (cf. Conceitos do Amor de Deus 6,7).


Mensagem Do Evangelho


O evangelho lido neste dia é escolhido em função da festa de Nossa Senhora do Carmo. No episódio do Evangelho de hoje é revelada a passagem da fraternidade-familiaridade puramente natural para a espiritual que Maria vive já, pois ela é Aquela que afirma: “Eis aqui a Serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a Tua Palavra” (Lc 1,38).


Na passagem do evangelho de hoje Jesus pergunta e afirma: “Quem é minha mãe? Quem são meus irmãos. Todo aquele que faz a vontade do meu Pai, que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mt 12,50). Trata-se de uma família ou uma comunidade de Deus, e por isso, de uma comunidade de salvação. A pergunta não significa um desprezo de Jesus aos seus parentes ou familiares. Ninguém amou Sua mãe melhor do que o próprio Jesus. E nenhuma mãe amou melhor seu Filho, Jesus, do que a própria Maria. Jesus oferece aos homens a qualitativa intimidade de sua família. A família humana de Jesus viveu conforme a vontade de Deus: José que criou Jesus era chamado de “o justo”, aquele que vive segundo os mandamentos de Deus (cf. Mt 1,19). Maria, a Mãe de Jesus foi chamada pelo anjo do Senhor de “cheia de graça” (cf. Lc 1,28) e “Bendita entre as mulheres” e a “Mãe do meu Senhor” por Isabel (Lc 1,42-43).


Por isso, a família humana de Jesus serve de exemplo para todas as famílias humanas. Que é possível formar uma família de Deus nesta terra. A única maneira de salvar a família humana é transformá-la em família de Deus, família que vive de acordo com os mandamentos de Deus, família que coloca Deus como o centro de sua vida e a família que se funda sobre a rocha da Palavra de Deus (cf. Mt 7,24-25).


Todo aquele que faz a vontade do meu Pai, que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe, disse Jesus. A nova família formada por Jesus supera as medidas da família natural por causa da vivência da Palavra de Deus. Maria, a Serva (Lc 1,38), a discípula que se entrega por completo a fim de que se cumpra a vontade de Deus é o grande exemplo desta comunhão familiar com Jesus através do vínculo da Palavra divina escutada e vivida. O ciristão gera em si mesmo Jesus mediante o cumprimento da Palavra de Deus. Os frutos da participação no Reino anunciado por Jesus são: a fraternidade, a maternidade, comunhão de todos na mesma fé, na mesma esperança e no mesmo amor.


Maria concebeu Jesus antes com a fé que em seu seio virginal. Maria acreditou e logo foi mãe. Todos nós, cristãos, temos algo de filhos gerados no amor e algo de mães e irmãos gerados na fé que nos faz filhos no Filho de Deus, Jesus Cristo. Vivamos como Maria: creiamos em Cristo, vivamos com Ele e n’Ele, e assim contribuiremos a gerar filhos para Deus.


A Virgem Maria, Nossa Senhora do Carmo, nos ensina a vivermos abertos diante de Deus e de Sua vontade, manifestada nos acontecimentos da vida; a escutarmos a voz ou a Palavra de Deus na Bíblia e na vida, para meditá-la, pondo depois em prática as exigências desta voz; a orarmos fielmente sentindo Deus presente em todos os acontecimentos; a vivermos próximos de nossos irmãos e a sermos solidários com eles em suas necessidades. A Mãe do Senhor e nossa mãe (cf. Jo 19,26-27) jamais nos abandona, pois somos seus filhos no seu Filho Jesus Cristo. Nenhuma mãe normal é capaz de abandonar seu filho. Imagine a Mãe do Senhor! “Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores agora e na hora de nossa morte. Amém!”.
P. Vitus Gustama, SVD


Domingo, 15/07/2018
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CHAMADOS PARA SERMOS ENVIADOS PELO SENHOR
XV DOMINGO DO TEMPO COMUM “B”


Primeira Leitura: Am 7,12-15
Naqueles dias, 12 disse Amasias, sacerdote de Betel, a Amós: “Vidente, sai e procura refúgio em Judá, onde possas ganhar teu pão e exercer a profecia; 13 mas em Betel não deverás insistir em profetizar, porque aí fica o santuário do rei e a corte do reino”. 14 Respondeu Amós a Amasias, dizendo: “Não sou profeta nem sou filho de profeta; sou pastor de gado e cultivo sicômoros. 15 O Senhor chamou-me, quando eu tangia o rebanho, e o Senhor me disse: ‘Vai profetizar para Israel, meu povo’”.


Segunda Leitura: Ef 1,3-10
3 Bendito seja Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Ele nos abençoou com toda a bênção do seu Espírito em virtude de nossa união com Cristo, no céu. 4 Em Cristo, ele nos escolheu, antes da fundação do mundo, para que sejamos santos e irrepreensíveis sob o seu olhar, no amor. 5 Ele nos predestinou para sermos seus filhos adotivos por intermédio de Jesus Cristo, conforme a decisão da sua vontade, 6 para o louvor da sua glória e da graça com que nos cumulou no seu Bem-amado. 7 Pelo seu sangue, nós somos libertados. Nele, as nossas faltas são perdoadas, segundo a riqueza da sua graça, 8 que Deus derramou profusamente sobre nós, abrindo-nos a toda a sabedoria e prudência. 9 Ele nos fez conhecer o mistério da sua vontade, o desígnio benevolente que de antemão determinou em si mesmo, 10 para levar à plenitude o tempo estabelecido e recapitular, em Cristo, o universo inteiro: tudo o que está nos céus e tudo o que está sobre a terra.


Evangelho: Mc 6,7-13
Naquele tempo, 7Jesus chamou os doze e começou a enviá-los dois a dois, dando-lhes poder sobre os espíritos impuros. 8Recomendou-lhes que não levassem nada para o caminho, a não ser um cajado; nem pão, nem sacola, nem dinheiro na cintura. 9Mandou que andassem de sandálias e que não levassem duas túnicas. 10E Jesus disse ainda: “Quando entrardes numa casa, ficai ali até vossa partida. 11Se em algum lugar não vos receberem, nem quiserem vos escutar, quando sairdes, sacudi a poeira dos pés, como testemunho contra eles!” 12Então os doze partiram e pregaram que todos se convertessem. 13Expulsavam muitos demônios e curavam numerosos doentes, ungindo-os com óleo.
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I. A CHAMADA À EVANGELIZAÇÃO É PARA TODOS


A chamada de Deus ao profeta Amós (Primeira Leitura), a chamada de Jesus aos Doze (Evangelho) e o próprio exemplo de são Paulo que fala na Segunda Leitura não são casos excepcionais, próprios de um setor da Igreja, isto é, não é a chamada apenas para os bispos. A chamada de Deus é para todos. Neste sentido, o exemplo de Amós, na Primeira Leitura, é significativo: ele não é um profissional da profecia, vinculado a um determinado santuário, e sim que ele é um indivíduo normal, um pastor de rebanho e campista (homem do campo) que se sente tocado e chamado por Deus em favor do seu povo. Como ele, todo cristão é chamado a tirar o mal do mundo e a mudar cada coração. Em cada situação Deus fala no coração de cada cristão para agir em favor do povo de Deus a partir das condições ou aptidões que cada um tem. Basta cada um tirar e partilhar o que é bom dentro do coração, o mundo ao redor vai melhorar aos poucos. Ninguém pode economizar o amor, a bondade, a caridade, pois quanto mais se partilha, mais se multiplica. É o paradoxo do bem que se pratica e da bondade que se vive na convivência com os demais.


A Igreja em geral, e cada cristão, em particular, não pode sentir-se satisfeito tendo muitas pessoas “enroladas” nos conselhos paroquiais/comunitários, nas pastorais/nos determinados ministérios, nas organizações, movimentos, grupos, etc., como se o ideal fosse este: que os cristãos se passam muitas horas no interior da igreja, de modo que a igreja se converta em um espécie de clube que encerre e tranquilice as pessoas. “O grande risco do mundo atual, com sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada. Quando a vida interior se fecha nos próprios interesses, deixa de haver espaço para os outros, já não entram os pobres, já não se ouve a voz de Deus, já não se goza da doce alegria do seu amor, nem fervilha o entusiasmo de fazer o bem. Este é um risco, certo e permanente, que correm também os crentes. Muitos caem nele, transformando-se em pessoas ressentidas, queixosas, sem vida. Esta não é a escolha duma vida digna e plena, este não é o desígnio que Deus tem para nós, esta não é a vida no Espírito que jorra do coração de Cristo ressuscitado”, escreveu o Papa Francisco na Exortação Apostólica, Evangelii Gaudium n.2. Todas as atividades pastorais da Igreja serão válidas, se os cristãos se tornarem no mundo testemunhas do amor de Deus.


Ser cristão-evangelizador significa pôr-se em caminho, no caminho de Jesus Cristo; é caminhar na estrada de Jesus que significa crer n´Ele e querer atuar como Ele; é ir ao encontro do outro, especialmente ao necessitado, para chamá-lo a ser parceiro do bem. É sair de nossa zona de conforto, como Deus que se encarnou, para salvar o mundo (cf. Jo 1,14), pelo menos o mundo ao nosso redor.


A “não profissionalidade” de Amós, e, sobretudo, a missão dos Doze que devem partir sem levar “nem pão, nem sacola, nem dinheiro na cintura, nem duas túnicas” mostra um aspecto importante da tarefa evangelizadora: é ser testemunha da própria fé e não para tirar alguma vantagem desta tarefa, e sim porque se sente vitalmente “empurrado” ou “impelido” (cf. Mc 1,12) por esta missão do Senhor. Quando o cristão se deixar impelir pelo Espírito do Senhor, sua vida será uma vida dedicada pelo bem e salvação dos outros; ele vai sair de si, do seu cantinho confortável ao encontro dos outros, especialmente dos necessitados mesmo com muitas dificuldades. Este estilo livre e independente é decisivo para a pureza da mensagem do Evangelho (sem segundas intenções). E isto se aplica também às instituições eclesiais e à própria Igreja: a missão profética e evangelizadora dos cristãos e da Igreja será pura se for livre de todo tipo do poder deste mundo ou de qualquer interesse egoísta.


SOMOS TODOS OS ENVIADOS DO SENHOR


O evangelho nos fala do envio dos discípulos para a missão. Eles já têm acompanhado Jesus durante um período relativamente longo. Eles têm escutado os ensinamentos de Jesus em parábolas e suas explicações complementares. Têm presenciado seus milagres. Agora eles devem empreender a segunda fase do programa, pregando a conversão e dando a conhecer a oferta divina de salvação.


 “Jesus chamou os doze e começou a enviá-los...”


Esta é a primeira vez que os Doze vão se encontrar sós, sem Jesus, longe dele. É o tempo da Igreja. É o tempo da prática.


Durante os cinco primeiros capítulos de seu relato, o evangelista Marcos nos apresentou Jesus com seus discípulos, com muita insistência, diante da multidão e dos adversários. No momento de sua vocação (Mc 3,13-14), o evangelista Marcos havia dito: “Jesus constituiu Doze para que ficassem com ele, para enviá-los a pregar...”.  É igual ao movimento do coração: diástole, sístole... O sangue vem ao coração e do coração é enviado ao organismo. Dessa maneira é que o organismo pode se manter. É o mesmo movimento do apostolado: viver com Cristo, ir ao mundo para levar o Cristo; intimidade com Deus, presença no mundo com o espírito de Deus. Quem não vive, primeiro, com Cristo, não pode ser um bom missionário, não pode ser um cristão crível no mundo. Quem não fala com Cristo, não pode falar de Cristo. Um cristão tem que animar tudo com espírito de Cristo para não deixar o espirito de vaidade dominar sua vida e suas atividades.


O texto procura mostrar como deve agir o seguidor de Jesus e o que vai acontecer com ele quando sair pelo mundo para pregar o Evangelho. Tudo isto se resume numa só idéia: o seguidor deve agir como o Mestre Jesus agiu. O que aconteceu com o Mestre vai acontecer também com o discípulo/cristão, pois o discípulo não é maior do que o próprio Mestre (Cf. Mt 10,24).


No Evangelho deste domingo Jesus anuncia alguns pontos fundamentais para o discípulo/seguidor realizar a missão:


Em primeiro lugar, o texto diz que Jesus envia os discípulos dois a dois. “Dois a dois” indica que a missão é um serviço comunitário e os cristãos devem ajudar-se mutuamente em suas atividades; não é um trabalho de promoção pessoal; é um trabalho de conjunto ou coletivo. “Ir dois a dois” implica também a afirmação da igualdade e exclui a subordinação de um ao outro (cf. Dt 19,15). Quem vive o Evangelho do Senhor deve estar em sintonia com os irmãos da sua comunidade. O cristão jamais pode ser uma pessoa isolada da comunidade. Cada cristão é batizado para fazer parte da comunidade trinitária: “Eu te batiza em nome do Pai e do Filho e do Espirito Santo”. Conviver como irmãos faz parte da fé trinitária.


O que distingue uma comunidade cristã de um grupo de amigos ou profissionais é que o nosso laço vem de Deus. Foi Deus quem nos chamou e nos escolheu e nos uniu numa aliança de amor e numa solicitude mútua. Por isso, todos na comunidade são chamados a partilhar seus dons e receber os dos outros e a descobrir a altura e a profundidade da sabedoria, da beleza e do amor de nosso Deus. Todos são chamados a trabalhar juntos pela glória de Deus. Quando não se procura a glória de Deus e sim a própria glória, a rivalidade e a competição se instalam, suscitando a inveja na comunidade. E a inveja, por sua vez, gera o ódio e a guerra. Se cada cristão estiver consciente de que o nosso laço vem de Deus, ele se abrirá à experiência do amor de Deus presente na comunidade e no coração de cada membro. Se cada membro se abrir a essa experiência de amor, a comunidade se tornará um lugar de encontro com Deus e com os irmãos. Ou segundo Martin Buber como “o lugar da teofania”: “Nós esperamos uma teofania, da qual apenas conhecemos o lugar, e esse lugar se chama comunidade”.


A beleza e a unidade da comunidade vêm do brilho de cada pessoa, da luz e do amor que há nelas e da maneira como se amam. A comunidade é organizada para proporcionar a transformação e o crescimento das pessoas. Sua finalidade é a pessoa, o amor e a comunhão com Deus. Quando uma comunidade é apenas um lugar de trabalho ou apenas de atividade, ela está ameaçada, pois as pessoas se preocupam com o trabalho e não com as pessoas e seu crescimento e sua salvação.


Jesus começou a enviá-los dois a dois...” Independentemente das razoes bíblicas esta expressão é muito moderna e avançada. Na Igreja de Jesus não se trabalha só, e sim em equipe. Nenhum cristão pode ser um lutador solitário, exigindo que suas ideias sejam mais importantes do que as dos outros. Cada ponto de vista é visto de um ponto. A atitude de quem trabalha na Igreja, na comunidade eclesial deve ser interrogada a partir do conjunto. O individualismo tem formas muito sutis: não gostamos que os nossos irmãos controlem nossos próprios comportamentos apostólicos e outros comportamentos; cada um quer ser uma estrela solitária a ponto de apagar o brilho do outro; nada se discuta, cada um vai fazer as coisas do jeito que quer. O pior é que o Cristo fica de lado ou de costas para a pessoa em questão estar em destaque.


Em segundo lugar, Jesus deu aos doze o poder messiânico de Cristo contra as forças do mal, ou seja, a autoridade para libertar as pessoas de tudo aquilo que aliena, oprime e despersonaliza as pessoas. O evangelista Marcos resume o poder dos enviados em três palavras: o carisma da “palavra” que proclama a necessidade de mudança de vida; o carisma de expulsar demônios, isto é, o poder contra o mal; e o carisma de “curar os enfermos”, isto é, melhorar a vida humana na sua qualidade.


Eles são enviados com autoridade sobre os espíritos imundos, para dominá-los e não para dominar os outros irmãos.  O cristão tem o poder de tirar esse mal, pois o Senhor Jesus lho deu. A primeira tarefa de cada cristão consiste em tirar o mal que está no meio das comunidades, no meio da própria família, de dentro do próprio coração. Quem é livre pode libertar os outros. O enviado de Jesus, cada cristão deve instaurar um mundo mais justo e fraterno; deve melhorar a vida humana em todos os seus aspectos.


Em terceiro lugar, Jesus exige dos doze um modo de vida baseada num desprendimento absoluto dos bens materiais (vv.8-9). Jesus pede que os discípulos vivam um estilo de austeridade e a pobreza evangélica de modo que não se ponham ênfase nos meios humanos: econômicos ou técnicos e sim na força de Deus que ele lhes transmite. Deus não se serve de anjos nem de revelações diretas. É a Igreja, ou seja, os cristãos que continuam e visibilizam a obra salvadora de Cristo, e o modo de vida do cristão deve ser reflexo do de Cristo. A linguagem que o mundo de hoje facilmente entende: austeridade e o desinteresse na hora de fazer o bem: o cristão deve fazer o bem pelo bem e não por algum interesse por trás. É claro que necessitamos dos meios que fazem parte da evangelização, porém jamais podemos nos deixar de nos apoiar na graça de Deus e na nossa fé sem buscar seguranças e prestígios humanos.


Trata-se de uma pobreza voluntária, porque somente assim eles poderiam ser considerados como fidedignos. Jesus enfatiza mais o ser dos discípulos do que o seu ter. Jesus não despreza os bens deste mundo, não apresenta a miséria como um ideal de vida, mas alerta para o perigo de nos deixarmos condicionar pela posse de bens materiais. A porta da morte é tão estreita que somente passa aquilo que é a bagagem de amor na condivisão dos bens materiais com os irmãos e irmãs que não têm nada para sua vida.


O desapego a tudo não implica somente a renúncia a uma carga pesada de bens materiais, mas também o abandono de preconceitos, de tradições, de idéias retrógradas, às quais muitas vezes estamos amarrados de uma forma emocional e irracional. Referimo-nos ao pesado ônus representado por certos usos, por certos costumes, por certas tradições religiosas embutidas em determinado ambiente histórico e cultural, que muitos, confundem ou equiparam com os valores do Evangelho. Não podemos acumular “bastões”, “dinheiro”, “sandálias” e “túnicas”.


Em quarto lugar, Jesus envia os doze para pregar a mudança de vida (conversão) para si e para os outros (v.12). Para Jesus, a conversão é condição sine qua non para construir uma sociedade nova ou Reino de Deus (Mc 1,15). A conversão sempre envolve movimento de uma dimensão para outra. E isso envolve a pessoa toda, não apenas seu senso moral, sua capacidade intelectual ou sua vida espiritual. Corpo, mente e alma juntos são afetados pelo ato da conversão, e as conseqüências são sentidas em todos os aspectos da vida da pessoa, inclusive nos campos social e político.


A conversão é crescimento contínuo; não é um acontecimento instantâneo, pontual e de uma vez por todas; não é uma carreira acabada, mas que constitui um crescimento sem interrupção e ascendente. Por mais decidida que seja a entrega de um cristão ao Reino, ela tenderá sempre a ser precária. De um coração convertido aos valores do Reino e do Evangelho se seguirão naturalmente os frutos visíveis de uma conversão que atinge a realidade da vida.


A vida dedicada apenas a cumprir normas para agradar a Deus termina por converter-se numa vida estéril, pois o único modo para agradar a Deus é viver a fraternidade ou viver no amor fraterno. Por isso, não podemos confundir nossa fé como um sistema de leis e regras cujo cumprimento dá segurança, que muitas vezes uma falsa segurança. Mas devemos considerar a fé como resposta e aposta decidida e valiosa para trabalhar em favor da fraternidade. Isto deve ser o estilo de vida de quem quer seguir a Jesus. Para isso, todos nós somos chamados a nos converter permanentemente. Somente através da conversão é que teremos uma vida fecunda. A conversão é o momento oportuno para o crescimento na direção do bem e do Bem Absoluto (Deus).


Em quinto lugar, a outra instrução de Jesus prevê uma atitude de bom senso e formação de comunidade: “Quando vocês entrarem numa casa, fiquem aí até partirem” (v.10).


É interessante observar que não se fala para os discípulos irem às sinagogas, instituição judaica, o que seria contrario à finalidade do envio. Menciona-se somente “o lugar” e “a casa/ família” que podem encontra-se em qualquer país. Hão de aceitar a hospitalidade que a eles é oferecida, sem mudar de casa, para não desprezar a boa vontade do povo nem afrontar a hospitalidade oferecida. Os discípulos devem aceitar o que a eles são oferecidos sem mostrar reações ao uso do lugar.


“Quando vocês entrarem numa casa, fiquem aí até partirem” (v.10). Isto não indica a plena estabilidade para os discípulos, mas um local onde, com a sua partida, a comunidade possa continuar a se reunir e dar prosseguimento à Boa Nova do Reino. Os cristãos devem ensinar os outros a assumirem o compromisso, a andarem com as próprias pernas.


Para os Doze, o Novo Israel, esta instrução implica uma mudança radical de mentalidade: entrar em casa de pagãos, desprezados pelos judeus, e depender deles para a sobrevivência. Jesus pretende que os discípulos esqueçam sua identidade judaica para colocar-se no plano da humanidade. Para divinizar é preciso humanizar. É preciso viver a própria humanidade para se tornar humano para os outros. O caminho da divinização passa pelo caminho da humanização. É o paradoxo da vida cristã.


À luz do Evangelho de hoje procuremos nos perguntar a partir das palavras do Papa Paulo VI na Evangelii Nuntiandi n. 76 do item c: “ACREDITAIS verdadeiramente naquilo que anunciais? VIVEIS aquilo que acrediteis? PREGAIS vós verdadeiramente aquilo que viveis? Mais do que nunca, portanto, o testemunho da vida tornou-se uma condição essencial para a eficácia profunda da pregação. Sob este ângulo, somos até certo ponto, responsáveis pelo avanço do Evangelho que nós proclamamos”. Além disso, será que somos meros espectadores e admiradores de Jesus ou somos seus seguidores? O que pode estar tornando menos convidativo e pouco crível a nossa mensagem? Qual é o testemunho que devemos dar para que os outros acreditem na nossa mensagem? É impossível ser um verdadeiro cristão sem estar com Cristo antes.
P. Vitus Gustama,SVD