quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

24/02/2017


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AMIZADE PROFUNDA E UNIÃO MATRIMONIAL ENCONTRAM SUA FORÇA EM DEUS


Sexta-Feira da VII Semana Do Tempo Comum


Primeira Leitura: Eclo 6,5-17


5 Uma palavra amena multiplica os amigos e acalma os inimigos; uma língua afável multiplica as saudações. 6 Sejam numerosos os que te saúdam, mas teus conselheiros, um entre mil. 7 Se queres adquirir um amigo, adquire-o na provação; e não te apresses em confiar nele. 8 Porque há amigo de ocasião, que não persevera no dia da aflição. 9 Há amigo que passa para a inimizade, e que revela as desavenças para te envergonhar. 10 Há amigo que é companheiro de mesa e que não persevera no dia da necessidade. 11 Quando fores bem-sucedido, ele será como teu igual e, sem cerimônia, dará ordens a teus criados. 12 Mas, se fores humilhado, ele estará contra ti e se esconderá da tua presença. 13 Afasta-te dos teus inimigos e toma cuidado com os amigos. 14 Um amigo fiel é poderosa proteção: quem o encontrou, encontrou um tesouro. 15 Ao amigo fiel não há nada que se compare, é um bem inestimável. 16 Um amigo fiel é um bálsamo de vida; os que temem o Senhor vão encontrá-lo. 17 Quem teme o Senhor, conduz bem a sua amizade: como ele é, tal será o seu amigo.


Evangelho: Mc 10,1-12


Naquele tempo, 1 Jesus foi para o território da Judeia, do outro lado do Jordão. As multidões se reuniram de novo em torno de Jesus. E ele, como de costume, as ensinava. 2 Alguns fari­seus se aproximaram de Jesus. Para pô-lo à prova, perguntaram se era permitido ao homem divorciar-se de sua mulher. 3 Jesus perguntou: “O que Moisés vos ordenou?” 4 Os fari­seus responderam: “Moisés permitiu escrever uma certidão de divórcio e despedi-la”. 5 Jesus então disse: “Foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés vos escreveu este mandamento. 6 No entanto, desde o começo da criação, Deus os fez homem e mulher. 7 Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e os dois serão uma só carne. 8 Assim, já não são dois, mas uma só carne. 9 Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe!” 10 Em casa, os discípulos fizeram, novamente, perguntas sobre o mesmo assunto. 11 Jesus respondeu: “Quem se divorciar de sua mulher e casar com outra, cometerá adultério contra a primeira. 12 E se a mulher se divorciar de seu marido e casar com outro, cometerá adultério”.
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Ser Amigo Fiel


Um dos temas em que mais insiste o autor do Eclesiástico é a amizade. Há uma série de observações concretas sobre a amizade no texto de hoje que lemos na Primeira Leitura. Hoje lemos um pequeno tratado sobre a amizade: como se conseguem amigos, quem é o verdadeiro amigo, como há que tratar os amigos.


O autor começa o tema indicando um meio para ganhar amigos: a palavra suave e amável: “Uma palavra amena multiplica os amigos e acalma os inimigos”. O sábio deixou escrito que as palavras doces edificam até os malvados, enquanto que as palavras ásperas escandalizam até os mais santos (cf. Provérbio 18:10; 30,4). A língua que fala bem multiplica as delicadezas. Aqui o autor mostra a importância das palavras, do diálogo para construir ou destruir a amizade.


O autor também nos indica a característica de um amigo fiel: “Se queres adquirir um amigo, adquire-o na provação; e não te apresses em confiar nele.... Um amigo fiel é poderosa proteção: quem o encontrou, encontrou um tesouro. Ao amigo fiel não há nada que se compare, é um bem inestimável. Um amigo fiel é um bálsamo de vida; os que temem o Senhor vão encontrá-lo.”.


A verdadeira amizade é uma das melhores riquezas humanas. Um amigo fiel e sincero é um verdadeiro tesouro. É uma medicina para nossos males. O caminho se faz facilmente quando podemos compartilhar tudo com um amigo. Isso passa na vida social, na vida familiar, na vida religiosa e no apostolado sacerdotal. Num mundo em que cada um tende a ir por sua conta, o saber ser amigo é um valor que não tem preço.


A amizade íntima supõe uma união e compenetração de afetos que não é possível com muitos, e uma confiança e lealdade que não sempre se encontra. Amigo fiel se manifesta com a abnegação para com o amigo, permanecendo a seu lado em meio da adversidade. O amigo certo se manifesta nas situações incertas, pois há amigos que não buscam na amizade mais que seu próprio proveito e por isso, permanecem no dia da prosperidade, apresentando-se, inclusive, como seu melhor amigo, mas ele o abandona no dia da adversidade em que não pode perceber benefício algum de sua amizade. Não é raro que tais amigos, por qualquer motivo, se convertem em inimigos. Consequentemente, quanto mais íntima e confidencial foi a amizade com ele(s), tanto maior será o mal que ele haverá de sofrer, pois conhece mais a fundo seus defeitos que poderá revelar para os demais. Dizia Aristóteles que a verdadeira amizade é aquela que gera não a necessidade ou a utilidade e sim a virtude ou a bondade.


O verdadeiro amigo, fiel em todas as circunstâncias, é tesouro de incalculável valor. Entre os amigos fieis existe uma confiança e um amor mútuo, que os fazem cada dia melhores, advertindo-se mutuamente os defeitos e ajudando-se a corrigi-los. A benéfica influência da amizade verdadeira se deixará notar essencialmente em meio das adversidades em que o amigo verdadeiro permanece unido.


Portanto, o primeiro critério da verdadeira amizade é a fidelidade na prova. Os outros se dizem amigos abandonam seu amigo nas adversidades; o verdadeiro amigo permanece. O segundo critério é o amor comum de Deus: “Um amigo fiel é um bálsamo de vida; os que temem o Senhor vão encontrá-lo. Quem teme o Senhor, conduz bem a sua amizade: como ele é, tal será o seu amigo”. A fé é o ponto comum de uma amizade espiritual, o que pode soldar em profundidade uma relação. Quando amigos compartilham sua fé em Deus, os laços da amizade ficam mais sólidos.


Em Deus Se Encontra o Força Da União Matrimonial


Falando de “amigos”, o texto do Evangelho lido neste dia nos oferece a oportunidade de encarecer como entre os esposos deveria dar-se sempre uma amizade humana exemplar. No início dos tempos Deus criou o homem e a mulher como seres que se necessitam, que se atraem, que se ajudam, que programam a vida dos filhos, que se fazem uma só carne e um só espírito. Matrimônio e lar sem amor, sem amizade, sem comunicação sincera e profunda são autentico fracasso humano. Deus não quer nem promove essa fracasso. São os homens que fazem da união matrimonial uma fonte de frustrações, de intolerâncias, de infidelidades que se expressam nos divórcios, separações, maltratos, distanciamento de pais e filhos e assim por diante.


O texto do evangelho deste dia nos apresenta a discussão sobre o matrimônio entre Jesus e os fariseus. O foco da discussão é o divórcio. A doutrina do evangelista Marcos é bem clara: o casamento não é somente um contrato entre o homem (marido) e a mulher (esposa), mas ele engaja a vontade de Deus. A vontade dos esposos (em contrair o matrimônio) não é suficiente para explicar o casamento e sua unidade, mas a vontade de Deus é parte integrante: “Desde o começo da criação, Deus os fez homem e mulher. Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e os dois serão uma só carne. Assim, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe!”.  Consequentemente, o divorcio não é apenas uma injustiça em relação ao cônjuge humano abandonado, mas também uma injustiça em relação ao próprio Deus que quer sempre a comunhão.


“É permitido ao homem divorciar-se de sua mulher?”. É a pergunta de alguns fariseus a Jesus com o intuito de apanhá-lo. Jesus seria acusado de traidor às exigências da Lei, se respondesse “não”, e poderia estar em contradição com sua pregação e com suas obras de caridade caso respondesse “sim”. O resultado seria o mesmo: desacreditar Jesus.


Jesus percebeu a maldade dos fariseus, mas não reagiu de maneira violenta. Jesus não discutiu. Ao contrário, Jesus se argumentou ao retroceder até as origens: “Foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés vos escreveu este mandamento. No entanto, desde o começo da criação, Deus os fez homem e mulher. Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e os dois serão uma só carne. Assim, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe!”


Foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés vos escreveu este mandamento”. Como conseqüência de um coração duro e insensível é a desobediência contínua às diretivas divinas. Um coração duro e insensível provoca a desordem nas relações humanas. 


O que Deus uniu, o homem não separe!”. Ater-se somente à lei e às regras é esquecer o impulso da vida. Jesus quer que o ser humano se aproxime da ambição de Deus: o amor é mais exigente do que qualquer lei.


“Desde o começo da criação, Deus os fez homem e mulher. Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e os dois serão uma só carne. Assim, já não são dois, mas uma só carne”. Para conhecer a grande intuição de Deus é preciso retroceder aos começos, às origens, ao princípio, quando, por ternura, Deus tirou da terra o homem e a mulher e soprou neles Seu hálito para que eles correspondessem ao Seu amor. Para Deus, amar foi em primeiro lugar falar nossa linguagem. Para Deus amar é manter a única palavra que nós podemos entender. Todos entendem a linguagem de amor. Amor é a única palavra que Deus quer manter para o homem e a mulher e quer, ao mesmo tempo, que o homem e a mulher permaneçam no amor. Quando há amor, tudo tem jeito. Regressar às nossas origens para descobrir a regra ou o princípio de nossa vida é voltar a descobrir que necessitamos falar a linguagem do Outro: de Deus. E a linguagem que Deus usa é amor.


Para Deus amar também significa fazer-se vulnerável. Ele não permaneceu no céu de Sua indiferença. Deus “se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). Regressar às nossas origens para voltar a descobrirmos a regra ou o princípio de nossa vida é fazer-nos vulneráveis. Quem ama, aceita desejar, esperar, pedir e sofrer.


Para Deus, amar foi também crer e esperar. Deus nos deixou livres e não se arrependeu pela liberdade que nos foi dada. Regressar às nossas origens para descobrir a regra ou o princípio de nossa vida é voltar a aprendermos a viver na esperança. O amor é fecundo, suscita e ressuscita, perdoa e reconcilia. O amor espera com o outro na esperança, pois Deus nos espera no amor e por amor.


Não separe o homem o que Deus uniu”, diz Jesus. Romper um vínculo selado por Deus é ir contra Deus. deus chama à comunhão. Toda ruptura de comunhão significa estar contra o Deus-Comunhão. Os discípulos, os cristãos devem buscar sempre uma vida que reflete esta comunhão com Cristo e com o Pai, e por este mistério de comunhão é inconcebível falar de desunião, de divórcios, de divisão entre os cristãos. Todos os cristãos devem ser testemunhas de comunhão e não de ruptura.


O matrimônio é sacramento por ser imagem mais perfeita do que Deus é e do que é a vida segundo Deus. Na relação entre um homem e uma mulher descobrimos e experimentamos que Deus é encontro, dom, participação e amor. O casal humano é chamado por Deus a tornar-se o primeiro lugar de encarnação deste movimento de amor. O amor humano, sob todas as suas formas, não nasceu dos acasos da evolução biológica. É dom de Deus (cf. 1Jo 4,19). Quando os homens recusarem este dom, impedirão Deus de imprimir neles a sua imagem.


As pessoas se casam para formar uma família onde cada membro é preparado para entrar na sociedade maior. A família é o ambiente em que cada um aprende a dar e a receber o amor, a sacrificar pelo outro, a ser solidário com o outro, a carregar juntos o fardo que se encontra na caminhada, a perdoar mutuamente pelas ofensas que muitas vezes são frutos não da maldade, mas das limitações naquele momento em que elas ocorreram. A linguagem da fé de cada cristão se aprende no lar. A fé e a ética cristã se aprendem no lar que vão marcar a vida de cada membro para o resto da vida. Nenhum de nós adquiriu por si só os conhecimentos básicos para a vida senão através da família. No inicio da vida cada um recebe da família, a vida e as verdades básicas para viver uma vida sadia pessoal, social e comunitariamente.


Que em cada Eucaristia ou em cada celebração litúrgica seja fortalecido o amor dos casais presentes, o amor que eles consagraram um para o outro no dia de seu casamento. O casamento indissolúvel é um grito para todas as pessoas ao redor que existe o amor. É o mesmo que dizer: Deus existe, pois ele é Amor (1Jo 4,8.16).


P. Vitus Gustama,svd

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017


23/02/2017

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PARA SER AUTÊNTICO CRISTÃO É NECESSÁRIO CONVERTER-SE PERMANENTEMENTE


Quinta-Feira da VII Semana Comum


Primeira Leitura: Eclo 5,1-10


1Não confies nas tuas riquezas e não digas: “Basta-me viver!” 2Não deixes que tua força te leve a seguir as paixões do coração. 3Não digas: “Quem terá poder sobre mim?” ou: “Quem me fará prestar contas das minhas ações?”, pois o Senhor, com certeza, te castigará. 4Não digas: “Pequei, e que de mal me aconteceu?”, pois o Altíssimo é paciente. 5Não percas o temor por causa do perdão, cometendo pecado sobre pecado. 6Não digas: “A misericórdia do Senhor é grande, ele me perdoará a multidão dos meus pecados!”, 7pois dele procedem misericórdia e cólera, e sua ira se abate sobre os pecadores. 8Não demores em voltar para o Senhor, e não adies de um dia para outro, 9pois a sua cólera vem de repente e, no dia do castigo, serás aniquilado. 10Não te apoies em riquezas injustas, pois elas de nada te valerão no dia da desgraça.


Evangelho: Mc 9, 41-50


Naquele tempo, 41 disse Jesus aos seus discípulos: “Quem vos der a beber um copo de água, porque sois de Cristo, não ficará sem receber a sua recompensa. 42 E se alguém escandalizar um desses pequeninos que creem, melhor seria que fosse jogado no mar com uma pedra de moinho amarrada ao pescoço. 43 Se tua mão te leva a pecar, corta-a! 44 É melhor entrar na Vida sem uma das mãos, do que, tendo as duas, ir para o inferno, para o fogo que nunca se apaga. 45 Se teu pé te leva a pecar, corta-o! 46 É melhor entrar na Vida sem um dos pés, do que, tendo os dois, ser jogado no inferno. 47 Se teu olho te leva a pecar, arranca-o! É melhor entrar no Reino de Deus com um olho só, do que, tendo os dois, ser jogado no inferno, 48 ‘onde o verme deles não morre, e o fogo não se apaga’. 49 Pois todos hão de ser salgados pelo fogo. 50 Coisa boa é o sal. Mas se o sal se tornar insosso, com que lhe restituireis o tempero? Tende, pois, sal em vós mesmos e vivei em paz uns com os outros.
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Conversão Permanente é Sinal de Apoiar-Se Unicamente No Senhor, Nosso Salvador


Continuamos a acompanhar a leitura do Livro de Eclesiástico. Através do texto da Primeira Leitura o autor do Eclesiástico nos alerta para não nos apoiarmos em nada nem em nenhum homem a não ser no próprio Deus, nosso Salvador.


Através do texto da Primeira Leitura o sábio condena a falsa segurança que, frequentemente, o rico põe em suas riquezas, o poderoso em sua força e o pecador que não se arrepende de seus pecados na misericórdia de Deus.


Não é raro que o rico, orgulhoso de suas riquezas, acredita que suas riquezas materiais, pode bastar-se a si mesmo, e despreza os demais. Também o Sl 61(62),11 nos recomenda: “Não confieis na violência, nem espereis vãmente no roubo; crescendo vossas riquezas, não prendais nelas os vossos corações”. A razão é que são vãs e enganosas, de modo que no momento em que menos se espera, como declara Jesus (Lc 12,19-21), podem perder-se. A advertência vale sobretudo no caso em que as riquezas foram injustamente adquiridas, pois estas desparecem com mais facilidade depois de ter merecido duro castigo para o dia em que Deus descarrega sua ira sobre o pecador: “Não te apoies em riquezas injustas, pois elas de nada te valerão no dia da desgraça” (Eclo 5,10).


Da mesma maneira, o sábio faz uma advertência para o poderoso, pois o poderoso, muitas vezes, põe seu apoio e confiança na força pela qual se crê superior aos demais, abusando de seu poder para colocar em segundo lugar as más inclinações de seu coração: “Não digas: ´Quem terá poder sobre mim?” ou: “Quem me fará prestar contas das minhas ações?´, pois o Senhor, com certeza, te castigará”. O sábio adverte ao que se acha poderoso que há acima dele um Superior: Deus, que pedirá contas de seu poder e que castigará a arrogância e insolência dos poderosos, como fez com Nabucodonosor e outros muitos poderosos altivos e insolentes (Cf. Is 36:20; Dn 4:29).


A advertência é também dirigida ao pecador cínico que, ao ver que não aconteceu nada de mal depois que cometeu pecado, se sente tentado a perseverar em suas maldades. O sábio adverte a este tipo de pessoa que há de ter em conta que, se o Senhor não o castigou, não é por falta de poder nem porque deixa impune seu pecado e sim porque Deus é paciente, e quer dar tempo ao ímpio que se arrependa e se converta de seus pecados e assim Deus dará o perdão para seus pecados: “Não digas: “Pequei, e que de mal me aconteceu?”, pois o Altíssimo é paciente. 5Não percas o temor por causa do perdão, cometendo pecado sobre pecado. Não digas: “A misericórdia do Senhor é grande, ele me perdoará a multidão dos meus pecados!”, pois dele procedem misericórdia e cólera, e sua ira se abate sobre os pecadores. Não demores em voltar para o Senhor, e não adies de um dia para outro, pois a sua cólera vem de repente e, no dia do castigo, serás aniquilado”. Deus não quer a morte do pecador e sim que se arrependa e viva (cf. Sb 11:24; 2Pd 2:9).


Quem julga que os pecados serão demasiadamente fácil perdoados e quantas vezes os comete, se predispõe a cometê-los. Mas quem abriga uma dúvida prudente e razoável sobre o perdão divino, não se sentira tão tentado para cometer pecados. É certo que a misericórdia de Deus é muito grande, pois Deus está sempre disposto a perdoar nossos pecados quando nos arrependemos deles. Porém, Deus é também justo. Alguém pode se excluir da misericórdia divina quando persevera na pecado sem decidir arrepender-se. Quem abusar da bondade e da misericórdia de Deus, se encontrará numa vida sem piedade.


Em outras palavras, é preciso despojar-se da arrogância em que não se submete a nada. A arrogância é fazer-se lei conforme o próprio gosto e crer-se absoluto e podroso. Esta atitude geralmente é associada com a abundância de riquezas. A norma do arrogante são seus instintos e paixões, suas fantasias e caprichos.


É preciso despojar-se do pecador cínico que não se converte por não acontecer nada de ruim na sua vida apesar dos pecados cometidos e com isso, ele faz uma muralha de cegueira com suas próprias palavras e termina por converter em sua desgraça. Ao mesmo tempo, é preciso abandonar a negligencia pensando que Deus é misericórdia que perdoa de qualquer maneira os pecados cometidos continuamente sem nenhum arrependimento em nenhum momento de sua vida. Trata-se de uma ironia cruel, pois utiliza Deus contra Deus. Por isso, o sábio adverte: “Não demores em voltar para o Senhor, e não adies de um dia para outro, pois a sua cólera vem de repente e, no dia do castigo, serás aniquilado”.


O texto do Evangelho deste dia nos convida também a uma atitude ousada ou corajosa, inclusive, radical que se expressa com imagens quase agressivas: “Se tua mão te leva a pecar, corta-a!”.  Não podemos adiar ou prolongar nossa negligência para a conversão. Jesus Cisto nos diz: atua já! Essa “poda”, da qual fala São João (Jo 15,2) é o mesmo que nos ensina hoje o evangelista Marcos: há que soltar-se dos apegos, desembaraçar-se das complicações, afastar-se das relações não saudáveis. Atrás desta “poda”, feita por Deus ou iniciada por nós mesmos, há uma dupla e nobre motivação: necessitamos ser livres, precisamos ter um só Senhor. O cristão precisa ter agilidade para deixar-se conquistar por Deus que salva.


Somos Chamados a Viver Uma Vida Cristã Autenticamente.


1. Dignidade de Ser Discípulo de Jesus


Em Mc 9,38-41 encontramos algumas sentenças ligadas ao tema sobre “Em nome de Jesus” ou “por causa do nome de Jesus”.  Este tema foi preparado já em Mc 9,37 quando Jesus disse: “Quem acolher em meu nome uma dessas crianças, é a mim que estará acolhendo. Para Jesus se uma criança é acolhida “em meu nome” ou se alguém cura “em meu nome” é porque “é meu nome”. Se uma ação é feita “em meu nome” ou “por causa do meu nome”, então não pode ser proibida. Ao contrário, ele recebe sua recompensa.


Quem vos der a beber um copo de água, porque sois de Cristo, não ficará sem receber a sua recompensa”. “Em meu nome” (“porque sois de Cristo”), isto é, porque movidas pelo anúncio dos discípulos as pessoas começam a amar Cristo e sentem simpatia por Ele e sentem que nasce nelas a fé que lhes faz pressentirem a recompensa da salvação. “Em meu nome” porque ao dar qualquer coisa, como um copo de água, aos discípulos, querem agradar Cristo, identificando-os com Cristo. Ao realizar um gesto de acolhimento/acolhida para os discípulos, as pessoas querem acolher o próprio Cristo. “Porque sois de Cristo” expressa a convicção profunda dos primeiros cristãos. Os primeiros cristãos sabiam que já não podiam viver para si mesmos porque seu verdadeiro viver era Cristo (veja Fl 1,21: “Para mim o viver é Cristo...”). Quantas vezes São Paulo recorda esta verdade: “Vós sois de Cristo...” (1Cor 3,23; Rm 8,9; 2 Cor 10,7; etc.). No entanto, Jesus não somente quer nos dizer que somos seus, mas também como devemos tratar os irmãos na fé. Jesus Cristo não esquecerá nem sequer o menor gesto de caridade como dar um copo de água. Mas “ser de Cristo” não significa necessariamente ser do grupo que segue Cristo de perto, mas também significa estar em sintonia com Cristo na prática de levar a Boa Nova aos demais homens, especialmente aos excluídos e marginalizados.


“Um copo de água”. ...  Quase nada. É símbolo do menor serviço que pode ser prestado para alguém: tão somente um copo de água em razão de pertencer a Cristo. Jesus sublinha a dignidade extraordinária do “discípulo”: pertencer a Cristo. O menor dos crentes, o mais humilde discípulo de Jesus representa Jesus Cristo. Jesus se identifica com o menor dos cristãos na medida em que o próprio cristão se identifica com Cristo.


Não ficará sem receber a sua recompensa”, promete Jesus. É uma verdade surpreendente que Jesus repetirá e desenvolverá ao longo do discurso sobre o Juízo final (Mt 25,31-45). “Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes. E todas as vezes que deixastes de fazer isso a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer” dirá o Senhor nesse discurso (Mt 25,40.45). Jesus leva a sério até os pequenos gestos que fazemos para o bem do outro. Nada é pequeno para Jesus. O menor gesto de acolhida ou da caridade não ficará escondido aos olhos de Deus. “Não ficará sem receber a sua recompensa”. “Recompensa” não é algo que alcançamos por nossos próprios esforços, mas é sempre o dom de um Deus generoso. Deus dá seu dom independentemente de nossos esforços. Deus está livre diante dos esforços humanos. O que fazemos é o mínimo que podemos e devemos fazer: “Somos servos inúteis, fizemos apenas o que devíamos fazer” (Lc 17,10).


Ficamos pensando e perguntando: quantos gestos pequenos do dia a dia que deixamos de fazer para os outros! Quantas recompensas divinas que deixamos de receber por não termos prestado esses pequenos gestos fraternos! Um copo da água fresca oferecida ao irmão sedento não será esquecido por Deus.


2. Um Aviso Para Não Escandalizar


Depois do conselho positivo- “dar um copo de água” – Jesus nos dá um conselho de forma negativa: “E se alguém escandalizar um desses pequeninos que crêem, melhor seria que fosse jogado no mar com uma pedra de moinho amarrada ao pescoço”.


Na verdade é a mesma conduta: a atenção aos demais. Descobrimos aqui um novo aspecto de Jesus: sua capacidade de veemência. Ele usa palavras duríssimas para quem escandaliza os outros, isto é, aquele que leva os outros a pecar: “Melhor seria que fosse jogado no mar com uma pedra de moinho amarrada ao pescoço”.


“Se alguém escandalizar...”. Escandalizar significa obstaculizar alguém na fé, impedir alguém de continuar a crer em Jesus. Quem atua assim, faz-se dano imenso para si mesmo: “Melhor seria que fosse jogado no mar com uma pedra de moinho amarrada ao pescoço”. Jesus enfatiza, assim, sobre o grande dano para quem escandaliza os outros. Ao escandalizar os outros, a pessoa se mata a si mesma no sentido de privar-se da salvação.


Para Jesus pior que morrer é causar danos aos pequeninos, aos que não têm ambição de honra, aos que adotam uma atitude de serviço que é a condição para ser seguidor de Jesus Cristo (Mc 9,35). Aqui Jesus considera como escândalo quem pretende ser maior, ou quem pretende se colocar acima dos outros, que pretende ser servido em vez de servir.


3. Um Autêntico Cristão Evita O Mal E Saber Podar o Desnecessário Para Ser Salvo


“Se tua mão te leva a pecar, corta-a! É melhor entrar na Vida sem uma das mãos, do que, tendo as duas, ir para o inferno, para o fogo que nunca se apaga” (leia os vv. 43-47).


Há que fazer opções, por dolorosas que sejam, pois são opções entre o êxito e o fracasso da existência: toda atividade (simbolizada pela mão), toda conduta (simbolizada pelo pé) ou toda aspiração (simbolizada pelo olho), que busca prestigio e superioridade, está viciada e por isso, há que suprimi-la, pois põe em perigo a fidelidade à mensagem salvadora de Cristo e bloqueia o desenvolvimento pessoal.


A palavra do Senhor nos exige para renunciarmos radicalmente às insinuações do pecado e para cortarmos com rapidez, mesmo que seja muito doloroso (cortar mão e pé, arrancar olho), tudo que possa pôr em perigo a nossa salvação e a salvação dos demais (escândalo).


As imagens que Jesus usa são fortes: há que arrancar ou extirpar tudo que num homem, especialmente num cristão que se oponha à mensagem de Cristo e cause dano aos que querem ser fieis a Cristo. Somente esse tipo de decisão é que leva à vida, a opção contrária, à morte. “A vida” (Mc 9,43. 45) está em paralelo com “o Reino de Deus” (Mc 9,47). Por isso, trata-se de assegurar a plenitude de vida tanto no mundo presente como no futuro.


Portanto que saibamos levar em consideração nossos pequenos gestos de cada dia prestados aos outros não somente por motivos humanos e sim por ver no próximo o próprio Cristo. E que tenhamos sumo cuidado em não escandalizar, ou seja, em levar alguém a pecar, principalmente levar os inocentes e débeis a pecar, pois o próprio Cristo ficará também escandalizado. Para nos manter como autênticos cristãos nós necessitamos renunciar ao próprio egoísmo, à ambição de poder e à vontade desenfreada de domínio (superioridade). É preciso que haja o esquecimento de si para poder repartir com os outros tudo que temos e somos para que a fraternidade e a paz possam reinar a convivência. E que saibamos romper com toda a ocasião de pecado.


P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

22/02/2017: Cátedra de São Pedro
 

CÁTEDRA DE SÃO PEDRO E EXORTAÇÃO AOS PRESBÍTEROS

FESTA

22 fevereiro

Primeira Leitura: 1Pd 5,1-4

1 Aos anciãos que estão entre vós, exorto eu, que sou ancião como eles e testemunha dos sofrimentos de Cristo e participante da glória que há de ser revelada. 2 Apascentai o rebanho do Senhor que vos foi confiado, cuidando dele, não como por coação, mas de livre vontade, como Deus o quer, nem por torpe ganância, mas por devoção, 3 nem como senhores daqueles que vos couberam por sorte, mas, antes, como modelos do rebanho. 4 Assim, quando aparecer o supremo pastor, recebereis a coroa imarcescível da glória (texto da Bíblia versão Jerusalém).

Evangelho: Mt 16,13-19

Naquele tempo, 13Jesus foi à região de Cesareia de Filipe e ali perguntou aos seus discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” 14Eles responderam: “Alguns dizem que é João Batista; outros que é Elias; outros ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas”. 15Então Jesus lhes perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?” 16Simão Pedro respondeu: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. 17Respondendo, Jesus lhe disse: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. 18Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la. 19Eu te darei as chaves do Reino dos céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus”.
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Cátedra De São Pedro e Seu Significado

Celebramos hoje a festa da Cátedra de São Pedro. Trata-se de uma tradição muito antiga, testemunhada em Roma desde o século IV. Literalmente, a "cátedra" é a sede fixa do Bispo, posta na igreja matriz de uma Diocese, que por isso a igreja-sede do bispo é chamada "catedral", e constitui o símbolo da autoridade do Bispo e, em particular, do seu "magistério", ou seja, do ensinamento evangélico que ele, enquanto sucessor dos Apóstolos, é chamado a conservar e a transmitir à Comunidade cristã. Quando o Bispo toma posse da Igreja particular que lhe foi confiada, ele, com a mitra e o báculo, senta-se na cátedra. Como mestre e pastor daquela sede ele orientará o caminho dos fiéis da sua diocese, na fé, na esperança e na caridade exercendo sua missão de santificar, ensinar, e governar.

Pedro foi escolhido pelo próprio Senhor como o primeiro entre as partes ou Primus Inter Pares (Mt 16,13-19). Pedro começou o seu ministério em Jerusalém, depois da Ascensão do Senhor e do Pentecostes. A primeira "sede" da Igreja foi o Cenáculo, onde Pedro rezou juntamente com os outros discípulos para que fosse reservado um lugar especial a Simão Pedro. Em seguida, a sé de Pedro foi em Antioquia, cidade situada à margem do rio Oronte, na Síria, hoje na Turquia, naquela época terceira metrópole do império romano, depois de Roma e de Alexandria do Egito. Daquela cidade, evangelizada por Barnabé e Paulo, onde "os discípulos receberam, pela primeira vez, o nome de "cristãos"" (At 11, 26), onde, portanto, nasceu para nós o nome de cristãos, Pedro foi o primeiro Bispo. Dali, a Providência conduziu Pedro até Roma. Portanto, temos o caminho de Jerusalém, Igreja nascente, em Antioquia, primeiro centro da Igreja acolhida pelos pagãos e ainda unida com a Igreja proveniente dos Judeus. Depois Pedro dirigiu-se para Roma, centro do Império, símbolo do "Orbis" a "Urbs" que expressa o "Orbis" a terra onde ele terminou com o martírio a sua corrida ao serviço do Evangelho. Por isso a sede de Roma, que tinha recebido a maior honra, acolheu também o ônus confiado por Cristo a Pedro, de se colocar ao serviço de todas as Igrejas particulares, para a edificação e a unidade de todo o Povo de Deus.

A sede de Roma, depois destas migrações de São Pedro, torna-se assim reconhecida como a do sucessor de Pedro, e a "cátedra" do seu Bispo representou a “cátedra” do Apóstolo encarregado por Cristo, de apascentar todo o seu rebanho. Portanto, A cátedra do Bispo de Roma representa não apenas o seu serviço à comunidade romana, mas a sua missão de guia de todo o Povo de Deus.

Celebrar a "Cátedra" de Pedro, como fazemos hoje, significa, portanto, atribuir-lhe um forte significado espiritual e reconhecer-lhe um sinal privilegiado do amor de Deus, Pastor bom e eterno, que quer reunir toda a sua Igreja e orientá-la no caminho da salvação.

Crer No Deus Vivo e Vivificante

O texto do evangelho lido na festa da Cátedra de São Pedro fala da profissão da fé de Pedro. Para Pedro Jesus é “o Messias, o Filho do Deus vivo”.

As palavras de Pedro são uma perfeita profissão da fé cristã. Jesus não é somente “o Messias de Deus”, isto é, “o Ungido por Deus”. Jesus é também “o Filho de Deus vivo”. Aqui, neste texto, “Filho” não é somente aquele que nasceu de Deus e sim aquele que atua como o próprio Deus. “O Filho de Deus” equivale à fórmula “Deus entre nós”, o Emanuel (Mt 1,23;18,10;28,20). “Vivo”, na expressão “o Filho de Deu vivo” (cf. Is 37,4.17; Os 2,1; Dn 6,21) opõe o Deus verdadeiro aos ídolos mortos; significa esse Deus possui a vida e a comunica para o homem. Trata-se de um Deus vivo e vivificante, Deus ativo e salvador (Dt 5,26; Sl 83[84],3; Jr 5,2). Também o Filho é, portanto, Doador de vida (Jo 10,10) e vencedor da morte (Jo 11,25-26).

Crer no Deus vivo e vivificante, Doador da vida, revelado por Jesus, implica proteger ou defender a vida em todas as suas instâncias: desde sua concepção, sua duração até seu término neste mundo. Somente quem crê no Deus vivo e vivificante pode acreditar na vida eterna, pois a vida não acaba com a morte, pois Deus é a vida (Jo 11,25; 14,6).

“E vós, quem dizeis que Sou?”. Esta pergunta deve ser entendida no sentido semita. Trata-se, neste sentido, de uma pergunta sobre a existência de Jesus e sua missão histórica. A resposta a esta pergunta inclui necessariamente uma opção de adesão a Jesus.

Como resposta à confissão de Pedro, Jesus constitui Pedro o alicerce sobre o qual edifica a Sua Igreja. Jesus também garante que a Sua Igreja jamais será destruída pelos poderes da morte. Temos que manter nossa fé neste Deus vivo e vivificante mesmo que nós, como a Igreja do senhor, nos encontremos nas situações difíceis, do ponto de vista humano, pois para Deus nada é impossível (Lc 1,37; cf. Rm 8,31-39).

Três marcas que fazem de Pedro que se encontra com Cristo, o Pedro da fé: espontaneidade, franqueza e confiança. Três atitudes que tem que acompanhar também nosso processo para aprofundar nosso descobrimento-encontro com o Filho de Deus vivo. Três qualidades que ajudam cada um a crescer como Igreja cimentada na rocha do Apostolo Pedro.

A confissão de Pedro, espontânea, franca e confiada constrói Igreja. Com esta mesma confissão podemos fazer a Igreja crescer. Todos nós somos do mesmo rebanho. Nossa tarefa permanente é fazer o rebanho sempre unido. Para isso, precisamos estar unidos a Cristo, pois sem ele nada podemos fazer (Jo 15,5). Quando nosso coração não está unido a Cristo, criaremos divisão e desunião entre nós.

Exortação Para Os Dirigentes Da Comunidade Cristã

O texto da Primeira Leitura na Festa da Cátedra de São Pedro é tirado da Primeira Carta de São Pedro.

A Carta é dirigida às comunidades, enquanto tais, a todos seus membros, e, por isso, a Carta usa a expressão “entre vós”: “Aos anciãos que estão entre vós, exorto eu, que sou ancião como eles e testemunha dos sofrimentos de Cristo e participante da glória que há de ser revelada”.

Pedro se dirige aos anciãos e ele próprio se designa, em união fraternal, como um dos anciãos, como eles. “Ancião” é um cargo e designa um sacerdócio especial distinto do sacerdócio comum, do “sacerdócio santo” (1Pd 2,5), que formam todos os cristãos.

Nesta exortação para os dirigentes Pedro usa a palavra “apascentar”: “Apascentai o rebanho do Senhor que vos foi confiado, cuidando dele...”. O próprio Pedro recebeu do Senhor este cargo: “Apascentai minhas ovelhas” (Jo 21,16). No AT se falam das ideias semelhantes: “Apascentar” implica soberania de rei e guia compreensivo. Aquele que apascenta tem que cuidar do pasto e da água para o rebanho. Quem é dirigente (ancião) da comunidade deve proporcionar para seu rebanho alimento espiritual, como Jesus, que se compadecia das multidões e as instruía, pois elas eram “como ovelhas sem pastor” (Mc 6,34). Nesta tarefa de apascentar, o ancião deve ter a solicitude especial de cuidar dos pequenos e dos débeis e de buscar os extraviados. Além disso, a exemplo de Cristo, o ancião há de estar disposto a dar sua vida por suas ovelhas.

O pastor é o chefe do rebanho, de quem depende a prosperidade do rebanho. Um pastor sem rebanho se perde. Por isso, a exortação aos anciãos para apascentar é significativo. Pedro está consciente de sua posição privilegiada, mas que é uma grande responsabilidade, ao mesmo tempo.

O encargo geral de apascentar o rebanho de Deus se desenvolve em três exortações particulares: “... cuidando dele, não como por coação, mas de livre vontade, como Deus o quer”.

Aqui se contrapõe a imagem do bom pastor à do mau pastor. A primeira instrução pressupõe a instituição oficial dos anciãos. A eles são exortados para não usar força no exercer do seu cargo. Com as palavras do bom grado se indica um cumprimento gozoso do dever, seu empenho voluntário e espontâneo. Essa opção voluntária é “segundo Deus”, conforme a vontade de Deus e é sinal de união com Deus. O Filho de Deus deu voluntariamente “sua vida pelas ovelhas” (Jo 10,11).

Em segundo lugar: “... nem por torpe ganância, mas por devoção (generosidade)”. Podemos traduzir esta frase com a seguinte expressão: “Não apascenta o rebanho para se aproveitar dele!”. Naquele tempo parece ter sido um abuso do clero (anciãos) em tirar proveito a custo da comunidade. A exortação pressupõe que os anciãos recebiam doações voluntarias dos fieis como, conforme a norma do Senhor: “O operário é digno do seu sustento” (Mt 10,10). Pedro não recusa a remuneração dos anciãos pela comunidade. O que reprova é a avidez de lucro, a cobiça dos clérigos (anciãos). Quando os membros da comunidade solicitam serviços de anúncio da Palavra ou administração de sacramentos, devem prestar-se com generosidade, sem deixar de ouvir nem uma palavra de compensação ou de honorários.

Em terceiro lugar: “... nem como senhores daqueles que vos couberam por sorte, mas, antes, como modelos do rebanho”. Aqui Pedro apresenta o terceiro aspecto da missão do pastor (ancião): apascentar. Os anciãos não devem dominar como ditadores sobre seus comandados. A palavra que se usa aqui “lote”, uma parcela de terra. Trata-se de possuir uma propriedade por sorte. Assim Pedro exorta aos anciãos para não tornar a comunidade sua propriedade, pois a comunidade é propriedade e herança de Deus: “Apascenta minhas ovelhas”, disse o Senhor. “São minhas ovelhas” e não “são suas ovelhas”. Cuidar bem das ovelhas do Senhor manifesta o respeito e o amor ao Dono das ovelhas que é o próprio Senhor. Desprezar as ovelhas do Senhor significa desprezar o próprio Senhor que é o Dono das ovelhas.

Os anciãos devem dar à comunidade exemplo de fiel cumprimento do dever. Para guiar o rebanho com exemplo requer-se o cumprimento dos deveres cotidianos com toda humildade e tendo diante dos olhos a exortação do próprio Senhor: “Aquele que quiser ser o primeiro entre vós, seja o servo de todos” (Mc 10,44).

É bom que cada dirigente, cada sacerdote, cada bispo etc.. se faça a seguinte pergunta: “Será que eu apascento meus irmãos da comunidade a mim confiados?”. “Será que, como dirigente, sacerdote, bispo, eu cuido bem das ovelhas do Senhor a mim confiadas?”. Ou eu me torno aproveitador da comunidade sem cuidar dela? Se for assim, eu terei dificuldade de aceitar a responsabilidade de trabalhar numas comunidades de poucos recursos do ponto de vista financeiro.
 
P. Vitus Gustama,svd
21/02/2017
 
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SERVIR NO ESPÍRITO DO SENHOR

Terça-Feira da VII Semana Comum

Primeira Leitura: Eclo 2,1-13

1 Filho, se decidires servir ao Senhor, permanece na justiça e no temor e prepara a tua alma para a provação. 2 Mantém o teu coração firme e sê constante, inclina teu ouvido e acolhe as palavras de inteligência, e não te assustes no momento da contrariedade. 3 Suporta as demoras de Deus, agarra-te a ele e não o deixes, para que sejas sábio em teus caminhos. 4 Tudo o que te acontecer, aceita-o, e sê constante na dor; e nas contrariedades de tua pobre condição, sê paciente. 5 Pois é no fogo que o ouro e a prata são provados e, no cadinho da humilhação, os homens agradáveis a Deus. 6 Crê em Deus, e ele cuidará de ti; endireita os teus caminhos e espera nele. Conserva o seu temor, e nele envelhecerás. 7 Vós que temeis o Senhor, contai com a sua misericórdia e não vos desvieis, para não cair. 8 Vós, que temeis o Senhor, confiai nele, e a recompensa não vos faltará. 9 Vós, que temeis o Senhor, esperai coisas boas: alegria duradoura e misericórdia. 10 Vós, que temeis o Senhor, amai-o, e vossos corações ficarão iluminados. 11 Considerai, filhos, as gerações passadas e vede: Quem confiou no Senhor e ficou desiludido? 12 Quem permaneceu nos seus mandamentos e foi abandonado? Quem o invocou e foi por ele desprezado? 13 Pois o Senhor é compassivo e misericordioso, perdoa os pecados no tempo da tribulação, e protege a todos os que o procuram com sinceridade.

Evangelho: Mc 9,30-37

Naquele tempo, 30 Jesus e seus discípulos atravessavam a Galileia. Ele não queria que ninguém soubesse disso, 31pois estava ensinando a seus discípulos. E dizia-lhes: “O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens, e eles o matarão, mas, três dias após sua morte, ele ressuscitará”. 32 Os discípulos, porém, não compreendiam estas palavras e tinham medo de perguntar. 33 Eles chegaram a Cafarnaum. Estando em casa, Jesus perguntou-lhes: “Que discutíeis pelo caminho?” 34 Eles, porém, ficaram calados, pois pelo caminho tinham discutido quem era o maior. 35 Jesus sentou-se, chamou os doze e lhes disse: “Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos!” 36 Em seguida, pegou uma criança, colocou-a no meio deles, e abraçando-a disse: 37“Quem acolher em meu nome uma dessas crianças, é a mim que estará acolhendo. E quem me acolher, está acolhendo, não a mim, mas àquele que me enviou”.
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Servir Ao Senhor Com Paciência e Esperança

Filho, se decidires servir ao Senhor, permanece na justiça e no temor e prepara a tua alma para a provação. Mantém o teu coração firme e sê constante, inclina teu ouvido e acolhe as palavras de inteligência, e não te assustes no momento da contrariedade. Suporta as demoras de Deus, agarra-te a ele e não o deixes, para que sejas sábio em teus caminhos”, lemos na Primeira Leitura o conselho do autor do Eclesiástico.

“Se decidires servir ao Senhor...” Serviremos ao Senhor quando servirmos ao irmão, especialmente aos mais necessitados com quem o Senhor se identifica (cf. Mt 25,40.45). Por isso, servir aos demais é o centro do cristianismo. O próprio Senhor veio ao mundo para servir e não para ser servido e entregar sua vida para resgatar os homens (Mc 10,45). Servir não é buscar a si mesmo nem pretender ser protagonista no ato de servir, pois a questão é servir para salvar. Quem serve deve estar em segundo plano. Servir é fazer o outro crescer. Servir é dar a vida. O segredo do serviço é a caridade para todos. Se quisermos servir aos outros, verdadeiramente, nós devemos nos esquecer de nós mesmos e procurar fazer os outros felizes. No verdadeiro serviço, quem serve não se pergunta se é feliz e sim se as pessoas ao redor são verdadeiramente felizes com seu serviço e sua presença.

Servir aos demais não é uma loucura, pois aceitar ser cristão significa querer imitar Cristo que “não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc 10,45). Ele morreu para nos salvar.

Portanto, tomemos cuidado para que a responsabilidade que assumimos na Igreja não se torne para nós uma ocasião da soberba, da vaidade, da prepotência e do desejo de aparecer.

O autor do Eclesiástico acrescenta: “Filho, se decidires servir ao Senhor,... prepara a tua alma para a provação”. Trata-se de uma advertência realista e aplausível. Os que nos amam verdadeiramente, falam assim. “Prepara a tua alma para a provação”. Os que conhecem o caminho e sabem que não é carinho ocultar as dificuldades nem é doçura criar ilusões enganosas. “Prepara-te para a prova! Não te assustas!”.

Todo homem que quiser viver conforme a vontade de Deus, haverá de preparar-se para uma luta constante contra as provações. A virtude se aperfeiçoa na contrariedade. As provas nos fazem maduros e nos purificam como ouro no fogo. As provações nos fazem pensar, nos convidam a relativizar tantas coisas e nos dão importância às que valem a pena. Se ficarmos desanimados é porque não confiamos suficientemente em Deus. Com o Senhor não há dificuldade insuperável.  Com a luz do Senhor vamos adquirindo a verdadeira sabedoria que nos traz também a felicidade. Há momentos de obscuridade, mas à noite sempre lhe segue a aurora. Há crises, mas os túneis têm seu final e aparece a luz. Há Sexta-Feira da Paixão, é trágica, mas desemboca no Domingo da ressurreição.

A fonte da força cristã está na seguinte frase: “Suporta as demoras de Deus, agarra-te a ele e não o deixes, para que sejas sábio em teus caminhos”. A chave não é: “Sejas um super homem!”, nem tampouco “Faz de conta que não aconteça nada!”. A grande chave para seguir adiante é “Agarra-te ao Senhor e não O deixes para que sejas sábio em teus caminhos”.

Servir Ao Senhor Com Temor

Conserva o seu temor, e nele envelhecerás. Vós que temeis o Senhor, contai com a sua misericórdia e não vos desvieis, para não cair. Vós, que temeis o Senhor, confiai nele, e a recompensa não vos faltará. Vós, que temeis o Senhor, esperai coisas boas: alegria duradoura e misericórdia. Vós, que temeis o Senhor, amai-o, e vossos corações ficarão iluminados”, assim lemos na Primeira Leitura.

Geralmente, a teologia distingue três tipos de temor: temor mundano, temor servil e temor filial.

O temor mundano vê em Deus unicamente o autor de castigos, e um obstáculo para a realização de bens terrenos, vedados pela lei divina. Este temor considera que o mal absoluto não é o pecado e sim a pena com que Deus, inevitavelmente, reordena seu fim para as criaturas rebeldes.

Há também o temor servil. No temor servil há medo de pena ou do castigo doloroso. Posto que é bom temer o que se deve temer. Trata-se de um medo moralmente justificado. O que há de mal neste temor não é o próprio temor e sim o servilismo, segundo Santo Tomás de Aquino, em que não se atua com liberdade e por amor, e sim se atua quase à força por medo de castigo doloroso.

Por fim, há temor filial. O temor filial nasce do amor a Deus. É o medo diante da possibilidade de ficar separado do Bem Supremo. Seu objetivo imediato, portanto, é o pecado (ou a culpa) que é considerado como único mal absoluto. Este temor leva consigo uma atitude de respeito e reverência diante de nosso Criador e Salvador de Quem dependemos em tudo. Mas não se trata de uma reverência formal, mas trata-se de uma reverência cheia de sinceridade e confiança que se funda na realidade da filiação divina. Quanto mais cresce o amor a Deus, mais diminuirá o medo da pena ou do castigo. São João nos relembra: “No amor não há temor; ao contrário: o perfeito amor lança fora o temor, porque o temor implica castigo, e o que teme não chegou à perfeição do amor” (1Jo 4,18).

O temor filial é também um dos dons do Espírito Santo pelo qual a alma se refugia sob a proteção divina, abandonando qualquer outro motivo de segurança e confiança que seja o próprio Deus. Paradoxalmente, o dom de temor de Deus dá à vida cristã um tom de coragem e de ousadia: não há nada que possa atemorizar, porque não há nada que possa nos separar do amor de Deus (cf. Rm 8,35-39).

Os temerosos de Deus (temor filial) podem gloriar-se da amizade e da proteção de Deus, de possuir o princípio da sabedoria pela qual vem a ser para eles uma fonte de alegria intensa e desbordante: “Vós, que temeis o Senhor, esperai coisas boas: alegria duradoura e misericórdia”. O temor de Deus defende os cristãos de praticar o mal e os induz à prática do bem, o que lhes proporciona uma grande paz e gozo interior. Este temor de Deus é o princípio da sabedoria, porque induz o homem ao cumprimento da vontade de Deus.

Renúncia e Entrega Tal De Nossa Vida Tornam-Nos Colaboradores de Cristo

Pela segunda vez Jesus revela aos seus discípulos sua próxima Paixão (Mc 8,31-33; 10,31-34). Ao mesmo tempo ele abandona deliberadamente a pregação à multidão (Mc 9,30) incapaz de compreendê-Lo para se dedicar exclusivamente à formação definitiva dos discípulos: “Ele não queria que ninguém soubesse disso, pois estava ensinando a seus discípulos”.

Ensinar é uma das preocupações de Jesus nos evangelhos, especialmente no evangelho de Marcos (Mc 1,22; 4,2; 6,2; 9,31 etc..). Jesus Cristo é a Palavra divina (Jo 1,1). Jesus é a Palavra inesgotável de Deus para se comunicar com os seres humanos. Como a Palavra divina, as palavras de Jesus são sempre promessa e expressão de vida. Através de seu ato e atividade de ensinar Jesus quer que os seus ouvintes cresçam na liberdade e dignidade tendo consciência critica sobre a realidade ao seu redor (cf. Mc 1,22).

Cada cristão é chamado a ser educador-profeta. Os profetas falam em nome de Deus, são Seus porta-vozes que sacudam as consciências, levantem as vidas de mediocridade, de desesperança, do tédio e de insensibilidade. Todo profeta é educador e todo educador cristão é chamado a ser um profeta. A educação é, portanto, uma vocação de serviço. Cada cristão, cada educador cristão é chamado a transformar cada lugar, cada escola em lugares de vida nos quais se aprende a viver e conviver, a desfrutar a vida e a dignidade, a defender a vida, a combater tudo o que ameace a vida.

Em seguida, Marcos nos relatou sobre o anúncio da Paixão, morte e ressurreição de Jesus. Ao anunciar pela segunda vez aos seus discípulos sua paixão e morte Jesus quer educá-los sobre o que significa seguir a Jesus Cristo. Mas os seus não estão dispostos a atender o que seu Mestre quer dizer ou ensinando. O que lhes preocupa é “quem será o mais importante”. Cada educador, cada mestre precisa ter paciência em ensinar ou educar. É um trabalho de serviço. Um servo está sempre disposto e disponível para atender a seu senhor.

Para acabar com a ambição dos discípulos de quererem ocupar primeiros lugares Jesus dá algumas lições (ensinar) sobre o estilo de vida para quem quiser ser seu discípulo. Jesus marca as linhas fundamentais da espiritualidade que se deve respirar qualquer comunidade cristã. A idéia-mestra é esta: “Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos!”. Isto é, ser o servidor de todos.

Para acentuar a lição dada aos discípulos Jesus põe uma criança (um menino) no meio deles:Em seguida, pegou uma criança, colocou-a no meio deles, e abraçando-a disse: ‘Quem acolher em meu nome uma dessas crianças, é a mim que estará acolhendo. E quem me acolher, está acolhendo, não a mim, mas àquele que me enviou’”. Jesus utiliza uma estratégia pedagógica: coloca um menino no meio e o abraça. Um menino! Uma criança! Quantas coisas diz a imagem deste menino abraçado por Jesus! É um abraço com que Deus abriga, anima e fortalece o novo começo (menino/ criança). É o abraço que envolve toda a confiança, toda a ternura, toda a proximidade do Senhor para quem quiser ser verdadeiro discípulo, e não prematuro mestre.

A figura bíblica do “menino” ou “criança” é símbolo de marginalização e indefesa. No tempo de Jesus, um menino era símbolo de ignorância, imaturidade e insignificância. Um menino era equiparava com os escravos. No entanto, por seu grau de dependência o menino se converte em preocupação permanente para seus progenitores sem os quais o menino não sobreviveria ou não receberia uma boa educação. Assim, o menor se converte no mais importante porque requer a atenção e o cuidado dos maiores. É uma lição viva de pequenez e de humildade. Ser simples é ser modesto, singelo, puro, desprovido de elementos acessórios, isento de significações secundárias, sem luxo nem ostentação. Ser humilde consiste em manifestar a virtude de conhecer suas próprias limitações. É reconhecer ser pó, mas é pó vivente, pois Deus soprou seu espírito nele que o capacita a viver na espera divina.

Por isso, a grandeza do homem está na humildade. “Quanto mais humildes, maiores” dizia Santo Agostinho. Mas “simular humildade é a maior das soberbas”, acrescentou Santo Agostinho. A paz florescerá em qualquer comunidade cristã se seus membros fazem seu o espírito evangélico de humildade e de simplicidade. O próprio Jesus serve de exemplo, pois sua vida está na sua atitude de entrega para a salvação de todos.

Depois que colocou a criança ou o menino no meio dos discípulos, Jesus pronunciou a seguinte frase: ““Quem acolher em meu nome uma dessas crianças, é a mim que estará acolhendo. E quem me acolher, está acolhendo, não a mim, mas àquele que me enviou”. Esta sentença nos recorda a parábola do juízo final (Mt 25,31-46) e o final do discurso missionário (Mt 10,42). Assim a criança aqui assume um sentido novo. Não é mais a criança em sentido próprio e sim o símbolo do necessitado. É o sedento, o faminto, desnudo, o prisioneiro, o marginalizado.

Também podemos ter dificuldades em querer entender a lição que Jesus deu aos discípulos. Tendemos a ocupar os primeiros lugares, a buscar nossos interesses, a desprezar as pessoas que contam pouco na sociedade e das pessoas que não podemos esperar grandes coisas.

Se quisermos colaborar com Jesus Cristo e fazer algo válido na vida, temos que contar em nosso programa de vida com a renúncia e a entrega, com a humildade e a simplicidade. O desejo de poder e a busca dos próprios interesses fazem impossíveis a renúncia, a entrega e impossibilita o cristão a servir aos demais. Um cristão que não serve não serve como cristão. Uma Igreja que não serve, não serve para nada. Servir pela salvação dos demais é o centro do cristianismo. Para sermos felizes temos que fazer os outros felizes. A competitividade faz desaparecer a solidariedade, a compaixão, a igualdade e a colaboração. A competitividade sempre torce para que a vida do outro não dê certo para que ele possa estar em destaque solitariamente para ser adorado pelos demais.

Servir é adorar a Deus em ação. Servir é a oração e a adoração colocadas na prática do amor fraterno. Servir é fazer algo de bom sem esperar nada de troca ou de reconhecimento. Renunciar a ser o servidor, a ser o pequeno significa renunciar Jesus, porque somente quem acolhe sua vocação de serviço como se acolhe um pequeno (criança), acolherá Jesus e o próprio Deus que o enviou. O poder e o serviço se excluem. A ambição de poder é o câncer do serviço. O poder pode servir para muitas coisas, mas não serve para tornar bons os homens. Geralmente os maus líderes produzem os maus funcionários. Um coração corrompido é ninho de discórdia. Uma mente obcecada nunca ilumina bem os caminhos.

P. Vitus Gustama,svd