sábado, 3 de dezembro de 2016

DOMINGO,04/12/2016

CONVERSÃO É O MEIO PARA VOLTAR AO MUNDO SAGRADO E À FRATERNIDADE  


II DOMINGO DO ADVENTO ANO “C”




I Leitura: Br 5,1-9


1Despe, ó Jerusalém, a veste de luto e de aflição, e reveste, para sempre, os adornos da glória vinda de Deus. 2Cobre-te com o manto da justiça que vem de Deus e põe na cabeça o diadema da glória do Eterno. 3Deus mostrará teu esplendor, ó Jerusalém, a todos os que estão debaixo do céu. 4Receberás de Deus este nome para sempre: “Paz-da-justiça e glória-da-piedade”. 5Levanta-te, Jerusalém, põe-te no alto e olha para o Oriente! Vê teus filhos reunidos pela voz do Santo, desde o poente até o levante, jubilosos por Deus ter-se lembrado deles. 6Saíram de ti, caminhando a pé, levados pelos inimigos. Deus os devolve a ti, conduzidos com honras, como príncipes reais. 7Deus ordenou que se abaixassem todos os altos montes e as colinas eternas, e se enchessem os vales, para aplainar a terra, a fim de que Israel caminhe com segurança, sob a glória de Deus. 8As florestas e todas as árvores odoríferas darão sombra a Israel, por ordem de Deus.  9Sim, Deus guiará Israel, com alegria, à luz de sua glória, manifestando a misericórdia e a justiça que dele procedem.


II Leitura: Fl 1,4-6.8-11


Irmãos: 4Sempre em todas as minhas orações rezo por vós, com alegria, 5por causa da vossa comunhão conosco na divulgação do Evangelho, desde o primeiro dia até agora. 6Tenho a certeza de que aquele que começou em vós uma boa obra, há de levá-la à perfeição até o dia de Cristo Jesus. 8Deus é testemunha de que tenho saudade de todos vós, com a ternura de Cristo Jesus. 9E isto eu peço a Deus: que o vosso amor cresça sempre mais, em todo o conhecimento e experiência, 10para discernirdes o que é melhor. E assim ficareis puros e sem defeito para o dia de Cristo, 11cheios do fruto da justiça que nos vem por Jesus Cristo, para a glória e o louvor de Deus.


Evangelho: Lc 3,1-6


1No décimo quinto ano do império de Tibério César, quando Pôncio Pilatos era governador da Judeia, Herodes administrava a Galileia, seu irmão Filipe, as regiões da Itureia e Traconítide, e Lisânias a Abilene; 2quando Anás e Caifás eram sumos sacerdotes, foi então que a palavra de Deus foi dirigida a João, o filho de Zacarias, no deserto. 3E ele percorreu toda a região do Jordão, pregando um batismo de conversão para o perdão dos pecados, 4como está escrito no Livro das palavras do profeta Isaías: “Esta é a voz daquele que grita no deserto: ‘preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas. 5Todo vale será aterrado, toda montanha e colina serão rebaixadas; as passagens tortuosas ficarão retas e os caminhos acidentados serão aplainados. 6E todas as pessoas verão a salvação de Deus’”.
---------------------------


O nosso texto é dividido em duas partes claramente distintas: 1). Lc 3,1-2; 2). Lc 3,3-6.


A Salvação É Oferecida a Todos (Lc 3,1-2)


Nestes dois primeiros versículos Lucas apresenta uma insólita datação tríplice: primeiro, Lc menciona o reinado do imperador romano, Tibério e a autoridade romana local na pessoa de Pôncio Pilatos que foi governador de Judéia do ano 26 até 36 d.C. Segundo, menciona os governantes nativos, das regiões onde teve lugar a maior parte da atividade de Jesus, os dois filhos de Herodes o Grande: Herodes Antipas, “tetrarca” (originalmente, tetra + arche que significa “governante de uma quarta parte de um reino”) de Galiléia, e Filipe, tetrarca do outro lado do rio Jordão nas regiões montanhosas de Iturea e Traconítide. E finalmente, Lc menciona Anás e Caifás, chefes dos sacerdotes de Jerusalém.


Ao colocar todas essas informações Lucas quer nos dizer que a vinda do Senhor para este mundo tem um alcance universal como também a missão de seu mensageiro. Esta intenção se repete no v.6 quando Lc prolonga a citação de Is 40,3-5: “Todas as pessoas verão a salvação de Deus”. Evidentemente Lucas é um evangelista universalista. Para ele a salvação é oferecida por Deus para todas as classes sociais: ricos ou pobres, homens ou mulheres. Em outras palavras, Deus oferece a salvação para todos os homens. Ninguém está excluído do convite salvífico de Deus. Se o homem não der resposta positiva a este convite, o homem se exclui por si da salvação, pois da parte de Deus que todos sejam salvos (cf. 1Tm 2,4).


Estes dois primeiros versículos, que apresentam uma solene introdução histórica, também tem por finalidade de colocar a missão de João Batista num contexto histórico. E indiretamente, esta introdução situa também o começo do novo período salvífico, o tempo de Jesus. Embora isto não possa ser entendido como uma data exata do aparecimento de João na cena de Palestina, nem, consequentemente, uma data exata do começo do ministério de Jesus (cf. J. F. Fitzmyer: The Gospel According To Luke I-IX p.453). É uma descrição da situação de Palestina na qual aconteceram o aparecimento e a inauguração de sua missão. Por isso, o objetivo principal desta passagem no próprio evangelho é apresentar João Batista como uma pessoa chamada por Deus para preparar a inauguração do tempo de salvação e para apresentá-lo como um pregador itinerante que faz pronto (preparar) o caminho do Senhor.


Ao apresentar o contexto histórico do aparecimento de João Batista, Lucas quer nos chamar a atenção de que o centro da história que dá valor e sentido ao processo dos acontecimentos históricos, não é o poder político mundial (Tibério César) nem o poder religioso e político local, palestinense, os pontífices de Jerusalém ou vassalos de Roma, mas a Palavra de Deus que chega a João: “...a Palavra de Deus foi dirigida a João, filho de Zacarias, no deserto” (v.2 cf. também Lc 1,80). Este v.2 faz-nos lembrar do chamado de Deus aos profetas do Antigo Testamento, como Isaías (Is 38,4) ou Jeremias (Jr 13,3). Com esta alusão, Lucas quer relatar que João Batista tem uma figura e característica de um profeta. Segundo Lucas João Batista pertence ainda ao Antigo Testamento. O Antigo Testamento e João prepararam a novidade, mas não produziram. O fim da atividade de João marca o início da de Jesus.


E a Palavra de Deus foi dirigida a João Batista no deserto. O deserto representa o vazio, a ausência. No deserto o povo de Israel assimilaram muitas lições: aprenderam a desfazer-se de tudo o que é supérfluo para não ficar supercarregado na passagem do deserto rumo a terra prometida, aprenderam a ser solidários e partilhar tudo com os irmãos da jornada e aprenderam, sobretudo, a confiar em Deus, pois eles se encontram no deserto. Certamente no Deserto Deus conduz seu povo a fim de dar-lhe sensibilidade à Sua voz e trabalhar pedagogicamente a dureza do seu coração. O deserto é o lugar do agir divino.


Para não sermos levados por uma sociedade corrupta, injusta e opressora, precisamos criar os nossos momentos de deserto diariamente para que tenhamos a sensibilidade de ouvir a chamada de Deus a exemplo de João Batista. Somente assim seremos profetas que têm credibilidade de anunciar a justiça e denunciar a injustiça, a corrupção. A corrupção e assim por diante.


Além disso, ao situar a pregação de João Batista dentro do seu momento histórico (15º ano do reinado d Tibério), Lucas quer nos dizer que Deus não grita do céu para comunicar ou transmitir sua mensagem, mas Ele se manifesta e nos faz seu chamado dentro da situação histórica ou concreta de cada um. A salvação de Deus, que vem com Jesus, não é algo intemporal, mas insere-se numa história e numa geografia muito concreta. Ninguém se salva, ou constrói a esperança, ignorando a realidade em que vive. Deus certamente fala através da realidade, das pessoas e dos acontecimentos. Deus seus apelos todos os dias para cada um de nós. Não há nenhum dia que não tenha apelo de Deus. Basta pararmos para decifrar a mensagem de Deus através de todos os sinais e acontecimentos. Cabe a cada um perguntar, portanto, o que e como é que Deus está falando comigo hoje através dos fatos concretos da história da minha vida, da minha família, da minha comunidade etc. E com que e com quem mais Deus pode estar falando para mim? Qual é o apelo de Deus para mim hoje?


Chamados à Conversão (Lc 3,3-6)


João Batista foi um profeta inspirado, que rompeu o longo silêncio mantido durante séculos desde os dias do profeta Malaquias. Como o livro do profeta Malaquias (Ml 3) termina com uma referência à vinda do profeta Elias que terá como missão de advertir a Israel sobre o dia de juízo, assim também a era do NT se abre com a voz de João Batista que grita esta advertência: “Preparai o caminho do Senhor. Endireitai suas veredas. Todo vale será aterrado, toda montanha e colina serão rebaixadas; as passagens tortuosas ficarão retas e os caminhos acidentados serão aplainados. E todas as pessoas verão a salvação de Deus” (Lc 3,4-6).


Em todas as religiões tradicionais, a aproximação do divino desperta no homem um sentimento mais ou menos profundo da culpabilidade, como se o homem se afastasse do mundo do sagrado para o qual ele foi criado. Diante do divino, do sagrado o homem logo percebe as faltas cometidas, as regras transgredidas, os mandamentos não cumpridos. Para voltar a viver no mundo sagrado o homem recorre a ritos penitenciais para reentrar na via que conduz à salvação. Em outras palavras, é preciso converter-se para poder “ver a salvação de Deus”.


O evangelho de Lucas demonstra o maior interesse na ideia da conversão do que Marcos e Mateus. Isso já seria evidente pelo fato de as palavras básicas para conversão ocorrem com mais frequência: quatorze vezes (metanoia, cinco vezes: literalmente significa “mudança de mentalidade”, metanoeo, nove vezes). Além disso, Lucas desenvolve o entendimento da conversão, ligando-a de modo mais explícito a outros temas, em especial perdão e reconciliação, salvação, a misericórdia divina e a alegria.


Esta ligação especial que Lucas faz da conversão com o perdão dos pecados ecoa na pregação de João Batista “pregando um batismo de conversão para o perdão dos pecados” (v.3) e em seu desafio aos chefes judaicos: “produzi, pois, frutos que testemunham vossa conversão” (3,8).


A missão de João Batista é a de preparar a vinda do Senhor (cf. 1,16-17.76). E isto se concretiza num convite sério à conversão: “Ele percorreu toda a região do Jordão pregando um batismo de conversão para o perdão dos pecados...” (v.3).


No Novo Testamento encontra-se três categorias de mudança pessoal: 1) alternação é forma relativamente limitada de mudança que se desenvolve a partir de comportamento anterior; 2) Conversão é mudança radical em que aflições passadas são rejeitadas por um novo compromisso e uma nova identidade; 3) transformação é também mudança radical, mas uma percepção alterada reinterpreta tanto o passado como o presente.


As três têm uma característica comum: mudança. Toda conversão envolve mudança. Opõe-se à manutenção do status quo. A conversão sempre envolve movimento de uma dimensão para outra. Já que a pessoa humana é vista como um corpo animado, um conjunto unificado, assim quando a Bíblia fala de conversão, isso envolve a pessoa toda, não apenas seu senso moral, sua capacidade intelectual, ou vida espiritual. Corpo, mente e alma juntos são afetados pelo ato da conversão e as consequências são sentidas em todos os aspectos da vida da pessoa, inclusive nos campos social e político.


Ao citar Isaías (vv.5-6), João Batista quer nos convidar a entrar no dinamismo da conversão, a nos colocarmos a caminho, a mudar. Mudar a partir do dentro, crescendo no que é fundamental, o amor. Com a sensibilidade do amor, vamos escutar melhor as exigências do Senhor que chega e sairemos ao seu encontro “repletos dos frutos de justiça” (Fl 1,11). A opção pelo Reino convida ao total despojamento de si mesmo, à renúncia de qualquer forma de orgulho. O homem que quer seguir a Jesus é chamado a fazer um vazio em si mesmo.


Ao pregar a conversão, João Batista se inspira no grande movimento profético, citando Isaías mas agora ressoa com um timbre novo: “Todo vale será aterrado, toda montanha e colina serão rebaixadas...”. A imagem da “montanha” e da “colina” rebaixada, na tradição de Isaías (Is 2,12) podia significar também o fim de toda prepotência ou arrogância política dos poderosos (cf. Lc 1,52). Mas na perspectiva de Lucas, significa sobretudo o compromisso da renovação das consciências, das mentalidades, a mudança de coração e conduta, pois a vida do homem não se transforma automaticamente à base de reformas estruturais; e também o compromisso de renovação que tem também consequências na vida política e social; suprimem-se desigualdades e encurtam-se distâncias para que a salvação chegue a todos. Tanto os que se consideram acima dos outros, como os que estão humilhados e sem direitos precisam mudar de posição. A salvação se dá em relações mais horizontais, onde não há dominadores nem dominados, mas somente há irmãos que se respeitam e se complementam uns aos outros. Esse nivelamento nas relações humanas faz parte da construção da estrada mais reta por onde vão passar a nossa esperança e o acolhimento da salvação que vem de Deus em Jesus. A humanidade transformada é a humanidade reconciliada e igualada. Converter-se significa, então, ampliar o coração e dilatar a esperança para adequá-la à medida de Deus. Uma humanidade mais igualitária e respeitosa da dignidade de todos é melhor caminho para Deus chegar até nós trazendo a sua salvação. Os nossos caminhos devem ser corrigidos para que Deus chegue.


O homem que quer seguir a Jesus é chamado a fazer um vazio em si mesmo, a perder-se, de certo modo. A opção pelo seguimento de Jesus e pela salvação convida cada homem ao total despojamento de si mesmo, à renúncia de qualquer forma de prepotência para poder ter a disponibilidade aos impulsos do Espirito Santo. A conversão é acessível para qualquer homem, seja qual for sua condição social e seja qual for seu grau de virtude. A conversão é proposta para todos os homens, pois todos são pecadores. Se Jesus chama o homem a esta disponibilidade radical (conversão), é para convidá-lo a pôr em prática o amor sem fronteiras que é o novo mandamento do Senhor (cf. Jo 13,34-35; 15,12) no qual se verifica nossa autêntica identidade cristã.


O texto termina com estas palavras: “Todas as pessoas verão a salvação de Deus” (v.6). Perante tal oferta, em que o próprio Deus vem ao nosso encontro, nenhum gesto, nenhuma oferta, nenhum rito ou título pode nos salvar. O próprio homem deve ir ao encontro de Deus passando pela conversão. Se não houver esta verdadeira entrega do homem pela conversão, jamais haverá, da parte de Deus, o “batismo no Espírito Santo e no fogo”. Quem resiste a Deus se destrói a si mesmo e se exclui da salvação (3,9).


Cada um tem em seu poder uma oportunidade maravilhosa. A vida não é fadada ao absurdo e ao desespero. Temos em nós a força que nos foi dada para andar em busca da luz: “Todas as pessoas verão a salvação de Deus” (v.6). Deus constitui-se a meta de cada um de nós.


A Palavra de Deus não só foi dirigida a João Batista, mas também a todos nós. Deus vem. O caminho que preparamos somos nós mesmos. São nossas vidas.


A presença de João Batista no deserto indica sua procura do lugar onde Deus opera e fala. Este deserto é decisivo. É uma abnegação não somente do mundo, mas de si mesmo, de sua própria liberdade. Significa tornar-se vazio de si mesmo, disponível para um outro.


Portanto, a cada um compete examinar a própria vida: que renúncias tenho que fazer? Que atos tenho que endireitar? Que “vales” da minha vida tenho que “aterrar”? Que “colinas” das minhas atitudes de prepotência e arrogância tenho que rebaixar? Que montanhas precisamos fazer baixas para sermos de fato justos, iguais e fraternos? Quais irmãos que estão “lá em baixo” e precisam ser erguidos para todos se sentirem iguais? Os nossos caminhos devem ser corrigidos sempre porque Deus sempre vem ao nosso encontro. “Preparai o caminho do Senhor. Endireitai suas veredas”.


P. Vitus Gustama,svd



sábado, 26 de novembro de 2016


A FÉ PROFUNDA NOS FAZ ERGUER A CABEÇA EM TODAS AS SITUAÇÕES DA VIDA
 
I DOMINFO DO ADVENTO ANO “C”
 
27 de Dezembro de 2016

I Leitura: Jr 33,14-16
 
14 “Eis que virão dias, diz o Senhor, em que farei cumprir a promessa de bens futuros para a casa de Israel e para a casa de Judá. 15 Naqueles dias, naquele tempo, farei brotar de Davi a semente da justiça, que fará valer a lei e a justiça na terra. 16 Naqueles dias, Judá será salvo e Jerusalém terá uma população confiante; este é o nome que servirá para designá-la: ‘O Senhor é a nossa justiça’”.
 
II Leitura: 1Ts 3,12-4,2
 
Irmãos: 3,12 O Senhor vos conceda que o amor entre vós e para com todos aumente e transborde sempre mais, a exemplo do amor que temos por vós. 13 Que assim ele confirme os vossos corações numa santidade sem defeito aos olhos de Deus, nosso Pai, no dia da vinda de nosso Senhor Jesus, com todos os seus santos. 4,1 Enfim, meus irmãos, eis que vos pedimos e exortamos no Senhor Jesus: Aprendestes de nós como deveis viver para agradar a Deus, e já estais vivendo assim. Fazei progressos ainda maiores! 2 Conheceis, de fato, as instruções que temos dado em nome do Senhor Jesus.
 
Evangelho: Lc 21,25-28.34-36
 
Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 25 “Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas. Na terra, as nações ficarão angustiadas, com pavor do barulho do mar e das ondas. 26 Os homens vão desmaiar de medo, só em pensar no que vai acontecer ao mundo, porque as forças do céu serão abaladas. 27 Então eles verão o Filho do Homem, vindo numa nuvem com grande poder e glória. 28 Quando estas coisas começarem a acontecer, levantai-vos e erguei a cabeça, porque a vossa libertação está próxima. 34 Tomai cuidado para que vossos corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida, e esse dia não caia de repente sobre vós; 35 pois esse dia cairá como uma armadilha sobre todos os habitantes de toda a terra. 36 Portanto, ficai atentos e orai a todo momento, a fim de terdes força para escapar de tudo o que deve acontecer e para ficardes em pé diante do Filho do Homem”.
 
 
I. Advento
 
Estamos novamente no Tempo do Advento. O termo “advento” é cristão, mas de origem profana/pagã, pois significava chegada, vinda; aniversário de uma chegada, de uma vinda; ou visita oficial de uma personagem importante no tempo de sua posse. Nos escritos cristãos dos primeiros séculos (especialmente a partir do século IV) o termo tornou-se termo clássico para designar a vinda de Cristo.
        
O tempo do advento tem uma dupla característica:
  1. É o tempo de preparação para a solenidade do Natal, em que se recorda a primeira vinda do Filho de Deus entre os homens. O advento nos lembra a dimensão histórico-sacramental da salvação. Deus do advento é o Deus da história, o Deus que veio plenamente para a salvação do homem em Jesus de Nazaré em que se revela a face do Pai (Jo 14,9). A história é o lugar da realização das promessas de Deus.
     
  2. Simultaneamente é o tempo no qual, através desta recordação, o espírito é conduzido à espera da segunda vinda de Cristo no final dos tempos. O advento é o tempo litúrgico em que se evidencia fortemente a dimensão escatológica do mistério cristão. Estamos em permanente viagem rumo à casa do Pai. Cristo veio na nossa carne, manifestou-se e revelou-se como ressuscitado, depois da morte, aos apóstolos e às testemunhas previamente escolhidas por Deus (cf. At 10,40-42) e aparecerá glorioso no fim dos tempos(At 1,11). Os cristãos, na sua peregrinação terrena, vivem continuamente a tensão do já da salvação toda realizada em Cristo e o ainda não da sua realização plena em nós e de sua plena manifestação na volta gloriosa do Senhor juiz e salvador.
     
    Por esta dupla característica, o tempo do advento se apresenta como um tempo de piedosa e alegre expectativa. O advento celebra o Deus da esperança (Rm 15,13) e vive a alegre esperança (cf. Rm 8,24s) com fé. A fé une o homem a Cristo, a esperança abre esta fé para o vasto futuro de Cristo. A fé transforma a esperança em confiança e certeza; e a esperança torna a fé ampla e lhe dá a vida.
             
    Dentro desta alegre esperança, os cristãos são chamados a viver algumas atitudes essenciais à expressão evangélica da vida: a espera vigilante e jubilosa, a esperança, e a conversão. Os cristãos podem acreditar em Deus de Jesus Cristo cegamente porque o Deus da revelação é o Deus da promessa que em Cristo manifestou a sua fidelidade ao homem (cf. 2Cor 1,20). Os cristãos vivem esta espera na vigilância e na alegria. Mas Deus que entra na história põe em causa o homem, questiona- o. Por isso, o tempo do advento, sobretudo através da pregação de João Batista, é o convite à conversão para preparar os caminhos do Senhor e acolher alegremente o Senhor que vem pois ele só traz a salvação.
            
    Esse significado envolve o lecionário inteiro.
  1. O evangelho do primeiro domingo do advento nos fala da segunda vinda do senhor e nos exorta à vigilância. Se o Reino dos céus está próximo, é necessário preparar os caminhos. Este domingo no relembra sobre a dimensão futura de nossa vida. Vivemos o presente mas sempre com o olhar posto no Senhor. A nossa vida é uma caminhada rumo à comunhão plena com Deus, nosso Criador. É necessário que estejamos preparados para acolher o reino que nos é oferecido todos os dias. Assim estaremos preparados para o encontro derradeiro com o Nosso Criador, Deus.
     
  2. Por isso, o evangelho do segundo domingo do advento contém a pregação da penitência de João Batista, Precursor do Senhor. O pecado bloqueia o canal da graça para chegar até nós. O pecado faz o coração fechado diante da graça. Pecar significa dizer não a Deus. A penitência e a conversão fazem com que o coração esteja aberto novamente à graça de Deus, e, consequentemente, a graça de Deus não encontrará nenhum impedimento para entrar no nosso coração.
 
  1. O terceiro domingo do advento é conhecido por muitos como o domingo “Gaudete” (alegra-te!). Se a graça de Deus estiver no nosso coração, então teremos motivos para ficar alegres. A graça sempre traz a alegria para nós. Por isso, este domingo nos convida a tomarmos parte na alegria do advento, pois Deus vem nos salvar (cf. Fl 4,4s). Deus vem para nos salvar porque com a nossa própria força humana não sairíamos de nossa condição de pecadores. Um aspecto que logo nos chama a atenção são os paramentos róseos usados na missa. Estes paramentos substituem o roxo severo dos domingos anteriores e assinalam a alegria antecipada do Natal. O evangelho do terceiro domingo do advento nos coloca diante da figura do Batista.
 
  1. O quarto domingo do advento nos coloca no mais próximo da preparação para a festa do nascimento do Senhor ou anuncia a vinda iminente do Messias. Neste domingo aparece a figura de José, Maria, Isabel. Por isso, os textos próprios da missa são determinados por aqueles acontecimentos.
 
  • No ano A o evangelho fala do conflito interior de José e da mensagem que o anjo lhe transmite, e  segundo a qual ele deve receber Maria.
  • Nos ciclos B e C leem-se as perícopes da Anunciação do Senhor (Lc 1,26-38) e da visita de Maria à sua parenta Isabel, onde Maria é proclamada feliz por causa de sua fé e entoa o Magnificat (Lc 1,39-47).
     
    II. Mensagem do Evangelho Do Dia: Lc 21,25-28.34-36
            
    Como os dois outros evangelhos sinóticos (Mt e Mc), também o evangelho de Lucas encerra a atividade de Jesus em Jerusalém (Lc19,29-21,38), antes de sua prisão e morte, com o discurso sobre o fim (escatológico) ou discurso apocalíptico (Lc 21,5-38). Tanto Mateus como Lucas inspiram seu discurso escatológico/apocalíptico do evangelho de Marcos capítulo 13.
            
    Mas Lucas tem seu próprio estilo, pois seu evangelho foi escrito depois do ano 70 d.C. Para ele a destruição de Jerusalém é um fato passado. Por isso, ele distingue claramente a Parusia (Segunda Vinda) de Jesus dos eventos ligados ao destino de Jerusalém. Além disso, ele leva em consideração o aspecto histórico e eclesial do discurso dentro do contexto da história da salvação. No discurso ele projeta a sua visão da história da salvação em três momentos: primeiro, a destruição de Jerusalém (julgamento sobre Jerusalém) como o fim de toda uma etapa da história salvífica, mas não é o sinal da chegada do fim; segundo, tempo da missão da Igreja e terceiro, a segunda vinda do Filho do Homem (parusia) que trará a plenitude do Reino de Deus.
              
    Ao redimensionar a perspectiva escatológica deste discurso Lucas quer chamar a atenção de dois grupos, seja o dos fanáticos que esperam com impaciência o fim, seja o dos decepcionados e resignados que não esperam mais nada pela demora, para a necessidade do empenho presente, no Tempo da Igreja. Este é o tempo oportuno do testemunho em meio às perseguições violentas, a confiança e a esperança perseverante na espera da libertação com a vinda gloriosa do Senhor Ressuscitado, o Filho do Homem. Por isso, Jesus diz: “Quando estas coisas começarem a acontecer, levantai-vos e erguei a cabeça, porque a vossa libertação está próxima” (v.28).
     
    “Levantar-se” e “erguer a cabeça” são características de quem tem fé. Quando ousamos crer no domingo de Páscoa, porque em nós está a força da ressurreição, não há fracasso que nos faça sentir perdedores.  Os cristãos não podem se entregar a utopia futurista, perdendo o laço com a realidade histórica e cotidiana, a realidade do presente embora ela esteja cheia de mentiras, violências, perturbações absurdas que podem levar a desejar o fim. Se o Senhor havia vencido a morte, pensa Lucas, a comunidade cristã não está caminhando rumo à uma utopia anônima, mas o Filho do Homem, que é garantia e primícia da libertação humana. A nossa esperança, por isso, não será fraudada, pois ela tem um nome: Jesus Cristo. Por isso, São Paulo diz: ”Se Deus está conosco, quem estará contra nós? Quem nos separará do amor de Cristo? Em tudo isto somos mais que vencedores, graças àquele que nos amou” (Rm 8,31.35.37). Por isso, “tudo posso naquele que me fortalece” (Fl 4,13).
            
    Lucas convida, assim, a comunidade cristã a trilhar o caminho da fidelidade e da coragem, o caminho que o próprio Senhor trilhou, mesmo diante da repressão violenta das estruturas do poder, sinagogas, e reis, mesmo perante a morte violenta (Lc 21,12). Lucas não fornece informações sobre o fim, mas refunda a esperança no acontecimento central da morte e ressurreição de Jesus. Ele convida os cristãos a olharem para a história para decifrar seus sinais, que fazem pressagiar/prever já agora a passagem da morte à vida, da escravidão à liberdade, como os primeiros brotos anunciam após o inverno a boa estação (vv. 29-30).
     
    O que importa para uma comunidade cristã é a vivacidade de esperança. É a esperança que arranca o homem de uma existência sem futuro e sem expectativas. A tristeza e o desânimo são um sinal da ausência de uma verdadeira esperança cristã que no fundo provém de uma falta de fé.
            
    Este discurso, portanto, é o discurso sobre o Filho do Homem, sobre Jesus, o Senhor Ressuscitado, o Homem fiel até a morte para dar a todos um futuro novo e diferente, e para afirmar aos cristãos ou para quem quer que seja que vale a pena lutar pelo que é digno, como o bem, o amor, a justiça, a solidariedade, a honestidade, a fraternidade, a paz etc., pois tudo isto tem a vitória sobre a morte como o ponto final.
            
    Para isso, são necessárias duas atitudes de esperança que recebem seu dinamismo da meta que é o encontro decisivo com o Filho do Homem: Vigilância (e conversão) e oração constante.
     
    1. Vigilância
              
    No sentido literal do termo, vigiar significa renunciar ao sono da noite com o intuito de prolongar o tempo para trabalhar ou para não ser apanhado de surpresa pelo inimigo. Daí o sentido metafórico: vigiar significa estar atento e pronto para acolher o Senhor quando vier. Toda a moral evangélica está fundada na vigilância. O tema da vigilância não é acidental nos evangelhos, mas sempre intervém nos textos. De certa forma, o cristão é sinônimo de pessoa vigilante. A vigilância é a qualidade de quem emprega todo cuidado naquilo que deve ouvir, olhar, pensar, falar e fazer. Para o cristão, qualquer momento pode-se transformar em momento de graça (kairós). Ele tem consciência de estar inserido na história da salvação como receptor e como cooperador da graça. O cristão vigilante vive profundamente imerso na história da salvação, isto é, no aqui-e-agora, descobrindo tudo o que lhe oferece e respondendo tudo o que lhe exige o momento presente. O cristão vigilante não se lamenta perante os momentos espinhosos e sufocantes, mas sabe decifrar seu sentido para torná-los em oportunidades preciosas. O cristão vigilante sempre pergunta: “O que é que Deus quer de mim através daquele acontecimento ou através daquela pessoa”. Ele sempre procura decifrar o sentido das coisas. Vigilância, por isso, significa acordar para os fatos, despertar do sono das ilusões para enfrentar a realidade. O vigilante está sempre em contato com Deus e com a realidade. Ele tem uma intuição do que significa viver, respirar, ver, reunir-se com as pessoas e degustar o mistério de cada momento.
              
    Se o sentido literal da vigilância aponta para o ato de renunciar ao sono da noite, isto quer dizer que quando se fala da vigilância é inevitável falar da renúncia. Renunciar quer dizer optar por aquilo que tem o valor absoluto ou simplesmente um valor maior que tenho até então. A renúncia precisa sempre da liberdade interior e ao mesmo tempo pode levar alguém à liberdade. Ela não permite o relaxamento moral e espiritual. Os cristãos, por isso, devem sempre tomar cuidado para não relaxar, pervertendo o testemunho e acabando por assumir os vícios provocados pela sociedade injusta como a gula, a embriaguez e a preocupação exagerada sobre a vida. Quem precisa satisfazer toda necessidade imediatamente fica dependente. Acaba determinado por suas necessidades, e por isso, perde a liberdade.
              
    O julgamento está sempre operando na história, pois Deus continua nos visitando através de Seu Espírito. Em qualquer momento Deus bate a nossa porta. Os impulsos com os quais Deus nos chama a atenção para o que se deve fazer agora são suaves e por isso, precisa-se de muita vigilância (atenção). Em outras palavras, vigilância significa prestar atenção àquilo que aflui até nós. Mas, muitas vezes, por causa de nossas preocupações, acabamos reprimindo essa voz suave. Vigilância no momento significa estar inteiramente presente, envolver-se por inteiro no momento presente sem pensar no passado ou já planejar o futuro. Quando não vigiarmos, vai entrar furtivamente em nós muita coisa que nos desvia de nosso caminho consciente. Não devemos dar livre acesso a qualquer pensamento ou emoção, porque eles logo revelariam ser invasores que nos dificultam a vida em nosso lar interior e querem nos expulsar cada vez mais longe de nosso centro. Consequentemente, não viveremos nós mesmos mas seremos guiados por forças inconscientes e não seremos mais os senhores em nossa casa, pois seremos dominados por insatisfação e amargura, por medo e depressão que tomarão para si o governo de nossa casa.
              
    Os cristãos devem, portanto, estar sempre de prontidão, vigiando e praticando a justiça. Somente a sua perseverança na prática e no anúncio da justiça lhes permitirá ser considerados justos e inocentes no dia do julgamento.
     
    2. Oração
            
    Além da vigilância, no seguimento de Jesus, a oração sustenta a caminhada dos cristãos. Ela é a expressão mais viva da fé. Quem crê, precisa orar e quem ora porque acredita. A oração é a alma da espera, o vigor espiritual de quem crê, capaz de assumir a lembrança do passado e de preparar para o futuro. Para tanto, Jesus ilustra o sentido profundo do advérbio “sempre” e do “não desistir jamais” por meio de uma parábola (cf. Lc 18,1-8). O rezar “sempre” é o programa de quem crê.
              
    A oração exige uma relação em que nós permitimos ao outro entrar no centro de nossa pessoa, permitimos-lhe falar ali, permitimos-lhe tocar o núcleo sensitivo de nosso ser e permitimos-lhe ver tudo o que nós preferiríamos ocultar na escuridão para que ninguém o soubesse.
          
    Ao homem convidado para rezar se pede que abra seus punhos fechados firmemente cerrados e dê sua última moeda.  Se nós não ousamos fazer ao menos uma pergunta a partir de nossa experiência com todos os nossos apegos, é porque já nos enrolamos no destino dos fatos. Nós nos sentimos mais seguros apegando-nos a um triste passado do que confiando em um novo futuro. Por isso, enchemos as mãos com pequenas moedas pegajosas das quais nunca quereremos nos desfazer.
              
    Por isso, sempre que nós rezamos de verdade, a nossa oração é eficaz, não porque modificamos Deus, mas porque nos modificamos. O mais difícil da oração não é tanto saber se Deus nos escuta, mas conseguirmos que nós O escutemos.
              
    Quando pararmos de rezar, e quando começarmos a nos impressionar demais os resultados de nosso trabalho, devagar chegaremos à conclusão errônea de que a vida é um grande placar onde alguém marca os pontos para medir nosso valor. Então, somos inteligentes porque alguém nos dá nota alta, úteis porque alguém agradece, dignos de estima porque alguém nos estima e importantes porque alguém nos considera indispensáveis. Em suma, somos de valor porque alcançamos sucessos.
            
    Mas de baixo de toda a nossa ênfase na ação bem sucedida, muitos de nós sofremos de uma arraigada falta de amor-próprio e com o medo constante de que, algum dia, alguém descubra a ilusão e mostre que  não somos tão espertos, tão bons ou tão estimáveis quanto fizemos o mundo acreditar que éramos. Esse medo desgastante de que descubram nossas fraquezas impede a participação comunitária e criativa. E corremos o sério perigo de ficar isolados, pois a amizade e o amor são impossíveis sem uma vulnerabilidade mútua.
            
    Levar uma vida cristã significa viver no mundo sem ser do mundo. É na solidão (oração) que essa liberdade se fortalece. A vida sem um lugar deserto torna-se facilmente destrutiva. Quando nos apegamos aos resultados de nossas ações como nosso único meio de identificação pessoal, tornamo-nos possessivos, ficamos na defensiva e tendemos a ver nossos semelhantes mais como inimigos a ser mantidos a distância que como amigos com os quais partilhamos as dádivas da vida.
              
    Na solidão (oração) descobrimos no centro de nossa personalidade que não somos mais o que conquistamos, mas o que nos é dado. Na solidão, escutamos a voz daquele que nos falou antes de pronunciarmos uma palavra, (Sl 139) que nos curou antes de esboçarmos um gesto pedindo ajuda, que nos libertou muito antes de libertarmos os outros e nos amou muito antes de darmos amor a alguém. Na solidão(oração), descobrimos que nossa vida não é um bem a ser defendido, mas uma dádiva a compartilhar.
            
    Quando deixamos de depender deste mundo, formamos uma comunidade de fé em que há pouco a defender, mas muito a partilhar. E como comunidade de fé lembramos uns aos outros constantemente que formamos uma fraternidade dos fracos, compreensível para aquele que nos fala nos lugares desertos de nossa existência e diz : Não temais, sois aceitos.
              
    Cristo já veio mas nunca deixa de vir a caminho de nossa casa. O lugar que ele mais ambiciona é um coração convertido, que tenha a coragem de se “reformar” e de se abrir ao amor, à fraternidade, à justiça...Só criando espaço para Cristo num coração convertido é que conseguiremos à meta. Jesus continuamente visita e frequenta o coração daqueles que sabem crer, esperar e amar. Se na vida jogarmos sementes de egoísmo, de violência e de orgulho, de arrogância e de prepotência, estes serão nossos companheiros da viagem e por isso, nunca seremos felizes e nunca faremos ninguém feliz. Se jogarmos sementes da justiça, do amor, da fraternidade e da esperança e da fé em Cristo, Cristo será nossa herança feliz e com ele teremos a experiência da libertação. Importa viver sempre na presença de Cristo. Por isso,” ficai atentos e orai a todo momento, a fim de terdes força para escapar de tudo o que deve acontecer e para ficardes em pé diante do Filho do Homem” (v.36).
     
P. Vitus Gustama,svd

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Domingo,20/11/2016




DEUS É MISERICORDIOSO PARA QUEM SE CONVERTE

CRISTO, REI DO UNIVERSO
XXXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM


Evangelho: Lc 23,35-43


Naquele tempo: 35 Os chefes zombavam de Jesus dizendo: 'A outros ele salvou. Salve-se a si mesmo, se, de fato, é o Cristo de Deus, o Escolhido!' 36 Os soldados também caçoavam dele; aproximavam-se, ofereciam-lhe vinagre, 37 e diziam: 'Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo!' 38 Acima dele havia um letreiro: 'Este é o Rei dos Judeus.' 39 Um dos malfeitores crucificados o insultava, dizendo: 'Tu não és o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós!' 40 Mas o outro o repreendeu, dizendo: 'Nem sequer temes a Deus, tu que sofres a mesma condenação? 41 Para nós, é justo, porque estamos recebendo o que merecemos; mas ele não fez nada de mal.' 42 E acrescentou: 'Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu reinado.' 43 Jesus lhe respondeu: 'Em verdade eu te digo: ainda hoje estarás comigo no Paraíso.'
--------------
O texto do evangelho deste domingo pertence ao relato lucano da paixão de Jesus (cf. Lc 21,1-23,56). De modo muito simples, Lucas relata a crucificação de Jesus, o sacrifício supremo para a salvação da humanidade. Lucas omite muitas das minúcias relatadas por Marcos: o nome aramaico Gólgota, o vinho misturado com mirra, as pessoas que balançavam a cabeça, e o desafio a respeito de Jesus destruir o templo e reconstruí-lo. No entanto, a ênfase permanece essencialmente nos mesmos fatos. Há aqui pelo menos três alusões a Salmos de lamentações nos vv.34-36(Sl 22,18: repartindo as vestes, lançaram sortes; Sl 22,7: olhando...zombavam; Sl 69,22: vinagre). Essas alusões indicam que a experiência de Jesus tem paralelo na experiência do justo que sofre, descrito em Salmos. Havia dois outros crucificados naquela ocasião. Lucas diz apenas que eram malfeitores, enquanto Mateus e Marcos dizem que eram ladrões. Todos os quatro evangelistas nos dizem que Jesus foi crucificado entre outros dois, evidentemente seu modo de ressaltar o fato de que ele foi crucificado como se fosse um criminoso (cf. Lc 22,37).


Lucas relata o povo em geral simplesmente observando. Execuções eram funções populares e sem dúvida havia muitas pessoas presentes nesta. Mas eram as autoridades e não o povo, que zombavam de Jesus (cf. Sl 22,6-8). Elas empregam dois epítetos: O Cristo de Deus e o Eleito/Escolhido. Essas duas expressões indicam o favor especial de Deus e sem dúvida estas pessoas estavam contrastando palavras que falavam de favor com a triste situação real de Jesus ali na cruz. Por isso, a inscrição “Este é o Rei dos Judeus” que foi colocada no alto da cruz era como um insulto final. No entanto, há ironia aqui, porque embora Jesus não fosse rei nos termos da expectativa popular, ele era, apesar de tudo, Rei de Israel ( leia o pedido de um dos crucificados no v. 42: ele usa a expressão “com teu reino/ no teu reinado”. Isto supõe a existência de um rei num reinado). Também é irônico que essa inscrição tenha sido o primeiro enunciado que se escreveu a respeito de Jesus e, provavelmente, a única coisa que se escreveu a respeito de Jesus, em toda a sua vida terrena.


De acordo com Mc 15,32, os criminosos que foram crucificados com Jesus também o ridicularizaram. A versão de Lucas, entretanto, é singular pelo fato de apresentar a conversa entre Jesus e um dos malfeitores e o insulto do outro. Para esse outro malfeitor, um Messias que morre na cruz e não salva a si mesmo nem aqueles que lutaram pela sua causa representa uma insanável contradição. Merece tão-somente ironia e desprezo. O verbo escolhido pelo evangelista é “insultar”, que tem simultaneamente o sentido do escárnio e da reverência. Como sempre, diante do escárnio, Jesus não profere nenhuma palavra. O malfeitor que vai fazer algum pedido a Jesus (conhecido popularmente como “bom ladrão” embora nenhum ladrão seja bom) repreendeu o outro pelo fato de este aderir aos insultos a Jesus e diz a seu colega que suas sentenças eram justas, mas a de Jesus, não. Assim, outra vez o leitor recebe a informação de que Jesus é inocente. “Nem sequer temes a Deus? “, disse o “bom ladrão”. Para a Bíblia, não temer a Deus é a atitude do estulto e do ímpio. “Nem sequer” parece introduzir um agravante em relação aos escárnios dos chefes e dos soldados.


Diferentemente do primeiro malfeitor, esse “bom ladrão” confessa, sem atenuantes, a sua culpa, reconhece a inocência de Jesus e a ele faz uma oração sincera: “Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu reinando” (v.42). “Lembra-te de mim” é uma oração que, na tradição religiosa bíblica e judaica, os moribundos e os homens perseguidos pela desgraça dirigem a Deus. Vamos aprofundar um pouco mais para os detalhes desta frase.


Primeiro, o bom ladrão chama Jesus pelo nome “Jesus”. Ele sabe que com Jesus pode usar esta intimidade; sente-o como amigo, pois chamar alguém pelo nome significa intimidade, amizade. Diante do amigo, ele se sente seguro apesar do sofrimento que ele tem. Segundo, tão grande é a humildade do bom ladrão arrependido que nem tem coragem de pedir de Jesus a salvação. Ele já se confessou culpado dos atos pelos quais estava sendo crucificado. O que agora quer é ser lembrado por Jesus. Ele não sabe orar bonito com palavras poéticas. Ele pede a Jesus apenas para ser lembrado: “lembra-Te de mim quando entrares no Teu Reinado”. Ele considera Jesus como amigo que compreende seu sofrimento. Terceiro, a única pessoa que reconhece em Jesus o Rei esperado é este bom ladrão. Ele sabia que sua condenação pela Corte Romana não seria seu último julgamento. Pois ele reconhecia que teria que prestar contas a Deus por seus atos (cf. 1Cor 5,10). Por isso, ele chamou a atenção do seu colega ao lado:” Nem ao menos temes a Deus? Recebemos o castigo merecido. E este, nenhum mal fez”. Aqui, através de sua honesta confissão de culpa é que ele deu seu primeiro passo em direção à salvação. Foi este o ponto de partida para a vida eterna.


Com uma solenidade Jesus abriu a boca somente para o bom ladrão: “Em verdade, eu te digo, hoje estarás comigo no Paraíso” (v.43). Com este gesto de solidariedade, Jesus dá a salvação a quem crê e se converte. Sofrendo e morrendo como homem, sentindo a dor dos pregos e a humilhação da nudez, na qualidade de Filho de Deus, Ele dirige uma promessa solene ao ladrão arrependido (em verdade). Depois desta expressão “em verdade” Jesus sempre diz algo muito importante. Jesus também dá segurança a esse ladrão arrependido: “Eu te digo”. Aqui, Jesus não reza, não pede a Deus, ele garante. Já que o ladrão arrependido confia em Jesus prontamente (“Jesus, lembra-te de mim”), Jesus também responde com a sua pessoa, assegurando-lhe uma vida de comunhão com ele (estarás comigo), e logo(“hoje”). A um pedido que remetia ao futuro (“quando entrares no teu reino”), Jesus responde, remetendo ao presente(“hoje”). Tudo isto quer nos dizer que não há situação humana de miséria e de pecado que exclua alguém da salvação; também para o malfeitor que morre por causa de seus delitos há esperança de futuro. Jesus na cruz não salva a si mesmo, mas os pecadores que se convertem e confiam nele.


Outras Mensagens do Evangelho deste Domingo      


1. O evangelista Lucas quer dirigir um apelo aos cristãos das suas e das nossas comunidades: Contemplai o vosso Rei pregado na cruz! Diante d´Ele torna-se ridículo qualquer ambição de glória de nossa parte, qualquer vontade de domínio, qualquer desejo de alcançar os primeiros lugares, de receber aplausos, elogios e títulos honoríficos. Do alto da cruz Jesus indica a todos quem é o rei que Deus escolhe: é aquele que sabe que a única maneira de dar glória a Deus é descendo ao último lugar para servir o pobre, o excluído; rei é aquele que ama a todos, inclusive aqueles que o combatem; é aquele que perdoa sempre, que salva e que se deixa derrotar por amor. A onipotência de Deus não é a de domínio. Ele é onipotente porque ele ama a todos imensamente e se coloca sem limites e sem condições a serviço do homem. E vimos isso em Jesus Cristo que se inclina para lavar os pés dos discípulos. É este o autêntico semblante do Deus onipotente, o Rei do Universo.


2. Estaríamos, porém, equivocados se, no episódio dos dois malfeitores, realçássemos somente a misericórdia. Na verdade, está fortemente presente também o juízo, que é a outra face da misericórdia. Um pecador olha para Jesus na cruz, pede perdão e é acolhido no Seu reino. Um outro pecador, olha o mesmo Jesus na cruz e o insulta. Por que um sim e o outro não? Este é o mistério do amor de Deus e da liberdade do homem, que importa sempre recordar, mas que não se pode sondar, a não ser cada um no interior de si mesmo. Diante da cruz, como de qualquer outro gesto de Deus, os êxitos possíveis são dois: com o primeiro, para recordar que a misericórdia de Deus está sempre disponível; e com o segundo, para não olvidar (não esquecer-se) jamais aquele santo temor que nos torna humildes e vigilantes.


3. “Em verdade te digo, hoje tu estarás comigo no Paraíso”. Quando começa o paraíso? Onde está ele? O paraíso começa no dia, no momento em que o homem se arrepender e receber o perdão dos seus pecados. Não pense que o paraíso existe tão-somente após a morte. O paraíso é a promessa que Deus faz a quem confessa Jesus Cristo como seu Senhor e a quem se converte. Onde está este paraíso? Em qualquer lugar onde Jesus está.


Será que você tem Cristo no seu coração? Será que Jesus Cristo é o seu Senhor? Se Jesus Cristo está no seu coração, se ele é o seu Senhor, então você está vivendo no paraíso, mesmo que esteja rodeado de dificuldades, de tribulações, de pessoas adversas, que nada entendem de seu privilégio.


Jesus disse ao ladrão arrependido que o paraíso estava reservado para HOJE e não amanhã. E evangelista João escreveu na sua primeira carta: “Amados, AGORA somos filhos de Deus” (1Jo 3,2). Quantos e quantos cristãos não têm esta certeza; não entende este privilégio.


Ouçamos esta palavra de Jesus na cruz: “Hoje estarás comigo no paraíso”. O novo nascimento é o início de uma vida nova. É necessário nascer de novo pela fé em Jesus Cristo como nosso Senhor e Salvador. Jesus é a nova esperança para quem perdeu a esperança. Veja a condição do ladrão arrependido: morrendo por causa de seus pecados, e sem ninguém para ajudá-lo a sair de sua angústia. Ninguém, a não ser Jesus Cristo, o Senhor, o Único é capaz de socorrer o condenado.


 4. “Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino”. É uma oração simples, mas profunda porque sai do fundo do coração. Muitas vezes nos preocupamos demais com a forma de orarmos, como se pelo fato de usarmos uma linguagem mais burilada é que seremos ouvidos por Deus. Deus ouve é o coração, não as palavras. Quando o pobre publicano orou dizendo:” Senhor Deus, tem piedade de mim, pecador”, suas palavras comoveram o Senhor.


A história do ladrão arrependido é a mesma de cada um de nós: quem de nós não foi malfeitor algumas vezes? Quem, alguma vez, não truncou a vida de algum irmão: com o ódio, as calúnias, as maledicências, as injustiças? Quem de nós não provocou pequenos ou grandes desastres na sociedade, na comunidade e na família? Se estivéssemos sozinhos, o nosso caminho nos conduziria ao desespero. Mas está presente Jesus Cristo que nos acompanha e, por isso, o nosso caminho terminará com certeza no paraíso. E feliz qualquer um de nós que confessa que Jesus Cristo é o seu Senhor, o seu Rei. Ele está no paraíso.


P. Vitus Gustama,svd