sábado, 30 de julho de 2016

01/08/2016




ALIMENTADOS PELO PÃO MATERIAL E PÃO EUCARÍSTICO


Segunda-Feira Da XVIII Semana Comum


Primeira Leitura: Jr 28,1-17


1 Nesse mesmo ano, no início do reinado de Sedecias, rei de Judá, no quinto mês do quarto ano, disse-me o profeta Ananias, filho de Azur, profeta de Gabaon, na casa do Senhor e na presença dos sacerdotes e de todo o povo: 2 “Isto diz o Senhor dos exércitos, Deus de Israel: Quebrei o jugo do rei da Babilônia. 3 Ainda dois anos e eu farei reconduzir a este lugar todos os vasos da casa do Senhor, que Nabucodonosor, rei da Babilônia, tirou deste lugar e transferiu para a Babilônia. 4 Também reconduzirei a este lugar Jeconias, filho de Joaquim e rei de Judá, juntamente com toda a massa de judeus desterrados para a Babilônia, diz o Senhor, pois eu quebro o jugo do rei da Babilônia”. 5 Respondeu o profeta Jeremias ao profeta Ananias, na presença dos sacerdotes e de todo o povo que estava na casa do Senhor, 6 dizendo: “Amém, assim permita o Senhor! Realize ele as palavras que profetizaste, trazendo de volta os vasos para a casa do Senhor e todos os deportados da Babilônia para esta terra. 7 Ouve, porém, esta palavra que eu digo aos teus ouvidos e aos ouvidos de todo o povo: 8 Os profetas que existiram antigamente, antes de mim e antes de ti, profetizaram sobre guerras, aflições e peste para muitos povos e reinos poderosos; 9 mas o profeta que profetiza paz, esse somente será reconhecido como profeta, que em verdade o Senhor enviou, quando sua palavra for verificada”. 10 Então o profeta Ananias retirou o jugo do pescoço do profeta Jeremias e quebrou-o; 11 e disse Ananias, na presença de todo o povo: “Isto diz o Senhor: Deste modo quebrarei o jugo de Nabucodonosor, rei da Babilônia, dentro de dois anos, livrando dele o pescoço de todos os povos”. E foi-se pelo seu caminho o profeta Jeremias. 12 Depois que o profeta Ananias havia retirado o jugo do pescoço do profeta Jeremias, dirigiu-se novamente a palavra do Senhor a Jeremias: 13 “Vai dizer a Ananias: Isto diz o Senhor: Quebraste um jugo de madeira, mas em seu lugar farás um de ferro. 14 Isto diz o Senhor dos exércitos, Deus de Israel: Pus um jugo de ferro sobre o pescoço de todas estas nações, para servirem a Nabucodonosor, rei da Babilônia, e lhe serão de fato submissas; além disso, dei-lhe também os animais do campo”. 15 Disse ainda o profeta Jeremias ao profeta Ananias: “Ouve, Ananias, não foste enviado pelo Senhor, e contudo fizeste este povo confiar em mentiras. 16 Isto diz o Senhor: Eis que te farei partir desta terra; morrerás este ano, pois pregaste a infidelidade contra o Senhor”. 17 Naquele ano, no sétimo mês, morreu o profeta Ananias.


Evangelho: Mt 14,13-21


Naquele tempo, 13 quando soube da morte de João Batista, Jesus partiu e foi de barco para um lugar deserto e afastado. Mas quando as multidões souberam disso, saíram das cidades e o seguiram a pé. 14 Ao sair da barca, Jesus viu uma grande multidão. Encheu-se de compaixão por eles e curou os que estavam doentes. 15 Ao entardecer, os discípulos aproximaram-se de Jesus e disseram: “Este lugar é deserto e a hora já está adiantada. Despede as multidões, para que possam ir aos povoados comprar comida!” 16 Jesus porém lhes disse: “Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer!” 17 Os discípulos responderam: “Só temos aqui cinco pães e dois peixes”. 18 Jesus disse: “Trazei-os aqui”. 19 Jesus mandou que as multidões se sentassem na grama. Então pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção. Em seguida partiu os pães, e os deu aos discípulos. Os discípulos os distribuíram às multidões. 20 Todos comeram e ficaram satisfeitos, e dos pedaços que sobraram, recolheram ainda doze cestos cheios. 21 E os que haviam comido eram mais ou menos cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças.
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Entre Falso Profeta e Verdadeiro Profeta De Deus


O texto da Primeira Leitura tirado do livro do profeta Jeremias fala do enfrentamento entre os profetas falsos representados pelo profeta Ananias e os profetas de Deus representados pelo profeta Jeremias. Segundo o texto, o profeta falso anuncia ao povo o que possa assegurar seu êxito. O falso profeta tolera uma inadequação entre suas palavras e a Palavra de Deus em função dos próprios interesses e das próprias vantagens. E todos dizem que os falsos profetas costuma dizer palavras que o povo gosta de ouvir, palavras demagógicas que tranquilizam, mas que mais tarde o próprio povo sofrerá. O falso profeta Ananias induz o povo para uma falsa confiança: “Isto diz o Senhor dos exércitos, Deus de Israel: Quebrei o jugo do rei da Babilônia. Ainda dois anos e eu farei reconduzir a este lugar todos os vasos da casa do Senhor, que Nabucodonosor, rei da Babilônia, tirou deste lugar e transferiu para a Babilônia”. As palavras de um profeta falso estão cheias de mentiras e de demagogia. A mentira no texto da Primeira Leitura tem um preço bem alto: “Ouve, Ananias, não foste enviado pelo Senhor, e contudo fizeste este povo confiar em mentiras. Isto diz o Senhor: Eis que te farei partir desta terra; morrerás este ano, pois pregaste a infidelidade contra o Senhor”.


Para identificar os falsos profetas Jesus, na conclusão do Sermão da Montanha, nos dá o seguinte critério em tom de alerta: “Guardai-vos dos falsos profetas. Eles vêm a vós disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos arrebatadores. Pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7,15-16).


O verdadeiro profeta de Deus tem a valentia de predizer ao povo aquilo que Deus quer que ele fale, mesmo que ele próprio se torne vítima disso. Quantos profetas, na história, foram mortos por ter falado ou anunciado a verdade. O profeta de Deus chama o povo à conversão e à retidão de vida. E ele faz isso, muitas vezes, com palavras duras e ameaças de castigo de Deus.


A forma de inadequação, que os falsos profetas gostam de fazer, pode se encontrar no mundo moderno entre a verdade do aparato da lei e a verdade da consciência. Muitos políticos ou eclesiásticos se contentam em defender a “verdade” da instituição ainda que não encontrem a verdade da consciência. Não basta ser legal, mas é preciso ser ético. Não basta ser reto, legalmente, mas é preciso ser sincero, isto é, ser legal consigo mesmo em plena lucidez. É impossível a presença da ética onde o homem não se encontra consigo próprio ou nega a verdade.


Somos Responsáveis Pelos Irmãos Necessitados


Vós mesmos deveis dar-lhes de comer”. Esta é a ordem de Jesus para seus discípulos no evangelho de hoje diante da multidão faminta.


Vivemos este paradoxo: “Não somente de pão vive o homem; porém, sem pão ele não pode viver”. Como integrar a necessidade de pão com a experiência de que o pão não sacia outras fomes e a nossa fome mais profunda? A questão tem aplicação pessoal e social, ao mesmo tempo.


A Palavra de Deus mantém a bipolaridade: pão para o faminto e pão para os que comem e não se saciam. Provamos ou experimentamos tudo e estamos cada dia mais vazios (cf. Is 55,1-3). Dedicamos bastante tempo de nossa vida em função da procura do “o quê” de nossa vida, do seu aspecto material. E nessa busca percebemos que quanto mais tivermos, mais quereremos. Uma vez Oscar Wilde escreveu: “Neste mundo só há duas tragédias: uma é não se conseguir o que se quer, a outra é conseguir”. No fim confessamos que tudo que conseguimos materialmente e profissionalmente não satisfaz aquela fome sem nome que temos na alma. Carl Gustav Jung chegou a escrever e afirmar: “O problema de cerca de um terço de meus pacientes não é diagnosticado clinicamente como neurose, mas resulta da falta de sentido de suas vidas vazias. Isto pode ser definido como a neurose geral de nossa época” (O Homem Moderno à Procura de Uma Alma).


O que nos frustra e tira nossa alegria de viver é a ausência do significado de nossa vida, o para quê de nossa existência neste mundo. Nossa alma não está sedenta de poder, de fama, de popularidade, de conforto, de propriedades e assim por diante. Nossa alma tem fome do significado da vida, ou de aprendermos a viver de tal modo que nossa existência ou nossa passagem neste mundo tenha importância ou significado capaz de modificar ou de melhorar o mundo, pelo menos, ao nosso redor.


Este vazio existencial é o pressuposto onde cabe pronunciar a Palavra de Deus: “Inclinai vosso ouvido e vinde a Mim, ouvi e tereis vida” (Is 55,3ª). A Palavra de Deus é o verdadeiro alimento para o coração humano. A Palavra de Deus continuará a ser eficaz, curadora, e libertadora, se nós soubermos ouvi-la atentamente, meditá-la no nosso dedicado silêncio de cada dia e vivê-la na nossa vida cotidiana. Se a Palavra de Deus já curou tantas pessoas, converteu tantos pecadores, libertou tantas pessoas de seus problemas, guiou a vida de tantos homens, esta mesma Palavra continua tendo o mesmo poder e a mesma eficácia. A palavra humana pode errar e enganar, mas a Palavra de Deus não erra nem engana. A Palavra de Deus é firme para sustentar a vida de quem nela se agarra e por ela se orienta. Dizia o papa Gregório Magno: “Ler a Bíblia é aprender a conhecer o coração de Deus mediante Suas palavras”. E coração de Deus é um coração cheio de amor misericordioso. Por isso, Santo Agostinho dizia: “Toda a Bíblia nada mais do que narrar o amor de Deus”. O amor de Deus é a ultima resposta para todos os “porquês” da vida do homem (cf. Jo 3,16). Tudo o que Deus faz e fala na Bíblia é amor. Deus move o mundo enquanto é amado, isto é, enquanto é objeto de amor e causa final de todas as criaturas.


Por essa razão, a multiplicação dos pães feita por Jesus exige um duplo princípio de leitura: por um lado, a leitura a partir da práxis messiânica de Jesus, o realista Encarnado, que traz o Reino para os famintos de estômago, multiplicando os pães a partir daquilo que o ser humano lhe oferece com generosidade: cinco pães e dois peixes. É uma leitura sem metáfora. Jesus alimenta o povo faminto. Ele se preocupa com o estômago vazio da maioria. A partir desta leitura podemos entender a ordem de Jesus para qualquer dos seus seguidores em qualquer época e lugar: “Vós mesmos deveis dar de comer para a multidão faminta”. Nem que seja a partir do pouco que se tem como cinco pães e dois peixes, mas que saiba dividir para que todos possam viver dignamente como filhos e filhas de Deus. O cristão existe para prolongar a generosidade do Deus-Criador que criou tudo gratuitamente para o bem da humanidade. Cada generosidade feita o egoísmo é vencido e esmagado. Cada pequena generosidade a ganância é enterrada e o sorriso fraterno volta a brilhar e a família de Deus nesta terra volta a ser edificada.


O milagre está na partilha. O problema da fome física e de outras fomes somente pode ser resolvido satisfatoriamente quando nós, homens, aprendemos a partilhar o que temos para com aqueles que não têm nada para sobreviver. O milagre está na partilha, na solidariedade e no amor entranhável. Sem essa solidariedade, sem essa fraternidade, sem comunicação de bens e sem essa comunhão no amor, não é possível a vida e a abundância da vida. Sem o amor a todos os homens, sem o amor e os sentimentos de Cristo, a Eucaristia que celebramos em sua memória careceria de sentido.


Por outro lado, é a leitura a partir da Eucaristia, pois Jesus realiza o sinal da abundância de pão para os últimos tempos onde não haverá fome nem sede. Dentro desta leitura podemos entender a ação de graças e a benção pelos pães e peixes que são dons de Deus para a humanidade e ao mesmo tempo são frutos do trabalho humano. A ação de graças é o nome próprio da Eucaristia.


Jesus com todo o que é e representa, é o único que pode satisfazer a fome radical de viver, com plenitude e para sempre. Somente Jesus pode alimentar o amor e a esperança que necessitamos para superar todas as dificuldades. Somente Jesus, com tudo o que é e representa para o cristão, pode saciar nosso insaciável sonho de felicidade. Ele é o Pão descido do céu que contém todo sabor. Este pão que contém todo sabor é que celebramos sacramentalmente na Eucaristia: a certeza de que, em Jesus, Deus nos deu um Pão capaz de saciar nossa fome de vida e nosso desejo de felicidade.


Uma coisa positiva que podemos aprender dos discípulos é a sua atitude de dar-se conta das necessidades dos que estão ao redor, nesse caso da multidão faminta. É uma boa lição para nosso tempo em que existe, evidentemente, uma tendência ao individualismo. Com frequência passamos indiferentes para os que nos rodeiam sem captar a problemática que podem ter. A frase “problema não é meu” é bastante perigosa para uma convivência mais humana e cristã. Do ponto de vista cristão tal postura é absolutamente insustentável e impensável.


Também hoje conserva atualidade do mandamento dado por Jesus: “Vós mesmos deveis de comer para a multidão faminta”. Nós que participamos e partilhamos o pão da Eucaristia devemos estar dispostos também a partilhar o pão material.

P. Vitus Gustama, SVD

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