terça-feira, 30 de abril de 2024

São Filipe e São Tiago Menor-Apóstolos-03/05/2024

SÃO FILIPE E SÃO TIAGO, APÓSTOLOS

03 de Maio

Primeira Leitura: 1Cor 15,1-8

1 Irmãos, quero lembrar-vos o evangelho que vos preguei e que rece­bestes, e no qual estais firmes. 2 Por ele sois salvos, se o estais guardando tal qual ele vos foi pregado por mim. De outro modo, teríeis abraçado a fé em vão. 3 Com efeito, transmiti-vos, em primeiro lugar, aquilo que eu mesmo tinha recebido, a saber: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; 4 que foi sepultado; que, ao terceiro dia, ressuscitou, segundo as Escrituras’; 5e que apareceu a Cefas e, depois, aos Doze. 6 Mais tarde, apareceu a mais de quinhentos irmãos, de uma vez. Destes, a maioria ainda vive e alguns já morreram. 7 Depois, apareceu a Tiago e, depois, apareceu aos apóstolos todos juntos. 8 Por último, apareceu também a mim, como a um abortivo.

Evangelho: Jo 14,6-14

Naquele tempo, Jesus disse a Tomé: 6 “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim. 7 Se vós me conhecêsseis, conheceríeis também o meu Pai. E desde agora o conheceis e o vistes”. 8 Disse Filipe: “Senhor, mostra-nos o Pai, isso nos basta!” 9 Jesus respondeu: “Há tanto tempo estou convosco, e não me conheces, Filipe? Quem me viu, viu o Pai. Como é que tu dizes: ‘Mostra-nos o Pai’? 10 Não acreditas que eu estou no Pai e o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo, não as digo por mim mesmo, mas é o Pai que, permanecendo em mim, realiza as suas obras. 11 Acreditai-me: eu estou no Pai e o Pai está em mim. Acre­ditai, ao menos, por causa destas mesmas obras. 12 Em verdade, em verdade vos digo, quem acredita em mim fará as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas. Pois eu vou para o Pai, 13 e o que pedirdes em meu nome, eu o realizarei, a fim de que o Pai seja glorificado no Filho. 14 Se pedirdes algo em meu nome, eu o realizarei”.

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Celebramos hoje a festa dos Apóstolo Felipe e Tiago. A palavra “ápóstolo” deriva precisamente da palavra grega "apostéllein", que significa enviar. O envio apostólico como mostra o texto de Mt 28, 19s exige um serviço pastoral ("fazei discípulos de todas as nações..."), litúrgico ("baptizai-as...") e profético ("ensinando-lhes a cumprir tudo quanto vos tenho mandado"), garantido pela proximidade do Senhor até à consumação do tempo ("eis que Eu estarei convosco todos os dias até ao fim do mundo"). A Igreja se constituiu sobre a base dos apóstolos como comunidade de fé, de esperança e de caridade.

São Tiago, o Menor, chamado assim pela estatura e pela idade, é parente do Senhor segundo a carne (Mt 13,55). Ele faz parte das listas dos doze Apóstolos escolhidos pessoalmente por Jesus, e é sempre especificado como "filho de Alfeu" (cf. Mt 10, 3; Mc 3, 18; Lc 5; Act 1, 13). Com frequência ele foi identificado com outro Tiago, chamado "o Menor" (cf. Mc 15, 40), filho de uma Maria (cf. ibid.) que poderia ser a "Maria de Cleofas" presente, segundo o Quarto Evangelho, aos pés da Cruz juntamente com a Mãe de Jesus (cf. Jo 19, 25). Também ele era originário de Nazaré e provavelmente parente de Jesus (cf. Mt 13, 55; Mc 6, 3), do qual à maneira semítica é considerado "irmão" (cf. Mc 6, 3; Gl 1, 19).

Foi o líder da primeira comunidade de Jerusalém (At 12,17). No Concílio de Jerusalém, o primeiro Concílio da Igreja, Tiago propôs que os gentios não fossem sobrecarregados da Lei judaica para serem cristãos (At 15,13-23). A sua proposta foi aceita. O próprio São Paulo o denominou, juntamente com Pedro (Cefas) e João, “colunas da Igreja (Gl 2,9). Judeus e cristãos se inclinavam diante de Tiago pelo amor que tinha à ei e pela sua grande austeridade. Conforme uma tradição (testemunhada por Hegesipo e recolhida por Eusébio) os judeus e os cristãos em Jerusalém chamavam Tiago com o apelativo de “o justoporque levou uma vida sem mancha e austeridade. Tiago foi o primeiro apostolo a dar a vida pelo Reino de Deus. Foi martirizado no ano 62 d.C.

A ele é atribuída a Carta de São Tiago dirigida às doze Tribos de diáspora (fora de Palestina). Nesta Carta São Tiago exorta a todos a terem a paciência nas provas e nas tentações pela qual conduz qualquer um à perfeição, a terem o amor fraterno sem acepção de pessoas. Ele instrui todos sobre a doutrina da e das obras: “A sem obras é morta”, diz São Tiago. Ele exorta a todos para que evitem os pecados da língua; ensina a discernir a verdadeira sabedoria da falsa sabedoria (da verdadeira humildade da falsa humildade). Nesta Carta a Igreja encontrou o fundamento do Sacramento da Unção dos Enfermos (na Quinta-Feira Santa o bispo abençoa o óleo para a unção dos enfermos) onde São Tiago escreveu: “Se um de vocês está enfermo, chame o presbítero da Igreja para ungi-lo em nome do Senhor; a oração da fé o salvará...” (Tg 5,14-15). E São Tiago terminou sua Carta com estas palavras: “Meus irmãos, se alguém dentre vós se desviar da verdade e outro o reconduzir, saiba que aquele que reconduz o pecador desencaminhado salvará sua alma da morte e cobrirá uma multidão de pecados(Tg 5,19).

Filipe era natural de Betsaida de Galiléia, a cidade de André e Pedro, seus amigos (cf. Jo 1,44), uma pequena cidade pertencente à tetrarquia de um dos filhos de Herodes, o Grande, também ele chamado Filipe (cf.Lc3,1). Nas listas dos Doze, ele é sempre colocado no quinto lugar (assim em Mt 10, 3; Mc 3, 18; Lc 6, 14; Act 1, 13), portanto substancialmente entre os primeiros. Apesar de Filipe ter origens hebraicas, o seu nome é grego, como o de André, e isto é um pequeno sinal de abertura cultural que não se deve subestimar. As notícias que temos sobre ele são-nos fornecidas pelo Evangelho de João.

Segundo o evangelho de São João Jesus o chamou a ser seu discípulo com estas palavras: “Vem e segue-me”. Filipe respondeu esse convite com generosidade e admiração. Mas Filipe não ficou contente em ser discípulo de Jesus. Ele levou Natanael para se encontrar com Jesus. Ao se encontrar pessoalmente com Jesus, Natanael confessou sua fé em Jesus: “Mestre, tu és o Filho de Deus, tu és o rei de Israel” (Jo 1,49). Filipe apareceu na multiplicação dos pães onde ele se mostrou pessimista em dar comida para uma grande multidão com pouco dinheiro que tinha, sem ter consciência de que ele estava com o Senhor dos milagres (Jo 6, 5-7). Diante dos seus olhos Filipe presenciou a multiplicação dos pães. Filipe apareceu também, em outra ocasião, como mediador daqueles prosélitos (recéns-convertidos) que se encontravam em Jerusalém com motivo da Páscoa e que queriam ver Jesus. Filipe e André se dirigiram ao Senhor para contar o desejo dos gregos em quererem ver o Senhor (Jo 12,20). A última intervenção de Filipe se encontra no evangelho deste dia (Jo 14,6-14). Para ele Jesus dirigiu estas palavras: “Quem me viu, viu o Pai”. Isto significa que conhecer Jesus, escutar suas palavras, viver seus mandamentos equivale a conhecer plenamente Deus, a contemplar seu rosto amoroso reflexo na bondade de Jesus Cristo, em sua misericórdia e amor para os pobres e simples.

São três pontos dignos de menção aqui sobre Filipe. Primeiro, Filipe, assim como Pedro e André, é um bom exemplo daquelas pessoas que que “receberam” Jesus rápida e e entusiasticamente numa época em que a maioria dos “seus não O receberam” (Jo 1,11). Segundo, embora existam indicações de que ele era tímido e fraco na fé (Cf. Jo 14,8-11), imediatemente testemunhou de Jesus quando falou sobre Ele para Natanael. Esse tema do testemunho sobre Cristo que é um mandamento dirigido a todos os cristãos, é desenvolvido extensivamente no Evangelho de João (Cf. Por exemplo Jo 5,31-36). Terceiro, o conteúdo desse testemunho se torna evidente quando Filipe testemunhou não somente sobre um homem surpreendente e sim sobre o que estava escrito na Lei de Moisés a respeito de Jesus (Cf. Jo 1,45).

Segundo o texto do evangelho de hoje, Filipe não compreende as palavras do Mestre Jesus, pois ele distingue Jesus de Deus. Por isso, ele intervém com um pedido que só aparentemente parece ingênuo: “Senhor, mostra-nos o Pai, isso nos basta!”. Filipe não compreende a identidade do seu Mestre. Para Filipe, Jesus era, sem dúvida nenhuma, um profeta (Jo 1,45), um enviado por Deus (Jo 12,13), um mediador que pode mostrar o Pai aos discípulos, mas não o próprio Deus. 

Diante do pedido, Jesus replica a Filipe: “Há tanto tempo estou convosco, e não me conheces, Filipe? Quem me viu, viu o Pai”.  Como Jão expressou no Prólogo ao seu Evangelho (Jo 1,18), Jesus é a única fonte para conhecer Deus. “Quem me viu, viu o Pai”.Com esta afirmação Jesus enfatiza a absoluta sintonia entre Ele e o Pai, unidade que se manifesta na mesma ação criadora: “Acreditai-me: eu estou no Pai e o Pai está em mim. Acreditai, ao menos, por causa destas mesmas obras” (Jo 14,11).

Para nós cristaos, seguidores de Cristo é incompreensível não termos fé em Deus através de Jesus Cristo que nos revelou o Deus Pai. É realmente maravilhoso o constatar como as portas do mal não prevalecem contra a Igreja de Cristo (Cf. Mt 16,18).

Se formos generosos ao chamamento do Senhor que nos sussurra: “Vem e segue-me”, seremos também, como Tiago e Filipe, instrumentos e reflexos do Senhor neste mundo para levar mais pessoas ao encontro do Senhor. Muitos continuam esperando palavras de esperança de cada um de nós. Esperar é crer que algo novo e melhor é possível através de cada um de nós e torcer para que aconteça. O Senhor não quer saber de nossas fraquezas nem de nossos limites. Os outros estão ai. Depende de você que se aproxime ou não para torná-los seus irmãos.

Graças aos apóstolos chegou até nós a mensagem de Deus, a mensagem de salvação, a mensagem que nos garante que temos um futuro vitorioso com Deus. Por nossa vez, nós não devemos deixar morrer na nossa mão a semente da Palavra de Deus. Precisamos passar adiante todo bem que sabemos fazer e que devemos fazer.

A festa dos santos apóstolos Filipe e Tiago, que hoje celebramos, dá-nos a oportunidade de meditarmos em nossa oração sobre o nosso conhecimento de Jesus Cristo. “Há tanto tempo estou convosco, e não me conheces, Filipe? Quem me viu, viu o Pai”, o Senhor repreendeu Filipe. Não pretenderemos, no entanto, alcançar uma compreensão clara e muito profunda do mistério do Filho de Deus encarnado com base nessas considerações, pois é impossível para a inteligência humana ter uma visão completa de sua realidade divina e humana. Em vez disso, humildemente queremos invocar a Deus para que nos conceda um aumento na fé: que acreditemos muito firmemente, para que esta convicção se manifeste na vida cristã na medida de Jesus Cristo. A verdade de Jesus de Nazaré: Verbo eterno do Pai e homem perfeito, ao encarnar-se em Maria Santíssima, é o ideal para cada pessoa humana, homem ou mulher. Não somos ainda cristãos e sim, estamos cristãos.

Jesus: Caminho, Verdade e Vida

Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”, disse Jesus no Evangelho deste dia.

Caminho” na Bíblia, significa muitas vezes o modo de proceder, a prática de vida, o modo de ser. Jesus é o Caminho. Ao aceitar Jesus como o Caminho devemos pautar a nossa vida à dele, devemos viver a prática dele que é o serviço de amor. Fora do amor, não há salvação.

De acordo com o Antigo Testamento, a Lei era o caminho, a verdade e a vida para o povo. Praticando a Lei, as pessoas acreditavam poder chegar a Deus(Caminho), pois sentiam que nela Deus comunicava seu projeto e caminhava fielmente com o povo aliado(Verdade), conduzindo-o à posse da promessa(Vida).

Para o Evangelho de João e para todos nós cristãos, o caminho não é mais a Lei como no AT, mas é uma Pessoa. Esta pessoa é Jesus Cristo. Jesus é o único Caminho, porque Sua vida e sua prática conduzem a humanidade ao encontro definitivo com Deus. Ele é o Caminho para o Pai porque na sua pessoa nos revela Deus, e no exemplo da sua vida e na luz da sua palavra nos mostra o itinerário a seguir para a nossa realização definitiva como filhos de Deus e irmãos dos homens.          

Jesus é a Verdade. Filosoficamente a verdade se define como a conformidade da inteligência com seu objeto (adaequatio intellectus ad rem) ou conformidade da coisa com a inteligência (adaequatio rei ad intellectum).

Para a Bíblia a verdade é o termo que designa a fidelidade e a confiança em alguém. A verdade é, então, uma relação interpessoal que se experimenta ao longo de uma história. O contrário da verdade é a ruptura de um vínculo de confiança que perdurava no tempo. 

Jesus é a Verdade em virtude de nele residir plenamente a realidade divina e que realizou nele a plenitude da realidade humana. Com sua atividade em favor do homem (Jo 10,37s), que manifesta o amor de Deus, revela ao mesmo tempo a verdade sobre Deus e sobre o homem. A verdade é, por isso, a lealdade absoluta de Deus frente aos homens, de maneira que o homem pode confiar cegamente na sua palavra, na sua promessa, na sua lealdade. Jesus é a Verdade no meio da mentira do mundo, porque ele é a revelação exata do Pai.     

Eu sou a Vida. No evangelho de João este termo “Vida” tem um significado inesgotável. 

·      Jesus, que recebe a plenitude do Espírito (Jo 1,32s), possui a plenitude da vida divina e dispõe dela, como o Pai (Jo 5,21.26;17,2).

·      A missão de Jesus é comunicar vida ao homem e vida em abundância (Jo 10,10), vida definitiva e indestrutível (Jo 10,28;17,2). 

·      Por isso, Jesus é a Vida porque a possui em plenitude e pode comunicá-la para quem acredita nele. Ele é a Vida em plenitude e sem fim num mundo de morte e autodestruição, e, por isso, podemos entrar em comunhão com o Deus vivo através dele.        

A adesão a Jesus e à sua prática em favor da vida faz com que as pessoas se tornem filhas de Deus, formando só uma família com Jesus e o Pai. Para conhecer o Pai e para chegar até Ele faz-se necessário comprometer-se com a prática do Filho e viver de acoedo com seus ensinamentos.

P. Vitus Gustama,svd

segunda-feira, 29 de abril de 2024

02/05/2024-Quintaf Da V Semana Da Páscoa

O AMOR CRISTÃO É UM AMOR CIRCULANTE:

De Deus Para Jesus E De Jesus Para Nós E De Nós Para Os Outros

Quinta-Feira da V Semana da Páscoa

Primeira Leitura: At 15,7-21

Naqueles dias, 7 depois de longa discussão, Pedro levantou-se e falou aos apóstolos e anciãos: “Irmãos, vós sabeis que, desde os primeiros dias, Deus me escolheu, do vosso meio, para que os pagãos ouvissem de minha boca a palavra do Evangelho e acreditassem. 8 Ora, Deus, que conhece os corações, testemunhou a favor deles, dando-lhes o Espírito Santo como o deu a nós. 9 E não fez nenhuma distinção entre nós e eles, purificando o coração deles mediante a fé. 10 Então, por que vós agora pondes Deus à prova, querendo impor aos discípulos um jugo que nem nossos pais nem nós mesmos tivemos força para suportar? 11 Ao contrário, é pela graça do Senhor Jesus que acreditamos ser salvos, exatamente como eles”. 12 Houve então um grande silêncio em toda a assembleia. Depois disso, ouviram Barnabé e Paulo contar todos os sinais e prodígios que Deus havia realizado, por meio deles, entre os pagãos. 13 Quando Barnabé e Paulo terminaram de falar, Tiago tomou a palavra e disse: “Irmãos, ouvi-me: 14 Simão acaba de nos lembrar como, desde o começo, Deus se dignou tomar homens das nações pagãs para formar um povo dedicado ao seu Nome. 15 Isso concorda com as palavras dos profetas, pois está escrito: 16 “Depois disso, eu voltarei e reconstruirei a tenda de Davi que havia caído; reconstruirei as ruínas que ficaram e a reerguerei, 17 a fim de que o resto dos homens procure o Senhor com todas as nações que foram consagradas ao meu Nome. É o que diz o Senhor, que fez estas coisas, 18conhecidas há muito tempo’. 19 Por isso, sou do parecer que devemos parar de importunar os pagãos que se convertem a Deus. 20 Vamos somente prescrever que eles evitem o que está contaminado pelos ídolos, as uniões ilegítimas, comer carne de animal sufocado e o uso do sangue. 21 Com efeito, desde os tempos antigos, em cada cidade, Moisés tem os seus pregadores, que leem todos os sábados nas sinagogas”.

Evangelho: Jo 15,9-11

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 9 Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei. Permanecei no meu amor. 10Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como eu guardei os mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor. 11Eu vos disse isto, para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena”.

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Onde há caridade, o que pode faltar? E onde não há, o que pode prestar? Este amor, porém, é distinto daquele pelo qual os homens amam uns aos outros como homens; por isso foi acrescentado: Como eu vos amei. E para que nos amou Cristo, senão para que possamos com Cristo reinar? Com este mesmo fim, portanto, nos amemos uns aos outros, para que assim distingamos nosso amor do daqueles que não se amam, para que Deus seja amado, porque no fundo não se amam de verdade. Já os que se amam para possuir a Deus, estes são os que verdadeiramente se amam(Santo Agostinho In Santo Tomas de Aquino: Catena Aurea, Exposição Contínua Sobre Os Evangelhos vol.4: Evangelho de São João, Ed. Ecclesiae, Campinas,SP,2021 p.443).

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Concilio de Jerusalém e a Abertura da Igreja a Ação do Espirito Santo

Por que vós agora pondes Deus à prova, querendo impor aos discípulos um jugo que nem nossos pais nem nós mesmos tivemos força para suportar? Ao contrário, é pela graça do Senhor Jesus que acreditamos ser salvos, exatamente como eles”. A Primeira Leitura de hoje é a continuação do texto da Primeira Leitura do dia anterior. No texto de hoje, o autor dos Atos dos Apóstolos nos apresenta o chamado Concílio de Jerusalém e dá um certo destaque sobre a importância deste Concilio. O episódio, situado intencionalmente no centro do livro dos Atos, é como o eixo de sua dinâmica narrativa: há um antes e um depois, está Jerusalém com sua comarca e a diáspora com a missão entre os pagãos, Pedro e Paulo.

O motivo da convocatória está em At 15,5: Alguns dos que tinham pertencido ao partido dos fariseus e que haviam abraçado a fé levantaram-se e disseram que era preciso circuncidar os pagãos e obrigá-los a observar a Lei de Moisés”. Podemos imaginar a cena com uma discussão bastante viva. As diversas posturas podem ficar violentas, pois a mudança do hábito para a novidade sempre gera a insegurança. Cada um está convencido de que a sua postura ou a sua posição é melhor do que a dos outros referente à Igreja.

A decisão favorável do Concílio tem três fases culminantes. Primeira fase, o discurso de Pedro (At 15,6-12). Neste discurso Pedro invoca três fatos: a conversão de Cornélio, o jugo insuportável da Lei e a salvação de todos pela graça de Jesus. A segunda fase: o discurso de Tiago (At 15,13-21) líder respeitado da comunidade judaica de Jerusalém. No discurso, Tiago invoca um texto universalista da Escritura, mas pede que se observem as chamadas “cláusulas de São Tiago”: “Sou do parecer que devemos parar de importunar os pagãos que se convertem a Deus. Vamos somente prescrever que eles evitem o que está contaminado pelos ídolos, as uniões ilegítimas, comer carne de animal sufocado e o uso do sangue”. Aqui se enfatiza alguns aspectos que creram razoáveis ser exigidos a todos: evitar a idolatria e a fornicação, e também manter a norma de não comer sangue nem animais estrangulados pelo caráter sagrado que se atribui ao sangue. Praticamente, são Tiago quer nos dizer que para ser cristão, não precisa ser judeu. Assim como para ser muçulmano não precisa ser árabe ou para ser hinduísta não precisa ser indiano. É procurar classificar o que é essencial e o que é secundário; o que é cultural e o que é a semente divina. Em outras palavras, não se pode impor nada da lei judaica aos gentios. Somente Cristo basta.  É necessária unicamente a adesão a Cristo para receber o Espírito Santo e chegar à salvação. É a decisão mais importante na história da Igreja nascente, pois tornou possível a sua abertura a todo o mundo. Afinal, Jesus Cristo é o Salvador do mundo. A terceira fase: o decreto do Concílio (At 15,22-29) e a promulgação do decreto apostólico em Antioquia (At 15,30-35): “... devemos parar de importunar os pagãos que se convertem a Deus. Vamos somente prescrever que eles evitem o que está contaminado pelos ídolos, as uniões ilegítimas, comer carne de animal sufocado e o uso do sangue”. Mais tarde são Paulo vai relatar na sua Carta aos Gálatas sobre o problema de circuncisão (Gl 2,1-10).

Qual lição que podemos tirar do Concílio de Jerusalém? A assembleia/Concílio em Jerusalém deu-nos a imagem de uma comunidade capaz de escutar, de valorizar prós e contras, de saber reconhecer os passos de abertura que o Espirito Santo lhes está inspirando ainda que sejam incomodados pela formação cultural e religiosa recebida. Quando todos se deixarem inspirar e conduzir pelo Espirito Santo, tudo tem saída e solução. Se nos deixarmos guiar pelo Espirito Santo à luz da fé e da experiência dos demais e o que Deus quer em cada momento, formaremos uma comunidade mais cristã e plena do Espirito Santo. A democracia é antes uma atitude pessoal do que um sistema político. Uma atitude mais tolerante baseada no diálogo em busca de pontos de convergência não somente nos ajuda a sermos melhores cidadãos, mas também a sermos melhores cristãos. Em tudo o ponto de referência não deve ser nossas convicções e sim a vontade de Cristo e de seu Espirito que acompanha a Igreja em todos os tempos e lugares. A abertura ao Espirito Santo é que salva os que tentam encontrar o caminho para chegar até Deus. E nós cristãos precisamos ser facilitadores para nossos irmãos para que possam encontrar o caminho seguro para o céu. Para isso é preciso ter muito amor no coração, pois o amor é sempre uma boa solução. “O amor é a vida do Espirito (Santo Agostinho: In ps. 54,7). Todo homem busca amor. Busca só o que ama (Santo Agostinho: In Joan. 7,1) 

Amar É Questão De Qualidade de Vida, Pois Deus é Amor

O texto do Evangelho se encontra no discurso da despedida de Jesus dos seus discípulos no evangelho de João (Jo 13-17). Jesus sabe de sua morte iminente e por isso, deu as últimas recomendações para os seus discípulos. São ensinamentos como valor de último testamento do Senhor para seus discípulos neste mundo.

O texto do evangelho de hoje é a continuação do discurso sobre a verdadeira videira que é o próprio Cristo (cf.Jo 15,1-8, o evangelho do dia anterior). No discurso em que Jesus afirma como a verdadeira videira e os discípulos, ao ramos, Jesus pede para permanecer nele como o ramo ligado ao tronco. O discípulo é aquele que “permanece n´Ele”. O que significa isso? São João o declara quando diz (Jo 15,9b): “Permanecei no meu amor”. A vida cristã tem pois só um problema: uma vez que pela iniciativa divina acontece a inserção em Cristo é só permanecer em seu amor, o que equivale a dizer: acolher, imitar e prolongar o amor que une Cristo ao Pai e Cristo aos cristãos- discípulos. É viver aquilo que Cristo viveu até o fim: Como eu vos amei (Jo 13,34-35; 15,12). A figura da videira sublinhava a necessidade da inserção para produzir fruto. Agora ela substituida pela espaço do amor, atividade em favor dos outros.

E hoje, certamente, Jesus nos disse: “Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei”. Isto quer dizer que o amor cristão nasce e começa em Deus. Originalmente é coisa de Deus e não nossa. A iniciativa é de Deus:Amamos porque Deus nos amou primeiro(1Jo 4,19). Deus é amor (1Jo 4,8.16), origem e motor do amor. O Filho, Jesus, se origina do Pai num processo de amor que é o Espírito. Este amor em Deus é comunidade, Trindade. E este amor vai se manifestando na criação, na encarnação, na filiação, na amizade, na alegria definitiva do encontro derradeiro. Deus é sempre a origem e o término. “Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei”. Que profundidade encontrada nesta afirmação. Eu sou amado de Deus e por Deus. Jesus me ama como o Pai ama Jesus. Eu sou privilegiado/privilegiada. Eu preciso viver esta verdade na minha vida cotidiana, em todas as circunstâncias. Deus me ama e eu creio no Seu amor. Com o amor divino por mim eu posso encarar tudo na minha vida como o amado/amada de Deus. Quanta serenidade terei eu se eu viver profundamente esta verdade! Não há nada que possa me separar do amor de Deus (cf. Rm 8,35-39).

E o sinal mais evidente, a encarnação desse amor divino é Jesus: “Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha vida eterna” (Jo 3,16). Jesus é a medida do amor de Deus e o exemplo a seguir. Todas as palavras de Jesus, todas as obras de Jesus são manifestação do seu amor por nós todos. Jesus é o amor de Deus feito rosto humano.

E este amor que nasce no Pai e passa por Jesus termina necessariamente nos irmãos. O amor cristão tem dois polos: Deus e os irmãos (o homem). Quem não ama o irmão, não conhece Deus, não conhece Jesus, não entendeu o que é a fé cristã. Sem amor a Deus e ao irmão, não há fé cristã. Amor cristão é, então, um amor circulante: o amor que vem do Pai para o Filho, Jesus e de Jesus para nós e de nós para os irmãos.

Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei”. É maravilhoso o que Jesus nos diz hoje. Há alguém que me ama com o amor divino: Jesus Cristo. O amor com que Jesus me ama é o mesmo amor com que Ele é amado pelo Pai. Diante de Deus sou amado e sou amado eternamente, porque Aquele que me ama é eterno: “Eu te amei com amor eterno, por isso, conservei para ti o amor”, diz Deus através do profeta Jeremias (Jr 31,3). Posso estar rodeado pelas dificuldades ou problemas, mas eu sei que há alguém que me ama. A certeza desse amor eterno por mim me dá força para lutar e para melhorar minha vida. A certeza desse amor eterno me dá serenidade em tudo. De fato, eu não estou sozinho na minha luta de cada dia, pois há alguém que me ama: “Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei”. Na minha oração só posso dizer a Jesus: “Obrigado, Senhor Jesus, porque me ama eternamente”.

Mas a relação com Deus não é algo automático. Por isso, Jesus acrescenta: “Permanecei no meu amor”.  A palavra “permaneceré uma forma de acreditar em Jesus, de deixar-se penetrar pelo amor de Jesus, de deixar-se envolver pela ternura. É uma entrega total em Jesus para que Ele possa operar totalmente em nós a fim de que possamos ser reflexos do mesmo amor para o mundo ao nosso redor.

Se guardardes os meus mandamentos, vós permanecereis no meu amor, assim como eu guardei os mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor”. Este Seé inquietante para nós, porque é a responsabilidade de nossa liberdade. Eu sei que Deus me ama, mas será que eu permaneço no amor de Deus? eu sei que Deus é misericordiodo no seu amor, mas será que permaneço neste Deus sendo misericordioso como os outros? (cf. Tg 2,13). Eu sei que sou filho (a) de Deus, mas será que eu vivo como tal? Eu sei que faço parte da família de Deus, mas será que estou dela? São Paulo nos esclarece sobre este tema ao nos dizer: “Não devais nada a ninguém, a não ser o amor mutuo, pois quem ama o outro cumpriu a Lei... A caridade não pratica o mal contra o próximo. Portanto, a caridade é a plenitude da Lei” (Rm 13,8.10). Tudo isto significa que o amor divino com que eu sou amado deve também transparecer e circular na minha relação com os outros. Nisto mostrarei que eu permaneço no amor divino. 

O amor fraterno quando for vivido na sua profundidade leva a pessoa à alegria: “Eu vos disse isso para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena” (Jo 15,11). A verdadeira alegria brota do amor e da fidelidade com que se guardam na vida concreta as leis do amor. Sentiremos essa alegria na medida em que permanecermos no amor a Jesus, guardando os mandamentos de amor, seguindo o estilo de sua vida.

 Se vivermos tristes, será que isso acontece por causa da falta de nossa permanência no amor divino? Será que abandonamos o amor na nossa vida, por isso é que ficamos tristes o tempo todo? Será que nosso amor está nem morno nem quente, como diz o livro de Apocalipse (Ap 3,16)?

P. Vitus Gustama,svd

01/05/2024-Quartaf Da V semana Da Páscoa

PERMANECER EM CRISTO É CONDIÇÃO PARA TER UMA VIDA FRUTÍFERA

Quarta-Feira da V Semana da Páscoa

Primeira Leitura: At 15,1-6

1 Naqueles dias, chegaram alguns da Judeia e ensinavam aos irmãos de Antioquia, dizendo: “Vós não podereis salvar-vos, se não fordes circuncidados, como ordena a Lei de Moisés”. 2 Isto provocou muita confusão, e houve uma grande discussão de Paulo e Barnabé com eles. Finalmente, decidiram que Paulo, Barnabé e alguns outros fossem a Jerusalém, para tratar dessa questão com os apóstolos e os anciãos. 3 Depois de terem sido acompanhados pela comunidade, Paulo e Barnabé atravessaram a Fenícia e a Samaria. Contaram sobre a conversão dos pagãos, causando grande alegria entre todos os irmãos. 4 Chegando a Jerusalém, foram recebidos pelos apóstolos e os anciãos, e narraram as maravilhas que Deus tinha realizado por meio deles. 5 Alguns dos que tinham pertencido ao partido dos fariseus e que haviam abraçado a fé levantaram-se e disseram que era preciso circuncidar os pagãos e obrigá-los a observar a Lei de Moisés. 6 Então, os apóstolos e os anciãos reuniram-se para tratar desse assunto.

Evangelho: Jo 15,1-8

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 1“Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. 2Todo ramo que em mim não dá fruto ele o corta; e todo ramo que dá fruto, ele o limpa, para que dê mais fruto ainda. 3Vós já estais limpos por causa da palavra que eu vos falei. 4Permanecei em mim e eu permanecerei em vós. Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós não podereis dar fruto, se não permanecerdes em mim. 5Eu sou a videira e vós os ramos. Aquele que permanece em mim e eu nele, esse produz muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. 6Quem não permanecer em mim, será lançado fora como um ramo e secará. Tais ramos são recolhidos, lançados no fogo e queimados. 7Se permanecerdes em mim e minhas palavras permanecerem em vós, pedi o que quiserdes e vos será dado. 8Nisto meu Pai é glorificado: que deis muito fruto e vos torneis meus discípulos.

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Todo fruto de boa obra nasce daquela raiz, que é aquele que por sua graça nos libertou e com seu auxílio faz crescer para que possamos dar mais fruto. Por isso é que, repetindo e explicando o que acima dissera, acrescenta: Eu sou a videira, vós, as varas. Quem permanece em mim (crendo, obedeendo e perseverando) e eu nele (iluminando, socorrendo e concedendo a perseverança), esse (e nenhum outro) dá muito fruto (Alcuíno, In Santo Tomas de Aquino: Catena Aurea, Exposição Contínua Sobre Os Evangelhos vol.4: Evangelho de São João, Ed. Ecclesiae, Campinas,SP,2021 p.439).

A vara (o ramo) da videira é tanto mais desprezivel se for cortada dela, quanto mais gloriosa se nela permanecer. À vara, portanto, convém um de dois destinos: ou a videira, ou o fogo; e se não estiver na videira, estará no fogo. ... Só se deve dizer que as palavras de Cristo permanecem em nós quando cumprimos os seus mandamentos e amamos as suas promessas. Já quando as palavras dele permanecem na memória, mas não se encontram na vida, a vara já não é contada na videira, porque já não puxa da raiz a sua vida (Santo Agostinho. Idem p.440).

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É Preciso Converter-se Para Ser Verdadeiro Cristão

Durante três dias os Atos dos Apóstolos nos descreverão o que passou na assembleia de Jerusalém, também chamada o Concílio de Jerusalém (At 15,1-35). Participam os dois centros cristãos de maior destaque: Jerusalém e Antioquia. A ação se inicia em Antioquia onde acontece a discussão sobre a obrigação da circuncisão para os pagãos convertidos ao cristianismo. Nada pode ser resolvido em Antioquia. Então Paulo e Bernabé levam a questão para a Igreja-mãe de Jerusalém (At 15,1-4). Dai surge o Concílio de Jerusalém para procurar solução para o problema.

O surgimento do Concílio de Jerusalém passou por três etapas. Na primeira etapa encontra-se um grande problema. Os judeu-cristãos ensinaram que sem a circuncisão dos pagãos convertidos para o cristianismo, como manda a Lei de Moisés, não há salvação para eles (os pagãos convertidos). Ou seja, para ser cristão, um pagão convertido teria que fazer-se ou tornar-se judeu primeiro (circuncisão). Em outras palavras, a questão ou a pergunta que está em jogo é esta: Será que é preciso ser judeu (fazer circuncisão) para ser cristão ou basta ser batizado (após a manifestação da conversão) para se tornar cristão? É a mesma pergunta paralela: É preciso ser árabe para ser muçulmano? É preciso ser indiano para ser hinduísta ou budista? É preciso ser japonês para ser adepto do Xintoísmo? E assim por diante....

Por isso, lemos a seguinte frase: “Alguns dos que tinham pertencido ao partido dos fariseus e que haviam abraçado a fé levantaram-se e disseram que era preciso circuncidar os pagãos e obrigá-los a observar a Lei de Moisés. Então, os apóstolos e os anciãos reuniram-se para tratar desse assunto”.

Esta é a frase chave para o surgimento do primeiro Concílio da Igreja na história que aconteceu em Jerusalém, que lemos na Primeira Leitura de hoje. Uma certa categoria de cristãos, muito apegada à tradição judaica, chamada de “judaizantes”, tinha muito empenho em permanecer fiel à Lei de Moisés que praticava antes de sua conversão a Jesus. Esses cristãos-judeus queriam impor o costume de Moisés (circuncisão) a todos os convertidos do paganismo.

A questão era de uma extrema gravidade porque manter as obrigações da Lei de Moisés, sobretudo a circuncisão, era desanimar os pagãos, em vez de seguir apenas os ensinamentos de Jesus Cristo. Também era grave porque a fé em Jesus se tornaria insuficiente. A imposição do rito judaico da circuncisão aos pagãos convertidos com a consequente observância de todas as prescrições judaicas põe em discussão a opção cristão.  Ou seja, se a circuncisão é uma condição prévia para ser cristão isto significa que a fé em Jesus Salvador do mundo não basta mais (cf. Jo 3,16). Em outras palavras, a vinda de Jesus para este mundo não seria mais para salvar a humanidade e sim para manter a tradição judaica. Dentro desta linha de pensamento pode-se dizer que o homem não pode ser salvo em Jesus Cristo, pois a condição seria a circuncisão. Ruptura ou compromisso?  Tradição judaica ou a autonomia do cristianismo? A partir dessa questão é que Paulo e Barnabé foram a Jerusalém para tratar do assunto com os Apóstolos e anciãos lá. A síntese da relação aos responsáveis da Igreja de Jerusalém, como escreveu são Lucas (autor dos Atos) não deixa dúvidas de que a Igreja-mãe de Jerusalém só tem de reconhecer e dar a plena aprovação a iniciativa de Paulo e Barnabé de ser cristão sem ser judeus (fazer circuncisão). Esta será a solução.

Depois de identificar o problema vem a segunda etapa. O problema ou a controvérsia ameaçava a unidade da Igreja. Como se resolve? Não de uma maneira disciplinar e sim através de um discernimento mediante o diálogo entre aqueles que percebem a abertura como um dom do Espirito e aqueles que representam o ministério de autoridade. Por esta razão, Paulo e Barnabé decidiram ir a Jerusalém para consultar os Apóstolos e presbíteros sobre a controvérsia.

Em terceira etapa: a resolução e suas consequências. Depois de examinar os diversos aspectos, a assembleia (concílio) toma uma resolução que tem como consequências muito importantes para o desenvolvimento/crescimento da Igreja.

Cada momento de nossa vida sempre traz algo novo. Podemos seguir ou trilhar o mesmo caminho diariamente, mas os acontecimentos são variados ou diferente. Esses acontecimentos clamam nossa atenção e nossa reflexão para que não vivamos em uma maneira linear e sim multidimensional, pois a vida pode ser vista a partir de variedade de ângulos. Altos e baixos que nos acompanham diariamente nossa vida são sinais da vida. É igual o computador ou monitor no CTI de um hospital que registra os batimentos cardíacos do paciente: altos e baixos são sinais de que o paciente está reagindo. A ausência destes altos e baixos mostra que o paciente deixou de reagir mais, e que pode ser um aviso sobre o término de sua caminhada neste mundo. Se soubermos refletir bem sobre os problemas, cedo ou tarde vão nos trazer muita sabedoria e muitas soluções para nossa vida. A solução para os problemas de nossa vida não é um meteoro e sim um mosaico feito de atos e escolhas comuns, planos e reflexões. A vida não para de nos deixar perguntas e vivemos em busca das respostas. Mas cada resposta sempre causa outras perguntas. Estamos em permanente busca de respostas para a vida diária. É bom nos aproximarmos sempre da Luz do Mundo, Jesus Cristo (Jo 8,12) para que nossa vida seja iluminada. Ou na linguagem do Evangelho de hoje é preciso permanecermos em Cristo para podermos produzir muitos frutos bons.

A Primeira Leitura de hoje fala da primeira etapa: a identificação do problema na Igreja. Não se parece este problema ao que vivemos hoje em relação à inculturação do cristianismo em contextos não ocidentais? A Igreja não passou pelo mesmo problema em que o ocidente considerava a cultura local como uma cultura inferior? Não há certas comunidades cristãs ou certos sacerdotes que obrigam os pais a colocarem o nome de um santo para o primeiro nome para poder batizar uma pessoa, pois outros nomes são estranhos ou não dignos? Como resolvemos as tensões surgidas dos grupos que atuam na Igreja?

O discernimento é sempre uma via aconselhavel para verificar o que é verdadeiro e o que é não o é.O discernimento leva a reconhecer e a sintonizar-se com a ação do Espírito, em uma autêntica obediência espiritual. Por esta via, torna-se abertura para a novidade, coragem para sair, resistência à tentação de reduzir o novo ao já conhecido. O discernimento é uma atitude autenticamente espiritual. Enquanto obediência ao Espírito, o discernimento é, sobretudo, escuta, que pode tornar-se também um estímulo encorajador para a nossa ação, bem como capacidade de fidelidade criativa à única missão desde sempre confiada à Igreja. O discernimento faz-se, desta forma, um instrumento pastoral capaz de identificar estradas viáveis a serem propostas aos jovens de hoje, além de oferecer para a missão orientações e sugestões que não sejam predefinidas, mas fruto de um percurso que permita seguir o Espírito. Esta estrada assim estruturada convida a abrir e não a fechar, a pôr algumas questões e a fazer reflexões sem sugerir respostas predeterminadas, a vislumbrar alternativas e a procurar oportunidades(XV Assembleia Geral Ordinária Do Sinodo Dos Bispos, 28 de outubro de 2018: Os Jovens, A Fé E O Discernimento Vocacional, n.2).

A Relação Pessoal Com Jesus É Frutífera

O Evangelho deste dia nos situa numa ceia de despedida de Jesus de seus discípulos (Jo 13-17). Por isso, os gestos e as palavras de Jesus, neste contexto, representam as suas últimas indicações e recomendações, os seus últimos “testamentos”. Os discípulos recebem essas orientações para poderem continuar no mundo a missão de Jesus. Nasce, assim, a comunidade da Nova Aliança, alicerçada no serviço (cf. Jo 13,1-17) e no amor (cf. Jo 13,33-35), que pratica as obras de Jesus, animada pelo Espírito Santo (cf. Jo 14,15-26).

1. Conectar Minha Vida Na Vida de Jesus Para Produzir Bons Frutos

Eu sou a videira e vós, os ramos”, diz Jesus. É uma comparação simples, mas profunda que nos oferece muitas sugestões para a vida cristã. O ramo não vive sem o tronco. O ramo, para viver, precisa receber a seiva do tronco permanentemente, sem a qual morrerá.

Nesta metáfora encontramos uma maravilhosa certeza de nossa vida: que estamos enraizados em Alguém que nos dá vida, estabilidade e força para lutar e ter sucesso na luta: Jesus Cristo. Jesus vem para nos dar vida em abundância (Jo 10,10).

Além disso, esta imagem serve para sublinhar a comunicação e circulação de vida divina que existe entre Jesus e aqueles que nele crêem. A vida de Deus passa a circular na vida daqueles que aceitam Jesus e vivem de acordo com seus ensinamentos. Trata-se de uma relação que nos liga, na sua dimensão mais profunda, a Jesus. Jesus vive e é para todos os crentes o único autor da vida e o princípio de sua organização. Jesus é a seiva, a raiz e o fundamento da vida do crente. Eu preciso viver conectado com Cristo para viver profundamente e abundantemente.

Eu sou a videira e vós, os ramos”. Entre Jesus e o cristão há uma comunhão de vida. Se assim é, os cristãos se alimentam e crescem com a mesma vida de Jesus Cristo, como os ramos que se alimentam da seiva que vem do tronco. Quem se alimenta dos ensinamentos de Jesus acaba sendo vida para os demais. Quem se alimenta dos ensinamentos de Cristo vive e pensa sempre no bem e na salvação de todos como a seiva passa para todos os ramos a fim de alimentá-los.

2. Estar Unido a Cristo é a Condição Para Ter Uma Vida Frutífera

Aquele que permanece em mim e eu nele, esse produz muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,5; cf. Gl 2,20; 5,24;6,14;Fl 1,21;3,8.12;Ef 4,24;Cl 2,6;3,1). Se nossa vida e seus frutos dependem de Jesus Cristo, isso significa que permanecer unido a Jesus Cristo é uma condição sine qua non (incondicionalmente). Permanecer em Cristo é a condição para ter a capacidade de produzir muitos frutos para Deus e para os outros. Jesus é “a verdadeira videira”, de onde brotam os frutos da justiça, do amor, de verdade e da paz; é n’Ele e nas suas propostas que os homens podem encontrar a vida verdadeira. A vida enraizada em Cristo faz com que produzamos algo de bom e de útil para a humanidade. Jesus quer que produzamos o que tem a ver com vida para os demais. Para isso só há uma condição: estar sempre ligado a Cristo.

3.  O Cristão Pertence ao Senhor 

Eu sou a videira e vós, os ramos”, diz-nos o Senhor. Tenho que estar consciente de que eu pertenço ao Senhor. Eu sou do Senhor. Eu vivo por causa do Senhor. Eu devo falar e agir em nome do Senhor. Eu devo fazer aquilo que tem a ver com a vontade do Senhor que se resume no amor fraterno. O cristão não é nem deve ser um ser isolado e não pode ficar isolado dos outros. O cristão pertence ao Senhor e está com o Senhor. O cristão não é solitário e sim solidário. Cada cristão é membro de um corpo – o Corpo místico de Cristo. A sua vocação é seguir Cristo, integrado numa família de irmãos que partilha a mesma fé, percorrendo em conjunto o caminho do amor. A vivência da fé é sempre uma experiência comunitária. É no diálogo e na partilha com os irmãos que a nossa fé nasce, cresce e amadurece, e é na comunidade, unida por laços de amor e de fraternidade, que a nossa vocação se realiza plenamente.

O que pode interromper a nossa união com Cristo e tornar-nos ramos secos e estéreis é quando conduzirmos a nossa vida por caminhos de egoísmo, de isolamento, de ódio, de injustiça, de divisão; quando nos fecharmos em esquemas de autossuficiência, de comodismo e de instalação. Ninguém cresce sem o outro.

4. É Necessária Uma Poda Permanente Para Poder Produzir Bons Frutos

“Todo ramo que dá fruto, ele o limpa, para que dê mais fruto ainda”. Qualquer vinhateiro não tem medo de cortar alguns ramos ou folhas para que toda a seiva se concentre nuns determinados ramos para que produzam frutos abundantes e de qualidade.

Os ramos não têm vida própria e não podem produzir frutos por si próprios; necessitam da seiva do tronco. Para que não nos tornemos “ramos” secos, temos que ter coragem de cortar o que não presta em nossa vida. não tenha medo de eliminar uma dor pequena em função de retirada da dor maior. Não deixemos nenhuma coisa negativa crescer em nós, pois um dia tudo isso achamos que seja normal. Deixemos somente o bem crescer em nós para que sejamos o bem para os outros. Não podemos viver no comodismo em nome do prazer que nos esmaga e oprime. Vivamos na sinceridade, na retidão, na bondade, na verdade, no amor, na caridade e assim por diante. Somos não pelos bens que possuímos, nem pelo cargo que ocupamos nem pelo poder que temos e sim pelos valores que vivemos. Para isso, precisamos podar o que não é o bem nem faz bem para nossa vida e a vida das pessoas ao nosso redor. A poda é uma atividade positiva: elimina fatores de morte, fazendo que o cristão seja cada vez mais autêntico, mais livre, tenha capacidade maior de entrega e aumente sua eficácia. É um corte purificador, produtivo e libertador.          

Algumas perguntas para a revisão de nossa vida: Que parte do meu modo de viver que está seca? Que parte da minha maneira de viver e de pensar que precisa ser podada? Como cristão, de que minha vida cristã se alimenta?

P. Vitus Gustama,svd

São José Operário, 01/05/2024

SÃO JOSÉ OPERÁRIO

01 de Maio

Primeira Leitura: Gn 1,26–2,3

26 Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem e segundo a nossa semelhança, para que domine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, e sobre todos os répteis que rastejam sobre a terra”.  27 E Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou: homem e mulher os criou. 28 E Deus os abençoou e lhes disse: “Sede fecundos e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a! Dominai sobre os peixes do mar, sobre os pássaros do céu e sobre todos os animais que se movem sobre a terra”. 29 E Deus disse: “Eis que vos entrego todas as plantas que dão semente sobre a terra, e todas as árvores que produzem fruto com sua semente, para vos servirem de alimento. 30 E a todos os animais da terra, e a todas as aves do céu, e a tudo o que rasteja sobre a terra e que é animado de vida, eu dou todos os vegetais para alimento”. E assim se fez. 31E Deus viu tudo quanto havia feito, e eis que tudo era muito bom. Houve uma tarde e uma manhã: sexto dia. 2,1 E assim foram concluídos o céu e a terra com todo o seu exército. 2 No sétimo dia, Deus considerou acabada toda a obra que tinha feito; e no sétimo dia descansou de toda a obra que fizera. 3 Deus abençoou o sétimo dia e o santificou, porque nesse dia descansou de toda a obra da criação.

Evangelho: Mt 13,54-58

Naquele tempo, 54 dirigindo-se para a sua terra, Jesus ensinava na sinagoga, de modo que ficavam admirados. E diziam: “De onde lhe vêm essa sabedoria e esses milagres? 55Não é ele o filho do carpinteiro? Sua mãe não se chama Maria, e seus irmãos não são Tiago, José, Simão e Judas? 56 E suas irmãs não moram conosco? Então, de onde lhe vem tudo isso?” 57 E ficaram escandalizados por causa dele. Jesus, porém, disse: “Um profeta só não é estimado em sua própria pátria e em sua família!” 58E Jesus não fez ali muitos milagres, porque eles não tinham fé.

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No discurso na praça de São Pedro no Vaticano no dia 1º de maio de 1955 o Papa Pio XII instituiu a festa de São José Operário, quis oferecer ao trabalhador cristão um modelo e protetor. (http://w2.vatican.va/content/pius-xii/pt.html). Queremos reafirmar, em forma solene, a dignidade do trabalho, a fim de que inspire na vida social as leis da equitativa repartição de direitos e deveres.” (Pp. Pio XII).

Na Carta Apostólica Patris Corde,n.6 (8 de dezembro de 2020), o Papa Francisco escreveu:  Um aspeto que carateriza São José – e tem sido evidenciado desde os dias da primeira encíclica social, a Rerum novarum de Leão XIII – é a sua relação com o trabalho. São José era um carpinteiro que trabalhou honestamente para garantir o sustento da sua família. Com ele, Jesus aprendeu o valor, a dignidade e a alegria do que significa comer o pão fruto do próprio trabalho.

Neste nosso tempo em que o trabalho parece ter voltado a constituir uma urgente questão social e o desemprego atinge por vezes níveis impressionantes, mesmo em países onde se experimentou durante várias décadas um certo bem-estar, é necessário tomar renovada consciência do significado do trabalho que dignifica e do qual o nosso Santo é patrono e exemplo.

O trabalho torna-se participação na própria obra da salvação, oportunidade para apressar a vinda do Reino, desenvolver as próprias potencialidades e qualidades, colocando-as ao serviço da sociedade e da comunhão; o trabalho torna-se uma oportunidade de realização não só para o próprio trabalhador, mas sobretudo para aquele núcleo originário da sociedade que é a família. Uma família onde falte o trabalho está mais exposta a dificuldades, tensões, fraturas e até mesmo à desesperada e desesperadora tentação da dissolução. Como poderemos falar da dignidade humana sem nos empenharmos para que todos, e cada um, tenham a possibilidade dum digno sustento?

A pessoa que trabalha, seja qual for a sua tarefa, colabora com o próprio Deus, torna-se em certa medida criadora do mundo que a rodeia. A crise do nosso tempo, que é económica, social, cultural e espiritual, pode constituir para todos um apelo a redescobrir o valor, a importância e a necessidade do trabalho para dar origem a uma nova «normalidade», em que ninguém seja excluído. O trabalho de São José lembra-nos que o próprio Deus feito homem não desdenhou o trabalho. A perda de trabalho que afeta tantos irmãos e irmãs e tem aumentado nos últimos meses devido à pandemia de Covid-19, deve ser um apelo a revermos as nossas prioridades. Peçamos a São José Operário que encontremos vias onde nos possamos comprometer até se dizer: nenhum jovem, nenhuma pessoa, nenhuma família sem trabalho! 

O Homem É a Imagem De Deus No Mundo

Façamos o homem à nossa imagem e segundo a nossa semelhança, para que domine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, e sobre todos os répteis que rastejam sobre a terra”.

O relato do Livro de Gênesis apresenta a criação do homem como o ponto alto de toda a criação. Depois que criou tudo, Deus, finalmente, criou o ser humano. No mar Deus deixou os peixes e outros semelhantes e na terra criou as plantas e os animais terrestres. Tudo foi feito para o bem do homem. 

Entre as criaturas, o homem possui uma característica singular e única. Ele é o único ser, entre todas as criaturas, criado à “imagem de Deus”. O conceito bíblico de “imagem de Deus” leva a uma reciprocidade na relação Deus-homem. Deus é o tudo do homem. No âmago do humano está a abertura construtiva, inexorável para Deus. Dentro de si o homem tem algo de Deus, pois ele é o fruto do sopro de Deus. Por ter sido feito do barro da terra, à semelhança dos animais, é mortal. Mas por ser vida da vida de Deus é transcendente. O sopro divino é o que coloca o homem no âmbito humano e o distingue dos animais e de outras criaturas.

O homem é a imagem e a semelhança de Deus. Por isso, o homem é o tu de Deus. Quando olha para a criatura humana, o próprio Deus se vê refletido no homem. Deus não criou o homem como objeto qualquer, mas Ele o criou como um ser correspondente, capaz de responder ao “tu” divino.

O homem é “imagem de Deus” por sua autoridade sobre o universo, por sua inteligência criadora com que foi posto em condições de dominar a natureza, desenvolvê-la e transformá-la.

Como “Imagem de Deus” o destino terreno do homem não é viver por viver; trabalhar, amar, reproduzir-se ou dominar a criação e sim conviver, compartilhar a vida com Deus e caminhar juntos. O homem jamais perderia a consciência de ser “Imagem de Deus”. Tudo que o homem fizer, deve refletir o querer de Deus.

Por isso, vem a pergunta: será que minha maneira de viver revela ao mundo que sou imagem de Deus? Será que o mundo percebe que sou imagem de Deus? será que eu faço morrer a imagem de Deus em mim que leva o mundo a crer sobre a “morte” de Deus no mundo?

O Trabalho É Sagrado Porque Mantém a Vida Do Homem

O livro de Gênesis nos relatou que Deus “trabalhou” seis dias. Quando o homem trabalha, ele reproduz a imagem de Deus que trabalhou seis dias e no sétimo dia descansou. Pelo trabalho o homem toca Deus. O trabalho enobrece o homem e ele pode consagrar a Deus qualquer atividade por simples que ela seja.

Para a Bíblia, o trabalho é uma função sagrada, é algo que de certa forma pertence ao mundo e ao próximo, é aquilo que deve ocupar o tempo do homem. O trabalho é sagrado porque mantém a vida do homem, e Deus é sensível ao sofrimento da vida e ao trabalho do homem. O trabalho é o meio de subsistência do homem. A Bíblia não tem uma única palavra de louvor para o preguiçoso e a pobreza, quando é consequência da preguiça. A preguiça nunca é considerada virtude. São Paulo nos recorda: “Quem não quer trabalhar, também não há de comer” (2Ts 3,10).

O trabalho é também um caminho de realização da pessoa, o meio pelo qual o homem atualiza suas possibilidades e exercita suas capacidades. O trabalho é um elemento de personificação e de humanização. O que importa na vida do homem é o esforço sempre renovado. É o amor que se coloca em tudo aquilo que faz. 

Mas o homem precisa estar consciente de que o trabalho deve possibilitar viver e desfrutar a vida. Jamais podemos ser escravos do trabalho. O homem trabalha para viver e não viver somente para trabalhar. Todos condenam a preguiça, mas nem todos estão conscientes dos perigos do excesso de trabalho. 

Na Bíblia, Deus se manifesta como Aquele que trabalha, mas que depois descansa. Deus quer que o homem interrompa seus afazeres, recupere suas energias e encontre tempo para elevar seu olhar mais para o alto. O preceito sabático, na Bíblia, existe para libertar o homem de seu próprio trabalho. O significado profundo do preceito sabático está em romper a alienação do trabalho. O preceito sabático existe para impedir que o homem pense que ele somente vale aquilo que produz. O homem deve saber que o seu “ser” e aquilo que ele “faz” ou “produz” são coisas completamente distintas. Um mundo que valoriza somente segundo o critério de desempenho não pode ser considerado um mundo humano e sim um mundo mecanizado.

Paralelamente, o preceito cristão do descanso dominical existe para libertar o homem de seu próprio trabalho. É o homem que dá valor ao seu trabalho ou à função que desempenha, e não o contrário. O trabalho em excesso pode embotar a mente e oprimir o espirito, convertendo assim o trabalho numa espécie de ídolo. 

Em Nazaré Jesus Ajuda José No Trabalho Como Carpinteiro

De onde lhe vêm essa sabedoria e esses milagres? Não é ele o filho do carpinteiro?”. Jesus começa o relato dos “fatos” da vida terrena de Jesus com a rejeição/recusa pelos nazarenos: “Acaso não é este filho do carpinteiro?”.

A palavra “carpinteiro” (tékton) somente aparece em Mc 6,3 e Mt 13,55 em todo o Novo Testamento. Em grego “tékton” não significa somente uma pessoa que trabalha com madeira, mas também com ferro (serralheiro) e pedra (pedreiro). Jesus trabalhava com essas coisas acompanhando seu pai adotivo, José.

No texto de Marcos (Mc 6,3) o termo “carpinteiro” (tékton) se aplica a Jesus: é a única passagem bíblica em que se menciona o ofício de exercido por Jesus: “Não é este o carpinteiro?”. Em Mateus o termo se aplica a José: “Não é ele o filho do carpinteiro?”.

José trabalha (carpinteiro) e Jesus (carpinteiro/filho do carpinteiro) também como sua Mãe, Maria, dona de casa. O trabalho é a expressão cotidiana do amor na vida da família de Nazaré. O tipo de trabalho para manter a família é carpintaria. A simples palavra “carpinteiro” abarca toda a vida de São José.

Para Jesus, os anos em Nazaré (antes de sua vida pública) são os anos da vida escondida da qual fala o evangelista Lucas atrás do episódio no Templo: “Em seguida, desceu com eles a Nazaré e lhes era submisso” (Lc 2,51ª). Esta “submissão” quer dizer, primeiramente, a obediência de Jesus na casa de Nazaré. Em segundo lugar, esta “submissão” é entendida também como participação no trabalho de José. O que era chamado o “filho de carpinteiro” aprendeu o trabalho de seu pai adotivo, José.

O trabalho humano, especialmente o trabalho manual, tem no Evangelho um significado especial. Junto à humanidade do Filho de Deus, o trabalho faz parte do mistério da encarnação. Graças ao seu trabalho, sobre qual exerce sua profissão com Jesus, São José aproxima o trabalho humano ao mistério da redenção. No crescimento humano de Jesus “em sabedoria, idade e graça” representou uma parte notável a virtude da laboriosidade. O trabalho faz o homem, em certo sentido, mais homem.

O trabalho humaniza o homem e através de seu trabalho honesto ele se diviniza e potencia sua humanidade. Trabalhando com Jesus, são José se diviniza, pois Jesus é o Deus-conosco. São José Operário, interceda por nós para que através de nosso trabalho possamos nos humanizar mais a fim de que consigamos ser divinizados. 

Os seres humanos já foram descritos como animais que falam, animais que riem, animais que usam ferramentos ou animais que brincam. No entanto, somos sobretudo animais que trabalham. As tarefas que executamos, o trabalho pelo qual somos remunerados, são profundamente importantes para nós. Neste sentido, o trabalho é uma bênção. Quando encontramos um trabalho que podemos amar e executar da melhor forma possível, conquistamos uma vitória na vida.

É preciso esforçar-se para aprender a fim de poder se virar em qualquer situação. Quando sabemos, precisamos ensinar os outros. Quando não sabemos, precisamos aprende dos outros. É preciso aprender a trabalhar, a perguntar, a pesquisar e assim por diante. Ninguém nasce como sábio. Através do trabalho o homem se distingue de outras criaturas. Com o trabalho o homem ganha seu pão de cada dia para sustentar a vida que é sagrado. Por isso, o trabalho é também sagrado. Também através do trabalho o homem mostra seu caráter social, pois entra em contato com os outros. O trabalho também é o lugar de encontro social. Através do trabalho o homem se transcende, pois o homem se esforça todos os dias para se superar. São Paulo sabe muito bem disso.

Oração a São José (São Pio X )

“Glorioso São José, modelo de todos os que se dedicam ao trabalho, obtende-me a graça de trabalhar com espírito de penitência para expiação de meus numerosos pecados; de trabalhar com consciência, pondo o culto do dever acima de minhas inclinações; de trabalhar com recolhimento e alegria, olhando como uma honra empregar e desenvolver pelo trabalho os dons recebidos de Deus; de trabalhar com ordem, paz, moderação e paciência, sem nunca recuar perante o cansaço e as dificuldades; de trabalhar, sobretudo com pureza de intenção e com desapego de mim mesmo, tendo sempre diante dos olhos a morte e a conta que deverei dar do tempo perdido, dos talentos inutilizados, do bem omitido e da vã complacência nos sucessos, tão funesta à obra de Deus! Tudo por Jesus, tudo por Maria, tudo à vossa imitação, oh! Patriarca São José! Tal será a minha divisa na vida e na morte. Amém” (Fonte: https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2021-05/sao-jose-operario-padroeiro-dos-trabalhadores.html).

P. Vitus Gustama,svd

V Domingo Da Quaresma, Ano Litúrgico "C", 06/04/2025

A MISERICÓRDIA DE DEUS É SEMPRE MAIOR DO QUE A MISERIA HUMANA V DOMINGO DA QUARESMA DO ANO “C” I Leitura: Is 43,16-21 16 Isto diz o Se...