NOS
SIMPLES DEUS PAI SE REVELA
XIV Domingo Comum “A”
I Leitura: Zacarias 9,9-10
Assim diz o Senhor: 9 “Exulta, cidade de Sião! Rejubila, cidade de Jerusalém! Eis que vem teu rei ao teu encontro; ele é justo, ele salva; é humilde e vem montado num jumento, um potro, cria da jumenta. 10 Eliminará os carros de Efraim, os cavalos de Jerusalém; ele quebrará o arco de guerreiro, anunciará a paz às nações. Seu domínio se estenderá de um mar a outro mar, e desde o rio até os confins da terra”.
II Leitura: Rm 8,9.11-13
Irmãos: 9Vós não viveis segundo a carne, mas segundo o espírito, se realmente o Espírito de Deus mora em vós. Se alguém não tem o Espírito de Cristo, não pertence a Cristo. 11E, se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos mora em vós, então aquele que ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos vivificará também vossos corpos mortais por meio do seu Espírito que mora em vós. 12Portanto, irmãos, temos uma dívida, mas não para com a carne, para vivermos segundo a carne. 13Pois, se viverdes segundo a carne, morrereis, mas se, pelo Espírito, matardes o procedimento carnal, então vivereis.
Evangelho: Mt 11,25-30
Naquele tempo, Jesus pôs-se a dizer: 25 “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque
escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos. 26
Sim, Pai, porque assim foi do
teu agrado. 27 Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai,
senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar. 28 Vinde a mim,
todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu
vos darei descanso. 29 Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim,
porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis descanso. 30 Pois
o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.
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Um Olhar Geral Sobre As Leituras Deste Domingo
O profeta Zacarias, na Primeira Leitura de hoje, faz um anúncio gozoso para os habitantes de Jerusalém sobre a vinda ou volta de um rei humilde, mas vitorioso. E a entrada triunfal do rei, justo e vitorioso é humilde e pacífico (cavalgadura de um asno ou jumento) : “Eis que vem teu rei ao teu encontro; ele é justo, ele salva; é humilde e vem montado num jumento, um potro, cria da jumenta”. Ele virá para estabelecer a paz e a justiça nas nações, e condensa de maneira admirável toda a esperança de salvação do povo de Israel. O rei (Messias) que nos apresenta por este texto é humilde e justo e traz a paz para as nações. “Paz” é uma expressão hebraica “Shalom” que compreende o conjunto de todos os bens desejáveis pelo homem.
O profeta Zacarias nos apresenta, então, um canto messiânico no qual nos descreve a presença de um personagem que tem as características de rei e pastor. O contexto político e social desse poema é a invasão de Alexandre, o Grande, em todo o mundo, que serviu de modelo para o autor descrever a grande vitória de Deus nos tempos messiânicos. Zacarias nos transmite o sentimento do povo de Israel após o retorno do exilio, que espera a chegada de um "príncipe da paz" que entrará em Jerusalém para restaurar as antigas fronteiras geográficas do grande reino de Davi.
A forma de atuar do rei messiânico não se parece nada como a forma de atuar dos grandes reis da terra que conquistam e dominam com a força e com o poder de suas armas, impondo a tirania, a escravidão e a morte. O profeta Zacarias está convencido de que o rei messiânico que virá não trará armas para nos conduzir à verdadeira e autêntica paz. Por isso, as descrições não são as de um militar ou de um grande guerreiro que cavalga sobre um cavalo e sim ele cavalga sobre um humilde e simples asno para sublinhar a paz. A missão do rei messiânico é restaurar a justiça e a paz em toda a terra construindo uma nova ordem social que não está construída sobre o poder ou o uso da força ou qualquer forma de violência.
O semelhante anúncio profético encontra seu perfeito cumprimento em Jesus manso e humilde de coração que vem trazer o alívio e o descanso para todos os que estão cansados e sobrecarregados, consequência do jugo da lei antiga (Evangelho de hoje).
O evangelho que a liturgia nos propõe neste Domingo nos oferece uma das revelações de caráter cristológico mais profundas: Jesus é o Filho eterno do Pai, epifania do rosto do Pai. Jesus chama Deus com o termo preciso em hebraico que é “Abbá” e que pode ser traduzido por “Paizinho”. Assim, se por um lado, Jesus nos manifesta a grandeza do Pai, sua senhoria e transcendência, pois é o “Senhor do céu e da terra”. Por outro lado, esse mesmo Pai é revelado como Paizinho para enfatizar sua proximidade e sua bondade. Por isso, o Deus que nos revela Jesus Cristo é um Deus Pai no sentido mais profundo e verdadeiro: Deus e Pai simultaneamente. Nesto sentido podemos entender a afirmação que se encontra no Novo Catecismo da Igreja Catolica no artigo 239: “Ao designar Deus com o nome de «Pai», a linguagem da fé indica principalmente dois aspectos: que Deus é a origem primeira de tudo e a autoridade transcendente, e, ao mesmo tempo, que é bondade e solicitude amorosa para com todos os seus filhos. Esta ternura paternal de Deus também pode ser expressa pela imagem da maternidade, que indica melhor a imanência de Deus, a intimidade entre Deus e a sua criatura”.
Conhecendo o Pai intimamente, Jesus revela o verdadeiro rosto de Deus que é “amor, paciência, e compaixão e é muito bom para com todos, pois sua ternura abraça toda criatura” (Salmo Responsorial).
Por sua parte, São Paulo (Segunda Leitura) nos recorda que o plano de salvação que este Rei veio instaurar no mundo inicia com a conversão do coração que implica não viver conforme à desordem egoísta do homem (“viver segundo a carne”) e sim conforme ao Espirito de Cristo (vida nova). A nova vida (Rm 6,4) que recebemos no batismo é uma vida “no espírito”, isto é, segundo o homem renovado pela ação do Espirito de Deus que habita em nós (Cf.1Cor 3,16-17; 6,19).
São Pauo nos diz que já saímos do pecado pela ação de Deus através de seu Filho Jesus e da ação do Espirito Santo. Esta é a verdadeira libertação. A maior prova do amor de Deus para os homens é a entrega de seu próprio Filho à morte e morte de cruz e desta maneira vence o mal pelo amor. como o amor e o perdão, Deus construiu um mundo novo no qual não há rancor nem desejo de vingança nem remorsos. Estamos em paz com Deus quando estamos em paz com os demais. são Paulo nos diz que pela ação do Espirito Santo em nossa vida vamos experimentando e desejando livremente uma nova forma de vida, imitando o modo de viver do próprio Cristo Jesus.
Precisamos abrir espaço em nossa vida para o Espírito de Deus. Se nos deixarmos levar pelo Espírito, seremos efetivamente filhos de Deus. E se formos filhos, também seremos herdeiros daquela glória que Cristo, o Senhor, já possui, que é "o primogênito entre muitos irmãos" (Rm 8:29).
Um Olhar Específico Sobre O Evangelho De Hoje
No texto do Evangelho deste Domingo, o evangelista Mt reuniu três sentenças de Jesus que provavelmente tiveram uma origem independente (fonte Q).
1ª. Uma oração de louvor ou de ação de graças (vv.25-26) que vem logo depois das ameaças de Jesus contra as cidades da Galileia (Mt 11,20-24).
2ª. Fala da revelação de caráter profundamente cristológica (v.27). Esta sentença explica em que consiste a revelação aos simples.
3ª. Na terceira sentença (vv.28-30) encontramos algo muito parecida ao convite a fazer-se discípulo da sabedoria que lemos nos livros sapienciais: vinde a mim (Eclo 24,19;51,23); tomai meu jugo (Eclo 6,24s;51,26); encontrareis descanso (Eclo 6,28). Jesus apresenta-se aqui como a Sabedoria de Deus que convida os homens a virem a ele (v.28).
Oração De Louvor Ao Pai Porque Ele Se Revela Aos Simples
“Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado”. Jesus é homem de oração. No Evangelho de hoje encontramos Jesus rezando.
“Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra...”.
Jesus chama Deus de “Pai” cinco vezes neste texto. Na boca de Jesus esse Pai é Abbá que, literalmente corresponde ao nosso apelativo afetuoso “papai” ou “paizinho”. “Abbá” é a palavra cheia de amor com a qual o Filho fala ao Pai. “Abbá” é o centro do cristianismo. O Espírito do Filho, infundido em nossos corações, grita em nós: “Abbá!” (Rm 5,5; 8,15). O fiel é aquele que conheceu e acreditou no amor que Deus tem por ele, como filho (1Jo 4,16; Jo 17,21). O Pai é aquele que se inclina até os pequenos, que se deleita na pequenez, que ama o simples, que defende os pobres (anawim), os oprimidos, que sente o grito do sofrimento. Quando esses “pequenos” olham para Ele, Ele se revela.
“Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra...”. Geralmente distinguimos na oração: o louvor, a petição e a ação de graças. Na realidade, na Bíblia, se falam frequentemente o louvor e a ação de graças num mesmo movimento da alma e no plano literário, nos mesmos textos.
Deus se revela digno de louvor por todos os seus benefícios para com o homem. O louvor e a ação de graças suscitam as mesmas manifestações exteriores de gozo, sobretudo no culto, confessando as grandezas de Deus.
Os cânticos de louvor, nascidos em uma explosão de entusiasmo, multiplicam as palavras para tratar de descrever a Deus e suas grandezas: cantam a bondade de Deus, sua justiça (Sl 145,6s), sua salvação (Sl 71,15) seu auxilio (1Sm 2,1), seu amor e sua fidelidade (Sl 89,2; 117,2), sua glória (Ex 15,21), sua fortaleza (Sl 29,4), seu maravilhoso desígnio (Is 25,1) seus juízos libertadores (Sl 145,7), todas as suas obras (Sl 92,5s) e assim por diante.
Este louvor ou ação de graças ao Pai expressa uma experiência: já faz tempo que o Mestre evangeliza, e seus discípulos também tinham sido enviados para a missão evangelizadora e se encontraram com todo tipo de pessoas: os que os acolheram e os que os recusaram. Jesus agradece ao Pai, pois foram os pequenos, os simples que se abriram ao anúncio: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos”.
O louvor de Jesus se dirige ao Pai como “Senhor do céu e da terra”. No texto do Evangelho de hoje Jesus pronuncia a palavra “Pai” cinco vezes. Jesus recusado percebe, apesar de tudo, a presença do Pai que se revela aos pequenos. O ato de Jesus chamar a Deus de Pai (Abba) reflete a confiança e proximidade que tem com ele. Na presença do Pai, Jesus se sente confiante e seguro. Os primeiros cristãos conservaram essa palavra: “Abba” (Mc 14,36; Gl 4,6s; Rm 8,15), que se encontram detrás de quase todas as orações de Jesus (Mc 14,36 e par.; Jo 12,27s;17; Lc 23,34.46).
Jesus fala do Pai como “Senhor do céu e da terra”, isto é, Aquele que domina o universo porque Ele é o seu Criador, mas que não atua como “dono” prepotente. Porque o Pai é Aquele que se inclina para os pequenos, que se deleita na pequenez, que ama o simples, que defende os pobres, os oprimidos, que ouve e sente o grito do sofrimento dos injustiçados e dos excluídos que também são filhos Seus. Quando os pequenos olham para Ele, o Pai se revela a eles. A simplicidade é uma porta aberta para a revelação de Deus. A simplicidade-humildade é um terreno fértil onde a graça e a bênção do Pai se multiplicam.
“... porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos...”
Que é “estas coisas” ?. É o que acontece em Jesus: é sua vida, sua obra, sua doutrina. É toda a revelação do Pai que se realiza na vida e pela vida de Jesus. Tudo isso somente pode ser entendido através da graça divina.
“... e as revelaste aos pequeninos”.
Jesus afirma que os simples têm vantagem sobre os entendidos, mesmo sobre os teólogos, se estes forem apenas sábios autossuficientes, possuídos pelo orgulho doutrinal: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e doutores e as revelaste aos pequeninos” (v.25). Os sábios e entendidos, neste contexto, são os escribas e os fariseus que conhecem a Lei de Moisés, mas recusam a Jesus; eles estão fechados na sua autossuficiência (cf. Is 29,14 onde Deus recrimina a hipocrisia na relação com ele). Os simples, ao contrário, sabem receber a revelação e acolhem Jesus (cf. também Mt 13,11 e Is 28,9) e se tornam os beneficiários do acontecimento da graça divina. Trata-se de compreender o sentido das obras de Jesus, de ver nelas a atividade do Messias que salva a humanidade.
Por que os simples têm vantagem? Quais são as características de um simples?
A simplicidade (grego, haplótes) designa a sinceridade, a franqueza, o falar sem segundas intenções, inequívoco, claro. Em Latim, a palavra “simplicitus” (simplicidade) é caráter daquilo que é despojado, fácil, solto, natural, desprovido de complicação, de malícia, de inteções secretas ou distorcidas. Virtude daquele que evita fausto ou complicação. Para o judaísmo, a vida do homem sábio tem uma orientação clara; obediente à Lei e está isento da dualidade interior, com coração inteiro (não dividido). A bondade faz parte da simplicidade porque ela é uma qualidade do coração (coração não dividido).
O simples não se louva nem se despreza. Ele é o que é, sem desvios, sem afetação, faz o que faz, mas não vê nisso matéria para discursos ou para comentários. É a vida sem mentiras, sem exagero, sem grandiloquência. Ele acolhe o que vem, sem nada guardar como coisa sua. Ele ocupa-se do real, não de si. O presente é sua eternidade e o satisfaz. Ele é aquele que não simula, não presta atenção em si nem na sua imagem ou reputação. Ele não calcula, sem artimanhas nem segundas intenções. Ele aprende a desprender-se: de tudo e de si mesmo. De certa forma, poderíamos dizer que ele é esse desprendimento. Se para Deus tudo é simples, para o simples tudo é divino.
A simplicidade é despojamento, liberdade, leveza, transparência. É ausência de cálculo, de artifícios, de composição. É esquecimento de si, de seu orgulho. A simplicidade é o contrário do narcisismo, da pretensão, da autossuficiência, da duplicidade, da complexidade. A simplicidade é quietude contra inquietude, alegria contra preocupação, ligeireza contra seriedade, verdade contra pretensão. É nisso que a simplicidade é uma virtude para ser conquistada.
Somente quem contemplar profundamente a grandeza do universo e da vida em si, somente quem viver na simplicidade e na humildade, fará o louvor a Deus e viverá em ação de graças permanentemente. O universo ou a natureza em si é uma das portas para chegar ao amor ilimitado de Deus pela humanidade. E somente quem se sente filho diante do Deus-Pai é capaz de viver confiante e seguro. Diante do pai presente, qualquer filho se sente seguro e tranquilo. É assim que Jesus quer que nos sintamos como filhos diante de Deus, nosso Pai.
Deus se revela certamente àquele que se despoja de si mesmo e de tudo, ao simples, àquele que vive segundo o Espírito, àquele que tem um olhar e o coração limpos. O coração limpo e a ausência de todo interesse torcido permitem o simples discernir nas obras realizadas por Jesus a mão de Deus. Por isso, o simples é capaz de entender Deus e sua vontade. Os simples são os que, ao se esvaziarem de si mesmos, se abrem a Cristo e aos irmãos. Por isso, eles são preferidos de Deus. Por isso também, pode acontecer que os simples tenham mais fé em Deus do que os teólogos ou os que pertencem a uma elite consagrada. Por essa mesma razão, podemos encontrar pessoas simples, sem estudos e de muito poucos recursos intelectuais, mas de grande fé, que compreendem as coisas de Deus e intuem a sua vontade. Santa Teresa de Ávila foi declarada doutora da Igreja não por seus estudos de Teologia numa universidade, mas por ter alcançado uma sabedoria espiritual. O ideal poderá se tornar realidade, se fé e ciência, sabedoria e humildade de espírito andarem juntas.
“Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos”. Deus quer que os homens não se ocupem de si mesmos para que ele possa ter espaço neles para suas graças, pois aquele que se enche de si não sobra espaço nem para Deus nem para os outros. Em outras palavras, que os homens voltem a ser simples.
Jesus Personificação Da Sabedoria
“Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar”.
Neste pequeno fragmento, Jesus aparece como a Sabedoria personificada: “Tudo me foi entregue por meu Pai”. O Pai se revela por meio dele e Jesus realiza em si mesmo o que o AT dizia sobre a Sabedoria. Ele ilumina os simples e é sempre Ele, pois “A sabedoria não entrará na alma perversa, nem habitará no corpo sujeito ao pecado” (Sb 1,4) e por isso, “escondeste estas coisas aos sábios e entendidos”.
“Os sábios e entendidos” alude a Is 29,14 em que Deus recrimina o povo por sua hipocrisia na relação com Ele, pois honra-O somente com os lábios, mas está longe seu coração. Os sábios e entendidos não captam o sentido das obras de Jesus por causa de sua autossuficiência. Os “simples” não têm esse obstáculo. Ao contrário, eles têm facilidade de entender a revelação de Deus na sua vida.
Chamada Ao Seguimento
“Vinde a mim, todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis descanso. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve”.
E a 3ª sentença (vv.28-30) é muito parecida ao convite a fazer-se discípulo da sabedoria que lemos nos livros sapienciais: vende a mim (Eclo 24,19;51,23); tomai meu jugo (Eclo 6,24s;51,26); encontrareis descanso (Eclo 6,28). Jesus apresenta-se aqui como a Sabedoria de Deus que convida os homens a virem a ele (v.28).
As chamadas de Jesus formuladas como exigência (o evangelho do XIII Domingo Comum “A”), encontram hoje um complemento importante. A chamada hoje tem tom de acolhida e de descanso. É uma chamada preparada pela Primeira Leitura que apresenta “rei justo e vitorioso, modesto e cavalgando num asno, que entra em Jerusalém.
O Jugo De Jesus É Leve
“Tomai sobre vós o meu jugo..., pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (v.29), disse Jesus.
No seu sentido literal, o jugo é uma barra pesada feita de madeira que é posta e presa nos ombros (nucas) dos animais (boi: 1Sm 11,7; Jó 1,3; vaca: 1Sm 6,7; ou cavalos/burros: Is 21,7). Pôr o jugo sobre um boi significa usá-lo pela primeira vez, daí profaná-lo. Enquanto os bois destinados para o uso sagrado, por ex., para puxar a arca (1Sm 6,7) ou para expiar um homicídio (Dt 21,3ss) não podiam ter sido atrelados ao jugo.
No seu sentido figurado, o jugo é símbolo da submissão tanto no sentido positivo como no negativo. O jugo pode simbolizar a submissão a Javé, neste caso ele tem sentido positivo (Jr 2,20). O jugo pode ter um sentido negativo: opressão (Gn 27,40; Lv 26,13;1Rs 12; 2Cr 10; Is 9,3;14,25; Jr 30,8;10,27;Os 11,4); o jugo pode ser a dependência de um escravo no sentido literal (1Tm 6,1) ou religioso no sentido de escravo da Lei judaica (At 15,10;Gl 5,1); o jugo é também o símbolo da imposição de uma carga pesada, uma submissão forçada à tirania, mostrando soberania de quem manda (2Cr 10). Na LXX, “jugo” frequentemente assume o sentido de justiça. O vocábulo grego para “jugo”, zugos, também pode ser o contrapeso no prato da balança. Pode haver falsos “pesos” (zugoi), que permitam às pessoas enganarem ou roubarem no mercado ou no comércio. O livro de Provérbios fala de um peso justo (zugos) que tem o favor de Deus (Pr 11,1), e os pesos falsos desagradam a Deus (Mq 6,11; Ez 45,10).
“Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo...Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” é o convite de Jesus. Trata-se aqui (cansados e fatigados sob o peso) da opressão moral e religiosa, provocada pelo formalismo de uma religião estéril. Os “cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos” aqui são os pobres e famintos, ignorantes e pequeninos, os míseros e os doentes. Além do peso de sua vida oprimida e trabalhosa, eles carregam também a carga de uma interpretação insuportável da Lei, uma carga insuportável de centenas de determinações detalhadas da Lei interpretadas pelos escribas e fariseus. Ninguém conseguia cumpri-las, nem os próprios escribas e fariseus (Mt 23,4). O legalismo judaico era sufocante, uma moral sem alegria. Assim, a religião fica longe de ser motivo de liberdade e alegria, pois ele é reduzida a uma carga pesada. O ser humano se torna animal, pois a quem se impõe “jugo” e “carga”, se não aos animais?
Pelo contrário, o jugo de Jesus é suave e a sua carga é leve. Os adjetivos “suave” e “leve” não invalidam os substantivos “jugo” e “carga”. Jugo suave e carga leve não falam do laxismo (doutrina que restringe excessivamente a obrigação moral, do latin “laxare” = tornar frouxo, relaxar), mas de prática possível. O cristianismo e a moral cristã não são uma imposição. A lei de Cristo é libertação, é lei de liberdade, lei do Espírito que dá vida, lei de relação filial com Deus, Pai Nosso e amigo da vida. Ao lado de Cristo, todas as fadigas se tornam amáveis e tudo o que poderia ser mais custoso no cumprimento da vontade de Deus se suaviza. Quem se aproxima de Jesus, encontrará repouso para suas aflições. Jesus veio, certamente, para libertar o ser humano de todo tipo de escravidão, mostrando-se manso e humilde de coração e recusando-se a multiplicar normas religiosas. Jesus reduziu tudo ao essencial: amor e misericórdia. A religião torna-se, assim, prazerosa por respeitar a liberdade e ser humanizadora.
Para tudo isso se tornar possível, há uma chave principal: o amor, tanto como um dom recebido de Deus, pois ele nos amou primeiro (1Jo 4,19), como uma responsabilidade (cf. Jo 15,12), como Cristo que se dá a si mesmo a Deus e aos irmãos (cf. Jo 15,13). Quem ama não sente a lei de Cristo como uma obrigação pesada. Pela experiência sabemos que quando se ama de verdade muitas coisas se tornam fáceis e suportáveis e que seriam difíceis e até insuportáveis sem o amor. O amor torna tudo leve. Por amor um pai ou uma mãe é capaz de fazer até o impossível.
Depois de ouvir o convite de Jesus “venham a mim todos vocês que estão cansados de carregar suas cargas pesadas”, vem pergunta: como você está? Como você se sente no momento? Como tem passado ultimamente? Sente-se cansado, desanimado, abatido por qualquer negócio malfeito, por qualquer doença em casa, por falta de entusiasmo ou de objetivos? Talvez você não tenha experimentado ainda ser simples como Jesus pede. Não se sinta arrogante que acha que já sabe de tudo, por isso não precisa de ajuda de ninguém. É melhor parar para verificar seu barco que talvez esteja furado e pode afundar a qualquer momento. Jesus está oferecendo ajuda. Não tenha medo de recomeçar!
“Venham a Mim!”. Precisamos nos aproximar de Jesus para que Ele possa nos inspirar com Sua palavra e ganhemos nova força dele. Ir para Jesus é descarregar o fardo aos seus pés, olhá-lo nos olhos, renunciando às nossas pequenas idéias sobre a questão, e preferindo seu pensamento ao nosso.
P.
Vitus Gustama,SVD
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