sábado, 1 de agosto de 2026

Terça-feira Da XVIII Semana Comum, Ano Par, 04/08/2026

DEUS HABITA NO CORAÇÃO PURO DA MALDADE  

Terça-Feira Da XVIII Semana Comum

Primeira Leitura: Jr 30,1-2.12-15.18-22

1 Palavra que foi dirigida a Jeremias, da parte do Senhor: 2 “Isto diz o Senhor, Deus de Israel: Escreve para ti, num livro, todas as palavras que te falei. 12 Isto diz o Senhor: Incurável é tua ferida, maligna tua chaga; 13 não há quem conheça teu diagnóstico; uma úlcera tem remédio, mas em ti não se produz cicatrização. 14 Todos os teus amigos te esqueceram, não te procuram mais; eu te causei uma ferida, como se fosses inimigo, como um castigo cruel: por causa do grande número de maldades que te fez endurecer no pecado. 15 Por que gritas em teu sofrimento? É insanável a tua dor. Eu te tratei com rudeza por causa das tuas inúmeras maldades e por causa do teu endurecimento no pecado. 18 Isto diz o Senhor: Eis que eu mudarei a sorte das tendas de Jacó e terei compaixão de suas moradias, a cidade ressurgirá das suas ruínas e a fortaleza terá lugar para suas fundações; 19 de lá sairão cânticos de louvor e sons festivos. Hei de multiplicá-los, eles não diminuirão, hei de glorificá-los, eles não serão humilhados. 20 Teus filhos serão felizes como outrora, e sua Comunidade, estável na minha presença; e agirei contra todos os que os molestarem. 21 Para chefe será escolhido um dos seus, e o soberano sairá do seu meio; eu o incitarei, e ele se aproximará de mim. Quem dará a vida em penhor da sua aproximação de mim? – diz o Senhor. 22 Sereis meu povo e eu serei vosso Deus.

Evangelho: Mt 15,1-2. 10-14

1 Naquele tempo, alguns fariseus e mestres da Lei, vindos de Jerusalém, aproximaram-se de Jesus, e perguntaram: 2 "Por que os teus discípulos não observam a tradição dos antigos? Pois não lavam as mãos quando comem o pão!" 10 Jesus chamou a multidão para perto de si e disse: "Escutai e compreendei. 11 Não é o que entra pela boca que torna o homem impuro, mas o que sai da boca, isso é que torna o homem impuro". 12 Então os discípulos se aproximaram e disseram a Jesus: "Sabes que os fariseus ficaram escandalizados ao ouvir as tuas palavras?" 13 Jesus respondeu: "Toda planta que não foi plantada pelo meu Pai celeste será arrancada. 14 Deixai-os! São cegos guiando cegos. Ora, se um cego guia outro cego, os dois cairão no buraco".

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Em Deus Se Encontra Nossa Esperança e Salvação

Eis que eu mudarei a sorte das tendas de Jacó e terei compaixão de suas moradias, a cidade ressurgirá das suas ruínas e a fortaleza terá lugar para suas fundações...Sereis meu povo e eu serei vosso Deus”, assim lemos na Primeira Leitura.

Os capítulos 30 a 33 do Livro de Jeremias, onde se encontra a Primeira Leitura de hoje, constituem o chamado “Livro da Consolação”.

Quando o povo e seus responsáveis se relaxam na indiferença ou na ilusão, Jeremias anuncia duramente a desgraça que se aproxima: Incurável é tua ferida, maligna tua chaga; não há quem conheça teu diagnóstico; uma úlcera tem remédio, mas em ti não se produz cicatrização. Todos os teus amigos te esqueceram, não te procuram mais; eu te causei uma ferida, como se fosses inimigo, como um castigo cruel: por causa do grande número de maldades que te fez endurecer no pecado”.

Na verdade, o anúncio do castigo tem como objetivo chamar o povo todo à conversão. O AT não faz nunca distinção entre o que sucede (isto é, o que provem das leis naturais, da biologia, da história, da psicologia humana) e o que procede da “Causa Prima”, isto é, o que Deus permite ou quer. Assim o AT costuma atribuir diretamente a Deus tudo o que sucede, inclusivo o mal: “Eu te causei uma ferida, como se fosses inimigo, como um castigo cruel: por causa do grande número de maldades que te fez endurecer no pecado”.

Jesus retificará claramente este juízo demasiado simplista através do episódio do cego de nascença em que Jesus dirá: “Nem ele nem seus pais pecaram, mas é para que nele sejam manifestadas as obras de Deus” (Jo 9,3).

Quando a destruição de Jerusalém é mais iminente e se realiza em 586 a.C, Jeremias anuncia a restauração da parte de Deus e se propõe a consolar os desesperados: “Eis que eu mudarei a sorte das tendas de Jacó e terei compaixão de suas moradias, a cidade ressurgirá das suas ruínas e a fortaleza terá lugar para suas fundações”. Deus ama verdadeiramente os homens e que verdadeiramente a felicidade dos homens. Deus é um “esposo” verdadeiro. Não abandona os que Ele ama. Apesar do mal que acontece, Deus continua amando os homens.

O cristão, em sua vocação profética recebida no Batismo, é chamado a saber encontrar os sinais da esperança escondidos na situação da sociedade e a confirmar aos demais nesta esperança de que Deus jamais abandona seus filhos e filhas. Tudo isso nos faz voltarmos a viver como filhos e filhas de Deus e irmãos e irmãs entre nós.

É Preciso Purificar o Coração Da Maldade Como Limpar o Corpo Da Sujeira

Por que os teus discípulos não observam a tradição dos antigos? Pois não lavam as mãos quando comem o pão!”. “Não é o que entra pela boca que torna o homem impuro, mas o que sai da boca, isso é que torna o homem impuro”.

Jesus já falou bem claro sobre a Lei: enunciou um princípio fundamental: “Não penseis que vim revogar a Lei e os Profetas. Não vim revogá-los, mas dar-lhes pleno cumprimento(Mt 5,17). Em duas ocasiões Jesus declarou claramente qual é a opção fundamental de sua vida: “... cumprir de forma perfeita a vontade de Deus... viver de toda palavra que sai da boca de Deus (Mt 3,15; 4,4). Ele disse com claridade que seus discípulos devem fazer o mesmo (Sermão da Montanha), também fez já referência às “tradições de seu povo” dizendo que não servem os “odres velhos” e que, por isso, necessitam dos “novos odres” (Mt 9,17).

É o que ocorre agora. A lei sobre “puro-impuro” estava em questão. A tradição dos fariseus identificava 613 mandamentos da Torá. Particularmente, a partir do exílio na Babilônia se acentuava a obsseiva preocupação com a “pureza”: pureza de sangue (cf. Esd 9-10), pureza física e ritual (Lv 11-16). Para os fariseus, “lavar as mãos” não se fazia por mera limpeza, mas por pureza legal. Para eles, se as mãos estavam “impuras” pelo contato com o mundo exterior, tornavam impuros os alimentos e esses, ao entrar no homem, causavam, por sua vez, sua impureza.

Diante dessa tradição, Jesus enuncia  o principio geral: “Não é o que entra pela boca que torna o homem impuro, mas o que sai da boca, isso é que torna o homem impuro”. O Evangelista Mateus muda a redação do evangelista Marcos. No lugar da expressão “o que sai do homem(Mc 7,15) é substituída por outra expressão: “O que sai da boca” (Mt 15,11). Pela boca entra o alimento. Da boca sai a palavra. O homem pode dispor livremente de tudo: o que come e o que fala. O modo como ele dispõe é que o faz morrer e viver ( o que precisa entrar pela boca em termos de comida e o qu não deve entrar: determina sua saúde ou sua doença). E dispõe segundo aquilo que sai da sua boca: a palavra de amor ou a palavra de egoísmo, ou a palavra de ódio ou de caridade, apalavra de liberdade ou de domínio, de dom ou de posse, de comunhão ou de desunião, que tem dentro de seu coração.

Para Jesus não é o contato com o mundo exterior o que mancha o homem, e sim sua própria atividade com referência ao mundo exterior. Não há alimento impuro, pois nenhum alimento faz algum tipo de atividade para poder ser avaliado eticamente ou moralmente. Ao mesmo tempo, não há alimentos que tornem o homem impuro por não se cumprirem certos ritos. Não tem que culpar alimento pela impureza moral e ética do homem.

Para Jesus, o mandamento de Deus se refere às relações humanas e por isso, no terreno ético e moral é que se joga e se mede a fidelidade dos crentes aos mandamentos de Deus. Quanto mais ético for o homem, mais comprovará sua fidelidade aos mandamentos de Deus. O teste decisivo para saber se o coração do crente está perto de Deus é o comportamento fraterno e ético com o próximo. Somente os ídolos ficam satisfeitos com louvores rituais e cultos vazios da ética (Cf. Amós, 5,21-27; Is 1; Jr 7).

Jesus chama os discípulos para abandonar os fariseus e os escribas, pois eles não são mestres que podem ser imitados. Eles devem ser evitados, pois eles não são guias iluminados, mas cegos (Mt 15,14). O coração deles que é impuro , é incapaz de ver a Deus, mas somente ve si próprio.

Portanto, o “puro-impuro” não se estabelece segundo o que entra no homem ou ao que o homem toca e sim segundo o que sai do coração do homem. é o atuar de uma pessoa o que faz esta seja pura ou impura diante de Deus e portanto, pode ou não participar verdadeiramente no culto.

Todos nós podemos ter algo de fariseus em nosso coração e em nossa conduta. Às vezes caímos na tentação de dar a importância maior às práticas externas do que à fé interior; damos prioridades a normas humanas, às vezes, insignificantes, acima da caridade e da justiça. Muitas vezes se cumpre em nós aquilo que a Palavra de Deus nos diz: “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim”. Trata-se de uma religiosidade exterior, feita de palavras apenas. Não precisa amar a Deus e ao próximo com palavras e sim com os fatos e na verdade (1Jo 3,18). É um culto vazio de sentido. Grande parte da pregação profética é contra este culto vazio (cf. Is 1,10-20; 58,1-12; Jr 7,1-15). Pensemos nisso!

P. Vitus Gustama,svd

Segunda-feira Da XVIII Semana Comum, Ano Par, 03/08/2026

ALIMENTADOS PELO PÃO MATERIAL E PÃO EUCARÍSTICO

Segunda-Feira Da XVIII Semana Comum

Primeira Leitura: Jr 28,1-17

1 Nesse mesmo ano, no início do reinado de Sedecias, rei de Judá, no quinto mês do quarto ano, disse-me o profeta Ananias, filho de Azur, profeta de Gabaon, na casa do Senhor e na presença dos sacerdotes e de todo o povo: 2 “Isto diz o Senhor dos exércitos, Deus de Israel: Quebrei o jugo do rei da Babilônia. 3 Ainda dois anos e eu farei reconduzir a este lugar todos os vasos da casa do Senhor, que Nabucodonosor, rei da Babilônia, tirou deste lugar e transferiu para a Babilônia. 4 Também reconduzirei a este lugar Jeconias, filho de Joaquim e rei de Judá, juntamente com toda a massa de judeus desterrados para a Babilônia, diz o Senhor, pois eu quebro o jugo do rei da Babilônia”. 5 Respondeu o profeta Jeremias ao profeta Ananias, na presença dos sacerdotes e de todo o povo que estava na casa do Senhor, 6 dizendo: “Amém, assim permita o Senhor! Realize ele as palavras que profetizaste, trazendo de volta os vasos para a casa do Senhor e todos os deportados da Babilônia para esta terra. 7 Ouve, porém, esta palavra que eu digo aos teus ouvidos e aos ouvidos de todo o povo: 8 Os profetas que existiram antigamente, antes de mim e antes de ti, profetizaram sobre guerras, aflições e peste para muitos povos e reinos poderosos; 9 mas o profeta que profetiza paz, esse somente será reconhecido como profeta, que em verdade o Senhor enviou, quando sua palavra for verificada”. 10 Então o profeta Ananias retirou o jugo do pescoço do profeta Jeremias e quebrou-o; 11 e disse Ananias, na presença de todo o povo: “Isto diz o Senhor: Deste modo quebrarei o jugo de Nabucodonosor, rei da Babilônia, dentro de dois anos, livrando dele o pescoço de todos os povos”. E foi-se pelo seu caminho o profeta Jeremias. 12 Depois que o profeta Ananias havia retirado o jugo do pescoço do profeta Jeremias, dirigiu-se novamente a palavra do Senhor a Jeremias: 13 “Vai dizer a Ananias: Isto diz o Senhor: Quebraste um jugo de madeira, mas em seu lugar farás um de ferro. 14 Isto diz o Senhor dos exércitos, Deus de Israel: Pus um jugo de ferro sobre o pescoço de todas estas nações, para servirem a Nabucodonosor, rei da Babilônia, e lhe serão de fato submissas; além disso, dei-lhe também os animais do campo”. 15 Disse ainda o profeta Jeremias ao profeta Ananias: “Ouve, Ananias, não foste enviado pelo Senhor, e contudo fizeste este povo confiar em mentiras. 16 Isto diz o Senhor: Eis que te farei partir desta terra; morrerás este ano, pois pregaste a infidelidade contra o Senhor”. 17 Naquele ano, no sétimo mês, morreu o profeta Ananias.

Evangelho: Mt 14,22-36

Depois que a multidão comera até saciar-se, 22 Jesus mandou que os discípulos entrassem na barco e seguissem, à sua frente, para o outro lado do mar, enquanto ele despediria as multidões. 23 Depois de despedi-las, Jesus subiu ao monte, para orar a sós. A noite chegou, e Jesus continuava ali, sozinho. 24 A barca, porém, já longe da terra, era agitada pelas ondas, pois o vento era contrário. 25 Pelas três horas da manhã, Jesus veio até os discípulos, andando sobre o mar. 26 Quando os discípulos o avistaram, andando sobre o mar, ficaram apavorados, e disseram: 'É um fantasma'. E gritaram de medo. 27 Jesus, porém, logo lhes disse: 'Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!' 28 Então Pedro lhe disse: 'Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água.' 29 E Jesus respondeu: 'Vem!' Pedro desceu da barca e começou a andar sobre a água, em direção a Jesus. 30 Mas, quando sentiu o vento, ficou com medo e começando a afundar, gritou: 'Senhor, salva-me!' 31 Jesus logo estendeu a mão, segurou Pedro, e lhe disse: 'Homem fraco na fé, por que duvidaste?' 32 Assim que subiram no barco, o vento se acalmou. 33 Os que estavam no barco, prostraram-se diante dele, dizendo: 'Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!' 34 Após a travessia desembarcaram em Genesaré. 35 Os habitantes daquele lugar, reconheceram Jesus e espalharam a notícia por toda a região. Então levaram a ele todos os doentes; 36 e pediam que pudessem, ao menos, tocar a barra de sua veste. E todos os que a tocaram, ficaram curados.

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Entre Falso Profeta e Verdadeiro Profeta De Deus

O texto da Primeira Leitura tirado do livro do profeta Jeremias fala do enfrentamento entre os profetas falsos representados pelo profeta Ananias e os verdadeiros profetas de Deus representados pelo profeta Jeremias.

Segundo o texto, o profeta falso anuncia ao povo o que possa assegurar seu êxito. O falso profeta tolera uma inadequação entre suas palavras e a Palavra de Deus em função dos próprios interesses e das próprias vantagens. E todos dizem que os falsos profetas costuma dizer palavras que o povo gosta de ouvir, palavras demagógicas que tranquilizam, mas que mais tarde o próprio povo sofrerá. O falso profeta Ananias induz o povo para uma falsa confiança: “Isto diz o Senhor dos exércitos, Deus de Israel: Quebrei o jugo do rei da Babilônia. Ainda dois anos e eu farei reconduzir a este lugar todos os vasos da casa do Senhor, que Nabucodonosor, rei da Babilônia, tirou deste lugar e transferiu para a Babilônia”. As palavras de um profeta falso estão cheias de mentiras e de demagogia. A mentira do profeta falso Ananias tem um preço bem alto: “Ouve, Ananias, não foste enviado pelo Senhor, e contudo fizeste este povo confiar em mentiras. Isto diz o Senhor: Eis que te farei partir desta terra; morrerás este ano, pois pregaste a infidelidade contra o Senhor”.

Para identificar os falsos profetas Jesus, na conclusão do Sermão da Montanha, nos dá o seguinte critério em tom de alerta: “Guardai-vos dos falsos profetas. Eles vêm a vós disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos arrebatadores. Pelos seus frutos os conhecereis(Mt 7,15-16).

O verdadeiro profeta de Deus tem a valentia de predizer ao povo aquilo que Deus quer que ele fale, mesmo que ele próprio se torne vítima disso. Quantos profetas, na história, foram mortos por ter falado ou anunciado a verdade. O profeta de Deus chama o povo à conversão e à retidão de vida. E ele faz isso, muitas vezes, com palavras duras e ameaças de castigo de Deus.

A forma de inadequação, que os falsos profetas gostam de fazer, pode se encontrar no mundo moderno entre a verdade do aparato da lei e a verdade da consciência. Muitos políticos ou eclesiásticos se contentam em defender a “verdade” da instituição ainda que não encontrem a verdade da consciência. Não basta ser legal, mas é preciso ser ético. Não basta ser reto, legalmente, mas é preciso ser sincero, isto é, ser legal consigo mesmo em plena lucidez. É impossível a presença da ética onde o homem não se encontra consigo próprio ou nega a verdade.

Deus Está Conosco Em Todos Os Momentos De Nossa Vida

1. É Preciso Manter Nossas Conversas Diárias Com Deus, Nosso Pai

Depois que saciou a multidão com a Palavra de Deus e com o alimento (multiplicação dos pães e peixes), Jesus se afastou da multidão para rezar ou para estar em comunhão plena com Deus: “Jesus subiu ao monte para orar a sós”, assim o evangelista Mateus registrou.

A montanha, por ser um ponto elevado sobre a parte plana da terra, sempre foi considerada em todas as antigas religiões como um símbolo da “subida” do homem até Deus e como o sinal da manifestação ou epifania de Deus. Deus se manifesta no alto e o homem deve subir até Deus, abandonando uma vida medíocre, pois Deus está acima de nossos esquemas de viver e de pensar. Ou na linguagem do Livro dos Reis (1Rs 19,9-13) Deus não se encontra no terremoto, isto é, não tem como ouvir Deus numa vida agitada e barulhenta; também não se encontra no fogo. O fogo queima e transforma tudo em cinzas. Isto quer dizer que não tem como ouvir Deus para uma mente agitada ou comportamento esquentado. Deus se encontra na suavidade de uma brisa, isto é, quando tudo é sereno, a voz de Deus pode ser ouvida com clareza. Somente no silêncio e ao criar o silêncio a eternidade se faz presente para potenciar nossa humanidade. Um cristão sem oração perseverante é como alguém que anda com uma perna apenas: em pouco tempo fica cansado e cai.

2. Deus Está Conosco Diariamente: Tenha Consciência Disso!

“Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!”. Nste contexto, o medo é causado pela pouco fé dos discípulos (cf. Mt 8,26; 9,22). A fé, por sua vez, é a coragem de acreditar em Deus que para Ele tudo é possível.

Através desta frase Jesus se dá a conhecer ou Jesus se revela aos discípulos quem Ele é. A palavra “Coragem!” dissipa o medo provocado pela aparição de Jesus no meio do lago. Em seguida Jesus lhes disse: “Sou Eu!”. “Sou eué uma fórmula de identificação com que Deus se revelava no Antigo Testamento (cf. Ex 3,14; Is 43,1.3.10-11). “Sou Eu” corresponde à exortação “Não tenha medo”. Ao dizer “Sou Eu”, Jesus se revelou como Deus-Conosco (cf. Mt 1,23; 18,20; 28,20), um Deus que nos acompanha com sua providencia em todos os momentos de nossa vida. Através de seu evangelho, Mateus quer nos transmitir a certeza de que Deus jamais nos abandona: “Eis que Estou convosco todos os dias até o fim do mundo” (Mt 28,20).

Não tenhais medo”, diz-nos o Senhor todos os dias. Quando ouvirmos a voz do Senhor, a paz estará presente no nosso coração, ainda que estejamos rodeados pelas provações ou dificuldades, pois trata-se da Palavra de Quem nos criou e de Quem pode nos salvar. Precisamos nos deixar pelo poder da Palavra de Deus e não pelo aparente poder da situação em que nos encontramos. Em outras palavras, é preciso que Deus continue sendo o Senhor de nossa vida em todos os seus momentos. Para isso precisamos nos manter conectados com o Senhor para que Sua força continue sendo nossa força.

3. É Preciso Manter o Olhar Fixado No Senhor

“’’Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água.’  E Jesus respondeu: ‘Vem!’ Pedro desceu da barca e começou a andar sobre a água, em direção a Jesus. Mas, quando sentiu o vento, ficou com medo e começando a afundar, gritou: ‘Senhor, salva-me!’”.

Pedro desafia Jesus. Ele chama Jesus de “Senhor” e pede para que vá até Jesus. Através desse pedido Pedro quer participar da condição divina de Jesus. Jesus não duvida e convida Pedro para ir ao seu encontro. Mas infelizmente Pedro esperava a condição divina sem obstáculos, de maneira milagrosa. Pedro precisa estar consciente de que o homem se faz filho de Deus em meio da oposição e perseguição do mundo (cf. Mt 5,10-11). O pedido de Pedro (cf. Sl 17(18),5-18; 143(144),5-7) vale uma reprovação, pois mostra sua falta de fé: “Homem fraco na fé, por que duvidaste?”.

Pedro sente medo porque não entendeu o modo como se faz a missão: com a entrega total. Os discípulos ou Pedro apelam a Jesus nos momentos de dificuldade pedindo que Jesus intervenha. Eles têm conceito da salvação expressado nos salmos (cf. Sl 17[18],5-18; 143[144],5-7): uma intervenção milagrosa de Deus a partir do céu para que resolva a situação desesperadora do homem. o conceito de Jesus é diferente: estando com Ele, o homem se basta a si mesmo (cf. Mt 19,26: para Deus tudo é possível) e está salvo: “Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!”.

Pedro representa todos nós e toda a Igreja. Quando olharmos sempre para o Senhor e para seu chamamento, avançaremos para o sucesso apesar das ondas forte da vida. Mas quando olharmos somente para as nossas dificuldades, teremos medo fatal e estaremos afundando nos nossos problemas. Nessa altura não podemos perder o grito no nosso coração dirigido ao Senhor: “Senhor, salva-me!”. É o reconhecimento de nossas limitões e confessamos, ao mesmo tempo, o poder salvífico de Deus.

Enquanto Jesus sobe à barca cessa o vento, isto é, a oposição e a resistência dos discípulos. O vento era a busca do triunfo humano. “Os que estão na barca”, que representam a comunidade cristã (barca=Comunidade/Igreja), reconhecem que Jesus é “Filho de Deus”. Jesus é “Filho de Deus”, mas eles têm acreditar no Filho de Deus para que possam chegar a sê-lo.

É preciso manter nosso olhar para Deus e não para as nossas dificuldades ou para as “ondas fortes” de nossa vida. Pedro olhava mais para as ondas e quase se afundou. A partir do momento em que ele voltou a olhar para Jesus a fim de pedir a ajuda e Jesus estendeu a mão para tirá-lo de sua situação, Pedro começou a andar com o Senhor sobre as ondas. Muitos de nossos medos são causados pela nossa maneira de olhar para nossa vida e seus problemas. Se nossa vida pertence a Deus e foi Ele quem nos deus, temos que confiar nossa vida no Senhor. 

P. Vitus Gustama, SVD

quinta-feira, 30 de julho de 2026

XVIII Domingo Do Tempo Comum, Ano "A", 02/08/2026

VIVER NA COMPAIXÃO E NA PARTILHA  COMO JESUS

XVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM “A”

Primeira Leitura: Is 55,1-3

Assim diz o Senhor: 1“Ó vós todos que estais com sede, vinde às águas; vós que não tendes dinheiro, apressai-vos, vinde e comei, vinde comprar sem dinheiro, tomar vinho e leite, sem nenhuma paga. 2Por que gastar dinheiro com outra coisa que não o pão, desperdiçar o salário senão com satisfação completa? Ouvi-me com atenção, e alimentai-vos bem, para deleite e revigoramento do vosso corpo. 3Inclinai vosso ouvido e vinde a mim, ouvi e tereis vida; farei convosco um pacto eterno, manterei fielmente as graças concedidas a Davi”.

Segunda Leitura: Rm 8,35.37-39

Irmãos: 35Quem nos separará do amor de Cristo? Tribulação? Angústia? Perseguição? Fome? Nudez? Perigo? Espada? 37Em tudo isso, somos mais que vencedores, graças àquele que nos amou! 38Tenho a certeza de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os poderes celestiais, nem o presente, nem o futuro, nem as forças cósmicas, 39 nem a altura, nem a profundeza, nem outra criatura qualquer será capaz de nos separar do amor de Deus por nós, manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor.

Evangelho: Mt 14,13-21

Naquele tempo, 13 quando soube da morte de João Batista, Jesus partiu e foi de barco para um lugar deserto e afastado. Mas, quando as multidões souberam disso, saíram das cidades e o seguiram a pé. 14 Ao sair do barco, Jesus viu uma grande multidão. Encheu-se de compaixão por eles e curou os que estavam doentes. 15 Ao entardecer, os discípulos aproximaram-se de Jesus e disseram: “Este lugar é deserto e a hora já está adiantada. Despede as multidões, para que possam ir aos povoados comprar comida!” 16 Jesus, porém, lhes disse: “Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer!” 17 Os discípulos responderam: “Só temos aqui cinco pães e dois peixes”. 18 Jesus disse: “Trazei-os aqui”. 19 Jesus mandou que as multidões se sentassem na grama. Então pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção. Em seguida, partiu os pães e os deu aos discípulos. Os discípulos os distribuíram às multidões. 20 Todos comeram e ficaram satisfeitos, e, dos pedaços que sobraram, recolheram ainda doze cestos cheios. 21 E os que haviam comido eram mais ou menos cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças.

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Um Olhar Geral Sobre As Leituras Deste Domingo

Nós nos encontramos diante uma das verdades mais consoladoras da Sagrada Escritura: o amor misericordioso de Deus revelado na vida de Jesus.

A Primeira Leitura, extraída do profeta Isaías, fala-nos do grande banquete da era messiânica para o qual todos somos chamados. Basta ter “fome” ou “sede” para ser um candidato apto a aproximar-se do amor de Deus. É a pobreza humana que comove o coração de Deus. "Se alguém tem sede, venha; se alguém tem fome, venha, mesmo que não tenha dinheiro." A fome e a sede expressam com propriedade essa necessidade vital e profunda que a humanidade sente de Deus e do seu amor.

No Evangelho, aparece também um grupo de homens sem pão, sem sustento, povo faminto. A fome e a sede expressam adequadamente essa necessidade vital e profunda que o homem experimenta de Deus e de seu amor. O homem é um eterno viajante e peregrino que conhece a sede e a fome da estrada. É um ser que busca, anseia, ansioso por encontrar sua paz e descanso. No entanto, ele nem sempre consegue encontrar o que sacia a sede de sua alma. A contemplação do mundo nos diz que sua situação é dramática. Ele se abandona ao mal e se torna extremamente cruel para si mesmo.

Porém, assim como no deserto o Senhor multiplicou os meios de subsistência para o povo faminto, Jesus hoje alimentará uma multidão que nada tem para satisfazer as suas necessidades básicas, seu sentido da vida, pois Ele é “o Pão da Vida” (Jo 6,35) e “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6).

O alimento material nos leva a considerar um alimento espiritual que responde à necessidade mais essencial do homem: seu desejo de provar ou experimentar a Deus, sua ânsia de sentir-se eternamente amado por Deus. Paulo, na Segunda Leitura, experimentou esse amor e o proclama com franqueza e simplicidade: "Quem me separará do amor de Cristo?". (Rm 8,35.37-39)  Não há poder que possa nos separar do amor de Cristo. Em Cristo, a face amorosa do Pai é revelada.

Podemos dizer que o banquete na Bíblia é uma imagem do amor de Deus. Quando falamos do banquete escatológico, falamos do amor de Deus que será manifestado no final dos tempos. É “lugar” e ocasião de felicidade e regozijo. As viandas (alimento e bebida) são símbolos dessa felicidade que superou as tristezas da vida: água que refresca e sacia a sede; o vinho que alegra o coração do homem; leite e mel que expressam a abundância, suavidade e beleza da terra prometida. O homem tem uma sede profunda, como ficou evidente no diálogo entre Jesus e a mulher samaritana. "Quem beber desta água terá sede novamente. Mas quem beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede. Ele se tornará uma fonte que saltará para a vida eterna" (cf. Jo 4).

Portanto, cabe a nós escutarmos a voz de Deus. Escutar é uma atitude bíblica. Não é simplesmente ouvir como transeunte distraído e desmemoriado.  Escutar é acolher, é ponderar na alma, como Maria. Escutar é prestar ouvido, prestar a aqiescência (consentimento) da inteligência e vontade. Escutar é prostrar-se diante de um Deus que fala e se revela. Escutar é tirar-se as sandálias para entrar no lugar santo. Escutar é recolher a alma e o espirito, e dizer com humildade: “Eis-me aqui, Senhor”. Diante de Deus que se revela o homem deve prestar a humilde submissão. Com efeito, o drama do homem consiste em “não escutar” a voz de Deus, não querer confiar na veracidade e no amor de Quem se revela.

Compaixão Concretizada Na Partilha

Deus, nosso Pai, nos chama mais uma vez a compartilhar o pão da fraternidade ao redor da mesa que Ele mesmo prepara para nós. O pão da Eucaristia, pão da fraternidade que comungamos deve ser prolongado na partilha do pão que temos com aqueles que não o tem, e por isso, se encontram famintos. O pão da fraternidade nos compromete a trabalhar no mundo para que não falte pão, ou para que pão não esteja somente nas mãos da minoria; para que tudo o que causa dor, sofrimento, tristeza, solidão e morte desapareça; este pão que o Senhor multiplica para que chegue a todos e para que, com ele, chegue também o amor, a certeza de que Deus é nosso Pai e consequentemente, a decisão de viver como irmãos e irmãs. Nada pode nos separar do amor de Deus, porque Ele está ao nosso lado; nada pode nos fazer temer, porque Ele está conosco; nada pode nos destruir, porque Ele nos chama à vida.

O texto do evangelho deste domingo é a parábola da compaixão em ação.Ao sair do barco, Jesus viu uma grande multidão. Encheu-se de compaixão por eles e curou os que estavam doentes(Mt 14,14). Nós nos encontramos diante de uma das verdades mais consoladoras da Sagrada Escritura: o amor misericordioso e compassivo de Deus que se revela no rosto e no agir de Jesus Cristo. Jesus começa "tendo compaixão" pela multidão e termina "compartilhando" o pão multiplicado na partilha, que é o final normal de qualquer verdadeira compaixão. Em Jesus se cumpriu a profecia do profetas Isaías: “Ó vós todos que estais com sede, vinde às águas; vós que não tendes dinheiro, apressai-vos, vinde e comei, vinde comprar sem dinheiro, tomar vinho e leite, sem nenhuma paga.” (Is 55,1).  Aqui, o profeta Isaías nos convida para o banquete divino, um chamado para participarmos das bênçãos da nova aliança de Deus com o seu povo.

Comida e bebida são símbolos da salvação esperada. Comida e bebida em abundância significam uma vida de fartura, livre de carências ou dificuldades. É claro que Israel também esperava uma prosperidade material sem precedentes quando chegasse o tempo da salvação prometida. Mas eles estavam convencidos de que alcançariam a salvação se sentissem, acima de tudo, fome e sede de justiça e comunhão com Deus. O Antigo Testamento sabia que o homem não vive só de pão, mas de toda palavra que procede da boca de Deus (Dt 8:3; cf. Mt 4:4).

A fome e a sede materiais, por outro lado, são uma imagem real da fome e da sede de Deus. Portanto, o profeta Isaías nos exorta a ESCUTAR (um tema tipicamente deuteronomista) a Palavra de Deus, que pode preencher completamente nossas vidas porque é vivificante. Para Isaías, a Nova Aliança consiste em ouvir atentamente, mais uma vez, a Palavra do Senhor e obedecer a ela. “Ouvi-me com atenção, e alimentai-vos bem, para deleite e revigoramento do vosso corpo. Inclinai vosso ouvido e vinde a mim, ouvi e tereis vida; farei convosco um pacto eterno, manterei fielmente as graças concedidas a Davi.” (Is 55,2-3)

A compaixão de Jesus é uma atitude total e libertadora. A compaixão em Jesus, envolve uma ação dupla: curar os enfermos e alimentar os famintos. Nisto a compaixão não é simplesmente um amolecimento do coração; é um compromisso de transformar a realidade de necessidade dos nossos irmãos e irmãs. Não são as palavras, mas as ações que revelam o que o amor realmente é.  Compaixão é, por isso, muito mais do que um sentimento. Ter compaixão é sair de si mesmo, levando consigo o que se tem, por menor que seja (cinco pães e dois peixes), para compartilhar com aqueles que não o têm e que, por essa mesma razão, sofrem. O pouco pode ser cinco pães e dois peixes; essa era toda a provisão de alimentos do grupo formado por Jesus e seus discípulos. Mas quando a compaixão é sincera e plena, a abundância do pouco pode ser milagrosa. Mas quando vive somente para o pão, o homem morre de pão.

Um Olhar Especifico Sobre o Evangelho Deste Domingo

A alimentação da multidão (multiplicação de pães) é o único milagre narrado em todos os quatro evangelhos (Mc 6,32-44; Lc 9,10-17; Jo 6,1-15), e o único narrado duas vezes (em duas versões variantes) em Mc (Mc 8,1-10) e em Mt (Mt 15,29-39). Obviamente o relato da multiplicação tem sua alusão a Ex 16, história do maná no deserto (aqui se diz no lugar deserto) e a 2Rs 4,42-44 (Eliseu alimentou 100 pessoas com 20 pães e ainda sobraram) para dizer que a atividade de Jesus é uma atividade de êxodo, isto é, libertar o povo de todo tipo de escravidão, inclusive da escravidão da fome ensinando os cristãos a partilharem o que se tem com os que nada têm. Por isso, no evangelho de hoje se lê a seguinte frase: “Jesus mandou que as multidões se sentassem na grama”.  Sentar-se” ou “Recostar-se” durante a refeição era próprio dos homens livres e era a posição adotada para a refeição pascal, em recordação da libertação do Egito sob o comando de Moisés (Cf. Ex 12).

Vamos Estender Nossa Meditação Sobre Algumas De Tantas Mensagens Do Texto Do Evangelho Proclamado Neste Domingo.

1. Retirar-Se Para O Deserto É Para Aprender A Despojar-Se

“Quando soube da morte de João Batista, Jesus partiu e foi de barco para um lugar deserto” (Mt 14,13).

No seu relato Mt diz que Jesus se retirou para o deserto depois que soube da morte de São João Batista. Joao Batita era um grande líder popular em quem a população depositava sua confiança. Com sua morte, o povo, em geral, fica desnorteado. Jesus ficou sabendo da morte de João Batista por ordem do rei Herodes Antipas (Mt 14,1-11). Ao saber da morte de João Batista, Jesus se retirou para o deserto para entrar na intimidade com Deus a fim de refletir sobre o acontecimento dentro do plano de Deus. Na oração ele se fortificou. Tanto que quando saiu do barco ele viu a multidão miserável e começou a curar todo mundo, até saciou a fome da multidão. Esta multidão encontrou em Jesus um grande líder.

O deserto é o tempo e o espaço do encontro com Deus onde cada cristão aprende a despojar-se das suas seguranças humanas, das suas certezas, da sua autossuficiência, para viver na liberdade. O deserto como lugar de carência de tudo; é o lugar e o tempo onde as pessoas aprendem a partilhar, e por isso é o lugar onde se vive a igualdade, pois cada membro do Povo conta com a solidariedade do resto da comunidade. Por isso, o deserto é o lugar onde não há egoísmo, injustiça, prepotência. Não é por acaso que Jesus leva seus discípulos para o deserto e é seguido pela multidão. No deserto é que Jesus vai ensinar a viver a vida de partilha, pois onde há partilha as coisas sobram suficientemente. Na ausência da partilha, porque muitos agarram as coisas só para si, a grande maioria fica sem nada nem para sua necessidade básica. A partilha é uma maneira de se libertar da escravidão do egoísmo que mata, pois o egoísmo deixa o homem no isolamento e na solidão. A partilha é um caminho que nos leva de volta para o amor motivo pelo qual fomos criados. Ao ensiná-los a partilhar Jesus quer lhes dizer que tudo é um dom de Deus para os homens. E os dons de Deus são para ser partilhados, colocados ao serviço dos irmãos. É deste processo libertador – que conduz do egoísmo ao amor – que vai nascer a comunidade do Reino.

Somos convidados a retirar-nos diariamente. O principal objetivo de retirar-se é fazer com que, quando avançarmos, avancemos na direção que Deus quer. Retirar-se é essencial para tomarmos as decisões e fazermos as escolhas certas: as que realmente queremos e as que estimulam a vida. Retirar-se pode nos trazer tanto uma resposta quanto uma solução ou podem surgir novas perguntas. Mesmo que não obtenhamos respostas claras para muitas das grandes perguntas da vida, é vital continuar a recordar quais são as nossas perguntas. Perder as perguntas é certamente perder-se no caminho.

2. Viver E Conviver Como Compassivos

“Ao sair do barco, Jesus viu uma grande multidão. Encheu-se de compaixão por eles...” (Mt 14,14).

A multidão faminta do sentido da vida foi atrás de Jesus. Isto significa que essa multidão encontrou em Jesus aquilo que ela estava procurando. Em outras palavras, Jesus tinha algo a oferecer para saciar a fome da multidão.

Será que a Igreja tem algo a oferecer que faça a multidão procurá-la? Ou será que ela vive preocupada apenas com os preceitos que a multidão deve cumpri-las? Os cristãos de hoje têm algo a oferecer ao mundo que talvez esteja vivendo o cansaço existencial?

Diante da multidão faminta do sentido da vida Jesus se mostrou compassivo. Compaixão é muito mais do que um sentimento. Compadecer-se significa sair de si mesmo levando consigo o que tem, por pouco que seja, para compartilhá-lo com o que não o tem e por isso mesmo sofre. A compaixão é uma atitude primordial de Deus. Por isso, quando se fala da compaixão, não se trata de um vago sentimento de comoção. O verbo usado por Mateus neste Evangelho é muito forte e quer dizer sentir-se perturbado nas entranhas. A compaixão, por isso, nos pede que vamos até onde existem feridas, que entremos em lugares onde existe o sofrimento, que compartilhemos os desânimos, os temores, as angústias dos nossos semelhantes. No Evangelho este verbo é usado exclusivamente em relação a Jesus ou a Deus. Por isso, quem tem compaixão, ele tem algo de Deus dentro de si.

Esta profunda compaixão diante das necessidades dos nossos semelhantes é a primeira condição para nos sentirmos motivados para a ação. Quem permanece impassível, quem não alimenta os sentimentos de Cristo, muito dificilmente será induzido a fazer qualquer coisa pelos semelhantes. Por isso, quando der alguma ajuda, ele dá somente para obedecer a alguma imposição externa, a uma convenção social, e não por uma premente necessidade interior.

3. Temos Responsabilidade Diante Da Fome Da Maioria

“Despede as multidões para que possam ir aos povoados comprar comida”, diz os discípulos a Jesus (Mt 14,15b). Mas recebem a resposta de Jesus: Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer (Mt 14,16).

Os discípulos têm pena da multidão que está com fome, por um lado. Mas por outro lado, eles reconhecem a incapacidade de saciá-la com cinco pães apenas. Como resolver o problema? Eles aproximam-se de Jesus não para lhe perguntar que planos Jesus tem, mas para oferecer-lhe uma “solução”: “Este lugar é deserto e a hora já está adiantada. Despede as multidões, para que possam ir aos povoados comprar comida” (v.15). A solução oferecida pelos discípulos, então, é despedir para comprar. Em outras palavras, cada um tem que prover para si mesmo, por meio de dinheiro. Mas vem a pergunta: “Será que toda esta multidão tem dinheiro?”

Comprar e vender (pães) supõem orientar as relações sociais pelas leis da economia, onde impera a concentração de bens e a exploração; supõem submeter-se às leis econômicas que mantém essa multidão na miséria. Sabemos que onde há concentração de bens e alimentos, lá há sempre fome. Neste contexto, quem tem dinheiro, tem direito de comer; quem não o tem, torna-se vítima da fome. O que tem por trás disso é o egoísmo. E as pessoas contaminadas pelo egoísmo acabam virando as costas para o semelhante em dificuldade.

A atitude que Jesus tem com a multidão faminta do pão e da palavra contrasta com a sugestão dos discípulos. A “comprar” Jesus opõe “dar” e ”repartir”: “Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer” (v.16). Jesus ensina-lhes, dessa forma, que eles têm uma responsabilidade diante desse desafio que o mundo dos pobres diariamente grita. Todos os cristãos jamais poderão dizer que não têm nada a ver com a fome, com a miséria, com as necessidades dos mais desfavorecidos. Qualquer irmão necessitado, seja de pão, de alegria, de apoio, ou de esperança, é da responsabilidade de todos os que se declaram cristãos ou pessoas de boa vontade.

4. A Partilha É O Caminho De Multiplicação De Dons Recebidos

Só temos aqui cinco pães e dois peixes” (Mt 14,17)

Que adianta ter cinco pães e dois peixes para alimentar a fome da multidão?! É muito pouco! Mas Jesus pede que lhe entreguem o pouco que se tem: “Trazei-os aqui!” (Mt 14,18). Precisamos colocar nas mãos de Deus nossos pobres recursos humanos. A lição é bem clara: diante do apelo dos necessitados, os cristãos precisam aprender a partilhar. Para Jesus, o eterno problema da vida não é a falta do pão, e sim as causas que geram a falta do mesmo na mesa da grande maioria. O que se revela mais não é a ausência do pão, e sim a presença do egoísmo, do individualismo, da ganância e da total ausência do amor fraterno. Não agarre aquilo que não vale a pena ser agarrado, pois ao agarrá-lo, perde seu valor. É o agarrar em vão, pois um dia cada um será obrigado a largar tudo. Ao partilhá-lo, ao contrário, ganha seu valor.

Cinco pães e dois peixes” significam totalidade (“sete” é a soma dos 5+2). É na partilha da totalidade do que se tem que se responde à carência dos irmãos. Quem partilha, vence a escravidão do egoísmo. Ao partilhar, em vez de perder, o cristão ganha muito mais. É o paradoxo do Reino de Deus: aquilo que se dá para o bem do próximo é aquilo que se ganha. O amor dado é o amor recebido. O perdão dado é o perdão recebido. A vida oferecida para salvar o outro é a vida recebida, a vida ressuscitada. Compartilhar ou partilhar é multiplicar. Se quisermos ser verdadeiros cristãos capazes de convencer o mundo, devemos aprender a viver este paradoxo. É preciso que cada cristão quebre a lógica egoísta do lucro e substituí-la pela lógica do dom, da partilha, do amor. Sem a partilha, não haverá um mundo mais justo e mais fraterno.

Quem possui algo para comer, deixa-se tocar por quem não o tem e abre mão, generosamente, do que lhe pertence para saciar a fome do semelhante. Esta atitude funda-se na pura gratuidade e exclui qualquer desejo de recompensa. Nessa direção é que os cristãos, todos nós, devemos caminhar. Tudo parte do amor ao semelhante cuja penúria ou miséria torna-se um apelo para a solidariedade e a partilha.

Se a partilha e a compaixão são a atitude primordial de Deus, portanto repartir o pão significa prolongar a generosidade de Deus- criador: Ele criou tudo por amor e gratuitamente sem nenhum mérito de um ser humano. Por isso, quando se libera a criação ou um ser humano do egoísmo, sobra para cobrir a necessidade de todos. Libertar-se um ser humano do egoísmo significa estar vazio de toda criatura. E “estar vazio de toda criatura é estar cheio de Deus. Ao contrário, estar cheio de toda criatura significa estar vazio de Deus” (Mestre Eckhart).

5. Um Banquete Da Libertação E Da Dignidade Humana Prefigura O Banquete Eterno: O Gesto Aponta Para A Eucaristia

Então, Jesus pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção. Em seguida partiu os pães e os deu aos discípulos” (Mt 14,19). São as palavras que apontam para a Eucaristia (Mt 26,26-29).

Jesus pede que as multidões se sentem na grama (Mt 14,19). No primeiro êxodo Deus alimentou Israel no deserto (Ex 16); no êxodo definitivo Jesus vai alimentar a multidão no lugar deserto. Comer sentado ou “recostar-se” para comer era próprio dos homens livres e era a posição adotada para a refeição pascal (“grama verde” só existe durante a primavera, supõe que seja o tempo de Páscoa. Cf. Jo 6,4), em recordação da libertação do Egito. O gesto de sentar indica a tomada de consciência da própria dignidade e liberdade. E Jesus quer que a multidão esteja consciente disso. Jesus veio certamente para devolver ao homem a dignidade perdida para fazê-lo livre de todo tipo de prisão.

O que centraliza o acontecimento é o modo como Jesus procede. Ele toma os pães e peixes, ergue os olhos ao céu, pronuncia a bênção, parte os pães e os dá aos discípulos para distribuí-los à multidão (v.19).

Os gestos de Jesus prefiguram a futura ceia que Jesus instituirá na Última Ceia (cf. Mt 26,26-29). A nota cronológica “já é tarde” (v.13) retoma literalmente, o começo do relato da Última Ceia (Mt 26,20). A cena prepara a eucaristia, que será a expressão do dom total de Jesus e dos seus. Ao erguer os olhos ao céu Jesus expressa sua confiança que tem no Pai celeste. Jesus vincula o alimento com Deus. Pronunciar uma bênção significa louvar a Deus e dar-lhe graças por esse alimento, reconhecendo que é dom dele aos homens. Isto quer dizer que tudo que o homem tem, o tem por causa da generosidade de Deus. Por isso, a generosidade de Deus deve alcançar todos, sem ser bloqueada pelo egoísmo ou pela ganância.

Depois da bênção, Jesus encarrega os discípulos de servir os pães e peixes para a multidão. Jesus não lhes confere um poder, mas lhes confia um serviço. Na comunidade, todos os seguidores de Cristo devem ser servidores e não chefes ou mandantes poderosos. O Espírito que Jesus nos infunde que o seguem leva a dar-se aos outros para comunicar vida (alimento). O serviço prestado transmite a generosidade e o amor de Deus criador e doador de vida. Não somos donos dos dons, mas simplesmente distribuidores ou partilhadores dos mesmos. Aquele que recebeu esse dom não é o seu dono; mas é apenas um administrador a quem Deus confiou determinado dom, para que o pusesse ao serviço dos irmãos com a mesma gratuidade com que o recebeu. Na verdade, sentar-se à mesa com Jesus e receber o pão que Ele oferece (Eucaristia), é assumir uma vida de partilha, de amor, e de serviço. Celebrar a Eucaristia obriga-nos a lutar contra as desigualdades, o egoísmo, os sistemas de exploração, a ganância e assim por diante.

Nenhum dos outros sacramentos instituídos por Cristo supera a este em virtude e excelência. Os outros conferem a graça, mas este contém o próprio Autor da graça, é origem e fim dos outros; como esplendoroso sol do meio-dia em torno do qual giram e são iluminados os outros satélites. (Papa Paulo VI)

P. Vitus Gustama,svd

Sábado Da XVII Semana Comum, Ano Par, 01/08/2026

SER PROFETA E MÁRTIR DA VERDADE

Sábado da XVII Semana Comum

Primeira Leitura: Jr 26,11-16.24

Naqueles dias, 11 os sacedotes e profetas dirigiram-se aos chefes e a todo o povo, dizendo: “Este homem foi julgado réu de morte, porque profetizou contra esta cidade, como ouvistes com vossos ouvidos”. 12 Disse Jeremias aos dignitários e a todo o povo: “O Senhor incumbiu-me de profetizar para esta casa e para esta cidade através de todas as palavras que ouvistes. 13 Agora, portanto, tratai de emendar a vossa vida e as obras, ouvi a voz do Senhor, vosso Deus, que ele voltará atrás da decisão que tomou contra vós. 14 Eu estou aqui, em vossas mãos, fazei de mim o que vos parecer conveniente e justo, 15 mas ficai sabendo que, se me derdes a morte, tereis derramado sangue inocente contra vós mesmos e contra esta cidade e seus habitantes, pois em verdade o Senhor enviou-me a vós para falar tudo isso a vossos ouvidos”. 16 Os chefes e o povo em geral disseram aos sacerdotes e profetas: “Este homem não merece ser condenado à morte; ele falou-nos em nome do Senhor, nosso Deus”. 24 Jeremias passou a ter proteção de Aicam, filho de Safã, para não cair nas mãos do povo e evitar ser morto.

Evangelho: Mt 14,1-12

1 Naquele tempo, a fama de Jesus chegou aos ouvidos do governador Herodes. 2 Ele disse a seus servidores: “É João Batista, que ressuscitou dos mortos; e, por isso, os poderes mira­culosos atuam nele”. 3 De fato, Herodes tinha mandado prender João, amarrá-lo e colocá-lo na prisão, por causa de Herodíades, a mulher de seu irmão Filipe. 4 Pois João tinha dito a Herodes: “Não te é permitido tê-la como esposa”. 5 Herodes queria matar João, mas tinha medo do povo, que o considerava como profeta. 6 Por ocasião do aniversário de Herodes, a filha de Herodíades dançou diante de todos, e agradou tanto a He­ro­des 7 que ele prometeu, com juramento, dar a ela tudo o que pedisse. 8 Instigada pela mãe, ela disse: “Dá-me aqui, num prato, a cabeça de João Batista”. 9 O rei ficou triste, mas, por causa do juramento diante dos convidados, ordenou que atendessem o pedido dela. 10 E mandou cortar a cabeça de João, no cárcere. 11 Depois a cabeça foi trazida num prato, entregue à moça e esta a levou a sua mãe. 12 Os discípulos de João foram buscar o corpo e o enterraram. Depois foram contar tudo a Jesus.

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Viver Conforme a Palavra De Deus

Os sacerdotes e profetas dirigiram-se aos chefes e a todo o povo, dizendo: ‘Este homem foi julgado réu de morte, porque profetizou contra esta cidade, como ouvistes com vossos ouvidos’. Os chefes e o povo em geral disseram aos sacerdotes e profetas: ‘Este homem não merece ser condenado à morte; ele falou-nos em nome do Senhor, nosso Deus’”. É a condenação e a proteção do profeta Jeremias ao mesmo tempo.

Este homem foi julgado réu de morte, porque profetizou contra esta cidade, como ouvistes com vossos ouvidos”. É surpreendente a correspondência dessa cena e o processo da condenação de Jesus. Jeremias é figura de Jesus Cristo. Todo homem que sofre pela justiça participa, em certa maneira desse mesmo mistério: a Paixão de Jesus continua nos que sofrem pela justiça vivida e anunciada. São Paulo escreveu: “Agora me alegro nos sofrimentos suportados por vós. O que falta às tribulações de Cristo, completo na minha carne, por seu corpo que é a Igreja” (Cl 1,24).

“Este homem não merece ser condenado à morte; ele falou-nos em nome do Senhor, nosso Deus’” é a defesa que os chefes e o povo geral fazem em favor do profeta Jeremias. São representantes dos que defendem a verdade e vivem na sinceridade de coração.

Jeremias havia convidado o povo de Deus à conversão. Ele havia indicado que um culto dado a Deus com as mãos manchadas pelos crimes e maldades era culto vazio, do qual Deus retirava seu olhar. Ele havia indicado a necessidade de voltar para Deus antes que a cidade e o templo fossem destruídos a causa da maldade de seus habitantes, de suas autoridades e dos sacerdotes. Sem a conversão sincera do povo todo o que se espera é apenas a desgraça segundo o profeta Jeremias. E a tentativa de assassinar o profeta que anuncia a Palavra de Deus significa estar contra o próprio Deus. E o sangue do inocente (profeta) clamará diante de Deus como aconteceu com o sangue do inocente Abel assassinado pelo próprio irmão, Caim (Gn 4,10-11).

O Senhor nos convida a abrirmos nosso coração, através de uma conversão sincera, para que Aquele que é a Palavra encarnada, Jesus Cristo, realmente possa habitar em nós. Quem recusa o convite para uma sincera conversão, prepara a própria desgraça, isto é, uma vida sem a graça de Deus e põe em risco a própria salvação. No sangue de Cristo encontramos a salvação.

Somos Convidados a Ser Testemunhas Da Verdade a Exemplo de João Batista

Na passagem do Evangelho deste dia fala-se da identidade de Jesus, relacionada à de João Batista. O motivo dessa colocação é sempre o mesmo: para entender Jesus há que entender antes quem é João Batista, pois João Batista é o Precursor de Jesus. O destino de João Batista preanuncia o de Jesus.

O evangelho nos relatou que a fama de Jesus estava cada vez mais espalhada ao seu redor. Por isso chegou também aos ouvidos de Herodes que já tinha mandado decapitar João Batista. A presença e a fama de Jesus incomodam a consciência de Herodes: É João Batista, que ressuscitou dos mortos; e, por isso, os poderes miraculosos atuam nele, pensou Herodes. Herodes que já tinha mandado decapitar João Batista, por instigação de Herodiades, ficou sem a consciência tranquila.

A partir da reação de Herodes é que se conta o drama da vida de João Batista que denunciou Herodes por ter se casada com Herodíades, ex-mulher de seu irmão, pois era proibido pela Lei (cf. Lv 18,16).

A adúltera Herodíades não gostou da denúncia de João Batista em nome de seu prazer e interesse pessoal, e procurava algum meio para surpreender João Batista, e esperava momento certo para vingar-se. Quando chegou o momento oportuno ela pediu, através de sua filha (como meio), a cabeça de João Batista (vingança).

Herodes ouve com agrado João Batista, mas não lhe obedece. Seu coração está dividido. Herodes ouve João Batista, e sua consciência desperta em lucidez. Mas Herodes também ouve Herodíades, sua amante, e se embriaga em paixão. Herodes vive entre a lucidez e a paixão. O coração de Herodes é dividido. Do coração dividido de Herodes nasce a morte de João Batista. De seu coração dividido sai a divisão entre a cabeça e o corpo de João Batista numa degolação. Incapaz de obedecer à verdade, Herodes mata um inocente, o profeta de Deus. Incapaz de escutar o homem de Deus, Herodes silencia para sempre a voz de João Batista. Incapaz de segui-lo, Herodes detém João Batista na cadeia para depois encerrar sua vida com uma espada. Quando não se respeita a verdade, quando não se vive a caridade fraterna, o número de vítimas de violência e de agressão aumentarão cada vez mais. Os inocentes são , na maioria, sempre vítimas disso tudo.

João Batista é o último profeta do Antigo Testamento. Ele enfrenta abertamente os governantes da nação para chamá-los à mudança e para exigir um comportamento ético. O deserto, lugar de sua pregação, é símbolo de sua oposição à cidade e ao templo. Ele quer reviver a experiência do êxodo e recordar seu povo que o destino celestial depende completamente da fidelidade a Deus. No entanto, como qualquer profeta, João Batista pagou o preço alto de sua denúncia: a própria vida. Herodes, ainda que tivesse respeito pelo João Batista, se submeteu diante das pressões da adúltera Herodíades que pediu a cabeça de João Batista.

A morte de João Batista antecipa a morte de Jesus como mártir. Ambos são encarcerados injustamente, ambos rubricam com seu sangue a verdade de Deus. Jesus espera o mesmo destino de João Batista. Um profeta autêntico não é somente recusado em sua própria pátria (cf. Mt 13,57), mas também essa recusa termina, muitas vezes, com sua morte.

A denúncia de João Batista nos mostra que o Evangelho não é neutro. Diante de certos grandes problemas, o Evangelho toma posição com o risco de conduzir os crentes para o martírio pelo fato de defender a verdade, a justiça, a honestidade e assim por diante.

A figura de João Batista é admirável em sua coerência, na lucidez de sua pregação e de suas denúncias. João Batista é valente e comprometido. Diz a verdade, ainda que desagrade. É figura também de tantos cristãos que morreram vítimas da intolerância pelo testemunho que davam contra situações injustas e insuportáveis do ponto de vista da justiça e da honestidade. Os “profetas mudos” prosperam, mas os autênticos terminam pagando tudo com a própria vida.

A verdade continua sendo a verdade, embora o pregador da verdade possa ser eliminado por aqueles que vivem na mentira e na falsidade. A verdade tem seu próprio caminho. E por isso é que a verdade não pode ser deviada, eliminada ou enterrada. O tempo vai mostrar que a verdade vencerá tudo e todos. Thomas Merton, um grande escritor espiritual escreveu: “Devemos ser sinceros por dentro, sinceros com nós mesmos antes de podermos conhecer uma verdade que está fora de nós”. As palavras mais proféticas emanam da verdade.

Toda vez que celebramos o martírio de um discípulo de Cristo tocamos o próprio núcleo de nossa fé. A Igreja de Cristo é a Igreja dos profetas e dos mártires. Por ser profeta o cristão se torna mártir, isto é, aquele que testemunha a verdade e paga com seu sangue a verdade proclamada. A função profética é uma das funções de qualquer batizado. No dia em que é ungido com o óleo de crisma no momento de seu batismo, o cristão recebe as três funções: profética, sacerdotal e real. Ele é batizado para proclamar a verdade, praticar o bem e não para compactuar o mal e a maldade. O cristão se santifica vivendo de acordo com a verdade e o bem. Ele vive e prega os valores do Evangelho como a verdade, a honestidade, a justiça, a caridade, a solidariedade, partilha, igualdade e assim por diante.

Mas o que acontece é que estamos tão acostumados com o comodismo. Muitas vezes nos sentimos instalados comodamente no acampamento capitalista ou nas avenidas do hedonismo. Ninguém vai nos perseguir se não vivermos nosso martírio, nosso verdadeiro testemunho dos valores ensinados por Jesus Cristo.

A vida do cristão deve ser iluminada e conduzida pela verdade. A vida iluminada pela verdade ameaça quem está na sombra da desonestidade, da corrupção e da falsidade, e este reage violentamente diante da verdade em nome da defesa dos seus interesses e prazeres individuais. Toda vez que os cristãos se arriscarem para adentrar-se nos territórios obscuros, eles vão pagar o preço com sua própria vida, como João Batista. Toda vez que a Igreja abrir a boca contra a injustiça, a desonestidade, a corrupção, a exploração do ser humano, ela será perseguida. Mas dar a vida é a única maneira de dar vida. Ser verdadeira Igreja de Cristo não dá para parar de sofrer enquanto ela viver seu verdadeiro martírio, seu profundo testemunho de valores. A verdadeira Igreja de Cristo é a Igreja dos mártires, das testemunhas de Cristo.

Jesus nos diz que devemos ser luz, sal e fermento deste mundo (cf. Mt 5,13-14). Ou seja, profetas. Ser cristão é estar disposto a tudo. Profetas são os que interpretam e vivem as realidades deste mundo a partir da perspectiva de Deus e denunciam quando há injustiça ou desonestidade nelas. Ele faz tudo isso não para eliminar os pecadores e sim o pecado, pois o próprio Deus ama o pecador e odeia o pecado. Deus não quer a morte do pecador, mas que se converta (Ez 18,19-32).

Geralmente não gostamos de escutar as críticas que nos recordam o lado escuro de nossa vida. Sempre temos dificuldade para escutar um profeta. Mas mesmo que não gostemos de ouvir o profeta, suas palavras continuam a conter a verdade e a verdade nos liberta (cf. Jo 8,31-32), e torna nossa vida mais leve e nosso sono mais sadio. Mesmo que eliminemos o profeta, mas suas palavras continuam a ressoar ou a incomodar nossa consciência, como aconteceu com Herodes. Viver na verdade ou de acordo com a verdade, com a justiça, com a desonestidade, etc. é viver na serenidade.

O Senhor nos reúne em torno d’Ele nas nossas celebrações não para celebrar alguns ritos mágicos e sim para que renovemos diante d’Ele nossa aliança de amor, aliança com a verdade e voltemos a fazer nosso o compromisso de viver e de proclamar Seu Evangelho e construir Seu Reino de amor e de fraternidade entre nós.

Herodes ouvia com agrado João Batista, mas não lhe obedecia. Seu coração estava dividido. Herodes ouvia João Batista que despertava sua consciência, mas, ao mesmo tempo, ouvia Herodíades, sua amante e se embriagava em paixão por ela. Herodes estava entre na encruzilhada entre a lucidez e a paixão cega; entre o prazer mortal e a paz da consciência. Ele estava totalmente dividido. Da divisão de seu coração nasce morte. De sua divisão saiu a divisão entre o corpo e a cabeça de João Batista. Herodes foi incapaz de obedecer ao que pregava a verdade e a salvação, mas o matou; incapaz de escutá-lo, o silenciou para sempre neste mundo; incapaz de segui-lo, mas o deteve na prisão para depois eliminá-lo em nome do prazer passageiro.

Acontecerá a divisão dentro de nós mesmos e entre nós toda vez que estivermos desunidos de Cristo. E essa divisão pode produzir morte nosso próximo como aconteceu com Herodes. Estamos divididos toda vez que aplaudimos um corrupto, pois fazemos parte da corrupção. Estamos divididos toda vez que admiramos Cristo e seus ensinamentos, no entanto não fazemos caso de tudo isso. Estamos divididos se pregamos uma moral para o uso próprio em nome de nossos prazeres. O caso de Herodes nos chama a sermos vigilantes. Em qualquer momento podemos perder a razão para agir em nome do prazer e da emoção. O espírito de Herodes não morre.

P. Vitus Gustama,svd

Terça-feira Da XVIII Semana Comum, Ano Par, 04/08/2026

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