sábado, 3 de fevereiro de 2024

05/02/2024-Segundaf Da V Semana Comum

DEUS ESTÁ NO MEIO DE NÓS: É PRECISO TOCAR E DEIXAR-SE TOCAR POR ELE

Segunda-Feira Da V Semana Comum

Primeira Leitura: 1Rs 8,1-7.9-13

Naqueles dias, 1 Salomão convocou para junto de si, em Jerusalém, todos os anciãos de Israel, todos os chefes das tribos e príncipes das famílias dos filhos de Israel, a fim de transferir da cidade de Sião, que é Jerusalém, a arca da aliança do Senhor. 2 Todo o Israel reuniu-se em torno de Salomão, no mês de Etanim, ou seja, no sétimo mês, durante a festa. 3 Vieram todos os anciãos de Israel, e os sacerdotes tomaram a arca 4 e carregaram-na junto com a tenda da reunião, como também todos os objetos sagrados que nela estavam; quem os carregava eram os sacerdotes e os levitas. 5 O rei Salomão e toda a comunidade de Israel, reunida em torno dele, imolavam diante da arca ovelhas e bois em tal quantidade, que não se podia contar nem calcular. 6 E os sacerdotes conduziram a arca da aliança do Senhor ao seu lugar, no santuário do templo, ao Santo dos Santos, debaixo das asas dos querubins, 7 pois os querubins estendiam suas asas sobre o lugar da arca, cobrindo a arca e seus varais por cima. 9 Dentro da arca só havia as duas tábuas de pedra, que Moisés ali tinha deposto no monte Horeb, quando o Senhor concluiu a aliança com os filhos de Israel, logo que saíram da terra do Egito. 10 Ora, quando os sacerdotes deixaram o santuário, uma nuvem encheu o templo do Senhor, 11 de modo que os sacerdotes não puderam continuar as funções porque a glória do Senhor tinha enchido o templo do Senhor. 12 Então Salomão disse: “O Senhor disse que habitaria numa nuvem, 13 e eu edifiquei uma casa para tua morada, um templo onde vivas para sempre”.

Evangelho: Mc 6, 53-56

Naquele tempo, 53tendo Jesus e seus discípulos acabado de atravessar o mar da Galileia, chegaram a Genesaré e amarraram a barca. 54Logo que desceram da barca, as pessoas imediatamente reconheceram Jesus. 55Percorrendo toda aquela região, levavam os doentes deitados em suas camas para o lugar onde ouviam falar que Jesus estava. 56E, nos povoados, cidades e campos onde chegavam, colocavam os doentes nas praças e pediam-lhe para tocar, ao menos, a barra de sua veste. E todos quantos o tocavam ficavam salvos.

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Templo De Jerusalém e a Arca Da Aliança: Momento Da União Nacional Na Presença De Deus

Naqueles dias, Salomão convocou para junto de si, em Jerusalém, todos os anciãos de Israel, todos os chefes das tribos e príncipes das famílias dos filhos de Israel, a fim de transferir da cidade de Sião, que é Jerusalém, a arca da aliança do Senhor. Todo o Israel reuniu-se em torno de Salomão...”.

Uma das grandes realizações de Salomão foi a conclusão de um dos projetos de seu pai Davi: construir um templo para Deus. Convém recordarmos a trágica história desse Templo de Jerusalém.

·      Em 960 a.C: Salomão constrói um templo grandioso.

·      Em 586 a.C: este Templo é destruído por Nabucodonosor.

·      Em 516 a.C: é reconstruído depois do retorno do exílio de Babilônia.

·      10 anos antes de Jesus Cristo: Herodes, o Grande, reconstrói o Templo. Ali onde Jesus, aos doze anos, encontra os doutores da Lei. Ali também vai orar em peregrinação da Páscoa, todos os anos. Ali pronuncia vários grandes discursos.

·      Em 66 d.C: os exércitos de Tito incendiam o Templo.

·      Em 132: edificam-se ali vários templos em honra de Júpiter.

·      Em 687: se constrói uma Mesquita muçulmana na explanada do Templo.

·      No século XVI: se edificou a Mesquita atual.

O mais característico do reinado de Salomão é que construiu o Templo de Jerusalém, o que Davi tinha querido edificar, mas que as circunstâncias e a voz do profeta, aconselharam para deixar mais tarde a realização da construção.

Este templo, inaugurado uns mil anos antes de Cristo, foi destruído por Nabucodonosor quatro centos anos mais tarde, e logo reconstruído várias vezes. Nos tempos de Jesus o Templo estava em seu esplendor (cf. Mc 13,1-2; Mt 24,1-2; Lc 21,5-6). Mas logo no ano 66 d.C, os exércitos de Tito o destruíram novamente. Agora em seu lugar há uma grande Mesquita (muçulmana).

Hoje lemos como Salomão organizou a solene e festiva trasladação da Arca da Aliança para dentro do Templo na festa da dedicação do Templo recém-construido. A Arca da Aliança acompanhou o povo em sua época nômade pelo deserto e que logo havia depositado em vários templos e casas. A Arca da Aliança com as duas tábuas da Lei de Moisés é agora levada ao Templo, como símbolo da continuidade com o período das peregrinações, apesar de que o povo já tinha se assentado definitivamente. A trasladação da Arca da Aliança coincide com a festa dos Tabernáculos ou a festa das tendas (1Rs 8,2. Cf. Lv 26,29-43). 

Quando a Arca é introduzida no Templo, Deus toma posse de sua casa. A nuvem (1Rs 8,9), associada à glória de Deus, é a manifestação sensível da presença do Senhor (cf. Ex 14,20; 19,16; 24,15-17). A partir dai, o povo de Israel está consciente de que o Templo é a sede da presença divina; o Templo é a “casa” de Deus. Essa fé do povo isarelita na presença de Deus em seu Templo é a razão do culto que aí é celebrado e das iniciativas dos fieis. A certeza de que Deus residia no Templo, a devoção para com a “casa de Deus” frequentemente são expressas nos Salmos, cujas ligações com o culto e com o Templo são evidentes. Mas essa presença de Deus no meio de seu povo é uma graça e será retirada se o povo for infiel. 

Deus, que tomou posse de seu santuário com a entrada da Arca, se apresenta, ao mesmo tempo, como um Deus escondido (na nuvem) e um Deus manifestado (na luminosidade da glória). 

Além de toda a assembleia de Israel que se encontra presente nesta festa (1Rs 8,2.5.13.22), têm um papel preeminente os conselhos de anciãos, os chefes de tribos, os chefes de famílias e, teoricamente, os sacerdotes e o rei (1Rs 8,1). Eles representam “todo o Israel” e legitimam o Templo de Salomão como santuário nacional. O Templo, a santa Habitação, continuará o centro da piedade judaica. 

Se os judeus estavam orgulhosos de seu Templo e da Arca da Aliança, nós temos, todavia, mais motivos para apreciar nossas igrejas como edifício sagrado onde podemos conversar com tranquilidade com Deus. É preciso respeitar o silêncio sagrado. Somente fala com autoridade quem aprende a calar-se no momento certo e quem aprecia o silêncio. As nossas palavras somente terão conteúdo densamente, se forem frutos de um silencio profundo.Todas as obras primas são fruto de um longo silêncio. Não há obra maravilhosa em todos os setores da vida que não sejam fruto de um silêncio. 

Sabemos e temos consciência de que Deus está presente em todas partes do universo. Mas ter um espaço adequado, convenientemente separado do espaço profano nos ajuda para nossa oração e para a reunião da comunidade e para nosso encontro com Deus. 

Além disso, a presença eucarística de Jesus Cristo que quer que participemos sacramentalmente de seu Corpo e seu Sangue na comunhão, e que prolonga esta presença no sacrário, sobretudo, para a comunhão dos enfermos ou moribundos, dá a nossas igrejas uma dignidade nova e entranhável. Cristo Jesus eucarístico é uma presença privilegiada, um sacramento visível de sua contínua e invisível proximidade como Senhor Ressuscitado. É nosso “viático”, alimento para o caminho. 

Mas, Deus não somente habita no Templo. Sua morada especial somos nós mesmos (cf. 1Cor 3,16-17). Ele nos consagrou como seus. Por isso, a glória de Deus deve resplandecer desde nosso próprio interior. A partir de sua encarnação, Deus veio viver entre nós. Já não é a nuvem que O representa e sim ele próprio no meio de seus. A partir de Sua presença em nós, nós nos convertemos em um sinal d´Ele no meio de nossos irmãos. Donsequentemente, devemos respeitar e reverenciar o outro, pois ele é templo do Espirito Santo. Jamais podemos esquecer o homem-templo. Devemos respeitar simultaneamente o homem-templo e espaço-templo onde podemos rezar ou conversar com Deus e ouvi-Lo em silêncio. 

O Evangelho e Sua Mensagem 

O texto do evangelho de hoje pode ser qualificado na categoria de “sumário” ou síntese que o evangelista Marcos faz, de vez em quando, para resumir um período de atividade de Jesus e para unir as distintas partes de seu relato. Nesse sumário Jesus não toma nenhuma iniciativa nem se põe, como tantas outras vezes, a ensinar (cf. Mc 6,34). As pessoas se aproximam de Jesus para ser curadas por Ele. 

Marcos nos relatou que Jesus visitou a região de Genesaré. “Genesaré” é figura da periferia do judaísmo, à margem da instituição judaica. Jesus entra em qualquer núcleo da população por pequeno que seja, pois Jesus é “Deus que visitou seu povo” (Lc 1,68; 7,16). Na região de Genesaré não se encontram os endemoninhados, isto é, fanatismos destruidores. Encontra-se mal (Mc 1,32;2,17): os enfermos que vivem excluídos pela sociedade legalista que espiritualmente mata todos os que padecem algum tipo de mal físico. 

Anteriormente Jesus fez o milagre da multiplicação dos pães.  E esse milagre despertou o entusiasmo popular. Jesus e seus discípulos querem sair desse entusiasmo e vão para algum lugar para descansar. Mas Jesus e seus discípulos não têm como escapar das multidões. Jesus acaba as atendendo e deixa o descanso para mais tarde. Isto se chama a disponibilidade baseada na misericórdia. A misericórdia é sinônima de partilha íntima da dor dos que sofrem, dos desprezados, dos marginalizados ou excluídos. Por isso, a misericórdia cura e liberta. A verdadeira misericórdia obriga à ação. O preço da misericórdia divina é infinito: a encarnação de Deus em Jesus Cristo e sua morte salvadora na cruz. 

“... levavam os doentes deitados em suas camas para o lugar onde ouviam falar que Jesus estava”, assim relatou o evangelista Marcos. 

A enfermidade e os sofrimentos acompanham a vida do homem permanentemente e o situa numa terrível insegurança. Tudo isso simboliza a fragilidade da condição humana submetida aos riscos inesperados e imprevisíveis. A enfermidade contradiz o desejo de absoluto e de solidez que todos nós temos. Por isso é que a enfermidade guarda sempre uma significação religiosa mesmo para o homem moderno. 

Em nossos dias a cura das enfermidades corresponde à ciência médica. Mas os antigos, em todas as civilizações do mundo, deram à enfermidade e à cura um significado religioso. As pessoas enfermas recorreram a Deus para ser curadas. Hoje em dia a primeira reação de quem se encontra enfermo é procurar ou chamar médico. Mas se refletirmos profundamente nós perceberemos que o homem com a inteligência que Deus lhe deu, e que combate o mal através de ajuda, de remédios capazes de curar etc. continua sendo um dom de Deus. A vocação de ser médico e enfermeiro é maravilhosa ao serviço da humanidade. Deus quer cuidar dos enfermos através de seus filhos médicos e enfermeiros. 

Todos quantos tocavam Jesus, ficavam salvos”.  Esta frase tem um peso teológico. “Salvar” é ato próprio de Deus em relação ao homem. Por isso, esta frase vai muito além de uma simples cura. Toda proximidade de Jesus possibilita a passagem do homem para a nova condição de vida. Trata-se de uma total restauração do homem que se aproxima de Jesus com fé. A fé é simples: as pessoas querem tocar Jesus para ficar curadas de seus males. Para ser tocado, o homem precisa se aproximar de Deus e deixar-se tocar por Deus. As pessoas dos contornos levavam os enfermos para Jesus para que pudessem tocar, ao menos, a barra de sua veste.  As pessoas, na sua simplicidade, acreditavam que somente o contato direto com Jesus é que se sentiam afetadas pelo poder de Jesus. Dessa maneira ficavam curadas. 

Com estas curas o evangelista Marcos quer nos mostrar o efeito mais notável do anúncio do Reino de Deus: a Graça. A graça de Deus nos devolve a alegria de viver, pois em Deus encontramos o sentido de nossa vida, inclusive de nossas dores e enfermidade e nos dá esperança de estar em comunhão plena com Deus um dia. No seu ato de libertação Jesus nos apresenta o plano maravilhoso de seu Pai: o amor gratuito de Deus Pai para com o ser humano. Este amor gratuito não pode ser comprado nem exigido nem é resposta aos méritos que alguém crê ter acumulado. Diante da graça anunciada e vivenciada por Jesus, o sistema religioso de seu tempo, que se baseava na acumulação de méritos, entra em crise. Os pobres, os marginalizados e excluídos, por outro lado, são os maiores beneficiados pela proposta revolucionária de Jesus, pois são mais disponíveis e abertos diante da graça de Deus. 

O amor gratuito, que Deus nos tem, desperta nossa consciência de que vivemos num mundo de gratuidade que nos faz vivermos agradecidos e gratos permanentemente ou nos faz vivermos uma vida eucarística. E essa consciência nos leva a ajudarmos gratuitamente os que se encontram “enfermos” nesta vida. Da experiência cotidiana percebemos que os que ajudam mais os outros, sem esperar nada de troca, são mais felizes do que os demais. “Quando perguntamos pela bondade de um homem, não perguntamos por suas crenças ou esperanças, mas por seus amores” (Santo Agostinho: De fide, spe et char. 31). 

Todos quantos tocavam Jesus, ficavam salvos”. Nós, cristãos, temos que aprender a “tocar” Jesus, a não perder nenhuma maneira o contato direto com Jesus, porque Ele é a fonte do que somos e daquilo que dá sentido à nossa vida. Somente tocando Jesus, encontraremos a força para seguir adiante nesta vida e para segui-Lo pelos caminhos da vida. 

Há, pelo menos, dois caminhos para nos encontrarmos com Jesus e tocá-Lo. Um é através da Eucaristia e da leitura e da escuta da Palavra de Deus. Em cada Palavra proclamada e meditada há sempre alguma palavra para minha vida se eu estiver aberto diante dela. Há sempre uma palavra que toca minha vida ou minha maneira de viver. Na Eucaristia a Palavra de Deus se faz alimento para minha peregrinação nesta terra rumo à casa do Pai, nosso lar definitivo.  Outra maneira é nos aproximarmos dos nossos irmãos e irmãs, especialmente dos mais pobres e desamparados, dos que sofrem. Eles são, hoje, sacramentos viventes da presença de Jesus no meio de nós (Mt 25,40.45). O contato físico, real, diário, com eles nos fará experimentar, sem dúvida nenhuma, a humanidade viva e real de Jesus que nos cura de nossas enfermidades.

O Senhor nos recebe em sua Casa e nos alimenta com sua Palavra e Seu Pão eucarístico. Mas ele nos envia para que demos testemunho de nossa fé, alimentando os demais com nosso amor gratuito para que eles possam voltar a viver com mais vigor como filhos e filhas amados do Pai.

P. Vitus Gustama,svd

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

V Domingo Do Tempo Comum "B",04/02/2024

SOMOS CHAMADOS A LEVANTAR E A SERVIR OS DEMAIS

V Domingo Do Tempo Comum “B”

Primeira Leitura: Jó 7,1-4.6-7

Jó disse: 1“Não é acaso uma luta a vida do homem sobre a terra? Seus dias não são como dias de um mercenário? 2Como um escravo suspira pela sombra, como um assalariado aguarda sua paga, 3assim tive por ganho meses de decepção, e couberam-me noites de sofrimento. 4Se me deito, penso: Quando poderei levantar-me? E, ao amanhecer, espero novamente a tarde e me encho de sofrimentos até ao anoitecer. 6Meus dias correm mais rápido do que a lançadeira do tear e se consomem sem esperança. 7Lembra-te de que minha vida é apenas um sopro e meus olhos não voltarão a ver a felicidade!

Segunda Leitura: 1Cor 9,16-19.22-23

Irmãos: 16Pregar o Evangelho não é para mim motivo de glória. É antes uma necessidade para mim, uma imposição. Ai de mim se eu não pregar o Evangelho! 17Se eu exercesse minha função de pregador por iniciativa própria, eu teria direito a salário. Mas, como a iniciativa não é minha, trata-se de um encargo que me foi confiado. 18Em que consiste, então, o meu salário? Em pregar o Evangelho, oferecendo-o de graça, sem usar os direitos que o Evangelho me dá. 19Assim, livre em relação a todos, eu me tornei escravo de todos, a fim de ganhar o maior número possível. 22Com os fracos, eu me fiz fraco, para ganhar os fracos. Com todos, eu me fiz tudo, para certamente salvar alguns. 23Por causa do Evangelho eu faço tudo, para ter parte nele.

Evangelho: Mc 1,29-39

Naquele tempo, 29 Jesus saiu da sinagoga e foi, com Tiago e João, para a casa de Simão e André. 30 A sogra de Simão estava de cama, com febre, e eles logo contaram a Jesus. 31 E ele se aproximou, segurou sua mão e ajudou-a a levantar-se. Então, a febre desapareceu; e ela começou a servi-los. 32 À tarde, depois do pôr do sol, levaram a Jesus todos os doentes e os possuídos pelo demônio. 33 A cidade inteira se reuniu em frente da casa. 34 Jesus curou muitas pessoas de diversas doenças e expulsou muitos demônios. E não deixava que os demônios falassem, pois sabiam quem ele era. 35 De madrugada, quando ainda estava escuro, Jesus se levantou e foi rezar num lugar deserto. 36 Simão e seus companheiros foram à procura de Jesus. 37 Quando o encontraram, disseram: “Todos estão te procurando”. 38 Jesus respondeu: “Vamos a outros lugares, às aldeias da redondeza! Devo pregar também ali, pois foi para isso que eu vim”. 39 E andava por toda a Galileia, pregando em suas sinagogas e expulsando os demônios.

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No evangelho do domingo anterio lemos que Jesus curou uma pessoa dominada pelo espirito mau num sábado na sinagoga (Mc 1, 21-27). Hoje ele entra na Casa de Simão, cura e come, cura as pessoas á porta da casa e sai para outro lugar. Trata-se de um caminho exemplar em três partes: (1) Em plena luz do dia, ele entra na casa de Simão e cura a sogra, que os serve, aparecendo bem como a primeira verdadeira seguidora de Jesus. (2) No início da noite, ele sai à porta da casa e cura todos os enfermos e possessos que se aproximam dele, implorando por ajuda. (3) No amanhecer no dia seguinte, ele sai para o campo aberto para orar e começa uma jornada do evangelho através de todas as aldeias vizinhas, contra Simon que queria fazer dele um curandeiro a seu serviço, diante de sua casa.

1. Somos Levantados e Chamados Por Jesus Para Servir Os Demais: A Cura em Casa        

Depois da cura do endemoninhado na Sinagoga de Cafarnaum (veja o 4º Domingo “B”) que é o primeiro milagre de Jesus segundo Marcos, o evangelista narra como o segundo milagre, no fim do primeiro dia de atividade de Jesus, a cura da febre da sogra de Simão na intimidade de uma casa (não mais na sinagoga). Isto nos mostra que Jesus é o libertador tanto para o ambiente oficial (sinagoga, onde se encontra o endemoninhado) como para os ambientes privados (casa, onde se encontra a sogra de Simão).          

A casa onde acontece a cura da sogra de Simão não significa apenas como lugar de moradia ou centro produtivo (onde se fabrica o pão, o azeite, o vinho, manteiga, queijo etc.), mas principalmente, neste caso, como símbolo de um novo sistema de relações de convivência fraterna oposto ao espaço oficial simbolizado pela sinagoga. A casa, aqui, simboliza um sistema de convivência alternativa, onde as pessoas têm posse de sua própria vida, e onde existem relações imediatas sem nenhuma formalidade, pois todos se sentem em casa, e em casa todos têm o domínio sobre o próprio espaço. Em casa todos tem seu nome e cada membro é chamado pelo nome e não pelo título. 

A família e o lar são nosso ninho, o centro de nossa vida, o eixo em se prolongam todas as experiências cotidianas. Seja quando crianças ou adultos, nosso lar e nossa família são onde devemos nos sentir mais confortáveis no mundo. Um lar saudável é um ingrediente vital na busca de uma vida significativa. É no lar que aprendemos a sobreviver e a ser produtivos, a trabalhar e a brincar. Precisamente, Jesus quer entrar no espaço de nosso lar, pois com a presença do Senhor tudo se ilumina e acabaremos enxergando o que não está em bom funcionamento dentro de nosso lar. A presença do Senhor no nosso lar é uma presença curativa e libertadora. Quando o Senhor se tornar membro permanente de nosso lar, a família brilhará, em consequência, para fora dela, iluminando outros lares ao redor.

Faz parte da missão é congregar as pessas (formar família) em torno do Senhor para criar uma comunidade cristã em que Jesus é a cabeça da comunidade (Cl 1,18). É preciso combater o poder do mal que aliena e desune as pessoas.           

A sogra de Pedro se encontra com a febre. Para os antigos, as doenças e principalmente a febre eram obra do demônio ou de origem demoníaca (cf. Lc 13,11-16), que suga a saúde das pessoas que resulta na diminuição da capacidade de viver e de usufruir a vida na sua plenitude (“está de cama”, prostrada). Por isso, Jesus expulsa a febre como se expulsasse o demônio (cf. Lc 4,39), o mesmo termo que se usa em Mc 1,25. No v. 31 diz-se que “a febre a deixou”. É uma frase que poderia ser entendida como “o demônio da febre foi embora”.          

No relato da cura não se narra gestos mágicos de Jesus como ordenar a saída do demônio (Mc 1,25). Jesus se mostra, aqui, solidário com a humanidade sofrida: ele se aproxima, abaixa-se, tomar a mão da mulher e fá-la levantar-se. A força da solidariedade sempre causa o reerguimento de quem estiver prostrado sobre o peso de problemas da vida.          

O relato sublinha também o uso de determinados termos que para Marcos têm significado próprio, como “tomar pela mão” e “fazer levantar”. Estas duas expressões são usadas em cenas de ressurreição. O termo “levantar-se” (o verbo em grego “egeiro”, “levantar” também significa “ressurgir da morte”, cf. Mc 14,28; 12,26) aparecerá também na cura do paralítico (Mc 2,9-11) e na do cego de Jericó (Mc 10,49). E o mesmo termo será usado no anúncio da ressurreição do próprio Jesus (Mc 16,6). Em outras palavras, o gesto de Jesus de levantar a sogra de Simão antecipa a vitória de Jesus sobre a morte. A expressão “tomar pela mão” também tem um significado como um gesto típico da salvação de Deus quando resolve levantar o seu povo abatido (cf. Is 41,13;42,6;45,1; Sl 73,23-24).          

Jesus ajuda a sogra de Simão a se levantar que a impedia de servir, pois, de fato, logo depois, “ela se pôs a servi-los” (v.31b). Isto significa que a sogra de Simão, mulher ressuscitada, vai começar a fazer parte da casa de Jesus ou do grupo dos seus discípulos. Aqui a sogra de Simão que foi curada representa todos os pequeninos levantados por Jesus (a mulher era desvalorizada). 

A palavra grega que a Bíblia geralmente traduz como “servir” é DIAKONEIN, que significa o serviço à mesa. Isto significa que quem serve à mesa serve à vida, nutre o outro com vida, atrai vida para o outro. É despertar vida. É atrair vida nas pessoas. Servir é, portanto, algo vital, isto é, algo que tem a ver com a vida. Quando sirvo alguém, não me rebaixo, mas sirvo à vida e busca a chave para suscitar vida nas pessoas. Quando eu pronunciar as palavras cheias de esperança para os outros, estarei praticando o verdadeiro serviço. Se eu conseguir despertar no outro a capacidade de recomeçar a vida, estarei praticando o verdadeiro serviço. Jesus nos diz: “Quem quiser ser grande, seja vosso servidor; e quem quiser ser o primeiro dentre vós, seja o servo de todos”. Não há hierarquia de graus de grandeza. Ou você tem a magnanimidade ou sem tê-la. Segundo o Senhor quem conduz outras pessoas deve ou tem missão de despertar vida nelas.         

Seguir Jesus, neste sentido, significa servir e não dominar nem alienar. O Reino de Deus é, certamente, caracterizado por um amor serviçal. O serviço é a atitude característica de quem segue a Jesus. Cada pessoa é levantada por Jesus para se integrar à comunidade de servidores. O serviço constitui a identidade cristã (cf. Rm 12,9-13; Gl 5,13; Fl 2,5-7; Ef 5,21). E Jesus vai educando ou ensinando os discípulos lentamente a viver esse novo caminho de vida (cf. Mc 9,35;10,43-45). E o próprio Jesus se propõe como modelo (cf. Mc 10,45; Lc 12,37; Jo 13,1-17). Nós acolhemos o Reino de Deus quando colocamos a nossa vida a serviço dos demais (cf. Mc 9,33-35). Mas quando se fala do serviço não se trata do serviço escravo, que degrada a pessoa. Trata-se do serviço fraterno, expressão de amor. O amor é que dá dignidade ao serviço.          

A comunidade cristã primitiva não estava interessada nos milagres de Jesus meramente como fatos extraordinários. Eles são uma manifestação do poder de Deus que se atua em Jesus e ao mesmo tempo, são uma proclamação da plenitude do tempo (cf. Mc 1,15). O poder de Jesus proclama a realidade presente do Reino de Deus (cf. At 2,22). Eles acreditam que Jesus é o Salvador e que através das obras de sua vida terrena, ele antecipa as realidades divinas comunicadas aos fiéis. Entendido desta maneira, o relato se torna um retrato simbólico para os fiéis onde eles, antes, se prostravam sob o poder do pecado, mas agora são levantados por Jesus, e são chamados a servi-lo (v.31). Faz parte da missão é a preocupação com os doentes, com os necessitados, com os excluídos para que possam se levantar e voltar a prestar serviço aos demais. 

2. A Cura Diante Da Casa, À Porta Da Casa          

A segunda parte tem um gênero literário típico conhecido como “sumário”. Este gênero pode encontrar-se em outras partes deste evangelho (cf. Mc 1,14-15;3,7-12;6,6b; veja também At 2,42-47;4,32-37;5,12-16).

Frente à Sinagoga dos “endemoninhados” (veja o evangelho do IV Domingo) surge aqui a Igreja que está à porta da cas de Simão onde, em plena rua, ao anoitecer, se junta a multidão daqueles que querem escutar e ser curados. O povo do entorno vem trazendo diante da casa de Simão seus enfermos para que Jesus os cure (Mc 1,32-34), pois são muitos os que continuam oprimidos pelo mal, endemoninhados. Precisamente, quando acaba o Sábado judaico do culto e o descanso religioso que não conseguiram curar os doentes, o tempo messianico da cura pode começar para os pobres. 

Este é, sem dúvida, um texto irônico. É como se tivésse de esperar o fim do tempo da religião (sábado sagrado) para receber o dom de Deus (a cura feita por Jesus, o Cristo). Diante da porta da casa de Simão, as multidões da cidade, no verdadeiro culto da miséria (estão trazendo os doentes e possuídos pelo demônio) esperam ouvir a palavra de esperança e de cura de Jesus. 

O espaço que está diante da casa de Simão se converte em uma espécie de Igreja domestica, onde se reúnem os cristaos de Cafarnaum. Para os leitores de Marcos, que celebravam seu culto em Igrejas domésticas (cf. Mc 2,1-2.15; 3,20 etc.) são muito importantes: mostram a forma em que Jesus manifestou seu poder nas casas (ante as casas) durante o tempo de seu ministério público. Da mesma maneira Jesus se manifesta hoje em dia, nas casas, através de sua presença continuada nas pequenas comunidades cristãs. 

Temos passado, então, da Sinagoga (em Mc 1,21-28) para a casa de Simão, isto é, para a Igreja domestica, vinculada à casa (em Mc 1,29-34).

A população se aglomera diante da casa e não diante da sinagoga. Ali, diante da porta da casa de Simão onde Jesus curou a sogra, se amontoam as pessoas, esperando as curas feitas por Jesus. Quando Marcos descreve essas curas, ele acrescenta que Jesus não permite que os demônios falem “porque sabiam quem ele era”. Jesus não quer propaganda, não quer que os endemoninhados revelem Sua glória. Jesus quer curar, em gesto silencioso de amor, em gesto forte de serviço. “O bem não faz barulho e o barulho não não faz bem”, dizia são Francisco de Sales. 

Além disso, esta ordem de calar os demônios tem por finalidade de alertar o povo/leitor para que não faça um conclusão apressada ou precipitada sobre a verdadeira identidade de Jesus antes de sua manifestação definitiva: a morte e a ressurreição. Esta ordem também quer ressaltar a ignorância humana acerca do Messias Jesus: os demônios conhecem quem é Jesus, enquanto que os próprios seguidores não conhecem quem ele é. Só pode ser uma ironia.          

Nunca podemos decifrar definitivamente o mistério da pessoa de Jesus. Ninguém pode fazer uma conclusão apressada ou precipitada a respeito de Jesus. Somos convidados, por isso, a decifrar progressivamente, dia após dia, o enigma da presença de Jesus na nossa vida e o segredo da força misteriosa que tem produzido tantos mártires na história do cristianismo. É uma força inexplicável que faz alguém abandonar tudo para se agregar a Jesus. É uma força que alguém encontrou para se levantar novamente. Só em Jesus podemos encontrar resposta.  

Será que nossa fé nos liberta ou nos oprime? Será nossa casa é realmente uma Igreja domestica? Será que somos exibicionistas ou propagandistas do “bem” ou da “bondade” que praticamos? Ou deixamos que o bem praticada ou a bondade vivida fale ou grite por si mesmo?    

Três vezes temos visto Jesus curando o povo: primeiro, ele curou alguém na sinagoga; segundo, ele curou a sogra de Simão na sua casa; e terceiro, ele curou a multidão na porta (rua). Jesus não escolhe nem o lugar nem a pessoa. Ele realiza o clamor da humanidade em necessidade. Onde quer que se encontre uma enfermidade, Jesus está lá pronto para usar o seu poder de cura. A salvação é destinada a todos, especialmente aos marginalizados em todos os sentidos. 

Jesus Em Oração 

Outro aspecto que o texto quer enfatizar é a oração de Jesus: “De madrugada, quando ainda estava escuro, Jesus se levantou e foi rezar num lugar deserto” (Mc 1,35). 

Não encontramos em Marcos muitas cenas explícitas de oração de Jesus. Porém quando aparecem, elas ocupam pontos chaves: Jesus reza depois da multiplicação dos pães (Mc 6,46), e antes de sua Paixão (Mc 14,32ss). 

Para Jesus, a oração constituía mais do que uma experiência de louvor e de agradecimento, mas também um sincero interrogar-se diante do Deus Pai para entender  “a sua vontade” e para superar a resistência em cumpri-la. 

A relação de Jesus, como Filho ao Pai, é o coração e a alma de toda a sua vida. Por isso, “antes do amanhecer” levantou-se, saiu e se recolheu em um lugar deserto e lá rezava. O contato direito com o Pai é a luz que ilumina seu caminho. Jesus se retira em oração para o deserto a fim de orientar a própria vocação no contato com o Pai. Depois da oração, Jesus se dá conta, mais profundamente, de seu compromisso essencial e seu autêntico serviço aos homens, especialmente aos mais necessitados. 

Explícito ou implicitamente, Jesus, com seu exemplo,  nos ensina a rezar. Rezar é colocar-se à parte, é estar diante de Deus, é permanecer em silêncio para que a eternidade faça-se presente e sobretudo, é escutar Deus nos fala. Para que possamos viver como filhos de Deus devemos manter nosso contato com o Deus Pai. Mas quando a autossuficiência dominar o homem, ele deixa de rezar e o caminho de sua vida fica escuro e consequentemente vive sem direção certa. Cada cristão deve encontrar, na oração, a direção justa e certa para bem orientar a sua atividade cotidiana, a esperança que o incita a superar cada momento de desânimo e de decepção, a força do Espírito. 

3. Jesus Vai Ao Encontro Dos Outros Necessitados: A Cura Ao Redor

Vamos a outros lugares, às aldeias da redondeza! Devo pregar também ali, pois foi para isso que eu vim”. 

Marcos não quer encerrar Jesus numa casa. Não quer estabelecer Jesus num lugar em que se contram de Simão e companheiros. O próprio de Jesus é a mensagem aberta, a missão do Reino que ele oferece a sua Igreja e para todos. Opõem-se os projetos “eclesiais” de Simão e de Jesus. 

Da Sinagoga (judaísmo) e da casa de Simão (Igreja) nos conduz o evangelho ao serviço missionário. O Papa Francisco tem razão ao escrever: “Saiamos, saiamos para oferecer a todos a vida de Jesus Cristo! Repito aqui, para toda a Igreja, aquilo que muitas vezes disse aos sacerdotes e aos leigos de Buenos Aires: prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos” (Evangelii Gaudium n.49). 

Jesus, um caminho aberto. Jesus se vai. “De madrugada, quando ainda estava escuro, Jesus se levantou”. Estas palavras são como um anúncio da ressurreição: “De madrugada, no primeiro dia da semana, elas foram ao túmulo ao nascer do sol(Mc 16,2). Recordamos que em ambos os casos se fala no dia depois do sábado (cf. Mc 1,32; 16,1). Entre a noite e a manhã há uma grande mudança em termo de clara evocação pascal: Jesus se levanta, como o dia da ressurreição... e se vai a outro lugar (cf. Mc 5,42; 8,31; 9,9.31; 10,34; 12,18.23; 13,2). Jesus se levanta de manhã (ressuscita) para orar num lugar deserto (Mc 1,35). É como retornar à experiência de encontro com Deus (Batismo) e compromisso messiânico (tentação). Não se fica no fato, busca em Deus (em oração e discernimento) o que deve fazer. 

Simão persegue Jesus, como cabeça de grupo (vem com os seus: Mc 1,36) apelando à necessidade da multidão (todos te buscam: Mc 1,37). É o primeiro enfrentamento, a primeira discussão messiânica. Simão é sinal de uma Igreja que quer utilizar Jesus para serviço próprio, convertendo-O em curandeiro domesyico, estabelecido em sua própria casa a qual os necessitados e os enfermos ao redor acorrem (Mc 1,33-34).

Simao não quer servir aos demais e sim servir-se de Jesus para seu proveito, interpretando em forma egoísta sua pesca (Mc 1,16-20). Evidentemente, quer fazer-se “dono” de Jesus, representante de sua empresa. Simão necessita que Jesus fique, instalando uma “oficina de curas” à porta de sua casa para prestigio social e ou econômico do grupo.

Será somos, como Maria Santíssima, portadores de Jesus para os outros ou queremos usar Jesus para nosso próprio proveito a exemplo de Simão e seus companheiros. É preciso siarmos de nosso canto para ir ao encontro dos que necessitam de Jesus, nosso Senhor que nos liberta e nos chama a formar uma família.

P. Vitus Gustama,SVD

o3/02/2024-Sábado Da IV Semana Comum

APRENDER A DESCANSAR COM O SENHOR PARA VIVER NA SABEDORIA

Sábado Da IV Semana Comum

Primeira Leitura: 1Rs 3,4-13

Naqueles dias, 4 o rei Salomão foi a Gabaon para oferecer um sacrifício, porque esse era o lugar alto mais importante. Salomão ofereceu mil holocaustos naquele altar. 5 Em Gabaon, o Senhor apareceu a Salomão, em sonho, durante a noite, e lhe disse: “Pede o que desejas e eu to darei”. 6 Salomão respondeu: “Tu mostraste grande benevolência para com teu servo Davi, meu pai, porque ele andou na tua presença com sinceridade, justiça e retidão de coração para contigo. Tu lhe conservaste esta grande benevolência, e lhe deste um filho que hoje ocupa o seu trono. 7 Portanto, Senhor meu Deus, tu fizeste reinar o teu servo em lugar de Davi, meu pai. Mas eu não passo de um adolescente, que não sabe ainda como governar. 8 Além disso, teu servo está no meio do teu povo eleito, povo tão numeroso que não se pode contar ou calcular. 9 Dá, pois, a teu servo, um coração compreensivo, capaz de governar o teu povo e de discernir entre o bem e o mal. Do contrário, quem poderá governar este teu povo tão numeroso?” 10 Esta oração de Salomão agradou ao Senhor. 11 E Deus disse a Salomão: “Já que pediste estes dons e não pediste para ti longos anos de vida, nem riquezas, nem a morte de teus inimigos, mas sim sabedoria para praticar a justiça, 12 vou satisfazer o teu pedido; dou-te um coração sábio e inteligente, como nunca houve outro igual antes de ti, nem haverá depois de ti. 13 Mas dou-te também o que não pediste, tanta riqueza e tanta glória como jamais haverá entre os reis, durante toda a tua vida”. 

Evangelho: Mc 6,30-34

Naquele tempo, 30os apóstolos reuniram-se com Jesus e contaram tudo o que haviam feito e ensinado. 31Ele lhes disse: “Vinde sozinhos para um lugar deserto e descansai um pouco”. Havia, de fato, tanta gente chegando e saindo que não tinham tempo nem para comer. 32Então foram sozinhos, de barco, para um lugar deserto e afastado. 33Muitos os viram partir e reconheceram que eram eles. Saindo de todas as cidades, correram a pé, e chegaram lá antes deles. 34Ao desembarcar, Jesus viu uma numerosa multidão e teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor. Começou, pois, a ensinar-lhes muitas coisas.

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Viver Na Sabedoria De Deus Para Viver e Governar Bem 

“Dá, pois, a teu servo, um coração compreensivo, capaz de governar o teu povo e de discernir entre o bem e o mal. Do contrário, quem poderá governar este teu povo tão numeroso?”. Este é o pedido de Salomão a Deus antes de iniciar o seu reinado/governo depois que seu pai, Davi, morreu. Pode-se ler também o capítulo 7 do livro da Sabedoria sobre o sucesso e as consequências desta oração de Salomão. 

O pedido de Sabedoria a Deus por Salomão constitui um prólogo magnífico para a história do reinado de Salomão. Este prólogo tem uma dupla finalidade. A primeira finalidade é apresentar Salomão como sucessor legítimo do rei Davi, seu pai, referendado pelo beneplácito divino (1Rs 3,1-2). A segunda finalidade é propor Salomão como exemplo de rei sábio (1Rs 3,3ss). 

Salomão, consciente da magnitude de sua tarefa e de suas próprias limitações, pede a Deus um coração sábio para governar, como qualidade preferida a outros bens e dons (1Rs 3,6-9). 

A resposta de Deus dá destaque à anuência e concessão dessa petição (1Rs 3,10-12) com o acréscimo de outros três dons: riqueza, glória e vida longa (1Rs 3,13-14): “Já que pediste estes dons e não pediste para ti longos anos de vida, nem riquezas, nem a morte de teus inimigos, mas sim sabedoria para praticar a justiça, vou satisfazer o teu pedido; dou-te um coração sábio e inteligente, como nunca houve outro igual antes de ti, nem haverá depois de ti. Mas dou-te também o que não pediste, tanta riqueza e tanta glória como jamais haverá entre os reis, durante toda a tua vida”, é a resposta de Deus ao pedido de Salomão. Em Salomão se cumpriu o que Jesus dirá mais tarde: ”Buscai, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas(Mt 6,33; cf. Sl 112,3; Provérbios 8,18; 10,3; 28,10; Eclesiastes 10,2; Is 26,9;33,6 ). 

O jovem rei, Salomão, quis inaugurar seu reinado com um ato religioso, oferecendo sacrifícios a Deus. Aqui Salomão aparece como um homem de muito fé e quer adquirir a sabedoria de Deus para governar bem. Por causa de sua sabedoria, a Salomão são atribuídos livros sapienciais como o livro dos Provérbios, e uma fama universal superios à sabedoria de todos os sábios, que provocará a visita da rainha de Sabá (1Rs 10,1-13; cf. 2Crônicas 9,1-12). É famoso o juízo de Salomão que quando ele teve que decidir sobre o caso das duas mulheres e da criança que ambos reivindicaram como sua própria (1Rs 3). 

Todos nós necessitamos de sabedoria. Muitas vezes na vida, tanto no nível pessoal como comunitário, ou familiar, nós nos encontramos diante da encruzilhada de uma decisão e ás vezes nos custa discernir uma solução. Podemos aplicar todos os recursos humanos e os cálculos e as experiências. Mas somente a sabedoria de Deus é que nos ajuda a termos uma visão melhor das coisas, das pessoas e dos acontecimentos. A vida, antes de ser vivida, precisa ser rezada. 

A palavra “sabedoria” provém do latim “sapere” que quer dizer ter inteligência, ser compreendido. Mas propriamente significa ter gosto, exercer o sentido do gosto, ter este ou aquele sabor, capacidade desenvolvida de saborear. Etimologicamente, da palavra “sapere” derivam duas palavras: “saber” e “sabor”, duas palavras que indicam o mesmo: um saber que sabe saboreando a vida. É um saber que saboreia o fruto da vida, não um saber teórico sobre a vida. É o testemunho do experimentado, a experiência da vida mesma, de seu sabor de viver. A sabedoria simplesmente significa a capacidade de fazer as escolhas corretas, de tomar as decisões certas, de escolher os valores verdadeiros que conduzem o homem à sua realização, e à sua felicidade. 

O verdadeiro "sábio" é aquele que escolhe escutar as propostas de Deus, aceitar os seus desafios, e seguir os caminhos que ele indica. A sabedoria simplesmente significa a capacidade de fazer as escolhas corretas, de tomar as decisões certas, de escolher os valores verdadeiros que conduzem o homem à sua realização, e à sua felicidade. A sabedoria é um tipo de "luz" que indica caminhos e que permite discernir as opções corretas a tomar. É ela que permite ao homem gozar os bens terrenos com maturidade e equilíbrio, sem obsessão e sem cobiça, colocando-os nos seu devido lugar e não deixando que sejam eles a conduzir a vida do homem e a ditar as suas opções. Viver na sabedoria de Deus significa darmos prioridade àquilo que é realmente essencial, fundamental, importante e que nos assegura, não momentos efêmeros, mas momentos eternos de felicidade e de vida plena, pois os valores efêmeros não servem para encher completamente a nossa vida de significado e não nos garantem a vida verdadeira. 

A Palavra de Deus nos ajuda a discernirmos o bem e o mal e a fazermos as opções corretas. Ela ressoa no nosso coração, confronta-nos com as nossas infidelidades, critica os nossos falsos valores, denuncia os nossos esquemas de egoísmo e de comodismo, alerta o perigo de nossa prepotência, mostra-nos o sem sentido das nossas opções erradas, grita-nos que é preciso corrigir o nosso rumo/direção, desperta a nossa consciência, indica-nos o caminho para Deus. Senhor, dá, pois, a teu servo, um coração compreensivo, capaz de governar o teu povo e de discernir entre o bem e o mal”. 

Dá-nos, Senhor, a sabedoria que julga a partir de cima e a distância. Dá-nos um espírito que menospreza o que é insignificante em favor do essencial. Ensina-nos a termos serenidade diante da luta e dos obstáculos e a prosseguir com , sem perturbar o caminho por Ti traçado. Dá-nos uma atividade serena que abarque, com uma visão unitária, a totalidade (Oração de um anônimo). 

Evangelho e Sua Mensagem 

1. Revisão Da Vida Apostólica 

Anteriormente Jesus chamou os Doze para depois enviá-los à missão (Mc 6,7-13). Depois de sua primeira “missão”, os discípulos voltaram a se reunir com Jesus: “Naquele tempo, os apóstolos reuniram-se com Jesus... 

Muitos cristãos compreendem hoje que sua fé se torna robusta quando decidem reunir-se, no espírito do Senhor, com outros irmãos para partilhar e dialogar sobre sua fé. Este é um dos sentidos da assembléia eucarística dominical: depois de sua missão durante a semana, os cristãos se reúnem junto a Jesus na companhia de outros irmãos da fé. 

Os apóstolos contaram tudo (a Jesus) o que haviam feito e ensinado”. Trata-se de uma revisão da vida apostólica. Esta revisão de nossa vida com Jesus é uma das formas mais úteis de nossa oração. Cada noite nós deveríamos criar ocasião para “relatar” a Jesus “o que temos feito”. Se fizermos isso diariamente, a nossa participação na celebração eucarística dominical ficará mais rica e profunda. 

2. Descansar Com Jesus Uma Solicitude Pastoral 

Depois de ouvir seu relato Jesus convidou os Apóstolos: “Vinde sozinhos para um lugar deserto e descansai um pouco”.  Trata-se de uma necessidade de silêncio, de recolhimento, de solidão. É essencial para os homens de todas as épocas, especialmente é indispensável para o homem moderno na agitação de vida de hoje.

A resposta de Jesus se concreta em levá-los com Ele para um lugar onde ninguém possa perturbá-los para descansar com Ele e n’Ele. Esse convite nos recorda aquilo que o próprio Jesus disse no evangelho de Mateus sobre a importância do descanso com o Senhor e no Senhor: “Vinde a Mim todos os que estais cansados sob o peso do vosso fardo e Eu vos darei descanso” (Mt 11,28). Jesus conjuga muito bem o trabalho e a oração. Dedica-se prioritariamente à evangelização, mas sabe buscar momentos de silêncio e oração para si e para os seus, mesmo que dure apenas pouco tempo como aconteceu no relato do evangelho de hoje. 

Convidar os discípulos para descansar na solidão também é um gesto muito humano de Jesus. Jesus sabe o que é a fatiga e busca, muitas vezes, a solidão (no monte, no campo ou de noite). O ativismo nos esgota e empobrece. Não é bom o “stress”, ainda que seja espiritual. Quando não há o equilíbrio interior, todos cairão no nervosismo e diminuirá a eficácia humana e evangelizadora. Necessitamos da paz e da serenidade. Todos os que trabalham, também pelo Reino, necessitam de uma certa serenidade e um certo equilíbrio mental e psíquico. As pessoas que trabalham pelo Reino têm que ser pessoas de paz e de serenidade. 

O trabalho de um verdadeiro pastor ou de qualquer líder cristão não é fácil, pois ele tem que manter a unidade e a segurança do seu rebanho. Por isso, quem é enviado como pastor, e, quem é encarregado de ser líder dos outros numa comunidade necessita de descanso. Mas o descanso dos pastores e dos lideres cristãos é feito com e no grande Pastor. Eles fazem seu descanso no Pastor dos pastores. O descanso dos pastores consiste em saber “estar” com Jesus: escutá-Lo, viver com Ele, aprofundar em sua comunhão de vida como pastor. É aprender do grande Pastor sobre como deve conduzir e rebanhar as ovelhas do qual ele próprio faz parte. As ovelhas são do Senhor (Jo 21,17) e não dos líderes. 

Esse convite para descansar com e no Senhor é a primeira solicitude de Jesus como Pastor para aqueles que são encarregados de alguma tarefa na comunidade de irmãos. Esse convite tem como característica a comunhão de ministério com Jesus. Essa comunhão ajudará os pastores e os demais líderes da comunidade a terem a mesma solicitude de Jesus para com todos e para com a multidão que, em cada momento da história vive “como ovelhas sem pastor”, pois o pastor é Jesus e somente Ele. Entender isso significa entender a grande missão dos que são enviados, em Seu nome, com o objetivo de conduzir a humanidade para o grande Pastor, Jesus Cristo. 

3. Somos Chamados A Ser Seguidores Compassivos Como Jesus 

Depois de um rápido descanso dos Doze com Jesus o evangelista Marcos nos relatou com as seguintes palavras: Ao desembarcar, Jesus viu uma numerosa multidão e teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor. Começou, pois, a ensinar-lhes muitas coisas.

Esta frase reproduz a situação refletida em 1Rs 22,17: “Vejo todo o Israel espalhado pelas montanhas como um rebanho sem pastor” (cf. Nm 27,17). Trata-se de uma imagem clássica na literatura bíblica no contexto de acusação aos pastores que não cumprem sua missão de rebanhar (unir e reunir) suas ovelhas. E Jesus se apresenta como o verdadeiro Pastor, pois ele dá sua vida pelo rebanho (Jo 10,14-15). 

Cristo é o Bom Pastor (Jo 10,11-15). Ele dá Sua vida em todo momento, também quando não lhe resta tempo nem para comer. Ali está Ele, buscando um tempo para descansar em companhia de seus discípulos, mas para os necessitados de Deus, Ele oferece Seu amor. É como o pai de uma família que, depois de uma jornada cansativa, volta para casa com o único desejo de descansar. Mas ao ver que seus filhos lhe pedem algo que lhe é impossível humanamente, tira suas últimas forças para brincar e fazer felizes seus filhos, dando-lhes o melhor de si, ainda que o corpo exija um descanso. 

Os cristãos dentro da comunidade, de um modo ou de outro, participam do serviço pastoral para com os demais, imitando e representando Jesus Cristo, Pastor de todos. Onde estiver e para onde for, o cristão faz tudo em nome de Cristo. Ele representa Cristo em qualquer lugar. Ele é cristão para todos os momentos e lugares.           

Jesus teve compaixão da multidão que vivia sem nenhuma orientação e começou a ensinar-lhes muitas coisas. Jesus teve tempo para a multidão necessitada. Ter tempo para os demais, especialmente para os necessitados é o ponto alto de uma vocação pastoral na Igreja de Jesus. Isso supõe a renúncia aos próprios planos, interesses e horários em função do bem de todos. O cristão existe para servir os demais. 

O mundo de hoje continua a estar desorientado como “ovelhas sem pastor”, pois, no meio do avanço tecnológico, muitas pessoas morrem de fome. No meio da democracia ainda se encontram os ditadores que adormentam e sacrificam os pequenos e inocentes da sociedade. No meio de tanta facilidade tecnológica encontram-se os imprudentes que fazem tantas famílias chorarem pela perda de seus entes-queridos precocemente. No meio da luta pela solidariedade global encontram-se os gananciosos capazes de pisar sobre os outros em nome do prazer. O perigo e o prazer crescem no mesmo ramo. O fato de que em nossa civilização tão avançada há tantos homens morrem de fome ou são vitimas de uma guerra ou de um poder desenfreado, ou de uma imprudência, demonstra que os chefes que dirigem atualmente o mundo não olham para o povo e sim para os próprios interesses ou para os interesses partidários. É preciso ter progresso na verdade, na justiça na caridade. 

Cristo quer que todos os cristãos ajudem esta humanidade a encontrar os caminhos da verdade e da felicidade, da paz e do verdadeiro progresso. Ser seguidor de Cristo significa aprender a olhar para os outros com um coração cheio de carinho, ser responsável pelos outros irmãos e falar-lhes do sentido da vida. A maneira com que tratamos um ser humano é a forma com que tratamos a nosso Senhor. Isso não exige explicação e sim contemplação (cf. Mt 25,40.45). O dia mais desperdiçado de todos é aquele no qual não conseguimos fazer alguém sorrir ou deixamos de fazer o outro sorrir. Um sorriso não custa tanto quanto a eletricidade, no entanto, ilumina muito mais do que ela.

P. Vitus Gustama,svd

Quarta-feira Da XXIV Semana Comum, Ano Par, 16/09/2026

VIVER NO AMOR E NA SABEDORIA DE DEUS Quarta-Feira da XXIV Semana Comum Primeira Leitura: 1Cor 12,31-13,13 (Ano Par) Irmãos, 12,31 Aspi...