domingo, 3 de março de 2024

06/03/2024-Quartaf Da III Semana Da Quaresma

É PRECISO SEGUIR OS MANDAMENTOS DO SENHOR PARA NÃO SER ESCRAVOS DOS NOSSOS ERROS OU PECADOS

Quarta-Feira da III Semana da Quaresma

I Leitura: Dt 4,1.5-9

Moisés falou ao povo, dizendo: 1 'Agora, Israel, ouve as leis e os decretos que eu vos ensino a cumprir, para que, fazendo-o, vivais e entreis na posse da terra prometida que o Senhor Deus de vossos pais vos vai dar. 5 Eis que vos ensinei leis e decretos conforme o Senhor meu Deus me ordenou, para que os pratiqueis na terra em que ides entrar e da qual tomareis posse. 6 Vós os guardareis, pois, e os poreis em prática, porque neles está vossa sabedoria e inteligência perante os povos, para que, ouvindo todas estas leis, digam: 'Na verdade, é sábia e inteligente esta grande nação! 7 Pois, qual é a grande nação cujos deuses lhe são tão próximos como o Senhor nosso Deus, sempre que o invocamos? 8 E que nação haverá tão grande que tenha leis e decretos tão justos, como esta lei que hoje vos ponho diante dos olhos? 9 Mas toma cuidado! Procura com grande zelo não te esqueceres de tudo o que viste com os próprios olhos, e nada deixes escapar do teu coração por todos os dias de tua vida; antes, ensina-o a teus filhos e netos.

Evangelho: Mt 5,17-19

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 17 “Não penseis que vim abolir a Lei e os Profetas”. Não vim para abolir, mas para dar-lhes pleno cumprimento. 18 Em verdade, eu vos digo: antes que o céu e a terra deixem de existir, nem uma só letra ou vírgula serão tiradas da lei, sem que tudo se cumpra. 19 Portanto, quem desobedecer a um só desses mandamentos, por menor que seja, e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será considerado o menor no Reino dos Céus. Porém, quem os praticar e ensinar será considerado grande no Reino dos Céus”.

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Para alcançar a meta temos que respeitar o processa, seguir fielmente as normas, viver disciplinados e superar os obstáculos e desafios, pois a meta nos chama para alcançar. Na vida normal, ninguém ganha sem trabalhar. Ninguém tem diploma sem estudar, ninguém chegar à perfeição sem lutar contra suas fraquezas e limitações. Uma árvore para dar frutos no tempo certo, ela tem que deixar muitas folhas velhas cairem no chão para dar lugar às novas folhas. A maturidade se alcança através de vários processos difíceis. Viver sem meta é viver sem rumo. Para quem sabe para onde vai, somente um ônibus serve na rodoviária. Mas para quem não sabe para onde vai, qualquer ônibus na rodoviária serve para ele.

A meta da Quaresma é a celebração da vida ressuscitada, a Páscoa, a passagem da morte para a vida. Será minha Quaresma tem sentido para poder celebrar solenemente minha Páscoa deste ano? Em que melhorei durante a Quaresma para celebrar minha Páscoa dignamente?

Moisés exorta o seu povo, às vésperas de entrar na terra prometida, a viver segundo a vontade de Deus, a cumprir a sua parte na aliança que firmaram com Deus: devem viver segundo os seus mandamentos. A Aliança se concretiza em normas de vida.

Às vezes Jesus no Evangelho critica as interpretações exageradas que os mestres de seu tempo fazem da disciplina. Mas hoje ele a defende, dizendo que os mandamentos de Deus devem ser cumpridos em Jesus Cristo. Ele não veio para abolir a lei. Em todo caso, dar-lhe plenitude, aperfeiçoá-lo.

A Quaresma é o tempo de uma volta decidida a Deus, isto é, aos seus ensinamentos, aos seus caminhos, aqueles que Ele nos mostra todos os dias com a sua palavra, sem selecionar apenas o que gostamos. A Quaresma é um tempo de obras, de mudança de vida: É o tempo de abertura para Deus (oração), de abertura para o próximo (caridade/esmola) e o tempo para a abertura para mim mesmo (jejum). É tempo de agir: colocar a oração na vida e a vida na oração. Ninguém reza sem ser punido pela própria oração. Quem quiser pedir a paz para o Senhor significa que ele se compromete em ser construtor da paz, e assim por diante.

Na Quaresma propusemos orientar nossa conduta diária de acordo com a Palavra de Deus. Que se note algo de mudança em nossas vidas para uma vida melhor e mais fraterna porque nos preparamos para a Páscoa, que é vida nova com Cristo e como Cristo.

É Preciso Viver De acordo Com As Leis De Deus Para Se Chegar à Pátria Celeste, Nossa Casa Comum

Agora, Israel, ouve as leis e os decretos que eu vos ensino a cumprir, para que, fazendo-o, vivais e entreis na posse da terra prometida que o Senhor Deus de vossos pais vos vai dar. Eis que vos ensinei leis e decretos conforme o Senhor meu Deus me ordenou, para que os pratiqueis na terra em que ides entrar e da qual tomareis posse”, disse Moisés ao povo de Israel. 

Moisés, tendo saído da escravidão do Egito, está às portas da Terra prometida. Moisés é peregrino pelo deserto, conversador com Deus no Sinai, receptor dos mandamentos ou das Tábuas da Lei. É grande mensageiro de Deus. Segundo o relato, hoje se encontra próximo do Jordão numa montanha que lhe permite contemplar as portas da Terra prometida. E o Senhor o trouxe até aqui, mas não lhe concede entrar na possessão da Terra Prometida. São mistérios da eleição divina.

Por isso, o texto do Livro de Deuteronômio que lemos hoje tem algo de “Testamento espiritual de Moisés”, e com isso, se encerra (chega a sua plenitude) o Pentateuco ou Livro da Lei. Quando o Pentateuco se encerra, o que vem posteriormente será explicação histórica dos ensinamentos já dados e recebidos. 

Depois de enumerar os principais fatos do deserto a partir do Sinai nos quais se mostrou a especialíssima providência de Deus para o povo hebreu (cf. Dt 3), Moisés exorta ao povo sobre o cumprimento da lei divina, recordando a situação privilegiada dos hebreus a ser eleitos por Deus entre todos os povos sobre a face da terra, podendo somente ele se aproximar da divindade num grau de intimidade desconhecida por outros povos. Os mandamentos da lei são a encarnação da sabedoria e prudência com que deve proceder o povo de Deus.

Moisés convida o povo a fazer uma reflexão a partir das experiências para descobrir nelas a providência divina, e a não se esquecer nunca da mão de Deus que ajudou o povo na travessia do deserto rumo à Terra Prometida. Em cada experiência Deus sempre deixa seu recado ou apresenta seu apelo. Basta parar para meditar ou refletir sobre cada experiência de cada dia a fim de tirar lição ou recado de Deus, pois não há experiência que não tenha apelo de Deus. Somente quando criamos o silêncio é que Deus começa a falar para nós. Não há nada que possa ser escutado ou percebido com nitidez numa agitação sem fim. Quem corre demais não dá para ouvir bem o grito de outras pessoas.

Por isso, não é em tom de legislador e sim de pregador, ao estilo dos profetas e livros sapienciais, Moisés se apresenta exortando o povo a guardar os preceitos divinos. Há três coisas destacadas nesta exortação parenética (de cunho moral-ético):

1.    A presença de Deus em meio de Israel e Sua prontidão para escutar Israel (Dt 4,1-4).

2.    Israel recebeu de Deus uma lei santa. Nenhum outro povo a tem (Dt 4,5-14). Com efeito, apesar de ser povo pequeno e insignificante em comparação aos outros povos ao redor que são de cultura superior, Israel tem uma lei com um conteúdo religioso inatingível pelos povos mais cultos da antiguidade. Sua lei, aperfeiçoada pela revelação evangélica (“Não vim para abolir”) veio a ser a norma religiosa do mundo civilizado. Por isso, os judeus da diáspora se gloriavam de ter uma dogmática e moral religiosa superior à dos próprios gregos (helenistas).

3.    Recorda-se a teofania de Sinai em que o povo ouviu a voz de Deus, mas não O vira, figuras das quais os hebreus estavam acostumados a ver nos templos egípcios para representar os deuses com figuras zoomórficas. Javé (Deus) é imaterial, e portanto, não deve representá-Lo sob nenhuma figura sensível (Dt 4,15-20).

O cumprimento dos mandamentos de Deus é o que fará possível que o povo eleito entre na Terra prometida, porque é sinal de que o povo permanece fiel à Aliança. O mesmo Deuteronômio já aponta o perigo de que o povo pode se esquecer dos fatos salvíficos de Deus e cair no legalismo.

Em pleno tempo da Quaresma e sob a luz da mensagem da Palavra de Deus é bom fazermos uma pergunta: Estamos vivendo o sentido da Quaresma escutando a Palavra de Deus e vivendo conforme ela? O progresso sempre exige a disciplina. Um povo, pela experiência, que se esqueceu dos mandamentos de Deus o conduziu sempre à escravidão. Por não querer viver segundo Deus, terminaram sendo escravos de seus próprios erros e traições. Somos eleitos de Deus, filhos e filhas de Deus. Por isso, jamais podemos ser escravos de nossos erros e pecados. A consciência plena de ser eleito de Deus, de ser filho/filha de Deus nos capacita a nos levantar de nossas quedas de cada dia. É preciso manter nossa filiação divina para não sermos escravos de coisas mundanas que nos trazem apenas sofrimento, inclusive para as pessoas que nos amam.

A Lei Suprema de Jesus É o Amor Fraterno

O texto do evangelho deste dia faz parte do Sermão da Montanha (Mt 5-7). Os três versículos lidos neste dia servem como introdução para as grandes antíteses entre a justiça legal e a nova justiça trazida por Jesus (Mt 5,21-48).

Não penseis que vim abolir a lei e os profetas, mas vim para dar-lhes pleno cumprimento”. Para o evangelista Mateus o tema do cumprimento é essencial (Mt 24,24-35; 26,56). Para Mateus tudo que está escrito na Lei e nos profetas (todo o AT) tem um valor profético e deve “cumprir-se” historicamente até o mínimo pormenor em Jesus Cristo (cf. Mt 1,22; 2,15-17; 4,14; 8,17; 13,35 etc.). Todas as profecias e todos os anúncios do Antigo Testamento levam para seu cumprimento em Jesus Cristo, Palavra do Pai que se fez carne (cf. Jo 1,14). E Jesus Cristo é a encarnação do amor misericordioso de Deus por nós todos.  E “nada é pequeno quando o amor é grande”, dizia Santa Teresinha do Menino Jesus. Os detalhes do amor, por pequenos que eles sejam, não podem ser eliminados. Jesus veio não só levar a Lei e os profetas à sua perfeição, mas também assegurar a realização dessa lei entendida como profecia da proximidade de Deus. Se no AT (Lei e Profeta) Deus apenas fala através dos profetas, no NT essa palavra se torna carne em Jesus e habita no meio de nós (Jo 1,14).

Jesus não apenas cumpre o que está escrito na AT, mas Ele o aperfeiçoa. Ele não apenas mantém a Lei, mas dá um sentido mais amplo; Ele vai ao espírito da lei. Por isso, nas antíteses encontramos a seguinte expressão: “Ouvis o que foi dito aos antigos... Eu, porém, vos digo...” (Mt 5,21ss). A lei é válida para todas as pessoas e serve para ajudar as pessoas a chegarem à salvação. Mas quando for manipulada e escravizar as pessoas, então a lei poderá ser desobedecida. Nenhuma lei pode proibir alguém de fazer o bem pelo próximo no dia santo (Sábado). Por isso, várias vezes, Jesus cura os doentes até no dia de Sábado que é proibido para os fariseus e os escribas. Jesus convida os escribas e fariseus a refletirem sobre a seguinte pergunta: “Pergunto-vos se no Sábado é permitido fazer o bem ou o mal; salvar a vida, ou deixá-la perecer?” (Lc 6,9).

“Não penseis que vim abolir a lei e os profetas, mas vim para dar-lhes pleno cumprimento”. A justiça dos fariseus se limita à observância da lei. Os fariseus chegam a divinizar a lei. Eles colocam a lei acima da necessidade e a salvação do homem. Eles até censuram Jesus por curar os doentes no dia de Sábado. Fanáticos obsessivos do cumprimento da lei eles colocam a vontade de Deus em elementos secundários, que não buscavam de modo algum o estabelecimento de uma sociedade mais fraterna, igualitária e justa. Pensam que ao cumprir todas as leis e normas possam agradar a Deus. Mas, na verdade, o que agrada a Deus é o amor fraterno.

Por isso, o que Jesus faz é mostrar um Deus que desaprova a injustiça e a desigualdade, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). Deus se dirige aos homens como uma pessoa amada, chamando cada homem por seu nome (Is 43,1) e o nome de cada um é gravado na palma da mão de Deus (Is 49,16). E o amor transforma tudo em obra prima, até as coisas pequenas e seus detalhes. O amor de cada dia é feito de detalhes e não tanto de coisas solenes e heroicas. Por esta razão, encontra-se a seguinte fórmula no AT como uma fórmula ritual: “Escutai, ó Israel!”. É escutar Deus para viver na plenitude. Por isso, escutar Deus é coisa mais prudente e mais inteligente para o ser humano. Ao escutar Deus, sua Palavra será para nós nossa sabedoria e um alimento para nosso espírito. Sua maneira de ver impregnará nosso modo de ver a vida e as pessoas. Quando pararmos de escutar a Palavra de Deus, seremos escravos de nossos erros, um atrás do outro erro. 

Não penseis que vim abolir a lei e os profetas, mas vim para dar-lhes pleno cumprimento. A lei é boa, pois ela ordena aquilo que faz crescer a vida e proibe o que a diminui. Os profetas sempre recordam a lei do Senhor e denuncia as transgreções e ao mesmo tempo promete um coração novo e um Espírito novo que nos faz finalmente andar no caminho de Deus. A lei é necessária em toda a sociedade civil ou Estado de direito para tornar possível a convivência. A existência da lei é uma afirmação da coexistência dos bons e dos maus. Para proteger os bons e para os maus não avançarem, a lei é necessária, da bondade e da maldade, do bem e do mal. Caso contrário, a lei do mais forte é que reinaria na convivência, e os mais fracos ficariam sem vez nem voz. Mas quando o amor se tornar o mandamento para todos, todos viverão como irmãos, pois o amor é o cumprimento pleno de todas as leis (cf. Rm 13,10). 

A comunidade cristã católica tem uma lei de governo: o Direito Canônico. Mas a Igreja e o cristão sabem que sua lei primeira e básica é o evangelho de Jesus que consiste no amor fraterno. A Igreja não anuncia a lei e sim o Evangelho. E a essência do Evangelho é o amor. O amor, de fato, não faz mal a ninguém: o amor é o pleno cumprimento da lei (Rm 13,10). 

A lei para os cristãos tem uma função pedagoga: educar o cristão progressivamente no amor fraterno: “A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, a não ser o amor recíproco, porque aquele que ama o seu próximo cumpriu toda a lei” (Rm 13,8).  Quanto mais cresce teu amor, maior é tua perfeição. A perfeição da alma é o amor”, dizia Santo Agostinho (In epist. Joan. 9,2). Quando o cristão ou qualquer ser humano de boa vontade chegar à sua maturidade e perfeição no amor fraterno, ele não se sente coagido pela lei; quando o amor reinar o coração e a vida do cristão a lei para ele é dispensável, pois “a caridade é o pleno cumprimento da lei” (Rm 13,10).  Dizia Santo Agostinho: “Ama e faze o que quiseres” (In epist. Joan.7,8) e “Quanto mais amas, mais alto sobes” (In ps. 83,10). Amor é o meio mais rápido pelo qual o homem chega até Deus. São João da Cruz no final da Subida escreveu: “Por aqui nãocaminho; que para o justo nãolei”. Mas quando o amor se quebra, a lei se impõe. Jesus é o primeiro que vive o amor.

Amor sem limite a Deus e ao irmão é a plenitude da lei de Cristo (cf. Rm 13,10). Todas as celebrações e todas as atividades na Igreja de Cristo têm uma função: para que todos cresçam cada vez mais no amor fraterno. Sem o amor fraterno tudo careceria de sentido. O amor faz qualquer um feliz e leva alguém à alegria completa. É a promessa do Senhor: “Disse-vos essas coisas (mandamento do amor) para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa” (Jo 15,11). Nãofelicidade onde nãoamor” (Santo Agostinho).

Sair Do Coração Frio e Pequeno Para o Magnânimo

Quem desobedecer a um só desses mandamentos, por menor que seja, e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será considerado o menor no Reino dos Céus. Porém, quem os praticar e ensinar será considerado grande no Reino dos Céus”.

Hoje Jesus, diante do povo que O escuta, pede para ir mais além. A vida é mais que o mínimo. O mínimo não enche o coração. No mínimo sou um autômato que repete gestos sem alma.  O cumprir apenas e ficar somente no cumprir, tira minha criatividade e liberdade. Se eu ficar parado apenas no cumprir, eu coloco freio no meio crescimento. Jesus me convida a ser magnânimo, de coração grande e espaçoso para todos. No coração espaçoso se joga minha vida e salvação. Jesus não quer que eu faça apenas o correto, o adequado, o justo. Não quer que eu cumpra simplesmente o meu dever. Ele quer que eu ande e viva segundo os mandamentos do Senhor que se resumem no amor incondicional para o próximo, inclusive para o inimigo. Minha inquietude permanece se eu ficar fazendo apenas o que os outros me pedem, e depois me afasto assim que cumprir o que me pedirem. A chave da vida, como sempre, está na forma de olhar para a vida e descobrir nela minha missão. No fim vou descobrir que a medida da verdadeira vida é o amor sem medida. Jesus me diz que tenho que sentir e pensar como faz Deus. E que vale pouco cumprir a norma e ser correto diante da lei, se tenho o coração frio para com o próximo. Seguir os mandamentos do Senhor significa, portanto, que eu quero sentir como o Senhor, quero pensar como Ele, quero caminhar como Ele. Deixando-me o coração, sem preocupar-me somente de pecar ou não pecar, de respeitar os limites, de proteger minha fama. O Senhor quer que eu não guarde nada para mim e sim quer que eu ame mais e mais. Nisto consiste meu verdadeiro ser de cristão. Jesus apela para a generosidade da minha vida. Viver com uma alma generosa é a única maneira de viver de verdade. É o único que me faz livre. Assim viveu Jesus. O Senhor pede que me deixo modelar por Ele para ter sua delicadeza de sentimentos e para minha vida exterior e minha vida interior sejam uma só.

A Eucaristia da qual participamos é um compromisso para sermos pessoas que, renovadas e revestidas de Cristo, nos faz caminharmos pela vida como aquelas pessoas que proclamam a verdade, o bem, o amor como uma entrega a favor dos demais, deixando de lado ou abandonando totalmente aqueles caminhos que nos fazem nos destruirmos uns aos outros ou pisotear os direitos das classes mais desprotegidas. O Senhor pede que sejamos fieis à Sua lei, a Lei do amor que não somente nos faz colocar Deus sobre todas as coisas, mas ao mesmo tempo nos levar a querermos bem para os outros. Os cristãos devem se converter em sinal de amor para os outros (cf. Jo 13,35). Se fomos feitos à imagem e à semelhança de Deus, então nosso modo de viver não deve apagar essa imagem. Se essa imagem for apagada em nós, ninguém vai dizer que somos de Cristo. São Paulo nos relembra através destas frases: Somos para Deus o perfume de Cristo entre os que se salvam e entre os que se perdem” (2Cor 2,15). E acrescentou: “Vós sois uma carta de Cristo... escrita não com tinta, mas com o Espírito de Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, em vossos corações” (2Cor 3,3). 

Pedimos a Deus a graça para que os outros possam ler algo de Cristo em nossa vida. Para isso, é necessário que o amor fraterno circule dentro de nós e entre nós, poistodos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (Jo 13,35).

É preciso lermos e meditarmos a Palavra de Deus, porque o próprio Senhor nos afirma: “Antes que o céu e a terra deixem de existir, nem uma só letra ou vírgula serão tiradas da lei, sem que tudo se cumpra”. Essa Palavra pode acontecer seu cumprimento na vida de cada um de nós. Basta colocá-la em prática, pois Da mesma forma como a chuva e a neve, que caem do céu e para lá não voltam sem antes molhar a terra, tornando-a fecunda e fazendo-a germinar, a fim de produzir semente para o semeador e alimento para quem precisa comer, assim acontece com a Minha Palavra que sai de Minha boca: ela não volta para mim sem efeito, sem ter realizado o que Eu quero e sem ter cumprido com sucesso a missão para a qual Eu a mandei (Is 55,10-11).

P. Vitus Gustama,svd

05/03/2024-Terçaf Da III Semana Da Quaresma

PEDIR PERDÃO A DEUS E DAR PERDÃO AOS OUTROS FAZEM PARTE DO AMOR  E DA MORAL CRISTÃOS

Terça-Feira da III Semana da Quaresma 

I Leitura: Dn 3,25.34-43

Naqueles dias: 25 Azarias, parou e, de pé, começou a rezar; abrindo a boca no meio do fogo, disse: 34 'Oh! não nos desampares nunca, nós te pedimos, por teu nome, não desfaças tua aliança 35 nem retires de nós tua benevolência, por Abraão, teu amigo, por Isaac, teu servo, e por Israel, teu Santo, 36 aos quais prometeste multiplicar a descendência como estrelas do céu e como areia que está na beira do mar; 37 Senhor, estamos hoje reduzidos ao menor de todos os povos, somos hoje o mais humilde em toda a terra, por causa de nossos pecados; 38 neste tempo estamos sem chefes, sem profetas, sem guia, não há holocausto nem sacrifício, não há oblação nem incenso, não há um lugar para oferecermos em tua presença as primícias, e encontrarmos benevolência; 39 mas, de alma contrita e em espírito de humildade, sejamos acolhidos, e como nos holocaustos de carneiros e touros 40 e como nos sacrifícios de milhares de cordeiros gordos, assim se efetue hoje nosso sacrifício em tua presença, e tu faças que nós te sigamos até ao fim; não se sentirá frustrado quem põe em ti sua confiança. 41 De agora em diante, queremos, de todo o coração, seguir-te, temer-te, buscar tua face; 42 não nos deixes confundidos, mas trata-nos segundo a tua clemência e segundo a tua imensa misericórdia; 43 liberta-nos com o poder de tuas maravilhas e torna teu nome glorificado, Senhor'.

 Evangelho: Mt 18,20-35

Naquele tempo, 21Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou: “Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?” 22Jesus respondeu: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete. 23Porque o Reino dos Céus é como um rei que resolveu acertar as contas com seus empregados. 24Quando começou o acerto, trouxeram-lhe um que lhe devia uma enorme fortuna. 25Como o empregado não tivesse com que pagar, o patrão mandou que fosse vendido como escravo, junto com a mulher e seus filhos e tudo o que possuía, para que pagasse a dívida. 26O empregado, porém, caiu aos pés do patrão, e prostrado, suplicava: ‘Dá-me um prazo! e eu te pagarei tudo’. 27Diante disso, o patrão teve compaixão, soltou o empregado e perdoou-lhe a dívida. 28Ao sair dali, aquele empregado encontrou um de seus companheiros que lhe devia apenas cem moedas. Ele o agarrou e começou a sufocá-lo, dizendo: ‘Paga o que me deves’. 29O companheiro, caindo aos seus pés, suplicava: ‘Dá-me um prazo! e eu te pagarei’. 30Mas o empregado não quis saber disso. Saiu e mandou jogá-lo na prisão, até que ele pagasse o que devia. 31Vendo o que havia acontecido, os outros empregados ficaram muito tristes, procuraram o patrão e lhe contaram tudo. 32Então o patrão mandou chamá-lo e lhe disse: ‘Empregado perverso, eu te perdoei toda a tua dívida, porque tu me suplicaste. 33Não devias tu também, ter compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?’ 34O patrão indignou-se e mandou entregar aquele empregado aos torturadores, até que pagasse toda a sua dívida. 35É assim que meu Pai que está nos céus fará convosco, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão”.

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Arrepender-Se De Verdade Dos Pecados Deve Ser Seguido Pelos Sinceros Propósitos De Uma Vida Nova Em Deus

Senhor, estamos hoje reduzidos ao menor de todos os povos, somos hoje o mais humilde em toda a terra, por causa de nossos pecados; neste tempo estamos sem chefes, sem profetas, sem guia... trata-nos segundo a tua clemência e segundo a tua imensa misericórdia; liberta-nos com o poder de tuas maravilhas e torna teu nome glorificado, Senhor”.

O contexto desta oração, que lemos na Primeira Leitura, é a perseguição do rei Antíoco em torno do anos 165 antes de Cristo. Geralmente, no tempo da perseguição não tem mais nem líder nem profeta. A perseguição torna o povo desunido. O desmembramento do povo em tempos de perseguição provoca esta profunda "confissão de pecados", impregnada de uma fé que se baseia unicamente em Deus. A crise da vida religiosa (nem governantes, nem profetas, nem sacrifícios) motiva as pessoas a se perguntarem como ainda podem se fazer ouvir por Deus, ou seja como se faz para que nossa vida e preces possam ser ouvidas por Deus? O autor desta súplica está convencido de que somente a penitência interior e a conversão do coração tornarão o povo novamente agradável aos olhos de Deus e por isso, suas orações podem ser ouvidas por Deus. O pecado impede que nossa súplica chegue até Deus. Penitência é a atitude interior de arrependimento.

A oração que lemos na Primeira Leitura é o extrato de uma confissão dos pecados do povo, provavelmente composto na mesma data do Livro de Daniel (perseguição de Antíoco, 165 a.C.), mas inserido posteriormente na coleção sem o pseudônimo de Azarias. Aquele que ora suplica a Deus que Deus cumpra sua promessa de tornar Israel um povo numeroso (vv. 36-37). Para que esta oração seja eficaz, é necessário que seja feita pelo menos em meio aos sacrifícios litúrgicos ou por meio de um profeta. Mas não há mais profeta, líder ou sacrifício nestes tempos de perseguição (v. 38). Isso significa que qualquer oração é vã? Pelo contrário, o autor da oração descobre o alcance sacrificial da penitência e da contrição. A oração do perseguido vale todos os sacrifícios de ovelhas e cordeiros (v. 39).

A doutrina do sacrifício espiritual alcança, portanto, à perseguição. Para a história da espiritualidade dos judeus o texto de Dn 3,39-40  se torna importante, pois fala do “sacrifício de nós mesmos” em substituição aos sacrifícios do templo”. O Servo paciente já é uma vítima sacrifício; os mártires de Antíoco também o são. Cristo transforma definitivamente a perseguição que sofre em sacrifício. 

O texto da Primeira Leitura, tirado do Livro de Daniel, contém, então, uma confissão dos pecados do povo, composta na mesma época que o livro de Daniel foi composto (perseguição de Antíoco, 165 a.C). Esta passagem não se encontra no texto hebraico. Encontra-se nas seções gregas chamadas deuterocanônicas. Apesar de não ser original, a oração é belíssima e tem sua atualidade para qualquer lugar e época.

Lemos uma oração penitencial muito bonita que o livro de Daniel põe nos lábios de Azarias, um dos três jovens condenados na Babilônia ao forno de fogo por não quererem adorar aos deuses falsos e por serem fieis a sua fé. Azaria reconhece o pecado do povo e expressa diante de Deus o arrependimento e o propósito de mudança. Sobretudo, expressa sua confiança na bondade de Deus. Por isso, não duvida em buscar a intercessão: aos patriarcas Abraão, Isaac e Jacó. 

A oração de Azarias gira em torno da tragédia do povo israelita “castigado” por Deus com o exílio na Babilônia. É uma confissão do povo por seus pecados posta nos lábios de Azarias pelo redator do Livro de Daniel. 

As formulas de confissão dos pecados são estereotipadas e correntes na literatura dos Salmos: Israel foi castigado por seus pecados justamente, e parece como se Deus retirasse as promessas de Sua aliança. Consequentemente, Israel vive como um rebanho disperso, sem chefe nem profeta que lhe comunique as revelações de Deus. Para o perseguido somente Deus, por sua misericórdia, pode salvar seu povo. Ele suplica a Deus que se cumpra Sua promessa de fazer de Israel um povo numeroso (cf. Gn 15,5; 17,5-8). O arrependimento é seguido pelos sinceros propósitos de uma vida nova.

Em substituição dos sacrifícios de animais, que não podem ser feitos porque não tem mais templo, o protagonista se oferece humildemente a Deus. E sua oferenda, no lugar dos sacrifícios de animais, é um coração contrito e humilde. A oração do perseguido vale todos os sacrifício de bodes e de cordeiros.  

A doutrina do sacrifício espiritual (que os profetas pregam tanto) se estende, portanto, à perseguição. Deus educou progressivamente o seu povo a passar dos sacrifícios sangrentos do começo para o sacrifício de oblação espiritual inaugurado por Jesus Cristo, que lemos, especialmente, na Carta aos Hebreus (cf. Hb 2,17-18; 10,5-7; Rm 5,19; Mt 27,38-60; Lc 18,9-14). Por sua vez, o sacrifício do cristão se inscreve na linha do sacrifício de Cristo: uma vida de obediência à vontade de Deus e de amor fraterno a fim de que a ação litúrgica tenha valor, como escreveu São Paulo aos romanos: “Eu vos exorto, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, a que ofereçais vossos corpos como sacrifício vivo, santo, agradável a Deus: este é o vosso culto espiritual. E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando a vossa mente, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito(Rm 12,1-2; Cf. Hb 9,14). A oferta da própria vida do cristãos como algo sacrado não é mais fazer o animal como vítima e sim a vida sagrada do próprio cristão. (“sacrum”= “sagrado”, “facere”= fazer. Sacrifício= fazer algo sagrado). O que Deus quer é a vida limpa e purificada de cada cristão.

Pelo fato de pertencer à família de Deus, o cristão não pode ajustar-se aos moldes deste mundo. Diante da propaganda e da publicidade para a qual a massa é modelada, o cristão pode tirar de sua fé a resistência necessária. Diante das correntes majoritárias da opinião que não garante a salvação, o cristão encontra em sua fé a força suficiente para se manter em Deus que salva. Diante da tentação do poder e do dinheiro, o cristão encontra na sua fé as forças para testemunhar os valores cristãos. Ser cristão no mundo, desenvolver-se no mundo, aprender a viver com os demais é, portanto, para o cristão, um culto e um culto a Deus. Cristo nos salvou por meio de uma ação humana situada no coração do mundo e da história (cf. Hb 7,13). A integração de um cristão na organização da sociedade temporal e na resistência diante da injustiça e da desonestidade, para o cristão constitui um autêntico culto. “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito”.

Para Amar De Verdade É Necessário Aprender a Perdoar

Não te digo até sete vezes (deves perdoar), mas até setenta vezes sete”, disse o Senhor a Pedro. Se a Primeira Leitura de hoje nos convida a pedirmos perdão a Deus, no Evangelho Jesus nos apresenta um passo a mais: que saibamos perdoar os outros toda vez que eles pecarem contra nós. Pedir o perdão a Deus e dar o perdão aos outros devem andar juntos, como rezamos no Pai-Nosso: “Perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”.

O texto do evangelho lido neste dia faz parte do quarto grande discurso de Jesus no evangelho de Mateus (Mt 18). Este discurso é conhecido como “Discurso comunitário”, isto é, como devemos conviver como uma comunidade. Para Mateus o pecado sempre existe, a fraqueza humana nunca conhece seu fim. Por isso, na comunidade deve haver espaço para o mútuo perdão. Perdão mútuo é um dos temas neste quarto discurso. Sem o perdão mútuo, a comunidade deixaria de existir. Os que são capazes de perdoar mostram que são totalmente dominados pela misericórdia de Deus apesar das ofensas recebidas. Se aplicar a lei de talião “dente por dente” e “olho por olho”, o que vai resultar? Todos ficarão sem dentadura e cegos. Para que todos possam continuar a enxergar a ação misericordiosa de Deus deve haver o perdão mútuo.

A palavra grega para perdão é APHESIS que significa liberar, sair da prisão, libertar da escravidão; remissão da dívida, da culpa e do castigo. É usada quando a prisão é aberta e o prisioneiro pode sair livre. O perdão é o processo de remoção das barreiras (abrir a porta da prisão); é o processo pelo qual começamos a aceitar e a amar aqueles que nos feriram, não para esquecer o que eles fizeram e sim para lembrar de outra maneira a partir do amor. O esquecido é supressão. O perdão é superação; é culminação do conflito. O perdão nos liberta (âphesis, grego: sair da prisão); nos faz sairmos de nossas jaulas para aprender a ser humanos e divinos e não animais selvagens em que um devora o outro. O ato de nos libertar do passado, na verdade, exige muito pouco: basta a auto-aceitação. Hoje preciso domar minhas lembranças ou recordações para que elas se tornem minhas companheiras que me dão lição para viver e conviver bem no aqui e agora.

Até sete vezes devo perdoar meu irmão?” é a pergunta de Pedro a Jesus que lemos no evangelho de hoje. Em todas as culturas antigas, inclusive a Bíblia, o sete já era o numero da perfeição e da totalidade, da plenitude acabada e perfeita (Santo Agostinho), da universalidade (Santo Tomás), o numero que une o par e o impar, o fechado e o aberto, o visível e o invisível. Pedro propõe um número elevado de oportunidades de perdão, considerando que isso é uma atitude nobre. Sete vezes não são poucas! Mas de qualquer maneira, ele se preocupa com os limites da atitude fraterna.

Jesus lhe corrige sua perspectiva legalista. No lugar de umsete” é melhor setenta vezes sete. No AT o número 77 representava a vingança dos filhos de Caim (Gn 4, 24). Jesus muda os termos e converte o número de vingança em símbolo da reconciliação. Logo Jesus propõe uma parábola que mostra a deficiente atitude dos que estão pendentes de contabilizar a misericórdia, o perdão e a fraternidade.

Jesus fala para Pedro que no exercício da caridade fraterna, especialmente neste caso sobre o perdão mútuo, não existe limites. O perdão deve estender-se até onde chegou a dor ou o desejo de vingança. Em outras palavras, o perdão deve ser proporcional à dor que sentimos causada por nosso semelhante/próximo ou ao desejo de vingança que temos contra quem nos fez mal. Quem perdoa e é perdoado hoje, sempre tem possibilidade de voltar a pecar amanhã, porque nossa fidelidade a Deus pode não ser definitiva. No entanto, sempre que nos convertermos e voltarmos arrependidos, nós encontraremos um Pai bondoso e misericordioso para nos acolher e perdoar. A simples consciência da imensidade do perdão recebido de Deus deveria ser suficiente para motivar cada um de nós a perdoar. Ao contrário, a insensibilidade em relação ao dom recebido de Deus torna impossível a concessão de perdão ao próximo.

Como é difícil amar os que destruíram ou acabaram com nossa vida ou nossa família, e ainda rezar por eles e perdoá-los!? No nosso inconsciente, como seres humanos, sempre resta algum sentimento vingativo. Trata-se de um sentimento com o intuito de acabar com a vida dos que nos fizeram algum mal, mas, infelizmente, resulta em acabar com a nossa própria vida por causa do mesmo sentimento: “O ódio que se opõe ao ódio consegue apenas aumentar a superfície e também a profundeza do ódio” (Mahatma Gandhi). Repito: O ódio é igual a beber o veneno e espera-se que o outro morra.

Perdoar não é somente dever moral, e sim o eco da consciência de ter sido perdoado por Deus. Assim chega a ser uma espécie de virtude teologal que prolonga o perdão dado por Deus a mim (cf. Cl 3,13; Mt 6,14-15; 2Cor 5,18-20).

O perdão refaz as pontes, encurta as distâncias e desarma os espíritos. Quando a pessoa não perdoar, ela se torna refém do próprio ódio ou rancor, e consequentemente perde a liberdade e perturba a convivência. O perdão é que possibilita a própria existência e a continuação da comunidade ou de uma convivência. Sem perdão não existe vida fraterna, vida conjugal, vida familiar, vida religiosa ou vida comunitária e social.

Hoje o mundo enfrenta um ambiente de intolerância, violência e desrespeito aos direitos humanos. Esta cadeia se faz interminável porque os agredidos buscam vingança por sua própria mão e fazem crescer a espiral de violência. É igual aos filhos de Caim: se um fosse agredido, a vingança seria sete vezes. Somos seguidores de Cristo e por isso, nossa atitude não é a dos filhos de Caim que assassinou o próprio irmão, Abel. Nossa atitude é a de Jesus Cristo que morreu perdoando: “Pai perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”, rezou Jesus da cruz pelos seus inimigos (Lc 23,34). Para perdoar o cristão tem que ser forte espiritualmente. Não perdoar é a manifestação de nossa fraqueza espiritual. Não podemos transformar nossa fraqueza espiritual em uma morte lenta de nossa vida como filhos e filhas de Deus.

Não saber perdoar para qualquer seguidor de Cristo é um comportamento cínico e é o fruto de uma atitude interior na qual o egoísmo, o próprio interesse ocupa de tal forma o posto reservado ao amor puro, ao gozo pela felicidade dos demais, à alegria de sentir-se instrumento de paz e concórdia que não deixam a luz do Espírito divino e a luz da sensatez humana penetrar no nosso coração e inundar nossa vida de cristãos.

O perdão é uma categoria fundamental e radical no Evangelho e é proposto por Jesus, para a comunidade, como um elemento constitutivo da qualidade das relações. Perdoando o passado doloroso se constrói um futuro cheio de esperança. Trata-se de uma atitude positiva e otimista. O mal não tem a ultima palavra porque o homem e a mulher podem mudar.

A tradição bíblica apresenta um Deus que ama um povo apaixonadamente. Ele ama o povo não por sua grandeza cultural nem por mérito, e sim porque Deus o ama loucamente. Não existe outra razão. “O amor apaixonado de Deus pelo seu povo — pelo homem — é ao mesmo tempo um amor que perdoa. E é tão grande, que chega a virar Deus contra Si próprio, o seu amor contra a sua justiça. Nisto, o cristão vê já esboçar-se veladamente o mistério da Cruz: Deus ama tanto o homem que, tendo-Se feito Ele próprio homem, segue-o até à morte e, deste modo, reconcilia justiça e amor”, escreveu o Papa Bento XVI (Carta Encíclica: Deus Caritas Est, no.10).

Deus que ama e perdoa se encarna em Jesus. Da cruz Jesus faz um testamento sobre o perdão ao perdoar aqueles que o crucificaram: “Pai perdoa-lhes porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34). Nós somos convidados a atuar nesta direção de gratuidade. Se nossa relação com o próximo é vivida sob o sinal da maldade, não há razão para que nossa própria relação com Deus se viva de outra maneira. Para amar verdadeiramente, temos que aprender a perdoar a exemplo de Jesus Cristo.

O versículo final da parábola (Mt 18,35) considera o amor fraterno como uma condição para obter o perdão de Deus. O amor dispõe ao homem para o perdão. O perdão fraterno significa submeter-se completamente à ação misericordiosa de Deus. Neste sentido, perdoar o próximo é sinal da plenitude da eficácia do perdão de Deus recebido. O perdão dado é o perdão recebido. 

O perdão é um ato de doação, tanto para aquele que o recebe como para aquele que o brinda. Ambos se enriquecem com o benefício da paz; ambos se libertam do cárcere que os aprisiona. Por isso, o perdão é seguir avançando; é amparo e encontro. O perdão revela a graça. O ato de perdoar é um ato da misericórdia de Deus que apaga os pecados (Am 7; Ex 32,12.14; Jr 26,19; Ez 36,29.33). No NT, reconciliação e perdão somente se entendem a partir da cruz, do amor entregue e do sangue derramado pelo perdão dos pecados (Mc 10,45; Hb 9,22; Rm 8,32; Mt 26,28...). 

Deixemos hoje as seguintes interrogações que podem complementar a interrogação de Pedro: Quantas vezes eu tenho que perdoar? O que tenho que perdoar? Quantas vezes os outros devem me perdoar? O que devem me perdoar?

A vida nos oferece diversas ocasiões para exercermos o mistério do perdão entre nós: na família, no trabalho, nas relações pessoais e assim por diante. Cada sinal de perdão comunica também a graça de Deus que atravessa todas as nossas ações. A reconciliação nos devolve a verdadeira liberdade e a responsabilidade que nos permite acolhermos e praticarmos novamente o bem, suscitá-lo ou restaurá-lo dentro de nós e ao nosso redor. Ao cultivarmos a dimensão do perdão e da reconciliação entre nós temos a esperança de construir um mundo novo sem violência. “O fraco jamais perdoa, o perdão é característica do forte” (Mahatma Gandhi). Quaresma é o tempo para se reconciliar e para o mútuo perdão para podermos experimentar, por antecipação, a vitória da ressurreição sobre a morte e sobre o que é mortal em nós.

Você quer ser feliz por um instante? Vingue-se. Você quer ser feliz para sempre? Perdoe” (Tertuliano). Para pensar: “As três coisas mais difíceis do mundo são: guardar um segredo, perdoar uma ofensa e aproveitar o tempo.” (Benjamin Franklin).

 

P. Vitus Gustama,svd

sábado, 2 de março de 2024

04/03/2024-Segundaf Da III Semana Da Quaresma

DEUS ESTÁ NO NOSSO COTIDIANO, ATÉ NA NOSSA DOR

Segunda-Feira da III Semana da Quaresma

Primeira Leitura: 2Rs 5,1-15

Naqueles dias, 1Naamã, general do exército do rei da Síria, era um homem muito estimado e considerado pelo seu senhor, pois foi por meio dele que o Senhor concedeu a vitória aos arameus. Mas esse homem, valente guerreiro, era leproso. 2Ora, um bando de arameus que tinha saído da Síria, tinha levado cativa uma moça do país de Israel. Ela ficou a serviço da mulher de Naamã. 3Disse ela à sua senhora: “Ah, se meu senhor se apresentasse ao profeta que reside em Samaria, sem dúvida, ele o livraria da lepra de que padece!” 4Naamã foi então informar o seu senhor: “Uma moça do país de Israel disse isto e isto”. 5Disse-lhe o rei Aram: “Vai, que eu enviarei uma carta ao rei de Israel”. Naamã partiu, levando consigo dez talentos de prata, seis mil siclos de ouro e dez mudas de roupa. 6E entregou ao rei de Israel a carta, que dizia: “Quando receberes esta carta, saberás que eu te enviei Naamã, meu servo, para que o cures de sua lepra”. 7O rei de Israel, tendo lido a carta, rasgou suas vestes e disse: “Sou Deus, porventura, que possa dar a morte e a vida, para que este me mande um homem para curá-lo de lepra? Vê-se bem que ele busca pretexto contra mim”. 8Quando Eliseu, o homem de Deus, soube que o rei de Israel havia rasgado as vestes, mandou dizer-lhe: “Por que rasgaste tuas vestes? Que ele venha a mim, para que saibas que há um profeta em Israel”. 9Então Naamã chegou com seus cavalos e carros, e parou à porta da casa de Eliseu. 10Eliseu mandou um mensageiro para lhe dizer: “Vai, lava-te sete vezes no Jordão, e tua carne será curada e ficarás limpo”. 11Naamã, irritado, foi-se embora, dizendo: “Eu pensava que ele sairia para me receber e que, de pé, invocaria o nome do Senhor, seu Deus, e que tocaria com sua mão o lugar da lepra e me curaria. 12Será que os rios de Damasco, o Abana e o Fartar, não são melhores do que todas as águas de Israel, para eu me banhar nelas e ficar limpo?” Deu meia-volta e partiu indignado. 13Mas seus servos aproximaram-se dele e disseram-lhe: “Senhor, se o profeta te mandasse fazer uma coisa difícil, não a terias feito? Quanto mais agora que ele te disse: ‘Lava-te e ficarás limpo”’. 14Então ele desceu e mergulhou sete vezes no Jordão, conforme o homem de Deus tinha mandado, e sua carne tornou-se semelhante à de uma criancinha, e ele ficou purificado. 15aEm seguida, voltou com toda a sua comitiva para junto do homem de Deus. Ao chegar, apresentou-se diante dele e disse: “Agora estou convencido de que não há outro Deus em toda terra, senão o que há em Israel!”

Evangelho: Lc 4,24-30

Jesus, vindo a Nazaré, disse ao povo na sinagoga: 24Em verdade eu vos digo que nenhum profeta é bem recebido em sua pátria. 25De fato, eu vos digo: no tempo do profeta Elias, quando não choveu durante três anos e seis meses e houve grande fome em toda a região, havia muitas viúvas em Israel. 26No entanto, a nenhuma delas foi enviado Elias, senão a uma viúva em Sarepta, na Sidônia. 27E no tempo do profeta Eliseu, havia muitos leprosos em Israel. Contudo, nenhum deles foi curado, mas sim Naamã, o sírio”. 28Quando ouviram estas palavras de Jesus, todos na sinagoga ficaram furiosos. 29Levantaram-se e o expulsaram da cidade. Levaram-no até o alto do monte sobre o qual a cidade estava construída, com a intenção de lançá-lo no precipício. 30Jesus, porém, passando pelo meio deles, continuou o seu caminho.

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Um pagão é o beneficiário privilegiado de um gesto milagroso do profeta Eliseu, ou seja aceita o conselho do profeta Eliseu. O rito do banho (batismo) no Jordão só adquirirá valor por meio da fé de Naamã na Palavra Divina através do profeta Eliseu. Não é o gesto que conta, mas a atitude interior de Naamã. Quanto a nós, é também a fé que nos cura e nos salva. Comentando esta anedota, Jesus dirá um dia (Lc 4, 27) que "havia muitos leprosos em Israel no tempo do profeta Eliseu, mas nenhum deles foi curado senão Naamã, o sírio", estrangeiro, pagão. No Evangelho de hoje, Jesus enfatiza que não é bem-vindo em seu próprio país e lembra que já no Antigo Testamento alguns pagãos, como a viúva de Sarepta e Naamã, o sírio, receberam graças especiais de Deus.

Quando sofro pelos meus pecados, quando me sinto impuro ou egoísta, quando vejo que sou um covarde diante de minhas responsabilidades... tenho um reflexo para ir a Deus, apelar para a graça do meu batismo? Eu também fui lavado pela água que purifica pela Fé.

A Humildade Possibilita Nosso Crescimento Na Fé Em Deus Que Nos Salva

A Primeira Leitura nos relata que Naamã, general sírio, padece uma infecção de pele semelhante à lepra. A doença não quer saber de nossos títulos ou status ou de nosso poder. Todos podemos ser afetados por alguma doença. No leito da doença todo poder cai no chão e todos são chamados de enfermos ou doentes. Tenhamos humildade! Um pouco de humildade nunca faz mal a ninguém.

Através de uma serva israelita (que trabalha para a esposa de Naamã) Naamã, via sua esposa, teve notícia do profeta israelita Eliseu que tem poder para curar a lepra. O general sírio, Naamã, crê que se trata de algum mago ao serviço da corte e acorre a seu rei (rei da Síria) para ir ao encontro do profeta Eliseu. Para isso, o rei sírio manda a carta para o rei de Israel. E o rei de Israel se irrita crendo que se trata de uma emboscada para declarar-lhe a guerra. Mas o profeta Eliseu intervém e se decide a curar o general sírio. Muitas vezes interpretamos algo fora de sua realidade e de sua essência e do seu contexto que nos leva a cometermos muitos erros. Às vezes criamos conflitos desnecessários com os outros porque não verificamos os fatos. Jamais podemos nos deixar levar pelos comentários maldosos ou notícias falsas para não criarmos problemas na convivência com os demais. É preciso irmos à fonte para saber o que se passa na verdade ou de fato.

O profeta Eliseu manda um mensageiro para dizer ao general Naamã: “Vai, lava-te sete vezes no Jordão, e tua carne será curada e ficarás limpo”. O general Naamã se irrita ao saber da ordem do profeta Eliseu para que Naamã tome banho no rio Jordão sete vezes pela sua cura. E queria desistir. O general queria algo mágico para curá-lo (Eliseu não pode tocar Naamã leproso para não ficar impuro). Mas seus servos conseguiram convencer o general Naamã para obedecer à ordem do profeta Eliseu.

A postura e o monólogo do general sírio não têm desperdício: “Naamã, irritado, foi-se embora, dizendo: ‘Eu pensava que ele sairia para me receber e que, de pé, invocaria o nome do Senhor, seu Deus, e que tocaria com sua mão o lugar da lepra e me curaria. Será que os rios de Damasco, o Abana e o Fartar, não são melhores do que todas as águas de Israel, para eu me banhar nelas e ficar limpo?’. Deu meia-volta e partiu indignado”. Esta reflexão pessoal que o general sírio faz é a linguagem típica de todos os que estão seguros de suas ideias acerca de Deus, de todos nós que estamos seguros do comportamento que Deus deve ter conosco, de todos nós que intentamos sempre impor a Deus nossa própria vontade.

A cura do general Naamã faz parte de uma série de milagres do profeta Eliseu. O que quer se enfatizar nesta narrativa é o poder universal do Deus de Israel, que socorre inclusive os inimigos de seu povo, e seu senhorio absoluto sobre a história. Por isso, a resposta do profeta Eliseu para o rei de Israel, que se irrita, oferece uma das chaves do relato: reconhecer que existe um profeta em Israel (2Rs 5,6-7). Profeta é aquele que fala em nome de seu Deus.  A cura de Naamã será o primeiro passo para a conversão, pois equivale a reconhecer Deus que age e se manifesta por meio de seu enviado (profeta): “Agora estou convencido de que não há outro Deus em toda terra, senão o que há em Israel!”, disse Naamã para o profeta Eliseu.

Naamã é símbolo típico de uma classe de homens difíceis de convencer. Naamã tem suas ideias claras e ordenadas. Afinal, ele é um general. Um general sabe sempre o que quer e suas ideias não para serem discutidas e sim obedecidas ou acatadas. Deus não chama oposições, nem valoriza currículo ou título, nem aceita fichas. Deus sai ao encontro de todos os que O procuram com coração sincero e mostra-se a eles nos acontecimentos mais inesperados da vida. Moisés o descobriu em uma sarça que ardia sem se consumir. O importante é saber ver, saber olhar com novos olhos, ter o coração limpo para poder ver ou experimentar a Deus.

O menos importante é o rio e o número de banhos. O importante é fazer o que Deus quer e como Deus quer. Sempre queremos fazer as coisas do nosso jeito, mesmo quando tentamos cumprir a vontade de Deus.

Vemos no Evangelho sobre como os nazarenos tentam Deus e querem utilizar Jesus: “Tudo o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum, faze-o também aqui em tua pátria!” (Lc 4,23). O homem quase sempre busca a Deus para servir-se d´Ele. Quando não é útil, ele o recusa. Deus se aproxima somente dos simples e humildes.

Deus não é uma máquina; Ele é Alguém, uma Pessoa sempre original que inesperadamente entra em nossa vida. Somos hálitos de Deus; templo do Espirito Santo. Deus rompe esquemas, destrói tranquilidades falsas e coloca sempre o homem diante do grande risco da fé, como aconteceu com Naamã.

E Deus sempre usa pessoas para nos alertar, a exemplo da serva israelita sobre a existência de um profeta em Israel, os próprios servos de Naamã que lhe dizem: “Senhor, se o profeta te mandasse fazer uma coisa difícil, não a terias feito? Quanto mais agora que ele te disse: ‘Lava-te e ficarás limpo”’.

São palavras cheias de cordialidade e de convencimento e de razoabilidade! Tudo isso é para nos convencer de que é mais razoável confiarmos em Deus do que em nós mesmos. Muitas vezes criamos dificuldade para entrar pelos caminhos reais da humildade. A humildade é o início para nossa conversão. A humildade nos aproxima da grandeza e da própria Grandeza que é Deus. Às vezes viramos artistas do circo: procuramos os números mais difíceis e complicados para receber os aplausos da plateia. Até os pecadores mais endurecidos não resistem diante de quem tem a virtude da humildade.

Nem sempre queremos mudar. Apenas pensamos em mudança quando estamos mal (necessidade), ou quando sonhamos com alguma coisa melhor (desejo) ou tememos uma piora (medo). General Naamã desceu de seu burro: burro de seu orgulho, e ouve a sugestão dos servos. Naamã se despojou de sua vontade própria e aceitou a vontade de Deus. A sua humildade o levou para a cura de sua doença de pele e o leva a acreditar em Deus. A arrogância nos impede de enxergarmos a presença de Deus e ignoramos preciosa ajuda dos outros, pois sempre nos achamos. A humildade nos capacita a enxergarmos a presença de Deus que nos cura e salva. 

Como Naamã, muitos gostariam de impor suas condições a Deus, para levá-Lo a sério e para acreditar n´Ele. Mas é Deus quem tem a palavra. E Deus não convoca oposições, nem valoriza o currículo, nem aceita fichas. Deus sai ao encontro de todos aqueles que O procuram com coração sincero, e mostra-se a eles nos acontecimentos mais inesperados da vida. Moisés O descobriu em uma sarça que queimava sem ser consumida. O importante é saber ver, saber olhar com novos olhos, ter o coração limpo para poder ver Deus.

Deus Se Encontra No Cotidiano De Nossa Vida e De Nossa Convivência

Estamos nos começos da atividade pública de Jesus na versão de Lucas. O autor nos apresenta Jesus como o Messias no qual se cumprem todas as promessas do Antigo Testamento (Lc 4,21).

O texto do evangelho de hoje nos narra que Jesus se encontra novamente em sua terra, Nazaré e se apresenta aos seus conterrâneos numa Sinagoga no dia de Sábado. Ele veio a Nazaré para dizer-lhes que com sua vinda ao mundo se inaugurou a salvação que o profeta Isaias profetizava (Is 61,1-2). Mas com isso, o evangelista Lucas adverte que as palavras de Jesus, mesmo que sejam palavras cheias da graça de Deus que causam até a admiração dos próprios nazarenos (Lc 4,22), encontram dificuldade para entrar no coração de seus conterrâneos. A razão dessa recusa é o conhecimento que os nazarenos têm sobre Jesus e sua família em Nazaré. E por isso, é difícil para os nazarenos acreditarem naquilo que Jesus prega na sinagoga: “Não é este o filho de José?” (Lc 4,22). Os nazarenos não podiam compreender que um carpinteiro fosse um enviado de Deus, muito menos o Messias. Os nazarenos pensam que o verdadeiramente grande e divino deve estar bastante distante da vida cotidiana dos homens.

A vida cotidiana não se deixa inquietar pelo extraordinário, inclusive a busca do extraordinário, a caça do milagres ameaça aquilo que tem o aspecto cotidiano onde Deus se revela e deixa Seu recado para cada pessoa humana. Muitos correm atrás dos famosos e sabem de tudo sobre sua vida até nos seus detalhes. Muitos vão ao encontro dos ídolos e os defendem, até são capazes de morrer por eles. Muitas vezes queremos ver nos famosos ou ídolos aquilo que nós mesmos não conseguimos alcançar ou realizar. Muitos querem se identificar com eles e não querem tirar deles algo positivo para a própria vida. Os que correm atrás dos famosos e dos ídolos acabam não vivendo a própria vida. Se eu não viver minha vida quem é que vai vivê-la? Se eu não melhorar a minha vida, quem é que vai melhorá-la? Se eu não viver o meu hoje na sua profundidade, quando é que vou começar a viver? Os outros podem me ajudar naquilo que são capazes de fazer, mas nunca na minha vida em sua totalidade. O mundo é uma projeção de nossa psique individual coletada numa tela global. O mundo é ferido ou curado em função de cada ato e pensamento que tivermos. Se eu me recusar a encarar os problemas mais profundos que me impedem de fazer as coisas, o mundo também ficará impedido de evoluir. Se eu avançar na melhoria do meu empenho para o bem de todos, será minha ajuda para mudar ou melhorar o mundo.

Devemos estar conscientes de que o essencial para nossa vida, felizmente, está no aspecto cotidiano da vida que os olhos têm dificuldade para enxergar. Esta é uma das mensagens que Deus quer nos transmitir através de Sua encarnação. Quem diria que o Salvador do mundo pudesse nascer de uma mulher comum e de um lugar desconhecido como Nazaré? Como é bom termos os olhos de Deus para perceber e captar Sua presença na cotidianidade da vida. Como é bom termos o coração de Isabel para sentir a presença do Senhor que está em Maria (Lc 1,41-45). Como é bom termos os olhos de Simeão e da profetiza Ana que enxergam facilmente a presença d’Aquele que traz a salvação para o mundo numa criança recém-nascida (Lc 2,29-32). Como é bom termos a simplicidade dos pastores de Belém que vão com pressa ao encontro do Salvador recém-nascido depois que ouviram a mensagem do Anjo do Senhor (Lc 2,8-18). Como é bom termos a intuição do discípulo amado que logo percebe a presença do Senhor ressuscitado (Jo 21,7). Quem enxerga a presença de Deus na vida cotidiana é uma pessoa feliz e nunca será mais a mesma pessoa. “Cristo se fez temporal para que tu sejas eterno” (Santo Agostinho: In epist. Joan. 2,10).

Em Nazaré os conterrâneos de Jesus exigem que Jesus faça também milagres no meio deles. Mas nenhum milagre acontece. Exigir de Deus um milagre significa querer impor a Deus nossa vontade e nos esquecermos de que o milagre é um dom livre da parte de Deus. A que exige milagres não é a verdadeira . A exige total superação do plano meramente humano (cf. Lc 8,21). Se faltar isso, torna-se difícil a prática da obediência cristã. Se vivermos realmente de acordo com a Palavra de Deus nós vamos encontrar muitas surpresas boas para nossa vida, pois “a é a antecipação daquilo que se espera” (Hb 11,1).

A expressão de Jesus “Nenhum profeta é bem recebido em sua pátrianos lembra quanto somos rebeldes em aceitar que alguém de nosso meio, cujas “virtudes e milagres” cremos conhecer, se torne juiz de nossa ação, mesmo que seja em nome de Deus. 

Se os nazarenos, que fazem parte do Povo eleito, recusam a presença de um profeta na pessoa de Jesus, a primeira leitura nos apresenta um homem pagão, Naamã, que acredita na Palavra de Deus através da boca do profeta Eliseu.

Naamã era chefe do exército do Rei de Síria, guerreiro forte e valente, de um país pagão em constante guerra com Israel. Mas agora está sofrendo de lepra. E sabemos muito bem que quando uma pessoa sofre, não se pergunta por sua religião. Seu sofrimento clama uma ajuda de quem for. Neste momento pode se saber até que ponto alguém tem compaixão e solidariedade.

Uma jovem judia levada como escrava que não guarda rancor ou mágoa oferece ajuda: “Ah, meu senhor, se se apresentasse ao profeta que reside em Samaria, sem dúvida ele o livraria da lepra de que padece”. Essa jovem representa uma pessoa que ama sem fronteiras e sem exceção. Apesar de ela sofrer a escravidão, seu amor pelo seu patrão Naamã que padece de lepra faz com que ela ofereça ajuda. 

A lei do amor abrange e orienta todo comportamento humano. Jesus fez do amor o sinal característico de seus discípulos (cf. Jo 13,35: 15,12). Juntar as mãos para rezar é bom; abri-las para ajudar os outros é melhor. Por isso, todas as manhãs de nossa vida nós devemos nos perguntar: o que posso fazer de bom hoje para os outros?

Naamã é um homem cheio de esperança e aceitou o conselho e foi procurar o profeta Eliseu. Uma pessoa cuja vida não é sustentada e iluminada pela esperança é uma pessoa desamparada e sem ponto de apoio. Ao obedecer às palavras do profeta para se purificar no rio Jordão Naamã voltou curado. Não é o gesto de ir algumas vezes ao rio Jordão é que conta, e sim a atitude interior de Naamã que se chama fé e a entrega total à vontade de Deus. 

A fé liberta e salva. A fé faz alguém caminhar na direção de Deus e na direção do bem que deve ser feito em favor dos demais homens. Tenhamos fé firme em Deus e saibamos esperar que, nas circunstancias difíceis, Deus nos mostre o que devemos dizer e fazer. “Tenhamos a absoluta confiança de que, sendo fieis, a vontade de Deus se fará, não somente apesar dos obstáculos, mas graças a esses mesmos obstáculos” (Charles de Foucauld). E “deixemos Deus conduzir a nossa pequena embarcação; se ela Lhe for útil, Ele a preservará do naufrágio” (São Vicente de Paula). 

Além disso, para quem tem fé precisa ter muita humildade para voltar-se a Deus a fim de receber d’Ele a cura dos males a exemplo do General Naamã. A humildade nos aproxima mais das pessoas e de Deus. A humildade nos faz mais irmãos e mais humanos. Mantenhamos humildes, como General Naamã, pois uma salvação pode ser recebida através de instrumentos simples e insignificantes como a escrava judia que ajudou seu patrão, General Naamã para sair de seu problema. “Observa a arvore. A fim de crescer para cima, primeiro cresce para baixo. Primeiro, finca sua raiz na humildade da terra para depois lançar suas grimpas ao alto do céu” (Santo Agostinho: Serm. 117,17).

P. Vitus Gustama,svd

Quarta-feira Da XXIV Semana Comum, Ano Par, 16/09/2026

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