quarta-feira, 9 de julho de 2025

10/07/2025-Quintaf Da XIV Semana Comum- Ano Ímpar

SER CRISTÃO É SER MISSIONÁRIO DO AMOR DE DEUS

Quinta-Feira da XIV Semana Comum

Primeira Leitura: Gn 44,18-21.23b-29; 45,1-5

Naqueles dias, 44,18 Judá aproximou-se de José e, cheio de ânimo, disse: “Perdão, meu Senhor, permite a teu servo falar com toda a franqueza, sem que se acenda a tua cólera contra mim. Afinal, tu és como um faraó! 19 Foi meu Senhor quem perguntou a seus servos: ‘Ainda tendes pai ou algum outro irmão?’ 20 E nós respondemos ao meu senhor: ‘Temos um pai já velho e um menino nascido em sua velhice, cujo irmão morreu; é o único filho de sua mãe que resta, e seu pai o ama com muita ternura’. 21 E tu disseste a teus servos: ‘Trazei-o a mim, para que eu possa vê-lo. 23b Se não vier convosco o vosso irmão mais novo, não vereis mais a minha face’. 24 Quando, pois, voltamos para junto de teu servo, nosso pai, contamos tudo o que o meu senhor tinha dito. 25 Mais tarde disse-nos nosso pai: ‘Voltai e comprai para nós algum trigo’. 26 E nós lhe respondemos: ‘Não podemos ir, a não ser que o nosso irmão mais novo vá conosco. De outra maneira, sem ele, não nos podemos apresentar àquele homem’. 27 E o teu servo, nosso pai, respondeu: ‘Bem sabeis que minha mulher me deu apenas dois filhos. 28 Um deles saiu de casa e eu disse: um animal feroz o devorou! E até agora não apareceu. 29 Se me levardes também este, e lhe acontecer alguma desgraça no caminho, fareis descer de desgosto meus cabelos brancos à morada dos mortos’”. 45,1 Então José não pôde mais conter-se diante de todos os que o rodeavam e gritou: “Mandai sair toda a gente!” E, assim, não ficou mais ninguém com ele, quando se deu a conhecer aos irmãos. 2 José rompeu num choro tão forte, que os egípcios ouviram e toda a casa do Faraó. 3 E José disse a seus irmãos: “Eu sou José! Meu pai ainda vive?” Mas os irmãos não podiam responder-lhe nada, pois foram tomados de um enorme terror. 4 Ele, porém, cheio de clemência, lhes disse: “Aproximai-vos de mim”. Tendo-se eles aproximado, disse: “Eu sou José, vosso irmão, a quem vendestes para o Egito. 5 Entretanto, não vos aflijais, nem vos atormenteis, por me terdes vendido a este país. Porque foi para a vossa salvação que Deus me mandou adiante de vós, para o Egito”.

Evangelho: Mt 10,7-15

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 7 “Em vosso caminho, anunciai: ‘O Reino dos Céus está próximo’. 8 Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. De graça recebestes, de graça deveis dar! 9 Não leveis ouro nem prata nem dinheiro nos vossos cintos; 10 nem sacola para o caminho, nem duas túnicas nem sandálias nem bastão, porque o operário tem direito a seu sustento. 11 Em qualquer cidade ou povoado onde entrardes, informai-vos para saber quem ali seja digno. Hos­pedai-vos com ele até a vossa partida. 12 Ao entrardes numa casa, saudai-a. 13 Se a casa for digna, desça sobre ela a vossa paz; se ela não for digna, volte para vós a vossa paz. 14 Se alguém não vos receber, nem escutar vossa palavra, saí daquela casa ou daquela cidade, e sacudi a poeira dos vossos pés. 15 Em verdade vos digo, as cidades de Sodoma e Gomorra serão tratadas com menos dureza do que aquela cidade, no dia do juízo.

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O Deus Em Quem Acreditamos É Um Deus De Surpresas

Eu sou José, vosso irmão, a quem vendestes para o Egito. Entretanto, não vos aflijais, nem vos atormenteis, por me terdes vendido a este país. Porque foi para a vossa salvação que Deus me mandou adiante de vós, para o Egito”. Esta é a frase chave da seção que o autor sagrado coloca nos lábios de José.

A história de José, que chega à cena culminante do reencontro e a reconciliação com seus irmãos, é uma das páginas mais belas da Bíblia, tanto no aspecto literário como no aspecto humano e religioso.

Na cena anterior conta-se que na segunda viagem de seus irmãos para o Egito em busca de sobrevivência por causa da fome, José retém Benjamin, seu irmão predileto com o pretexto de que “roubou” um cálice que o próprio José mandou colocar precisamente no saco de trigo de Benjamin.

Quando Judá, intercedendo pateticamente pelo seu irmão pequeno, Benjamin, conta a José de que conhece muito bem Benjamin, José não consegue conter-se mais e, entre lágrimas, se dá conhecer a seus irmãos, criando neles uma situação de surpresa inexprimível e também de medo: “Eu sou José, vosso irmão, a quem vendestes para o Egito”. Mas eles não têm que ter medo porque José lhes perdoa: “Não vos aflijais, nem vos atormenteis, por me terdes vendido a este país”. A lição se põe na boca de José: “Porque foi para a vossa salvação que Deus me mandou adiante de vós, para o Egito”. José perdoa seus irmãos e vê em tudo a mão de Deus que guia. A vida de José e de seus irmãos poderia ser mais difícil se José não fosse uma autoridade na terra dos egípcios. Paradoxalmente, José foi vendido para salvar seus irmãos no futuro. Em cada experiência Deus quer deixar algum recado para nós. Em cada acontecimento Deus faz algum apelo para nós. Verifique, qual foi o apelo de Deus para você hoje?

Tudo isto quer nos dizer que os planos de Deus são admiráveis. Deus vai levando ao cumprimento de suas promessas pela nossa salvação através dos caminhos que nos surpreendem.

Além disso, a história de José nos recorda a história de Jesus que também é vendido pelos seus e levado à cruz; que morreu pedindo a Deus que perdoe seus inimigos; que parece ter fracassado na missão encomendada, mas que nos mostra como Deus consegue seus propósitos de salvação também através do mal e do pecado das pessoas.

De Jesus e José aprendemos a perdoar aos que nos ofenderam, pois, às vezes, através daquela experiência ou acontecimento Deus quer nos salvar. Dificilmente, alguém nos faria o mal tão grande como aquilo que José sofreu por causa dos próprios irmãos e como aquilo que Jesus sofreu por causa da traição dos próprios discípulos. No entanto, eles (José e Jesus) os perdoaram.

Nós Cristãos Somos Missionários Do Amor De Deus Neste Mundo

Continuamos a acompanhar o discurso de Jesus sobre a missão (Mt 9,36-11,1).  Na passagem do evangelho de hoje Jesus dá algumas instruções para seus discípulos na tarefa de proclamar a Boa Nova.

Primeiramente, Jesus disse aos discípulos: “Em vosso caminho, anunciai: ‘O Reino dos céus está próximo’”. Jesus coloca em primeiro lugar o anúncio da Boa Nova. Onde quer que ande um seguidor de Jesus deve falar somente coisas boas. Cada cristão deve ser testemunha da alegria evangélica de que Deus está conosco, está próximo de nós. O evangelizador é aquele que sempre leva adiante o que é bom e o que é certo e o que edifica. Um seguidor não pode perder tempo em falar ou em discutir coisas que não edificam a humanidade. Qualquer cristão não pode desperdiçar o tempo com coisas fúteis, pois para ele cada minuto é o minuto da graça de Deus (Kairós).  A vida vivida apenas para satisfazer a própria vida nunca satisfaz a vida de ninguém. Não há melhor exercício para fortalecer o coração do que estender o braço para baixo e erguer pessoas esmagadas pelo peso da vida vivida. O propósito verdadeiro de nossa existência é fazer uma vida válida, bem feita e útil. Praticar e pregar o bem! Esta é a tarefa principal de qualquer cristão. Tudo o mais virá depois: “Buscai, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça, e todas outras coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6,33).

Proclamai que o reino de Deus está próximo. Muitas vezes se busca Deus demasiadamente longe. De fato ele está próximo de nós; Ele está conosco (Mt 28,20). O Deus que Jesus revela é um Deus próximo, um Deus amoroso. Por isso, jamais eu estou sozinho, inclusive quando me sinto abandonado ou solitário, nem na minha doença nem na minha morte, pois Deus está comigo. Para poder proclamar aos demais sobre a bondade, a proximidade da presença de Deus, o cristão-missionário há que ter feito a experiência do Deus próximo em si mesmo pessoalmente.

Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios”.  Jesus já tinha feito tudo isso: Ele curou os enfermos (Mt 8,5-15); purificou os leprosos (Mt 8,2-4); ressuscitou os mortos (Mt 9,23-25); expulsou os demônios (Mt 8,28-34). O cristão-missionário é aquele que distribui benefícios, aquele que faz o irmão crescer e viver a vida dignamente, aquele que leva a paz; aquele que nutre a vida dos outros; aquele que protege a vida em todas as suas instâncias. A exemplo de Cristo, o cristão é aquele que vive fazendo o bem para onde for, onde estiver e com quem estiver (cf. At 10,38). O cristão é aquele que pratica o bem nos momentos oportunos e inoportunos.

“Não leveis ouro nem prata nem dinheiro nos vossos cintos; nem sacola para o caminho, nem duas túnicas nem sandálias nem bastão, porque o operário tem direito a seu sustento”.  O ouro e a prata (os bens materiais) nunca vão ser nossos amigos. Eles são criaturas e não Criadores. É precisa procurar o Criador do ouro e não apenas o ouro.  Os bens continuam sendo alheios a nós. Eles são necessários, mas apenas como meios para facilitar nosso trabalho. O ser humano tem que gostar do ser humano e usar os bens, e não pode usar o ser humano porque gosta dos bens materiais. É preciso que o cristão esteja despojado. Despojamento é todo um empenho para dar lugar à riqueza do poder da graça de Deus. despojamento nos torna imunes contra as ciladas da prepotência. Deus só oferecerá a riqueza da Sua graça ao que saiba despojar-se de si mesmo e das coisas materiais. Despojamento é o ponto de encontro com Deus.

Na sua instrução, Jesus pede aos discípulos para que vivam despojados: não levar nem ouro, nem prata, nem sandálias, nem bastão. Estas exigências parecem estar tomadas das normas estabelecidas para participar do culto a Deus no templo: “que ninguém entre no templo com bastão, sapatos nem com a bolsa de dinheiro”. Partindo desta norma judaica se diria simplesmente que os discípulos, na realização de sua tarefa evangelizadora devem fazer a mesma coisa diante de Deus e devem viver como estando na presença de Deus, sabendo que o êxito da missão depende de Deus.

A expressão “Estar desarmados e despojados” é usada para enfatizar que a obra é de Deus e não de um ser humano. Este estilo é chamado de “pobreza evangélica” que não se apóia unicamente nos meios materiais e nas técnicas, e sim na ajuda de Deus e na força de Sua palavra. Nós devemos confiar mais na força de Deus do que em nossas qualidades ou meios técnicos. O homem que se deixa conquistar pelo despojamento, deixa de estar alienado ou agarrado a qualquer coisa. O despojamento se torna um encontro libertador consigo próprio. ”Não andes averiguando quanto tens, mas o que tu és”, dizia Santo Agostinho (Serm. 23,3).

Recebestes de graça, de graça dai!”. Além de ter uma vida despojada, o cristão deve ser generoso e viver na gratuidade. Tudo é graça de Deus. Estamos no Reino da grça. Tudo é de Deus, menos nosso pecado. Ser generoso faz parte de ser filho (filha) do Deus que criou tudo de graça. Ser egoísta é estar contra nossa natureza como filhos do Criador generoso. Além disso, o cristão-missionário deve atuar com desinteresse econômico, não buscando seu próprio proveito. Todos sabem que quanto mais se tem, mais se quer. A felicidade ficará cada vez mais distante quando o ser humano começar a criar mais necessidades. O espírito materialista é como beber a água salgada: quanto mais você beber, mais sede você terá. Aquele que sabe reduzir ao mínimo suas necessidades encontra uma alegria e uma liberdade maior. Possuído ou dominado pelas coisas o homem perde sua liberdade. “Onde só o amor serve e não a necessidade, a escravidão se torna liberdade” (Santo Agostinho. In ps. 99,8).

“Entrando numa casa, saudai-a: Paz a esta casa. Se aquela casa for digna, descerá sobre ela vossa paz; se, porém, não o for, vosso voto de paz retornará a vós”.  O cristão jamais pode ser uma pessoa agressiva verbal e fisicamente. A serenidade produz outra serenidade. Cada sorriso gera outro sorriso. O cristão deve propor a Boa Nova e não se pode impor: os homens ficam livres. A tarefa do cristão-missionário é oferecer a paz e a alegria. Dar alento. O cristão deve saber que o trabalho não é forçar de qualquer maneira, nem Jesus fez isso. A tarefa do cristão-missionário é formular a proposta clara e convincente e logo deixa para a liberdade do homem.

A missão está marcada pela constante ameaça dos anti-valores da sociedade e pela oposição dos filhos das trevas. Estes são verdadeiros lobos que sacrificam seus irmãos para obter benefícios pessoais. Os evangelizadores não podem ser ingênuos diante deles. Os cristãos devem manter sua simplicidade, mas acompanhada pela prudência para agir sabiamente e eficazmente: “Eu vos envio como ovelhas no meio de lobos. Sede, pois, prudentes como as serpentes, mas simples como as pombas”.

Em resumo: o cristão deve ser despojado, simples, pacífico, prudente e desarmado. Só com estas qualidades ele convence qualquer um para ser parceiro do bem e para ganhar novos evangelizadores. “A verdadeira felicidade não consiste em possuir o que se ama, mas em amar o que se deve possuir” (Santo Agostinho: In ps. 26,2,7).                         

P. Vitus Gustama, SVD

09/07/2025-Quartaf Da XIV Semana Comum

É PRECISO ESTAR COM O SENHOR PARA SER PARCEIRO DO BEM


Quarta-Feira Da XIV Semana Comum

Primeira Leitura: Gn 41,55-57; 42,5-7ª.17-24ª

41,55 Naqueles dias, todo o Egito começou a sentir fome, e o povo clamou ao Faraó, pedindo alimento. E ele respondeu-lhe: “Dirigi-vos a José e fazei o que ele vos disser”. 56 Quando a fome se estendeu a todo o país, José abriu os celeiros e vendeu trigo aos egípcios, porque a fome também os oprimia. 57 De todas as nações vinham ao Egito comprar alimento, pois a fome era dura em toda a terra. 42,5 Os filhos de Israel entraram na terra do Egito com outros que também iam comprar trigo, pois havia fome em Canaã. 6 José era governador na terra do Egito e, conforme a sua vontade, se vendia trigo à população. Chegando os irmãos de José, prostraram-se diante dele com o rosto em terra. 7ª Ao ver seus irmãos, José os reconheceu. 17 E mandou metê-los na prisão durante três dias. 18 E, no terceiro dia, disse-lhes: “Fazei o que já vos disse e vivereis, pois eu temo a Deus. 19 Se sois sinceros, fique um dos irmãos preso aqui no cárcere, e vós outros ide levar para vossas casas o trigo que comprastes. 20 Mas trazei-me o vosso irmão mais novo, para que eu possa provar a verdade de vossas palavras, e não morrerdes”. Eles fizeram como José lhes tinha dito. 21 E diziam uns aos outros: “Sofremos justamente estas coisas, porque pecamos contra o nosso irmão: vimos a sua angústia quando nos pedia compaixão, e não o atendemos. É por isso que nos veio esta tribulação”. 22 Rúben disse-lhes: “Não vos adverti dizendo: ‘Não pequeis contra o menino?’ E vós não me escutastes. E agora nos pedem conta do seu sangue”. 23 Ora, eles não sabiam que José os entendia, pois lhes falava por meio de intérprete. 24ª Então, José afastou-se deles e chorou.

Evangelho: Mt 10,1-7

Naquele tempo, 1 Jesus chamou os doze discípulos e deu-lhes poder de expulsar os espíritos maus e de curar todo tipo de doença e enfermidade. 2 Estes são os nomes dos doze apóstolos: primeiro, Simão chamado Pedro, e André, seu irmão; Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João; 3 Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o cobrador de impostos; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu; 4 Simão, o Zelota, e Judas Iscariotes, que foi o traidor de Jesus. 5 Jesus enviou estes Doze, com as seguintes recomendações: “Não deveis ir aonde moram os pagãos, nem entrar nas cidades dos samaritanos! 6 Ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel! 7 Em vosso caminho, anunciai: ‘O Reino dos Céus está próximo’”.

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Deus Sabe Tirar o Bem Do Nosso Mal

Dentro do ciclo do patriarca Jacó, leremos, durante vários dias a deliciosa história de José. A história de José ocupa treze capítulos do livro de Gênesis (Gn 37-50). José era um dos preferidos de Jacó. Seus irmãos, por inveja, vendem José a um comerciante de escravos que foi levado para o Egito. No Egito fica na cadeia por ter resistido às insinuações da mulher de um alto dignitário de Faraó. José interpreta os sonhos de Faraó e passa a ser seu primeiro ministro. Durante sete anos de “vacas gordas” faz reservas de trigo em vista dos sete anos de secura que havia previsto.

Esta história quer já nos demonstrar que Deus se serve dos acontecimentos aparentemente desfavoráveis para levar a cabo seus projetos. Tudo parecia estar contra José, mas com Deus tudo girará em seu proveito. Mais uma vez temos que confessar que Deus continua escrevendo reto nas linhas distorcidas. Deus é capaz de tirar bens de nossos males. Com Deus nem tudo é negativo e nem tudo fica sem saída. É preciso confiar em Deus apesar das impossibilidades da vida. José é definido como pessoa que teme a Deus.

A notícia da fome geral e da afluência dos povos para o Egito a fim de adquirir trigo representa uma mudança de cena importante no desenrolar da história de José. Até agora todo o interesse se centra em José e seu êxito. A partir de agora, a nova situação faz entrar a perspectiva das relações de José com seus irmãos, que impulsionados também pela necessidade iniludível de subsistir, vão para o Egito, conhecido como lugar de refúgio dos palestinos famintos (cf. Gn 12,10-20; Gn 26,2). José reconheceu seus irmãos e comprovou o cumprimento do antigo sonho que lhe assegurava sua superioridade sobre eles.

 

Mas a entrevista não foi nada cordial. A acusação de espionagem encaixa bem nas circunstancias do momento no Egito e faz referência a tempos passados quando o Egito teve que suportar as invasões dos povos estrangeiros. Contra esta grave acusação e insistente suspeito, os irmãos de José intentam defender-se informando-lhe sobre seu lugar de procedência e os detalhes de sua situação familiar. Os irmãos interpretam tudo como penalidades e expiação pelo fato de ter vendido seu irmão José que supõem que ele tenha sido morto. Estes comentários, feitos na presença de José, provocam em José uma grande comoção a ponto de ele sair do lugar para chorar sozinho.

A decisão inicial de José foi encarcerar todos os irmãos, exceto um que seria o encarregado para buscar Benjamin, o caçula da família, para confirmar que as palavras de seus irmãos eram sinceras. Mas no terceiro dia, mudou de parecer: ficaria um como refém até que voltassem os outros com Benjamin. O refém seria Simeão.

A vida está cheia de surpresas. Aquele que é vendido e desprezado pela inveja, Deus o converte tudo em bem. “Senhor desfaz os planos das nações e os projetos que os povos se propõem. Mas os desígnios do Senhor são para sempre, e os pensamentos que ele traz no coração, de geração em geração, vão perdurar”. O Senhor pousa o olhar sobre os que o temem, e que confiam esperando em seu amor, para da morte libertar as suas vidas e alimentá-los quando é tempo de penúria”, diz o Salmo de Responsorial de hoje (Sl 32).

Esta história é um convite a crermos na providência de Deus, que como tantas vezes nos surpreende sempre, quase que diariamente. Quantas vezes na história de cada um, acontecimentos que pareciam catastróficos nos servem para indicar os caminhos de Deus e purificar de nossas ambições desenfreadas e de nossas invejas. Um fracasso, quando olhamos a partir da providência divina, pode se transformar em um bem para nós. Como para Jesus cuja morte parecia o fracasso total de todos os seus planos salvadores, mas foi precisamente o fato decisivo da redenção da humanidade. Deus sempre sabe tirar bem do mal. Paradoxalmente podemos dizer que o fracasso é sucesso se aprendermos com ele. “O sucesso é ir de fracasso em fracasso sem perder entusiasmo” (Wiston Churchil). Em cada fracasso que sofremos sempre há nova oportunidade, pois “o fracasso é a oportunidade de começar de novo com mais inteligência e redobrada vontade” (Henry Ford). Jamais podemos deixar de aprender até a morte inclusive de nossos fracassos, pois “cada fracasso ensina ao homem que tem algo a aprender” (Charles Dickens).

Somos Chamados a Levar Adiante a Missão Salvadora De Jesus

Terminada a série de milagres narrados depois do Sermão da Montanha, entramos agora no segundo dos cinco grandes discursos de Jesus no evangelho de Mateus chamado o Discurso missionário que abrange Mt 9,36-11,1.

Há cinco grande discurso de Jesus no evangelho de Mateus:

·      Mt 5,1-7,28: Sermão da Montanha;

·      Mt 9,36-11,1: Discurso missionário;

·      Mt 13,1-52: Discurso sobre o Reino em parábolas;

·      Mt 18,1-35: Discurso sobre a vida comunitária/Igreja;

·      Mt 24,1-25,46: Discurso sobre o Julgamento final/ a Vinda do Filho do Homem).

Notemos que a missão em Mt não se limita apenas aos doze, mas para todos aqueles que queriam seguir a Jesus. Por isso, neste discurso sobre a missão não se fala nem da partida dos doze (Mc 6,12-13; Lc 9,6) nem do seu regresso (Mc 6,30;Lc 9,10). O discurso sobre a missão não é endereçado para a multidão e sim para os discípulos que serão enviados. Podemos dizer que este discurso serve como um tipo de “manual” para os seguidores de Jesus na tarefa de exercer a missão neste mundo. Todos os batizados são missionários. Cada batizado é discípulo-missionário.

Além disso, precisamos estar conscientes de que Jesus não buscou primeiro reunir pessoas ilustres e sim pessoas disponíveis, capazes de segui-Lo até o fim. São aqueles que darão sua vida por Ele. Judas Iscariotes faz parte de seu grupo. Ele também foi enviado para a missão, para uma grande missão. Jesus tomou esse risco ao confiar a responsabilidade de sua obra para pobres humanos. Por isso, há que rezar sempre por aqueles que têm responsabilidade na Igreja. Cada um de nós também tem uma missão, cada um é responsável, em uma parte da obra de salvação de Jesus.                

Também Jesus é muito consciente da amplitude de sua obra. É necessário ter muito tempo. Sem pressa Jesus limita a missão no momento só dentro do território de Israel. Ele mesmo, durante sua vida terrena, se limitou ao que podia fazer: dirigir-se às ovelhas agarradas da casa de Israel. Mais tarde ele enviaria os discípulos pelo mundo inteiro (Mt 28,18-20). Em outras palavras, é preciso arrumar primeiro a casa. É preciso evangelizar os que estão dentro de casa para depois evangelizar os que estão fora dela que nem sempre é fácil. É o desafio de cada missionário-evangelizador. 

O papel essencial dos escolhidos é expulsar os “espíritos imundos” e “curar os homens” de seus males. Em outras palavras são enviados para fazer o bem e destruir o mal. São chamados e enviados para ser parceiros do bem e enviados em busca de outros parceiros do bem. Ao fazer o bem, o mal não tem vez nem voz. Que os bons não fiquem em silêncio e que não se escondam em silêncio.

Os Doze são enviados com algumas instruções básicas. A primeira instrução de Jesus é “Não tomeis o caminho dos gentios, nem entreis em cidade de samaritanos” (v.5). Podemos ter duas interpretações deste versículo. Primeiro, ele reflete uma tensão viva na comunidade de Mt onde certos grupos de origem judia não compreendiam nem aceitavam a missão aos pagãos. Segundo, na cultura de Jesus, a palavra “estrada/caminho” significa caminho ou modo de viver. Jesus pode ter querido dizer que não sigam o modo de viver dos pagãos que são idólatras.        

A segunda instrução, “Ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel” (v.6). Em Mt encontramos duas etapas da missão. Na primeira etapa (Mt 10), a missão de Jesus e de seus discípulos é limitada para as “ovelhas perdidas de Israel”. Aqui não se fala da seleção entre os melhores, mas trata-se de gente necessitada. Foi para as pessoas necessitadas de Israel que foram enviados os Doze. Na segunda etapa (Mt 28,19), o mandato missionário será para espalhar a Boa Nova a todos os povos.          

Estas duas etapas da missão nos trazem uma lição muito importante para nossa comunidade: somos chamados a cuidar tanto dos de dentro da comunidade (missão ad intra), como dos de fora (missão ad extra). A Igreja ou comunidade sem caridade interna, não tem força para dar testemunho crível para os de fora da comunidade. O testemunho interno de comunhão é o primeiro passo para um anúncio mais eloquente. Mas o cuidado com os de dentro não pode ser uma desculpa para ignorar os de fora. Ou, o cuidado com os de fora não justifica a falta de tempo ou atenção para com os de dentro. Temos, muitas vezes, mais facilidade de sorrir para os de fora do que para os de dentro. “É mais fácil simular virtudes que possuí-las. Por isso, o mundo está cheio de farsantes” (Santo Agostinho). 

Pela profissão de cada escolhido percebemos que Jesus não buscou primeiro reunir pessoas ilustres e sim pessoas disponíveis, capazes de segui-Lo até o fim. São aqueles que darão sua vida por Ele (pelo Reino de Deus e sua justiça). Ouvimos muitas vezes a seguinte frase: Deus não escolhe os capacitados, mas Ele capacita os escolhidos. A vocação divina é sempre um mistério no sentido de que não temos capacidade para entender tudo, pois está fora de nosso alcance humano.

Jesus é um grande organizador de comunidades de homens e mulheres.  Havia muitas pessoas inquietas, mas necessitavam de um fator de coesão, de um líder que os vinculava e os ajudava a crescerem como pessoas. Esta faceta de organizador e de promotor de organizações comunitárias está condensada nos relatos de eleição dos doze missionários ou apóstolos para continuar a missão. E aqui está condensado um dos seus ensinamentos fundamentais: a comunidade cristã (pastorais, movimentos, grupos eclesiais ect.) existe para evangelizar. Não há outro motivo maior do que este. A comunidade cristã existe porque há um “povo cansado e abatido” diante do qual cada membro da comunidade cristã é chamado a ser solidário capaz de aliviar a dor alheia e de dar resposta a partir de sua própria insignificância e debilidade. Cada um de nós, apesar das fraquezas, tem algo de bom para ser partilhado para os outros. Se cada um tirar um pouco de bom de dentro de seu coração o cristianismo vai fazer diferença na sociedade.

Segundo o texto do evangelho deste dia, o papel essencial dos escolhidos é expulsar os “espíritos imundos” e “curar os homens” de seus males. Em outras palavras são enviados para fazer o bem e destruir o mal. São chamados para ser parceiros do bem e enviados em busca de outros parceiros do bem. 

Ao enviá-los Jesus dá-lhes o poder. Mas este poder deve ser entendido como um dom de autoridade. A palavra autoridade provem do latim augere que significa crescer. Somente tem autoridade aquele que é capaz de fazer o outro crescer. A autoridade dada por Jesus tem as seguintes características:

1.    Está orientado por inteiro ao ministério apostólico, ou para o serviço (do bem) e não para dominar ou mandar e desmandar: expulsar o mal, fazer o bem, pregar o Reino. É um dom completamente missionário. Por isso, não se trata de nenhum poder de direção ou de governo.

2.    É uma autoridade conferida, mas não abandonada por Jesus a seus discípulos. É Jesus quem dá o poder. Esse poder pertence a Jesus. Consequentemente, não pode abusar desse poder para o próprio interesse. É para o bem de todos.

3.    Jesus reconhece que haverá oposição por causa do jogo de interesses mesquinhos. A presença do justo é uma censura viva para o desonesto e corrupto.                 

Nem todos são sucessores dos apóstolos, mas todos são seguidores de Jesus e por isso, devem continuar, cada um em seu ambiente, a missão que cada um recebeu no batismo. Todos nós formamos a Igreja “apostólica” e “missionária”. Por isso, não vamos à missa para ir à missa. Que a missa é, de uma parte, a expressão de nossa fé, de nossa esperança e de nossa caridade. Mas de outra parte, a missa é sempre um imperativo, uma exigência para fazer operativa nossa fé, nossa esperança e nossa caridade. Por isso, quando finaliza a missa, começa a realidade na vida; quando termina a celebração eucarística ou qualquer reunião eclesial, deve começar nosso compromisso cristão; quando termina a missa, deve começar a missão. Se não a missa careceria de sentido.                 

Somos chamados por Jesus Cristo para estar com ele a fim de aprendermos a ser parceiros do bem. Somos enviados depois do encontro com ele para fazer o bem e em busca dos novos parceiros do bem. A alma da missão é caridade. A única coisa que nos faz bem é fazer o bem. A vida não é uma luta para superar os outros, mas uma missão a ser exercida para dar o melhor de nós para a humanidade conforme os talentos recebidos de Deus. Estamos aqui neste mundo com um objetivo único, com um objetivo nobre que nos permitirá manifestar nosso mais alto potencial enquanto, ao mesmo tempo, acrescentamos valor às vidas das pessoas que estão a nossa volta. Descobrir a própria missão significa trazer mais de você mesmo para o trabalho, para a convivência e concentrar-se nas coisas que você sabe fazer melhor e dar sempre o melhor de você para os outros sem esperar nada em troca. 

O que você faz e pode fazer pelo Senhor e pela sua Igreja? “Faze o que podes. Deus não te pede mais” (Santo Agostinho. Serm. 128,10,12). Deus não condena quem não pode fazer o que quer, e sim quem não quer fazer o que pode (Santo Agostinho. Serm. 54,2).

P.Vitus Gustama, SVD

08/07/2025-Terçaf Da XIV Semana Comum

APOIAR-SE SEMPRE NO DEUS FORTE VIVENDO CONFORME SUA PALAVRA

Terça-Feira da XIV Semana Comum

Primeira Leitura: Gn 32,23-33

Naqueles dias, 23 Jacó levantou-se ainda de noite, tomou suas duas mulheres, as duas escravas e os onze filhos e passou o vau do Jaboc. 24 Depois de tê-los ajudado a passar a lutar com ele até o raiar da aurora. 26 Vendo que não podia vencê-lo, este tocou-lhe o nervo da coxa e logo o tendão da coxa de Jacó se deslocou, enquanto lutava com ele. 27 O homem disse a Jacó: “Larga-me, pois já surge a aurora”. Mas Jacó respondeu: “Não te largarei, se não me abençoares”. 28 O homem perguntou-lhe: “Qual é o teu nome?” Respondeu: “Jacó”. 29 Ele lhe disse: “De modo algum te chamarás Jacó, mas Israel; porque lutaste com Deus e com os homens, e venceste”. 30 Perguntou-lhe Jacó: “Dize-me, por favor, o teu nome”. Ele respondeu: “Por que perguntas-me o meu nome?” E ali mesmo o abençoou. 31 Jacó deu a esse lugar o nome de Fanuel, dizendo: “Vi Deus face a face e tive poupada a minha vida”. 32 Surgiu o sol quando ele atravessava Fanuel; e ia mancando por causa da coxa. 33 Por isso os filhos de Israel não comem até hoje o nervo da articulação da coxa, pois Jacó foi ferido nesse nervo.

Evangelho: Mt 9,32-38

Naquele tempo, 32 apresentaram a Jesus um homem mudo, que estava possuído pelo demônio. 33 Quando o demônio foi expulso, o mudo começou a falar. As multidões ficaram admiradas e diziam: “Nunca se viu coisa igual em Israel”. 34 Os fariseus, porém, diziam: “É pelo chefe dos demônios que ele expulsa os demônios”. 35 Jesus percorria todas as cidades e povoados, ensinando em suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino, e curando todo o tipo de doença e enfermidade. 36 Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor. Então disse a seus discípulos: 37 “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. 38 Pedi pois ao dono da messe que envie trabalhadores para a sua colheita!”

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É Preciso Apoiar-se Em Deus Nas Nossas Lutas Diárias, Pois Ele é o Deus Forte

De modo algum te chamarás Jacó, mas Israel; porque lutaste com Deus e com os homens, e venceste”.

No dia anterior lemos um episódio misterioso na vida de Jacó em que Jacó, no sonho, via os anjos descende e subindo (cf. Gn 28,10-22). É um episódio que aconteceu durante a fuga de Jacó por medo de seu irmão, Esaú, de quem roubou a bênção da primogenitura. Hoje a Primeira Leitura nos apresenta mais um episódio desta natureza em que Jacó luta contra uma pessoa que parece homem, mas que não se sabe, pelo relato, se é um espirito, um anjo ou o próprio Deus. Desta vez o episódio acontece na sua viagem de volta para Canaã onde mora seu irmão, Esaú de quem ele tem muito medo.

Jacó passou bastante anos, mais ou menos uns vinte anos, em Mesopotâmia, onde se refugia. Agora volta para sua terra de origem, Canaã, com suas duas mulheres (Lia e Raquel) e seus onze filhos com muito medo de Esaú, seu irmão.

Nesta circunstância é que sucede a misteriosa luta com o desconhecido, que aconteceu durante a noite. Segundo a crença popular, os espíritos tinham seu campo de atuação durante a noite e ao amanhecer eles despareciam. Nessa luta Jacó saiu vitorioso apesar de ficar coxo, para dizer que Jacó não fugirá mais. Jacó reconhece no homem que lhe feriu durante a luta como um ser sobrenatural e lhe pede sua bênção. Jacó sabe que ele já tem a bênção dada pelo sai pai Isaac, mas que não a merece.

Esta bênção lhe será outorgada, mas antes, seu nome será mudado de “Jacó” (suplantador, trambiqueiro) para “Israel” porque “luta com Deus e com os homens e vence” (Gn 32,29). O nome “Israel” vai ser símbolo das vitórias futuras de Jacó, mas sem artimanhas. Até agora a vida de Jacó foi uma luta contra todos: contra os homens e contra Deus.  Mas daqui em diante Jacó jamais poderá suplantar ninguém (Jacó), jamais passará à frente de ninguém (significado de ficar coxo), pois ele vai contar sempre com seu Deus. A partir de agora tudo muda: a escuridão (lutar à noite) é luz (vitória), a noite é dia, o medo é confiança, a covardia é decisão. Jacó transformou-se em Israel. Novo nome e nova maneira de viver. O autor sagrado joga com o sentido do verbo “sarah” (ser forte, prevalecer ou também lutar). Neste suposto, “Israel” teria que traduzi-lo por “Deus (Elohim) é forte, vence ou luta”. Mas o autor sagrado joga com a interpretação popular: “Ser forte com Elohim (Deus), luta com Ele”. No contexto, a ideia de nome novo está relacionada à ideia de vitória no futuro das quais as lutas anteriores (com Deus e com os homens, com Labão e Esaú) são uma garantia.

A Primeira Leitura quer nos dizer que nossos encontros com Deus são misteriosos. Jamais podemos saber que tipo de encontros que vamos ter com Deus nos momentos seguintes de nossa vida. Às vezes nossos encontros com Deus são pacíficos, como o encontro de Jacó com os anjos de Deus que descem e sobem. Outros encontros são mais turbulentos, como a luta noturna de Jacó com o desconhecido, mas que sempre terminam com a bênção, pois com Deus vencemos, pois Ele é forte; Ele é Israel. Neste Deus forte é que temos que nos apoiar e em Quem devemos confiar apesar das noites escuras de nossa vida, pois o amanhecer de Deus pronto para aparecer. É apenas questão de tempo. Haja paciência de nossa parte para esperar o amanhecer de Deus ou o sol de Deus com que ilumina nossas noites de vida.

Além disso, Jacó decidiu voltar para sua terra natal apesar de seu medo do irmão, Esaú pronto para querer mata-lo. Muitas vezes sofremos, cedo ou tarde, como consequências de nossas falhas e armadilhas que usamos contra os outros. Mas temos que lutar contra tudo isso. Temos que adotar para nós mesmos “nome novo” para mudar nossa maneira de viver e de conviver com os outros, como Jacó que se transformou em Israel. Seguir a Jesus supõe renúncias e valentia ou luta. O próprio Jesus nos disse: “O Reino dos céus é arrebatado à força e são os violentos (lutadores) que o conquistam” (Mt 11,12). O próprio Jesus teve luta e venceu no grande combate da redenção da humanidade. Agora, como seguidores do Senhor Jesus, somos partícipes dessa vitória, dando-nos forças na nossas lutas de cada dia. As provas da vida nos transformam em pessoas maduras que nos fazem passar de “suplantadores” (Jacó) para pessoas “fortes com a força de Deus” (Israel).

Mas "não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal (espalhadas) nos ares" (Ef 6,12). Na Eucaristia temos o melhor alimento e a força mais eficaz para nossas lutas de cada dia.

Viver De Acordo Com A Palavra de Deus

1. Palavra Na Nossa Vida Cotidiana

A primeira parte do evangelho de hoje fala da cura de um mudo que logo em seguida ele começou a falar.

Deus criou o homem dotado de fala. A palavra é um dos grandes meios de comunicar-se com os irmãos. A palavra é um dos meios que nos vincula aos outros. A palavra pontua nossa vida cotidiana. A palavra é também algo que nos liga a nós mesmos. Quantas vezes, ao acordar de manhã ou em determinadas situações na nossa vida cotidiana, nós falamos a nós mesmos, pelo menos mentalmente. A palavra nos acompanha quase o tempo todo, até mesmo, paradoxalmente, o silêncio, que se tornou tão raro no mundo moderno, tem significado por causa dela. Há profissões que usam menos palavra. Mas há também profissões que trabalham com palavra e dependem da palavra para transmitir sua mensagem ou seu ponto de vista sobre algo na vida ou na sociedade. A palavra está no âmago de nossa vida pessoal, familiar, social e profissional. Já imaginou se você pudesse contar quantas palavras ditas diariamente por você? Creio que você mesmo ficaria assustado ou admirado por tantas palavras ditas em vão, ao mesmo tempo por tantas palavras que saíram de sua boca que ajudaram tantas pessoas por terem sido boas! Milhares e milhares de pessoas mudaram de qualidade de vida por causa da palavra ouvida de outras pessoas ou lida em um bom livro. Cada palavra representa uma realidade ou um mundo contido nela. Você já pensou quantos mundos contidos numa frase que pronunciamos ou escrevemos? Mas será que cada frase pronunciada ou escrita representa mesmo a realidade ou inventamos frases e frases para enganar os outros? Será que em cada frase contém a verdade? Será que levamos em conta a caridade e a fraternidade ao soltar/pronunciar ou ao escrever alguma frase?

2. Cada Batizado Deve Ser Prolongamento da Palavra de Deus Encarnada

Deus quer que o homem se comunique. Se alguém não se comunicar, se está sempre quieto ou mudo, é sinal de que alguma coisa está errada nele fisicamente, ou psiquicamente ou espiritualmente. A fala é dom de Deus, tanto que São João, no Prólogo de seu evangelho dá um título muito significativo a Jesus: Palavra ou Verbo (Jo 1,1-14). Jesus é a Palavra de Deus para nós; é a comunicação de Deus para nós. Através de Jesus é que Deus fala conosco: “O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14).  O próprio Pedro, no seu discurso no livro dos Atos dos Apóstolos, nos disse: “Deus enviou a sua palavra aos filhos de Israel, anunciando-lhes a boa nova da paz, por meio de Jesus Cristo. Este é o Senhor de todos” (At 10,36). Como é que opera a Palavra de Deus na vida do homem? O autor da Carta aos Hebreus responde: “A palavra de Deus é viva, eficaz, mais penetrante do que uma espada de dois gumes e atinge até a divisão da alma e do corpo, das juntas e medulas, e discerne os pensamentos e intenções do coração. Nenhuma criatura lhe é invisível. Tudo é nu e descoberto aos olhos daquele a quem havemos de prestar contas” (Hb 4,12-13).  Mas nem a boca santa de Jesus que emite a Palavra de Deus terá qualquer efeito na nossa vida, se nós estivermos surdos a ela.

É bom notar que seremos também julgados pelas palavras que dizemos ou pronunciamos sobre os outros, além dos atos que praticamos. O livro de Provérbio nos alerta: “Nas muitas palavras não falta ofensas; quem retém os lábios é prudente” (Pr 10,19). “A boca dos justos é fonte de vida, mas a boca dos ímpios encobre violência” (Pr 10,11). Da mesma forma são Tiago nos diz: “Aquele que não peca no falar é realmente um homem perfeito, capaz de frear todo o seu corpo” (Tg 3,2b). Que nossas palavras não ultrapassem nossos atos para não sermos chamados de mentirosos ou falsos. Por isso, São Tiago nos alerta: “Tornai-vos praticantes da Palavra (de Deus) e não simples ouvintes, enganando-vos a vós mesmos” (Tg 1,22).

A cura do mudo no texto do evangelho de hoje se refere àquele que não quer escutar a voz de Deus, que não quer seguir Seu projeto porque há outras coisas que o ensurdecem. Biblicamente o surdo-mudo (o termo grego “kôphos” significa surdo, mudo e surdo-mudo) é aquele que perde o contato com sua própria realidade de filho de Deus. Ele vive paralisado porque está privado da comunicação com o único que o faz livre: Deus (através de Sua Palavra).

A Igreja, isto é, todo batizado, é responsável pelo Evangelho de Jesus no mundo (cf. Mt 28,18-20). O anúncio da Palavra de Deus define sua missão no mundo. Todos os batizados hão de realizar sua vida na fidelidade à Palavra de Deus. Todos os batizados devem construir a casa de sua vida sobre a Palavra de Deus para que ela seja firme como construir uma casa sobre a rocha (cf. Mt 7,24-25). Cada batizado deve ser pessoa da palavra de Deus, isto é, sua palavra deve ser palavra que edifica e leva os outros para Deus. Cada batizado deve ser encarnação da Palavra de Deus.

3. Até Para Fazer o Bem Encontramos Dificuldades

Jesus veio ao mundo unicamente para fazer o bem, como pregou o Apóstolo Pedro: “Vós sabeis como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com o poder, como ele andou fazendo o bem e curando todos os oprimidos do demônio, porque Deus estava com ele” (At 10,38). Mas sabemos muito bem que até para fazer o bem encontramos dificuldades e críticas como aconteceu com Jesus no texto do evangelho de hoje. Jesus libertou um surdo de sua mudez e começou a falar. Jesus foi criticado por causa disso: “Os fariseus, porém, diziam: É pelo príncipe dos demônios que ele expulsa os demônios” (Mt 9,34). Mas “a acusação teológica (dos fariseus) não é mais que um pretexto que apenas dissimula sua sede de autoridade sobre o povo”, comentou P. Bonnard. Atrás de uma acusação ou crítica há interesse. Mas a questão é esta: que tipo de interesse?

4. Ser Compassivo Como Cristo

A segunda parte do texto do evangelho de hoje (Mt 9,35-38), na verdade, é uma introdução para o discurso de Jesus sobre a missão (Mt 9,35-10,16).

Esta segunda parte fala da compaixão de Jesus pela multidão: “Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas...”. Jesus sempre se compadece pelos que sofrem como o mudo no evangelho de hoje. A compaixão é uma das características de Deus.

Uma verdadeira compaixão não olha o necessitado de cima para baixo (sentimento de superioridade), mas é capaz de padecer-com, sentir-com para daí atuar. Cada compaixão sempre tem a ver com o deixar aproximar-se, prestar atenção, sentar-se à mesma mesa, chamar pelo nome, perceber a necessidade, oferecer a ajuda. A compaixão é comover-se até as entranhas, solidarizar-se profundamente, sentir-se a partir de outrem; é sofrer com (Latim: pati + cum, compaixão = sofrer com). A compaixão requer que estejamos com as pessoas que sofrem e dispostos a partilhar nosso tempo com elas. É estar no lugar do outro para sentirmos o que ele sente e ajudar no que puder dentro do limite da capacidade. Por isso, pode-se dizer que a verdadeira compaixão é muito humana e divina simultaneamente. Quando compartilhamos nosso coração e tempo com uma pessoa que sofre, uma parte do sofrimento dela será aliviada. Vamos deixar o resto com Deus desde que façamos nossa parte até o limite de nossa capacidade. Somos seguidores do Deus da Compaixão que se tornou carne em Jesus Cristo. A compaixão deve se tornar carne também em nós.

P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 4 de julho de 2025

07/07/2025-Segundaf Da XIV Semana Comum, Ano Ímpar

JESUS É FIEL E MISERICORDIOSO

Segunda-Feira da XIV Semana Comum

Primeira Leitura: Gn 28,10-22ª

Naqueles dias, 10 Jacó saiu de Bersabeia e dirigiu-se a Harã. 11 Chegando a certo lugar, quis passar ali a noite, pois o sol já se havia posto. Tomou uma das pedras do lugar, fez dela travesseiro e ali mesmo adormeceu. 12 E viu em sonho uma escada apoiada no chão, com a outra ponta tocando o céu e os anjos de Deus subindo e descendo por ela. 13 No alto da escada estava o Senhor que lhe dizia: “Eu sou o Senhor, Deus de Abraão, teu pai, e Deus de Isaac; darei a ti e à tua descendência a terra em que dormes. 14 A tua descendência será como o pó da terra, e te expandirás para o ocidente e o oriente, para o norte e para o sul. Em ti e em tua descendência serão abençoadas todas as nações da terra. 15 Estou contigo e te guardarei onde quer que vás, e te reconduzirei a esta terra. Nunca te abandonarei até cumprir o que te prometi”. 16 Ao despertar, Jacó disse: “Sem dúvida, o Senhor está neste lugar e eu não sabia”. 17Cheio de pavor, disse: “Como é terrível este lugar! Isto aqui só pode ser a casa de Deus e a porta do céu”. 18 Jacó levantou-se bem cedo, tomou a pedra de que tinha feito travesseiro e a pôs de pé para servir de coluna sagrada, derramando óleo sobre ela. 19 E deu ao lugar o nome de “Betel”. Antes, porém, a cidade chamava-se Luza. 20Jacó fez um voto, dizendo: “Se Deus estiver comigo e me proteger nesta viagem, dando-me pão para comer e roupa para vestir, 21 e se eu voltar são e salvo para a casa de meu pai, então o Senhor será o meu Deus. 22ª E esta pedra que ergui como coluna sagrada, será uma ‘morada de Deus’”.

Evangelho: Mt 9, 18-26

18 Enquanto Jesus estava falando, um chefe aproximou-se, inclinou-se profundamente diante dele, e disse: “Minha filha acaba de morrer. Mas vem, impõe tua mão sobre ela e ela viverá”. 19 Jesus levantou-se e o seguiu, junto com os seus discípulos. 20 Nisto, uma mulher que sofria de hemorragia há doze anos veio por trás dele e tocou a barra do seu manto. 21 Ela pensava consigo: “Se eu conseguir ao menos tocar no manto dele, ficarei curada”. 22 Jesus voltou-se e, ao vê-la, disse: “Coragem, filha! A tua fé te salvou”. E a mulher ficou curada a partir daquele instante. 23 Chegando à casa do chefe, Jesus viu os tocadores de flauta e a multidão alvoroçada, 24 e disse: “Retirai-vos, porque a menina não morreu, mas está dormindo”. E começaram a caçoar dele. 25 Quando a multidão foi afastada, Jesus entrou, tomou a menina pela mão, e ela se levantou. 26 Essa notícia espalhou-se por toda aquela região.

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O Deus Do Universo Deus Se Encontra Em Qualquer Lugar

Jacó “viu em sonho uma escada apoiada no chão, com a outra ponta tocando o céu e os anjos de Deus subindo e descendo por ela. ´Sem dúvida, o Senhor está neste lugar e eu não sabia’”.

Jacó roubou o direito da primogenitura do seu irmão, Esaú (Cf. Gn 27, 1-40). Por isso, Esaú quer matar seu irmão, Jacó (Cf. Gn 27,41-45). Por medo de Esaú, Jacó fugiu de casa. Ao chegar num lugar ele dormiu. Jacó ignorou a sacralidade do lugar onde ele dormiu. Mas nesse lugar ele teve uma visão de Deus, como contou a Primeira Leitura de hoje (Gn 28,10-22).

A cena é bela. Jacó si de seu país; chega a qualquer lugar desconhecido, toma uma pedra que serve de almofada e ali dorme. Jacó descobre que seu Deus é um Deus universal, presente em todo lugar. Em todo lugar da terra há “comunicação” entre o homem e Deus: este é o significado da escada simbólica pela qual sobem e descem os anjos: “Viu em sonho uma escada apoiada no chão, com a outra ponta tocando o céu e os anjos de Deus subindo e descendo por ela”.  O grande projeto de Deus é estabelecer entre Deus e os homens umas relações pessoais.

Jacó, como a maioria de seus contemporâneos, pensava que Deus era o “Deus” de um lugar, unido à Terra Prometida. Logo, ao viajar fora do “seu” território, perdia-se sua presença e sua proteção. E ocorria frequentemente que se rendia culto ao “deus local”, para receber seus favores.

Como é terrível este lugar! Isto aqui só pode ser a casa de Deus e a porta do céu”, disse Jacó depois que acordou do seu sonho.

O lugar onde Jacó se encontrava é o lugar comum. Não era um santuário nem um espaço sagrado no sentido habitual da palavra. Era um rincão do deserto. Porém, “Sem dúvida, o Senhor está neste lugar e eu não sabia”, disse Jacó.

No fundo, não há espaço profano. Em todo lugar há uma Presença Divina, mesmo que as pessoa ignorem esta Presença. A cozinha onde se prepara a comida para a família, o local onde eu trabalho, a fábrica onde eu ganho meu pão de cada dia, o campo onde trabalho e semeio, a piscina onde tomo meu banho, a cama onde eu descanso, o hospital onde eu me encontro doente, a escola onde eu estudo para preparar o meu futuro e assim por diante, são lugares onde Deus está.  “Deus está no palpitar intato de cada novo ser.... Está no conjunto de sentimentos que vibram em todo o ser da mulher que acaba de ser mãe...Deus está ali, naquele cantinho mais secreto da tua vida, aonde ninguém chega, em que uma voz que não sabes donde vem, nem para onde vai, te diz o que não querias ouvir, te recorda o que desejarias ter esquecido, te profetiza o que nunca desejarias saber. Nessa voz que não ouves, mas que te desaprova. Nessa voz que não é tua, mas que nasce em ti e que nem o sono, nem o barulho, nem a bebida, nem a carne conseguem fazer calar...Está nesse abismo profundo da tua incredulidade...Está na paz do lago sereno das tuas lágrimas quando te reconcilias com a tua consciência e que te dá a sensação de renasceres...Deus está nessa força misteriosa que nos mantém vivos, que nos impede de enlouquecer, que nos evita o suicídio depois de certas provas dramáticas da vida, depois de certos desgostos mais cruéis e trágicos do que a morte...Deus está sobretudo onde reina o amor” (Juan Arias: O Deus Em Quem Não Creio).

A cena de hoje, com a escada misteriosa que une céu e terra, pela qual sobem e descem os anjos e que conduz até Deus, parece que tem uma primeira intenção: justificar a origem do santuário de Betel, no reino de Norte. Jacó ergueu um altar para Deus e chama àquele lugar “Casa de Deus”, que é o significado da palavra “Betel”. Todos os lugares sagrados das diversas culturas se erguem a partir de alguma aparição sobrenatural ou de um fato religioso significativo mais ou menos histórico. No fundo, os povos mostram sua convicção da proximidade de Deus e de Sua proteção contínua ao longo da história: “Estou contigo e te guardarei onde quer que vás, e te reconduzirei a esta terra. Nunca te abandonarei até cumprir o que te prometi”, prometeu Deus a Jacó.

Mas, sobretudo, esta cena quer legitimar, de alguma maneira, a linha da promessa de Deus que começou por Abraão e Isaac, e que deveria seguir através de Esaú, mas que agora passa por Jacó ainda que por meio de intrigas, armadilhas e mentiras. As palavras de Deus a Jacó são quase idênticas às que escutara Abraão: “Eu sou o Senhor, Deus... todas as nações se chamarão benditas por causa de tu e de tua descredencia. Eu estou contigo”. Desde agora, Deus (Javé) será para os judeus “o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó”.

E este Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó continua escrevendo reto nas linhas torcidas, pois os caminhos de Deus continuam sendo misteriosos. Deus atua com liberdade absoluta na hora de escolher seus colaboradores na história da salvação. Inclusive, das debilidades e das falhas humanas Deus tira proveito para levar adiante a salvação da humanidade. Muitas dessas pessoas, como Jacó, se mostram disponíveis a este projeto de Deus e aceitam ser seu instrumento de salvação. Você não tem desculpa sobre suas fraquezas e limitações. Deus precisa de você!

Jesus É o Deus-Conosco Que Salva

1. Um Chefe Que Suplica a Jesus Pela Filha Morta: Jesus É a Ressurreição e a Vida

Os dois episódios no evangelho de hoje (uma menina morta que voltou a viver e uma mulher curada de sua hemorragia) se encontram também em Marcos (Mc 5,21-43) e em Lucas (Lc 8,40-56).

Em Mateus, no primeiro episódio, aquele que se aproxima de Jesus que suplica pela filha morta não tem nome. Simplesmente ele é “um chefe”. Não se diz que é um chefe da sinagoga como em Marcos e Lucas nos quais se fala de Jairo. Este chefe que manifesta sua fé em Jesus nos leva ao episódio do centurião que pediu a cura para seu empregado (Mt 8,5-13). Mas o caso do chefe é grave, pois trata-se da filha morta.

Neste primeiro episódio do evangelho deste dia Jesus se encontra, então, diante da morte de uma menina e o pai desta pede a Jesus para impor sua mão sobre ela a fim de ela voltar a viver: “Minha filha acaba de morrer. Mas vem, impõe tua mão sobre ela e ela viverá”. Trata-se de um pobre chefe esmagado pela dor: a morte de sua filha. Há situações diante das quais a força humana (chefe) fica impotente, como diante da morte. Nessas situações só a fé é que pode nos ajudar, como fez o pai da menina falecida. É algo surpreendente a confiança posta por esse homem em Jesus. É uma verdadeira fé no impossível: fé no poder de Jesus de fazer sua filha voltar a viver. Lá onde a força humana terminar, a fé a continuará. Jesus não se resiste a este tipo de oração. “Jesus se levantou e o seguiu junto com seus discípulos”, assim relatou Mateus.

Quando chegou à casa da menina morta, Jesus disse à multidão: “Retirai-vos porque a menina não morreu e sim está dormindo”.  Jesus quer dizer que para ele e para o poder de Deus a morte não significa mais que um sono ligeiro. Morrer é descansar em paz nos braços do Pai celeste. Da mesma maneira Jesus também falou de Lázaro morto: “Nosso amigo Lázaro está dormindo e vou despertá-lo” (Jo 11,11). A morte para Deus não é um poder insuperável. As coisas têm um aspecto muito distinto diante do olhar de Deus e diante da experiência do homem. Mas se aprendermos a olhar tudo a partir de Deus, então a morte perderá seu caráter arrepiante. Para Jesus, a morte não tem o caráter temível e definitivo. Para ele, a morte é uma espécie de “sono” do qual Deus tem o poder de despertar. Se para Jesus a morte não tem nenhum caráter temível, pois é apenas uma passagem para uma vida eterna, deve ser também para quem quiser segui-lo. O cristão é chamado a proteger a vida no seu início, na sua duração e no seu término na história, pois Deus é a Vida por excelência e por isso, chama todos à vida, especialmente para aqueles que vivem no desespero e na falta de esperança. A menina morta voltou a viver por causa do poder de Jesus.

Quem é este “chefe”? Ele não tem nome nem determinada função (se é chefe de sinagoga ou se é chefe dos judeus ou se é chefe do sinédrio). Ele é simplesmente um chefe.  Pode ser qualquer um de nós, pois, de alguma forma, cada um é chefe: seja dentro da família, seja fora dela (na sociedade). Uma pessoa pode ser muito importante (“chefe”) entre os homens ou muito poderosa do ponto de vista humano, mas ela precisa também de salvação. O poder mundano não salva, pois diante da morte tudo que é humano cai no chão. O brilho falso tem seu fim. Somente Deus salva e nos garante a vida eterna. Do ponto de vista humano, paradoxalmente, o aparente superpotente ou superpoderoso é, na verdade, impotente. Mas “quando me sinto fraco, então é que sou forte”, escreveu São Paulo à comunidade de Corinto (2Cor 12,10).

Um ser humano precisa de outro ser humano para possibilitar seu crescimento como ser humano. Podemos possuir tudo que o mundo tem a oferecer em termos de status, realizações e bens, no entanto, sem nos sentirmos integrados, tudo isso parece vazio e inútil. A integração (viver em comunidade como irmãos/família) sugere calor, compreensão e abraço. Quando ficamos isolados, estamos propensos a ser prejudicados. Sentir-se integrada mantém a pessoa em equilíbrio. Sempre que há distância, há também anseio.

E o ser humano, enquanto criatura, precisa do Salvador que dá sentido para tudo na sua vida. Por isso, Santo Agostinho dizia: Ninguém está tão só do que aquele que vive sem Deus. E, o homem, para onde se dirija, sem se apoiar em Deus só encontrará a dor”. Nas suas Confissões, Santo Agostinho rezou: “Fizeste-nos para Ti, Senhor, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em Ti. Dá-me, Senhor, saber e compreender qual seja o primeiro: invocar-Te ou louvar-Te; conhecer-Te ou invocar-Te. Mas quem Te invocará sem Te conhecer? (...) Que eu Te busque, Senhor, invocando-Te; e que eu Te invoque, crendo em Ti: Tu nos foste anunciado” (Conf. 1,1).

2. Mulher Curada da hemorragia

Dentro do primeiro episódio Mateus insere outro episodia: uma mulher que sofria de hemorragia há doze anos. Em primeiro lugar, essa mulher não tem nome, nem se menciona sua família nem sua tradição. Menciona-se, além disso, seus doze anos de sofrimento! O número “doze” aplicado aos anos de sua enfermidade é clara alusão a Israel. A mulher enferma representa, então, o povo que para que seja salvo (cura) é preciso renunciar à Lei para entrar contato direto com Jesus. Jesus seria “impuro”, isto é, não tem acesso a Deus (salvação) por seu contato com os “pecadores” (Mt 9,10-13). Mas Jesus é Emanuel, Deus-Conosco (Mt 1,23; 18,20; 28,20) que vem para salvar. Para encontrar a salvação nele é preciso se aderir a ele e fazer contato com ele.

Segundo o texto do evangelho de hoje essa mulher não pede nada e não diz nada a Jesus. Mas ela mostra sua fé total em Jesus. A fé dessa mulher é comparável à do chefe do primeiro episódio; sua certeza de cura é total. Ela somente pensa e silenciosamente se aproxima de Jesus para tocar a barra do seu manto: “Se eu conseguir ao menos tocar no manto dele, ficarei curada”, pensou essa mulher. Jesus tinha curado o leproso com seu contato (Mt 8,15).

A mulher que sofre de hemorragia se aproxima e toca a orla do manto de Jesus. Este gesto era proibido na cultura judaica. Uma mulher não podia olhar para um homem em público, muito menos tocá-lo. A situação fica pior ainda porque a mulher está com a hemorragia que pode causar a impureza legal para a pessoa tocada. Por ser mulher e pela sua enfermidade essa mulher estava duplamente excluída. Mas ela não quer saber das proibições. Ela quer encontrar-se com Jesus e tocar seu manto. Ela não quer ser escrava das regras e dos costumes desumanos. Pois de fato, as regras culturais e de culto a afasta da convivência e da salvação.

Quantas pessoas são escravas das regras. A graça produz as regras, mas as regras não produzem a salvação, pois elas são apenas meios e não o fim. Os costumes que não salvam, não podem ser mantidos.

Jesus reconhece nessa mulher a fé que transforma sua situação triste em alegria por encontrar o Salvador, Jesus: “Coragem, filha! A tua fé te salvou”. O termo “filha” coloca essa mulher em relação com “a filha” do chefe. Ambas são figuras de Israel. A partir de então, a mulher voltou a viver sua vida saudavelmente.

Os dois (chefe cuja filha estava morta e a mulher que sofria de hemorragia há doze anos) se aproximam de Jesus com muita fé e obtêm o que pedem. Eles confiam, se apoiam e se abandonam totalmente em Jesus.  E receberam uma resposta adequada da parte de Jesus: a volta da filha para a vida e a cura da mulher sofrida de hemorragia de longos anos. Por causa da fé eu preparo o espaço necessário para que Deus possa atuar. A fé é sempre e continua sendo a condição e o fundamento da ação salvadora de Deus no homem. A novidade do Reino trazido por Jesus não é somente a cura, mas principalmente a ressurreição ou a salvação.

A dor daquele pai e o sofrimento daquela mulher podem ser um bom símbolo de todos os nossos males, pessoais e comunitários.  Também agora, como em sua vida terrena, Jesus nos quer atender e nos encher de sua força e de sua esperança. É preciso manter nosso contato diário com Jesus para que sejamos vivos e salvos. Na Eucaristia ele mesmo se dá como alimento, para que, quando nos aproximamos dele e o recebemos com fé, possa curar também nossos males. Mas a cura-salvação não é um toque mágico e sim um encontro de pessoas com Jesus. É o encontro com Jesus na fé que cura e salva, e somente depois do encontro é que Jesus diz as seguintes palavras: “A tua fé te salvou!”.

P. Vitus Gustama,SVD

Para Refletir:

1.    A fé nasce no encontro com o Deus vivo, que nos chama e revela o seu amor: um amor que nos precede e sobre o qual podemos apoiar-nos para construir solidamente a vida. Transformados por este amor, recebemos olhos novos e experimentamos que há nele uma grande promessa de plenitude e nos é aberta a visão do futuro. A fé, que recebemos de Deus como dom sobrenatural, aparece-nos como luz para a estrada orientando os nossos passos no tempo (Papa Francisco: Lumen Fidei, Carta Encíclica).

2.    O contrário da fé é a idolatria. O ídolo é um pretexto para se colocar a si mesmo no centro da realidade, na adoração da obra das próprias mãos. A idolatria é sempre politeísmo, movimento sem meta de um senhor para outro. A idolatria não oferece um caminho, mas uma multiplicidade de veredas que não conduzem a uma meta certa, antes se configuram como um labirinto. A fé, enquanto ligada à conversão, é o contrário da idolatria: é separação dos ídolos para voltar ao Deus vivo, através de um encontro pessoal (idem).

3.    Acreditar significa confiar-se a um amor misericordioso que sempre acolhe e perdoa, que sustenta e guia a existência, que se mostra poderoso na sua capacidade de endireitar os desvios da nossa história. A fé consiste na disponibilidade a deixar-se incessantemente transformar pela chamada de Deus. Paradoxalmente, neste voltar-se continuamente para o Senhor, o homem encontra uma estrada segura que o liberta do movimento dispersivo a que o sujeitam os ídolos.

P. Vitus Gustama,svd

Quarta-feira Da XXIV Semana Comum, Ano Par, 16/09/2026

VIVER NO AMOR E NA SABEDORIA DE DEUS Quarta-Feira da XXIV Semana Comum Primeira Leitura: 1Cor 12,31-13,13 (Ano Par) Irmãos, 12,31 Aspi...