terça-feira, 9 de junho de 2026

São Barnabé, Apóstolo, 11/06/2026

SÃO BARNABÉ, APÓSTOLO

(Sec. I)

Primeira Leitura: At 11,21b-26; 13,1-3

Naqueles dias, 11,21bmuitas pessoas acreditaram no Evangelho e se converteram ao Senhor. 22A notícia chegou aos ouvidos da Igreja que estava em Jerusalém. Então enviaram Barnabé até Antioquia. 23Quando Barnabé chegou e viu a graça que Deus havia concedido, ficou muito alegre e exortou a todos para que permanecessem fiéis ao Senhor, com firmeza de coração. 24É que ele era um homem bom, cheio do Espírito Santo e de fé. E uma grande multidão aderiu ao Senhor.  25Então Barnabé partiu para Tarso, à procura de Saulo. 26Tendo encontrado Saulo, levou-o a Antioquia. Passaram um ano inteiro trabalhando juntos naquela Igreja, e instruíram uma numerosa multidão. Em Antioquia os discípulos foram, pela primeira vez, chamados com o nome de cristãos. 13,1Na Igreja de Antioquia, havia profetas e doutores. Eram eles: Barnabé, Simeão, chamado o Negro, Lúcio de Cirene, Manaém, que fora criado junto com Herodes, e Saulo. 2Um dia, enquanto celebravam a liturgia, em honra do Senhor, e jejuavam, o Espírito Santo disse: “Separai para mim Barnabé e Saulo, a fim de fazerem o trabalho para o qual eu os chamei”. 3Então eles jejuaram e rezaram, impuseram as mãos sobre Barnabé e Saulo, e deixaram-nos partir.

Evangelho: Mt 10,7-13

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 7 “Em vosso caminho, anunciai: ‘O Reino dos Céus está próximo’. 8 Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. De graça recebestes, de graça deveis dar! 9 Não leveis ouro nem prata nem dinheiro nos vossos cintos; 10 nem sacola para o caminho, nem duas túnicas nem sandálias nem bastão, porque o operário tem direito ao seu sustento. 11 Em qualquer cidade ou povoado onde entrardes, informai-vos para saber quem ali seja digno. Hospedai-vos com ele até a vossa partida. 12 Ao entrardes numa casa, saudai-a. 13 Se a casa for digna, desça sobre ela a vossa paz; se ela não for digna, volte para vós a vossa paz”.

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Neste dia celebramos a festa de São Barnabé. “Barnabé” é o nome da origem aramaica que significa “filho (bar) da profecia (nabiah) ou da exortação”, ou “filho da consolação” (Bar-nehámah), Consolador (At 4,36).

Relativamente poucas as notícias que a história conservou sobre Barnabé. Ele era procedente da diáspora (de Chipre) e se estabeleceu em Jerusalém e incorporado ao grupo dos pilares da Igreja primitiva. Ele se converteu ao cristianismo depois da ressurreição do Senhor, imediatamente depois da vinda do Espírito Santo sobre os Apóstolos, em Pentecostes, e se tornou um grande colaborador dos Apóstolos.

A Primeira Leitura descreve Barnabé da seguinte maneira:Ele era um homem bom, cheio do Espírito Santo e de fé”. (At 11,24)

1.    Um homem bom”. Eis o que significa virtude, o caminho da virtude. Não é fácil encontrar uma pessoa de quem se possa simplesmente dizer: “Ele é um homem bom”, “Ela é uma mulher boa”. A bondade é como o resumo de uma vida virtuosa, que, no entanto, não se resume a si mesma. Toda pessoa do bem é bondosa e amável. A bondade é o sinal da amabilidade. A bondade designa a qualidade da amabilidade. É bom quem ama e aquilo que é amável. “O bem é aquilo que todos amam”, dizia Aristóteles.

Deus é sumamente bom e sumamente amável. Deus não é bom somente para si mesmo. Deus transborda infinitamente sua bondade para fora de si mesmo, às criaturas. Somos chamados a viver a bondade na nossa caminhada diária. Bondosa é a pessoa que tem boa intenção em relação a nós. Bondosos somos nós quando temos boa intenção em relação aos outros. De uma pessoa bondosa irradia calor e ternura, amor e bondade. Em seu olhar bondoso e em suas palavras bondosas, sente-se que seu coração é bondoso, que o bem prevaleceu nela.

2.    Cheio do Espírito Santo”. A virtude, entendida em seu sentido usual, é fundamentalmente um bem humano, isto é, um bem gerado ou construído a partir das possibilidades e forças humanas. Sem diminuir a beleza desse ideal, o próprio coração humano anseia por algo mais, algo melhor. É isso que o Espírito Santo vem conceder. A magnitude da cura, da ação e da beleza que o Espírito traz transforma tudo o que é humano em algo que se eleva a uma nova ordem, a ordem da graça. Algo semelhante é dito de Barnabé.

3.    “Cheio de fé”. É evidente que a fé já está incluída na ação do Espírito Santo. Por que, então, esse aspecto é destacado como um louvor adicional? A esse respeito, é interessante recordar a ação do Espírito nas palavras de Paulo aos Coríntios: “Porque a um é dada, pelo Espírito, a palavra da sabedoria; a outro, pelo mesmo Espírito, a palavra do conhecimento; a outro, pelo mesmo Espírito, a fé; a outro, pelo mesmo Espírito, os dons de curar…” (1 Coríntios 12:8-9). Quando Paulo se refere aqui ao Espírito “dando fé”, ele está aludindo a algo singularmente intenso, à capacidade de viver a fé como algo que transforma uma comunidade. E isso também é dito de Barnabé!

Depois que fez parte do cristianismo, Barnabé vendeu um campo de sua propriedade e entregou generosamente o dinheiro aos Apóstolos para a necessidade da Igreja (cf. At 4,37). Em virtude deste desprendimento heróico “Ninguém considerava exclusivamente seu o que possuía, mas tudo entre eles era comum” (At 4,32b). Este foi o conselho de Jesus ao jovem rico que lhe pedia maior perfeição: “Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens e dá aos pobres... Depois, vem e segue-me” (Mt 19,21). Mas o jovem rico não aceitou o convite de Jesus. O que não fez o jovem rico, Barnabé o praticou. A generosidade de Barnabé e sua compaixão pelos indigentes moveram a comunidade cristã de Antioquia a confiar-lhe (com Saulo) a missão de ir a Jerusalém (Judéia) para distribuir entre os fiéis necessitados as contribuições (cf. At 11,27-30).  Por ter o espírito generoso, criativo e abnegado recebeu dos Apóstolos o sobrenome de “Barnabé” que significa “Filho da profecia” ou “Filho da consolação”. Conforme At 4,36 o nome de Barnabé era José.

Barnabé é um "justo", ou seja, segundo a linguagem teológica do Antigo Testamento, uma pessoa íntegra e fiel aos mandamentos do Senhor. Mas também é descrito como alguém "cheio do Espírito Santo e de fé", com o qual é colocado no âmbito da nova aliança, apresentando-o como alguém dócil à ação de Deus na obra de evangelização. O Espírito Santo, com efeito, atuará efetivamente por meio da mediação de Barnabé na pregação do evangelho aos pagãos.

Barnabé era um pregador inspirado. Tinha um coração sensível e possuía uma palavra fácil, doce e persuasiva com o qual ele ganhava a simpatia de todos. Sobre ele o evangelista Lucas (também é o autor dos Atos dos Apóstolos) escreveu que Barnabé era um homem bom, cheio do Espírito Santo e da fé: “(Barnabé) era um homem bom, repleto do Espírito Santo e de fé. Assim, considerável multidão agregou-se ao Senhor” (At 11,24). Tudo o que é belo atrai. A bondade e a docilidade são belas e por isso, atraem qualquer pessoa. Por estas qualidades e com sua colaboração com e na graça de Deus, unidas a uma extensa cultura vasta adquirida na escola de Gamaliel (Barnabé era conhecido como profeta e doutor. Cf. At 13,1), Barnabé chegou a desempenhar um papel preponderante na organização da Igreja primitiva.

Com Paulo, Barnabé vai ao Concilio de Jerusalém durante o qual foi decidido o término da prática da circuncisão para ser cristão (cf. At 15,1-35). Com essa decisão torna-se possível oficialmente a Igreja sem circuncisão, a Igreja aberta para os pagãos que se convertem: somos filhos de Abraão simplesmente pela fé em Cristo. 

São Barnabé foi considerado por muitos Santos Padres (Padres da Igreja) como verdadeiro apostolo de Cristo, com todos os privilégios inerentes a dito cargo. Na liturgia Barnabé ocupa um grau quase ao dos Apóstolos e seu ofício litúrgico é tirado do Comum dos próprios Apóstolos.

Em sua breve passagem pelo mundo São Barnabé deixou-nos exemplo de sua vida e de sua personalidade: espírito aberto à verdade, desprendimento dos bens materiais, bondade e docilidade no tratamento aos demais, aceitação e vivência dos ensinamentos de Cristo, prontidão em ser missionário-evangelizador, humilde discernimento dos talentos dos outros (especialmente de Paulo) sem nenhuma fraqueza ou hipocrisia (Paulo e Barnabé tiveram suas oposições, discórdias e controvérsias no início da segunda viagem missionária. Cf. At 13,13; 15,36-40).

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Jesus acaba de escolher doze discípulos. O número doze simboliza a unidade e a totalidade do povo judeu: doze patriarcas, doze tribos que compunham o antigo povo de Deus. O grupo dos doze representa o novo Israel. No projeto messiânico de Jesus "os Doze" representam, portanto, a raiz ideal do novo povo de Deus.

Depois que escolheu os Doze Apóstolos, Jesus enviou-os para a missão. A missão dos “Doze” é destinada originalmente às “ovelhas perdidas da casa de Israel” (10,6). A partir de Israel, a missão se abre pouco a pouco a todos os povos, o que só ocorre plenamente depois da morte e ressurreição de Jesus, por meio das quais Ele é constituído Messias e Senhor do universo (Mt 28,18). Os Doze são enviados às ovelhas perdidas da casa de Israel com a missão de convocar os crentes na assembléia messiânica definitiva.

A tarefa de Jesus como pedagogo é conseguir que os valores do Reino estejam não somente na cabeça dos Doze, mas principalmente no seu coração. Por isso, Jesus os envia ao mundo dando-lhes umas recomendações prévias e autoridade de Jesus:

·      Que se limitem, pelo momento, às ovelhas de Israel, isto é, remediar os males do povo que atravessa uma situação grave de abandono e de descuidado pelos pastores ou mestres. Em outras palavras, vamos limpar e organizar a própria casa, para depois limpar e organizar outras casas fora da nossa casa. Aqui o testemunho tem um lugar importante.

·      A missão dos Apóstolos é a de libertação e não de domínio, pois a libertação faz parte da chegada do Reino de Deus: da enfermidade (dor física), da morte (que acaba com a vida), da lepra (que separa de Deus e dos seres humanos) e dos demônios (símbolo da ideologia opressora que escraviza o ser humano por dentro). Jesus não envia seus Apóstolos para falar de Deus (não somente teoria) e sim para libertar as pessoas do mal (prática), palavra e ação juntas: que os seres humanos sejam irmãos e felizes, pois este é o desígnio de Deus sobre a humanidade.

·      O mais importante: o que foi recebido de graça deve ser dado de graça também. O deus-dinheiro não tem nenhum papel na comunidade dos seguidores. Jesus pede para não procurarem dinheiro como base de segurança. Nem levar duas túnicas (imagem de riqueza), nem bastão (símbolo de violência).

·      A missão é caminho. Exige mover-se de um lugar a outro, avançar, superar obstáculos e não deixar-se vencer pelo cansaço ou pela rejeição dos seres humanos. Os Apóstolos devem confiar absolutamente na graça que possuem e que anunciam. Esta é a sua maior força: não apoiar-se em nenhuma segurança humana para anunciar a mensagem de Deus, ir despojados de tudo, confiando somente na força da mensagem que levam e abandonados totalmente à providencia divina (Mt 10,9-10).

Por causa da missão dos Apóstolos e os demais discípulos de Jesus chegou até nós a Boa Notícia de Jesus Cristo. De fato, não estamos sozinhos, mas com o Senhor ressuscitado (Mt 28,20). O Evangelho que chegou até nós não pode morrer e parado em nossas mãos. Precisamos passá-lo adiante sendo novos apóstolos do Senhor com as mesmas recomendações vividas pelos Doze Apóstolos.

Que São Barnabé nos inspire a sermos mais bondosos, mais despojados, mais dóceis ao impulso do Espírito Santo e dóceis no tratamento aos demais seres humanos e prontos para sermos evangelizadores. “Ó Deus, que designastes são Barnabé, cheio de fé e do Espírito Santo, para converter as nações, fazei que a Vossa Igreja anuncie, por palavras e atos, o evangelho de Cristo que ele proclamou intrepidamente. Poe Cristo nosso Senhor na Unidade do Espírito Santo. Amém!”.

P. Vitus Gustama,svd

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Quarta-feira Da X Semana Comum, Ano Par, 10/06/2026

ESCOLHER ENTRE AMAR AO VERDADEIRO DEUS E AOS ÍDOLOS

Quarta-Feira da X Semana Comum

Primeira Leitura:1Rs 18,20-39

Naqueles dias, 20Acab convocou todos os filhos de Israel e reuniu os profetas de Baal no monte Carmelo. 21Então Elias, aproximando-se de todo o povo, disse: “Até quando andareis mancando com os dois pés? Se o Senhor é o verdadeiro Deus, segui-o; mas, se é Baal, segui a ele”. O povo não respondeu uma palavra. 22Então Elias disse ao povo: “Eu sou o único profeta do Senhor que resta, ao passo que os profetas de Baal são quatrocentos e cinquenta. 23Deem-nos dois novilhos; que eles escolham um novilho e, depois de cortá-lo em pedaços, coloquem-no sobre a lenha, mas sem pôr fogo por baixo. Eu prepararei depois o outro novilho e o colocarei sobre a lenha e tampouco lhe porei fogo. 24Em seguida, invocareis o nome de vosso deus e eu invocarei o nome do Senhor. O Deus que ouvir, enviando fogo, este é o Deus verdadeiro”. Todo o povo respondeu, dizendo: “Ótima proposição”. 25Elias disse então aos profetas de Baal: “Escolhei vós um novilho e começai, pois sois maioria. E invocai o nome de vosso deus, mas não lhe ponhais fogo”. 26Eles tomaram o novilho que lhes foi dado e prepararam-no. E invocaram o nome de Baal desde a manhã até o meio-dia, dizendo: “Baal, ouve-nos!” Mas não se ouvia voz alguma e ninguém que respondesse. E dançavam ao redor do altar que tinham levantado. 27Ao meio-dia, Elias zombou deles, dizendo: “Gritai mais alto, pois sendo um deus, tem suas ocupações. Porventura ausentou-se ou está de viagem; ou talvez esteja dormindo e é preciso que o acordem”. 28Então eles gritavam ainda mais forte, e retalhavam-se, segundo o seu costume, com espadas e lanças, até o sangue escorrer. 29Passado o meio-dia, entraram em transe até a hora do sacrifício vespertino. Mas não se ouviu voz nenhuma, nem resposta nem sinal de atenção. 30Então Elias disse a todo o povo: “Aproximai-vos de mim”. Todo o povo veio para perto dele. E ele refez o altar do Senhor que tinha sido demolido. 31Tomou doze pedras, segundo o número das doze tribos dos filhos de Jacó, a quem Deus tinha dito: “Teu nome será Israel”, 32e edificou com as pedras um altar ao nome do Senhor. Fez em redor do altar um rego, capaz de conter duas medidas de sementes. 33Empilhou a lenha, esquartejou o novilho e colocou-o sobre a lenha, 34e disse: “Enchei quatro talhas de água e derramai-a sobre o holocausto e sobre a lenha”. Depois, disse: “Outra vez”. E eles assim fizeram uma segunda vez. E acrescentou: “Ainda uma terceira vez”. E assim foi feito. 35A água correu em volta do altar e o rego ficou completamente cheio. 36Chegada a hora do sacrifício, o profeta Elias aproximou-se e disse: “Senhor, Deus de Abraão, de Isaac e de Israel, mostra hoje que tu és Deus em Israel, e que eu sou teu servo e que é por ordem tua que fiz estas coisas. 37Ouve-me, Senhor, ouve-me, para que este povo reconheça que tu, Senhor, és Deus, e que és tu que convertes os seus corações!” 38Então caiu o fogo do Senhor, que devorou o holocausto, a lenha, as pedras e a poeira, e secou a água que estava no rego. 39Vendo isto, o povo todo prostrou-se com o rosto em terra, exclamando: “É o Senhor que é Deus, é o Senhor que é Deus!”

Evangelho: Mt 5,17-19

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 17“Não penseis que vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim para abolir, mas para dar-lhes pleno cumprimento. 18Em verdade, eu vos digo: antes que o céu e a terra deixem de existir, nem uma só letra ou vírgula serão tiradas da Lei, sem que tudo se cumpra. 19Portanto, quem desobedecer a um só destes mandamentos, por menor que seja, e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será considerado o menor no Reino dos Céus. Porém, quem os praticar e ensinar será considerado grande no Reino dos Céus”.

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Fé No único Deus Contra Todos Os Ídolos

O profeta Elias é o defensor da fé no único Deus (monoteísmo). Ele critica o povo durante o reinado de Acab, pois esse povo pratica o sincretismo religioso. O povo pratica o duplo jogo na vivência da religião: o povo continua a acreditar em Deus de Israel, mas ao mesmo tempo pratica o culto ao Baal (deus da fecundidade ou deus das colheitas). Para o profeta Elias este tipo de prática não tem nenhum valor religioso, pois é impossível servir aos dois senhores (cf. Mt 6,24). A fé não pode desenvolver-se em meio da dúvida nem no serviço simultâneo de dois senhores: “Até quando andareis mancando com os dois pés? Se o Senhor é o verdadeiro Deus, segui-o; mas, se é Baal, segui a ele(1Rs 18,21). Tudo isso nos leva à experiência de Moisés em que se defronta com a idolatria do povo quando desceu do monte de Sinai (cf. Ex 32,15-20).

É bom relembrar que o rei Acab, que reinou durante o ministério profético de Elias, casou-se com Jezabel, um princesa fenícia, filha de um antigo sacerdote de Baal que trouxe de sua terra sua língua, sua cultura, sua organização social e agrária. Mas trouxe também uma organização religiosa muito potente. Por causa de Jezebel, instituiu-se de forma oficial no reino de Acab o culto a Melkart, o Baal dos sidônio, e procurou-se por todos os meios ir esvaziando o culto a Yahweh. Nisto apareceu o profeta Elias para defender o moteismo e sofre perseguição por isso.

Então caiu o fogo do Senhor, que devorou o holocausto, a lenha, as pedras e a poeira, e secou a água que estava no rego”.  O profeta Elias é conhecido como um profeta-“fogo”, pois suas palavras queimavam como tocha (Sr 48,1). O fogo era seu ambiente, e não sua arma. O fogo era sinal de seu serviço, e não meio de extermínio. O fogo era em sua vida o espaço da grande revelação, nunca a ocasião para a simples evasão. O fogo arrebatava-o dia a dia. E, em consequência, o fogo acabaria por arrebatá-lo no final.

A Primeira Leitura nos relata o fogo do Carmelo. Trata-se do momento culminante do confronto entre o verdadeiro Deus e Baal que acontece no Carmelo. Por um lado, é o profeta Elias, e por outro lado, são os 450 profetas de Baal.

Em caso de conflito entre duas práticas litúrgicas, o povo hebreu invariavelmente recorria a uma espécie de disputa, na qual o julgamento de Deus falhava entre os protagonistas (Cf. Gn 4, 1-5). Elias vai a esse procedimento para tornar conhecido ao povo o julgamento de Deus sobre seus sacrifícios.

A disputa se desenvolve num clima de violência. Os sacerdotes de Baal, crendo que seu deus não se revelará senão como coroação do esforço do homem, se mutilam e entram em trance (1Rs 18,28-29). Mas para Elias Javé não se revelará senão na violência do raio (1Rs 18,38). Enquanto isso Elias aplica aos profetas de Baal a terrível lei de talião (1Rs 18,40; cf. 1Rs 18,4). Porém, não tardará em compreender que Deus não está na violência (1Rs 19,1-4) e sim na doçura e nos amor. Os profetas de Baal, os idólatras são derrotados no fim desse confronto. O profeta Elias com seu verdadeiro Deus saiu vitorioso.

A mensagem fundamental do relato é que o serviço ao Deus verdadeiro não deve ser feito pela metade e com dúvida, pois o compromisso pela metade não resulta em nada. Somos confrontados diariamente para fazer a escolha entre Deus e os ídolos: dinheiro, fama, poder, sexo etc. e esta escolha deve ser renovada constantemente.

Além disso, a partir da experiência do sincretismo do povo eleito na época do profeta Elias durante o reinado do rei Acab podemos lançar a seguinte pergunta: Será que somos capazes de escolher o verdadeiro Deus servir-lhe honestamente? O povo eleito, por um lado, adorava ao verdadeiro Deus, o Deus de Abarão, de Isaac, e de Jacó. Por outro lado, ao mesmo tempo, adorava aos ídolos, os Baals. Em certos momentos, o povo observava a Lei de Javé e seus mandamentos e em outros momentos, ele os desdenhava ou desprezava. Às vezes, diante de um perigo, o povo se voltava a Deus renunciando, aparentemente, aos ídolos, mas esta conversão não era de coração.

Até quando andareis mancando com os dois pés? Se o Senhor é o verdadeiro Deus, segui-o; mas, se é Baal, segui a ele (1Rs 18,21). Aqui nos encontramos com um tema essencial em nossa existência: seremos capazes de escolher o verdadeiro Deus e de servir-Lhe honestamente numa decisão definitiva? Será que nós não temos ídolos que em muitos momentos da vida acabamos abandonando o verdadeiro Deus em nome do prazer, do poder, do dinheiro, da fama ou da posição social? Será que não temos um “certo deus” para momentos bons e “outro tipo de deus” para os momentos difíceis? Todas as realidades "feitas pela mão do homem," tudo o que o homem pensa que pode fazer tudo pelo seu próprio poder e força; tudo aquilo que o homem quer ganhar para sua vida em vez de largá-lo em função de sua salvação, tudo isso é ídolo. O problema não consiste em descobrir se eu tenho ou não os ídolos, que eu ponho do meu lado cuidadosamente para minha comodidade e minha satisfação. O problema principal é identificar os meus ídolos a fim de pedir a Deus que me livre deles.

Santo Tomás de Aquino trata a idolatria como uma espécie do gênero de superstição que é um vício oposto à virtude da religião e consiste em dar honra divina (culto) para coisas que não são Deus ou a Deus mesmo de maneira equivocada (cf. Summa Theol., II-II, q.xciv). Quem tem fé, procura primeiro o Deus das coisas para obter as coisas de Deus. Quem é idólatra, ele abandona o Deus das coisas para correr somente atrás das coisas criadas por Deus.

Normalmente se entende por idolatria a adoração religiosa que tem por objeto um ídolo. Este ídolo ocupa o lugar de Deus e é adorado como se fosse Deus. A idolatria é uma verdadeira aberração na ordem religiosa e moral, pois nela se inverte completamente a ordem de valores: o absoluto: Deus, se relativiza e o relativo se absolutiza. O que é inferior aos homens se considera como Deus ou como algo divino.

A idolatria não é coisa passada, própria dos homens de tempos escuros e de civilizações primitivas. Os ídolos estão sempre com os homens em qualquer época e lugar. Os ídolos não são de ontem nem de hoje, são puras criações do egoísmo, do medo, da insegurança, da prepotência, da soberba do homem que não encontrou ainda seu centro ou seu norte. O homem que coloca seu ego e goismo no centro de sua vida e não Deus, sempre termina na destruição da própria vida.

Você não pode servir a dois senhores... você não pode servir a Deus e ao dinheiro. .. “, é a advertência de Jesus para todos os seus seguidores (Mt 6,24). Pergunta sempre válida para minha própria vida: Aceitaríamos tão facilmente a mistura: um pouco de amor a Deus, um pouco de amor a nós mesmos... um pouco de vida de piedade, mas sem perder um certo aspecto da vida mundana? Aceitamos com facilidade um pouco de submissão ao Senhor e um pouco de insubordinação ... O profeta Elias propõe uma alternativa radical: ou isto... ou aquilo...

Amar o Próxima É a Expressão De Nossa Adoração Ao Deus de Amor

Estamos acompanhando o Sermão da Montanha (Mt 5-7). Na passagem do evangelho de hoje Jesus afirma: “Não vim abolir a lei e os profetas, mas para dar-lhes pleno cumprimento”, afirmou Jesus aos ouvintes. Em outras palavras, Jesus quer dizer: “Eu não vim abolir o Antigo Testamento (a Lei e os profetas). Eu vim para cumprir tudo que foi profetizado sobre mim no Primeiro Testamento”.

Não vim abolir a lei e os profetas, mas para dar-lhes pleno cumprimento”. O que tem por trás desta afirmação? Alguns proclamavam que Jesus, como Libertador, veio para anular a lei de Moisés (Torá). Outro grupo sustentava que a tarefa de Jesus era a de subscrever, até os mínimos detalhes, tudo o que está escrito no AT. Mateus sustenta que Jesus não anulou a lei de Deus escrita nos livros do AT. Mas, ao mesmo tempo Mt sublinha que Jesus não se limitou a confirmar aquilo que foi dito no AT. Mt quer enfatizar que Jesus veio para nos dar a revelação definitiva da vontade do Senhor. A Lei e os Profetas (AT) encontraram na Palavra e no exemplo de Jesus o complemento e a plenitude que faltavam no AT.

Os fariseus, fanáticos obsessivos do cumprimento da lei havia posto a vontade de Deus em elementos secundários, e que não buscavam de modo algum o estabelecimento de uma sociedade mais fraterna e justa. Eles davam mais importância a suas interpretações e tradições que os levavam a transgredir a Lei pensando que a observavam. Jesus lhes dirá: Por causa de vossa tradição, anulais a Palavra de Deus... Vão é o culto que me prestam, porque ensinam preceitos que só vêm dos homens(Mt 15,6.9). A Lei, com suas tradições, era um método sujo para dominar a população, especialmente os mais pobres e simples. Legislavam, impunham cargas pesadas sobre o povo, mas nada se impunham para eles mesmos (cf. Mt 23,4). Eles são incapaz de ver além da lei, isto é, não conseguem ver o espírito da lei. Cumprem regra por regra ou lei por lei. E ainda acham que sejam cumpridores da vontade de Deus. Mas na realidade, a vontade de Deus se resume no amor fraterno (cf. Mt 9,13; 25,40.45). Pensam que ao cumprir todas as leis e normas possam agradar a Deus. Mas o que agrada a Deus é o amor fraterno. Amor é a maior Lei de Deus (cf. Rm 13,10), e seremos julgados sobre o amor (cf. Mt 25,36-46).

Por isso, o que Jesus faz é mostrar um Deus que desaprova a injustiça e a desigualdade, pois Deus é amor (1Jo 4,8.16). Deus se dirige aos homens como uma pessoa amada, chamando cada homem por seu nome (Is 43,1) e o nome de cada um é gravado na palma da mão de Deus (Is 49,16). E o amor transforma tudo em obra prima, até as coisas pequenas e seus detalhes. O amor de cada dia é feito de detalhes e não tanto de coisas solenes e heroicas. Por esta razão, encontra-se a seguinte fórmula no AT como uma fórmula ritual: “Escutai, ó Israel!”. É escutar Deus para viver na plenitude. Por isso, escutar Deus é coisa mais prudente e mais inteligente para o ser humano. Ao escutar Deus sua Palavra será para nós nossa sabedoria e um alimento para nosso espírito. Sua maneira de ver impregnará nosso modo de ver a vida e as pessoas.

Mas o amor morre quando não se respeita o momento do outro, quando não se favorece espaços comuns, quando não se reinventa a arte de viver e de conviver, quando há omissão de crescer, e a pequenez de se fechar. O amor morre com a dominação, com a arrogância, com a covardia, e quando há medo de se doar e de crescer. O amor morre quando se prefere a culpa ao arrependimento, quando se prefere acusação à humildade e reconciliação, a disputa ao diálogo. Quando o amor morre, perde-se a razão de viver e de conviver, e Deus se torna cada vez mais distante, pois “Deus é Amor” (1Jo 4,8.16).

Nós escutamos com frequência a Palavra de Deus. A Palavra de Deus é um espelho no qual nos olhamos para saber se continuamos conservando a imagem que Deus nos pede (Gn 1,26). Que os outros possam notar alguma mudança para o melhor em nossa vida e em nossa convivência.

Eu vim para dar o cumprimento da Palavra de Deus”. Esta frase deve se tornar carne e sangue na vida de cada cristão. O amor divino sem medida deve se encarnar no modo de viver e de conviver de cada cristão. A misericórdia e a reconciliação devem guiar a vida e a convivência de cada cristão, pois cada cristão é outro Cristo, o prolongamento de Cristo nesta terra.

E a Eucaristia da qual participamos é um compromisso para sermos pessoas que, renovadas e revestidas de Cristo, nos faz caminharmos pela vida como aquelas pessoas que proclamam a verdade, o bem, o amor como uma entrega a favor dos demais, deixando de lado ou abandonando totalmente aqueles caminhos que nos fazem nos destruirmos uns aos outros ou pisotear os direitos das classes mais desprotegidas. O Senhor pede que sejamos fieis à Sua lei, a Lei do amor que não somente nos faz colocarmos Deus sobre todas as coisas, mas ao mesmo tempo nos faz levar a querermos bem para os outros. Os cristãos devem se converter em sinal de amor para os outros. Se fomos feitos à imagem e à semelhança de Deus, então nosso modo de viver não deve apagar essa imagem. Se essa imagem for apagada em nós, ninguém vai dizer que somos de Cristo. São Paulo nos relembra através destas frases:Somos para Deus o perfume de Cristo entre os que se salvam e entre os que se perdem” (2Cor 2,15). E acrescentou: “Vós sois uma carta de Cristo... escrita não com tinta, mas com o Espírito de Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, em vossos corações” (2Cor 3,3).

Pedimos a Deus a graça para que os outros possam ler algo de Cristo em nossa vida. Para isso, é necessário que Cristo esteja sempre no meio de nossa vida e de nossa comunidade para que todo olhar se dirija para Cristo para aprender o que devemos fazer e como devemos fazer as coisas. E que saibamos colocar as pessoas acima de qualquer regra quando a vida estiver em jogo. Pelo caminho da caridade não há outro caminho melhor, pois é o caminho de Deus.

P. Vitus Gustama,svd

Terça-feira Da X Semana Comum, Ano Par, 09/06/2026

SER SAL DA TERRA E LUZ DO MUNDO


Terça-Feira Da X Semana Comum

Primeira Leitura: 1Rs 17,7-16

Naqueles dias, 7 secou a torrente do lugar onde Elias estava escondido, porque não tinha chovido no país. 8 Então a palavra do Senhor foi-lhe dirigida nestes termos: 9 “Levanta-te e vai a Sarepta dos sidônios, e fica morando lá, pois ordenei a uma viúva desse lugar que te dê sustento”. 10 Elias pôs-se a caminho e foi para Sarepta. Ao chegar à porta da cidade, viu uma viúva apanhando lenha. Ele chamou-a e disse: “Por favor, traze-me um pouco de água numa vasilha para eu beber”. 11 Quando ela ia buscar água, Elias gritou-lhe: “Por favor, traze-me também um pedaço de pão em tua mão!” 12 Ela respondeu: “Pela vida do Senhor, teu Deus, não tenho pão. Só tenho um punhado de farinha numa vasilha e um pouco de azeite na jarra. Eu estava apanhando dois pedaços de lenha, a fim de preparar esse resto para mim e meu filho, para comermos e depois esperar a morte”. 13 Elias replicou-lhe: “Não te preocupes! Vai e faze como disseste. Mas, primeiro, prepara-me com isso um pãozinho, e traze-o. Depois farás o mesmo para ti e teu filho. 14 Porque assim fala o Senhor, Deus de Israel: ‘A vasilha de farinha não acabará e a jarra de azeite não diminuirá, até o dia em que o Senhor enviar a chuva sobre a face da terra’”. 15 A mulher foi e fez como Elias lhe tinha dito. E comeram, ele e ela e sua casa, durante muito tempo. 16 A farinha da vasilha não acabou nem diminuiu o óleo da jarra, conforme o que o Senhor tinha dito por intermédio de Elias.

Evangelho: Mt 5,13-16

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 13 “Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal se tornar insosso, com que salgaremos? Ele não servirá para mais nada, senão para ser jogado fora e ser pisado pelos homens.14 Vós sois a luz do mundo. Não pode ficar escondida uma cidade construída sobre um monte. 15 Ninguém acende uma lâmpada e a coloca debaixo de uma vasilha, mas sim num candeeiro, onde ela brilha para todos os que estão em casa. 16 Assim também brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e louvem o vosso Pai que está nos céus”.

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Viver Da Fé e Na Fe Nos Fazem Partirmos Para Evangelizar

’Levanta-te e vai a Sarepta dos sidônios, e fica morando lá, pois ordenei a uma viúva desse lugar que te dê sustento’. Elias pôs-se a caminho e foi para Sarepta!”.  Esta foi a ordem de Deus para Elias. A razão de Elias deve mudar-se para Sarepta é esta: “secou a torrente do lugar onde Elias estava escondido, porque não tinha chovido no país”. Deus também lhe deu um sinal: “ o encontro com uma viúva pobre. Ela há de prover o necessário para o sustento do profeta (e não mais corvo, animal, como no texto do dia anterior). E Elias obedece à ordem de Deus incondicionalmente, sem lançar nenhuma pergunta a Deus.

Esse episódio está cheio de sabedoria. É uma autentica meditação sobre os caminhos da evangelização. Alguns pontos deste episodio servem para nossa meditação. Em primeiro lugar, o profeta (evangelizador/missionário) deve estar disposto a partir, como Elias que se põe a caminho até Sarepta. Em segundo lugar, seus caminhos conduzem o evangelizador ao desconhecido, ao imprevisto. Em terceiro lugar, o missionário tem que saber reconhecer os sinais dos tempos, e o sinal de Deus, precisamente nos gestos dos pobres representados pela viúva de Sarepta. Em quarto lugar, terá de aceitar a ajuda dos pobres, sem pretender impor seus tesouros culturais, tal como oprofeta Elias aceita a ajuda da viúva  estrangeira. Em quinto lugar, será preciso que o profeta/evangelizador/missionário ouça a expressão de dor dos humildes, que se manifesta com frequência na confissão de sua pobreza: “Pela vida do Senhor, teu Deus, não tenho pão. Só tenho um punhado de farinha numa vasilha e um pouco de azeite na jarra. Eu estava apanhando dois pedaços de lenha, a fim de preparar esse resto para mim e meu filho, para comermos e depois esperar a morte”. Em sexto lugar, diante da dor e da desgraça, o missionário aceita a explicação elementar das pessoas sem apressar-se a impor sua própria interpretação teológica.

O Que É Extremo Para o Homem É Uma Oportunidade Para Deus.: A Extremidade do Homem É a Oportunidade De Deus

Pela vida do Senhor, teu Deus, não tenho pão. Só tenho um punhado de farinha numa vasilha e um pouco de azeite na jarra. Eu estava apanhando dois pedaços de lenha, a fim de preparar esse resto para mim e meu filho, para comermos e depois esperar a morte”, disse a viúva de Sarepta ao profeta Elias. A viúva de Sarepta  foi uma das vítimas da fome provocada pela seca que durou três anos e meio que aconteceu na época do profeta Elias no século IX antes de Cristo.

Sarepta é uma cidade fenícia no Sul do Sídon (hoje Libânio). Deste território foram importados para Israel o deus Baal (deus da fecundidade). Por influência de sua esposa, Jezabel (fenícia), o rei Acab “fez o que o Senhor reprova”, construiu um altar para Baal em Samaria e obriga o povo a prestar culto a este deus Baal (Do rei Acab e sua esposa nos fala 1Rs 16,29-34). O povo, por medo do rei e sua esposa, invoca ao Baal em suas necessidades. Porém, paradoxalmente, o deus Baal, isto é, o deus da fecundidade, é incapaz de enviar a chuva para o povo para acabar com a seca. Todos os ídolos gostam de prometer, mas incapazes de cumprir o que se promete. Ao contrário, Deus pode tardar, mas nunca falha, pois Ele é fiel a Si Próprio.

A situação econômica da viúva e de seu filho é extrema: eles se preparam para a última comida antes de esperar a morte. Mas mesmo sendo fenícia (pagã), a viúva pobre acredita na palavra do homem de Deus, no profeta Elias, que disse à viúva: “Não te preocupes! Vai e faze como disseste. Mas, primeiro, prepara-me com isso um pãozinho, e traze-o. Depois farás o mesmo para ti e teu filho. Porque assim fala o Senhor, Deus de Israel: ‘A vasilha de farinha não acabará e a jarra de azeite não diminuirá, até o dia em que o Senhor enviar a chuva sobre a face da terra’. A viúva dá tudo o que tem para o profeta Elias. É um ato de caridade extrema. É um ato de uma fé muito profunda em Deus.

O resultado da caridade extrema da viúva pobre se resume na seguinte frase: A mulher foi e fez como Elias lhe tinha dito. E comeram, ele e ela e sua casa, durante muito tempo. A farinha da vasilha não acabou nem diminuiu o óleo da jarra, conforme o que o Senhor tinha dito por intermédio de Elias”.

Deus sempre se compadece pelos pobres representados por essa viúva pobre que se apoia na Palavra de Deus. A compaixão ou a misericórdia é a razão pela qual tantas vezes move o coração do Senhor. A compaixão leva Jesus a multiplicar os pães, a curar os doentes, a conversar com os pecadores e não para demonstrar seu poder milagroso. E para aprender a ser misericordiosos, nós devemos nos fixar em Jesus que veio salvar o que estava perdido, carregar nossas misérias para nos salvar delas, compadecer-se dos que sofrem e dos necessitados. Cada página do Evangelho é uma amostra da misericórdia divina. A misericórdia divina é a essência de toda a história da salvação.

Toda nossa esperança se apoia na misericórdia do Senhor, como a viúva pobre que acredita na Palavra de Deus anunciada pelo profeta Elias. Se acreditarmos na eficácia do poder da Palavra de Deus, até nas situações extremas não perderemos a esperança, pois onde termina a força humana, começa a ação de Deus. O homem faz o possível e Deus opera no impossível. A extremidade do homem é a normalidade para Deus.

A viúva pobre nos ensina a ser generosos, mesmo que nos encontremos numa situação extrema. A generosidade é um sinal de gratidão e de liberdade interior. Tudo o que somos e temos vem de Deus, menos o pecado. Há muitas pessoas ricas e inteligentes que são pobres de coração por ignorarem ou até negarem a dimensão profunda daquilo que receberam gratuitamente de Deus. A prática da generosidade é o prolongamento da generosidade de Deus. Através da generosidade manifestamos nossa riqueza interior. Para aqueles que sabem partilhar até o pouco que tem é derramada abundantemente a bênção de Deus, como a viúva pobre da Primeira Leitura. O avarento é, ao contrário, o protótipo dos sem-coração e dos de espírito mesquinho.

Quando passamos por momentos maus, quando sofremos algum tipo de tempo seco em nossa vida e não experimentamos a proximidade de Deus, será que continuamos confiando em Deus ou temos facilidade de cair no desânimo? O Salmo Responsorial de hoje (Sl 4) nos ensina a termos confiança em Deus: Quando eu chamo, respondei-me, ó meu Deus, minha justiça! Vós que soubestes aliviar-me nos momentos de aflição, atendei-me por piedade e escutai minha oração! Sobre nós fazei brilhar o esplendor de vossa face! Vós me destes, ó Senhor, mais alegria ao coração, do que a outros na fartura do seu trigo e vinho novo”.

E quando vemos outros na mesma situação, será que nós os ajudamos, compartilhando com eles o pouco que temos a exemplo da viúva de Sarepta? Como aqui, no caso de Elias, ou então, na parábola do Bom Samaritano, será verdade que os estrangeiros, os que não tem religião são mais generosos do que os do povo de Deus quando se trata de servir os necessitados?

Ser Cristão É Ser o Sal e a Luz Neste Mundo

O texto do Evangelho fala do testemunho através da linguagem figurada: ser sal e ser luz. A evangelização acontece, principalmente, através do testemunho. O testemunho é, ao mesmo tempo, sal: oculto, porém bem perspectível; e luz: manifesta e visível, que faz todos gozarem da glória de Deus.

1. Vós Sois O Sal Da Terra         

“Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal se tornar insosso, com que salgaremos? Ele não servirá para mais nada, senão para ser jogado fora e ser pisado pelos homens”

Para Jesus, a identidade cristã é “sal da terra”: dá sentido não somente à nossa existência pessoal, mas também àquela de  cada ser humano. O próximo deve senit o sabor da existência do cristão como filho de Deus em Jesus e como irmão dos demais homens. Se o cristão não viver como filho de Deus e irmão dos outros homens, simplesmente o cristão não existirá como cristão.

Mas é fácil perder o sabor de Cristo, que é saber dar a vida no amor e na humildade. A semente da Palavra que nos faz filhos de Deus poderá não se desenvolver em nós (sal insosso), mas poderá também se desenvolver aos poucos e poderá ser sufocada depois de crescer (cf. Mt 13,18-22). Em cada um de nós mora a sabedoria do amor e a vida de egoísmo. Aquilo que você alimenta é que cresce em você tanto no sentido positivo como no sentido negativo. 

Na cultura bíblica o sal é polivalente e tem uma grande função. Ele tempera e conserva os alimentos (Jó 6,6). Ele purifica a água para torná-la potável ou sadia (2Rs 2,19-23). O sal se usava nos pactos como símbolo de sua firmeza e permanência. Por isso, “uma aliança de sal” é uma aliança inviolável (Nm 18,19;2Cr 13,15). Para o povo antigo, o sal também simbolizava a amizade. Por isso, a expressão “comer sal com alguém” significava concluir amizade.  No AT, prescrevia-se que tudo o que se oferecesse a Deus devia estar condimentado com sal para significar o desejo de que a oferenda fosse agradável, principalmente como sinal da permanência da aliança (Lv 2,13). A criança recém-nascida é esfregada com sal não por motivo higiênico, e sim religioso (Ez 16,4).  Além disso, nos tempos antigos, derramava-se sal no terreno inimigo para torná-lo estéril (Jz 9,45; cf. Dt 29,22;Sf 2,9). O sal também é o símbolo  de sabedoria e de pureza moral. E não é em vão que nas línguas latinas os vocábulos sabor, saber e sabedoria pertencem à mesma raiz semântica e família lingüística. Uma pessoa sem sal é uma pessoa pouco agradável, sem conteúdo. Uma pessoa- sal é aquela que tem muita sabedoria, uma pessoa sensata. No árabe popular, a expressão “homens salgados” designa homens virtuosos, piedosos.         

“Vós sois o sal da terra”, diz Jesus aos discípulos. A “terra” aqui é a humanidade inteira, o mundo habitado (cf. Mt 9,6;10,34;12,42;24,30). Acentua-se, assim, o tema querido por Mt da universalidade da missão. Os discípulos de Jesus são o sal que assegura a aliança de Deus com a humanidade (terra) e como o sal é firme e permanente na comida, os discípulos devem ser fiéis ao programa de Jesus. A missão dos discípulos é dar um sentido mais alto a todos os valores humanos, evitar a corrupção, trazer com as suas palavras a sabedoria aos homens. O discípulo é aquele que consegue dar sabor e sentido a tudo aquilo que acontece, difunde uma palavra de sabedoria onde existe dor, e semeia bondade e amor onde existe ódio e rancor. Com a sua presença o discípulo impede que a humanidade se corrompa, não permite que a sociedade seja conduzida por princípios perversos, apodreça e descambe para a ruína. 

Se o sal torna-se insípido... Não serve mais para nada: joga-se fora e é pisado pelas pessoas”.  O povo antigo costumava colocar uma placa de sal nas fornalhas de terra como substância capaz de catalisar o calor. Com o tempo a placa formada por sal ia perdendo sua capacidade catalisadora e então era descartada (nota-se que o texto não diz que o sal perde seu sabor, e sim se desvirtua, pois quimicamente o sal não pode perder seu sabor). Assim acontece com cada discípulo de Jesus. Se aqueles que se chamam cristãos/discípulos de Jesus não forem fiéis aos ensinamentos de Jesus, ao espírito das bem-aventuranças, sem dúvida, merecerão o desprezo dos homens cuja libertação deviam ter colaborado (veja Mt 7,26), e eles serão inúteis, inclusive perigosos e odiosos para os homens. A impropriedade da imagem serve, então, para sublinhar a gravidade daquilo que acontecerá com os discípulos caso eles não vivam segundo o espírito das bem-aventuranças.  Uma comunidade ou um discípulo que, em sua prática, trai a mensagem evangélica perde a razão de existir. A comunidade de discípulos perderá sua identidade como sal, se ela parar de viver no mundo. Consequentemente, o mundo que os discípulos buscam salvar, acabam o destruindo. 

2. Vós Sois a Luz Do Mundo

No AT, Deus é o Criador da luz. Ao criar a luz e dividir o tempo entre luz e trevas, Deus acabou com o primitivo estado de caos (Gn 1,3). A luz é criada por Deus, por isso, ela é um sinal que manifesta visivelmente alguma coisa de Deus. Em outras palavras, a luz é o reflexo da glória de Deus. O Sl 104,2 descreve a luz como vestimenta em que Deus se envolve. Como luz, quando Deus aparece, seu esplendor é semelhante ao dia e das suas mãos saem raios (Hab 3,3s). A luz é, então, a glória ou esplendor de Deus.

No NT a luz é reflexo da divindade. A nuvem luminosa na transfiguração mostra a presença de Deus (Mt 17,5). Deus habita em luz inacessível (1Tm 6,16). Deus é luz (1Jo 1,5). E quem obedece aos seus mandamentos andam na luz (1Jo 1,7). A luz de Deus é vista em Jesus, que é a luz do mundo (Jo 3,19;8,12;9,5;12,35s.46). Jesus é a luz que ilumina todo homem (Jo 1,9) por meio da vida que ele tem dentro de si (Jo 1,4) e brilha para os homens (1Jo 2,8-10). Jesus é também a luz para guiar os pagãos (Lc 2,32). O cristão através de sua participação na luz e na vida de Deus por meio de Jesus, transforma-se em instrumento de luz para aqueles que se acham nas trevas.

“Vós sois a luz do mundo”, diz Jesus aos discípulos. Os discípulos são chamados e enviados para orientar e indicar o caminho no meio da escuridão. A finalidade da missão dos discípulos é a de levar os homens a reconhecerem o Pai. E esse Pai se revela na existência operativa dos que fazem a sua vontade.  Imitando Deus, Pai, no amor por todos, até pelos inimigos, os discípulos se tornam a verdadeira luz para o mundo. Chamados a tornar-se “a luz do mundo”, os discípulos devem fazer tudo para garantir a continuidade da missão de Jesus. Essa luz há de ser percebida: a comunidade cristã e cada cristão não se podem esconder nem viver cerrados em si mesmos. A glória de Deus não mais se manifesta no texto da Lei nem no lugar do templo, mas no modo de agir dos que seguem Jesus. Os discípulos são a luz do mundo à medida que são os reflexos autênticos da vida e do ensinamento de seu Mestre Jesus, e não como os vaga-lumes que só piscam de vez em quando. Os cristãos devem estar bem visíveis e brilhar todos os que se aproximarem deles ou todos os que conviverem com eles. Apesar disso, eles não podem praticar as boas obras para chamar a atenção sobre si, para ser admirados e elogiados. Não é para eles que os homens devem olhar, mas para Deus de Bondade, fonte de todas as boas obras. Os discípulos devem permanecer discretos, pois se a luz bate diretamente nos olhos, somente prejudica, incomoda, irrita e cega.          

Sal e luz são duas coisas que devem ser bem dosadas. O sal dá sabor ao alimento, mas quando excessivo tira-lhe o sabor e faz o paladar provar apenas o dissabor do sal. Acontece mesma coisa com a luz. Precisamos da luz como um dos elementos da sobrevivência. Mas quando a luz é excessiva, pode até cegar, eliminando a capacidade de visão dos olhos. A prática da religião, das virtudes e o bom exemplo, quando mal dosada, pode causar efeito contrário. Se praticarmos as virtudes para criticar os que não as têm e querendo que os outros sejam como nós, nasce, então, a aversão e ainda impede os outros de serem melhores. Mas se as pessoas virem a nossa fé religiosa e a nossa conduta orientadas para a fraternidade e o amor, reconhecer-nos-ão como portadores da luz de Cristo e glorificarão o Pai.          

Por isso, devemos nos perguntar se os outros, os colegas, os nossos familiares, ao perceberem as nossas boas obras e veem nelas a luz de Cristo, os levam a glorificar a Deus e os levam a praticar as mesmas? Quem crê verdadeiramente em Jesus se converte em luz para si mesmo e para os outros.

P.Vitus Gustama,SVD

domingo, 7 de junho de 2026

Segunda-feira Da X Semana Comum, Ano Par, 08/06/2026

SER FELIZ NO CRITÉRIO DE JESUS

Segunda-Feira da X Semana Comum

Primeira Leitura: 1Rs 17,1-6

Naqueles dias, 1 o profeta Elias, tesbita de Tesbi de Galaad, disse a Acab: “Pela vida do Senhor, o Deus de Israel, a quem sirvo, não haverá nestes anos nem orvalho nem chuva, senão quando eu disser!”  2 E a palavra do Senhor foi dirigida a Elias nestes termos: 3 “Parte daqui e toma a direção do oriente. Vai esconder-te junto à torrente de Carit, que está defronte ao Jordão. 4 Lá beberás da torrente. E eu ordenei aos corvos que te deem alimento”. 5 Elias partiu e fez como o Senhor lhe tinha ordenado, e foi morar junto à torrente de Carit, que está defronte do Jordão. 6 Os corvos traziam-lhe pão e carne, tanto de manhã como de tarde, e ele bebia da torrente.

Evangelho: Mt 5,1-12

Naquele tempo: 1 Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-se. Os discípulos aproximaram-se, 2 e Jesus começou a ensiná-los: 3 “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus. 4 Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados. 5 Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra. 6 Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão sa­ciados. 7 Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. 8 Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. 9 Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. 10 Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. 11 Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e, mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim. 12 Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus. Do mesmo modo perseguiram os profetas que vieram antes de vós.

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Entre Providência e Avareza Humana

Durante alguns dias leremos as leituras do Antigo Testamento na segunda parte do Livro dos Reis. Os livros dos Reis, na Bíblia hebraica, formavam um só livro sem divisão. A divisão em dois livros é tardia. E seu objetivo material é a história de Israel e de Judá e, mais concretamente, de seus reis, desde Salomão até os últimos reis de Israel e de Judá. O conteúdo global dos livros dos Reis é a história dos reis de Israel e de Judá, desde a morte de Davi até o exílio para Babilônia, que vão desde 970 a.C, aproximadamente, até 561 a.C. Apesar de sua finalidade teológica os livros dos Reis são o mais importante documento bíblico para a reconstituição histórica do período que vai desde o reinado de Salomão até a destruição de Jerusalém em 587 a.C.

Pela vida do Senhor, o Deus de Israel, a quem sirvo, não haverá nestes anos nem orvalho nem chuva, senão quando eu disser!”, assim lemos no texto da Primeira Leitura de hoje. 

Este período da história do povo de Deus dura três séculos: do ano 935 a.C, ano do cisma entre o Reino Norte e Sul, até o ano 586, ano da destruição de Jerusalém pelo rei Nabuconosor.  Neste período há a decadência humana e religiosa do povo de Deus: a idolatria, as divisões, as injustiças sociais arruínam lentamente as relações humanas no seio do povo de Israel e se torna presa fácil dos grandes impérios vizinhos.

Durante este período surgem os profetas que intervém como defensores da fé no Deus único (monoteísmo) e da justiça social: Elias, Eliseu, Isaias, Amós.

A primeira Leitura de hoje nos relatou: “Naqueles dias, o profeta Elias disse a Acab: “Pela vida do Senhor, o Deus de Israel, a quem sirvo, não haverá nestes anos nem orvalho nem chuva, senão quando eu disser!”.

Acab (Heb. “irmão do pai”) é o sétimo rei de Israel após a divisão do reino, na mesma época em que o profeta Elias desenvolveu seu ministério. Ele governou Israel de 874 a 853 a.C. Acaba foi um dos piores reis do Norte (1Rs 16,30-33). Seus crimes não eram apenas políticos. Sua culpa maior foi permitir a propagação da adoração a Baal. Sua hábil politica internacional é interpretada negativamente devido às graves consequências da adoração mista.O rei Acab é um dos reis que se aproveitam do poder para se enriquecer, explorando o povo simples. Enquanto seus súditos vivem na miséria, sob o jugo de impostos demasiado onerosos, Acab vive na mordomia. Além do mais, Acab construiu um templo  para Baal e obriga seus súditos a fazer culto idolátrico.

O profeta Elias se apresenta diante do rei Acab proclamando a soberania do Deus de Israel (Javé) sobre a natureza. Somente o Deus da Israel é o Deus verdadeiro, o único que pode dar a chuva e tirá-la. Por isso, Elias, o profeta de Deus, pode anunciar um período de seca de dois anos. As palavras de Elias seguramente provocam a fúria do rei Acab. E Elias, pela ordem do Senhor, se esconde e o próprio Deus vai garantir sua subsistência: “Parte daqui e toma a direção do oriente. Vai esconder-te junto à torrente de Carit, que está defronte ao Jordão. Lá beberás da torrente. E eu ordenei aos corvos que te deem alimento”.

Duas lições que podemos tirar da Primeira leitura. Primeira lição, a providência divina existe e está aberta para quem acredita firmemente em Deus a exemplo do profeta Elias. Deus salva. E salvar é criar e recriar continuamente. Somos fruto do amor de Deus. O Criador poderia contentar-se com dar existência às coisas, abandonando-as a sua sorte. Mas Deus que gera vida por amor continuará amando o que ele gerou, pois ali persiste de alguma maneira sua própria vida, pois somos “sopro de Deus” (Cf. Gn 2,7; 1Cor 3,16-17). Na criação por amor, a vida é chamada a ser tão duradoura como o amor que a gerou, pois o amor não abandona aquele que ele gerou; seria como abandonar-se a si mesmo. Tudo isto simplesmente chama-se de a PROVIDENCIA DIVINA. Providência é atributo pelo qual Deus concebe o plano das coisas e dirige-lhe a execução, determinando cada criatura e para todo o universo o fim a seguir, bem como os meios necessários para sua realização.

A segunda lição é o perigo da avareza encarnada na vida do rei Acab e sua esposa, Jezabel (muito longe do significado do seu nome. “Jezabe” em hebraico significa “virtuosa”). Sabemos muito bem que por natureza o ser humano procura apropriar-se das coisas no intuito de usá-las para vida durante sua passagem neste mundo. É uma aspiração legítima. Mas se a cobiça dos bens materiais for exagerada, se for excessivo o apego a eles, os bens materiais deixarão seu caráter de meio. Consequentemente, o ser humano deste tipo não estará mais exercendo um direito e sim será vítima de um vício hediondo chamado a AVAREZA. A avareza é um desvio do significado de infinito para o finito, é uma transposição do absoluto para o relativo. Não podemos nos esquecer que todos os bens materiais que adquirimos aqui neste mundo, vão ficar aqui neste mundo. E tudo que tem o caráter divino: amor, bondade, solidariedade, hospitalidade, compaixão etc. (cf. Mt 25,31-45), será levado para a eternidade, pois será reconhecido pelo próprio Deus. Podemos entender aquilo que Jean de La Fontaine dizia: "A avareza perde tudo ao pretender ganhar tudo."  Ou nas palavras de Plutarco: "A avareza é um tirano bem cruel; manda ajuntar e proíbe o uso daquilo que se junta; visita o desejo e interdiz o gozo". O avarento vive como pobre e morre como rico.

Somos Chamados a Ser Felizes

O texto lido no evangelho de hoje é o início do Sermão da Montanha (Mt 5-7). O Sermão da Montanha é um “indicativo” (quem somos) e que se faz “imperativo” (o que devemos fazer e como devemos viver).

O texto do evangelho deste dia é conhecido com as Bem-aventuradas. As Bem-aventuranças são “a Carta Magna” do Reino, pois afirma quem são os seus cidadãos e qual a sua condição para ser cidadão do Reino. As Bem-aventuranças são um “breviário” de vida cristã; a regra de vida do Filho. Através destas bem-aventuranças logo percebemos que o projeto de Jesus para os homens é a felicidade. Jesus quer que todos sejam felizes. As bem-aventuranças são descrições das qualidades que devem ser encontradas na vida dos que se submetem à soberania de Deus. Elas são também uma declaração das bênçãos ou uma proclamação da felicidade (não só promessas da felicidade) que já experimentam em parte e que irão gozar mais plenamente na vida futura todos os que revelem tais virtudes. As bem-aventuranças refletem a própria experiência, perpassada pelo sofrimento e pela perspectiva da cruz. Jesus é, por isso, garantia e modelo da existência feliz.

A própria palavrafelicidadederiva do latimfelicitas”, substantivo proveniente do adjetivo “felix”, que quer dizer frutífero, fértil, fecundo e, por extensão, próspero.

Quais são pessoas declaradas felizes por Jesus e por quê? Jesus declara felizes àqueles que mantêm viva a confiança em Deus apesar de serem indefesos, oprimidos, marginalizados e perseguidos por causa do bem praticado e do amor vivido até o fim.

Os felizes são os que têm coração pobre, um coração centrado em Deus e que se traduz no amor ao próximo e que rejeitam toda espécie de idolatria, os pobres em espírito (anawim ruah, grego). A pbreza em espírito é a humildade, característica primeira do amor. Deus dá seus dons ao pobre, até doa a Si mesmo. A pobreza em espírito é a condição para acolher o Absoluto. A pobreza é aquela pobreza absoluta que recebe o Absoluto. Os pobres em espírito (e não pobre de espírito) são os “piedosos no espírito”, são aqueles se submetem interiormente, sem resistência à vontade de Deus. O espírito de humilde submissão à vontade de Deus, nasce da fé inabalável na soberania e na misericórdia de Deus e que se traduz em atitudes e condutas de bondade e de mansidão, de misericórdia e de compaixão, de tolerância e de compreensão na convivência com os outros. Esta atitude de humildade diante de Deus, nascida da fé, se traduz em atitudes e condutas de desapego aos bens materiais, de bondade, de partilha que é a alma do projeto/plano de Deus, e de solidariedade. É ser pobre no espírito, e não é pobre de espírito.

É bom sabermos que a primeira e e a última bem-aventurança estão no presente, as outras são para o futuro. Isto quer nos dizer que o Reino de Deus já é dos pobres em espírito e dos perseguidos. O Reino dos Céus é o próprio Deus que reina.         

Os felizes são os mansos que por não responderem à violência com violência, mas que estão prontos a perdoar. Jesus declara felizes não os que são mansos por temperamento, mas os que, apesar de não disporem de meios para fazer valer seus direitos, não são violentos nem agressivos, mas pacientes e indulgentes. Eles acreditam que a vida baseada no princípio “olho por olho” só resulta na cegueira, e na cegueira nada se vê. Só escuridão.  O manso aceita o tempo de Deus e a maneira de Deus. Por isso, o manso não é um fraco, mas um crente que tem força da alma. A mansidão é o sinal visível da benevolência e do respeito. Em Cristo encontramos o modelo perfeito da mansidão: “... aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração...” (cf. Mt 11,29).          

Os felizes são os indefesos que não têm como defender seus direitos por falta de recursos, mas que esperam somente a intervenção divina. Os felizes são os que não pactuam com a maldade, com a divisão, com a malícia, nem se deixam levar pela lógica da dominação e do autoritarismo. Jesus declara felizes os que estão aflitos(v.5) por experimentarem a ausência da justiça de Deus mas continuam esperando em Deus pois só Ele pode converter a tristeza em alegria e o pranto em canto.        

Os felizes são os que têm um coração cheio de misericórdia para com os semelhantes. Um misericordioso é aquele que é capaz de amar até a pessoa que não merece ser amada do ponto de vista humano. Mas por acreditar na misericórdia de Deus, ele sempre quer o bem da mesma. Os misericordiosos são aqueles que, efetivamente, abrem seu coração para os outros e executam gestos concretos para aliviar sua aflição. Os felizes não são os que, por índole natural, têm um coração sensível e sentimentos de compaixão, mas os que fazem gestos concretos de misericórdia, ajudando e servindo os necessitados.     

Os felizes são os promotores da paz que procuram criar laços de amizade e banir toda espécie de ódio, ajudar a superar as divisões para que mundo seja cada vez mais fraterno, e mais humano. Santo Agostinho dizia: “Não basta ser pacífico. É necessário ser promotor da paz. Quem são os pacíficos? Não os pacifistas, mas os promotores da paz. Não basta estar disposto a perdoar ou ignorar os inimigos, é preciso amá-los e ter compaixão por eles. Não odeias aos cegos, mesmo que ames a luz. Da mesma forma, deves amar a paz sem odiar os que fazem guerra”. Aos construtores da paz é feita a promessa solene de que no juízo final lhes será dado o maior de todos os títulos: “Serão chamados filhos de Deus”.          

Os felizes são os perseguidos por causa da justiça, por causa do bem que fazem, por viverem retamente. Quem sempre faz o bem, muitas vezes acaba sendo perseguido e crucificado como Jesus. Mas ele é feliz, pois até o fim ele é capaz de dizer sim para o bem e dizer não para o mal. Quem pára de crescer neste espírito das bem-aventuranças, começa a morrer. Quem, ao anunciar o Evangelho, for aplaudido por todos e, sobretudo, pelos donos de poder, pode estar certo de que ele ainda não é o profeta verdadeiro, pois ele deixou de ser o sal da terra para converter-se em adoçante. No caso de perseguição (como também na primeira bem-aventurança), a promessa é formulada no presente: “Deles é o Reino dos céus”. O reino lhes pertence desde agora          

Portanto, as bem-aventuranças são uma proclamação de amizade de Deus para as pessoas que participaram do espírito dessas bem-aventuranças e são um programa da vida de cada cristão (vocação á felicidade é para todos), e também são uma celebração da felicidade como dom ou graça presente, como uma realidade já presente e não apenas como algo depois da morte ou uma recompensa futura pela carência na terra. Se entendêssemos as bem-aventuranças somente como uma compensação para depois da morte, elas seriam “ópio do povo”. Em outras palavras, somos felizes já na medida em que pertencemos a Deus no presente que se traduz na vivência da fraternidade universal. Então, também o futuro de Deus nos pertence. A partir daí, o céu é a experiência de compartilhar a alegria, a paz e o amor de Deus na plena capacidade humana e vivida entre os homens.

Será que posso me declarar que sou um dos bem-aventurados na declaração de Jesus?

P. Vitus Gustama,svd

Terça-feira Da XVIII Semana Comum, Ano Par, 04/08/2026

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