quinta-feira, 26 de junho de 2025

Imaculado Coração De Maria,28/06/2025

IMACULADO CORAÇÃO DE MARIA

Primeira Leitura: Is 61,9-11

9 A descendência do meu povo será conhecida entre as nações, e seus filhos se fixarão no meio dos povos; quem os vir há de reconhecê-los como descendentes abençoados por Deus. 10 Exulto de alegria no Senhor e minha alma regozija-se em meu Deus; ele me vestiu com as vestes da salvação, envolveu-me com o manto da justiça e adornou-me como um noivo com sua coroa, ou uma noiva com suas joias. 11 Assim como a terra faz brotar a planta e o jardim faz germinar a semente, assim o Senhor Deus fará germinar a justiça e a sua glória diante de todas as nações.

Evangelho: Lc 2,41-51      

41 Os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém, para a festa da Páscoa. 42 Quando ele completou doze anos, subiram para a festa, como de costume. 43 Passados os dias da Páscoa, começaram a viagem de volta, mas o menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que seus pais o notassem. 44 Pensando que ele estivesse na caravana, caminharam um dia inteiro. Depois começaram a pro­curá-lo entre os parentes e conhecidos. 45 Não o tendo encontrado, voltaram para Jerusalém à sua procura. 46 Três dias depois, o encontraram no Templo. Estava sentado no meio dos mestres, escutando e fazendo perguntas. 47 Todos os que ouviam o menino estavam maravilhados com sua inteligência e suas respostas. 48 Ao vê-lo, seus pais ficaram muito admirados e sua mãe lhe disse: “Meu filho, por que agiste assim conosco? Olha que teu pai e eu estávamos, angustiados, à tua procura”. 49 Jesus respondeu: “Por que me procuráveis? Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai?” 50 Eles, porém, não compreenderam as palavras que lhes dissera. 51 Jesus desceu então com seus pais para Nazaré, e era-lhes obediente. Sua mãe, porém, conservava no coração todas estas coisas.

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Neste dia celebramos a memória obrigatória do Imaculado Coração de Maria, logo depois da Solenidade do Sagrado Coração de Jesus: Mãe e Filho são inseparáveis.

A devoção ao coração de Maria foi propagada por São João Eudes no século XVII (remonta a 1643), devoto aos Corações de Jesus e Maria. Em 1944, Pio XII consagrou toda a humanidade ao coração de Maria, e fixou a celebração de sua festa no dia 22 de Agosto, oitava da Assunção, no intuito de pedir a paz. Esta festa é colocada no dia imediato à solenidade do Sagrado Coração de Jesus para voltar à origem histórica desta devoção. No século XVII, São João Eudes, em seus escritos, não separava os dois corações nos projetos litúrgicos. Esta celebração convida o povo a meditar no mistério de Cristo e da Virgem Maria em sua interioridade e profundidade. Maria conserva as palavras e os fatos do Senhor, meditando-os em seu coração (Lc 2,19); ela é morada do Espírito Santo, sede da sabedoria, imagem e modelo da Igreja que ouve e testemunha a mensagem do Senhor.

O coração de Jesus e o coração de Maria são inseparáveis. Falar do coração, e ainda mais falar do coração de uma mulher bendita (Maria) é situar-nos em um campo de esperança. A linguagem popular diz: “tem um coração de ouro”, “é de todo coração”. Coração significa intimidade, vida interior, o motor e a raiz da pessoa. Na Bíblia, coração é igual à própria pessoa. O Coração da Virgem Maria é re´presentado com dois símbolos: a espada da dor e do martírio e as chamas do amor e da ternura.

O que é que entendemos quando falamos do Coração de Maria? Ao falar do Coração de Maria entendemos, em primeiro lugar, seu Coração físico, o que batia em seu peito durante sua vida mortal e agora no céu. Em segundo lugar, O conjunto de afetos, qualidades e virtudes que constituem “sua vida interior”. É sua pessoa mesma, considerada em seu mais nobre aspecto: o amor a Deus e à humanidade, pois ela aceito o convite de Deus para ser Mãe do Salvador da humanidade.

Em todos os tempos, na linguagem usual, a palavra “coração” é tomada como símbolo da vida interior do homem e da sua vida afetiva. A Sagrada Escritura geralmente dá ao termo “coração” este caráter simbólico. Deste modo, através do Coração físico de Maria veneramos sua vida interior e sua própria pessoa pela suprema razão da sua dignidade imensa de Mãe de Deus.

A maternidade divina de Maria é a raiz e a causa de todas as graças que adornam seu Coração. Escreveu Papa Pio XII na Carta Enciclica Fulgens Corona de 1953: “Como a santíssima Virgem é saudada com as palavras ‘cheia de graça’ (Lc 1, 28) – isto é kekaritoméne e ‘bendita entre todas as mulheres’, claramente se manifesta com essas palavras, como aliás sempre a tradição católica entendeu, que, com essa singular e solene saudação, nunca até então ouvida, se quer significar que a Mãe de Deus foi a sede de todas as graças divinas, e ornada com todos os carismas do Espírito Santo, e, mais ainda, com o tesouro quase infinito e inexaurível abismo deles, de tal forma que nunca esteve sujeita à maldição” (n.8). Graças tão excepecionais que Santo Tomás de Aquino afirma que, por ser Mãe de Deus, a Santíssima Virgem tem certa dignidade infinita.

E esta excelsa ou sublime maternidade, que coloca Maria acima de todas as criaturas, foi realizada em seu Imaculado Coração, antes que em suas puríssimas entranhas "Ao Verbo que deu à luz segundo a carne, O concebeu, primeiramente, segundo a fé no seu Coração", afirmam os Santos Padres. Através da fé e do amor, através da pureza, submissão e humildade do seu Coração, Maria merecia levar em seu ventre o Filho de Deus.

Se todo coração de mãe já é uma admirável cristalização do amor de Deus, que será o Coração de Maria destinado à mais augusta maternidade? Todos os adjetivos ficam aquém quando se trata de definir o Coração de Maria. Depois de ter dito que ele é imaculado, bondoso, santo, muito humilde, cheio de caridade, muito misericordioso, temos a impressão de não ter dito nada.

O evangelho lido neste dia nos relatou que “Três dias depois, encontraram Jesus no Templo. Estava sentado no meio dos mestres, escutando e fazendo perguntas”. Muitos biblistas consideram os “três dias” como alusão aos três dias entre a Cruz e a Ressurreição. Três dias são dias de sofrimento pela ausência de Jesus; são três dias de escuridão. E o peso destes três dias se revela nas palavras da Mãe de Jesus: “Meu filho, por que agiste assim conosco? Olha que teu pai e eu estávamos, angustiados, à tua procura” (Lc 2,48).

Este relato nos mostra a importância da presença de Jesus e de sua palavra na nossa vida, sem os quais nossa vida se torna escura, sem sabermos para qual direção devemos caminhar. Não é por acaso que, na sua busca do terreno que não o satisfez, Santo Agostinho dizia na sua oração: “Fizeste-nos para Ti, Senhor, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em ti” (Confissões 1,1). Unir-se com Deus, estar em comunhão com Deus é a condição para ter paz do coração. Estar em comunhão com Jesus e Sua Palavra significa também estar envolvido no mistério de Sua Paixão e Ressurreição.

Por isso, podemos entender o significado da resposta de Jesus à Sua Mãe: “Por que me procuráveis? Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai?”. Aqui Jesus usa a palavra “devo” para dizer que Jesus pertence a Deus que é o seu próprio Pai e ele deve estar com o Pai. Consequentemente, Jesus não está desobedecendo a Mari e José, mas na realidade mostra sua obediência filial ao Deus Pai. Implicitamente, Jesus quer que Maria e José se mantenham no Deus Pai, obedientes à Sua vontade. Essa obediência é que vai levar Jesus para a Cruz e a Ressurreição.

Mas Lucas nos relatou que “Eles, porém, não compreenderam as palavras que lhes dissera. Jesus desceu então com seus pais para Nazaré, e era-lhes obediente. Sua mãe, porém, conservava no coração todas estas coisas”. As palavras de Jesus sempre são maiores do que nossa razão, nossa inteligência. Jamais podemos entender perfeitamente o sentido profundo da Palavra de Deus. A palavra de Jesus é grande demais para Maria. É tão grande a ponto de Maria só guardá-la no seu coração: “Sua mãe, porém, conservava no coração todas estas coisas”. Maria, que conservava as palavras e os fatos do Senhor, meditando-os em seu coração (Lc 2,19) é a verdadeira morada do Espirito Santo, sede da sabedoria, imagem e modelo da Igreja que ouve, medita e testemunha a mensagem do Senhor Jesus Cristo. Cedo ou tarde a Palavra de Deus vai nos iluminar para captar o sentido de cada coisa, de cada acontecimento na nossa vida.     

O coração de Maria esteve sempre cheio de Deus a ponto de o anjo do Senhor chamá-la de “cheia de graça” (cf. Lc 1,28). O seu coração imaculado é chamado santuário do Espírito Santo (LG 53), como rezamos na coleta, em virtude da sua maternidade divina e da inabitação contínua e plena do Espírito divino na sua alma. O Verbo que Maria deu à luz segundo a carne foi antes concebido segundo a fé no seu coração (Santo Agostinho). Foi em vista do seu Coração Imaculado, cheio de fé e de amor humilde, juntamente à benevolência totalmente gratuita e de uma complacência absolutamente pura de Deus que Maria mereceu trazer o Filho de Deus no seu seio virginal.

Sua mãe, porém, conservava no coração todas estas coisas”. Maria, que ainda não entende, é  modelo da Igreja: “Guarda através do tempo” (esse é o significado da palavra grega diatereîn), essas palavras, como uma semente que vai crescer. Depois de ter carregado o Filho no útero, agora o leva no coração e se torna realmente mãe (Lc 8,21; 11,28), com a Igreja. Essa gestão espiritual do coração forma a estrutura plena de Cristo (Ef 4,13). Maria é realmente o ideal de qualquer crente.

O coração de Maria conservava as palavras de Jesus Cristo. Por isso, podemos dizer que seu peito foi um sacrário: “Sua mãe, porém, conservava no coração todas estas coisas”. O Coração de Maria é a projeção do Evangelho para nosso século. Maria viveu o Evangelho em seu mais puro e elevado espírito na interioridade de seu coração. Ela é a verdadeira discípula de Jesus que vive por causa da Palavra de Deus: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a Tua Palavra” (Lc 1,38).       

O cristão de nossos dias, que pretende adaptar sua vida às exigências do Evangelho, tem que penetrar com o máximo respeito no sagrado Coração de Maria e ver e aprender como ela viveu as exigências da Palavra de Deus. Maria sabe guardar a Palavra de Deus no seu coração para do seu coração sair frutos que Deus quer para o bem de toda a humanidade. Ao aderir à Palavra de Deus e ao guardar a Palavra de Deus no seu coração, Maria cresce progressivamente com a Palavra, mesmo que ela não compreenda seu significado no momento como aconteceu com a resposta de Jesus no Templo aos doze anos de idade, como relatou o evangelho lido neste dia. De Maria aprendemos que o coração é feito para guardar os tesouros da vida divina, para guardar a Palavra de Deus. Não guardemos no nosso coração aquilo que nos prejudica e destrói a vida alheia. Guardemos a Palavra redentora de Deus no nosso coração, para ela possa purificar nosso coração progressivamente a fim de um dia poder se tornar um coração imaculado semelhante ao Coração imaculado de Maria.       

Do coração de Maria brotam torrentes de graças de perdão, de misericórdia, de ajuda nas situações difíceis. Por isso, queremos pedir-lhe hoje que nos dê um coração puro, humano, compreensivo com os defeitos dos que convivem conosco.

Quando se fala do coração imaculado fala-se do coração capaz de amar sem limites. Amor é capacidade de sair de si mesmo, de transferir-se para outro ser, de participar de outro ser e de entregar-se por um outro ser. Aquele que ama está totalmente no outro, conservando sua identidade. O amor não pode realizar-se na esfera de um sujeito isolado. O verdadeiro amor é sempre como uma experiência de derrota que se transforma em vitória; uma experiência de entrega que se transforma em enriquecimento; uma experiência de sair de si que se transforma no mais profundo encontro consigo mesmo; uma experiência de morte que se transforma em vida. O ponto final do amor é a vitória sobre a morte. O ponto final do egoísmo é a morte, e a ausência do amor é a ausência de Deus. “É preciso amar os homens não pela simpatia que nos inspiram nem pelas qualidades que apreciamos, mas porque Deus os ama” (Martin Luther King).

Dizer-se devoto(a) do Coração de Maria é ser homem ou mulher de coração misericordioso onde habita o amor e a ternura. Por isso, terminamos a nossa oração pedindo ao Senhor: “Ó Deus, que preparastes no Imaculado Coração de Maria uma digna morada para o vosso Filho e um santuário para o Espírito Santo, concedei-nos um coração limpo e dócil, para que, sempre submissos aos vossos preceitos, Vos amemos sobre todas as coisas e ajudemos os nossos irmãos em todas as suas necessidades”. Assim seja.

P. Vitus Gustama,svd

Sagrado Coração De Jesus- Solenidade, 27/06/2025

SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS

SOLENIDADE

I Leitura: Ez 34,11-16

11 Assim diz o Senhor Deus: “Vede! Eu mesmo vou procurar minhas ovelhas e tomar conta delas. 12 Como o pastor toma conta do rebanho, de dia, quando se encontra no meio das ovelhas dispersas, assim vou cuidar de minhas ovelhas e vou resgatá-las de todos os lugares em que forem dispersadas num dia de nuvens e escuridão. 13 Vou retirar minhas ovelhas do meio dos povos e recolhê-las do meio dos países para as conduzir à sua terra. Vou apascentar as ovelhas sobre os montes de Israel, nos vales dos riachos e em todas as regiões habitáveis do país. 14 Vou apascentá-las em boas pastagens e nos altos montes de Israel estará o seu abrigo, e pastarão em férteis pastagens sobre os montes de Israel. 15 Eu mesmo vou apascentar as minhas ovelhas e fazê-las repousar – oráculo do Senhor Deus. 16 Vou procurar a ovelha perdida, reconduzir a extraviada, enfaixar a da perna quebrada, fortalecer a doente, e vigiar a ovelha gorda e forte. Vou apascentá-la conforme o direito”.

II Leitura: Rm 5,5b-11

Irmãos, 5b O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito que nos foi dado. 6 Com efeito, quando éramos ainda fracos, Cristo morreu pelos ímpios, no tempo marcado. 7 Dificilmente alguém morrerá por um justo; por uma pessoa muito boa, talvez alguém se anime a morrer. 8 Pois bem, a prova de que Deus nos ama é que Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores. 9 Muito mais agora, que já estamos justificados pelo sangue de Cristo, seremos salvos da ira por ele. 10 Quando éramos inimigos de Deus, fomos reconciliados com ele pela morte do seu Filho; quanto mais agora, estando já reconciliados, seremos salvos por sua vida! 11 Ainda mais: Nós nos gloriamos em Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo. É por ele que, já desde o tempo presente, recebemos a reconciliação.

Evangelho: Lc 15,3-7

Naquele tempo, 3 Jesus contou-lhes esta parábola: 4 ”Se um de vós tem cem ovelhas e perde uma, não deixa as noventa e nove no deserto, e vai atrás daquela que se perdeu, até encontrá-la? 5 Quando a encontra, coloca-a nos ombros com alegria, 6 e, chegando a casa, reúne os amigos e vizinhos, e diz: ‘Alegrai-vos comigo! Encontrei a minha ovelha que estava perdida!’ 7 Eu vos digo: Assim haverá no céu mais alegria por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não precisam de conversão”.

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Neste dia, na Sexta-feira depois de Pentecostes, celebramos a festa do Sagrado Coração de Jesus ao que temos muita devoção. A devoção ao Sagrado Coração de Jesus é devoção ao próprio Cristo.

Devoção, em seu sentido primário, significa dar-se a si mesmo a alguém ou a algo. No contexto da verdadeira religião, devoção significa uma atitude da vontade, serena e constante, fruto de uma decisão refletida pela qual a pessoa se entrega em todo momento ao serviço de Deus. É uma oferenda de si mesmo a Deus, dedicando-se, permanentemente, a todas aquelas atividades referentes à honra de Deus. Qualquer devoto cumpre seus deveres referentes à sua devoção conscientemente e constantemente apesar das dificuldades encontradas. A palavra latina “devotio” (devoção) indica força, vontade decidida de fazer a vontade de Deus independentemente da situação encontrada. Por isso, devoção está longe de ficar no nível de sentimento.    

O que queremos dizer ao falar do Coração de Jesus ou de um coração humano?

O coração representa o ser humano em sua totalidade; é o centro original da pessoa humana, o que lhe dá unidade. O coração é o centro de nosso ser, a fonte de nossa personalidade, o motivo principal de nossas atitudes e escolhas livres, o lugar da misteriosa ação de Deus. Apesar de poderem existir o bem e o mal nas suas profundezas, o coração continua sendo símbolo de amor. Por isso, a essência mais profunda da realidade pessoal é o amor. O homem foi criado para amar e ser amado. Fora disto ele perderia a razão de ser e de viver. “Ama e faze o que tu quiseres” (Santo gostinho).     

A devoção ao Coração de Jesus está totalmente de acordo com a essência do cristianismo que é religião de amor (cf. Jo 13,34-35), pois o cristianismo tem como objetivo o aumento de nosso amor a Deus e ao próximo (cf. Fl 1,9). O símbolo deste amor é o coração de Jesus que ama a todos sem medida. Jesus Cristo é a encarnação do amor de Deus por nós desde a eternidade: “Eu te amei com amor eterno, por isso conservei para ti o amor” (Jr 31,3). Em cada página dos evangelhos fala-se do amor de Jesus por nós. “Tudo o que Deus queria nos dizer de si mesmo e de seu amor, ele o depositou no coração de Jesus e o expressou através deste Coração. Através do Coração de Jesus lemos o eterno plano divino da salvação do mundo. E trata-se de um projeto de amor” (João Paulo II).     

A devoção ao Sagrado coração de Jesus quer nos chamar de volta à primordial razão de nosso ser: amar. “Quanto mais amas, mais alto tu sobes” (Santo Agostinho). Uma pessoa com coração é uma pessoa profunda, próxima, compreensiva, capaz de ir ao fundo das coisas e dos acontecimentos. Uma pessoa com coração não é dominada pelo sentimentalismo e sim é uma pessoa que alcançou uma unidade e uma coerência, um equilíbrio e uma maturidade. Ela nunca é fria, mas cordial, nunca é cega diante da realidade, mas realista, nunca é vingativa, mas pronta para perdoar e para reconciliar-se. Um coração cristão, a exemplo do de Jesus, é um coração de dimensão universal, um coração que supera o egoísmo, um coração magnânimo capaz de abraçar a todos. A espiritualidade do coração é uma verdadeira espiritualidade, pois inclui a oração, a conversão, a escuta do Espírito, o cuidado para o próximo, a compaixão, a solidariedade e a partilha. Não é por acaso que para o homem de antiguidade ter coração equivalia a ser uma personalidade íntegra.       

A devoção ao Sagrado Coração é devoção a Cristo mesmo. O próprio Cristo é o objeto de nossa adoração e para ele é que dirigimos nossa oração.        

Jesus teve um amor perfeito, seu coração é para nós o perfeito emblema de amor. Seu coração foi saturado de amor perfeito ao Pai e aos homens. Seu amor é totalmente humano porque nele nos encontramos com o mistério de um amor humano-divino. O amor de Deus se encarnou no amor humano de Jesus. Por isso, Jesus nos convida: “Aprendei de mim porque sou humilde e manso de coração”. Humilde indica uma docilidade interior que se expressa na docilidade com os demais. Manso indica uma atitude valente, mas não violenta, misericordiosa, tolerante, pronto para perdão, mas também exigente.        

O amor de Deus não é compatível com a indiferença diante do sofrimento alheio e diante da injustiça social. Mas nossas atividades, inclusive as práticas políticas e sociais devem ser animadas pelo amor cristão.        

A contemplação do mistério de amor de Deus por nós deve nos conduzir a uma resposta múltipla. Deve suscitar em nós sentimentos de fé, amor e adoração. No contexto religioso devoção indica serviço dedicado e vontade decidida de fazer a vontade de Deus. Sugere culto não somente do tipo litúrgico, mas de nossa vida inteira. Esta devoção se realiza aceitando o convite de Jesus a tomar nossa cruz e segui-lo.        

A comunhão sacramental não é somente participar no Corpo e no Sangue de Cristo; implica a participação na vida dos seus membros com um compromisso de amor e de serviço.        

Viver no amor é escolher Deus, permanecer em Deus, viver em comunhão com Deus. Quando mantemos essa relação com Deus, o Espírito reside em nós e opera, por nosso intermédio, obras grandiosas em favor do homem – obras que dão testemunho do amor de Deus.        

Tornar o amor de Deus uma realidade viva no mundo significa lutar objetivamente contra tudo o que gera ódio, injustiça, opressão, mentira, sofrimento e assim por diante. Será que eu pactuo (com o meu silêncio, indiferença, cumplicidade) com os sistemas que geram injustiça, ou será que eu me esforço ativamente por destruir tudo o que é uma negação do amor de Deus? Um coração grande na vida é aquele que escolhe aquilo que eleva, e liberta-se daquilo que rebaixa a humanidade. 

A devoção ao Sagrado coração de Jesus nos faz um questionamento: que resposta dar ao Cristo que nos amou até morrer crucificado?        

Santo Agostinho dizia: “O que amamos em Cristo? Seus membros crucificados, seu lado traspassado ou sua caridade? Quando ouvimos que sofreu por nós, o que amamos nele? É seu amor que amamos. Ele nos amou para que lhe retribuíssemos amor por amor, e para que possamos lhe retribuir amor por amor, visitou-nos pelo seu Espírito” (Sermão sobre Sl 127,8). 

A comunhão sacramental não é apenas participar no Corpo e no Sangue de Cristo; também implica participação na vida de seus membros com um compromisso de amor e serviço. Esta é a idéia expressa na oração pós-comunhão: "Que este sacramento da caridade nos inflame em vosso amor e, sempre voltados para o vosso Filho, aprendamos a reconhece-lo em cada irmão”. 

O latim usa a palavra “attrahere”, no sentido de ser atraídos para o coração aberto do Salvador, e se inspira nas mesmas palavras do Senhor: "E quando for levantado da terra, todos atrairei a mim" (Jo 12,32). Ser atraídos por Jesus, para seu coração, não significa ser retirados de nossos irmãos; é encontrá-los no Coração de Cristo, para amá-los "nas entranhas de Cristo Jesus" (Fl 1,8).       

Não podemos fazer a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, se não temos ainda o espirito de serviço fraterno, se ainda guardamos o ódio no nosso coração, se não somos capazes de perdoar, se não nos preocupamos com a salvação de todos. Uma pessoa que tem a devoção ao Sagrado Coração de Jesus tem uma missão de levar a todos o amor de Cristo. Mas precisamos saber que ser uma pessoa amorosa é bastante diferente de ser o chamado “prestativo”. Os prestativos usam tão-somente as outras pessoas como oportunidade de praticar atos virtuosos, dos quais mantém registro cuidadoso. As pessoas que amam aprendem a mudar o foco de atenção e da preocupação de si para outras pessoas; elas se preocupam intensamente com as outras pessoas. Nosso cuidado e preocupação pelos outros devem ser autênticos, do contrário nosso amor nada significa. Não se aprende a viver sem antes aprender a amar. O amor humano quando é verdadeiro nos ajuda a saborear o amor divino. E o amor divino em nós nos faz mais compassivos, mais generosos, mais éticos e mais reconciliados; damos aquilo que recebemos, ensinamos aquilo que aprendemos. Ninguém pode viver este amor se não se forma na escola do Coração de Jesus. Somente se olharmos e contemplarmos o Coração de Cristo é que conseguiremos que o nosso coração se liberte do ódio e da indiferença. Somente assim saberemos reagir de modo cristão diante da ofensa e dos sofrimentos alheios e diante da dor humana.        

Pedimos ao Sagrado Coração de Jesus ao qual temos a devoção que nos conceda um coração bom capaz de compadecer-se para remediar os tormentos que acompanham e angustiam tantas pessoas neste mundo. O verdadeiro bálsamo é o amor, a caridade. Todos os demais consolos servem apenas para distrair um momento, e deixar mais tarde a amargura e o desespero.     

Será que as nossas comunidades, as nossas pastorais, os nossos grupos são espaços de acolhimento e de hospitalidade, oásis do amor de Deus, não só para os amigos e colegas, mas também para os pobres, os marginalizados, os sofredores que buscam em nós um sinal de amor, de ternura e de esperança? 

PARA REFLETIR MAIS:

As 5 principais conclusões de 'Dilexit nos', a nova encíclica do Papa Francisco sobre o Sagrado Coração segundo o comentário dos teólogos Ricardo da Silva, Sam Sawyer, Colleen Dulle, Zac Davis, membros da equipe de America, publicado por America, 24-10-2024.

1. O Coração É O Cerne Da Pessoa Humana; O Mundo Perdeu O Seu Coração

Parece quase óbvio demais, talvez até simples, mas o Papa Francisco acha que precisamos ouvir: estamos em um período da civilização humana em que estamos, na melhor das hipóteses, sob séria ameaça de perder nosso coração, ou já o perdemos e precisamos desesperadamente recuperá-lo.

O coração revela “quem realmente somos” (n. 6), escreve o Papa Francisco, pois é “a morada do amor em todas as suas dimensões espirituais, psíquicas e até físicas” (n. 21), “um núcleo que se esconde por trás de todas as aparências exteriores, mesmo por trás dos pensamentos superficiais que podem nos desviar” (n. 4).

Nossas perguntas existenciais mais profundas — “Quem sou eu, realmente? O que estou procurando? Que direção quero dar à minha vida, minhas decisões e minhas ações? Por que e com que propósito estou neste mundo? … Quem eu quero ser para os outros? Quem sou eu para Deus?” — podem ser respondidas por uma única e mais fundamental pergunta: “Eu tenho um coração?” (n. 23). Essas perguntas que nos ocupam profundamente e nos permitem dar sentido à nossa existência são ponderadas e mantidas no coração, assim como Maria que, nos diz São Lucas, prezava e ponderava sobre todas as coisas em seu coração. (n. 19; consulte Lc 2,19 e 51).

O coração não é apenas a sede da “profunda emoção” (n. 16), onde descobrimos quem somos, mas é também o lugar onde nasce o amor: o amor incondicional de Deus por nós, e do qual flui nossa capacidade de amar os outros. Em nosso coração, descobrimos o “fogo ardente” dessa capacidade, permitindo-nos “nos tornar, de forma completa e luminosa, as pessoas que devemos ser, pois todo ser humano é criado acima de tudo para o amor. Na fibra mais profunda do nosso ser, fomos feitos para amar e ser amados” (n. 21).

E é, em última análise, nesta descoberta do amor de Deus por nós, na profundidade e unidade do nosso ser, que aprendemos a amar os outros, que é a essência do que significa ser seguidores de Cristo. “O conhecimento de que Cristo morreu por nós não permanece conhecimento; mas necessariamente se torna afeição, amor” (n.º 27). E, o papa está convencido, este é o coração que precisamos recuperar se quisermos curar o nosso próprio coração. “O amor de Cristo pode dar um coração ao nosso mundo e reavivar o amor onde quer que pensemos que a capacidade de amar foi definitivamente perdida” (n. 218).

— Ricardo da Silva, SJ

2. A Importância Do Afeto, Não Apenas Do Intelecto

Na seção de abertura da encíclica, Francisco contrasta a complexa riqueza do coração com “o domínio mais facilmente controlável da inteligência e da vontade”. Embora muitos possam se retirar para espaços aparentemente mais seguros, Francisco diz que isso resulta “em um atrofiamento da ideia de um centro pessoal, no qual o amor, no fim, é a única realidade que pode unificar todas as outras” (n. 10).

Francisco continua sua crítica a uma mentalidade excessivamente racionalista ou tecnocrática, que tem sido uma marca registrada de seu papado. Ele também alerta que nossos pensamentos e vontades, distintos de nossos corações, são “facilmente previsíveis e, portanto, capazes de serem manipulados”, inclusive por algoritmos digitais que nos alimentam com informações personalizadas (n. 14).

Para corrigir uma dependência excessiva da clareza conceitual que pode parecer transmitir a verdade sem resultar em conversão profunda, ou mesmo se transformar em um “moralismo autossuficiente” (n. 27), Francisco faz referência à atenção de Santo Inácio de Loyola à “afeição”, dizendo que a reforma da vida “não se trata de conceitos intelectuais que precisam ser colocados em prática em nossa vida diária, como se a afetividade e a prática fossem meramente os efeitos de — e dependentes de — dados do conhecimento” (n. 24).

O capítulo 2 da encíclica é lido quase como um minirretiro, no estilo inaciano, visando à conversão e ordenação da afetividade. (Isso também ecoa a abordagem de Francisco, em Fratelli Tutti, de usar uma reflexão estendida sobre a parábola do Bom Samaritano como um princípio organizador para uma encíclica.) Citando 38 passagens bíblicas nos 16 parágrafos do capítulo, Francisco nos convida a experimentar o desejo e o cuidado do coração de Jesus, perguntando em referência ao encontro de Jesus com o jovem rico em Mc 10,21, “Você consegue imaginar aquele momento, aquele encontro entre seus olhos e os de Jesus?” (n. 39).

— Sam Sawyer, SJ

3. A Igreja Precisa Aprofundar O Amor Ainda Mais Do Que Reformar As Estruturas

Desde o início de seu papado, Francisco tem alertado fortemente contra a tendência da Igreja de voltar seu olhar para si mesma ou de se absorver no que ele chama de “mundanismo espiritual”. Em “Dilexit nos”, ele continua esse tema, dizendo que “o coração de Cristo também nos liberta de outro tipo de dualismo encontrado em comunidades e pastores excessivamente envolvidos em atividades externas, reformas estruturais que pouco têm a ver com o Evangelho, planos de reorganização obsessivos, projetos mundanos, modos seculares de pensar e programas obrigatórios” (n. 88).

Vindo em uma encíclica emitida durante a segunda sessão do Sínodo sobre a Sinodalidade, na qual muitos tópicos associados à mudança estrutural e organizacional foram transferidos para grupos de estudo, essa crítica é impressionante. A esperança de Francisco é que, ao refletir sobre o coração de Cristo, que ele chama de “a síntese encarnada do Evangelho”, a Igreja seja movida não apenas pela análise crítica de questões teológicas e sociais, mas muito mais por um poderoso amor afetivo por Cristo (n. 90).

Francisco parece estar implorando àqueles que se deixam levar por seus próprios planos e visões para a Igreja, seja por meio de rigorosa adesão às estruturas atuais ou por uma reforma radical delas, para que se reorientem para a necessidade de um amor reavivado. Na conclusão da encíclica, ele diz que, em vez de “estruturas e preocupações ultrapassadas, apego excessivo às nossas próprias ideias e opiniões e fanatismo em qualquer número de formas”, a Igreja precisa “do amor gratuito de Deus que liberta, anima, traz alegria ao coração e constrói comunidades” (n. 219).

— Sam Sawyer, SJ

4. A Importância Da Piedade Popular

Ao longo do documento, o Papa Francisco expressa sua consciência de que o Sagrado Coração e imagens devocionais relacionadas podem ser facilmente descartados como kitsch, mas ele adverte contra descartar a devoção como um todo. “Certas dessas representações podem de fato nos parecer de mau gosto e não particularmente propícias à afeição ou à oração”, escreve Francisco, “mas isso é de pouca importância, pois são apenas convites à oração” (n. 57).

Ele leva isso um passo adiante, criticando — como ele frequentemente faz — pessoas que descartam tais expressões de piedade popular como sendo excessivamente emocionais ou carentes de profundidade. Ele escreve: “Pio XII descreveu como 'falso misticismo' a atitude elitista daqueles grupos que viam Deus como tão sublime, separado e distante que consideravam expressões afetivas de piedade popular como perigosas e necessitadas de supervisão eclesiástica” (n. 86).

Falando sobre a piedosa tradição dos católicos que buscam consolar Jesus em seu sofrimento, o papa pede pessoalmente “que ninguém menospreze a fervorosa devoção do santo povo fiel de Deus”, acrescentando: “Também encorajo todos a considerar se pode haver maior razoabilidade, verdade e sabedoria em certas demonstrações de amor que buscam consolar o Senhor do que nos atos de amor frios, distantes, calculados e nominais que às vezes são praticados por aqueles que afirmam possuir uma fé mais reflexiva, sofisticada e madura” (n. 160).

— Colleen Dulle

5. O Sagrado Coração Nos Chama À Reparação Em 'Ações E Palavras De Amor' E Não Ao Choro De Autopiedade

Uma parte da devoção ao Sagrado Coração envolve fazer “reparações” ao coração de Jesus por nossos próprios pecados e pelos pecados do mundo, que trouxeram e continuam a trazer-lhe tristeza. No entanto, um foco exagerado na reparação pode levantar preocupações sobre duvidar da suficiência da redenção de Cristo, mas Francisco acredita que o impulso devocional para consolar o coração de Jesus é puro. “Pode parecer a alguns que este aspecto da devoção ao Sagrado Coração carece de uma base teológica firme, mas o coração tem suas razões. Aqui o sensus fidelium percebe algo misterioso, além de nossa lógica humana, e percebe que a paixão de Cristo não é meramente um evento do passado, mas um evento do qual podemos compartilhar pela fé” (n. 154).

Dito isso, Francisco encoraja um enquadramento adequado das reparações. Ele convoca Santa Teresa de Lisieux para fornecer um contexto histórico e espiritual. “Teresa estava ciente de que em certos setores uma forma extrema de reparação havia se desenvolvido, baseada na disposição de se oferecer em sacrifício pelos outros e de se tornar, em certo sentido, um ‘para-raios’ para os castigos da justiça divina” (n. 195). Tanto Teresa quanto o Papa Francisco têm uma visão sombria dessa forma de devoção. “Uma ênfase tão grande na justiça de Deus pode eventualmente levar à noção de que o sacrifício de Cristo foi de alguma forma incompleto ou apenas parcialmente eficaz, ou que sua misericórdia não foi suficientemente poderosa” (n. 195).

Somente Jesus salva e redime o mundo. No entanto, o Papa Francisco está propondo uma estrutura de reparações que as vê como uma “participação livremente aceita em seu amor redentor”. Como fazemos isso? Amando nosso próximo.

“Agradaria ao coração que tanto nos amou se nos deleitássemos em uma experiência religiosa privada ignorando suas implicações para a sociedade em que vivemos?” (n. 205). Francisco conclui que não. Somos chamados a nos reconciliar com amigos, familiares e estranhos a quem prejudicamos e que nos prejudicaram. Somos chamados a construir sociedades de justiça, paz e fraternidade. Mas essa ação é fundamentalmente animada por um amor intenso e também está conectada, de acordo com o Papa Francisco, tanto à evangelização, seu foco na Evangelii Gaudium quanto às suas encíclicas sociais Laudato si' e Fratelli Tutti (n. 217). “Ao contemplarmos o Sagrado Coração, a missão se torna uma questão de amor. Pois o maior perigo na missão é que, em meio a todas as coisas que dizemos e fazemos, deixamos de promover um encontro alegre com o amor de Cristo que nos abraça e nos salva” (n. 208).

Em suma, a compunção pelos nossos pecados que trespassaram o Sagrado Coração de Cristo deve nos levar à tristeza, mas uma tristeza que nos mova não à autopiedade ou ao perfeccionismo, mas a um amor maior a Deus e ao próximo.

Fonte: https://www.ihu.unisinos.br

Acesso: 27/06/2025 às 06:06- Indonesia

 P. Vitus Gustama,svd

quarta-feira, 25 de junho de 2025

26/06/2025-Quintaf Da XII Semana Comum, Ano Ímpar

ENTRE FALAR E FAZER NA VIDA DO CRISTÃO E NA CONVIVÊNCIA COM OUTROS HOMENS

Quinta-Feira da XII Semana Comum

Primeira Leitura: Gn 16,6b-12.15-16

1 Sarai, a mulher de Abrão, não lhe dera filhos. Mas, tendo uma escrava egípcia, chamada Agar, 2 Sarai disse a Abrão: "Eis que o Senhor me fez estéril. Une-te, pois, à minha escrava, para ver se, por ela, posso ter filhos". Abrão atendeu ao pedido de Sarai. 3 Depois de Abrão ter morado dez anos em Canaã, Sarai, sua esposa, tomou sua escrava egípcia, Agar, e deu-a como mulher ao seu marido Abrão. 4 Abrão uniu-se a Agar e ela concebeu. Percebendo-se grávida, começou a olhar com desprezo a sua senhora. 5 Sarai disse a Abrão: "Tu és responsável pela injúria que estou sofrendo. Fui eu mesma que coloquei minha escrava em teus braços: e ela, apenas ficou grávida, pôs-se a desprezar-me. O Senhor será juiz entre mim e ti". 6 Abrão respondeu a Sarai: "Olha, a escrava é tua; faze dela o que bem estenderes". E Sarai maltratou-a tanto que ela fugiu. 7 Um anjo do Senhor, encontrando-a junto à fonte do deserto, no caminho de Sur, disse-lhe: 8 "Agar, escrava de Sarai, de onde vens e para onde vais?" Ela respondeu: "Estou fugindo de Sarai, minha senhora". 9 E o anjo do Senhor lhe disse: "Volta para a tua senhora e sê submissa a ela". 10 E acrescentou: "Multiplicarei a tua descendência de tal forma, que não se poderá contar". 11 Disse, ainda, o anjo do Senhor: "Olha, estás grávida e darás à luz um filho e o chamarás Ismael, porque o Senhor te ouviu na tua aflição. 12 Ele será indomável como um jumento selvagem, sua mão se levantará contra todos, e a mão de todos contra ele. E ele viverá separado de todos os seus irmãos". 15 Agar deu à luz o filho de Abrão; e ele pôs o nome de Ismael ao filho que Agar lhe deu. 16 Abrão tinha oitenta e seis anos, quando Agar deu à luz Ismael.

Evangelho: Mt 7,21-29

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 21 “Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos Céus, mas o que põe em prática a vontade de meu Pai que está nos céus. 22 Naquele dia, muitos vão me dizer: ‘Senhor, Senhor, não foi em teu nome que profetizamos? Não foi em teu nome que expulsamos demônios? E não foi em teu nome que fizemos muitos milagres? 23 Então eu lhes direi publicamente: Jamais vos conheci. Afastai-vos de mim, vós que praticais o mal. 24 Portanto, quem ouve estas minhas palavras e as põe em prática, é como um homem prudente, que construiu sua casa sobre a rocha. 25 Caiu a chuva, vieram as enchentes, os ventos deram contra a casa, mas a casa não caiu, porque estava construída sobre a rocha. 26 Por outro lado, quem ouve estas minhas palavras e não as põe em prática, é como um homem sem juízo, que construiu sua casa sobre a areia. 27 Caiu a chuva, vieram as enchentes, os ventos sopraram e deram contra a casa, e a casa caiu, e sua ruína foi completa!” 28 Quando Jesus acabou de dizer estas palavras, as multidões ficaram admiradas com seu en­sina­mento. 29 De fato, ele as ensinava como quem tem autoridade e não como os mestres da lei.

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É Urgente Reviver Nossa Fraternidade, Pois Temos Abraão Como Nosso Pai Comum

Naqueles dias, Sarai maltratou tanto Agar que ela fugiu” para o deserto. O motivo da briga é: “Olha, estás grávida, e darás à luz um filho e o chamarás Ismael, porque o Senhor te ouviu na tua aflição. Ele será indomável como um jumento selvagem, sua mão se levantará contra todos, e a mão de todos contra ele. E ele viverá separado de todos os seus irmãos”. Enquanto que Sara vive sem filho. Mas o anjo do Senhor dá o seguinte conselho para Agar: “Volta para a tua senhora e sê submissa a ela”. É o episódio a respeito do conflito entre Sara e Agar, a escrava, que lemos na Primeira Leitura. 

Este episódio é muito importante para nossa atualidade. Ele permite relacionar o mundo mulçumano: Islam (Islã) = Ismael, com a Aliança e com a fé monoteísta de Abraão. O Concílio Vaticano II (cf. Nostra Aetate, n. 3) foi necessário para que os cristãos reconhecessem a dignidade de Islã, depois de séculos de guerras e oposições. Infelizmente, as feridas entre árabes e judeus não foram cicatrizadas. Para convencer-se disso, basta evocar a atual situação política no Oriente Médio que desconhece o fim. O texto da Primeira Leitura que é aparentemente “alheio” e quase “arqueológico” se revela como de flagrante atualidade: a trágica rivalidade entre Sara e Agar continua em pleno século XX/XXI de nossa época sem sabermos até quando vai ter seu fim.

Ao ver que tardava no cumprimento da promessa da parte de Deus que prometeu uma numerosa descendência, Abrão e Sara recorreram a um procedimento admitido na época: Sara sugere que seu marido, Abraão, tenha um filho de uma escrava egípcia, Agar.

Abrão busca Deus e sua vontade através dos costumes de seu tempo. Mas não é sempre fácil fazer a vontade de Deus. Abraão por um momento acreditou que o filho com a escrava Agar seria o cumprimento da “promessa”. Mas não foi assim. De erro em erro, de sofrimento em sofrimento Abarão avança. 

Por isso, o que acontecerá depois, como consequência, vai se repetindo em todos os tempos: na sua gravidez a escrava Agar se anima diante de sua ama, Sara, e se sente superior ao estéril Sara, sua ama, e quer que seu filho seja reconhecido como seu. A reação de Sara é expulsar a escrava Agar da casa. Agar fugiu para o deserto. E Deus continua levando adiante seu plano de salvação, também através destas misérias humanas.

O filho da escrava Agar parece não ter lugar na história da salvação, mas também a ele alcança o amor de Deus. O filho será chamado Ismael, que significa “Deus escuta”. Ninguém, nem sequer o povo eleito no AT nem a Igreja no NT tem o monopólio da graça de Deus e da salvação. Deus ama também todos os que consideramos que estão fora, pois todos são seus filhos.

Além do mais, temos que saber reconhecer os caminhos de Deus também em direções que nos parecem surpreendentes. Porque Deus é sempre original e se escapa de nossos cálculos. Muitas vezes aquilo que achamos como solução termina como um grande problema, pois Deus tem seus próprios planos sobre nós e sobre a humanidade em geral.

O filho que Abraão tem com a escrava Agar será o pai dos ismaelitas ou agarenos, nómadas beduínos. Portanto, também os árabes têm Abraão por patriarca. Seu filho Ismael para os árabes e o filho que virá depois, Isaac, para os judeus, são cabeça de uma dupla descendência numerosíssima. Visto a partir deste ângulo, parece que judeus e árabes, por sua comum origem, estão condenados a entender-se. E nós, os cristãos, com os dois. Se um dia, os três irmãos (judeu, mulçumano e cristão) se compreenderem mutuamente pela mesma origem cujo patriarca é o mesmo: Abraão, as guerras poderão conhecer seu fim. Se os três trabalharem juntos, o mundo vai avançar na paz.

Atualmente, há entre 14,2 a 16,5 milhões de judeus pelo mundo (segundo o informe anual do Instituto de Política do Povo Judeu,28 de junho 2015); 1,6 bilhão de mulçumanos (O Fórum Pew para Religião e Vida Pública divulgou na terça-feira 18 Dezembro de 2014); há em torno de 2 bilhões de cristãos, isto é, católicos e protestantes (17 de março de 2010). Se os três se reunirem e unirem suas forças, o mundo vai ter um rosto celestial, pois no mundo eles são de maioria. Os três são irmãos, pois eles têm Abraão como seu patriarca comum. Por que não procuramos os pontos de convergência para resolver os problemas mundiais? Será que temos coragem de assumir que os três também contribuem para o surgimento das brigas, batalhas e guerras no mundo? Será que Deus em quem acreditamos e em quem Abraão depositava sua fé e confiança total teria prazer de ver o sangue de nossos irmãos derramado em nome de uma religião ou em nome de um suposto Deus em quem acreditamos? As três grandes religiões monoteístas (judaísmo, cristianismo, e islamismo) temos um ponto comum de referência em Abraão e sua fidelidade a Deus. Pena que não nos conhecemos nem estamos reconciliados totalmente.

Segundo o rabino Nilton Bonder há os três maiores segredos para o patriarca Abraão. “O primeiro sobre si mesmo: que foi criado à imagem e semelhança do divino. O segundo sobre o próximo: não há outro porque tudo é uma manifestação de Deus. E o terceiro sobre o comportamento mais importante em um ser humano: ser compassivo e acolher/hospedar” (Tirando Os Sapatos: o Caminho de Abraão, Um Caminho Para o Outro p.96).

Nosso Deus é um Deus que compadece. É um Deus que considera todo homem como filho Seu. É um Deus que está presente, especialmente no homem que sofre. É um Deus que não se deixa se encerrar ou se fechar e se prender nos santuários ou nos ritos e sim que está ali junto ao que sofre como a escrava Agar. É um Deus que não se resigna ver seus filhos desunidos ou inimigos. Este Deus é o Deus em quem acreditamos.

Valor Do Dizer e Do Fazer Na Vida Cristã

Estamos ainda no Sermão da Montanha (Mt 5-7).  O texto do evangelho de hoje é a última parte da conclusão do Sermão da Montanha (Mt 7). Como podemos saber se alguém é um verdadeiro cristão ou somente tem nome de cristão, mas que não tem nada a ver com a maneira de viver?  De que vale ter o nome cristão se tua vida não é cristã? Há muitos que se denominam médicos e não sabem curar. Muitos que se dizem vigilantes noturnos não fazem mais que dormir a noite inteira. Assim também muitos se chamam cristãos, mas não o são em seus atos. Em sua vida, moral, fé, esperança e caridade são muito diferentes do que declara seu nome”, dizia Santo Agostinho (In epist. Joan. 4,4). O que conta para Deus é o bem que praticamos. Esta questão é que o texto do Evangelho deste dia quer nos transmitir.

1. Fazer e Dizer Devem Estar Em Sintonia Perfeita

“Nem todo aquele que diz ‘Senhor, Senhor’”. Mais uma vez aparece no evangelho a dialética entre o dizer e o fazer. Há quem fale continuamente de Deus (“Senhor, Senhor”) e logo se esquece de fazer sua vontade. Há quem se faça a ilusão de trabalhar pelo Senhor (“profetizamos em teu nome, expulsamos os demônios, fizemos milagres”), mas logo, no dia das contas, no dia da verdade, acontece que o Senhor não o conhecerá: “Jamais vos conheci. Afastai-vos de mim”.

Por isso, existe o perigo de uma oração (“Senhor, Senhor”) que não é traduzida em vida e em compromisso. Por essa razão um sábio chegou a dizer: “Não há nada que seja mais perigoso do que a oração”, porque obriga ou leva quem reza a assumir os compromissos de Deus com seriedade e perseverança na convivência com os demais homens. Existe o perigo de uma escuta da Palavra que não se converte em nada prático e operante. Jesus fala bem claro neste evangelho: os que falam bem, os que “rezam bem”, os que “oram”, mas não “fazem” não entrarão no Reino. Em outras palavras, a oração precisa ser transformada em compromisso. Rezemos diante de Deus como uma criança, mas logo voltemos à nossa vida com nossa responsabilidade de adultos. O final de toda oração adulta é um só: “Amém”, isto é, aceito a realidade e minha responsabilidade diante dela.

Por que às vezes ou muitas vezes, a oração se encerra em si, a escuta da Palavra de Deus não se traduz em vida e o encontro com os irmãos não se abre ao mundo? A resposta implicitamente se encontra na própria Palavra de Deus: “Ninguém pode servir a dois senhores” (Mt 6,24). Por servir a dois senhores, a pessoa, depois de “servir” a Deus com oração, com a escuta da Palavra e com a reunião eclesial logo serve ao mundo e a si própria com as opções concretas e cotidianas da vida longes dos valores cristãos.

Precisamos estar conscientes de que não existe verdadeira fé sem empenho moral. A oração e a ação, a escuta e a prática, são igualmente importantes. Há três coisas indispensáveis para a vida de um cristão: escuta atenta da Palavra de Deus com oração, prática da vontade de Deus e perseverança até o fim apesar das tempestades da vida.

Jesus não quer que os cristãos cultivem somente a relação com ele, e sim que sejam seguidores que, unidos a ele, trabalhem para mudar a situação da humanidade. É viver de acordo com a justiça e a caridade. Onde há justiça não há pobreza nem exclusão social.

2. Construir a Vida Sobre a Rocha da Palavra de Deus

Jesus nos convida hoje a sermos seguidores “rocha” e não seguidores “areia”. Seguidor “areia” é aquele que vive de uma fé de simples aparência, sem fundamento. Um dia acredita em Deus, em outra ocasião perde a fé. Crê quando as coisas vão ao seu gosto e se desanima quando tudo não corresponde àquilo que imaginava. Os seguidores “rocha” são os que fundamentam sua vida na rocha que é Cristo e sua Palavra. Os seguidores “rocha” se mantêm firmes em qualquer situação, porque seguram na mão de Deus e sabem em quem acreditam (cf. 2Tm 1,12c).  Para sermos verdadeiros seguidores “rocha” devemos fazer próprias as palavras do Salmo 78: “Senhor, não lembreis as nossas culpas do passado, mas venha logo sobre nós vossa bondade.... Por vosso nome e vossa glória, libertai-nos! Por vosso nome, perdoai nossos pecados!”. Não corrigir nossas faltas é o mesmo que cometer novos erros. Muito sabe quem conhece a própria ignorância e procura a viver mais com sabedoria e prudência.

O evangelho deste dia quer nos dizer que não importa “dizer Senhor, Senhor, nem falar em seu nome, nem sequer fazer milagres”. O que importa é a prática. O fazer. As obras. Não o dizer, nem o pensar, nem o rezar, nem o pregar, nem fazer milagres. A prática é a rocha, por isso, é firme até diante de Deus. Jesus nos convida a construir nossa vida sobre a prática. As obras boas praticadas são verdadeiros sinais da abertura diante da graça de Deus.

Para Refletir:

·      O Nome de cristão traz em si a conotação de justiça, bondade, integridade, paciência, castidade, prudência, amabilidade, inocência, e piedade. Como podes explicar a apropriação de tal nome se tua conduta mostra tão poucas dessas muitas virtudes? Não nos deixemos enganar pelo fato de nos chamarem de cristãos. Antes, admitimos ser merecedores de reprovação se usamos um nome ao qual não temos direito... Não existe uma só profissão que não carregue consigo a função correspondente. Como, pois, te atreves a chamar-te cristão, se não te comportas como tal? (Santo Agostinho: De vit. Christ. 6).

P. Vitus Gustama,SVD

segunda-feira, 23 de junho de 2025

25/06/2025-Quartaf Da XII Semana Comum, Ano Ímpar

O CRISTÃO É RECONHECIDO PELA MANEIRA DE VIVER SUA FÉ (OBRAS) E NÃO PELA MANEIRA DE REZAR (SEM OBRAS)

Quarta-Feira da XII Semana Comum

Primeira Leitura: Gn 15,1-12.17-18

Naqueles dias, 1 o Senhor falou a Abrão, dizendo: “Não temas, Abrão! Eu sou o teu protetor e tua recompensa será muito grande”. 2 Abrão respondeu: “Senhor Deus, que me darás? Eu me vou desta vida sem filhos e o herdeiro de minha casa será Eliezer de Damasco”. 3 E acrescentou: “Como não me deste descendência, um servo nascido em minha casa será meu herdeiro”. 4 Então o Senhor falou-lhe nestes termos: “O teu herdeiro não será esse, mas um dos teus descendentes é que será o herdeiro”. 5 E, conduzindo-o para fora, disse-lhe: “Olha para o céu e conta as estrelas, se fores capaz!” E acrescentou: “Assim será a tua descendência”. 6 Abrão teve fé no Senhor, que considerou isso como justiça. 7 E lhe disse: “Eu sou o Senhor que te fez sair de Ur dos Caldeus, para te dar em possessão esta terra”. 8 Abrão lhe perguntou: “Senhor Deus, como poderei saber que vou possuí-la?” 9 E o Senhor lhe disse: “Traze-me uma novilha de três anos, uma cabra de três anos, um carneiro de três anos, além de uma rola e de uma pombinha”. 10 Abrão trouxe tudo e dividiu os animais pelo meio, mas não as aves, colocando as respectivas partes uma diante da outra. 11 Aves de rapina se precipitaram sobre os cadáveres, mas Abrão as enxotou. 12 Quando o sol já se ia pondo, caiu um sono profundo sobre Abrão e ele foi tomado de grande e misterioso terror. 17 Quando o sol se pôs e escureceu, apareceu um braseiro fumegante e uma tocha de fogo, que passaram por entre os animais divididos. 18 Naquele dia, o Senhor fez aliança com Abrão, dizendo: “Aos teus descendentes darei esta terra, desde o rio do Egito até o grande rio, o Eufrates”.

Evangelho: Mt 7,15-20

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 15 “Cuidado com os falsos profetas: Eles vêm até vós vestidos com peles de ovelha, mas por dentro são lobos ferozes. 16 Vós os conhecereis pelos seus frutos. Por acaso se colhem uvas de espinheiros ou figos de urtigas? 17 Assim, toda árvore boa produz frutos bons, e toda árvore má, produz frutos maus. 18 Uma árvore boa não pode dar frutos maus, nem uma árvore má pode produzir frutos bons. 19 Toda a árvore que não dá bons frutos é cortada e jogada no fogo. 20 Portanto, pelos seus frutos vós os conhecereis”.

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Fé No Deus Da Promessa Que Pode Tardar, Mas Não Falha, Pois Ele é Fiel a Si Próprio

Senhor Deus, que me darás? Eu me vou desta vida sem filhos”, disse Abraão a Deus. Ao que Deus lhe responde: “Olha para o céu e conta as estrelas, se fores capaz! Assim será a tua descendência”. É o pedaço do diálogo entre Abraão e Deus que lemos na Primeira Leitura.

O grande sofrimento de Abraão é não ter filhos. E ele fala diretamente com o Criador de todas as coisas boas, inclusive o dom de dar filhos para o ser humano. Havia o conceito na época de que viver sem filhos (sem descendentes) significava viver sem bênção de Deus. Mas Abraão continua a depositar sua fé no Deus da promessa, no Deus do porvir. Ao próprio Deus é que ele se dirige numa oração simples e profunda que se mistura com grito e esperança: “Senhor Deus, que me darás? Eu me vou desta vida sem filhos”.

Nem tudo é fácil ou tranquilo no caminho de Abraão. Ele sente medo, a dúvida o tenta ("Você não me deu filhos"). Mas, mais uma vez, o patriarca confia plenamente em Deus: "Abraão creu no Senhor, e isso lhe foi creditado".

Deus promete uma descendência numerosa como as estrelas. “Olha para o céu e conta as estrelas, se fores capaz! Assim será a tua descendência”. Aparentemente é impossível do ponto de vista humano, pois Sara é estéril e de idade avançada. Abraão é velho. É o conflito entre fé em Deus diante de uma realidade aparentemente sem solução. Vou continuar a confiar em Deus enquanto a realidade me diz que não adianta pela impossibilidade de uma solução.

Milhares de anos depois, nós sabemos que essa promessa se realizou. Milhões de judeus, de árabes e de cristãos honram a Abraão como nosso pai comum. Abraão é o pai dos judeus, dos muçulmanos, dos cristãos. Por isso, nós (judeus, mulçumanos e cristãos) deveríamos viver aquilo que Abraão dizia para Ló: “Não deve haver discórdia entre nós e entre os nossos pastores, pois somos irmãos” (Gn 13,8). Nilton Bonder escreveu: “Tenho que tirar meus sapatos e reconhecer o outro como aquele que pisa o mesmo chão sagrado, que existe independentemente da minha sola(Tirando Os Sapatos: o Caminho de Abraão, Um Caminho Para o Outro p.189). Os judeus, os cristãos e os muçulmanos devem agradecer a Abraão, pois os três compõem a maioria no mundo e  Abraão é o pai dos fiéis, isto é dos três. Se todos voltarem para a fonte, vão diminuir os conflitos e as guerras.

A partir da fé de Abraão e de sua história com Deus, temos que ter coragem de dirigir nosso olhar para o futuro de Deus com fé, pois Deus é o Dono do impossível. O mundo não acabou. O porvir está nas mãos de Deus. Nossa fé deve ser dirigida para o porvir de Deus a exemplo de Abraão, ainda que não consigamos ver o resultado imediato.

Temos que estar conscientes de que a fé, a certeza de Deus não suprimem qualquer angústia e obscuridade. Em certos dias o tempo parece interminável, como Abraão espera a chegada do filho apesar da velhice. É assim também nossas vidas de cada dia. Há noites vazias, obscuras. Há momentos em que a prova nos põe em nervosismo. Paradoxalmente, Deus atua precisamente em nós quando estamos vazios de nós mesmos e completamente receptivos para a ação de Deus. Quando tudo parece perdido, como aconteceu na Paixão de Jesus, é certamente quando a salvação pascal está próxima.

Abraão já conhecia sua história, mas seu futuro era como uma parede, como um poço sem fundo. O tempo vai passando, e Deus convida a Abraão a olhar para o céu. Abraão é confrontado com o infinito (o céu, sem saber onde começa e termina). Deus convida Abraão a mover seus olhos cansados para o firmamento sem limites e a renovar sua esperança esgotada na dança das estrelas. Quando tomarmos coragem de dirigir nosso olhar para Deus, para o Infinito, começaremos a entender que o que se passa na nossa vida não se escapa do olhar de Deus. O olhar dirigido para o céu (Deus) é o momento para perguntar a Deus e é o momento de ouvir a resposta de Deus quando tudo está em silêncio, em repouso total. Abraão creu. Viu as estrelas e nelas acredita ver a multidão de filhos que um dia seriamos todos nós. Abraão nos viu no firmamento, no céu e com certeza, um dia chorou de alegria ao ver a esperança que se tornou uma realidade

Abraão é nosso pai na religiosidade, no ato de fé e na caminhada da fé. A vida de Abraão é uma peregrinação de fé desde um ponto de partida até um ponto de chegada, passando por provações e purificações. Quem confia na Palavra de Deus, esteja preparado para a vitória final, como Abraão.

Crer em Deus significa deixar-se assumir e atrair por ele (Jo 12,32). A é a força que supera tudo. A é capaz de vencer o mundo: “Esta é a vitória que venceu o mundo: a nossa ” (1Jo 5,4). A verdadeira em Deus é capaz de vencer as influências nefastas do mundo, pois quem se mantém na profissão da verdadeira vive no mundo de Deus.

“A fé nasce no encontro com o Deus vivo, que nos chama e revela o seu amor: um amor que nos precede e sobre o qual podemos apoiar-nos para construir solidamente a vida. Transformados por este amor, recebemos olhos novos e experimentamos que há nele uma grande promessa de plenitude e se nos abre a visão do futuro. A fé, que recebemos de Deus como dom sobrenatural, aparece-nos como luz para a estrada orientando os nossos passos no tempo. A fé é luz que vem do futuro, que descerra diante de nós horizontes grandes e nos leva a ultrapassar o nosso « eu » isolado abrindo-o à amplitude da comunhão. Deste modo, compreendemos que a fé não mora na escuridão, mas é uma luz para as nossas trevas” (Carta Encíclica do Papa Francisco: Lumen Fidei n.4).

O Cristão É Reconhecido Pelas Suas Boas Obras

Estamos ainda no Sermão da Montanha (Mt 5-7).  O texto do evangelho de hoje é a última parte da conclusão do Sermão da Montanha (Mt 7). O que conta para Deus é o bem que praticamos. Nossa maneira de viver e de conviver é o parâmetro para saber se realmente rezamos ou se realmente acreditamos em Deus que é o Supremo Bem. O texto do evangelho de hoje serve de verificação para nossas praticas diárias. Afinal, quem é o verdadeiro cristão?

Fazer e Dizer Devem Estar Em Perfeita Sintonia

Nem todo aquele que diz ‘Senhor, Senhor’”. Mais uma vez aparece no evangelho a dialética entre o dizer e o fazer. “Os mais belos pensamentos nada são sem as obras”, porém “O Senhor não olha tanto a grandeza das nossas obras. Olha mais o amor com que são feitas” (Santa Teresa de Jesus). Há quem fale continuamente de Deus (“Senhor, Senhor”) e logo se esquece de fazer sua vontade. Há quem se faça a ilusão de trabalhar pelo Senhor (“profetizamos em teu nome, expulsamos os demônios, fizemos milagres”), mas logo, no dia das contas, no dia da verdade, acontece que o Senhor não o conhecerá: “Jamais vos conheci. Afastai-vos de mim”. “Reza bem quem vive bem” (Santo Agostinho: De ord. 2,19,51).

Por isso, existe o perigo de uma oração (“Senhor, Senhor”) que não é traduzida em vida e em compromisso. Por essa razão um sábio chegou a dizer: “Não há nada que seja mais perigoso do que a oração”, porque obriga ou leva quem reza a assumir os compromissos de Deus com seriedade e perseverança na convivência com os demais homens. Ao rezar pedindo a paz para Deus, quem reza deve ser construtor da paz. Se não rezaria em vão. Existe o perigo de uma escuta da Palavra que não se converte em nada prático e operante. Jesus fala bem claro neste evangelho: os que falam bem, os que “rezam bem”, os que “oram” e não “fazem” não entrarão no Reino. Em outras palavras, a oração precisa ser transformada em compromisso. Rezemos diante de Deus como uma criança, mas logo voltemos à nossa vida com nossa responsabilidade de adultos. O final de toda oração adulta é um só: “Amém”, isto é, aceito a realidade e minha responsabilidade diante dela.

Jesus não quer que os cristãos cultivem somente a relação com ele, e sim que sejam seguidores que, unidos a ele, trabalhem para mudar a situação da humanidade. É viver de acordo com a justiça e a caridade. Onde há justiça não há pobreza nem exclusão social. Devemos ter sempre a cabeça fria para analisar bem os acontecimentos na nossa vida e ao nosso redor, ter o coração sempre quente para amar, acolher e ter a mão sempre larga para ajudar e para abraçar num abraço de reconciliação.

Construir a Vida Sobre a Rocha da Palavra de Deus

Jesus nos convida hoje a sermos seguidores “rocha” e não seguidores “areia”. Seguidor “areia” é aquele que vive de uma fé de simples aparência, sem fundamento. Um dia acredita em Deus, em outra ocasião perde a fé. Crê quando as coisas vão ao seu gosto e se desanima quando tudo não corresponde àquilo que imaginava. Os seguidores “rocha” são os que fundamentam sua vida na rocha que é Cristo e sua Palavra. Os seguidores “rocha” se mantêm firmes em qualquer situação, porque seguram na mão de Deus e sabem em quem acreditam (cf. 2Tm 1,12c).  Para sermos verdadeiros seguidores “rocha” devemos fazer próprios as palavras do Salmo 78: “Senhor, não lembreis as nossas culpas do passado, mas venha logo sobre nós vossa bondade.... Por vosso nome e vossa glória, libertai-nos! Por vosso nome, perdoai nossos pecados!”. Não corrigir nossas faltas é o mesmo que cometer novos erros. Muito sabe quem conhece a própria ignorância e procura a viver mais com sabedoria e prudência.

As Obras Que Falam Por Si

Através do evangelho de hoje Jesus quer nos dizer, primeiramente, que não devemos julgar ou avaliar o homem pelas aparências que são frequentemente enganosas. Devemos, ao contrário, avaliá-lo a partir daquilo que ele faz. Nem as palavras, nem as intenções, e sim as práticas. Se as palavras e as intenções seguem uma direção, e a prática outra, a segunda é que revela o coração do homem, suas opções profundas, seus verdadeiros interesses. Por fora, todos podem parecer iguais, mas o interior da pessoa e as obras que fazem a diferença. Sabemos que nem tudo o que brilha é ouro.                 

Jesus é muito realista. Ele dá este critério: “Olhem e vejam como atuam” para saber se são verdadeiros cristãos ou não, se são profetas ou não são profetas. “Pelos frutos vocês vão reconhecê-los”. Qualquer pessoa se manifesta pelo que faz ou pelo modo de viver. Os cristãos são reconhecidos não pelos dons que têm, mas pelos frutos que produzem. Qualidade de um fruto depende da qualidade da árvore. Jesus quer nos dizer para não julgarmos os homens pelas aparências e sim pelo que faz. Nem as palavras nem as intenções e sim a prática. Se as palavras e as intenções seguem uma direção e a prática outra, a segunda é que revela o coração do homem, suas opções profundas, seus verdadeiros interesses. 

Através do evangelho de hoje Jesus faz uma advertência sobre o perigo relacionado aos falsos profetas. O evangelista Mateus dá uma norma para sua comunidade a fim de saber reconhecer os falsos profetas: a paciência em esperar os frutos e as obras pelos quais será reconhecido o verdadeiro profeta do falso profeta. A chave para detectar os falsos profetas são suas obras. O verdadeiro profeta é aquele que orienta a comunidade de acordo com a mensagem e a forma de vida de Jesus.                 

Este critério deve ser aplicado para nós mesmos também: Que frutos produzimos? Que frutos você produz? Dizemos apenas palavras bonitas ou também oferecemos fatos ou obras? De um coração azedo somente produz frutos azedos. De um coração generoso e sereno brotam obras boas e consoladoras. São Paulo na carta aos gálatas escreveu: “As obras da carne são fornicação, idolatria, ódios, discórdia, inimizade, egoísmo, inveja, ciúmes, ira, divisão, rivalidade. Ao contrário, o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, afabilidade, fidelidade, domínio de si mesmo” (cf. Gl 5,19-26). Se nós somos filhos da Verdade e do Amor, então, façamos as obras da Verdade e do Amor e vivamos na sinceridade.                 

A Palavra de Deus hoje nos convida a descermos ao fundo do coração para descobrir nele a nossa maldade ou a nossa bondade; a nossa mentira ou a nossa verdade; nossa veracidade ou nossa falsidade; a nossa esterilidade ou a nossa fecundidade. A Palavra de Deus precisa nos desarmar para nos vermos como somos.

Portanto, com Sua Palavra através do evangelho de hoje Jesus denuncia uma dissociação frequente e muito perniciosa (prejudicial). Uma vida cristã fundada nesta dissociação é como uma casa construída sem fundamento. Por isso, somos alertados que existe o perigo de uma oração (Senhor, Senhor) que não se traduz em vida e em compromisso (a vontade de Deus). Existe o risco de uma escuta da Palavra que não se converte em nada prático e operante. Existe o risco de certos momentos comunitários que se fecham em si mesmos sem nenhum compromisso. A oração, a escuta da Palavra de Deus e o encontro comunitário, são a raiz da práxis cristã. Porém, a raiz deve germinar e produzir frutos. Ninguém planta trigo sem esperar colher seus grãos. Ninguém pesca sem esperar apanhar peixes. 

Por que às vezes ou muitas vezes, a oração se encerra em si, a escuta da Palavra de Deus não se traduz em vida e o encontro com os irmãos não se abre ao mundo? A resposta implicitamente se encontra na própria Palavra de Deus: “Ninguém pode servir a dois senhores” (Mt 6,24). Por servir a dois senhores, a pessoa, depois de “servir” a Deus com oração, com a escuta da Palavra e com a reunião eclesial logo serve ao mundo e a si própria com as opções concretas e cotidianas da vida. 

Precisamos estar conscientes de que não existe verdadeira fé sem empenho moral. A oração e a ação, a escuta e a prática, são igualmente importantes. Há três coisas indispensáveis para a vida de um cristão: escuta atenta da Palavra de Deus com oração, prática da vontade de Deus e perseverança até o fim apesar das tempestades da vida.

O evangelho deste dia quer nos dizer que não importa “dizer Senhor, Senhor, nem falar em seu nome, nem sequer fazer milagres”. O que importa é a prática. O fazer. As obras. Não o dizer, nem o pensar, nem o rezar, nem o pregar, nem fazer milagres. A prática é a rocha, por isso, é firme até diante de Deus. As obras boas praticadas em nome de Deus são verdadeiros sinais da abertura diante da graça de Deus.

P. Vitus Gustama, SVD

Bem-Aventurada Virgem Maria Das Dores, 15/09/2026

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