quinta-feira, 13 de agosto de 2026

XX Domingo Do Tempo Comum, Ano "A", 16/08/2026

FÉ AUTÊNTICA RESISTE DIANTE DE QUALQUER DIFICULDADE

XX DOMINGO DO TEMPO COMUM “A”

I Leitura: Isaías 56, 1.6-7

1Eis o que diz o Senhor: «Respeitai o direito, praticai a justiça, porque a minha salvação está perto e a minha justiça não tardará a manifestar-se. 6Quanto aos estrangeiros que desejam unir-se ao Senhor para O servirem, para amarem o seu nome e serem seus servos, se guardarem o sábado, sem o profanarem, se forem fiéis à minha aliança, 7hei-de conduzi-los ao meu santo monte, hei-de enchê-los de alegria na minha casa de oração. Os seus holocaustos e os seus sacrifícios serão aceites no meu altar, porque a minha casa será chamada casa de oração para todos os povos».

II Leitura: Romanos 11, 13-15.29-32

Irmãos: 13É a vós, os gentios, que eu falo: Enquanto eu for Apóstolo dos gentios, procurarei prestigiar o meu ministério 14a ver se provoco o ciúme dos homens da minha raça e salvo alguns deles. 15Porque, se da sua rejeição resultou a reconciliação do mundo, o que será a sua reintegração senão uma ressurreição de entre os mortos? 29Porque os dons e o chamamento de Deus são irrevogáveis. 30Vós fostes outrora desobedientes a Deus e agora alcançastes misericórdia, devido à desobediência dos judeus. 31Assim também eles desobedeceram agora, devido à misericórdia que alcançastes, para que, por sua vez, também eles alcancem agora misericórdia. 32Efectivamente, Deus encerrou a todos na desobediência, para usar de misericórdia para com todos.

Evangelho: Mt 15,21-28

Naquele tempo, Jesus retirou-Se para a região de Tiro e Sidônia. E eis que, uma mulher Cananéia daquela região, veio gritando: «Senhor, Filho de Davi, tem compaixão de mim: a minha filha está cruelmente endemoninhada». Ele, porém, nada lhe respondeu. Então os seus discípulos aproximaram-se dele e pediram-Lhe:  «Despede-a, porque ela vem gritando atrás de nós». Jesus respondeu:  «Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel». Mas a mulher aproximando-se, prostrou-se diante d’Ele, e pôs-se a rogar: «Socorre-me, Senhor».  Ele respondeu: «Não fica bem tirar o pão dos filhos e atirá-lo aos cachorrinhos». Mas ela insistiu: «É verdade, Senhor; mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa de seus donos». Então Jesus respondeu-lhe: «Mulher, grande é a tua fé! seja feito como queres! ». E, a partir daquele momento, a sua filha ficou curada.

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Através do episódio do evangelho de hoje Mateus dá um passo importante para frente, pois a cena não tem lugar em Israel e sim no território estrangeiro: na região de Tiro e Sidônia, na região pagã. Em termos de sociologia religiosa judaica isto significa que a cena se desenvolve no território pagão. Toma corpo assim o que Mateus tinha insinuado quando, ao apresentar a atividade de Jesus, citava o texto de Isaias que fala da Galiléia dos pagãos (Mt 4,15). Os pagãos estão agora aqui, representados pela mulher Cananéia que vivia na atual Líbano. É chamada de “cananéia”. Este termo é bastante negativo para um judeu por quanto encarna tudo o que é de sedutor e perigoso para a fé javista.

O texto está cheio de surpresas. A primeira surpresa: uma estrangeira dá a Jesus o título tipicamente judeu: “Filho de Davi” e “Senhor”. A mulher proclama Jesus como “Filho de Davi”, isto é, como Messias prometido a Israel. Com este titulo Mateus introduziu a ascendência de Jesus na genealogia (Mt 1,1). Além desse titulo, a mulher vê em Jesus o Salvador e O proclama “Senhor”.  Somente quem tem fé pode invocar a Jesus como “Senhor”. Trata-se de um título pós-pascal.

Seja quem for este Messias, tão falado pelos judeus (“Filho de Davi”), ela reconhece humildemente que Deus é capaz de operar nele e através dele em função da libertação ou da salvação do povo. Ela não se considera nada, a não ser uma mulher com o coração cheio de dor por sua filha atormentada, e com a alma iluminada pela esperança tão certa, porque Deus nunca abandonará os que O procuram com simplicidade e sinceridade. Com toda a grandeza ela se entrega a Cristo que é o Senhor, o Salvador. Ela está necessitada; o Senhor e somente o Senhor pode ajudá-la.

A segunda surpresa é o silêncio de Jesus diante do grito da mulher, primeiro, e sua resposta, depois, para a demanda dos discípulos (Mt 15,23): Eu fui enviado somente para as ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 15,24). Esta resposta é repetição do mandato de Jesus aos Doze, no discurso sobre a missão, ao dizer-lhes: “Não deveis ir aos territórios dos pagãos, nem entrar nas cidades dos samaritanos! Ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel!” (Mt 10,5-6).

O aparente silêncio de Deus diante de nossos problemas não significa Sua ausência e Sua insensibilidade. O aparente silêncio de Deus é o momento precioso para entrarmos numa reflexão profunda. Além disso, pode ser que nesses momentos sejamos purificados de tudo para que possamos gritar com mais fé apesar dos obstáculos, a exemplo da mulher cananéia.

A terceira surpresa é a apresentação da mulher no v. 25 com o gesto típico judeu de adoração a Deus, gesto característico no evangelho de Mateus para expressar a atitude de um crente diante de Jesus. A mulher considera Jesus como Deus e por isso, ela se prostra diante de Jesus: “A mulher, aproximando-se, prostrou-se diante de Jesus e começou a implorar...”. E pediu: “Senhor, ajuda-me!”. Ela já é uma só coisa com sua filha. Ela se identifica totalmente com a dor e o tormento de sua filha. É uma verdadeira mãe! Para essa mãe, sua filha é ela mesma: “Senhor, socorre-me!”, em vez de dizer “Senhor, socorre minha filha”.

A quarta surpresa é a resposta de Jesus à mulher: “Não fica bem tirar o pão dos filhos para jogá-lo aos cachorrinhos” (Mt 15,26). Jesus faz seu o termo depreciativo “cachorro/cachorrinho” que os judeus aplicavam aos pagãos/ estrangeiros. O rabino Eliezer dizia: “Quem come com um idólatra é como quem come com um cachorro”. É difícil encontrar em qualquer dos quatro evangelhos uma imagem de Jesus tão judia como a que nos oferece Mateus neste texto. Será que ele aceita este termo ou está fazendo alguma ironia? Escutamos a frase fora do território judeu onde Jesus se encontra. É a frase que traz um questionamento sobre a tradição judaica. A lógica da encarnação está aqui levada ao máximo de identificação com a história concreta do povo.

A quinta e a ultima surpresa é a reação da mulher pagã que não aspira a suplantar, mas simplesmente a participar: “É verdade, Senhor; mas os cachorrinhos também comem as migalhas que caem da mesa de seus donos” (Mt 15,27).

Essa mulher não desiste nem é amedrontada. Seu amor de mãe espera contra toda esperança porque sabe captar nas palavras de Jesus uma nota de bondade. Jesus não a trata com apelido “cachorro” e sim com um apelido mais suave: “cachorrinhos”. Ela quer dizer: “Deixa que me alimente do que cai da mesa onde está o pai com os filhos; faz que também eu seja parte da família!”. E a mulher Cananéia, que não é membro do Povo de Deus, encarna o ideal do que deve ser um membro do Povo de Deus.

Todo este conjunto de surpresas no texto de Mateus tem uma função de preparar e de ressaltar a frase final de Jesus: “Ó mulher, grande é tua fé!”. É a frase que o leitor de Mateus pressentia e esperava. A frase que ratifica a queda do muro de separação entre judeus e pagãos. Um mundo religioso fechado em si mesmo fica aqui superado e derrubado para dar lugar a outro mundo de todos e para todos. São Paulo expressa muito bem esse pensamento ao escrever: “Não há distinção entre judeu e grego, porque todos têm um mesmo Senhor, rico para com todos os que o invocam, porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (Rm 10,12-13; Jl 3,5).

Vale a pena fixar-se na capacidade de admiração de Jesus diante da fé dos pagãos. Jesus não duvida em afirmar: “Em ninguém em Israel encontrei tanta fé” (Mt 8,10). Fé, aqui, é confiança, é abertura a sua pessoa e a seu poder. E esta fé, que se dirige a Jesus, tem seu motor e extrai sua força da própria necessidade: a situação da filha “endemoninhada” (Mt 15,22), e o empregado que “está em cama paralitico e sofre muito” (Mt 8,6). Desde nossas situações vitais é que vamos a Jesus e confiamos nele, como a cananéia. Aprendamos a nos admirar da fé dos que estão fora da Igreja, da gente simples. E fiquemos atentos porque a fé pode estar ausente entre os próprios cristãos: “Em ninguém em Israel encontrei tanta fé” (Mt 8,10), disse Jesus sobre a fé de quem não pertence ao povo eleito. É uma grande ironia: os que se dizem crentes, têm pouco fé. Os que são considerados “pagãos”, têm tanta fé. afinal, quem é o verdadeiro pagão?

Ó mulher, grande é tua fé!”. Esta frase rompe os esquemas religiosos até agora vigentes no Povo de Deus. A partir daqui já não tem sentido falar do Povo de Deus num sentido limitado de etnia ou nação; já não há “cachorrinhos” nem amos, judeus nem gregos, servos nem livres, varões nem mulheres (cf. Rm 10,12; Gl 3,28). Nacionalidade, condição social e sexo ficam eliminados como fatores determinantes de pertença ao Povo de Deus. A própria escolha da mulher como protagonista do relato é um fato em si mesmo significativo. Se alguém não tinha voz no interior do Povo de Deus, eram precisamente as mulheres. Escolhendo uma mulher, primeiro; estrangeira, depois; e cananéia por último, Mateus acaba com todos os esquemas até então vigentes. A partir de agora o que determina a pertença ao Povo de Deus é a fé em Jesus, a adesão à sua Pessoa, a vivência de seus ensinamentos. Não nos esqueçamos nunca, no contexto de Mateus, de que esta fé significa a relativização da Lei e da Tradição, importantes e necessárias, por suposto, mas nunca prioritárias nem com valor de absolutos. Esquecer esta relativização tem o risco, entre outros, de reduzir a fé em Jesus a um pietismo pessoal.

Muitas pessoas estão fora da Igreja porque ainda não sabemos acolhê-las, porque lhe exigimos uma mudança de cultura, de atitude diante da vida que nem mesmo Cristo pediu isso dos seus parceiros de diálogo.

“Senhor, Filho de Davi, tem piedade de mim: minha filha está cruelmente atormentada por um demônio!”. É uma oração de petição que sai de uma fé profunda em que Deus pode fazer o que se pede e de uma confiança ilimitada no que Deus fará alguma coisa para resolver o problema existente. A fé é o distintivo essencial do cristão, além do amor (cf. Jo 13,35). É uma fé que recebe o que quer, porque o que quer é a vontade de Deus. Esta mulher não desiste diante dos obstáculos. Ela está na linha que Jesus ensinou anteriormente: “pedi..., buscai..., chamai/batei a porta...,” (Mt 7,7-8). São estes três aspectos (pedir, buscar, bater a porta) que definem substancialmente o homem. Daí a necessidade de “lutar” com Deus no terreno de uma oração perseverante. A Cananéia obteve o que pedia porque se manteve nessa atitude de essencial pobreza. Por causa de sua perseverança, cumpre-se nela a Palavra de Deus: “recebereis..., achareis/encontrareis..., a porta será aberta...,” (Mt 7,7-8). “Pedindo as migalhas que caem da mesa, logo a mulher se encontrou sentada à mesa”, comentou Santo Agostinho. Três aspectos que definem Deus: receber, encontrar e a porta será aberta. Deus e o homem estão postos frente a frente e cada um faz o que lhe é próprio: o homem com sua pobreza do essencial e Deus com a abundância de sua graça e benção para o homem aberto diante da providência divina.

Deus não pretende demonstrar que é um Criador poderoso e sim um Pai amoroso e misericordioso. Por ser Pai, Deus quer estar próximo de cada pessoa e de suas necessidades. Ele quer consolar e salvar. Mais que a admiração intenta provocar a confiança e o amor. Por isso, suas intervenções preferentemente têm lugar em contatos pessoais. Um caso é o da mulher Cananéia. É uma mãe pagã que pede a ajuda de Jesus em favor de sua filha. Na verdade ela é uma pessoa cheia de fé que se dirige a Jesus no convencimento de que Ele é o Enviado de um Deus que é Pai para todos. A oração dessa mulher foi atendida.

Jesus, ao elogiar a fé da mulher e curar sua filha, quer nos mostrar que para ele a fé tem uma força superior a qualquer delineamento ou prejuízo: a fé salva sempre. Ali onde há a fé, Jesus atua. E fé, aqui, significa convencimento de que Jesus é a Vida e o Caminho (cf. Jo 14,6) e confiança nele. Esta fé é que Jesus busca em cada um de nós. A mulher cananéia nos assinala o caminho para esta fé: a absoluta confiança em Jesus Cristo. É uma confiança que não necessita de nenhuma condição prévia; é uma fé que vai além do que pedimos para chegar à Pessoa de Jesus Cristo que é “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6).

Hoje somos convidados a examinar se nossa fé é verdadeira e firme, se temos Jesus presente em nossa vida, se confiamos nele em qualquer situação de nossa vida. Ao mesmo tempo somos convidados a examinar possíveis desvios: confiar demasiadamente em outras coisas (seja nossos bens materiais, sejam nossas “boas obras” etc.) ou se negamos o direito que o outro tem para expressar sua fé de modo distinto ao nosso.

P.Vitus Gustama, svd

Para Refletir: 

ALGUMAS FRASES SOBRE A FÉ DA CARTA ENCÍCLICA LUMEN FIDEI DO PAPA FRANCISCO: 

1.     A fé nasce no encontro com o Deus vivo, que nos chama e revela o seu amor: um amor que nos precede e sobre o qual podemos apoiar-nos para construir solidamente a vida. Transformados por este amor, recebemos olhos novos e experimentamos que há nele uma grande promessa de plenitude e nos é aberta a visão do futuro. A fé, que recebemos de Deus como dom sobrenatural, aparece-nos como luz para a estrada orientando os nossos passos no tempo.

2.     A fé é luz que vem do futuro, que descerra diante de nós horizontes grandes e nos leva a ultrapassar o nosso « eu » isolado abrindo-o à amplitude da comunhão. Deste modo, compreendemos que a fé não mora na escuridão, mas é uma luz para as nossas trevas.

3.     Fé, esperança e caridade constituem, numa interligação admirável, o dinamismo da vida cristã rumo à plena comunhão com Deus.

4.     « O homem fiel é aquele que crê no Deus que promete; o Deus fiel é aquele que concede o que prometeu ao homem.

5.     A fé pede para se renunciar à posse imediata que a visão parece oferecer; é um convite para se abrir à fonte da luz, respeitando o mistério próprio de um Rosto que pretende revelar-se de forma pessoal e no momento oportuno.

6.     O homem renunciou à busca de uma luz grande, de uma verdade grande, para se contentar com pequenas luzes que iluminam por breves instantes, mas são incapazes de desvendar a estrada. Quando falta a luz, tudo se torna confuso: é impossível distinguir o bem do mal, diferenciar a estrada que conduz à meta daquela que nos faz girar repetidamente em círculo, sem direção.

7.     Por isso, urge recuperar o caráter de luz que é próprio da fé, pois, quando a sua chama se apaga, todas as outras luzes acabam também por perder o seu vigor. De fato, a luz da fé possui um caráter singular, sendo capaz de iluminar toda a existência do homem.

8.     Ora, para que uma luz seja tão poderosa, não pode dimanar de nós mesmos; tem de vir de uma fonte mais originária, deve porvir em última análise de Deus.

9.     A fé está ligada à escuta. Abraão não vê Deus, mas ouve a sua voz. Deste modo, a fé assume um caráter pessoal: o Senhor não é o Deus de um lugar, nem mesmo o Deus vinculado a um tempo sagrado específico, mas o Deus de uma pessoa, concretamente o Deus de Abraão, Isaac e Jacob, capaz de entrar em contato com o homem e estabelecer com ele uma aliança. A fé é a resposta a uma Palavra que interpela pessoalmente, a um Tu que nos chama por nome.

10. A fé “vê” na medida em que caminha, em que entra no espaço aberto pela Palavra de Deus.

11. O contrário da fé é a idolatria. O ídolo é um pretexto para se colocar a si mesmo no centro da realidade, na adoração da obra das próprias mãos. A idolatria é sempre politeísmo, movimento sem meta de um senhor para outro. A idolatria não oferece um caminho, mas uma multiplicidade de veredas que não conduzem a uma meta certa, antes se configuram como um labirinto.

12. A fé, enquanto ligada à conversão, é o contrário da idolatria: é separação dos ídolos para voltar ao Deus vivo, através de um encontro pessoal.

13. Acreditar significa confiar-se a um amor misericordioso que sempre acolhe e perdoa, que sustenta e guia a existência, que se mostra poderoso na sua capacidade de endireitar os desvios da nossa história. A fé consiste na disponibilidade a deixar-se incessantemente transformar pela chamada de Deus. Paradoxalmente, neste voltar-se continuamente para o Senhor, o homem encontra uma estrada segura que o liberta do movimento dispersivo a que o sujeitam os ídolos.

Sábado Da XIX Semana Comum, Ano Par, 15/08/2026

OLHAR AMOROSO E MISERICORDIOSO DO PAI DO CÉU NOS LEVA À CONVERSÃO PERMANENTE

Sábado da XIX Semana Comum

Primeira Leitura: Ez 18,1-10.13b.30-32

1 A palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos: 2 “Que provérbio é esse que andais repetindo em Israel: ‘Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos ficaram embotados?’ 3 Juro por minha vida — oráculo do Senhor Deus —, já não haverá quem repita esse provérbio em Israel. 4 Todas as vidas me pertencem. Tanto a vida do pai como a vida do filho são minhas. Aquele que pecar é que deve morrer. 5 Se um homem é justo e pratica o direito e a justiça, 6 não participa de refeições rituais sobre os montes, não levanta os olhos para os ídolos da casa de Israel, não desonra a mulher do próximo, nem se aproxima da mulher menstruada; 7 se não oprime ninguém, devolve o penhor devido, não pratica roubos, dá alimento ao faminto e cobre de vestes o que está nu; 8 se não empresta com usura, nem cobra juros, afasta sua mão da injustiça, e julga imparcialmente entre homem e mulher; 9 se vive conforme as minhas leis e guarda os meus preceitos, praticando-os fielmente, tal homem é justo e, com certeza, viverá — oráculo do Senhor Deus. 10 Mas, se tiver um filho violento e assassino, que pratica uma dessas ações, 13b tal filho de modo algum viverá. Porque fez todas essas coisas abomináveis, com certeza, morrerá; ele é responsável pela sua própria morte. 30 Pois bem, vou julgar cada um de vós, ó casa de Israel, segundo a sua conduta — oráculo do Senhor Deus. Arrependei-vos, convertei-vos de todas as vossas transgressões, a fim de não terdes ocasião de cair em pecado. 31 Afastai-vos de todos os pecados que praticais. Criai para vós um coração novo e um espírito novo. Por que haveis de morrer, ó casa de Israel? 32 Pois eu não sinto prazer na morte de ninguém — oráculo do Senhor Deus. Convertei-vos e vivereis!”

Evangelho: Mt 19, 13-15

Naquele tempo, 13 levaram crianças a Jesus, para que impusesse as mãos sobre elas e fizesse uma oração. Os discípulos, porém, as repreendiam. 14 Então Jesus disse: “Deixai as crianças e não as proibais de vir a mim, porque delas é o Reino dos Céus”. 15 E depois de impor as mãos sobre elas, Jesus partiu dali.

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Cada Um É Responsável Pelos Próprios Atos Diante de Deus

Que provérbio é esse que andais repetindo em Israel: ‘Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos ficaram embotados?’ Juro por minha vida já não haverá quem repita esse provérbio em Israel. Todas as vidas me pertencem” é o oráculo do Senhor transmitido pelo profeta Ezequiel.

Um dos capítulos do livro de Ezequiel que está cheio de interesse teológico é, sem dúvida, este capítulo que lemos na Primeira Leitura hoje. Trata da responsabilidade pessoal e individual, mas poderíamos dizer que é orientada sempre para a conversão dos maus caminhos (vv. 23 e 30). A exagerada insistência na influencia do pecado coletivo se converte em escusa para não mudar ou para não se converter.

O provérbio acima usado pelos israelitas na época (Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos ficaram embotados?’) indica que são os pais que pecaram e seus filhos que sofrem as consequências; os pais não sofrem o castigo, mas os filhos, sem ter culpa, sofrem os efeitos. A partir desse pensamento surge a pergunta: de que vale, então converter-se? Qual é a resposta do profeta Ezequiel?

A resposta de Ezequiel é dupla. Em primeiro lugar, ele sublinha a transcendência de Deus. Deus é soberano sobre tudo e todos. A decisão de Deus não depende do pensamento humano, pois a vida do homem pertence a Deus. O profeta Isaias usa outra expressão para falar da soberania de Deus: “Meus pensamentos  não são vossos pensamentos, e vossos caminhos não são meus caminhos” (Is 55,8). Em segundo lugar, segundo Ezequiel, cada ato praticado individualmente está sob a responsabilidade individual. O pecado está dentro de cada pessoa, de cada indivíduo. Ele não é responsável pela culpa dos seus antepassados. O responsável é sempre o indivíduo. Deus não quer saber dos pecados cometidos em si mesmo. O que importa para Deus é a atitude pessoal atual, a conversão presente que sempre é possível. Se um indivíduo se arrepender e se converter, não importa o grau e o número dos pecados cometidos, Deus perdoa, pois Ele é misericordioso. A partir da conversão, Deus nos vê como somos e não como éramos. Mais tarde, na cura de um cego de nascença Jesus dirá aos discípulos: “Nem ele  nem seus pais pecaram, mas é para que nele sejam manifestadas as obras de Deus” (Jo 9,3). O profeta quer nos recordar que cada um é responsável de seus atos e que não nos refugiemos num falso sentido de culpa coletiva.

A autodefesa mais fácil é culpar os outros. Instintivamente, muita das vezes, buscamos escusas ou desculpas nos outros para nossas falhas e tendemos culpar os outros pelas nossas fraquezas para diminuir ou eliminar nossa responsabilidade pessoal. Às vezes nos refugiamos na culpa que tem a sociedade, a Igreja, as instituições, o mundo em que vivemos. Mesmo que os demais sejam bons, mas se eu decidir fazer o mal, não me servirá nada a bondade dos outros, da minha família ou da minha comunidade.

Deus Cuida De Nós Como Uma Mãe Cuida De Um Bebê

Algumas mães apresentam a Jesus seus pequenos filhos/crianças para serem abençoados (as) por ele. Os discípulos não gostam e as repelem porque as crianças menos de doze anos eram tidas como seres sem valor algum. Em outras palavras podiam atrapalhar os adultos. Os escribas também não davam atenção para as crianças como também para as mulheres, pois são propriedades de seus “donos” (pais e maridos respectivamente). Por isso, as crianças representam todos os pobres, excluídos e insignificantes ou sem valor para o olhar da sociedade.

Jesus se posiciona contra para esta visão distorcida. Por isso, ele afirma: “Deixai as crianças e não as proibais de virem a mim, porque delas é o Reino dos Céus”.  Se a sociedade fica sem o olhar de estima para elas, Deus os tem um olhar amoroso. Jesus exige aos discípulos para que as crianças possam chegar até Jesus: Deixai elas virem a mim. Jesus também aproveita nessa exigência a oportunidade para dar uma lição importante para os discípulos: “Delas é o Reino dos céus”. Isso quer nos dizer, literalmente, que o apelo e as promessas de Deus também são para elas. Ninguém está excluído das promessas (bênçãos) de Deus. Deus quer salvar todos.

 Delas é o Reino dos céus”. Essa frase nos mostra que Deus tem para as crianças ou para os pequeninos uma elevada conta. Além disso, por serem puras, as crianças são o reflexo do Reino dos céus, segundo Jesus. As crianças são tabernáculo vivo no qual o pecado e a maldade não entram.

Os pobres, isto é, os mais carentes, os necessitados são objeto de particular predileção por parte do Senhor (cf. Lc 4,16-21). As crianças, os pequeninos são mais pobres dos pobres: são pobres de idade, de formação, de força (indefesos). A Igreja (todos os batizados) como Mãe deve exercer sua maternidade acolhendo, abrigando e velando sobre todos, especialmente sobre os mais necessitados.

“Deixai as crianças e não as proibais de vir a mim, porque delas é o Reino dos Céus”. As palavras de Jesus soam como uma reclamação ligeira. Para os adultos as “coisas de crianças” representam um segundo plano. Quando avançamos na idade e com a experiência da vida, os adultos começam a ver as “coisas de crianças” como comportamentos superados esquecendo-nos de algo importante numa criança: a pureza, a simplicidade, a sinceridade de sentimentos que são justamente as virtudes que Jesus valoriza mais. Se nós somos complicados, ambíguos e pouco coerentes, tudo isso não será uma consequência de não sabermos conservar as virtudes de nossa infância?

Seremos mais felizes e mais serenos, se pusermos em Deus nossa confiança e segurança como uma criança nos seus pais. Se tivermos fé firme em Deus e deixarmos Deus tomar conta de nossa vida (com nossa colaboração), e se mantivermos a pureza, a simplicidade e a sinceridade, nós encontraremos novamente a serenidade de nossa infância e viveremos como mais alegria e leveza.   

“Deixai as crianças e não as proibais de vir a mim, porque delas é o Reino dos Céus”. O Reino anunciado por Jesus se funda na igualdade das pessoas. É um reino de comunhão e fraternidade. Portanto, não pode admitir a exclusão de quem quer que seja. Jesus diz que está reservado um lugar especial no Reino de Deus para as crianças. O Reino de Deus pertence a quem se pareça com as crianças. Não é que o ideal do discípulo seja ser ingênuo e infantil, e sim, ser capaz de confiar plenamente em Deus, não busca segurança por si mesmo, não ter o coração corrompido pela maldade. As crianças são, com efeito, protótipo de pessoas que têm fé e confiança em Deus muito mais que a inocência ou a pureza. Santo Ambrósio perguntou: “Por que se diz que as crianças são aptas para o Reino dos céus? Talvez porque geralmente não têm malícia, não sabem enganar nem se atrevem a enganar-se; desconhecem a luxúria, não desejam as riquezas e ignoram a ambição”. Se hoje em dia as crianças têm o espírito de ganância é porque estão sendo contaminadas por seus pais ou pelos adultos. Se assim for, é hora para reeducar as crianças na graça e na sabedoria como foi educado Jesus por Sua mãe Maria (cf. Lc 2,52)        

Para sermos como crianças, é necessário que nos disponhamos a mudar profundamente (conversão), e que assimilemos o ensinamento divino. Para isso, temos de cultivar em primeiro lugar uma firme vontade de nos comportarmos como filhos e filhas de Deus, dóceis à vontade de Deus com humildade e simplicidade de espírito.        

Na vida cristã, a maturidade se dá precisamente quando nos fazemos crianças diante de Deus, filhos pequenos que confiam e se abandonam nele como uma criança que se abandona nos braços de seu pai. Então encararemos os acontecimentos do mundo como são, no seu verdadeiro valor. Esta piedade filial fortalece a esperança e a certeza de chegar à meta, e nos dá paz e alegria nesta vida. Perante as dificuldades da vida, não nos sentiremos nunca sozinhos. Esta certeza será para nós como a água para o viajante no deserto. Sem ela, não poderíamos prosseguir a viagem. 

O texto do evangelho de hoje convida cada um de nós a “vir a Jesus”, isto é a crer nele para que possamos possuir o Reino, entrar nele e recebê-lo como uma criança: com sua pequenez. 

“Deixem que as crianças venham a mim” não é somente um convite a fazer-se como crianças e sim uma declaração e uma verdadeira promessa feita a todos os que são como as crianças que fazem parte do Reino de Deus.        

Que tenhamos um coração de uma criança diante de Deus, nosso Pai: uma confiança total e sem limite. Somente a partir da própria debilidade assumida é que é possível reconhecer o senhorio de Deus sobre a história humana e sobre nossa vida. Os autossuficientes e aqueles que consideram que podem tudo estão impossibilitados de reconhecer a realidade da graça de Deus. A qualidade essencial que nas crianças se destaca é a humildade, a impotência diante da vida, a necessidade que tem de seus pais. Tudo isto deve ser também nossa atitude diante de Deus. Sejamos como crianças em espírito simples e humilde. 

O Senhor Jesus nos reúne ao redor da Mesa eucarística como irmãos seus (cf. Mt 12,48-50) para que juntos celebremos o Banquete do Reino dos céus que se iniciou entre nós estando ainda nós neste mundo. Para Jesus, nosso Senhor, não há espaço nenhum para qualquer diferença social. Ele ama a todos igualmente e ninguém pode se sentir um discriminado, um excluído, um desprezado por causa de sua pobreza, de seu pecado, de sua etnia, de sua cultura ou de sua nação. O Senhor experimentou nossas dores e fez suas nossas feridas (cf. Mt 8,17). Ele recorreu o caminho de entrega no amor até as últimas consequências. 

Se quisermos dar-lhe um novo rosto à humanidade devemos seguir seus passos, carregando nossa própria cruz de cada dia até sermos glorificados junto com Ele. Na Eucaristia somos permanentemente convidados a ser nossas as palavras de nova e eterna aliança: “Isto é meu Corpo que se entregue por vós; isto é meu Sangue que é derramado para o perdão dos pecados”. Em outras palavras, ser vida para os outros.

P.Vitus Gustama,svd

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Sexta-feira Da XIX Semana Comum, Ano Par, 14/08/2026

MATRIMÔNIO E SUA INDISSOLUBILIDADE NO PLANO DE DEUS

Sexta-Feira da XIX Semana Comum

                                                                                                                                    

Primeira Leitura: Ez 16,1-15.60.63

1 A palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos: 2 “Filho do homem, mostra a Jerusalém suas abominações. 3 Dirás: Assim fala o Senhor Deus a Jerusalém: Por tua origem e nascimento és do país de Canaã. Teu pai era um amorreu e tua mãe uma hitita. 4 E como foi o teu nascimento? Quando nasceste, não te cortaram o cordão umbilical, não foste banhada em água, nem esfregada com salmoura nem envolvida em faixas. 5 Ninguém teve dó de ti, nem te prestou algum desses serviços por compaixão. Ao contrário, no dia em que nasceste, eles te deixaram exposta em campo aberto, porque desprezavam a tua vida. 6 Então, eu passei junto de ti e vi que te debatias no próprio sangue. E enquanto estavas em teu sangue, eu te disse: “Vive!” 7 Eu te fiz crescer exuberante como planta silvestre. Tu cresceste e te desenvolveste, e chegaste à puberdade. Teus seios se firmaram e os pelos cresceram; mas estavas inteiramente nua. 8 Passando junto de ti, percebi que tinhas chegado à idade do amor. Estendi meu manto sobre ti para cobrir tua nudez. Fiz um juramento, estabelecendo uma aliança contigo — oráculo do Senhor —, e tu foste minha. 9 Banhei-te na água, limpei-te do sangue e ungi-te com perfume. 10 Eu te revesti de roupas bordadas, calcei-te com sandálias de fino couro, cingi-te de linho e te cobri de seda. 11 Eu te enfeitei de joias, pus braceletes em teus braços e um colar no pescoço. 12 Eu te pus um anel no nariz, brincos nas orelhas e uma coroa magnífica na cabeça. 13 Estavas enfeitada de ouro e prata, tuas vestimentas eram de linho finíssimo, de seda e de bordados. Eu te nutria com flor de farinha, mel e óleo. Ficaste cada vez mais bela e chegaste à realeza.14 Tua fama se espalhou entre as nações por causa de tua beleza perfeita, devido ao esplendor com que te cobri — oráculo do Senhor. 15 Mas puseste tua confiança na beleza e te prostituíste graças à tua fama. E sem pudor te oferecias a qualquer passante. 60 Eu, porém, me lembrarei de minha aliança contigo, quando ainda eras jovem, e vou estabelecer contigo uma aliança eterna. 63 É para que te recordes e te envergonhes, e na tua confusão não abras mais a boca, quando eu te houver perdoado tudo o que fizeste, — oráculo do Senhor Deus”.

Evangelho: Mt 19, 3-12

Naquele tempo, 3alguns fariseus aproximaram-se de Jesus, e perguntaram, para tentá-lo: “É permitido ao homem despedir sua esposa por qualquer motivo?” 4 Jesus respondeu: “Nunca lestes que o Criador, desde o início, os fez homem e mulher? 5 E disse: ‘Por isso, o homem deixará pai e mãe, e se unirá à sua mulher, e os dois serão uma só carne’? 6 De modo que eles já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe”. 7 Os fariseus perguntaram: “Então, como é que Moisés mandou dar certidão de divórcio e despedir a mulher?” 8 Jesus respondeu: “Moisés permitiu despedir a mulher, por causa da dureza do vosso coração. Mas não foi assim desde o início. 9 Por isso, eu vos digo: quem despedir a sua mulher – a não ser em caso de união ilegítima – e se casar com outra, comete adultério”. 10 Os discípulos disseram a Jesus: “Se a situação do homem com a mulher é assim, não vale a pena casar-se”. 11 Jesus respondeu: “Nem todos são capazes de entender isso, a não ser aqueles a quem é concedido. 12 Com efeito, existem homens incapazes para o casamento, porque nasceram assim; outros, porque os homens assim os fizeram; outros, ainda, se fizeram incapazes disso por causa do Reino dos Céus. Quem puder entender entenda”.

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Deus Continua Nos Amando Apesar De Nossos Pecados. É Preciso Voltar Ao Amor De Deus Que Nos Salva

Fiz um juramento, estabelecendo uma aliança contigo e tu foste minha. Eu me lembrarei de minha aliança contigo, quando ainda eras jovem, e vou estabelecer contigo uma aliança eterna. É para que te recordes e te envergonhes, e na tua confusão não abras mais a boca, quando eu te houver perdoado tudo o que fizeste é o oráculo do Senhor através da boca do profeta Ezequiel que lemos na Primeira Leitura de hoje.

O texto da Primeira Leitura é tirado do capítulo dezesseis do livro do profeta Ezequiel. O Ez 16 é uma meditação do profeta Ezequiel sobre a história de Jerusalém e de sua missão para estabelecer o Reino de Deus no mundo. Trata-se de um capítulo belo da Sagrada Escritura escrito com a maior força e paixão.

A queixa de Deus contra seu povo se expressa através de uma alegoria escrita com grande realismo. Trata-se de a história de um amor não correspondido. Deus encontrou  uma garota abandonada e  a adota. A descrição dos favores que cercam essa garota, até transformá-la em uma mulher madura e bonita, é repleta de detalhes muito humanos. Mas ela, vendo-se cheia de atratividade, esquece seu benfeitor e se prostitui com quem passa: ela esquece seu Deus e sai com os falsos deuses.

Com essa grande alegoria, o profeta Ezequiel descreve a história de Israel desde suas origens até a renovação da aliança. O profeta Ezequiel escreveu que toda a história de Israel com Deus é uma luta constante entre o amor de Deus, de um lado e os contínuos pecados de Jerusalém, do outro lado. Assim como as relações com Deus são descritas como uma história de amor do esposo para com a esposa, as relações com os ídolos são explicadas com a imagem da prostituição ou fornicação como uma manifestação da infidelidade de Israel contra o Senhor. Trata-se da infidelidade, que, às vezes, foi a mesma prostituição sagrada praticada pelos judeus e certas religiões cananeias nos santuários. A história de Israel é feita de pecados e ingratidões.

Apesar disso, o profeta Ezequiel quer enfatizar sobre este fato tão escuro da história de Israel que sobressaem e brilham extraordinariamente a bondade e o imenso e gratuito amor de Deus para seu povo. Desde princípio o próprio Deus tomou a iniciativa, quando o povo não tinha nem mérito nem valor: “No dia em que nasceste, eles te deixaram exposta em campo aberto, porque desprezavam a tua vida. Então, eu passei junto de ti e vi que te debatias no próprio sangue. E enquanto estavas em teu sangue, eu te disse: ‘Vive!’. Eu te fiz crescer exuberante como planta silvestre”.

Ao longo de sua vida, Deus inunda o povo de todo tipo de bens, mas o próprio povo utiliza todos os bens de Deus para cometer pecados. Em vez de adorar o Deus dos bens, o povo apenas adora os bens de Deus. Mas a atitude maravilhosa e surpreendente de Deus perdoa o povo. Apesar da infidelidade do povo, Deus restabelece a aliança. Trata-se de uma pura benevolência de Deus. O que se exige do povo é o arrependimento e a conversão.

Este texto do profeta Ezequiel nos leva a algumas afirmações mais importantes do Novo Testamento: “Deus nos amou primeiro” (1Jo 4,10ss); “Deus que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, quando estávamos mortos em nossos delitos, nos vivificou juntamente com Cristo...” (Ef 2,4ss). O amor de Deus é um amor totalmente gratuito: “O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espirito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5).

O profeta Ezequiel quer nos transmitir a certeza de que não há pecado, por grave que seja e por numerosos que sejam pecados cometidos, que não possa ser perdoado por Deus: “Ainda que vossos pecados sejam como escarlate, tornar-se-ão alvos como a neve; ainda que sejam vermelhos como carmesim, tornar-se-ão como a lã” (Is 1,18). Deus é rico em misericórdia. A única condição que Deus quer é que nos convertamos para recomeçar nossa vida na graça abundante de Deus. A misericórdia está sempre na nossa frente. É preciso olharmos sempre para a misericórdia de Deus e as sombras de nossa vida vão ficar para trás. Quando não acreditarmos mais na misericórdia de Deus, as sombras de nossa vida vão escurecer nossa caminhada e ficaremos infelizes, perdido e confusos para o resto de nossa vida.

Matrimônio É o Sacramento de Amor: o Amor mútuo entre Os Esposos e o Amor Deus Para Os Esposos

O que Deus uniu, o homem não separe”.

Terminado o discurso sobre a vida comunitário ou discurso eclesial (Mt 18), seguem algumas recomendações de Jesus em seu caminho para Jerusalém. Desta vez é sobre a questão de divórcio.

Na época de Jesus, a Lei permitia a possibilidade de um homem repudiar a mulher (mas nenhuma mulher tinha direito de repudiar seu marido). A lei determina que o homem (marido) dê um documento legal de divórcio, que a deixe livre para se casar novamente (Dt 24,1-4; Jr 3,8). O Deuteronômio dá uma razão geral para o marido divorciar-se da mulher: “Esta não encontra mais graça aos seus olhos, porque viu nela algo de inconveniente” (Dt 24,1). Expressa, então, a superioridade do homem e seu domínio sobre a mulher e reflete a opressão exercida em todos os níveis da sociedade na época. A mulher é considerada como objeto ou propriedade do homem (uma moça solteira era propriedade de seu pai; uma mulher casada era propriedade de seu marido).                

Questionando Jesus sobre o divórcio, os fariseus se aproximam de Jesus para tentá-lo: “É lícito a um marido repudiar sua mulher?” Se responder “sim”, Jesus se mostrará como seguidor de Moisés, assim Jesus não será maior do que Moisés. Se responder “não”, Jesus estará em oposição à lei de Moisés. Logo Jesus será desprezado pelo povo.        

Jesus, porém, não está preocupado com a lei que mantém a lógica dominante. Ele levanta duas questões: Por que Moisés escreveu tal lei? E será que Moisés a escreveu com intenção de permitir o divórcio? Por isso, Jesus responde: “Foi por causa da dureza do coração de vocês que Moisés escreveu esse mandamento. Mas, desde o início da criação, Deus os fez homem e mulher...os dois serão uma só carne/ser”. Para o hebreu, coração significa o centro da pessoa, da sua liberdade, dos seus relacionamentos: lá onde a pessoa se abre e se dá na conversão, no amor e no compromisso. A vitória do Reino será justamente a transformação do coração humano. A condição de “dureza de coração” impede que se perceba o valor que cada pessoa tem aos olhos de Deus (3,5); e ela causa cegueira diante da manifestação do Amor de Deus (Mt 6,52;8,17). 

O que Deus uniu o homem não separe”, afirma Jesus. A fidelidade indissolúvel n matrimônio que Jesus propõe não deve ser entendida como lei e sim como Evangelho. Jesus deixa de lado a casuística e afirma a indissolubilidade do matrimônio, recordando o plano de Deus: “Desde o início da criação, Deus os fez homem e mulher...os dois serão uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe ”. O plano é de Deus: Ele é quem quer que exista essa atração e esse amor entre o homem e a mulher com uma admirável complementaridade, e, além disso, com a abertura ao milagre da vida (gerar) no qual colaboram com o próprio Deus Criador. 

No Sermão da Montanha Jesus desautorizava o divórcio (Mt 5,31-32). Aqui apela para a vontade original de Deus, que comporta uma união mais séria e estável, não sujeita a um sentimento passageiro ou a um capricho. O texto mostra que a união matrimonial, no plano de Deus, transforma os cônjuges em “companheiros de eternidade”: “O que Deus uniu...”. Para Jesus a mais alta concepção humana do amor conjugal é um dom de Deus. Isso significa que para se casar o homem e a mulher devem se deixar inspirar por Deus para poderem amar indissoluvelmente, fielmente e infinitamente. 

Ao mesmo tempo, negando o divórcio, Jesus estabelece a dignidade da mulher, que não pode ser tratada como  a era tratada naquele tempo com a visão machista. O que Deus quer é a igualdade entre as pessoas. Por isso, o homem não é superior à mulher. E Jesus nos chama a valorizarmos as pessoas conforme o plano de Deus e não para tirar vantagens de uma relação. 

Tudo que Jesus afirma nos recorda a necessidade de cada comunidade eclesial levar a sério o matrimônio: a preparação humana e psicológica do matrimônio, sua celebração, seu acompanhamento depois..., pois o amor que Deus quer é estável, fiel e maduro. Se o matrimônio se aceita com todas as consequências, não buscando somente a si mesmo, mas a admirável comunhão de vida que supõe a vida conjugal evidentemente é comprometido, nobre e gozoso.

A definitividade do matrimônio faz com que o amor se torne cada vez mais maduro, pois ele é refletido toda vez que encontra sua dificuldade e seus obstáculos. Nisto consiste a beleza do matrimônio.  Precisamente na medida em que os momentos de crise matrimonial se superam, cresce também uma nova dimensão do amor e ao mesmo tempo se abre uma porta para uma dimensão da vida. Na superação de cada momento de crise abre-se uma porta para uma nova dimensão da convivência matrimonial e familiar. Com efeito, a verdadeira beleza do matrimônio não consiste apenas na sua harmonia, mas também na superação de cada momento de crise.

A beleza do matrimônio também consiste em ser ninho do amor e de outros valores para uma família. A família é a base de uma história para cada membro dela. A família é o ambiente em que cada um aprende a dar e a receber o amor; a sacrificar pelo outro, a ser solidário com o outro, a carregar juntos o fardo que se encontra na caminhada, a perdoar mutuamente pelas ofensas que muitas vezes são frutos não da maldade, mas das limitações naquele momento em que elas ocorreram. A grandeza de um matrimônio e de uma família consiste na entrega sincera de si mesmo ao outro, de ser fiel um ao outro.Se você quiser ser fiel até a morte, deve estar disposto a mudar durante toda a sua vida. Os esposos fiéis podem olhar-se nos olhos sem temores (René Juan Trossero). 

Por isso, a beleza de um matrimônio também consiste na transmissão dos valores para os filhos. Nada pode substituir a existência de uma família, pois ela é a base de uma história, de um crescimento, da maturidade humana e cristã. A família é um bem necessário para cada ser humano para toda a sua vida. Não é por acaso que cada família cristã é chamada de Igreja doméstica, pois através da vivência dos valores a família se torna uma comunidade de graça e uma escola das virtudes humanas e cristãs. A linguagem da fé de cada cristão se aprende no lar. A fé e a ética cristã se aprendem no lar que vão marcar a vida de cada membro para o resto da vida. Nenhum de nós adquiriu por si só os conhecimentos básicos para a vida. Cada um recebe de outros, principalmente da família, a vida e as verdades básicas para viver uma vida sadia pessoal, social e comunitariamente. Neste sentido, os próprios pais são exemplo e professores das virtudes humanas e cristãs. Somente desta maneira cada família pode superar a cultura que exalta o egoísmo e o individualismo como se cada um se fizesse só e se bastasse a si mesmo esquecendo o valor de uma relação com os outros e sua responsabilidade diante dos outros.    

Ao lermos este texto sabemos que Jesus não queria ensinar que o casamento é um simples contrato legal que não pode ser dissolvido. Pois um simples contrato pode sempre ser dissolvido, porque se trata apenas de um acordo entre duas vontades humanas. Com sua resposta, Jesus quer mostrar que o casamento é mais do que uma lei. Ele é graça de Deus. É uma união de amor.O amor é o único jogo no qual dois podem jogar e ambos ganharem (Erma Freesman). O fundo de uma agulha é bastante espaçoso para um casal que se ama; mas o mundo todo é pequeno para dois inimigos (Solomon Ibn Gabirol).  É neste nível que deve ser compreendido, e é neste plano que os esposos devem viver. Jesus dá, então, ao casamento uma dignidade nova.         

Se a instituição do matrimônio é tão ameaçada atualmente talvez porque nossa cultura tenha aspectos que favoreçam a condição de dureza de coração. Valoriza-se a liberdade, mas sem compromissos. Cria-se um conceito da afetividade e sexualidade que é baseado mais no egoísmo do que no respeito pela dignidade do outro, e no espírito de doação.       

Hoje sentimos como é necessário ajudar as pessoas a conhecerem a pessoas de Jesus, e a encarar a vida conjugal como uma vocação, ou seja, como um chamamento a viver o Amor do Reino neste estado de vida. Continuamos na obrigação de educar para um amor capaz de assumir compromissos definitivos. Isso se faz para valorizar a confiança mútua, a fidelidade ao outro e a si mesmo, para dar uma chance à felicidade que estava no plano de Deus desde o começo. Não vemos casamento indissolúvel como uma obrigação a ser carregada, e sim como um direito que não deve ser sacrificado num mundo que fez do descartável um modo de vida. Responsabilidade, desejo de fidelidade, seriedade na palavra empenhada têm muito a ver com o direito de ser e fazer feliz. 

Não separe o homem o que Deus uniu”, diz Jesus. Jesus está sempre contra a corrente. Palavra incompreensível para muitos homens e mulheres, qualquer seja a sua idade. O ser humano foi criado à imagem de Deus por amor. O casal humano é chamado por Deus a tornar-se o primeiro lugar de encarnação deste movimento de amor. O amor humano, sob todas as suas formas, não nasceu dos acasos da evolução biológica. É dom de Deus. Quando os homens recusarem este dom, impedirão Deus de imprimir neles a sua imagem. O casamento indissolúvel é um grito para todas as pessoas ao redor que existe o amor. É o mesmo que dizer: Deus existe, pois ele é Amor (1Jo 4,8.16). 

A lição da fidelidade estável vale igualmente para os que optaram por outro caminho, o do celibato. Disso fala Jesus hoje quando afirma que há quem renuncia ao matrimônio e se mantém celibatário “pelo Reino dos Céus”, como fazem os ministros ordenados e os religiosos: não para não amar e sim para amar mais e de outro modo, para dedicar sua vida inteira, também como sinal, a colaborar na salvação do mundo. Jesus apresenta o celibato como um dom de Deus, e não como uma opção que seja possível para todos. 

Deus abençoe todas as famílias, todos os casados e todos os futuros casados, todos os ministros ordenados e religiosos.

P.Vitus Gustama, svd

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Quinta-feira Da XIX Semana Comum, Ano Par, 13/08/2026

PERDOAR: O POR QUÊ E O PARA QUÊ?

Quinta-Feira da XIX Semana Comum

Primeira Leitura: Ez 12,1-12

1 A palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos: 2 “Filho do homem, estás morando no meio de um povo rebelde. Eles têm olhos para ver e não veem, ouvidos para ouvir e não ouvem, pois são um povo rebelde. 3 Quanto a ti, Filho do homem, prepara para ti uma bagagem de exilado, em pleno dia, à vista deles. Emigrarás do lugar onde estás, à vista deles, para outro lugar. Talvez percebam que são um povo rebelde. 4 Deverás tirar a bagagem em pleno dia, à vista deles, como se fosse a bagagem de um exilado. Mas deverás sair à tarde, à vista deles, como quem vai para o exílio. 5 À vista deles deverás cavar para ti um buraco no muro, pelo qual sairás; 6 deverás carregar a bagagem nas costas e retirá-la no escuro. Deverás cobrir a face para não ver o país, pois eu fiz de ti um sinal para a casa de Israel”. 7 Eu fiz assim como me foi ordenado. Tirei a bagagem durante o dia, como se fosse a bagagem de exilado; à tarde, abri com a mão um buraco no muro. Saí no escuro, carregando a bagagem às costas, diante deles. 8 De manhã, a palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos: 9 “Filho do homem, não te perguntaram os da casa de Israel, essa gente rebelde, o que estavas fazendo? 10 Dize-lhes: Assim fala o Senhor Deus: Este oráculo refere-se ao príncipe de Jerusalém e a toda a casa de Israel que está na cidade. 11 Dize: Eu sou um sinal para vós. Assim como eu fiz, assim será feito com eles: irão cativos para o exílio. 12 O príncipe que está no meio deles levará a bagagem às costas e sairá no escuro. Farão no muro um buraco para sair por ele. O príncipe cobrirá o rosto para não ver com seus olhos o país.

Evangelho: Mt 18,21-35

Naquele tempo, 18,21 Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou: “Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?” 22 Jesus respondeu: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete. 23 Porque o Reino dos Céus é como um rei que resolveu acertar as contas com seus empregados. 24 Quando começou o acerto, trouxeram-lhe um que lhe devia uma enorme fortuna. 25 Como o empregado não tivesse com que pagar, o patrão mandou que fosse vendido como escravo, junto com a mulher e os filhos e tudo o que possuía, para que pagasse a dívida. 26 O empregado, porém, caiu aos pés do patrão, e, prostrado, suplicava: ‘Dá-me um prazo! e eu te pagarei tudo’. 27 Diante disso, o patrão teve compaixão, soltou o empregado e perdoou-lhe a dívida. 28 Ao sair dali, aquele empregado encontrou um dos seus companheiros que lhe devia apenas cem moedas. Ele o agarrou e começou a sufocá-lo, dizendo: ‘Paga o que me deves’. 29 O companheiro, caindo aos seus pés, suplicava: ‘Dá-me um prazo! e eu te pagarei’. 30 Mas o empregado não quis saber disso. Saiu e mandou jogá-lo na prisão, até que pagasse o que devia. 31 Vendo o que havia acontecido, os outros empregados ficaram muitos tristes, procuraram o patrão e lhe contaram tudo. 32 Então o patrão mandou chamá-lo e lhe disse: ‘Empregado perverso, eu te perdoei toda a tua dívida, porque tu me suplicaste. 33 Não devias, tu também, ter compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?’ 34 O patrão indignou-se e mandou entregar aquele empregado aos torturadores, até que pagasse toda a sua dívida. 35 É assim que o meu Pai que está nos céus fará convosco, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão”. 19,1 Ao terminar estes discursos, Jesus deixou a Galileia e veio para o território da Judeia além do Jordão.

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A Vida Está Cheia De Símbolos Que Contêm Recados De Deus Para Cada Um De nós

Filho do homem, prepara para ti uma bagagem de exilado, em pleno dia, à vista deles. Emigrarás do lugar onde estás, à vista deles, para outro lugar. Talvez percebam que são um povo rebelde. Deverás tirar a bagagem em pleno dia, à vista deles, como se fosse a bagagem de um exilado. Mas deverás sair à tarde, à vista deles, como quem vai para o exílio”, lemos na Primeira Leitura do livro do profeta Ezequiel. É uma ação simbólica que o profeta Ezequiel deve fazer a ordem de Deus.

O texto da Primeira Leitura nos oferece novo anúncio sobre a próxima deportação ou a segunda deportação. A primeira deportação já aconteceu em 597 a.C em que a melhor parta do povo foi exilada em Babilônia (o atual Iraque). Os anúncios anteriores nãi foram suficientes, pois os destinatários continuam sendo povo rebelde. O próprio Deus chama o povo de povo rebelelde no início da vocação de Ezequiel (Ez 2,3-4).

No texto de hoje, Ezequiel faz um ato simbólico. A mesma ação simbólica que a Primeira Leitura de hoje nos apresenta, lemos também em Ez 5,1-17. O objetivo destas ações simbólicas é para fazer penetrar mais nos ouvintes a profecia de Ezequiel, profecia no sentido de transmissão da palavra ou do desígnio de Deus em determinado momento.

A ação simbólica do profeta Ezequiel na leitura de hoje é simples: Ezequiel tem que preparar as coisas para marchar/viajar como um emigrante: preparar as coisas durante o dia e sair de noite. O sentido que o profeta quer transmitir ao povo através da ação simbólica é claro: anunciar a segunda deportação para Babilônia, tanto do rei como dos habitantes elites da cidade de Jerusalém apesar de eles não quererem reconhecer o sentido dessa ação. A cidade será destruída, porque “Eles têm olhos para ver e não veem, ouvidos para ouvir e não ouvem, pois são um povo rebelde” (Ez 12,2b). Por isso, não querem fazer caso de Ezequiel. Consequentemente, não mudaram sua maneira de viver. Quando não mudar a maneira de viver, também não mudará o destino. Somente um insano faz isso. Insano é aquele que continua a fazer a mesma coisa e, ao mesmo tempo, espera o resultado diferente.

Um profeta é uma pessoa que deve ir indicando aos demais quais são os caminhos de Deus. O profeta anuncia o que é que vai bem e denuncia o que deve ser corrigido para não ir à ruina. No Batismo, através da unção de óleo de crisma colocado na nossa testa, recebemos a função profética (além da função sacerdotal e real/pastoral). Com a função profética temos a missão de anunciar a Palavra de Deus e denunciar, como nossa maneira de viver, tudo o que é injusto, desonesto, humilhante e assim por diante. Qualquer batizado jamais compactua com a maldade, a corrupção e assim por diante.

O Salmo Responsorial de hoje (Sl 77/78) reconhece humildemente os motivos do desastre nacional: “Mesmo assim, eles tentaram o Altíssimo, recusando-se a guardar os seus preceitos... provocaram-lhe o ciúme com seus ídolos... Deus ouviu e enfureceu-se contra eles, e repeliu com violência a Israel. Entregou a sua arca ao cativeiro”.

Mesmo que não haja nenhuma mudança na vida do povo, Ezequiel não se deixa levar nem pelo cansaço nem pelo desalento. Na verdade é o próprio Deus que está atrás da atividade de Ezequiel, pois é Deus quem manda fazer toda a ação simbólica. É admirável a paciência de Deus e de seu profeta em mandar sinais para que o povo se converta, um povo que, aparentemente, perdeu toda possibilidade de perceber o sentido de tudo que Deus diz e faz. Deus sempre espera na possibilidade de o homem voltar para o caminho certo pelo sua própria salvação.

De tudo isso aprendemos que nunca podemos dizer que o endurecimento é permanente. Tem que ter sempre a esperança de uma mudança, de uma conversão, de um conhecimento de Deus que levam ao reconhecimento do amor de Deus.

Além disso, através das ações simbólicas do profeta Ezequiel para transmitir a mensagem de Deus aprendemos que na nossa vida de cada dia Deus sempre deixa seus sinais para nos alertar e para nos ajudar a tomar o caminho do bem. Um sinal nos leva daquilo que vemos para aquilo que não vemos, do conhecido ao desconhecido, isto é, que evoca algo que está muito além de sua própria realidade. Alguns sinais podemos decifrar facilmente: a fumaça indica, geralmente, que há fogo, o riso indica alegria, as pegadas indicam os passos de um homem ou de um animal que passou. Em cada experiência e acontecimento de nossa vida Deus sempre deixa Seu recado para nós. Na vida de um ser humano, do ponto de vista teológico, não há nada que seja acaso e sim, providência divina. Em cada experiência, em cada acontecimento de nossa vida, devemos lançar a seguinte pergunta: O que Deus quer de mim através daquela experiência ou através daquele acontecimento? Qual foi o recado de Deus para mim através daquele acontecimento, daquela conversa, daquela briga etc.? Mas podemos ter certeza de que somente quem vive o verdadeiro amor fraterno é capaz de perceber os sinais de Deus, até nas pequenas coisas de cada dia. “Às vezes, os problemas são sinais de que chegou a hora de o guerreiro iniciar uma nova batalha” (Roberto Shinyashiki).

Perdão É a Expressão Máxima Do Amor

Não te digo até sete vezes tu deves perdoar, mas até setenta vezes sete”.

Estamos na última parte do quarto discurso de Jesus sobre a vida comunitária no evangelho de Mateus (Mt 18). Na passagem do evangelho de hoje Jesus enfatiza a importância do mútuo perdão para que a convivência subsista e o Reino de Deus se realize na terra.

Um dos maiores desafios para qualquer tipo de convivência, como também na comunidade de Mt, é o perdão. A sobrevivência de qualquer comunidade humana depende da capacidade que seus membros têm de perdoar. Sem isto, não há comunidade ou convivência que possa subsistir por muito tempo. O perdão é que possibilita a própria existência e a continuação da comunidade ou de uma convivência. Sem o perdão não existe vida fraterna, vida religiosa, vida conjugal, vida familiar ou vida comunitária. Para aprender a amar verdadeiramente o cristão tem que aprender a perdoar vivendo o espírito de Deus que não se cansa de nos perdoar. Por isso, perdoar não é somente dever moral, e sim o eco da consciência de ter sido perdoado por Deus. Assim chega a ser uma espécie de virtude teologal que prolonga o perdão dado por Deus a mim (cf. Cl 3,13; Mt 6,14-15; 2Cor 5,18-20). “Perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido...”, assim rezamos no Pai Nosso. Neste sentido, perdoar o próximo é sinal da plenitude da eficácia do perdão de Deus recebido. Para pedir o perdão a Deus tenho que aprender a perdoar o outro.          

Até quantas vezes devo perdoar? Os judeus diziam que o máximo de vezes a perdoar era quatro vezes. E quem perdoava sete vezes já era considerado santo. Pedro é generoso porque ele eleva o número para sete, pensando chegar ao ideal de Jesus. Mas qualquer que seja o motivo que leva Pedro a fazer sua pergunta ou a elevar o número quatro para o sete, uma coisa é certa: ele quer que Jesus confirme a existência de um limite no exercício da caridade cristã, especialmente no perdão.         

Jesus, porém, enfatiza o perdão sem limite: Até 70 vezes sete (v.22). No AT o número 77 representava a vingança dos filhos de Caim (Gn 4, 24). O que tem por trás da afirmação de Jesus é o Deus da misericórdia. Jesus quer nos levar à consciência primordial sobre a razão de nossa existência. Jesus quer nos relembrar de que no início era a misericórdia. Fomos criados por um gesto misericordioso, fomos feitos por mãos misericordiosas, fomos idealizados por uma mente misericordiosa e fomos gerados pelo ventre misericordioso (misericórdia no AT significa “seio materno” = rahamim que se traduz para o português por “misericórdia”, que deriva do latim: miseris, “miserável” + “cor”, “coração” + “dare”, “dar”. Misericórdia significa dar o coração aos miseráveis).       

A nossa origem é a misericórdia. Somos seres perdoados e por isso somos chamados a perdoar sem parar. Se esta é a nossa origem, o perdão não é mais uma realidade ocasional, da qual temos necessidade de vez em quando. Se a misericórdia existe desde o princípio, ela ainda agora é fonte de vida e da graça da qual temos necessidade continuamente e que constantemente está agindo em nós para nos reconciliar. O perdão é a expressão máxima do amor. Por isso, não existe perdão sem amor. O perdão é o critério para saber se temos ou não o amor no coração. Se não tem amor no coração, então somos ateus porque Deus é amor (1Jo 4,8.16). O amor é uma força poderosíssima, maior que pecado, não se rende diante do mal, porque é sempre capaz de descobrir o bem e de dar novamente a esperança ou de convidar ainda o outro a caminhar juntos. Para perdoar, basta ter um ato de amor. Mas se é sincero, é força que pode mudar a história.          

Perdoar significar encarar positivamente os nossos sentimentos negativos como: a raiva, a mágoa, a culpa, a vingança, o rancor e assim por diante. Os sentimentos estão em cada um de nós. Os sentimentos não podem ser controlados, mas sim podem ser controladas suas reações. Sentir-se ofendido ou ofender o outro é uma prova de que somos vulneráveis e humanos, e que nossa pobreza interior foi posta à vista. Posso ser ofendido por alguém e sentir raiva ou mágoa dele. Mas posso reagir a esse sentimento com o perdão, pois o perdão não é sentimento, mas é decisão. Quando a raiva e outros sentimentos negativos não se libertam, costumam manifestar-se em forma de medo, isolamento, autodepreciação, fúria, depressão, comportamentos agressivos, falta de concentração no trabalho e incapacidade para relações emocionais íntimas. Muita gente sofre demasiadamente porque vive em mágoa contínua. Mantém-se preso ao passado levando vida sofrida, estagnada como água parada que apodrece. A mágoa produz efeitos nocivos. O estresse causado pela mágoa, pela falta de perdão, ataca muitas vezes o sistema imunológico. Assim se pode explicar a origem de muitas doenças, tais como artrite, arteriosclerose, doenças cardiovasculares, diabetes etc. Entre as melhores estratégias contra os efeitos múltiplos do ressentimento é a prática habitual do perdão no dia-a-dia. Muitas vezes acontece que o que nos perturba não é o que acontece, mas o modo de ver o que acontece; não o fato em si, mas a interpretação que é dada a esse fato. A interpretação, muitas vezes, atinge mais a pessoa do que o próprio ato ou evento desagradável. O que perturba é o modo de olhá-lo ou de interpretá-lo. Algumas pessoas não se corrigem e não podem sofrer correção porque vivem negativamente e se ofendem por qualquer coisa.          

A recusa do perdão é a fonte de tristeza. O rancor (a mágoa do coração) é fruto do perdão recusado. A Bíblia mostra as conseqüências da amargura: o obscurecimento da inteligência, o desespero, o refúgio em Deus considerado um Deus vingativo (cf. Sl 12,2-5). O perdão recusado pode gerar a raiva e o desespero. Em troca, o perdão libera em nós a força de amar. A verdadeira liberdade é amar, pois o amor dilata o coração.                 

Perdoar não é uma atitude para gente fraca. A vingança é que o prazer do ofendido e o ódio rancoroso é o único refúgio do mais fraco. Quando se odeia alguém, o que se quer, no fundo, é que ele sofra e até se fica satisfeito com seus sofrimentos. A dificuldade de perdoar o outro nos revela a nós mesmos que existe em nós um instinto de perversidade e nos faz descobrir um eu hostil, atraído pelo mal. Isto quer dizer que existe violência em nosso coração e seria ingênuo e perigoso negá-lo. Perdoar, neste sentido, significa abandonar os desejos sutis de vingança, é renunciar a fazer justiça em causa própria. Quando você perdoa, você se livra do veneno que está dentro de você e sua saúde é recuperada. Quando você se nega a perdoar, você adoece e sofre pelo veneno da recusa do perdão.    

A palavra grega para “perdão” é aphesis, que significa liberar, libertar da escravidão, remissão da dívida, da culpa e do castigo. É usada quando a prisão é aberta e o prisioneiro pode sair livre. 

Todos nós somos chamados a ser livres, perdoando os outros e recebendo o pedido de perdão do outro. O não- perdão é um veneno que adoece a pessoa, que faz a pessoa infeliz, presa, triste, sem liberdade por causa dos sentimentos negativos cultivados em si. Todos nós que pensamos sobre a paz e queremos a paz, devemos considerar seriamente esse apelo para perdoar. É um apelo à mudança, a não mais sermos controlados por nossas mágoas e medos, nossos sentimentos de vingança e ressentimentos. “Quereis ser feliz por um instante? Vingai-vos! Quereis ser feliz para sempre? Perdoai !” (Henri Ladordaire). 

Deixemos hoje as seguintes interrogações que podem complementar a interrogação de Pedro: 

1). Eu em relação aos outros no perdão:

Quantas vezes eu tenho que perdoar os outros quando o outro me ofendeu? O que é que eu tenho que perdoar nos outros? Eu devo colocar o limite para o perdão que eu devo dar aos outros?

2). Os outros em relação a mim no perdão:

Quantas vezes os outros devem me perdoar quando eu os ofendeu? O que eles devem me perdoar? Os outros devem colocar o limite para o perdão que eles devem me dar?

3. Eu e a Oração do Pai-Nosso

No Pai-Nosso rezamos: “Perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. Isto quer dizer que o perdão dado é o perdão recebido. Dentro do conteúdo dessa oração, o que acontecerá comigo diante de Deus se eu não perdoar o irmão? “O homem não se movimenta pelos pés, mas pelos afetos. Até os próprios pés ele move por afetos” (Santo Agostinho: In ps. 9,15). O afeto nos move a perdoarmos o outro. Perdoar não muda o passado, mas engrandece o presente e o futuro.

P.Vitus Gustama, svd

Terça-feira Da XX Semana Comum, Ano Par, 18/08/2026

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