sexta-feira, 31 de maio de 2024

03/06/2024-Segundaf Da IX Semana Comum

EU PRECISO VIVER NO AMOR, POIS DEUS ME AMA ATÉ AS ÚLTIMAS CONSEQUÊNCIAS

Segunda-Feira da IX Semana Comum

Primeira Leitura: 2Pd 1,2-7

Caríssimos, 2 graça e paz vos sejam concedidas abundantemente, porque conheceis Deus e Jesus, nosso Senhor. 3 O seu divino poder nos deu tudo o que contribui para a vida e para a piedade, mediante o conhecimento daquele que, pela sua própria glória e virtude, nos chamou. 4 Por meio de tudo isso nos foram dadas as preciosas promessas, as maiores que há, a fim de que vos tornásseis participantes da natureza divina, depois de libertos da corrupção, da concupiscência no mundo. 5 Por isso mesmo, dedicai todo o esforço em juntar à vossa fé a virtude, à virtude o conhecimento, 6ª o conhecimento o autodomínio, ao autodomínio a perseverança, à perseverança a piedade, 7 à piedade o amor fraterno e ao amor fraterno, a caridade.

Evangelho: Mc 12,1-12

Naquele tempo, 1Jesus começou a falar aos sumos sacerdotes, mestres da Lei e anciãos, usando parábolas: “Um homem plantou uma vinha, cercou-a, fez um lagar e construiu uma torre de guarda. Depois arrendou a vinha a alguns agricultores, e viajou para longe. 2Na época da colheita, ele mandou um empregado aos agricultores para receber a sua parte dos frutos da vinha. 3Mas os agricultores pegaram o empregado, bateram nele, e o mandaram de volta sem nada. 4Então o dono mandou de novo mais um empregado. Os agricultores bateram na cabeça dele e o insultaram. 5Então o dono mandou ainda mais outro, e eles o mataram. Trataram da mesma maneira muitos outros, batendo em uns e matando outros.6Restava-lhe ainda alguém: seu filho querido. Por último, ele mandou o filho até os agricultores, pensando: ‘Eles respeitarão meu filho’. 7Mas aqueles agricultores disseram uns aos outros: ‘Esse é o herdeiro. Vamos matá-lo, e a herança será nossa’. 8Então agarraram o filho, o mataram, e o jogaram fora da vinha. 9Que fará o dono da vinha? Ele virá, destruirá os agricultores, e entregará a vinha a outros.10Por acaso, não lestes na Escritura: ‘A pedra que os construtores deixaram de lado tornou-se a pedra mais importante; 11isso foi feito pelo Senhor e é admirável aos nossos olhos’?” 12Então os chefes dos judeus procuraram prender Jesus, pois compreenderam que havia contado a parábola para eles. Porém, ficaram com medo da multidão e, por isso, deixaram Jesus e foram-se embora.

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Somos Chamados a Viver Na Graça e Na Paz de Deus

Voltamos a ler a Carta de são Pedro. Desta vez a Segunda Carta. Há uma unanimidade entre os estudiosos de que esta Segunda Carta não é atribuída a Pedro, Apóstolo. Há uma enorme diferença de estilo e de vocabulário com a Primeira Carta. Além disso, nesta Segunda Carta há o acentuado helenismo religioso e moral que a Carta respira. Por causa disso e de outros tantos argumentos conclui-se que o autor da carta devia ser um judeu-cristão com sólida formação helenística e bom conhecedor da vida e catequese de Pedro.

A Segunda Carta de são Pedro começa com a típica saudação de uma carta, que inclui remetente, destinatários e a fórmula de saudação: “Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo, aos que receberam, pela justiça de nosso Deus e Savador Jesus Cristo uma fé de valor igual à nossa, Graça e paz vos sejam concedidas abundantemente, porque conheceis Deus e Jesus, nosso Senhor”.

Uma das saudações no início da celebração eucarística é esta: “A graça e a paz de Deus, nosso Pai, e de Jesus Cristo, nosso Senhor, estejam convosco”. A cada participante da celebração são desejadas a graça e a paz.

Graça e paz resumem os bens da salvação que são dadas ao cristão e que são lembradas nas nossas celebrações. O termo “graça” significa benefício absolutamente gratuito, livre e sem motivo (cf. Ex 33,19; 34,6; 33,12). Para cada cristão é desejada a graça, isto é, a benevolência de Deus. Na graça se encontra nossa identidade mais profunda, pois somos salvos pela benevolência de Deus. São Paulo escreveu: “Pela graça de Deus, sou o que sou” (1Cor 15,10). E esta benevolência nos torna novamente agradáveis a Deus: “O seu divino poder nos deu tudo o que contribui para a vida e para a piedade, mediante o conhecimento daquele que, pela sua própria glória e virtude, nos chamou (2Pd 1,3).  O Deus da Bíblia não só nos concede graça, mas Deus é graça (cf. Ex 33,19; 3,14). Deus existe para si e também existe para nós. Deus é graça.

São Pedro também deseja a paz. A palavra “paz” é uma tradução da palavra “Shalom” que é uma harmonia total com Deus, com o próximo, consigo próprio e com a natureza. É tudo de bom de nossa vida. A paz, “Shalom” é concedida para nós por Cristo em nova glória. Esta paz cria a ordem para nossa interioridade e a comunhão entre os homens. Onde há paz, há ordem. A ordem existe quando cada elemento ocupa seu lugar e desempenha seu próprio papel em prol do funcionamento da totalidade. A paz é a restauração daquela ordem que o homem perdeu pelo pecado. Viver em pecado é viver sem paz.

Esses dons, graça e paz, devem ser aumentados pelo conhecimento e a experiência que fazemos com Jesus Cristo. O convívio permanente com Jesus Cristo no amor aumenta graça e paz na nossa vida: “Graça e paz vos sejam concedidas abundantemente (se multiplicam), porque conheceis Deus e Jesus, nosso Senhor”. Alcançamos graça e paz pelo conhecimento daquele que nos chamou: Jesus Cristo.

O convívio permanente com Jesus Cristo nos coloca longe da corrupção do mundo: “Por meio de tudo isso nos foram dadas as preciosas promessas, as maiores que há, a fim de que vos tornásseis participantes da natureza divina, depois de libertos da corrupção, da concupiscência no mundo” (2Pd 1,4). Participar da natureza divina é participar da própria vida de Deus. À participação da natureza divina se opõe a corrupção, como à vida eterna se opõe a morte eterna, isto é, exclusão da salvação. Cai na corrupção quem cede à concupiscência: “Quem pretende ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus” (Tg 4,4). Quem procurar seguir sempre seus desejos, quem desejar bastar-se a si mesmo e ser independente de Deus, cairá na perdição e fica distante de Deus.

São Pedro, na Primeira Leitura de hoje, pede a todos o empenho para poder permanecer na graça e na paz: “Dedicai todo o esforço em juntar à vossa fé a virtude, à virtude o conhecimento, o conhecimento o autodomínio, ao autodomínio a perseverança, à perseverança a piedade, à piedade o amor fraterno e ao amor fraterno, a caridade” (2Pd 1,6-7).

A fé plena é entrega de si mesmo à Palavra e à vontade de Deus. A fé é a raiz da vida cristã. Da fé brota a virtude. Virtude é uma disposição adquirida de fazer o bem. A virtude em si é o próprio bem. Virtude é o esforço para se portar bem. Tem virtude aquele que cumpre a vontade de Deus.

É preciso acrescentar o conhecimento à virtude. Conhecer não é apenas aprender intelectualmente, mas aprofundar-se no amor. O agir correto, o esforço de fazer o bem aumenta nosso conhecimento. Sob a luz divina enxergamos de modo diferente as coisas e os acontecimentos ao nosso redor e o seu sentido.

O conhecimento se alcança através da perseverança, isto é, a capacidade de resistir em função da meta a ser alcançada. Quem aprende a dominar-se, também tem capacidade de lutar até o fim. Os bens elevados somente podem ser alcançados pelo esforço e pela luta sustentados com ânimo forte.

Mas somente conseguirá honrar verdadeiramente Deus aquele que tem piedade, aquele que se mantém filho de Deus, aquele que se conserva firme no combate contra o prazer desordenado e contra as potências que se opõem a Deus.

Mas não basta ter piedade. É preciso acrescentar a caridade fraterna na piedade. A verdadeira caridade se comprova na caridade operosa, como o amor recíproco na comunidade, a solicitude para com os outros, na bondade silenciosa. Se amarmos os outros no espirito de Cristo, chegaremos à plenitude do amor semelhante ao amor que Deus possui. A caridade é o “vínculo da perfeição” (Cl 3,14), pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16).

Para ser recordado, isto é, para colocar outra vez no coração o conselho do autor da Segunda Carta de Pedro: “Dedicai todo o esforço em juntar à vossa fé a virtude, à virtude o conhecimento, o conhecimento o autodomínio, ao autodomínio a perseverança, à perseverança a piedade, à piedade o amor fraterno e ao amor fraterno, a caridade”. A fé é a raiz da vida cristã de onde brota a virtude. A fé é assentimento à verdade e a entrega a Deus que se revela. O que necessitamos estar consciente de que na fé a virtude, na virtude o conhecimento, no conhecimento a temperança, na temperança a paciência, na paciência a piedade, na piedade a fraternidade, na fraternidade a caridade.

Deus Nos Ama Incondicionalmente

O profeta Jeremias, Ezequiel, Isaias (especialmente Is 5,1-7) e os Salmos chamam Israel “a vinha do Senhor”. A parábola que Jesus conta é introduzida perfeitamente nessa linha profética e serve para contestar às duas perguntas que as autoridades judeus fizeram a Jesus: “Com que autoridade fazes tudo isso? Quem te deu essa autoridade?”. Jesus contesta relatando com imagens toda a história de Seu povo e oferece também aos seus discípulos e, portanto, para todos os cristãos, a possibilidade de saber quem somos nós para Ele. Através desta parábola Jesus respondeu à primeira pergunta: “Com a autoridade do Servo de Deus, com a autoridade do Filho de Deus”. E para a segunda pergunta, Jesus respondeu através desta parábola: “Quem deu essa autoridade é o Dono da vinha, o Deus de Israel, que é meu Pai”.

O texto do evangelho deste dia nos diz: “Agora restava ainda alguém: o filho amado. Por último, então, enviou o filho aos agricultores, pensando: ‘A meu filho respeitarão’. Mas aqueles agricultores disseram uns aos outros: ‘Este é o herdeiro. Vamos matá-lo, e a herança será nossa’. Agarraram o filho, mataram e o lançaram fora da vinha” (Mc 12,6-8). 

Restava ainda alguém: o filho amado”. É uma expressão que nos desconcerta toda vez que a lemos e sobre a qual refletimos e meditamos. Parece que Deus fica à margem da pobreza. Resta apenas o próprio Filho. Mais nada! Por causa dos homens e por causa do Seu amor sem limites pelos homens Deus usa todos os recursos e todas as possibilidades. Os recursos se esgotaram. Agora resta apenas seu Filho. Deus é verdadeiramente o pobre por excelência, porque nos deu tudo. Até seu próprio Filho, o ultimo que restou. Significa que Deus nos toma a sério e deixa o campo livre para que atuemos com plena responsabilidade. Mas Deus é impotente diante da liberdade do homem. O homem é responsável pela sua própria escolha. No momento em que o homem não respeitar as regras e as placas da vida que apontam para sua plena realização e para a eternidade, ele perderá sua liberdade e cairá em uma série de prisões e escravidões.

Não há pai que entregue seu filho amado para os criminosos a fim de resgatar algo ou alguém. Deus é diferente, o Diferente por excelência. Ele entrega seu Filho amado como resgate a fim de o homem ficar livre do cativeiro da perdição e da maldição (cf. Mt 20,28; Mc 10,45; Gl 3,13; 1Tm 2,6). É muito difícil entender e compreender a atuação de Deus. Até o salmista faz esta pergunta retórica: “Quando olho para o teu céu, obra de tuas mãos, vejo a lua e as estrelas que criaste: Quem é o homem, para dele te lembrares, quem é o ser humano, para o visitares? Ó SENHOR, Senhor nosso, como é glorioso o teu nome em toda a terra!” (Sl 8, 4-5.10). Somente quando calarmos nossa mente, o nosso coração vai começar a compreender tudo que Deus faz por nós e vai haver uma adequada correspondência de nossa parte.

Jesus é verdadeiramente o último, o “eskatos”, da perspectiva de Deus.  Não é o último em relação ao tempo, não o último de uma série de intentos. O último quer dizer o definitivo, tudo. Depois do qual não fica mais nada. Agora Deus é verdadeiramente o pobre por excelência. Pobre porque deu tudo. Em sua incurável paixão pelos homens não ficou com nada, nem com o seu próprio Filho.

A conduta dos lavradores se julga durante a ausência do patrão. O patrão confia tudo nos lavradores e por isso, não precisa estar presente. O Deus da confiança é também o Deus da ausência. Mas há que compreender exatamente esta ausência. Não se trata nem de abandono, nem de evasão nem de deserção. É um sinal de amor. É um Deus que pretende atuar exclusivamente através do amor, pois este caminho é que leva o homem à sua plenitude, à eternidade. Cristo morreu perdoando o homem.

“’ Este é o herdeiro. Vamos matá-lo, e a herança será nossa’. Agarraram o filho, mataram e o lançaram fora da vinha”. Deus não manda Seu Filho para a morte: Ele o ama incondicionalmente. Por outro lado, a morte é um mal e o Deus da vida não pode querê-la. Por isso, quem mata ou assassina comete pecado; vai contra a vontade de Deus. O castigo não cai sobre a vinha e sim sobre os guardiões. A vinha do Senhor seguirá, mas será um novo Israel, um novo Povo de Deus, o verdadeiro templo de Deus (cf. 1Cor 3,16-17) que tem como centro Jesus Cristo. Jesus morto e recusado pelos sumos sacerdotes, os escribas, e os anciãos, e ressuscitado pelo Pai, se converte em fundamento de um novo povo que é, ao mesmo tempo, continuação do antigo: a vinha passa a outros. Antigo e novo coexistem. As primeiras comunidades cristãs estavam compostas principalmente por judeus, isto é, pelo resto fiel de Israel que acolheu Jesus como Messias e Filho de Deus e por muitos que provinham do mundo pagãos e formavam com, como o resto de Israel, o novo e definitivo povo de Deus. O novo é realmente, com Jesus, a casa do Pai para todos os povos. É uma das mensagens do evangelho deste dia.

Em fim, a parábola é um resumo da história de Israel. Por meio desta parábola, Jesus quer nos revelar a origem da autoridade d´Ele: Deus. Segundo, através desta parábola, Jesus quer denunciar o abuso da autoridade dos vinhateiros, que neste contexto, são os sacerdotes e anciãos que não cuidam do povo de Deus. Com esta parábola, Jesus quer defender a autoridade dos profetas, enviados por Deus mas maltratados, até assassinados pelos sacerdotes e anciãos. Por fim, através desta parábola, Jesus quer desmascarar as autoridades que manipulam a religião e matam o Filho de Deus, porque não querem perder seus privilégios e a fonte de renda que conseguiram acumular.

Cada um precisa entrar no silêncio sagrado para meditar sobre o amor de Deus por cada um e a resposta de cada um diante desse amor. Será que sou ingrato diante do amor de Deus? Será que sou irresponsável na minha atuação como pessoa amada de Deus? Será que eu vivo de acordo com o amor com que Deus me ama? Será que sou capaz de dar tudo por amor?

P. Vitus Gustama,svd

IX Domingo Comum Ano "B", 02/06/2024

O SER HUMANO É SAGRADO, POR ISSO ESTÁ ACIMA DE QUALQUER LEI

IX DOMINGO DO TEMPO COMUM B

Primeira Leitura: Dt 5,12-15

Assim fala o Senhor: 12 “Guarda o dia de sábado, para o santificares, como o Senhor teu Deus te mandou. 13 Trabalharás seis dias e neles farás todas as tuas obras. 14 O sétimo dia é o do sábado, o dia do descanso dedicado ao Senhor teu Deus. Não farás trabalho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu escravo, nem tua escrava, nem teu boi, nem teu jumento, nem algum de teus animais, nem o estrangeiro que vive em tuas cidades, para que assim teu escravo e tua escrava repousem da mesma forma que tu. 15 Lembra-te de que foste escravo no Egito e que de lá o Senhor teu Deus te fez sair com mão forte e braço estendido. É por isso que o Senhor teu Deus te mandou guardar o sábado”.

Segunda Leitura: 2Cor 4,6-11

Irmãos: 6 Deus, que disse: “Do meio das trevas brilhe a luz”, é o mesmo que fez brilhar a sua luz em nossos corações, para tornar claro o conhecimento da sua glória na face de Cristo. 7 Ora, trazemos esse tesouro em vasos de barro, para que todos reconheçam que este poder extraordinário vem de Deus e não de nós. 8 Somos afligidos de todos os lados, mas não vencidos pela angústia; postos entre os maiores apuros, mas sem perder a esperança; 9 perseguidos, mas não desamparados; derrubados, mas não aniquilados; 10 por toda parte e sempre levamos em nós mesmos os sofrimentos mortais de Jesus, para que também a vida de Jesus seja manifestada em nossos corpos. 11 De fato, nós, os vivos, somos continuamente entregues à morte, por causa de Jesus, para que também a vida de Jesus seja manifestada em nossa natureza mortal.

Evangelho: Mc 2,23-3,6

23 Jesus estava passando por uns campos de trigo, em dia de sábado. Seus discípulos começaram a arrancar espigas, enquanto caminhavam. 24 Então os fariseus disseram a Jesus: “Olha! Por que eles fazem em dia de sábado o que não é permitido?” 25 Jesus lhes disse: “Por acaso, nunca lestes o que Davi e seus companheiros fizeram quando passaram necessidade e tiveram fome? 26 Como ele entrou na casa de Deus, no tempo em que Abiatar era sumo sacerdote, comeu os pães oferecidos a Deus, e os deu também aos seus companheiros? No entanto, só aos sacerdotes é permitido comer esses pães”. 27 E acrescentou: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado. 28 Portanto, o Filho do Homem é Senhor também do sábado”. 3,1 Jesus entrou de novo na sinagoga. Havia ali um homem com a mão seca. 2 Alguns o observavam para ver se haveria de curar em dia de sábado, para poderem acusá-lo. 3 Jesus disse ao homem da mão seca: “Levanta-te e fica aqui no meio!” 4 E perguntou-lhes: “É permitido no sábado fazer o bem ou fazer o mal? Salvar uma vida ou deixá-la morrer?” Mas eles nada disseram. 5 Jesus, então, olhou ao seu redor, cheio de ira e tristeza, porque eram duros de coração; e disse ao homem: “Estende a mão”. Ele a estendeu e a mão ficou curada. 6 Ao saírem, os fariseus, com os partidários de Herodes, imediatamente tramaram, contra Jesus, a maneira como haveriam de matá-lo.

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O texto do evangelho deste domingo faz parte das controvérsias de Jesus com os fariseus. Hoje a discussão está em torno do Sábado. Este tema já é antecipado na Primeira Leitura deste domingo (Dt 5,12-15).

Um Pequeno Comentário Sobre o Sábado (Shabat) Na Tradição Judaica

O nome Shabbat está ligado à raiz SHBT, que significa repousar ou cessar. O nome do Sábado (Shabbat) designa uma pralisação do trabalho feita com intenção religiosa. Sua prática apaece desde as camadas mais antigas da Lei (Ex 20,8; 23,12; 34,21). Na Bíblia ele é ligado ao ritmo sacro (sagrado) da semana, que ele encerra com um dia de repouso, de alegria, e de reunião cultual (Os 2,13; 2Rs 4,23; Is i,13).

O código da Aliança acentuava o lado humanitário desse repouso, que possibilitava aos escravos retomar alento (Ex 23,12). Era um dia de descanso para os israelitas, os seus animais e os seus escravos, porque os israelitas, eles mesmos uma vez escravos no Egito, deviam ter compaixão daqueles que eram forçados a trabalhar (Dt 5,12-15). É esse ainda o ponto de vista da tradição do Deuteronômio (Dt 5,12). Mas a tradição Sacerdotal dá ao Sábado (shabbat) um outro sentido: por seu trabalho, o homem imita a atividade do Deus-Criador. Pela parada do Sétimo Dia (Shabbat), ele imita o repouso sagrado de Deus (Ex 31,13... Gn 2,2-3). Deus assim deu a Israel o Sábado (Shabbat) como um sinal, a fim de que este saiba que Deus santifica seu povo (Ez 20,12). Na visão dos profetas, a observância do Shabbat condicionava a realização das promessas escatológicas (Jr 17,19-27; Is 58,13s).

O feriado semana de Shabbat, o feriado mais importante dos judeus, permite que as pessoas descansem das pressões da semana de trabalho. O antigo feriado de Shabat é o dia a cada semana no qual os judeus observantes param de trabalhar, viajar, construir e de se preocupar, e assim por diante, e em vez disso, se perguntam : “Sou um fazer humano ou um ser humano? O repouso do Shabbat era concebido de modo muito estreito pela Lei: proibição de acender fogo (Ex 35,3), de recolher lenha (Nm 15,32), de preparar alimento (Ex 16,23). O sábado (Shabbat) era um dos preceitos divinos mais claros, mais indiscutível; como uma espécie de documento de identidade dos judeus observantes. Sua observância estava ridigamente regulada. Por suposto, admitiam-se exceções por motivos de particular gravidade, e sobre estas exceções disputam as diversas escolas teológicas. Assim, em dia de sábado se permitia, por exemplo, salvar a vida com a fuga, ajudar um homem em perigo ou uma mulher com dores de parto, ou em caso de incêndio e assim por diante. Mas trata-se sempre de exceções a uma regra.

Sábado e Tirar Espigas

E tirar espigas era uma das trinta e nove formas de violar o sábado, segundo as interpretações exageradas que algumas escolas dos fariseus faziam da lei na época. Por isso, se escandalizam quando percebem que os discípulos de Jesus arrancam as espigas para matar a fome no dia de sábado. “Quem não sabe julgar o que merece crédito e o que merece ser esquecido presta atenção ao que não tem importância e se esquece do essencial” (Buda).

Diante dessa crítica Jesus aplica um princípio fundamental para todas as leis: “O Sábado foi feito para o homem e não o homem para o Sábado”. O homem está sempre no centro da doutrina de Jesus. Jesus olha para a necessidade real do homem e Ele mesmo se oferece como solução. Em nome do ser humano nas suas necessidades básicas, principalmente quando se trata de salvar ou proteger a vida, Jesus é capaz de “transgredir” a Lei por sagrada que ela pareça ser. Por causa de mim, ser humano, Deus aceitou se encarnar em Jesus para me dizer que não estou sozinho na minha luta pela vida digna. Deus quer vida em abundância para todos (Jo 10,10). Para Jesus, o ser humano é mais sagrado do que qualquer lei. Sua preocupação é fazer o bem para o homem, mesmo no dia de Sábado. A lei do Sábado foi dada precisamente a favor da liberdade, do bem e da alegria do homem (Dt 5,12-15).

Por isso, o espírito da lei deve estar sempre ao serviço de Deus para glorificá-Lo, e ao serviço do ser humano para dignificá-lo. A glória de Deus é a vida e a felicidade de seus filhos, os seres humanos. Para Jesus, as leis ainda que sejam sagradas, não podem estar por cima da vida, das necessidades vitais, da felicidade, da plena realização dos seres humanos. Por isso Jesus tem coragem de afirmar: “O Sábado foi feito para o homem e não o homem para o Sábado”.

Nós que cremos em Cristo devemos saber dar culto a Deus manifestando-Lhe, assim, nosso amor, mas não podemos deixar de amar nosso próximo ajudando-lhe a remediar suas necessidades. Se não, o nosso culto e nosso amor a Deus seriam inúteis e hipócritas.

A fidelidade às tradições religiosas deve favorecer ao direito à vida. As tradições religiosas, que não apóiam o direito à vida, perdem sua razão de existir. Para Jesus a finalidade de qualquer lei religiosa deve ajudar o ser humano a ter uma verdadeira experiência de encontro com a vontade de Deus resumida no mandamento do amor fraterno. Praticar as leis religiosas sem levar em conta o respeito pela vida seria inútil. Jesus é o Senhor do Sábado. Se o Sábado devia significar “libertação”, Jesus é o Senhor da libertação. Se o Sábado devia significar “santificação”, Jesus é o Senhor da santidade e da santificação. Uma libertação sem Jesus será opressão reeditada de outro modo. Uma santificação sem Jesus será egoísmo, orgulho ou vaidade, editados de outros modos.

Não podemos viver sem leis, normas ou regras que nos ajudem a dirigir ou governar nossa vida. A liberdade sempre supõe a existência de regras, normal, leis. Da nossa própria casa (família) até as ultimas instituições necessitam de leis, normas ou regras. Mas aqueles que são encarregados da aplicação dessas devem ter sempre em conta o “espírito” que as inspirou e que em última instância é o bem dos indivíduos e da comunidade.

A lei é boa e necessária. A lei é, na verdade, o caminho para levar à prática do mandamento do amor. Somente a lei do amor rompe fronteiras, divisões, prejuízos e escravidões. Por isso mesmo, a lei não pode ser absolutizada. O Sábado, para nós o domingo, está pensado para o bem do homem. É um dia em que nos encontramos com Deus, com a comunidade, com a natureza e com nós mesmos. O descanso é um gesto profético que nos faz bem a todos para fugir ou escapar da escravidão do trabalho ou da carreira consumista. O dia do Senhor é também dia do homem, com a Eucaristia como momento privilegiado. Cristo é o Senhor do sábado, como também é nosso Senhor. Nós somos seus servos. Mas é uma escravidão que nos enobrece. Ser servo do Senhor é ser salvo.

Sábado e a Cura Do Homem De Mão Seca

Outra controvérsia apresentada no evangelho de hoje é a cura de um homem no sábado. Portanto, o tema da controvérsia ainda está em torno da observância do preceito de Sábado.

É permitido no sábado fazer o bem ou fazer o mal? Salvar uma vida ou deixá-la morrer?”. É a pergunta de Jesus para as autoridades religiosas.

Para Jesus, a lei, sim, mas o legalismo, não. A lei é uma necessidade. Porém, atrás de cada lei deve respirar amor e respeito ao homem concreto. Atrás da letra está o espírito e o espírito deve prevalecer sobre a letra. Para Jesus o bem do homem está acima da observância do Sábado, e isso, não somente em caso de perigo de morte, mas em qualquer situação. “Portanto, é licito fazer o bem também no Sábado” (Mt 12,12b). Jesus proclama, assim, o valor absoluto do amor. Jesus recorda a todos que para Deus o mais importante é o homem, o bem do homem e não a regra por regra ou lei por lei. Não somente salvar a vida do homem e sim simplesmente fazer o bem a ele. A lei suprema da Igreja de Cristo são as pessoas, a salvação das pessoas. Se não a Igreja perderia sua razão de existir. A glória de Deus está sempre e unicamente no bem do homem. Não se trata de exaltar o homem constituindo-lhe centro das coisas. Mas trata-se de conhecer mais fundo o coração de Deus que ama o homem a ponto de enviar-lhe seu Filho unigênito a fim de que o homem seja salvo (Jo 3,16). O poder de Deus se manifesta no amor e nisto está sua honra. Para Jesus a observância do Sábado deve celebrar esse amor fraterno e não desmenti-lo nem negá-lo. Assim, mais uma vez, Jesus quer manifestar sua maneira de viver de que a lei do sábado está a serviço do homem e não o contrário.

Em sua luta contra a mentalidade legalista dos fariseus, ontem Jesus nos dizia que “o Sábado foi feito para o homem e não o homem para o Sábado”. Hoje ele aplica o principio para um caso concreto: sobre o homem com mão seca que se encontra no Templo.

Na antropologia bíblica, a mão está carregada de simbolismo. A mão está ligada à idéia de força e de poder. Estar na mão do outro significa estar sob o seu poder. A mão direita era sinal de força, de sabedoria e de fidelidade. Como rezamos no Credo: Jesus “ressuscitou ao terceiro dia, subiu aos céus; está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso...”. Isto quer dizer que Jesus mostrou sua fidelidade à vontade de Deus Pai, praticando o bem até o fim. Já a mão esquerda era sinal de fraqueza, de ignorância e de desgraça.

O homem do texto do evangelho de hoje está com a mão seca. É um homem sem iniciativa e incapaz de lutar por seus direitos, e por isso, é uma vitima de desumanização. Jesus é Deus que salva. Por isso, ele toma iniciativa para curar o homem a fim de humanizá-lo novamente. Com a mão curada, o homem volta a ter aptidão para fazer o bem. Ao colocar o homem no meio das pessoas, Jesus quer recordar a todos que qualquer pessoa deve ser respeitada, protegida, defendida, levada em consideração acima de qualquer lei por sagrada que ela pareça ser.

Jesus quer nos relembrar que nenhuma religião ou nenhuma prática religiosa pode impedir o encontro fraterno e a vivência do amor e do respeito mútuos nem pode impedir serviço solidário. Ao contrário, os que praticam religião devem ter cada vez a sensibilidade humana, devem ser mais humanos e irmãos para com os demais. A passagem para chegar ate Deus passa necessariamente pelo irmão. O próximo é a passagem obrigatória para chegar ao céu. Qualquer um pode não encontrar Deus, mas não tem como não se cruzar com o próximo. O próximo é ocasião de salvação para mim como também sou ocasião de salvação para o outro.

A partir do ensinamento de Jesus no evangelho deste dia precisamos nos perguntar: “Não somos, às vezes, demasiados legalistas? Não julgamos nossos irmãos quando cremos que não cumprem as leis ou as regras, sejam as leis humanas, as leis da Igreja ou as leis consideradas como divinas? Se para Jesus o homem está sempre no centro de seu ensinamento, será que colocamos o ser humano como centro de nossas atividades diárias e pastorais?”. A denúncia da escravidão ao sábado nos convida a nos libertarmos da religião da observância formal e segui-la pelos caminhos do amor libertador. Quando as coisas materiais ou rituais mandam, e não a lei do amor, o homem se faz escravo.

"Deus, Senhor nosso, quando vejo o céu, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que fixaste, que é o homem, para dele Te lembrares, e um filho de Adão, para vires visitá-la?" (Sl 8,4-5).

Resumindo....

A postura de Jesus diante do descanso do sábado é uma questão de liberdade diante do legalismo judaico. Mas é muito mais do que isso! A postura de Jesus traça o que significa honrar ao Senhor e dedicar-se a Ele. Porque, na realidade, não era questão de vida ou de morte, curar o homem daquela paralisia, pois podia esperar perfeitamente o dia seguinte para curar aquele homem. Mas o Senhor cura o homem e assim mostra que dedicar o Sábado a Deus não somente a privação de atividades para mostrar submetimento e sim que é fazer o que agrada a Deus. Os que sofrem e deixam de sofrer porque seus irmãos os ajudam, mesmo no dia de preceito (Sábado), muito agradam a Deus.

Segundo Jesus, servir a Deus (tanto no Sábado como em toda a vida) é dedicar tempo a Ele, criando felicidade humana, tanto para os demais como para si próprio. A salvação do homem é a glória de Deus, pois Deus não quer nenhum ser humano perca ou se perca.

Além disso, são Paulo nos relembra na Segunda Leitura que somos de barro. Nossa força não é nossa; é de Deus. Levamos um tesouro dentro de nós que somos fracos, de barro. É mister cuidá-lo com carinho cuidadoso. Alegremos-nos da força manifestada de Cristo em nós para o bem dos demais. Quando conseguimos fazer algo importante para o bem de nosso próximo, devemos agradecer a Deus por esta oportunidade. Tudo de bom devemos atribuir ao Senhor. Tudo de mau devemos atribuir a nós mesmos como barros. A glória de Deus está sempre e unicamente no bem do homem e no bem que praticamos pelo bem do homem. Somos de barro, mas a Eucaristia nos dá uma grande assistência.

Por fim, de sete dias que se compõem o ciclo que regula a vida humana semanalmente, o homem dedica seis deles ao trabalho para sua subsistência.  Um dos sete dias, o último o home há que dedica-lo a Deus, Senhor de tudo que o homem possui (menos o pecado). Tudo que somos e temos é de Deus. Jamais podemos colocar o ouro e a prata acima de Quem os criou que é Deus. O Domingo é o dia para agradecer a Deus por tudo que somos e temos.

Sobre a importância do Domingo, o Papa João Paulo II escreveu: “O dia do Senhor— como foi definido o domingo, desde os tempos apostólicos—, mereceu sempre, na história da Igreja, uma consideração privilegiada devido à sua estreita conexão com o próprio núcleo do mistério cristão. O domingo, de fato, recorda, no ritmo semanal do tempo, o dia da ressurreição de Cristo. É a Páscoa da semana, na qual se celebra a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte, o cumprimento n'Ele da primeira criação e o início da «nova criação» (cf. 2 Cor 5,17). É o dia da evocação adorante e grata do primeiro dia do mundo e, ao mesmo tempo, da prefiguração, vivida na esperança, do « último dia », quando Cristo vier na glória (cf. Act 1,11; 1 Tes 4,13-17) e renovar todas as coisas (cf. Ap 21,5)” (Carta Apostolica Dies Domini n.1).

O mesmo Papa acrescentou: “Não tenhais medo de dar o vosso tempo a Cristo! Sim, abramos o nosso tempo a Cristo, para que Ele possa iluminá-lo e dirigi-lo. É Ele quem conhece o segredo do tempo e o segredo da eternidade, e nos entrega o « seu dia », como um dom sempre novo do seu amor. Há-de-se implorar a graça da descoberta sempre mais profunda deste dia, não só para viver em plenitude as exigências próprias da fé, mas também para dar resposta concreta aos anseios íntimos e verdadeiros existentes em todo ser humano. O tempo dado a Cristo, nunca é tempo perdido, mas tempo conquistado para a profunda humanização das nossas relações e da nossa vida” (Dies Domini n.7). Que assim seja!

P. Vitus Gustama,SVD

terça-feira, 28 de maio de 2024

01/06/2024-Sábado Da VIII Semana Comum

A AUTORIDADE DE JESUS DIANTE DOS ADVERSÁRIOS

Sábado Da VIII Semana Comum

Primeira Leitura: Judas 17.20b-25

17 Vós, porém, amados, lembrai-vos das palavras preditas pelos apóstolos de nosso Senhor Jesus Cristo. 20b Edificai-vos sobre o fundamento da vossa santíssima fé e rezai, no Santo Espírito, 21 de modo que vos mantenhais no amor de Deus, esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, para a vida eterna. 22 E a uns, que estão com dúvidas, deveis tratar com piedade. 23 A outros, deveis salvá-los arrancando-os do fogo. De outros ainda deveis ter piedade, mas com temor, aborrecendo a própria veste manchada pela carne... 24 Àquele que é capaz de guardar-vos da queda e de apresentar-vos perante a sua glória irrepreensíveis e jubilosos, 25 ao único Deus, nosso Salvador, por Jesus Cristo, nosso Senhor: glória, majestade, poder e domínio, desde antes de todos os séculos, e agora, e por todos os séculos. Amém.

Evangelho: Mc 11,27-33

Naquele tempo, 27 Jesus e os discípulos foram de novo a Jerusalém. Enquanto Jesus estava andando no Templo, os sumos sacerdotes, os mestres da Lei e os anciãos aproximaram-se dele e perguntaram: 28 "Com que autoridade fazes essas coisas? Quem te deu autoridade para fazer isso?" 29 Jesus respondeu: "Vou fazer-vos uma só pergunta. Se me responderdes, eu vos direi com que autoridade faço isso. 30 O batismo de João vinha do céu ou dos homens? Respondei-me". 31 Eles discutiam entre si: "Se respondermos que vinha do céu, ele vai dizer: 'Por que não acreditastes em João?' 32 Devemos então dizer que vinha dos homens?" Mas eles tinham medo da multidão, porque todos, de fato, tinham João na qualidade de profeta. 33 Então eles responderam a Jesus: "Não sabemos". E Jesus disse: "Pois eu também não vos digo com que autoridade faço essas coisas".

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Somos Chamados a Estar Vigilantes Diante Dos Falsos Doutrinas

Hoje lemos na Primeira Leitura um dos escritos mais breves do Novo Testamento: a Carta de São Judas. Carta de São Judas tem apenas 25 versículos. Não sabemos com segurança quem é seu autor. Não parece ser o apóstolo são Judas. Talvez seja Judas, o irmão de são Tiago e portanto, primo de Jesus, que sucedeu são Tiago como responsável da comunidade de Jerusalém. Seguramente pertence ao tempo imediatamente depois dos apóstolos.

Nesta pequena Carta são Judas adverte a todos para não seguirem ensinamentos falsos e inaceitáveis, pois capazes de criar divisão dentro da própria comunidade. Segundo o autor dessa Carta, aqueles que seguem as doutrinas falsas e inaceitáveis são comparados com “os anjos caídos”, “nuvens sem água que os ventos levam”, “arvores sem frutos” (cf. vv. 11-13). Alem disso, nessa Carta, o autor encoraja os leitores para não terem medo diante das dificuldades e desafios, pois Deus vai guardar Seus fieis (v. 24). É preciso ter fé em Deus (v.20). Mas, ao mesmo tempo, o autor pede que andemos pelo caminho de indulgência: “Vocês, porém, amados, construam sobre o alicerce da santíssima fé que vocês têm; rezem movidos pelo Espírito Santo; mantenham-se no amor de Deus, esperando que a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo lhes dê a vida eterna. Procurem convencer os vacilantes: salvem a uns, arrancando-os do fogo; tenham compaixão de outros, mas com temor. Detestem até a roupa contaminada pelos instintos egoístas dos ímpios..." (vv. 20-23).

Lemos os versículos finais, em que o autor anima os cristaos a manter-se fieis em sua fé, sem fazer caso dos desvios. Por uma parte, vê-se claramente que fala das três pessoas da Trindade: “Movidos pelo Espírito Santo; mantenham-se no amor de Deus, esperando que a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo lhes dê a vida eterna”. Também parece como se quisesse reunir num mesmo programa de vida as três virtudes teologais: “Construam sobre o alicerce da santíssima que vocês têm. ... mantenham-se no amor de Deus, esperando que a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo lhes dê a vida eterna”.

Cada geração cristã necessita permanecer alerta diante dos falsos mestres e dos movimentos que não vem do Espirito de Deus. Por isso, é preciso manter-se vigilante e exercer com sabedoria o oportuno discernimento, guiado pelo magistério dos que Cristo pus como pastores e responsáveis na comunidade. O próprio Jesus nos alerta na conclusão do Sermão da Montanha com as seguintes palavras: “Guardai-vos dos falsos profetas. Eles vêm a vós disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos arrebatadores. Pelos seus frutos os conhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos espinhos e figos dos abrolhos? Toda árvore boa dá bons frutos; toda árvore má dá maus frutos. Uma árvore boa não pode dar maus frutos; nem uma árvore má, bons frutos. Toda árvore que não der bons frutos será cortada e lançada ao fogo. Pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7, 15-20).

Faremos bem em escutar são Judas em seu dinâmico programa: continuar edificando solidamente a fé, manter o amor, deixar-nos ganhar pela esperança, apioar-nos em Deus que é “Aquele que é capaz de guardar-vos da queda e de apresentar-vos perante a sua glória irrepreensíveis e jubilosos”. E em tempos que corremos, tão difíceis como os primeiros, temos que nos ajudar mutuamente, apoiando-nos diante das dificuldades por amor.

Jesus Vive e Fala Com Autoridade

A cena do evangelho de hoje é continuação da do texto anterior em que Jesus fez um gesto profético ao expulsar os mercadores e cambistas do Templo. Diante desse gesto profético os três poderes: o poder religioso (Sumos sacerdotes), o poder ideológico (mestres da Lei) e o poder econômico (os anciãos) lançam a seguinte pergunta: “Com que autoridade fazes essas coisas? Quem te deu autoridade para fazer isso?".

Jesus, com suas obras e com sua palavra, já havia respondido a esta pergunta. Ele já havia demonstrado ter uma autoridade superior à dos mestres habituais (Mc 1,21-28) e uma autoridade de origem divina, como corresponde ao Filho do Homem (Mc 2,1-12.27).

As autoridades pedem conta a Jesus de sua autoridade (exousía): “Com que autoridade fazes essas coisas? Quem te deu autoridade para fazer isso?". Ou seja, “Quem te deu autoridade para fazer tais coisas?”. A pergunta das autoridades nos leva ao ínício do Evangelho de Marcos, quando aqueles que encontravam com Jesus, Lhe viam e escutavam: “Estavam espantados com o seu ensinamento, pois Ele os ensinava como quem tem autoridade (exousía) e não como os escribas” (Mc 1,22). Por isso, perguntavam-se espontaneamente: “Que é isto? Um novo ensinamento com autoridade!” (Mc 1,27). Os chefes religiosos não suportam que um simples rabino (Jesus), não formado nas escolas tradicionais, que procede, além disso, da escura Galileia (Mt 4,16), seja admirado e amado pelo povo. Por isso, acusam Jesus de receber seu poder de Satanás (Mc 3,22); depois pretendem que lhes dê um sinal do céu (Mc 8,11); por último, aqui, interrogam-Lhe diretamente, pedindo-Lhe que apresente seus credenciais. É uma ironia, pois umas autoridades que carecem de autoridade pedem a Jesus contas da autoridade que eles não a têm.

A cena do evangelho de hoje é singular, pois Jesus Cristo responde a uma pergunta com outra pergunta. "Com que autoridade fazes essas coisas? Quem te deu autoridade para fazer isso?", perguntam os adversários de Jesus. Ao que Jesus responde com outra pergunta: “O batismo de João vinha do céu ou dos homens? Respondei-me". Jesus não lhes pergunta qualquer coisa; Ele lhes pergunta por João Batista.

O caso-João é fundamental. Com efeito, Jesus se sente na linha com a missão de seu Precursor (João Batista). Porém, para afrontar bem a questão, é necessário fazer uma distinção sobre o conceito de “autoridade”. Trtata-se de “autoridade humana” ou de “autoridade divina”? É João um verdadeiro enviado de Deus ou atuou por iniciativa própria? Esta é a questão e Jesus lhes diz que qem é João Batista para eles?

Os adversários de Jesus estão ali não para buscar a verdade sobre Jesus e sim para procurar alguma armadilha a fim de eliminá-Lo. Portanto, a atuação dos adversários de Jesus está na linha da falsidade. Mc quer mostrar aqui para os leitores a cegueira espiritual dos sacerdotes e escribas e a desonestidade dos incrédulos.  Quanta cegueira spiritual pode ter nos corações daqueles que ocupam elevados cargos eclesiásticos! O leitor já percebe, por antecipação, a razão da futura morte de Jesus na Cruz.

Quando um profeta nos desafia numa direção que abala os nossos hábitos mentais ou o nosso conforto ou os nossos interesses, em vez de nos perguntarmos se isso vem de Deus, rapidamente começamos a desacreditar o profeta, para não ter que ouvi-lo a exemplo dos adversários de Jesus. Acontece-nos sempre que no nosso caminho vemos ou ouvimos vozes proféticas que revelam a nossa preguiça e os nossos fracassos, ou nos encorajam para caminhos mais exigentes. Ignoramos o profeta, muitas vezes. Não percebemos o que Deus estava tentando nos dizer.

Há perguntas feitas em busca de respostas. Há perguntas feitas também para derrubar o outro. Mas há perguntas para nos questionar em que há verdade e por isso, não somos capazes de responder no momento a exemplo dos adversários de Jesus: “O batismo de João vinha do céu ou dos homens? Respondei-me". Mas a principal pergunta que Mc faz implicitamente para o leitor, todos nós é a seguinte: “Quem é Jesus? Quem é Jesus para mim? Queremos verdadeiramente conhecer o Senhor? Qual é o motivo principal de acreditarmos em Jesus? Quais são as consequências da fé em Jesus Cristo? Devemos nos examinar sobre a verdade de nosso seguimente, pois muitos querem ser cristãos, mas não querem seguir a Jesus.

No caminho do seguimento de Jesus são necessárias verdadeiras perguntas e respostas sinceras. Para Marcos, Jesus é o ungido de Deus e por isso, suas palavras, atos e obras estão cheios da força do Espírito de Deus. Além disso, Jesus é o Deus que salva, o Filho de Deus. E por isso, Jesus é livre de si mesmo, do egoismo e da procura do poder e do sucesso. Ele simplesmente quer nos salvar.

P. Vitus Gustama,svd

Visitação De Nossa Senhora a Isabel-Festa, 31/05/2024

VISITAÇÃO DE MARIA, NOSSA SENHORA A ISABEL

31 de Maio

Primeira Leitura: Sofonias 3,14-18

14 Canta de alegria, cidade de Sião; rejubila, povo de Israel! Alegra-te e exulta de todo o coração, cidade de Jerusalém! 15 O Senhor revogou a sentença contra ti, afastou teus inimigos; o rei de Israel é o Senhor, ele está no meio de ti, nunca mais temerás o mal. 16 Naquele dia, se dirá a Jerusalém: “Não temas, Sião, não te deixes levar pelo desânimo! 17 O Senhor, teu Deus, está no meio de ti, o valente guerreiro que te salva; ele exultará de alegria por ti, movido pelo amor; exultará por ti, entre louvores, 18 como nos dias de festa. Afastarei de ti a desgraça, para que nunca mais te cause humilhação”.

Evangelho: Lc 1, 39-56

39Naqueles dias, Maria partiu para a região montanhosa, dirigindo-se, apressadamente, a uma cidade da Judeia. 40Entrou na casa de Zacarias e cumprimentou Isabel. 41Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou no seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. 42Com um grande grito exclamou: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto de teu ventre!” 43Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar? 44Logo que a tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança pulou de alegria no meu ventre. 45Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu”.46Maria disse: “A minha alma engrandece o Senhor, 47e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, 48porque olhou para a humildade de sua serva. Doravante todas as gerações me chamarão bem-aventurada, 49porque o Todo-poderoso fez grandes coisas em meu favor. O seu nome é santo, 50e sua misericórdia se estende, de geração em geração, a todos os que o temem. 51Ele mostrou a força de seu braço: dispersou os soberbos de coração. 52Derrubou do trono os poderosos e elevou os humildes. 53Encheu de bens os famintos, e despediu os ricos de mãos vazias. 54Socorreu Israel, seu servo, lembrando-se de sua misericórdia, 55conforme prometera aos nossos pais, em favor de Abraão e de sua descendência, para sempre”. 56Maria ficou três meses com Isabel; depois voltou para casa.

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Celebramos no dia 31 de Maio a festa da Visitação de Nossa Senhora. Através de Maria, Mãe do Senhor, que com sua Fiat obedece à Palavra de Deus, Deus visita o seu povo e o seu povo O reconhece. Esse reconhecimento é a finalidade de seu plano, de seu esforço (Lc 19,44; 13,34), cumprimento da salvação (Rm 11,25-36): o encontro entre Israel e Igreja, entre o povo de Deus e o seu Messias.

Este mistério da visita é, na verdade, uma antecipação do acontecimento escatológico, no qual será usado a misericórdia para todos aqueles que estavam incluidos na desobediência (Rm 11,32). Na visita do Senhor para dar a alegria e a salvação  aos homens consiste o sentido da história pessoal e universal. 

As duas mulheres benditas (Isabel e Maria) estão grávidas do dom de Deus na sua velhice e esterilidade (Isabel) e do Salvador (Maria) na sua virigindade (sem mácula). Isabel está grávida de dois milênios de espera. Maria está grávida do Eterno esperado. O encontro das duas benditas é o abraço entre o Antigo Testamento e o Novo Testamento. Um, profecia (AT); outro, cumprimento (NT). Em sua recíproca acolhida é reconhecido Aquele que é a Acolhida. Maria, visitando Isabel, reconhece a verdade daquilo que acontece nela; a Igreja, recorrendo ao AT, compreende Aquilo que concebeu. 

 

Maria, Filha de Sião

Não temas, Sião, não te deixes levar pelo desânimo! O Senhor, teu Deus, está no meio de ti, o valente guerreiro que te salva; ele exultará de alegria por ti, movido pelo amor; exultará por ti, entre louvores, como nos dias de festa. Afastarei de ti a desgraça, para que nunca mais te cause humilhação” (Sofonias 3,17-18).

Com o profeta Sofonias, cujo texto da Primeira Leitura tiramos do seu livro, nos encontramos no século VI a.C, nos tempos do Rei Josias. É um período marcado pelas contínuas infidelidades a Deus por parte de Israel, pois esta faz alianças com o poder estrangeiro com seus cultos pagãos (idolatria). O profeta Sofonias tem diante de seus olhos esta situação amarga. Consequentemente, o profeta proclama “O Dia terrível de Javé” sobre todas as nações, inclusive Judá. Porém, atrás desta proclamação está o convite à conversão para que “O Dia terrível de Javé” se transforme em “O Dia messiânico”. Com a conversão do povo, já não terá mais o dia de ira do Senhor e sim será o Dia da misericórdia, o Dia do novo amor entre Deus e seu povo. Não existirá mais medo. Tudo motivo de alegria: serão vencidos os inimigos, Deus voltará a ser o único rei de Israel que é o Deus salvador.

A Filha de Sião da qual fala o profeta Sofonias é figura de Maria, pois através de seu sim incondicional nasceu para a humanidade o Salvador, Jesus Cristo. Ele é a encarnação do amor misericordioso do Pai do céu. Por isso, ele pede para que todos sejam misericordiosos como o Pai é misericordioso (cf. Lc 6,36).

Aprendemos que toda conversão sempre resulta na alegria e na salvação. Não há a verdadeira conversão que não traga a alegria a quem é beneficiada. Sejamos facilitadores da concretização da misericórdia divina a exemplo de Maria, Mãe do Senhor, para que a alegria volte a reinar no meio de nós.

Maria Serve Com Dignidade Como Uma Irmã                      

Terminamos o mês de maio com a festa da Visitação da Virgem a Isabel. Sobre este episódio, narrado sobriamente no Evangelho de Lucas, foram feitas todas as espécies de considerações. As Bíblias costumam traduzir  a expressão grega "metà spoudés" por "à pressa", "prontamente". A palavra grega "spoudé" tem muitos outros significados: zelo, diligência, compromisso, cuidado, seriedade, dignidade. Ela não faz isso para satisfazer uma necessidade pessoal (sentir-se útil, parecer bem, ser elogiada), mas para responder a uma necessidade que, de certa forma, quebra seus planos. E ela o faz com dignidade (não como escrava, mas como irmã), com cuidado (não de forma alguma, mas com atenção aos detalhes), prontamente (não com relutância, mas com um espírito feliz e bem disposto). 

Maria tinha motivos poderosos para cuidar de si mesma, para manter a calma em Nazaré. Ela precisava de tempo para assimilar sua inesperada maternidade. Ninguém poderia exigir que, depois do susto, ela não pensasse em si mesma por um tempo. 

Ela, no entanto, deixou a aldeia de Nazaré e, sem pensar duas vezes (“prontamente”, diz Lucas), partiu para Ain Karim, a cidade de sua parente Isabel. Não havia se recuperado do espanto produzido pelo anúncio do anjo e já pensava na maneira concreta de ajudar. Os 160 quilómetros que separam Nazaré de Ain Karim testemunharam o passo decisivo de uma menina solidária.

Não entrou na casa de Isabel fingindo ser importante, reclamando da quantidade de coisas que teve que deixar em Nazaré para vir servi-la, fazendo cara de sofrimento, exigindo sutilmente reconhecimento. Ela entrou saudando; isto é, presenteando de mãos cheias graça e paz. Tanta alegria transbordou que até o pequeno João foi afetado por aquelas misteriosas ondas de entusiasmo. 

A festa da Visitação está cheia de encantos e de uma ternura inigualável. Duas mulheres, que se encontram, que se saúdam, estão cheias de Deus e por isso, cheias de alegria para fazer o ambiente mais humano, mais leve e mais fraterno e por isso, mais divino. 

Santo Ambrósio comentou a expressão “dirigindo-se apressadamente” com as seguintes palavras: “A graça do Espírito Santo não admite demora” (“Nescit tarda molimina Spiritus Sancti gratia”). É preciso fazer ou cumprir aquilo que é importante e essencial, pois, caso contrário, acaba morrendo tudo. Jamais podemos adiar o que é essencial para não nos lamentar mais tarde: uma visita para um doente ou um idoso, um perdão que precisa ser dado ou recebido, uma ajuda oferecida sem muita discusão, um trabalho importante que decidimos fazer, e assim por diante. Os adiantamentos, os atrasos podem nos desgastar e nos consomem interiormente. Precisamos trabalhar permanentemente sobre nossa capacidade de intuir o que deve ser feito agora e aqui na graça de Deus. 

Maria é uma mulher que se põe em caminho com dignidade, com cuidado, com prontidão. Não o faz para satisfazer uma necessidade pessoal: ela faz para servir sua parenta, Isabel, que está grávida e que necessita de uma ajuda. Ela faz tudo com dignidade como uma irmã. Maria é de Deus e por isso, ela é do povo e para o povo. Maria é mulher de nossa história, aberta a Deus e aos seres humanos. Viveu sempre em atitude de gratuidade e de doação. Será que fazemos tudo, a exemplo de Maria, com dignidade, com cuidado e com prontidão?

Contemplando Maria dessa maneira, compreendemos até que ponto a graça de Deus pode florescer nos seres humanos, que tipo de humanidade surge quando Deus "agrada" uma pessoa disposta a aceitar seu dom?

Encontro De Duas Pessoas Benditas

Na Anunciação o Anjo do Senhor “entrou” na casa de Maria e a “saudou”. Nessa visita Maria fez a mesma coisa: ela “entrou” na casa de Zacarias e saudou a Isabel. É a saudação da Mãe do Senhor para a mãe do Precursor do Senhor. A saudação de Maria comunica o Espírito a Isabel e ao menino no seu ventre. A presença do Espírito Santo em Isabel se traduz em um grito poderoso e profético: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar? Logo que tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança pulou de alegria no meu ventre. Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu” (Lc 1,42-45). Aqui Isabel fala como profetisa: se sente pequena e indigna diante da visita daquela que leva em seu seio o Senhor do universo. Sobram as palavras e explicações quando alguém entra na sintonia com o Espírito. Maria leva no seu seio o Filho de Deus concebido pela obra do Espírito Santo. E a presença do Espírito Santo em Isabel faz com que Isabel glorifique a Deus. Por isso, o encontro entre Maria e sua prima Isabel é uma espécie de “pequeno Pentecostes”. Onde entra o Espírito Santo, ai entra também paz, alegria e vida divina. 

A Mãe de Deus que leva Jesus em seu seio é a causa de alegria. Quando estivermos cheios de Jesus Cristo em nosso coração, a nossa presença traz alegria e a paz para a convivência. A ausência de Cristo em nosso coração produz problemas e discórdias na convivência. O encontro de duas pessoas benditas sempre causa alegria: Maria causa alegria em Isabel e Jesus em pequeno João Batista. Ao contrário, o encontro de duas pessoas não benditas sempre causa angústia e mal-estar na convivência. Cada cristão deve fazer os encontros felizes e alegres com os outros. E isso só pode acontecer se houver lugar para Cristo em nosso coração. Precisamos engravidar Jesus Cristo para fazê-lo nascer para os outros. Por isso, vale a pena cada um se perguntar: Que tipo de encontro que fazemos diariamente: de pessoas benditas ou de pessoas não benditas? 

Na narração da visitação, Isabel, “cheio do Espírito Santo” acolhendo Maria em sua casa, exclama: ”Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu”. Esta bem-aventurança, a primeira que se encontra no evangelho de Lucas, apresenta Maria como a mulher que com sua fé precede à Igreja na realização do espírito das bem-aventuranças. Maria, crendo na possibilidade do cumprimento do anúncio, interpela ao Mensageiro divino somente a modalidade de sua realização para corresponder melhor à vontade de Deus a que quer aderir-se e entregar-se com total disponibilidade. “Buscou o modo; não duvidou da onipotência de Deus”, comentou Santo Agostinho (Serm. 291). Maria se adere plenamente ao projeto de Deus sem subordinar seu consentimento à concessão de um sinal visível. É uma entrega total ao projeto de Deus. É uma confiança sem reservas à vontade de Deus: “Faça-se em mim segundo Vossa palavra!”. Maria tem muito a dizer sobre a vivência de nossa fé na nossa vida cotidiana.

Maria "entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel", continua São Lucas. Seria uma saudação respeitosa, pelos anos de Isabel e pelo afeto, a velha tradicional saudação palestina: "A paz esteja com você, Isabel". Mas já, aqui, neste momento, o prodígio. Isabel sente algo. Algo que nem sangue nem carne lhe dizem, mas sim Aquele que está no céu e para quem nada é impossível. Pela primeira vez o Messias será reconhecido. Isabel sente que o filho que está no sexto mês e que, segundo a profecia do anjo a Zacarias, está cheio do Espírito Santo desde o ventre de sua mãe, pula em seu ventre, como uma criança pulando de alegria. E "ela mesma", diz São Lucas, "sentiu-se cheia do Espírito Santo". Isabel vê Maria, olha-se em seus olhos arregalados e prodigiosos, entra-se por eles no mistério que a Donzela traz escondido. E grita alto "Bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre! De onde é concedido que a Mãe do meu Senhor venha a mim? Eis que logo que a vossa voz ressoou nos meus ouvidos, saltou a criança no meu Bem-aventurados sois vós, que crestes que se cumpriria o que vos foi dito pelo Senhor!”.

Os saltos de João Batista no ventre de sua mãe são o primeiro sinal de uma expectativa humana diante do Messias que já está vindo, que precisará que seus caminhos sejam pavimentados para que a Verdade caminhe com facilidade e encontre eco nos corações endurecidos dos homens.

Anunciação-Visita A Isabel E Ação Pastoral

Na anunciação Maria faz perguntas para ter certeza sobre sua missão de ser Mãe do Salvador (cf. Lc 1,26-37). Quando tudo se torna certo, Maria diz seu Sim a Deus radicalmente. Maria deixa a Palavra de Deus entrar em sua vida e ela é fecundada pelo Salvador. Jesus, o Salvador, que está no seio de Maria já empurra Maria para a ação pastoral, isto é, ir ao encontro de Isabel que está precisando da presença de Maria. Maria poderia pensar em si mesma, na sua gravidez. Mas ela pensa no outro e vai ao encontro do outro. 

Quem permitir e viver o mistério da Anunciação, será fecundado como Maria. Quem não é fecundado, não é feliz. Com a fecundação e a fecundidade na vivência do mistério da Anunciação, eu serei capaz de sair de mim mesmo para a ação pastoral como Maria visitou Isabel na sua necessidade. Se permitirmos a entrada da Palavra de Deus na nossa vida, ficaremos fecundados e seremos capazes de fazer Jesus nascer para o mundo.

É preciso fazer uma ligação entre a Anunciação e a Ação Pastoral. Sem a Anunciação, isto é, sem ser fecundado pela Palavra de Deus, a ação pastoral se torna estéril. A Anunciação sem a Ação Pastoral se torna um isolamento estéril e mortal.

Palavras De Alguns Padres Da Igreja (Santo Tomás de Aquino: Catena Aurea, Exposição Contínua Sobre Os Evangelhos vol.3, Evangelho de São Lucas, Ed. Ecclesiae, Campinas/SP,2020 pp.67-68):

1.   Jesus que estava no seu ventre (ventre de Maria), tinha pressa para santificar João, encerrado ainda no ventre de sua mãe. Por isso segue: com pressa. (Orígenes) 

2.   A graça do Espírito Santo não conhece delongas. Aprendei, ó virgens, a não vos deterdes nas praças, a não misturardes com o povo em conversas. (Santo Ambrósio de Milão).

3.   Não havia, pois, ficado cheio do Espírito até ter estado diante daquela que levava o Cristo em seu ventre. Foi então que ficou cheio do Espírito e exultava dentro de sua mãe. Por isso segue: e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. Não se deve, portanto, duvidar que aquela que então ficou cheia do Espírito Santo, ficou cheia por causa de seu filho (Orígenes). 

4.   Maria é abençoada por Isabel com as mesmas palavras proferidas pelo anjo, a fim de mostrar que seria venerada pelos anjos e pelos homens (São Beda).

5.   “... bendito é o fruto de teu ventre!”. “Somente esse fruto é bendito, porque sem varão e sem pecado” (Expositor grego).

P. Vitus Gustama,svd

V Domingo Da Quaresma, Ano Litúrgico "C", 06/04/2025

A MISERICÓRDIA DE DEUS É SEMPRE MAIOR DO QUE A MISERIA HUMANA V DOMINGO DA QUARESMA DO ANO “C” I Leitura: Is 43,16-21 16 Isto diz o Se...