quarta-feira, 30 de abril de 2025

III Domingo Da Páscoa-Ano "C", 04/05/2025

AMOR: BASE E ALMA DE TODA ATIVIDADE EVANGELIZADORA NA IGREJA

III DOMINGO DA PÁSCOA ANO “C”

Primeira Leitura: At 5,27b-32.40b-41

Naqueles dias, os guardas levaram os apóstolos e os apresentaram ao Sinédrio. 27b O sumo sacerdote começou a interrogá-los, dizendo: 28 “Nós tínhamos proibido expressamente que vós ensinásseis em nome de Jesus. Apesar disso, enchestes a cidade de Jerusalém com a vossa doutrina. E ainda nos quereis tornar responsáveis pela morte desse homem!” 29 Então Pedro e os outros apóstolos responderam: “É preciso obedecer a Deus, antes que aos homens. 30 O Deus de nossos pais ressuscitou Jesus, a quem vós matastes, pregando-o numa cruz. 31 Deus, por seu poder, o exaltou, tornando-o Guia Supremo e Salvador, para dar ao povo de Israel a conversão e o perdão dos seus pecados. 32 E disso somos testemunhas, nós e o Espírito Santo, que Deus concedeu àqueles que lhe obedecem”. 40b Então mandaram açoitar os apóstolos e proibiram que eles falassem em nome de Jesus, e depois os soltaram. 41 Os apóstolos saíram do Conselho, muito contentes, por terem sido considerados dignos de injúrias, por causa do nome de Jesus.

Segunda Leitura: Ap 5,11-14

Eu, João, vi 11 e ouvi a voz de numerosos anjos, que estavam em volta do trono, e dos Seres vivos e dos Anciãos. Eram milhares de milhares, milhões de milhões, 12 e proclamavam em alta voz: “O Cordeiro imolado é digno de receber o poder, a riqueza, a sabedoria e a força, a honra, a glória, e o louvor”. 13 Ouvi também todas as criaturas que estão no céu, na terra, debaixo da terra e no mar, e tudo o que neles existe, e diziam: “Ao que está sentado no trono e ao Cordeiro, o louvor e a honra, a glória e o poder para sempre”. 14 Os quatro Seres vivos respondiam: “Amém”, e os Anciãos se prostraram em adoração daquele que vive para sempre.

Evangelho: Jo 21,1-19

Naquele tempo, 1 Jesus apareceu de novo aos discípulos, à beira do mar de Tiberíades. A aparição foi assim: 2 Estavam juntos Simão Pedro, Tomé, chamado Dídimo, Natanael de Caná da Galileia, os filhos de Zebedeu e outros dois discípulos de Jesus. 3 Simão Pedro disse a eles: “Eu vou pescar”. Eles disseram: “Também vamos contigo”. Saíram e entraram na barca, mas não pescaram nada naquela noite. 4 Já tinha amanhecido, e Jesus estava de pé na margem. Mas os discípulos não sabiam que era Jesus. 5 Então Jesus disse: “Moços, tendes alguma coisa para comer?” Responderam: “Não”. 6 Jesus disse-lhes: “Lançai a rede à direita da barca, e achareis”. Lançaram pois a rede e não conseguiam puxá-la para fora, por causa da quantidade de peixes. 7 Então, o discípulo a quem Jesus amava disse a Pedro: “É o Senhor!” Simão Pedro, ouvindo dizer que era o Senhor, vestiu sua roupa, pois estava nu, e atirou-se ao mar. 8 Os outros discípulos vieram com a barca, arrastando a rede com os peixes. Na verdade, não estavam longe da terra, mas somente a cerca de cem metros. 9 Logo que pisaram a terra, viram brasas acesas, com peixe em cima, e pão.10 Jesus disse-lhes: “Trazei alguns dos peixes que apanhastes”. 11 Então Simão Pedro subiu ao barco e arrastou a rede para a terra. Estava cheia de cento e cinquenta e três grandes peixes; e apesar de tantos peixes, a rede não se rompeu. 12 Jesus disse-lhes: “Vinde comer”. Nenhum dos discípulos se atrevia a perguntar quem era ele, pois sabiam que era o Senhor. 13 Jesus aproximou-se, tomou o pão e distribuiu-o por eles. E fez a mesma coisa com o peixe. 14 Esta foi a terceira vez que Jesus, ressuscitado dos mortos, apareceu aos discípulos. 15 Depois de comerem, Jesus perguntou a Simão Pedro: “Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes?” Pedro respondeu: “Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo”. Jesus disse: “Apascenta os meus cordeiros”. 16 E disse de novo a Pedro: “Simão, filho de João, tu me amas?” Pedro disse: “Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo”. Jesus lhe disse: “Apascenta as minhas ovelhas”. 17 Pela terceira vez, perguntou a Pedro: “Simão, filho de João, tu me amas?” Pedro ficou triste, porque Jesus perguntou três vezes se ele o amava. Respondeu: “Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que eu te amo”. Jesus disse-lhe: “Apascenta as minhas ovelhas.18 Em verdade, em verdade te digo: quando eras jovem, tu te cingias e ias para onde querias. Quando fores velho, estenderás as mãos e outro te cingirá e te levará para onde não queres ir”. 19 Jesus disse isso, significando com que morte Pedro iria glorificar a Deus. E acrescentou: “Segue-me”.

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Unanimemente atestado pela tradição manuscrita, Jo 21 pertence ao Quarto Evangelho, mas foi acrescentado mais tarde ao evangelho. O evangelho se encerra no capítulo 20 (Jo 20,30-31). Alguns veem nele um ”apêndice” pois ele é um acréscimo ao evangelho. Os outros o caracterizam como “epílogo”, de alguma maneira correspondente ao “prólogo” do evangelho. Segundo a maioria dos exegetas, o autor de Jo 21 é membro da escola joanina. Ele é um bom conhecedor do Quarto Evangelho e talvez seu primeiro editor (R.E.Brown, R. Schnackenburg, M.Hengel) porque por um lado, o vocabulário, estilo e temas típicos de Jo plenamente estão conformes ao resto do evangelho. Ele é acréscimo porque se encontram neste texto, vocabulário, estilo e temas dificilmente atribuíveis ao autor do evangelho.  Quanto a data, diversos estudiosos concordam que seria posterior à Primeira Carta de João, escrita por volta de 90 d.C.

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Um Olhar Geral Sobre As Leituras Deste Domingo

O Cristo ressuscitado diz três vezes a Pedro qual deve ser a sua missão: "Apascenta as minhas ovelhas" (Evangelho). Depois de Pentecostes os discípulos começaram a colocar em prática a missão que haviam recebido, pregando a Boa Nova de Jesus Cristo (Primeira Leitura). Faz parte da missão que os homens não só conheçam a Cristo, mas também o adorem como Deus e Senhor (Segunda Leitura).

O texto do evangelho nos enfatiza que os apóstolos não se deixam dominar pela tentação de tristeza, desânimo e de dispersão, mas permanecem juntos e trabalham juntos. Em Jo 21,2 é mencionado que sete deles estão de novo juntos, na Galileia. Sete, como Doze, é o número simbólico da totalidade determinada. Neste caso, o número simboliza a Igreja. O número cento e cinquenta e três (153) peixes milagrosamente capturados simboliza o caráter pleno e universal da missão dos discípulos e da Igreja. O relato acentua, então, três dimensões essenciais da natureza da Igreja: a vida comunitária, a missão e o serviço. 

A pesca acontece à noite é outro símbolo.  A noite é o tempo da ausência de Jesus, luz do mundo (cf. Jo 8,12). Os exegetas observam que a luz da manhã coincide simbolicamente com a presença de Jesus. À noite (sem contar com Jesus), a missão foi infrutífera; eles não conseguiram pescar nenhum peixe. Mas a ausência de Jesus não significa que ele irá substituí-los na pescaria. O mar representa o mundo em que a missão é realizada. Jesus permanece em terra firme. A missão ficará nas mãos dos discípulos. Que sim, entre o mar e a costa existe uma corrente de proximidade e encorajamento, embora os trabalhadores do mar, em pleno trabalho, não identifiquem a origem desta corrente. 

Falam-se do fogo e da comida. Lá, como o evangelista Marcos comenta lindamente, a comida que Jesus preparou (Jesus é o Pão da Vida) e a comida que eles trazem (oferta) são misturadas. A missão no mundo termina na Eucaristia da comunidade. Nela se faz presente o dom de Jesus aos seus, como o Pão da Vida, e o dom que trazemos uns aos outros (nossa oferta). Jesus quer que levemos o pão, fruto do nosso esforço, para uni-lo indissoluvelmente ao dom que Cristo nos dá de Si Mesmo. E na mesa eucarística, na margem do mar da vida, não será mais possível separar o dom de Jesus e o nosso próprio dom.

Jesus e a comunidade dos discípulos. Existem os dois pólos de referência na missão e na Eucaristia. Mas vemos que a narrativa destaca duas pessoas. Simão Pedro e o discípulo amado têm um papel especial, que os exegetas pensam não ser acidental, mas intencional. O discípulo predileto está à frente de Simão Pedro quando se trata de reconhecimento e de confissão de Jesus. E, no entanto, o nome discípilo amado permanece anônimo. Simón Pedro toma a iniciativa da ação e também mantém um coloquio pessoal com Jesus depois, no qual é interrogado e comprometido para uma missão dentro da comunidade. 

Os exegetas pensam que nessa cena culmina a linha que tanto o discípulo amado quanto Pedro mantiveram ao longo do Evangelho. E que se torna uma lição simbólica. 

A comunidade de Jesus é composta por aqueles que anonimamente conservam a sensibilidade de reconhecê-Lo e confessá-Lo no meio do mar do mundo. A Igreja não se baseia na autoridade, mas na enorme capacidade de fé da comunidade anônima. Sem a fé da comunidade, o encargo de Pedro não seria possível. Por isso, sua autoridade é exercida na modestia e no serviço àquela comunidade, que capta Jesus no mar do mundo. E, no entanto, Pedro recebeu do Senhor uma missão dentro dessa comunidade que todos devemos reconhecer e agradecer. Muito possivelmente nos livros de história teremos os nomes dos Papas como o de Pedro nesta cena evangélica. Os crentes, sem dúvida, continuarão a ser os discípulos anônimos a quem Jesus amou. O Evangelho já nos anuncia hoje. 

Cada evangelista, a seu modo, mostra, como parte fundamental da mensagem de Jesus, a missão universal da Igreja. São João no Evangelho de hoje recorre, seguindo seu próprio estilo, aos símbolos. O mar como imagem do mundo, de todos os homens, era comum nos tempos de Jesus e do evangelista e por isso, o mar simboliza  o lugar da missão. Há outro símbolo que é exclusivo de João. É referente ao número de peixes pescados: 153 peixes. Sabe-se que, na cultura contemporânea de Jesus, o símbolo numérico tinha grande valor e era usado com frequência. Cento e cinquenta e três indica integridade e completude. Geralmente é explicado de duas maneiras: 1 + 3 + 5 é igual a 9, que sendo um múltiplo de 3 sublinha a plenitude ao mais alto grau. Outra forma de explicar o valor total e total desse número é a seguinte: o múltiplo de 12 é 144; se somarmos 9 a 144 obtemos 153. É uma forma de enfatizar ainda mais a totalidade. Em suma, a missão da Igreja, no mar do mundo, não é outra senão a de ser a pescadora (Igreja como pescadora) de todos os homens sem exceção e conduzi-los ao porto seguro da fé e da eternidade. Esta imagem do navio e do peixe é seguida por outra: a do pastor e das ovelhas. Jesus Cristo, Bom Pastor, confia a Pedro: "Apascenta as minhas ovelhas". Ezequiel havia falado de Deus como o Pastor de Israel; agora Jesus usa a mesma imagem para falar de si mesmo como Pastor da Igreja, e dá a Pedro sua mesma missão de pastor. Bom Pastor é aquele que cuida, ama, protege, alimenta suas ovelhas e as defende dos lobos a ponto de dar a vida por elas (Fala-se especificamente do Bom Pastor no IV Domingo da Páscoa). A missão de Pedro e dos pastores na Igreja é garantir que todas as ovelhas alcancem a salvação de Deus. As ovelhas são do Senhor. A Pedro e aos demais pastores da Igreja (sucessores dos Apóstolos) é pedido e é encarregado para APASCENTAR as ovelhas do Senhor. Tratar mal a uma das ovelhas significa tratar mal ao Propretário das ovelhas que é o próprio Senhor.

A experiência pascal dos discípulos os transforma e os converte à esperança. Sua primeira reação foi de surpresa,entusiasmo e louvor. A Segunda Leitura de hoje nos coloca nessa atitude, pois reconhecemos com espanto o senhorio de Jesus dos quatro ventos (Senhor do Universo). O tempo pascal deve servir aos cristãos para que recuperem sua capacidade de admiração e de contemplação. Que Jesus, o Senhor, receba o louvor, a honra, a glória e o poderpelos séculos dos séculos. 

Anunciar o Cristo ressuscitado, como nos narra a Primeira Leitura, é reconhecer como Senhor Aquele que foi condenado e eliminado pelo sistema de poder, e que, no entanto, Deus ressuscitou e fez o "Chefe e Salvador" da história . 

O testemunho é perigoso, porque não se trata de fornecer argumentos científicos, objetivos, neutros. Só é possível implicar a própria vida. A verdade do testemunho procede da coerência da vida, que não aceita submeter-se a um sistema que condena Jesus e seus valores do Reino. 

Mas a experiência pascal não só provoca a dinâmica do louvor surprendido e do testemunho corajoso da própria vida, mas também significa assumir a mesma missão salvífica de Jesus na comunidade, na Igreja. O texto pascal mais antigo que temos no Novo Testamento, recolhido em 1Cor 15, não é apenas uma catequese pascal, mas também uma legitimação da missão dos principais representantes das comunidades cristãs. O que é proposto teologicamente ali é lindamente encenado na narração de hoje. 

Um Olhar Específico Sobre O Evangelgo Deste Domingo 

I. A Aparição De Jesus E A Pesca Milagrosa      

Simão Pedro toma isoladamente sua decisão para pescar. Mas a iniciativa de Pedro arrasta o grupo, pois o grupo logo o segue. Pescar é a profissão deles, mas também o símbolo da sua missão entre os homens. E na Bíblia, a pesca é muitas vezes sinônimo de missão. Sob a imagem da pesca está representada a missão da comunidade (aqui se mencionam sete discípulos. O número sete representa totalidade). Trata-se aqui, portanto, do trabalho apostólico/missionário da Igreja. 

Mas este trabalho só recebe eficácia quando obedecer-se ou aceita-se a Palavra e a presença d´Aquele que envia (Senhor Jesus). Isto não quer dizer que a iniciativa de Pedro seja inútil, mas o resultado, que é nulo, os faz perceber que, na Igreja, uma obra, seja qual for a generosidade da intenção, só dá resultado com a graça da presença do Espírito do Senhor. Para que o trabalho seja frutífero, Jesus deve estar presente. Jesus deve ser sempre o agente principal. Jesus deve ocupar o lugar central. Em nenhum momento nenhum discípulo fica na frente de Jesus, o discípulo é apenas um seguidor. Seguir quer dizer ficar atrás de uma pessoa que está na frente. E quem está na frente deve ser sempre Jesus.        

O detalhe temporal “naquela noite” é importante para entender a cena: “...naquela noite nada apanharam” (v.3). Os discípulos juntos perseveram no trabalho a noite inteira. Quer dizer que eles trabalham sem parar com a maior vontade. “Naquela noite” é um detalhe simbólico. Não se trata da noite física mas do resultado de uma atitude. A noite significa, portanto, a ausência de Jesus, luz do mundo (cf. Jo 9,4s; 8,12). É a postura de autossuficiência (a noite)  o que determina a infecundidade, o fracasso. Faltam os peixes, faltamo os frutos, pois falta a união com o Senhor.  Os discípulos se esqueceram a advertência de Jesus: “Sem Mim nada podeis fazer” (Jo 15,5). O trabalho sem estar vinculado a Jesus, não rende. Sem Jesus o trabalho da comunidade não dá frutos. Na atividade dos discípulos falta a presença e a ação de Jesus. Na ausência de Jesus, não podem realizar o desígnio do Pai. Jesus é luz do mundo. Sua presença é o dia que possibilita trabalhar com eficácia. Tudo isto quer nos dizer que para que a missão confiada a nós possa produzir frutos, não basta estar juntos, não basta a boa vontade, a dedicação ao trabalho e a colaboração. Tudo isto é insuficiente. O Senhor que nos envia deve estar sempre presente em todas as nossas atividades: trabalho e decisões etc., pois sem a sua presença, sem a escuta de suas palavras e sem a obediência a elas, a missão da Igreja será totalmente estéril.

Jesus se apresenta quando “Já tinha amanhecido, e estava de pé na margem”. É a alvorada de um mundo novo. “Mas os discípulos não sabiam que era Jesus”. Eles já criaram a noite. Quando a cabeça ou o coração se esquerece, tudo se vê escuro, ou nada se enxerga como são as coisas ou as pessoas. Pela noite que criaram, os discípulos não conseguiam ver nem enxergar a presença do Senhor. Todos os discípulos reconcentrados no próprio trabalho, “fechados” em seu esforço vão, não podiam ver o Senhor. 

Jesus interrompe um trabalho infecundo dos discípulos com a seguinte pergunta: “Moços, tendes alguma coisa para comer?”. A chamada do Senhor lhes faz conscientes do fracasso: “Não”, responderam eles. É inútil trabalhar sem o Senhor. Quando deixar-se de inspirar pelo Espírito do Senhor, a Igreja, a comunidade, põe-se em perigo de escolher sempre a parte equivocada. 

Lançai a rede à direita da barca, e achareis”. “Lançaram pois a rede e não conseguiam puxá-la para fora, por causa da quantidade de peixes”. Para os judeus, o lado direito é o da bênção de Deus. assim a pesca abundante se converte em fruto da generosidade divina, não do trabalho meramente dos homens.

1.1. Reconhecimento Do Ressuscitado

Maria Madalena reconheceu Jesus pela voz quando Jesus pronunciou seu nome (Jo 20,14). Os discípulos de Emaús reconheceram Jesus Ressuscitado na fração do pão (Lc 24,16). No relato do Evangelho de hoje, Jesus não se dá a conhecer de imediato. Embora Jesus esteja tão próximo deles, “mas os discípulos não sabiam que era Jesus” (v.4; cf. Jo 20,14; Lc 24,15s). 

Diante da pesca abundante, em vez de um grito de espanto (cf. Lc 5,8-10) que poderia ser a reação dos pescadores aqui, o narrador orienta a atenção para a reação do Discípulo amado e a do Pedro. João, cujo carisma é descobrir o invisível no visível, através dos gestos, da voz, da maravilha, reconhece a presença de Jesus: “É o Senhor!” Eis o seu privilégio: reconhecer o Senhor. Ele enxerga para além das causas ordinárias que poderiam explicar o fenômeno. Somente quem tem a experiência do amor de Jesus e está em sintonia permanente com o Senhor é que sabe ler os sinais da presença de Deus e captar o seu significado. 

Pode-se dizer que as figuras dos dois discípulos indicam dois primados diversos: o da autoridade e o do amor; a instituição e a profecia. Não estão em contraste entre si, nem tampouco em competência. Um tem necessidade do outro. De todos os modos é certo que o amor vê melhor. O olho da profecia chega primeiro (cf. Jo 20,4). Pedro é lento para compreender, mas conserva seu temperamento impulsivo e se atira à agua, decidido alcançar o primeiro o Senhor.

Quando tivermos consciência de que o Senhor nos ama incondicionalmente e amamos o Senhor, descobriremos facilmente sua presença na nossa vida e nos acontecimentos diários; discerniremos os sinais da presença do Senhor nos acontecimentos aparentemente muito insignificantes. No amor de Deus não há dia que não tenha algum apelo do Senhor para nós. Se amarmos o Senhor através da vivência de Sua Palavra, o mesmo amor nos manterá atentos para todos os sinais diariamente, pois neles há algum recado do Senhor para nós. 

Certamente, Jesus dá o prêmio à constância de quem segue com confiança as suas indicações. Ainda que num primeiro momento pareçam indicações de um estranho e não sejam compreendidas, de fato um senso profundo de confiança move instintivamente os discípulos em direção à voz de Jesus e faz com que eles a escutem. Quando acolhemos a palavra do Senhor, cumprimos seus mandamentos e seguimos suas orientações, os frutos da missão são sempre abundantes, mesmo nas circunstâncias mais adversas. Sem Jesus “nada podemos fazer” (Jo 15,5). Sem a presença de Jesus, sem a obediência à sua palavra, sem a comunhão e a intimidade com ele, a nossa missão se torna estéril. A mensagem é dirigida a todos, individual e comunitariamente, que o Senhor existe e que está próximo. Por isso, é preciso abrir os olhos e perceber as suas indicações providenciais. É preciso obedecer à vontade de Deus para que nossa vida não seja um fracasso. Obedecer à vontade de Deus significa renunciar ao nosso projeto pessoal em função do projeto maior de Jesus.

Jesus ressuscitado, na verdade, continua acompanhando nosso trabalho e se manifestando a nós embora não notemos sua presença. Ele vai ao encontro dos discípulos quando estão trabalhando. O texto diz que “Ao amanhecer, Jesus estava de pé na praia” (v.4b). Ele está olhando para os discípulos cansados e frustrados depois de um trabalho sem sucesso. “Jesus estava de pé na praia” nos mostra que Jesus continua acompanhando com seu olhar amoroso o trabalho dos discípulos. 

1.2. O Senhor é o Nosso Amanhecer Que Ilumina Nosso Dia a Dia       

O texto diz “ao amanhecer Jesus estava de pé na praia”. A presença de Jesus, que autorevelou como “a luz do mundo” e “a luz da vida” (Jo 8,12; cf. 9,5;12,35s) é incompatível com a “noite”, momento em que os discípulos pescaram. Jesus que é a luz traz consigo o fim da noite, pois a luz expulsa a escuridão, e todas as noites, as nossas noites escuras. Jesus é o nosso amanhecer. Com ele tudo é iluminado.          

Jesus, o Nosso Amanhecer, vai ao encontro dos discípulos e faz uma pergunta retórica aos discípulos: “Filhos (moços), tendes algo para comer?” (v.4). Quando Jesus vem ao nosso encontro, a nossa noite escura, as noites de impotência e as de desolação se transformam no amanhecer. O caminho se torna, assim, iluminado pela presença da Luz. Agora é o momento de escutar a voz daquele que é a fonte de todo o sucesso na missão. É necessário ouvi-la e escutar bem sua pergunta. Mas estar com os “companheiros” (palavra que etimologicamente significa “os que partilham do mesmo pão”, neste sentido “o pão da missão”) é condição necessária para ouvir a voz do Senhor, para fazer a experiência do encontro com ele. A pergunta retórica de Jesus, formulada em vista de uma resposta negativa, é dirigida a pessoas que não conseguiram fruto de seu trabalho. Aqui o “marsimboliza as dificuldades, as ameaças e os perigos.       

Para a pergunta de Jesus, eles responderam secamente: “Não!”. Jesus sabe que seus discípulos não pescaram nada e quer renovar a relação com eles. Ele indica-lhes como superar a crise: “Lançai a rede à direita do barco e achareis!” A ordem é seguida da execução e tem efeito. Os discípulos entregam-se à palavra do desconhecido e a rede se enche de peixes: 153 peixes. É o número simbólico que significa a totalidade e a multidão dos homens de todos os tempos capturados pela pregação de Pedro e dos outros discípulos. Apesar do seu grande número, a rede não se rompe. Jesus guarda sua Igreja na unidade mas sob condição de que se mantenha a sua presença. Sem ele, os homens se dispersam. Sobrevindo ele, todos são reunidos nele acima de toda a esperança.

1.3. É Preciso Trabalhar No Espírito De Serviço a Exemplo de Jesus Cristo          

Quanto a Pedro não tinha percebido a causa da pesca abundante mas ao ouvir o que lhe diz o Discípulo amado, compreende. Aqui, nessa cena, acontece uma mudança na atitude de Pedro numa linguagem simbólica sumamente densa. Em primeiro lugar, há o jogo de veste- desnudez; em segundo lugar, o ato de lançar-se na água. A nudez de Pedro indica que carece da veste própria do discípulo. Ele trabalha sem espírito de serviço por amor. A expressão que se usa aqui (“se atou...à cintura), foi usada na Ceia quando Jesus amarrou-se à cintura um pano que significa o seu serviço até a morte. Era essa a desnudez de Pedro: não ter aceitado a morte de Jesus como expressão suprema do amor nem tê-la tomado por norma; não responder ao impulso do Espírito que o teria levado a se identificar com Jesus. Por isso, ele se lança na água. Ele é o único que se atira à água, separando-se por ser o único que deve corrigir sua atitude anterior. Seu gesto é individual e simboliza sua nova atitude. Lança-se na água aqui significa mergulhar na missão com as disposições de Jesus: servir até dar a vida por amor. Assim como atirar-se à água expressa sua aceitação do serviço até a morte, subir/sair da água é sinal da nova atitude de Pedro, o qual lhe permite arrastar a rede com a força dobrada. 

1.4. Missão-Eucaristia-Missão

Trazei alguns dos peixes que apanhastes”. Estranho! Jesus já havia peixe preparado posto sobre o fogo: “Logo que pisaram a terra, viram brasas acesas, com peixe em cima, e pão”. No entanto, é necessário levar também para o Senhor os peixes que acabaram de pescar.

Aí está o paradoxo! Durante sua vida terrestre Jesus já cumpriu tudo (cf. Jo 19,30), já obteve tudo, já deu o máximo fruto durante sua missão terrena. No entanto, tem necessidade da missão da Igreja. 

A missão cumprida tem um fim diferente de si mesma: “Vinde comer!” diz Jesus. Depois de ter feito dom para os irmãos (missão), trabalho a favor dos homens, se recebe  o alimento oferecido por Cristo. não tem sentido fazer refeição com Cristo, se não gastamos nossa vida em favor dos irmãos (próximo). 

Jesus aproximou-se, tomou o pão e distribuiu-o por eles”. Jesus se converte assim no centro do qual irradia a força, a vida e o amor que deve assimilar a comunidade para sair de novo à missão.

O pão, o peixe, os outros símbolos e toda a atmosfera da cena são claramente eucarísticos. É a refeição após a pescaria. Jesus mesmo preparou o almoço. Isto quer nos dizer que todo o trabalho efetuado na Igreja tem seu termo na comunhão, na eucaristia. Esta é o sinal supremo da presença. Esta presença é o fator da unidade da Igreja e explica toda a atividade que nela se exerce.         

A Igreja eucarística, que reúne os homens em torno da Mesa do Senhor (Eucaristia), é indispensável da Igreja missionária. Ao celebrar a Eucaristia a Igreja se torna mais missionária e por isso é sempre enviada de novo para levar adiante sua missão no mundo. Todo verdadeiro encontro com o Senhor se prolonga na missão. Nela, nada substitui os momentos de silêncio e comunhão. A Igreja eucarística se traduz na atividade missionária e a Igreja missionária tem como força a Igreja eucarística. Mas aqui não se trata de duas Igrejas. É uma só Igreja. Podemos dizer em outros termos: nossa vida na ação e na contemplação simultaneamente. Uma não substitui outra, pois a ausência de uma provoca a carência na outra. A comunidade/Igreja vive de Jesus, do seu amor, mas também da missão, do amor ao homem, que realiza e expressa o amor a Jesus (Jo 14,21).

II. Tríplice Confissão de Pedro (Jo 21,15-19)       

A sequência do relato concerne não à missão dos discípulos em seu conjunto, como na aparição em Jerusalém (Jo 20,21), mas à de Pedro e também se fala do destino do Discípulo amado. Mas num diálogo o Senhor somente confia a Pedro o encargo de Pastor de rebanho e lhe anuncia seu martírio.        

O diálogo acontece após a refeição convival. Por três vezes, Jesus pergunta a Pedro: “Tu me amas mais do que estes?” e por três vezes Pedro responde (na tradução portuguesa): “Eu te amo”. A tríplice pergunta remete à tríplice negação (cf. Jo 18,17.25.26-27). Para o Senhor é suficiente que a experiência negativa de Simão não faça perder sua capacidade de amar. O amor que Pedro, perdoado, deve a Jesus, deverá ser refletido nos demais homens: “Apascenta as minhas ovelhas!”. “’Apascentar as ovelhas’ é alentar os que creem em Cristo para que não percam a fé; é prover-lhes subsídios para as necessidades terrenas, se precisarem; é prestar-lhes exemplos de virtudes além da palavra da pregação; é resistir aos inimigos da fé e corrigir os súditos desagarrados(Alcuíno In Santo Tomás de Aquino: Catena Aurea sobre o Evangelho de são João). Apascenta as minhas ovelhas!”. “Se nós chamamos as ovelhas de nossas e eles as chamam de suas,  Cristo perdeu suas ovelhas(Santo Agostinho In Santo Tomás de Aquino: Catena Aurea sobre o Evangelho de são João).       

Tentemos aprofundar um pouco mais sobre quatro palavras/verbos sobre  “amor” em grego que se traduzem simplesmente em uma só palavra em português: amor/amar.

O verbo ERAO (de onde deriva a palavra “eros” e o adjetivo “erótico”). Erao significa amar mas em sentido sexual. Emprega-se para significar o afeto passional, a atração mútua do homem e da mulher, no seu aspecto espontâneo e instintivo; o amor romântico e físico; alude ao amor-prazer. Mas o eros não é simplesmente a captação no sentido negativo do termo, mas é a fascinação pelo que é grande e pelo que é belo. Eros é um amor de desejo, o desejo de alguém que falta, em direção a alguém que possui.

Outro verbo é STERGO. Ele indica o amor familiar, o carinho dos pais pelos filhos e o dos filhos pelos pais. Stergo alude ao amor do lar, da família; àquele amor que não se merece porque brota naturalmente dos laços do parentesco. São Paulo usa este termo na sua carta aos romanos (Rm 12,9-10) para dizer que os cristãos devem sentir-se membros de uma só família.

O terceiro verbo grego é FILÉO/PHILEO: exprime o amor de amizade, o afeto caloroso e terno de dois amigos, um amor de troca, um amor de igual para igual. Espera-se que o outro nos dê como nós lhe damos (do ut des). É um amor de amizade que de algum modo pressupõe uma resposta ou uma retribuição. 

O quarto verbo é AGAPAÓ (deste verbo deriva a palavra “Ágape”): é o amor de caridade, de benevolência, de bem querer; o amor capaz de se dar e de perseverar na dádiva sem nada esperar em troca. É o amor totalmente desinteressado, completamente abnegado, o amor até ao sacrifício (cf. Jo 13,1). Segundo este amor, não importa o que uma pessoa faça ou nos possamos fazer; não importa a forma como nos trate, se nos injuria ou nos ofende. Nós teremos sempre a possibilidade de “amá-la”, que não consiste em “ter por ela algum sentimento”, mas em fazer “alguma coisa por ela”, prestar-lhe um serviço, oferecer-lhe ajuda, mesmo que afetivamente não se sinta. É um amor total. Este amor consiste não na afeição mas na ação. É um amor efetivo e não afetivo.        

Na tríplice pergunta de Jesus e na tríplice confissão de Pedro encontra-se o jogo de palavra. Nas duas primeiras perguntas Jesus pergunta a Pedro se ele O ama com o amor –ágape, o amor total, o amor de entrega e de serviço incondicional, o amor que compromete a vida até o fim sem esperar recompensa: “Símon, agapas me?” (vv.15-16). Nas suas respostas Pedro usa o verbo “phileo” (amor de amizade): “philo se” (vv.15-16). Pedro que dias antes negou Jesus (Jo 18,25-27) e se sabia fraco e imaturo, responde humildemente com o amor de amizade. Ele não se sente capaz do amor supremo de ágape. Jesus, então, que nunca exige nada a ninguém superior às suas possibilidades e que sabe aguardar com paciência o processo de maturação de cada um, pergunta pela terceira vez (a última), mas agora nos termos em que Pedro é capaz de responder: com o amor de amizade: “Símon, phileis me...?” (v.17). Pedro, embora triste, sente-se identificado com a pergunta e responde nos mesmos termos: “philo se” (v.17). E Jesus o aceita. Mas ele prediz-lhe que o seu amor não ficará por aí, que há de crescer, amadurecer e que alcançará ágape, pois um dia chegará a dar a vida pelo Mestre.        

Pela atitude de Jesus no diálogo com Pedro, podemos entender claramente que o amor tem de ser refletido, mas não silenciado; tem de ser proclamado, não apenas pensado; e tem de sair a descoberto e ficar conhecido por todo o mundo, não ficar estacionado no segredo do coração. O amor que Jesus exige de nós é a doação de nós mesmos que é feita de forma refletida e consciente; assumida mesmo sabendo que comporta cruzes, agonias e cálices amargos de todos os tipos.        

Desde o primeiro diálogo, Jesus confia a Pedro uma missão que concerne o conjunto dos fiéis: “Apascenta minhas ovelhas”. O autor se inspira no Discurso do Bom Pastor (Jo 10,1-10), do qual ele retoma não apenas a metáfora, mas também os acentos. As ovelhas confiadas a Pedro não lhe pertencem, são as de Jesus, que diz cada vez: “minhas ovelhas”. Por isso, Santo Agostinho comenta: “Se me amas, não penses que tu és pastor; mas apascenta minhas ovelhas como as minhas, não como as tuas; busca nelas minha glória, não a tua; meu bem, não o teu; meu proveito, não o teu”. É sob o signo do amor a Jesus que é dado a Pedro o encargo de cuidar do conjunto do rebanho.        

Os vv. 18-19 falam do futuro de Pedro. Aqui, de maneira solene, Jesus prediz-lhe o que vai significar concretamente sua aceitação: dará a vida na cruz como Jesus a deu: “...quando, porém, fores velhos, estenderás as mãos, e outro te cingirá e te levará para onde não querias” (v.18). Historicamente é certo que Pedro foi martirizado em Roma sob Nero no ano 64 e, muito provavelmente, crucificado. “Estender as mãos” poderia logo evocar a crucificação, pois na antiguidade tinha o costume de que os que iam ser crucificados levassem aos ombros o travessão da cruz; o cinturão seria a corda atada à cintura, com que eram conduzidos.        

Os que pretendem ser pastores do povo só têm uma alternativa: jamais crer serem donos do povo, pois “as ovelhas” continuam sendo de Jesus e nunca se afastar da prática de vida de Jesus. Por isso, a condição para realizar devidamente a tarefa pastoral é amar o Senhor. Ela deve ser feita igualmente com amor pelas “ovelhas” através de respeito por elas, interesse por suas próprias preocupações e necessidades. De outra forma não revelaremos o Deus que nos ama e que quer ser amado. O Senhor vai cuidar de qualquer pastor/padre, se o pastor/padre sabe cuidar com amor o rebanho do Senhor (as ovelhas).

Por isso, a condição para realizar devidamente a tarefa pastoral é amar o Senhor. Ela deve ser feita igualmente com amor pelas “ovelhas” através de respeito por elas, interesse por suas próprias preocupações e necessidades. De outra forma não revelaremos o Deus que nos ama e que quer ser amado. “Seja um compromisso do amor apascentar o rebanho do Senhor, assim como foi um sinal de temor negar o pastor” (Sto. Agostinho).

Devemos estar conscientes de que para apascentar ou cuidar de suas ovelhas, tão frágeis, Jesus não escolheu nem super-homem nem anjos e sim pastores que também são frágeis. Por isso, nosso pastoreio não saciará a necessidade das ovelhas (povo de Deus) que o Senhor nos confiou, se ele não estiver enraizado no amor pessoal a Jesus Cristo, no amor com que ele nos ama e no amor com que nós o amamos e tem que ser continuamente alimentado e movido por um amor humilde e perseverante, por um amor que serve até a morte. Mas o amor pessoal a Jesus Cristo não é uma meta que pode ser alcançada pela prática do voluntarismo nem uma conquista do esforço pessoal. O amor a Jesus Cristo só pode nascer e ser cultivado como resposta ao amor daquele que “nos amou primeiro”.         

As perguntas de Jesus dirigidas a Pedro, são as mais essenciais e as mais existenciais de todas as perguntas, pois tocam a essência do cristianismo: amor. Diante de Deus somente conta o amor vivido ao longo da vida, seja ela longa ou curta. O amor é a única realidade consistente, a única realidade que permanece para sempre e dá consistência a tudo o mais.          

Por isso, as perguntas feitas a Pedro são dirigidas a toda a Igreja, a todos os cristãos, e portanto também a mim. Quando é lida esta leitura, cada cristão sofre o interrogatório no coração”, dizia Santo Agostinho ao comentar este texto. Não podemos esquecer que aquele que nos pergunta é o Senhor ressuscitado, aquele que nos amou até a morte. Nossa resposta deve ser humilde; uma resposta que remete à confiança no Senhor, que conhece o nosso coração, conhece a verdade do nosso amor. É melhor respondermos, como Pedro respondeu: “Senhor, tu que sabes tudo, sabes que sou teu amigo”.

P. Vitus Gustama,SVD

03/05/2025-Sábado Da II Semana Da Páscoa

CAMINHAR COM O SENHOR E SERVIR AOS NECESSITADOS POR AMOR NOS MANTÉM NA UNIDADE E NA PAZ

Sábado da II Semana da Páscoa

Primeira Leitura: At 6,1-7

1 Naqueles dias, o número dos discípulos tinha aumentado, e os fiéis de origem grega começaram a queixar-se dos fiéis de origem hebraica. Os de origem grega diziam que suas viúvas eram deixadas de lado no atendimento diário. 2 Então os Doze Apóstolos reuniram a multidão dos discípulos e disseram: “Não está certo que nós deixemos a pregação da Palavra de Deus para servir às mesas. 3 Irmãos, é melhor que escolhais entre vós sete homens de boa fama, repletos do Espírito e de sabedoria, e nós os encarregaremos dessa tarefa. 4 Desse modo nós poderemos dedicar-nos inteiramente à oração e ao serviço da Palavra”. 5 A proposta agradou a toda a multidão. Então escolheram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo; e também Filipe, Prócoro, Nicanor, Timon, Pármenas e Nicolau de Antioquia, um pagão que seguia a religião dos judeus. 6 Eles foram apresentados aos apóstolos, que oraram e impuseram as mãos sobre eles. 7 Entretanto, a Palavra do Senhor se espalhava. O número dos discípulos crescia muito em Jerusalém, e grande multidão de sacerdotes judeus aceitava a fé.

Evangelho: Jo 6,16-21

16Ao cair da tarde, os discípulos desceram ao mar. 17Entraram na barca e foram em direção a Cafarnaum, do outro lado do mar. Já estava escuro, e Jesus ainda não tinha vindo ao encontro deles. 18Soprava um vento forte e o mar estava agitado. 19Os discípulos tinham remado mais ou menos cinco quilômetros, quando enxergaram Jesus, andando sobre as águas e aproximando-se da barca. E ficaram com medo. 20Mas Jesus disse: “Sou eu. Não tenhais medo”. 21Quiseram, então, recolher Jesus na barca, mas imediatamente a barca chegou à margem para onde estavam indo.

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Servir Os Pobres Por Amor

O número dos discípulos tinha aumentado, e os fiéis de origem grega começaram a queixar-se dos fiéis de origem hebraica. Os de origem grega diziam que suas viúvas eram deixadas de lado no atendimento diário”.

Com o relato da Primeira Leitura começa uma nova etapa na comunidade cristã primitiva: o crescente número cada vez maior dos cristãos. Com este crescimento, aparecem também tensões que humanamente são compreensíveis. Com isso cresce a responsabilidade e solicitude dos Doze Apóstolos.

Na primeira comunidade cristã de Jerusalém havia dois grupos ou partidos: os helenistas e os hebreus. Ambos grupos são israelitas. Mas a língua e a forma de vida diferenciam os dois.

Os helenistas procediam da emigração judia (da diáspora) falavam o grego. Com a palavra “helenista” se alude aos judeus que se formaram com uma estreita vinculação à cultura helenista (grega). Os helenistas se mostravam mais abertos. O grupo judeu-helenista estava disseminado por todo o mundo mediterrâneo. Ou seja, aqueles que viveram naqueles territórios de Palestina e ao seu redor nos quais, desde a expansão da cultura helenista sob Alexandre Magno, predominavam a língua grega e a maneira de viver dos gregos. Paulo/Saulo (de Tarso de Cicília) e Barnabé (natural de Chipre- cf. At 4,36) eram helenistas. Os hebreus nascidos na Palestina falavam o hebraico (isto é, o aramaico).

As queixas dos helenistas são dirigidas aos hebreus porque estes não atendem às viúvas (e pobres) helenistas. Não se trata aqui apenas de desatendimento, mas trata-se de marginalizar todo o grupo helenista. Enquanto a comunicação dos bens era entendida como expressão de uma mesma comunhão de fé. Isto significaria estar contra a própria fé da comunidade cristã primitiva.

Os Apóstolos percebem o perigo e buscam ajudantes e colaboradores para o serviço da comunidade. Assim começa uma memorável evolução. A Igreja penetra no tempo e no espaço da história. 

Nenhuma comunidade está livre de tensões, por perfeita que pareça ser e por muito conjuntada que ela viva. Inclusive podemos dizer que as tensões são necessárias e ajudam a comunidade a crescer. Assim sucedeu na primitiva comunidade cristã. As queixas de um dos grupos deu origem a um melhor estudo da realidade. Apareceu a oportunidade de dividir as tarefas e responsabilidades.

Os apóstolos propõem aos discípulos para que a comunidade escolham sete homens para cuidar da administração e serviço aos pobres, pois eles passarão a ser dedicado exclusivamente à oração e à pregação do evangelho. Com o capítulo 6 do Livro dos Atos dos Apóstolos começa, então, um tema novo. Aparecem-nos as testemunhas para o serviço da caridade, os que depois foram os “diáconos”. Estas testemunhas, homens cheios do Espirito Santo e de sabedoria, são os sete primeiros colaboradores dos Apóstolos, com Estevão como chefe.

O texto da Primeira Leitura de hoje (At 6,1-7), através da mão de Lucas, quer nos mostrar o significado da autoridade na Igreja. E a autoridade é exercida de uma direção colegiada em vista de um serviço, diakonia, em favor da comunidade. Trata-se de uma exigência da comunidade que faz surgir uma nova estrutura de serviço. É uma novidade na Igreja primitiva. Com a instituição da diaconia, na Igreja Primitiva há três serviços na comunidade: o serviço da Palavra, o serviço da oração e o serviço de assistência ou solidariedade com os pobres.

Além disso, ao ler o relato dos sete colaboradores (sete diáconos) constatamos que algo mudou na comunidade cristã primitiva. A crise (entre os hebreus e os helenistas), bem conduzida, leva a uma descentralização: “Não está certo que nós deixemos a pregação da Palavra de Deus para servir às mesas”, disse o grupo dos Apóstolos. O motor dessa descentralização é uma exigência da fidelidade à missão apostólica na que tem de essencial: a oração e o serviço da Palavra. Esta oração apostólica e litúrgica, com o ensinamento, é um dos componentes básicos da comunidade cristã. Oração e serviço da Palavra são dois aspectos de uma mesma tarefa: a dedicação à Palavra de Deus, sem dualismo e sem subordinações desnecessárias. Mas os dois são completados com a assistência ou solidariedade com os pobres pela necessidade surgida na comunidade. É preciso ter o espírito de abertura para novas necessidades essencias da comunidade como aconteceu na Comunidade cristã primitiva.

Surge assim a instituição da “diakonia” (diaconia), o serviço da caridade ou a caridade feita serviço. A palavra grega que a Bíblia geralmente traduz como “servir” é DIAKONEIN, que significa o serviço à mesa. Isto significa que quem serve à mesa serve à vida, nutre o outro com vida, atrai vida para o outro. É despertar vida. É atrair vida nas pessoas. Servir é, portanto, algo vital, isto é, algo que tem a ver com a vida. Quando sirvo alguém, não me rebaixo, mas sirvo à vida e busca a chave para suscitar vida nas pessoas. A diakonia será uma das dimensões fundamentais da Igreja, junto ao culto e a Palavra.

O amor e o bom sentido cristão salvou a unidade e as diferenças. A comunidade elege e apresenta os eleitos, mas somente os Apóstolos impõem as mãos sobre os eleitos. A “imposição de mãos” é um rito sagrado e jurídico pelo qual se autoriza a exercer um serviço público na comunidade e também significa a comunicação do Espirito (Santo) ou força de Deus para exercer bem este serviço. Seguindo o exemplo de Moisés que impus as mãos sobre Josué, os rabinos ordenavam seus discípulos com o mesmo rito. Por certo que nesta ordenação, na qual se conferia o poder de ensinar e de julgar segundo a Lei, se requeria a presença de três rabinos que impuseram as mãos sobre um discípulo.

Vale a pena sublinhar que também neste caso a necessidade cria o órgão que a Igreja vai se organizando a partir de suas necessidades e que os novos ministérios são sempre novos serviços. Sobretudo é necessária sublinhar a participação da comunidade na designação (eleição) e apresentação de seus servidores.

Como é que uma comunidade resolve suas tensões? Será que desta tensões podem surgir um novo serviço ou causar apenas mais divisões?

Jesus Anda Sobre As Águas

O relato da caminhada de Jesus sobre as águas se encontra, curiosamente, entre a multiplicação dos pães (cf. Jo 6,1-15) e o discurso sobre o Pão da vida (Jo 6,26-66). O “sinal” da caminhada sobre as águas está estreitamente ligado com a multiplicação dos pães (cf. Jo 6.1-15). A multiplicação dos pães prepara a parte principal do discurso sobre o Pão da vida: “O verdadeiro pão de Deus, Sou Eu, é meu Corpo e meu Sangue... dados em alimento”, assim Jesus disse.

A caminhada sobre as águas inicia o final do discurso (Jo 6,60-71): nele aparece Jesus andando sobre as águas, mostrando seu domínio sobre a natureza. E isto é uma resposta às dificuldades dos que não aceitam o discurso de Jesus sobre o Pão de vida que é Ele próprio.

Ao cair da tarde, os discípulos desceram ao mar. Entraram na barca e foram em direção a Cafarnaum, do outro lado do mar. Já estava escuro, e Jesus ainda não tinha vindo ao encontro deles”.  Jesus fica só. Por que não embarcou com os discípulos? Parece que foi muito intencional da parte de Jesus. O evangelista João ao empregar determinado(s) termo(s) é porque tem algum valor. A “noite”, as “trevastêm um significado: Jesus está ausente. Onde Jesus estiver ausente ou for excluído as trevas começam a dominar a vida dos homens. Jesus é a Luz do mundo (Jo 8,12) e por isso, sua ausência significa a desorientação total. Sem a luz o ser humano vive apalpando. Através do mundo sensível o evangelista João sugere ou nos leva para o mundo espiritual. Tudo é símbolo. O evangelista João nos sugere que cultivemos nosso espírito de contemplação para captar o significado profundo das coisas e dos acontecimentos.

“Já estava escuro” ou “já era noite”, assim nos relatou o evangelista João. Esta noite era algo muito real. Mas, ao mesmo tempo, para o evangelista João “noite” significava a ausência de Jesus, Luz do mundo.

1. “Não Tenham Medo… Sou Eu”.       

Os discípulos tinham remado mais ou menos cinco quilômetros, quando enxergaram Jesus, andando sobre as águas e aproximando-se da barca. E ficaram com medo. Mas Jesus disse: “Sou eu. Não tenhais medo”.

Comentou são João Crisóstomo: “Apareceu aos discípulos para manifestar-lhes que Ele é Quem acalmaria a tempestade. Isto é indicado pelo evangelista quando acrescentou: Quiseram, então, recolher Jesus na barca, mas imediatamente a barca chegou à margem para onde estavam indo. Com efeito, concedeu-lhes uma viagem tranquila. E não subiu na barca, a fim de que o milagre fosse maior e de manifestar com maior evidência a sua divindade” (In Ioannem, hom. 42).

Consciente ou inconscientemente temos medo de algo ou de alguém. Em outras palavras, convivemos com o medo, ou melhor, com os medos. Não estamos errados em sentir medo, porque somos criaturas expostas a perigos e ameaças. Sentir medo é vivenciar a nossa condição de criatura. O medo é uma manifestação de nosso instinto fundamental de conservação. É a reação a uma ameaça para nossa vida, a resposta a um verdadeiro ou suposto perigo: desde o perigo maior, que é o da morte até os perigos particulares que ameaçam a tranquilidade física ou nosso mundo afetivo.

Existem medos justificados como também os injustificados ou patológicos. Os nossos medos são um sinal de alarme que podem nos ajudar a evitar o perigo. O imprudente geralmente suprime o medo e se atira inutilmente ao perigo. O covarde teme tudo, se paralisa e não se atreve a correr nenhum risco. Não podemos nos torturar aumentando os nossos medos com nossa fantasia. O homem sadio usa seus medos para agir prudentemente.

“Não tenham medo… Sou Eu!”. Cristo dirigiu muitas vezes este convite aos homens com os quais se encontrava. Esta frase foi dita pelo Anjo do Senhor a Maria: “Não tenhas medo, Maria” (Lc 1,30). Foi dita ao São José: “Não tenhas medo, José” (Mt 1,20), e assim por diante.

O evangelho ou a Palavra de Deus, a Palavra daquele que é maior do que a morte nos ajuda a libertar de todos os nossos medos, revelando o caráter relativo, não absoluto dos perigos que os provocam. Há algo de nós que ninguém nem nada no mundo possa nos tirar: trata-se da alma imortal: “Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma” (Mt 10,28ª).

De que não devemos ter medo? Não devemos ter medo da verdade sobre nós mesmos, sobre nossa vida, sobre nossas fraquezas, sobre nossos defeitos e limitações, sobre nossas dificuldades, sobre nossas incapacidades. Não podemos fingir como se fossemos super-homens. Somente uma pessoa forte é que capaz de reconhecer suas próprias fraquezas e pede, sem medo nem vergonha a ajuda dos que mais competentes na área.

2. Em Tudo Devemos Contar Com Jesus

Os discípulos navegam pela noite sem “a Luz do mundo” (Jesus). Confiados no poder e na força próprios, eles pensavam que pudesse controlar as circunstâncias. De fato, sua força é insuficiente. O mar que eles acreditam poder dominar se torna incontrolável. Nessa altura, normalmente vem a pergunta na cabeça: Onde está o Senhor? Acaso, Ele nos abandonou? O Senhor jamais abandona os seus mesmo que eles O abandonem: “Não temais! Sou Eu!”.

Quantas vezes cada um de nós quer fazer as coisas sozinho, à sua maneira e não como o Senhor quer. Quantas vezes cada um de nós caiu na tentação de pensar: “Sou uma pessoa forte e independente, posso tudo!”. Mas cedo ou tarde vai cair no fracasso. Lança-se, então, a pergunta: “Senhor, por que me abandonaste?”. Mas, na realidade, fui eu quem abandonou o Senhor; esqueci-me dele. Sem o Senhor, nada podemos fazer (cf. Jo 15,5). Mas com Ele não há nada que possa me separar dele (cf. Rm 8,31-39). Se caminharmos com o Senhor nesta vida, se vivermos em comunhão com Ele, a nossa vida será mais leve, pois o jugo do Senhor é suave e sua carga é ligeira (cf. Mt 11,30).

Como na pesca milagrosa, o texto do evangelho deste dia quer nos transmitir uma verdade de que sem Jesus é inútil qualquer esforço na missão e não haverá paz. Mas quando Jesus se aproxima, volta novamente a calma, e o trabalho resulta plenamente eficaz. É preciso colaborar com a graça de Deus para que ela possa operar em nós e através de nós para um trabalho frutífero.

3. Colaborar Com O Senhor A Partir De Nossas Condições

Não pedimos a Deus uma vida sem dificuldades, porque elas fazem parte de um verdadeiro crescimento. Não há crescimento sem dificuldades e obstáculos. Pedimos a Deus, sim, a força e a serenidade para encarar tudo na vida com ele. A partir do evangelho deste dia percebemos que a dificuldade não é um lugar vazio e desabitado, porque no meio da dificuldade está o Senhor. Ele está no centro da vida.  Tenhamos sagacidade para saber converter as dificuldades em lugar de encontro com Jesus, o Senhor que caminha sobre as águas dessas dificuldades. Basta escutá-lo em silêncio no meio do ruído do medo, e reconhecê-lo: “Não tenha medo, sou Eu”. E essas contrariedades serão esplêndida ocasião para o exercício contemplativo. Somente assim se produz o milagre.

Toda vez que celebramos a Eucaristia, o Ressuscitado se faz presente na comunidade reunida, nos é dada a Palavra salvadora e nos alimenta com o Pão da vida. É verdade que sua presença é sempre misteriosa como para os discípulos de então. Mas pela fé temos que saber ouvir a frase que tantas vezes se repete com suas variações na Bíblia: “Eu sou, não tenha medo!”. Com isso, de cada missa ganharemos mais ânimo e convicção para o resto da jornada, porque o Senhor nos acompanha, ainda que nós não O vejamos com os nossos olhos humanos. Por nossa vez, que se encarne na nossa vida a Palavra de Jesus: “Não tenha medo!”, isto é, que nossa presença não represente uma ameaça para os outros e sim a paz e a harmonia. Que não tiremos a alegria e o sucesso dos outros e sim que sejamos irmãos solidários com todos.

P. Vitus Gustama,svd

segunda-feira, 28 de abril de 2025

02/05/2025-Sextaf Da II Semana Da Páscoa

PARTILHAR O PÃO COM TODOS É UM ATO SAGRADO, POIS PROLONGA O ATO GENEROSO DE DEUS

Sexta-Feira da II Semana da Páscoa

Primeira Leitura: At 5,34-42

Naqueles dias, 34 um fariseu chamado Gamaliel, levantou-se no Sinédrio. Era mestre da Lei e todo o povo o estimava. Gamaliel mandou que os acusados saíssem por um instante. 35 Depois disse: “Homens de Israel, vede bem o que estais para fazer contra esses homens. 36 Algum tempo atrás apareceu Teudas, que se fazia passar por uma pessoa importante, e a ele se juntaram cerca de quatrocentos homens. Depois ele foi morto e todos os que o seguiam debandaram, e nada restou. 37 Depois dele, no tempo do recenseamento, apareceu Judas, o galileu, que arrastou o povo atrás de si. Contudo, também ele morreu e todos os seus seguidores se dispersaram. 38 Quanto ao que está acontecendo agora, dou-vos um conselho: não vos preocupeis com esses homens e deixai-os ir embora. Porque, se este projeto ou esta atividade é de origem humana será destruído. 39 Mas, se vem de Deus, vós não conseguireis eliminá-los. Cuidado para não vos pordes em luta contra Deus!” E os membros do Sinédrio aceitaram o parecer de Gamaliel. 40 Chamaram então os apóstolos, mandaram açoitá-los, proibiram que eles falassem em nome de Jesus, e depois os soltaram. 41 Os apóstolos saíram do Conselho muito contentes por terem sido considerados dignos de injúrias, por causa do nome de Jesus. 42 E cada dia, no Templo e pelas casas, não cessavam de ensinar e anunciar o evangelho de Jesus Cristo.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                               

Evangelho: Jo 6,1-15

Naquele tempo, 1Jesus foi para o outro lado do mar da Galileia, também chamado de Tiberíades. 2Uma grande multidão o seguia, porque via os sinais que ele operava a favor dos doentes. 3Jesus subiu ao monte e sentou-se aí, com seus discípulos. 4Estava próxima a Páscoa, a festa dos judeus. 5Levantando os olhos, e vendo que uma grande multidão estava vindo ao seu encontro, Jesus disse a Filipe: “Onde vamos comprar pão para que eles possam comer?” 6Disse isso para pô-lo à prova, pois ele mesmo sabia muito bem o que ia fazer. 7Filipe respondeu: “Nem duzentas moedas de prata bastariam para dar um pedaço de pão a cada um”. 8Um dos discípulos, André, o irmão de Simão Pedro, disse: 9“Está aqui um menino com cinco pães de cevada e dois peixes. Mas o que é isso para tanta gente?” 10Jesus disse: “Fazei sentar as pessoas”. Havia muita relva naquele lugar, e lá se sentaram, aproximadamente, cinco mil homens. 11Jesus tomou os pães, deu graças e distribuiu-os aos que estavam sentados, tanto quanto queriam. E fez o mesmo com os peixes. 12Quando todos ficaram satisfeitos, Jesus disse aos discípulos: “Recolhei os pedaços que sobraram, para que nada se perca!” 13Recolheram os pedaços e encheram doze cestos com as sobras dos cinco pães, deixadas pelos que haviam comido. 14Vendo o sinal que Jesus tinha realizado, aqueles homens exclamavam: “Este é verdadeiramente o Profeta, aquele que deve vir ao mundo”. 15Mas, quando notou que estavam querendo levá-lo para proclamá-lo rei, Jesus retirou-se de novo, sozinho, para o monte.

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Deus Se Serve De Vários Meios e Pessoas Para Revelar-Se

Quanto ao que está acontecendo agora, dou-vos um conselho: não vos preocupeis com esses homens e deixai-os ir embora. Porque, se este projeto ou esta atividade é de origem humana será destruído. Mas, se vem de Deus, vós não conseguireis eliminá-los. Cuidado para não vos pordes em luta contra Deus!” São palavras muitos sábias e inspiradoras do mestre Gamaliel cujo um dos seus discípulos era Paulo (At 22,3) que se converteu (At 9,1-19). Estas sábias palavras foram pronunciadas diante do Sinédrio que estava julgando os apóstolos presos por causa do anúncio de Jesus Ressuscitado.

Gamaliel (Heb. “Deus é minha recompensa”) além de fariseu era um reputado teólogo e doutor da Lei. Era um fariseu altamente educado e um mestre respeitado (At 5,34). Na literatura rabínica, é chamado de “Gamaliel, o Ancião” para distingui-lo de Gamaliel II, seu neto. Como lemos na Primeira Leitura, quando Pedro e outros apóstolos foram presos e levados para o julgamento, Gamaliel argumentou, em termos pragmáticos, que seria melhor libertá-los do que persegui-los, pois a nova “seita” desapareceria rapidamente se não fosse algo de Deus (At 5,34-39). Foi bem sucedido em seu apelo: os apóstolos foram trazidos de volta, açoitados e libertados.

As palavras de Gamaliel eram palavras de profecia. Até hoje as palavras de Jesus e o testemunho de sua ressurreição permanecem (cf. Mt 24,35). Logo é de Deus. Por isso, nenhuma perseguição pode desviar os seguidores de Cristo de seu maior alvo: ver homens e mulheres libertos para Jesus, o Deus que salva.

De Gamaliel aprendemos que devemos estar abertos para escutar o Senhor que nos fala através de qualquer pessoa que Ele escolheu livremente, como Gamaliel e lhe confiou a mensagem de salvação. Jamais podemos apagar o dom que Deus concedeu àqueles que Ele quis escolher livre e amorosamente. Não queiramos nos expor a lutar contra Deus que se revelou através de vários meios e pessoas. “Cuidado para não vos pordes em luta contra Deus!” é o recado de Gamaliel para nós todos. Aprendamos a viver e a conviver numa verdadeira comunhão fraterna, de tal maneira que Jesus Cristo e Sua Palavra sejam ocasião de união e não queiramos convertê-los em causa de divisão entre nós. Esforcemo-nos em buscar pontos de convergência que nos ajudem a fortalecer nossa união fraterna em torno do nosso único Senhor e Deus: Jesus Cristo. Anunciemos o Evangelho diariamente apesar de que os outros possam nos ameaçar e nos perseguir ou acabar com nossa vida por causa de Cristo e de seus ensinamentos cheios de amor.

Se nos encontrarmos com Cristo Ressuscitado e verdadeiramente nos alimentarmos d´Ele, então Sua vida estará em nós. A partir de nossa união com Cristo, abriremos nossos olhos diante da fome que padecem muitos irmãos nossos e nos esforçaremos em fazer algo em favor deles, a exemplo da multiplicação dos pães relatada no Evangelho deste dia. Não podemos guardar pães para nós enquanto há milhões de seres humanos que continuam sendo vítimas da fome, da desnudez, da injustiça, da falta de paz, vítimas da enfermidade, da perseguição injusta, da exploração e da escravidão. Oxalá que não sejamos nós próprios os que se convertem em destruidores da vida dos demais.

Se este projeto ou esta atividade é de origem humana, será destruído. Mas, se vem de Deus, vós não conseguireis eliminá-los”. É o grande conselho de Gamaliel. Este conselho nos ajuda diariamente diante das dificuldades que parecem insolucionáveis ou as batalhas que parecem perdidas. Com Deus sempre há solução, mesmo que até então aquela solução não compreendamos seu sentido. Muitas vezes somente mais tarde é que entenderemos o sentido de tudo que passou na nossa vida e na vida dos que amamos, como o próprio Senhor disse aos discípulos: “Muitas coisas ainda tenho a dizer-vos, mas não as podeis suportar agora. Quando vier o Paraclito, o Espirito da Verdade, ensinar-vos-á toda a verdade…” (Jo 16,12-13). O tempo e a ação do Espirito Santo são nossos mestres para captar o sentido de tudo que se passou e que se passa diariamente na nossa vida e ao nosso redor.

Para isso tudo, é preciso querer viver na Casa do Senhor, como rezamos no Salmo Responsorial deste dia: Ao Senhor eu peço apenas uma coisa, e é só isto que eu desejo: habitar no santuário do Senhor por toda a minha vida; saborear a suavidade do Senhor e contemplá-lo no seu templo (Sl 26). Mas o querer encontrar refúgio, consolo e apoio no Senhor não pode se converter, para nós, num sinal de fuga do mundo e do cumprimento de nossos compromissos temporais a partir de nossa vocação como batizados. Busquemos o Senhor para orar, para escutar Sua Palavra e para viver totalmente comprometidos no trabalho a favor de Seu Reino entre nós. Que o amor fraterno seja o motor principal de nossas ações e trabalhos.

Jesus é o Pão Partido e Repartido Para Nos Alimentar a Fim de Sermos o Mesmo Para Os Irmãos

Começamos hoje a leitura do famoso capítulo de São João que fala do discurso sobre o Pão da Vida. É uma verdadeira síntese teológica sobre a Eucaristia e sobre a fé. Neste capítulo teremos o relato de dois sinais (multiplicação dos pães e Jesus anda sobre as águas) seguido por um longo discurso de Jesus que expressa e prolonga o significado dos gestos de dois sinais prodigiosos (1. Multiplicação dos pães; 2. Jesus anda sobre as águas; 3. Discurso sobre o Pão da vida). A leitura de Jo 6 só terminará na III Semana da Páscoa.

O presente relato de Jo quer destacar o conhecimento sobre-humano de Jesus. Jesus aparece aqui como o Senhor. Desaparecem as marcas humanas como compaixão por uma multidão faminta que estava muito tempo sem comer (cf. Mc 6,34). Os sinóticos destacam mais a dimensão humanitária de Jesus do que sua dimensão divina como no quarto evangelho (evangelho de João). No evangelho de João toda a situação se desenvolve sob o controle de Jesus: ele sabe perfeitamente o que tem que fazer. Jesus tem a iniciativa em todo momento. Acentua-se a sua preocupação pelo homem para responder às suas necessidades mais profundas. O papel dos discípulos é reduzido.         

No Evangelho de João, como já sabemos, não se usa o termo milagre, mas sinal. Um sinal nos leva daquilo que vemos para aquilo que não vemos, do conhecido ao desconhecido, isto é, que evoca algo que está muito além de sua própria realidade. O que o evangelista João chama de sinais são os gestos de Jesus. São chamados de Sinais porque remetem a algo mais profundo, ao significado. Somos convidados a descobrir o que tem por além de cada gesto de Jesus e de cada personagem.

O evangelho de hoje fala da multiplicação dos pães. Os evangelistas falam repetidamente do milagre da multiplicação dos pães. O relato de João é importante e programática para compreender a pessoa de Jesus e, especificamente, o lugar que o binômio Fé e Eucaristia ocupa na comunidade cristã. 

Antes de relatar a multiplicação dos pães, o evangelista observa que “estava próxima a Páscoa” (Jo 6,4). É a festa a qual todos os judeus eram obrigados a subir a Jerusalém em peregrinação. A religião impunha a todo judeu adulto subir ao Templo três vezes ao ano para levar suas ofertas ao Senhor. Com Jesus tudo isso muda. Deus não aceita ofertas dos homens, mas é Ele Quem se oferece para que os homens tenham vida, e vida em abundância (Jo 10,10).  O evangelista relata que “muita multidão” não sobe ao Templo para sacrificar o cordeiro pascal e segue a Jesus, em quem reconhece o verdadeiro “cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29).

Logo no início do relato da multiplicação, ao ver a multidão, Jesus perguntou a Filipe: “Onde vamos comprar pão para eles comerem?” (v.5). Através desta pergunta o texto quer nos dizer que a primeira preocupação de Jesus é com a sobrevivência do povo. Misericórdia, compaixão, proximidade com as pessoas, são palavras fundamentais na vida de Jesus. É o que revela o texto tomado do Evangelho de João. Trata-se de um discurso e ação de Jesus que prepara ou anuncia aquele que depois será o Pão da Eucaristia: pão que chega a todos, alimenta a todos sem nunca esgotar-se, deixando sempre doze cestas simbólicas que falam da grandeza e da abundância de seu amor e vida compartilhada. Que haja em nós entranhas de amor, compaixão, caridade, como houve em todas as ações de Jesus, principalmente na distribuição do pão, seu Pão da Vida. Eduquemo-nos como membros de um lar, escola, sociedade, Igreja, que em toda parte ofereçam experiências de compaixão, solidariedade, amor aos necessitados. 

Jesus provoca seus seguidores, representado por Filipe a resolver a questão da fome do povo. Para Filipe a fome do povo não tem solução: “Duzentos denários de pão não seriam suficientes para que cada um recebesse um pedaço” (um denário é a diária de um lavrador: Mt 20,2, isto quer dizer que 200 dias de trabalho não são suficientes para alimentar tanta gente).

Surgiu André, o irmão de Pedro com uma solução: “Aqui há um menino que tem cinco pães de cevada e dois peixes”. André, que significa humano ou homem, representa a nova proposta diante da fome do povo. Pão de cevada e peixe eram a comida dos pobres (arroz e feijão para o povo brasileiro). Os ricos comiam o pão de trigo. O menino e os pães cevadas lembram o profeta do pão, Eliseu, no AT (2Rs 4,42-44).

A multidão, em todo caso, apesar de sua diversidade, tem algo em comum: a fome. Jesus quer responder a este problema, mas deixando-nos um ensinamento. Não se trata apenas de encher o estômago. Trata-se de fazer nascer a solidariedade, que é o milagre do futuro. A narrativa começa contrariando a abordagem tradicional e natural de que “para alimentar muita gente é preciso ter muito dinheiro”.

O menino neste relato tem generosidade de entregar seu pão e peixe. Ele não retém para si seu alimento nem pergunta de que ele se alimentará. Ele simplesmente entrega seus pão e peixe. O menino recorda, por isso, os pequenos que estão dispostos a servir e a partilhar os bens da vida, sem submetê-los à ganância. Ele representa todos aqueles que acreditam sempre na providência divina mesmo que estejam cercados pelas dificuldades, e continuam sendo generosos apesar do pouco que eles têm. Se trabalharmos realmente para Deus e por Deus em favor da humanidade, especialmente dos mais necessitados, o próprio Deus vai providenciar o necessário para nossa vida. Tenhamos fé n’Ele!

Jesus quer mostrar que o dinheiro não é tudo. Ele pega o pouco que os discípulos têm -alguns pães e alguns peixes-, abençoa e devolve a eles para que distribuam. Daqui, da entrega do que se tem, faz-se o milagre. O importante é “dar o que se tem”, partilhar. E há uma coisa que os pobres têm: esperança, sonhos, lições duras que a vida lhes deu.

E Jesus pega o pão e faz a oração de bênção e de agradecimento. Aqui ele não agradece ao menino que ofereceu os pães e sim a Deus. Esse detalhe é importante, pois coloca os bens que sustentam a vida dentro do projeto de Deus. Ao dar graças a Deus, Jesus está tirando os bens da vida das garras da ganância e do acúmulo para colocá-los no âmbito da partilha e da gratuidade. Aqui a bênção sobre o pão é o reconhecimento público da bondade de Deus. Ao agradecer a Deus pelo pão que se tem, Jesus nos ensina a colocarmos os bens que sustentam a vida dentro do projeto de Deus cuja alma é a partilha.

Dar graças a Deus significa reconhecer que algo que se possui é dom recebido de Deus. Nada criamos. Tudo é criado por Deus gratuitamente e nós usufruímos tudo gratuitamente. O preço dessa gratuidade vinda de Deus deve ser a bondade praticada por nós. Dar graças a Deus pelos bens que temos significa reconhecer sua origem última em Deus e que quem os possui é apenas um administrador encarregado de colocá-los à disposição dos irmãos mais necessitados com a mesma gratuidade com que Deus os criou e com que o homem os recebeu de Deus. O sinal operado por Jesus, o pão partilhado, consiste precisamente em libertar a criação do egoísmo que esteriliza a humanidade para que se converta em dom de Deus para todos. Ao restituir a Deus, com sua ação de graças, os bens da comunidade, Jesus restaura seu verdadeiro destino, que é a humanidade inteira. Com sua ação, Jesus ensina seus discípulos e todos os cristãos sobre qual é a missão da comunidade: a de manifestar a generosidade do Pai que criou tudo de graça, compartilhando os dons que d’Ele recebemos.

Jesus saciou concretamente o povo faminto a partir de uma realidade terrestre, e retirou-se, depois, da multidão. O pão que ele fornece não é somente o símbolo do pão sobrenatural, pois não é possível revelar o Pão da Vida eterna sem se engajar verdadeiramente nas tarefas da solidariedade humana, na partilha dos bens para aqueles que não os têm, nem o mínimo. Os pobres e os miseráveis são o teste por excelência da qualidade de nossa caridade. Segundo Santo Agostinho, os pobres que ajudamos na terra vão bater a porta do céu para podermos entrar nele. Na verdade, os necessitados nos transformam em pessoas mais humanas através da partilha que fazemos. Fica o gesto de amor de Jesus no ato de compartilhar o pão, e a nossa tarefa é de continuar esse gesto ao longo da história.

Comentou Santo Hilário: “Oferecem-se cinco pães à multidão, os quais são partidos. Passavam para as mãos que os partiam como que rebentos dos pedaços, sem que diminuisse o pão que era partido. E, no entanto, os pedaços enchiam as mãos que os partiam. Nem a visão, nem nenhum sentido podia acompanhar aquela operação. Vem a existir o que não existia, vê-se o que não se compreende, e resta somente crer que Deus pode todas as coisas” (De Trinitate, 1,3).

Na eucaristia recebemos o pão da vida eterna. Mas somente existe verdadeira recepção desse pão da vida, quando estamos dispostos a partilhar o que temos e somos para com os necessitados. Ninguém pode reter para si o pão num egoísmo desenfreado enquanto que os outros estão carentes dele. Quando muitos morrem por falta de pão, não é porque Deus deixa de faltar o trigo, e sim porque nós deixamos que falte o amor; porque nós deixamos o egoísmo dominar nossa vida. Em cada pão partilhado ou dado com o amor, o egoísmo é esmagado. Em cada pão partilhado com amor há um gesto sagrado, pois Deus está presente nesse gesto de partilha que é a alma do projeto de Deus. Deus faz festa quando um coração sabe amar, partilhando com o irmão necessitado o pão que se tem. Por isso, que estejamos atentos para que a nossa prática religiosa não seja mais importante do que o próprio Deus e Sua imagem que é o nosso próximo que espera de nós um gesto de bondade. Recebemos o Corpo de Cristo na Eucaristia para que nós sejamos vida para o próximo. Se não, a Eucaristia careceria de sentido. Ao partilhar o que eu tenho para quem não o tem expressa minha riqueza interior. Somente dá-se aquilo que se tem.

P. Vitus Gustama,svd

21/01/2026- Quarta-feira Da II Semana Do TComum

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