sexta-feira, 16 de outubro de 2026

XXIX Domingo Do Tempo Comum, Ano "A", 18/10/2026

DEUS É SOBERANO E NÓS SOMOS IMAGEM DE DEUS E SUA SEMELHANÇA NESTE MUNDO

XXIX DOMINGO DO TEMPO COMUM “A”

Primeira Leitura: Is 45,1.4-6

1Isto diz o Senhor sobre Ciro, seu Ungido: “Tomei-o pela mão para submeter os povos ao seu domínio, dobrar o orgulho dos reis, abrir todas as portas à sua marcha, e para não deixar trancar os portões. 4Por causa de meu servo Jacó, e de meu eleito Israel, chamei-te pelo nome; reservei-te, e não me reconheceste. 5Eu sou o Senhor, não existe outro: fora de mim não há deus. Armei-te guerreiro, sem me reconheceres, 6para que todos saibam, do oriente ao ocidente, que fora de mim outro não existe. Eu sou o Senhor, não há outro”.

Segunda Leitura:1Ts 1,1-5b

1Paulo, Silvano e Timóteo, à Igreja dos tessalonicenses, reunida em Deus Pai e no Senhor Jesus Cristo: a vós, graça e paz! 2Damos graças a Deus por todos vós, lembrando-vos sempre em nossas orações. 3Diante de Deus, nosso Pai, recordamos sem cessar a atuação da vossa fé, o esforço da vossa caridade e a firmeza da vossa esperança em nosso Senhor Jesus Cristo. 4Sabemos, irmãos amados por Deus, que sois do número dos escolhidos. 5bPorque o nosso Evangelho não chegou até vós somente por meio de palavras, mas também mediante a força que é o Espírito Santo; e isso, com toda a abundância.

Evangelho: Mt 22,15-21

Naquele tempo, 15 os fariseus fizeram um plano para apanhar Jesus em alguma palavra. 16 Então mandaram os seus discípulos, junto com alguns do partido de Herodes, para dizerem a Jesus: “Mestre, sabemos que és verdadeiro e que, de fato, ensinas o caminho de Deus. Não te deixas influenciar pela opinião dos outros, pois não julgas um homem pelas aparências. 17 Dize-nos, pois, o que pensas: É lícito ou não pagar imposto a César?” 18 Jesus percebeu a maldade deles e disse: “Hipócritas! Por que me preparais uma armadilha? 19 Mostrai-me a moeda do imposto!” Levaram-lhe então a moeda. 20 E Jesus disse: “De quem é essa imagem e a inscrição desta moeda?” 21 Eles responderam: “De César”. Jesus então lhes disse: “Devolve pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”.

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Deus É Soberano

O tema que parece conferir unidade às leituras deste domingo é a soberania e o senhorio do Senhor. A Primeira Leitura nos apresenta Ciro, rei da Pérsia que governou entre os anos 550 a 530 a.C., e o designa com o título elevado de "ungido do Senhor". De fato, Ciro realizou feitos notáveis ​​em favor de Israel: pôs fim à deportação para a Babilônia, a partir de 538 os israelitas começaram a voltar para a própria pátria, restituiu os objetos de ouro e prata que haviam sido confiscados de Jerusalém por Nabucodonosor, e promulgou o decreto para a reconstrução do Templo de Jerusalém.

O livro de Isaías interpreta esses acontecimentos históricos à luz da soberania de Deus. O Senhor conduz os rumos da história; Ele é o Senhor, e não há outro. Israel compreendeu que o Senhor não é apenas o único Deus de Israel, mas, de fato, o único Deus existente: “Eu sou o Senhor, não há outro”. (1ª Leitura).

O Evangelho narra um encontro muito significativo entre Jesus e os enviados dos fariseus e alguns do partido de Herodes. Estes preparam uma armadilha para Jesus, na tentativa de fazê-lo cair. Apresentam-lhe um dilema, aparentemente insolúvel: “É lícito ou não pagar imposto a César? ”.

Uma pergunta insidiosa. A armadilha foi bem pensada, porque qualquer resposta que Jesus desse, complicaria para ele. Se falasse que não é lícito, Jesus se colocaria contra o poder do império romano, e poderia ser preso. Se respondesse que o imposto é lícito, não só legitimaria a opressão romana, como trairia o povo que sonhava com a independência.

Além disso, o grupo enviado tinha posições opostas sobre o imposto. Para os fariseus, pagar o imposto era um pecado de idolatria, pois César se dizia deus, e a própria moeda trazia seus atributos divinos. Na moeda em questão, de fato, está escrito: Tiberius Caesar Divi Augusti Filius, Augustus (Tibério César, filho do Divino Augusto, Augusto).  Havia, inclusive, entre os fariseus, um grupo radical, chamado zelotas, que combatiam o imposto pela luta armada.

Já os partidários de Herodes defendiam o imposto, porque recebiam altos salários, vindos justamente desses impostos. Para os herodianos, pecado era não pagar o imposto.

Diante da pergunta cheia de ciladas dos seus adversários Jesus diz: “´De quem é esta imagem e a inscrição desta moeda?’ Eles responderam: ‘De César”’.

Depois Jesus oferece uma resposta que surpreende a todos — adversários e discípulos: “Devolva a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Com essas palavras, Jesus não apenas confunde seus adversários, mas também nos ensina o que devemos oferecer a Deus. Ele nos mostra que devemos dar a Deus tudo o que Lhe cabe como Criador e como Senhor da vida e da história e de toda a eternidade. As palavras de Jesus estão repletas de sabedoria divina; mostram-nos quão grande e sagrada é a vida humana, pois ela pertence ao Deus Criador. Instruem-nos sobre o único modo que o homem tem de realizar plenamente a sua humanidade: dando a Deus o que Lhe pertence, oferecendo-Lhe uma homenagem e uma oblação da própria vida, e vivendo na plena doação de si mesmo aos outros, especialmente aos irmãos mais necessitados.

Somos Imagem e Semelhança De Deus

“Devolva a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.

Devemos dar a cada um o que lhe é devido. A sabedoria de Jesus nos ensina que há duas formas de poder: uma é o poder terrestre e humano; outra é o poder do céu e divino. Ensina-nos que devemos observar duas obediências: às leis humanas e às leis divinas. Devemos pagar a César a moeda que contém a sua imagem e a inscrição de César, e a Deus o que foi selado com o selo da Sua imagem e semelhança. Nós fomos criados à imagem e a semelhança de Deus. Cada um de nós é a “moeda” do tesouro divino, uma “moeda” que contém a imagem e a inscrição do Imperador divino, Imperador dos imperadores. Por isso, a pergunta que cada um de nós deve fazer é esta: “De quem é esta imagem e esta inscrição que sou eu?”. Sem dúvida nenhuma, cada um deve responder: “De Deus”. Se em mim está a inscrição divina e que sou imagem e semelhança de Deus, por que, então, eu não dou a Deus o que é d´Ele.

Se queremos ser verdadeiramente a imagem de Deus, devemos assemelhar-nos a Cristo, pois Ele é a “imagem” da bondade de Deus e a impressão do Seu ser. E Deus nos destinou a ser imagens do Seu Filho.

“Façamos o homem à nossa imagem, à nossa semelhança” (Gn 1,26). Deus, o Todo-poderoso, o Invisível, o Incompreensível, o Inestimável, formando o homem do barro, enobreceu-o com a imagem da sua própria grandeza. Mas o que há de semelhança entre o homem e Deus, entre o barro e o espírito? Deus é espírito. Deus soprou no homem o próprio hálito e surgiu o homem, imagem e semelhança de Deus. Então, é um magnífico sinal do seu amor pelo homem o fato de que Deus o agraciou com a imagem da Sua eternidade e semelhança da sua própria vida. A grandeza do homem consiste na sua semelhança com Deus, com a condição de que ele a conserve. Por isso, na medida em que o homem usar retamente as virtudes plantadas nele, ele será semelhante a Deus. Deus nos pede que, antes de tudo, amemos a Deus com todas as nossas forças, porque Ele nos amou primeiro, desde o princípio, antes de sequer existirmos. Amar a Deus é, então, renovar a Sua imagem em nós.

Somos Chamados a Ser Servos De Deus a Exemplo de Ciro, Rei Da Pérsia

“Por causa de meu servo Jacó, e de meu eleito Israel, chamei-te pelo nome; reservei-te, e não me reconheceste”. (Is 45,4)

“Chamei-te pelo teu nome, ainda que não me conhecesses”: Estas palavras, da primeira leitura, extraídas do livro de Isaías, referem-se aos feitos de Ciro em favor de Israel. O profeta vê tudo o que Ciro realizou como parte de um chamado divino; enxerga nele não apenas o rei da Pérsia, mas o ungido do Senhor, isto é, vê nele um instrumento humano a serviço dos desígnios do Deus da história.

Daqui decorrem algumas implicações teológicas importantes: o Senhor não força o livre-arbítrio do rei; contudo, sem que este se dê conta exatamente, Ele guia os seus passos: “Chamei-te pelo teu nome, ainda que não me conhecesses”. Demonstra-se, assim, a iniciativa de Deus na escolha dos seres humanos para salvar outros seres humanos que são filhos e filhas de Deus também.

É Deus quem, primeiramente, vem ao nosso encontro. É Ele, rico em amor e misericórdia, quem não se esquece de nós. Não se esquece daquela criatura que Ele mesmo criou no início dos tempos, mas que d’Ele se afastou por causa do pecado. É Deus quem, com entranhas de uma mãe, sente ternura pelos seus filhos e filhas.

Por outro lado, convém sublinhar a importância da mediação da criatura. Ao afirmarmos que Deus é o protagonista principal, não podemos ignorar o papel de intermediários que os seres humanos desempenham no desenrolar da história. Na verdade, não são os homens que, por suas qualidades, se lançam ao cumprimento de uma missão; é, antes, a missão dada por Deus que os transforma em pessoas capazes de levar adiante essa tarefa.

Esse modo de agir de Deus repete-se na história de cada ser humano: "Eu te chamei pelo teu nome... embora tu não me conhecesses". Ao nos chamar pelo nome, o Senhor revela seus pensamentos de bondade para conosco, pois os pensamentos de Deus são de paz e não de aflição, de união e não de divisão, de fraternidade e não de inimizade. Nosso nome, pronunciado de forma doce e firme por Deus, adquire sentido e um valor transcendente. Nossa pequena vida, em certo sentido, tornou-se sagrada desde o dia em que Deus pronunciou o nosso nome.

Contudo, muitas vezes, tem-se a impressão de que não conhecemos bem ainda o Senhor; parece que, embora Deus pronuncie o nosso nome, não sabemos quem Ele é, nem quais são os seus planos e intenções sobre nossa vida. Caminhamos pela vida com desconfiança, diante do mal que existe ao nosso redor e dentro de nós mesmos. Caminhamos temerosos diante da perplexidade da situação e diante da perspectiva da morte, da inevitável transitoriedade do mundo e das criaturas, e da ação das forças do mal. É, portanto, necessário, mais do que nunca, ouvir Deus que pronuncia o nosso nome com amor, mas também com autoridade. Ele nos confere um título, coloca-nos de pé e nos dá uma tarefa a realizar. Ele vence o mal com o bem e faz de nós instrumentos do bem, tal como fez com Ciro.

Nosso Senhor é o Único Deus

“Eu sou o Senhor, não há outro”.

Devemos reconhecer que o Senhor é Deus e que não há outro além d´Ele. Reconhecer que Ele tem em suas mãos os fios da história e que o seu poder e a sua bondade já atuam, ainda que de modo misterioso, neste mundo, preparando-o para a sua transformação final. Somente em Cristo alcançamos a plena realidade do "ungido do Senhor": aquele que liberta definitivamente o seu povo da escravidão, da morte e do pecado. Em Cristo, conhecemos a bondade do Pai, pois Ele nos revela a face amorosa do Pai.

Se Deus é o Senhor, o único Deus, e não há outro, cabe ao homem, a cada um de nós, louvá-Lo, agradecer-Lhe, pedir-Lhe dons e solicitar o Seu perdão.

O louvor a Deus deve estar sempre em nossos lábios, porque Ele é Deus e nós somos as Suas criaturas. O fim da nossa existência é louvar e glorificar a Deus, pois Ele é o Senhor digno de todo louvor. São tantos os benefícios de Deus para com o homem que o louvor brota espontaneamente de nossos lábios. “Como poderei retribuir ao Senhor todo o bem que Ele me fez? Elevarei o cálice da salvação e invocarei o nome do Senhor”. (Sl 116,12s). Visto que fomos criados à imagem de Deus, a nossa vida não deveria ser outra coisa senão um cântico de louvor ao Senhor pelo Seu imenso amor. Santo Agostinho dizia: "Assim como César exige a sua imagem na tua moeda, da mesma forma Deus exige a sua própria imagem na tua alma. 'Dai a César', diz Ele, 'o que é de César'. O que César exige de ti? A sua própria imagem. O que o Senhor exige de ti? A sua própria imagem. Mas a imagem de César está na moeda; a imagem de Deus, por sua vez, está em ti mesmo. Se choras ao perder a moeda, porque perdeste a imagem de César, não deverias chorar quando adoras ídolos, visto que eles ultrajam em ti a imagem de Deus?"

“Devolva a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. O homem e a mulher foram criados à imagem e à semelhança de Deus. Como Imagem de Deus nenhuma pessoa humana pode ser usada e abusada, explorada e alienada em nome do poder mundano, e do prazer passageira. Uma pessoa humana é um ser cheio de dignidade, pois nele habita o próprio Deus (cf. 1Cor 3,16-17). A consciência de ser a Imagem de Deus torna o cristão responsável para defender o irmão quando sua dignidade é pisada ou explorada em nome dos bens materiais ou do poder mundano. É necessário que nós nos encharcemos de Deus, para que possamos levar dentro de nós "o que é de Deus" e isso nos marca toda a vida.

Pe. Vitus Gustama,SVD

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