terça-feira, 8 de maio de 2018

10/05/2018
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DEUS CONTINUA A ESTAR CONOSCO ATÉ O FIM
Quinta-Feira da VI Semana da Páscoa

Primeira Leitura: At 18,1-8
Naqueles dias, 1 Paulo deixou Atenas e foi para Corinto. 2 Aí encontrou um judeu chamado Áquila, natural do Ponto, que acabava de chegar da Itália, e sua esposa Priscila, pois o imperador Cláudio tinha decretado que todos os judeus saíssem de Roma. Paulo entrou em contato com eles. 3 E, como tinham a mesma profissão – eram fabricantes de tendas –, Paulo passou a morar com eles e trabalhavam juntos. 4 Todos os sábados, Paulo discutia na sinagoga, procurando convencer judeus e gregos. 5 Quando Silas e Timóteo chegaram da Macedônia, Paulo dedicou-se inteiramente à Palavra, testemunhando diante dos judeus que Jesus era o Messias. 6 Mas, por causa da resistência e blasfêmias deles, Paulo sacudiu as vestes e disse: “Vós sois responsáveis pelo que acontecer. Eu não tenho culpa; de agora em diante, vou dirigir-me aos pagãos”. 7 Então, saindo dali, Paulo foi para a casa de um pagão, um certo Tício Justo, adorador do Deus único, que morava ao lado da sinagoga. 8 Crispo, o chefe da sinagoga, acreditou no Senhor com toda a sua família; e muitos coríntios, que escutavam Paulo, acreditavam e recebiam o batismo.


Evangelho: João 16, 16-20
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 16“Pouco tempo ainda, e já não me vereis. E outra vez pouco tempo, e me vereis de novo”. 17 Alguns dos seus discípulos disseram então entre si: “O que significa o que ele nos está dizendo: ‘Pouco tempo, e não me vereis, e outra vez pouco tempo, e me vereis de novo’, e: ‘Eu vou para junto do Pai?’”. 18 Diziam, pois: “O que significa este pouco tempo? Não entendemos o que ele quer dizer”. 19 Jesus compreendeu que eles queriam interrogá-lo; então disse-lhes: “Estais discutindo entre vós porque eu disse: ‘Pouco tempo e já não me vereis, e outra vez pouco tempo e me vereis?’ 20 Em verdade, em verdade vos digo: Vós chorareis e vos lamentareis, mas o mundo se alegrará; vós ficareis tristes, mas a vossa tristeza se transformará em alegria”.
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É Preciso Ser Colaborador Da Palavra de Deus Para Que Todos Conheçam o Caminho Da Salvação


O texto da Primeira Leitura de hoje se encontra no conjunto dos relatos da Terceira e última viagem missionária de Paulo (At 18,1-19,20). Nesta terceira viagem missionária a concentração recai sobre dois centros urbanos: o Corinto na Grécia e Éfeso, na Ásia Menor. Estas duas cidades são centros internacionais que se caracterizam pela riqueza de seu comercio e a vitalidade cultural e religiosa.


Em Corinto Paulo se encontrará com a autoridade central romana, o procônsul Galião (At 18,12-17) através do qual o cristianismo receberá um reconhecimento público, graças a este procônsul. A fundação da comunidade de Corinto para São Paulo é um posto estratégico avançado para o desenvolvimento posterior no mundo ocidental cuja capital é Roma. Corinto é uma cidade muito importante da Grécia e a sede do governador romano. Nesta cidade internacional (Corinto) São Paulo consegue implantar uma das comunidades cristãs mais vivas e sólidas. Os cônjuges Áquila e Priscila, em cuja casa São Paulo se aloja que são colegas de trabalho, se tornarão também os missionários colaboradores de São Paulo na comunidade de Éfeso (cf. At 18,18-19; 1Cor 16,19; Rm 16,3). Em Corinto São Paulo ficou um ano e meio, entre os anos 49 e 51.


Diferentemente de Corinto, em Éfeso, onde se encontram os escritos mágicos, o cristianismo entrará em choque com a ambiguidade religiosa (At 19,11-20). Geralmente, onde há ambiguidade religiosa, há também o sincretismo. O sincretismo é uma confluência de vários elementos religiosos heterogêneos (divindades, doutrinas, ritos, etc.), sua incorporação a uma forma religiosa distinta da sua procedência e seu desenvolvimento conjunto. Muitas vezes, essa assimilação de diversos elementos religiosos pela nova religião é uma prática com fins oportunistas, isto é, praticar duas religiões simultaneamente para ficar bem com as duas. Portanto, há ausência de uma posição precisa. Por exemplo, uma pessoa vai a Igreja por medo do inferno. Mas ela tem que praticar alguns ritos culturais para que os antepassados não fiquem com raiva dela quando não lhes der alguma oferenda.


Nestes ambientes novos São Paulo vai descobrindo novos métodos para evangelizar. Ele prega não somente no local religioso (sinagoga), mas também no local “profano”, aberto para todos.


É impressionante a habilidade de São Paulo em ter e criar colaboradores na evangelização. Ele não é um lutador solitário. É por isso que as comunidades sobrevivem, pois as próprias comunidades através de seus líderes criados por São Paulo mantém as comunidade vivas. Não é por acaso que mais tarde São Paulo escreverá aos coríntios: “O corpo não é feito de um só membro, mas de muitos... Há, portanto, muitos membros, mas um só corpo. O olho não pode dizer à mão: ‘Não preciso de você’; e a cabeça não pode dizer aos pés: ‘Não preciso de você’ ... Se um membro sofre, todos os membros participam do seu sofrimento; se um membro é honrado, todos os membros participam de sua alegria. Ora vocês são o corpo de Cristo e são membros dele, cada um no seu lugar” (cf. 1Cor 12,14.20-21.26-27). Dependemos dos outros todos os dias. Sem os outros morreríamos imediatamente. Por natureza o ser humano é um ser vincular; é um ser em relação. Somos o outro dos outros. Não podemos nem conseguimos impedir nossa relação com os demais. É atitude egoísta e ignorante afirmar que não precisamos de ninguém! Essa autossuficiência orgulhosa que queremos ter é sinal de fraqueza, pois sabemos muito bem que somos fortes somente no grupo e com o grupo, na comunidade e com a comunidade. O crescimento da comunidade também depende de mim e de você juntos.


Além disso, São Paulo apesar das contínuas decepções e perseguições, jamais larga sua missão de evangelização. Onde está o segredo de sua perseverança? São Paulo é um homem que se deixa guiar totalmente pelo Espirito de Deus. Viver de acordo com o Espirito de Deus torna São Paulo um homem in cansável na evangelização. Ele chegou a escrever: “Anunciar o Evangelho não é glória para mim; é uma obrigação que se me impõe. Ai de mim, se eu não anunciar o Evangelho!” (1Cor 9,16). Um pensador nos deu o seguinte conselho: “Se quiser triunfar na vida, faça de perseverança, a sua melhor amiga; da experiência, o seu sábio conselheiro; da prudência, o seu irmão mais velho, e da esperança, o seu anjo da guarda” (Joseph Addison, um poeta e ensaísta inglês, 1672 -1719).


Com o Salmo Resposnsorial (Sl 97/98) cantamos ao Senhor que revela às nações Sua vitória, como lemos na Primeira Leitura de hoje. Também nos alegramos com essa vitória e dizemos: “Cantai ao Senhor Deus um canto novo, porque ele fez prodígios! Sua mão e o seu braço forte e santo alcançaram-lhe a vitória. O Senhor fez conhecer a salvação, e às nações, sua justiça; recordou o seu amor sempre fiel pela casa de Israel. Os confins do universo contemplaram a salvação do nosso Deus. Aclamai o Senhor Deus, ó terra inteira, alegrai-vos e exultai!”.


Além disso, elevemos ao Senhor, Deus e Pai Nosso, um cântico novo nascido da boca daqueles que foram renovados em Cristo. Louvemos ao Senhor com nossas obras, pois com elas estamos indicando que, na verdade, somos seus filhos. Deus se levantou vitorioso sobre seus inimigos. Em Jesus Cristo, Seu Filho e Senhor nosso, foi vencida a antiga serpente ou Satanás. Mas enquanto estivermos neste mundo não somos isentos de qualquer tentação. Por isso, devemos confiar sempre nossa vida em Deus, para que a Vitória de seu Filho seja nossa, e para que seu Espirito Santo nos fortaleça e possamos nos coverter num contínuo louvor de seu Santo Nome. Que a terra inteira contemple a vitória de nosso Deus de uma Igreja que, consciente de estar formada por pecadores, vive num constante conversão até chegar a sua perfeição em Cristo Jesus.


“Acredito em tua vitória, Senhor, como se ela já tivesse sido alcançado, e luto por ela na linha de frente como se ela ainda precisasse ser vencida pelo teu poder e pelos meus esforços. Tu proclamaste a tua vitória diante do mundo inteiro e eu creio em tua palavra e difundo a tua proclamação com total confiança, diante de todas as dúvidas e de todos os ataques. ... A tua vitória está aqui porque tu estás aqui, tu pisaste na terra e falaste a língua do homem, tu passaste pela experiência de suas penas e proclamaste e realizaste a sua redenção. Faze-me provar a tua vitória na minha alma, para que eu a proclame com a boca” (Carlos G. Vallés: Busco Tua Face, Senhor, Ed. Loyola 1997).


O Deus Em Quem Acreditamos É o Deus-Conosco!


O texto do evangelho lido neste dia pertence ao conjunto do discurso de despedida de Jesus de seus discípulos no evangelho de João (Jo 13-17). Ao ter consciência de sua iminente partida deste mundo (morte) Jesus dá alguns conselhos para seus discípulos que vão continuar a missão de Jesus como seus enviados ou missionários neste mundo (Jo 20,21).


No texto de hoje Jesus quer transmitir aos discípulos algumas certezas para a caminhada neste mundo. Em primeiro lugar, Jesus afirma conscientemente a certeza do término de sua vida terrena eminentemente. Cada história tem seu início como também tem seu término. Assim também a vida de Jesus na terra. A vida na história tem seu começo, sua duração e também tem seu fim. Para cada ser humano tem seu nascimento, também tem sua morte (cf. Eclesiastes 3,1-8). A idade sempre aumenta em cada segundo, pois o tempo não pára. A idade sempre aumenta e nunca diminui, mas pode também terminar em qualquer segundo. Tudo é para frente. Não há parada, pois a vida nos empurra por dentro. Estamos sempre em permanente viagem ou caminhada, mesmo que estejamos dormindo. Até as palavras ditas passam no tempo ou viram passado em segundos. Cada um vai criar seu caminho e sua própria história neste mundo. E o fim depende das opções feitas entre dois extremos: entre o início e o fim. O espaço dado a mim é o espaço entre o nascimento e a morte. Vou usar este espaço para o bem ou para o mal. Tudo depende de mim. Eu não tenho outro espaço. Além deste espaço (antes do nascimento e depois da morte) não tenho nenhuma competência. A maneira como eu vivo nesses dois extremos vai determinar de que modo vou terminar minha história.


Jesus não somente fala da certeza do término de sua vida terrena, mas também da certeza de sua glorificação ou de sua ressurreição. Por isso, ele afirma: “Eu vou para junto do Pai”. O Deus revelado por Jesus em quem acreditamos é o Deus do bem e por isso, é o Deus da vida que jamais termina (cf. Mt 22,31-32). Praticar o bem, viver o amor fraterno significa viver para sempre. A morte servirá apenas de passagem. “A vida não é tirada, mas transformada”, disse um dos prefácios da missa pelos falecidos.


Por que Jesus tem tanta certeza da comunhão plena com o Pai? Por que essa certeza? Porque a vida de Jesus foi dedicada somente para o bem de todos. Ora, quem se dedica a vida somente para o bem de todos, mesmo sem saber, ele está em plena sintonia com Deus.  A vida de Jesus é vivida de acordo com o Plano ou a vontade de Deus. E a vontade de Deus se resume no amor: “Deus amou tanto o mundo que lhe deu seu Filho para que todo o que nele crer tenha a vida eterna” (Jo 3,16). A partir de Deus o mundo é governado por amor e no amor. A única lei que rege a vida de qualquer cristão é a lei do amor fraterno: “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (Jo 13,35). O amor é o único meio capaz de convencer e converter até os ateus. Nada compromete tanto como o amor, e ninguém é tão livre como aquele que ama. o amor é que nos leva para junto do Pai celeste. Mas trata-se do amor sem motivo conhecido como ágape, isto é, o amor direcionado somente para o bem sem esperar recompensa de quem é beneficiado por esse amor.


A certeza da comunhão plena com o Pai por ter vivido uma vida de acordo com a lei do amor faz com que Jesus tenha outra certeza: a sua nova presença no meio dos seus discípulos. Por isso, ele afirma: “E outra vez pouco tempo, e me vereis de novo”. O amor possibilita uma presença eterna mesmo que aquele que é amado não esteja presente fisicamente. O amor é eterno, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16), mas as caricaturas do amor não duram. O amor não pode morrer, pois é o nome próprio de Deus. A morte é incapaz de eliminar a morte. Um dia a morte cessará, mas o amor é inextinguível, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). Com a certeza do amor que não morre nós acreditamos que os nossos entes-queridos que nos precederam deste mundo continuam em plena comunhão conosco, com Cristo com sua Igreja que somos todos.


Por causa desse amor eterno é que Jesus nos garante: “Vós ficareis tristes, mas a vossa tristeza se transformará em alegria”. A fé não nos faz contornarmos nossa tristeza. A fé nos dá forças para atravessar nossa tristeza com a certeza de que Deus nos ama e nós amamos a Deus e cremos no Seu amor. O encontro do meu amor por Deus e do amor de Deus por mim resulta numa força tremenda capaz de superar aquilo que humanamente é impossível. “Vós ficareis tristes, mas a vossa tristeza se transformará em alegria”, garante-nos o Senhor.


“Vossa tristeza se transformará em alegria”. Os discípulos experimentaram a inquietude. A mesma inquietude dos primeiros discípulos, que se expressa profundamente nas palavras de Jesus (Jo 16,16) concentra ou resume a tensão de nossas inquietudes de fé, de busca de Deus em nossa vida cotidiana. Como os cristãos do primeiro século, necessitamos experimentar a presença do Senhor em meio de nós para reforçar nossa fé, esperança e caridade. Sem perceber podemos experimentar Deus em toda a beleza, em todo o gesto de amor, no bem praticado, no perdão dado, na pessoa que nos ajuda e nos anima, no coração que sabe amar e perdoar, no palpitar intacto de cada novo ser, na vida que não termina com a morte. Afinal, em tudo que é a expressão do amor, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). Deus nos toca em cada gesto de amor e tocamos ou experimentamos o próprio Deus em cada gesto de amor que praticamos. “Experimentar Deus não é pensar sobre Deus. É sentir Deus a partir do coração puro e da mente sincera. Experimentar Deus é tirar o mistério do universo do anonimato e conferir-lhe um nome, o de nossa reverência e de nosso afeto” (Leonardo Boff).


“Vossa tristeza se transformará em alegria” é o recado de Jesus para cada um de nós. Tenhamos certeza dessa palavra, pois ela saiu da boca do Senhor. Deus sempre prepara o melhor no fim para quem é perseverante no bem ou na vivencia do amor fraterno. O vinho melhor aparece no fim (cf. Jo 2,10). Vivamos perseverantes no Senhor para alcançar, no fim, algo melhor ou maravilhoso para nossa vida e salvação!
P.Vitus Gustama, SVD
09/05/2018
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O ESPÍRITO DA VERDADE E SEU PAPEL NA VIDA DOS CRISTÃOS
Quarta-Feira da VI Semana da Páscoa


Primeira Leitura: At 17,15.22–18,1
 
Naqueles dias, 17,15 os que conduziram Paulo levaram-no até Atenas. De lá, voltando, transmitiram a Silas e Timóteo a ordem de que fossem ter com ele o mais cedo possível. E partiram. 22 De pé, no meio do Areópago, Paulo disse: “Homens atenienses, em tudo eu vejo que vós sois extremamente religiosos. 23 Com efeito, passando e observando os vossos lugares de culto, encontrei também um altar com esta inscrição: ‘Ao Deus desconhecido’. Pois bem, esse Deus que vós adorais sem conhecer é exatamente aquele que eu vos anuncio. 24 O Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe, sendo Senhor do céu e da terra, ele não habita em santuários feitos por mãos humanas. 25 Também não é servido por mãos humanas, como se precisasse de alguma coisa; pois é ele que dá a todos vida, respiração e tudo o mais. 26 De um só homem ele fez toda a raça humana para habitar sobre a face da terra, tendo fixado os tempos previamente estabelecidos e os limites de sua habitação. 27 Assim fez, para que buscassem a Deus e para ver se o descobririam, ainda que às apalpadelas. Ele não está longe de cada um de nós, 28 pois nele vivemos, nos movemos e existimos, como disseram alguns dentre vossos poetas: ‘Somos da raça do próprio Deus’. 29 Sendo, portanto, da raça de Deus, não devemos pensar que a divindade seja semelhante a ouro, prata ou pedra, trabalhados pela arte e imaginação do homem. 30 Mas Deus, sem levar em conta os tempos da ignorância, agora anuncia aos homens que todos e em todo lugar se arrependam, 31 pois ele estabeleceu um dia em que irá julgar o mundo com justiça, por meio do homem que designou, diante de todos, oferecendo uma garantia, ao ressuscitá-lo dos mortos”. 32 Quando ouviram falar da ressurreição dos mortos, alguns caçoavam, e outros diziam: “Nós te ouviremos falar disso em outra ocasião”. 33 Assim Paulo saiu do meio deles. 34 Alguns, porém, uniram-se a ele e abraçaram a fé. Entre eles estava também Dionísio, o areopagita, uma mulher chamada Dâmaris e outros com eles. 18,1 Paulo deixou Atenas e foi para Corinto.


Evangelho: Jo 16,12-15
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 12“Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender agora. 13Quando, porém, vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena verdade. Pois ele não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido; e até as coisas futuras vos anunciará. 14Ele me glorificará, porque receberá do que é meu e vo-lo anunciará. 15Tudo o que o Pai possui é meu. Por isso, disse que o que ele receberá e vos anunciará, é meu”.
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O “Deus Desconhecido” É o Criador Do Céu e Do Universo


“Homens atenienses, em tudo eu vejo que vós sois extremamente religiosos. Com efeito, passando e observando os vossos lugares de culto, encontrei também um altar com esta inscrição: ‘Ao Deus desconhecido’. Pois bem, esse Deus que vós adorais sem conhecer é exatamente aquele que eu vos anuncio. O Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe, sendo Senhor do céu e da terra, ele não habita em santuários feitos por mãos humanas”. É a pregação de São Paulo em Areópago em Atenas que lemos na Primeira Leitura de hoje.


De todos os discursos missionários dirigidos aos pagãos, o mais longo é o discurso de São Paulo ao povo de Atenas. É interessante observar a sabedoria de São Paulo em adaptar sua mensagem de acordo com o conhecimento do auditório onde ele se encontra. “Esse Deus que vós adorais sem conhecer é exatamente aquele que eu vos anuncio”. Ele observa as circunstâncias e vê uma frase escrita pelo povo de Atenas: “Ao Deus desconhecido” e prega a partir desta frase.


Além disso, São Paulo conhece muito bem o conhecimento do povo de Atenas. São Paulo tem uma preocupação real em estar atento à mentalidade de seus interlocutores para que sua mensagem chegue e seja entendida pelos seus ouvintes.  Ele se esforçou em conhecer as principais correntes espirituais do paganismo grego e especialmente a concepção de uma paternidade universal e a consciência comum sobre a dignidade humana. É um Apóstolo com pé no chão na linguagem popular.  Por isso, no seu discurso, ele escolhe temas bíblicos suscetíveis de ser compreendido pelos pagãos de Atenas.


Primeiro tema que é fundamental neste discurso é o conhecimento de Deus. Para o judeu, a ignorância considerada culpável do paganismo para Deus é o fruto das paixões desatadas (Rm 1,18-32; Sb 13,14; Ef 4,17-19). Mas São Paulo abandona o tom severo da Escritura para descobrir na piedade uma sorte de confissão de sua ignorância de Deus: dedicação de um altar ao “Deus desconhecido”. Precisamente, este “Deus desconhecido” é o Criador do céu e da terra.


O segundo tema é que o verdadeiro Deus não habita em templo construídos pelos homens (At 17,24). Neste tema São Paulo enfatiza a importância do culto verdadeiro contra todo tipo de idolatria (At 17,29; cf. Sl 113/115; Is 44,9-20; Jr 10,1-16). Deus não mora nas paredes de uma igreja ou templo, mas no coração de cada ser humano. Por isso, mais tarde o próprio Paulo escreverá aos Coríntios: “Não sabeis que sois o templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá. Porque o templo de Deus é sagrado - e isto sois vós” (1Cor 3,16-17). É preciso respeitar o espaço sagrado (igreja, templo etc.), mas o mais importante é proteger a dignidade humana, pois cada ser humano é o próprio Templo de Deus. A vida humana é sustentada pelo sopro de Deus. Com este tema São Paulo chama todos, especialmente o povo de Atenas, para a espiritualização de sua concepção de Deus e do culto que lhe é devido.


No terceiro tema, São Paulo quer chamar a atenção do povo de Atenas que não se pode colocar o ouro ou prata ou qualquer criatura acima de quem os criou. Essa consciência é o sinal da pertença a Deus e da confissão da fé em Deus, Criador de todas as coisas. Existimos por causa de Deus. Por isso, São Paulo disse que em Deus “vivemos, nos movemos e existimos, como disseram alguns dentre vossos poetas: ‘Somos da raça do próprio Deus’. Sendo, portanto, da raça de Deus, não devemos pensar que a divindade seja semelhante a ouro, prata ou pedra, trabalhados pela arte e imaginação do homem”.


Por fim, como consequência da fé no Deus Criador do céu e do universo é a ruptura: “Alguns uniram-se a ele e abraçaram a fé. Entre eles estava também Dionísio, o areopagita, uma mulher chamada Dâmaris e outros com eles”.


Que tipo de discurso da Igreja em geral e de cada cristão no mundo atual?  Quais são novos “Areópagos” no mundo atual em que há consciência sobre Deus, mas este Deus passa a ser um “Deus desconhecido”? De que maneira, a Igreja e cada cristão, em particular desperta a consciência do mundo para adorar ao Deus-Criador do céu e do universo e que não se pode colocar criatura acima do Criador? Será que nossa pregação ou discurso provoca a conversão ou ruptura nos ouvintes?


Deus, que para os gregos era o Deus desconhecido, criou todas as coisas e nelas deixou suas pegadas (marcas). Nós o reconhecemos e por isso convidamos a toda a criação a um louvor de agradecimentos e fazemos isso com o Salmo Responsorial (Sl 148): “Louvai o Senhor Deus nos altos céus, louvai-o no excelso firmamento! Louvai-o, anjos seus, todos louvai-o, louvai-o, legiões celestiais! Reis da terra, povos todos, bendizei-o, e vós, príncipes e todos os juízes; e vós, jovens, e vós, moças e rapazes, anciãos e criancinhas, bendizei-o! Louvem o nome do Senhor, louvem-no todos, porque somente o seu nome é excelso! A majestade e esplendor de sua glória ultrapassam em grandeza o céu e a terra. Ele exaltou seu povo eleito em poderio; ele é o motivo de louvor para os seus santos. É um hino para os filhos de Israel, este povo que ele ama e lhe pertence”.


Como criaturas de Deus, todos sem excessão: ricos e pobres, cultos e incultos, homens e mulheres, crianças, jovens e anciãos louvam ao Senhor Deus Criador de todas as coisas. Fomos criados para nos converter em um contínuo louvor do Nome do Senhor. Nós que cremos n´Ele, nós que louvamos ao Senhor mediante uma vida reta, devemos ser os primeiros responsáveis em dar a conhecer a todos seu Santo Nome e suas obras, cheio de amor e de misericórdia para conosco de tal forma que todos possam fazer de sua vida um autêntico louvr ao Senhor. Louvar ao Senhor de todas as coisas de modo sincero fará com que desapareçam as tristezas e angústias, pois pertencemos ao Senhor, nosso Pai, o Criador do universo. Mas quem louva ao Senhor, mas continua destruindo sua própria vida, destruindo a vida dos outros ou destruindo irracionalmente a criação é hipócrita que louva ao Senhor com o lábios, mas seu coração está longe de Deus.

O Espirito Santo Nos Conduz a Vivermos Na Verdade de Deus


Continuamos ainda no discurso de despedida de Jesus de seus discípulos (Jo 13-17).  E no evangelho lido neste dia Jesus disse aos discípulos: “Quando vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena verdade”.


Na filosofia conhecemos a verdade lógica e a verdade ontológica ou transcendental. A verdade lógica se define como conformidade da inteligência com seu objeto (adaequatio intellectus ad rem). A verdade ontológica ou transcendental se define como conformidade da coisa com a inteligência (adaequatio rei ad intellectum). A verdade lógica é uma propriedade da inteligência que conhece. Enquanto que a verdade ontológica é uma propriedade das coisas: a propriedade pela qual as coisas são conforme a seu tipo ideal. Uma banana é conhecida como uma banana. Se alguém estiver com uma banana na mão, ele não vai dizer que é uma manga, pois uma manga tem seu próprio tipo como manga.


Para os hebreus a verdade é o termo que designa a fidelidade e a confiança em alguém. A verdade para o mundo da Bíblia é uma relação interpessoal que se experimenta ao longo de uma história. O contrário da verdade é a ruptura de um vínculo de confiança que perdurava no tempo.


O texto do evangelho de hoje identifica Jesus com a verdade: Jesus-Verdade. Por isso para o evangelho de João, a verdade não é um conceito nem uma categoria e sim uma pessoa. Jesus é a própria Verdade (Jo 14,6), ou a própria Palavra de Deus (Jo 1,1). E o Espírito Santo é o Espírito de Cristo que Cristo envia do Pai, e por isso, é o Espírito da Verdade. Somente os que aceitarem o Espírito da Verdade é que poderão compreender plenamente a verdade e o sentido da vida.


“Quando, porém, vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena verdade”, disse Jesus. A verdade plena é a compreensão mais profunda de Jesus e de sua mensagem. É pleno no sentido mais profundo. Através da experiência diária sabemos que o conhecimento de uma pessoa não acontece uma vez por todas. Vamos conhecendo a pessoa ao longo de nossa vida e ao longo da convivência. Conforme o evangelho de hoje, o Espírito da Verdade nos facilita a alcançarmos esse conhecimento gradualmente: “Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender agora. Quando, porém, vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena verdade” (Jo 16,12-13). O Espírito da Verdade não ensinará novas verdades e sim nos conduzirá ao pleno conhecimento da Verdade, o pleno conhecimento da pessoa de Jesus e de seus ensinamentos. Este Espírito nos recorda tudo o que o Pai revelou uma vez por todas em Jesus Cristo, que é sua Palavra. O Espírito não obscurece a posição reveladora de Jesus. A função de guia do Espírito está em conexão com Jesus como Jesus em conexão com o Pai: “Eu e o Pai somos um”, disse Jesus. O Espírito não anuncia nada novo e sim que abre a mensagem própria de Jesus para as situações mudadas da comunidade de forma que essa mensagem possa adquirir seu sentido sempre atual.


“Até as coisas futuras (o Espírito da Verdade) vos anunciará”. “Anunciar as coisas futuras” significa fazer entender, para as gerações vindouras, o significado de tudo que Jesus fez e ensinou. A partir do texto do Evangelho deste dia, a melhor preparação cristã para o porvir não é uma previsão exata do futuro e sim um conhecimento profundo do que Jesus significa para cada época. Há muito chão inexplorado na verdade de Jesus, isto é, em sua pessoa, que somente pode ser conhecida (a pessoa de Jesus) na medida em que a experiência coloca a comunidade e cada cristão diante de novos fatos ou circunstâncias aberto para o impulso do Espírito da Verdade. Para isso, os cristãos devem estar abertos à vida e à história e à voz do Espírito Santo simultaneamente, pois somente o Espírito da Verdade é capaz de tirar o sentido de cada fato ou experiência. O Espírito Santo possibilita um maior conhecimento do que Jesus significa para cada época: suas enormes possibilidades de vida, de força transformadora para nosso mundo. Principalmente possibilita para o maior entendimento o fascinante, maravilhoso e surpreendente Deus de Jesus que ama o mundo apaixonadamente sem limitar as condições (Jo 3,16). Ele ama o mundo porque quer salvá-lo.


O Novo Catecismo nos diz:


  • “É o Espírito Santo que dá aos leitores e ouvintes, segundo a disposição dos seus corações, a inteligência espiritual da Palavra de Deus. Através das palavras, ações e símbolos, que formam a trama duma celebração, o Espírito Santo põe os fiéis e os ministros em relação viva com Cristo, Palavra e Imagem do Pai, de modo a poderem fazer passar para a sua vida o sentido daquilo que ouvem, vêem e fazem na celebração” (1101).

  • “Na liturgia da Palavra, o Espírito Santo «lembra» à assembléia tudo quanto Cristo fez por nós. Segundo a natureza das ações litúrgicas e as tradições rituais das Igrejas, uma celebração «faz memória» das maravilhas de Deus numa anamnese mais ou menos desenvolvida. O Espírito Santo, que assim desperta a memória da Igreja, suscita então a ação de graças e o louvor [doxologia]” (1103).
O Espírito da Verdade é o dom de Deus. É preciso que estejamos abertos diante dele e precisamos pedir sua presença na nossa vida diária para entender o sentido da vida e seus acontecimentos. Pedimos ao Senhor que o nosso espírito seja guiado e que jamais nos consideremos como satisfeitos definitivamente, conhecedores de tudo, orgulhosos de nossos conhecimentos doutrinais, pois há verdade e atitudes que não foi ainda descoberto seu sentido. Que o Senhor nos conduza à verdade completa dando-nos Sua santa paciência e Sua pedagogia.


O Espírito da Verdade será o guia para os discípulos ou para os cristãos. Ele não transmitirá uma doutrina nova e sim explicará e aplicará a mensagem e fará descobrir o sentido da mensagem de Jesus que até então oculto. Além disso, o Espírito da Verdade vai interpretando a história como dialética entre o “mundo” e o projeto de Deus. Isso significa que os discípulos/cristãos, em sua atividade, devem ficar atentos, por um lado, à vida e à história e por outro lado, devem estar atentos à voz do Espírito que interpreta. Jamais os cristãos poderão interpretar e encontrar o significado da história e dos acontecimentos diários sem a inspiração do Espírito da Verdade. Consequentemente, todos os cristãos, para viver com sentido, devem estar em sintonia com o Espírito da Verdade permanentemente.
 
P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 4 de maio de 2018

 08/05/2018
 Resultado de imagem para Atos dos Apostolos 16,22-34Resultado de imagem para Jo 16,5-11Resultado de imagem para É bom para vós que eu parta; se eu não for, não virá até vós o Defensor; mas, se eu me for, eu vo-lo mandarei
VIVAMOS COMO JUSTOS SOB O IMPULSO DO ESPÍRITO DIVINO
Terça-Feira da VI Semana da Páscoa
 
Primeira Leitura: At 16,22-34
Naqueles dias, 22 a multidão dos filipenses levantou-se contra Paulo e Silas; e os magistrados, depois de lhes rasgarem as vestes, mandaram açoitar os dois com varas. 23 Depois de açoitá-los bastante, lançaram-nos na prisão, ordenando ao carcereiro que os guardasse com toda a segurança. 24 Ao receber essa ordem, o carcereiro levou-os para o fundo da prisão e prendeu os pés deles no tronco. 25 À meia-noite, Paulo e Silas estavam rezando e cantando hinos a Deus. Os outros prisioneiros os escutavam. 26 De repente, houve um terremoto tão violento que sacudiu os alicerces da prisão. Todas as portas se abriram e as correntes de todos se soltaram. 27 O carcereiro acordou e viu as portas da prisão abertas. Pensando que os prisioneiros tivessem fugido, puxou da espada e estava para suicidar-se. 28 Mas Paulo gritou com voz forte: “Não te faças mal algum! Nós estamos todos aqui”. 29 Então o carcereiro pediu tochas, correu para dentro e, tremendo, caiu aos pés de Paulo e Silas. 30 Conduzindo-os para fora, perguntou: “Senhores, que devo fazer para ser salvo?” 31 Paulo e Silas responderam: “Crê no Senhor Jesus, e sereis salvos tu e todos os de tua família”. 32 Então Paulo e Silas anunciaram a Palavra do Senhor ao carcereiro e a todos os da sua família. 33 Na mesma hora da noite, o carcereiro levou-os consigo para lavar as feridas causadas pelos açoites. E, imediatamente, foi batizado junto com todos os seus familiares. 34 Depois fez Paulo e Silas subirem até sua casa, preparou-lhes um jantar e alegrou-se com todos os seus familiares por ter acreditado em Deus.
 
Evangelho: Jo 16,5-11
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 5 “Agora, parto para aquele que me enviou, e nenhum de vós me pergunta: ‘Para onde vais?’ 6Mas, porque vos disse isto, a tristeza encheu os vossos corações. 7No entanto, eu vos digo a verdade: É bom para vós que eu parta; se eu não for, não virá até vós o Defensor; mas, se eu me for, eu vo-lo mandarei. 8E quando vier, ele demonstrará ao mundo em que consistem o pecado, a justiça e o julgamento: 9o pecado, porque não acreditaram em mim; 10a justiça, porque vou para o Pai, de modo que não mais me vereis; 11e o julgamento, porque o chefe deste mundo já está condenado”.
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Deus Está Com Seus Mensageiros Permanentemente
 
“Ao receber essa ordem, o carcereiro levou-os para o fundo da prisão e prendeu os pés deles no tronco. À meia-noite, Paulo e Silas estavam rezando e cantando hinos a Deus. De repente, houve um terremoto tão violento que sacudiu os alicerces da prisão. Todas as portas se abriram e as correntes de todos se soltaram”. É uma parte do texto da Primeira Leitura.
 
Alguns pontos para nossa reflexão a partir da Primeira Leitura:
  1. Apesar de estar presos, Paulo e Silas rezam e cantam hinos a Deus. Esta frase nos mostra a serenidade dos justos perseguidos, e, ao mesmo tempo, mostra, antecipadamente, a vitória iminente. “A vida dos justos está nas mãos de Deus, e nenhum tormento os atingirá... Os que nele confiam compreenderão a verdade, e os que perseveram no amor ficarão junto dele, porque a graça e a misericórdia são para seus eleitos”, assim afirma o livro de Sabedoria (Sb 3,1.9). Aquele que tem um coração puro, sem nenhuma mancha de pecado, vive na serenidade apesar das tribulações, ataques, pois não há nada que possa atingir seu coração, e sabe, acima de tudo, em quem acredita: em Deus. “Somente o justo desfruta de paz de espírito” (Epicuro)
  2. “De repente, houve um terremoto tão violento que sacudiu os alicerces da prisão. Todas as portas se abriram e as correntes de todos se soltaram”. Aqui se celebra a vitória de quem se apoia no poder de Deus, como Paulo e Silas. O terremoto natural destrói tudo. Mas neste relato o terremoto que aconteceu é para mostrar o poder maravilhoso de Deus que destrói todos os sinais de dominação humana. Todas as dominações humanas ficam sem futuro, pois o futuro é de Deus. Feliz quem deposita sua fé em Deus! Quem acreditar no poder humano, vai ter que experimentar a derrota fatal um dia. O carcereiro estava para suicidar por medo de ver Paulo e Silas fugirem da prisão, pois ele seria responsável e receberia uma condenação inevitável.
  3.   “Então o carcereiro pediu tochas, correu para dentro e, tremendo, caiu aos pés de Paulo e Silas”.  Nenhum dos prisioneiros (Paulo e Silas) fugiu, pois eles querem mostrar para os incrédulos o poder de Deus. A libertação dos presos e a soberania de Deus se mostram simultaneamente. O carcereiro, na sua humildade, reconhece a grandeza de Deus neste acontecimento que o levou a cair aos pés de Paulo e Silas. A conversão do carcereiro é imediata, pois descobriu uma força maior de Deus através de seus mensageiros: Paulo e Silas.
  4.  “Conduzindo-os para fora, perguntou: ‘Senhores, que devo fazer para ser salvo?’, Paulo e Silas responderam: ´Crê no Senhor Jesus, e sereis salvos tu e todos os de tua família’. Então Paulo e Silas anunciaram a Palavra do Senhor ao carcereiro e a todos os da sua família”. Esta rápida conversão do cárcere nos lembra as etapas do catecumenato de então: Primeiro, a questão ritual “O que preciso fazer?” (At 9,6). Segundo, a instrução do Evangelho (At 16,32). Terceiro, o Batismo (At 16,33). E finalmente, a refeição (Eucaristia), que o acompanha (cf. At 9,19), e se processa na alegria (cf. At 2,46; 8,8.39; 13,48-52). Aqui há alusões para a Eucaristia: “mesa”, “alegria”, exultação religiosa (cf. At 2,46).
  5. “E, imediatamente, (o carcereiro) foi batizado junto com todos os seus familiares”. Pela segunda vez o livro de Atos nos relata a conversão e o batismo coletivo ou familiar (cf. At 16,15). Nos costumes e mentalidade antigos a escolha religiosa do pai ou do chefe da família condicionava a escolha dos outros membros da família. A partir desta mentalidade ou costumes não havia nenhum problema de batizar as crianças. Os recém-nascidos seguiam a opção do pai.

São João Crisóstomo comentou: “Veja o carcereiro venerar os apóstolos. Ele abriu o coração, vendo as portas da prisão se abrirem. Ele lhes acende com sua tocha, mas é outra a luz que ilumina sua alma ... Então ele lavou as feridas e sua alma foi purificada da imundície do pecado. Quando ele lhes oferece comida, ele recebe a comida celestial em troca ... Sua docilidade prova que ele sinceramente acreditava que todas as falhas haviam sido perdoadas" (Homilia sobre Atos, 36).
 
É Digno Fazer Ação De Graças Ao Senhor Que Nos Salvou
 
É justo que demos graças a Deus pela salvação recebida. Salvação corporal dos apóstolos; a salvação espiritual do carcerário e de sua família. Também nós somos salvos. Por isso, demos graças ao Senhor com o Salmo Responsorial (Sl 137/138): “Ó Senhor, de coração eu vos dou graças, porque ouvistes as palavras dos meus lábios! Perante os vossos anjos vou cantar-vos e ante o vosso templo vou prostrar-me. Eu agradeço vosso amor, vossa verdade, porque fizestes muito mais que prometestes; naquele dia em que gritei, vós me escutastes e aumentastes o vigor da minha alma. Estendereis o vosso braço em meu auxílio e havereis de me salvar com vossa destra. Completai em mim a obra começada; ó Senhor, vossa bondade é para sempre! Eu vos peço: não deixeis inacabada esta obra que fizeram vossas mãos!”.
 
Deus nos ama; Ele está sempre conosco como Pai cheio de amor e de misericórdia. Ele jamais abandona a obra de suas mãos, pois Ele nos criou por amor e nos chamou, com santa chamada, para que estejamos com Ele eternamente. Por isso, quando O invocamos, como são Paulo e Silas, Ele está sempre disposto a nos libertar de nossos inimigos. A nós corresponde somente continuarmos confiando no Senhor, por muito grandes que sejam nossas provações e tribulações, pois Deus sempre caminhará junto a nós e que vamos carregando nossa cruz de cada dia atrás das pegadas de Cristo rumo à vitória definitiva sobre todos os inimigos da salvação.
 
Jesus Cristo Continua Acompanhando a Igreja Através Do Paráclito
 
Continuamos acompanhando o longo discurso de despedida de Jesus de seus discípulos no evangelho de João (Jo 13-17).
 
“Agora, parto para aquele que me enviou, e nenhum de vós me pergunta: ‘Para onde vais?’ Mas, porque vos disse isto, a tristeza encheu os vossos corações”, disse Jesus no evangelho deste dia.
 
Jesus anuncia aos discípulos a sua morte iminente (partida) que provoca uma reação negativa nos discípulos: tristeza (Jo 16,6) e perturbação (Jo 14,1). Jesus realmente vive conscientemente sua vida. Ele tem plena consciência de que um dia ele partirá deste mundo. Além disso, ele sabe de sua morte de maneira trágica em função do bem praticado, pois mexe com os interesses deste mundo. O bem praticado leva Jesus ao encontro do Bem maior: Deus Pai. Ele partirá para o Pai. Mas esta partida (morte) traz, ao mesmo tempo, consequências positivas: a vinda do Paráclito (Jo 16,7) e a reunião definitiva (Jo 14,2-3).
 
Jesus fala da sua morte, que só mais tarde os discípulos vão poder entender seu significado à luz do Espírito Santo (cf. Jo 16,12-13). Como aconteceu com qualquer um de nós. Muitas coisas na vida só podemos entender seu significa ou sua insignificância quando a idade vai avançando e as experiências vão se acumulando. Só quando encontramos nossas veias de coração entupidas é que poderemos entender que o cigarro que fumávamos com muita paixão, a gordura da carne que consumimos com muito apetite, a bebida alcoólica que engolimos frequentemente fazem mal para nossa saúde e encurtamos nossa presença neste mundo, e diminuímos nosso tempo nesta terra para ajudar os demais com nossos dons. Alguma experiência maior faz com que percebamos o significado de outras experiência menores cujo valor não percebemos até então.
 
Os discípulos vão dar testemunho de Jesus, somente quando entenderem quem é Jesus, o que significou a sua presença no mundo, e qual foi o sentido da sua morte e da sua ressurreição. Quem pode possibilitar-lhes este entendimento é o Espírito Santo prometido por Jesus. Mas Jesus alerta aos discípulos que vão sofrer perseguições por causa desse testemunho.
 
Neste texto do evangelho de hoje Jesus afirma que a sua morte é uma partida para Aquele que o enviou. Este retorno Àquele que o enviou mostra que a causa pela qual Jesus lutava e vivia era a de Deus que é a salvação do mundo (Jo 3,16). Por isso, sua volta para Deus é para ser glorificado. A morte, para Jesus, é o momento da glorificação. É a “hora” de Jesus (cf. Jo 2,4; 12,23). A morte de quem vive de acordo com a vontade de Deus resumida no amor fraterno (ágape) é o momento de glorificação e não é um momento de tristeza. O homem morre não quando deixa de viver e sim quando deixa de amar. Amar alguém equivale a lhe dizer: “Tu jamais morrerás, pois ‘Deus é amor’ (1Jo 4,8.16)’”.
 
Os discípulos continuam sem compreender a morte como ida ao Pai. Também não pedem explicações a Jesus a respeito. Eles se sentem tristes ao pensar na separação que eles interpretam como desamparo (Jo 14,18). Para eles sem Jesus, na sua presença física, eles se tornam indefesos no mundo e diante do mundo.
 
Para Jesus a presença e a ajuda do Espírito farão muito melhor para os discípulos do que sua presença física, pois Jesus, na sua presença física, não pode estar com os discípulos em qualquer lugar. Além disso, enquanto se apoiarem na presença física de Jesus, os discípulos não aprenderão a tomar sua plena responsabilidade nem terão a autonomia em cumprir sua missão como discípulos. É preciso aprender a andar com as próprias pernas para saber até onde elas têm capacidade de andar, e aprender a pensar com os próprios pensamentos para saber até onde tem que pedir a ajuda. Mas, ao mesmo tempo, é indispensável se deixar impulsionar pelo Espírito, pois somente o Espírito de Deus pode transformar qualquer um em nova criatura. A ausência física de Jesus possibilita aos discípulos a atuarem por si mesmos sob o impulso do Espírito. A ausência física de Jesus faz os discípulos crescerem na maturidade no seu seguimento. Por isso, Jesus disse aos discípulos: “É bom para vós que eu parta; se eu não for, não virá até vós o Defensor; mas, se eu me for, eu vo-lo mandarei”. Com a presença do Espírito Defensor, a ausência de Jesus se transforma em uma presença eficaz.
 
“Quando vier o Defensor, ele demonstrará ao mundo em que consistem o pecado, a justiça e o julgamento: o pecado, porque não acreditaram em mim; a justiça, porque vou para o Pai, de modo que não mais me vereis; e o julgamento, porque o chefe deste mundo já está condenado”.
 
O papel do Paráclito (o Defensor) é convencer o mundo no sentido de demonstrar, de provar, de culpar e de condenar. O Paraclito (o Espírito) executará a sentença de Deus contra o mundo. Para João o juízo “final” não acontecerá nos últimos dias, e sim acontece agora pelo fato de que a decisão escatológica já se concretizou na cruz e na ressurreição de Jesus. O Espírito convencerá o mundo sobre o pecado que consiste na incredulidade e no fato de fechar-se ao amor do Criador (Jo 3,16) manifestado em Jesus Cristo.
 
O sistema injusto condena o justo como criminoso. O sistema injusto se faz juiz contra os justos e honestos. É a inversão de valores em nome do interesse e das vantagens individuais. Mas o Espírito vai reabrir o processo para pronunciar a sentença contrária. Trata-se de uma sentença final.  Os que se fizeram juízes serão os culpados e culpáveis. E o condenado pelo sistema injusto encontrará a verdade em Deus e o próprio Deus, que não pode ser subornado, será o ponto de referência diante do qual cada um se condena ou se culpa. Diante da verdade a própria mentira se condena. Diante da originalidade a falsidade se exclui. Deus se constitui em juiz e inverte o juízo dado pelo mundo.
 
O “mundo” neste texto se designa ao círculo dirigente que condenou Jesus; o mundo no sentido das forças sociais, históricas e econômicas opostas ao plano divino, ao plano da fraternidade e da igualdade. Trata-se da personificação das forças malignas da história: a injustiça exercida sobre os inocentes, a opressão dos pobres, a tirania dos sistemas totalitários.
 
Jesus declara aos discípulos que o Espírito de Deus realizará este juízo da história no qual brilhará a justiça e a bondade divinas a favor dos seus: “Os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai” (Mt 13,43; cf. também Dn 12,3; Sb 3,1-9).
 
O mundo prefere suas trevas de pecado à luz poderosa da bondade e da verdade divinas que fazem o homem feliz permanentemente.  O pecado do mundo consiste em impedir, reprimir ou suprimir a vida impedindo a realização do projeto criador (Jo 1,10), e esse pecado alcançou seu ápice na recusa de Jesus (Jo 15,22). O Espírito mostrará aos discípulos a justiça de Deus e que o mundo é o réu de seu pecado, de ter recusado a presença de Deus em Jesus que salva.
 
Portanto, qualquer cristão não pode abandonar uma vida correta e justa nem que seja em nome de qualquer cargo ou de qualquer interesse material, pois tudo será deixado neste mundo. O homem animado pelo Espírito não pode tolerar nem compactuar com a maldade nem em nome dum benefício econômico nem em nome de uma posição social. A “justiça” humana pode desviar a verdade em nome dos interesses pessoais, mas ainda resta a justiça divina diante da qual a verdade, a justiça, a honestidade e a lealdade estarão em destaque. Por isso, “a vida dos justos está nas mãos de Deus e nenhum tormento os atingirá... Os que confiam em Deus compreenderão a verdade e os que são fieis habitarão com Ele no amor” (Sabedoria 3,1.9). “No Reino de seu Pai, os justos resplandecerão como o sol” (Mt 13,43ª). O Espírito de Deus suscita homens particularmente sensíveis aos valores autênticos e a Eucaristia os capacita para comprometer-se efetivamente na contestação dos pseudo-valores.
P. Vitus Gustama,svd

Sábado Da XXIX Semana Comum, Ano Par, 24/10/2026

CONVERTER-SE PERMANENTEMENTE PARA PRODUZIR CONSTANTEMENTE OS FRUTOS DE AMOR NO CORPO DE CRISTO QUE É A IGREJA Sábado da XXIX Semana Comum ...