domingo, 4 de agosto de 2019

08/08/2019
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FÉ EM JESUS CRISTO FORMA E FORTALECE A IGREJA
Quinta-Feira da XVIII Semana Comum


Primeira Leitura: Nm 20,1-13
Naqueles dias, 1 toda a comunidade dos filhos de Israel chegou ao deserto de Sin, no primeiro mês, e o povo permaneceu em Cades. Ali morreu Maria e ali mesmo foi sepultada. 2 Como não havia água para o povo, este juntou-se contra Moisés e Aarão, 3 e, levantando-se em motim, disseram: “Antes tivéssemos morrido, quando morreram nossos irmãos diante do Senhor! 4 Para que trouxestes a comunidade do Senhor a este deserto, a fim de que morrêssemos, nós e nossos animais? 5 Por que nos fizestes sair do Egito e nos trouxestes a este lugar detestável, em que não se pode semear, e que não produz figueiras, nem vinhas nem romãzeiras, e, além disso, não tem água para beber?” 6 Deixando a comunidade, Moisés e Aarão foram até a entrada da Tenda da Reunião, e prostraram-se com a face em terra. E a glória do Senhor apareceu sobre eles. 7 O Senhor falou, então, a Moisés, dizendo: 8 “Toma a tua vara e reúne o povo, tu e teu irmão Aarão; na presença deles ordenai à pedra e ela dará água. Quando fizeres sair água da pedra, dá de beber à comunidade e aos seus animais”. 9 Moisés tomou, então, a vara que estava diante do Senhor, como lhe fora ordenado. 10 Depois, Moisés e Aarão reuniram a assembleia diante do rochedo, e Moisés lhes disse: “Ouvi, rebeldes! Poderemos, acaso, fazer sair água desta pedra para vós?” 11 E, levantando a mão, Moisés feriu duas vezes a rocha com a vara, e jorrou água em abundância, de modo que o povo e os animais puderam beber. 12 Então o Senhor disse a Moisés e a Aarão: “Visto que não acreditastes em mim, para manifestar a minha santidade aos olhos dos filhos de Israel, não introduzireis este povo na terra que lhe vou dar”. 13 Estas são as águas de Meriba, onde os filhos de Israel disputaram contra o Senhor, e ele lhes manifestou a sua santidade.


Evangelho: Mt 16,13-23
Naquele tempo, 13Jesus foi à região de Cesareia de Filipe e ali perguntou a seus discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” 14Eles responderam: “Alguns dizem que é João Batista; outros que é Elias; outros ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas”. 15Então Jesus lhes perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?” 16Simão Pedro respondeu: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. 17Respondendo, Jesus lhe disse: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. 18Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la. 19Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus”. 20Jesus, então, ordenou aos discípulos que não dissessem a ninguém que ele era o Messias. 21Jesus começou a mostrar aos seus discípulos que devia ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos mestres da Lei, e que devia ser morto e ressuscitar no terceiro dia. 22Então Pedro tomou Jesus à parte e começou a repreendê-lo, dizendo: “Deus não permita tal coisa, Senhor! Que isto nunca te aconteça!” 23Jesus, porém, voltou-se para Pedro, e disse: “Vai para longe, Satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens!”
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É Preciso Aprendermos a Orar Sobre Os Nossos Desgostos Diante De Deus


“Deixando a comunidade, Moisés e Aarão foram até a entrada da Tenda da Reunião, e prostraram-se com a face em terra” (Nm 20,6).


Hoje lemos o último episódio do livro de Números, pois amanhã passaremos a fazer leitura do livro de Deuteronômio.


O povo eleito é temoso e difícil de agradar. Facilmente, este povo esquece o que Deus tem feito por ele desde a libertação do Egito até agora.


O deserto onde esse povo se encontra é realmente desconfortável, e quando uma coisa não está faltando, está faltando outra. Hoje é água para as pessoas e para o gado que leva a um novo surto de rebelião e protesto.


A primeira reação de Moisés e Aarão é esta: “Moisés e Aarão foram até a entrada da Tenda da Reunião, e prostraram-se com a face em terra”. Como resposta Deus lhes dá a seguinte ordem: “Toma a tua vara e reúne o povo, tu e teu irmão Aarão; na presença deles ordenai à pedra e ela dará água. Quando fizeres sair água da pedra, dá de beber à comunidade e aos seus animais”. Moisés e Aarão, seguindo a inspiração de Deus, tiram água da rocha. Deus, mais uma vez, se mostrou benigno com seu povo.


Situações parecodas podem suceder na nossa vida: descontentamento contagioso, protestos, ingratidão, o esquecimento do bom para se fixar apenas no que é ruim.


Vejamos como reagiram Moisés e Aarão: vão à Tenda do Encontro com Deus para rezar a fim de pedir a ajuda divina. Isto que nos dizer que nós devemos saber rezar sobre nossos desgostos: “Senhor, não estou gostando disso! Ajude-me o que devo fazer!”. É ver tudo a partir de Deus que é onisciente e onipotente. Vamos nos aproximar de Deus não com um ânimo ofendido, isto é, a partir de nossos sentimentos mais ou menos lastimados e sim a partir da busca da vontade de Deus e o bem do povo (o bem comum) e não o nosso próprio prestígio ou nossa honra.


Talvez nosso pecado também seja falta de fé como o povo eleito. Não acreditamos ainda que da “rocha” de nossa vida pode sair água para saciar nossa sede de sentido, quando o próprio Deus quer. Basta procurar a vontade de Deus e crer n´Ele que no fim da história algo maravilhoso acontecerá. É normal que determinadas situações e dificuldades nos coloquem em dúvidas sobre a onipotência de Deus. A dúvida não é necessariamente má. Os melhores crentes, como Abraão, Moisés ou Jeremias, têm momentos em que eles não viram nada com clareza, mas eles se aproximaram de Deus na oração, assim como Jesus no jardim de Getsêmani.


Além disso, experimentar em nossa própria carne a dúvida eo desânimo nos pode ajudar a sermos mais compreensivos com os demais: com um adulto ou jovem que perdeu a fé, com um grupo ou comunidade cheio/cheia de defeitos. Tudo isso quer nos recordar que não são nossas forças que vão salvar o mundo, e sim a graça sempre ativa de Deus.


“Toma a tua vara e reúne o povo, tu e teu irmão Aarão; na presença deles ordenai à pedra e ela dará água”.


A água é um lemento absolutamente necessário na vida da natureza e na vida do homem e de todos os seres vivos. Além do mais, a água é símbolo da abundância de dosn naturais e sobrenaturais que Deus outorga para os homens. Se nosso espírito não estiver regado com a água da graça, do batismo, do amor, da fecundidade, tudo se corrompe e morre. O batismo está na mesma linha do relato do texto da Primeira Leitura: resposta de Deus para a sede humana.


O tema da “Água viva” será constantemente tratado na Bíblia para evocar a presença de Deus para seu povo: as pedras/rocha se mudam em fonte (Is 4,18); do Templo fluíam rios (Ez 46). E o próprio Cristo se apresentará como água viva (Jo 1,33; 7,37).  Acorramos e bebamos na fonte de água viva!


Com Jesus, Pedra Angular De Nossa Vida, Seremos Inquebrantáveis Diante De Qualquer Tempestade Da Vida


O texto do evangelho de hoje fala da confissão ou da profissão da fé de Pedro, em nome dos apóstolos, em Cristo, Filho do Deus vivo. Por isso, o que se enfatiza no texto é, em primeiro lugar, a identidade de Jesus.


Na verdade Jesus foi invocado como: “Mestre” (Mt 8,19), Filho de Davi (Mt 9,27; 15,22), Senhor (Mt 8,2.6.8.21 etc.). Foi aclamado como Filho de Deus (Mt 14,33). Porém o povo não chegou à confissão de fé coletiva. Somente agora, neste texto, se traduz num ato de fé coletivo que Jesus é o Cristo, Filho do Deus vivo, como resposta de Pedro à pergunta de Jesus sobre quem Ele é.


A confissão de Pedro de que Jesus é o Cristo, Filho de Deus vivo se baseia na fé. E a fé não nasce da debilidade humana. Este é o sentido da expressão “não foi carne ou sangue”: “Bem-aventurado és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi carne ou sangue que te revelaram isso, e sim o meu Pai que está nos céus” (Mt 16,17). A fé é um dom do Pai celeste. Como dom a fé supõe a abertura da parte do homem que quer receber o dom da fé. Somente quem é aberto ao impulso do Espírito divino será inspirado por Deus para falar precisamente. O homem inteiro de carne e de osso é incapaz de aceder ao que é do domínio misterioso de Deus. Deus precisa inspirar à pessoa para poder entender o mistério de Deus.  Se mantivermos nossa vida aberta para a inspiração divina, teremos respostas precisas para as questões de nossa vida.


Além disso, o evangelista Mateus enfatiza a ligação inseparável entre Jesus e a Igreja. Estão tão unidos que não se pode falar de Jesus, como Cabeça sem falar da Igreja como Corpo e vice-versa. Quem professa sua fé em Jesus é Igreja. O povo de Deus que se chama “Igreja” se define unicamente pela fé em Jesus Cristo.


E sobre a Sua Igreja Jesus diz a Pedro: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”. “Qahal” é um termo aramaico que significa “Assemble” ou “convocação” (quem convoca é o próprio Deus). Este termo é traduzido para o grego por “Ekklesia”, logo se conservou tal qual em latim “Ecclesia” do qual procede nosso termo “Igreja”.


“Tu és Pedro...”. “Kefa” é um termo aramaico que significa “rocha”. Foi traduzido para o grego por “Petros”, logo em latim por “Petrus” e em português por “Pedro”. Esse nome “Rocha” não era usado por ninguém naquela época, nem no mundo judaico nem no mundo greco-romano. Foi uma idéia de Jesus. Para um semita o “nome” tem uma extraordinária importância. É como um símbolo ou uma definição da pessoa. Isto quer dizer que em cada nome já tem uma missão a ser encarregada ou cumprida. O termo “rocha” nos diz a solidez ou firmeza.


“Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”. O que Jesus quer edificar é uma “comunidade”, “Sua” comunidade, homens e mulheres que têm algo “em comum” e que “se reúnem” para festejar o que têm em comum e para vivê-lo. O Concílio Vaticano II definiu a Igreja como “o Povo de Deus” (cf. Lumen Gentium do Concílio Vaticano II). Pedro recebeu um papel de responsabilidade nesse Povo (cf. Jo 21,15-19).


Pedro é apresentado como pedra rochosa posta como fundamento e Jesus é o Construtor. Pedro se converte em pedra, fundamento do edifício construído por Jesus porque a Igreja não é obra do homem e sim de Deus (Mt 21,42). E a Igreja não sucede por sua debilidade humana que é evidentemente não oferece garantias (Mt 14,31) e sim pela confissão de fé em Jesus Cristo.


A Pedro é confiada a missão que serve como a solidez, a segurança da Igreja. De que maneira? Segundo evangelista Lucas (Lc 22,32) a missão de Pedro (e seus sucessores) consiste em “confirmar na fé os próprios irmãos”. Segunda o evangelista Mateus consiste em “atar - desatar”, isto é “proibir-permitir”. E Pedro não estabelecerá a Igreja de acordo com a tradição dos homens e sim de acordo com o que Jesus ensinou, isto é, com a força dessa fé na qual ele deve confirmar seus irmãos. Tendo a fé a Igreja vai para frente.


Mas surge a pergunta: Que garantia temos nós de que Pedro (e seus sucessores) não atuará segundo sua debilidade? O evangelista Lucas oferece a garantia da oração de Jesus: “Eu, porém, orei por ti, a fim de que tua fé não desfaleça” (Lc 22,32ª). Segundo o evangelista Mateus o selo do céu porá sobre as decisões de Pedro: “Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus”. A segurança está principalmente na própria Palavra do Senhor: “O poder do inferno nunca poderá vencê-la”. O poder da morte fica sem força diante do Jesus ressuscitado (Rm 6,9). Jesus está sempre em ação como Construtor da Igreja que, de forma visível, se une a Pedro (e seus sucessores) a quem é confiada a chave do Reino, isto é, um poder de decisão na missão. E Jesus é a origem da missão de Pedro que é a missão da Igreja. A cabeça da Igreja é Jesus e não Pedro (Ef 1,22). Pedro e os Apóstolos são “fundamentos” da Igreja (Ef 2,20), mas Pedro não se qualifica como “pedra angular”. Jesus é a própria “pedra angular” (Ef 2,20; Mc 12,10; Mt 21,42; Lc 20,17; At 4,11; 1Pd 2,4-7).


Quando Jesus disse aos discípulos que devia ir a Jerusalém e sofrer muito e que devia ser morto e ressuscitar no terceiro dia, “então Pedro tomou Jesus à parte e começou a repreendê-lo, dizendo: “Deus não permita tal coisa, Senhor! Que isto nunca te aconteça!” Mas com palavras duríssima Jesus disse a Pedro: “Vai para longe, Satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens!”


Não podemos escolher as mensagens ou os ensinamentos de Jesus de acordo com o nosso gosto. Temos que aceitar “toda” a revelação, todos os ensinamentos, ideias e pensamentos de Jesus Cristo e não somente as ideias que nos agradam. Se acreditamos na ressurreição, a vida gloriosa, temos aceitar as cruzes para chegar a ela.


Além disso, experimentar em nossa própria carne a dúvida e o desânimo nos pode ajudar a ser mais compreensivos com os demais homens e mulheres: com um jovem que perdeu sua fé, com um grupo que tem seus altos e baixos, com uma comunidade cheio de defeitos. Tudo isso nos recorda que não são nossas forças as quais vão salvar o mundo e sim a graça, sempre ativa de Deus. Nós somos o que somos por causa da graça de Deus (cf. 1Cor 15,10)


Para Aprofundar Mais a Reflexão:


1. Quem é Jesus Para Mim?


“E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16,15). Esta pergunta nos ensina que nossa descoberta de Jesus Cristo deve ser uma descoberta pessoal. Quando Pilatos perguntou a Jesus se ele era o rei dos judeus, Jesus lhe respondeu em forma de uma pergunta: “Tu falas assim por ti mesmo ou outros te disseram isso de mim?” (Jo 18,34).


Para conhecer a identidade de Jesus é preciso ter a experiência pessoal com ele. Podemos saber e crer em muitos fatos da vida de Jesus, mas não significa que tenhamos a experiência com Ele. O cristianismo jamais consiste em saber sobre Jesus, mas sempre consiste em conhecer Jesus. Pela origem da palavra, o verbo “conhecer” quer dizer “com-nascer”, nascer com, fazer-se um com outro. Somente conhecemos o outro, entregando-nos a ele e aceitando que ele se entregue a nós. A experiência não é uma recordação. A experiência é um ato ou algo que nos acontece e transforma nossa atitude e nosso modo de viver e de perceber a vida e as pessoas.


A experiência que o cristão deve ter em relação com Jesus é a experiência de Jesus ressuscitado, isto é, do Cristo vivo aqui e agora, ontem, hoje e sempre (cf. Hb 13,8) e que continua nos acompanhando diariamente (cf. Mt 28,20). Não se trata de uma experiência histórica, mas uma experiência trans-histórica, pessoal e intransferível. Se um cristão chegar até este nível de experiência, ele vai dizer com os samaritanos na experiência do encontro de Jesus com a samaritana que lhes relatou sua experiência pessoal com Jesus: “Já não é por causa do que tu falaste que cremos. Nós próprios O ouvimos, e sabemos que esse é verdadeiramente o Salvador do mundo” (Jo 4,42).


Sem essa experiência pessoal com Jesus, o cristianismo se reduzirá a uma religião de um livro cheio de recordações da vida de uma pessoa no passado. O cristianismo não é uma religião do livro, mas uma religião da Palavra viva que é ouvida, experimentada e percebida em sua força transformadora por quem tem “ouvidos para escutar” e o coração aberto para sentir que nos permite abrirmos à transcendência. Esta experiência nos leva a vivermos um conjunto de experiências tais como o amor a Deus e ao próximo, a solidariedade e a compaixão, o perdão e a reconciliação, a verdade e a veracidade, a fidelidade, a abertura ao novo, a liberdade e assim por diante. Neste sentido o cristão é aquele que está sempre ligado consigo mesmo, com seu próximo, com o mundo e com o Divino.


2. A Fé Potencia Nossa Humanidade (debilidade)


Pedro deu sua resposta no meio de sua debilidade. Jesus chegou a chamá-lo de Satanás, isto é, o adversário do projeto de Deus. Fogoso e temperamental, Pedro não tem inconveniente em assegurar a Jesus que é capaz de morrer com Ele, mas basta a insinuação de uma mulher, nos momentos de perigo, para que negasse rotundamente conhecer ao Mestre (cf. Mt 26,71-75).


Depois dessa experiência dolorosa, a única coisa que Jesus pede de Pedro para ser sua fiel imagem na terra é que ele ame a Jesus (cf. Jo 21,9-15). E o desejo de Jesus é que a Igreja deve ser governada no amor, por amor e para o amor: no amor à Pessoa de Jesus e como consequência lógica, no amor a todos os homens. Através do caminho paradoxal da negação e da queda, Pedro purifica e fortalece sua fé para constituir-se em rocha firme para seus irmãos.


A partir da experiência de Pedro temos que aprender que a fé é um risco que apesar de nossas debilidades e negações, devemos ser sinais de fé no mundo de hoje, anunciando que Jesus de Nazaré é o Salvador dos homens e por isso, é a nossa esperança e a nossa certeza. A Igreja é uma casa construída sobre a rocha ainda que se apoie na fragilidade dos homens. Somente Cristo não tem mancha nem mácula. Dentro da Igreja haverá sempre pecadores. Por isso, a Igreja tem necessidade de “atar e desatar” através da reconciliação e do perdão mútuo. O pecado continua, e por isso, deve continuar também o perdão. Jesus promete que Sua Igreja sobreviverá, não obstante as forças da destruição e da morte. Vivemos apoiados sobre esta promessa. A promessa do Senhor e sua fidelidade nos tornam lutadores incansáveis do bem. A graça de Deus nos potencia e nos faz como somos: “Eu sou o que sou pela graça de Deus (1Cor 15,10). A graça de Deus nos faz viver na alegria, pois sabemos que Deus nos ama apesar de nossas debilidades. “Nossas culpas são grãos de areia ao lado da grande montanha que é a misericórdia de Deus” (São João Maria Vianney).
P. Vitus Gustama,svd

sábado, 3 de agosto de 2019

07/08/2019
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COM FÉ TUDO SE ALCANÇA, POIS DEUS NOS ACOLHE E NOS AMA ETERNAMENTE
Quarta-Feira da XVIII Semana Comum


Primeira Leitura: Nm 13,1-2.25-14,1.26-30.34-35
Naqueles dias, 13,1 o Senhor falou a Moisés, no deserto de Faran, dizendo: 2 “Envia alguns homens para explorar a terra de Canaã, que vou dar aos filhos de Israel. Enviarás um homem de cada tribo, e que todos sejam chefes”. 25 Ao fim de quarenta dias, eles voltaram do reconhecimento do país 26 e apresentaram-se a Moisés, a Aarão e a toda a Comunidade dos filhos de Israel, em Cades, no deserto de Faran. E, falando a eles e a toda a Comunidade, mostraram os frutos da terra 27 e fizeram a sua narração, dizendo: “Entramos no país, ao qual nos enviastes, que de fato é uma terra onde corre leite e mel, como se pode reconhecer por estes frutos. 28 Porém, os habitantes são fortíssimos, e as cidades grandes e fortificadas. Vimos lá descendentes de Enac; 29 os amalecitas vivem no deserto do Negueb; os hititas, jebuseus e amorreus, nas montanhas; mas os cananeus, na costa marítima e ao longo do Jordão”. 30 Entretanto Caleb, para acalmar o povo revoltado, que se levantava contra Moisés, disse: “Subamos e conquistemos a terra, pois somos capazes de fazê-lo”. 31 Mas os homens que tinham ido com ele disseram: “Não podemos enfrentar esse povo, porque é mais forte do que nós”. 32 E, diante dos filhos de Israel, começaram a difamar a terra que haviam explorado, dizendo: “A terra que fomos explorar é uma terra que devora os seus habitantes: o povo que aí vimos é de estatura extraordinária. 33 Lá vimos gigantes, filhos de Enac, da raça dos gigantes; comparados com eles parecíamos gafanhotos”. 14,1 Então, toda a Comunidade começou a gritar, e passou aquela noite chorando. 26 O Senhor falou a Moisés e Aarão, e disse: 27 “Até quando vai murmurar contra mim esta Comunidade perversa? Eu ouvi as queixas dos filhos de Israel. 28 Dize-lhes, pois: ‘Por minha vida, diz o Senhor, juro que vos farei assim como vos ouvi dizer! 29 Neste deserto ficarão estendidos os vossos cadáveres. Todos vós que fostes recenseados, da idade de vinte anos para cima, e que murmurastes contra mim, 30 não entrareis na terra na qual jurei, com mão levantada, fazer-vos habitar, exceto Caleb, filho de Jefoné, e Josué, filho de Num. 34 Carregareis vossa culpa durante quarenta anos, que correspondem aos quarenta dias em que explorastes a terra, isto é, um ano para cada dia; e experimentareis a minha vingança’. 35 Eu, o Senhor, assim como disse, assim o farei com toda essa Comunidade perversa, que se insurgiu contra mim: nesta solidão será consumida e morrerá”.


Evangelho: Mt 15,21-28
Naquele tempo, 21 Jesus retirou-se para a região de Tiro e Sidônia. 22 Eis que uma mulher cananeia, vindo daquela região, pôs-se a gritar: “Senhor, filho de Davi, tem piedade de mim: minha filha está cruelmente atormentada por um demônio!” 23 Mas, Jesus não lhe respondeu palavra alguma. Então seus discípulos aproximaram-se e lhe pediram: “Manda embora essa mulher, pois ela vem gritando atrás de nós”. 24 Jesus respondeu: “Eu fui enviado somente às ovelhas perdidas da casa de Israel”. 25 Mas, a mulher, aproximando-se, prostrou-se diante de Jesus, e começou a implorar: “Senhor, socorre-me!” 26 Jesus lhe disse: “Não fica bem tirar o pão dos filhos para jogá-los aos cachorrinhos”. 27 A mulher insistiu: “É verdade, Senhor; mas os cachorrinhos também comem as migalhas que caem da mesa de seus donos!” 28 Diante disso, Jesus lhe disse: “Mulher, grande é a tua fé! Seja feito como tu queres!” E desde aquele momento sua filha ficou curada.
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Deus Nos Ama Com Amor Eterno


“O Senhor falou a Moisés, no deserto de Faran, dizendo: ‘Envia alguns homens para explorar a terra de Canaã, que vou dar aos filhos de Israel’” é a primeira frase da Primeira Leitura de hoje.


O texto da Primeira Leitura se encontra no conjunto de Nm 13-20 onde se relatam os acontecimentos importantes. O povo eleito se encontra em Cades que se situa entre Sinai (onde o povo eleito vai partir para a terra prometida) e as planícies de Moab (o lugar onde o povo eleito vai chegar e permanecer). Neste conjunto é que se relata a separação de duas gerações: a geração saída do Egito condenada a morrer no deserto por causa da falta de fé, rebeldia e murmuração contra Moisés e Deus, e a geração seguinte que são filhos da geração saída do Egito. Esta segunda geração é que vai entrar na terra prometida: “Todos vós que fostes recenseados, da idade de vinte anos para cima, e que murmurastes contra mim, não entrareis na terra na qual jurei, com mão levantada, fazer-vos habitar, exceto Caleb, filho de Jefoné, e Josué, filho de Num” (Nm 24,29-30).


Neste texto se relata a falta da fidelidade do povo e da fé em Deus que garante a conquista da terra prometida: “Envia alguns homens para explorar a terra de Canaã, que vou dar aos filhos de Israel”, assim Deus falou para Moisés. A terra é boa e fértil: “Entramos no país, ao qual nos enviastes, que de fato é uma terra onde corre leite e mel”, relataram os enviados para Moisés que exploraram a terra em questão.


A expressão “uma terra onde corre leite e mel” não se trata tanto de uma descrição geográfica (fertilidade e riqueza material do solo) e sim uma confissão teológica. O povo eleito é um povo peregrino em busca de uma terra onde possa permanecer para sempre. Por isso, a expressão “uma terra onde corre leite e mel” é uma forma de agradecer a Deus que pela sua bondade o povo conseguiu uma terra onde mora para sempre.


Por outro lado, os habitantes dessa terra são fortes: “Comparados com eles parecíamos gafanhotos”, acrescentaram os enviados. Ao ouvir tudo isso, menos Caleb, o resto do povo eleito se arrependeu de ter saído do Egito. Diante disso tudo, Deus “se sente ofendido” e condena essa geração a morrer no deserto.


O autor sagrado quer nos chamar a atenção sobre algo importante que está em jogo. A terra encontrada pelos exploradores (enviados de Moisés) é a terra boa para se morar e dela o povo pode viver. Mas há um grande desafio: o povo na terra encontrada é gigante. Isto significa que o povo eleito deve estar disposto a enfrentar os maiores dificuldades para conquistar o que é valioso para sua vida, sua liberdade e sua felicidade. Quanto maior for um desafio, maior será o esforço para superar o desafio para, no fim, terá a maior vitória. Não há vitória sem luta. Cada desafio nos torna mais criativos para encontrar meios adequados para superá-lo.


Diante das provações da vida, temos, mais ou menos, duas possibilidades: a resignação e a perseverança. A resignação nos faz recusarmos a viver nossa aflição, vegetar no absurdo (viver sem sentido) e no vazio. A perseverança nos faz acreditarmos numa transformação possível, apesar das aparências contrárias e das impossibilidades do ponto de vista humano.


Por isso é que Deus pede que o povo eleito acredite n´Ele, pois o próprio Deus quer dar a terra em questão apesar dos gigantescos seus desafios e obstáculos: “Envia alguns homens para explorar a terra de Canaã, que vou dar aos filhos de Israel”. No âmago da nossa confiança, naquilo que Deus nos deu ou nos dará, encontramos a força para nos superar e enfrentar as provações. A fé em Deus nos leva a nos libertar, a nos assumir, a nos manter de pé, com determinação.


As palavras de Moisés para levantar o povo desanimado e as de outros dirigentes (Aarão, Josué e Caleb) não convencem o povo eleito. E esse povo morreu no seu desespero sem lutar para alcançar o mais valioso preparado por Deus no fim de sua peregrinação que é a terra prometida.


Nosso sentimento de impotência diante dos desafios nos priva de um olhar verdadeiro sobre nós mesmos e sobre nossas potencialidades ou capacidades. Se não aprendermos a olhar e a acreditar em Deus e a olhar a partir de dentro de nós, nunca teremos ideia da dimensão do nosso poder com Deus diante dos obstáculos externos. Consequentemente, nós nos impediremos de ir cada vez mais longe, mesmo sendo capazes. A fonte de nossa cegueira raramente está fora de nós e sim está dentro de nós mesmos, pois os que nos amam sabem que estamos carentes de algo importante e querem nos ajudar. Mas quantas vezes recusamos a ajuda dos outros ou dos que nos amam. Por isso, vivemos apalpando sem saber do sentido daquilo que estamos fazendo e falando e da direção para onde vamos. Consequentemente, morremos parados e paralisados. A vida continua nos chamando a caminharmos para descobrir suas surpresas preparadas por Deus para nosso bem e felicidade. Quando, com coragem, acreditamos no Domingo da Páscoa, porque em nós está a força da ressurreição, não há fracasso que nos faça perdedores. A força de Deus é tal que é capaz de nos encher de serenidade e confiança, enquanto a provação tenta nos impor um sentimento de fracasso e o desejo de perecer.


É Preciso Ter Fé No Deus Que Ama a Todos


“’ Mulher, grande é a tua fé! Seja feito como tu queres!’. E desde aquele momento sua filha ficou curada”.


1. A Salvação Trazida Por Jesus é Para Todos Os Homens


O que tem por trás do relato sobre a cura da filha de uma mulher cananéia é a chegada do Evangelho aos pagãos. Neste relato usam-se os termos “cananéia”, apelativo dado à mulher cuja filha estava doente e “cachorro”. No Antigo Testamento o apelativo “cananéia” designa os pagãos. Do mesmo modo o termo “cachorro” (animal impuro), que é para os judeus tem um sentido pejorativo, designa os pagãos (impuros).


O relato nos mostra que, sendo judeu, Jesus abre o diálogo para os pagãos, pois Ele foi enviado para salvar toda a humanidade. Por sua vez, os pagãos, representados pela mulher cananéia, reconhecem a messianidade de Jesus ao chamá-Lo de “Senhor e Filho de Davi” (Mt 15,22.25) e O adoram como Deus: “A mulher, aproximando-se, prostrou-se diante de Jesus, e começou a implorar: “Senhor, socorre-me!” (Mt 15,25).  “Prostrar-se” é uma expressão de adoração.  E a adoração supõe que esteja diante de uma divindade. A cananeia vê em Jesus uma divindade.


Para enfatizar mais ainda o papel de Jesus como o Salvador da humanidade o texto usa também o termo “pão” que no relato tem um sentido simbólico: “Não fica bem tirar o pão dos filhos para jogá-los aos cachorrinhos”. A mulher insistiu: “É verdade, Senhor; mas os cachorrinhos também comem as migalhas que caem da mesa de seus donos!”.  “Comer as migalhas que caem da mesa dos filhos” significa receber de Jesus o dom da cura para a filha da cananéia. O pão alimenta e sustenta a vida. Jesus é Aquele que sustenta a vida da humanidade, pois Ele é a própria vida e o Pão da vida (Jo 11,25; 14,6; cf. Jo 6,35.41.48.51.55).


2. Uma Pagã Que Nos Ensina a Termos Fé Em Jesus


O grandioso do relato do evangelho deste dia é a forma como uma mulher pagã é colocada como modelo de fé em seu sentido mais genuíno e original. Ela se abandona nos braços d’Aquele que vem da parte de Deus (Jesus Cristo) e se declara fraca e limitada humanamente diante do problema que afeta a vida de sua filha e consequentemente afeta também sua vida como mãe. Em uma família ninguém sofre sozinho. A mãe reconhece a superioridade e poder de Jesus, mostrando ao mesmo tempo a gravidade do problema que afeta sua própria filha. O problema de sua filha é insustentável. Na sua declaração essa mulher quer dizer a Jesus: “Sem Sua ajuda, Jesus, sem Seu poder, é impossível sair do meu problema!”.


Essa mulher era uma Cananéia, uma pagã, uma estrangeira. Jesus põe a prova sua fé usando uma frase que se utilizava para desprezar os estrangeiros ou os pagãos: “cachorro”. Mas ela, confiada na justiça e na misericórdia de Deus, responde sabiamente a Jesus: “Mas os cachorrinhos também comem as migalhas que caem da mesa dos seus donos”. Pela sua fé verdadeira e profunda e pela perseverança na sua oração essa mulher é premiada por Jesus: a cura de sua filha.


O evangelho nos mostra a fé de uma mulher que não pertencia ao povo eleito, não pertencia à uma Igreja ou a uma religião, mas tinha confiança e fé no poder de Jesus. Ela pode não pertencer a uma religião ou a uma Igreja, mas ela pertence a Deus pela fé que tem no poder do Deus-Encarnado, Jesus Cristo. Será que os que estão dentro da Igreja têm mais fé do que os que estão fora da Igreja? Será que os que estão dentro da Igreja são mais cristãos do que os que estão fora da Igreja? Será que os que estão dentro da Igreja são mais humanos, gentis e educados do que os que estão fora da Igreja? Será que os que estão dentro da Igreja são mais perseverantes na fé do que os que estão fora da Igreja? Será que, por causa da fé e do amor, os que são considerados fora da Igreja na verdade estão dentro da Igreja e os que são considerados dentro da Igreja na verdade estão fora da Igreja? Será.....? “Todos somos mais ateus do que acreditamos e mais crentes do que pensamos. Acho que os ateus não se opõem a Deus, mas às criaturas de Deus que os fiéis lhe mostram” (René Juan Trossero).


Ser pagão não depende da pertença ou não a uma religião ou a uma Igreja. Ser pagão se define a partir do modo de viver. Por isso, há cristãos-pagãos como também há pagãos- cristãos. Há cristãos que perdem com facilidade sua fé e vivem sem esperança. São “cristãos” pagãos. Há muitos que são considerados pagãos pelos outros, como a mulher Cananéia, mas acreditam no poder de Deus incondicionalmente. São “pagãos” cristãos.


A mulher Cananéia não perde sua fé, não protesta, não se revolta ainda que encare a humilhação: ser chamada de cachorro. Ela conseguiu o que pedia, pois ela se abandonava totalmente nos braços de Deus e encarava todos os tipos de obstáculos e dificuldades. Santo Agostinho dizia que muitos não conseguem o que pedem porque são maus de coração e por isso, eles têm que ser, primeiramente, bons. Ou muitos não conseguem o que pedem porque pedem malmente, sem insistência no lugar de fazê-lo com paciência, com humildade, com fé e por amor. Há que esforçar-se por pedir o que bom para todos. A mulher Cananéia é boa mãe, pede algo bom e pede bem. Através do evangelho de hoje o Senhor quer nos mover a termos fé e perseverança e a vivermos na esperança porque Deus nos ama. Deus se vence com fé e não com orgulho. De Deus se obtém tudo com confiança. Em Deus sempre encontra uma acolhida quando cada um se aproxima com humildade e não com autossuficiência.


Essa mulher é um modelo acabado de fé e oração unidas. Ela chama Jesus de “Senhor”, um título dado a Jesus pós-pascal. Sua fé é orientada para a libertação do próximo, nesse caso de sua filha. E sua oração cumpre aquilo que Jesus pede: a fé, confiança, perseverança e sem desfalecimento.


Ela nos ensina que a fé e a oração devem andar juntas. Quem tem fé em Deus precisa rezar. E quem reza, precisa ter fé. A fé é a atitude básica de qualquer crente, de qualquer cristão, pois ela é a resposta nossa diante da oferta do amor de Deus para nós. A oração evidencia, por sua vez, a presença e a vitalidade de nossa fé em Deus.


Nós cristãos temos que aprender da mulher cananeia muitas coisas belas. Deus é convencido com a fé e não com o orgulho. De Deus se obtém tudo não com o racionalismo e sim com a confiança. Em Deus sempre encontra uma acolhida quando o homem se aproxima d’Ele com humildade e não com autossuficiência. A mulher cananeia nos obriga a revisarmos nossa fé.


3. Para Refletir Mais
  • “Posso afirmar que posso viver sem água nem ar, mas não posso viver sem Deus. Podes arrancar-me os olhos que isso não me mata. Podes arrancar-me o nariz que isso não me mata. Mas basta que destruas minha fé, e estarei morto” (Mahatma Gandhi).


  • “Esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé” (1Jo 5,4)
     
  • “Todos somos mais ateus do que acreditamos e mais crentes do que pensamos. Acho que os ateus não se opõem a Deus, mas às criaturas de Deus que os fiéis lhe mostram” (René Juan Trossero).
     
P. Vitus Gustama,svd
06/08/2019
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TRANSFIGURAÇÃO:
VIVER UMA VIDA TRANSFIGURADA ESCUTANDO DEUS QUE NOS FALA
06 de Agosto


Primeira Leitura: Dn 7,9-10.13-14
9 Eu continuava olhando até que foram colocados uns tronos, e um Ancião de muitos dias aí tomou lugar. Sua veste era branca como neve e os cabelos da cabeça, como lã pura; seu trono eram chamas de fogo, e as rodas do trono, como fogo em brasa. 10 Derramava-se aí um rio de fogo que nascia diante dele; serviam-no milhares de milhares, e milhões de milhões assistiam-no ao trono; foi instalado o tribunal e os livros foram abertos. 13 Continuei insistindo na visão noturna, e eis que, entre as nuvens do céu, vinha um como filho do homem, aproximando-se do Ancião de muitos dias, e foi conduzido à sua presença. 14 Foram-lhe dados poder, glória e realeza, e todos os povos, nações e línguas o serviam: seu poder é um poder eterno que não lhe será tirado, e seu reino, um reino que não se dissolverá.


Evangelho: Lc 9, 28b-36
Naquele tempo, 28b Jesus levou consigo Pedro, João e Tiago, e subiu à montanha para rezar. 29 Enquanto rezava, seu rosto mudou de aparência e sua roupa ficou muito branca e brilhante. 30 Eis que dois homens estavam conversando com Jesus: eram Moi­sés e Elias. 31 Eles apareceram revestidos de glória e conversavam sobre a morte, que Jesus iria sofrer em Jerusalém. 32 Pedro e os companheiros estavam com muito sono. Ao despertarem, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com ele. 33 E quando estes homens se iam afastando, Pedro disse a Jesus: “Mestre, é bom estarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”. Pedro não sabia o que estava dizendo. 34 Ele estava ainda falando, quando apareceu uma nuvem que os cobriu com sua sombra. Os discípulos ficaram com medo ao entrarem dentro da nuvem. 35 Da nuvem, porém, saiu uma voz que dizia: “Este é o meu Filho, o Escolhido. Escutai o que ele diz!” 36 Enquanto a voz ressoava, Jesus encontrou-se sozinho. Os discípulos ficaram calados e naqueles dias não contaram a ninguém nada do que tinham visto.
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Neste dia 6 de Agosto a Igreja celebra a Festa da Transfiguração do Senhor.


Os evangelhos, que relatam o episódio da Transfiguração do Senhor, querem nos dizer que Jesus que caminha até a Cruz, é realmente o Senhor. Precisamente, neste Jesus que caminha até a Cruz encontramos o cumprimento de todas as esperanças. A transfiguração se transforma na revelação não somente do que será Jesus depois da Cruz, mas ao longo de sua viagem para Jerusalém. A transfiguração de Jesus revela a verdadeira natureza de Jesus como Senhor (título pós-pascal). A transfiguração quer revelar aos discípulos que atrás da Cruz há a glória. E para os discípulos, representados por Pedro, João e Tiago, é concedida a graça de contemplar a glória de Jesus, por um instante. A transfiguração é a Páscoa antecipada por um instante.

Reflitamos alguns pontos do texto do evangelho sobre a transfiguração na versão do evangelho de Lucas!


1. Quem Anda Com o Senhor Se transfigura e Experimenta a Glorificação


A transfiguração é uma mensagem da esperança com intenção de animar qualquer um de nós em qualquer situação onde nos encontramos.


Jesus percebe o desânimo dos seus discípulos por causa das dificuldades. Com Jesus eles são criticados, muitos os recusaram. Além disso, ainda ouviram de Jesus três vezes o anúncio da morte iminente de Jesus com muito sofrimento. Com certeza, surge uma pergunta no seu coração: Será que vale a pena seguir esse Jesus que se diz o Messias esperado?


Para resolver o problema do desânimo dos discípulos Jesus leva os três representantes para o topo de uma montanha: Pedro, Tiago e João. No topo da montanha é que Jesus se transfigura diante deles. Com essa transfiguração Jesus quer dizer aos três: quando caminha comigo, mesmo que enfrente muitas dificuldades, muitas críticas, bastante recusas, experimentará a vida glorificada, terá uma vida transfigurada. Jesus quer lhes dizer: “Comigo não tenham medo de nada e de ninguém, pois a minha Palavra será a última palavra!”. Quando as forças humanas se esgotarem, a fé em Jesus vai surgi-las novamente.


2. Deus Quer Ficar Em Nossa Casa e Habitar Em Nosso Coração


“É bom estarmos aqui, Senhor. Vamos fazer três tendas: uma para Ti, outra para Moises e outra para Elias”, disse Pedro a Jesus. O projeto da tenda de Pedro responde ao desejo inconsciente de ter Deus a distância, de marcar limite da presença de Deus em lugares e tempos bem definidos. Mas Deus não aceita nosso jogo. Com sua encarnação Deus escolheu outro jogo, que é muito mais sério: o jogo de nossa realidade de todos os dias.


Jesus não aceita pousada para ele. A hospitalidade que Ele pretende é a doméstica. Por isso, ele, com seus discípulos, desceu da montanha.


É curioso como o homem se preocupa sempre em construir algum lugar para Deus para deixar Deus instalado, para imobilizar Deus num lugar. Ao contrário, Deus desceu para a terra precisamente para habitar na casa do homem. Deus não habita nas paredes de uma igreja. Ele quer instalar-se em nossa casa, em sua casa, em minha casa. Deus quer instalar-se em nossa vida, em cada família, no centro de nossos trabalhos cotidianos. Que adiante visitarmos Deus nas igrejas que construímos, se Ele não tem nenhum cantinho na sua casa, na sua família, no nosso trabalho, nas nossas conversas? As igrejas que construímos deve ser manifestação de nossa vida de fraternidade, mostrando que somos todos irmãos e irmãs de Jesus, filhos e filhas do mesmo Pai celeste. O coração do homem é o lugar preferido de Deus. Um coração que ama é a melhor morada de Deus: “Se alguém me ama guardará a minha palavra e meu Pai o amará, e nós viremos a ele e nele faremos nossa morada” (Jo 14,23). Se cada um tiver lugar para Deus na sua família, essa família vai experimentar também a transfiguração, a glorificação.


3. É Preciso Escutarmos a Jesus Permanentemente Para Orientar Nossa Vida e Para Termos a Paz


“Este é o meu Filho, o amado, escutai-O”


Na verdade, cada um de nós é vítima da agressão externa de hordas de palavras, de sons muito altos, de clamores que ensurdecem o nosso coração, o nosso dia e até mesmo, às vezes, a nossa própria noite. A pessoa que expulsa de seus pensamentos o Deus vivo, Aquele que é o único capaz de encher todos os espaços, o Único capaz de satisfazer seus anseios se torna uma pessoa vazia. Para preencher esse vazio, ele quer só barulho, pois aquilo que não temos dentro de nós somos obrigados a buscá-lo fora de nós.


A voz do Pai do céu fala para nós hoje sobre Jesus: “Este é o meu Filho, o Escolhido. Escutai o que ele diz!”.  Por que precisamos escutar a Jesus permanentemente? Porque ele tem uma palavra para mim, para minha família, para meu casamento, para meu trabalho, para meus problemas, para minha angústia, para minha confusão até para a minha doença e dor. Eu posso escutar esta palavra no silêncio e na paz. Eu preciso me alimentar desta escuta para que eu cresça na fé e me realize como pessoa muita humana.


Para termos a capacidade e uma atitude de escuta, temos que saber primeiro criar o silêncio. O silêncio possibilita a presença da eternidade. Todas as obras primas da história foram frutos do silêncio. Quem fala muito é porque não tem tempo para pensar. E a Palavra de Deus nos diz que quem fala muito a possibilidade de pecar é muito grande, pois no falar muito está o pecado. O silêncio nos ajuda a calarmos em nós a fantasia para viver a vida na sua profundidade, na sua originalidade que é dom de Deus.


Portanto, vale a pena cada um se perguntar: De que modo você escuta Jesus Cristo diariamente? Quais são seus momentos de silêncio e de escuta da Palavra de Deus no seu dia a dia? Sei fazer-me escutar? Isso é muito importante porque, às vezes, há quem diga: “Ninguém me escuta”, porém, não se questiona se sabe fazer-se escutar, se sabe manifestar e encontrar os caminhos de verdade para este direito fundamental que é o fazer-se escutar? Você é uma pessoa que sabe escutar os outros? Ou apenas faz o silêncio esperando sua oportunidade para falar sem escutar a quem está falando para você?


Escutar o outro também faz parte da espiritualidade cristã. Escutar é algo mais do que ouvir. Escutar significa atender, ir assimilando o que se ouve, reconstruir interiormente o conteúdo da mensagem. Por isso, a escuta é a fonte e o alimento da fé. “A Igreja, a comunidade vai edificando e crescendo pela escuta da Palavra de Deus” (OLM,7).


Escutar significa fazer próprio o que se proclama e o que se escuta.  Escutar Jesus e suas palavras e viver conforme aquilo que se escuta de Jesus resulta no alcance da vida eterna: “Eu dou-lhes a vida eterna e elas jamais se perderão”.
 
P. Vitus Gustama,svd
05/08/2019
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PARA VIVER UMA VIDA CRISTÃ EQUILIBRADA É PRECISO QUE SEJAMOS ALIMENTADOS PELO PÃO MATERIAL E PÃO EUCARÍSTICO
Segunda-Feira Da XVIII Semana Comum


Primeira Leitura: Nm 11,4b-15
Naqueles dias, 4b os filhos de Israel começaram a lamentar-se, dizendo: “Quem nos dará carne para comer? 5 Vêm-nos à memória os peixes que comíamos de graça no Egito, os pepinos e os melões, as verduras, as cebolas e os alhos. 6 Aqui nada tem gosto ao nosso paladar, não vemos outra coisa a não ser o maná”. 7 O maná era parecido com a semente do coentro e amarelado como certa resina. 8 O povo se dispersava para o recolher e o moía num moinho, ou socava num pilão. Depois o cozinhavam numa panela e faziam broas com gosto de pão amassado com azeite. 9 À noite, quando o orvalho caía no acampamento, caía também o maná. 10 Moisés ouviu, pois, o povo lamentar-se em cada família, cada um à entrada de sua tenda. 11 Então o Senhor tomou-se de uma cólera violenta, e Moisés, achando também tal coisa intolerável, disse ao Senhor: “Por que maltrataste assim o teu povo? Por que gozo tão pouco do teu favor, a ponto de descarregares sobre mim o peso de todo este povo? 12 Acaso fui eu quem concebeu e deu à luz todo este povo, para que me digas: ‘Carrega-o ao colo, como a ama costuma fazer com a criança; e leva-o à terra que juraste dar a seus pais!’? 13 Onde conseguirei carne para dar a toda esta gente? Pois se lamentam contra mim, dizendo: ‘Dá-nos carne para comer!’ 14 Já não posso suportar sozinho o peso de todo este povo: é grande demais para mim. 15 Se queres continuar a tratar-me assim, peço-te que me tires a vida, se achei graça a teus olhos, para que eu não veja mais tamanha desgraça”.


Evangelho: Mt 14,13-21
Naquele tempo, 13 quando soube da morte de João Batista, Jesus partiu e foi de barco para um lugar deserto e afastado. Mas quando as multidões souberam disso, saíram das cidades e o seguiram a pé. 14 Ao sair da barca, Jesus viu uma grande multidão. Encheu-se de compaixão por eles e curou os que estavam doentes. 15 Ao entardecer, os discípulos aproximaram-se de Jesus e disseram: “Este lugar é deserto e a hora já está adiantada. Despede as multidões, para que possam ir aos povoados comprar comida!” 16 Jesus porém lhes disse: “Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer!” 17 Os discípulos responderam: “Só temos aqui cinco pães e dois peixes”. 18 Jesus disse: “Trazei-os aqui”. 19 Jesus mandou que as multidões se sentassem na grama. Então pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção. Em seguida partiu os pães, e os deu aos discípulos. Os discípulos os distribuíram às multidões. 20 Todos comeram e ficaram satisfeitos, e dos pedaços que sobraram, recolheram ainda doze cestos cheios. 21 E os que haviam comido eram mais ou menos cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças.
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Deus Está Conosco Apesar de Nossas Queixas, Protestos e Murmurações


A Primeira Leitura é tirada do livro de Números, o quarto livro do Pentateuco que vamos ler durante quatro dias. Na Bíblia hebraica este livro é chamado Bamidbar (no deserto). Este nome é tirado da quinta palavra do primeiro versículo deste livro. Na Bíblia grega este livro é chamado Arithmoi cuja tradução para a Vulgata (Bíblia latina) é Numeri que significa Números, título que temos na nossa Bíblia atual. Este livro recebe este nome (Números) porque nele há muitos números, censos, listas e recenseamentos.


O livro de Números retoma o fio da história no Sinai até as portas da terra prometida. O livro enfatiza bastante a coesão das tribos como o povo eleito sob a direção de Moisés e Aarão e que depois estes serão sucedidos por Eleazar.


Neste livro fala-se de Israel como um povo à parte, pois ele é o povo eleito entre outros povos (Nm 23,9). Fala-se do dogma da presença de Deus que vive no meio do povo. No NT este dogma se encarna em Jesus (Mt 28,20; Jo 1,14). Por causa deste dogma, Israel se torna uma nação teocrática. Consequentemente, os chefes do povo são considerados como vigários e representantes de Deus. Moisés, por exemplo, é o homem de confiança de Deus (Nm 12,6-8), o porta-vos de Deus, legislador, por excelência. Por isso, Moisés recebe os títulos de intercessor, eleito de Deus, homem de Deus, servo do Senhor (Nm 11,11-12). Mesmo sendo uma nação teocrática, Israel é também uma mistura de santo e de pecador. “Santo” significa “separado”. Israel é santo porque é um “povo separado”, pois é consagrado ao Senhor. Esta consagração (social e espacial) implica necessariamente a santidade moral. Por isso, neste livro encontramos leis, prescrições e instituições para salvaguardar e promover a santidade moral do povo eleito.  A lei em si é uma confirmação da bondade e da maldade, do bem e do mal. Para salvaguardar os bons é preciso ter lei para que os maus não avancem destruindo seu próximo. Mas quando houver amor, a lei perderá sua existência, pois “a caridade é a plenitude da lei” (Rm 13,10). Por isso, neste livro fala-se também das infidelidades e outros pecados do povo eleito. Em Nm 11-21 encontramos muitas queixas, protestos e murmurações do povo eleito contra Moisés que os tirou do Egito sob a ordem de Deus. O autor sagrado quer transmitir também o outro tema: o povo eleito é o depositário da bênção de Deus. Este tema está em destaque nos quatros poemas mais densos e profundos teologicamente de Balaão (Nm 23-24). Balão é enviado por um rei para amaldiçoar o povo eleito. Mas em vez de amaldiçoar, ele abençoa o povo de Israel. Mas os autores do AT mantém o seguinte pensamento: o pecado costuma ser seguido pelo arrependimento e o arrependimento do povo é seguido pelo perdão de Deus. Consequentemente há uma dialética: pecado-castigo; conversão-salvação. No fim Deus sempre se mostra misericordioso pelo arrependimento do povo que pecou.


Esta dialética encontramos no texto da Primeira Leitura (Nm 11,1-15).  O povo se encontra no deserto, precisamente em Qibrot-Taava que significa “Sepulcros da cobiça” (Nm 11,34). O povo reclama por falta de carne para comer no deserto. E Deus alimento o povo com cordonizes (Nm 11,4-9.10.13.18-24ª). Mas também o povo é punido por sua cobiça (Nm 11,31-33). O povo se queixa no deserto pela vida difícil. A vida difícil no deserto resulta na atitude rebelde do povo que se queixa e ofende Deus. Esta atitude resulta na ira e no castigo da parte do Senhor. Mas Moisés intercede pelo povo para pedir o perdão a Deus. O esquema pecado-castigo-conversão se repete constantemente nos diversos autores e escolas teológicas do Antigo Testamento.


O deserto foi duro para o povo. O deserto é o contrário de “instalação”: é a aventura de seguir caminhando. O povo murmura pelas condições em que tem que viver e caminhar. Abandonaram a vida com comida farta que levavam no Egito apesar da escravidão. A liberdade sempre dá medo. O deserto ajuda a crescer na maturidade. Mas os israelitas sempre continuam experimentando a proximidade de Deus que é fiel a sua Aliança.


Moisés se deixa contagiar pelo mal-estar do povo, pois a impaciência do povo vai contra ele: “Quem nos dará carne para comer? Vêm-nos à memória os peixes que comíamos de graça no Egito, os pepinos e os melões, as verduras, as cebolas e os alhos. Aqui nada tem gosto ao nosso paladar, não vemos outra coisa a não ser o maná”. O povo se esqueceu de tudo que Moisés fez por ele em nome de Deus. Moisés ficou desanimado, mas refugiou na oração, uma oração muito humana e sentida: “Por que maltrataste assim o teu povo? Por que gozo tão pouco do teu favor, a ponto de descarregares sobre mim o peso de todo este povo?”, perguntou Moisés a Deus na oração. A crise é tão forte a ponto de Moisés pedir a morte: “Se queres continuar a tratar-me assim, peço-te que me tires a vida, se achei graça a teus olhos, para que eu não veja mais tamanha desgraça”.


Todos temos nossos momentos de crise e desânimo ainda que não desejemos nossa morte como Moisés. Vemos muito pouco fruto no trabalho que temos realizado; vemos os filhos que não querem saber de Deus ou praticam coisas ilícitas; vemos nossa família desunida, nosso casamento desmoronado, doenças incuráveis, e assim por diante. Nestas situações experimentamos o cansaço psicológico e existencial que a vida produz cada dia. Há dias em que são acumulados os desgostos pela vida, pela comunidade, pela pastoral, pela família e assim por diante. Experimentamos as tarefas que se tornam uma carga insuportável. Nessa situação surge vontade de gritar para ter um pouco de alívio.


Mas a Palavra de Deus existe para nos orientar. Nestas situações serve para nós o exemplo de Moisés. Precisamos nos refugiar no Senhor que sabe tudo e pode tudo. A oração é antes de tudo uma confissão da própria indigência: Senhor, eu não consegui alcançar tal objetivo, Senhor, eu ando buscando..., Senhor, eu não compreendo tudo. Senhor, eu necessito de Ti. Rezar é estar diante de Deus, estar com Deus e estar em Deus. E Deus sabe o que fazer com nossa situação. Mas fiquemos atentos para cada resposta de Deus, pois nem sempre enxergamos as respostas dadas por Deus para nossa situação.


Jesus nos convida a perseverar em nossa oração, a dirigir confiadamente nossas súplicas ao Pai (cf. Lc11,5-13; 18,1). Ele nos recomenda que sejamos persistentes na oração não porque Deus seja surdo e sim porque nós necessitamos perseverar para alcançá-Lo. A natureza humana é geralmente caracterizada pela inconstância. Ficamos desanimados e apavorados diante do primeiro obstáculo que nos é apresentado na consequência de nossos projetos e metas. Abandonamos a nave diante do menor indício de tormenta. As coisas fáceis geralmente não são valiosas. Para vencer os obstáculos são necessárias a humildade, a confiança e a perseverança.


Se decidirmos cultivar uma atitude perseverante, uma entrega decidida, e uma sobriedade diante das dificuldades, nós veremos que ao término de nosso esforço se encontra a generosa vontade de Deus que nos tem acompanhado desde o início de nossa vida até o fim (Cf. Mt 28,20).


Somos Responsáveis Pelos Irmãos Necessitados


“Vós mesmos deveis dar-lhes de comer”. Esta é a ordem de Jesus para seus discípulos no evangelho de hoje diante da multidão faminta.


Vivemos este paradoxo: “Não somente de pão vive o homem; porém, sem pão ele não pode viver”. Como integrar a necessidade de pão com a experiência de que o pão não sacia outras fomes e a nossa fome mais profunda? A questão tem aplicação pessoal e social, ao mesmo tempo.


A Palavra de Deus mantém a bipolaridade: pão para o faminto e pão para os que comem e não se saciam. Provamos ou experimentamos tudo e estamos cada dia mais vazios (cf. Is 55,1-3). Dedicamos bastante tempo de nossa vida em função da procura do “o quê” de nossa vida, do seu aspecto material. E nessa busca percebemos que quanto mais tivermos, mais quereremos. Uma vez Oscar Wilde escreveu: “Neste mundo só há duas tragédias: uma é não se conseguir o que se quer, a outra é conseguir”. No fim confessamos que tudo que conseguimos materialmente e profissionalmente não satisfaz aquela fome sem nome que temos na alma. Carl Gustav Jung chegou a escrever e afirmar: “O problema de cerca de um terço de meus pacientes não é diagnosticado clinicamente como neurose, mas resulta da falta de sentido de suas vidas vazias. Isto pode ser definido como a neurose geral de nossa época” (O Homem Moderno à Procura de Uma Alma).


O que nos frustra e tira nossa alegria de viver é a ausência do significado de nossa vida, o para quê de nossa existência neste mundo. Nossa alma não está sedenta de poder, de fama, de popularidade, de conforto, de propriedades e assim por diante. Nossa alma tem fome do significado da vida, ou de aprendermos a viver de tal modo que nossa existência ou nossa passagem neste mundo tenha importância ou significado capaz de modificar ou de melhorar o mundo, pelo menos, ao nosso redor.


Este vazio existencial é o pressuposto onde cabe pronunciar a Palavra de Deus: “Inclinai vosso ouvido e vinde a Mim, ouvi e tereis vida” (Is 55,3ª). A Palavra de Deus é o verdadeiro alimento para o coração humano. A Palavra de Deus continuará a ser eficaz, curadora, e libertadora, se nós soubermos ouvi-la atentamente, meditá-la no nosso dedicado silêncio de cada dia e vivê-la na nossa vida cotidiana. Se a Palavra de Deus já curou tantas pessoas, converteu tantos pecadores, libertou tantas pessoas de seus problemas, guiou a vida de tantos homens, esta mesma Palavra continua tendo o mesmo poder e a mesma eficácia. A palavra humana pode errar e enganar, mas a Palavra de Deus não erra nem engana. A Palavra de Deus é firme para sustentar a vida de quem nela se agarra e por ela se orienta. Dizia o papa Gregório Magno: “Ler a Bíblia é aprender a conhecer o coração de Deus mediante Suas palavras”. E coração de Deus é um coração cheio de amor misericordioso. Por isso, Santo Agostinho dizia: “Toda a Bíblia nada mais do que narrar o amor de Deus”. O amor de Deus é a última resposta para todos os “porquês” da vida do homem (cf. Jo 3,16). Tudo o que Deus faz e fala na Bíblia é amor. Deus move o mundo enquanto é amado, isto é, enquanto é objeto de amor e causa final de todas as criaturas.


Por essa razão, a multiplicação dos pães feita por Jesus exige um duplo princípio de leitura: por um lado, a leitura a partir da práxis messiânica de Jesus, o realista Encarnado, que traz o Reino para os famintos de estômago, multiplicando os pães a partir daquilo que o ser humano lhe oferece com generosidade: cinco pães e dois peixes. É uma leitura sem metáfora. Jesus alimenta o povo faminto. Ele se preocupa com o estômago vazio da maioria. A partir desta leitura podemos entender a ordem de Jesus para qualquer dos seus seguidores em qualquer época e lugar: “Vós mesmos deveis dar de comer para a multidão faminta”. Nem que seja a partir do pouco que se tem como cinco pães e dois peixes, mas que saiba dividir para que todos possam viver dignamente como filhos e filhas de Deus. O cristão existe para prolongar a generosidade do Deus-Criador que criou tudo gratuitamente para o bem da humanidade. Cada generosidade feita o egoísmo é vencido e esmagado. Cada pequena generosidade a ganância é enterrada e o sorriso fraterno volta a brilhar e a família de Deus nesta terra volta a ser edificada.


O milagre está na partilha. O problema da fome física e de outras fomes somente pode ser resolvido satisfatoriamente quando nós, homens, aprendemos a partilhar o que temos para com aqueles que não têm nada para sobreviver. O milagre está na partilha, na solidariedade e no amor entranhável. Sem essa solidariedade, sem essa fraternidade, sem comunicação de bens e sem essa comunhão no amor, não é possível a vida e a abundância da vida. Sem o amor a todos os homens, sem o amor e os sentimentos de Cristo, a Eucaristia que celebramos em sua memória careceria de sentido.


Por outro lado, é a leitura a partir da Eucaristia, pois Jesus realiza o sinal da abundância de pão para os últimos tempos onde não haverá fome nem sede. Dentro desta leitura podemos entender a ação de graças e a benção pelos pães e peixes que são dons de Deus para a humanidade e ao mesmo tempo são frutos do trabalho humano. A ação de graças é o nome próprio da Eucaristia.


Jesus com todo o que é e representa, é o único que pode satisfazer a fome radical de viver, com plenitude e para sempre. Somente Jesus pode alimentar o amor e a esperança que necessitamos para superar todas as dificuldades. Somente Jesus, com tudo o que é e representa para o cristão, pode saciar nosso insaciável sonho de felicidade. Ele é o Pão descido do céu que contém todo sabor. Este pão que contém todo sabor é que celebramos sacramentalmente na Eucaristia: a certeza de que, em Jesus, Deus nos deu um Pão capaz de saciar nossa fome de vida e nosso desejo de felicidade.


Uma coisa positiva que podemos aprender dos discípulos é a sua atitude de dar-se conta das necessidades dos que estão ao redor, nesse caso da multidão faminta. É uma boa lição para nosso tempo em que existe, evidentemente, uma tendência ao individualismo. Com frequência passamos indiferentes para os que nos rodeiam sem captar a problemática que podem ter. A frase “problema não é meu” é bastante perigosa para uma convivência mais humana e cristã. Do ponto de vista cristão tal postura é absolutamente insustentável e impensável.


Também hoje conserva atualidade do mandamento dado por Jesus: “Vós mesmos deveis de comer para a multidão faminta”. Nós que participamos e partilhamos o pão da Eucaristia devemos estar dispostos também a partilhar o pão material.
P. Vitus Gustama, SVD

Sábado Da XXIX Semana Comum, Ano Par, 24/10/2026

CONVERTER-SE PERMANENTEMENTE PARA PRODUZIR CONSTANTEMENTE OS FRUTOS DE AMOR NO CORPO DE CRISTO QUE É A IGREJA Sábado da XXIX Semana Comum ...