terça-feira, 4 de julho de 2023

07/07/2023-Sextaf Da XIII Semana Comum

JESUS, O CAMINHO, NOS CHAMA A SEGUI-LO E A CONFIAR NA SUA MISERICÓRDIA

Sexta-Feira da XIII Semana Comum

Primeira Leitura: Gn 23,1-419; 24,1-8.62-67

23,1 Sara viveu cento e vinte e sete anos, 2 e morreu em Cariat Arbe, que é Hebron, em Canaã. Abraão veio fazer luto por Sara e chorá-la. 3 Depois levantou-se de junto da morta e falou aos hititas: 4 “Sou um estrangeiro e hóspede no vosso meio. Cedei-me como propriedade entre vós um lugar de sepultura, onde possa sepultar minha esposa que morreu”. 19 Assim, Abraão sepultou Sara, sua mulher, na caverna do campo de Macpela, em frente de Mambré, que é Hebron, na terra de Canaã. 24,1 Abraão já era velho, de idade avançada, e o Senhor o havia abençoado em tudo. 2 Abraão disse ao servo mais antigo da sua casa, administrador de todos os seus bens: “Põe a mão debaixo da minha coxa 3 e jura-me pelo Senhor, Deus do céu e da terra, que não escolherás para meu filho uma mulher entre as filhas dos cananeus, no meio dos quais eu moro; 4 mas tu irás à minha terra natal, buscar entre os meus parentes uma mulher para o meu filho Isaac”. 5 E o servo respondeu: “E se a mulher não quiser vir comigo para esta terra, deverei levar teu filho para a terra de onde saíste?” 6 Abraão respondeu: “Guarda-te de levar meu filho de volta para lá. 7 O Senhor, Deus do céu, que me tirou da casa de meu pai e da minha terra natal, e que me falou e jurou, dizendo: ‘À tua descendência darei esta terra’, ele mesmo enviará seu anjo diante de ti e trarás de lá uma mulher para meu filho. 8 Porém, se a mulher não quiser vir contigo, ficarás livre deste juramento; mas de maneira alguma levarás meu filho de volta para lá”. 62 Isaac tinha voltado da região do poço de Laai-Rói e morava na terra do Negueb. 63 Ao cair da tarde, Isaac saiu para o campo a passear. Levantando os olhos, viu camelos que chegavam. 64 Rebeca também, erguendo os olhos, viu Isaac. Desceu do Camelo, 65 e perguntou ao servo: “Quem é aquele homem que vem pelo campo, ao nosso encontro?” O servo respondeu: “É o meu Senhor”. Ela puxou o véu e cobriu o rosto. 66 Então o servo contou a Isaac tudo o que tinha feito. 67 Ele introduziu Rebeca na tenda de Sara, sua mãe, e recebeu-a por esposa. Isaac amou-a, consolando-se assim da morte da mãe.

Evangelho: Mt 9,9-13

Naquele tempo, 9 Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado na coletoria de impostos, e disse-lhe: “Segue-me!” Ele se levantou e seguiu a Jesus. 10 Enquanto Jesus estava à mesa, em casa de Mateus, vieram muitos cobradores de impostos e pecadores e sentaram-se à mesa com Jesus e seus discípulos. 11 Alguns fariseus viram isso e perguntaram aos discípulos: “Por que vosso mestre come com os cobradores de impostos e pecadores?” 12 Jesus ouviu a pergunta e respondeu: “Aqueles que têm saúde não precisam de médico, mas sim os doentes. 13 Aprendei, pois, o que significa: ‘Quero misericórdia e não sacrifício’. De fato, eu não vim para chamar os justos, mas os pecadores”.

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A Vida Nesta Terra É Uma Peregrinação Que Um Dia Chegará Seu Fim

“Abraão sepultou Sara, sua mulher, na caverna do campo de Macpela, em frente de Mambré, que é Hebron, na terra de Canaã”. 

A primeira parte da Primeira Leitura fala da morte de Sara aos 127 anos de idade. Terminou, assim, o ciclo de vida de Sara na sua peregrinação neste mundo. Com Abraão Sara era peregrina de verdade. Sara morreu no seu estado de peregrina. 

Abraão comprou um terreno do povo local para sepultar dignamente sua esposa, Sara. O lugar comprado vai pertencer à família de Abraão. Sara foi enterrado numa caverna dentro deste terreno, e aqui serão sepultados também Abraão, Isaac, Rebeca, Lia e Jacó. Trata-se de um lugar sagrado e digno de respeito como o são todos os cemitérios. 

A caverna, onde Sara foi sepultada, é símbolo da terra e do seio materno. A caverna, símbolo da mãe terra, acolhe em seu seio Sara, a mãe terrena dos filhos das promessas. O profeta Isaías usa este simbolismo ao escrever: “Olhai para a rocha da qual fostes talhados, para a cova de que fostes extraídos. Olhai para Abraão, vosso pai, e para Sara, aquela que vos deu à luz. Ele estava só quando o chamei, mas eu o abençoei e o multipliquei” (Is 51,1-2). Sara morreu como uma pessoa abençoada. 

A peregrinação de Sara neste mundo terminou. A história do homem é estruturada com base no esquema da peregrinação, no sentido de saída de Deus e retorno a Deus em uma relação entre a eternidade e o tempo, entre o céu e o mundo, entre a humanidade e a divindade, entre o Criador e a criatura. Sair de si para voltar a Deus não é apenas remontar às origens, mas também e principalmente progredir em novidade e em crescimento, como Abraão no Antigo Testamento (cf. Gn 12), aumentando os dotes iniciais (cf. Mt 25,14-30). O tempo vai passando e a vida vai seguindo o tempo. Isto significa que a vida é realmente uma caminhada, uma peregrinação. A vida está sempre para a frente e nunca para trás. Na peregrinação, o tempo não quer saber de nossas decepções, pois ele passa e flui normalmente. Resta a cada um de nós saber aproveitar dignamente o tempo que é nos oferecido por Deus. cada minuto não se repete, pois a vida progride sempre para o futuro. O minuto não aproveitado é o minuto perdido. Quem não valoriza o tempo, enterra muitas oportunidades na vida, e pode morrer frustrado, em consequência disso. Nesta peregrinação, precisamos confiar na profundidade de Deus em nós e viver dessa confiança a exemplo de Abraão (cf. Jo 14,1). Esse é o caminho para continuar andando rumo à nossa realização plena e à total comunhão com Deus na eternidade. Deus é Alfa e Ômega de nossa vida (cf. Ap 22,13). 

Casamento de Isaac Dentro Da Vontade De Deus 

Depois da morte de Sara, Abraão procura para seu filho, Isaac, uma esposa para manter a descendência a fim de realizar a promessa de Deus de ter um numeroso descendente no futuro. 

É interessante notar a relação de Deus com Abraão: pessoal e única. Abraão se mantém em contato com Deus. Até para escolher uma esposa digna para Isaac, Abraão entra em contato com Deus numa oração. O próprio Deus “enviará seu anjo diante de ti e trarás de lá uma mulher para meu filho”. Com sua oração Abraão põe sua missão e seu sucessor (Isaac) nas mãos de Deus de quem exige que mostre sua fidelidade a Abraão, pois o próprio Abraão sempre foi fiel a Deus. Abraão sugere a Deus um sinal, não para confirmar sua fé e sim para conhecer a moça destinada por Deus. 

“O Senhor, Deus do céu, que me tirou da casa de meu pai e da minha terra natal, e que me falou e jurou, dizendo: ‘À tua descendência darei esta terra’, ele mesmo enviará seu anjo diante de ti e trarás de lá uma mulher para meu filho”, disse Abraão para seu escravo de confiança. 

Abraão estava na terra dos cananeus. Um casamento com uma cananeia implicaria que Isaac fizesse parte de uma família pagã. Como fruto da oração de Abraão a solução é a endogamia (consanguinidade), isto é, a esposa do sucessor (Isaac) deve provir do tronco familiar. (Endogamia: casamento entre indivíduos aparentados, geneticamente semelhantes). 

Tudo isso nos mostra, teologicamente, que o Senhor dirige o destino dos homens fiéis a Ele de uma maneira misteriosa, íntima e sem prodígios aparentes. Abraão sempre proclama sua fé no Senhor do céu e da terra que o assiste e protege desde sua saída da terra natal para o lugar indicado por Deus. A providência divina nunca falta na vida de quem é fiel a Deus apesar das dificuldades encontradas. Quem estiver atento à vontade de Deus perceberá os sinais de Sua presença e será capaz de perceber a solução para os problemas existentes. A partir de Deus e abertos para Deus sempre existirá para nós o futuro desejado ou sonhado. Para Abraão, todos nós temos futuro em Deus. Deus é sentido, a esperança e o futuro da humanidade. 

Será que os nossos jovens e seus pais pedem a Deus uma luz para que possa ter um futuro companheiro/companheira digno(a) para formar uma família que é a Igreja doméstica? Será que cada jovem, ao iniciar o namoro sério, faz a pergunta para Deus: “Senhor Deus do céu e da terra, será que esta pessoa com quem vou namorar é digna de formar uma família comigo?”. 

É Preciso Seguir a Jesus Para Sejamos Instrumentos de Seu Amor Para o Próximo 

Depois da cura do paralítico (Mt 9,1-8), Jesus se encontra com Mateus, cobrador de impostos e o chama para segui-lo: “Segue-me!” que lemos no Evangelho de hoje. 

Mateus é um homem que o povo detesta, pois um colaborador do governo romano na cobrança de impostos. Os publicanos se enriquecem ilicitamente, especialmente, a custo dos pobres. Por isso, é uma profissão odiada. 

No texto do evangelho de hoje Jesus mostra sua autonomia e autoridade em escolher quem ele quiser para ser seu discípulo. Nunca podemos entender perfeitamente o mistério da escolha de Deus. Para a sociedade na época, Mateus jamais poderia ser um dos discípulos do Senhor, pois ele era um ladrão diplomado, um ladrão do dinheiro público, um impuro que tornaria o grupo dos discípulos impuro com sua adesão, pois ser cobrador de impostos significava ser pessoa impura na visão dos fariseus e dos sacerdotes. Mas Jesus desobedece aos padrões de uma cultura que manipula as pessoas e impõe a Nova Lei (cf. Mt 5,17ss). Porque “De fato, eu não vim para chamar os justos, mas os pecadores”, disse Jesus. A comunhão de Jesus com os pecadores para libertá-los não o torna impuro e sim o mostra como o Libertador do homem do seu passado escuro. 

Qualquer pessoa pode perguntar-se: “Como pode Deus estar presente em certos ambientes, como o de Mateus, especialmente tão repugnantes, maus ou perversos, em certas situações injustas como a vida vivida pelo publicano Mateus?”. Deus se encontra ali para curar e para salvar: “Quero misericórdia e não sacrifício”. Todo o Evangelho, quando se trata de Deus, nos urge que saibamos ultrapassar a noção de justiça e descobrir a Misericórdia infinita de Deus pelos pecadores. Deus não se cansa de perdoar e de se encontrar com os pecadores, os perdidos da vida para salvá-los, pois Jesus, o Deus-Conosco, veio para chamar e salvar os pecadores por amor sem medida. 

Jesus chama Mateus para segui-lo: “Segue-me” (Mt 9,9). E ele o segue (Mt 9,9). Ele diz a mesma coisa para Simão e André (Mt 4,19) e para Tiago e João (Mt 4,21). O termo “seguir” (akoloutheo, em grego) aparece 90 vezes no NT. E Mateus imediatamente segue a Jesus. Como Jesus transformou os pescadores de peixes em pescadores de homens, assim também transformou um cobrador de impostos, um pecador público num “escriba do Reino de Deus”, num discípulo e mais ainda, num apóstolo.  Quem entra na esfera de Jesus deixa de ser como antes. Por isso, é preciso definir a que seguimos e a quem seguimos na vida para antecipar qual resultado final deste seguimento? É preciso olharmos para aquilo que estamos fazendo no momento e projetarmos para 10 a 20 anos para saber, por antecipação, como seremos! Olhemos com carinho para aquilo que fazemos no presente, para saber o que seremos no futuro. Ninguém brinca com a água sem ser afetado pela água. Colhemos aquilo que plantamos. 

Mateus fez uma grande ceia, não para dizer adeus a seus amigos e sim para que seus amigos se encontrassem com Jesus que o transformou profundamente. E os discípulos também estavam presentes para que estes seguissem a maneira de Jesus de tratar os excluídos da sociedade. É importante condenar o pecado, mas salvar o pecador. É preciso atacar o mal e tirar e salvar quem o praticou. Mas não é um trabalho fácil. É precisar permanecer em Jesus para agir como Jesus que quer “misericórdia e não sacrifício”. 

Os fariseus se escandalizam ao ver a cena. Para eles um observante da Lei jamais se senta à mesa com os publicanos que são pecadores públicos. Comer juntos significa igualar o relacionamento. Mas aquele que ensina o caminho de Deus, como Jesus, não pode atuar assim: “Quero misericórdia e não sacrifício”. Somente os enfermos necessitam de médico e não os sãos. Jesus está sentado à mesa porque Ele quer transmitir a Palavra de Deus que salva para poder mudar a vida daqueles que se encontram no caminho errado e levá-los de volta para o caminho da salvação. Jesus quer transformá-los em homens justos. Por isso, o que Jesus diz para os fariseus é duro: “Aprendei, pois, o que significa: ‘Eu quero misericórdia e não sacrifício’”. Este “eu” é Jesus que é o Deus-Conosco. É Aquele não pode aceitar um sacrifício se antes não se fez a reconciliação com os irmãos (cf. Mt 5,23-24), se não se vive uma atitude de dom aos demais. “A Igreja é chamada, em primeiro lugar, a ser verdadeira testemunha da misericórdia, professando-a e vivendo-a como o centro da Revelação de Jesus Cristo. A Igreja tem a missão de anunciar a misericórdia de Deus, coração pulsante do Evangelho, que por meio dela deve chegar ao coração e à mente de cada pessoa” (Papa Francisco).        

“Segue-me!”. O verbo “seguir”, em sentido próprio, significa “ir atrás de alguém”; e no sentido figurado significa “ser discípulo”, “ir em seguimento de alguém”. Seguir significa andar, avançar, ver mais, aprender mais. Quem andar, quem caminhar vai encontrar muita coisa no caminho. Quem fica parado e paralisado vê menos.         

Seguir a Jesus significa romper todo o passado, e abandonar tudo para trás (cf. Mt 4,18-22;9,9s;19,21; Lc 9,61; Mc 10,28), submetendo-se com fé e obediência à salvação oferecida em Cristo. Seguir também tem sentido de imitação. Neste sentido seguir significa unir-se com Jesus numa comunhão de vida e de destino; é modelar-se segundo o exemplo de Jesus (cf. Jo 13,15.34;15,12;1Ts 1,6;1Cor 11,1;Ef 5,2;1Jo 2,6 etc.); é ser misericordioso como Ele. Assim, seguir a Jesus não é apenas aderir a um ensinamento moral e espiritual, mas compartilhar sua sorte. Por isso, Jesus exige o desapego total: renunciar às riquezas e à segurança, deixar os familiares (Mt 8,19-22;10,37;19,16-22), sem esperar o retorno (troca ou retribuição). Ao exigir de seus discípulos um tal sacrifício, Jesus se revela como Deus, única garantia, e revela integralmente até que ponto vão as exigências de Deus. Pode ser que seja até o sacrifício da cruz e até se sentir abandonado pelos outros, como Jesus sentiu (Mt 26,56).          

A partir deste sentido, somos convidados a refletir sobre o nosso seguimento de Cristo. Até que ponto nós estamos dentro deste padrão? Em outras palavras, o que significa para nós hoje seguir a Jesus? Para responder esta pergunta, devemos responder outra pergunta: quem é Jesus a quem seguimos? 

“Segue-me!” é a voz do Senhor chamando o publicano Mateus para ser seu discípulo. Podemos também nos encontrar numa situação moral, vocacional ou profissionalmente difícil como a de Mateus ou poder ser pior do que isso. Precisamos parar para ouvir a voz do Senhor que nos chama: “Segue-me!”. Esta voz deve ressoar em todas as situações de nossa vida. Jesus nos chama para a liberdade de filhos e filhas de Deus a fim de sermos instrumentos da misericórdia divina para os demais. Mateus seguiu a Jesus não para dar adeus a seus amigos e sim para que seus amigos se encontrassem também com Jesus que veio chamar os pecadores. Mateus é chamado para que os outros o sigam seguindo o Senhor que liberta.          

Seguir a Jesus é viver a sua vida; é ser misericordioso como Ele. A vida de Jesus foi marcada particularmente por amor ao Pai e aos homens, especialmente aos mais necessitados. Seu relacionamento profundo com o Pai se traduz na prática da solidariedade e da misericórdia com os marginalizados e pecadores. Seguir Jesus é não condenar e sim salvar; não excluir os outros e sim integrá-los na comunidade de irmãos; não se isolar, mas ser solidário. Seguir a Jesus é viver segundo o seu projeto. Ele quer que as relações humanas e sociais se baseiem sobre a justiça, o amor, a fraternidade e o perdão. Tudo isso se tornará realidade, se o homem se descobrir como filho de um Pai amoroso. Seguir a Jesus é estar pronto para viver o seu destino. Viver segundo o projeto de Jesus leva o seguidor a viver o martírio. O martírio é o preço a pagar pela fidelidade à causa jamais traída. Quem se propõe a seguir a Jesus deve estar pronto também para viver a bem-aventurança das perseguições (Mt 5,10s). 

“Eu quero misericórdia e não sacrifício”. Esta é a vontade de Jesus para todos os cristãos. Misericórdia é amar até aquele que não merece ser amado. O verdadeiro amor é querer o bem do outro, inclusive daquele que errou até gravemente na vida, moral e eticamente. Misericórdia é sempre ter coração para quem não merece em nome de sua salvação. “Deus nunca Se cansa de escancarar a porta do seu coração, para repetir que nos ama e deseja partilhar conosco a sua vida. A Igreja sente, fortemente, a urgência de anunciar a misericórdia de Deus. A sua vida é autêntica e credível, quando faz da misericórdia seu convicto anúncio” (Papa Francisco). “Crer no Filho crucificado significa crer que o amor está presente no mundo e que o amor é mais forte do que toda a espécie de mal em que o homem, a humanidade e o mundo estão envolvidos. Crer neste amor significa acreditar na misericórdia” (Santo João Paulo II).

P. Vitus Gustama,svd

06/07/2023-Quintaf Da XIII Semana Comum

FÉ EM DEUS NOS TORNA DESPOJADOS DE TUDO E INSTRUMENTOS DA MISERICÓRDIA

Quinta-Feira Da XIII Semana Comum 

Primeira Leitura: Gn 22,1-19

Naqueles dias, 1 Deus pôs Abraão à prova. Chamando-o, disse: “Abraão!” E ele respondeu: “Aqui estou”. 2 E Deus disse: “Toma teu filho único, Isaac, a quem tanto amas, dirige-te à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto sobre um monte que eu te indicar”. 3 Abraão levantou-se bem cedo, selou o jumento, tomou consigo dois dos seus servos e seu filho Isaac. Depois de ter rachado lenha para o holocausto, pôs-se a caminho, para o lugar que Deus lhe havia ordenado. 4 No terceiro dia, Abraão, levantando os olhos, viu de longe o lugar. 5 Disse, então, aos seus servos: “Esperai aqui com o jumento, enquanto eu e o menino vamos até lá. Depois de adorarmos a Deus, voltaremos a vós”. 6 Abraão tomou a lenha para o holocausto e a pôs às costas do seu filho Isaac, enquanto ele levava o fogo e a faca. E os dois continuaram caminhando juntos. 7 lsaac disse a Abraão: “Meu pai”. “Que queres, meu filho?”, respondeu ele. E o menino disse: “Temos o fogo e a lenha, mas onde está a vítima para o holocausto?” 8 Abraão respondeu: “Deus providenciará a vítima para o holocausto, meu filho”. E os dois continuaram caminhando juntos. 9 Chegados ao lugar indicado por Deus, Abraão ergueu um altar, colocou a lenha em cima, amarrou o filho e o pôs sobre a lenha em cima do altar. 10 Depois, estendeu a mão, empunhando a faca para sacrificar o filho. 11 E eis que o anjo do Senhor gritou do céu, dizendo: “Abraão! Abraão!” Ele respondeu: “Aqui estou!” 12 E o anjo lhe disse: “Não estendas a mão contra teu filho e não lhe faças nenhum mal! Agora sei que temes a Deus, pois não me recusaste teu filho único”. 13 Abraão, erguendo os olhos, viu um carneiro preso num espinheiro pelos chifres; foi buscá-lo e ofereceu-o em holocausto no lugar do seu filho. 14 Abraão passou a chamar aquele lugar: “O Senhor providenciará”. Donde até hoje se diz: “O monte onde o Senhor providenciará”.15 O anjo do Senhor chamou Abraão, pela segunda vez, do céu, 16 e lhe disse: “Juro por mim mesmo — oráculo do Senhor —, uma vez que agiste deste modo e não me recusaste teu filho único, 17 eu te abençoarei e tomarei tão numerosa tua descendência como as estrelas do céu e como as areias da praia do mar. Teus descendentes conquistarão as cidades dos inimigos. 18 Por tua descendência serão abençoadas todas as nações da terra, porque me obedeceste”. 19 Abraão tornou para junto dos seus servos, e, juntos, puseram-se a caminho de Bersabeia, onde Abraão passou a morar.

Evangelho: Mt 9,1-8

Naquele tempo, 1 entrando em um barco, Jesus atravessou para a outra margem do lago e foi para a sua cidade. 2 Apresentaram-lhe, então, um paralítico deitado numa cama. Vendo a fé que eles tinham, Jesus disse ao paralítico: “Coragem, filho, os teus pecados estão perdoados!” 3 Então alguns mestres da Lei pensaram: “Esse homem está blasfemando!” 4 Mas Jesus, conhecendo os pensamentos deles, disse: “Por que tendes esses maus pensamentos em vossos corações? 5 O que é mais fácil, dizer: ‘Os teus pecados estão perdoados’, ou dizer: ‘Levanta-te e anda’? 6 Pois bem, para que saibais que o Filho do Homem tem na terra poder para perdoar pecados, — disse, então, ao paralítico — “Levanta-te, pega a tua cama e vai para a tua casa”. 7 O paralítico então se levantou, e foi para a sua casa. 8 Vendo isso, a multidão ficou com medo e glorificou a Deus, por ter dado tal poder aos homens.

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Ser Fiel Àquele Que Sabe Daquilo Que Virá Para Nossa Vida No Futuro Apesar Do Peso Do Momento

“Deus pôs Abraão à prova! ´Toma teu filho único, Isaac, a quem tanto amas, dirige-te à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto sobre um monte que eu te indicar´”.  Assim começou a Primeira Leitura de hoje tirada do livro de Genesis. É o cume da vida desse homem de fé, Abraão. 

A história conhecida com o nome de sacrifício de Isaac, de cunho eloísta, sobressai entre todas as narrações patriarcais por sua profunda emotividade, por seu valor literário e pela densidade teológica. (Tradição eloísta é uma das tradições que escreveram o livro de Genesis. A tradição eloísta dá para Deus o nome “Elohim”, o “Altíssimo”, o “Elevadíssimo”). 

Os dois versículos iniciais iluminam todo o relato que segue, e aclaram seu sentido. Trata-se de uma prova que Deus põe a Abraão sua fidelidade. A prova não é simples, pois Deus exige a oferenda do filho das promessas e põe em destaque a incompreensibilidade da decisão divina, pois Isaac, o filho único de Abraão é depositário dos desejos de Abraão e dos planos salvadores de Deus, esperado durante tanto tempo e com tão grande desejo. E agora, inesperadamente, o filho único deve ser sacrificado em holocausto a pedido do próprio Deus das promessas. Como seria a numerosa geração prometida pelo próprio Deus, se o filho único de Abrão dado pelo mesmo Deus fosse sacrificado? Apesar disso, Abraão segue obedecendo à ordem divina. 

Abraão já deixou tudo por Deus (Gn 12,1-9). Contra toda aparência ele creu nas promessas de Deus. Por sua larga fidelidade, Abraão acabou tendo seu filho tão desejado e tão querido: Isaac. Se a chamada inicial de Deus comportava abandonar sua terra de origem e seu enraizamento no passado (família e parentes), o sacrifício de Isaac equivalia a cortar suas amarras com o futuro, pois quem perde um filho, perde o futuro: “Toma teu filho único, Isaac, a quem tanto amas, dirige-te à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto sobre um monte que eu te indicar”. Aqui há uma tríplice repetição que identifica o menino Isaac para sentir o peso do sacrifício: “Teu filho”, o “único”, “a quem tanto amas”. É um grande conflito entre o “filho único” e a promessa de ter uma descendência numerosa no futuro (cf. Gn 12,2), por um lado, e o pedido de Deus para sacrificar esse filho único, por outro lado. Do ponto de vista humano, será que ainda pode acreditar nas promessas de Deus sobre a numerosa descendência no momento em que o filho único deve ser sacrificado? Não é tão simples!  Às vezes o que Deus ordena choca bastante o raciocínio humano.

Abraão, por ser fiel a Deus, está disposto a sacrificar seu filho único. O sacrifício do filho único nos lembra aquilo que Deus faz para a humanidade que São João escreveu: “De tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna (Jo 3,16). 

O sacrifício do filho único, do ponto de vista humano, é a negação do futuro. Não é estranho que a Carta aos Hebreus ponha Abraão como modelo de fé e disponibilidade diante de Deus: “Foi pela sua fé que Abraão, submetido à prova, ofereceu Isaac, seu único filho, depois de ter recebido a promessa e ouvido as palavras: Uma posteridade com o teu nome te será dada em Isaac. Estava ciente de que Deus é poderoso até para ressuscitar alguém dentre os mortos. Assim, ele conseguiu que seu filho lhe fosse devolvido. E isso é um ensinamento para nós!" (Hb 11,17-19). 

Para o inexplicável pedido de Deus responde a fé patética de um homem Abraão que serve como exemplo para todos os homens e mulheres em qualquer lugar e tempo. É o homem que não quer saber do raciocínio humano, mas somente a ordem de Deus. Para quem é fiel a Deus mesmo que se encontre no momento em que a razão tem dificuldade para entender, há sempre a providência divina que a leitura quer sublinhar. Tanto que o nome do lugar onde Isaac seria sacrificado é “O Senhor providencia”. A providência divina é o amor divino em ação para todos os momentos de nossa vida sobre a qual precisamos ter consciência e na qual precisamos manter nossa fidelidade. Na vida de quem tem fé em Deus tudo é providencia divina. Por isso, todo o relato se fecha com a mensagem mais completa contido no tema da fidelidade e da obediência à vontade de Deus: “Juro por mim mesmo, uma vez que agiste deste modo e não me recusaste teu filho único, eu te abençoarei e tomarei tão numerosa tua descendência como as estrelas do céu e como as areias da praia do mar. Teus descendentes conquistarão as cidades dos inimigos. Por tua descendência serão abençoadas todas as nações da terra, porque me obedeceste”.

Hoje podemos nos espelhar nesta grande figura do AT, em Abraão. A Primeira Oração Eucarística, ao oferecer o sacrifício de Cristo e o nosso a Deus, diz: “Recebei, ó Pai, esta oferenda, como recebestes a oferta de Abel, o sacrifício de Abraão e os dons de Melquisedeque”. Se nos mostrarmos tão disponíveis diante de Deus, como Abraão, também teremos “descendências numerosas”, isto é, as bênçãos abundantes, e poderemos dizer com o Salmo Responsorial (Sl 114): “O Senhor é justiça e bondade, nosso Deus é amor-compaixão. É o Senhor quem defende os humildes: eu estava oprimido, e salvou-me”. 

Mas, sobretudo, olhemos a Jesus Cristo que chegou à morte em sua solidariedade e em sua entrega, e subiu ao monte de Calvário carregando a cruz, como Isaac carregando a lenha para o fogo rumo ao monte Moriá. Jesus é o modelo acabado de fidelidade e vai diante de todos nós na fé: “A fé é o fundamento da esperança, é uma certeza a respeito do que não se vê. Foi ela que fez a glória dos nossos antepassados. Pela fé reconhecemos que o mundo foi formado pela palavra de Deus e que as coisas visíveis se originaram do invisível" (Hb 11,1-3)

Deus Ama Cada Pessoa Humana e Por Isso, Não Pode Ser Sacrificada 

O que tem por trás da história do pedido do sacrifício de Isaac, filho de Abraão? 

Segundo os costumes dessa época primitiva, os pais sacrificavam seu “primogênito” ou simplesmente crianças, em honra a seu deus e para obter seus favores. O sacrifício de crianças pertencia ao ambiente cananeu e era anterior ao assentamento dos israelitas na Terra Prometida (cf. 2Rs 3,27; 16,3; 21,6; Jr 7,31; 19,5; Ez 16,20-21; 23,37). 

Com o relato sobre o sacrifício de Isaac e no seu lugar é sacrificado o carneiro, o autor do Genesis quer desautorizar, diante dos israelitas, todo sacrifício humano, o costume bastante estendido nas culturas vizinhas. A tradição israelita justifica o resgate dos primogênitos na noite de Páscoa e a vítima substitutiva era um cordeiro (Cf. Ex 12). 

Num certo sentido, pode-se dizer que Deus não quis nem quer nunca o assassinato de um ser humano em seu nome (cf. Gn 4,9-10). O homem, por ser vida da vida de Deus (Cf. Gn 2,7) é transcendente. A vida de Deus é que sustenta a vida do homem. O homem é o hálito de Deus. Nenhum outro vivente possui esse hálito divino. A vida do homem é divina e por isso, não pode ser sacrificada, vendida ou comprada. O homem pertence a Deus; templo do Espirito Santo (1Cor 3,16-17). 

Mas o autor sagrado se serviu desse costume da época para sondar até onde chegava a fé de Abraão. É a fé de Abraão que se põe em destaque. O relato sobre a fé de Abraão quer nos dizer que existem momentos ou situações em que precisamos manter nossa fé mesmo que as condições encontradas fiquem nulas de possibilidade do ponto de vista humano. Deus exige, muitas vezes, que destruamos as provas subjetivas de nossa fé; que não deixemos que suposto deus mate nossa esperança de caminhar para o futuro do verdadeiro Deus da vida. Somente o próprio Deus que garante o futuro pode exigir muito de cada um de nós. A verdadeira fé exige aquela disponibilidade de Abraão que obriga a sacrificar-se e sacrificar o que se tem de maior valor (filho único) no altar da obediência a Deus que serve como uma firme garantia para nossa vida e salvação. Tudo o que temos, a não ser pecado, é um dom divino. Se Deus quer que sacrifiquemos o que valioso é porque o próprio Deus sabe muito bem providenciar algo no lugar no sacrifício. 

Deus É Misericordioso Para Quem Se Converte 

Depois da tempestade acalmada e a libertação dos dois possuídos relatadas nos textos anteriores da passagem do evangelho de hoje (Mt 8,5-34), agora Jesus nos mostra seu poder sobre o mal mais profundo: o pecado. A salvação que Jesus Cristo quer para a humanidade é integral, do homem todo: seu corpo e espírito. O sinal externo- a cura da paralisia- é o símbolo da cura interior, a libertação do pecado, como tantas outras vezes em seus milagres.

“Tem ânimo, meu filho; os teus pecados te são perdoados!”, diz Jesus ao paralítico. Para Jesus a enfermidade mais grave e urgente do paralítico não é sua enfermidade física e sim seu pecado (enfermidade da alma). Para a cura das enfermidades espirituais é necessária a colaboração do próprio enfermo (conversão e fé em Deus) e o perdão de Deus (misericórdia). 

“Os teus pecados te são perdoados!” É a primeira vez que o evangelista Mateus menciona este tipo de poder que Jesus tem: o poder de perdão. O poder que Jesus tem em relação ao pecado é um poder de reconciliação dos homens com Deus. “Os pecados” em Mateus significam o passado pecador do homem, antes de seu encontro com Jesus. A fé em Jesus, que é a adesão a ele e a sua mensagem, apaga o passado pecador do homem e dá-lhe oportunidade de um novo começo. O pecado é capaz de paralisar a vida do homem, mas a conversão e a fé em Deus libertam o homem de sua paralisia para viver na liberdade de um filho de Deus. Da parte de Jesus não há pecado que não possa ser perdoado. Basta o homem se arrepender e voltar para Deus, o Deus da misericórdia não quer saber mais o passado do homem. Mas através do profeta Isaias Deus nos dá o seguinte recado: “Cessai de fazer o mal, aprendei a fazer o bem”. 

Mas o evangelista Mateus não somente se concentra no poder de Jesus de perdoar pecados. Mais adiante, no seu evangelho, ele vai nos dizer que a comunidade cristã é o lugar de reconciliação e do perdão mútuo. Jesus Cristo vai dar o dom do poder de perdoar à comunidade cristã: “Em verdade vos digo: tudo o que ligardes sobre a terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes sobre a terra será também desligado no céu” (Mt 18,18). Assim a comunidade cristã ou a Igreja se transforma em lugar de libertação dos pecados e de liberdade dos reconciliados. 

“Os teus pecados te são perdoados!” Como é bom viver com uma consciência limpa. Como é leve uma vida sem mancha moral ou ética. É uma liberdade que faz qualquer um viver a vida na alegria. Quando o coração estiver limpo podemos aplicar para nós as palavras de São Paulo aos filipenses: “Alegrai-vos no Senhor. Repito: alegrai-vos” (Fl 4,4). Há alegria disfarçada para calar ou abafar os gritos de um coração sujo, como escreveu um psicólogo argentino: “Há gargalhadas que se parecem mais com um soluço do que com uma risada” (René Juan Trassero). Mas a alegria no Senhor é uma alegria que liberta e salva: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus”, prometeu-nos Jesus no Sermão da Montanha (Mt 5,8). 

 Ao dizer “Tem ânimo, meu filho; os teus pecados te são perdoados!”, Jesus usa aqui a visibilidade da cura corporal, perfeitamente controlável, para provar outra cura espiritual, a cura da alma em estado de pecado. Jesus pronunciou formulas de absolvição: “teus pecados são te perdoados”, e depois, fez gestos exteriores de cura: “levanta-te e vai para tua casa”. Muitas doenças acontecem conosco porque causa dos problemas não solucionados. Trata-se de doenças psicossomáticas. É preciso que reorganizemos nossa vida no Senhor para que nossa alegria seja plena. 

A Igreja é o prolongamento real da Encarnação de Jesus, como Ele próprio é o grande Sacramento, a presença visível de Deus. Assim a Igreja é o grande Sacramento visível de Cristo. Jesus comunicou seu poder de perdoar a seus apóstolos, isto é, para aqueles que, durante todo o tempo da Igreja, têm missão de fazê-la existir como Igreja exercendo o ministério que lhes foi confiado. Quando os apóstolos ou seus sucessores perdoam em nome de Cristo é todo o povo de Deus que se encontra comprometido no mistério da cruz e no ato divino-humano de perdão que ali tomou corpo. Os sacramentos são sinais visíveis que manifestam a graça invisível. A Igreja inteira, pelo ministério apostólico, está constituída no ato de misericórdia em proveito de toda a humanidade. Neste sentido pode se dizer que o cristão é ministro da misericórdia divina no sentido de que ele é chamado para perdoar sempre porque Deus o perdoa sempre e por isso, ele vive por causa da misericórdia divina. Todos são chamados a participar da obra de misericórdia. A Igreja é a misericórdia de Deus para os homens.

“Vendo a fé que eles tinham, Jesus disse ao paralítico: ‘Tem ânimo, meu filho; os teus pecados te são perdoados! ’”. A fé, que é o dom de Deus ao homem, se for autêntica é capaz de levar o homem à conversão, à orientação de sua vida e de sua caminhada para a felicidade e para a salvação. Deus valoriza o futuro do homem e perdoa seu passado desde que o homem se converta. Mas será que nossa fé é autêntica? A verdadeira fé em Deus mantém nossa vida em ordem que traz a paz. “A paz é a tranquilidade da ordem”, dizia Santo Agostinho. A fé é capaz de ordenar tudo na simplicidade de nossa vida, pois para Deus tudo é simples e para o simples tudo é divino.

Mas “alguns Mestres da Lei pensaram: ‘Esse homem (Jesus) está blasfemando’”. Com esta expressão se põe em evidência de que o Deus de Jesus não era o deus dos dirigentes de seu povo. Mais uma oposição contra o plano de Deus que o evangelista Mateus tem nos mostrado até agora. 

Também nós corremos o perigo de fazermos um Deus à medida de um sistema ou de uma instituição que pode nos levar para um fanatismo fundamentalista que leva à autodestruição ou ao cataclismo de matar o outro por amor a suposto Deus em quem se acredita ou em nome de Deus e para servi-lo. Seria um Deus muito cruel, mas não é um Deus misericordioso revelado por Jesus. Temos que tomar cuidado para que nenhum sistema possa pensar por nós. Deste jeito criaremos ídolos e seremos idólatras, não mais filhos e filhas de Deus que precisam viver a fraternidade universal como consequência lógica e essencial da consciência de que Deus é o Pai de todos.

P. Vitus Gustama, SVD

segunda-feira, 3 de julho de 2023

05/07/2023-Quartaf Da XIII Semana Comum

JESUS VEM NOS LIBERTAR DO MAL E DE TODOS OS NOSSOS DESÂNIMOS SOBRE NOSSA EXISTÊNCIA

Quarta-Feira Da XIII Semana Comum

Primeira Leitura: Gn 21,5.8-20

5 Abraão tinha cem anos quando lhe nasceu o filho Isaac. 8 Entretanto, o menino cresceu e foi desmamado; e no dia em que o menino foi desmamado, Abraão deu um grande banquete. 9 Sara, porém, viu o filho que a egípcia Agar dera a Abraão brincando com Isaac. 10 E disse a Abraão: “Manda embora essa escrava e seu filho, pois o filho de uma escrava não pode ser herdeiro com o meu filho Isaac”. 11 Abraão ficou muito desgostoso com isso, por se tratar de um filho seu. 12 Mas Deus lhe disse: “Não te aflijas por causa do menino e da tua escrava. Atende a tudo o que Sara te pedir, pois é por Isaac que uma descendência levará o teu nome. 13 Mas do filho da escrava farei também um grande povo, por ele ser da tua raça”. 14 Abraão levantou-se de manhã, tomou pão e um odre de água e os deu a Agar, pondo-os nos ombros dela: depois, entregou-lhe o menino e despediu-a. Ela foi-se embora e andou vagueando pelo deserto de Bersabeia. 15 Tendo acabado a água do odre, largou o menino debaixo de um arbusto, 16 e foi sentar-se em frente dele, à distância de um tiro de arco. Pois dizia consigo: “Não quero ver o menino morrer”. Assim, ficou sentada defronte ao menino, e pôs-se a gritar e a chorar. 17 Deus ouviu o grito do menino e o anjo de Deus chamou do céu a Agar, dizendo: “Que tens Agar? Não tenhas medo, pois Deus ouviu a voz do menino do lugar em que está. 18 Levanta-te, toma o menino e segura-o bem pela mão, porque farei dele um grande povo”. 19 Deus abriu-lhe os olhos, e ela viu um poço de água. Foi então encher o odre e deu de beber ao menino. 20 Deus estava com o menino, que cresceu e habitou no deserto, tornando-se um jovem arqueiro. 21 Morou no deserto de Farã, e sua mãe escolheu para ele uma mulher no país do Egito.

Evangelho: Mt 8,28-34

Naquele tempo, 28 quando Jesus chegou à outra margem do lago, na região dos gadarenos, vieram ao seu encontro dois homens possuídos pelo demônio, saindo dos túmulos. Eram tão violentos, que ninguém podia passar por aquele caminho. 29 Eles então gritaram: “Que tens a ver conosco, Filho de Deus? Tu vieste aqui para nos atormentar antes do tempo?” 30 Ora, a certa distância deles, estava pastando uma grande manada de porcos. 31 Os demônios suplicavam-lhe: “Se nos expulsas, manda-nos para a manada de porcos”. 32 Jesus disse: “Ide”. Os demônios saíram, e foram para os porcos. E logo toda a manada atirou-se monte abaixo para dentro do mar, afogando-se nas águas. 33 Os homens que guardavam os porcos fugiram e, indo até a cidade, contaram tudo, inclusive o caso dos possuídos pelo demônio. 34 Então a cidade toda saiu ao encontro de Jesus. Quando o viram, pediram-lhe que se retirasse da região deles.

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Os Conflitos Se Resolvem Quando Voltamos Para a Origem De Nossa Existência 

“Abraão tinha cem anos quando lhe nasceu o filho Isaac. Entretanto, o menino cresceu e foi desmamado; e no dia em que o menino foi desmamado, Abraão deu um grande banquete”. 

Deus é fiel. Ele mantém suas promessas com Abraão. Depois que Abraão passou pelas provas e mais provas, finalmente Deus concedeu-lhe um filho da promessa: Isaac. E a fé de Abraão, posta a prova tanto tempo, não foi em vão. Depois de uma longa espera, o plano de Deus se realiza. Deus é eterno. Ele não tem pressa! A eternidade não se pode medir pelo nosso tempo. Toda a eternidade é de Deus. Eu preciso ter paciência na minha espera para as ações de Deus, pois estou seguro de que também serão cumprimadas as promessas de Deus na minha vida. Nesta espera seu que serei posto a várias provas. Mas Deus é fiel a si mesmo. 

“Abraão tinha cem anos quando lhe nasceu o filho Isaac”.  Finalmente o filho da promessa, o filho que era esperado entre esperança e desespero, entre certeza e dúvida, nasceu: Isaac que significa “Deus sorri” ou “Deus é propício”. Quem governa o curso da vida e quem domina o tempo é o próprio Deus. Tudo tem sentido a partir de Deus. Vale a pena esperar em Deus, apesar de tudo. A partir da fé, somos convidados a ter fé maior do que nossos medos e a ter força tão grande como nossa fé. Nos nossos limites e limitações precisamos colocar nossa fé em Deus, Dono do curso da vida. O homem é convidado a realizar o possível, pois Deus faz o impossível. 

Mas entre as conquistas e as realizações entra também algum conflito. Dentro de uma família, os conflitos podem se tornar uma grande miséria. O relato nos diz: “Sara, porém, viu o filho que a egípcia Agar dera a Abraão brincando com Isaac. E disse a Abraão: ‘Manda embora essa escrava e seu filho, pois o filho de uma escrava não pode ser herdeiro com o meu filho Isaac’”.

Sara tem ciúmes de Abraão porque ele olha com bons olhos a Ismael e à sua mãe, a escrava Agar. Por um momento, o protagonista da história é Ismael, o primogênito, mas que não é o que vai prolongar a linha da promessa, segundo os misteriosos desígnios de Deus. 

Abraão é obrigado a despedir Agar e seu filho, Ismael, e ambos empreendem uma amarga viagem ao deserto com momentos de desespero. Também Deus sugere que Abraão atende ao pedido de Sara: “Atende a tudo o que Sara te pedir, pois é por Isaac que uma descendência levará o teu nome”. Abraão faz o que Deus manda, pois ele acredita que Deus vai providenciar tudo pela salvação de Ismael e sua mãe, Agar.

“Tendo acabado a água do odre, largou o menino debaixo de um arbusto, e foi sentar-se em frente dele, à distância de um tiro de arco. Pois dizia consigo: ‘Não quero ver o menino morrer’”.

Esta última frase é comovedora. A Bíblia é realmente surpreendente na simplicidade de seu trato com Deus. Atrás da imagem nos é revelada uma ideia muito pura de Deus. Um Deus que, uma vez mais, está atento, um Deus que escuta. Nenhum sofrimento humano, nenhum grito deixa Deus indiferente. Deus cuida também do menino, Ismael: “Deus ouviu o grito do menino e o anjo de Deus chamou do céu a Agar, dizendo: ‘Que tens Agar? Não tenhas medo, pois Deus ouviu a voz do menino do lugar em que está. Levanta-te, toma o menino e segura-o bem pela mão, porque farei dele um grande povo’”. Ismael significa “Deus ouve”.

“Não tenhas medo.... Levanta-te, toma o menino e segura-o bem pela mão, porque farei dele um grande povo”. 

A atitude constante de Deus é levantar, pôr o homem de pé para poder seguir adiante na vida. É voltar a ter o valor e o gosto de viver, dar um “sentido” à vida. Procurar Deus não é, por isso, uma perda de tempo, pois somente Deus podemos viver bem no tempo e espaço que Ele nos dá. Deus não quer que fiquemos desanimados da existência, por fatais que sejam nossas situações. Temos que nos levantar toda vez que cairmos. A terra que nos causa a queda pode também servir como o apoio para nossas mães para que possamos nos levantar outra vez. 

O Salmo Responsorial parece personificar a oração de Agar e de seu filho, Ismael, no deserto: “Este infeliz gritou a Deus, e foi ouvido, e o Senhor o libertou de toda a angústia. O anjo do Senhor vem acampar ao redor dos que o temem, e os salva” (Sl 33). E a primeira leitura termina com a seguinte frase: “Deus estava com o menino, que cresceu e habitou no deserto, tornando-se um jovem arqueiro”. Diante de Deus não há nem o filho legítimo nem o filho escravo. Todos são amados por Deus. 

Nas nossas angústias e no nosso desespero precisamos manter nossa fé e oração, pois há coisas na vida que não possam ser resolvidas com a força humana. Somente com oração! Rezar é estar diante de Deus, estar com Deus e estar em Deus. Rezar é estar no céu apesar de os pés pisarem sobre a terra. Rezar é elevar a Terra para o céu e baixar o céu para a Terra. É estar na intimidade profunda. É estar na paz profunda. Por isso, a oração exige o envolvimento de todo o nosso ser. Rezar é entrar no espaço sagrado com os pés descalçados e o rosto sem máscara. Para Deus nós somos o que somos no momento. 

Ismael vai ser o pai dos ismaelitas, nômadas do deserto, e os árabes que se referem de bom grado a Abraão como seu pai e origem. 

Abraão, aos cem anos de idade, foi pai de Isaac. Antes havia tido com a escrava Agar outo filho: Ismael. Ambos são pais simbólicos do povo judeu e do povo árabe. A tradição judaica põe o acento na predileção de Abraão por Isaac. Mas não devemos esquecer o que se diz ao final do fragmento em referência ao filho da escrava: “Deus estava com o menino, que cresceu e habitou no deserto, tornando-se um jovem arqueiro”. Judeus e árabes teriam que sentar-se juntos e encontrar seu ponto de encontro no patriarca Abraão, pai comum de ambos. Esta solução tem uma força simbólica inimaginável. 

Mas reconhecemos, a partir do Evangelho deste dia, que nem sempre a “nova ordem” de Jesus em que o ser humano precisa ser amado e protegido mais do que os animais/porcos (interesses egoístas) é aceitável. “A raiz de todos os males é o amor ao dinheiro”, escreveu São Paulo ao Timóteo (1Tm 6,10).  O homem sempre prefere a “velha ordem” para manter os interesses materialistas a amar o próximo. São João nos recorda: “Se alguém disser: Amo a Deus, mas odeia seu irmão, é mentiroso. Porque aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a quem não vê" (1Jo 4,20).

É Preciso Acreditar Em Jesus Porque Ele É Mais Forte Do Que o Mal

Depois que acalmou a tempestade na cena do evangelho anterior, desta vez Jesus libertou (curou) dois enfermos dando-lhes uma nova oportunidade na vida. O ato de Jesus de libertar os dois enfermos mostra que Deus da Bíblia é o Deus que entende a realidade humana e chama o ser humano a experimentar seu amor misericordioso para poder usufruir a vida dignamente. 

O milagre da libertação dos dois possuídos na região dos gadarenos está cheio de símbolos. Mateus usa vários termos nesta cena para nos levar ao sentido da cena e o sentido da presença de Jesus nessa região: dois possuídos, violentos, moram entre os túmulos (cemitério), e uma manada de porcos está por perto deles. “Túmulo” é o lugar dos mortos ou onde os mortos são enterrados. É o lugar dos impuros, como também impuros são os porcos segundo os judeus. Ao dizer que os dois homens estão “saindo dos túmulos” o texto quer nos dizer que os dois pertencem aos descartáveis, estão no nível inferior da sociedade, vivem fisicamente nas margens, longe de núcleos familiares, estão em condições de mortos em vida e estão em rebelião contra a sociedade que os oprimem (violentos). 

Precisamos nos lembrar daqueles que vivem desta maneira na nossa sociedade atual, especificamente na nossa cidade onde moramos atualmente. Quem são os descartáveis nas nossas cidades ou sociedade? Que não os vejamos como algo normal porque sempre passamos por eles diariamente. É sempre uma situação desafiadora para qualquer cristão, é uma situação que nos inquieta. 

Os dois, mortos em vida, vão ao encontro da Vida por excelência, que é Jesus Cristo (Jo 14,6). Mas eles se aproximam de Jesus de maneira antagônica e fazem duas perguntas rápidas: 1). “Que queres de nós, Filho de Deus?”. Eles se dirigem a Jesus como Filho de Deus e O reconhecem como homem de Deus. 2). “Tu vieste aqui para nos atormentar antes do tempo?”. Esta segunda pergunta revela a consciência do papel de Jesus como juiz escatológico, aquele que julga no fim dos tempos (Mt 25,31-46). O tempo do julgamento alvorece no ministério de Jesus embora ainda não seja plenamente.                 

Sem responder às perguntas Jesus os libertou e devolveu-lhes sua dignidade como filhos de Deus e os integrou novamente na comunidade, mostrando que o poder de Jesus é superior ao mal e ao mau e o vence eficazmente. 

O milagre da libertação dos possuídos não produz muito efeito para os habitantes locais, que pedem a Jesus que se retire do seu território. Eles consideram Jesus como culpado pela perda de uma manada de porcos e não lhe agradecem pela libertação dos dois homens de seus males. Jesus vai em busca dos corações dóceis ao seu poder. 

Isto significa que continua a oposição contra o plano de Deus como a tempestade contra a barca onde Jesus se encontrava. A existência alternativa do discipulado, seguindo o compromisso de Jesus para beneficiar aos excluídos, marginalizados e abandonados significa conflito porque ameaça os interesses criados pela elite de grande interesse pessoal da sociedade. Mas no coração aberto para a graça de Deus vai morar a salvação. Onde há o encontro com a Vida por excelência ali há libertação.  

Não há lugar para o poder do maligno em um mundo onde entrou ou deixa entrar o poder salvífico de Deus. E Jesus continua sua luta contra o mal. E nós com Ele. É o mal que há dentro de nós e o mal que há no mundo. É o mal dentro da Igreja e fora dela. É o mal entre os líderes da Igreja e entre os seus membros. E Jesus continua sendo forte, e nós com Ele. E no Pai Nosso pedimos sempre a Deus: “Livrai-nos do mal”, que também pode ser traduzido “livrai-nos do mau, do nocivo”.  Quando vamos comungar o Pão da Vida somos lembrados que Jesus é Aquele que tira o pecado do mundo. E somos enviados depois da comunhão a ajudar os outros a se libertarem de seus males. Devemos ser bons transmissores dessa vida recebida na comunhão para os demais para eles alcancem sua libertação e sua liberdade e vivam gozosamente sua vida. Onde houver espaço para o Bem e para o bem, não sobrará espaço para o mal. Jesus foi para a região dos gadarenos para que tenha espaço para o bem eliminando o mal daquele lugar. Somos enviados para que o bem tenha lugar na vida dos homens. 

Jesus agora continua sua luta contra o mal. E nós com Ele. O mal que está em nós. O mal que está nas nossas comunidades, e o mal que está no mundo.

Porém, Jesus continua sendo o mais forte. Quer o mal esteja personificado no diabo, algo que tantas vezes o evangelho faz, quer não, todos nós temos experiência da existência do mal em nossas vidas e, também, de nossas poucas forças para combatê-lo. 

Jesús sigue siendo el más fuerte. Tanto si se personifica el mal en el demonio, cosa que hace tantas veces el evangelio, como si no, todos tenemos experiencia de que existe el mal en nuestras vidas y, también, de nuestras pocas fuerzas para combatirlo.                 

O poder de Jesus vence qualquer outro poder. Por isso, há um só poder com que nós devemos contar: o poder de Deus. “Quem não conta com Deus, não sabe contar” (B. Pascal). Crer verdadeiramente em Jesus, com todas as consequência deste crer, é ser vitorioso, pois Deus tem a ultima palavra sobre os homens. Mesmo que o mal tenha uma aparência poderosa, ele não tem futuro. Somente o bem tem a marca do futuro, uma marca divina, uma marca da eternidade. 

Será que somos como os gadarenos que desaprovam a presença de Jesus Cristo, nosso libertador de nossos males? Que lugar ocupa Jesus nossa vida e que lugar ocupam os bens materiais na nossa vida. Os gadarenos preferem perder Jesus a perder seus bens (porcos). Precisamos pedir a Jesus que nos liberte das cadeias que nos atam, dos males que nos possuem, das debilidades que nos impedem de uma marcha ágil em nossa caminhada cristã. E temos nos esforçar para corrigir nossos erros. Não corrigir os nossos erros é uma maneira de cometer novos erros.

P. Vitus Gustama,svd

domingo, 2 de julho de 2023

04/07/2023-Terçaf Da XIII Semana Comum

A VERDADEIRA FÉ EM DEUS NOS TORNA CORAJOSOS EM LEVAR JESUS E SUA MENSAGEM PARA OS QUE ESTÃO EM “OUTRA MARGEM”

Terça-Feira da XIII Semana Comum

Primeira Leitura: Gn 19,15-29

Naqueles dias, 15 os anjos insistiram com Ló, dizendo: “Levanta-te, toma tua mulher e tuas duas filhas, e sai, para não morreres também por causa das iniquidades da cidade”. 16 Como ele hesitasse, os homens tomaram-no pela mão, a ele, à mulher e às duas filhas – pois o Senhor tivera compaixão dele –, fizeram-nos sair e deixaram-nos fora da cidade. 17 Uma vez fora, disseram: “Trata de salvar a tua vida. Não olhes para trás, nem te detenhas em parte alguma desta região. Mas foge para a montanha, se não quiserdes morrer”. 18 Ló respondeu: “Não, meu Senhor, eu te peço! 19 O teu servo encontrou teu favor e foi grande a tua bondade, salvando-me a vida. Mas receio não poder salvar-me na montanha, antes que a calamidade me atinja e eu morra. 20 Eis aí perto uma cidade onde poderei refugiar-me; é pequena, mas aí salvarei a minha vida”. E ele lhe disse: 21 “Pois bem, concedo-te também este favor: não destruirei a cidade de que falas. 22 Refugia-te lá depressa, pois nada posso fazer enquanto não tiveres entrado na cidade”. Por isso foi dado àquela cidade o nome de Segor. 22 O sol estava nascendo, quando Ló entrou em Segor. 24 O Senhor fez então chover do céu enxofre e fogo sobre Sodoma e Gomorra. 25 Destruiu as cidades e toda a região, todos os habitantes das cidades e até a vegetação do solo. 26 Ora, a mulher de Ló olhou para trás e tornou-se uma estátua de sal. 27 Abraão levantou-se bem cedo e foi até o lugar onde antes tinha estado com o Senhor. 28 Olhando para Sodoma e Gomorra, e para toda a região, viu levantar-se da terra uma densa fumaça, como a fumaça de uma fornalha. 29 Mas, ao destruir as cidades da região, Deus lembrou-se de Abraão e salvou Ló da catástrofe que arrasou as cidades onde Ló havia morado.

Evangelho: Mt 8, 23-27

Naquele tempo, 23 Jesus entrou na barca, e seus discípulos o acompanharam. 24 E eis que houve uma grande tempestade no mar, de modo que a barca estava sendo coberta pelas ondas. Jesus, porém, dormia. 25 Os discípulos aproximaram-se e o acordaram, dizendo: “Senhor, salva-nos, pois estamos perecendo!” 26 Jesus respondeu: “Por que tendes tanto medo, homens fracos na fé?” Então, levantando-se, ameaçou os ventos e o mar, e fez-se uma grande calmaria. 27 Os homens ficaram admirados e diziam: “Quem é este homem, que até os ventos e o mar lhe obedecem?”

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Quem Vive Conforme a Vontade De Deus Encontrará a Serenidade e a Salvação 

“Trata de salvar a tua vida. Não olhes para trás, nem te detenhas em parte alguma desta região. Mas foge para a montanha, se não quiserdes morrer”.

A Primeira Leitura nos fala sobre a destruição de Sodoma e Gomorra, por um lado, e a salvação da família de Ló, por outro lado. 

A maldade dos sodomitas e dos habitantes de Gomorra ultrapassa o limite.  Nestas cidades nem tem um número mínimo (dez) das pessoas justas, isto é, aquelas que vivem de acordo com a lei de Deus (Cf. Gn 18,16-33), a não ser a família de Ló. Os pecados cometidos os tornam cegos para o que é certo e justo e para o que é sagrado. O pecado corrompe a relação com Deus e com o próximo. “Se você não morrer para o pecado, você morrerá pelo pecado. Se você não matar o pecado, o pecado vai matar você” (Charles Spurgeon). “O pecado é o motivo de tua tristeza. Deixa que a santidade seja o motivo de tua alegria” (Santo Agostinho). Em todo pecado há sempre dois aspectos: a conversão indevida a uma criatura e a aversão diante de Deus. Todo pecado é uma idolatria. Adora-se às coisas de Deus no lugar do Deus das coisas. 

Em que consiste a maldade de Sodoma e Gomorra?

·      Em não respeitar nenhuma lei para orientar sua vida e sua convivência fraterna com os demais. Acham-se superiores a qualquer lei (Gn 19,9). Eles se acham a própria lei.

·      Em desprezar o sagrado ou em invadir o espaço sagrado sem respeito (Cf. Gn 19,5-11).

·      Em não respeitar o próximo nem a família dos outros.

·      Em abandonar a hospitalidade, algo sagrado para os antigos.

·      Em banalizar o sexo. O sexo sem freio termina em violar a dignidade de qualquer mulher, de qualquer casamento, de qualquer família. 

Sodoma e Gomorra foram destruídas. Este drástico castigo revela de modo dramático o estado da gravidade a que conduz o pecado como estrutura. Com efeito, estamos acostumados a olhar para o pecado como uma responsabilidade individual diante de Deus. Mas o texto nos mostra que isto não é certo. Qualquer pecado tem seus efeitos sociais ou efeitos na convivência, pois ninguém vive só e pecar é sempre em relação a outra pessoa. O texto sagrado nos mostra que pecado tende a institucionalizar-se (pecado estrutural). O caos em qualquer lugar ou nação provém, de modo geral, do pecado estrutural ou do pecado institucional que contamina toda uma estrutura. Este pecado vai criando um tecido de cumplicidades que se torna cada vez mais pegajoso e, por isso, quase onipresente que asfixia as pessoas com seus tentáculos pegajosos. 

Deus está sempre pronto para perdoar quando houver sinal de bondade que se expressa através do arrependimento. Mas Deus não impõe, e sim propõe. Uma pessoa ou um grupo que perseverar no seu pecado, no fim haverá uma destruição total para a pessoa ou para o grupo em questão. O arrependimento e o perdão nos restauram numa dignidade e numa responsabilidade que abandonamos. Ser responsável é poder chamar de bem o bem e de mal o mal. 

A prostituição (como aconteceu em Sodoma e Gomorra) e a corrupção administrativa, como exemplo, não são eventos isolados em vidas isoladas e sim verdadeiras redes que dominam alguns setores de qualquer cidade e de qualquer país. Estamos diante dos pecados estruturais que não devem ser avaliados simplesmente como pecados individuais, pois implicam processos, manejo de recursos, inclusive leis oficiais que tornam difícil o esforço de erradicar sua presença e sua obra. Mas o tempo é o mestre de quem vive. Cedo ou tarde haverá uma destruição, pois a maldade não tem futuro e por isso, um dia será revelada e ela conhecerá seu fim trágico. 

A cena das duas cidades, Sodoma e Gomorra, nos convida a sabermos superar o próprio fato do castigo, qualquer que seja sua expressão concreta. O mais importante da cena é como superar o pecado, pois às vezes nos preocupamos mais com o castigo para os culpáveis do que fazer o bem aos inocentes. 

O castigo de Deus sobre as cidades de Sodoma e Gomorra se converteu no protótipo de castigo contra a corrupção e a maldade. A destruição destas cidades seguramente se deve a algum fenômeno natural: o fogo, um terremoto ou talvez erupção num terreno que apresenta características de tipo vulcânico. Mas a intenção religiosa do Genesis é mostrar todo juízo de Deus que condena a maldade de seus habitantes. Assim sucede muitas vezes na Bíblia como quando se justifica a destruição de Babel ou de Babilônia ou de Jerusalém. 

A tradição de a “estátua de sal” na qual se converteu a esposa de Ló, provavelmente também se originou em alguma caprichosa formação rochosa e salina da zona, interpretada popularmente como a figura de uma mulher. Aqui se apresenta como consequência de ter voltado o olhar para trás, coisa que o anjo lhes havia proibido. O passado é observável, mas não é modificável. O futuro é modificável mas não é observável, pois nossa vida não é uma bola de cristal. Mas o presente é uma oportunidade preciosa para o bem ou para o mal para a nossa vida. Deus me presenteia o presente. “A vida só pode ser compreendida, olhando-se para trás, mas somente pode ser vivida, olhando-se para frente” (Sören Kiekergaard, filósofo). Deus me vê como sou e não como era. Eu sou chamado a olhar para frente e não a fixar o olhar no passado mesmo que tenha sido bom. É preciso tirar o que é valioso do passado e largar o que nos atrapalha para caminhar. Somos peregrinos e não somos uma estátua. “Trata de salvar a tua vida. Não olhes para trás, nem te detenhas em parte alguma desta região. Mas foge para a montanha, se não quiserdes morrer”. 

É Preciso Manter a Fé Em Jesus Cristo Que Supera as Tempestades Da Vida 

Se a primeira leitura nos deixa vermos uma destruição total de Sodoma e Gomorra, o Evangelho de hoje nos apresenta o contrário mostrando-nos Jesus sossegado no meio da tempestade do mar da Galileia. Deus não deixa de ser Deus nem na guerra nem na paz, nem na tribulação nem no consolo, nem na confusão nem na claridade. As situações podem mudar, as tempestades da vida podem acontecer, as cidades, como Sodoma e Gomorro, podem ser destruidas, mas Deus é o mesmo; Ele é eterno e imutável. Sua bondade é eterna e por isso, podemos confiar n´Ele. Pode parecer que Deus está longe nas horas de tribulação ou carinhoso na horas de consolo; distante quando há confusão e presente quando volta a claridade. Mas todas estas coisas são interpretações nossas. Como mostra o Evangelho de hoje, temos que saber na fé que Deus é sempre Deus e que sua soberania não tem eclipse nem há pálpebras nos seus olhos. Não há nada que esteja escondido para o olhar de Deus. 

Para entender o relato do evangelho de hoje com seus detalhes nós precisamos ter na mente alguns textos do AT que servem como o pano de fundo. Controle sobre o mar e o ato de acalmar tempestade são sinais característicos do poder divino (Jô 7,12; Salmo 73(74),13; 88(89),8-10; 92(93),3-4; Is 51,9-10). Acalmar uma tempestade no mar é a maior prova da atenção ou do cuidado amoroso de Deus (Salmo 106(107),23-32). É digno de notar também que dormir em paz e sem preocupar-se com nenhum problema é um sinal da perfeita confiança em Deus (cf. Pr 3,23-24; Sl 3,6;4,9; Jô 11,18-19). 

Na literatura antiga a barca é imagem da comunidade. Jesus convida os discípulos a irem a “outro lado do mar”. “Do outro lado” estão os pagãos, ou o território não-judeu. Jesus convida os discípulos para esse território para que lá possam semear também entre os pagãos a Boa Notícia do Reino. Atravessar, ou “ir para outro lado”, então, significa sair de si mesmo, pensar nos outros e não ficar apenas no nosso lado. É preciso ampliar o horizonte para ver as pessoas, a vida e seus acontecimentos, o mundo em geral na sua justa perspectiva e no seu justo valor. É preciso ampliar o olhar para ver o campo maior de atuação. O convite para ir a outro lado é um convite para tomar coragem de adotar novas maneiras de viver e de atuar. É sair de nosso mundo pequeno para o mundo maior a fim de que renovemos nossa reflexão sobre tudo na nossa vida. Precisamos ir a “outro lado”. Precisamos estar no lugar do outro para saber e compreender a vida do outro. Quem sabe no “outro lado” em vez de evangelizarmos os outros, seremos muita mais evangelizados por eles do que eles por nós. Travessia é muitas vezes sinônimo de abertura ao novo e diferente. 

Mas para que possamos atravessar para “outro lado”, precisamos vencer o “mar” de nossa vida. Andar seria impossível. Afundaríamos. Precisamos de algum meio. E o meio para chegar no “outro lado” para superar o “mar” a fim de levar Jesus é “barco”. Quem sabe um dos barcos mencionados neste texto que sumiram do relato é o nosso barco que ainda não foi usado para levar Jesus. É preciso ter coragem para renovar ou procurar meios para que Jesus e seus ensinamentos possam chegar até as pessoas. Os meios são sempre mutáveis, mas a mensagem de Jesus é eterna, pois só Jesus “tem palavras de vida eterna” (Jo 6,68). Não podemos eternizar os meios, pois eles podem se tornar caducos para outro tempo e lugar. O que é eterna é a mensagem de Jesus: “Passarão o céu e a terra. Minhas palavras, porém, não passarão” (Mt 24,35). Qualquer movimento, grupo ou pastoral que não se renovar, morrerá no caminho. Podemos andar no mesmo caminho, mas é preciso mudar o jeito de andar para que a caminhada não se torne cansativa. “Na doação, a vida se fortalece; e se enfraquece no comodismo e no isolamento. De fato, os que mais desfrutam da vida são os que deixam a segurança da margem e se apaixonam pela missão de comunicar a vida aos demais. A vida se alcança e amadurece à medida que é entregue para dar vida aos outros” (Papa Francisco: Exortação Apostólica: Evangelii Gaudium, no. 10). 

Fala-se de uma violenta tempestade que agita o mar, a ponto de as ondas caírem dentro do barco. Para o povo da Bíblia, o mar agitado é a imagem da revolta dos povos inimigos que gera caos primitivo (cf. Sl 46,3-4.7; 65,8; 93,3-4). Além disto, tempestade é imagem de incerteza e de sentimento de derrota, daí se eleva a Deus o grito do povo (cf. Sl 18,16-20;69,2-5.15-16). E somente Deus pode dominar o mar e seu tumulto (Jô 38,7.11). Enquanto isso, Jesus parece estar ausente, dorme e parece estar completamente alheio à tragédia. O sono tranquilo de Jesus simboliza uma confiança total em Deus como foi explicado nos textos do AT acima mencionados. 

“Jesus entrou na barca e os discípulos O seguiram”. Assim Mateus relatou o episódio do evangelho deste dia. A palavra “seguir” aqui é um termo chave que tem função de ligar este episódio com o episódio anterior sobre o seguimento radical (cf. Mt 8, 18-22). Seguir Jesus supõe riscos e renúncias. É por isso que Mt, logo depois da exortação sobre o seguimento radical (episódio anterior), fala da tempestade no meio do lago balançando o barco onde se encontram Jesus e seus discípulos. 

As tempestades do Lago de Galileia têm fama por ser súbitas e muito violentas. E Jesus dormia no meio dessa perigosa tempestade (em grego se usa a palavra “sismo” semelhante ao terremoto, movimento interno violento). Deus dorme! Deus parece ficar calado! Por que não se manifesta? Por que o Senhor não intervém na minha vida? Não é Deus que está dormindo e sim a nossa fé é que está adormecida. Em vez de acordar Deus, precisamos acordar nossa fé adormecida, pois Deus está no mesmo barco conosco e nesta vida todos os dias (Mt 28,20). 

“Por que tendes tanto medo, homens fracos na fé?”, responde Jesus diante de nossos gritos. É o núcleo deste relato: “Homens de pouca fé”. Jesus apela para a fé. Jesus se estranha. E Jesus dá confiança: “Não tenhais medo!”. Para seguir Jesus a fé é condição essencial. As exigências, as renúncias fazem parte da perspectiva de fé. Quanto mais humanamente desesperadora e sem saída for a situação, mais a fé será necessária, pois Deus continua sendo Deus em qualquer momento. 

Jesus nos chama a termos fé. Há situações extremas para as quais todo apoio humano perde sua força. Nessas situações somente a fé em Deus é capaz de manter alguém em pé diante dessas situações. Para ficarmos em pé diante das situações extremas, é preciso mantermo-nos de joelhos diante de Deus. Quando a morte se aproximar, por exemplo, não há outra solução melhor do que a própria fé em Deus cujos braços permanecem abertos para nos acolher em sua casa (cf. Jo 14,1-2). No curso da vida de todo homem ou mulher há muitas situações nas quais a fé é o único recurso, o único meio de evitar o pânico: abandonar-se em Deus, confiar nele. Nessa situação precisamos ouvir profundamente o que Jesus nos diz hoje: “Por que vós tendes tanto medo, homens fracos na fé?”.

Ao relatar a tempestade acalmada por Jesus o evangelista Mateus quer nos mostrar que Jesus tem em suas mãos o poder criador de Deus. Por isso, com sua palavra apenas, tudo lhe obedece. O evangelista quer nos chamar a termos fé neste Jesus em qualquer situação onde nos encontramos. 

Se encontrarmos alguma dificuldade, precisamos manter a cena do evangelho deste dia diante de nossos olhos: a tempestade violenta, o sono de Jesus, o grito de seus amigos, a chamada a uma fé mais forte e a paz que procede desta fé. Quando tudo parece contrário ou contraditório, Jesus está ali, na minha barca, na barca da Igreja. Precisamos rezar em silêncio: “Senhor, suprima meu medo, pois somente o Senhor tem palavras da vida eterna”. 

A Palavra de Deus de hoje quer que tenhamos mais fé em Deus em qualquer situação, pois Ele é o nosso Pai e só quer nosso bem. Precisamos estar conscientes de que Cristo, Deus-Conosco está na barca da Igreja e na barca de nossa vida. É verdade que Jesus parece estar dormindo. Mas, na verdade, a nossa fé é que está adormecida. E o Deus-Conosco, Jesus Cristo, promete sua presença permanente na nossa vida: “Eis que estou convosco todos os dias até o fim do mundo” (Mt 28,20). “Coragem! Eu venci o mundo!” (Jo 16,33c). Temos que ter consciência dessa promessa e colocá-la em prática. 

É Bom Saber Que:

  • “Cada cristão e cada comunidade há-de discernir qual é o caminho que o Senhor lhe pede, mas todos somos convidados a aceitar esta chamada: sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho” (Papa Francisco: Exortação Apostólica, Evangelii Gaudium no. 20).

·      A fé nasce no encontro com o Deus vivo, que nos chama e revela o seu amor: um amor que nos precede e sobre o qual podemos apoiar-nos para construir solidamente a vida. Transformados por este amor, recebemos olhos novos e experimentamos que há nele uma grande promessa de plenitude e nos é aberta a visão do futuro. A fé, que recebemos de Deus como dom sobrenatural, aparece-nos como luz para a estrada orientando os nossos passos no tempo (Papa Francisco: Encíclica Lumen Fidei, no. 4).

P. Vitus Gustama,svd

Sábado Da XXIX Semana Comum, Ano Par, 24/10/2026

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