terça-feira, 5 de agosto de 2025

06/08/2025- Quartaf Da XVIII Semana Comum- Ano Ímpar

COM FÉ TUDO SE ALCANÇA, POIS DEUS NOS ACOLHE E NOS AMA ETERNAMENTE

Quarta-Feira da XVIII Semana Comum

Primeira Leitura: Nm 13,1-2.25-14,1.26-30.34-35

Naqueles dias, 13,1 o Senhor falou a Moisés, no deserto de Faran, dizendo: 2 “Envia alguns homens para explorar a terra de Canaã, que vou dar aos filhos de Israel. Enviarás um homem de cada tribo, e que todos sejam chefes”. 25 Ao fim de quarenta dias, eles voltaram do reconhecimento do país 26 e apresentaram-se a Moisés, a Aarão e a toda a Comunidade dos filhos de Israel, em Cades, no deserto de Faran. E, falando a eles e a toda a Comunidade, mostraram os frutos da terra 27 e fizeram a sua narração, dizendo: “Entramos no país, ao qual nos enviastes, que de fato é uma terra onde corre leite e mel, como se pode reconhecer por estes frutos. 28 Porém, os habitantes são fortíssimos, e as cidades grandes e fortificadas. Vimos lá descendentes de Enac; 29 os amalecitas vivem no deserto do Negueb; os hititas, jebuseus e amorreus, nas montanhas; mas os cananeus, na costa marítima e ao longo do Jordão”. 30 Entretanto Caleb, para acalmar o povo revoltado, que se levantava contra Moisés, disse: “Subamos e conquistemos a terra, pois somos capazes de fazê-lo”. 31 Mas os homens que tinham ido com ele disseram: “Não podemos enfrentar esse povo, porque é mais forte do que nós”. 32 E, diante dos filhos de Israel, começaram a difamar a terra que haviam explorado, dizendo: “A terra que fomos explorar é uma terra que devora os seus habitantes: o povo que aí vimos é de estatura extraordinária. 33 Lá vimos gigantes, filhos de Enac, da raça dos gigantes; comparados com eles parecíamos gafanhotos”. 14,1 Então, toda a Comunidade começou a gritar, e passou aquela noite chorando. 26 O Senhor falou a Moisés e Aarão, e disse: 27 “Até quando vai murmurar contra mim esta Comunidade perversa? Eu ouvi as queixas dos filhos de Israel. 28 Dize-lhes, pois: ‘Por minha vida, diz o Senhor, juro que vos farei assim como vos ouvi dizer! 29 Neste deserto ficarão estendidos os vossos cadáveres. Todos vós que fostes recenseados, da idade de vinte anos para cima, e que murmurastes contra mim, 30 não entrareis na terra na qual jurei, com mão levantada, fazer-vos habitar, exceto Caleb, filho de Jefoné, e Josué, filho de Num. 34 Carregareis vossa culpa durante quarenta anos, que correspondem aos quarenta dias em que explorastes a terra, isto é, um ano para cada dia; e experimentareis a minha vingança’. 35 Eu, o Senhor, assim como disse, assim o farei com toda essa Comunidade perversa, que se insurgiu contra mim: nesta solidão será consumida e morrerá”.

Evangelho: Mt 15,21-28

Naquele tempo, 21 Jesus retirou-se para a região de Tiro e Sidônia. 22 Eis que uma mulher cananeia, vindo daquela região, pôs-se a gritar: “Senhor, filho de Davi, tem piedade de mim: minha filha está cruelmente atormentada por um demônio!” 23 Mas, Jesus não lhe respondeu palavra alguma. Então seus discípulos aproximaram-se e lhe pediram: “Manda embora essa mulher, pois ela vem gritando atrás de nós”. 24 Jesus respondeu: “Eu fui enviado somente às ovelhas perdidas da casa de Israel”. 25 Mas, a mulher, aproximando-se, prostrou-se diante de Jesus, e começou a implorar: “Senhor, socorre-me!” 26 Jesus lhe disse: “Não fica bem tirar o pão dos filhos para jogá-los aos cachorrinhos”. 27 A mulher insistiu: “É verdade, Senhor; mas os cachorrinhos também comem as migalhas que caem da mesa de seus donos!” 28 Diante disso, Jesus lhe disse: “Mulher, grande é a tua fé! Seja feito como tu queres!” E desde aquele momento sua filha ficou curada.

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Deus Nos Ama Com Amor Eterno

“O Senhor falou a Moisés, no deserto de Faran, dizendo: ‘Envia alguns homens para explorar a terra de Canaã, que vou dar aos filhos de Israel’” é a primeira frase da Primeira Leitura de hoje.

O texto da Primeira Leitura se encontra no conjunto de Nm 13-20 onde se relatam os acontecimentos importantes. O povo eleito se encontra em Cades que se situa entre Sinai (onde o povo eleito vai partir para a terra prometida) e as planícies de Moab (o lugar onde o povo eleito vai chegar e permanecer). Neste conjunto é que se relata a separação de duas gerações: a geração saída do Egito condenada a morrer no deserto por causa da falta de fé, rebeldia e murmuração contra Moisés e Deus, e a geração seguinte que são filhos da geração saída do Egito. Esta segunda geração é que vai entrar na terra prometida: “Todos vós que fostes recenseados, da idade de vinte anos para cima, e que murmurastes contra mim, não entrareis na terra na qual jurei, com mão levantada, fazer-vos habitar, exceto Caleb, filho de Jefoné, e Josué, filho de Num” (Nm 24,29-30).

Neste texto se relata a falta da fidelidade do povo e da fé em Deus que garante a conquista da terra prometida: “Envia alguns homens para explorar a terra de Canaã, que vou dar aos filhos de Israel”, assim Deus falou para Moisés. A terra é boa e fértil: “Entramos no país, ao qual nos enviastes, que de fato é uma terra onde corre leite e mel”, relataram os enviados para Moisés que exploraram a terra em questão.

A expressão “uma terra onde corre leite e mel” não se trata tanto de uma descrição geográfica (fertilidade e riqueza material do solo) e sim uma confissão teológica. O povo eleito é um povo peregrino em busca de uma terra onde possa permanecer para sempre. Por isso, a expressão “uma terra onde corre leite e mel” é uma forma de agradecer a Deus que pela sua bondade o povo conseguiu uma terra onde mora para sempre.

Por outro lado, os habitantes dessa terra são fortes: “Comparados com eles parecíamos gafanhotos”, acrescentaram os enviados. Ao ouvir tudo isso, menos Caleb, o resto do povo eleito se arrependeu de ter saído do Egito. Diante disso tudo, Deus “se sente ofendido” e condena essa geração a morrer no deserto.

O autor sagrado quer nos chamar a atenção sobre algo importante que está em jogo. A terra encontrada pelos exploradores (enviados de Moisés) é a terra boa para se morar e dela o povo pode viver. Mas há um grande desafio: o povo na terra encontrada é gigante. Isto significa que o povo eleito deve estar disposto a enfrentar os maiores dificuldades para conquistar o que é valioso para sua vida, sua liberdade e sua felicidade. Quanto maior for um desafio, maior será a vitória.

Diante das provações da vida, temos, mais ou menos, duas possibilidades: a resignação e a perseverança. A resignação nos faz recusarmos a viver nossa aflição, vegetar no absurdo (viver sem sentido) e no vazio. A perseverança nos faz acreditarmos numa transformação possível, apesar das aparências contrárias e das impossibilidades do ponto de vista humano.

Por isso é que Deus pede que o povo eleito acredite n´Ele, pois o próprio Deus quer dar a terra em questão apesar dos gigantescos seus desafios e obstáculos: “Envia alguns homens para explorar a terra de Canaã, que vou dar aos filhos de Israel”. No âmago da nossa confiança naquilo que Deus nos deu ou nos dará, encontramos a força para nos superar e enfrentar as provações. A fé em Deus nos leva a nos libertar, a nos assumir, a nos manter de pé, com determinação.

As palavras de Moisés para levantar o povo desanimado e as de outros dirigentes (Aarão, Josué e Caleb) não convencem o povo eleito. E esse povo morreu no seu desespero sem lutar para alcançar o mais valioso preparado por Deus no fim de sua peregrinação que é a terra prometida.

Nosso sentimento de impotência diante dos desafios nos priva de um olhar verdadeiro sobre nós mesmos e sobre nossas potencialidades ou capacidades. Se não aprendermos a olhar e a acreditar em Deus e a olhar a partir de dentro de nós, nunca teremos ideia da dimensão do nosso poder com Deus diante dos obstáculos externos. Consequentemente, nós nos impediremos de ir cada vez mais longe, mesmo sendo capazes. A fonte de nossa cegueira raramente está fora de nós e sim está dentro de nós mesmos, pois os que nos amam sabem que estamos carentes de algo importante e querem nos ajudar. Mas quantas vezes recusamos a ajuda dos outros ou dos que nos amam. Por isso, vivemos apalpando sem saber do sentido daquilo que estamos fazendo e falando e da direção para onde vamos. Consequentemente, morremos parados e paralisados. A vida continua nos chamando a caminharmos para descobrir suas surpresas preparadas por Deus para nosso bem e felicidade. Quando, com coragem, acreditamos no Domingo da Páscoa, porque em nós está a força da ressurreição, não há fracasso que nos faça perdedores. A força de Deus é tal que é capaz de nos encher de serenidade e confiança, enquanto a provação tenta nos impor um sentimento de fracasso e o desejo de perecer.

É Preciso Ter Fé No Deus Que Ama a Todos

“’ Mulher, grande é a tua fé! Seja feito como tu queres!’. E desde aquele momento sua filha ficou curada”.

1. A Salvação Trazida Por Jesus é Para Todos Os Homens

O que tem por trás do relato sobre a cura da filha de uma mulher cananéia é a chegada do Evangelho aos pagãos. Neste relato usam-se os termos “cananéia”, apelativo dado à mulher cuja filha estava doente e “cachorro”. No Antigo Testamento o apelativo “cananéia” designa os pagãos. Do mesmo modo o termo “cachorro” (animal impuro), que é para os judeus tem um sentido pejorativo, designa os pagãos (impuros).

O relato nos mostra que, sendo judeu, Jesus abre o diálogo para os pagãos, pois Ele foi enviado para salvar toda a humanidade. Por sua vez, os pagãos, representados pela mulher cananéia, reconhecem a messianidade de Jesus ao chamá-Lo de “Senhor e Filho de Davi” (Mt 15,22.25) e O adoram como Deus: “A mulher, aproximando-se, prostrou-se diante de Jesus, e começou a implorar: “Senhor, socorre-me!”(Mt 15,25).  “Prostrar-se é uma expressão de adoração.  E a adoração supõe que esteja diante de uma divindade. A cananeia vê em Jesus uma divindade.

Para enfatizar mais ainda o papel de Jesus como o Salvador da humanidade o texto usa também o termo “pão” que no relato tem um sentido simbólico: “Não fica bem tirar o pão dos filhos para jogá-los aos cachorrinhos”. A mulher insistiu: “É verdade, Senhor; mas os cachorrinhos também comem as migalhas que caem da mesa de seus donos!”.  “Comer as migalhas que caem da mesa dos filhos” significa receber de Jesus o dom da cura para a filha da cananéia. O pão alimenta e sustenta a vida. Jesus é Aquele que sustenta a vida da humanidade, pois Ele é a própria vida e o Pão da vida (Jo 11,25; 14,6; cf. Jo 6,35.41.48.51.55).

2. Uma Pagã Que Nos Ensina a Termos Fé Em Jesus

O grandioso do relato do evangelho deste dia é a forma como uma mulher pagã é colocada como modelo de fé em seu sentido mais genuíno e original. Ela se abandona nos braços d’Aquele que vem da parte de Deus (Jesus Cristo) e se declara fraca e limitada humanamente diante do problema que afeta a vida de sua filha e consequentemente afeta também sua vida como mãe. Em uma família ninguém sofre sozinho. A mãe reconhece a superioridade e poder de Jesus, mostrando ao mesmo tempo a gravidade do problema que afeta sua própria filha. O problema de sua filha é insustentável. Na sua declaração essa mulher quer dizer a Jesus: “Sem Sua ajuda, Jesus, sem Seu poder, é impossível sair do meu problema!”.

Essa mulher era uma Cananéia, uma pagã, uma estrangeira. Jesus põe a prova sua fé usando uma frase que se utilizava para desprezar os estrangeiros ou os pagãos: “cachorro”. Mas ela, confiada na justiça e na misericórdia de Deus, responde sabiamente a Jesus: “Mas os cachorrinhos também comem as migalhas que caem da mesa dos seus donos”. Pela sua fé verdadeira e profunda e pela perseverança na sua oração essa mulher é premiada por Jesus: a cura de sua filha.

O evangelho nos mostra a fé de uma mulher que não pertencia ao povo eleito, não pertencia à uma Igreja ou a uma religião, mas tinha confiança e fé no poder de Jesus. Ela pode não pertencer a uma religião ou a uma Igreja, mas ela pertence a Deus pela fé que tem no poder do Deus-Encarnado, Jesus Cristo. Será que os que estão dentro da Igreja têm mais fé do que os que estão fora da Igreja? Será que os que estão dentro da Igreja são mais cristãos do que os que estão fora da Igreja? Será que os que estão dentro da Igreja são mais humanos, gentis e educados do que os que estão fora da Igreja? Será que os que estão dentro da Igreja são mais perseverantes na fé do que os que estão fora da Igreja? Será que, por causa da fé e do amor, os que são considerados fora da Igreja na verdade estão dentro da Igreja e os que são considerados dentro da Igreja na verdade estão fora da Igreja? Será.....? “Todos somos mais ateus do que acreditamos e mais crentes do que pensamos. Acho que os ateus não se opõem a Deus, mas às criaturas de Deus que os fiéis lhe mostram” (René Juan Trossero).

Ser pagão não depende da pertença ou não a uma religião ou a uma Igreja. Ser pagão se define a partir do modo de viver. Por isso, há cristãos-pagãos como também há pagãos- cristãos. Há cristãos que perdem com facilidade sua fé e vivem sem esperança. São “cristãos” pagãos. Há muitos que são considerados pagãos pelos outros, como a mulher Cananéia, mas acreditam no poder de Deus incondicionalmente. São “pagãos” cristãos.

A mulher Cananéia não perde sua fé, não protesta, não se revolta ainda que encare a humilhação: ser chamada de cachorro. Ela conseguiu o que pedia, pois ela se abandonava totalmente nos braços de Deus e encarava todos os tipos de obstáculos e dificuldades. Santo Agostinho dizia que muitos não conseguem o que pedem porque são maus de coração e por isso, eles têm que ser, primeiramente, bons. Ou muitos não conseguem o que pedem porque pedem malmente, sem insistência no lugar de fazê-lo com paciência, com humildade, com fé e por amor. Há que esforçar-se por pedir o que bom para todos. A mulher Cananéia é boa mãe, pede algo bom e pede bem. Através do evangelho de hoje o Senhor quer nos mover a termos fé e perseverança e a vivermos na esperança porque Deus nos ama. Deus se vence com fé e não com orgulho. De Deus se obtém tudo com confiança. Em Deus sempre encontra uma acolhida quando cada um se aproxima com humildade e não com autossuficiência.

Essa mulher é um modelo acabado de fé e oração unidas. Ela chama Jesus de “Senhor”, um título dado a Jesus pós-pascal. Sua fé é orientada para a libertação do próximo, nesse caso de sua filha. E sua oração cumpre aquilo que Jesus pede: a fé, confiança, perseverança e sem desfalecimento.

Ela nos ensina que a fé e a oração devem andar juntas. Quem tem fé em Deus precisa rezar. E quem reza, precisa ter fé. A fé é a atitude básica de qualquer crente, de qualquer cristão, pois ela é a resposta nossa diante da oferta do amor de Deus para nós. A oração evidencia, por sua vez, a presença e a vitalidade de nossa fé em Deus.

Nós cristãos temos que aprender da mulher cananeia muitas coisas belas. Deus é convencido com a fé e não com o orgulho. De Deus se obtém tudo não com o racionalismo e sim com a confiança. Em Deus sempre encontra uma acolhida quando o homem se aproxima d’Ele com humildade e não com autossuficiência. A mulher cananeia nos obriga a revisarmos nossa fé.

3. Para Refletir Mais:

·      “Posso afirmar que posso viver sem água nem ar, mas não posso viver sem Deus. Podes arrancar-me os olhos que isso não me mata. Podes arrancar-me o nariz que isso não me mata. Mas basta que destruas minha fé, e estarei morto” (Mahatma Gandhi).

·      “Esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé” (1Jo 5,4)

·      “Todos somos mais ateus do que acreditamos e mais crentes do que pensamos. Acho que os ateus não se opõem a Deus, mas às criaturas de Deus que os fiéis lhe mostram” (René Juan Trossero).

P. Vitus Gustama,svd

sábado, 2 de agosto de 2025

05/08/2025-Terçaf Da XVIII Semana Comum- Ano Ímpar

DEUS,ORIGEM DOS CARISMAS, ESTÁ CONOSCO EM TODOS OS MOMENTOS

Terça-Feira Da XVIII Semana Comum

Primeira Leitura: Nm 12,1-13

Naqueles dias, 1 Maria e Aarão criticaram Moisés por causa de sua mulher etíope. 2 E disseram: “Acaso o Senhor falou só através de Moisés? Não falou, também, por meio de nós?” E o Senhor ouviu isto. 3 Moisés era um homem muito humilde, mais do que qualquer outro sobre a terra. 4 Então o Senhor disse a Moisés, Aarão e Maria: “Ide todos os três à Tenda da Reunião”. E eles foram. 5 O Senhor desceu na coluna de nuvem, parou à entrada da Tenda, e chamou Aarão e Maria. Quando se aproximaram, ele lhes disse: 6 “Escutai minhas palavras! Se houver entre vós um profeta do Senhor, eu me revelarei a ele em visões e falarei com ele em sonhos. 7 O mesmo, porém, não acontece com o meu servo Moisés, que é o mais fiel em toda a minha casa! 8 Porque a ele eu falo face a face; é às claras, e não por figuras, que ele vê o Senhor! Como, pois, vos atreveis a rebaixar o meu servo Moisés?” 9 E, indignado contra eles, o Senhor retirou-se. 10 A nuvem que estava sobre a Tenda afastou-se, e no mesmo instante, Maria se achou coberta de lepra, branca como a neve. Quando Aarão olhou para ela e a viu toda coberta de lepra, 11 disse a Moisés: “Rogo-te, meu Senhor! Não nos faça pagar pelo pecado que tivemos a insensatez de cometer. 12 Que Maria não fique como morta, como um aborto que é lançado fora do ventre de sua mãe, já com metade da carne consumida pela lepra”. 13 Então Moisés clamou ao Senhor, dizendo: “Ó Deus, eu te suplico, dá-lhe a cura!”

Evangelho: Mt 14,22-36

Depois que a multidão comera até saciar-se, 22 Jesus mandou que os discípulos entrassem na barco e seguissem, à sua frente, para o outro lado do mar, enquanto ele despediria as multidões. 23 Depois de despedi-las, Jesus subiu ao monte, para orar a sós. A noite chegou, e Jesus continuava ali, sozinho. 24 A barca, porém, já longe da terra, era agitada pelas ondas, pois o vento era contrário. 25 Pelas três horas da manhã, Jesus veio até os discípulos, andando sobre o mar. 26 Quando os discípulos o avistaram, andando sobre o mar, ficaram apavorados, e disseram: 'É um fantasma'. E gritaram de medo. 27 Jesus, porém, logo lhes disse: 'Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!' 28 Então Pedro lhe disse: 'Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água.' 29 E Jesus respondeu: 'Vem!' Pedro desceu da barca e começou a andar sobre a água, em direção a Jesus. 30 Mas, quando sentiu o vento, ficou com medo e começando a afundar, gritou: 'Senhor, salva-me!' 31 Jesus logo estendeu a mão, segurou Pedro, e lhe disse: 'Homem fraco na fé, por que duvidaste?' 32 Assim que subiram no barco, o vento se acalmou. 33 Os que estavam no barco, prostraram-se diante dele, dizendo: 'Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!' 34 Após a travessia desembarcaram em Genesaré. 35 Os habitantes daquele lugar, reconheceram Jesus e espalharam a notícia por toda a região. Então levaram a ele todos os doentes; 36 e pediam que pudessem, ao menos, tocar a barra de sua veste. E todos os que a tocaram, ficaram curados.

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Todos Os Dons e Carismas Provém De Deus Para a Edificação Da Comunidade

“Maria e Aarão criticaram Moisés por causa de sua mulher etíope. E disseram: ‘Acaso o Senhor falou só através de Moisés? Não falou, também, por meio de nós?’”.

Desta vez a rebelião e o protesto contra Moisés não vem apenas do povo eleito em geral, mas também de sua própria família: seu irmão maior Aarão, o sacerdote que trabalhava em colaboração com Moisés, e sua irmã Maria (Miriam) que vigiava no rio onde sua mãe depositou o menino Moisés. Agora Aarão e Maria atacam Moisés e murmuram dele. Trata-se de um problema familiar.

Há uma dupla reação diante deste ataque inesperado. Por parte de Moisés é a paciência, porque “Moisés era um homem muito humilde, mais do que qualquer outro sobre a terra” (Nm 12,3). Por parte de Deus o profeta Moisés é defendido pelo próprio Deus: “Escutai minhas palavras! Se houver entre vós um profeta do Senhor, eu me revelarei a ele em visões e falarei com ele em sonhos. O mesmo, porém, não acontece com o meu servo Moisés, que é o mais fiel em toda a minha casa! Porque a ele eu falo face a face; é às claras, e não por figuras, que ele vê o Senhor! Como, pois, vos atreveis a rebaixar o meu servo Moisés?”. O livro interpreta como castigo de Deus a lepra que Maria sofreu (Nm 12,9-10).

Sobre um fundo de problemática familiar guardado na memória da tradição, possivelmente da tradição eloísta, o autor bíblico nos oferece uma boa lição teológica sobre os carismas. O autor sagrado quer colocar em destaque a origem de todos os carismas. Deus que chama cada um para um serviço concreto, dá-lhe também o carisma correspondente e lhe assegura Sua assistência (cf. Nm 12,6-7). Deus é quem distribui para cada homem um carisma conforme Sua própria vontade (cf. 1Cor 12,11). E a vontade de Deus não é arbitrária, pois o carisma não se outorga para a promoção pessoal e sim para a edificação e o crescimento da comunidade. E para a livre generosidade de Deus deve corresponder a fidelidade do serviço do homem pelo bem da comunidade e sua edificação. O carisma que se transforma em autopromoção é uma traição à vontade de Deus. Este abuso pode resultar na desgraça: “Indignado contra eles (Aarão e Maria), o Senhor retirou-se. A nuvem que estava sobre a Tenda afastou-se, e no mesmo instante, Maria se achou coberta de lepra, branca como a neve”.

A intenção de dois irmãos, Aarão e Maria, de minar a autoridade de Moisés em benefício próprio atrai a ira de Javé (Deus). Maria era certamente profetisa (Ex 15,20) que recebeu este carisma, como Aarão havia recebido o carisma do sacerdócio. Por isso, era verdade que Deus havia falado com eles. Mas esta realidade não lhes dava nenhum direito de exigir igualdade de dons nem intentar reduzir Deus a um mero garantia da igualdade de sua própria graça. No fundo, é uma tentativa de manipular Deus e de converter o serviço ou ministério em título de honras e poder, como temos visto no curso da história do pecado.

Mas Aarão se arrepende de sua falta e pede a intercessão de Moisés: “Rogo-te, meu Senhor! Não nos faça pagar pelo pecado que tivemos a insensatez de cometer. Que Maria não fique como morta, como um aborto que é lançado fora do ventre de sua mãe, já com metade da carne consumida pela lepra”. O Salmo Responsorial de hoje parece recolher os sentimentos de Aarão: “Tende piedade, ó meu Deus, misericórdia! Na imensidão de vosso amor, purificai-me! Lavai-me todo inteiro do pecado, e apagai completamente a minha culpa! Eu reconheço toda a minha iniquidade, o meu pecado está sempre à minha frente. Foi contra vós, só contra vós, que eu pequei, e pratiquei o que é mau aos vossos olhos!” (Sl 50). E Moisés mostra, mais uma vez, seu coração magnânimo intercedendo diante de Deus por sua irmã Maria.

O exemplo de Moisés deveria nos animar a sermos mais generosos em nossas reações diante do tratamento que recebemos dos outros quando nos parece injusto. Jesus nos ensinou a perdoar (Cf. Mt 18,21-22). Quando não houver o perdão mútuo, existirão sempre duas vítimas: o agredido e o agressor, e a relação fica enfraquecida. A correção fraterna pode nos ajudar a recapacitarmos e a melhorarmos nossa relação mais saudável.

Para aprender a amar verdadeiramente, o cristão tem que aprender a perdoar, pois perdão é a expressão máxima do amor. Perdão é o último testamento de Jesus Cristo da cruz para todos os cristão (cf. Lc 23,34).  “O fraco jamais perdoa: o perdão é uma das características do forte” (Mahatma Gandhi).

Deus Está Conosco Em Todos Os Momentos De Nossa Vida

1. É Preciso Manter Nossas Conversas Diárias Com Deus, Nosso Pai

Depois que saciou a multidão com a Palavra de Deus e com o alimento, Jesus se afastou da multidão para rezar ou para estar em comunhão plena com Deus: “Jesus subiu ao monte para orar a sós”, assim o evangelista Mateus registrou.

A montanha, por ser um ponto elevado sobre a parte plana da terra, sempre foi considerada em todas as antigas religiões como um símbolo da “subida” do homem até Deus e como o sinal da manifestação ou epifania de Deus. Deus se manifesta no alto e o homem deve subir até Deus, abandonando uma vida medíocre, pois Deus está acima de nossos esquemas de viver e de pensar. Ou na linguagem do Livro dos Reis (1Rs 19,9-13) Deus não se encontra no terremoto, isto é, não tem como ouvir Deus numa vida agitada e barulhenta; também não se encontra no fogo. O fogo queima e transforma tudo em cinzas. Isto quer dizer que não tem como ouvir Deus para uma mente agitada ou comportamento esquentado. Deus se encontra na suavidade de uma brisa, isto é, quando tudo é sereno, a voz de Deus pode ser ouvida com clareza. Somente no silêncio e ao criar o silêncio a eternidade se faz presente para potenciar nossa humanidade. Um cristão sem oração perseverante é como alguém que anda com uma perna apenas: em pouco tempo fica cansado e cai.

2. Deus Está Conosco Diariamente: Tenha Consciência Disso!

“Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!”. Através desta frase Jesus se dá a conhecer ou Jesus se revela aos discípulos quem Ele é. A palavra “Coragem!” dissipa o medo provocado pela aparição de Jesus no meio do lago. Em seguida Jesus lhes disse: “Sou Eu!”. “Sou eu” é uma fórmula de identificação com que Deus se revelava no Antigo Testamento (cf. Ex 3,14; Is 43,1.3.10-11). “Sou Eu” corresponde à exortação “Não tenha medo”. Ao dizer “Sou Eu”, Jesus se revelou como Deus-Conosco (cf. Mt 1,23; 18,20; 28,20), um Deus que nos acompanha com sua providencia em todos os momentos de nossa vida. Através de seu evangelho, Mateus quer nos transmitir a certeza de que Deus jamais nos abandona: “Eis que Estou convosco todos os dias até o fim do mundo” (Mt 28,20).

“Não tenhais medo”, diz-nos o Senhor todos os dias. Quando ouvirmos a voz do Senhor, a paz estará presente no nosso coração, ainda que estejamos rodeados pelas provações ou dificuldades, pois trata-se da Palavra de Quem nos criou e de Quem pode nos salvar. Precisamos nos deixar pelo poder da Palavra de Deus e não pelo aparente poder da situação em que nos encontramos. Em outras palavras, é preciso que Deus continue sendo o Senhor de nossa vida em todos os seus momentos. Para isso precisamos nos manter conectados com o Senhor para que Sua força continue sendo nossa força.

3. É Preciso Manter o Olhar Fixado No Senhor

“’’Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água.’  E Jesus respondeu: ‘Vem!’ Pedro desceu da barca e começou a andar sobre a água, em direção a Jesus. Mas, quando sentiu o vento, ficou com medo e começando a afundar, gritou: ‘Senhor, salva-me!’”.

Pedro desafia Jesus. Ele chama Jesus de “Senhor” e pede para que vá até Jesus. Através desse pedido Pedro quer participar da condição divina de Jesus. Jesus não duvida e convida Pedro para ir ao seu encontro. Mas infelizmente Pedro esperava a condição divina sem obstáculos, de maneira milagrosa. Pedro precisa estar consciente de que o homem se faz filho de Deus em meio da oposição e perseguição do mundo (cf. Mt 5,10-11). O pedido de Pedro (cf. Sl 17(18),5-18; 143(144),5-7) vale uma reprovação, pois mostra sua falta de fé: “Homem fraco na fé, por que duvidaste?”.

Pedro sente medo porque não entendeu o modo como se faz a missão: com a entrega total. Os discípulos ou Pedro apelam a Jesus nos momentos de dificuldade pedindo que Jesus intervenha. Eles têm conceito da salvação expressado nos salmos (cf. Sl 17[18],5-18; 143[144],5-7): uma intervenção milagrosa de Deus a partir do céu para que resolva a situação desesperadora do homem. o conceito de Jesus é diferente: estando com Ele, o homem se basta a si mesmo (cf. Mt 19,26: para Deus tudo é possível) e está salvo: “Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!”

Enquanto Jesus sobe à barca cessa o vento, isto é, a oposição e a resistência dos discípulos. O vento era a busca do triunfo humano. “Os que estão na barca”, que representam a comunidade cristã (barca=Comunidade/Igreja), reconhecem que Jesus é “Filho de Deus”. Jesus é “Filho de Deus”, mas eles têm acreditar no Filho de Deus para que possam chegar a sê-lo.

É preciso manter nosso olhar para Deus e não para as nossas dificuldades ou para as “ondas fortes” de nossa vida. Pedro olhava mais para as ondas e quase se afundou. A partir do momento em que ele voltou a olhar para Jesus a fim de pedir a ajuda e Jesus estendeu a mão para tirá-lo de sua situação, Pedro começou a andar com o Senhor sobre as ondas. Muitos de nossos medos são causados pela nossa maneira de olhar para nossa vida e seus problemas. Se nossa vida pertence a Deus e foi Ele quem nos deus, temos que confiar nossa vida no Senhor.

P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

04/08/2025-Segundaf Da XVIII Semana Comum- Ano Ímpar

PARA VIVER UMA VIDA CRISTÃ EQUILIBRADA É PRECISO QUE SEJAMOS ALIMENTADOS PELO PÃO MATERIAL E PÃO EUCARÍSTICO

Segunda-Feira Da XVIII Semana Comum

Primeira Leitura: Nm 11,4b-15

Naqueles dias, 4b os filhos de Israel começaram a lamentar-se, dizendo: “Quem nos dará carne para comer? 5 Vêm-nos à memória os peixes que comíamos de graça no Egito, os pepinos e os melões, as verduras, as cebolas e os alhos. 6 Aqui nada tem gosto ao nosso paladar, não vemos outra coisa a não ser o maná”. 7 O maná era parecido com a semente do coentro e amarelado como certa resina. 8 O povo se dispersava para o recolher e o moía num moinho, ou socava num pilão. Depois o cozinhavam numa panela e faziam broas com gosto de pão amassado com azeite. 9 À noite, quando o orvalho caía no acampamento, caía também o maná. 10 Moisés ouviu, pois, o povo lamentar-se em cada família, cada um à entrada de sua tenda. 11 Então o Senhor tomou-se de uma cólera violenta, e Moisés, achando também tal coisa intolerável, disse ao Senhor: “Por que maltrataste assim o teu povo? Por que gozo tão pouco do teu favor, a ponto de descarregares sobre mim o peso de todo este povo? 12 Acaso fui eu quem concebeu e deu à luz todo este povo, para que me digas: ‘Carrega-o ao colo, como a ama costuma fazer com a criança; e leva-o à terra que juraste dar a seus pais!’? 13 Onde conseguirei carne para dar a toda esta gente? Pois se lamentam contra mim, dizendo: ‘Dá-nos carne para comer!’ 14 Já não posso suportar sozinho o peso de todo este povo: é grande demais para mim. 15 Se queres continuar a tratar-me assim, peço-te que me tires a vida, se achei graça a teus olhos, para que eu não veja mais tamanha desgraça”.

Evangelho: Mt 14,13-21

Naquele tempo, 13 quando soube da morte de João Batista, Jesus partiu e foi de barco para um lugar deserto e afastado. Mas quando as multidões souberam disso, saíram das cidades e o seguiram a pé. 14 Ao sair da barca, Jesus viu uma grande multidão. Encheu-se de compaixão por eles e curou os que estavam doentes. 15 Ao entardecer, os discípulos aproximaram-se de Jesus e disseram: “Este lugar é deserto e a hora já está adiantada. Despede as multidões, para que possam ir aos povoados comprar comida!” 16 Jesus porém lhes disse: “Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer!” 17 Os discípulos responderam: “Só temos aqui cinco pães e dois peixes”. 18 Jesus disse: “Trazei-os aqui”. 19 Jesus mandou que as multidões se sentassem na grama. Então pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção. Em seguida partiu os pães, e os deu aos discípulos. Os discípulos os distribuíram às multidões. 20 Todos comeram e ficaram satisfeitos, e dos pedaços que sobraram, recolheram ainda doze cestos cheios. 21 E os que haviam comido eram mais ou menos cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças.

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Deus Está Conosco Apesar de Nossas Queixas, Protestos e Murmurações

A Primeira Leitura é tirada do livro de Números, o quarto livro do Pentateuco que vamos ler durante quatro dias. Na Bíblia hebraica este livro é chamado Bamidbar (no deserto). Este nome é tirado da quinta palavra do primeiro versículo deste livro. Na Bíblia grega este livro é chamado Arithmoi cuja tradução para a Vulgata (Bíblia latina) é Numeri que significa Números, título que temos na nossa Bíblia atual. Este livro recebe este nome (Números) porque nele há muitos números, censos, listas e recenseamentos.

O livro de Números retoma o fio da história no Sinai até as portas da terra prometida. O livro enfatiza bastante a coesão das tribos como o povo eleito sob a direção de Moisés e Aarão e que depois estes serão sucedidos por Eleazar.

Neste livro fala-se de Israel como um povo à parte, pois ele é o povo eleito entre outros povos (Nm 23,9). Fala-se do dogma da presença de Deus que vive no meio do povo. No NT este dogma se encarna em Jesus (Mt 28,20; Jo 1,14). Por causa deste dogma, Israel se torna uma nação teocrática. Consequentemente, os chefes do povo são considerados como vigários e representantes de Deus. Moisés, por exemplo, é o homem de confiança de Deus (Nm 12,6-8), o porta-vos de Deus, legislador, por excelência. Por isso, Moisés recebe os títulos de intercessor, eleito de Deus, homem de Deus, servo do Senhor (Nm 11,11-12). Mesmo sendo uma nação teocrática, Israel é também uma mistura de santo e de pecador. “Santo” significa “separado”. Israel é santo porque é um “povo separado”, pois é consagrado ao Senhor. Esta consagração (social e espacial) implica necessariamente a santidade moral. Por isso, neste livro encontramos leis, prescrições e instituições para salvaguardar e promover a santidade moral do povo eleito.  A lei em si é uma confirmação da bondade e da maldade, do bem e do mal. Para salvaguardar os bons é preciso ter lei para que os maus não avancem destruindo seu próximo. Mas quando houver amor, a lei perderá sua existência, pois “a caridade é a plenitude da lei” (Rm 13,10). Por isso, neste livro fala-se também das infidelidades e outros pecados do povo eleito. Em Nm 11-21 encontramos muitas queixas, protestos e murmurações do povo eleito contra Moisés que os tirou do Egito sob a ordem de Deus. O autor sagrado quer transmitir também o outro tema: o povo eleito é o depositário da bênção de Deus. Este tema está em destaque nos quatros poemas mais densos e profundos teologicamente de Balaão (Nm 23-24). Balão é enviado por um rei para amaldiçoar o povo eleito. Mas em vez de amaldiçoar, ele abençoa o povo de Israel. Mas os autores do AT mantém o seguinte pensamento: o pecado costuma ser seguido pelo arrependimento e o arrependimento do povo é seguido pelo perdão de Deus. Consequentemente há uma dialética: pecado-castigo; conversão-salvação. No fim Deus sempre se mostra misericordioso pelo arrependimento do povo que pecou.

Esta dialética encontramos no texto da Primeira Leitura (Nm 11,1-15). O povo se queixa no deserto pela vida difícil. A vida difícil no deserto resulta na atitude rebelde do povo que se queixa e ofende Deus. Esta atitude resulta na ira e no castigo da parte do Senhor. Mas Moisés intercede pelo povo para pedir o perdão a Deus. O esquema pecado-castigo-conversão se repete constantemente nos diversos autores e escolas teológicas do Antigo Testamento.

O deserto foi duro para o povo. O deserto é o contrário de “instalação”: é a aventura de seguir caminhando. O povo murmura pelas condições em que tem que viver e caminhar. Abandonaram a vida com comida farta que levavam no Egito apesar da escravidão. A liberdade sempre dá medo. O deserto ajuda a crescer na maturidade. Mas os israelitas sempre continuam experimentando a proximidade de Deus que é fiel a sua Aliança.

Moisés se deixa contagiar pelo mal-estar do povo, pois a impaciência do povo vai contra ele: “Quem nos dará carne para comer? Vêm-nos à memória os peixes que comíamos de graça no Egito, os pepinos e os melões, as verduras, as cebolas e os alhos. Aqui nada tem gosto ao nosso paladar, não vemos outra coisa a não ser o maná”. O povo se esqueceu de tudo que Moisés fez por ele em nome de Deus. Moisés ficou desanimado, mas refugiou na oração, uma oração muito humana e sentida: “Por que maltrataste assim o teu povo? Por que gozo tão pouco do teu favor, a ponto de descarregares sobre mim o peso de todo este povo?”, perguntou Moisés a Deus na oração. A crise é tão forte a ponto de Moisés pedir a morte: “Se queres continuar a tratar-me assim, peço-te que me tires a vida, se achei graça a teus olhos, para que eu não veja mais tamanha desgraça”.

Todos temos nossos momentos de crise e desânimo ainda que não desejemos nossa morte como Moisés. Vemos muito pouco fruto no trabalho que temos realizado; vemos os filhos que não querem saber de Deus; vemos nossa família desunida. Nestas situações experimentamos o cansaço psicológico que a vida produz cada dia. Há dias em que são acumulados os desgostos pela vida, pela comunidade, pela pastoral, pela família e assim por diante. Experimentamos as tarefas que se tornam uma carga insuportável.

Nestas situações serve para nós o exemplo de Moisés. Precisamos nos refugiar no Senhor sabe tudo e pode tudo. A oração é antes de tudo uma confissão da própria indigência: Senhor, eu não consegui alcançar tal objetivo, Senhor, eu ando buscando..., Senhor, eu não compreendo tudo. Senhor, eu necessito de Ti.

Jesus nos convida a perseverar em nossa oração, a dirigir confiadamente nossas súplicas ao Pai (cf. Lc11,5-13; 18,1). Ele nos recomenda que sejamos persistentes na oração não porque Deus seja surdo e sim porque nós necessitamos perseverar para alcançá-Lo. A natureza humana é geralmente caracterizada pela inconstância. Ficamos desanimados e apavorados diante do primeiro obstáculo que nos é apresentado na consequência de nossos projetos e metas. Abandonamos a nave diante do menor indício de tormenta. As coisas fáceis geralmente não são valiosas. Para vencer os obstáculos são necessárias a humildade, a confiança e a perseverança.

Se decidirmos cultivar uma atitude perseverante, uma entrega decidida, e uma sobriedade diante das dificuldades, nós veremos que ao término de nosso esforço se encontra a generosa vontade de Deus que nos tem acompanhado desde o início de nossa vida.

Somos Responsáveis Pelos Irmãos Necessitados

“Vós mesmos deveis dar-lhes de comer”. Esta é a ordem de Jesus para seus discípulos no evangelho de hoje diante da multidão faminta.

Vivemos este paradoxo: “Não somente de pão vive o homem; porém, sem pão ele não pode viver”. Como integrar a necessidade de pão com a experiência de que o pão não sacia outras fomes e a nossa fome mais profunda? A questão tem aplicação pessoal e social, ao mesmo tempo.

A Palavra de Deus mantém a bipolaridade: pão para o faminto e pão para os que comem e não se saciam. Provamos ou experimentamos tudo e estamos cada dia mais vazios (cf. Is 55,1-3). Dedicamos bastante tempo de nossa vida em função da procura do “o quê” de nossa vida, do seu aspecto material. E nessa busca percebemos que quanto mais tivermos, mais quereremos. Uma vez Oscar Wilde escreveu: “Neste mundo só há duas tragédias: uma é não se conseguir o que se quer, a outra é conseguir”. No fim confessamos que tudo que conseguimos materialmente e profissionalmente não satisfaz aquela fome sem nome que temos na alma. Carl Gustav Jung chegou a escrever e afirmar: “O problema de cerca de um terço de meus pacientes não é diagnosticado clinicamente como neurose, mas resulta da falta de sentido de suas vidas vazias. Isto pode ser definido como a neurose geral de nossa época” (O Homem Moderno à Procura de Uma Alma).

O que nos frustra e tira nossa alegria de viver é a ausência do significado de nossa vida, o para quê de nossa existência neste mundo. Nossa alma não está sedenta de poder, de fama, de popularidade, de conforto, de propriedades e assim por diante. Nossa alma tem fome do significado da vida, ou de aprendermos a viver de tal modo que nossa existência ou nossa passagem neste mundo tenha importância ou significado capaz de modificar ou de melhorar o mundo, pelo menos, ao nosso redor.

Este vazio existencial é o pressuposto onde cabe pronunciar a Palavra de Deus: “Inclinai vosso ouvido e vinde a Mim, ouvi e tereis vida” (Is 55,3ª). A Palavra de Deus é o verdadeiro alimento para o coração humano. A Palavra de Deus continuará a ser eficaz, curadora, e libertadora, se nós soubermos ouvi-la atentamente, meditá-la no nosso dedicado silêncio de cada dia e vivê-la na nossa vida cotidiana. Se a Palavra de Deus já curou tantas pessoas, converteu tantos pecadores, libertou tantas pessoas de seus problemas, guiou a vida de tantos homens, esta mesma Palavra continua tendo o mesmo poder e a mesma eficácia. A palavra humana pode errar e enganar, mas a Palavra de Deus não erra nem engana. A Palavra de Deus é firme para sustentar a vida de quem nela se agarra e por ela se orienta. Dizia o papa Gregório Magno: “Ler a Bíblia é aprender a conhecer o coração de Deus mediante Suas palavras”. E coração de Deus é um coração cheio de amor misericordioso. Por isso, Santo Agostinho dizia: “Toda a Bíblia nada mais do que narrar o amor de Deus”. O amor de Deus é a última resposta para todos os “porquês” da vida do homem (cf. Jo 3,16). Tudo o que Deus faz e fala na Bíblia é amor. Deus move o mundo enquanto é amado, isto é, enquanto é objeto de amor e causa final de todas as criaturas.

Por essa razão, a multiplicação dos pães feita por Jesus exige um duplo princípio de leitura: por um lado, a leitura a partir da práxis messiânica de Jesus, o realista Encarnado, que traz o Reino para os famintos de estômago, multiplicando os pães a partir daquilo que o ser humano lhe oferece com generosidade: cinco pães e dois peixes. É uma leitura sem metáfora. Jesus alimenta o povo faminto. Ele se preocupa com o estômago vazio da maioria. A partir desta leitura podemos entender a ordem de Jesus para qualquer dos seus seguidores em qualquer época e lugar: “Vós mesmos deveis dar de comer para a multidão faminta”. Nem que seja a partir do pouco que se tem como cinco pães e dois peixes, mas que saiba dividir para que todos possam viver dignamente como filhos e filhas de Deus. O cristão existe para prolongar a generosidade do Deus-Criador que criou tudo gratuitamente para o bem da humanidade. Cada generosidade feita o egoísmo é vencido e esmagado. Cada pequena generosidade a ganância é enterrada e o sorriso fraterno volta a brilhar e a família de Deus nesta terra volta a ser edificada.

O milagre está na partilha. O problema da fome física e de outras fomes somente pode ser resolvido satisfatoriamente quando nós, homens, aprendemos a partilhar o que temos para com aqueles que não têm nada para sobreviver. O milagre está na partilha, na solidariedade e no amor entranhável. Sem essa solidariedade, sem essa fraternidade, sem comunicação de bens e sem essa comunhão no amor, não é possível a vida e a abundância da vida. Sem o amor a todos os homens, sem o amor e os sentimentos de Cristo, a Eucaristia que celebramos em sua memória careceria de sentido.

Por outro lado, é a leitura a partir da Eucaristia, pois Jesus realiza o sinal da abundância de pão para os últimos tempos onde não haverá fome nem sede. Dentro desta leitura podemos entender a ação de graças e a benção pelos pães e peixes que são dons de Deus para a humanidade e ao mesmo tempo são frutos do trabalho humano. A ação de graças é o nome próprio da Eucaristia.

Jesus com todo o que é e representa, é o único que pode satisfazer a fome radical de viver, com plenitude e para sempre. Somente Jesus pode alimentar o amor e a esperança que necessitamos para superar todas as dificuldades. Somente Jesus, com tudo o que é e representa para o cristão, pode saciar nosso insaciável sonho de felicidade. Ele é o Pão descido do céu que contém todo sabor. Este pão que contém todo sabor é que celebramos sacramentalmente na Eucaristia: a certeza de que, em Jesus, Deus nos deu um Pão capaz de saciar nossa fome de vida e nosso desejo de felicidade.

Uma coisa positiva que podemos aprender dos discípulos é a sua atitude de dar-se conta das necessidades dos que estão ao redor, nesse caso da multidão faminta. É uma boa lição para nosso tempo em que existe, evidentemente, uma tendência ao individualismo. Com frequência passamos indiferentes para os que nos rodeiam sem captar a problemática que podem ter. A frase “problema não é meu” é bastante perigosa para uma convivência mais humana e cristã. Do ponto de vista cristão tal postura é absolutamente insustentável e impensável.

Também hoje conserva atualidade do mandamento dado por Jesus: “Vós mesmos deveis de comer para a multidão faminta”. Nós que participamos e partilhamos o pão da Eucaristia devemos estar dispostos também a partilhar o pão material.

P. Vitus Gustama, SVD

XVIII Domingo Comum, Ano "C", 03/08/2025

SABER PARTILHAR É SER RICO DIANTE DE DEUS

XVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM “C”

I Leitura: Ecl 1,2;2,21-23

2 “Vaidade das vaidades, diz o Eclesiastes, vaidade das vaidades! Tudo é vaidade”. 2,21 Por exemplo: um homem que trabalhou com inteligência, competência e sucesso, vê-se obrigado a deixar tudo em herança a outro que em nada colaborou. Também isso é vaidade e grande desgraça. 22 De fato, que resta ao homem de todos os trabalhos e preocupações que o desgastam debaixo do sol? 23 Toda a sua vida é sofrimento, sua ocupação, um tormento. Nem mesmo de noite repousa o seu coração. Também isso é vaidade.

II Leitura: Cl 3,1-5.9-11

Irmãos: 1 Se ressuscitastes com Cristo, esforçai-vos por alcançar as coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus; 2 aspirai às coisas celestes e não às coisas terrestres. 3 Pois vós morrestes, e a vossa vida está escondida, com Cristo, em Deus. 4 Quando Cristo, vossa vida, aparecer em seu triunfo, então vós aparecereis também com ele, revestidos de glória. 5 Portanto, fazei morrer o que em vós pertence à terra: imoralidade, impureza, paixão, maus desejos e a cobiça, que é idolatria. 9 Não mintais uns aos outros. Já vos despojastes do homem velho e da sua maneira de agir 10 e vos revestistes do homem novo, que se renova segundo a imagem do seu Criador, em ordem ao conhecimento. 11 Aí não se faz distinção entre judeu e grego, circunciso e incircunciso, inculto, selvagem, escravo e livre, mas Cristo é tudo em todos.

Evangelho: Lc 12,13-21

Naquele tempo, 13 alguém, do meio da multidão, disse a Jesus: “Mestre, dize ao meu irmão que reparta a herança comigo”. 14 Jesus respondeu: “Homem, quem me encarregou de julgar ou de dividir vossos bens?” 15 E disse-lhes: “Atenção! Tomai cuidado contra todo tipo de ganância, porque, mesmo que alguém tenha muitas coisas, a vida de um homem não consiste na abundância de bens”. 16E contou-lhes uma parábola: “A terra de um homem rico deu uma grande colheita. 17 Ele pensava consigo mesmo: ‘O que vou fazer? Não tenho onde guardar minha colheita’. 18 Então resolveu: ‘Já sei o que fazer! Vou derrubar meus celeiros e construir maiores; neles vou guardar todo o meu trigo, junto com os meus bens. 19 Então poderei dizer a mim mesmo: Meu caro, tu tens uma boa reserva para muitos anos. Descansa, come, bebe, aproveita!’ 20 Mas Deus lhe disse: ‘Louco! Ainda esta noite, pedirão de volta a tua vida. E para quem ficará o que tu acumulaste?’ 21 Assim acontece com quem ajunta tesouros para si mesmo, mas não é rico diante de Deus”.    

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Lucas e Os Bens Materias

Um dos temas prediletos do Evangelista Lucas é a advertência sobre o perigo dos bens materiais quando não são usados como meio e sim como fim.

Para Lucas, todos os bens deste mundo pertencem a Deus e eles são bons e necessários e devemos desfrutá-los como um presente de Deus que os criou para nosso bem enquanto estivermos neste mundo. O evangelista Lc quer nos relembrar que nós temos apenas o direito de usar as coisas criadas por Deus, o Criador. E esse direito cessará assim que dedixarmos de estar aqui neste mundo, quando morrermos. Tudo o que conquistamos materialmente é nosso enquanto estivermos vivos. Mas quando morrermos nada será nosso, pois terminou nosso direito de usar e de usufruir as coisas criadas por Deus. A avareza se torna inútil e é apenas “vaidade das vaidades”.

O dinheiro é um bem desejável, um meio para conseguir coisas necessárias à vida. Mas sendo um “bem”, facilmente se deseja mais e mais dinheiro, muitas vezes de maneira injusta o que causa a concentração dos bens nas mãos de poucas pessoas. Afinal, para que ter tanto e tanto dinheiro acumulado? Em nosso corpo cabe apenas uma peça de roupa e uma calça. Embora tenhamos muitas calças, mas só podemos usar uma peça de cada vez. E isso é igual para todos: ricos e pobres.      

A atitude crítica diante dos donos dos bens materiais é muito radical em Lucas. A bem-aventurança dos pobres em Lucas é completada com os quatro “ais” sobre os ricos (Lc 6,24). Só Lucas usa a expressão “Mamon (Dinheiro) de iniquidade” (Lc 16,9). E quando se trata de abandonar os bens ou vendê-los e dá-los aos pobres Lucas usa o termo “tudo”: deve-se deixar “tudo” (Lc 5,11.28), deve-se renunciar a “tudo” (Lc14,33;18,22). Somente em Lucas encontram-se as parábolas sobre o perigo das riquezas ou da acumulação dos bens (Lc19,16-31;12,16-21;16,1-9). A riqueza e a cobiça dos bens temporais sufocam o crescimento da semente da Palavra de Deus. A passagem do Evangelho deste domingo está dentro deste tema.

O texto e Sua Mensagem

O texto pode ser dividido em três partes: vv. 13-14 falam de alguém que pede a Jesus que resolva o problema de herança; v.15, uma sentença de Jesus sobre os perigos da avareza; e vv.16-21: uma parábola que serve para exemplificar o sentido da sentença de Jesus.         

“Mestre, dize ao meu irmão que reparta a herança comigo” é a pergunta de alguém do meio da multidão dirigida a Jesus.

As leis de herança entre os judeus eram determinadas pela Torá (cf. Nm 27,28ss; Dt 21,17) e por isso o doutor da lei era o homem capaz de dirimir questões de herança, já que era, ao mesmo tempo, jurista e teólogo. Segundo as tradições jurídicas judias (especialmente numa família camponesa), o filho mais velho tinha direito a 2/3 dos bens móveis da casa paterna, além de herdar a casa e o campo.

Jesus recusa exercer a função de juiz na divisão da herança daqueles irmãos: “Homem, quem me encarregou de julgar ou de dividir vossos bens?”.   A missão de Jesus é outra. Sua vida estava plenamente dedicada ao anúncio do Reino de Deus pela salvação da humanidade.

O choque entre dois irmãos pela repartição da herança depende, em última análise, da avareza insaciável do homem: “Atenção! Tomai cuidado contra todo tipo de ganância, porque, mesmo que alguém tenha muitas coisas, a vida de um homem não consiste na abundância de bens”. Qualquer desejo de aumentar os bens materiais sem necessidade é julgado por Jesus como um perigo, do qual os discípulos se devem precaver. A ganância ou a cobiça traz sempre consigo a ilusão de que, pelas posses e pela abundância, a vida se torna segura. Temos que ter uma plena consciência de que a vida é um presente de Deus e não fruto dos bens ou da abundância em bens terrenos e em riquezas. Não é o homem que dispõe da vida e sim o próprio Deus.

Para Jesus, enquanto houver pobres, a riqueza não se justifica. Ele não pretende fazer com que os ricos fiquem pobres a fim de que os pobres se enriqueçam, pois a situação continuaria sendo injusta. Surgiriam novos opressores. Jesus se dirige a ricos e pobres para convidá-los à “conversão” para a alternativa que Jesus propõe: partilhar (que é a alma do projeto de Deus: Deus se doa) o que se tem com irmãos, filhos do mesmo Pai celeste que o necessitam (cf. Mt 25,31-46). Mesmo que isso nos leve a deixar de ser “ricos”. No dia do julgamento o Filho do Homem não perdoará ao que lhe negou o pão ou a água (cf. Mt 25,40.45). Como alerta São Tiago: “Será julgado sem misericórdia quem não fez misericórdia” (Tg 2,13).  Ninguém é pobre quando sabe amar.

Quando avançamos na idade até chegar para a nossa velhice começaremos a perceber que a avareza não tem nenhum sentido para nossa vida. Desfrutaremos muito pouco quando ficarmos idosos mesmo que tenhamos bastantes recursos. Tudo que se adquire aqui neste mundo vai ficar aqui neste mundo. Tudo é emprestado para nós. Ficar apegado  aos bens materiais não vale a pena. Um dia seremos obrigados a largar tudo pela força da lei igual a todos: a morte. Necessitamos de alguém com quem conversar. Precisamos de companhia de um ser humano. Temos que gostar de gente usando os bens, e não usar as pessoas em função dos bens. Todos os bens materiais continuam sendo alheios a nós. Consequentemente, eles nunca serão nossos amigos. Por isso, não basta possuir coisas materiais e fruir delas dentro dos limites da moderação imposta pela ordem racional; temos de ser capazes de nos elevar acima de toda alegria e ultrapassar toda posse para podermos chegar à pura posse e à pura alegria de Deus.         

Sabemos muito bem de que o ser humano tende por natureza ao desenvolvimento de si mesmo e, como garantia deste direito, ele procura apropriar-se das coisas que o rodeiam, no intuito de utilizá-las. Trata-se de uma aspiração legítima. É bem verdade, está claro, que as criaturas de Deus são boas e que o uso moderado que delas fazemos nos leva à união mais íntima com Deus. É também verdade que os que estão mais intimamente unidos a Deus e desapegados do próprio eu exterior são capazes de saborear a mais pura alegria na beleza das coisas criadas, a qual não mais é obstáculo à luz de Deus. Mas, se a cobiça dos bens for exagerada, excessivo o apego a eles, doentia a afeição pelas coisas e a sua posse não tiver o caráter de meio, impondo-se tiranicamente como um fim, então a pessoa não estará mais exercendo um direito, mas sendo vítima de um vício hediondo: a avareza. Por isso, não basta possuir coisas materiais e fruir delas dentro dos limites da moderação imposta pela ordem racional; temos de ser capazes de nos elevar acima de toda alegria e ultrapassar toda posse para podermos chegar à pura posse e à pura alegria de Deus.          

A avareza é, na verdade, um desvio do significado de infinito, uma transposição do absoluto para o que é relativo; ela consiste em acreditar que a riqueza não é um meio para se servir, mas a própria razão de ser da vida. Tudo que amamos por causa de nós mesmos, fora de Deus, só cega nosso intelecto e paralisa nosso julgamento sobre os valores morais; vicia nossas opções, de maneira que não podemos distinguir com nitidez o bem do mal nem saber qual é a vontade de Deus. Quando amamos e desejamos as coisas por elas mesmas, ainda que tenhamos o conhecimento dos princípios morais gerais, não os sabemos aplicar. A avareza obscurece nossas visão das coisas e da vida.          

O avarento é vítima de um prazer em possuir as coisas que jamais será satisfeito, mas o estimulará cada vez mais numa espiral sem fim. A satisfação em possuí-las é tão grande que até torna o medo de perdê-las maior que o desejo de aumentá-las. Está tão apegado a elas que, para não se desprender delas, ele até renuncia à possibilidade de multiplicá-las através de investimentos. Ele considera os bens que possui como parte da sua existência, sentindo sua perda ou o desprender-se deles como uma amputação. Ele sacrifica qualquer satisfação da vida ao prazer de contemplar sua riqueza, impondo a si próprio sacrifícios na alimentação, renunciando ao prazer das viagens etc. Ele seria capaz de morrer de fome só para ter à sua disposição os bens necessários para não morrer de fome num amanhã que ele não irá ver. Esta é uma lógica para se viver mal e morrer pior ainda.         

Para exemplificar o sentido de sua sentença, Jesus conta uma parábola (vv.16-21). O rico produtor de trigo, que acredita que não terá necessidade, por muitos anos, de temer insucessos de colheita é um tolo/insensato. Biblicamente o tolo/insensato é um modo de falar de um homem que praticamente renega Deus(Sl 14,1). Ele não conta com Deus nem vê a ameaça de morte. É o homem que põe toda sua confiança num falso fundamento. Um projeto de vida fundamentado na acumulação dos bens não tem solidez, porque a fonte da vida não está nos bens e a sua segurança não é proporcional à posse. O homem fechado a Deus e aos outros na sua solidão é destituído daquela lucidez que permite acolher as exatas proporções da realidade. O teor de sua advertência através desta parábola mostra que Jesus considera como perigo ameaçador, não a morte imprevista do indivíduo(porque morrer é algo universal a que todos nós teremos de chegar), mas a catástrofe e o julgamento escatológicos que estão às portas. Por isso, deve-se ler essa parábola dentro do contexto do fim dos tempos. Jesus espera que apliquemos a conclusão à nossa situação: seremos insensatos como o rico tolo ameaçado de morte, se formos avarentos. 

O sinal distintivo da identidade cristã é seguir a Jesus: seguir tudo o que ele diz e faz. Para ser bom cristão, não basta renunciar aos bens, é preciso distribui-los aos pobres. Um bom cristão deve renunciar à acumulação de bens que cria a pobreza de outros, pois o que sobra para um, por pouco que seja, faz falta para outro.          

Somos convidados ao despojamento (kénosis). Ele é todo um empenhamento para dar lugar à riqueza do poder da graça de Deus, a fim de nos tornarmos imunes contra as ciladas do orgulho e da avareza. Enquanto o despojamento não tiver ocupado o nosso coração, o desapego do nosso egoísmo, da nossas presunção e da ânsia de possuir, poderá tornar-se momentaneamente penoso e cansativo. Mas se, ao contrário, o despojamento se transformará num processo curativo, libertador e generoso. Por ter experimentado o despojamento São Paulo chega a dizer: “Mas tudo isso, que para mim era lucro, reputei-o perda por Cristo...Por Ele, tudo desprezei e tenho em conta de esterco, a fim de ganhar Cristo...Não que eu já tenha alcançado a meta, ou que já seja perfeito, mas prossigo a minha carreira para ver  se de algum modo a poderei alcançar, visto que já fui alcançado por Jesus Cristo”(Fl 3,7-12).  O homem que se deixa conquistar pelo despojamento de Cristo, deixa de estar alienado ou agarrado a qualquer coisa, sentindo-se, pelo contrário, livre em Cristo pelo seu Evangelho. O despojamento torna-se, então, um encontro libertador consigo próprio, com Deus e com o próximo.

O homem é sempre tentado a buscar sua salvação nos bens, a pôr nas riquezas sua segurança. O cristão deve estar vigilante contra essa tentação insidiosa /cheia de ciladas. Os bens não asseguram nem a mesma vida, menos ainda a salvação. O homem da parábola dialoga consigo mesmo. Este diálogo falha na ordem de salvação. Faltam-lhe interlocutores. Não intervém Deus. Não intervêm os demais homens, pois esse homem fala consigo próprio.

Ser rico diante de Deus significa dar importância àquelas coisas que levaremos conosco na morte: as boas obras, a caridade praticada na verdade, a solidariedade, a partilha e assim por diante. É saber compartilhar com os outros nossos bens que é uma riqueza que vale diante de Deus. 

·      "O avarento vive sempre na pobreza." (Horácio)

·      "Ser avarento é pior do que ser pobre." (Textos Judaicos)

·      "A avareza é um tirano bem cruel; manda ajuntar e proíbe o uso daquilo que se junta; visita o desejo e interdiz o gozo." (Plutarco)

·      "A avareza perde tudo ao pretender ganhar tudo." (Jean de La Fontaine)

·      O dinheiro é uma faca de dois gumes, conforme se usa para o bem ou para o mal. Para viver como filhos de Deus, temos de ser irmãos dos outros, algo impossível para o que idolatra o dinheiro. O dinheiro merece ser conquistado, mas  sempre no poder do Espírito de Deus. Assim o dinheiro torna-se um instrumento útil de serviço. Se você deprecia o dinheiro dos outros, pergunte-se se não o adoraria caso ele fosse seu. Não se admire o seu desprendimento pelo dinheiro que lhe falta por você não saber ganhá-lo com seu esforço; mas sim admire-se se você é generoso com o dinheiro que ganha com seu trabalho. E se você tem dinheiro acumulado, pergunte-se como o ganhou e como o usa. Se você continua acumulando mais dinheiro do que precisa para viver, sabe para que o faz ?

·      Um homem que trabalhou com inteligência, competência e sucesso, vê-se obrigado a deixar tudo em herança a outro que em nada colaborou (Ecl 2,21).

P. Vitus Gustama,svd

Sexta-feira Da XXX Semana Comum, 30/10/2026

DEUS QUER VIDA PARA TODOS E POR ISSO, CURA QUALQUER PESSOA EM QUALQUER DIA Sexta-Feira da XXXI Semana Comum Primeira Leitura: Fl 1,1-11 ...