sábado, 27 de julho de 2019

31/07/2019
Resultado de imagem para Quando Moisés acabou de lhes falar, cobriu o rosto com um véu.Resultado de imagem para Quando Moisés desceu da montanha do Sinai, trazendo nas mãos as duas tábuas da aliança, não sabia que a pele de seu rosto resplandecia por ter falado com o SenhorImagem relacionadaResultado de imagem para O Reino do Céus é como um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra e o mantém escondido. Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo.
DEUS E SUA PALAVRA SÃO NOSSOS TESOUROS QUE RESPLANDECEM NOSSA VIDA COTIDIANA E NOS TRAZEM A FELICIDADE
Quarta-Feira da XVII Semana Comum


Primeira Leitura: Ex 34,29-35
29 Quando Moisés desceu da montanha do Sinai, trazendo nas mãos as duas tábuas da aliança, não sabia que a pele de seu rosto resplandecia por ter falado com o Senhor. 30 Aarão e os filhos de Israel, vendo o rosto de Moisés resplandecente, tiveram medo de se aproximar. 31 Então Moisés os chamou, e tanto Aarão como os chefes da Comunidade foram para junto dele. E, depois que lhes falou, 32 todos os filhos de Israel também se aproximaram dele, e Moisés transmitiu-lhes todas as ordens que tinha recebido do Senhor no monte Sinai. 33 Quando Moisés acabou de lhes falar, cobriu o rosto com um véu. 34 Todas as vezes que Moisés se apresentava ao Senhor, para falar com ele, retirava o véu, até a hora de sair; depois saía e dizia aos filhos de Israel tudo o que lhe tinha sido ordenado. 35 E eles viam a pele do rosto de Moisés resplandecer; mas ele voltava a cobrir o rosto com o véu, até o momento que entrava para falar com o Senhor.


Evangelho: Mt 13,44-46
Naquele tempo, disse Jesus à multidão: 44 “O Reino do Céus é como um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra e o mantém escondido. Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo. 45 O Reino dos Céus também é como um comprador que procura pérolas preciosas. 46 Quando encontra uma pérola de grande valor, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquela pérola”.
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Quem se Aproxima De Deus Se Torna Próximo Dos Homens


Outra vez Moisés subiu ao monte Sinai para se encontrar com Deus a fim de pedir o perdão pela infidelidade do povo e lá ficou durante quarenta dias e quarenta noites em jejum (Ex 34,28). Durante a conversa com Deus a pele do rosto de Moisés se tornou brilhante, e o povo percebeu isso quando desceu do monte com duas novas tábuas da lei. O rosto brilhante de Moisés na conversa com Deus é o símbolo de sua autoridade perante Deus. Moisés foi rejeitado pelo povo, mas foi ele que restaurou a aliança. Seu rosto brilhante é o símbolo de sua função divina diante do povo. A luz de Deus repousa sobre ele para guiar o povo eleito.


Mais uma vez o livro de Êxodo quer ressaltar que Moisés atua de mediador que intercede diante de Deus pelo seu povo e a este ele comunica a Palavra de Deus. Isto quer nos dizer que Moisés é um homem de Deus e um homem do povo, simultaneamente. Ele é próximo dos dois: de Deus e dos homens. Ele é tão próximo de Deus a ponto de ser tão próximo dos homens. Ele é tão de Deus a ponto de o povo perceber isso (o rosto brilhante de Moisés). Por isso, o Salmo diz dele: “Eis Moisés e Aarão entre os seus sacerdotes... Da coluna de nuvem falava com eles. E guardavam a lei e os preceitos divinos, que o Senhor nosso Deus tinha dado” (Sl 98).


Hoje em dia, ironicamente, com a tecnologia “aproximamos” quem está distante e distanciamos quem está próximo. Cada um se torna uma pessoa invisível para outra pessoa. Somos incapaz de largar a tecnologia como celular ou computador etc. para poder conversar cara a cara com o outro. A tecnologia nos instrumentaliza para ficara cada vez mais isolados dos outros, em vez de instrumentalizarmos a tecnologia para nos aproximarmos mais dos outros. Com isso deixamos de ser próximos dos outros. A consequência de ser próximo de Deus é ser próximo dos homens. Nunca podemos procurar Deus para fugir dos homens. O próximo é o caminho obrigatório para chegar até Deus. O mandamento do Senhor “Ame o seu próximo como a si mesmo” devemos levar em conta e devemos fazer uma nova leitura sobre o mesmo.


Quem Contempla Deus Se Torna Reflexo Divino Para Os Outros


“Quando Moisés desceu da montanha do Sinai, trazendo nas mãos as duas tábuas da aliança, não sabia que a pele de seu rosto resplandecia por ter falado com o Senhor. Aarão e os filhos de Israel, vendo o rosto de Moisés resplandecente, tiveram medo de se aproximar”, assim relatou o autor sagrado.


No monte Sinai Moisés ficou quarenta dias e quarenta noites em oração, solidão e experiência religiosa. E quando Moisés desceu do monte, com duas tábuas da lei na mão, todos notaram que seu rosto ficou brilhante, resultado da luz de Deus. Isto quer nos dizer que viver com Deus, de modo mais profundo e explícito, durante um tempo prolongado não pode deixar de transformar um homem. O homem que mantém contato com Deus se torna luz para o próximo. “Vós sois a luz do mundo!” (Mt 5,14).


O rosto resplandecente de Moisés merece uma contemplação. O melhor que podemos fazer para iluminar os outros é ter um rosto resplandecente. O rosto é a janela que dispomos para revelar aquilo que temos dentro do coração. Podemos esconde algo dentro de nosso coração, mas o nosso rosto vai falar por nós daquilo que sentimos e com algo que nos deixa preocupados. Um rosto iluminado é como um discreto brilho de Deus em meio da noite de nossas palavras. Os rostos resplandecentes nos ajudam a caminhar nas trevas da descrença. Os melhores planos de evangelização são aqueles que ajudam as pessoas a tem um rosto brilhante a fim de iluminar os outros, são os que têm um rosto sereno, alegre e iluminado. Uma das melhores maneiras para comunicar uma Boa Nova é dispor de um rosto iluminado, de um rosto sereno e alegre.


Para que tudo se concretize temos que consagrar também tempo não só para a ação, mas também para a oração e contemplação de maneira pouco prolongada, sem pressa. É preciso mantermos o essencial em nossa vida, gerimos bem nosso tempo para evitar a síndrome do desgaste. Paradoxalmente, a velocidade necessita também de lentidão, pois não é questão de correr com velocidade e sim de saber para onde se vai. “Se você sempre faz o que sempre fez, vai sempre conseguir o que sempre conseguiu”, dizia Abraham Lincoln (If you always do what you always did, you will always get what you always got).


Moisés tirou o véu para falar com Deus, isto é, falar com o coração e a alma bem abertos. Como também na sarça ardente, ele se aproximou de Deus sem sandálias, pois o terreno onde ele estava pisando era sagrado. Diante de outras coisas se pode esconder o rosto, mas diante de Deus não. O rosto em oração se transfigura, como aconteceu com Moisés.


Mas Moisés não é somente um homem de oração. Ele também é um homem de ação. Por isso, ele desceu do monte de solidão, de solidão e de experiência religiosa ao encontro dos irmãos. Ele leva a experiência da conversa com Deus para seus irmãos. A maioria dos grandes místicos foram também homens e mulheres sumamente ativos.


Não fiquemos na montanha da oração. Desçamos para o vale da missão e do trabalho. Sejamos ao mesmo tempo pessoas de oração e de ação. Pessoas de Deus são pessoas que se entregam à missão e ao trabalho de evangelização. Um evangelizador é um homem ponte entre Deus e a humanidade. De Deus ele aprende algo sagrado para consagrar a humanidade para Deus, como Moisés que sempre leva o povo para se encontrar com Deus e obedecer às Suas leis.


Nós que entramos em comunhão com o Senhor pela oração e sobretudo, pela Eucaristia logo devemos ser reflexos do Senhor para os outros em nosso modo de atuar na vida.


Deus e Sua Palavra São Nossos Tesouros Incalculáveis


“O Reino de Deus é como um tesouro escondido, como uma pérola de incalculável valor”, assim Jesus diz no discurso sobre o Reino de Deus em parábolas no texto do evangelho deste dia. 


 As inúmeras guerras, que aconteceram em Palestina, levavam muitas pessoas a enterrar seus tesouros valiosos por motivo de segurança contra os ladrões. E o homem assalariado que trabalha no campo alheio, ao encontrar o tesouro, o enterrou novamente e guardou o segredo. E vende tudo para comprar o campo por esse tesouro valioso. A mesma reação aconteceu com o comprador da pérola: vende tudo para possuí-la. Mas acentua-se a alegria dos dois em fazer isso.


Lemos no dicionário que tesouro é o conjunto de riquezas de qualquer tipo (p.ex., dinheiro, joias, pedras e metais preciosos, bens valiosos) guardadas ou escondidas. E pérola é a concreção densa e de coloração levemente prateada, que se forma nas conchas de diversos moluscos, a partir da deposição de material nacarado sobre uma partícula qualquer, como um grão de areia ou um parasita. As pérolas cultivadas são produzidas por ostras. Pérola é um material valioso. Também nós chamamos uma pessoa de sólidas qualidades morais e éticas de pérola ou de tesouro. “Você é minha pérola. Você é meu tesouro”, assim ouvimos alguém falar para o outro.


“Venderam tudo que possuíam para comprar o campo onde o tesouro está escondido e para comprar a pérola preciosa”, assim relatou Mateus no evangelho de hoje.


Aqueles homens venderam tudo tão espontaneamente só para ficar com o tesouro ou a pérola preciosa sem sentir nenhum sacrifício, mas com uma decisão alegre por causa de uma coisa valiosa. Tudo o que é bom, belo, digno, ético, puro sempre nos atrai e para nossos passos para contemplá-lo. Uma pessoa com sólidas qualidades éticas e morais atrai a simpatia de qualquer pessoa e atrai a bênção de Deus, pois Deus é o supremo Bem. Ninguém resiste diante da bondade, diante de uma boa educação, diante de uma gentileza e assim por diante. Tudo o que é ruim nos afasta e afasta até a bênção do Senhor toda vez que essa bênção se aproximar da pessoa.


É assim também a fé. A fé é um enamoramento de Deus, é uma sedução: “Você me seduziu, Senhor; e eu me deixei seduzir” (Jr 20,7). Tudo o que é divino e que nos salva sempre nos atrai e nos convida a nos aproximarmos dele. O Reino arrebata quem o encontrou, gera a grande alegria e orienta toda a vida da pessoa até a comunhão plena com Deus. A partir deste tesouro que é O Reino de Deus, todo o resto se ordena e adquire o seu valor próprio. O Reino de Deus começa, então, a orientar a vida de quem o descobriu. A verdadeira fé orienta nossa maneira de viver.


“Venderam tudo que possuíam…”


Tanto o tesouro escondido como a pérola preciosa expressam o que o Reino de Deus deve ser para o discípulo/cristão: algo absoluto. A exigência é radical, tudo o mais deve ser colocado em relação com o Reino. Em outras palavras, pode-se dizer que a experiência do amor de Deus relativizam todo valor até então conhecido. A partir de então, o valor do Reino serve de ponto de referência e de avaliação para resto. Uma vez que tiver sido descoberto o Reino de Deus em todo o seu valor, o resto se torna relativo no seu valor.


Nesta parábola, nem o homem que encontrou o tesouro nem aquele que descobriu a pérola sentem falta do que antes possuíam e que venderam. A riqueza do que acharam é de tal ordem que compensa tudo o que tinham. A mesma coisa acontece com os que descobrem ou encontram o seu caminho pessoal para Deus: abandonam tudo e encontram tudo, porque Deus é tudo. Quem, pela mensagem de Cristo, encontra Deus renuncia jubilosamente a tudo. Tal verdade somente pode ser experimentada pela própria vida. Por isso, eles podem renovar tudo, acabar com a rotina de sua vida e começam a olhar mais longe e mais alto. E quem encontra Cristo expande a alegria e o otimismo para todos.


A vida cristã se apresenta muitas vezes como um constante exercício de renúncia: renunciar aos bens materiais para não ser possuídos por eles a fim de manter-se livre como seguidor de Cristo; renunciar aos prazeres desenfreados da vida, pois quem vive somente em função do prazer é porque não tem prazer de viver, e quem só sabe se satisfazer é incapaz de satisfazer os outros; renunciar às comodidades, pois a vida continua nos empurrando por dentro; renunciar à ambição. Renunciar, renunciar, renunciar...


Não se deve confundir com o que se chama um caminho de perfeição, um método para chegar a ser santo. O projeto de Jesus não é um projeto dirigido unicamente ao indivíduo, e sim orientado para a transformação da maneira de viver de toda a humanidade.


Por isso, quando Jesus apresenta as bem-aventuranças que constituem o núcleo de seu programa não diz àqueles que o escutam que serão mais santos se fizerem tudo que ele fala, e sim que serão felizes. É a felicidade dos homens, de todos os homens e de cada um deles em particular o que preocupa Jesus, porque essa é a principal preocupação do Pai. O projeto de Jesus é a felicidade. A santidade é o projeto pessoal. Por isso, o ideal cristão é a felicidade. Consequentemente, a felicidade é a razão pela qual um cristão atua: um cristão se comporta como cristão porque tal comportamento é causa de alegria para ele e para seus próximos. O propósito de nossa existência é a busca da felicidade, a busca de um sentido de satisfação e de realização. Em cada celebração eucarística, através do primeiro parágrafo de cada prefácio, somos convidados a viver na alegria e na gratidão em qualquer momento e lugar. Em outras palavras, uma ação é boa se produz felicidade em quem a realiza e contribui à felicidade dos demais.  A nossa felicidade de cada momento, em grande parte, é determinada por nosso modo de encarar a vida e por nossas escolhas de cada dia sob a luz da Palavra de Deus.
 
P. Vitus Gustama, SVD
30/07/2019
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SER CRISTÃO É SER SEMEADOR DO BEM DIARIAMENTE
Terça-feira da XVII Semana Comum


Primeira Leitura: Ex 33,7-11;34,5b-9.28
Naqueles dias, 33,7 Moisés levantou a tenda e armou-a longe, fora do acampamento, e deu-lhe o nome de Tenda da Reunião. Assim, todo aquele que quisesse consultar o Senhor, saía pra a Tenda da Reunião, que estava fora do acampamento. 8 Quando Moisés se dirigia para lá, o povo se levantava e ficava de pé à entrada da própria tenda, seguindo Moisés com os olhos até ele entrar. 9 Logo que Moisés entrava na Tenda, a coluna de nuvem baixava e ficava parada à entrada, enquanto o Senhor falava com Moisés. 10 Ao ver a coluna de nuvem parada à entrada da Tenda, todo o povo se levantava e cada um se prostrava à entrada da própria tenda. 11 O Senhor falava com Moisés face a face, como um homem fala com seu amigo. Depois, Moisés voltava para o acampamento, mas o seu jovem ajudante, Josué, o filho de Nun, não se afastava do interior da Tenda. 34,5b Moisés permaneceu diante de Deus invocando o nome do Senhor. 6 O Senhor passou diante de Moisés, proclamando: “O Senhor, o Senhor, Deus misericordioso e clemente, paciente, rico em bondade e fiel, 7 que conserva a misericórdia por mil gerações, e perdoa culpas, rebeldias e pecados, mas não deixa nada impune, pois castiga a culpa dos pais nos filhos e netos, até à terceira e quarta geração!” 8 Imediatamente, Moisés curvou-se até o chão 9 e, prostrado por terra, disse: “Senhor, se é verdade que gozo de teu favor, peço-te, caminha conosco; embora este seja um povo de cabeça dura, perdoa nossas culpas e nossos pecados e acolhe-nos como propriedade tua”. 28 Moisés esteve ali com o Senhor quarenta dias e quarenta noites, sem comer pão nem beber água, e escreveu nas tábuas as palavras da aliança, os dez mandamentos.


Evangelho: Mt 13,36-43
Naquele tempo, 36 Jesus deixou as multidões e foi para casa. Seus discípulos aproximaram-se dele e disseram: “Explica-nos a parábola do joio!” 37 Jesus respondeu: “Aquele que semeia a boa semente é o Filho do Homem. 38 O campo é o mundo. A boa semente são os que pertencem ao Reino. O joio são os que pertencem ao Maligno. 39 O inimigo que semeou o joio é o diabo. A colheita é o fim dos tempos. Os ceifadores são os anjos. 40 Como o joio é recolhido e queimado ao fogo, assim também acontecerá no fim dos tempos: 41 O Filho do Homem enviará os seus anjos e eles retirarão do seu Reino todos os que fazem outros pecar e os que praticam o mal; 42 e depois os lançarão na fornalha de fogo. Ali haverá choro e ranger de dentes. 43 Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai. Quem tem ouvidos, ouça”.
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Para Liderar Os Outros É Preciso Ser Uma Pessoa Orante


“Logo que Moisés entrava na Tenda, a coluna de nuvem baixava e ficava parada à entrada, enquanto o Senhor falava com Moisés…. O Senhor falava com Moisés face a face, como um homem fala com seu amigo... Moisés permaneceu diante de Deus invocando o nome do Senhor.”, relatou o autor sagrado que lemos na Primeira Leitura.


Estas expressões querem nos dizer que Moisés era um homem de oração. Moisés leva a sério a importância da conversa particular com Deus a ponto de criar um tenda especial para cada um conversar com Deus na oração. Moisés era o “confidente de Deus” em cuja intimidade vivia como um amigo com seu amigo. Moisés não era apenas um líder do povo eleito; ele não era apenas o homem de ação. Moisés era, principalmente, o “místico” que alimenta seu compromisso na contemplação e no diálogo permanente com Deus. Para lidar bem os outros é preciso rezar permanentemente pelo bem dos liderados.


Para enfatizar mais ainda sobre a importância da oração, o autor sagrado nos escreveu que “Moisés levantou a tenda e armou-a longe, fora do acampamento, e deu-lhe o nome de Tenda da Reunião. Assim, todo aquele que quisesse consultar o Senhor, saía pra a Tenda da Reunião, que estava fora do acampamento”. O povo eleito se encontra no deserto ao pé do monte Sinai. Esta descrição já nos mostra um ambiente silencioso. Apesar disso, Moisés armou uma tenda especial chamada “Tenda do Encontro”, onde ele e o povo podem se encontrar com Deus na oração. Tudo isto quer nos dizer que o homem necessita de silêncio e de solidão para encontrar Deus e para se encontrar com Ele.


Para escutar melhor precisamos criar o silêncio dentro de nós e ao nosso redor. O silêncio é um dos gestos simbólicos menos entendidos e praticados de nossa liturgia. No entanto a Igreja nos ensina que um dos meios para promover a participação ativa é o silêncio (cf. SC 30). A liturgia, na verdade, nos educa para saber escutar criando o silêncio. Não só quando Deus, por meio dos leitores, nos transmite a mensagem de sua Palavra, mas também quando o presidente da celebração dirige a Deus sua oração em nome de todos. Somente aquele que sabe calar e escutar tem condição de pronunciar palavras plenas de sentido e de autoridade.


Sempre que nós rezamos de verdade, a nossa oração é eficaz, não porque modificamos Deus, e sim porque nos modificamos. O mais difícil da oração não é tanto saber se Deus nos escuta, mas conseguirmos que nós O escutemos.


Um Bom Líder É Aquele Que Exerce Também a Função de Intercessor


No dia anterior foi relatada a infidelidade do povo, quebrando a aliança com Deus através da construção de uma imagem de um bezerro de ouro para ser adorado. Os homens buscam um sistema religioso que lhe dê “segurança” e negam-se a encarar o risco da fé em um Deus que garante a salvação. Eles inventam um ídolo que eles possam manipular de acordo com os seus caprichos. O julgamento de Deus é terrível: “Deixa-me, para que se acenda contra eles a minha ira e eu os consuma”, disse Deus a Moisés (Ex 32,10).


Nesta situação Moisés exerce sua função de intercessor do povo para pedir o perdão de Deus: “Abranda o furor da tua ira e renuncia ao castigo que pretendias impor ao teu povo”, pede Moisés a Deus (Ex 32,12b). O autor sagrado nos relatou que “Deus desistiu do castigo com o qual havia ameaçado o povo” (Ex 32,14).


Moisés quer nos relembrar que eu sou o outro do outro. Minha vida está relacionada com a vida dos outros. Eu sou o que sou também por causa dos outros. Se cada pessoa estiver consciente de que ela faz parte inseparável da humanidade, ela se sentirá pertencer ao outro e torcer e esforçar-se pelo bem do outro. Eu sou um ser de relação.  


O perigo, hoje em dia, é esquecer-se desta consciência da pertença e acreditar que somente sou eu o centro de tudo e que os outros devem viver para mim e girar em torno de mim. Consequentemente, nós nos convencemos de que somos melhores que os outros. Condenamos a inveja, se a inveja é dos outros. Mas se é nosso o descaso, logo pensamos que não nos entendem os outros. É preciso fazer desaparecer essa forma de egoísmo destruidor para que renasça o amor que nos ensina a receber e a dar. Rezar pelos outros faz parte do amor cristão. Quando começarmos a rezar pelos outros, seja os da família, seja os outros fora da família, o mundo vai melhorar aos poucos. Quando faço parte de um grupo, pastoral, movimento etc., então tenho uma missão de rezar também pelo meu grupo, minha pastoral, meu movimento e assim por diante. É exercer um papel de intercessor como Moisés. Moisés se mostra sempre fiel a Deus, mas ele intercede pelo povo infiel. É preciso abraçar os outros também com nossa oração de intercessão. Quando eu estiver consciente de que faço parte da humanidade, então em qualquer lugar posso rezar por outras pessoas que eu encontrar no meu caminho diariamente. Muitos precisam de nossa oração e não de nosso julgamento.


Deus Permanece Misericordioso Para Nós Todos


“O Senhor, o Senhor, Deus misericordioso e clemente, paciente, rico em bondade e fiel, que conserva a misericórdia por mil gerações, e perdoa culpas, rebeldias e pecados, mas não deixa nada impune!”.


Essa famosa declaração é feita depois do pecado da adoração do bezerro de ouro. A proclamação começa com a repetição do nome de Javé (YHWH). O emprego do H em YHWH indica o atributo da misericórdia de Deus. O primeiro H (=misericórdia) está antes dos pecados de uma pessoa e o outro H está depois dos pecados de uma pessoa.


Tudo isto quer nos dizer que Deus permanece misericordioso desde o princípio até o fim. Deus sempre perdoa seu povo, pois Ele é misericordioso, compassivo e bondoso. Onde reinar a misericórdia, a compaixão e a bondade, ali haverá o perdão. Com sua misericórdia infinita, Deus não dá chance para o inimigo destruidor da humanidade. Deus quer salvar e por isso, Ele perdoa. “Misericórdia é a palavra que revela o mistério da Santíssima Trindade. Misericórdia é o ato último e supremo pelo qual Deus vem ao nosso encontro. Misericórdia é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida. Misericórdia é o caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado”, escreveu o Papa Francisco (Bula Misericordiae Vultus n.2).


Ser Cristão É Ser Semeador Da Bondade


Continuamos a acompanhar o discurso de Jesus sobre o Reino de Deus em parábola (Mt 13).


No texto do evangelho de hoje Jesus explicou para os discípulos o sentido da parábola sobre o joio e o trigo. "Aquele que semeia a boa semente é o Filho do homem", disse-lhes Jesus.


Jesus é um semeador. Mas não é qualquer semeador. Ele é um Semeador de boas sementes. Ele faz algo de bom... apenas o bom, nada de ruim. Ele passou a vida fazendo o bem (cf. At 10,38). A bondade é a própria perfeição possuída por um ser. É também a capacidade que possui um ser de dar a outro a perfeição que lhe falta. É a inclinação a fazer o bem, a ser benigno, indulgente. Qualidade do que é bom. A bondade se concretiza na generosidade. A generosidade é um sinal de gratidão pelos benefícios recebidos de Deus e, ao mesmo tempo, manifesta a liberdade interior. A generosidade que se concretiza na partilha e na solidariedade não empobrece, mas é geradora de vida e de vida em abundância. A verdadeira generosidade é silenciosa, despercebida diante dos olhos dos homens, mas é gritante diante de Deus. 


E eu? Será que sou um semeador de coisas boas ou eu semeio as sementes de joio tais como desunião, discórdias, brigas...? Vamos colher aquilo que semeamos.


Lançar sementes, semear sementes é sempre fácil. Mas precisamos saber daquilo que estamos semeando. O joio não vai produzir o trigo. O trigo não vai produzir o joio. Que tipo de semente que estou semeando, então? Semear joio é apenas uma forma de matar outras plantas boas para minha sobrevivência. Não posso semear aquilo que me prejudica e consequentemente prejudicará os outros ao meu redor.


“A boa semente são os filhos do Reino”, disse Jesus. A fórmula é surpreendente. O que Jesus semeia neste momento no mundo somos "nós", filhos do Reino! Ele nos manda para o mundo para sermos sementes da bondade. É a tarefa principal como cristãos. Sou uma semente de Deus. Eu devo ser para os outros aquilo que sou para Deus. Se eu sou uma semente de Deus, eu devo ser, então, fonte de alegria de Deus no mundo, fonte da bondade de Deus no mundo para os demais. Deus fala e age através de mim no mundo. Para Deus eu existo para ser Sua semente neste mundo. Uma só semente. É pouco? Sim! Mas uma semente boa no terreno fértil pode produzir centenas de grãos bons. Eu devo me tornar multiplicador da bondade.


"Então os justos vão brilhar como o sol no reino do seu Pai”. O “sol” é uma belíssima imagem. O sol ilumina, aquece, ajuda no crescimento das plantas, orienta os caminhantes, faz os olhos saudáveis funcionarem, pois sem a luz por saudáveis que eles sejam, os olhos não enxergam. Somente numa boca saudável é que a comida gostosa fica saborosa. A bondade nos conduz à eternidade, para estar com o Supremo Bom que é Deus. Aquilo que tem algo divino em nós é que nos levará para o próprio Deus. Aquilo que não tem algo divino em nós pode nos levar para outra direção, menos para Deus.


“O inimigo que semeou o joio é o diabo”. “Diabo” é aquele que desune. É aquele que está contra a igualdade. É aquele que está contra a comunhão e a comunidade. É o contrário do símbolo, duas coisas que se encaixam bem, bem se unem formando uma só força para construir e não para destruir. O diabo semeia à noite, na escuridão.  Na escuridão tem somente uma cor: preta. É uma grande pobreza ter só uma cor. O bom semeador semeia durante o dia, na claridade. Na claridade podemos perceber a variedade de cores. É uma grande riqueza. É uma harmonia. A palavra “harmonia” supõe a existência de várias coisas formando uma união que produz uma beleza. Serei diabo na medida em que eu semear a discórdia, a desunião, e a divisão.


O propósito verdadeiro de nossa existência não é ganhar a vida e sim fazer uma vida, uma vida válida, bem feita e útil para nós e para os demais e consequentemente, para a glória de Deus. Minha parte é melhorar o momento presente. Façamos as coisas certas e deixemos os resultados com Deus.


A Palavra de Deus hoje nos chama a revisarmos nossa maneira de viver: Será que estou consciente de que sou semente de Deus neste mundo? Será que sou um semeador da bondade ou da maldade? Meus atos são diabólicos, atos que desunem ou são simbólicos, atos que criam união? Aquilo que tem algo divino em mim é que me levará para estar com o próprio Deus. Aquilo que não tem algo divino em mim pode me levar para outra direção, menos para Deus.  O que tem dentro de mim? 
                
P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 26 de julho de 2019


29/07/2019
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SANTA MARTA
JESUS É A RESSURREIÇÃO E A VIDA


Primeira Leitura: 1Jo 4,7-16
7Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece Deus. 8Quem não ama, não chegou a conhecer Deus, pois Deus é amor. 9Foi assim que o amor de Deus se manifestou entre nós: Deus enviou o seu Filho único ao mundo, para que tenhamos vida por meio dele. 10Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de reparação pelos nossos pecados. 11Caríssimos, se Deus nos amou assim, nós também devemos amar-nos uns aos outros. 12Ninguém jamais viu a Deus. Se nos amamos uns aos outros, Deus permanece conosco e seu amor é plenamente realizado entre nós. 13A prova de que permanecemos com ele, e ele conosco, é que ele nos deu o seu Espírito. 14E nós vimos, e damos testemunho, que o Pai enviou o seu Filho como Salvador do mundo. 15Todo aquele que proclama que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece com ele, e ele com Deus. 16E nós conhecemos o amor que Deus tem para conosco, e acreditamos nele. Deus é amor: quem permanece no amor, permanece com Deus, e Deus permanece com ele.


Evangelho: Jo 11,19-27
Naquele tempo, 19 muitos judeus tinham vindo à casa de Marta e Maria para as consolar por causa do irmão. 20 Quando Marta soube que Jesus tinha chegado, foi ao encontro dele. Maria ficou sentada em casa. 21 Então Marta disse a Jesus: “Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido. 22 Mas mesmo assim, eu sei que o que pedires a Deus, ele te concederá”. 23 Respondeu-lhe Jesus: “Teu irmão ressuscitará”. 24 Disse Marta: “Eu sei que ele ressuscitará na ressurreição, no último dia”. 25 Então Jesus disse: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. 26 E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais. Crês isto?” 27 Respondeu ela: “Sim, Senhor, eu creio firmemente que tu és o Messias, o Filho de Deus, que devia vir ao mundo”.
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Celebramos hoje a festa de Santa Marta, irmã de Lázaro e Maria. Ela é mencionada nos evangelhos de Lucas e de João. Era uma discípula e seguidora de Jesus Cristo, muito estimada por Ele (Jo 11,5). Marta vivia com seus dois irmãso, Maria e Lázaro, na pequena vila chamada Betânia (Jo 11,1), localizada nas encostas ao leste do monte das Oliveiras. Jesus os visitava frequentemente, quando estava em Jerusalém (Lc 10,38). Jesus estava com eles na semana antes de ser preso e crucificado (Mt 21,17). Marta é conhecida como aquela que estava sempre envolvida e sobrecarregada com os afazeres diários (Lc 10,39-42). Quando seu irmão, Lázaro, ficou gravemente enfermo, enviaram uma mensagem a Jesus para que viesse à casa deles com urgência (Jo 11,3). Marta foi honesta com Jesus ao dizer-lhe que se tivesse vindo imediatamente, seu irmão estaria vivo. Mas exercitou uma fé extraordinária ao identificar Jesus como o Filho de Deus e crer que Ele tinha grande poder (Jo 11,21-27). Jesus honrou sua fé e ressuscotou Lázaro, a fim de manifestar desta maneira a glória de Deus (Jo 11,38-44).


O evangelho nos relatou alguns encontros de Marta com Jesus. O primeiro encontro aconteceu quando Jesus estava indo para Jerusalém e hospedou na casa de Marta (Lc 10,38-42). Nesse encontro Jesus disse a Marta que estava muito ocupada com a preparação de refeição em vez de escutar as palavras de Jesus: “Marta, Marta, tu te inquietas e te agitas por muitas coisas; no entanto, pouca coisa é necessária, até mesmo uma só. Maria, com efeito, escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada” (Lc 10,41-42). Nesse primeiro encontro, Maria, a irmã de Marta, escutava Aquele que era a própria Palavra de Deus (cf. Jo 1,1-3).


A comunidade cristã é fundamentalmente uma comunidade que escuta. Deixaria de ser uma comunidade cristã, se parasse de escutar a Palavra de Deus. Escutar é a primeira forma de fé e de oração, antes que dizer palavras ou entoar cantos. Escuta é a atitude mais cristã.


Silêncio e escuta são duas coisas inseparáveis. Uma não pode existir sem outra. Para escutar bem é preciso ter ou criar o silêncio. Para captar o sentido daquilo que está sendo escutado é indispensável o silêncio. O silêncio fomenta a sinceridade. Tenho que encontrar dentro de mim a verdade sobre a minha vida. O silêncio chega quando as minhas energias começam a descansar. A vida nunca é o que se consegue, pois não se pode ignorar que tudo quanto se alcança, se perde. A vida é o que se é. E só o que se é, permanece.


Outro encontro de Marta com Jesus aconteceu por ocasião da morte de Lázaro, seu irmão, como lemos no evangelho neste dia (Jo 11,19-27). A reflexão sobre esse encontro vamos ver mais adiante.


O último encontro de Marta com Jesus que o evangelho nos relatou aconteceu “Seis dias antes da Páscoa quando Jesus foi para Betânia” (cf. Jo 12,1-8). Nesse encontro Maria, a irmã de Marta, demonstrou seu amor por Jesus de modo peculiar. Enquanto Marta servia a refeição, Maria “ungiu os pés de Jesus e os enxugou com seus cabelos; e a casa inteira ficou cheia do perfume do balsamo” (Jo 12,3). Maria era uma pessoa que amava Jesus acima de tudo e de todos. Ela escolheu um perfume mais caro que tinha. O verdadeiro amor não tem preço. O verdadeiro amor dá tudo que se tem (cf. Jo 13,1). O gesto Maria antecipa a morte de Jesus cujo corpo será ungido (cf. Mc 16,1).


Depois desse três encontros Marta desapareceu dos relatos dos evangelhos. Nenhum documento antigo nos informa sobre seu comportamento durante os dias da Paixão de Jesus e do tempo que seguiu a ressurreição do Senhor até Sua ascensão ao céu.
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O episódio da ressurreição de Lázaro inicia mostrando a sintonia que reina entre Jesus e a comunidade dos que nele acreditam, representada por Lázaro, Marta e Maria. De fato, esses três representam a comunidade do Discípulo Amado que crescem na fé em Jesus, e as comunidades que aderem a Jesus em todos os tempos.


Marta, cuja festa celebramos hoje, representa o tipo de discípulo de Jesus que precisa superar o preconceito da morte enquanto desfecho fatal. Ela crê na ressurreição do último dia, como a maioria dos judeus. Mas Jesus é a Ressurreição e a Vida aqui e agora. Esse é o desafio feito às duas irmãs e a todos nós: Jesus não é a Vida somente depois da morte, mas ele é a Vida em abundância para esta vida e para além dela.


Superado o preconceito diante da morte, Marta se torna missionária porque ela vai chamar sua irmã Maria, que está sentada em casa, recebendo os pêsames da sociedade que nada faz diante das pessoas senão tentar consolar com palavras. “Maria ficou sentada em casa” esta expressão quer dizer que para Maria a morte de seu irmão significa o termino de sua vida. A ideia da morte como fim paralisa a comunidade e a faz permanecer no ambiente da dor, cercada pelos que não tem fé em Jesus. Maria tem de sair dessa casa para se encontrar com Jesus, a Ressurreição e a Vida. Também Maria, abandonando a “casa do desespero”, torna-se missionária porque ela conduz os judeus a Jesus que após o sinal (ressurreição) passam a acreditar em Jesus (v.31).


Jesus não veio para dar pêsames, e sim para comunicar vida. Após ter agradecido ao Pai, fonte da vida que comunica vida por meio da ação libertadora do Filho, Jesus chama Lázaro à vida. Jesus não veio para prolongar a vida física que o homem possui. Ele veio para comunicar a vida que ele mesmo possui e da qual dispõe: “Assim como o Pai tem a vida em si mesmo, também concedeu ao Filho ter a vida em si mesmo” (Jo 5,26). Esta vida é seu próprio Espírito, a presença Sua e do Pai naquele que o aceita e vive sua mensagem, e esta vida despoja à morte de seu caráter de extinção. Na frase de Jesus “Eu sou a ressurreição e a vida” o primeiro termo depende do segundo: ele é a ressurreição por ser a vida: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6). A vida que ele comunica, ao encontra-se com a morte, a supera; isto se chama ressurreição.


A ressurreição de Jesus e a nossa ressurreição pela fé em Jesus ressuscitado é a chave de nossa vida cristã. Crer na ressurreição não é somente crer em uma doutrina. Temos que crer na ressurreição com a vida; não somente com a cabeça. Temos que fazer nossa a ressurreição fazendo nosso o juízo de Deus contra o mal. Temos que crer na ressurreição com nossa atitude e nossas obras. Se nós acreditamos realmente na ressurreição, devemos respeitar a vida, a nossa própria e a dignidade da vida dos outros no seu início, na sua duração e no seu fim na história. Quem desrespeita a própria vida e a vida dos outros, nega a ressurreição. Se realmente acreditamos na ressurreição temos que ter certeza de que a vida não termina aqui, pois a vida é de Deus (cf. Jo 11,25; 14,6). Se acreditamos realmente na ressurreição devemos ter certeza de que os que nos precederam estão em comunhão conosco e intercedem por nós como nossos irmãos. Se realmente acreditamos na ressurreição não devemos prolongar nossa tristeza pelo falecimento de nosso irmão/ nossa irmã, nosso pai/nossa mãe, marido/esposa, filho/filha, pois eles apenas voltaram para a casa do Pai (cf. Jo 14,1-6). Se acreditamos realmente na ressurreição, devemos ter certeza de que o amor dos que nos precederam para a eternidade não morre, pois o amor é o nome próprio de Deus: “Deus é amor”, disse são João (1Jo 4,8.16). Em outras palavras, temos que fazer de nossa vida uma ressurreição permanente.


Além disso, crer na ressurreição de Cristo é muito mais que afirmar que Jesus foi tirado por Deus do túmulo; é reconhecer que o projeto de Deus se realiza em cada homem para a vida e não para a morte. Crer na ressurreição é crer no Deus da vida. E não somente isso; é crer em nós mesmos como a verdadeira possibilidade que temos de ser algo de Deus. A ressurreição de Jesus é a primícia de que na morte se nasce já para sempre.


Lázaro voltou à vida por ação de Jesus. Mas sua ação libertadora quer comprometer todos os que o seguem. A ação libertadora de Jesus implica nossa prática de libertação: desamarrar todas as pessoas de todos os laços que as prendem a uma situação de morte. Somos chamados a respeitar e a proteger a vida desde seu início, na sua duração e no seu término, pois a vida é sagrada. Por ser sagrada, a vida não pode ser sacrificada em nome de ninguém. Assim agindo, estaremos continuando o que Jesus fez, a fim de que todos tenham vida em abundância (cf. Jo 10,10).


“Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá”.  A partir da ressurreição do Senhor não vivemos mais para morrer e sim morremos para viver. A vida não pertence mais à morte e sim a morte pertence à vida.


Para que nossa vida se torne uma ressurreição permanente temos que ter algo divino dentro de nós: amor, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). Amar a alguém, do ponto de vista cristão, é equivale a lhe dizer: Tu nunca morrerás. Tu viverás para sempre. Tu estarás em comunhão conosco mesmo de pois de terminar a passagem nesta terra. Com efeito, o homem morre não quando deixa de viver e sim quando deixa de amar. “Ama e faze o que quiseres!”, dizia Santo Agostinho (In epist. Joan. 7,8).  “O amor é a vida do espírito. O ódio, portanto, é sua morte”, acrescentou Santo Agostinho (In ps. 54,7). A amabilidade e a bondade estão sempre unidas. “Bons amores fazem boas condutas” (Santo Agostinho: Serm. 311,11,11).


Quais são as amarras que nos prendem a uma situação de morte? E como nos livrar dessas amarras? Quantas vezes nos comportamos como Maria que consideramos a morte como o fim de tudo (acabou tudo) e esta crença, consequentemente, paralisa nossa vida. Precisamos ouvir e viver sempre aquilo que Jesus nos diz: “Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em mim ainda que esteja morto viverá”. É preciso que voltemos a ser verdadeiros cristãos vivendo na profundidade o que Jesus nos ensinou. Por este caminho superaremos muitas coisas na vida. Com Jesus ressuscitado, a vida não acaba, mas continua. Para chegar a esta verdade nós precisamos recuperar nossa fé em Jesus que é a ressurreição e a vida. É preciso que tenhamos consciência de que a fé na ressurreição é a razão de todas as celebrações e de todos os sacramentos e de todas as atividades evangelizadoras na Igreja. No Credo professamos: “Creio na comunhão dos santos; na remissão dos pecados; na ressurreição da carne e na vida eterna”.
P. Vitus Gustama,svd
Domingo,28/07/2019
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A BONDADE DO DEUS PAI ME FAZ PERSEVERAR NA ORAÇÃO
XVII Domingo Comum “C”


I Leitura: Gn 18,20-32
Naqueles dias, 20 o Senhor disse a Abraão: “O clamor contra Sodoma e Gomorra cresceu, e agravou-se muito o seu pecado. 21 Vou descer para verificar se as suas obras correspondem ou não ao clamor que chegou até mim”. 22 Partindo dali, os homens dirigiram-se a Sodoma, enquanto Abraão ficou na presença do Senhor. 23 Então, aproximando-se, disse Abraão: “Vais realmente exterminar o justo com o ímpio? 24 Se houvesse cinquenta justos na cidade, acaso irias exterminá-los? Não pouparias o lugar por causa dos cinquenta justos que ali vivem? 25 Longe de ti agir assim, fazendo morrer o justo com o ímpio, como se o justo fosse igual ao ímpio. Longe de ti! O juiz de toda a terra não faria justiça?” 26 O Senhor respondeu: “Se eu encontrasse em Sodoma cinquenta justos, pouparia por causa deles a cidade inteira”. 27 Abraão prosseguiu dizendo: “Estou sendo atrevido em falar ao meu Senhor, eu, que sou pó e cinza. 28 Se dos cinquenta justos faltassem cinco, destruirias por causa dos cinco a cidade inteira?” O Senhor respondeu: “Não destruiria, se achasse ali quarenta e cinco justos”. 29 Insistiu ainda Abraão e disse: “E se houvesse quarenta?” Ele respondeu: “Por causa dos quarenta, não o faria”. 30 Abraão tornou a insistir: “Não se irrite o meu Senhor, se ainda falo. E se houvesse apenas trinta justos?” Ele respondeu: “Também não o faria, se encontrasse trinta”. 31 Tornou Abraão a insistir: “Já que me atrevi a falar a meu Senhor, e se houver vinte justos?” Ele respondeu: “Não a iria destruir por causa dos vinte”. 32 Abraão disse: “Que o meu Senhor não se irrite, se eu falar só mais uma vez: e se houvesse apenas dez?” Ele respondeu: “Por causa dos dez, não a destruiria”.


II Leitura: Cl 2,12-14
Irmãos: 12 Com Cristo fostes sepultados no batismo; com ele também fostes ressuscitados por meio da fé no poder de Deus, que ressuscitou a Cristo dentre os mortos. 13 Ora, vós estáveis mortos por causa dos vossos pecados, e vossos corpos não tinham recebido a circuncisão, até que Deus vos trouxe para a vida, junto com Cristo, e a todos nós perdoou os pecados. 14 Existia contra nós uma conta a ser paga, mas ele a cancelou, apesar das obrigações legais, e a eliminou, pregando-a na cruz.


Evangelho: Lc 11,1-13     
1 Jesus estava rezando num certo lugar. Quando terminou, um dos seus discípulos pediu-lhe: “Senhor, ensina-nos a rezar, como também João ensinou a seus discípulos”. 2 Jesus respondeu: “Quando rezardes, dizei: ‘Pai, santificado seja o teu nome. Venha o teu Reino. 3 Dá-nos a cada dia o pão de que precisamos, 4 e perdoa-nos os nossos pecados, pois nós também perdoamos a todos os nossos devedores; e não nos deixes cair em tentação’” 5 E Jesus acrescentou: “Se um de vós tiver um amigo e for procurá-lo à meia-noite e lhe disser: ‘Amigo, empresta-me três pães, 6 porque um amigo meu chegou de viagem e nada tenho para lhe oferecer’, 7 e se o outro responder lá de dentro: ‘Não me incomodes! Já tranquei a porta, e meus filhos e eu já estamos deitados; não me posso levantar para te dar os pães’; 8 eu vos declaro: mesmo que o outro não se levante para dá-los porque é seu amigo, vai levantar-se ao menos por causa da impertinência dele e lhe dará quanto for necessário. 9 Portanto, eu vos digo: pedi e recebereis; procurai e encontrareis; batei e vos será aberto. 10 Pois quem pede, recebe; quem procura, encontra; e, para quem bate, se abrirá. 11 Será que algum de vós, que é pai, se o filho lhe pedir um peixe, lhe dará uma cobra? 12 Ou ainda, se pedir um ovo, lhe dará um escorpião? 13 Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo aos que o pedirem!”
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As leituras que nos propõem neste Domingo são um convite a termos confiança em Deus, um convite a ter Deus muito presente em nossas vidas e a sermos capazes de apresentar-Lhe nossos desejos, nossas preocupações e necessidades, sem temor.


O belo diálogo entre Abraão e o Senhor, na Primeira Leitura (Gn 18,20-32), o verdadeiro diálogo entre dois amigos, ou melhor, de um filho que quer se render ao Pai, nos dá ensinamentos perenes: A oração de humildade, a mediação de uma alma fiel em favor dos demais: “Estou sendo atrevido em falar ao meu Senhor, eu, que sou pó e cinza.... Que o meu Senhor não se irrite, se eu falar só mais uma vez: e se houvesse apenas dez?”.  Deus escuta e atende a humilde oração.


Outro ensinamento desse belo diálogo entre Abraão e Deus é que os méritos dos justos afugentam o castigo da cabeça dos ímpios. Ou seja, o princípio da “solidariedade” não se aplica apenas no castigo, mas também na expiação: A virtude de dez justos teria expiado o mal de Sodoma: “Eu, Javé teu Deus, ajo com amor até a milésima geração para com aqueles que me amam e guardam os meus mandamentos” (Ex 20, 5). Mas nem dez justos existem nessa cidade.


O texto da Primeira Leitura nos prepara para entendermos o grande mistério da nossa “solidariedade” com o único Justo e Mediador e Expiador: Jesus Cristo. Um dia Deus disse a Jeremias: “Percorrei as ruas de Jerusalém, olhai, constatai, procurai nas praças se encontrais um homem que pratique o direito, que procure a verdade: e eu perdoarei essa cidade, diz Javé” (Jr 5,1).


Agora sabemos que por um só Justo que Deus encontrou entre os homens, todos nós fomos perdoados e salvos: “Se pela falta de um só a mulidão morreu, com quanto maior profusão a graça de Deus e o dom gratuito de um só homem, Jesus Cristo, se derramaram sobre a multidão. Se, com efeito, pela falta de um só a morte imperou, através deste único homem, muito mais os que recebem a abundância da graça e do dom da justiça reinarão na vida por meio de um só, Jesus Cristo” (Rm 5,15.17).


São Paulo, na Segunda Leitura (Cl 2,12-14), nos expõe, em virtude de nossa “solidariedade" com Cristo, que Este pode ser o Intercessor e Expiador a nosso favor. E nós podemos nos enriquecer com a graça de Cristo. As riquezas de Cristo-Redentor que chegam a nós pela lei da “solidariedade” são: o perdão de todos os nossos pecados e a vivificação por Cristo e em Cristo: “Ora, vós estáveis mortos por causa dos vossos pecados, e vossos corpos não tinham recebido a circuncisão, até que Deus vos trouxe para a vida, junto com Cristo, e a todos nós perdoou os pecados” (Cl 2,13).


Neste breve versículo está em destaque e fica expressiva a riqueza da redenção: perdão de pecados e graça ou vida divina. E a razão ou raiz do mistério: “Em Cristo”. Pela encarnação, o Filho de Deus se faz nosso irmão. Expia por nós. Ele nos faz partícipes de sua vida divina. Agora n´Ele somos já filhos e filhas de Deus. Na lei de “solidariedade” Ele é nosso irmão e nós somos filhos de Deus em Jesus Cristo.


Outro fruto da Redenção é a anulação da Velha Aliança. Cristo inaugura e rege e preside a Aliança Nova. Aliança já de amor. O amor eterno do Pai ao Filho chega também a nós em Cristo, pois em Cristo somos filhos de Deus.


O Batismo (sinal sacramental) e a fé (resposta pessoal) são nossos bens para a obra do Redentor: “Com Cristo fostes sepultados no batismo; com ele também fostes ressuscitados por meio da fé no poder de Deus, que ressuscitou a Cristo dentre os mortos” (Cl 2,12).


E o texto do Evangelho de hoje, como também as duas leituras precedentes, quer nos convidar a contar sempre com Deus. O poder contar com Deus não quer dizer que tenhamos que esperar que Ele nos resolva todos os problemas e menos ainda que se ponha a favor de nossos pequenos interesses. Mas quer dizer que Ele nos dá a mão em nosso caminhar, nos dá força e valor. É ter Alguém ao lado que não nos abandona nunca, é poder viver todo acontecimento, por duro que seja, acompanhado por um amor muito maior, pleno e infinito.


Seria uma mau sinal que pedimos a Deus somente ajuda e força para nossas angústias e problemas pessoais; é pro essa razão que o Senhor nos deixa a oração do Pai Nosso como modelo perfeito de como e com que atitude devemos nos dirigir a Deus.


No Pai Nosso, Jesus nos convida a sermos amplos em nossos desejos e anseios na oração. Nesta oração nos á apresentado o que deve ser o grande anseio cristão: que Deus e seu amor estejam presentes em nossas vidas e no coração de todos os homens. Nele pedimos que o mundo seja como Jesus o quer: que o amor e a fraternidade sejam o que marquem a vida dos homens e ninguém fique à margem de uma vida digna; que ninguém falte o alimento de cada dia e tampouco o alimento do espirito, tudo aquilo que nos ajuda a crescer como pessoas e como crentes. O Pai Nosso também nos ajuda a olharmos para nossa realidade débil e pecadora, recodando-nos o importante que é mos mantermos em oração para não cair na tentação. E Jesus nos ensina a pedirmos com muita confiança em Deus que é Pai, Amigo e Companheiro do caminho (Mt 28,20).


Aprofundemos um pouco mais nossa reflexão sobre o texto do Evangelho deste domingo!


Continuamos a acompanhar a seção das lições do caminho no evangelho de Lucas onde se encontra o texto do evangelho deste domingo (Lc 9,51-19,28). A lição que o evangelista Lucas nos apresenta hoje a lição sobre a oração.


Como já se sabe que Lucas é conhecido como uma pessoa orante e a sua comunidade é uma comunidade orante, porque ele dá uma atenção particular à oração. No seu evangelho ele faz notar nove vezes que Jesus reza; só duas ocasiões de oração são comuns com os outros evangelhos sinóticos. Lc 11,1-13, o evangelho deste domingo, é realmente um pequeno catecismo sobre a oração. A oração envolve o evangelho inteiro desde o primeiro capítulo que abre com uma solene liturgia no templo de Jerusalém (Lc 1,5-25) até a reunião dos discípulos, depois da ascensão, novamente no templo para louvar a Deus (Lc 24,53).


A oração não é uma atividade que se justapõe extrinsecamente ao homem, mas ela jorra do ser, nasce do próprio mistério do homem, destila e flui da realidade de todos os homens. Poderíamos dizer que a oração é, de certo modo, o próprio ser do homem que se torna transparente à luz de Deus, que se reconhece por aquilo que é e, ao reconhecer-se, reconhece a grandeza de Deus, a Sua santidade, o Seu amor, o Seu desígnio de misericórdia. Ela é uma percepção da realidade que logo se desabrocha em louvor, em adoração, em agradecimento e em pedido de piedade Àquele que é a origem do ser. Por isso, quem sabe viver bem/conscientemente, sabe também rezar bem/conscientemente. E quem sabe rezar bem/conscientemente, também sabe viver bem/conscientemente. Aquele que vive profundamente seu ser ou sua vida, não tem como não rezar. O ser humano é apenas uma criatura, mas uma criatura que tem consciência de seu ser e de seu existir.


A oração exige uma relação em que você permite ao Outro entrar no centro de sua pessoa, permite-lhe falar ali, permite-lhe tocar o núcleo sensitivo de seu ser e permite-lhe ver tudo o que você preferiria deixar oculto na escuridão. Ao orar você se abre para a influência do Poder que se revelou como Amor. O Poder que lhe dá liberdade e independência. Uma vez tocado por esse Poder, você não é mais arrastado para lá e para cá pelas inúmeras opiniões, ideias e sentimentos que passam por você. Você encontrou um centro para sua vida, e este centro lhe dá uma distância criativa de modo que tudo o que você vê, ouve e sente pode ser testado de acordo com a fonte.


Por isso, ao rezar, de você se pede que abra seus punhos firmemente cerrados e dê sua última moeda para Aquele que pode preencher todo o espaço de sua vida. O homem que ora é um homem com as mãos abertas perante Deus para o mundo. Ele sabe que Deus se mostrará na natureza circundante, nas pessoas que ele encontra, nas situações por onde passa. Uma pessoa torna-se uma pessoa quando é capaz de se abrir para todas as dádivas que estão preparadas para ela. Um homem que ora pode voltar a respirar livremente e tem a liberdade de mover-se para onde quiser sem que medos o persigam. O homem que vive do sopro de Deus pode reconhecer com alegria que o mesmo sopro mergulha no pulmão de seu semelhante e que ambos bebem da mesma fonte. Nessa percepção mútua, o medo do outro desaparece, as armas caem, um sorriso vem aos lábios e uma mão se estende para o outro. Aquele que percebe o sopro de Deus no outro pode deixar o outro entrar de verdade em sua vida.


Quando a vida do homem está se tornando cada vez mais uma oração, ele percebe que está sempre ocupado convertendo-se e adquirindo uma compreensão maior de seu semelhante. Também ele percebe que a oração é o pulso do mundo em que ele vive. O homem que ora inspira o mundo, olha para ele com compaixão e, nesse olhar, penetra a fonte de todo ser.


O texto do Evangelho deste domingo fala da oração do Pai-Nosso na versão de Lucas.


Desde a antiguidade são conhecidas três formas do Pai-Nosso: (1) o mais curto é a versão lucana (Lc 11,1-4) com cinco pedidos; (2) Mt 6,9-13 é o mais longo com sete pedidos, o que se pode suspeitar ser uma redação mais recente. No entanto, segundo J. Jeremias, o uso da palavra “dívida” por Mateus revela uma presença de um aramaismo, dado que no grego comum não se usava a palavra “dívida” (ofeilemata) para indicar pecado, mas “falta, pecado” (amartia) como está no texto de Lucas e Marcos; e (3) Didaqué 8,2 (Catecismo dos primeiros cristãos/Instrução dos Doze Apóstolos) que é o mais longo ainda, com sete pedidos e a doxologia.


Rezar o Pai-Nosso é seguir Jesus Cristo, aprendendo dele a maneira de viver, de escolher e também o modo de enfrentar a morte; quais são as razões profundas, as raízes da própria existência. Antes de introduzir a oração do Pai-Nosso, Lucas apresenta o modelo: Jesus que ora (v.1). Os discípulos sabem como e quando rezar, não na base de um manual de orações ou de um calendário sagrado, mas seguindo o estilo de seu Mestre, sua atitude de fidelidade e liberdade, em comunhão total com o Pai: uma comunhão e confiança que não podem ser perturbados, nem sequer pela provação suprema que é o absurdo de uma morte violenta e vergonhosa.


Neste texto, os apóstolos pedem a Jesus: “Senhor, ensina-nos a rezar, como também João ensinou os discípulos dele” (v.1). Devemos observar logo de início que o pedido dos apóstolos não foi feito quando eles se encontraram pela primeira vez com Jesus, mas muito mais tarde, depois de eles terem visto Jesus se retirar para lugares desertos a fim de rezar. E só entendemos o peso deste pedido se consideramos que os discípulos não tinham nenhum motivo de querer aprender “mais uma” oração. O bom judeu sabe de cor a maioria das 150 preces oficiais, os Salmos. Por isso, aqui, não se trata de querer saber uma oração “nova”. Os apóstolos estavam fascinados com Jesus porque para rezar ele se retira a lugares ermos (Mt 14,13). Jesus não grita, não tira os sapatos, não atira ao chão. Na montanha, no silêncio da noite, ele se mergulha na presença de Deus. Deus está na total intimidade de sua vida (cf. Mc 1,35s;Lc 6,12;9,18.28;Jo 11,41ss). Voltando da oração, Jesus orante tem sobre os discípulos uma irresistível atração divina. Nenhum homem sabia se aproximar de Deus com tanta reverência, e ao mesmo tempo com tão incomparável confiança. Entre Jesus e Deus havia a total intimidade.


A resposta de Jesus para o pedido é a oração do Pai-Nosso. É uma oração tão simples e fácil, que aprendemos quando pequenos, e, no entanto, oração riquíssima. Nela descobrimos a palavra “Pai”, Deus-Pai como novo horizonte de vida.


A palavra “Pai” (Abba, Papaizinho) encontra-se, nos evangelhos: 118 vezes em Jo, 5 vezes em Mc, 17 vezes em Lc e 44 vezes em Mt. E em outra parte do NT: 42 vezes em Paulo, 2 vezes em Hb, 24 vezes nas Cartas católicas e 5 vezes no Apocalipse.


Dizer “Pai” significa que não precisamos fazer um esforço de imaginação para conhecer a Deus, para imaginá-lo. Dizer “Pai” nos torna disponíveis, enche-nos de confiança, facilita a nossa entrega, pois estamos certos de sermos ouvidos, e isto nos permite superar as barreiras do medo e da incerteza. Dizer “Pai” significa que eu devo me comportar como filho diante dele e como irmão diante dos outros, pois eu sou irmão de muitos outros irmãos. Enquanto não crermos em Deus Pai, dificilmente poderemos aceitar que somos irmãso. Enquanto não erradicarmos tudo o que nos impede de ser irmãos, somente poderemos continuar dizendo Pai-Nosso, mas não poderemos dizer de verdade e com sentido: Pai Nosso.... Dizer “Pai” faz nascer a certeza de que somos amados, isto é, nos leva a um ato de inteiro abandono em Deus.


“Pai, santificado seja o teu nome”.  “Santificar” e “nome” (v.2). Santificar, biblicamente, é sinônimo de louvar, bendizer e glorificar; é tornar-se santo. Santo tem como sinônimo justo, perfeito, bom e puro. O “nome” é propriedade; o nome é a extensão da personalidade; ele é o próprio ser. O nome é indicativo direto da pessoa, por isso, a interdição de invocar seu nome (Ex 20,7) é porque o nome indica o próprio portador. Santificar o nome de Deus é comprometer-se com a sua justiça, com a justiça ao órfão, à viúva, com o trabalhador do campo, com o operário da cidade.


Com o “venha o teu reino”, exprimimos o desejo, o anseio pela manifestação daquela realidade que se condensa na palavra “reino”, e que pode ser expressa de mil outros modos: justiça, fraternidade, igualdade, triunfo da vida, derrota da morte, situação em que não mais haverá lágrimas ou luto, capacidade de nos conhecermos e de nos amarmos a fundo, plenitude do Corpo de Cristo realizado na Igreja, unidade verdadeira entre as pessoas e entre todos os povos. Por isso, o “reino do Pai” é bem diferente dos “reinos deste mundo” com suas lutas pelo poder, seus altos cargos, sua imponência, sua falta de paz e suas ameaças de guerra. A guerra supõe que tenha algo a defender. Mas nem sempre este “algo” é justo e humano.


“O pão necessário, dá-nos a cada dia”. “Pão” em hebraico “lehem” (que compõe a palavra Betlehem = a casa do pão) é o conjunto dos bens que servem para sustentar a vida. Por mais altos que forem os voos do espírito, por mais profundos os mergulhos da mística, por mais metafísicos os pensamentos abstratos, por muitas horas que o homem reza e medita, o ser humano sempre depende de um pouco de pão, de um copo de água, enfim de uma pequena porção de matéria. O homem se apresenta diante de Deus como uma criatura que necessita ser sustentada na sua vida material. O pão é sagrado porque sustenta a vida que é sagrada. Por causa disso, o pão é uma preocupação constante de cada pessoa, de cada família. Nenhuma oração, nenhum ato espiritual dispensa o pão. Deus quer que ganhemos o pão com o trabalho que implica tempo, suor e lágrimas. E o pão que comemos diariamente esconde toda rede de relações anônimas que sempre devem ser recordadas. Antes de chegar à nossa mesa, passou pelo trabalho de muitos braços. Em cada pão que se come, por isso, há sentido de fraternidade e de partilha; embora haja também relações de exploração e lágrimas escondidas em cada pão que se come. Mas o pão que nós comemos, fruto da exploração/roubo do irmão, não é pão abençoado por Deus. É pão que apenas nutre, mas não alimenta a vida humana que é somente humana enquanto vive na reta ordem da justiça e da fraternidade.


“Perdoa-nos os nossos pecados, pois nós também perdoamos a todos os nossos devedores”. O homem não somente vive, mas convive. Ele se relaciona. Aqui é que surgem conflitos, desentendimentos, brigas, guerras etc. Para que a convivência possa permanecer, o perdão mútuo é indispensável. Toda convivência humana é baseada no perdão. O perdão é invocado a Deus (v.4), o único que pode quebrar o círculo do pecado que gera pecado, solidão e morte. O próprio Deus sempre está pronto para nos perdoar, pois Ele quer saber de nossa volta a Ele e não do quanto tempo de nosso afastamento. Podemos fazer contra ele as piores ingratidões, mas basta que nos voltemos para ele, para que nos perdoe. Precisamos sempre do perdão de Deus, perdão que nunca nos falta, perdão pelas nossas seguidas quedas, e pela nossa incapacidade de realizar o Reino. Mas precisamos também do perdão recíproco. Perdoar não é exigir que o outro se humilhe. Perdoar não exigir que o outro primeiro se converta, que o outro venha expiar sua culpa para depois perdoá-lo. O perdão vem primeiro. Perdoar é doar até o fim. É doar-se sem jamais colocar limites. Perdoar é mostrar que seu amor é maior do que a ofensa do outro. Se a ofensa derrubar, se desanimar seu amor, é porque seu amor é pequeno e bem frágil ainda.


“Não nos deixes cair em tentação”. O último pedido expressa a consciência da precariedade na existência humana exposta ao risco de aderir ao mal na sua extrema gravidade. O homem é um ser tentável. Mas precisamos estar conscientes de que a tentação é sinal de predileção, pois somente quem anda com o Senhor é tentado. Somente quem pratica a justiça e o bem em geral é tentado. Mas mesmo assim, precisamos do apoio de Deus para não cairmos em tentação no momento do perigo, e para que o Reino não se obscureça em torno de nós. Na tradição bíblica do NT, estar livre da tentação é estar protegido contra a apostasia ou contra a negação da fé. Na verdade, é uma súplica positiva. A tentação pode ser um desejo de construir um Reino próprio e colocar-se no lugar de Deus.


Depois que ensinou os discípulos sobre a oração do Pai-Nosso, Jesus contou uma parábola referente a essa oração.


Deve-se compreender a parábola a partir da vida de uma aldeia palestinense e da lei da hospitalidade, que era sagrada para o judeu. Um homem recebe visita durante a noite e, não tendo nada para oferecer ao seu visitante, recorre ao vizinho para que este lhe empreste três pães. Ainda que o vizinho já esteja dormindo, e inicialmente, recuse o pedido por causa dos incômodos que o levantar-se, abrir a porta etc., ele acabará ouvindo o pedido do amigo.


O ensinamento teológico do evangelista é claro: Deus pode tardar, mas ele ouvirá os nossos pedidos. O segredo é a insistência. Se na primeira vez o pedido não é alcançado, pede-se uma segunda vez. Não devemos brincar de orar, mas sim, devemos mostrar persistência se não recebemos a resposta imediatamente. Não é que Deus não deseje atender e por isso precisa ser pressionado para dar uma resposta. Mas se não quisermos aquilo que estamos pedindo, suficientemente para sermos persistentes, então, não fazemos muita questão dele. Não é uma oração tépida assim que é respondida.


A interrogação permanece: faz sentido a prece de súplica (pedir, procurar, bater), se Deus já sabe das nossas necessidades?


A prece de súplica fundamenta sua eficácia em duas razões básicas: a bondade paterna de Deus e a fé do ser humano. Fidelidade e confiança encontram-se como reciprocidade no diálogo: a do Pai e a do filho. Confiar é o olhar da fé que sabe ver Deus. Se não há fé, a confiança não surge, e corre-se o risco da volta à ausência de sentido da vida, sobretudo quando se toca com a mão o extremo do próprio limite. A confiança cresce encorajada pela descoberta da bondade de Deus. A bondade de Deus é a raiz da confiança, porque ele é fiel às suas promessas.  “O homem fiel é aquele que crê no Deus que promete; o Deus fiel é aquele que concede o que prometeu ao homem” (Papa Francisco: Lumen Fidei, Carta Encíclica).


Assim, a súplica paciente não tem como meta lembrar a Deus a sua fidelidade, mas fazer crescer dentro de nós o hábito da necessidade dele, da dependência dele, relembrando que tudo está sob o sinal da graça. Crescendo dos imperativos (peçam, procurem, batam), aparentemente diz respeito a coisas concretas, mas, na verdade, concita o discípulo a converter o coração ao amor solícito do Pai. A experiência do amor paterno é a verdadeira parábola para compreender a generosidade de Deus, o seu amor que não se desmente. A oração é, certamente, a total abertura ao amor fiel de Deus para que cada um viva o amor fiel na convivência com os demais.


Mas devemos estar conscientes de que Deus não exclui a responsabilidade da pessoa que reza nas tarefas que a história estabelece. Somente assim tudo o que é rezado torna-se verdadeiro, e remete ao compromisso sério da vida. Apenas assim, a prece foge do risco da alienação porque tudo se recompõe dentro da misteriosa e realizadora vontade de Deus.


Jesus conclui seu ensinamento sobre a oração dizendo: “O Pai do céu dará o Espírito Santo” (v.13). Eis a grande resposta à prece de súplica: a dádiva do Espírito. A promessa de Deus ultrapassa toda espera, transcende a imaginação humana. O segredo da eficácia não se fundamenta somente na confiança, mas, também, na disponibilidade de acolher os grandes bens de Deus. E Lucas enfatiza que o Pai dará o Espírito. Jesus parece dizer que, antes de perguntar como se aprende a rezar (cf. Lc 11,1), é necessário pedir a presença do Orante: a presença do Espírito Santo que "intercede" em nós e para conosco (Lc 11,13;Rm 8,26). A prece cristã em Lc 11 chega ao seu ápice e qualifica-se como diálogo dos filhos no seio da comunhão da Trindade. A prece daquele que crê é a experiência da paternidade de Deus, é a participação no caminho do seu Reino na história, revelada na sua plenitude mediante a encarnação do Filho, e é a consciência nova da filiação, no Filho, por obra do Espírito.


Não estou só neste mundo, porque o Espírito Santo implora em mim e por mim, aquilo que eu não sei pedir, e o meu Salvador está junto de mim, une-me a Si e me faz participante de seus sentimentos filiais. Ele vem em auxílio da nossa fraqueza (cf. Rm 8,26-27). Ali onde existe a presença do Espírito é possível reconhecer o Pai, a sua vontade, a procura do seu Reino, o compromisso pelo pão cotidiano, o testemunho da misericórdia, a libertação do mal. Quando o Espírito está ausente da vida, o discípulo torna-se um estranho, desanima, não sabe mais o que pedir e como rezar.
P. Vitus Gustama,svd

Sábado Da XXIX Semana Comum, Ano Par, 24/10/2026

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